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− Suponho que se fosse o caso de ser verdadeiramente lúcida sobre toda
a situação, provavelmente sería o caso de dizer que aquela fora a
escolha mais genial que fiz por acidente, mas digo “provavelmente”,
pois ainda não detenho absoluta certeza se, em verdade, aconteceu.
Pelo que sei, posso ter, graciosamente, delirado. – pausei para receber a
xícara de café que a moça me oferecia. – Obrigada. – agradeci.
Bebi um gole do café.
− Onde eu estava? – perdera a linha de raciocínio.
− Você dizia que tinha suas dúvidas no que diz respeito à veracidade dos
fatos. – ela disse.
− Sim, certo. Bom, ainda que eu tenha minhas reservas a cerca do
ocorrido, fato é que me deixei esticar pela ideia da possibilidade, e a
senhorita curiosidade, esperta e fugidia, não perdeu a oportunidade de
me dobrar. E foi assim que fui.
[...]
− Camaradas, começo a achar essa uma ideia mal pensada. – disse um
dos garotos cujo suor já lhe escorria o pescoço e a testa.
− De fato que essa ideia virou um plano bem rápido. – confirmou outro.
− Por deus, um rato vive em menor pavor do que vocês. – retrucou um
terceiro que andava a frente do bando. – Seja como for, o plano já não
é mais um plano, e agora já estamos aqui, então parem de especular.
Preferi não falar enquanto caminhava, talvez porque costumo me distrair de
bobeira com o ambiente ao redor, e logo que não me interesso, me interesso
de novo, e decolo rumo à mais próxima galáxia distante cujas cores refletidas
em sua poeira estelar me apareçam mais cheias de vida. Mesmo assim, não
me pareceu demorar muito para que o planeta terra me convidasse a
aterrisar. Já nos aproximávamos da entrada principal do campus. Arrodeamos
o grande muro decorado com suas altas grades de metal até chegarmos em
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um segmento coberto por árvores e arbustos. A entrada dos arruaceiros,
pensei. Não passava de uma abertura fina e estreita na base do muro. Por um
instante não achei que sequer conseguiria atravessar por ali, mas então o
primeiro deles se aventurou: deitou-se ao chão e, raspando as costas na terra,
com a cabeça de lado, rastejou para dentro. Chegada a minha vez, imitei o
movimento, o que em boa parte funcionou, contudo ergui-me cedo demais,
e acabei com uma fina cicatriz no lado direito da testa, mas não importei a
dor. Eu estava dentro.
Seguimos rumo ao prédio principal, andando à passos surdos.
Esgueirávamo-nos pelos cantos do muro onde a luz dos postes não alcançava
de todo. Apenas metade dos nossos rostos ficava à vista, e, ao olhar para os
outros, tive a impressão de que não éramos assim tão humanos. Ou melhor,
tive a impressão de que havíamos regredido para versões mais primitivas de
nós mesmos; obras incompletas de um criador que apreciava a visão de seres
metade corpo, metade sombra. Alguns minutos depois, chegamos na lateral
do edifício; alguém, então, tirou a chave de uma das janelas do bolso, abriu-
a, e, um à um, eles se ajudaram a subir. Quando chegou a hora, um deles me
estendeu a mão para que eu pudesse escalar a parede, no entanto, por
alguma razão que não soube identificar com precisão, eu apenas fiquei ali,
atônita, encarando a noite, perdida em minha própria inconsciência. Acho
que, por um instante, tive dúvida. E tão cedo quanto tive dúvida, senti um
certo medo. E foi tão estranho e adverso que, até mesmo agora, tanto tempo
depois, ainda é difícil descrever. Foi estranho como escolher nascer. Não de
novo; pela primeira vez. Era o simples medo de ir. Entretanto, de todas as
coisas que podem fascinar os homens, a imensurabilidade de tudo aquilo que
eu não reconhecia oferecia, com absoluta suspeita, o melhor dos convites.
Segurei sua mão.
O salão comum do edificio estava exatamente igual como na manhã
do anterior. Nunca adentrara aquele lugar durante a madrugada. A luz do
luar que entrava pela clarabóia no teto criava a ilusão de que a sala era
ainda mais ampla do que a lembrança que tinha da mesma. Achei aquilo
curioso. As coisas costumam ser maiores na nossa imaginação do que são na
realidade, e não o contrário. O salão possui corredores para quase todas as
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outras salas localizadas dentro do bloco, com exceção dos laboratórios que
ficam na área exterma, por razões óbvias. Perâmbulamos pelos corredores
escuros, com esperança de encontrar os caminhos que já conhecíamos, mas
nada aparentava ser remotamente familiar. Ao invés disso, nunca senti com
tanta intensidade que estava presa em um labirinto. Não se ouvia uma única
palavra. Nenhum de meus colegas ousou, sequer, sussurar, ou respirar mais
alto do que a leve brisa de ar gélido que entrava pelas frestas nas janelas.
Tenho a sensação de que caminhamos por horas a fio. Tudo que sei é que
não paramos. Após um certo tempo, comecei a prestar atenção nos quadros
das paredes, e foi quando notei uma coisa. Um detalhe estranho. Não
importava o quanto andávamos: o quadro na parede à minha esquerda era
sempre o desenho de uma bicicleta pela metade, e, abaixo dele, era sempre
a mesma porta com a mesma placa que citava uma das leis de Newton. A 3°
lei, para ser exata: “Toda ação tem uma igual e oposta reação”. Comecei a
pensar.
− Parem de andar. – quebrei o silêncio.
Todos pararam de uma só vez. Eles apenas ficaram ali, imóveis. Por um
instante, quase pensei que estivessem paralisados. Talvez fosse o choque de
finalmente ouvir minha voz.
− Não se virem para me olhar. – alertei-os. – Apenas comecem a andar de
costas, e tenham cuidado para não tropeçar.
Não sei ao certo o porquê, mas eu sabia que aquilo funcionaria. Pensei: se
indo em frente não íamos, então, quem sabe, voltando chegaríamos à algum
lugar. A medida que dávamos passos para trás, novas portas começaram a
se mostrar nas paredes ao nosso redor. Continuamos andando até que, enfim,
chegamos ao nosso destino: a sala de um dos professores da faculdade, o Dr.
Fontaine. Ele era um dos professores mais antigos de toda a faculdade, e
passou toda sua carreira pesquisando a existência de um “Outro Mundo”,
como ele o chamava. Defendia a hipótese de que era possível estabelecer
algum tipo de ponte entre a nossa dimensão e este outro plano. Por vezes
tentou convencer os diretores do instituto a autorizar a formação de um grupo
de pesquisa para testar sua teoria, porém a proposta nunca fora aprovada.
Sua proposição era etérea demais. Dito isso, algo sempre me fascinou nessa
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história toda. Apesar de ter sido negado inúmeras vezes, a ausência de
dúvida que demonstrava, a certeza em seu olhos quando alguém o
questionava, a paixão que transparecia; talvez fosse o caso de que esse
“Outro Mundo” existisse simplesmente porque ele acreditava que existia.
Naquela época, não tive o destemor necessário para crêr sem convicção.
A porta estava aberta. Suponho que o professor Fontaine não temia
que outros fossem tentar entrar em sua sala. O cômodo era
surpreendentemente pequeno, e tivemos que nos espremer para que todos
coubéssemos ali dentro. Haviam pouquíssimos móveis: uma mesa, algumas
cadeiras, um armário e uma estátua que ficava no canto da sala. Haviam
também algumas prateleiras de madeira presas a parede, com livros e mais
livros. Não tenho tanta certeza de quanto tempo precisou passar para que os
outros notassem o quão próximos estávamos uns dos outros, porém, logo que
a informação se fez conhecida, ficaram vermelhos como cerejas maduras e
encharcaram-se de uma vergonha boba e, diga-se de passagem, agradável
aos olhos de quem apenas observava desemplicado.
− Me soa engraçado que não esteja assustada. – disse um dos garotos.
De início não achei que ele falava comigo, e apenas não disse nada em
resposta, mas logo fui sentindo que ele me olhava, e isso me inquietou, tanto
que comecei a imaginar que ele pensava que eu era mal-educada e grossa
e esnobe. Então, olhei para ele e, de imediato, não percebi esse detalhe, mas
tão logo olhei com mais atenção, vi que era o mesmo moço que me havia
estendido a mão antes.
− Por que achas que não me assusto? – perguntei, em um espasmo de
agonia.
− Bom, talvez não seja assustava que você não esteja, mas certamente
que esse lugar não te aflige.
− Poucas são as coisas que afligem. – respondi. – Engraçada é apenas a
situção na qual me meti.
