Prancha de Comunicação em Hospitalização
Prancha de Comunicação em Hospitalização
1590/1982-0216/202022516019
Artigos de revisão
Susana de Carvalho1
[Link]
1
Universidade Federal de Sergipe, Aracaju, RESUMO
Sergipe, Brasil.
Objetivo:realizar uma revisão integrativa sobre estratégias de comunicação suplementar e/ou alternativa utiliza-
das com adultos e idosos no ambiente hospitalar e a repercussão na comunicação.
Conflito de interesses: Inexistente
Métodos: foi realizada uma revisão integrativa com descritores em inglês e português: ‘communication’ ‘hos-
pitals’ ‘communication aids for disabled’, nas bases de dados: LILACS, PubMed, Cinahl, Cochrane Library,
SciELO, Scopus, Web of Science e incluídos artigos em inglês e português, dos últimos 14 anos, que abordas-
sem a comunicação alternativa em adultos e idosos hospitalizados. Estudos com crianças, duplicados, revisão
e que abordassem outros métodos de comunicação foram excluídos.
Resultados:13 artigos caracterizaram estratégias de comunicação alternativa utilizadas com adultos e ido-
sos. A prevalência foi de pacientes intubados, traqueostomizados, profissionais de saúde, sendo o enfermeiro
com maior citação e, pesquisas com abordagem qualitativa. Seis estudos utilizaram alta e baixa tecnologia, no
entanto, a maioria evidenciou maior uso das ferramentas de baixa tecnologia.
Conclusão: identificou-se uma variedade de estratégias de alta e baixa tecnologia, sendo observada redução
das dificuldades de comunicação, melhora da qualidade de vida e comunicação com profissionais. A prancha
de comunicação foi a mais utilizada, devido a disponibilidade nos hospitais e facilidade no uso. Sugere-se estu-
dos sobre avaliação e eficácia das ferramentas de comunicação em diferentes setores e perfis clínicos.
Descritores: Comunicação; Hospitais; Barreiras de Comunicação
ABSTRACT
Objective: to carry out an integrative review about the augmentative and alternative communication strategies
used with adults and the elderly in the hospital environment and its impact on communication.
Methods: this research study used the integrative review methodology with descriptors in English and
Portuguese: ‘communication’, ‘hospitals’, ‘communication aids for the disabled’, in the following databases:
LILACS, PubMed, Cinahl, Cochrane Library, SciELO, Scopus, Web of Science, also included several articles in
English and Portuguese, from the last 14 years, which addressed alternative communication strategies used
with hospitalized adults and the elderly. Studies about children, as well as duplicates, reviews, and those that
addressed other methods of communication were all excluded.
Results: the 13 articles have characterized the alternative communication strategies used with adults and the
elderly. The prevalence was of intubated patients, tracheostomized, health professionals, being the nurse the one
Recebido em: 04/12/2019
with the highest citation, and researches on a qualitative approach. Six studies have used high and low techno-
Aprovado em: 25/08/2020
logies; however, most have shown greater use of low-tech tools.
Endereço para correspondência: Conclusion: a variety of high and low-tech strategies were identified, being noted a reduction in communication
Diego Nascimento de Carvalho difficulties, as well as improvements in life quality and communication with professionals. The most used tool
Rua B1, 201, São Conrado, Cond Recanto was the communication board, due to its hospitals’ availability and its simple use. It is suggested to study the
das Garças, Bloco 02, Ap 104 evaluation and the effectiveness of communication tools in distinct clinical settings and profiles.
CEP: 49042-844 - Aracaju, Sergipe, Brasil
E-mail: difonoaudiologia@[Link] Keywords: Communications; Hospitals; Communication Barriers
1/12
2/12 | Carvalho DN, Queiroz ÍP, Araújo BCL, Barbosa SLES, Carvalho VCB, Carvalho S
dos estudos incluídos, interpretação dos resultados e eletrônica) e não disponibilizados na íntegra nas bases
apresentação da revisão10. de dados.
