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Dinâmica de Sistemas com Forças Centrais

Este capítulo trata de forças centrais e sistemas de duas partículas. Apresenta o conceito de força central e mostra que, sob certas condições, o problema de duas partículas interagentes pode ser mapeado para o problema de duas partículas fictícias livres, desacoplando o sistema de equações. Mostra também que, para uma partícula sujeita a uma força central, o momento angular em relação ao centro de força é conservado, o que implica que o movimento ocorre em um plano fixo.
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Dinâmica de Sistemas com Forças Centrais

Este capítulo trata de forças centrais e sistemas de duas partículas. Apresenta o conceito de força central e mostra que, sob certas condições, o problema de duas partículas interagentes pode ser mapeado para o problema de duas partículas fictícias livres, desacoplando o sistema de equações. Mostra também que, para uma partícula sujeita a uma força central, o momento angular em relação ao centro de força é conservado, o que implica que o movimento ocorre em um plano fixo.
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CHAPTER 8

FORÇAS CENTRAIS

Seja qual for a força atuando sobre uma partı́cula, ela é originada por outra partı́cula,
a qual chamaremos de centro ou fonte de força. O caso mais simples, além da
partı́cula isolada, é o de um sistema isolado contendo duas partı́culas. Em muitos
casos, a interação entre essas partı́culas se dá ao longo da linha unindo-as. Este fato
resulta em importantes consequências, as quais serão investigadas neste capı́tulo,
reservando atenção especial para o caso da força gravitacional.

8.1 Sistema de duas partı́culas

Considere um sistema composto por duas partı́culas de massas m1 e m2 e vetores


posição r1 e r2 , respectivamente. As partı́culas interagem entre si através das forças
Fij e, em geral, estão sujeitas a forças externas Fext
i , de modo que as equações de
movimento ficam

m1 r̈1 = F12 + Fext


1 ,
m2 r̈2 = F21 + Fext
2 ,

135
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at the beginning of your document.
136 FORÇAS CENTRAIS

Este sistema possui seis graus de liberdade e é descrito por um sistema de seis EDO’s.
Em geral, as forças Fij dependem das coordenadas ri e rj , o que acopla as equações.
Este sistema de seis EDO’s acopladas é equivalente a uma EDO de sexta ordem, cuja
solução, em geral, requer métodos numéricos. Em certas situações, no entanto, é
possı́vel mapear este problema de duas partı́culas interagentes em outro problema,
composto por duas partı́culas fictı́cias livres, desacoplando o sistema de EDO’s e
possibilitando soluções mais simples.
Vamos escrever o sistema acima em termos de novas variáveis, a coordenada do
centro de massa e a coordenada relativa, respectivamente
m1 r1 + m2 r2
Rcm = ,
M
r = r1 − r2 ,

onde M = m1 + m2 é a massa do sistema. Reescrevendo as equações de movimento


em termos das novas variáveis obtemos
 m2 
m1 R̈cm + r̈ = F12 + Fext
1 ,
M
 m1 
m2 R̈cm − r̈ = F21 + Fext
2 .
M
Ao adicionar e subtrair as equações, além de usar a terceira lei de Newton, obtemos
o novo sistema

M R̈cm = Fext , (8.1a)


Fext Fext
 
1 2
µr̈ = F12 + µ − , (8.1b)
m1 m2

onde Fext = Fext ext


1 + F2 e definimos a chamada massa reduzida

m1 m2
µ≡ .
M
O sistema (8.1) ainda está acoplado, pois o lado direito da Eq. (8.1b) envolve,
em geral, as variáveis ri , que são escritas em termos de r e Rcm . Entretanto, sob
certas circunstâncias, o sistema desaclopa. Isso ocorre, por exemplo, no caso de um
sistema isolado, onde a dinâmica é dada por

M R̈cm = 0, (8.2a)
µr̈ = F12 , (8.2b)

Quando a força interna no sistema acima satisfaz a forma forte da terceira lei de
Newton, chamamos este caso de problema de dois corpos.
Não é necessário que o sistema seja isolado para que as equações desacoplem. Por
exemplo, considere a Fig 8.1, a qual mostra um sistema de duas partı́culas ligadas
por uma mola, sob atração gravitacional da Terra. A força externa sobre as partı́culas
SISTEMA DE DUAS PARTÍCULAS 137

Fext
1 Fext
2
m1 m2

Fext
1 Fext
2
m1 m2

Figura 8.1

aponta para o centro da Terra. Se as partı́culas estão próximas uma da outra então

Fext = m1 g(r1 ) + m2 g(r2 ) ≈ M g(Rcm ),

e
Fext
1 Fext
− 2 = g(r1 ) − g(r2 ) ≈ 0,
m1 m2
desacoplando o sistema. Por outro lado, se a mola é muito grande, vemos imedia-
tamente que as forças externas sobre as partı́culas apontam em direções diferentes,
impossibilitando o cancelamento do lado direito da Eq. (8.1b) e o sistema permanece
acoplado.
Em geral, quando o sistema desacopla temos

M R̈cm = Fext (Rcm ), (8.3a)


µr̈ = F(r). (8.3b)

Note como este sistema descreve o movimento independente de duas novas partı́culas
não interagentes, a partı́cula do centro de massa, de massa M , e a partı́cula de massa
reduzida, de massa µ. Além disso, como esperado, o número de graus de liberdade
não se altera, ou seja, continua sendo seis. Note também que se uma das massas
é muito maior que a outra, então a massa menor é aproximadamente igual à massa
reduzida, não sendo necessário distinguir uma da outra.
Uma vez resolvidas as Eqs. (8.3) para o centro de massa e a coordenada relativa,
podemos voltar às variáveis originais através de
m2
r1 = Rcm + r, (8.4a)
M
m1
r2 = Rcm − r. (8.4b)
M
138 FORÇAS CENTRAIS

8.2 Aspectos gerais das forças centrais

Estamos interessados no problema de dois corpos quando a força de interação sa-


tisfaz a forma forte da terceira lei de Newton e sua magnitude depende apenas da
distância entre as partı́culas.
Definição 8.1. Se, dado um campo de força F, existe um ponto Q, chamado de
fonte ou centro de força, tal que F(P ) é colinear ao segmento QP e seu módulo e
sentido dependem apenas do comprimento deste segmento, para todo ponto P , então
dizemos que o campo de força é central.
Em outras palavras, uma força é central, com centro em rQ , se e somente se
r − rQ
F(r) = F (|r − rQ |) ,
|r − rQ |

onde F é uma função arbitrária. Daqui por diante, simplificaremos esta expressão ao
definirmos a origem do sistema de coordenadas coincidindo com Q, ou seja,

F = F (r)r̂.

Como exemplo de forças centrais temos


Gm1 m2
F=− r̂, Gravitação newtoniana,
r2
kq1 q2
F = − 2 r̂, Força de Coulomb,
r
r12 r6
 
F = 12 013 − 07 r̂, Força de Lennard-Jones,
r r
F = −kr, Lei de Hook para o oscilador isotrópico.

