0 notas0% acharam este documento útil (0 voto) 15 visualizações39 páginasDESCARTES
Trecho da História da Filosofia de Reale
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu,
reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF ou leia on-line no Scribd
Capitulo décimo quinto
Descartes:
“o fundador da filosofia moderna”
I. A vida e as obras
* René Descartes (latinizado Cartesius) nasceu em La Haye em 1596. Enviado
ao colégio jesuita de La Fléche, em Anjou, teve depois a licenciatura em direito
pela Universidade de Poitiers. De 1618 a 1620 se arrolou em varios exércitos que
participavam da Guerra dos Trinta Anos; em novembro de 1619 teve uma “revela-
‘gd0 intelectual” a respeito dos fundamentos de nova ciéncia: a
intuigdo foi desenvolvida mais a frente sobretudo nas incomple- 4s epatas
tas Regras para a guia do intelecto (1627-1628). De 1629 a 1649. principais
viveu na Holanda, onde publicou suas obras mais importantes: 0 da vida
Discurso sobre o método (1637), as Meditacdes metafisicas Gun- 51
to com as Respostas ds objecdes, 1641), os Principios de filosofia
(1644) e As paixdes da alma (1649). Em 1649 aceitou o convite da rainha Cristina
da Suécia e deixou definitivamente a Holanda, mas em fevereiro de 1650 foi aco-
metido de uma pneumonia que em uma semana o levou 4 morte. Seus despojos,
transladados para a Franca em 1667, repousam na igreja de Saint-Germain-des-
Prés, em Paris.
Um novo tipo
we aebercemeaa
sobre o homem
2 sobre a racionalidade
humana
Leibniz afirma: “Costumo chamar os
escritos de Descartes de vestibulo da verda-
deira filosofia, j4 que, embora ele nao te-
nha alcangado seu micleo intimo, foi quem
dele se aproximou mais do que qualquer
outro antes dele, com a tinica excecao de
Galileu, do qual oxala tivéssemos todas as
meditacdes sobre os diversos temas, que 0
destino adverso reduziu ao silencio. Quem
ler Galileu e Descartes se encontrara em me-
Ihores condigies de descobrir a verdade do
que se houvesse explorado todo o género
jos autores comuns”. Um juizo ponderado
de um grande filésofo sobre outro grande
fil6sofo, que dé a medida exata da personali-
dade de Descartes, com toda razao chama-
do precisamente de pai da filosofia moder-
nna, Com efeito, ele assinalou uma reviravolta
radical no campo do pensamento pela criti-
ca.a que submeteu a heranga cultural, filo-
s6fica e cientifica da tradicao e pelos novos
principios sobre os quais edificou um tipo
de saber, ni mais centrado no ser ou em
Deus, mas no homem e na racionalidade hu-
mana,
René Descartes (Cartesius) nasceu em
La Haye, na Touraine, em 31 de margo de
1596, ano da publicagio do Mysterium
cosmographicum de Kepler. De familia no-
bre — seu pai Joaquim era conselheiro no
Parlamento da Bretanha —, foi logo envia-
do para o colégio jesuita de La Fleche, no
Anjou, uma das mais célebres escolas da
época, onde recebeu sélida formagao filo-
séfica ecientifica, segundo a ratio studiorum
daquele tempo, ratio que abarcava seis anos284 Terceira parte - Bacon ¢ Descartes
de estudos humanisticos e trés anos de ma~
tematica e teologia. Inspicado nos prineipios
da filosofia Escoldstica, considerada a mais
valida defesa da religiao catélica contra os
sempre renascentes germes da heresia, aque-
le tipo de ensino, embora sensivel 48 novi-
dades cientificas e aberto para o estudo da
matematica, deixou Descartes insatisfeito €
confuso. Fle logo se deu conta do abismo
enorme entre aquela orientacao cultural €
(0s novos fermentos cientificos ¢ filoséficos
que brotavam por toda parte. Em especial,
percebeu logo a auséncia de uma séria meto:
dologia, capaz de instituir, controlar e or-
denar as idéias existentes e guiar d busca da
verdade.
‘0 ensino de filosofia, ministrado se-
gundo a codificagao de Suarez, levava os
espiritos para o passado, para as intermin:
veis controvérsias dos tratadistas escolis-
ticos, reservando pouco espago para 0s pro-
blemas do presente.
Embora criticando a filosofia aprendi
da naqueles anos, Descartes certamente nao
esquece o espaco reservado aos problemas
cientificos e ao estudo da matemstica, Mas
até no que se refere a essas disciplinas, a0
término de seus estudos ele sentiu-se pro-
fundamente insatisfeito.
Descartes, portanto, deixou o colégio
de La Fliche desorientado e desprovido de
tum saber a0 qual se agarrar. Por isso, de~
pois de ter prosseguido seus estudos na Uni
versidade de Poitiers, onde conseguiu 0 ba-
charelado e a licenciatura em Direito, mas
encontrando-se ainda na maior confusio
spiritual e cultural, decidiu dedicar-se a
carreira das armas. Assim, em 1618, quan
do teve inicio a Guerra dos Trinta Anos, alis-
tou-se nas tropas de Mauricio de Nassau,
que combatia contra os espanhdis pela li-
berdade da Holanda. Em Breda, estreitou
amizade com um jovem cultor de fisica e
matemética, Isaac Beeckman, que 0 estimu-
loua estudar fisica, Inclinado a um projeto
de “matematica universal”, em Ulma, onde
se encontrava com 0 exército do duque Ma-
ximiliano da Baviera, em cujas fileiras in
gressara, Descartes relata ter recebido,
entre 10'e 11 de novembro de 1619, uma
espécie de revelacao intelectual sobre os fun-
damentos de “uma ciéncia admiravel”. Por
causa dessa “revelagio”, Descartes fez a
promessa de ir em peregrinacao a Santa Ca-
sa de Loreto. Em um pequeno diario, em
gue anotava suas reflexdes, Descartes fala
de um* inventum mirabile”, que desenvol-
veria depois no Studium bonae mentis, de
1623, e nas Regulae ad directionem ingenii
(Regras para a guia do intelecto), que escre-
veu entre 1627 e 162
Tendo-se estabelecido na Holanda, ter-
ra de tolerancia ¢ liberdade, Descartes, por
sugestao do padre Marino Mersenne, con-
siderado o “secretario da Europa douta”, e
do cardeal Pierre de Bérulle, comegou a cla
borar um tratado de metafisica, que, porém,
logo interrompen para dedicar-se [Link]
grande obra fisica, 0 Traité de physique (Tra-
tado de fisica), dividido em duas partes: a
primeira sobre tematica cosmologica, Le
monde ow traité de la lumiére (O mundo ou
tratado da luz), e a segunda de carater an:
tropolégico, homme (O hontem). Em 22
de julho de 1633, de Deventer, na Holanda,
anunciou a Mersenne que o Tratado sobre
(© mundo e sobre 0 homem estava quase
pronto (“s6 me resta corrigi-lo e copié-lo”),
© que esperava envis-lo no fim do ano. En-
tretanto, tomando conhecimento da conde
nagio de Galileu por causa da tese coperni:
cana, que ele compartilhava e cujas razbes
expusera no Tratado em questo, Descartes
Deseartes (1596-1650)
foto fundador da flosofia moderna,
tanto do ponto de vista das tomticas
iodo
mto de vista da exposigao metodoligica
ros won guuadro de F Hal
fem Paris no Musew do Louvre,Capitulo décimo quinto - D.
apressou-se a escrever novamente para 0
mesmo Mersenne: “Estou quase decidido a
queimar todas as minhas apostilas ou, pelo
menos, nio mostrd-las a ninguém.” A lem-
branga da morte de Giordano Bruno na fo-
gueira ¢ da prisio de Campanella, que a
condenagao de Galileu avivava em sua men-
te, agiram com forga sobre seu espirito es-
quivo, inimigo das vicissitudes que prejudi-
cam a paz de espirito, tao necessaria para 0
estudo.
Superada a grave perturbacdo, Descar-
tes sentiu a necessidade urgente de enfren-
tar o problema da objetividade da raza0
da autonomia da ciéncia em relagio ao Deus
onipotente, E motivou-se nesse sentido tam-
bém pelo fato de que Urbano VIII havia con-
denado a tese galileana como contraria 4 Es-
critura. Assim, de 1633 a 1637, fundindo
os estudos de metafisica que iniciara e de-
pois interrompera com suas pesquisas cien-
tificas, escreveu 0 famoso Discurso sobre 0
‘método, que introduzia trés ensaios cienti-
ficos nos quais compendiava os resultados
alcangados: a Dioptrique, 0 Météores e a
Géométrie. Diferentemente de Galileu, que
nao havia elaborado nenhum tratado expli-
Cito sobre o método, Descartes considerou
importante demonstrar 0 carater objetivo da
razio e indicar as regras em que devemos
nos inspirar para alcangar tal objetividade.
Nascido em contexto polémico e em defesa
da nova ciéncia, 0 Discurso sobre o método
tornou-se a “magna carta” da nova filosofia.
285
Yo fundador da filosofia moderna”
E-desse periodo o seu amor por Helene
Jans, da qual tere Francioe, a Hbiaha que
amou ternamente e que perdeu com apenas
cinco anos, A dor pela perda da menina
incidiu profundamente sobre 0 seu espirito
e talvez, pelo menos em parte, sobre seu
pensamento, apesar de seus escritos conti-
nuarem sempre severos € rigorosos. Reto-
mou a elaboragao do Tratado de metafisica,
mas agora sob a forma de Meditacoes, es
critas em latim porque reservadas aos
doutos, obra na qual os acenos “a enfermi-
dade e fraqueza da natureza humana” t
temunham um espirito cheio de angtstia.
Enviadas a Mersenne para que as levasse 20
conhecimento dos doutos e recolhesse as
suas objegdes — ficaram famosas as obje-
goes de Hobbes, de Gassendi, de Arnauld e
do préprio Mersenne —, as Meditationes
de prima philosophia serao finalmente publi-
cadas, juntamente com as Respostas de Des-
cartes em 1641, sob o titulo Meditationes
de prima philosophia in qua Dei existentia
et animae immortalitas demonstrantir (Me-
ditacdes metafisicas onde se demonstra a
existéncia de Deus e a imortalidade da al-
‘ma). Atacado pelo tedlogo protestante Gi
bert Voér, replicou com a Epistola Renati
Des Cartes ad celeberrimum virum Gisher-
tum Voétium, na qual procurou demonstrar
a pobreza e a inconsisténcia das concepcdes
filosoficas e teol6gicas do adversario.
Apesar das muitas polémicas que seus
escritos de merafisica e ciéncia suscitavam,
Das vistas
de Estocobne
to século XVI
em 1649
Descartes acto
‘darains Crista
dda Suécta
para a
se transfer
definitivamente
‘t Holanda,286 Terceira parte - Bacon e Descartes
Descartes dedicou-se com empenho a ela-
boracio dos Principia philosophiae (Prin-
cipios de filosofia), obra em quatro livros
compostos de artigos breves, conforme o
modelo dos manuais escolasticos da épo-
ca. Trata-se de uma exposica0 compilada
¢ sistematica de sua filosofia e de sua fi
ca, com particular destaque para os vin-
culos entre filosofia e ciéncia. A obra foi pu-
blicada em Amsterdam, sendo dedicada
Princesa Isabel, filha de Frederico V do Pa-
atinato.
‘Amargurado com as polémicas com os
professores da Universidade de Leida, que
chegaram a proibir o estudo de suas obras,
mas sem qualquer desejo de voltar para a
Franga, em virtude da situagio cadtica em
que havia caido seu pais, em 1649 Descar-
tes aceitou o convite da tainha Cristina da
Suécia e, depois de entregar para impressio
(os manuscritos de seu iiltimo trabalho, Les
passions de lime (As paixdes da alma), dei-
xou definitivamente a Holanda, nao mais
hospitaleira e agora cheia de contrastes. Ape-
sar de suas graves preocupagdes, Descartes
continuou mantendo relacao epistolar com
a princesa Isabel, de grande importincia
para o esclarecimento de muitos pontos
==—— IDL. A experiancia da derrocada
obscuros de sua doutrina, particularmente
das relagdes entre alma e corpo, do proble-
ma moral e do livre-arbitrio..
