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Conflito Familiar no Capítulo 3

1) Noah se muda para a casa de sua mãe e seu novo marido rico e odeia seu novo meio-irmão Nicholas, que a trata com desdém. 2) Noah escolhe um vestido preto curto e saltos rosa chamativos para o jantar, contrariando as expectativas de sua mãe. 3) Nicholas continua provocando Noah com comentários sarcásticos sobre suas roupas.
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Conflito Familiar no Capítulo 3

1) Noah se muda para a casa de sua mãe e seu novo marido rico e odeia seu novo meio-irmão Nicholas, que a trata com desdém. 2) Noah escolhe um vestido preto curto e saltos rosa chamativos para o jantar, contrariando as expectativas de sua mãe. 3) Nicholas continua provocando Noah com comentários sarcásticos sobre suas roupas.
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Capítulo 3

NOAH
Mas que pedaço de MERDA!
Enquanto eu subia as escadas pisando com toda a força que meus músculos e ossos
podiam suportar, eu não conseguia tirar da minha cabeça os últimos dez minutos que
passei com o imbecíl do meu novo meio-irmão. Como alguém pode ser tão idiota,
presunçoso e psicopata ao mesmo tempo e em níveis tão altos?
Oh, Deus, eu não o aguentaria, eu não seria capaz de suportá-lo, se eu já tinha uma
implicância pelo simples fato de ser o filho do novo marido da minha mãe, como posso
suportar isso agora?!
Havia odiado sua forma de falar comigo, o jeito que olhava para mim. Como se ele fosse
superior a mim pelo simples fato de ter um pai rico. Seus olhos me examinaram de cima a
baixo, e então ele sorriu... Ele tinha rido de mim na minha cara, com aquela coisa do
cachorro, com aquele jeito dele de me encurralar contra a geladeira... por Deus, ele tinha
até me ameaçado!
Entrei no meu quarto batendo a porta, porém com as dimensões daquela casa ninguém
iria ouvir. Lá fora já havia escurecido e uma luz fraca entrava pela imensidão da minha
janela. Com a escuridão, o mar tingiu-se de preto e não se diferenciava onde terminava e
começava o céu.
Nervosa, corri para acender a luz.
Fui direto para minha cama e pulei em cima dela, olhando para as vigas altas do teto.
Ainda por cima obrigaram-me a jantar com eles. Minha mãe não percebeu que agora a
última coisa que eu queria era estar rodeada de pessoas? Eu precisava ficar sozinha,
descansar, acostumar-me com todas as mudanças que estavam acontecendo em minha
vida, aceitá-los e aprender a conviver com eles, embora no fundo eu sabia que nunca
acabaria me encaixando.
Eram oito horas da noite quando cheguei ao meu quarto, e levou apenas dez minutos até
minha mãe entrar pela porta. Ela se preocupou em me chamar, pelo menos, mas quando
não atendi ela entrou sem mais delongas.
-Noah, em quinze minutos todos nós temos que estar lá embaixo- disse ela, olhando
para mim com paciência.
-Você diz isso como se fosse levar uma hora e meia para descer uma escada- respondi
me sentando na cama. Minha mãe havia soltado seu cabelo loiro de comprimento médio e
fez um penteado muito elegante. Não estamos nesta casa nem há duas horas e sua
aparência já era diferente.
-Estou dizendo isso porque você tem que se trocar e se vestir para o jantar- ela
respondeu, ignorando meu tom.
Eu olhei para ela sem expressão e baixei meu olhar para as roupas que estava vestindo.
-O que há de errado com minha aparência?- Respondi defensivamente.
-Você está de chinelo, Noah, onde vamos temos que usar etiqueta, não pretende ir
vestida assim, não é? De bermuda e camiseta? -Ela me respondeu exasperada.
Eu me levantei e a encarei. Eu tinha esgotado toda a minha paciência para aquele dia.
-Vamos ver se assim você entende mamãe, não quero ir jantar com você e seu marido,
não estou interessada em conhecer o demônio mimado que tem como filho, e eu não quero
ter que me fantasiar para isso- desabafei tentando controlar a vontade enorme que tinha de
pegar o carro e voltar para a minha cidade.
-Pare de se comportar como se você tivesse cinco anos, vista-se e venha jantar comigo
e com sua nova família- disse-me em um tom duro, mas quando ela viu minha expressão,
suavizou seu rosto e acrescentou. -É só esta noite, por favor, faça isso por mim.
