07
07
Maria Clia Azeredo Vieira* COLABORADORES: Jaldir Freire Lima Natlia Mesquita Braga**
* Gerente do Departamento de Agroindstria (DEAGRO) da rea Industrial do BNDES. ** Respectivamente, chefe e estagiria do DEAGRO.
SUCROALCOOLEIRO
1. Introduo
Desde que foi trazida para o Brasil, a cana-de-acar tem tido importante papel na economia nacional, sendo o pas o maior produtor do mundo, seguido por ndia e Austrlia. Da matria-prima, a cana-de-acar, produzem-se acar, lcool anidro (aditivo para gasolina) e lcool hidratado para os mercados interno e externo, com demandas e dinmica de preos diferentes. Cabia ao governo a responsabilidade pelo planejamento e a gesto desses mercados, mas a partir da dcada de 1990 essas tarefas foram repassadas integralmente ao setor privado. Hoje, prevalece o regime de livre mercado, sem subsdios, em que os preos so definidos de acordo com as oscilaes de oferta e demanda. A cultura da cana-de-acar espalha-se pelo Centro-Sul e pelo NorteNordeste do pas em dois perodos de safra. No Centro-Sul, a colheita concentra-se no perodo de abril/maio a novembro/dezembro de um mesmo ano. J na regio Norte-Nordeste, a colheita concentra-se no perodo de agosto/setembro de um ano at maro/abril do ano seguinte. Principal produtor e exportador de acar e lcool do mundo, o Brasil tem o menor custo de produo entre os principais competidores do mercado internacional, alm de liderar o conhecimento da biotecnologia da cana, junto com a Austrlia e a frica do Sul. Muitos pases esto sendo levados a pensar em uma nova matriz energtica, mais limpa e renovvel, em funo dos seguintes fatores: a escalada do preo do petrleo, atualmente em torno de US$ 70 o barril; os conflitos existentes nas principais reas produtoras; a perspectiva de escassez do produto ainda neste sculo; e a necessidade de estabelecer programas para reduo de emisses de gases que prejudiquem o meio ambiente, propostos no Protocolo de Quioto. Nesse contexto, o Brasil se destaca por acumular experincia de trinta anos no uso do bioetanol como fonte alternativa de combustvel limpo e por ser o primeiro pas a utiliz-lo em larga escala,
209
diretamente como combustvel ou atravs da adio compulsria de lcool anidro gasolina, atualmente em torno de 20%. Mais recentemente, destaca-se a comercializao de veculos mdios movidos a lcool ou gasolina, os bicombustveis ou flex fuel. Os resduos da cana-de-acar, tais como bagao, folhas, pontas e o vinhoto, podem ser usados para co-gerao de energia para consumo prprio das usinas, bem como para venda no mercado de energia. Diversas tecnologias de produo de etanol a partir da utilizao do bagao esto sendo desenvolvidas em todo o mundo e podero atingir estgio comercial nos prximos anos.
210
A monocultura da agroindstria aucareira gerou riqueza para o Brasil Colnia e a conseqente cobia externa. Durante a invaso holandesa ocorrida no litoral nordestino (Bahia, Pernambuco, Maranho e Sergipe), o processo produtivo da cana-de-acar atingiu cifras admirveis, impulsionadas pelo capital e pela experincia holandesa no comrcio entre mares. Com a expulso dos holandeses do pas, em 1654, a prosperidade da agroindstria canavieira comeou a declinar, j que estes passaram a fazer concorrncia com os nossos produtos, utilizando os conhecimentos aqui adquiridos para produzir acar nas Antilhas e na Amrica Central. Mais de um sculo depois, a situao se modificou e o Brasil voltou a ocupar a liderana na produo mundial, aproveitando-se do declnio da produo nas Antilhas e na Amrica Central, provocado por agitaes polticas e conflitos sociais que culminaram na independncia das colnias europias. O Brasil passou a exportar para a Inglaterra, que tambm se vira privada de seu principal fornecedor, os Estados Unidos, em luta pela independncia. Na primeira metade do sculo XIX, os Estados Unidos e a Europa passaram a produzir acar de um tipo de beterraba aucareira, o que fez o Brasil perder de novo a liderana. Nesse perodo surgiu, tambm, o engenho a vapor como a inovao do incio do sculo XIX. O produtor brasileiro rapidamente incorporou essa inovao ao seu patrimnio e os engenhos passaram a ser mais complexos e atualizados para a poca. De 1830 a 1870, muitas outras inovaes tecnolgicas importantes surgiram e provocaram grande desenvolvimento na indstria aucareira. Com a chegada das ferrovias ao Brasil, surgiu o consrcio ferroviaindstria. Os engenhos passaram a construir e tambm a utilizar a ferrovia nos transportes de cana, o que lhes permitiu expandir seu alcance territorial. Nessa poca surgiu, tambm, a empresa comercial conjugada com a industrial, a agroindstria estruturada, em que o empresrio passou a atuar na agricultura, na indstria e na comercializao de seu produto. Dessa forma, criaram-se unidades maiores de produo e acelerou-se a concentrao. Ou seja, os engenhos maiores incorporaram ou eliminaram os menores, redu-
211
zindo o nmero de concorrentes, ao mesmo tempo em que aumentavam a produo. Em 1877, inaugurou-se o primeiro engenho central do Brasil, denominado Engenho Central de Quissam, na Provncia do Rio de Janeiro. Destacava-se, por um lado, o fornecimento de matria-prima pelo agricultor e, por outro, o processamento industrial, com amplas e modernas aparelhagens de tecnologia para melhor rendimento. Na poca da abolio da escravatura (1888), os engenhos brasileiros j incorporavam todas as importantes inovaes tecnolgicas existentes no mundo. Com a abolio, passou a dispor de recursos financeiros que antes eram destinados compra e manuteno de escravos. Da surgiram os chamados engenhos centrais, precursores das atuais usinas de acar, que iniciaram uma nova etapa na agroindstria canavieira. Vrios fatores quase acarretaram o desaparecimento do acar brasileiro no mercado internacional, levando o governo a adotar uma poltica de proteo da agroindstria canavieira, a exemplo de outros pases. A grande crise mundial de 1929 acelerou esse processo e, em 1933, foi criado o Instituto do Acar e do lcool (IAA), principal smbolo da interveno governamental no pas. O IAA centralizava as operaes de exportao brasileira e era a nica instituio autorizada a comprar acar no mercado domstico e a estabelecer contratos de exportao, alm de ser responsvel pela concesso de subsdios aos produtores, principalmente aos da regio Norte-Nordeste e do Estado do Rio de Janeiro. Em 1990, o IAA foi extinto e iniciou-se um lento processo de desregulamentao do setor. As exportaes aumentaram e, a partir da safra 1993/1994, o Centro-Sul ultrapassou o Norte-Nordeste como principal origem do acar exportado. A crise vivida pelo setor na dcada de 1990, em funo da desregulamentao, induziu concentrao por meio de fuses e aquisies. Grupos nacionais e estrangeiros, estes em menor nmero, passaram a adquirir unidades produtivas que apresentavam
