DADOS DE ODINRIGHT
Sobre a obra:
A presente obra é disponibilizada pela equipe eLivros e
seus diversos parceiros, com o objetivo de oferecer
conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos
acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da
obra, com o fim exclusivo de compra futura.
É expressamente proibida e totalmente repudíavel a venda,
aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo.
Sobre nós:
O eLivros e seus parceiros disponibilizam conteúdo de
dominio publico e propriedade intelectual de forma
totalmente gratuita, por acreditar que o conhecimento e a
educação devem ser acessíveis e livres a toda e qualquer
pessoa. Você pode encontrar mais obras em nosso site:
eLivros.
Como posso contribuir?
Você pode ajudar contribuindo de várias maneiras, enviando
livros para gente postar Envie um livro ;)
Ou ainda podendo ajudar financeiramente a pagar custo de
servidores e obras que compramos para postar, faça uma
doação aqui :)
"Quando o mundo estiver unido na busca do
conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e
poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a
um novo nível."
eLivros .love
Converted by ePubtoPDF
Sumário
Capa
Folha de rosto
Sumário
Dedicatória
Introdução
1. O golpe de 1964 e o “perigo vermelho”
2. Sobre as razões e motivações dos golpistas
3. O papel dos Estados Unidos e de outras forças
estrangeiras no golpe e na ditadura
4. A máquina política da ditadura
5. Uma análise do apoio social à ditadura
6. Aderir, resistir ou acomodar-se?
7. Sobre a violência repressiva estatal: uma resposta
proporcional à violência da esquerda?
8. A “luta” contra a corrupção: muitos discursos,
poucas realizações
9. O “milagre” econômico e a sua problemática
herança
10. A distensão política e o projeto de estabilização da
ditadura
11. A abertura, o “fim” da ditadura e a precária
democratização
Epílogo
Notas
Referências bibliográficas
Sobre o autor
Créditos
Para Irineu de Sá Motta
In memoriam
Introdução
“DEIXA OS HISTORIADORES PARA LÁ!” A frase foi proferida pelo então
candidato presidencial Jair Bolsonaro na campanha eleitoral
de 2018, durante entrevista ao Jornal Nacional da Rede
Globo. Foi a maneira que ele escolheu para iniciar a
resposta a um questionamento do jornalista William Bonner
a propósito dos eventos de 1964. Reagindo à afirmação do
jornalista de que os historiadores sérios se referem a 1964
como um golpe, Bolsonaro desqualificou a história
acadêmica, como se não merecesse consideração quando
está em pauta o passado recente. Em seguida, em jogada
estratégica para constranger Bonner e encerrar o assunto, o
candidato citou e reiterou uma fala de Roberto Marinho, em
que o fundador das Organizações Globo se referiu a 1964
como uma “revolução” feita para preservar as “instituições
democráticas”.1
O episódio mostra a centralidade dos eventos de 1964 no
debate público recente, assim como revela algumas das
principais questões em disputa quanto à história do regime
autoritário. A sombra do golpe e da subsequente ditadura
militar tem ocupado lugar significativo no cenário político
brasileiro desde a redemocratização. A democracia que se
tentou construir nos anos 1980, cujo marco principal é a
Constituição de 1988, em teoria deveria ter buscado a
superação da ditadura militar. No entanto, os grupos que
dirigiram a transição democrática evitaram enfrentar o
passado autoritário. Muito pelo contrário, tentaram
esquecê-lo. E essa política de esquecimento contribuiu para
deixar o tema em segundo plano no debate público, o que
não favoreceu a consolidação de valores democráticos na
sociedade.
Devido ao formato adotado para a transição política, o
país “saiu” da ditadura sem ter acertado as devidas contas
com o passado autoritário, e tampouco com os responsáveis
pela violência e pelos crimes praticados contra os direitos
humanos. Na ocasião, movidos pela intenção de evitar
conflitos ou escamotear o próprio envolvimento com a
ditadura, os líderes da transição preferiram deixar a conta
pendente para o futuro, como se acreditassem na máxima
de que o tempo cura tudo. Nem sempre. A conta não
saldada veio a ser cobrada recentemente, com o
surgimento de nova ameaça autoritária.
Nos primeiros anos após a ditadura, enquanto as elites
governantes atuaram para apagar o passado autoritário, os
movimentos sociais democráticos não conseguiram mudar
esse quadro, até porque privilegiaram outras pautas, como
a luta por conquistas materiais. No entanto, a partir do
contexto de polarização política iniciado em 2013-4, a
história do golpe de 1964 e da ditadura se tornou mais
presente — e quente — no cenário nacional. Isso porque a
história recente passou a ocupar lugar de destaque nos
discursos dos diferentes agentes em disputa pelo poder.
Para setores da direita, especialmente a ala mais radical e
autoritária, 1964 é um episódio a ser valorizado e
comemorado, pois marcou a derrota da esquerda e o início
de um regime político orientado para a “ordem e o
progresso” ou para o “desenvolvimento com segurança”.
Para a esquerda, e para alguns segmentos da direita liberal,
1964 representa o início de uma era de ditadura, de
violência política e de desrespeito grave aos direitos
humanos, cujo legado deve ser enfrentado e superado para
a construção de uma verdadeira democracia.
Significativamente, as tentativas de lideranças
democráticas de enfrentar o legado da ditadura, por
exemplo com a criação da Comissão Nacional da Verdade
(2012), serviram de estímulo à mobilização de setores mais
radicais da direita. Para estes segmentos, os militares
“salvaram” o Brasil em 1964, por isso não é admissível que
sejam investigados e menos ainda julgados por suas ações.
Setores majoritários da corporação militar consideraram a
comissão uma afronta, pois indicaria a disposição
“revanchista” da esquerda e o fim das políticas de
esquecimento do passado autoritário. É importante destacar
que esse quadro contribuiu para despertar um sentimento
de aversão aos governos petistas entre os militares, o que
teve peso importante nas pressões pelo impeachment de
Dilma Rousseff e pela prisão de Lula.2
Assim, os eventos relacionados ao golpe e à ditadura se
tornaram moeda corrente no debate público recente,
servindo de baliza para orientar os projetos políticos em
conflito, e não apenas no campo eleitoral. Por isso, também,
tornaram-se frequentes manifestações de personalidades
públicas sobre tais questões, inevitavelmente gerando
muita polêmica. Um exemplo notável foi o ministro do
Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli, que, às vésperas
do primeiro turno das eleições de 2018, quando presidia a
Suprema Corte brasileira, afirmou que 1964 deveria ser
visto como um movimento e não como um golpe ou uma
revolução.3 A declaração provocou grande celeuma, pois foi
entendida como tentativa de minimizar o caráter autoritário
da derrubada do presidente João Goulart.
Significativamente, pela mesma época Toffoli contratou
um general para assessorar a presidência do STF, um ato
inusitado e polêmico, mas revelador do regresso dos
militares aos centros decisórios da República. De fato, e
sobretudo após as eleições de 2018, os militares voltaram a
ocupar posições-chave no governo. Pela primeira vez desde
o fim da ditadura — e talvez em maior número agora —,
oficiais das Forças Armadas voltaram a ocupar funções civis
e assessorias relevantes, o que traz a sensação
preocupante de retorno ao passado autoritário. Só que
desta vez quem comanda é um ex-capitão, no lugar dos
generais do regime militar. Além disso, o poder foi
conquistado nas urnas e não pelas armas, embora as
eleições de 2018 tenham sido atípicas devido ao cataclismo
político gerado pelo processo que levou ao impeachment de
Dilma Rousseff em 2016 e à prisão de Lula. O quadro atual
tem outras diferenças em relação à ditadura, além das
mencionadas. De qualquer modo, a volta dos militares ao
centro da política brasileira é um ingrediente a mais na
politização da história da ditadura.
O projeto político construído em torno de Jair Bolsonaro
tem como um de seus pontos centrais a tentativa de impor
uma visão politicamente distorcida e maniqueísta sobre a
história do golpe de 1964 e da ditadura militar. Por aí se
entende a declaração de um general membro da equipe de
campanha do então candidato prometendo eliminar livros
de história “que não tragam a verdade sobre 64”.4 Na
mesma linha, o primeiro ministro da Educação do governo
Bolsonaro, Ricardo Vélez Rodríguez, anunciou a disposição
de revisar os livros didáticos para adequá-los à visão de que
1964 não originou uma ditadura.5
Depois de assumir a presidência, Bolsonaro manteve o
tom da campanha, e em diferentes ocasiões se manifestou
sobre 1964. Em março de 2019, por exemplo, ele se
declarou a favor de comemorações dedicadas à “revolução”
de 31 de março de 1964. Na ocasião, a Presidência da
República divulgou um pequeno vídeo corroborando sua
visão sobre o significado daquele evento histórico, com
destaque para a narrativa anticomunista, ou seja, o discurso
de que o Brasil foi salvo do “perigo vermelho”.6 No 31 de
março seguinte, em 2020, o presidente voltou à carga. Em
suas redes sociais, ele comemorou o evento como um dia
de liberdade. Como se não bastasse, alegou ainda que a
escolha de Castelo Branco pelo Congresso evidenciava que
em 1964 não ocorreu um golpe: “A verdade: o marechal foi
eleito de acordo com a Constituição e não houve golpe em
31 de março”.7 Tal afirmação, corriqueira em tempos de
fake news e de “pós-verdade”, não corresponde à verdade
dos fatos.
Além de lideranças políticas, a história dos eventos de
1964 e da ditadura tem mobilizado pessoas comuns,
principalmente nas redes sociais. Chama a atenção o
empenho de certos grupos ideológicos em divulgar suas
versões sobre o tema, com destaque para argumentos
anticomunistas e antiesquerdistas viscerais. A estratégia de
popularização de tais discursos passa pela exploração
eficiente das redes sociais, com a disseminação de produtos
em forma de texto, mas também em formato audiovisual, o
mais adequado para atrair os jovens. Alguns desses relatos
são acompanhados de evidências históricas, como
documentos sigilosos localizados em arquivos, inclusive em
países estrangeiros. Porém, esses indícios são interpretados
de maneira distorcida, na tentativa de conferir credibilidade
às versões apresentadas pela extrema direita.
Os discursos nostálgicos e elogiosos em relação à
ditadura tiveram outros efeitos importantes, para além de
seu impacto na campanha eleitoral e de movimentarem as
frenéticas redes sociais. No início de 2020, fazendo eco aos
valores autoritários de seus líderes políticos e intelectuais,
grupos de militantes da direita radical foram às ruas para
demandar o fechamento do STF e ameaçar outras
instituições da República. De maneira significativa — e
assustadora para quem preza a democracia —, algumas
pessoas presentes a tais manifestações públicas portavam
cartazes pedindo um “novo AI-5”.
Nessa presença marcante do golpe e da ditadura militar
nas falas da elite política, em discursos de youtubers e em
manifestações de rua, percebem-se uma politização e uma
manipulação ideologicamente orientada da história, com o
objetivo de construir versões moldadas para justificar a
ditadura e, eventualmente, dar fundamento a novos
projetos autoritários, inclusive do governo Bolsonaro. Tais
discursos não apenas negam o caráter golpista de 1964 e a
construção de uma ditadura na sua sequência, como
minimizam a violência e escamoteiam outros aspectos da
história que não interessam a seus projetos políticos, ao
mesmo tempo que demonizam os adversários de esquerda.
Portanto, a história está no centro da chamada guerra
cultural, ou seja, ela é alvo de grupos que entendem ser
necessário dominá-la a fim de alcançar o controle da
opinião política dos brasileiros. O conhecimento da história
encontra-se no olho do furacão, disputado palmo a palmo
por grupos hostis ao universo acadêmico. Nessa batalha, os
gurus e influencers da direita autoritária pretendem anular a
história acadêmica, objetivando tomar o lugar dela como
fonte de educação do público, para o que estimulam sua
audiência a desconfiar dos historiadores (tanto os
professores como os pesquisadores). Em meio a esse
quadro conflituoso, muitos cidadãos têm interesse em
conhecer melhor a história do país, mas ficam confusos
diante de versões conflitantes e passionais.
O propósito deste livro é mostrar por que os historiadores
não devem ser “deixados para lá” e, ao contrário, merecem
ser lidos. Ele foi concebido para oferecer ao público uma
abordagem mais equilibrada e bem fundamentada sobre a
história da ditadura militar. Historiadores são profissionais
dedicados à produção de conhecimento sobre as ações
humanas no tempo, com base em pesquisas, coleta de
evidências documentais e análise lógico-racional dos
resultados. Devem também estar atentos ao conhecimento
acumulado sobre o tema em estudo, dialogando
produtivamente com a historiografia preexistente e com os
colegas pesquisadores. Os historiadores não emitem meras
opiniões, já que seguem padrões e métodos científicos, e
devem respeitar limites éticos. Ainda que não seja infalível,
o conhecimento acadêmico é o que oferece os melhores e
mais confiáveis instrumentos para se tentar alcançar a
verdade histórica. Se nem sempre isso é possível, ao menos
somos capazes de apontar as versões equivocadas ou
falsas. É por isso que certos grupos buscam desacreditar os
pesquisadores acadêmicos, vistos como um obstáculo às
tentativas de fazer prevalecer versões farsescas ou
falseadoras da história. Como os negacionistas e outras
correntes anticientíficas, os nostálgicos da ditadura
pretendem substituir o saber acadêmico por suas opiniões,
paixões e preconceitos.
No entanto, não se pretende oferecer aqui uma história
“fria” da ditadura. Primeiro, porque é ingenuidade supor que
o pesquisador consegue se distanciar totalmente do seu
tema de estudo. Segundo, especialmente no caso em foco,
porque uma história sem compromisso político seria
desinteressante, insossa e pouco relevante. O desafio do
profissional acadêmico é lidar com o fator subjetivo e
integrá-lo de maneira produtiva a seu trabalho, sem
comprometer a sua validade. Com efeito, notadamente nas
ciências humanas e sociais, o conhecimento é produzido a
partir de um jogo de aproximação e de distanciamento
entre o pesquisador e seu objeto de estudo. Em outras
palavras, para compreender as ações humanas é preciso se
aproximar dos valores e sentimentos dos agentes históricos,
o que pode gerar empatia ou repulsa. Simultaneamente, em
especial no momento de produzir a análise, é indispensável
se afastar do tema, adotando um olhar frio, crítico e que
leve em consideração todas as evidências e os diferentes
pontos de vista.
Este livro foi produzido com tal disposição, ou seja, é uma
história quente e fria ao mesmo tempo. Explicando a
metáfora: o autor tem opinião política, como não poderia
deixar de ser, que é de rejeição ao golpe de 1964 e à
ditadura. E o texto é engajado pela democracia e a defesa
dos direitos humanos, por isso assume uma posição política.
No entanto, não defende posições partidarizadas e rejeita
maniqueísmos e discursos de demonização, qualquer que
seja sua origem ideológica. Trata-se aqui de analisar e
entender as ações humanas no tempo — ações movidas por
interesses econômicos e políticos, mas também por
convicções ideológicas, religiosas e pela força da tradição.
Para a produção do conhecimento em bases científicas é
necessário levar em conta as diferentes visões e interesses
envolvidos nas disputas, assim como as análises de diversos
pesquisadores, inclusive aquelas de que discordamos.
Embora parte dos capítulos do livro resulte de uma
síntese de conhecimento já produzido, há também bastante
conteúdo original, com reflexões baseadas em pesquisas
em andamento. As análises mais originais são as que
enfocam as motivações para o golpe de 1964, as atitudes
sociais frente à ditadura, as instituições políticas do regime
militar, a distensão política e a transição democrática. Como
se trata de temas pouco ou insuficientemente pesquisados,
o livro oferece contribuições inovadoras ao conhecimento
da história da ditadura e ajudará o leitor a compreender os
principais aspectos e fases desse período.
Os capítulos foram organizados em torno do exame dos
temas e questões mais polêmicos do debate atual, sem
deixar, naturalmente, de narrar os principais eventos
relacionados. Dessa forma, como nos estudos de história
mais interessantes, combinam narrativa e análise.
A expectativa é difundir conhecimento produzido em
bases acadêmicas, contribuindo para evitar que os
falsificadores e negacionistas conquistem o público com sua
leitura autoritária da história. Não que eles defendam pura e
simplesmente uma ditadura ao estilo dos anos 1960, mas
sem dúvida almejam algum tipo de autoritarismo que seria
igualmente danoso para a democracia e os direitos
humanos.
Assim, este é um livro comprometido com a democracia.
Esse compromisso cívico-político, explícito, como deve ser,
não implicou, porém, nenhum desrespeito às regras do
conhecimento acadêmico. Afinal, um de seus principais
objetivos é justamente mostrar o valor do conhecimento e
dos métodos científicos, que os inimigos da democracia
procuram destruir para facilitar seu projeto autoritário.
Trabalhemos para que não tenham sucesso.
UMA OBSERVAÇÃO IMPORTANTE: além de “ditadura”, neste livro
são utilizadas as expressões “regime autoritário” e “regime
militar”. A definição mais precisa é ditadura, mas usamos
também os outros dois termos para preservar a fluência do
texto e o estilo. Fazemos isso, no entanto, por entender que
os termos são de fato compatíveis, uma vez que os
conceitos regime autoritário e regime militar implicam a
existência de uma ditadura. Há quem sustente que regime
militar e regime autoritário são formas mais suaves de
expressar a realidade da ditadura. Em todo caso, não é com
essa intenção que usamos tais expressões, pois não
duvidamos nem minimizamos o caráter ditatorial daquele
regime político. Vale esclarecer, também, que usamos
ditadura no singular mesmo sabendo que os governos
militares do período 1964-85 possuíram algumas diferenças
e divergências — que, aliás, são analisadas ao longo do
livro. Ainda assim, esses governos estiveram unidos pelos
mesmos propósitos (a defesa dos objetivos da “revolução”,
como diziam) e pelo controle político exercido pela
corporação militar, o que confere unidade e consistência
àquele regime ditatorial de duas décadas de duração.
1. O golpe de 1964 e o “perigo vermelho”
QUASE SEIS DÉCADAS APÓS os eventos de 1964, defensores
nostálgicos do golpe militar que derrubou o governo de João
Goulart seguem insistindo — a despeito das evidências
históricas — que havia uma grave ameaça comunista
pairando sobre o Brasil, o que tornaria justificável a
intervenção militar. Em alguns discursos, como os
propagados em vídeo divulgado pelo Palácio do Planalto
para comemorar o 31 de março em 2019, opera-se o
falseamento da história, atribuindo-se à esquerda, em 1964,
atos violentos que na verdade seriam praticados pela
ditadura contra seus oponentes (“Era, sim, um tempo de
medo… daquilo que os comunistas faziam… Prendiam e
matavam seus compatriotas… O Exército nos salvou”).1
O argumento anticomunista a respeito das origens do
golpe de 1964 tem servido também para fazer conexão com
o presente, alimentando o sentimento de que as esquerdas
são forças negativas a serem removidas do cenário público
atual, na medida em que são indistintamente associadas à
imagem de um nefasto perigo vermelho. Mesmo nas fases
agudas da pandemia de covid-19, quando autoridades
sanitárias recomendavam respeitar o isolamento social,
militantes de extrema direita saíram às ruas com demandas
do tipo “Por uma nova Constituição que criminalize o
comunismo”, pedindo ao Exército para “deter os inimigos da
Nação”.2
A brasa dormida do anticomunismo foi atiçada para gerar
mais uma campanha antiesquerdista. Os seus alvos são
amplos e diversificados (às vezes vagos), como os
defensores do meio ambiente, a “ideologia de gênero” ou o
“politicamente correto”, assim como incluem diferentes
partidos políticos. No entanto, a recente onda
antiesquerdista atingiu especialmente os governos e líderes
do Partido dos Trabalhadores (PT), considerados pela direita
radical os principais responsáveis pelo fortalecimento das
pautas que ela repele. Assim, as polêmicas sobre o papel
dos “comunistas” em 1964 têm como pano de fundo as
lutas políticas recentes, o que contribui para manter
presente a memória dos eventos ocorridos nos anos 1960-
70.
Qual a validade do argumento sobre uma ameaça
comunista no Brasil em 1964? Em linguagem menos
maniqueísta, a pergunta seria: naquela ocasião, os
comunistas tinham mesmo a possibilidade de tomar o poder
e fazer uma revolução? Quais eram os planos dos grupos de
esquerda e qual a sua força real? Durante o seu governo,
João Goulart mostrou-se mesmo disposto a permitir uma
revolução socialista? Antes de analisar essas questões
fundamentais, o que vai exigir uma síntese dos principais
eventos de 1964, vejamos alguns trechos de discursos de
lideranças favoráveis ao golpe que removeu Jango do poder
e iniciou a ditadura, para perceber como mobilizaram a
retórica anticomunista. Observando algumas falas emitidas
no momento da deflagração do golpe e, em seguida, nos
discursos de vitória, fica claro que o anticomunismo se
constituiu no argumento central dos golpistas:
Agora é a Nação toda de pé, para defender as suas Forças Armadas, a fim de
que estas continuem a defendê-la dos ataques e das insídias comunistas.
Neste grave momento da história, quando os brasileiros, patriotas e
democratas, veem que não é mais possível contemporizar com a subversão,
pois a subversão partindo do governo fatalmente conduziria ao “Putsch” e à
entrega do país aos vermelhos, elevemos a Deus o nosso pensamento,
pedindo-lhe que proteja esta pátria cristã, que a salve da guerra fratricida e
que a livre da escravidão comuno-fidelista.3
A virilidade do movimento cívico que reinstalou o império da lei e da
liberdade no país, que demonstrou a aversão do povo brasileiro à
comunização, que repudiou a agitação e a opressão, repercutiu de modo
intenso em todo o mundo.4
O II Exército […] acaba de assumir atitude de grave responsabilidade com o
objetivo de salvar a pátria em perigo, livrando-a do jugo vermelho.
É que se tornou por demais evidente a atuação acelerada do Partido
Comunista para a posse do poder, partido agora mais do que nunca apoiado
por brasileiros mal avisados que nem mesmo têm consciência do mal que se
está gerando.5
Atendendo à geral e angustiosa expectativa do povo brasileiro, que via a
marcha acelerada do comunismo para a conquista do poder, as Forças
Armadas acudiram em tempo, e evitaram que se consumasse a implantação
do regime bolchevista em nossa terra. […] Ao rendermos graças a Deus, que
atendeu às orações de milhões de brasileiros e nos livrou do perigo
comunista, agradecemos aos militares que se levantaram em nome dos
supremos interesses da nação […].6
Os militares foram festejados como salvadores da pátria
pelos defensores da derrubada de Goulart, sendo que houve
quem interpretasse o golpe como notável vitória do “mundo
livre” sobre o comunismo. Para os mais exagerados e
ufanistas, a deposição de Goulart representou a maior
derrota soviética em muitos anos (“a revolução brasileira
derrotou fragorosamente uma das mais bem preparadas e
arquitetadas ofensivas da guerra fria”),7 com a vantagem
adicional, diziam os entusiastas, de tê-lo conseguido sem
que ocorresse uma guerra civil. Significativamente, alguns
meses após o golpe a prestigiada revista Seleções do
Reader’s Digest publicou um artigo especial comemorando
a queda de Goulart, sob o título “A nação que se salvou a si
mesma” (de acordo com o autor, o Brasil teria se salvado do
comunismo).
É importante destacar que os discursos anticomunistas se
apropriam de uma tradição presente no Brasil desde o início
do século XX. O anticomunismo se consolidou no país na
década de 1930, na sequência da insurreição revolucionária
de novembro de 1935, que a memória oficial nomeou
“Intentona Comunista”. Essa tentativa fracassada da
esquerda (liderada por comunistas, mas com participação
de pessoas sem militância também) provocou resposta
violenta do Estado e dos setores sociais dominantes, que
capricharam na repressão e na propaganda. Naquele
contexto, foram criados (ou ampliados) aparatos legislativos
e policiais que serviram para reprimir não apenas os
militantes de esquerda, mas todo tipo de movimento social
e liderança progressista. Além disso, construiu-se um
aparato de propaganda que solidificou um imaginário
anticomunista, ou seja, um conjunto de imagens e ideias
socialmente enraizadas. Os “vermelhos” foram
representados por seus inimigos sempre na qualidade de
personagens nefastos: violentos, ateus, imorais (ou
amorais), estrangeiros, traidores, tirânicos etc. Nas versões
mais extremas, foram apresentados como parceiros do
próprio diabo.
Em 1964 ocorreu nova mobilização contra o “perigo
vermelho”, que se apropriou da tradição preexistente e, de
modo semelhante aos anos 1930, levou à implantação de
uma ditadura. Assim, tanto a ditadura do Estado Novo
(1937) quanto a ditadura liderada pelos militares em 1964
utilizaram a ameaça comunista como justificativa e fonte de
legitimação. Os brasileiros precisavam ser protegidos do
perigo de uma ditadura comunista, argumentava-se, mesmo
ao custo de viver sob uma ditadura de direita. Esses
sentimentos (e obsessões) anticomunistas fincaram raízes
fundas em vários segmentos sociais, principalmente entre
os militares e grupos religiosos, que foram esteios das
campanhas contra as esquerdas.8
Importante também perceber que tais movimentos
representavam uma mistura complexa de sinceridade e
oportunismo. Muitos líderes realmente acreditavam na
existência de forte ameaça comunista no Brasil; seus
temores eram exagerados, mas não insinceros. Porém,
outros manipulavam a boa-fé e os sentimentos
conservadores de uma parte da população de maneira
oportunista, para ganhar dinheiro e/ou poder. Em outras
palavras, havia uma industrialização do anticomunismo, ou
seja, a sua exploração como negócio. Outra forma de uso
oportunista, igualmente atual, é aproveitar o medo ao
“vermelho” para combater todo tipo de movimento social
que demanda direitos ou reformas. No decorrer da nossa
história, a repressão anticomunista foi dirigida não apenas
contra os comunistas propriamente, sempre minoritários,
mas contra todos os movimentos progressistas.
O governo Goulart e a crise que provocou sua queda
A manipulação do anticomunismo se aplica especialmente
ao contexto do governo de João Goulart. A imagem negativa
de Jango entre os grupos de direita deveu-se a suas boas
relações com o movimento sindical, inclusive as lideranças
comunistas. O político gaúcho entrou no cenário nacional
quando Getúlio Vargas, então presidente, o nomeou
ministro do Trabalho, em junho de 1953. Poucos meses
depois, Goulart foi afastado do cargo, após a sua proposta
de aumento de 100% no salário mínimo ter gerado reações
contrárias entre militares. A principal delas foi o manifesto
ou memorial dos coronéis, que, entre outras coisas,
reclamava que os salários dos trabalhadores se
aproximariam dos vencimentos dos graduados, trazendo
desestímulo à carreira militar.9 Mesmo assim, ou
exatamente por isso, a liderança de Jango no Partido
Trabalhista Brasileiro (PTB) e entre os trabalhadores se
fortaleceu, abrindo caminho para sua eleição a vice-
presidente da República por duas vezes seguidas, em 1955
e em 1960. Na segunda ocasião, ele foi eleito vice de Jânio
Quadros, que vinha de uma fulminante carreira como
prefeito e governador de São Paulo, com estilo populista de
direita. O sistema eleitoral permitia a eleição de titular e
vice de chapas diferentes, portanto com projetos políticos
distintos, o que contribuiu para a grave crise que eclodiu
após a renúncia de Quadros, em agosto de 1961. Para
impedir a posse de Goulart, que era o sucessor legítimo,
lideranças de direita ameaçaram uma guerra civil. Os
ministros militares do governo Quadros ficaram
especialmente irritados e preocupados, como explicitaram
em manifesto contra a posse de Jango:
O sr. João Goulart constituir-se-á, sem dúvida alguma, no mais evidente
incentivo a todos aqueles que desejam ver o país mergulhado no caos, na
anarquia, na luta civil. As próprias Forças Armadas, infiltradas e
domesticadas, transformar-se-iam, como tem acontecido noutros países, em
simples milícias comunistas.10
Após muita tensão ante a possibilidade de conflito
armado, já que os defensores da posse de Goulart criaram a
“campanha da legalidade”, que atraiu expressivo apoio
popular e mesmo de parte dos militares, os conflitos foram
negociados e surgiu uma fórmula de acomodação. Assim,
Goulart assumiu a presidência no início de setembro de
1961, mas após concordar com uma emenda constitucional
que criou o parlamentarismo, uma forma de diminuir o
poder presidencial e reduzir o medo de seus adversários.
Ele aceitou porque a mesma emenda estabelecia um futuro
plebiscito popular em que se confirmaria ou não a
manutenção do novo sistema de governo. Haveria a chance
de retomar plenos poderes presidenciais se ele conseguisse
antecipar a data do plebiscito, previsto inicialmente para
meados de 1965. Goulart trabalhou para conseguir apoio
parlamentar à antecipação do plebiscito, que acabou sendo
realizado em janeiro de 1963.
Durante os primeiros meses de governo, ainda sob o
regime parlamentarista, Jango manteve postura ambígua,
conservando canais abertos tanto à esquerda como à
direita. Por isso, alguns grupos de direita adotaram uma
atitude de expectativa, desconfiados, mas aguardando uma
definição de Goulart. Já a direita radical nunca deu trégua, e
desde o início acusou o novo governo de estar implicado em
alguma trama comunista. Por exemplo em novembro de
1961, quando o governo Goulart reatou relações
diplomáticas com a União Soviética, rompidas desde 1947,
no governo de Eurico Gaspar Dutra. A iniciativa seguia uma
linha diplomática em desenvolvimento desde o fim do
governo de Juscelino Kubitschek e ampliada pelo próprio
Jânio Quadros, a chamada Política Externa Independente,
cujo objetivo era diminuir a dependência dos Estados
Unidos e ampliar o número de parceiros comerciais e
diplomáticos. Mesmo assim, Goulart foi acusado de trazer o
“cavalo de Troia” para o Brasil ao permitir a instalação de
uma embaixada soviética.
Porém, a maior mobilização anticomunista nos primeiros
meses de seu governo se daria nas eleições de 1962,
quando as forças de direita investiram pesadamente para
evitar a vitória das esquerdas na disputa pelo Congresso e
nos governos estaduais que seriam renovados naquele
pleito.* Para tanto, fizeram largo uso de financiamento ilegal
de candidatos antiesquerdistas, sobretudo por meio do
Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), ligado à
CIA.11 A intervenção milionária do Ibad nas eleições gerou
denúncias à época, que foram investigadas por uma
Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI).
Uma das motivações era conter o crescente ativismo dos
movimentos sociais, que demandavam reformas para
redução das desigualdades, com destaque para
movimentos camponeses, operários, estudantis e das
populações que viviam em habitações precárias
(“favelados”). A proposta das “reformas de base” se instalou
no debate público dos anos 1960, notadamente as reformas
agrária, urbana, universitária e política, que buscavam
melhorias sociais e ampliação da cidadania.
A demanda por distribuição de terras tinha grande apoio
da população em geral, mas gerava conflitos violentos entre
proprietários e camponeses. A reforma política pretendia
instituir o voto dos analfabetos, excluídos da cidadania ativa
desde a reforma eleitoral de 1881, uma demanda que
assustava os grupos conservadores, temerosos de que os
novos eleitores votassem na esquerda. Outro segmento
social a se organizar nesse período foram os praças e
militares subalternos, ou seja, soldados, marinheiros, cabos
e sargentos, cujas demandas (direito ao voto e a serem
eleitos para cargos parlamentares) seriam incorporadas
também à reforma política. Esses movimentos tensionaram
a tradicional hierarquia militar e geraram ansiedade entre
os oficiais, pois os praças queriam também o direito de
possuir associações profissionais, o que era vedado pelas
normas das Forças Armadas.
Em suma, esse conjunto de demandas e de movimentos
sociais assustava os grupos dominantes acostumados a
uma sociedade desigual e elitista, cujo discurso de
cordialidade em grande medida servia para tentar suavizar
conflitos e negar relevância às diferenças sociais e raciais, a
exemplo do argumento de que no Brasil existiria uma
democracia racial. Chamar de comunistas os movimentos
sociais reivindicativos era simultaneamente uma maneira
de expressar o medo em relação a mudanças sociais e uma
estratégia de manipulação do perigo vermelho.
O fato de Goulart não enquadrar nem conter (com
repressão, se preciso) as demandas sociais distributivistas
aumentava a insegurança entre as elites e as suspeitas
contra ele. As desconfianças aumentaram ainda mais depois
que o plebiscito de janeiro de 1963 definiu o retorno ao
presidencialismo. Durante aquele ano foi se formando uma
polarização direita × esquerda que era visível tanto em
ações políticas concretas quanto, e principalmente, nos
discursos. O ambiente era tenso também devido à situação
internacional e ao contexto da Guerra Fria, que nesta parte
do mundo se expressava sobretudo nas ameaças de
intervenção norte-americana em Cuba. A propósito, o
governo Goulart irritou a direita local e internacional ao
negar apoio ao projeto dos Estados Unidos de intervir na
ilha.12
A progressiva deterioração do quadro político e
econômico, ao longo de 1963, colocou Goulart numa
posição muito difícil. O presidente não conseguia contornar
os problemas econômicos, cada vez mais graves (em
especial a falta de reservas cambiais e a inflação
crescente), e via o sistema político fugir-lhe ao controle
conforme a oposição se fortalecia. Por sua vez, a crise
política amplificava os problemas econômicos, pois os
capitalistas se sentiam inseguros para investir no Brasil. A
polarização política inviabilizava as negociações para a
aprovação das “reformas de base” no Congresso,
especialmente a agrária, o que incrementava a sensação de
impasse.13
A desconfiança dos setores conservadores e liberais em
relação a Jango aumentava paulatinamente, ao mesmo
passo que alguns grupos de esquerda desafiavam sua
política conciliadora, confrontando o governo com discursos
radicais, que, por sua vez, instigavam o ativismo de direita.
Diante dessa situação, Goulart tomou uma medida infeliz,
que contribuiu para enfraquecer ainda mais sua posição. Em
4 de outubro de 1963, ele enviou ao Congresso um pedido
de autorização para decretar estado de sítio, medida que
lhe outorgaria, por prazo limitado, poderes excepcionais
como, entre outros, a possibilidade de censurar
correspondências e suspender o direito à livre reunião. A
iniciativa deixou tanto a direita como a esquerda atônitas,
sem entender o objetivo do governo, cada lado achando que
a medida excepcional representaria um golpe perpetrado
pelo grupo oposto. Vendo-se isolado, o governo não teve
alternativa senão recuar e retirar o pedido, perdendo
prestígio e respeitabilidade.14
O medo e a ansiedade nos campos centrista e
conservador resultaram em aproximação com as posições
da direita radical. Apelos por uma frente que reunisse todas
as forças e grupos contrários à “comunização” do país
desdobraram-se na constituição da “Rede da Democracia”,
que apesar do nome viria a abrir caminho para o golpe de
1964. Ela representava um acordo de cooperação entre
alguns dos maiores conglomerados de comunicação do país,
os grupos Globo, Diários Associados e Jornal do Brasil, que
encetaram uma poderosa ofensiva de propaganda contra a
esquerda.15
Entre o fim de 1963 e o início de 1964, ao indicar que
optara finalmente pelo campo das reformas sociais
apoiadas pela esquerda, Goulart selou o seu destino. Na
verdade, ele não abandonou totalmente a estratégia de
dialogar com diferentes forças políticas, pois continuou
dando mostras de que ainda apostava em algum tipo de
acomodação entre setores da esquerda e da direita
moderada. Porém alguns de seus atos nos três meses que
antecederam o golpe levaram as lideranças de direita a se
convencerem de que ele era caso perdido.
No tradicional discurso de fim de ano, em dezembro de
1963, o presidente fez um aceno para a esquerda
enfatizando seu compromisso com as reformas e lançando
críticas ásperas às estruturas arcaicas da sociedade
brasileira. No mês de janeiro do ano seguinte, mais duas
ações importantes: o apoio oficial à eleição da chapa de
esquerda na disputa pelo controle da poderosa
Confederação Nacional dos Trabalhadores da Indústria (CNTI)
— que provocou o rompimento da cúpula empresarial com o
governo — e a assinatura da lei que limitava as remessas de
lucros das empresas estrangeiras. Pela mesma época,
fontes do governo informavam que o problema da reforma
agrária seria enfrentado por meio de decreto presidencial.
Os boatos geraram ansiedade e muitas especulações sobre
o teor das medidas em preparação, com a grande imprensa
acusando o governo de querer entregar áreas vitais aos
comunistas.16
Enquanto a direita preparava suas armas (literalmente,
pois fazendeiros e ligas anticomunistas começaram a
adquirir equipamento bélico), líderes de esquerda
responderam intensificando ações, já que parte deles
considerou imperioso aumentar a mobilização para
enfrentar a ofensiva conservadora. É interessante observar
que os dois lados tinham percepções diversas da luta em
curso: para a esquerda, tratava-se de um embate opondo
nacionalistas e defensores do progresso social aos
reacionários, anticomunistas fanáticos e “entreguistas” (os
que pretendiam entregar as riquezas nacionais ao
estrangeiro); na ótica dos antiesquerdistas, a luta era entre
os democratas, comprometidos com a salvaguarda da
liberdade e da pátria, e os comunistas e seus aliados
demagogos e caudilhos.
Um dos episódios mais marcantes no contexto anterior ao
golpe foi o comício da Central do Brasil, no dia 13 de março
de 1964, no Rio de Janeiro. O governo e seus aliados
prepararam um grande ato para lançar uma ofensiva
pública a favor das reformas de base. Goulart demonstraria,
assim, sua disposição de afinar-se com as esquerdas e com
o programa reformista, ao mesmo tempo que fazia pressão
contra a mobilização conservadora. A ideia era arregimentar
os grupos populares simpáticos à causa nacional-reformista,
dando uma demonstração de força aos conservadores e aos
setores majoritários do Congresso opostos às mudanças
constitucionais.17 Estima-se que entre 200 mil e 300 mil
pessoas compareceram ao “comício das reformas”, um
indicador de sua grande repercussão política. No palco do
evento falaram líderes de todas as tendências de esquerda
e também as lideranças moderadas que apoiavam o
governo. O presidente anunciou o início da reforma agrária,
com a desapropriação de terras situadas às margens de
rodovias e ferrovias federais, o que era constitucionalmente
possível.
No entanto, essas medidas tinham mais efeito simbólico
que prático, pois uma reforma agrária de caráter amplo
demandava mudanças na Constituição. Uma das questões
mais polêmicas era a existência de uma cláusula
constitucional que permitia a desapropriação de bens
apenas com indenização em dinheiro, enquanto o governo
pretendia pagá-la com títulos públicos. A direita
parlamentar não estava disposta a aceitar a ideia, alegando
o temor de que, uma vez aceito o princípio de alterar a
Constituição, se abririam as portas para mudanças
profundas nas instituições.
Na sequência do comício de 13 de março, Goulart enviou
mensagem ao Congresso solicitando que a Constituição
fosse emendada para viabilizar as reformas de base.
Previsivelmente, pedia a alteração do artigo 141, que
estabelecia a exigência da indenização em dinheiro para
desapropriações. Porém, pediu também a supressão do
preceito constitucional (contido no artigo 36) sobre a
proibição da delegação de poderes, com o argumento de
que se tratava de premissa liberal ultrapassada. O
progresso e as reformas demandavam mais agilidade do
Estado, dizia o texto presidencial, com isso sugerindo a
intenção do Poder Executivo de se imiscuir na produção de
leis.18 O texto da presidência era vago quanto a seus
objetivos ao solicitar o fim da norma constitucional que
vedava aos Poderes da República delegar atribuições, mas
de qualquer forma a proposta foi denunciada como uma
tentativa de conferir perfil ditatorial a Goulart, que,
teoricamente, poderia assumir algumas prerrogativas dos
outros dois Poderes (Judiciário e Legislativo). No entanto, a
permissão para a delegação de poderes precisava ser
autorizada antes pelo próprio Congresso, o que torna
problemática a acusação de que o governo tinha intenções
golpistas.
Se até então alguns grupos de direita atacavam apenas o
comunismo e poupavam o presidente, agora todos
passaram a acusar Goulart de estar implicado em uma
trama com os “vermelhos”. Setores sociais importantes, que
se mantinham em expectativa, alguns inclusive simpáticos
à pregação reformista, alinharam-se à direita radical, sob a
bandeira do anticomunismo. O processo de formação da
“união sagrada” contra o comunismo se consumou,
reunindo as elites empresariais, militares, políticas,
religiosas e as classes médias.
A principal resposta dos setores de direita ao comício da
Central do Brasil foi a Marcha da Família com Deus pela
Liberdade, realizada em São Paulo no dia 19 de março de
1964, que segundo seus organizadores reuniu mais de 500
mil pessoas. Os slogans e cartazes utilizados na mobilização
são suficientes para indicar a mensagem política
predominante no evento: “Verde e amarelo, sem foice e
sem martelo”; “Democracia tudo, comunismo nada”;
“Abaixo os entreguistas vermelhos”; “Abaixo os pelegos e os
comunistas”; “Reformas pelo povo, não pelo Kremlin”; “O
Brasil não será uma nova Cuba”.19
Às vésperas da Semana Santa, nem o feriado religioso
ajudou a baixar a fervura política, como pensaram alguns
observadores, logo surpreendidos por um evento
inesperado que sacudiria mais uma vez o cenário político (e
militar), gerando a fagulha necessária para a explosão do
golpe. Entre os dias 25 e 27 de março teve lugar a Revolta
dos Marinheiros, o que convenceu diferentes setores da
direita, principalmente a oficialidade militar, da existência
de um processo revolucionário. O episódio foi provocado por
um ato de indisciplina dos líderes da Associação de
Marinheiros e Fuzileiros Navais, grupo afinado com a
esquerda, que realizou uma assembleia na sede do
Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro, com o objetivo
de comemorar seu segundo aniversário e protestar contra a
prisão de alguns companheiros por motivos políticos.20
Sob o argumento de que haviam cometido indisciplina, o
ministro da Marinha, Sílvio Mota, ordenou a detenção dos
chefes do movimento, enviando uma tropa de fuzileiros
navais para cumprir a determinação. Os marinheiros, no
entanto, desafiaram a autoridade e se recusaram a sair do
prédio, recebendo a adesão de parte dos fuzileiros enviados
para detê-los. Instalou-se crise grave, e soldados do Exército
e da Polícia Militar foram mobilizados para cercar o local,
ameaçando invadi-lo. O impasse foi quebrado por
negociações conduzidas por políticos e sindicalistas de
esquerda, resultando em aparente vitória dos marinheiros: o
ministro da Marinha foi afastado do cargo, substituído por
um almirante mais simpático à esquerda, e os rebeldes
foram conduzidos a um quartel do Exército e libertados em
seguida. A cena final do drama aumentou a ira dos
antiesquerdistas: os rebeldes comemoraram a vitória nas
ruas do centro do Rio de Janeiro, carregando nos ombros o
comandante dos fuzileiros, o almirante Cândido Aragão,
oficial simpático à causa.21
O impacto desses acontecimentos dificilmente poderia ser
exagerado. No clima de tensão e mobilização anticomunista
reinante, a rebelião dos marinheiros foi interpretada como
prenúncio de uma revolução e toscamente comparada com
a Revolta do Encouraçado Potemkin, um dos episódios da
Revolução de 1905 na Rússia. A atitude do governo de
ceder aos rebeldes e demitir o ministro que pretendia punir
a indisciplina convenceu muitos do envolvimento do
presidente em uma trama subversiva. No interior das Forças
Armadas, o efeito da crise foi devastador, já que o princípio
do respeito à hierarquia e à disciplina é um valor básico da
corporação (sobretudo quando se trata de manter a
obediência dos subalternos). Os oficiais simpáticos ao
governo e às reformas sociais ficaram em posição difícil
diante dos defensores do golpe, pois o discurso de que os
vermelhos pretendiam minar as Forças Armadas por dentro
ganhou ares de verdade incontestável. Dizia-se que a
intenção da esquerda seria transformá-las em milícias
populares, como havia sido feito em Cuba.22
Alguns dias depois, na noite de 30 de março de 1964,
Goulart reforçou os temores dos grupos conservadores ao
comparecer a um evento da Associação de Sargentos da
Polícia, no Automóvel Clube do Rio de Janeiro. Ele havia sido
aconselhado a não ir por assessores e aliados, que
imaginavam o efeito do gesto sobre a opinião conservadora
e a já apreensiva oficialidade militar. Por volta do
amanhecer do dia seguinte, 31 de março de 1964, tropas do
Exército sediadas em Minas Gerais começaram a marchar
contra o governo Goulart, que em poucas horas se
desmanchou, à medida que lideranças militares antes fiéis
foram aderindo aos rebeldes.
Recusando propostas de tentar uma resistência armada,
Goulart acabou por se exilar no Uruguai. Mas, antes mesmo
de ele deixar o território nacional, o Congresso empossou
provisoriamente o presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli, na
madrugada do dia 2 de abril, em ato ilegal. Dias depois, a
11 de abril, o Congresso elegeu, obviamente de maneira
indireta, o general Humberto Castelo Branco para ocupar
definitivamente o cargo de João Goulart, desrespeitando
mais uma vez a Constituição.
A propósito de datas, existe uma polêmica sobre o dia
adequado para marcar o início do golpe. A oposição sempre
preferiu dizer que o golpe se deu em 1o de abril, uma forma
de ridicularizar o evento e recusar a data de 31 de março, a
preferida pelos golpistas. Mas não existem razões plausíveis
para aceitar essa opção, pois, de fato, a movimentação de
tropas começou no dia 31. No 1o de abril o presidente
Goulart saiu do Rio para Brasília, e dali para o Rio Grande do
Sul, mas ainda estava formalmente no governo. Apenas no
dia 2 pela madrugada o Congresso decretou que ele tinha
abandonado o cargo e o país (o que não era verdade, pois
Jango partiria para o exílio somente dois dias depois),23 e
nomeou o presidente da Câmara como substituto provisório.
O golpe salvou o Brasil do comunismo?
A narrativa sobre os episódios principais da crise que abriu
caminho ao golpe é indispensável para analisar a questão
central deste capítulo: o levante militar (e civil) de 1964 foi
necessário para salvar o Brasil do comunismo? Aliás,
“salvar” é um termo inadequado, pois expressa
exclusivamente o ponto de vista antiesquerdista. Melhor
seria perguntar: o golpe de 1964 interrompeu um processo
de iminente tomada do poder pelos comunistas? A resposta
(simples, porém a mais adequada) é não. Os comunistas
não estavam em vias de controlar o país nem tinham
recursos para tanto.
Segundo uma fonte “insuspeita” — os órgãos de
inteligência norte-americanos —, em 1963 o Partido
Comunista Brasileiro (PCB) reunia entre 25 mil e 40 mil
militantes, em um país com 75 milhões de habitantes. As
mesmas fontes calculavam que o partido tinha então entre
oito e onze deputados federais (eleitos por outras legendas,
já que o PCB era ilegal à época), sendo que a Câmara tinha
pouco mais de quatrocentos deputados. Outros grupos
comunistas eram bem menores, como o Partido Comunista
do Brasil (PCdoB), cuja militância não chegava a 10% do
número do PCB. A Ação Popular (AP), entidade formada
basicamente por estudantes, teria cerca de 2 mil militantes
às vésperas do golpe de 1964, mas era uma organização de
cristãos socialistas, e não uma organização comunista.24
Outro grupo estudantil de esquerda que despontou na
época foi a Polop (Organização Revolucionária Marxista –
Política Operária), mas tinha expressão numérica ainda
menor. Pode-se supor que a pequena militância comunista
tinha influência superior a seu tamanho real, mas, mesmo
assim, os anticomunistas imaginavam um inimigo bem mais
forte do que era de fato.
Os comunistas eram influentes em alguns movimentos
sociais, como os sindicatos operários, e entre líderes
camponeses e estudantis. Porém esses núcleos também
eram disputados, principalmente pelos setores do PTB
ligados à liderança de Jango ou de Leonel Brizola e pelos
católicos progressistas (com os quais os comunistas por
vezes se aliavam). Por exemplo, na União Nacional dos
Estudantes (UNE) a direção quase sempre foi encabeçada por
alguém da AP, com os comunistas participando na posição
de vice. Nos sindicatos, eles geralmente se aliavam aos
trabalhistas de esquerda, mas havia tensões e disputas
entre os dois grupos, que sofriam também a concorrência
de lideranças sindicais de direita. O Comando Geral dos
Trabalhadores, entidade criada em agosto de 1962 que
congregava parte importante do sindicalismo, possuía perfil
progressista, tendo entre seus líderes principais tanto
comunistas como trabalhistas. No campo, a liderança dos
movimentos de camponeses e de trabalhadores rurais
(assalariados) era disputada por vários grupos, sobretudo
militantes católicos (progressistas e conservadores),
comunistas e seguidores de Francisco Julião, um militante
pernambucano de tendência marxista, mas independente (e
concorrente) do PCB. Líder das Ligas Camponesas, Julião
defendia, ao menos retoricamente, algumas posturas mais
radicais quanto à reforma agrária, tendo ficado associado ao
lema “reformas na lei, ou na marra”.
No caso de Leonel Brizola, líder do PTB gaúcho e cunhado
de Goulart, ele passou por um processo de radicalização nos
anos 1960 e disputou com os comunistas a hegemonia
sobre a esquerda. Considerado por alguns observadores
como possível “Fidel Castro brasileiro”, Brizola chegou a
esboçar uma organização revolucionária, os Grupos de 11,
que serviriam como base de reação ao esperado golpe de
direita contra o governo Goulart. Mas eles pouco agiram no
momento em que o golpe veio. As bases radicais brizolistas
seriam reativadas durante a ditadura, para dar vida às
primeiras tentativas de derrotar o regime militar com base
na resistência armada.25 Entretanto, apesar da retórica
radical, o brizolismo nunca se afastou do nacionalismo, o
que significa dizer que não era comunista.
Em suma, embora aliados de Goulart, os comunistas eram
grupo minoritário. Se os somarmos a outras forças,
especialmente aos trabalhistas, aos cristãos e aos
nacionalistas de esquerda, ainda assim o campo
progressista era minoritário no cenário nacional. Mas a
pergunta é sobre os comunistas e não sobre a esquerda em
geral. Não vamos cair na armadilha do anticomunismo
oportunista, que chama toda a esquerda de comunista para
aumentar o medo em relação às mudanças sociais. Além de
serem aliados minoritários no governo Goulart, os
comunistas não tinham perspectiva insurrecional. Sua
estratégia era apostar nas reformas sociais em uma frente
nacionalista e democrática junto às chamadas forças
burguesas. No médio prazo, a proposta era chegar ao
socialismo por uma espécie de revolução processual, o que
significava superar o capitalismo e criar um regime
econômico baseado na propriedade social. Mas tratava-se
de objetivo distante. A curto prazo a ideia era fortalecer um
governo nacionalista capaz de realizar as reformas de
base.26
Além disso, a aliança era incerta e havia desconfianças de
lado a lado. Os comunistas criticaram as oscilações do
presidente em diferentes ocasiões, e ele, por sua vez, nunca
ofereceu ao partido cargos de primeira linha no governo. A
oposição de direita acreditava que auxiliares próximos ao
presidente, como Darcy Ribeiro (chefe da Casa Civil) e Raul
Ryff (secretário de Imprensa), eram quadros do partido,
mas, na verdade, tratava-se de ex-comunistas.
O “dispositivo” militar da esquerda e a “infiltração
comunista” nas Forças Armadas foram muito alardeados na
época, aumentando os temores e a tensão política.
Afirmava-se que o chefe do Gabinete Militar a partir de
outubro de 1963, general Argemiro Assis Brasil, seria
marxista. Mas, embora de fato houvesse alguns militares
comunistas, também nesse campo ocorreu largo exagero. A
maior parte dos apoiadores de Jango nas Forças Armadas,
em minoria dentro da corporação, era composta de
nacionalistas ou apenas de aliados pessoais do presidente.
No fim das contas, o único militar comunista em posição
importante era o comandante da 3a Zona Aérea, brigadeiro
Francisco Teixeira, o que não impediu a adesão em massa
da Força Aérea Brasileira ao golpe.27
A desconfiança de Goulart em relação aos comunistas e a
sua atitude diante do golpe mostram a fragilidade do
argumento de que ele conspirava com os “vermelhos”.
Analisar essa questão é importante, pois os temores
direitistas em 1964 foram insuflados devido à crença de que
Jango estava disposto a apoiar uma ação revolucionária, o
que a tornaria um desafio muito mais sério devido aos
recursos à disposição do presidente. No entanto, Goulart
evidenciou sua falta de disposição radical ao aceitar o golpe
sem qualquer resistência armada, com o argumento de que
não desejava ver derramado o sangue brasileiro.
Jango certamente temia os riscos políticos de uma guerra
civil. Um conflito desse porte poderia gerar uma
radicalização à esquerda que, no fundo, ele não desejava.
Se houvesse mesmo um acordo sólido entre Jango e os
comunistas, a ação mais lógica seria apostar na guerra civil
e armar os setores populares, uma sugestão que ele
recusou. As chances de vitória eram incertas, tanto mais
diante de uma provável intervenção dos Estados Unidos,
mas seria uma atitude coerente para alguém com planos
revolucionários, além de mais honroso do que abandonar o
país sem luta. Porém Jango não queria trilhar o caminho
revolucionário. Para efeito de argumentação, poderíamos
inverter a tese que associa Jango ao perigo comunista:
evitando a guerra civil, o presidente bloqueou a
possibilidade de radicalização à esquerda que, em caso de
(improvável) vitória, poderia ter levado a algum tipo de
revolução socialista.
Podemos aproveitar o mote para comentar afirmações
recentes de defensores do golpe de 1964 que acusam
Goulart de permitir a infiltração soviética no Brasil. Um dos
temas preferidos é a “descoberta” da existência de uma
rede de espionagem operada por agentes tchecos antes de
1964. Na verdade, nada há de espetacular na revelação,
pois as potências espionavam (e espionam) muito.
Entretanto, não há dúvida de que a rede de espionagem e
de propaganda norte-americana era mais ampla e mais bem
equipada, além de contar com militares e policiais treinados
nos Estados Unidos, embora alguns intelectuais públicos da
direita minimizem, e às vezes neguem, a atuação da CIA no
Brasil. De qualquer forma, o ponto não é discutir qual das
potências, União Soviética ou Estados Unidos, tinha mais
espiões, e sim refletir sobre as atitudes do governo Goulart
e a contribuição da espionagem soviética para o “perigo
comunista”.
Em primeiro lugar, é importante registrar que agências
estatais mantinham um sistema de vigilância sobre as
embaixadas dos países socialistas, evidência de que as
autoridades brasileiras estavam “de olho” nos comunistas
estrangeiros. Há um episódio, já posterior à deposição de
Jango, que vale a pena mencionar, para refletir sobre o real
alcance da espionagem e da ameaça comunista em seu
governo. Segundo registros de diplomatas norte-
americanos, pouco após o golpe, em maio de 1964, foi
preso no Rio de Janeiro um diplomata da Tchecoslováquia,
Zdeněk Kvita, que ocupava o posto de segundo-secretário
da embaixada do seu país. Ele foi detido por agentes da
polícia política carioca quando tentava obter documentos
secretos de um informante, que o entregou à polícia. O
agente prometera vender a Kvita informações secretas,
como a planta da Refinaria Duque de Caxias, os planos
brasileiros de monitoramento das embaixadas dos países
socialistas e passaportes em branco.
Os diplomatas norte-americanos que acompanharam o
caso ironizaram a situação de Kvita, a quem conheciam de
encontros em recepções diplomáticas. Ele não gostava de
morar no Brasil, país que considerava atrasado e primitivo.
Segundo o relatório norte-americano enviado a Washington,
ironicamente o espião foi descoberto e exposto pela
primitiva polícia brasileira, sem dúvida um vexame para
ele.28 Após a detenção e um rápido interrogatório, Kvita foi
convidado a abandonar o país, sendo declarado persona
non grata pelo governo brasileiro. Chefiado por Carlos
Lacerda, o governo estadual da Guanabara29 buscou
publicidade, aproveitando-se do fato de que a prisão fora
realizada por sua polícia. Porém o governo do general
Castelo Branco optou por não fazer grande alarde do caso,
que por isso mesmo é pouco conhecido até hoje. O espião
não foi julgado, o que reduziu bastante a repercussão
pública.
Desse episódio podem-se tirar algumas conclusões e
perguntas. Se a rede soviética no Brasil era operada pelos
tchecos, a prisão de Kvita mostra que a ameaça não era
grande coisa. Eles se ocupavam de obter informações sobre
a situação política e fazer propaganda contra os Estados
Unidos, mas não exerciam influência efetiva no governo de
Jango. Além do mais, chama a atenção a forma discreta
como o governo do general Castelo Branco agiu no caso.
Será que ele também estava implicado na conspiração
comunista, ou foi leniente com ela? Claro que estamos
fazendo galhofa com o anticomunismo obsessivo, mas a
brincadeira serve também para colocar em perspectiva as
atitudes de Goulart em relação aos países do bloco
soviético. A ação do governo Castelo Branco no caso
Zdeněk Kvita indica que os militares brasileiros não
consideravam a espionagem comunista um problema grave.
O caso de Kvita contrasta com o da missão chinesa.
Alguns dias após o golpe, autoridades policiais detiveram
nove agentes comerciais e jornalistas da China comunista
que estavam no Brasil a convite do governo Goulart. Depois
de presos, eles foram acusados de espionagem e
condenados por um tribunal, que não acolheu a defesa
conduzida pelo célebre advogado Sobral Pinto. Nesse caso
ocorreu maior repercussão pública, que o governo estimulou
ao promover o julgamento, embora as evidências contra os
chineses fossem mais frágeis em comparação com as que
pesavam contra o espião tcheco.30 Por que a diferença de
tratamento, sendo que o caso de Kvita era mais sério?
Porque o governo Castelo Branco não queria arriscar um
rompimento de relações com o bloco soviético (Kvita tinha
imunidade diplomática), por razões econômicas e
diplomáticas, enquanto a China comunista não era parceira
diplomática do Brasil.
O caso dos chineses prestava-se bem, portanto, às
necessidades da propaganda anticomunista, ou seja, para
mostrar que a ditadura estava vigilante contra a infiltração
do comunismo internacional. Pela mesma razão, Castelo
Branco rompeu relações diplomáticas com Cuba, o que
também servia para agradar ao governo dos Estados
Unidos. Fora isso, a ditadura manteve relações diplomáticas,
culturais e comerciais regulares com o bloco soviético,
tratando a espionagem comunista mais como questão
diplomática e recurso de propaganda do que como ameaça
séria. Significativamente, dez anos depois, no meio da
ditadura, o governo do general Geisel fez o que Goulart
provavelmente estava planejando quando o derrubaram:
estabeleceu relações diplomáticas com a China comunista.
Outra variante nos discursos anticomunistas recentes que
justificam o golpe de 1964 é a suposta ameaça guerrilheira
durante o governo Goulart, a quem se acusa de tê-la
acobertado. Na tentativa de fundamentar o argumento, cita-
se a prisão de um grupo conectado às Ligas Camponesas
que tentava montar uma base de treinamento guerrilheiro
no interior de Goiás, no fim de 1962.31 As autoridades
identificaram o local e apreenderam armamentos em
quantidade suficiente para equipar uma pequena unidade
(uma metralhadora, três submetralhadoras e quatro fuzis),
além de documentos que mostravam ligações com o
governo cubano. Ainda que a operação de repressão tenha
sido realizada durante o governo Goulart, o caso vem sendo
citado tanto para sustentar que o golpe militar era
necessário para derrotar as guerrilhas como para indicar
que Goulart estava comprometido com os comunistas,
tendo supostamente escondido evidências de que o governo
cubano estava envolvido com o grupo desbaratado.32 Mas,
na verdade, ele evitou criar celeuma pública com Cuba por
razões diplomáticas e por seu estilo conciliador.
Podemos comparar a decisão de Jango com a atitude
tomada no caso Kvita por Castelo Branco, que poderia ter
usado o episódio para endurecer as relações com os
soviéticos, mas evitou fazê-lo. Além disso, não faz sentido
imaginar que um grande proprietário de terras como
Goulart apoiasse guerrilheiros comunistas.
Depois do caso do fiasco guerrilheiro de Goiás não
ocorreram episódios importantes de mesmo perfil antes do
golpe de 1964. É certo que alguns pequenos grupos da
esquerda radical planejavam e sonhavam implantar
guerrilhas, que depois da Revolução Cubana tornaram-se
um mito e uma utopia. Mas nenhum deles tinha recursos ou
apoio social suficiente. Durante o governo Jango, os grupos
civis que mais se armaram foram os fazendeiros, que
temiam a reforma agrária e as organizações camponesas.
Eles criaram inúmeras ligas anticomunistas pelo interior do
Brasil, munidas de fuzis e submetralhadoras.
Em 1964, o tema da ameaça guerrilheira não era a
questão principal na perspectiva dos líderes do golpe. O seu
medo maior era a aliança de Jango com as esquerdas e a
“infiltração” nas Forças Armadas. Às vésperas de 31 de
março, alguns políticos e militares começaram a falar na
“guerra revolucionária”, um conceito desenvolvido por
teóricos militares para entender e responder às estratégias
comunistas.33 Dizia-se que a guerra já estava em curso no
Brasil, mas segundo a conceituação militar havia várias
etapas nesse processo, sendo que a última era a luta
armada, que de fato não tinha começado. Na verdade, a
ditadura militar facilitou o caminho para a implantação de
guerrilhas no Brasil, pois a repressão aos movimentos
sociais reivindicativos e às lideranças de esquerda que
apostavam na ampliação da democracia estimulou uma
resposta violenta. Diante do regime político instalado em
1964, que prendia e cassava os direitos políticos de seus
adversários, muitas lideranças de esquerda aceitaram a
tese de que a luta armada era o melhor caminho de ação.
Enfim, podemos até afirmar que, no contexto de 1964,
alguns segmentos da esquerda faziam uma aposta mais
radical, principalmente se observarmos seus discursos. Mas,
na prática, pouco realizaram, o que fica evidente na fraca
reação ao golpe, que, com algumas exceções, não
encontrou resistência relevante. Aliás, após os eventos,
alguns golpistas se mostraram surpresos diante da
fragilidade da esquerda, o que lançava dúvidas sobre a
existência de uma real ameaça comunista. Podemos
sintetizar esse ponto de vista citando a fala, no início de
1965, de um dos líderes civis do golpe, o deputado e
empresário da área de comunicações João Calmon: “Hoje,
ninguém mais duvida de que existia, antes da vitória, muito
mais corrupção do que comunismo. Nestes doze meses de
depuração a ameaça vermelha se tornou ainda mais
insignificante”.34
COMPREENDE-SE QUE MUITOS CONTEMPORÂNEOS do golpe tenham
achado verossímil o tema da ameaça comunista diante do
quadro internacional, da polarização interna, das falas
radicais de alguns líderes de esquerda, da forte barragem
discursiva da imprensa martelando a presença do perigo
comunista, da tentativa de Jango de implantar o estado de
sítio e da rebelião dos marinheiros. No entanto, olhando o
contexto por outro prisma, mais distanciado, o que de mais
significativo ocorreu em 1961-4 foi o crescimento de
movimentos sociais demandando reformas para reduzir as
desigualdades; eles queriam principalmente distribuição de
terras, melhores condições de trabalho e de moradia e a sua
aceitação como agentes políticos. Em outras palavras,
queriam mais democracia. Demandas perfeitamente
compatíveis com o sistema capitalista, tal como vemos em
outros países.
Havia de fato lideranças de esquerda à frente de tais
demandas. O que aconteceria se elas fossem atendidas?
Certamente emergiria uma sociedade mais democrática e
menos desigual. Se tivessem sido implantadas, as reformas
resultariam no fortalecimento dos grupos e dos líderes
políticos que as defendiam, tornando-os mais exigentes?
Ou, ao contrário, os movimentos sociais iriam perder força
frente à consolidação de uma sociedade capitalista com
melhor distribuição de renda, tal como se passou na Europa
Ocidental? A propósito, alguns líderes defendiam que a
melhor maneira de evitar o comunismo era fazendo
reformas sociais, inclusive a agrária, para esvaziar as
reivindicações da esquerda. Entretanto, a estratégia
reformista não foi capaz de unir as elites brasileiras, muito
presas a seus privilégios. Assim, parte do impulso
conservador que levou ao golpe não se deveu à avaliação
de que a esquerda era muito forte e precisava ser
reprimida, mas ao medo de perder privilégios e à reação
contra o protagonismo político das classes populares. O
discurso do perigo vermelho representava tanto o medo
(exagerado) do comunismo como uma reação conservadora
contra movimentos sociais em ascensão.
A revolução comunista não estava no horizonte, nem
mesmo para a maioria dos (poucos) comunistas efetivos,
que apostavam no programa de reformas de base em
aliança com políticos “burgueses” e lideranças
nacionalistas. Outra razão para ceticismo em relação à
gravidade do “perigo comunista” é o resultado de pesquisas
de opinião nos anos anteriores ao golpe de 1964.
Questionada sobre esses temas em enquetes realizadas por
agências de pesquisa nacionais e norte-americanas, a
população brasileira mostrava-se arredia às pautas
comunistas e ao modelo social soviético. Nas eleições de
1945, auge da sua influência, o PCB recebeu cerca de 9% dos
votos para seu candidato presidencial e 5% dos votos para a
Câmara dos Deputados, sendo o último número mais
adequado como indicador de sua popularidade. Algumas
pesquisas de opinião dos anos 1950 mostravam que a faixa
de apoio ao comunismo diminuíra para aproximadamente
2% da população.35
Ou seja, as chances de os comunistas ganharem o poder
por vias eleitorais eram mínimas, assim como não teriam
apoio social relevante caso pretendessem chegar lá por
outros meios. A rejeição ao comunismo era tão forte que os
movimentos anticomunistas tinham largas possibilidades de
construir apoio a movimentos golpistas e autoritários com
base na mobilização do medo aos “vermelhos”.
É importante esclarecer um ponto. Afirmar que na época
muitas pessoas acreditavam na ameaça vermelha é uma
coisa; trata-se de argumento de análise relevante para
compreender decisões tomadas por alguns líderes e a
recepção social que encontraram. Entretanto, algo bem
diferente é continuar pensando assim hoje, diante do que
sabemos sobre a história. Após 1964 e as intensas devassas
realizadas por forças policiais e militares, alguns líderes
golpistas declararam ter havido exagero nas avaliações
anteriores, ou seja, o perigo comunista havia sido
superestimado. Aliás, não foi sem motivo que logo
começaram a investir no tema da caça aos corruptos, pois
os alvos “comunistas” não sustentariam por muito tempo a
campanha de legitimação do novo regime.
Cabe um comentário provocativo, pensando no diálogo
com quem aceita a versão favorável ao golpe.
Consideremos por um momento, apenas para construir um
raciocínio hipotético, que havia uma séria ameaça
comunista e que a intervenção militar visava defender a
democracia contra o totalitarismo de esquerda. Se assim
fosse, qual a justificativa, então, para terem instalado uma
ditadura e se aboletarem no poder durante duas décadas?
Por que não entregaram o poder aos civis depois de
derrotada a “ameaça”? Não vale dizer que era para
continuar defendendo o Brasil do comunismo, porque os
poucos comunistas existentes estavam presos, eLivross ou
escondidos.
Alguém talvez poderia questionar: e a luta armada do fim
dos anos 1960? Não era necessária uma ditadura para
responder a esse desafio? Em primeiro lugar, as ações
armadas foram em grande medida uma resposta da
esquerda derrotada em 1964 à ditadura — quer dizer, a
derrubada de Goulart e a construção de uma ditadura de
direita estimularam a radicalização da esquerda. Em
segundo lugar, nem todos os guerrilheiros eram comunistas;
muitos eram na verdade nacionalistas radicais. Terceiro, e
mais importante: não eram necessárias uma ditadura e toda
aquela violência extralegal (tortura, assassinatos,
desaparecimentos) para derrotar a luta armada. Outros
países enfrentaram situações semelhantes sem descambar
para o autoritarismo.
Mesmo que o tema do “perigo vermelho” tenha sido
exagerado, de qualquer forma serviu para cimentar a
aliança que sustentou o golpe de 1964. Ele foi a linguagem
comum utilizada para aproximar os diferentes grupos e
interesses sociais que se uniram para derrubar o governo de
João Goulart.
* As eleições estaduais não eram realizadas simultaneamente, porque alguns
governadores tinham mandato de quatro anos e outros, de cinco anos.
2. Sobre as razões e motivações dos
golpistas
PARA OS DEFENSORES DE 1964, que negam o caráter golpista do
evento (“Não houve golpe em 31 de março”, diz o atual
presidente, Jair Bolsonaro, em suas redes sociais) e repetem
a mesma fala dos líderes da ditadura em seu tempo, a
derrubada de João Goulart teria sido uma “Revolução”. A
expressão (com maiúscula) foi oficializada pelo regime
político instalado após o golpe, sendo utilizada em carimbos
dos órgãos de informação e de repressão e adotada de
maneira corrente também pela imprensa e outros setores
sociais. Outra forma de escamotear o caráter golpista do
evento de 1964 é chamá-lo de movimento, tal como na já
mencionada fala recente do ministro do STF Dias Toffoli.
Os defensores de 1964 rejeitam o termo “golpe” por
implicar sentido negativo, enquanto “revolução” e
“movimento” têm conotações mais simpáticas, sugerindo a
imagem de que teria sido um período de mudanças
positivas. Paradoxalmente, “revolução” é um termo mais
típico das culturas de esquerda, por isso seu uso por um
movimento antiesquerdista soa estranho, ao ponto de
alguns líderes da ditadura afirmarem que 1964 teve perfil
mais próximo de uma contrarrevolução.1 Apesar das
polêmicas com a terminologia, a ditadura manteve
“revolução” como sua designação oficial, em grande parte
por razões de propaganda e de estratégia de legitimação, já
que a memória dominante registra em sentido positivo
“revoluções” anteriores, a exemplo dos episódios de 1922 e
1930.
Outro argumento para a rejeição ao termo “golpe” é o
fato de que ele teve apoio social, o que leva os defensores
de 1964 a insistir que não se tratou de uma simples
“quartelada”, ou seja, um levante militar sem sustentação
fora dos quartéis. Efetivamente, a derrubada de Goulart
teve apoio de parte da sociedade, embora seja improvável
que tenha sido majoritário. Por agora, basta dizer que os
dados disponíveis não são conclusivos e indicam que o
respaldo à queda de Jango tendeu a se concentrar nas
classes médias e superiores.