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− Arrepende-se de ter vindo? – perguntou, olhando-me fixamente. –
Conosco, digo. – acrescentou.
− Ainda não me decidi.
− A nossa presença é assim tão excrúpu… – interrompi-o.
− Ainda não me decidi se vim, ou não, sozinha. – afirmei, sincera, olhando-
lhe nos olhos para que não restasse dúvida de que falava a verdade, e
de que realmente me sentia daquela forma.
Fiquei surpresa com o que se sucedeu. Ele, singelamente, retribuiu com um
sorriso de canto. Não de maneira sagaz. Não, era uma outra coisa que ele me
oferecia. Não soube bem ao certo, mas talvez tenha sido amizade. De
qualquer maneira, logo fomos interrompidos. Um dentre os demais chamou
nós todos para perto. Parecia que ele tinha encontrado algum tipo de
caderno de anotações do professor na gaveta de sua mesa. Na capa do livro
havia uma única coisa escrita: Outro Mundo.
− Um tanto descritivo, eu diria. – comentou o mesmo garoto.
As informações dentro do caderno aparentavam estar completamente
dispersas e sem organização. Em uma página haviam diversos símbolos
estranhos sem descrição; já na página seguinte, relatos de mitos e fábulas,
descrevendo criaturas incorpóreas que pareciam ter saído direto de uma
história de fantasia macabra. Encontramos, também, alguns papéis dobrados
entre as páginas. Logo notamos que estes poderiam, facilmente, ter centenas
de anos, e pareciam descrever algum tipo de prática ritualística sobrenatural.
Nada daquilo parecia fazer muito sentido para a nossa análise destreinada.
Já quase terminávamos de folhear o caderno quando notei algo que
capturou minha atenção. Tomei-o em minhas mãos e olhei mais de perto. Era
nada mais do que um simples desenho em forma de círculo, como muitos dos
outros que encontramos, mas, diferentemente de todos os outros, nesta
página havia uma pequena nota de rodapé, quase imperceptível. No canto
inferior direito da página: “Clavis Nigrae Magicae”. Não é preciso um
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especialista em línguas arcaicas para saber que aquilo era Latim. Senti que a
nossa busca começava a ficar interessante. De uma coisa eu tinha certeza:
quase todo documento em latim data da época da antiga roma, e não é
segredo para ninguém que aquela época – a Idade das Trevas – foi
responsável por parir a maioria esmagadora das superstições ainda vivas.
− Tenta encontrar um dicionário de Latim, chances são de que o professor
deve guardar um. – sussurrei para o garoto que estava a conversar
comigo mais cedo.
Ele se dirigiu às prateleiras de livros na parede e começou a procurar, livro por
livro. Algum tempo depois, ele retornou com o dicionário em mãos.
− Segura isso enquanto eu traduzo. – disse, segurando o dicionário e
entregando o caderno em suas mãos.
Pesquisei cada uma daquelas palavras. Não demorou muito para que as
encontrasse. Clavis significa “A chave”; Nigrae quer dizer preto ou negro;
Magicae, magia. A chave para a magia negra. Em outras palavras, a chave
para o Outro Lado. Teria como ser mais óbvio do que isso?, indaguei-me.
Fiquei pensando por algum tempo. Parte de mim tinha um péssimo
pressentimento sobre isso tudo. Parte de mim achava que era uma simples
armadilha. Parte de mim temia que fosse real. Parte de mim sabia que eu só
saberia se arriscasse. Já era tarde demais para voltar.
Retornamos ao salão comum. Lembro-me de ter notado a quietude
daquele lugar, mas não só isso. Lembro com vivacidade, como se tivesse
ocorrido minutos há pouco. O terror que senti, não especificamente devido a
falta de sonoridade. Aquele sentimento se dava graças à ausência de tudo
ali. A luz não havia se movido um único milímetro em qualquer direção, o que
sugeria que a própria lua não havia se movido. Como é possível que a lua
tenha parado no céu? É disso que estou falando. Tudo que havia era o claro.
Apenas luz, mas a luz nunca fora tão cheia como naquela hora. Cheia de
que? Não sei. Possivelmente, de si mesma. Talvez fosse o caso de que ela se se
pertencesse, e, pertencendo a si mesma, também era parte pertencida do
tudo. A infinidade dentro da infinidade ela mesma. E, assim, diante dessa
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constatação, hesitei. Eu andava a frente, desta vez, e, quando parei por
impulso, os outros contornaram o meu corpo e adentraram o salão, deixando-
me sozinha no corredor, perplexa, presa naquela reflexão.
− Eu me chamo Louis. Talvez você já saiba disso, mas tive a impressão mais
cedo de que talvez não soubesse. - disse ele, encostando-se na parede
ante a mim, enquanto olhavamos os outros que haviam ido na frente.
Assustei-me brevemente com sua presença.
− Eu não sabia. – respondi, quase contente por ter alguém por perto. – Por
que é que não fostes de uma vez?
− Não acho que compreendi…
− Na frente, com eles. Por que decidiu parar aqui, no corredor?
− Eu parei porque você par…
− Mentira. – cortei-o.
− Eu não estou mentindo! – disse, quase incrédulo.
− Você decidiu pela resposta óbvia.
O silêncio reinou por alguns instantes. Sentia-me feliz, em parte, pois aquela
conversa desviara minha mente de sua fútil obcessão. Por outro lado, eu
continuava atormentada, no entanto a razão por trás de tal tormento me
escapava. Quiçá fosse o caso de ter sido apenas o vento.
− Creio que se fosse o caso de ser verdadeiramente honesto sobre o
motivo pelo qual não avancei, hipoteticamente, seria o caso de dizer
que a visão que tive ao te ver parar, espontâneamente, defrontou-me. E
diria até que levei um pequeno susto. Mas foi de maneira simples. Diria
que, a princípio, foi exatemente por esta razão – a simplicidade com a
qual o susto me atingiu – que não pude deixar de ficar aqui por um
tempo. – disse, saindo de seu estado pensativo.
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Escutei tudo. Escutei lentamente. Dentro do que chamo a minha psique, fiquei
projetando no universo este pensamento de que eu não queria que ele
parasse de falar, preenchida pela esperança de que, talvez, se o desejo fosse
verdadeiro, atender-lo-íam as forças que governam a realidade. Não queria
jamais deixar de ouvir. E não era sem custo, não. Escutava com temerosidade,
porque tive medo da ideia de tudo que poderia se suceder assim que aquele
minuto se diluisse. Eu soube, uma vez mais naquela noite. Só não soube se
queria continuar escutando porque amava o que ouvia, ou se porque amava
a graça que era ouvir algo besta em meio a tanta tensão, mas soube. As
trevas não me levariam tão ainda. Vi no escuro. Pode parecer estranho, mas
quando cheguei ao ponto de enxergar as luzes e não as reconhecer,
começei a procurar por algo que se destacasse dentro das sombras, mesmo
que não fosse luz. Desvelavasse, bem ali na minha frente, um fato sem tempo.
Um fato eterno, místico. Olhei para ele com um mesmo sorriso de canto. Foi
supernovo para mim. Retribuia-lhe como amiga, e, ao fazê-lo, senti que
havíamos trocado algo espantoso, indescritível. Tão sublime que me forçou a
compreender, apesar da minha falta de concepção. A luz não tem início na
noite. E a noite tem início no dia, que tem início na própria luz. Abri caminho
na escuridão.
Juntamo-nos aos outros no centro do salão. Depositamos uma folha de
papel sob a mesa de centro e reproduzimos o desenho que vimos no livro.
− O que fazemos agora? – um deles sussurou.
− Talvez nós deveríamos todos repetir aquelas palavras em uníssono? –
sugeriu outro.
− Tenho quase certeza absoluta de que aquelas palavras eram apenas
uma descrição, e não um encantamento que deve ser entoado para
que algo aconteça. – corrigi-os.
− O que te faz pensar isso? – questionou Louis.
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− Bom, se fosse apenas isso, não acho que o conselho teria sido tão rígido
com o Dr. Fontaine. Talvez tenha algo nas anotações do professor que
possa explicar como ativar essa coisa. – propus, quase eufórica.
Peguei o caderno em minhas mãos e comecei a procurar por algo similar à
alguma lista de regras a serem seguidas, ou talvez um manual, no entanto a
única coisa meramente relacionada era um pedaço de informação ambígua
e, diga-se de passagem, tenebrosa. Li em voz alta.
− “As notícias de cultos reportados em boletins de ocorrência sugerem que
era utilizado sangue durante os preparativos. Em casos em que foram
registradas fatalidades, os corpos das vítimas possuíam cortes sob veias
ou arterias que pareciam ter sido feitos com navalhas ou facas afiadas.”.
