0% acharam este documento útil (0 voto)
15 visualizações39 páginas

DESCARTES

Trecho da História da Filosofia de Reale
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
15 visualizações39 páginas

DESCARTES

Trecho da História da Filosofia de Reale
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF ou leia on-line no Scribd
Capitulo décimo quinto Descartes: “o fundador da filosofia moderna” I. A vida e as obras * René Descartes (latinizado Cartesius) nasceu em La Haye em 1596. Enviado ao colégio jesuita de La Fléche, em Anjou, teve depois a licenciatura em direito pela Universidade de Poitiers. De 1618 a 1620 se arrolou em varios exércitos que participavam da Guerra dos Trinta Anos; em novembro de 1619 teve uma “revela- ‘gd0 intelectual” a respeito dos fundamentos de nova ciéncia: a intuigdo foi desenvolvida mais a frente sobretudo nas incomple- 4s epatas tas Regras para a guia do intelecto (1627-1628). De 1629 a 1649. principais viveu na Holanda, onde publicou suas obras mais importantes: 0 da vida Discurso sobre o método (1637), as Meditacdes metafisicas Gun- 51 to com as Respostas ds objecdes, 1641), os Principios de filosofia (1644) e As paixdes da alma (1649). Em 1649 aceitou o convite da rainha Cristina da Suécia e deixou definitivamente a Holanda, mas em fevereiro de 1650 foi aco- metido de uma pneumonia que em uma semana o levou 4 morte. Seus despojos, transladados para a Franca em 1667, repousam na igreja de Saint-Germain-des- Prés, em Paris. Um novo tipo we aebercemeaa sobre o homem 2 sobre a racionalidade humana Leibniz afirma: “Costumo chamar os escritos de Descartes de vestibulo da verda- deira filosofia, j4 que, embora ele nao te- nha alcangado seu micleo intimo, foi quem dele se aproximou mais do que qualquer outro antes dele, com a tinica excecao de Galileu, do qual oxala tivéssemos todas as meditacdes sobre os diversos temas, que 0 destino adverso reduziu ao silencio. Quem ler Galileu e Descartes se encontrara em me- Ihores condigies de descobrir a verdade do que se houvesse explorado todo o género jos autores comuns”. Um juizo ponderado de um grande filésofo sobre outro grande fil6sofo, que dé a medida exata da personali- dade de Descartes, com toda razao chama- do precisamente de pai da filosofia moder- nna, Com efeito, ele assinalou uma reviravolta radical no campo do pensamento pela criti- ca.a que submeteu a heranga cultural, filo- s6fica e cientifica da tradicao e pelos novos principios sobre os quais edificou um tipo de saber, ni mais centrado no ser ou em Deus, mas no homem e na racionalidade hu- mana, René Descartes (Cartesius) nasceu em La Haye, na Touraine, em 31 de margo de 1596, ano da publicagio do Mysterium cosmographicum de Kepler. De familia no- bre — seu pai Joaquim era conselheiro no Parlamento da Bretanha —, foi logo envia- do para o colégio jesuita de La Fleche, no Anjou, uma das mais célebres escolas da época, onde recebeu sélida formagao filo- séfica ecientifica, segundo a ratio studiorum daquele tempo, ratio que abarcava seis anos 284 Terceira parte - Bacon ¢ Descartes de estudos humanisticos e trés anos de ma~ tematica e teologia. Inspicado nos prineipios da filosofia Escoldstica, considerada a mais valida defesa da religiao catélica contra os sempre renascentes germes da heresia, aque- le tipo de ensino, embora sensivel 48 novi- dades cientificas e aberto para o estudo da matematica, deixou Descartes insatisfeito € confuso. Fle logo se deu conta do abismo enorme entre aquela orientacao cultural € (0s novos fermentos cientificos ¢ filoséficos que brotavam por toda parte. Em especial, percebeu logo a auséncia de uma séria meto: dologia, capaz de instituir, controlar e or- denar as idéias existentes e guiar d busca da verdade. ‘0 ensino de filosofia, ministrado se- gundo a codificagao de Suarez, levava os espiritos para o passado, para as intermin: veis controvérsias dos tratadistas escolis- ticos, reservando pouco espago para 0s pro- blemas do presente. Embora criticando a filosofia aprendi da naqueles anos, Descartes certamente nao esquece o espaco reservado aos problemas cientificos e ao estudo da matemstica, Mas até no que se refere a essas disciplinas, a0 término de seus estudos ele sentiu-se pro- fundamente insatisfeito. Descartes, portanto, deixou o colégio de La Fliche desorientado e desprovido de tum saber a0 qual se agarrar. Por isso, de~ pois de ter prosseguido seus estudos na Uni versidade de Poitiers, onde conseguiu 0 ba- charelado e a licenciatura em Direito, mas encontrando-se ainda na maior confusio spiritual e cultural, decidiu dedicar-se a carreira das armas. Assim, em 1618, quan do teve inicio a Guerra dos Trinta Anos, alis- tou-se nas tropas de Mauricio de Nassau, que combatia contra os espanhdis pela li- berdade da Holanda. Em Breda, estreitou amizade com um jovem cultor de fisica e matemética, Isaac Beeckman, que 0 estimu- loua estudar fisica, Inclinado a um projeto de “matematica universal”, em Ulma, onde se encontrava com 0 exército do duque Ma- ximiliano da Baviera, em cujas fileiras in gressara, Descartes relata ter recebido, entre 10'e 11 de novembro de 1619, uma espécie de revelacao intelectual sobre os fun- damentos de “uma ciéncia admiravel”. Por causa dessa “revelagio”, Descartes fez a promessa de ir em peregrinacao a Santa Ca- sa de Loreto. Em um pequeno diario, em gue anotava suas reflexdes, Descartes fala de um* inventum mirabile”, que desenvol- veria depois no Studium bonae mentis, de 1623, e nas Regulae ad directionem ingenii (Regras para a guia do intelecto), que escre- veu entre 1627 e 162 Tendo-se estabelecido na Holanda, ter- ra de tolerancia ¢ liberdade, Descartes, por sugestao do padre Marino Mersenne, con- siderado o “secretario da Europa douta”, e do cardeal Pierre de Bérulle, comegou a cla borar um tratado de metafisica, que, porém, logo interrompen para dedicar-se [Link] grande obra fisica, 0 Traité de physique (Tra- tado de fisica), dividido em duas partes: a primeira sobre tematica cosmologica, Le monde ow traité de la lumiére (O mundo ou tratado da luz), e a segunda de carater an: tropolégico, homme (O hontem). Em 22 de julho de 1633, de Deventer, na Holanda, anunciou a Mersenne que o Tratado sobre (© mundo e sobre 0 homem estava quase pronto (“s6 me resta corrigi-lo e copié-lo”), © que esperava envis-lo no fim do ano. En- tretanto, tomando conhecimento da conde nagio de Galileu por causa da tese coperni: cana, que ele compartilhava e cujas razbes expusera no Tratado em questo, Descartes Deseartes (1596-1650) foto fundador da flosofia moderna, tanto do ponto de vista das tomticas iodo mto de vista da exposigao metodoligica ros won guuadro de F Hal fem Paris no Musew do Louvre, Capitulo décimo quinto - D. apressou-se a escrever novamente para 0 mesmo Mersenne: “Estou quase decidido a queimar todas as minhas apostilas ou, pelo menos, nio mostrd-las a ninguém.” A lem- branga da morte de Giordano Bruno na fo- gueira ¢ da prisio de Campanella, que a condenagao de Galileu avivava em sua men- te, agiram com forga sobre seu espirito es- quivo, inimigo das vicissitudes que prejudi- cam a paz de espirito, tao necessaria para 0 estudo. Superada a grave perturbacdo, Descar- tes sentiu a necessidade urgente de enfren- tar o problema da objetividade da raza0 da autonomia da ciéncia em relagio ao Deus onipotente, E motivou-se nesse sentido tam- bém pelo fato de que Urbano VIII havia con- denado a tese galileana como contraria 4 Es- critura. Assim, de 1633 a 1637, fundindo os estudos de metafisica que iniciara e de- pois interrompera com suas pesquisas cien- tificas, escreveu 0 famoso Discurso sobre 0 ‘método, que introduzia trés ensaios cienti- ficos nos quais compendiava os resultados alcangados: a Dioptrique, 0 Météores e a Géométrie. Diferentemente de Galileu, que nao havia elaborado nenhum tratado expli- Cito sobre o método, Descartes considerou importante demonstrar 0 carater objetivo da razio e indicar as regras em que devemos nos inspirar para alcangar tal objetividade. Nascido em contexto polémico e em defesa da nova ciéncia, 0 Discurso sobre o método tornou-se a “magna carta” da nova filosofia. 285 Yo fundador da filosofia moderna” E-desse periodo o seu amor por Helene Jans, da qual tere Francioe, a Hbiaha que amou ternamente e que perdeu com apenas cinco anos, A dor pela perda da menina incidiu profundamente sobre 0 seu espirito e talvez, pelo menos em parte, sobre seu pensamento, apesar de seus escritos conti- nuarem sempre severos € rigorosos. Reto- mou a elaboragao do Tratado de metafisica, mas agora sob a forma de Meditacoes, es critas em latim porque reservadas aos doutos, obra na qual os acenos “a enfermi- dade e fraqueza da natureza humana” t temunham um espirito cheio de angtstia. Enviadas a Mersenne para que as levasse 20 conhecimento dos doutos e recolhesse as suas objegdes — ficaram famosas as obje- goes de Hobbes, de Gassendi, de Arnauld e do préprio Mersenne —, as Meditationes de prima philosophia serao finalmente publi- cadas, juntamente com as Respostas de Des- cartes em 1641, sob o titulo Meditationes de prima philosophia in qua Dei existentia et animae immortalitas demonstrantir (Me- ditacdes metafisicas onde se demonstra a existéncia de Deus e a imortalidade da al- ‘ma). Atacado pelo tedlogo protestante Gi bert Voér, replicou com a Epistola Renati Des Cartes ad celeberrimum virum Gisher- tum Voétium, na qual procurou demonstrar a pobreza e a inconsisténcia das concepcdes filosoficas e teol6gicas do adversario. Apesar das muitas polémicas que seus escritos de merafisica e ciéncia suscitavam, Das vistas de Estocobne to século XVI em 1649 Descartes acto ‘darains Crista dda Suécta para a se transfer definitivamente ‘t Holanda, 286 Terceira parte - Bacon e Descartes Descartes dedicou-se com empenho a ela- boracio dos Principia philosophiae (Prin- cipios de filosofia), obra em quatro livros compostos de artigos breves, conforme o modelo dos manuais escolasticos da épo- ca. Trata-se de uma exposica0 compilada ¢ sistematica de sua filosofia e de sua fi ca, com particular destaque para os vin- culos entre filosofia e ciéncia. A obra foi pu- blicada em Amsterdam, sendo dedicada Princesa Isabel, filha de Frederico V do Pa- atinato. ‘Amargurado com as polémicas com os professores da Universidade de Leida, que chegaram a proibir o estudo de suas obras, mas sem qualquer desejo de voltar para a Franga, em virtude da situagio cadtica em que havia caido seu pais, em 1649 Descar- tes aceitou o convite da tainha Cristina da Suécia e, depois de entregar para impressio (os manuscritos de seu iiltimo trabalho, Les passions de lime (As paixdes da alma), dei- xou definitivamente