Respirei fundo várias vezes, engoli todas as coisas que gostaria de gritar com ela e
assenti com a cabeça.
-Só essa noite.

***
Assim que minha mãe saiu, fui para o closet do meu quarto, havia milhares de coisas
que eu nunca usaria, como os vestidos de seda rosa e os sapatos de pedraria.
Com nojo de tudo e de todos, comecei a procurar uma roupa que me agradasse e que
me fizesse sentir confortável. Também queria mostrar o quão adulta poderia ser, ainda tinha
o olhar de descrença e a diversão de Nicholas gravados na minha cabeça enquanto ele
analisava meu corpo com seus olhos claros e altivos. Ele olhou para mim como se eu fosse
apenas uma criança que ele se divertiria em assustar, coisa que ele fez ao me ameaçar
com aquele cachorro diabólico.
Com as bochechas vermelhas de raiva, escolhi um vestido preto que estava pendurado
em um dos milhares de cabides forrados com seda branca e azul. Nas prateleiras havia
milhares de saltos que poderiam ter ficado muito elegantes com o vestido que havia
escolhido, mas com um sorriso presunçoso, optei por uns saltos rosa fúcsia. Minha mãe
provavelmente os comprou para ir a uma discoteca ou, conhecendo-a, por causa do quão
impressionantes eles eram sendo tão altos.
Sorri só de imaginar a expressão dela e com certeza a do marido.
O vestido era de seda escura e curto, acima dos joelhos. Aproximei-me do espelho
gigante que estava em uma das paredes e me observei cuidadosamente. Minhas curvas
foram marcadas com aquele vestido tão caro e tão sexy. Para ser honesta, fiquei encantada
e meu ânimo melhorou um pouco quando percebi que estava bonita com ele. Eu
rapidamente desamarrei meu cabelo que estava preso em um rabo de cavalo alto e deixei
cair em um dos meus ombros. Eu olhei para a cor do meu cabelo com o cenho franzido.
Nunca iria conseguir entender de que cor era, se loiro ou castanho, mas me incomodava
não ter herdado o loiro platinado da minha mãe Observei meu rosto sem nenhuma intenção
de me maquiar e então fui colocar os sapatos. Ficaram incríveis, muito chiques, e se
destacaram com a cor preta do meu vestido.
Já satisfeita, peguei uma pequena bolsa e me dirigi para a porta.
No momento em que estava abrindo, esbarrei em Nicholas, que parou por um momento
para me observar.
Thor, o demônio, estava ao seu lado e eu não pude deixar de me afastar.
Meu novo irmão sorriu por algum motivo inexplicável, e voltou a correr pelo meu corpo e
rosto com olhar. Ao fazê-lo, seus olhos brilharam com algum tipo de emoção sombria e
indecifrável.
Então seus olhos caíram sobre meus pés.
-Belos sapatos- disse ele com sarcasmo.
Olhei para ele por um momento e fiquei surpresa novamente com o quão alto e viril ele
era. Ele estava vestindo calças de terno e camisa, sem gravata e com os dois botões da
gola desabotoados. Seus olhos azuis pareciam querer me perfurar, mas não me intimidei.
-Obrigado- eu respondi secamente antes de desviar o olhar em direção ao seu cachorro
que agora ao invés de me olhar com cara de assassino, abanava o rabo de felicidade e
esperava sentado, nos observando com interesse. -Seu cachorro está diferente... Você vai
dizer a ele que me ataque agora ou vai esperar a gente voltar do jantar?- Eu disse, fixando
os olhos nele ao mesmo tempo em que sorria com uma falsa bondade.
-Não sei, sardas... isso vai depender de como você se comporta- respondeu ele ao
mesmo tempo que virou as costas e caminhou em direção às escadas.
Fiquei quieta por um momento, tentando controlar minhas emoções. Sardas! Ele tinha
me chamado de sardas! Esse cara estava procurando encrenca... encrenca de verdade.
Eu andei atrás dele me convencendo de que não valia a pena ficar com raiva de seus
comentários ou por seus olhares ou por sua simples presença. Ele era apenas mais uma
das muitas pessoas que eu não gostaria naquela cidade, então é melhor me acostumando.
Assim que cheguei ao andar de baixo, não pude deixar de me surpreender novamente
com o quão magnífica era aquela casa. De alguma maneira conseguia transmitir um ar
antigo, mas sofisticado e moderno ao mesmo tempo. Enquanto esperava minha mãe
descer, ignorando a pessoa que me fazia companhia, olhei para o impressionante lustre de
cristal que pendia do alto teto com vigas. Era feito de milhares de cristais que caíam como
se fossem gotas de chuva congeladas para baixo, querendo chegar ao chão, mas forçadas
a ficar suspensas no ar por tempo indeterminado.