212
dificuldades financeiras e operacionais. Esse processo baseou-se na necessidade de reduo de custos via implantao de novas tecnologias de produo agrcola e automao da produo industrial, com reflexos negativos sobre o nmero de empregos do setor. 3. Programa Nacional do lcool O Prolcool O lcool passou a ser utilizado como combustvel a partir do sculo XX. At ento, o consumo se dava basicamente com bebidas destiladas. Na dcada de 1930, j se utilizava o lcool anidro (99,3% por volume) para adicion-lo gasolina em propores distintas, de acordo com a regio, objetivando estabilizar o preo do acar no mercado interno, mas sem regulamentao para seu uso. Na primeira grande crise mundial do petrleo, ocorrida em 1973,1 o pas importava cerca de 80% de sua necessidade de consumo. Para enfrentar essa crise, o governo federal idealizou trs programas: a substituio do diesel, do leo combustvel e da gasolina por outras fontes internas de energia. O Programa Nacional do lcool (Prolcool) foi criado em 1975, com a funo de regulamentar o uso do lcool anidro misturado gasolina em todo o pas, para reduzir a importao de leo cru e conter, dessa forma, uma crise no balano de pagamentos. Com o Prolcool, o governo lanou uma grande operao de financiamento, contando, mesmo, com recursos do Banco Mundial, o que possibilitou o aumento das reas plantadas com cana-de-acar. As usinas de acar existentes receberam financiamentos para instalar aparelhos de destilarias maiores, ao mesmo tempo em que foram criadas as destilarias autnomas unidades de produo voltadas exclusivamente para a produo de lcool. Cerca de 180 unidades autnomas foram criadas em vrios estados brasileiros, para descentralizar a produo e utilizar novas reas mais prximas dos centros de consumo.
1 Em apenas um ano, de 1973 para 1974, as despesas com importao de combustvel saltaram de US$ 600 milhes para mais de US$ 2 bilhes, provocando um imenso dficit no balano de pagamentos.
213
reas como o Paran e a Regio Centro-Oeste partiram de uma produo simblica ou quase nula, para se tornarem grandes produtores. O Paran conheceu um crescimento impressionante e superou Alagoas pelo segundo lugar em produo nacional, s perdendo para So Paulo. O Prolcool havia atingido seu objetivo e introduzido, com sucesso, uma nova fonte energtica baseada totalmente em tecnologia nacional. Em 1987, a produo de lcool (anidro e hidratado) atingiu 12 bilhes de litros. Em 1989, 4,5 milhes de carros eram movidos a lcool no Brasil e 60% da gasolina havia sido substituda. Entretanto, a elevao dos preos internacionais do acar, aliada queda do preo do barril de petrleo no mercado internacional, fez os produtores se voltarem para aquele produto, o que reduziu a oferta de lcool e provocou uma grave crise de desabastecimento, com conseqente perda de credibilidade por parte do consumidor em relao ao programa. O Programa Nacional do lcool apresentou vrias vantagens em relao ao uso de derivados de petrleo, em especial no que se refere ao desenvolvimento tecnolgico, estratgia de abastecimento, ao desempenho da economia, ao nvel de emprego e preservao do meio ambiente. O pas desenvolveu uma tecnologia, nica no mundo, para a utilizao em larga escala de um combustvel renovvel independente do mercado internacional do petrleo. Vrias regies do pas se desenvolveram, oferecendo oportunidade de trabalho a centenas de milhares de pessoas. Para produzir a mesma quantidade de energia, o bioetanol emprega 152 vezes mais pessoas do que a indstria do petrleo. O consumo de lcool combustvel no perodo de 1976 a 2005, valorizado pelo preo da gasolina no mercado mundial, a cada ano, permitiu economia de divisas em torno de US$ 195,5 bilhes, sendo US$ 69,1 bilhes em importaes evitadas e US$ 126,4 bilhes em juros da dvida externa evitados, avaliados pela primerate mais 2%.
214
Atualmente, o Brasil dispe de um combustvel limpo e renovvel, neutro no que diz respeito s emisses dos gases do efeito estufa, que reduz em 50% a emisso de monxido de carbono dos motores de veculos e que possibilitou a substituio total do chumbo tetraetila antes adicionado gasolina. A energia renovvel produzida pelas usinas para uso externo, principalmente etanol, cerca de nove vezes maior do que o insumo fssil usado na sua produo, em grande parte por causa de sua autonomia energtica. Dessa forma, o etanol da cana-de-acar se torna o mais atraente entre os usos comerciais de energia alternativa no mundo, do ponto de vista de sustentabilidade, com reduo de emisses de gases do efeito estufa em cerca de 12,7 milhes de toneladas de carbono equivalente. Hoje, 30 anos depois, o Prolcool j no existe. O conjunto de medidas reguladoras que visavam criar produo e demanda em larga escala de etanol e biomassa foi gradualmente eliminado no perodo compreendido entre 1989 e 1999. Em seu lugar, ficou um Brasil pioneiro no uso do etanol em larga escala, servindo at de referncia para muitos outros pases.
215
O Brasil tambm o maior produtor de acar (18,5%) e etanol (36,4%), alm de maior exportador mundial de acar (37,4%) e etanol (50,4%). Grande parte de sua produo se concentra na Regio Centro-Sul, sobretudo no Estado de So Paulo, o principal produtor. Produo A biomassa cana-de-acar composta de um tero de caldo, um tero de fibras e um tero de folhas. Do colmo e das folhas, obtm-se as fibras, que do origem ao bagao e palha, e do caldo obtm-se o acar e o etanol. No Brasil, a cana-de-acar plantada em cerca de 5,6 milhes de hectares. Na safra 2004/2005, foram produzidas cerca de 383,2 milhes de toneladas. O parque industrial composto por 327 unidades industriais, sendo 152 no Estado de So Paulo e as demais distribudas por todo o pas, conforme a Tabela 1.