No que diz respeito ao sistema de dois corpos de interesse, queremos descrever


a dinâmica de uma partı́cula de massa reduzida µ e vetor posição r, cuja origem
encontra-se na partı́cula de massa m2 , sujeita a força central com fonte em m2 .
Derivando o momento angular da partı́cula em relação ao tempo,

dL
= ṙ × p + r × µr̈.
dt
A Eq. (8.2b) vale, independentemente se a origem possui velocidade constante ou
não, e assim,
dL
= r × F r̂ = 0,
dt
ou seja, o momento angular é constante. Podemos, portanto, enunciar o seguinte
resultado:
Teorema 8.1. O momento angular, em relação ao centro de força, de uma partı́cula
sujeita apenas a uma força central se conserva.
ASPECTOS GERAIS DAS FORÇAS CENTRAIS 139

r(t + dt)

r(t)

Figura 8.2

Se o ponto de referência não coincidir com o centro de força, o momento angular,


em geral, não se conserva.
Uma consequência direta do teorema acima é que, uma vez que os vetores posição
e momento linear são perpendiculares ao vetor momento angular, e este é constante,
o movimento da partı́cula de massa reduzida se dá em um plano fixo contendo o
centro de força1 . A conservação do momento angular, portanto, impõe um vı́nculo
sobre o sistema, reduzindo o número de graus de liberdade da partı́cula de massa
reduzida de três para dois.
Um deslocamento infinitesimal no plano do movimento pode ser escrito, em co-
ordenadas polares, como
dr = drr̂ + rdφφ̂,
o que nos dá o vetor velocidade

v = ṙr̂ + rφ̇φ̂. (8.5)

e o momento angular da partı́cula,

L = r × µv = µr2 φ̇k̂ = Lk̂. (8.6)

Daqui decorre um importante corolário do teorema 8.1, o qual nos diz o quão rápido
a partı́cula viaja em torno do centro de força.

Corolário 8.1. O segmento entre a partı́cula e o centro de força varre áreas iguais
em intervalos de tempos iguais.

Para mostrar este resultado, considere uma trajetória arbitrária, como a mostrada na
Fig 8.2. Apos um intervalo infinitesimal de tempo o vetor posição varia de r(t) para
r(t + dt) resultando em um deslocamento angular dφ. Desprezando infinitésimos de
segunda ordem, a área varrida pelo vetor posição durante o intervalo dt é dada pela

1 Como a força e, consequentemente, a aceleração estão na direção radial, a partı́cula não tem como sair do

plano. Em particular, se r e p são colineares, então o movimento da partı́cula se dá em uma reta contando
o centro de força
140 FORÇAS CENTRAIS

área do triângulo hachurado,


1 2
dA =
r dφ.
2
Dividindo pelo intervalo de tempo e usando a Eq. (8.6) chegamos a

dA L
= , (8.7)
dt 2µ
a qual é constante. O significado deste corolário é que quanto mais longe a partı́cula
estiver do centro de força, menor será a magnitude de sua velocidade.
Tomando o produto escalar entre a força e o elemento de linha em coordenadas
esféricas temos

F · dr = F r̂ · (drr̂ + rsenθdφφ̂ + rdθθ̂) = F dr.

Integrando ao longo de um caminho arbitrário iniciando-se em um ponto a uma


distância r0 do centro de força e terminando a uma distância r, obtemos o traba-
lho Z r
W = F (r)dr = −U (r) + U (r0 ),
r0

onde −U é a função primitiva de F . Portanto, o trabalho da força central independe


do caminho e assim o obtemos os seguinte resultado

Teorema 8.2. Toda força central é conservativa.

Daqui decorre que a energia mecânica de um sistema de força central é constante.

8.2.1 Energia potencial efetiva


A conservação da energia representa outro vı́nculo sobre o sistema o que, efetiva-
mente, elimina mais um grau de liberdade. De fato, substituindo a Eq. (8.5) na
energia mecânica e usando (8.6) para eliminar φ̇ podemos escrever
1 2
E= µṙ + Uef (r), (8.8)
2
onde
L2
Uef (r) ≡ + U (r),
2µr2
é a chamada energia potencial efetiva.
Sabemos que uma partı́cula de massa µ em movimento curvilı́neo está sujeita,
no referencial não inercial, a uma força centrı́fuga µrφ̇2 . No caso de uma partı́cula
sob ação de força central, usamos a Eq. 8.6 para eliminar φ em termos do momento
angular,
L2
µrφ̇2 = 3 .
µr
ASPECTOS GERAIS DAS FORÇAS CENTRAIS 141

Essa força pode ser escrita a partir do gradiente de uma função escalar, mais preci-
samente,
L2 d L2
µrφ̇2 = 3 = − .
µr dr 2µr2
Isso significa que L2 /2µr2 é um termo de potencial, repulsivo, o qual chamamos de
energia potencial centrı́fuga. .
A energia potencial efetiva tem, portanto, uma contribuição devido a interação, a
qual pode ser atrativa ou repulsiva, mais uma contribuição centrı́fuga que é sempre
repulsiva. Além disso, uma vez que reduzimos o problema inicial para um problema
unidimensional, propriedades importantes podem ser obtidas a partir de simples dia-
gramas de energia.

8.2.2 Estabilidade das órbitas


Vamos inicialmente definir uma órbita de uma partı́cula em campo de força central
como uma curva r(φ) com momento angular não nulo. Não estamos interessado no
caso em que o momento angular é nulo, pois nesse caso a partı́cula está trivialmente
em uma trajetória retilı́nea passando pelo centro de força.
É fácil de ver que nem toda força central admite uma órbita circular. A existência
de órbitas circulares para um dado campo de força central é equivalente ao campo
de força ser atrativo. Para ver isso, note que apenas uma interação atrativa é capaz
de anular a repulsão do termo centrı́fugo. Por outro lado, para qualquer interação
atrativa, sempre temos um valor de momento angular que gera um termo centrı́fugo
capaz de contrabalancear a atração para algum r = r0 constante.
Na órbita circular, a força efetiva é nula e, portanto, o potencial efetivo é um
extremo. Assim, o raio da órbita circular é obtido de

