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Indice
(2) Descrigao e interpretagao da atividade cognoscitiva 5
1.1. O que éoconhecimento? 5
1.2. Analise comparativa de duas teorias explicativas
do conhecimento 6
1.2.1. O problema da origem e da possibilidade
do conhecimento: 0 desafio cético 6
1.2.2. Descartes, a resposta racionalista "
1.2.3. Hume, a resposta empirista 8
1.2.4. Analise comparativa das perspetivas de
Descartes e Hume 26
(2) Oestatuto do conhecimento cientifico 28
2.1. Conhecimento vulgar e conhecimento cientifico 28
2.2. Ciéncia e construc¢ao — validade e verificabilidade
das hipéteses 30
2.2.1. O problema da demarcag4o do conhecimento
cientifico 30
2.2.2. A concec&o indutivista do método cientifico 31
2.2.3. O falsificacionismo e o método de conjeturas
e refutacdes (Popper) 34
2.3. A racionalidade cientifica e a questao da
objetividade 38
2.3.1. O problema da evolucao da ciéncia e da
objetividade do conhecimento 38
2.3.2. A perspetiva de Popper 38
2.3.3. A perspetiva de Kuhn a(4) Adimensao estética - andlise e compreensio da
experiéncia estética
3.1. Acriagao artistica e a obra de arte
3.1.1. O problema da definicdo de arte
3.1.2. Da teoria mimética a teoria
representacionista
3.1.3. Teoria da arte como expressao (teoria
expressivista)
46
46
47
47
3.1.4. Teoria da arte como forma (teoria formalista) 49
3.1.5. Teoria institucional da arte
3.1.6. Teoria histérica da arte
3.L7. Concluséo
(4) Adimensio religiosa—andlise e compreensao
da experiéncia religiosa
4.1. Religiao, razdo e fé
50
52
53
54
54
4.11. O problema da existéncia de Deus e 0 conceito
teista de Deus
4.1.2. Argumentos sobre a exist6ncia de Deus
4.1.3. O fideismo de Pascal
4.1.4. O argumento do mal para a discussao da
existéncia de Deus
Bibliografia
54
55
59
@
64Descricao e
interpretacdo da
atividade cognoscitiva
1.1. O que é0 conhecimento?
A gnosiologia, ou teoria do conhecimento, ¢ a disciplina filosofica que estuda
o conhecimento, procurando esclarecer e analisar criticamente problemas relati
vos, por exemplo, a origem, as fontes, a natureza, a possibilidade, aos fundamen-
tos @ aos limites do conhecimenta. O conceito de epistemologia (que mais
adiante exporemos) também aparece por vezes como sinénimo de gnosiclogia.
© conhecimento 6, numa abordagem muito geral, aquilo que acontece
quando um sujeite ~ aquele que conhece ~ apreende um objete ~ aquilo que é
conhecido. Sem a presenga de um destes elementos, o conhecimento seria im-
possivel. Existem, porém, diferentes tipos de conhecimento:
Conhecimento pratico
(conhecimento par
aptidao ou saber-como)
Objeto: atividades ou
ages
Eo conhecimento de
atividades ou agdes,
relativo a capacidade,
aptidao ou competéncia
para fazer alguma coisa
Exemplos: saber
cozinhar, saber conduzir,
saber dangar, saber
consertar calcado, saber
tratar de uma horta.
QO conhecimento proposicional também se desi;
Tipos de conhecimento
Conhecimento
proposicional
(eaber-que)
Objeto:
verdad:
roposigaes
Eoconhecimento que tem
por objeto proposi¢es ou
pensamentos verdadeiros.
Eoconhecimento de
“3+ 53 = 56"; saber que
“Augusto foi um
Imperador romano’; saber
que “os ovos térn
proteinas’,
Conhecimento por
contacto
Objeto: realidades
coneretas|
Eo conhecimento direto
de alguma realidade:
pessoas, lugares, estados
pessoalmente o Dalai
Lama; conhecer Madrid,
no sentido de ter visitado
esta cidade; conhecer
uma dor por té-la
experimentado.
Ma, por vezes, por conhe-
cimento factual, podendo ser expresso com autras locucdes, como “sei onde”
(‘Sei onde est 0 livro’), “sei quando’ ("Sei quando aconteceu a Revolugao Fran-
cesa’),"s
quem’ (‘Sei quem escreveu Os Maias").Em todo o conhecimento proposicional existe uma erenga, j4 que ndo po-
demos saber algo sem acreditar nisso. Mas também se pode acreditar em falsi-
dades. As crencas podem ser verdadeiras ou falsas.
Como tal, a crenga, embora sendo uma condigao necessaria para 0 conhe-
cimento, nao é uma condigao suficiente. Para haver conhecimento é necessa-
rio que uma pessoa acredite em algo, mas também é necessario que isso seja
verdadeiro. Sendo assim, para além da crenca, a verdade é igualmente uma
condigao necessaria do conhecimento.
Todavia, ninguém possui conhecimento se nao dispuser de provas, razes
ou evidéncias para justificar essa crenga. Por conseguinte, a justificagao é
também uma condigao necesséria do conhecimento.
De acordo com a definigdo classica ou tradicional de conhecimento, apre-
sentada por Plato (c. 428-347 a. C.), 0 conhecimento é uma erenga verdadeira
justificada.
Condigdes do conhecimento Ssabe queP se, e s6 se,
‘Crenga S acredita que P.
2.4-Verdade P 6 verdadeira,
S dispée de justificagao ou provas para acreditar
3.2—Justificagao iio
Crenga, verdade e justificagado sao condigées necessarias, e conjuntamente sufi-
cientes, para o conhecimento.
Esta ideia do conhecimento proposicional como erenga verdadeira justifi-
cada nao € consensual e encontra-se sujeita a algumas objegoes.
Analise comparativa de duas teorias
explicativas do conhecimento
1.2.1, O problema da origem e da possibilidade do conhecimento: 0
desafio cético
A consideragao de. que ha diferentes formas de justificar as crengas que
temos por verdadeiras remete-nos parao problema da origem ou das fontes do
conhecimento. Perguntar pelas fontes do conhecimento equivale, entdo, a
perguntar pelas fontes de justificagao das nossas crengas ou pela justificagaio
que apresentamos para mostrar que as nossas crencas, as nossas proposicées
ou 0s nossos juizos sao verdadeiros.mos, podemos constatar que nem todos tém a mesma origem: sabemnos que “o
todo é maior do que a parte” ou que "3 + 3 = 6” apenas pensando nisso. A fonte
destes conhecimentos € a raz&o ou o pensamento.
Diferentemente, sabemos que “Portugal é um pais com diversas praias”
porque vemnos essas praias, sabernos que “os rouxindis cantam’ porque os ou-
vimos cantar. A fonte destes conhecimentos é a experiéncia sensivel, relativa,
Nos casos que nos servem de exemple, aos sentidos da visdo e da audigao, res-
petivamente, embora outros sentidos também acabem por estar implicitos,
Se, recorrendo apenas ao pensamento, sabemos que “5 x 3 = 15", entao es-
tamos perante um juizo a priori, Por sua vez, sabemos que ‘a Terra é ligeira-
mente achatada nos polos” apenas se recorrermos a experiéncia. Dai que este-
jamos perante um juizo a posteriori.
Juizo cuja verdade é conhecida independentemente da expe-
Juizoapriori | riéncia, tendo, portanto, origem e justificagao no pensamento
ou razao.
fori | uiz0 cuja verdade é conhecida através da experiéncia sensi-
Julzo.a posteriori | 1 das impresses dos sentidos, tendo aia sua justificacdo.
Esta diferenciagao permite-nos compreender a distingao de dois mados de
conhecimento:
Modos de conhecimento Exemplos
Baseia-se em juizos a priori, | Uma linha reta pode ser pro-
| tendo a sua fonte ou origemno | jongada indefinidamente em
Conhecimento | pensamentoounarazio. Ajus- | ambas as diregses
apriori tificagdo dessas erengas en- | 5,9 4
contra-se no pensamento ou -
fas. Uma caixa azul tem cor.
Baseia-se em juizos a poste-
riori, tendo a sua origem naex- | 9 Anténio€ alto.
‘i iene ivel (oun - 5
Conhecimento Po'iéncia sensivel (unos s9M | A neve é brancae fria.
See eoment tides). € 0 conhecimento é
BOE empirico: a justificacao dessas | Algumas plantas realizam a fo-
do racionalismo e
crengas encontra-se na expe-
riéneia.
do empirismo.
tossintese.
Vamos agora estudar duas doutrinas filosoficas que valorizam e privilegiam
diferentemente as fontes de que provém os conhecimentos referidos. Trata-seDe acordo com o racionalismo (e aqui teremos em conta, sobretudo, 0 ra- 2
cionalismo do século XVII), a razdo — por vezes também chamada entendi-
mento ~ é a fonte principal do conhecimento. Sé através da raz&o é que se
pode encontrar um conhecimento seguro, o qual se apoia em principios evi
dentes, sendo totalmente independente da experiéncia sensivel. Tal conheci
mento, que é a priori, é considerado necessario, porque tem de ser assim e nao
pode ser de autro modo, caso contrério entrariamos em contradigao légica, e
universal, porque tem de ser assim sempre e em toda a parte.
Dai que 0 modelo do conhecimento ou do saber nos seja dado pela mate-
matica.
Isto nao significa que os racionalistas neguem a existéncia do conheci-
mento empirico (conhecimento a posteriori). Esse conhecimento existe, mas
nao pode ser considerado universal e necessério. As crengas e informacées
que se obtém através dos sentidos sao, muitas vezes, confusas ou incertas.
O racionalismo moderno é otimista, no sentido em que considera que, par-
tindo dos prin ado método,
sera possivel conhecer toda a realidade. Hé uma correspondéncia entre a
ordem do pensamento e a ordem da realidade, e ha conhecimentos a prior!
acerca do mundo.
Entre os filésofos racionalistas encontram-se, por exemplo, René Descar-
tes (1596-1650), Gottfried Leibniz (1646-1716), Bento de Espinosa (1632-1677) e
Nicolas Malebranche (1638-1715).
Podemos caracterizar 0 racionalismo, de um modo geral, com base nos se-
guintes aspetos:
soa 1
jos evidentes da razéio, e seguindo um deter
+ Araziio é a fonte principal do conhecimento — conhecimento universal e ne-
cessario.
+ As ideias fundamentais do conhecimento sao inatas.
= Omodelo de conhecimento é a matemitica. Privilegia-se o raciocinio dedutivo.
- HA. uma correspondéncia entre o pensamento ea realidade.
Se 0 racionalismo admite a existéncia de um conjunto de ideias inatas, an-
teriores a experiéncia, o empirismo é uma teoria segundo a qual a experiéncia
6a fonte principal do conhecimento. Temos aqui em conta sobretudo 0 empi
rismo moderno, por vezes também chamado empirismo inglés.