− Isso é insanidade! – disse Louis em desaprovação, imediatamente após
eu terminar de ler.
− Pensei que vocês queriam tentar descobrir se era verdade mesmo, ou
não. Além do mais, no caderno apenas diz eles usaram sangue, não
necessariamente muito. Vocês tem tanto medo assim de um corte? –
retrucou um outro garoto.
Olhei para Louis. Ele estava visivelmente assustado, e eu também. Ainda assim,
o atraso da nossa expressão em manifestar qualquer sinal de repreensão
parecia manter viva uma certa fascinação. Talvez fosse o caso de que
estávamos ambos buscando, sobretudo no outro, por coragem. Coragem e
audácia. Sim, nós não conseguiríamos ir em frente com tamanha afronta sem
um mínimo de audácia. Invocar, recorrer ao sangue é, naturalmente, profano.
Acho que foi a inospitez daquilo tudo – do sentimento – que nos impediu de
voltar atrás.
− Nós topamos. – afirmei.
Os outros moveram a cabeça em concordância. Não pude deixar de notar
que alguns deles aparentavam certa mudez, supostamente ocasionada por
pavor. Louis tirou uma faca que trazia em seu bolso. “Por segurança.”, ele
disse. Um dos meninos vestia duas camisetas, e, então, retirou uma e nós a
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rasgamos para fazer bandagens. Fomos com calma. Louis e eu fomos os
primeiros e atravessamos a faca com velocidade pela palma de nossa mão.
”Sem medo.”, juramos, o sangue escorrendo pelos nossos antebraços. Um à
um, todos repetiram o movimento. Após fazer o corte, esperávamos que o
sangue jorrasse sob o desenho, e, após alguns segundos, estancávamos o
corte com um retalho da camiseta, amarrando-a no punho. Não sei porque,
porém imaginei que alguma coisa aconteceria de imediato. Não foi o caso.
Ficamos esperando pelo que pareceram ter sido minutos, até que já
começava a desacreditar da coisa toda, mas tão logo o medo começou a
se dissipar, a situação mudou. O sangue estava a se mover pelo desenho,
preenchendo todos os espaços vazios nele, até que este último estivesse
completamente vermelho e preto. Congelamos, em meio ao que tínhamos
acabado de presenciar. Após isso, a folha com o desenho se partiu ao meio,
e, em sequência, a atmosfera local, uma vez gélida e povoada de mistério,
transfigurou-se. O tudo que existia era, agora, feito de uma aura espectral que
preenchia todo o espaço, e todo o tempo, também. Quando tentei olhar ao
redor, percebi, triunfante e anunciado, o nascimento de um vermelho
alterado. O brilho lunar, que antes clareava e permitia que enxergássemos,
cessou. Foi como se a lua tivesse sido abduzida do céu, e, em seu lugar,
passara a habitar um novo corpo celeste, tingido com uma cor que só
poderia existir, organicamente, em resposta à um ato tão solene e irreversível
como o que praticamos. A clareira prateada resplandeceu carmesim.
Todos olhávamos distraídos, curiosamente apaziguados em nossos
corações, tanto que não notamos quando aquela figura se fez presente nas
sombras.
− Fidelis assecla, ego muscarum patronus, tuam laudo virtutem et
devotionem. – disse, apenas sua silhueta visível no canto da sala.
Nenhum de nós respondeu; continuamos com o olhar fixado em seu corpo.
Ele era surpreendentemente alto, ou talvez a nossa percepção estivesse
alterada em demasia. Observamos a sombra se movimentar, perplexos com
sua existência. No instante seguinte, ele já estava no centro do círculo que
formávamos, e foi quando pude olhar para ele de perto. A criatura, ou o quer
que fosse, não era minimamente humana, exceto por suas mãos. Todo seu
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corpo era coberto por uma espécie de pele indistinguível. Suas costelas eram
visíveis em seu torax, e haviam entranhas externas amarradas em partes
diversas de seu corpo, pulsando. Quando mirei seu rosto, ele olhou para mim
em resposta. Chifres, e uma cabeça que não passava de um crânio animal.
Apesar de não aparentar possuir olhos, eu pude sentir que ele me via, e não
acho que alguém, em toda minha vida, olhou-me com tanta visceralidade.
− Gemino metu et voluntate. Amare. – proferiu.
Sua voz era de uma natureza complexa: um tom grave, pesado, porém, ao
mesmo tempo, onipresente. Se não fosse o movimentar dos outros após ouvi-
lo, julgaria que o som ecoava diretamente na minha cabeça. Suas mãos
começaram a se mover, como se formassem símbolos em uma línguagem de
sinais, para nós, desconhecida. Quando terminou, nada pareceu acontecer
tão imediatamente, contudo, ao olhar para o meu lado, vislumbrei algo
inesquecível. Louis, seus olhos estavam completamente vermelhos, e um
líquido preto escorria, como se estivesse a chorar. Impulsivamente, levantei-
me, porém antes que eu pudesse ir ao seu encontro, a criatura se pôs entre
nós, e, então, eu vi o líquido começar a me envolver. Começou pelos meus
pés, e subiu por todo o meu corpo. Tentei me mover, na tentativa de me
desvenciliar, mas era inútil. Algo em mim pareceu se contentar com o destino.
Pouco antes de fechar os olhos, vislumbrei uma coisa que me intrigou. Apesar
de não ter ouvido som algum, enxerguei uma espécie de disparo que acertou
em cheio um dos chifres da criatura. Aquele foi o último resquício de
luminosidade que alcançou o meu olhar.
Permaneci imóvel, com os olhos bem fechados, até que, em um
instante qualquer, tive a impressão de que não havia mais nada a me
prender. Foi uma sensação estranha, como estar voando, ou como o nada.
Abri os olhos, com cautela, e logo me surpreendi. Eu não estava mais no
mesmo lugar de antes, porém, em comparação, aquela mesma substância
preta estava em todo lugar. Lembro-me de cogitar, por livre e espontânea
assossiação mental, que eu estava morta, porém eu não poderia estar morta,
nem mesmo em um universo alternativo. Por mais que, aqui, eu sentisse muito
mais a ausência do mundo e da vida do que sua presença, fato era que,
dentro de mim, ainda latejava. Talvez fosse dor, ou agonia, no entanto estas
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são emoções quentes demais para existir em um plano demasiado glacial.
Dei um passo a frente, e só então me foi revelado este detalhe: algo líquido
entre os meus pés e o chão. Quando olhei, apavorei-me. Nada menos que
sangue, rubro, ainda quente. Apesar do susto, isso era bom, pois confirmava a
teoria de que ainda possuía vida em mim. Não tenho tatal certeza do porque,
mas era como se issa ideia estivesse impressa na minha mente desde muito
antes dessa vida. A ideia da morte, digo. E é aqui que a coisa fica
ridiculamente absurda. Eu sabia que a morte só poderia me alcançar quando
ela mesma tivesse em si a força para me carregar, em seus braços, para fora
da vida. E eu ainda era pesada demais. Veja, é por isso que sempre temos
apenas o tempo necessário, e nunca mais do que isso. Apenas o tempo para
descobrir a nossa prontidão. Eu não me sentia pronta, e a visão do sangue
provava isso. Estar, novamente, conformada com as rachaduras no espelho,
com o escrúpulo, com o medo, significava continuar desconhecendo o amor,
o éter, pois é através deste que se é capaz de aceitar os remendos feitos ao
longo da jornada, e, então, transcender. Eu ainda não tinha dentro de mim a
essência para ir assim tão longe, e pular do prescipício, sem temor.
Não consigo nem ao menos especular a cerca de quanto tempo fiquei
congelada em mim mesma, pensando, encarando meu reflexo. Quando
retornei à minha consciência, comecei, imediatamente, a cuspir sangue,
ainda que eu não possuísse ferimento algum. Meu corpo, já sem forças,
carregava-me com muito esforço. Ele não suportaria muito mais. Lentamente,
ergui meu rosto, apesar do sofrimento e da dor que me acometiam, e
escaneei o ambiente ao meu redor. Para minha estupefação, avistei uma
figura longínqua, todavia eu não conseguia ver com nitidez – minhas pupilas
estavam dilatadas. Não era assim tão grande a distância que nos separava.
O corpo começou a andar na minha direção. Por horas e horas, esperei, mas
ele nunca parecia se aproximar. A ansiedade em mim era descomunal. Não
havia nada que eu queria mais do que alguém ao meu lado. No segundo
que me distraí tentando imaginar quem poderia ser aquela pessoa, a figura
parou de andar. Quando pisquei, lá estava ele, cara a cara comigo. É claro
que seria ele. Como eu pude não saber instantaneamente? O mesmo sorriso;
o mesmo cabelo castanho escuro; o mesmo corte em sua mão. Não pude
deixar de notar que ele carregava consigo um semblante melancólico.