L2
0 = Uef0 (r0 ) = − + U 00 (r0 ),
µr03

ou seja,
L2 L2
r03 = = − .
µU 0 (r0 ) µF (r0 )
Note ainda que na órbita circular a energia cinética radial é nula.
Uma órbita é dita limitada se r(φ) < ∞, para todo φ. Caso contrário, ela é dita
ilimitada. No caso de órbitas limitadas não circulares podemos encontrar pontos de
retorno rmin e rmax finitos através da igualdade entre a energia mecânica e a energia
potencial efetiva. Nessa situação a energia cinética radial é nula e a separação radial
está invertendo o sentido de sua variação.
Uma órbita circular é dita estável se perturbações arbitrariamente pequenas resul-
tam em órbitas arbitrariamente próximas à órbita circular. Caso contrário, ela é dita
instável. Note, entretanto, que um potencial atrativo é condição necessária, mas não
suficiente para a existência de órbitas estáveis. Apenas órbitas circulares correspon-
dentes a mı́nimos da energia potencial efetiva se manterão arbitrariamente próximas
142 FORÇAS CENTRAIS

de cı́rculos após terem sua energia mecânica alteradas por uma quantidade arbitrari-
amente pequena. A região permitida para a separação r é tão pequena quanto for o
acréscimo ou decréscimo de energia. Sendo assim, uma órbita é estável se e somente
se
Uef (r0 )00 > 0,
o que implica em
3L2 3U 0 (r0 )
U 00 (r0 ) > − = − ,
µr04 r0
ou
U 00 (r0 )
r0 + 3 > 0. (8.9)
U 0 (r0 )
Note que, como Uef0 (r0 ) = 0 e L 6= 0, então U 0 (r0 ) 6= 0. Além disso, a chamada
condição de estabilidade, Eq. (8.9), também pode ser escrita em termos da força de
interação,
F 0 (r0 )
r0 + 3 > 0.
F (r0 )

Exemplo 8.1. Considere uma interação atrativa dada pela energia potencial

U = Krn ,

onde n 6= 0 é constante e K é uma constante positiva se n > 0 ou negativa se n < 0.


Queremos saber quais os valores de n resultam em órbitas estáveis. A Eq. (8.9) nos
fornece
n + 2 > 0,
a qual é satisfeita se e somente se n > −2. Dentre as leis de potências deste tipo,
apenas potenciais como −K/r, Kr, kr2 , ... dão origem a órbitas estáveis. No caso
do potencial K/r2 , temos que o potencial efetivo é do tipo
 2 
L 1
Uef = − |K| ,
2µ r2

indo assintoticamente para zero, ou seja, sem órbita circular. Já o potencial K/r3
resulta em um potencial efetivo dominado pelo potencial de interação para cur-
tas distâncias e pelo potencial centrı́fugo para longas distâncias. Há um ponto de
equilı́brio associado a uma órbita circular, cuja energia mecânica é E0 , mas como
podemos ver da Fig. 8.3 este equilı́brio é instável. Qualquer incremento na energia
mecânica fará com que a partı́cula saia da órbita circular e vá em direção à origem
ou ao infinito.

Um detalhe interessante relacionado ao exemplo anterior é que órbitas celestes


circulares são estáveis se e somente se elas estão contidas em Universo com menos
de quatro dimensões espaciais, excluindo o caso de um Universo unidimensional.
Para ver isso, note que os fluxos gravitacionais através de duas hiperesferas de raios
ASPECTOS GERAIS DAS FORÇAS CENTRAIS 143

Uef

E0

0 r

Figura 8.3

r1 e r2 , centradas em uma massa puntiforme, devem ser iguais, ou seja,

g(r1 )r1d−1 = g(r2 )r2d−1 ,

onde a área de uma hiperesfera é proporcional ao raio na potência d − 1. Daqui


tiramos que g(r) ∼ 1/rd−1 ou F (r) ∼ r1−d e U ∼ r2−d . De acordo com o
exemplo recém discutido, as órbitas circulares são estáveis para d < 4.

Exemplo 8.2. O oscilador harmônico isotrópico consiste em uma partı́cula sujeita


a lei de Hooke, ou seja, uma força restauradora linear, cuja constante elástica é a
mesma em qualquer direção, F = −kr. O potencial de interação é obtido a partir
de Z r Z r
k(r2 − r02 )
∆U = − F · dr = k rdr = .
r0 r0 2
Definindo o potencial nulo na origem, temos U (r) = kr2 /2 e o potencial efetivo

L2 kr2
Uef = + .
2µr2 2
O diagrama de energia deste oscilador com momento angular não nulo é mostrado
na Fig. 8.4. A linha pontilhada representa a energia potencial efetiva de um oscila-
dor com quatro vezes mais momento angular que o oscilador cuja energia potencial
efetiva é dada pela linha contı́nua.
A posição de equilı́brio é obtida de

dUef
(r0 ) = 0,
dr
que nos dá
 14
L2

r0 = .
µk
144 FORÇAS CENTRAIS

Uef

E
E0

0 rmin r0 rmax r

Figura 8.4

Substituindo este valor na energia potencial efetiva obtemos o mı́nimo da energia


mecânica na partı́cula s
k
E0 = Uef (r0 ) = L .
µ
Para qualquer energia mecânica E > E0 o movimento radial é limitado e os
pontos de retorno são encontrados a partir da condição E = Uef (rR ), a qual resulta
2
em uma equação de segundo grau para rR e que tem como soluções
r !
2 E E02
rR = 1± 1− 2 .
k E

2
A solução com o sinal de mais corresponde a rmax , enquanto que a solução como
2
o sinal de menos nos dá rmin . A equação acima ainda nos mostra que se E = E0 ,
então os dois pontos de retorno são iguais. Isso significa que, neste caso, a órbita é
circular de raio r
E
r= = r0 .
k
Do diagrama de energia também vemos que a separação de equilı́brio corres-
ponde a um mı́nimo da energia potencial efetiva. De fato, a condição de estabili-
dade, Eq. (8.9), é satisfeita e as órbitas são estáveis.
ASPECTOS GERAIS DAS FORÇAS CENTRAIS 145

8.2.3 Oscilações radiais


Uma órbita é dita fechada se ela é descrita por uma curva fechada, caso contrário
ela é dita aberta2 . Note que toda órbita fechada é limitada, mas a recı́proca não é
verdadeira. Como as órbitas limitadas estão contidas em um anel de raio interno rmin
e raio externo rmax , em muitos casos, a órbita aberta irá preencher completamente o
anel, dado um tempo suficientemente grande. Nos demais casos ela vai em direção
ao centro de força, não preenchendo o anel, mas não formando uma curva fechada.

Exemplo 8.3. Voltando ao oscilador harmônico isotrópico, temos que o perı́odo de


revolução angular de uma órbita é dado por
Z 2π

Tφ = .
0 φ̇(φ)

Para uma órbita levemente perturbada, em relação a órbita ciruclar, podemos apro-
ximar φ̇ pelo valor da velocidade angular da órbita circular e assim,

2π 2πµr02
Tφ ≈ = .
φ̇ L

Por outro lado, expandindo harmonicamente a energia potencial efetiva em torno


de seu mı́nimo e procedendo de acordo com a seção 4.2, obtemos o perı́odo das
oscilações radiais,
µ Tφ
r
Tr = 2π 00 = .
Uef (r0 ) 2
Vemos que para cada revolução completa, a coordenada radial oscila duas vezes.
Isso implica que após um intervalo 2Tr a órbita se repete, ou seja, ela é fechada. De
fato, conforme pode ser visto no exercı́cio 6. as órbitas com momento angular não
nulo do oscilador harmônico isotrópico são dadas por

x2 y2 2xy
2
+ 2 − cos ϕ0 = sen 2 φ0 ,
Ax Ay Ax Ay

onde Ax , Ay e ϕ0 são constantes. O caso ϕ0 = 0 é proibido, pois resulta na reta

Ay
y=± x,
Ax
ou seja, em uma trajetória com momento angular, em relação a origem, nulo. Para
os demais valores de ϕ0 as órbitas são elipses com centro no centro de força.