Por um instante meu olhar encontrou o dele e ao invés de me forçar a separá-lo, decidi
observá-lo até que ele tivesse que desviá-lo. Não queria que pensasse que ele me
intimidava, não queria que ele acreditasse que ia poder fazer o que quisesse comigo.
Para mim, era apenas mais uma pessoa morando sob o meu teto.
Mas seus olhos não desviaram, pelo contrário, se fixaram em mim com uma
determinação incrível. Bem quando eu pensei que não aguentaria mais, minha mãe
apareceu junto com William.
-Bem, estamos todos aqui- disse o último nos observando com um grande sorriso. Eu o
observei sem um lampejo de alegria.- Já reservei mesa no Clube, espero que estejam com
fome…- acrescentou indo para a porta com minha mãe pendurada em seu braço.
Ela me observou com um sorriso satisfeito, até que viu meus sapatos, é claro.
-O que você colocou nos pés? -Ela disse sussurrando em meu ouvido.
Fingi não ouvi-la e me dirigi para a saída.
Lá fora o ar estava quente e refrescante. Podia-se ouvir as ondas quebrando contra a
costa à distância, e as lâmpadas que iluminavam o jardim e a entrada da garagem, faziam
com que parecesse caseiro e muito elegante.
Andei pelo caminho de paralelepípedos até descer as escadas da varanda de entrada.
-Você quer vir no nosso carro, Nick?- William perguntou ao filho.
Ele já havia nos dado as costas e se dirigia para onde havia uma impressionante 4X4.
Ela era preta e bastante alta. Estava brilhante e parecia ter acabado de sair da
concessionária. Não pude evitar revirar os olhos... que típico.
-Eu vou no meu -ele respondeu, virando-se para nós quando chegou à porta.- Depois
do jantar vou me encontrar com Miles, vamos terminar o relatório do caso Refford.
-Muito bem- respondeu seu pai, ao que eu não entendi uma única palavra. -Você quer ir
com ele para o clube, Noah?- Acrescentou um momento depois, virando-se para mim
-Assim vocês vão se conhecer melhor.- William disse, olhando-me feliz, como se o que
acabasse de lhe ocorrer fosse a ideia mais genial do planeta Terra.
Meus olhos não puderam deixar de se desviar para seu filho, que me observou
levantando as sobrancelhas esperando minha resposta. Ele parecia se divertir com toda a
situação.
-Não gosto de entrar no carro de uma pessoa que não sei como dirige- disse ao meu
novo padrasto, esperando que minhas palavras atingissem aquele ponto fatal que os caras
tinham quando sua habilidade de dirigir é questionada. -Então não, eu vou com você.- Eu
acrescentei ao mesmo tempo que virava as costas para a 4x4, e subia no Mercedes preto
de Will.
Nem mesmo olhei para ele quando minha mãe e seu marido entraram no carro e eu
aproveitei a solidão do banco de trás enquanto caminhávamos pelas ruas em direção ao
clube dos ricos.
Desejava com todas as minhas forças terminar aquela noite o mais rápido possível,
acabar com essa farsa de família feliz que minha mãe e seu marido pretendiam criar, e
voltar para o meu quarto para poder descansar.
Cerca de quinze minutos depois chegamos a uma parte isolada cercada por grandes e
campos muito bem cuidados. Mesmo que já fosse noite, um grande caminho iluminado dá
as boas-vindas ao Clube Náutico Mary Read. Antes que nos deixassem passar, um homem
que estava de guarda em uma cabine elegante perto da barreira, se inclinou para ver quem
éramos no carro. Um sinal óbvio de reconhecimento apareceu em seu rosto quando viu
quem estava dirigindo.
-Sr. Leister, boa noite senhor, senhora- acrescentou ele quando viu minha mãe.
Meu novo padrasto o cumprimentou e continuou a entrar naquele local localizado
próximo à costa.
-Noah, aqui você pode fazer mil coisas. Sou membro deste clube desde que nasci,
assim como meu pai, e é um dos melhores do estado. Possui quadras de tênis, lojas,
quadras com muitos cavalos para montar, quadras de basquete e futebol. Também tem
vôlei, que eu sei que você gosta- William disse, sorrindo para mim pelo espelho retrovisor
enquanto nos aproximávamos do litoral, deixando os jardins bem cuidados para trás.