Para guiar o levantamento e discussão das
pesquisas, foi formulada a seguinte questão Coleta e análise dos dados
norteadora: Quais as estratégias de comunicação
Inicialmente, foi realizada a busca e identificação
suplementar e/ou alternativa utilizadas com adultos e
dos artigos, avaliação dos títulos e resumos, seguido
idosos no ambiente hospitalar?
da leitura na íntegra e seleção final dos estudos para
esta revisão, por dois revisores, independentemente,
Estratégia de busca considerando os critérios de inclusão e exclusão; no
Para o levantamento dos artigos realizou-se uma caso de divergência um terceiro revisor avaliaria a
busca no ano de 2019, nas seguintes bases de dados inclusão ou exclusão do estudo.
: Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências Posteriormente, foi utilizado um instrumento
da Saúde (LILACS), Public Medicine Library (PubMed), validado e adaptado de Ursi11 (Figura 1), para coleta
CINAHL with Full Text, Cochrane Library, Scientific de dados e análise dos artigos, que abrange os itens:
Electronic Library Online (SciELO), Scopus (Elsevier), identificação do artigo, características metodológicas
Web of Science. Foi realizada pesquisa de descritores do estudo, avaliação do rigor metodológico, das inter-
em inglês e português: ‘communication’ e ‘hospitals’ e venções mensuradas e dos resultados encontrados.
‘communication barriers ’ extraídos do Medical Subject Adicionalmente, os trabalhos foram classificados
Headings (MeSH) e dos Descritores em Ciências da segundo os níveis de evidência empregados e
Saúde (DeCS). Os termos utilizados foram combi- adaptado de Ursi11: Nível I - Evidências de revisão
nados com o operador booleano AND/e em cada base sistemática ou metanálise de todos relevantes ensaios
de dados. clínicos randomizados controlados; Nível II - Evidências
derivadas de pelo menos um ensaio clínico rando-
Critérios de Inclusão mizado controlado bem delineado; Nível III - Evidências
obtidas de ensaios clínicos bem delineados sem rando-
Foram selecionados artigos na íntegra com acesso
mizado; Nível IV - Evidências provenientes de estudos
livre e disponíveis nas bases de dados, publicados em
de coorte e de caso-controle bem delineados; Nível
inglês e português, estudos dos últimos 14 anos (2004
V - Evidências originárias de revisão sistemática de
a 2018) que abordassem o tema da comunicação
estudos descritivos e qualitativos; Nível VI - Evidências
suplementar e/ou alternativa e em pacientes (adultos e
derivadas de um único estudo descritivo ou quali-
idosos) hospitalizados.
tativo; Nível VII - Evidências oriundas de opinião de
autoridades, transversais de métodos mistos, estudos
Critérios de Exclusão de revisão de literatura não especificados, estudos
Estudos com crianças, duplicados, de revisão, que clínicos retrospectivos e estudos de caso. Os dados
abordem outros métodos de comunicação (válvula de foram descritos utilizando-se a frequência absoluta (n)
fala, prótese traqueoesofágica, voz esofágica e laringe e relativa (%).
N = (944)
Identificação
N = (160)
Eligibilidade
N = (13)
A partir da busca nas bases de dados selecio- as estratégias de interesse, cinco estudos não foram
nadas, foram encontrados 944 artigos. Destes, foram realizados em hospital e quatro eram artigos de
excluídos 100 por duplicidade. Após a leitura dos revisão.
títulos, 684 foram descartados por não abordarem o
A síntese dos 13 artigos examinados, apresentada
tema “comunicação suplementar e/ou alternativa’’ e
128 após a leitura dos resumos, pela mesma razão. na Figura 3, abrange os seguintes dados: autor, ano
Oito artigos foram eliminados devido a indisponibi- e país de publicação, título, participantes, estratégias
lidade do texto completo. Após a leitura dos artigos na utilizadas, tipo de tecnologia, local, nível de evidência
íntegra foram excluídos 11, dois porque não utilizavam e resultados.
Estratégias Local e
Autor, Ano e País Título Participantes utilizadas e tipo de Nível de Resultados
Tecnologia Evidência
Effect of a multi-level BT: caneta,papel,
Pacientes intubados ou A frequência de atos de comunicação
intervention on nurse- prancha de CSA e
Happ et al. traqueostomizados, acordados, UTI aumentou, refletindo na melhora do cuidado
patient communication cadernos espirais
(2014) 13 respondendo a comandos e e na compreensão de sintomas e grau da dor
in the intensive care
Estados Unidos enfermeiros treinados pelo Nível IV pelos enfermeiros. Os pacientes referiram
unit: results of the AT: dispositivo
fonoaudiólogo no uso da CSA redução nas dificuldades de comunicação.