Para o oscilador isotrópico que acabamos de ver, por exemplo, todas as órbitas
são fechadas, porém nem todas as forças compartilham de tal propriedade. Para que

2 É tentador imaginar, então, que uma órbita fechada é uma curva de comprimento finito. Isso, no entanto,

não é verdade, pois há curvas fechadas de comprimento infinito, por exemplo em fractais.
146 FORÇAS CENTRAIS

a órbita perturbada seja fechada é necessário e suficiente que os perı́odos radiais e


angulares sejam comensuráveis, ou seja, existam inteiros positivos m e n tais que
mTr = nTφ . O chamado Teorema de Bertrand, que pode ser provado através da
analise desta comensurabilidade, nos diz o seguinte:

Teorema 8.3. As únicas forças centrais para as quais todas as órbitas limitadas são
fechadas são a força do inverso do quadrado da distância e a lei de Hooke.

Note que o teorema de Bertrand implica que a única força central, que cai com
a distância, capaz de resultar em órbitas planetárias fechadas é a do inverso do qua-
drado da distância.

8.3 Equações da órbita

A dependência temporal da coordenada radial pode ser obtida através da integração


da Eq. (8.8), de maneira similar àquela usada para obter a Eq. (2.12),
Z r(t)
dr
t=± q . (8.10)
2
r0
µ [E − Uef (r)]

Uma vez resolvida a integral, escrevemos, quando possı́vel, r(t) e podemos usar o
resultado para obter a dependência temporal da coordenada azimutal. Para isso, note
que a partir da Eq. (8.6) temos
dφ L
= 2,
dt µr
a qual pode ser integrada,
Z t
L dt
φ(t) = φ0 + . (8.11)
µ 0 r(t)2

Alternativamente, usando a regra da cadeia,


r
L dφ dr dφ 2
= =± [E − Uef (r)],
µr2 dr dt dr µ
o que nos dá a órbita da partı́cula
Z r(t)
dr
φ(r) = φ0 ± L p . (8.12)
r0 r2 2µ[E − Uef (r)]

Nem sempre é viável ou conveniente resolver as Eqs. (8.10)-(8.12) para obter


a trajetória da partı́cula, seja pela inconveniência do sinal de mais ou menos ou
EQUAÇÕES DA ÓRBITA 147

pela dificuldade intrı́nseca das integrais3 . Uma alternativa, muitas vezes, melhor
na obtenção das órbitas, consiste em resolver uma equação diferencial ao invés de
integrais. A aceleração em coordenadas polares planas é
   
a = r̈ − rφ̇2 r̂ + 2ṙφ̇ + rφ̈ φ̂,

e então a segunda lei de Newton resulta no sistema


 
F (r) = µ r̈ − rφ̇2 , (8.13a)
0 = 2ṙφ̇ + rφ̈; (8.13b)

A segunda equação não nos dá nada novo, ela é consistente com a conservação do
momento angular. Eliminando φ̇ na primeira equação obtemos

L2
 
µ r̈ − 2 3 = F (r).
µ r

É conveniente definir a nova variável,


1
u≡ ,
r
e então,
dr dr du dφ L du
= =− ,
dt du dφ dt µ dφ
onde usamos a Eq. (8.6). Derivando mais uma vez chegamos a

d2 r L2 u2 d2 u
 
dφ d L du
= − = − ,
dt2 dt dφ µ dφ µ2 dφ2

e a equação radial fica

L2 u2 d2 u L2 3
 
µ − 2 − 2u = F (1/u).
µ dφ2 µ

Assumindo que L 6= 0 e multiplicando ambos os lados por µ/L2 u2 obtemos a cha-


mada equação de Binet ou equação da órbita,

d2 u µ F (1/u)
+u=− 2 . (8.14)
dφ2 L u2
Uma vantagem clara desta equação diferencial em relação às integrais (8.10)-(8.12) é
que ela também pode ser usada para se obter a força, dada a órbita. Note, entretanto,

3 Note que, independentemente das integrais poderem ou não ser resolvidas analiticamente, o sistema é
integrável por quadratura.
148 FORÇAS CENTRAIS

que esta EDO é linear apenas para forças que caem com o quadrado ou o cubo da
distância.
Exemplo 8.4. Uma partı́cula eletricamente carregada, de massa reduzida µ, está
sujeita a um campo elétrico gerado por um dipolo elétrico situado na origem. A
força sobre a partı́cula é central e resulta na órbita r(φ) = keαφ com k e α 6= 0
constantes. Esta órbita, conhecida como espiral logarı́tmica, é mostrada na Fig.
8.5, no caso de α > 0 e na Fig. 8.6, no quando α < 0. Na primeira, a partı́cula se
afasta da origem, enquanto que na segunda ela se aproxima. Queremos obter uma
y y

0 x 0 x

Figura 8.5 Figura 8.6

expressão para a força, sabendo a órbita. Pela concavidade da curvatura da órbita


espera-se uma força atrativa e pelo aumento do raio de curvatura espera-se uma
força que decai com a distância. Usando a equação de Binet podemos descobrir a
força. Substituindo u = e−αk /k na equação de Binet temos

µ F
α2 u + u = − ,
L2 u2
e assim,
L2 2 L2 α2 + 1
F =− (α + 1)u3 = − .
µ µ r3
Note que a força é atrativa, independentemente do sinal de α.
É tentador usar a expressão da órbita, r(φ) = keαφ , para escrever esta força
como F ∝ e−3αφ . No entanto, esta última expressão está errada, pois sequer cor-
responde a uma força central. A razão do erro é que r(φ) = keαφ vale apenas ao
longo da órbita e quando escrevemos F = F (r)r̂ queremos a força para qualquer
ponto do espaço.
Integrando a força obtemos a energia potencial,

L2 α2 + 1
U =− ,
2µ r2
PROBLEMA DE NEWTON 149

e o potencial efetivo fica


α2 L2
Uef = − ,
2µr2
cujo gráfico é mostrado na Fig. 8.6. Vemos que a partı́cula escapa para o infinito se

Uef

0 r

Figura 8.7

e somente se sua energia mecânica for não negativa.

