O menino admirava a mãe sentado em um tamborete penteando seus cabelos loiros e curtos.
Deixou a
escova ecomecou a passar o perfume, ao olhar no espelho viu o menino a admirar com as mãos no
queixo.
-Quantos anos você tem, mamãe?
– Ah, que pergunta! Acho que trinta ou trinta e um, por aí, meu amor, por aí. Quer se perfumar
também?
– Homem não bota perfume.
– Homem, homem! – Ela inclinou-se para beijá-lo.
– Você é um nenenzinho, ouviu bem? É o meu nenenzinho.
O menino afundou a cabeça no colo perfumado. Quando não havia ninguém olhando, achava
maravilhoso ser afagado como uma criancinha. Mas era preciso mesmo que não houvesse ninguém por
perto.
Agora vamos que a sessão começa às oito – avisou ela, retocando apressadamente os lábios.
O menino deu um grito, montou no corrimão da escada e foi esperá-la embaixo. Da porta, ouviu-a dizer
à empregada que avisasse ao doutor que tinham ido ao cinema.
Na rua ele andava feliz era tão bom sair de mãos dadas com a mãe. Melhor ainda quando o pai não ia
junto porque assim ficava sendo o cavalheiro dela.
– Que fita a gente vai ver?
– Não sei, meu bem.
– Você não viu no jornal? Se for fita de amor, não quero! Você não viu no jornal, hein, mamãe?
Ela não respondeu. Andava agora tão rapidamente que às vezes o menino precisava andar aos pulos
para acompanhá-la. Quando chegaram à porta do cinema, ele arfava. Mas tinha no rosto uma
vermelhidão feliz.
A sala de espera estava vazia. Ela comprou os ingressos e em seguida, como se tivesse perdido toda a
pressa, ficou tranqüilamente encostada auma coluna, lendo o programa. O menino deu-lhe um puxão na
saia.
– Mãe, mas o que é que você está fazendo?! A sessão já começou, já entrou todo mundo, pô!
Ela inclinou-se para ele. Falou num tom muito suave, mas os lábios se apertavam comprimindo as
palavras e os olhos tinham aquela expressão que o menino conhecia muito bem, nunca se exaltava,
nunca elevava a voz.
– Sei que já começou mas não vamos entrar agora, ouviu?
O menino enfiou as mãos nos bolsos e enterrou o queixo no peito. Lançou à mãe um olhar sombrio. Por
que é que não entravam logo? Tinham corrido feito dois loucos e agora aquela calma, espera. Esperar o
que, pô?!…
– É que a gente já está atrasado, mãe.
– Vá ali no balcão comprar chocolate – ordenou ela entregando-lhe uma nota nervosamente
amarfanhada
Ele atravessou a sala num andar arrastado. Quem é que quer chocolate? Sem nenhum entusiasmo,
pediu um tablete de chocolate. Vacilou um instante e pediu em seguida um tubo de drágeas de limão e
um pacote de caramelos de leite, pronto, também gastava à beça. Recebeu o troco de cara fechada.
Ouviu então os passos apressados da mãe que lhe estendeu a mão com impaciência:
– Vamos, meu bem, vamos entrar.
Num salto, o menino pôs-se ao lado dela. Apertou-lhe a mão freneticamente.
– Depressa que a fita já começou, não está ouvindo a música? Na escuridão, ficaram um instante
parados, envolvidos por um grupo de pessoas, algumas entrando, outras saindo. Foi quando ela
resolveu.
– Venha vindo atrás de mim.
Os olhos do menino devassavam a penumbra. Apontou para duas poltronas vazias.
– Lá, mãezinha, lá tem duas, vamos lá!
Ela olhava para um lado, para outro e não se decidia.
– Mãe, aqui tem mais duas, está vendo? Aqui não está bom? insistiu ele, puxando-a pelo braço. E olhava
aflito para a tela e olhava de novo para as poltronas vazias que apareciam aqui e ali como coágulos de
sombra. – Lá tem mais duas, está vendo?Ela adiantou-se até as primeiras filas e voltou em seguida até o
meio dcorredor.
– Entre aí.
– Licença? Licença?… – ele foi pedindo. Sentou-se na primeira poltrona desocupada que encontrou, ao
lado de uma outra desocupada também.
– Aqui, não é, mãe?
– Não, meu bem, ali adiante – murmurou ela, fazendo-o levantar-se. Indicou os três lugares vagos quase
no fim da fileira. Lá é melhor.
Ele resmungou, pediu licença, licença, e deixou-se cair pesadamente no primeiro dos três lugares. Ela
sentou-se em seguida.
– Ih, é fita de amor, pô!
