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Formar professores em contextos sociais em mudanga Pratica reflexiva e participagao critica Philippe Perrenoud Faculdade de Psicologia e Ciencias da Educ Tradugdo de Denice Barbara Catani 0, Universidade de Genebre Trabatho aprecentado na XXII Rounléo Anual da ANPEd, Caxambu, setombro do 1900. As sociedades se transformam, fazem-se e des- fazem-se. As tecnologias mudam o trabalho, 2 co- municagSo, a vida cotidiana e mesmo o pensamen- to. As desigualdades se deslocam, agravam-see re- criam-se em novos territ6rios. Os atores est2o li- gados a miiltiplos campos sociais, a modernidade ndo permite a ninguém proteger-se das contradi- ‘Ges do mundo. ‘Quai as ligdes que dai podem ser tiradas para aa formagio de professcres? Certamente, convém re- forgar sua preparagdo para uma pratica reflexiva, para a inovagio ea cooperardo. Talvez importe, s0- bretudo, favorecer uma relagdo menos temerosa € individualista com a sociedade. Se os professores ndo chegam a ser 0s intelectuais, no sentido estrito do termo, so ao menos os mediadores e intémpre- tes atives das culturas, dos valores ¢ do saber em transformacdo. Se nfo se perceberem como depo- sitarios da tradigZo ou precursores do futuro, ndo saberdo desempenhar esse papel por si mesmos Pratica reflexiva e participagdo critica sero entendidas agui como orientagies prioritarias da formagdo de professores. Mas, antes de desenvol- evita Ersilnre de Eduoasio ‘ver essa dupla tese, questionemos, de inicio, a pro- pria idéia de que as transformagbes da sociedade clamam automaticamente por evolugdes na escola ena formacdo de profissionais. ‘A escola pode ficar imével em contextos sociais em transformagi0? © bom senso leva a pensar que, se a socieda- ée muda, 2 escola s6 pode evolnir com ela, anteci- ‘par, até mesmo inspirar as transformagdes culturais. Isso significa esquecer que o sistema educativo be- neficiase de uma autonomia relativa (Bourdieu & Passeron, 1970), e que a forma escolar (Vincent. 1994) é em parte construida para proteger mestres e alunos do furor do mundo. Sem divida, os professores, os alunos € seus ‘pais fazem parte do mundo do trabalho e, eviden- ‘temente, da sociedade civil. Assim, por meio detes, retomando a formula de Suzanne Mollo (1970), a sociedade esta dentro da escola tanto quanto o in- verso. No entanto, aescola nao poderiacumprir sua isso se mudasse de finalidades a cada mudanca de governo e tremesse sobre suas bases cada vez que a sociedade fosse tomada por uma crise ou por con- fltos graves. E importante que a escola seja, em parte, um ofsis ¢ que ela continue a funcionar nas circunstancias mais movimentadas, mesmo em caso de guetra ov de grande crise econémica. Ela perma- nece, sendo um “santudrio”, pelo menos um lugar cujo estatuto “protegido” é reconhecido. Quando a violéncia urbana ou a repressio policial chegam as escolas, 05 espiritos ficam chocados. A escola nfo tem vecagéo para ser o instru- ‘mento de uma facedo, e nem mesmo de partidos no poder. Ela pertence atodos. Até mesmoos regimes totalitérios tentam preservar essa aparéncia de neu- tralidade e paz. Compete ao sistema educativo ex- contrar um justo equilibrio entre uma abertura des- truidora dos conflitos e sobressaltos da sociedade eum fechamento mortifero, que 0 isolaria do res- tante da vida coletiva Um outro fator intervém: a despeito das no- vas tecnologias, da modemizagio dos cumricuios, da renovardo das ideias pedagogicas, 0 trabalho dos professores evolui lentamente porque depends pou- codo progresso técnico, porque a relacdo educativa obedece a uma trama bastante estavel e porque suzs CondigSes de