ORIXÁ EGBÉ
A tradição Iorubá acredita que cada ser humano pertence a pelo menos um, dentre os
vários grupos ou comunidades de espíritos existentes no Orun (“céu”). Esses grupos são
chamados de “sociedades do céu”, ou seja, “Egbe Orun”. Supõe-se que aproximadamente
aos 3 meses de gestação o espírito deixaria o Orun e “entraria” no útero da mãe, ficando no
plano espiritual o seu Enikeji (o seu duplo ou ‘sua cópia’). Essas sociedades formam um
coletivo ou espécie de egrégora que influencia e atribui um conjunto de características ao
ser humano, impondo limites e até determinadas características e traços do temperamento,
comportamento e caráter. Assim, até a tendência em passar por alguma dificuldade ou
conflitos em relacionamentos afetivo-sexuais, ou na família consanguínea, pode ser
influenciada pelo Egbe Orun. Vale destacar que até mesmo o tempo de vida no aye (planeta
Terra) pode ser influenciado pelo Egbe Orun do indivíduo.
Pouquíssimo conhecido no Brasil, Egbé são divindades cultuados pelos iorubás para
que se possa ter progresso, desobstruir o que estiver obstruído na vida, ter satisfação e bem-
estar. Egbé atrai progresso econômico e desenvolvimento espiritual, harmonizando esses
dois aspectos da existência. Proporciona também os sentimentos de paz, tranquilidade,
serenidade e confiança, trazendo a fertilidade em todos os aspectos da vida. Atrai condições
para conquistas, domina recursos para promover cura e bem-estar, interfere no destino
humano e remove obstáculos da vida: transforma lágrimas em sorrisos. Uma boaa forma de
cultuar Egbé e que muitos devotos esquecem é através do relacionamento com o outro, e
com a família. É preciso a compreensão de que ninguém é sozinho e que faz parte estar em
comunidade e sociedade, sendo necessário a boa conduta nas relações interpessoais.
Às vezes, a pessoa vive com dificuldades que não são originadas por problemas com
Odu, Orixá ou Egun. O problema pode ser oriundo da necessidade de cultuar Egbe Orun.
Um exemplo de conflito vivenciado por influência de Egbe é quando a sociedade da criança
que nasce pertence a uma comunidade que tem “tensões” com o Egbe da mãe. Neste caso, a
gravidez pode ser muito difícil ou de risco, e se for até o fim, filho e mãe podem vir a ter
sérios embates ou relações conturbadas.
Outro caso que requer maior atenção ou intervenção de alguém que conheça o assunto
e esteja autorizada a cuidar do fenômeno Egbe Orun é quando o indivíduo é identificado
como pertencente à sociedade Abikú. Neste caso, a mãe durante a gravidez (quando tem
acesso a essa informação) e a própria pessoa devem cultuar Egbe Orun ou até mesmo serem
iniciados em Egbe, de acordo com a orientação de um oráculo a ser consultado por
Babalawo, Iyanifá ou Iyá Egbe. Quando iniciados em Egbe Orun, os indivíduos são
denominados Elegbe. A palavra àbíkú é constituída de a, bí, (ó) ku, que ignifica tanto
“nascido para morrer”, quanto “o parimos e ele morreu”. Designa crianças e jovens que
morrem antes de atingir a idade adulta e adultos que morrem antes dos pais.
Os Egbe Orun são vários: Alaragbo, Emere, Abikú, Bayoni, dentre outros, e são
ligados à mata, água, terra, fogo. O culto é realizado em ojubó (assentamentos) ou árvores,
principalmente na ogede (bananeira). Estes possuem ritos específicos, cânticos, ebó
(oferenda) e osé (limpeza). Uma das suas principais saudações é: “Muso o o o”! Ou, então,
“Akika Muso Asege”! Egbe Orun aprecia várias oferendas em cultos preferencialmente
coletivos. A ideia é a troca feita sobretudo através do unje (comida), onde “comungamos”
com a nossa família celestial, demonstrando gratidão e pedindo bençãos.
As oferendas mais utilizadas são: brinquedos, frutas sobretudo a banana, laranja e
outras, doces, akasa, ekurú, ireke (cana-de-açúcar), oiyn (mel), otin (gin), epo pupá (azeite
de dendê), refrigerante, obi, orogbo, dentre outras. Mas é sempre recomendado se perguntar
o que Egbe Orun quer receber e onde. Como é comum serem oferecidos doces e brinquedos,
não raro se toma Egbe Orun como equivalente a Erè – dimensão infantil, intermediária entre
orì e Orixa – ou mesmo como equivalente ao Orixá Ibeji. Essa relação é importante entre
Ibeji e Egbé, pois Ibeji liga-se à natureza, de modo geral, e à floresta, morada de Egbé, de
modo particular. Para cultuar um é preciso cultuar o outro.
Floresta sagrada. Árvore Egbé. Osogbo, Nigéria.
Assim, para honrar os acordos firmados com nosso Egbe Orun e fortalecer nosso elo
com o nosso enikeji (duplo celestial), bem como para caminharmos no aye na direção de
iwa pelé (bom caráter) devemos reverenciar nossa família de amigos celestiais, louvando
nossa Egbe Orun e a Mãe de Egbe na Terra, Iyálóde.
O orixá Egbe protege contra a morte prematura, acalma o sofrimento material e
espiritual e orienta o ori do abiku e de seus devotos a seguir o caminho certo. Processos
iniciáticos no Ifá e neste orixá Egbé cortam os pactos e permitem que o àbíkú permaneça no
aiyé tendo uma vida saudável, mas em constante manutenção e vigilância.
Dentro do culto a Egbe, é realizado o Sàra, ritual em que se alimenta as as pessoas e
familiares do devoto regularmente com comidas e bebidas para que o Òrun perceba o bem-
estar que está sendo proporcionado e que Egbé possa conceder benefícios materiais e
espirituais. Um àbíkú “tratado” destaca-se consideravelmente na vida, tem grande liderança
e consegue bens materiais razoavelmente rápido e status social. Passa a ter satisfação, pois
seu espírito está sendo alimentado e isso reflete na sua vida naturalmente. Além de
protetores das crianças, os Egbés agem impedindo a morte prematura, curam doenças e são
facilitadores de conquistas nas diversas áreas da vida.