– Quieto, sim?
O menino pôs-se na beirada da poltrona. Esticou o pescoço, olhou para a direita, para a esquerda,
remexeu-se.
– Essa bruta cabeçona aí na frente!
– Quieto, já disse.
– Mas é que não estou enxergando direito, mãe! Troca comigo que não estou enxergando!
Ela apertou-lhe o braço. Esse gesto ele conhecia bem e significava apenas: não insista!
– Mas, mãe.
Inclinando-se até ele, ela falou-lhe baixinho, naquele tom perigoso, meio entre os dentes e que era
usado quando estava no auge, um tom tão macio que quem a ouvisse julgaria que ela lhe fazia um
elogio. Mas só ele sabia o que havia debaixo daquela maciez.
– Não quero que mude de lugar, está me escutando? Não quero. E não insista mais.
Contendo-se para não dar um forte pontapé na poltrona da frente, ele enrolou o pulôver como uma bola
e sentou-se em cima. Gemeu. Mas por que aquilo tudo? Por que a mãe lhe falava daquele jeito, por
quê? Não fizera nada de mal, só queria mudar de lugar, só isso…
O menino gemeu, Ai meu Deus… Pronto. Agora é que não restava mesmo nenhuma esperança. E aqueles
dois enjoados lá na fita numa conversa comprida que não acabava não ia pra gmais, ela vestida de
enfermeira, ele de soldado, mas por que o tipo uerra. E a cabeçona da mulher na sua frente indo e vindo
para a esquerda, para a direita, os cabelos armados a flutuarem na tela como teias monstruosas de uma
aranha. Um punhado de fios formava um frouxo topete que chegava até o queixo da artista.
-Olha, presta atenção, agora ele vai ter que fugir com outro nome… O padre vai arrumar o passaporte.
– Mas por que ele não vai pra guerra duma vez.
– Porque ele é contra a guerra, filho, ele não quer matar ninguém – sussurrou-lhe a mãe num tom
meigo. Devia estar sorrindo e ele sorriu também,
ah! que bom, a mãe não estava mais nervosa, não estava mais nervosa. As coisas começavam a melhorar
e para maior alegria, a mulher da poltrona da frente levantou-se e saiu. Diante dos seus olhos apareceu
o retângulo inteiro da tela.
– Agora sim! – disse baixinho, desembrulhando o tablete de chocolate. Meteu-o inteiro na boca e tirou
os caramelos do bolso para oferecê-los à mãe. Então viu: a mão pequena e branca, muito branca,
deslizou pelo braço da poltrona e pousou devagarinho nos joelhos do homem que acabara de chegar.
O menino continuou olhando, imóvel. Pasmado. Por que a mãe fazia aquilo?! Por que a mãe fazia
aquilo?!… Ficou olhando sem nenhum pensamento, sem nenhum gesto.
Foi então que as mãos grandes e morenas do homem tomaram avidamente a mão pequena e branca.
Apertaram-na com tanta força que pareciam querer esmagá-la.
O menino estremeceu. Sentiu o coração bater descompassado, bater como só batera naquele dia na
fazenda quando teve de correr como louco, perseguido de perto por um touro. O susto ressecou-lhe a
boca. O chocolate foi-se transformando numa massa viscosa e amarga. Engoliu-o com esforço, como se
fosse uma bola de papel. Redondos e estáticos, os olhos cravaram-se na tela. Moviam-se as imagens sem
sentido num sonho fragmentado. Os letreiros dançavam e se fundiam pesadamente, como chumbo
derretido. Mas o menino continuava imóvel, olhando obstinadamente.
Um bar esfumaçado, brigas, a fuga do moço de capa perseguido pela sereia da polícia, mais brigas numa
esquina, tiros. A mão pequena e branca a deslizar no escuro como um bicho. Torturas e gritos nos
corredores paralelos da prisão, os homens agarrando as portas de grade, mais conspirações. Mais
homens. A mão pequena e branca. A fuga, os faróis na noite, os gritos, mais tiros, tiros. O carro
derrapando sem freios. Tiros.
Espantosamente nítido em meio do fervilhar de sons e falas – e ele não queria, não queria ouvir! – o
ciciar delicado dos dois num diálogo entre os dentes.
Antes de terminar a sessão – mas isso não acaba mais, não acaba? -, ele sentiu, mais do que sentiu,
adivinhou a mão pequena e branca desprender-se das mãos morenas. E do mesmo modo manso como
avançara, recuar deslizando pela poltrona e voltar a se unir à mão que ficara descansando no regaço. Ali
ficaram entrelaçadas e quietas como estiveram antes..
