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Filosofia 11

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Indice (2) Descrigao e interpretagao da atividade cognoscitiva 5 1.1. O que éoconhecimento? 5 1.2. Analise comparativa de duas teorias explicativas do conhecimento 6 1.2.1. O problema da origem e da possibilidade do conhecimento: 0 desafio cético 6 1.2.2. Descartes, a resposta racionalista " 1.2.3. Hume, a resposta empirista 8 1.2.4. Analise comparativa das perspetivas de Descartes e Hume 26 (2) Oestatuto do conhecimento cientifico 28 2.1. Conhecimento vulgar e conhecimento cientifico 28 2.2. Ciéncia e construc¢ao — validade e verificabilidade das hipéteses 30 2.2.1. O problema da demarcag4o do conhecimento cientifico 30 2.2.2. A concec&o indutivista do método cientifico 31 2.2.3. O falsificacionismo e o método de conjeturas e refutacdes (Popper) 34 2.3. A racionalidade cientifica e a questao da objetividade 38 2.3.1. O problema da evolucao da ciéncia e da objetividade do conhecimento 38 2.3.2. A perspetiva de Popper 38 2.3.3. A perspetiva de Kuhn a (4) Adimensao estética - andlise e compreensio da experiéncia estética 3.1. Acriagao artistica e a obra de arte 3.1.1. O problema da definicdo de arte 3.1.2. Da teoria mimética a teoria representacionista 3.1.3. Teoria da arte como expressao (teoria expressivista) 46 46 47 47 3.1.4. Teoria da arte como forma (teoria formalista) 49 3.1.5. Teoria institucional da arte 3.1.6. Teoria histérica da arte 3.L7. Concluséo (4) Adimensio religiosa—andlise e compreensao da experiéncia religiosa 4.1. Religiao, razdo e fé 50 52 53 54 54 4.11. O problema da existéncia de Deus e 0 conceito teista de Deus 4.1.2. Argumentos sobre a exist6ncia de Deus 4.1.3. O fideismo de Pascal 4.1.4. O argumento do mal para a discussao da existéncia de Deus Bibliografia 54 55 59 @ 64 Descricao e interpretacdo da atividade cognoscitiva 1.1. O que é0 conhecimento? A gnosiologia, ou teoria do conhecimento, ¢ a disciplina filosofica que estuda o conhecimento, procurando esclarecer e analisar criticamente problemas relati vos, por exemplo, a origem, as fontes, a natureza, a possibilidade, aos fundamen- tos @ aos limites do conhecimenta. O conceito de epistemologia (que mais adiante exporemos) também aparece por vezes como sinénimo de gnosiclogia. © conhecimento 6, numa abordagem muito geral, aquilo que acontece quando um sujeite ~ aquele que conhece ~ apreende um objete ~ aquilo que é conhecido. Sem a presenga de um destes elementos, o conhecimento seria im- possivel. Existem, porém, diferentes tipos de conhecimento: Conhecimento pratico (conhecimento par aptidao ou saber-como) Objeto: atividades ou ages Eo conhecimento de atividades ou agdes, relativo a capacidade, aptidao ou competéncia para fazer alguma coisa Exemplos: saber cozinhar, saber conduzir, saber dangar, saber consertar calcado, saber tratar de uma horta. QO conhecimento proposicional também se desi; Tipos de conhecimento Conhecimento proposicional (eaber-que) Objeto: verdad: roposigaes Eoconhecimento que tem por objeto proposi¢es ou pensamentos verdadeiros. Eoconhecimento de “3+ 53 = 56"; saber que “Augusto foi um Imperador romano’; saber que “os ovos térn proteinas’, Conhecimento por contacto Objeto: realidades coneretas| Eo conhecimento direto de alguma realidade: pessoas, lugares, estados pessoalmente o Dalai Lama; conhecer Madrid, no sentido de ter visitado esta cidade; conhecer uma dor por té-la experimentado. Ma, por vezes, por conhe- cimento factual, podendo ser expresso com autras locucdes, como “sei onde” (‘Sei onde est 0 livro’), “sei quando’ ("Sei quando aconteceu a Revolugao Fran- cesa’),"s quem’ (‘Sei quem escreveu Os Maias"). Em todo o conhecimento proposicional existe uma erenga, j4 que ndo po- demos saber algo sem acreditar nisso. Mas também se pode acreditar em falsi- dades. As crencas podem ser verdadeiras ou falsas. Como tal, a crenga, embora sendo uma condigao necessaria para 0 conhe- cimento, nao é uma condigao suficiente. Para haver conhecimento é necessa- rio que uma pessoa acredite em algo, mas também é necessario que isso seja verdadeiro. Sendo assim, para além da crenca, a verdade é igualmente uma condigao necessaria do conhecimento. Todavia, ninguém possui conhecimento se nao dispuser de provas, razes ou evidéncias para justificar essa crenga. Por conseguinte, a justificagao é também uma condigao necesséria do conhecimento. De acordo com a definigdo classica ou tradicional de conhecimento, apre- sentada por Plato (c. 428-347 a. C.), 0 conhecimento é uma erenga verdadeira justificada. Condigdes do conhecimento Ssabe queP se, e s6 se, ‘Crenga S acredita que P. 2.4-Verdade P 6 verdadeira, S dispée de justificagao ou provas para acreditar 3.2—Justificagao iio Crenga, verdade e justificagado sao condigées necessarias, e conjuntamente sufi- cientes, para o conhecimento. Esta ideia do conhecimento proposicional como erenga verdadeira justifi- cada nao € consensual e encontra-se sujeita a algumas objegoes. Analise comparativa de duas teorias explicativas do conhecimento 1.2.1, O problema da origem e da possibilidade do conhecimento: 0 desafio cético A consideragao de. que ha diferentes formas de justificar as crengas que temos por verdadeiras remete-nos parao problema da origem ou das fontes do conhecimento. Perguntar pelas fontes do conhecimento equivale, entdo, a perguntar pelas fontes de justificagao das nossas crengas ou pela justificagaio que apresentamos para mostrar que as nossas crencas, as nossas proposicées ou 0s nossos juizos sao verdadeiros. mos, podemos constatar que nem todos tém a mesma origem: sabemnos que “o todo é maior do que a parte” ou que "3 + 3 = 6” apenas pensando nisso. A fonte destes conhecimentos € a raz&o ou o pensamento. Diferentemente, sabemos que “Portugal é um pais com diversas praias” porque vemnos essas praias, sabernos que “os rouxindis cantam’ porque os ou- vimos cantar. A fonte destes conhecimentos é a experiéncia sensivel, relativa, Nos casos que nos servem de exemple, aos sentidos da visdo e da audigao, res- petivamente, embora outros sentidos também acabem por estar implicitos, Se, recorrendo apenas ao pensamento, sabemos que “5 x 3 = 15", entao es- tamos perante um juizo a priori, Por sua vez, sabemos que ‘a Terra é ligeira- mente achatada nos polos” apenas se recorrermos a experiéncia. Dai que este- jamos perante um juizo a posteriori. Juizo cuja verdade é conhecida independentemente da expe- Juizoapriori | riéncia, tendo, portanto, origem e justificagao no pensamento ou razao. fori | uiz0 cuja verdade é conhecida através da experiéncia sensi- Julzo.a posteriori | 1 das impresses dos sentidos, tendo aia sua justificacdo. Esta diferenciagao permite-nos compreender a distingao de dois mados de conhecimento: Modos de conhecimento Exemplos Baseia-se em juizos a priori, | Uma linha reta pode ser pro- | tendo a sua fonte ou origemno | jongada indefinidamente em Conhecimento | pensamentoounarazio. Ajus- | ambas as diregses apriori tificagdo dessas erengas en- | 5,9 4 contra-se no pensamento ou - fas. Uma caixa azul tem cor. Baseia-se em juizos a poste- riori, tendo a sua origem naex- | 9 Anténio€ alto. ‘i iene ivel (oun - 5 Conhecimento Po'iéncia sensivel (unos s9M | A neve é brancae fria. See eoment tides). € 0 conhecimento é BOE empirico: a justificacao dessas | Algumas plantas realizam a fo- do racionalismo e crengas encontra-se na expe- riéneia. do empirismo. tossintese. Vamos agora estudar duas doutrinas filosoficas que valorizam e privilegiam diferentemente as fontes de que provém os conhecimentos referidos. Trata-se De acordo com o racionalismo (e aqui teremos em conta, sobretudo, 0 ra- 2 cionalismo do século XVII), a razdo — por vezes também chamada entendi- mento ~ é a fonte principal do conhecimento. Sé através da raz&o é que se pode encontrar um conhecimento seguro, o qual se apoia em principios evi dentes, sendo totalmente independente da experiéncia sensivel. Tal conheci mento, que é a priori, é considerado necessario, porque tem de ser assim e nao pode ser de autro modo, caso contrério entrariamos em contradigao légica, e universal, porque tem de ser assim sempre e em toda a parte. Dai que 0 modelo do conhecimento ou do saber nos seja dado pela mate- matica. Isto nao significa que os racionalistas neguem a existéncia do conheci- mento empirico (conhecimento a posteriori). Esse conhecimento existe, mas nao pode ser considerado universal e necessério. As crengas e informacées que se obtém através dos sentidos sao, muitas vezes, confusas ou incertas. O racionalismo moderno é otimista, no sentido em que considera que, par- tindo dos prin ado método, sera possivel conhecer toda a realidade. Hé uma correspondéncia entre a ordem do pensamento e a ordem da realidade, e ha conhecimentos a prior! acerca do mundo. Entre os filésofos racionalistas encontram-se, por exemplo, René Descar- tes (1596-1650), Gottfried Leibniz (1646-1716), Bento de Espinosa (1632-1677) e Nicolas Malebranche (1638-1715). Podemos caracterizar 0 racionalismo, de um modo geral, com base nos se- guintes aspetos: soa 1 jos evidentes da razéio, e seguindo um deter + Araziio é a fonte principal do conhecimento — conhecimento universal e ne- cessario. + As ideias fundamentais do conhecimento sao inatas. = Omodelo de conhecimento é a matemitica. Privilegia-se o raciocinio dedutivo. - HA. uma correspondéncia entre o pensamento ea realidade. Se 0 racionalismo admite a existéncia de um conjunto de ideias inatas, an- teriores a experiéncia, o empirismo é uma teoria segundo a qual a experiéncia 6a fonte principal do conhecimento. Temos aqui em conta sobretudo 0 empi rismo moderno, por vezes também chamado empirismo inglés. De acordo com a doutrina empirista, nao existem ideias, conhecimentos ou principios inatos. O entendimento humano é, antes de qualquer experién- cia, como uma tabua rasa ou uma folha de papel em branco. Nada, A nascenga, se encontra escrito na mente; s6 com a experiéncia isso se tornara possivel. Assim, pode definir-se 0 empirismo como sendo a teoria filoséfica que, em oposigao ao racionalismo, nega a existéncia de conhecimentos inatos, afirmando que 0 conhecimento humano det almente da experiéncia. E nesta que ©. conhecimento tem o seu fundamento e, naturalmente, os seus limites. /a prin Importa