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O sangue está no chão, está molhado frio e pegajoso. O sangue está por todo lado,
incluindo no meu pequeno corpo, me banhado dos fios de cabelo até os pés,
transformando minha pantufa de coelho rosa em uma cor escura, fugente e escarlate.
Seguro o pulso da minha mãe, tento segurar seu sangue que transborda pelas minhas
pequenas mãos. O ar está denso e ruim o cheiro de queimado entro pelo meu nariz
queimando minhas vias aéreas, queimando meu pulmão e minha garganta, fazendo minha
boca ficar seca, meus olhos lacrimejarem, mas eu me forço a respira eu me forço a
tentar segurar o sangue da mamãe. Mas, seus olhos estão opacos, eles não tem mais
vida, ele não tem mais brilho focam em um ponto em minha testa inexpressivo, o
rosto chupado os lábios brancos e os olhos opacos, porque ela fez aquilo? Porque
não lutou mais um pouco por nós? Porque?
Eu me afasto quando o sangue não espirra mais. Forço minhas pernas a se levantar, a
corre para o quarto do meu irmãozinho. Meus pés escorregam e antes que eu consiga
passar pela porta de onde vem o choro estridente um pedaço de madeira em chamas cai
produzindo um grande ruído, jogando faísca de fogo em cima de mim, me fazendo cair
de bunda no chão apavorada e sem saber o que fazer a escada está destruída, mamãe
está morta e meu irmãozinho…
O ar está preso em meu pulmão quando me sento da cama. Suada e com o coração
acelerado eu não me lembro como respira e aos poucos vou tentando fazer o que a
médica me ensinou por anos. Respira e inspira. Soltando devagar pela boca e puxando
pelo nariz. Eu tento, tento e tento até finalmente meu pulmão dar boas vindas ao
oxigênio deixando o ar puro da noite quente de Florença entrar por minhas vias
áreas queimada pelo incidente de anos trás.
Não me permito pensar naquilo e por isso me levanto da cama pisando no chão frio
com meus pés descalços, pego meu robe de seda preta o amarrando por cima do meu
pijama de bolinhas, um par de shorts e blusa de botão leves e fresco. Caminho até a
sacado me sentando na cadeira, observando o jardim não tão escuro pelo sol que já
ameaça a nascer, observando os saldados caminhar pelo jardim a procura de algo ou
alguém, observando cada detalhe, sei que um deles me olha quando me sento na
cadeira. Mais eu não me importo meus olhos não estão mais no jardim e sim no
horrizonte aonde o sol nasce, aonde todos os dias pelos últimos dez anos eu me
sento aqui e observo o nascer do sol, pensando se hoje será meu último dia, mas
nunca é. Meu corpo não me permite dormir mais, os remédios não fazem seu efeito
esperado me levando ao sono profundo, mas também eles fazem o efeito de produzir o
mínimo de seratonina em meu cérebro me permitindo viver dia a pós dia. Anos após
anos.
Aos vinte e um anos, quatorze anos após o incidente eu não deveria me lembrar como
respirar, isto deveria ser automático. Não deveria me lembrar como é a textura do
sangue em pantufas infantil e nem deveria me lembrar o cheiro da fumaça, mas todos
os dias pela manhã eu sentia que o suor em meu corpo se transformava no sangue
daquela noite. Que o ar não estava limpo e ele queimava ao descer pelas minhas vias
aéreas. E aos poucos quando eu me sento aqui observando o nascer do sol, sentindo a
brisa leve bater em meu corpo, respirando o ar lipídio, volto a me lembrar que não
tenho mais sete anos e não estou tentando segurar o sangue de mama dentro dela.
Naquela noite que mamãe se matou ela também tentou levar eu e meu irmão junto. Meu
irmão ela conseguiu, mas eu não sei como mais fui retirada dali. Meu pai foi morto
com uma bala na cabeça, e o incêndio que mamãe provocou era apenas para matar seus
filhos, seu marido e Theodoro Bullice, mas nos destroços não foi encontrado o corpo
de Bullice. Por isso a dúvida se ele tinha queimado como meu irmão ou conseguiu
fugir, mas ninguém nunca mais ouviu falar dele e a família Bullice foi enterrada
naquele dia.
