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SUMÁRIO

Capa
Folha de rosto
Sumário
Dedicatória
Epígrafe
Prólogo

Mary Grove, Ohio


8 dias para a formatura
7 dias para a formatura
6 dias para a formatura
Semana da formatura
Formatura
4 dias antes de partirmos
A noite anterior à nossa partida
A ilha (um)
Dia 1
Dia 1(ainda)
Dia 2
Dia 2 (parte dois)
Dia 2 (parte três)
Dia 3
Dia 3 (parte dois)
Dia 3 (parte três)
Dia 3 (parte quatro)
Dia 4
Dia 5
Dia 5 (parte dois)
Dia 6
Dia 6 (parte dois)
Dia 6 (parte três)
Dia 7
Dia 8
Dia 8 (parte dois)
A ilha (dois)
Dia 9
Dia 10
Dia 11
Dia 11 (parte dois)
Dia 11 (parte três)
Dias 12-14
Coisas que aprendo sobre mim mesma
Dia 15
Dia 16
Dia 16 (parte dois)
Dia 17
Dia 18
Dia 19
Dia 20
Dias 21-22
Dias 23-24
Dia 24 (parte dois)
Dia 24 (parte três)
Dia 25
Dia 25 (parte dois)
Dia 26
Dia 27
Dia 27 (parte dois)
Dia 28
Dias 29-30
A ilha (três)
Dia 31
Dia 32
Dia 32 (parte dois)
Dia 35

Agradecimentos
Sobre a autora
Créditos
Para Justin,
o Jeremiah Crew da vida real.
Eu te amo mais do que as palavras são capazes de expressar.
Ninguém nunca mediu,
nem mesmo os poetas,
quanto um coração é capaz de conter.

Zelda Fitzgerald
Você foi meu primeiro. Não só no sexo, ainda que
tenha sido uma parte importante, mas o primeiro a
olhar além de todo o resto e enxergar dentro de mim.

Alguns nomes e lugares foram trocados, mas a


história é verdadeira. Está tudo aqui porque um dia
isso vai estar no passado, e não quero esquecer o que
passei, o que eu pensava, o que eu sentia, quem eu
era. Não quero esquecer você.

Mas, acima de tudo, não quero esquecer de mim.


MARY GROVE, OHIO
8 DIAS PARA A FORMATURA

Abro os olhos e estou enrolada nos lençóis, livros abertos virados


para baixo no chão. Sei sem olhar para o relógio que estou
atrasada. Pulo da cama com um pé ainda emaranhado no lençol e
caio de cara no chão. Fico deitada ali um pouco. Fecho os olhos. Me
pergunto se posso fingir um desmaio e convencer minha mãe a
cancelar o dia de hoje e ficar na cama.
É tranquilo no chão.
Mas o cheiro é meio ruim. Abro um olho e vejo algo esmigalhado
no tapete. Um dos petiscos do Dandelion, talvez. Viro a cabeça para
o outro lado e melhora um pouco, mas de repente ouço uma buzina
lá fora, e é meu pai.
Então agora estou de pé, porque ele vai continuar apertando
aquela buzina idiota até eu entrar no carro. Não encontro um dos
livros e nem um dos sapatos, e meu cabelo está errado e minha
roupa está errada e basicamente eu estou toda errada. Eu devia ter
nascido na França. Se eu fosse francesa, tudo estaria certo. Eu
seria chique e descolada e iria de bicicleta para a escola, uma
bicicleta com cestinha. Eu saberia andar de bicicleta, para começar.
Se eu morasse em Paris, e não em Mary Grove, Ohio, essa
sapatilha combinaria melhor com essa saia, o tom de vermelho do
meu cabelo não seria tão alaranjado — como um tomate desbotado
— e de alguma forma eu faria mais sentido.
Me arrasto até o quarto dos meus pais vestindo saia e a parte de
cima de um biquíni, o preto que comprei com a Saz mês passado,
que pretendo usar o verão todo. Todos os meus sutiãs estão para
lavar. O guarda-roupa da minha mãe é arrumado, mas não tanto
quanto do meu pai, que é todo preto, cinza, azul-marinho, tudo
organizado por cor porque ele é daltônico e assim não precisa ficar
o tempo todo perguntando “Isso é verde ou marrom?”. Reviro a
prateleira de cima e depois as gavetas da cômoda, procurando a
camiseta que quero: a vintage do Nirvana de 1993. Sempre roubo
essa camiseta e ele sempre rouba de volta, mas agora não a
encontro em lugar nenhum.
À porta, dou um grito pelo corredor, lá para baixo, para minha
mãe.
— Cadê a camiseta do Nirvana do papai?
Já decidi que é isso que quero usar hoje, sem segunda opção.
Espero dois, três, quatro, cinco segundos, e minha única resposta
é mais uma buzinada. Corro até meu quarto e pego a primeira
camiseta que vejo, apesar de não ir com ela para a escola desde o
primeiro ano. Miss Piggy com brilhos.

Na entrada de casa, minha mãe diz:


— Eu vou te buscar se a Saz não puder te trazer.
Minha mãe é uma escritora ativa e conhecida — romances
históricos, não ficção, qualquer coisa que tenha a ver com história
—, mas sempre tem tempo para mim. Quando nos mudamos para
esta casa, transformamos o quarto de hóspedes em um escritório
para ela, e meu pai passou dois dias instalando prateleiras do chão
ao teto para guardar as centenas de livros de pesquisa que ela tem.
Minha cara deve estar me entregando, porque ela coloca as mãos
nos meus ombros e diz: — Ei. Vai ficar tudo bem.
Ela está falando sobre minha melhor amiga, Suzanne Bakshi
(mais conhecida como Saz), e eu, que sempre vamos ser amigas
apesar da formatura e da faculdade e de toda a vida que está por
vir. Sinto um pouco de sua energia calma e vibrante pousar sobre
meus ombros, como um pássaro em uma árvore, e derreter pelos
meus braços, entrando em meus membros, em meu sangue. É uma
das várias coisas que minha mãe faz muito bem. Ela faz todo
mundo se sentir melhor.
No carro, meu pai está com a camiseta do Radiohead por baixo
do paletó, o que significa que a do Nirvana está para lavar. Faço
uma nota mental de surrupiá-la quando chegar em casa para usar
na festa hoje à noite.
Durante os primeiros três ou quatro minutos, não conversamos,
mas isso também é normal. Ao contrário da minha mãe, meu pai e
eu não funcionamos bem pela manhã, e a caminho da escola
gostamos de manter o que ele chama de “silêncio amigável”, que
Saz se recusa a respeitar, motivo pelo qual não vou com ela.
Olho pela janela para as nuvens pretas e baixas que se reúnem
como em um funeral, na direção da faculdade onde meu pai
trabalha na administração. Não há previsão de chuva, mas parece
que vai chover, e fico preocupada com a festa de Trent Dugan.
Geralmente passo os fins de semana com a Saz, dirigindo pela
cidade, procurando alguma coisa para fazer, mas este vai ser
diferente. A última festa oficial do último ano e tal.
Meu pai passa direto pelo colégio, pela ponte da rua principal, e
entra no centro de Mary Grove, aproximadamente dez quarteirões
de lojas enfileiradas diante das ruas de paralelepípedo, mais
conhecidos como Passeio. Ele para na esquina mais a oeste, onde
a rua dá lugar ao calçadão e às fontes. Ele sai e corre até a
confeitaria Joy Ann enquanto eu mando uma foto da fachada para
Saz. Quem é sua pessoa favorita?
Em um segundo, ela responde: Você.
Dois minutos depois, meu pai volta correndo para o carro, com os
braços erguidos acima da cabeça em uma espécie de dança da
vitória ridícula, saquinho de papel branco na mão. Ele entra, bate a
porta e me joga o saquinho com o de sempre — um cupcake de
chocolate para Saz e meio quilo de amanteigados com geleia para
nós dois, que devoramos a caminho do colégio. Nosso ritual
matutino secreto desde que eu tinha doze anos.
Enquanto como, olho para o céu nublado.
— Talvez chova.
Meu pai diz:
— Não vai chover.
Exatamente como disse “Ele não vai bater em você”, sobre
Damian Green, que ameaçou socar minha boca no terceiro ano do
fundamental porque eu não deixava que ele colasse de mim. Ele
não vai bater em você, o que queria dizer que, se necessário, meu
pai iria até a escola e socaria Damian ele mesmo, porque ninguém
ia mexer com a sua filha, nem mesmo um menino de oito anos.
— Pode acontecer — eu disse, só para poder ouvir de novo o tom
de proteção em sua voz. É uma proteção que me faz lembrar de
quando eu tinha seis ou sete anos, e ia para toda parte sentada em
seus ombros.
— Não vai — ele diz.

Na primeira aula, de escrita criativa, o professor, sr. Russo, pede


que eu fique depois da aula para dizer: — Se você quer mesmo
escrever, e acredito que queira, vai ter que colocar tudo para fora,
para que o leitor possa sentir o que você sente. Você parece estar
sempre se segurando, Claudine.
Ele diz coisas boas também, mas é disso que eu vou lembrar —
que ele não acha que eu seja capaz de sentir. É engraçado como as
coisas ruins ficam com você e as boas às vezes se perdem. Saio da
sala e digo a mim mesma que ele nem imagina quem eu sou ou do
que sou capaz. Ele não sabe que já estou escrevendo meu primeiro
romance e que vou ser uma escritora famosa um dia, que minha
mãe me deixa ajudá-la com os projetos de pesquisa desde que eu
tinha dez anos, o mesmo ano em que comecei a escrever contos.
Ele não sabe que na verdade eu coloco tudo para fora, sim.
A caminho da terceira aula, Shane Waller, o garoto com quem
estou saindo há quase dois meses, me encurrala em frente ao meu
armário e diz: — Passo pra te pegar antes da festa do Trent?
Shane é cheiroso e sabe ser engraçado quando quer, os
principais motivos para eu estar com ele — além dos meus
hormônios. Respondo: — Eu vou com a Saz. Mas encontro você lá.
Shane aceita de bom grado, já que desde os meus quinze anos
meu pai é famoso por deixar os garotos com quem eu saio
esperando do lado de fora, mesmo no auge do inverno rigoroso de
Ohio. Porque ele já foi um garoto adolescente e sabe o que se
passa pela cabeça deles. E porque ele gosta de garantir que eles
saibam que ele sabe exatamente o que estão pensando.
Shane diz:
— Te vejo lá então, linda.
E, para provar a mim mesma e ao sr. Russo e a todo mundo no
colégio Mary Grove que eu sou uma pessoa de verdade, que vive e
sente, faço uma coisa que nunca faço — dou um beijo nele, bem ali,
no meio do corredor da escola.
Quando nos afastamos, ele se aproxima e sinto sua respiração na
minha orelha.
— Não vejo a hora.
E eu sei que ele acha — espera — que vamos transar. Há dois
meses está na expectativa de que eu finalmente decida que meus
dias de virgem acabaram e “me entregue logo para ele”. (Palavras
dele, não minhas. Como se por algum motivo minha virgindade
pertencesse a ele.) Conto isso para a Saz na hora do almoço, e ela
solta uma gargalhada estrondosa e ensandecida, a cabeça jogada
para trás, o cabelo escuro balançando, e levanta a garrafinha de
água fazendo um brinde.
— Boa sorte para você, Shane!
Porque nós duas sabemos que só tem um garoto em Mary Grove,
Ohio, com quem quero ter minha primeira vez, e não é Shane
Waller. Embora eu diga a mim mesma que quem sabe um dia ele vai
falar algo tão, mas tão engraçado, e eu vou ficar tão alucinada pelo
cheiro do seu pescoço, que vou mudar de ideia e dormir com ele
afinal. Só porque não acho que Shane seja a pessoa certa não
significa que eu não quero que ele seja.
Digo uma versão disso em voz alta.
— Nunca se sabe. Às vezes ele é bem engraçado.
Saz diz:
— É, de vez em quando ele é engraçado.
Ela junta o cabelo — pesado e liso e o carma de sua vida — no
alto da cabeça e segura ele ali. Está sempre cortando e deixando
crescer, cortando e deixando crescer.
— Seria tão ruim assim se Shane fosse meu primeiro?
Nossa amiga Alannis Vega-Torres se joga na cadeira ao meu
lado.
— Sim.
Ela tira um refrigerante e uma barrinha de proteína da mochila e
joga uns prendedores de cabelo para Saz.
— Aliás, não conta como perda da virgindade se o seu hímen não
se romper. Eu sangrei litros na minha primeira vez.
— Isso não é verdade — respondo. — O hímen não se rompe.
Isso é um mito dos grandes, baseado em ignorância. Nem todo
mundo sangra, e além do mais, nem todo mundo tem hímen. Não
seja tão heteronormativa. A virgindade é uma construção social
idiota criada pelo patriarcado.
Saz levanta a mão e eu bato. Por mais que eu acredite nisso
completa e absolutamente, ainda assim estou desesperada para
transar. Tipo, agora.
Nossa outra amiga, Mara Choi, se joga na cadeira em frente a
Alannis, o casaco abotoado errado, absorventes e brilho labial
caindo da mochila porque — exceto quando está diante da avó
tradicional coreana — ela vive em um estado de caos constante. Ela
desaparece embaixo da mesa, juntando as coisas que caíram. Lá
de baixo, diz: — Curiosidade: vocês sabiam que dá para
encomendar himens pela internet? Tem um lugar chamado Loja do
Hímen que diz que consegue restaurar sua virgindade em cinco
minutos.
Ela reaparece na cadeira, pega o celular e começa a pesquisar
imediatamente.
— Que merda é essa?
Saz revira os olhos para mim, como quem diz Essas duas.
Olho para ela como quem diz Eu sei, e Mara começa a ler o site
da Loja do Hímen.
— Aqui diz que eles utilizam uma tinta de uso médico que é
igualzinha ao sangue humano. Ah, e eles são “a marca original e
mais confiável de himens artificiais”.
— Que fama incrível de se ter — Saz diz.
— Isso não é nada — Alannis diz. — Eu li em algum lugar que na
China as garotas pagam setecentos dólares em cirurgias de
reconstrução do hímen.
Paro de comer porque, por mais obcecada por sexo que eu
esteja, a ideia de que é possível precificar a virgindade é, para dizer
o mínimo, maluca. Digo: — Todo esse conceito é tão antiquado.
Como se o sexo de pênis com vagina fosse a única coisa que
importa. Cerca de vinte por cento dos americanos se identifica como
outra coisa que não completamente hétero, então por que ainda nos
concentramos tanto na primeira vez de uma mulher com um
homem? E por que a virgindade de uma garota é tão importante,
afinal? As pessoas não ligam quando caras héteros transam. É só
comemoração e “Agora você é homem”. Ninguém fica nervoso,
procurando peças de reposição na internet.
Saz solta uma risada. Estou a todo vapor.
— E tem mais. Vocês já pensaram no modo como as pessoas
falam da virgindade? Como se fosse dos outros? Uma pessoa “tira”
a virgindade da outra, e de repente é algo dela. Como se fosse uma
coisa que entregamos aos outros, uma coisa que não nos pertence.
Ela perdeu. Ela deu. Tirar a virgindade dela. Deflorar…
— Deflorar? — Mara olha para mim por cima do celular. — Quem
fala deflorar?
— Virgens. — Alannis levanta as sobrancelhas tiradas à perfeição
para mim. Alannis Gyalene Catalina Vega-Torres transa desde o
nono ano.
— Por que você sempre coloca o foco só em mim?
Faço um aceno em direção à Saz, minha parceira na virtude.
Quando tínhamos dez anos, Saz e eu prometemos celebrar todos
os marcos da vida ao mesmo tempo, incluindo se apaixonar e ter o
primeiro relacionamento de verdade — o que, é claro, incluiria sexo
—, para que uma nunca deixasse a outra para trás. Era nosso jeito
de garantir que sempre seríamos prioridade uma da outra e nunca
deixaríamos que ninguém ficasse entre a gente. Alannis acaricia
meu braço como se eu fosse uma pobre criança confusa.
Mara volta a olhar para o celular.
— Custa só trinta dólares “voltar no tempo e fazer a fama na
cama”.
Essa é a gota d’água. Ficamos descontroladas.
Saz exclama:
— Um brinde a fazer a fama na cama!
E nós quatro brindamos com as latas e garrafas.
Em seguida esquecemos os himens artificiais e a virgindade e
ficamos assistindo Kristin McNish atravessar o refeitório como se
fosse uma campanha de saúde pública perfeitamente cronometrada,
com o queixo erguido e uma protuberância inconfundível na barriga.

Em casa, vasculho as roupas na lavanderia, mas a camiseta do


Nirvana não está em lugar nenhum. Encontro um vestidinho preto
no chão do meu quarto e me contento com a camiseta do Ramones
do meu pai, que jogo por cima do vestido. Para o jantar, minha mãe
e eu pedimos pizza porque meu pai tem um compromisso de
trabalho e ele é o chef da família, especialista em refeições
elaboradas harmonizadas com músicas temáticas e vinho. Saz ama
comer na minha casa porque quase sempre é um evento, mas eu
amo comer na dela. Os Bakshi comem no balcão da cozinha ou em
frente à TV — delivery, lanche ou macarrão instantâneo com queijo,
a melhor coisa do mundo, algo que nunca como em casa a não ser
que eu mesma prepare. Meu pai se recusa a cozinhar qualquer
coisa que exija a adição de um pó alaranjado.
Quando abro a porta para o cara da entrega, que a Saz chama de
Encapetado, embora o nome dele seja Matthew e ele não tenha
nada de capeta, mando um: — Ah, oi! Tudo bem?
Do jeito mais sedutor possível.
Ele responde:
— Não tinha mais refrigerante de gengibre, então eu trouxe
Sprite.

Naquela noite, deito no celeiro de Trent Dugan, com Shane Waller


em cima de mim, os sentidos aguçados, perdida no calor de sua
pele e no cheiro de seu pescoço. Pensando Talvez este seja o
momento. Talvez eu perca aqui, agora.
Essa é a melhor parte de dar uns pegas em alguém. A
possibilidade de ser minha primeira vez. Luzes. Música. O amor
chovendo sobre nós. Não que eu seja lá muito experiente,
principalmente em comparação à Alannis. Oficialmente já bati
algumas punhetas e fiz três ou quatro boquetes sem sucesso, tive
cinco orgasmos e meio — sem contar os que tive sozinha — e fiquei
com três garotos. Incluindo este.
Shane me beija, e as mãos dele estão por toda parte — Sim,
penso, aí. Que delícia. O beijo é só para me agradar, porque Shane,
como muitos outros caras do colégio Mary Grove, gosta mais de
todas as outras coisas do que de beijar. Seu objetivo, sempre, é tirar
minha calcinha. Sei disso e ele sabe disso, e ele vai me beijar por
um tempo só para chegar lá. E eu vou deixar porque ele é bom
nisso, e eu amo beijar.
De repente ele está só me agarrando, mas funciona porque ele
está tão claramente a fim de mim que eu começo a ficar a fim
também.
Penso Não deixe isso ir longe demais, até enquanto o ajudo a
abrir o zíper da sua calça. E voltamos a nos beijar, cada vez com
mais intensidade até eu começar a ter a impressão de que ele vai
aspirar minha língua e minha boca e meu rosto inteiro, e no
momento eu quero que ele faça isso por causa de como meu corpo
está pressionado contra o dele, querendo sentir mais. Me sinto
entregue e poderosa ao mesmo tempo. O que você está
esperando?
A língua do Shane está na minha orelha, mas eu ainda consigo
ouvir a música lá fora. Risadas. Alguém gritando alguma coisa. No
início minha reação é Ah, meu Deus, sim, mas aí a língua dele fica
um pouco molhada demais e quase desenvolvo uma otite. Quero
empurrá-lo e sacudir a cabeça para me livrar da saliva, mas de
repente ele diz: — Meu Deus, você é tão gostosa.
Não tenho fama de gostosa, então continuo o beijo por mais um
tempo. Mas de repente não consigo superar o fato de estarmos nos
pegando em um celeiro. No início pensei Tá bom, até que é sexy e
Ah, olha só para mim, mas agora não sei muito bem se acredito
nisso. Me imagino perdendo a virgindade com Shane Waller aqui
nesse palheiro, mas por mais que eu já tenha imaginado minha
primeira vez ocorrendo de várias maneiras, nunca foi em um celeiro.
Então ele dá um puxão na minha calcinha, afastando meus
pensamentos. E somos apenas Shane e eu, quase nus em cima de
toda essa palha, que pinica como pequenos lápis apontados. O
engraçado é que não percebi a palha até agora porque estava tão
envolvida na sensação da minha pele contra a de Shane, nos
pequenos fogos de artifício brotando de nossos corpos, ameaçando
colocar fogo no palheiro. Não é a primeira vez que fico seminua com
Shane Waller, mas é a primeira vez em um celeiro. Me sinto bêbada,
embora não esteja, e uma parte distante de mim se preocupa: se eu
fico excitada em circunstâncias como esta — palha afiada me
cutucando, colegas bêbados gritando lá fora —, provavelmente vou
dormir com caras demais na faculdade. Porque dar uns pegas é
muito divertido, mesmo quando não estamos apaixonados. Às vezes
é só por causa da boca ou dos olhos ou das mãos dele ou do modo
como todos trabalham juntos. Às vezes isso é o suficiente.
As mãos de Shane descem pelo meu corpo, e a parte racional e
responsável de mim — a que está se guardando para um garoto
chamado Wyatt Jones — volta a pensar na palha, o suficiente para
me afastar dele, embora meu corpo físico siga em frente. Tento me
perder nele mais uma vez, mas as únicas coisas que consigo sentir
são um milhão de lápis de palha entrando nas minhas costas e os
fogos de artifício chegando ao fim até restarem apenas a fumaça e o
cheiro distante de queimado.
De repente sinto algo duro e úmido na minha coxa, e me viro um
pouco para que ele não consiga colocar dentro.
— Claude…
A voz dele é um borrão, como se ele estivesse fora de foco, e não
gosto do modo como pronuncia meu nome, Clóde. De repente me
sinto mal porque eu não ia mesmo transar com ele. Sempre acaba
do mesmo jeito — ele gozando no ar, ou na camiseta, ou nele
mesmo ou na minha perna.
Saz diz que eu me sinto segura na minha virgindade, como a
Rapunzel em sua torre. Que eu solto o cabelo apenas o suficiente,
aproveitando seu brilho ao sol e o modo como ele cega
temporariamente o pobre coitado que está esperando lá no chão,
antes de puxá-lo de volta e tirá-lo de alcance. E talvez eu me sinta
mesmo segura na minha virgindade, não só porque estou me
guardando para Wyatt Jones, mas porque minha vida é segura e
Saz e eu somos melhores amigas e eu me dou bem com meus pais
e não preciso provar nada para ninguém. O corpo é meu e eu posso
fazer o que quiser com ele.
Shane olha para mim e seus olhos reviram e sua respiração está
cada vez mais rápida, e ele trepa na minha perna como um
cachorro. Seu rosto está meio iluminado pelo luar prateado que
entra pela fresta da porta. Admito: ele é muito bonito e cheiroso. E
por algum motivo parece gostar de mim. Pelo que ele pode perceber
neste momento, ainda estou envolvida, ainda não pedi a ele que
parasse ou o empurrei. Até que ele se afasta um pouco demais da
minha perna e eu digo: — Devagar aí, rapaz.
Ou ele vai falar para os amigos que eu só provoco, ou que
transamos. Eu queria poder explicar que não tem nada a ver com
provocar ou transar; tem a ver com a possibilidade. É o quase. É o
Talvez seja agora, o Talvez seja com ele. Quero dizer Por alguns
minutos, você é mais que você, e eu sou mais que eu, e nós somos
mais que este celeiro porque somos toda essa possibilidade e esse
quase e esse talvez.
Mas não sou capaz de explicar o quase para um cara como
Shane, então manobro a parte inferior do meu corpo para longe, e é
quando ele geme e explode. Na parte interna da minha coxa. E é
quando me desespero um pouco, porque posso jurar que sinto um
pouco pingando dentro de mim, e viro rápido, empurrando-o para
longe.
Ele geme mais uma vez e se joga no palheiro. Uso a camiseta
dele para me limpar e desenrolo o vestido que está em volta dos
meus ombros e coloco tudo no lugar e já consigo ouvir o que vou
dizer a Saz, a gracinha que vou incluir na história só para ela: Ao
contrário de muitos dos nossos colegas aqui do interior, acho que
não estou destinada a transar em um celeiro.
Levanto e, só para falar alguma coisa, digo:
— Sabia que os alemães tinham uma palavra específica para um
homem virgem? Jüngling. Não parece querer dizer exatamente o
oposto?
Sou um almanaque de curiosidades sobre virgindade,
principalmente em situações incômodas quando não sei o que dizer.
Shane diz, ainda deitado na palha:
— Sabe, você é como um monte de caixas, e sempre que eu abro
uma tem outra maldita caixa dentro. É caixa depois de caixa, e não
acho que alguém um dia vai conseguir abrir todas elas.
Ele levanta, veste a calça, veste a camiseta úmida e amassada.
Ele olha para a mancha e eu digo:
— Desculpa.
— É minha camiseta do Snoop Dogg. Meu Deus, Claude.
Clóde.
Digo:
— Acho melhor sermos só amigos.
É melhor ter caixas demais do que de menos.
Ele responde:
— Não me diga.
E me deixa ali.

Encontro Saz em uma velha mesa de piquenique, conversando


com um grupo de pessoas que inclui Alannis e Mara, e também
Yvonne Brittain-Muir, musicista e gamer, e sua namorada há uns
trezentos anos, Leah Basco. Nas últimas semanas, Saz e eu
imaginamos todos os cenários possíveis nos quais Yvonne larga
Leah e confessa seu amor eterno por Saz. Ou pelo menos concorda
em transar com ela.
Um dos caras passa um baseado, e outro está contando uma
longa história sobre uma festa de faculdade a que foi no último fim
de semana. Leah estende a mão para Yvonne — pálida como um
fantasma ao luar, o cabelo amarelo comprido tingido de azul nas
pontas — e elas passeiam até o celeiro da imoralidade, Saz as
observa como se as duas tivessem acabado de atropelar seu
cachorro.
Pergunto a ela:
— Quer ir embora?
Apesar de ainda não serem nem onze horas.
— Mais que qualquer coisa no mundo.
Passo o braço em volta dela e atravessamos o campo em direção
à casa e à entrada comprida de cascalho onde deixamos o carro.
No caminho, canto para Saz a musiquinha motivacional que
inventamos quando tínhamos dez anos: — Sorvete, sorvete, gelado,
geladinho. Você vai esquecer ela rapidinho.
Uma figura solitária vem na nossa direção, e Saz cutuca minhas
costelas.
— Para, sua louca, antes que alguém escute.
O que me faz cantar ainda mais alto, e a figura é iluminada pelo
luar e é claro que é Wyatt Jones. Imediatamente, esqueço Saz e
Yvonne e Shane e as caixas e todo o resto.
Wyatt vai embora logo, para o outro lado do país, para o outro
lado do mundo, para a Califórnia e as garotas com cabelos longos e
esvoaçantes e vestidinhos de verão. O que faz com que ele pareça
mais alto e destacado do restante de nós. Era para Saz e eu irmos
para a Califórnia também, onde eu o encontraria e o conheceria
melhor, estranhos em uma terra estranha, inicialmente conectados
pelas raízes lamentáveis do Meio-Oeste, e então — aos poucos —
nos tornando dois adultos experientes que descobrem que estão
destinados um ao outro.
Wyatt olha nos meus olhos, e meus ossos parecem derreter.
Corre um boato de que ele gosta de mim. Que queria me convidar
para o baile, mas é tímido demais. Que o motivo pelo qual ele e três
amigos cobriram minha casa de papel higiênico há dois meses é
porque, de alguma forma, eu sou especial. Até que meu pai, o
maratonista, os interrompeu e correu atrás deles pelo bairro. Desvio
o olhar e encaro meus pés porque a lembrança ainda é humilhante.
— E aí — ele diz.
— E aí — respondo.
Me obrigo a voltar a olhar para ele. Olhos castanhos profundos,
pele marrom-clara, ombros largos, boca sorridente. Embora meus
lábios ainda estejam latejando de tanto beijar há coisa de minutos,
quero as mãos dele em mim.
— Você está indo embora?
— Estou.
— Que pena.
Ele abre um sorriso largo, tão ofuscante quanto o sol, e tudo se
dissipa exceto nós dois. O pai dele é negro, a mãe é branca, e ela
morreu quando ele era bebê. Não se lembra dela, mas sempre diz
que puxou seu sorriso.
Ele está dizendo outra coisa agora, mas sua fala é abafada pela
música e pelas risadas e por alguém gritando. Viramos exatamente
no mesmo instante, e é Kayla Rosenthal, que sempre grita nas
festas. Ela está em pé em cima da mesa de piquenique,
chacoalhando o copo como se fosse um irrigador humano.
Ele acena a cabeça na direção dela.
— E ela conseguiu uma bolsa de estudos da Notre Dame.
Dou uma risada um pouco exagerada.
— Você veio com o Waller? — ele pergunta.
— Não, mas ele está aqui em algum lugar.
Levanto a mão como quem diz Quem liga, e torço para que essas
oito palavras insinuem tudo o que ele precisa saber: Não dou a
mínima para onde ele está porque ele não é nada para mim. É você,
Wyatt. Sempre foi você.
Ele dá mais um aceno com a cabeça, como se estivesse
pensando.
— Ei, parabéns pela segunda nota mais alta da classe.
— Obrigada.
— Isso quer dizer que você vai fazer um dos discursos da
formatura?
— O mais curto, mas sim.
Jasmine Ramundo vai discursar por dez minutos, mas eu só vou
poder falar por cinco.
— Estou ansioso para ouvir.
Ele sorri e então faz uma coisa que sempre faz meu estômago
estremecer — contempla o chão como se tivesse alguma coisa
profunda e importante ali. Então levanta a cabeça e me encara.
— Vai ficar aqui no verão?
— Vou.
— Eu também.
Olhamos um para o outro, meu rosto cada vez mais quente, e só
consigo pensar Quero que você seja meu primeiro, Wyatt Jones. Se
você me convidar para ir até o celeiro neste instante, eu aposto
corrida com você até lá e tiro a roupa antes mesmo de chegar à
porta.
Ele tosse. Desvia o olhar. Olha para cima. Sorri.
— A gente se vê por aí então.
— A gente se vê.
Ele passa por mim, e é só uma festa comum cheia de pessoas
comuns, e eu sou uma delas.
— A gente não precisa ir embora.
Eu viro e olho para Saz, surpresa. De onde você surgiu? Mas,
apesar de querer ficar, vejo sua cara.
— De jeito nenhum.
Amigas em primeiro lugar. Sempre. Continuo cantando durante o
resto do caminho até o carro.

Mais ou menos uma hora depois, estou deitada na cama


pensando em Wyatt Jones. Em todas as coisas obscenas que quero
que ele faça comigo. Meu quarto está carregado de escuridão,
exceto pela lua, que faz tudo brilhar.
Fecho os olhos e ainda sou eu, deitada aqui com esse lençol
amarelo de margarida e o pijama azul-marinho que ganhei no último
aniversário, livros por toda parte porque desde os seis anos gosto
de me enterrar em uma pilha deles.
Então eu sou eu, mas neste instante sou eu com Wyatt em cima
de mim. Wyatt Jones, com pernas de jogador de futebol e ombros
de nadador e cabelo que cheira a cloro e sol. Wyatt Jones, com
olhos que queimam quando olham para você. Ele está em cima de
mim. Embaixo de mim. Sua pele na minha. Minha boca na sua.
Meu corpo quente contra o lençol, e minha mão onde eu queria
que a dele estivesse. Chuto os livros para longe e eles se espatifam
no chão. Meu nariz começa a coçar e eu coço. Um fio de cabelo faz
cócegas na minha testa e eu o assopro para longe. Santo Deus.
Respire.
Se concentre.
Wyatt.
Wyatt.
E aqui está ele de volta, nu em toda sua glória.
Wyatt.
Depois de um minuto, mil agulhinhas fazem minha pele formigar.
Ele diz Você tem certeza?
Mesmo com toda sua beleza, Wyatt Jones é famoso pela timidez.
Quando ele fala, é uma voz suave e rouca e cuidadosa. Construí
toda uma vida íntima para ele na minha cabeça, em que ele é gentil
e empático e sensível, mas forte o bastante para pegar uma garota
— eu, especificamente — no colo e jogá-la na cama.
Sim, eu digo. SIM.
É você, Claude. Sempre foi você.
Para de falar, Wyatt. Para de falar agora mesmo.
As agulhinhas se espalham pelo meu corpo, e Wyatt se
transforma no garoto que eu vi no avião um dia, que ficou me
encarando diretamente enquanto avançava pelo corredor. Agora
estou naquele avião, vestida de comissária — uma comissária
estilosa, do tipo que faz voos internacionais. Batom vermelho,
uniforme vermelho. Ou talvez azul-marinho porque combina melhor
com meu cabelo de palhaço. Eu o sigo até o banheiro e ele me puxa
para dentro e tranca a porta, e me levanta com suas mãos grandes
e fortes e me coloca naquele balcãozinho, onde fica a pia, e eu o
envolvo com as pernas.
Ao me beijar, com as mãos no meu cabelo, ele se transforma no
Encapetado, o entregador de pizza. Estamos em seu Trans Am
vintage, e o cheiro é de pizza e cigarros, mas eu não me importo
porque arrancamos a roupa um do outro, e de repente ele se
transforma no sr. Darcy.
Não. No sr. Rochester. Mas eu não sou Jane Eyre, eu sou eu
vestindo uma roupa de equitação, e ele está me beijando à luz de
velas. Estamos em frente à lareira, e de repente surge um tapete de
urso, mas não sei muito bem por quê. Tem um tapete de urso no
livro? Estou encarando o urso e o urso está me encarando de volta
como quem diz Sua assassina, e é muito deprimente, então me livro
do tapete e agora estamos deitados no chão, Rochester e eu, mas o
frio está congelante porque Thornfield Hall, afinal de contas, é um
castelo no interior da Inglaterra. Rochester providencia um cobertor,
mas é tarde demais; eu o mando embora.
E agora é Wyatt de novo, caminhando despreocupado em minha
direção como faz nos corredores da escola, e seus olhos estão
grudados em mim, e são tão intensos e sérios que eu sei que é
agora. E estamos no quarto dele e os pais dele não estão em casa,
e as coisas desaceleram tanto que eu ouço minha própria
respiração, curta e rápida, e quase posso ouvir a dele quando ele
olha nos meus olhos e eu vejo tudo — ele, eu, nós — refletido ali.
Ele diz Claude.
Claudine?
Claudine.
E eu posso senti-lo. Inteiro. E não me importa se qualquer parte
de mim é grande ou pequena demais porque ele nem precisa dizer
Você é linda. Ele já está dizendo.
E somos Wyatt e eu, mais próximos do que eu jamais estive de
alguém, e meu corpo envolve o dele e se funde ao dele, e de uma
vez só eu respiro, Sim!, enquanto meu corpo inteiro flutua. Sobe
como um foguete e paira no ar, lançando fogos de artifício de todas
as cores. Eu sou uma explosão de cor e fogo, e meu quarto gira
iluminado. Um milhão de vaga-lumes acesos rodopiando e reluzindo
ao meu redor, me mantendo no ar.
Quero morar aqui em cima, envolta por essa tempestade de luz
cintilante. Quero que dure para sempre, mas um a um os vaga-
lumes apagam e morrem. Tento pegá-los e ficar com eles, mas,
delicadamente, me sinto descer flutuando de volta para a cama.
Aos poucos, a cama me absorve, da cabeça aos pés, e eu vou
ficando mole e tranquila.
Abro os olhos e a única luz vem da lua. Meu corpo está pesado
agora, tão pesado, e me sinto divagar nesse lençol de margarida,
pensando que devia ter estudado mais para a aula do sr. Callum e
não encontrei o pé esquerdo do tênis e não posso esquecer de levar
a blusa verde da Alannis segunda. Então minha mente vaga até
Shane e o celeiro e minha coxa úmida e vai que um pouco entrou
em mim e eu engravido e tenho um bebê e me caso com Shane
Waller e fico morando em Ohio para sempre?
A última coisa de que me lembro ao pegar no sono, embaixo do
lençol de margarida com o pijama azul-marinho, é Wyatt dizendo A
gente se vê por aí então, o que pode significar qualquer coisa
porque, hoje, o mundo inteiro ainda é possível.
7 DIAS PARA A FORMATURA

São quase onze horas da manhã e estou no meu quarto,


conversando com a Saz ao telefone. Estamos falando
especificamente dos nossos planos para o verão. Antes de mais
nada, nossa viagem de carro, nós duas explorando todo o estado de
Ohio antes de nos despedirmos dele para sempre — ou pelo menos
pelos próximos quatro anos. Compramos biquínis combinando
(preto para mim, vermelho para ela) e mochilas da Kånken (azul-
celeste para mim, amarela para ela), e a Saz vai pegar o carro
emprestado por uma ou duas semanas. Ela quer começar no norte
e eu quero começar no sul, e nós duas estamos falando e rindo ao
mesmo tempo, motivo pelo qual não ouço as batidas à porta.
De repente a porta abre e meu pai está ali, e ele está com uma
expressão estranha e olha para os pôsteres nas paredes e as
camisetas e as calças jeans e os vestidos pelo chão e os livros por
toda parte e para mim sentada sobre uma montanha de roupas
como se estivesse no topo do Kilimanjaro, e ainda estou rindo, mas
ao mesmo tempo tentando lembrar quando foi a última vez que ele
esteve no meu quarto, se é que alguma vez esteve.
Isso devia me fazer suspeitar de alguma coisa, mas não suspeito.
Em vez disso, digo: — Estou no telefone.
Ele diz:
— Preciso falar com você.
E agora não estou rindo, e nem a Saz, que pergunta:
— É seu pai?
Ela parece tão surpresa quanto eu.

Ele fica empoleirado no canto da cama, os pés no chão, como se


pudesse sair voando a qualquer momento. No início penso que algo
terrível aconteceu com a minha mãe. Ou que ele vai me dizer que o
cachorro morreu ou o gato morreu ou meus avós morreram.
Vasculho minhas lembranças, tentando desenterrar a última vez que
ele sentou assim para conversar comigo, e não consigo lembrar de
nada antes dos treze anos, quando ele olhou para minha mãe e
disse: — Eu não falava a língua dos adolescentes nem quando era
um. Ela está nas suas mãos agora.
Sento ao lado dele, vários centímetros entre nós. E me pergunto
onde minha mãe está e se ela sabe que ele está aqui e ele diz: —
Sua mãe pediu que eu conversasse com você…
Por algum motivo minha mente dispara imediatamente para
Shane e o celeiro. Por favor, que eles não saibam. É a pior coisa
que consigo imaginar, porque minha vida até agora tem sido
razoavelmente tranquila e sem grandes acontecimentos, o que
aparentemente é a razão pela qual não consigo escrever com
sentimento. Eu nunca tive nem cárie.
Então meu pai limpa a garganta e começa a falar com a voz baixa
e séria, nada a ver com a voz normal dele. E, enquanto fala, ele
começa a chorar, o que nunca o vi fazer antes.
Para. Não chora. Não você. Pais não choram. O que é idiota, de
verdade, mas é o que eu penso.
Eu acho que digo:
— Não chora.
Ou talvez não tenha dito nada.
Porque ele está dizendo que não ama mais a gente, minha mãe e
eu.
Que os últimos dezoito anos da minha vida…
os dezoito anos que correspondem à minha vida inteira…
foram uma piada de mau gosto e que ele nunca nos amou de
verdade, nunca, ou que talvez ele tenha amado por um tempinho,
mas o amor morre quando os objetos desse amor são tão pouco
amáveis, como minha mãe e eu somos, e infelizmente é nossa
culpa não podermos mais ser uma família.
Que ele precisa que a gente vá para longe para que ele nunca
mais tenha que olhar para a gente de novo porque nossa mera
presença faz mal para ele. Ele ainda está falando, mas não estou
ouvindo. Estou muito concentrada no modo como as lágrimas caem
na barba rala em seu queixo e desaparecem. Para onde elas estão
indo?
— Clew — ele diz. Meu apelido. Só ele me chama assim. Nosso
nome especial, só para nós, e a ida secreta à confeitaria de manhã
e o sorvete secreto antes do jantar e dirigir muito rápido e assistir
filmes de terror. Todas as coisas que minha mãe é protetora demais
para permitir. Embora durante toda minha vida tenha sido Claudine
e Lauren, Lauren e Claudine, as mulheres Llewelyn, porque minha
mãe nunca adotou o nome do meu pai, e sempre fomos mais
Llewelyn que Henry. O que basicamente significa que acreditamos
na possibilidade e na magia em vez de sempre olhar o lado prático
(ou seja, terrivelmente realista) das coisas.
Enquanto isso, meu pai ficou por perto, não tão parecido com a
gente, assistindo e aplaudindo e participando o quanto podia.
Durante toda minha vida, todos nos amaram, as duas Llewelyn.
Todos, pelo que parece, menos ele.
— Clew — ele repete. — Não é que eu não me importe com você.
Mesmo agora, neste instante, enquanto o piso do meu quarto
desaparece, enquanto eu olho para baixo, para além dos meus pés,
e me pergunto como vou ficar em pé de novo, ele não consegue
dizer amo. Como em Não é que eu não te ame.
Então ele diz:
— Eu só não posso ter uma família neste momento.
E talvez ele não tenha dito nada disso, na verdade, mas é o que
eu ouço. E nesse instante paro de olhar para suas lágrimas e sua
barba e começo a olhar para o lugar onde o piso costumava ficar.
Só consigo pensar que antes o piso estava ali e agora não está. Em
como podemos passar o dia todo, todos os dias, sem pensar no piso
ou no chão porque simplesmente supomos que ele sempre vai estar
ali. Até que ele desaparece.