De qualquer modo, a existência de apoio de uma parte da
sociedade não altera o fato de que se tratou de um golpe de
Estado contra um presidente que chegou ao poder por
meios legítimos e respeitava as instituições. A derrubada de
Goulart foi um ato de subversão da ordem institucional, a
qual foi golpeada, portanto. Não fosse pela atitude golpista
de parte dos militares, que com seus tanques e canhões
ameaçaram as instituições e abriram caminho a um período
de intensa repressão política, o presidente constitucional
não teria abandonado o país em busca de exílio.
Diferentemente do que ocorre nas revoluções, que surgem
de fora e contra o Estado vigente, no caso dos golpes os
agentes principais pertencem ao próprio aparelho do
Estado.2 Esse foi precisamente o caso em 1964, já que as
corporações militares são um elemento essencial da
estrutura estatal. Ou seja, foi sem dúvida um golpe.
Se os defensores do golpe o apresentavam como a
salvação contra uma suposta ditadura
esquerdista/comunista entranhada no governo Goulart, o
tema do apoio social foi a pedra de toque de seu discurso
legitimador. O argumento de que o apoio da população (na
verdade, apenas parte dela) legitimava a ruptura
institucional — que marcava o início de uma nova era — foi
registrado no texto do Ato Institucional de 9 de abril de
1964: “Os chefes da revolução vitoriosa, graças à ação das
Forças Armadas e ao apoio inequívoco da nação,
representam o povo e em seu nome exercem o poder
constituinte, de que o povo é o único titular”.3 Mas, se era
assim e de fato se tratava de uma ação em defesa da
democracia, por que não se convocaram eleições para a
escolha popular de um novo governo após a derrubada de
Goulart? E por que instituíram eleições indiretas para
presidente e governadores, retirando do povo o seu direito
político mais básico?
E quanto às motivações das lideranças golpistas, tema
central deste capítulo? Se, como vimos, o perigo vermelho
não é suficiente para explicar a movimentação das peças do
tabuleiro político, então como podemos compreender o
golpe de 1964? Por que, afinal, o governo de João Goulart foi
interrompido bruscamente?
Como estratégia de análise, enfocaremos primeiro as
justificativas e as diferentes motivações apresentadas pelos
golpistas. Em seguida, nos voltaremos às reflexões dos
pesquisadores,4 para, ao final do capítulo, propor algumas
conclusões.
Uma síntese das justificativas e motivações dos golpistas
O argumento dominante dos atores que lideraram ou
apoiaram a derrubada de Goulart foi a necessidade de
derrotar a “ameaça” comunista. O anticomunismo operou
como cimento da frente golpista, reunindo grupos díspares
que não tinham propostas coesas sobre o que fazer após a
conquista do poder, apenas a crença na necessidade de
“limpar” o país — e o sistema político — de inimigos reais e
imaginários.
Os grupos que deram sustentação ao golpe de 1964
compunham frente heterogênea, representando diferenças
tanto sociais quanto ideológicas, o que tornava improvável
reunir coalizão tão ampla em torno de programa afirmativo.
Do ponto de vista social, o bloco golpista era composto por
empresários urbanos e do campo, profissionais liberais, a
elite do serviço público, do Judiciário e do Legislativo, as
corporações militares, a imprensa, o setor majoritário do
clero e as chamadas classes médias. Quanto ao aspecto
ideológico, liberais, conservadores, reacionários,
nacionalistas autoritários e até alguns reformistas
moderados receberam com alívio o golpe. O único consenso
era negativo: tirar do poder um governo acusado de
conduzir o país para o precipício. Esses grupos se juntaram
não em favor de um programa positivo, mas contra algo.5
Para termos um quadro mais completo das tensões e da
polarização política da época, e das motivações que
levaram os grupos sociais à ação, é preciso ressaltar o
ambiente de Guerra Fria. Havia a sensação de que os
soviéticos fomentavam revoluções por toda parte, de
maneira que o gesto do governo Goulart de reatar relações
diplomáticas com o “Império vermelho”, em novembro de
1961, causava apreensão. Além disso, pouco antes surgira
um Estado socialista na América Latina, pois a Revolução
Cubana, que inicialmente parecia apenas nacionalista,
derivou na direção do socialismo soviético. Assim, na visão
dos grupos de direita, o exemplo cubano estava muito
próximo, como a mostrar que a progressão do comunismo
na direção do Brasil estava adiantada. E, de fato, o regime
socialista cubano inspirou e deu ânimo a diferentes grupos
de esquerda brasileiros. Nessas condições, fica mais fácil
entender por que a grande onda anticomunista de 1964
emergiu. O golpe de 31 de março, não há dúvida, foi um dos
episódios mais importantes da Guerra Fria na América
Latina. Nesse sentido, há que ressaltar a influência dos
norte-americanos no desenrolar da crise.
Inquestionavelmente, os Estados Unidos tiveram papel de
destaque na campanha anticomunista, fazendo pressões
políticas e estimulando os grupos locais com suporte
material e ideológico, o que foi decisivo para que estes
aceitassem o risco de promover um golpe de Estado. Os
representantes norte-americanos no Brasil apoiaram a
derrubada de Goulart; prepararam-se, inclusive, para suprir
os golpistas com combustíveis e armas no caso de uma
guerra civil.6 Em suma, o desfecho em 1964 poderia ter sido
outro sem a presença dos Estados Unidos no cenário.
Entretanto, as fontes disponíveis até o momento tornam
exagerada a suposição de que o golpe foi inteiramente
comandado por Washington. Voltaremos ao tema no
capítulo em que serão discutidas as conexões internacionais
que ligavam o Brasil ao mundo nos anos 1960-70, e seu
impacto sobre as decisões dos atores políticos locais.
Além de acusações sobre a ligação do governo Goulart
com as esquerdas nacionais e internacionais, outros temas
mobilizaram os defensores do golpe. Em primeiro lugar, é
importante reiterar que a situação econômica era complexa
e agravou a crise política. A tensão em torno das disputas
direita × esquerda, por seu lado, complicou ainda mais a
situação econômica, pois os grandes capitalistas reduziram
os investimentos e aumentaram preços de mercadorias
diante das incertezas. E os desafios econômicos se
tornaram mais complicados devido a ações visando
intensificar os problemas para Goulart. Um exemplo foi a
dificuldade que ele encontrou para obter créditos no
exterior, numa tentativa de aliviar a falta de divisas
cambiais. Missões diplomáticas enviadas aos Estados
Unidos para negociar ajuda econômica trouxeram poucos
resultados, devido à desconfiança do governo
estadunidense em relação às posturas nacionalistas de
Jango.7 As ações visando limitar a remessa de lucros das
empresas estrangeiras no Brasil para suas matrizes (de
modo a evitar a saída de dólares) incomodavam os norte-
americanos, assim como a nacionalização de empresas
estrangeiras. A diplomacia independente de Goulart era
igualmente incômoda, pois significava na prática uma
aproximação com o bloco socialista e os países não
alinhados.
Além da falta de reservas em dólar para compensar a
saída de moeda forte para pagamento das importações e
remessa de lucros, outro grande problema era a inflação,
que vinha crescendo continuamente desde o final do
governo de Juscelino Kubitschek. O grande salto industrial
da segunda metade dos anos 1950 pressionou o câmbio,
devido ao aumento da importação de insumos industriais e
de tecnologia, mas também a inflação, graças à expansão
do consumo e da atividade econômica em geral.8 Jânio
Quadros e depois João Goulart herdaram esses problemas e
tiveram grande dificuldade para equacioná-los, inclusive
porque os conflitos políticos do momento tornaram mais
complicado encontrar soluções para a economia. As
dificuldades econômicas, porém, foram mais o pano de
fundo que o motivo central para a queda de Goulart. Afinal,
durante a ditadura, a partir da segunda metade dos anos
1970, e também no período pós-autoritário dos anos 1980,
o Brasil viveu momentos de inflação e de crise cambial mais
graves, e nem por isso os governos foram derrubados.
O mesmo raciocínio pode ser aplicado ao tema das
acusações sobre corrupção, que, de acordo com seus
opositores, seria prática corriqueira na gestão Goulart. Parte
da indisposição contra o governo devia-se às acusações de
que o presidente era tolerante com a corrupção,
característica que seria uma herança do varguismo. Os
críticos liberais acreditavam que o problema decorria da
ampliação do aparato estatal durante os anos Vargas, que
teria ampliado as oportunidades de desviar recursos
públicos. O foco de tais críticas eram as organizações
sindicais e previdenciárias, ambas conectadas ao Estado, e
algumas empresas estatais, sobretudo a Petrobras.9
Curiosamente, os caçadores de corruptos tinham olhos para
enxergar problemas apenas em algumas áreas, enquanto
situações suspeitas envolvendo empresas privadas não
chamavam sua atenção. Vale a pena referir que muitos
ataques contra a corrupção nos anos 1960 vinculavam tal
prática à “trama” comunista. Segundo discursos de líderes
conservadores, os vermelhos estimulavam a corrupção para
atraírem para o seu lado os políticos desonestos.
Fazendo um balanço dos principais argumentos e razões
que levaram à mobilização contra o governo Goulart, a
conclusão é que a motivação política predominava, ou seja,
o principal objetivo era retirar do poder um presidente
considerado inconveniente na visão dos grupos sociais
dominantes. No entanto, cálculos políticos e econômicos em
certos casos se mesclavam, já que a queda de Goulart
contribuiria para preservar empresas privadas nacionais e
internacionais da intervenção estatal. Mais precisamente, a
ascensão de um governo direitista livraria o capital privado
de desapropriações, de estatizações/nacionalizações, de
medidas para limitar a remessa de lucros ao exterior e de
políticas salariais generosas para os trabalhadores.
Há mais um ponto importante a destacar quanto à
rejeição política a Jango: ele foi criticado também por
supostamente possuir inclinações autoritárias. Aqui entrou
em jogo, novamente, o tema da herança varguista, que os
adversários manipulavam para atacá-lo. Como Vargas tinha
sido um ditador na sua primeira passagem pela presidência,
notadamente entre 1937 e 1945, o seu principal herdeiro
poderia seguir o mesmo caminho, alegavam os inimigos.10
Havia também uma teorização segundo a qual o
autoritarismo seria algo intrínseco aos gaúchos do interior,
acusados de caudilhismo. A julgar por alguns discursos da
oposição, era como se Goulart tivesse o “DNA” do líder
autoritário.
Considerando tais críticas, não podemos evitar um
comentário irônico. Os militares e seus aliados civis
responsáveis pela queda de Goulart levaram ao poder três
ditadores de origem gaúcha: os generais Artur da Costa e
Silva (1967-9), Emílio Garrastazu Médici (1969-74) e Ernesto
Geisel (1974-9)… Entretanto, a constatação irônica não
implica acusar a oposição de direita de agir
incoerentemente. Na verdade, as críticas ao “caudilhismo”
de Jango e sua suposta pretensão a governar de forma
autoritária não representavam recusa ao autoritarismo em
si. Para algumas lideranças, esse perigo era considerado
grave devido à aliança de Jango com as esquerdas, que
poderiam aproveitar-se da situação em benefício dos planos
revolucionários. Para setores majoritários da direita, o
autoritarismo devotado à defesa da propriedade e da ordem
social tradicional era outra coisa, bem mais tolerável. Por
isso, muitas lideranças que achavam insuportável o
“autoritarismo” de Jango ou das esquerdas consideraram a
ditadura de direita instaurada em 1964 um doce colírio…
As acusações sobre supostos planos autoritários do
presidente implicavam mais uma vez o tema do comunismo.
Se Goulart criasse uma ditadura nacionalista e esquerdista,
especulava-se, o risco de uma progressão ao socialismo
seria grande (“Esse caos, se acabar de se formar, vai ser
plasmado por outras mãos, as mãos dos comunistas”).11 A
oposição de direita não descartava a hipótese de que Jango
usava o apoio comunista de maneira conjuntural, pois
nenhum observador bem informado acreditava que o
presidente esposasse as ideias marxistas. A intenção de
Goulart poderia ser aproveitar-se dos comunistas para levar
a cabo algum projeto continuísta, descartando-os quando
não fossem mais necessários. Havia também o argumento
de que Goulart fomentava o comunismo no intuito de
justificar um golpe. Mas, mesmo nessa hipótese, as
manobras do presidente continuariam perigosas, pois
poderia acontecer o contrário, ou seja, Jango ser eliminado
pelos comunistas após um golpe conjunto.12
O que dizer das acusações sobre supostos planos
autoritários de Jango? Elas tinham fundamento? O exame
das ações efetivas de Goulart, inclusive em resposta ao
golpe, revela que tais temores deviam-se mais a
especulações que à realidade. Não se pode descartar que
Jango considerasse a hipótese de uma saída autoritária,
tendo em vista as tensões do momento e o risco de que
fosse derrubado, ou mesmo por simples ambição política.
Mas não há provas de que ele realmente estivesse
articulando um golpe continuísta. Ao contrário, na análise
de seus discursos nota-se a insistência de que as reformas
seriam implantadas por via de acordo e conciliação, de
maneira pacífica e sem ruptura institucional.13 Reiterando
algo que já foi dito, se Jango tivesse em vista um processo
de ruptura política, seria de esperar que adotasse ações
mais contundentes em resposta ao golpe e não aceitasse
passivamente sua derrubada.
As evidências disponíveis indicam que Goulart aceitou a
estratégia de pressionar o Congresso via manifestações de
rua para conseguir a reforma constitucional. Além do
comício de 13 de março no Rio de Janeiro, outros eventos de
igual perfil estavam programados para as semanas
seguintes, em diferentes regiões do país. Porém, isso não
significa que Goulart planejava intervenção golpista. Nos
seus discursos, ele convidava o Congresso a aceitar o que
considerava demandas populares, especialmente a reforma
constitucional, mas sem fazer ameaças autoritárias. Aliás,
se comparássemos os discursos de Goulart a respeito do
Parlamento com posicionamentos de Jair Bolsonaro, o
contraste seria chocante. Tal comparação revelaria um
Goulart democrático e respeitador das instituições
republicanas, em dissonância com o atual mandatário, que
se posiciona como candidato a ditador.
Voltando a 1964, alguns líderes da esquerda foram mais
agressivos com o Congresso, em especial o deputado Leonel
Brizola.14 Mas, significativamente, Goulart e Brizola tinham
muitas divergências; o estilo do presidente era mais
conciliador. Os aliados comunistas também elevaram a
tensão com falas controversas, destacando-se Luiz Carlos
Prestes, que declarou às vésperas do golpe que o governo
não deveria ficar preso à legalidade.15 Mas, de novo, não há
indícios de que Goulart apoiaria um golpe perpetrado pela
esquerda.
Na ótica dos adversários de direita, pressionar o
Congresso com mobilizações populares era ação grave. De
uma perspectiva menos passional, porém, podemos
considerar que essa estratégia fazia parte do jogo
democrático. Tanto como eram parte do jogo os ataques
políticos agudos das forças de oposição contra Goulart, que,
a propósito, tiveram liberdade para agir com desenvoltura
durante seu governo. No fim das contas, Goulart não foi
derrubado porque representava uma ameaça autoritária,
mas por ter uma aliança — ainda que frágil — com as
esquerdas, por permitir a expansão de movimentos sociais
reivindicativos e por evitar reprimi-los.
As interpretações acadêmicas sobre as origens de 1964
Após analisar aspectos políticos e econômicos da crise que
antecedeu 1964 atentos aos argumentos e interesses dos
setores que promoveram a ruptura institucional,
examinemos agora, mais de perto, as principais linhas
interpretativas sobre as origens e motivações do golpe, que
foram formuladas principalmente por pesquisadores
acadêmicos, mas também por jornalistas e líderes políticos.
Quanto às análises que privilegiam argumentos de
natureza econômica, já comentamos que a rejeição a
Goulart sem dúvida estava ligada à defesa de interesses
materiais das classes dominantes, especialmente a
manutenção do sistema de propriedade privada. Nesse
sentido, é correto — e óbvio — afirmar que o golpe de 1964
teve caráter burguês. Porém, conforme ressaltamos, isso
não significa dizer que os apoiadores do golpe tinham visão
idêntica sobre a política econômica a ser adotada após a
remoção de Goulart. O consenso entre eles era negativo.
Sem dúvida, alguns grupos tinham projetos econômicos
para o país e atuaram para que o novo governo os
implementasse. Dentre os grupos de pressão influentes na
fase inicial da ditadura destacam-se o Instituto de Pesquisas
e Estudos Sociais (Ipes) e a Escola Superior de Guerra (ESG).
O primeiro, ligado aos empresários, propôs reformas
econômicas liberais e o segundo, comandado pelos
militares, por razões de segurança defendeu políticas
autoritárias voltadas ao crescimento econômico. Mas tais
agendas não seriam capazes de unir e levar à ação o
heterogêneo bloco social que derrubou Goulart, e tampouco
conseguiriam conduzir todas as peças do xadrez político.
Além disso, algumas dessas demandas econômicas não
implicavam necessariamente uma ditadura, embora logo
tenha ficado claro que tal regime político poderia alavancar
projetos modernizadores autoritários.
Uma das hipóteses em destaque nas análises acadêmicas
de viés econômico é que a disputa principal em 1964 era
entre os defensores de uma política mais nacionalista e os
grupos favoráveis a perspectivas internacionalistas, ou seja,
mais abertos à participação do capital estrangeiro no Brasil.
Para alguns autores, Goulart foi removido porque havia um
projeto de aprofundamento ou de reestruturação da
inserção do Brasil no sistema capitalista global, projeto para
o qual ele seria um obstáculo.16 Uma tese parecida sustenta
que 1964 representou o embate entre o modelo varguista
de Estado e de desenvolvimento econômico, baseado no
corporativismo e na intervenção estatal, e uma visão liberal
que implicaria redução do papel econômico das instituições
públicas.
Pois bem, quando examinamos o perfil das forças sociais e
políticas que apoiaram o golpe, assim como as estratégias
econômicas aplicadas pela ditadura nos anos seguintes, fica
claro que essas teses são simplificadoras. Não se trata de
negar a existência de embates baseados em diferentes
projetos econômicos, mas de questionar a suposição de que
eles constituem a explicação principal para 1964. Afinal,
lideranças de origem varguista e defensores do papel
econômico ativo do Estado apoiaram 1964, e também
militares favoráveis a políticas nacionalistas. É verdade que
o primeiro governo militar, comandado por Castelo Branco,
seguiu pauta econômica mais liberal. Ele fez ajustes para
facilitar a participação do capital estrangeiro na economia
brasileira, cortou direitos trabalhistas e implantou uma
política recessiva para reduzir a inflação. No entanto,
também adotou ações que não se encaixavam no perfil
liberal, como a unificação do sistema público previdenciário
(INPS, criado em 1966) e a ampliação do sindicalismo
corporativista nas zonas rurais. De qualquer forma, o
governo de Castelo Branco foi de longe o mais liberal da
ditadura, ao passo que os seus sucessores se
reaproximariam da tradição estatista e nacionalista.
Entre os apoiadores do golpe, em especial nos meios
militares, nem todos gostaram da agenda liberal de Castelo
Branco, notadamente por dar origem a uma recessão
industrial e a uma estratégia diplomática totalmente
subordinada aos interesses dos Estados Unidos.17 A partir
do seu sucessor, Costa e Silva, a ditadura retomou as linhas
básicas do desenvolvimentismo varguista, o que significava
investir na atuação do Estado como agente econômico,
planejando ou financiando projetos de crescimento, ou
ainda atuando diretamente por meio de empresas e
fundações públicas. A estratégia diplomática dos sucessores
de Costa e Silva acompanhou o mesmo tom, ao buscar
pragmaticamente parceiros comerciais fora do círculo de
influência dos Estados Unidos. É importante esclarecer que
o “nacionalismo” em questão era perfeitamente compatível
com a presença do capital estrangeiro — assim como no
governo de Vargas. Tratou-se de um arranjo de divisão de
esferas, em que o capital estrangeiro encontrava condições
favoráveis para atuar e lucrar em certos setores, ao passo
que a ditadura desenvolvia projetos nacionais e buscava
mercados no exterior para estimular os negócios de
algumas empresas brasileiras.18 Em outras palavras, a
ditadura manteve e aprofundou o sistema capitalista, mas
com uma importante participação estatal, o que incomodou
e gerou críticas dos defensores do liberalismo econômico na
segunda metade dos anos 1970.
Quanto aos interesses do capital estrangeiro, os dados
disponíveis não confirmam que a derrubada de Goulart
decorreu de um plano voltado a nova etapa de
investimentos e de reestruturação econômica. Certamente,
as grandes empresas estrangeiras, junto a seus associados
brasileiros, apoiaram o golpe com ardor, inclusive com
financiamento generoso à campanha de desestabilização de
Goulart.19 Mas não necessariamente havia planos de
aprofundar de imediato os negócios no Brasil, até porque a
instabilidade política aumentava os riscos. Mais urgente era
a ânsia de remover do governo um grupo disposto a
enfrentar os interesses econômicos estrangeiros e simpático
a propostas de esquerda. Assim, logo após a derrubada de
Goulart não ocorreu uma avalanche de investimentos
privados; o capital externo a entrar no Brasil veio
principalmente de empréstimos do governo norte-
americano, interessado em fortalecer a gestão de Castelo
Branco, e de entidades multilaterais como o Banco Mundial
e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).20 O
investimento do capital privado internacional no Brasil
aumentou significativamente apenas nos anos do “milagre
econômico”, quando as oportunidades de lucro se
ampliaram.
A ditadura não representou uma ruptura no perfil da
participação do capital estrangeiro. Em linhas gerais, ela
seguiu o modelo econômico preexistente, ancorado em três
setores básicos, que por vezes se combinavam: capital
privado nacional, capital estatal e capital estrangeiro. É
certo que a presença do capital estrangeiro aumentou,
notadamente durante o “milagre”, mas cresceu também o
investimento econômico do setor público através das
empresas estatais.21
Vejamos agora outra tese acadêmica influente nas
análises sobre os fatores que motivaram o golpe de 1964,
segundo a qual ele teria sido basicamente uma reação
antipopulista ou resultado do colapso do populismo.22 Esse
argumento foi desenvolvido entre os anos 1960 e 1970, por
estudiosos que viam no populismo um efeito da urbanização
e da rápida industrialização de uma sociedade agrária. De
acordo com tal perspectiva, as lideranças populistas
atenderiam a algumas demandas dos trabalhadores, mas
basicamente os manipulavam visando fins políticos.
Apresentando-se como líderes preocupados com a sorte dos
trabalhadores e dos pobres, e dirigindo-se a eles
independentemente das instituições político-partidárias, tais
figuras estariam, no fundo, preocupadas em evitar que os
setores populares trilhassem caminhos políticos autônomos.
Nessa linha, Getúlio Vargas e João Goulart seriam líderes
populistas, e, portanto, o golpe de 1964 teria um caráter
antipopulista. De acordo com uma das propostas
interpretativas derivadas dessa linha, o que houve em 1964
foi uma ruptura do pacto populista, provocada pela
radicalização das demandas populares e a sensação de que
os trabalhadores não se comportariam mais de acordo com
o esperado.23
As teses sobre o populismo têm sido questionadas, entre
outras razões, por sugerirem que os trabalhadores seriam
meros joguetes nas mãos de líderes manipuladores, como
se não tivessem capacidade de perceber os próprios
interesses.24 Para nossos propósitos, o mais importante é
que não é convincente imaginar Goulart sendo derrubado
por ser um líder populista. É questionável classificá-lo como
populista, entre outras razões porque era militante de um
partido (o PTB) e não se colocava acima das instituições. De
qualquer modo, se o papel do populismo é conter o
radicalismo das massas populares, por que razão as classes
dominantes atacariam os líderes dedicados a esse trabalho?
Ademais, nos discursos golpistas de 1964 encontramos
raras menções a populismo, e mais frequentemente críticas
a ações demagógicas dos líderes populares. De novo: para
quem defendia a ordem social tradicional, não haveria
problema na demagogia se ela servisse à manutenção do
statu quo.
O problema de fato era outro, a sensação — e o medo —
de que o governo Goulart estava acolhendo reivindicações
sociais crescentes, de maneira potencialmente ameaçadora
para a manutenção da ordem social. Se a acusação a
Goulart como populista era rara, mais frequentes eram os
ataques a uma suposta “república sindicalista” em torno
dele, ou seja, Goulart era criticado por dialogar com os
sindicatos e preocupar-se com seus problemas. Em suma, a
questão não era ele ser populista, mas ser um líder popular
e atender a demandas populares. (A propósito, não deveria
ser considerado absurdo, ou intolerável, que um líder acolha
algumas demandas populares e ao mesmo tempo espere o
reconhecimento social por fazê-lo.)
Examinemos agora o argumento de que o objetivo
principal da oposição de direita a Jango seria instaurar um
regime autoritário. Nessa linha, toda a retórica construída
para fundamentar e legitimar o golpe contra o governo
Goulart visaria escamotear tal projeto. Porém, a hipótese de
que os grupos conservadores tinham no golpe sua opção
primordial possui alguns pontos fracos. Se assim fosse, qual
o sentido da grande mobilização em torno das eleições de
1962? Para que gastar tempo e dinheiro no jogo eleitoral se
o objetivo final era subverter as instituições? Por outro lado,
o comportamento de alguns segmentos conservadores em
relação a Goulart não foi todo o tempo de oposição
sistemática. Durante a primeira fase do governo, e inclusive
no início do período presidencialista, João Goulart contou
com a simpatia de parcelas importantes do campo direitista.
Antes da opção definitiva pelo golpe houve tentativas de
afastar o presidente dos aliados à esquerda, numa
demonstração de que a solução golpista não era o único
horizonte.25
Foi somente no início de 1964 que a coalizão direitista se
inclinou majoritariamente pela ruptura institucional. Até
então a direita radical encontrava-se em posição isolada em
relação à opinião liberal e conservadora. Deve ser
lembrado, além disso, que para figuras expressivas da elite
o cenário ideal era manter a normalidade institucional, não
o contrário. Apoiar um golpe gerava o risco de interromper o
processo eleitoral, mecanismo considerado por muitos
líderes como canal privilegiado de ascensão ao poder. Isso
para não falar das convicções ideológicas liberais de muitos
personagens, um elemento secundário porém não
desprezível.
Existe também o argumento de que os golpistas,
especialmente os militares, se moviam em busca de uma
utopia autoritária.26 Podemos questioná-lo lembrando que o
autoritarismo no Brasil não é uma utopia, mas um
fenômeno bem entranhado na realidade. Além disso, seria
necessária uma caracterização mais precisa, pois projetos
autoritários podem vir de diferentes quadrantes ideológicos.
Como, no presente caso, a essência da motivação
autoritária era golpear o campo progressista, no fundo
trata-se de antiesquerdismo visceral. É verdade que certos
atores golpistas, especialmente entre os militares e a
extrema direita, não se importavam com as instituições
liberal-democráticas e encaravam positivamente um regime
autoritário. Entretanto, eles não tinham o consenso da
maioria da frente de direita, que aceitou a intervenção
autoritária como meio para derrotar seus adversários e
retirá-los do poder, e não como objetivo principal, sendo
que para alguns o ideal seria apenas uma “limpeza” rápida
seguida do retorno à institucionalidade liberal. Porém, se o
plano inicial do bloco golpista não era necessariamente
implantar uma ditadura, logo ficou claro que ela poderia ser
útil a projetos econômicos modernizadores, o que tornou o
empresariado um dos setores mais empolgados com o
regime militar.
Outra hipótese interpretativa relevante é que o golpe de
1964 foi essencialmente um movimento antirreformista, ou
seja, uma ação política cujo objetivo central era impedir a
implantação das reformas de base encampadas pelo
governo Goulart. A limitação desse argumento é que o
posicionamento das elites políticas e sociais frente ao tema
das reformas não era consensual. Segmentos sociais
expressivos, efetivamente, reagiam de forma irada contra
qualquer proposta de mudança social, em particular os
grupos ligados à propriedade rural. No entanto, havia
setores direitistas favoráveis a certas reformas, inclusive a
agrária. Alguns, como visto, chegavam a considerá-las
estratégicas para isolar e esvaziar o discurso revolucionário,
pois, se o comunismo se alimentava da miséria e das
desigualdades sociais extremas, a melhor forma de
combatê-lo seria fazendo reformas sociais.
Tal estratégia era defendida por um dos agentes mais
influentes no contexto: o governo dos Estados Unidos. A
reforma social para diminuir as desigualdades constituía um
dos eixos da política norte-americana de luta contra o
comunismo na América Latina, ao lado do investimento na
preparação das forças repressivas (policiais e militares). O
tema das reformas sociais aparecia no programa da Aliança
para o Progresso, o carro-chefe da estratégia diplomática do
governo de John Kennedy para a América Latina. Esperava-
se que os países beneficiados pelos financiamentos do
programa realizassem a reforma agrária.27 Embora algumas
ações concretas tenham surgido daí, como a reforma
agrária feita no Chile durante o governo do democrata-
cristão Eduardo Frei, certamente havia nesse programa
objetivos retóricos e propagandísticos, ou seja, mostrar que
os Estados Unidos e o capitalismo tinham propostas para
reduzir a desigualdade social extrema vigente na região.
No Brasil, tais discursos foram replicados por agências
norte-americanas e por setores do empresariado, sempre
usando o tom de que as reformas sociais necessárias eram
aquelas compatíveis com a manutenção da propriedade
privada. Afinal, distribuir terras entre camponeses poderia
fortalecer o estatuto da propriedade privada, por via do
aumento no número de proprietários. O modelo em vista
seria o da reforma realizada no Japão ocupado pelos
Estados Unidos depois da Segunda Guerra, e não o de estilo
socialista e coletivista soviético. De maneira significativa, a
opinião pública nas grandes cidades brasileiras era
majoritariamente favorável à reforma agrária (cerca de
70%), como mostraram pesquisas de opinião realizadas às
vésperas do golpe de 1964.28 Nas zonas rurais e entre os
fazendeiros o quadro era diferente; os últimos, em especial,
não admitiam a ideia, e associavam qualquer reforma
agrária ao “comunismo”. Mas não tinham como impor seu
ponto de vista a todos os grupos de direita, inclusive porque
parte deles não desejava que a derrubada de Goulart fosse
vista como uma ação reacionária. Por isso, o tom dominante
nos discursos golpistas foi de oposição a reformas
“comunizantes” mas de aceitação de reformas compatíveis
com os valores “democráticos e cristãos”, ou seja, com o
sistema capitalista e a ordem social tradicional.
Assim, a derrubada de Jango não foi provocada por uma
oposição intransigente a reformas. Os setores moderados
da direita tiveram suas preocupações incrementadas
quando passaram a acreditar que o ativismo reformista era
conduzido pela esquerda revolucionária e que Goulart
poderia perder o controle da situação. Geraram medo ações
dos movimentos sociais, como as invasões de terras por
organizações de camponeses, que demandavam reforma
agrária “na lei, ou na marra”, ou a espiral de greves de
trabalhadores urbanos sob a liderança de sindicalistas de
esquerda. A estrutura sindical ligada ao Estado, criada nas
décadas de 1930 e 1940 para controlar os trabalhadores,
passou a servir aos grupos defensores de transformações
sociais. Tal quadro parecia desbordar o projeto de reformas
“dentro da ordem” e sugeria o risco de radicalização de
alguns setores populares, um processo que, do ponto de
vista da direita, fatalmente fortaleceria os planos
revolucionários.
Portanto, o golpe de 1964 foi menos antirreformista do
que antiesquerdista. Alguns setores da frente de direita
eram contra qualquer mudança social, especialmente no
âmbito agrário, no caso dos fazendeiros, que se armaram
para evitar o processo a bala, se fosse preciso. Porém, uma
parte dos apoiadores do golpe não se opunha a todas as
reformas. Daí se compreendem algumas ações do governo
Castelo Branco, que ensaiou implantar reformas sociais
compatíveis com o fortalecimento da propriedade privada,
como a distribuição de terras. Para tanto, ele conseguiu a
aprovação de mudanças constitucionais a fim de permitir a
desapropriação com pagamento em títulos públicos,
proposta polêmica que o Congresso se recusou a aprovar no
período de Goulart mas aceitou quando apresentada por um
governo autoritário de direita. Não obstante, a reforma
agrária não saiu do papel durante a ditadura, graças à forte
pressão contrária dos grandes proprietários rurais.29
O OBJETIVO PRINCIPAL DOS APOIADORES do golpe de 1964, então, não
era uma ditadura duradoura, mas combater os comunistas,
as demais organizações de esquerda e os movimentos
sociais. De início, o recurso à solução autoritária era um
meio para eliminar tais “ameaças”, e não um fim em si,
embora as ações dos novos governantes logo tenham
derivado para a institucionalização de uma ditadura, como
será explicado. Parcelas mais conservadoras e radicais da
frente direitista desejavam o autoritarismo em si, enquanto
alguns agentes recusavam qualquer alteração na ordem
social e econômica devido à insegurança causada pelo
protagonismo político de grupos populares. Havia ainda
desconfianças em relação a Goulart e discordâncias quanto
ao intervencionismo estatal na economia e à política
externa independente. Porém, a única opinião unânime e
capaz de obter consenso entre as elites sociais e os setores
liberais e conservadores era a recusa genérica à
“comunização”. A propósito, isso explica também por que o
anticomunismo voltou a ser usado com força recentemente,
ou seja, por sua capacidade de unificar diferentes
segmentos da direita. Nos anos 1960, as representações
anticomunistas tinham a vantagem de colocar o problema
em linguagem compreensível para uma sociedade havia
muito acostumada a ouvir discursos sobre o “perigo
vermelho”. Por outro lado, tal linguagem permitia conferir
mais gravidade ao quadro político, inscrevendo a situação
brasileira nos parâmetros da Guerra Fria.
Os líderes do golpe de 1964 não estavam apenas usando
o anticomunismo como fachada para justificar suas ações; o
seu temor era efetivo. Mas tal interpretação não implica
desconsiderar a existência de manipulações. As
representações anticomunistas mantiveram a tradição de
divulgar imagens deturpadas dos revolucionários,
apresentados como seres violentos e imorais, malignos. A
manipulação maior, sem dúvida, foi disseminar a versão de
que haveria um risco iminente de revolução liderada pelos
comunistas, quando na verdade os líderes direitistas bem
informados consideravam a hipótese de um golpe do
presidente (visando manter-se no poder) com apoio do
minoritário Partido Comunista, cujos desdobramentos
ninguém tinha condições de prever com exatidão.30
A derrubada de Goulart foi ação preventiva para evitar um
potencial processo de radicalização à esquerda, o qual,
eventualmente, poderia beneficiar os “vermelhos”.
Entretanto, para facilitar a mobilização foi apresentado um
quadro bem mais dramático à sociedade. Os líderes do
golpe tinham uma avaliação imprecisa da extensão da
“ameaça”, mas se esforçaram para convencer o público de
que os bárbaros estavam à porta. Era mais conveniente
fazer campanha contra os comunistas do que afirmar que o
governo João Goulart era ameaçador por outras razões,
menos “dramáticas”. Dizendo de outro modo, chamar as
pessoas às ruas contra um governo considerado corrupto,
demagogo, reformista, caudilhista não era tão eficaz como
mobilizá-las contra um governo acusado de “bolchevizar” o
país.
No contexto dos anos 1960, a questão das reformas,
especialmente a reforma agrária, desagradava aos mais
conservadores, sobretudo aos fazendeiros, mas não era um
problema para militares e industriais. O governo norte-
americano tampouco era contra certas reformas. Para esses
setores, uma reforma agrária poderia ser feita, contanto que
não fortalecesse os grupos de esquerda. Nesse sentido,
podemos dizer que o golpe de 1964 foi essencialmente
anticomunista, no plano discursivo, enquanto na prática foi
mais propriamente antiesquerdista.
Assim, consideramos mais convincente a linha de análise
que compreende o golpe de 1964 predominantemente
como fruto de uma reação ao incremento do ativismo de
esquerda e das demandas sociais.31 Nem tanto pelo
conteúdo das reformas de base, que não eram
propriamente revolucionárias e menos ainda de caráter
comunista, mas porque um processo de mudanças sociais
conduzido pelo governo Goulart poderia fortalecer as
esquerdas.
Entretanto, a análise de que a motivação principal dos
golpistas era reprimir e conter as esquerdas não pode servir
de justificativa para suas ações autoritárias. Nessa linha,
poderíamos chegar ao argumento de que o golpe foi culpa
da esquerda e dos movimentos sociais. Um argumento
torto, que violenta a lógica. Se formos buscar culpados, a
responsabilidade cabe aos grupos que perpetraram o golpe,
não aos seus alvos.
Além disso, mesmo se hipoteticamente aceitássemos o
ponto de vista de quem lutava contra as esquerdas, o golpe
não era a única opção. Os grupos antiesquerdistas poderiam
ter defendido seus interesses e ideais utilizando instituições
e instrumentos compatíveis com a democracia liberal.
Sobretudo, a defesa da ordem não implicava
necessariamente uma ditadura, tampouco lançar mão da
tortura e dos desaparecimentos como política de Estado.
3. O papel dos Estados Unidos e de outras
forças estrangeiras no golpe e na ditadura
O PAPEL DOS ESTADOS UNIDOS e de outras potências estrangeiras
frente ao golpe e à ditadura gerou intensos debates
políticos na ocasião e ainda hoje. Para algumas lideranças e
intelectuais de esquerda, o golpe de 1964 foi planejado e
comandado a partir de Washington. Desse ponto de vista, a
derrubada de Goulart decorreu de interesses estrangeiros e
teve caráter antinacional, o que implica questionar os
discursos legitimadores dos golpistas, que afirmavam a
intenção de defender a pátria. Por seu lado, propagandistas
de direita negam relevância à influência norte-americana e,
ao contrário, tentam convencer, às vezes com argumentos
farsescos, que a derrubada de Goulart foi necessária para
derrotar uma intervenção do comunismo internacional no
Brasil: “Em contraste com a ausência total de homens da CIA
operando no Brasil naquela ocasião, os agentes da KGB nas
altas esferas da República eram, documentadamente,
centenas, talvez milhares”.1
Para iniciar a análise desse tema polêmico, vale a pena
comentar sinteticamente a história das relações político-
culturais entre o Brasil e os Estados Unidos, as quais,
obviamente, foram mais abrangentes e profundas que os
contatos com o bloco soviético. As relações entre os dois
países se intensificaram após a proclamação da República
em 1889, já que o Império tinha reservas em relação ao
regime político sediado em Washington. Mas esses contatos
se estreitaram a partir dos anos 1930 e 1940, em meio aos
conflitos ideológicos e rivalidades na Europa que levaram à
Segunda Guerra Mundial e à hegemonia global norte-
americana. Pouco antes do começo da Segunda Guerra, os
Estados Unidos intensificaram as relações com o Brasil, a
partir de uma série de iniciativas diplomáticas, culturais e,
logo, militares.2
Foi um jogo baseado ao mesmo tempo em ameaças e
concessões. Naturalmente, estamos falando de relações
assimétricas, dada a potência econômica e militar dos
Estados Unidos. Um exemplo dessa assimetria foi a
construção de bases aéreas norte-americanas em cidades
do Norte e Nordeste brasileiros em 1940-1, antes mesmo da
entrada daquele país na Segunda Guerra, tendo em vista o
controle de rotas áreas e marítimas na área do Atlântico Sul.
Na sequência do bombardeio japonês a Pearl Harbor, em 7
de dezembro de 1941, a guerra se tornou realidade para os
norte-americanos, e sua preocupação passou a ser a defesa
dessas bases contra possível ataque ou ocupação pelas
forças do Eixo. Por isso pressionaram o governo Vargas a
permitir a entrada de seus militares em território nacional, o
que gerou uma situação delicada e alguma resistência.
Preparando-se para uma eventual negativa (que não
ocorreu), os Estados Unidos chegaram a planejar a
ocupação militar da região, para o que previram a
mobilização de até 60 mil soldados.3
Diante de tais pressões, os líderes brasileiros oscilaram
entre negociar uma situação de subordinação com
vantagens compensatórias para o Brasil ou sujeitar-se
inteiramente à vontade do aliado. No primeiro caso
podemos enquadrar Getúlio Vargas, que permitiu aos norte-
americanos a construção de bases aéreas no Nordeste e em
seguida o seu controle, recebendo em troca concessões
econômicas e tecnológicas para construir uma siderúrgica
de ponta (a Companhia Siderúrgica Nacional) e melhorar o
equipamento das Forças Armadas brasileiras. No segundo
caso, um dos exemplos típicos foi o governo de Eurico Dutra
(1946-51), que, principalmente em sua fase inicial, atendeu
às pressões estrangeiras e se rendeu a um arranjo
econômico mais favorável aos interesses dos Estados
Unidos.4
No contexto da Segunda Guerra, o Brasil realizou acordos
de variada natureza com os Estados Unidos, ampliando
relações políticas, econômicas e culturais, bem como a
circulação de pessoas entre os dois países. No plano
econômico, esse processo levou à instalação de inúmeras
empresas norte-americanas no Brasil, enquanto a maior
parte das exportações brasileiras era destinada àquele país.
As Forças Armadas brasileiras firmaram acordos para
treinamento e compra de armas dos Estados Unidos, que
por sua vez conseguiram acesso a minerais estratégicos
encontrados em solo brasileiro.
Se o intercâmbio militar foi iniciado nos anos 1940, no fim
dos anos 1950 começou também um programa de
treinamento de policiais brasileiros, que foram fazer cursos
no Panamá ou no próprio território norte-americano.5 Cerca
de oitocentos policiais fizeram esse percurso, e outras
dezenas de milhares fizeram formação com policiais norte-
americanos em território brasileiro. Tanto o treinamento dos
militares das Forças Armadas como o dos policiais
enfatizavam a repressão ao comunismo, que era o grande
objetivo dos Estados Unidos na Guerra Fria, ou seja, impedir
que a União Soviética e seus aliados ganhassem terreno na
América Latina, preocupação que se aguçou quando Cuba
passou ao bloco socialista. Os diplomatas dos Estados
Unidos realizaram intensa atividade no Brasil, com base na
embaixada e nos consulados instalados em várias cidades.
Os diplomatas regulares atuavam na coleta de informações
e no acompanhamento da situação política brasileira, para o
que contavam com centenas de fontes locais situadas em
diferentes instituições e camadas sociais.
No auge das relações Brasil-Estados Unidos, durante o
governo do general Castelo Branco (1964-7), a missão
oficial norte-americana no Brasil tinha cerca de mil
funcionários. Entre eles, obviamente, existiam espiões
profissionais, não apenas ligados à célebre Central
Intelligence Agency (CIA), mas também a aparatos mais
discretos. Nos anos 1970, um ex-funcionário da CIA, Philip
Agee,6 escreveu um livro de memórias sobre sua
experiência na América Latina em que relata alguns
episódios da espionagem norte-americana, inclusive os
nomes de alguns agentes e detalhes de operações no Brasil.
Um agente de destaque da CIA que atuou no Brasil nos anos
1960 foi Frank Carlucci, que chegou a diretor da agência nos
anos 1980.7
Considerando agora a atuação da União Soviética e de
outros países do bloco socialista no Brasil, não pode haver
dúvida de que eles tinham diminuta expressão se
comparados com os Estados Unidos. Não apenas porque as
elites brasileiras rejeitavam e temiam o regime soviético,
mas também porque este teve menos tempo para atuar e
menores recursos. Após o fim do Império czarista e a
Revolução de 1917, o Brasil ficou quase três décadas sem
reconhecer diplomaticamente a União Soviética. A troca de
diplomatas ocorreu apenas ao fim da Segunda Guerra,
momento em que os dois países estiveram do mesmo lado,
combatendo a Alemanha nazista. Mas esses laços duraram
pouco, pois as relações foram rompidas em outubro de
1947,8 no contexto da repressão anticomunista no Brasil
que levou à proscrição do PCB e à cassação do mandato de
seus parlamentares.
No início do governo Goulart, porém, os laços diplomáticos
foram reatados, e os soviéticos voltaram a manter
embaixada no Brasil. Com isso, a União Soviética ganhou
melhores condições para disputar com os Estados Unidos a
simpatia dos brasileiros, corrida em que estava em
desvantagem. Os soviéticos aproveitaram a conjuntura
favorável para investir no trabalho de relações públicas,
buscando melhorar sua imagem e reduzir os efeitos de
décadas de propaganda anticomunista. Entre 1961 e 1962
foram tomadas algumas iniciativas nessa direção, como o
envio do célebre cosmonauta Iuri Gagarin para uma turnê
publicitária, a organização de mostras de cultura e de
cinema e a realização da Exposição Soviética no Rio de
Janeiro, para exibir as conquistas técnicas e econômicas do
país. (A propósito, em maio de 1962, um grupo de extrema
direita colocou uma bomba no local da exposição, mas ela
foi desativada antes de explodir.)9
Como qualquer potência, a União Soviética atuou também
no campo da diplomacia cultural. Nessa área, as principais
iniciativas foram a implantação de programas para o
aprendizado da língua russa, sobretudo através dos
Institutos Culturais Brasil-URSS (ICBUS). Além disso, firmaram-
se convênios para o envio de estudantes brasileiros à União
Soviética, geralmente para a Universidade Amizade dos
Povos Patrice Lumumba. Vale ressaltar que outros países do
bloco socialista também aumentaram sua atuação no Brasil
no contexto do governo Goulart, notadamente Cuba e
Tchecoslováquia. No caso da última, sabemos que mantinha
uma rede de espiões e de coleta de informações no Brasil,
que em grande medida foi desmanchada após a prisão de
um dos seus quadros em 1964, numa ação da polícia
carioca. Recentemente, alguns pesquisadores tiveram
acesso aos arquivos da espionagem tcheca e encontraram
registros das atividades. Apesar do alarde que militantes da
direita anticomunista tentaram fazer com esse material, ele
não revela fatos de maior relevo. Os registros tchecos
mostram o que seria de esperar: a existência de uma rede
para coletar informações e produzir contrainformação, neste
caso basicamente propaganda contra os Estados Unidos, o
adversário na Guerra Fria.10
Em contraste, há menor número de registros documentais
sobre a atuação da espionagem e das ações encobertas
norte-americanas no Brasil. A principal razão é que as
agências responsáveis, como a CIA, ainda existem e não
iriam liberar documentos comprometedores. A maior parte
das informações disponíveis ao público foi produzida por
diplomatas e constitui material de caráter menos secreto,
uma vez que trata de ações legais, ao contrário da
espionagem. Porém, não pode haver dúvida de que os
serviços secretos norte-americanos tiveram atuação mais
importante do que seus concorrentes no Brasil e na América
Latina, região considerada estratégica e situada na sua área
de influência “natural”.
Assim, no contexto das disputas que levaram ao golpe de
1964, não é possível comparar o peso diplomático, político e
militar dos dois blocos em disputa na Guerra Fria, a despeito
do fato de que Goulart desejava afastar-se um pouco dos
Estados Unidos. É importante deixar claro, no entanto, que
ele não queria se livrar da hegemonia norte-americana para
cair na área de influência da União Soviética: o projeto era
alcançar uma posição equilibrada entre os dois lados.
Mesmo se fosse verdade que Jango desejasse entregar o
Brasil aos “vermelhos”, as ligações da elite militar e civil
brasileira com os Estados Unidos tornariam tal estratégia
inviável. Além do mais, no caso de um conflito grave ou de
uma conflagração militar opondo esquerda e direita, a única
potência com condições de intervir realmente eram os
Estados Unidos, cujas forças militares estavam bem
próximas. A União Soviética teria escassas possibilidades
(se é que teria interesse) de engajar tropas e recursos
militares no Brasil, devido à sua fraca presença no Atlântico
Sul.
A atuação do governo dos Estados Unidos no golpe e nos
primórdios da ditadura
Após colocar o tema da influência soviética nos devidos
termos, voltemos a atenção para a atuação dos Estados
Unidos no golpe de 1964 e, em seguida, para as relações
diplomáticas da ditadura com as potências. A ascensão de
Goulart à presidência em setembro de 1961 trouxe
preocupação a Washington, que não apreciava o
nacionalismo do novo presidente e tampouco suas conexões
com a esquerda. Por isso as relações foram sempre frias e
desconfiadas. O governo dos Estados Unidos não achava
que Jango fosse comunista, mas temia que seu
nacionalismo o levasse a uma aproximação inconveniente
com o bloco socialista, o que, entre outras consequências,
atrapalharia os planos de obter apoio na América Latina
para sufocar o governo de Fidel Castro em Cuba. Por isso
Jango não contou com a boa vontade dos Estados Unidos.
Em 1962 fez uma visita ao país para tentar ganhar
simpatia,11 mas sua movimentação não surtiu efeito, e os
americanos intensificaram suas atividades, buscando laços
com governos estaduais, políticos, lideranças sociais e
empresariais ligados à oposição.
Os norte-americanos tiveram grande presença no cenário
público brasileiro nos anos anteriores ao golpe, financiando
secretamente candidatos anticomunistas, coordenando
cooperação técnica (inclusive no setor policial) e cultural em
várias áreas, custeando projetos sociais e habitacionais (por
exemplo, as vilas Kennedy e Aliança, no estado da
Guanabara) e treinando sindicalistas brasileiros para que
não se afastassem dos valores do “mundo livre”.12 O
embaixador dos Estados Unidos na ocasião, Lincoln Gordon,
ocupou lugar de destaque na criação de laços com
lideranças antiesquerdistas. Tais figuras fizeram visitas
frequentes à embaixada e aos consulados, oferecendo
informações importantes e apresentando demandas. Líderes
militares e policiais que haviam feito cursos nos Estados
Unidos prestavam-se ao mesmo papel, enquanto a grande
imprensa quase unanimemente prezava as boas relações
com o país, sendo que alguns veículos tinham interesses
comerciais comuns com empresas norte-americanas. Os
arquivos diplomáticos dos Estados Unidos estão cheios de
registros de tais conversas entre seus funcionários e
lideranças brasileiras, em especial militares, policiais,
políticos, jornalistas e empresários.13
Assim, é inquestionável a presença maciça dos Estados
Unidos no cenário brasileiro pré-golpe, por meio tanto de
ações de propaganda como de cooptação de (às vezes
associação com) lideranças locais. Há um ponto polêmico
nas análises sobre a influência estadunidense: alguns
autores enfatizam a subordinação dos brasileiros, ou seja,
os agentes norte-americanos seriam o polo dominante e
seus associados nativos uma espécie de massa passiva. No
entanto, as relações com os Estados Unidos foram mais
complexas do que sugere essa imagem.
No caso dos acordos policiais assinados no fim dos anos
1950, as lideranças brasileiras queriam tecnologia e
equipamentos, e para isso visitaram os Estados Unidos em
busca de apoio — o que, no entanto, só seria concedido se
fosse aceita em contrapartida a presença de técnicos norte-
americanos aqui, que atuariam como assessores policiais. A
única explicação lógica para essa exigência era a intenção
de influenciar as instituições policiais brasileiras e facilitar o
trabalho de coleta de informações. Os governantes
brasileiros finalmente aceitaram a vinda dos assessores,
mas conseguiram os equipamentos necessários à
modernização das instituições policiais.14
Além de os termos da presença norte-americana serem
negociados com lideranças brasileiras, em outras situações
o governo e as instituições estadunidenses foram
convidados a interferir, em benefício dos agentes locais. Na
área da educação, por exemplo, alguns líderes pediram
bolsas para brasileiros e cessão de especialistas norte-
americanos para atuar em escolas e universidades
nacionais. E, no campo político, certas lideranças pediram
ajuda dos Estados Unidos para a remoção de João Goulart
do poder, objetivo comum das direitas brasileiras e de
Washington.
Em 1964, portanto, ocorreu um casamento de interesses
locais e internacionais para a promoção do golpe. Há
registros documentais de pedidos de líderes civis e militares
brasileiros por ajuda dos Estados Unidos caso a derrubada
de Goulart gerasse guerra civil. Mais especificamente, foi
solicitado o envio de combustível para o Brasil, pois se
acreditava que a esquerda dominava os sindicatos de
petroleiros e com isso poderia fechar o acesso dos golpistas
aos combustíveis necessários à movimentação de tropas.15
Com essa análise, a intenção é mostrar que os golpistas
brasileiros agiam por interesses próprios, na altura
coincidentes com os de Washington. As evidências
disponíveis não oferecem detalhes sobre o grau de
participação do governo estadunidense na preparação do
golpe de 1964, de modo que não é possível afirmar
categoricamente que ele foi planejado e conduzido a partir
do exterior. No entanto, os arquivos da CIA não foram
escarafunchados tal como os da agência de espionagem
tcheca, de maneira que nesse terreno só podemos fazer
afirmações provisórias. Seja como for, os governos norte-
americanos tiveram grande responsabilidade pelos eventos,
pois treinaram e armaram militares e policiais para
combater a esquerda, e ajudaram a propagandear os
temores anticomunistas no Brasil. Além disso, avisaram aos
militares brasileiros que não colocariam obstáculo à
derrubada de Goulart caso o presidente não se afastasse
dos comunistas, o que na prática representou um incentivo
ao golpe.16
A decidida disposição do governo dos Estados Unidos em
ajudar e estimular os golpistas ficou clara no final de 1963,
quando foi planejada uma operação militar para trazer
suprimentos necessários em caso de guerra civil,
especialmente, como vimos, combustíveis e munições. O
“plano de contingenciamento” para intervir na situação
brasileira foi traçado entre novembro e dezembro de 1963,
quando a tensão política já indicava uma possível ruptura
institucional.17 O governo dos Estados Unidos não desejava
ser surpreendido pelos acontecimentos e queria ter um
plano de ação para ajudar seus aliados brasileiros. No
entanto, a ordem para o envio da força naval (Operação
Brother Sam) só saiu algumas horas após a confirmação de
que o golpe havia começado em Minas Gerais, no dia 31 de
março.18 Isso indica que o governo dos Estados Unidos
aguardou pela definição dos acontecimentos, em vez de se
antecipar e despachar a esquadra alguns dias antes, o que
seria vantajoso, pois os navios demorariam de dez a treze
dias para chegar à costa brasileira. Por outro lado, a ordem
rápida logo em seguida ao início do golpe mostra o forte
empenho em ajudar os golpistas. A notícia de que os
Estados Unidos haviam decidido enviar navios de guerra ao
Brasil circulou imediatamente e contribuiu para que alguns
líderes militares indecisos apoiassem o lado golpista. Da
mesma forma, o fato pesou na decisão de João Goulart de
evitar a resistência.
A Operação Brother Sam foi desmobilizada antes de
chegar ao Brasil, pois a rápida vitória dos golpistas a tornou
desnecessária. Porém sua simples existência teve grande
peso nos eventos, aumentando o cacife dos grupos que
lideraram o golpe: sua vitória não seria tão fácil sem a
sombra de uma provável intervenção militar norte-
americana no Brasil. Verdade que a força naval não possuía
tropas de desembarque, apenas destróieres e um porta-
aviões, além de navios cargueiros para o transporte de
combustíveis e armas de pequeno calibre e munições (110
toneladas) para abastecer os militares aliados.19 No
entanto, em caso de resistência ao golpe e de conflito
militar efetivo, o mais provável é que os militares norte-
americanos interferissem, e mais adiante enviassem
também tropas de terra, caso necessário (como fizeram
pouco tempo depois no Vietnã).
Washington recebeu com tal entusiasmo a derrubada de
Goulart que cometeu uma gafe diplomática ao reconhecer o
novo governo imediatamente,20 quando o normal seria
esperar pelo menos um dia após a queda do anterior. O
governo dos Estados Unidos foi parceiro não apenas do
golpe de 1964 como também da ditadura, especialmente
em seus anos iniciais, quando o apoio norte-americano foi
essencial para dar estabilidade ao novo regime. No entanto,
vale a pena registrar que as lideranças acadêmicas e
religiosas estadunidenses agiram de maneira diferente, bem
como alguns líderes políticos e até mesmo diplomatas, que
ajudaram a denunciar os crimes cometidos pela repressão
política no Brasil e criaram ações de solidariedade em favor
de pessoas perseguidas por razões ideológicas.21
Quanto às relações entre a ditadura e o governo dos
Estados Unidos, pode-se dizer que no primeiro momento
houve verdadeira lua de mel, pois o general Castelo Branco
parecia-lhes o modelo ideal para o novo ditador latino-
americano. Em primeiro lugar, era muito pró-americano e
anticomunista, disposto a seguir fielmente a liderança
estadunidense nos foros internacionais. Segundo, Castelo
Branco estava atento às demandas para abrir a economia
brasileira e resolver os conflitos que haviam afastado
investimentos do capital externo no período anterior; para
tanto, seu governo suspendeu as restrições à remessa de
lucros das empresas estrangeiras, instituídas por Goulart, e
retirou os obstáculos à atuação das empresas mineradoras
no Brasil. Terceiro, ele criou uma ditadura mas queria evitar
que fosse sanguinária, dispondo-se a preservar as
aparências de uma república liberal, o que significou manter
em funcionamento o Congresso e os partidos políticos,
embora expurgados. Além disso, Castelo Branco mostrou-se
simpático a algumas reformas, de acordo com a retórica da
Aliança para o Progresso.22
O ideal na visão do governo norte-americano, naquela
altura ainda nas mãos dos democratas que haviam chegado
ao poder com John Kennedy, era que os militares latino-
americanos assumissem o comando político para expurgar a
esquerda mas também empreendessem algumas reformas
sociais. Não deveriam constituir governos conservadores ou
reacionários e, idealmente, o melhor seria alguma forma de
combinação entre ditadura e instituições liberais. Esse
arranjo foi feito para manter as aparências e não
constranger — afinal, os Estados Unidos lutavam
supostamente contra terríveis ditaduras comunistas, não
ficava bem apoiar ditaduras de direita —, mas também pelo
temor de que governos muito repressivos acabassem por
estimular revoluções violentas de esquerda.
Os governos seguintes da ditadura não seriam tão
solícitos em relação à diplomacia norte-americana, como
logo veremos, mas na gestão Castelo Branco tudo funcionou
às maravilhas. Passado o impacto inicial das operações de
repressão desencadeadas pelo golpe, Castelo Branco definiu
a política externa do novo regime. Ponto básico da nova
orientação foi o abandono da Política Externa Independente
dos governos anteriores e a busca de alinhamento fiel aos
Estados Unidos, considerados os líderes do mundo livre e
cristão. Outro elemento-chave da nova política externa,
umbilicalmente ligado ao anterior: a luta contra o
comunismo, encarado como ameaça ao mesmo tempo
interna e externa. Nesse sentido é que deve ser
compreendido o rompimento diplomático com Cuba, em
maio de 1964, sob o argumento de que o governo de Castro
vinha interferindo nos assuntos internos do Brasil e de
outros países latino-americanos, ao fomentar a ação de
grupos armados. Na mesma linha, em 1965 o governo
brasileiro enviou tropas para contribuir com a intervenção
norte-americana na República Dominicana, com a
justificativa de que se tratava de livrar as Américas da
ameaça comunista.23
Relações intensas com os Estados Unidos e frias com a
União Soviética: eis a síntese da política externa brasileira
após o golpe de 1964. No entanto, a orientação diplomática
frente aos países socialistas combinou a convicção
anticomunista com alguma dose de pragmatismo, em um
arranjo intrincado e por vezes tenso. Atitudes baseadas
apenas no anticomunismo marcaram as relações com Cuba
e a China (até o governo Geisel), mas, no que toca à Europa
Oriental e à União Soviética, os compromissos ideológicos
dos militares e seus aliados foram atenuados por interesses
comerciais e políticos. O governo Castelo Branco queria
conter a influência dos países e das ideias socialistas no
Brasil, mas não desejava romper relações diplomáticas com
o Leste Europeu. Isso gerou uma situação curiosa, e
desagradável para os setores mais intransigentes da direita:
as atividades culturais dos soviéticos eram monitoradas,
mas não inteiramente proibidas. Mostras de cultura
(cinema, literatura etc.) dos países socialistas continuaram
a ocorrer esporadicamente durante a ditadura, assim como
permaneceram funcionando algumas entidades bilaterais
dedicadas à divulgação das línguas daqueles países.
Embora em menor número que no período anterior ao
golpe, estudantes brasileiros continuaram seguindo para
países do bloco socialista.
Esse pragmatismo deveu-se a interesses comerciais e
motivações político-diplomáticas. Em 1965, o Brasil
exportava cerca de 90 milhões de dólares para a Europa
Oriental, com um superávit de aproximadamente 20% desse
valor.24 Os países socialistas estavam longe de ser os
maiores parceiros comerciais do Brasil, mas não era
montante a ser desprezado. Por isso a decisão de Castelo
Branco de enviar o ministro do Planejamento, Roberto
Campos, a Moscou, em setembro de 1965, de modo a
demonstrar que se desejava manter laços econômicos
normais com a área de influência soviética. Tão ou mais
importante que os mercados da Europa Oriental era a
influência da União Soviética em certas regiões do mundo,
notadamente entre os países “não alinhados”. Manter
relações corretas com os soviéticos era estratégico em vista
da inserção internacional do Brasil, e o contrário, ou seja, o
rompimento com a União Soviética, poderia trazer
dificuldades diplomáticas e comerciais com alguns países do
Terceiro Mundo.
Por outro lado, em certos momentos o governo Castelo
Branco ficou irritado com atitudes da União Soviética em
relação aos comunistas brasileiros e protestou usando os
canais diplomáticos. Em meados de 1966, por exemplo, o
Itamaraty enviou nota de protesto à União Soviética por ter
permitido a participação de representantes do clandestino
PCB em um evento oficial em Moscou, no qual eles fizeram
críticas agudas à ditadura. O Itamaraty considerou tal
atitude inaceitável e esperava que os soviéticos
reconhecessem o erro e mudassem de postura. Assim, o
governo brasileiro pressionava Moscou a não dar apoio aos
comunistas brasileiros, mas sem intenção de criar atritos
sérios. A estratégia era tentar convencer a União Soviética
de que não valia a pena fomentar ações da esquerda no
Brasil, pois interesses comerciais comuns poderiam ser
prejudicados.25
Isso é interessante para mostrar que o pragmatismo era
parte da política externa do regime militar desde a gestão
Castelo Branco, e não foi exatamente uma inovação
adotada por gestões posteriores. É verdade que os governos
Costa e Silva, Médici e Geisel adotaram postura diplomática
diferente da que vigorou no período Castelo Branco, por
demais preso aos interesses norte-americanos. A fidelidade
de Castelo Branco aos Estados Unidos foi criticada tanto à
esquerda quanto à direita, e nos governos seguintes
ocorreram um paulatino distanciamento e uma busca de
maior autonomia em relação ao aliado do Norte. Mas, no
que tange aos países socialistas, a orientação pragmática já
fazia parte da estratégia do primeiro governo militar,
mesmo que tenha sido mais enfatizada por seus sucessores.
Evidentemente, as relações diplomáticas normais com o
bloco socialista no plano internacional não tinham
correspondência na política interna. A repressão à esquerda
brasileira foi mantida, uma vez que os militares
continuavam empenhados em “proteger” o Brasil da
ameaça revolucionária. A questão é que o setor pragmático
da elite militar achava possível compatibilizar as duas
políticas: manter boas relações com governos de esquerda,
mas tratar os socialistas nacionais como inimigos.
Porém, não havia consenso quanto a essa estratégia, pois
setores da direita radical eram contrários à manutenção de
relações diplomáticas normais com a União Soviética,
temendo que elas facilitassem a infiltração e o proselitismo
comunistas. Aos seus olhos, o fato de a diplomacia da
ditadura preferir não romper os acordos culturais com
Moscou, para não criar atritos, gerava problemas de
segurança, pois estudantes brasileiros continuavam a ser
enviados para instituições soviéticas. Segundo estimativas
do Itamaraty, havia cerca de duzentos brasileiros estudando
em países socialistas em 1966, cerca de oitenta deles na
União Soviética.26 Eles eram vigiados pelos diplomatas e
pelos órgãos de informação, que no entanto não
conseguiram convencer os governos da ditadura a proibir o
intercâmbio. Para compensar sua frustração, e com o
argumento de que se tratava de defender a segurança
nacional, os órgãos de informação criaram estratégias para
impedir que os jovens retornados ao Brasil obtivessem o
reconhecimento de seus diplomas, dificultando assim a sua
entrada no mercado de trabalho.27
Mudanças na estratégia diplomática a partir do governo
Costa e Silva
Após a ascensão de Costa e Silva, a diplomacia brasileira
buscou diversificar a pauta de relações internacionais e
diminuir a dependência dos Estados Unidos, apostando mais
em relações multilaterais. A nova estratégia refletia um
ajuste na visão dos líderes da ditadura, na esteira das
muitas críticas devido ao fato de o governo anterior ter se
sujeitado excessivamente aos norte-americanos. Corriam
piadas no Brasil sobre o servilismo do governo brasileiro,
que circulavam inclusive entre o corpo diplomático
estadunidense. Em uma delas, perguntava-se por que o
ministro Roberto Campos não renunciava, sendo tão
impopular, e a resposta era: “Ele pediu, mas o presidente
Lyndon Johnson não aceitou…”.28 Para além de ironias, o
notável aumento da presença norte-americana no país
gerou críticas e conflitos, em especial como reação aos
acordos na área de educação.
As ações educacionais estadunidenses começaram nos
anos 1950 e às vezes foram solicitadas por lideranças
locais. Porém, o auge da interferência dos Estados Unidos
no sistema educacional brasileiro se deu, sem surpresa, no
governo Castelo Branco, com a assinatura dos acordos MEC-
Usaid (Agência dos Estados Unidos para o
Desenvolvimento), em 1965. Os acordos constituíam um
programa abrangente e ambicioso para modernizar o
sistema de ensino brasileiro, incluindo as universidades.
Eles previam a tradução e publicação de livros, a
reestruturação de programas de ensino, o planejamento da
reforma da educação superior e também auxílio para a
reformulação dos níveis básicos de educação. Os resultados
da iniciativa seriam marcantes pelos desdobramentos
efetivos na educação brasileira e, talvez ainda mais, pela
celeuma pública e os protestos nacionalistas que
inspiraram. Como era de esperar, os estudantes
universitários foram o grupo mais mobilizado contra esses
acordos. Afinal, suas lideranças já vinham protestando
contra a ditadura desde o seu início, e a interferência dos
Estados Unidos no ensino superior lhes ofereceu uma
poderosa arma de mobilização política. No ano de 1967,
momento inicial da gestão Costa e Silva, protestos
estudantis contra os acordos MEC-Usaid explodiram em todo
o país.29
A tônica nacionalista das manifestações repercutiu,
porém, muito além dos meios estudantis e gerou
constrangimento para os militares, que, institucionalmente
e por formação, deviam cuidar da integridade nacional. Mas
era complicado para eles entrar em choque com os Estados
Unidos, o grande fiador internacional do governo brasileiro.
A saída de Costa e Silva foi permitir que os acordos
definhassem e aos poucos fossem deixados de lado,
principalmente o mais polêmico deles, que previa a
reestruturação do sistema universitário a partir das
sugestões de consultores internacionais. A parceria
educacional e científica com os Estados Unidos seguiu ainda
por alguns anos e teve efeitos relevantes em algumas
áreas, principalmente na pesquisa e na pós-graduação, mas
a cooperação passou a ser mais discreta, para não provocar
protestos públicos.30
Destacar a (má) repercussão pública dos acordos MEC-
Usaid é necessário para se entender a mudança de
estratégia diplomática e na relação com os Estados Unidos
a partir do governo Costa e Silva. O nacionalismo voltou à
ordem do dia entre os militares, mesmo que apenas
retoricamente, para não permitir que a oposição de
esquerda assumisse o controle dessa bandeira. Mas a
mudança de estratégia devia-se também às necessidades
de uma economia que eles pretendiam dinamizar e fazer
crescer em ritmo mais rápido. Para tanto, era interessante
tentar abrir novas oportunidades comerciais no Terceiro
Mundo, notadamente na Ásia e na África. Para viabilizar
parcerias econômicas mais amplas, tornava-se necessário
deixar em segundo plano o compromisso com os valores
anticomunistas e as prioridades estratégicas dos Estados
Unidos, já que muitos países das regiões cobiçadas
pertenciam à área de influência do bloco socialista.
É importante notar que o esfriamento das relações entre
Brasil e Estados Unidos foi de mão dupla, com o governo
norte-americano perdendo parte do entusiasmo inicial pelo
regime político instaurado em 1964. Uma das razões foi o
crescimento do sentimento antiamericano, que levou a
ataques às instalações diplomáticas e à queima de
bandeiras dos Estados Unidos em protestos públicos, assim
como ao assassinato de um militar estadunidense a serviço
no Brasil (o capitão Charles Chandler). Em outras palavras,
manter uma forte presença no Brasil começou a ficar
arriscado a partir de 1967-8.
Outro problema na visão de Washington era o
nacionalismo crescente entre os militares e a guinada
autoritária do Ato Institucional n. 5, de 13 de dezembro de
1968, que levou ao fechamento do Congresso e ao
incremento da repressão. O temor do governo dos Estados
Unidos era que a ditadura se tornasse impopular demais e
sanguinária, aumentando as chances de sucesso dos grupos
de esquerda que apostavam na luta armada. Por outro lado,
receava-se também que os militares dessem uma guinada
antiamericana para agradar uma parte da opinião pública.
Em suma, os riscos implicados no apoio total à ditadura
brasileira estavam aumentando, de modo que os Estados
Unidos adotaram uma atitude mais fria e diminuíram suas
ações no Brasil, reduzindo projetos e a presença de
pessoal.31 A redução do número de funcionários norte-
americanos começou em 1968 e continuou pelos anos
seguintes, sendo que a Usaid decidiu fechar seus escritórios
no Brasil a partir de 1973.
