Capítulo 01 - O detetive peculiar
New Krox, Estados Unidos — 6:30 da manhã, sete de julho de 1980
Mal iluminados pela luz daquele vazio estacionamento, um bando de homens extravasavam as suas
lamentações na forma da mais pura violência. Um jovem caído, carregando em seu corpo inúmeras
feridas que lhe tiraram qualquer força para revidar os próximos golpes, foi castigado com mais um soco.
O golpe atingiu ele como uma marretada, amassando uma boa parcela de seu rosto.
— Quando vamos tacar fogo nesse filho da puta?
— Precisa disso? Ele já levou tanto soco que nem dá mais para saber se isso é humano ou um pedaço de
bosta — zombou o outro, tomando um gole da sua cachaça.
— Como se ele já não fosse um — concluiu um deles, sendo seguido pelas risadas dos outros.
Se afastando do caído, um dos homens foi atrás de seu carro, tirando um galão de gasolina do porta-
malas. Notavelmente embriagado, seus passos eram lentos e seu corpo ficava cada vez mais tentado a
cair no chão. Seus sentidos se encontravam tão turvos que sequer notava a apressada corrida do sujeito
que esbarrou em suas costas.
— Qual foi? — um deles indagou ao apressado, que parou por uns instantes para ver a horrível situação,
mas logo retomando a corrida e sumindo em meio a neblina da madrugada.
— Por favor, me ajude… — o jovem clamou, com uma voz quase inaudível de tão fraca.
— Pra quem você tá pedindo ajuda?! — gritou um deles, sem ver problemas em enfiar o pé no
estômago do surrado. — Bem, isso não vai importar por muito tempo, pode ficar tranquilo. — Tirou um
isqueiro do bolso, enquanto o já próximo bêbado abria a tampa do galão.
Por mais que tentasse clamar por ajuda, o arrebentado não tinha forças para falar algo mais além de
murmúrios. Tentar fugir também já parara de ser uma opção há tempos, já que mal era capaz de se
levantar. Quem diria correr. A única opção que via era esperar. Esperar algo acontecer, ou então
simplesmente a própria morte. Não queria isso, sabia que seria doloroso. Mas o que mais sentia era dor.
Não tinha o que fazer para que aquilo acabasse, senão… esperar. Pelo bem ou pelo mal.
Bem, o que estava por vir certamente seria mais doloroso. Assim que o líquido pegajoso o cobrisse e o
isqueiro caísse logo em cima dele, seu corpo seria dominado pelo calor e sua pele não escaparia de ser
devorada pelas chamas de forma lenta e mortal. O fato de não ter o que fazer senão esperar por uma
indesejável morte só o fazia tentar o ato impossível de escapar e, consequentemente, ser golpeado com
chutes mais e mais vezes. Ele tentou usar sua mochila como um escudo, mas o chute seguinte a jogou
para longe e espalhou os materiais acadêmicos pela calçada.
— Ô, parem de zoar, deixem eu jogar logo… — falou o bêbado. — Ou preferem que eu molhe suas
pernas com gasolina?
— Cai fora — falou um deles, se afastando junto dos outros. — Só não joga tudo, essa porra não é de
graça.
Prestes a derramar o líquido altamente inflamável, o bêbado foi parado por um de seus amigos.
— Que foi? — indagou ele, se virando para trás ao seguir o olhar de seu amigo.
O desconhecido que chegou correndo no posto, em poucos segundos, criou uma incógnita na mente
deles. Aparentava estar ofegante e suas roupas consistiam em um casaco velho e uma calça jeans
rasgada. Um clássico sem-teto.
— Qual foi, vagabundo? — resmungou o bêbado, arfando com uma risada. — Saiu de um tiroteio, é?!
Depois de se recuperar, o mendigo estalou as mãos e respondeu: — Quem me dera. Mas me diga, vocês
vão ou não me dizer onde o Michael está?
Eles se entreolharam, confusos.
— Vão ou não me dizer onde o Michael está?! — falou por uma segunda vez.
— Você tá louco? Não tem nenhum Michael aqui, doidão!
— Claro que não, mas tenho certeza de que ele passou por aqui e cês certamente sabem para onde ele
foi. Ele deve ter pago vocês para não contarem pra onde ele foi, ou… — Repentinamente aquietou-se,
seus olhos pareciam surpresos pela epifania que acabara de ter ao notar o homem caído no chão.