A conversa verdadeira foi mais ou menos assim:


Pai:
— Preciso conversar com você.
Eu:
— Tudo bem.
— Não quero que você pense que tem outra pessoa. É importante
que você saiba disso. Mas sua mãe e eu estamos nos separando, e
ela pediu que eu te contasse porque não foi ideia dela; foi minha. —
Ele desvia o olhar ao dizer isso. Então: — Eu não consigo fazer isso
agora. Não consigo. — Seguido por: — Não é você e não é sua
mãe. Sou eu. Queríamos ficar juntos no seu último ano da escola, te
dar todo suporte. Vamos ficar as próximas duas semanas juntos
nesta casa, e depois vamos nos separar.
Quando ele diz separar, penso em um coração cortado ao meio,
em membros serrados.
— Mas ontem você me levou para a escola. — O que eu quero
dizer é Ontem tudo estava normal. Comemos amanteigados e
compartilhamos um silêncio amigável e andamos mais rápido que
todos os outros carros.
— É algo que vem acontecendo há algum tempo — ele diz. —
Estamos tentando decidir o que é melhor para você e para sua mãe
e para mim.
Então ele sabia disso quando atravessamos a ponte da rua
principal. Quando fomos até o centro. Quando comemos biscoitos
em frente à Joy Ann.
De repente me sinto deixada de fora. Sinto que durante todos
esses anos, mesmo quando éramos Claudine e Lauren, Lauren e
Claudine, eu acreditei que o casamento era entre nós três, e só
agora estou percebendo que sempre foi entre eles dois.
— Não quero que você converse sobre isso com ninguém, Clew,
nem com a Saz. Enquanto não acertarmos tudo. Sei que você ama
a Saz e os pais dela, mas eles são nossos amigos e ainda não
estamos prontos para contar a eles. Não estamos prontos para
contar a ninguém. Não ainda.
Eis o quanto estou paralisada: não fico com raiva; nem pergunto
por quê. Não digo Você não tem o direito de decidir com quem eu
posso falar sobre isso ou não. Você não tem o direito de me contar
que o mundo está acabando e depois pedir que eu não compartilhe
isso com ninguém. Em vez disso, eu só fico ali sentada, me sentindo
oca, com as mãos murchando no colo, o coração murchando no
peito, os pés pendendo no nada porque o chão não está mais ali.
Ele diz, de muito longe:
— Esta cidade é tão pequena… tudo o que a gente não precisa
agora são pessoas falando sobre sua mãe e sobre mim porque não
têm nada melhor para fazer. E não quero que elas tornem as coisas
mais difíceis do que já são para você.
Eu não escuto mais nada depois disso.

Depois que ele sai, minha mãe entra e me abraça. Ela diz que
podemos conversar se eu quiser, que é importante conversar e
desabafar.
— Você precisa deixar as lágrimas caírem — ela sempre diz. —
Porque, se não deixar, uma hora elas vão sair, mas como raiva ou
algo pior.
— Então é verdade — eu digo.
— É verdade.
E, de uma vez, sinto uma descarga de sentimentos em minhas
mãos, em meu coração, em cada parte do meu corpo que acabou
de ficar oco e morto, e quase me curvo de tanta dor. Sinto como se
uma bomba tivesse caído do céu direto no meu quarto, direto na
minha cabeça.
— Eu sei que é repentino. Sei que é muita coisa pra absorver. E
sinto muito. Muito.
Ela me abraça mais forte.
— O papai disse que não posso falar sobre isso.
Por um instante, me pergunto se ela está me ouvindo, porque
minha voz está tão distante, como se estivesse trancada em um
cômodo escuro e vazio sem janelas ou portas.
— Não fora de casa, só enquanto tentamos organizar isso tudo.
Tento sufocar a esperança que borbulha ao ouvir enquanto
tentamos organizar isso tudo, como se a situação tivesse conserto
ou não estivesse decidida.
— Como a Saz e eu vamos viajar juntas sem eu dizer nada?
— Não sei se essa viagem vai acontecer, Claude. Pelo menos
não agora.
— Mas estamos planejando faz tempo.
— Eu sei, e sinto muito. — E vejo que ela está tão perdida quanto
eu. — Sinceramente, eu também estou tentando entender tudo isso.
— Ela fica em silêncio, e quase consigo ouvi-la escolhendo as
palavras com todo o cuidado. — Mas o que você não pode esquecer
é que isso não tem nada a ver com você. Seu pai e eu amamos
você mais que tudo.

Depois que ela sai, deito na cama. Sem pilha de livros. Sem
sonhos com Wyatt ou planos de viagem. Só eu, me perguntando
onde o chão foi parar.
Fico deitada por um bom tempo.
A casa está tão calma, exceto quando ouço o barulho do portão
da garagem e o ronco do carro do meu pai se afastando. E um
pouco mais tarde, quando ouço um barulho na porta, e é meu gato,
Dandelion, querendo entrar. Mas não consigo me mexer. Só fico
deitada ali.
E fico deitada ali.
Quando o Vesúvio entrou em erupção, os cidadãos de Pompeia
foram pegos completamente de surpresa, mas sabemos pelas
cartas de um sobrevivente que houve avisos. Colunas de fumaça.
Tremores de terra. Como pude não perceber os sinais? Como pude
não saber?
Penso em todas as pessoas da história do mundo cujas vidas
mudaram em um instante, como a mulher cujo nome inspirou o meu.
Claudine Blackwood, tia-avó da minha mãe, tinha só cinco anos
quando a mãe dela se matou com um tiro na casa onde moravam
em uma ilha da Geórgia. Foi depois do café da manhã em uma
quinta-feira, e o pai de Claudine tinha acabado de sair de casa.
Claudine foi quem ouviu o tiro, quem encontrou a mãe deitada em
uma poça do próprio sangue. É uma dessas tragédias às quais
minha mãe, a escritora, se refere como um momento definidor:
aquele momento em que a vida muda de repente e você tem que
juntar os pedaços. Ela diz que é como você junta os pedaços que
define quem você é.
Tia Claudine e o pai permaneceram na casa, mesmo depois
disso. Ela passou alguns anos em Connecticut na escola para
garotas da srta. Porter, mas voltou para a ilha aos dezenove anos
para nunca mais ir embora. Quando seu pai morreu, ela herdou a
casa. Às vezes eu me perguntava como deve ter sido crescer no
mesmo espaço onde sua mãe se matou, passar pelo quarto
milhares de vezes ao longo dos anos.
Tia Claudine era a pessoa da família de quem minha mãe mais
gostava. Quando tinha dez anos, minha mãe foi visitá-la e viu o
buraco da bala na porta do closet. Ela disse que dava para colocar o
dedo lá dentro. Das fotos que já vi de Claudine, ela parecia uma
mulher elegante e bem arrumada com o cabelo loiro num chanel
curto e três salsichas gordos que aparentemente a seguiam por toda
parte. Ela usava camisas de botão e calças cáqui, mas, segundo
minha mãe, se portava como a realeza.
Eu queria poder perguntar à tia Claudine se, olhando para trás,
houve sinais que apontassem para o que a mãe dela fez, mas
Claudine morreu antes de eu nascer. E talvez ela tenha percebido
os sinais, talvez não. Afinal, tia Claudine tinha só cinco anos quando
aconteceu. Quaisquer memórias de sua mãe, e da garota que
Claudine talvez fosse se aquela arma nunca tivesse sido disparada,
se foram com ela. Ela não deixou marido ou filhos, ou qualquer
pessoa que pudesse nos contar por que ela passou a vida inteira
naquela casa em uma ilha na costa da Geórgia.
Isso tudo faz com que eu me pergunte: Este é um momento
definidor para mim? E, se for, o que eu vou fazer com todos esses
pedaços?
Em algum momento percebo que preciso me mexer. Que ficar
deitada aqui só está piorando as coisas. Então pego o celular. Saz
mandou quinze mensagens de texto e deixou três mensagens de
voz. Em vez de descer para comer o que minha mãe chama de
“café no almoço”, como fiz todo sábado de manhã nos últimos
dezoito anos, desligo o celular e pego o caderno e a caneta que
ficam na mesinha de cabeceira. Durante toda minha vida, criei
histórias para tudo porque sentia que tudo merecia ter uma história.
Mesmo que fosse só uma bola de gude velha presa na parede do
porão. De onde ela veio? Quem colocou aqui? E por quê?
O que ninguém sabe é que estou escrevendo um romance. Um
romance ruim e comprido demais pelo qual estou apaixonada
embora não tenha enredo e sejam aproximadamente setecentos
personagens e eu provavelmente nunca termine. Até agora já enchi
três cadernos, e ainda estou escrevendo. Qualquer dia ou jogo os
cadernos fora ou digito todas as palavras no notebook.
Abro o caderno. Tiro a tampa da caneta.
Encaro a página.
Ela me encara de volta.
— Para de me encarar — digo.
Escrevo meu nome, só para mostrar quem é que manda. Claude.
Circulo. Circulo mais uma vez e mais uma, até meu nome parecer
preso dentro de uma nuvem raivosa.
Escrevo meu nome completo. Claudine Llewelyn Henry. Llewelyn,
nome de solteira da minha mãe. Risco o Henry e escrevo: Claudine
Llewelyn. Talvez esta seja quem vou ser a partir de agora.
Pego o celular, ligo o aparelho de novo, e telefono para Saz.
— O que seu pai queria?
— Quê?
— Seu pai — ela diz. — O que ele queria?
— Nada. Só conversar sobre a formatura. Meus avós vêm para
ouvir meu discurso.
E penso Uau, vou mesmo fazer isso. Não vou contar a ela. Olho
para baixo, para a parte de dentro do meu braço, estou beliscando a
pele com tanta força que está ficando azul.
— Você está esquisita. Tem certeza de que está tudo bem?
— Está, sim. Só estou cansada. Não dormi muito. — Então,
penso em contar para ela, embora meu pai tenha pedido que eu não
contasse, embora minha mãe tenha concordado, sobre a bomba
que ele jogou na minha cabeça e no meu coração. Mas isso só faria
com que tudo parecesse real, e neste instante não parece. Em vez
disso, digo: — O que você vai fazer mais tarde?
Só para ver o que acontece, cutuco a pele com a ponta da caneta,
sem parar, até a pele ficar toda azul da tinta, ou talvez dos
hematomas.
— Nada. Agora estou meio que assistindo um filme e fazendo um
boneco de vudu da Leah Basco.
— Será que você consegue pegar o carro?
— Provavelmente. Mas você também pode vir aqui.
Saz mora a três quadras.
— Tá bom.
— Ou podemos ir para Dayton.
Penso no carro em alta velocidade e em aumentar o volume da
música, mais alto, mais alto.
— Parece melhor.
— Tem certeza de que está tudo bem?
Olho para o caderno, onde enchi uma página com meu nome.
Claude trezentas vezes. Para as manchinhas azuis em meu braço.
— Tenho.
Desligamos, e me preparo para esperar no quarto por umas cinco
ou seis horas para não precisar sentar lá embaixo e conversar com
a minha mãe.

Saz está dirigindo. O carro é um Honda de cinco anos que ela


compartilha com o irmão, Byron. Andamos rápido com a música alta
e as janelas abertas, e não conversamos sobre Yvonne ou Wyatt ou
Shane. Nos permitimos nos tornar parte do ar e da noite e da
música, e cantamos até ficarmos roucas.
Isso faz parte do que é ser Saz e Claude, duas melhores amigas
que cresceram em uma cidade pequena demais. Ela foi a primeira
pessoa que fez com que eu me sentisse em casa em Mary Grove.
Construímos nossa amizade sobre o fato de nenhuma de nós duas
ter nascido aqui, e nos tornamos forasteiras juntas. Aos dez anos,
assim que descobrimos que queríamos ser escritoras, decidimos
que um dia iríamos embora de Mary Grove e seríamos pessoas
importantes no mundo. Concordávamos que deixar essa cidade e
Ohio para trás era necessário para nossa sobrevivência. Foi quando
a lista começou: uma lista de tudo que faríamos e conquistaríamos
quando fôssemos livres. No quinto ano montamos uma banda só de
garotas para poder ir embora antes. Não éramos muito boas
tocando, mas éramos ótimas em ouvir música, e nosso amor por
todas as décadas e estilos nos levou a Françoise Hardy e as
garotas do yé-yé dos anos 1960. Aprendemos sobre essas
mulheres nas aulas de francês do sétimo ano e elas — em toda sua
francesidade maravilhosa e única — nos transportaram para fora de
nós mesmas e para longe da nossa cidadezinha do Meio-Oeste, e
inspiraram uma obsessão com tudo o que fosse antigo e francês.
Em Dayton, subimos os degraus do Instituto de Artes, que está
fechado, mas tem a fachada iluminada. Sentamos juntinhas contra o
vento e o frio, embora seja quase verão. Assistimos o céu mudar de
cinza para dourado para rosa para azul-marinho. A lua aparece,
seguida pelas estrelas, luminosas demais. Tem algo de injusto
nelas.
Aos onze anos, quando Saz concluiu que era adotada porque
seus irmãos pequenos e quietos e seus pais pequenos e quietos
não a entendiam de jeito nenhum, decidimos que ela era uma órfã
abandonada. E embora eu ame meus pais e seja igualzinha a eles,
metade de cada, decidi que também era órfã. A despeito do
tamanho liliputiano de Saz e dos meus membros longos demais, da
sua pele morena e das minhas sardas, do seu cabelo escuro e liso e
do meu esfregão laranja-elétrico, dissemos a nós mesmas que
tínhamos sido separadas ao nascer, e a única explicação possível
era a de que havíamos sido roubadas da nossa família de verdade.
Criamos toda uma história para nós, sobre nossos pais verdadeiros,
nossos irmãos verdadeiros e as pessoas que tinham nos roubado.
Aos treze anos, fizemos um plano — depois da formatura da escola,
iríamos para a Califórnia e dividiríamos um apartamento e
ganharíamos a vida como escritoras. Com o passar dos anos,
conforme íamos nos tornando mais e mais amigas, foi ficando difícil
definir onde Saz começava e eu terminava.
E no entanto, neste outono, nós vamos para universidades
diferentes. Eu vou para Columbia em Nova York. Saz vai para
Northwestern em Chicago. Concordamos em não falar sobre isso
até o fim do verão, mas a ideia de nos separarmos é insuportável.
Saz tira uma garrafa de vodca da bolsa. Ela passa a garrafa para
mim e eu bebo, detestando o sabor. Mas gosto da sensação quente,
ardente que sinto no peito assim que engulo. Como se tivesse uma
pequena fornalha dentro de mim. Ficamos sentadas, olhando para a
cidade. Desde o segundo ano, é para cá que a gente vem quando
não quer conversar, mas precisa se sentir melhor. É o nosso
Instituto de Artes, assim como a I-70 é a nossa rodovia, e Mary
Grove a nossa cidade, embora não nos encaixemos nela.
Passo a garrafa de volta à Saz, mas ela faz que não com a
cabeça.
— Dirigindo.
Bebo um gole por ela.
— Hen — ela diz —, preciso te contar uma coisa.
Ela me chama de Hen, diminutivo de Henry, diminutivo de
Claudine Henry, desde que tínhamos dez anos. Lew, sinto vontade
de dizer. Me chame de Lew. Sou Claudine Llewelyn agora.
Eu também preciso te contar uma coisa.
Ela solta o ar como se estivesse segurando a respiração por um
bom tempo.
— Eu transei com a Yvonne.
E antes que eu possa dizer Mas a gente viu Yvonne com Leah
ontem à noite… ou já faz dias?, ela diz: — Desculpe por não ter
contado quando aconteceu.
Digo a primeira coisa que me vem à cabeça.
— Mas ela tem namorada.
— Elas andam terminando e voltando há algum tempo.
— Quando você transou com ela?
— Há três semanas. Lembra quando a Mara e eu fomos à casa
do Adam Katz? Naquele fim de semana que você saiu com o
Shane? Foi nesse dia.
Eu digo:
— Ah.
Há três semanas.
— Eu sei que a gente ia esperar até se apaixonar para transar e
fazer isso ao mesmo tempo, mas a gente tinha dez anos quando fez
essa promessa, Hen. Você sabe que eu já namorei. Não muito. Não
tanto quanto a Alannis.
— Ninguém namora tanto quanto a Alannis.
— Né?! Mas, sei lá, ninguém tinha sido importante de verdade
antes. Não assim. Quer dizer, até foram importantes, mas não
entraram aqui. Bem aqui. — Ela passa a mão sobre onde fica o
coração e então bate ali duas vezes. — Eu não imaginava que isso
fosse acontecer. Não imaginava que ela fosse acontecer. Acho que
ninguém imagina.
E ela sorri, perdida na lembrança de Yvonne.
Por algum motivo, essa notícia bate tão forte quanto a notícia
sobre meus pais, porque é mais um segredo que estavam
guardando de mim. Eu sou uma pessoa de quem os outros acham
que precisam esconder as coisas, e todas as coisas que pensei que
fossem verdade na realidade não são. Sinto meus pulmões
falhando. Olho para os degraus de concreto, mas eles não estão
mais ali. Entre meus pés e o chão só tem ar.
Limpo a garganta, que de repente está completamente seca.
— Por que você não falou nada?
— Não sei. Eu devia ter te contado. Mas não sabia muito bem o
que aquilo era, o que a gente era, eu e a Yvonne. Acho que queria
entender primeiro.
— E conseguiu? Entender?
— Não completamente. Não ainda. Mas eu não queria mais não
contar para você.
— Você quer dizer que não queria mais guardar segredo.
— Isso.
Ainda que eu esteja sentada ali guardando meu próprio segredo,
o dela dói como uma ferida aberta. Quero que ela retire tudo o que
disse e reconstrua os degraus para que possamos sentar ali juntas,
lado a lado, como sempre fizemos.
— A Yvonne obrigou você a jurar que não ia dizer nada? Porque
ela ainda estava com a Leah?
— Não. Eu não ter te contado é culpa minha. Além disso, a
virgindade é tão subjetiva, Hen. É uma coisa inventada pelos
homens velhos, héteros e brancos que governam este país, ou
quem quer que fossem os equivalentes deles antigamente, para
fazer você se sentir deslocada e sem valor e incompleta de alguma
forma. Na verdade, não significa nada, não para mim.
— Mas a sua primeira vez com a Yvonne teve um significado.
— Teve. Significou tudo. — E a voz dela falha, tipo, falha de
verdade, como se não fosse capaz de conter toda a emoção que
está carregando.
Eu devia deixar minha dor e minha raiva de lado e perguntar à
Saz como foi, como ela está se sentindo, o que isso significa para
ela e Yvonne. Eu devia perguntar alguma coisa sobre isso porque é
importante e imenso e, eu gostando ou não, Yvonne está
acontecendo. Mas quando abro a boca, a única coisa que sou capaz
de dizer é que talvez eu esteja grávida do Shane Waller.
— Você sabe que não estamos nos anos 50, né? Tipo, você tem
alternativas caso, de alguma forma, esteja grávida, o que, aliás,
você não está.
— Ele acha que eu sou um monte de caixas, e sempre que ele
abre uma, tem outra dentro.
Olho para baixo, para além do lugar onde os degraus
costumavam ficar, e o chão também desapareceu.
Ela diz:
— Acho que nós duas sabemos que só tem uma caixa na qual ele
quer entrar.
São quase sessenta quilômetros até Mary Grove. Em vez de
conversar, colocamos a música tão alto que posso senti-la entrando
em minha corrente sanguínea, criando raiz em meus ossos. Saz
dirige com um braço para fora da janela. Ela vira uma esquina muito
rápido e gritamos com a música e puxo meu cabelo para trás porque
ele não para de voar e se eu não segurá-lo vou engoli-lo. Com a
mão livre, pego a garrafa de vodca e bebo, e a ardência e a música
que vibra em meus ossos fazem com que eu me sinta viva.
Chegamos a Mary Grove em vinte minutos porque Saz dirige mais
rápido que qualquer um que eu conheço, incluindo meu pai.
À luz do painel, examino o lado de dentro do meu braço, onde
estão os hematomas. Os pequenos hematomas dos pequenos
beliscões que dei em mim mesma entre esta manhã e este
momento, só para ter certeza de que eu não estava sonhando.
Entramos no meu bairro, seguindo a curva e a inclinação da rua.
Eu ainda posso contar a ela.
Descemos uma ladeira.
Posso contar agora.
Fazemos uma curva. E outra.
Posso abrir a boca e deixar as palavras saírem, e aí ela vai saber
e vai poder me ajudar a entender isso e eu não vou estar sozinha e
tudo vai ser real.
O carro para em frente à minha casa. Ficamos sentadas ali por
um instante, a música ainda tocando. Não quero entrar. Não quero
ver meus pais.
Mas não posso ficar aqui sentada para sempre, porque a Saz vai
querer saber o que está acontecendo, então começo a descer do
carro. Ela se aproxima e põe a mão em meu braço, me impedindo.
— Você sabe que não é o fim de nós duas, né? Não só o fato de
você ir para Nova York e eu para Chicago, mas a Yvonne e eu? Eu
ter me apaixonado não teve a ver com você, Hen, ou com os planos
que a gente tinha. Tem a ver com a garota que eu gosto e, sei lá, o
momento certo. Mas nunca vai existir um fim para nós duas.
— Eu sei.
Mas sinto um tremor apreensivo no coração. Saz quebrou uma
promessa. Talvez fosse uma promessa boba. Uma promessa de oito
anos atrás, feita por garotas de dez. Mas, além da promessa, tem o
fato de Saz ter escondido Yvonne de mim. Nós ainda nem nos
formamos e fomos embora. Quantos outros segredos existirão
quando Saz estiver em Northwestern e eu em Columbia e não
estivermos aqui, juntas, em Mary Grove? Às vezes as coisas
acabam, ainda que você não queira.
Talvez nada disso me incomodasse tanto se eu não estivesse
guardando meu próprio segredo, um segredo que é dos meus pais e
que agora eles entregaram para mim. Um segredo que eu não
quero.
Me obrigo a pegar a mão dela. Digo:
— Eu queria que a gente fosse para a Califórnia.
— Eu também.
Os olhos dela encontram os meus, escuros e cintilantes. Saz
sempre parece estar pensando em um milhão de coisas
empolgantes ao mesmo tempo. Mas agora seus olhos estão
tranquilos e, por trás da felicidade que está ali por causa da Yvonne,
eu vejo a preocupação e a tristeza e talvez o medo de que eu esteja
chateada com ela.
Eu digo:
— Eu nunca poderia ficar brava com você. Principalmente por
seguir seu coração.
Principalmente quando eu também estou guardando segredos.
— Jura? — ela pergunta.
— Juro.
Consigo ver o alívio em seu rosto. Ela aperta minha mão. Com a
outra, pega a garrafa de vodca. Bebe um gole agora que está perto
de casa.
Ela diz, bem baixinho:
— Eu gosto muito dela.
E parece quase uma morte, como se a Velha Saz e a Velha
Claude tivessem desaparecido de repente. Sou eu quem aperto sua
mão desta vez, porque se eu não fizer isso, talvez caia no choro e
enlouqueça aqui mesmo, neste instante. Então a abraço com força
por um bom tempo antes de sair do carro.
— Ei — ela diz, se inclinando sobre o banco, os olhos brilhando.
— Eu te amo mais que chocolate e a Ariana Grande e o verão.
Fazemos Eu te amo mais que desde que tínhamos dez anos,
porque nos amamos para além dessas três palavras e
precisávamos achar um jeito de expressar isso.
— Eu te amo mais que macarrão com queijo instantâneo e a
Zelda Fitzgerald e a primavera.
Mas as palavras caem vazias no chão ao meu redor. Ela estende
a mão e mostra o dedinho, e eu o engancho no meu. Então bato a
porta e corro para casa.
6 DIAS PARA A FORMATURA

Quando acordo no dia seguinte, o mundo está diferente. É uma


diferença que eu mais sinto do que enxergo, como se algo na
gravidade da Terra tivesse mudado.
Tem um conto do Ray Bradbury sobre um homem que paga uma
empresa chamada Safári do Tempo para voltar no tempo e ter o
privilégio de atirar em um dinossauro. Ele só pode matar um
dinossauro específico, que foi cuidadosamente marcado, porque
está velho e doente e vai morrer de qualquer jeito. Ao matá-lo, o
homem não vai afetar o equilíbrio da natureza. Ele é avisado de que
deve seguir o trajeto determinado pela Safári do Tempo. Não desviar
da rota. Se matar qualquer outra coisa, por menor que seja, pode
desfazer o futuro do mundo.
E é claro que ele sai da rota, e quase o deixam lá, e quando
voltam para o presente tudo parece estar igual a antes. Mas não
está igual a antes. Então — tchan tchan tchaaan — o homem
encontra uma borboleta morta na sola de sua bota. E compreende
que alterou tudo.
Mas em que tipo de mundo estava agora, não havia como saber.
É essa a sensação de estar no meu quarto, na minha casa, na
minha vida. Minha mãe, meu pai, a Saz, o Sol, a Terra. A atmosfera.
As estrelas. O chão. Tudo se foi.
SEMANA DA FORMATURA

Os dias que se seguem são estranhos, tipo logo depois de um


desastre natural, quando o mundo fica calmo demais. Meus pais e
eu nos movimentamos com cuidado em volta um do outro, estátuas
de vidro em uma casa de vidro, e quando saímos nos
movimentamos com mais cuidado ainda, para não revelar nada às
pessoas que encontramos.
Meu pai e eu raramente ficamos sozinhos juntos. Digo à Saz que
ele precisa ir trabalhar mais cedo esta semana e pergunto se posso
ir à escola com ela. Ela fala durante todo o percurso, mas gosto do
modo como as palavras preenchem o silêncio e o ar e os espaços
ocos que cresceram dentro de mim.
Em casa, se meu pai entra em um cômodo e me encontra lá
sozinha, eu invento uma desculpa para sair. Não sei o que dizer a
ele agora. Por favor, traga meu pai de volta porque não reconheço
você, essa pessoa que decidiu largar minha mãe e eu. Nem te
reconheço mais. Ele parece entender isso — ou talvez também não
saiba o que dizer para mim —, porque não insiste. Minha mãe, ao
contrário, fica em cima. Mas o estranho é que eles também estão
agindo de modo estranhamente natural. Eles dividem tarefas e cada
um de nós faz a sua parte e assistimos Netflix juntos e jantamos
juntos a não ser por uma ou duas noites quando meu pai precisa
trabalhar até mais tarde. Mas isso também é normal.
Conforme vamos voltando naturalmente a nossos papéis de
sempre, sinto um brotinho delicado de esperança crescendo em
meu peito. Talvez não aconteça. Talvez seja só uma crise de meia-
idade pela qual meu pai está passando. Talvez minha mãe consiga
tirá-lo dessa. Talvez tenha sido tudo um engano. Fico olhando para
o chão do meu quarto até dizer a mim mesma que já consigo vê-lo
novamente e que ele não vai se partir como uma camada fina de
gelo quando eu pisar ali.
Enquanto isso, a vida continua, e tento não me assustar com isso.
Vou à escola segunda-feira — minha última segunda-feira de aula
— e espero que todos vejam que sou Claude, mas não Claude. A
velha Claude foi substituída pela Claude Robô, que assiste aula e
anda pelos corredores e almoça e ouve as amigas conversando
sobre sexo e faculdade ou reclamando do corpo. Nunca percebi o
quanto somos críticas em relação a nossos corpos. Penso Por que
somos tão cruéis com nós mesmas? Por que não ficamos felizes
com o que temos? E digo isso em voz alta, e Alannis e Mara olham
para mim como se eu tivesse acabado de dizer que elas são
monstros.
Minha menstruação desce na hora do almoço, o que significa que
não estou grávida de Shane Waller, mas mal consigo sentir… o
alívio. Vejo Shane depois, na aula de cálculo, e não conversamos.
Ele nem olha para mim, e é como se fôssemos estranhos que não
saíram juntos durante dois meses. Acho tão bizarro que em um
instante você pode estar nua com alguém e no seguinte é como se
vocês nem se conhecessem, mas aceito isso tão estranhamente
bem que me pergunto se algum dia gostei dele de verdade. Talvez o
sr. Russo tenha razão, e eu seja incapaz de sentir.
No entanto, mais tarde, no corredor em frente à biblioteca, vejo
Wyatt Jones e Lisa Yu se pegando encostados no armário dela, e ao
ver isso acontecer, me sinto desmoronar. Lisa é mais descolada do
que qualquer outra pessoa do planeta. Ela é mais descolada do que
eu jamais seria capaz de sonhar em ser. E agora sua boca está
grudada na dele. Você não, Wyatt Jones, quero dizer. Preciso que
você permaneça o mesmo, que continue o Wyatt que sempre foi.
Sem mudar. Sem ir embora como todo mundo.
Saz diz:
— Controla sua cara, Hen. Para de olhar! Para!
Fico surpresa porque até este instante eu não sabia que ela
estava ali.
— Quando isso aconteceu? — E estou me referindo a Wyatt e
Lisa. — Wyatt não gosta da Lisa Yu. Ele gosta de mim. Desde
quando ela é alguém que ele beija? Devia ser eu beijando Wyatt,
não ela.
E assim por diante. Até para meus próprios ouvidos pareço uma
criança.
Saz começa a cantar a música do sorvete, e eu penso Qual é
minha reação normal quando Saz canta a música do sorvete?
Acesso os bancos de dados da minha memória e faço uma careta
para ela. Ela faz uma careta em resposta e me sinto aliviada porque
ela acha que estou sendo a Claude de sempre.
— Os homens são uns bostas! — ela diz. — É por isso que dou
graças por gostar de mulher.
Naquela noite meu celular vibra e é o Shane. Como uma idiota,
penso que talvez ele queira se desculpar por… Pelo quê? Querer
transar comigo? Não ser o garoto que eu queria que ele fosse? Ele
mandou uma foto, e de início não sei bem para quê estou olhando,
até que reconheço. Shane pelado da cintura para baixo, e a
legenda: É isso que você está perdendo. Me avisa se mudar de ideia.
Tem mil coisas que eu podia responder — Seu pau é minha última
preocupação no momento, para começar —, mas em vez disso eu
só apago a conversa inteira. Adeus, Shane Waller. Nem consigo
lembrar por que me interessei por você.

Na manhã seguinte, antes da aula, fico sentada no tapete do meu


quarto lembrando do primeiro ano que passamos aqui. Meu antigo
quarto em Rhode Island agora é um borrão turvo e nebuloso, mas
este quarto, mais ainda que esta casa, é meu lar, o primeiro espaço
só meu que eu enchi de mim. Meu paraíso protegido de tudo —
provas, professores, términos, brigas com amigos, o estresse do
mundo lá fora. Até o dia em que meu pai entrou e tirou o chão.
Uma batida na porta e minha mãe aparece. Ela entra e senta ao
meu lado. Sem pensar, inclinamos nossas cabeças, deixando que
se encostem. Fazemos isso desde que eu era pequena.
Digo:
— Quando você soube? Que você e o papai não estavam dando
certo?
— É difícil explicar.
— Tipo, faz um tempo? Ou você acabou de descobrir?
— Faz e não faz. Eu sabia, mas não sabia.
Minha mãe, que nunca é evasiva comigo, faz isso pela primeira
vez na minha vida, e sinto meu coração desacelerar e aquietar e
ficar cada vez mais imóvel porque, de alguma forma, isso é pior que
meu pai sentado na minha cama chorando.
— Isso é o que você quer ou o que ele quer?
Ela solta um suspiro.
— Claude.
— Mãe.
Minha mãe nunca mente para mim, e espero que não comece
agora, embora, de qualquer forma, eu já me sinta enganada.
— É isso que você quer? — repito.
— Não — ela diz, e percebo que é verdade.
Eu venho esperando que eles mudem de ideia e me digam que
decidiram tentar. Em vez disso ela fala de uma ilha na Geórgia para
onde mandam esposas e crianças indesejadas, onde não há carros
ou telefones, e onde jacarés e cavalos selvagens andam livres. Ela
me diz que estamos sendo expulsas para lá. Que assim que eu me
formar nós duas vamos embora desta casa, onde passamos os
últimos oito anos, porque meu pai está nos mandando embora.
O que ela realmente diz é que vamos passar o verão na Geórgia
na ilha onde minha tia-bisavó Claudine Blackwood viveu e morreu.
Minha mãe e eu geralmente visitamos a família dela em Atlanta
nesta época do ano, então já temos o álibi perfeito para nossos
amigos de Mary Grove. Vamos passar em Atlanta, como sempre, e
depois seguir em direção à ilha.
Digo:
— Por que nós temos que sair se é ele que quer ir embora?
— Porque eu preciso me distanciar de Mary Grove e do seu pai e
desta casa. Só para dar um tempo para minha cabeça.
— Bom, Saz e eu vamos viajar. Então não preciso ir para uma ilha
para ficar longe dele porque já não vou estar aqui.
— Claude.
— Mãe.
E eu sei o que ela vai dizer.
— A viagem de vocês infelizmente vai ter que esperar. Prometo
que vocês vão poder viajar em algum momento, mas agora… só por
algumas semanas… — Ela balança a cabeça e de repente seus
olhos estão úmidos. — Querida, agora eu preciso que você venha
comigo.
A Ilha do Divórcio é um balneário mantido pelo governo federal ou
um parque estadual ou algo do tipo. Além de jacarés e cavalos
selvagens, é cheia de ruínas e da história da família. Durante quase
cinco semanas — exatamente trinta e cinco dias —, vamos ficar em
uma casa que pertence à Addy, prima da minha mãe. Minha mãe
esteve ao lado dela quando Addy se divorciou, e depois, quando
seu filho de doze anos se afogou no repuxo do mar. Agora é a vez
de Addy nos apoiar.
O gato vai com a gente e o cachorro vai ficar com meu pai. Até
nossos animais de estimação vão se separar.

Sexta-feira à tarde, os pais do meu pai chegam da Pensilvânia.


Fico na expectativa de que meu pai conte sobre o casamento
acabado e o fato de que vai mandar a nora e a única neta deles
para longe assim que eu pegar meu diploma, mas ninguém diz nada
e meu pai passa o dia na cozinha preparando uma de suas receitas
— turnedô de filé com aspargos refogados e macarrão ao molho
quatro queijos preparado do zero.
Enquanto ele faz isso, meus avós se revezam à porta da cozinha,
onde minha mãe marca a altura deles. É uma tradição que ela
começou quando nos mudamos para cá — medir a altura de todo
mundo, crianças e adultos, e escrever o nome e a data ao lado de
cada marca. Até Dandelion, o gato, e Bradbury, o cão, estão lá.
Durante todo o tempo em que isso acontece, consigo sentir as
palavras se formando, se assentando na ponta da minha língua. Ele
não nos quer mais. Mas meu pai me pediu que não falasse sobre
isso e, além do mais, ele vai jantar em casa, então vamos comer
todos juntos, uma família feliz.
— Que pena que seus pais não puderam vir — minha avó diz à
minha mãe à mesa.
— Uma pena mesmo.
Aparentemente, minha mãe contou o suficiente sobre a separação
aos pais e à irmã dela e eles estão com raiva do meu pai e não
querem vê-lo. Estão com tanta raiva que vão perder minha
formatura e sinceramente não os culpo. Eu mesma perderia se
pudesse.
— Neil disse que você vai trabalhar na Geórgia durante o verão.
— Isso mesmo. Vou ter a oportunidade de organizar os
documentos dos herdeiros de Blackwood, alguns dos meus
ancestrais.
— Quando diz “Blackwood” você quer dizer o Samuel Blackwood?
Minha mãe assente.
— Nos anos 20, ele construiu uma casa na costa para seu único
filho. Talvez tenha um romance aí.
Sua voz é calma e tranquila.
Os olhos da minha avó estão dançando.
— Que incrível! — Minha avó é a mais ávida leitora e a maior fã
da minha mãe. — Você pode adiantar alguma coisa ou é muito
cedo? Quer saber? Não me conta. — Ela levanta uma das mãos. —
Não quero que você revele nada, mas se precisar de alguém para
ler e opinar antes de publicar, estou à disposição.
— Obrigada, Maggie.
Minha avó olha para mim.
— E você vai ajudá-la?
Paro de brincar com a comida e largo o garfo. Então percebo que
não tenho nada a dizer. Minha mãe responde por mim, com certeza
para que eu não precise mentir para minha avó.
— Ela é minha melhor assistente de pesquisa.
Minha avó vira para o meu pai.
— Como é que você vai se virar sem elas, Neil? Espero que vá
passar pelo menos um tempinho por lá.
Fico esperando que ele diga que foi ideia dele, que não vê a hora
de irmos, mas, em vez disso, ele olha para minha mãe, olha para
mim, e diz:
— Vou ter que dar um jeito de sobreviver.
Ele olha para nós de novo e dá para ver a culpa em seus olhos.
Você ainda pode impedir isso. Pode mudar de ideia, e a gente fica
aqui e nada disso precisa acontecer. Ele desvia o olhar, encarando
a comida.
Quase digo alguma coisa neste momento. Me sinto como uma
pessoa presa contra a vontade, como uma refém ou vítima de
sequestro, e só quero gritar para os espectadores inocentes Por
favor, me ajudem e correr para a liberdade.
Mas a conversa avança para o trabalho do meu avô e suas
partidas de golfe e a igreja que frequentam e o vizinho deles,
coitado, que está no meio de um divórcio terrível.
FORMATURA

Sábado, na formatura, subo ao palco diante do microfone, diante do


púlpito, e olho para o mar de chapéus e becas azuis. O rosto dos
meus colegas entra em foco. Ali está Saz, minha melhor amiga, e
Wyatt, o garoto que eu amo, que eu achava que me amava mas
agora aparentemente ama outra pessoa. Ali está Shane Waller, que
já me viu nua, e Matteo Dimas, que já me viu quase nua, e minhas
amigas Alannis e Mara, os celulares no alto e apontados para mim.
Ali está Lisa Yu, a garota que roubou Wyatt Jones de mim sem
saber, e ali está Yvonne Brittain-Muir, que está roubando a Saz.
Todos eles esperam que eu compartilhe algumas palavras
inspiradoras. Para além deles, vejo meus pais, sentados lado a lado
com meus avós, os olhos em mim.
Abro e boca e eis meu discurso sobre sonhos e deslumbramento
e tudo aquilo em que eu acreditava antes que meu mundo
implodisse.
— “Encha seus olhos de admiração… viva como se fosse cair
morto daqui a dez segundos. Veja o mundo. Ele é mais fantástico do
que qualquer sonho” Ray Bradbury, Fahrenheit 451.
Ouço minha voz, mas não me sinto eu mesma, como se a Claude
real estivesse muito, muito longe daqui, e a que está neste palco
fosse só uma substituta. Quero dizer Não acreditem em uma palavra
desse lixo. Se preparem para o divórcio e o sofrimento e a traição e
para se sentirem completa e absolutamente sozinhos por maior que
seja a multidão que os rodeia.
Quando, de alguma maneira, consigo terminar e espero os
aplausos, sorrio para todos e penso: Não é engraçado eles não
perceberem que eu morri há uma semana?
Atravesso o palco com o chapéu e a beca, e depois Saz e eu
posamos para fotos. Estou tão oca que sou praticamente invisível e
me pergunto se vou aparecer na câmera.
Saz diz:
— Eu te amo mais que a liberdade e vodca e nadar pelada.
Respondo:
— Eu te amo mais que bibliotecas e o sol e garotos tocando
violão.
De repente perco o ar e tudo começa a girar. O mundo inteiro se
inclina, e durante um segundo calmo e aterrorizante, tudo fica preto.
Então acordo em um banco fora do ginásio, e o rosto do Wyatt é a
primeira coisa que vejo. Por um instante, penso que foi tudo um
sonho — os últimos sete dias. Mas ele mede minha pulsação e
Alannis me abana e Mara diz alguma coisa sobre eu ter tensionado
demais os joelhos no palco e que a irmã dela fez a mesma coisa em
um casamento. Saz diz aos curiosos: — Está tudo bem, não tem
nada para ver aqui, ela está bem.
E eu quero gritar Eu não estou nada bem!
Mas então olho para Wyatt e ele olha para mim, e eu digo: —
Wyatt?
E estendo a mão na direção dele.
E agora Saz está ao meu lado, segurando minha mão e me
acariciando.
— Você desmaiou, Hen. Meu Deus. — Ela sacode a cabeça e seu
chapéu se solta. Ela o arranca e coloca o cabelo atrás das orelhas
para que não fique caindo em seu rosto e ela possa me ver
nitidamente. Ela se aproxima e me analisa. — Tem certeza de que
não está grávida? — pergunta baixinho, e está brincando, e a
normalidade disso é tão reconfortante e familiar que de repente sinto
as lágrimas caindo.
— Sazzy — digo.
Mas todas elas estão chorando — Saz e Mara e Alannis — e se
amontoam em cima de mim e me abraçam forte, e Alannis grita: —
Colégio Mary Grove para sempre!