acrescentar que, embora neguem os conhecimentos inatos, os empiristas nao negam o conhecimento a priori. Esse conhecimento existe, s6 que nada nos diz de importante ou de substancial acerca do mundo. Além disso, as ideias presentes em tais conhecimentos acabam por derivar, todas ncia. elas, da exper Alguns filésofos empiristas foram David Hume (1711-1776), John Locke (1632-1704) e George Berkeley (1685-1753). Podemos caracterizar 0 empirismo, de um modo geral, com base nos se- guintes aspetos: » Aexperiéncia é a fonte principal do conhecimento. « Todas as ideias tém uma base empirica, até as mais complexas: nao ha ideias inatas. = Oconhecimento do mundo obtém-se através de impressGes sensoriais. Pri- iio indutivo. » Oconhecimento encontra-se limitado pela experiéncia. vilegia-se 0 racioci Tanto o empirismo como o racionalismo se enquadram naquilo a que se pode chamar o fundacionalismo. O fundacionalismo 6 uma perspetiva se- gundo a qual o conhecimento deve ser concebido como uma estrutura que se ergue e se desenvolve a partir de fundamentos certos, seguros eindubitaveis Tais fundamentos poderdo encontrar-se na experiéncia (empirismo), na raziio (racionalismo) ou numa combinacao dessas duas fontes. Os fundacionalistas consideram que os sistemas de crengas recebem a sua justificagdo de um dado subconjunto de crengas, a semelhanga de um edi- ficio que é suportado pelas suas fundagdes. Eles designam essas crencas fundacionais por crengas basicas, que sao consideradas infaliveis, irrefutaveis e indubitaveis. Deste modo, sao as crengas basicas que suportam o sistema do saber. Trata-se de crengas que no necessitam de uma justificagao fornecida por ou- tras crengas, porque se justificam a si mesmas, sendo autoevidentes. Essas crencas permitem evitar a regressao infinita da justificagao. Por sua vez, designamos por erengas nao basicas aquelas que sao justifica- das por outras crengas, ou que se inferem de outras crengas, nao sendo autoe- videntes. Como veremos, Descartes, sendo racionalista, e Hume, sendo empirista, encontrarao diferentes crengas basicas e, portanto, diferentes fundamentos para o conhecimento. Racionalistas e empiristas admitem, portanto, que 0 conhecimento (propo- sicional) é possivel. Mas sera que 0 conhecimento 6 mesmo possivel? Sera possivel ter uma crenga verdadeira devidamente justificada acerca de alguma realidade? O ceticismo, na sua forma radical, nega que isso seja possivel. O ceticismo absolute ou radical — que se distingue do ceticismo mitigado ou moderado, que haveremos de referir a propésito de David Hume—é umacor- rente filoséfica que afirma a impossibilidade do conhecimento. Isto significa que, mesmo que as nossas crengas sejam verdadeiras, nao temos justificagdes suficientes para mostrar essa verdade. Nem a razo (a prior) nem a experiéncia (a posteriori) justificam devidamente e de modo satisfatério as nossas crengas. Considera-se Pirro de Elis (c. 365-275 a. C.) 0 fundador do ceticismo abso- luto ou radical. O cético pirrénico rejeita entao a possibilidade do conhec mento. O fil6sofo Sexto Empirico (séculos II-Ill d. C), também cético pirrénico, apresentou os argumentos que conduziam A divida relativamente as justifica- ges das crengas ¢ que levavam os céticos A suspensao do juizo, estado de neutralidade em que nada se afirma e nada se nega. A suspensao do juizo con- duz, por sua vez, A ataraxia ou auséncia de perturbagao. Eis alguns dos argumentos: + Em primeiro lugar, salientam-se os enganoseas ilusées dos sentidos. Por um lado, os orgios dos sentidos e as representagdes do mesmo objeto variam entre as espécies. Por outro lado, relativamente ao mesmo objeto ha sensa- des © perceges diferentes, e até incompativeis, para diferentes pessoas ou para a mesma pessoa em situagées e circunstancias diversas, nao havendo assim a possibilidade de distinguir 0 que é verdadeiro do que é falso. Final- mente, os objetos, pelas diversas formas como nos surgem, desencadeiam ilusées e aparéncias, ndo havendo possibilidade de decidir qual a sua verda- deira realidade. Em segundo lugar, destacam-se a discordancia e a divergéncia de opinides. Se existem opinides divergentes a respeito dos mais variados assuntos, entao nenhuma se encontra adequada ou suficientemente justificada, o que torna impossivel que nos decidamos por uma ou outra, endo preciso sus- pender 0 juizo sobre qual é verdadeira e qual é falsa. A discordancia é particu- larmente notoria entre as doutrinas dos fildsofos, sendo que também os cos- tumes, a educagao eas leis divergern. Por fim, nada se pode compreender por si, em virtude dos desacordos, nao existindo também nenhum critério que nao seja abjeto de desacordo e, por outro lado, nada pode ser verdadeiramente compreendido com base noutra coisa: para justificar uma crenga tem de se recorrer a outra, e assim ou cai- mos num cfrculo viciose (A justifica B, que justifica A, o que equivale a dizer que B se infere de A, que se infere de B) ou temos de recorrer, sucessiva- mente, a outras crengas, numa cadeia de justificagao que se estende até ao infinito — regressao infinita da justificagao. Tentar evitar esta regressao a0 infinito com base numa erenga injustificada seria igualmente inaceitavel. 10 scare Ora, o ceticismo radical pode, de certa maneira, ser considerado autocon- traditério ou autorrefutante, pois afirma que o conhecimento é impossivel, mas, ao afirmar isso, j4 exprime um conhecimento. © ceticismo pode ser metédico, enquanto meio para alcangar a certeza. Descartes traduziu-o na sua duvida metédica. Este ceticismo metédico é muito diferente do ceticismo sistemiatico e radical, que se fica pela divida como um principio definitivo. 1.2.2. Descartes, a resposta racionalista Descartes foi, como referimos, um filésofo racionalista. Com efeito, ele considerava a raze a fonte principal do conhecimento, a fonte de um conheci- mento caracterizado pela universalidade e pela necessidade. Existem, por- tanto, crengas que a razao, e apenas a razéio, é capaz de justificar. Atribuindo um grande valor a razo, Descartes procurou também ai os fun- damentos do conhecimento. Ele comparava a filosofia a urna arvore, cujas rai zes equivalem a metafisica, 0 tronco a fisica e os ramos a todas as outras cién- cias, sendo as trés principais a medicina, a mecanica e a moral. Se a metafisica constitui a raiz da filosofia, € por ela que se deve comegar, a fim de encontrar os, prinefpios fundamentais do conhecimento humane. $6 encontrando esses fundamentos sera possivel superar os argumentos dos céticos radicais. Em ultima instancia, Descartes pretendeu justamente su- perar os argumentos dos céticos. Para tal, achou importante estabelecer um método. Tendo as proposigées da matematica uma origem racional e a priori, Descartes resolveu seguir um método inspirado na matematica. Eis as regras desse método: Regras do método Nao aceitar nada como verdadeiro se no se apre- .aregra ae sentar & consciéncia como claro e distinto, sem evidéncia | qualquer margem para dividas, Regrada Dividir cada uma das dificuldades em tantas partes andlise quantas as necessarias para melhor as resolver. Conduzir por ordem os pensamentos, comegando us coe pelo mais simples e facil de compreender e subir oa radualmente para o mais complexo. — 8 econ | Fazer enumeragdes tio completas ¢ revises tao gerais, que tivesse a certeza de nada omitir. u Estas regras permitirao guiar a razao, orientando devidamente as opera g0es fundamentais do espirito. Tais operacées, que esto na base de toda a dinamica do conhecimento, séo as seguintes: Intuigao Deducao *O que se conclui necessariamente de Representacao da mente pura e atenta, | outras coisas conhecidas com certeza.” tao facil e distinta que nenhuma divida | (Descartes) nos fica acerca do que compreendemos. | Encadeamento e sucesso de intuigoes, Ato puramente intelectual ou racional | implicando um movimento continuo do de apreensao dirota e imediata de no- | pensamento, desde as ideias simples ¢ gOes simples e indubitaveis. evidentes até as consequéncias neces- sarias. Um aspeto importante do método de Descartes 6 traduzido na divida. Por meio dela, recusaremos todas as crengas em que notarmos a minima suspeita de incerteza. Instrumento da luz natural ou razao, a diivida € posta ao servico da verdade, da procura de uma justificagao para as nossas crengas e, portanto, do estabe- lecimento de um conhecimento seguro. Descartes adota inicialmente a pos- tura do cético, sujeitando a dtivida todas as crengas. Trata-se da célebre dti- vida metédica, E necessério colocar tudo em causa, no processo de busca dos principios fundamentais e indubitaveis. Se alguma crenga resistir & duvida, entéo ela podera ser a base ou o fundamento para as restantes. Por que razées, ento, se justifica a dtivida? RazOes que justificam a divida Por causa dos preconceitos ¢ dos juizos precipitados formulados na infancia. Porque os sentidos muitas vezes nos enganam e seria imprudéncia depositar uma confianca excessiva naqueles que nos enganaram, mesmo que sé uma vez. Se os sentidos e a experiéncia sensivel nos enganaram algumas vezes, convém fazer de conta que nos enganam sempre. Porque nao dispomos de um critério que nos permita discernir 0 sonho da vigilia. Se estivermos a sonhar, tudo o que julgamos saber seré ilusério. Porque alguns seres humanos se enganaram nas demonstragées matematicas. Porque pode existir um Deus enganador ou um Génio maligno (poderoso, astuto e que se diverte a custa dos nossos erros), que nos iludem a respeito da verdade, fa- zendo com que estejamos sempre enganados, seja no tocante as verdades e As demonstragdes das matematicas, seja no que se refere a prépria existéncia das coisas. 