trabalho e sua cultura profissional ins- talam os professores em rotinas. E por isso que a exolugdo dos problemas e dos contextos sociais nfo se traduz ipso facto por uma evolugdo das praticas pedagdgicas. ‘Um viajante que voltasse a vida depois de um século de hibernagdo veria a cidade, a industria, os transportes, a alimentacdo, a agricultura, as comu- nicagbes de massa, os costumes, a medicina eas ati- vidades domésticas consideravelmente mudadas, Entrando numa escola, ao acaso, encontraria uma sala de aula, um quadro-negro e um professor di- rigindo-se a um grupo de alunos. Sem duvida, 0 professor nio estaria mais de “sobrecasaca"” ou de avental. Osalunos ndo estariam mais de uniformes ou de tamancos. O professor teria descido de sua cétedra e o visitante acharia os alunos impertinen- tes demais. Uma vez comecada a aula, talvez ele percebesse alguns tragos de uma pedagogia mais Prilippe Perenoud interativa e construtivista, de uma relagdo mais ca- Jorosa ou igualitaria do que na sua época. Mas, a seus olhios, nfo haveria nenhuma divida de que encontrava-se em uma escola Talvez houvesse um computador na sala, co- nectado a uma rede. Maso visitante observaria que ele € usado para propor exercicios na tela e prepa- rar conferéncias “surfando” em paginas da Web. O tridngulo diditico estaria no lugar, imutivel ¢ os saberes eruditos, muito pouco modernizados, ali conde teriam passado a matzmética dos conjuatos ou anova aramatica A esola existe nas sociedades agrarias como nas megalépoles, sob 0s regimes totalitarios, como nna democracia, nos bairros elegantes enasfavelas ¢ apesar dos equipamentos desiguais. dos professores ‘mais ou menos formados, dos alunos mais ov me- ‘nos cooperativos, as semelhancas saltam aos olhos. Por que seria preciso formar os professores de outro modo se o seu trabalho é imutavel ou qua- se? Muda-se o oficio de padre no ritmo que muda a sociedade? A matematica, a lingua, as outras dis- ciplinas, as notas, as ligbes de casa, as punigBes s0- brevivem a todos os regimes e atravessam todas as crises. Nao basta continuar a formar professores ‘que sabem um pouco mais do que os seus alunos e mostram um pouco demétodo para transmitir seu saber? Sem excluir toda transformagdo curricular ‘ou tecnoidgica, por que diabos se mudariade para- diigma? Esse que prevalece permite escolarizar as massas cem pagar muito caro pelos professores. ‘Nao é assim mesmo? (Que muitos jovens saizm da escola pouco ins- truidos, as vezes iletrados, a quem iss0 incomoda concretamente, entre os privilegiadias? A ignoran- cia dos outros é como a fome no mundo: cada um deplora esses flagelos e continua a dedicar-se as suas ocupagdes. A “miséria do mundo” Bourdieu, 1993) no impede a Terra de girar e s6 faz softer verdadeiramente aqueles que s40 suas vitimas di- retas. Alguns dos nossos contemporaneos ainda pensam, sem ousar mais dizer em voz alta: se to- ddos fossem instruidos, quem varreria as ruas? Ou- trosndo véem porque dispensar a todos formardes SelOwiNovidex 1900 Ne 12 Formar prefessores em contecos socials em mudange de alto nivel quando os empregos disponiveis no o exigem, ‘Minha argumentasio no é cinica. Ela visa somente a demonstrar que a vontade de mudar a escola para adapti-la a contextos sociais em trans- formacao, ov melhor, democratizar 0 acesso a0 sa- ber, no € bem partithado ¢ que essa vontade fre- qientemente fragile se limita a discursos que ndo passam 4 ago. ‘Hoje, é de bom-tom preocupar-se com a eficd- cia, a eficitncia © a qualidade da educagdo escolar. ‘Nio nos enganemos: o objetivo é conservar 0 ad- quirido, gastando menos, uma vez que os Estados ndo tém mais os meios de