Naquela noite Saz e eu saímos de carro, só nós duas, com a


música alta e as janelas abertas. Saímos só por sair e, de alguma
maneira, numa cidade que conhecemos como a palma da mão,
acabamos em uma rua e um bairro que não reconheço.
Adiante, o mais longe que os olhos alcançam, há umas casinhas,
pequenas e ordenadas e idênticas. Saz desliga a música e para o
carro. A fachada das casas não é virada para a rua, fica ao lado, e
um único poste de luz laranja sinaliza a entrada de cada garagem.
Pequenas caixinhas de correio. Pequenas varandas. Todas a uma
distância idêntica uma da outra. Nem uma luz acesa em nenhuma
delas. Um coelho de concreto no gramado.
— Onde estamos? — pergunto.
— No lugar mais solitário do mundo.
Não, penso. O lugar mais solitário do mundo é a minha casa.
Passamos por ruas sem saída e ruas laterais. É como um
labirinto, tudo idêntico. Quase conto para ela nesse momento,
apesar do meu pai e apesar da minha mãe, mas de repente Saz diz:
— Sei onde estamos. Estamos no purgatório. Todas essas pessoas
invisíveis e adormecidas estão esperando, apenas esperando, pela
morte definitiva. Aqui em Lugar Nenhum.
Estremeço, e isso é parte da brincadeira. Uma tentando assustar
a outra. E penso que esses são os momentos de que mais vou
sentir falta quando estiver viajando no verão e quando for para a
faculdade. Digo a mim mesma: Fique aqui enquanto puder.
Saz desliga os faróis, e vamos devagar pelas ruas, uma grande
sombra vagando. Em uma rua sem saída, ela faz a volta. Sinto um
zumbido na cabeça. Me penduro na janela, e sinto o ar fresco no
rosto. A lua clara e próxima.
Vemos ao mesmo tempo, à nossa esquerda. Uma casa tão limpa
e arrumada quanto as outras, mas há uma luz tremeluzindo lá
dentro, e consigo ver o azul da televisão. Em frente à entrada da
garagem, lixo à espera de ser recolhido. Uma placa de VENDE-SE no
gramado.
Saz para no meio da rua, o motor ligado.
— Olha, Hen. Eles estão saindo do purgatório.
Ficamos ali, absorvendo tudo, deixando o silêncio se instalar ao
nosso redor, observando o brilho da luz tremeluzir e bruxulear
dentro da casa.
Digo:
— Aposto que estão indo para o mais longe possível daqui e
nunca vão voltar.
E sinto minha própria luzinha azul — esperança, talvez —
dançando no meu peito.
— A gente devia fazer isso. Começar a dirigir em direção ao
oeste.
— Era tudo o que eu queria.
— Por que não?
— Porque não podemos. O que vamos dizer? Como vamos pagar
pelas coisas? E o Wyatt?
O que ela quer dizer na verdade é: E a Yvonne?
Ela continua falando:
— Não é que eu não queria, mas… Ei, oi? Terra para Hen. Para
onde você foi?
— O quê? Estou aqui.
— De jeito nenhum. Você estava aqui, mas não estava. O que te
deu ultimamente? E o que foi aquilo hoje? Desmaiar daquele jeito?
— Estou bem. São só muitas mudanças.
E conto a ela que eu e minha mãe vamos para Atlanta logo. Tipo,
logo logo.
— E a nossa viagem?
— Eu volto em algumas semanas.
— Algumas semanas? É nosso último verão, Hen.
— Eu sei.
— Que merda é essa?
— Desculpa.
— Por que você não fica com o seu pai? Ou comigo?
— Porque não posso.
E eu poderia dizer de um jeito mais simpático, mas ela não quer
deixar para lá, e não posso dizer o motivo, e agora tem a Yvonne, o
que significa que se eu ficar com Saz e a família dela, uma hora vou
atrapalhar.
Não sei quanto tempo ficamos ali olhando uma para a outra, meu
coração batendo tão forte que não consigo ouvir mais nada.
Finalmente os olhos dela voltam para a rua e ela arranca o carro e
nos afastamos da casa. Olho a luz azul e a placa de VENDE-SE pelo
retrovisor, e sinto a pequena chama em meu peito se apagar.
4 DIAS ANTES DE PARTIRMOS

Quinta-feira, caminho um quilômetro e meio até a faculdade onde


meu pai trabalha. Passo pelo edifício Roosevelt, com o escritório
dele no quarto andar e uma assistente executiva chamada Pamela e
a janela que dá para a rodovia nacional e o canteiro de girassóis —
pequenos pontos amarelos — que abraçam o prédio. Atravesso o
centro acadêmico e saio para o ar morno do início do verão e
percorro o estacionamento até o gramado que vai me levar ao
campo de futebol, onde vejo um borrão de pernas — pernas
compridas e fortes presas a garotos compridos e fortes.
Caminho até enxergar os rostos presos a esses garotos presos a
essas pernas. Fico no campo, os pés plantados no gramado, e está
mais quente aqui fora do que eu imaginava, mas estou muito irritada
e anestesiada para sentir, sentir de verdade, então só fico ali, e de
repente um dos garotos de pernas compridas e fortes grita na minha
direção:
— Ei!
Não digo nada. Continuo ali parada até ele vir correndo, a
camiseta encharcada. Ele está bloqueando o sol então só vejo seu
contorno, como um brilho ardente.
— Claude.
— Wyatt.
Eu sabia que ele estaria aqui porque a primeira vez que o vi foi
neste campo, na época em que eu achava que ele já estava na
faculdade, antes de vê-lo nos corredores da escola. Mas só no
instante em que ele diz meu nome compreendo por que vim aqui
hoje. Chega de esperar. Não tenho nada a perder.
— Tudo bem?
— Tudo.
— Tem certeza?
— Tenho.
Dou um sorriso, e é fácil. Sem que eu dê o comando, os cantos
dos meus lábios automaticamente se curvam para cima. Meus
dentes aparecem. Minha boca se espalha cada vez mais larga até
meu rosto quase partir ao meio. Então ele estende a mão e pega
dois dos meus dedos com dois dos seus, e sinto o choque de sua
pele na minha, ainda que seja só este pouquinho. E é mais do que o
choque — é a proximidade repentina de outra pessoa me tocando
que me faz dizer:
— Na verdade, não estou bem. Meus pais estão se separando.
Não devia contar. Nem a Saz sabe. Mas se eu não contar a alguém,
sinto que vou desaparecer. Por favor, não fale sobre isso a mais
ninguém.
— Não vou.
— Estou falando sério.
— Prometo.
Respiro fundo, eu não devia ter dito nada, mas ele não conhece
meus pais, e os pais dele não conhecem meus pais, e ele não me
conhece de verdade, e eu não o conheço de verdade, e foi por isso
que contei. De alguma forma, sinto que meu segredo vai estar a
salvo aqui.
— Caso a gente nunca mais se veja de novo, só quero dizer que
gosto de você. Gosto de você desde o segundo ano.
Eu devia me sentir mal pela Lisa Yu, mas não me sinto. Ela é a
última coisa na minha cabeça. Porque depois de sofrer uma perda,
você se torna um fantasma no próprio corpo. Você se vê fazendo e
dizendo coisas que não faria ou diria normalmente. Você precisa de
algo que mantenha seus pés no chão e que prove que você ainda
está aqui. Precisa de um jeito de sentir alguma coisa. Qualquer
coisa.
E é por isso que eu digo:
— Quero te beijar agora. Espero que não seja um problema.
Espero até ele absorver o que eu disse. Só leva um ou dois
segundos, e ele abre um sorriso e diz:
— Definitivamente não é um problema.
Me aproximo e o beijo. Sua boca é quente. Sinto gosto de suor e
sal. Estou beijando Wyatt Jones. Digo isso a mim mesma para me
obrigar a sentir e a acreditar e a admitir tanto quanto posso.
Mantenho minha boca na dele pelo maior tempo possível.
Quando me afasto, lambo os lábios, bebendo esse pouquinho
dele. Ele mexe a cabeça e de repente o sol me cega. Fecho os
olhos por um segundo e ele ainda está ali, uma silhueta.
Volto a abrir os olhos e ele olha para mim com uma expressão
confusa e preocupada, e os amigos gritam para ele, e agora consigo
ver seus olhos, que são castanhos e profundos.
No momento exato, esfrego a lágrima que desce em meu rosto,
fingindo que é uma coceira. Então, antes que ele possa dizer
alguma coisa, vou embora.
A NOITE ANTERIOR À NOSSA
PARTIDA

Em nossa última noite em família, meus pais e eu sentamos à mesa


da sala de jantar e comemos juntos e fingimos que o mundo não
está acabando. Eles conversam em um tom de voz cortês e
prosaico que me faz querer beliscar meus braços. No andar de
cima, minhas malas estão feitas e a postos.
— Se sairmos antes das dez, evitamos o trânsito nos arredores
de Cincinnati e chegamos a Atlanta antes do jantar — minha mãe
diz.
— Vocês deviam sair às nove para garantir. — Meu pai parece
preocupado. — Ou antes até, se conseguirem.
Os dois estão conversando tão educadamente, como se tivessem
acabado de se conhecer.
Minha mãe larga o garfo.
— Por quê?
A pergunta paira no ar entre os dois.
— Por que, Neil? Por que eu preciso sair antes das nove?
Olho de um para o outro, mãe, pai, mãe, pai. Ela está magoada e
não está mais escondendo, e isso me deixa surpresa. E pela
primeira vez eu enxergo — a cisão, como se uma fenda tivesse se
aberto de repente na terra. Me sinto idiota por não ter visto antes.
Tão incrivelmente idiota e cega e ingênua. Sentada ali, faço uma
promessa a mim mesma: Nunca mais vou me surpreender.
— O frango está bom — digo, embora não esteja sentindo o
gosto. Porque de repente não quero ver nada disso, a mágoa, a
distância. Nos próximos minutos, ou durante o tempo que o jantar
durar, só quero que eles sejam os pais que sempre conheci.
Eles olham para mim, lembrando que eu estou ali. Percebo isso e
só então me dou conta. Não seremos mais nós três. Nunca mais
seremos nós três. De agora em diante, seremos: Claude.
Lauren.
Neil.
Cada um por si.

Depois, meu pai me encontra no banheiro escovando os dentes.


Antes que eu possa fugir, ele diz: — Eu te amo, Clew. Não importa o
que aconteça. Preciso que saiba disso.
Ele me abraça. Então, como se não fosse nada, me solta. A porta
se fecha atrás dele. Eu cuspo. Enxáguo. Seco a boca. E me seguro
na pia e me preparo para chorar todas as lágrimas que estou
carregando desde o dia 30 de maio, o suficiente para preencher
aquela fenda na terra. Minha mãe tem razão quando diz que uma
hora as lágrimas vêm, mas isso não significa que eu quero que
alguém as veja.
Me seguro e espero mas nada acontece. Encaro meu rosto no
espelho, e meus olhos estão cansados e queimando, um pouco
vermelhos, mas completamente secos.
Não consigo dormir, então às duas da manhã saio escondida. A
vizinhança está silenciosa, as casas escuras, as ruas vazias.
Caminho três quarteirões, viro à direita, e estou na casa da Saz. O
quarto dela fica no porão e ela sempre deixa as janelas abertas,
mesmo no auge do inverno, porque ela é uma fornalha humana e
também para que eu possa entrar à noite se quiser. É o mesmo
motivo pelo qual eu deixo a janela da sala destrancada.
Me espremo para passar pela abertura e aterrisso no tapete.
Ouço Saz roncar. Espero um instante até meus olhos se
acostumarem e vou até a cama na ponta dos pés e deito ao lado
dela. Ela se mexe.
— Hen?
Sussurro:
— Desculpa.
— Está tudo bem?
— Eu não quero ir embora.
— Eu sei. — Deitamos de lado e ela me abraça. — Eu também
não quero que você vá.
Parte de mim está irritada com ela por ter se apaixonado por
Yvonne e por ter transado com Yvonne e, mais do que isso, por não
ter me contado. Mas estou irritada com ela principalmente por não
saber que estou com um problema. Ela devia ser capaz de ler minha
mente e entender pelo que estou passando sem que eu precisasse
falar. Ela devia arrancar isso de mim a ponto de eu não ter escolha a
não ser contar, o que significa que meus pais não teriam como ficar
chateados. Se fôssemos mesmo melhores amigas, ela devia
simplesmente saber. Mas, ao mesmo tempo, eu não sabia sobre
Yvonne antes de ela ter me contado, sabia? E tem outra parte de
mim que está irritada comigo mesma por conseguir esconder as
coisas tão bem.
— Sazzy?
— Quê?
— Você está com medo da faculdade?
— Um pouco. Queria que a gente fosse para a mesma.
— Eu também.
— Queria que você e a sua mãe não precisassem viajar agora.
— Eu sei.
— Quando você volta de Atlanta?
Minha garganta dói, bem onde a gente engole, e só consigo dar
de ombros. Não vou ficar o tempo todo em Atlanta. Vou para uma
ilha, e não vou voltar antes do fim de julho, talvez início de agosto.
Desde que escolhi Columbia e ela escolheu Northwestern, eu soube
que seria difícil me despedir dela, mas não esperava que tivesse
que fazer isso tão cedo.
Ela diz:
— Vou sentir sua falta mais que das estrelas e de sorvete e da
Françoise Hardy.
Respondo:
— Vou sentir sua falta mais que do meu quarto com as paredes
verdes e do meu lençol de margarida e das minhas prateleiras
lotadas de livros.
E do meu cachorro e do meu pai e da minha casa e até desta
cidade. E de você, Saz, mais que tudo. Você.
A ILHA

UM
DIA 1

Estou no parapeito da barca, meu cabelo voando como uma pipa,


com os óculos gigantes que achei na casa dos meus avós em
Atlanta, onde, durante as duas semanas que passamos lá, evitamos
completamente falar do meu pai. Neste momento, odeio o vento e
odeio a água salgada que arde em meu rosto e odeio meu cabelo.
Meu vestido está grudado no corpo porque o ar está pesado e
úmido, como uma toalha quente e molhada, e eu nunca senti um
calor como este antes. A caixa de transporte do Dandelion está
presa entre meus tornozelos para que não fique escorregando por
aí. Para chegar até aqui dirigimos por quase oito horas de Mary
Grove a Atlanta, e depois mais cinco horas de Atlanta até a costa no
extremo sul da Geórgia, onde pegamos o barco. São mais quarenta
e cinco minutos até a ilha, e é assim que se sente uma pessoa
exilada.
Estamos em apenas nove pessoas na barca, incluindo o capitão e
um cara branco jovem, talvez em idade universitária, que trouxe as
malas para o barco em um carrinho de mão vermelho-vivo. O
capitão parece ter ficado no sol por uns cem anos, e o jovem tem o
cabelo descolorido, da cor de um inverno em Ohio, espetado para
fora do boné de beisebol. Eles conversam em um tom de voz lento e
arrastado, o que faz me sentir em um lugar completamente
estranho. Dois dos passageiros estão sentados na pequena área
coberta e o restante de nós está sentado — ou, no meu caso, em pé
— ao sol ardente.
Passamos por fábricas de papel, assomando-se às margens do
continente, e o ar quente e pesado cheira a enxofre. As fábricas são
feias e fico feliz por estarem ali. Elas garantem que o lugar não seja
exageradamente bonito. Então de repente viramos e o continente
fica para trás.
Olho para o celular, e só tem uma barrinha. E uma mensagem de
Wyatt Jones.
Me avise quando chegar em casa. Ando pensando naquele beijo.
Normalmente, eu não responderia na hora, mas é uma
emergência — quem sabe até quando essa única barrinha vai
durar? Escrevo:
Também ando pensando naquele beijo.
Ao enviar, sinto uma pontada de culpa por Lisa Yu, mas ela é
ofuscada pelo pânico enorme de pensar na barrinha
desaparecendo.
Outra mensagem dele:
Eu devia ter te chamado para sair ano passado. Quero te beijar de novo.
Eu: Também quero te beijar.
Ele: Volta logo para casa, Claud Henry.
Ele escreve meu nome errado, mas não ligo. Afinal, ele é o único
que sabe meu segredo, o que, de alguma forma, significa que
estamos conectados, como nos filmes sentimentais cafonas.
Eu: Não vejo a hora de te ver.
Então uma foto. Ele sem camisa, deitado na cama. Meu coração
quase para de tão lindo que ele é. Quero lamber a tela, mas em vez
disso vasculho a galeria e tento enviar uma foto de biquíni para que
ele lembre como sou e para mostrar que tenho curvas — por mais
discretas que sejam — e pernas e uma pele que causaria uma
sensação boa ao encostar na dele. Envio e espero. E o celular tenta
algumas vezes, mas é claro que minha foto não vai porque agora
não tem barrinha nenhuma, o que significa que não tenho sinal, o
que significa que não tenho Wyatt.
Quero gritar toda a minha frustração e raiva para o vento e para o
ar salgado e úmido. Quero jogar o celular na água e ter um ataque
de birra infantil. Em vez disso, agarro o parapeito com tanta força
que não sei como meus dedos não quebram.
Estou fulminando as fábricas de papel por sobre os ombros
quando sinto uma batida no meu pé. Um cachorro enorme como um
urso e de pelo marrom-avermelhado está sentado ali, com uma pata
no meu sapato.
— Esse é o Archie. — O jovem com boné de beisebol se apoia no
parapeito ao meu lado. Ele cheira a maconha e incenso e usa uma
quantidade exagerada de anéis de caveira. — Cachorro da ilha. —
Archie olha para mim, arfando, e se arrasta até a área coberta onde
tem sombra.
Vários barquinhos passam por nós, e as pessoas a bordo acenam
para o nosso capitão e para nós, eu acho, porque é o que pessoas
em barcos fazem. Menos eu. Eu ainda estou agarrada ao corrimão
com as duas mãos, porque se soltar sou capaz de me jogar lá
embaixo.
— Aquela é a ilha Palmetto — o garoto diz. Ele acena com a
cabeça em direção à ilha pela qual estamos passando. — Era lá que
eles isolavam vítimas da varíola, tipo, há uns duzentos anos. Agora
não tem mais nada lá além de javalis e jacarés.
Não sei dizer se ele está tentando me impressionar ou se está só
fazendo seu trabalho, dando informações.
— Grady!
O garoto vira para olhar para o capitão e volta de fininho para a
área coberta, me deixando sozinha para refletir que não sou melhor
que uma vítima de varíola do século XIX ou sei lá quando as pessoas
tinham varíola. A ilha é coberta de arbustos e deserta, sem sinal de
vida. Nenhum javali à vista. Nenhum jacaré. Estamos cada vez mais
longe do continente.
Há ilhas dos dois lados da embarcação, mas seguimos em frente.
Em frente.
Em frente.
Chega uma hora que quase espero ver a costa da Irlanda no
horizonte. Estamos navegando pelo maior fosso do mundo. Não só
temos que ir para outro estado para dar ao meu pai o espaço de que
ele precisa, mas aparentemente temos que colocar um oceano entre
nós.
— Olha — minha mãe diz, parando ao meu lado, e mais uma ilha
surge à nossa direita. Ficamos lado a lado conforme a barca
acompanha o litoral, navegando pela água azul-escura,
atravessando o pântano. Essa ilha tem algo de grandioso, o que faz
com que pareça mais importante que as outras. Para começar, é
maior do que eu esperava. Segundo minha mãe, tem trinta e dois
quilômetros de comprimento e quase cinco de largura, um terço
maior que Manhattan. Tem uma população de trinta e um
habitantes. Os únicos veículos permitidos são os que pertencem aos
residentes ou aos guardas florestais. Há um armazém que
supostamente tem Wi-Fi. Não há ruas pavimentadas. Não há sinal
de celular.
Minha primeira impressão é de que é muito verde. Verde
ininterrupto de uma extremidade à outra. É mais natureza do que já
vi em toda minha vida, e é difícil absorver tudo. A ilha parece
selvagem e intocada. Não vejo uma só casa ou estrutura.
— É linda — minha mãe diz, e ouço a surpresa em sua voz. Ela já
esteve aqui, na infância, então a surpresa é por outro motivo, talvez
por ser capaz de sentir algo como admiração depois de tudo o que
aconteceu. — Não dá para ver da costa, mas por ali fica o que
restou de Rosecroft, casa da família Blackwood. Era um lugar de
encontro, não só para a família, mas para todos que viviam na ilha.
É onde sua tia Claudine morava. Dois meses antes de ela morrer, a
mansão pegou fogo, e só restaram ruínas.
Ela sabe do meu amor por ruínas e fantasmas e lugares
assombrados, por encontrar a história por trás de tudo. Nem foi um
amor que ela precisou me ensinar, mas um amor com que
aparentemente nasci, herdado dela. Embora eu queira fazer todas
as perguntas que estão zumbindo na minha cabeça — Como o
incêndio começou? É a mesma casa onde a mãe da Claudine se
matou? Por que Claudine ficou aqui na ilha? —, não mordo a isca.
Afinal, minha mãe também é responsável. Não foi apenas meu pai
que disse Não fale sobre isso. Ela também tem guardado segredos.
Então fico ali, muda, as mãos no parapeito, olhando sem qualquer
expressão para todo aquele verde.
Minha mãe ainda está falando quando um dos passageiros solta
um grito, e todos se amontoam no parapeito para fotografar o cavalo
cinza solitário que cavalga pela praia. Ela já me contou sobre os
cavalos selvagens que vivem aqui, descendentes dos cavalos
espanhóis e ingleses trazidos há séculos, mas ver um deles com
meus próprios olhos faz meu coração — que tão recentemente foi
colocado para descansar — disparar. O cavalo está correndo, nem
aí para nós, só fazendo o que os cavalos fazem, e de repente eu
penso: Você pode ser qualquer pessoa aqui.
Sinto as borboletas se agitarem em algum lugar profundo e
distante.
Me imagino tão livre quanto aquele cavalo, e por um instante
estou em lugar nenhum e em todos os lugares. Flutuando. Imagino
um verão inteiro me tornando a pessoa que quero ser, quem quer
que ela seja. Fazendo as coisas que quero fazer, quaisquer que
sejam. Sem pensar em mais ninguém, porque ninguém está
pensando em mim. Vejo flashes de mim mesma como a garota que
acho que eu era — feliz, amparada, um chão sob os pés. Que se
fodam, penso. Que se fodam todos eles.
Então, de repente, as borboletas ficam imóveis e minha boca
seca. Isso é o que acontece quando alguém tira sua voz. Não diga
uma palavra. Não fale sobre isso. Não expresse seus sentimentos.
Fique quieta. Guarde com você. Silêncio. Você só sorri e sorri até
sua boca ficar seca.
De repente o céu fica muito claro. A água muito agitada. A floresta
muito densa. As árvores parecem estar se reunindo, prontas para
marchar em direção à barca, em direção a mim. Que tipo de mundo
é este? Olho para baixo, para meu braço, e estou arrepiada. Olho
para o braço de minha mãe e ela também está.
Há uma doca adiante e o barco desacelera e um garoto sorridente
de óculos e com uma camiseta amarelo-viva está à nossa espera.
Ele é magro e esguio, pele bronzeada, cabelo castanho-claro, e
parece ter uns dezesseis anos. Fico aliviada e surpresa por ter pelo
menos mais uma pessoa da minha idade aqui. Nossa bagagem está
embaixo dos bancos em meio a malas de lona e mochilas. Ao pegar
minha mala, penso: Isso devia estar mais pesado. Afinal, minha vida
inteira está aqui.
— Meu nome é Jared — o garoto diz. Ele tem um rosto amigável
e sincero. — Deixem as malas aí que levamos até a pousada para
vocês. Vocês podem me esperar embaixo daquelas árvores no fim
da doca e eu mostro o caminho.
— Não vamos ficar na pousada — respondo.
— Vamos ficar na casa da família Birch — minha mãe acrescenta,
com a mão em meu ombro. Me esquivo.
— Pode deixar, Jared.
Quem diz isso é um garoto da minha idade, ou talvez mais velho,
com cara de sabe-tudo. Ele tem a pele bronzeada e está descalço,
com uma bermuda larga caindo dos quadris, uma camiseta preta e o
cabelo loiro escuro. Ele é mais alto que Wyatt, e tem o sotaque
arrastado do Sul.
Desço da barca e meus olhos encontram os dele. E, por uma
fração de segundo, menos que um milésimo, congelo e ele parece
congelar também.
Então ele me olha de cima a baixo e dá um sorriso enorme, com
covinhas, mostrando todos os dentes, e diz:
— Lá vem problema.
Reviro os olhos e faço questão de olhar para o outro lado. O ar é
um cobertor quente e úmido e acabei de viajar por quinhentos anos
para chegar aqui. Meu cabelo está grudado na nuca, meu vestido
está colado na pele, e minha maquiagem já derreteu
completamente. Até meus cotovelos estão pingando. Mas esse
garoto não está suando como o resto de nós. Ele parece ter
acabado de sair da cama e vindo de um lugar fresco e à sombra.
Viro para olhar para ele e ele também está olhando para mim.
Então Archie, o cão, sai correndo e quase me derruba.
— Tudo bem aí, raio de sol? — o garoto pergunta como se aquilo
fosse muito, muito engraçado.
— Tudo ótimo.
Dou meu sorriso mais desafiador, um que diz Seu charme não vai
funcionar em mim. Vai ter que tentar em outro lugar. Porque não
tenho planos de conhecer ninguém aqui. Vou ficar na casa da Addy
até chegar a hora de voltar a Ohio.
Ele levanta uma sobrancelha e pega toda a nossa bagagem e nos
leva por um caminho de areia branca cheio de conchas esmagadas.
Conversa com a minha mãe, mas olha para mim de canto de olho.
Coloco os fones de ouvido e caminho atrás deles, olhando para
qualquer coisa que não seja ele, ouvindo a mesma música da
Françoise Hardy desde que saímos de Mary Grove: “Tous les
garçons et les filles”. Que pode ser traduzida mais ou menos assim:
“Todos os garotos e todas as garotas do mundo estão felizes,
menos eu. Eu, Claudine Llewelyn Henry, vou ficar sozinha para
sempre”.
De repente estamos sob uma cobertura de árvores, e nunca vi
nada assim antes. São carvalhos saídos diretamente dos contos dos
irmãos Grimm, criaturas grotescas, retorcidas e cheias de nós, que
parecem capazes de ganhar vida durante a noite. Um bosque antigo
de uma terra de contos de fadas, um lugar estranho com aparência
de assombrado. Barbas-de-velho pendem como teias de aranha,
como fantasmas, e é impossível enxergar o céu.
A pousada descansa majestosa em meio a tudo isso, como uma
senhora distinta e elegante, cheia de boas maneiras. Varanda larga,
colunas brancas, telhado vermelho. Como eu disse a Jared, não
vamos ficar na pousada, mas em uma casa do outro lado da
estrada, que pertence à Addy.
Sigo o garoto e minha mãe por um caminho que passa por um
punhado de chalés pintados de verde, amarelo e rosa vivos, e por
uma construção que parece um celeiro com uma bomba de
combustível velha na frente e caiaques empilhados por dentro e por
fora. Há cavalos selvagens pastando sob os carvalhos. Quando
alcançamos as duas colunas brancas que ladeiam a trilha principal
— a que continua em um círculo, passando por mais dois chalés e
voltando à pousada —, chegamos. A uma casa térrea coral com
uma varanda larga, venezianas azuis e telhado de metal vermelho
que parece um chapéu achatado. A casa repousa à beira da fileira
de árvores, cercada de flores desabrochando, com floresta dos dois
lados.
Corto caminho pela grama, ultrapassando minha mãe e o garoto.
Ele grita alguma coisa, e eu tiro os fones de ouvido e viro para eles.
— O quê?
— Eu disse que é melhor não cortar caminho por aí, por causa
dos brotos de cacto.
— O que são brotos de cacto?
— Você vai ver.
Ele e minha mãe seguem pela trilha, mas eu continuo pela grama
só para mostrar a esse garoto que não ligo para brotos de cacto ou
cobras ou qualquer outra coisa que possa viver na grama. Subo na
varanda, que range como a de uma casa assombrada, e olho para
meus sapatos, agora cobertos de bolinhas verdes. Me abaixo para
tirar uma, e ela fura meu dedo, que sangra. Tiro os sapatos e deixo-
os ali. O crânio de um animal guarda a porta da frente.
Lá dentro, sou recebida por um sopro de ar-condicionado, que
queria poder beber. A casa é dividida ao meio, um quarto e um
banheiro de cada lado. Um bilhete de Addy nos dá as boas-vindas.
Sintam-se em casa. Amo vocês. Nos vemos em breve. A cozinha e
a sala de jantar e a sala de estar são quase que uma coisa só, e
tem uma lareira em frente ao sofá. O pé-direito é alto. Tem um
escritório apertado saindo da cozinha. E o melhor de tudo: um canto
de leitura com prateleiras embutidas dos dois lados de um assento
sob uma janela grande com vista para a pousada.
Ocupo o quarto à esquerda, mais próximo da pousada, para que
minha mãe fique com o quarto maior com vista para a floresta. Entro
e fecho a porta e encaro a fileira de árvores e o cavalo que está em
frente à minha janela. De repente sinto um golpe de saudades de
casa, bem na garganta. O piso não tem revestimento e é escuro. A
cama é grande demais. Há duas janelas, não três, e elas estão no
lugar errado. As paredes são amarelo-claro, não verde-vivo, e
cobertas por artes de outras pessoas. É silencioso demais aqui, e
sinto falta da minha mãe, embora possa ouvi-la no cômodo ao lado
falando com o garoto.
Dou uma olhada no celular, sem sinal. Mando uma mensagem
para Saz assim mesmo e espero que por algum milagre a
mensagem seja entregue. Quando alguém bate na porta, nem
levanto a cabeça.
— Pode entrar.
A porta abre e o garoto está ali com a minha mala. Ele entra,
coloca a mala sobre o baú que fica ao pé da cama e diz:
— Puta merda!
— Obrigada. Tchau.
— O que tem aí dentro?
— Tijolos, livros, talvez um ou dois corpos.
Dou as costas para ele, esperando que se toque.
— Sabia que, para carregar tijolos ou corpos ou, sei lá, uma pose
de madame, é melhor uma mochila? É melhor para os ombros. Por
causa da distribuição do peso.
Largo o celular porque aparentemente é inútil, e olho para ele com
a cara fechada.
— Tem alguma coisa para fazer aqui? Nesta ilha? No inferno?
— Então quer dizer que você está feliz por ter vindo.
— É um sonho realizado.
Ele me lança um olhar difícil de interpretar, um pouco menos
Ninguém resiste ao meu charme, um pouco mais verdadeiro.
— O que foi?
— É que você me lembra alguém. Tem mais alguma coisa que eu
possa fazer por você, senhorita?
E o Ninguém resiste ao meu charme está de volta.
— Não, obrigada.
À porta, ele vira. Atrás dele, dá para ver minha mãe na cozinha,
guardando algumas coisas. Ele diz:
— Tem de tudo para fazer aqui, dependendo da sua pose, é claro.
O garoto sai, e fico observando enquanto ele ajuda minha mãe,
enquanto eles conversam e riem, enquanto ele faz carinho embaixo
do queixo do Dandelion. Levanto e fecho a porta.
Em uma hora, tudo está guardado no armário, que é estreito, e na
cômoda, que balança quando a gente abre. Tem uma foto
emoldurada na parede acima da cômoda, de um garoto de uns doze
anos sardento e risonho. Ele está sem camisa e descalço, em pé na
praia, dunas crescendo atrás dele, e é o filho de Addy, Danny, que
se afogou.
Mergulho na cama e escrevo uma mensagem verdadeira para
Saz: Então, eu e minha mãe viajamos e eu não te contei. Estamos morando em uma
ilha remota agora porque meu pai está tendo uma crise de meia-idade e não é mais
capaz de ter uma família. Você está apaixonada e eu ainda sou virgem e
provavelmente vou ser para sempre porque Wyatt está a 16 mil quilômetros daqui. E
não vamos para a mesma faculdade no outono, então não sei o que isso significa
para nós duas.
Escrevo mais. Paro. Leio de novo. E apago tudo. Na parede,
Danny sorri para mim e, apesar do meu coração partido e do caroço
que agora vive em minha garganta, me sinto mal por reclamar de
qualquer coisa. Digo:
— Sinto muito que você tenha se afogado. Sinto muito mesmo
que você tenha morrido tão novo.

A geladeira e os armários estão lotados de suco e leite e cereal e


frutas e qualquer outra comida que possamos vir a querer, cortesia
de Addy. O relógio em cima do fogão diz que são 18h34. Pego uma
pera e caminho pelo espaço aberto da sala, olhando para cada foto,
cada enfeite. Addy está por toda parte e, por mais que seja bom ver
um rosto familiar, fica claro que estamos na casa de outra pessoa,
na vida de outra pessoa.
Minha mãe aparece com Dandelion em seus braços.
— Parece agradável.
— Parece.
— Tem um monte de garotos correndo por aí.
Ignoro esse comentário porque o único garoto por quem me
interesso está em Ohio. Digo:
— Então temos parentesco com os Blackwood? Isso significa que
somos tipo os primos pobres da família?
— Algo assim. Sua bisavó Eva era a primogênita de Sam Jr. e
irmã mais velha de Claudine. Eva já estava no colégio interno
quando Claudine nasceu. Depois que a mãe delas morreu, Eva
nunca mais voltou a viver na ilha… — Ela começa a citar nomes e
datas.
Embora eu queira saber mais, não estou disposta a deixar isso
transparecer. Interrompo:
— Vou acreditar na sua palavra.
Pelo que parece, Samuel Blackwood Sr., meu não-sei-quantos-
tataravô, era um famoso magnata das ferrovias. Um daqueles
magnatas das ferrovias. Bem realeza americana mesmo, o que
aparentemente é mais um segredo que eu nunca soube.
— Então basicamente por todos esses anos eu tenho trabalhado
de babá e na livraria e o papai compra camisetas no eBay e você
dirige um Volkswagen velho quando podíamos estar vivendo no
luxo?
— A fortuna da família Blackwood desapareceu há muitos anos.
É uma pena, penso. Eu podia usar o dinheiro neste momento e ir
para casa, ou, melhor ainda, para Nova York ou Los Angeles, algum
lugar onde eu pudesse recomeçar, sem pessoas que eu amo e que
vão continuar me decepcionando.
— Você avisou o papai que chegamos? — Não que ele se
importe.
— Avisei.
— Ele respondeu “Ah, graças a Deus. Estou muito feliz por vocês
estarem tão longe”?
— Não, Claude. Ele está com saudade de você.
Olho para o chão.
Ela diz:
— Eu estava pensando que podíamos explorar um pouquinho.
Talvez ir até a pousada para jantar.
— Pode ser. Tanto faz.
Me pergunto o que meu pai está fazendo em casa, se está
deitado comendo amanteigados ou correndo quilômetros e
quilômetros. Se está preparando uma refeição elaborada para si
mesmo e para Bradbury, ou talvez desejando que não tivesse nos
mandado para longe.
Minha mãe coloca Dandelion no chão, e ele se afasta furtivo,
correndo aqui e ali e por toda parte, cheirando tudo, passando por
baixo de cadeiras e mesas.
— Uma vez Addy me disse: “Não perca o hoje”. Querendo dizer
não se esconda atrás do ontem ou evite o amanhã. Vamos fazer
disso uma aventura, Claude. Se existe uma dupla capaz disso,
somos nós duas.
E ela me abraça e eu inspiro seu cheiro, minha mãe que cheira a
rosas — mas ela não cheira mais a rosas, ela cheira a madressilva,
e por um instante meu mundo para. Era meu pai quem dava o
perfume de rosas a ela todo Natal, e de agora em diante ela vai
cheirar a madressilva.
Embora não queira, digo:
— Tudo bem. Vamos explorar.
E, ao se afastar, ela me dá um sorriso que diz Eu sei que isso é
difícil para você, e agradeço por fazer sua parte, pelo menos um
pouco. O sorriso que retribuo diz Estou tentando, e, como sempre,
estamos falando sem palavras, uma conversa da qual meu pai
nunca foi capaz de participar.

Os carvalhos à esquerda e à direita da trilha se estendem um em


direção ao outro, galhos se entrelaçando lá no alto, criando um
túnel. A trilha se inclina e seguimos, subindo uma série de dunas,
com grama alta apontando da areia como penas. Em frente há um
pasto, e depois mais dunas. A areia é grossa e profunda como um
tapete felpudo. Ela suga meus pés, que afundam a cada passo e é
como se eu estivesse caminhando pela lama. Então, de repente, o
céu se abre.
Mesmo de óculos escuros, sou cegada pelo branco e azul. O
branco é a praia, que se estende até onde a vista alcança. O azul é
a água, lambendo a areia. Minha mãe agarra meu braço para se
equilibrar, puxando um sapato de cada vez. Ela segura o cabelo,
que voa agitado ao vento, e o prende em um nó bagunçado. Ela é
linda — radiante e viva como um campo de margaridas —, mas não
sabe. Porque a vida inteira, todo mundo sempre lhe disse o quanto
ela é inteligente, e a primeira vez que alguém que não era meu pai
disse que ela era linda, ela tinha, tipo, uns trinta anos.
Digo:
— Você está linda.
Agora é minha responsabilidade dizer essas coisas, e comprar
perfume de madressilva para ela. E naquele instante quero dizer a
ela que decidi não ir para Columbia, que vou ficar com ela para
sempre para garantir que ninguém nunca mais vai magoá-la.
Ela me abraça e olha para o mar.
— Um dia seu pai me disse que eu era a segunda garota mais
bonita do lugar onde estávamos, e me senti lisonjeada porque sabia
que ele estava sendo sincero. Mas agora parando para pensar, foi
um baita elogio de merda.
Ela olha para mim. Eu olho para ela. E talvez seja o fato de
finalmente estarmos aqui, neste lugar que tanto temi e que não se
parece em nada com uma prisão, ou talvez seja o fato de sermos
duas pessoas emocionalmente destruídas que precisam
desesperadamente dormir, mas sentamos na areia mesmo e
começamos a rir. É uma risada da qual eu precisava, e me agarro a
ela por mais tempo que o normal porque me faz tão bem. Quando a
risada enfraquece, nós duas soltamos o ar, relaxadas, como um
suspiro, exatamente no mesmo instante, fazendo com que a gente
volte a rir tudo de novo.
Finalmente, ela enxuga os olhos e diz:
— Prometa que vai me dizer se precisar de alguma coisa neste
verão. Ainda sou sua mãe, e quero estar ao seu lado.
— Prometo.
Mas, quando respondo, a risada já está se extinguindo, e sinto
que estou me fechando. Estamos aqui, juntas, mas ainda há uma
sensação de separação, de cada uma por si.
DIA 1
(AINDA)

Quando chegamos à pousada, o céu está ganhando tons suaves de


rosa e dourado. Apesar de sua imponência, a pousada também
parece acolhedora, talvez por um dia ter sido uma casa de família, e
eu queria que estivéssemos hospedadas aqui, e não na casa da
Addy, que parece íntima demais. Aqui, pelo menos, eu poderia
mentir para mim mesma que só estamos de férias. Nos juntamos
aos hóspedes, reunidos na grande varanda, bebidas em mãos para
o happy hour. Eles sorriem. Eu sorrio.
— Meu nome é Lauren Llewelyn e esta é minha filha, Claudine.
— Claudine — alguém diz.
— Claude — digo.
— Claude.
Eles se apresentam, e jamais vou guardar seus nomes, mas
sorrio e converso e rio educada, em meu vestido de verão verde
com a saia rodada, porque na pousada as pessoas se arrumam
para jantar. Passamos pelas cadeiras de balanço e pelos balanços
da varanda e entramos, e o interior é fresco e escuro e de outra
época.
Agora a maioria dos hóspedes atravessou o corredor e está na
sala de estar, que mais parece uma biblioteca antiga labiríntica. Há
dois retratos em paredes opostas, um de uma mulher afro-
americana em um vestido branco, com cerca de quarenta anos,
braços cruzados, olhos escuros fixos em um objeto distante, o outro
de uma mulher branca de vermelho, mais ou menos da mesma
idade, com um chanel loiro elegante, um revólver na cintura. Ela
encara o espectador como se te desafiasse a cruzar seu caminho.
— Esta é Claudine — minha mãe diz.
Ficamos em frente a ela, que meio sorri, meio olha para baixo,
como se estivesse nos avaliando. Não é a Claudine que eu
imaginava. Todo esse tempo, imaginei alguém frágil e de olhar
vazio, desgastada pela tragédia, mas essa mulher se senta ereta,
como se sua coluna fosse feita de aço.
Não consigo me conter.
— Por que a mãe dela se matou? — pergunto sem desviar o olhar
de sua imagem, porque por algum motivo não consigo. Não quero.
— Eu acho que ninguém sabe a história verdadeira. Ela não
deixou um bilhete, e especulavam que estivesse com depressão.
Espero que meu trabalho aqui me ajude a descobrir.
Apesar do suicídio da mãe e de nunca ter deixado a ilha por muito
tempo, mesmo depois de adulta, Claudine parece ousada e
destemida — como se fosse capaz de dominar o mundo —, e
desejo ser como ela.
Minha mãe diz:
— Claudine não foi apenas a avó que eu gostaria de ter, mas a
mulher que transformou este lugar em uma pousada. Antes, era
meio que uma hospedaria, que deveria ser passada à minha avó
depois que ela se casasse, mas obviamente ela não quis, então a
propriedade se tornou uma casa de férias para a família e os
amigos, um lugar onde todos podiam se reunir. Claudine enxergou
seu potencial. Ela era uma mulher à frente do seu tempo. E aquela
— ela faz um aceno de cabeça em direção à mulher de branco — é
Clovis Samms. Ela construiu o primeiro hotel da ilha, na
extremidade norte, e foi a primeira e única curandeira daqui, alguns
diziam que ela era a melhor em todo o Sul. Usava ervas, raízes,
unguentos e poções para curar as pessoas. Também era uma
mulher à frente de seu tempo. Não sei muito sobre ela ainda, mas
quero aprender mais.
Ela coloca o braço sobre meus ombros, e inclinamos nossas
cabeças, deixando que se toquem. Então nos afastamos e, com
nossas bebidas, nos misturamos aos hóspedes. Me imagino como
eles me veem. Esguia. Sardenta. A gêmea mais nova da minha
mãe.
Talvez seja por isso. Por sermos tão parecidas. Ele se sente em
desvantagem.
Depois de alguns minutos, aviso minha mãe que preciso ir ao
banheiro e passeio pelo corredor até o bar, que está vazio. Espero
um pouco, e quando ninguém aparece, vou para trás do balcão,
confiro mais uma vez se não tem ninguém por perto e pego uma
cerveja da geladeira. Abro e bebo um gole.
— Eu diria que faltam pelo menos uns cinco anos para você poder
fazer isso.
O garoto que levou nossa bagagem vem até mim, pega a garrafa
da minha mão e a esvazia na pia. Está usando a mesma bermuda e
a mesma camiseta preta de antes, os pés ainda descalços. Parece
completamente deslocado aqui nesta pousada antiga e elegante
com todos vestindo suas melhores roupas.
— Na verdade, olhando para você agora, talvez faltem seis anos.
— Eu tenho dezoito.
Ele me analisa por um instante.
— Hm.
Então pega uma caneta e abre o bloquinho que fica no canto do
bar.
— As bebidas aqui são vendidas na base da honestidade, srta.
Blackwood, então você precisa anotar tudo o que consumir, que
imagino que vai ser bastante. Esta eu vou deixar passar.
Ele vai até a geladeira, onde ainda estou por algum motivo, e
estende o braço, passando por mim, tão perto que posso sentir seu
cheiro — lençóis limpos e ar livre. Ele me entrega um refrigerante.
— Vá em frente. Experimente.
Ele faz um aceno de cabeça em direção ao bloquinho. Dá um
sorriso de incentivo.
Largo o refrigerante sem abrir.
— Minha mãe está me esperando — digo.
— Não se prenda por minha causa.
Estendo o braço passando por ele desta vez, pego duas
garrafinhas de Absolut e coloco no bolso.
— Pode colocar na minha conta — digo.
E saio. Um segundo depois, volto. Ele está olhando para a porta
como se estivesse me esperando.
— A propósito, sou mais esperta do que pareço. E se tem mesmo
“de tudo” para fazer aqui, por que não me mostra?
Volto até o bar, pego a caneta e anoto meu celular no bloquinho.
Com o coração batendo forte, saio de novo e entro no primeiro
cômodo que encontro, que é uma versão mais aconchegante da
sala de estar. Tem estantes de livros do chão ao teto e cheira a
couro. Minha intenção era ir para a sala, mas o garoto ainda está lá
fora, então finjo que é aqui que quero estar. Escolho um livro
aleatoriamente — O jardim secreto — e sento no sofá. Pego as
garrafas de vodca do bolso, engulo o conteúdo das duas, e deixo-as
lado a lado na mesinha lateral.
Minha cabeça zumbe um pouco e meu sangue esquenta. Folheio
o livro por um instante antes de soltá-lo e vasculhar o celular,
relendo as mensagens de Wyatt. Abro a foto sem camisa e fico
olhando para ela, imaginando como seria deitar ao lado dele, em
cima dele, embaixo dele, braços e pernas entrelaçados.
O universo está obviamente tirando uma com a minha cara.
Porque só agora ele me chama para sair. Só agora.
Escrevo: Eu quero muito sair com você. Estou na Geórgia agora com minha
mãe, mas logo volto para casa. Mas não há sinal nenhum, então a
mensagem fica ali, não enviada.
Me jogo para trás, desaparecendo no sofá, e fico mordendo o
dedo, pensando em modos de ir até ele. Eu podia pegar a barca
amanhã e voltar para o continente e pedir à Saz que viesse me
buscar. Eu podia ligar para a irmã da minha mãe, Katie-May, que
mora em Savannah. Ou invadir a conta do Uber do meu pai e pedir
um carro para ir até Ohio.
Em determinado momento, ouço um sino. Vozes surgindo e
desaparecendo. O rangido e o estalido de passos na escada. Minha
mãe surge à porta.
— O jantar vai ser servido.
Ela espera algum movimento — fechar livro, levantar, sair do
cômodo. Seus olhos vão para as garrafas de Absolut e voltam para
mim.
— Claude.
— Mãe.
Ela faz uma careta para as garrafas, então pego as duas, coloco o
livro na prateleira e passo por ela. Devolvo as garrafas ao bar, que
agora está vazio. Não confiro se o garoto pegou meu telefone. Só
sigo em frente, com minha mãe me seguindo, e desço a escada em
direção à sala de jantar.

