Dinâmica de Sistemas com Forças Centrais
Dinâmica de Sistemas com Forças Centrais
FORÇAS CENTRAIS
Seja qual for a força atuando sobre uma partı́cula, ela é originada por outra partı́cula,
a qual chamaremos de centro ou fonte de força. O caso mais simples, além da
partı́cula isolada, é o de um sistema isolado contendo duas partı́culas. Em muitos
casos, a interação entre essas partı́culas se dá ao longo da linha unindo-as. Este fato
resulta em importantes consequências, as quais serão investigadas neste capı́tulo,
reservando atenção especial para o caso da força gravitacional.
135
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136 FORÇAS CENTRAIS
Este sistema possui seis graus de liberdade e é descrito por um sistema de seis EDO’s.
Em geral, as forças Fij dependem das coordenadas ri e rj , o que acopla as equações.
Este sistema de seis EDO’s acopladas é equivalente a uma EDO de sexta ordem, cuja
solução, em geral, requer métodos numéricos. Em certas situações, no entanto, é
possı́vel mapear este problema de duas partı́culas interagentes em outro problema,
composto por duas partı́culas fictı́cias livres, desacoplando o sistema de EDO’s e
possibilitando soluções mais simples.
Vamos escrever o sistema acima em termos de novas variáveis, a coordenada do
centro de massa e a coordenada relativa, respectivamente
m1 r1 + m2 r2
Rcm = ,
M
r = r1 − r2 ,
m1 m2
µ≡ .
M
O sistema (8.1) ainda está acoplado, pois o lado direito da Eq. (8.1b) envolve,
em geral, as variáveis ri , que são escritas em termos de r e Rcm . Entretanto, sob
certas circunstâncias, o sistema desaclopa. Isso ocorre, por exemplo, no caso de um
sistema isolado, onde a dinâmica é dada por
M R̈cm = 0, (8.2a)
µr̈ = F12 , (8.2b)
Quando a força interna no sistema acima satisfaz a forma forte da terceira lei de
Newton, chamamos este caso de problema de dois corpos.
Não é necessário que o sistema seja isolado para que as equações desacoplem. Por
exemplo, considere a Fig 8.1, a qual mostra um sistema de duas partı́culas ligadas
por uma mola, sob atração gravitacional da Terra. A força externa sobre as partı́culas
SISTEMA DE DUAS PARTÍCULAS 137
Fext
1 Fext
2
m1 m2
Fext
1 Fext
2
m1 m2
Figura 8.1
aponta para o centro da Terra. Se as partı́culas estão próximas uma da outra então
e
Fext
1 Fext
− 2 = g(r1 ) − g(r2 ) ≈ 0,
m1 m2
desacoplando o sistema. Por outro lado, se a mola é muito grande, vemos imedia-
tamente que as forças externas sobre as partı́culas apontam em direções diferentes,
impossibilitando o cancelamento do lado direito da Eq. (8.1b) e o sistema permanece
acoplado.
Em geral, quando o sistema desacopla temos
Note como este sistema descreve o movimento independente de duas novas partı́culas
não interagentes, a partı́cula do centro de massa, de massa M , e a partı́cula de massa
reduzida, de massa µ. Além disso, como esperado, o número de graus de liberdade
não se altera, ou seja, continua sendo seis. Note também que se uma das massas
é muito maior que a outra, então a massa menor é aproximadamente igual à massa
reduzida, não sendo necessário distinguir uma da outra.
Uma vez resolvidas as Eqs. (8.3) para o centro de massa e a coordenada relativa,
podemos voltar às variáveis originais através de
m2
r1 = Rcm + r, (8.4a)
M
m1
r2 = Rcm − r. (8.4b)
M
138 FORÇAS CENTRAIS
onde F é uma função arbitrária. Daqui por diante, simplificaremos esta expressão ao
definirmos a origem do sistema de coordenadas coincidindo com Q, ou seja,
F = F (r)r̂.
dL
= ṙ × p + r × µr̈.
dt
A Eq. (8.2b) vale, independentemente se a origem possui velocidade constante ou
não, e assim,
dL
= r × F r̂ = 0,
dt
ou seja, o momento angular é constante. Podemos, portanto, enunciar o seguinte
resultado:
Teorema 8.1. O momento angular, em relação ao centro de força, de uma partı́cula
sujeita apenas a uma força central se conserva.