SPEACS trial. gerador de fala
Comparados com os participantes
BT: caneta, papel e
do grupo controle (uso de BT),
Enhancing the gestos
Rodriquez et al. Pacientes hospitalizados com UTI o grupo de intervenção (uso de
communication of
(2016) 14 capacidade de enxergar e usar AT) apresentou maior facilidade no
suddenly speechless AT: tablet com
Estados Unidos um membro superior Nível IV uso da estratégia de comunicação
critical care patients software contendo
durante a internação hospitalar e
pictogramas e frases
redução dos níveis de frustração.
Participantes demonstraram melhora
Use of a speech-
significante no uso do dispositivo de AT
generating device
ao longo da pesquisa. Consideraram a
Rodriquez e Rowe for hospitalized Pacientes hospitalizados com UTI
AT: dispositivo tecnologia importante durante o período
(2010) 15 postoperative patients condição de usar os membros
gerador de fala pós operatório, entretanto referiram
Estados Unidos with head and neck superiores Nível VI
demora na compreensão por parte dos
cancer experiencing
profissionais e a necessidade de utilização
speechlessness.
de outras estratégias
The effect of remnant
Paciente hospitalizados com BT: caderno Os pacientes apresentaram menos falhas de
Ho et al and pictographic books Enfermaria
audição e visão funcionais e com símbolos comunicação quando usaram a estratégia
(2005) 16 on the communicative
capaz de usar um membro pictográfico (frases e de BT, além de relatarem redução no nível de
Estados Unidos interaction of indivisuals Nível VI
superior e fonoaudiólogo imagens) frustração e estresse após o uso.
with global aphasia
Pacientes intubados ou
Os pacientes relataram que o sistema
Computer-assisted traquesotomizados sem
Miglietta et al AT: computador com UTI os ajudou a obter suas necessidades e
communication for sedação com audição
(2004) 17 software (LifeVoice) desejos. A equipe do hospital concluiu que
critically ill patients: functional, medicos,
Estados Unidos de CSA Nível VI o dispositivo melhorou o atendimento ao
A pilot study enfermeiros, fisioterapeuta e
paciente, nos cuidados e no conforto.
terapeuta cupacional
O estudo mostra que 70% das trocas
Pacientes intubados ou
Nurse-patient de comunicação foram bem sucedidas.
Happ et al traqueostomizados sem BT: gestos,
communication UTI Pacientes classificaram 40% da
(2011) 18 sedação com audição functional expressão facial,
interactions in the comunicação com enfermeiros como difícil
Estados Unidos e enfermeiros sem experiência escrita e desenho
intensive care unit. Nível IV a extremamente difícil. Estratégias da CSA
na CSA
eram incomuns, com pouco ou nenhum uso.
BT: prancha
Nurse and patient O estudo traz evidências de que a
Pacientes intubados ou alfabética, de
interaction behaviors’ dificuldade na compreensão do uso de
Nilsen et al. traqueostomizados acordado, imagens, escrita e UTI
effects on nursing care estratégias afeta a comunicação e a
(2014) 19 respondendo a comandos e gestos
quality for mechanically qualidade do cuidado. O uso de estratégias
Estados Unidos enfermeiros sem experiência Nível VI
ventilated older adults in de baixa tecnologia foi o mais utilizado
na CSA AT: dispositivo
the ICU. pelos profissionais e pacientes.
gerador de fala
Estratégias Local e
Autor, Ano e País Título Participantes utilizadas e tipo de Nível de Resultados
Tecnologia Evidência
Communication
ability,method, and Grande parte dos episódios de comunicação
content among ocorriam quando os pacientes na ausência
Happ et al BT: gestos, escrita UTI
nonspeaking Pacientes intubados ou de limitações físicas e motoras. O conteúdo
(2004) 20 e acenos com a
nonsurviving patients traqueostomizados da comunicação estava relacionado
Estados Unidos cabeça Nível VI
treated with mechanical principalmente a dor, sintomas clínicos,
ventilation in the sentimentos e necessidades físicas.
intensive care unit.