De acordo com a doutrina empirista, nao existem ideias, conhecimentos
ou principios inatos. O entendimento humano é, antes de qualquer experién-
cia, como uma tabua rasa ou uma folha de papel em branco. Nada, A nascenga,
se encontra escrito na mente; s6 com a experiéncia isso se tornara possivel.
Assim, pode definir-se 0 empirismo como sendo a teoria filoséfica que, em
oposigao ao racionalismo, nega a existéncia de conhecimentos inatos, afirmando
que 0 conhecimento humano det almente da experiéncia. E nesta que
©. conhecimento tem o seu fundamento e, naturalmente, os seus limites.
/a prinImporta acrescentar que, embora neguem os conhecimentos inatos, os
empiristas nao negam o conhecimento a priori. Esse conhecimento existe, s6
que nada nos diz de importante ou de substancial acerca do mundo. Além
disso, as ideias presentes em tais conhecimentos acabam por derivar, todas
ncia.
elas, da exper
Alguns filésofos empiristas foram David Hume (1711-1776), John Locke
(1632-1704) e George Berkeley (1685-1753).
Podemos caracterizar 0 empirismo, de um modo geral, com base nos se-
guintes aspetos:
» Aexperiéncia é a fonte principal do conhecimento.
« Todas as ideias tém uma base empirica, até as mais complexas: nao ha ideias
inatas.
= Oconhecimento do mundo obtém-se através de impressGes sensoriais. Pri-
iio indutivo.
» Oconhecimento encontra-se limitado pela experiéncia.
vilegia-se 0 racioci
Tanto o empirismo como o racionalismo se enquadram naquilo a que se
pode chamar o fundacionalismo. O fundacionalismo 6 uma perspetiva se-
gundo a qual o conhecimento deve ser concebido como uma estrutura que se
ergue e se desenvolve a partir de fundamentos certos, seguros eindubitaveis
Tais fundamentos poderdo encontrar-se na experiéncia (empirismo), na
raziio (racionalismo) ou numa combinacao dessas duas fontes.
Os fundacionalistas consideram que os sistemas de crengas recebem a
sua justificagdo de um dado subconjunto de crengas, a semelhanga de um edi-
ficio que é suportado pelas suas fundagdes.
Eles designam essas crencas fundacionais por crengas basicas, que sao
consideradas infaliveis, irrefutaveis e indubitaveis.
Deste modo, sao as crengas basicas que suportam o sistema do saber.
Trata-se de crengas que no necessitam de uma justificagao fornecida por ou-
tras crengas, porque se justificam a si mesmas, sendo autoevidentes. Essas
crencas permitem evitar a regressao infinita da justificagao.
Por sua vez, designamos por erengas nao basicas aquelas que sao justifica-
das por outras crengas, ou que se inferem de outras crengas, nao sendo autoe-
videntes.
Como veremos, Descartes, sendo racionalista, e Hume, sendo empirista,
encontrarao diferentes crengas basicas e, portanto, diferentes fundamentos
para o conhecimento.
Racionalistas e empiristas admitem, portanto, que 0 conhecimento (propo-
sicional) é possivel. Mas sera que 0 conhecimento 6 mesmo possivel? Sera
possivel ter uma crenga verdadeira devidamente justificada acerca de alguma
realidade?O ceticismo, na sua forma radical, nega que isso seja possivel.
O ceticismo absolute ou radical — que se distingue do ceticismo mitigado
ou moderado, que haveremos de referir a propésito de David Hume—é umacor-
rente filoséfica que afirma a impossibilidade do conhecimento. Isto significa
que, mesmo que as nossas crengas sejam verdadeiras, nao temos justificagdes
suficientes para mostrar essa verdade. Nem a razo (a prior) nem a experiéncia
(a posteriori) justificam devidamente e de modo satisfatério as nossas crengas.
Considera-se Pirro de Elis (c. 365-275 a. C.) 0 fundador do ceticismo abso-
luto ou radical. O cético pirrénico rejeita entao a possibilidade do conhec
mento.
O fil6sofo Sexto Empirico (séculos II-Ill d. C), também cético pirrénico,
apresentou os argumentos que conduziam A divida relativamente as justifica-
ges das crengas ¢ que levavam os céticos A suspensao do juizo, estado de
neutralidade em que nada se afirma e nada se nega. A suspensao do juizo con-
duz, por sua vez, A ataraxia ou auséncia de perturbagao.
Eis alguns dos argumentos:
+ Em primeiro lugar, salientam-se os enganoseas ilusées dos sentidos. Por um
lado, os orgios dos sentidos e as representagdes do mesmo objeto variam
entre as espécies. Por outro lado, relativamente ao mesmo objeto ha sensa-
des © perceges diferentes, e até incompativeis, para diferentes pessoas ou
para a mesma pessoa em situagées e circunstancias diversas, nao havendo
assim a possibilidade de distinguir 0 que é verdadeiro do que é falso. Final-
mente, os objetos, pelas diversas formas como nos surgem, desencadeiam
ilusées e aparéncias, ndo havendo possibilidade de decidir qual a sua verda-
deira realidade.
Em segundo lugar, destacam-se a discordancia e a divergéncia de opinides.
Se existem opinides divergentes a respeito dos mais variados assuntos,
entao nenhuma se encontra adequada ou suficientemente justificada, o que
torna impossivel que nos decidamos por uma ou outra, endo preciso sus-
pender 0 juizo sobre qual é verdadeira e qual é falsa. A discordancia é particu-
larmente notoria entre as doutrinas dos fildsofos, sendo que também os cos-
tumes, a educagao eas leis divergern.
Por fim, nada se pode compreender por si, em virtude dos desacordos, nao
existindo também nenhum critério que nao seja abjeto de desacordo e, por
outro lado, nada pode ser verdadeiramente compreendido com base noutra
coisa: para justificar uma crenga tem de se recorrer a outra, e assim ou cai-
mos num cfrculo viciose (A justifica B, que justifica A, o que equivale a dizer
que B se infere de A, que se infere de B) ou temos de recorrer, sucessiva-
mente, a outras crengas, numa cadeia de justificagao que se estende até ao
infinito — regressao infinita da justificagao. Tentar evitar esta regressao a0
infinito com base numa erenga injustificada seria igualmente inaceitavel.
10
scareOra, o ceticismo radical pode, de certa maneira, ser considerado autocon-
traditério ou autorrefutante, pois afirma que o conhecimento é impossivel,
mas, ao afirmar isso, j4 exprime um conhecimento.
© ceticismo pode ser metédico, enquanto meio para alcangar a certeza.
Descartes traduziu-o na sua duvida metédica. Este ceticismo metédico é
muito diferente do ceticismo sistemiatico e radical, que se fica pela divida
como um principio definitivo.
1.2.2. Descartes, a resposta racionalista
Descartes foi, como referimos, um filésofo racionalista. Com efeito, ele
considerava a raze a fonte principal do conhecimento, a fonte de um conheci-
mento caracterizado pela universalidade e pela necessidade. Existem, por-
tanto, crengas que a razao, e apenas a razéio, é capaz de justificar.
Atribuindo um grande valor a razo, Descartes procurou também ai os fun-
damentos do conhecimento. Ele comparava a filosofia a urna arvore, cujas rai
zes equivalem a metafisica, 0 tronco a fisica e os ramos a todas as outras cién-
cias, sendo as trés principais a medicina, a mecanica e a moral. Se a metafisica
constitui a raiz da filosofia, € por ela que se deve comegar, a fim de encontrar os,
prinefpios fundamentais do conhecimento humane.
$6 encontrando esses fundamentos sera possivel superar os argumentos
dos céticos radicais. Em ultima instancia, Descartes pretendeu justamente su-
perar os argumentos dos céticos.
Para tal, achou importante estabelecer um método. Tendo as proposigées
da matematica uma origem racional e a priori, Descartes resolveu seguir um
método inspirado na matematica.
Eis as regras desse método:
Regras do método
Nao aceitar nada como verdadeiro se no se apre-
.aregra ae sentar & consciéncia como claro e distinto, sem
evidéncia | qualquer margem para dividas,
Regrada Dividir cada uma das dificuldades em tantas partes
andlise quantas as necessarias para melhor as resolver.
Conduzir por ordem os pensamentos, comegando
us coe pelo mais simples e facil de compreender e subir
oa radualmente para o mais complexo.
— 8
econ | Fazer enumeragdes tio completas ¢ revises tao
gerais, que tivesse a certeza de nada omitir.
uEstas regras permitirao guiar a razao, orientando devidamente as opera
g0es fundamentais do espirito. Tais operacées, que esto na base de toda a
dinamica do conhecimento, séo as seguintes:
Intuigao Deducao
*O que se conclui necessariamente de
Representacao da mente pura e atenta, | outras coisas conhecidas com certeza.”
tao facil e distinta que nenhuma divida | (Descartes)
nos fica acerca do que compreendemos. | Encadeamento e sucesso de intuigoes,
Ato puramente intelectual ou racional | implicando um movimento continuo do
de apreensao dirota e imediata de no- | pensamento, desde as ideias simples ¢
gOes simples e indubitaveis. evidentes até as consequéncias neces-
sarias.
Um aspeto importante do método de Descartes 6 traduzido na divida. Por
meio dela, recusaremos todas as crengas em que notarmos a minima suspeita
de incerteza.
Instrumento da luz natural ou razao, a diivida € posta ao servico da verdade,
da procura de uma justificagao para as nossas crengas e, portanto, do estabe-
lecimento de um conhecimento seguro. Descartes adota inicialmente a pos-
tura do cético, sujeitando a dtivida todas as crengas. Trata-se da célebre dti-
vida metédica, E necessério colocar tudo em causa, no processo de busca dos
principios fundamentais e indubitaveis. Se alguma crenga resistir & duvida,
entéo ela podera ser a base ou o fundamento para as restantes.
Por que razées, ento, se justifica a dtivida?
RazOes que justificam a divida
Por causa dos preconceitos ¢ dos juizos precipitados formulados na infancia.
Porque os sentidos muitas vezes nos enganam e seria imprudéncia depositar uma
confianca excessiva naqueles que nos enganaram, mesmo que sé uma vez. Se os
sentidos e a experiéncia sensivel nos enganaram algumas vezes, convém fazer de
conta que nos enganam sempre.
Porque nao dispomos de um critério que nos permita discernir 0 sonho da vigilia. Se
estivermos a sonhar, tudo o que julgamos saber seré ilusério.
Porque alguns seres humanos se enganaram nas demonstragées matematicas.
Porque pode existir um Deus enganador ou um Génio maligno (poderoso, astuto e
que se diverte a custa dos nossos erros), que nos iludem a respeito da verdade, fa-
zendo com que estejamos sempre enganados, seja no tocante as verdades e As
demonstragdes das matematicas, seja no que se refere a prépria existéncia das
coisas.
12ena:
A hipétese da existéncia do Deus enganador e a hipdtese da existéncia do
Génio maligno — note-se que nao existe consenso entre os comentadores no
tocante a saber se se trata ou ndo da mesma figura, ou se ambas as hipoteses
40 ou nao equivalentes — parecem condenar-nos a uma situagdo sem saida.