a Holanda, nao mais hospitaleira e agora cheia de contrastes. Ape- sar de suas graves preocupagdes, Descartes continuou mantendo relacao epistolar com a princesa Isabel, de grande importincia para o esclarecimento de muitos pontos ==—— IDL. A experiancia da derrocada obscuros de sua doutrina, particularmente das relagdes entre alma e corpo, do proble- ma moral e do livre-arbitrio.. ‘Na corte sueca, para festejar 0 fim da Guerra dos Trinta Anos e a paz de Vestfa- lia, Descartes escreveu La naissance de la paix (O nascimento da paz). Mas foi bem curto 0 tempo transcorrido na corte sueca, porque a rainha Cristina, devido ao habito de ter suas conversacdes 4s cinco horas da manha, obrigava Descartes a levantar-se muito cedo, apesar do clima rigoroso e da ‘nao muito robusta constituigao fisica do fi- I6sofo. Assim, ao deixar a corte, em 2 de fevereiro de 1650, o filésofo pegou uma pneu- monia que, depois de uma semana de sofri- mentos, o levou a morte. Transportados para a Franga em 1667, seus despojos re- pousam na Igreja de Saint-Germain des Prés, em Paris. Postumamente, foram publicados os seguintes escritos de Descartes: o Compen- dium musicae (1650), 0 Traité de l'hom- me (1664), Le Monde ou Traité de la Iumiére (1664), as Lettres (1657-1667), as, Regulae ad directionem ingenii (1701) © a Inguisitio veritatis per lumen naturale (1701). da cultura da época Necessidade de nove método como inicio de novo saber 3513 * Em um tempo em que haviam se afirmado e se desenvolvi- am com vigor novas perspectivas cientificas e se abriam novos horizontes filoséficos, Descartes percebe a falta de um método ordenador e seja também instrumento fundacional verdadeira- mente eficaz. O novo método deve se apresentar como 0 de novo saber, e do fundamento deste saber depende a amplitu- deea why Criticas & filosofia e 4 légica tradicionais Em um trecho autobiogréfico, depois de reconhecer ter sido “aluno de uma das mais célebres escolas da Europa”, Descar- lez do edificio que é preciso consti aristotélico, sobre o qual toda a tradicdo se apéia. tes acena para o estado de profunda incer- teza em que se encontrou ao término de seus estudos: “Encontrei-me tio perdido entre tantas diividas e erros que me parecia que, a0 procurar me instruir, nao alcangara ou- tro proveito que o de ter descoberto cada vez mais a minha ignorancia.” Capitulo décimo quinto - Descartes: “o fancaclor da fllosofia moderna" ‘Vejamos, em pormenor, algumas ra- z0es da sua insatisfagao e perplexidade. No que se refere a filosofia, repetindo uma frase de Cicero, escreve ele: “Seria dificil imagi- nar algo tao estranho e incrivel que ndo tenha sido dito por algum fildsofo”. Eem- bora a filosofia “tenha sido cultivada pe- los espiritos mais excelentes que jé viveram”, continua Descartes no Discurso sobre 0 ‘método, nao conta ainda “com coisa algu- ma da qual nao se discuta ¢ que nio seja duvidosa”. No que se refere a logica, que ele reduz 3 silogistica tradicional, ‘pelo menos mostra-se disposto a conceder-Ihe valor didatico-pedagégico; mas légica dos dialéticos, para a qual era conduzida a silogistica, nega qualquer forga de fun- damentagao ¢ qualquer capacidade heu- ristica. Portanto, até no melhor do seu desem- penho, a légica tradicional nada mais f do que ajudar a expor a verdade, mas no a conquisté-la Assim, se € severo o seu juizo sobre a filosofia tradicional, ainda mais drastico € © juizo sobre a légica. E é por causa dessas profundas insatisfagdes e de tais pontos de vista que a filosofia aprendida no colégio de La Fléche parece-lhe extremamente cheia de lacunas. Em uma época em que se ha- viam afirmado ¢ se desenvolviam com vigor novas perspectivas cientificas e se abriam novos horizontes filos6ficos, Descartes per- cebia a falta de sm método que ordenasse 0 pensamento e, ao mesmo tempo, fosse ins- trumento heuristico e de fundamentagao ver- dadeiramente eficaz. ade Criticas ae saber matematico Além disso, mesmo admirando o rigor do saber matemitico, ele critica tanto a arit- mética como a geometria tradicionais, por- que elaboradas com procedimentos que, cembora lineares, nao se sustentavam em uma clara orientaga0 metodolégica. © fato de suas passagens serem rigorosas ¢ coerentes 1ndo significa que a aritmética e a geometria foram elaboradas no contexto de um bom método, nunca teorizado. Se permanecemos quase como que desarmados ¢ induzidos a recomecar do inicio quando nos defronta- 287 mos com novos problemas, a razio disso deriva da falta de um guia capaz de nos acompanhar na solugio dos novos proble- mas. Com efeito, falando da geometria e da Algebra, ele recorda que estas “se referem a matérias muito abstratas e aparentemente de nenhuma utilidade”: a primeira, a geo- metria, “porque ligada a consideracao das figuras”; a segunda, a aritmética, porque “confusa e obscura” a ponto de “embara- gar 0 espirito”. Dai seu propésito de dar vida a uma espécie de matemdtica universal, isto é, li- vre dos niimeros ou das figuras, para poder servir de modelo para todo saber. Descartes nao pode adotar a matems- tica tradicional como modelo do saber, por- que ela nio possui método unitério. Para teorizar esse modelo, ele cré necessiirio de- monstrar que as diferengas entre aritmética € geometria nao sao relevantes, porque ambas se inspiram, ainda que implicitamen- te, n0 mesmo método. E, com tal objetivo, traduz 0s pro- blemas geométricos em problemas algébri- cos, mostrando sua substancial homoge- neidade. ‘Como é que isso Ihe foi possivel? Atra~ vés daquilo que se chama geometria ana- litica, e com a qual Descartes tornou a matematica mais limpida em seus princi- pios e em seus procedimentos, aplicando a algebra & geometria, isto é, estudando determinadas figuras com determinadas equagies. E este, no fundo, era 0 objetivo que ele se propunha, e é nesse contexto de cri- tica e de recuperacao das ciéncias matema- ticas que devemos lero trecho no qual Des- cartes, ainda no Discurso sobre o método, afirma querer inspirar 0 método do novo saber na clareza ¢ no rigor tipicos dos pro- cedimentos geométricos: “Aquela longa cadeia de raciocinios, todos simples © fa- eis, de que os gedmetras tém 0 habito de se servir para chegar as suas dificeis de- monstragbes, me havia possibilitado ima- ginar que todas as coisas de que o homem pode ter conhecimento derivam do mesmo modo e que, desde que se abstenha de acei- tar como verdadeira uma coisa que nao 0 respeite sempre a ordem necesséria para deduzir uma coisa da outra, nao haverd nada de tao distante que nao se possa al- cancar, nem de tio oculto que se nao possa descobrir.” 288 Terceira parte - Bacon e Descartes wa © problema geral do fundamento do saber Se toda a casa est desmoronando, isto 6 se caem por terra a velha metafisica ¢ a velha ciéncia, entao o novo método deve se apresentar como 0 inicio de novo saber, em condicdes de impedir que nos dispersemos em uma série desarticulada de observagdes ‘ou caiamos em formas novas e mais refina- das de ceticismo. Esses, com efeito, so dois resultados conseqiientes ao ruir de antigas concepgdes Sob a pressdo de novas aqusigdes cient cas e de novas instancias filosoficas. Se es- tava difundida a confianga no homem e no seu poder racional, também estava bastan- te difundida a incerteza sobre o caminho a tomar para garantir uma coisa e superar a ‘outra. Nao podia mais se sustentar a filoso- fia tradicional, muito estranha aquele con- junto de novas teorizagbes € descobertas, tornadas possiveis também por instrumen- tos técnicos que, potencializando ou corti ‘gindo nossos sentidos, nos introduziam em reinos até entio inexplorados. Era urgente uma filosofia que justificasse a confianca comum na razao. $6 era possivel opor a0 ceticismo desagregador uma razao metafisi: camente fundada, capaz de se sustentar na IIL As regras do método busca da verdade, ¢ um método universal € fecundo. o se trata, portanto, de langar 3 dis- cussio este ou aquele ramo do saber, e sim © fundamento do proprio saber. Por isso, mesmo admirando Galileu, Descartes 0 cri tica, precisamente por nao ter apresentado tum mécodo em condigdes de ir as raizes da filosofia e da ciéncia. (E de 1619 sua desco- berta da formula que hoje leva o nome de Euler,v + f=s +2, onde x fs esto, respec tivamente, para o mimero dos vertices, das faces e dos dngulos de um poliedro con- vexo.) E para o fundamento que Descartes chama.a atengio, jé que € do alicerce que dependem a amplitude e a solidez do edifi- cio que é preciso construir para se contra- por ao edificio aristotélico, no qual se apdia toda a tradicao. Descartes nao separa a filo- sofia da ciéncia. que urge evidenciar é 0 fundamen- to que permita wn novo tipo de conheci- mento da totalidade do real, pelo menos tem suas linhas essenciais. Necessita-se de novos principios, nao importando que eles sejam depois explorados mais em uma do que em outra diregio. Principios que, des- locando os principios aristotélicos, aos quais a cultura académica ainda é ciumen- tamente fiel, contribuam para a edificaga0 da nova casa. * Descartes quer primeiramente oferecer regras certas e faceis que, correta- mente observadas, levardo ao conhecimento verdadeiro de tudo aquilo que se pode conhecer. No Discurso sobre 0 método, estas regras so quatro: 1) a evidéncia racional, que se alcanca mediante um ato in- tuitivo que se autofundamenta; As quatro {que constituem ométodo cartesiano S516 coerentes; 4) 0 controle, efetuado mediante a 2) a andlise, uma vez que para a intuico necessaria a sim- plicidade, que se alcanca mediante a decomposicSo do complexo em partes elementares; 3) a sintese, que deve partir de elementos absolutos ou ndo dependentes de outros, e proceder em direcio aos elementos telativos ou dependentes, dando lugar a uma cadeia de nexos enumeraco completa dos elementos analisados e a revisio das operacdes sintéticas. Em suma, para proceder com reti- do em qualquer pesquisa, preciso repetir o movimento de simplificaglo e rigo- rosa concatenacao, tipico do procedimento geométrico. Capitulo décimo quinto - D. ., Conceitos e namero as das regras do método Como escreve nas Regulae ad directio- nem ingenii, Descartes queria apresentar “regras certas e faceis que, sendo observa- das exatamente por quem quer que seja, tor- nem impossivel tomar o falso por verdadei- roe, sem qualquer esforgo mental initil, mas aumentando sempre gradualmente a cién- ia, levem ao conhecimento verdadeiro de tudo o que se é capaz de conhecer”. Entretanto, se, na obra citada, ele ha- via chegado a enumerar vinte e uma regras e interrompera a elaboracio da obra para evitar sua prolixidade, j4 no Discurso sobre 0 método reduz essas regras a quatro. A razao dessa simplificagao ¢ dada pelo proprio Descartes: “Como grande nimero de leis amitide s6 serve para fornecer pre- texto A ignordncia e ao vicio, razao pela qual uma nagio regula-se tanto melhor quanto menos leis tem, desde que as observe de modo rigoroso, ento eu pensei que, a0 in- vvés da multidao de leis da logica, me basta- iam as quatro seguintes, com a condicio de que se decidisse firme e constantemente observé-las, sem qualquer excecio.” 