ASPECTOS GERAIS DAS FORÇAS CENTRAIS 139
r(t + dt)
r(t)
Figura 8.2
Daqui decorre um importante corolário do teorema 8.1, o qual nos diz o quão rápido
a partı́cula viaja em torno do centro de força.
Corolário 8.1. O segmento entre a partı́cula e o centro de força varre áreas iguais
em intervalos de tempos iguais.
Para mostrar este resultado, considere uma trajetória arbitrária, como a mostrada na
Fig 8.2. Apos um intervalo infinitesimal de tempo o vetor posição varia de r(t) para
r(t + dt) resultando em um deslocamento angular dφ. Desprezando infinitésimos de
segunda ordem, a área varrida pelo vetor posição durante o intervalo dt é dada pela
1 Como a força e, consequentemente, a aceleração estão na direção radial, a partı́cula não tem como sair do
plano. Em particular, se r e p são colineares, então o movimento da partı́cula se dá em uma reta contando
o centro de força
140 FORÇAS CENTRAIS
dA L
= , (8.7)
dt 2µ
a qual é constante. O significado deste corolário é que quanto mais longe a partı́cula
estiver do centro de força, menor será a magnitude de sua velocidade.
Tomando o produto escalar entre a força e o elemento de linha em coordenadas
esféricas temos
Essa força pode ser escrita a partir do gradiente de uma função escalar, mais preci-
samente,
L2 d L2
µrφ̇2 = 3 = − .
µr dr 2µr2
Isso significa que L2 /2µr2 é um termo de potencial, repulsivo, o qual chamamos de
energia potencial centrı́fuga. .
A energia potencial efetiva tem, portanto, uma contribuição devido a interação, a
qual pode ser atrativa ou repulsiva, mais uma contribuição centrı́fuga que é sempre
repulsiva. Além disso, uma vez que reduzimos o problema inicial para um problema
unidimensional, propriedades importantes podem ser obtidas a partir de simples dia-
gramas de energia.
L2
0 = Uef0 (r0 ) = − + U 00 (r0 ),
µr03
ou seja,
L2 L2
r03 = = − .
µU 0 (r0 ) µF (r0 )
Note ainda que na órbita circular a energia cinética radial é nula.
Uma órbita é dita limitada se r(φ) < ∞, para todo φ. Caso contrário, ela é dita
ilimitada. No caso de órbitas limitadas não circulares podemos encontrar pontos de
retorno rmin e rmax finitos através da igualdade entre a energia mecânica e a energia
potencial efetiva. Nessa situação a energia cinética radial é nula e a separação radial
está invertendo o sentido de sua variação.
Uma órbita circular é dita estável se perturbações arbitrariamente pequenas resul-
tam em órbitas arbitrariamente próximas à órbita circular. Caso contrário, ela é dita
instável. Note, entretanto, que um potencial atrativo é condição necessária, mas não
suficiente para a existência de órbitas estáveis. Apenas órbitas circulares correspon-
dentes a mı́nimos da energia potencial efetiva se manterão arbitrariamente próximas
142 FORÇAS CENTRAIS
de cı́rculos após terem sua energia mecânica alteradas por uma quantidade arbitrari-
amente pequena. A região permitida para a separação r é tão pequena quanto for o
acréscimo ou decréscimo de energia. Sendo assim, uma órbita é estável se e somente
se
Uef (r0 )00 > 0,
o que implica em
3L2 3U 0 (r0 )
U 00 (r0 ) > − = − ,
µr04 r0
ou
U 00 (r0 )
r0 + 3 > 0. (8.9)
U 0 (r0 )
Note que, como Uef0 (r0 ) = 0 e L 6= 0, então U 0 (r0 ) 6= 0. Além disso, a chamada
condição de estabilidade, Eq. (8.9), também pode ser escrita em termos da força de
interação,
F 0 (r0 )
r0 + 3 > 0.
