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Metonimia e Linguística Cognitiva

1) O documento discute como a linguística cognitiva analisa a linguagem como reflexo do pensamento humano e como experiências corporais influenciam a formação de conceitos. 2) A teoria dos protótipos é abordada, mostrando como membros de categorias compartilham mais ou menos atributos com o protótipo central. 3) Esquemas imagéticos representam experiências sensoriais e são meios para organizar e compreender o mundo.

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Metonimia e Linguística Cognitiva

1) O documento discute como a linguística cognitiva analisa a linguagem como reflexo do pensamento humano e como experiências corporais influenciam a formação de conceitos. 2) A teoria dos protótipos é abordada, mostrando como membros de categorias compartilham mais ou menos atributos com o protótipo central. 3) Esquemas imagéticos representam experiências sensoriais e são meios para organizar e compreender o mundo.

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XVII Congresso Nacional de Linguística e Filologia 75

METÁFORAS, PROTÓTIPOS E ESQUEMAS IMAGÉTICOS:


COMO A LINGUAGEM REVELA OS CAMINHOS DA MENTE
Naira de Almeida Velozo (UFRJ)
naira_velozo@[Link]

1. Introdução
A linguística cognitiva é constituída por posições teóricas que partem da hipótese
da motivação conceptual da gramática, segundo a qual fenômenos léxico-gramaticais
devem ser explicados a partir de mecanismos mais gerais da cognição humana. Assim, a
linguística cognitiva defende a hipótese da não modularidade da linguagem, assumindo
uma perspectiva integradora em relação aos módulos tradicionalmente estabelecidos.
De acordo com os sociocognitivistas, a estrutura léxico-gramatical das línguas na-
turais reflete, em alguma medida, a estrutura do pensamento. Em vista disso, assume-se
que a representação do conhecimento de mundo não é fundamentalmente diferente da re-
presentação semântica, e que os processos cognitivos gerais, como mecanismos de cate-
gorização e de atenção, motivam os fenômenos gramaticais.
No âmbito da linguística cognitiva, a construção da significação referente ao uni-
verso cultural leva em conta a captação dos dados da experiência. Sendo assim, uma das
hipóteses centrais dessa abordagem é que as experiências humanas mais básicas, as quais
se estabelecem a partir do corpo, fornecem as bases dos sistemas conceptuais humanos. O
pensamento é compreendido, portanto, como corporificado, uma vez que sua estrutura e
sua organização estão associadas diretamente à estrutura do corpo, assim como às restri-
ções humanas de percepção e de movimento no espaço.
A partir desses postulados teóricos, neste artigo, objetiva-se analisar os usos do co-
nectivo mas em uma interação espontânea, com base na teoria da metáfora conceptual e
nos conceitos de categorização e esquemas imagéticos, a fim de corroborar as hipóteses
da linguística cognitiva e de investigar como as metáforas, os protótipos e os esquemas
imagéticos tornam possível o discurso argumentativo.

2. Breves considerações sobre a linguística cognitiva


Retomando a proposta filosófica de Putnam (1981) em relação à razão humana,
Lakoff (1987), um dos precursores da linguística cognitiva, adota o realismo experiencia-
lista em seus estudos. Embora reconheça a existência da realidade externa, o realismo ex-
periencialista assume que, devido à forma e à configuração dos corpos e cérebros huma-
nos, estabelece-se necessariamente uma perspectiva particular entre várias perspectivas
possíveis e igualmente viáveis em relação ao mundo. Partindo dessa retomada, resumem-
se os principais postulados da linguística cognitiva da seguinte forma:

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76 Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos
O pensamento é “enraizado” no corpo, de modo que as bases do nosso sistema conceptual são
percepção, movimento corporal e experiências de caráter físico e social; o pensamento é imagina-
tivo, de forma que os conceitos que não são diretamente ancorados em nossa experiência física
empregam metáfora, metonímia e imagética mental, caracterizados por ultrapassar o simples es-
pelhamento literal da realidade; o pensamento tem propriedades gestálticas: os conceitos apresen-
tam uma estrutura global não atomística, para além da mera reunião de ‘blocos conceptuais’ a
partir de regras específicas. (FERRARI, 2011, p. 22)

O significado é entendido, portanto, como uma construção mental, em um movi-


mento contínuo de categorização e recategorização do mundo, a partir da interação de es-
truturas cognitivas e modelos compartilhados de crenças socioculturais. Sob essa ótica,
acredita-se que as palavras não contêm significados, mas orientam a construção do senti-
do.
Na próxima seção, apresentam-se considerações básicas acerca da teoria dos protó-
tipos, as quais se relacionam estreitamente à noção de perspectiva e de categorização e
recategorização do mundo.