Sentamos a uma mesa grande com três irmãs, um fotógrafo de


Nashville e uma família de quatro pessoas. Jared, o cara de óculos
com rosto amigável que nos recebeu na doca, é um dos garçons.
Ele acena para mim do outro lado da sala. Aceno de volta.
Então olho ao redor para cada uma das pessoas e penso:
Quantas vezes vocês tiraram o chão de outras pessoas? Esse
fotógrafo, essa mãe de dois filhos, essas irmãs — em algum lugar
neste mundo provavelmente tem alguém sem chão neste momento
graças a eles.
As conversas são as mesmas: O que veio fazer na ilha? De onde
você é? O que você faz no mundo real? Quanto tempo vai ficar?
Digo a eles:
— Estamos nos escondendo.
— Programa de proteção a testemunhas.
— Testemunhamos um assassinato.
— Meu pai era um serial killer.
— Não temos data pra voltar.
— Provavelmente pelo resto da minha vida.
A cada comentário, minha mãe vem no meu encalço, arrumando
minha bagunça, dizendo a todos que sou uma escritora com muita
imaginação. Ela me lança um olhar severo e ignoro.
Depois da sobremesa, todos vão saindo aos poucos, e quando
passo por Jared ele diz: — Tem uma turma que trabalha aqui. Se
você ficar entediada, venha até a cozinha. Ficamos lá até meia-
noite, às vezes mais.
— É seu emprego de férias?
— Trabalho aqui o ano todo, como a maioria de nós.
— Quantos anos você tem, afinal?
Não sei ao certo o que me faz perguntar isso, talvez o fato de ele
parecer jovem demais para estar aqui o ano todo.
— Vinte e um.
— Você parece ter dezesseis.
— Eu sei. — Ele ri como quem diz Fazer o quê?, como se
estivesse acostumado a ouvir isso. — As pessoas não costumam
me levar a sério até me conhecerem bem. Sou o irmãozinho de todo
mundo. Quantos anos você tem?
— Dezoito.
— Você também parece ter dezesseis.
— Eu sei. É irritante.
— É.
E eu penso que talvez, só talvez — se estivesse nos meus planos
conhecer alguém aqui, o que não está —, poderíamos ser amigos.
Olho para minha mãe, em pé perto da escada, conversando com o
fotógrafo e as irmãs. Pergunto: — Então onde fica a cozinha?
— Por aqui.
Entro atrás dele em um pequeno cômodo com bonés de beisebol
e fotos e livros à venda, e passando essa sala fica a cozinha, que é
enorme e acolhedora, onde há um agito de cozinheiros e ajudantes
da minha idade ou um pouco mais velhos, rindo e conversando e
brincando enquanto trabalham. Quero fazer parte disso — deles —
e de repente me sinto deixada de fora de tudo em todo lugar.
Imagino Saz e Wyatt em Ohio em uma festa enorme e eletrizante.
— Aqui não tem telefone mesmo?
— Só para hóspedes da pousada e emergências.
— Nem Wi-Fi?
— Só no armazém, mas o horário de funcionamento é estranho.
O bom é que você se acostuma a ficar desconectada depois de um
tempo. Ajuda a estar aqui — ele faz um gesto com as mãos
indicando o lugar onde estamos — e não lá fora — faz um gesto
maior, como se abrangesse o mundo todo. — Você vai ver. O tempo
passa de um jeito um pouco diferente. As pessoas vivem de um jeito
um pouco diferente. Aqui você pode, bem, ser você mesma. É um
dos motivos para ficarmos. Ou, se vamos embora, acabamos
voltando.
— Tem algum mapa da ilha?
Ele me entrega um mapa de uma das prateleiras de cima da
lojinha e diz: — Pode ficar com este.
— Obrigada. Jared, né?
Ele sorri.
— Isso. Claude?
— Isso.
Do lado de fora, o ar quente e pesado parece cantar — minha
mãe diz que é o som das cigarras, mas é dez vezes mais alto que
todas as cigarras que já ouvi, um som de chocalho, pulsante, que a
gente sente na pele e nos ossos. Enquanto caminhamos no escuro
de volta para a casa, ela não fala da vodca, mas pede que eu pegue
leve com o papo de proteção a testemunhas e serial killers.
— Só estava jogando conversa fora.
E a parte mais cruel de mim, a parte que está furiosa e magoada
e quer que ela se acerte com meu pai para que a gente possa voltar
para casa, a parte que acha que talvez parte de tudo isso seja culpa
dela também, gosta da sensação de afastá-la.
Passa das onze quando deito na cama. Dandelion se enrola ao
meu lado e começa a ronronar, e me estico no colchão e nos lençóis
novos. Fechei as cortinas e deixei uma luz acesa na cozinha e no
banheiro também, para não me perder caso levante à noite.
Fico deitada olhando para a foto de Danny, congelado no tempo
salpicado de sardas e com o nariz queimado de sol. Pelo resto da
minha vida, ele sempre vai ser assim. Me pergunto se ele é um
fantasma. Dizem que pode acontecer em caso de morte violenta —
marcas e energias deixadas para trás.
Nem tento ler. Em vez disso, escrevo a mensagem de texto mais
comprida do mundo para Saz. Quero saber por que ela não me
contou sobre Yvonne. Quero saber seus motivos para esconder
esse segredo de mim. Por acaso alguém ordenou que ela não
dissesse uma palavra? Por acaso Yvonne disse: Você não pode
contar para ninguém, nem para Claude, porque Mary Grove é uma
cidade muito pequena e não queremos que as pessoas saibam?
Escrevo até meus olhos ficarem pesados, e apago a mensagem e
a luz e fico deitada no escuro, afundando na cama sob o peso do
meu peito, que não está mais oco, mas cheio de… alguma coisa.
Uma saudade de casa. Uma sensação de não ser amada. De estar
sozinha no mundo. No planeta. No universo. E que todo mundo tem
alguém, mas eu só tenho a mim mesma. E à noite todos entram e
trancam as portas e acendem as luzes e fecham as cortinas, mas eu
ainda vejo as luzes brilhando lá dentro. E estou do lado de fora, no
escuro, sozinha.
Sobrevivi a este dia. Este primeiro dia. Agora são só mais trinta e
quatro.
DIA 2

Na manhã seguinte, sinto antes mesmo de abrir os olhos: estou em


outro lugar. O ar não é o de Ohio, mas o da Geórgia, quente e
abafado. Tem algo de antigo e envolvente neste ar. E o verão tem
um som aqui — o canto constante das cigarras.
A questão não é só geográfica, no entanto. Estou em outro lugar
de diferentes maneiras. E isso, eu sei, faz parte de amadurecer. A
parte que não te falam. Que você pode de repente estar em outro
quarto, que não se parece em nada com aquele com que está
acostumada, e não há como voltar — por mais que você queira —,
porque de agora em diante só existe este lugar, e a única coisa a
fazer é se acomodar e tentar encontrar sentido nisso e dizer a si
mesma que esta é a sua vida agora. Vai ser assim. E você vai ficar
bem. Você vai conseguir. Porque não tem escolha.

Tomo café da manhã no canto de leitura enquanto minha mãe se


arruma para ir ao museu da ilha, onde aparentemente alguns dos
documentos da tia Claudine estão guardados. Ela acordou cedo
para correr na praia, e esta é mais uma coisa diferente. Meu pai é o
corredor, não minha mãe. Durante anos ele tentou convencê-la a
correr com ele, mas ela nunca quis.
Agora ela diz:
— Por que você não vem comigo ao museu? Não sei muito bem o
que vou encontrar, em termos da pesquisa, e vou ficar chocada se
algo estiver documentado ou catalogado. Posso precisar da sua
ajuda.
— Obrigada, mas passo.
Não vou arredar o pé do meu assento na janela. Vou ficar sentada
aqui lendo até agosto.
— Se não está a fim de me ajudar com o trabalho, pelo menos
finja que vai sair para explorar. Tem umas bicicletas na varanda dos
fundos.
— Tá bom.
Ela está distraída esta manhã. Sabe que eu nunca aprendi a
andar de bicicleta.
— Tem bastante comida para o almoço na geladeira, mas
podemos nos encontrar na pousada para jantar, se bem que
devíamos comer toda essa comida que a Addy deixou para nós. Eu
já disse que vou pagar… por tudo isso.
— Se alguém devia pagar, esse alguém é o papai.
— Bom…
E ela fica em silêncio enquanto pega as coisas e abre a porta.
Mãe, quero dizer, tomara que o museu seja tudo que você espera
que ele seja. Espero que você encontre uma história lá ou algo em
que possa se perder para que não se sinta triste ou sozinha. Porque
não fui a única exilada. Mas por algum motivo não digo. Talvez
porque meus pais me pediram para ficar em silêncio, então estou.
Em vez disso, digo:
— Acho que eu devia voltar para casa antes de agosto. Tipo, em
uma ou duas semanas.
O sorriso dela titubeia.
— Não.
— Mãe.
— Claude.
Fico encarando e ela encara de volta.
— Se a separação foi ideia dele, ele é que devia ter ido embora —
digo.
— Meu trabalho é flexível. O dele não. — Ela solta um suspiro, e
de repente não parece triste ou cansada ou que está tentando fazer
o melhor. Parece irritada. — E eu estou protegendo ele de novo. —
Ela sacode a cabeça olhando para o teto e então volta a olhar para
mim. — Jamais vou reclamar do seu pai para você, mas preciso
aprender a parar de fazer isso.
— Provavelmente.
— É o seguinte. Eu também não queria sair de casa, não até
decidirmos nos separar. Ele não me disse que eu tinha que ir
embora, mas eu não podia ficar, não naquela casa, e não em Mary
Grove. Espero que você compreenda isso.
Mas agosto pode ser tarde demais. Yvonne vai me substituir como
melhor amiga da Saz, uma melhor amiga com quem ela também
pode transar, então, adivinha? A Yvonne ganha. E o Wyatt vai se
casar com a Lisa Yu e eu vou morrer aqui na Ilha da Virgindade.
Em vez de dizer isso, levanto do assento na janela e a abraço.
Sussurro em seu cabelo:
— Tomara que o museu seja tudo que você espera que ele seja.

Dez minutos depois estou sozinha, exceto por Dandelion, se


aquecendo ao sol que bate no piso da sala de jantar. Faz dezenove
horas que conversei com a Saz, e nunca na vida passamos tanto
tempo sem ouvir a voz uma da outra. Tento imaginar o que ela está
fazendo. Se está com Yvonne. Digo a mim mesma para não ficar
com ciúme, mas fico, embora Yvonne não seja eu e eu não seja
Yvonne, e apesar de saber que nós duas significamos coisas
diferentes para Saz. Penso em meu pai na nossa casa
completamente sozinho, a não ser pelo cachorro. E digo ao
Dandelion:
— Talvez você não tenha saudade do Bradbury, mas eu tenho.
E sou só eu.
E meus pensamentos.
E tanto silêncio.
Pego um livro, o último da Celeste Ng, um romance que eu estava
guardando para dias de verão como este. Mas o problema da leitura
é que é muito fácil se distrair. Leio as mesmas palavras várias
vezes, e é como ler o ar ou as nuvens ou alguma outra coisa
intangível. Largo o livro e olho pela janela. As árvores são do tipo
que ganham vida quando acham que você não está olhando. Fico
esperando que elas se mexam, que se entreguem. Elas ficam
perfeita e irritantemente paradas, com exceção da barba-de-velho
balançando ao vento.
Levanto e caminho pela sala, observando os porta-retratos, as
estantes. A maioria dos livros da Addy parece ter sido lida na praia,
estão com orelhas e a lombada marcada, e abrangem os últimos
vinte anos. Pego Os prazeres do sexo, do dr. Alex Comfort, que
parece não ser aberto desde os anos 1970, e folheio as páginas. As
ilustrações me lembram os retratos falados da polícia, e tem pelos
por toda parte. Fico tão hipnotizada que nem me sento. Fico lendo
ali, em pé.

Nunca sopre dentro da vagina. Isso pode causar embolia e há


casos de morte súbita.

— Meus Deus! — digo ao Dandelion. — Você não vai acreditar


nisso.
Continuo folheando e lendo. Cada trecho é mais engraçado e
ultrapassado que o outro.

Vibradores não são substitutos do pênis.

cassolette: Palavra francesa para “caixa de perfume”. O perfume


natural de uma mulher limpa: seu maior atrativo sexual depois de
sua beleza.

Digo para o livro:


— E o cérebro dela?
Mas o livro não parece interessado nisso. Aconselha as mulheres
a proteger e valorizar esse perfume natural com tanto cuidado
quanto dedicam à sua beleza. Dois capítulos mais tarde, o autor
rasga elogios à “mulher bem amordaçada”.
E para mim chega. Cansei do dr. Alex Comfort. Coloco o livro de
volta na prateleira e vou caçar a TV. A ilha é famosa por não ter
aparelhos de televisão, e demoro um pouco para descobrir onde
Addy escondeu a dela. Estudo a coleção de DVDs empilhados ao
lado. Tiro um por um e, embora eu ame músicas e livros e filmes
antigos, não há nada que eu queira assistir, exceto talvez o último,
um filme que Saz mencionou mais de uma vez. É francês, em preto
e branco.
Analiso a foto na capa do DVD. A garota parece descolada. Tão
descolada. Parece alguém tão forte e destemida que seu coração
jamais seria partido. Alguém que viraria uma bebida na cabeça
misógina do dr. Alex Comfort. Ou passaria seu número de celular a
um estranho charmoso e descalço em uma ilha. Que faria o que
bem entendesse.
Levanto o DVD para que Dandelion possa vê-lo.
— O que você acha?
Ele boceja e deita de costas, as patas dobradas, piscando para
mim.
Ligo a televisão, coloco o filme. Assisto, estudando Jean Seberg
como se tivesse que fazer uma prova. Cabelo. Roupas. Sorriso.
Andar. Cada gesto. Dandelion se enrola ao meu lado e afofa minha
perna. Eu o acaricio sem pensar, e ele fica até o filme acabar.
Quando os créditos sobem, eu estremeço. Não tenho certeza se
amei ou odiei, mas sei o seguinte: nunca vi nada assim antes.
Garoto se apaixona pela garota, garota se apaixona pelo garoto,
garoto tem uma arma, garota quer ser escritora, garoto rouba
carros, garota trai o garoto, garoto se recusa a deixar a garota. Tudo
isso acontece em uma Paris bela e fotogênica, e eu fico ali sentada
com a sensação de que preciso ver a torre Eiffel e a Champs-
Élysées agora mesmo.
Mas tem mais uma coisa. No fundo do meu estômago, uma
pequena chama de antecipação está crescendo, o que significa que,
contra todas as indicações, estou prestes a fazer algo inevitável de
que provavelmente vou me arrepender. Vasculho as gavetas da
cozinha até encontrar uma tesoura, enfio a caixa do DVD embaixo do
braço e marcho até o banheiro.

Vinte minutos depois, picotei meu cabelo em um corte joãozinho.


Não sei o que me levou a fazer isso, a não ser pelo fato de Jean
Seberg parecer tão absolutamente segura e feliz e confortável na
própria pele, como se nada de ruim ou inquietante pudesse
acontecer com ela porque ela é muito confiante, muito convicta de
si. Além do mais, cabelo curto é bem mais prático. Faz muito calor
nessa ilha para ter cabelo comprido, e é só cabelo, afinal de contas.
Levanto a capa do DVD e comparo. Diferente de Jean Seberg, não
é um corte bom para mim.
Visto o biquíni, uma camiseta e uma calça preta, a mais justa que
tenho, que é o mais próximo que consigo chegar do look icônico de
Jean. Decido de agora em diante sair sem sutiã quando não estiver
usando biquíni. Vamos falar a verdade: eu não preciso de um.
Vasculho a maquiagem da minha mãe até encontrar o que estou
procurando — um batom vermelho. Passo. Faço um biquinho.
Passo mais.
Pego meu mapa. Pego meu caderno e uma caneta e jogo dentro
da bolsa. Tem bebida alcoólica na casa, mas está trancada em um
armário. Reviro as gavetas procurando pela chave, mas a única
coisa que encontro é um maço velho de cigarros. Jogo dentro da
bolsa também, com um isqueiro. Ao sair, pego um quepe de
pescador grego que está pendurado na entrada — do tipo que meu
pai e o ex-marido de Addy, Ray, usavam ao velejar quando
morávamos em Rhode Island — e coloco, fazendo meu cabelo
desaparecer completamente.
Saio ao ar livre. Enquanto fico parada ao sol, um cervo se afasta
trotando, atravessando a estrada de terra que faz a volta na casa.
— Não vou machucar você — grito, o que, é claro, o faz correr.
Arrumo o quepe, ajeitando o cabelo. Que não está mais ali.
DIA 2
(PARTE DOIS)

Seguindo o mapa, começo pela estrada principal, que liga uma


extremidade da ilha à outra. Em meio a todo aquele verde
esmeralda da floresta, ela é um retalho branco — areia, sólida como
concreto, cheia de conchas quebradas e com sulcos horizontais
como um tanque de lavar roupas. Vou em direção ao sul, a única
pessoa no planeta.
Em determinado momento, vejo-a à distância — a mansão
Rosecroft. O caminho faz uma curva em direção às ruínas da casa,
que se erguem em meio às árvores. Foi aqui que Samuel
Blackwood Jr. se estabeleceu com a jovem esposa. Onde minha
bisavó foi criada até deixar a ilha, para nunca mais voltar. Esta foi a
propriedade onde minha tataravó, mãe da tia Claudine, morreu —
onde o revólver disparou, onde encontraram seu corpo, onde a bala
entalhou um buraco perfeito na porta do closet — e onde Claudine
passou a vida até a casa pegar fogo em 1993 e ela morrer dois
meses depois.
Rosecroft é enorme e ampla, uma aquarela em contraste com o
céu muito azul. A maior parte do telhado foi destruída, e as paredes
que sobraram seguem uma linha irregular. Exceto por uma parte
intacta no segundo andar, há grama no lugar do piso. Em vez de um
teto, o céu. Trepadeiras se retorcem entrando e saindo de portas e
janelas, que são como órbitas oculares, vazias e contemplativas.
Uma placa avisa ÁREA FECHADA, PROIBIDA A ENTRADA. Passo pela placa
e subo os degraus em direção à grama.
Entro e saio por janelas e portas, tentando imaginar o uso de cada
cômodo. Aqui é a cozinha. Aqui, a biblioteca. Aqui, o quarto das
crianças. Aqui nós rimos. Aqui brigamos. Aqui amamos e sonhamos.
Aqui foi onde o incêndio começou. Aqui foi onde o primeiro tijolo
caiu. Aqui foi onde morremos.
Caminho sem pressa até os fundos da mansão e paro no lugar
que imagino ter sido a varanda. À minha frente, a vários metros de
distância, uma fonte descansa silenciosa e vazia.
Sento no topo da escada que leva para fora da casa e vasculho a
bolsa atrás do caderno e da caneta. O sol queima meus braços e
ombros. Pego os cigarros, acendo um e trago. É meu primeiro
cigarro da vida, e parece importante. O gosto imediatamente me dá
vontade de vomitar, e tusso por cinco minutos. Finalmente paro, os
olhos lacrimejando, e abro uma página em branco.
Querida Saz.
Fico olhando para essas duas palavras. Tenho tanto a dizer para
ela, mas como dizer?
Já deve estar na hora de eu te contar por que esta carta será
enviada da costa da Geórgia e não de Atlanta, e por que eu não vou
estar em casa neste verão.
Ela vai ficar surpresa e provavelmente brava por eu não ter
contado. Mas eu preciso contar.
Escrevo seis folhas, frente e verso, e fico ali sentada mais um
pouco, fumando o cigarro até virar um toquinho. Acendo outro, e
outro, tragando todos, até enxergar alguns dos hóspedes que
reconheço da pousada, com bastões de caminhada e câmeras
fotográficas, vindo em direção à ruína. Dou uma última tragada,
vomito nos arbustos e vou em direção à praia.

O céu está eletrizado de sol, e esqueci meus óculos escuros,


então protejo os olhos semicerrados com a mão. Tiro o quepe e me
sinto nua sem meu cabelo, como se pudesse entrar em combustão
e derreter. Tiro os sapatos e a areia é macia e mais fresca do que eu
esperava. Vejo marcas de pneus grandes, longe na praia, o que é
estranho porque eu achava que carros não eram permitidos na ilha.
Mas bem aqui não há ninguém. Só eu e o oceano, se estendendo
por quilômetros.
Tiro a roupa, ficando só de biquíni, o preto que comprei com a Saz
em abril, quando estávamos fazendo planos para o nosso último
verão épico antes da faculdade. Deixo as roupas na areia em um
montinho amarrotado e murcho ao lado dos sapatos e do quepe de
pescador, como se esta praia fosse o chão do meu quarto. Entro, e
a água está morna. Paro quando ela chega nas canelas.
A primeira lembrança que tenho é de meus pais e eu em pé em
uma praia, os pés na água, de mãos dadas. Lembro das ondas
vindo, indo, e de como a areia se prendia aos meus tornozelos e o
oceano tentava arrastá-la para longe. Lembro da minha mãe rindo e
gritando:
— Não deixe ele te levar! — para a areia ou talvez para meu pai e
para mim. Lembro de soltar as mãos deles e agarrar a areia,
tentando ajudá-la a ficar.
Vou mais fundo.
Até os joelhos.
Até as coxas.
Até o quadril.
Respiro fundo. Meu coração faz tum-tum-tum.
Até a cintura.
Até o peito.
Espero por um buraco, mas o problema dos buracos é justamente
que eles surgem de repente, sem aviso. Penso Não foi desta vez. E
afundo. Minha decisão. Aqui é o buraco porque eu digo que é.
Fecho os olhos e nado mar adentro. Em Rhode Island, vivíamos no
Atlântico. Conheço o perigo das correntes e ondulações e
redemoinhos. Sei como nadar em águas calmas e agitadas e o que
fazer se começar a entrar em pânico. Nado desde que comecei a
andar, primeiro no oceano e depois na piscina pública de Mary
Grove.
Sob a água, não há mais fundo, não há mais chão. Abro os olhos
e imagino como seria viver aqui, no mar. Nado, e é gostoso se
movimentar assim. As ondas ficam mais fortes, mas sigo nadando.
Quando fico cansada, fico boiando, deixando a corrente me levar.
Parte de mim está apavorada e parte de mim está entusiasmada e
parte de mim não dá a mínima. Finjo que estou morta e deixo meu
corpo mole. A água me mantém na superfície, e isso é sempre uma
surpresa porque me sinto tão pesada que deveria afundar como
uma pedra.
Nado sem sair do lugar, olhando ao meu redor, e não há nada
além do mar aberto.
Por isso abro a boca e grito. Grito e berro e esbravejo, jogando
tudo — tudo que estou segurando desde o dia em que meu pai
entrou em meu quarto, cada pontinha de raiva e fúria que estou
sentindo em relação a meus pais — no oceano e no céu. Lanço
palavras e sons o mais longe que consigo, até desaparecerem em
todo aquele azul.
Uma onda bate em meu rosto como um tapa. Engasgo, bufando
na água, resfolegando e, quando consigo respirar de novo, fico
tranquila. Flutuo de barriga para baixo e abro os olhos, olhando para
o nada, porque é fundo e escuro demais. Meu corpo fica à deriva.
Sou jogada de um lado para o outro como uma bola.
Levanto a cabeça para respirar, e a correnteza é forte aqui e a ilha
parece distante. Como cheguei tão longe? Me imagino flutuando
sobre as ondas, indo até a África, onde vou surgir na praia e
recomeçar. Novo nome. Novo continente. Talvez meu pai fique
preocupado. Talvez ele perceba que cometeu um erro e que na
verdade quer, sim, uma família.
Fico de barriga para baixo de novo e flutuo. Penso que devia
voltar logo porque perdi a noção do tempo. Meu estômago ronca e
sinto a dor vazia da fome.
De repente, algo me agarra pela cintura, e minha cabeça sobe de
solavanco e estou respirando e tossindo porque acabei de inalar
metade do oceano. Meu primeiro pensamento é tubarão. Mas há
braços ao meu redor, me carregando pela água, e os braços estão
presos a um garoto.
Dou um jeito de tossir um:
— Me solta.
— Não.
— Eu não preciso que me salvem. Eu cresci no mar.
— Não quero saber se você é metade golfinho.
É o garoto do bar, o garoto da nossa bagagem e agora, pelo jeito,
ele também vai ser o garoto da praia. Começo a dar socos nele, e
ele me segura ainda mais forte e me carrega para a praia.
— Preciso que você se acalme, Ariel. — Ele está dourado do sol.
— Sabia que aqui é o maior nascedouro de tubarões da Costa
Leste?
E de repente começo a pensar no meu primo Danny, filho da
Addy, e no repuxo do mar, e percebo como estamos distantes da
praia, e não sei nada sobre as águas daqui, da costa da Geórgia, ou
sobre o que vive nelas. Não conheço as correntes, e não conheço
nada. E se alguma coisa acontecesse comigo? Minha mãe ficaria
completamente sozinha.
Ponho o braço em volta do pescoço dele e agora estou me
segurando, e tem uma tatuagem em sua escápula. Uma bússola.
Claro. Uma ironia tão bonita e ridícula e perfeita. Fico de frente para
ele, de costas para a ilha, e olho para todo aquele oceano. Viro a
cabeça e ali está a ilha, cada vez mais perto, mas ainda bem
distante. Mantenho os olhos bem abertos procurando por
barbatanas.
Durante o tempo que leva para chegarmos até o raso, penso no
quanto sou burra, que não posso me dar ao luxo de ser
inconsequente, ainda que parte de mim esteja imaginando a cara do
meu pai ao receber a ligação. Neil Henry? Aconteceu um acidente.
Ah, se você não as tivesse mandado para longe…
Já estamos perto da praia quando me solto e me afasto dele, e
agora nado mais forte e rápido do que nunca. Aposto corrida com
ele porque de repente preciso voltar à terra firme e senti-la aos
meus pés, e porque não vou perder para um garoto e homem
nenhum vai me salvar e ele precisa ver com quem está lidando.
Assumo a dianteira, então ele me alcança e estamos nos
esforçando ao máximo. Ganho por um triz, e desabamos na praia.
Meu corpo afunda na areia. O calor me envolve, penetrando em
minha pele e meus ossos. É a primeira vez que me sinto
completamente aquecida desde 29 de maio. Estou escondida atrás
de minhas pálpebras, como se minha cabeça fosse um quarto, e
elas, as portas que me fecham para dentro. O sol brilha tanto que é
impossível mantê-lo completamente do lado de fora. Um dia, alguém
vai caminhar por esta praia e ver a marca do meu corpo, como um
contorno de giz, enterrado fundo embaixo da areia.
— Qual é o seu problema?
Abro os olhos e ele está em pé em cima de mim.
— Escuta aqui, aventureira, acabou o show por hoje ou eu fico
mais um pouco? Quer saber? Vou facilitar. O pântano é praquele
lado. — Ele aponta na direção das árvores. — Passe pelas árvores
e atravesse a estrada principal e siga em direção ao oeste até
acabar a terra firme. Não tem como não ver. Aproveite para nadar
enquanto estiver lá. Você vai amar. Tem jacarés e cobras venenosas
te esperando.
Ele se abaixa, pega a camiseta que está na areia e começa a se
afastar. Nenhuma menção à nossa interação no bar ou ao fato de eu
ter deixado meu número.
— Claude — digo. — Meu nome é Claude.
Ele vira, se afastando de mim de costas. Estende os braços.
— Não dou a mínima.
E desaparece nas dunas.
Volto passando pelas dunas, pelos carvalhos, até voltar à estrada
de terra. Procuro pelo garoto, mas não vejo ninguém.
Tiro o quepe, balanço o que resta do cabelo. Se eu pudesse
juntar todo o meu cabelo e colar de volta na cabeça, é o que eu
faria. Enquanto estava cortando, não me dei conta de que esta ilha
é apenas temporária e eu sou apenas temporária e vou precisar de
cabelo quando for para a faculdade no outono. Agora vou começar o
primeiro ano sendo confundida com um garoto. Procuro o batom
que está enterrado no fundo do bolso da calça. Passo nos lábios.
Caso eu venha a encontrá-lo de novo. Então ouço um farfalhar no
mato e saio correndo.
DIA 2
(PARTE TRÊS)

Meu coração ainda está acelerado quando chego à casa da Addy. A


porta de tela bate atrás de mim e grito chamando minha mãe. Sem
resposta. Grito chamando Dandelion. Sem resposta. Durante um
segundo terrível, me pergunto se eles também me abandonaram.
Faço o caminho mais curto até o quarto da minha mãe e ali estão as
coisas dela, espalhadas pela cômoda e pela cadeira e pela cama.
Ali estão suas roupas no armário. Volto a respirar. Dandelion
aparece do nada, se esticando, bocejando. Pego-o no colo e
distribuo beijos por todo seu rosto.
No banheiro, deixo caírem a calça, a camiseta e o quepe
molhados e fico de biquíni, pernas e braços comidos por picadas de
inseto. Coço até virarem vergões, então tiro o biquíni e tomo o
banho mais demorado do mundo.
Uma hora depois, estou de volta ao meu posto na janela, o quepe
de pescador escondendo o que restou do meu cabelo retalhado.
Meus cadernos — os que guardam meu romance ruim e
exageradamente longo — estão ao meu lado. Tenho muito a dizer e
nada a dizer e fico olhando para essa pilha alta que é meu livro
como se fosse um ente querido que há muito respira com ajuda
mecânica. Penso: Está na hora de desligar os aparelhos.
Alguém ou alguma coisa bate à porta da frente, e o pulo que eu
dou quase me faz sair do corpo. Não há ninguém aqui com quem eu
queira falar, então ignoro. Batem de novo, e sigo lendo. Então ouço
uma batida na janela e o alguém está parado ali. O garoto da praia.
Fico olhando para ele, sem piscar, e me pergunto se de alguma
forma conseguiria ficar invisível. Pelo vidro, ele diz: — Estou te
vendo.
Largo o caderno, levanto, abro a porta.
— O que você quer?
— Você está viva.
— Estou.
— Achei que a chance de estar largada no pântano sendo comida
por um jacaré fosse grande, então quis vir conferir. Só porque este
lugar parece o paraíso não significa que não possa ser mortal. —
Ele se vira, desce os degraus rapidinho, volta a subir. — Quer saber,
vou aproveitar para te avisar sobre as cobras. Cascavel, cabeça-de-
cobre, mocassim-d’água. Ah, é, e nunca fique entre uma javali e
seus filhotes. Isso também pode estragar seu dia. Olhe por onde
anda e nada e vai ficar tudo bem. Principalmente à noite, porque
alguns animais daqui são noturnos. A praia é segura, mas, sabe de
uma coisa? Estou achando que você também não devia ir à praia
sozinha. A última coisa que a gente precisa por aqui é ter que
chamar o resgate aéreo por sua causa.
E ele volta a descer os degraus e vai em direção à estrada.
Vou até a varanda.
— Você dá essas instruções a todo mundo que chega na ilha?
Ele se vira para mim.
— Só aos inconsequentes.
— Bom, sinto muito, mas perdeu a viagem. Não pretendo sair
desta casa enquanto estiver aqui.
— E quanto tempo vai ser isso?
— Trinta e quatro dias, contando hoje. Eu conto cada um deles.
— Vou deixar a guarda florestal avisada. Sabe. Caso você mude
de ideia.
Ele se afasta despreocupado, sem olhar para trás. Fico ali
observando o modo como o sol ilumina seu cabelo e como seus
ombros se movimentam sob a camiseta quando ele sobe na
caminhonete preta que o espera na estrada.

Naquela noite, minha mãe e eu ficamos sentadas nas cadeiras de


balanço da varanda da pousada, bebendo limonada. Com vestidos
azuis quase iguais. Uma coincidência que me deixa irritada.
Minha mãe está transbordando fatos que descobriu no museu.
— Sabia que a história da ilha é repleta de mulheres fortes que
tiveram que se reconstruir depois de tragédias? Claudine e sua
bisavó Eva eram descendentes de toda uma linhagem dessas
mulheres. Antes dos Blackwood chegarem aqui, as mulheres
tomavam conta do lugar.
— Repleta?
— É.
— Então você está dizendo que viemos para a Ilha das
Amazonas?
— Praticamente. É onde estamos neste momento. Aqui na Ilha
das Amazonas, cercadas de fantasmas de mulheres fortes. Talvez
possamos aprender alguma coisa com elas. Talvez nós duas
possamos encontrar algo sobre o que escrever.
Ela deixa essas palavras no ar e, como não pergunto sobre o
trabalho — quanto tempo ela acha que vai levar, que tipo de
material os Blackwood deixaram, o que de mais fascinante ela
descobriu hoje sobre as pessoas que viviam aqui —, ela me conta
sobre Doña Grecia Reyes, uma nativa americana do povo Timucua
que se casou com um soldado espanhol e lutou com os espanhóis
pela posse da ilha. Ela escreveu uma carta ao rei da Espanha
exigindo dinheiro para supervisionar toda a costa da Flórida e da
Geórgia. Ele não só respondeu a carta como enviou o dinheiro, e ela
passou a ser chamada de Princesa da Ilha.
Por trás da tristeza, há uma vivacidade na voz da minha mãe, um
propósito. Ela está iniciando mais um projeto, e a pesquisa lhe dá
algo com que se ocupar.
Não digo nada, mas uma partezinha de mim que ainda sou eu
pensa: Preciso arranjar algo para fazer em vez de perambular pela
ilha como a velha e deteriorada sra. Havisham. E a parte de mim
que está com raiva dela não quer dizer que essas histórias são
interessantes ou que ligo minimamente para elas.
— Combina com você — ela diz, tocando as pontas do meu
cabelo. — É sofisticado.
— É curto demais.
— Por que você cortou?
— Precisava de uma mudança.
— Eu cortaria o meu, mas não acho que ficaria bom.
— Ficaria melhor em você.
Todo mundo sabe que eu sou o Rony, e ela, o Harry.
— A última coisa de que alguém precisa é sua mãe querendo ser
sua irmã gêmea. Eu preciso de uma coisa só minha. Talvez faça
uma tatuagem.
Enquanto ela fala, penso em papéis. Todos temos um. Todos
desempenhamos nosso papel, queiramos ou não. O meu é de Boa
Filha de Duas Pessoas Excepcionais que Jamais Vai Ser Capaz de
Superar. A garota que fez um teste de QI aos seis anos que disse
que ela era um gênio, embora nunca tenha se sentido assim. A
garota que é uma versão menos brilhante da mãe, cujo papel é
Autora Famosa e Premiada e Pessoa Favorita de Todos.
O papel do meu pai é Aquele que É Diferente. Mas ele também é
criativo. Consegue tocar qualquer instrumento que pegar nas mãos,
embora nunca tenha tido uma única aula antes de ir para Juilliard,
quando tinha vinte anos. É capaz de tocar uma música no piano ou
no violão depois de ouvir uma só vez, e sabe pintar, mas não pinta.
Minha mãe diz que ele é um artista frustrado e que pertence a outra
época.
Meu papel nesta ilha não pode ser simplesmente Filha Rejeitada
pelo Pai que Não Pode Mais Ter uma Família. Ou Lauren Júnior/
Sombra da Lauren. Precisa ser mais do que isso. E mais uma vez
penso que a Velha Claude morreu e a Nova Claude tomou seu
lugar, embora eu não saiba nadinha sobre a Nova Claude.
Um tempo depois, digo à minha mãe que preciso ir ao banheiro.
Entro na pousada, que imediatamente parece estar quinhentos
graus mais fresca, desço as escadas e vou direto para a lojinha, que
está vazia. Fico mexendo nos livros e nos bonés de beisebol e nos
cartões e finjo que vim só para isso.
Jared aparece de algum lugar. Está vestindo uma camisa de
botão branca e calça preta, uniforme dos funcionários da cozinha.
As mangas estão dobradas e pela primeira vez percebo uma
tatuagem em seu antebraço. Ele diz: — E aí?
E preciso lembrar a mim mesma que estamos em uma ilha e que
só tem, tipo, trinta e uma pessoas aqui.
— E aí. Estava procurando o cara que levou nossa bagagem até
a casa.
— Ah, o Miah.
— Maya?
— Jeremiah Crew. Mas nós o chamamos de Miah. M-I-A-H. Um
pessoal da guarda florestal, na primeira vez que ele veio para cá, o
chamava de [Link], mas ele fez com que parassem rapidinho.
— Sabe dizer onde posso encontrá-lo?
— Por aí, em qualquer lugar. O Miah meio que vai aonde quer e
faz o que quer.
— Ele parece ser o dono do pedaço, ou age como se fosse.
Jared dá de ombros.
— Já faz um tempo que ele vem para a ilha.
— O que ele faz, afinal? Tipo, por que está aqui? Ele trabalha na
pousada com vocês?
— Ele trabalha para a família Bailey, que mora no norte da ilha,
fazendo trilhas com grupos da Outward Bound. Resolve coisas. Vai
até o continente quando as pessoas precisam de suprimentos.
Constrói coisas.
— Mas por que aqui?
— Talvez seja melhor perguntar para ele. — E ele olha para mim
como quem conhece o real motivo por trás de todas as minhas
perguntas. — Ele não tem namorada. Pelo menos não que eu saiba.
— Sorri, e agora tenho certeza de que sabe por que estou
perguntando, mas não me julga por isso, e nesse momento penso
Talvez Jared e eu possamos ser amigos.
— Não é por isso que estou perguntando. Mas obrigada, Jared.
— De nada, Claude.
Começo a me afastar, mas viro para ele de novo.
— O que sua tatuagem diz?
Ele estende o braço para que eu possa ler. 12 de agosto.
— Seu aniversário?
— Fiz em homenagem a um amigo que morreu.
E pelo jeito como ele diz isso percebo que sabe como é quando o
chão desaparece de repente.
— Sinto muito pelo seu amigo.
— Obrigado. — Ele olha para a tatuagem, só por um segundo,
então volta a olhar para mim. — Ei, vamos sair amanhã à noite, se
quiser se juntar a nós.
— Onde?
— No Dip.
— Onde fica o Dip?
— Serendipity. É onde os funcionários moram.
— Talvez. Obrigada. Vou pensar.