— Ih, esse cara tá doido mesmo… — sussurrou um dos agressores, gargalhando junto com o resto.
Suspirando forte, o mendigo flexionou os ombros e estalou o próprio pescoço. Cerrando os punhos,
construiu uma postura firme e afirmou:
— Vocês cinco não foram simplesmente pagos para não contar onde ele foi, vocês são capangas dele
desde o início...
Pela segunda vez, os homens se entreolharam. O bêbado sussurrou:
— Do que é que esse maluco tá falando…?
— Isso era óbvio, como não pensei nisso antes? — continuou. — Tá muito nítido, cês todos são capangas
que trabalham para a organização secreta do Michael.
— Organização secreta...?
— Sim. Uma organização secreta feita para matar pessoas inocentes e transformar toda a nossa
sociedade em um exército de bêbados que lutarão contra alienígenas no dia do Juízo Final.
— Quê?
— É isso, né? Falem, seus covardes!
Todas aquelas palavras que saíam da boca do mendigo, por mais insanas que fossem, não tiravam a
seriedade de seu rosto. Falava cada uma daquelas palavras com uma assustadora severidade. Os homens
demoraram para processar tudo o que tinha sido dito, mas a resposta não foi outra senão uma série de
risadas.
Muitas risadas.
— Pelo amor, esse cara é um completo lunático — exclamou um deles, quase chorando de tanto rir. —
Ai, doidão, qual é seu nome?
— Meu nome é Leonard Mystery e eu sou um detetive. No caso, o detetive que vai ferrar com toda essa
conversinha furada de vocês.
Acompanhado de uma risadinha, um dos homens passou pelo bêbado e se aproximou do detetive,
cerrando os punhos.
— Um detetive chamado Mystery? Isso é uma piada? Bem, do jeito que o mundo anda, eu não duvido
que um marginal como você tenha virado detetive. A gente não tá trabalhando pra ninguém não, seu
merda. Só estamos dando uma lição nesse bandidinho escroto.
Ele esbanjou um sorriso, afundando a cabeça do jovem ferido com outro chute. O detetive arqueou as
sobrancelhas e observou os livros espalhados pelo chão, afundando as mãos no bolso e dizendo: — Vixe,
qual crime ele cometeu?
Os homens se entreolharam pela terceira vez.
— Você acha que vamos esperar ver ele roubar e matar alguém para fazermos algo? — falou um deles.
— Acha mesmo que esse cara, andando pela rua nesse horário com esse cabelo todo embaraçado tá
querendo alguma coisa da vida, caralho? Você quer que eu espere até amanhã pra ele sequestrar a
minha filha e aí sim eu poder encher ele de porrada, é?
— Poxa... eu pensava que eu ia ganhar um motivo pra não meter a porrada em vocês, mas tudo o que
vocês falam só pioram a situação. Querem lutar, é? Só bora, pô.
Impaciente, o palestrinha não hesitou em atacar Leonard, como se fosse um leão com o orgulho ferido.
Cerrou seus punhos para socá-lo, mas acabou por errar o alvo.
O que aquele detetive tinha de estranheza, também tinha de velocidade.
“Se for para ficar esquivando o tempo todo, vou derrubá-lo logo!”, pensou o agressor, acertando uma
rasteira no detetive.
— Droga! — gritou Leonard, caindo em consequência do golpe.
— Boa! — Os amigos do palestrinha gritaram ao ver a queda do inimigo, mas a comemoração acabou
rapidamente.
O ato seguinte de Leonard foi o responsável por fisgar a mente deles e colocá-los em uma manobra de
confusão.
— Cê está me zoando, cara? — Leonard perguntou, junto de uma calma nada natural.
Por mais que estivesse em queda-livre a poucos segundos atrás, nada o impediu de girar em plena
queda e pousar de cabeça para baixo, firmando as mãos no pavimento para fazer uma bananeira. Fora
tão veloz que os meliantes demoraram para compreender o que acabara de ocorrer. Ver aquele
movimento sendo feito por uma pessoa qualquer, não um acrobata, era genuinamente impressionante.
— Achei meio exagerado fazer isso só para me derrubar… Então também irei exagerar um pouco —
comentou o detetive.