No governo Médici, que sucedeu Costa Silva, a política
externa brasileira foi pautada pelas necessidades do plano
de aceleração do crescimento econômico, o que levou à
manutenção da aposta da gestão anterior de buscar novas
parcerias para o país. Além disso, adotaram-se algumas
medidas simbólicas de caráter nacionalista, como a
declaração de soberania brasileira sobre o espaço de
duzentas milhas náuticas na área litorânea, o que
contrariava interesses norte-americanos, especialmente de
sua indústria pesqueira. Mas esse gesto não significava
intenção real de criar atritos com a potência do Norte, de
modo que negociações discretas foram travadas para
compensar as eventuais perdas estadunidenses. Ademais, o
general Médici fez uma visita aos Estados Unidos, a primeira
de um presidente da ditadura em exercício, e os dois
governos atuaram em cooperação para apoiar o golpe
militar que derrubou o presidente Salvador Allende no Chile,
em setembro de 1973.32
O pragmatismo na política externa chegou ao auge na
gestão de Ernesto Geisel, cujo objetivo maior foi manter o
crescimento da economia brasileira num contexto de crise
internacional e de aumento nos preços do petróleo, ao
mesmo tempo que investia em grandes projetos de
infraestrutura e de ampliação da produção de bens de
capital. Assim, o governo Geisel saiu em busca de novos
mercados para a exportação de produtos manufaturados
brasileiros e de melhores condições para a compra de
petróleo. Nessa linha, foram tomadas iniciativas marcantes
no campo internacional, especialmente o estabelecimento
de relações diplomáticas com a China comunista, o voto a
favor de uma resolução da ONU considerando o sionismo
uma forma de racismo (além de várias outras medidas
simpáticas ao mundo árabe) e o reconhecimento dos
governos marxistas nas ex-colônias portuguesas na África.33
Grupos da extrema direita civil e militar não concordaram
com essa abordagem pragmática da diplomacia, a seu ver
incompatível com os compromissos ideológicos da
“revolução de 1964”, e fizeram pressão contra o governo
Geisel para reverter sua orientação internacional. Para tais
setores, Geisel e seu grupo estavam se rendendo à
influência da esquerda, que segundo eles havia se infiltrado
no próprio governo! A voz dos descontentes, que se
encontravam alojados principalmente nos órgãos de
segurança e informações, foi o ministro do Exército, Sylvio
Frota, que mesclou seu desejo de poder (ser o sucessor de
Geisel) com convicções anticomunistas. A derrota política de
Frota e seu afastamento do comando do Exército, em 1977,
resultaram num recuo da extrema direita militar e na
continuidade do pragmatismo diplomático.
Entretanto, a política externa da gestão Geisel gerou
desacordos também com os interesses norte-americanos,
especialmente na área de energia atômica, pois os Estados
Unidos preferiam que o Brasil não dominasse tal tecnologia.
Movido pela vontade de aumentar o protagonismo
internacional do país e sua autonomia tecnológica, e tendo
em vista também cálculos militares, o governo ignorou a
resistência norte-americana e firmou acordo com a
Alemanha, o que permitiu a instalação de usinas nucleares
no Brasil. A partir de 1977, quando os democratas
retornaram ao poder nos Estados Unidos e adotaram uma
política de defesa dos direitos humanos, uma nova área de
conflito surgiu, pois os militares brasileiros não estavam
dispostos a aceitar pressões externas nesse terreno. Tal
conjunto de tensões e desacordos levou o governo Geisel a
romper a cooperação militar que vigorava com os Estados
Unidos desde o período da Segunda Guerra.34 Foi um ato
simbolicamente importante, mas de pouco efeito prático, já
que a essa altura as Forças Armadas brasileiras eram menos
dependentes dos equipamentos estadunidenses.
De qualquer modo, a atitude indicava que algumas coisas
haviam mudado desde os tempos de Castelo Branco, e de
lado a lado. Os militares brasileiros não estavam mais
dispostos a dobrar-se à vontade dos Estados Unidos, até
porque não tinham mais razões imperativas para fazê-lo, e
Washington procurava mudar a imagem de um país
apoiador de ditaduras, o que significava uma guinada em
relação ao seu papel em 1964. Importante deixar claro que
os “brios patrióticos” mostrados nessa ocasião pelo governo
Geisel não eram desagravo à honra nacional ofendida: o
ponto era que os militares brasileiros não pretendiam
admitir críticas contra suas políticas repressivas, nem
aceitariam ser responsabilizados (em especial,
criminalmente) por elas, na ocasião e no futuro.
AS RELAÇÕES DO BRASIL COM AS potências internacionais
durante a ditadura foram pautadas por convicções e valores
políticos, mas também por interesses econômicos e
estratégicos que igualmente moveram as peças do jogo
diplomático. Os líderes brasileiros foram influenciados por
pressões externas e com frequência se submeteram, mas
em certos casos não foram meramente passivos. O apoio
dos Estados Unidos foi oferecido e às vezes forçado, mas
também solicitado e provocado em alguns momentos. Os
governos norte-americanos foram corresponsáveis pela
onda autoritária na América Latina nos anos 1960-80, que
não teria ocorrido da mesma forma na ausência das
pressões da potência do Norte. Ainda assim, os atores da
direita local tomaram decisões e fizeram escolhas
convergentes com os interesses dos Estados Unidos, o que
não pode ser minimizado, porque de outro modo teríamos
um quadro incompleto da situação.
A ditadura brasileira manteve uma linha diplomática
orientada ideologicamente pelo anticomunismo, mas o
pragmatismo também pautou suas relações internacionais,
tendo em vista interesses econômicos e estratégicos. O
bloco socialista foi um ator relevante no contexto latino-
americano e trabalhou para disputar a hegemonia norte-
americana, mas as condições do embate eram amplamente
favoráveis aos Estados Unidos.
Dessa forma, imaginar que as duas potências disputaram
em iguais condições o palco político brasileiro não passa de
fantasia ideológica e propaganda oportunista.
4. A máquina política da ditadura
NESTE CAPÍTULO VAMOS REFLETIR sobre as principais características
do regime político ditatorial instaurado em 1964, de modo a
esclarecer o recente debate de viés “negacionista” (“Não foi
um golpe contra a Constituição da época, não. […] Foi um
regime democrático de força”).1 A análise deixará claro o
caráter falacioso dos discursos que negam a essência
ditatorial do regime político de 1964. Nesse sentido, vamos
estudar algumas características e ações políticas
empreendidas pelo regime liderado pelos militares, para
demonstrar o seu perfil ditatorial e, ao mesmo tempo, as
especificidades daquela máquina estatal.
As razões que motivam a negação da existência da
ditadura são basicamente as mesmas para o caso do golpe:
tentar evitar expressões que associam os eventos de 1964 a
imagens negativas, particularmente incômodas quando há
lideranças políticas no presente que se apresentam como
herdeiras do legado de 1964. Embora alguns desses
herdeiros coloquem-se publicamente como figuras
autoritárias, por outro lado sempre negam a pretensão de
se tornar ditadores, o que atrairia críticas de aliados
importantes. Além disso, algumas lideranças de direita
preferem acreditar que as ditaduras são sempre de
esquerda (China, Coreia do Norte, Venezuela etc.), de modo
que é constrangedor assumir a existência de ditaduras de
direita. É importante ressaltar, a propósito, que, apesar de
toda a celeuma antiesquerdista em torno de supostas
ameaças autoritárias comunistas ao Brasil, o país só
conheceu ditaduras de direita…
Em que pesem esses esforços retóricos, sem dúvida,
como vimos, no período entre 1964 e 1985 o Brasil viveu
sob uma ditadura. Tem-se um regime político ditatorial
(moderno, pois a ditadura dos romanos era outra coisa)
quando uma pessoa ou um grupo mantém-se no comando
estatal por meios essencialmente coercitivos, o poder é
concentrado de maneira autoritária e são criados meios
para bloquear regras sucessórias democráticas.2 Em outras
palavras, há ditadura quando um grupo mantém à força o
poder político e evita que a oposição tenha chance de
assumir o comando. Nesses termos, claramente o que se
instaurou em 1964 foi uma ditadura, embora com algumas
peculiaridades que se revelam quando aprofundamos o
olhar analítico. Uma ditadura, pois comandada por um
grupo que chegou ao poder pela força e assim se manteve
por vinte anos, tendo usado mecanismos repressivos para
evitar que seus adversários mudassem o quadro político.
Uma ditadura militar, porque, apesar do apoio de uma parte
da sociedade e da presença constante de civis em cargos
estratégicos, quem controlava o poder em última instância
era a alta oficialidade, que escolheu sempre generais de
quatro estrelas (o nível mais alto) para governar o país.
Na análise daquele regime político, o primeiro ponto a
destacar é que o Estado ditatorial buscou combinar o
autoritarismo com a manutenção de algumas instituições
liberais herdadas do período anterior e da Constituição de
1946. Tais peculiaridades, nem sempre encontradas em
regimes autoritários semelhantes, propiciaram aos
defensores da ditadura (na época e atualmente)
argumentos para tentarem negar seu caráter ditatorial. Não
foi uma ditadura, dizem eles, porque havia eleições e um
Congresso em funcionamento. Além disso, os presidentes
tinham mandatos fixos e havia uma alternância no poder.
Ora, as concessões ao liberalismo político sempre visaram
escamotear a ditadura, para não contraditar o discurso de
que 1964 representou uma ação para defender a
democracia de seus inimigos. Em primeiro lugar, os
governos da ditadura se utilizaram frequentemente de leis e
aparatos legais para conferir ares de legitimidade aos seus
atos,3 inclusive os repressivos, uma legislação tanto
herdada do período anterior como produzida pelo novo
regime. Em segundo lugar, foram mantidos em
funcionamento as casas parlamentares (Congresso
Nacional, assembleias estaduais e câmaras municipais) e os
partidos políticos, o que na aparência significava o
compromisso de manter em vigor um dos principais pilares
da democracia liberal. Terceiro, houve a manutenção do
Poder Judiciário, em tese com sua autonomia resguardada, o
que convergia para a clássica visão liberal da divisão e
autonomia dos três Poderes.
Por que a ditadura optou por resguardar certos preceitos
políticos liberais, após ter utilizado a força militar para
derrubar o presidente João Goulart? Essencialmente, devido
à própria natureza do movimento golpista, que contou com
apoio de setores liberais e usou tais argumentos para
justificar a intervenção militar (defesa da democracia contra
a ameaça comunista). Nesse sentido, um Estado autoritário
que suprimisse parlamentos e partidos e cancelasse
totalmente as eleições afrontaria uma parte dos apoiadores
de 1964, inclusive seus aliados internacionais.
Significativamente, em diferentes ocasiões a direita liberal
criticou a ditadura por afastar-se dos “princípios de 31 de
março”, que na sua visão representavam um compromisso
entre a repressão antiesquerdista e as instituições liberais.4
Assim, a manutenção de partidos e casas parlamentares
atendia à necessidade de agradar e acalmar os aliados
liberais da ditadura.
Entretanto, considerar que tais cuidados produziram
somente uma fachada inócua ilumina apenas parte do
problema, pois, em certos momentos, principalmente nos
anos 1967-8 e após o começo da distensão (1974), as
concessões ao liberalismo político foram além de imagens e
aparências. As pressões sobre o Estado ditatorial para que
não abandonasse a tentativa de combinar autoritarismo
repressivo com instituições políticas liberais às vezes
tiveram efeitos práticos. De fato, em alguns contextos, a
retórica liberal utilizada por um setor do bloco golpista
implicou certos limites à ditadura. Além disso, devido a seu
precário compromisso com as instituições liberais, a
ditadura deixou alguns espaços à oposição que serviram,
em certos momentos, de contrapeso às ações do Estado.
Para entender esse quadro paradoxal de uma ditadura
militar que matou e torturou e, ao mesmo tempo, manteve
alguns canais institucionais abertos, devemos levar em
conta as tradições do país, em cuja cultura política é forte a
tendência a negociações e acomodações, que têm como
base a inclinação à flexibilidade e a motivação de excluir os
setores populares do jogo político. Em especial, a
flexibilidade e a disposição à acomodação da ditadura
contribuíram para sua larga duração, assim como para uma
transição à democracia relativamente suave (sobretudo
para os militares).
No entanto, reconhecer a manutenção de alguns preceitos
liberais pelo regime político instaurado em 1964 não implica
negar seu caráter ditatorial. Afinal, os partidos, as casas
parlamentares e o Poder Judiciário sofreram intervenção
autoritária sempre que pareceu necessário aos líderes do
Estado. Da mesma forma, o sistema legal foi manipulado e
alterado para atender à vontade dos generais e seus
aliados.
Tais características e estratégias de ação empreendidas
pelos líderes da ditadura não estavam perfeitamente
desenhadas no momento da tomada do poder. As políticas
adotadas pelo regime militar foram construídas ao longo do
tempo, como resultado da combinação entre as convicções
ideológicas e os interesses dos grupos que o integravam —
e das disputas entre eles —, as tradições presentes no
sistema político e na cultura política, e a pressão exercida
por mudanças conjunturais e pelas próprias forças de
oposição.
Assim, para compreender melhor o processo de
construção política da ditadura há que estudá-lo ao longo de
seu desenrolar histórico, com atenção às diferentes
conjunturas que estabeleceram limites às escolhas das
lideranças. É o que faremos a seguir, embora de maneira
sintética, com foco em dois momentos-chave: os anos de
implantação da ditadura (1964-7) e o período de
autoritarismo e repressão mais agudos (1968-74). Devido à
sua importância e complexidade, as fases de distensão e
abertura (1974-84) serão abordadas em capítulos
exclusivos.
A fase inicial (1964-7)
Os primeiros anos foram decisivos para a montagem das
estruturas políticas da ditadura, que seriam mantidas por
todo o período apesar de mudanças implantadas após 1968
(para intensificar o autoritarismo) e após 1979 (para reduzi-
lo). O governo do primeiro general presidente, Humberto
Castelo Branco, traçou as linhas essenciais do desenho
político da ditadura, que tinha como pontos-chave a
tentativa de combinar alguns preceitos liberais ao
autoritarismo, a institucionalização do novo regime à base
de copiosa legislação e a ampliação dos aparatos de
repressão e de violência política.
Essa construção política começou pelo ato institucional
editado em 9 de abril de 1964, um instrumento de força dos
militares que apresentava como justificativa preservar a
ordem social e as instituições democráticas e cristãs contra
o bolchevismo. Nos anos seguintes viriam outros, em tal
quantidade que foi preciso numerá-los para evitar confusão.
Baixados sempre que a ditadura julgou que era preciso
“limpar” as instituições ou “corrigir” o seu funcionamento,
esses atos de força foram utilizados para extinguir partidos,
cassar mandatos parlamentares, exonerar servidores
públicos, exercer censura, suspender decisões judiciais,
fechar temporariamente o Congresso e reduzir os direitos
das pessoas acusadas de crimes políticos. Outros
instrumentos jurídicos autoritários foram os atos
complementares e os decretos, sendo que alguns tinham
caráter sigiloso.
Mas, ao mesmo tempo que os militares se muniam de
poder discricionário e agiam como ditadores, o presidente
indicado (após negociações entre os líderes do golpe) para
assumir o lugar de João Goulart passou pelo ritual
constitucional de eleição pelo Congresso. Reitere-se que o
mesmo Congresso destituiu Goulart, sob a justificativa de
que se ausentara do território nacional sem autorização —
uma manobra cínica, tanto porque na hora da decisão ele
ainda estava no Brasil como porque sua saída do país foi
forçada por um golpe militar. De acordo com a Constituição,
com a vacância da presidência cabia ao Congresso fazer
uma eleição indireta. No entanto, o texto do AI-1 interferiu
autoritariamente no processo e violou a carta constitucional,
primeiro ao marcar a data da eleição indireta no prazo de
apenas dois dias, e segundo, e mais grave, ao estabelecer
que para tal eleição não haveria inelegibilidades.5 A razão
da última medida é que a Carta de 1946 estabelecia que
ocupantes de certos cargos, inclusive militares chefes de
Estado-Maior, não poderiam ser eleitos presidentes antes de
um prazo de desincompatibilização de suas funções, e
Castelo Branco, sendo chefe do Estado-Maior do Exército,
não poderia ser eleito presidente naquele momento.6
Assim, os líderes da ditadura procuravam passar a
imagem de que iriam respeitar o Congresso, a Constituição
de 1946 e o sistema pluripartidário, inclusive gerando a
expectativa de que o presidente seguinte seria eleito pela
população. No entanto, a intervenção “corrigindo” a
Constituição para permitir a eleição do general Castelo
Branco deixou claro que as instituições seriam respeitadas
apenas no limite dos interesses dos novos governantes.
Além disso, estes viam com maus olhos as eleições diretas,
pela possibilidade de a população escolher alguém
“inconveniente”. Dessa maneira, desde o início a fórmula
das eleições indiretas pareceu sedutora, pois permitia aos
líderes do golpe um melhor controle do processo sucessório.
Apesar da retórica liberal, a ditadura tomou medidas
contraditórias com a expectativa de retorno à democracia,
como o expurgo de seus inimigos do sistema político e das
organizações sociais com base no primeiro AI. A propósito, o
Parlamento que elegeu Castelo Branco estava desfigurado
devido à cassação de aproximadamente quarenta
deputados federais no dia anterior.7 Outros seriam ainda
cassados até junho de 1964, quando expirou o prazo
estipulado pelo AI para suspensão de mandatos e direitos
políticos. Além das lideranças políticas, centenas de líderes
de movimentos sociais (sindicalistas e camponeses,
sobretudo) foram presos e tiveram seus direitos políticos
suspensos. Ademais, a ditadura estreitou o controle sobre o
movimento sindical para limpar os “comunistas” do seu
comando. Imediatamente após o golpe, o Comando Geral
dos Trabalhadores foi fechado e centenas de sindicatos
sofreram intervenção e receberam novos dirigentes
nomeados pelo governo.8 Nos anos seguintes, o Ministério
do Trabalho e as Delegacias de Trabalho mantiveram os
sindicalistas sob vigilância, impedindo a eleição de pessoas
com registro de militância na esquerda.
No serviço público, em todos os níveis, também ocorreu
um expurgo em larga escala, para o afastamento de
pessoas consideradas subversivas de esquerda (não era um
problema ser subversivo de direita). Com base no AI-1, que
suspendeu as garantias de estabilidade dos servidores,
milhares de funcionários civis e militares foram exonerados
ou aposentados à força.9 Importante registrar que o AI-2
(outubro de 1965) e o AI-5 (dezembro de 1968) renovariam o
poder do Estado autoritário não apenas para cassar
mandatos parlamentares e direitos políticos, mas também
para afastar sumariamente servidores públicos. Parte deles
foi afastada devido a suspeitas de corrupção, mas a maioria
perdeu os cargos por acusações de “comunismo”.
Outro aspecto dos expurgos de 1964 (na época foi muito
utilizada a expressão “Operação Limpeza”) foi uma grande
onda de prisões em todo o país, atingindo um total
estimado entre 30 mil e 50 mil detidos nos dias iniciais do
golpe. Registre-se que a prática de tortura contra presos e
as primeiras mortes provocadas por agentes do Estado
ditatorial ocorreram já nessa fase, embora tenham sido
devidamente negadas ou escamoteadas pelas autoridades.
O sistema repressivo judicial baseou-se em leis
preexistentes, sobretudo a lei de defesa da ordem política e
social vigente desde 1953 (uma atualização da primeira lei
do gênero, de 1935).10 Os supostos crimes políticos eram
apurados em inquéritos presididos por policiais ou por
militares, mas os processos criminais cabiam ao Poder
Judiciário, que em várias ocasiões determinou a libertação
de presos ou a suspensão de processos por falta de provas,
para a ira dos oficiais ligados à repressão. Da mesma forma,
nesses anos iniciais o Poder Judiciário utilizou-se da
institucionalidade liberal ainda vigente para impedir certas
autoridades de censurarem livros e peças teatrais, gerando
mais irritação na direita radical.
Ainda no campo da vigilância e da repressão política, a
ditadura imediatamente criou o Serviço Nacional de
Informações (SNI), reestruturou e ampliou o Departamento
de Polícia Federal (DPF) e reforçou os antigos departamentos
ou delegacias de polícia política estaduais (geralmente
conhecidos pela sigla Dops, Departamento de Ordem
Política e Social). As instituições militares logo criaram seus
próprios serviços secretos, o CIE (Centro de Informações do
Exército) e o Cisa (Centro de Informações da Aeronáutica),
que também atuaram na repressão política, sendo que a
Marinha já dispunha de órgão equivalente desde os anos
1950 (o Cenimar, Centro de Informações da Marinha). No
auge da violência política, no contexto pós-AI-5, que
analisaremos a seguir, o Estado criou os tristemente
famosos DOI-Codi (Destacamento de Operações de
Informações — Centro de Operações de Defesa Interna),
responsáveis por grande número de mortos e desaparecidos
políticos.11
Outra iniciativa autoritária importante e duradoura do
primeiro governo militar foi a introdução de medida que
praticamente conferia poderes legislativos ao Executivo. O
primeiro ato institucional estabeleceu que o Congresso teria
limite de prazo (entre trinta e sessenta dias) para votar
projetos de lei enviados pelo Executivo; caso isso não fosse
feito, eles seriam considerados aprovados, mesmo sem
análise parlamentar. Esse mecanismo de aprovação “por
decurso de prazo” continuaria nos governos seguintes.12
Os recursos e subterfúgios criados pela ditadura para
editar leis sem a participação do parlamento evidenciam
duas coisas. Primeiro, que a intenção ao manter aberto o
Congresso não era partilhar o poder, mas acomodar aliados
e tentar conferir legitimidade ao novo regime político.
Segundo, que o autoritarismo também foi utilizado (e
desejado) para agilizar decisões administrativas e acelerar
investimentos econômicos, assim como servir de freio às
reivindicações das classes trabalhadoras. Dessa maneira, a
ditadura se prestou não apenas ao propósito de reprimir
adversários políticos, as esquerdas e os movimentos sociais:
ela também foi instrumentalizada para alavancar o
crescimento econômico bruto e modernizar a máquina
estatal sob o comando de uma tecnocracia autoritária em
nada preocupada com os impactos sociais de suas ações.
Em suma, nos primeiros meses após sua instalação, os
líderes da ditadura testaram maneiras de combinar o poder
militar, a centralização e a repressão política com uma
precária institucionalidade liberal. Tema-chave para a sua
institucionalização era a escolha do presidente, o que
colocava em tensão máxima a retórica liberal dos golpistas.
Nesse sentido, um passo importante foi a aprovação pelo
Congresso, em julho de 1964, da expansão em um ano do
mandato de Castelo Branco, que originalmente deveria
apenas completar o mandato de Goulart.13 Com isso, o
general ficou no poder até março de 1967, ganhando mais
tempo para institucionalizar a ditadura.
Alguns meses depois, em outubro de 1965, uma crise
política envolvendo oficiais da “linha dura” (assim
chamados por exigirem mais autoritarismo e repressão)
propiciou uma oportunidade para se resolver o problema da
manutenção do Poder Executivo sob controle militar. Na
ocasião ocorreram eleições para alguns governos estaduais,
tal como previsto no calendário eleitoral, e o fato de a
população eleger um grupo de governadores não
inteiramente alinhados à ditadura — e pior, contando com
apoio da esquerda e de líderes punidos pelos expurgos —
gerou uma ameaça de rebelião militar. Diga-se, a propósito,
que as dissensões entre diferentes lideranças e grupos
militares foram constantes e causaram muitas crises no
Estado autoritário, e que, embora tenha existido de fato
uma “linha dura”, os contornos dessas facções eram tênues
e instáveis.14 Entretanto, mesmo havendo conflitos internos
frequentes, os militares mantiveram-se em geral unidos
quando se tratou de defender e manter o Estado autoritário.
Voltando à crise provocada pelas eleições de 1965, os
casos mais incômodos para a extrema direita militar foram
a eleição dos governadores de Minas Gerais e da
Guanabara, ambos ligados ao ex-presidente Juscelino
Kubitschek, cujos direitos políticos (e o mandato de
senador) haviam sido cassados em junho de 1964. Consta
que tropas da Vila Militar, no Rio de Janeiro, poderiam ter
deposto o presidente Castelo Branco caso algo não fosse
feito.15 Para resolver a crise, que ele acabou utilizando a
favor de seu projeto de institucionalizar a ditadura, o
governo Castelo Branco editou o AI-2.16 Esse novo ato
institucional restabeleceu o poder discricionário do
presidente, pois o AI-1 tinha prazo para as medidas
excepcionais, que já não estavam mais em vigor. Com o
novo ato, o presidente voltou a ter poder para cancelar
mandatos parlamentares e os direitos políticos dos
cidadãos, suspender o Congresso e afastar servidores
públicos.
Mas o AI-2 não ficou por aí. Ele extinguiu os partidos
vigentes (os principais eram PSD, UDN, PTB, PR, PSB, PSP, PDC,
PRP)17 e determinou uma reforma política que levou à
criação do sistema bipartidário, com um partido governista,
a Arena (Aliança Renovadora Nacional), e um partido para
acomodar todas as tendências de oposição, o MDB
(Movimento Democrático Brasileiro).18 A intenção era
controlar melhor o sistema eleitoral e garantir o apoio da
maioria do Congresso aos governos da ditadura. Outra
medida decisiva foi o estabelecimento de eleições indiretas
para presidente, contrariando a Constituição de 1946, o que
resolvia o problema da manutenção do poder sob o controle
dos militares e seus aliados, sem os riscos (democráticos!)
da eleição direta.
O AI-2 foi um momento-chave na construção da ditadura,
pois a instituição das eleições indiretas impedia que as
oposições tivessem chance de ganhar o poder. Na
sequência, em fevereiro de 1966, foi baixado o AI-3, que
determinou eleições indiretas também para os
governadores estaduais, ou seja, em lugar do povo seriam
as assembleias estaduais a escolher os governadores. (Mais
adiante, quando surgiu o risco de que elas escolhessem
governadores de oposição, a ditadura mudou as regras para
garantir o controle do processo.) O mesmo AI-3 determinou
que a escolha dos prefeitos das capitais estaduais passaria
a caber aos respectivos governadores, outro golpe sério
contra a vontade popular.
Com tais medidas, a ditadura encontrou uma fórmula para
garantir a manutenção do poder, criando mecanismos que
ao mesmo tempo evitavam o voto popular (no qual não
confiava) e tentavam manter as aparências de legitimidade
liberal, inclusive normalizando a sucessão de líderes para
evitar a figura do ditador permanente. Assim, os presidentes
seriam escolhidos pelos militares e referendados em
seguida por uma “eleição” feita pelos parlamentares.
Completando o pacote, os presidentes militares
selecionariam previamente os governadores a serem
“eleitos” pelos colégios eleitorais estaduais. Diante do
primeiro teste após o golpe de 1964, o pleito estadual de
outubro de 1965, os líderes da ditadura perceberam que o
voto direto para cargos executivos poderia levar à sua
derrota — o que, a propósito, contraria a suposição de que
tinham apoio popular majoritário.
Os eventos de outubro de 1965 foram importantes para a
definição do tipo de arranjo liberal aceito pela ditadura:
seriam mantidas algumas instituições, desde que não
questionassem o poder militar. Caso contrário, haveria mais
intervenções para garantir a nova ordem, como atos
institucionais e a intensificação da repressão (prisões,
suspensão de mandatos parlamentares), o que de fato
ocorreu nos anos seguintes. A visão de Castelo Branco sobre
o lugar a ser ocupado pelas instituições parlamentares na
ditadura, ou seja, de submissão ao Poder Executivo, se
evidenciou em outubro de 1966. Com base no AI-2, ele
decretou a suspensão das atividades (recesso) do
Congresso por cerca de um mês, como punição pela
tentativa dos líderes da instituição de resistirem à cassação
de seis deputados federais recém-decretada pelo governo.
Alguns parlamentares se recusaram a abandonar o
Congresso, e tropas militares foram utilizadas para
convencê-los a sair.19
O general Castelo Branco completou sua obra de
institucionalização da ditadura com três iniciativas “legais”
que entraram em vigor em 1967, junto com a ascensão do
segundo presidente militar.20 Primeiro, a Constituição de
1967, que vinha substituir a de 1946, várias vezes
desrespeitada desde o golpe em 1964. A Carta de 1967 foi
elaborada por uma comissão nomeada pelo presidente e
depois submetida ao debate parlamentar, mas com prazo
curto, de modo a impedir alterações importantes. A nova
carta constitucional confirmava o novo sistema político
autoritário, com destaque para a eleição indireta para
presidente da República. No lugar do povo, o colégio
eleitoral seria constituído pelos parlamentares federais e
alguns delegados indicados pelas assembleias estaduais.
Vale notar que a Constituição de 1967 previa eleições
diretas para governadores, mas elas foram sendo
sucessivamente adiadas até 1982, quando pela primeira
vez, desde 1965, o povo brasileiro pôde escolher os chefes
dos governos estaduais.
O segundo ponto do tripé institucional de Castelo Branco
foi a Lei de Segurança Nacional (LSN), que representava a
atualização de um sistema de leis repressivas que vinham
se sucedendo desde 1935. A nova lei atualizava os crimes
políticos com base nos conceitos da doutrina de segurança
nacional, assim como as respectivas punições, tornando-as
mais duras. Além disso, a LSN confirmava outro dispositivo
introduzido pelo AI-2: a determinação de que os crimes
políticos deveriam ser julgados por tribunais militares. Com
isso, os processos políticos eram retirados da alçada da
justiça comum, mais propensa a respeitar a
institucionalidade liberal. A terceira iniciativa no sentido da
institucionalização da ditadura foi a Lei de Imprensa, que
servia para amedrontar os meios de comunicação e
estimular a autocensura, embora afirmasse o estatuto da
liberdade de imprensa.
O presidente general Castelo Branco buscou cultivar a
imagem de liberal e amigo de artistas e intelectuais, tendo
às vezes protegido alguns deles da repressão. Essa imagem
seria recuperada anos depois, quando um setor da ditadura
começou a traçar planos de abertura política. Mas a verdade
é que durante o governo de Castelo Branco houve
cassações, suspensão temporária do Congresso, demissões,
prisões, tortura. Além disso, ele foi o grande responsável
por institucionalizar a ditadura, conferindo-lhe suas
estruturas essenciais,21 inclusive a organização baseada em
retórica e compromisso precário com as instituições liberais.
Entretanto, essas concessões ao liberalismo político seriam
mantidas apenas enquanto servissem ou não
atrapalhassem o funcionamento do regime.
O AI-5 e a escalada repressiva
O general Artur da Costa e Silva assumiu a presidência no
início de 1967, com a expectativa de que a
institucionalização da ditadura traria uma espécie de
normalidade autoritária e menor necessidade de repressão.
Como a popularidade do regime militar vinha caindo, tanto
por descumprir a promessa de democratizar o país como
pela recessão econômica provocada pela gestão Castelo
Branco, uma das preocupações de Costa e Silva era
mostrar-se mais moderado e aberto ao diálogo.22 Não
obstante sua retórica comedida, paradoxalmente ele tinha
apoio da ala mais radical da direita, que o pressionou a
responder com dureza aos questionamentos da oposição.
Por trás dos discursos moderados, a máquina repressiva e a
direita militar radical estavam a postos, em guarda. Logo
seriam chamadas à ação.
Frente ao incremento do ativismo da oposição e das
pressões da direita radical, as promessas de diálogo e de
tolerância de Costa e Silva mostraram seus limites. No
período 1967-8, eclodiu um ciclo de protestos de
movimentos sociais, com destaque para o protagonismo de
operários fabris e estudantes universitários.23 Os setores de
oposição sentiram ter melhores condições de ação nesse
contexto por duas razões básicas: o aumento do desgaste e
da impopularidade da ditadura; e a sensação de que ela
reduzira seu poder discricionário, pois com o fim da vigência
do AI-1 e do AI-2 algumas garantias civis foram
restabelecidas e o Poder Executivo não poderia mais
suspender direitos políticos a seu gosto. Significativamente,
entre 1967 e 1968 alguns eLivross voltaram ao país,
movidos pela esperança de refazer suas vidas ou pela
crença de que a ditadura poderia ser derrotada.
O fato é que as ações de oposição se incrementaram,
tanto no quadro parlamentar, com um setor do partido de
oposição, o MDB, atuando de maneira mais agressiva contra
o governo, como na esfera dos movimentos sociais. Do lado
da oposição mais moderada, importantes lideranças civis
como João Goulart (no exílio), Juscelino Kubitschek e Carlos
Lacerda selaram um pacto — a Frente Ampla — contra a
ditadura, sendo que Lacerda estava entre os arrependidos
de terem apoiado o golpe.24 Por seu lado, setores da
esquerda que vinham organizando grupos armados para
combater a ditadura e lutar pela revolução passaram à
ação, o que aumentou o estado de alerta entre a direita e os
grupos que controlavam o Estado.
O ano começou com várias manifestações estudantis,
como a de 28 de março, no Rio de Janeiro, na qual foi
assassinado o jovem Edson Luís, que se tornou um símbolo
e inspirou mais protestos liderados por universitários, com
adesão posterior de outros grupos sociais. No calendário
desses protestos de rua destacam-se os meses de abril e
junho, em que ocorreram episódios extremamente
violentos, resultando em muitas mortes. A radicalização das
lideranças estudantis gerou a ocupação de prédios
universitários por todo o país, em protesto contra as
políticas da ditadura, levando ao enfrentamento com a
polícia e com grupos de direita, a exemplo da chamada
Batalha da Maria Antônia, em São Paulo, em outubro de
1968.25
Os operários se fizeram presentes no cenário com greves
marcantes em duas cidades industriais, Contagem (em abril
e outubro de 1968) e Osasco (julho de 1968), levando os
chefes da ditadura a temerem a união entre os estudantes e
os trabalhadores, o que poderia colocar em risco a ordem
dominante. Ao mesmo tempo, grupos armados de esquerda
realizaram ações de “expropriação” para a coleta de fundos
e atos terroristas, como a execução de um militar norte-
americano (Charles Chandler) e um atentado a bomba a um
quartel do II Exército. Portanto, em 1968 a violência política
assumiria proporções intensas e graves, especialmente a
praticada pelos órgãos repressivos estatais, que obviamente
tinham maior poder de fogo e mataram ou feriram dezenas
de pessoas ao longo do ano.26
Diante do aumento do protagonismo das oposições,
grupos de direita organizaram-se em defesa da ditadura,
gerando tanto agitação nos quartéis como ataques
terroristas, muitas vezes travestidos de ações da esquerda,
para aumentar a sensação de retorno do “perigo
comunista”. O quadro tornou-se conflitivo e tenso, com
intensificação da violência policial nas ruas para reprimir os
movimentos sociais e seus protestos, ações terroristas de
direita e de esquerda, críticas da imprensa liberal contra o
governo Costa e Silva — acusado de incompetente para
lidar com os desafios do momento — e aumento da
agressividade nos discursos da oposição.
Surgiu no Congresso o episódio que levaria o governo a
responder aos desafios com nova ofensiva autoritária. No
contexto das comemorações da Independência, o deputado
Marcio Moreira Alves fez um discurso duro contra o Exército,
a que chamou de valhacouto (antro) de torturadores,
gerando um pedido do governo à Câmara dos Deputados
para que autorizasse o seu julgamento.27 Poucas horas após
a decisão dos deputados negando a autorização, o governo
baixou o AI-5, em 13 de dezembro de 1968.
O plano para um novo ato institucional era defendido há
alguns meses por setores radicais do governo, que inclusive
procuraram aumentar as tensões públicas a fim de criar
ambiente favorável para seu intento. Mas o ato de rara
coragem cívica do Congresso teve papel relevante, pois
mostrou que o governo de Costa e Silva estava ficando
isolado, sem apoio da imprensa e sem apoio majoritário no
parlamento. Nem o partido oficial, a Arena, votou unido a
favor do pedido de autorizar a punição de Moreira Alves.
Por isso, o AI-5 foi um ato de força, para recuperar a
iniciativa de um governo que vinha sendo contestado até
por seus aliados. Ele atendia também aos desejos das alas
radicais da ditadura, que entendiam ser necessário mais um
ciclo repressivo para “limpar” a nação dos inimigos
remanescentes. Fontes militares afirmaram que o próprio
general Costa e Silva poderia ser derrubado caso não
aceitasse baixá-lo.28 Tais grupos não toleravam conviver
com uma oposição ativa, então desejavam o
restabelecimento dos instrumentos que permitiam ao
governo cassar mandatos parlamentares e direitos políticos,
assim como o poder para calar as críticas da imprensa.
O novo ato foi uma resposta desproporcional aos desafios
apresentados pela oposição, aí incluídas as ações da
esquerda armada. Essa avaliação foi feita à época por
vários observadores do cenário brasileiro, inclusive os
diplomatas norte-americanos, que não viam necessidade de
novas medidas de exceção.29 De fato, o Estado possuía
instrumentos repressivos para lidar com os desafios
provenientes da esquerda. Porém, e o detalhe é
fundamental, não dispunha de meios suficientes para
enquadrar e disciplinar segmentos rebeldes da própria elite
situados em setores estratégicos, como o Poder Legislativo,
o Poder Judiciário e a imprensa. A ditadura legada por
Castelo Branco oferecia recursos de sobra para reprimir os
revolucionários de esquerda, mas também garantia alguns
espaços de atuação para dissidentes moderados, graças às
concessões ao liberalismo político.
O AI-5 era uma resposta para lidar com tal “problema”,
permitindo ao Estado aposentar servidores públicos
incômodos para o governo, como os juízes que impediam a
“justiça revolucionária” de agir livremente, ou os
professores acusados de estimular a rebeldia estudantil.
Além disso, a escalada autoritária tinha a vantagem de
dispensar o governo da necessidade de negociar com as
lideranças políticas e o Congresso, de modo que ele ficava
com as mãos livres para implantar as políticas de sua
preferência. No mesmo sentido, o AI-5 permitia censurar as
críticas publicadas pela imprensa, inclusive a grande mídia,
que até então ficara a salvo da repressão. Portanto, os alvos
do novo ato autoritário não estavam apenas à esquerda,
como afirmaram os discursos da ditadura. O AI-5 visou
também enquadrar os segmentos da elite mais sensíveis
aos argumentos liberais que se mostravam rebeldes ao
poder militar.30
Exatamente por isso, ele significou o afastamento dos
militares em relação a seus aliados civis, ou melhor, àqueles
de inclinação moderada ou liberal. Basta dizer que a grande
imprensa — apoiadora, instigadora e entusiasta da
intervenção de 1964 — teve atitude fria quanto ao AI-5,
mostrando um incômodo que nem a censura conseguiu
abafar inteiramente. O mesmo ocorreu com outro aliado
fundamental de 1964, o governo norte-americano, que
discordou do novo ato e esfriou seu apoio à ditadura, pelo
menos no início. Após dezembro de 1968, a ditadura se
tornou mais militar, autoritária e violenta, e reduziu o
espaço para a atuação de aliados civis, embora estes
continuassem atuantes, só que agora em posição ainda
mais subalterna. O partido oficial, a Arena, viu-se menos
relevante nos assuntos do governo, que tratou com desdém
os seus quadros políticos, ao ponto de preferir muitas vezes
colocar técnicos e lideranças jovens em cargos de
responsabilidade.
Dessa forma, o AI-5 conferiu ao Executivo poderes
praticamente ilimitados e sem prazo de expiração, ao
contrário dos atos anteriores. Embora o primeiro artigo
afiançasse a manutenção da Constituição de 1967, nos
artigos seguintes ficava evidente que a Carta passava a
submeter-se à vontade do Poder Executivo. Além dos
poderes discricionários já mencionados (cassar mandatos e
direitos políticos, excluir pessoas do serviço público,
censurar a imprensa e fechar casas parlamentares), o
presidente poderia confiscar bens acumulados no exercício
de cargos públicos e decretar estado de sítio. Ademais,
ficava suspensa a garantia de habeas corpus para crimes
políticos, contra a segurança nacional, a ordem econômica e
social e a economia popular.31
Tratou-se de um marco na história da ditadura, uma
radicalização autoritária que colocou em tensão máxima
seu compromisso precário com as instituições liberais. O
Congresso Nacional foi suspenso e cerca de 110
parlamentares (alguns eram suplentes) tiveram seus
mandatos cancelados, ou seja, foi um expurgo ainda maior
que o de 1964, pois dessa vez foram atingidas também
lideranças de direita rebeldes às ordens dos militares. O STF
também sofreu intervenção e teve três membros
aposentados compulsoriamente. Centenas de pessoas
perderam seus direitos políticos, criou-se a figura do exílio
forçado (banimento) e houve uma nova rodada de expurgos
no serviço público, atingindo notadamente o Itamaraty e as
universidades. Além disso, houve um incremento na
legislação autoritária, com destaque para a “emenda” à
Constituição de 1967 (que para alguns observadores
originou outra Constituição, a de 1969); uma nova Lei de
Segurança Nacional com punições mais duras (inclusive
pena de morte); um decreto (o 477) específico para reprimir
as lideranças estudantis, medidas decretadas enquanto
estava fechado o Congresso; e também novos instrumentos
para ampliar a censura.32
Evidentemente, outro aspecto-chave na caracterização do
AI-5 como um marco foi a violência repressiva, que
aumentou exponencialmente após dezembro de 1968. O
aparato repressivo foi expandido e ganhou mais autonomia
para agir com violência contra os inimigos políticos,
inclusive com adoção de práticas ilegais segundo a própria
legislação ditatorial. A maré montante da repressão estatal
decorreu do surgimento de um contexto institucional que
estimulava os agentes públicos à violência. Pode-se dizer
que o novo ato institucional liberou as feras, que saíram à
caça com apetite ainda maior do que em 1964. O período
foi marcado por um notável aumento da violência de
motivação política, principalmente tortura, sequestros e
assassinatos, assim como pelo surgimento de uma novidade
sinistra: a prática sistemática de desaparecer com os corpos
de vítimas. A comparação dos números oficiais de mortos
com a primeira fase da ditadura revela dados eloquentes.
Enquanto no período anterior ao AI-5 os agentes do regime
militar assassinaram cerca de cinco dezenas de pessoas,
entre dezembro de 1968 e 1976 o número de vítimas fatais
passou de três centenas.33
No entanto, mesmo que a violência política e os
instrumentos autoritários tenham sido ampliados a partir do
AI-5, do ponto de vista institucional a ditadura acabou
mantendo-se dentro dos marcos estabelecidos em sua fase
inicial. Aliás, a própria opção por editar novo ato
institucional indica a tendência à continuidade. Após o AI-5,
por alguns meses houve incerteza quanto ao futuro político
do país, pois parecia que os militares iriam manter o
Congresso fechado por tempo indeterminado e governariam
sozinhos, sem mais concessões para agradar a opinião
liberal. Mas desde o início havia dúvidas sobre o rumo que
seria adotado, afinal o Congresso (e mais uma dezena de
assembleias estaduais) foi declarado suspenso e não
extinto, o que indicava uma possível reabertura.
Nesse quadro de incertezas, os aliados liberais da
ditadura pressionaram pelo retorno à situação anterior, ou
seja, para que fosse mantido o compromisso entre o
autoritarismo e as instituições políticas tradicionais. Os
militares teriam poder para fechar definitivamente o
Congresso, mas o preço seria o rompimento com aliados
importantes. Por isso eles decidiram retornar parcialmente
ao arranjo inicial, buscando atribuir aparência de
legitimidade ao seu governo. Assim, aceitaram reabrir o
Congresso Nacional, em outubro de 1969.34 Mas o objetivo
imediato era que os parlamentares referendassem o nome
do sucessor de Costa e Silva, afastado devido a uma doença
grave. Não se tratava de um Congresso soberano, que
retomaria suas funções normais em um regime republicano,
mas de uma instituição enfraquecida e humilhada pelo
expurgo de uma centena de seus integrantes, alguns dos
quais foram cassados poucos dias antes da reabertura, o
que servia para manter a tensão. O alto-comando militar
escolheu para ocupar o cargo de presidente o ex-chefe do
SNI, general Emílio Médici, que foi “eleito” pelos
parlamentares e tomou posse ainda no mês de outubro.
O início dos anos 1970 foi a fase mais violenta da
ditadura, o que gerou insegurança e medo entre amplos
setores sociais. Simultaneamente, a cúpula militar procurou
restabelecer laços com as elites civis e manter em vigor —
embora de maneira mais precária — o acordo com alguns
princípios liberais, como a realização das eleições
parlamentares de 1970 e as eleições municipais de 1972,
tal como previa o calendário. Entretanto, não havia
liberdade efetiva, inclusive porque alguns candidatos foram
impugnados ou presos, acusados de serem comunistas
infiltrados na oposição. De qualquer forma, mantiveram-se
abertos certos canais de participação para as forças de
oposição que aceitassem esse jogo, enquanto uma parte
das lideranças e da própria população recusou-se a
participar, mostrando seu descontentamento através do
voto nulo, que alcançou recordes nas eleições de 1970. Do
ponto de vista da ditadura, a estratégia era aplacar os
aliados liberais, mas também tentar evitar que a oposição
moderada tivesse como única opção apoiar os grupos de
esquerda que enfrentavam o Estado com armas.
Como veremos adiante, após os anos mais duros sob o AI-
5, que coincidiram com o mandato de Médici, o governo do
quarto general presidente, Ernesto Geisel, iniciou um
processo de mudanças lentas que, entre outros objetivos,
visava recompor laços com os aliados liberais (no sentido
político) da ditadura. Mas, antes que essa fase se iniciasse,
a violência seguiu em ritmo intenso, e na verdade continuou
mesmo no período de distensão de Geisel, cujo objetivo, no
fim das contas, não foi democratizar o país.
EM OUTRO CONTEXTO SERIA desnecessário discutir se o regime
de 1964 foi uma ditadura. No entanto, dado o cenário
político brasileiro nos anos recentes, que trouxe à tona
discursos negacionistas, tornou-se necessário argumentar
sobre o tema para mostrar o equívoco de tais posições,
muitas vezes defendidas por má-fé. O argumento mais forte
dos que negam a ditadura é que ela manteve eleições
regulares para vereadores, deputados, senadores e
prefeitos de algumas cidades. No entanto, a dinâmica
eleitoral era precária, pois havia constantes intervenções
autoritárias, prisões, cassações, e porque as pessoas não
podiam votar para os cargos principais: presidente,
governador, prefeitos das capitais. A ditadura só permitia o
funcionamento do jogo eleitoral enquanto ela fosse a dona
da bola. Nos momentos em que correu risco de perder o
controle da situação, o governo respondeu com
intervenções autoritárias, como nos casos do AI-2 e do AI-5.
A oposição não tinha acesso a chances reais de virar o jogo,
e o fato de ter havido algumas concessões liberais não
altera a essência ditatorial do regime militar vigente entre
1964 e 1985.
5. Uma análise do apoio social à ditadura
POLÊMICO, como não poderia deixar de ser, o tema deste
capítulo está presente tanto na historiografia como no
debate público. Trata-se de questão altamente politizada —
e facilmente politizável —, uma vez que a constatação do
apoio social ao golpe e à ditadura pode ser utilizada para
defender sua legitimidade. Já entramos um pouco nesse
debate anteriormente, argumentando que o apoio social (na
verdade, de uma parte da sociedade) não altera a natureza
golpista e autoritária de 1964. Trata-se de um dos temas
menos pesquisados na história da ditadura e, também, um
dos mais difíceis, devido à escassez de dados empíricos.
Dessa maneira, só podemos arriscar algumas análises
provisórias, sujeitas a revisão caso apareçam mais
evidências no futuro.
Se é tão controverso do ponto de vista político e tão difícil
de abordar devido à escassez de fontes documentais, por
que correr o risco de incluir o tema no livro? Primeiro,
porque é preciso encarar a realidade de que a ditadura
obteve apoio de uma parte da população, inclusive para
suas medidas repressivas. Esse fato deve ser reconhecido,
pois de outro modo ficaríamos com a impressão,
infelizmente equivocada, de que a ditadura foi obra de uma
minoria “alienígena” que impôs ao povo brasileiro um
regime autoritário. Deixando de lado a metáfora, o que
realmente importa questionar neste caso é a crença de que
a ditadura foi obra apenas dos militares.1
Reconhecer que a ditadura teve apoio de uma parte da
sociedade e contou com larga participação de civis importa
não apenas para compreendermos a essência daquele
regime autoritário, ou seja, para avançar o conhecimento
sobre sua história, mas também para refletirmos sobre a
dificuldade de se construir uma verdadeira democracia no
Brasil, problema muito atual. O conhecimento mais acurado
do tema poderá contribuir para a superação do
autoritarismo, que tem fortes raízes no país, ao contrário da
crença em visões mais confortáveis, mas, infelizmente
falsas, de que a grande maioria recusou e resistiu à
ditadura. Em outras palavras, a ditadura teve apoio de
grupos importantes,2 e é necessário compreender como e
por que isso se deu, pois de outra forma seria difícil explicar
um regime autoritário com duração de vinte anos.
Em segundo lugar, vale a pena enfrentar esse tema e
analisá-lo com cuidado para evitar o risco oposto, que seria
aceitar versões de que a ditadura dispôs de amplo e
duradouro apoio popular. Além de exagerar o consenso em
torno do regime militar, tais visões podem gerar outro
equívoco: a tendência a minimizar as ações de oposição e
de resistência. Em suma, o objetivo é enfrentar esse debate
de maneira franca, com arrojo para entrar em temas
polêmicos, mas com o cuidado de buscar ancoragem em
evidências documentais. Para fundamentar essa análise
vamos lançar mão das fontes disponíveis, principalmente
dados de pesquisas de opinião e registros sobre
comemorações e eventos cívicos públicos, bem como
resultados das eleições realizadas durante o período.
Para entender por que uma parte da sociedade apoiou o
regime militar é necessário levar em conta as estratégias
utilizadas pelo Estado para conquistar sua simpatia. A
ditadura controlava o poder de Estado e por isso dispunha
de amplos recursos coercitivos para obter a submissão da
sociedade. Entretanto, a coerção não é suficiente para
garantir a dominação estatal. Qualquer tipo de governo,
mesmo os mais violentos e repressivos, depende de uma
mescla de coerção e consenso para manter-se no poder.
Essa discussão atraiu a atenção de pensadores clássicos da
teoria política, com destaque para nomes como Nicolau
Maquiavel, Max Weber e Antonio Gramsci. A peculiaridade
das ditaduras é que elas dependem mais da coerção, em
comparação aos regimes democráticos, e suas estruturas
coercitivas não possuem a mesma legitimidade que é
alcançada no caso das democracias.
Os estudiosos do tema do consenso como fonte de
legitimação do Estado não entram em acordo quando a
discussão inclui as ditaduras. É complicado pensar na
existência de consenso em contextos autoritários, pois não
há plena liberdade para criticar os governantes e para a
circulação de ideias contrárias, o que pode distorcer e
superestimar a impressão de apoio ao Estado vigente.3
Nessa linha, o consenso social em torno de determinado
regime político só poderia existir se houvesse liberdade de
manifestação,4 com o que o conceito aplica-se melhor a
países com instituições democráticas. Além do mais, em
sentido comum a palavra “consenso” significa que a grande
maioria ou a totalidade de um grupo tem o mesmo
sentimento e concorda com algo. Como vai ser discutido
adiante, é difícil acreditar que a ditadura militar no Brasil
gozou de amplo consenso popular, e com certeza isso não
ocorreu se levarmos em conta todo o seu período de
duração. Por isso, preferimos considerar e avaliar o apoio
social à ditadura, que não pressupõe adesão majoritária ao
governo. Estudar o apoio à ditadura significa admitir que ela
teve aceitação popular, mas não necessariamente que foi
consensual.
Para não depender apenas da força para manter seu
poder, as ditaduras investem em diferentes estratégias para
atrair o apoio popular, o que obviamente envolve um
grande esforço de propaganda. A ditadura brasileira não foi
diferente, inclusive porque os militares davam grande
importância ao que chamavam de ações psicológicas, que
consistiam em estratégias para influenciar a opinião
pública. A ditadura despendeu recursos elevados em
publicidade e chegou a possuir órgãos especializados para
moldar a opinião pública, como a Assessoria Especial de
Relações Públicas (Aerp, 1968-74) e a Assessoria de
Relações Públicas (ARP, 1976-9).5 Ademais, o regime militar
criou o Ministério das Comunicações, órgão estratégico por
controlar a concessão do direito de explorar estações de
rádio e televisão, além de gerir a distribuição de verbas
publicitárias para a imprensa, meios importantes para
conquistar a boa vontade da mídia empresarial.
A propósito, levar em conta o papel da imprensa é
indispensável quando a pauta é o debate público e a opinião
política dos cidadãos. Em capítulos anteriores comentamos
brevemente que a imprensa foi fundamental para a
divulgação de imagens ameaçadoras relacionadas ao
governo Goulart, sobretudo o tema do perigo vermelho.
Com isso, os grandes meios de comunicação deram
contribuição significativa para a derrubada de Jango6 e, na
sequência, se colocaram em lugar destacado entre os
vencedores. Alguns editores de grandes jornais
reivindicaram o papel de agentes “revolucionários”, e por
isso cobravam das novas autoridades o direito de serem
ouvidos.7 Assim, de início, a grande imprensa (com raras
exceções) apoiou o golpe e a ditadura de boa vontade, em
defesa dos próprios interesses e convicções.
Mas, num momento posterior, algumas dissensões
começaram a surgir, e junto com elas críticas ao governo e
desconfianças frente a algumas atitudes, principalmente as
ações de censura. A grande imprensa aceitou sem
problemas a repressão aos periódicos de esquerda, mas não
gostava de ser censurada. Além disso, houve divergências
quanto aos rumos da política econômica. Assim, os
governos da ditadura contaram com o apoio da imprensa
sempre (ou quase) que se tratou de calar as vozes de
esquerda, mas, em relação a outros temas, não havia
colaboração fácil, e ela tinha de ser cultivada por outros
meios. De maneira geral, a imprensa ajudou a ditadura e
partilhou seus valores, mas, nos momentos em que houve
discordâncias, alguns jornais sofreram censura.8 Seja como
for, e embora a imprensa seja obviamente importante, não
se deve exagerar a sua influência, pois nem sempre suas
posições são aceitas de maneira acrítica, e por vezes
apenas reforçam visões preexistentes.
As mobilizações públicas pelo golpe e as pesquisas de
opinião
Para iniciar nossa análise, uma das opções é enfocar as
mobilizações públicas que antecederam o 31 de março,
como as Marchas da Família com Deus pela Liberdade, que
levaram milhares de pessoas às ruas de algumas cidades
brasileiras com bandeiras conservadoras e anticomunistas.
Do lado favorável a João Goulart, o evento público mais
importante foi sem dúvida o Comício da Central do Brasil,
no Rio de Janeiro. Tais episódios revelaram a existência de
uma intensa polarização política opondo as forças de direita
às de esquerda, atraindo o alinhamento de grande parte da
sociedade a um dos campos, embora o número de indecisos
e indiferentes fosse grande também.
Interessante lembrar que um percentual elevado da
população não fazia parte da cidadania ativa,
principalmente pela exclusão dos analfabetos do direito ao
voto, o que só foi corrigido com a Constituição de 1988.
Para que se tenha uma ideia dos efeitos dessa exclusão, nas
eleições presidenciais de 1960 apenas 18% dos brasileiros
votaram, enquanto no primeiro turno das eleições de 2018 o
número de votantes foi de 55% em relação à população
total.9 O recente aumento do número de votantes tem
relação também com fatores demográficos, mas não há
dúvida de que a exclusão dos analfabetos tinha grande
impacto. Alguns conseguiam se registrar como eleitores ou
atuavam politicamente mesmo não votando; ainda assim, a
exclusão eleitoral dessas pessoas implicava também
exclusão política.
Voltando às mobilizações de rua em 1964, os dados sobre
o número de participantes são vagos e imprecisos, com
estimativas que apontam maior presença na Marcha da
Família com Deus pela Liberdade realizada em São Paulo do
que no Comício da Central do Brasil. É difícil afirmar
cabalmente que isso representava maior apoio social aos
golpistas, pois precisaríamos de mais detalhes sobre a
organização e a infraestrutura dos eventos para avaliar o
impacto dos incentivos oferecidos para atrair público. Além
disso, seria necessário levar em conta as maiores
dificuldades de mobilização para a população de mais baixa
renda em comparação às classes médias, sendo que, de
acordo com relatos contemporâneos, o último grupo foi o
público principal das Marchas da Família com Deus pela
Liberdade.
Outra fonte interessante para avaliar o posicionamento
político dos cidadãos no contexto são as pesquisas de
opinião. Existe um conjunto de enquetes realizadas pelo
Ibope entre 1964 e 1965 muito úteis à nossa reflexão.10
Naturalmente, é preciso ter cuidado crítico com essas
pesquisas e não as considerar uma expressão pura e
simples da verdade. Primeiro porque revelam apenas
opiniões momentâneas dos entrevistados, cujas respostas
podem ser induzidas, dependendo do tipo de questionário.
Além disso, em certas circunstâncias, o interesse de fazer
uso político dos resultados gera manipulações e
falsificações. Ademais, era sempre elevada a proporção de
abstenções, ou seja, das pessoas que preferiam não
responder, ou que optavam por “Não sei” e “Não opina”.
Outro limite dessas pesquisas é o fato de se restringirem a
algumas cidades, em geral São Paulo ou Rio de Janeiro
(Guanabara), já que na ocasião praticamente não se faziam
enquetes nacionais.
Apesar das ressalvas, há razões para atenuar o ceticismo
e aceitar o valor desses documentos como fontes de
informação. Em primeiro lugar, em geral essas pesquisas
não se destinavam à publicação, o que nos faz descartar o
interesse de manipular a opinião popular. O objetivo dos
realizadores e dos financiadores das pesquisas era obter
dados para planejar ações políticas e avaliar os resultados
de certas campanhas de propaganda. Em alguns casos,
tem-se a impressão de que foram encomendas do governo
militar para avaliar a recepção social a seus projetos.
Ademais, o fato de as pesquisas restringirem-se a algumas
cidades não reduz sua representatividade, pois se tratava
das metrópoles mais importantes do país, que
influenciavam as outras regiões. Além disso, a comparação
entre os resultados colhidos nas duas metrópoles revela
certa congruência nas opiniões. Finalmente, a suposição de
que os entrevistados poderiam ter medo de falar a verdade
em um contexto autoritário não parece relevante, pois em
alguns casos as respostas majoritárias foram contrárias aos
interesses da ditadura.
Na análise dessas pesquisas de opinião, um dos maiores
desafios é entender as oscilações — e o contraste — entre
atitudes de apoio a João Goulart, pouco antes da sua
derrubada, e de concordância com a sua queda, logo depois
do golpe. Uma das pesquisas mais completas foi realizada
na cidade de São Paulo entre os dias 20 e 30 de março de
1964. Os temas mais importantes abordados foram a
avaliação do governo Goulart, o apoio às reformas de base e
as opiniões frente ao comunismo. Considerando o primeiro
ponto, o governo Jango foi considerado ótimo/bom por 42%
dos paulistanos, regular para 30% e mau/péssimo para
apenas 19%. Os dados mostram que, às vésperas da sua
deposição, o presidente tinha imagem majoritariamente
positiva entre os paulistanos.
Quanto às “reformas de base”, a pesquisa inquiriu se os
entrevistados as consideravam necessárias ou não. O
percentual de pessoas que consideravam as reformas
desnecessárias era muito pequeno (7%), enquanto a opção
de que as reformas eram necessárias e urgentes foi a
preferida de 40%. A opção de que as reformas eram
necessárias mas poderiam ser feitas sem pressa foi a
resposta de 39% dos entrevistados. Outras pesquisas
convergem com esses dados, especialmente enquetes
sobre a reforma agrária, que revelam apoio em torno de
70% em média nos levantamentos realizados em várias
capitais brasileiras. A proposta de reforma menos aceita
nessas pesquisas foi a que introduziria o voto dos
analfabetos, provavelmente pelo medo de que eles
votassem nos partidos de esquerda (49% responderam que
discordavam da medida, contra 46% a favor).
A propósito, um dos aspectos mais relevantes da pesquisa
foi mostrar a força da rejeição à esquerda. O tema do medo
à esquerda e especialmente ao comunismo foi explorado
em duas questões aplicadas na enquete, e os resultados
confirmam análises desenvolvidas anteriormente sobre o
impacto dos movimentos e discursos anticomunistas. Uma
das perguntas abordou a legalização do PCB, medida que
estaria sendo cogitada pelo governo Goulart. Na maioria, as
forças de direita eram contrárias à proposta, não obstante
alguns líderes preferissem legalizar o partido para melhor
controlar suas atividades. A enquete revelou que 80% dos
entrevistados paulistanos eram contrários à legalização do
PCB, contra apenas 13% favoráveis.
A outra pergunta explorou o tema do “perigo comunista”,
provavelmente para medir os efeitos públicos da campanha
de ataque contra os “vermelhos” no contexto prévio ao
golpe de 1964. Vale notar que a construção da pergunta
revela a força do imaginário anticomunista, pois o uso do
termo “perigo” já denota condenação. A princípio,
poderíamos pensar que a pesquisa iria induzir a resposta
dos entrevistados, mas havia a possibilidade de negar o
discurso anticomunista optando pela resposta “não é um
perigo”. Considerando os resultados, 32% dos entrevistados
responderam que havia um perigo comunista imediato e
outros 36% que se tratava de um perigo futuro, totalizando
68% os que escolheram referir-se ao comunismo como um
perigo. A opção de que não existia perigo comunista foi
escolhida por apenas 19% das pessoas.
Vale a pena mencionar uma última questão aplicada na
pesquisa em São Paulo. Os entrevistados foram perguntados
sobre quais seriam as intenções por trás dos atos do
governo de João Goulart, uma referência a seus discursos a
favor de mudanças constitucionais para realizar reformas,
principalmente no Comício da Central do Brasil, às medidas
para estatizar algumas refinarias de petróleo e aos decretos
que desapropriavam terras improdutivas às margens de
rodovias e ferrovias federais. A maioria (55%) respondeu
que o presidente adotava medidas de interesse público,
enquanto 16% escolheram a opção de que ele procurava
criar um regime comunista no Brasil e 10% responderam
que suas ações eram puramente demagógicas, para atrair
votos.
Os resultados da pesquisa de opinião realizada em São
Paulo no final de março de 1964 nos oferecem indicações
importantes. Primeiro, a de que o governo Goulart era bem
avaliado e de que a maioria apoiava as reformas sociais
defendidas por ele. Poucos dias antes do golpe que o
derrubaria, cerca de metade dos entrevistados confiava nas
intenções do presidente. Ao mesmo tempo, havia forte
sensibilidade anticomunista e temor contra ameaças à
ordem social. Muitos cidadãos apoiavam as reformas e
tinham boa impressão do governo Goulart, porém
repudiavam alternativas de esquerda mais radicais. O apoio
potencial a campanhas anticomunistas era grande, e, caso
as forças de oposição conseguissem “colar” a imagem de
Goulart ao “perigo comunista”, os efeitos políticos poderiam
ser marcantes.
A primeira pesquisa de opinião política do Ibope posterior
ao golpe foi realizada entre 12 e 22 de maio de 1964,
novamente na cidade de São Paulo. Os resultados dessa
enquete implicam um desafio analítico, pois revelam um
paradoxo em comparação com a pesquisa do fim de março
ao apontar uma guinada na opinião, já que a maioria se
mostrou favorável à derrubada de Goulart e aos expurgos
políticos, notadamente quando os alvos eram de esquerda.
Segundo a pesquisa de maio, 54% dos paulistanos
consideraram benéfica a derrubada de Goulart, contra
apenas 20% que disseram o contrário e 26% que
responderam não saber. Como explicar essa aparente virada
de opinião num período tão curto? Mudanças de opinião no
eleitorado ocorrem com frequência no Brasil, e, como se
verá, a avaliação do primeiro governo militar mudou
bastante entre 1964 e 1965. O que chama atenção no caso
dessas pesquisas é a maior rapidez do processo.
Em primeiro lugar, vale destacar que os 54% que
aprovaram a deposição de Goulart representam uma
maioria apertada, pouco mais da metade dos entrevistados.
Isso significa que o número dos que mudaram de opinião
talvez não tenha sido tão grande. Fazendo um exercício
hipotético, poderíamos supor que os 30% que achavam
Jango regular (em março de 1964) tenham se unido à
opinião dos 19% que tinham avaliação negativa, e que uma
parte dos simpatizantes do governo tenha mudado de
opinião no momento do golpe. Outra hipótese a considerar
é que a pesquisa do fim de março pode não ter medido o
impacto do agravamento da crise, sobretudo o episódio dos
marinheiros na Guanabara, entre 25 e 27 de março, que
teve influência marcante na desestabilização do governo
Goulart.
Principalmente, é preciso levar em conta a influência do
golpe bem-sucedido sobre a opinião dos cidadãos. Os
vitoriosos lançaram uma campanha discursiva para
convencer o público de que sua ação fora necessária e
interessava à maioria. Nesse sentido, a imprensa mais
engajada no golpe — a exemplo dos influentes O Globo e O
Estado de S. Paulo — empenhou-se a fundo na defesa do
“31 de março” e na crítica ao governo deposto e seus
aliados de esquerda. Não se trata de supervalorizar a
influência da mídia no tocante ao apoio ao regime militar,
afinal os valores que justificaram o golpe já faziam parte do
cenário político e, além disso, alguns veículos de imprensa
que apoiaram a derrubada de Goulart logo se afastaram da
opinião golpista e começaram a criticar as ações repressivas
do novo regime. Ainda assim, os discursos favoráveis ao
golpe predominaram na mídia nas primeiras semanas e
devem ter contribuído para mudar a opinião de parte dos
cidadãos.
Outra pergunta aplicada na mesma pesquisa (maio de
1964) permite avaliar a influência dos discursos golpistas,
confirmando o percentual de paulistanos que responderam
favoravelmente à derrubada de Goulart. A questão era: por
que razão Goulart foi derrubado? As opções oferecidas aos
entrevistados condensavam os principais argumentos
presentes no debate político, tanto à direita como à
esquerda. A opção mais escolhida (34%) foi que Goulart
caiu porque seu governo estava conduzindo o país para o
comunismo. A segunda opção mais escolhida (21%) foi que
Goulart foi derrubado por pretender fechar o Congresso e
tornar-se ditador. É importante notar que as duas opções
convergiam com os argumentos justificadores do golpe e,
juntas, somaram 55% das respostas, praticamente o mesmo
número dos que manifestaram a opinião (54%) de que a
saída de Goulart era benéfica para o país. A opção que ficou
em terceiro lugar (17%) entre os entrevistados paulistanos
correspondia à opinião de esquerda: Jango caiu porque
estava tomando medidas que contrariavam interesses de
grupos econômicos e financeiros, nacionais e estrangeiros.
É importante destacar uma diferença dessa pesquisa em
relação àquela feita anteriormente ao golpe quanto ao tema
da motivação anticomunista. Em maio de 1964, 34% dos
paulistanos associaram a queda de Goulart ao “perigo
comunista”. Esse resultado contrasta com os 16% apenas
que, em março, responderam que o plano reformista de
Goulart tinha intenções comunistas. Não é necessário
repetir a análise feita há pouco sobre as mudanças de
opinião, mas vale reiterar que, na pesquisa de março de
1964, o comunismo apareceu como um perigo imediato
para 32% dos entrevistados (e um perigo futuro para outros
36%), de modo que entre essa pesquisa e a de maio do
mesmo ano a imagem de Goulart foi definitivamente
associada ao perigo vermelho, tornando sua derrubada
justificável na visão de muitos.
Um detalhe importante sobre essas pesquisas é que elas
incluíam dados sobre a condição social dos entrevistados,
divididos entre classes A, B, C e D. Os resultados mostram
que havia nuanças de opinião política conectadas às
diferenças de posição social. Nas classes mais altas (A e B),
o índice de apoio à derrubada de Goulart foi maior do que
nas classes C e D, assim como foi maior a crença de que o
ex-presidente pretendia levar o Brasil para um regime
comunista. Essa informação se combina com os relatos
sobre o perfil dos participantes das Marchas da Família com
Deus pela Liberdade, que seriam integradas basicamente
pelas classes média e alta.
Em resumo, as manifestações de rua e os dados das
enquetes indicam uma opinião pública dividida em relação a
Goulart. Ele tinha muito apoio antes do golpe, assim como
havia boa aceitação popular para as reformas sociais,
especialmente a reforma agrária. Porém as pesquisas de
opinião mostram apoio de pouco mais da metade da
população (de São Paulo e Rio de Janeiro/Guanabara, ver
dados adiante) ao golpe, confirmando a existência de uma
polarização política no contexto de 1964. Fica evidenciado o
impacto das mobilizações de direita no período final do
governo Goulart, que convenceram muitas pessoas da
existência de uma grave ameaça à ordem.
No entanto, é fundamental destacar que a outra metade
dos cidadãos não apoiou o golpe ou mostrou-se
indecisa/indiferente em relação à queda de Goulart. Além
disso, as pesquisas não permitem concluir se toda a opinião
favorável ao golpe surgiu antes ou depois do evento. A
maioria de respostas simpáticas ao golpe registradas nas
enquetes de maio de 1964 pode ter surgido depois do
sucesso da ação militar, por influência do fato consumado
ou dos discursos dos vitoriosos, que tomaram conta do
espaço público e fizeram forte barragem discursiva em
favor da queda de Goulart. É difícil dizer, com os dados
disponíveis, quem tinha mais apoio às vésperas do golpe. O
certo é que, ao saírem dos quartéis, as Forças Armadas
desequilibraram a situação e resolveram o impasse político,
promovendo a derrubada de Goulart. Por isso seu papel no
golpe foi essencial. De qualquer modo, o apoio de certos
segmentos da sociedade não altera o fato de que 1964 foi
um golpe nas instituições e um ato autoritário. Esse apoio
apenas realça que os militares não agiram sozinhos. Além
disso, nem todos que aprovaram a queda de Goulart
desejavam uma ditadura na sequência: muitos foram
ludibriados. Significativamente, algum tempo depois do
golpe a ditadura sofreria problemas por perda de
popularidade, como logo veremos.
Vale a pena destacar a opinião anticomunista. O tema foi
abordado em outros capítulos, mas os dados dessas
enquetes revelam em mais detalhe o impacto da rejeição ao
“perigo vermelho”. Difícil saber o que “comunismo”
significava para essas pessoas, mas decerto elas não o
confundiam simplesmente com o projeto de reformas de
base, que tinha grande aceitação. Parece claro que a maior
fonte de temor não eram as reformas, tampouco uma
indisposição inata contra João Goulart: ele perdeu
legitimidade aos olhos de muitos cidadãos quando sua
imagem foi associada ao “perigo”, o que também estimulou
a aceitação dos expurgos políticos (prisões, cassações), que
não por acaso era maior quando os alvos eram
“comunistas”, como será mostrado a seguir.