216
Levantamento da safra 2005/2006,2 feito pela Conab, indica que a produo de cana-de-acar para todos os usos no pas subiu para 436,8 milhes de toneladas, que representa um acrscimo de 14% sobre o total produzido na safra 2004/2005. A rea total plantada com cana-de-acar naquela safra foi de 5,9 milhes de hectares. A Regio Centro-Sul responsvel pela produo de 85,7%, ou 374,4 milhes de toneladas, enquanto a Regio Norte-Nordeste responde por 14,3%, ou 62,4 milhes de toneladas. O Estado de So Paulo lidera a produo, com 265,5 milhes de toneladas, seguido do Paran, com 28,5 milhes, Minas Gerais, com 28,2 milhes, Alagoas, com 25,3 milhes, e Pernambuco, com 17,2 milhes. Nos ltimos anos, foi significativa a evoluo da produo brasileira de cana-de-acar. Na Regio Centro-Sul, responsvel por 85% da produo, a mdia est em torno de 78 a 80 toneladas de canade-acar por hectare, em ciclo de cinco cortes, bem superior da Regio Norte-Nordeste, cuja mdia de 55 a 57 toneladas por hectare. Em So Paulo, responsvel por cerca de 60% da produo nacional, a mdia de cerca de 80 a 85 toneladas por hectare, tambm em cinco cortes.
2 Levantamento feito com a colheita praticamente encerrada na Regio CentroSul, faltando cerca de 2% a serem colhidos.
217
To importante quanto a produo de cana por hectare a qualidade da matria-prima, medida pelo teor de sacarose contido na planta, que determina o potencial de produo de acar por tonelada de cana. A qualidade da matria-prima, em So Paulo e no Centro-Sul, est entre 14 e 15,5% de POL, o que equivale ao rendimento mdio de 140 a 145 kg de acares totais recuperados (ATR) por tonelada de cana. Para o lcool, isso significa rendimento entre 80 e 85 litros por tonelada. As tecnologias de produo de acar e lcool so muito parecidas nas usinas brasileiras, com variaes nos tipos e qualidades de equipamentos utilizados, bem como nos controles operacionais, principalmente os gerenciais. Atualmente existe uma boa integrao entre as reas agrcola e industrial das usinas, o que possibilita otimizar toda a cadeia produtiva nas unidades mais bem gerenciadas. O sistema atual, de penalidade ou prmio no pagamento da cana, estimula o produtor independente a entregar a matria-prima em boas condies. As unidades industriais dividem-se em: Usinas de acar (6%) produzem apenas acar; Destilarias autnomas (25%) produzem apenas lcool; e Usinas com destilaria anexa (68%) produzem acar e lcool. Nos ltimos dez anos, a produo brasileira de acar saltou de 12,6 milhes de toneladas para 26,6 milhes na safra 2004/2005, como demonstrado no Grfico 2. Tipos de acar: So vrios os tipos de acar produzidos, entre eles: Demerara ou bruto Produto de cor escura, que no passou pelo refino. um tipo de acar em cujo processo de fabricao no se sulfitou o caldo e cuja massa cozida no sofreu lavagem na centrfuga, conservando intacta a pelcula de mel que envolve seus cristais.
218
Fonte: Unica. Obs: Regio Centro-Sul dados do final da safra 2004/2005; Regio Norte-Nordeste dados atualizados at 1.5.2005.
Very high polarization (VHP) Mais claro do que o demerara, apresenta cristais amarelados e utilizado como matria-prima para outros processos. O processo de fabricao do caldo mnimo ou nenhum, a massa cozida passa por lavagem reduzida na centrfuga. o tipo mais exportado pelo Brasil. Cristal Denominao de todos os acares brancos produzidos diretamente pela usina de acar. fabricado com base em um caldo sulfitado por meio de um processo em que os cristais so lavados na centrifugao e secos em secadores. Acar refinado granulado Puro, sem corantes, sem umidade ou empedramento, com cristais bem definidos e gros uniformes, o acar refinado granulado muito utilizado na indstria farmacutica, em confeitos, xaropes de excepcional transparncia e mistura seca, em que so importantes o aspecto visual, o escoamento rpido e a solubilidade. Acar refinado amorfo Com baixa cor, dissoluo rpida, gros finos e brancura excelente, o refinado amorfo utilizado no consu-
219
mo domstico, em misturas slidas de dissoluo instantnea, bolos e confeitos, caldas transparentes e incolores. Glacar Conhecido como acar de confeiteiro, tem grnulos bem finos, cristalinos, e produzido diretamente na usina, sem refino. Destina-se indstria alimentcia, que o utiliza em massas, biscoitos, confeitos e bebidas. Xarope invertido Com um tero de glicose, um tero de frutose e um tero de sacarose, soluo aquosa com alto grau de resistncia contaminao microbiolgica, que age contra a cristalizao e a umidade. utilizado em frutas em calda, sorvetes, balas e caramelos, licores, gelias, biscoitos e bebidas carbonatadas. Xarope simples ou acar lquido Transparente e lmpido, tambm uma soluo aquosa usada quando fundamental a ausncia de cor, caso de bebidas claras, balas, doces e produtos farmacuticos. Acar orgnico Produto de granulao uniforme, sem nenhum aditivo qumico, tanto na fase agrcola como na industrial. Pode ser do tipo claro ou dourado. Seu processamento segue princpios internacionais da agricultura orgnica e anualmente certificado pelos rgos competentes. Na produo do acar orgnico, todos os fertilizantes qumicos so substitudos por um sistema integrado de nutrio orgnica para proteger o solo e melhorar suas caractersticas fsicas e qumicas. Evitam-se doenas com o uso de variedades mais resistentes e combatem-se pragas, como a broca-da-cana, com seus inimigos naturais vespas, por exemplo. Mercado Externo O mercado internacional de acar movimentou algo em torno de 143,8 milhes de toneladas na safra 2004/2005, contando com 121 pases produtores, conforme demonstrado no Grfico 3. Nos pases cuja produo est voltada para o consumo interno, existem importantes subsdios, como veremos posteriormente. Para o Brasil, o mercado externo muito relevante, uma vez que mais de 60% de sua produo exportada.