Inclinei-me em sua direção, e ele pareceu se mover também. Então, – e diga-
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se de passagem, a dor que senti a seguir sempre me será familiar – quando eu
já estava completamente cercada por seus braços, com os meus próprios
prestes a toca-lo, senti uma lâmina perfurando meu peito. Olhei em seus olhos,
mas ele não esboçava reação. Estava indiferente, e limitava-se a observar o
sangue jorrar. Perdi sustentação. Minhas pernas falharam, mas ele garantiu
que eu não caísse. Cuidadosamente, e com uma leveza incomum, ele me
deitou no chão, meu cabelo disperso no sangue. Fiz um gesto, tentando
levantar meu braço, porém ele me impediu; colocou-se de joelhos e envolveu
minha mão na sua. Segurou-a por alguns segundos, guiou-a até o lugar no
meu peito onde ficava a perfuração, e, somente então, ele a soltou.
Novamente, ele me fazia entender. O sangue era meu. Todo ele. Eu estive
sangrando desde o início. “Já é tempo de ir.”, ouvi sua voz. Ele estava certo.
Não havia nenhum outro caminho, se não pelo sangue. Ele começou a se
aproximar, e eu fechei meus olhos. Tudo ficou preto.
Eu estava em lugar nenhum. E nunca. Eu era tudo ao mesmo tempo. E
nada. Eu sentia que tudo era alcançável, e, ainda assim, eu não tinha corpo,
não tinha coração. Eu nem sequer lembrava da minha própria aparência, por
alguma estranha razão. Eu podia falar com a minha mente. “Olá?”, disse para
o vazio. Não ouvi resposta. Eu procurei por sinais. Procurei por ele.
Completamente sozinha, como eu suspeitava. Eu esperei. Perambulei. Gritei, e
não foi pouco. Eu estava tão cansada. Finalmente, eu desisti, e dormi em
meio aquele espaço interminável. Acordei com o som da chuva. Pouco
depois, ouvi trovões. Virei-me para testemunhar o relâmpago, mas ele nunca
aconteceu. Em vez disso, havia um espelho. A tempestade o trouxera? Dúvido
muito. Aproximei-me desse, mas não havia nada. Apenas as rachaduras em
sua superfície sugeríam que algo mais já estivera ali. Andei em torno dele. Sua
parte de trás parecia feita de madeira. Quando retornei ao meu ponto
original em sua frente, notei que a tempestade havia silenciado. O espelho
estava diferente: suas rachaduras havíam desaparecido e havia algo sendo
refletido por ele. Se eu tivesse que adivinhar, diria que era uma visão do
espaço sideral. Pontos de luz que pareciam estrelas longínguas; formas
irregulares que presumi que fossem galáxias; escuridão, oca, no entanto
indecifrável. Foi então que uma imagem emergiu à superfície da minha
mente. Uma memória1 diferente. Lembrava uma das páginas do caderno do
Dr. Fontaine. Não entendia ao certo o motivo pelo qual eu estava lembrando
daquilo. Nem mesmo sabia se a memória era, de todo, minha. Honestamente,
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ainda tenho dúvidas. Dito isso, eu soube que sabia de alguma coisa. Algo
importante. Algo real. Todas aquelas coisas significavam algo. O espelho, a
tempestade, a página. “Erit Lux”, dizia o título do bilhete. Em seguida me
lembrei de outras coisas. Muitas lembranças diferentes, aparentemente
desconexas. O juramento que fiz com Louis, o salão principal, eu e os outros
andando no lado de fora. Senti minha mente ficar inundada e não consegui
processar tudo aquilo. Eu só desejava que parasse. Tentei clarear a minha
mente, mas de nada serviu. Sentía-me severamente exausta, e sem a menor
das intenções, tornei a olhar para o espelho. Suponho que eu apenas tentava
me distrair, mas o que obtive foi algo muito diferente. Ao observá-lo, vi minhas
memórias uma vez mais, contudo não da mesma forma. Agora, elas estavam
sendo exibidas no espelho, cada uma fixa em uma estrela, como uma
constelação de recordações. De repente, percebi o quão belo e especial
aquilo era, e o meu espírito, uma vez perturbado e inquieto, pacificara-se. Eu
podia sentir que estava muito perto de encontrar a resposta. Atenção!,
ecoava em minha cabeça. Estreitei meu olhar e me concentrei. Não tardou
para que eu a enxergasse ali, apenas esperando para ser vista. Uma estrela
amarelo radiante, e muitas outras rodopiando em sua órbita, como se todos
aqueles eventos pudessem ser resumidos em um único. Mergulhei na
memória. Éramos eu e Louis, conversando no corredor. O vento ligeiramente
agitado. Eu ainda aparentava estar espantada com a vista do lugar. Ele
falava, eu ouvia. Minha expressão mudara e eu sorri. Eu soube ir além. Após
isso, a memória se esvaiu, e eu fui arremessada para fora. Quando aterrisei,
me vi encarando o espelho novamente, aturdida e maravilhada. Assisti a
medida que os corpos celetiais colapsavam, e algo novo começava a se
formar. O contorno de uma mão, feita de puros resquícios de estrelas. Estendi-
me para segurá-la, através do espelho. Eu conhecia aquela mão. Eu já a
havia segurado antes. Afinal, eu entendi. Ele, que era tanto o sol. Lux, Luz.
Algumas coisas nunca começam. Algumas coisas meramente entram em
combustão.
Acordei e mal respirei. Quando olhei para o lado, avistei um homem
que eu não conhecia. Ele segurava uma arma e duelava com a criatura. Sua
fisionomia não aparentava ser inteiramente humana, mas certamente ele
estava mais para cá, do que para lá. Congelei por alguns instantes.
14
Light Roots
− Corra! Para fora, agora! – ele gritou para mim.
− Mas os outros… Eu preciso ajudá-los. – contestei.
− Não há nada que você possa fazer. Eles já estão mortos.
Olhei ao redor, na esperança de avistar algum deles ainda vivo. Seus corpos
estavam deitados no chão com o peito para baixo. Alguns tinham os olhos
completamente arregalados e vermelhos, como se tivessem sangrado até a
morte. Louis estava caído também. Ele não apresentava o mesmo sinal de
carnificina em seu rosto e em seus olhos, mas eu não conseguia ter certeza
absoluta se ele ainda vivia. Já quase desistia da esperança, quando algo
aconteceu. O corpo de Louis se contraiu. Pareceu ter sido um reflexo muscular,
talvez uma contração involuntária. Deveria eu correr para fora? Se eu voltasse,
poderia facilmente ser morta. Eu sabia que o fato dde eu continuar viva era
um milagre por si só. Em partes isso era graças a ele. Eu só não queria arriscar,
e assumir a chance, a possibilidade de abandonar ele ali, ainda com vida.
Num piscar de olhos, disparei em sua direção. Ao tocá-lo, ergui seu rosto.
− Louis! – eu gritava. – Vamos, acorde!
Ele não respondia, nem se movia. Coloquei ele deitado com o corpo virado
para cima e comecei a fazer compressões em seu peito, acima do coração.
Distraí-me com aquilo e não previ os movimentos. Quando desconfiei, já
estava sendo esganada. O agarrar da criatura era tão forçoso que pude
sentir suas unhas pontiagudas arranharem o meu pescoço. O homem
disparou contra o bicho, que fraquejou e eu pude me soltar.
− Eu não consigo lutar com ele e te proteger ao mesmo tempo! –
voiciferou para mim – Se vai permanecer aqui, é bom que esteja
preparada para morrer.
Ignorei-o. Eu já estava pronta, e já havía decidido, também. Enquanto ouvir a
voz dele nos meus sonhos e sorrir, terei que lutar; desistir não seria sincero.
Dane-se o que, porventura, custar-me-ía. Do contrário, o paraíso seria, sempre,
uma terra distante. Exclamei, ainda tentando:
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Light Roots
− É melhor que você viva. – minha garganta fechou.
Nenhuma reação.
− Você jurou e… – minha voz começou a falhar. – eu não quero ter medo!
Soltei um suspiro de dor e desmoronei em mim mesma. Eu me senti tão
impotente. Tão perdida. Tão machucada. Olhei para cima. A lua fulgurava
por trás do vidro no teto. O som da batalha, a poeira, a flama ainda acesa
dentro de mim. Fechei meus olhos, e eu acreditei. Só sei que acreditei.
Entrelacei meus dedos nos seus. Sussurei em seu ouvido.
− Minha ferida é a sua ferida. Por favor, não me deixe sozinha com a
cicatriz. – apertei sua mão contra a minha. – Eu sei que as nossas
chances são… microcópicas, mas nós já provamos o teorema.