Outras pesquisas do Ibope realizadas em São Paulo e na
Guanabara, em maio e junho de 1964, mostraram notável
apoio à cassação dos mandatos dos parlamentares
comunistas (74% a favor e apenas 12% contra), assim como
à prisão de líderes sindicais ligados aos comunistas (72% a
favor e apenas 12% contrários). Em outra enquete
perguntou-se aos entrevistados se eram a favor ou contra
as cassações em geral, decerto para fazer contraste com a
pesquisa anterior especificamente sobre os comunistas. O
apoio às “cassações em geral” foi menor do que o apoio ao
expurgo de comunistas, mas ainda assim era elevado: em
São Paulo, 57% manifestaram-se a favor das “cassações em
geral” e 15% contra; na Guanabara, 56% a favor e 21%
contra.
Outras enquetes realizadas nos meses iniciais da ditadura
permitem avaliar o tema do apoio social por um ângulo
diferente, pois exploraram as expectativas dos cidadãos
quanto ao futuro. Por exemplo, uma pesquisa realizada na
Guanabara em maio e junho de 1964 mostrou boa aceitação
inicial ao governo instituído pela ditadura. Uma das
perguntas era: “Pelas medidas tomadas no campo
econômico-financeiro, o que acha do governo Castelo
Branco?”. As respostas se dividiram da seguinte maneira:
51% dos entrevistados escolheram bom ou ótimo, 6% mau
ou péssimo e 21% regular.
Outra pesquisa, também na Guanabara, entre 24 e 29 de
junho de 1964, apresentou a seguinte pergunta, nada
ingênua: “Se Castelo Branco fizer um bom governo o sr.(a)
aceitaria que ele continuasse governando, mesmo sem
eleições?”. O plano de prorrogar o mandato do general já
estava em negociação nos corredores do poder, e a
pesquisa provavelmente foi encomendada para sondar
como seria recebido pela opinião pública. Do total de
entrevistados, 62% responderam que aceitariam Castelo
Branco governando depois do fim do mandato “legal”,
contra 28% contrários e 10% de abstenções. A resposta
deve ter animado os defensores da prorrogação, que afinal
foi aprovada pelo Congresso na segunda semana de julho.
Porém nem tudo eram flores para os militares e aliados
civis que tomaram o poder em 1964. Mesmo nas enquetes
realizadas logo após o golpe, cujos resultados foram mais
favoráveis ao novo governo, as respostas mostraram que o
apoio aos projetos autoritários tinha limites. Em pesquisas
feitas em maio de 1964 nas duas maiores cidades do Brasil,
perguntou-se qual a preferência quanto à forma de escolher
o presidente. De maneira muito convergente, 80% dos
cariocas e 77% dos paulistanos responderam que a melhor
forma era por eleições diretas, enquanto apenas 11% e
12%, respectivamente, disseram preferir eleições indiretas.
O significado político que podemos extrair dessas
pesquisas é importante. Muitos cidadãos apoiaram o golpe e
também os expurgos políticos, demonstrando aceitar
atentados contra a Constituição e desrespeito aos direitos
fundamentais em nome da defesa da ordem social. No
entanto, a grande maioria preferia manter o direito à
escolha direta dos governantes, o que implicava um limite à
aceitação de uma ditadura clássica. Em direção
convergente, a pesquisa realizada na Guanabara entre 24 e
29 de junho de 1964 apresentou um dado significativo:
questionados se, em princípio, o próximo presidente deveria
ser um civil ou militar, 59% dos entrevistados disseram
preferir que o sucessor de Castelo Branco fosse um civil,
contra apenas 16% favoráveis a um sucessor militar (e 25%
de abstenções).
Esses dados permitem a seguinte interpretação: mesmo
que o golpe e os expurgos tivessem alcançado a aceitação
da maioria, isso não implicava apoio em igual proporção ao
estabelecimento de uma ditadura. As pesquisas indicam
que o apoio social a um projeto autoritário duradouro era
instável e que não seria trabalho simples conquistar
legitimidade e estabilidade política para uma ditadura.
Os desafios políticos enfrentados pelos líderes do regime
autoritário apareceram de maneira mais aguda poucos
meses depois, em 1965, em pesquisa que mostra queda
significativa de popularidade do primeiro governo militar
entre os eleitores da Guanabara. A enquete realizada entre
5 e 13 de fevereiro de 1965 mostrou que a expectativa
positiva e o otimismo inicialmente dirigidos à ditadura
haviam passado. No caso da primeira pergunta, sobre a
situação econômica, a esmagadora maioria das respostas
(73%) apontou piora na comparação do primeiro ano do
governo militar (1964) em relação ao último ano de Goulart
(1963), uma evidência de que a política recessiva aplicada
pelos novos gestores da economia causou estragos. A
pergunta seguinte, sobre a satisfação com o governo
Castelo Branco, mostrou resultado igualmente ruim para o
general, em contraste com a situação do ano anterior: 46%
dos cidadãos cariocas disseram-se insatisfeitos, contra 45%
satisfeitos.
A insatisfação se confirmou nas respostas a outra
pergunta, que mediu o apoio popular a uma eventual nova
prorrogação do mandato de Castelo Branco. Enquanto em
junho de 1964 62% dos cariocas haviam se manifestado a
favor da continuação do ditador após o fim do seu mandato,
em fevereiro de 1965 a opinião havia mudado
drasticamente, conforme puderam observar os
pesquisadores do Ibope. Perguntados se a eleição para
presidente da República deveria ser realizada em 1966,
como previsto, ou se o mandato de Castelo Branco deveria
ser mais uma vez prorrogado, 75% dos entrevistados
preferiram a primeira opção, mostrando que desejavam
mudança no comando do país.
Outra pesquisa do Ibope, desta feita realizada no estado
de São Paulo em maio de 1966, mostra que a perda de
apoio se ampliara e não se restringia aos cariocas.
Questionados sobre seu grau de satisfação em relação ao
primeiro presidente militar, os paulistas responderam da
seguinte forma: 21% estavam muito satisfeitos, 35% pouco
satisfeitos e 33% nada satisfeitos, enquanto 11% preferiram
não opinar.11 Essas enquetes confirmam versões sobre a
impopularidade do governo Castelo Branco ao final do
mandato, o que teria levado o segundo presidente militar,
Costa e Silva, a elaborar estratégias para reconquistar
prestígio.
Eleições parlamentares e festividades públicas como
estratégias de legitimação
Frente ao seu primeiro teste eleitoral, as eleições estaduais
de 1965, a ditadura que se dizia respaldada pelo povo
reagiu suprimindo o principal instrumento de consulta
democrática: a eleição direta para presidente. Com essa
decisão, contrariou a vontade popular de escolher os
governantes, que havia se manifestado nas enquetes de
opinião. Diante desse fato, devemos colocar em dúvida a
solidez do apoio social ao regime autoritário. No fim das
contas, a ditadura foi instaurada exatamente para impor à
população governantes que não teriam respaldo caso
ocorressem eleições livres.
Uma das medidas do AI-2, instaurado logo após o
resultado adverso nas urnas, foi o estabelecimento do
bipartidarismo, cujo propósito era propiciar ao regime
autoritário um partido oficial (Arena) para sustentá-lo nas
eleições e no Congresso.12 As eleições parlamentares (já
que não ocorreram mais eleições para governadores e
presidente) nos oferecem outra possibilidade de avaliar o
apoio social à ditadura. Porém, da mesma forma que no
caso das pesquisas de opinião, existem algumas limitações.
Primeiro, o voto para deputados e senadores no Brasil
muitas vezes é decidido por interesses locais, por isso
geralmente as questões políticas mais amplas têm pouco
peso nas eleições proporcionais. Segundo, a proximidade
com o governo costuma trazer vantagens ao partido oficial,
que conquista votos não necessariamente por afinidade
ideológica. Terceiro, a repressão dificultou o debate político,
principalmente nas fases mais agudas, o que aliás levou a
um aumento importante dos votos nulos e brancos.
Mesmo levando em conta essas ressalvas, os resultados
eleitorais contribuem para a avaliação da popularidade da
ditadura, ou para analisar o seu declínio, a depender do
momento. De maneira geral, a Arena colheu bons resultados
entre 1966 e 1974, tanto nas eleições para deputados e
senadores como nas eleições municipais, ressalvando que
não havia escolha direta para prefeitos de capitais e de
cidades consideradas áreas de segurança nacional.
No período pós-68, o regime militar foi beneficiado pelos
resultados do “milagre econômico”, ou seja, pelo aumento
das taxas de crescimento bruto do PIB. O entusiasmo com a
expansão econômica e industrial favoreceu a sua
legitimação entre alguns setores da sociedade, embora esse
crescimento implicasse graves problemas sociais, como
será mostrado em outro capítulo. Apesar dos problemas
escondidos sob a propaganda do “milagre”, não há dúvida
de que o crescimento econômico foi uma importante fonte
de legitimação. Na verdade, era esse o objetivo (entre
outros) do governo Costa e Silva ao reorientar a política
econômica. A expansão econômica foi buscada para
atenuar a perda de apoio ocorrida durante o período final de
Castelo Branco, que se intensificou na fase de protestos de
rua de 1967-8. O maior beneficiário da nova fase foi o
presidente general Emílio Médici, que governou durante o
auge do “milagre” e por isso se tornou uma das figuras mais
populares (a seu tempo) da ditadura.13
No entanto, não se deve exagerar os efeitos eleitorais e
políticos do “milagre”. Afinal, o regime autoritário colheu
derrota nas eleições de 1974, o que surpreendeu analistas
políticos e o próprio governo. Os resultados eleitorais desse
ano serão analisados com mais detalhe em outro capítulo.
Neste momento, importa destacar que o partido de
oposição tolerado pelo regime autoritário (MDB) ganhou
dezesseis das 22 vagas em disputa no Senado, e na votação
para a Câmara dos Deputados quase empatou com a Arena,
recebendo cerca de 11 milhões de votos, enquanto o
partido oficial teve aproximadamente 12 milhões de votos.
A Arena elegeu mais deputados, em parte por ser
beneficiária das distorções do sistema eleitoral, mas o
crescimento do MDB foi impactante e mudou o quadro
político. Por isso, as eleições de 1974 foram consideradas
uma derrota do governo. A partir de então a ditadura
trabalhou para limitar o crescimento da oposição, lançando
mão de diferentes manobras casuísticas e atos autoritários
para não perder o controle do Congresso.14
Em resumo, os resultados eleitorais tampouco nos
oferecem indícios sólidos de consenso social em torno da
ditadura, que teve reveses em 1965 e resultados eleitorais
ainda piores em 1974 e nos pleitos seguintes. Mesmo
quando o governo ganhou eleições, os índices de abstenção
foram altos. Além disso, não se tratou de disputas
competitivas, pois candidatos da oposição sofriam pressões
e às vezes eram presos durante a campanha, o que servia
para lançar uma sombra de temor sobre os oponentes do
regime autoritário.
Há ainda outro tema que também pode contribuir para a
análise do apoio social à ditadura: as iniciativas estatais
para a organização de festividades cívicas públicas. Tal
como outros regimes autoritários, a ditadura militar
brasileira tentou atrair pessoas às ruas para que
demonstrassem seu apoio e lealdade ao Estado. O objetivo
era mostrar que ela tinha legitimidade popular, com a
intenção de impactar não apenas os apoiadores internos e
externos, como também os opositores. De maneira geral os
resultados não foram empolgantes, especialmente as
tentativas de tornar a data de 31 de março uma
comemoração cívica popular.
Logo no primeiro aniversário do golpe, houve iniciativas
para organizar festividades públicas e fixar a data no
calendário cívico nacional. Segundo os relatos de
testemunhas, inclusive de observadores interessados no
sucesso do governo Castelo Branco, como os diplomatas
norte-americanos, os resultados foram em média modestos.
Em São Paulo, cidade que cerca de um ano antes havia
presenciado a Marcha da Família com Deus pela Liberdade,
contra a esquerda e o governo Goulart, os organizadores do
31 de março de 1965 preferiram evitar eventos públicos e
fizeram apenas discursos em espaços fechados.15 Ainda em
São Paulo, em 19 de março de 1966 grupos de direita
tentaram comemorar o segundo aniversário da Marcha, mas
o evento atraiu público muito exíguo, cerca de quarenta
pessoas. Na mesma semana, protestos estudantis contra a
ditadura na capital paulista atraíram cerca de 2 mil
pessoas.16
Na fase inicial do regime militar, a comemoração mais
bem-sucedida do golpe se deu em Belo Horizonte, em 31 de
março de 1965. Para o evento, cuidadosamente preparado
pelas autoridades para atrair público, foi convidado o
próprio presidente Castelo Branco, além dos governadores
Carlos Lacerda, Ademar de Barros e José de Magalhães
Pinto, este organizador da festividade, todos com papel-
chave em 1964. No seu discurso para a multidão presente,
estimada em dezenas de milhares de pessoas, Castelo
Branco afirmou que não se tratava da comemoração de um
golpe militar, pois a derrubada de Goulart teria
representado a união de todas as forças nacionais para
salvar o Brasil da subversão.17 Um ano depois, no entanto,
na mesma Belo Horizonte, a festividade pelo segundo
aniversário do golpe não foi bem-sucedida, pois o seu ponto
alto, uma parada militar, foi assistido por poucas pessoas,
sendo que chamaram mais atenção panfletos contra a
ditadura lançados de prédios na área central.18
Ao longo dos anos seguintes, nas comemorações do 31 de
março realizadas em diferentes localidades do Brasil, em
geral as autoridades se limitaram a atos fechados em
quartéis, clubes ou igrejas, e a programas transmitidos
pelos meios de comunicação, até porque os protestos
públicos contra a ditadura aumentaram em 1967-8. Em
1970, no auge do “milagre” econômico e da repressão
política, o governo Médici se esforçou para dar brilho
popular aos festejos da data. Foram organizados paradas
militares e desfiles de estudantes em várias cidades, além
de jogo-treino da seleção brasileira de futebol no Maracanã
precedido de shows de artistas populares. O público
presente preencheu um quarto da capacidade do estádio de
futebol.19 Os resultados não devem ter empolgado, pois nos
anos seguintes o 31 de março voltou a ser comemorado
apenas com discursos e solenidades de menor porte. É
significativo que a ditadura não tenha cogitado tornar
feriado o 31 de março, ao contrário do Chile, em que o
ditador Augusto Pinochet transformou em feriado nacional a
data do golpe que derrubou o governo de Salvador Allende
(11 de setembro).
O evento público de maior sucesso da ditadura acabou
sendo a comemoração dos 150 anos da Independência, em
1972, que foi marcada por grande número de atividades,
com destaque para desfiles militares, torneios de futebol e o
translado dos restos mortais de Pedro I para o Brasil.
Amigavelmente cedidos pela ditadura de Portugal, os restos
do imperador foram levados a várias cidades antes de
serem depositados no Monumento à Independência (ou
Monumento do Ipiranga), em São Paulo.20
O programa de festividades do sesquicentenário atraiu
grande público21 e mobilizou os meios de comunicação e o
sistema escolar. Com certeza, muitas pessoas apreciaram a
iniciativa dos líderes da ditadura, até porque houve poucas
oportunidades para a manifestação de vozes críticas, dado
o grau de repressão vigente. Entretanto, é complexo avaliar
se a manifestação de patriotismo provocada pela
comemoração da Independência — um evento fundador da
nacionalidade, afinal — converteu-se integralmente em
apoio popular ao regime autoritário. Vale a pena lembrar
que, dois anos depois, a ditadura colheu um resultado
bastante ruim nas eleições de 1974.
AS MARCHAS DE 1964, os resultados das pesquisas de opinião e
as comemorações oficiais, considerando as ressalvas
apontadas, indicam que o golpe e a ditadura tiveram o
apoio de uma parte da população, principalmente das
classes médias e superior. Os dados apontam que
segmentos sociais expressivos receberam bem o golpe e
deram sustentação aos expurgos, mostrando pouco apreço
pelas instituições democráticas e pelos direitos civis. Tais
setores certamente consideraram o novo regime político
legítimo, ou ao menos aceitável. As enquetes ajudam a
entender por que parte da sociedade apoiou inicialmente a
ditadura, explicação que passa inexoravelmente pelo medo
de ameaças à ordem. No entanto, é preciso lembrar que
nem todos apoiaram o regime de exceção. Para além dos
que fizeram oposição e dos que resistiram, deve-se atentar
também para os indiferentes e os excluídos da cidadania.
A questão do apoio social à ditadura deve ser estudada
em dimensão temporal, observando-se as mudanças que
ocorreram com o passar dos anos. E foram vinte anos de
regime autoritário! As enquetes de 1964 e 1965 mostram
apoio inicial ao golpe e aos expurgos, mas também a
preferência por civis no poder e o desejo de eleger o
presidente por votação direta. Havia adesão a medidas
autoritárias, mas não necessariamente a uma ditadura
liderada pelos militares. Essa é certamente uma das razões
para a ditadura ter feito concessões à cultura liberal,
mantendo casas parlamentares abertas, eleições etc. Do
mesmo modo, reside aí uma explicação para o cuidado
constante dos líderes de 1964 em negar o caráter ditatorial
do Estado, com frequência fazendo loas à democracia e
prometendo seu pleno restabelecimento. As pesquisas
sugerem que os líderes devem ter agido assim porque
haveria pouca aceitação para uma ditadura “pura”.
Além da preferência por civis no comando e por eleições
diretas, as enquetes mostram a rápida erosão do apoio ao
governo Castelo Branco. Quanto aos resultados eleitorais e
às manifestações públicas de apreço ao regime, os dados
igualmente apontam que a ditadura teve momentos de
sucesso, mas também colheu grandes fracassos.
Nessas condições, em que a opinião política flutuou ao
sabor das conjunturas, é difícil falar em apoio consensual à
ditadura, no sentido de apoio majoritário. Uma formulação
nesses termos é pouco convincente, salvo se ajustarmos o
argumento para a existência de virtual consenso
anticomunista, ou seja, apoio majoritário a medidas
autoritárias contra a esquerda quando a sensação de
ameaça à ordem tornava-se aguda. Ainda assim, o apoio à
repressão antiesquerdista foi mais forte em certas
conjunturas, sendo que ao fim da ditadura já não mobilizava
tanto. No fim dos anos 1970, significativamente, tiveram
ampla circulação manifestações ridicularizando as
obsessões anticomunistas da ditadura e da direita radical.22
É certo que a aceitação da ditadura teve alguns
momentos de pico, em especial o período imediatamente
posterior ao golpe de 1964 e durante o entusiasmo em
torno do “milagre”, com destaque para a fase entre o
tricampeonato de futebol (1970) e as festas do
sesquicentenário (1972). Mas, tanto no período entre 1966
e 1968 quanto na fase que se seguiu às eleições de 1974,
as evidências mostram forte perda de popularidade e de
apoio social. Nos momentos de maior impopularidade, o
poder autoritário dependeu bastante das elites econômicas
para sua sustentação no comando do Estado,
principalmente dos empresários, e ancorou-se mais na força
militar e nos instrumentos repressivos.
De qualquer modo, as análises aqui só podem ser
provisórias e é preciso buscar mais evidências e aprofundar
o estudo desse tema. Mesmo assim, podemos afirmar com
certeza que o regime autoritário não encontrou sustentação
na maioria da população por todo o seu período de duração.
Afinal, se tivesse o consenso da população, por que a
necessidade de recorrer a constantes medidas autoritárias?
E de cassar o direito das pessoas de escolher seus
governantes? A constatação é quase óbvia, mas é
importante ressaltar: se os líderes de 1964 tivessem apoio
sólido e constante da maioria do povo, se governassem por
consenso, não haveria necessidade de instituir uma
ditadura para permanecerem no poder.
O apoio de grupos sociais expressivos, especialmente das
elites empresariais, foi fundamental para que a ditadura
durasse vinte anos. Porém, se não tivesse usado da
repressão e de outros meios coercitivos para conter seus
opositores, certamente ela não teria vigorado por duas
décadas. A ditadura teve apoio, sobretudo nos meses
iniciais, mas raramente gerou entusiasmo. Foi aceita por
muitos, tolerada por outros tantos e rejeitada por outro
grupo. Sem a força das armas, não teria sido instituída nem
duraria tanto.
Existe ainda um debate sobre a melhor forma para nos
referirmos à ditadura. O fato de que ela teve apoio de parte
da população e entregou cargos importantes a líderes civis
levou alguns autores a preferirem chamá-la de ditadura
civil-militar, e não apenas ditadura militar. A mesma
discussão envolve o golpe de 1964: golpe civil-militar ou
apenas golpe militar?
Preferimos a fórmula mais simples — golpe militar e
ditadura militar —, mesmo reconhecendo que os civis
tiveram participação fundamental em ambos, como está
claro. Não poderia ser de outra maneira, pois qualquer
regime autoritário depende do acordo entre parte das elites
militares e civis. Por exemplo, na ditadura do Estado Novo
(1937-45), o chefe era Getúlio Vargas, um civil, mas sem o
apoio militar ele não teria se tornado ditador. Nem por isso
dizemos que em 1937 surgiu uma ditadura civil-militar: o
que caracterizou a ditadura de 1937 foi a chefia exercida
por Vargas. Do mesmo modo, a característica essencial da
ditadura de 1964 foi o governo exercido pelos generais
presidentes. Os militares foram a espinha dorsal do golpe e
da ditadura. Sem eles, o governo Goulart não teria caído,
pois, como vimos, o presidente tinha apoio popular e a
opinião pública estava dividida. Os militares resolveram o
impasse, definiram a queda de Jango e instituíram uma
ditadura, que foi comandada por eles do princípio ao fim.
Por isso, melhor chamar o regime político instaurado em
1964 de ditadura militar, o que não implica reduzir a
responsabilidade dos seus apoiadores civis.
6. Aderir, resistir ou acomodar-se?
NESTE CAPÍTULO VAMOS APROFUNDAR a discussão sobre as diferentes
atitudes frente ao regime autoritário e analisar como os
grupos e as lideranças sociais reagiram à ditadura. Existem
distintas formas de apoio político aos governos, que podem
ser mais passivas ou ativas. Na seção anterior, enfocamos a
opinião política em relação à ditadura e formas de apoio
passivo, sobretudo, exceto nos casos das comemorações
públicas do golpe, quando as pessoas iam às ruas para
mostrar seu entusiasmo pelo regime político vigente. Agora,
a atenção se desloca para o estudo de atitudes mais
concretas diante do Estado autoritário, começando pela
análise do apoio ativo, principalmente na forma da adesão.
No entanto, também daremos destaque às atitudes
contrárias à ditadura, marcadas por gestos de recusa e de
resistência, e àquelas situadas em um espaço intermediário
entre aderir ou resistir, a que chamamos acomodação.
As atitudes sociais frente às ditaduras são um tema
estudado por pesquisadores tanto da América Latina como
da Europa.1 Um aspecto importante da questão é que os
conceitos envolvidos, principalmente resistência e
colaboração, fazem parte do vocabulário também dos
atores sociais, que os utilizam por vezes com fins políticos
ou a partir de cálculos oportunistas. Pois, dependendo do
momento, das convicções e dos interesses envolvidos, pode
haver mais vantagem em resistir ou auxiliar um regime
autoritário. Por isso, na época de declínio e impopularidade
da ditadura militar no Brasil, aumentou o número dos
“resistentes” e diminuiu o grupo de seus defensores.
Inicialmente, os estudos acadêmicos sobre o tema
utilizaram um esquema de análise mais simples e binário,
construído em torno do par resistência/colaboração. Essa
conceituação surgiu no período da Segunda Guerra Mundial,
em meio à luta contra o fascismo e a ocupação nazista,
expressando dicotomia simples entre os que resistiram e os
que colaboraram. Integrados ao vocabulário político, os dois
conceitos foram aplicados de imediato ao Brasil pós-64 por
grupos que se imaginavam diante de nova experiência
fascista. No entanto, como mostramos anteriormente, a
ditadura brasileira resultou de um arranjo complexo entre
setores liberais, conservadores e nacionalistas autoritários,
em que também havia lugar para os fascistas, mas em
posição minoritária. Desse modo, não é correto classificar
de fascista a ditadura militar pós-64, embora nas fases
agudas ela tenha atendido a algumas demandas desse
grupo.
Além disso, no Brasil não houve ocupação por forças
estrangeiras, ao contrário do que aconteceu na maior parte
da Europa dos anos 1940, o que torna o termo
“colaboração” deslocado para nossa realidade. É mais
adequado dizer que algumas pessoas participaram,
apoiaram ou aderiram ao regime militar — que não era
força de ocupação externa, mas construção política
considerada legítima por setores sociais significativos. Não
menos importante, reduzir as atitudes diante da ditadura ao
par antitético resistência/colaboração seria simplificar
demais as coisas. Mesmo no contexto da Europa da
Segunda Guerra, que deu origem à antítese, vários
pesquisadores têm mostrado que a classificação binária é
insuficiente para compreender as atitudes sociais ante os
Estados fascistas, pois uma parte das pessoas não
colaborou nem resistiu, assim como houve quem mudou de
uma posição à outra. Por isso, constatou-se a existência de
áreas intermediárias entre os dois extremos, que alguns
denominaram zona cinzenta e outros, espaço de
acomodação.2
No caso das atitudes em relação à ditadura militar
brasileira, as propostas de classificação devem considerar
igualmente um quadro complexo, em que muitos agentes
não resistiram nem aderiram, mas buscaram formas de
acomodação e convivência com o sistema autoritário. Daí a
nossa proposta de operar com estes três tipos básicos:
resistência, adesão e acomodação. Naturalmente, algumas
pessoas e instituições promoveram ações classificáveis em
dois ou mesmo nos três tipos, em momentos diferentes ou
simultaneamente — reiterando que havia também os
indiferentes e os excluídos.
Adesão
No início, a motivação principal das pessoas que aderiram
ao golpe e à ditadura — ou seja, que os apoiaram
ativamente — vinha da identidade de valores e objetivos
com os golpistas: derrubar o governo Goulart e expurgar as
esquerdas. O regime político daí resultante, cujo
compromisso era manter a ordem social e econômica em
vigor reprimindo os que a questionavam, atendia aos
anseios de muitas pessoas, principalmente das classes
médias e alta. Nesse ponto havia nuanças, pois parte dos
que aderiram à ditadura preferia que ela conservasse certas
instituições políticas liberais; porém, muitos nesse grupo
aceitavam sem maiores questionamentos o poder militar,
pelo menos no início. Assim, havia críticas a algumas ações
da ditadura e, às vezes, disputas sobre o significado do “31
de março”, mas se tratava de dissensões internas aos
grupos “revolucionários”.
A propósito, uma das formas de perceber a adesão à
ditadura é observando a linguagem, e, naturalmente, em
geral quem se referia a ela como “revolução” pertencia ao
campo favorável, enquanto os que perfilavam na resistência
recusavam o uso de tal termo. Um dos exemplos mais
destacados é a imprensa. A maioria da grande mídia não
apenas contribuiu para a construção e a legitimação do
golpe como aderiu à ditadura. Alguns proprietários de
jornais chegaram a jactar-se como “revolucionários” de
primeira hora e, nessa condição, demandaram dos militares
o direito de opinarem e serem ouvidos nas questões de
governo. Usaram o termo “revolução” mesmo quando
criticavam certos governos da ditadura, às vezes acusando-
os de traírem os princípios de “31 de março”.3 É importante
registrar que alguns veículos de mídia mudaram a
linguagem apenas nos anos 1980, deixando de lado
“revolução” e adotando termos como “regime militar” ou
“ditadura”, numa época em que procuravam esquecer ou
minimizar a atitude que haviam adotado antes.
Para além da grande mídia houve muitas adesões
também no conjunto dos setores empresariais, tanto rurais
como urbanos.4 De início, a motivação do empresariado
para apoiar o regime autoritário mesclava expectativas
econômicas (defesa da propriedade) a razões ideológicas. O
seu entusiasmo aumentou quando o novo regime se
mostrou alinhado aos interesses do capital e adotou
políticas favoráveis ao crescimento econômico e à expansão
dos lucros. Empresários entusiastas da ditadura
contribuíram com a máquina repressiva doando dinheiro ou
emprestando equipamentos,5 sendo que há denúncias de
que alguns chegaram ao ponto de participar de sessões de
tortura. Ademais, algumas empresas estabeleceram estreita
parceria com agências estatais tendo em vista a vigilância
política e a repressão a trabalhadores considerados ativistas
de esquerda, cooperando inclusive para que fossem presos
pelas forças policiais.6
Vale a pena destacar outro tipo de aderente, os
conservadores: pessoas e instituições que se identificaram
com o Estado autoritário por concordarem com as pautas de
defesa da tradição, dos “bons costumes” e da moralidade
cristã. Tais grupos tinham particular repulsa às esquerdas,
por considerarem que estas ameaçavam a família e as
instituições religiosas, com suas demandas modernas como
divórcio, aborto e liberdade sexual. Nesse caso, o
anticomunismo tocava menos as convicções políticas e mais
a moralidade e a religiosidade. A opinião conservadora via o
regime político comandado pelos militares como garantia da
defesa da ordem moral, por isso apoiava (e cobrava) ações
como a censura dos meios de comunicação e a punição aos
“corruptos”. Por tais razões, mas não somente, autoridades
religiosas apoiaram o golpe e a ditadura, a exemplo da
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que emitiu
uma declaração louvando os militares por derrubarem
Goulart, embora ao mesmo tempo criticasse a violência
contra os presos.7 Mais adiante, porém, muitas lideranças
religiosas se afastaram e denunciaram a ditadura, entrando
para o rol dos que resistiram.
Obviamente, ocorreram também muitas adesões nos
segmentos político, judiciário, policial e militar. Nesses
grupos a motivação era tanto a afinidade com os valores ou
os temores dos golpistas quanto o apego a cargos e
vantagens. Os fatores ideológicos pesaram mais nas
instituições que tinham valores direitistas arraigados,
especialmente as militares. Porém, mesmo entre os
militares o oportunismo deixou sua marca, pois alguns só
tomaram posição em 1964 quando tiveram certeza de
quem venceria. Aliás, pode-se incluir aqui uma
subcategoria: a dos adesistas, pessoas que aderiram sem
convicções políticas mas com grande entusiasmo para
apoiar o lado “certo”, o dos vencedores. Entre os adesistas
notórios podemos citar Petrônio Portella, que era próximo de
Goulart e se declarou contra o golpe no dia 31 de março —
o que quase lhe custou o cargo de governador do Piauí e os
direitos políticos — mas após a vitória dos golpistas aderiu
(e conseguiu preservar o cargo, tornando-se depois um líder
importante da Arena).
Nos meios culturais, acadêmicos e científicos também
houve adesões à “revolução”. Vale a pena fazer o registro,
pois há quem pense que nessa área houve somente
resistência. Nomes importantes da cultura brasileira
apoiaram ativamente a ditadura, como Gilberto Freyre,
Rachel de Queiroz e Adonias Filho, que tinham acesso às
altas esferas de poder e ajudaram na construção da política
cultural do regime militar. Junto a outras figuras do mundo
intelectual, eles ocuparam assento no Conselho Federal de
Cultura, órgão criado no final do governo do general Castelo
Branco.8 Alguns se afastaram dos militares em um segundo
momento, descontentes com o incremento da violência e da
censura, mas, em geral, não renegaram seu apoio ao golpe.
Em meio aos apoiadores da ditadura na área científico-
universitária foram recrutados auxiliares de destaque, em
especial ministros influentes como Luís Antônio Gama e
Silva, Alfredo Buzaid, Flávio Suplicy de Lacerda, Delfim
Netto e Raymundo Moniz Aragão, entre outros, todos
professores universitários. Além disso, alguns reitores
atuaram de maneira afinada com a ditadura, inclusive no
tocante às políticas repressivas, aceitando vetos à
contratação de docentes tidos como subversivos e vigiando
os estudantes. Houve também expurgos antes que essa
prática se tornasse diretriz oficial, com o decreto n. 477, de
fevereiro de 1969, que autorizava o desligamento de
discentes das escolas superiores pelo prazo de três anos.9
Além disso, certos reitores começaram a exigir atestado
ideológico para contratação de docentes e servidores sem
que houvesse determinação legal para tanto. Muitos reitores
e diretores promoveram intervenções em diretórios
estudantis, mandaram recolher publicações e cartazes,
proibiram palestras e eventos acadêmicos. Parte deles
manteve contato com os órgãos de segurança para facilitar
a repressão dentro dos espaços universitários. A propósito
dos estudantes, embora a maioria de suas lideranças se
identificasse mais com as forças de resistência, também
havia um setor de direita militante, sendo que alguns eram
radicais ao ponto de integrar entidades terroristas como o
Comando de Caça aos Comunistas.10
Professores sem cargos administrativos também
auxiliaram nas campanhas repressivas, denunciando
colegas e estudantes, em geral com cartas anônimas, às
vezes entregando informes secretos. Ocorreram também
delações a colegas feitas em juízo, de modo a oferecer
evidências que fundamentassem a condenação. Houve
profissionais de saúde, às vezes docentes universitários,
que assessoraram sessões de tortura com seu
conhecimento médico.11 Na maioria desses casos tratava-se
de pessoas com militância na direita radical, às vezes
simpatizantes do fascismo. Porém, também campeava o
oportunismo, uma vez que certas delações visavam afastar
concorrentes ou inimigos pessoais.
Além dos termos “adesão” e “adesismo”, podemos falar
propriamente de colaboracionismo no caso dos que se
prestavam a colaborar com as agências de repressão. A
maioria jamais foi identificada, até porque os órgãos de
informação tinham interesse em protegê-los. Mas este
comentário ficaria incompleto — e injusto — se não
acrescentássemos que algumas pessoas colaboraram por
força de ameaças e de coação.
Resistência
Antes de entrar no tema é importante esclarecer o
significado de resistência, cujo sentido básico é o de opor-se
e rejeitar algo, seja uma forma de opressão social ou de
dominação político-cultural. A resistência pode ser contra
um governo ou regime político, ou contra outro tipo de
poder social considerado opressivo. Existe uma tradição no
pensamento político de reconhecer o direito à resistência
contra a tirania em nome da liberdade, inclusive fazendo
uso de violência. Por outro lado, o termo “resistência”
também faz parte da tradição militar, em que resistir
significa opor-se e não permitir a vitória do inimigo
armado.12
O significado de resistência mais adequado ao nosso caso
seria o de conjunto de atos de recusa ao poder instituído
considerado ilegítimo ou opressivo, sendo que tais ações
podem se expressar de diferentes maneiras. Resistir
significava opor-se à ditadura e inviabilizar seu sucesso e
continuidade no poder, implicando a tentativa de remover
seus líderes do comando do Estado. Outra dimensão da
resistência, e mais importante para certos grupos, é que ela
significava rejeitar os valores político-culturais defendidos
pela ditadura, por exemplo o conservadorismo moral ou a
visão elitista de que o povo brasileiro não estava apto a
governar-se. Resistir era ainda rejeitar os planos econômicos
oficiais, especialmente a expansão da economia com base
em concentração de renda.
Resistir à ditadura, portanto, implicava rejeitá-la
integralmente e buscar meios de derrotá-la. Quem resiste a
determinado regime político espera vê-lo destituído e
substituído, mesmo sem ter clareza ou divergindo sobre o
futuro desejado. Por isso, é importante estabelecer algumas
distinções quanto às formas e aos objetivos da resistência.
Por outro lado, para esclarecer a questão é necessário
também considerar que havia formas de opor-se à ditadura
sem rejeitá-la totalmente. Além (ou aquém) da resistência
havia atitudes como a dissensão e a oposição, que não
implicavam rejeição integral do regime militar, apenas de
parte de suas ações. Ademais, havia grupos que não se
identificavam com o Estado autoritário mas não se
manifestaram, permanecendo na expectativa, caso que se
aproxima da acomodação, a ser discutida logo adiante.
Vale a pena analisar com mais atenção certas formas de
oposição que não implicavam necessariamente a resistência
e eram toleradas, dentro de certos limites, pelo próprio
Estado autoritário. A ditadura brasileira admitia a oposição e
a considerava necessária para o funcionamento do seu
sistema político, o que nem sempre era o caso em outros
regimes de mesmo tipo. Para ela, era aceitável uma
oposição leal ao sistema, que criticasse certas ações de
governo, mas sem questionar os fundamentos do regime
político. Essa era a função planejada para o MDB, partido que
integrava o sistema político desde 1966, cujo papel era
ocupar o lugar da oposição legal, consentida, fazendo
críticas leves e construtivas sem negar as bases essenciais
da ditadura. O mesmo papel deveria desempenhar a
imprensa, cuja liberdade relativa tinha como limite a
lealdade aos fundamentos do regime político.
Portanto, é importante atentar para a existência de
peculiaridades distinguindo oposição e resistência. Resistir
significava dar um passo além da oposição e rejeitar não
apenas certas políticas, mas o sistema como um todo. Na
visão da ditadura, isso implicava a entrada no terreno
perigoso da subversão e da ameaça à “segurança nacional”.
E sempre que os limites da oposição considerada tolerável
foram transpostos, a repressão estatal foi acionada. No caso
da imprensa, isso levou à aplicação da censura e de
pressões econômicas contra os periódicos, ou então
sanções e ameaças contra certos jornalistas. Quanto ao MDB
— e, em alguns casos, parlamentares da Arena —, a
resposta do regime autoritário foi a cassação de mandatos,
a suspensão de direitos políticos e, no limite, o fechamento
temporário das casas legislativas. Alguns parlamentares do
MDB também chegaram a conhecer os cárceres da ditadura.
No entanto, não podemos incluir o MDB integralmente no
campo da resistência. Na verdade, uma ala minoritária do
partido nem sequer fazia oposição, tratando-se mais de um
grupo de apoiadores discretos da ditadura. A maioria do
partido estava de fato no campo da oposição parlamentar,
só que nem todos os emedebistas negavam o sistema
vigente, pois parte deles aceitava os princípios essenciais
da ditadura. O grupo do MDB que resistia efetivamente era
minoritário, porém aumentou na medida do declínio da
ditadura. Os resistentes do MDB eram os que se recusavam a
aceitar a legitimidade do golpe, dos atos institucionais e da
Constituição de 1967, esperando pela oportunidade de uma
redemocratização que eliminasse as instituições autoritárias
criadas pela ditadura. Tais lideranças parlamentares em
geral eram receptivas às demandas dos movimentos sociais
e dos movimentos em defesa dos direitos humanos,
contribuindo com a sua causa.
Não era fácil resistir à ditadura atuando pelo MDB, tanto
porque a simples existência do partido servia à legitimação
do Estado autoritário, e por isso era criticada pelas forças de
resistência, como porque sua ala resistente era alvo da
repressão estatal. Com o passar dos anos, especialmente
depois de 1974, as coisas ficaram mais simples, pelo menos
no tocante à imagem do partido entre as forças de
resistência.13 Derrotados, os grupos que antes apostavam
em ações armadas reviram suas posições, o que contribuiu
para elevar o prestígio do MDB. Com isso entramos na
discussão sobre a principal disputa no campo da resistência
à ditadura: resistência democrática ou armada? Esse foi um
debate quente na segunda metade dos anos 1960, que
dividiu as esquerdas e afetou o campo progressista.
No lado da resistência democrática se destacava o PCB,
que, com base em experiências fracassadas do passado, via
na luta armada um caminho sem saída. O tradicional partido
defendeu a criação de frentes envolvendo outras forças
democráticas e o fortalecimento do MDB. Isso gerou
sucessivos “rachas” internos, com grupos defensores da
luta armada saindo (ou sendo expulsos) para criar
organizações guerrilheiras, especialmente ALN, PCBR e MR-8.
Outras organizações marxistas encaminharam-se
igualmente para a luta armada, a exemplo do PCdoB e de
militantes egressos da Polop, assim como parte da esquerda
cristã (um segmento da Ação Popular) e dos nacionalistas
de esquerda, principalmente os brizolistas e os militares
expulsos das Forças Armadas.14
Com a radicalização da ditadura a partir do AI-5 — aliás,
bem recebida por alguns líderes guerrilheiros, que
esperavam com isso intensificar o recrutamento, na medida
em que se dava o confronto com as forças de repressão —,
o apelo da luta armada tornou-se muito forte no campo das
esquerdas. O fechamento do Congresso e a nova onda de
cassação de mandatos parlamentares e direitos políticos
tornavam pouco sedutora a posição da resistência
democrática. Porém, em pouco tempo ficou claro que a luta
armada não derrotaria a ditadura. A resposta violenta (e
desumana) do Estado rapidamente dizimou os grupos
guerrilheiros, que não conquistaram apoio popular
relevante.
Há uma polêmica sobre a adequação dos guerrilheiros ao
campo da resistência, pelo fato de que muitos lutavam
simultaneamente por uma revolução socialista. No entanto,
embora não pretendessem se limitar à restauração da
democracia liberal após eventual derrota da ditadura, nem
por isso seu pertencimento à resistência deve ser
questionado.15 Conforme vimos, o uso da violência como
recurso para resistir à tirania e à opressão é também parte
da tradição do conceito de resistência, tanto no pensamento
político quanto na cultura militar. Nesse sentido, os
guerrilheiros adotaram a forma de resistência mais aguda, e
também a mais arriscada. O que se pode dizer é que não
perfilavam necessariamente a resistência democrática, no
sentido há pouco explicado.
Mais relevante — e difícil — é questionar os efeitos
políticos da luta armada. Ela contribuiu efetivamente para a
derrota da ditadura? De início, claramente não, pois o
Estado se armou com mais instrumentos repressivos e
tornou-se ainda mais autoritário e violento. Além disso, a
direita radical aproveitou a ocasião para ampliar seu espaço
de poder no interior do Estado autoritário. Não há dúvida de
que os cálculos políticos da liderança guerrilheira estavam
equivocados e o preço a pagar foi alto, pois a maioria foi
trucidada pelas forças de repressão e a violência política se
incrementou. De qualquer modo, a derrota da luta armada
acabou por fortalecer as estratégias de resistência
democrática, tanto na forma de participação no sistema
político, com o voto e às vezes a atuação no MDB, que
ganhou maior densidade, como pela via do investimento
nos movimentos sociais.
Estes últimos, a propósito, tiveram destaque no campo da
resistência não armada ou democrática. Os sindicatos de
trabalhadores protagonizaram muitas ações desse tipo, seja
questionando as políticas estatais que arrochavam seus
salários ou cortavam direitos sociais, seja criticando as
intervenções autoritárias no comando das entidades
associativas. É verdade que alguns trabalhadores aceitaram
o papel de interventores nos sindicatos anteriormente
dirigidos por líderes de esquerda, portando-se como
aderentes à ditadura, enquanto outras lideranças fizeram
um jogo de acomodação com o regime militar. No entanto,
muitos líderes operários resistiram, atuando por dentro ou
fora dos sindicatos, e suas principais formas de luta foram
as greves.
Em contexto ditatorial, participar de greves era em si um
ato de resistência. Na primeira fase da ditadura, as
principais paralisações ocorreram em 1968, nas cidades
industriais de Contagem e Osasco.16 Devido ao momento de
radicalização política, não causa estranheza que alguns de
seus líderes tenham participado da luta armada logo na
sequência. No entanto, nos momentos em que era mais
difícil e arriscado fazer greves, os trabalhadores resistiram
de outras formas, principalmente adotando estratégias de
redução do ritmo de trabalho para mostrar sua
insatisfação.17
O segundo ciclo grevista coincidiu com — e contribuiu
para — a fase de declínio da ditadura. O marco inicial foi a
greve dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo, em
1978, que estimulou a eclosão de uma série de paralisações
em diferentes setores da economia e também do serviço
público. Centenas de greves ocorreram nos anos seguintes,
contribuindo para minar o poder da ditadura e abrir
caminho à transição democrática.
Ainda tratando dos setores populares, trabalhadores
rurais, camponeses e indígenas igualmente empreenderam
ações de resistência. Parte deles não se engajou em atos de
rejeição à ditadura como regime político, mas ainda assim
houve resistência aos projetos econômicos oficiais, na
medida em que eles lutaram por suas terras e para
preservar sua cultura.18 Além desses grupos, importa
destacar várias entidades e formas de organização que
atuaram em defesa dos direitos humanos, da anistia para os
presos políticos, pela melhoria das condições de habitação
urbana, contra o aumento do custo de vida,19 a favor dos
direitos das mulheres e dos negros, em defesa da ampliação
de direitos sociais e da proteção ao meio ambiente. A luta
contra a ditadura, por sinal, serviu de estímulo para a
proliferação de entidades associativas demandando a
democratização não apenas do Estado, mas também da
sociedade.
Os estudantes universitários e suas entidades
representativas foram outro setor a se destacar em atos de
resistência, e com grande impacto público. Começando a
agir já em 1965, a liderança estudantil protagonizou
inúmeros protestos. Em comparação aos trabalhadores, os
estudantes tiveram a vantagem de atrair inicialmente
menor carga repressiva, pois muitos tinham origem nas
classes médias. Assim, de acordo com os costumes do país,
em geral recebiam melhor tratamento, e, além disso, não
tinham o medo de perder o emprego. Porém, tal proteção
diminuía quando se envolviam com a esquerda
revolucionária, e não à toa os estudantes aparecem em
grande número nas listas dos mortos pela ditadura.
No caso dos universitários, as ações de resistência
ocorreram tanto nos espaços acadêmicos como em locais
públicos. Quanto às ações “internas”, desde o final de 1964
começou a prática de usar cerimônias de colação de grau
como ato de denúncia, com discursos desafiadores dos
representantes de turma e a escolha de paraninfos
desafetos do regime militar. As cerimônias de colação de
grau politizadas continuaram até o fim da ditadura. Porém,
as ações mais intensas se deram nas ruas, com protestos,
passeatas e ocupações de prédios universitários em ritmo
ascendente entre 1965 e 1968. Depois do AI-5 as
mobilizações arrefeceram, por medo da repressão. Mesmo
assim, os jovens encontraram maneiras de desafiar o
regime militar, por exemplo com a edição de impressos
(legais ou não) e a organização de atividades culturais
questionadoras dos valores dominantes, geralmente
apresentações teatrais ou shows de música popular.
As lideranças que escolheram atuar no movimento
estudantil foram obrigadas a adotar estratégias cautelosas,
pois o decreto n. 477 permitia sua expulsão sumária das
universidades. Ainda assim, esporadicamente ocorreram
episódios de protesto dentro dos campi e eventualmente
em espaços públicos. Até meados dos anos 1970 essas
atividades tiveram escopo modesto, como manifestações
contra o preço de bandejões e a realização de shows e
debates. O retorno em larga escala dos estudantes às ruas
se deu a partir de maio de 1977, coincidindo com (e
estimulando) o aumento de ações públicas contra a
ditadura organizadas por outros setores sociais.20 Pela
mesma época, o movimento estudantil denunciou e expôs
as agências de informações que funcionavam nas
universidades, as Assessorias de Segurança e Informações
(ASI), contribuindo para atrapalhar a ação dos aparatos
repressivos.21
A despeito do maior impacto das ações estudantis, alguns
professores também tomaram iniciativas de resistência, por
exemplo protestando contra demissões de colegas e outros
atos discricionários do Estado. Tais protestos eram feitos por
meio de cartas e manifestos, mas, em momentos críticos,
especialmente em 1968, muitos professores engajaram-se
também nas passeatas. Além disso, algumas entidades
científicas organizaram petições em favor dos perseguidos e
denunciaram as torturas, às vezes com repercussão
internacional. Houve ainda outras formas de resistência
praticadas no cotidiano das instituições universitárias,
menos agudas e visíveis, mas que, acumulando-se ao longo
dos anos, contribuíram para a retomada democrática do fim
dos anos 1970.
Artistas, literatos, músicos, cineastas e demais produtores
culturais constituem outro segmento de destaque no campo
da resistência. Por meio de canções, peças teatrais, livros,
filmes, obras artísticas e performances eles resistiram à
ditadura, às vezes alcançando grande repercussão devido à
natureza do seu trabalho ou à celebridade de certas figuras.
Nesse caso pode-se falar de uma forma específica de
resistência, a cultural, tanto pela área de atuação dos
protagonistas como porque muitas vezes suas obras
implicavam rejeição aos valores e à cultura dominantes. Na
medida em que censurou e perseguiu muitos artistas e
produtores culturais, a ditadura reconheceu que sua
atuação representava de fato uma resistência incômoda. No
entanto, nesse campo ocorreram muitas situações de
ambiguidade, de maneira que em certos casos houve mais
acomodação do que resistência.
Acomodação
Muitas pessoas evitaram os polos e procuraram maneiras de
se acomodar, sem que isso significasse, a seus olhos,
compromisso com a ditadura. Pessoas que não desejavam
aderir, por não partilhar os valores dominantes, mas que
também não tinham intenção de resistir frontalmente — por
medo ou por acharem inútil —, buscaram estratégias de
conviver com a ditadura, inclusive como forma de reduzir os
efeitos da repressão.
Importante esclarecer que as estratégias de acomodação
implicavam uma via de mão dupla, ou seja, o Estado por
vezes também agia ambiguamente. Certos atores sociais
aceitavam conviver com o regime militar, mas este também
precisava fazer concessões, de outro modo o arranjo não
seria possível, e isso envolvia flexibilidade e pragmatismo.
Na visão de quem aceitava acomodar-se com a ditadura,
tratava-se de explorar possibilidades abertas pelo próprio
Estado para atenuar o impacto do autoritarismo,
aproveitando as “brechas” disponíveis, sobretudo as
oferecidas por alguns paradoxos (e às vezes algumas ações
contraditórias) do regime.
Quando falamos em paradoxos e ambiguidades pensamos
em dois aspectos principais. Em primeiro lugar, o fato de
que a ditadura foi ao mesmo tempo modernizadora e
conservadora. A vontade modernizadora implicava
desenvolvimento econômico e tecnológico, principalmente a
expansão industrial e a mecanização agrícola. Já o impulso
conservador representava o anseio de preservar a ordem
social e os valores tradicionais, gerando repressão às
utopias revolucionárias e a todas as formas de subversão e
“desvio”, inclusive questionamentos à moral e aos
comportamentos convencionais. Paradoxalmente — e, em
alguns casos, contraditoriamente —, as ações
modernizadoras geraram pressões contra a ordem
tradicional, na medida em que ampliaram a circulação
internacional e desenvolveram as cidades e polos
industriais, o que favorecia o surgimento de novas ideias e
demandas da sociedade. Entretanto, não estamos
afirmando que a ditadura fosse contraditória na sua
essência, e sim que abrigava paradoxos e ambiguidades.
Afinal, o impulso autoritário proveniente de sua faceta
conservadora favoreceu a modernização econômica
socialmente excludente, na medida em que permitiu a
repressão dos descontentes e a ampliação das atribuições
do Poder Executivo.
O segundo aspecto a destacar quando tratamos de
paradoxos e ambiguidades é que a ditadura era
ideologicamente heterogênea, pois desde o início constituiu-
se como uma espécie de frente política que abrigava
liberais, conservadores, nacionalistas autoritários e alguns
fascistas. Como vimos antes, disso resultou um arranjo
político sem dúvida autoritário e ditatorial, mas em que o
regime militar procurou acomodar-se com algumas
instituições liberais. Embora precárias e sempre limitadas
pelo autoritarismo, essas instituições constituíam brechas
que propiciaram tanto a oposição moderada como ações de
acomodação.
A disposição de uma parte dos líderes do regime militar
para aceitar arranjos de acomodação envolvendo
adversários ideológicos tinha relação com tais paradoxos e
ambiguidades, mas, igualmente, com cálculos pragmáticos.
Exemplos de acomodação são encontrados com mais
frequência nos processos de vigilância ideológica que
afetavam certos segmentos de elite. A razão é que o
expurgo de todas as pessoas tidas como ameaça à ordem
vigente representaria um entrave às políticas
modernizadoras, pois afastaria profissionais talentosos.
Nesse sentido, era vantajoso ser flexível e permitir alguns
jogos de acomodação envolvendo o Estado e determinados
setores sociais, principalmente no caso de professores
universitários, cientistas e profissionais técnicos, cujo
expurgo poderia afetar projetos estratégicos para o
desenvolvimento.22
Assim, certos líderes da ditadura e administradores
estatais por vezes toleraram a presença de alguns
intelectuais ideologicamente “suspeitos” em cargos
públicos. Na área privada, certos empresários acharam
igualmente vantajoso manter ou contratar pessoas com
ideias de esquerda, sobretudo na chamada indústria
cultural, então em fase de expansão, ou seja, os jornais, as
editoras, os empreendimentos teatrais e cinematográficos e
os meios de comunicação, em especial a televisão.23 Jornais
e TVs contavam com “comunistas” em postos-chave, assim
como as universidades e os centros de pesquisa. Os líderes
estatais e empresariais que mostravam tal flexibilidade
seguiam odiando e perseguindo o comunismo, mas eram
capazes de tolerar alguns “comunistas” competentes em
suas respectivas áreas de atuação.
Que fique claro: não se trata de minimizar a repressão
política da ditadura. Essas pessoas eram vigiadas e
pressionadas, e muitas vezes foram presas e mesmo
torturadas, enquanto outras centenas e milhares de
cidadãos sofriam nas mãos dos algozes nos aparatos
repressivos. E, para cada caso de profissional com ideias de
esquerda mantido em seu trabalho ou contratado, um
número maior teve a carreira obstruída por razões políticas.
Além disso, tratava-se de uma relação assimétrica, é claro,
pois os agentes estatais dispunham de poder político,
recursos e força repressiva. Ainda assim, é fato que a
ditadura brasileira teve momentos de flexibilidade e
ambiguidade, que permitiram jogos de acomodação
envolvendo alguns adversários ideológicos.
Constatar tais características da ditadura não significa
reduzir ou tampouco perdoar os seus crimes. Essa relativa
tolerância à acomodação não foi movida por bondade: na
verdade, tais ações serviram para aumentar a eficácia do
Estado autoritário. É importante perceber a complexidade
da ditadura e entender por que, no caso do Brasil, tem sido
tão difícil superar o seu legado. Parte do problema é que
essas ambiguidades e acomodações, bem como o caráter
simultaneamente modernizador e conservador (autoritário)
da ditadura, ofereceram a seus defensores elementos para
escamotear seus efeitos negativos e escapar às punições. A
disposição à acomodação não deixou a ditadura e o
autoritarismo brasileiros menos ruins, porém eles se
tornaram mais sutis, mais complexos e mais difíceis de
desentranhar.
Voltando aos agentes sociais, muitas pessoas aceitaram
acomodar-se à ditadura porque tinham essa opção. A
constatação parece óbvia, mas não é. Em outras ditaduras
assemelhadas não havia espaço para acomodação, ou ele
era mais restrito. No Brasil havia mais chances de ocupar
um espaço intermediário entre a resistência e a adesão,
para o bem e para o mal. Por isso, também, foi possível
negociar uma saída da ditadura relativamente suave (para
os agentes autoritários), pois os acordos e negociações
realizados durante o regime autoritário abriram caminho
para a transição pactuada. Nesse sentido, uma parte das
ações que são apresentadas como de resistência foi na
verdade de acomodação — por exemplo, os acordos para
evitar demissões ou permitir contratações, seja no Estado
ou em empresas privadas, pois contribuíram para suavizar a
imagem da ditadura, além de aumentar sua competência
técnica.
Essa é uma questão que segue gerando polêmicas,
inclusive pelo posicionamento de líderes atuais da direita
radical que, embora sintam saudades da ditadura, também
têm queixas. Eles entendem que ela deveria ter sido mais
repressiva, pois acabou permitindo a presença de
intelectuais de esquerda nas instituições educacionais,
científicas e culturais. Os mesmos setores reclamam que o
regime militar permitiu a circulação de conceitos contrários
a suas ideias, como o marxismo. Os seguidores
revolucionários de Marx eram punidos, propagandear a luta
de classes era crime contra a segurança nacional e livros de
líderes marxistas como Lênin e Mao foram censurados, mas
textos do próprio Marx não eram proibidos oficialmente e
chegaram a ser vendidos em bancas a partir de 1974,24
mesmo momento em que o aparato repressivo lançou uma
campanha de caça a líderes comunistas que matou dezenas
deles. Em suma, apesar do medo, da censura e da
repressão praticados, a ditadura não impediu que certos
temas e conceitos “indesejáveis” circulassem e marcassem
a formação intelectual de uma parte dos jovens.
Para os ideólogos atuais da extrema direita, a “leniência”
da ditadura permitiu à esquerda desenvolver uma “guerra
cultural” a partir dos anos 1970, possibilitando a construção
de uma hegemonia no campo das ideias e valores que abriu
seu caminho ao poder nos anos 1990 e 2000.25 Essa tese é
questionável em vários pontos, além de exagerar a força da
esquerda nos anos recentes, pois ela só chegou ao poder
graças a fatores conjunturais e a alianças (novas
acomodações) com forças de centro. De qualquer forma, é
verdade que valores genericamente progressistas
assumiram lugar importante no debate público nos anos
1970-80, representando uma derrota ideológica para os
grupos de direita apoiadores da ditadura, porém isso
resultou tanto dos jogos de acomodação como das ações de
resistência à ditadura, que na batalha contra os valores
dominantes foram relativamente bem-sucedidas.
Há algum tempo temos defendido que a tendência à
acomodação é um traço importante (mas não único) da
nossa cultura política, ou seja, dos comportamentos, valores
e imaginários políticos dos brasileiros.26 Isso não significa
afirmar que existam comportamentos uniformes e
homogêneos, mas que há propensão a agir conforme certas
tradições. O tema da acomodação e da disposição ao
acordo político está ligado a episódios centrais de nossa
história, a começar pela Independência e a Proclamação da
República, e é particularmente frequente quando estão
envolvidas as elites políticas. A tendência à acomodação
entre os grupos dirigentes serve à estratégia de negociar
conflitos, com a motivação essencial de evitar a
participação popular e a radicalização. Trata-se, assim, de
uma tradição que funciona a favor da exclusão política e da
manutenção das desigualdades sociais no Brasil.
O grande desafio analítico é avaliar se os setores
populares acabaram por incorporar parte dessa tradição de
acomodação. Nesse momento podemos apenas fazer
conjecturas, que demandam mais pesquisas. Alguns indícios
apontam nessa direção, na medida em que temos fracas
taxas de afiliação e de participação políticas, além de
grande desconfiança popular frente às instituições. Não é
que o povo brasileiro seja pacífico — esse argumento foi
construído historicamente para justificar sua exclusão dos
negócios públicos, e, como bem sabemos, os brasileiros
podem ser muito violentos. Mas, no campo da política, em
muitas ocasiões a maioria da população se omitiu, mostrou-
se aparentemente indiferente ou se autoexcluiu, talvez por
descrer das instituições. São reflexões que demandam
aprofundamento.
PARA ENCERRAR O CAPÍTULO, uma última questão: a resistência
derrotou a ditadura? A pergunta é simples, mas a resposta
não. O declínio da ditadura tem relação com o
desmoronamento de seu modelo econômico, com o fracasso
de seu projeto de distensão política sob controle e com a
desagregação de suas bases de apoio. Entretanto, as ações
de oposição e de resistência a partir da segunda metade
dos anos 1970, principalmente o aumento da votação no
MDB, o fortalecimento dos movimentos sociais e a eclosão de
um forte ciclo grevista, tiveram papel importante no declínio
do Estado autoritário. Elas mostraram que a ditadura não
tinha apoio consensual e, em certos momentos, tampouco
majoritário. Tais ações colocaram em xeque os planos de
continuidade de seus líderes, que tiveram de se adaptar e
mudar a rota pretendida, entregando o poder aos civis
antes do que desejavam.
Na fase final da ditadura, o número de seus apoiadores e
aderentes diminuiu, tendo alguns deles passado ao campo
da oposição, enquanto ao mesmo passo os resistentes
aumentaram em número e em força. Mas, no fim das
contas, a saída da ditadura foi um processo em que tiveram
peso tanto as atitudes de resistência como as estratégias de
acomodação. A resistência ao autoritarismo pavimentou o
caminho para a “democratização” e o afastamento dos
militares do poder, mas o processo teve muitas
ambiguidades e limitações. Sem dúvida, os movimentos
sociais se fortaleceram e se organizaram melhor,
constituindo-se em obstáculos sérios ao autoritarismo
estatal. Mesmo assim, a democracia não se enraizou de
maneira sólida, e os grupos populares não se impuseram
politicamente, o que permitiu a segmentos da elite
negociarem uma saída lenta da ditadura, sem tocar nas
desigualdades sociais por ela legadas. Além disso, as forças
autoritárias não foram inteiramente desmobilizadas e
permaneceram à espera de novas oportunidades.
De qualquer modo, não é o caso de lamentações nem
análises autodepreciativas. Trata-se de tentar entender o
processo histórico na expectativa de aprender, com os olhos
voltados ao futuro.
7. Sobre a violência repressiva estatal:
uma resposta proporcional à violência da
esquerda?
INEVITAVELMENTE, a violência — em especial a de motivações
políticas — é um dos temas em destaque nas discussões
públicas sobre a história da ditadura. Alguns defensores do
regime autoritário afirmam que a violência do Estado foi
uma resposta proporcional aos guerrilheiros de esquerda
(que, a propósito, são chamados indiscriminadamente de
terroristas, para efeito de propaganda negativa). Já outras
figuras nostálgicas preferem negar ou minimizar a violência
cometida pelo regime militar. Mas, nestes tempos de
afloramento da sensibilidade direitista radical, certas
lideranças têm assumido claramente o caráter violento da
ditadura, sendo que algumas, como o presidente Jair
Bolsonaro, chegaram a declarar que os agentes estatais
foram moderados e deveriam ter matado mais.1
Evidentemente, não há como discutir com pessoas que
fazem apologia da violência, revelando com isso desprezo
pelos direitos humanos. Porém, o tema é complexo, de
modo que apenas mostrar nossa indignação contra atos
violentos não resolve o problema. É preciso estudá-lo e
entendê-lo. Afinal, não é raro a luta política descambar para
o uso da violência, que é um dos meios mais tradicionais
para conquistar o poder político, e também para resistir a
ele. Como vimos, a ditadura começou a partir de um ato
violento, que foi a mobilização de tropas das Forças
Armadas e forças policiais para derrubar o governo João
Goulart. Quem se opôs foi preso ou assassinado, como os
dois estudantes pernambucanos mortos em um protesto
contra o golpe, em Recife, no dia 1o de abril de 1964, ou as
duas pessoas assassinadas em frente ao Clube Militar no
centro do Rio de Janeiro, no mesmo dia.2 Eles estiveram
entre as primeiras vítimas fatais da ditadura, mas muitas
outras viriam na sequência.
Quanto à violência da esquerda, no momento do golpe
esse tema pertencia mais ao mundo da retórica do que à
realidade. Sem dúvida, havia grupos que acreditavam que o
socialismo seria alcançado somente por uma insurreição
popular armada, pois era de esperar uma reação militar das
forças defensoras da ordem contra um processo de
revolução social. Além do mais, o exemplo dos
revolucionários cubanos — que chegaram ao poder com
base em uma ofensiva guerrilheira — era muito sedutor. Por
isso, certas organizações de esquerda se preparavam para
futuros conflitos armados. Contudo, antes do golpe elas
eram minoritárias. Entre a esquerda, a maioria apostava no
caminho das reformas sociais sob a condução do governo
de João Goulart, buscando atuar dentro da lei e das
instituições vigentes. Um exemplo significativo é o PCB,
então a organização mais influente de esquerda, que às
vésperas de 1964 lançou uma campanha para tentar obter
sua legalização e com isso disputar eleições sob a própria
legenda.
Mas e se mudarmos o foco para o período 1967-8? A
formação de grupos guerrilheiros e a eclosão da luta
armada de esquerda naquele contexto tornariam justificável
o incremento da violência por parte das agências estatais?
Teria surgido uma situação de guerra revolucionária
conduzida pelas esquerdas, ameaçadora e grave ao ponto
de justificar a repressão estatal em larga escala? Travou-se
no Brasil uma guerra “suja” que, para ser vencida pelas
forças da ordem, obrigou-as a incrementar a repressão e a
praticar atos ilegais? A violência do Estado foi proporcional e
simétrica à violência da esquerda?
Para responder a essas questões, mais uma vez
adotaremos a estratégia de combinar a narração dos
principais eventos do período com a análise dos seus
significados e impactos, atentos aos resultados das escolhas
dos agentes políticos em disputa. Narrar os eventos e
processos históricos é ato de conhecimento que tem valor
em si mesmo. Entretanto, podemos partir daí para elaborar
análises que ofereçam explicações mais abrangentes. Dessa
maneira, vamos começar com um relato sobre a criação dos
aparatos repressivos da ditadura e logo faremos um balanço
de suas ações violentas. Em seguida, analisaremos se os
discursos da ditadura (e de seus apoiadores recentes) sobre
a necessidade da violência como resposta à ameaça
esquerdista tinham fundamento na realidade. Para concluir
o capítulo, discutiremos se o Estado autoritário deixou o
Brasil mais seguro — uma visão alardeada por pessoas que
acreditam na violência como principal solução para os
conflitos sociais.
A atuação dos aparatos repressivos estatais
O golpe de 1964 deslanchou imediatamente uma onda
repressiva cujos alvos foram líderes civis e militares ligados
à esquerda, em geral apoiadores do governo derrubado,
assim como lideranças de movimentos sociais urbanos e
rurais. Os novos governantes afirmavam querer livrar o
Brasil dos comunistas e subversivos, mas progressistas de
vários matizes foram atingidos também, muitos deles
moderados e nada inclinados à subversão (no sentido de
rebelião ou revolução). No momento inicial, os discursos da
ditadura ainda enfocavam pouco o tema da corrupção, que
logo se tornaria um dos alvos dos expurgos, principalmente
em termos retóricos. Assim, os “corruptos” não foram muito
atingidos na primeira ofensiva de “limpeza”, até porque
muitos deles apoiaram o golpe de 1964, e o objetivo maior
era anular os oponentes do novo regime político. Os
principais alvos do primeiro expurgo foram os líderes de
esquerda, principalmente os comunistas, os socialistas, os
trabalhistas e os nacionalistas.
Nos primeiros dias após a derrubada de Goulart, forças
policiais e militares prenderam milhares de pessoas país
afora, pertencentes a diferentes estratos sociais. Não
existem dados precisos sobre o número de presos, porque
as autoridades locais agiram de maneira independente do
poder federal, que de início não coordenou as operações
repressivas. Estimativas mais bem informadas sugerem um
número próximo de 30 mil pessoas detidas, mas há quem
acredite terem sido mais.3 Os lugares de detenção foram
delegacias, penitenciárias e quartéis. No entanto, devido ao
enorme contingente de presos, outros locais foram
transformados em prisão temporária, como o estádio de
futebol Caio Martins, em Niterói (RJ), e alguns navios,
notadamente no Rio de Janeiro e em Santos. A ditadura
utilizou também ilhas como prisões políticas, sobretudo
Fernando de Noronha (PE) e Ilha Grande (RJ).
A maior parte dos cerca de 30 mil detidos foi sendo
liberada aos poucos, pois não havia indícios reais de crimes,
apenas a intenção das lideranças golpistas de aterrorizar
possíveis alvos e inimigos. Em maio de 1964, estimava-se
que aproximadamente 3 mil pessoas permaneciam
encarceradas, à espera do término das investigações ou de
julgamento.4 Os possíveis delitos estavam tipificados na
legislação repressiva em vigor, principalmente a lei n. 1802,
de 1953, que era uma atualização da legislação repressiva
dos anos 1930 e estipulava penas para “crimes contra o
Estado e a ordem política e social”. Entre eles constavam:
mudar a ordem política ou social estabelecida na
Constituição, mediante ajuda ou subsídio de Estado
estrangeiro; subverter, por meios violentos, a ordem política
e social, com o fim de estabelecer ditadura; promover
insurreição armada contra os poderes do Estado; fazer
publicamente propaganda de processos violentos para a
subversão da ordem política ou social.5
A maioria dos detidos após o golpe não havia cometido
tais crimes e nem chegou a ir a julgamento, sendo libertada
por determinação do Poder Judiciário. Mesmo assim, as
novas autoridades cometeram grande quantidade de
abusos, desrespeitando leis e instituições judiciais. Algumas
pessoas ficaram aguardando julgamento presas, sem
amparo na lei, e muitos foram torturados por agentes
policiais ou militares. Um dos casos mais célebres foi o do
líder comunista Gregório Bezerra, arrastado pelas ruas de
Recife amarrado a um jipe militar e depois barbaramente
torturado na prisão.6
Embora as detenções de 1964 tenham atingido diferentes
estratos sociais, a violência mais intensa foi reservada às
lideranças populares, que igualmente tiveram tratamento
mais severo nos processos judiciais. Como é típico do
sistema de desigualdades e privilégios de classe do Brasil,
pessoas de origem popular e não brancas tendiam a sofrer
maior violência do Estado. Algumas morreram em condições
obscuras, provavelmente devido a ferimentos provocados
por tortura. De acordo com dados levantados pelas
comissões oficiais de investigação, 27 pessoas foram
assassinadas por razões políticas no ano de 1964, sendo
que a maioria tinha perfil popular: lideranças camponesas,
operários, militantes de partidos de esquerda e militares de
baixa patente.7
A violência repressiva deslanchada pelo golpe de 1964 foi
desproporcional à força real de seus inimigos/alvos. Não
havia um movimento guerrilheiro a ser contido ou grupos
terroristas de esquerda agindo no cenário público. Apesar
de discursos bombásticos sobre as intenções
revolucionárias das forças de esquerda, os agentes do
Estado não encontraram evidências relevantes para
comprová-las, muito menos armas. Não é à toa que líderes
importantes do golpe logo em seguida começaram a afirmar
que a ameaça comunista havia sido superestimada. O grupo
hegemônico na esquerda derrotada em 1964 pretendia
alcançar o poder por meios pacíficos, sendo que alguns dos
seus líderes chegaram mesmo a pensar tê-lo conseguido
devido à aliança com João Goulart.
Apesar da fragilidade mostrada por seus adversários, a
ditadura investiu na ampliação das instituições repressivas
à disposição do Estado, fosse por imaginar que no futuro a
ameaça esquerdista poderia voltar, fosse para garantir a
continuidade dos militares à frente do poder em qualquer
circunstância. No momento do golpe de 1964, os aparatos
repressivos mais bem estruturados eram subordinados aos
governos estaduais, os célebres Dops, que faziam o
trabalho de polícia política desde os anos 1920-30. Mas
também foram importantes certos organismos criados por
grupos privados (por exemplo, o Ipes), que levantaram
informações sobre as lideranças de esquerda a serem
expurgadas.