2, A primeira regra do método A primeira regra, mas que também é a {itima, enquanto € 0 ponto de chegada, além de ser 0 ponto de partida, é a regra da evi- déncia, que cle assim enuncia: “Nao se deve acatar nunca como verdadeiro aquilo que no se reconhece ser tal pela evidéncia, ou seja, evitar acuradamente a precipitacio ea prevengao, assim como nunca se deve abran- ger entre nossos juizos aquilo que nao se apresente tio clara e distintamente & nossa inteligéncia a ponto de excluir qualquer pos- sibilidade de duivida.” Mais que uma regra, trata-se de um principio normativo fundamental, exata- mente porque tudo deve convergir para a clareza ea distingdo, nas quais, precisamen- te, se dé a evidéncia. Falar de idéias claras e distintas e falar de idéias evidentes é a mes- Mas qual é0 ato intelectual com o qual se alcanga a evidéncia? E 0 ato intuitivo ou 289 aries: o fundador da floofio moderna" mEvidéncia. £ o principio metédico fundamental, a primeira regra do metodo cartesiano. Acevidéncia consiste na clareza e na distincdo, as quais s80 0s sinais da verdade das coisas, e deriva do Jumen naturale que existe em todo homem; mais precisamente, a evi- dencia é alcancada mediante ato intuitivo, que é "um conceito ‘ido dibio da mente pura atenta ‘que nasce apenas da luz da razao @ € mais certo que a propria de- ducao” Em tal sentido, a evidéncia se autofundamenta’e se autojust porque sua garantia deposita-se nao em uma base argumentativa qual- quer, e sim unicamente na mutua ‘ransparéncia entre razdo e conted- do do ato intuitive. captagao de “um conceito nao dabio da men- te pura e atenta que nasce apenas da luz da razao e é mais certo que a propria dedugao”. Trata-se, portanto, de ato que se auto fundamenta € se autojustifica, porque sua garantia nao repousa sobre uma base qual- quer de argumentagio, mas somente sobre a transparéncia miitua entre razio € con- tetido do ato intuitivo. Trata-se daquela idéia clara e distinta que reflete “unicamente a luz da razdo”, nao ainda conjugada com outras idéias, mas considerada em si mes- ma, intuida e nao argumentada. Trata-se da idéia presente na mente e da mente aberta para a idéia sem qualquer mediacio. objetivo das outras trés regras éche- jar a essa transparéncia miitua. aby A segunda regra do método A segunda regra é a de “dividir cada problema que se estuda em tantas partes me- ores, quantas for possivel e necessario para melhor resolvé-lo” Ea defesa do método analitico, tinico que pode levar a evidéncia, porque, desarti- culando 0 complexo no simples, permite & luz do intelecto dissipar as ambigitidades. 290 Terceira parte - Bacon « Descartes Este € um momento preparatério es- sencial, j& que, se a evidéncia é necesséria para a certeza ¢ a intui¢ao é necesséria para aevidencia, jé para a intuigdo é necessaria a simplicidade, que se alcanga através da de- composigio do conjunto “em partes elemen- tares até o limite do possivel”. Chega-se as grandes conquistas etapa pos etapa, parte aps pare. Esse € cami nho que permite escapar as presuncosas ge- neralizagdes. E como toda dificuldade 0 € porque 6 verdadeiro esta misturado com 0 falso, 0 procedimento analitico deveria per- mit ibertar oprimeiro das eserias do se- gundo. ihe A terceira regra do método A decomposigao do conjunto em seus elementos simples nao basta, porque apre- senta um conjunto desarticulado de ele- ‘menos, mas nao o nexo de coesao que de- les faz um todo complexo e real. Por isso, A andlise deve-se seguir a sintese, 0 objeti- vo da terceira regra, que Descartes, ainda no Discurso sobre o método, enuncia com as seguintes palavras: “A terceira regra € a de conduzir com ordem meus pensamen- tos, comecando pelos objetos mais simples € mais faceis de conhecer, para elevar-se, pouco a pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais complexos, supon- do uma ordem também entre aqueles nos quais uns nao precedem naturalmente aos outros.” Assim, necessério recompor os ele- mentos em que foi decomposta uma rea- Tidade complexa. Trata-se de uma sintese que deve partir de elementos absolutos (ab-50- Iutus) ou nao dependentes de outros, ¢ di- recionar-se para os elementos relativos ou dependentes, dando lugar assim a. um ene: deamento que iltumina os nexos do conjunto. Trata-se de recompor a ordem ou criar uma cadeia de raciocinios que se desenvol- vam do simples a0 composto, 0 que nao pode deixar de ter uma correspondéncia na realidade. Quando essa ordem nao existe, € preciso supd-la como a hipétese mais con- veniente para interpretar e expressar a rea~ lidade efetiva. Se a evidéncia € necessaria para se tera intuic4o, o processo do simples a0 complexo € necessdrio para o ato dedu- tivo. By A quarta regra do métode Por fim, para impedir qualquer pre- cipitagdo, que € a mae de todos os er- ros,épreciso verificar cada uma das pas- sagens Por isso, Descartes conclui dizendo: “A Sltima regra'é a de fazer sempre enumera- Ges t3o completas e revisdes tao gerais a ponto de se ficar seguro de nao ter omitido nada.” Portanto, enumeragao € revisio:a pri- meira verifica se a andlise é completa; a se- gunda verifica se a sintese é correta, eBay AS Quatro regras como modelo do saber Sao regras simples, que destacam a ne~ cessidade de se ter plena consciéncia dos momentos em que se articula qualquer pe quisa rigorosa. Elas constituem o modelo do saber, precisamente porque a clareza ¢ a distingao garantem contra possiveis equi- vocos ou generalizagées apressadas. Com tal objetivo, diante de problemas comple- xos como de fendmenos confusos, € preci so chegar aos elementos simples, que nao sejam mais decomponiveis, para que pos- sam ser totalmente invadidos pela luz da razio, Em suma, para proceder com corregao é preciso repetir, a propésito de qualquer pesquisa, aquele movimento de simplifica- Gio € rigorosa concatenagdo constituido pelas operagdes tipicas do procedimento geométrico, Entretanto, 0 que comporta a adogio de tal modelo? Pois bem, antes de mais nada e de forma geral, comporta a rejeicao de todas aquelas nocées aproximativas, imper- feitas, fantasticas ou apenas verossimeis, que escapam a operacao simplificadora considerada indispensivel. O “simples” de Descartes nao € 0 universal da filoso- fia tradicional, assim como a “intuigao” nao € a abstragao. O universal ¢ a abs- tragio, dois momentos fundamentais da filosofia aristotélico-escolastica, sio su: plantados pelas naturezas simples e pela intuigéo. HUTA Capitulo décimo quinto - Descartes: *o funda IV. A divida metédica ea certeza fundamental: “cogito, ergo sum” + Estabelecidas as regras metodicas, Descartes passa a apl filosofia. mo -las aos princ 291 sobre 0s quais o saber tradicional se fundamentou, e como condicao da aplicacso exige ndo aceitar como verdadeira nenhuma asser¢éo que esteja poluida pela duvida. Ora, neste sentido no ha setor do saber que se sustente, porque nada resiste & forca corrosiva da duvida, exceto a proposi¢ao “penso, logo existo”, que é uma verdade imedi wtuigdo pura, gracas [Link] percebo minha existéncia como ser pensante, e esta exis- téncia ¢ uma res cogitans, uma substdncia pensante. A aplicacSo das regras do método leva assim a descoberta de uma verdade que, retroagindo, confirma a validez das mes- ‘mas regras para qualquer saber. O banco de prova do novo sa- ber, filoséfico e cientifico é, portanto, 0 sujeito humano, a cons- cigncia racional, e em todos os ramos do conhecimento o homem, Adivida deve levar 8 certeza que é dada ela verdade *cogito ergo sum” 0516 deve proceder na cadeia das deducées a partir de verdades claras e distintas ou de principios auto-evidentes. A filosofia nao é mais, portanto, a cig do ser, e sim a doutrina do conhecimento, gnosiologia. Esta é a reviravolta que Descartes im- prime na filosofia. why A divide come passagem obrigatéria, mas proviséria, para chegar d verdade Estabelecidas as regras do método, € preciso justificé-las, ou melhor, explicar sua universalidade ¢ fecundidade E verdade que a matematica sempre se ateve a essas regras, Mas quem nos autoriza a estendé-las para fora desse ambito, delas fazendo um modelo de saber universal? Qual é seu fundamento? Existe uma verdade nao matematica que reflita em si as caracte- risticas da evidéncia e da distingao e que, rio sujeita 4 divida de modo algum, possa justificar tai regras e ser adotada como fon- te de todas as outras possiveis verdades? Para responder a essa série de pergun- tas, Descartes aplica as suas regras ao saber tradicional, para ver se ele contém alguma verdade de tal forma clara e distinta que se subtraia a qualquer razio de duivida. Se o resultado for negativo, no sentido de que, com essas regras, nao'é possivel chegar a nenhuma certeza € a nenhuma verdade que tenham as caracteristicas da clareza e da dis- tingZo, entio sera preciso rejeitar semelhante saber e admitir a sua esterilidade. Se, a0 contrario, a aplicacao de tal regra nos leva a uma verdade indubitdvel, entio deve-se assumi-la como 0 inicio da longa cadeia de raciocinios ou como fundamento do saber. A condig4o que se precisa respeitar nessa operagio € que nao é licito aceitar como verdadeira a afirmagéo que esteja maculada pela diivida ou por qualquer pos- sivel perplexidade. E, para chegar a basta examinar os principios sobre os q se fundamentou o saber tradicional. Cain- do os principios, as conseqiiéncias nao po- derao mais se manter. a) Em primeiro lugar, observamos que boa parte do saber tradicional pretende ter base na experiéncia sensivel. Entretanto, como € possivel considerar certo e indubi- tayel um saber que tem sua origem nos sen- tidos, se & verdade que estes por vezes se revelam enganadores? ) Ademais, se boa parte do saber tra~ dicional se baseia nos sentidos, parte nao irrelevante do saber se funda sobre a azo eed Terceira parte - Bacon ¢ Descarte e sobre seu poder discursivo. Ora, também esse principio nao parece imune & obscuri dade e incerteza. €) Por fim, hd o saber matemético, que parece indubitavel, porque valido em todas as circunstancias. O fato de 2+2=4 6 ver- dadeiro em qualquer circunsténcia e em qualquer condicao. E, no entanto, quem me impede de pensar que exista “um génio maligno, astuto e enganador”, que, brincan- do comigo, me faz considerar evidentes coi- sas que