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Escultura e Culto em Tell Asmar

O documento descreve a descoberta e preservação de esculturas encontradas em Tell Asmar no Iraque datadas entre 2750-2600 a.C. O texto também discute os materiais, técnicas e simbologia das esculturas mesopotâmicas.

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Escultura e Culto em Tell Asmar

O documento descreve a descoberta e preservação de esculturas encontradas em Tell Asmar no Iraque datadas entre 2750-2600 a.C. O texto também discute os materiais, técnicas e simbologia das esculturas mesopotâmicas.

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Escultura de Tell Asmar: Descoberta e preservação.

No diário de escavações de 17 de Novembro de 1930, Henri Frankfort descreve o primeiro dia de


trabalho no vale Dyala em Tell Asmar “O trabalho começou após o almoço com 12 homens de
Shergat. Uma trincheira foi cavada a norte e extremo sul da fossa, a fim de descobrir...”
Ninguém poderia predizer que nos anos seguintes estas descobertas se tornassem num dos mais
importantes achados arqueológicos no Próximo Oriente.

O grupo escultórico de Tell Asmar (2750-2600 a.C.) foi descoberto num templo fundado nos
finais do período de Jamdat Nasr (antes de 3000 a.C.) e que continuou em uso até 2500a.C. A
partir de inscrições em cilindros, placas em relevo e numa taça de cobre, em conjunto com
materiais encontrados na área circundante, foi possível determinar qual a principal divindade que
aqui era adorada. A entidade personificava as forças geradoras da natureza (como a tempestade,
a fecundidade, a fertilidade, a Terra, árvore, etc.) e era conhecida por entre outros nomes, Abu,
Ningirsu e Ninurta. O templo inicial, de proporções modestas e construído em seu nome, possuía
apenas um santuário. Aqui não foram encontradas nenhumas esculturas, apenas fragmentos de
vasos e algumas figurinhas de gesso. Frankfort designou-o como o “templo Arcaico” fazendo-o
corresponder no tempo à Dinastia I. Na segunda parte do período dinástico primitivo (Dinastia
II), todo o templo foi reconstruído, passando a ter três santuários com mais andares. Devido à
formada sua planta atribuiu-se lhe o nome de “Templo Quadrado”.

No entanto e no caso de Tell Asmar, Frankfort põe de parte a possibilidade de terem sido
enterradas com esse intuito. No templo Quadrado não existiam sinais de destruição nem de
intervalos de abandono, por isso, e dado o estado de conservação das esculturas, a hipótese de
pilhagem tem de ser posta de parte.

FRANKFORT, Henri -Sculpture of the Third Millenium B.C From Tell Asmar and Khafajah.

Chicago: University of Chicago Press, 1939. p.3; DIMAND, [Link]. p.253

Simbologia das estatuas votivas

Na Mesopotâmia, a relação do homem com os seus deuses era distante e formal, sendo feita
essencialmente através de rituais elaborados. Todos os dias era oferecido alimento e bebida às
divindades. As libações geralmente de água, vinho, cerveja, óleo ou sangue de um animal
sacrificado, eram entornados no altar ou num receptáculo sagrado. Em adição aos rituais diários
à volta da figura de culto, o calendário Mesopotâmico estava cheio de dias especiais em que
particulares rituais tinham que ser observados pelo rei e pelos sacerdotes. (FRANKFORT, [Link].
p.4-17).

O acontecimento mais significativo era o festival de Ano Novo. A função primordial do Homem
antigo na Terra era a de servir os deuses, cujas decisões e acções determinavam todas as
consequências e o destino da humanidade. Os seres que governavam o universo deviam ter mais
poder e mais dons do que os humanos. Estes deuses eram omnipotentes, invisíveis e imortais.
Sempre que necessário os mesopotâmicos criavam novos deuses para combater as inúmeras
adversidades do mundo físico e espiritual.