Essas hipéteses — que conferem um caracter metafisico a divida ~ equivalem
aadmitir que 0 entendimento humano é de tal natureza que se engana sempre,
mesmo quando pensa captar a verdade.
Por um lado, nao sabemos se o mundo exterior existe. Por outro lado, a pos-
sibilidade de que "2 + 2 = 4" expresse uma proposigao falsa parece nao deixar
espago a existéncia de qualquer certeza a respeito das nossas crengas. Ha,
contudo, uma saida.
Vejamos, entretanto, as caracteristicas da duvida cartesiana.
Caracteristicas da divida cartesiana
E um meio para atingir um conhecimento seguro, a certeza e a ver-
Metédicae | Gade, nao constituindo um fim em si mesma. Mantém-se apenas ate
proviséria
se descobrir algo indubitavel.
Hiperbélica | £ UMA divida levada a0 extremo. Considera como falso tudo aquilo
em que se note a minima suspeita de incerteza.
Incide sobre todas as nossas crencas, sobre o conhecimento em
Universale | geval, mas também sobre os seus fundamentos ¢ as suas raizes,
radical | pondo em causa a possibilidade de o construir (as faculdades do co-
nhecimento sao postas em causa).
Nao € uma duvida sofrida em termos psicolégicos, mas sim artificial
otecsete, e estabelecida livremente.
A divida implica uma suspensio do juizo, tendo uma fungao catartica, ja
que liberta o espirito dos erros que o podem perturbar ao longo do processo de
indagagao da verdade. Ao permitir que nos libertemos de preconceitos e opi-
nides erréneas, ela abre caminho a possibilidade de reconstruir, com funda-
mentos sélidos, 0 edificio do saber.
Sendo um ato livre da vontade, a divida acabara por conduzir a uma ver-
dade incontestavel: a afirmagao da minha existéncia, enquanto sou um ser
que pensa e que duvida. Ainda que 0 Génio maligno me engane, ele jamais con-
seguiré que eu seja nada enquanto eu pensar que sou alguma coisa. De facto,
no pademos duvidar sem existir.
Daqui decorre a natureza absolutamente verdadeira da afirmacao “Penso,
logo existo” (ou entdo, “Cogito, ergo sum” — afirmacao frequentemente sinteti-
zada no termo “Cogito’). Trata-se de uma afirmagao evidente e indubitavel, de
uma certeza inabalavel, obtida por intuig&o, de modo inteiramente racional e a
priori, e que servird de paradigma para as varias afirmagées verdadeiras.
13Mas nao ha nada no “Penso, logo existo” que garanta ao filésofo que ele g
est a dizer a verdade, exceto 0 facto de ele ver claramente que, para pensar, 6 2
preciso existir. Deste modo, Descartes péde adotar, como regra geral, aideia de
que € verdadeiro tudo o que concebemos muito claramente e muito distinta-
mente.
O Cogito fornece, assim, 0 critério de verdade, que consiste na clareza e
ingao das ideias. Ideias claras (por oposicao a ideias obscuras) e distintas
(por oposigao a ideias confusas) so ideias evidentes. (Uma ideia pode ser
clara e confusa, mas nao obscura e distinta.)
Conhecimento claro Conhecimento distinto
£ aquele que se diferencia de todos os
outros, permitinds que o objeto conhe-
cido se distinga dos demais. A distingao
equivale, assim, & separagdo de uma
ideia relativamente a outras, de tal modo
que ela nao contenha elementos que
nao Ihe pertengam.
E aquele que se encontra presente e ma-
nifesto a um espirito atento. A clareza
diz, assim, respeito a presenga da ideia A
mente que a considera com atencao.
© Cogito é um exemplo de conhecimento claro e distinto (evidente).
Enquanto primeira verdade, 0 Cogito surge-nos como erenga fundacional
ou basica, pois serve de alicerce ao sistema do saber. Trata-se, pois, de uma
crenga autoevidente e autojustificada que permite, por isso, negar a regresséo
infinita da justificagdo. Além disso, o Cogito apresenta a condigao da divida
hiperbélica — uma vez que existir é uma condigao necessaria para se poder du-
vidar—e, a0 mesmo tempo, impde uma excegao a universalidade dessa divida
— ha pelo menos uma realidade da qual n4o posso duvidar: a minha propria
existéncia.
A apreensao intuitiva da existéncia mostra-nos como esta é indissociavel
do préprio pensamento. Deste modo, a natureza do sujeito consiste no pensa-
mento,
© pensamento refere-se a toda a atividade consciente: duvidar, afirmar,
negar, conhecer, querer, imaginar, sentir. Além disso, ele é 0 atributo essencial
da alma (substancia pensante), a qual é distinta do eorpo e é conhecida antes
dele e de tudo o resto, de forma bastante mais facil, ao contrario daquilo que os
preconceitos nos costumam sugerir. Quer 0 corpo exista ou nao, a alma é dis-
tinta dele.
O quadro seguinte sintetiza as caracteristicas do Cogito.
svo& Desericao emrerpreragao aa auviaaee cognuseuivet
Caracteristicas do Cogito
E um principio evidente e indubitavel, uma certeza inabalavel.
Obtém-se por intuigdo, de modo inteiramente racional e a priori.
Fornece o critério de verdade.
€ uma crenga fundacional relativamente ao sistema do saber.
Apresenta uma condicao necessaria da duvida e impOe uma excegao a universal
dade desta divida.
Revela a natureza do sujeito: pensamento.
Mas ainda nao afastamos a hipdtese da existéncia do Génio maligno ou do
Deus enganador. Se excetuarmos o caso do Cogito, nada impede que uma
vindade enganadora ou malévola me leve a tomar como claro e distinto algo
que nao é verdadeiro. Necessitamos, pois, de demonstrar a existéncia deum
Deus que nao nos engane, que traga seguranca e seja garantia das verdades,
afastando de vez qualquer ameaga do cet
Apesar de evidente, a certeza “Penso, logo existo’ é uma certeza subjetiva.
Torna-se, pois, necessdrio averiguar o que se encontra na base do pensamento
ena origem da existéncia do sujeito pensante. Este descobre-se como um ser
imperfeito. Possuir o saber sera uma perfeigéo maior do que duvidar.
Mas partamos das ideias que estao presentes no sujeito. Elas possuem um
contetido que representa alguma coisa. Eis essasideias:
‘ismo.
Tipos de ideias Exemplos
‘Tam origem na experiéncia sensivel
Adventicias | ou seja, nas impressdes que as coi- | Ideias de barco, copo, cao.
sas causam nos sentidos.
Sao fabricadas pela imaginacdo, a _ ideias de centauro, dragao,
Facticias | (partir de outras ideias. sereia
eee SAo ideias constitutivas da prépria _ Ideias de pensamento, exis-
razo e que ja nascem connesco. tncia, Ideas matematicas
As ideias inatas sao as “sementes das ciéncias’, “verdades eternas’,
pendentes da percegdo sensivel, nogdes que a diivida metédica e voluntari
permitira revelar em nés, na sua clareza e distingao.
Entre as ideias inatas que possuimos encontra-se a nocdo de um ser per-
feito, um ser omnisciente, omnipotente e sumamente bom. A ideia de ser per-
© feito servird de ponto de partida para a investigacdo relativa a existéncia do ser
divino. Descartes demonstra a existéncia de Deus mediante trés provas.
nde-
15A primeira prova parte da constatagao de que na ideia de ser perfeito estao
compreendidas todas as perfeicdes. Sendo a existéncia uma dessas perfe
des, ou um dos aspetos da perfeicao divina, entdo Deus, que € 0 ser perfeito,
existe necessariamente — existéncia necessaria e eterna. O facto de existir €
inerente a esséncia de Deus, de tal modo que este ser ndo pode ser pensado
como nao existente. Esta prova é designada argumento ontolégico, sendo de-
senvolvida a priori, sem recurso a causalidade ou a experiéncia.
A segunda prova, ou argumento da marca impressa, toma igualmente
como ponto de partida a ideia de ser perfeito. A causa que faz com que essa
jeia (que representa uma substancia infinita) se encontre em nés nao pode
sero sujeito pensante ou outra realidade finita e imperfeita, mas sim o proprio
Deus, que possui todas as perfeicdes representadas na ideia de ser perfeito.
A terceira prova baseia-se igualmente no principio da causalidade. A causa
da existéncia do ser pensante, finito, contingente, imperfeito, sem o poder de
se conservar no seu préprio ser, nao € o préprio sujeito pensante (muito menos
© nada), mas sim o criador (e conservador) do ser imperfeito e finito, assim
como de toda a realidade, ou seja, Deus (que é causa de si mesmo).
Deste modo, sendo perfeito, Deus nao é um ser enganador, pelo que nos
encontramos libertos da dimensao hiperbélica e mais corrosiva da divida. A
hipétese do Deus enganador é rejeitada em definitive e a hipétese do Génio
maligno é esvaziada de eficdcia. Deus é a garantia da verdade objetiva das
ideias claras e distintas, pois ele constitui, afinal, a garantia de que nao nos
enganamos. Tudo aquilo que se concebe clara e distintamente é necessaria-
mente verdad
Sendo criador das verdades eternas, a origem do ser e o fundamento da
certeza, Deus garante a adequagao entre o pensamento evidente e a realidade,
legitimando 0 valor da ciéncia e conferindo objetividade ao conhecimento.
Deus é 0 principio do ser e do conhecimento.
Além disso, Deus é também infinito, a fonte do bem e da verdade; 6 omnipo-
tente, eterno, omnisciente e, embora sendo o criador do Universo, nao é autor
do mal nem é responsavel pelos nossos erros.
Uma vez provada a existéncia de Deus, Descartes ira também provar a exis-
téncia do corpo, do mundo material e das coisas exteriores em geral, apoiado
na certeza de que Deus nao 0 engana. Podera assim superar todos os argu-
mentos dos céticos radicais.
Apesar de Deus existir, nao estamos libertos da possibilidade do erro. Im-
porta sublinhar que na formulagao de juizos o entendimento tem um papel
fundamental, mas é a vontade que dao consentimento aos juizos que o enten-
dimento formula. Sendo livre, é ela quem decide dar (ou nao) o assentimento
aos juizos. Erramos quando se verifica uma precipitagao da vontade, quando
usamos mal a nossa liberdade e damos o consentimento a juizos que nao séo
evidentes.
161 Descrigao e interpretacao da atividade cognoscitiva
No que se refere aos corpos, sé 0 conceito de extensdo (em comprimento,
largura e altura) nos fornece um conhecimento claro e distinto. Distinguem-se
as qualidades objetivas (grandeza, duragao, figura, etc.) das qualidades subje-
tivas (sabor, cheiro, cor, som, etc.), que ndo est&o presentes enquanto tais nos
corpos.
Segundo Descartes, podemos assim ter ideias claras e distintas dos atribu-
tos essenciais de trés tipos de substancias:
‘Tréstipos de substancias
Substancia pensante (res cogitans)
Substancia extensa (res extensa)
Atributos essenciais
Pensamento,
Extensao,
Varios atributos, todos eles numa perfei
Ao infinita
Substancia divina (res divina)
Em virtude da simplicidade divina, todos os atributos de Deus ~ omnipotén-
omniscién.