no 0 10? E aqui a divida torna-se hiperbolica, no sentido de que se estende até a setores que se presumiam fora de qual- {quer suspeita.O saber matemtico nao po- leria ser uma construgao grandiosa, baseada em equivoco ou em colossal mistificagao? Portanto, nao ha setor do saber que se mantenha. A casa desmorona porque seus alicerces estio minados. Nada resiste & for- a corrosiva da diivida. E evidente que nao nos encontramos aqui diante da diivida dos céticos, Neste aso, a diivida quer levar 4 verdade. Por isso € chamada diivida metédica, enquanto é passagem obrigatoria, ainda que provisoria, para chegar a verdade. Descartes quer por em crise 0 dog- matismo dos fildsofos tradicionais, a0 mes- ‘mo tempo que também quer combater a ati- tude cética, que se comprazia em por tudo “Cogito, ergo sum". £ o princi- pio tedrico primeiro da filosotia tesiana, originado da divida radical: “Do proprio fato de duvidar das ou- tras coisas”, diz Descartes, “segue-se do modo mais evidente ¢ certo que eu existo”, porque “se vé claramente que para pensar é preciso existir’ A proposicao "Eu sou, eu existo” & uma verdade sem nenhuma media- 80; embora seja formulada como um 'silogismo qualquer, a proposi- 0 "penso, logo existo” nao € um Faciocinio, mas intuicgo pura, ato intuitive gracas ao qual percebo mi- ‘nha existéncia como ser pensante. Esta existéncia é uma res cogitans, sem nenhuma ruptura entre pensa- mento e ser: a substancia pensante € 0 pensamento em ato, e 0 pensa- mento em ato é uma realidade pen- sante. em diivida sem nada oferecer em troca. E,em. Descartes, evidente 0 anseio pela verdade. ‘A negacio aqui remete afirmagio, a diivida leva a certeza, dy Absolutez veritativa da propesicao “eu penso, logo existo” Como relata Descartes no Discurso so- bre o método, depois de ter posto tudo em diivida, “somente depois tive de constatar que, embora eu quisesse pensar que tudo era falso, era preciso necessariamente que eu que assim pensava, fosse alguma coisa. E observando que essa verdade — “penso, logo sou” — era tao firme e solida que ne~ inhuma das mais extravagantes hipéteses dos céticos seria capaz. de abalé-la, julguei que podia aceité-la sem reservas como 6 princé pio primeiro da filosofia que procurava’ Esta certeza nao pode ser minada de nenhum modo pelo génio maligno, porque, ainda que exista um génio maligno que me engana, eu, em todo caso, devo existir para ser enganado. Portanto,a proposigio “eu penso, logo exist” é absolutamente verdadeira, porque até a diivida, mesmo a mais extremada radicalizada, a confirma, Maso que entende Descartes por “pen- samento”? Afirma ele nas Respostas: “Com 6 termo ‘pensamento’ eu abranjo tudo aqui- Jo que existe em nds de tio factual que so- mos imediatamente conscientes dele, como, por exemplo, todas as operagdes da vonta de, do intelecto, da imaginagao e dos senti- ddos sio ‘pensamentos’. E-acrescentei ‘imedi- atamente’ para excluir tudo aquilo que delas deriva; assim, por exemplo, um movimento voluntario tem como seu ponto inicial o pen- samento, mas ele proprio nao é pensamento.” By A proposiciio “eu penso, loge existo” nao é um raciocinio dedutivo, mas uma intuigdio Estamos, portanto, diante de uma ver- dade sem qualquer mediagao. A transparén- cia do eu a si mesmo e, portanto, 0 pensa- Capitulo décimo quinto ~ mento em ato, escapa a qualquer divida, indicando por que a clareza é a regra fun= damental do conhecimento por que a in- tuigao € seu ato fundamental. Com efeit resse caso a existéncia ou o meu ser s6 admitido enquanto se roma presente ao meu eu, sem qualquer passagem argumentativa, Efetivamente, apesar de ser formulada como qualquer silogismo, “penso, logo exis- t0”, tal proposigao ndo € unt raciocinio, mas uma intuigao pura. Nao se trata da abreviagao de uma ar- ‘gumentagio como a seguinte: “Tudo aquilo que pensa existe; eu penso, logo, existo.” ‘Trata-se simplesmente de um ato intuitivo gracas ao qual percebo minha existéncia enquanto € pensante. Com efeito, procurando definir a na- tureza de sua propria existéncia, Descartes afirma que ela é uma res cogitans, uma rea- lidade pensante, sem qualquer corte entre pensamento e ser. A substncia pensante ¢ 0 ensamento em ato, e © pensamento em ato € uma realidade pensante. ‘Assim, Descartes chegou a um ponto firme, que nada pode por em discussio. Ele sabe que 0 homem é uma realidade pensante € esti bem consciente do fato fundamental representado pela logica da clareza e da dis- tingao. Desse modo, ele conquistou uma certeza inabalével, primeira e irrenunciavel, porque relativa & propria existéncia, que, enquanto pensante, revela-se clara e distin ta. Assim, a aplicacao das regras do método levou a descoberta de uma verdade que, retroagindo, confirma a validade daquelas regras que se encontram fundamentadas e, portant, assumidas como norma de qual- quer saber. A., O eixo da filosofia ndo é mais a ciéncia do sex, mas a doutrina do conhecimento Aquilo que deve ser destacado é que, ‘como regras do método de pesquisa, a clareza ea distingao ja estao bem fundamentadas. ‘Mas fundamentadas em que? Talvez no ser finito ou infinito? Ou nos principios légicos gerais, que so também principios ontolégicos, como o principio de nao-conteadigio ou © principio de identi- 293 funclador ca fllonefia. mde ee | m/'Res cogitans” @ “res extensa”. Para Descartes existem apenas dois ‘ipos de substancias,claremente dis- tintas e irredutivels uma & outra: a substancia pensante (res cogitans) e 2 substincia extensa (res exten: ‘Ares cogitans é a existéncia espiitual do homem sem nenhuma ruptura entre pensar e ser, €a alma humana como realidade pensante que € pen- samento em ato, e como pensamen- to em ato que ¢ realidade pensante. A res extensa € 0 mundo materi (compreendendo obviamente 0 cor- po humano), do qual, justamente, se pode predicar como essencial apenas 8 propriedade da extensao USNS 22S SIND dade, como no caso da filosofia tradicio- nal? Nao. Tais regras se fundamentam na certeza adquirida de que 0 nosso “eu” ou a consciéneia de si mesmo como realidade pensante se apresenta com as caracteristi cas da clareza ¢ da distinedo. ‘A partir dai, a atividade cognoscitiva, mais do que se preocupar em fundamentar suas conquistas em sentido metafisico, deve procurar a clareza e a distingio, que so os tragos tipicos da primeira verdade que se impés 4 nossa razao e que devem ser a mar cade qualquer outra verdade. Como a nos: sa existéncia enquanto res cogitans foi acei~ ta como indubitavel com base na clareza e na distingao e nao com base em outros fun- damentos, entao toda outta verdade 6 po- dera ser acatada se exibir os tragos da cl reza e da distingio. E, para alcangé-los, € preciso seguir 0 itinerdrio da andlise, da sin- tese e da verificacao, sabendo-se que uma afirmacao com tais caracteristicas nao esta- 4 mais sujeita 4 divida. Desse modo, a filosofia nao é mais a cigncia do ser, mas sim a doutrina do co- nhecimento. Assim, antes de mais nada, a filosofia se torna gnosiologia. Essa a reviravolta que Descartes im- prime a filosofia, que passa a se orientar no sentido de encontrar ou fazer emergir, a pro- posito de qualquer proposigdo, os dados da clareza e da distingao, que, alcangados, tor nam desnecessarios outros suportes ou ou tras garantias. Assim como a certeza de mi- nha existéncia enquanto res cogitans s6 294 Tercera parte - Bacon « Descavies necessita da clareza e da distingao, da mes- ma forma qualquer outra verdade nao tera necessidade de outras garantias fora da cla- rea e da distingdo, imediata (intuigo) ou derivada (dedugao). By © centro do novo saber é 0 sujeito humane © banco de provas do novo saber, filo- s6fico € cientifico, portanto, € 0 sujeito hu- mano, a consciéncia racional. Qualquer tipo de pesquisa deverd se preocupar somente em perseguir o grau maximo de clareza e distingao, nao se preo- cupando com outras justificagées quando alcangé-lo. ©. homem ¢ feito assim, s6 de- vendo admitir verdades que reflitam tais exigéncias. Estamos diante da humanizagio radi- cal do conhecimento, reconduzido a sua fon- te primigénia. Em todos os ramos do conhe- Cimento, na cadeia das dedugdes, 0 homem deve proceder de verdades claras e distintas ou de prineipios auto-evidentes, Quando esses principios nao sio facil- mente identificaveis,é preciso hipotetizé-los, seja para ordenar a mente humana, seja para fazer emergir a ordem da realidade — con- fianga na racionalidade do real —, as vezes coberta por elementos secundarios ou pela sobreposicao de elementos subjetivos, acri- ticamente projetados fora de nos. yBy A veta razdio humana Descartes, portanto, aplicando as re- gras do método, defronta-se com a primei- ra certeza fundamental, a do cogito. Esta, porém, nao é apenas uma das muitas verda des que se alcanca através daquelas regras, mas sim a verdade que, uma vez alcangada, fundamenta tais regras, porque revela a na tureza da consciéncia humana que, como res cogitans, € transparéncia de si para si mes- ‘ma, Qualquer outra verdade s6 ser acolhi- da i medida que se adequar ou aproximar de tal evidéncia. “Tendo-se inspirado inicialmente na cla- reza ena evidéncia da matemstica, agora Des- cartes destaca que as ciéncias matematicas apresentam somente um setor do saber, que sempre se inspirou em um método que, ao contrério, tem dimensio universal. De agora em diante, qualquer saber devers se inspirar nesse método, porque nao se trata de método fundado pela’ matematica, mas que funda a ‘matematica, como toda outra ciéncia. Aquilo a que esse método conduz € no qual se fundamenta € “razio humana” ou aquela reta razio (bona mens) que pertence a todos os homens e que, como diz. Descar- tes no Discurso sobre o método, “é a coisa mais bem distribuida no mundo”, (O que é tal reta razao? “A faculdade de julgar bem e distinguir 0 verdadeiro do fal- so € propriamente aquilo que se chama bom senso ou razao, [e que] é naturalmente igual em todos os homens.” Ea unidade dos homens é representa- da pela razao bem guiada e desenvolvida. Descartes jé explicita isso no ensaio ju- venil Regulae ad directionem ingenii, onde escreve: “Todas as diversas ciéncias nada mais, sao do que a sabedoria humana, que per- ‘manece sempre una eidéntica, por mais que se aplique a diferentes objetos, no receben- do destes maior distingao do que possa re- Capitulo décimo quinto ceber a luz do sol da diversidade das coisas ue ilumina.” Mais do que sobre as coisas iluminadas — cada uma das ciéncias — ¢ preciso pdr o acento sobre o sol, a raza0, que deve emergir e impor sua légica e fazer res- peitar suas exigéncias. A unidade das cién- Cias remete A unidade da razio. Ea unidade da razao remete 3 unidade do método. =— V. A existéncia