Apesar desta visão que os mesopotâmicos tinham dos deuses, estes eram representados soba
forma humana, o que torna difícil distingui-los dos comuns mortais. Poder-se-ia fazer esta
distinção com auxílio a referências textuais mas tanto em Tell Asmar como em Khafajah (do
período dinástico primitivo), as inscrições são extremamente raras. Contudo, duas das estátuas
do grupo apresentam algumas evidências que levam a considerar a possibilidade de se tratar de
representações de deuses.

Escultores, Materiais e técnicas

Apesar de no norte da Mesopotâmia haver abundância de rochas metamórficas como granito,


mármore ou quartzo, no sul estas pedras eram quase inexistentes. Aqui havia outros materiais
como o gipto, o calcário e o arenito. A estatuária desta zona mostra muitas vezes sinais de ter
sido elaborada a partir de pedregulhos em erosão e não de blocos extraídos. Existem registos de
importação de pedras negras e decorativas para a Suméria, mas a sua proveniência é muitas
vezes obscura. A quantidade em que chegavam não é conhecida. Também é pouco provável que
quantidades significativas de pedra tenham sido para aqui transportadas, excepto nos locais onde
o transporte por água era possível.

PETIT, Paul – História Universal, O Mundo Antigo. Circulo de Leitores, 1977, p.24.

Mais acessível ao Este eram materiais como o calcário, a calcite, o gipto e rochas sedimentares
como o arenito e o xisto. Na Assiria além destas pedras, abundava o alabastro, que sendo muito
suave, era facilmente esculpido. Quando retirado da pedreira, apresentava uma cor esverdeada
que quando exposta muda para um tom mais escuro.

A terracota, mais sujeita às intempéries do tempo do que a pedra, era um material comum na
estatuária e na representação de figurinhas. Foram encontrados nos depósitos dos templos e
túmulos privados, objectos nesse material que datam do fim do período pré-histórico e de Uruk.
A escultura, independentemente do seu tamanho e material, não era uma arte popular era um
luxo.

Escultura e Escrita

Selos cilíndricos

A escrita desenvolveu-se na Mesopotâmia pela necessidade prática de registar vários tipos de


informação. O respeito que os babilónios e assírios devotavam às palavras, levava-os a acreditar
que a sua sorte era traçada por elas. Sentiam a morte quando um escriba divino lançava o seu
nome num livro do destino, onde tudo era anotado.

Exemplos da aplicação dessa escrita datam de 3100 a.C. onde pequenas placas de argila com
inscrições serviam para selar jarras, caixas e cestos que continham cereais e outros produtos
agrícolas.

Estas “etiquetas” apresentavam gravações de desenhos muito simplificados conhecidos como


pictógrafos, que registavam a quantidade e o tipo de material contido nas sacas. Inicialmente as
gravações destas placas eram feitas com um estilete de caniço, onde finas linhas eram
cuidadosamente desenhadas em colunas verticais, começando no canto superior à direita de cada
placa. Já no 3º Milénio a.C. os escribas sumérios começaram a modificar esta técnica para
escrever mais rapidamente e de modo mais legível. Escreviam em fileiras horizontais, evitando
desta forma sujar o texto com as mãos. Mas o estilete pontiagudo, que deixava riscos imprecisos
na argila húmida, foi substituído por outro de extremidade triangular, que era fincado na argila,
em vez de riscá-la, permitindo impressões mais nítidas em forma de cunha.

Destas inovações resultou um sistema de escrita de símbolos mais abstractos conhecido como
cuneiforme (a palavra latina para “em forma de cunha” e que caracterizou a cultura da
Mesopotâmia nos 2500 anos que se seguiram.
B.C. - The Art Bulletin, vol.75, no 4 (December, 1993)

