Ema Glória
Caso 1
Arlindo, adepto fervoroso do Benfica e sócio n.º 999, desde longa data, assiste
aos jogos de futebol do seu “Glorioso” com o grande amigo Nelson. Em dia de
derby na Luz, com a emoção do jogo, sentiu-se mal e foi-lhe diagnosticada
uma doença grave, tendo os médicos previsto que teria apenas três meses de
vida. Ao saber desta pavorosa notícia, Arlindo decidiu fazer um testamento
público, em janeiro de 2009, do qual constava uma disposição a favor de
Nelson com o seguinte teor: “Lego ao meu amigo Nelson a minha camisola
autografada pelo Eusébio, no caso de o Benfica ser campeão nacional este
ano.” Arlindo faleceu em março de 2009. O Benfica não ganhou o campeonato
de futebol, mas obteve o primeiro lugar no campeonato nacional de andebol.
Nelson, consternado com a morte do amigo, que sempre o acompanhou aos
jogos do “Glorioso”, e fã incondicional do Eusébio, afirma que: “só a mim e a
mais ninguém pertence a camisola do “grande Eusébio”. Quid iuris?
Pretende-se saber se Nelson deve ficar com a camisola do Eusébio. Para tal,
devemos interpretar a deixa testamentária onde se dispõe “no caso de o
Benfica ser campeão nacional”. O Benfica foi campeão nacional de andebol,
será que este facto preenche o disposto na deixa testamentária? Nelson faz
uma interpretação literal da norma e diz que sim, pois a letra da lei refere “no
caso de o Benfica ser campeão nacional” sem especificar se é campeão
nacional de futebol, de andebol ou de qualquer outra modalidade desportiva.
Para respondermos a esta questão, importa analisar os elementos da
interpretação. O elemento literal (palavras em que a lei se exprime) parece que
aponta para campeão nacional de qualquer modalidade desportiva. No entanto,
há que observar também o elemento lógico, composto pelos elementos:
sistemático (conjunto de normas em que a lei a interpretar se insere – está
previsto no art. 9.º n.º 1 do CC “... tendo em conta a unidade do sistema
jurídico...”), histórico (circunstâncias temporais que rodearam a feitura da deixa
testamentárias – previsto no art. 9.º n.º 1 do CC “... circunstâncias em que a lei
foi elaborada...”) e teleológico (finalidade da norma – previsto no art. 9.º n.º 3
do CC). Para o caso é importante o elemento histórico, pois Nelson
acompanhou, durante largos anos, o seu amigo Arlindo aos jogos de futebol do
Benfica. Interessa também o elemento teleológico ou fim concreto que a deixa
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testamentária visa satisfazer, visto Arlindo pretender partilhar com o amigo, e
depois da sua morte, a alegria do Benfica ser campeão nacional de futebol
nesse ano, dando-lhe a camisola do Eusébio, conhecido jogador de futebol.
Deste modo, verifica-se uma desarmonia entre a letra e o espírito da lei, pois
enquanto o elemento literal aponta para “Benfica campeão nacional de
qualquer modalidade desportiva”, o elemento lógico aponta para “Benfica
campeão nacional de futebol”. Por isso, fazendo uma interpretação restritiva da
deixa testamentária, isto é, limitando a letra da lei por consideração do
elemento lógico, chegamos ao seu sentido real, que consiste na verificação da
condição no caso de o Benfica ser campeão nacional de futebol. Assim,
conclui-se que Nelson não tem razão, pois não tendo o Benfica ganho o
campeonato de futebol, a camisola do Eusébio não deve ficar para ele.
Caso 2
José Pedro, há longas semanas, vem sendo acordado a meio da noite por
chamadas telefónicas feitas por alguém que invariavelmente lhe pergunta se
consegue dormir bem. a) Tendo reconhecido a voz de um colega da
Faculdade, José Pedro pretende saber se pode apresentar queixa-crime com
fundamento no art. 190.º, n.º 1, do Código Penal, aprovado pelo Decreto-Lei n.º
48/95, de 15 de março, nos termos do qual “Quem, sem consentimento, se
introduzir na habitação de outra pessoa ou nela permanecer depois de intimado
a retirar-se, é punido com pena de prisão até um ano ou com pena de multa até
240 dias.”514. b) Suponha que é consultado um professor catedrático de
Direito Penal que sobre a questão emite um parecer. Que valor deve ser
atribuído a este parecer no que concerne à interpretação do citado preceito do
Código Penal? c) Suponha que o Governo, a pretexto de algumas dificuldades
de interpretação do referido artigo, faz um decreto regulamentar onde vem
esclarecer que ali a expressão “introduzir na habitação” deve ser entendida
como toda a violação de privacidade do domicílio, haja ou não presença física
por parte do agente.” Quid iuris?