O Estado brasileiro contava com agências repressivas
desde os anos iniciais da República, e a violência política
não era novidade no país, especialmente quando o alvo
eram os setores populares e as esquerdas. No entanto, a
ditadura trouxe mudanças em relação ao período anterior,
sobretudo a ampliação dos aparatos repressivos e da escala
da violência política. Além disso, houve uma militarização
do aparelho de repressão, ou seja, o aumento do controle
exercido pelas Forças Armadas, notadamente o Exército.
A participação de militares nas atividades de polícia
política já existia antes, pois oficiais do Exército haviam
ocupado cargos de chefia, em especial na polícia carioca,
mais ligada ao governo federal. Além disso, a Marinha criou
seu serviço de informações (Cenimar) no fim dos anos 1950,
com a preocupação principal de monitorar as organizações
comunistas. Porém a atuação dos militares nessa área se
ampliou de maneira marcante depois de 1964. Em primeiro
lugar, no mesmo ano do golpe foi criado o SNI, órgão dirigido
pela oficialidade do Exército e subordinado ao presidente da
República.8 Em 1967, o Ministério do Exército decidiu criar
seu próprio serviço (o CIE), e logo a Aeronáutica fez o mesmo
(o Cisa, criado em 1968).9 Outra iniciativa marcante foi a
criação de uma organização policial de efetivo alcance
nacional, o DPF, cujo comando foi entregue a oficiais do
Exército e que, entre outras atribuições, foi responsável por
coordenar as atividades de censura durante a ditadura.
Em 1967, mesmo ano de criação do DPF, mais um passo
importante para a ampliação do poder repressivo do
Exército foi a criação da Inspetoria Geral das Polícias
Militares (IGPM), sob seu comando, e a transformação dessas
forças policiais estaduais em auxiliares do Exército. Além
disso, em 1970, no auge do combate aos guerrilheiros de
esquerda, foram criados órgãos repressivos muito célebres
por sua prática violenta: os DOI-Codi, igualmente chefiados
pelo Exército. Esses órgãos — que se inspiraram na
experiência prévia da Operação Bandeirante, criada em São
Paulo em 1969 com base na cooperação entre militares e
empresários — realizavam trabalho de inteligência e busca
de informações, mas também possuíam unidades de
choque para os confrontos armados e interrogatórios,
reunindo quadros provenientes das diferentes armas e das
polícias, em um esforço para aumentar a eficiência na
repressão aos grupos de esquerda.10
Como resultado dessas iniciativas da ditadura, no início
dos anos 1970 estava em funcionamento grande aparato de
repressão e de informações, que se espraiava também por
ministérios do governo federal — em que foram instaladas
as Divisões de Segurança e Informações (DSI) — e por
empresas públicas e autarquias, inclusive as universidades
— em que foram criadas as ASI. Ressalte-se que o trabalho
das DSI e ASI restringia-se ao setor de informações, auxiliando
as agências que operavam efetivamente as atividades
repressivas. O quadro de pessoal lotado nessa
“comunidade” de informações e de repressão alcançava
milhares de agentes, entre militares e civis.11
Assim, com exceção do sistema DOI-Codi, todos os
aparatos repressivos da ditadura já estavam prontos — ou
em processo de organização — quando as ações de
resistência e o ativismo revolucionário de esquerda se
incrementaram, no contexto de 1967-8. Esse período foi
caracterizado tanto pela ampliação dos protestos públicos
contra a ditadura — resistência democrática que se
expressou, por exemplo, em passeatas e ocupação de
prédios universitários — como pela ocorrência das primeiras
ações dos guerrilheiros, que significavam a um só tempo
resistência armada à ditadura e um projeto revolucionário.
Outra mudança institucional importante ocorrida antes do
aumento do ativismo da esquerda armada foi a edição de
uma nova Lei de Segurança Nacional, em 1967, que
representou uma atualização da lei em vigor desde 1953.
Sua novidade maior foi a incorporação de conceitos centrais
da doutrina de segurança nacional cara aos militares,
especialmente a ideia de que a estratégia dos comunistas
naquele momento passava pela guerra psicológica e a
guerra revolucionária, ações que a nova lei pretendia
reprimir. Os novos conceitos se combinaram à tradição
anticomunista que fundamentava as leis repressivas
anteriores, como se percebe no próprio título da lei de 1967:
“Define os crimes contra a segurança nacional, a ordem
política e social”.
Logo depois do AI-5, em 1969 a LSN foi novamente
reformulada e endurecida, tendo como principal novidade a
introdução da pena de morte para crimes políticos — que,
significativamente, nunca foi realmente aplicada, pois os
quatro réus condenados tiveram a pena comutada para
prisão perpétua.12 Tratou-se de ato hipócrita, já que a
ditadura matava pessoas e, em alguns casos, desaparecia
com seus corpos. No entanto, a hipocrisia tinha sentido
político, pois a intenção ao comutar as penas de morte era
suavizar a imagem pública da ditadura e mostrar
flexibilidade diante das demandas dos defensores de
direitos humanos. Foi também com esse intuito que, a partir
de 1968, colocou-se em funcionamento o Conselho de
Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, um órgão oficial
que, naturalmente, não tinha meios para reduzir a violência
política.
Mais uma novidade do aparato legislativo da ditadura foi a
criação, em setembro de 1969, da pena de banimento,
destinada especialmente aos presos políticos libertados em
troca de embaixadores sequestrados pela esquerda
armada.13 A figura do banido do país, que não poderia
voltar ao Brasil enquanto perdurasse a punição, se
assemelhava em parte ao desterro praticado no início da
República, com a diferença de que naquela ocasião os
punidos não eram expulsos do território nacional, e sim
enviados a áreas fronteiriças da Amazônia brasileira.
Todo esse incremento da máquina repressiva estatal
coincidiu com — e propiciou — a fase mais sanguinária da
ditadura. A violência aumentou destacadamente a partir de
março de 1968, tendo como marco inicial o assassinato de
Edson Luís de Lima Souto em um protesto estudantil, e os
índices foram piorando logo em seguida. Segundo os
registros da Comissão Nacional da Verdade, cerca de
catorze pessoas foram assassinadas por agentes do Estado
durante 1968,14 a maioria morta a bala em manifestações
realizadas em diferentes partes do país. Além da repressão
policial nas ruas, o aumento da violência naquele ano
deveu-se aos atentados praticados por organizações
radicais de esquerda e de direita.
Entretanto, na sequência do AI-5 a violência estatal
tornou-se ainda mais aguda, com notável aumento no
número de mortos e torturados, para não falar do novo
expurgo no serviço público, que atingiu principalmente as
universidades públicas e o Itamaraty. A razão é que o AI-5
gerou condições institucionais favoráveis à repressão
estatal, como a suspensão do direito a habeas corpus para
crimes políticos e o aumento do tempo de prisão em regime
de incomunicabilidade, favorecendo a prática da tortura.
Nesse contexto, os agentes repressivos receberam a
garantia de que poderiam cometer atos violentos sem riscos
de punição, muito pelo contrário: os que se destacavam na
repressão recebiam medalhas e promoções, além de outras
vantagens indiretas (e ilegais) devido a seu enorme poder.
A justificativa para o AI-5 foi registrada no seu preâmbulo,
que mencionava a necessidade de armar o Estado para
enfrentar a guerra revolucionária e os atos subversivos
“oriundos dos mais distintos setores políticos e culturais”.15
De fato, os grupos de esquerda armada começaram a agir
em 1967-8, mas seus principais atos foram cometidos
depois, e não antes, do AI-5. Em grande medida, o
incremento autoritário gerado pelo AI-5 — como a censura à
imprensa, as prisões, o fechamento de casas legislativas (o
Congresso Nacional e uma parte das assembleias
estaduais), as cassações de mandatos parlamentares e o
expurgo no serviço público — estimulou a violência da
esquerda. Diante do AI-5, muitos ativistas aceitaram o
argumento dos líderes guerrilheiros de que o único caminho
para a resistência era o das armas. Além de desproporcional
ao desafio da esquerda, a resposta estatal atingiu também
grupos não envolvidos na luta armada, já que foram presos
antigos apoiadores do golpe de 1964, como Carlos Lacerda,
e personalidades do mundo artístico sem conexão com a
esquerda revolucionária, como Caetano Veloso.
A repressão política deslanchada a partir do AI-5 rompeu
limites e padrões anteriores da própria ditadura, levando
não apenas ao aumento de assassinatos e torturas como à
prática de desaparecer com os corpos das vítimas. Os dados
produzidos pelas comissões oficiais de investigação revelam
o inegável aumento da violência após a edição do ato: se
entre 1964 e 1968 o Estado ditatorial matou cerca de
cinquenta pessoas, entre 1969 e 1976 o número de mortos
e desaparecidos ascendeu a aproximadamente 340,
ressaltando-se que os dados se referem exclusivamente à
violência política.16 Vale notar que nessa fase aumentou a
proporção de mortos provenientes das classes médias,
sobretudo estudantes e profissionais liberais, já que os
grupos armados de esquerda recrutavam muitos quadros
em tais segmentos sociais.
Uma parte dos óbitos resultou de tiroteios entre os
guerrilheiros e as forças do Estado, entretanto um número
maior ocorreu na prisão, no interior de dependências
públicas, configurando crimes comuns e contra os direitos
humanos, cometidos por servidores públicos. Importante
registrar que locais clandestinos, em lugares afastados dos
centros urbanos, também foram usados pelos agentes
repressivos estatais como casas de detenção, o que era
mais conveniente nos casos em que os presos estavam
destinados à morte, com posterior desaparecimento dos
corpos. Entre esses locais, os mais importantes foram a
“Casa da Morte”, em Petrópolis, e a fazenda “31 de Março”,
na região da serra do Mar, em São Paulo.17
As técnicas para fazer “desaparecer” os restos mortais
das vítimas variaram entre incineração, enterro sem
identificação e “descarte” em rios ou no mar. Desaparecer
com os corpos poupava problemas à ditadura, pois evitava
críticas e sanções internacionais e protestos públicos, além
de significar a destruição da principal prova dos crimes
cometidos. Uma vantagem adicional para o aparato
repressivo era que o desaparecimento de pessoas era
recurso extra para aterrorizar as organizações de esquerda
e seus familiares.18 Portanto, fazia parte da guerra
psicológica movida pelo Estado.
Alguns presos morreram devido a ferimentos provocados
pela tortura, o que levou certas agências de repressão a
utilizarem médicos para monitorar o estado de saúde dos
torturados. Mas, em muitos casos, os assassinatos foram
premeditados pelos chefes do aparelho repressivo, quase
sempre com a anuência dos líderes da ditadura. O
assassinato premeditado dos presos ocorria quando se
tratava de dirigentes revolucionários importantes,
guerrilheiros treinados no exterior, banidos (trocados por
diplomatas sequestrados) que ousaram voltar, ou como
vingança por militares ou policiais baleados.
Em muitos casos, os assassinatos foram dissimulados
para fazer parecer que resultaram de tiroteio ou resistência
à prisão, sendo que às vezes a farsa consistia em forjar o
suicídio da vítima ou seu atropelamento.19 Os principais
massacres envolveram os guerrilheiros da região do
Araguaia e aqueles treinados em Cuba, quase todos mortos
após a prisão. E o mesmo se passou com alguns dirigentes
do PCB e do PCdoB, assassinados para desestruturar as
respectivas organizações — ainda que o PCB, vale destacar,
não tenha participado da luta armada, o que contraria a
justificativa dos defensores da violência estatal.
Quanto às torturas, é mais difícil estimar o número de
atingidos. As informações disponíveis permitem afirmar que
a maioria das pessoas detidas sofreu algum tipo de abuso
físico, especialmente na fase aguda, entre 1968 e 1977.
Considerando todo o período da ditadura, seguramente
milhares de pessoas foram torturadas, com as estimativas
variando entre 2 mil e 20 mil.20 Porém, nem todos os
interrogados pelas forças de repressão foram torturados.
Passar ileso fisicamente (psicologicamente é outra coisa) de
uma “visita” aos aparatos repressivos dependia da condição
social (alguns contavam com uma rede de proteção) e racial
da pessoa, e também do seu grau de “periculosidade” na
visão dos agentes estatais; se eles acreditassem que a
pessoa tinha informações importantes sobre os alvos da
repressão, mesmo com “costas quentes” a tortura era certa.
Os tipos de tortura mais comuns eram choques elétricos,
afogamento, queimadura, socos, pontapés e golpes usando
objetos como cassetetes, porretes e palmatórias, mas foram
adotados também desde procedimentos horrivelmente
simples, como empalamentos, até formas de tortura
sofisticadas que não deixavam marcas físicas, como a
“geladeira”, uma pequena câmara capaz de alternar escalas
extremas de temperatura e ruídos, gerando sensação de
desconforto, isolamento e perda de noção de tempo. Havia
ainda práticas bizarras de tortura, como o uso de animais
(cobras, jacarés, ratos) para aterrorizar as vítimas,21 e a
ditadura tornou tristemente célebre o “pau de arara”, que
consistia em atar os membros da vítima de modo a deixá-la
como que de cócoras e então pendurá-la, por trás dos
joelhos, em uma barra suspensa, de ponta-cabeça, indefesa
diante do torturador.22 As técnicas simples vinham da
experiência prévia da polícia brasileira, que obviamente não
começou a ser violenta durante a ditadura militar, embora
tenha se tornado mais violenta no período. Os aparatos
mais complexos foram adquiridos no exterior, assim como
algumas técnicas de interrogatório ensinadas por
especialistas norte-americanos e franceses. Embora a
maioria dos torturados tenha sobrevivido, grande parte
ficou marcada para sempre com traumas físicos ou
psicológicos.
A justificativa para a tortura era extrair informações de
militantes revolucionários que não colaborariam
voluntariamente com os agentes estatais. Entre os
defensores da prática circulava um argumento para
convencer de que ela era aceitável moralmente: as
informações obtidas poderiam salvar vidas humanas
inocentes. Tal arrazoado era apresentado em cursos sobre
técnicas de interrogatório ministrados por especialistas
estrangeiros a militares e policiais envolvidos na repressão
política. A preocupação era convencer os que hesitavam
diante da tortura, que afinal, além de ser uma prática
desumana e covarde, tratava-se de crime mesmo na
ditadura.23
Eticamente questionável, o raciocínio de que a tortura
poderia salvar vidas inocentes era também bastante
falacioso no caso do Brasil, pois a maioria dos torturados
nada tinha a ver com atos ou organizações terroristas.
Ademais, grupos de esquerda não armados foram
desestruturados igualmente com base em tortura, cuja
generalização ocorreu devido a objetivos pragmáticos e com
a anuência dos chefes da ditadura, em primeiro lugar para
obter informações, mas também para aterrorizar as forças
de resistência. Paralelamente aos objetivos políticos do
Estado, torturas foram ainda praticadas apenas por sadismo
de certos agentes da repressão, que aproveitaram a ocasião
para liberar impulsos violentos, inclusive de natureza
sexual. Sob o manto do discurso de salvação da ordem
contra os subversivos, perspectiva conservadora que
implicava a defesa da família e da moral cristã, mas em
clara contradição com tais preceitos, foram cometidos
estupros e diversas outras formas de abuso físico
moralmente inaceitáveis.24
As ações da esquerda armada e um balanço da violência
política
Analisemos agora a atuação da esquerda armada entre o
fim dos anos 1960 e o início dos anos 1970, para discutir se
ela representava um desafio efetivo à ditadura e,
principalmente, se tornava justificável a resposta repressiva
lançada pelo Estado. Cerca de um ano após o golpe de 1964
surgiram os primeiros esboços de ação guerrilheira, como a
coluna armada liderada pelo coronel do Exército Jefferson
Cardim de Alencar Osório, um nacionalista de esquerda cujo
grupo foi facilmente detido no sul do Brasil por forças a
serviço do regime militar.25 (A propósito, assim como ele,
muitos militares expurgados pela ditadura iriam aderir à
esquerda armada.) No campo das ações terroristas, no ano
de 1966 ocorreu um ato isolado, a explosão de uma bomba
no aeroporto de Recife. O alvo era o general Costa e Silva,
que saiu ileso, mas a bomba matou duas pessoas.26 Já no
ano de 1967, o mais relevante episódio foi a prisão de um
grupo guerrilheiro nacionalista radical (ligado a Leonel
Brizola) na serra do Caparaó, sem que tenha ocorrido troca
de tiros.
As ações mais efetivas dos grupos armados de esquerda
começaram em 1968, em parte devido ao estímulo dos
protestos antiditatoriais ocorridos naquele ano. Alguns
líderes acreditaram que a rebeldia contra o governo
mostrada nas manifestações de rua indicava apoio à luta
armada. As suas principais ações naquele ano foram
assaltos a empresas, para arrecadar fundos, e dois atos
terroristas de impacto: a execução do capitão norte-
americano Charles Chandler e o lançamento de um
caminhão-bomba contra um quartel do Exército em São
Paulo, que matou um recruta, Mario Kozel Filho. Em 1968 foi
executado também o major alemão Otto von Westernhagen,
confundido com o oficial boliviano considerado responsável
pela morte de Che Guevara (ambos frequentavam um curso
no Rio), porém o atentado não foi identificado como ação da
esquerda. É importante frisar que em 1968 estiveram
igualmente ativos alguns grupos terroristas de direita, em
especial o Comando de Caça aos Comunistas e o grupo
liderado por Aladino Félix (que tinha a proteção de oficiais
de alto escalão do Exército), cujos atentados ajudaram a
provocar a sensação de radicalismo e instabilidade política
utilizados para justificar a edição do AI-5.27
As ações da esquerda armada foram principalmente
assaltos para obtenção de dinheiro e armas, sequestros de
diplomatas estrangeiros para trocar pela libertação de
presos políticos e combates nas matas da região do
Araguaia, em que o PCdoB havia instalado algumas dezenas
de guerrilheiros, dos quais 67 seriam mortos por forças do
governo, na maioria dos casos após serem detidos.28 É
importante registrar que quase todas as organizações
pretendiam montar guerrilhas rurais, mas raramente
ultrapassaram a fase de planejamento. A maior parte de
suas ações teve natureza defensiva, para manter as
organizações funcionando, evitar sua destruição pelas
forças do Estado e libertar companheiros presos. Não se
trata de minimizar seus atos, mas de esclarecer os limites
da capacidade ofensiva dos grupos armados de esquerda,
que se estima terem contado com cerca de mil combatentes
no total. Além do já mencionado PCdoB, os grupos de maior
destaque foram Aliança Libertadora Nacional (ALN, liderada
por Carlos Marighella), Vanguarda Popular Revolucionária
(VPR), Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8),
Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares) e
Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR).29
Uma das polêmicas envolvidas no tema é a relação entre
as guerrilhas e o terrorismo. Auxiliada pela imprensa, a
ditadura chamava todas essas organizações de terroristas,
indiscriminadamente. Tratava-se de desqualificar aos olhos
da população a resistência armada à ditadura, uma vez que
terrorismo traz à mente ações covardes e violência contra
inocentes, enquanto o guerrilheiro costuma ser visto como
combatente valoroso e até heroico. Deixando de lado a
propaganda e as paixões ideológicas, as guerrilhas de
esquerda brasileiras realmente cometeram alguns atos
terroristas, mas de pequena escala e minoritários se
considerarmos o conjunto de suas atividades. Além disso,
seus alvos não poderiam ser considerados inocentes ou
desavisados, pois na maioria se tratava de militares ou
policiais em um país convulsionado pela violência política.
Um balanço da violência cometida pela esquerda é ao
mesmo tempo necessário e difícil de realizar. A dificuldade
maior é a ausência de dados confiáveis sobre o número de
mortes provocadas pelos grupos de esquerda armados. As
comissões oficiais criadas desde os anos 1990, como a
Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos (1995) e a
Comissão Nacional da Verdade (2012), não se ocuparam
deles, pois sua tarefa era esclarecer os desaparecimentos e
identificar as vítimas das ações do Estado, para efeitos de
reparação simbólica e financeira. É importante explicar que
não cabia a tais comissões investigar os agentes estatais
mortos pela esquerda. Primeiro, porque em geral suas
famílias já haviam sido amparadas pelo Estado; segundo,
porque nesses casos não havia corpos desaparecidos a
localizar ou atos ilícitos de violência cometidos por agentes
públicos a esclarecer.
As tentativas conhecidas de contabilizar as mortes
provocadas pela esquerda foram feitas por grupos de
militares de direita. Apesar das dificuldades e polêmicas, é
necessário abordar esses números, tanto para evidenciar a
atuação da esquerda armada — que não foi apenas vítima
nessa história, mas também agente (que, entretanto, se
tornava vítima diante da tortura e do assassinato
premeditado) —, como para avaliar os discursos que
defendem a violência do Estado como uma resposta justa e
proporcional.
Segundo os números divulgados pelos militares
responsáveis pela repressão, os guerrilheiros teriam matado
aproximadamente 120 pessoas, principalmente policiais,
militares e seguranças de estabelecimentos comerciais
assaltados.30 Esses dados devem ser considerados com
cautela, pois nunca foram checados por investigações
independentes. Na falta de outra opção vamos levá-los em
conta, apenas para um exercício comparativo da violência
política nos anos 1960-70. Das 120 pessoas apontadas, a
maioria das mortes ocorreu por troca de tiros em situações
de conflito, enquanto uma pequena proporção (cerca de
10% dos casos) teria morrido em ações terroristas ou vítima
de assassinatos frios. Desses 10%, cerca de metade eram
guerrilheiros mortos pelos próprios companheiros, que os
“justiçaram” devido à suspeita de traição ou colaboração
com as forças do Estado.31
Fazendo uma comparação simples entre esse número
estimado de 120 mortos pela esquerda e os mortos pela
ditadura, o resultado revela notável desproporção: de
acordo com os dados oficiais, a ditadura provocou um
número de mortes quatro vezes maior (mais detalhes
adiante). É clara a assimetria de forças e de recursos entre
os lados em disputa; afinal, tratava-se do aparelho do
Estado contra um grupo pequeno de guerrilheiros
precariamente armados. O argumento de que a esquerda
armada recebeu ajuda de países estrangeiros, sobretudo
Cuba, que treinou mais de uma centena de guerrilheiros,
não muda esse quadro de desproporcionalidade, pois o
Estado brasileiro contou com ajuda de Estados Unidos,
Inglaterra e França, que venderam armas, equipamentos e
assessoramento técnico.
Já analisamos, em outro capítulo, que o AI-5 não foi
editado apenas para facilitar a repressão estatal à esquerda.
Os alvos eram também os grupos de elite que vinham se
afastando da ditadura, sobretudo parcelas da imprensa, do
parlamento e do Poder Judiciário. A ofensiva armada da
esquerda foi mais um argumento para justificar o AI-5 do
que sua causa principal, tanto porque as ações armadas em
1968 não tiveram tamanha gravidade (intensificaram-se
depois) como porque o Estado autoritário já dispunha de
meios suficientes para reprimi-las. Nesse sentido, os
guerrilheiros prestaram (inadvertidamente) um serviço à ala
radical da ditadura, que os utilizou para justificar o
incremento do autoritarismo. Mesmo assim, alguns aliados
do regime militar entenderam na época que o AI-5 não era
justificável ou necessário para reprimir os grupos armados
de esquerda.
Em suma, não é verdade que a ditadura surgiu — ou se
agravou — devido à necessidade de derrotar revolucionários
armados; ao contrário, ela os provocou. As guerrilhas foram
usadas como desculpa para o incremento do regime
autoritário, que já tinha os elementos necessários para
derrotá-las. As organizações armadas eram pequenas e não
contavam com apoio popular relevante, o que tornava seu
crescimento e sucesso impossíveis. Basta dizer que foram
derrotadas rapidamente, com exceção parcial do Araguaia,
nesse caso em razão das dificuldades para montar
operações militares na região. Não eram necessárias uma
ditadura e toda a violência extralegal que ela cometeu
(tortura, assassinatos, desaparecimentos) para derrotar a
luta armada. Como disse há alguns anos um general
brasileiro que atuou na repressão e conhecia bem o
assunto, eles construíram um martelo-pilão para matar uma
mosca.32
Vale a pena lembrar, para efeito comparativo, que
governos de outros países lidaram com situações
semelhantes sem descambarem para a ditadura. Podemos
pensar em exemplos na Europa, como Itália e Alemanha,
que experimentaram movimentos armados de esquerda nos
anos 1960-70, de grande intensidade e caráter
eminentemente terrorista, e nem por isso recorreram a
regimes autoritários para enfrentá-los; para que se tenha
uma ideia da gravidade da situação na Itália, um chefe de
governo (Aldo Moro) foi sequestrado e assassinado pela
esquerda armada. Também na América Latina alguns
governos lidaram com a violência política sem recorrer à
ditadura, como no caso da Colômbia, país assolado por um
conflito interno de grande intensidade durante décadas.
Fizemos até aqui uma comparação fria, sem levar em
conta as diferentes motivações e objetivos dos agentes do
Estado e dos revolucionários armados. Os últimos
consideravam a ditadura ilegítima, já que derrubou à força
um governo constitucional e reprimia seus adversários.
Nessa linha, resistir com armas era perfeitamente legítimo,
mesmo que muitas das organizações guerrilheiras
pretendessem combinar a luta contra a ditadura com a
revolução social. Podemos concordar com o argumento de
que a violência da ditadura legitimava a resistência armada.
Porém, com a vantagem de analisar o processo à distância
no tempo, observamos que a opção pela guerrilha foi um
erro político. Ela trouxe mais benefícios que dissabores ao
oponente, além de pouco ter contribuído para a sua derrota.
Quanto aos agentes do Estado, muitos também eram
movidos por convicções ideológicas, particularmente a
obsessão anticomunista. No entanto, no seu caso havia
ainda o estímulo proporcionado pela ambição de fazer
carreira e obter vantagens materiais.
GRAÇAS AO TRABALHO DAS ORGANIZAÇÕES de direitos humanos e dos
órgãos de investigação criados pelo Estado brasileiro a
partir dos anos 1990, podemos fazer um balanço numérico
dos resultados da repressão da ditadura. Segundo os dados
oficiais, a ditadura militar brasileira foi responsável por 434
mortes e desaparecimentos, sendo 191 os mortos e 243 os
desaparecidos, entre os quais 33 tiveram seus restos
mortais posteriormente localizados.33 Recentemente, foram
encontradas evidências de um tipo de crime até então
desconhecido no caso do Brasil: o sequestro de crianças e
jovens, principalmente filhos de guerrilheiros na região do
Araguaia.34 Sabe-se também que algumas agências
repressivas levaram crianças aos locais em que seus pais
eram torturados, para ameaçá-los e pressionar para a
obtenção de informações. Em certos casos há denúncias de
que algumas crianças chegaram a ser igualmente
torturadas.
Entretanto, permanecem polêmicas sobre a tipificação da
violência política da ditadura, especialmente a que atingiu
camponeses e indígenas. Um dos pontos em discussão é se
toda a violência praticada contra esses grupos pode ser
atribuída diretamente ao Estado, já que muitas vezes os
perpetradores trabalhavam para grupos privados. A
depender do critério a ser aplicado, portanto, o montante de
mortes sob responsabilidade da ditadura aumentaria
substancialmente.35 No seu relatório principal, a Comissão
Nacional da Verdade (CNV) preferiu contabilizar apenas as
mortes provocadas diretamente pelo Estado e por razões
políticas. Entretanto, alguns de seus relatórios
complementares abordaram e contabilizaram também a
violência contra indígenas e camponeses. Outra
contribuição importante da CNV foi investigar um tema
sensível e particularmente constrangedor para as vítimas: a
violência sexual praticada por agentes do Estado, um
aspecto terrível da repressão que é necessário encarar para
a compreensão adequada dos processos de violência
política estatal. Além disso, o relatório da CNV esteve atento
à violência especificamente dirigida aos homossexuais.36
Durante a ditadura, a urgência em combater a esquerda,
e de maneira sanguinária, levou à aproximação entre a
violência policial comum e os agentes da violência política.
Um dos caminhos foi o deslocamento de policiais que se
destacavam na repressão violenta ao crime comum para o
trabalho de repressão política. Muitas vezes, tratava-se de
matadores experientes conectados aos esquadrões da
morte, que, aliás, começaram a proliferar sob a cobertura
do regime autoritário. Assim, a expertise policial contra o
crime comum foi usada para turbinar a repressão política.37
Por outro lado, a disposição do Estado em tolerar maior
violência em nome do combate à “subversão” afetou
também a repressão à criminalidade comum. O ambiente de
autoritarismo e de censura favoreceu o aumento da
violência policial de maneira geral, graças ao manto da
impunidade.
Outro aspecto revelador do lado sombrio das políticas de
segurança da ditadura foi a proximidade de seus agentes
com práticas ilícitas. Segundo depoimentos de alguns deles,
os técnicos em repressão a serviço da ditadura recebiam
dinheiro fora da folha de pagamento do serviço público,
uma espécie de incentivo à produtividade, provavelmente
custeado por empresários simpatizantes.38 Não é de
espantar que o aparato de segurança política tenha
resistido à redução da escala repressiva: para eles, não era
apenas uma questão ideológica. Acrescente-se à lista de
malfeitos o fato de que alguns agentes repressivos
roubaram dinheiro de suas vítimas e às vezes cobraram
propina de seus alvos (ou de seus familiares), enquanto
outros se tornaram sócios ou agentes do crime organizado,
especialmente o jogo do bicho.
Em síntese, as ações da esquerda armada não tornam
justificável a resposta ditatorial. As guerrilhas foram
estimuladas pelo Estado autoritário e dificilmente teriam
ganhado relevância na ausência do regime militar. Em vista
dos objetivos anunciados, a violência repressiva da ditadura
teve caráter desumano e desproporcional. Os militantes de
esquerda eram o alvo da repressão política, no entanto
pessoas sem ligações políticas sofreram também, devido à
mera suspeição ou por equívoco dos investigadores.
Para além da violência política e considerando a
segurança pública de maneira geral, há quem defenda a
ideia de que durante a ditadura as pessoas viviam mais
seguras no Brasil. Trata-se de um argumento
compensatório, como se a maior disposição do Estado para
cometer violência implicasse maior segurança pública, ou
como se a preservação da última justificasse os abusos
cometidos. Um argumento falacioso, pois o aumento da
violência estatal não garante maior segurança.
Além disso, certos processos decorrentes das políticas do
regime autoritário, como a urbanização acelerada e
precária, o aumento das desigualdades sociais e a crise
econômica ao fim do período, legaram aos governos
democráticos graves problemas de segurança e um quadro
de crescente violência comum. O fato de que as forças
policiais treinadas e doutrinadas pela ditadura não tenham
conseguido controlar o aumento da violência e da
criminalidade comuns atesta o fracasso das políticas de
segurança do regime militar. Ele legou um país mais
desigual, mais violento e menos seguro.
8. A “luta” contra a corrupção: muitos
discursos, poucas realizações
UM DOS PONTOS MAIS MARCANTES nos discursos da ditadura, o
combate à corrupção, se conecta tanto ao presente como a
contextos políticos passados. Antes de analisar como a
“luta” contra a corrupção foi mobilizada — e manipulada —
nos discursos e nas práticas da ditadura, e quais os
resultados alcançados, vale a pena destacar o peso que o
tema assumiu no debate político brasileiro. Notadamente a
partir dos anos 1940-50, acusações de corrupção contra
líderes políticos constituíram-se em tema recorrente e de
notável impacto no cenário público brasileiro. Daí não
causar surpresa que, recentemente, em especial a partir da
Operação Lava Jato, tenham voltado a ocorrer mobilizações
anticorrupção, revelando a permanência de uma tradição
política.
Discursos e denúncias contra a corrupção podem ser
protagonizados indistintamente por lideranças de esquerda
e de direita. Mas, ao menos no Brasil, a mobilização do
tema tem sido particularmente marcante entre os
segmentos de direita, que, apresentando-se como
defensores da manutenção da ordem, mostram-se mais
sensíveis às denúncias contra forças que pretenderiam
corromper a sociedade e os valores tradicionais. Corromper
e corrupção, em sentido amplo, significam decomposição e
putrefação, mas também decadência, declínio e devassidão.
A sensibilidade moral conservadora denuncia a corrupção
na mudança de comportamentos trazida pelo mundo
moderno, que ameaçaria a família e os valores tradicionais.
Importante registrar que alguns discursos conservadores
responsabilizam a esquerda pelos novos comportamentos,
com o argumento de que interessa aos comunistas
corromper tanto a moral como as práticas políticas, de
modo a destruir a ordem e implantar um sistema
revolucionário.1
Embora o tema da corrupção moral (incluindo os
comportamentos sexuais) seja fundamental para entender
os valores da direita conservadora, importa destacar a
corrupção no sentido de desvio ou roubo de recursos
públicos, e no sentido de uso de meios ilícitos para tirar
vantagens pessoais. Com tal acepção, mais ligada às
práticas administrativas e à condução dos negócios
públicos, a corrupção foi tema candente no debate político
brasileiro, em especial entre os anos 1940 e 1960, ecoando
principalmente na imprensa e nas disputas eleitorais.
Naquele contexto, as lideranças que mais se destacaram
nas denúncias contra a corrupção pertenciam à União
Democrática Nacional (UDN), partido de direita liberal cujos
inimigos principais eram o varguismo (trabalhismo) e o
comunismo. Pode-se dizer que o batismo do discurso
anticorrupção de perfil udenista se deu na campanha
eleitoral de 1945. Naquela ocasião, o jornalista e futuro líder
político Carlos Lacerda criou a imagem do “Rato Fiúza” para
se referir ao candidato dos comunistas à presidência, o
engenheiro Yeddo Fiúza, que foi acusado de desviar dinheiro
de obras públicas rodoviárias em benefício próprio.2
Nos anos seguintes, as denúncias contra práticas
corruptas tenderam a se concentrar na máquina sindical
corporativista criada por Getúlio Vargas, considerada pelos
udenistas um antro de favorecimentos ilícitos. Essas críticas
dirigiam-se não apenas aos sindicatos de trabalhadores,
mas também aos Institutos de Pensão, que geriam verbas
para financiar aposentadorias. Para os udenistas, a máquina
estatal corrupta construída durante o governo (e a ditadura)
de Vargas explicava as grandes votações dos candidatos
apoiados pelos trabalhistas. Essa avaliação, aliás muito
exagerada, do impacto eleitoral da “máquina” varguista
serviu de justificativa e consolo para as derrotas da UDN nas
eleições presidenciais de 1945, 1950 e 1955.
Porém, a questão tornou-se mais grave no contexto da
crise do segundo governo Vargas, que culminou no suicídio
do então presidente da República em agosto de 1954. A
denúncia de práticas corruptas cometidas pelo grupo
varguista desestabilizou o governo do presidente gaúcho,
que havia sido eleito em 1950 para um mandato
democrático após ter governado o país como ditador (na
maior parte do tempo) entre 1930 e 1945. Vargas e seus
auxiliares foram acusados de se aproveitarem de verbas
públicas em benefício próprio, enriquecendo à custa do
tesouro nacional. Quanto à pessoa do presidente Vargas não
havia muito que dizer, a não ser o fato de ter arranjado
financiamento do Banco do Brasil para o lançamento do
jornal Última Hora, criado para apoiá-lo num contexto em
que a grande imprensa era hostil ao governo. As críticas
mais pesadas dirigiram-se ao grupo palaciano em torno do
presidente, e o próprio Vargas parece ter se assustado com
a dimensão do problema.
Para representar a sensação de que o governo estava
tomado pela corrupção foi cunhada a expressão “mar de
lama”,3 que seria usada em contextos semelhantes no
futuro. Mesmo tendo conseguido remover Vargas do poder
— o suicídio foi cometido em resposta às pressões por sua
renúncia —, os seus adversários tiveram novo dissabor nas
eleições seguintes, em 1955, com a vitória de Juscelino
Kubitschek. JK herdou parte do capital eleitoral de Vargas,
mas também os inimigos. Ele foi visto pela oposição
conservadora e liberal como um continuador do varguismo,
por isso foi igualmente acusado de manipular a máquina
pública em seu favor. O projeto desenvolvimentista do
governo Kubitschek, cuja marca foi a realização de grandes
obras, notadamente a construção de Brasília, forneceu aos
opositores novos argumentos para denunciar corrupção,
com frequência mencionando o próprio presidente.4
De maneira significativa, a campanha eleitoral de Jânio
Quadros nas eleições de 1960 foi estruturada em cima da
promessa de acabar com a corrupção no país. Apoiada pela
UDN, a candidatura Quadros atraiu os votos dos setores
sensíveis à maré de críticas contra o trabalhismo/varguismo.
A adoção da vassoura como o símbolo de Jânio Quadros
indicava o seu principal compromisso de campanha: varrer
do Estado a corrupção e seus praticantes. A expressiva
vitória alcançada por Jânio (ele teve 48% dos votos) pode
ser explicada, ao menos em parte, pela boa receptividade
da campanha anticorrupção.
No entanto, para desespero dos grupos de direita, a
renúncia de Quadros levou ao retorno dos trabalhistas ao
poder, com João Goulart. A inesperada reviravolta política
colocou de novo o tema da corrupção no debate nacional.
Parte da indisposição contra o governo Goulart deveu-se à
convicção de que ele era tolerante com a corrupção,
característica atribuída a seu grupo político. De acordo com
seus adversários, a corrupção seria prática corriqueira na
gestão Goulart, e esse foi argumento importante na
mobilização liberal-conservadora responsável pelo golpe de
1964. Vale ressalvar que Goulart não foi o único líder
acusado de práticas ilícitas nesse período. Os ataques a ele,
no entanto, tiveram maior repercussão por ajudarem a abrir
caminho ao golpe.
As primeiras acusações a Jango ocorreram logo no início
de seu governo. Durante a fugaz gestão de Jânio Quadros, a
retórica do combate à corrupção o levou a criar algumas
sindicâncias para investigar atos ilícitos durante os
governos Vargas e Kubitschek. Quando Goulart assumiu a
presidência, seus adversários divulgaram que sua primeira
ação no cargo foi cancelar inquéritos abertos por Quadros,
numa acusação implícita de conivência com a corrupção
para proteger seus aliados.5
O caso mais rumoroso de denúncia de corrupção no
governo Goulart ocorreu, porém, em janeiro de 1964, em
meio ao agravamento da crise política. As acusações
envolviam a diretoria da Petrobras, e a repercussão na
imprensa levou o Congresso Nacional a instalar uma CPI para
investigar as suspeitas. Segundo as denúncias, recursos da
empresa estatal teriam sido desviados para financiar
atividades de grupos de esquerda, como organização de
eventos e publicações, e uma outra parcela de dinheiro teria
rumado diretamente para os bolsos de alguns diretores da
Petrobras. O escândalo levou Jango a demitir o presidente
da estatal, general Albino Silva, que saiu acusando o
presidente de estar mancomunado com a esquerda, na sua
visão a verdadeira responsável pelos problemas na
Petrobras.6
Mesmo estando entre os principais elementos discursivos
usados como motivação para o golpe de 1964, se
analisarmos o debate público da época veremos que a
corrupção foi assunto de segundo plano em meio às críticas
a João Goulart e seus aliados. Primeiro, porque não havia
denúncia envolvendo pessoalmente Goulart; segundo, por
estar ainda muito próxima a sensação de decepção causada
por Jânio Quadros, líder eleito para varrer a sujeira e cuja
renúncia inexplicável deixou perplexos seus seguidores,
tornando mais difícil mobilizar as ruas com base em
discursos anticorrupção; finalmente porque, com o
agravamento da crise política e a sensação de iminente
ruptura institucional ou guerra civil, acusações sobre
improbidade administrativa tornaram-se problema menor.
Nos discursos e mobilizações públicas contra João Goulart,
como vimos, predominaram as acusações de que ele
conspirava com a esquerda visando um governo autoritário.
Assim, a temática da luta contra a corrupção somente
adquire centralidade nos discursos dos líderes do golpe
após terem ascendido ao poder. Nesse momento, para
manter o clima de mobilização política e justificar a
necessidade do Estado autoritário, os apoiadores da
ditadura construíram o discurso sobre o inimigo duplo da
“revolução”. Pouco após o início do governo Castelo Branco,
difundiu-se que seria preciso derrotar não apenas a
esquerda e o comunismo, o problema principal, mas
também um segundo alvo, a corrupção.
A imprensa favorável ao golpe teve papel-chave nessa
operação discursiva, que percebemos em editoriais de
meados de abril de 1964 publicados por jornais influentes
como O Globo e O Estado de S. Paulo.7 Após a ênfase inicial
no tom anticomunista, ambos passaram a estimular o novo
governo a se voltar também contra a corrupção. O
argumento era que não bastava derrotar o comunismo: o
novo regime precisaria também sanear a corrupção e os
corruptos, até porque, afirmavam esses apoiadores da
ditadura, os últimos seriam aliados dos vermelhos e
igualmente tentariam minar o sucesso do novo regime. A
chave para entender a real motivação desses discursos
estava em um dos textos, que alertou o governo para o fato
de o combate à corrupção ser uma das principais
expectativas da sociedade. Esse era o ponto essencial. A
“luta” contra a corrupção seria um dos caminhos para atrair
apoio popular.
Tratava-se de encontrar outro inimigo para combater, já
que a ofensiva anticomunista não seria suficiente como
discurso legitimador para a ditadura e para suas ações e
agentes repressivos. A “limpeza” e o “saneamento” do país
passariam, portanto, pela eliminação dos dois inimigos.
Assim, a campanha anticorrupção possuía forte motivação
oportunista, já que o tema poderia ser explorado para atrair
apoio social e garantir legitimidade à ditadura entre uma
parte da população, ao menos. Seriam sensibilizados os
mesmos grupos sociais empolgados pela retórica
anticorrupção nos anos anteriores, que, significativamente,
tinham uma tendência a perceber mais o problema quando
os alvos estavam relacionados à esquerda. No entanto, é
importante notar também a presença de elementos de
convicção nessa luta contra a corrupção, cujo apelo
moralizador era especialmente forte entre os militares.
O elemento oportunista fica claro quando observamos os
resultados das ações do Estado para punir pessoas
acusadas de corrupção, em que foi notável a interferência
de critérios políticos. Em poucas palavras, os “corruptos”
perseguidos em geral tinham ligações com grupos
considerados inimigos políticos da ditadura, ou então eram
figuras sem maior identificação com o regime de 1964. As
lideranças políticas, administrativas e empresariais
conectadas à ditadura e suspeitas de corrupção ou de
práticas ilícitas foram protegidas pelo Estado, e, em muitos
casos, as evidências contra elas não chegaram ao
conhecimento público graças à censura ou à aliança com a
imprensa.
As medidas da ditadura contra a corrupção
Para oferecer uma análise adequada do tema, com a devida
atenção para sua complexidade, a melhor opção é abordar
as iniciativas tomadas pela ditadura para lidar com a
corrupção ao longo do tempo. À medida que avançarmos na
análise das campanhas anticorrupção dos governos
militares, mostrando como elas se desenrolaram durante as
diferentes fases do regime autoritário, os resultados — e os
fracassos — das promessas “saneadoras” dos seus líderes
serão mais bem esclarecidos.
Na primeira ofensiva repressora da ditadura, nas semanas
imediatas ao golpe, as ações concretas contra os suspeitos
de corrupção foram a cassação de mandatos parlamentares
e a perda de cargos públicos. O primeiro AI, de 9 de abril de
1964, autorizou o Poder Executivo a cometer tais medidas
persecutórias durante prazo limitado de tempo, sessenta
dias no caso das cassações políticas e seis meses no caso
do expurgo no serviço público. As principais justificativas
para tais medidas discricionárias tinham natureza política,
como se vê na descrição das “faltas” que seriam passíveis
de punição pelo AI: atentar contra a segurança do país e
contra o “regime democrático”, praticar crime contra a
ordem política e social ou cometer atos de guerra
revolucionária. Quanto aos suspeitos de corrupção, o AI
previa punição para quem atentasse contra a probidade da
administração pública ou praticasse crime contra o Estado
ou seu patrimônio. O mesmo texto estabeleceu que
investigações sumárias fundamentariam as punições.8
Significativamente, não se previu o direito dos suspeitos à
justa defesa.
As investigações foram conduzidas por meio de Inquérito
Policial-Militar (IPM), um processo previsto nos códigos
militares, sendo que geralmente oficiais radicais assumiram
a direção de tais inquéritos. Também foram criadas
comissões de investigação em órgãos públicos civis,
especialmente no Ministério da Educação. Para tentar
coordenar os mais de setecentos IPMs abertos no período,
que supostamente tinham em mira ao mesmo tempo o
comunismo e a corrupção, o governo criou a Comissão Geral
de Investigações (CGI), em 27 de abril de 1964, sob o
comando do marechal Estevão Taurino de Resende.9
A CGI teria a duração de seis meses, mesmo período
estabelecido para o expurgo do serviço público. Essa
primeira CGI teve dificuldades para atuar, pois tinha poucos
funcionários frente à enorme demanda punitiva. Além disso,
surgiram disputas envolvendo a chamada linha dura, o
grupo de militares (que eram maioria) e civis que defendia o
endurecimento nas punições aos “inimigos” e agiram como
fonte de pressão sobre o governo Castelo Branco. A crise
chegou à própria CGI quando o filho de Taurino de Resende,
que era professor universitário em Recife, foi preso acusado
de ligações esquerdistas, provocando a demissão de seu pai
do cargo.
Para sucedê-lo foi nomeado o almirante Paulo Bosísio, que
ao fim dos trabalhos da CGI, em outubro de 1964, emitiu um
relatório cujo tom era de queixa contra a falta de tempo
para corrigir a corrupção no país.10 Outros militares iriam se
apropriar desse mote, e nos anos seguintes demandariam
ações mais duras para “sanear” o país. De qualquer modo,
os trabalhos de investigação tiveram pouco efeito em
relação aos expurgos, pois em muitos casos não houve
inquérito e a maioria dos atingidos não foi informada sobre
o teor das acusações. Por isso, é difícil estimar quantos
entre os milhares de servidores públicos (federais, estaduais
e municipais) aposentados ou exonerados em 1964 eram
suspeitos de corrupção ou de “comunismo”. O mais
provável é que a maioria tenha sido classificada na
categoria de inimigo político.
Quanto aos líderes políticos cassados, tampouco há
indicações conclusivas. Um caso notório foi o do deputado
Moisés Lupion, cassado nos primeiros dias do golpe de
1964. Ele havia sido governador do Paraná entre meados
dos anos 1950 e início dos 1960, período em que foi
acusado de corrupção e de enriquecimento ilícito,
especialmente devido ao apossamento de terras públicas. O
escândalo tornou Lupion uma celebridade nacional no início
dos anos 1960, de maneira que sua cassação em 1964 foi
usada como exemplo do empenho da ditadura em “limpar”
o país.11
A cassação do então senador e ex-presidente Kubitschek,
em junho de 1964, alcançou ainda maior visibilidade. Além
de ser acusado de práticas ilícitas, ele era odiado à direita
por suas alianças eleitorais com os comunistas. Importante
referir que, devido à forte pressão dos setores mais radicais
da ditadura, JK foi cassado mesmo tendo apoiado o golpe e
votado na eleição indireta de Castelo Branco. A adesão de
última hora do ex-presidente mineiro ao barco golpista não
foi suficiente para angariar a confiança dos novos donos do
poder, que não perdoaram desavenças passadas. Para além
da fúria moralizadora, interessava à ditadura cassar os
direitos políticos de JK para evitar que fosse candidato nas
eleições seguintes, pois se tratava de líder muito popular.
Investigações sobre o patrimônio de JK seguiram pelos
anos posteriores, sem que se conseguisse provar
enriquecimento ilícito. Significativamente, em maio de 1968
o STF derrubou ação da Procuradoria-Geral da República que
pretendia confiscar um apartamento de JK sob alegação de
que seria resultado de propina.12 Situação semelhante foi
enfrentada por João Goulart, acusado tanto de fomentar a
ameaça comunista como de enriquecer na vida pública. A
ditadura fez publicar acusações e suspeitas sobre a origem
de seu patrimônio, para comprometer sua imagem pública,
e investigou seus negócios (ele era fazendeiro) com lupa.
Mas nada foi encontrado para provar as acusações.
Apesar do expurgo em larga escala em 1964, a direita
radical permaneceu insatisfeita e achando que o trabalho
estava incompleto. A pressão pela punição dos corruptos
provinha sobretudo da linha dura. Para esse grupo, o
“saneamento” tinha sido insuficiente por culpa das
instituições liberais ainda vigentes, como o Poder Judiciário,
que em muitos casos libertou pessoas presas sem culpa
formada ou sem provas. O governo Castelo Branco também
era criticado por suposta timidez nas punições, com
acusações de que estaria traindo a “revolução”.
A linha dura protestava contra a curta (a seu ver) duração
dos dispositivos punitivos do AI, que expirariam em outubro
de 1964, e exigia sua renovação e radicalização, ou seja,
restringir ainda mais as liberdades e garantias individuais e
aumentar o poder discricionário do Estado. Uma das
motivações para instaurar o AI-5 foi exatamente fortalecer o
Poder Executivo de modo a retirar os entraves à desejada
“limpeza” do país.
Durante o expurgo inicial comandado pelo governo
Castelo Branco, a situação mais irritante para a direita
moralizadora envolveu o então governador de São Paulo,
Ademar de Barros. Tal como no caso de JK, o governo federal
sofreu forte pressão para cassá-lo, ainda que uma futura
disputa presidencial não fosse um fator em jogo nesse caso.
Os objetivos dos grupos que atacavam Barros tinham a ver
com disputas regionais em São Paulo, mas era forte
também o desejo de atender à ânsia moralizadora, que era
sincera em alguns segmentos golpistas. Desde os anos
1940, quando fora interventor em São Paulo durante a
ditadura do Estado Novo, Barros era considerado um político
corrupto. Ele envolveu-se em vários escândalos e processos
judiciais, o que não impediu sua eleição para a prefeitura e
depois para o governo estadual, apesar da indisposição da
grande imprensa paulista.
Como governador de São Paulo, Ademar teve papel
importante na mobilização direitista prévia ao golpe de
1964, tanto na organização da primeira Marcha da Família
com Deus pela Liberdade como na preparação de forças
militares. Devido à sua posição destacada entre os líderes
civis do golpe, era difícil cassá-lo, pois ele usava a
“revolução” como blindagem.13 Outro trunfo e garantia
importante do governador era a polícia militar estadual,
composta de 30 mil homens, que poderia ser mobilizada
caso o governo federal agisse contra ele. Além disso, Barros
manobrava bem nos bastidores para obter apoio. Segundo o
consulado norte-americano de São Paulo, ele havia ganhado
a simpatia de uma figura poderosa, o general Costa e Silva,
então ministro da Guerra, pagando dívidas de jogo do
militar.14 Graças ao presidente Castelo Branco, que chegou
a intervir nas comissões de investigação para blindá-lo, para
profundo desgosto da linha dura, Ademar escapou do
expurgo em 1964, apesar de todas as pressões contra ele.15
No entanto, a cassação de Ademar de Barros acabou
sendo concretizada em junho de 1966, quando o governo
voltara a ter o poder de suspender mandatos e direitos
políticos graças à entrada em vigor do AI-2, em outubro de
1965. Mas a razão efetiva para a punição de Ademar não foi
a corrupção, e sim a sua aproximação com o MDB e as
articulações que vinha fazendo para influenciar as eleições
indiretas em São Paulo e emplacar um candidato na
sucessão estadual que ocorreria no final de 1966, o que
contrariava a vontade de Brasília de impor um nome
próprio.
O caso de Ademar de Barros é um exemplo de como o
tema da corrupção foi manipulado pelos chefes da ditadura,
pois os alvos atingidos sob a justificativa de serem corruptos
eram definidos prioritariamente por motivação política.
Situação semelhante ocorreu no setor empresarial, por
exemplo com a empresa aérea Panair, então uma das
maiores firmas brasileiras. A Panair foi perseguida e fechada
por iniciativa da ditadura, com o argumento formal de má
administração e envolvimento em corrupção. Mas o objetivo
real era punir o grupo controlador da empresa, que tinha
ligações com Juscelino Kubitschek e João Goulart.16
A entrada em vigor da Constituição de 1967 implicou a
redução (temporária) dos meios discricionários à disposição
da ditadura. Mas o recrudescimento autoritário após a
edição do AI-5, em dezembro de 1968, permitiu aos agentes
estatais retomarem a perseguição aos “inimigos”. A
reabertura da temporada de cassações, expurgos e prisões
em larga escala propiciou um novo ciclo repressivo. O
inimigo principal a ser abatido eram os grupos de esquerda,
em especial os que pegaram em armas para lutar contra a
ditadura. Porém, a ânsia repressiva abriu espaço também
para a retomada da campanha contra a corrupção, tema
que sensibilizava particularmente a direita radical, grupo
que ganhou mais espaços de poder no Estado a partir da
edição do AI-5.
Logo na sequência do AI-5, ainda em dezembro de 1968,
foi criada uma nova CGI.17 Outra medida que agradou aos
defensores da moralização por meios autoritários foi a
edição do Ato Complementar n. 42, que autorizava o
presidente da República a confiscar bens de pessoas
acusadas de corrupção e enriquecimento ilícito.18 Tratava-se
de uma demanda apresentada por coronéis da linha dura
em 1965, que, ao ser atendida, permitiria dar
consequências mais concretas às investigações contra a
corrupção.
Diferentemente de sua primeira versão, a CGI criada no fim
de 1968 não tinha prazo para encerrar as investigações, e
seu foco restringiu-se a temas afetos à corrupção e às
práticas administrativas ilícitas. Como o expurgo em 1964
gerou investigações pouco coordenadas, dessa feita os
responsáveis pelo novo ciclo repressivo tentaram organizar
melhor o trabalho. Para tanto, distinguiram as atividades de
combate à subversão do trabalho de punição à corrupção.
Para coordenar a investigação de crimes políticos foi criada
a Comissão Geral de Inquérito Policial-Militar, distinta da CGI.
Com foco exclusivo nos acusados de corrupção e
enriquecimento ilícito, a nova CGI foi mais bem aparelhada
que a anterior, contando com mais funcionários e
representação nos estados.19
A comissão atuou durante cerca de dez anos, sendo
encerrada junto com a extinção do AI-5, no início de 1979.
Ela se concentrou basicamente na investigação de políticos
e empresários suspeitos de atos ilícitos envolvendo direta
ou indiretamente o poder público, embora tenha se ocupado
de outros tipos de contravenção também (contrabando, por
exemplo). Dentre as ações da CGI destacou-se a punição de
alguns políticos, em grande parte ligados a desafetos da
ditadura, como JK. No entanto, a maioria dos processos
conduzidos pela comissão foi arquivada e não gerou
consequências. Significativamente, nenhum dos grandes
grupos empresariais que apoiavam a ditadura foi
investigado. O saldo efetivo após a averiguação de milhares
de pessoas foi o confisco dos bens de algumas dezenas de
indivíduos e empresas,20 um resultado modesto tendo em
vista a escala da propaganda e dos discursos oficiais em
torno da “luta” contra a corrupção.
Além da CGI, no início de 1969 foram instaladas Comissões
de Investigação Sumária conectadas a alguns ministérios,
como a Cisex (do Exército) e a Cismec (do MEC), que atuaram
nas “investigações” que fundamentaram os expurgos de
funcionários públicos das respectivas áreas. Ademais, os
órgãos da comunidade de informações também se
interessaram em apurar acusações de corrupção e atos
ilícitos na administração pública, embora não tivessem
poder de decisão. De todas essas iniciativas persecutórias
resultou a aposentadoria compulsória ou a exoneração de
algumas centenas de servidores públicos em 1969-70, com
destaque para professores, cientistas e diplomatas. A
maioria dos atingidos entrou na mira por razões políticas,
mas, em alguns casos, suspeitas de “corrupção moral”
levaram ao expurgo, notadamente a acusação de práticas
homossexuais.21
Enquanto a CGI e demais órgãos se ocuparam de vigiar e
punir “peixes pequenos” e políticos desafetos da ditadura,
os grandes projetos de crescimento econômico tocados pelo
Estado nos anos 1970 geraram muitas oportunidades para
que figuras poderosas desviassem recursos públicos. As
obras e demais empreendimentos econômicos de larga
escala geridos pela ditadura mobilizaram enorme volume de
dinheiro. Em meio a tantos negócios surgiram brechas para
negociatas, e logo figuras de destaque dos governos
militares envolveram-se em casos escusos, notadamente no
segmento das grandes obras de infraestrutura.22
Além de ter ampliado os recursos públicos em circulação,
a ditadura tinha outra faceta que favoreceu a corrupção: a
censura. Muitas denúncias de irregularidades não chegaram
ao conhecimento do público devido à pressão do Estado
sobre os meios de comunicação. Somente quando a
ditadura entrou em crise e as disputas entre seus
apoiadores aumentaram foi que tais situações começaram a
ser divulgadas mais amplamente, levando as campanhas
anticorrupção conduzidas pelos militares ao descrédito.
As práticas corruptas de agentes e líderes do regime
autoritário
Quando falamos de corrupção na ditadura, um dos casos
mais notórios envolve o empresário e político Paulo Maluf.
Na verdade, podemos dizer taxativamente que Maluf foi
uma cria da ditadura, pois foi sob as asas do Estado
autoritário que ele entrou na vida política. Após ter dirigido
a Caixa Econômica Federal, ele foi o escolhido pelo general
Costa e Silva para ocupar a prefeitura de São Paulo, em
1969. Teoricamente, quem deveria indicar o prefeito da
capital era o governador do estado, mas o presidente impôs
a sua vontade, gerando estranhamento e mal-estar em
certos círculos da elite paulistana, uma vez que Maluf era
desconhecido publicamente e havia nomes disponíveis que
contariam com maior reconhecimento popular.23 A
propósito, sua indicação mostra que, na ocasião — período
inicial do AI-5 —, os dirigentes da ditadura se preocupavam
pouco com a reação popular a suas decisões.
Na época circularam boatos de que a escolha de Maluf se
devia a relações corruptas com o grupo em torno de Costa e
Silva. Segundo algumas versões, a opção por seu nome se
deveu à pressão da esposa do presidente, Yolanda Costa e
Silva.24 Mesmo que tenha sido apenas boato e sua ascensão
ao posto de prefeito de São Paulo não envolvesse interesses
escusos, o cargo lhe abriu caminho para uma carreira
política notoriamente escandalosa. Ele se envolveria, ao
longo dos anos, em muitas acusações de desvios e mau uso
de recursos estatais, aproveitando-se sobretudo das
oportunidades abertas por obras de infraestrutura
realizadas em suas gestões. Esses negócios foram usados
por Maluf para construir uma reputação popular de grande
potencial eleitoral e, também, para obter o controle das
bases da Arena de São Paulo.
Embora Maluf fosse uma cria da ditadura, alguns dos seus
líderes preferiam que ele não ascendesse politicamente,
pelo constrangimento que poderia causar ao regime militar.
Em 1978, durante o processo de escolha dos governadores
para o mandato que se iniciaria em 1979, Maluf se
aproveitou da distensão para impor-se como candidato da
Arena paulista, contra a vontade do presidente Ernesto
Geisel, que preferia outro nome. Geisel fez um gesto público
para mostrar-se distante de Maluf. Seguindo recomendação
da CGI, ele determinou o confisco de bens da empresa
Lutfalla, que era ligada à família da esposa de Maluf, assim
como dos bens de seus diretores.25 A acusação era de uso
de influência política para obtenção de empréstimo junto ao
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE,
depois BNDES, a partir de 1982) para empresa em estado de
falência, gerando prejuízo público.
Mesmo assim, e apesar da pressão de aliados para que
usasse o poder do AI-5 a fim de impedir a ascensão política
de Maluf, Geisel evitou medida mais dura contra o político
paulista. Entre outros possíveis motivos, a decisão foi
determinada pela estratégia de fortalecer e popularizar o
partido da ditadura, e Maluf tinha apoio de parcela da
opinião pública devido à sua eficiência como tocador de
obras. Mais adiante, tentaria ganhar a presidência na
sucessão do general Figueiredo, para isso contando com o
apoio da parte majoritária da Arena e de uma facção dos
militares. No entanto, outros setores governistas preferiram
marchar com a oposição, tema a ser analisado no final do
livro.
Significativamente, para ser candidato à presidência em
1984 Maluf teve de derrotar outra figura que se celebrizou
como tocador de obras da ditadura, Mario Andreazza, que
disputou com ele o posto de candidato do partido oficial. Tal
como o ex-prefeito de São Paulo, Andreazza se aproveitou
da expansão econômica do período do “milagre” para
construir alianças no mundo empresarial e amealhar
recursos para financiar sua carreira política. Sua liderança
foi construída após ocupar os ministérios dos Transportes
(1967-74) e do Interior (1979-85), órgãos-chave na gestão
dos grandes projetos de engenharia e infraestrutura.
Andreazza nunca foi processado formalmente, mas teve de
responder a denúncias de favorecimento ilícito a grupos
privados e foi convocado a depor no Congresso Nacional no
início do governo Figueiredo.26 Já Maluf seria condenado e
preso muitos anos depois do fim da ditadura, em 2017, após
responder a inúmeros processos criminais.
Maluf e Andreazza são exemplos notórios da exploração
de oportunidades de negócios escusos na ditadura. Mas
houve também denúncias graves contra outro nome de
destaque, Delfim Netto, o principal condutor da política
econômica dos governos militares. Durante a presidência de
Geisel, Delfim foi despachado para o posto de embaixador
na França, para afastá-lo do país e reduzir sua crescente
influência nos meios empresariais e políticos. Cerca de dois
anos depois, em 1976, o adido militar da embaixada,
coronel Raimundo Saraiva Martins, enviou a Brasília um
relatório informando que o embaixador cobrava propina de
empresários franceses com projetos econômicos no Brasil. O
relatório acabou em uma gaveta do SNI, embora seu
conteúdo circulasse nos meios políticos e gerasse
acusações a Delfim. No final de 1978, por exemplo, líderes
do MDB (entre eles o ex-deputado cassado Francisco Pinto)
fizeram menção às denúncias, mas a imprensa tratou o caso
de maneira discreta, às vezes criticando os denunciantes.27
Apenas ao fim da ditadura os detalhes do relatório Saraiva
vieram a conhecimento público.
Além desses casos mais notórios e de maior relevância
em termos dos recursos financeiros envolvidos, existem
muitos registros sobre corrupção e atos ilícitos de menor
envergadura cometidos sob a sombra do regime militar, que
são conhecidos hoje devido à abertura de arquivos oficiais.
Além da CGI, ocasionalmente a comunidade de informações
também se ocupou de investigar casos suspeitos de
corrupção. A preocupação era evitar que as práticas
administrativas ilícitas minassem a credibilidade do regime.
Por exemplo, em 1976 agentes de informação federais em
São Paulo foram removidos dos seus cargos devido a
evidências de que favoreciam interesses de faculdades
privadas em troca de propina,28 no entanto os órgãos
estatais não deram publicidade ao caso, para preservar a
imagem da ditadura.
A propósito, o SNI também tentou acobertar escândalos de
maior escala pública para evitar má repercussão para os
governos militares, chegando a articular esquemas com
alguns jornalistas escusos para ganhar publicidade
favorável ao Estado. Um desses casos envolveu o jornalista
Alexandre Baumgarten, assassinado como queima de
arquivo em 1982.29 Na área das agências de informação e
repressão, também existem denúncias de corrupção
envolvendo a venda de proteção em troca de propina, para
tirar certos nomes das listas de cassação ou para liberar
passaportes retidos por razões políticas. Além disso,
segundo informações colhidas por diplomatas norte-
americanos, algumas pessoas conseguiram evitar a punição
pagando propinas a figuras poderosas do governo, inclusive
a um ministro da Justiça.30
No período final da distensão, principalmente a partir de
1978, a maior liberdade de imprensa e os choques internos
na ditadura permitiram que algumas denúncias contra
autoridades estatais viessem a público. Uma das fontes de
denúncia foi o general Hugo Abreu, que após ter ocupado a
chefia do Gabinete Militar de Geisel rompeu com o
presidente, por discordar da escolha do general Figueiredo
para chefiar o governo seguinte. Além de ter se aproximado
da oposição e ajudado a montar a candidatura presidencial
do general Euler Bentes pelo MDB, Abreu fez graves
denúncias que chegaram à imprensa. Em outubro de 1978,
ele enviou uma carta a um grupo de generais acusando o
governo Geisel de estar envolvido em (ou ao menos tentar
acobertar) casos de corrupção.31 Foi punido com um período
de encarceramento, mas o tema ganhou a imprensa de
oposição, que usou a imagem do “mar de lama” para se
referir ao governo Geisel, uma referência irônica à
campanha anticorrupção dos anos 1950 contra Vargas, que
foi movida principalmente pelos militares.
O principal alvo das denúncias de Abreu era o general
Golbery do Couto e Silva, então chefe da Casa Civil,
acusado de favorecer com verbas públicas a empresa
multinacional Dow Chemical, da qual havia sido diretor.
Diferentemente de Delfim Netto, que foi protegido pela
imprensa — porque ela acreditava em sua inocência, ou por
ter maior afinidade com o economista, ou por alguma outra
razão —, Golbery mereceu menor complacência e precisou
se esforçar para trazer explicações ao público.32 Nesse
momento, às vésperas das eleições parlamentares de 1978,
outras lideranças e projetos da ditadura foram igualmente
denunciados por práticas corruptas, em casos envolvendo
empresas como Petrobras, Angra, BNDE e outros
empreendimentos econômicos ligados ao Estado.
Na ausência de risco de punição para essas figuras, que
contavam com a proteção do Estado autoritário, o que
estava em jogo era preservar a imagem pública de um
regime político que durante anos se apresentara como
paladino da luta contra a corrupção. Portanto, em seus anos
finais, a aura de regime empenhado em limpar o país da
corrupção perdeu credibilidade. No início da década de
1980, no governo de Figueiredo, à medida que se ampliava
a liberdade de expressão e que o regime autoritário se
enfraquecia, episódios escusos ocorridos nos anos
anteriores ou na própria gestão do último general
presidente foram sendo apresentados à opinião pública,
como os casos Capemi, Grupo Delfin e Coroa-Brastel, entre
outros.
O PRINCIPAL OBJETIVO DAS CAMPANHAS anticorrupção foi conquistar
popularidade para o governo, enquanto seu mais
importante efeito foi remover desafetos do cenário político.
As ações nunca atingiram lideranças importantes próximas
ao campo governista, fossem políticos ou empresários. Na
prática, as pessoas punidas efetivamente eram peixes
pequenos do cenário político (como Moisés Lupion) ou então
modestos funcionários públicos. Quanto ao órgão criado
para organizar o combate à corrupção, a CGI, seus resultados
após dez anos investigando milhares de pessoas foram
limitados, já que o número de atingidos por suas ações foi
modesto.
Figuras de destaque dos quadros administrativos da
ditadura foram poupadas das investigações, embora
houvesse suspeitas e denúncias contra elas.
Significativamente, ao mesmo tempo que aliados eram
poupados, o Estado agia de maneira assimétrica,
expurgando certas personalidades por motivações que
tinham menos a ver com corrupção e mais com a intenção
de afastar adversários políticos do cenário público. Tal foi,
claramente, a razão para as punições de Juscelino
Kubitschek e Ademar de Barros, enquanto no caso de João
Goulart as denúncias, nunca provadas, foram utilizadas para
comprometer a sua imagem pública.
Enquanto a “luta” contra a corrupção era propagandeada
para convencer a população de que se tratava de governo
honesto e saneador de todos os males, lideranças corruptas
se aproveitaram da máquina pública em benefício próprio,
desviando dinheiro de forma ilícita e imoral sob o manto
protetor do autoritarismo e da censura. Devido às pressões
para que não fossem divulgados, é difícil avaliar a extensão
dos casos de corrupção envolvendo órgãos públicos durante
a ditadura, e consequentemente é complexo comparar a
incidência de tais práticas com os períodos anteriores e
posteriores.
De todo modo, não há qualquer evidência de que a
ditadura tenha conseguido reduzir a corrupção pública. Mas
podemos afirmar com certeza absoluta que o Estado
autoritário não eliminou as práticas ilícitas, que continuaram
a ocorrer nos altos escalões. Seria, portanto, ingênuo
acreditar no discurso oficial de que a ditadura tornou a
máquina pública mais limpa.
O controle das informações e a censura favorecem as
práticas ilícitas, pela certeza da impunidade, enquanto nos
regimes democráticos, ao contrário, é mais fácil denunciar
os erros cometidos pelos poderosos.
9. O “milagre” econômico e a sua
problemática herança
O ARGUMENTO DE QUE TERIA HAVIDO um “milagre” econômico
durante a ditadura militar é bastante conhecido. E também
muito manipulado, com a motivação de justificar o
autoritarismo. As realizações econômicas no período da
ditadura são apresentadas por seus defensores como um
grande serviço prestado ao país. Em certos discursos, é
como se fossem uma compensação pelo regime autoritário
que os brasileiros tiveram de suportar. Nas versões
elogiosas aparecem apenas os dados brutos de
crescimento, sem levar em consideração os aspectos sociais
do processo e tampouco os desequilíbrios econômicos
gerados pela expansão rápida.
Por maior que seja nosso sentimento de rejeição à
ditadura, principalmente devido a seu caráter violento e
autoritário, não há como negar que durante aqueles anos
ocorreu forte crescimento econômico. Duvidar dessa
realidade seria pueril, pois os dados estatísticos são
eloquentes. No entanto, é preciso aplicar um olhar capaz de
abarcar um período mais amplo. A ditadura se inscreveu no
grande crescimento experimentado pela economia
brasileira a partir dos anos 1940, cujo carro-chefe foi a
industrialização. A média de crescimento nas duas décadas
anteriores ao regime militar foi de aproximadamente 7% do
PIB ao ano,1 o que colocou o Brasil entre os países com as
maiores taxas de expansão econômica no mesmo período.
No início do século XX éramos a 25a nação mais rica do
mundo, enquanto no seu final tínhamos passado à oitava
colocação.