e o papel de Deus Descartes: “a fundador 295 da filosofia moderna” Se a razao € uma res cogitans, que emerge através da diivida universal, a pon- to de nenhum génio maligno poder sitia la e nenhum engano dos sentidos obscu- recé-la, entio o saber deve basear-se nela e repetit sua clareza e distingio, que sio os Sinicos postulados irrenunciaveis do novo saber, KIS Eig sir ne pesery reels mtg ruta raeplchace oe ill (atos mentais dos quais se tem percepcao ime mente examinar. Para Descartes ha particularmente trés classes de ata), que a filosofia deve rigorosa- 1) as idéias inatas, que encontro em mim, nas minha consciéncia; 2) as idéias adventicias, que provém a mim de fora e me re- Aeexisténcia de trés classes de idéias metem a coisas totalmente diferentes de mim; € idéia inata 3) as idéias facticias, construidas por mim mesmo. eee Ora, entre as muitas idéias de que a consciéncia é deposita- tia, hd a idéia inata de Deus, isto 6, a idéia de uma substéncia infinita, eterna, imutdvel, independent, onisciente, e da qual ‘eu mesmo e todas as outras coisas existentes fomos criados e produzidos. A idéia de Deus é subjetiva e objetiva ao mesmo tempo, e atesta ser inata em nés porque produzida pelo proprio Deus. Desse modo, o problema da fundamentacdo do método de pesquisa se en- contra definitivamente resolvido, porque a evidéncia proposta de modo hipotéti- co é confirmada pelo cogito, e este se torna por sua vez reforcado pela presenca de Deus que garante sua objetividade. Deus ¢ garante também de todas as verda- des claras e distintas, “eternas”, que devem constituir a ossatura do novo saber; mas estas verdades, criadas livremente por Deus, sdo contingentes, e sdo chama- das “eternas” apenas porque Deus é imutdvel; elas nao participam da esséncia de Deus, e por isso nios imperscrutaveis de Deus. whe O problema da relacdo entre nossas idéias, que so formas mentais, © a realidade objetiva A primeira certeza fundamental alean- sada pela aplicagao das regras do método, portanto, €a consciéncia de si mesmos como seres pensantes. A reflexio de Descartes concentra-se agora no cogito e no seu contetido, acossa- da por algumas perguntas fundamentai seré que as regras do método abrem-se ver juém, mesmo conhecendo-as, pode afirmar conhecer os desig- dadeiramente para 0 mundo e sio adequa- das para fazer-me conhecer 0 mundo? E 0 mundo estara aberto a essas regras? Minhas faculdades cognoscitivas so adequadas pa: ra fazer-me conhecer efetivamente 0 que ndo € identificével com a minha consciéncia? Trata-se de perguntas que postulam maior fundamentacao da atividade cognos- citiva do homem, Como ser pensante, 0 “eu” revela-se 0 lugar de maltiplicidade de idéias, que a filo- sofia deve considerar com rigor Se 0 cogito é a primeira verdade auto- evidente, que outras idéias se apresentam com o carter da auto-evidéncia do cogito? 296 Terceira parte - Bacon e Descartes Partindo dele e com idéias que, como 0 co- gito, sio claras e distintas, é possivel recons- truir o edifico do saber? E mais: dado que o fundamento do saber esta na consciéncia, como sera possi vel sair dela e reafirmar 6 mundo externo? Em suma, as idéias que Descartes nao considera no sentido tradicional de essé cias ou arquétipos do real, mas como pre- sengas reais na consciéncia, tem carater ob- jetivo, no sentido de representarem um objeto, uma realidade: E, por fim, se elas sdo indubitéveis como formas mentais, porque tenho a ime- diata percepgao delas, j4 como formas re~ presentativas de realidades diversas de mim serao elas verdadeiras, ou seja, representa- 10 uma realidade objetiva ou seriam puras fugdes mentais? p2y ‘Tdéias inatas", “idéias adventicias” e “idéias facticias” Antes de responder a essas questdes, deve-se recordar que Descartes divide as idéias em: 1) idéias inatas, isto é, as que encontro ‘em mim mesmo, nascidas junto com a mi- nha consciéncia; 2) idéias adventicias, isto é, as que vem de fora de mim e me remetem a coisas intei- ramente diferentes de mim; 3) idéias facticias ou construidas por mim mesmo. Descartando estas iltimas como ilusé- rias, porque quiméricas ou construfdas ar- bitrariamente por mim mesmo, o problema se restringe entio a objetividade das idéias inatas e das adventicias. Embora as ts clas- ses de idgias nao sejam diferentes do ponto de vista de sua realidade subjetiva — todas as trés sio atos mentais cos quais tenho per- cepgio imediata—, do ponto de vista de seu contetido elas sao profundamente diversas. Com efeito, se as idéias facticias ou ar- bitrérias no constituem nenhum problema, serdo verdadeiramente objetivas as idéias ad- venticias, que me remetem a um mundo ex- terno? Quem garante tal objetividade? Poderiamos responder: a clareza ¢ a distingio. E se as faculdades sensiveis fos- sem enganadoras? Estamos verdadeiramente certos da objetividade das faculdades sensi- veise imaginativas através das quais as idéias facticias chegam até nés, abrindo-nos para 6 mundo? Aquilo de que estou certo, até na diivida universal, é de minha existéncia em sua atividade cogitativa. Mas quem me ga- rane que ela permanece valida mesmo quan- do seus resultados passam da percepgao em ato para o reino da memoria? Estara a me- méria em grau de conservi-los intactos, com a clareza e a distingao originais? Para enfrentar essa série de dificulda- des ¢ para fundamentar definitivamente 0 carater objetivo de nossas faculdades cog- noscitivas, Descartes propde e resolve o pro- blema da existéncia e do papel de Deus. By A idéia inata de Deus @ sua objetividade Com tal objetivo, entre as muitas idéias, de que a consciéncia € depositaria, Descar- tes depara com a idgia inata de Deus que, como lemos nas Meditagoes metafisicas, €a idéia de “uma substincia infinita, eterna, imutavel, independente e onisciente, da qual cu proprio c todas as outras coisas que exis tem (se é verdade que ha coisas existentes) fomos criados e produzidos”. F, a propos to de tal idéia, ele se pergunta se € pura- mente subjetiva ou se nado deve ser conside- rada ao mesmo tempo subjetiva e objeriva. Trata-se do problema da existéncia de Deus, nao mais proposto a partir do mundo ex: terno ao homem, mas a partir do proprio homem, ou melhor, de sua consciéncia, Pois bem, falando dessa idéia com tais caracteristicas, diz Descartes: “E uma coisa manifesta, por luz natural, que deve haver pelo menos tanta realidade na causa eficier te e total quanto no seu efeito: porque, de onde o efeito poderia extrair a sua realida- de senao de sua propria causa, e como essa causa poderia transmiti-la ao efeito se nao a tivesse em si mesma?” Ora, proposto tal principio, fica evidente que 0 autor dessa perf toe finito, nem qualquer outro ser, da me ma forma limitado. Tal idéia, que esta em mim, mas nao é de mim, s6’pode ter por causa adequada um ser infinito, isto é, Deus. ‘A propria idéia inata de Deus pode pro- piciar uma segunda reflexo, que compr va o resultado da primeira argumentacao. Capitulo décimo quinto - Descartes: “e fundacor da flesefia. modemna” Se a idéia de um ser infinito que esté em mim fosse minha, nao me teria eu feito per- feito ¢ ilimitado e nao, a0 contrario, um ser imperfeito, como resulta da diivida e da as- piragdo nunca satisfeita a felicidade e a perfeigao? Com efeito, quem nega 0 Deus Criador por esse proprio fato esta se consi- derando um autoproduto. Ora, nesse caso, tendo a idéia do ser perfeito, entio nos te- riamos dado todas as perfeicdes que encon- tramos na idéia de Deus. E isso € desmenti- do pela realidade. Por fim, detendo-se nas implicagbes des- sa idéia, Descartes formula um terceiro ar- gumento, conhecido como prova ontolégica. A existéncia é parte integrante da esséncia, de modo que nao € possivel ter a idéia (a es- séncia) de Deus sem simultaneamente admi- tirsua existéncia, da mesma forma que nao é possivel conceber um triangulo sem pensé-lo coma soma dos angulos internos igual a dois retos, ou como nao é concebivel ima mon- tanha sem vale. S6 que, enquanto do fato de rndo poder “conceber uma montanha sem vale rngo deriva que existam no mundo monta~ nnhas e vales, mas somente que a montanha € 6 vale, existindo ou nao existindo, ndo po- dem de modo algum ser separados um do outro, (...) jf do’ simples fato de que nao posso conceher Deus sem existéncia deriva que a existencia € inseparavel dele e, portan- to, que ele existe verdadeiramente”. Esta €a prova ontolégica de Anselmo, que Descartes retoma ea torna sua. 1, Deus como garantia ae da fungdo veritativa de nossas faculdades cognoscitivas Mas por que Descartes se detém com tanta insisténcia no problema da existéncia de Deus, a nao ser para evidenciar a riqueza de nossa consciéncia? Com efeito, nas Medi- tacdes metafisicas, ele escreve que a idéia de Deus € “como a marca do artesio impressa sobre sua obra, nao sendo sequer necessério que essa marca seja algo diferente da pro- pria obra”. Assim, analisando a consciéi Descartes se defronta com uma idéia que esta em nés, mas nao € nossa, a qual, todavia, nos permeia profundamente, como 0 selo do artifice sobre seu manufaturado. 297 GM _ DNL f@ Idéia. Descartes da o nome de “idéias" propriamente as imagens das coisas, ¢ as distingue das “afeicoes” (que se fundamentam sobre necessi- dades, desejos, temores, esperancas etc) € dos “juizos” (que poem dis- cursivamente em confronto duas ou mais idéias entre sie a partir daqui movem para afirmar ou nega) ‘Além disso, ele distingue as idéias em ‘tres categorias: | 1)idéias adventicias, isto é, estranhas e vindas de fora, "Como a ideia que vulgarmente se tem do sol"; 2) idéfas facticias, isto 6, idéias fel- tase inventadas pelo homem, “en- tre as quais se pode por a que’os as- ‘tronomos fazem do sol com seus faciocinios"; 3) idéias inatas, que nascem com 0 homem, inerentes a sua consciénci ‘como aideia de Deus, da mente, do corpo, do triangulo e, em geral, as idélas que representam as esséncias verdadeiras, imutaveis e eternas”. A idéia inata de Deus, em particular, € a mais evidente e contem em si mais realidade objetiva que qualquer ou- tra: ela garante a objetividade de to- das as outras idélas inatas e das ad- venticias . AQAA Ora, se isso é verdadeiro ¢ se é verdade que Deus, porque sumamente perfeito, étam- bem sumamente veraz e imutavel, nao deve ‘mos entio ter imensa confianca em nése em nossa faculdades, que sio todas obras suas? Assim, a dependéncia do homem em relagio a Deus nao leva Descartes as con- clusdes a que haviam chegado a metafisica € a teologia tradicional, isto & a0 primado de Deus ¢ ao valor normativo de seus pre- ceitos ¢ de tudo 0 que é revelado na Escritu- ra. A idéia de Deus em nds, como a marca do artesao na sua obra, €utilizada para de- fender