No jantar, fico ouvindo ondas de vozes subindo e descendo,


mergulhadas em conversas — as mesmas conversas que se
repetem, de tal forma que decorei tanto as perguntas quanto as
respostas —, e pensando em Jeremiah Crew. Eis o que sei sobre
ele: As pessoas o chamam de Miah.
Ele não gosta de ser chamado de [Link].
Ele vem para cá há um tempo.
Todos confiam nele.
Ele provavelmente não tem namorada.
Estamos voltando para a casa quando meu celular vibra.
— É o seu? — minha mãe pergunta, olhando para o céu.
Tiro o celular do bolso.
Te amo mais que a Viúva Negra e manteiga de amendoim e “Umbrella”. Quando
você volta?
“Umbrella”, da Rihanna, é nossa música desde a infância.
Digito a letra para ela o mais rápido que posso, mas meu celular
começa a procurar rede, e tenta enviar a mensagem e, do nada,
Saz desaparece.
DIA 3

Acordo cedo. Em algum momento no meio da noite tirei a parte de


baixo do pijama e estou só com a parte de cima e a calcinha. Tento
invocar o rosto de Wyatt. Sua boca. Mas em vez de Wyatt, vejo
Jeremiah Crew. Cara de sabe-tudo. Tatuagem de bússola no ombro.
Mãos largas e fortes. Afasto sua imagem, mas ele volta no mesmo
instante.
Claudine, diz aquela boca dele, quero você. Você não sabe o que
sinto por você? Não sabe o quanto te quero?
Sim, respiro fundo. Me beija.
Alguma coisa zumbe em volta da minha cabeça e do meu ouvido.
Com a mão, bato no mosquito embora não consiga vê-lo. Bzz bzz
bzz. Estapeio o ar com as duas mãos e sento, sacudindo o cabelo
— úmido do calor da Geórgia —, caso o mosquito tenha decidido
fazer ninho ali. O zumbido continua e, puf, Jeremiah se vai.
Me jogo contra a cabeceira. Você venceu, mosquito. Aproveite.
Espero que eu morra de malária aqui na Geórgia selvagem. Vai ser
bem feito para os meus pais. Jeremiah Crew virá ao meu velório, e
meu receptáculo fantasmagórico vai estar ao lado dele enquanto ele
chora em cima do meu caixão ou da minha urna, que seja. Ele será
para sempre assombrado por mim e pelo que poderíamos ter sido.
Está chovendo quando saio do quarto. Minha mãe está na
cozinha, enxaguando a louça e colocando no escorredor de madeira
em cima do balcão. Veste calça jeans e uma camisa de verão com
cores vivas, o cabelo preso em um rabo de cavalo.
— Bom dia — digo, pegando café.
— Boa tarde. — Ela tira um fio perdido do rosto e acena com a
cabeça em direção ao assento da janela onde está uma caixa
marrom grande. — Do seu pai.
Ele não é mais o papai. É seu pai.
— O que é?
— Não sei.
À distância, um relâmpago. Conto — um, dois, três, quatro — e o
trovão ressoa. Me apoio no balcão, comendo cereal, olhando para a
caixa marrom como se fosse uma bomba pronta para explodir.
Minha mãe está falando, mas não estou ouvindo porque só consigo
pensar na caixa. Ela diz alguma coisa sobre o museu e o jantar,
então pega a bolsa e um guarda-chuva e sai pela porta.
Ainda estou apoiada no balcão quando ela entra de novo.
— Isto é seu?
— O quê?
Ela fica à porta, olhando para baixo. Vou até ela e acompanho seu
olhar até o tubo de pomada de cortisona e uma lata de repelente.
Que estão no chão. Para vossa senhoria. É pior se você coçar.
— Acho que é meu, sim — digo.
Olho para além dela, mas não vejo nem sinal dele.
Ela olha para baixo, para o bilhete, e então olha para mim,
incapaz de esconder o sorriso.
— Quer me contar de quem é?
— Na verdade não.
Dou um sorriso também e volto pra cozinha, onde sirvo mais
cereal fazendo uma cena. Em um instante ela grita um tchau e a
porta se fecha.
Espero três minutos antes de pegar a pomada e o repelente e
trazê-los para dentro. Examino o bilhete que me parece familiar,
claramente tirado de certo bloquinho. Viro o papel e ali está o
número do meu celular, exatamente como anotei. Embaixo:
Celulares não funcionam aqui. Se eu quiser encontrar você, vou
encontrar você.

Meu pai me mandou a Edna, minha boneca favorita na infância;


um diário de músicas que a Saz e eu escrevemos ao longo dos
anos; meus livros antigos da Nancy Drew; e um gato de argila que
fiz quando estava na quarta série. Tudo embrulhado em papel de
presente dos Vingadores. E o bilhete a seguir:

Querida Clew,
Aqui vão algumas coisas que você deixou para trás e eu achei que podiam estar
fazendo falta. Espero que esteja se divertindo e que não esteja calor demais. Bradbury e
eu estamos nos virando por aqui. Está corrido na faculdade e não vemos a hora de te
ver quando você voltar para casa em agosto. Estamos com saudades.
Com amor,
Papai

Folheio o diário, organizo os livros em uma pilha, coloco o gato de


argila no topo. Pego Edna e analiso seu rosto — o bigode que era
para ser pontos, que eu desenhei em seu rosto depois de ter levado
pontos por causa de um acidente no parquinho da escola; o pedaço
careca onde cortei seu cabelo; a sombra que fiz com canetinha
roxa.
— Por que você está aqui? — pergunto a ela. — Por que ele me
mandou essas coisas se eu vou voltar para casa em algumas
semanas? — A não ser que você não vá voltar, uma voz sussurra
no fundo de mim. A não ser que ele não queira que você volte
nunca mais.
Deixo tudo no assento da janela. Edna deitada, um pé encostado
contra a parede. Dandelion sobe ao lado dela e começa a dar banho
no que sobrou de seu cabelo.
Pego o quepe de pescador e meus sapatos. Saio tão rápido que
esqueço de pegar um guarda-chuva, e em minutos estou ensopada.
O chapéu cheira a cachorro molhado.

Enquanto caminho, penso que meus pais se amavam até meu pai
decidir que não amava mais minha mãe; ele queria uma família e
depois não queria mais. O que faz alguém deixar de nos amar? Um
dia o amor existe; no outro não existe mais. Para onde ele vai? Algo
que era vivo e respirava… como pode simplesmente desaparecer
como se nunca tivesse existido? Imagino um quarto ou talvez um
planeta inteiro para onde o amor vai quando não o queremos mais.
Como um ferro-velho. Pequenos resquícios de amor espalhados por
toda parte. Pessoas vasculhando, pegando as peças maiores e
mais resistentes, e tentando reaproveitá-las de alguma forma. Não é
isso que fazemos sempre que conhecemos alguém ou nos
apaixonamos por alguém ou começamos a amar alguém? Pegamos
os pedaços velhos e gastos de nós mesmos e tentamos mais uma
vez?
Em determinado momento, vejo uma casa à beira da estrada. Um
chalé azul-vivo sob um carvalho enorme. Cadeiras de balanço azul-
vivo na varanda. Luzes nas janelas. Parece tirada de um livro
infantil, aconchegante e convidativa, e quero entrar e me sentir em
casa.
Continuo andando, porque se não fizer isso talvez fique aqui para
sempre. Descendo a estrada encontro outro chalé, este amarelo-
girassol. A próxima casa é verde-clara, a próxima é de um rosa
suave. Do lado de fora, todas parecem calorosas e acolhedoras,
como se nada de ruim pudesse acontecer com as pessoas que
moram ali.

O armazém são apenas dois corredores curtos cheios de doces e


cereais e besteiras e loção pós-sol. Tem um freezer de sorvete e
uma geladeira com bebidas geladas. Tem cartões-postais da ilha
que parecem dos anos 1970 e um balcão pequeno onde uma
mulher de rosto redondo e vermelho está sentada lendo uma
revista. Seu crachá diz TERRI.
Limpo a garganta.
— Qual é a frequência da barca?
Ela olha para mim, revista ainda aberta. People.
— Ida e volta para o continente três vezes por dia, mas se você
tiver dinheiro pode fretar um barco.
— Bem que eu queria — digo. — E qual o horário de
funcionamento de vocês?
— Quando estou a fim de aparecer.
Ela volta a olhar para a revista.
Além do balcão, em um canto, há duas mesas redondas com
cadeiras. Sento, pego o celular e ligo para Saz. Toca uma vez e ela
atende.
— Sazzy?
— Hen! Você ainda está em Atlanta? Quando você volta?
E todas as partes de mim que eu vinha mantendo grudadas nas
últimas semanas começam a falar ao mesmo tempo, divididas e
isoladas, mas unidas na dor. Na dor que vem quando digo:
— Não vou voltar por um tempo porque minha mãe e eu estamos
literalmente em uma ilha e é aqui que preciso ficar. Porque meu pai
não quer mais a gente e minha mãe está tentando decidir o que vai
fazer agora, então viemos para cá. E ainda não consigo entender o
que aconteceu. Se ele queria tanto cair fora, por que ele não foi
embora? Por que minha mãe e eu é que temos que largar tudo,
como fugitivas, condenadas que fizeram algo tão terrível que
ninguém pode falar no assunto e que não merecem nem se
despedir?
Não digo “voltar para casa” porque Mary Grove não é mais minha
casa do que esta ilha. É só um lugar onde eu morava. Não sei ao
certo onde é minha casa. Talvez no ferro-velho com todos os
destroços do amor.
Saz fica só ouvindo, mesmo quando conto sobre meu cabelo e
que picotei tudo e, quando começo a chorar, ela diz:
— Filho da mãe.
E continua escutando. Consigo ouvi-la bem quietinha, sem nem
respirar, para que eu possa dizer tudo o que preciso dizer, e depois
de um tempo nem sei mais ao certo o que estou dizendo porque não
sou eu falando, são pedaços de mim. E, enquanto choro, consigo
sentir esses pedaços sendo costurados uns aos outros. Bem soltos.
Mas costurados.
Quando termino e não há mais palavras e os pedaços de mim
estão respirando fundo e tentando se manter unidos, Saz diz:
— Primeiro: eu amo você.
— Eu também amo você.
— Sempre. É sério. Não quero que você pense nem por um
minuto que meu amor vai acabar. Segundo: ele que se foda. Não
estou surpresa, mas ele que se foda.
O que ela quer dizer com “Não estou surpresa”? A parte de mim
que ama meu pai porque ele é meu pai quer mandar ela se foder,
mas não posso ficar protegendo ele para sempre. Então ecoo suas
palavras:
— Ele que se foda.
E uma fração do meu coração se solta e cai quando digo isso,
porque as palavras soam como traição.
— Terceiro, precisamos tirar você daí.
E essa ideia faz com que eu me ajeite na cadeira, e começo a
secar as lágrimas porque quero tirá-las do meu rosto para poder me
concentrar no que ela está dizendo.
— O que fica na metade do caminho? Se eu conseguir ir para…
Espera… — Ela fica quieta por alguns segundos. — Se eu
conseguir me mandar para Greenville, você consegue me encontrar
lá? Consegue, sei lá, roubar um carro ou pegar um avião ou coisa
do tipo? Consigo chegar lá amanhã.
Abro o mapa no celular, e fica falhando porque o sinal é uma
merda, mas finalmente começo a estudar a rota, e meu coração
está pulando cada vez mais rápido, só de imaginar fugir, ir para
longe daqui.
— Não quero voltar para aí — digo. Embora esteja com saudade
do meu quarto com as paredes verdes e do meu cachorro e da
minha casa e dos meus amigos. Coisas às quais nunca dei o devido
valor.
— É claro que não. Podemos pegar a estrada. Só nós duas.
Thelma e Louise. Duas foras da lei. Uma última viagem antes da
faculdade. Você e eu, loucas e livres. Talvez Asheville. Podemos
encontrar o sanatório onde Zelda Fitzgerald morreu queimada.
E consigo visualizar, nós duas. Claude e Saz. Saz e Claude.
Como sempre foi e sempre vai ser. Parando em todos os locais
turísticos cafonas entre as Carolinas do Norte e do Sul e a
Califórnia. Porque é para lá que quero ir. Para a Costa Oeste. Los
Angeles. Chega de inverno. Chega de frio. Só sol e céu claro e a
cidade, até onde a vista alcança. Vamos nos perder e nos encontrar.
Então Saz diz:
— Espera.
E a ouço conversando com alguém. E elas estão rindo. E dizem
mais alguma coisa. Então, para mim, no telefone:
— Voltei. Desculpa. Yvonne vai pedir uma pizza e nunca
conseguimos concordar no sabor. Eu falo pepperoni, com pimenta
extra e ela só quer presunto e abacaxi. O que é nojento.
Ela praticamente grita essa parte, e sei que é para Yvonne, não
pra mim.
— Eu estou no viva-voz?
— Quê?
— Eu. Estou. No viva-voz?
— Sim…
— Tire agora.
Porque eu não liguei para Saz-e-Yvonne, eu liguei para Saz.
— Tá bom. Tirei. Desculpa. Somos só você e eu. Yvonne não está
ouvindo.
É o jeito como ela diz Yvonne, como se elas tivessem segredos só
delas. Pedindo pizza e transando e se apaixonando, e eu estou de
fora, a 1356 quilômetros de distância.
— Então vamos nos encontrar em Asheville — ela diz.
— É sério? Você e a Yvonne?
— Ela terminou com a Leah. — E fica esperando que eu diga
alguma coisa. Como não digo, ela chama: — Hen?
— Desculpa. Eu não tinha certeza se você estava falando comigo
ou com ela. — E está na minha voz, a mágoa que estou sentindo. —
Ela fez isso por sua causa?
— Ela diz que não, mas foi, tipo, quinta passada, e estamos
juntas desde então. Ela me deflorou de novo. E de novo. — E ela ri
sem parar. — Ah, espera, calma aí… — E ela some de novo, e
volta, some e volta, sem parar.
Cada vez que volta, ela pede desculpas, mas sinto que estou
encolhendo. A ilha e suas ruínas e sua umidade e seus cavalos e
javalis vão me cercando até eu ficar do tamanho de uma formiga.
Desde que a conheço, Saz nunca sentiu que seus pais a
compreendiam de verdade. Eles não entendem sua sexualidade ou
seu senso de humor, mas são carinhosos e têm boas intenções e se
esforçam. O pai vai a manifestações com ela e usa camisetas do
orgulho LGBTQIA+ e deixa que ela decore seu carro com adesivos de
arco-íris, e toda noite ele diz a ela que a ama, acima de qualquer
coisa. E é por isso que ela jamais vai entender o que estou
passando. Além disso, ela está sendo grosseira pra caralho.
De repente quero desligar. Quero dizer: Nas últimas quatro
semanas meu mundo inteiro desabou, e você está discutindo sobre
pizza?
— Me desculpe, Hen — ela diz.
E elas começam a conversar de novo. E fico sentada ali
esperando. E minhas mãos estão suadas e meu rosto quente, e não
é por causa da umidade da Geórgia. É por causa delas. É quando
me dou conta de uma coisa: não importa o quanto eu queira, nada
vai ficar igual.
Quando ela volta, eu digo:
— Preciso ir. Meu mundo inteiro está de cabeça para baixo, e
você está ocupada demais com Yvonne para me ouvir.
— Eu ouvi esse tempo todo. Escuta, desculpa se estou sendo
babaca. Eu não sabia que você ia ligar e estou muito feliz por ter
ligado, porque estou morrendo de saudade, Hen, de verdade. Mas
ela está aqui, e eu não sei o que estou fazendo. Tudo isso é muito
novo para mim… Você longe, eu em um relacionamento.
Ficamos em silêncio. E nesse silêncio sinto o abismo entre nós
ficar tão largo e profundo que me pergunto se algum dia vamos
conseguir preenchê-lo. Não era para guardarmos segredos uma da
outra. Era para sermos sempre Claude e Saz. Saz e Claude.
Ela diz:
— Falei sério sobre encontrar você em algum lugar. Wyatt tem
perguntado de você.
— Ele me mandou mensagem. — Então, por algum motivo: — Eu
contei para ele.
— Você contou o que para ele?
— Sobre meus pais.
— Você contou para o Wyatt?
— Sim.
— Quando?
— Antes de viajar.
— Mas você não contou para mim.
Penso em dizer algo sobre Yvonne, mas em vez disso:
— Não. Você é muito próxima. Contar para você tornaria tudo real
demais.
É estranho editar as coisas que digo a ela. Em vez de reconstruir
o chão, estou construindo paredes.
Ela fica em silêncio.
— Você ainda está aí? — pergunto.
— Estou.
A voz dela sai para dentro, como se ela tivesse engolido a
palavra. Por um minuto, nenhuma de nós diz nada.
Finalmente, ela solta um suspiro.
— Então vamos nessa. Vamos nos encontrar em algum lugar e
trazer você de volta para Mary Grove.
Mas o jeito como ela diz faz parecer que é a última coisa que ela
quer fazer.
E embora eu esteja furiosa com ela por continuar vivendo
enquanto eu estou aqui, congelada e paralisada, e embora ela
esteja furiosa comigo por ter contado ao Wyatt antes de contar a
ela, parte de mim quer fazer isso. Quase digo Sim. Vamos nessa.
Só vamos. Por alguns segundos, visualizo — Thelma e Louise na
estrada. Wyatt e eu, finalmente juntos.
Mas então olho para a loja à minha volta e lá fora os carvalhos e
as palmeiras e o pântano, e de repente estou de volta nesta ilha, e
nesta ilha também está minha mãe, coberta até o pescoço de cartas
e documentos e só Deus sabe o que mais. Tentando se distrair e se
ocupar e se encher de propósito para não partir ao meio.
— Não posso.
E dizer isso me faz sentir como se eu fosse partir ao meio. E este
será o início. O ponto a partir do qual não olho para trás e prometo
ser para sempre aliada da minha mãe. Neste momento tomo essa
decisão vitalícia. Ela antes dele. Ela antes de todo mundo, incluindo
eu mesma.
— Ei. Vamos dar um jeito nisso. Você não está sozinha, Hen. Por
mais que sinta que está. Você nunca está sozinha. Não enquanto eu
estiver neste mundo.
— Tá bom — respondo. Mas o problema é que estou sozinha,
sim. E o abismo ainda está lá. E Yvonne está lá, ocupando meu
lugar. — O que você quis dizer com “Não estou surpresa”, quando
contei sobre o meu pai?
— Bom, seus pais nunca discutem. E os dois estão sempre
trabalhando, e eu nunca vi os dois de mãos dadas.
— Eles ficam de mãos dadas. — Mas, ao dizer isso, tento lembrar
de uma época em que os via de mãos dadas ou se beijando ou
demonstrando qualquer tipo de afeto físico como os pais da Saz
fazem. — Só porque você já teve um relacionamento, se é que
podemos usar esse termo, não quer dizer que você sabe tudo sobre
o amor.
— Mas que merda é essa? Eu acabei de dizer que não sei que
porra estou fazendo. Eu sei que as coisas estão uma merda agora,
Hen, mas você não precisa descontar em mim.
— Você não faz ideia do que estou passando.
— Não, não faço, porque você acabou de me contar. Ao contrário
do Wyatt Jones, que pelo jeito já sabe faz um tempo.
Ficamos em silêncio. Consigo ouvi-la respirando rápido e forte do
outro lado da linha. Quase desligo, mas de repente ela suspira alto e
diz:
— Escuta. Eu não estou gostando muito de você nesse instante,
mas eu te amo mais que Riverdale e livrarias e girassóis.
E Yvonne? Você me ama mais que ela?
A porta da loja se abre e o fotógrafo da pousada entra.
Digo:
— Tenho que ir.
E desligo.
Fico olhando para o celular, onde Saz estava agora mesmo, e
meu coração está batendo forte e meu sangue fervendo e meu
pulso acelerado e minha cabeça parece prestes a explodir. Abro as
mensagens do Wyatt e tento mais uma vez mandar minha foto de
biquíni. Desta vez a mensagem vai. Escrevo: Queria que você estivesse
aqui.

Não me importo com a direção. Só vou andando. Ando até olhar


para trás e não ver mais o chalé azul-vivo ou os cavalos selvagens,
só árvores e o pântano e o céu. Viro para a direção na qual acho
que fica o armazém, mas a vegetação logo fica mais densa e as
árvores mais espessas e o céu desaparece.
Se eu pudesse, ligaria para o meu pai neste instante e diria: É por
sua culpa que estou perdida. Você que resolva isso. Se eu não
voltar até a hora combinada, encontre você um jeito de entrar em
contato com a mamãe e dizer para ela que estou bem e onde estou,
e dê um jeito de me levar de volta para a casa onde estamos.
Conserte você isso.
Procuro o celular para ver se tem algum sinal de GPS, mas nada.
Então tento seguir em outra direção e outra até tentar todas. Em
determinado momento, sinto gotas de água em meu rosto. Olho
para cima e uma nuvem do tamanho do Texas se formou lá em
cima.
— Merda.
E nesse momento o céu se abre e o trovão ressoa, e mais uma
vez estou ensopada, mas continuo andando porque essa
tempestade não vai me parar. Eu sou a tempestade. Ando e ando
até ouvir vozes e ver uma construção através da chuva soprada
pelo vento, então corro até lá. Não é a casa que vi antes. Esta tem
dois andares, tinta amarela descascando, contra um pano de fundo
de carvalhos e barbas-de-velho com uma aparência assombrada e
mortífera. Algumas pessoas estão na varanda.
Jared diz:
— Claude?
DIA 3
(PARTE DOIS)

Jared está sentado no degrau mais alto, garrafa de cerveja na mão.


Uma garota com tranças pretas e espessas e olhos escuros e
grandes está ao lado dele, além de um garoto afro-americano de
rosto e corpo redondo, que dá um aceno e um sorriso, embora eu
nunca o tenha visto antes.
Subo os degraus e me junto a eles, e Jared me passa uma
cerveja. Bebo, é gelada e amarga, e gosto do sabor. Algo nela me
faz lembrar de Ohio e da festa de Trent Dugan. Tiro o quepe de
pescador e passo a mão no cabelo molhado, tentando ajeitá-lo e
dar-lhe alguma forma.
— Bem-vinda a Serendipity — diz Jared, abrindo os braços. —
Mais conhecida como Dip.

Várias cervejas depois, sei que a garota é Wandinha, mais uma


funcionária da pousada, do Alabama, e o garoto é Emory, guia júnior
que cresceu na Carolina do Sul. Ele leva hóspedes da pousada para
passeios pela ilha nas caminhonetes da guarda florestal. Hoje é o
dia de folga deles. A chuva ressoa no telhado da varanda enquanto
o céu anoitece, e sinto meus ossos começarem a se assentar. Você
está segura. Não está perdida. Está tudo bem. Você está aqui. Não
está sozinha.
Os três começam a contar histórias de fantasmas e estou metade
ouvindo e metade pensando na Saz e no meu pai e no Wyatt, que
provavelmente, neste instante, está transando com Lisa Yu.
Wandinha me pergunta:
— Você já viu um fantasma?
Ela tem voz de veludo e algo nela e na cerveja e na chuva
funcionam como uma canção de ninar. Me sinto aquecida e
satisfeita, os olhos pesados, o corpo pesado.
— Não — respondo.
— Vai ver aqui.
Minha pele se eriça.
Emory balança a cabeça.
— Cara, o cemitério Behavior tem uma vibe assustadora, mas
nada como Rosecroft ou o Dip.
— Por que os funcionários da pousada moram aqui tão longe? —
pergunto.
Emory estica as pernas, cruzando os tornozelos.
— Não é permitido construir na ilha porque é uma reserva
ambiental, e esta é a única construção grande o suficiente para
abrigar todos nós.
Olho para a floresta à nossa volta. Não há outras casas, nem
outras luzes. O Dip parece o lugar mais remoto do planeta.
— Você já ouviu falar do homem bebê? — Jared está olhando
para mim.
Emory balança a cabeça e diz:
— Cara… — baixinho.
Wandinha diz:
— Não conta essa, Jared. Essa me deixa apavorada. Tipo,
apavorada mesmo. É pior que, sei lá, o cara com o gancho ou sei lá
qual é aquela lenda urbana famosa.
Jared inclina o tronco para a frente, a voz baixa e calculada: — O
homem bebê é tipo um humanoide, com, tipo, cara de bebê e cabelo
de velho. Ele diz mamãe o tempo todo. E, se você repetir, ele se
aproxima e tenta te pegar.
Então é claro que todos ficamos em silêncio, e presto atenção
para ver se escuto mamãe em meio à chuva. Tirando o barulho das
gotas no telhado e a música que vem da casa, é incrível como a
noite está calma. Como se a ilha estivesse segurando a respiração,
as árvores congeladas em pleno crescimento.
Então ouço:
— Mamãe — tão baixinho e estridente que por um segundo penso
que é mesmo o homem bebê. Wandinha e eu pulamos, e ela joga
Jared da varanda.
Ele se levanta, arruma os óculos, dá uma batida na roupa e volta
a sentar como se nada tivesse acontecido.
— Puta merda — diz Emory.
Todos soltam uma risada nervosa.
Aos poucos, ficamos em silêncio, então Wandinha vira para mim:
— Essa é a sua cor natural de cabelo?
— É.
— Qual é o seu signo?
— Áries.
— Você tem algum animal de estimação?
— Um gato e um cachorro. — Não menciono que Bradbury está
em Ohio.
— Se pudesse escolher entre esta ilha e a Patagônia, o que você
escolheria? Não pense, só escolha uma.
— Nenhuma das duas. Eu escolheria a Califórnia.
— Qual é a sua música de fossa favorita?
— Atual? De todos os tempos?
— De todos os tempos.
Digo a primeira música que surge na minha cabeça.
— “Irreplaceable”, da Beyoncé.
Ela assente numa aprovação relutante.
— Então, qual é a sua história?
Penso: Não tenho a menor ideia de qual é a porra da minha
história, muito obrigada.
Digo:
— Não tenho uma. — Não ainda, pelo menos, a não ser que ser a
garota cujo mundo inteiro explodiu dias antes de ela se formar no
colégio conte.
Wandinha sorri para mim desconfiada.
Sorrio para ela.
— Você sempre faz tantas perguntas assim?
— Sou uma pessoa muito curiosa.
— E sem filtro — acrescenta Emory.
Digo:
— Estou aqui porque minha mãe está trabalhando em um projeto.
Qual é a sua história?
— Eu amo mitologia grega, signos e maquiagem. Estou
aprendendo japonês. Tenho um chihuahua chamado Teddy que é o
amor da minha vida. Toco violão desde que tinha doze anos. — Ela
solta um suspiro. — Mais do que tudo, quero cantar.
Profissionalmente. Mas minha família acha que isso é uma coisa
que a gente faz no carro ou no chuveiro. Eles não entendem. — Ela
bebe um gole. Larga a garrafa. — A gente não tinha dinheiro para
pagar a faculdade, então há dois anos eu fugi de casa. — Ela fala
com naturalidade. Eu a estudo sob a luz da varanda, e embora ela
aparentemente ame maquiagem, é linda sem ela. Parece ter
nascido ao ar livre, provavelmente nos galhos daqueles carvalhos
de contos de fadas, ou ter vindo do mar, tipo uma sereia terrestre,
um pouco úmida, mas não com o rosto pingando como eu. — Fico
aqui o ano todo, como Jared.
— Wanda é seu nome de verdade?
— Quando saí de casa, decidi adotar outro nome. Em
homenagem a Wandinha Addams. — Ela dá um puxão em uma das
tranças. Não diz seu nome verdadeiro.
Pergunto:
— Sua família sabe que você está aqui?
— Sabe. — Mas não sei se acredito nela.
Olho para Jared.
— Por que você veio para cá?
— Eu cresci aqui perto, em uma cidade pequena vizinha de
Jacksonville. No último verão antes de ir para a faculdade, eu tinha
planos de ir para as Filipinas visitar a família do meu pai. Sabe como
é, aprender sobre essa parte da minha cultura, mas aí… — Ele
levanta o braço, o que tem a tatuagem. — Meu amigo morreu.
Suicídio. Ele era meu melhor amigo. Sinceramente, o único que me
conheceu de verdade. E isso virou meu mundo de cabeça para
baixo.
Isso imediatamente me faz pensar na Saz. Embora ainda esteja
aqui neste mundo, parece que ela está em outro lugar muito mais
distante que Ohio.
Jared diz:
— Faz quase três anos, mas eu ainda sinto falta dele. A gente
precisa aproveitar ao máximo, sabe. Lições da vida. Sempre pensei
que iria, sei lá, para Atlanta ou Nova York ou algum lugar maior. Mas
aí fiquei sabendo do emprego aqui e pareceu mais fácil, mais a
minha cara. Não tão longe. Não tão grande e barulhento e
escandaloso.
— Lições da vida — repito.
— É o que digo a mim mesmo.
— E ajuda? — Quero que ele diga Sim, ajuda. O simples fato de
dizer isso afasta toda a tristeza e a raiva para sempre.
— Não muito. — Ele parece repensar. — Talvez às vezes. Um
pouco.
Wandinha coloca o braço sobre os ombros de Jared e fica assim
por um instante.
— E você? — pergunto a Emory. — O que fez você ficar?
Ele olha para a noite como se estivesse procurando pela
resposta.
— Eu poderia dizer que é porque sempre sonhei em ser guia
turístico, e porque sempre fui fascinado por essa ilha. E seria
verdade. — Ele dá de ombros e volta a olhar para mim. — Mas
acima de tudo? É longe o bastante de casa.
Ficamos ali sentados. Bebemos. Me pergunto se eles também
sentem a noite nos enclausurando.
Depois de um tempo, Jared diz, bem baixinho: — Pode ser
angustiante quando percebemos o quanto estamos isolados do
mundo real aqui. Mas nada disso, por mais assustador que seja, se
compara a se perder na própria mente.
E, por algum motivo, isso é o que me dá mais arrepios.

Depois de mais uma cerveja, a chuva já parou, e estou seca e


confortável e aconchegada no sofá da sala de estar da casa que
eles dividem com os demais funcionários. Tem música tocando e
cerca de doze pessoas de várias idades, a maioria por volta dos
vinte e poucos anos. Wandinha está dançando e cantando, e sua
voz parece a da Adele. Ela me levanta e começo a dançar também.
Não conheço a música, mas é bom me movimentar. Um verso diz
algo sobre se sentir sem lar ou sem esperança, ou talvez os dois. E
amo esse verso. Amo mais que qualquer outra letra que já ouvi na
vida.
— É sobre mim — digo a todos e a ninguém. — É exatamente
assim que estou me sentindo.
Alguém me dá mais uma cerveja, e bebo rápido. E me sinto mais
leve e mais livre, como se estivesse largando as últimas quatro
semanas — como quem troca de pele — sob meus pés. Canto com
Wandinha e com a música, e ela e Jared e Emory e eu pulamos e
dançamos e rodopiamos, e me sinto completa e absolutamente livre.
Quando a música acaba, me jogo de volta no sofá e ali está um
garoto com um chumaço bagunçado de cabelo platinado e uma
quantidade exagerada de anéis de caveira. O garoto da barca.
Ele aponta para si mesmo.
— Grady.
Eu aponto para mim mesma.
— Claude.
— Claude. — Ele assente como quem aprova. — É apelido de
quê?
— Claudette. — Não é, claro, mas gosto do som.
Ele descansa o braço no encosto do sofá, e seu cheiro é
inebriante. Não é cheiro de maconha ou incenso, mas de outra
coisa. Pomada para cabelo, talvez. Pinhas. Algo natalino. Ele fala,
mas a música está alta demais e não o ouço. Então Wandinha me
levanta de novo e alguém aumenta ainda mais o volume.
Em determinado momento, Jeremiah Crew aparece. De início,
penso que é uma miragem, mas não, é ele, os braços cruzados,
apoiado no balcão da cozinha, conversando com Jared e mais
alguns que moram ali. Veste calça jeans e uma camiseta escura de
gola V. Descalço. Ele vê que estou observando e não para de falar
enquanto olha para mim.
— Caramba, sua cara — Wandinha grita mais alto que a música.
— Quê?
— Você gosta do Miah. — Ela olha para mim com olhos de gato.
— Eu nem conheço ele.
— Hmm — ela diz.
A música muda, é um ritmo country que não conheço, lento e
meloso. Fico olhando para Miah ali. Ele conversa com as pessoas.
Pega um punhado de salgadinhos e come. Se afasta das pessoas.
Passa pela Wandinha, que está praticamente abrindo um buraco
nele com o olhar. Estende a mão para mim e faz uma reverência
exagerada como se eu fosse da realeza.
— Quer dançar?
Finjo pensar. Olho ao redor como quem avalia as opções.
Finalmente, dou de ombros.
— Pode ser.
Ele me puxa para perto e coloca o outro braço em volta da minha
cintura. Dançamos assim durante um tempo, então olho para cima e
ele está olhando para mim.
— Seu cabelo está mais curto. Tipo, bem curto. Foi por isso que
você tentou se afogar?
— Eu não tentei me afogar. E já estava assim quando você
interrompeu meu nado.
— Estava muito ocupado salvando sua vida para perceber.
— Você não salvou minha vida…
— Quer dizer, não está horrível. — Ele olha para a minha cabeça.
— Vai crescer. Um dia.
— Tá bom.
— Talvez eu até goste mais.
— Ótimo. Obrigada. E obrigada pelo repelente.
— Você estava começando a parecer uma vítima da peste.
— Fazer o quê…
— Também fiquei sabendo que você andou perguntando sobre
mim.
— Só porque achei que precisava esclarecer uma coisa sobre
ontem.
— O fato de você ter me dado seu telefone?
— Não.
— E eu ter devolvido?
— Não. Eu só queria que você soubesse que eu não estava me
afogando e não estava tentando me afogar. Sinto muito se foi o que
pareceu e você achou que tinha que me salvar.
Ele diz:
— Você parecia estar se afogando.
— Bom, eu não estava.
— Tá bom. Que bom para você. E de nada.
— Pelo quê?
— Por salvar sua vida.
— Você não salvou minha vida.
— Meio que salvei, sim.
— Enfim. Era só isso que eu queria dizer.
Por sobre o ombro dele, Wandinha me lança um olhar malicioso e
se afasta. E talvez eu devesse me afastar também, mas não faço
isso. Não quero. É bom sentir as mãos de alguém em mim. Corta a
solidão pela metade.
Então ele diz:
— É, faz sentido.
— O quê?
— Você gosta de conduzir.
— Não gosto, não.
— Você gosta. Tudo bem. Eu te ensino.
— Isso é tão machista.
— Não é, não. Não estou falando de homem e mulher. Às vezes a
gente precisa se soltar e deixar os outros conduzirem por um tempo.
Imagino que talvez isso seja um problema para você.
Covinhas surgem e meu estômago estremece. Digo a ele Não se
anime. São literalmente buracos no rosto dele, só pequenas covas
nos cantos de sua boca que não querem dizer nada.
— Podemos dançar sem falar? — digo.
— Claro.
Ele me puxa mais para perto e minha cabeça encosta em seu
rosto, e por alguns segundos só ouço a música e sinto suas mãos
em minhas costas. Então sinto sua respiração em minha orelha e
ele diz em meu ouvido: — Por que tanta raiva da ilha? Ou é o
mundo inteiro que está te irritando?
Me afasto e olho para ele. Sua boca está séria, mas seus olhos
estão sorrindo para mim como se eu fosse a coisa mais engraçada
que ele já viu.
— Não estou irritada. Estou ótima. Amo a ilha. É incrível aqui.
— Tá bom.
— Estou falando sério. — Para provar, sorrio para ele. Meu
melhor sorriso, que venho aperfeiçoando nas últimas semanas.
— Não acredito em você.
— É verdade. Não consigo pensar em outro lugar onde eu
preferia estar. Ainda que eu não devesse estar aqui agora. Ainda
que eu nunca devesse ter vindo para cá. Ainda que eu devesse
estar em Ohio. Na festa da Kayla Rosenthal, aliás. Bebendo vodca
com a Saz e minhas outras amigas e beijando Wyatt Jones e me
preparando para a viagem da minha vida e indo para casa e
dormindo na cama onde durmo desde que tinha dez anos. Mesmo
que eu nunca tenha pedido por uma cama com dossel, meu pai
achava que era algo que toda garotinha queria, e me fez uma
surpresa muito fofa. Mas isso foi quando ele ainda queria a gente. E
mesmo que agora eu esteja dormindo em uma cama que não é
minha, olhando para a foto de um garoto morto que vai ter doze
anos para sempre. Não importa o que aconteça. Então, se eu te
causei algum problema ontem porque eu estava chateada, bom, eu
sinto muito, mas não estava me afogando. Não literalmente. Eu não
pedi que você me salvasse. Porque eu posso salvar a mim mesma.
Não que eu precise ser salva. Você entendeu o que eu quis dizer.
— É, na verdade não entendi o que nada disso quer dizer.
Meu peito está apertado e eu queria mais uma cerveja para
afogar o barulho na minha cabeça. A música acaba e outra começa
e ele não me solta, então eu fico ali. E quando a segunda música
acaba, antes que ele possa se afastar, pergunto: — Quer ir para
outro lugar?
DIA 3
(PARTE TRÊS)

Dirigimos pela noite na caminhonete antiga preta com as janelas


abertas. Há uma coleção de bolachas-da-praia e conchas no painel.
Uma câmera presa ao console central. Um canivete e algumas
moedas e uma lata de repelente em um dos porta-copos. Uma
garrafa de água no outro, que agora ele me oferece.
Bebo e devolvo a garrafa para ele.
— Você devia beber mais um pouco.
— Não estou bêbada.
Mas bebo assim mesmo, e derramo um pouco na camiseta
quando a caminhonete chacoalha.
Ele diz:
— Então, me conta. Se não estava tentando se afogar e não
estava se afogando, o que você estava fazendo tão longe?
— Não quero falar sobre isso.
— Até parece. Você grita e fala sem parar desde que eu te
conheci.
Quase não respondo. Mas a verdade é que eu quero, sim, falar
sobre isso. E ele está aqui. E está perguntando. E não vai sair
correndo, pelo menos não enquanto estiver dirigindo. Além do mais,
não preciso dizer muita coisa. Ele não me conhece, nem conhece
minha família, então não é como se eu estivesse revelando nossos
segredos.
— São meus pais. Meu pai, na verdade.
O sorriso dele se apaga como a chama de uma vela soprada.
Ainda dá para ver vestígios dele, mas virou fumaça.
— Sei como é. — E neste momento percebo: ele também tem um
histórico com o pai.
— Eles se separaram. Tipo, acabaram de se separar.
— Sinto muito.
— Obrigada. — Então, como uma idiota, começo a chorar.
Baixinho, ele diz:
— Merda.
Em um minuto sinto a caminhonete parar, e ele vem na minha
direção e me envolve em seus braços. Não diz nada, só me deixa
chorar. De início, me solto, principalmente porque não consigo parar.
Meu rosto está encostado em sua camiseta, e um de seus braços
me envolve e o outro acaricia meu cabelo, e isso me faz chorar mais
ainda, tanto que começo a pensar que nunca mais vou conseguir
parar. Com o rosto ainda na camiseta dele, digo: — Desculpa.
Desculpa. — Mas a palavra sai abafada e confusa de tanto que
estou chorando. Então penso: Ah, meu Deus, e se eu nunca mais
parar? E se ainda estivermos sentados aqui em agosto? Porque
essa é a quantidade de lágrimas que tenho dentro de mim.
Mas preciso parar porque não conheço essa pessoa e ele não me
conhece, e as pessoas não gostam que a gente chore ou fale de
coisas que são difíceis ou nos incomodam. Elas gostam que a gente
sorria e diga que está tudo bem, e é por isso que junto todos os
pedaços de mim e colo de volta o suficiente para poder, sentada ali,
soluçando e tremendo, dizer: — Eu estou bem. Sou uma idiota.
Desculpa. Talvez eu tenha bebido mais do que pensava. — E seco o
rosto e fico ali sentada reta como uma tábua, sem tocar nele,
sozinha, como uma garota bem crescidinha.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Porque não vejo uma inundação dessa desde o último furacão.
— Não. Estou bem.
Ele meio que dá um afago na lateral da minha cabeça, e volta a
dirigir, uma mão no volante, a outra na janela, olhos na estrada.
Depois de um instante, pergunta:
— Tudo bem aí?
— Estou bem.
Dou um jeito de manter a cabeça erguida, embora ela esteja
pesando cem quilos, e sorrir para ele para que veja que é verdade.
— Achei que não fossem permitidos veículos na ilha — digo.
— Só a guarda florestal, a pousada e os moradores. Comprei a
caminhonete dos meus amigos Bram e Shirley.
— Você mora aqui?
— Só durante o verão, mas venho desde que tinha treze anos.
— Porque mesmo quando vai embora, você acaba voltando?
Ele olha para mim, as sobrancelhas levantadas.
— Na verdade, sim.
— Jared me disse isso.
Ele assente.
— Achei que talvez tivéssemos conquistado você.
— É, não. Então, por que aqui?
— Era isso ou o reformatório. Eu nem sempre fui o cidadão
exemplar que você está vendo.
Olho para seus pés descalços nos pedais. Para o modo como seu
cotovelo está apoiado na janela, a mão descansando ali,
perfeitamente em casa.
— Você é capaz de falar sério? — As palavras saem antes que eu
consiga me conter.
— Às vezes.
Ele abre um sorriso que brilha na escuridão do carro como um
vaga-lume.
— Não quero voltar para casa ainda — digo.
— E a sua mãe? Ela não vai sentir sua falta?
Minto.
— Não. Ela já está dormindo a essa hora.