3. Teoria dos protótipos


Antes de revisar, especificamente, as considerações básicas acerca da teoria dos
protótipos, é preciso tratar do processo de categorização, que é essencial em relação à
linguagem.
A categorização é o processo através do qual se agrupam entidades semelhantes
(objetos, pessoas, lugares etc.) em classes específicas. As estratégias de categorização es-
tão intimamente relacionadas à capacidade humana de memória. Percebe-se que se agru-
pam objetos em categorias para falar do mundo, mas não se criam um número infinito de
categorias, pois isso acarretaria em sobrecarga em termos de processamento e armazena-
mento de informações.
De acordo com o modelo clássico de categorização, para que um elemento pertença
a uma categoria, esse deve possuir todos os atributos definidores da mesma. Os membros
da categoria AVE, por exemplo, devem “ter bico”, “ter duas asas”, “ter dois pés”, “ter per-
nas”, “poder voar” e “colocar ovos”. Assim, enquanto gaivotas e pardais seriam membros
da categoria AVE, indiscutivelmente, os pinguins precisariam ser excluídos da categoria,
por possuírem asas atrofiadas com função de nadadeira e não possuírem pena. Dessa for-
ma, percebe-se que não há um traço compartilhado por todos os membros da família, mas
um conjunto de traços que permite compartilhamentos parciais, assim como não há um
traço definidor das categorias em geral.
As investigações iniciais de Rosch (1973, 1978), no âmbito da Psicologia, tiveram
grande influência nos questionamentos ao modelo clássico de categorização, pois levaram
a autora a defender que todos os tipos de entidades são organizados em termos de catego-
rias prototípicas, cujos limites não são nítidos.
Uma das investigações de Rosch (1973, 1978) partiu dos julgamentos de estudantes
universitários acerca das seguintes categorias: FRUTA, MOBÍLIA, VEÍCULO, ARMA, LEGU-
ME, FERRAMENTA, AVE, ESPORTE e BRINQUEDO. Os estudantes deveriam julgar se os itens
apresentados eram “bons exemplos” das categorias indicadas e, a partir de tais julgamen-
tos, sugeriu-se a existência de efeitos prototípicos. Cadeiras, sofás, mesas e camas, por
exemplo, foram indicados como MOBÍLIA e, logo, como protótipos. No entanto, cinzeiros,
rádios, relógios e vasos foram considerados exemplos periféricos da categoria.

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XVII Congresso Nacional de Linguística e Filologia 77

Entre protótipos e fronteiras categoriais, há membros intermediários, organizados


em uma escala de prototipicidade. A organização categorial envolve desde representantes
mais centrais, com similaridade suficiente ao protótipo, até representantes muito periféri-
cos, que apresentam poucos traços em comum com o núcleo categorial.
A fim de esclarecer essa ideia de organização categorial, observa-se o quadro apre-
sentado por Ferrari (2011, p. 42), cujos membros são sabiá, avestruz e pinguim, que com-
partilham alguns traços da categoria AVE:
SABIÁ AVESTRUZ PINGUIM
tem bico tem bico tem bico
tem dois pés tem dois pés tem dois pés
põe ovos põe ovos põe ovos
tem duas asas tem duas asas
tem penas tem penas
pode voar
Quadro 1 – Traços de membros da categoria AVE

O sabiá ocupa o núcleo prototípico da categoria, uma vez que possui o maior nú-
mero de traços que também são encontrados em outros membros da mesma. Já o avestruz
apresenta quase todos os traços definidores da categoria, com exceção de um (“poder vo-
ar”), e encontra-se, portanto, um pouco afastado do protótipo. E o pinguim compartilha
apenas três traços com os demais, ficando mais próximo à fronteira categorial.
Deve-se ter em vista, entretanto, que nem sempre a avaliação de similaridade toma
o protótipo como referência, posicionando os membros da categoria em função do grau
de compartilhamento de atributos abstratos e independentes do elemento central.
É importante ressaltar ainda que o exemplar mais prototípico de uma categoria
também pode depender do contexto, e os membros centrais dependentes do contexto po-
dem ser diferentes dos protótipos não contextualizados.
A seguir, comenta-se acerca da noção de esquemas imagéticos, fundamental para a
realização da análise pretendida.