220
Fonte: Datagro/ISO.
Nos ltimos anos, as exportaes brasileiras triplicaram, saltando de 5,4 milhes de toneladas na safra 1996/1997 para 16,9 milhes de toneladas na safra 2004/2005, como demonstrado no Grfico 4. Na safra 2005/2006, ainda incompleta, j foram exportadas cerca de 10,4 milhes de toneladas.
GRFICO 4 Evoluo das Exportaes Brasileiras de Acar
221
Exportam-se acar branco (refinado), cristal e demerara. A Rssia, atualmente, o maior cliente brasileiro. O acar demerara tem como principal mercado os Estados Unidos e exportado pelo Nordeste em funo da maior proximidade dos portos da regio em relao ao mercado importador e dos menores custos de embarque, por ser o acar enviado a granel. O acar cristal e o refinado so exportados principalmente pelo Centro-Sul. Em 2005, o pas exportou 18,1 milhes de toneladas de acar (16,9 milhes de toneladas da safra 2004/2005 e o restante da safra 2005/2006), para diversos pases, conforme a Tabela 2.
Protecionismo O acar um dos produtos mais protegidos do mundo. As prticas protecionistas aparecem sob as mais diversas formas, desde o controle nas importaes atravs de cotas e tarifas at subsdios produo e exportao.
222
O grau de intervencionismo governamental na indstria aucareira tem sido elevado. Muitos pases, geralmente com incentivo do governo, tm investido para serem auto-suficientes em acar, com a finalidade de diminuir importaes, promover atividades agrcolas capazes de proporcionar grande absoro de mo-de-obra nas regies em desenvolvimento ou proporcionar alternativas econmicas agricultura altamente diversificada em reas desenvolvidas. Os maiores importadores de acar so a Unio Europia, a Rssia e os Estados Unidos. Esses pases protegem fortemente seu mercado, utilizando meios que reduzem o consumo, encorajam a produo domstica e restringem o comrcio. O Grfico 5 mostra as tarifas aplicadas e consolidadas em diversos pases, sobre as importaes do acar bruto.
GRFICO 5 Acar Bruto: Tarifas Aplicadas e Consolidadas
As exportaes da Unio Europia, altamente subsidiadas, resultam em excesso de produo que contribuem diretamente para manter deprimidos os preos internacionais, alm de caracterizarem prtica desleal de comrcio, j que limitam as oportunidades de acesso ao mercado dos produtores eficientes.
223
Em 2002, Brasil e Austrlia pediram consulta Unio Europia para discutir o regime aucareiro do bloco europeu em relao s normas da Organizao Mundial do Comrcio (OMC). Em maro de 2003, a Tailndia aderiu ao pleito. Como no se chegou a um acordo, os trs pases decidiram recorrer ao rgo de Soluo de Controvrsias da OMC, e em 15 de outubro de 2005 foi dado ganho de causa ao Brasil e seus parceiros. Com a deciso favorvel da comisso de arbitragem da OMC, a Unio Europia ter de limitar suas exportaes subsidiadas a 1,27 milho de toneladas anuais. A OMC fixou para 22 de maio de 2006 o prazo para que a Unio Europia se restringisse a exportar o volume firmado em acordo comercial anterior. Assim, a perspectiva de que o Brasil venha a se beneficiar de um incremento no mercado de cerca de 5,0 milhes de toneladas por ano. Produo de lcool Segundo estudos feitos pela F. O. Licht (2003), 61% da produo mundial de bioetanol originria da fermentao de acares e matrias-primas como cana-de-acar, beterraba e melao. Os outros 39% vm de gros, como o milho. No Brasil, diferentemente dos demais pases, a cana-de-acar largamente utilizada para produo de lcool combustvel ou de uso industrial. O etanol combustvel produzido com base na canade-acar em duas diferentes formas: anidro, para ser misturado gasolina, e hidratado, para ser utilizado exclusivamente como combustvel veicular ou engarrafado para o consumo domstico. O lcool extraneutro utilizado apenas para fins industriais. A produo brasileira de lcool evoluiu de 11,5 bilhes de litros na safra 1990/1991 para 15,4 bilhes de litros em 2004/2005, o que representa 34% de incremento nesses ltimos 15 anos. Desse total, 8,3 bilhes de litros foram de oxigenados (anidro) e 7,1 bilhes de litros de hidratado, de acordo com o demonstrado no Grfico 6.
224
A evoluo da produo brasileira de bioetanol, nos ltimos anos, se deve, principalmente, ao sucesso do Prolcool, que instituiu a obrigatoriedade de mistura de etanol na gasolina, na proporo de at 25%, e, mais recentemente, dos veculos flexveis (flex fuel), lanados no mercado em maro de 2003. Em 2005, foram vendidas mais de 855 mil unidades de veculos leves movidos a lcool e gasolina (bicombustvel), representando 52% de participao no mercado de veculos leves. Segundo a Anfavea, a produo total de carros a lcool desde 1979 foi de seis milhes de unidades e a estimativa de que haja dois milhes deles circulando. A atual frota automotiva brasileira composta de veculos produzidos antes da introduo da tecnologia bicombustvel, o que deixa margem a um aumento significativo na proporo desses veculos no processo de renovao da frota.
225
J no fim de 2005, as vendas de veculos flexveis ultrapassaram 70% dos veculos novos. Estimava-se que at o fim de 2006 as vendas deveriam representar 100% de algumas montadoras. Isso se deve percepo da vantagem desses veculos, que permitem ao consumidor escolher o tipo de combustvel de acordo com os preos praticados pelo mercado. Mercado Externo Nos ltimos anos a produo global de bioetanol teve um incremento de 50%, saindo de cerca de 28,0 bilhes de litros em 2000 para 42,3 bilhes de litros em 2004/2005. So 57 pases produtores no mundo, entre os quais Brasil e Estados Unidos so os principais, conforme o Grfico 7.