F (r0 )
Exemplo 8.1. Considere uma interação atrativa dada pela energia potencial
U = Krn ,
indo assintoticamente para zero, ou seja, sem órbita circular. Já o potencial K/r3
resulta em um potencial efetivo dominado pelo potencial de interação para cur-
tas distâncias e pelo potencial centrı́fugo para longas distâncias. Há um ponto de
equilı́brio associado a uma órbita circular, cuja energia mecânica é E0 , mas como
podemos ver da Fig. 8.3 este equilı́brio é instável. Qualquer incremento na energia
mecânica fará com que a partı́cula saia da órbita circular e vá em direção à origem
ou ao infinito.
Uef
E0
0 r
Figura 8.3
L2 kr2
Uef = + .
2µr2 2
O diagrama de energia deste oscilador com momento angular não nulo é mostrado
na Fig. 8.4. A linha pontilhada representa a energia potencial efetiva de um oscila-
dor com quatro vezes mais momento angular que o oscilador cuja energia potencial
efetiva é dada pela linha contı́nua.
A posição de equilı́brio é obtida de
dUef
(r0 ) = 0,
dr
que nos dá
14
L2
r0 = .
µk
144 FORÇAS CENTRAIS
Uef
E
E0
0 rmin r0 rmax r
Figura 8.4
2
A solução com o sinal de mais corresponde a rmax , enquanto que a solução como
2
o sinal de menos nos dá rmin . A equação acima ainda nos mostra que se E = E0 ,
então os dois pontos de retorno são iguais. Isso significa que, neste caso, a órbita é
circular de raio r
E
r= = r0 .
k
Do diagrama de energia também vemos que a separação de equilı́brio corres-
ponde a um mı́nimo da energia potencial efetiva. De fato, a condição de estabili-
dade, Eq. (8.9), é satisfeita e as órbitas são estáveis.
ASPECTOS GERAIS DAS FORÇAS CENTRAIS 145
Para uma órbita levemente perturbada, em relação a órbita ciruclar, podemos apro-
ximar φ̇ pelo valor da velocidade angular da órbita circular e assim,
2π 2πµr02
Tφ ≈ = .
φ̇ L
x2 y2 2xy
2
+ 2 − cos ϕ0 = sen 2 φ0 ,
Ax Ay Ax Ay
Ay
y=± x,
Ax
ou seja, em uma trajetória com momento angular, em relação a origem, nulo. Para
os demais valores de ϕ0 as órbitas são elipses com centro no centro de força.
Para o oscilador isotrópico que acabamos de ver, por exemplo, todas as órbitas
são fechadas, porém nem todas as forças compartilham de tal propriedade. Para que
2 É tentador imaginar, então, que uma órbita fechada é uma curva de comprimento finito. Isso, no entanto,
não é verdade, pois há curvas fechadas de comprimento infinito, por exemplo em fractais.
146 FORÇAS CENTRAIS
Teorema 8.3. As únicas forças centrais para as quais todas as órbitas limitadas são
fechadas são a força do inverso do quadrado da distância e a lei de Hooke.
Note que o teorema de Bertrand implica que a única força central, que cai com
a distância, capaz de resultar em órbitas planetárias fechadas é a do inverso do qua-
drado da distância.
Uma vez resolvida a integral, escrevemos, quando possı́vel, r(t) e podemos usar o
resultado para obter a dependência temporal da coordenada azimutal. Para isso, note
que a partir da Eq. (8.6) temos
dφ L
= 2,
dt µr
a qual pode ser integrada,
Z t
L dt
φ(t) = φ0 + . (8.11)
µ 0 r(t)2
pela dificuldade intrı́nseca das integrais3 . Uma alternativa, muitas vezes, melhor
na obtenção das órbitas, consiste em resolver uma equação diferencial ao invés de
integrais. A aceleração em coordenadas polares planas é
a = r̈ − rφ̇2 r̂ + 2ṙφ̇ + rφ̈ φ̂,
A segunda equação não nos dá nada novo, ela é consistente com a conservação do
momento angular. Eliminando φ̇ na primeira equação obtemos
L2
µ r̈ − 2 3 = F (r).