Theodoro tinha um desejo doentinho em minha mãe, ele a amava de um jeito doente e
estranho. Eu não sei como aconteceu e o que aconteceu na verdade, mas todos me
contam uma história de que Theodoro colocou os olhos em minha mãe quando ela tinha
quatorze anos, só que mama já estava prometida ao meu papà e por isso a família
Bullice aliada no território Américano entrou em guerra com os Carbone. Essa é a
história que me contam. Mama tinha uma beleza de deusas gregas, uma beleza
almadiçoada. Sua vó e mãe tinha a mesma beleza. Minha bisa foi morta aos vinte anos
minha nona tinha nascido a menos de um ano quando o um homem enfeitiçado pela
beleza dela a matou e se matou em seguida. Minha nona morreu aos quarenta anos de
depressão, foi dada em casamento a um homem nojento e velho. Meu avô conseguiu o
desejo de se casar com uma mulher linda e desejada, ele a manteve travada em casa
obrigando a ela ter filhos e cuidar da casa e quando eles recebiam susta ela tinha
que usar um véu. Sua beleza amaldiçoada passou para sua filha do meio, minha mãe,
sua única filha mulher. Meu avô deu sua mão como aliança como o capo Marino
ordenou. Meu papà não foi um homem ruim, mas dizem que ele era frouxo e fazia tudo
o que mama pedisse isso não poderia ser ruim. Mas para os homens da máfia italiana
era ruim. Por isso papà morreu, por isso meu irmãozinho morreu, por isso minha mama
entrou em depressão, pois após o nascimento de Enrico, papa ficou alucinado e não
deixava mama sair do quarto. Mama ficou magra e papà apenas brigava com ela e com
todos. Ele ficou maluco por conta de sua beleza e isso foi a ruína de nossa
família.
A beleza da minha bisa, minha nonna e mama foi passada para mim como uma maldição,
mas ao contrário delas eu evitava sair de casa e poucos sabiam que eu havia
sobrevivido ao incêndio. Nunca irei me casar e principalmente nunca irei ter filhos
e essa maldição irá acabar em mim.
Eu vi os olhares de desejo dos saldados que trabalhavam para meu tio. Das vezes que
eles saiam do escritório de Riccardo cabisbaixo,
Mas principalmente quando eles sumiam de forma inexplicável. Meu tio concordava com
meu pensamento, essa fisonomia tinha trago muitos estragos a nossa família.
Após os sumisso dos corajosos que queriam minha mão em casamento os saldados que
ficaram apenas olham uma vez para mim, alguns deles olham com desejo, outros fingem
que eu não existo. O saldado designado para cuidar de mim, me olhou uma única vez
com desejo e todos os outros olhares foram profissionais, ele evitava me tocar eu
percebia, mas eu também não gosto de toques, na verdade após o incêndio toques se
tornou um trauma que desenvolvi, não me lembro a última vez que tive um abraço ao
mãos quentes ao redor da minha. Mas, não me importo, não gosto que invandam meu
espaço pessoal.
Moro na casa do meu tio desde os nove anos, quando tudo aconteceu entrei em trauma
e não falei por dois anos. Fui mantida na casa do Don da cosa nostra até que
finalmente às investigações chegaram ao fim. Fui enviada para a casa do meu tio que
manteve contato comigo pelos dois anos, sua esposa Maribelle, é uma mulher doce e
simpática que sempre esteve comigo. Sua condição especial de não poder ter filhos a
fez cuidar de mim como se fosse dele e nem quando ela forjou uma gravidez para
todos e teve seu filho de uma prostituta. Filho do seu irmão morto em batalha e ela
o manteve para si e enganou toda a máfia. Mas nem com seu filho que ela cria como
seu sangue ela me trata diferente. Para todos somos seus filhos. não a chamo de mãe
porque não consigo. Mas, quando me referencio a ela é como mãe.