Ele me leva em direção a uma praia chamada Little Blackwood.


Passando as dunas, ele senta e gesticula indicando para eu sentar
também.
— O que estamos fazendo? — sussurro porque tem algo de
furtivo e secreto na situação toda.
— Esperando. — Aqui, à noite, sob o luar, a voz dele é suave e
indistinta.
Quero perguntar pelo que estamos esperando, mas a energia
dele é como a da minha mãe. Calma e relaxante e calorosa como
uma fogueira de acampamento. Minha cabeça rodopia um pouco
por causa da cerveja e da noite e dele.
Sentamos e esperamos.
E esperamos.
Já parei de chorar, mas ainda sinto o pranto em meus olhos e em
meu nariz e em todo o corpo, como se as lágrimas fossem sangue
e, agora que elas se foram, eu estivesse vazia.
Finalmente, pergunto:
— O que estamos esperando?
— Tartarugas marinhas. Elas nadam centenas de quilômetros
para dar à luz aqui. Na maioria dos anos, entre maio e agosto, às
vezes setembro, elas voltam para fazer ninho nas mesmas praias
onde nasceram. Elas existem desde a época dos dinossauros. —
Ele fica em silêncio e então volta a falar, sua voz indo e vindo como
as ondas do mar. Indo e vindo. Indo e vindo. — Uma fêmea pode
botar até duzentos ovos. Dois meses depois, se o ninho sobrevive,
os filhotes saem dos ovos e rastejam em direção ao mar. A maioria
não sobrevive.
E agora estou imaginando os filhotinhos de tartaruga, sem mãe
para ajudá-los.
— A gente não pode fazer alguma coisa?
— A gente ajuda como pode, demarcamos e datamos os ninhos,
cobrimos com redes para protegê-los contra coiotes e guaxinins,
mas chega uma hora que temos que deixar a natureza assumir.
Penso no esforço — a mãe lutando para voltar à praia onde
nasceu, para fazer um ninho para seus filhotes, e depois deixando-
os lá à própria sorte.
— Por que ela não fica?
— Ela faz o que pode por eles mas depois precisa ir embora. Não
sei exatamente por quê.
Então ele põe a mão em meu braço, e de repente só consigo
pensar nisso. A mão dele em minha pele. Meu braço inteiro se
aquece e agora o calor se espalha para o outro braço e o restante
do meu corpo.
Então ele tira essa mão que estava em meu braço e passa no
cabelo. Olho para ele e ele olha para mim e pela primeira vez em
semanas quase me sinto bem. Lembro de uma coisa que aprendi na
aula de ciências — sobre o peso da água. Que um litro de água
pesa um quilo. Eu provavelmente chorei pelo menos uns dez litros
na caminhonete do Miah, e fiquei me sentindo mais leve, como se
pudesse flutuar sobre a terra em direção ao céu.
Ele pergunta:
— Então, o que aconteceu com seus pais?
E talvez seja essa noite estranha e mágica ou o fato de sua voz
ter ficado suave ou o lampejo de seu sorriso no escuro ou seus pés
descalços. Por algum motivo, faço uma coisa que não fazia havia
semanas. Abro a boca e falo.
Conto tudo a ele.
E ele ouve.
E ouve.
E enquanto ouve ele olha para mim de vez em quando, e de volta
para o mar. De volta para mim, de volta para o mar. Quando
termino, imediatamente quero reunir todas as palavras que falei e
enfiá-las de volta dentro de mim. É o álcool, digo a mim mesma.
Não beba tanto da próxima vez.
Finalmente ele diz:
— Então, foi simples assim? Quer dizer, foi só isso que ele disse?
Eu te amo, mas tenho que ir embora.
— Foi simples assim.
— Hm.
— Eu sabia que ia ter que ir embora neste verão, mas não assim.
Não com esse tipo de despedida. Eu só… sei lá. Achava que ia ter
mais tempo.
— A gente sempre acha que vai ter mais tempo. Olha só, se serve
de consolo, podia ser pior. Você podia ter um pai ou uma mãe que
mal sabem cuidar de si mesmos e às vezes nem conseguem sair da
cama. E você precisa fazer o próprio bolo de aniversário e, vamos
falar a verdade, você é péssima na cozinha. Então pensa: Talvez se
eu roubar um bolo de aniversário da loja… Mas as lojas não gostam
disso.
— Isso aconteceu de verdade?
— Grandes chances.
— Eu fico pensando que devia ter imaginado. E podia ter sido
uma filha melhor.
— Não conheço seu pai, mas sei um pouquinho sobre pais que
vão embora, e tenho certeza de que não tem nada a ver com você.
— Estou meio que dividida entre o ódio, muito ódio, e a saudade.
Quero que ele conserte tudo e faça com que as coisas melhorem e
faça parecer que nada disso aconteceu. Estou com raiva da minha
mãe por não fazer nada para impedir, e estou com raiva de mim
mesma. Basicamente, estou com raiva. — É a primeira vez que digo
isso em voz alta.
Sinto seu braço encostar no meu, e a sensação faz com que eu
me lembre de que não sou a última pessoa do planeta. Respiro
fundo. Solto. Digo a mim mesma: Você falou o bastante para uma
noite.
— Eu entendo — ele diz. — Lembra quando eu disse que você
me lembrava alguém? Eu estava falando de mim. Fiquei muito
tempo com raiva. Me envolvia em brigas. Odiava qualquer pessoa
que fosse diferente de mim. Achava que era melhor que todo
mundo. Eu era um babaca. Fui pego fumando maconha na escola, e
talvez tenha vendido uns gramas, mas nunca para crianças. Sempre
na faculdade, e o dinheiro era para minha mãe e para comprar
comida para a família. Na minha cabeça, eu era tipo um traficante
Robin Hood. A primeira vez que vim para cá, foi porque o juiz me
propôs uma escolha: passar o verão acampando com um bando de
aspirantes a criminosos ou passar o verão em uma fazenda de
detenção de adolescentes com um bando de aspirantes a
criminosos. Acampar parecia melhor, então descobri um grupo
chamado Outward Bound… já ouviu falar? — Faço que sim com a
cabeça. — E limpei as praias e desobstruí as trilhas, todas essas
merdas que ninguém quer fazer. Cara, eu odiei. Odiei pra caralho.
— Então o que mudou?
— Meu pai foi embora de vez logo que voltei para casa. Acordei
um dia e ele tinha sumido. Sem explicação, pelo menos não uma
que minha mãe quisesse compartilhar com a gente. Ela sempre foi
boa em inventar desculpas por ele ao mesmo tempo que me dizia
que ele era um babaca. Nunca mais o vi, o que sinceramente não é
uma grande perda, mas isso dificultou as coisas para minhas irmãs.
Meu irmão estava servindo no Afeganistão pela primeira vez na
época, mas elas eram tão novas quando tudo aconteceu. Mackenzie
e Lila tinham dez e nove anos, Ally tinha sete, e Channy só tinha
cinco.
Fico sentada ao lado dele, pensando em pais, o dele e o meu.
— Você imaginava que um dia ele iria embora?
Ele balança a cabeça e meio que sorri para mim.
— Sabe, meu pai não gosta muito de conversar. E isso inclui dizer
à esposa quando vai passar uma ou duas noites na farra, e se
despedir da família quando tem planos de ir embora para sempre.
— Simples assim?
— Simples assim.
— O chão sumiu — digo. — Arrancado debaixo dos seus pés.
Ele aperta os olhos olhando para a lua, pensando.
— É. Mas no meu caso eu acho que nunca existiu um chão. —
Ele se acomoda, o braço encostando no meu mais uma vez, e de
repente vejo nós dois de cima, lado a lado nesta praia imensa,
olhando para o oceano imenso. — Sabe, toda minha vida eu sempre
soube que meus pais eram uns merdas. Não consigo imaginar como
deve ser ter uma família perfeita e de repente ela ser destruída.
Olho para ele e ele olha para mim, e naquele momento me sinto
como se ele me conhecesse melhor que qualquer pessoa.
— O luar combina com você, Capitã.
— “Capitã”?
Ele olha para o meu quepe.
— É um quepe de pescador — digo.
— “Pescadora” não tem o mesmo apelo.
— Desistiu de “srta. Blackwood”?
— Capitã é melhor.
Ficamos olhando um para o outro. Pergunto:
— O que você faz aqui? Na ilha?
— Salvo garotas inconsequentes do afogamento.
Ele sorri.
Eu sorrio.
Então esta Claude da ilha, de lábios vermelhos e cabelo curto,
respira fundo e, sem pensar demais, ou de menos, estende a mão e
traça as sardas dos braços dele — uma pitada leve, remanescente
de outro verão, ou talvez novinha em folha, deste.
Ele fica observando meu rosto enquanto faço isso, então pega
minha mão e enlaça os dedos nos meus devagar. Tem outra
tatuagem do lado de dentro de um dos punhos: uma âncora. E no
outro: Joy. Sinto uma pontada porque Joy pode ser uma garota que
ele ama, mas digo a mim mesma Não pense.
Digo:
— Quero te beijar agora. Espero que não seja um problema. —
As mesmas palavras que disse ao Wyatt antes de deixar Ohio.
Os olhos dele começam a dançar e um sorriso demora em seus
lábios.
— Tudo bem.
— Tudo bem?
Ele dá de ombros.
— Quero dizer, sim, por que não? — Sua atitude é de tanto faz,
mas seus olhos estão sorrindo.
Me aproximo e o beijo.
Por um instante tenho medo de que ele não retribua.
Mas de repente seus lábios estão nos meus tanto quanto os meus
estão nos dele, suaves e penetrantes, faíscas por toda parte. Uma
picada no meu tornozelo — um insetinho de nada —, mas eu mal
sinto. Aproximo meu corpo do dele.
Então sua mão está em meu rosto, e gosto de senti-la ali, forte e
quente e me puxando pra perto, não me afastando. Abro a boca, e
sua língua encontra a minha, e sinto seu sabor, doce e perigoso, e
me aproximo mais e ele me puxa mais para perto e estou beijando
sua boca e ele a minha, e esta não é a Claude que eu conheço. É
uma garota de cabelo curto que beija garotos estranhos em praias
estranhas. E ela gosta disso, essa garota. Ela gosta dele. Não está
pensando no que pode acontecer depois. Não está transformando o
garoto em algo que ele não é ou desejando que ele seja o primeiro.
Não está pensando demais, em relação a ele ou a si mesma. Só
está aqui com ele, boca com boca, língua com língua. Deixo ele
pensar que sou uma garota que beija os outros na praia ou onde ela
quiser. Até onde ele sabe, é exatamente quem eu sou. E de repente
minhas mãos correm por todo seu corpo e as mãos dele estão na
minha cintura, e quero que este momento dure para sempre porque
não preciso pensar ou ser a garota que eu sabia que era, que foi
mandada para longe sem poder de decisão.
Mas de repente ele se afasta, e demoro um instante para voltar à
terra, a esta praia. E ele está sorrindo para mim como se eu fosse
uma criança e não a mulher que o enlouqueceu aos beijos durante
os últimos minutos.
— Uau — ele diz.
E penso É. Uau.
— Você está mesmo a fim de mim.
Eu o empurro.
Ele ri.
— Quantos anos você tem mesmo?
— Dezoito.
— Só para garantir.
— Quantos anos você tem?
— Dezoito. Vou fazer dezenove em novembro.
E volto a ser Claude Henry, beijando um cara estranho em uma
praia estranha de jeans e moletom azul-claro, aquele com mancha
de suco de uva na barra, coberta de areia, a pele sardenta e de um
rosa vivo e dolorido causado pelo sol da Geórgia, e picada por toda
parte por insetos invisíveis.
— Os mosquitos da areia apareceram. Estão comendo você viva
— ele diz.
Jeremiah Crew para a caminhonete na entrada e me acompanha
até a porta. O único barulho é dos nossos pés caminhando pela
grama e, em algum lugar à distância, a cantoria das cigarras
subindo e descendo, alta e suave, como um coro.
Subimos na varanda e paramos em frente à porta. As luzes estão
acesas lá dentro, e mariposas batem nas janelas, tentando entrar.
Ele fica ali, com as mãos nos bolsos, olhando para mim.
— Como você chegou até o Dip, afinal?
— Andando.
— Você sabe que pode pegar as bicicletas da ilha, não sabe?
— Na verdade eu não sei andar de bicicleta.
Fico esperando que ele faça um escândalo como todas as
pessoas a quem eu já contei isso, mas ele só diz: — Então acho
que vou ter que te ensinar.
— Vamos ver.
Ele assente de leve, a boca curvada para cima, uma covinha
começando a aparecer. Então olha para as mariposas batendo nas
janelas, no teto da varanda.
— Então a Addy é sua prima?
— Isso.
— O que significa que você é uma Blackwood.
Projeto o queixo para a frente. Dou várias piscadelas.
— Então você andou perguntando sobre mim?
A outra covinha aparece.
— Sua mãe talvez tenha falado algo no dia que vocês chegaram.
— Fui batizada em homenagem a Claudine Blackwood. De
Rosecroft. Mas não sou uma Blackwood. Não sou “vossa senhoria”.
Estou mais para o oposto do que isso significa.
— Mas faz sentido.
— O quê?
— Uma mulher forte. Quer dizer, pelo que ouço por aí, os
Blackwood tinham seus problemas, mas mulheres fracas não era
um deles.
— É o que minha mãe diz. — Penso no retrato de Claudine, feroz
e destemida. — Tudo o que sei é que não me sinto muito forte no
momento.
Por alguns segundos, nossos olhos se mantêm um no outro. Me
pergunto se ele vai me beijar de novo, e por algum motivo isso faz
meu estômago estremecer e minha garganta secar. Tusso.
— Você tem algum sapato?
Ele faz uma expressão confusa e então ri.
— Na verdade não. — Faz uma breve continência. — Boa noite,
Capitã.
— Boa noite.
As cigarras não estão mais cantarolando. Estão zumbindo — tão
forte e tão alto que o ar está pesado e quente. Uma noite de verão
abafada. A luz da varanda lança um brilho sobre a grama em frente
à casa, mas à exceção desse brilho não há nada além das sombras,
como se o mundo inteiro acabasse ali. Ele não me beija de novo,
embora eu queira, talvez exatamente porque quero. Só desce os
degraus e segue a trilha, e fico observando enquanto ele é engolido
pela escuridão.
DIA 3
(PARTE QUATRO)

Tiro os sapatos e fecho a porta da frente com todo cuidado, fingindo


que sou um ladrão e corro o risco de ser pega. Passo direto pela
cozinha, embora esteja com sede, e por Dandelion, que salta do
assento da janela para se esfregar em minhas pernas.
— Sai, Dandy — sussurro.
Ando literalmente na ponta dos pés até o banheiro, e é quando
uma voz vinda do quarto da minha mãe diz: — Já passa da uma.
Congelo.
— Claude. — Ela aparece, de pijama, segurando um livro, o dedo
marcando a página.
— Mãe.
— Eu estava preocupada.
— Desculpa.
— Onde você estava?
— Eu não tinha como ligar ou mandar mensagem, e estava meio
longe.
— Sei que você tem dezoito anos, mas enquanto estivermos sob
o mesmo teto, precisa me avisar aonde vai e que horas vai voltar.
Pode ficar fora a noite toda quando estiver em Columbia, só por
favor não me conte. Mas não gosto nada de você fazer isso aqui.
— Porque posso me envolver em muita confusão?
— Na verdade, sim. Estou pensando especialmente em cobras
venenosas e jacarés.
— Eu só perdi a noção do tempo.
— Então vamos estabelecer algumas regras. Você volta até a
uma, não depois. E me avisa aonde está indo.
— Tá bom.
— Obrigada.
Ficamos em pé no corredor olhando uma para a outra. Nunca
respondi tanto minha mãe na vida, e meu coração está batendo
rápido e forte.
Ela diz em uma voz calma: — Eu me preocupo com você.
— Eu também me preocupo com você.
— Você sabe que estou aqui e que pode conversar comigo. Ainda
sou sua mãe. Encontrei um terapeuta no continente que parece
bom. Pensei em irmos uma vez por semana para você falar com ele.
Você precisa conversar com alguém.
Neste momento, ela parece uma terapeuta, um adulto tentando
argumentar com uma criança irritada. Sua voz tranquila me dá
arrepios. Fico ali completamente parada, mas sinto a tempestade se
formando dentro de mim, rápida e sombria. Cruzo os braços para
mantê-la ali, em meu peito, em meus pulmões, mas sei que ela
consegue ver em meus olhos e sentir no ar à nossa volta.
— Agora você está dizendo que preciso conversar sobre isso?
— Estou.
— Porque há um minuto você disse que eu não podia falar com
ninguém, então não falei. Abandonei minha melhor amiga sem dizer
uma palavra. E estou aqui, isolada nesta ilha que não tem sinal de
celular, e agora você está me dizendo que preciso conversar sobre
isso, agora que finalmente me acostumei a não falar nada. Você
precisa se decidir.
De uma vez, tudo desmorona — seus ombros, seu rosto. Ela
balança a cabeça.
— Eu sei. E sinto muito. Muito mesmo. Eu nunca devia ter
concordado com isso.
Tem mais coisas que eu poderia dizer, mas não digo. Porque, por
mais irritada que esteja, eu amo minha mãe. E ela já está se
sentindo mal. Nós duas ficamos paradas ali, e o único som é o
tique-taque do relógio antigo na parede da sala.
Um tempo depois, ela diz: — Sabe, a tia Claudine nunca teve
filhos, mas quando a sobrinha dela, sua avó, já tinha idade para
visitá-la, Claudine ia até o continente buscá-la e depois ia até lá de
novo para colocá-la no trem. Claudine tinha um problema de
audição, então não ouvia o trem até que estivesse bem pertinho,
mas sentia sua vibração a quilômetros de distância. Parece que ela
ficava lá um tempão depois que o trem já tinha ido embora, até não
sentir mais vibrar.
— O que isso tem a ver comigo?
Ela sorri.
— Eu estou sempre aqui, não importa o que esteja acontecendo
na minha vida, mesmo quando você não está na minha frente ou
quando estou perdida em meus próprios pensamentos ou no museu
ou tentando dormir. Você pode conversar comigo.
E ela me abraça e eu a abraço de volta, mas ainda a sinto ali — a
fenda entre nós.
Fecho a porta do meu quarto.
Me apoio nela.
Ele, penso.
Não Wyatt Jones.
Jeremiah Crew.
Tem alguma coisa nesse cara que não sabe nada de mim a não
ser que estou aqui agora, que meu nome é Claude e que tenho
lábios vermelhos e beijo garotos em praias. Ele. Jeremiah. Eu beijei
ele na praia.
Esse cara que, depois de uma noite, na verdade sabe mais sobre
mim que qualquer pessoa neste momento, mais que Shane Waller
jamais soube em dois meses. Não tenho nada a perder e nada a
provar e não há expectativas quanto a mim, quanto a ele, quanto a
algum dia sermos um nós. Não há expectativa nenhuma.
Eu não vou perder nada. Ou entregar nada. Ou deixar que tirem
nada de mim.
Já fiz tudo isso, já passei por tudo isso. Já tem muito disso
acontecendo. Chega de Claude, venha aqui. Claude, vá para lá;
adeus, Claude, eu nunca mais quero ver você. Agora eu vou
retomar as rédeas da minha vida e eu é que vou decidir o que fazer
e para onde ir e quando e onde e como.
DIA 4

O armazém está lotado de pessoas que vieram acampar


abarrotando o espaço com vozes altas demais e corpos queimados
de sol. Encontro uma cadeira no canto e enquanto espero irem
embora checo as mensagens e as redes sociais. Wyatt rindo,
fazendo esqui aquático no parque estadual Whitewater, nadando na
piscina pública, virando doses na casa de Trent Dugan. Parece
bronzeado e feliz, como alguém em um filme. Penso: Ele vai se
sentir em casa na Califórnia.
Um textão da Mara sobre a empresa do hímen. Alannis, com um
salva-vidas gato. Saz, que nunca tira uma foto de si mesma inteira.
Ela sempre fotografa diferentes partes — cabelo, queixo, ombro,
cotovelo —, a depender de seu humor. Suas fotos são quase
sempre sozinha, todos os pedacinhos da Saz. Mas tem uma recente
de duas testas, uma escura, uma clara, inclinadas e encostadas
uma na outra com o céu como pano de fundo, como se estivessem
compartilhando segredos. A legenda é uma das minhas citações
favoritas: “E tudo, absolutamente tudo, estava ali”. Ray Bradbury,
Licor de dente-de-leão.
Meu coração sobe até a garganta e se acomoda como se ali fosse
seu novo lar. Fui eu que a obriguei a ler Licor de dente-de-leão. Fui
eu que escrevi essa citação no último cartão de aniversário que fiz
para ela e disse que me fazia lembrar de nós duas quando nos
conhecemos, quando éramos forasteiras que não tinham
encontrado seu lugar no mundo.
Levanto a cabeça e as pessoas foram embora. Somos só a Terri e
eu.
Ligo para Saz.
A ligação chama várias vezes. Quando está quase indo para a
caixa postal, ela atende.
— Oi.
— Oi.
Há muito tempo, depois da nossa primeira briga, concordamos
que sempre conversaríamos, independentemente do quanto
estivéssemos com raiva. Nada de silêncio, nada de simplesmente
desaparecer. Ela diz:
— Não posso conversar agora. A Yvonne está aqui. — E ouço a
voz de Yvonne no fundo.
Respondo:
— Tudo bem. Também não posso falar. Uma multidão acabou de
entrar e mal consigo te ouvir. — Falo mais alto do que o necessário.
Terri tira os olhos do livro e faz cara feia para mim.
— Depois conversamos, então. Ou talvez você devesse ligar para
o Wyatt e conversar com ele.
Ela desliga na minha cara. Sem Eu te amo mais que, sem se
despedir.
Fico ali sentada olhando para o celular. Ainda estou olhando
quando chega uma mensagem de — falando no diabo — Wyatt. E aí,
linda, minha família vai fazer rafting na Carolina do Norte e queria te ver antes da
viagem.
Penso em responder. Começo, mas não sei ao certo o que dizer.
Tenho quase certeza de que não vou voltar antes da sua viagem porque fui
enterrada na Ilha dos Abandonados.
Eu queria poder te beijar. Apesar de agora eu só conseguir pensar em beijar
Jeremiah Crew.
Às vezes, à noite, fecho os olhos e imagino que você está na minha cama. Quando
não imagino Jeremiah Crew no seu lugar.
Apago todas porque de que adianta? Vou ficar presa aqui o verão
inteiro e Wyatt Jones provavelmente já vai estar a caminho da
Califórnia quando eu voltar.
Mas não é só isso — tem também a noite passada e Jeremiah
Crew. Tem todas as coisas que contei para ele e ele contou para
mim. Nunca fiz isso com ninguém além da Saz — simplesmente
chegar e dizer: Esta sou eu. Estas são todas as coisas confusas e
nada atraentes que ficam trancadas aqui dentro. Cada pedacinho
complicado, partido e feio. E ele não hesitou em nenhum momento.
Só abriu a boca e me mostrou alguns de seus pedaços confusos
também. E, em vez de fugir, ele me beijou.

Em suas 288 páginas, Os prazeres do sexo contém apenas uma


sobre o tema “virgindade”, que diz que as garotas são menos
propensas a curtir sua primeira vez do que os garotos, e só um terço
de nós tem uma experiência boa. O que quer dizer que a maioria de
nós vai ficar extremamente decepcionada. Mas não se preocupe, o
livro diz — sua primeira vez não precisa ser a mais importante.
Pense nela como um treino, uma mera questão técnica.
Por mais que eu discorde do dr. Alex Comfort quanto à maioria
das coisas, gosto de como ele não coloca muita expectativa na
primeira vez de uma garota. Quando acontecer, pode ser apenas
como atingir um marco. Como tirar a carteira de motorista ou votar.
Não precisa ser mais do que isso.
Caminho de volta até a casa da Addy, coloco os fones de ouvido e
tento imaginar minha primeira vez. Para começo de conversa,
definitivamente não vai ser em um celeiro. Vai ter música, é claro,
talvez francesa. Rolo a biblioteca e por um milagre encontro uma
banda chamada Cœur de Pirate, coisa da Saz. Ela sempre coloca
no meu celular as músicas que quer que eu ouça. Aperto o play e
me perco no dia e na melodia. Fecho os olhos por alguns segundos
e só caminho, sentindo o sol em meu rosto.
Quando uma buzina ressoa atrás de mim, quase caio para fora da
estrada. Uma caminhonete preta empoeirada para ao meu lado, em
ponto morto. Jeremiah Crew está ao volante, um braço
descansando na janela aberta. Tiro os fones.
— É o seguinte — ele diz. — Não quero que você fique muito
louca por mim, porque só vou ficar aqui por mais algumas semanas.
— Vou tentar.
— É sério. Quatro semanas. Vinte e oito dias. É mais do que o
suficiente.
— Só vou ficar trinta e cinco dias aqui, e três já foram. Vou ficar
bem — respondo.
— Então não preciso me preocupar com você se apaixonando por
mim e ficando com o coração partido?
— Tenho quase certeza de que vou ficar bem.
— Preciso que você tenha, tipo, cento e cinquenta por cento de
certeza. Quero dizer… — Ele sorri, com covinhas e tudo, um sorriso
largo. Aponta para si mesmo como quem diz Está vendo o que vai
ter que encarar?
— Eu diria que tenho pelo menos duzentos e cinquenta por cento
de certeza de que não vou me apaixonar por você.
— Nesse caso, entre.

Passamos pela mansão Rosecroft, ou pelo que restou da


construção. Miah para a caminhonete em uma área coberta de
grama à beira das árvores. Pega algumas coisas — repelente, uma
lanterna, uma máquina fotográfica que parece profissional, com uma
alça marrom desbotada, que pendura em um dos ombros. Sai, bate
a porta, então também saio, bato a porta. De repente ele está
parado à minha frente e é o mais próximo que estivemos um do
outro desde a noite passada, mas em vez de me beijar, ele aponta o
repelente para minhas pernas e meus braços e começa a borrifar.
— Sério, Capitã. Tem alguma natureza no lugar de onde você
vem?
— Não igual a essa.
Ele borrifa até acabar. Então joga a lata dentro da caminhonete e
diz:
— Vamos lá explorar.
Entro atrás dele na floresta. A Claude sensata, criada por dois
pais sensatos, diz Você nem conhece esse garoto. Não entre na
floresta com ele. É exatamente assim que filmes de terror começam.
Uma garota sozinha na floresta com um estranho. Nunca mais é
vista.
Mas a Claude que ficou sentada na praia ontem à noite com
Jeremiah Crew, que derramou sua alma e galões de lágrimas,
segue em frente.
Fico esperando que ele fale sobre a conversa, sobre os beijos,
mas ele não fala. Só seguimos pela vegetação rasteira e tento não
pensar em carrapatos e cobras e todas as outras coisas que vivem
aqui.
Golpeio galhos de árvores e teias de aranha e mutucas. Passo
por cima de heras venenosas e por baixo de trepadeiras. Como uma
criança no carro, quero perguntar Falta muito? Mas não pergunto.
Ele não está falando, então também não falo.
Já estamos caminhando há uns dez minutos quando de repente
saímos da floresta. Pisco como uma toupeira sob o brilho do sol e
do céu. Há cavalos pastando e, além deles, a mansão Rosecroft.
Descendo a rua atrás das ruínas, vejo a caminhonete.
— A gente se perdeu?
— Não.
— Então o que foi isso? — Aponto para as árvores. Para a
caminhonete. Para as árvores de novo. — Andamos em círculo.
— Eu disse vamos lá explorar a natureza.
— Você está tirando uma com a minha cara?
E de repente suas mãos estão na minha cintura, no meu quadril,
os dedos bem abertos e fortes, tão quentes sobre a minha camiseta
que o calor chega até a minha pele. Ele me puxa para perto e diz:
— Vou beijar você agora porque passei a manhã inteira pensando
nisso. Estou falando antes porque vai ser um beijo foda, então se
prepare. Sei que você prometeu não se apaixonar, mas eu vou
entender se isso mudar depois desse beijo. Vou esperar sua
permissão.
Para evitar dizer o quanto ele é convencido, digo:
— Não estou preocupada.
— Isso é um sim?
— É um sim. Mas nada vai mudar.
— Veremos.
E ele me beija. Seus lábios são macios, mas firmes, e me jogo
neles. Ali, sob o sol, meu cérebro fica leve, minha pele fica leve, eu
fico leve. Não peso nada. Então coloco as mãos sob sua camiseta,
subindo por suas costas, pelos músculos firmes e, com muita
delicadeza, passo as unhas por sua pele. Ele não é o único no
controle aqui. Sinto seu corpo se aproximar mais do meu, então me
afasto.
Ele sorri para mim. Eu sorrio para ele.
— Ainda tem duzentos e cinquenta por centro de certeza, Capitã?
— Sua voz sai rouca.
— Podemos arredondar para trezentos.
Ando em direção à placa de PROIBIDA A ENTRADA, fingindo que não
estou levemente tonta, levemente sem ar. Subo os degraus e ele
passa por mim, indicando para darmos a volta pela lateral do que
costumava ser a casa. Ele aponta a câmera para as ruínas e tira
algumas fotos. Estuda a tela. Tira mais uma foto. Estuda a tela mais
uma vez. Eu o alcanço, mas não consigo evitar a sensação de que
estou me intrometendo em alguma coisa — em um diálogo entre ele
e a câmera.
Finjo olhar ao redor, mas na verdade estou olhando para ele. Ele
é tão diferente do Wyatt. Parece ter nascido ao ar livre, talvez na
praia, onde quer que o sol brilhe mais forte. Mas, mais do que isso,
ele é direto, sincero e totalmente ele mesmo. Meus lábios estão
queimando, querendo mais.
— Podemos entrar lá — ele diz, protegendo os olhos com as
mãos. Antes que eu possa perguntar Entrar onde?, ele começa a
abrir caminho pela grama alta até uma escadaria de pedra que leva
para debaixo da terra. No fim da escadaria há uma porta torta que
se abre com facilidade. E agora estamos no porão de Rosecroft,
inteiro e ainda de pé, mais fresco que o lado de fora e iluminado
apenas pela luz que vem das janelas estreitas no nível do chão.
Vou atrás dele, me esforçando para enxergar na escuridão,
tentando abrir caminho por esse labirinto escuro como breu,
enquanto ele me guia, descalço, sem se importar com onde pisa.
Ele diz:
— Então, já que você é uma Blackwood, achei que ia gostar de
ver o palácio ancestral.
— Eu não sou uma Blackwood. Isso — agito as mãos ao meu
redor — não sou eu. Eu moro em Mary Grove, Ohio, uma
cidadezinha de fábricas e fazendas. Meu pai trabalha na faculdade e
minha mãe escreve livros e eu cuido de crianças para ganhar
dinheiro para comprar hidratante labial.
— Bom, então pense que é um memorial em ruínas de uma
família disfuncional.
— Agora tem mais a ver comigo.
E ele me conta que o único filho homem da família Blackwood,
Samuel Jr., filho mais velho do grande magnata das ferrovias, se
mudou com a esposa, Tillie, da casa da família na Virgínia para a
que o pai construiu para ele, a mansão Rosecroft. Que tiveram duas
filhas, minha bisavó e Claudine. Que Tillie era parteira e fazia o
parto da maioria dos bebês da ilha. Que ela engravidou mais uma
vez, mas houve uma epidemia de gripe, e ela ficou de cama e
perdeu o bebê.
Tillie, penso. Esse era o nome dela. Tillie Blackwood. Imagino
Tillie percorrendo a ilha fazendo o parto de bebês, e a ideia que
tenho de Tillie Blackwood — assim como a ideia que tinha de sua
filha — muda um pouco. Saem o divã e os sais de banho, entra uma
mulher de fibra.
A acústica abafada causada pelo teto baixo confere à voz dele um
tom apocalíptico.
— Certa manhã, pouco tempo depois, ela se matou com um tiro
no coração no closet do quarto.
— Onde ela conseguiu a arma?
— Era do marido. Ele se sentiu tão culpado por não estar lá
quando ela morreu que a enterrou no quintal para que pudesse ver
o túmulo da casa.
Miah para de andar e estamos no lugar que deve ser o centro do
porão, sem janelas, sem luz a não ser a que vem da lanterna, mas
vejo que estamos rodeados de relíquias que abrangem décadas.
Um baú, uma cadeira de balanço, um guarda-chuva velho, ripas de
madeira, uma pilha de tijolos, uma chapeleira torta. Por trás de cada
objeto há uma história, provavelmente esquecida há muito tempo, e
de repente quero saber tudo. De quem era o baú, para onde foi
levado? Quem carregava esse guarda-chuva? Quem sentava nessa
cadeira de balanço? Minha mente está acelerada, abarrotada de
imagens e cenas.
— Dizem que uma noite ele a desenterrou e cortou um pedaço de
sua trança e a enterrou de novo. E que carregou a trança pelo resto
da vida. — À luz fraca, ele me analisa. — É óbvio que ela tinha mais
cabelo que você, Capitã. — Miah estende a mão e passa os dedos
nas pontas do meu cabelo e, simples assim, esqueço Tillie e
Claudine.
Me beija de novo, penso.
Por um instante, acredito que ele vai me beijar. Então ele tira a
mão e me leva adiante, passando por outro baú, um guarda-roupa
antigo, duas cadeirinhas de criança. A luz da lanterna saltita à nossa
frente, iluminando cantos escuros e mais tesouros enterrados.
Todas as coisas abandonadas aqui, como se os donos tivessem
fugido apressados.
— Anos depois, sua tia-bisavó transferiu a mãe para o cemitério
da família, para que ela descansasse ao lado de Sam.
E agora chegamos ao fim do porão, e a luz volta a entrar das
janelas estreitas ao nível do chão. E ali, ao lado da chaminé, está
um carrinho de bebê bambo e antiquado. A cobertura está intacta,
com exceção de um pequeno rasgo no tecido, mas a parte onde
deveria estar o cesto está vazia, então na verdade é só um
esqueleto.
Ele está me contando sobre o fantasma da Tillie, que ama joias, e
que ele achava que todas as histórias de fantasma eram mentira até
o segundo verão que passou aqui, quando a campainha da casa
tocou sem parar entre as duas e as três da manhã, e não era
ninguém.
— Se ainda não ouviu, você vai ouvir: as portas de tela. Eu chamo
de a batida da ilha. E que batidas altas. Eu volto para a cama, e
quando começo a pegar no sono, pá.
Tento me concentrar nas palavras, mas assim que ele as
pronuncia, elas mudam para tocar beijar sentir pele nua.
Ele me conta sobre a pulseira que a irmã fez para ele. Levanta a
mão para me mostrar, um cordão preto trançado que dá duas voltas
em seu pulso. As palavras se transformam em Está vendo estas
mãos? Quero tocar todo seu corpo com elas.
Então me conta que, quando acordou na manhã seguinte à
história da campainha, a pulseira tinha sumido. Que a encontrou na
outra mesinha de cabeceira, que fica do outro lado da cama. Só
estou meio que ouvindo, então ele diz:
— Agora, tem uma coisa que você não sabe sobre mim, Capitã.
Eu nunca me mexo enquanto durmo. Tipo, o outro lado da cama fica
sempre arrumado, porque eu não vou até lá.
Não ouço a próxima coisa que ele diz porque agora estou
pensando nele deitado na cama, provavelmente sem roupa, sozinho
do seu lado da cama, o outro ainda arrumado. O que ele está
tentando me dizer? Que não tem namorada? Que não está
passando a noite com ninguém no momento? É isso que ele quer
que eu saiba?
Controle sua cara, Claudine, digo a mim mesma. E fico ali ouvindo
e assentindo e pedindo a Deus que ele não seja capaz de ler meus
pensamentos.
— Então minha pulseira estava na outra mesa de cabeceira.
Onde eu não a deixei. — A outra mesa de cabeceira do outro lado
da cama onde ninguém está dormindo. — Dois meses depois,
estava jantando com o Bram e a Shirley no lado norte, e Bram disse
alguma coisa sobre um fantasma e uma porta de tela batendo, e eu
fiquei, tipo, espera aí.
E ele olha para cima, e eu olho para cima. Lá, pendurado na
parede, está o retrato desbotado de uma jovem em uma moldura
oval grande. A mulher é loira e adorável, vestida de azul, sorrindo
largamente. Não está usando joia nenhuma. O único adorno é uma
coroa de flores em seu cabelo. Logo acima do coração, há um
pequeno rasgo na tela.
E de repente estou completamente de volta a este porão.
— Qual é o seu nome completo, Capitã?
É um esforço tirar os olhos dela.
— Claudine Llewelyn Henry.
Seus olhos estão sorrindo e ele olha fundo nos meus.
— Claudine Llewelyn Henry. — O jeito como ele diz. Meu nome
em seus lábios. Então ele se vira e diz para o retrato: — Claudine
Llewelyn Henry, esta é Tillie Donaldson Blackwood.
Tillie sorri para mim.
— Eles encontraram o retrato assim, com um rasgo na tela.
Porque supostamente não foi o tiro que a matou. Foi o coração
partido.
— Por ter perdido o bebê?
— Provavelmente. Além de ter perdido o irmão em um acidente
de carro e a mãe para a gripe, tudo no mesmo mês.
— Como você sabe de tudo isso?
— Minha amiga Shirley. A avó dela, Beatrice, era a contadora de
histórias da ilha.
Tenho a sensação de que ficamos um bom tempo ali. Algo em
mim quer ficar, porque algo em mim se identifica com as ruínas e os
fantasmas, com Claudine, que assombrou este lugar até morrer, e
com Tillie e seu coração partido. Principalmente com Tillie e seu
coração partido, e como sua vida mudou em um instante — não
uma, mas três vezes — antes que decidisse dar um fim a ela.
Viro ao ouvir um barulho de arranhado e observo enquanto Miah
grava nossas iniciais no tijolo. Não JC ama CH ou vice-versa, mas
ali, lado a lado. Gosto dessa quase-permanência — do fato de que
nossos nomes vão ficar aqui enquanto aquele tijolo existir. Como
uma cápsula do tempo. Não importa aonde eu vá ou o que
aconteça, nós estivemos aqui.

Estamos de volta à porta do porão, por onde entramos, e ele puxa


o trinco mas a porta não abre. Digo:
— Não seria engraçado se Tillie trancasse a gente aqui?
— Hilário.
Ele passa os dedos pelo caixilho da porta e puxa, mas a porta não
se mexe. Fico olhando enquanto ele insiste, e começo a perceber
que Ah, inferno, talvez a gente esteja preso aqui pra valer, no fundo
das entranhas da mansão Rosecroft. Com um fantasma. Um arrepio
percorre meu corpo.
Então Miah vira para mim e diz:
— Estamos presos.
— Você não está fazendo isso só pra me assustar? Ou, sei lá, pra
dar em cima de mim?
— Não sou tão bom de lábia assim.
E parte de mim pensa Que pena.
— Está trancada por fora. Tenta você.
Dou um puxão na porta e ela não cede.
— Bem-vinda à ilha, Capitã — ele diz, e nesse momento eu penso
Talvez existam lugares piores por aí.
Fico esperando que ele me agarre bem ali, mas não, ele começa
a vasculhar as relíquias que nos rodeiam, claramente procurando
alguma coisa.
— O que você está fazendo?
— Tentando achar um pé de cabra ou uma faca ou alguma coisa
que a gente possa usar para forçar a porta.
Ajudo Miah a procurar e, enquanto procuro, fico pensando que
todas essas coisas descartadas, esquecidas — esse guarda-chuva,
esse pente, esse vidro vazio de perfume, esse chapéu-coco — um
dia foram escolhidas e trazidas para esta casa e usadas pelas
pessoas que viveram aqui.
De repente ouvimos uma voz lá de cima:
— Olá?
Me assusto como se fosse a própria Tillie de volta da morte.
Miah coloca a mão no meu braço como quem diz Pronto, pronto,
passou. Mas o calor de sua mão tem o efeito oposto em minha pele.
— Jeremiah? É melhor que não seja você.
Ele grita:
— Sou eu. Estamos no porão.
— O que você está fazendo no porão?
— Pegando uma garota muito gata que encontrei aqui embaixo.
Mas agora você nos trancou aqui. — E ele me solta para poder ir
em direção à voz.
— Você devia ter me procurado e dito que ia vir.
— Eu estava muito ocupado dando uns beijos.
— Não estou te ouvindo.
— Onde você está?
— Aqui em cima.
E o diálogo continua, até que ele diz:
— De onde surgiu isso?
Subimos uma escada estreita e escura — não a escada que
descemos para entrar aqui, mas a que leva para a casa. Teias de
aranha roçam em meu pescoço e meus ombros, e eu as afasto. No
topo da escada está uma mulher afro-americana alta e larga que
deve ser Shirley. Atrás dela, o céu é de um azul reluzente e a casa
está mais uma vez em ruínas. Subimos e saímos no primeiro andar,
em um corredor com paredes e sem teto.
— Jeremiah Crew. — A mulher está com as mãos no quadril e
balançando a cabeça.
Mas dá para perceber que o ama.