GRFICO 7 Produo Mundial de Etanol 2004-2005 (Em Bilhes de Litros)
As exportaes brasileiras de lcool evoluram de forma significativa, passando de 237,3 milhes de litros, na safra 1998/1999, para 2.598,5 milhes de litros, na safra 2004/2005. Na safra 2005/2006, ainda incompleta, j foram exportados 1.455 milhes de litros (Grfico 8).
226
Em 2005, o pas exportou 2,6 bilhes de litros de bioetanol para diversos pases, conforme a Tabela 3.
227
O quadro a seguir mostra os principais fluxos de comrcio de etanol no mundo,3 tendo o Brasil como principal fornecedor: 1 Do Brasil para o Caribe 2 Do Caribe para os Estados Unidos4 3 Do Brasil para a Europa 4 Do Brasil para os Estados Unidos 5 Do Brasil para a sia (ndia, Coria e Japo) 6 Da frica do Sul para a Europa e sia 7 Da Tailndia para o Japo
Fonte: IEA.
3 4
F.O. Licht 2005. O Brasil tambm exporta para os Estados Unidos atravs do Caribe, beneficiando-se de iseno de tarifas.
228
Em 2005, o investimento global em energia renovvel foi de US$ 30 bilhes, o que representa 20% a 25% de todos os investimentos da indstria de energia, segundo informaes do Instituto Worldwatch. Esse crescimento atribudo ao apoio governamental e a investimentos crescentes da iniciativa privada. A preocupao da sociedade com o uso de combustveis e tecnologias poluentes, a obrigao de reduzir os gases do efeito estufa (GEE), contida no Protocolo de Quioto, a instabilidade social e poltica das principais regies produtoras de petrleo, aliadas ameaa de ataques terroristas sua infra-estrutura, so aspectos que reforam a necessidade de diversificar a matriz energtica e reduzir a importncia do petrleo no mundo, substituindo as fontes fsseis por renovveis. Estados Unidos, Japo, Unio Europia, ndia e China, entre outros grandes consumidores de gasolina, buscam alternativas para reduzir a dependncia de combustveis fsseis, atravs de reduo de consumo. Assim, a produo e o consumo de etanol combustvel com base na biomassa tm sido incentivados em diversos pases, atravs de programas e polticas de governo para biocombustveis e acordos internacionais. A produo e o uso de energia renovvel assumem importncia fundamental quando se associam meio ambiente e desenvolvimento, levando valorizao da biomassa para esse fim. A cana-de-acar um bom exemplo de biomassa e o uso do lcool combustvel dela proveniente representa uma resposta rpida necessidade de reduo das emisses de gases do efeito estufa. Nesse contexto, o Brasil o primeiro pas a atingir estgio de desenvolvimento na produo de bioetanol a preos competitivos com a gasolina. o primeiro, tambm, a utilizar o bioetanol em larga escala, como combustvel, atravs da adio compulsria de at 25% de lcool anidro gasolina, alm da comercializao de veculos mdios movidos a lcool ou gasolina, os bicombustveis.
229
230
permite a mistura de 3% do lcool gasolina e ao diesel, com perspectiva do uso de etanol em termoeltricas, podendo atingir cerca de 12,0 bilhes de litros. Em 2010, devem ser permitidas misturas de 10% em todo o pas. China A China consumiu 56 bilhes de litros de gasolina em 2004. o terceiro maior produtor, com 3,5 bilhes de litros de lcool/ano e tem interesse na utilizao do bioetanol oxigenado como substituto do aditivo antidetonante na gasolina. A atual matriz de produo de lcool baseada na produo de cereais, mas a China estuda a possibilidade de mudanas para a cana-de-acar, ou outros insumos mais baratos do que o milho. A produo est sendo promovida em algumas provncias, onde obrigatria a mistura de 10% de etanol gasolina. ndia Segundo maior produtor de cana-de-acar do mundo. Em 2004 consumiu cerca de 11 bilhes de litros de gasolina. Desde 2002 estabeleceu um programa, com prazos ainda no definidos, de mistura de bioetanol gasolina na proporo de 5%, inicialmente, at atingir 10% em todo o pas e, na ltima fase, 15% no diesel. Inicialmente, a ndia poderia contar com importaes de bioetanol do Brasil, mas no longo prazo essas seriam substitudas pela produo interna. Isso significa ampliar a produo equivalente de acar em cerca de 8 milhes de toneladas. Hoje o pas produz 18 milhes de toneladas. Austrlia Em 2004, a Austrlia consumiu cerca de 19,4 bilhes de litros de gasolina. o segundo maior produtor de acar, no produz lcool para fins carburantes, mas pretende permitir a adio de lcool na gasolina, de forma no-compulsria.
231
O apoio aos biocombustveis consiste em trs aes principais: a) uma lei permitindo o uso de etanol misturado gasolina em at 10%; b) iseno de impostos sobre bioenergticos at 2011; e c) obrigao das companhias de energia de produzir 10% do valor energtico dos seus produtos com recursos renovveis. Tailndia Tem poltica de adio no-compulsria de 10% de etanol gasolina. Desde 2002, o etanol puro, ou misturado gasolina, para transporte isento de impostos. Unio Europia Tem sua poltica para biocombustveis norteadas por duas diretizes: Diretiva 2003/30/EC 2,5% de biocombustvel lquido em 2005 e 5,75% em 2010; e Diretiva 2003/96/EC eliminao de taxas sobre biocombustveis. Essas metas foram adotadas em maior ou menor extenso pelos pases membros. Frana Uso incentivado h mais de dez anos. O etanol usado na mistura E5 com a gasolina e na produo de ETBE. Em 2004, produziu cerca de 830 milhes de litros [F. O. Licht (2005)]; Espanha Um dos principais produtores de etanol combustvel na UE, com 300 milhes de litros em 2004; Sucia O etanol usado para mistura E5 e tem aumentado a cada ano, razo de 0,6%;
232
Alemanha Produziu 270 milhes de litros em 2004, sendo utilizado, principalmente, para produzir ETBE. Reino Unido Segundo maior consumidor europeu de gasolina, com 28 bilhes de litros consumidos em 2004, no tem poltica de biocombustveis definida. Atualmente produz cerca de 420 milhes de litros, quase tudo de origem fssil.