12 ena: A hipétese da existéncia do Deus enganador e a hipdtese da existéncia do Génio maligno — note-se que nao existe consenso entre os comentadores no tocante a saber se se trata ou ndo da mesma figura, ou se ambas as hipoteses 40 ou nao equivalentes — parecem condenar-nos a uma situagdo sem saida. Essas hipéteses — que conferem um caracter metafisico a divida ~ equivalem aadmitir que 0 entendimento humano é de tal natureza que se engana sempre, mesmo quando pensa captar a verdade. Por um lado, nao sabemos se o mundo exterior existe. Por outro lado, a pos- sibilidade de que "2 + 2 = 4" expresse uma proposigao falsa parece nao deixar espago a existéncia de qualquer certeza a respeito das nossas crengas. Ha, contudo, uma saida. Vejamos, entretanto, as caracteristicas da duvida cartesiana. Caracteristicas da divida cartesiana E um meio para atingir um conhecimento seguro, a certeza e a ver- Metédicae | Gade, nao constituindo um fim em si mesma. Mantém-se apenas ate proviséria se descobrir algo indubitavel. Hiperbélica | £ UMA divida levada a0 extremo. Considera como falso tudo aquilo em que se note a minima suspeita de incerteza. Incide sobre todas as nossas crencas, sobre o conhecimento em Universale | geval, mas também sobre os seus fundamentos ¢ as suas raizes, radical | pondo em causa a possibilidade de o construir (as faculdades do co- nhecimento sao postas em causa). Nao € uma duvida sofrida em termos psicolégicos, mas sim artificial otecsete, e estabelecida livremente. A divida implica uma suspensio do juizo, tendo uma fungao catartica, ja que liberta o espirito dos erros que o podem perturbar ao longo do processo de indagagao da verdade. Ao permitir que nos libertemos de preconceitos e opi- nides erréneas, ela abre caminho a possibilidade de reconstruir, com funda- mentos sélidos, 0 edificio do saber. Sendo um ato livre da vontade, a divida acabara por conduzir a uma ver- dade incontestavel: a afirmagao da minha existéncia, enquanto sou um ser que pensa e que duvida. Ainda que 0 Génio maligno me engane, ele jamais con- seguiré que eu seja nada enquanto eu pensar que sou alguma coisa. De facto, no pademos duvidar sem existir. Daqui decorre a natureza absolutamente verdadeira da afirmacao “Penso, logo existo” (ou entdo, “Cogito, ergo sum” — afirmacao frequentemente sinteti- zada no termo “Cogito’). Trata-se de uma afirmagao evidente e indubitavel, de uma certeza inabalavel, obtida por intuig&o, de modo inteiramente racional e a priori, e que servird de paradigma para as varias afirmagées verdadeiras. 13 Mas nao ha nada no “Penso, logo existo” que garanta ao filésofo que ele g est a dizer a verdade, exceto 0 facto de ele ver claramente que, para pensar, 6 2 preciso existir. Deste modo, Descartes péde adotar, como regra geral, aideia de que € verdadeiro tudo o que concebemos muito claramente e muito distinta- mente. O Cogito fornece, assim, 0 critério de verdade, que consiste na clareza e ingao das ideias. Ideias claras (por oposicao a ideias obscuras) e distintas (por oposigao a ideias confusas) so ideias evidentes. (Uma ideia pode ser clara e confusa, mas nao obscura e distinta.) Conhecimento claro Conhecimento distinto £ aquele que se diferencia de todos os outros, permitinds que o objeto conhe- cido se distinga dos demais. A distingao equivale, assim, & separagdo de uma ideia relativamente a outras, de tal modo que ela nao contenha elementos que nao Ihe pertengam. E aquele que se encontra presente e ma- nifesto a um espirito atento. A clareza diz, assim, respeito a presenga da ideia A mente que a considera com atencao. © Cogito é um exemplo de conhecimento claro e distinto (evidente). Enquanto primeira verdade, 0 Cogito surge-nos como erenga fundacional ou basica, pois serve de alicerce ao sistema do saber. Trata-se, pois, de uma crenga autoevidente e autojustificada que permite, por isso, negar a regresséo infinita da justificagdo. Além disso, o Cogito apresenta a condigao da divida hiperbélica — uma vez que existir é uma condigao necessaria para se poder du- vidar—e, a0 mesmo tempo, impde uma excegao a universalidade dessa divida — ha pelo menos uma realidade da qual n4o posso duvidar: a minha propria existéncia. A apreensao intuitiva da existéncia mostra-nos como esta é indissociavel do préprio pensamento. Deste modo, a natureza do sujeito consiste no pensa- mento, © pensamento refere-se a toda a atividade consciente: duvidar, afirmar, negar, conhecer, querer, imaginar, sentir. Além disso, ele é 0 atributo essencial da alma (substancia pensante), a qual é distinta do eorpo e é conhecida antes dele e de tudo o resto, de forma bastante mais facil, ao contrario daquilo que os preconceitos nos costumam sugerir. Quer 0 corpo exista ou nao, a alma é dis- tinta dele. O quadro seguinte sintetiza as caracteristicas do Cogito. sv o& Desericao emrerpreragao aa auviaaee cognuseuivet Caracteristicas do Cogito E um principio evidente e indubitavel, uma certeza inabalavel. Obtém-se por intuigdo, de modo inteiramente racional e a priori. Fornece o critério de verdade. € uma crenga fundacional relativamente ao sistema do saber. Apresenta uma condicao necessaria da duvida e impOe uma excegao a universal dade desta divida. Revela a natureza do sujeito: pensamento. Mas ainda nao afastamos a hipdtese da existéncia do Génio maligno ou do Deus enganador. Se excetuarmos o caso do Cogito, nada impede que uma vindade enganadora ou malévola me leve a tomar como claro e distinto algo que nao é verdadeiro. Necessitamos, pois, de demonstrar a existéncia deum Deus que nao nos engane, que traga seguranca e seja garantia das verdades, afastando de vez qualquer ameaga do cet Apesar de evidente, a certeza “Penso, logo existo’ é uma certeza subjetiva. Torna-se, pois, necessdrio averiguar o que se encontra na base do pensamento ena origem da existéncia do sujeito pensante. Este descobre-se como um ser imperfeito. Possuir o saber sera uma perfeigéo maior do que duvidar. Mas partamos das ideias que estao presentes no sujeito. Elas possuem um contetido que representa alguma coisa. Eis essasideias: ‘ismo. Tipos de ideias Exemplos ‘Tam origem na experiéncia sensivel Adventicias | ou seja, nas impressdes que as coi- | Ideias de barco, copo, cao. sas causam nos sentidos. Sao fabricadas pela imaginacdo, a _ ideias de centauro, dragao, Facticias | (partir de outras ideias. sereia eee SAo ideias constitutivas da prépria _ Ideias de pensamento, exis- razo e que ja nascem connesco. tncia, Ideas matematicas As ideias inatas sao as “sementes das ciéncias’, “verdades eternas’, pendentes da percegdo sensivel, nogdes que a diivida metédica e voluntari permitira revelar em nés, na sua clareza e distingao. Entre as ideias inatas que possuimos encontra-se a nocdo de um ser per- feito, um ser omnisciente, omnipotente e sumamente bom. A ideia de ser per- © feito servird de ponto de partida para a investigacdo relativa a existéncia do ser divino. Descartes demonstra a existéncia de Deus mediante trés provas. nde- 15 A primeira prova parte da constatagao de que na ideia de ser perfeito estao compreendidas todas as perfeicdes. Sendo a existéncia uma dessas perfe des, ou um dos aspetos da perfeicao divina, entdo Deus, que € 0 ser perfeito, existe necessariamente — existéncia necessaria e eterna. O facto de existir € inerente a esséncia de Deus, de tal modo que este ser ndo pode ser pensado como nao existente. Esta prova é designada argumento ontolégico, sendo de- senvolvida a priori, sem recurso a causalidade ou a experiéncia. A segunda prova, ou argumento da marca impressa, toma igualmente como ponto de partida a ideia de ser perfeito. A causa que faz com que essa jeia (que representa uma substancia infinita) se encontre em nés nao pode sero sujeito pensante ou outra realidade finita e imperfeita, mas sim o proprio Deus, que possui todas as perfeicdes representadas na ideia de ser perfeito. A terceira prova baseia-se igualmente no principio da causalidade. A causa da existéncia do ser pensante, finito, contingente, imperfeito, sem o poder de se conservar no seu préprio ser, nao € o préprio sujeito pensante (muito menos © nada), mas sim o criador (e conservador) do ser imperfeito e finito, assim como de toda a realidade, ou seja, Deus (que é causa de si mesmo). Deste modo, sendo perfeito, Deus nao é um ser enganador, pelo que nos encontramos libertos da dimensao hiperbélica e mais corrosiva da divida. A hipétese do Deus enganador é rejeitada em definitive e a hipétese do Génio maligno é esvaziada de eficdcia. Deus é a garantia da verdade objetiva das ideias claras e distintas, pois ele constitui, afinal, a garantia de que nao nos enganamos. Tudo aquilo que se concebe clara e distintamente é necessaria- mente verdad Sendo criador das verdades eternas, a origem do ser e o fundamento da certeza, Deus garante a adequagao entre o pensamento evidente e a realidade, legitimando 0 valor da ciéncia e conferindo objetividade ao conhecimento. Deus é 0 principio do ser e do conhecimento. Além disso, Deus é também infinito, a fonte do bem e da verdade; 6 omnipo- tente, eterno, omnisciente e, embora sendo o criador do Universo, nao é autor do mal nem é responsavel pelos nossos erros. Uma vez provada a existéncia de Deus, Descartes ira também provar a exis- téncia do corpo, do mundo material e das coisas exteriores em geral, apoiado na certeza de que Deus nao 0 engana. Podera assim superar todos os argu- mentos dos céticos radicais. Apesar de Deus existir, nao estamos libertos da possibilidade do erro. Im- porta sublinhar que na formulagao de juizos o entendimento tem um papel fundamental, mas é a vontade que dao consentimento aos juizos que o enten- dimento formula. Sendo livre, é ela quem decide dar (ou nao) o assentimento aos juizos. Erramos quando se verifica uma precipitagao da vontade, quando usamos mal a nossa liberdade e damos o consentimento a juizos que nao séo evidentes. 