Ainda naquela posição, Leonard observou seu inimigo correr em sua direção. Com um sorriso no rosto,
o detetive não esperou para ser acertado. Ainda de cabeça para baixo, usou a força de seus braços e
cintura para se jogar contra o palestrinha.
Como resultado, o inimigo teve o estômago atropelado pelas pernas do detetive. Desabou no chão,
gemendo de dor. Antes de se recuperar, teve o rosto esmagado por um chute. Sequer teve chances de
fazer alguma coisa, perdendo a consciência.
— Ô, merda. Agora o meu sapato tá sujo de sangue... — murmurou Leonard. Ao olhar para frente, viu
um bando de rostos raivosos.
Sem pestanejar, os homens cerraram seus punhos e correram em sua direção. O detetive não hesitou e
também correu para frente, passando agilmente por cada um deles, rápido demais para ser atingido.
Seus golpes eram tão rápidos, que não eram percebidos antes de serem concretizados; nisso, quebrou o
pulso do primeiro, socou a garganta do segundo e arremessou o terceiro com um chute.
Por fim, sorriu para o último. Atrás de Leonard, cada um dos homens derrubados no chão.
— Ah… desculpa, sério! — gritou o último, percebendo que após aquela sequência de acontecimentos, a
escolha mais sensata seria abandonar os amigos e fugir.
Quase inconsciente, o jovem ferido olhou para os corpos nocauteados de seus agressores. Por fim,
encarou Leonard, que conseguia notar o imenso medo habitando em seus olhos.
— Se preocupa não, mano. Vou chamar uma ambulância pra tu.
— Certo, obrigado…
Imaginando que o jovem morria de dor, Leonard se preparou para correr e buscar ajuda. Entretanto,
parou quando viu o jovem conseguir falar mais alto: — Mas o que acabou de acontecer? Que história é
essa de “Michael” e “organização secreta”?
Para aquela voz rouca nascer de um homem tão ferido, a curiosidade deveria ser muito alta. Embora
apressado, o detetive sorriu e disse:
— Há umas duas semanas, uma mulher me contratou para investigar um cara chamado Michael, que é o
marido dela. Ela me explicou bem nas entrelinhas o que era para eu descobrir. Pelo o que eu entendi, ela
acredita que seu marido esteja montando um império secreto de bêbados para derrubar o nosso
governo atual.
O jovem se encontrava tão cheio de dor que nem expressou reação em relação a estranheza do que
acabara de ser dito para ele, embora entendesse que fosse um absurdo.
— Legal… como você chegou nessa conclusão?
— Olhe essas fotos que tirei dele em um motel esta noite — respondeu o detetive, tirando alguns papéis
do bolso de sua calça jeans e entregando para o moleque. Elas mostravam o homem do qual ele tanto
falava, o mesmo que passara correndo ali instantes antes dele chegar, entrando em um motel junto de
uma jovem moça.
— A minha teoria é que o motel serve como sua base secreta, visto que ele vai lá toda noite com uma
mulher diferente. Ele leva essas mulheres para lá pois é um rito de passagem para entrar na organização.
O que elas nunca sabem é que ele as mata para substituí-las por… clones malignos!
Era notável a animação do detetive em contar as suas teorias para alguém.
— Ahn… Acho que entendi — falou o jovem, com um semblante vago, embora estivesse profundamente
impressionado com aquelas ideias. — Mas eles não estavam me batendo por alguém ter mandado, cara.
Eles só não foram com a minha cara.
— Bem, tanto faz, eles receberam o que mereciam — falou, dando de ombros. — Vou te levar para o
hospital, sinto que você se tornará meu amigo e começará a me acompanhar em minhas futuras
aventuras fodásticas. Talvez você até escreva algum livro narrando as nossas aventuras. Sei lá, é só
intuição.
— É… obrigado pela proposta, mas acho que não vai rolar. Foi mal.
— Tá, tanto faz — bufou, decepcionado.
— Vou te falar uma opinião sincera, ok? É o seguinte…
Horas depois…
Sentado na poltrona esfarrapada de sua cliente, Leonard começou:
— Então, senhora…
Com as pálpebras um pouco caídas, ele se esforçava para se manter atento ao assunto.
— Qual foi a conclusão do caso? — ela indagou. — Por que ele está demorando tanto no trabalho?
— Ah… estou tão frustrado.
— O que foi?
— Quando eu vim para essa cidade grande, foi em busca de aventuras, sabe? Eu me tornei um detetive
particular para me aventurar em casos de assassinatos, conspirações estranhas e organizações malignas.