-É ótimo- eu disse sem entusiasmo.
-O campo de golfe é um pouco mais longe, mas aqui estão os restaurantes e logo atrás
daqueles blocos- ele me disse apontando para um prédio que ficava bem longe à minha
direita- há muitas lojas de roupas, cabeleireiros, e acho que até um cinema, né Ella?
-Perguntou se virando para a minha mãe.
Senti um aperto no coração ao ouvi-lo chamá-la assim... Era assim que meu pai a
chamava, e eu tinha certeza de que minha mãe não se divertia nem um pouco com aquele
diminutivo... muitas lembranças ruins, mas, claro, ela não iria contar o seu incrível novo
marido
-Sim, da última vez que viemos eu fui com Margaret - ela respondeu sem nenhum sinal
de desconforto.
Minha mãe era muito boa em esquecer coisas dolorosas e difíceis. Ao contrário de mim,
que mantive dentro, bem fundo, até que em um momento explodiu e levou todos para fora.
-Seu cartão de sócia chegará na próxima semana, mas você pode usar meu sobrenome
para que te deixem entrar- ele me disse como se eu fosse querer entrar em breve.
Balancei a cabeça e olhei pela janela enquanto William se aproximava do restaurante.
Assim que chegamos, paramos o carro logo na entrada. Um manobrista veio até nós
para abrir a porta para minha mãe e para mim, ele aceitou a gorjeta que William lhe deu e
levou o carro para quem sabe onde.
O restaurante era incrível, e era todo de vidro. De onde eu estava pude ver algumas
mesas e as fantásticas piscinas cheias de caranguejos, peixes e todo o tipo de lulas frescas
prontos para serem mortos e servidos para comer. Subi os degraus, com cuidado para não
tropeçar e antes de sermos atendidos, senti alguém atrás de mim. Sua respiração roçou
minha orelha e me deu um calafrio. Ao virar a cabeça, vi Nicholas atrás de mim. Mesmo
usando aqueles saltos infernais, ele era meia cabeça mais alto que eu. Ele apenas baixou o
olhar em direção ao meu.
-Tenho uma reserva em nome de William Leister- disse William à garçonete
encarregada de dar boas-vindas aos novos clientes. Sua postura se desconcertou por
algum motivo inexplicável, e ela se apressou em nos deixar passar para o estabelecimento
lotado e ao mesmo tempo tranquilo e aconchegante.
-Por aqui, Sr. Leister- disse ela, levando-nos para o final do restaurante, onde toda a
parede era de vidro. Fiquei chocada ao ver como o restaurante estava suspenso acima
do mar. A parede de vidro oferecia uma vista impressionante do oceano, e não pude deixar
de me questionar se na Califórnia era muito comum que todas as paredes fossem
transparentes. Nossa mesa estava em um dos melhores lugares, bem iluminada com velas
como todo o restaurante.
Para ser honesta, eu estava completamente apavorada. Nunca tinha ido a um lugar
assim, em que moviam as cadeiras para você sentar e onde junto aos pratos havia pelo
menos cinco garfos.
Quando nos sentamos, William e minha mãe ficaram felizes em conversar e sorrir um
para o outro como bobos, não pude deixar de notar o olhar de espanto e ao mesmo tempo
descrença de que a garçonete dirigiu a Nick.
Ele parecia não ter notado quando começou a girar o mini saleiro entre os dedos. Por um
instante meus olhos se fixaram naquelas mãos tão bem cuidadas, tão morenas e tão
grandes. Meus olhos viajaram de seu braço até seu rosto e depois para seus olhos, que me
observavam com interesse.
-O que você vai pedir?- Minha mãe perguntou, fazendo-me olhar rapidamente para ela.
Deixei que pedissem por mim, principalmente porque não conhecia mais da metade dos
pratos que estavam no menu. Enquanto esperávamos que nos trouxesse a comida, eu
mexia distraidamente meu chá gelado com o canudo, William tentou envolver eu e seu filho
na conversa que eles estavam tendo.
-Mais cedo eu estava falando para a Noah sobre os esportes que podem ser praticados
aqui no Clube, Nick- ele disse, fazendo com que seu filho desviasse o olhar do final da sala
para os olhos de pai. -Nicholas joga basquete, e é um excelente surfista, Noah- disse Will,
ignorando o rosto entediado de Nick e agora focando em mim.