O estudo mostra o maior uso de
Patient communication
Pacientes intubados ou BT: caneta, papel e estratégias de BT, entretanto as de AT
following head and neck Enfermaria
Happ et al. traqueostomizados sem gestos usadas com maior frequência para
cancer surgery: a pilot cirúrgica
(2005) 21 sedação, respondendo a comunicação mais complexa. O estudo
study using electronic
Estados Unidos commandos, medicos AT: dispositivo salienta a necessidade da presença do
speech-generating Nível VI
e enfermeiros gerador de fala fonoaudiólogo para avaliação, adaptações
devices
treinamento da equipe.
BT: pranchas de
comunicação Os resultados mostraram
Uso de recursos de que o tablet com pranchas foi o recurso
Pacientes hospitalizado com
Pelossi e comunicação alternativa AT: tablet com apli escolhido pelos pacientes e terapeutas
compreensão preservada UTI
Nascimento para a internação cativos(Que-fala e Go ocupacionais como o mais indicado
e respondendo a comando
(2018) 22 hospitalar: percepção de – talk now), notebook para facilitar a comunicação no ambiente
simples e tepeutas ocupacionais Nível VI
Brasil pacientes e terapeutas com softwarer hospitalar e os principais fatores que
com especialização em CSA
ocupacionais (Boordmaker motivaram a escolha foram a facilidade do
e Speaking toque e a possibilidade de produção do som.
Dynamically)
Nurse-patient
Constatou-se a falta de experiência dos
communication
enfermeiros no uso da CSA, frustração
within the context Pacientes intubados ou
Holm e Dreyer BT: caneta,papel, UTI do paciente pela não compreensão das
of non sedated traqueostomizados sem
(2018) 23 prancha alfabética e estratégias. Déficits cognitivos, alteração
mechanical ventilation: sedação e enfermeiros sem
Dinamarca pictogramas Nível VI motora e fadiga comprometeram o uso das
A hermeneutic- experiência na CSA
ferramentas, sendo necessário ajustes de
phenomenological
acordo as dificuldades do paciente.
study.
Os participantes identificaram requisitos
BT: gestos, prancha importantes no uso de AT, como itens com
Communication
Pacientes intubados ou CSA, escrita e quadro palavras, letras, um dispositivo leve.
Mobasheri et al. aid requirements of UTI
traqueostomizadosem sedação, de cartas Os pacientes destacaram o acesso a
(2016) 24 intensive care unit
acompanhantes, enfermeiro, estratégias de BT durante a internação.
Reino Unido patients with transient Nível VI
medico e fonoaudiólogo AT: dispositivo Constatou-se a necessidade de treinamento
speech loss.
gerador de fala dos profissionais e avaliação do paciente
como critério para uso das estratégias.
Quando comparados com os participantes
Augmented alternative do grupo controle (uso de estratégias da
El-Soussi et al communication Paciente intubados ou BT: Pranchas de CSA UTI rotina da enfermagem), os participantes
(2015) 25 methods in intubated traqueostomizados com audição (dor, aspiração), do grupo de estudo (uso de estratégias de
Egito COPD patients:does it e visão funcionais gestos e escrita Nível IV CSA) estavam muito satisfeitos após o uso
make difference das ferramentas, além de relatarem diminuir
a angústia e estresse.
Legenda: CSA = comunicação suplementar e/ou alternativa, BT = baixa tecnologia, AT = alta tecnologia, UTI = unidade de terapia intensiva
Em relação ao país de publicação, a maioria dos melhora do cuidado, compreensão de sintomas e dor
estudos (nove; 69,2%) foi desenvolvida nos Estados por parte dos profissionais e redução dos níveis de
Unidos13-21 e identificou-se apenas um estudo para estresse e angústia13-17,25.