a positividade da realizagao humana ¢, do ponto de vista do poder cognoscitivo, sua natural capacidade de conhecer 0 ver~ dadeiro; e, no que se refere a0 mundo, a imurabilidade de suas leis. aiqueencontra derrota radical a idéia do génio maligno ou de uma forga corrosi- 298 Terceira parte - Bacon ¢ Descartes vva que pode enganar ou burlar o homem. E isso porque, sob a forga protetora de Deus, as faculdades cognoscitivas nao podem nos enganar, jd que, nesse caso, 0 proprio Deus, que é 0 seu criador, seria responsavel por tal engano, E Deus, sendo sumamente per- feito, nao pode ser mentiroso. Desse modo, aquele Deus em cujo nome se tentava bloquear a expansio do novo pensamento cientifico aparece aqui como aquele que, garantindo a capacidade cognoscitiva de nossas faculdades, estimula tal empresa Assim, a diivida 6 derrotada ¢ o crité- rio da evidéncia € conclusivamente justifi- cado. O Deus criador impede que se consi- dere que a criatura seja portadora de um principio dissolutivo dentro de si, ou que suas faculdades nao estejam em condigdes de cumprir suas fungdes. Somente para 0 ateu a duivida ndo 6 debelada conclusiva- ‘mente, porque pode continuar alimentando LES MEDITATIONS METAPHYSIQVES DE RENE DESCARTES TOVCHANT LA PREMIERE PHILOSOPILE, am legullatenenced Dest ladiindion ele) Pe Trompe homme,fone demons onde de Lain Ee par Mle D DLA, A PARIS, Cher bs Vee TEAN CAMVSAT PIERRE LE PETIT, imporco ue Sslacqoens ls Toston MDG NIVEL AVES TRUILEGR BO? | Fromtispici das Meditagives metatisicas nnolas ext presente v conceit dda dia mata de Deus coe de wa "substincia infin, eterna, onutdvel problema da existincia de Dens parte do propria homem, de sea comseiéncia, diividas sobre o que Ihe é sugerido por suas faculdades cognoscitivas, j4 que nao reco- nhece que tais faculdades sejam criadas por Deus, suma bondade e verdade. By As verdades etemas Desse modo, o problema da fundamen- tag3o do método de pesquisa encontra-se conclusivamente resolvido, porque aquela evidéncia proposta por via hipotética é comprovada pela primeira certeza relativa a0 nosso cogito, e este, com as faculdades cognoscitivas, é ainda mais reforcado pela presenca de Deus, que garante o seu carter objetivo. ‘Alem do poder cognoscitivo das facul- dades, Deus garante também todas aquelas verdades, claras e distintas, que 0 homem estiver em condigdes de alcancar. Expressando a esséncia dos varios se~ tores do real, sio as verdades eternas que compoem a ossatura do novo saber “Tais verdades sdo eternas ndo porque sejam vinculadas ao proprio Deus ou in- dependentes dele. Claro, Deus é criador ab- soluto e, portanto, responsavel também pe~ las verdades ou idéias sob cuja luz criou 0 mundo. Mas entio por que sao chamadas “eter- nas”, essas verdades criadas livremente por Deus? Porque Deus é imutivel. Assim, aque- le voluntarismo de ascendéncia escotista, que levava os metafisicos a falarem de um contingentismo radical do mundo e, portan- to, a considerar impossfvel um saber uni- versal, € usado por Descartes para garantir a imutabilidade de certas verdades ¢, por- tanto, defender o desenvolvimento da ci cia e garantir sua objetividade. Ademais, como essas verdades contin- igentes e, a0 mesmo tempo, eternas nao cons- tituem participagao na esséncia de Deus, ninguém pode considerar que, com 0 conhe~ cimento dessas verdades, conhece os impers- crutaveis designios de Deus. O homem co- nhece e isso jd basta, sem qualquer pretensio de emulacao com Deus. E, com isso, defende-se ao mesmo tem- po o sentido da finitude da razio e o senti- do de sua objetividade. A razao do homem E especificamente humana, nao divina, mas é garantida em sua atividade por aquele Deus que a criou. Capitulo décimo quinto ~ Descartex “o fundador da filosofia moclerna” 4, O evra ndio depende de Deus, mas do homem Mas, se é verdade que Deus é verda- deo endo enganoso, também éverdade que Qual é, entao, a origem do erro? Naturalmente, o erro nao é imputavel Deus, mas sim ao homem, porque nem sempre ele se demonstra fiel & clareza e & distingao. As faculdades do homem funcionam. Mas cabe ao homem fazer bom uso delas, no confundindo com claras e distintas as idéias que sio aproximativas e confusas. O erro se di no juizo. E, para Descartes, dife- rentemente do que pensaria Kant, pensar nao ¢ julgar, porque no juizo intervém tan- t0 0 intelecto como a vontade. O intelecto, que elabora as idéias claras e distintas, nao erra. O erro brota da pressio indevida da vontade sobre o intelecto: “Se me abstenho de dar meu juizo sobre alguma coisa, quan- 299 do nao a coneebo com suficiente clareza e distingdo, é evidente que estou fazendo 6ti- mo uso do juizo e nao estou sendo engana- dos mas, se me determino a nega-la ou afir- mé-la, entao nao estou mais me servindo como devo do meu livre-arbitrio; € se afir- mo aquilo que nao é verdadeiro, é evidente que estou me enganando; |... porque a luz natural nos ensina que o conhecimento do intelecto deve preceder sempre a determ nagio da vontade. E precisamente nesse mau uso do livre-arbitrio é que se encontra a pri- vaco que constitui a forma do erro”. ‘Com essa imensa confianca no homem em suas faculdades cognoscitivas, e depois, de indicar as causas e implicagées do erro, Descartes pode agora tratar do conhe mento do mundo € de si enquanto existe no mundo. O método esta justificado, a cla- reza e a distincao fundamentadas, ¢ a uni- dade do saber reconduzida 4 sua fonte, a razao humana, sustentada e iluminada pela garantia da suma veracidade do seu Criador. ESI VI. © mundo é uma maquina = Deus é garante do fato de que a faculdade imaginativa e a sensivel atestam a existéncia objetiva do mundo corpéreo, e entre todas as coisas que do mundo externo chegam a consciéncia é possivel conceber como clara e distinta apenas a extensdo. No ha, portanto, mais que uma mesma matéria em Ouniverso todo o universo, e nds a conhecemos apenas porque ela é exten- éuma grande sem comprimento, largura e profundidade. Este é um ponto de “maquina”, imensa importancia revolucionéria, j4 proposto em pauta cujoselementos Galileu, que Descartes retoma porque dele depende a possibi essenciais dade de aviar um discurso cientifico rigoroso e novo. O universo sdomatéra —_& uma grande “maquina”, cujos elementos essenciais so maté- emovimento ria e movimento. Também 0 corpo humano e os organismos ani- mais s80 maquinas e, portanto, funcionam em base a principios mecanicos que regulam seus movimentos e relacbes; isso que cha- mamos “vida” é redutivel a uma entidade material, isto é, a elementos sutilissimos que, veiculados pelo sangue, se difundem por todo o corpo e presidem as princi- Pais funsdes do organismo. dade externa para a consciéncia, que nao artifice delas, mas s6 depositaria.. ‘Antes de mais nada, a existéncia do mundo corpéreo € possivel por causa do fato de que ele é objeto das demonstragoes geo- métricas, que se baseiam na idéia de exten- sao. Ademais, ha em nés uma faculdade dis- ge A idéia de extensdo @ sua importancia essencial Descartes chega 3 existéncia do mun- do corpéreo aprofundando as idéias adven- ticias, isto €, as idéias que vao de uma reali- 300 Tercera parte - Bacon e Descartes tinta do intelecto ¢ nao redutivel a ele, isto & a capacidade de imaginar e sentir. Com eleito, o intelecto € “uma coisa pensante ou uma substéncia, cuja esséncia ou natureza toda é apenas a de pensar”, essencialmente ativa. J4 a faculdade de imaginar € essen- cialmente representativa de entidades mate- riais ou corpéreas, razdo pela qual “estou inclinado a considerar que ¢ intimamente ligada ou dependente do corpo”. Desse modo, o intelecto pode considerar 0 mun- do corpéreo valendo-se da imaginacao e das faculdades sensOrias, que se revelam passi- vvas ou receptivas de estimulos e sensagées. ‘Ora, se esse poder de ligagéo com 0 mundo material, operado pela faculdade de imaginagao e pelas faculdades sensorias, fosse enganoso, dever-se-ia concluir entao que Deus, que me criou assim, nao é veraz. Mas isso é falso, como jé dissemos. Desse ‘modo, se as faculdades imaginativas e sen- siveis atestam a existéncia do mundo corpé- reo, nao hd razao para po-lo em discussao. Isso, porém, nao deve me induzir admitir temerariamente todas as coisas que 6 sentidos parecem me ensinar”. Como também nao deve me induzira “revogar pela diivida todas elas em geral”. Mas como operat tal seleco? Isso pode ser feito aplicando 0 método das idéias cla- ras e distintas, isto é, s6 admitindo como reais aquelas propriedades que consigo con- ceber de modo distino, Pois bem, dentre todas as coisas que me chegam do mundo externo através das fa- culdades sensiveis, s6 consigo conceber como clara e distinta a extensao, que, conseqiiente- mente, podemos considerar ‘como consti- tutiva ou essencial. “Com efeito, toda outra coisa que se pode atribuir a0 corpo pressupde a extensio, sendo apenas algum modo da propria coisa extensa, como também todas as coisas que encontramos na mente so somente modos diversos de pensar”. pd Apenas a extensdo é propriedade essencial Assim, aplicando as regras da clareza € da distingi0, Descartes chega & conclusio de que s6 se pode atribuir como essencial ao mundo material a propriedade da exten- sio, porque s6 ela é concebivel de modo cla- ro € completamente distinto das outras. O mundo espiritual € res cogitans, 0 mundo material € res extensa. Descartes considera “secundérias” to- das as outras propriedades, como a cor, 0 sabor, 0 peso ou 0 som, porque nio ¢ possi- vel ter delas uma idéia clara e distinta. Atri- bui-las ao mundo material como componen- tes constitutivas significaria abandonar as regras do método. A tendéncia a considerd-las objetivas € muito mais fruto de experiéncias infantis, nao avaliadas criticamente, porque nao nos demos conta de que se trata mais de uma série de respostas do sistema nervoso aos estimulos do mundo fisico. Esse é um ponto de imenso alcance re~ volucionatio, j4 enfocado por Galileu e que Descartes retoma porque sabe que dele de- pende a possibilidade de encaminhar um discurso cientifico rigoroso e novo. A ajuda dos sentidos pode significar fonte de esti- mulos, mas nao é a sede da ciéncia. Esta pertence a0 mundo das idéias claras ¢ dis- tintas, Chegando a esse ponto, reduzida a matéria 4 extensio, Descartes encontra-se diante de uma realidade global dividida em duas vertentes claramente distintas ¢ irre- dutiveis uma 4 outra: a res cogitans no que se refere ao mundo espiritual ea res extensa rno que concerne a0 mundo material. Nao existem realidades intermediarias. ‘A forga dessa colocagio € devastado- ra, sobretudo em relacao as concepgdes rehascentistas de matriz animista, segundo as quais tudo era permeado