As estátuas de Gudea

Gudea de Lagash (2144 a.C. a 2124 a.C.), é provavelmente o segundo governante mais
conhecido da Mesopotâmia, a seguir a Assurbanipal. A cidade-estado que governou foi uma das
mais importantes cidades mesopotâmicas. O seu reinado foi documentado durante cerca de 11
anos. Gudea manteve consistentemente o título de ensi (governante ou administrador em
sumério) em vez de lugal (rei). Só numa das suas numerosas estátuas é que é descrito como rei.
O título que dispunha, não era de forma alguma menor do que o de rei. Antes pelo contrário,
como ensi, ocupava o topo da hierarquia administrativa da sua cidade. Esta prática de diferentes
tradições na nomenclatura era comum na Mesopotâmia. Independentemente disso, é durante o
seu governo que as esculturas se tornam indissociáveis da escrita. A quantidade de inscrições que
nelas começam a aparecer é privilégio de todos os que ocupam um lugar de topo e ali são
manifestadas as suas vontades e preocupações. Estas figuras incluem também dedicatórias e
descrições do material de que eram feitas, sabendo-se, por isso, que a diorite era uma pedra
altamente valorizada, destinada principalmente à realeza.

A estela do código de Hammurabi

Uma estela em diorite datada de 1760 a.C., encontrada em Susa em 1902, é um dos documentos
mais importantes da história universal e um contínuo esforço do homem na procura de justiça. A
sua descoberta permitiu o estudo da sociedade, economia e monarquia na Mesopotâmia do 2º
milénio. Nela está inscrito parte do Código do Rei Hammurabi da Babilónia, onde aparecem
enumerados vários crimes e as respectivas penas aplicáveis. As medidas energéticas
empreendidas neste código são contrárias à tradição jurídica de todo o Oriente, por proteger o
devedor contra o usurário e o agricultor locatário dos seus campos contra o credor que o forçou a
vender-lhe as suas terras. Na realidade este texto não é um código de leis no sentido moderno,
mas apenas uma compilação de casos destinados sem dúvida, a unificar a legislação das cidades
da baixa Mesopotâmia.

Nele reconhece-se os estatutos hierárquicos das categorias que compõem a sociedade: o homem
notável, o homem livre e o escravo que pode ganhar dinheiro e desposar uma mulher livre. Em
caso de ofensa ou danos cometidos, as sanções eram diferentes para cada membro destas três
categorias. Por exemplo, se um aristocrata agredisse outro a lei aplicada seria a de “olho por
olho, dente por dente”. O criminoso iria desta forma sofrer os mesmos danos que causou à
vítima. Se um aristocrata magoasse um escravo, a pena era bem mais leve, tendo apenas que
pagar uma multa.

URDANÉZ, C.; Garcia, R.; Gracia, J. - Da Arte Mesopotâmica à Pré-Helénica. Ediclube. p.45.

Escultura monumental Neo-Assíria

Relevos e escultura de vulto

Foram os reis vitoriosos que permitiram a construção de grandes monumentos que constituem,
com a sua decoração e conteúdo, o essencial da arte assíria. Depois de um período difícil de lutas
constantes com os Araméus, donde praticamente nada restou, assiste-se ao empreendimento de
grandes encomendas reais. Estas obras constituem uma revelação brusca de uma arte clássica,
onde certas convenções são aplicadas no plano dos edifícios e na iconografia, permitindo a
evolução do gosto artístico. Para as suas residências, os reis construíam, nas cidades confinadas
ao interior de sólidas muralhas, vastos espaços que as construções vinham pouco a pouco ocupar.

Estes soberanos reservavam sempre um espaço, fosse ele interior ou exterior à vila para os
parques com paisagens artificiais, plantações de árvores e reservas de animais selvagens para a
caça. A água que lhes era indispensável era conduzida por aquedutos e canais que se ligavam aos
grandes edifícios, santuários e ao palácio e suas dependências. A guarda dos palácios e dos
santuários era assegurada pela presença de estátuas colossais de Lamassi que se encontravam à
entrada destes edifícios.

Os assírios aprenderam a arte da escultura e do relevo através do povo hitita. A pedra daAssíria
era boa para o corte de lajes delgadas que eram utilizadas nos relevos mas não se prestava à
produção de estátuas em vulto redondo. Assim, a arte assíria manifesta-se principalmente nos
relevos coloridos que adornam as salas dos palácios e templos.