cada um dos seguintes países: Brasil22, Dinamarca23, Três estudos com enfermeiros sem experiência
Reino Unido24 e Egito25. Com relação ao ambiente em comunicação alternativa mostraram um dado
hospitalar, onze13-15,17-20,22-25 (84,6%) foram realizados em relevante. Os pacientes relataram a comunicação com
Unidades de Terapia Intensiva (UTI) e dois16,21 (15,4%) enfermeiros como difícil a extremamente difícil e a não
em Enfermarias. compreensão das ferramentas18,19,23. Nesse contexto,
Quanto aos participantes da pesquisa, evidencia-se a necessidade de educação permanente
nove 13,17-21,23-25
(69,2%) dos estudos foram realizados em saúde, formação e capacitação na área, uma vez
com pacientes intubados ou traqueostomizados, que o entendimento correto no uso dos recursos
sem uso de sedação, quatro14-16,22 (30,8%) com promoverá redução de dificuldades comunicativas e
pacientes hospitalizados em variadas condições, nove melhor compreensão no uso das estratégias.
estudos13,16-19,21-24(69,2%) incluíam profissionais de A literatura traz que a avaliação inicial e prescrição
saúde, como enfermeiros, médicos, fonoaudiólogos, individualizada dos recursos de comunicação alter-
fisioterapeuta e terapeutas ocupacionais e um estudo24 nativa conforme características físicas, motoras,
(0,76%) incluía acompanhante/familiar. A maioria dos psíquicas, cognitivas e linguísticas do usuário tem sido
estudos contemplava o profissional enfermeiro. fator importante para o sucesso na implementação e
Cinco estudos16,18,20,23,25 utilizaram estratégias de uso das estratégias9. Além disso, os profissionais de
baixa tecnologia (38,4%) e referiam-se às pranchas de saúde necessitam de capacitação para melhor inter-
comunicação, caneta e papel, gestos e pictogramas. venção e sucesso terapêutico 26.
Dois estudos15,17 (15,4%) utilizaram estratégias de alta Percebe-se que a experiência em comunicação
tecnologia, sendo os dispositivos geradores de fala: suplementar e/ou alternativa e a presença de um
tablet e computador com software. Dos 13 artigos, profissional especialista em comunicação, a exemplo
seis13-14,19,21-22,24 (46,2%) usaram ambas tecnologias. do fonoaudiólogo impactará no sucesso e qualidade
Quanto ao tipo de delineamento dos artigos da implementação. O suporte fonoaudiológico propi-
avaliados, foram identificados nove15-17,19-24(69,2%) ciará ainda a estimulação da linguagem do paciente,
que utilizaram abordagem qualitativa com nível de além de treinar e capacitar os demais profissionais
evidência VI e quatro13-14,18,25 (30,8%) estudos de inseridos no cuidado27. Um estudo em que a equipe
coorte com nível de evidência IV. A síntese dos artigos realizou consulta ao fonoaudiólogo para treinamento
abrange os seguintes dados: autor, ano e país de e implementação mostra que os pacientes referiram
publicação, título, participantes, estratégias utilizadas, redução nas dificuldades de comunicação e melhor
tipo de tecnologia, local, nível de evidência e resul- compreensão das suas necessidades por parte
tados demonstrados na Figura 3. dos profissionais13. Esse resultado pode ter sofrido
A partir de estudos analisados, foi possível identi- influência devido a presença do fonoaudiólogo na
ficar que a impossibilidade de comunicação verbal capacitação da equipe e nas devidas modificações das
compromete a relação e comunicação paciente-equipe estratégias.
e paciente-família, resultando em pacientes frustrados, Na elegibilidade de tecnologia, constatou-se
ansiosos e nervosos14,16,18,20,23,25. Notou-se também que que cinco estudos utilizaram estratégias de baixa
o uso de estratégias de comunicação alternativa é tecnologia16,18,20,23,25. A qualidade da comunicação de
uma excelente escolha durante a internação e exerce paciente-enfermeiro e o uso de estratégias de baixa
importante influência na manutenção da comunicação, tecnologia foram o objetivo de dois estudos desta
melhora da qualidade de vida, redução de sintomas revisão. Os participantes utilizavam ferramentas como:
depressivos, além de uma correlação positiva entre os pranchas de comunicação, caneta, papel, gestos e
sintomas de ansiedade e dor. Dessa forma, acredita-se desenho18,23, um destes concluiu que os pacientes não
em uma melhora no bem-estar emocional7. tinham acesso a placas de comunicação ou outras
Seis estudos apontam para o efeito positivo na estratégias, limitando-se ao uso de gestos, escrita e
qualidade de vida após implementação de estratégias desenho, evidenciou ainda que as trocas de comuni-
de baixa e alta tecnologia. Observou-se o aumento das cação com os enfermeiros era ruim mas que, por outro
trocas de comunicação com familiares e profissionais, lado, aumentou o número de atos comunicativos18.