‘Na corte sueca, para festejar 0 fim da
Guerra dos Trinta Anos e a paz de Vestfa-
lia, Descartes escreveu La naissance de la
paix (O nascimento da paz). Mas foi bem
curto 0 tempo transcorrido na corte sueca,
porque a rainha Cristina, devido ao habito
de ter suas conversacdes 4s cinco horas da
manha, obrigava Descartes a levantar-se
muito cedo, apesar do clima rigoroso e da
‘nao muito robusta constituigao fisica do fi-
I6sofo. Assim, ao deixar a corte, em 2 de
fevereiro de 1650, o filésofo pegou uma pneu-
monia que, depois de uma semana de sofri-
mentos, o levou a morte. Transportados
para a Franga em 1667, seus despojos re-
pousam na Igreja de Saint-Germain des Prés,
em Paris.
Postumamente, foram publicados os
seguintes escritos de Descartes: o Compen-
dium musicae (1650), 0 Traité de l'hom-
me (1664), Le Monde ou Traité de la
Iumiére (1664), as Lettres (1657-1667), as,
Regulae ad directionem ingenii (1701) © a
Inguisitio veritatis per lumen naturale
(1701).
da cultura da época
Necessidade
de nove método
como inicio
de novo saber
3513
* Em um tempo em que haviam se afirmado e se desenvolvi-
am com vigor novas perspectivas cientificas e se abriam novos
horizontes filoséficos, Descartes percebe a falta de um método
ordenador e seja também instrumento fundacional verdadeira-
mente eficaz. O novo método deve se apresentar como 0
de novo saber, e do fundamento deste saber depende a amplitu-
deea
why Criticas & filosofia
e 4 légica tradicionais
Em um trecho autobiogréfico, depois
de reconhecer ter sido “aluno de uma das
mais célebres escolas da Europa”, Descar-
lez do edificio que é preciso consti
aristotélico, sobre o qual toda a tradicdo se apéia.
tes acena para o estado de profunda incer-
teza em que se encontrou ao término de seus
estudos: “Encontrei-me tio perdido entre
tantas diividas e erros que me parecia que,
a0 procurar me instruir, nao alcangara ou-
tro proveito que o de ter descoberto cada vez
mais a minha ignorancia.”Capitulo décimo quinto - Descartes: “o fancaclor da fllosofia moderna"
‘Vejamos, em pormenor, algumas ra-
z0es da sua insatisfagao e perplexidade. No
que se refere a filosofia, repetindo uma frase
de Cicero, escreve ele: “Seria dificil imagi-
nar algo tao estranho e incrivel que ndo
tenha sido dito por algum fildsofo”. Eem-
bora a filosofia “tenha sido cultivada pe-
los espiritos mais excelentes que jé viveram”,
continua Descartes no Discurso sobre 0
‘método, nao conta ainda “com coisa algu-
ma da qual nao se discuta ¢ que nio seja
duvidosa”. No que se refere a logica, que
ele reduz 3 silogistica tradicional, ‘pelo
menos mostra-se disposto a conceder-Ihe
valor didatico-pedagégico; mas légica
dos dialéticos, para a qual era conduzida
a silogistica, nega qualquer forga de fun-
damentagao ¢ qualquer capacidade heu-
ristica.
Portanto, até no melhor do seu desem-
penho, a légica tradicional nada mais f
do que ajudar a expor a verdade, mas no a
conquisté-la
Assim, se € severo o seu juizo sobre a
filosofia tradicional, ainda mais drastico €
© juizo sobre a légica. E é por causa dessas
profundas insatisfagdes e de tais pontos de
vista que a filosofia aprendida no colégio
de La Fléche parece-lhe extremamente cheia
de lacunas. Em uma época em que se ha-
viam afirmado ¢ se desenvolviam com vigor
novas perspectivas cientificas e se abriam
novos horizontes filos6ficos, Descartes per-
cebia a falta de sm método que ordenasse 0
pensamento e, ao mesmo tempo, fosse ins-
trumento heuristico e de fundamentagao ver-
dadeiramente eficaz.
ade Criticas
ae saber matematico
Além disso, mesmo admirando o rigor
do saber matemitico, ele critica tanto a arit-
mética como a geometria tradicionais, por-
que elaboradas com procedimentos que,
cembora lineares, nao se sustentavam em uma
clara orientaga0 metodolégica. © fato de
suas passagens serem rigorosas ¢ coerentes
1ndo significa que a aritmética e a geometria
foram elaboradas no contexto de um bom
método, nunca teorizado. Se permanecemos
quase como que desarmados ¢ induzidos a
recomecar do inicio quando nos defronta-
287
mos com novos problemas, a razio disso
deriva da falta de um guia capaz de nos
acompanhar na solugio dos novos proble-
mas. Com efeito, falando da geometria e da
Algebra, ele recorda que estas “se referem a
matérias muito abstratas e aparentemente
de nenhuma utilidade”: a primeira, a geo-
metria, “porque ligada a consideracao das
figuras”; a segunda, a aritmética, porque
“confusa e obscura” a ponto de “embara-
gar 0 espirito”.
Dai seu propésito de dar vida a uma
espécie de matemdtica universal, isto é, li-
vre dos niimeros ou das figuras, para poder
servir de modelo para todo saber.
Descartes nao pode adotar a matems-
tica tradicional como modelo do saber, por-
que ela nio possui método unitério. Para
teorizar esse modelo, ele cré necessiirio de-
monstrar que as diferengas entre aritmética
€ geometria nao sao relevantes, porque
ambas se inspiram, ainda que implicitamen-
te, n0 mesmo método.
E, com tal objetivo, traduz 0s pro-
blemas geométricos em problemas algébri-
cos, mostrando sua substancial homoge-
neidade.
‘Como é que isso Ihe foi possivel? Atra~
vés daquilo que se chama geometria ana-
litica, e com a qual Descartes tornou a
matematica mais limpida em seus princi-
pios e em seus procedimentos, aplicando
a algebra & geometria, isto é, estudando
determinadas figuras com determinadas
equagies.
E este, no fundo, era 0 objetivo que
ele se propunha, e é nesse contexto de cri-
tica e de recuperacao das ciéncias matema-
ticas que devemos lero trecho no qual Des-
cartes, ainda no Discurso sobre o método,
afirma querer inspirar 0 método do novo
saber na clareza ¢ no rigor tipicos dos pro-
cedimentos geométricos: “Aquela longa
cadeia de raciocinios, todos simples © fa-
eis, de que os gedmetras tém 0 habito de
se servir para chegar as suas dificeis de-
monstragbes, me havia possibilitado ima-
ginar que todas as coisas de que o homem
pode ter conhecimento derivam do mesmo
modo e que, desde que se abstenha de acei-
tar como verdadeira uma coisa que nao 0
respeite sempre a ordem necesséria para
deduzir uma coisa da outra, nao haverd
nada de tao distante que nao se possa al-
cancar, nem de tio oculto que se nao possa
descobrir.”288 Terceira parte - Bacon e Descartes
wa © problema geral
do fundamento do saber
Se toda a casa est desmoronando, isto
6 se caem por terra a velha metafisica ¢ a
velha ciéncia, entao o novo método deve se
apresentar como 0 inicio de novo saber, em
condicdes de impedir que nos dispersemos
em uma série desarticulada de observagdes
‘ou caiamos em formas novas e mais refina-
das de ceticismo.
Esses, com efeito, so dois resultados
conseqiientes ao ruir de antigas concepgdes
Sob a pressdo de novas aqusigdes cient
cas e de novas instancias filosoficas. Se es-
tava difundida a confianga no homem e no
seu poder racional, também estava bastan-
te difundida a incerteza sobre o caminho a
tomar para garantir uma coisa e superar a
‘outra. Nao podia mais se sustentar a filoso-
fia tradicional, muito estranha aquele con-
junto de novas teorizagbes € descobertas,
tornadas possiveis também por instrumen-
tos técnicos que, potencializando ou corti
‘gindo nossos sentidos, nos introduziam em
reinos até entio inexplorados. Era urgente
uma filosofia que justificasse a confianca
comum na razao. $6 era possivel opor a0
ceticismo desagregador uma razao metafisi:
camente fundada, capaz de se sustentar na
IIL As regras do método
busca da verdade, ¢ um método universal €
fecundo.
o se trata, portanto, de langar 3 dis-
cussio este ou aquele ramo do saber, e sim
© fundamento do proprio saber. Por isso,
mesmo admirando Galileu, Descartes 0 cri
tica, precisamente por nao ter apresentado
tum mécodo em condigdes de ir as raizes da
filosofia e da ciéncia. (E de 1619 sua desco-
berta da formula que hoje leva o nome de
Euler,v + f=s +2, onde x fs esto, respec
tivamente, para o mimero dos vertices, das
faces e dos dngulos de um poliedro con-
vexo.)
E para o fundamento que Descartes
chama.a atengio, jé que € do alicerce que
dependem a amplitude e a solidez do edifi-
cio que é preciso construir para se contra-
por ao edificio aristotélico, no qual se apdia
toda a tradicao. Descartes nao separa a filo-
sofia da ciéncia.
que urge evidenciar é 0 fundamen-
to que permita wn novo tipo de conheci-
mento da totalidade do real, pelo menos
tem suas linhas essenciais. Necessita-se de
novos principios, nao importando que eles
sejam depois explorados mais em uma do
que em outra diregio. Principios que, des-
locando os principios aristotélicos, aos
quais a cultura académica ainda é ciumen-
tamente fiel, contribuam para a edificaga0
da nova casa.
* Descartes quer primeiramente oferecer regras certas e faceis que, correta-
mente observadas, levardo ao conhecimento verdadeiro de tudo aquilo que se
pode conhecer. No Discurso sobre 0 método, estas regras so quatro:
1) a evidéncia racional, que se alcanca mediante um ato in-
tuitivo que se autofundamenta;
As quatro
{que constituem
ométodo
cartesiano
S516
coerentes;
4) 0 controle, efetuado mediante a
2) a andlise, uma vez que para a intuico necessaria a sim-
plicidade, que se alcanca mediante a decomposicSo do complexo
em partes elementares;
3) a sintese, que deve partir de elementos absolutos ou ndo
dependentes de outros, e proceder em direcio aos elementos
telativos ou dependentes, dando lugar a uma cadeia de nexos
enumeraco completa dos elementos
analisados e a revisio das operacdes sintéticas. Em suma, para proceder com reti-
do em qualquer pesquisa, preciso repetir o movimento de simplificaglo e rigo-
rosa concatenacao, tipico do procedimento geométrico.Capitulo décimo quinto - D.
., Conceitos e namero
as das regras do método
Como escreve nas Regulae ad directio-
nem ingenii, Descartes queria apresentar
“regras certas e faceis que, sendo observa-
das exatamente por quem quer que seja, tor-
nem impossivel tomar o falso por verdadei-
roe, sem qualquer esforgo mental initil, mas
aumentando sempre gradualmente a cién-
ia, levem ao conhecimento verdadeiro de
tudo o que se é capaz de conhecer”.
Entretanto, se, na obra citada, ele ha-
via chegado a enumerar vinte e uma regras
e interrompera a elaboracio da obra para
evitar sua prolixidade, j4 no Discurso sobre
0 método reduz essas regras a quatro.