, suma bondade, etc. — sao atributos essenciais.
Por sua vez, 0 ser humano constitui uma unidade de duas substncias: a
unidade da alma (substancia pensante) e do corpo (substancia extensa) ~ 0
dualismo alma-corpo ou dualismo cartesiano.
Se as ideias fundamentais sao inatas, a razéo, desde que devidamente
orientada, é capaz, assim, de alcangar um conhecimento claro e distinto.
As principais verdades, das quais se deduzirao outras, sao:
= a existéncia do pensamento (alma), traduzida no Cogito;
+ aexisténcia de Deus, ser perfeito, com os atributos respetivos;
+ aexisténcia de corpos extensos em comprimento, largura e altura.
Deste modo, para Descartes 0 fundamento do conhecimento encontra-se
no Cogito, enquanto crenga basica ou fundacional e primeira verdade, e nou-
tras ideias claras e distintas da razao, obtidas de modo intuitivo. Trata-se de um.
fundacionalismo racionalista.
Todavia, este fundamento do conhecimento depende daquele que é o prin-
cipio de toda a realidade: Deus. Deus nao s6 nao é responsavel pelos nossos
erros — estes decorrem de um mau uso da liberdade — como é a fonte das ideias.
inatas, claras e distintas, e a garantia da verdade e da objetividade do conheci-
mento.
A perspetiva cartesiana esta sujeita a algumas objegées. Vejamos trés des-
sas objecées:
5
i
- A primeira tefere-se ao Cogito. Segundo alguns autores, Descartes apenas
poderia intuido a existéncia do pensamento e nao de um eu pensante. Mais
correto seria dizer, por exempl
‘Ha um pensamento que esté a ter lugar” ou
7“Existe pensamento’, Isso nunca seria suficiente para afirmar a existéncia de
um eu pensante.
A-segunda é relativa ao circulo cartesiano. Descartes tera incorrido num ar-
gumento circular ou peticdo de principio. Por um lado, € 0 facto de raciocinar-
mos a partir da ideia clara e distinta que temos de Deus que nos ira garantir
que Deus existe. Mas, por outro lado, é Deus — que existe e ndo ¢ enganador
— que garante a verdade e a objetividade das ideias claras e distintas (in-
cluindo a prépria ideia de Deus como ser perfeito). Isto pode ser dito de outro
modo: temos necessidade de confiar no nosso intelecto ou na nossa razio
para provar a existéncia de Deus e, todavia, sem 0 conhecimento prévio da
existéncia de Deus nao temos, em principio, quaisquer motivos para confiar
no intelecto ou na razao.
A terceita objegao incide sobre 0 dualismo cartesiano (dualismo alma-
-corpo). O facto de Descartes considerar que a alma é uma substancia dis-
tinta da substancia corporal torna dificil explicar como se daa interagao des-
sas substancias. Segundo Descartes é na glandula pineal, “o principal
assento da alma’, que ocorre essa interagdo, através daquilo a que ele chama
‘espiritos animais", Mas estes sao de cardcter material, pelo que o problema
da interacdo das substancias permanece.
1.2.3. Hume, a resposta empirista
Descartes atribuia um grande valor a razdo e ao conhecimento a priori.
David Hume, pelo contrario, privilegiava 0 conhecimento a posteriori, admi-
tindo que a capacidade cognitiva do entendimento humano é limitada. E na
experiéncia, ou nas impressées dos sentidos, que o fundamento do conheci-
mento deve ser procurado.
Hume sustenta que Descartes néo encontrou um fundamento para 0 co-
nhecimento capaz de refutar os céticos radicais. Se fosse mesmo levada ao
extremo (0 que no é possivel), a divida universal recomendada por Descartes
seria incuravel e nunca o poderia conduzir a qualquer certeza. Mas, mesmo
que ela 0 conduzisse ao Cogito, nao se poderia avangar um passo para além
do saber, exceto usando aquelas mesmas fa-
culdades das quais supostamente ja desconfiamos.
Assim, ao racionalismo de Descartes, para quem a razéo € a fonte principal
do conhecimento, opde-se o empirismo de Hume, para quem © conhecimento
deriva fundamentalmente da experiéncia, tendo todas as crencas e ideias
uma base empirica, até as mais complexas.
As varias percegées humanas sao classificadas por Hume segundo o crité-
dele e construir assim o edifici
rio da vivacidade e da forga com que sao suscetiveis de impressionar o espirito.
r grau de forga, nitidez e vivacidade desig-
nam-se por impressdes, que incluem as sensacdes (auditivas, visuais, tateis,
As percegées que apresentam mi
181 Descrigdo einterpretacao da atividade cognoscitiva
etc.), as emogées e€ as paixdes (o amor, o odio, o desejo, a ira, etc.), enquanto vi
venciadas e presentes ao espirito. Ora, a percegao de algo presente aos sent
dos 6 sempre mais vivida e tem maior intensidade do que a sua representagao.
Asideias ou pensamentos sao, justamente, as representagées das impres-
ses, ou seja, so as imagens ou cépias enfraquecidas das impressdes, nunca
alcangando vivacidade, intensidade e forga iguais as destas tltimas. O pensa-
mento mais vivido 6, inclusive, inferior 4 sensacdo mais baca.
Podemos compreender esta diferenga recorrendo a dois exemplos: uma
impressao é a cor da flor que os olhos veer; uma ideia é a meméria dessa cor.
Uma impressdo 6 a dor de dentes enquanto vivida; uma ideia 6 a lembranga
dessa dor. No tocante as diferentes ideias, Hume considera que as da meméria
so, por sua vez, mais fortes e vividas que as da imaginagdo, sendo que esta
nao fica sujeita & mesma ordem e forma das impressdes originais, enquanto a
meméria, de certo modo, fica presa & configuragao dessas impressées
Que relagao existe entre impressdes e ideias? As ideias derivam das im-
pressées. Todas as nossas ideias (ou perceges mais fracas) so, de modo di-
reto ou indireto, cépias das nossas impressdes (ou percegdes mais intensas). E
0 chamado principio da cépia. Nao podem, pois, existir ideias paraas quais nao
\s cépias das impressées,
tenha havido uma impress&o prévia. Sendo as id
nao existem ideias inatas.
Asimpressées e as ideias podem ser divididas em simples e complexas. As
primeiras (como as que dizem respeito a um certo tom de vermelho) sao as que
no admitem qualquer separaco ou diviséo. As complexas (como as que re-
sultam de ver ou de pensar numa cidade) séo as que podem ser divididas em
partes, resultando da combinagao das impressdes ou das ideias simples.
as ideias com-
As ideias simples derivam de impressdes simples, mas m
plexas (formadas, por exemplo, na imaginacao) nao tém impressées complexas
que Ihes correspondam, e muitas das impressées complexas nunca sao exata-
mente copiadas em ideias (ou seja, as ideias em causa nao sao cépias exatas
dessas impressoes).
Se nao pudermos indicar a impressdo correspondente a uma determinada
ideia, entéo estamos perante uma ficgao — embora também as ficgdes tenham
por base, em Ultima instancia, as impressdes, uma vez que so ideias construi-
das a partir delas.
A ideia de Deus, por exemple, referindo-se a um Ser infinitamente inteli:
gente, sabio e bom, é uma ideia complexa em que se eleva sem limite as quali-
dades de bondade e sabedoria. Nenhum objeto da experiéncia sensivel Ihe
corresponde.
Asideias e as impressées sao os elementos do conhecimento. Por isso, é na
experi
se reduzir 4 multiplicidade das impressdes e das ideias, bem como das relagées
ites impostos pelas impressoes.
ncia que se encontra o fundamento do conhecimento. Tudo acaba por
= entre elas. Nao ha conhecimento fora dos lit
19Para além da distingao estabelecida entre os elementos do conhecimento,
Hume distingue também dois modos ou tipos de conhecimento: 0 conheci-
mento das relagSes que existem entre as ideias — relagdes de ideias — e 0 co-
nhecimento de factos— questées de facto.
Tendo todas as ideias uma origem empirica, nao dispomos de conhecimen-
tos a priori sobre o mundo propriamente dito — que 6, afinal, o mundo da expe-
riéncia. S6 o conhecimento a posteriori é que nos pode dizer como sao as ci
sas, Tal nao significa que nao haja conhecimentos a priori. Simplesmente,
esses conhecimentos nada nos dizem de substancial acerca do mundo.
Afirmar, por exemplo, que “o todo é maior do que cada uma das suas par-
tes’, que “7-5 = 2” ou que "uma bola vermelha tem cor" produzir enunciados
independentes dos factos. Trata-se de proposigdes verdadeiras, referentes a
relacdo entre as ideias referidas, e que se descobrem pela simples operagao do
Pensamento, através da andlise do significado dos conceitos. Embora tais
ideias nao deixem de derivar da experiéncia, a relagdo entre elas é indepen-
dente da experiéncia. A sua verdade nao esta dependente do confronto coma
experiéncia.
Estes conhecimentos apresentam um cardcter evidente, traduzindo-se em
Pproposigées necessarias. Elas baseiam-se no principio da contradig&o (ou
principio da nao contradigao): negar essas proposigées implica uma contradi-
cao. Assumem estas caracteristicas 0s conhecimentos da légica e da matema-
tica (geometria, Algebra, aritmética), incluindo assim todas as afirmagGes que
sejam intuitiva ou demonstrativamente certas.
Ora, sao diferentes as caracteristicas do conhecimento referente aos fac-
tos. Afirmar que “chove’, ou que “a Terra gira em torno de seu proprio eixo" é
apresentar enunciados relativos a factos e cuja justificagao se encontra na ex-
periéncia sensivel, nas impressées. O valor de verdade destas proposigées sé
pode ser determinado recorrendo a experiéncia.
A certeza das proposigées relativas a factos ndo se fundamenta no princ
pio da contradi¢do, j4 que nao é logicamente contraditério negar uma afirma-
Gao relativa a factos. Se dissermos que “amanhéi a Terra ndo vai girar em torno
de seu préprio eixo’, nao ha nisso nada de contraditério, ndo estamos perante
uma contradigao nos termos, ao
solteiro 6 casado" ou que "2 +2= 5",
As questées de facto traduzem-se, assim, em proposigées que nao sao ne-
cessarias, mas sim contingentes. Assumem estas caracteristicas, por exem-
plo, os conhecimentos das ciéncias naturais.
Temos, pois, diferentes verdades nestes dois tipos de conhecimento:
és do que sucede quando se admite que “oTipos de Proposicées desses
conhecimento conhecimentos Beemeloe
Sao sempre verd 2e2-4
deiras emquais- | 4 -aiz quadrada de 8! € 9.
quer circunstan-
Relagdesde | Expressam | Oe nea Dados dois pontos distin-
ideias verdades | poderiam ter sido | tos, hd um Unico seg-
(a priori) necessarias | Paisas mento de reta que os une.