233
Estimativa da Unica indica que a demanda de cana-de-acar para a safra 2010/2011 de cerca de 560 milhes de toneladas para produzir 27,3 bilhes de litros de etanol (22,1 bilhes de litros para o mercado interno e 5,2 bilhes para exportao) e 35 milhes de toneladas de acar (11 milhes de toneladas para o mercado interno e 24 milhes para exportao). A Datagro projetou a demanda para a safra 2013/2014 em 35,5 milhes de toneladas de acar (12,8 milhes para o mercado in-
234
terno e 22,7 milhes para o mercado externo) e 30,8 bilhes de litros de lcool (24,9 bilhes para consumo interno e 5,9 bilhes para exportao). Segundo a Datagro, sero necessrias 640 milhes de toneladas de cana-de-acar para atender a essas demandas. Para planejar aumentos de produo de cana na magnitude considerada, vrios aspectos precisam ser levados em conta, entre eles: 1) A sustentabilidade da base agronmica e a tecnologia agrcola. A capacitao interna coloca o Brasil em posio de vanguarda mundial no emprego da moderna biotecnologia no desenvolvimento de novas variedades de cana, mas a manuteno dessa vantagem competitiva requer um esforo contnuo de aprimoramento e inovao a ser desenvolvido em conjunto por empresas, institutos de pesquisas e governo, principalmente no tocante ao desenvolvimento de variedades adaptadas s novas regies onde a atividade est se implantando; 2) A disponibilidade de reas livres adequadas. A demanda por novas reas para a produo de cana-de-acar seria atendida com cerca de 3% da rea agricultvel existente, no havendo limitao nesse sentido; 3) A existncia de capacidade industrial para implantao de destilarias. A indstria brasileira de equipamentos para a produo de lcool e co-gerao de energia tem ndice de quase 100% de nacionalizao e, embora esteja preparada para atender demanda de equipamentos e sistemas, necessita de investimentos em ampliao de capacidade produtiva, pois est operando com 100% da capacidade e os prazos de entrega de encomendas esto comeando a se ampliar; 4) A logstica. Para exportaes nos volumes estimados (5,5 milhes de t/ano), haver necessidade de investimentos em infra-estrutura bsica, aes conjuntas de governo complementadas por aes do setor privado. Atualmente, a infra-
235
estrutura para exportao existente de 4 milhes de toneladas/ano;5 5) Gerao de empregos. Mesmo considerando os avanos tecnolgicos, que provocam redues de emprego pela utilizao de mecanizao agrcola, a expanso do setor dever trazer aumentos no nmero absoluto e melhoria na qualidade dos empregos. Estima-se em 1,3 milho o nmero de empregos diretos e indiretos gerados; e 6) Gerao de energia eltrica. Considerando a mdia de 90kWh/t de cana excedente, para cada 100 milhes de toneladas de cana adicionais, teramos 9.000 GWh de energia excedente, cerca de 2 GW efetivos, com operao sazonal, ou alternativamente 1,1 GW em operao por 11 meses. Para atender demanda espontnea de crescimento dos prximos anos, considerando o aumento do mercado externo de acar, em funo da deciso da OMC sobre o acar subsidiado europeu, e a demanda interna de lcool, em funo dos motores flexveis, o Brasil conta com 89 projetos de novas unidades industriais, 51 deles j em andamento e assim distribudos pelo pas: 31 em So Paulo, 3 em Mato Grosso do Sul, 9 em Minas Gerais, 1 no Paran, 6 em Gois e 1 no Rio de Janeiro. Dessas novas unidades, 22 esto com projetos de financiamento no BNDES, que correspondem a um valor total de R$ 1.666 milhes. Os investimentos necessrios para a implantao de uma usina com capacidade de moagem de 2 milhes de toneladas de cana-de-acar esto estimados na Tabela 6. Isso significa investimentos da ordem de US$ 10 bilhes nos prximos cinco anos, considerando as 89 usinas projetadas e um dlar mdio de R$ 2,30/US$.
236
Dependendo de uma ao estruturada e coordenada de governo, alguns outros estudos consideram, para 2025, a substituio por bioetanol de 5% e 10% de toda a gasolina do mundo.6 Os elementos necessrios para preencher essa demanda, em 2025, podem ser observados na Tabela 7.
Co-Gerao A produo eltrica nas usinas de acar e lcool, em sistema de co-gerao, que usam o bagao de cana como combustvel, uma prtica tradicional desse segmento, em todo o mundo. O que dife6 O consumo mundial de gasolina de cerca de 1,15 trilho de litros. Para 2025, admite-se que a demanda ser de 1,7 trilho de litros de combustvel para veculos leves.
237
rencia seu uso a eficincia com que o potencial de bagao aproveitado. No Brasil, so mais de trezentas usinas de acar e lcool, que processam quase 400 milhes de toneladas de cana por ano. Cada tonelada de cana produz em mdia 140 kg de bagao, dos quais 90% so usados para produzir energia, trmica e eltrica, na usina. Adicionalmente, contm 140 kg de sacarose, que usada para produzir acar, etanol e outros produtos, e 140 kg de palha, que hoje fica jogada no campo. O bagao equivalente a 11,0 milhes de toneladas de leo combustvel. Caso 25% da palha fossem utilizados, seriam equivalentes a 3,2 milhes de toneladas de leo. Desde a dcada de 1980, as usinas brasileiras evoluram, de uma posio em que eram auto-suficientes em energia trmica e geravam apenas 60% de sua energia eltrica, para uma posio em que so quase auto-suficientes em energia eltrica. Praticamente toda a energia trmica e cerca de 95% da energia eltrica so produzidas na prpria usina com sistema de co-gerao de bagao. Embora o bagao disponvel tenha potencial para ir muito alm, esses sistemas foram implementados para gerar apenas o necessrio para uso interno, por causa da dificuldade, at recentemente, de vender os excedentes de energia no mercado. Nas atuais condies, o autoconsumo de energia eltrica da usina (12 kWh/t de cana) e o uso de energia mecnica (16 kWh/t de cana) correspondem a uma potncia instalada de cerca de 2.4 GW. Alm do mais, as usinas utilizam cerca de 330 kWh/t de cana de energia trmica. O aumento da eficincia do uso do bagao implica evoluo nos sistemas de co-gerao. Alm das melhorias simples nos ciclos a vapor com baixa presso, o caminho normal seria usar ciclos de alta presso com extrao-condensao e reduzir o consumo dos processos. Essas tecnologias so comerciais e, nos ltimos anos, comearam a ser implantadas por diversas usinas.