A razao dessa simplificagao ¢ dada pelo
proprio Descartes: “Como grande nimero
de leis amitide s6 serve para fornecer pre-
texto A ignordncia e ao vicio, razao pela qual
uma nagio regula-se tanto melhor quanto
menos leis tem, desde que as observe de
modo rigoroso, ento eu pensei que, a0 in-
vvés da multidao de leis da logica, me basta-
iam as quatro seguintes, com a condicio
de que se decidisse firme e constantemente
observé-las, sem qualquer excecio.”
2, A primeira regra do método
A primeira regra, mas que também é a
{itima, enquanto € 0 ponto de chegada, além
de ser 0 ponto de partida, é a regra da evi-
déncia, que cle assim enuncia: “Nao se deve
acatar nunca como verdadeiro aquilo que
no se reconhece ser tal pela evidéncia, ou
seja, evitar acuradamente a precipitacio ea
prevengao, assim como nunca se deve abran-
ger entre nossos juizos aquilo que nao se
apresente tio clara e distintamente & nossa
inteligéncia a ponto de excluir qualquer pos-
sibilidade de duivida.”
Mais que uma regra, trata-se de um
principio normativo fundamental, exata-
mente porque tudo deve convergir para a
clareza ea distingdo, nas quais, precisamen-
te, se dé a evidéncia. Falar de idéias claras e
distintas e falar de idéias evidentes é a mes-
Mas qual é0 ato intelectual com o qual
se alcanga a evidéncia? E 0 ato intuitivo ou
289
aries: o fundador da floofio moderna"
mEvidéncia. £ o principio metédico
fundamental, a primeira regra do
metodo cartesiano.
Acevidéncia consiste na clareza e na
distincdo, as quais s80 0s sinais da
verdade das coisas, e deriva do
Jumen naturale que existe em todo
homem; mais precisamente, a evi-
dencia é alcancada mediante
ato intuitivo, que é "um conceito
‘ido dibio da mente pura atenta
‘que nasce apenas da luz da razao
@ € mais certo que a propria de-
ducao”
Em tal sentido, a evidéncia se
autofundamenta’e se autojust
porque sua garantia deposita-se nao
em uma base argumentativa qual-
quer, e sim unicamente na mutua
‘ransparéncia entre razdo e conted-
do do ato intuitive.
captagao de “um conceito nao dabio da men-
te pura e atenta que nasce apenas da luz da
razao e é mais certo que a propria dedugao”.
Trata-se, portanto, de ato que se auto
fundamenta € se autojustifica, porque sua
garantia nao repousa sobre uma base qual-
quer de argumentagio, mas somente sobre
a transparéncia miitua entre razio € con-
tetido do ato intuitivo. Trata-se daquela idéia
clara e distinta que reflete “unicamente a
luz da razdo”, nao ainda conjugada com
outras idéias, mas considerada em si mes-
ma, intuida e nao argumentada. Trata-se da
idéia presente na mente e da mente aberta
para a idéia sem qualquer mediacio.
objetivo das outras trés regras éche-
jar a essa transparéncia miitua.
aby A segunda regra do método
A segunda regra é a de “dividir cada
problema que se estuda em tantas partes me-
ores, quantas for possivel e necessario para
melhor resolvé-lo”
Ea defesa do método analitico, tinico
que pode levar a evidéncia, porque, desarti-
culando 0 complexo no simples, permite &
luz do intelecto dissipar as ambigitidades.290 Terceira parte - Bacon « Descartes
Este € um momento preparatério es-
sencial, j& que, se a evidéncia é necesséria
para a certeza ¢ a intui¢ao é necesséria para
aevidencia, jé para a intuigdo é necessaria a
simplicidade, que se alcanga através da de-
composigio do conjunto “em partes elemen-
tares até o limite do possivel”.
Chega-se as grandes conquistas etapa
pos etapa, parte aps pare. Esse € cami
nho que permite escapar as presuncosas ge-
neralizagdes. E como toda dificuldade 0 €
porque 6 verdadeiro esta misturado com 0
falso, 0 procedimento analitico deveria per-
mit ibertar oprimeiro das eserias do se-
gundo.
ihe A terceira regra do método
A decomposigao do conjunto em seus
elementos simples nao basta, porque apre-
senta um conjunto desarticulado de ele-
‘menos, mas nao o nexo de coesao que de-
les faz um todo complexo e real. Por isso,
A andlise deve-se seguir a sintese, 0 objeti-
vo da terceira regra, que Descartes, ainda
no Discurso sobre o método, enuncia com
as seguintes palavras: “A terceira regra € a
de conduzir com ordem meus pensamen-
tos, comecando pelos objetos mais simples
€ mais faceis de conhecer, para elevar-se,
pouco a pouco, como por degraus, até o
conhecimento dos mais complexos, supon-
do uma ordem também entre aqueles nos
quais uns nao precedem naturalmente aos
outros.”
Assim, necessério recompor os ele-
mentos em que foi decomposta uma rea-
Tidade complexa. Trata-se de uma sintese que
deve partir de elementos absolutos (ab-50-
Iutus) ou nao dependentes de outros, ¢ di-
recionar-se para os elementos relativos ou
dependentes, dando lugar assim a. um ene:
deamento que iltumina os nexos do conjunto.
Trata-se de recompor a ordem ou criar
uma cadeia de raciocinios que se desenvol-
vam do simples a0 composto, 0 que nao
pode deixar de ter uma correspondéncia na
realidade. Quando essa ordem nao existe, €
preciso supd-la como a hipétese mais con-
veniente para interpretar e expressar a rea~
lidade efetiva. Se a evidéncia € necessaria
para se tera intuic4o, o processo do simples
a0 complexo € necessdrio para o ato dedu-
tivo.
By A quarta regra do métode
Por fim, para impedir qualquer pre-
cipitagdo, que € a mae de todos os er-
ros,épreciso verificar cada uma das pas-
sagens
Por isso, Descartes conclui dizendo: “A
Sltima regra'é a de fazer sempre enumera-
Ges t3o completas e revisdes tao gerais a
ponto de se ficar seguro de nao ter omitido
nada.”
Portanto, enumeragao € revisio:a pri-
meira verifica se a andlise é completa; a se-
gunda verifica se a sintese é correta,
eBay AS Quatro regras
como modelo do saber
Sao regras simples, que destacam a ne~
cessidade de se ter plena consciéncia dos
momentos em que se articula qualquer pe
quisa rigorosa. Elas constituem o modelo
do saber, precisamente porque a clareza ¢
a distingao garantem contra possiveis equi-
vocos ou generalizagées apressadas. Com
tal objetivo, diante de problemas comple-
xos como de fendmenos confusos, € preci
so chegar aos elementos simples, que nao
sejam mais decomponiveis, para que pos-
sam ser totalmente invadidos pela luz da
razio,
Em suma, para proceder com corregao
é preciso repetir, a propésito de qualquer
pesquisa, aquele movimento de simplifica-
Gio € rigorosa concatenagdo constituido
pelas operagdes tipicas do procedimento
geométrico,
Entretanto, 0 que comporta a adogio
de tal modelo?
Pois bem, antes de mais nada e de
forma geral, comporta a rejeicao de todas
aquelas nocées aproximativas, imper-
feitas, fantasticas ou apenas verossimeis,
que escapam a operacao simplificadora
considerada indispensivel. O “simples”
de Descartes nao € 0 universal da filoso-
fia tradicional, assim como a “intuigao”
nao € a abstragao. O universal ¢ a abs-
tragio, dois momentos fundamentais da
filosofia aristotélico-escolastica, sio su:
plantados pelas naturezas simples e pela
intuigéo. HUTACapitulo décimo quinto - Descartes: *o funda
IV. A divida metédica
ea certeza fundamental:
“cogito, ergo sum”
+ Estabelecidas as regras metodicas, Descartes passa a apl
filosofia. mo
-las aos princ
291
sobre 0s quais o saber tradicional se fundamentou, e como condicao da aplicacso
exige ndo aceitar como verdadeira nenhuma asser¢éo que esteja poluida pela
duvida. Ora, neste sentido no ha setor do saber que se sustente, porque nada
resiste & forca corrosiva da duvida, exceto a proposi¢ao “penso,
logo existo”, que é uma verdade imedi wtuigdo pura, gracas
[Link] percebo minha existéncia como ser pensante, e esta exis-
téncia ¢ uma res cogitans, uma substdncia pensante.
A aplicacSo das regras do método leva assim a descoberta
de uma verdade que, retroagindo, confirma a validez das mes-
‘mas regras para qualquer saber. O banco de prova do novo sa-
ber, filoséfico e cientifico é, portanto, 0 sujeito humano, a cons-
cigncia racional, e em todos os ramos do conhecimento o homem,
Adivida deve
levar 8 certeza
que é dada
ela verdade
*cogito
ergo sum”
0516
deve proceder na cadeia das deducées a partir de verdades claras e distintas ou de
principios auto-evidentes. A filosofia nao é mais, portanto, a cig
do ser, e sim
a doutrina do conhecimento, gnosiologia. Esta é a reviravolta que Descartes im-
prime na filosofia.
why A divide
come passagem obrigatéria,
mas proviséria,
para chegar d verdade
Estabelecidas as regras do método, €
preciso justificé-las, ou melhor, explicar sua
universalidade ¢ fecundidade
E verdade que a matematica sempre se
ateve a essas regras, Mas quem nos autoriza
a estendé-las para fora desse ambito, delas
fazendo um modelo de saber universal? Qual
é seu fundamento? Existe uma verdade nao
matematica que reflita em si as caracte-
risticas da evidéncia e da distingao e que,
rio sujeita 4 divida de modo algum, possa
justificar tai regras e ser adotada como fon-
te de todas as outras possiveis verdades?
Para responder a essa série de pergun-
tas, Descartes aplica as suas regras ao saber
tradicional, para ver se ele contém alguma
verdade de tal forma clara e distinta que se
subtraia a qualquer razio de duivida. Se o
resultado for negativo, no sentido de que,
com essas regras, nao'é possivel chegar a
nenhuma certeza € a nenhuma verdade que
tenham as caracteristicas da clareza e da dis-
tingZo, entio sera preciso rejeitar semelhante
saber e admitir a sua esterilidade. Se, a0
contrario, a aplicacao de tal regra nos leva
a uma verdade indubitdvel, entio deve-se
assumi-la como 0 inicio da longa cadeia de
raciocinios ou como fundamento do saber.
A condig4o que se precisa respeitar
nessa operagio € que nao é licito aceitar
como verdadeira a afirmagéo que esteja
maculada pela diivida ou por qualquer pos-
sivel perplexidade. E, para chegar a
basta examinar os principios sobre os q
se fundamentou o saber tradicional. Cain-
do os principios, as conseqiiéncias nao po-
derao mais se manter.
a) Em primeiro lugar, observamos que
boa parte do saber tradicional pretende ter
base na experiéncia sensivel. Entretanto,
como € possivel considerar certo e indubi-
tayel um saber que tem sua origem nos sen-
tidos, se & verdade que estes por vezes se
revelam enganadores?
) Ademais, se boa parte do saber tra~
dicional se baseia nos sentidos, parte nao
irrelevante do saber se funda sobre a azoeed Terceira parte - Bacon ¢ Descarte
e sobre seu poder discursivo. Ora, também
esse principio nao parece imune & obscuri
dade e incerteza.
€) Por fim, hd o saber matemético, que
parece indubitavel, porque valido em todas
as circunstancias. O fato de 2+2=4 6 ver-
dadeiro em qualquer circunsténcia e em
qualquer condicao. E, no entanto, quem me
impede de pensar que exista “um génio
maligno, astuto e enganador”, que, brincan-
do comigo, me faz considerar evidentes coi-
sas que no 0 10? E aqui a divida torna-se
hiperbolica, no sentido de que se estende até
a setores que se presumiam fora de qual-
{quer suspeita.O saber matemtico nao po-
leria ser uma construgao grandiosa, baseada
em equivoco ou em colossal mistificagao?
Portanto, nao ha setor do saber que se
mantenha. A casa desmorona porque seus
alicerces estio minados. Nada resiste & for-
a corrosiva da diivida.