Shirley e o marido, Bram, nasceram na ilha, mas agora dividem o


tempo entre a ilha e o oeste, liderando grupos da Outward Bound.
Eles foram os guias de Miah quando ele estava no programa e são
os pais que ele gostaria de ter, os que se recusaram a desistir dele
quando todo mundo já tinha desistido.
Ficamos no sol quente. Uma caminhonete branca da guarda
florestal vem devagar pela entrada da mansão, lotada de hóspedes
da pousada. Shirley diz para mim:
— Eu conheço esse garoto desde que ele tinha treze anos.
Agradeça por não o conhecer naquela época. Posso culpar Miah por
todos os meus cabelos brancos. — Mas ela ri.
Ele olha para mim como se estivesse envergonhado, levantando
as mãos como quem diz É verdade.
— Posso confiar em você nessas ruínas? — ela pergunta para
ele.
— Provavelmente não.
— Venham jantar com a gente uma noite dessas. Tenho certeza
de que Bram ia adorar te ver.
Enquanto eles conversam, uma leve sensação crepitante em meu
peito me faz querer sair correndo até chegar ao outro lado do muro
que venho construindo desde o início do verão. Como se o fato de
essas pessoas o amarem de algum jeito me deixasse ainda mais
sozinha no mundo, como se o amor que sentem por ele tivesse
alguma coisa a ver comigo.

Ele me leva até a casa da Addy e mais uma vez me acompanha


até a porta. Digo:
— Espero que você não fique muito louco por mim. Vou embora
em algumas semanas e detestaria partir seu coração.
Ele olha para mim, as sobrancelhas levantadas.
— Tenho quase certeza de que estou disposto a correr esse risco.
Espero que ele me beije. Como ele não me beija, me aproximo,
tão perto que quase nos tocamos, e sinto sua respiração em meu
rosto. Um calor emana de nós dois enquanto ele coloca as mãos em
meu rosto, enquanto olha dentro dos meus olhos. Enquanto uma
expressão estranha toma conta dele. Enquanto ele sussurra:
— Não se mexa.
Com uma mão, ele vira minha cabeça para o lado, e sinto uma
fisgada aguda terrível na lateral do pescoço.
Pulo para trás e minhas mãos conferem se estou sangrando.
— O que foi isso?
— Eu salvando sua vida mais uma vez. — E ele levanta a mão
para que eu possa ver na luz: um carrapato. — Sapato, por favor.
— Quê?
— Me dê seu sapato.
Tiro um pé, dou a ele.
Ele coloca o carrapato na varanda e esmaga com a minha
sandália.
— Eu faria um exame completo depois de entrar, só para garantir
que esse é o único.
Então ele sai andando despreocupado, sem beijo de despedida,
sem falar de novas aventuras ou de quando pode me encontrar de
novo.

Tomo o banho mais longo do mundo e vasculho meu corpo inteiro


procurando por carrapatos. Apesar de não encontrar mais nenhum,
sinto que rastejam pela minha pele.
No quarto, abro um dos cadernos que guardam meu romance.
Folheio, lendo passagens e páginas aleatórias. Algumas são boas e
outras ruins, e a maioria está em algum lugar intermediário, mas
tudo parece exagerado e prolixo e nada parece verdadeiro. Acima
de tudo, parece antigo, como se tivesse sido escrito por outra
pessoa em outra vida. Uma pessoa que julgava conhecer a vida e o
amor e obviamente não conhecia.
Fecho o caderno com força e enfio o romance em uma gaveta
onde não tenha que olhar para ele. Então vasculho a casa atrás de
um caderno em branco. Encontro um antigo no escritório, em uma
prateleira: páginas amareladas, capa azul gasta. Sento à
escrivaninha e escrevo — não sobre Claudine, mas sobre Tillie
Blackwood, que morreu cedo demais, e o homem que a amava. Que
ela estava aqui, e de repente já não estava.
Um tempo depois, ouço a porta da frente abrir e fechar e a voz da
minha mãe me chamando. A porta de tela bate atrás dela, e é a
batida da ilha, e sei disso porque talvez não esteja me sentindo tão
estranha aqui afinal.
DIA 5

Na manhã seguinte, acordo mais cedo que o normal. Depois que


minha mãe sai para ir ao museu, tento arrumar o cabelo para que
fique mais Jean Seberg e menos duende de Natal, e passo o batom
vermelho. Lá fora, o dia está tão claro que quase cega, alguns
sopros de nuvens abraçam o horizonte. Passeio pelas ruas de areia,
pelas ruínas e pela praia, mas nem sinal de Jeremiah Crew. Passo o
dia nadando e me bronzeando e lendo um livro, e tentando não me
decepcionar.

Depois de me vestir para o jantar, digo à minha mãe o quanto ela


está bonita e vou com ela até a pousada. Ela olha para nossos
braços enlaçados e ergue uma sobrancelha, então me conta sobre o
pico Barba-Negra, na ponta nordeste da ilha, onde o famoso pirata
Edward Teach — mais conhecido como Barba-Negra —
supostamente enterrou seu tesouro. Escuto e faço perguntas e,
enquanto subimos os degraus da varanda larga, ela diz: —
Obrigada — e aperta meu braço.
— Pelo quê?
— Você sabe pelo quê. Obrigada por tentar.
Me abaixo e tiro um broto de cacto do sapato, detestando que ela
sinta necessidade de me agradecer, de tanto que eu tenho sido
egoísta.
— De nada — resmungo para a madeira da varanda.
Durante os coquetéis, quando ela entra em uma discussão com o
fotógrafo de Nashville, peço licença e vou até a biblioteca, onde
encontro um livro antigo sobre tartarugas marinhas. Fico lendo até a
hora do jantar, me esforçando para me concentrar nas palavras e
não na lembrança dos lábios de Miah nos meus naquela praia duas
noites atrás. Eis o que descubro:

As maiores tartarugas podem pesar até 170 quilos.


A cada dois a três anos, elas voltam à mesma praia onde
nasceram para fazer ninho.
Só um a cada quatro mil filhotes chega à idade adulta.
Tartarugas precisam de ar, embora possam ficar embaixo da
água durante horas. Mas elas ficam presas em redes de pesca
com muita frequência e, enquanto lutam para se libertar, podem
gastar oxigênio rápido e perder a batalha.
Existe uma coisa chamada falsa desova, quando uma tartaruga
vem até a praia para fazer o ninho mas, por algum motivo, não
bota ovos antes de voltar ao mar.
Uma tartaruga produz vários filhotes, que ela deixa à própria
sorte — ao contrário, por exemplo, de uma égua, que só tem
um potro e o protege até que ele cresça e esteja pronto para
ficar sozinho ou até ela engravidar de novo. Mas são as
tartarugas — não os cavalos — que estão por aí desde a época
dos dinossauros.

Então, está óbvio que saber se defender sozinho traz alguma


vantagem. Igual a mim, penso. E, de algum jeito estranho, isso me
dá esperança.

Depois da refeição, mamãe e eu nos sentamos na varanda. Jogo


o corpo para trás na cadeira e olho para a lua, os olhos pesados.
— Você está quieta desde que chegamos aqui. — E de início
acho que ela quer dizer desde que chegamos à varanda, mas não,
ela quer dizer desde que chegamos à ilha.
— Você também.
Ela se inclina para a frente, cruzando as pernas, um pé
balançando.
— Então eu te conto uma coisa se você me contar outra.
— Você primeiro.
— Tá bom. — Ela respira fundo. Solta. — Sabe, eu não esperava
encontrar muitas fontes primárias sobre tia Claudine, mas ela deixou
um diário e caixas de cartas. Pelo que pude perceber, ela
documentava tudo. A mãe dela é que parece ser um enigma.
— Como assim?
— Até agora, não encontrei nada de Tillie Blackwood. Nenhum
diário, nenhuma carta, nem mesmo uma lista de compras. Mas tem
muita coisa dos outros Blackwood. Muita mesmo. E estou achando
que tem um livro aí. Claudine. A mãe. Todas as mulheres que
viveram e amaram e morreram nesta ilha.
— Um romance histórico ou não ficção? Você sabe qual vai ser a
história?
— Ainda não. Mas vou descobrir. Afinal, a escrita pode nos salvar.
E não seria nada mal ser salva agora.
Sua voz é clara e forte, a voz da Mulher-Maravilha, mas algo
hesita em seu olhar. Ela diz isso há anos — que quando a vida está
de cabeça para baixo, a escrita pode nos salvar.
— Você vai descobrir — repito, e é basicamente isso que tenho
feito quando conversamos: ecoo as coisas que ela diz porque é
mais fácil do que dizer como estou me sentindo de verdade.
Ela pergunta:
— Como anda a sua escrita? Está trabalhando em alguma coisa?
— Na verdade, não.
Escrevi algumas coisas sobre Tillie e Claudine, mas apenas
histórias interessantes, coisas de que quero me lembrar.
— Tudo bem. — Ela se ajeita na cadeira. — O que mais posso te
contar? — Ela pensa. — O fotógrafo me convidou para um drinque.
— Aquele com quem você estava conversando?
— Aquele.
Babaca.
— O que você disse?
— Obrigada, mas não. É cedo demais. Não estou pronta. Talvez
nunca esteja. Mas foi bom ter sido convidada.
Há momentos, e este é um deles, em que consigo ver sua dor. Ela
a carrega não só no coração, mas nos braços e nos ombros e no
rosto. Penso no marido de Tillie enterrando-a no quintal e cortando
uma mecha de seu cabelo e me pergunto se meus pais um dia se
amaram ou acreditaram se amar assim. Por que algumas histórias
de amor têm data de validade e outras duram para sempre? E de
repente me sinto mal por ser só um eco e por conversar com minha
mãe por detrás do muro em meu peito.
Ela diz:
— Agora você. Me conte alguma coisa que eu não saiba.
Tento afastar a imagem da minha mãe com o fotógrafo, aquele
homem estranho e mais novo, que não é meu pai. Quero perguntar
se ela e meu pai têm conversado. Se estão tentando consertar o
casamento ou se acabou de vez, se as coisas vão ser assim daqui
em diante.
Mas em vez disso digo:
— Não sei se Saz e eu vamos ser amigas para sempre. Sempre
pensei que sim, mas estamos nos afastando uma da outra. Estou
sentindo. Não só por eu estar aqui. Ela também está seguindo em
frente.
— Vocês estão passando por uma fase — minha mãe diz. —
Seguir em frente pode ser péssimo, mas é normal. Dores do
crescimento. Depois que passarem por isso, vocês vão se encontrar
de novo, mais fortes do que nunca. E se está preocupada com isso,
diga a ela que está com saudades.
Sinto o que ela não está dizendo: Como estou de você.

De repente sinto uma batida em meu braço e Jared está de pé ao


meu lado. Ele me entrega um bilhete. Meu primeiro pensamento é
Por que Jared está me entregando um bilhete? Mas então ele abre
o maior sorriso e dá uma piscadinha tão óbvia que daria para
enxergar de Marte.
— Obrigada — digo.
— Ah, de nada. — Ele se afasta ainda sorrindo. Viro o bilhete em
minha mão.
— De quem é? — minha mãe pergunta, a voz já sonolenta depois
de toda a comida e do dia.
— Não sei.
Mas eu sei. Espero que saiba.
Me encontre em frente à sua casa às 22h30.

— Tem um garoto de que não estou sabendo?


Sim, penso.
— Talvez — respondo.
DIA 5
(PARTE DOIS)

A caminhonete sacode descendo a estrada e dando a volta na


pousada e, quando estamos embaixo da cobertura de carvalhos, ele
apaga os faróis e segue em frente.
Pego o cinto.
— Quando você entra em uma caminhonete e não coloca o cinto,
Capitã, aí você sabe que é da ilha.
— Talvez eu não queira ser da ilha. — Mas solto o cinto. — Você
podia acender os faróis de novo para a gente não bater e morrer.
— No primeiro verão que passei aqui, a Shirley não me deu uma
lanterna. Ela disse que eu podia enxergar no escuro. Eu só
precisava ter paciência e deixar que meus olhos se acostumassem.
Acha que consegue fazer isso, Capitã? Ter paciência? — Ele olha
para mim, com um meio sorriso que me diz que ele não está falando
só de enxergar no escuro.
Meu estômago estremece. Aquele frio na barriga. Também dou
um meio sorriso para ele.
— Talvez.
O ar faísca a nosso redor. E assim desaparecemos na ilha.
Qualquer um que nos visse pensaria estar vendo fantasmas. Agora
estamos aqui; agora não estamos. De início, mal consigo ver o
branco da estrada. Ela aparece à nossa frente um metro de cada
vez. As árvores são muros pretos em ambos os lados, e quero pedir
a ele que acenda os faróis antes que a gente atropele alguma coisa
ou alguém. Penso: Não ligo para o que a Shirley diz. Meus olhos
nunca vão se acostumar.
Mas aos poucos a estrada vai ficando mais branca, as árvores um
pouco mais tridimensionais. Pitadas de luz iluminam a estrada e a
floresta.
— Vaga-lumes — ele diz.
E de repente nosso caminho é iluminado por eles. Estão nas
árvores e na estrada e na vegetação. Estrelinhas piscando e
clareando o caminho para nós. Perco o fôlego. Tenho a forte
sensação de que este é um daqueles momentos de que nos
lembraremos para sempre, até a morte. Olho para a mão dele, larga
e bronzeada, sobre o volante, para seu pé descalço no acelerador.
É um passeio selvagem pela escuridão, os vaga-lumes piscando
como luzes encantadas. Tento me agarrar a esse momento porque
não quero que ele acabe. Quero ficar para sempre dirigindo pela
noite com Jeremiah Crew.
Não faço a menor ideia se estamos indo em direção ao norte ou
ao sul, mas não me importo. Não preciso saber. Fecho os olhos e
sinto a brisa quente no rosto e nos braços. Quero jogar os braços
para o alto como se estivesse em uma montanha-russa de tão livre
que me sinto. Em vez disso, estendo um braço pela janela, como se
pudesse pegar a noite, que cantarola e pisca e sibila, e nós fazemos
parte dela.
De repente diminuímos a velocidade e abro os olhos. Miah para e
saímos, as portas batendo uma depois da outra, um som que
parece se espalhar por quilômetros. Enquanto ele procura alguma
coisa na caçamba, espero, totalmente presente aqui nesta estrada,
as árvores atrás de mim, a praia à minha frente. Não importa o que
aconteça, estou aqui agora. Há um brilho no céu atrás das dunas
que imagino ser a lua.
Miah vem até onde eu estou, com uma mochila e um cobertor,
como quem espera ficar fora por um bom tempo. Tento não me
concentrar demais no cobertor e na imagem que faço de Miah me
deitando nele. Então olho para ele com mais atenção e ele está com
uma bermuda supercurta, do tipo que meus pais usavam na
educação física nos anos 1980.
— O que é isso?
Ele acende a lanterna para iluminá-la e vejo que a cor é um
verde-escuro camuflado.
— Bermuda oficial do exército dos Estados Unidos. Militar.
Basicamente, só quem é muito fodão tem uma dessas.
— E você.
Dou um sorriso.
— Incluindo eu. — Ele sorri. — Minha bermuda de trabalho. É
melhor para subir em árvores. Melhor para desobstruir trilhas,
principalmente neste calor. Mais fácil de tirar quando quero nadar
pelado. — E ele baixa o olhar e o mantém em meus lábios, o que
faz meu coração acelerar. Seus olhos encontram os meus
novamente. — Vamos.
Sim, vamos. Vamos agora mesmo. Vamos voltar para essa
caminhonete para você beijar meu corpo todo, ou então vamos para
a praia esticar esse cobertor sobre a areia… Mas ele já está
andando e, que surpresa, estou começando a gostar da bermuda.
Abrimos caminho em meio às dunas na escuridão. Quando
chegamos a uma poça de água inundando o caminho, preenchendo
todo o espaço entre o mato alto de ambos os lados, Miah diz: — Só
uma aguinha que ficou da tempestade. Sobe aqui.
Ele vira de costas.
— Quê?
— Vamos, Capitã. Sobe.
— Vou quebrar suas costas.
— Não vai, não.
Então levanto o vestido até o meio da coxa e subo. Quase caímos
porque uma das minhas pernas está balançando de um lado e a
outra está agarrada a ele, e praticamente o estrangulo com o braço
esquerdo enquanto o direito se agarra no ar. Faço uma oração em
silêncio: Por favor, que eu não quebre as costas dele.
Finalmente consigo ficar firme, e ele engancha os braços nas
minhas pernas. E atravessa a água, que mal alcança meus pés. Me
encosto nele. Rápido demais, chegamos a uma vasta extensão de
areia.
Ele larga as trouxas que veio carregando e eu tiro os sapatos. Ele
faz uma parada de mão enquanto espera. Mantém as pernas no ar
por alguns segundos. Então volta a ficar em pé.
Fico esperando que pegue minha mão. Que me beije. Que tente
me agarrar aqui mesmo sob a lua no cobertor que trouxe.
Em vez disso, ele pergunta:
— Quer caminhar?
— Quero.
Então caminhamos. As ondas chegam até nós vez ou outra e a
água está quente. Ninguém está acordado além de nós, e somos as
únicas pessoas no mundo inteiro. Jeremiah Crew e Claude Henry.
Só nós dois. Esbarramos um no outro, nossos braços se encostam,
bem pertinho, mas não ficamos de mãos dadas.
Depois de um tempo, ele diz:
— Não precisamos falar sobre seus pais, mas se você estiver
precisando, aqui é um bom lugar. Tive várias conversas comigo
mesmo à noite nessa praia.
E, com isso, sinto tudo aquilo querendo transbordar — as
mesmas coisas que já contei a ele e mais. Mas também quero
preservar esta noite, protegê-la de tudo que seja triste ou doloroso,
e é por isso que falo sobre meus pais Antes: que eles nunca
brigavam, que sempre se deram bem. Que estávamos sempre
juntos, nós três, minha vida inteira, e por isso nunca percebi as
colunas de fumaça ou os tremores de terra.
— As pessoas podem ser muito boas em só mostrar o que
querem que a gente veja — ele diz.
— Acho que estou aprendendo isso na pele.
Então ele fala sobre a mãe, que fica de cama durante dias, às
vezes semanas, e sobre como precisou cuidar dela nos últimos
cinco anos e criar as quatro irmãs. Quando ele fala sobre a mãe,
sinto o peso em sua voz — fardo, amor, responsabilidade,
ressentimento, proteção. Todas essas coisas pesando sobre ele. E
ele fala sobre as irmãs, uma a uma, e sua voz fica leve como um
balão flutuando no céu. Descubro que Kenzie e Lila amam ler. Que
Kenzie já está ganhando prêmios com suas fotografias, e que Lila já
viu o show do Harry Styles três vezes. Descubro que, aos doze
anos, Ally já tem um namorado sério, e Channy, a mais nova, é a
estrela do time de futebol. Pergunto a ele sobre o irmão, e ele me
diz que ele serviu duas vezes no Afeganistão.
— Mas chega de falar de mim — ele diz. — Você sabe, por
enquanto. É claro que tem muito mais coisas que você vai querer
saber, mas prometo que vale a pena esperar.
Reviro os olhos.
Ele ri.
— Então, me conta sobre os seus amigos.
Conto a ele sobre Saz e Yvonne e sobre o pesadelo que foi ligar
para ela. Quando termino, ele diz: — Parece que a Saz está na
própria ilha nesse momento. Você precisa dar um tempo a ela.
Isso é tão parecido com o que minha mãe disse que sou pega de
surpresa.
— O que foi? — ele pergunta.
— Nada. É que você pareceu muito sábio.
— É porque eu sou.
Ele passa a mão no cabelo e eu fico olhando para a âncora em
seu punho.
— E essas tatuagens?
— Esta — ele mostra a âncora — é para eu lembrar de onde
venho. A bússola no ombro me lembra que eu sempre vou encontrar
meu caminho. E esta aqui… — Ele vira o pulso. Joy. — Porque é o
que eu estou buscando, alegria.
Não é uma garota então.
— Minha mãe é alegre — digo. — Ela deixa as coisas mais leves
só por ser quem é. Meu pai nem sempre entendeu isso. Ele sabe
ser engraçado, mas também é mal-humorado.
— Algumas pessoas simplesmente não têm a alegria dentro
delas. Minha mãe é assim. Ou talvez tenham. Mas alguma coisa
atrapalha. Como a depressão ou uma perda. Eu me esforço para
ser alegre, se isso faz algum sentido. Porque tenho a alegria em
mim, mas ao mesmo tempo não tenho.
Ele passa a mão na tatuagem.
— Com meu pai é um pouco mais do que isso. Às vezes é quase
como se, sei lá, como se ele não quisesse se permitir ser feliz. É
difícil explicar.
E apesar de saber desde sempre que minha mãe e eu somos
muito parecidas, isso fica cada vez mais claro, quanto mais me
distancio de Ohio — Claudine e Lauren, Lauren e Claudine, as
mulheres Llewelyn. Meu pai está mais para um convidado de honra,
fazendo algumas aparições aqui e ali.
Miah diz:
— Não conheço o cara, mas meio que sinto pena dele.
— Não devia sentir. É escolha dele, não é? Não só colocar um fim
ao casamento, mas, meio que, sei lá, se distanciar quando ainda
estávamos lá.
— É, mas ele é que sai perdendo. Perdendo por não conviver
com você.
— Não acho que ele se sinta assim.
Seguimos caminhando, sem falar, o braço dele tocando no meu,
meu braço tocando no dele, e meu coração palpita sob a lua. De
repente me arrependo de ter falado sobre meu pai. Não o quero
nesta praia com a gente.
Mudo de assunto.
— Onde você acha que vai parar?
— No mundo?
— É.
— Tipo, no futuro?
— Isso.
— Bem, o mais provável é na prisão ou numa clínica de
reabilitação. Mas não sei. Por enquanto meu lugar é aqui. Shirley diz
que a ilha sempre encontra um jeito de dar o que a gente mais
precisa.
— Tudo que ela me deu foi um corte de cabelo ruim e picadas de
inseto que parecem lepra. — E esta noite, e talvez você.
— Talvez seja exatamente disso que você precisa.
Ele bate o braço no meu e eu bato no dele de volta.
— E depois do verão? Para onde você vai daqui a quatro
semanas?
— Entrar para a CIA. — Ele sorri para mim. — E você?
— Desde que eu era pequena, eu sempre quis ir para a Califórnia.
Era tão grande e distante e parecia tão cheia de… bom, promessas.
Saz e eu tínhamos planos de ir para lá juntas para trabalhar como
escritoras. Mas eu decidi ir para Columbia e ela vai para a
Northwestern.
— Não quer dizer que não pode acontecer um dia. E não quer
dizer que você não pode ir para lá sozinha. Não vejo o futuro como
esse caminho já definido: escola, trabalho, relacionamento. Acho
que o futuro está mais para o oceano, mais, sei lá, fluido.
— Uau. Isso é bem profundo.
— Isso me deixa mais atraente?
— Na verdade não.
— Espera um pouco. Meu impacto sobre as mulheres pode
demorar para fazer efeito. Faz parte do meu charme.
Viramos e começamos a voltar pelo caminho que viemos, cada
pedacinho de mim está concentrado nesta praia, na água que molha
meus pés, no ar noturno, na lua, neste garoto.
Ao meu lado, Miah tira a camiseta.
— Este lugar, bem aqui. Este é o ponto.
E ele tira a bermuda do exército, e suas roupas estão na areia, e
ele está completamente nu. Começa a se afastar de mim, em
direção ao oceano.
Fico ali pensando que tenho uma escolha a fazer. Posso sentar
aqui na areia e esperar. Ou posso tirar o vestido e entrar na água.
Parece um momento crucial da minha vida. Pare de pensar tanto,
Claudine.
Espero até sua cabeça desaparecer embaixo da água e tiro o
vestido. Deixo-o cair em cima das roupas dele, e agora estou só de
calcinha, sem sutiã. Fico com a calcinha, cubro o peito com as mãos
e vou meio andando meio pulando até a água antes que mude de
ideia. Entro até a água alcançar a cintura e me abaixo para que o
oceano me cubra.
Miah é uma sombra escura à distância, mergulhando e emergindo
das ondas como um golfinho. Avanço um pouco mais, andando
agachada, e lembro de Danny e do repuxo do mar e do fato de que
este lugar aparentemente é um nascedouro de tubarões. Paro e
espero, o coração batendo mais alto que a arrebentação. Um ou
dois minutos depois, Miah nada na minha direção. Me agacho mais,
tentando fazer com que a água me cubra. Ele levanta a cabeça para
respirar a meio metro de distância. À luz do luar, ele brilha.
— Viu? — Ele sorri. — Fez efeito.
Nadamos cachorrinho, olhos nos olhos. Por algum motivo, parece
um momento importante.
Ele diz:
— Meu Deus, como você é linda.
E me beija.
E volta a mergulhar, e nado atrás dele até meus pés mal
alcançarem o fundo. A água está quente e mansa. A superfície
captura e reflete a lua.
Penso sobre o futuro fluido como este oceano, e me imagino
metade golfinho, metade sereia. Nado até Miah e o envolvo em
minhas pernas e, embora eu não esteja nua, ele está, e de alguma
forma é a maior intimidade que já tive com um garoto. Ele me
abraça e flutuamos assim, meu rosto no dele, meu peito no dele,
meu coração no dele, por um bom tempo.

Ele caminha até a pilha de roupas que deixamos na areia, e não


consigo não olhar para seu corpo de vez em quando, esguio e
dourado, a pele molhada brilhando ao luar. Quando chegamos até
nossas coisas, coloco o vestido de novo, e ele gruda em mim como
algas marinhas. Ele pega uma toalha e me oferece, então pega
outra. E é quando me permito olhar para ele de verdade — para ele
inteiro. E fica muito, muito evidente que o tempo que passamos
juntos na água teve efeito nele também.
Então tento olhar para qualquer lugar, menos para ele.
— O que foi, Capitã?
— Nada. A lua está tão linda.
Ele ri e finalmente veste a bermuda. Sentamos no cobertor que
ele trouxe e bebemos os refrigerantes que ele trouxe, e não quero
que a noite acabe. Penso Eu poderia ficar aqui. Poderia viver bem
aqui. E por algum motivo começo a pensar na Claude que eu era
antes deste verão, a garota que não sabia que as pessoas vão
embora e que o amor pode mudar de ideia. É assim que me sinto
neste momento nesta praia sob o luar com este garoto: que voltei a
ser eu mesma.
Ficamos sentados lado a lado, nossos braços encostando, e não
dizemos nada. Olhamos para a água e esperamos. As ondas vêm e
vão e, na escuridão, no escuro da noite, elas soam ameaçadoras,
como trovões. Estremeço, e sem dizer uma palavra ele me dá sua
camiseta. Visto, embora a noite esteja tão quente que minha pele
está úmida também por causa do ar, não só da água, e meu cabelo
está grudando na testa.
Ficamos ali talvez por uma hora, ou mais. Perco a noção do
tempo, e gosto do fato de que poderia ser meia-noite ou duas da
manhã. O tempo não importa aqui, independente do que minha mãe
diga.
Ficamos assim, os dois olhando para o oceano. Meus braços
abraçando meus joelhos, os dele sustentando seu tronco, que está
jogado para trás, as pernas compridas esticadas à frente. Sou
preenchida por uma sensação de distantes, mas juntos. Somos as
duas únicas pessoas no mundo sentadas aqui neste lugar nesta ilha
esperando que as tartarugas saiam da água.
De repente, acho que vejo uma lá longe. Inclino o tronco para a
frente, e sei que ele está vendo também porque se ajeita. Juntos,
prendemos a respiração, mas era algum outro bicho, um guaxinim
talvez, um animal baixinho que foge para onde não conseguimos
mais ver. Miah volta a inclinar o tronco e ficamos olhando mais um
pouco. Estou atenta a tudo, meu corpo em alerta, minha pele em
alerta. O ar noturno, a sensação macia mas ao mesmo tempo
áspera de sua camiseta em minha pele, o modo como ela me
envolve e o cheiro dele. A areia sob minhas pernas, a areia em volta
dos meus pés quando eu os enterro. O cheiro da água salgada e o
som das ondas vindo na nossa direção, e voltando, vindo na nossa
direção, e voltando. O brilho da lua e das estrelas e o fato de aqui
elas serem mais numerosas do que eu jamais tinha visto, mesmo no
interior de Ohio. Estou memorizando tudo isso, guardando tudo bem
lá no fundo de mim, onde vou preservar para sempre e onde vou
poder acessar um dia, um dia distante, quando eu estiver bem longe
desta ilha. Aquele garoto naquele verão, como era o nome dele?
Talvez eu não me lembre, mas nunca vou esquecer que fiquei com
ele na areia esperando que as tartarugas viessem.
De repente, ele levanta e me oferece a mão. E não quero ir, mas
deixo que ele me levante porque uma hora isso ia ter que acontecer.
Sigo atrás dele em meio às dunas pela trilha, para longe da praia.
Quero voltar e ficar sentada com ele até o sol nascer, sem
conversar, sem nos tocarmos, mas juntos.
Perto das árvores, ele vira e olha para mim, percorre a linha da
minha mandíbula e do meu queixo com um só dedo. Acontece
rápido. Sua boca na minha, e ele me puxa para perto ou talvez eu o
puxe para perto. Independentemente de como começa, nos
beijamos por um bom tempo. Quando finalmente nos afastamos, ele
diz: — Uau.
Como antes, mas não bem como antes.
— Uau — repito.
— Uau — ele diz mais uma vez.
DIA 6

No dia seguinte, sento no armazém e faço a ligação semanal para


meu pai. A última vez que falei com ele foi no quarto de hóspedes
da casa dos meus avós em Atlanta. Pedi para ir para casa mais
cedo, para voltar para Mary Grove, e ele disse não. Imagino todas
as coisas que quero dizer para ele agora. A mamãe não dorme. Eu
a escuto à noite porque também não durmo. Estamos na casa da
Addy sem dormir, esperando que você mude de ideia e diga para
irmos para casa.
Mas nossa conversa é assim:
— Como estão as coisas aí na ilha?
— Bem.
— Está calor?
— Sim.
— Dandelion está se adaptando bem?
— Está.
(Muitas pausas desconfortáveis aqui.)
— Bradbury quer dizer oi.
E ouço Bradbury arfando no telefone, e de repente preciso
desligar ou vou me estilhaçar em mil pedacinhos. Mas antes digo: —
Bradbury, quero que você me escute. Eu vou voltar. Eu prometo.
Não pense que fomos embora porque não amamos você.
E meu pai está de volta e conversamos sobre amenidades por
mais um ou dois minutos — ele fala de um filme que assistiu e da
maratona para a qual está treinando, e finalmente diz: — Eu te amo,
Clew.
Preciso reunir todas as minhas forças para responder: — Eu
também te amo.
E amo mesmo. Seria muito mais fácil se não amasse.

Na mesma noite, todos na ilha vão até a pousada para o que


chamam de “cozido das terras baixas”: batata, milho, linguiça e
camarão cozidos em um fogareiro enorme ao ar livre. Enquanto
minha mãe socializa com os adultos, encontro Jared servindo a
comida. Enquanto enche meu prato, ele diz: — E aquele bilhete que
te entreguei? Correspondeu a todos os seus sonhos e expectativas?
— Alguns.
Ele sorri, e não consigo me conter: sorrio também. E embora eu
seja mais nova do que ele, me sinto como uma irmã mais velha.
Pergunto: — E você? Está saindo com alguém?
— Quem me dera.
— E a Wandinha?
— Não faço o estilo dela.
Por algum motivo, a resposta soa pesada, mas aí Wandinha
aparece, como se, ao dizer seu nome, a tivéssemos invocado, e me
cumprimenta: — E aí, Forasteira?
Digo a eles que nos encontramos mais tarde para ver os fogos, e
acho um lugar na grama perto da minha mãe. Como em silêncio
enquanto ela conversa com um trio de mulheres mais velhas, todas
com um sotaque sulista doce. O fotógrafo está de pé por perto, de
costas para nós, e penso: Quero ver você vir até aqui. Ele não vem.
Depois encontro Jared, Wandinha, Emory e os outros funcionários
na praia. Procuro por Miah, mas ele não está lá.
Nos reunimos na beira das dunas e assistimos os fogos
estourando sobre as ilhas vizinhas. Há algo de reconfortante no
crepitar, estalar e assoviar do ar que explode de estrelas — azuis,
vermelhas, verdes, douradas. Penso em todos os Quatro de Julho
que já passei, e meus pais estão em todos eles. Nós três em Rhode
Island, assistindo do cais com mais cem pessoas. Nós três em
Atlanta, fazendo piquenique no parque Piedmont sob um céu de
cores cintilantes. Nós três em Ohio, bebendo limonada gaseificada
com a Saz e a família dela.
Um estrondo alto e fogos dourados são lançados ao céu.
Wandinha diz:
— Vocês preferem ter pênis no lugar dos braços ou troncos de
árvore no lugar das pernas?
— Que tipo de árvore? — pergunto.
— Carvalhos. Não… palmeiras. Aquelas bem altas.
Jared responde:
— Pênis no lugar dos braços.
E faz sua melhor imitação de braços de pênis, que nos faz cair na
gargalhada.
Depois que nos acalmamos, Emory solta um suspiro.
— Eu preciso transar. Não tem muitas opções em uma ilha.
— Obrigada — responde Wandinha.
— Você entendeu o que eu disse.
— E nossos vizinhos do outro lado do mar? — aceno em direção
aos fogos.
— Ele nunca vai sair daqui.
Wandinha vira o rosto para o céu.
— Talvez eu tenha que sair — Emory diz. — Não levo jeito para
monge.
— Eu queria me apaixonar — Jared diz com seu tom alegre, mas
um suspiro escapa no fim. — Tipo, me pergunto se o sexo é mesmo
diferente quando estamos apaixonados.
E, embora eu seja virgem, quero dizer que sexo é só sexo. Não
importa com quem você faça, desde que exista consentimento de
ambas as partes, e desde que você goste das mãos daquela pessoa
em você e daquela boca na sua. Desde que haja toda sorte de
possibilidade e quase e talvez.
Mas, tirando a parte do consentimento, já não sei mais se acredito
nisso.
— Não sei. — Wandinha estende os braços, como se estivesse
tentando agarrar os fogos. — Quero ver como é com pessoas
diferentes. Ver como eu sou com pessoas diferentes. Pessoas de
todos os gêneros. Ter a oportunidade de amar quem eu amar, e se
eu me apaixonar mesmo, ótimo. Se não, pelo menos vou me divertir.
O que eu sei é que não quero me prender a uma pessoa agora. —
Por algum motivo, ela está olhando para mim. — Porque sempre
termina do mesmo jeito, não é? Você se diverte e a pessoa se
diverte e todos estão aproveitando e aí, quando a conquista termina,
de repente ela começa a querer conquistar outra pessoa como se
você nem existisse. Além do mais, eu gosto demais de ser eu
mesma.
Penso Talvez termine sempre do mesmo jeito, sim, mas quero
acreditar que não. Quero acreditar que é muito mais que só a
conquista.
Digo:
— Você não acha que é possível ser você mesma com outra
pessoa?
Ela solta uma risada cínica.
— Não, Forasteira. Não acho. Meus amigos, minha mãe… todos
se tornam versões de si mesmos. Tipo, versões distorcidas. Não,
obrigada.
E apesar do meu lar desfeito e de tudo que estou passando, sinto
pena dela. Ela não parece acreditar em nada, e talvez — só talvez
— eu ainda acredite.
Wandinha puxa uma das tranças e volta a fixar o olhar em mim.
— E você? Já transou?
Jared balança a cabeça.
— Você não precisa responder isso.
Observo Grady conversando com uma das hóspedes da pousada,
uma mulher de uns trinta anos. Assisto os fogos explodindo e
morrendo sobre a água. Penso em inventar uma história, algo
elaborado e erótico. Talvez até trazer à tona Shane Waller e o quase
sexo no celeiro.
Mas todos estão sendo sinceros, incluindo a Nova Claude, por
isso digo: — Quase. Tem um garoto em Ohio.
Não menciono que mal penso em Wyatt Jones ultimamente.
Wandinha diz:
— Minha irmã acha que tecnicamente não conta como sexo a não
ser que seja um pênis e uma vagina. Tipo, se fizer anal, ela continua
a ser virgem.
Emory fica olhando para ela.
— Então, segundo ela, nada que não seja sexo hétero conta?
— Só estou dizendo o que ela acha. Não fique puto comigo.
— Cara, isso é uma idiotice.
Digo:
— Minha melhor amiga é lésbica, e está apaixonada. E não acho
que ela concorde que o sexo que ela faz com a namorada não
conta. — De repente um senso de proteção me invade. Proteção do
tipo conseguir levantar um carro para salvar o bebê. Não só em
relação a Saz, mas a Yvonne também. Às duas. — Não acho que
exista isso de tecnicamente. O importante é a pessoa com quem
você está e como você se sente. Sexo é sexo. Amor é amor. Não
preciso que uma construção social idiota dos anos 50 me diga o que
é e o que não é. Não importa como aconteça, o que pareça, acho
que você sabe aqui — coloco a mão sobre o coração — se ainda é
virgem ou não.
Wandinha inclina o tronco para a frente.
— É como cruzar uma linha de chegada invisível que só você vê.
É você que decide. Sou eu que decido. Somos nós que decidimos.
— Hm. É.
— Eu concordo — ela diz.
— Quê?
— Eu concordo com você.
Ficamos olhando uma para a outra, em um silêncio atordoado
porque concordamos em alguma coisa.
Jared bate a garrafa na minha.
— Um brinde a isso.
E penso Estou feliz por eles estarem aqui. Faz com que eu sinta
mais e menos saudade da Saz ao mesmo tempo. De repente quero
ligar para ela e pedir desculpa por não perguntar mais sobre
Yvonne, e mais sobre como ela está se sentindo, como as coisas
estão indo. Ela não tem sido a melhor das amigas ultimamente, mas
eu também não.
Emory e Wandinha batem as garrafas nas nossas. Ela diz: —
Meus Deus, como somos profundos.
Minha mãe vem me dizer que está voltando para a casa. Quando
me ofereço para voltar com ela, ela diz: — Não, fiquei com seus
amigos. É bom ver que está se divertindo. Só volte antes da uma.
A conversa passa de sexo à SGS, ou Sociedade da Gaveta
Secreta.
— Você já entrou na Suíte Blackwood na pousada? — Emory
pergunta para mim.
— Não.
— Tem uma escrivaninha antiga monstruosa que ocupa boa parte
do quarto, e tem uma espécie de compartimento secreto. As
pessoas deixam bilhetes lá desde sempre. Tipo, desde que a
pousada foi inaugurada. São bilhetes de amor, histórias sobre sua
estadia, as tartarugas da ilha, furacões. Coisas do tipo.
Jared bebe um gole, limpa a boca.
— Os de amor são bem legais. Tem alguém se hospedando no
quarto agora, mas podemos mostrar a você quando ficar vago. Eu
escrevi algumas cartas. Para meu avô, para meu amigo Rashid, o
que morreu. Mas também escrevi algumas para mim mesmo. Tipo:
“Querido Jared, você precisa lembrar que a vida é curta, então
aproveite cada segundo”.
Wandinha desenha círculos na areia com uma concha.
— Todos escrevemos. “Querida Wandinha, não seja tão exigente
com você mesma. Se você não se amar, ninguém vai te amar”. A
primeira vez que vim para cá, escrevi uma para minha família
porque eu não podia contar a eles onde estava ou por que tinha ido
embora.
Suas vozes vêm e vão, o que me faz lembrar das viagens com
meus pais quando eu era criança, sentada no banco de trás,
olhando pela janela ou lendo, ouvindo mas ao mesmo tempo não
ouvindo o que conversavam, próximos, mas distantes. Olho por
sobre a escuridão do oceano para as luzes à distância em alguma
ilha desconhecida, pensando no que escreveria para mim mesma
ou talvez para Miah.
E se eu procurasse a casa dele esta noite e deitasse em sua
cama e fizesse uma surpresa? Imagino. Sua pele. Minha pele.
Nuas. Quentes. Ele. Ele. Ele. Esse garoto que já me conhece tão
bem e gosta de mim assim mesmo, apesar de mim. Toco meu
braço, que está pegando fogo só de pensar nele.
Cinco minutos depois, ele aparece, uma silhueta escura
caminhando pela areia. Não preciso ver seu rosto para saber que é
ele. Já conheço seu jeito de andar e se movimentar. Sem dizer uma
palavra, ele estende a mão para mim, e meu sangue pulsa e meu
coração acelera como se eu estivesse despertando de um longo
sono. Wandinha se inclina para dizer alguma coisa no ouvido de
Jared, e os dois ficam olhando para nós. Emory oferece uma cerveja
a Miah.
— Não. Valeu, cara — ele diz. Então para mim. — Quer sair
daqui, Capitã?
— Quero.
DIA 6
(PARTE DOIS)