Recostei minha testa na dele.
− Nós somos a evidência, Louis. Números impossíveis.
Permaneci em silêncio por um minuto ou dois. Nada. Então é isso. Ele se fora.
A confusão mental que eu vivi naquela hora desvirtuou todo o meu
sistema. Aceitar aquele fato provocava tamanho descontrole, que cheguei a
ser capaz de perceber a aceleração da minha pressão arterial e ouvir cada
batimento cardíaco, cada respiração. Sentia-me dispersa na vastidão do
espaço, envolta em uma espécie de surdez astronômica, povoada, única e
exclusivamente, por sons longínquos que se dissipavam antes mesmo que eu
os decodificasse. Não sei, eu nem havía me dado o trabalho de propor uma
hipótese para a possibilidade de ele estar, de fato, morto. No momento em
que voltei por ele, e arrisquei o tudo que ainda me restava, eu ignorei toda a
estatística, toda a matemática, toda a lógica. Eu me dopei de sonho a tal
ponto que perdi todo o senso de congruência. A minha esperteza? Absteu-se.
De todas as coisas que eu poderia ter me tornado, estúpida me abismava.
Naquele momento, não fui capaz de levantar, nem ao menos me mover.
Nada disso, eu continuei inerte, até que fui atingida por um objeto aleatório.
16
Light Roots
O impacto, inesperado, jogou-me ao chão, onde fiquei, apenas observando
o acontecer das coisas em câmera lenta. Logo, minha visão se esmaeceu,
meus sentidos ficaram dormentes e eu perdi de todo o foco. Enfim, uma nova
emoção me invadiu, e eu não estranhei sua candura, por mais súbita e
impresvista que esta fosse. Era um sentimento leve, tão leve que parecia me
fazer flutuar, como se uma força antinatural me mantivesse suspensa no ar.
Uma sensação tão profundamente anormal que eu fui forçada a cogitar;
talvez fosse o caso de eu que tinha embarcado na jornada rumo às terras
mais profundas. Eventualmente, comecei a me mover, e, somente então, eu
notei os sinais: meu corpo começava a recuperar sua energia. Aos poucos, eu
tornei a sentir. Quando reuni as forças para mover minha cabeça, olhei para
cima e te vi. Você me carregava e, quando percebeu o movimento, olhou de
volta. Pude ver o alívio na sua expressão e, em meio a tudo, registrei a tua
imagem. Fiz isso para que eu possa, no futuro, quando a dúvida me atingir,
convencer-me da sua existência e apaziguar-me. Apossei-me de toda a força
que pude reunir para colocar-me de pé. Você me segurou e foi comigo, até
que eu já pudesse ir sozinha, e eu me senti grata. E me senti um tanto fora de
ordem, como estar à margem da estrutura incompreensível e ilógica do
universo. Suspeito que você notou isso em mim, mas, se for este o caso, sei,
então, que você soube porque já sabia. Porque pulsava, dentro de ti, algo
igualmente inexplicável. Seguimos em direção ao lado de fora do campus.
Quando chegamos ao pátio externo, recostamo-nos na fonte que ficava ao
centro, exaustos e feridos. O dia já nascia. Recordo-me tão sigularmente da
paz que senti ao perceber a claridade da manhã avançar. Recordo-me,
também, dos nossos ombros, lado a lado, e de sua mão acariciando o meu
cabelo. De bobeira, e sem esforço algum, adormeci. Acho, até, que te vi sorrir,
só mesmo de relance, logo antes de abandonar minha consciência, e partir.
Despertei horas depois. Não sei ao certo quantas, mas lembro-me que
já era noite, uma vez mais. Não sabia que lugar era aquele. Não era minha
casa, nem muito menos a faculdade. Por puro instinto e pavor, clamei por ele.
Acho que gritei tão alto que assustei algum animal, pois ouvi o barulho de
alguma lixeira tombando do lado de fora da janela. Ouvi passos vindos de
algum outro cômodo. Meu corpo ainda fraquejava, e tive que fazer um
esforço tremendo para me levantar, mas fiz. Eu estava tomada de esperança
de que fosse ele. Não fora o caso.
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Light Roots
− Pensei que fosse o Louis. – exprimi ao dar de cara com aquele homem
desconhecido na entrada do quarto.
− Pensou, não. Esperou. São coisas ligeiramente distintas. – respondeu-me,
entrando e sentando em uma cadeira ao lado da cama
− Onde ele está? – perguntei, começando a ficar aflita.
− A última vez que o vi foi quando te encontrei desacordada na área
externa do campus, poucos antes de eu sair dali com você.
− Você não não foi atrás dele?! Ele poderia estar ferido. – exbravejei.
− Ele estava bem. Ele estava andando normalmente e parecia consciente.
Além do mais, o dia já começava a ficar claro e logo outras pessoas
chegaríam no local, ou seja, eu precisava tirar você dali o mais rápido
possível. – explicou. – Vale dizer que eu queimei os corpos dos outros.
Logo que ele disse isso, meu pensamento flutuou para um outro fato: a
impossibilidade sobrenatural de tudo o que aconteceu. Senti culpa
imediatamente.
− Ei, não se preocupe tanto. Ele disse que ficaria bem, apesar de tudo. –
disse, vendo-me perplexa.
− Como sabia que estávamos lá? – questionei-o, ansiosa pela resposta.
− O oceano vermelho. – ele fechou os olhos, como se uma memória ruim
tivesse adentrado sua mente. – E a espiral no céu. Eu os vejo quando
existe sangue e morte por perto.
− Por que eu sobrevivi e eles não? Você me salvou?
− Honestamente, tenho me feito a mesma pergunta desde então. – ele
parecia sério e, ao mesmo tempo, pasmo – Eu estava ocupado demais
lidando com a ameaç… – pausou abruptamente – ou, melhor, demônio
que vocês invocaram, então não, eu não te salvei. No máximo eu
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Light Roots
enfraqueci a criatura, mas outro coisa agiu sobre você para que
despertasse de sua influência.
− Eu apenas me lembro de acordar e de correr para salvar Louis. – tentei
rememorar mais coisas – E do sonho restam apenas flashes de luz e
tantas outras coisas ao mesmo tempo.
− Primeiro de tudo, aquilo não era um sonho. Em segundo lugar, eu preciso
que você tente descrever o que aconteceu.
− Bom, eu me lembro do sangue, e Louis estava lá, porém ele não
aparentava ser ele mesmo. – fiquei em silêncio por um tempo – Ah,
quase me esqueço da substância preta. Ela estava por todo lugar.
− Isso não nos dá nada para trabalhar. – disse, visivelmente frustrado.
Ele se levantou e começou a andar de um lado para o outro da sala, absorto
em seus pensamentos.
− Tem algo mais! – criei a coragem para lhe contar – Mas é muito confuso
e eu dúvid… – assustei-me.
Ele se virou para mim imediatamente, com um olhar penetrante, quase hostil.
Não me atrevi a dizer qualquer coisa.
− O que está esperando? – indagou-me.
− Eu só não sei por onde começar.
− Experimente acessar cada parte da lembrança separadamente. Do
contrário, nada vai fazer muito sentido e você vai se perder.
Fechei meus olhos, na esperança de que a memória se revelaria para mim.
− Havia uma tempestada. – comecei – O barulho dos trovões era alto.
Acho que tinha um espelho em algum lugar, também. Após isso, a
maioria das coisas são flashes. Uma visão do universo em si, o que é
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Light Roots
absurdo. Estrelas, mas nenhum céu. Então eu já estava em outra
memória, e, nesta memória, eu conversava com o Louis. Eu me lembro
destas palavras, e em parte eu acho que são aleatórias, mas, ao mesmo
tempo, não.
− Que palavras?
− Presumo que seja Latim. Lux. Erit Lux. Faz algum sentido?
− Agora que penso sobre isso, você pode ter feito algo, mesmo que não
soubesse, nem quisesse, propriamente falando, fazer. É possível que você
tenha relembrado. – teorizou.
− Como assim “Relembrado”? E o que era aquela coisa? O demônio,
digo. – as perguntas relampejavam em minha cabeça.
− Acredite em mim, você não quer saber, enquanto puder evitar. Dito isso,
não se engane: agora que você o viu, chances são que você o
encontrará de novo. Ele não costuma deixar seus “adoradores” vivos.
− Você não respondeu a minha primeira pergunta.
Ele olhou estressado para mim e deixou que o ar exalasse para fora de seus
pulmões.
− Essencialmente? O futuro.
Demonstrei minha confusão e, quando ia perguntar outra coisa, ele fez um
gesto com o dedo para que eu me calasse antes mesmo de começar.