E evidente que nao nos encontramos
aqui diante da diivida dos céticos, Neste
aso, a diivida quer levar 4 verdade. Por isso
€ chamada diivida metédica, enquanto é
passagem obrigatoria, ainda que provisoria,
para chegar a verdade.
Descartes quer por em crise 0 dog-
matismo dos fildsofos tradicionais, a0 mes-
‘mo tempo que também quer combater a ati-
tude cética, que se comprazia em por tudo
“Cogito, ergo sum". £ o princi-
pio tedrico primeiro da filosotia
tesiana, originado da divida radical:
“Do proprio fato de duvidar das ou-
tras coisas”, diz Descartes, “segue-se
do modo mais evidente ¢ certo que
eu existo”, porque “se vé claramente
que para pensar é preciso existir’
A proposicao "Eu sou, eu existo” &
uma verdade sem nenhuma media-
80; embora seja formulada como
um 'silogismo qualquer, a proposi-
0 "penso, logo existo” nao € um
Faciocinio, mas intuicgo pura, ato
intuitive gracas ao qual percebo mi-
‘nha existéncia como ser pensante.
Esta existéncia é uma res cogitans,
sem nenhuma ruptura entre pensa-
mento e ser: a substancia pensante
€ 0 pensamento em ato, e 0 pensa-
mento em ato é uma realidade pen-
sante.
em diivida sem nada oferecer em troca. E,em.
Descartes, evidente 0 anseio pela verdade.
‘A negacio aqui remete afirmagio, a
diivida leva a certeza,
dy Absolutez veritativa
da propesicao
“eu penso, logo existo”
Como relata Descartes no Discurso so-
bre o método, depois de ter posto tudo em
diivida, “somente depois tive de constatar
que, embora eu quisesse pensar que tudo era
falso, era preciso necessariamente que eu
que assim pensava, fosse alguma coisa. E
observando que essa verdade — “penso,
logo sou” — era tao firme e solida que ne~
inhuma das mais extravagantes hipéteses dos
céticos seria capaz. de abalé-la, julguei que
podia aceité-la sem reservas como 6 princé
pio primeiro da filosofia que procurava’
Esta certeza nao pode ser minada de
nenhum modo pelo génio maligno, porque,
ainda que exista um génio maligno que me
engana, eu, em todo caso, devo existir para
ser enganado.
Portanto,a proposigio “eu penso, logo
exist” é absolutamente verdadeira, porque
até a diivida, mesmo a mais extremada
radicalizada, a confirma,
Maso que entende Descartes por “pen-
samento”? Afirma ele nas Respostas: “Com
6 termo ‘pensamento’ eu abranjo tudo aqui-
Jo que existe em nds de tio factual que so-
mos imediatamente conscientes dele, como,
por exemplo, todas as operagdes da vonta
de, do intelecto, da imaginagao e dos senti-
ddos sio ‘pensamentos’. E-acrescentei ‘imedi-
atamente’ para excluir tudo aquilo que delas
deriva; assim, por exemplo, um movimento
voluntario tem como seu ponto inicial o pen-
samento, mas ele proprio nao é pensamento.”
By A proposiciio “eu penso,
loge existo”
nao é um raciocinio dedutivo,
mas uma intuigdio
Estamos, portanto, diante de uma ver-
dade sem qualquer mediagao. A transparén-
cia do eu a si mesmo e, portanto, 0 pensa-Capitulo décimo quinto ~
mento em ato, escapa a qualquer divida,
indicando por que a clareza é a regra fun=
damental do conhecimento por que a in-
tuigao € seu ato fundamental. Com efeit
resse caso a existéncia ou o meu ser s6
admitido enquanto se roma presente ao meu
eu, sem qualquer passagem argumentativa,
Efetivamente, apesar de ser formulada
como qualquer silogismo, “penso, logo exis-
t0”, tal proposigao ndo € unt raciocinio, mas
uma intuigao pura.
Nao se trata da abreviagao de uma ar-
‘gumentagio como a seguinte: “Tudo aquilo
que pensa existe; eu penso, logo, existo.”
‘Trata-se simplesmente de um ato intuitivo
gracas ao qual percebo minha existéncia
enquanto € pensante.
Com efeito, procurando definir a na-
tureza de sua propria existéncia, Descartes
afirma que ela é uma res cogitans, uma rea-
lidade pensante, sem qualquer corte entre
pensamento e ser. A substncia pensante ¢ 0
ensamento em ato, e © pensamento em ato
€ uma realidade pensante.
‘Assim, Descartes chegou a um ponto
firme, que nada pode por em discussio. Ele
sabe que 0 homem é uma realidade pensante
€ esti bem consciente do fato fundamental
representado pela logica da clareza e da dis-
tingao. Desse modo, ele conquistou uma
certeza inabalével, primeira e irrenunciavel,
porque relativa & propria existéncia, que,
enquanto pensante, revela-se clara e distin
ta. Assim, a aplicacao das regras do método
levou a descoberta de uma verdade que,
retroagindo, confirma a validade daquelas
regras que se encontram fundamentadas e,
portant, assumidas como norma de qual-
quer saber.
A., O eixo da filosofia
ndo é mais a ciéncia do sex,
mas a doutrina
do conhecimento
Aquilo que deve ser destacado é que,
‘como regras do método de pesquisa, a clareza
ea distingao ja estao bem fundamentadas.
‘Mas fundamentadas em que?
Talvez no ser finito ou infinito? Ou nos
principios légicos gerais, que so também
principios ontolégicos, como o principio de
nao-conteadigio ou © principio de identi-
293
funclador ca fllonefia. mde
ee
| m/'Res cogitans” @ “res extensa”.
Para Descartes existem apenas dois
‘ipos de substancias,claremente dis-
tintas e irredutivels uma & outra: a
substancia pensante (res cogitans) e
2 substincia extensa (res exten:
‘Ares cogitans é a existéncia espiitual
do homem sem nenhuma ruptura
entre pensar e ser, €a alma humana
como realidade pensante que € pen-
samento em ato, e como pensamen-
to em ato que ¢ realidade pensante.
A res extensa € 0 mundo materi
(compreendendo obviamente 0 cor-
po humano), do qual, justamente, se
pode predicar como essencial apenas
8 propriedade da extensao
USNS 22S SIND
dade, como no caso da filosofia tradicio-
nal? Nao. Tais regras se fundamentam na
certeza adquirida de que 0 nosso “eu” ou a
consciéneia de si mesmo como realidade
pensante se apresenta com as caracteristi
cas da clareza ¢ da distinedo.
‘A partir dai, a atividade cognoscitiva,
mais do que se preocupar em fundamentar
suas conquistas em sentido metafisico, deve
procurar a clareza e a distingio, que so os
tragos tipicos da primeira verdade que se
impés 4 nossa razao e que devem ser a mar
cade qualquer outra verdade. Como a nos:
sa existéncia enquanto res cogitans foi acei~
ta como indubitavel com base na clareza e
na distingao e nao com base em outros fun-
damentos, entao toda outta verdade 6 po-
dera ser acatada se exibir os tragos da cl
reza e da distingio. E, para alcangé-los, €
preciso seguir 0 itinerdrio da andlise, da sin-
tese e da verificacao, sabendo-se que uma
afirmacao com tais caracteristicas nao esta-
4 mais sujeita 4 divida.
Desse modo, a filosofia nao é mais a
cigncia do ser, mas sim a doutrina do co-
nhecimento. Assim, antes de mais nada, a
filosofia se torna gnosiologia.
Essa a reviravolta que Descartes im-
prime a filosofia, que passa a se orientar no
sentido de encontrar ou fazer emergir, a pro-
posito de qualquer proposigdo, os dados da
clareza e da distingao, que, alcangados, tor
nam desnecessarios outros suportes ou ou
tras garantias. Assim como a certeza de mi-
nha existéncia enquanto res cogitans s6294 Tercera parte - Bacon « Descavies
necessita da clareza e da distingao, da mes-
ma forma qualquer outra verdade nao tera
necessidade de outras garantias fora da cla-
rea e da distingdo, imediata (intuigo) ou
derivada (dedugao).
By © centro do novo saber
é 0 sujeito humane
© banco de provas do novo saber, filo-
s6fico € cientifico, portanto, € 0 sujeito hu-
mano, a consciéncia racional.
Qualquer tipo de pesquisa deverd se
preocupar somente em perseguir o grau
maximo de clareza e distingao, nao se preo-
cupando com outras justificagées quando
alcangé-lo. ©. homem ¢ feito assim, s6 de-
vendo admitir verdades que reflitam tais
exigéncias.
Estamos diante da humanizagio radi-
cal do conhecimento, reconduzido a sua fon-
te primigénia. Em todos os ramos do conhe-
Cimento, na cadeia das dedugdes, 0 homem
deve proceder de verdades claras e distintas
ou de prineipios auto-evidentes,
Quando esses principios nao sio facil-
mente identificaveis,é preciso hipotetizé-los,
seja para ordenar a mente humana, seja para
fazer emergir a ordem da realidade — con-
fianga na racionalidade do real —, as vezes
coberta por elementos secundarios ou pela
sobreposicao de elementos subjetivos, acri-
ticamente projetados fora de nos.
yBy A veta razdio humana
Descartes, portanto, aplicando as re-
gras do método, defronta-se com a primei-
ra certeza fundamental, a do cogito. Esta,
porém, nao é apenas uma das muitas verda
des que se alcanca através daquelas regras,
mas sim a verdade que, uma vez alcangada,
fundamenta tais regras, porque revela a na
tureza da consciéncia humana que, como res
cogitans, € transparéncia de si para si mes-
‘ma, Qualquer outra verdade s6 ser acolhi-
da i medida que se adequar ou aproximar
de tal evidéncia.
“Tendo-se inspirado inicialmente na cla-
reza ena evidéncia da matemstica, agora Des-
cartes destaca que as ciéncias matematicas
apresentam somente um setor do saber, que
sempre se inspirou em um método que, ao
contrério, tem dimensio universal. De agora
em diante, qualquer saber devers se inspirar
nesse método, porque nao se trata de método
fundado pela’ matematica, mas que funda a
‘matematica, como toda outra ciéncia.
Aquilo a que esse método conduz € no
qual se fundamenta € “razio humana” ou
aquela reta razio (bona mens) que pertence
a todos os homens e que, como diz. Descar-
tes no Discurso sobre o método, “é a coisa
mais bem distribuida no mundo”,
(O que é tal reta razao? “A faculdade de
julgar bem e distinguir 0 verdadeiro do fal-
so € propriamente aquilo que se chama bom
senso ou razao, [e que] é naturalmente igual
em todos os homens.”
Ea unidade dos homens é representa-
da pela razao bem guiada e desenvolvida.
Descartes jé explicita isso no ensaio ju-
venil Regulae ad directionem ingenii, onde
escreve: “Todas as diversas ciéncias nada mais,
sao do que a sabedoria humana, que per-
‘manece sempre una eidéntica, por mais que
se aplique a diferentes objetos, no receben-
do destes maior distingao do que possa re-Capitulo décimo quinto
ceber a luz do sol da diversidade das coisas
ue ilumina.” Mais do que sobre as coisas
iluminadas — cada uma das ciéncias — ¢
preciso pdr o acento sobre o sol, a raza0, que
deve emergir e impor sua légica e fazer res-
peitar suas exigéncias. A unidade das cién-
Cias remete A unidade da razio. Ea unidade
da razao remete 3 unidade do método.