4. Esquemas imagéticos
Os esquemas imagéticos costumam ser definidos como versões esquemáticas de
imagens, concebidas como representações de experiências corporais, tanto sensoriais
quanto perceptuais, da interação do homem com o mundo. Gibbs & Colston (1995, apud
Almeida et al., 2010, p. 21) conceituam esquemas imagéticos como gestalts experienciais
que emergem a partir da atividade sensório-motora, conforme se manipulam objetos, ori-
enta-se espacial e temporalmente e se direciona o foco perceptual com diferentes propósi-
tos. Assim, os esquemas imagéticos são considerados “representações dinâmicas análogas
de relações espaciais e movimento no espaço” (GIBBS & COLSTON, 2006, p. 30).
Gibbs & Colston (2006) enfatizam que, apesar de os esquemas imagéticos deriva-
rem de processos perceptuais e motores, não são processos sensório-motores. Ao invés
disso, tais esquemas são meios primários, imaginativos e não-proposicionais, pelos quais
se constitui ou se organiza a experiência, e não meros receptáculos passivos, nos quais a
experiência é depositada.
Os esquemas imagéticos existem transversalmente a todas as modalidades de per-
cepção, promovendo a coordenação sensório-motora da experiência humana. Dessa for-
ma, tais representações são visuais, auditivas, táteis e sinestésicas ao mesmo tempo. Re-

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presentam padrões esquemáticos que refletem domínios, como CONTÊINER, TRAJETÓRIA
e BLOQUEIO, responsáveis pela estruturação da experiência ancorada no corpo. Em segui-
da, ilustram-se, respectivamente, os esquemas referentes aos domínios citados:

Figura 1 - Representação dos esquemas de CONTÂINER, TRAJETÓRIA e BLOQUEIO

É importante ressaltar que os esquemas imagéticos não são conceitos detalhados,


mas abstratos, consistindo de padrões que emergem de instâncias repetidas da experiência
de base corpórea. O esquema do CONTÂINER, por exemplo, resulta da experiência do ho-
mem com esse tipo de objeto, que propicia o uso de expressões que indicam movimento
para dentro ou para fora, como ilustram os exemplos “O barco navegou para dentro do
túnel” e “Ele jogou o lixo fora” (FERRARI, 2011, p. 87).
Outros esquemas também podem ser usados metaforicamente, como o EI DEN-
TRO-FORA, que permite a construção das expressões a seguir: “Maria se enfiou numa
roupa confortável e se jogou para dentro das cobertas” e “José colocou toda a raiva para
fora” (FERRARI, 2011, p. 87). No primeiro exemplo, roupa e cobertas são retratadas
como contêineres para dentro de onde o agente Maria se move. No segundo, o corpo de
José também é entendido como um contêiner, de onde sai a raiva, compreendida metafo-
ricamente como um fluido.
Uma vez que a noção de esquema imagético ancora diversos usos linguísticos que
refletem a experiência corpórea dos seres humanos no espaço físico e sustenta projeções
entre domínios conceptuais, as quais são características de usos metafóricos, tal formula-
ção teórica é fundamental para a análise pretendida, a qual se baseia, mais especificamen-
te, nos esquemas de FORÇA (EQUILÍBRIO, FORÇA CONTRÁRIA, COMPULSÃO, RESTRIÇÃO,
HABILIDADE, BLOQUEIO e ATRAÇÃO), formulados por Croft e Cruse (2004).

Na próxima seção, apresentam-se alguns aspectos da teoria da metáfora conceptu-


al, cujas formulações embasam este trabalho tanto quanto o conceito de esquema imagé-
tico.

5. Metáfora: a perspectiva sociocognitiva


Um dos aspectos que diferencia a linguística cognitiva de outras abordagens é a
importância atribuída aos processos de metáfora. De acordo com Lakoff e Johnson (2002,
p. 45), a metáfora não é apenas um recurso da imaginação poética ou um ornamento retó-
rico, mas “está infiltrada na vida cotidiana, não somente na linguagem, mas também no
pensamento e na ação”.
Esses autores afirmam que os processos do pensamento são, em grande parte, me-
tafóricos; logo, existem metáforas no sistema conceptual humano, as quais tornam possí-
veis as metáforas como expressões linguísticas.
De acordo com a linguística cognitiva, a metáfora está relacionada à noção de
perspectiva, na medida em que diferentes modos de conceber fenômenos particulares es-