Alínea a)
Para determinarmos se esta norma se aplica ao colega de José Pedro, que lhe
telefona ao meio da noite, importa interpretar a expressão do art. 190.º, n.º 1,
do Código Penal “introduzir na habitação de outra pessoa”, por isso, devemos
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também aqui analisar os elementos da interpretação. Quanto ao elemento
literal verifica-se que a palavra “introduzir” significa “entrar ou meter dentro” e
no seu sentido gramatical comum implica presença física. Quanto ao elemento
lógico é relevante o elemento sistemático (art. 9.º, n.º 1, do CC), pois o art.
190.º, n.º 1, do Código Penal está inserido no capítulo dos “Dos crimes contra a
reserva da vida privada ou perturbação da vida” e tem como epígrafe “Violação
de domicílio ou perturbação da vida privada”, parecendo abranger todas as
situações de perturbação, quer impliquem presença física ou não; e releva
também o elemento teleológico (art. 9.º, n.º 3, do CC), sendo a finalidade da lei
sancionar quem perturba a vida privada de outrem. Neste sentido, atendendo
ao elemento lógico da interpretação, a norma parece abranger a perturbação
de outrem, quer haja presença física ou não. Deste modo, verifica-se que, da
análise dos elementos da interpretação, resulta uma desarmonia entre a letra e
espírito da lei, pois o legislador disse menos do que queria dizer, queria referir-
se a todas as situações de perturbação da vida privada de outrem e referiu-se
apenas às situações de perturbação com presença física, razão pela qual,
fazendo uma interpretação extensiva do preceito, isto é, estendendo a letra da
lei por consideração do elemento lógico, devemos entender que o art. 190.º, n.º
1, do Código Penal se aplica à situação em causa, de perturbação sem
presença física – através de chamadas telefónicas. Tal interpretação ainda
parece caber dentro dos sentidos literais possíveis da expressão “introdução”,
respeitando-se, por esta razão, o art. 9.º, n.º 2, do CC. Assim, verifica-se que
José Pedro pode apresentar queixa contra o colega.
Nota:
Temos uma situação em que se pode discutir igualmente a aplicação analógica
deste preceito do Código Penal (analogia legis). A decisão da opção pela
interpretação extensiva ou pela analogia deve passar pela consideração da
maior ou menor proximidade da situação à letra da lei e pelo cumprimento ou
não do já referido art. 9.º n.º 2 do CC. Se entendermos que a expressão
“introdução” também comporta as situações de presença não física, fazemos
uma interpretação extensiva e aplicamos a lei à situação. Se considerarmos
que a expressão “introdução” apenas comporta as situações de presença
física, então teremos de recorrer à analogia legis, pois subentendemos uma
lacuna quanto aos casos de intromissão sem presença física, que deve ser
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integrada pelo recurso ao referido preceito do Código Penal. Para determinar
se a analogia é permitida, devemos verificar se, nos termos do art. 10.º, n.º 2,
do CC, procedem as razões justificativas no caso previsto na lei. O que aqui
parece existir, pois em ambas situações se pretende evitar a perturbação da
vida privada de outrem. Todavia, como está em causa uma norma de direito
penal positivo (define os crimes e medidas das penas), a sua aplicação
analógica é vedada pelos artigos 29.º da CRP e 1.º, n.º 3, do Código Penal, o
que impede a aplicação do art. 190.º, n.º 1, do Código Penal a esta situação.
Do exposto, verifica-se que a opção pela via da interpretação extensiva ou a
opção pela via da analogia reveste, no caso concreto, uma importância
extrema, dado que pode levar à criminalização ou não da conduta em causa.