=— V. A existéncia e o papel de Deus
Descartes: “a fundador
295
da filosofia moderna”
Se a razao € uma res cogitans, que
emerge através da diivida universal, a pon-
to de nenhum génio maligno poder sitia
la e nenhum engano dos sentidos obscu-
recé-la, entio o saber deve basear-se nela e
repetit sua clareza e distingio, que sio os
Sinicos postulados irrenunciaveis do novo
saber, KIS
Eig sir ne pesery reels mtg ruta raeplchace oe ill
(atos mentais dos quais se tem percepcao ime
mente examinar. Para Descartes ha particularmente trés classes de
ata), que a filosofia deve rigorosa-
1) as idéias inatas, que encontro em mim, nas
minha consciéncia;
2) as idéias adventicias, que provém a mim de fora e me re-
Aeexisténcia
de trés classes
de idéias metem a coisas totalmente diferentes de mim;
€ idéia inata 3) as idéias facticias, construidas por mim mesmo.
eee Ora, entre as muitas idéias de que a consciéncia é deposita-
tia, hd a idéia inata de Deus, isto 6, a idéia de uma substéncia
infinita, eterna, imutdvel, independent, onisciente, e da qual
‘eu mesmo e todas as outras coisas existentes fomos criados e produzidos. A idéia
de Deus é subjetiva e objetiva ao mesmo tempo, e atesta ser inata em nés porque
produzida pelo proprio Deus.
Desse modo, o problema da fundamentacdo do método de pesquisa se en-
contra definitivamente resolvido, porque a evidéncia proposta de modo hipotéti-
co é confirmada pelo cogito, e este se torna por sua vez reforcado pela presenca
de Deus que garante sua objetividade. Deus ¢ garante também de todas as verda-
des claras e distintas, “eternas”, que devem constituir a ossatura do novo saber;
mas estas verdades, criadas livremente por Deus, sdo contingentes, e sdo chama-
das “eternas” apenas porque Deus é imutdvel; elas nao participam da esséncia de
Deus, e por isso
nios imperscrutaveis de Deus.
whe O problema da relacdo
entre nossas idéias,
que so formas mentais,
© a realidade objetiva
A primeira certeza fundamental alean-
sada pela aplicagao das regras do método,
portanto, €a consciéncia de si mesmos como
seres pensantes.
A reflexio de Descartes concentra-se
agora no cogito e no seu contetido, acossa-
da por algumas perguntas fundamentai
seré que as regras do método abrem-se ver
juém, mesmo conhecendo-as, pode afirmar conhecer os desig-
dadeiramente para 0 mundo e sio adequa-
das para fazer-me conhecer 0 mundo? E 0
mundo estara aberto a essas regras? Minhas
faculdades cognoscitivas so adequadas pa:
ra fazer-me conhecer efetivamente 0 que ndo
€ identificével com a minha consciéncia?
Trata-se de perguntas que postulam
maior fundamentacao da atividade cognos-
citiva do homem,
Como ser pensante, 0 “eu” revela-se 0
lugar de maltiplicidade de idéias, que a filo-
sofia deve considerar com rigor
Se 0 cogito é a primeira verdade auto-
evidente, que outras idéias se apresentam
com o carter da auto-evidéncia do cogito?296 Terceira parte - Bacon e Descartes
Partindo dele e com idéias que, como 0 co-
gito, sio claras e distintas, é possivel recons-
truir o edifico do saber?
E mais: dado que o fundamento do
saber esta na consciéncia, como sera possi
vel sair dela e reafirmar 6 mundo externo?
Em suma, as idéias que Descartes nao
considera no sentido tradicional de essé
cias ou arquétipos do real, mas como pre-
sengas reais na consciéncia, tem carater ob-
jetivo, no sentido de representarem um
objeto, uma realidade:
E, por fim, se elas sdo indubitéveis
como formas mentais, porque tenho a ime-
diata percepgao delas, j4 como formas re~
presentativas de realidades diversas de mim
serao elas verdadeiras, ou seja, representa-
10 uma realidade objetiva ou seriam puras
fugdes mentais?
p2y ‘Tdéias inatas",
“idéias adventicias”
e “idéias facticias”
Antes de responder a essas questdes,
deve-se recordar que Descartes divide as idéias
em:
1) idéias inatas, isto é, as que encontro
‘em mim mesmo, nascidas junto com a mi-
nha consciéncia;
2) idéias adventicias, isto é, as que vem
de fora de mim e me remetem a coisas intei-
ramente diferentes de mim;
3) idéias facticias ou construidas por
mim mesmo.
Descartando estas iltimas como ilusé-
rias, porque quiméricas ou construfdas ar-
bitrariamente por mim mesmo, o problema
se restringe entio a objetividade das idéias
inatas e das adventicias. Embora as ts clas-
ses de idgias nao sejam diferentes do ponto
de vista de sua realidade subjetiva — todas
as trés sio atos mentais cos quais tenho per-
cepgio imediata—, do ponto de vista de seu
contetido elas sao profundamente diversas.
Com efeito, se as idéias facticias ou ar-
bitrérias no constituem nenhum problema,
serdo verdadeiramente objetivas as idéias ad-
venticias, que me remetem a um mundo ex-
terno? Quem garante tal objetividade?
Poderiamos responder: a clareza ¢ a
distingio. E se as faculdades sensiveis fos-
sem enganadoras? Estamos verdadeiramente
certos da objetividade das faculdades sensi-
veise imaginativas através das quais as idéias
facticias chegam até nés, abrindo-nos para
6 mundo? Aquilo de que estou certo, até na
diivida universal, é de minha existéncia em
sua atividade cogitativa. Mas quem me ga-
rane que ela permanece valida mesmo quan-
do seus resultados passam da percepgao em
ato para o reino da memoria? Estara a me-
méria em grau de conservi-los intactos, com
a clareza e a distingao originais?
Para enfrentar essa série de dificulda-
des ¢ para fundamentar definitivamente 0
carater objetivo de nossas faculdades cog-
noscitivas, Descartes propde e resolve o pro-
blema da existéncia e do papel de Deus.
By A idéia inata de Deus
@ sua objetividade
Com tal objetivo, entre as muitas idéias,
de que a consciéncia € depositaria, Descar-
tes depara com a idgia inata de Deus que,
como lemos nas Meditagoes metafisicas, €a
idéia de “uma substincia infinita, eterna,
imutavel, independente e onisciente, da qual
cu proprio c todas as outras coisas que exis
tem (se é verdade que ha coisas existentes)
fomos criados e produzidos”. F, a propos
to de tal idéia, ele se pergunta se € pura-
mente subjetiva ou se nado deve ser conside-
rada ao mesmo tempo subjetiva e objeriva.
Trata-se do problema da existéncia de Deus,
nao mais proposto a partir do mundo ex:
terno ao homem, mas a partir do proprio
homem, ou melhor, de sua consciéncia,
Pois bem, falando dessa idéia com tais
caracteristicas, diz Descartes: “E uma coisa
manifesta, por luz natural, que deve haver
pelo menos tanta realidade na causa eficier
te e total quanto no seu efeito: porque, de
onde o efeito poderia extrair a sua realida-
de senao de sua propria causa, e como essa
causa poderia transmiti-la ao efeito se nao
a tivesse em si mesma?” Ora, proposto tal
principio, fica evidente que 0 autor dessa
perf
toe finito, nem qualquer outro ser, da me
ma forma limitado. Tal idéia, que esta em
mim, mas nao é de mim, s6’pode ter por
causa adequada um ser infinito, isto é, Deus.
‘A propria idéia inata de Deus pode pro-
piciar uma segunda reflexo, que compr
va o resultado da primeira argumentacao.Capitulo décimo quinto - Descartes: “e fundacor da flesefia. modemna”
Se a idéia de um ser infinito que esté em
mim fosse minha, nao me teria eu feito per-
feito ¢ ilimitado e nao, a0 contrario, um ser
imperfeito, como resulta da diivida e da as-
piragdo nunca satisfeita a felicidade e a
perfeigao? Com efeito, quem nega 0 Deus
Criador por esse proprio fato esta se consi-
derando um autoproduto. Ora, nesse caso,
tendo a idéia do ser perfeito, entio nos te-
riamos dado todas as perfeicdes que encon-
tramos na idéia de Deus. E isso € desmenti-
do pela realidade.
Por fim, detendo-se nas implicagbes des-
sa idéia, Descartes formula um terceiro ar-
gumento, conhecido como prova ontolégica.
A existéncia é parte integrante da esséncia,
de modo que nao € possivel ter a idéia (a es-
séncia) de Deus sem simultaneamente admi-
tirsua existéncia, da mesma forma que nao é
possivel conceber um triangulo sem pensé-lo
coma soma dos angulos internos igual a dois
retos, ou como nao é concebivel ima mon-
tanha sem vale. S6 que, enquanto do fato de
rndo poder “conceber uma montanha sem vale
rngo deriva que existam no mundo monta~
nnhas e vales, mas somente que a montanha €
6 vale, existindo ou nao existindo, ndo po-
dem de modo algum ser separados um do
outro, (...) jf do’ simples fato de que nao
posso conceher Deus sem existéncia deriva
que a existencia € inseparavel dele e, portan-
to, que ele existe verdadeiramente”. Esta €a
prova ontolégica de Anselmo, que Descartes
retoma ea torna sua.
1, Deus como garantia
ae da fungdo veritativa
de nossas faculdades
cognoscitivas
Mas por que Descartes se detém com
tanta insisténcia no problema da existéncia
de Deus, a nao ser para evidenciar a riqueza
de nossa consciéncia? Com efeito, nas Medi-
tacdes metafisicas, ele escreve que a idéia de
Deus € “como a marca do artesio impressa
sobre sua obra, nao sendo sequer necessério
que essa marca seja algo diferente da pro-
pria obra”. Assim, analisando a consciéi
Descartes se defronta com uma idéia que esta
em nés, mas nao € nossa, a qual, todavia,
nos permeia profundamente, como 0 selo do
artifice sobre seu manufaturado.
297
GM _ DNL
f@ Idéia. Descartes da o nome de
“idéias" propriamente as imagens das
coisas, ¢ as distingue das “afeicoes”
(que se fundamentam sobre necessi-
dades, desejos, temores, esperancas
etc) € dos “juizos” (que poem dis-
cursivamente em confronto duas ou
mais idéias entre sie a partir daqui
movem para afirmar ou nega)
‘Além disso, ele distingue as idéias em
‘tres categorias:
| 1)idéias adventicias, isto é, estranhas
e vindas de fora, "Como a ideia que
vulgarmente se tem do sol";
2) idéfas facticias, isto 6, idéias fel-
tase inventadas pelo homem, “en-
tre as quais se pode por a que’os as-
‘tronomos fazem do sol com seus
faciocinios";
3) idéias inatas, que nascem com 0
homem, inerentes a sua consciénci
‘como aideia de Deus, da mente, do
corpo, do triangulo e, em geral, as
idélas que representam as esséncias
verdadeiras, imutaveis e eternas”. A
idéia inata de Deus, em particular, €
a mais evidente e contem em si mais
realidade objetiva que qualquer ou-
tra: ela garante a objetividade de to-
das as outras idélas inatas e das ad-
venticias
. AQAA
Ora, se isso é verdadeiro ¢ se é verdade
que Deus, porque sumamente perfeito, étam-
bem sumamente veraz e imutavel, nao deve
‘mos entio ter imensa confianca em nése em
nossa faculdades, que sio todas obras suas?
Assim, a dependéncia do homem em
relagio a Deus nao leva Descartes as con-
clusdes a que haviam chegado a metafisica
€ a teologia tradicional, isto & a0 primado
de Deus ¢ ao valor normativo de seus pre-
ceitos ¢ de tudo 0 que é revelado na Escritu-
ra. A idéia de Deus em nds, como a marca
do artesao na sua obra, €utilizada para de-
fender a positividade da realizagao humana
¢, do ponto de vista do poder cognoscitivo,
sua natural capacidade de conhecer 0 ver~
dadeiro; e, no que se refere a0 mundo, a
imurabilidade de suas leis.
aiqueencontra derrota radical a idéia
do génio maligno ou de uma forga corrosi-298 Terceira parte - Bacon ¢ Descartes
vva que pode enganar ou burlar o homem. E
isso porque, sob a forga protetora de Deus,
as faculdades cognoscitivas nao podem nos
enganar, jd que, nesse caso, 0 proprio Deus,
que é 0 seu criador, seria responsavel por
tal engano, E Deus, sendo sumamente per-
feito, nao pode ser mentiroso.