Negiiastmpiisa: Nenhum casado é sol-
contradigao. teiro.
Sao verdadeiras, Descartes foi um filésofo
Questdesde | Expressam | maspoderiamter | frances.
facto verdades | sido falsas. Ocalor dilata os corpos.
(posteriori) | contingentes | Negé-las nao im- A Segunda Guerra Mun-
plica contradigao. | dial terminou em 1945.
Apoiados nesta diferenciagao, podemos agora analisar a perspetiva de
Hume sobre a causalidade.
A ordem ¢ a regularidade das nossas ideias assentam em principios que
permitem uni-las e associé-las. Os principios de associacao de ideias sao os
seguintes:
Principios de
associagao deideias EEERIDIOn
Semelhanga Um resto desenhado remete-nos para 0 rosto original.
Contiguidadeno | A lembranca de um comboio leva a pensar na estac&o,
tempoenoespago | nos passageiros, etc
Causalidade(causae | A agua fria posta ao lume (causa) faz pensar na fervura
efeito) (efeito) que se the seguir’.
Aanilise da relagao de causa e efeito assume particular relevancia na teo-
tia do conhecimento de Hume.
Em rigor, 0 nosso conhecimento dos factos restringe-se As impressées
atuais e as recordacGes de impress6es passadas. S6 com base nessas impres-
s6es e recordages € que podemos justificar as nossas crengas. No entanto, hd
muitas afirmagdes que fazemos e que nao podemos justificar se nos basear-
mos apenas no testemunho da meméria ou na experiéncia imediata dos senti-
dos. Por exemplo: “O préximo papel que deitarmos a Agua molhar-se-a’, “Todos
os gatos sao Carnivoros” ou “A causa da dor deste dente é a carie”.
Eis-nos diante de proposigées cujas eventuais verdades sao contingentes,
relativas a questées de facto ~ conhecidas, portanto, a posteriori. Mas aquilo
que estamos a dizer ainda nao foi observado (no observamos 0 préximo papel
:
i
a1que deitarmos a agua a molhar-se), ou sé 0 foi parcialmente (s6 observamos
alguns e nao todos os gatos), ou nunca chega a ser observado (sabemos que =
ha uma cérie no dente e que este déi, mas no vemos que uma coisaéa causa ©
da outra).
Para percebermos 0 problema da causalidade, atentemos no exemplo da
dor no dente. A conclus&o segundo a qual "A causa da dor deste dente é a
carie” tem por base a relagao de causalidade ou relagdo de causa e efeito (ou
relagdo causa-efeito): a dor é vista como o efeito cuja causa é a carie.
Neste sentido, de acorde com Hume, conhecimento da relacao de causa
e efeito nao é obtido por raciocinios a priori, mas deriva totalmente da expe-
riéncia, ao apercebermo-nos de que certos objetos ou fenémenos particulares
se combinam constantemente uns com os outros. Todavia, se a experiéncia
nos revela uma dor e uma carie, ela ndo nos diz que a cérie € a causa da dor.
Entao 0 que nos leva a pensar que a carie é a causa da dor?
Arelag&o de causa e efeito 6 normaimente concebida como sendo uma co-
nexdo necessaria. Ou seja, acreditamos que aquilo a que chamamos efeito nao
pode ocorrer sem aquilo a que chamamos causa e que esta causa produzira
necessariamente aquele efeito.
Sucede, no entanto, que nao dispomos de qualquer impressao relativa a
ideia de conexao necessaria entre fendmenos. Ninguém vé ou perceciona uma
conexao necessaria,
A Unica coisa que percecionamos é que entre dois fenémenos, eventos ou
objetos se verifica uma conjungao constante: um deles ~ a que chamamos
efeito ~ ocorreu sempre a seguir ao outro — a que chamamos causa. Conclui-
mos entao que existe entre eles uma relacdo de causalidade e que essa rela-
ao de causalidade constitui uma conexdo necessaria. Tal conexdo nao € ra-
cionalmente justi
Esta ideia de conexao necessdria tem apenas um fundamento psicoldgico:
o habito ou costume. E 0 habito de ver um facto suceder a outro que nos levaa
crenga de que sempre assim sucedera e de que um facto nao pode ocorrer sem
© outro. Ora, o hébito ou costume é um guia imprescindivel da vida pratica, tor
nando Util a experiéncia e fazendo-nos esperar, para o futuro, uma série de
eventos semelhantes aqueles que se verificaram no passado. Todavia, ele re-
duz-se a um sentimento ou a uma tendéncia de cariz psicolégico, nao consti-
tuindo um principio racional.
O problema da relagao de causalidade articula-se com o problema da indu-
¢40, equivalente ao problema da uniformidade da natureza. A ideia de que a
natureza é uniforme associa-se a crenga na similitude dos eventos e na su-
posta conexao necesséaria entre alegadas causas e alegados efeitos.
Analisemos © problema da indugdo partindo dos outros dois exemplos
apresentados. Também nestes casos vamos para la da experiéncia, efetuando
inferéncias de caracter indutivo: uma previsdo, ao dizermos que "O préximo
cavel.
22papel que deitarmos a 4gua molhar-se-é”, e uma generali
que “Todos os gatos so carnivoros'.
ago, 20 afirmarmos
Segundo Hume, qualquer argumento indutive pressupSe (como premissa)
0 principio de que o futuro se assemelha ao passado, principio que ele desig-
nou por prince!
segundo o qual a natureza sempre funcionara da mesma forma, de modo previ-
sivel e regular, ou que as leis da natureza sao invariaveis. Mas sera que este
principio € racionalmente justificavel? Se 0 nao for, também a indugdo 0 nao
sera. Vejamos:
io da unifor
jade da natureza (PUN). Trata-se de um principio
1. Se a conclusao de um argumento indutivo for racionalmente justificada
pelas premissas, entdo PUN tem de ser racionalmente justificavel.
2. Se PUN for racionalmente justificavel, ento tem de existir um bom argu-
mento indutivo ou um bom argumento dedutivo a seu favor.
3. Ora qualquer argumento indutivo a favor de PUN é circular: partimos, por
exemplo, da ideia de que até agora a natureza sempre fi
niforme e con-
cluimos que a natureza é sempre uniforme. Ou seja, justificamos PUN
através da indugao, mas essa indugao jé pressupde PUN, tornando-se cir-
cular (peticao de principio). Logo, nao existe um bom argumento indutivo
a favor de PUN.
4, PUN também nao é uma verdade a priori, uma relagdo de ideias ou uma
verdade conceptual que se deduz das definigdes dos seus termos: nao é
contraditério pensar que a natureza deixar de ser uniforme ou que as re-
gularidades do passado deixarao de se verificar no futuro. Assim, PUN nao
resulta de um raciocinio a priori, nem se conclui dedutivamente das ob-
servacées feitas até agora. Logo, nfo existe um bom argumento dedutivo
afavor de PUN.
Portanto, PUN nao é€ racionalmente justificavel.
6. Se PUN nao é racionalmente justificavel, também nao ha justificagao ra-
cional para as crengas obtidas por indugo (previsdo ou generalizacao).
w
Em suma, segundo Hume, nao ha qualquer forma de justificar racional-
mente as crengas obtidas por indugao, seja como previsao, seja como genera-
lizagdo. Essas crengas assentam num pressuposto (PUN) que ndo pode ser ra-
cionalmente justificado.
Se
ducdo é injustificdvel, ainda mais o sera se nao for estabelecida entre
impressdes, ja que nos devemos limitar ao Ambito empirico. Deste modo, as
trés substancias que Descartes concebera clara e distintamente — o eu, 0
mundo (a realidade exterior) e Deus ~ deixam de fazer parte do horizonte do
nosso conhecimento.
Se Descartes achara indubitavel a existéncia do eu pensante, objeto de
uma intuigdo imediata, Hume considera que nio se deve recorrer a qualquer
tipo de intuicdo para justificar a existéncia do eu como substancia, como
23sujeito permanente dos varios atos psiquicos, pois s6 dispomos da intuicdo de 2
ideias e impressées. Ora, se alguma impressdo gerasse a ideia de eu, ela deve- =
ria permanecer invariavel ac longo da vida. Mas nao ha impresses constantes
einvariaveis. As impressdes sucedem-se umas as outras de forma ininterrupta,
nao havendo nenhuma que seja permanente. Por isso, a ideia de eu nao deriva
de qualquer impressao. Sendo assim, a erenga na existéncia de um eu perma-
nente, como substancia distinta das impressées e ideias, ¢ injustificavel.
Analisemos agora 0 que se passa em relagao ao mundo exterior. As impres-
sées constituem a Unica realidade acerca da qual dispomos de alguma certeza.
Que dizer, nesse caso, da existéncia do mundo exterior? S6 podemos conside-
rar real um hipotético mundo exterior se as coisas forem independentes das
nossas percegées (se, por exemplo, uma flor existir independentemente das
impressées que temos dela).
Ora o problema reside justamente no facto de nao termos experiéncia ou
impressao de tal realidade exterior. S6 temos acesso ao contetido das nossas
mentes, as nossas percegées (impressées e ideias). Logo, afirmar a existéncia
de uma realidade que seja a causa das nossas impressées e que seja distinta
delas e exterior constitui uma crenga injustificada e injustificavel. De onde
procedem entdo as impressées? Nao sabemos.
No que se refere a existéncia de Deus, reconhecendo que o que concebe-
mos como existente também o podemos conceber como nao existente, Hume
considera que nao existe um ser cuja nao existéncia implique contradigao.
Como tal, 0 argumento ontolégico ¢ desde logo excluido. Também as provas da
existéncia de Deus baseadas no principio da causalidade sao criticadas por
Hume, uma vez que nao se limitam as impress6es, mas vao das impressGes a
Deus, que nao é objeto de qualquer impressio.
O empirismo de Hume condu-lo ao fenomenismo e ao ceticismo.
Dado que sé conhecemos as percegées, a realidade (pelo menos aquela a
que acedemos) acaba por se reduzir aos fendmenos, ou seja, aquilo que apa-
rece ou que se mostra — dai o fenomenismo. Nao encontramos qualquer funda-
mento real da conexéo das percegées, ou um principio de unidade das perce-
ges que delas se diferencie (nem uma realidade exterior nem uma substéncia
pensante).
Hume é um filésofo cético ao mostrar que muitas das coisas que julgamos
saber ndo as sabemos de facto. Desde logo, nao sfo racionalmente justificd-
veis a indugao e a crenga no principio da uniformidade da natureza — pelo que
nao ¢ legitimo afirmar que temos um conhecimento cientifico dos fenémenos.
So igualmente injustificdveis a crenga na existéncia do mundo exterior ea
crenga em realidades que transcendam o dominio da experiéncia (como uma
substancia pensante ou Deus). Deste modo, a capacidade cognitiva do enten-
dimento humano apresenta limites e tem uma natural propensao para o erro.Hume afasta-se do ceticismo radical ou pirrénico. Se duvidassemos siste-
maticamente de tudo, se abandonassemos a crenga na existéncia do mundo
exterior, no principio da causalidade (mesmo que este ndo seja um principio
racional) ou no principio da uniformidade da natureza, cairiamos numa hesita-
co constante e a vida pratica tornar-se-ia impossivel. Também as cién
se poderiam desenvolver, jé que elas assentam nas relagées causais que esta-
belecemos entre os fendmenos.