238
Alm do bagao, um potencial ainda a ser explorado o uso da palha. No Brasil, um grande trabalho tem sido realizado na busca de melhores tcnicas para a colheita e o transporte da palha, assim como para a avaliao de sua real disponibilidade. Os resultados indicam que possvel conseguir palha na usina a menos de US$ 1.0/GJ. Em mdia, se recupera 50% da palha. A legislao que limita de forma gradual a queima pr-colheita no Estado de So Paulo dever atuar positivamente para que esse resduo seja incorporado ao sistema de gerao de energia nos prximos anos. Alcoolqumica A produo de derivados qumicos do etanol, ou lcool etlico, teve incio no Brasil na dcada de 1920, quando a Rhodia comeou a produzir cloreto de etila, ter dietlico e cido actico. Da em diante, o pas passou a produzir uma srie de derivados do etanol, tais como eteno, butadieno, polibutadieno, acetona, butanol, cloreto de etila, estireno e aldedo actico. Com a crise do petrleo em 1975 e o Prolcool, a indstria qumica passou a receber subsdios para utilizao do etanol na produo alternativa de derivados produzidos pela rota petroqumica. O programa de subsdios para a indstria alcoolqumica passou por vrias alteraes e foi encerrado em 1984. Paulatinamente, a produo via alcoolqumica foi abandonada e provocou o sucateamento das unidades existentes. Restou apenas a produo de cido actico e de seus derivados e teres gliclicos. A escalada do preo do petrleo poder induzir as empresas fabricantes de produtos que o utilizam como matria-prima a procurarem novas opes, abrindo espao para o etanol derivado da biomassa. Do bioetanol, podem ser fabricados cido actico, utilizado na fabricao de perfumes, polietileno, estireno, acetona, acetaldedo, poliestireno, ter, acetona e toda a gama de produtos extrados do petrleo. Seu uso variado inclui a fabricao de fibras sintticas (seda artificial), pinturas, vernizes, vasilhames, tubos, solventes,
239
plastificantes, inseticidas, papis fotogrficos e remdios como a aspirina, entre outros. Considerando-se a possibilidade de substituio do petrleo pelo etanol, na indstria qumica, estima-se que no longo prazo, por volta de 2020, a produo de etanol, a ser utilizado na alcoolqumica, poder atingir 7 bilhes de litros, dos quais 5,5 bilhes devero ser usados na produo de eteno e 1,5 bilho na produo dos demais derivados. Novas Tecnologias Alm de submeter-se s normas do Conselho dos Produtores de Cana, Acar e lcool do Estado de So Paulo (Consecana), o setor sucroalcooleiro obedece a regulao especfica para seus produtos, de acordo com a Associao Brasileira de Normas Tcnicas (ABNT), a Agncia Nacional de Petrleo (ANP) e a Agncia Nacional de Vigilncia Sanitria (Anvisa), entre outros. Existem diversas tecnologias em desenvolvimento, ainda no utilizadas comercialmente, que podero gerar impactos positivos na cultura da cana. Entre elas, merecem destaque: 1. Variedades da cana. Existem diversas variedades adaptadas ao clima e ao solo das regies produtoras, que demandam tecnologia especfica para o plantio em cada uma delas. As principais variedades comerciais de cana no pas foram desenvolvidas pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), pela Rede Interuniversitria para o Desenvolvimento do Setor Sucroalcooleiro (Ridesa) e pelo Instituto Agronmico de Campinas (IAC). Destaque-se que as variedades produzidas at o momento foram desenvolvidas para a Regio Centro-Sul. H necessidade de produzir variedades prprias para a Regio Norte-Nordeste e para as novas fronteiras agrcolas com potencial para implantao de usinas que tero de ser exploradas, caso se concretize o cenrio que prev a substituio por etanol de 10% da gasolina consumida no mundo e caso o Brasil venha a ser um importante exportador.
240
Existem quatro programas de melhorias genticas da cana-deacar que j produziram mais de quinhentas variedades comerciais, por meio de tcnicas convencionais. Esses programas so capazes de continuar suprindo os produtores de cana com novas variedades, mais produtivas, mais resistentes s doenas e mais adaptadas aos novos ambientes de produo. No entanto, essa tecnologia cara e demorada, levando em mdia 12 anos para produzir uma nova variedade. 2. Genoma da cana. Iniciado em 1988, o programa j identificou cerca de 40 mil genes da cana-de-acar com o intuito de descobrir aqueles envolvidos com o desenvolvimento, a produo e o teor de acar da planta, bem como sua resistncia a doenas e condies adversas de solo e clima. O Projeto Genoma o resultado de uma parceria da Copersucar com a Fundao de Amparo Pesquisa do Estado de So Paulo (Fapesp), que mobilizou cerca de 200 pesquisadores e 27 instituies, entre 1999 e 2002. Em 1991, foi formado o Consrcio Internacional de Biotecnologia de Cana-de-Acar (ICSB), constitudo por 17 instituies e 12 pases, com a CTC como membro brasileiro. As despesas e os resultados so compartilhados entre os participantes. O Brasil, a Austrlia e a frica do Sul so os participantes mais atuantes. Pode-se dizer que o Brasil est na vanguarda tecnolgica na biologia molecular, embora as leis e regulamentos travem e dificultem a utilizao comercial dos resultados j alcanados. J existem diversas variedades transgnicas disponveis nos centros de pesquisas, tais como as que so resistentes a vrios tipos de herbicidas, broca-da-cana e ao amarelinho. Espera-se que nos prximos cinco anos seja iniciado o uso comercial de variedades transgnicas. 3. Hidrlise de materiais lignocelulsicos. Diversas tecnologias de produo de etanol com base na utilizao do bagao esto sendo desenvolvidas em todo o mundo e podero atingir estgio comercial nos prximos anos. Vrios processos esto sendo testados para converter de forma eficiente a celulose e a hemi-
241
celulose de resduos em hexoses e pentoses fermentveis, respectivamente, entre eles: a) Hidrlise cida, Processo DHR Desenvolvida no Brasil pela Dedini em parceria com a Copersucar/CTC, o DHR Dedini Hidrlise Rpida uma tecnologia de hidrlise cida diluda, assistida por um tratamento organosolv com uma soluo hidroalcolica que dissolve a lignina e desestrutura a celulose. b) Hidrlise enzimtica A converso da celulose pela via enzimtica a tecnologia com maior potencial de ser levada a escala de produo, em mdio e longo prazos. A maior barreira a esse processo o custo do complexo enzimtico. 4. Co-gerao e outros usos para o bagao e a palha. As tecnologias para co-gerao utilizadas no Brasil, baseadas nos sistemas de ciclos a vapor dgua, com queima de bagao, so amplamente dominadas e apresentam custos competitivos. Novos avanos tecnolgicos com o objetivo de aumentar os excedentes de energia eltrica e a produo de lcool por tonelada, via hidrlise, dependem da necessidade de disponibilizar, na usina, a maior quantidade de fibra possvel. Entre as tecnologias em andamento para aumentar a disponibilidade de fibras na usina esto: a) Colheita de cana sem queima com recolhimento de palha Essas tecnologias ainda esto em desenvolvimento e seu uso comercial incipiente. Existem vrios estudos no mundo sobre a colheita da cana sem queimar com recolhimento da palha. No Brasil, merecem destaque os trabalhos da CTC, que cobriu todos os aspectos relacionados com o recolhimento da palha, como os impactos econmicos, por causa da variao dos custos das operaes agrcolas com e sem palha no cho, efeitos da compactao do solo e perda de produtividade, variao nas perdas agrcolas e os efeitos na indstria em funo da variao das impurezas vegetais da cana, de acordo com a rota de recolhimento da palha utilizada.