Ainda são muitos os obstáculos que impedem as vezes pela facilidade de acesso, sendo ferramentas
pessoas de acessarem tanto recursos de baixa tecno- relevantes e de grande aplicabilidade na prática clínica.
logia como as pranchas de comunicação, quanto Percebe-se o número alto de estudos realizados
o acesso aos recursos mais sofisticados como, por nos Estados Unidos, fato que pode ser relacionado
exemplo, o computador adaptado com alta tecnologia. às novas exigências da American Speech Language
A indisponibilidade pode estar associada ao custo dos Hearing Association (ASHA), além da forte influência de
serviços e recursos bem como à falta de conhecimento pesquisas na área, desde a consolidação internacional
dos usuários, famílias e profissionais. em 1950.
A acessibilidade é um direito garantido por lei, A literatura traz como principais causas que
a exemplo do Decreto n° 5296/94, bem como da impossibilitam o uso dos recursos de comunicação
Lei nº 10.048, de 8 de novembro de 2000, que dá alternativa pelo paciente hospitalizado: flutuação da
prioridade de atendimento às pessoas que neces- condição do paciente, aspectos cognitivos, dificul-
sitam de acessos específicos. O estatuto da pessoa dades visuais, fadiga, fraqueza muscular, falta de
com deficiência, também conhecido como LBI (Lei coordenação muscular, delirium, sedação e dificul-
Brasileira de Inclusão) - Lei 13.146/2015, trata dos dades de concentração30.
direitos fundamentais das pessoas com deficiência, Um estudo desta revisão avaliou a comunicação
como educação, transporte e saúde, garantir o acesso paciente-enfermeiro por meio de entrevista com os
à informação. Enfatiza em seu inciso IV sobre as pacientes, enfermeiros, observações de campo e
barreiras de comunicação, como a atitude ou compor- aplicação de questionário em um Hospital Universitário.
tamento que dificulte ou impossibilite a expressão ou Foi possível verificar que elementos como fadiga,
o recebimento de mensagens e de informações por fraqueza muscular, alteração cognitiva e sedação
intermédio de sistemas de comunicação e de tecno- podem ser elementos complicadores no uso de
logia da informação28. recursos e nas trocas de comunicação. Alguns enfer-
meiros perceberam que quando não utilizadas drogas
Nesse contexto, ressalta-se a importância das
sedativas, o paciente se encontraria com maiores
instituições hospitalares disponibilizarem ferramentas
possibilidades de comunicação, podendo esta fazer
e cursos de capacitação, de forma a permitir que os
parte do cuidado23.
pacientes possam ter acesso aos recursos e atendi-
O uso de ferramentas de alta tecnologia emprega
mento de qualidade, além de terem o direito de
meios simbólicos em associação a recursos, como
expressar suas necessidades e participar de tomada
dispositivos geradores de fala (pranchas com
de decisões durante o tratamento, sendo dever garantir
produção de voz) ou do computador, softwares especí-
a inclusão de todos em qualquer ambiente, atividade
ficos, tablets e alguns recursos apresentam varredura
ou uso de recurso.
automática, dispensando o auxílio de um facilitador.
Em relação as estratégias de baixa tecnologia,
Um estudo com pacientes adultos com câncer de
a prancha de comunicação é um exemplo de baixo
cabeça e pescoço testou a viabilidade de um dispo-
custo, com facilidade de confecção e modificação
sitivo gerador de fala no pós-operatório, programado
mediante as necessidades, a exposição permanente
com temas específicos (dor, problemas respiratórios,
dos símbolos e que pode ser utilizada em práticas
aspiração), frases para ajudar na comunicação com os
hospitalares. Varia de lápis simples, papel, alfabeto, profissionais, sendo a intervenção avaliada por meio de
palavra, quadros de imagens, incluindo necessidades um questionário com temas de funcionalidade e dificul-
básicas (dor, sede, fome, higiene pessoal), nomes de dades e independência no uso. Os autores verificaram
pessoas (família, esposa, médico, amigo) e partes do que os participantes demonstraram melhora signifi-
corpo29. Esse tipo de ferramenta foi utilizado por cinco cante no uso do dispositivo ao longo da pesquisa,
estudos examinados nesta revisão com resultados porém referiram demora na compreensão por parte
positivo na comunicação13,19,22,24,25. dos profissionais e a necessidade de utilização de
A maioria dos estudos desta revisão que utilizou outras estratégias, como a escrita13. O estudo não
baixa tecnologia foram produzidos nos Estados tinha grupo controle e testou em uma população com
Unidos. Esse dado nos mostra que apesar do grande um perfil específico, evidenciando as necessidades
potencial econômico e tecnológico do país, as ferra- de futuras investigações em grupos com condições
mentas de baixo custo foram preconizadas, muitas diversas.