8.4 Problema de Newton

Entre 1609 e 1619 o astrônomo e matemático Johannes Keppler publicou um con-


junto de leis, obtidas empiricamente e conhecidas posteriormente como as leis de
Kepler, descrevendo o movimento dos planetas4 . Estas leis foram relevantes no que
diz respeito a duas grandes revoluções que aconteceram na época: a copernicana e
a cientı́fica. A contribuição para a primeira está no fato de que as leis de Kepler
confirmam a cosmologia copernicana, baseada no modelo heliocêntrico de mundo.
Já para a segunda, as leis de Kepler constituem o ponto de partida para a gravitação
newtoniana, a qual unifica as mecânicas terrestre e celeste. As três leis em questão
podem ser enunciadas da seguinte maneira:
(K1) (A lei das órbitas) As órbitas dos planetas são elipses com um dos focos no Sol.
(K2) (A lei das áreas) O raio vetor do Sol ao planeta varre áreas iguais em intervalos
de tempos iguais.
(K3) (A lei dos perı́odos) O quadrado do perı́odo orbital de um planeta é proporcional
ao cubo do semi-eixo maior da elipse correspondente.
A primeira lei deve ser aplicada a cada planeta individualmente, cada planeta
traça sua própria elipse, todas elas tendo o Sol como um foco em comum. Definindo

4 As duas primeiras leis apareceram em Astronomia nova, de 1609 enquanto a última apareceu em Har-

monices Mundi, de 1619.


150 FORÇAS CENTRAIS

a origem neste foco, as órbitas são descritas, de acordo com o apêndice ??, por
r0
r(φ) = ,
1 +  cos φ
onde  é a excentricidade da órbita e r0 é um parâmetro com dimensão de compri-
mento.
Assim como a primeira, a segunda lei de Kepler também aplica-se individual-
mente. Varrer áreas iguais em intervalos de tempos iguais significa variar a área a
uma taxa constante. Newton foi o primeiro a notar que este resultado não é particular
da interação gravitacional e sim, como vimos Seç. 8.2, é uma consequência direta da
conservação do momento angular para as forças centrais.
Finalmente, a terceira lei de Kepler relaciona órbitas de planetas diferentes. Se Ti
e ai são o perı́odo de revolução e o comprimento do semi-eixo maior da elipse do
i-ésimo planeta, então
Ti2 = Ca3i , (8.15)
onde C é uma constante independente do planeta e, portanto, dependente apenas
de propriedades intrı́nsecas do Sol. Aplicando a Eq. (8.15) para dois planetas e
eliminando a constante C obtemos
 2  3
Ti ai
= ,
Tj aj

a qual é outra maneira de representar a lei dos perı́odos.


Apesar das leis de Kepler descreverem o movimento dos planetas em torno do Sol,
elas não explicam o porque de tal movimento. O problema de Newton, ou problema
de Kepler inverso, consiste em formular a lei que descreve a interação gravitacional a
partir das observações de Kepler. É exatamente a tarefa empenhada por Newton em
meados do século XVII e, sem dúvida, um de seus maiores feitos. Da lei das órbitas
sabemos que a órbita é uma elipse e, portanto, substituindo

1 +  cos φ
u= ,
r0
na equação de Binet obtemos

L2 2
F =− u ,
mr0
ou
L2 1
F =− , (8.16)
mr0 r2
após voltarmos a variável r. Aqui, assumimos que a massa do Sol, M , é muito maior
que a massa do planeta, m. Desta forma, µ ≈ m. Portanto, a primeira lei de Kepler
implica que a interação gravitacional cai com o quadrado da distância. Integrando a
Eq. (8.19), a qual corresponde a segunda lei de Kepler, sobre um perı́odo completo
PROBLEMA DE NEWTON 151

somo levados a
L
πab = T,
2m
onde o lado esquerdo é a área da elipse. O semi-eixo menor da elipse pode ser escrito

como b = ar0 e assim,
L2 2
π 2 a3 r0 = T .
4m2
Pela lei dos perı́odos, Eq. (8.15),

L2 4π 2 m
= ,
mr0 C
que substituindo na Eq. (8.16) nos dá

4π 2 m 1
F =− .
C r2
A constante C tem dimensão de tempo ao quadrado por comprimento ao cubo
e, como discutido anteriormente, deve depender apenas de propriedades intrı́nsecas
ao Sol, que do ponto de vista gravitacional deve ser a massa. Em outras palavras,
devemos ter
Gf (M )m
F =− ,
r2
para alguma função f e com G constante. Por outro lado, a força gravitacional
não deve ter uma dependência assimétrica nas massas. Se f (M ) não for linear na
massa, esta força não satisfaz o Princı́pio de Superposição. É razoável supor que
f (M ) = M e depois verificar se a hipótese está correta. Assumindo que a força
gravitacional atua sobre a linha unindo as partı́culas, Newton propôs que a força
gravitacional que a partı́cula de massa m1 , na posição r1 sente devido a partı́cula de
massa m2 em r2 é
r2 − r1
F = −Gm1 m2 . (8.17)
|r2 − r1 |3
Esta é a Lei da Gravitação Universal, postulada por Newton e publicada em seu
Principia de 1687. Nesta lei, G, conhecida como constante da Gravitação Universal,
é uma constante de proporcionalidade, a qual teve seu valor estimado com precisão
em 1798 por Henry Cavendish5 .
Um teste da Gravitação Universal, realizado pelo próprio Newton, consiste em
comparar a força gravitacional necessária para manter a Lua em órbita com a força
gravitacional na superfı́cie da Terra. Vamos considerar, por exemplo, a interação
gravitacional entre a Terra, de massa mt , com a Lua, de massa ml , e uma maçã
próxima a superfı́cie da Terra, de massa mm . Pela lei da Gravitação Universal, as

5 Atualmente temos G ≈ 6, 67 · 10−11 m 3 kg −1 s −2 .


152 FORÇAS CENTRAIS

magnitudes das forças sentidas pela Lua e pela maçã, devido a Terra são
Gmt ml Gmt mm
Flt = , Fmt = ,
d2 R2
respectivamente, sendo d a distância entre a Terra e a Lua e R o raio da Terra. Por-
tanto, as acelerações sentidas por cada um desses corpos é
Gmt Gmt
al = , Fmt = ,
d2 R2
o que nos dá a razão
 2
al R
= .
am d
Desde a época de Newton era conhecido que a distância entre Terra e Lua é cerca de
60 vezes o raio da Terra. Assim, a Gravitação Universal nos dá
am g
al ≈ = .
3600 3600
Por outro lado, a órbita da Lua é aproximadamente circular, ou seja, ṙ = 0 e
a aceleração radial, r̈ − rφ̇2 , possui magnitude dφ̇2 . Sabendo que o perı́odo de
revolução da Lua em torno da Terra é de cerca de 27, 3 dias, ou 2.358.720 s, e que a
distância entre Terra e Lua é de aproximadamente 3, 8 · 108 m temos

4π 2 d g
al ≈ ≈ ,
T2 3600
confirmando a hipótese da Gravitação Universal. Este teste é considerado um dos
grandes triunfos da Mecânica Newtoniana, bem como da história da Ciência. Ele
representa a unificação das mecânicas celestes e terrestres sob a forma de uma teoria
matemática auto consistente.