Assim, se fôssemos falar em “milagre”, uma expressão
questionável mas aplicada anteriormente aos casos de
crescimento econômico acelerado do Japão e da Alemanha,
teríamos de nos referir a um período mais largo para o caso
brasileiro, e não apenas à fase da ditadura. Aliás, se
fôssemos realmente comparar o suposto milagre da
ditadura com os casos alemão e japonês (outros países
poderiam ser acrescentados à lista), teríamos de apontar os
diferentes resultados sociais alcançados por cada um, pois
naqueles países, ao contrário do Brasil, o crescimento
econômico foi acompanhado de melhoria nos indicadores
sociais.
A ditadura militar herdou um arranjo econômico que foi
estruturado inicialmente no período Vargas, baseado no
intervencionismo e no planejamento estatal combinados
com a participação de capital privado (nacional e
internacional). O modelo foi aprofundado durante os anos
de Juscelino Kubitschek, cujo Plano de Metas propiciou
grande crescimento econômico, que ele procurou captar —
e explorar — com o lema “50 anos em 5”.2 Importante
mencionar que a expansão econômica sob o governo JK se
deu em regime democrático, quando as forças de oposição
eram respeitadas e tiveram o direito de disputar e ganhar o
poder na sua sucessão, e, além disso, não foi acompanhada
de arrocho salarial e repressão política.
Nesse sentido, o projeto da ditadura militar se assemelha
mais ao desenho da ditadura varguista, que, da mesma
forma, combinou modernização econômica com repressão e
autoritarismo. As semelhanças entre as duas ditaduras nos
permitem afirmar que ambas fizeram parte de um processo
de modernização conservadora e autoritária. Em outras
palavras, tratou-se de projetos políticos orientados para
modernizar o aparato econômico mas, simultaneamente,
evitar mudanças nas estruturas sociais com base na
repressão política.
O “milagre” econômico do regime autoritário na verdade
foi para poucos, promovendo concentração de renda e
achatamento salarial. A gestão econômica da ditadura foi
marcada por desperdício de recursos e projetos
megalômanos, que, junto a outras opções equivocadas, no
fim deixaram o país em situação dramática, com dívida
externa impagável e hiperinflação fora de controle.
Planos e ações da ditadura no setor da economia
Antes de analisar os resultados econômicos da ditadura,
vejamos como as políticas para a área foram montadas,
com atenção para as suas diferentes fases. É importante
perceber que as políticas econômicas do regime autoritário
também possuem uma história, cuja análise é necessária
para melhor compreensão do processo, que nada teve de
linear. Afinal, as decisões dos líderes foram tomadas não
somente devido a esquemas preconcebidos, mas também
sob a pressão de diferentes contextos em que se
conjugaram disputas de interesses (econômicos,
burocráticos), objetivos ideológicos, cálculos políticos e o
impacto do quadro internacional.
Assim como no caso de outros aspectos do desenho
institucional da ditadura, o governo do general Castelo
Branco foi decisivo no que toca às políticas econômicas
adotadas entre 1964 e 1985. Muitas das suas opções
marcaram os caminhos trilhados pelos generais presidentes
seguintes, mesmo quando fizeram ajustes no modelo inicial.
Significativamente, Castelo Branco presidiu o governo mais
liberal da ditadura do ponto de vista econômico, em parte
por ter sido o mais influenciado pelos Estados Unidos.
Destaque-se, ademais, que em sua gestão foram
notadamente influentes algumas lideranças conectadas ao
Ipes, uma entidade empresarial com papel importante no
golpe.3 Os auxiliares-chave de Castelo Branco na área
econômica foram os ministros Roberto Campos, do
Planejamento, e Octávio Bulhões, da Fazenda, cabendo
destaque ao primeiro, um diplomata de carreira e
economista.
O principal instrumento de orientação em sua gestão foi o
Plano de Ação Econômica do Governo (Paeg), que primou
por implantar medidas de caráter liberal e recessivo. A
maior preocupação era reduzir a inflação, que ultrapassara
a marca de 90% ao ano no fim do governo Goulart. O índice
era considerado intolerável naquela altura, mas o regime
militar ofereceria ao país índices muito piores nos anos
seguintes.
O outro grande desafio era o balanço de pagamentos, em
que ocorria desequilíbrio entre a entrada e a saída de
dólares. Esse era um problema desde os anos 1930, devido
à queda da renda com a exportação de café (e outros
produtos primários) e ao aumento da necessidade de
recursos para importar bens indispensáveis à expansão
industrial, além da crescente demanda para enviar ao
exterior os lucros obtidos pelas empresas estrangeiras. Em
outras palavras, os dólares que entravam no país pela
exportação de produtos nacionais e pelo investimento
estrangeiro não compensavam as saídas para pagar
importações e para remunerar o capital investido. O
problema se agravou no governo JK e ainda mais no de
Goulart, gerando a proposta de limitar a remessa de lucros
para tentar o equilíbrio das transações econômicas
internacionais.4
As respostas liberais de Castelo Branco a tais desafios
passaram pela negociação favorável ao capital estrangeiro
— para atrair investimentos externos e tentar melhorar o
balanço de pagamentos — e pela redução da atividade
econômica como estratégia para conter os preços. As
medidas anti-inflacionárias seguiram o padrão recomendado
pelas instituições financeiras internacionais. O governo
reduziu o dinheiro em circulação por meio da compressão
de salários e do crédito às empresas, um remédio amargo
que provocou uma recessão econômica no setor industrial,
gerando quebra de empresas e desemprego. Para reduzir os
salários reais, a autoridade econômica deixou a própria
inflação fazer o serviço sujo. Bastava não os corrigir na
mesma proporção do aumento no custo de vida, e para
tanto foi criada uma fórmula de correção complexa que
misturava a inflação passada com a expectativa de inflação
(baixa) futura.5 Importante reiterar que os instrumentos
repressivos dificultavam uma resposta dos trabalhadores:
além de temerem os riscos de fazer protestos públicos em
tempos de ditadura, eles tinham perdido seus principais
líderes, que estavam presos ou eLivross.
Outra perda importante para os trabalhadores foi a de
estabilidade no emprego, que era alcançada após dez anos
de trabalho na mesma empresa. A ditadura cancelou esse
direito e colocou no lugar o Fundo de Garantia do Tempo de
Serviço (FGTS), um fundo baseado em contribuição patronal e
em descontos nos salários dos próprios trabalhadores,
gerando um valor a ser sacado no momento da demissão do
empregado. As empresas ganharam, assim, facilidade para
demitir — e com isso o poder de baixar os salários
contratando gente mais jovem. Os recursos depositados no
FGTS teriam notável impacto econômico nos anos seguintes,
na medida em que irrigaram o Banco Nacional de Habitação
(BNH), agência que financiaria a construção habitacional e
alavancaria a indústria da construção civil.
No que toca à falta de moeda forte, a saída escolhida pela
ditadura foi favorecer o capital estrangeiro e resolver os
conflitos produzidos durante a gestão de Goulart. Castelo
Branco cancelou o limite à remessa de lucros instituído pelo
antecessor, retirou entraves a investimentos em áreas até
então protegidas em nome do interesse nacional (sobretudo
a mineração) e pagou generosamente pelas empresas
estrangeiras em processo de desapropriação desde o
governo anterior (ITT e Amforp).6 Além disso, houve
constante desvalorização da moeda brasileira para
encarecer as importações e favorecer as exportações,
medida que jogava lenha para a inflação, mas buscava reter
dólares no Brasil. Porém, o principal plano para lidar com os
problemas no balanço de pagamentos passava pela atração
do capital estrangeiro, que seria seduzido pela expectativa
de melhora no ambiente para os investimentos.
De início, o principal montante de dólares que entrou no
Brasil era proveniente do setor público, mais precisamente
empréstimos ou concessões de agências do governo norte-
americano (Usaid e Eximbank), que estava muito
empenhado em ajudar Castelo Branco.7 Assim, o apoio
político do governo estadunidense trouxe alívio imediato às
contas externas, enquanto nos anos seguintes o capital
privado estrangeiro também aumentou investimentos,
atraído pelas possibilidades de lucro abertas pelo “milagre”
(a partir de 1968). Mesmo assim o problema estrutural —
rendas de exportação insuficientes para compensar a saída
de dólares — permaneceu, pois o aumento das atividades
do capital estrangeiro ampliaria a necessidade de exportar
lucros no futuro, enquanto o crescimento industrial
incrementaria a necessidade de importar insumos. Por isso,
uma crise mais grave no balanço de pagamentos acabou
ocorrendo ao fim da ditadura.
Outra medida de largo impacto implantada na gestão
Castelo Branco foi a reforma tributária, com a criação de
novos impostos e o aperfeiçoamento no sistema de
arrecadação.8 O aparato público de cobrança ficou mais
eficiente e abrangente, mas não necessariamente mais
justo, já que tributou mais as classes médias do que os
ricos. De qualquer modo, as mudanças provocaram
aumento nos recursos à disposição do Estado. A melhora da
situação do erário deveu-se também à criação de
mecanismos de indexação monetária, cujo objetivo era
proteger contratos e dívidas em relação à inflação, o que
deu mais credibilidade à venda de títulos públicos para
financiar os gastos governamentais. Dessa forma, o governo
passou a contar com recursos sem necessidade de emitir
moeda, o que evitava pressionar mais a inflação.9 Outra
medida econômica marcante da fase inicial da ditadura foi a
criação do Banco Central, para substituir as agências mais
modestas até então existentes. O BC e a indexação
monetária representaram as principais iniciativas para
modernizar e fortalecer o mercado de capitais brasileiro.
No entanto, o governo Castelo Branco não agradou
inteiramente aos defensores do liberalismo ortodoxo.
Embora tenha sido o mais liberal de todos os governos da
ditadura, ele avançou a intervenção do Estado em algumas
áreas, como o já mencionado sistema habitacional e os
sistemas elétrico e de telecomunicações, sendo que para
controlar o último foi criada a Embratel, em 1965. Além
disso, as estruturas corporativistas herdadas do varguismo
se ampliaram, com a criação de um sistema previdenciário
unificado — o Instituto Nacional de Previdência Social (INPS)
— e a expansão do sindicalismo oficial ligado ao Ministério
do Trabalho, que passou a incluir os trabalhadores rurais.10
Esse modelo corporativista não agradava aos liberais, que
preferiam relações de trabalho mais livres de controle
estatal (o que inspirou, por exemplo, as reformas da
ditadura de Pinochet no Chile).
O governo Castelo Branco alcançou seus principais
objetivos econômicos, embora em alguns casos apenas
parcialmente. A inflação foi de fato reduzida, mas não tanto
como desejado, baixando a cerca de 39% em 1966 e a
aproximadamente 27% em 1967, e a situação do balanço
de pagamentos melhorou, graças ao apoio amigo do
governo estadunidense. Castelo Branco resolveu os conflitos
com o capital estrangeiro, criou condições institucionais e
políticas favoráveis à atração dos dólares e melhorou a
situação das finanças públicas. No entanto, o custo disso foi
uma recessão no setor industrial, com quebra de empresas,
desemprego, extinção de direitos sociais e redução nos
salários reais dos trabalhadores. Por isso, Castelo Branco
não gozou de muita popularidade, trazendo perda de apoio
também para a ditadura comandada pelos militares. A
política liberal minorou o problema da inflação, mas
atravancou o crescimento e os investimentos produtivos.
Além disso, as concessões feitas aos interesses norte-
americanos trouxeram mal-estar ao orgulho nacional, o que
afetou também a opinião militar.
O aumento das críticas ao governo, visível na imprensa,
nas pesquisas de opinião e nos protestos estudantis,
somado à insatisfação difusa com o quadro econômico,
levou o governo seguinte, comandado pelo general Costa e
Silva, a repensar os rumos. Para isso foi escolhido o jovem
economista e professor universitário Antonio Delfim Netto,
que fez ajustes importantes na política econômica. Delfim
vinha de uma boa gestão à frente da Secretaria de Fazenda
do Estado de São Paulo e, o que era mais importante, tinha
boas relações com os empresários e priorizava o
crescimento econômico. Promovido ao comando da
economia nacional, ele manteve a estratégia de controle da
inflação, mas, simultaneamente, enfatizou o crescimento
econômico, tirando proveito da melhora das finanças
públicas legada pelo governo anterior.11 A expansão
econômica e industrial visava também vantagens políticas,
pois aumentaria o emprego e agradaria às classes média e
alta. Do ponto de vista dos militares, o crescimento
econômico, além de facilitar o domínio político — ao retirar
uma bandeira importante das mãos da oposição, que vinha
criticando a política recessiva de Castelo Branco —,
importava à segurança nacional, uma vez que incrementava
o potencial de defesa do país. Significativamente, durante o
surto expansionista dos anos seguintes, os militares
investiram no desenvolvimento da indústria de defesa, que
passou a produzir armas, aviões e veículos blindados, em
empreendimentos conjuntos entre empresas privadas e o
Estado.
A nova política trouxe estímulos à economia a partir da
expansão de crédito público para as empresas e captação
de empréstimos no exterior (principalmente de bancos
privados) para financiar grandes obras de infraestrutura,
além de estímulos e subsídios à agricultura e à indústria,
medidas também voltadas ao aumento de exportações.12
Os resultados logo começaram a aparecer, mas é
importante acrescentar dois elementos a essa equação:
havia um quadro externo favorável, pois a economia global
ainda se encontrava no ciclo dos “trinta anos dourados” do
capitalismo, que se encerraria com a crise de 1973; e os
investimentos econômicos e a acumulação de capital foram
favorecidos por um Estado ditatorial, que reprimia as
reivindicações salariais. De fato, os trabalhadores pouco se
beneficiaram da expansão econômica, exceto alguns grupos
situados na indústria de ponta. O público-alvo do “milagre”
foram as camadas de renda média e alta, cuja capacidade
de consumo foi ampliada e sustentou boa parte do impulso
industrial.
Foi a partir de 1968 que o ritmo da economia começou a
acelerar. No ano dos grandes protestos de rua e do aumento
da violência política, que culminou no AI-5, o PIB brasileiro se
expandiu a uma taxa de 10%, passando a 11% em 1971 e a
14% em 1973, seu ponto máximo. Mas o índice começou a
baixar depois de 1974, quando o PIB cresceu a um ritmo
menor que nos anos anteriores, 8%.13 De qualquer forma, a
taxa média anual durante os anos do “milagre” foi superior
a 10%. A nova fase começou a ser desenhada na gestão de
Costa e Silva, mas o grande beneficiário foi o governo do
general Emílio Médici, que assumiu em outubro de 1969 e
presidiu a fase de auge do surto econômico.
Naturalmente, para alcançar ganhos políticos, a ditadura
valeu-se muito do desempenho econômico em sua
propaganda. Foi um tempo de ufanismo tacanho, com
músicas e jingles patrioteiros cantando loas de amor ao país
verde-amarelo. A conquista futebolística do tricampeonato
mundial em 1970 favoreceu a onda patriótica, devidamente
explorada também em refrões musicais como “Eu te amo,
meu Brasil, eu te amo”, ou “Noventa milhões em ação, pra
frente Brasil, no meu coração”. A imprensa reverberava
esse clima através de publicidade paga, tanto pelo Estado
como por empresas privadas, ou às vezes de maneira
voluntária. Para as crianças foram lançadas iniciativas
propagandísticas específicas, como álbuns de figurinhas e
desenhos animados patrióticos. Os discursos oficiais
procuraram esconder o lado negativo da expansão
econômica, que as abafadas vozes da oposição tentaram
apontar, nadando contra a corrente.
A aceleração econômica foi planejada pelos tecnocratas
civis e militares a serviço da ditadura. Aliás, essa foi a era
de ouro dos tecnocratas, que os militares privilegiaram em
detrimento dos políticos civis. Um bom engenheiro ou
economista valia mais que uma liderança política
experimentada, pois o tempo era de tocar grandes projetos
de crescimento econômico. Além disso, os jogos da política
faziam pouco sentido no momento em que a ditadura
esteve mais distante do liberalismo, de modo que a elite
parlamentar perdeu relevância. Vários planos de
crescimento foram traçados pelos tecnocratas, seguindo
uma tradição que se iniciara nos anos 1940-50. Mas, dessa
feita, o Estado planejador era uma ditadura com mais
recursos para perseguir seus objetivos.
Já mencionamos o Paeg da gestão Castelo Branco, mas
sua meta principal era conter a inflação. Foi só a partir do
Programa Estratégico de Desenvolvimento (PED, 1967-70),
traçado no governo Costa e Silva, que a tônica passou a ser
acelerar a industrialização e o desenvolvimento econômico
com base no protagonismo do Estado. Na sequência vieram
os Planos Nacionais de Desenvolvimento (PND I, 1971-4; PND
II, 1975-9), que eram mais ambiciosos em suas metas, por
terem surgido em meio ao surto econômico. O último
governo da ditadura, do general João Figueiredo, também
teve o seu plano (PND III, 1980-5), mas de pouca relevância,
porque então a economia já estava mergulhada na crise.
Embora inócuo na prática, o PND III tinha como um de seus
objetivos melhorar a distribuição de renda, partindo da
constatação de que o crescimento anterior beneficiara
desigualmente as diferentes classes sociais.
Importante destacar que os investimentos estatais
incluíram o setor de ciência e tecnologia, devido à
compreensão de que o desenvolvimento econômico
implicava o conhecimento, a pesquisa e a formação de mão
de obra qualificada. Por isso foram criados programas de
financiamento à pesquisa, assim como se implantou um
sistema nacional de pós-graduação com o objetivo de
formar pesquisadores e docentes universitários, que por sua
vez deveriam formar a mão de obra e os técnicos
necessários a uma economia em expansão. Esse processo
levou à ampliação das universidades, elevando o número de
alunos de 140 mil em 1964 para 1,4 milhão em 1984
(números arredondados). A maior parte estudava nas
instituições privadas, que tiveram crescimento exponencial
no período, mas foi nas universidades públicas que se
concentraram a pesquisa e a pós-graduação. Aqui temos um
exemplo notável de modernização autoritária: se com uma
das mãos o Estado aumentava recursos, bolsas e
oportunidades de pesquisa, com a outra intensificava a
vigilância e a repressão política. Como nas outras áreas em
que a ditadura investiu, também nas universidades houve
concentração de recursos e desequilíbrios regionais.14
Um dos setores mais beneficiados pelo “milagre” foi a
indústria, cujos dados de crescimento foram superiores à
expansão geral do PIB. A produção automobilística cresceu e
se diversificou, assim como o setor de eletrodomésticos. A
partir de meados dos anos 1970 a produção de bens de
capital se ampliou com estímulos e planejamento estatal, o
que gerou aumento na produção siderúrgica e também de
máquinas para a indústria. Sem surpresa, o salto econômico
demandou a expansão na produção de energia, o que foi
propiciado principalmente por investimentos estatais. Mais
uma área que se expandiu e modernizou nas mesmas bases
foi a de telecomunicações, permitindo a disseminação do
rádio e da televisão, assim como da telefonia. As novas
tecnologias favoreceram a modernização do setor cultural,
tanto das novas mídias como das empresas tradicionais
(editoras e periódicos, por exemplo).
Outro segmento que viveu uma fase expansionista foi a
construção civil, devido tanto aos investimentos
habitacionais financiados pelo BNH quanto às grandes obras
encomendadas pelo Estado, como hidrelétricas, pontes,
estradas etc. O setor foi beneficiado pela proteção do
Estado, que reservou as obras públicas para as empresas de
engenharia brasileiras.15 Nessa fase, algumas empreiteiras
do país também começaram a conquistar mercados no
exterior, sob o impulso do crescimento interno e de
estímulos estatais.
A expansão econômica foi fomentada também pelo
aumento dos investimentos estrangeiros no Brasil,
principalmente nos setores industriais de ponta, como
siderurgia, automóveis e produtos da “linha branca”
(geladeiras, fogões…), assim como pela captação de
empréstimos junto a bancos privados estrangeiros. Como
esse era tema sensível para a opinião nacionalista, a
ditadura procurou uma compensação simbólica em
campanhas patrióticas e no aumento de investimentos
estatais em setores estratégicos. No campo econômico, ela
empreendeu grandes projetos de engenharia como a
estrada Transamazônica, a ponte Rio-Niterói, a hidrelétrica
de Itaipu, a Ferrovia do Aço e a construção da usina atômica
de Angra dos Reis.
Além dos investimentos voltados ao crescimento
industrial, também foram implantados projetos de
modernização da agricultura. Os interesses estratégicos no
setor agrícola envolviam: reduzir as tensões pela disputa
por terras em algumas áreas; aumentar a produção visando
baixar os preços dos alimentos e as pressões inflacionárias;
e buscar alternativas de exportação com vistas a aliviar a
situação do balanço de pagamentos. No início de seu
governo, Castelo Branco ensaiou medidas na direção de
uma reforma agrária, pensando em atenuar conflitos rurais
e ampliar a produção agrícola. Para tanto, conseguiu o que
o Congresso negou a Goulart: a aprovação de uma emenda
à Constituição para desapropriar terras com pagamento em
títulos públicos (e não mais em dinheiro). A reforma agrária
era apoiada por grande parte da população e pelo governo
dos Estados Unidos, que a viam como parte do processo de
modernização econômica.
Porém, a oposição intransigente dos proprietários rurais,
sócios importantes do golpe de 1964, levou ao abandono da
ideia. Alguns líderes dos fazendeiros chegaram a ameaçar o
governo de usar contra ele as armas adquiridas para
combater os movimentos de esquerda. A ditadura preferiu
não comprar essa briga e se encaminhou para outras
saídas, principalmente a ampliação das áreas para
exploração agrícola, a modernização tecnológica e o
aumento de subsídios públicos.
A expansão da fronteira agrícola se dirigiu sobretudo à
região Centro-Oeste e ao sul da Amazônia, com grande
destruição ambiental. Vastas áreas foram desmatadas e
tribos indígenas foram expulsas de suas terras ou colocadas
em reservas criadas pela Funai — órgão instituído pela
ditadura em 1967, em substituição ao antigo Serviço de
Proteção ao Índio —, o que gerou sofrimento de variados
tipos, inclusive a violência cultural. A política agrícola da
ditadura trouxe ganhos econômicos, mas com grave custo
ecológico, e data dessa época o surgimento de uma
consciência ambientalista no Brasil e de movimentos nesse
sentido.
Quanto à tecnologia, os investimentos realizados em
proveito da indústria beneficiaram também o setor agrícola,
pois foi ampliada a oferta de máquinas e outros
implementos para o campo. Além disso, a ditadura criou a
Embrapa, empresa dedicada à pesquisa de novas
tecnologias para o setor, que deu notável contribuição ao
aperfeiçoamento de grãos e sementes, bem como à
correção de solos para a agricultura. Investimentos
semelhantes beneficiaram a pecuária. Outro auxílio para a
economia rural foi a política de financiamentos e subsídios
públicos, além de proteção contra a concorrência externa,
tornando mais estáveis as perspectivas de lucro para os
fazendeiros.16
Os resultados desses investimentos no setor rural
apareceram ainda na ditadura, mas teriam mais destaque
em período posterior, com impacto na pauta de
exportações. Os maiores beneficiários foram os setores de
maior renda, que viram seus negócios e lucros crescerem.
Os trabalhadores rurais não tiveram o que comemorar,
exceto a sua inclusão no sistema previdenciário a partir dos
anos 1970. A “modernização” do campo levou uma parcela
significativa da população rural a migrar para as cidades,
fosse porque as novas tecnologias demandavam menos
mão de obra e reduziram o emprego, fosse porque
imaginava-se encontrar melhores condições de vida no
mundo urbano.
A crise do “milagre” e seu legado
O quarto presidente da ditadura, o general Ernesto Geisel,
que assumiu o poder no início de 1974, não teve a mesma
sorte de seu antecessor. Geisel herdou uma economia ainda
em expansão, mas com graves problemas em gestação.
Desde o ano anterior o sistema capitalista global entrara em
crise, tendo como principal detonador o embargo da Opep,
a Organização dos Países Exportadores de Petróleo,
dominada pelos países árabes, que bloqueou a exportação
do combustível para pressionar os países ocidentais — em
especial os Estados Unidos — a interromperem o apoio
militar a Israel na Guerra do Yom Kippur (outubro de 1973).
A crise econômica resultante da explosão do custo do
petróleo, junto a outros fatores, foi o começo do fim dos
“trinta anos dourados” que os países capitalistas ricos
viveram desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Na
sequência, abriu-se uma fase de inflação e recessão
econômica na Europa e nos Estados Unidos, que iria cobrar
seu preço também no mundo periférico.17 A principal
resposta à crise foi o neoliberalismo, que logo se tornaria
hegemônico com suas propostas de desengajar o aparato
estatal da economia, reduzir os gastos públicos e realizar
privatizações. Em época de inflação, os economistas
liberais, como sempre, recomendaram a redução da
atividade econômica.
Porém, Geisel e seus assessores preferiram manter o
ritmo e o rumo que vinha sendo seguido desde 1967, sem
adesão às propostas econômicas neoliberais, mesmo com o
risco de perder o controle sobre a inflação e sobre a dívida
pública, principalmente a externa.18 Na verdade, o governo
Geisel acelerou investimentos e gastos, e inclusive
aumentou a captação de empréstimos no exterior,
aproveitando-se dos recursos resultantes do enriquecimento
dos exportadores de petróleo, que emprestaram seus
dólares aos bancos internacionais (os “petrodólares”).
Como explicar essa decisão arriscada? Primeiro, a
ditadura tornara-se dependente do crescimento econômico
como fonte de legitimidade, em especial depois dos
resultados negativos nas eleições de 1974, que mostraram
a fragilidade do apoio social. Em segundo lugar, o
crescimento econômico era uma meta ideológica e
estratégica dos militares, devido à sua visão sobre a
segurança nacional, que implicava industrializar e
modernizar o país com o objetivo de melhorar os recursos
de defesa e ampliar a ocupação do território. Terceiro, os
economistas do governo alegavam que os investimentos na
produção industrial reduziriam as importações e
aumentariam as exportações no futuro, trazendo alívio à
balança comercial.19
Dessa forma, o governo Geisel manteve níveis elevados
de investimento público direcionados ao financiamento de
projetos de impacto econômico e continuou oferecendo
crédito generoso para empreendimentos privados. É
importante destacar que sua política industrial enfatizou o
setor de bens de capital, considerado necessário para a
continuidade do desenvolvimento econômico. Assim, foram
lançados projetos de investimento na siderurgia, na
produção de papel e celulose, na mineração, na produção
de energia hidrelétrica e também no setor de transportes.
Na área de energia, o governo Geisel investiu em
alternativas para minorar os efeitos da crise do petróleo,
combustível essencial que naquela altura era quase todo
importado: cerca de 80% do volume consumido no Brasil
vinha do exterior.20 Para tanto, a Petrobras recebeu grandes
investimentos, especialmente visando encontrar petróleo no
lençol marítimo, ao mesmo tempo que o governo estimulou
a participação de empresas estrangeiras na busca de novo
poços. Essa estratégia passou pelos célebres contratos de
risco firmados com petroleiras estrangeiras, que ao
ganharem direito a perfurar certas áreas do litoral
provocaram queixas dos nacionalistas. A outra ofensiva
importante nessa área foi o investimento na produção de
álcool combustível, uma alternativa ao petróleo.
Não obstante os esforços do governo Geisel, o ritmo de
crescimento da economia caiu e os desequilíbrios se
agravaram. Se a taxa do PIB chegou a 14% em 1973, último
ano de Médici e auge do “milagre”, em 1974, primeiro ano
de Geisel, o índice caiu para 8%, e continuou baixando
(exceto no ano de 1976): 5% em 1975, 10% em 1976, 4,9%
em 1977 e novamente 4,9% em 1978, último ano de Geisel
no poder. Em outro contexto esses seriam números
elevados, mas, na comparação com o início da década,
significavam declínio. Mais preocupantes eram os índices de
inflação, que voltaram a assombrar o país após alguns anos
de relativa tranquilidade. Entre 1969 e 1973, a taxa oficial
de inflação variou de 15% a 19%, índices que foram
contestados por denúncias de que o ministro Delfim Netto
havia adotado subterfúgios para “maquiar” os resultados.
De qualquer forma, a partir do período Geisel a inflação foi
aumentando e saindo do controle, pois chegou a 27% em
1974 e continuou em ritmo ascendente, ultrapassando a
faixa de 40% em 1976, patamar em que se manteve até o
fim da gestão.21
Mesmo sofrendo pressões para reduzir o ritmo de
investimentos a fim de conter a inflação, o governo Geisel
não aceitou o caminho ortodoxo do choque liberal,
provavelmente para não admitir o fracasso do “milagre” e
assumir as consequências políticas, numa fase em que a
oposição vinha crescendo. Além de marcar o fim do surto
econômico da ditadura, o governo Geisel testemunhou
também o encerramento da lua de mel entre os militares e
o empresariado, importante esteio do Estado autoritário
desde o princípio. Os empresários foram bem
recompensados com políticas voltadas ao crescimento de
oportunidades econômicas e à repressão das reivindicações
dos trabalhadores. Mas a crise do “milagre” arrefeceu o
entusiasmo e levantou dúvidas sobre o futuro, estimulando
certo distanciamento.
No mesmo contexto, antigas preocupações a respeito do
aumento do intervencionismo estatal ganharam mais
volume, e líderes empresariais começaram a apresentá-las
em público. Notadamente em 1977, importantes nomes do
setor privado queixaram-se do Estado autoritário, em
especial de seu intervencionismo econômico, e ensaiaram
tímidas reivindicações liberais.22 Estava claro que mesmo
entre o grupo social mais ligado à ditadura começaram a
surgir pressões em favor da abertura. Mas não se tratava de
rompimento político, até porque o grupo majoritário (ligado
à Fiesp, por exemplo) seguiu apoiando o regime autoritário,
inclusive a sua pauta de liberalização limitada e restrita, de
escasso conteúdo democrático.23
Comandado pelo general João Figueiredo, o último
governo da ditadura teve início em 1979 e herdou “abacaxi”
bem maior do que o recebido por Geisel a seu tempo. Além
de precisar administrar a crescente perda de legitimidade
política, o governo Figueiredo viu o legado negativo do
“milagre” aflorar de maneira mais flagrante. Tornou-se cada
vez mais difícil manter o ritmo de crescimento econômico,
com destaque para a situação internacional adversa e a
forte tendência de aumento nos preços. No primeiro ano do
governo a inflação chegou perto de 80%, contra os 40%
alcançados em 1978. E os índices dispararam nos anos
seguintes, com aumento anual médio de preços de 100%
entre 1980 e 1982, cerca de 210% em 1983 e mais de
220% em 1984, último ano de Figueiredo. Em toda a sua
história, o Brasil jamais havia visto tamanha espiral
inflacionária.24
Já ruim devido a desequilíbrios internos e a equívocos dos
governos da ditadura, a situação piorou quando o quadro
internacional voltou a se deteriorar a partir de 1979, com a
segunda crise do petróleo e o aumento das taxas de juros
nos EUA, o que provocou a crise da dívida externa nos países
periféricos. A dívida brasileira, cujos contratos se baseavam
em juros flutuantes, explodiu nesse contexto, pois, se em
1970 o montante era de aproximadamente 6 bilhões de
dólares, em 1980 esse número havia decuplicado e passara
a mais de 60 bilhões, continuando a crescer até o fim da
ditadura, quando se aproximou da assustadora marca de
100 bilhões de dólares devidos a instituições estrangeiras.25
O aumento da dívida implicava crescimento do
pagamento de juros em moeda forte, o que, junto ao
aumento de gastos para importar petróleo, levou o balanço
de pagamentos ao colapso, deixando o país sem reservas
cambiais. Para responder à gravidade da situação, o
governo criou mecanismos para dificultar as viagens de
turismo internacional dos brasileiros, que levavam dólares
para o exterior. Além disso, começou a adotar medidas para
reduzir o crescimento econômico, com vistas a segurar a
inflação e o déficit externo. Mais grave, inclusive
politicamente, foi a decisão de submeter o país a acordos
com o Fundo Monetário Internacional (FMI), já que a crise
econômica internacional reduzira a disponibilidade de
capital privado.26 O FMI ofereceu socorro com crédito em
dólares para o desesperado governo brasileiro, mas em
troca fez exigências para garantir a continuidade do
pagamento das dívidas.
Dentre as mais duras exigências destacavam-se medidas
recessivas, que implicavam radicalizar ações já iniciadas
pelo governo Figueiredo desde o fim de 1980. Tais medidas
consistiam na retração da atividade econômica via cortes de
gastos e investimentos públicos, assim como redução de
créditos, aumento na taxa de juros e contração dos salários
reais. Além disso, buscou-se baixar as importações e
aumentar as exportações através da maxidesvalorização da
moeda brasileira.27 Tal política tinha como objetivo maior
poupar recursos para o pagamento aos credores da dívida.
É importante mencionar que o governo aguardou a
passagem das eleições de 1982 para firmar oficialmente o
acordo com o FMI, de modo que ludibriou os eleitores para
poupar-se de mais prejuízos à sua popularidade, evitando
favorecer a oposição.
Na verdade, as recomendações recessivas do FMI apenas
agravaram uma tendência de queda do PIB verificada desde
1981. Vejamos os dados do crescimento bruto no período
Figueiredo, para completar o desenho de um quadro
econômico essencialmente negativo. O último governo da
ditadura começou com crescimento econômico, que era
fruto das obras e investimentos do período anterior. Assim,
em 1979, o PIB se expandiu à proporção de 6,5%, enquanto
em 1980 cresceu a 9%. Porém, em 1981, caiu 4,3% em
relação à produção do ano anterior, ou seja, houve
decréscimo da atividade econômica, provocado por políticas
restritivas desenhadas para combater a inflação e reduzir as
importações, dando início a uma recessão inédita na história
brasileira. Em 1982 a atividade econômica ficou
basicamente estagnada, com crescimento de 0,8%; já em
1983 o PIB voltou a cair, dessa feita 3% em relação ao ano
anterior. No último ano da ditadura, 1984, a situação
melhorou, inclusive devido à recuperação da economia
mundial,28 e o PIB cresceu à taxa de 5%. Porém, isso não
mudou a rota de colapso do projeto econômico da ditadura,
já que no mesmo ano a inflação ultrapassou a marca de
220%.29
O LEGADO ECONÔMICO PARA O PERÍODO pós-autoritário foi negativo,
principalmente a hiperinflação, o descontrole das contas
públicas, a dívida externa impagável e a permanente falta
de reservas cambiais. Seriam necessários quase vinte anos
de padecimentos e uma sequência de pacotes e planos
econômicos para que tais problemas fossem finalmente
equacionados. Dessa maneira, o salto industrial e a
modernização tecnológica e de infraestrutura cobraram
elevado preço à sociedade brasileira.
Importante ressaltar que o crescimento acelerado, tão
propagandeado como um feito da ditadura, poderia ter sido
alcançado sem um regime ditatorial. Além disso, o modelo
econômico implantado, em essência, representava a
continuação do esquema desenvolvimentista já vigente,
com a diferença de que sob os militares tornou-se mais
autoritário e socialmente excludente, contribuindo para
impactos sociais negativos. O crescimento beneficiou os
grupos de renda mais elevada; os mais pobres pouco
ganharam. Além de terem maior acesso aos bens de
consumo, as classes média e alta foram mais beneficiadas
pelas políticas públicas, a exemplo do financiamento
habitacional, que privilegiou imóveis mais caros. Na
verdade, a concentração de renda era um elemento central
do modelo econômico da ditadura, pois o incremento
industrial foi impulsionado pelo achatamento dos salários.30
Os dados estatísticos mostram, sem sombra de dúvida,
que as desigualdades sociais aumentaram muito durante o
“milagre”, e que os salários das camadas mais pobres
caíram em termos reais, principalmente o salário mínimo. O
problema era tão evidente que os próprios líderes da
ditadura o reconheceram. Médici, por exemplo, deixou
escapar em uma fala a sincera constatação “A economia vai
bem, mas o povo vai mal”,31 e o texto do PND III, em suas
oitenta páginas, mencionou a necessidade de distribuir a
renda mais de vinte vezes.32 Registre-se que não apenas as
desigualdades sociais foram ampliadas, mas também as
regionais, pois os investimentos beneficiaram mais as áreas
já desenvolvidas, em especial o Sudeste.
Aspecto importante da ditadura brasileira, ainda mais
notável em comparação com regimes políticos semelhantes
no contexto latino-americano, é que ela promoveu uma
grande centralização de recursos públicos. Durante a sua
vigência, ocorreu não apenas um aumento da arrecadação
de impostos como também uma concentração da receita
em favor do governo federal, em prejuízo dos governos
estaduais e municipais.33 O impacto negativo dessa medida
se fez sentir principalmente no setor da educação básica,
que é atribuição de estados e municípios. A concentração
de recursos públicos no governo federal dificultou o
provimento de educação pública de boa qualidade nos
níveis iniciais.
O crescimento econômico rápido e sem a devida atenção
aos impactos sociais produziu outros tipos de problema,
como a urbanização desenfreada e seu corolário negativo,
como habitações e transportes precários, falta de
saneamento e de serviços de saúde e aumento da violência
urbana — acompanhada da violência policial, que foi
incrementada pela ditadura. Além disso, houve aumento
notável da poluição e a destruição de áreas naturais,
principalmente a floresta amazônica. Vale a pena mencionar
também o desperdício de recursos em alguns dos projetos
faraônicos da ditadura, sendo que parte deles não foi
concluída, além das perdas devidas à corrupção.
Por fim, na avaliação dos impactos sociais do crescimento
econômico, é importante destacar os prejuízos para a renda
dos trabalhadores. Enquanto as taxas inflacionárias foram
controladas as perdas salariais eram menos sentidas, mas,
com a tendência à hiperinflação a partir do fim dos anos
1970, a queda do poder de compra dos salários tornou-se
acentuada. Com isso, o descontentamento social
transbordou, gerando um ciclo grevista marcante no período
1978-80. O retorno das greves e dos protestos sociais criou
uma situação política complexa, gerando desafios mais
difíceis para os estrategistas da ditadura.
10. A distensão política e o projeto de
estabilização da ditadura
A DISTENSÃO POLÍTICA QUE SE INICIOU EM 1974 — um momento
fundamental da história da ditadura — abriu um período de
lenta mudança no regime autoritário, que, após longos onze
anos, seria substituído por um governo de transição, dirigido
por civis. O fenômeno é complexo e demanda análise
cuidadosa, uma vez que a escolha dos líderes da ditadura
por fazer uma distensão no auge do seu poder não era
caminho óbvio.
Antes de enfrentar a questão, vale a pena comentar que
houve oscilação no uso dos termos “distensão” e “abertura”
pelos agentes históricos. Posteriormente, convencionou-se
chamar a fase entre 1974-9 de período de distensão e a
fase seguinte, entre 1979-85, de abertura política, mas na
época foram usadas as duas expressões, às vezes de
maneira indistinta, bem como “descompressão”,
“institucionalização” e “liberalização”. Para simplificar,
vamos utilizar apenas distensão para nos referirmos à
estratégia política do governo Geisel, que almejava criar
ambiente político menos opressivo e gerar a sensação de
que a ditadura iria amenizar-se após a fase extremamente
violenta aberta pelo AI-5.
Por que a distensão? Colocar a questão é importante, pois
a ditadura não tinha necessidade de adotar esse caminho
na altura de 1973-4, afinal naquele momento ela estava
poderosa como nunca. A resistência armada havia sido
derrotada, a oposição institucional estava enfraquecida
devido a resultados eleitorais ruins — o que levou à
proposta de autodissolução do MDB — e a situação
econômica era favorável, graças a índices elevados de
crescimento. Nessas condições, por que iniciar uma
estratégia de descompressão política? Se o Estado
autoritário estava no auge, por que iniciar um caminho que
levaria à redução do seu poder?
As razões e os objetivos do grupo de Geisel
Iniciaremos a reflexão mostrando que alguns argumentos
utilizados para responder à questão têm pouca relevância.
Em primeiro lugar, está claro que a ditadura não foi
obrigada à distensão, tratou-se de uma escolha política. As
oposições não tinham força naquele momento para exigir
mudanças. A situação econômica também não foi uma fonte
de pressão determinante no início do processo, tampouco o
quadro internacional. Geisel foi anunciado como futuro
presidente em junho de 1973, mas a decisão fora tomada
no ano anterior, bem antes da crise econômica global e
também da crise política nos Estados Unidos que levaria à
renúncia de Richard Nixon e à futura ascensão dos
democratas.
Na ocasião da sua escolha pela cúpula militar, Geisel já
tinha definido sua estratégia política, pois integrou à equipe
Golbery do Couto e Silva, uma figura execrada pela extrema
direita militar por suas posições moderadas (e por sua
ligação com empresas estrangeiras). Além disso, o plano
econômico de Geisel consistiu em manter o elevado ritmo
de crescimento, mesmo após a crise internacional que
eclodiu em outubro de 1973. Os problemas econômicos
teriam impacto na distensão política mais adiante, quando
ficou claro que a estratégia de crescimento de Geisel estava
provocando inflação e dívida externa descontroladas.
Outro argumento utilizado nas análises sobre a distensão
é igualmente pouco pertinente. Trata-se da suposição de
que o processo começou por pressão política dos Estados
Unidos, onde a balança havia virado a favor dos democratas
a partir de 1976. James Carter ganhou as eleições
presidenciais naquele ano defendendo a pauta dos direitos
humanos, o que gerou atritos com algumas ditaduras da
América Latina, inclusive a brasileira. Porém há um
anacronismo no argumento, pois, quando Geisel traçava
seus planos de distensão e assumiu a presidência (1973-4),
os Estados Unidos ainda eram governados pelos
republicanos, que apoiavam golpes e violações aos direitos
humanos, como aconteceu no caso do Chile em setembro
de 1973. Aliás, como já foi comentado, os governos do
Brasil e dos EUA agiram em conjunto para facilitar a
derrubada do presidente Salvador Allende.
Mas o que explica então a estratégia política do governo
de Ernesto Geisel? Se as pressões da oposição não eram
fortes, por que “abrir”? Efetivamente, não foi a força da
oposição o que impulsionou a distensão — mas o contrário,
a sua fraqueza. De um lado, frente à oposição dizimada, o
poder militar sentia-se mais seguro, com confiança para
reduzir os instrumentos de repressão. Ademais, iniciar um
processo de distensão ou abertura política naquele
momento era o ideal, pois o governo partiria de uma
posição dominante e, portanto, teria força para definir o
ritmo e os objetivos. No período em que a cúpula militar
decidia quem seria o sucessor do general Médici, esse ponto
de vista foi apresentado e defendido por aliados “liberais”
ou “moderados” da ditadura, que se articularam com alguns
líderes militares considerados herdeiros do “castelismo”, a
exemplo de Golbery do Couto e Silva e Cordeiro de Farias.1
Tais setores vinham pressionando o Estado desde o
princípio do AI-5, que muitos deles consideraram excessivo.
Desde 1969 eles vinham fazendo manifestações críticas ao
ato discricionário e em favor da descompressão política,
embora em geral de maneira cuidadosa. Tais posições foram
defendidas inclusive por líderes da Arena, como Luís Viana
Filho, Magalhães Pinto e Milton Campos,2 além de
intelectuais como Roberto Campos e Gilberto Freyre, alguns
deles identificados com a figura de Castelo Branco. No
período pós-AI-5, construiu-se a imagem de que o
“castelismo” representava um ideal a ser resgatado, pois o
primeiro presidente teria respeitado mais a opinião liberal.
Significativamente, inclusive, alguns aliados dos militares
entendiam que a ditadura havia começado apenas com o AI-
5. Portanto, o seu propósito ao criticar o ato institucional era
retornar não à democracia plena, e sim ao arranjo legado
por Castelo Branco e à Constituição de 1967.3
Esse foi o tom manifestado no período 1969-73 por alguns
jornais da grande imprensa que, embora com muita cautela,
reverberaram pressões discretas pelo retorno à situação
anterior ao AI-5. É verdade que eles se mantinham na linha
de apoio à “revolução” e concordavam com a repressão ao
“terrorismo”, mas preferiam exaltar o exemplo
supostamente deixado por Castelo Branco e sugerir que o
AI-5 era um instrumento provisório a ser superado. Os
editores dos jornais tradicionais sentiam-se particularmente
incomodados com o recrudescimento da censura à grande
imprensa. De maneira significativa, um dos maiores veículos
jornalísticos do país, O Estado de S. Paulo, sofreu censura
prévia a partir de setembro de 1972, como punição pela
tentativa de interferir na sucessão presidencial e de
pressionar por mudanças ao dar voz a líderes civis e
militares inclinados à distensão.4
Durante a fase mais aguda da vigência do AI-5, no início
dos anos 1970, os segmentos liberais e moderados que
apoiavam a ditadura temiam uma possível fascistização do
regime, ou sua transformação em uma espécie de ditadura
totalitária. Não por acaso, durante o governo Médici alguns
ex-integralistas (ou seja, antigos militantes da Ação
Integralista Brasileira, partido fascista criado nos anos 1930)
exerceram notável influência política, principalmente o
ministro da Justiça Alfredo Buzaid e o deputado Raimundo
Padilha, escolhido por Médici para governador do Rio de
Janeiro. Foi por isso que, na mesma época, alguns líderes da
extrema direita começaram a defender um modelo político
próprio para o Brasil. Eles recusavam a liberal-democracia,
considerada ultrapassada, e defendiam o que chamavam de
“democracia autoritária”, na prática um regime ditatorial
preocupado em atender a algumas demandas sociais. Para
essas lideranças, que faziam eco aos discursos fascistas e
autoritários dos anos 1930, uma “democracia à brasileira”
deveria buscar uma vocação social ausente no liberalismo.5
Em resposta a tais discursos, alguns jornais da grande
imprensa começaram uma campanha discreta pela
valorização do liberalismo político, com o argumento de que
se tratava de uma tradição brasileira. Não que eles
desejassem propriamente uma democracia plena — ou não
teriam apoiado o regime militar —, mas também não
queriam uma ditadura eterna. Se o objetivo imediato do
golpe de 1964 era derrotar a ameaça da esquerda e
restabelecer a ordem, segundo esse ponto de vista não
havia mais justificativa para repressão intensa. No início dos
anos 1970, a esquerda estava destroçada e a ordem,
garantida. Significativamente, pela mesma época
intelectuais e cientistas políticos discutiam propostas de
liberalização da ditadura, às vezes com o beneplácito de
certos segmentos do aparelho estatal.6
Em suma, no momento em que os militares estavam
discutindo quem seria o sucessor de Médici, setores aliados
da ditadura defenderam mudanças políticas liberalizantes e
a redução da escala repressiva, fazendo pressão sutil para
que o escolhido aceitasse tal mudança de rumo. Outro
argumento discursivo desses “liberais” do regime autoritário
foi que o golpe de 31 de março havia sido concebido para
salvar a democracia dos subversivos de esquerda, e não
para instaurar uma ditadura. Não devemos exagerar a força
dessas pressões, entretanto é preciso ressaltar que a
ditadura necessitava do apoio da imprensa e da opinião
liberal, por isso alguns líderes se interessavam em atender
parte de tais demandas.
Concorreu também para a distensão o fato de
estrategistas militares considerarem que não era
interessante uma oposição institucional demasiado fraca,
muito menos a autodissolução do MDB. A existência de um
parlamento em atividade era parte da estratégia discursiva
e de legitimação da ditadura, de modo que a
descompressão política serviria para animar a oposição
institucional a manter-se no jogo. Outra preocupação era o
risco de o sistema repressivo (os “porões”) sair do controle
do Estado, o que poderia causar quebra de hierarquia,
conflitos internos e divisões nas Forças Armadas. Assim, a
distensão era desejada também para colocar limite à ação
das agências repressivas do Estado e fortalecer a posição
do presidente.7
Uma conversa de Geisel registrada por diplomatas norte-
americanos é eloquente a esse respeito. Ao assumir, ele
teria determinado que os assassinatos políticos fossem
colocados sob controle, ou seja, as mortes só poderiam
ocorrer com autorização superior, do chefe do SNI (general
João Figueiredo, o futuro presidente). A decisão revela que a
cúpula da ditadura estava ciente e autorizava os
assassinatos políticos e que Geisel buscou controlar essa
prática, tanto para limitar o poder dos agentes repressivos
como para reduzir os danos à imagem pública da ditadura.8
Em resumo, podemos dizer que a distensão resultou da
conjugação de alguns objetivos e interesses: renovar o
apoio de setores liberais que vinham se afastando da
ditadura; oferecer ânimo à oposição moderada, para que
não abandonasse o jogo político do regime militar;
estabelecer maior controle sobre os “porões” para evitar
divisões internas nas Forças Armadas; institucionalizar e
conferir maior previsibilidade às normas do Estado
autoritário, para dar-lhe mais estabilidade. Acrescente-se
que, embora não tenha sido a origem da distensão, o
quadro de progressivo esgotamento do modelo econômico
da ditadura estimulou a abertura política como forma
alternativa de legitimidade. Para concluir, destaque-se que
a distensão se deveu também à autoconfiança dos
governantes em relação à aceitação popular, uma crença
que logo seria colocada à prova.
Entretanto, não se deve exagerar o alcance da
“descompressão” política almejada pelo governo Geisel —
que estava longe de ser um democrata — e seus aliados.
Aliás, no fim de seu mandato ele causou mal-estar na
opinião liberal ao defender que o modelo adequado ao
Brasil era uma “democracia relativa”. O propósito inicial de
Geisel era antes institucionalizar a ditadura e garantir sua
estabilidade do que democratizar o país.9 Além disso, a
redução da repressão não era para todos os grupos
contrários ao regime autoritário. Ela visava beneficiar,
sobretudo, os aliados liberais e a oposição moderada. As
organizações comunistas e revolucionárias continuaram a
ser tratadas com truculência, e os assassinatos políticos
seguiram ocorrendo, ainda que em escala decrescente.
O fato é que a escolha do sucessor de Médici foi
entendida nos meios políticos e jornalísticos como uma
opção pela abertura. Entretanto, havia dúvidas e ceticismo
sobre as intenções em jogo, até porque os comentários de
Geisel sobre seus planos políticos raramente foram claros,
apenas indicações tênues de que a ditadura seria mais
tolerante. Ainda assim, os contemporâneos sentiram que
alguma coisa estava para mudar e entraram em expectativa
positiva, embora alguns jornalistas sugerissem cautela,
lembrando que também Costa e Silva e Médici haviam
começado as respectivas gestões com a promessa de
mudanças políticas.10
Geisel evitou esclarecer devidamente sua política de
distensão por duas razões. De um lado, não desejava criar
muitas expectativas na oposição e tampouco estimular seu
ativismo; de outro, não queria provocar a direita mais
autoritária e radical, que não estava convencida da
necessidade de aliviar a repressão. Ao contrário, esse grupo
seguia mobilizado na caça aos inimigos, fosse por convicção
ideológica ou para manter seu poder e privilégios na
máquina do Estado.
A manifestação mais contundente sobre a distensão, e
ainda assim vaga, se deu no início do governo, em agosto
de 1974, quando Geisel afirmou que faria uma distensão
lenta, gradativa e segura.11 Tal estratégia gradualista devia-
se à intenção de manobrar e absorver as pressões
provenientes tanto da direita como da esquerda. É possível
que nessa altura o governo temesse mais as pressões da
direita radical que as da esquerda, e que um dos objetivos
da distensão fosse ganhar apoio das forças liberais e
democráticas para conter os agentes dos aparatos
repressivos. O mesmo pode ser dito sobre a decisão de
reduzir a censura sobre a grande imprensa, pois Geisel iria
necessitar do apoio dos grandes jornais para “enquadrar” os
aparatos repressivos. Sobretudo, o grupo “geiselista”
desejava evitar a situação vivida em 1968 por Costa e Silva,
que teria se mostrado fraco e dado muito espaço à
oposição, o que o levou a ser “emparedado” pela direita
radical e a baixar o AI-5. Geisel não queria terminar na
mesma situação, por isso falava grosso e dava a entender
que os dispositivos repressivos estavam sempre à
disposição.
Além disso, o processo de distensão gradualista inseria-se
nas tradições da cultura política dominante no Brasil,
permitindo uma acomodação das forças em disputa para
evitar choques graves, que poderiam colocar em risco o
sistema de dominação e a ordem econômica. Por outro lado,
o planejamento para a saída suave do poder talvez gerasse
menor impulso para retaliações de parte dos adversários e
das vítimas da ditadura. Efetivamente, mesmo que essa não
tenha sido a intenção inicial, a lenta transição política
brasileira propiciou uma acomodação entre ex-apoiadores
do regime militar e a antiga oposição, o que desestimulou
iniciativas para punir ou julgar os primeiros.
A expectativa de que Geisel faria mudanças para
desanuviar o quadro político aumentou quando foram
anunciados os seus assessores, que incluíam nomes
identificados com a distensão, como Ney Braga, titular do
MEC, e os já mencionados Golbery do Couto e Silva (Casa
Civil) e João Figueiredo (SNI). A distensão implicou também o
aumento da participação dos políticos nas questões de
governo, ao contrário do ostracismo em que viviam desde a
decretação do AI-5. Geisel deu declarações sobre a
importância da oposição, desde que se limitasse ao papel
de fiscalizar atos do governo, e sobre a sua disposição de
conversar com líderes do MDB. Na mesma linha, determinou
que o senador Petrônio Portella ouvisse as bases da Arena
sobre os melhores nomes a serem escolhidos para governar
os estados a partir do início de 1975.
Essa primeira “missão Portella” gerou frustração entre os
políticos, pois no final das contas quem escolheu a maioria
dos nomes foi mesmo Geisel. Porém, ele elegeu alguns
governadores afinados com o projeto de distensão, em
especial para os estratégicos estados de São Paulo e Minas
Gerais: respectivamente Paulo Egydio Martins e Aureliano
Chaves. Enquanto o governo Médici priorizou tecnocratas
para comandar os estados, Geisel começou a valorizar os
políticos. Outro apoiador da distensão, Magalhães Pinto,
ganhou o importante cargo de presidente do Senado, no
início de 1975. Além disso, uma concessão significativa do
governo Geisel à opinião liberal foi a redução do controle
sobre a grande mídia, o que beneficiou especialmente O
Estado de S. Paulo, que foi liberado da censura prévia em
janeiro de 1975 (enquanto jornais de esquerda continuaram
sofrendo sanções).
A estratégia distensionista impactou também as eleições
parlamentares de 1974, pois o governo resolveu dar alento
à opinião liberal e à oposição, tendo em vista o elevado
número de votos nulos e brancos do pleito anterior (cerca
de 30%). Para tornar as eleições mais atraentes, o MDB teve
mais liberdade de ação, enquanto a Arena foi estimulada a
empenhar-se na campanha e defender a “revolução” junto à
população. A expectativa era de que o governo fosse
consagrado por mais uma vitória nas urnas, mas dessa feita
com mais legitimidade, dado o maior espaço de ação
concedido ao MDB. Os chefes da ditadura pretendiam
mostrar que tinham muito apoio social, de modo a depender
menos das forças coercitivas para a manutenção do poder.
Significativamente, em 1974 ocorreu a primeira eleição
em que candidatos ou militantes oposicionistas não foram
presos durante o processo. O MDB aproveitou o clima menos
cerceado para fazer uma campanha política mais agressiva,
em que denunciou o autoritarismo da ditadura e também as
mazelas sociais do país, questionando os resultados do
propalado “milagre” econômico. Um fator decisivo para o
sucesso do MDB foi o uso da propaganda eleitoral na
televisão, que permitiu alcançar áreas antes inacessíveis
aos discursos da oposição.12
O resultado das eleições de 1974 alarmou o governo, pois
mostrou que a sua popularidade não era sólida como
imaginava, e o levou a frear o ritmo da distensão. A decisão
de manter as eleições parlamentares começou então a
cobrar um preço. Perder para a oposição significava que o
discurso de que a ditadura tinha legitimidade social para
governar se desmanchava. Por isso, nos anos seguintes
foram tomadas iniciativas para impedir novos sucessos do
MDB e conferir vantagem eleitoral para a Arena. Tais
iniciativas para evitar que a oposição controlasse o
Congresso passaram tanto por ações repressivas como por
estratégias propagandísticas e mudanças institucionais
casuísticas. As instituições liberais permitidas pela ditadura
— que esperava delas apenas a confirmação e legitimação
do seu poder — começaram a mostrar-se uma alternativa
para os que queriam lutar contra ela.
No campo da repressão, uma das principais ações foi
intensificar a campanha contra o PCB, cujos dirigentes
vinham sendo perseguidos e mortos de maneira mais
sistemática desde o início de 1974, como resultado de uma
operação planejada para desestruturar o partido. Porém,
com o resultado das eleições, o apetite das forças
repressivas aumentou ainda mais, levando ao assassinato
de dezenas de militantes (na maioria dos casos oficialmente
tratados como desaparecidos) e à prisão de centenas de
outros ativistas, em verdadeira operação arrastão. O
argumento era que o partido havia sido importante para a
vitória do MDB, então seria necessário golpeá-lo para impedir
que aproveitasse a situação e ampliasse a sua influência.
Além disso, tratava-se de fazer propaganda contra o MDB e,
com a ajuda da imprensa “amiga”, mobilizar a forte tradição
anticomunista do país.13 Assim, as forças de repressão
divulgaram evidências de envolvimento da oposição
institucional com o clandestino PCB, de modo a assustar e
afastar os eleitores do MDB e colocá-lo diante de um dilema:
o partido de oposição tolerado pela ditadura era
pressionado a fazer declarações de fé contra o comunismo,
para não perder votos de setores moderados, mas, se o
fizesse, perderia votos da esquerda.
Portanto, os resultados da eleição de 1974 provocaram
um recuo na distensão, que a partir daí seguiu em ritmo
pendular, marcada por avanços e retrocessos. As forças
democráticas perceberam os limites da estratégia do
governo, que aceitaria um crescimento leve da oposição
mas não permitiria que tivesse chances reais de chegar ao
poder. Afinal, tratava-se de uma ditadura. Além disso, o
resultado eleitoral deu à direita radical a oportunidade de
pressionar o governo para que tornasse a incrementar a
repressão, com a justificativa do argumento anticomunista.
Outro desdobramento importante dos resultados eleitorais
favoráveis à oposição foi a dinamização de uma tendência
já em processo: o fortalecimento dos movimentos sociais.
Os movimentos sindical e estudantil e o associativismo de
base ganharam novo ânimo, e as respectivas entidades se
tornaram mais potentes, graças também à percepção de
derrota definitiva da estratégia de resistir à ditadura com
armas. Militantes e lideranças que antes apostavam na luta
armada passaram a investir nos movimentos sociais e às
vezes no próprio MDB, devido ao entendimento de que a luta
contra a ditadura passava pelo fortalecimento das
instituições. Ao mesmo passo se ampliariam também o
ativismo das mulheres (especialmente as feministas), o
movimento negro, o movimento homossexual e entidades
de camponeses e trabalhadores rurais. Além disso, o novo
cenário favoreceu a organização de um movimento mais
sólido pela anistia política.
Portanto, a partir de 1975 o governo Geisel passou a
defrontar-se com movimentos democráticos mais amplos e
enraizados, que logo o desafiariam com protestos de rua e
greves de trabalhadores. O quadro de aumento da inflação
e de redução das taxas de crescimento trouxe dificuldades
adicionais, pois o desempenho na economia já não seria
suficiente como fonte de legitimação. Questionavam-se
também os resultados socialmente desiguais do
crescimento econômico, que evidenciavam não haver
razões para a população sentir-se agradecida em relação à
ditadura. Desse modo, a estratégia distensionista do
governo Geisel coincidiu com o incremento do ativismo de
oposição, e o fortaleceu.
De um lado, a oposição política tornou-se mais forte, mais
ousada e mais popular, crescendo junto com o ativismo
social e alimentando-se das mazelas econômicas e sociais
produzidas pela ditadura. De outro lado, a direita radical,
fortemente representada nos órgãos de repressão,
questionava a estratégia política do governo e o
responsabilizava pelo aumento da “ameaça comunista”,
pressionando pelo recuo na distensão e pelo aumento na
repressão. Frente a esse quadro desafiador, o governo
Geisel traçou uma linha sinuosa, tentando um caminho do
meio que significava pender para um lado ou outro
conforme o momento. Ele não queria “abrir” demais, pois
favoreceria as forças de oposição, mas tampouco pretendia
ceder tudo às forças repressivas, pois seu objetivo era
submetê-las e reduzir seu poder.
Além de não desejar uma escalada autoritária de grande
porte, o governo Geisel dificilmente conseguiria fazê-lo se o
pretendesse, pois faltaria o apoio de grupos influentes que
não viam justificativa para tal ação. Afinal, a ameaça
esquerdista que convencera muitos da necessidade de
medidas autoritárias não parecia plausível em 1974-5. As
guerrilhas de esquerda haviam sido aniquiladas e o MDB não
era um partido comunista, embora abrigasse uma minoria
de militantes dessa ideologia. O melhor caminho era
prosseguir na estratégia pendular, o que implicava conter
“excessos” dos dois lados, planejar ações para manter o
sistema político sob controle e trabalhar (e torcer) para que
a situação econômica não piorasse muito.
O zigue-zague da distensão
A partir do final de 1974, a tendência dominante foi o
retrocesso na distensão e o aumento da repressão. Em
meados de 1975, Geisel jogou água fria nas expectativas
democráticas com afirmações de que novos avanços na
distensão ficariam para o futuro e dependeriam do
desenvolvimento econômico e social. Pela mesma época, ao
longo de 1975 e 1976, a iniciativa principal coube ao polo
repressivo, que seguiu reagindo contra a vitória do MDB com
base no argumento de que os comunistas tinham ganhado
terreno e se “infiltrado” no partido. Com a derrota das
esquerdas armadas, as agências repressivas passaram a ter
mais tempo e recursos para golpear os comunistas que
apostavam na ação institucional e na luta democrática.
Nesse período foi intensificada a operação de desmonte do
PCB, que levou à detenção de centenas e ao assassinato de
mais de vinte pessoas. O PCdoB já vinha sendo
desmantelado devido à repressão à guerrilha do Araguaia, e
no fim de 1976 alguns de seus dirigentes foram mortos no
episódio do “Massacre da Lapa”.14
Além de ser responsável por assassinatos,
desaparecimentos, torturas e prisões, o governo Geisel
cassou vários parlamentares da ala esquerda do MDB, fosse
por suspeita de ligação com o PCB ou por discursos
agressivos contra o governo. Entre eles estavam os
deputados Marcelo Gato, Nelson Fabiano, Lysâneas Maciel,
Nadyr Rossetti, Amaury Muller, Alencar Furtado e Marcos
Tito, e os vereadores Marcos Klassmann e Glênio Peres (da
Câmara de Porto Alegre).
Além disso, para dificultar as campanhas eleitorais do MDB,
o governo baixou a chamada Lei Falcão, que ganhou esse
nome em referência ao ministro da Justiça, Armando Falcão.
A lei estabeleceu limites para o uso da TV e do rádio na
campanha eleitoral, para impedir novo sucesso da oposição.
A propaganda eleitoral poderia trazer somente informações
sintéticas sobre o currículo dos candidatos, acompanhadas
de uma foto, e estava proibido o uso tanto de músicas com
letras quanto de imagens em movimento.15 Em síntese, a
lei proibiu o debate político na televisão, recurso que havia
favorecido o MDB nas eleições de 1974.
Porém, no início de 1976 Geisel voltou a tomar medidas
no sentido da distensão política, dessa feita mandando
mensagem dura ao aparato de repressão: o governo
aceitava o assassinato de lideranças comunistas
consideradas perigosas, mas era menos tolerante no caso
de militantes comuns, principalmente se isso acarretasse
repercussão pública negativa. No final de 1975, em meio à
campanha de desmonte do PCB, o DOI-Codi de São Paulo
matara o jornalista Vladimir Herzog, provocando grande
comoção pública, tanto mais porque os agentes repressivos
tentaram forjar um improvável suicídio por enforcamento
dentro da cela. Os militares responsáveis foram advertidos
pelo governo, mas voltaram à carga no início de 1976,
quando mataram mais um suspeito de ser militante
comunista de base, o operário Manoel Fiel Filho.
Interpretando a situação como um desafio à sua
autoridade, e entendendo que, se não reagisse, a extrema
direita militar poderia virar um foco de poder alternativo,
Geisel determinou o afastamento do comandante do II
Exército, general Ednardo D’Ávila — um ato sem precedente
na ditadura. O recado era para os “porões”, que passaram a
considerar Geisel (e Golbery) um adversário. Os radicais da
ditadura responderam reativando os grupos terroristas
dormentes desde 1968, que promoveram ações no segundo
semestre de 1976, como uma bomba na Associação
Brasileira de Imprensa (ABI) e o sequestro do bispo de Nova
Iguaçu, d. Adriano Hypólito, considerado “vermelho”.16
Após as eleições municipais de outubro de 1976, em que
o MDB saiu vitorioso nas maiores cidades e a Arena nos
pequenos municípios, surgiram, no início de 1977, notícias
vazadas à imprensa sobre um pacote de reformas para
substituir o AI-5, que inicialmente poderia ser negociado
com o MDB. Entretanto, o que parecia um gesto a favor da
distensão acabou sendo uma notável investida autoritária
para evitar nova vitória oposicionista nas eleições
parlamentares de 1978.
A intenção do governo era impedir que o MDB assumisse o
controle do Congresso, assim como mudar o dispositivo
constitucional que previa eleições diretas para
governadores naquele mesmo ano. Havia na pauta também
mudanças no sistema judiciário, mas o que importava
mesmo era manter o controle sobre o Congresso e os
governos estaduais. O que estava em jogo era a sucessão,
pois se o MDB conquistasse a maioria no Congresso poderia
escolher o próximo presidente. Sendo esses os objetivos da
ditadura, não havia acordo possível com o MDB, mesmo que
emissários governamentais (outra missão atribuída a
Petrônio Portella) tivessem sugerido que haveria planos para
suprimir o AI-5 até o fim do governo Geisel.17
Com a alegação de que o partido de oposição era
intransigente, não queria negociar e tinha votos suficientes
para bloquear a aprovação de emendas constitucionais
(propostas pelo governo), Geisel usou os poderes que o AI-5
atribuía ao presidente (ditador) e baixou o pacote de
medidas. Esse conjunto de mudanças institucionais ficou
conhecido como “pacote de abril”, e, para colocá-lo em
prática, o governo decretou o recesso do Congresso. O
pacote de abril chocou parte da opinião pública, pois
tamanha intervenção autoritária não ocorria desde 1968. O
evento foi ainda mais decepcionante por significar grave
retrocesso em relação às expectativas em torno da
distensão.
As principais medidas do pacote foram: eleição indireta
para um terço dos senadores (chamados ironicamente de
biônicos pela oposição); instituição das sublegendas para a
eleição de senadores, uma forma de acomodar conflitos na
Arena, que poderia agora lançar até três candidatos para a
mesma vaga, cujos votos seriam totalizados em favor do
mais votado; aumento das bancadas de deputados federais
dos estados menores, em que a Arena era mais votada;
eleições indiretas para governadores em 1978; redução do
quórum para aprovar emendas constitucionais (de dois
terços para maioria simples), o que tirava o poder do MDB de
bloquear iniciativas do governo; ampliação do mandato do
futuro presidente de cinco para seis anos.18
Com esse pacote de medidas autoritárias a ditadura
garantiu o controle sobre o sistema político, mas violentou
as suas próprias regras e a vontade popular. Para quem
tinha dúvidas, mais uma vez ficava claro que se tratava de
uma ditadura sob controle da corporação militar. Também se
evidenciou que a distensão de Geisel não era um projeto
democrático, mas uma estratégia para manter e estabilizar
o poder. O impacto público do pacote de abril foi muito ruim
para o governo, que foi criticado em diversos quadrantes,
inclusive entre apoiadores de primeira hora como
empresários, elite política e grande imprensa. A
popularidade de Geisel caiu bastante na sequência do
pacote.19 Esse foi um momento de inflexão na história da
ditadura, que levou ao aumento da insatisfação e ao
acúmulo de críticas e protestos de variada natureza.
Significativamente, tratou-se da última grande ofensiva
autoritária da ditadura. A partir daí, o Estado se inclinaria na
direção da abertura democrática. Em primeiro lugar, porque
as medidas decretadas em abril de 1977 garantiram ao
governo o controle do Congresso e da sucessão presidencial
de Geisel, o que dava alguma tranquilidade a médio prazo
para que ele seguisse investindo na distensão. Em segundo
lugar, porque a perda de prestígio político que o pacote de
abril trouxe ao governo, junto à sensação de insegurança
sobre o futuro da economia, tornou o caminho da distensão
uma rota sem retorno, embora conflitos e episódios
repressivos de menor escala tenham continuado a ocorrer.
Na verdade, a insatisfação com os rumos do governo
começara a aparecer publicamente ainda antes do pacote,
já no início de 1977. Entre janeiro e fevereiro desse ano,
importantes lideranças da indústria e do comércio deram
declarações à imprensa defendendo normalização
democrática e retorno ao Estado de direito. Não se tratava
de fé democrática, afinal os mesmos líderes haviam apoiado
o AI-5. A questão é que a economia estava em crise e o
empresariado se queixava do excesso de intervenção
estatal. Provavelmente imaginava que a democratização
criaria uma situação econômica mais favorável a seus
interesses. O governo respondeu demitindo o ministro da
Indústria, Severo Gomes, considerado um representante dos
interesses empresariais, além de favorável a uma
democratização mais rápida e crítico da extrema direita.20
Porém, foi na sequência do pacote de abril que a ditadura
enfrentou desafios públicos de maior grandeza. O primeiro
deles veio do movimento estudantil, que voltou a fazer
protestos de grande escala, pela primeira vez desde 1968. A
partir de maio de 1977 começou uma série de mobilizações,
trazendo preocupação às forças da ordem e um novo ciclo
repressivo. Ao longo do ano, vários episódios graves tiveram
lugar, com destaque para a ocupação militar do campus da
UnB, o cerco à Faculdade de Medicina da UFMG e a invasão
policial da PUC-SP, que foi particularmente violenta. No
mesmo período, intelectuais e jornalistas se manifestaram
contra a ditadura com abaixo-assinados de impacto, sendo
o de maior repercussão a Carta aos Brasileiros, de agosto de
1977, elaborada por juristas e advogados paulistas.21
Ademais, entidades representativas influentes como ABI, OAB,
SBPC e CNBB também aumentaram a pressão contra a
ditadura.