16 1 Descrigao e interpretacao da atividade cognoscitiva No que se refere aos corpos, sé 0 conceito de extensdo (em comprimento, largura e altura) nos fornece um conhecimento claro e distinto. Distinguem-se as qualidades objetivas (grandeza, duragao, figura, etc.) das qualidades subje- tivas (sabor, cheiro, cor, som, etc.), que ndo est&o presentes enquanto tais nos corpos. Segundo Descartes, podemos assim ter ideias claras e distintas dos atribu- tos essenciais de trés tipos de substancias: ‘Tréstipos de substancias Substancia pensante (res cogitans) Substancia extensa (res extensa) Atributos essenciais Pensamento, Extensao, Varios atributos, todos eles numa perfei Ao infinita Substancia divina (res divina) Em virtude da simplicidade divina, todos os atributos de Deus ~ omnipotén- omniscién. , suma bondade, etc. — sao atributos essenciais. Por sua vez, 0 ser humano constitui uma unidade de duas substncias: a unidade da alma (substancia pensante) e do corpo (substancia extensa) ~ 0 dualismo alma-corpo ou dualismo cartesiano. Se as ideias fundamentais sao inatas, a razéo, desde que devidamente orientada, é capaz, assim, de alcangar um conhecimento claro e distinto. As principais verdades, das quais se deduzirao outras, sao: = a existéncia do pensamento (alma), traduzida no Cogito; + aexisténcia de Deus, ser perfeito, com os atributos respetivos; + aexisténcia de corpos extensos em comprimento, largura e altura. Deste modo, para Descartes 0 fundamento do conhecimento encontra-se no Cogito, enquanto crenga basica ou fundacional e primeira verdade, e nou- tras ideias claras e distintas da razao, obtidas de modo intuitivo. Trata-se de um. fundacionalismo racionalista. Todavia, este fundamento do conhecimento depende daquele que é o prin- cipio de toda a realidade: Deus. Deus nao s6 nao é responsavel pelos nossos erros — estes decorrem de um mau uso da liberdade — como é a fonte das ideias. inatas, claras e distintas, e a garantia da verdade e da objetividade do conheci- mento. A perspetiva cartesiana esta sujeita a algumas objegées. Vejamos trés des- sas objecées: 5 i - A primeira tefere-se ao Cogito. Segundo alguns autores, Descartes apenas poderia intuido a existéncia do pensamento e nao de um eu pensante. Mais correto seria dizer, por exempl ‘Ha um pensamento que esté a ter lugar” ou 7 “Existe pensamento’, Isso nunca seria suficiente para afirmar a existéncia de um eu pensante. A-segunda é relativa ao circulo cartesiano. Descartes tera incorrido num ar- gumento circular ou peticdo de principio. Por um lado, € 0 facto de raciocinar- mos a partir da ideia clara e distinta que temos de Deus que nos ira garantir que Deus existe. Mas, por outro lado, é Deus — que existe e ndo ¢ enganador — que garante a verdade e a objetividade das ideias claras e distintas (in- cluindo a prépria ideia de Deus como ser perfeito). Isto pode ser dito de outro modo: temos necessidade de confiar no nosso intelecto ou na nossa razio para provar a existéncia de Deus e, todavia, sem 0 conhecimento prévio da existéncia de Deus nao temos, em principio, quaisquer motivos para confiar no intelecto ou na razao. A terceita objegao incide sobre 0 dualismo cartesiano (dualismo alma- -corpo). O facto de Descartes considerar que a alma é uma substancia dis- tinta da substancia corporal torna dificil explicar como se daa interagao des- sas substancias. Segundo Descartes é na glandula pineal, “o principal assento da alma’, que ocorre essa interagdo, através daquilo a que ele chama ‘espiritos animais", Mas estes sao de cardcter material, pelo que o problema da interacdo das substancias permanece. 1.2.3. Hume, a resposta empirista Descartes atribuia um grande valor a razdo e ao conhecimento a priori. David Hume, pelo contrario, privilegiava 0 conhecimento a posteriori, admi- tindo que a capacidade cognitiva do entendimento humano é limitada. E na experiéncia, ou nas impressées dos sentidos, que o fundamento do conheci- mento deve ser procurado. Hume sustenta que Descartes néo encontrou um fundamento para 0 co- nhecimento capaz de refutar os céticos radicais. Se fosse mesmo levada ao extremo (0 que no é possivel), a divida universal recomendada por Descartes seria incuravel e nunca o poderia conduzir a qualquer certeza. Mas, mesmo que ela 0 conduzisse ao Cogito, nao se poderia avangar um passo para além do saber, exceto usando aquelas mesmas fa- culdades das quais supostamente ja desconfiamos. Assim, ao racionalismo de Descartes, para quem a razéo € a fonte principal do conhecimento, opde-se o empirismo de Hume, para quem © conhecimento deriva fundamentalmente da experiéncia, tendo todas as crencas e ideias uma base empirica, até as mais complexas. As varias percegées humanas sao classificadas por Hume segundo o crité- dele e construir assim o edifici rio da vivacidade e da forga com que sao suscetiveis de impressionar o espirito. r grau de forga, nitidez e vivacidade desig- nam-se por impressdes, que incluem as sensacdes (auditivas, visuais, tateis, As percegées que apresentam mi 18 1 Descrigdo einterpretacao da atividade cognoscitiva etc.), as emogées e€ as paixdes (o amor, o odio, o desejo, a ira, etc.), enquanto vi venciadas e presentes ao espirito. Ora, a percegao de algo presente aos sent dos 6 sempre mais vivida e tem maior intensidade do que a sua representagao. Asideias ou pensamentos sao, justamente, as representagées das impres- ses, ou seja, so as imagens ou cépias enfraquecidas das impressdes, nunca alcangando vivacidade, intensidade e forga iguais as destas tltimas. O pensa- mento mais vivido 6, inclusive, inferior 4 sensacdo mais baca. Podemos compreender esta diferenga recorrendo a dois exemplos: uma impressao é a cor da flor que os olhos veer; uma ideia é a meméria dessa cor. Uma impressdo 6 a dor de dentes enquanto vivida; uma ideia 6 a lembranga dessa dor. No tocante as diferentes ideias, Hume considera que as da meméria so, por sua vez, mais fortes e vividas que as da imaginagdo, sendo que esta nao fica sujeita & mesma ordem e forma das impressdes originais, enquanto a meméria, de certo modo, fica presa & configuragao dessas impressées Que relagao existe entre impressdes e ideias? As ideias derivam das im- pressées. Todas as nossas ideias (ou perceges mais fracas) so, de modo di- reto ou indireto, cépias das nossas impressdes (ou percegdes mais intensas). E 0 chamado principio da cépia. Nao podem, pois, existir ideias paraas quais nao \s cépias das impressées, tenha havido uma impress&o prévia. Sendo as id nao existem ideias inatas. Asimpressées e as ideias podem ser divididas em simples e complexas. As primeiras (como as que dizem respeito a um certo tom de vermelho) sao as que no admitem qualquer separaco ou diviséo. As complexas (como as que re- sultam de ver ou de pensar numa cidade) séo as que podem ser divididas em partes, resultando da combinagao das impressdes ou das ideias simples. as ideias com- As ideias simples derivam de impressdes simples, mas m plexas (formadas, por exemplo, na imaginacao) nao tém impressées complexas que Ihes correspondam, e muitas das impressées complexas nunca sao exata- mente copiadas em ideias (ou seja, as ideias em causa nao sao cépias exatas dessas impressoes). Se nao pudermos indicar a impressdo correspondente a uma determinada ideia, entéo estamos perante uma ficgao — embora também as ficgdes tenham por base, em Ultima instancia, as impressdes, uma vez que so ideias construi- das a partir delas. A ideia de Deus, por exemple, referindo-se a um Ser infinitamente inteli: gente, sabio e bom, é uma ideia complexa em que se eleva sem limite as quali- dades de bondade e sabedoria. Nenhum objeto da experiéncia sensivel Ihe corresponde. Asideias e as impressées sao os elementos do conhecimento. Por isso, é na experi se reduzir 4 multiplicidade das impressdes e das ideias, bem como das relagées ites impostos pelas impressoes. ncia que se encontra o fundamento do conhecimento. Tudo acaba por = entre elas. Nao ha conhecimento fora dos lit 19 Para além da distingao estabelecida entre os elementos do conhecimento, Hume distingue também dois modos ou tipos de conhecimento: 0 conheci- mento das relagSes que existem entre as ideias — relagdes de ideias — e 0 co- nhecimento de factos— questées de facto. Tendo todas as ideias uma origem empirica, nao dispomos de conhecimen- tos a priori sobre o mundo propriamente dito — que 6, afinal, o mundo da expe- riéncia. S6 o conhecimento a posteriori é que nos pode dizer como sao as ci sas, Tal nao significa que nao haja conhecimentos a priori. Simplesmente, esses conhecimentos nada nos dizem de substancial acerca do mundo. Afirmar, por exemplo, que “o todo é maior do que cada uma das suas par- tes’, que “7-5 = 2” ou que "uma bola vermelha tem cor" produzir enunciados independentes dos factos. Trata-se de proposigdes verdadeiras, referentes a relacdo entre as ideias referidas, e que se descobrem pela simples operagao do Pensamento, através da andlise do significado dos conceitos. Embora tais ideias nao deixem de derivar da experiéncia, a relagdo entre elas é indepen- dente da experiéncia. A sua verdade nao esta dependente do confronto coma experiéncia. Estes conhecimentos apresentam um cardcter evidente, traduzindo-se em Pproposigées necessarias. Elas baseiam-se no principio da contradig&o (ou principio da nao contradigao): negar essas proposigées implica uma contradi- cao. Assumem estas caracteristicas 0s conhecimentos da légica e da matema- tica (geometria, Algebra, aritmética), incluindo assim todas as afirmagGes que sejam intuitiva ou demonstrativamente certas. Ora, sao diferentes as caracteristicas do conhecimento referente aos fac- tos. Afirmar que “chove’, ou que “a Terra gira em torno de seu proprio eixo" é apresentar enunciados relativos a factos e cuja justificagao se encontra na ex- periéncia sensivel, nas impressées. O valor de verdade destas proposigées sé pode ser determinado recorrendo a experiéncia. A certeza das proposigées relativas a factos ndo se fundamenta no princ pio da contradi¢do, j4 que nao é logicamente contraditério negar uma afirma- Gao relativa a factos. Se dissermos que “amanhéi a Terra ndo vai girar em torno de seu préprio eixo’, nao ha nisso nada de contraditério, ndo estamos perante uma contradigao nos termos, ao solteiro 6 casado" ou que "2 +2= 5", As questées de facto traduzem-se, assim, em proposigées que nao sao ne- cessarias, mas sim contingentes. Assumem estas caracteristicas, por exem- plo, os conhecimentos das ciéncias naturais. Temos, pois, diferentes verdades nestes dois tipos de conhecimento: és do que sucede quando se admite que “o Tipos de Proposicées desses conhecimento conhecimentos Beemeloe Sao sempre verd 2e2-4 deiras emquais- | 4 -aiz quadrada de 8! € 9. quer circunstan- Relagdesde | Expressam | Oe nea Dados dois pontos distin- ideias verdades | poderiam ter sido | tos, hd um Unico seg- (a priori) necessarias | Paisas mento de reta que os une. Negiiastmpiisa: Nenhum casado é sol- contradigao. teiro. Sao verdadeiras, Descartes foi um filésofo Questdesde | Expressam | maspoderiamter | frances. facto verdades | sido falsas. Ocalor dilata os corpos. (posteriori) | contingentes | Negé-las nao im- A Segunda Guerra Mun- plica contradigao. | dial terminou em 1945. Apoiados nesta diferenciagao, podemos agora analisar a perspetiva de Hume sobre a causalidade. A ordem ¢ a regularidade das nossas ideias assentam em principios que permitem uni-las e associé-las. Os principios de associacao de ideias sao os seguintes: Principios de associagao deideias EEERIDIOn Semelhanga Um resto desenhado remete-nos para 0 rosto original. Contiguidadeno | A lembranca de um comboio leva a pensar na estac&o, tempoenoespago | nos passageiros, etc Causalidade(causae | A agua fria posta ao lume (causa) faz pensar na fervura efeito) (efeito) que se the seguir’. Aanilise da relagao de causa e efeito assume particular relevancia na teo- tia do conhecimento de Hume. Em rigor, 0 nosso conhecimento dos factos restringe-se As impressées atuais e as recordacGes de impress6es passadas. S6 com base nessas impres- s6es e recordages € que podemos justificar as nossas crengas. No entanto, hd muitas afirmagdes que fazemos e que nao podemos justificar se nos basear- mos apenas no testemunho da meméria ou na experiéncia imediata dos senti- dos. Por exemplo: “O préximo papel que deitarmos a Agua molhar-se-a’, “Todos os gatos sao Carnivoros” ou “A causa da dor deste dente é a carie”. Eis-nos diante de proposigées cujas eventuais verdades sao contingentes, relativas a questées de facto ~ conhecidas, portanto, a posteriori. Mas aquilo que estamos a dizer ainda nao foi observado (no observamos 0 préximo papel : i a1 que deitarmos a agua a molhar-se), ou sé 0 foi parcialmente (s6 observamos alguns e nao todos os gatos), ou nunca chega a ser observado (sabemos que = ha uma cérie no dente e que este déi, mas no vemos que uma coisaéa causa © da outra). Para percebermos 0 problema da causalidade, atentemos no exemplo da dor no dente. A conclus&o segundo a qual "A causa da dor deste dente é a carie” tem por base a relagao de causalidade ou relagdo de causa e efeito (ou relagdo causa-efeito): a dor é vista como o efeito cuja causa é a carie. Neste sentido, de acorde com Hume, conhecimento da relacao de causa e efeito nao é obtido por raciocinios a priori, mas deriva totalmente da expe- riéncia, ao apercebermo-nos de que certos objetos ou fenémenos particulares se combinam constantemente uns com os outros. Todavia, se a experiéncia nos revela uma dor e uma carie, ela ndo nos diz que a cérie € a causa da dor. Entao 0 que nos leva a pensar que a carie é a causa da dor? Arelag&o de causa e efeito 6 normaimente concebida como sendo uma co- nexdo necessaria. Ou seja, acreditamos que aquilo a que chamamos efeito nao pode ocorrer sem aquilo a que chamamos causa e que esta causa produzira necessariamente aquele efeito. Sucede, no entanto, que nao dispomos de qualquer impressao relativa a ideia de conexao necessaria entre fendmenos. Ninguém vé ou perceciona uma conexao necessaria, A Unica coisa que percecionamos é que entre dois fenémenos, eventos ou objetos se verifica uma conjungao constante: um deles ~ a que chamamos efeito ~ ocorreu sempre a seguir ao outro — a que chamamos causa. Conclui- mos entao que existe entre eles uma relacdo de causalidade e que essa rela- ao de causalidade constitui uma conexdo necessaria. Tal conexdo nao € ra- cionalmente justi Esta ideia de conexao necessdria tem apenas um fundamento psicoldgico: o habito ou costume. E 0 habito de ver um facto suceder a outro que nos levaa crenga de que sempre assim sucedera e de que um facto nao pode ocorrer sem © outro. Ora, o hébito ou costume é um guia imprescindivel da vida pratica, tor nando Util a experiéncia e fazendo-nos esperar, para o futuro, uma série de eventos semelhantes aqueles que se verificaram no passado. Todavia, ele re- duz-se a um sentimento ou a uma tendéncia de cariz psicolégico, nao consti- tuindo um principio racional. O problema da relagao de causalidade articula-se com o problema da indu- ¢40, equivalente ao problema da uniformidade da natureza. A ideia de que a natureza é uniforme associa-se a crenga na similitude dos eventos e na su- posta conexao necesséaria entre alegadas causas e alegados efeitos. Analisemos © problema da indugdo partindo dos outros dois exemplos apresentados. Também nestes casos vamos para la da experiéncia, efetuando inferéncias de caracter indutivo: uma previsdo, ao dizermos que "O préximo cavel. 22 papel que deitarmos a 4gua molhar-se-é”, e uma generali que “Todos os gatos so carnivoros'. ago, 20 afirmarmos Segundo Hume, qualquer argumento indutive pressupSe (como premissa) 0 principio de que o futuro se assemelha ao passado, principio que ele desig- nou por prince! segundo o qual a natureza sempre funcionara da mesma forma, de modo previ- sivel e regular, ou que as leis da natureza sao invariaveis. Mas sera que este principio € racionalmente justificavel? Se 0 nao for, também a indugdo 0 nao sera. Vejamos: io da unifor jade da natureza (PUN). Trata-se de um principio 1. Se a conclusao de um argumento indutivo for racionalmente justificada pelas premissas, entdo PUN tem de ser racionalmente justificavel. 2. Se PUN for racionalmente justificavel, ento tem de existir um bom argu- mento indutivo ou um bom argumento dedutivo a seu favor. 3. Ora qualquer argumento indutivo a favor de PUN é circular: partimos, por exemplo, da ideia de que até agora a natureza sempre fi niforme e con- cluimos que a natureza é sempre uniforme. Ou seja, justificamos PUN através da indugao, mas essa indugao jé pressupde PUN, tornando-se cir- cular (peticao de principio). Logo, nao existe um bom argumento indutivo a favor de PUN. 4, PUN também nao é uma verdade a priori, uma relagdo de ideias ou uma verdade conceptual que se deduz das definigdes dos seus termos: nao é contraditério pensar que a natureza deixar de ser uniforme ou que as re- gularidades do passado deixarao de se verificar no futuro. Assim, PUN nao resulta de um raciocinio a priori, nem se conclui dedutivamente das ob- servacées feitas até agora. Logo, nfo existe um bom argumento dedutivo afavor de PUN. Portanto, PUN nao é€ racionalmente justificavel. 6. Se PUN nao é racionalmente justificavel, também nao ha justificagao ra- cional para as crengas obtidas por indugo (previsdo ou generalizacao). w Em suma, segundo Hume, nao ha qualquer forma de justificar racional- mente as crengas obtidas por indugao, seja como previsao, seja como genera- lizagdo. Essas crengas assentam num pressuposto (PUN) que ndo pode ser ra- cionalmente justificado. Se ducdo é injustificdvel, ainda mais o sera se nao for estabelecida entre impressdes, ja que nos devemos limitar ao Ambito empirico. Deste modo, as trés substancias que Descartes concebera clara e distintamente — o eu, 0 mundo (a realidade exterior) e Deus ~ deixam de fazer parte do horizonte do nosso conhecimento. Se Descartes achara indubitavel a existéncia do eu pensante, objeto de uma intuigdo imediata, Hume considera que nio se deve recorrer a qualquer tipo de intuicdo para justificar a existéncia do eu como substancia, como 23 sujeito permanente dos varios atos psiquicos, pois s6 dispomos da intuicdo de 2 ideias e impressées. Ora, se alguma impressdo gerasse a ideia de eu, ela deve- = ria permanecer invariavel ac longo da vida. Mas nao ha impresses constantes einvariaveis. As impressdes sucedem-se umas as outras de forma ininterrupta, nao havendo nenhuma que seja permanente. Por isso, a ideia de eu nao deriva de qualquer impressao. Sendo assim, a erenga na existéncia de um eu perma- nente, como substancia distinta das impressées e ideias, ¢ injustificavel. Analisemos agora 0 que se passa em relagao ao mundo exterior. As impres- sées constituem a Unica realidade acerca da qual dispomos de alguma certeza. Que dizer, nesse caso, da existéncia do mundo exterior? S6 podemos conside- rar real um hipotético mundo exterior se as coisas forem independentes das nossas percegées (se, por exemplo, uma flor existir independentemente das impressées que temos dela). Ora o problema reside justamente no facto de nao termos experiéncia ou impressao de tal realidade exterior. S6 temos acesso ao contetido das nossas mentes, as nossas percegées (impressées e ideias). Logo, afirmar a existéncia de uma realidade que seja a causa das nossas impressées e que seja distinta delas e exterior constitui uma crenga injustificada e injustificavel. De onde procedem entdo as impressées? Nao sabemos. No que se refere a existéncia de Deus, reconhecendo que o que concebe- mos como existente também o podemos conceber como nao existente, Hume considera que nao existe um ser cuja nao existéncia implique contradigao. Como tal, 0 argumento ontolégico ¢ desde logo excluido. Também as provas da existéncia de Deus baseadas no principio da causalidade sao criticadas por Hume, uma vez que nao se limitam as impress6es, mas vao das impressGes a Deus, que nao é objeto de qualquer impressio. O empirismo de Hume condu-lo ao fenomenismo e ao ceticismo. Dado que sé conhecemos as percegées, a realidade (pelo menos aquela a que acedemos) acaba por se reduzir aos fendmenos, ou seja, aquilo que apa- rece ou que se mostra — dai o fenomenismo. Nao encontramos qualquer funda- mento real da conexéo das percegées, ou um principio de unidade das perce- ges que delas se diferencie (nem uma realidade exterior nem uma substéncia pensante). Hume é um filésofo cético ao mostrar que muitas das coisas que julgamos saber ndo as sabemos de facto. Desde logo, nao sfo racionalmente justificd- veis a indugao e a crenga no principio da uniformidade da natureza — pelo que nao ¢ legitimo afirmar que temos um conhecimento cientifico dos fenémenos. So igualmente injustificdveis a crenga na existéncia do mundo exterior ea crenga em realidades que transcendam o dominio da experiéncia (como uma substancia pensante ou Deus). Deste modo, a capacidade cognitiva do enten- dimento humano apresenta limites e tem uma natural propensao para o erro. Hume afasta-se do ceticismo radical ou pirrénico. Se duvidassemos siste- maticamente de tudo, se abandonassemos a crenga na existéncia do mundo exterior, no principio da causalidade (mesmo que este ndo seja um principio racional) ou no principio da uniformidade da natureza, cairiamos numa hesita- co constante e a vida pratica tornar-se-ia impossivel. Também as cién se poderiam desenvolver, jé que elas assentam nas relagées causais que esta- belecemos entre os fendmenos. Hume adota, assim, um ceticismo mitigado ou moderado, reconhecendo nessa atitude uma forma de evitar cair no dogmatismo, de