Hume adota, assim, um ceticismo mitigado ou moderado, reconhecendo
nessa atitude uma forma de evitar cair no dogmatismo, de salvaguardar a im-
parcialidade e a moderac&o nas opinides e nos juizos, de apartar a mente dos
preconceitos, de nos defendermos das afirmagées precipitadas e temerarias
ou das decisées imprudentes e de nos precavermos contra as investigages de
cardcter especulativo (como as da tradigao metafisica anterior a Hume), afas-
tadas da experiéncia e das informagées dos sentidos.
Sendo um cético moderado, mas nao radical, Hume encontrou na experién-
cia dos sentidos 0 fundamento do conhecimento. Trata-se de um fundaciona-
lismo empirista. E quais sero as crengas basicas para um empirista? Se tenho,
por exemplo, a crenga de que esta uma laranja em cima da mesa, ela é justifi-
cada pela minha crenga basica de que estou a ter a experiéncia de ver uma la-
ranja em cima da mesa. A esta crenga basica ~ que permite evitar a regressio
infinita da justificagéio ~ subjaz a natureza da experiéncia sensorial e percetual,
ou seja, subjazem as impressées dos sentidos.
As crencas basicas para um empirista so, pois, as crencas de que se esta a
ter esta ou aquela experiéncia. Assim, os tinicos principios autoevidentes e
convincentes encontra-os Hume na experiéncia.
A perspetiva de Hume nio esta isenta de objegées. Vejamos duas delas:
sna0
+ Uma primeira objegao foi sugerida pelo préprio Hume, com o exemplo do
tom de azul desconhecido. Uma pessaa a quem seja apresentado um vasto
leque de tons de azul, a excegdo de um tom em particular, que também nunca
viu antes, pode formar uma ideia deste tom de azul desconhecido, mesmo
sem ter tido a impressao correspondente. Segundo a teoria de Hume, isso
seria impossivel, ja que essa pessoa nunca teve qualquer impress&o simples
4 qual pudesse corresponder a ideia desse tom de azul. Mas Hume nao se
revelou muito preocupado com este contraexemplo ao principio da cépia,
considerando tratar-se de uma situacio demasiado singular para o levar a
modificar os seus principios filoséficos basicos.
+ Hume parece considerar que uma crenga sé se encontra racionalmente jus-
ficada se existir uma prova irrefutavel da sua verdade. Mas alguns autores,
como Bertrand Russell (1872-1970), admitem que pode nAo existir uma prova
refutavel da verdade deumacrengaeesta encontrar-se racionalmente jus-
ificada. Assim, a crenga na existéncia de conexdes causais (injustificada,
g
25segundo Hume) parece constituira melhor e mais razoavel explicagao para a
ocorréncia das conjungées constantes. Tambem a hipétese da existéncia do
mundo exterior — ou de objetos independentes de nés que sao causa das
nossas impressées — parece constituir uma hipétese melhor e mais simples
do que a hipdtese de esse mundo exterior nao existir ou ser ilusdrio (mesmo
que esta Ultima hipotese nao seja logicamente impossivel). Em ambos os
casos, estamos a usar 0 argumento a favor da melhor explicagao (ou abdu-
40): entre as varias explicacdes possiveis, aceitamos a melhor. Isso seré su-
ficiente para que ambas as crengas estejam racionalmente justificadas.
1.2.4. Analise comparativa das perspetivas de Descartes e Hume
O quadro que se segue procura estabelecer uma comparagao entre os princ!-
pais aspetos das teorias filoséficas do conhecimento de Descartes e de Hume.
DESCARTES HUME
A experiencia (as impressoes dos
sentidos) 6 a fonte principal do
conhecimento e todas as ideias
tém uma origem empirica ~ emp
rismo. Valorizacao do conheci-
mento a posteriori,
Nao existem ideias inatas. As
ideias derivam das impressées. As
tem ideias inatas. A partir | operagées da mente baseiam-se
destas Gitimas, 6 possivel | nos princfpios de associagao de
A razéio ou pensamento é
Fonte ou origem | a fonte principal do co-
do nhecimento — raciona-
conhecimento | lismo. Valorizagao do co-
nhecimento a priori.
Operagdesda | obter o conhecimento, | ideias: a semelhanca, a contigui-
mente, ideiase | mediante as operacées | dade no tempo e no espago e a
raciocinios | fundamentaisdamente: a | causalidade. Sublinha-se o papel
intuigio e a dedugao. | do raciocinio indutive, embora
Sublinha-se 0 papel do ra- | Hume reconhega nao haver forma
ciocinio dedutivo na ob- | de justificar racionalmente as
tengao do conhecimento. | crengas obtidas por indugao.
26cus
Possibilidade ou
validade do
conhecimento
Usando a divida, Descar-
tes adotou um ceticismo
metédico. Mas, depois de
submeter as crengas a du-
vida, mostrou ser possivel
© conhecimento da reali-
dade, refutando o ceti-
cismo radical
Podemos ter ideias claras
€ distintas dos atributos
essenciais de trés tipos
de substancias:
—a substancia pensante;
~a substancia extensa:
~a substancia divina.
HUME
Hume € um filésofo cético ao
mostrar que muitas das coisas
que julgamos saber nao as sabe-
mos de facto. A capacidade cogni-
tiva. do entendimento humano
apresenta limites e tem umanatu-
ral propensao para o erro. Afas-
tando-se do ceticismo radical ou
Pirrénico, Hume adota um eceti-
cismo mitigado ou moderado.
Nao encontramos qualquer prin-
cipio de unidade e conexio das
percecées que delas se diferen-
cie. Nao temos impressoes:
~— de uma substaneia pensante;
~de uma realidade exterior;
— de Deus.
Fundamentacao
do
conhecimento
© fundamento do conhe-
cimento encontra-se na
raziio, mais propriamente
no Cogito, enquanto
erenga basica ou funda-
cional e primeira verdade,
e noutras ideias claras e
distintas da razdo, obti-
das de modo intuitivo. To-
davia, este fundamento
do conhecimento de-
pende daquele que é o
principio de toda a reali-
dade: Deus.
© fundamento do conhecimento
encontra-se na experiéncia, mais
propriamente nas impressoes dos
sentidos. As crencas basicas de
que se esta a ter esta ou aquela
experiéncia justificam —outras
crengas que delas se inferem.
27O estatuto do
conhecimento cientifico
2.1. Conhecimento vulgar e conhecimento
cientifico
Aliada a técnica e a tecnologia, a ciéncia trouxe, ao longo dos tempos, int-
meras vantagens e comodidades. O sucesso das suas aplicagées permitiu-Ihe
aleangar um estatuto superior ao de outras formas de conhecimento. A maio-
ria das pessoas valoriza a ciéncia ¢ o conhecimento cientifico sob a crenca de
que sao fidveis, seguros e superiores as outras formas de compreensao da rea-
lidade, considerando que s6 no saber cientifico existe rigor cognitivo. Este
modo de enearar a ciéncia é o chamado eientismo, atitude que leva o grande
ptiblico a depositar na ciéncia toda a sua confianga e esperanga, mesmo sem
compreender muitas das suas teorias.
A area da filosofia que se ocupa das questoes relativas a pratica e ao co-
nhecimento cientificos, procedendo ao estudo critico dos prineipios, das hipé-
teses, dos métodos, dos raciocinios e dos resultados das diversas ciéncias, a
fim de determinar a sua origem légica, 0 seu valor e a sua importancia objetiva,
éa filosofia da ciéncia, também designada por epistemologia.
Aciéncia distingue-se do senso comum ou conhecimento vulgar, conheci-
mento essencialmente pratico, formado a partir da apreensao sensorial es-
pontanea e imediata da realidade e transmitido de geragao em geracao. Ao
contrario do conhecimente cientifico, o senso comum nao é aprofundado, nem
decorre de investigagdes pianificadas e apoiadas em testes e resultados expe-
rimentais. Por isso, 6 superfici ciplinar e ametédico, tendo a sua jus-
jana ¢ traduzindo-se num conjunto de suposi-
ges, pressentimentos, preconceitos e ideias feitas.
O conhecimento cientifico resulta de uma leitura dos fendmenos diferente
daquela que 0 conhecimento vulgar nos proporciona, representando também
um nivel mais aprofundado do conhecimento que podemos ter acerca da rea-
lidade. Baseia-se em pesquisas e investigagées apoiadas em procedimentos
(métodos) coerentes e consistentes relativamente a um conjunto de pressu-
postos teéricos adotados pelos cientistas; faz-se acompanhar, na maioria dos
casos (sobretudo nas ciéncias experimentais), de instrumentos de medida;
plica a construgao de conceitos e teorias e o recurso a uma linguagem especi-
fica e rigorosa — frequentemente de cariz matematico -, procurando descrever,
explicar e prever os fendmenos e as suas relagées e apontando as leis que Ihes
presidem.
28cust
2. Cestatuto do conhecimento cientifico
A critica ou a rutura que 0 conhecimento cientifico estabelece com o co-
nhecimento vulgar resulta de uma atitude diferente face ao real.
Conhecimento vulgar (senso comum) Conhecimento cientifico
— Confia nos sentidos; ~ Desconfia des sentidos;
~E sensitivo; — problematizador e racional;
~ Manifesta-se numa atitude dogmética: | — Manifesta-se numa atitude critica:
~ Tem uma finalidade pratica; — Tem uma finalidade explicativ.
~ Eametodico e assistematic: ~E metédico e sistematico.
~ Utiliza uma linguagem imprecisa. = Utiliza uma linguagem rigorosa.
Desde 0 inicio, a ciéneia sempre procurou constituirse como um conjunto
de conhecimentos e procedimentos sistematizados e organizados, tendo em
vista a produgao de leis e teorias capazes de descrever, explicar ¢ prever os
fenémenos. Assim, 0 conhecimento cientifico (sobretudo no caso das
cias empiricas):
+ Procura ser objetivo, tendo em aten¢ao os factas e excluindo as apreciagées
subjetivas.
+ Assenta num método especifico —_o método experimental, no caso das cién-
cias empiticas.
+ Resulta da formulacao de hipéteses, que procuram ordenar a diversidade
empirica
+ Econstituido por um conjunto de teorias (hipéteses ja estabelecidas e com-
provadas).
+ Procuraleis, que exprimem a invariancia ea repetibilidade dos factos, muitas
vezes expressas em termos estatfsticos ou probabilisticos.
+ E preditivo, pois prevé a ocorréncia de novos fenémenos.
+ E revisivel, estando sujeito a corregées e a alteragdes.
+ E provisério, visto manter-se como aceitavel até surgir outra teoria mais efi-
caz e mais préxima da verdade.