– Está gostando, meu bem? – perguntou ela inclinando-se para o menino.
Ele fez que sim com a cabeça, os olhos duramente fixos na cena final. Abriu a boca quando o moço
também abriu a sua para beijar a enfermeira.
Apertou os olhos enquanto durou o beijo. Então o homem levantou-se embuçado na mesma escuridão
em que chegara o menino retesou-se, os maxilares contraídos, trêmulo. Fechou os punhos. Eu pulo no
pescoço dele, eu esgano ele!
O olhar desvairado estava agora nas espáduas largas interceptando a tela como um muro negro. Por um
brevíssimo instante ficaram paradas em sua frente. Próximas, tão próximas. Sentiu a perna musculosa do
homem roçar no seu joelho, esgueirando-se rápida. Aquele contato foi como ponta de um alfinete num
balão de ar. O menino foi-se descontraindo. Encolheu-se murcho no fundo da poltrona e pendeu a
cabeça para o peito.
Quando as luzes se acenderam, teve um olhar para a poltrona vazia. Olhou para a mãe. Ela sorria com
aquela mesma expressão que tivera diante do espelho, enquanto se perfumava. Estava corada, brilhante.
– Vamos, filhote?
Estremeceu quando a mão dela pousou no seu ombro. Sentiu-lhe o perfume. E voltou depressa a cabeça
para o outro lado, a cara pálida, a boca apertada como se fosse cuspir. Engoliu penosamente. De assalto,
a mão dela agarrou a sua. Sentiu-a quente, macia. Endureceu as pontas dos dedos, retesado, queria
cravar as unhas naquela carne.
– Ah, não quer mais andar de mãos dadas comigo?
Ele inclinara-se, demorando mais do que o necessário para dobrar a barra da calça rancheira.
– É que não sou mais criança.
– Ah, o nenenzinho cresceu? Cresceu? – Ela riu baixinho. Beijou-lhe o rosto. – Não anda mais de mão
dada?
O menino esfregou as pontas dos dedos na umidade dos beijos no queixo, na orelha. Limpou as marcas
com a mesma expressão com que limpava as mãos nos fundilhos da calça quando cortava as minhocas
para o anzol.
Na caminhada de volta, ela falou sem parar, comentando excitada o enredo do filme. Explicando. Ele
respondia por monossílabos.
– Mas que é que você tem, filho? Ficou mudo…
– Está me doendo o dente.
– Outra vez? Quer dizer que fugiu do dentista? Você tinha hora ontem, não tinha?
– Ele botou uma massa. Está doendo – murmurou inclinando-se para apanhar uma folha seca. Triturou-a
no fundo do bolso. E respirou abrindoa boca.
– Como dói, pô.
– Assim que chegarmos você toma uma aspirina. Mas não diga, por favor, essa palavrinha que detesto.
– Não digo mais.
Quando entraram na sala, o pai estava sentado na cadeira de balanço, lendo o jornal, como todas as
noites. O menino estacou na porta. O olhar em pânico procurou as mãos do pai.
– Então, meu amor, lendo o seu jornalzinho? – perguntou ela, beijando o homem na face. – Mas a luz
não está muito fraca?
– A lâmpada maior queimou, liguei essa por enquanto – disse ele, tomando a mão da mulher. Beijou-a
demoradamente. Tudo bem?
– Tudo bem.
O menino mordeu o lábio.
Como nas outras noites, igual.
– Então, filho? Gostou da fita? – perguntou o pai dobrando o jornal. Estendeu a mão ao menino e com a
outra começou a acariciar o braço nu da mulher. – Pela sua cara, desconfio que não.
– Gostei, sim.
– Ah, confessa, filhote, você detestou, não foi? – contestou ela. – Nem eu entendi direito, uma
complicação dos diabos, espionagem, guerra, máfia… Você não podia ter entendido.
– Entendi. Entendi tudo – ele quis gritar e a voz saiu num sopro tão débil que só ele ouviu.
– E ainda com dor de dente! – acrescentou ela desprendendo-se do homem e subindo a escada. Ah, já ia
esquecendo a aspirina.
O menino voltou para a escada os olhos cheios de lágrimas.
– Que é isso? – estranhou o pai. – Parece até que você viu assombração. Que foi?
O menino encarou-o demoradamente. Aquele era o pai. O pai. Os cabelos grisalhos. Os óculos pesados.
O rosto feio e bom.
– Pai… – murmurou, aproximando-se. E repetiu num fio de voz: – Pai…
– Mas meu filho, que aconteceu? Vamos, diga!
– Nada. Nada.
Fechou os olhos para prender as lágrimas. Envolveu o pai num apertado abraço