8.5 Força do inverso do quadrado da distância

A força que cai com o inverso do quadrado da distância é talvez a mais relevante na
história da Mecânica, bem como do nosso dia a dia. Ela pode descrever tanto a força
gravitacional quanto a força eletrostática, neste último caso, atrativa ou repulsiva.
Considere a força e o potencial de interação dados por
K K
F (r) = , U (r) = , (8.18)
r r
adotando U (r → ∞) → 0. No caso atrativo, K < 0, enquanto que no caso repul-
sivo, K > 0. Dessa forma, o potencial efetivo é

L2 K
Uef = 2
+ ,
2mr r
FORÇA DO INVERSO DO QUADRADO DA DISTÂNCIA 153

o qual é representado pelas curvas contı́nuas nas Figs. 8.8 e 8.9, para os casos atrativo
e repulsivo, respectivamente. Os potenciais centrı́fugo e de interação são represen-

Uef
Uef

E2
r0
0
E1 r
E0 E

0 rmin r

Figura 8.8
Figura 8.9

tados pelas curvas pontilhadas. Na Fig 8.8, vemos que menor energia mecânica é
E0 , correspondendo a uma órbita circular estável de raio r0 . Quando a energia é
E0 < E1 < 0, surgem dois pontos de retorno distintos e quando a energia é E2 ≥ 0
há apenas um ponto de retorno finito. Já a Fig 8.9 mostra que a interação repulsiva
gera órbitas ilimitadas com energia mecânica positivas.
Derivando o potencial efetivo e igualando a zero encontramos o raio da órbita
circular,
L2
r0 = − . (8.19)
µK
Substituindo este valor no potencial efetivo, obtemos a energia da órbita circular,

µK 2
E0 = − . (8.20)
2L2
Já os pontos de retorno, obtidos a partir da condição E = Uef (rR ), satisfazem

1 2µK 1 2µE
2 + L2 r − L2 = 0,
rR R

que resolvendo para 1/rR nos dá


r0
rR = p , (8.21)
1± 1 − E/E0
154 FORÇAS CENTRAIS

no caso atrativo6 e
r0
rmin = p , (8.22)
1− 1 − E/E0
no caso repulsivo. Note que, apesar de não haver órbita circular no caso repulsivo,
estamos usando r0 e E0 dados pelas Eqs. (8.19) e (8.20), respectivamente.
Para obtermos a trajetória, substituı́mos F = Ku2 na equação de Binet,

d2 u µK 1
2
+u=− 2 = .
dφ L r0
A equação homogênea associada corresponde a um movimento harmônico simples
u(φ) com velocidade angular unitária, enquanto que a solução particular é 1/r0 .
Assim, a solução geral é dada por
1
u(φ) = A cos(φ + δ) + ,
r0
onde A e δ são constantes arbitrárias. Voltando para a variável r temos
r0
r(φ) = .
1 + Ar0 cos(φ + δ)

Essa é a equação de uma seção cônica de excentricidade  = Ar0 e uma inclinação


δ de seu eixo de simetria em relação ao eixo x. Com condições iniciais apropriadas,
o que é equivalente a redefinir os eixos, podemos eliminar essa inclinação e assim a
assumir A > 0, portanto
r0
r(φ) = , (8.23)
1 ±  cos φ
com o sinal superior para o caso atrativo e o sinal inferior para o caso repulsivo.
Comparando o periélio, ponto de maior aproximação,
r0
r(0) = .
1±
com as Eqs. (8.21) e (8.22), obtemos a excentricidade da órbita em função da energia
mecânica da partı́cula, p
 = 1 − E/E0 ,
em ambas interações. No caso repulsivo,  > 1 e, como, r0 < 0, a órbita
r0
r= p ,
1 − 1 − E/E0 cos φ

6 Se a órbita for ilimitada há apenas um ponto de retorno, correspondendo ao sinal positivo.
FORÇA DO INVERSO DO QUADRADO DA DISTÂNCIA 155

corresponde ao segunda ramo da hipérbole. Já no caso atrativo,


r0
r= p .
1 + 1 − E/E0 cos φ

Se E0 ≤ E ≤ 0 temos uma órbita elı́ptica com o caso particular de trajetória circular


se E = E0 . Se E = 0 a órbita é parabólica e se E > 0 ela é dada pelo primeiro
ramo da hiperbólica. Vemos daqui que as leis de Kepler não são equivalentes a leis
da Gravitação Universal. Esta, é mais geral, pois é capaz de descrever outros tipos
de movimentos, não apenas os elı́pticos. Convém notar também que a Eq. (8.23) nos
diz que a partı́cula m, descreve uma seção cônica com um dos focos na partı́cula M .
Se voltarmos para as coordenadas r1 e r2 , através das Eqs. (8.12) temos

M r0 /(m + M )
r1 = r̂,
1 +  cos φ
−mr0 /(m + M )
r2 = r̂,
1 +  cos φ
onde definimos a origem coincidindo como o centro de massa. Assim podemos ver
que ambas as partı́culas traçam seções cônicas semelhantes em torno do centro de
massa.
A obtenção das três leis de Kepler a partir da Lei da Gravitação Universal, ao que
chamamos de Problema de Kepler, pode ser encontrada em praticamente qualquer
livro de mecânica clássica e aqui obtivemos (K1), enquanto que a obtenção de (K3)
será deixada como exercı́cio ao leitor.

8.5.1 Espalhamento
O processo de espalhamento de uma partı́cula por um centro de força consiste na
seguinte sequência de etapas: A partı́cula incidente está, inicialmente, infinitamente
longe do alvo, ou seja, distante o suficiente para que sua interação seja desprezı́vel.
Ela vai em direção ao alvo e passa a sentir a interação, que pode ser de longo al-
cance, tendo sua trajetória desviada. Quando ela está novamente infinitamente longe
do alvo, sua trajetória volta a ser retilı́nea e uniforme. A Fig. ?? mostra uma massa
puntiforme, um asteroide, por exemplo, com energia mecânica positiva sendo espa-
lhada por um centro de força, um planeta. Como vimos na ?? esta órbita corresponde
ao primeiro ramo de uma hipérbole. Já a Fig. ?? mostra a trajetória de uma partı́cula
eletricamente carregada lançada contra um alvo, na origem, que a repele. De acordo
com a seção anterior, esta órbita é dada pelo segundo ramo da hipérbole. Em ambos
os casos, no infinito, a partı́cula possui velocidade v0 , em relação ao alvo, direcio-
nada ao longo de uma das assı́ntotas que caracteriza o movimento. A distância, b, en-
tre esta assı́ntota e uma linha paralela passando pela origem é chamada de parâmetro
de impacto. Já o ângulo Θ entre as assı́ntotas, caracterizando a deflexão da partı́cula,
é chamado de ângulo de espalhamento. A maior aproximação ou menor distância
entre as partı́culas é rmin .
156 FORÇAS CENTRAIS