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tão associados a diferentes metáforas. Como exemplifica Ferrari (2011, p. 92), pode-se
falar metaforicamente do conceito de DISCUSSÃO em termos de:
(a) um prédio (Isso sustenta o que eu estou dizendo; Seu argumento desmoronou);
(b) uma jornada (Aonde você quer chegar?; Isso me leva à próxima conclusão; Es-
se argumento nos leva mais adiante).
Como ilustram os exemplos, a metáfora é um mecanismo que envolve a conceptua-
lização de um domínio da experiência em termos de outro, ou seja, as metáforas permi-
tem que se use “um conceito detalhadamente estruturado e delineado de maneira clara pa-
ra estruturar um outro conceito” (LAKOFF; JOHNSON, 2002, p. 134). Dessa forma, para
cada metáfora, é possível identificar um domínio-fonte e um domínio-alvo. O domínio-
fonte envolve propriedades físicas e áreas relativamente concretas da experiência, en-
quanto o domínio-alvo tende a ser mais abstrato, como se observa através do exemplo
“Ele tem alta reputação na empresa” (FERRARI, 2011). Subjacente a essa construção,
encontra-se um domínio-fonte de dimensão vertical do espaço físico e um domínio-alvo
de status social.
Ao propor a teoria da metáfora conceptual, os estudiosos observaram que as metá-
foras estabelecem correspondências entre um domínio-fonte e um domínio-alvo, mas não
o contrário. Isso significa que uma das propriedades do processo é a unidirecionalidade.
Assim, pode-se conceptualizar, por exemplo, o tempo em termos de espaço, mas não o
oposto.
A partir de Lakoff (1987, 1990), Ferrari (2011, p. 98) explicita que essa teoria ex-
plorou ainda a ideia de que determinados conceitos derivam de esquemas imagéticos, ar-
gumentando que tais esquemas podem servir de domínio-fonte para a correspondência
metafórica. Vale ressaltar que cada projeção metafórica define potencialmente um con-
junto aberto de correspondências, a partir de padrões inferenciais compatíveis com con-
textos comunicativos e socioculturais específicos.
A seguir, comenta-se, mais detalhadamente, o conceito metafórico que estrutura o
corpus desta pesquisa.

5.1. Subcategorização e metáfora


Lakoff e Johnson (2002) sugerem que a diferença básica entre uma conversa e uma
discussão é a sensação de estar em uma batalha. Em vista disso, percebem-se alguns tra-
ços característicos de uma batalha em uma discussão, como: um dos participantes tem
uma opinião que considera importante e que o outro não aceita; pelo menos um dos parti-
cipantes deseja que o outro desista de sua opinião e isso cria um entendimento de que há
algo a ser ganho ou perdido; percebe-se o envolvimento em uma discussão quando se no-
ta a própria posição sob ataque, ou quando se sente necessidade de atacar a posição do
outro participante; e, principalmente, entende-se que a conversa tornou-se uma discussão
quando o interesse maior é tentar fazer a opinião do outro ser desacreditada, enquanto se
tenta manter a própria posição. Considera-se, portanto, discussão uma conversa em que o
elemento de cooperação polida pode desaparecer.
Apesar de não ser um combate real, a estrutura desse tipo de conversa assume as-
pectos da estrutura de guerra, a qual influencia nas atitudes dos participantes. Sendo as-
sim, um participante experiencia o outro como um adversário, ataca a posição do outro,
defende a sua própria posição e tenta fazer o adversário render-se. A reestruturação da

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conversa em termos da estrutura da “guerra” pode ser vista a partir das características a
seguir:
Você tem uma opinião que considera importante. (ter uma posição); O outro participante não
concorda com você. (ter uma posição diferente); É importante para vocês dois, ou pelo menos pa-
ra um de vocês, que o outro desista de sua opinião (render-se) e aceite a do outro (vitória). (ele é
seu adversário); A diferença de opiniões torna-se um conflito de opiniões. (conflito); Você pensa
na melhor maneira de convencê-lo a aceitar seu ponto de vista (plano de estratégia) e considera
que evidência você poderá trazer para reforçar sua questão. (forças marciais); Considerando o que
você percebe como fraquezas da posição do outro, você faz perguntas e coloca objeções planeja-
das para forçá-lo a desistir e adotar a sua opinião. (ataque); Você tenta trocar as premissas da
conversa de maneira que você fique numa posição mais forte. (manobra); Respondendo às per-
guntas e objeções do outro, você tenta manter sua própria opinião. (defesa); À medida que a dis-
cussão se desenvolve, há necessidade de revisão para poder manter sua visão geral. (recuo); Você
pode levantar novas questões e objeções. (contra-ataque); Ou você se cansa e decide parar de dis-
cutir (trégua) ou nenhum de vocês dois consegue convencer o outro (impasse), ou um de vocês
desiste (rendição). (LAKOFF; JOHNSON, 2002, p. 156-157).