− Acredite em mim garota, a resposta longa é incompreensível para você.
Por excelência, todos nós desconhecemos em abundância. Agora pare
de me exaustar com perguntas; preciso descobrir o que realmente
aconteceu. – disse, desviando sua atenção para os papéis que tirou de
dentro de uma pasta que trazia consigo.
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Light Roots
Ele parecia estar procurando por alguma informação específica. Fiquei
tentando decifrá-lo por alguns momentos, mas ele aparentava uma distância
constante. Os círculos escuros em volta de seus olhos eram vizíveis e
característicos. Em algum nível, ele vivia cansado. Cansado e resignado,
como alguém que já cometeu excrúcios demais. Ele ficava parado enquanto
examinava as folhas, então, subitamente, deslocou seu olhar para mim. De
olhos bem abertos, analisou-me, e, pela primeira vez, senti-me ferida de todo.
Acho que aquela fora a primeira vez que notei a sensação de que não tinha
mais volta. Já havia ido longe demais. Seu olhar flutuou de novo para a
página em sua mão.
− Light Roots. – sua voz, preenchendo o silêncio – Tem que ser isso!
− O que é?
− Digamos, apenas, que o sinal que você enviou chegou ao Outro Lado, –
ele pausou e começou a olhar pela janela, dando as costas para mim –
e o Outro Lado respondeu. Gentil da parte dele. Pelo menos você estará
“protegida”, se é que posso arriscar dizer isso.
− Protegida contra o quê? E, por favor, começe a falar sem enigmas.
− Ele vai voltar. Belzebu. Se eu tivesse que advinhar, diria que ele ainda
não sabe que você têm o que têm dentro de si. Essa será a sua cartada
final, o seu trunfo. Vamos apenas esperar que você saiba como jogá-la.
− Talvez se você me ensinar. – sugeri.
Ele se virou, recolheu seus papeis e os guardou na pasta. Tirou uma chave do
bolso da calça e o paletó que usava. Colocou ambos ao pé do abajur, na
donzela ao lado da cama.
− Aqui está a chave do quarto. Este é um hotel no centro da cidade. Use-
o, está chovendo lá fora. – caminhou em direção à porta – Ah, não se
preocupe, o quarto já está pago.
− Espere! Aonde vai?
21
Light Roots
− Ainda nos veremos de novo, em breve. Mais cedo do que eu gostaria.
Ele saiu e fechou a porta atrás de si. Corri para tentar encontrá-lo ainda no
corredor, mas ele já não estava mais lá. Voltei para a cama e me sentei em
sua lateral. Estiquei-me, peguei o paletó que ele deixara para trás e o vesti. Por
um breve momento, senti-me aconchegada e uma sensação calorosa tomou
conta de mim. Aproveitei-a enquanto durou. Eu sabia que, logo mais, seria
hora de ir embora. Após alguns minutos, levantei-me e, ao fazê-lo, ouvi um
pequeno som vindo do bolso frontal do paletó. Era um pedaço de papel, que
só então eu notara, dobrado em si próprio. Uma assinatura no verso. “T.S.”.
Desdobrei o papel. Dentro, um pequeno texto. “The first light began, without
having been properly createad, and which existed simply because it wanted
to be, even without ever having to. This duality, so characteristic of Energy,
manifests itself in the form of Light Roots that reach out for the one who
comprehends it.”. Então era disso que ele falava. Sabe, para uma pessoa que
responde perguntas muito mal, essa é uma pista relativamente boa, Sr. T.S.,
pensei em voz alta. Não pude deixar de pensar: o Outro Lado é, de certo
modo, belo.
Eu já estava na área externa do hotel esperando por um taxi quando a
recepcionista veio correndo até mim segurando algo embrulhado em uma
sacola plástica. “Me perdoe srta., quase me esqueci de te entregar isso. O Sr.
Sivero deixou para você. Ele disse que você saberia o que é.”. Peguei o
pacote em minhas mãos e fiquei encarando ele por alguns instantes, surpresa,
tentando imaginar o que poderia ser. Eu perguntei se ela sabia o primeiro
nome dele. Ela me pediu por um momento e voltou ao balcão para buscar
um grande livro, que começou a folhear imediatamente. “Hum… não acho
que ele chegou a informar quando deu entra… Ah, aqui está, Sr. Tadeo
Sivero.”. Eu agradeci e ela voltou para dentro. Algum tempo depois, um taxi
finalmente apareceu na esquina e eu fiz sinal com a mão para que ele me
visse. Não muito depois, eu descia do carro, frente ao prédio onde eu morava.
Meu apartamento ficava no segundo andar. Apenas notei o horário quando
entrei pela porta e me deparei com o relógio na parede. Já passava das onze
e meia da noite. Em partes eu queria ficar acordada a madrugada inteira
pesquisando coisas… quem ele era, o que era o Outro Lado propriamente
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Light Roots
falando e tantas outras coisas. Ainda assim, não é como se eu fosse conseguir
descobrir muito sozinha em casa. Dormir era uma decisão mais sensata. Decidi
que investigaria todas estas coisas no dia seguinte quando estivesse na
faculdade. Talvez eu encontrasse o Louis por lá. Isso seria legal.
Acordei por volta das seis e cinquenta da manhã, o que já me punha
em uma situação em que ou eu pulava o café da manhã, ou não chegava à
tempo para a minha primeira aula. Apanhei minha agenda para conferir os
horários de aula. “Quinta-feira, 7h30–9h30, Introduction to Exoplanetology.”
Nada tão imperdível e, além disso, eu já estava praticamente aprovada
naquele curso. Minha cabeça ainda estava um pouco dolorida, sabe-se deus
porque. Somente ao entrar no banheiro que notei as mudanças físicas que o
meu corpo sofreu. Algumas mechas do meu cabelo estavam completamente
descoloridas. E eu não quero dizer brancas, eu quero dizer descoloridas,
quase sem vida. O meu tom de pele também não parecia estar o mesmo, por
algum motivo. Estava mais pálido do que o normal. Dentre todas as
alterações, a mais estranha de todas foi a deformação nas minhas orelhas,
que se afinaram e adquiriram um aspecto pontiagudo. Eu fiquei pasma, de
certa forma, mas, paralelamente, aquilo era excitante. Era mais um traço do
Outro Lado que eu ganhara acesso, e me fascinava. Tomei um banho e, logo
em seguida, preparei meu café. Eu olhava pela janela, distraída,
completamente absorta em meus pensamentos, quando me lembrei: o
pacote. Eu não o abrira. Deixei a comida ainda quente na mesa e corri para
encontrá-lo, tanto que tonteei-me ao levantar rápido demais. Estava no meu
quarto. Tirei-o da prateleira onde o havia guardado na noite anterior e o abri.
Era o caderno de anotações do Dr. Fontaine. Coloquei-o na mochila, junto
com uma pêra, minha agenda, um estojo e o livro que eu estava lendo no
momento. Lembro-me de me perguntar se eu tinha mesmo trancado a porta
de casa quando saí. Para ser justa, eu não me importava de fato. Eu sabia o
que tinha que fazer.
Cheguei na faculdade pouco antes dàs 9h e minha próxima aula
começaria apenas às 10h a.m. Decidi ir para uma das salas de
computadores. Durante o meu caminho pelos corredores – que, por sinal,
estavam anormalmente agitados – um pensamento bem específico me veio a
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Light Roots
mente. Uma suspeita delirante. E se Louis tivesse deixado algum sinal para que
eu o encontrasse? Nós não fazíamos aulas juntos, então, de certa forma, faria
sentido. Instintivamente, desviei-me da rota inicial e me dirigi até o salão
comum. Ele aparentava estar novo, apesar do ocorrido, o que era estranho.
Será que houveram notícias sobre o acontecido?, indaguei-me. Explorei o
máximo que pude, mas logo conclui que não tinha nada ali. Além disso, o
salão era um lugar público demais para deixar um sinal. Era óbvio que eu
precisava procurar em um lugar mais sútil. Eu refiz o caminho que nós fizemos
naquela noite pelos corredores, mas não notei coisa alguma. Parei para
pensar. Haviam outros lugares nos quais eu poderia procurar: a entrada pela
qual atravessamos o muro; a janela que escalamos; até mesmo a sala do
professor era uma opção possível. De qualquer forma, eu não tinha muito mais
tempo e ainda queria fazer algumas pesquisas. Eu tentaria de novo no início
da tarde.
O resto da manhã foi simples e ordinário. Não encontrei nada
relevante na internet. A aula que tive em seguida parecia interminável.