O estudo de Miglietta et al.17. testou a utilidade clínica de 33% dos pacientes intubados em UTI apresentam
de um sistema de computador com software gerador dificuldades para se comunicar 31.
de fala em 35 pacientes vítimas de trauma criticamente O desenho dos trabalhos foi considerado de média
enfermos e 42 funcionários e avaliou a funcionalidade,
a baixa evidência científica, evidenciando a neces-
conforto, com temas como dor, sentimentos, frases
sidade de mais produções na área, visto utilização
com necessidades para o cuidado. Para os pacientes
de recursos apoiados na prática e em pesquisas
com limitação motora, tinha opção de adaptação com
empíricas. Deste modo, torna-se necessário um
óculos com infravermelho e realizada o controle da
número maior de produções que mostrem a eficácia
tela pelo piscar de olhos. Os pacientes relataram que
das estratégias na vida do paciente e a correlação com
o sistema ajudou a obter suas necessidades, expressar
seus desejos e sentimentos. A equipe do hospital a comunicação entre paciente-equipe.
percebeu que o dispositivo melhorou o atendimento ao
paciente, nos cuidados e no conforto. CONCLUSÃO
Os dispositivos de alta tecnologia podem ser
Os estudos desta revisão apontam para uma
importantes e viáveis na viabilização da comunicação,
variedade de estratégias de baixa e alta tecnologia que
entretanto, o computador não é acessível a todos os
podem ser utilizadas em pacientes hospitalizados. As
pacientes, principalmente os que apresentam alguma
evidências sugerem que essas ferramentas aumentam
limitação motora. Quando possível a acessibilidade,
atos comunicativos, melhoram a qualidade de vida e
devem ser adaptados levando em consideração as
questões psicoemocionais, além de permitir trocas
necessidades específicas de cada usuário.
de comunicação entre a equipe de cuidado com o
Um estudo observacional analisou a escolha de
paciente. Observou-se que há uma tendência na
estratégias e tipo de tecnologia, número de símbolo em
escolha de ferramentas de baixa tecnologia, sendo
uma prancha de comunicação e fatores motivacionais
em 34 pacientes e quatro terapeutas ocupacionais. a prancha de comunicação a mais utilizada devido a
Foram ofertadas ferramentas de alta e baixa tecno- disponibilidade nos serviços de saúde e facilidade no
logia. O resultado mostrou que o tablet foi considerado uso.
o mais indicado pelos pacientes e pelos terapeutas Com base nos resultados, evidencia-se a impor-
ocupacionais com nível de concordância moderada, o tância da atuação multiprofissional, com consequente
número ideal de símbolos foi de 12 peças e os fatores influência na efetividade da implementação da comuni-
motivacionais seriam produção de som e facilidade de cação suplementar e ou alternativa. Por fim, sugere-se
acionamento, com nível de concordância de moderada estudos sobre avaliação e eficácia das ferramentas de
a baixa entre os participantes24. comunicação em diferentes setores e perfis clínicos.
O estudo de Happ et al.21. avaliou estratégias de
ambas tecnologias em grupos de pacientes e profis-
REFERÊNCIAS
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de baixa tecnologia, ressaltando a melhor acessibi- Cuidados do terapeuta ocupacional na introdução
lidade e facilidade de uso.
de recursos de comunicação alternativa no
Em relação ao perfil dos participantes e o setor ambiente hospitalar. Cad. Ter. Ocup. UFSCar.
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