µ r
d2 r L2 u2 d2 u
dφ d L du
= − = − ,
dt2 dt dφ µ dφ µ2 dφ2
L2 u2 d2 u L2 3
µ − 2 − 2u = F (1/u).
µ dφ2 µ
d2 u µ F (1/u)
+u=− 2 . (8.14)
dφ2 L u2
Uma vantagem clara desta equação diferencial em relação às integrais (8.10)-(8.12) é
que ela também pode ser usada para se obter a força, dada a órbita. Note, entretanto,
3 Note que, independentemente das integrais poderem ou não ser resolvidas analiticamente, o sistema é
integrável por quadratura.
148 FORÇAS CENTRAIS
que esta EDO é linear apenas para forças que caem com o quadrado ou o cubo da
distância.
Exemplo 8.4. Uma partı́cula eletricamente carregada, de massa reduzida µ, está
sujeita a um campo elétrico gerado por um dipolo elétrico situado na origem. A
força sobre a partı́cula é central e resulta na órbita r(φ) = keαφ com k e α 6= 0
constantes. Esta órbita, conhecida como espiral logarı́tmica, é mostrada na Fig.
8.5, no caso de α > 0 e na Fig. 8.6, no quando α < 0. Na primeira, a partı́cula se
afasta da origem, enquanto que na segunda ela se aproxima. Queremos obter uma
y y
0 x 0 x
µ F
α2 u + u = − ,
L2 u2
e assim,
L2 2 L2 α2 + 1
F =− (α + 1)u3 = − .
µ µ r3
Note que a força é atrativa, independentemente do sinal de α.
É tentador usar a expressão da órbita, r(φ) = keαφ , para escrever esta força
como F ∝ e−3αφ . No entanto, esta última expressão está errada, pois sequer cor-
responde a uma força central. A razão do erro é que r(φ) = keαφ vale apenas ao
longo da órbita e quando escrevemos F = F (r)r̂ queremos a força para qualquer
ponto do espaço.
Integrando a força obtemos a energia potencial,
L2 α2 + 1
U =− ,
2µ r2
PROBLEMA DE NEWTON 149
Uef
0 r
Figura 8.7
4 As duas primeiras leis apareceram em Astronomia nova, de 1609 enquanto a última apareceu em Har-
a origem neste foco, as órbitas são descritas, de acordo com o apêndice ??, por
r0
r(φ) = ,
1 + cos φ
onde é a excentricidade da órbita e r0 é um parâmetro com dimensão de compri-
mento.
Assim como a primeira, a segunda lei de Kepler também aplica-se individual-
mente. Varrer áreas iguais em intervalos de tempos iguais significa variar a área a
uma taxa constante. Newton foi o primeiro a notar que este resultado não é particular
da interação gravitacional e sim, como vimos Seç. 8.2, é uma consequência direta da
conservação do momento angular para as forças centrais.
Finalmente, a terceira lei de Kepler relaciona órbitas de planetas diferentes. Se Ti
e ai são o perı́odo de revolução e o comprimento do semi-eixo maior da elipse do
i-ésimo planeta, então
Ti2 = Ca3i , (8.15)
onde C é uma constante independente do planeta e, portanto, dependente apenas
de propriedades intrı́nsecas do Sol. Aplicando a Eq. (8.15) para dois planetas e
eliminando a constante C obtemos
2 3
Ti ai
= ,
Tj aj
1 + cos φ
u= ,
r0
na equação de Binet obtemos
L2 2
F =− u ,
mr0
ou
L2 1
F =− , (8.16)
mr0 r2
após voltarmos a variável r. Aqui, assumimos que a massa do Sol, M , é muito maior
que a massa do planeta, m. Desta forma, µ ≈ m. Portanto, a primeira lei de Kepler
implica que a interação gravitacional cai com o quadrado da distância. Integrando a
Eq. (8.19), a qual corresponde a segunda lei de Kepler, sobre um perı́odo completo
PROBLEMA DE NEWTON 151
somo levados a
L
πab = T,
2m
onde o lado esquerdo é a área da elipse. O semi-eixo menor da elipse pode ser escrito
√
como b = ar0 e assim,
L2 2
π 2 a3 r0 = T .