Nesse contexto, a campanha pela anistia dos presos
políticos ganhou novo ritmo e visibilidade pública, e a
grande imprensa aumentou a pressão pela extinção do AI-5
e o retorno à Constituição de 1967. Vale a pena reiterar que,
para alguns dos jornais mais influentes, assim como para
outros setores, a ditadura havia começado apenas em 1968
e representava uma traição aos ideais de 1964. Desse
modo, eles pediam um retorno às origens, no caso ao
arranjo político legado por Castelo Branco. Além disso,
veículos prestigiosos como O Estado de S. Paulo e Jornal do
Brasil começaram a defender a conciliação como saída
política e caminho para o retorno do poder aos civis.22 No
ano seguinte, 1978, seria a vez da retomada das grandes
greves de trabalhadores, o que aumentaria ainda mais a
complexidade dos desafios colocados à política de
distensão.
Na outra ponta, Geisel enfrentou crescente oposição da
direita militar radical. Tal setor acusava o governo de
leniência com a infiltração comunista, inclusive na máquina
estatal, e de suspeita simpatia pelo bloco socialista, por
reconhecer diplomaticamente a China comunista e os
governos marxistas da África.23 As acusações expressavam
anticomunismo sincero, mas também eram parte de
manobra retórica na disputa pelo poder. Em meados de
1977, a extrema direita lançou campanha pela indicação do
general Sylvio Frota, ministro do Exército de Geisel, para
sucedê-lo na presidência. A desenvoltura dos frotistas
chegou ao ponto da formação de uma bancada de
deputados na Câmara em apoio ao general, que se
tornaram vozes civis em favor das posições da extrema
direita. Tratava-se de um desafio ao poder de Geisel e, ao
mesmo tempo, de uma demonstração de que a ditadura
estava em crise, correndo o risco de cindir-se. Geisel tinha
outros planos: queria indicar como sucessor o general João
Figueiredo, uma garantia da manutenção do seu grupo no
poder e também da continuidade da distensão.
Pressionado à esquerda e à direita, no segundo semestre
de 1977 o governo Geisel agiu para retomar a iniciativa
política e voltar ao polo liberalizante. Para estancar a perda
de popularidade e não ser abandonado pelas elites
econômicas e sociais, ele precisava avançar algumas casas
no caminho da distensão política. Porém isso exigia resolver
a disputa com a extrema direita militar, que, além de
almejar o poder, era um obstáculo a reformas liberalizantes.
A saída encontrada foi a remoção do general Frota do
comando do Exército, em outubro de 1977, um ato
arriscado que demandou a mobilização de tropas e gerou
forte tensão nos quartéis. Quando ficou claro o significado
da queda de Frota — uma vitória do grupo de Geisel na
disputa interna na ditadura e o fim de obstáculo importante
às mudanças políticas liberalizantes —, os setores
interessados no prosseguimento da abertura
comemoraram. 24
Retomando o caminho da distensão, no início de
dezembro de 1977 Geisel utilizou discurso em evento da
Arena para anunciar reformas políticas a caminho, o que
acendeu novas esperanças, inclusive de que o fim do AI-5
estivesse próximo.25 Um dos objetivos de Geisel era animar
a Arena para vencer a disputa eleitoral de 1978, que seria
decisiva para o futuro do regime autoritário. Pela mesma
época, entre final de 1977 e os primeiros meses de 1978, o
senador Petrônio Portella foi encarregado mais uma vez de
negociar com a oposição, em busca de um acordo para uma
fórmula que substituísse o AI-5. Além de negociar com
líderes do MDB, Portella procurou também lideranças da OAB e
da CNBB para ampliar o diálogo e remover as resistências do
partido de oposição, que se mostrava cético (e escaldado)
quanto às intenções de Geisel.26
O governo aceitava abolir o AI-5, pedra de toque em
qualquer conversa sobre abertura política, porém exigia
algum tipo de salvaguarda que garantisse a manutenção da
(sua) ordem. Ele temia que, frente a um quadro de maior
liberdade, as forças de oposição e as esquerdas
cometessem “excessos”, por isso queria outro tipo de
instrumento coercitivo, embora menos poderoso e
discricionário que o AI-5. Era a lógica da estratégia
gradualista. A fórmula acabou sendo a criação do estado de
emergência, que o governo poderia decretar em caso de
ameaça de subversão grave à ordem. Para a oposição,
naturalmente, qualquer acordo passava pela limitação dos
efeitos da nova medida autoritária, e, ao mesmo tempo, ela
tentava convencer o governo da necessidade de aprovar
uma lei de anistia. Outra bandeira do MDB era a eleição de
uma Assembleia Constituinte para elaborar uma nova
Constituição, mas tal demanda nem sequer era discutida
pelo governo, que nesse ponto contava com o apoio da
grande imprensa, crítica aos defensores da ideia.27
As ações estratégicas da ditadura a partir daí deram
origem ao mito de Golbery, principal assessor político de
Geisel, que a imprensa começou a tratar como bruxo ou
mago, inclusive em representações caricaturais.28 Se o
senador Portella era o político e negociador, Golbery era a
cabeça pensante, o estrategista, embora como em todo
mito nesse também haja exagero. De qualquer modo,
Golbery teve papel importante nas estratégias para ceder
espaço à oposição sem deixar de manter o poder dos
militares.
Em 1978, último ano do governo Geisel, a distensão
ganhou agilidade e efetividade, gerando a sensação de que
as mudanças dessa vez seriam para valer. O medo em
relação à repressão diminuiu e na mesma proporção
aumentou a disposição de testar os limites da tolerância
governamental e correr riscos. Não é coincidência que as
greves tenham voltado a acontecer a partir do início de
1978. O ambiente parecia mais favorável para protestar e
fazer demandas, inclusive no caso dos trabalhadores, que
vinham sendo vigiados de perto (e reprimidos) desde 1964.
O primeiro episódio de maior repercussão foi a greve dos
metalúrgicos de São Bernardo do Campo, em maio de 1978.
O impacto foi grande, pois, além de ser a primeira
paralisação de grandes proporções desde 1968, tratava-se
do coração da indústria brasileira. Foram mais de 50 mil
operários envolvidos, já que fábricas de cidades próximas
também aderiram ao movimento. Ali despontou a figura de
Luiz Inácio da Silva, uma liderança de novo tipo, sem
vínculos com as tradições sindicais anteriores (comunista e
trabalhista). Fugindo às expectativas, o governo reagiu de
maneira moderada e evitou usar os mecanismos repressivos
à disposição, deixando que patrões e empregados
negociassem um acordo salarial.29 Bater forte na greve não
combinaria com o momento do governo, que apostava em
ampliar o diálogo com as lideranças civis e também em
melhorar a sua popularidade, com vista às eleições
parlamentares do fim de 1978. Mas era uma escolha difícil,
pois a direita conservadora esperava uma resposta mais
dura e temia-se que novas greves pudessem despontar,
como acabou ocorrendo, o que gerou ações repressivas
mais intensas, em especial na greve do ABC de 1980, como
se verá.
Dessa forma, o quadro político e social foi se tornando
cada vez mais complexo para o governo, na medida em que
a piora dos indicadores econômicos coincidia com o
incremento dos movimentos sociais e as demonstrações de
ousadia perante a máquina repressiva. Frente a essa
situação, a principal linha de ação de Geisel foi negociar o
fim do AI-5 e de outros atos discricionários, além de pensar
estratégias para popularizar o regime autoritário e seus
líderes, de olho na continuidade no poder por vias eleitorais.
Não seria fácil ter sucesso nesse caminho, porém não
parecia haver alternativa melhor. Na pior das hipóteses, os
líderes da ditadura conseguiriam prolongar sua
permanência no poder e negociar a retirada para os
quartéis em condições favoráveis.
Outro movimento foi continuar adotando medidas
casuísticas para dificultar o sucesso eleitoral das forças de
oposição, e também para dividi-las. Nesse sentido, a
ditadura preparou nova reforma partidária, que a pretexto
de aceitar reivindicações pela liberdade de organização
visava a desmantelar a sigla MDB, que ganhara forte apelo
eleitoral. Outras demandas democráticas da oposição foram
sendo aceitas, como o retorno dos eLivross e a anistia aos
condenados e perseguidos políticos. No entanto, por serem
de caráter mais espinhoso, elas acabaram sendo legadas
por Geisel ao governo Figueiredo e foram utilizadas também
a favor da ditadura, como logo explicaremos.
Em outubro de 1978, foi enfim aprovada e promulgada
pelo Congresso a emenda constitucional extinguindo o AI-5 a
partir de janeiro de 1979, sem os votos do MDB, que
discordou da criação do estado de emergência. Mas, como
desde o pacote de abril o governo não precisava mais de
dois terços de votos para alterar a Constituição, os votos da
Arena bastaram. Além do AI-5 foram extintos os outros atos
institucionais e complementares, o que implicou o
restabelecimento do habeas corpus para crimes políticos.
Também foram extintos a pena de morte, o banimento e a
prisão perpétua. Como parte do pacote de mudanças, foi
alterada a LSN, que ganhou versão menos dura no final de
1978, mas, obviamente, permanecia um instrumento de
exceção. É importante registrar também que, no mesmo
período, foi suspensa a censura prévia sobre os últimos
periódicos ainda sob controle, todos eles considerados de
esquerda pelo governo.
Na mesma medida, o debate político foi se tornando mais
intenso e livre, dificultando o controle pela ditadura. Junto
ao crescimento da oposição, as bases de apoio do regime
autoritário estavam se esvaindo, ao ponto de o outrora fiel
empresariado buscar afastamento do governo, o mesmo se
passando com outros setores. Entre os militares as divisões
também se intensificaram, inclusive após o enquadramento
do grupo vinculado ao general Frota. Significativamente,
durante a corrida presidencial surgiu outra candidatura
militar, só que dessa feita apoiada pela esquerda do MDB: a
do general Euler Bentes. O general era ligado à corrente
nacionalista do Exército, o que permitiu a aliança com a ala
progressista do partido de oposição. Já o grupo moderado
do MDB hesitou em aceitar o candidato militar, que poderia
trazer o apoio de uma ala do Exército insatisfeita com os
rumos da ditadura e com a candidatura do general
Figueiredo. Os apoiadores de Bentes criaram uma Frente de
Democratização, cujo propósito era buscar apoio para além
do MDB e tentar mobilização popular para incrementar o
apelo político da candidatura.30
Ao contrário de 1973, quando o MDB lançou a
(anti)candidatura de Ulysses Guimarães para marcar
posição e denunciar o arbítrio, dessa vez havia expectativas
de cindir a Arena e ganhar as eleições indiretas. Porém as
esperanças foram frustradas pela realidade. O candidato
apoiado por Geisel ganhou as eleições indiretas de outubro
de 1978, recebendo aproximadamente 60% dos votos,
contra 40% a favor de Bentes. De qualquer modo, a disputa
mostrou que a desagregação da ditadura era grave ao
ponto de gerar um candidato de oposição militar.
A candidatura de Bentes pelo MDB foi um prenúncio e um
ensaio para a vitoriosa candidatura indireta de Tancredo
Neves em 1985, com a diferença de que este último
conseguiu produzir uma cisão maior entre os apoiadores da
ditadura. Ainda no fim do governo Geisel, outro episódio que
mostraria as dificuldades da ditadura para controlar o
sistema político foi a eleição (indireta) de Paulo Maluf para o
governo de São Paulo em 1978. Ele não era o candidato do
governo, mas conseguiu convencer as bases da Arena
paulista a apoiá-lo, impondo derrota a Geisel e a Figueiredo,
que aceitaram o fato consumado.
Quanto às eleições parlamentares de 1978, os resultados
para a oposição não foram tão bons como seria de esperar
em vista da crise. Para tentar tirar votos de seus
adversários, mais uma vez o governo manipulou o medo,
explorando o tema da infiltração comunista no MDB. Mas ele
contava também com os casuísmos do pacote de abril de
1977, planejados justamente para favorecer o partido oficial
nas eleições de 1978. No pleito desse ano, a Arena
conseguiu eleger mais deputados federais — 231, contra os
189 eleitos pelo MDB — em parte porque era dominante nos
estados menores, cuja representação parlamentar o
governo havia aumentado. Por seu lado, o MDB ganhou
largamente nas áreas mais urbanas e desenvolvidas, sendo
que lideranças mais à esquerda e mais conectadas aos
movimentos sociais ampliaram presença no partido.31 No
Senado, os biônicos, ou seja, os senadores escolhidos pelo
governo sem consulta popular, garantiram maioria para a
ditadura, anulando o efeito dos 5 milhões de votos a mais
conquistados pelo MDB.
Assim, o pacote de abril de 1977 conseguiu reduzir o
crescimento da representação parlamentar da oposição,
dando mais tempo para a abertura controlada pelos
militares e aliados civis. Entre o fim de 1978 e o início de
1979, às vésperas da posse do general Figueiredo, os
líderes da ditadura começaram a planejar os próximos
passos de sua estratégia política. Sem o AI-5 a partir de
janeiro de 1979, seria mais difícil controlar o sistema político
e as forças de oposição, de maneira que as alternativas
passavam por tentar dividir a oposição e aumentar a
popularidade das figuras governistas, especialmente do
general João Figueiredo.
A DISTENSÃO DE GEISEL NÃO VISAVA restabelecer a democracia, e
sim garantir mais estabilidade e maior duração ao regime
autoritário, ainda que em versão menos severa em
comparação com o quadro anterior. No entanto, as ações de
oposição e de resistência, bem como os efeitos da crise
econômica, reduziram a capacidade do governo de controlar
o processo, que abriu caminho à desagregação da ditadura.
O debate político tornou-se mais livre e a oposição colocou
em pauta temas não desejados pelo governo, como o lado
negativo do “milagre” econômico e a urgência da anistia. O
regime autoritário, porém, conseguiu manter o poder por
mais tempo, pelo menos durante os seis (longos) anos do
mandato de Figueiredo, com a possibilidade de um mandato
adicional caso tivesse sucesso na estratégia de aumentar o
cacife eleitoral do partido governista.
Para usar a linguagem militar, o plano do grupo de Geisel
era promover um recuo organizado das forças da ditadura,
entregando posições ao inimigo mas mantendo terreno
suficiente para evitar a debandada da tropa. As Forças
Armadas iriam se “desengajando” das funções
governamentais e entregando mais poder aos civis, mas o
regime de 1964 poderia ter alguma sobrevida se a
estratégia eleitoral funcionasse bem.
No fim das contas, o último governo dirigido por um
militar, Figueiredo, seria um fiasco e levaria à decadência
final da ditadura. No entanto as forças autoritárias e a
corporação militar conseguiram limitar os efeitos da
abertura democrática graças a uma transição negociada.
Essa acomodação possibilitou uma saída suave da ditadura,
que evitou investigações e punições para os militares e
policiais responsáveis por crimes contra os direitos
humanos, gerando uma “nova” República tutelada pelos
quartéis e incapaz de enfrentar o legado do regime
autoritário.
11. A abertura, o “fim” da ditadura e a
precária democratização
NESTE MOMENTO EM QUE ESCREVEMOS, no qual forças autoritárias e
nostálgicas do regime militar retornaram ao poder e
mostram-se dispostas a nele permanecer por qualquer
meio, percebemos o custo da transição política conciliada
dos anos 1980, cuja prioridade de acomodar os conflitos
bloqueou o devido enfrentamento do legado da ditadura.
Por isso, um dos propósitos aqui é analisar aspectos da
abertura política e da transição que nos ajudem a entender
as razões da fragilidade da nossa experiência democrática
recente. Para empreender tal análise é necessário voltar os
olhos especialmente para o período a partir de 1978, com
atenção para as estratégias dos líderes do regime
autoritário, cujo objetivo era controlar o processo de
abertura política com vistas a manter o poder e evitar
futuras punições por seus atos. Também é fundamental
analisar as escolhas das forças de oposição, pois o formato
da transição resultou dos conflitos e dos jogos de
acomodação que envolveram segmentos dos dois lados.
Para alcançar nosso objetivo é indispensável abordar o
governo Figueiredo, que recebeu a missão de dar
continuidade aos planos traçados na gestão anterior. Em
grande medida, a estratégia de manter no poder os
herdeiros da ditadura fracassou nas mãos do sucessor de
Geisel. Na presidência de Figueiredo ocorreu a
desagregação final do bloco que apoiou 1964, tanto devido
às disputas políticas como pelo colapso econômico. Por
outro lado, foi nesse período que se consumou o plano
esboçado ao final do mandato de Geisel de abrir caminho à
saída dos militares do poder de maneira indolor (para eles).
Nessa medida, o governo “democrático” que sucedeu ao
último governo militar representou o “fim” da ditadura, mas
não significou uma verdadeira ruptura com ela. Antes de
aprofundar a análise desses temas faz-se necessário nos
determos em alguns aspectos da gestão do quinto e último
general presidente.
O governo Figueiredo e os percalços da abertura
O compromisso de Figueiredo com a estratégia traçada no
governo Geisel se evidenciou em promessas públicas de
“fazer deste país uma democracia”1 e na manutenção de
duas figuras-chave do período anterior: Golbery do Couto e
Silva, que continuou na mesma função, chefe do Gabinete
Civil (ou Casa Civil), e Petrônio Portella, que assumiu o
Ministério da Justiça. Entretanto, a “democracia” prometida
por Figueiredo pertencia à linhagem de Castelo Branco, já
que ele pretendia manter o esquema das eleições indiretas
para presidente e garantir que os herdeiros da ditadura
continuassem controlando o Estado. Seus gestos concretos
na direção da liberalização foram a instituição de eleições
diretas para governador, em 1982, e a iniciativa de aprovar
uma lei de anistia que, não obstante, foi utilizada para
tentar deter o crescente poderio das forças de oposição.
João Figueiredo herdou um quadro desafiador ao assumir
a presidência em março de 1979, quando as oposições
estavam mais fortes e agressivas e a grande imprensa
atuava livremente. Ele era um ditador, pois havia chegado
ao governo graças à decisão do ditador anterior e dependia
das forças repressivas para se manter no poder. Com o fim
do AI-5, porém, o Executivo não tinha mais poder ilimitado.
Ademais, Figueiredo enfrentava uma crise econômica cada
vez mais grave, o que tornava desafiante conservar a
situação política sob controle, pois as greves se
intensificaram, assim como as críticas à ditadura. Nesse
contexto, foi mantida a estratégia de recuo organizado, ou
seja, cedia-se espaço para os adversários, mas tentava-se
preservar as próprias forças unidas para entregar o mínimo
de terreno possível.
Essa estratégia abrigava um projeto orientado ao futuro,
pois não se pretendia entregar o poder à oposição, e sim
eleger o próximo presidente em 1984. Para tanto, era
preciso investir na popularização dos líderes e das
instituições da ditadura, na expectativa de ter bom
desempenho nas eleições de 1982 e manter o controle do
Congresso, e consequentemente do processo sucessório
indireto. Tal estratégia implicava revigorar a Arena, ou
talvez refundá-la, pois seria necessário um partido
governista forte e com imagem pública positiva para
disputar as eleições. Não era um caminho fácil. De qualquer
modo, na pior hipótese se esperava adiar ao máximo a
entrega do poder à oposição e garantir que as forças
militares se mantivessem unidas e protegidas contra futuras
punições. Assim, os pilares da estratégia política do governo
Figueiredo eram buscar popularidade, aprovar uma lei de
anistia aceitável para os líderes da ditadura, fazer uma
reforma partidária e dividir a oposição.
Quanto ao tema da popularização, investimentos nessa
direção começaram ainda no período Geisel. É certo que tal
preocupação foi constante nos governos da ditadura, mas a
partir de 1974 a questão se tornou mais complexa e
estratégica devido ao resultado eleitoral adverso, que
obrigou o governo a reagir para evitar derrotas piores no
futuro. A repressão e a manipulação oportunista da
legislação foram largamente utilizadas, porém eram
medidas insuficientes, especialmente em quadro de
distensão política. Era preciso melhorar o desempenho
eleitoral, inclusive porque os mecanismos discricionários
seriam reduzidos após o fim do AI-5. O novo rumo político
ficou claro já em 1978, quando Geisel escolheu nomes
“bons de voto” para ocupar os governos estaduais, na
expectativa de que ajudassem o desempenho eleitoral da
Arena.2 Os tecnocratas ficaram em segundo plano, e os
políticos definitivamente voltaram a ser valorizados pelos
líderes da ditadura.
Cálculos da mesma natureza influenciaram a política
salarial após 1978, dada a preocupação de evitar prejuízos
eleitorais para o partido do governo e também como
tentativa de conter os movimentos grevistas em ascensão.
Dessa maneira, no fim de 1979 foram adotadas medidas de
reajuste mais generosas para os trabalhadores de baixa
renda, em contraste com o período inicial da ditadura, em
que prevaleceu o arrocho. Pela nova regra, quem recebia
até três salários mínimos seria reajustado pelo índice oficial
de inflação e mais um acréscimo de 10%. Ademais, foi
instituído o mecanismo de aumento semestral, para
proteger melhor os assalariados contra a corrida
inflacionária.3 Porém os efeitos dessas ações foram
limitados, já que a inflação galopante tornava qualquer
política de recomposição dos vencimentos inócua para os
trabalhadores, que em resposta intensificaram as greves.
Além disso, o acordo com o FMI nos anos finais do governo
Figueiredo levou a novo arrocho salarial, com o propósito de
segurar a inflação descontrolada.
Outra iniciativa de destaque na linha da popularização foi
tentar criar imagem pública mais favorável para Figueiredo.
Era uma tarefa difícil, pois se tratava de um general sisudo
oriundo dos serviços de informação. Mesmo assim, os
publicitários e assessores de comunicação se esforçaram.
Além da óbvia providência de retirar os seus habituais
óculos escuros, que traziam uma marca sinistra, os
publicitários oficiais investiram em mostrá-lo como um
sujeito popular, o “João”, e não um militar egresso das
entranhas da ditadura. Em resposta a essa manobra
publicitária, tanto na oposição como entre aliados liberais
da ditadura ouviram-se vozes denunciando que ela parecia
sucumbir à tentação populista.4
A estratégia de criar uma imagem popular, conciliadora,
de tolerância política e generosidade com os trabalhadores,
acabou em grande fracasso. Figueiredo não cabia bem no
papel, pois além de autoritário era pouco chegado ao
“povo”, ao ponto de em certa ocasião dizer que preferia o
cheiro dos cavalos. Além disso, o fiasco político e econômico
de seu governo tornou a estratégia inviável. Mesmo assim,
o esforço de popularização em busca de votos era um sinal
de mudança de estratégia. Vale registrar que “João”
procurou agradar também ao empresariado, que vinha
criticando o aumento do intervencionismo econômico
estatal. Para seduzir os homens de negócio, Figueiredo fez
juras de amor à iniciativa privada e prometeu simplificar a
vida das empresas, para o que foi criado em seu governo
um inusitado Ministério da Desburocratização.5
Porém, os pontos mais importantes da agenda política
eram a anistia e a reforma partidária, duas iniciativas que
se conectavam na estratégia da ditadura. Se, por um lado,
era preciso atender às demandas democráticas e avançar a
abertura, de outro, o governo aproveitava a ocasião para
tentar dividir e enfraquecer a oposição. Demandas por
anistia já tinham sido apresentadas anteriormente — por
exemplo, nos governos Castelo Branco e Costa e Silva —,
mas em tais ocasiões não havia qualquer viabilidade política
para a proposta.
Foi a partir da distensão e do crescimento do sentimento
oposicionista que surgiu a oportunidade de organizar uma
campanha mais forte pela anistia, que se consolidou por
meio das ações de entidades como o Movimento Feminino
pela Anistia (1975) e o Comitê Brasileiro pela Anistia
(1978).6 Graças a esse ativismo, que protagonizou
campanhas de impacto, o tema pôde entrar definitivamente
no debate político entre 1977 e 1978. A nova realidade fez
com que a anistia fosse incluída também na pauta de
preocupações da ditadura, cujos líderes se dividiram entre a
aceitação de uma anistia limitada ou a sua rejeição total,
sendo esta posição defendida pela extrema direita.
A opinião dos editores de jornais influentes como O Estado
de S. Paulo, Jornal do Brasil e O Globo é reveladora do rumo
assumido pelo debate nos meios de elite. Importante
destacar que o desenho da anistia foi a pedra de toque da
abertura e da transição, pois envolveu questões centrais
como a reintegração dos expurgados ao sistema político, as
atitudes frente aos crimes cometidos pelos agentes
repressivos e a memória a ser cultivada em relação à
ditadura. Desde 1977, mas especialmente a partir de 1978,
a imprensa começou a se posicionar sobre as demandas por
perdão aos perseguidos políticos, e, com frequência, o tema
era associado à proposta de encontrar alguma fórmula de
conciliação para sair do regime autoritário.7 Não faltou
quem lembrasse a tradição conciliatória brasileira, propondo
que ela fosse recuperada e aplicada novamente. Porém não
se acrescentou que tal tradição era particularmente forte
entre as elites políticas e sociais, como estratégia para
superar conflitos evitando a participação popular nas
grandes decisões. E tratava-se exatamente disso: construir
um acordo entre os grupos dominantes que garantisse a
liberalização política sem riscos de radicalização, e sem
chances de real democratização. Tal projeto poderia unir as
elites sociais que vinham apoiando a ditadura aos setores
moderados da oposição, abrindo uma rota suave para se
sair do regime autoritário. E foi esse, afinal, o caminho
seguido pela transição brasileira.
Não era viável falar em reconciliação e retorno ao Estado
de direito sem discutir como as lideranças expurgadas
voltariam a ter direito à participação política. Porém, os
líderes da ditadura estabeleceram dois limites: as ações
mais violentas (o “terrorismo”) não poderiam ser anistiadas;
e não seria aceito “revanchismo” contra os agentes dos
governos militares. A maioria da grande imprensa
concordava com o setor dominante da ditadura quanto a
esses dois pontos e, de certa forma, serviu como canal para
vocalizar as condições impostas pelo Estado.
Entre 1977 e 1979, jornais influentes defenderam que a
anistia não poderia beneficiar atos violentos praticados pela
esquerda, especialmente os de caráter terrorista.8 Alguns
chegaram a argumentar que certas ações da esquerda
armada não seriam crimes políticos, mas crimes comuns, e
que anistias amplas só aconteciam quando os governos
eram derrubados, o que não seria o caso.9 Afirmou-se
também que o governo não poderia anistiar os crimes dos
“terroristas”, pois isso significaria perdoá-los e esquecê-los.
Perdoáveis seriam apenas os delitos de opinião, não os atos
violentos.10 Vale notar um aspecto significativo: os mesmos
grupos que defenderam tais posições concordaram com o
perdão aos atos violentos cometidos pelos agentes da
ditadura — aceitando portanto, devido a um viés ideológico
antiesquerdista, um argumento assimétrico. Esses eram
pontos de vista caros à direita autoritária e ao aparato
repressivo, que atuaram como fonte de pressão contra a
anistia ampla, geral e irrestrita defendida pelos movimentos
sociais e pela oposição.
Quando o sucesso das campanhas públicas ampliou a
opinião favorável à suspensão das penas contra crimes
políticos, um argumento sutil entrou em circulação,
representando uma tentativa de acomodar as pressões dos
dois lados. Nas entrelinhas de seus textos, alguns
articulistas sugeriram um artifício que ajudaria a superar a
resistência de setores militares e da direita radical à anistia
ampla e irrestrita, resistência decorrente de não tolerarem o
perdão aos crimes de “sangue” cometidos pela esquerda. A
sugestão sutil era que, depois da aprovação de uma lei de
anistia restrita, ou seja, de perdão apenas para os crimes de
“opinião”, o presidente poderia indultar os condenados por
atos violentos e crimes de sangue.
Havia uma nuança política e jurídica envolvida na
questão, pois o indulto não significa perdão do crime
cometido, ao contrário da anistia. Indultar é um ato de
clemência do Estado, que extingue o cumprimento da pena
mas não anula o crime cometido. Assim, tirar alguns presos
da cadeia por meio de indulto seria menos escandaloso para
certos setores da direita. Em outros casos, algumas penas
poderiam ser revistas pelo Poder Judiciário, de maneira a
contemplar o grupo não beneficiado pela lei.11 Com isso,
não se ofenderia a opinião contrária à anistia ampla,
desbloqueando a aprovação de um perdão limitado. Os
indultos presidenciais e a revisão de condenações após a
aprovação da lei atenderiam na prática às demandas da
oposição, mas sem conflito maior com os radicais da direita.
Tal estratégia acabou marcando o processo de anistia, como
se verá.
Do ponto de vista dos militares, outra pauta quando
emergiu a discussão sobre anistia, a partir de meados de
1977, era o “revanchismo”, palavra que começou a circular
(inclusive em charges) na mesma época. No contexto do
debate sobre a anistia, os líderes da ditadura passaram a se
preocupar com a possibilidade de punições no futuro aos
crimes contra os direitos humanos que haviam sido
cometidos. Um sinal de alerta importante ocorreu com a
cassação, em julho de 1977, do mandato do líder do MDB na
Câmara, deputado Alencar Furtado, após um discurso na
televisão. Tratou-se de ato até certo ponto surpreendente,
pois na ocasião o governo buscava investir de novo na
distensão e recuperar o prestígio perdido com o pacote de
abril. A explicação mais provável para a cassação de
Furtado reside num detalhe da sua fala na televisão: ele
insinuou que os militares envolvidos em crimes poderiam vir
a ser julgados.12 Nos meses seguintes, a imprensa começou
a divulgar que a conciliação exigia esquecer o passado e
evitar qualquer tipo de “revanchismo” contra os militares.
Em textos discretos, alguns articulistas comentaram que os
“excessos” cometidos contra a “subversão”, a exemplo da
tortura, eram vistos pelos militares como um serviço à
pátria, por isso não admitiam punição.13
Ao abraçar a rejeição ao “revanchismo”, setores da
imprensa, do Judiciário e das elites econômicas e políticas
aceitaram a ideia de que deveria haver um tipo de anistia
“recíproca”. Em outras palavras, a anistia a ser aprovada
deveria incluir o esquecimento dos crimes cometidos a
serviço da ditadura. Mas a aparente reciprocidade escondia
uma situação problemática e assimétrica. Em primeiro
lugar, agentes do Estado não podem ter permissão para
cometer crimes, já que são supostamente defensores da lei.
Além disso, certos crimes são imprescritíveis e
imperdoáveis. Quanto à assimetria, a grande maioria dos
“subversivos” tinha sido punida, direta ou indiretamente, o
que não era o caso dos agentes públicos.
De qualquer forma, a tese do perdão recíproco prosperou
entre segmentos da elite, mantendo sua força até os dias
atuais. Na ocasião, o entendimento favorável ao
esquecimento dos crimes dos agentes estatais derivava
também da força da ditadura, que, afinal, ainda estava no
poder. Naquelas condições, seria difícil imaginar um outro
desfecho. Por isso mesmo, os setores democráticos se
concentraram em tentar ampliar o escopo da anistia em
benefício dos alvos da ditadura, deixando para segundo
plano a demanda por punição dos crimes cometidos pelos
agentes do Estado.
Em junho de 1979, o governo Figueiredo enviou ao
Congresso seu projeto de lei regulando a anistia. O primeiro
artigo anistiava “os crimes políticos ou conexos com estes”
cometidos entre o início do governo Goulart (setembro de
1961) e agosto de 1979. A pedra de toque do perdão aos
agentes do Estado estava na figura do crime conexo, que
era definido no parágrafo seguinte, de maneira vaga, como
crime de qualquer natureza relacionado a crimes políticos
ou praticado por motivação política.14 Nos bastidores do
poder, do aparelho judiciário e das redações dos jornais,
ficava entendido que crimes conexos eram os praticados
por militares e policiais. Já para a esquerda não havia a
mesma complacência, pois o segundo parágrafo do mesmo
artigo excluía da anistia os crimes de terrorismo, assalto,
sequestro e atentado pessoal.
Diante de tamanha injustiça e falta de equilíbrio, as forças
de oposição tentaram emendar o projeto de lei na direção
de uma anistia ampla e irrestrita, e quase conseguiram
vencer. Uma parte dos presos políticos juntou-se à
campanha contra a anistia restrita do governo, fazendo
greve de fome para pressionar contra a sua aprovação. A
tentativa mais viável de emendar a lei foi capitaneada por
um deputado da Arena, Djalma Marinho, cujo texto
substitutivo mantinha o perdão para os agentes do Estado
mas o ampliava para os crimes de “sangue” cometidos por
ativistas de esquerda. A soma entre os votos dos
dissidentes do governo e dos parlamentares do MDB quase
foi suficiente, mas no fim o projeto do governo venceu por
apenas cinco votos de diferença.15 O resultado apertado
mostrou a força do movimento pela anistia ampla e
irrestrita. Um segmento da oposição protestou contra a lei,
porém parcela majoritária acabou por aceitá-la, entendendo
que era a conquista possível no momento. A ditadura estava
em recuo, mas ainda estava no comando.
A maior parte das forças de oposição acabou se
acomodando à situação, porque a maioria dos perseguidos
políticos foi beneficiada imediatamente. Além disso, aquelas
sugestões sutis que apareceram no debate da imprensa
influenciaram o governo, que indultou alguns presos não
beneficiados pela lei, enquanto outros foram liberados
devido à revisão das penas pelo Poder Judiciário. A lei de
anistia permitia ainda o retorno ao serviço público dos
expurgados, desde que o respectivo ministério concordasse
com a volta do servidor afastado do cargo. Os militares
punidos não voltaram ao serviço ativo, pois o setor que
assumiu o comando em 1964 não permitiu o retorno da
esquerda aos quartéis. Mas, nos ministérios civis, muitos
funcionários voltaram ao trabalho, ou pelo menos tiveram
as aposentadorias reajustadas com a inclusão do tempo de
afastamento. O benefício para os servidores expurgados
atendia a uma reivindicação do movimento pela anistia e foi
um artifício para tornar a lei mais atraente para a oposição.
As pessoas não contempladas naquele momento,
especialmente os militares punidos, seguiram em luta pelo
reconhecimento de seus direitos, que em parte foram
atendidos apenas décadas depois.
O caso da anistia é emblemático da transição brasileira,
em que as disputas foram temperadas com acordos e
acomodações. Houve conflito pela definição da amplitude
do perdão, mas, apesar de a lei aprovada ter caráter
restrito, todos os presos acabaram liberados após alguns
meses. E o bizarro “autoperdão” para os agentes do Estado
prevaleceu, inclusive porque a maioria da oposição,
preocupada com problemas mais prementes, o tratou como
um tema secundário. A demanda de que os agentes
repressivos fossem julgados por seus crimes, defendida por
uma parte do movimento pela anistia,16 encontrou pouca
viabilidade devido ao frágil apoio político e à presença dos
militares no comando do Estado. Junto com a questão da
busca de informações sobre os desaparecidos, só
futuramente tais demandas se tornariam pautas mais
relevantes. A acomodação que prevaleceu no processo de
anistia, sobretudo envolvendo as elites políticas e sociais,
apesar do protesto de um setor da oposição, acabou
pavimentando o caminho para situações semelhantes, que
seriam a marca da transição brasileira.
Com a aprovação da lei de anistia, a partir de agosto de
1979 centenas de eLivross voltaram ao Brasil, pela certeza
de que não seriam mais presos ou processados. Na verdade,
o movimento de retorno já havia começado no início do ano,
quando foram extintos o AI-5 e as penas de banimento, mas
a aprovação da anistia era garantia mais segura. Os
grandes líderes da oposição de esquerda voltaram em
setembro e outubro de 1979, com destaque para Leonel
Brizola, Miguel Arraes e Luiz Carlos Prestes. O retorno
desses e de outros eLivross ilustres gerou recepção
entusiasmada e festiva, além de renovar a esperança no
campo das oposições. Para o governo, tratava-se de uma
fonte de preocupação, pois o ativismo de esquerda iria se
incrementar, mas, por outro lado, era também uma
oportunidade para dividir os adversários.
Nesse contexto, os condutores do Estado colocaram em
pauta a reforma do sistema partidário, outra pedra angular
da estratégia oficial de abertura. Nos anos anteriores o MDB
havia crescido, após tornar-se destino certo dos votos
oposicionistas e de todos os insatisfeitos, em eleições que
se tornaram verdadeiros plebiscitos pró ou contra o
governo. Para livrar-se do bipartidarismo, que passou a ser
mais frutífero para a oposição, o governo atrelou a anistia a
um plano de reforma partidária. O discurso oficial era
atender ao desejo de liberdade do povo, mas, na prática, o
objetivo era dividir a oposição e tentar criar um partido
oficial com cara nova, de preferência mais popular.
Pretendia-se acirrar as divisões já existentes no MDB, que
tinha diferentes alas ideológicas em constante conflito, com
a entrada em cena de líderes eLivross que iriam ocupar — e
disputar — espaços no campo da oposição.
A estratégia foi escancarada quando o projeto de lei do
governo foi divulgado, em outubro de 1979. Um dos artigos
exigia que as futuras agremiações incluíssem o termo
“partido” em sua denominação, para forçar uma mudança
na legenda do MDB. E, para quem tinha dúvidas, o
tratamento dado aos partidos comunistas deixou claro que o
objetivo do governo não era instituir o pluralismo partidário.
Se assim fosse haveria que se colocar em discussão a
legalização dos partidos comunistas, ponto pacífico em
qualquer democracia. Mas a aceitação dos comunistas no
sistema político continuava a ser um tabu, dividindo
inclusive a opinião liberal. Alguns achavam que a melhor
forma de controlar os partidos comunistas era legalizá-los,
enquanto outros afirmavam ser suficiente permitir a
circulação de suas ideias, mas continuar proibindo que
disputassem o poder.17 Os comunistas tiveram que
aguardar o fim da ditadura para sair da clandestinidade,
pois a maioria dos militares e parte de seus aliados civis não
aceitavam sua presença no cenário público e continuavam a
vê-los como inimigo principal, tal como em 1964.
Previsivelmente, uma parcela da oposição foi atraída pela
possibilidade de organizar novos partidos, e o projeto de lei
foi aprovado, sem maiores dificuldades, no fim de 1979.18
No MDB, o grupo majoritário batalhou para manter a sigla
unida, denunciando a manobra do governo. No final, o plano
de dividir o partido e forçar a mudança de legenda não teve
o efeito esperado, pois foi adotada a sigla PMDB, para não
deixar dúvida de que se tratava de uma continuação do
partido anterior. Além disso, a maioria das lideranças
permaneceu na legenda, que foi reforçada pela entrada de
uma parte dos eLivross. A princípio o PMDB iria perder um
setor da ala moderada, que, com Tancredo Neves à frente,
juntou-se a dissidentes da Arena (liderados por Magalhães
Pinto) para criar um partido de centro-direita, o Partido
Popular (PP). Mas os líderes do PP desistiram de manter a
sigla, e a maioria de seus integrantes acabou voltando para
o PMDB. A decisão de extinguir o PP deveu-se a novos
casuísmos aprovados pelo governo para beneficiar
eleitoralmente seu novo partido (o Partido Democrático
Social, PDS): a exigência do voto vinculado (o eleitor tinha de
votar no mesmo partido para todos os cargos em disputa) e
a proibição de coligações partidárias.19 Com isso, a ditadura
favoreceu o PDS, mas também o PMDB, ao estimular a
permanência de sua ala à direita.
A reforma partidária levou à formação de dois outros
partidos importantes no campo das oposições, o Partido
Democrático Trabalhista (PDT), liderado por Leonel Brizola, e
o Partido dos Trabalhadores (PT), liderado pelo metalúrgico e
líder sindical Luiz Inácio da Silva. Na ocasião foi recriado o
PTB, sigla disputada por Brizola, mas perdida para o grupo
liderado por Ivete Vargas, que refundou o partido de seu tio-
avô, Getúlio. Difícil classificar o novo PTB como força de
oposição à ditadura, porém ao menos em um momento-
chave ele ficou ao lado das forças democráticas: ao votar
em peso (com uma exceção) pela emenda que
restabeleceria as eleições diretas para presidente.
A agremiação criada em 1980 para apoiar o governo, o já
mencionado PDS, deixava pelo caminho a sigla Arena,
desgastada nos últimos anos. O nome improvável para um
partido de direita que apoiava uma ditadura militar foi
escolhido exatamente para escamotear suas origens e
tentar atrair votos. Com o PDS, o governo esperava ter
desempenho favorável nas eleições de 1982, decisivas não
apenas por definirem a sucessão presidencial de 1984, mas
também porque os governos estaduais seriam disputados
pelo voto direto, algo que não ocorria desde 1965.
Antes de enfrentar as eleições, em que pretendia conter o
crescimento das forças democráticas e de esquerda, o
governo teve de lidar com pressões provenientes da direita
radical. Tal como Geisel alguns anos antes, o governo
Figueiredo foi intimidado pela extrema direita militar.
Inconformados com o rumo da abertura, os radicais
buscaram tumultuar o quadro político realizando ações
terroristas contra alvos considerados de esquerda. Siglas da
extrema direita armada que haviam atuado nos anos 1960
voltaram ao cenário público, como CCC e MAC, ao lado de
nomes novos como Vanguarda de Caça aos Comunistas,
Comando Delta e Falange Pátria Nova.
Entre 1979 e 1981, esses grupos colocaram centenas de
bombas em automóveis, residências, bancas de revista,
sedes de jornais e de movimentos sociais, para amedrontar
lideranças de esquerda e tentar impedir a circulação de
periódicos de mesma orientação. Dentre os mais
significativos — e mortíferos — atentados a bomba
cometidos nesse período destacam-se os que, no dia 27 de
agosto de 1980, no Rio de Janeiro, provocaram a morte de
Lyda Monteiro da Silva, funcionária da sede da OAB, e
mutilaram um assessor parlamentar da Câmara Municipal.20
Porém, a mais ambiciosa ação terrorista terminou em
revés para os radicais de direita, nesse caso dois militares
do Exército lotados no DOI-Codi carioca. Na noite de 30 de
abril de 1981, o capitão Wilson Dias Machado e o sargento
Guilherme Pereira do Rosário estavam em um automóvel
estacionado nas imediações do Riocentro, local usado para
shows e eventos situado na região da Barra da Tijuca, Rio
de Janeiro. Naquela noite, o Riocentro abrigava um
espetáculo comemorativo do 1o de maio, organizado e
estrelado por intelectuais e artistas de esquerda. A intenção
dos terroristas era causar pânico, com um atentado que
poderia ter custado muitas vidas, e atribuir a autoria a
organizações de esquerda, para tumultuar o ambiente
político. Mas, por imperícia, uma das bombas estourou
dentro do automóvel e no colo do sargento Rosário, que
morreu na hora, enquanto o capitão sofreu graves
ferimentos.
Em meio à abertura não havia como abafar o caso, e o
governo teve de encomendar um processo de investigação
oficial. Porém, em atitude diferente de seu antecessor,
Figueiredo escolheu contemporizar com os militares
rebeldes em lugar de puni-los. Provavelmente pesou o fato
de ele mesmo ter atuado anteriormente nos órgãos de
informação e repressão. O inquérito presidido por um
coronel do Exército concluiu que a bomba havia sido
plantada no carro por terroristas de esquerda, uma versão
que afrontava as evidências e a inteligência do público. A
gravidade do escândalo gerou divisão no governo e
aumentou seu descrédito junto à opinião pública,
culminando na saída de Golbery do Couto e Silva, que
discordou da decisão de proteger os militares terroristas.21
Com isso, o então presidente perdeu uma peça-chave dos
projetos de distensão e abertura. Ou mais uma, pois
Petrônio Portella havia falecido meses antes.
O fortalecimento dos movimentos democráticos e a saída
negociada da ditadura
A repercussão do caso Riocentro fragilizou ainda mais um
governo que enfrentava uma situação econômica terrível,
com inflação acelerada, crise da dívida externa, falta de
reservas cambiais e, ainda por cima, uma recessão grave
que provocava desemprego. Em meio a esse quadro
ocorreram as decisivas eleições de 1982, que, sem
surpresa, trouxeram um resultado ruim para o governo
Figueiredo, complicando seus planos de manter a abertura e
a sua sucessão sob controle.
Nas eleições para governadores, o novo partido da
ditadura venceu em doze estados. No entanto, o
desempenho da oposição foi proporcionalmente mais
positivo, pois, além de ter tido mais votos em termos
nacionais, ela ganhou em dez estados, entre eles os de
maior peso político, econômico e populacional (SP, RJ, MG).
Quanto aos resultados das eleições proporcionais, no
Senado os casuísmos continuaram a beneficiar o governo.
Não haveria mais a figura do senador “biônico”, e todas as
vagas abertas em 1982 foram disputadas em voto direto,
mas os que ganharam o cargo por eleição indireta em 1978
continuariam no Senado até 1986, garantindo a vantagem
do governo. Vale destacar também que o território de
Rondônia foi transformado em estado alguns meses antes
da eleição, com isso garantindo três vagas senatoriais para
o PDS. No total, o partido do governo elegeu quinze
senadores e a oposição, dez (nove do PMDB e um do PDT), mas
esta teve votação bruta maior por ter mais apoio nos
estados populosos.
Mais significativo é destacar a Câmara. O PDS conseguiu
eleger 235 deputados federais, mostrando que a ditadura
ainda tinha força e representatividade, embora em parte o
resultado tenha se devido às vantagens propiciadas pela
máquina do Estado e pela legislação de exceção que
beneficiava os governistas. Mesmo assim, pela primeira vez
o partido da ditadura perdeu a maioria na Câmara. O PMDB
confirmou sua condição de maior partido de oposição ao
eleger uma bancada de duzentos deputados, enquanto o PDT
fez 23, o PTB, treze, e o PT, oito. Era uma mudança
significativa em relação ao pleito de 1978 (quando a Arena
fez 231 deputados e o MDB, 189), e uma confirmação do
declínio da ditadura.
Como o número de cadeiras na Câmara aumentou entre
1978 e 1982, para comparar os resultados é melhor
observar os dados proporcionais. Em 1978, a Arena elegeu
55% dos deputados e o MDB, 45%, enquanto em 1982 o PDS
elegeu 49%, o PMDB, 42%, e os outros partidos elegeram os
9% restantes. Em outras palavras, o governo teve uma
queda de 6% na representação da Câmara entre 1978 e
1982, o que deu à oposição a maioria da Casa (51%). A
diminuição proporcional do PMDB foi compensada pelas
posições ocupadas pelos outros partidos de oposição.
Os resultados de 1982 mostraram que o declínio político
da ditadura se mantinha, apesar das manobras e
casuísmos, aumentando a pressão pela redemocratização
do país. Os líderes do regime militar não detinham mais o
controle do Congresso e teriam dificuldade para comandar o
processo de escolha indireta do próximo presidente. No
entanto, mesmo em minoria na Câmara, os parlamentares
fiéis à ditadura eram em número suficiente para barrar
iniciativas da oposição para emendar a Constituição, o que
se evidenciaria a seguir.
Pelo mesmo período, os movimentos sociais seguiam em
rota ascendente, ampliando demandas democráticas e
salariais e investindo na organização de suas entidades
representativas. O ciclo grevista inaugurado em 1978 teve
sequência em 1979 e 1980, trazendo dores de cabeça
também ao governo Figueiredo. O dilema era similar ao
enfrentado na gestão Geisel. Era preciso lidar com as
demandas do aparato repressivo e ao mesmo tempo evitar
que o governo se tornasse muito impopular e perdesse o
controle do processo de abertura. A repressão gerou
episódios de confrontos violentos nas ruas, incluindo os
assassinatos do metalúrgico Santo Dias, em São Paulo, e do
trabalhador da construção civil Orocílio Martins Gonçalves,
em Belo Horizonte, ambos em 1979. Além disso, houve
intervenção em alguns sindicatos e a prisão temporária de
seus líderes, notadamente Lula e seus companheiros do
Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, em
1980.22 Mas, ao mesmo tempo, ocorreram negociações, e
os sindicatos alcançaram conquistas importantes.
Em meio a esse quadro de ampliação das lutas dos
trabalhadores foram criadas as centrais sindicais, que
derivaram da Conferência Nacional das Classes
Trabalhadoras (Conclat) realizada em agosto de 1981. Como
havia diferenças de concepção e disputas políticas pelo
comando do movimento sindical, acabaram surgindo duas
grandes centrais rivais nos anos seguintes: a Central Única
dos Trabalhadores (CUT) e a Central Geral dos Trabalhadores
(CGT). Mesmo com essa divisão, o movimento sindical viveu
uma fase de ascensão no período, em que a luta por
reajustes salariais se combinou à luta por democracia. Nas
zonas rurais, militantes pela reforma agrária criaram o
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que
veio se juntar a outras entidades representativas
preexistentes, e, nas grandes cidades, o associativismo de
bairro proliferou.
Revigoradas pelos resultados eleitorais de 1982, pelo
crescimento dos movimentos sociais no campo e nas
cidades, e também pelo enfraquecimento progressivo do
governo, as forças democráticas tomaram a iniciativa para
reformar as instituições vigentes e dar cabo do regime
autoritário. Para tanto foi lançada uma campanha popular
pelo restabelecimento de eleições diretas para presidente,
com a expectativa de que geraria a pressão política
necessária para aprovar uma emenda à Constituição nesse
sentido apresentada ao Congresso pelo deputado Dante de
Oliveira. Para que a campanha tivesse sucesso era
necessário contar com o apoio de dissidentes do PDS, já que
a exigência de dois terços de votos para alterar a
Constituição voltara a valer após a anulação dos principais
efeitos do pacote de abril de 1977.
O movimento Diretas Já começou em 1983, quando foram
organizados comícios que reuniram dezenas de milhares de
pessoas, mas deslanchou efetivamente nos primeiros meses
de 1984, momento em que o público presente aos eventos
chegou a ultrapassar a marca de 1 milhão em algumas das
grandes cidades, particularmente nas capitais dos estados
governados pela oposição.23 A campanha pelas eleições
diretas originou uma frente ampla de forças oposicionistas
que reuniu lideranças de esquerda e de centro, sindicalistas,
intelectuais e artistas, contando com apoio de parte
minoritária da grande imprensa. Junto com as eleições para
governador de 1982, o movimento Diretas Já marcou o
retorno dos cidadãos às ruas, após anos de repressão e
medo.
Foi sob o impulso dessa pressão democrática que os
deputados votaram a emenda Dante de Oliveira, em 25 de
abril de 1984. Embora a ditadura estivesse enfraquecida e
dividida, seu setor dominante não estava disposto a aceitar
o restabelecimento de eleições diretas. Nessa altura, o
governo Figueiredo não tinha mais força para comandar o
rumo da abertura, mas ainda podia bloquear o retorno das
diretas, cuja realização lhe traria mais riscos e incertezas.
Uma disputa direta poderia radicalizar o processo de
superação da ditadura e, quem sabe, resultar em um
governo menos disposto a aceitar a acomodação com os
militares e seus aliados.
Por isso, o governo trabalhou para evitar uma debandada
de votos de deputados do partido oficial em favor da
emenda. Decerto o grupo no poder agiu discretamente para
garantir votos, mas também adotou medidas de força para
evitar que lideranças de oposição e populares
pressionassem os deputados em Brasília. Para tanto, o
governo lançou mão do dispositivo que substituiu o AI-5, o
estado de emergência, decretado em Brasília e em nove
cidades vizinhas no período em que se previa a votação (de
meados de abril a meados de maio de 1984), sob o
comando do general Newton Cruz. Tropas foram utilizadas
para amedrontar manifestantes favoráveis à aprovação da
emenda, e as emissoras de TV e rádio foram proibidas de
registrar a sessão da Câmara. Disposto a mostrar serviço,
Newton Cruz protagonizou uma das cenas mais patéticas da
ditadura. No dia da votação, apareceu a cavalo na área
central de Brasília, ameaçando com seu rebenque os
automóveis que faziam buzinaço pela aprovação da emenda
Dante de Oliveira.24
A pressão pelo retorno à democracia gerou de fato
dissidências no PDS, pois mais de cinquenta deputados do
partido votaram a favor da emenda, junto com todos os
deputados dos partidos de oposição (com exceção de um
deputado do PTB). Porém, não foi suficiente. A emenda teve
298 votos favoráveis, quando eram necessários 320.
Faltaram 22 votos, portanto. A maioria dos que não votaram
pela emenda preferiu se ausentar, por medo da repercussão
pública: houve 113 ausências e três abstenções, e apenas
65 deputados presentes que votaram contra.25 Mesmo que
tivesse sido aprovada na Câmara, a emenda enfrentaria
ainda outra batalha pesada no Senado, que o governo
controlava com a presença dos biônicos (cujos mandatos
vigoravam até 1986).
O resultado frustrou os que desejavam o retorno à
democracia e trouxe desolação aos jovens que tiveram seu
“batismo democrático” na campanha das Diretas Já. Porém
o caminho de um acordo entre setores da ditadura e da
oposição para uma saída negociada fora pavimentado.
Como estava claro que a ditadura não tinha mais futuro,
para o seu setor mais lúcido — e também mais oportunista
— a opção era caminhar para o colapso ou então fazer
concessões de maneira a obter uma mudança suave. Na
verdade, negociações entre uma ala do governo e parte da
oposição começaram ainda antes da campanha das Diretas,
tendo o desfecho da votação da emenda tornado o acordo
mais viável.
Outro fator decisivo que levou a uma saída negociada foi
a divisão entre os líderes da ditadura quanto à sucessão de
Figueiredo, em parte porque ele mesmo não se empenhou,
ajudando a gerar indecisão nas hostes oficiais. É
sintomático que a maioria dos postulantes do PDS ao cargo
fossem civis, sendo que o único deles com passado militar,
Mario Andreazza, era mais conhecido como o tocador das
grandes obras de infraestrutura da ditadura. A vitória de
Paulo Maluf na disputa interna pela candidatura oficial
dividiu de vez os apoiadores da ditadura.26 Como alguns
grupos não o aceitavam, a hipótese de fazer um acordo com
a oposição tornou-se muito atraente, tanto mais porque o
prestígio do regime militar estava no chão.
A partir daí abriu-se caminho para reeditar a estratégia
que o MDB tentou sem sucesso em 1978: disputar o colégio
eleitoral com um candidato capaz de dividir os apoiadores
da ditadura. Só que, dessa vez, o candidato seria um civil
realmente egresso da oposição, ainda que da ala moderada:
Tancredo Neves, um herdeiro da tradição (e do mito) de que
os mineiros seriam os políticos mais habilidosos. Se
houvesse eleições diretas, o candidato do PMDB
provavelmente seria Ulysses Guimarães, principal líder do
partido. Mas, para um arranjo de acomodação, a melhor
opção era Tancredo, que aliás já vinha ensaiando o papel
desde 1977, quando começou a aparecer na Câmara dos
Deputados defendendo a conciliação.27 Sua eleição para o
Senado, em 1978, e para o governo de Minas, em 1982,
aumentou ainda mais seu cacife no cenário político
nacional.
Assim, os discursos pela conciliação que alguns
segmentos da elite vinham proferindo há alguns anos
acabaram por concretizar-se. O objetivo, reiterando, era
acomodar a oposição e uma parte do governo para uma
saída suave da ditadura. As premissas do jogo eram evitar
punições para os crimes (e os criminosos) da ditadura,
manter certas estruturas de poder e de privilégios intactas
e, fundamentalmente, evitar a participação popular no
processo político, dado o temor despertado pelo crescente
protagonismo dos movimentos sociais. Era a velha fórmula
usada desde o século XIX, já integrada à cultura política do
país: negociar disputas entre os grupos de elite para evitar
que choques entre eles abrissem caminho à participação
popular e a mudanças sociais agudas. Tancredo Neves
encarnou tal papel na ocasião, mobilizando com eficiência a
arte da negociação e o discurso da mineiridade,
despertando esperanças de que conduziria um processo de
democratização sem rupturas.
Tendo a garantia de que com Tancredo as mudanças
seriam limitadas e de baixo risco, setores significativos da
ditadura, tanto civis como militares, abandonaram o barco
antes que ele afundasse. A costura política da “Aliança
Democrática” passou pela indicação para a vice-presidência
de um político da Arena, depois do PDS: José Sarney, uma
figura que sempre havia sido fiel à ditadura, mas sem ter se
identificado com suas alas mais autoritárias. Além de
Sarney (que se filiou ao PMDB), um grupo numeroso de
parlamentares abandonou o partido da ditadura para fundar
a Frente Liberal, que depois se tornaria um partido, o PFL.
Essa dissidência permitiu uma vitória acachapante de
Tancredo Neves contra Paulo Maluf (480 × 180 votos).28
A manutenção de partidos e casas parlamentares em
funcionamento, assim como a participação de políticos civis
na eleição indireta dos presidentes — medidas que serviam
para legitimar a ditadura e gerar espaço para acomodar
aliados liberais e oposicionistas moderados —, acabou por
abrir caminho à saída pactuada do regime militar. O projeto
de distensão política iniciado em 1974 não previa a entrega
do poder aos civis tão cedo, mas acabou viabilizando a
eleição indireta de Tancredo Neves e seu vice, José Sarney,
em janeiro de 1985. O caráter lento e gradual do processo
contribuiu para que uma transição conciliada fosse sendo
desenhada aos poucos, conforme os militares perdiam
prestígio e capacidade de liderança e a oposição se
fortalecia. Ainda assim, os líderes da ditadura recuaram de
maneira organizada e mantiveram posições de poder, o que
foi suficiente para evitar as eleições diretas.
A oposição derrotou o regime autoritário usando as
instituições que ele havia criado para legitimar-se, em
especial o colégio eleitoral e a eleição indireta. Porém, não
foi uma derrota completa, dadas a manutenção de quadros
da ditadura entre os novos ocupantes do poder e as
garantias de que nenhuma conta seria apresentada aos
militares. Aceitando esse arranjo, o preço pago por esse
setor oposicionista foi evitar uma ruptura com o legado da
ditadura. Se a acomodação já estava acertada com
Tancredo Neves, essa rota política ficou ainda mais
garantida com José Sarney, que acabou assumindo a
presidência depois que Tancredo, adoecido, morreu sem
poder tomar posse.
Foge aos nossos objetivos abordar em detalhe o governo
Sarney. O que interessa aqui é analisar a densidade da
democracia construída no processo de transição.
Primeiramente, não há dúvida de que as franquias
democráticas foram ampliadas durante o primeiro governo
pós-ditadura. Ele enfrentou e resolveu temas que eram
tabus para as forças de direita, como a legalização dos
partidos comunistas, o restabelecimento de relações
diplomáticas com Cuba e a convocação de uma Assembleia
Constituinte, embora tenha optado pelo formato mais
convencional de uma constituinte congressual (ou seja, os
parlamentares eleitos para a legislatura de 1986 fariam a
Carta, junto com suas outras atribuições) no lugar de uma
assembleia exclusiva para fazer a Constituição.29 Daí
resultou a Constituição de 1988, a carta mais avançada que
o Brasil já teve, em termos tanto de direitos políticos como
de direitos sociais.
Porém, ao mesmo tempo, não somente foram evitadas
punições aos líderes que trabalharam a favor da ditadura
como alguns deles tiveram a oportunidade de adaptar-se
aos novos tempos e aderir formalmente aos discursos
democráticos. Quanto às Forças Armadas e às agências
repressivas, mantiveram-se intocadas no governo Sarney,
especialmente o SNI e as agências de informação dos
ministérios militares. Alguns órgãos de informação e de
repressão foram sendo fechados paulatinamente, mas a
cabeça do sistema continuou ativa e operante até o governo
seguinte, de Fernando Collor.
Ao contrário do que aconteceu em outros países que
superaram ditaduras pela mesma época, o poder e a
unidade das Forças Armadas foram preservados na Nova
República brasileira. Os líderes militares foram saindo do
cenário político aos poucos, porém seu prestígio
permaneceu basicamente intacto, e eles continuaram sendo
fonte de pressão poderosa nos bastidores e sentindo
orgulho da ditadura que protagonizaram, ao contrário da
maioria de seus aliados civis, que preferiram se esquecer
dos compromissos passados. Significativamente, as novas
gerações de oficiais continuaram a ser ensinadas que as
Forças Armadas salvaram o Brasil do comunismo e o
transformaram em uma grande potência.
Tal desfecho foi possível porque o arranjo transicional
brasileiro implicou evitar o enfrentamento do legado
autoritário da ditadura, tanto no plano da memória quanto
no aspecto criminal. Nenhum militar envolvido em crimes
contra os direitos humanos foi nem sequer julgado, exceto o
coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, condenado em uma
ação civil declaratória aberta por algumas de suas vítimas,
mas com efeitos apenas simbólicos.30 E, mesmo ele não
tendo sofrido sanções efetivas, os nostálgicos da ditadura
trataram Ustra como vítima de perseguições (revanchismo,
nos seus termos) da esquerda, transformando-o em símbolo
das bandeiras da direita autoritária no quadro recente.
Na verdade, os primeiros governos pós-ditadura tentaram
fingir que ela não existira, empreendendo uma política de
esquecimento no lugar de políticas de memória. Somente
dez anos após o retorno dos civis ao poder tiveram início as
primeiras ações oficiais para esclarecer e reparar os crimes
da ditadura: em 1995 foi criada a Comissão Especial de
Mortos e Desaparecidos,31 que mesmo assim agiu de
maneira discreta. E no final de 2002 foi criada a Comissão
da Anistia, que se ocupou de oferecer compensações
financeiras e simbólicas aos perseguidos políticos do regime
autoritário.32
Foram necessários mais dez anos, ou 27, se contarmos
desde o fim da ditadura, para que o Brasil criasse uma
comissão oficial de maior envergadura para investigar os
crimes contra os direitos humanos cometidos pelo regime
militar, a Comissão Nacional da Verdade, que atuou entre
2012 e 2014.33 A lei de criação da CNV definiu um período
amplo a ser investigado, de 1946 a 1988, ou seja, os anos
entre as duas últimas Constituições democráticas
brasileiras, mas na prática ela se concentrou na ditadura, a
fase mais violenta.
Diferentemente das iniciativas oficiais anteriores, o papel
da CNV não era tratar de reparações às vítimas, mas focar
sobretudo nos crimes cometidos, buscando esclarecer as
práticas violentas (torturas, assassinatos, desaparecimentos
forçados, ocultação de cadáveres), mas também identificar
os locais e as instituições responsáveis. A comissão
produziu um relatório de mais de 3 mil páginas, resultado
de suas próprias investigações e da compilação de
pesquisas anteriores de acadêmicos, jornalistas e ativistas
de direitos humanos. O texto disponibiliza informações
sobre 434 mortos e desaparecidos, mas também dados
sobre outras formas de violência que atingiram milhares de
pessoas, de diferentes grupos sociais, além de identificar
quase quatrocentos responsáveis diretos e indiretos por tais
violações.
Mesmo que a CNV tivesse a atribuição de recomendar
políticas públicas para prevenir a violação de direitos
humanos, e que alguns de seus membros pretendessem ir
mais fundo nas investigações, na expectativa de produzir
indícios para futuro uso judicial, o caráter conciliatório da
transição e a força dos militares nos bastidores continuaram
operando. Significativamente, a lei que instituiu a comissão
determinou que seu trabalho não poderia gerar efeitos
penais e tampouco contrariar a lei de anistia de 1979. Ainda
assim, as atividades da CNV e de comissões de investigação
semelhantes criadas em outras esferas estatais geraram
reação de lideranças militares e de figuras fiéis à memória
da ditadura, o que contribuiu para a guinada à direita vivida
pelo país nos últimos anos.34
A LENTA TRANSIÇÃO QUE LEVOU ao fim da ditadura gerou, portanto,
uma democracia precária, cuja debilidade ficaria clara no
impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, quando uma
parte do sistema político e da população aceitou a remoção
da presidente com base em justificativa frágil (as
“pedaladas” fiscais). Naquele dramático episódio, o respeito
às instituições democráticas pesou menos que a paixão
política e ideológica, além do oportunismo de algumas
lideranças. O escasso apreço à democracia ficou mais
evidente ainda nas eleições de 2018, quando a maioria
elegeu um candidato não apenas identificado com a
ditadura, mas que defendeu publicamente o uso de
métodos autoritários e violentos contra os adversários e
tratou com menosprezo os partidos políticos e o próprio
Congresso.
O fato é que faltou aos líderes da Nova República
enfrentar mais decididamente o legado da ditadura, para
expor os seus crimes e mostrar à população a sua herança
negativa. As elites civis que ocuparam o governo após
1985, junto com os líderes que haviam servido à ditadura,
preferiram esquecer o passado a encará-lo, seja por
conveniência pessoal, já que muitos auxiliaram o regime
autoritário, seja por temor de comprometer a transição
negociada.
Assim, a opção pela política de esquecimento e por não
dar ouvidos às vozes demandando justiça contribuiu para a
precária educação democrática da população. Não se trata
de responsabilizar apenas as lideranças políticas. Nessa
história, as elites judiciárias também têm seu papel, haja
vista a decisão do STF de impedir a revisão dos efeitos da lei
de anistia, mesmo sob pressão de instituições internacionais
para uma mudança de atitude. O mesmo pode ser dito da
imprensa e das lideranças empresariais, que igualmente
apoiaram a política de esquecimento.
Pode-se argumentar que as responsabilidades são
coletivas, pois parte da população parece ter se acomodado
à situação também, já que os rumos teriam sido outros se a
maioria assim o tivesse exigido. Porém a opinião popular
depende muito do posicionamento das lideranças, tanto
mais em um país com fraca tradição de organização política
e de pouco respeito às instituições democráticas. De
maneira que, na lógica da responsabilização, a maior parte
da conta deve ser apresentada às elites políticas e sociais,
que dispõem de mais recursos para influenciar o processo
político.
De qualquer forma, não adianta nos lamentarmos. E
tampouco alimentar complexos de inferioridade nacional. O
melhor é refletir sobre a nossa história recente, considerar
os custos das soluções autoritárias e tentar encontrar saídas
políticas democráticas para o Brasil.
Epílogo
EM MARÇO DE 2021, a memória e o legado da ditadura
marcaram sua presença no cenário público, mais uma vez.
Nesse sentido, vale a pena destacar alguns episódios: o
presidente entrou na justiça para ter o direito de comemorar
a vitória sobre a esquerda em 1964, e o recém-nomeado
ministro da Defesa, general Braga Netto, publicou nota
alusiva ao 31 de março, como se tornou normal no governo
Bolsonaro, usando o tom (auto)elogioso habitual. Segundo o
general, a data deveria ser comemorada pois em 1964 as
Forças Armadas teriam assumido o controle para “pacificar
o país” e com isso garantido “as liberdades democráticas de
que hoje desfrutamos”. Tal maneira de referir-se ao golpe
que instaurou um regime político ditatorial, cujo poder foi
mantido à base de violenta repressão política, é lamentável,
mas, infelizmente, não surpreende. Como se não bastasse,
nesse 31 de março de 2021, quando a pandemia de covid-
19 já havia matado mais de 300 mil brasileiros em um ano,
grupos de militantes em verde e amarelo, saudosos de
1964, saíram às ruas pedindo uma nova intervenção militar.
Embora essas reiteradas demonstrações de afinidade com
a ditadura sejam alarmantes, o momento também é
marcado pelo agravamento da crise na base de apoio do
governo Bolsonaro, sobretudo devido à sua atuação
criminosa frente à crise sanitária. Um dos sinais foi o
aparente estremecimento da aliança entre os militares e o
presidente, às vésperas do 31 de março de 2021, quando
ele demitiu o general Azevedo e Silva do Ministério da
Defesa e empossou Braga Netto, provocando a saída dos
comandantes das três Armas.
As rachaduras no bloco direitista que ganhou o poder em
2018 aparecem também nas críticas de setores
empresariais ao governo, na perda de aliados políticos
importantes no campo da direita e no aumento de seu
índice de impopularidade, trazendo obstáculos ao projeto
autoritário do presidente. Não obstante, Bolsonaro sonha
com um regime político assemelhado ao de 1964, pois,
diante das dificuldades — as reais e as que ele mesmo cria
—, ameaça decretar o estado de sítio, ou alguma outra
fórmula para aumentar o seu poder (como a fracassada
ideia de um “estado de mobilização nacional”) e segue
incentivando seus seguidores radicais para que demandem
coisas semelhantes, de modo a contribuírem para o clima
de tensão política. Além disso, faz acusações graves e
infundadas ao sistema eleitoral, apontando fraude nas urnas
eletrônicas e sugerindo que as eleições de 2022 só
ocorreriam se fosse reintroduzido o sistema de voto
impresso (proposta que no entanto foi derrotada na Câmara
dos Deputados).
Uma ameaça golpista começou a se desenhar, portanto, e
o fator militar passou a ser decisivo novamente, tornando-
se um enigma a ser decifrado por estrategistas e analistas
políticos. A substituição da cúpula militar em março de 2021
gerou impressão de crise entre governo e Forças Armadas e
de refluxo do bolsonarismo nos quartéis. Por outro lado, na
ocasião os principais cargos militares foram entregues a
figuras mais fiéis ao ex-capitão, enquanto o governo e as
empresas públicas permaneceram abarrotados de oficiais,
da reserva e da ativa, implicando grau de militarização do
Estado virtualmente superior ao da ditadura, se
considerarmos o número de cargos ocupados pelo grupo. A
dúvida é se as Forças Armadas apoiariam de maneira coesa
uma aventura golpista de Bolsonaro — por exemplo, uma
intervenção contra as eleições de 2022 —, ou se para um
golpe o presidente teria de contar somente com oficiais de
baixa patente, policiais e as milícias que o apoiam. Opera
também contra a hipótese de golpe a associação entre
Bolsonaro e o “Centrão”, um arranjo cujo objetivo é barrar
eventual processo de impeachment pois esse bloco político
tende a preferir a manutenção do sistema eleitoral, que é
mais favorável a seus negócios. Ademais, a mobilização
bolsonarista de 7 de setembro de 2021 mostrou os limites
de eventual tentativa golpista. Milhares de manifestantes
foram às ruas apoiar as demandas autoritárias do
presidente, mas em número insuficiente para criar ambiente
favorável a uma ruptura institucional, o que o obrigou a
recuar, ao menos momentaneamente.