desenvolver a educagdo como nos tempos de crescimento. Fazer melhorcom menos: tal é a divisa dos governos ha alguns anos. Quem faz atsoluta questdo de que o sistema educativo mantenta todas as suas promessas? Quan- do a sociedade se preocupa verdadeiramente em elevar o nivel cultural das geragdes, em geral, épara responder a demanda de educardo dos pais das clas- ses medias. Lma vez que obtenliam o que querem, isto é, © acesso acs percursos escolares que permi- tem as suas criancas enfrentar 0s estudos superio- res, a escola thes parece cumprir a sua missdo. A democratizagio dos estudos atingiu, hoje, um limiar que, em aumerosos paises, coloca as classes médias 20 lado dos faworecidos. Os desfavorecidos so me- nosnumerosos, mas ainda mais desfavorecidos do que antes, Sua expressio politica tem uma influen- cia limitada, no comente porque stioimigrados sem direitos politicos, mas mais alobalmente porque sua pobrezae seuescasso nivel de instrugio no thes da muitas oportunidades de se fazer ourir enem mes- mo de compreender os mecanismos que fabricam © fracasso escolar de suas criangas. O cimulo da alienaco, sabe-se bem, é sentir se o tinico respon- sdvel por sua situacdo infeliz, de vé-la como conse- ‘aiiéncia “Iégica™ e portanto “justa”* de sua prépria incapacidade de vencer. Praticamente ndo existem forgassociais impor- ‘antes para exigir uma escola mais eficaz Parado- xalmente, so certos governos e alguns meios eco- n6micos hicidos que medem os riscosde uma escola evita Ersilnre de Eduoasio inerte e parciaimente ineficaz. Eles podem contar com 0 apoio ativo de certas organizagSes interna- cionais, de movimentos pedagégicos, da pesquisa em educagio e das “forcas de esquerda” ‘Nao é verdade que o contexto de transforma- fo em que se encontra a escola produza mudan- gas automiticas. Esta transforma;do deve ser lida edecodificada para incitara escola’ mudanca. Ora, 0s professores e 05 pais que se apegam ao status uo no tem nenhuum interesse em fazer essa leitu- 2, Por outras razdes, todos os que acham que a escola custa caro demais ¢ que 0s impostos sio mui- to pesados colocam-se no campo dos conservado- res. As forgas que querem adaptar a escola a evo- lugo da sociedade entdo so pouco numerosas ¢ constituem uma alianca instavel. Em outras pala- ‘was, 2 idéia de que a escola deva formar o maior smimero de pessoas levando em conta aevolugo da sociedade nfo é combatida abertamente, mas elas6 éum principio motor para aqueles que atomam ver- adeiramente asério e fazem disso uma pricridade, Seria, entdo, absurdo sustentar que porque a sociedade muda, a escola v4 mobilizar toda sua in- ‘teligéacia ¢ segui-la, isto é, antecipar essas mudan- (as. Sem divida, as evolugdes demograticas, econé. micas, politicas e culturais transformam os publi- cos escolares e as condigies de escolarizagao e aca- bam por obrigar a escola a mudar. Ela se adapta, entio, mas o mais tarde possivel, de modo defensi- vo. Na auséncia da adesto massiva das pessoas da escola a. uma politica de educapdo visionaria e au- caciosa, a mudanga social adquire, antes de tudo, aparéncias de uma imposigdo a ser ignorada pelo maior tempo possivel (Os numerosos atores e grupos sociais que no ‘mantém nenhuma ambigo nova com relagio a es- cola ¢, além disso, ndo tém mais a impressio de que ela fracasse em suas missOes tradicionais, no ‘tém nenhuma raz4o de querer que se forme me- thor, que se considere mais e que se pague melhor os professores. Realmente, mesmo aqueles que esto conven- cidos de que a escola deve se adaptar & “vida mo- erna’” e “tornar-se mais eficaz” ndo esto prontos

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