salvaguardar a im- parcialidade e a moderac&o nas opinides e nos juizos, de apartar a mente dos preconceitos, de nos defendermos das afirmagées precipitadas e temerarias ou das decisées imprudentes e de nos precavermos contra as investigages de cardcter especulativo (como as da tradigao metafisica anterior a Hume), afas- tadas da experiéncia e das informagées dos sentidos. Sendo um cético moderado, mas nao radical, Hume encontrou na experién- cia dos sentidos 0 fundamento do conhecimento. Trata-se de um fundaciona- lismo empirista. E quais sero as crengas basicas para um empirista? Se tenho, por exemplo, a crenga de que esta uma laranja em cima da mesa, ela é justifi- cada pela minha crenga basica de que estou a ter a experiéncia de ver uma la- ranja em cima da mesa. A esta crenga basica ~ que permite evitar a regressio infinita da justificagéio ~ subjaz a natureza da experiéncia sensorial e percetual, ou seja, subjazem as impressées dos sentidos. As crencas basicas para um empirista so, pois, as crencas de que se esta a ter esta ou aquela experiéncia. Assim, os tinicos principios autoevidentes e convincentes encontra-os Hume na experiéncia. A perspetiva de Hume nio esta isenta de objegées. Vejamos duas delas: sna0 + Uma primeira objegao foi sugerida pelo préprio Hume, com o exemplo do tom de azul desconhecido. Uma pessaa a quem seja apresentado um vasto leque de tons de azul, a excegdo de um tom em particular, que também nunca viu antes, pode formar uma ideia deste tom de azul desconhecido, mesmo sem ter tido a impressao correspondente. Segundo a teoria de Hume, isso seria impossivel, ja que essa pessoa nunca teve qualquer impress&o simples 4 qual pudesse corresponder a ideia desse tom de azul. Mas Hume nao se revelou muito preocupado com este contraexemplo ao principio da cépia, considerando tratar-se de uma situacio demasiado singular para o levar a modificar os seus principios filoséficos basicos. + Hume parece considerar que uma crenga sé se encontra racionalmente jus- ficada se existir uma prova irrefutavel da sua verdade. Mas alguns autores, como Bertrand Russell (1872-1970), admitem que pode nAo existir uma prova refutavel da verdade deumacrengaeesta encontrar-se racionalmente jus- ificada. Assim, a crenga na existéncia de conexdes causais (injustificada, g 25 segundo Hume) parece constituira melhor e mais razoavel explicagao para a ocorréncia das conjungées constantes. Tambem a hipétese da existéncia do mundo exterior — ou de objetos independentes de nés que sao causa das nossas impressées — parece constituir uma hipétese melhor e mais simples do que a hipdtese de esse mundo exterior nao existir ou ser ilusdrio (mesmo que esta Ultima hipotese nao seja logicamente impossivel). Em ambos os casos, estamos a usar 0 argumento a favor da melhor explicagao (ou abdu- 40): entre as varias explicacdes possiveis, aceitamos a melhor. Isso seré su- ficiente para que ambas as crengas estejam racionalmente justificadas. 1.2.4. Analise comparativa das perspetivas de Descartes e Hume O quadro que se segue procura estabelecer uma comparagao entre os princ!- pais aspetos das teorias filoséficas do conhecimento de Descartes e de Hume. DESCARTES HUME A experiencia (as impressoes dos sentidos) 6 a fonte principal do conhecimento e todas as ideias tém uma origem empirica ~ emp rismo. Valorizacao do conheci- mento a posteriori, Nao existem ideias inatas. As ideias derivam das impressées. As tem ideias inatas. A partir | operagées da mente baseiam-se destas Gitimas, 6 possivel | nos princfpios de associagao de A razéio ou pensamento é Fonte ou origem | a fonte principal do co- do nhecimento — raciona- conhecimento | lismo. Valorizagao do co- nhecimento a priori. Operagdesda | obter o conhecimento, | ideias: a semelhanca, a contigui- mente, ideiase | mediante as operacées | dade no tempo e no espago e a raciocinios | fundamentaisdamente: a | causalidade. Sublinha-se o papel intuigio e a dedugao. | do raciocinio indutive, embora Sublinha-se 0 papel do ra- | Hume reconhega nao haver forma ciocinio dedutivo na ob- | de justificar racionalmente as tengao do conhecimento. | crengas obtidas por indugao. 26 cus Possibilidade ou validade do conhecimento Usando a divida, Descar- tes adotou um ceticismo metédico. Mas, depois de submeter as crengas a du- vida, mostrou ser possivel © conhecimento da reali- dade, refutando o ceti- cismo radical Podemos ter ideias claras € distintas dos atributos essenciais de trés tipos de substancias: —a substancia pensante; ~a substancia extensa: ~a substancia divina. HUME Hume € um filésofo cético ao mostrar que muitas das coisas que julgamos saber nao as sabe- mos de facto. A capacidade cogni- tiva. do entendimento humano apresenta limites e tem umanatu- ral propensao para o erro. Afas- tando-se do ceticismo radical ou Pirrénico, Hume adota um eceti- cismo mitigado ou moderado. Nao encontramos qualquer prin- cipio de unidade e conexio das percecées que delas se diferen- cie. Nao temos impressoes: ~— de uma substaneia pensante; ~de uma realidade exterior; — de Deus. Fundamentacao do conhecimento © fundamento do conhe- cimento encontra-se na raziio, mais propriamente no Cogito, enquanto erenga basica ou funda- cional e primeira verdade, e noutras ideias claras e distintas da razdo, obti- das de modo intuitivo. To- davia, este fundamento do conhecimento de- pende daquele que é o principio de toda a reali- dade: Deus. © fundamento do conhecimento encontra-se na experiéncia, mais propriamente nas impressoes dos sentidos. As crencas basicas de que se esta a ter esta ou aquela experiéncia justificam —outras crengas que delas se inferem. 27 O estatuto do conhecimento cientifico 2.1. Conhecimento vulgar e conhecimento cientifico Aliada a técnica e a tecnologia, a ciéncia trouxe, ao longo dos tempos, int- meras vantagens e comodidades. O sucesso das suas aplicagées permitiu-Ihe aleangar um estatuto superior ao de outras formas de conhecimento. A maio- ria das pessoas valoriza a ciéncia ¢ o conhecimento cientifico sob a crenca de que sao fidveis, seguros e superiores as outras formas de compreensao da rea- lidade, considerando que s6 no saber cientifico existe rigor cognitivo. Este modo de enearar a ciéncia é o chamado eientismo, atitude que leva o grande ptiblico a depositar na ciéncia toda a sua confianga e esperanga, mesmo sem compreender muitas das suas teorias. A area da filosofia que se ocupa das questoes relativas a pratica e ao co- nhecimento cientificos, procedendo ao estudo critico dos prineipios, das hipé- teses, dos métodos, dos raciocinios e dos resultados das diversas ciéncias, a fim de determinar a sua origem légica, 0 seu valor e a sua importancia objetiva, éa filosofia da ciéncia, também designada por epistemologia. Aciéncia distingue-se do senso comum ou conhecimento vulgar, conheci- mento essencialmente pratico, formado a partir da apreensao sensorial es- pontanea e imediata da realidade e transmitido de geragao em geracao. Ao contrario do conhecimente cientifico, o senso comum nao é aprofundado, nem decorre de investigagdes pianificadas e apoiadas em testes e resultados expe- rimentais. Por isso, 6 superfici ciplinar e ametédico, tendo a sua jus- jana ¢ traduzindo-se num conjunto de suposi- ges, pressentimentos, preconceitos e ideias feitas. O conhecimento cientifico resulta de uma leitura dos fendmenos diferente daquela que 0 conhecimento vulgar nos proporciona, representando também um nivel mais aprofundado do conhecimento que podemos ter acerca da rea- lidade. Baseia-se em pesquisas e investigagées apoiadas em procedimentos (métodos) coerentes e consistentes relativamente a um conjunto de pressu- postos teéricos adotados pelos cientistas; faz-se acompanhar, na maioria dos casos (sobretudo nas ciéncias experimentais), de instrumentos de medida; plica a construgao de conceitos e teorias e o recurso a uma linguagem especi- fica e rigorosa — frequentemente de cariz matematico -, procurando descrever, explicar e prever os fendmenos e as suas relagées e apontando as leis que Ihes presidem. 28 cust 2. Cestatuto do conhecimento cientifico A critica ou a rutura que 0 conhecimento cientifico estabelece com o co- nhecimento vulgar resulta de uma atitude diferente face ao real. Conhecimento vulgar (senso comum) Conhecimento cientifico — Confia nos sentidos; ~ Desconfia des sentidos; ~E sensitivo; — problematizador e racional; ~ Manifesta-se numa atitude dogmética: | — Manifesta-se numa atitude critica: ~ Tem uma finalidade pratica; — Tem uma finalidade explicativ. ~ Eametodico e assistematic: ~E metédico e sistematico. ~ Utiliza uma linguagem imprecisa. = Utiliza uma linguagem rigorosa. Desde 0 inicio, a ciéneia sempre procurou constituirse como um conjunto de conhecimentos e procedimentos sistematizados e organizados, tendo em vista a produgao de leis e teorias capazes de descrever, explicar ¢ prever os fenémenos. Assim, 0 conhecimento cientifico (sobretudo no caso das cias empiricas): + Procura ser objetivo, tendo em aten¢ao os factas e excluindo as apreciagées subjetivas. + Assenta num método especifico —_o método experimental, no caso das cién- cias empiticas. + Resulta da formulacao de hipéteses, que procuram ordenar a diversidade empirica + Econstituido por um conjunto de teorias (hipéteses ja estabelecidas e com- provadas). + Procuraleis, que exprimem a invariancia ea repetibilidade dos factos, muitas vezes expressas em termos estatfsticos ou probabilisticos. + E preditivo, pois prevé a ocorréncia de novos fenémenos. + E revisivel, estando sujeito a corregées e a alteragdes. + E provisério, visto manter-se como aceitavel até surgir outra teoria mais efi- caz e mais préxima da verdade. Tradicionalmente consideram-se dois tipos fundamentais de as formais (ou exatas) e as empiricas. Enquanto as ciéncias empiricas se ocupam dos factos e acontecimentos que ocorrem no mundo e que podémos conhecer através da experiéncia, as formais ocupam-se de simbolos e das relagdes que se podem estabelecer entre eles, néo precisando de recorrer A experiéncia para obter resultados. Classificagao das ciéncias Formais: estudam conceitos, estruturas © processos pura | ggica mente légicos, abstratos @ simbdlicos, sendo as suas pro- posigdes independentes da experiéncia (a priori). Matematica 29 Classificagao das ciéncias Bi log Naturais: estudam factose | Quimica acontecimentos caracteris- | Fisica ticos da natureza. Reuonornts Empiricas: lidam com pro- posigdes que sao justifica- das com base na observa- gao ena experimentagao (a Sociologia posteriori. Sociais e humanas: estu- | peicologia dam factos e acontecimen- | , ‘ Histéria tos caraeteristicos da vida social e humana Economia Apesar destas distingdes, ha muitas situagdes em que as ciéncias coope- ram entre si. 2.2. Ciéncia e construgao — validade e verificabilidade das hipéteses 2.2.1. O problema da demarcagao do conhecimento cientifico Se uma das caracteristicas do conhecimento cientifico 6 o seu caracter metédico, analisemos agora qual o método que permite demarcar a outros modos de conhecer o real. Veremos, neste sentido, qual a especifici- dade metodolégica da ciéncia. O método em ciéncia corresponde ao conjunto de procedimentos, orien- tados por um conjunto de regras, que estabelecem a ordem das operagées a realizar com vista a atingir um determinado resultado. O método varia em fun- cao do objeto de estudo. Sera o método a adotar que permitird distinguir aquilo que é conhecimento cientifico do que néio pode ser considerado como tal. Isto permite responder ao problema da demarcagio, que consiste na procura do eritério de cientifici- dade, capaz de distinguir as teorias cientificas das teorias nao cientificas. Quais sao entdo os procedimentos (o método) que o cientista deve adotar para obter resultados cientificos? Como reconhecer uma teoria cientifica e distingui-la de uma teoria nao cientifica? Qual o critério a adotar na validacaio das teorias cientificas? Vamos ver, de seguida, dois modelos metodolégicos de referéncia—o indu- tivo ¢ 0 conjetural ou hipotético-dedutivo — e os respetivos critérios de valida~ gao das hipoteses cientificas ~ o da verificabilidade eo da falsificabilidade. iéncia de 30 2.2.2. Aconcecao indutivista do método cientifico O indutivismo é a perspetiva epistemolégica que salienta a importancia da indu¢ao (ou raciocinio indutivo) paraa ciéncia, quer ao nivel das descober- tas cientificas, quer ao nivel da justificagao das teorias. Francis Bacon (1561-1626) foi um dos filésofos que mais chamou a atengao para o papel que a indugao e a experimentagdo tém na construcao do conheci- mento. Segundo Bacon, 0 raciocinio indutivo era o Unico em que se devia ba- sear 0 método cientifico. Ele considerava que o conhecimento cientifico se devia fundar na indugdo e na experimentagao ¢ nao na metafisica e na especu- lagao. A indugao & para Bacon, 0 Gnico caminho para o progresso da ciéncia. De um modo geral, a visdo indutivista do metodo cientifico considera que a atividade cientifica obedece a seguinte logica de procedimentos: parte-se da observacao dos fenémenos, formulanrse hipsteses e realizam-se testes ex- perimentais para, depois, propor teorias e leis cientificas Observagio —- Formulagio de hipéteses —- Experimentagio —- Lei Tendo em conta a perspetiva de varios filésofos indutivistas — que subli- nham que a indugao esta presente, no método cientifico, quer no processo de descoberta quer no processo de justificagao das teorias -, podemos esque- matizar agora as operagées fundamentais do método cientifico a luz do induti- vismo: Operacées fundamentais do método cientifico—indutivismo 1. Observagao dos fenémenos O cientista observa os factos ou fenémenos e regista-os de forma sistematizada para procurar encontrar as suas causas. A observa- Gao ¢ neutra, isenta, rigorosa, objetiva ¢ imparcial, devendo ser repetida varias vezes, A observacao precede a teoria. Exemplo: Contexto de descoberta | Observo que as folhas das plantas a, b.c, d, e feg sdo verdes es respeito | 2 Formulagao da hipotese maneira a ‘como Por intermédio da comparagao e classificagao dos casos observa- ocorrena | dos, 0 investigador procura aproximar os factos para descobrir a descoberta) | relacdo existente entre eles. Assim, recorrendo a indugao, ele parte para a formulagao da hipétese, explicacao geral acerca dos fenomenos e das suas relacées. Procura-se, assim, inferir um enun ciado geral a partir de enunciados particulares ou singulares. Exemplo: Existe uma substéncia nas folhas verdes das plantas que thes con- fere essa cor Operagces fundamentais do método cientifico ~ indutivismo 3. Experimentagao / verificacao experimental A experimentacao é 0 processo de confirmacao da hipétese expli: cativa enunciada. Esta tera de ser testada e, confirmando-se o que ela propée, pode passar a lei cientifica. Contextode | 4 experimentago é fundamental para que se possa verificar ou confirmarse as relacdes estabelecidas sao aplicaveis a todo o tipo justificacao n tod (refere-se ao de fendmenos semelhantes (isto é, nas mesmas condigées e da modocomo | €smanatureza), mesmo que nao tenham sido observados um por sejustificam |" _ osresultados | 4, Estabelecimento da lei geral obtidos na —EE — i: descobertay | Recorrendo, uma vez mais, a indugdo, o cientista generaliza a rela- 40 encontrada entre os factos semelhantes, traduzindo-a numa lei que expressa as relacdes constantes entre esses factos. Exemplo: Todas as folhas verdes possuem uma substéncia—a clarofila — que Ihes confere essa cor. A indugao (enquanto generalizagao) encontra-se, assim, presente no pro- cesso de formulacdo da hipétese (explicacao geral para observacoes realiza- das) € no processo de estabelecimento da lei geral (as hipdteses s6 passama leis apés serem verificadas por um conjunto de experiéncias particulares). A utilizagao do racio indutivo € a chave para o estabelecimento das teorias e leis universais da ciéncia, suscetiveis de garantir previsées rigorosas. O raciocinio indutivo, partindo de observagées particulares e atingindo con- clusdes gerais, aumenta 0 nosso conhecimento, tendo um earacter amplifi- cante que 0 raciocinio dedutivo nao tem. Assim, é pela experimentagao que 0 cientista procura testar aquilo que uma dada hipétese propée. A verificagao do que uma dada hipétese propde torna-se, por isso, o passo necessario para assegurar os resultados da investi- gagao. Mas sera que isto é suficiente para garantir que aquela hipétese se trata de facto de uma (boa) hipétese ou teoria cientifica? Uma das questdes centrais da reflexdo epistemolégica incide sobre qual o critério que permite demarcar o conhecimento cientifico de outros tipos de conhecimento — problema da demarcagao. Os filésofos neopositivistas consideravam a verificabilidade (empirica) o critério para distinguir o que é cientifico do que nao 0 é. De acordo como erité- rio da verificabilidade, uma teoria é cientifica apenas se consistir em afirma- Ses que sejam empiricamente verificaveis, ou seja, apenas se for possivel icar empiricamente (através da experiéncia) aquilo que ela propée. Uma proposigao empiricamente verificavel sera aquela cujo valor de ver dade pode ser determinado através da observacao e da experiéncia. 32 2 Oestatuto do conhecimento cientifico Assim, por exemplo, a proposic¢ao “Ha corvos negros” pode ser verificada pela observaco, enquanto a proposigao “Existem espiritos com asas’ nao pode ser empiricamente verificada. Mas sera que as teorias e as leis propostas pelos cientistas podem ser real- mente verificadas? Se afirmarmos "Ha corvos negros’, esta proposigao é verifi- evel: podemos verificar aquilo que ela afirma de cada vez que se vé um corvo. Se 0 corvo for negro, a proposigao é verdadeira. Mas se dissermos “Todos os corvos sao negros’, aquilo que nesta propasigao se afirma nao pode ser rigoro- samente verificado de forma universal, pois 6 impossivel saber a cor de todos 08 corves que existiram no passado, que existem e que existirao no futuro. Eo problema da inducdo. Face a este problema, alguns filésofos neopositivistas propuseram a mu- danga da verificagdo para a confirmagdo. O critério de confirmabilidade nao exige uma verificagao conclusiva, ajustando-se assim as generalizagdes pro- prias das leis cientificas e permitindo, mediante uma verificagao empirica par- cial, estabelecer “graus de confirmagao” numa base probabilistica. Desse pro- cesso resultaré, entao, a confirmagao da teoria. Mas obviamente que este processo é também inconclusivo, visto que pode sempre aparecer uma obser- vagao que ponha em causa a hipétese geral. O indutivismo tem sido alvo de eriticas. Vejamos algumas delas: + Ha muitas situagdes em que a observagao no ¢ 0 ponto de partida da inves- tigacao cientifica. Basta pensar, por exemplo, nos objetos e situagées que nao podem ser observadlos, como as particulas subatémicas ou a origem o Universo. Frequentemente, o ponto de partida sao os problemas que surgem do confronto ou do conflito entre uma observagaio e as expectativas ou teo- rias ja existentes. = Ainda que o cientista recorra a observacao, ela nao é totalmente neutra, parcial e isenta de pressupostos ou de preconceitos, ocorrendo sempre num determinado contexte. A observagao é afetada por pressupostos teéri- cos, teorias, conceitos e pelas expectativas que o cientista desenvolve face A investigacao. = Oraciocinio indutivo nao confere o rigor l6gico necessario as teorias cienti- ficas. E 0 ja referido problema da indugao, levantado por Hume. Baseamo- -nos na observacio de um conjunto finite de casos particulares para con- cluir que todos sao assim (generalizag&o) ou que o préximo a ser observado também assim sera (previsao), efetuando um salto do conhecido para odes- conhecido, ou daquilo de que se teve experiéncia para aquilo de que (ainda) no se teve experiéncia. Confiamos na indugao porque partimos do principio da uniformidade da natureza (0 principio de que os fenémenos se repetem sao previsiveis ou de que 0 futuro se assemelha ao passado). Mas este princi- 2 Plodecorre da experiéncia anterior e do habito, sendo igualmente estabele- © cido por generalizagao (isto significa que recorremos a indugdo para enesrnins 33 justificar a confianga na propria indugao). Assim, David Hume aponta o ca- racter ilusdrio do indutivismo. £, apesar de admitir que 0 conhecimento cientifico se constréi por indugao, reconhece que ela nao é racionalmente justificavel. = O método indutivista, ligado a verificagzio experimental, assenta num argu- mento falacioso: se uma teoria T é verdadeira, entéo verifica-se a previséo P (que dela se deduz); ora, verifica-se a previsdo P; logo, a teoria T é verdadeira. Estamos perante a falacia da afirmacSo do consequente. 