Alínea b)
O professor catedrático faz uma interpretação doutrinal do preceito. Esta
modalidade de interpretação quanto ao critério da fonte ou valor não tem
carácter vinculativo para os outros (sem eficácia externa), mas vale apenas
pela força dos argumentos invocados e pelo prestígio da pessoa que a efetua.
Alínea c)
O Governo através do decreto regulamentar faz uma interpretação oficial ou
administrativa, aquela que é realizada por uma norma ou fonte de valor inferior
à norma interpretada (neste caso existe um regulamento que interpreta uma
lei). Esta modalidade de interpretação não tem eficácia externa (para os
aplicadores do Direito), produzindo apenas efeitos internos no seio da
hierarquia administrativa.
Caso 3
Suponha que o regulamento 119/09, estabelece no art. 9.º que “os militares
devem entrar e sair fardados das suas unidades” e que no art. 20.º se dispõe
que “os militares podem entrar e sair da sua unidade em traje civil”. Fernando,
militar, tem dúvidas em perceber o regulamento. Quid iuris?
Aqui o intérprete deve fazer uma interpretação abrogante (modalidade de
interpretação quanto ao critério do resultado da conjugação dos elementos
literal e lógico), segundo a qual se chega à conclusão que existe uma
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contradição insanável entre os elementos lógico e literal, e que, por esses
motivos, não se consegue retirar da norma qualquer sentido ou significado.
Caso 4
Na sequência de desacatos ocorridos, em abril de 2009, no Estádio da Boa
Ventura, que levaram a violentas agressões entre membros das diferentes
claques, foi publicado o Decreto-Lei n.º 21279 com o seguinte teor: “É proibida
a entrada em estádios de futebol com quaisquer objetos contundentes”.
a) Um mês depois, num jogo de futebol entre o Benfica e a Naval, nove
agentes da Polícia de Segurança Pública, encarregados de vigiar o encontro,
pretendem entrar no Estádio da Luz com pistolas e cassetetes.
b) Por sua vez, Ricardo, benfiquista fervoroso, também quer entrar no estádio,
levando uma garrafa de vidro de água com capacidade de um litro e meio. Quid
iuris?
Caso 5
Na sequência de desacatos ocorridos, em Abril de 2009, no Estádio da Boa
Ventura, que levaram a violentas agressões entre membros das diferentes
claques, foi publicado o Decreto-Lei n.º 21279 com o seguinte teor: “É proibida
a entrada em estádios de futebol com quaisquer objetos contundentes”. a) Um
mês depois, num jogo de futebol entre o Benfica e a Naval, nove agentes da
Polícia de Segurança Pública, encarregados de vigiar o encontro, pretendem
entrar no Estádio da Luz com pistolas e cassetetes. b)Por sua vez, Ricardo,
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benfiquista fervoroso, também quer entrar no estádio, levando uma garrafa de
vidro de água com capacidade de um litro e meio.
Quid iuris?
Caso 6
Admita que a correta interpretação de certo artigo algo ambíguo do Código do
Registo Civil dá direito aos advogados a requererem quaisquer certidões
relativas aos seus clientes. O problema é que o artigo é, de facto, ambíguo, e a
Direção-Geral dos Registos e Notariado, excessivamente preocupada com uma
certa proteção da privacidade da vida dos cidadãos, emitiu uma circular
determinando que os conservadores e funcionários do registo civil só
passassem certidões a pedido dos advogados quando estes apresentassem
procuração ou autorização dos seus clientes que especificamente lhes desse
poderes para requerer o tipo de certidão em causa. Zebedeu, M. D. Advogado,
insiste com um funcionário para que lhe passe a devida certidão. O bom do
funcionário dizia: «eu até concordo com o S’outor, mas ordens são ordens, não
posso passar ao lado de uma circular da Direção-Geral.»
Que fazer?
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Caso 7
Suponha que o Governo pretende proteger a maternidade desvalida, e, para
tal, cria um pacote de normas, entre as quais se inclui o Decreto-Lei n.º 21058
que contém uma disposição com o seguinte teor: “As mães solteiras beneficiam
de uma redução de 50% no seu horário de trabalho nos seis meses posteriores
ao parto”. Imagine que Sónia, recém-divorciada e mãe de uma criança de um
mês, solicita à sua empresa idêntica redução.
Quid iuris?