Quando, enfim, chegou o meio dia, saí as pressas e fui até um restaurante que
ficava à algumas quadras de distância do campus para almoçar. Poucos
estudantes comiam lá, provavelmente por causa da distância e porque
significaria sair do campus, e é precisamente por este motivo que eu ía.
Bastava que eu não tivesse tanto azar para encontrar o lugar quase vazio e
sereno. Eu conheci os donos, Sr. e Sra. Dubois, durante o meu primeiro ano de
graduação, quando eu e o filho deles, Luc, nos tornamos amigos. Eles sempre
acenam para mim quando me encontram nas ruas e eu ganho um pequeno
desconto quando vou almoçar lá. Além do mais, eu amo a comida que eles
servem. Naquele dia, o ambiente estava calmo, como de costume, e não
haviam muitas pessoas. Sentei-me em uma das mesas e logo um dos garçons
veio anotar o meu pedido. Eu queria o de sempre. E um copo de água,
também. Luc costuma almoçar aqui e, normalmente, nós esperamos um ao
outro, porém eu precisava voltar rápido para a faculdade se eu quisesse ter
qualquer chance de entrar na sala do professor sem que ele estivesse lá.
Quando eu terminei de comer, paguei e segui meu caminho. Ao me
aproximar do portão principal, lembrei-me da abertura no muro e fui até lá
para averiguar. Não havia nada, nem mesmo nos arbustos. Próxima parada,
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Light Roots
janela. Ela ficava em uma sala de aula do 1° andar do prédio. Novamente,
nada. O último lugar que restava procurar era na sala do professor.
Bati na porta da sala antes de entrar. Nenhuma resposta. Ele ainda não
voltou do almoço, conclui. Chequei ambos os lados do corredor para me
certificar de que não havia ninguém me vendo, e, quando vi uma
oportunidade, entrei. Estava vazia, como eu suspeitara. Meu coração batia
desenfreado e eu podia sentir o suor gélido escorrendo pelas minhas
têmporas. Olhei ao redor, perguntando-me por onde começar, no entanto eu
não conseguia pensar em nada. Ele não poderia ter colocado nada na
gaveta onde encontramos o caderno de anotações, seria muito arriscado.
Mas onde, então? Talvez ele tivesse escondido algo na estátua. Analisei-a,
mas não encontrei nada. Olhei para a parede. O relógio já marcava 12h57. As
pessoas costumam retornar para suas atividas por volta das 13h. Comecei a
entrar em pânico e hiperventilar. Se o professor me encontrar aqui, direi que
precisava muito falar com ele e que era urgente, disse a mim mesma. Mas por
que eu não esperei do lado de fora? Eu sabia que não era uma justificativa
plausível. Parei por um segundo. Respire, Olivia, apenas respire. Respirei fundo.
Agora, se você tivesse que deixar uma mensagem para alguém em um lugar
que fosse seguro o suficiente para não ser encontrado com tanta facilidade,
mas facil o suficiente para ser encontrado por alguém específico, que lugar
você escolheria? Fiquei pensando por alguns instantes. Bom, logicamente, eu
escolheria um lugar que somente eu e a outra pessoa conhecemos. Um lugar
onde ninguém mais procuraria. Vasculhei a sala com os olhos mais uma vez,
até que eles pararam nas prateleiras de livros. O dicionário. Em um impulso,
corri até as prateleiras. Lá estava ele, deitado em cima de outros livros.
Guardei-o na mochila. Se ele deixou qualquer coisa, ele deixou aqui. Não há
outro lugar. Abri a porta da sala e saí, desaparecendo em meio a multidão de
pessoas que andavam aceleradas pelo corredor.
Parei de andar quando cheguei na entrada do campus. Encostei-me
no muro e retirei o dicionário da minha mochila. Eu me lembro de ficar
encarando ele, ao passo que uma mistura de ansiedade e pavor tomavam
conta de mim. Em algum momento, reuni a coragem necessário e o abri.
Nada escrito na folha de guarda. Cogitei a possibilidade de ele ter escrito
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Light Roots
algo nas páginas que usamos para traduzir aquela frase em Latim, mas
também não havia nada. Tentei no final do livro, porém a única coisa
presente ali era a ficha catalográfica. Talvez um pedaço de papel guardado
dentro das páginas? Segurei o livro no ar e o sacudi. Nada caiu. Chequei tudo
de novo. E de novo. E mais uma vez. Quando eu finalmente desisti, fechei o
livro, andei até a lixeira mais próxima e o joguei dentro. Fiquei parada, em pé,
pensando. Aquilo era loucura. Pura loucura. Eu tinha mesmo acreditado que
ele teria entrado na sala do professor escondido para me deixar uma
mensagem subliminar em um livro? Como poderia eu ter me convencido de
tamanha insanidade? A questão era, eu sabia como. E fazia todo o sentido.
Os últimos poucos dias do semestre passaram em um piscar de olhos.
Eu fui forçada a retornar para minha vida comum. O tempo passava e eu me
sentia cada vez mais tomada por uma sensação que eu só sei descrever
como indiferença ou tédio. A realidade não era mais tão rica quanto antes.
Não tinha vontade alguma de ir para a faculdade, e faltei à muitas das
minhas aulas. Alguns amigos até me ligaram e eu menti. Disse que estava
doente e que os médicos achavam que poderia ser um quadro inicial de
pneumonia. Alguns deles ficaram realmente preocupados. Luc até prometeu
que viria me ver antes de viajar para Paris – ele iria passar as férias de verão lá,
mas, quando chegou a hora, ele ligou para me avisar que não conseguiria vir.
Eu entendi. Ele provalvemente estava muito ocupado preparando tudo.
Mesmo assim, ele disse que esperava me encontrar algum dia para almoçar
quando voltasse. Eu disse que esperaria sua ligação. Não viajei durante as
férias. Honestamente, eu não fiz nada de interessante, e nem me lembro de
muito. Sei que passei boa parte dos meus dias vagueando pela cidade,
andando por ruas desconhecidas, totalmente desconexa ao presente. De vez
em quando, quando eu me sentia um pouco melhor, ia até alguma cafeteria
e passava a tarde inteira lendo algum livro. Logo, as férias terminaram. Luc
nunca me ligou, mas tudo bem. Um novo ano letivo estava começando, o
que era algo bom, na maior parte, porém tinha algo que eu ainda precisava
fazer. Um ou dois dias antes das aulas começarem, fui até o campus na
esperança de devolver o caderno de anotações do Dr. Fontaine. Os
professores costumam voltar para a universidade uma semana antes dos
alunos. Era estranho estar ali quando o lugar estava tão vazio. Acho que vi um
total de cinco pessoas nos corredores. Quando cheguei em frente a sala, bati
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Light Roots
na porta. Eu estava pronta para contar a verdade, se ele chegasse a
perguntar. Mas ninguém respondeu, então eu coloquei minha mão na
maçaneta e a girei. A porta estava destrancada, a sala vazia. Deveria eu
esperar que ele retornasse?, ponderei por alguns minutos. Talvez o melhor a se
fazer seria apenas aceitar o passe livre que a vida me deu. Pelo menos, assim,
eu não precisaria encará-lo. Tirei o caderno da minha mochila e o coloquei
sob a mesa. Bom, é isso, então.
Depois que saí, perambulei despretenciosamente pelos corredores por
algum tempo. Eu precisava distrair a minha mente daquilo tudo, então eu
apenas andei. De certa forma, a memória do passado me esmagava e a
ideia de seguir em frente por completo ainda me aterrorizava. Eu me lembro
claramente de não me sentir preparada, nem mesmo feliz com aquela
decisão. Se eu for ser honesta, foi a esperança de que, algum dia, eu não
mais sentiria tanto assim a falta dele que me deu a força necessária para
voltar ali em primeiro lugar. Seja como for, já estava feito, e o que restava,
agora, era viver. Viver e me lembrar. Quando me cansei de andar sem rumo,
parei, perdida, sem saber o que fazer em seguida, ou para onde ir. No final do
corredor, meus olhos avistaram, à esquerda, uma porta aberta. A luz dourada
do lado de fora invadia o corredor, criando uma quase pintura na parede. Fui
até lá. A porta para o pátio externo, pasmei. Fazia tanto tempo desde a
última vez que eu tinha ido ali. Caminhei para fora do corredor, em direção à
um dos bancos que ficava ao redor da fonte. Sentei-me e, por um longo
tempo, não fiz absolutamente nada. Não senti a necessidade de pensar
naquele momento; olhar ao redor já era o suficiente para que eu pudesse
capturar a magia presente no ar que soprava. Olhei para o céu. Havia sol,
apesar da cortina de nuvens e frio. Olhei para a fonte. A água fluía translúcida
em uma velocidade magnetizante. Luz e água. Redenção, se eu tiver
coragem. Tirei uma folha de papel e uma caneta da mochila e comecei a
escrever. Eu não sabia ao certo o que eu escrevia, mas algo me dizia que era
para ele, mesmo que ele jamais fosse ler. Quando terminei, assinei meu nome
no final, dobrei a folha e a encarei por alguns segundos. Então eu me levantei,
andei até a fonte e joguei o papel na água. Saí dalí. No meu caminho de
volta, cruzei com um homem que estava sentado no salão comum. Ele olhou
fixamente para mim por alguns segundos, mas eu não disse nada e apenas
continuei andando em frente. Estranho.