242
b) Gaseificao do bagao a converso de um combustvel slido em gasoso. No processo de gaseificao, as molculas polimricas do bagao so quebradas, dando origem a gases mais leves como hidrognio, monxido de carbono e metano, alm do alcatro e carvo do bagao, que so resduos da gaseificao. Segundo estudos realizados com essa tecnologia, o bagao e a palha podem gerar seis vezes mais energia eltrica do que o atual processo. O principal obstculo o custo, uma vez que a construo de uma usina que utilize a tecnologia de gaseificao custa o dobro da usina tradicional. 5. Alcoolqumica. Diversos produtos convencionalmente derivados da plataforma petroqumica tambm podem ser obtidos a partir do lcool. O maior exemplo o eteno, principal petroqumico bsico consumido no pas, produzido a partir da nafta, que serve de matria-prima para a produo de resinas termoplsticas (politetilenos e poliestireno) e PVC, entre outros produtos. Entretanto, as mais atrativas aplicaes do lcool na indstria qumica sero aquelas voltadas para a produo de compostos oxigenados, como cido actico, acetato de etila e butanol. 6. Outras tecnologias. Diversas outras pesquisas esto em andamento, dependendo de investimentos para se tornarem viveis comercialmente, a mdio e longo prazos, entre as quais merecem destaque a produo de acar sem sulfito e o processo hidrodinmico de extrao de acar, que substitui as moendas e difusores, elimina altos custos de manuteno e libera energia para a rede pblica.
8. Concluso
concreto o potencial de crescimento do mercado externo em funo das restries impostas pela OMC s exportaes subsidiadas do acar europeu e do mercado interno, resultante da exploso dos motores flexveis. O setor, no que chamamos de movimento espontneo, j est investindo para atender a esse crescimento.
243
O mercado externo para o etanol apresenta alto potencial de crescimento em funo dos desdobramentos do efeito estufa e do Protocolo de Quioto e da escalada de preos do petrleo, alm da previso de escassez do combustvel fssil ainda neste sculo. Em cenrios de substituio de 5% e 10% (Tabela 7) do consumo mundial de gasolina pelo etanol em 2025, esse mercado poder dobrar ou quadruplicar em relao atual produo mundial. A experincia brasileira com o etanol e nossa alta competitividade natural na produo de cana, que resultam em baixos custos de produo de acar e etanol, alm da disponibilidade de terras propcias ao cultivo da cana-de-acar, permitem ao Brasil assumir papel de liderana nas exportaes mundiais de bioetanol. Em curto prazo, Brasil, ndia, alguns pases da Amrica Central, o Peru e pases da frica devero se tornar os principais fornecedores de etanol combustvel proveniente da biomassa cana-de-acar para o mundo, enquanto Estados Unidos, Japo, China, Austrlia e Unio Europia devero se tornar os principais importadores de biocombustveis em mdio prazo. Muito embora esse grupo de pases represente os maiores consumidores e produtores de bioetanol, existe a possibilidade de participao de outros pases com potencial para produzir etanol de canade-acar, alm do surgimento de novos mercados consumidores para o etanol combustvel. Muitos pases j esto demonstrando interesse em importar, mas principalmente produzir seu prprio combustvel para veculos leves. Para a liberalizao desse mercado, ser necessria a eliminao de barreiras aos bens e servios ambientais e a participao ativa dos principais players do mercado para abastecer sustentavelmente o mercado. A consolidao desse mercado depende, basicamente, da confiabilidade da oferta, na medida em que o abastecimento regular e estvel de combustvel questo de segurana nacional e condio bsica para que os pases potenciais consumidores de etanol concordem em depender de fornecimento externo.
244
Para tanto, faz-se necessrio que outros pases, alm do Brasil, se tornem produtores importantes de etanol, o que abre excelente oportunidade para que o Brasil exporte o pacote tecnolgico de produo de etanol (tecnologia agrcola e industrial, mquinas e equipamentos etc.), ampliando os benefcios decorrentes da consolidao desse mercado. Aqui encontramos uma oportunidade nica de implantar um programa nacional de desenvolvimento alavancado na produo de etanol para abastecimento do mercado mundial e na exportao da tecnologia brasileira de produo de etanol, com reflexos importantes na gerao de empregos, na interiorizao do desenvolvimento e na gerao de divisas. Para que se viabilize esse programa, com o mundo adotando de forma significativa e estvel o etanol como substituto dos combustveis fsseis, necessria uma ao coordenada do governo brasileiro de fomento em pases potenciais produtores e consumidores de etanol, envolvendo os diversos agentes nacionais ligados direta ou indiretamente ao setor (pblicos e privados).7
7 Mapa, MDIC, MCT, MME, Petrobras, BNDES, Embrapa, instituies de pesquisas, rgos reguladores e representantes do setor privado, entre outros.
245