As características vistas transformam uma conversa em discussão, pois correspon-


dem a elementos do conceito GUERRA. Tais elementos se adicionam ao conceito CON-
VERSA nas seis dimensões de estrutura da conversa.

As seis dimensões principais que estruturam uma conversa polida são: participan-
tes – aqueles que assumem papel de falante e definem a conversa por aquilo que fazem e
pelo papel que desempenham ao longo dessa; partes – cada turno de fala que compõe a
conversa como um todo, as quais devem ser colocadas juntas de maneira que haja um
conversa coerente; sequência linear – os turnos de fala dos participantes são organizados
em uma sequência linear, tendo como condição geral a alternância dos falantes; causali-
dade – espera-se que o fim de um turno de fala dê início ao próximo turno; propósito – o
propósito maior de uma conversa é manter uma interação social polida de modo razoa-
velmente cooperativo; estágios – conjunto de condições iniciais (coisas ditas para dar iní-
cio à conversa: Olá! Como vai?) somados aos estágios começo, meio e fim (esses estágios
são marcados por expressões que fazem a conversa desenvolver-se ao longo da parte cen-
tral e por expressões finalizadoras).
Observando essas mesmas dimensões, nota-se o que existe do conceito GUERRA no
conceito CONVERSA. No conceito CONVERSA, tais dimensões se definem da seguinte for-
ma: participantes – pessoas ou grupos de pessoas que desempenham papel de adversá-
rios; partes – as duas posições, planejamento de estratégias, ataque, defesa, recuo, mano-
bra, contra-ataque, impasse, trégua, rendição/vitória; sequência linear – recuo depois de
ataque, defesa depois de ataque, contra-ataque depois de ataque; causalidade – ataque re-
sulta em defesa, ou contra-ataque, ou recuo, ou fim; propósito – vitória; estágios – for-
mados pelas condições iniciais, início, meio e fim. Nas condições iniciais, os participan-
tes têm diferentes posições, assumem que podem defendê-las e pelo menos um deseja que
o outro se renda. No início, um adversário ataca. No meio, existem combinações de defe-
sa, de manobra, de recuo e de contra-ataque. No fim, ou existe uma trégua, ou um impas-
se, ou rendição/vitória. E como estado final tem-se a paz, ou seja, o vitorioso domina o
perdedor.
Vê-se, dessa forma, que a atividade de falar é estruturada em termos de outra ativi-
dade: a guerra. Entende-se, portanto, que discussão é uma conversa porque a atividade de
falar acontece em ambos os casos e porque uma discussão tem todos os traços básicos de
uma conversa. Por outro lado, considera-se DISCUSSÃO É GUERRA uma metáfora porque
se compreende que discussão e guerra são tipos de atividades diferentes, e porque discus-
são é parcialmente estruturada em termos de guerra, ou seja, apenas alguns elementos do
domínio GUERRA são usados em termos de discussão. Assim, define-se a metáfora DIS-

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CUSSÃO É GUERRA por meio de dois critérios: diferença no tipo de atividade e estrutura-
ção parcial; e se compreende que uma discussão é uma subcategorização de conversa,
tendo em vista os seguintes critérios: mesmo tipo de atividade e mesmos traços estruturais
em número suficiente.
Na seção de análise, investiga-se como a metáfora DISCUSSÃO É GUERRA es-
trutura o corpus estudado.

5.2. Usos do mas na argumentação: um caso de metáforas, protótipos e esquemas


imagéticos
O corpus selecionado consiste na primeira sessão de um caso de mediação endo-
processual, acompanhado e gravado pelo Prof. Dr. Paulo Cortes Gago (UFJF)14. Tal ses-
são ocorreu no dia 29 de maio de 2007, na Vara de Família do Fórum de uma cidade do
interior do estado do Rio de Janeiro e resultou em quarenta e cinco minutos de gravação e
em vinte e cinco páginas de transcrição, cujos símbolos foram desenvolvidos por Gail
Jefferson e encontram-se estabelecidos em Sacks, Schegloff e Jefferson (1974). Trata-se
de um processo de Regulamentação de Visitas, em que se contemplava a possibilidade de
o pai, o requerente, encontrar-se com os filhos, Vitor e Íris, não apenas a cada quinze di-
as, durante os finais de semana, conforme estabelecido anteriormente, mas também du-
rante a semana.
No corpus, escolheu-se utilizar pseudônimos para identificar os participantes. Em
vista disso, verifica-se a seguinte distribuição: Sônia, assistente social, é a mediadora das
sessões do caso analisado; Amir é o requerente do processo de pedido de regulamentação
de visita; Flávia é a requerida; Vitor e Íris são filhos de Amir e Flávia; Fernanda é a nova
esposa de Amir; e Maria Eduarda é filha de Fernanda.
Para que as análises sejam claras, optou-se por demonstrar, primeiramente, por
meio de três exemplos, como as metáforas estruturam a conversa como um todo; e, poste-
riormente, explicitar, em mais três exemplos, alguns esquemas imagéticos que sustentam
os usos do conectivo. A seguir, apresentam-se os primeiros três exemplos:

Excerto 1 – 92 página/ 14 linha


Sônia: realmente dona:: flávia, uma das características da síndrome do pânico e da depressão, seu
amir tem uma coisa e outra meio misturado, né. é isso exatamente, desse dessa embotamento, né.
dessa tristeza,=
Flávia: =e isso não afeta. uma criança estando junto. o psicológico do meu filho como é que fica.
Sônia: provavelmente sim. mas esse é o pai do vitor.

Devido à metáfora da “guerra” estruturar todo o discurso analisado, considera-se


que os participantes da interação são conceptualizados como adversários e que as opini-
ões defendidas por cada um são compreendidas como posições opostas. Além disso, no
exemplo acima, observa-se que Sônia, primeiramente, concorda com o argumento de Flá-
via e, posteriormente, introduz uma evidência, baseada em um fato biológico, para sus-
tentar a posição de que Amir deve conviver com o filho. A atitude de concordar pode ser
conceptualizada como um plano de estratégia adotado pela mediadora, e a conjunção in-
troduzida pelo conector pode ser conceptualizada como uma força marcial, já que o ar-
14A transcrição elaborada a partir da gravação do caso integra o projeto de pesquisa “Contextos de intervenção de ter-
ceiras partes em situação de conflito” (projeto SHA – APQ 2129, FAPEMIG) do Prof. Dr. Paulo Cortes Gago.

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gumento é baseado em um fato biológico e, portanto, incontestável. Dessa forma, verifi-
ca-se que o conector coordena duas conjunções argumentativas, uma compreendida como
um plano de estratégia e a outra como uma força marcial.
Ilustram-se as projeções metafóricas envolvidas nessa ocorrência no esquema abai-
xo:
Domínio-fonte Domínio-alvo
GUERRA DISCUSSÃO

Esquema 1 – Representação de projeções metafóricas

Excerto 2 – 92 página/ 16 linha


Flávia: é. inclusive você falou na última visita que é o pai que a gente escolheu, não é, que a gen-
te escolheu pra si. Mas ele não é quem eu escolhi, porque ele é outra pessoa, atualmente ele é ou-
tra pessoa. quem eu escolhi era completamente diferente, era uma pessoa generosa, mu::ito me-
lhor do que agora. não era mentirosa, não armava situações contra mim, entendeu. isso eu quero
saber se afeta também se afeta a personalidade dele. porque quando eu falei aquele lance do meu
namorado da minha casa, eu queria saber o que que incomodou [o meu namorado,

Para manter a visão de que o pai não deve passar mais tempo com os filhos, Flávia
retoma a afirmação, dita pela mediadora em uma outra sessão, que pode ser parafraseada
como Amir é o pai que Flávia escolheu para seus filhos, negando-a. Essa estratégia de re-
tomada, a qual pode ser conceptualizada como um recuo, possibilita que Flávia execute
uma manobra, ou seja, tente trocar a proposição Amir é o pai que Flávia escolheu para
seus filhos por Amir não é o pai que Flávia escolheu para seus filhos, pois não é mais a
mesma pessoa. Com essa manobra, Flávia pretende colocar-se em uma posição mais forte
do que a da mediadora, para atacar a posição de Sônia de que o pai deve passar mais
tempo com os filhos, e forçá-la a adotar outra posição (render-se). Assim, a conjunção in-
troduzida pelo conector pode ser conceptualizada como um ataque.
Apresentam-se, abaixo, algumas projeções que fundamentam o uso do mas nesse caso:
Domínio-fonte Domínio-alvo
GUERRA DISCUSSÃO

Esquema 2 - Representação de projeções metafóricas

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Excerto 3 – 92 página/ 36 linha


Flávia: [você é pai da íris.] você considera a íris como sua filha.
Amir: a não ser qu-
Sônia: deixa o seu amir falar um pouquinho então dona flávia.
Amir: a não ser que você fale o contrário, mas parece que sou né.