LAFFORGUE, Gilbert – La Haute Antiquité: l’Asie Occidentale. Paris: Librairie Larousse,


1979. p.111-113
Guardiães de templos

Os Lamassi / Shedu, guardiães dos templos com formas híbridas (representadas pelo leão e o
touro) e com cabeça humana, eram estátuas monolíticas que chegavam aatingir 5,7m de altura.
Eram feitas de vários blocos de pedra (em alabastro) e a suamonumentalidade contrastava com o
pormenor do talhe das barbas, do cabeloelaboradamente encaracolado e das penas delicadamente
gravadas. Tinham váriasinscrições e padrões complicados que imitavam tapetes. Durante os
séculos IX e VIII a.C. estes touros alados eram representados intencionalmente com cinco pernas
para darem umavisão geral do tema: quando vistos de frente pareciam imoveis dando a ideia de
queestavam de vigília; vistos de lado pareciam movimentar-se. A partir do reinado
deSennacherib (704-681 a.C.) a perna adicional é dispensada e esta nova versão passa a sera
doptada pelos Persas. Este tipo de estátua que guardava os palácios tem a sua origem fora da
Assíria. Os exemplos mais antigos foram encontrados na capital hitita de Hattusas, localizada
num planalto montanhoso do leste da Turquia. Ao que parece, os assírios não tinham problemas
em apoderar-se das formas de arte de outros povos, desde que elasservissem o seu propósito.
Essa apropriação poderia ser vista como uma forma dereconhecimento pela Assíria do valor das
tradições culturais dos povos vizinhos. Também podia estar ligado a um gosto pelo exótico e à
tradição de coleccionismo pelos reis da Mesopotâmia.

COLLON, Dominique – Ancient Near Eastern Art. California: University of California Press,
1995, p.136.140.

Figuras míticas: Lamassu e Shedu

Lamassu e Shedu já eram figuras conhecidas do panteão de Lagash, desde o período dinástico. O
seu culto ganhou popularidade na Babilónia, onde as inscrições nos dizem que um ou mais
Lamassi residiam nos templos principais. Apareceram representados em cilindros, introduzindo o
crente ao grande deus. Na Assíria tornaram-se espíritos protectores.

Dos textos deste período depreende-se que na imaginação popular, todos tinham dois espíritos
protectores; a deusa suplicante ou lamassu e o espírito masculino sedu. A identificação de
lamassu na arte é facilmente reconhecida devido ao seu típico gesto de suplicação sugerido
através das mãos levantadas. Em adição, ela usa sempre uma mitra com chifres e um robe
cerimonial feito de pele de carneiro. A sua missão na Terra é a de acompanhar os mortais no
caminho da vida e augurar boa sorte, saúde espiritual e assegurar uma boa aparência física aos
seres humanos. É também a protectora dos templos. Como suplicante ela é, mais do que tudo,
uma mediadora entre os reinos celestiais e os mortais e é nessas funções que ela aparece, na
maior parte das vezes, representada nas placas de terracota. O shedu é o companheiro masculino
de lamassu e também ele aparece nas fontes escritas e visuais.

A sua função como espírito protector é a de interceder, através das altas entidades, pelos comuns
mortais. Representa a força dos indivíduos e ajuda na recuperação das doenças. Estas duas
divindades, ainda que menores, têm como função regular o que se passa dentro e fora de portas.
A sua representação em placas é sempre de perfil integrado numa narrativa sequencial. Nos selos
o seu perfil aparece em acção. Lamassu levanta as mãos em suplicação ou guia alguém pela mão
enquanto shedu avança segurando o bastão. Nas orações para ajuda e boa sorte eles são
chamados para acompanhar a pessoa pela vida fora. A expressão babilónica de felicidade
pessoal: “que um bom shedu e um bom lamassu caminhem ao meu lado diariamente” denota a
importância destas divindades.

(Silvia Schroer (ed). vol.220, p. 200-202.)

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