O problema básico na teoria do espalhamento consiste em encontrar a maior


aproximação entre o alvo e a partı́cula incidente e o ângulo de espalhamento, dados
a velocidade assintótica inicial e o parâmetro de impacto. Vamos considerar aqui o
exemplo em que a força é proporcional ao inverso do quadrado da distância. Assim,
a primeira quantidade é dada pelas Eqs. (8.21), com o sinal negativo, e (8.22), para
os casos atrativo e repulsivo, respectivamente. Como a energia e o momento angu-
lar são conservadas, podemos calculá-las em qualquer ponto da órbita. A melhor
escolha é o infinito, de onde obtemos que E = µv02 /2 e L = |r × p| = µbv0 e assim,

−µb2 v02
rmin = p ,
K − K 2 + µ2 b2 v04

tanto no caso atratativo, quanto no caso repulsivo7 . No limite b → 0, ou seja, na


colisão frontal, a distância de maior aproximação é nula no caso atrativo e
2K K
rmin → 2 = ,
µv0 E

no caso repulsivo. Note que este resultado também pode ser obtido simplesmente da
conservação da energia8 . Como rmin infere um limite superior para tamanho do alvo,
no caso de interação repulsiva, espalhamentos podem e são usados para se estimar
tamanhos de partı́culas subatômicas. Note também que, para valores muito grandes
do parâmetro de impacto, temos

rmin → b,

ou seja, a partı́cula não é espalhada.


Em ambos os espalhamentos, Figs. ?? e ??, temos Θ = π − 2β. Dessa forma,

Θ sen (π/2 − β) cos β


tan = = .
2 cos(π/2 − β) senβ

Quando a partı́cula vai para o infinito, após o espalhamento, temos φ → π − β para


o caso atrativo
√ e φ → β na repulsão. Em qualquer um dos casos, cos β = 1/ e
senβ = 2 − 1/. Portanto,
r
Θ 1 µK 2 |K|
tan = √ = = . (8.24)
2 2
 −1 2EL 2 µbv02

Como a expressão acima cai com o parâmetro de impacto e com o quadrado da


velocidade assintótica, uma partı́cula lenta passando longe do centro de força sofrerá
maior deflexão do que uma partı́cula rápida passando próximo ao centro de interação.

7A diferença entre um e outro é o sinal de K.


8 Lembre-se que K é a constante aparecendo no potencial e não a energia cinética.
FORÇA DO INVERSO DO QUADRADO DA DISTÂNCIA 157

Exemplo 8.5. A Eq. 8.24 pode ser usada, por exemplo, para estimar massas ou raios
de asteroides. O que se faz, na prática, é buscar espalhamentos dentre as milhares
de órbitas desses corpos no cinturão de asteroides. Suponha que dois asteroides, de
massas M e m interajam. Então,

Θ G(M + m)
tan = ,
2 bv02

8.5.2 Espalhamento Rutherford


Apesar da hipótese atômica ser antiga, sua comprovação ocorreu apenas no inı́cio
do século XX. Poucos anos depois, o modelo de átomo com um núcleo contendo
praticamente toda a massa atômica foi comprovada através do espalhamento de
partı́culas.
Entre 1908-1913 Hans Geiger e Ernest Marsden, sob supervisão de Ernest Ruther-
ford analisaram como partı́culas αPartı́culas α são núcleos de Hélio. emitidas de
uma fonte radiativa são espalhadas por uma fina camada de metal. Naquela época,
acreditava-se que o átomo era constituı́do por cargas negativas puntiformes, os elétrons,
espalhadas sobre um contı́nuo de carga positiva. Já haviam estimativas para a massa
do elétron, as quais indicavam um valor muito menor que a massa do átomo, ou seja,
no modelo da época, a massa da matéria era distribuı́da de maneira uniforme. Assim,
esperava-se que ao lançar partı́culas sobre a matéria, elas deveriam ser pouco defle-
tidas. Em particular, vemos da Eq. (5.17) que um retroespalhamento9 implica que o
alvo é mais massivo que a partı́cula incidente. A observação de partı́culas retroespa-
lhadas nos experimentos de Geiger, Marsden e Rutherford foi uma surpresa, a qual
mudou completamente a visão de átomo da época, pois ela comprova a existência de
núcleos positivos muito massivos na matéria.
A hipótese fundamental assumida por Rutherford no problema do espalhamento
é que praticamente toda a massa do átomo encontra-se concentrada em uma pe-
quena região, o núcleo atômico, e que este é positivamente carregada. Lançando
uma partı́cula , a qual também possui carga elétrica positiva, contra o núcleo de-
vemos observar uma deflexão dada por (??). Porém, é inviável, do ponto de vista
experimental, determinarmos o valor exato do parâmetro de impacto da partı́cula.
Vamos considerar, portanto, um feixe homogêneo, de área de seção reta unitária,
contendo N partı́culas α com velocidade v0 , incidindo perpendicularmente em um
alvo consistindo de uma placa metálica muito fina e de área unitária. Assumimos
que os núcleos atômicos do alvo estão muito afastados uns dos outros, assim, se a
placa for suficientemente fina, cada partı́cula do feixe não sofra múltiplos espalha-
mentos10 . Da Fig. (? ) vemos que as partı́culas sendo defletidas defletidas, pelo
centro de espalhamento em O, com ângulo entre Θ e Θ + dΘ são aquelas que atin-

9 Quando a partı́cula incidente retorna pela mesma trajetória de onde veio, ou seja, o ângulo de espalha-
mento é π.
10 Hoje sabe-se que o átomo é 5 ordens de grandeza maior que o núcleo, portanto esta hipótese é muito

boa.
158 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

gem o anel de área dσ = 2πbdb. O número de tais partı́culas é uma fração dσ/A do
número total de partı́culas α. Como há n centros de espalhamento sobre a placa, o
número total de partı́culas espalhadas com ângulo de espalhamento entre Θ e Θ+dΘ

dN = 2πnN bdb.
Da Eq. (??) obtemos
K sec (Θ/2)dΘ
db = − .
2µv02 tan(Θ/2)
Note que o sinal de menos significa que o ângulo de espalhamento diminui se aumen-
tarmos o parâmetro de impacto, como esperado. Substituindo de volta na expressão
para dN e multiplicando o numerador e o denominador por sen (Θ/2) obtemos a
fórmula obtida por Rutherford em 191111
 
πnN K sen Θ
dN = − dΘ,
2 µv02 sen (Θ/2)

ou, equivalentemente,
 
dN πnN K sen Θ
=− .
dΘ 2 µv02 sen (Θ/2)

Se quisermos o número total de partı́culas espalhadas no cone definido por um ângulo


Θ0 , então basta integrar sobre o ângulo de espalhamento,
Z Θ0  
πnN K sen Θ
N (Θ0 ) = − 2 dΘ.
0 2 µv0 sen (Θ/2)

A comparação do experimento com a teoria pode ser feita comparando-se o número


acima com a contagem de partı́culas detectadas no referido cone. Geiger e Marsden
usaram, inicialmente, folhas de ouro devido a sua alta maleabilidade, mas também re-
alizaram o experimento com folhas de alumı́nio, prata, cobre e latão12 e, de fato, veri-
ficaram as previsões do modelo de Rutherford, confirmando a hipótese da existência
do núcleo atômico.