No contexto em que esse excerto se insere, vê-se que Amir é mais próximo de seu
filho do que de sua filha. De acordo com Flávia, Amir não procura se aproximar da filha,
porém, esse participante nega a acusação da ex-esposa, dizendo que está tentando se
aproximar aos poucos da menina.
Nesse excerto, nota-se que Flávia considera o fato de Amir não estar conseguindo
se aproximar da filha como uma fraqueza de seu adversário, já que a medianda ataca a
posição social de pai do ex-marido, questionando se Amir é realmente pai de Íris, uma
vez que as atitudes desse participante não estariam condizendo com o papel de pai.
Amir, por sua vez, contra-ataca o argumento subentendido no questionamento de
Flávia - Amir não é o pai da Íris porque não dá atenção a ela -, levantando uma nova
questão - “a não ser que você fale o contrário, mas parece que sou né.” -, a qual põe em
dúvida a honestidade de sua ex-esposa. Nota-se, portanto, que a pergunta introduzida pelo
conector pode ser conceptualizada como um contra-ataque. Além disso, subentende-se
uma força marcial - o fato biológico de Amir ser o pai das crianças - nesse questionamen-
to.
Tendo em vista essa análise, observa-se o seguinte esquema:
Domínio-fonte Domínio-alvo
GUERRA DISCUSSÃO

Esquema 3 - Representação de projeções metafóricas

Tendo em vista que todo o discurso analisado é estruturado pela metáfora da “guer-
ra”, considera-se que o uso do conector mas, descrito frequentemente como um operador
argumentativo que evidencia contraste ou oposição, seja fundamentado por esquemas
imagéticos de força nesta interação, como se observa a seguir:

Excerto 1 - 92 página/ 14 linha


Sônia: realmente dona:: flávia, uma das características da síndrome do pânico e da depressão, seu
amir tem uma coisa e outra meio misturado, né. é isso exatamente, desse dessa embotamento, né.
dessa tristeza,=
Flávia: =e isso não afeta. uma criança estando junto. o psicológico do meu filho como é que fica.
Sônia: provavelmente sim. mas esse é o pai do vitor.

O uso do conector mas, de acordo com o corpus analisado, é fundamentado pelo


esquema do bloqueio quando a noção da existência de uma barreira física, removível ou

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não, que impede a continuação de um movimento é transferida para a ideia de uma inter-
rupção na argumentação do interlocutor devido à tomada de turno por um outro partici-
pante da interação ou devido à mudança de assunto pelo próprio falante, no caso de uma
retomada. Assim, a noção de bloqueio permite que se conceptualize o argumento introdu-
zido pelo conector como uma força que dificulta a continuação da argumentação do parti-
cipante que detém a posse do turno ou que impede a continuação de um mesmo assunto.
Considera-se que o bloqueio é mais difícil de ser removido quando a interrupção da
fala de um interlocutor deve-se à introdução de um argumento mais forte por outro parti-
cipante da interação ou quando há uma tentativa de encerramento do assunto. Quando
ocorre uma tentativa de tomada de turno, entretanto, considera-se o bloqueio de fácil re-
moção. Na análise dos exemplos a seguir, nota-se que os argumentos baseados em fatos
são conceptualizados como bloqueios de difícil remoção, já aqueles baseados em opiniões
são entendidos como de fácil remoção.
No exemplo acima, especificamente, a fim de sustentar a posição de que as crian-
ças não devem passar tanto tempo com o pai, Flávia alega que o quadro de síndrome do
pânico e depressão do ex-marido afetaria Vitor psicologicamente. Sônia, por sua vez,
afirma que, ainda que o estado de Amir afete de certa forma o filho, isso não justifica um
afastamento entre os dois. Assim, o uso do conector é sustentado pelo esquema do blo-
queio, uma vez que há uma interrupção na argumentação do interlocutor devido a um ar-
gumento mais forte do falante. Nesse caso, a mediadora considera que a convivência en-
tre pai e filho não deve ser impedida, está acima dos problemas que a doença do pai pode
ocasionar.