4m2
Pela lei dos perı́odos, Eq. (8.15),
L2 4π 2 m
= ,
mr0 C
que substituindo na Eq. (8.16) nos dá
4π 2 m 1
F =− .
C r2
A constante C tem dimensão de tempo ao quadrado por comprimento ao cubo
e, como discutido anteriormente, deve depender apenas de propriedades intrı́nsecas
ao Sol, que do ponto de vista gravitacional deve ser a massa. Em outras palavras,
devemos ter
Gf (M )m
F =− ,
r2
para alguma função f e com G constante. Por outro lado, a força gravitacional
não deve ter uma dependência assimétrica nas massas. Se f (M ) não for linear na
massa, esta força não satisfaz o Princı́pio de Superposição. É razoável supor que
f (M ) = M e depois verificar se a hipótese está correta. Assumindo que a força
gravitacional atua sobre a linha unindo as partı́culas, Newton propôs que a força
gravitacional que a partı́cula de massa m1 , na posição r1 sente devido a partı́cula de
massa m2 em r2 é
r2 − r1
F = −Gm1 m2 . (8.17)
|r2 − r1 |3
Esta é a Lei da Gravitação Universal, postulada por Newton e publicada em seu
Principia de 1687. Nesta lei, G, conhecida como constante da Gravitação Universal,
é uma constante de proporcionalidade, a qual teve seu valor estimado com precisão
em 1798 por Henry Cavendish5 .
Um teste da Gravitação Universal, realizado pelo próprio Newton, consiste em
comparar a força gravitacional necessária para manter a Lua em órbita com a força
gravitacional na superfı́cie da Terra. Vamos considerar, por exemplo, a interação
gravitacional entre a Terra, de massa mt , com a Lua, de massa ml , e uma maçã
próxima a superfı́cie da Terra, de massa mm . Pela lei da Gravitação Universal, as
magnitudes das forças sentidas pela Lua e pela maçã, devido a Terra são
Gmt ml Gmt mm
Flt = , Fmt = ,
d2 R2
respectivamente, sendo d a distância entre a Terra e a Lua e R o raio da Terra. Por-
tanto, as acelerações sentidas por cada um desses corpos é
Gmt Gmt
al = , Fmt = ,
d2 R2
o que nos dá a razão
2
al R
= .
am d
Desde a época de Newton era conhecido que a distância entre Terra e Lua é cerca de
60 vezes o raio da Terra. Assim, a Gravitação Universal nos dá
am g
al ≈ = .
3600 3600
Por outro lado, a órbita da Lua é aproximadamente circular, ou seja, ṙ = 0 e
a aceleração radial, r̈ − rφ̇2 , possui magnitude dφ̇2 . Sabendo que o perı́odo de
revolução da Lua em torno da Terra é de cerca de 27, 3 dias, ou 2.358.720 s, e que a
distância entre Terra e Lua é de aproximadamente 3, 8 · 108 m temos
4π 2 d g
al ≈ ≈ ,
T2 3600
confirmando a hipótese da Gravitação Universal. Este teste é considerado um dos
grandes triunfos da Mecânica Newtoniana, bem como da história da Ciência. Ele
representa a unificação das mecânicas celestes e terrestres sob a forma de uma teoria
matemática auto consistente.
A força que cai com o inverso do quadrado da distância é talvez a mais relevante na
história da Mecânica, bem como do nosso dia a dia. Ela pode descrever tanto a força
gravitacional quanto a força eletrostática, neste último caso, atrativa ou repulsiva.