2.2.3. O falsificacionismo e o método de conjeturas e refutacées (Popper) Como podemos entao garantir a cientificidade do conhecimento? C filésofo Karl Popper (1902-1994), critico da visao indutivista do método cientifico, procurou ultrapassar o problema da justificagao da indugao. Popper prope outro método — 0 método das conjeturas e refutagées—e outro critério de cientificidade — 0 critério da fal: idade. Popper, embora concorde com Hume a respeito do facto de a indugaéo nao poder ser racionalmente justificada, afasta o problema da indugao para se- gundo plano, sublinhando que ele nao tem o peso que Hume Ihe atribui no que toca a questao da legitimidade do canhecimento cientifico. Popper considera que a especificidade metodolégica da ciéncia nao pode assentar na indugao. O filésofo demarca a ciéncia de outras formas do conhe- cimento, propondo uma alternativa a visdo indutivista do método cientifico e rejeitando o critério da verificabilidade das hipdteses e teorias cientificas tal como é propost pelo positivismo légico. iciar o estudo da sua concegao epistemolégica devemos ter presen- tes duas das suas teses principais, que de seguida iremos examinar: ical Para + Aconstrugao do conhecimento cientifico faz-se através de conjeturas e refu- tagdes, + Ocritério de cientificidade das teorias ¢ 0 da sua falsificabilidade. Para Karl Popper, a ciéncia faz-se por um processo de construco criativa de hipéteses ~ conjeturas ~ para responder a problemas. Ao contrario do que é proposto na concegao indutivista do método cientifico, a observagao nao é, para Popper, o ponto de partida do cientista, nem as teorias resultam de infe- réncias indutivas. A ciéncia parte de problemas (ou factos-problemas) e as teorias comecam por ser hipéteses explicativas e criativas (conjeturas) que terao de ser submetidas a testes rigorosos Popper considerava que o método cientifico é o método hipotético-dedu- tivo (ou conjetural), sendo este um método critico. Eis as etapas fundamen- tais deste método: 34 © ponto de partida da investigagao cientifica sao os problemas ou factos-problemas. Um faeto-problema é um problema que surge, em geral, de conflitos decorrentes de expectativas ou teorias, oui do confronto entre uma observacao e as expectativas ou teorias existentes. Exemph Constata-se que algumas criangas, mesmo quando bem alimentadas e sem pro- blema de foro genético diagnosticado, revelam um crescimento abaixo da média. Qual a razéo pela qual estas criangas revelam um baixo crescimento? 2, Formulagao da hipétese ou conjetura A formulagao da hipétese corresponde a urn momento eriativo da atividade cienti- fica, associado a intuicao e a imaginacao. A hipétese ndo surge indutivamente da observagio. Uma hipotese é, assim, uma explicagao proviséria de um dado fenémeno. Corres- ponde a uma antecipagao de factos, ou seja, é uma suposigao que se expressa num enunciado antecipado sobre a natureza das relagdes entre dois ou mais fenémenos. Exemplo: A presenca em excesso da hormona X no organismo impede o crescimento. 3. Dedugao das consequéncias Depois de a hipétese ter sido formulada, sao deduzidas as suas princip quéncias. Ou seja, na pratica o cientista procura prever o que pode acontecer se a sua hipétese ou conjetura for correta. Exemplo: Se ahipétese for verdadeira, a redugdo ou a inibigtio da produgdo da hormona x im- plicard um crescimento normal das eriangas referidas. conse- 4. Experimentagio Agora sera necessario descobrir se as previsdes que 0 cientista fez estao ou nao cor- retas. Isto é, a hipétese serd testada, confrontada com a experiéncia. Os resultados podem, entao, mostrar o “sucesso” ou o fracasso da conjetura proposta. Se for validada pela experiéncia, se resistir aos testes, a hipotese € considerada como credivel e verosimil, passando a ser reconhecida na comunidade cientifica — teoria corroborada. Mesmo assim, devera continuar-se a submeter essa teoria a tes- tes, cada vez mais severos, de falsificagao. Se no for validada, se nao resistir aos testes, a teoria é refutada, pelo que teremos de a reformular ou de a abandona;, substituindo-a por outra melhor. Exemplo: Experiéncias realizadas com ratinhos revelam que, nos grupos em que a hormona X foi administrada em doses sucessivamente superiores, os ratinhos apresentaram um crescimento relativamente lento ¢ pouco significativo, mesmo quando bem alt mentados; j nos grupos de ratinhos que nao sofreram essa administragdo, o seu crescimento foi normal. Este resultado validou a hipétese. Caso nao tivesse validado ahipétese, teriamos de a reformular ou apresentar uma nova hipdtese. 35 Um dos pontos cruciais da concegao popperiana do método cientifico re- 2 side nas condicées exigidas para garantir a validade das hipéteses ou conjetu- = ras: € preciso criticé-las, tentar refuté-las, isto é procurar os seus pontos fra- cos, submeté-las a testes rigorosos, proceder a varias tentativas de falsificagao. Sé assim é possivel o desenvolvimento do conhecimento cientifico: avangar de velhos problemas para novos problemas, por meio de conjeturas e refutagoes. Sendo 0 método cientifico um método critico, o cientista sera (ou devera ser) critico em relago as suas teorias. Este método nao se baseia no raciocinio indutivo, mas sim no raciocini dedutivo. Os testes experimentais, orientados para a tentativa de falsificagao, obedecem a uma forma de inferéncia valida, o modus tollens: p—@ Se a teoria P ¢ verdadeira, entao o que ela prevé (Q) ocorre. “a Oque ela prevé (@) nao ocorre. ae Logo, a teoria P nao é verdadeira. JA 0 método indutivista, visando a verificagdio das teorias, assenta, como ja referimos anteriormente, num argumento falacioso, cometendo a falacia da afirmagao do consequente: P—a@ Se a teoria P 6 verdadeira, entao o que ela prevé (Q) ocorre. Q O que ela prevé (Q) ocorre. ud Logo a teoria P é verdadeira. Para Popper as teorias cientificas nao sao empiricamente verificaveis. Nao é a verificagao empirica de uma dada hipétese que permitira garantir a sua validade. Para que ela venha a ser considerada credivel, é preciso que ela seja testavel, sendo necessério procurar refuté-la, isto é, procurar falsifica-la. Por isso, Popper propée o eritério da falsificabilidade, que se traduz no seguinte enunciado: uma hipétese ou teoria sera cientifica apenas se for empi mente falsificavel. Por outro lado, uma teoria é empiricamente falsificavel se, e apenas se, for incompativel com algumas observagées possiveis. A confrontagao da teoria com a observagao e a experiéncia é importante, no para a confirmar, mas para permitir testar a sua resisténcia face as tentati- vas empreendidas para a enfraquecer, refutar, numa palavra, falsificar. Nesta medida, Popper entende o teste experimental como a procura de fenémenos que possam infirmar a hipdtese, Uma teoria cientifica é valida enquanto for re- sistindo a tentativa de a falsificar empiricamente e é tanto mais forte quanto mais resisti © enunciado “Todos os cisnes sao brancos” é um enunciado cientifico, em- piricamente falsificavel — para o falsificar, bastaria encontrar um cisne de outra cor. A atitude do cientista deve ser a de procurar cisnes de outra cor (para a- falsificar) e no a de procurar cisnes brancos (para confirmar). Se se encontrar algum cisne de outra cor, teremos de abandonar e/ou reformular 0 enunciado. Tal significa que 0 enunciado nao resistiu tentativa de falsificagdo e foi, efeti vamente, falsificado. Para ser considerada cientifica, uma teoria devera ser falsificavel, isto &, pas- sivel de ser submetida a testes e confrontada com a experiéncia. Quanto mais contetido empirico tiver, maior é o grau de falsificabil cientifica ela é e mais possibilidades o cientista tem de descobrir falhas na sua investigac&o e propor uma melhor explicagao para um dado facto au problema. Isto significa, na pratica, mais possibilidades de a ciéncia progredir. Uma teoria que nao é falsificavel ou que é irrefutavel nada diz de significa- tivo sobre os factos. O critério da falsificabilidade permite, assim, a Popper res- ponder ao problema da demarcagao: as teorias cientificas, sendo falsificaveis, sao diferentes das ndo-cientificas (ou das pseudiocientificas). Um enunciado como “Os anjos sao verdes" nao pode ser empiricamente falsificado — pois nao vemos a cor dos anjos ~ e, por isso, nao constitui um enunciado cientifico, Ao contrario, é possivel falsificar 0 enunciado “Todos os cisnes sao brancos” ou “Todos os mamiferos tém o corpo coberto de pelos’. Basta apenas a existéncia de um caso, de um cisne de outra cor ou de um mamifero sem pelos, para falsi- ficar 0s enunciados. Popper apresentou uma concegao inovadora no que diz respeito ao mé- todo cientifico e a justificagao das teorias cientificas, isto é, ao modo como elas devem ser validadas. No entanto, a sua filosofia nao esta isenta de eriti- eas. Vejamos as principais criticas tecidas a Popper: dade de uma teoria, mais + O processo de refutagao ou falsificacao nao é o procedimento mais comum entre os cientistas. Alguns autores defendem que a atitude falsificacionista nao corresponde exatamente Aquela que os cientistas demonstram na ativi- dade cientifica. Geralmente os cientistas procuram confirmar aquilo que as teorias cientificas propdem e, mesmo que, perante dada observagao, deter- minada previséio néio se confirme, isso ndo os demove de investigar no mesmo sentido. Nao bastard, portanto, uma observagao falsificadora para que a investigagao termine e se abandone uma teoria. Isto significa que a teoria de Popper nao é descritiva (nao diz como os cientistas procedem), mas sim normativa (diz como os cientistas deviam proceder). + Considerandoa histéria da ciéncia, nao parece que ela possa evoluir por um processo assente nas refutagées. Ao nivel da historia da ciéncia encontra- mos episddios que parecem pér em causa a perspetiva falsificacionista e a ideia de que a ciéncia progride por meio de conjeturas e refutagdes. Copér nico, Galileu ou Newton, por exemplo, nado abandonaram as suas teorias na presenga de factos que aparentemente as poderiam falsificar. + Popper, com ocritério falsificacionista, subestima o valor, para o progresso da ciéncia, das previsées bem-sucedidas. E expectavel que o cientista se 37

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