Quando o sol está no topo, queimando o chão de Florença a porta se abre e Marta
entra no quarto como todos os dias por volta das sete.
— Bom dia menina. — ela abre as duas portas da varanda. — já tomou seus remédios?
— Bom dia Marta. — me viro na cadeira para olhar a senhora de meio metro olhos
castanho e cabelo presos em um coque com fios brancos.
Nego com a cabeça e me levanto. Todos os dias sao tres remédios. Dois de manhã e um
antes de dormir. Todos para estimular a dopamina e a seratonina, mas após anos de
tratamento percebo que eles ajudam, mas não fazem milagres e algumas partes de mim
sempre serão quebras.
A tarde depois do almoço sou chamada só escritório de Tio Riccardo. Mari tinha
levado o pequeno Tito ao médico de rotina por isso estávamos sozinhos na casa, bem
quer dizer antes do almoço padrinho e alguns capos haviam aparecido e desde então
estavam enfiados dentro do escritório e para ter me chamado até lá com essas
pessoas era importante.
Dou duas batidas na porta e então escuto a voz do meu tio dizendo para entrar. O
escritório de tio Riccardo é amplo e claro, chão de madeira e paredes brancas,
todos os móveis do mesmo material do chão e um grande quadro de sua família que ele
ostenta com muito orgulho. Primeiro vejo o conselheiro, ele está se pé ao lado do
padrinho que está sentando de frente para o tio. O subchefe também está aqui de
frente para a janela e dois de família importante. Caruso e Mazza os dois se
encontram de pé fumando um charuto. Todos sem exercessem estão de terno, sapatos
brilhantes e cabelos pentiados. O visual dos italianos sempre é milimetricamente
calculado, eles são engomados e efendonhos. Nunca com um fio fora do lugar. Eu
penso se fosse mais aberta no nosso mundo se vivesse como as mulheres de nossa
família se seria assim também. Se me e incomodaria com minhas roupas, mas eu
agradeço por ser de forma que eu sou. Não me importo com meus jeans, ou com o all
stars e muito menos com a blusa de rock grande demais para mim. Meu cabelo liso
está num coque na cabeça e meu rosto sem maquiagem. Não me importo quando me olham.
Não me importo quando Caruzo torce seu grande nariz para minhas roupas e muito
menos quando Mazza um senhor de quase setenta anos olha para mim como se fosse a
visão mais linda de sua vida.
— Pediu para me chamar? — digo olhando para meu tio que me olha de volta com os
mesmo olhos azuis que eu tenho herdados de minha nonna sua mãe.
— sim querida. — ele indica para a cadeira vaga ao lado do padrinho que logo se
levanta para ficar de pé. — Sente-se.
— Olá padrinho. — digo me sentando na cadeira vaga. Balançando minha cabeça para o
subchefe e o conselheiro.
Dois homens na faixa de quarenta cinquenta anos. Um primo de primeiro grau do
padrinho outro vindo de uma longa linhagem de conselheiros, desde a época medieval.
Santino Grassi me olho com seus olhos calculista que veem até sua alma, ele observa
meu jeito meus pequenos movimentos, apenas para saber o que falar, apenas para
saber quem eu sou para a família. E não menos importo o fiel escudeiro o
Executor, saldado mais próximo do padrinho. Um homem que me causa arrepios só de
olhar. Ele não tem um olho e não se importa ao contrário ele esbanja a falta desse
olho sempre como se disse eu estou assim mais o filha da puta que fez isso perdeu
bem mais do que um olho. Eu preferia não olhar muito para Otello. Ele me causa medo
e fascino principalmente por saber que foi ele que entrou na minha casa cheia de
fogo e me pegou do chão, trazendo queimaduras em seu corpo ao me proteger. Eu devia
minha vida a ele. Assim como devia minha vida ao padrinho e ao meu tio.
— Eu não queria nunca ter essa conversar com você. — meu tipo começa se levantando
da mesa bebendo o whiskey dele de forma rápida e eu sei que com isso suas próximas
palavras não tem como ser boa. — Estamos com problema com a The Bravta. Eles são
nosso inimigos a muitos anos, mas no momento temos problemas maiores do que eles.