Desse modo, aquele Deus em cujo
nome se tentava bloquear a expansio do
novo pensamento cientifico aparece aqui
como aquele que, garantindo a capacidade
cognoscitiva de nossas faculdades, estimula
tal empresa
Assim, a diivida 6 derrotada ¢ o crité-
rio da evidéncia € conclusivamente justifi-
cado. O Deus criador impede que se consi-
dere que a criatura seja portadora de um
principio dissolutivo dentro de si, ou que
suas faculdades nao estejam em condigdes
de cumprir suas fungdes. Somente para 0
ateu a duivida ndo 6 debelada conclusiva-
‘mente, porque pode continuar alimentando
LES
MEDITATIONS
METAPHYSIQVES
DE RENE DESCARTES
TOVCHANT LA PREMIERE PHILOSOPILE,
am legullatenenced Dest ladiindion ele)
Pe Trompe homme,fone demons
onde de Lain Ee par Mle D DLA,
A PARIS,
Cher bs Vee TEAN CAMVSAT
PIERRE LE PETIT, imporco
ue Sslacqoens ls Toston
MDG NIVEL
AVES TRUILEGR BO? |
Fromtispici das Meditagives metatisicas
nnolas ext presente v conceit
dda dia mata de Deus coe
de wa "substincia infin, eterna, onutdvel
problema da existincia de Dens
parte do propria homem, de sea comseiéncia,
diividas sobre o que Ihe é sugerido por suas
faculdades cognoscitivas, j4 que nao reco-
nhece que tais faculdades sejam criadas por
Deus, suma bondade e verdade.
By As verdades etemas
Desse modo, o problema da fundamen-
tag3o do método de pesquisa encontra-se
conclusivamente resolvido, porque aquela
evidéncia proposta por via hipotética é
comprovada pela primeira certeza relativa
a0 nosso cogito, e este, com as faculdades
cognoscitivas, é ainda mais reforcado pela
presenca de Deus, que garante o seu carter
objetivo.
‘Alem do poder cognoscitivo das facul-
dades, Deus garante também todas aquelas
verdades, claras e distintas, que 0 homem
estiver em condigdes de alcancar.
Expressando a esséncia dos varios se~
tores do real, sio as verdades eternas que
compoem a ossatura do novo saber
“Tais verdades sdo eternas ndo porque
sejam vinculadas ao proprio Deus ou in-
dependentes dele. Claro, Deus é criador ab-
soluto e, portanto, responsavel também pe~
las verdades ou idéias sob cuja luz criou 0
mundo.
Mas entio por que sao chamadas “eter-
nas”, essas verdades criadas livremente por
Deus? Porque Deus é imutivel. Assim, aque-
le voluntarismo de ascendéncia escotista,
que levava os metafisicos a falarem de um
contingentismo radical do mundo e, portan-
to, a considerar impossfvel um saber uni-
versal, € usado por Descartes para garantir
a imutabilidade de certas verdades ¢, por-
tanto, defender o desenvolvimento da ci
cia e garantir sua objetividade.
Ademais, como essas verdades contin-
igentes e, a0 mesmo tempo, eternas nao cons-
tituem participagao na esséncia de Deus,
ninguém pode considerar que, com 0 conhe~
cimento dessas verdades, conhece os impers-
crutaveis designios de Deus. O homem co-
nhece e isso jd basta, sem qualquer pretensio
de emulacao com Deus.
E, com isso, defende-se ao mesmo tem-
po o sentido da finitude da razio e o senti-
do de sua objetividade. A razao do homem
E especificamente humana, nao divina, mas
é garantida em sua atividade por aquele
Deus que a criou.Capitulo décimo quinto ~ Descartex “o fundador da filosofia moclerna”
4, O evra ndio depende de Deus,
mas do homem
Mas, se é verdade que Deus é verda-
deo endo enganoso, também éverdade que
Qual é, entao, a origem do erro?
Naturalmente, o erro nao é imputavel
Deus, mas sim ao homem, porque nem
sempre ele se demonstra fiel & clareza e &
distingao.
As faculdades do homem funcionam.
Mas cabe ao homem fazer bom uso delas,
no confundindo com claras e distintas as
idéias que sio aproximativas e confusas. O
erro se di no juizo. E, para Descartes, dife-
rentemente do que pensaria Kant, pensar
nao ¢ julgar, porque no juizo intervém tan-
t0 0 intelecto como a vontade. O intelecto,
que elabora as idéias claras e distintas, nao
erra. O erro brota da pressio indevida da
vontade sobre o intelecto: “Se me abstenho
de dar meu juizo sobre alguma coisa, quan-
299
do nao a coneebo com suficiente clareza e
distingdo, é evidente que estou fazendo 6ti-
mo uso do juizo e nao estou sendo engana-
dos mas, se me determino a nega-la ou afir-
mé-la, entao nao estou mais me servindo
como devo do meu livre-arbitrio; € se afir-
mo aquilo que nao é verdadeiro, é evidente
que estou me enganando; |... porque a luz
natural nos ensina que o conhecimento do
intelecto deve preceder sempre a determ
nagio da vontade. E precisamente nesse mau
uso do livre-arbitrio é que se encontra a pri-
vaco que constitui a forma do erro”.
‘Com essa imensa confianca no homem
em suas faculdades cognoscitivas, e depois,
de indicar as causas e implicagées do erro,
Descartes pode agora tratar do conhe
mento do mundo € de si enquanto existe
no mundo. O método esta justificado, a cla-
reza e a distincao fundamentadas, ¢ a uni-
dade do saber reconduzida 4 sua fonte, a
razao humana, sustentada e iluminada
pela garantia da suma veracidade do seu
Criador. ESI
VI. © mundo é uma maquina
= Deus é garante do fato de que a faculdade imaginativa e a sensivel atestam
a existéncia objetiva do mundo corpéreo, e entre todas as coisas que do mundo
externo chegam a consciéncia é possivel conceber como clara e distinta apenas a
extensdo. No ha, portanto, mais que uma mesma matéria em
Ouniverso todo o universo, e nds a conhecemos apenas porque ela é exten-
éuma grande sem comprimento, largura e profundidade. Este é um ponto de
“maquina”, imensa importancia revolucionéria, j4 proposto em pauta
cujoselementos Galileu, que Descartes retoma porque dele depende a possibi
essenciais dade de aviar um discurso cientifico rigoroso e novo. O universo
sdomatéra —_& uma grande “maquina”, cujos elementos essenciais so maté-
emovimento ria e movimento. Também 0 corpo humano e os organismos ani-
mais s80 maquinas e, portanto, funcionam em base a principios
mecanicos que regulam seus movimentos e relacbes; isso que cha-
mamos “vida” é redutivel a uma entidade material, isto é, a elementos sutilissimos
que, veiculados pelo sangue, se difundem por todo o corpo e presidem as princi-
Pais funsdes do organismo.
dade externa para a consciéncia, que nao
artifice delas, mas s6 depositaria..
‘Antes de mais nada, a existéncia do
mundo corpéreo € possivel por causa do fato
de que ele é objeto das demonstragoes geo-
métricas, que se baseiam na idéia de exten-
sao. Ademais, ha em nés uma faculdade dis-
ge A idéia de extensdo
@ sua importancia essencial
Descartes chega 3 existéncia do mun-
do corpéreo aprofundando as idéias adven-
ticias, isto €, as idéias que vao de uma reali-300 Tercera parte - Bacon e Descartes
tinta do intelecto ¢ nao redutivel a ele, isto
& a capacidade de imaginar e sentir. Com
eleito, o intelecto € “uma coisa pensante ou
uma substéncia, cuja esséncia ou natureza
toda é apenas a de pensar”, essencialmente
ativa. J4 a faculdade de imaginar € essen-
cialmente representativa de entidades mate-
riais ou corpéreas, razdo pela qual “estou
inclinado a considerar que ¢ intimamente
ligada ou dependente do corpo”. Desse
modo, o intelecto pode considerar 0 mun-
do corpéreo valendo-se da imaginacao e das
faculdades sensOrias, que se revelam passi-
vvas ou receptivas de estimulos e sensagées.
‘Ora, se esse poder de ligagéo com 0
mundo material, operado pela faculdade de
imaginagao e pelas faculdades sensorias,
fosse enganoso, dever-se-ia concluir entao
que Deus, que me criou assim, nao é veraz.
Mas isso é falso, como jé dissemos. Desse
‘modo, se as faculdades imaginativas e sen-
siveis atestam a existéncia do mundo corpé-
reo, nao hd razao para po-lo em discussao.
Isso, porém, nao deve me induzir
admitir temerariamente todas as coisas que
6 sentidos parecem me ensinar”. Como
também nao deve me induzira “revogar pela
diivida todas elas em geral”.
Mas como operat tal seleco? Isso pode
ser feito aplicando 0 método das idéias cla-
ras e distintas, isto é, s6 admitindo como
reais aquelas propriedades que consigo con-
ceber de modo distino,
Pois bem, dentre todas as coisas que me
chegam do mundo externo através das fa-
culdades sensiveis, s6 consigo conceber como
clara e distinta a extensao, que, conseqiiente-
mente, podemos considerar ‘como consti-
tutiva ou essencial. “Com efeito, toda outra
coisa que se pode atribuir a0 corpo pressupde
a extensio, sendo apenas algum modo da
propria coisa extensa, como também todas
as coisas que encontramos na mente so
somente modos diversos de pensar”.
pd Apenas a extensdo
é propriedade essencial
Assim, aplicando as regras da clareza
€ da distingi0, Descartes chega & conclusio
de que s6 se pode atribuir como essencial
ao mundo material a propriedade da exten-
sio, porque s6 ela é concebivel de modo cla-
ro € completamente distinto das outras. O
mundo espiritual € res cogitans, 0 mundo
material € res extensa.
Descartes considera “secundérias” to-
das as outras propriedades, como a cor, 0
sabor, 0 peso ou 0 som, porque nio ¢ possi-
vel ter delas uma idéia clara e distinta. Atri-
bui-las ao mundo material como componen-
tes constitutivas significaria abandonar as
regras do método.
A tendéncia a considerd-las objetivas €
muito mais fruto de experiéncias infantis,
nao avaliadas criticamente, porque nao nos
demos conta de que se trata mais de uma
série de respostas do sistema nervoso aos
estimulos do mundo fisico.
Esse é um ponto de imenso alcance re~
volucionatio, j4 enfocado por Galileu e que
Descartes retoma porque sabe que dele de-
pende a possibilidade de encaminhar um
discurso cientifico rigoroso e novo. A ajuda
dos sentidos pode significar fonte de esti-
mulos, mas nao é a sede da ciéncia. Esta
pertence a0 mundo das idéias claras ¢ dis-
tintas,
Chegando a esse ponto, reduzida a
matéria 4 extensio, Descartes encontra-se
diante de uma realidade global dividida em
duas vertentes claramente distintas ¢ irre-
dutiveis uma 4 outra: a res cogitans no que
se refere ao mundo espiritual ea res extensa
rno que concerne a0 mundo material. Nao
existem realidades intermediarias.
‘A forga dessa colocagio € devastado-
ra, sobretudo em relacao as concepgdes
rehascentistas de matriz animista, segundo
as quais tudo era permeado de espirito
vida, e com as quais eram explicadas as co-
nexdes entre os fendmenos e sua natureza
mais recOndita, Nao ha graus intermedia-
rios entre a res cogitans € a res extensa. A
exemplo do mundo fisico em geral, tanto 0
corpo humano como o reino animal deve.
encontrar explicagio suficiente no mundo
da mecanica, fora e contra qualquer doutri-
na magico-ocultista.
phe A materia (extensiio)
© 0 movimento
como principios
constitutives do mundo
A doutrina que atribui um cardter pu:
ramente subjetivo ao reino das qualidades é
© primeiro resultado dessa nova filosofia. ECapitulo décimo quinto - Descartes: “o funcador da fllosofia. moderna”
sua importancia reside na capacidade de el
minar todos os obstéculos que haviam im-
pedido a afirmagao da nova ciéncia,
‘Mas quais so entao os elementos es-
senciais para se explicar 0 mundo fisico?