Só que vocês, clientes, nunca me dão um caso legal. Só tem gente corna querendo descobrir que é
corna, assim como você!
— O que você quer dizer com isso?!
— É! E nem fui eu que descobri, foi um moleque todo lascado da vida que me contou isso! — gritou,
despejando na mesa as mesmas fotos que mostrou ao jovem que salvou anteriormente. — Eu tinha
tanta fé que esse caso seria diferente, mas a única coisa que encontrei foi mais uma esposa que leva gaia
de um fujão que fica com uma mulher diferente a cada dia. Que merda!
— A sua mãe imunda te deu essa educação? Eu não vou te pagar por isso!
— Nem ligo. Estou cansado de receber pagamento por casos inúteis como esses. Se meu próximo caso
envolver traição ou gatos perdidos como todos os últimos CINCO em que participei, eu fico louco pra
dedéu. Tô falando sério!
— Como se eles fossem te contratar, vaza daqui!
— Desculpa, o que você disse?
— Sai da minha casa!
— Ou, foi mal, pode repetir?
— Sai!
— Que estranho… por que eu só ouço “muuuu”?
— Seu filho da puta! — gritou a mulher, já quase rouca, logo antes de pegar um vaso e arremessar
contra o insolente. — Saia já da minha casa!
Ele esquivou-se com facilidade, um sorriso zombante em seu rosto. O objeto se estilhaçou na parede
logo atrás dele, que se dirigiu para fora da pequena casa.
Com o rosto vermelho de tanta raiva, abriu a porta com força e atravessou o quintal em poucos
instantes. Passou pelo marido da mulher, que acabara de chegar. Acenou para ele, mas foi
completamente ignorado.
— A briga lá vai ser tensa — murmurou, ouvindo de longe os gritos histéricos da mulher.
Depois de atravessar o cercado da casa, Leonard caminhou pelos subúrbios da cidade até chegar no
edifício de seu apartamento. Lá, destrancou a porta e entrou sem muita espera. O lugar era formado por
um único cômodo, que servia tanto como o seu quarto, quanto escritório e sala de estar. Sua cama
estava bagunçada, o chão mal-varrido e sua mesa cheia de papéis cobertos por inúmeros boletos
atrasados e anotações que tratavam das mais diversas e estranhas teorias. Ao lado, diversos fast foods e
comidas enlatadas.
Desmotivado, se jogou em sua cama para então se afundar nos próprios pensamentos. Sabia que sua
carreira de detetive particular tendia a não ser nada promissora, mas precisava daquele emprego.
Arranjar um emprego na polícia seria difícil e demoraria muito para que ele alcançasse um cargo que lhe
disponibilizasse casos interessantes. Também passava por sua cabeça a mera vontade de desistir e voltar
para a casa de sua mãe, mas não queria parecer um perdedor.
Embora soubesse que, no fundo, já era. Na verdade, nem no fundo. Isso era meio que nítido demais.
Era só olhar sua casa e suas roupas. Fazia um ano que havia saído de sua casa com aquelas mesmas
roupas que, com o passar dos meses e das brigas em que se meteu, se estragaram ao ponto de fazê-lo
parecer um mendigo. Mesmo assim, não as largava. Afinal, os melhores protagonistas de histórias de
ação sempre andavam com as mesmas roupas. Eram as suas marcas registradas.
Sem mais norteamento do que fazer, sem saber se procurava por outro caso ou por outro emprego,
apenas se levantou. Prestes a sentar-se em sua mesa, parou assim que ouviu um barulho desconfortável
sair do outro lado de sua porta.
TUC!!! TUC!!! TUC!!!
— Já vai, cara. Não precisa bater tão fort–
Recuou assim que viu a porta ser escancarada com um chute! Um chute que não se preocupou em soar
exagerado. A fina porta de madeira caiu e se dividiu em pedaços. O invasor chutou um dos pedaços e
entrou no apartamento, cerrando seus punhos e ditando de forma furiosa:
— Seu vagabundo, você matou o meu brother!
Era evidente a confusão de Leonard. Não é todo dia que se tem a casa invadida por um estranho que, de
cara, o acusa de homicídio. Os dias em que acontecem são mais raros ainda quando o invasor em
questão está trajando uma fantasia de hamster.