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Light Roots
Um novo semestre começou. Tudo estava normal e eu tentei ao
máximo me concentrar nas aulas, leituras, pesquisas. Deu certo, por um
tempo. Minha vida parecia ter voltado aos eixos, mesmo com toda a
melancolia que eu ainda sentia. Acho que me convenci de que a tristeza
nunca iria ir embora e, então, aprendi a viver com ela. Melhor, ignorá-la, o que
não deixava ela nada feliz, e ela retaliava. Em alguns dias, eu acordava com
uma angústia tão avassaladora que eu me forçava a revidar, e abrir a janela
imediatamente após levantar da cama. Eu sabia que ela não toleraria a luz
natural e me deixaria em paz por um tempo. Em um dia qualquer, quando eu
saía de uma das minhas aulas, avistei um garoto de costas, no final do
corredor principal, já quase fora do prédio. Sua silhueta me lembrava muito a
dele, mas seu cabelo era tingido de vermelho. Apressada, corri naquela
direção, o que foi, em grande parte, uma ideia mal pensada, porquanto o
corredor principal ficava lotado naquela hora da manhã. Quando eu
eventualmente saí do corredor, ele já descia a avenida. Eu tentei segui-lo,
porém ele andava rápido, e eu não conseguia ver, exatamente, por quais
caminhos ele ía. Minutos depois, perdi-o de vista, em meio ao mar de pessoas.
De repente, estava eu, no meio de uma avenida, procurando por alguém –
um garoto, cuja identidade me era tão substancial quanto a ideia que eu
guardava comigo dele mesmo. Mas, apesar de absurda, como toda e
qualquer contradição, esta revelava algo simples e ainda mais frígido sobre
mim. E era isso que me escandalizava. Eu poderia estar errada, ou até mesmo
ser uma ignorante dos fatos que permanecem, mas isso não passaria de uma
tragédia, e tragédias sempre carregam consigo o refinamento da virtude
humana, o que eu já não mais possuía. O desaire que foi não ter tido em mim
a serenidade para me resignar, e aceitar, mesmo após a ferida, após o
flagelo, era a confissão última que o destino esperava de mim. Minha
sentença seria grosseria de espírito, e desencanto. Voltei a passos lentos. Entrei
na sala de aula que eu já deveria ter entrado quinze minutos atrás. E o resto
do dia foi tão importante quanto aquela manhã.
No dia seguinte, bem cedo na manhã – me lembro, pois aconteceu
quando eu estava ouvindo música nos meus vinis, o que sempre fazia durante
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o café da manhã, alguém batia a minha porta, e eu não esperava ninguém.
Abri a porta. De imediato, não o reconheci, apesar da familiaridade presente.
− Oi, bom dia. Liv, certo? – ele disse.
Eu pensei por um segundo antes de responder. Poucas eram as pessoas que
me conheciam por “Liv” naquela época.
− Hum, sim, Olivia, você quer dizer.
− Bom, sim, eu suponho. Posso entrar?
− Depende. Eu te conheço?
− Absolutamente não.
− E você me conhece?
− Se você for quem eu estou pensando que é, então sim.
− Quem você pensa que eu sou?
− A pessoa que escreveu isso. – tirou do bolso uma folha de papel
dobrada e a estendeu na minha direção.
Peguei o papel em minhas mãos. Quando o abri, reconheci imediatamente
do que se tratava. E me lembrei, enfim, quem era aquele homem.
− Era você, aquele dia, sentado no salão, não era? Antes das aulas
começarem. Eu lembro que você me olhou com tanta… hostilidade.
− Peço desculpas por isso. Não quis te assustar.
Abri a porta para ele. Acompanhei-o até a minha pequena sala de estar.
Pensei que deveria oferecer-lhe algo para beber. “Você aceitaria um chá?
Ou café?”. “Chá, por favor.” Fui até a cozinha e preparei uma xícara para ele
e uma para mim. Quando voltei, ele estava de pé, olhando pela janela. Ele
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me ouviu chegar e se virou para receber o chá. Sentei-me no sofá, e ele
puxou uma cadeiras da mesa para si.
− Como foi que isso aconteceu? – ele perguntou, olhando para mim.
Eu não soube ao certo sobre o que ele falava.
− A carta2 que escrevi, você diz?
− Seu cabelo.
− Ah. Longa histór…
− Eu tenho o dia todo. – disse, sem esperar que eu terminasse.
− Eu não tenho. – disse, francamente.
− Você tem que estar em algum outro lugar?
− Eu tenho aulas.
− Olivia, hoje é 11 de novembro. Armistício.
Fiquei em silêncio olhando para ele. Tomei um gole do chá. Eu não me
lembrava que era feriado naquele dia.
− Bom, mesmo que eu te contasse, você não acreditaria em mim.
− Você ficaria surpresa se soubesse todas as coisas nas quais eu acredito.
− Você já sabe, certo? Digo, você não chegou até mim por acaso.
− Eu tenho um palpite, mas eu ter chegado até você foi, em partes, um
acaso. Eu até diria que foi graças a sua carta. A propósito, eu tomei a
liberdade de ler ela, e ainda não entendi para quem você a escreveu.
Respirei fundo antes de falar qualquer outra coisa.
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− Eu não escrevi ela para ninguém. Na verdade, eu a escrevi para mim,
para ele e para o universo também, eu acho.
− Quem é ele?
− Não importa. Alguém. Um garoto. Faz meses desde que eu o vi. – exalei.
Ele não falou mais nada, apenas olhou para mim, e vice-versa. Ele também
tinha algumas mechas brancas no cabelo, mas algo me dizia que eram
apenas marcas da idade.
− Então você tem um palpite. – quebrei o silêncio.
− Eu tenho. Eu estou na cidade para investigar algo que aconteceu há
algum tempo atrás. Se eu estiver certo, a sua escola está involvida nisso.
− Exceto que eles não sabem de nada.
− Precisamente. A única manchete que confirmava a minha teoria foi uma
que relatava o desaparecimento de quatro pessoas, todas estudantes
da mesma universidade.
− Bom, sinta-se aliviado. Eles estão mortos, não desaparecidos. Isso deve
resolver o seu mistério.
− Onde estão os corpos?
− Honestamente? Eu não tenho a mínima ideia.
− Se você não sabe onde estão os corpos, como você sabe que eles
estã…
− Eu sei que eles estão mortos, porque eu vi eles morrendo. – interrompi-o.
− Então você sobreviveu. – ele parecia maravilhado. – Por favor, conte-me
o resto. Mais alguém sobreviveu?
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Eu ponderei por um instante.
− Eu fui a única. Nós procurávamos por uma fenda, uma porta. – esbocei
uma leve risada sarcástica – Agora que penso sobre, me soa
simplesmente cômico. Bastava uma abertura, mas, no final, criamos uma
ferida incurável, e agora ela já é uma cicatriz. E me resta viver com ela.
− A culpa não é sua. Você não sabía.
− A curiosidade era minha.
− Você não criou neles algo que já não existisse.
− Não muda o fato de que a ideia foi minha.
− Quem liga? – ele quase parecia entediado com aquele diálogo – Você
não escolheu por nenhum deles. Esqueça dos outros, se arrepende de
ter ido?
− Sim… – respondi, levemente incerta.
Silêncio de novo. Ele me entregou sua xícara de chá, se levantou e me deu as
costas. Ele estava indo embora.
− Escuta, se é para esquecê-los, sim, me arrependo. Mas se eu tiver que
lembra-los todos os dias, então nunca. Teve um deles que eu jamais me
arrependeria de ter conhecido. Nunca me arrependerei. E eu não acho
que a angústia me deixará tão cedo, e a tristeza muito menos, porém eu
serei sempre um bicho, uma fera, queira eu ou não. Talvez algum dia eu
poderia me redimir.
Eu se voltou para mim e um sorriso nasceu em suas feições.
− Eu sempre poderia me dispor a alguém que não tivesse em si a
convicção para seguir em frente. – ele se aproximou e estendeu a mão –
Venha comigo, tem um lugar que gostaria de te mostrar.
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1. Memória
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2. Carta
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