Considere a força e o potencial de interação dados por
K K
F (r) = , U (r) = , (8.18)
r r
adotando U (r → ∞) → 0. No caso atrativo, K < 0, enquanto que no caso repul-
sivo, K > 0. Dessa forma, o potencial efetivo é
L2 K
Uef = 2
+ ,
2mr r
FORÇA DO INVERSO DO QUADRADO DA DISTÂNCIA 153
o qual é representado pelas curvas contı́nuas nas Figs. 8.8 e 8.9, para os casos atrativo
e repulsivo, respectivamente. Os potenciais centrı́fugo e de interação são represen-
Uef
Uef
E2
r0
0
E1 r
E0 E
0 rmin r
Figura 8.8
Figura 8.9
tados pelas curvas pontilhadas. Na Fig 8.8, vemos que menor energia mecânica é
E0 , correspondendo a uma órbita circular estável de raio r0 . Quando a energia é
E0 < E1 < 0, surgem dois pontos de retorno distintos e quando a energia é E2 ≥ 0
há apenas um ponto de retorno finito. Já a Fig 8.9 mostra que a interação repulsiva
gera órbitas ilimitadas com energia mecânica positivas.
Derivando o potencial efetivo e igualando a zero encontramos o raio da órbita
circular,
L2
r0 = − . (8.19)
µK
Substituindo este valor no potencial efetivo, obtemos a energia da órbita circular,
µK 2
E0 = − . (8.20)
2L2
Já os pontos de retorno, obtidos a partir da condição E = Uef (rR ), satisfazem
1 2µK 1 2µE
2 + L2 r − L2 = 0,
rR R
no caso atrativo6 e
r0
rmin = p , (8.22)
1− 1 − E/E0
no caso repulsivo. Note que, apesar de não haver órbita circular no caso repulsivo,
estamos usando r0 e E0 dados pelas Eqs. (8.19) e (8.20), respectivamente.
Para obtermos a trajetória, substituı́mos F = Ku2 na equação de Binet,
d2 u µK 1
2
+u=− 2 = .
dφ L r0
A equação homogênea associada corresponde a um movimento harmônico simples
u(φ) com velocidade angular unitária, enquanto que a solução particular é 1/r0 .
Assim, a solução geral é dada por
1
u(φ) = A cos(φ + δ) + ,
r0
onde A e δ são constantes arbitrárias. Voltando para a variável r temos
r0
r(φ) = .
1 + Ar0 cos(φ + δ)
6 Se a órbita for ilimitada há apenas um ponto de retorno, correspondendo ao sinal positivo.
FORÇA DO INVERSO DO QUADRADO DA DISTÂNCIA 155
M r0 /(m + M )
r1 = r̂,
1 + cos φ
−mr0 /(m + M )
r2 = r̂,
1 + cos φ
onde definimos a origem coincidindo como o centro de massa. Assim podemos ver
que ambas as partı́culas traçam seções cônicas semelhantes em torno do centro de
massa.
A obtenção das três leis de Kepler a partir da Lei da Gravitação Universal, ao que
chamamos de Problema de Kepler, pode ser encontrada em praticamente qualquer
livro de mecânica clássica e aqui obtivemos (K1), enquanto que a obtenção de (K3)
será deixada como exercı́cio ao leitor.
8.5.1 Espalhamento
O processo de espalhamento de uma partı́cula por um centro de força consiste na
seguinte sequência de etapas: A partı́cula incidente está, inicialmente, infinitamente
longe do alvo, ou seja, distante o suficiente para que sua interação seja desprezı́vel.
Ela vai em direção ao alvo e passa a sentir a interação, que pode ser de longo al-
cance, tendo sua trajetória desviada. Quando ela está novamente infinitamente longe
do alvo, sua trajetória volta a ser retilı́nea e uniforme. A Fig. ?? mostra uma massa
puntiforme, um asteroide, por exemplo, com energia mecânica positiva sendo espa-
lhada por um centro de força, um planeta. Como vimos na ?? esta órbita corresponde
ao primeiro ramo de uma hipérbole. Já a Fig. ?? mostra a trajetória de uma partı́cula
eletricamente carregada lançada contra um alvo, na origem, que a repele. De acordo
com a seção anterior, esta órbita é dada pelo segundo ramo da hipérbole. Em ambos
os casos, no infinito, a partı́cula possui velocidade v0 , em relação ao alvo, direcio-
nada ao longo de uma das assı́ntotas que caracteriza o movimento. A distância, b, en-
tre esta assı́ntota e uma linha paralela passando pela origem é chamada de parâmetro
de impacto. Já o ângulo Θ entre as assı́ntotas, caracterizando a deflexão da partı́cula,
é chamado de ângulo de espalhamento. A maior aproximação ou menor distância
entre as partı́culas é rmin .