Excerto 2 - 92 página/ 16 linha


Flávia: é. inclusive você falou na última visita que é o pai que a gente escolheu, não é, que a gen-
te escolheu pra si. Mas ele não é quem eu escolhi, porque ele é outra pessoa, atualmente ele é ou-
tra pessoa. quem eu escolhi era completamente diferente, era uma pessoa generosa, mu::ito me-
lhor do que agora. não era mentirosa, não armava situações contra mim, entendeu. isso eu quero
saber se afeta também se afeta a personalidade dele. porque quando eu falei aquele lance do meu
namorado da minha casa, eu queria saber o que que incomodou [o meu namorado,

O conector é fundamentado por um esquema de força contrária quando a noção fí-


sica de forças em direções opostas é transposta para a noção de argumentos ou ideias con-
trárias. É válido ressaltar que o contraste ou a oposição pode ocorrer de forma explícita,
mais marcada linguisticamente, ou de forma implícita, quando o falante opõe-se a um su-
bentendido da fala do interlocutor. O uso do conector fundamentado pelo esquema de
força contrária pode ainda evidenciar uma oposição a uma expectativa inferida da pri-
meira conjunção, um contraste entre suposições ou uma manifestação de contrariedade
em relação a uma hipótese levantada pelo interlocutor.
No exemplo acima, conector marca uma oposição entre o comentário expresso pela
mediadora em um encontro de mediação anterior, o qual Flávia retoma, e a opinião da re-
querida. Flávia contraria a ideia de que Amir é o pai que ela mesma escolheu para seus fi-
lhos, afirmando que esse homem não é o mesmo que escolhera, pois a personalidade do
requerente teria mudado muito.

Excerto 3 - 91 página/ 25 linha


Sônia: nem me lembro mais quem é o requerente desse processo, quem é que começou, mas é
que veio pedir ao juiz, botou a VIDA pro juiz pro juiz decidir. pediu o juiz decide.

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O esquema de restrição representa uma força física que limita um movimento. Tal
noção pode ser transportada para a noção de força social ou argumentativa que limita um
determinado argumento.
Nota-se que o conector pode ser conceptualizado como uma força que especifica
uma ideia ou que restringe o foco de atenção ou a opinião negativa do interlocutor. Além
disso, tal conector pode introduzir uma condição, que é compreendida como uma restri-
ção à vontade do outro participante ou como uma ressalva.
Neste trecho, observa-se que a mediadora considera importante apenas uma das
ideias expostas. Verifica-se que não há uma atribuição de importância a quem é o reque-
rente do processo, enquanto há um enfoque no objetivo desse requerente. Entende-se,
portanto, que o uso do conector se apoia em um esquema de restrição, ou seja, tal conec-
tor funciona como uma força que restringe o foco de atenção do interlocutor.

6. Considerações finais
Os exemplos analisados demonstram que o conector mas funciona como um gati-
lho para a ativação do domínio “guerra”, que estrutura o gênero analisado como um todo,
e que, em função disso, tal conector pode ser descrito como uma categoria radial, formada
a partir dos diferentes esquemas imagéticos de força que fundamentam seus usos na inte-
ração.
Quanto às funções argumentativas do mas, constata-se que, por meio dos mapea-
mentos metafóricos ativados durante a conversa, a partir da metáfora DISCUSSÃO É GUER-
RA, esse conector coordena ou introduz argumentos que podem ser conceptualizados co-
mo ataque, defesa, contra-ataque, recuo, manobra, plano de estratégia ou força marcial.
Essas breves análises corroboram ainda a ideia de que o conceito de esquema ima-
gético é bastante produtivo em relação à descrição linguística, já que se postula que os
usos do conector são fundamentados por diferentes esquemas de força.
Considerando que as gramáticas tradicionais entendem que o uso prototípico do
mas é baseado no esquema de FORÇA CONTRÁRIA, pois tal conector é constantemente
descrito como um marcador de oposição ou contrariedade, essa pesquisa abre caminhos
para outras. Uma vez que uma importante postulação da teoria dos protótipos é que o
exemplar mais prototípico de uma categoria depende do contexto, seria interessante veri-
ficar os protótipos de uso do mas em diferentes gêneros.
A partir dessas análises do comportamento semântico-discursivo do conector mas
no gênero mediação, buscou-se demonstrar que, em linguística cognitiva, existem postu-
lações que representam ganhos teóricos em relação à descrição semântica dos itens lin-
guísticos, neste caso, mais especificamente, do conector mas, que pode ser, futuramente,
detalhado como uma categoria radial; e ainda contribuir com os estudos acerca da visão
da metáfora como um aparato cognitivo que opera, de forma subjacente, na formulação
de estratégias argumentativas, colaborando, assim, para o estudo da metáfora DISCUSSÃO
É GUERRA. Por fim, espera-se ter apresentado, minimamente, como a teoria da metáfora
conceptual e as noções de protótipos e esquemas imagéticos podem ajudar a compreender
os mecanismos cognitivos que possibilitam o uso da linguagem.

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