Referências Bibliográficas

[1] A. P. Arya, Introduction to Classical Mechanics. Prentice Hall, 2nd ed., 1998.

[2] H. Goldstein, C. Poole, and J. Safko, Classical Mechanics. Addison Wesley,


2002.

11 E. Rutherford, Phil. Mag. 21, 669 (1911).


12 H. Geiger, E. Marsden, Phil. Mag. 25, 604 (1913).
EXERCÍCIOS E PROBLEMAS 159

[3] R. D. Gregory, Classical Mechanics. Cambridge University Press, 2006.


[4] D. Kleppner and R. Kolenkow, An Introduction to Mechanics. Cambridge Uni-
versity Press, 2nd ed., 2014.
[5] J. M. Knudsen and P. G. Hjorth, Elements of Newtonian mechanics: including
nonlinear dynamics. Springer Science & Business Media, 2012.
[6] K. R. Symon, Mechanics. Addison-Wesley World student series, Addison-
Wesley Publishing Company, 3rd ed., 1971.
[7] S. T. Thornton and J. B. Marion, Classical Dynamics of Particles and Systems.
Brooks/Cole, 5th revised ed., 2003.

8.6 Exercı́cios e problemas

1 - Duas partı́culas, de massas m1 e m2 estão ligadas por uma mola ideal (massa
desprezı́vel e que respeita a Lei de Hooke) de constante elástica k e comprimento
natural l0 . Uma pessoa mantém o sistema suspenso ao segurá-lo pela partı́cula m1 ,
a qual possui altura h em relação à superfı́cie. Em t = 0 a pessoa solta a partı́cula.
Considere a gravidade uniforme.
a) Calcule as posições de cada partı́cula em função do tempo (antes de tocarem o
solo).
b) Calcule as velocidades em função do tempo.

2 - Um oscilador isotrópico, de constante elástica k e massa reduzida µ é deslo-


cado de uma distância r0 em relação à sua posição de equilı́brio e então lançado com
uma velocidade inicial de magnitude v0 e perpendicular ao seu raio vetor em relação
à posição de equilı́brio. Calcule a velocidade radial máxima deste oscilador.

3 - Uma partı́cula de massa (reduzida) µ possui momento angular de magnitude L e


está sob ação de uma força central atrativa, cuja magnitude vale F = Kr3 . Calcule
o raio e a energia mecânica da órbita circular.

4 - Uma partı́cula de massa (reduzida) µ é lançada em direção a um centro de força,


muito distante, com parâmetro de impacto b e velocidade v0 e traça uma órbita dada
por r = 1/(Aφ + ), onde A e  são números reais constantes. Obtenha o vetor força
responsável por esta órbita.

5 - Duas partı́culas, de massas µ e m, estão presas às extremidades de uma corda


inextensı́vel. A primeira move-se em uma trajetória circular sobre uma superfı́cie
horizontal, enquanto a segunda é mantida suspensa sob ação da gravidade, de magni-
tude g, após a corda passar por um orifı́cio na superfı́cie. O sistema está em equilı́brio
quando a velocidade angular da partı́cula girando é Ω0 e seu raio de giração é r0 . Ve-
rifique se o equilı́brio é estável ou instável. Calcule a distância da partı́cula de massa
160 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

µ até o furo na mesa supondo que no instante inicial ela é deslocada de δ do equilı́brio
e liberada.

6 - Definindo o plano xy como o plano do movimento de um oscilador harmônico


isotrópico, e orientando os eixos de modo que r(0) = Ax î + Ay cos ϕ0 ĵ, mostre que
2 2
a posição da partı́cula é dada por Ax 2 + Ay 2 − A2xy
x Ay
cos ϕ0 = sin2 ϕ0 .
x y

7 - Obtenhas as possı́veis órbitas geradas por uma força central que cai com o cubo
da distância, Kr−3 , K 6= 0.

8 - Mostre que o vetor velocidade de uma partı́cula em órbita elı́ptica, devido à


atração gravitacional, descreve um cı́rculo centrado em (0, K K
L ) e de raio L , onde 
é a excentricidade da elipse, L o momento angular da partı́cula em relação à origem
da força e K = Gm1 m2 .

9 - Mostre que, para órbitas de uma partı́cula de massa reduzida µ sob ação de
uma força atrativa do tipo F = − rK2 , o raio da órbita circular e a energia mecânica
2 2
mı́nima são dadas por r0 = µK L
e E0 = − µK2L2 , respectivamente, onde L é o mo-
mento angular em relação à origem da força e E a energia do sistema. Mostre que
que os pontos de retornos são rR = qr0 , no caso de dois pontos de retorno
E
1± 1− E
0
finito, ou rR = qr0 , no caso de apenas um ponto de retorno finito.
1+ 1− EE
0

10 - Considere uma partı́cula de massa (reduzida) µ em uma órbita limitada, sob


ação de uma força gravitacional F = −K/r2 . Encontre a relação entre os perı́odos
de revolução e das oscilações radiais de uma órbita levemente perturbada em relação
à órbita circular.
p×L K
11 - Considere o chamado vetor de Runge-Lenz, A = µK − r̂, onde U = r .
a) Mostre que A se conserva;
L2
− µK
b) A partir de A · r, obtenha as órbitas cônicas r = 1−A cos θ .

12 - Obtenha a lei dos perı́odos a partir da lei da gravitação universal.

13 - Uma partı́cula de massa reduzida µ é atraı́da gravitacionalmente por outra


partı́cula, a qual podemos considerar fixa. Quando a distância entre elas é infinita,
a magnitude da velocidade da partı́cula incidente é v0 e o parâmetro de impacto é
b 6= 0. Determine as possı́veis órbitas em função dos possı́veis valores de v0 e b.
Discuta a possibilidade desses parâmetros serem nulos.

14 - Um asteroide desloca-se em direção à Terra, a qual possui raio R e massa M ,


com parâmetro de impacto b e velocidade v0 no infinito. Desprezando o efeito dos
outros corpos celestes e da atmosfera da Terra, calcule a relação entre v0 e b que deve
ser satisfeita para que o asteroide não colida com o planeta. Considere a massa do
EXERCÍCIOS E PROBLEMAS 161

2GM R
asteroide muito menor que a da Terra. R: v02 > b2 −R2

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