de espirito vida, e com as quais eram explicadas as co- nexdes entre os fendmenos e sua natureza mais recOndita, Nao ha graus intermedia- rios entre a res cogitans € a res extensa. A exemplo do mundo fisico em geral, tanto 0 corpo humano como o reino animal deve. encontrar explicagio suficiente no mundo da mecanica, fora e contra qualquer doutri- na magico-ocultista. phe A materia (extensiio) © 0 movimento como principios constitutives do mundo A doutrina que atribui um cardter pu: ramente subjetivo ao reino das qualidades é © primeiro resultado dessa nova filosofia. E Capitulo décimo quinto - Descartes: “o funcador da fllosofia. moderna” sua importancia reside na capacidade de el minar todos os obstéculos que haviam im- pedido a afirmagao da nova ciéncia, ‘Mas quais so entao os elementos es- senciais para se explicar 0 mundo fisico? O universo cartesiano é constituido por poucos elementos e principios: matéria (en- tendida no sentido geométrico de extensio) e movimento, ‘A matéria como pura extensio, priva- da de qualquer profundidade, leva 3 rejei- G0 do vacuo. O mundo é como um ovo pleno. © vacuo dos atomistas é inconcebivel com a continuidade da matéria extensa. Como explicar entao a multiplicidade dos fendmenos e seu carter dinamico? Atra- vés do movimento ou daquela “quantida- de de movimento” que Deus injetou no mundo quando o criou e que permanece constante, porque nao cresce nem diminui. ida O= principios fundamentais que regem o universo Quais as leis fundamentais? Antes de mais nada, o prineipio de con- servagao, segundo o qual a quantidade de mo- vvimento permanece constante, contra qual- quer possivel degradagio de energia ou entropia. O segundo €0 principio de inércia. ‘Tendo excluido todas as qualidades da matéria, s6 pode haver alguma mudanga de direcao mediante a impulsao de outros cor- pos. O corpo nao se detém nem diminui seu proprio movimento, a menos que 0 ceda a outro, Em si, uma vez iniciado, 0 movimen- to tende a prosseguir na mesma dire Portanto, 0 principio de conservacao ¢, consegiientemente, o principio de inércia so principios basilares que regem o universo. ‘A eles deve-se acrescentar outro prin- cipio, segundo 0 qual toda coisa tende a mover-se em linha reta. O movimento ori- gindrio € 0 movimento retilineo, do qual os ‘outros derivam. Essa extrema simplificagio da natureza esta em fungio de uma razio que, através de modelos teéricos, quer co- nhecer e dominar o mundo. Trata-se de uma tentativa relevante de unificar a realidade, & primeira vista milti- pla e variavel, através de uma espécie de modelo mecinicofailmente dominavl pelo 301 ‘Mais do que na variabilidade dos fe- némenos, Descartes estava interessado em sua unificacao, mediante modelos mecni- cos de inspiragio geométrica. Reducao eae ae los os organismos e do mundo inteiro a maquinas ‘Trata-se de um processo de unificacao a0 qual nao se subtraem sequer aquelas te- alidades tradicionalmente reservadas a ou- tras ciéncias, como a vida e os organismos “Tanto 0 corpo como os organismos ani- mais so maquinas e, portanto, funcionam ‘com base em principios mecdnicos que regu lam seus movimentos e suas relagoes. Em con- traste com a teoria aristotélica das almas, ex- clui-se todo principio vital (vegetativo € sens6rio) do mundo vegetal e animal. Tam- bbém nesse caso o que importa é a mudanga do quadro sistematico, porque dai em dian- te também o corpo e qualquer outro orga- nismo serio objeto de andlise cientifica no quadro dos principios do mecanicismo. Os animais e © corpo humano nada mais sao do que miquinas, “autématos”, como os define Descartes, ou “maquinas semoventes” mais ou menos complicadas, semelhantes a “reldgios, compostos simples- mente de rodas e molas, que podem contar as horas e medir o tempo”. E as numerosissimas operagdes dos animais? Aquilo que chamamos de “vida” é redutivel a uma espécie de entidade mate- rial, isto é, a elementos sutilissimos © pu- rissimos, que, levados do coracao ao cére- bro por meio do sangue, se difundem por todo 0 corpo e presidem as principais fui es do organismo. Dai a exaltacio da teo- ria da circulagio do sangue proposta por Harvey, seu contemporineo, que publicow seu famoso ensaio sobre 0 Movimento do coragao em 1627. Descartes, portanto, nega aos organis- mos qualquer principio vital auténomo, tan- to vegetativo como sensdrio, convencido de que, se eles possufssem alma, a teriam reve- lado pela palavra, que “é 0 tinico sinal ea tinica prova segura do pensamento oculto e encerrado no corpo” 302 Terceira parte - Bacon « Descartes VIL. Alma (“wes cogitans”) e corpo (“res extensa”) ‘No homem as duas ‘ubstancias, ‘alma e corpo, cestdo juntas S51 * Entre o mundo espiritual, a res cogitans, e o mundo mate- rial, a res extensa, ndo ha grandes intermedi duas vertentes claramente Ora, no homem, diferentemente de todos os seres, as duas subs- ‘tancias estéo juntas. Com efeito, a alma é pensamento, nao vida, e sua separacéo do corpo no provoca a morte; a alma tem pro- ios: trata-se de jistintas e irredutiveis uma 4 outra. priamente sede em uma pequena glandula, chamada pineal, si- tuada no centro do.cérebro, onde se retnem ramificados todos os tecidos das artérias que veiculam o sangue para o cérebro. dla O contato enive “res cogitans” e “ves exiensa” ocorre no homem Ao contritio de todos os outros se- res, no homem encontram-se juntas duas substancias claramente distintas entre si: a res cogitans € a res extensa. Ele & uma es- pécie de ponto de encontro entre dois mun- dos ou, em termos tradicionais, entre alma e corpo. A heterogeneidade da res cogitans em relagao A res extensa significa antes de mais nada que a alma nao deve ser conce- bida em relagdo com a vida, como se hou- vesse varios tipos de vida, da vegetativa a sensitiva e dai & racional. A alma € pensa~ mento € nao vida. E sua separagao do cor- Po nao provoca a morte, que € determina- da por causas fisiolégicas. A alma é uma realidade inextensa, a0 passo que 0 corpo Eextenso. Trata-se de duas realidades que nada témem comum. E, no entanto, a experiéncia nos ates- ta uma interferéncia constante entre essas duas vertentes, como 0 comprova o fato de que nossos atos voluntérios movem 0 corpo e as sensagies, provenientes do mun- do externo, se refletem sobre a alma, mo- dificando-a. Escreve Descartes: “Nao bas- ta que ela [a alma] seja inserida no corpo como um piloto [Link] navio, senao, tal- vez, para mover seus membros, mas é ne- cessério que ela seja conjugada e unida mais estreitamente com cle, para, ademais, ex- perimentar sentimentos e apetites seme- Ihantes aos nossos, compondo assim um verdadeiro homem.” Mas, por qual razo ede que modo a alma move o corpo € age sobre ele? Foi para enfrentar essas dificuldades que Descartes escreveu 0 Tratado do ho- ‘mem, no qual tenta uma explicagio dos processos fisicos e organicos, em uma es- pécie de ousada antesipagio da fisiologa He imagina que Deus tena formado uuma estatua de terra semelhante a nosso cor po, com os mesmos drpiios e as mesmas fun- Ges. E uma espécie de modelo ou de hi pétese, com que tenta a explicagio de nossa realidade biologica, com especial atenca0 para a circulagio do sangue, para a res- piragdo e para 0 movimento dos espiritos animais, Sem abandonar a hipétese, ele explica © calor do sangue por uma espécie de Fogo sem luz que, penetrando nas cavidades do coragio, contribui para conserv4-lo inflado e elastico. Do coragao, sangue passa para os pulmées, onde a respiracio, introduzit do oar, o refresca. Os vapores do sangue da cavidade direita do coragao alcangam os pulmées através da veia arterial, e caem len- tamente na cavidade esquerda, provocando © movimento do coragao, do qual depen- dem todos os outros movimentos do or- ganismo. Afluindo ao cérebro, 0 sangue ‘nao apenas nutre a substancia cerebral, mas também produz, “certo vento, muito sutil, ou antes uma chama muito viva e muito pura, a0 que se dé o nome de ‘espiritos ani- Capitulo décimo quinto mais’, As artérias que veiculam 0 sangue no cérebro ramificam-se em imimeros teci- dos, que se reiinem depois em torno de p quena glindula, chamada pineal, situada no centro do cérebro, que constitui a sede da alma, Com tal objetivo, escreve Descartes, preciso saber que, por mais que a alma este- ja conjugada com todo o corpo, entretanto hd no corpo algumas partes em que ela exer- ce suas fungdes de modo mais especifico que em todas as outras. [...] A parte do corpo fem que a alma exerce imediatamente suas fung6es nio é em absoluto 0 coragio e nem mesmo todo 0 cérebro, mas somente a parte interna dee, que €certa gland muito pe- quer, situada em meio a sua substancia e suspensa sobre o conduto pelo qual os esp ritos das cavidades anteriores se comunicam com 0s espiritos das cavidades posteriores, cde modo que os seus mais leves movimentos podem mudar muito o curso dos espiritos, 420 passo que, inversamente, as minimas mu: dangas no curso dos espiritos podem levar a grandes mudangas nos movimentos dessa plandula”. tema do dualismo cartesiano ¢ do possivel contato entre a res cogitans € res extensa foi aprofundado ainda mais VIII. A: Descarte 303 9 fundadar dla filosofia moderna" no tratado Les passions de 'éme, mas com preocupagdes e contornos claramente Nele Descartes oferece um quadro bastante complexo e subtil de andlise das agdes, movidas pela vontade, e dasalteragdes, que sio percepgdes, sentimentos ou emo: Ges provocadas pelo corpo e captadas pela alma. 0 objetivo moral desse estudo & 0 de demonstrar que a alma pode vencer as emocées ou, pelo menos, frear as sol citagdes sensiveis que a distraem da ar vidade intelectual, projetando-a para as amarras das paixdes. Para tanto, dois sen- timentos s4o importantes, a tristeza e a alegria: a primeira esta em condigdes de mostrar as coisas das quais devemos es- capars a segunda, a cosas que devernos cultivar. © guia do homem, porém, nao sao as emogdes ou os sentimentos em geral, ‘mas sim a razao, a tinica que pode avaliar , portanto, induzir a acolher ou rejeitar certas emogoes. ‘A sabedoria consiste precisamente na adogao do pensamento claro e distin- to como norma, tanto do pensar como do viver. regras da moral proviséria « Para favorecer 0 dominio da razao sobre a tirania das paixées, no Discurso sobre 0 método Descartes propde como “moral proviséria” quatro normas que depois se revelaram vélidas e, para ele, defini as: 1) obedecer as leis, aos costumes e a religiéo do préprio pais, acolhendo as opinides comuns mais moderadas; 2) perseverar nas agdes com a maior firmeza e resolugao possivel; 3) vencer de preferéncia a si mesmos do que 0 destino, e Aética ‘artesiana ea submissao da vontade a razio, a seguir S515 mundo; mudar