O universo cartesiano é constituido por
poucos elementos e principios: matéria (en-
tendida no sentido geométrico de extensio)
e movimento,
‘A matéria como pura extensio, priva-
da de qualquer profundidade, leva 3 rejei-
G0 do vacuo. O mundo é como um ovo
pleno. © vacuo dos atomistas é inconcebivel
com a continuidade da matéria extensa.
Como explicar entao a multiplicidade dos
fendmenos e seu carter dinamico? Atra-
vés do movimento ou daquela “quantida-
de de movimento” que Deus injetou no
mundo quando o criou e que permanece
constante, porque nao cresce nem diminui.
ida O= principios fundamentais
que regem o universo
Quais as leis fundamentais?
Antes de mais nada, o prineipio de con-
servagao, segundo o qual a quantidade de mo-
vvimento permanece constante, contra qual-
quer possivel degradagio de energia ou
entropia. O segundo €0 principio de inércia.
‘Tendo excluido todas as qualidades da
matéria, s6 pode haver alguma mudanga de
direcao mediante a impulsao de outros cor-
pos. O corpo nao se detém nem diminui seu
proprio movimento, a menos que 0 ceda a
outro, Em si, uma vez iniciado, 0 movimen-
to tende a prosseguir na mesma dire
Portanto, 0 principio de conservacao ¢,
consegiientemente, o principio de inércia so
principios basilares que regem o universo.
‘A eles deve-se acrescentar outro prin-
cipio, segundo 0 qual toda coisa tende a
mover-se em linha reta. O movimento ori-
gindrio € 0 movimento retilineo, do qual os
‘outros derivam. Essa extrema simplificagio
da natureza esta em fungio de uma razio
que, através de modelos teéricos, quer co-
nhecer e dominar o mundo.
Trata-se de uma tentativa relevante de
unificar a realidade, & primeira vista milti-
pla e variavel, através de uma espécie de
modelo mecinicofailmente dominavl pelo
301
‘Mais do que na variabilidade dos fe-
némenos, Descartes estava interessado em
sua unificacao, mediante modelos mecni-
cos de inspiragio geométrica.
Reducao
eae ae los os organismos
e do mundo inteiro
a maquinas
‘Trata-se de um processo de unificacao
a0 qual nao se subtraem sequer aquelas te-
alidades tradicionalmente reservadas a ou-
tras ciéncias, como a vida e os organismos
“Tanto 0 corpo como os organismos ani-
mais so maquinas e, portanto, funcionam
‘com base em principios mecdnicos que regu
lam seus movimentos e suas relagoes. Em con-
traste com a teoria aristotélica das almas, ex-
clui-se todo principio vital (vegetativo €
sens6rio) do mundo vegetal e animal. Tam-
bbém nesse caso o que importa é a mudanga
do quadro sistematico, porque dai em dian-
te também o corpo e qualquer outro orga-
nismo serio objeto de andlise cientifica no
quadro dos principios do mecanicismo.
Os animais e © corpo humano nada
mais sao do que miquinas, “autématos”,
como os define Descartes, ou “maquinas
semoventes” mais ou menos complicadas,
semelhantes a “reldgios, compostos simples-
mente de rodas e molas, que podem contar
as horas e medir o tempo”.
E as numerosissimas operagdes dos
animais? Aquilo que chamamos de “vida”
é redutivel a uma espécie de entidade mate-
rial, isto é, a elementos sutilissimos © pu-
rissimos, que, levados do coracao ao cére-
bro por meio do sangue, se difundem por
todo 0 corpo e presidem as principais fui
es do organismo. Dai a exaltacio da teo-
ria da circulagio do sangue proposta por
Harvey, seu contemporineo, que publicow
seu famoso ensaio sobre 0 Movimento do
coragao em 1627.
Descartes, portanto, nega aos organis-
mos qualquer principio vital auténomo, tan-
to vegetativo como sensdrio, convencido de
que, se eles possufssem alma, a teriam reve-
lado pela palavra, que “é 0 tinico sinal ea
tinica prova segura do pensamento oculto e
encerrado no corpo”302 Terceira parte - Bacon « Descartes
VIL. Alma (“wes cogitans”)
e corpo (“res extensa”)
‘No homem
as duas
‘ubstancias,
‘alma e corpo,
cestdo juntas
S51
* Entre o mundo espiritual, a res cogitans, e o mundo mate-
rial, a res extensa, ndo ha grandes intermedi
duas vertentes claramente
Ora, no homem, diferentemente de todos os seres, as duas subs-
‘tancias estéo juntas. Com efeito, a alma é pensamento, nao vida,
e sua separacéo do corpo no provoca a morte; a alma tem pro-
ios: trata-se de
jistintas e irredutiveis uma 4 outra.
priamente sede em uma pequena glandula, chamada pineal, si-
tuada no centro do.cérebro, onde se retnem ramificados todos os tecidos das
artérias que veiculam o sangue para o cérebro.
dla O contato
enive “res cogitans”
e “ves exiensa”
ocorre no homem
Ao contritio de todos os outros se-
res, no homem encontram-se juntas duas
substancias claramente distintas entre si: a
res cogitans € a res extensa. Ele & uma es-
pécie de ponto de encontro entre dois mun-
dos ou, em termos tradicionais, entre alma
e corpo. A heterogeneidade da res cogitans
em relagao A res extensa significa antes de
mais nada que a alma nao deve ser conce-
bida em relagdo com a vida, como se hou-
vesse varios tipos de vida, da vegetativa a
sensitiva e dai & racional. A alma € pensa~
mento € nao vida. E sua separagao do cor-
Po nao provoca a morte, que € determina-
da por causas fisiolégicas. A alma é uma
realidade inextensa, a0 passo que 0 corpo
Eextenso. Trata-se de duas realidades que
nada témem comum.
E, no entanto, a experiéncia nos ates-
ta uma interferéncia constante entre essas
duas vertentes, como 0 comprova o fato
de que nossos atos voluntérios movem 0
corpo e as sensagies, provenientes do mun-
do externo, se refletem sobre a alma, mo-
dificando-a. Escreve Descartes: “Nao bas-
ta que ela [a alma] seja inserida no corpo
como um piloto [Link] navio, senao, tal-
vez, para mover seus membros, mas é ne-
cessério que ela seja conjugada e unida mais
estreitamente com cle, para, ademais, ex-
perimentar sentimentos e apetites seme-
Ihantes aos nossos, compondo assim um
verdadeiro homem.” Mas, por qual razo
ede que modo a alma move o corpo € age
sobre ele?
Foi para enfrentar essas dificuldades
que Descartes escreveu 0 Tratado do ho-
‘mem, no qual tenta uma explicagio dos
processos fisicos e organicos, em uma es-
pécie de ousada antesipagio da fisiologa
He imagina que Deus tena formado
uuma estatua de terra semelhante a nosso cor
po, com os mesmos drpiios e as mesmas fun-
Ges. E uma espécie de modelo ou de hi
pétese, com que tenta a explicagio de nossa
realidade biologica, com especial atenca0
para a circulagio do sangue, para a res-
piragdo e para 0 movimento dos espiritos
animais,
Sem abandonar a hipétese, ele explica
© calor do sangue por uma espécie de Fogo
sem luz que, penetrando nas cavidades do
coragio, contribui para conserv4-lo inflado
e elastico. Do coragao, sangue passa para
os pulmées, onde a respiracio, introduzit
do oar, o refresca. Os vapores do sangue da
cavidade direita do coragao alcangam os
pulmées através da veia arterial, e caem len-
tamente na cavidade esquerda, provocando
© movimento do coragao, do qual depen-
dem todos os outros movimentos do or-
ganismo. Afluindo ao cérebro, 0 sangue
‘nao apenas nutre a substancia cerebral, mas
também produz, “certo vento, muito sutil,
ou antes uma chama muito viva e muito
pura, a0 que se dé o nome de ‘espiritos ani-Capitulo décimo quinto
mais’, As artérias que veiculam 0 sangue
no cérebro ramificam-se em imimeros teci-
dos, que se reiinem depois em torno de p
quena glindula, chamada pineal, situada no
centro do cérebro, que constitui a sede da
alma,
Com tal objetivo, escreve Descartes,
preciso saber que, por mais que a alma este-
ja conjugada com todo o corpo, entretanto
hd no corpo algumas partes em que ela exer-
ce suas fungdes de modo mais especifico que
em todas as outras. [...] A parte do corpo
fem que a alma exerce imediatamente suas
fung6es nio é em absoluto 0 coragio e nem
mesmo todo 0 cérebro, mas somente a parte
interna dee, que €certa gland muito pe-
quer, situada em meio a sua substancia e
suspensa sobre o conduto pelo qual os esp
ritos das cavidades anteriores se comunicam
com 0s espiritos das cavidades posteriores,
cde modo que os seus mais leves movimentos
podem mudar muito o curso dos espiritos,
420 passo que, inversamente, as minimas mu:
dangas no curso dos espiritos podem levar
a grandes mudangas nos movimentos dessa
plandula”.
tema do dualismo cartesiano ¢ do
possivel contato entre a res cogitans €
res extensa foi aprofundado ainda mais
VIII. A:
Descarte
303
9 fundadar dla filosofia moderna"
no tratado Les passions de 'éme, mas
com preocupagdes e contornos claramente
Nele Descartes oferece um quadro
bastante complexo e subtil de andlise das
agdes, movidas pela vontade, e dasalteragdes,
que sio percepgdes, sentimentos ou emo:
Ges provocadas pelo corpo e captadas pela
alma.
0 objetivo moral desse estudo & 0
de demonstrar que a alma pode vencer
as emocées ou, pelo menos, frear as sol
citagdes sensiveis que a distraem da ar
vidade intelectual, projetando-a para as
amarras das paixdes. Para tanto, dois sen-
timentos s4o importantes, a tristeza e a
alegria: a primeira esta em condigdes de
mostrar as coisas das quais devemos es-
capars a segunda, a cosas que devernos
cultivar.
© guia do homem, porém, nao sao
as emogdes ou os sentimentos em geral,
‘mas sim a razao, a tinica que pode avaliar
, portanto, induzir a acolher ou rejeitar
certas emogoes.
‘A sabedoria consiste precisamente
na adogao do pensamento claro e distin-
to como norma, tanto do pensar como do
viver.
regras
da moral proviséria
« Para favorecer 0 dominio da razao sobre a tirania das paixées, no Discurso
sobre 0 método Descartes propde como “moral proviséria” quatro normas que
depois se revelaram vélidas e, para ele, defini
as:
1) obedecer as leis, aos costumes e a religiéo do préprio pais, acolhendo as
opinides comuns mais moderadas;
2) perseverar nas agdes com a maior firmeza e resolugao possivel;
3) vencer de preferéncia a si mesmos do que 0 destino, e
Aética
‘artesiana
ea submissao
da vontade
a razio,
a seguir
S515
mundo;
mudar preferentemente os préprios desejos do que a ordem do
44) cultivar a razdo o conhecimento da verdade.