Tradicionalmente consideram-se dois tipos fundamentais de as
formais (ou exatas) e as empiricas. Enquanto as ciéncias empiricas se ocupam
dos factos e acontecimentos que ocorrem no mundo e que podémos conhecer
através da experiéncia, as formais ocupam-se de simbolos e das relagdes que
se podem estabelecer entre eles, néo precisando de recorrer A experiéncia
para obter resultados.
Classificagao das ciéncias
Formais: estudam conceitos, estruturas © processos pura | ggica
mente légicos, abstratos @ simbdlicos, sendo as suas pro-
posigdes independentes da experiéncia (a priori). Matematica
29Classificagao das ciéncias
Bi
log
Naturais: estudam factose | Quimica
acontecimentos caracteris- | Fisica
ticos da natureza. Reuonornts
Empiricas: lidam com pro-
posigdes que sao justifica-
das com base na observa-
gao ena experimentagao (a Sociologia
posteriori. Sociais e humanas: estu- | peicologia
dam factos e acontecimen- | ,
‘ Histéria
tos caraeteristicos da vida
social e humana Economia
Apesar destas distingdes, ha muitas situagdes em que as ciéncias coope-
ram entre si.
2.2. Ciéncia e construgao — validade e
verificabilidade das hipéteses
2.2.1. O problema da demarcagao do conhecimento cientifico
Se uma das caracteristicas do conhecimento cientifico 6 o seu caracter
metédico, analisemos agora qual o método que permite demarcar a
outros modos de conhecer o real. Veremos, neste sentido, qual a especifici-
dade metodolégica da ciéncia.
O método em ciéncia corresponde ao conjunto de procedimentos, orien-
tados por um conjunto de regras, que estabelecem a ordem das operagées a
realizar com vista a atingir um determinado resultado. O método varia em fun-
cao do objeto de estudo.
Sera o método a adotar que permitird distinguir aquilo que é conhecimento
cientifico do que néio pode ser considerado como tal. Isto permite responder
ao problema da demarcagio, que consiste na procura do eritério de cientifici-
dade, capaz de distinguir as teorias cientificas das teorias nao cientificas.
Quais sao entdo os procedimentos (o método) que o cientista deve adotar
para obter resultados cientificos? Como reconhecer uma teoria cientifica e
distingui-la de uma teoria nao cientifica? Qual o critério a adotar na validacaio
das teorias cientificas?
Vamos ver, de seguida, dois modelos metodolégicos de referéncia—o indu-
tivo ¢ 0 conjetural ou hipotético-dedutivo — e os respetivos critérios de valida~
gao das hipoteses cientificas ~ o da verificabilidade eo da falsificabilidade.
iéncia de
302.2.2. Aconcecao indutivista do método cientifico
O indutivismo é a perspetiva epistemolégica que salienta a importancia
da indu¢ao (ou raciocinio indutivo) paraa ciéncia, quer ao nivel das descober-
tas cientificas, quer ao nivel da justificagao das teorias.
Francis Bacon (1561-1626) foi um dos filésofos que mais chamou a atengao
para o papel que a indugao e a experimentagdo tém na construcao do conheci-
mento. Segundo Bacon, 0 raciocinio indutivo era o Unico em que se devia ba-
sear 0 método cientifico. Ele considerava que o conhecimento cientifico se
devia fundar na indugdo e na experimentagao ¢ nao na metafisica e na especu-
lagao. A indugao & para Bacon, 0 Gnico caminho para o progresso da ciéncia.
De um modo geral, a visdo indutivista do metodo cientifico considera que a
atividade cientifica obedece a seguinte logica de procedimentos: parte-se da
observacao dos fenémenos, formulanrse hipsteses e realizam-se testes ex-
perimentais para, depois, propor teorias e leis cientificas
Observagio —- Formulagio de hipéteses —- Experimentagio —- Lei
Tendo em conta a perspetiva de varios filésofos indutivistas — que subli-
nham que a indugao esta presente, no método cientifico, quer no processo de
descoberta quer no processo de justificagao das teorias -, podemos esque-
matizar agora as operagées fundamentais do método cientifico a luz do induti-
vismo:
Operacées fundamentais do método cientifico—indutivismo
1. Observagao dos fenémenos
O cientista observa os factos ou fenémenos e regista-os de forma
sistematizada para procurar encontrar as suas causas. A observa-
Gao ¢ neutra, isenta, rigorosa, objetiva ¢ imparcial, devendo ser
repetida varias vezes, A observacao precede a teoria.
Exemplo:
Contexto de
descoberta | Observo que as folhas das plantas a, b.c, d, e feg sdo verdes
es respeito | 2 Formulagao da hipotese
maneira a
‘como Por intermédio da comparagao e classificagao dos casos observa-
ocorrena | dos, 0 investigador procura aproximar os factos para descobrir a
descoberta) | relacdo existente entre eles. Assim, recorrendo a indugao, ele
parte para a formulagao da hipétese, explicacao geral acerca dos
fenomenos e das suas relacées. Procura-se, assim, inferir um enun
ciado geral a partir de enunciados particulares ou singulares.
Exemplo:
Existe uma substéncia nas folhas verdes das plantas que thes con-
fere essa corOperagces fundamentais do método cientifico ~ indutivismo
3. Experimentagao / verificacao experimental
A experimentacao é 0 processo de confirmacao da hipétese expli:
cativa enunciada. Esta tera de ser testada e, confirmando-se o que
ela propée, pode passar a lei cientifica.
Contextode | 4 experimentago é fundamental para que se possa verificar ou
confirmarse as relacdes estabelecidas sao aplicaveis a todo o tipo
justificacao n tod
(refere-se ao de fendmenos semelhantes (isto é, nas mesmas condigées e da
modocomo | €smanatureza), mesmo que nao tenham sido observados um por
sejustificam |" _
osresultados | 4, Estabelecimento da lei geral
obtidos na —EE — i:
descobertay | Recorrendo, uma vez mais, a indugdo, o cientista generaliza a rela-
40 encontrada entre os factos semelhantes, traduzindo-a numa
lei que expressa as relacdes constantes entre esses factos.
Exemplo:
Todas as folhas verdes possuem uma substéncia—a clarofila — que
Ihes confere essa cor.
A indugao (enquanto generalizagao) encontra-se, assim, presente no pro-
cesso de formulacdo da hipétese (explicacao geral para observacoes realiza-
das) € no processo de estabelecimento da lei geral (as hipdteses s6 passama
leis apés serem verificadas por um conjunto de experiéncias particulares).
A utilizagao do racio indutivo € a chave para o estabelecimento das
teorias e leis universais da ciéncia, suscetiveis de garantir previsées rigorosas.
O raciocinio indutivo, partindo de observagées particulares e atingindo con-
clusdes gerais, aumenta 0 nosso conhecimento, tendo um earacter amplifi-
cante que 0 raciocinio dedutivo nao tem.
Assim, é pela experimentagao que 0 cientista procura testar aquilo que
uma dada hipétese propée. A verificagao do que uma dada hipétese propde
torna-se, por isso, o passo necessario para assegurar os resultados da investi-
gagao. Mas sera que isto é suficiente para garantir que aquela hipétese se trata
de facto de uma (boa) hipétese ou teoria cientifica?
Uma das questdes centrais da reflexdo epistemolégica incide sobre qual o
critério que permite demarcar o conhecimento cientifico de outros tipos de
conhecimento — problema da demarcagao.
Os filésofos neopositivistas consideravam a verificabilidade (empirica) o
critério para distinguir o que é cientifico do que nao 0 é. De acordo como erité-
rio da verificabilidade, uma teoria é cientifica apenas se consistir em afirma-
Ses que sejam empiricamente verificaveis, ou seja, apenas se for possivel
icar empiricamente (através da experiéncia) aquilo que ela propée.
Uma proposigao empiricamente verificavel sera aquela cujo valor de ver
dade pode ser determinado através da observacao e da experiéncia.
322 Oestatuto do conhecimento cientifico
Assim, por exemplo, a proposic¢ao “Ha corvos negros” pode ser verificada
pela observaco, enquanto a proposigao “Existem espiritos com asas’ nao
pode ser empiricamente verificada.
Mas sera que as teorias e as leis propostas pelos cientistas podem ser real-
mente verificadas? Se afirmarmos "Ha corvos negros’, esta proposigao é verifi-
evel: podemos verificar aquilo que ela afirma de cada vez que se vé um corvo.
Se 0 corvo for negro, a proposigao é verdadeira. Mas se dissermos “Todos os
corvos sao negros’, aquilo que nesta propasigao se afirma nao pode ser rigoro-
samente verificado de forma universal, pois 6 impossivel saber a cor de todos
08 corves que existiram no passado, que existem e que existirao no futuro. Eo
problema da inducdo.
Face a este problema, alguns filésofos neopositivistas propuseram a mu-
danga da verificagdo para a confirmagdo. O critério de confirmabilidade nao
exige uma verificagao conclusiva, ajustando-se assim as generalizagdes pro-
prias das leis cientificas e permitindo, mediante uma verificagao empirica par-
cial, estabelecer “graus de confirmagao” numa base probabilistica. Desse pro-
cesso resultaré, entao, a confirmagao da teoria. Mas obviamente que este
processo é também inconclusivo, visto que pode sempre aparecer uma obser-
vagao que ponha em causa a hipétese geral.
O indutivismo tem sido alvo de eriticas. Vejamos algumas delas:
+ Ha muitas situagdes em que a observagao no ¢ 0 ponto de partida da inves-
tigacao cientifica. Basta pensar, por exemplo, nos objetos e situagées que
nao podem ser observadlos, como as particulas subatémicas ou a origem o
Universo. Frequentemente, o ponto de partida sao os problemas que surgem
do confronto ou do conflito entre uma observagaio e as expectativas ou teo-
rias ja existentes.
= Ainda que o cientista recorra a observacao, ela nao é totalmente neutra,
parcial e isenta de pressupostos ou de preconceitos, ocorrendo sempre
num determinado contexte. A observagao é afetada por pressupostos teéri-
cos, teorias, conceitos e pelas expectativas que o cientista desenvolve face A
investigacao.
= Oraciocinio indutivo nao confere o rigor l6gico necessario as teorias cienti-
ficas. E 0 ja referido problema da indugao, levantado por Hume. Baseamo-
-nos na observacio de um conjunto finite de casos particulares para con-
cluir que todos sao assim (generalizag&o) ou que o préximo a ser observado
também assim sera (previsao), efetuando um salto do conhecido para odes-
conhecido, ou daquilo de que se teve experiéncia para aquilo de que (ainda)
no se teve experiéncia. Confiamos na indugao porque partimos do principio
da uniformidade da natureza (0 principio de que os fenémenos se repetem
sao previsiveis ou de que 0 futuro se assemelha ao passado). Mas este princi-
2 Plodecorre da experiéncia anterior e do habito, sendo igualmente estabele-
© cido por generalizagao (isto significa que recorremos a indugdo para
enesrnins 33justificar a confianga na propria indugao). Assim, David Hume aponta o ca-
racter ilusdrio do indutivismo. £, apesar de admitir que 0 conhecimento
cientifico se constréi por indugao, reconhece que ela nao é racionalmente
justificavel.