— A Yakuza dizimou metade da pequena península de Portofino. Não a mais capos, as
mulheres foram estrupadas, as crianças traficaras e outras mortas. Tive que mandar
um exército para lá. Mas, a fronteira de Paraggi encontramos os russos e nos
juntamos a eles. Eles nos ajudaram e recuperamos a cidade. Boa parte de nossas
encomendas chegam por lá. — Padrinho termina pelo meu tio.
Meu coração dói ao pensar na disse de Portofino. Dói só pensa nas crianças e
mulheres e idosos. Eu fecho meus olhos controlando minhas emoções. Mas, é difícil
ao imaginar crianças passando por situações… deprimentes.
— Porque estão me contando isso ? —olho de padrinho para meu tio.
Sinto minha garganta já fechar de triste pelas pessoas, mas consigo engolir meus
sentimentos, anos de treino aonde a psicóloga sempre me dizia que era um livro
aberto e então eu aprendi a engolir minhas emoções.
— Porque a Bratva nos ajudou, mas agora pede aliança em troca. Eles iram usar o
Porto junto conosco, mas querem garantinhas.
— Algo que nos italianos fazemos muito quando queremos um acordo firme. Um
casamento aonde here herdeiro. — Santino termina me fazendo arregala os olhos.
Não! Não ! Não !!
Isso era o fim. Meus planos, minha linhagem não podia continuar. Olho para meu tio
em desespero que apenas abaixa o olhar ele não teve voto nisso. Eles apenas vieram
até aqui e o ordenaram a fazer. Era por isso que eu odiava a máfia. Não importava
se era isso que pagava minha comida ou minhas roupas, eu os odiava por fazer as
mulheres se tornarem apenas peões em seus tabuleiros.
Abaixo os olhos do meu tio para minha mão. Minha pele extremamente clara se
contrasta com as unhas médias sem esmalte com os cantos dos densos sujos de tinta
do estúdio aonde eu ficava a maior parte do meu dia, da onde eu tinha saído e vindo
para cá, tinta vermelhas que retratavam aquela noite em que minha família foi
destruída por um amor doentinho. E se tiver algum louco por aí apenas esperando
para fazer o mesmo. E se eu tiver uma filha mulher?
Balanço a cabeça enquanto escuto meu tio explicar.
— na família Basile, sua bisavó se apaixonou por um russo e acabou engravidando de
sua avó, filha bastarda, mas que conseguiu um bom casamento com os Valentini e
então teve seu pai. sangue russo corre em suas veias, e eles sabem de alguma forma
que está viva e querem por honra você na Bratva.
— Mas, se eles sabem de mim podem me matar. Me transformar em uma prostituta. Podem
ter raiva de mim por Miriam ter fugido grávida de um russo e vocês iram me entregar
e eles? — me desespero olhando para meu tio.
— Ele não irá machuca-lá deu a sua palavra. Uma italiana pura em primeiro lugar. O
sangue que está na sua família é antigo. Mas, ao que parece você é prima do Kassir
da Bratva.
Franzo minha testa não reconhecendo o termo. Não que fosse uma curiosa por
informações de outras máfias, não era. Muito ao contrário, eu preferia fingir que
nenhuma delas existem. Mas, isso não significa que eu não conhecia o idioma, eu
sabia falar fluentemente francês, russo, alemão, ingles e espanhol
— é uma especie de contador. Não somos conhecedores da hierarquia da bratva alem do
Pakhan e Brigadier. Mas, eles nos ajudaram e iram lutar contra a Yakuza e
precisamos recuperar Detroit. E eles tem algumas cidades tomadas já.
— Fikha eu não pediria isso a você se não fosse importante. — Tio Riccardo
interrompe Santino me olhando.
— Eu tenho uma escolha?
— Não. — dessa vez quem fala é o padrinho com a voz forte de dom me dizendo que se
eu não aceitar por bem será por mal e por isso eu não tenho o que fazer além de
concordar.
— Quem será? — digo com a voz mais baixa e mais fina.
— Sergei Volkov.