Do conjunto torna-se evidente a direcdo da ética cartesiana,
isto €, a submissao lenta e fatigante da vontade a razdo, como
forga-guia de todo o homem: a liberdade da vontade se realiza
apenas pela submissao & légica da ordem que o intelecto é cha-
r fora e dentro de si304 Terceira parte - Bacon ¢ Descartes
whe A primeira regra
Foi exatamente para favorecer 0 do-
da razao sobre a tirania das paixoes
que, desde o Discurso sobre o método, Des-
cartes enunciou e propés como “moral pro-
Vis6ria” algumas normas que depois, tanto
no intercimbio epistolar como no Tratado
sobre as paixdes, revelaram-se para ele va-
lidas e definitivas,
‘Trata-se de normas simples, que opor
tuno recordar sempre: “A primeira [regra]
era a de obedecer as leis e aos costumes do
meu pais, observando constantemente a re-
ligido em que Deus me deu a graca de ser
instruido desde a infancia, e norteando-me
‘em todas as outras coisas segundo as opi-
niges mais moderadas e mais distantes de
todo excesso, que fossem comumente acolhi-
das e praticadas pelas mais sensatas dentre
as pessoas com quem me coubesse viver.”
Distinguindo entre a contemplacaoea
busca da verdade, por um lado, e as exigén-
cias cotidianas da vida, por outro, Descar-
tes, para a verdade, exige a evidéncia ea
distingao, que, se aleangadas, nos dao 0
juizo; jd para as segundas considera sufi-
ciente 0 bom senso, expresso pelos costu-
mes do povo junto ao qual se vive. No pri-
meiro caso, € necesséria a evidéncia da
verdade; no segundo, € suficiente a proba-
bilidade.
O respeito as leis do pais € ditado pela
necessidade de trangiilidade, sem a qual nao
€ possivel a busca da verdade.
adie A segunda regra
“A segunda maxima era a de perseve-
rar o mais firme e resolutamente possivel em
‘minhas agdes, nao deixando de seguir com
‘menos constancia as opinides mais duvido-
sas, quando alguma ver a elas me determi
nasse, como se elas fossem as mais seguras”.
“Trata-se de norma muito pragmatica, que
conclama a romper as protelagdes e superar a
incerteza ea indecisio, porque a vida nao pode
esperar, sendo premente, mas sem esquecer que
permanece a obrigacio de examinar a veraci-
dade e a bondade dessas opinides, jé que a
veracidade ea bondade permanecem como os
ideais que regulam a vida humana.
Descartes é inimigo da falta de decisao.
Para superar isso, ele propde 0 remédio “de
hhabituar-se a formular juizos eertos e derer-
minados sobre as coisas que se apresentam,
convencendo-se de que se cumpriu.o proprio
dever quando se fez aquilo que se julgava 0
melhor, ainda que seja julgado muito mal”
A vontade se retifica refinando o intelecto
fa regra,
we * tere
Nesse contexto, ele propde a “terceira
maxima”, que € a de “esforgar-me sempre
para vencer muito mais a mim mesmo do
que ao destino e para mudar muito mais
meus desejos do que a ordem do mundo. E,
em geral, acostumar-me a crer que nao ha
nada que esteja inteiramente em nosso po-
der, exceto nossos pensamentos”
(O tema de Descartes, portanto, &a re-
forma de si mesmo, reforma que é possivel
fazer, refinando a razzo mediante o habi-
tuar-se as regras da clareza e da distingao,
hy, A quarta regra
Nés retificamos a vontade reforman-
do a vida do pensamento. E ¢ com esse ob-
jetivo que ele destaca na quarta méxima que
sua fungao mais importante foi a de “de
car toda a minha vida a cultivar minha ra-
220 e progredir o mais possivel no conheci-
mento do verdadeiro, seguindo 0 método
que me havia prescrito”.
fato de ser esse o sentido das prim
ras trés maximas, bastante conformistas, é
indicado com exatidio pelo proprio Desear-
tes, que acrescenta: “As trés maximas ante-
riores fundamentavam-se precisamente no
‘meu propésito de continuar a me instruir.”
Bay A razdo e 0 verdadeiro
como fundamento da moral
© conjunto tora evidente a orienta
gfe da ética cartesiana, isto é,a lenta e tra-
bathosa submissao da vontade & razao,Capitulo décimo quinto - Descartes
como forga-guia de todo homem, Identi-
ficando a virtude com a razio nessa pers-
pectiva, Descartes se propoe a “seguir tudo
aquilo que a razao me aconselhar, sem que
as paixdes € os apetites me afastem di
‘Com tal objetivo, o estudo das paixdes
¢ do seu entrelagamento na alma visa a tor-
nar mais facil a consecugao do primado da
razao sobre a vontade e sobre as paixdes.
A liberdade da vontade s6 se realiza
pela submissio a légica da ordem que o in-
telecto € chamado a descobrit, dentro e fora
desi
Em Descartes predomina o amor do
verdadeiro, cuja logica, uma vez alcancada,
305
2 fancador da fleseficr m
se impde com a forca da razio. Apenas sob
© peso da verdade é que o homem pode se
considerar livre, no sentido de que obedece
a si mesmo e nao a forcas exteriores.
Se 0 “eu” define-se como res cogitans,
seguir a verdade significa seguir no fundo a
si mesmo, na maxima unidade interior € no
pleno respeito 4 realidade objetiva, O pi
mado da razao deve impor-se tanto no cam-
po do pensamento como no da acao.
A virtude, & qual, em diltima andlise, a
“moral proviséria” conduz, identifica-se
com a vontade do hem e esta com a vonta~
de de pensar o verdadeiro que, enquanto tal,
também é bem.
Vista de Paris sr Pons Neo
nn 160,
reprints: ina pian
de escola francesa
ronsertkt ein Paris
hha Musere Carnal.306
Terceira parte - Bacon « Descartes
© METODO PARA A DESCOBERTA DA VERDADE, }
‘Acolher como verdadico apenas aquilo que é tal
{de modo evidente para a razio
1. Buidéncia
mag | Ren ets em em
| REGRAS FUNDAMENTAIS } 4: Sa —
‘ #5 Snag) Rent doe con mp wal ce
| ce até os objetos mais complexos
4. Comte) Enya eo ems ads ee
4 P :
No exame dos prineipios do saber tradicional
(_ REGRA APLICATIVA preciso rejeitar como falso tado aquilo de que se possa duvidar,
1 para chegar a algo absoluramente indubitavel
I “a
1 — —
; ~~ *COGITO, ERGO SUM” ~~
= (existencia da ala): \
do proprio fato de duvidar (= pensar},
segue-se do modo mais evidente e certo
‘que eu sow, isto é, existo -
( PRINCIPIO PRIMEIRO-
DA NOVA FILOSOFIA
i sd
’
( Faculdades da alma
“Cognoscitivas: © = Eletiva:
sensibilidade | vontade )
imaginagio, «|= (oullivre-arbierio)
intelecto (ou razio)_/ — «
jnatas
increntes desde sempre na alma
sadventicias | facticias
| (indas do exterior) |_| inventadas pela alma)
“ Deus
4 - (Ser perfeto, Substincia infntae eternal
- <_/aindia inata de substéneia infnia pode ter sido posta na alma
(FUNDAMENTO OLTIMO ) =! (que é substancia finita)
Nees a apenas por uma substincia verdadeiramente infnita /
‘A certeza ea verdade de toda eiéncia dependem
apenas do conbecimento do verdadeiro DeusCapitulo décimo quinto - Descartes: “o fundader da flosofia medema"
Descartes
As regras metédicas
ODiscurs0 sobre 0 método, pubicaco
em 1637, 6 0 obra com que se inouguro
estaxdo do filosofia moderna,
Trato-se de breve exposicco, de porte
cutobiagréfico. dos fundomentos metodo
16gIc0s da crigino! metofisca cortesiano.
1. Ainsuficiéncia da légica € da matemética
‘Quoneo ev era mais jover,' havia estu-
dodo um poxxo, entre.05 partes de ilosofio, @
l6gIco, @ entre os matemdticas, © andlise dos
getmetras @ 0 dlgebra, tés artes ou cigncios
‘que pareciam dever contribwir em algume cok
50 ora meu projeko. Contudo, exominando,
percebi que, quanto 6 f6gica, seus silogismos
@ 0 moior parte de suas outros instrugbes ser-
‘vem mais paro explicar 6 outros 05 CoIs0s Ove,
j6's60 sobides ou entdo, como a arte de Lio?
© folar, sem discemnimento, dos que se, igno
rom, e ndo pore aprendé-las. € embora ela
contenho, com efeito, muitos preceitos
verissimos e étimos, hd todavio tontos outros,
misturados com oqueles, que s60 nocivos Ou
supérfivos, cue & quase t6o dificl seporé-los
{quot extrair ume Dione ou ume Minervo para
fora de um bloco de mérmore que cinda née
foi esboodo. Depots, quento 4 andlise dos
‘ontigos @ 0 dlgebra dos modemnos. além do
foto que elos Se referem apenas 0 motérios
obstrotissimes, ¢ que porecem de nenhum uso,
© primeira esté sempre t6e ligada 6 conside-
rog60 dos figuras, que: ndo pode exercitor 0
intelecto sem consor muito a imaginogso: @ 0
individuo fica de tol forma submetido, no ulti-
mo, 0 certos regres © 0 certas cifras, que dele
se fez uma arte, confusa e obscura que emia
rOg0 0 mente, em vez de uma Ciencia que o
cultive,
2 As regras do novo método,
Este foio motivo pelo qual pensei que exo)
preciso buscor algum outro méiodo que, reu-
indo os vantagens doqueles és, estivesse
isento de seus defeitos. € como 0 excessivo
numero dos leis Fornace frequentemente des-
culpos pare os vicios, de modo que um Estado
muito melhor requlado quando, tendo pou-
quissimos, elas af sdo mui rigorosomente ob-
servadas; assim, em vez do gfonde némero de
preceitos de que l6gica é composto, acreditei
ter 0 suficiente deles com os quatro seguintes,
com a condigio que tomasse firme e constante,
resolugdo de néo descurar umo $6 vez de
bservé-los,
primeiro era no aceitor Jomais nodo
como verdadeito, que n6o conhecesse eviden.
temente ser tal; ov sejo, evitor ocurodamente 0
precipitozdo @ © prevenctio; ¢ ndo compreen.
der em meus juiz0s node mais olém do que se.
coresentosse téo clara e distintamente @ mi
‘oho mente, que eu Ado tivesse olguma possi
bilidade de. p6-Io em divido.
(O segundo, divigir cada uma das dificu
dodes que exominosse, em tantas portes
quantas fosse possivel, @ quantos fossem
pore melhor resolver 0s proprias oi
Fieuldades,
Oterceiro, conduzircom ordem meus pen:
somentos, comeando pelos abjetos mois sim-
ples @ mois fécels de conhecer, pora subir 20u:
0.0 pouco, como por graUS, O86 0 conhecimento
dos mois compostos: @ suponde tombém uma
corcem entre aqueles que ndo se precedem
naturalmente um co outro.
, em Ultimo lugor, fozer em tudo enume
rogdes t6o completas, ¢ resenhas tdo gercis,
‘que estivesse seguro de nada omit
3. Anova matemética, modelo do saber
As longos cadelos de roz6es. todos sim-
ples ¢ foceis, os quois os gedmetros costu-
mam se servir pare chegor 0 suos mois dificais,
demonsiragbes, deram-me ocasi de imagi
nor que todes os coisas, que podem coi Sob
© conhecimento dos homens, se sucedam en-
tte sino mesmo modo, ¢ que, embore openas
nos abstenhomos de acolher alguma delas
como verdodeita @ ndo 0 seja. ¢ que se ob-
serve sempre 0 ordem necessério poro dedu-
2i-las umas das outros. néo podem existir col
sos tdo distantes @5 quois ndo se posso
‘chagar, nem tio escondidos que nGo se pos
som descobrr,
Endo pensei muita para buscar de onde
precisova comesar: com efeito, eu j6 sabia que.
Ou S23, quanto estove no colegio de Lo Fecha
aimee Who (Remon Ul) (1959-1518) menge
[Link] de ume cece fs mage que “dest
omit provara vercode do eisvanimo para is ©
Comer’ 05"