= O método indutivista, ligado a verificagzio experimental, assenta num argu-
mento falacioso: se uma teoria T é verdadeira, entéo verifica-se a previséo P
(que dela se deduz); ora, verifica-se a previsdo P; logo, a teoria T é verdadeira.
Estamos perante a falacia da afirmacSo do consequente.
2.2.3. O falsificacionismo e o método de conjeturas e refutacées
(Popper)
Como podemos entao garantir a cientificidade do conhecimento?
C filésofo Karl Popper (1902-1994), critico da visao indutivista do método
cientifico, procurou ultrapassar o problema da justificagao da indugao. Popper
prope outro método — 0 método das conjeturas e refutagées—e outro critério
de cientificidade — 0 critério da fal: idade.
Popper, embora concorde com Hume a respeito do facto de a indugaéo nao
poder ser racionalmente justificada, afasta o problema da indugao para se-
gundo plano, sublinhando que ele nao tem o peso que Hume Ihe atribui no que
toca a questao da legitimidade do canhecimento cientifico.
Popper considera que a especificidade metodolégica da ciéncia nao pode
assentar na indugao. O filésofo demarca a ciéncia de outras formas do conhe-
cimento, propondo uma alternativa a visdo indutivista do método cientifico e
rejeitando o critério da verificabilidade das hipdteses e teorias cientificas tal
como é propost pelo positivismo légico.
iciar o estudo da sua concegao epistemolégica devemos ter presen-
tes duas das suas teses principais, que de seguida iremos examinar:
ical
Para
+ Aconstrugao do conhecimento cientifico faz-se através de conjeturas e refu-
tagdes,
+ Ocritério de cientificidade das teorias ¢ 0 da sua falsificabilidade.
Para Karl Popper, a ciéncia faz-se por um processo de construco criativa
de hipéteses ~ conjeturas ~ para responder a problemas. Ao contrario do que é
proposto na concegao indutivista do método cientifico, a observagao nao é,
para Popper, o ponto de partida do cientista, nem as teorias resultam de infe-
réncias indutivas. A ciéncia parte de problemas (ou factos-problemas) e as
teorias comecam por ser hipéteses explicativas e criativas (conjeturas) que
terao de ser submetidas a testes rigorosos
Popper considerava que o método cientifico é o método hipotético-dedu-
tivo (ou conjetural), sendo este um método critico. Eis as etapas fundamen-
tais deste método:
34© ponto de partida da investigagao cientifica sao os problemas ou factos-problemas.
Um faeto-problema é um problema que surge, em geral, de conflitos decorrentes de
expectativas ou teorias, oui do confronto entre uma observacao e as expectativas ou
teorias existentes.
Exemph
Constata-se que algumas criangas, mesmo quando bem alimentadas e sem pro-
blema de foro genético diagnosticado, revelam um crescimento abaixo da média.
Qual a razéo pela qual estas criangas revelam um baixo crescimento?
2, Formulagao da hipétese ou conjetura
A formulagao da hipétese corresponde a urn momento eriativo da atividade cienti-
fica, associado a intuicao e a imaginacao. A hipétese ndo surge indutivamente da
observagio.
Uma hipotese é, assim, uma explicagao proviséria de um dado fenémeno. Corres-
ponde a uma antecipagao de factos, ou seja, é uma suposigao que se expressa num
enunciado antecipado sobre a natureza das relagdes entre dois ou mais fenémenos.
Exemplo:
A presenca em excesso da hormona X no organismo impede o crescimento.
3. Dedugao das consequéncias
Depois de a hipétese ter sido formulada, sao deduzidas as suas princip
quéncias. Ou seja, na pratica o cientista procura prever o que pode acontecer se a
sua hipétese ou conjetura for correta.
Exemplo:
Se ahipétese for verdadeira, a redugdo ou a inibigtio da produgdo da hormona x im-
plicard um crescimento normal das eriangas referidas.
conse-
4. Experimentagio
Agora sera necessario descobrir se as previsdes que 0 cientista fez estao ou nao cor-
retas. Isto é, a hipétese serd testada, confrontada com a experiéncia. Os resultados
podem, entao, mostrar o “sucesso” ou o fracasso da conjetura proposta.
Se for validada pela experiéncia, se resistir aos testes, a hipotese € considerada
como credivel e verosimil, passando a ser reconhecida na comunidade cientifica —
teoria corroborada. Mesmo assim, devera continuar-se a submeter essa teoria a tes-
tes, cada vez mais severos, de falsificagao.
Se no for validada, se nao resistir aos testes, a teoria é refutada, pelo que teremos
de a reformular ou de a abandona;, substituindo-a por outra melhor.
Exemplo:
Experiéncias realizadas com ratinhos revelam que, nos grupos em que a hormona X
foi administrada em doses sucessivamente superiores, os ratinhos apresentaram
um crescimento relativamente lento ¢ pouco significativo, mesmo quando bem alt
mentados; j nos grupos de ratinhos que nao sofreram essa administragdo, o seu
crescimento foi normal. Este resultado validou a hipétese. Caso nao tivesse validado
ahipétese, teriamos de a reformular ou apresentar uma nova hipdtese.
35Um dos pontos cruciais da concegao popperiana do método cientifico re- 2
side nas condicées exigidas para garantir a validade das hipéteses ou conjetu- =
ras: € preciso criticé-las, tentar refuté-las, isto é procurar os seus pontos fra-
cos, submeté-las a testes rigorosos, proceder a varias tentativas de falsificagao.
Sé assim é possivel o desenvolvimento do conhecimento cientifico: avangar de
velhos problemas para novos problemas, por meio de conjeturas e refutagoes.
Sendo 0 método cientifico um método critico, o cientista sera (ou devera ser)
critico em relago as suas teorias.
Este método nao se baseia no raciocinio indutivo, mas sim no raciocini
dedutivo. Os testes experimentais, orientados para a tentativa de falsificagao,
obedecem a uma forma de inferéncia valida, o modus tollens:
p—@ Se a teoria P ¢ verdadeira, entao o que ela prevé (Q) ocorre.
“a Oque ela prevé (@) nao ocorre.
ae Logo, a teoria P nao é verdadeira.
JA 0 método indutivista, visando a verificagdio das teorias, assenta, como ja
referimos anteriormente, num argumento falacioso, cometendo a falacia da
afirmagao do consequente:
P—a@ Se a teoria P 6 verdadeira, entao o que ela prevé (Q) ocorre.
Q O que ela prevé (Q) ocorre.
ud Logo a teoria P é verdadeira.
Para Popper as teorias cientificas nao sao empiricamente verificaveis.
Nao é a verificagao empirica de uma dada hipétese que permitira garantir a sua
validade. Para que ela venha a ser considerada credivel, é preciso que ela seja
testavel, sendo necessério procurar refuté-la, isto é, procurar falsifica-la. Por
isso, Popper propée o eritério da falsificabilidade, que se traduz no seguinte
enunciado: uma hipétese ou teoria sera cientifica apenas se for empi
mente falsificavel. Por outro lado, uma teoria é empiricamente falsificavel se, e
apenas se, for incompativel com algumas observagées possiveis.
A confrontagao da teoria com a observagao e a experiéncia é importante,
no para a confirmar, mas para permitir testar a sua resisténcia face as tentati-
vas empreendidas para a enfraquecer, refutar, numa palavra, falsificar. Nesta
medida, Popper entende o teste experimental como a procura de fenémenos
que possam infirmar a hipdtese, Uma teoria cientifica é valida enquanto for re-
sistindo a tentativa de a falsificar empiricamente e é tanto mais forte quanto
mais resisti
© enunciado “Todos os cisnes sao brancos” é um enunciado cientifico, em-
piricamente falsificavel — para o falsificar, bastaria encontrar um cisne de outra
cor. A atitude do cientista deve ser a de procurar cisnes de outra cor (para
a-falsificar) e no a de procurar cisnes brancos (para confirmar). Se se encontrar
algum cisne de outra cor, teremos de abandonar e/ou reformular 0 enunciado.
Tal significa que 0 enunciado nao resistiu tentativa de falsificagdo e foi, efeti
vamente, falsificado.
Para ser considerada cientifica, uma teoria devera ser falsificavel, isto &, pas-
sivel de ser submetida a testes e confrontada com a experiéncia. Quanto mais
contetido empirico tiver, maior é o grau de falsificabil
cientifica ela é e mais possibilidades o cientista tem de descobrir falhas na sua
investigac&o e propor uma melhor explicagao para um dado facto au problema.
Isto significa, na pratica, mais possibilidades de a ciéncia progredir.
Uma teoria que nao é falsificavel ou que é irrefutavel nada diz de significa-
tivo sobre os factos. O critério da falsificabilidade permite, assim, a Popper res-
ponder ao problema da demarcagao: as teorias cientificas, sendo falsificaveis,
sao diferentes das ndo-cientificas (ou das pseudiocientificas). Um enunciado
como “Os anjos sao verdes" nao pode ser empiricamente falsificado — pois nao
vemos a cor dos anjos ~ e, por isso, nao constitui um enunciado cientifico, Ao
contrario, é possivel falsificar 0 enunciado “Todos os cisnes sao brancos” ou
“Todos os mamiferos tém o corpo coberto de pelos’. Basta apenas a existéncia
de um caso, de um cisne de outra cor ou de um mamifero sem pelos, para falsi-
ficar 0s enunciados.
Popper apresentou uma concegao inovadora no que diz respeito ao mé-
todo cientifico e a justificagao das teorias cientificas, isto é, ao modo como
elas devem ser validadas. No entanto, a sua filosofia nao esta isenta de eriti-
eas. Vejamos as principais criticas tecidas a Popper:
dade de uma teoria, mais
+ O processo de refutagao ou falsificacao nao é o procedimento mais comum
entre os cientistas. Alguns autores defendem que a atitude falsificacionista
nao corresponde exatamente Aquela que os cientistas demonstram na ativi-
dade cientifica. Geralmente os cientistas procuram confirmar aquilo que as
teorias cientificas propdem e, mesmo que, perante dada observagao, deter-
minada previséio néio se confirme, isso ndo os demove de investigar no
mesmo sentido. Nao bastard, portanto, uma observagao falsificadora para
que a investigagao termine e se abandone uma teoria. Isto significa que a
teoria de Popper nao é descritiva (nao diz como os cientistas procedem),
mas sim normativa (diz como os cientistas deviam proceder).
+ Considerandoa histéria da ciéncia, nao parece que ela possa evoluir por um
processo assente nas refutagées. Ao nivel da historia da ciéncia encontra-
mos episddios que parecem pér em causa a perspetiva falsificacionista e a
ideia de que a ciéncia progride por meio de conjeturas e refutagdes. Copér
nico, Galileu ou Newton, por exemplo, nado abandonaram as suas teorias na
presenga de factos que aparentemente as poderiam falsificar.
+ Popper, com ocritério falsificacionista, subestima o valor, para o progresso
da ciéncia, das previsées bem-sucedidas. E expectavel que o cientista se
37