156 FORÇAS CENTRAIS
−µb2 v02
rmin = p ,
K − K 2 + µ2 b2 v04
no caso repulsivo. Note que este resultado também pode ser obtido simplesmente da
conservação da energia8 . Como rmin infere um limite superior para tamanho do alvo,
no caso de interação repulsiva, espalhamentos podem e são usados para se estimar
tamanhos de partı́culas subatômicas. Note também que, para valores muito grandes
do parâmetro de impacto, temos
rmin → b,
Exemplo 8.5. A Eq. 8.24 pode ser usada, por exemplo, para estimar massas ou raios
de asteroides. O que se faz, na prática, é buscar espalhamentos dentre as milhares
de órbitas desses corpos no cinturão de asteroides. Suponha que dois asteroides, de
massas M e m interajam. Então,
Θ G(M + m)
tan = ,
2 bv02
9 Quando a partı́cula incidente retorna pela mesma trajetória de onde veio, ou seja, o ângulo de espalha-
mento é π.
10 Hoje sabe-se que o átomo é 5 ordens de grandeza maior que o núcleo, portanto esta hipótese é muito
boa.
158 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
gem o anel de área dσ = 2πbdb. O número de tais partı́culas é uma fração dσ/A do
número total de partı́culas α. Como há n centros de espalhamento sobre a placa, o
número total de partı́culas espalhadas com ângulo de espalhamento entre Θ e Θ+dΘ
é
dN = 2πnN bdb.
Da Eq. (??) obtemos
K sec (Θ/2)dΘ
db = − .
2µv02 tan(Θ/2)
Note que o sinal de menos significa que o ângulo de espalhamento diminui se aumen-
tarmos o parâmetro de impacto, como esperado. Substituindo de volta na expressão
para dN e multiplicando o numerador e o denominador por sen (Θ/2) obtemos a
fórmula obtida por Rutherford em 191111
πnN K sen Θ
dN = − dΘ,
2 µv02 sen (Θ/2)
ou, equivalentemente,
dN πnN K sen Θ
=− .
dΘ 2 µv02 sen (Θ/2)
Referências Bibliográficas
[1] A. P. Arya, Introduction to Classical Mechanics. Prentice Hall, 2nd ed., 1998.
1 - Duas partı́culas, de massas m1 e m2 estão ligadas por uma mola ideal (massa
desprezı́vel e que respeita a Lei de Hooke) de constante elástica k e comprimento
natural l0 . Uma pessoa mantém o sistema suspenso ao segurá-lo pela partı́cula m1 ,
a qual possui altura h em relação à superfı́cie. Em t = 0 a pessoa solta a partı́cula.
Considere a gravidade uniforme.
a) Calcule as posições de cada partı́cula em função do tempo (antes de tocarem o
solo).
b) Calcule as velocidades em função do tempo.
µ até o furo na mesa supondo que no instante inicial ela é deslocada de δ do equilı́brio
e liberada.
7 - Obtenhas as possı́veis órbitas geradas por uma força central que cai com o cubo
da distância, Kr−3 , K 6= 0.
9 - Mostre que, para órbitas de uma partı́cula de massa reduzida µ sob ação de
uma força atrativa do tipo F = − rK2 , o raio da órbita circular e a energia mecânica
2 2
mı́nima são dadas por r0 = µK L
e E0 = − µK2L2 , respectivamente, onde L é o mo-
mento angular em relação à origem da força e E a energia do sistema. Mostre que
que os pontos de retornos são rR = qr0 , no caso de dois pontos de retorno
E
1± 1− E
0
finito, ou rR = qr0 , no caso de apenas um ponto de retorno finito.
1+ 1− EE
0
2GM R
asteroide muito menor que a da Terra. R: v02 > b2 −R2