Surfista... Não pude deixar de revirar os olhos. Para a minha má sorte, Nicholas estava
me observando. Focando seu olhar em mim, ele se inclinou sobre a mesa, apoiando os dois
antebraços sobre ele, olhando para mim, se inclinou sobre a mesa, apoiando ambos os
antebraços sobre ela, olhando-me com intenso escrutínio.
-Tem alguma coisa que te diverte, Noah?- Ele me disse imitando um tom amigável, mas
eu sabia que no fundo, meu gesto o havia incomodado. - Você considera o surfe um esporte
idiota?
Antes que minha mãe respondesse, apressei-me a me curvar como ele.
-Você disse isso, não eu- disse sorrindo inocentemente.
Nunca tinha entendido esse hobby que os americanos tinham de surfar. Parecia um
esporte estúpido, sim. Subir em uma prancha e deixar as ondas te arrastarem até à praia,
não vejo nenhum benefício, além de parecer um idiota em um pedaço de madeira. Eu gosto
de esportes coletivos, com estratégia, que exigem um bom capitão e muita perseverança e
trabalho. Havia encontrado tudo isso no vôlei e tinha certeza de que o surf não poderia nem
se comparar.
Antes que ele pudesse me responder, o que eu tinha certeza de que ele estava ansioso,
a garçonete chegou e ele não pôde deixar de voltar os olhos para ela novamente, como se
a conhecesse.
Minha mãe e William começaram a conversar animadamente ao mesmo tempo em que
um par de amigos deles pararam para cumprimentá-los.
A garçonete, uma jovem de cabelo castanho-escuro e avental preto, apressou-se em
largar os pratos sobre a mesa, e ao fazer isso, acertou sem querer Nicholas no ombro.
-Sinto muito, Nick- disse ela, e então, sobressaltada, virou-se para mim, como se tivesse
cometido um erro gigantesco.
Nicholas também olhou para mim e então entendi que algo estranho estava acontecendo
entre aqueles dois. Assim que ela saiu, e aproveitando que nossos pais estavam distraídos,
me inclinei para tirar as dúvidas.
-Você a conhece?- Perguntei enquanto ele se servia de mais água com gás em seu copo
de cristal.
-Quem?- Ele me respondeu, se fazendo de bobo.
-A garçonete- eu disse, observando seu rosto com interesse. Ele não transmitiu nada,
estava falando sério, relaxado. Eu sabia então que Nicholas Leister era uma pessoa que
sabia muito bem como esconder seus pensamentos.
-Sim, ela me serviu mais de uma vez- disse ele dirigindo seus olhos para mim. Ele me
olhou desafiando-me a contradizê-lo. Ora, ora... Nick, um mentiroso... Por que não me
estranhava?
-Sim, com certeza ela já te atendeu, várias ou diria muitas vezes- eu disse, pensando no
tipo de atividade que aquela garota poderia realizar, e mais, se havia dinheiro envolvido.
-O que você está insinuando, maninha?- Ele disse e eu não pude deixar de sorrir assim
que ele usou aquele adjetivo.
-Que todos os meninos ricos como você são iguais, vocês acham que porque tem
dinheiro vocês são os deuses do mundo. Aquela garota não parou de olhar para você desde
que você entrou por aquela porta, é óbvio te conhece- eu disse olhando para ele com raiva
por algum motivo inexplicável. -E você sequer dignou-se a olhar para ela de volta... É
nojento.
Ele me encarou antes de responder.
Você tem uma teoria muito interessante, e vejo que as pessoas com dinheiro, como
você chama, te incomodam muito…é claro que você e sua mãe estão vivendo agora
debaixo do nosso teto e desfrutando de todas as comodidades que o dinheiro pode
oferecer, se parecemos tão desprezíveis para você, o que faz sentada nessa mesa? O que
faz vestida com essa roupa?- disse me olhando de cima a baixo, com desprezo.
Eu o observei tentando controlar meu temperamento. Aquele garoto sabia o que dizer
para me tirar do sério.
-Na minha opinião, você e sua mãe são ainda piores que a garçonete…- Ele disse,
inclinando-se sobre a mesa para poder se dirigir apenas a mim - Porque você finge ser algo
que não é, quando vocês duas se venderam por dinheiro... Uma palavra muito qualificadora
me ocorre para definir a sua mãe... e começa com a letra...
Isso foi longe demais. A raiva me cegou.
Peguei o copo que estava à minha frente e com um gesto derrubei tudo que havia
dentro.
Pena que o copo estava vazio.

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