Mesmo que fosse possível dar um golpe de Estado, a essa
altura não parece que um regime autoritário “clássico”
funcionaria adequadamente. É difícil imaginar que
Bolsonaro conseguiria uma base de poder estável para uma
ditadura sem apoio das elites tradicionais (empresariado,
mídia, Judiciário, elite parlamentar) e das classes médias, ou
da maioria da população. Tampouco o quadro internacional
seria auspicioso, já que ele teria dificuldade para obter
suporte das grandes potências. Além disso, ele se mostrou
um governante totalmente inepto, gerando dúvidas sobre
se conseguiria liderar de maneira eficiente uma ditadura,
caso em que não contaria mais com os outros poderes da
República, os quais, bem ou mal, o ajudaram a sustentar o
governo. De qualquer forma, uma tentativa de golpe é um
cenário nefasto a ser evitado, pois certamente provocaria
violência e desorganizaria ainda mais a situação sanitária e
econômica.
Independentemente do rumo que o país seguirá, e oxalá
não tenhamos que enfrentar outro regime autoritário, seja
lá de que tipo for, a história da ditadura militar continuará
sendo tema central no debate público. Ela não originou
todos os males, pois alguns deles já existiam, mas sem
dúvida piorou certos problemas, como a desigualdade social
e o autoritarismo estatal. Estudar, compreender e divulgar a
história da ditadura é fundamental — mas com vistas à
negação e à superação da sua herança, e não para
comemorá-la em chave positiva.
Afinal, se as principais lideranças militares de fato não se
mobilizarem para sustentar uma nova ditadura, não será
tanto por amor à democracia, mas por temor frente aos
riscos que uma aventura autoritária fracassada traria para
sua corporação, e também pelo medo de atar seu destino a
um governo cada vez mais impopular internamente e
considerado um pária no plano internacional.
Independentemente do destino do governo Bolsonaro, é
provável que a maior parte dos fardados seguirá com visões
parecidas às dele a respeito da ditadura.
Tal fidelidade ao legado do regime autoritário é
problemática não apenas por bloquear o reconhecimento
dos erros (e crimes) cometidos — gesto fundamental no
sentido da integração plena da corporação militar à
institucionalidade democrática —, mas também porque ela
alimenta entre as Forças Armadas e as corporações policiais
um antiesquerdismo visceral, que é primo-irmão do
autoritarismo, pois tal sentimento (ou obsessão)
fundamentou não apenas a ditadura de 1964 como o Estado
Novo de Getúlio Vargas, além de ter servido, ao longo de
décadas, de justificativa para a repressão aos movimentos
sociais. Uma revisão na memória (e na atitude) dos militares
em relação à ditadura poderia contribuir, também, para
uma mudança de perspectiva ainda mais necessária e
urgente em vista dos descaminhos do governo Bolsonaro:
as Forças Armadas precisam aceitar que não é seu papel
dirigir os destinos políticos do país, mas apenas cuidar da
sua defesa contra eventuais inimigos externos.
Assim, um olhar mais atento — e crítico — sobre a história
da ditadura pode ajudar a exorcizar certos fantasmas. E
também a ensinar o valor positivo das instituições e da
convivência democráticas, o que implica, necessariamente,
o respeito ao pluralismo político e à diversidade de ideias.
Ditadura não. Nunca mais.
Belo Horizonte, setembro de 2021
Notas
Introdução
1. Editorial de O Globo, 7 out. 1984, p. 1.
2. É o que se depreende do depoimento do general Villas Bôas, comandante do
Exército nos governos Dilma e Temer. O general foi autor de um célebre tuíte
às vésperas da votação pelo STF de um pedido de habeas corpus em favor de
Lula (abril de 2018), que exerceu grande pressão sobre os juízes do Supremo,
embora ele negue ter tido tal intenção. Celso Castro (Org.), General Villas
Bôas, pp. 154-9, 185-91.
3. Ver <[Link]
revolucao-mas-sim-movimento-de-64-23116536>. Acesso em: 24 maio 2021.
4. Ver <[Link]/politica/eleicoes/2018/noticias/2018/09/28/general-
[Link]?
cmpid=copiaecola>. Acesso em: 24 maio 2021.
5. Ver <[Link]/educacao/2019/04/livros-didaticos-vao-negar-
[Link]>. Acesso em: 24 maio
2021.
6. Ver <[Link]/poder/2019/03/planalto-e-eduardo-bolsonaro-
[Link]>. Acesso em: 11 maio 2021.
7. Ver
<[Link]/app/noticia/politica/2020/03/31/interna_politic
a,841564/[Link]>. Acesso
em: 25 maio 2021.
1. O golpe de 1964 e o “perigo vermelho”
1. Trechos da fala de um vídeo divulgado pela presidência da República em 31
de março de 2019. Disponível em:
<[Link]/poder/2019/03/planalto-e-eduardo-bolsonaro-
[Link]>. Acesso em: 11 maio 2021.
2. Ver
<[Link]/app/noticia/politica/2021/04/11/interna_politica,1255858/bh-
carreata-pro-bolsonaro-pede-constituicao-que-criminalize-o-
[Link]>. Acesso em: 7 maio 2021; <[Link]/redes-
sociais/foto-onde-manifestante-compara-covidismo-com-comunismo-bomba-
nas-redes>. Acesso em: 7 jun. 2021;
<[Link]/essencial/nao-e-pandemia-e-
comunismo-dizem-manifestantes-pro-bolsonaro-no-rio>. Acesso em: 7 maio
2021.
3. Editorial de O Globo, 2 abr. 1964, p. 3.
4. Editorial do Jornal do Brasil, 3 abr. 1964, p. 6.
5. Proclamação do general Amauri Kruel, comandante do II Exército. Citado em
Hélio Silva, 1964, p. 387.
6. Manifesto da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, 3 jun. 1964.
7. Bilac Pinto, Guerra revolucionária, p. 166.
8. Rodrigo Patto Sá Motta, Em guarda contra o perigo vermelho.
9. Angela Gomes e Jorge Ferreira, Jango, pp. 50-1.
10. Citado em Bilac Pinto, Guerra revolucionária, p. 221.
11. Ruth Leacock, Requiem for Revolution, p. 199.
12. Ver editoriais de O Estado de S. Paulo, 26 out. 1962, p. 3, e do Correio da
Manhã, 22 fev. 1963, p. 6.
13. Argelina Cheibub Figueiredo, Democracia ou reformas?, pp. 113-28.
14. Marcos Napolitano, “O golpe de 1964 e o regime militar brasileiro”, p. 42.
15. René Armand Dreifuss, 1964, p. 268; e Estado de Minas, 25 out. 1963, p. 1.
16. O Globo, 14 jan. 1964, p. 3.
17. Daniel Aarão Reis Filho, Ditadura e democracia no Brasil, p. 40.
18. João Goulart, Mensagem ao Congresso Nacional Remetida pelo Presidente
da República na Abertura da Sessão Legislativa de 1964. Brasília: Biblioteca
da Presidência da República, 1964.
19. O Estado de S. Paulo, 20 mar. 1964.
20. Correio da Manhã, 29 mar. 1964, pp. 1-2.
21. Anderson da Silva Almeida, Todo leme a bombordo, p. 77.
22. Jornal do Brasil, 29 mar. 1964, p. 1.
23. Jorge Ferreira, João Goulart, p. 540.
24. Os documentos encontram-se nos National Archives and Records
Administration, na unidade situada em College Park, Maryland (Nara II), RG 59,
caixa 3836, pasta 3; e RG 59, caixa 1909, pasta 4. Os documentos do governo
dos Estados Unidos citados no livro podem ser encontrados no site do
Laboratório de História do Tempo Presente da UFMG, disponível em:
<[Link]fi[Link]/lhtp/nara>.
25. Denise Rollemberg, O apoio de Cuba à luta armada no Brasil, p. 23.
26. José Antonio Segatto, Reforma e revolução, pp. 121-48.
27. Elio Gaspari, A ditadura envergonhada, p. 53.
28. RG 59, caixa 1944, pasta 4, Nara II.
29. A Guanabara foi um estado criado na área do antigo Distrito Federal
(correspondente à cidade do Rio de Janeiro) em 1960, quando da inauguração
de Brasília. Em 1975 ela deixou de existir ao ser reunida ao estado do Rio de
Janeiro.
30. RG 59, caixa 1944, pasta 4, Nara II.
31. Jean Rodrigues Sales, A luta armada contra a ditadura militar, p. 48.
32. Flávio Gordon, A corrupção da inteligência, pp. 203-6.
33. O principal divulgador foi o deputado Bilac Pinto. Bilac Pinto, Guerra
revolucionária.
34. João Calmon, Duas invasões, p. 260.
35. Em pesquisa realizada em 1955, nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo,
sob responsabilidade da United States Information Agency, os entrevistados
foram questionados se o comunismo era bom ou ruim para o povo. Apenas 2%
responderam que era bom. RG 306 — 250 — 67/8/4, caixa 2, pasta 1.
2. Sobre as razões e motivações dos golpistas
1. Sylvio Frota, Ideais traídos, p. 631.
2. Carlos Barbé, em Norberto Bobbio et al., Dicionário de política, pp. 545-7.
3. Trecho do preâmbulo do Ato Institucional de 9 de abril de 1964 em que o
“Comando Supremo da Revolução” se dirige à nação para explicar seus
objetivos e motivações. Disponível em:
<[Link] Acesso em: 24 maio
2021.
4. Para um balanço das análises acadêmicas sobre as origens do golpe, ver
Lucília de Almeida Neves Delgado, “O governo João Goulart e o golpe de
1964”; Marcelo Badaró Mattos, “O governo João Goulart”; e Marcos Napolitano,
“O golpe de 1964 e o regime militar brasileiro”.
5. Maria Celina d’Araújo, Gláucio Ary Dillon Soares e Celso Castro (Orgs.), Visões
do golpe, p. 18.
6. Marcos Sá Corrêa, 1964 visto e comentado pela Casa Branca.
7. Mário M. C. Mesquita, “Inflação, estagnação e ruptura, 1961-1964”. In:
Marcelo de Paiva Abreu (Org.), A ordem do progresso, p. 191.
8. Ibid., p. 180.
9. O Estado de S. Paulo, 12 nov. 1963, p. 3, e O Globo, 28 jan. 1964, p. 1.
10. O tema foi particularmente explorado nas caricaturas da grande imprensa.
Rodrigo Patto Sá Motta, Jango e o golpe de 1964 na caricatura, pp. 142-56.
11. Editorial do Jornal do Brasil, 31 mar. 1964, p. 6.
12. Editorial de O Estado de S. Paulo, 21 nov. 1963, p. 3.
13. Edi de Freitas Cardoso Jr., “O Brasil que há de ser!”, p. 254.
14. Ibid., p. 278.
15. Citado em Jorge Ferreira, João Goulart, p. 436.
16. Octavio Ianni, O colapso do populismo, pp. 126, 145, 154.
17. RG 59, caixa 1929, pasta 6, Nara II.
18. Notadamente empresas da área de engenharia. Pedro Henrique Pedreira
Campos, Estranhas catedrais, p. 411.
19. René Armand Dreifuss, 1964.
20. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Ipea, 46 anos, pp. 11-2.
21. Luiz Aranha Correa do Lago, “A retomada do crescimento e as distorções do
‘milagre’, 1967-1974”. In: Marcelo de Paiva Abreu (Org.), A ordem do
progresso, pp. 217-8, 233.
22. Octavio Ianni, O colapso do populismo; Francisco Weffort, O populismo na
política brasileira.
23. Francisco Weffort, O populismo na política brasileira, p. 78.
24. Ângela de Castro Gomes, “O populismo e as ciências sociais no Brasil”. In:
Jorge Ferreira (Org.), O populismo e sua história, pp. 17-57.
25. Ver editorial de O Globo, 21 out. 1963, p. 1.
26. Maria Celina d’Araújo, Gláucio Ary Dillon Soares e Celso Castro (Orgs.),
Visões do golpe, p. 9.
27. Manchete, 13 jan. 1962, pp. 32-3.
28. Antônio Lavareda, A democracia nas urnas, p. 177.
29. Regina Bruno, “O Estatuto da Terra”.
30. Rodrigo Patto Sá Motta, Em guarda contra o perigo vermelho, p. 302.
31. Uma perspectiva próxima à de Jacob Gorender (Combate nas trevas, p. 67),
embora em nossa visão ele tenha superestimado a força dos movimentos
sociais e das esquerdas no contexto de 1961-4, o que o levou a imaginar um
quadro pré-revolucionário.
3. O papel dos Estados Unidos e de outras forças
estrangeiras no golpe e na ditadura
1. Olavo de Carvalho no prefácio ao livro de Mauro Kraenski e Vladimír Petrilák,
1964.
2. Gerson Moura, Relações exteriores do Brasil, 1939-1950.
3. RG 59, caixa 6, pasta 10, Nara II.
4. Gerson Moura, Relações exteriores do Brasil, 1939-1950, p. 221.
5. Martha K. Huggins, Polícia e política, pp. 126-35.
6. Philip Agee, Dentro da “companhia”.
7. RG 59, caixa 1901, pasta 5, Nara II.
8. Stanley Hilton, Brazil and the Soviet Challenge, 1917-1947, pp. 203-19.
9. Jornal do Brasil, 29 maio 1962, p. 5.
10. Mauro Kraenski e Vladimír Petrilák, 1964.
11. Luiz Alberto Moniz Bandeira, Presença dos Estados Unidos no Brasil, p. 404.
12. Larissa Correa, Disseram que voltei americanizado.
13. A maioria desses registros encontra-se na seção RG 59 dos arquivos norte-
americanos situados em College Park, Maryland (NARA II).
14. RG 286 — 150 — 41 — 23 — 7/4, caixa 1, Nara II.
15. RG 59, caixa 3833, pasta 4, Nara II.
16. Herbert Klein e Francisco Vidal Luna, Brazil, 1964-1985, p. 4.
17. RG 59, caixa 3839, pasta 3, Nara II.
18. RG 59, caixa 1943, pasta 1, Nara II.
19. RG 59, caixa 1943, pasta 1, Nara II.
20. Caio Navarro de Toledo, O governo Goulart e o golpe de 1964, p. 106.
21. James Green, Apesar de vocês.
22. Stephen G. Rabe, The Most Dangerous Area in the World, pp. 148-72.
23. A. J. Langguth, A face oculta do terror, pp. 108-9.
24. RG 59, caixa 1944, pasta 4, Nara II.
25. RG 59, caixa 1944, pasta 4, Nara II.
26. RG 59, caixa 1944, pasta 4, Nara II.
27. Exposição de motivos n. 88, 29 nov. 1975 (caixa 74/B, Fundo do Conselho de
Segurança Nacional, Arquivo Nacional).
28. RG 59, caixa 1931, pasta 1, Nara II.
29. João Roberto Martins Filho, Movimento estudantil e ditadura militar, 1964-
1968, pp. 151-3.
30. Rodrigo Patto Sá Motta, As universidades e o regime militar, p. 132.
31. Ruth Leacock, Requiem for Revolution, p. 241.
32. Tanya Harmer, Allende’s Chile and the Inter-American Cold War, pp. 98, 126,
264.
33. Paulo F. Vizentini, A política externa do regime militar brasileiro, pp. 238-58.
34. Decreto n. 79 376, 11 mar. 1977.
4. A máquina política da ditadura
1. Trechos de entrevista do então ministro da Educação, Ricardo Vélez
Rodríguez, em abril de 2019. Disponível em:
<[Link]/politica/noticia/2019/04/03/velez-quer-alterar-livros-
[Link]>. Acesso em: 29 jun. 2021.
2. Mário Stoppino, em Norberto Bobbio et al., Dicionário de política, pp. 368-79.
3. Maria José de Rezende, A ditadura militar no Brasil.
4. Ver, por exemplo, a charge de Biganti em O Estado de S. Paulo, 13 jun. 1968,
p. 4.
5. Thomas Skidmore, Brasil, p. 49.
6. Artigo 139 da Constituição de 1946.
7. Ver <[Link]/noticias/430605-camara-homenageia-deputados-
cassados-em-1964>. Acesso em: 28 maio 2021.
8. Segundo dados da CNV, apenas em abril de 1964 foram nomeados 235
interventores. Comissão Nacional da Verdade, Relatório, v. II, texto 2, 2014.
9. Maria Helena Moreira Alves, Estado e oposição no Brasil (1964-1984), pp. 63-
5.
10. A lei n. 1802, de 5 de janeiro de 1953, define os crimes contra o Estado e a
ordem política e social; a lei n. 38, de 4 de abril de 1935, define crimes contra
a ordem política e social.
11. Mariana Joffily, No centro da engrenagem.
12. Artigo 4 do Ato Institucional de 9 de abril de 1964.
13. Jornal do Brasil, 17 jul. 1964, p. 1.
14. João Roberto Martins Filho, O palácio e a caserna; Maud Chirio, A política nos
quartéis.
15. Thomas Skidmore, Brasil, p. 99.
16. João Roberto Martins Filho, O palácio e a caserna, pp. 104-5.
17. Respectivamente Partido Social Democrático, União Democrática Nacional,
Partido Trabalhista Brasileiro, Partido Republicano, Partido Socialista Brasileiro,
Partido Social Progressista, Partido Democrata Cristão e Partido de
Representação Popular.
18. Maria D’Alva Gil Kinzo, Oposição e autoritarismo, pp. 27-36.
19. João Roberto Martins Filho, O palácio e a caserna, pp. 118-9.
20. Daniel Aarão Reis Filho, Ditadura e democracia no Brasil, pp. 63-4.
21. João Roberto Martins Filho, O palácio e a caserna, p. 119.
22. Sebastião C. Velasco E. Cruz e Carlos Estevam Martins, “De Castello a
Figueiredo”. In: Bernardo Sorj e Maria Hermínia Tavares de Almeida (Orgs.),
Sociedade e política no Brasil pós-64; João Roberto Martins Filho, O palácio e a
caserna, pp. 140-2.
23. Elio Gaspari, A ditadura envergonhada, pp. 277-98.
24. Daniel Aarão Reis Filho, Ditadura e democracia no Brasil, p. 67.
25. Maria Ribeiro do Valle, 1968, pp. 165-201.
26. A CNV reconheceu o assassinato de catorze pessoas por agentes estatais em
1968. Comissão Nacional da Verdade, Relatório, v. III, 2014.
27. Marcos Napolitano, “O golpe de 1964 e o regime militar brasileiro”, p. 93.
28. Jayme Portella de Mello, A revolução e o governo Costa e Silva, pp. 640-50.
29. RG 59, caixa 1900, pasta 1, Nara II.
30. Rodrigo Patto Sá Motta, “Sobre as origens e motivações do Ato Institucional
5”.
31. Ato Institucional n. 5, 13 dez. 1968.
32. As três primeiras medidas entraram em vigor em 1969. A censura foi
incrementada com a edição do decreto n. 1077, de 1970, que criou a censura
prévia para livros e periódicos.
33. Dados coligidos a partir do relatório da CNV. Comissão Nacional da Verdade,
Relatório, v. III, 2014.
34. As pressões (discretas) pela reabertura do Congresso transparecem em
textos e charges da grande imprensa, por exemplo em O Estado de S. Paulo,
18 maio 1969, p. 3, e na Folha de [Link], 06 abr. 1969, p.4.
5. Uma análise do apoio social à ditadura
1. Daniel Aarão Reis Filho, Ditadura e democracia no Brasil, pp. 7-8.
2. Denise Rollemberg, “Memória, opinião e cultura política”. In: Daniel Aarão
Reis Filho e Denis Roland (Orgs.), Modernidades alternativas.
3. Giacomo Sani, em Norberto Bobbio et al., Dicionário de política, p. 240.
4. Patrizia Dogliani, “Consenso e organização do consenso na Itália fascista”. In:
Denise Rollemberg e Samantha Quadrat (Orgs.), A construção social dos
regimes autoritários, p. 187.
5. Carlos Fico, Reinventando o otimismo, pp. 92-5; Nina Schneider, Brazilian
Propaganda, p. 24.
6. Alzira Alves de Abreu, “1964”. In: Marieta Ferreira (Org.), João Goulart.
7. Rodrigo Patto Sá Motta, “A ditadura nas representações verbais e visuais da
grande imprensa (1964-1969)”.
8. Beatriz Kushnir, Cães de guarda, pp. 192-203.
9. Dados coligidos a partir de registros da Justiça Eleitoral.
10. Os dados das pesquisas citadas a seguir foram retirados do acervo
documental do Ibope depositado no Arquivo Edgard Leuenroth da Unicamp. A
única exceção, que foi localizada em um texto jornalístico, será devidamente
assinalada em nota.
11. Jornal do Brasil, 20 maio 1966, p. 15.
12. Lúcia Grinberg, Partido político ou bode expiatório.
13. Janaína Cordeiro, A ditadura em tempos de milagre, pp. 163-4.
14. Daniel Aarão Reis Filho, Ditadura e democracia no Brasil, p. 112.
15. RG 59, caixa 1928, pasta 4, Nara II.
16. RG 59, caixa 1943, pasta 4, Nara II.
17. RG 59, caixa 1931, pasta 1, Nara II.
18. RG 59, caixa 1927, pasta 2, Nara II.
19. Ana Carolina Zimmermann, O golpe vira uma festa, p. 74.
20. Adjovanes Thadeu Silva de Almeida, O regime militar em festa.
21. Janaína Cordeiro, A ditadura em tempos de milagre.
22. Carlos Eduardo Novaes, O quiabo comunista.
6. Aderir, resistir ou acomodar-se?
1. Por exemplo: Robert Paxton, La France de Vichy, 1940-1944; Philippe Burrin,
La France à l’heure allemande, 1940-1944; Pierre Laborie, L’Opinion française
sous Vichy; Daniel Lvovich, “Los que apoyaron reflexiones y nuevas evidencias
sobre el apoyo difuso a la dictadura militar en su primera etapa (1976-1978)”;
Gabriela Águila, Dictadura, represión y sociedad en Rosario, 1976/1983.
2. Respectivamente Pierre Laborie, L’Opinion française sous Vichy, e Philippe
Burrin, La France à l’heure allemande, 1940-1944.
3. Por exemplo, O Estado de S. Paulo, 1o jan. 1971, p.4 (artigo de Flávio Galvão).
4. RG 59, caixa 1910, pastas 1 e 2, Nara II; René Armand Dreifuss, 1964.
5. René Armand Dreifuss, 1964, p. 444. Em represália, guerrilheiros
assassinaram um desses empresários (H. Boilesen) em abril de 1971.
6. O caso mais notório, mas não único, foi o da Volkswagen. Comissão Nacional
da Verdade, Relatório, v. II, texto 2, 2014.
7. Manifesto da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, 3 jun. 1964.
8. Tatyana de Amaral Maia, Os cardeais da cultura nacional, 2012.
9. Decreto-lei n. 477, 26 fev. 1969.
10. Danielle Lima, O Comando de Caça aos Comunistas (CCC).
11. Veja, n. 601, 12 mar. 1980, p. 24.
12. Jacques Semelin, Sans armes face à Hitler, pp. 18-9.
13. Maria D’Alva Gil Kinzo, Oposição e autoritarismo, p. 162.
14. Jacob Gorender, Combate nas trevas.
15. Marcelo Ridenti, “Resistência e mistificação da resistência armada contra a
ditadura”. In: Daniel Aarão Reis Filho, Marcelo Ridenti e Rodrigo Patto Sá Motta
(Orgs.), O golpe e a ditadura militar, 40 anos depois (1964-2004), pp. 54-8.
16. Carolina Dellamore Scarpelli, Forjando lideranças; Marta Rovai, Osasco,
1968.
17. Ricardo Antunes, A rebeldia do trabalho, pp. 14-5.
18. Para o caso dos indígenas, Rubens Valente, Os fuzis e as flechas; para o dos
camponeses, Leonilde Servolo de Medeiros, “Trabalhadores do campo, luta
pela terra e o regime civil-militar”. In: Milton Pinheiro (Org.), Ditadura.
19. Eder Sader, Quando novos personagens entraram em cena.
20. Angélica Müller, O movimento estudantil na resistência à ditadura militar
(1969-1979), pp. 129-40.
21. UNE, 1987.
22. Rodrigo Patto Sá Motta, As universidades e o regime militar.
23. Marcelo Ridenti, Brasilidade revolucionária, pp. 103-6.
24. Ibid., p. 158.
25. Leonardo Seabra Puglia, “Gramsci e os intelectuais de direita no Brasil
contemporâneo”, p. 43.
26. Rodrigo Patto Sá, As universidades e o regime militar e “Cultura política e
ditadura”.
7. Sobre a violência repressiva estatal: uma resposta
proporcional à violência da esquerda?
1. “Através do voto você não vai mudar nada nesse país, você só vai mudar
infelizmente se um dia nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro e
fazendo um trabalho que a ditadura militar não fez, matando uns 30 mil”,
disse Jair Bolsonaro em um programa televisivo quando ainda era deputado.
Disponível em <[Link] Acesso em: 7 jul.
2021.
2. Comissão Nacional da Verdade, Relatório, v. III, 2014.
3. RG 59, caixa 1944, pasta 1, Nara II. Alves sugeriu um número mais elevado de
presos nos dias do golpe, cerca de 50 mil. Maria Helena Moreira Alves, Estado
e oposição no Brasil (1964-1984), p. 59.
4. RG 59, caixa 1944, pasta 1, Nara II.
5. Artigos 2o, 3o e 11o da lei n. 1802, 5 jan. 1953 (define os crimes contra o
Estado e a ordem política e social).
6. Elio Gaspari, A ditadura envergonhada, p. 132.
7. Dados coligidos a partir do relatório da CNV. Comissão Nacional da Verdade,
Relatório, v. III, 2014.
8. Maria Helena Moreira Alves, Estado e oposição no Brasil (1964-1984), p. 72.
9. Carlos Fico, Como eles agiam, pp. 83-94.
10. Mariana Joffily, No centro da engrenagem, pp. 40-59.
11. Comissão Nacional da Verdade, Relatório, v. I, cap. 4, 2014.
12. Jacob Gorender, Combate nas trevas, pp. 229-30.
13. Ato Institucional n. 13, 5 set. 1969.
14. Dados coligidos a partir do relatório da CNV. Comissão Nacional da Verdade,
Relatório, v. III, 2014.
15. Ato Institucional n. 5, 13 dez. 1968.
16. Dados coligidos a partir do relatório da CNV. Comissão Nacional da Verdade,
Relatório, v. III, 2014.
17. Arquidiocese de São Paulo, 1985, pp. 241-6.
18. Marcelo Godoy, A Casa da Vovó, p. 77.
19. Ibid., pp. 297-317.
20. Comissão Nacional da Verdade, Relatório, v. I, cap. 9, 2014.
21. Arquidiocese de São Paulo, 1985, pp. 34-42.
22. Mariana Joffily, No centro da engrenagem, p. 252.
23. A. J. Langguth, A face oculta do terror, pp. 124-5.
24. Comissão Nacional da Verdade, Relatório, v. I, cap. 10, 2014.
25. Elio Gaspari, A ditadura envergonhada, pp. 194-5.
26. Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 112.
27. RG 59, caixa 1909, pasta 5, Nara II.
28. Leonencio Nossa, Mata!, pp. 411-9.
29. Marcelo Ridenti, O fantasma da revolução brasileira, pp. 25-60.
30. Carlos Alberto Brilhante Ustra, A verdade sufocada, p. 511.
31. Jacob Gorender, Combate nas trevas, pp. 243-7.
32. Maria Celina d’Araújo, Gláucio Ary Dillon Soares e Celso Castro (Orgs.), Os
anos de chumbo, p. 75.
33. Comissão Nacional da Verdade, Relatório, v. III, 2014.
34. Eduardo Reina, Cativeiro sem fim.
35. Gilney Viana, Camponeses mortos e desaparecidos.
36. Comissão Nacional da Verdade, Relatório, v. I, cap. 10, e v. II, texto 7, 2014.
37. Percival de Souza, Autópsia do medo.
38. Cláudio Guerra, Memórias de uma guerra suja, pp. 142-3.
8. A “luta” contra a corrupção: muitos discursos, poucas
realizações
1. Geraldo de Proença Sigaud, Catecismo anticomunista, p. 13; Michel
Schooyans, O comunismo e o futuro da Igreja no Brasil, p. 61.
2. Diário Carioca, 23 nov. 1945, p. 1.
3. Ver <[Link]/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/mar-de-lama>.
Acesso em: 28 maio 2021.
4. Ver <[Link]/noticias/especiais/brasilia50anos/[Link]>.
Acesso em: 28 maio 2021.
5. Ver charge de Hilde em Tribuna da Imprensa, 9 set. 1961, p. 4.
6. Correio da Manhã, 25 jan. 1964, p. 6.
7. Editoriais de O Globo, 18 abr. 1964, p. 1, e O Estado de S. Paulo, 21 abr. 1964,
p. 3.
8. Ato Institucional n. 1, 9 abr. 1964.
9. RG 59, caixa 1942, pasta 6, Nara II.
10. RG 59, caixa 1931, pasta 6, Nara II.
11. Ver charge de Biganti em O Estado de S. Paulo, 17 abr. 1964, p. 4.
12. RG 59, caixa 1907, pasta 2, Nara II.
13. Ver caricatura de Biganti em O Estado de S. Paulo, 20 ago. 1964, p. 4.
14. RG 59, caixa 1941, pasta 1, Nara II.
15. RG 59, caixa 1929, pasta 6, Nara II.
16. Comissão Nacional da Verdade, Relatório, v. II, texto 8, 2014.
17. Decreto-lei n. 359, 17 dez. 1968.
18. Ato Complementar n. 42, 27 jan. 1969.
19. Diego Knack, Um tribunal de exceção na ditadura, pp. 85-6.
20. Ibid., pp. 265-6.
21. RG 59, caixa 1900, pasta 1, Nara II.
22. Pedro Henrique Pedreira Campos, Estranhas catedrais, pp. 400-10.
23. RG 59, caixa 1908, pasta 1, Nara II.
24. RG 59, caixa 1908, pasta 1, Nara II.
25. O Estado de S. Paulo, 9 ago. 1978, 10 ago. 1978 e 15 dez. 1978.
26. Disponível em: <[Link]/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-
biografico/mario-davi-andreazza>. Acesso em: 28 maio 2021.
27. Ver editorial de O Globo, 29 nov. 1978.
28. ACE 5958/81. Fundo documental do SNI. Arquivo Nacional.
29. Veja, n. 752, 2 fev. 1983.
30. RG 59, caixa 1908, pasta 1, Nara II.
31. O Globo, 5 out. 1978, e O Estado de S. Paulo, 3 out. 1978.
32. O Estado de S. Paulo, 13 out. 1978.
9. O “milagre” econômico e a sua problemática herança
1. Luiz Aranha Correa do Lago, “A retomada do crescimento e as distorções do
‘milagre’, 1967-1974”. In: Marcelo de Paiva Abreu (Org.), A ordem do
progresso, p. 216.
2. Maria Victoria de Mesquita Benevides, O governo Kubitschek, pp. 210-24.
3. René Armand Dreifuss, 1964, pp. 437-68.
4. Luiz Alberto Moniz Bandeira, O governo João Goulart, p. 117.
5. André Lara Resende, “Estabilização e reforma, 1964-1967”. In: Marcelo de
Paiva Abreu (Org.), A ordem do progresso, p. 200.
6. Ruth Leacock, Requiem for Revolution, p. 232.
7. A. J. Langguth, A face oculta do terror, p. 140.
8. Luiz Carlos Delorme Prado e Fábio Sá Earp, “O milagre brasileiro”. In: Jorge
Ferreira e Lucília de Almeida Neves Delgado (Orgs.), O tempo da ditadura, p.
214.
9. Ibid., p. 215.
10. Herbert Klein e Francisco Vidal Luna, Brazil, 1964-1985, p. 126.
11. Thomas Skidmore, Brasil, pp. 143-6.
12. Luiz Aranha Correa do Lago, “A retomada do crescimento e as distorções do
‘milagre’, 1967-1974”. In: Marcelo de Paiva Abreu (Org.), A ordem do
progresso, pp. 213-6.
13. Dados do IBGE.
14. Rodrigo Patto Sá Motta, As universidades e o regime militar.
15. Pedro Henrique Pedreira Campos, Estranhas catedrais, p. 342.
16. Herbert Klein e Francisco Vidal Luna, Brazil, 1964-1985, p. 85.
17. Eric Hobsbawm, Era dos extremos, pp. 393-400.
18. Thomas Skidmore, Brasil, pp. 352-3.
19. Dionísio Dias Carneiro Netto, “Crise e esperança, 1974-1980”. In: Marcelo de
Paiva Abreu (Org.), A ordem do progresso, pp. 249-53.
20. Ibid., p. 256.
21. Os números do PIB são do IBGE e os de inflação da FGV.
22. O Estado de S. Paulo, 6 fev. 1977.
23. Maria José de Rezende, A ditadura militar no Brasil, pp. 230-1.
24. Dados de inflação de acordo com a FGV.
25. Herbert Klein e Francisco Vidal Luna, Brazil, 1964-1985, p. 95.
26. Ibid., p. 97.
27. Eduardo Marco Modiano, “A ópera dos três cruzados, 1985-1990”. In:
Marcelo de Paiva Abreu (Org.), A ordem do progresso, p. 270.
28. Ibid., p. 275.
29. Os números do PIB são do IBGE e os de inflação da FGV.
30. Luiz Carlos Delorme Prado e Fábio Sá Earp, “O milagre brasileiro”. In: Jorge
Ferreira e Lucília de Almeida Neves Delgado (Orgs.), O tempo da ditadura, p.
231.
31. Ver <[Link]
emilio-garrastazzu>. Acesso em: 22 jul. 2021.
32. Brasil. III Plano Nacional de Desenvolvimento, 1980-5.
33. Luiz Aranha Correa do Lago, “A retomada do crescimento e as distorções do
‘milagre’, 1967-1974”. In: Marcelo de Paiva Abreu (Org.), A ordem do
progresso, pp. 224-5.
10. A distensão política e o projeto de estabilização da
ditadura
1. Carlos Chagas, “A vez e a hora da democratização”. O Estado de S. Paulo, 12
maio 1972, p. 5; Lúcia Klein e Marcus Figueiredo, Legitimidade e coação no
Brasil pós-64, pp. 63-4.
2. Sebastião C. Velasco E. Cruz e Carlos Estevam Martins, “De Castello a
Figueiredo”. In: Bernardo Sorj e Maria Hermínia Tavares de Almeida (Orgs.),
Sociedade e política no Brasil pós-64., p. 44.
3. O Estado de S. Paulo, 13 jul. 1972, p. 3, e 18 jul. 1972, p. 5; O Globo, 15 mar.
1974, p. 2 (coluna de Eugênio Gudin).
4. Rodrigo Patto Sá Motta, “Entre a liberdade e a ordem”.
5. Ibid.
6. Marcos Napolitano, “O golpe de 1964 e o regime militar brasileiro”, pp. 237-8.
7. Adriano Nervo Codato, “Uma história política da transição brasileira”, p. 84.
8. Ver <[Link]/historicaldocuments/frus1969-76ve11p2/d99?
platform=hootsuite>. Acesso em: 28 maio 2021.
9. Marcos Napolitano, “O golpe de 1964 e o regime militar brasileiro”, p. 234.
10. O Estado de S. Paulo, 16 fev. 1974, p. 3.
11. O Estado de S. Paulo, 30 ago. 1974, p. 3.
12. Sebastião C. Velasco E. Cruz e Carlos Estevam Martins, “De Castello a
Figueiredo”. In: Bernardo Sorj e Maria Hermínia Tavares de Almeida (Orgs.),
Sociedade e política no Brasil pós-64.
13. O Globo, 19 abr. 1975, p. 2, e 24 abr. 1975, p. 1.
14. Daniel Aarão Reis Filho, Ditadura e democracia no Brasil, p. 108; Marcos
Napolitano, “O golpe de 1964 e o regime militar brasileiro”, pp. 250-1.
15. Lei n. 6339, de 1 jul. 1976.
16. Editorial de O Globo, 24 set. 1976.
17. O Estado de S. Paulo, 2 fev. 1977, p. 3, e 13 mar. 1977, p. 3.
18. Sebastião C. Velasco E. Cruz e Carlos Estevam Martins, “De Castello a
Figueiredo”. In: Bernardo Sorj e Maria Hermínia Tavares de Almeida (Orgs.),
Sociedade e política no Brasil pós-64.
19. Jornal do Brasil, 27 maio 1977.
20. Editorial de O Globo, 9 fev. 1977; Jornal do Brasil, 8 fev. 1977 (Coluna do
Castello).
21. Editorial do Jornal do Brasil, 9 ago. 1977.
22. O Estado de S. Paulo, 13 maio 1977, p. 3; editorial do Jornal do Brasil, 17
ago. 1977.
23. Sylvio Frota, Ideais traídos, pp. 133-4.
24. Editorial do Jornal do Brasil, 13 out. 1977.
25. Editorial de O Globo, 2 dez. 1977.
26. Editorial do Jornal do Brasil, 31 jan. 1978.
27. Editorial do Jornal do Brasil, 15 set. 1977; editorial de O Globo, 20 set. 1977.
28. O Estado de S. Paulo, 16 set. 1979, p. 3.
29. Editorial de O Estado de S. Paulo, 28 maio 1978.
30. O Estado de S. Paulo, 27 maio 1978, p. 3, e editorial do Jornal do Brasil, 11
jul. 1978.
31. Maria D’Alva Gil Kinzo, Oposição e autoritarismo, pp. 74-7.
11. A abertura, o “fim” da ditadura e a precária
democratização
1. Editorial do Jornal do Brasil, 16 mar. 1979.
2. O Estado de S. Paulo, 13 abr. 1978, p. 3.
3. Em compensação, quem recebia mais de dez salários mínimos tinha reajustes
abaixo da inflação. Ricardo Antunes, A rebeldia do trabalho, p. 64.
4. Editoriais de O Estado de S. Paulo, 30 jul. 1978 e 26 out. 1978.
5. Editoriais do Jornal do Brasil, 1o e 2 jul. 1978.
6. Pedro Ernesto Fagundes, Anistia.
7. Editorial do Jornal do Brasil, 24 dez. 1977 (no entanto, o texto sugeria excluir
os “terroristas” da anistia).
8. Editorial de O Globo, 11 maio 1978.
9. Editoriais de O Estado de S. Paulo, 23 mar. 1979, e do Jornal do Brasil, 16 fev.
1978.
10. O Estado de S. Paulo, 18 fev. 1979, p. 3.
11. Editoriais de O Estado de S. Paulo, 8 nov. 1978, e do Jornal do Brasil, 8 dez.
1978.
12. Jornal do Brasil, 4 jul. 1977 (Coluna do Castello).
13. Editorial do Jornal do Brasil, 19 ago. 1977.
14. Lei n. 6683, 28 ago. 1979.
15. Editorial de O Estado de S. Paulo, 23 ago. 1979.
16. Carla Rodeghero et al., Anistia ampla, geral e irrestrita, pp. 252-3.
17. Editorial de O Globo, 26 nov. 1977.
18. Lei n. 6767, 20 dez. 1979.
19. Francisco Carlos Teixeira da Silva, “Crise da ditadura militar e o processo de
abertura política no Brasil, 1974-1985”. In: Jorge Ferreira e Lucília de Almeida
Neves Delgado (Orgs.), O tempo da ditadura, p. 274.
20. Marcos Napolitano, “O golpe de 1964 e o regime militar brasileiro”, p. 294.
21. Ibid., p. 285.
22. Maria Hermínia Tavares de Almeida, “O sindicalismo brasileiro entre a
conservação e a mudança”. In: Bernardo Sorj e Maria Hermínia Tavares de
Almeida (Orgs.), Sociedade e política no Brasil pós-64.
23. Daniel Aarão Reis Filho, Ditadura e democracia no Brasil, p. 144.
24. Folha de [Link], 26 abr. 1984, p. 8.
25. Correio Braziliense, 26 abr. 1984.
26. Francisco Carlos Teixeira da Silva, “Crise da ditadura militar e o processo de
abertura política no Brasil, 1974-1985”. In: Jorge Ferreira e Lucília de Almeida
Neves Delgado (Orgs.), O tempo da ditadura, pp. 270-1, 275.
27. Editorial do Jornal do Brasil, 6 jul. 1977.
28. Francisco Carlos Teixeira da Silva, “Crise da ditadura militar e o processo de
abertura política no Brasil, 1974-1985”. In: Jorge Ferreira e Lucília de Almeida
Neves Delgado (Orgs.), O tempo da ditadura, p. 279.
29. Daniel Aarão Reis Filho, Ditadura e democracia no Brasil, p. 152.
30. Folha de [Link], 10 out. 2008. Quando este livro já estava sendo finalizado,
a justiça condenou Carlos Alberto Augusto, ex-delegado do Deops-SP,
conhecido por Carlinhos Metralha, a dois anos e 11 meses de prisão em
regime semiaberto pelo desaparecimento de um militante de esquerda
durante a ditadura. Veremos como reagirão as instâncias superiores do
Judiciário: se irão anular a decisão do juiz de primeira instância, por fidelidade
à interpretação do STF sobre a lei de anistia, ou se vão confirmá-la — o que
poderia transformar o caso em marco inicial de uma nova era. Algum
ceticismo é recomendável, porque é politicamente mais fácil condenar um
policial do que um oficial das Forças Armadas. Ver
<[Link]
sentenca-inedita-juiz-condena-ex-agente-da-repressao-carlinhos-
[Link]>. Acesso em: 21 jul. 2021.
31. Lei n. 9140, 4 dez. 1995.
32. Lei n. 10 559, 13 nov. 2002.
33. Lei n. 12 528, 18 nov. 2011. Ver também Caroline Silveira Bauer, Como será
o passado?.
34. Ver a propósito o depoimento do general Villas Bôas. Celso Castro (Org.),
General Villas Bôas.
Referências bibliográficas
AARÃO REIS FILHO,Daniel. Ditadura militar, esquerdas e
sociedade. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
______. Ditadura e democracia no Brasil. Rio de Janeiro:
Zahar, 2014.
AARÃO REIS FILHO, Daniel; RIDENTI, Marcelo; MOTTA, Rodrigo Patto
Sá (Orgs.). O golpe e a ditadura militar, 40 anos depois
(1964-2004). Bauru: Edusc, 2004.
______. A ditadura que mudou o Brasil: 50 anos do golpe de
1964. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.
AARÃO REIS FILHO, Daniel; ROLLAND, Denis (Orgs.). Modernidades
alternativas. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2008.
ABREU, Marcelo de Paiva (Org.). A ordem do progresso: Dois
séculos de política econômica no Brasil. 2. ed. Rio de
Janeiro: Elsevier, 2014.
AGEE, Philip. Dentro da “companhia”: Diário da CIA. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 1976.
ÁGUILA, Gabriela. Dictadura, represión y sociedad en Rosario,
1976/1983: Un estudio sobre la represión y los
comportamientos y actitudes sociales en dictadura.
Buenos Aires: Prometeo, 2008.
ALMEIDA, Adjovanes Thadeu Silva de. O regime militar em
festa: A comemoração do sesquicentenário da
independência brasileira (1972). Belo Horizonte: UFMG,
2009. Tese (Doutorado em História).
ALMEIDA, Anderson da Silva. Todo leme a bombordo:
Marinheiros e ditadura civil-militar no Brasil, da rebelião
de 1964 à anistia. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2012.
ALVES, Maria Helena Moreira. Estado e oposição no Brasil
(1964-1984). 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1985.
ANTUNES, Ricardo. A rebeldia do trabalho. Campinas: Ed. da
Unicamp, 1988.
ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO. Brasil: Nunca mais. Petrópolis: Vozes,
1985.
BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Presença dos Estados Unidos no
Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
______. O governo João Goulart. As lutas sociais no Brasil,
1961-1964. 7. ed. Rio de Janeiro: Revan; Brasília: Ed. UnB,
2001.
BAUER, Caroline Silveira. Como será o passado? História,
historiadores e a Comissão Nacional da Verdade. Jundiaí:
Paco, 2017.
BENEVIDES, Maria Victoria de Mesquita. O governo Kubitschek:
Desenvolvimento econômico e estabilidade política. 3. ed.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
BERG, Creuza de Oliveira. Mecanismos do silêncio:
Expressões artísticas e censura no regime militar. São
Carlos: EdUFSCar, 2002.
BOBBIO, Norberto et al. Dicionário de política. Brasília: Ed.
UnB, 1998.
BRASIL. Comissão Nacional da Verdade. Relatório. Brasília,
2014.
BRUNO, Regina. “O Estatuto da Terra: Entre a conciliação e o
confronto”. Estudos Sociedade e Agricultura, Rio de
Janeiro, n. 5, pp. 5-31, 1995.
BURRIN, Philippe. La France à l’heure allemande, 1940-1944.
Paris: Seuil, 1995.
CALMON, João. Duas invasões. Rio de Janeiro: O Cruzeiro,
1966. v. 1: Invasão vermelha.
CAMPOS, Pedro Henrique Pedreira. Estranhas catedrais: As
empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar, 1964-
1988. Niterói: Eduff, 2015.
CARDOSO JR., Edi de Freitas. “O Brasil que há de ser!” Darcy
Ribeiro e cultura política trabalhista no governo João
Goulart. Belo Horizonte: UFMG, 2021. Tese (Doutorado em
História).
CARNEIRO, Ana Marília Menezes. Cinema e censura nas
ditaduras militares brasileira e argentina. Belo Horizonte:
UFMG, 2019. Tese (Doutorado em História).
CARVALHO, José Murilo de. Forças Armadas e política no Brasil.
Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
CASTRO, Celso (Org.). General Villas Bôas: Conversa com o
comandante. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2021.
CHIRIO, Maud. A política nos quartéis: Revoltas e protestos de
oficiais na ditadura militar brasileira. Rio de Janeiro:
Zahar, 2012.
CODATO, Adriano Nervo. “Uma história política da transição
brasileira: Da ditadura militar à democracia”. Revista de
Sociologia Política, Curitiba, n. 25, pp. 83-106, 2005.
CORDEIRO, Janaína. A ditadura em tempos de milagre:
Comemorações, orgulho e consentimento. Rio de Janeiro:
Ed. FGV, 2015.
CORREA, Larissa. Disseram que voltei americanizado: relações
sindicais Brasil-Estados Unidos na ditadura militar.
Campinas: Ed. da Unicamp, 2017.
CORRÊA, Marcos Sá. 1964 visto e comentado pela Casa
Branca. Porto Alegre: L&PM, 1977.
D’ARAÚJO, Maria Celina; SOARES, Gláucio Ary Dillon; CASTRO, Celso
(Orgs.). Visões do golpe: A memória militar sobre 1964.
Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.
______. Os anos de chumbo: A memória militar sobre a
repressão. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.
DELGADO, Lucília de Almeida Neves. “O governo João Goulart e
o golpe de 1964: Memória, história e historiografia”.
Tempo, Niterói, v. 14, n. 28, pp. 123-43, 2010.
DREIFUSS, René Armand. 1964: A conquista do Estado. 7. ed.
Petrópolis: Vozes, 2008.
FAGUNDES, Pedro Ernesto. Anistia: Das mobilizações das
mulheres na ditadura militar às recentes disputas sobre o
passado. Vitória: Milfontes, 2019.
FERREIRA, Jorge. João Goulart: Uma biografia. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2011.
FERREIRA, Jorge (Org.). O populismo e sua história. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucília de Almeida Neves (Orgs.). O
tempo da ditadura: Regime militar e movimentos sociais
em fins do século XX. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2007.
FERREIRA, Marieta (Org.). João Goulart: Entre a memória e a
história. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2006.
FICO, Carlos. Reinventando o otimismo: Ditadura,
propaganda e imaginário social no Brasil. Rio de Janeiro:
Ed. FGV, 1997.
______. Como eles agiam: Os subterrâneos da ditadura
militar — espionagem e polícia política. Rio de Janeiro:
Record, 2001.
FIGUEIREDO, Argelina Cheibub. Democracia ou reformas?
Alternativas democráticas à crise política, 1961-1964. São
Paulo: Paz e Terra, 1993.
FIORIN, José Luiz. O regime de 1964: Discurso e ideologia. São
Paulo: Atual, 1988.
FROTA, Sylvio. Ideais traídos. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.
GASPARI, Elio. A ditadura envergonhada. São Paulo:
Companhia das Letras, 2002.
______. A ditadura derrotada. São Paulo: Companhia das
Letras, 2003.
GODOY, Marcelo. A Casa da Vovó: Uma biografia do DOI-Codi.
São Paulo: Alameda, 2014.
GOMES, Angela; FERREIRA, Jorge. Jango: As múltiplas faces. Rio
de Janeiro: Ed. FGV, 2007.
GOMES, Angela; FERREIRA, Jorge. 1964: O golpe que derrubou
um presidente, pôs fim ao regime democrático e instituiu
a ditadura militar no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2014.
GORDON, Flávio. A corrupção da inteligência: Intelectuais e
poder no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 2017.
GORENDER, Jacob. Combate nas trevas: A esquerda brasileira
— das ilusões perdidas à luta armada. São Paulo: Ática,
1987.
GREEN, James. Apesar de vocês: Oposição à ditadura
brasileira nos Estados Unidos, 1964-1985. São Paulo:
Companhia das Letras, 2009.
GRINBERG, Lúcia. Partido político ou bode expiatório: Um
estudo sobre a Aliança Renovadora Nacional (Arena),
1965-1979. Rio de Janeiro: Mauad X, 2009.
GUERRA, Cláudio. Memórias de uma guerra suja. Rio de
Janeiro: Topbooks, 2012.
HARMER, Tanya. Allende’s Chile and the Inter-American Cold
War. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2011.
HERMETO, Miriam. Olha a gota que falta: Um evento no campo
artístico-intelectual brasileiro (1975-1980). Belo Horizonte:
UFMG, 2010. Tese (Doutorado em História).
HILTON, Stanley. Brazil and the Soviet Challenge, 1917-1947.
Austin: University of Texas Press, 1991.
HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: O breve século XX (1914-
1991). São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
HUGGINS, Martha K. Polícia e política: Relações Estados
Unidos/América Latina. São Paulo: Cortez, 1998.
IANNI, Octavio. O colapso do populismo. 3. ed. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1975.
INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA. Ipea, 46 anos: O Brasil
em 4 décadas. Ipea: Brasília, 2010.
JOFFILY, Mariana. No centro da engrenagem: Os
interrogatórios na OBAN e no DOI de São Paulo. Rio de
Janeiro: Arquivo Nacional; São Paulo: Edusp, 2013.
KINZO, Maria D’Alva Gil. Oposição e autoritarismo: Gênese e
trajetória do MDB. São Paulo: Vértice, 1988.
KLEIN, Herbert; LUNA, Francisco Vidal. Brazil, 1964-1985. New
Haven: Yale University Press, 2017.
KLEIN, Lúcia; FIGUEIREDO, Marcus. Legitimidade e coação no
Brasil pós-64. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1978.
KNACK, Diego. Um tribunal de exceção na ditadura: As
investigações do sistema CGI e o combate à corrupção.
Rio de Janeiro: UFRJ, 2019. Tese (Doutorado em História).
KRAENSKI, Mauro; PETRILÁK, Vladimír. 1964: O elo perdido — o
Brasil nos arquivos do serviço secreto comunista.
Campinas: VIDE Editorial, 2017.
KUSHNIR, Beatriz. Cães de guarda: Jornalistas e censores, do
AI-5 à Constituição de 1988. São Paulo: Boitempo/ Fapesp,
2004.
LABORIE, Pierre. L’Opinion française sous Vichy. Paris: Seuil,
1989.
LANGGUTH, A. J. A face oculta do terror. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1979.
LAVAREDA, Antônio. A democracia nas urnas. Rio de Janeiro:
Iuperj/ Rio Fundo, 1991.
LEACOCK, Ruth. Requiem for Revolution: The United States and
Brazil, 1961-1969. Kent: Kent State University Press, 1990.
LIMA, Danielle. O Comando de Caça aos Comunistas (CCC):
Do estudante ao terrorista (1963-1980). São Paulo: PUC-SP,
2020. Dissertação (Mestrado em Educação).
LIMA, Gabriel Amato. Aula prática de Brasil no Projeto
Rondon. São Paulo: Alameda, 2019.
LVOVICH, Daniel. “Los que apoyaron reflexiones y nuevas
evidencias sobre el apoyo difuso a la dictadura militar en
su primera etapa (1976-1978)”. Anuario IEHS, Tandil, v. 2,
n. 35, pp. 125-42, 2020.
MAIA, Tatyana de Amaral. Os cardeais da cultura nacional: O
Conselho Federal de Cultura na ditadura civil-militar
(1967-1975). São Paulo: Itaú Cultural/Iluminuras, 2012.
MARONI, Amnéris. A estratégia da recusa: Análise das greves
de 1978. São Paulo: Brasiliense, 1982.
MARTINS FILHO, João Roberto. Movimento estudantil e ditadura
militar, 1964-1968. Campinas: Papirus, 1987.
______. O palácio e a caserna: A dinâmica militar das crises
políticas na ditadura (1964-1969). 2. ed. São Paulo:
Alameda, 2019.
MATTOS, Marcelo Badaró. “O governo João Goulart: Novos
rumos da produção historiográfica”. Revista Brasileira de
História, São Paulo, v. 28, n. 55, pp. 245-63, 2008.
MAUÉS, Flamarion; ABRAMO, Zilah W. Pela democracia, contra o
arbítrio: A oposição democrática, do golpe de 1964 à
campanha das Diretas Já. São Paulo: Fundação Perseu
Abramo, 2006.
MELLO, Jayme Portella de. A revolução e o governo Costa e
Silva. Rio de Janeiro: Guavira, 1979.
MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Partido e sociedade: a trajetória do
MDB. Ouro Preto: Ed. Ufop, 1997.
______. Jango e o golpe de 1964 na caricatura. Rio de
Janeiro: Zahar, 2006.
______. “Modernizando a repressão: A Usaid e a polícia
brasileira”. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 30,
n. 59, 2010, pp. 237-66.
______. “A ditadura nas representações verbais e visuais da
grande imprensa (1964-1969)”. Topoi, Rio de Janeiro, v.
14, 2013, pp. 62-85.
______. As universidades e o regime militar. Rio de Janeiro:
Zahar, 2014.
______. “O golpe de 1964 e a ditadura nas pesquisas de
opinião”. Tempo, Niterói, v. 20, pp. 1-21, 2014.
______. “Entre a liberdade e a ordem: O jornal O Estado de S.
Paulo e a ditadura (1969-1973)”. Estudos Ibero-
Americanos, Porto Alegre, v. 43, n. 2, pp. 367-79, 2017.
______. “Cultura política e ditadura: um debate teórico e
historiográfico”. Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 10,
2018, pp. 109-37.
______. “Sobre as origens e motivações do Ato Institucional
5”. Revista Brasileira de História, v. 38, n. 79, pp. 195-216,
2018.
______. Em guarda contra o perigo vermelho. 2. ed. Niterói:
Eduff, 2020.
MOURA, Gerson. Relações exteriores do Brasil, 1939-1950:
Mudanças na natureza das relações Brasil-Estados Unidos
durante e após a Segunda Guerra Mundial. Brasília:
Funag, 2012.
MÜLLER, Angélica. O movimento estudantil na resistência à
ditadura militar (1969-1979). Rio de Janeiro: Garamond,
2016.
NAPOLITANO, Marcos. “O golpe de 1964 e o regime militar
brasileiro. Apontamentos para uma revisão
historiográfica”. Contemporánea. Historia y problemas del
siglo XX, Montevidéu, v. 2, pp. 209-17, 2011.
______. 1964. História do regime militar brasileiro. São Paulo:
Contexto, 2014.
NOSSA, Leonencio. Mata! O major Curió e as guerrilhas do
Araguaia. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
NOVAES, Carlos Eduardo. O quiabo comunista. 5. ed. Rio de
Janeiro: Nórdica, 1977.
OLIVEIRA, Eliézer Rizzo de. As Forças Armadas: Política e
ideologia no Brasil (1964-1969). 2. ed. Petrópolis: Vozes,
1978.
ORTIZ, Renato. A moderna tradição brasileira: Cultura
brasileira e indústria cultural. São Paulo: Brasiliense, 1988.
PAXTON, Robert. La France de Vichy, 1940-1944. Paris: Seuil,
1974.
PINHEIRO, Milton (Org.). Ditadura: O que resta da transição.
São Paulo: Boitempo, 2014.
PINTO, Bilac. Guerra revolucionária. Rio de Janeiro: Forense,
1964.
PUGLIA, Leonardo Seabra. “Gramsci e os intelectuais de direita
no Brasil contemporâneo”. Teoria e Cultura, UFJF, v. 13, n.
2, dez. 2018.
RABE, Stephen G. The Most Dangerous Area in the World:
John F. Kennedy Confronts Communist Revolution in Latin
America. Chapel Hill: University of North Carolina Press,
1999.
REINA, Eduardo. Cativeiro sem fim: As histórias dos bebês,
crianças e adolescentes sequestrados pela ditadura
militar no Brasil. São Paulo: Alameda, 2019.
REZENDE, Maria José de. A ditadura militar no Brasil:
Repressão e pretensão de legitimidade. Londrina: Eduel,
2001.
RIDENTI, Marcelo. O fantasma da revolução brasileira. São
Paulo: Ed. Unesp, 1993.
______. Em busca do povo brasileiro: Artistas da revolução,
do CPC à era da TV. Rio de Janeiro: Record, 2000.
______. Brasilidade revolucionária: Um século de cultura e
política. São Paulo: Ed. Unesp, 2010.
RODEGHERO, Carla et al. Anistia ampla, geral e irrestrita:
História de uma luta inconclusa. Santa Cruz do Sul:
Edunisc, 2011.
ROLLEMBERG, Denise. O apoio de Cuba à luta armada no Brasil.
Rio de Janeiro: Mauad, 2001.
ROLLEMBERG, Denise; QUADRAT, Samantha (Orgs.). A construção
social dos regimes autoritários: Legitimidade, consenso e
consentimento no século XX. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2010.
ROVAI, Marta. Osasco, 1968: A greve no feminino e no
masculino. São Paulo: USP, 2012. Tese (Doutorado em
História).
SADER, Eder. Quando novos personagens entraram em cena.
4. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001.
SALES, Jean Rodrigues. A luta armada contra a ditadura
militar: A esquerda brasileira e a influência da Revolução
Cubana. São Paulo: Ed. Fundação Perseu Abramo, 2007.
SANFELICE, José Luís. Movimento estudantil: A UNE na
resistência ao golpe de 64. São Paulo: Cortez, 1986.
SANTOS, Daniel Elian dos. O massacre de Manguinhos: A
ciência brasileira e o regime militar. São Paulo: Hucitec,
2020.
SANTOS, Wanderley Guilherme dos. Sessenta e quatro:
Anatomia da crise. São Paulo: Vértice, 1986.
SCARPELLI, Carolina Dellamore. Forjando lideranças:
Comportamentos políticos e militância operária no
Sindicato dos Metalúrgicos de Belo Horizonte e Contagem
na ditadura militar (1964-1984). Belo Horizonte: UFMG,
2019. Tese (Doutorado em História).
SCHNEIDER, Nina. Brazilian Propaganda: Legitimizing an
Authoritarian Regime. 1. ed. Gainesville: University Press
of Florida, 2014.
SCHNEIDER, Ronald. The Political System of Brazil: Emergence
of a “Modernizing” Authoritarian Regime, 1964-1970.
Nova York: Columbia University Press, 1971.
SCHOOYANS, Michel. O comunismo e o futuro da Igreja no
Brasil. São Paulo: Herder, 1963.
SEGATTO, José Antonio. Reforma e revolução: As vicissitudes
políticas do PCB (1945-1964). Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1995.
SEMELIN, Jacques. Sans armes face à Hitler: La résistance
civile en Europe, 1939-1943. Paris: Éditions des Arènes,
2013.
SIGAUD, Geraldo de Proença. Catecismo anticomunista. São
Paulo: Vera Cruz, 1962.
SILVA, Hélio. 1964: Golpe ou contragolpe? Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1975.
SILVA, João Teófilo. Passar o passado a limpo: Memória,
esquecimento, justiça e impunidade no Brasil pós-ditadura
— da Anistia à Comissão Nacional da Verdade. Belo
Horizonte: UFMG, 2021. Tese (Doutorado em História).
SIMÕES, Solange de Deus. Deus, pátria e família: As mulheres
no golpe de 1964. Petrópolis: Vozes, 1985.
SKIDMORE, Thomas. Brasil: De Castelo a Tancredo. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1988.
SOARES, Gláucio Ari Dillon et al. 21 anos de regime militar:
Balanços e perspectivas. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 1994.
SORJ, Bernardo; ALMEIDA, Maria Hermínia Tavares de (Orgs.).
Sociedade e política no Brasil pós-64. São Paulo:
Brasiliense, 1983.
SOUZA, Percival de. Autópsia do medo: Vida e morte do
delegado Sérgio Paranhos Fleury. São Paulo: Globo, 2000.
STEPAN, Alfred. Os militares na política. Rio de Janeiro:
Artenova, 1975.
TOLEDO, Caio Navarro de. O governo Goulart e o golpe de
1964. São Paulo: Brasiliense, 1982.
UNE. A UNE contra o SNI. São Paulo: Alfa Omega, 1987.
USTRA, Carlos Alberto Brilhante. A verdade sufocada: A
história que a esquerda não quer que o Brasil conheça.
Brasília: Ser, 2006.
VALENTE, Rubens. Os fuzis e as flechas: História de sangue e
resistência indígena na ditadura. São Paulo: Companhia
das Letras, 2017.
VALIM, Alexandre Busko. O triunfo da persuasão: Brasil,
Estados Unidos e o cinema da política de boa vizinhança
durante a II Guerra Mundial. São Paulo: Alameda, 2017.
VALLE, Maria Ribeiro do. 1968: O diálogo é a violência —
movimento estudantil e ditadura militar no Brasil. 2. ed.
Campinas: Ed. da Unicamp, 2008.
VIANA, Gilney. Camponeses mortos e desaparecidos:
Excluídos da justiça de transição. Brasília: Secretaria de
Direitos Humanos, 2013.
VIZENTINI, Paulo F. A política externa do regime militar
brasileiro. Porto Alegre: EDUFRGS, 1998.
WEFFORT, Francisco. O populismo na política brasileira. 2. ed.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.
ZIMMERMANN, Ana Carolina. O golpe vira uma festa: O 31 de
março de 1964 e as práticas cívico-patrióticas (1970-
1971). Blumenau: Universidade Regional de Blumenau,
2020. Trabalho de conclusão do curso de História.
LETÍCIA SÁ
RODRIGO PATTO SÁ MOTTAé doutor em história pela USP e professor
titular do Departamento de História da UFMG. Atuou como
professor visitante em diversas instituições, como a
Universidade de Paris III e a Universidade Nacional da Colômbia.
É autor, entre outros, de Em guarda contra o perigo vermelho,
Jango e o golpe de 1964 na caricatura e As universidades e o
regime militar, finalista do prêmio Jabuti 2015 na categoria
Ciências Humanas.
Copyright © 2021 by Rodrigo Patto Sá Motta
Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990,
que entrou em vigor no Brasil em 2009.
Capa
Celso Longo + Daniel Trench
Preparação
Diogo Henriques
Checagem
Marcella Ramos
Revisão
Clara Diament
Julian F. Guimarães
Versão digital
Rafael Alt
ISBN 978-65-5782-553-2
Todos os direitos desta edição reservados à
EDITORA SCHWARCZ S.A.
Praça Floriano, 19, sala 3001 — Cinelândia
20031-050 — Rio de Janeiro — RJ
Telefone: (21) 3993-7510
[Link]
[Link]
[Link]/editorazahar
[Link]/editorazahar
[Link]/editorazahar
As universidades e o regime militar
Motta, Rodrigo Patto Sá
9788537811993
448 páginas
Compre agora e leia
Que impacto teve o regime militar sobre as universidades?
Como atuaram no meio acadêmico aqueles que apoiaram o
golpe de 1964? De que maneira os paradoxos da ditadura
se manifestaram na definição de sua política universitária?
Como operavam as Assessorias de Segurança e Informações
nos campi? Qual o efeito dos expurgos políticos na vida
acadêmica? Vale falar em polarização entre resistência e
colaboração no caso de professores e pesquisadores?
Munido de vastíssimo material de pesquisa - grande parte
inédita e até pouco tempo atrás inacessível -, o historiador
Rodrigo Patto Sá Motta enfrenta essas importantes
questões, nem sempre confirmando aquilo que vigora no
censo comum a respeito dos governos militares. Nas
universidades, paradoxos e ambiguidades do regime militar
se manifestaram plenamente, revelando a complexidade da
experiência autoritária.
Compre agora e leia
Os índios antes do Brasil
Fausto, Carlos
9788537803707
99 páginas
Compre agora e leia
Um mundo se desenvolveu por milênios à margem do
Ocidente e do Oriente, até um dia ser descoberto e
conquistado. Seus traços, que ficaram impressos na solidez
da pedra e na fragilidade do barro, são o objeto deste livro.
Das escarpas dos Andes ao Amazonas, do cerrado ao litoral,
o leitor é convidado a conhecer esse mundo de antes de
Cabral.
Compre agora e leia
Como as democracias morrem
Levitsky, Steven
9788537818053
272 páginas
Compre agora e leia
Uma análise crua e perturbadora das ameaças às
democracias em todo o mundo.
Democracias tradicionais entram em colapso? Essa é a
questão que Steven Levitsky e Daniel Ziblatt – dois
conceituados professores de Harvard – respondem ao
discutir o modo como a eleição de Donald Trump se tornou
possível.
Para isso comparam o caso de Trump com exemplos
históricos de rompimento da democracia nos últimos cem
anos: da ascensão de Hitler e Mussolini nos anos 1930 à
atual onda populista de extrema-direita na Europa,
passando pelas ditaduras militares da América Latina dos
anos 1970. E alertam: a democracia atualmente não
termina com uma ruptura violenta nos moldes de uma
revolução ou de um golpe militar; agora, a escalada do
autoritarismo se dá com o enfraquecimento lento e
constante de instituições críticas – como o judiciário e a
imprensa – e a erosão gradual de normas políticas de longa
data.
Sucesso de público e de crítica nos Estados Unidos e na
Europa, esta é uma obra fundamental para o momento
conturbado que vivemos no Brasil e em boa parte do mundo
e um guia indispensável para manter e recuperar
democracias ameaçadas.
"Talvez o livro mais valioso para a compreensão do
fenômeno do ressurgimento do autoritarismo ... Essencial
para entender a política atual, e alerta os brasileiros sobre
os perigos para a nossa democracia." – Estadão
"Abrangente, esclarecedor e assustadoramente oportuno." –
The New York Times Book Review
"Livraço ... A melhor análise até agora sobre o risco que a
eleição de Donald Trump representa para a democracia
norte-americana ... [Para o leitor brasileiro] a história parece
muito mais familiar do que seria desejável." – Celso Rocha
de Barros, Folha de S. Paulo
"Levitsky e Ziblatt mostram como as democracias podem
entrar em colapso em qualquer lugar – não apenas por meio
de golpes violentos, mas, de modo mais comum (e
insidioso), através de um deslizamento gradual para o
autoritarismo. Um guia lúcido e essencial." – The New York
Times
"O grande livro político de 2018 até agora." – The
Philadelphia Inquirer
Compre agora e leia
O andar do bêbado
Mlodinow, Leonard
9788537801819
322 páginas
Compre agora e leia
Best-seller internacional e livro notável do New York Times
Um dos 10 Melhores Livros de Ciência, segundo a
[Link] Não estamos preparados para lidar com o
aleatório e, por isso, não percebemos o quanto o acaso
interfere em nossas vidas. Num tom irreverente, citando
exemplos e pesquisas presentes em todos os âmbitos da
vida, do mercado financeiro aos esportes, de Hollywood à
medicina, Leonard Mlodinow apresenta de forma divertida e
curiosa as ferramentas necessárias para identificar os
indícios do acaso. Como resultado, nos ajuda a fazer
escolhas mais acertadas e a conviver melhor com fatores
que não podemos controlar. Prepare-se para colocar em
xeque algumas certezas sobre o funcionamento do mundo e
para perceber que muitas coisas são tão previsíveis quanto
o próximo passo de um bêbado depois de uma noitada...
"Um guia maravilhoso e acessível sobre como o aleatório
afeta nossas vidas" Stephen Hawking "Mlodinow escreve
num estilo leve, intercalando desafios probabilísticos com
perfis de cientistas... O resultado é um curso intensivo, de
leitura agradável, sobre aleatoriedade e estatística." George
Johnson, New York Times
Compre agora e leia
Estatística
Wheelan, Charles
9788537815557
328 páginas
Compre agora e leia
Um livro que nos faz entender os números por trás dos fatos
e apreciar a força extraordinária dos dados em diversos
aspectos do cotidiano A estatística é uma ciência que está
em toda parte, muito embora seja considerada
desinteressante e inacessível por envolver números e dados
muitas vezes complexos. Útil, quando usada de forma
correta, mas potencialmente desastrosa em mãos erradas,
sua aplicação no mundo real é cada vez mais requisitada -
seja em relatórios médicos, no resultado de campeonatos
esportivos ou em pesquisas eleitorais. O consagrado
economista Charles Wheelan mostra que com os dados
certos e as ferramentas estatísticas adequadas podemos
responder muitas perguntas, tais como: Quais substâncias
ou comportamentos causam câncer? O que está provocando
o aumento da incidência de autismo? Como a Netflix sabe
quais filmes você gosta? Sem usar muita matemática,
equações e gráficos, esse livro nos ajuda a compreender
conceitos estatísticos importantes para a vida cotidiana,
como: inferência, correlação, análise de dados etc. Ao falar
das ideias mais importantes da disciplina sem entrar em
detalhes técnicos, o autor torna a estatística palatável não
só para aqueles que a estudam em salas de aula, mas para
qualquer um que deseje compreender melhor os desafios do
mundo em que vivemos. "O autor faz algo único: apresenta
a estatística de modo interessante e divertido." The
Economist "Despe a roupagem supérflua e expõe a beleza
da disciplinade maneira que todos possam apreciá-la." Hal
Varian, economista-chefe do Google "Brilhante, divertido...
O melhor professor de matemática que você jamais teve."
San Francisco Chronicle "Seus vários exemplos cotidianos
ilustram exatamente por que até mesmo aqueles que
detestam matemática poderão compreender os
fundamentos da estatística." The New York Times "Um livro
divertido, envolvente, que mostra por que a estatística é
uma ferramenta essencial para quem deseja compreender o
mundo moderno." Jacob J. Goldstein, NPR
Compre agora e leia