preferentemente os préprios desejos do que a ordem do 44) cultivar a razdo o conhecimento da verdade. Do conjunto torna-se evidente a direcdo da ética cartesiana, isto €, a submissao lenta e fatigante da vontade a razdo, como forga-guia de todo o homem: a liberdade da vontade se realiza apenas pela submissao & légica da ordem que o intelecto é cha- r fora e dentro de si 304 Terceira parte - Bacon ¢ Descartes whe A primeira regra Foi exatamente para favorecer 0 do- da razao sobre a tirania das paixoes que, desde o Discurso sobre o método, Des- cartes enunciou e propés como “moral pro- Vis6ria” algumas normas que depois, tanto no intercimbio epistolar como no Tratado sobre as paixdes, revelaram-se para ele va- lidas e definitivas, ‘Trata-se de normas simples, que opor tuno recordar sempre: “A primeira [regra] era a de obedecer as leis e aos costumes do meu pais, observando constantemente a re- ligido em que Deus me deu a graca de ser instruido desde a infancia, e norteando-me ‘em todas as outras coisas segundo as opi- niges mais moderadas e mais distantes de todo excesso, que fossem comumente acolhi- das e praticadas pelas mais sensatas dentre as pessoas com quem me coubesse viver.” Distinguindo entre a contemplacaoea busca da verdade, por um lado, e as exigén- cias cotidianas da vida, por outro, Descar- tes, para a verdade, exige a evidéncia ea distingao, que, se aleangadas, nos dao 0 juizo; jd para as segundas considera sufi- ciente 0 bom senso, expresso pelos costu- mes do povo junto ao qual se vive. No pri- meiro caso, € necesséria a evidéncia da verdade; no segundo, € suficiente a proba- bilidade. O respeito as leis do pais € ditado pela necessidade de trangiilidade, sem a qual nao € possivel a busca da verdade. adie A segunda regra “A segunda maxima era a de perseve- rar o mais firme e resolutamente possivel em ‘minhas agdes, nao deixando de seguir com ‘menos constancia as opinides mais duvido- sas, quando alguma ver a elas me determi nasse, como se elas fossem as mais seguras”. “Trata-se de norma muito pragmatica, que conclama a romper as protelagdes e superar a incerteza ea indecisio, porque a vida nao pode esperar, sendo premente, mas sem esquecer que permanece a obrigacio de examinar a veraci- dade e a bondade dessas opinides, jé que a veracidade ea bondade permanecem como os ideais que regulam a vida humana. Descartes é inimigo da falta de decisao. Para superar isso, ele propde 0 remédio “de hhabituar-se a formular juizos eertos e derer- minados sobre as coisas que se apresentam, convencendo-se de que se cumpriu.o proprio dever quando se fez aquilo que se julgava 0 melhor, ainda que seja julgado muito mal” A vontade se retifica refinando o intelecto fa regra, we * tere Nesse contexto, ele propde a “terceira maxima”, que € a de “esforgar-me sempre para vencer muito mais a mim mesmo do que ao destino e para mudar muito mais meus desejos do que a ordem do mundo. E, em geral, acostumar-me a crer que nao ha nada que esteja inteiramente em nosso po- der, exceto nossos pensamentos” (O tema de Descartes, portanto, &a re- forma de si mesmo, reforma que é possivel fazer, refinando a razzo mediante o habi- tuar-se as regras da clareza e da distingao, hy, A quarta regra Nés retificamos a vontade reforman- do a vida do pensamento. E ¢ com esse ob- jetivo que ele destaca na quarta méxima que sua fungao mais importante foi a de “de car toda a minha vida a cultivar minha ra- 220 e progredir o mais possivel no conheci- mento do verdadeiro, seguindo 0 método que me havia prescrito”. fato de ser esse o sentido das prim ras trés maximas, bastante conformistas, é indicado com exatidio pelo proprio Desear- tes, que acrescenta: “As trés maximas ante- riores fundamentavam-se precisamente no ‘meu propésito de continuar a me instruir.” Bay A razdo e 0 verdadeiro como fundamento da moral © conjunto tora evidente a orienta gfe da ética cartesiana, isto é,a lenta e tra- bathosa submissao da vontade & razao, Capitulo décimo quinto - Descartes como forga-guia de todo homem, Identi- ficando a virtude com a razio nessa pers- pectiva, Descartes se propoe a “seguir tudo aquilo que a razao me aconselhar, sem que as paixdes € os apetites me afastem di ‘Com tal objetivo, o estudo das paixdes ¢ do seu entrelagamento na alma visa a tor- nar mais facil a consecugao do primado da razao sobre a vontade e sobre as paixdes. A liberdade da vontade s6 se realiza pela submissio a légica da ordem que o in- telecto € chamado a descobrit, dentro e fora desi Em Descartes predomina o amor do verdadeiro, cuja logica, uma vez alcancada, 305 2 fancador da fleseficr m se impde com a forca da razio. Apenas sob © peso da verdade é que o homem pode se considerar livre, no sentido de que obedece a si mesmo e nao a forcas exteriores. Se 0 “eu” define-se como res cogitans, seguir a verdade significa seguir no fundo a si mesmo, na maxima unidade interior € no pleno respeito 4 realidade objetiva, O pi mado da razao deve impor-se tanto no cam- po do pensamento como no da acao. A virtude, & qual, em diltima andlise, a “moral proviséria” conduz, identifica-se com a vontade do hem e esta com a vonta~ de de pensar o verdadeiro que, enquanto tal, também é bem. Vista de Paris sr Pons Neo nn 160, reprints: ina pian de escola francesa ronsertkt ein Paris hha Musere Carnal. 306 Terceira parte - Bacon « Descartes © METODO PARA A DESCOBERTA DA VERDADE, } ‘Acolher como verdadico apenas aquilo que é tal {de modo evidente para a razio 1. Buidéncia mag | Ren ets em em | REGRAS FUNDAMENTAIS } 4: Sa — ‘ #5 Snag) Rent doe con mp wal ce | ce até os objetos mais complexos 4. Comte) Enya eo ems ads ee 4 P : No exame dos prineipios do saber tradicional (_ REGRA APLICATIVA preciso rejeitar como falso tado aquilo de que se possa duvidar, 1 para chegar a algo absoluramente indubitavel I “a 1 — — ; ~~ *COGITO, ERGO SUM” ~~ = (existencia da ala): \ do proprio fato de duvidar (= pensar}, segue-se do modo mais evidente e certo ‘que eu sow, isto é, existo - ( PRINCIPIO PRIMEIRO- DA NOVA FILOSOFIA i sd ’ ( Faculdades da alma “Cognoscitivas: © = Eletiva: sensibilidade | vontade ) imaginagio, «|= (oullivre-arbierio) intelecto (ou razio)_/ — « jnatas increntes desde sempre na alma sadventicias | facticias | (indas do exterior) |_| inventadas pela alma) “ Deus 4 - (Ser perfeto, Substincia infntae eternal - <_/aindia inata de substéneia infnia pode ter sido posta na alma (FUNDAMENTO OLTIMO ) =! (que é substancia finita) Nees a apenas por uma substincia verdadeiramente infnita / ‘A certeza ea verdade de toda eiéncia dependem apenas do conbecimento do verdadeiro Deus Capitulo décimo quinto - Descartes: “o fundader da flosofia medema" Descartes As regras metédicas ODiscurs0 sobre 0 método, pubicaco em 1637, 6 0 obra com que se inouguro estaxdo do filosofia moderna, Trato-se de breve exposicco, de porte cutobiagréfico. dos fundomentos metodo 16gIc0s da crigino! metofisca cortesiano. 1. Ainsuficiéncia da légica € da matemética ‘Quoneo ev era mais jover,' havia estu- dodo um poxxo, entre.05 partes de ilosofio, @ l6gIco, @ entre os matemdticas, © andlise dos getmetras @ 0 dlgebra, tés artes ou cigncios ‘que pareciam dever contribwir em algume cok 50 ora meu projeko. Contudo, exominando, percebi que, quanto 6 f6gica, seus silogismos @ 0 moior parte de suas outros instrugbes ser- ‘vem mais paro explicar 6 outros 05 CoIs0s Ove, j6's60 sobides ou entdo, como a arte de Lio? © folar, sem discemnimento, dos que se, igno rom, e ndo pore aprendé-las. € embora ela contenho, com efeito, muitos preceitos verissimos e étimos, hd todavio tontos outros, misturados com oqueles, que s60 nocivos Ou supérfivos, cue & quase t6o dificl seporé-los {quot extrair ume Dione ou ume Minervo para fora de um bloco de mérmore que cinda née foi esboodo. Depots, quento 4 andlise dos ‘ontigos @ 0 dlgebra dos modemnos. além do foto que elos Se referem apenas 0 motérios obstrotissimes, ¢ que porecem de nenhum uso, © primeira esté sempre t6e ligada 6 conside- rog60 dos figuras, que: ndo pode exercitor 0 intelecto sem consor muito a imaginogso: @ 0 individuo fica de tol forma submetido, no ulti- mo, 0 certos regres © 0 certas cifras, que dele se fez uma arte, confusa e obscura que emia rOg0 0 mente, em vez de uma Ciencia que o cultive, 2 As regras do novo método, Este foio motivo pelo qual pensei que exo) preciso buscor algum outro méiodo que, reu- indo os vantagens doqueles és, estivesse isento de seus defeitos. € como 0 excessivo numero dos leis Fornace frequentemente des- culpos pare os vicios, de modo que um Estado muito melhor requlado quando, tendo pou- quissimos, elas af sdo mui rigorosomente ob- servadas; assim, em vez do gfonde némero de preceitos de que l6gica é composto, acreditei ter 0 suficiente deles com os quatro seguintes, com a condigio que tomasse firme e constante, resolugdo de néo descurar umo $6 vez de bservé-los, primeiro era no aceitor Jomais nodo como verdadeito, que n6o conhecesse eviden. temente ser tal; ov sejo, evitor ocurodamente 0 precipitozdo @ © prevenctio; ¢ ndo compreen. der em meus juiz0s node mais olém do que se. coresentosse téo clara e distintamente @ mi ‘oho mente, que eu Ado tivesse olguma possi bilidade de. p6-Io em divido. (O segundo, divigir cada uma das dificu dodes que exominosse, em tantas portes quantas fosse possivel, @ quantos fossem pore melhor resolver 0s proprias oi Fieuldades, Oterceiro, conduzircom ordem meus pen: somentos, comeando pelos abjetos mois sim- ples @ mois fécels de conhecer, pora subir 20u: 0.0 pouco, como por graUS, O86 0 conhecimento dos mois compostos: @ suponde tombém uma corcem entre aqueles que ndo se precedem naturalmente um co outro. , em Ultimo lugor, fozer em tudo enume rogdes t6o completas, ¢ resenhas tdo gercis, ‘que estivesse seguro de nada omit 3. Anova matemética, modelo do saber As longos cadelos de roz6es. todos sim- ples ¢ foceis, os quois os gedmetros costu- mam se servir pare chegor 0 suos mois dificais, demonsiragbes, deram-me ocasi de imagi nor que todes os coisas, que podem coi Sob © conhecimento dos homens, se sucedam en- tte sino mesmo modo, ¢ que, embore openas nos abstenhomos de acolher alguma delas como verdodeita @ ndo 0 seja. ¢ que se ob- serve sempre 0 ordem necessério poro dedu- 2i-las umas das outros. néo podem existir col sos tdo distantes @5 quois ndo se posso ‘chagar, nem tio escondidos que nGo se pos som descobrr, Endo pensei muita para buscar de onde precisova comesar: com efeito, eu j6 sabia que. Ou S23, quanto estove no colegio de Lo Fecha aimee Who (Remon Ul) (1959-1518) menge [Link] de ume cece fs mage que “dest omit provara vercode do eisvanimo para is © Comer’ 05"

Você também pode gostar