Dirigimos em direção ao norte até uma faixa de praia tranquila, onde


caminhamos e conversamos e procuramos tartarugas. Fico na
expectativa de que pegue minha mão ou me beije, mas ele não faz
isso. Digo a mim mesma que tudo bem, podemos ser só amigos.
Não vamos mesmo ter tempo para nada que vá muito além disso, já
que nós dois vamos embora. Somos dois navios se cruzando em
uma longa noite de verão, e fui eu que decidi isso, não ele. Quando
seguimos para as dunas e de volta para a caminhonete, dou um
soquinho no braço dele como se fôssemos velhos amigos.
— Você está bem, Capitã?
— Sublime.
Sublime?
Voltando para o sul da ilha, nos aproximamos do chalé azul-vivo,
com as cadeiras de balanço na varanda. Miah diminui a velocidade,
uma mão no câmbio, a outra no volante. É a maneira como sua mão
descansa ali, tão casual, tão relaxada. Ou talvez seja simplesmente
ele.
— Quer entrar um pouco?
O motor da caminhonete ronca leve em ponto-morto.
— Esse chalé é seu?
— Não, pensei em invadirmos.
— Nesse caso, claro.
Sim sim sim.
De repente, meu corpo inteiro está em alerta. Se eu entrar, tudo
pode acontecer. Tento não pensar além do agora. Me concentro em
sair da caminhonete, andar até a casa, subir os degraus, esperar
que ele abra a porta, entrar atrás dele.
A casa em si é pequena. Só uma luz está acesa, sobre uma mesa
em frente à lareira. Olhando ao redor, decido que é como o interior
de sua caminhonete — cheia de tesouros. Crânios de animais de
vários tamanhos, ossos e conchas. Fotografias em preto e branco
de mais ossos e conchas, das ruínas da mansão Rosecroft, das
dunas, de rastros de tartarugas, do oceano. Se eu fosse imaginar
um lugar para Jeremiah Crew morar, seria exatamente assim. Uma
casa azul-vivo. Um gabinete de curiosidades. Estantes lotadas de
livros. Mapas e câmeras fotográficas antigas e relíquias por toda
parte. Tudo esqueletos de algum tipo.
— Tudo isso já estava aqui quando você se mudou?
— Algumas coisas. Outras eu acrescentei. Deixei mais a minha
cara.
Pego o crânio de um animal.
— Tem bastante natureza.
Ele ri. Solto o crânio e me empoleiro na beirada do sofá,
obrigando minha mente a se concentrar, a não se atropelar, a não
imaginar nós dois na cama dele, que é exatamente o que ela quer
fazer. Vejo-o tirar dois refrigerantes da geladeira.
Olho para as paredes, para os porta-retratos pendurados. Meus
olhos param em uma foto das ruínas, resolutas contra o céu
carregado.
— Foi você quem tirou as fotos?
Ele olha para as paredes.
— Depende. Você gostou delas?
— São de arrepiar. — São um misto de brutalidade e beleza,
escuridão e luz.
— Então, sim, fui eu.
— Você podia vender essas fotos.
— Não sei. Foi Bram quem fez eu me interessar por fotografia.
Ele me deu uma câmera e disse, juro por Deus, “Talvez isso te ajude
a olhar para outras coisas, não só para você mesmo”. — Miah
coloca os refrigerantes na minha frente. — Ele também me deu esta
casa. Quer dizer, ele e a Shirley me deixam ficar aqui no verão. Eu
passei pela Outward Bound tantas vezes que eles acabaram me
oferecendo um emprego. Morar aqui é um dos benefícios. — Ele
volta para o outro lado do cômodo, remexendo uma coleção de
discos empilhados ao lado de um toca-discos. — Parte do que eu
faço é liderar grupos da Outward Bound que vêm para a ilha,
desobstruindo trilhas, marcando ninhos de tartaruga, qualquer coisa
que coloque as pessoas para trabalhar ao ar livre. As mesmas
merdas que eu fazia quando vim pra cá pela primeira vez.
— O que acontece quando o verão acaba?
— Trabalho na Nasa.
— Achava que era na CIA.
— Na verdade é nas duas. — Ele coloca uma pilha de discos no
toca-discos. — A Nasa e a CIA disseram “Precisamos de você.
Pagamos quanto for”. — Ele se joga no sofá ao meu lado enquanto
o primeiro disco cai. — Mas não vamos falar sobre isso enquanto
você está aqui, na minha casa.
Ele se aproxima. Me beija. Antes que eu me perca nele, me
afasto.
— Tudo bem, Capitã?
— Você tem algo que seja mais forte que água?
Não quero beber para me sentir mais corajosa, mas para que o
tempo pare — ou pelo menos desacelere — para eu poder saborear
cada momento.
Ele levanta uma sobrancelha.
— Tem uma vodca no congelador que deve ter uns cem anos.
Cortesia de Bram e Shirley, mas eu guardo para as visitas.
— Obrigada.
Começo a levantar, mas ele diz:
— Eu pego para você. Posso ser cavalheiro de vez em quando.
Fico observando enquanto ele vai até a cozinha, abre o
congelador, pega a vodca, serve dois dedos. Quero pedir que encha
o copo — talvez eu precise me sentir um pouco mais corajosa afinal
—, mas não quero parecer uma bêbada.
Quando ele volta, pergunto:
— Você não vai beber?
— Já bebi o suficiente na vida. Parei com catorze anos. Parei tudo
com catorze anos. — Ele me entrega o copo, apoia os braços no
encosto do sofá e olha dentro dos meus olhos. — Bom, quase tudo.
Nos encaramos enquanto largo o copo sem beber. No mesmo
instante, vamos em direção um ao outro.
Ele me beija.
Eu o beijo.
Meu sangue e meu coração voltam a pulsar tão forte que me
pergunto se meu corpo vai ser capaz de contê-los. Ele toca meu
rosto, e suas mãos descem. E é isso. Sim sim sim. De repente sou a
pessoa mais corajosa do mundo.
Subo nele e sento em seu colo, e consigo senti-lo pela bermuda
conforme os beijos ficam mais intensos. E agora estamos deitando,
eu em cima dele, e preciso me afastar por um instante porque é
demais e meu coração vai explodir. Nós dois respiramos alto
tentando encher nossos pulmões, e ouço meu coração bater forte
no peito como se estivesse tentando escapar de dentro dele.
Ele joga as almofadas no chão para que tenhamos mais espaço.
Volta a me beijar. Me abraça forte. Me vira para eu ficar embaixo
dele, e de algum jeito conseguimos continuar em cima do sofá.
Nossos olhares se cruzam, e ele vem, e tudo vira um borrão, e seus
lábios estão nos meus, e a única coisa que existe é sua boca e sua
pele e os músculos firmes de suas costas sob minhas mãos.
Eu o beijo até chegarmos à zona do perigo, aquela protegida por
barricadas e fita de isolamento e entulhada de bombas de fumaça e
alarmes e placas de CUIDADO. A que faz meu cérebro adormecer e
me impede de pensar em qualquer outra coisa. Ignoro a voz na
minha cabeça que está gritando Isso vai mesmo acontecer. Sinto
que estou no limite, e o sofá agora está pegando fogo, e toda parte
que encosta em meu corpo, da cabeça aos pés, está queimando,
mas não me importo. Ele percebe e o sinto hesitar levemente, mas
não deixo. E agora nós dois estamos queimando bem aqui neste
sofá.
Mas desta vez eu não paro. Nem mesmo quando ele me diz que
não tem nenhuma DST, só sexo seguro aqui. Nem mesmo quando
ele diz: — Tem certeza? Não esqueça… quatro semanas. É isso.
Menos que isso agora.
— Sim — digo. — Sim.
— É brincadeira, mas não é, Capitã. Não vou fazer nada além
disso sem seu consentimento.
Isso me desconcerta porque não lembro de Shane ter pedido
permissão em momento algum. Posso dizer não, e podemos parar
por aqui.
— Sim — repito. — Você tem meu consentimento. Desde que eu
tenha o seu também.
E percebo pela expressão em seu rosto que isso o desconcerta
também.
— Sim — ele diz, bem baixinho. — Nossa, sim.
Para provar para mim mesma e para ele que tenho certeza, que
eu quero isso cem por cento, tiro sua camiseta, beijo seu pescoço,
seu ombro, seu peito. Ele geme um pouco e começa a tirar meu
vestido, o vermelho e branco que comprei no último Quatro de
Julho. Estou sem sutiã, de calcinha, e ele ainda está de bermuda. É
atrás dela que vou agora e, como não consigo tirar, ele ajuda, e não
está vestindo nada por baixo, então fica completamente nu, e agora
posso realmente olhar para ele porque acho que talvez seja o
esperado ou talvez porque eu finalmente quero saber como é, e vejo
uma trilha de pelos dourados em seu peito que leva até lá embaixo.
Luto contra o impulso de me cobrir com as mãos. Em vez disso,
deixo que ele beije meus peitos e embora eu tecnicamente já tenha
chegado até esse ponto com um garoto, neste momento parece que
chegamos muito mais além.
Em seguida minha calcinha é tirada, de uma vez, as duas pernas
ao mesmo tempo, e ele olha para o meu corpo, e resisto ao impulso
de pegar o cobertor no encosto do sofá e me cobrir. Deixo que olhe
para mim, mas não por muito tempo, porque começo a beijá-lo e ele
coloca as mãos no que resta do meu cabelo, e rola para o lado e
começa a buscar alguma coisa no bolso da bermuda.
Ele está pegando uma camisinha.
Quando ele rola de volta na minha direção, camisinha na mão,
digo: — Uau. Você é confiante.
— Confiante não. Esperançoso. Mas, ei. — Ele faz um gesto
mostrando o próprio corpo e dá um sorrisinho cafona. Então sua
expressão muda para um sorriso genuíno, não consigo me conter,
beijo as covinhas de ambos os lados de sua boca, e ele começa a
beijar meu pescoço, e bem quando acho que meu corpo vai explodir
como fogos de artifício, acontece.
Estou em meu corpo e fora dele ao mesmo tempo. Enquanto tudo
acontece, uma parte de mim narra a cena para mim mesma. Agora
ele está abrindo a embalagem da camisinha. Agora ele está
colocando a camisinha.
Minha cabeça está tomando as rédeas, e quero que ela
simplesmente cale a boca e deixe meu corpo no comando.
Agora você pode senti-lo. Agora ele está colocando a camisinha
para dentro.
Sinto a surpresa dentro de mim, embora estivesse esperando. É
como minha festa de aniversário do quinto ano, quando todo mundo
se escondeu no meu quarto, e eu sabia que eles iam fazer uma
surpresa porque a Saz me contou antes, mas mesmo assim me
assustei quando eles começaram a gritar e vir na minha direção.
Ele pergunta:
— Tudo bem, Capitã?
— Tudo. Claro.
Minha mente diz ao meu corpo para parar de pensar na festa de
aniversário do quinto ano e se mexer, pelo amor de Deus, então eu
me mexo. Mas me sinto como o Homem de Lata em O mágico de
Oz, toda dura e rígida. E de repente começo a pensar em O mágico
de Oz, um filme de que nem gosto, e começo a pensar tanto sobre
pensar em O mágico de Oz que quase esqueço de narrar o que está
acontecendo.
Agora você pode senti-lo — por inteiro. E eis a surpresa de novo.
Não dor, necessariamente, mas a surpresa do meu corpo
registrando algo completamente novo. Puxo o ar com força. Um som
alto, ofegante, soluçante que faz com que ele pare o que está
fazendo e me olhe de um jeito engraçado. Antes que ele possa
perguntar que porra foi isso ou mudar de ideia sobre querer transar
comigo, eu o beijo. Me pergunto se estou sangrando no sofá, se
meu hímen mítico se rompeu de verdade. Mesmo que isso não
tenha acontecido e que esta seja a transa mais constrangedora e
terrível do planeta, eu sei que tecnicamente conta. Isso conta.
Embora a virgindade seja uma construção heteronormativa e
patriarcal…
Agora ele está se movimentando em cima de você.
E você está se movimentando com ele embora não saiba como.
Por favor, por favor, por favor, cale a boca, cérebro.
Então, por um milagre… minha mente fica em silêncio. E meu
corpo assume o controle. É como se ele soubesse alguma coisa que
eu não sei, como se meu corpo e o dele se conhecessem e se
entendessem, como se fosse natural eles se movimentarem juntos
assim.
Mas então, de repente, terminamos. O que quer dizer que ele
terminou. E esta é mais uma surpresa — o fato de que o fim parece
depender dele. Quase digo a ele: Ei, eu preciso de mais. Eu não
terminei. Mas não digo nada.
E simples assim, em um único instante, todos aqueles anos de
espera chegam ao fim.

Depois, ele sai de cima de mim e ficamos deitados, eu de barriga


para cima, ele de lado, apertados no sofá, que de repente parece
muito menor do que era instantes atrás, olhando para o móbile de
crânios que balança e oscila um pouco, os sons ocos de osso
batendo em osso.
Ele pega minha mão.
— Quando foi que isso aí surgiu?
E de alguma forma sei que ele está falando sobre o teto, que até
quinze segundos atrás estava encoberto pela fumaça do fogo que
criamos, e além da fumaça um céu de estrelas. As estrelas mais
brilhantes.
— Não sei.
Fico deitada ali, o sofá resfriando embaixo de mim, sentindo meu
coração voltar ao lugar como um órgão bonzinho e comportado.
Penso que seis dias atrás eu não sabia que ele era capaz de fazer
uma parada de mão e me beijar como ninguém jamais tinha beijado,
e esta noite eu sei tudo sobre ele.
Perdi a virgindade, e no entanto digo a mim mesma que não perdi
nada. Este corpo é meu. Sou a única pessoa que o ocupa; eu
escolhi o que aconteceu. Sabia o que estava fazendo. Decidi onde e
quando transar. Assim como vou decidir minha vida. Chega de
esperar que os outros decidam as coisas por mim. Estou
escrevendo minha vida agora.
DIA 6
(PARTE TRÊS)

Meu nome é Claude Henry, e acabei de transar pela primeira vez.


Aconteceu há cinco minutos. Jeremiah Crew está no banheiro, e
eu estou sentada nos degraus de sua casa azul, de vestido e
calcinha de novo, olhando para a noite porque lá dentro o calor
passou de um milhão de graus e eu precisava tomar um ar.
Eu devia me sentir eletrizada e desperta. Adulta. Sábia. Talvez até
um pouquinho francesa? Mas tudo o que sei é como não estou me
sentindo. Não estou me sentindo mulher. Ou garota. Ou qualquer
outra coisa. É como se eu tivesse sido esvaziada de mim mesma.
A porta se abre atrás de mim e é Miah, ainda sem roupa. Como
por instinto, desvio o olhar, o que é bobo porque minutos atrás ele
estava literalmente dentro de mim. Ele sai e senta ao meu lado.
— Meu Deus, Capitã. Você saiu de lá como se estivesse em
chamas.
— Desculpa.
— Tudo bem?
— Tudo ótimo.
Não é verdade, ou talvez seja. Mas mesmo que não seja, não vou
ficar aqui falando sobre sentimentos com ele. Nada de chorar ou de
Por favor, me abrace ou Eu te amo ou Você faz meu mundo girar ou
Me ame para sempre por favor por favor por favor. Só Miah em cima
de mim, mais pesado do que eu esperava, e uma banda chamada
Zombies ao fundo.
Ele diz:
— Você parece estar com frio.
— Estou com frio.
E de repente estou mesmo, até os ossos. Estremeço e ele me
abraça e passa a mão em meu cotovelo, tentando me aquecer.
Deito a cabeça em seu ombro, porque se eu não descansá-la em
algum lugar, talvez ela caia do meu corpo e role pela estrada.
Ele diz:
— Quer que eu te leve para casa?
E, por um instante, penso Sim, por favor, me leve para Ohio. Mas
me dou conta de que ele está falando da casa onde estamos agora,
minha mãe e eu, durante este verão.
— Sim — respondo. — Quero ir para casa.
Eu o sigo até a caminhonete e entro, e não sou a Claude Robô,
exatamente, estou mais para Claude Vazia. É surpreendente que eu
consiga me mexer. Miah acende os faróis e é como uma espécie de
pequena morte. Tchau lua, tchau vaga-lumes.
Penso em como é extraordinário que seja possível ter alguém tão
próximo que pela primeira vez eu literalmente não estava mais
sozinha em meu próprio corpo. E, no entanto, de alguma forma
ainda me sinto solitária.

Minha mãe está deitada no sofá, o volume da televisão baixinho,


livro aberto em cima dela, Dandelion cochilando encostado em sua
perna. Quando entro, ela abre os olhos.
— Desculpe chegar tarde — digo. — Miah e Jared e eu ficamos
na praia para procurar tartarugas.
Talvez a Nova Claude nem sempre fale a verdade, afinal.
— Tudo bem. Que horas são?
Ela ainda está meio dormindo, mas desliga a TV e fecha o livro e
levanta como se fosse de manhã e ela estivesse pronta para
começar o dia.
— Uma e dez.
— Acho que posso deixar um atraso de dez minutos passar. —
Ela me abraça, e agora está olhando para meu rosto. — Tudo bem?
— Só estou cansada. Mas foi um dia bom.
E é o bastante para ela, minha mãe, a única pessoa que sempre
foi capaz de enxergar dentro de mim. Uma coisa que ninguém te
conta: sexo pode ser um muro, e sua mãe está de um lado e você
do outro. Na verdade, todo o mundo está de um lado, e você está do
outro totalmente sozinha.

Embora esteja fazendo uns cem graus lá fora, me enterro


embaixo das cobertas na minha cama, puxando-as até a cabeça, o
mais apertado possível.
— Saz, se você estiver me ouvindo, foi essa a sensação? Foi
assim que você se sentiu? — Sussurro para a noite. Por que eu não
perguntei como ela se sentiu depois de transar com Yvonne? Mais
que qualquer coisa agora, quero conversar com ela. Talvez ela
tenha demorado um pouco para me contar sobre Yvonne, mas
estava tentando se abrir para mim. E tudo bem, eu não me abri para
ela, mas será que eu precisava deixar de ser uma boa amiga por
isso?
DIA 7

Às dez e meia da manhã seguinte, ainda estou na cama. Minha mãe


bate na porta e enfia a cabeça pela fresta.
— Estou saindo, primeiro vou ao museu e depois encontrar
algumas contadoras de histórias locais para entrevistá-las. Você
está bem?
Faço sinal de positivo.
— Só com preguiça.

Ao meio-dia, ainda estou na cama, comendo biscoito embaixo das


cobertas. Não quero ver ninguém, nem minha mãe. Só quero ficar
deitada aqui pensando.

Dr. Alex Comfort escreve em Os prazeres do sexo sobre algo


chamado la petite mort, “a pequena morte”. Parece que algumas
mulheres e raros homens desmaiam depois do orgasmo. Como
exemplo, ele cita um coitado que passou por isso com a primeira
mulher com quem transou. Quando ela retomou a consciência, ele
já tinha chamado a polícia e uma ambulância.
Uma hora depois, estou escrevendo no caderno em branco que
encontrei no escritório da Addy, o de capa azul.

A pequena morte.
Três palavras que também poderiam se referir à perda da
virgindade. Não de um jeito mórbido e trágico. Nem de um jeito
triste. Mas de um jeito este-é-o-fim-da-sua-infância. Embora eu
ainda me sinta ridiculamente nova.

Registro cada sentimento, por mais sombrio que seja, e cada


pensamento, até mesmo os que me fazem querer voltar para
debaixo das cobertas. Porque não importa o que aconteça, quero
lembrar de todos eles.

Às duas e quarenta e cinco da tarde, parei de escrever e estou


deitada de novo. Se tivesse o mínimo de energia, iria até o
armazém, que pode ou não estar fechado, depende da Terri, e
sentaria na mesa do canto e ligaria para Saz. Porque embora ela
não tenha me contado sobre Yvonne logo que aconteceu, e embora
eu não tenha ouvido quando ela tentou me contar, quero, mais que
qualquer coisa, conversar com ela e ouvir que ela ainda me ama e
que ainda sou eu e que está tudo bem.
DIA 8

Estou andando pela estrada principal e não sou mais virgem.


Levo meu almoço até a mansão Rosecroft e como nos degraus e
não sou mais virgem.
A todo lugar que vou e durante tudo que faço, só consigo pensar
nisso: não sou mais virgem.
Analiso o rosto de todo mundo, principalmente o da minha mãe,
para ver se eles registram esse fato.
Passo as mãos pelo meu próprio corpo, como Miah fez. Tento me
ver pelos seus olhos. Estudo meu rosto no espelho — não que eu
espere parecer diferente, mas procuro sinais de perda da
virgindade.
Mas o fato é que não pareço nada diferente do que era antes.
Para falar a verdade, é um pouco como o dia seguinte ao Natal. Um
pouco de Hm e E agora? Essa é a sensação de ter passado por
algo que você estava esperando há muito tempo. Meus pais ainda
vão se divorciar. Saz e eu ainda vamos para faculdades diferentes.
Por algum motivo eu achava que ia ser mais importante e marcante
do que foi. Na verdade, simplesmente aconteceu.

Na área do Wi-Fi do armazém, recebo uma mensagem de voz da


Saz.
Claude, sou eu. Desculpa por não ter te ouvido como deveria. É que a Yvonne está
aqui e você não, e eu não sabia que você ia ligar e não sabia que ia me contar uma
coisa tão importante, se soubesse, teria pedido para ela ir embora. Amigas
primeiro. Sempre.
Sim, você não devia ter contado para o Wyatt antes de me contar, mas acho
que entendo por que fez isso. E, sim, você não devia ter desligado na minha cara,
mas eu não devia ter dito aquilo sobre seus pais. O que eu devia ter dito é que
estou surpresa, mas também não estou. Estou surpresa porque parece uma coisa
que não pode acontecer.
Você, sua mãe, seu pai… vocês são uma unidade esquisita em que todo mundo
faz tudo junto e se dá bem. Não consigo imaginar um sem o outro. Mas não
estou surpresa pelos motivos que falei. Mas eu devia ter escutado melhor a
história toda. Só saiba que estou aqui. E falei sério sobre encontrar você no meio
do caminho. Se ficar muito ruim aí na ilha, me avise. Eu te amo mais que a Katniss
e amanteigados e todas as sardas no seu rosto.

Deito a cabeça na mesa e choro. Não só por causa da Saz; por


tudo. Alguma coisa bate na mesa ao meu lado, e é uma caixa de
lenços. Terri passa a mão na minha cabeça e volta para sua cadeira
atrás do balcão. Tento me controlar, mas as lágrimas não param,
nem mesmo quando ouço a porta da loja abrir e fechar e o barulho
dos passos de alguém. Ouço uma conversa entre a pessoa que
entrou e a Terri, e a porta abre e fecha mais uma vez. Levanto a
cabeça e olho de canto de olho para Terri, que por milagre não está
olhando para mim.
Limpo os olhos e o nariz e ligo para a Saz. Quando cai na caixa
postal, também peço desculpas, e conto que não sou mais virgem e
que estou gostando desse garoto, gostando muito, mas que não sei
como me sentir. Que quero entender como ela se sentiu depois da
primeira vez com Yvonne porque não faço nem ideia do que estou
sentindo.
Quando desligo, recebo uma nova notificação. Wyatt mandou
mensagem. E aí. Você já voltou? Ando pensando em você. Depois de todo
esse tempo que passei criando uma vida íntima profunda e
detalhada para ele, depois de fazer dele alguém muito mais
importante do que realmente é, e mais importante que Mary Grove,
Ohio, e mais importante que todos os garotos em todos os lugares,
depois de todas as possibilidades e os quase e os talvez, não sinto
nada.
Começo a responder, mas não tenho nada a dizer porque não
estou mais interessada nele. Estou interessada em outra pessoa.
Antes de ir embora, coloco a caixa de lenços sobre o balcão em
frente à Terri.
— Desculpa pela ceninha. Estou com saudade da minha amiga e
também estou para menstruar…
Ela solta o livro virado para baixo.
— Você tem saído com Jeremiah Crew. — E soa como uma
acusação. Se ela tivesse dito Eu sei que você se masturbava
pensando no Wyatt Jones, eu não teria ficado mais surpresa. —
Olha só, não é da minha conta, mas você devia tomar cuidado.
— Cuidado com o quê?
— Sei por experiência própria que, uma vez encrenqueiros,
sempre encrenqueiros. Miah pode estar num bom caminho
ultimamente, mas, confie em mim, não vai durar.
Sempre me espanto com pessoas que se sentem obrigadas a dar
conselhos, como se te conhecessem, como se você fosse alguém
incapaz de encontrar seu caminho no mundo sozinha. Quero dizer
Não é da sua conta com quem eu saio ou como me divirto, mas as
intenções de Terri são boas.
Agradeço a ela por se preocupar comigo, e saio de lá o mais
rápido possível.

Caminho até a praia e vejo um grupo de turistas vindo de barca.


Chegando à ilha como se fosse um dia qualquer. Se isso fosse um
filme, alguma música sentimental estaria tocando enquanto caminho
por aí, mas não há nenhuma trilha sonora a não ser o som das
cigarras.
Uma vez encrenqueiros, sempre encrenqueiros.
Tento afastar as palavras de Terri da cabeça. Ao ar livre, o dia
passa como qualquer outro. Miah está trabalhando. Minha mãe está
trabalhando. Jared e Wandinha e Emory e o resto dos funcionários
da ilha estão trabalhando. Hóspedes caminham ou vão de bicicleta
até a praia ou até a mansão Rosecroft. A guarda florestal está
levando turistas até o extremo norte da ilha.
Eu queria poder voltar duas noites. Queria que ainda estivesse
para acontecer, que fosse acontecer hoje à noite. Quero a
oportunidade de tentar me agarrar a tudo aquilo — Jeremiah e eu,
nus juntos pela primeira vez — por mais tempo. Ninguém disse
àquela noite que seria uma ocasião histórica. Ela só transcorreu no
ritmo normal, como qualquer outra.
Se eu gostei? Sim e não. Foi como eu imaginava quando fechava
os olhos e visualizava Wyatt ou Miah ou o sr. Rochester? Sim e não.
Eu não tive orgasmos múltiplos como nos filmes. Na verdade, não
tive nem um, embora estivesse quase lá, ou pelo menos perto de lá.
Mas teve frio na barriga e o mundo girou. Eu me sinto mais próxima
dele porque transamos? Isso fez com que eu gostasse mais dele?
Não sei. É complicado. Definitivamente me sinto mais emaranhada
nele.
Você devia tomar cuidado.
Você devia tomar cuidado.
Você devia tomar cuidado.
Caminho quilômetros na praia porque não consigo ficar parada e
preciso queimar toda essa energia. A verdade é que, por mais que
eu tente, não consigo tirar Miah da cabeça.
Me pergunto se ele está pensando em mim agora.
E agora.
E agora.

À tarde, voltando à casa da Addy, eu o vejo… Miah. Ele está em


pé na varanda espaçosa da pousada, e meu coração começa a dar
uns saltos malucos estilo Cirque du Soleil, mas aí vejo que ele está
com uma garota. Ele está apoiado em uma das colunas brancas e
ela está com a mão no braço dele e ele ri, e se aproxima e diz
alguma coisa no ouvido dela, e agora ela ri também. Tanta
proximidade e tanta risada.
Então ela vira e vejo que é Wandinha, e nesse instante me sinto
tão idiota. Um cara gato em uma ilha remota pode ter quem quiser.
Esse tipo de coisa deve acontecer com ele o tempo todo, e sou só
mais uma garota de passagem.
Me afasto, esperando que ele não me veja. Continuo andando
mesmo quando ele chama meu nome, fingindo não ouvir. Ele me
alcança, respirando como se tivesse corrido quilômetros.
— Meus Deus, Capitã. É um pouco tarde para se fazer de difícil,
não acha?
— Foi mal.
— E aí?
— “E aí?”
— É. E aí? — ele repete mais alto e mais devagar. — Podemos
ficar repetindo ou posso perguntar de outro jeito. Como você está?
Como vai seu dia?
— Está ótimo, obrigada.
Continuo andando.
— Ei.
— Quê?
Ele começa a andar ao meu lado.
— E-a-í?
— E aí nada — respondo, e pareço uma criança contrariada. —
Só pensei que você estivesse trabalhando hoje. — Para piorar,
consigo ver a cena toda de cima: eu continuando a andar, sem olhar
para ele, embora ele não tenha feito nada de errado. Eu queria ter
uma borracha tamanho Claude para poder me fazer desaparecer.
Em vez disso olho para a pousada e para Wandinha.
Seu olhar acompanha o meu e ele suspira.
— Eu tinha medo de que isso acontecesse. Eu disse para você
não se apaixonar por mim.
— Eu não estou apaixonada por você.
E o modo como digo faz parecer que estou completamente
apaixonada por ele, apesar de com certeza não estar porque o
conheci há literalmente oito dias.
— Primeiro, Capitã, você está com ciúme. Segundo, aquilo
acabou verão passado.
— O que acabou?
— Eu e a Wandinha.
— Ah.
E é como se ele tivesse me dado um tapa na cara porque é claro
que existiu um Miah e Wandinha. Quero dizer, é óbvio. O que você
achou? Que foi a única garota com quem ele ficou nesta ilha? A
única garota com quem ele ficou no mundo inteiro?
De repente me sinto encurralada. E muito burra. E que talvez Terri
tenha razão e eu deva, sim, tomar cuidado. Se não continuar a
caminhar, não vou conseguir respirar, e sei que, se eu ficar, vou só
piorar as coisas dizendo algo de que vou me arrepender
imediatamente, e não vou poder voltar atrás porque já vai ter saído.
— Fiquei de encontrar minha mãe no museu.
— Eu levo você.
— Não precisa. Eu gosto de andar.
Eu gosto de andar? Cala a boca, Claude.
— O que está acontecendo com você?
— Nada.
Nossos olhares se cruzam, nenhum dos dois pisca, nenhum dos
dois desvia o olhar.
Finalmente, ele levanta a mão.
— Tá bom.
Ele não tenta me impedir quando me afasto, e só agora consigo
pensar em como estou me sentindo.
Com medo, para começar. Medo. Medo. Medo.
Agitada.
Com raiva de mim mesma por me abrir com uma pessoa que mal
conheço.
Com raiva dele por me fazer pensar que eu podia me abrir.
Burra por acreditar que eu era diferente e que ele era diferente e
que isso era diferente de alguma forma.
Presa atrás do muro que construí ao redor de mim mesma,
incapaz de me mexer ou respirar ou fazer qualquer coisa que não
seja continuar construindo, tijolo a tijolo, o mais rápido possível.
Culpada porque eu devia ter dito a ele que eu era virgem. E agora
se eu contar ele vai achar que significou mais para mim do que
realmente significou, e que estou pedindo que ele me ame ou que
diga que sou a única, e assim por diante, blá blá blá.
Mas a verdade é a seguinte: talvez tenha significado mais para
mim do que eu esperava. Talvez tenha sido importante.

Uma hora depois, consigo encontrar a casa dele. Toco a


campainha e espero, coçando as picadas de inseto, me abanando
no calor. Mesmo já estando ali, digo a mim mesma: Vá embora. Não
piore as coisas. Isso não precisa ser sério. Não precisa ser nada.
A porta se abre revelando Jeremiah Crew, sem camisa, descalço,
com uma cobra em uma das mãos, e não estou usando nenhum
eufemismo sexual, é uma cobra mesmo.
— Oi — ele diz.
— Ah. Oi.
Ele segura a porta para eu entrar. Passo raspando no batente da
porta, mantendo a maior distância possível da cobra. A porta de tela
bate atrás de nós. Vou atrás dele até a sala, e meu olhar vai
diretamente para o sofá.
Ele diz:
— Eu achei que você estivesse indo até o museu.
— Eu estava. Eu vou. Por que você está segurando uma cobra?
— Invasora.
— É venenosa?
— Esta não. — Ele segura a cobra o mais distante de mim que
seu braço permite. — Fique à vontade.
E ele sai, e a porta de tela bate de novo. Em vez de sentar, fico
em pé. Não olho para o toca-discos ou o sofá porque claramente
são instrumentos de sedução e não vou me deixar seduzir de novo.
A porta bate mais uma vez e ele está de volta. Fico esperando
que diga alguma coisa sobre a noite anterior, mas em vez disso ele
diz: — Eu estava na escada limpando as calhas e ouvi um baque
vindo de dentro da casa e o barulho de alguma coisa caindo.
Imaginei que fosse Archie, o cachorro da ilha, mas alguma coisa me
disse que era melhor conferir, então quando entro tem um pássaro
voando aqui dentro. E o cachorro está felizão porque quer pegar o
pássaro, boto ele para fora para que ele não consiga. E começo a
procurar alguma coisa, uma vassoura, uma toalha, e uns trinta
segundos depois que saí escuto um grito que parece um sacrifício
humano. Imagino que o cachorro tenha conseguido entrar de novo,
mas não, ele está na varanda, então corro e é quando vejo a cobra.
Comendo o pássaro.
— Esse tipo de coisa acontece bastante por aqui?
— Que tipo de coisa?
— Pássaro e cachorro e cobra dentro de casa e Jeremiah Crew,
domador de animais selvagens.
— Domador de animais selvagens. — Ele olha para o teto,
pensando. — Gostei. — Se joga no sofá (o sofá) e diz — E aí,
Capitã?
— Podemos conversar?
— Deixa eu adivinhar: você quer saber se agora sou seu
namorado?
— Não se iluda.
— Quer dizer, claro, se você quiser que eu seja. — Ele levanta as
sobrancelhas e dá uns tapinhas no sofá. — Já entendi. Você quer
mais uma rodada.
— Não.
— Ai.
— Quer dizer, não foi horrível.
— Ótimo.
— Só preciso te contar uma coisa.
Não é nada de mais. Ele nem vai ligar. Provavelmente vai dizer “E
daí?”. Mas continuo ali, em pé, sem sentar, mudando o peso de uma
perna para a outra, coçando picadas de insetos, passando a mão no
cabelo, colocando o cabelo atrás da orelha, embora não tenha mais
cabelo para isso.
— Você vai me contar ainda hoje?
— Eu sou virgem. Era virgem.
— Quando?
— Há duas noites. Antes de a gente transar.
— Você está falando sério?
Parte de mim solta um suspiro de alívio: Ah, graças a Deus eu
não sangrei no sofá.
— Estou — digo. — Acho que foi por isso que fiquei esquisita
aquela hora. Vi você com a Wandinha e de repente pensei O que eu
estou fazendo? Eu mal te conheço, e no momento eu mal me
conheço…
— Deixa eu ver se entendi. Eu pergunto se você tem certeza e
você diz Ah, sim, tenho certeza, só me dá um pouco de vodca…
— Não foi assim que eu falei, e eu não bebi a…
— E de repente estamos no meio da coisa, e pergunto de novo se
você tem certeza, e agora você me diz que foi sua primeira vez?
— É.
— Merda. — E ele não está mais sorrindo. Esfrega a cabeça,
passa a mão no cabelo, olha para o chão como se estivesse
tentando memorizar a Carta Magna.
— Fala alguma coisa.
Contar a verdade imediatamente faz com que eu me sinta mais
leve. Ao mesmo tempo, sinto lágrimas se formando em meus olhos
porque percebo que ele está chateado.
— Merda. — Ele olha para mim. Desvia o olhar. — É o que eu
tenho para dizer. Merda merda merda.
— Eu estou bem. Você não precisa se preocupar comigo.
— Obrigado. É um grande consolo.
— Estou falando sério. Eu sabia o que estava fazendo.
Ele me encara de novo, e o jeito como está olhando me faz querer
que não estivesse.
— Em algum momento você pensou que talvez eu também
devesse saber disso? Tipo, que talvez eu gostaria de ter essa
informação?
— Eu achei que os caras gostassem das virgens.
— Meus Deus, Capitã.
— O quê?
— Nós não somos todos canalhas.
— Eu não disse isso…
— Então agora eu sou o babaca. Pegando uma garota que eu
acho interessante e gostosa, e não sei se teria feito isso se
soubesse. Foi sua primeira vez. Devia ter sido, sei lá, especial. Eu
podia ter tornado especial.
— Viu, foi por isso que não te contei. Eu não queria nada
especial. Queria normal. Não quero chamar atenção para isso como
se eu fosse uma aberração. E eu não precisava que você dissesse
que me ama, e não queria que você se sentisse obrigado a dizer
que é meu namorado.
Estou começando a ficar um pouco irritada.
— Uau. Tá bom. Então por que eu? Você simplesmente pensou
Ah, ele é divertido. Vou me divertir e posso contar a todas as minhas
amigas que peguei o garoto da ilha?
— Não foi isso que você fez comigo? Pegou a garota do verão?
Não foi isso que você fez no verão passado com a Wandinha?
— Não sei. Talvez. A questão não é essa.
— É que eu esperei tanto tempo, e de repente pensei O que eu
estou esperando?
— Então por que não dar um jeito logo nisso.
— Exatamente. Mais ou menos.
Ele olha para mim e desta vez continua olhando.
— Valeu.
— Quer dizer, estou feliz por ter sido com você…
— Não fale isso.
Percebo que Miah está chateado, e pela primeira vez me dou
conta de que ele também tem sentimentos. Fico parada ali, sem
saber o que dizer, querendo voltar no tempo e consertar tudo para
que, independente do que a gente faça, seja possível evitar este
momento.
Finalmente ele suspira.
— Sabe, você parece bem jovem agora. E tem muita coisa
acontecendo na sua vida. — Ele levanta, passa por mim, abre a
porta. — É melhor você ir embora.
— Sério?
Ficamos olhando um para o outro, ele segurando a porta, eu
plantada na sala, nenhum dos dois dando o braço a torcer.
Começo a andar. Paro na frente dele.
— Eu não precisava te contar que foi minha primeira vez e não te
devo nenhuma explicação, mas vim até aqui porque gosto de você e
queria ser sincera. Sei que você gosta de “conduzir” e tal, mas isto
você não vai conduzir. Nós dois fizemos uma escolha, e se você
conseguir parar de olhar só para o próprio umbigo, podemos até
voltar a fazer essa escolha. Mas é uma escolha que nós dois temos
que fazer. E se decidirmos fazer isso de novo, uma dica: não acaba
automaticamente quando você goza.
Saio pisando firme e bato a porta de tela atrás de mim. E entro de
novo. Ele ainda está parado onde o deixei.
Digo:
— E, talvez, Jeremiah Crew, você devesse tratar toda vez como
se fosse a primeira.
Bato a porta de novo e vou para casa.
DIA 8
(PARTE DOIS)

À noite, depois do jantar, não vou correndo em direção à praia, mas


ando o mais rápido possível com minhas sapatilhas. Não troco de
sapato porque isso significaria ter de voltar para a casa com a minha
mãe e conversar mais. O cantarolar das cigarras é tão alto que
parece que elas fizeram um ninho nos meus tímpanos.
Em determinado momento, mudo a luz da lanterna de branca para
vermelha porque me disseram que a vermelha não incomoda as
tartarugas, e a luz saltita enquanto ando. Parte de mim espera que
ele não esteja lá, a outra espera que esteja.
Saio das dunas e sigo para a praia.
Que está vazia.
Sento no nosso lugar de sempre e espero. E espero.
Mas ele não vem.
Tento não deixar minha mente ir aonde ela quer.
Você não devia ter estourado com ele. Ele também tem o direito
de ter sentimentos. Além do mais, você não sabe a história dele ou
quem pode estar esperando por ele em casa. Você não sabe o que
a Wandinha significou para ele, ou talvez o que ela ainda signifique.
Você não sabe nada sobre ele. Você o conheceu literalmente há oito
dias. O que você achou que fosse acontecer? Que ele passaria o
verão inteiro encontrando você na praia para vocês ficarem aqui
procurando tartarugas? Meu Deus, Claudine.
Ninguém é capaz de me fazer chorar mais rápido que eu mesma.
Fico sentada ali piscando forte para a noite, me recusando a chorar.
Enterro os pés na areia e estremeço quando uma nuvem encobre a
lua.
Deixe o garoto em paz. Se ele quiser te ver, ele vai te encontrar.
Ele sabia que você estaria aqui. Se quisesse te ver, teria vindo.
Mas outra parte de mim diz Aceite as coisas como elas são. Você
transou pela primeira vez. E com um cara que gosta de você e é —
como ele disse? — interessante e gostoso. E não foi em um celeiro
e não foi com Shane, que nunca entendeu você de verdade, e não
foi com Wyatt, que — vamos falar a verdade — você mal conhece.
E não foi daqui a dois meses na faculdade depois de você ter
bebido demais em uma festa e acordado no dia seguinte sem nem
conseguir lembrar o nome dele, como aconteceu com a irmã da
Mara. Lições da vida, como Jared diz. Uma falsa desova. Não
precisa ser nada mais que isso.
Estou pensando em ir embora quando algo escuro e enorme
emerge do mar. E sei o que é mesmo sem Miah estar aqui para me
dizer. O monstro se movimenta em direção à luz do luar, e não é um
monstro, mas uma tartaruga. Coberta de cracas. Se arrastando pela
areia como se cada passo fosse uma luta. Fico paralisada, mal
respiro, e torço por ela em silêncio. Desejando que consiga chegar
aonde quer que esteja indo.
Ela é enorme. Fico observando a tartaruga se movimentar
desajeitada até parar a vários metros de distância e começar a
cavar a areia com as nadadeiras traseiras. O trabalho é custoso e
lento, e quero ajudá-la. Mas ela é a única que pode realizá-lo. Ela é
a única que sabe exatamente como precisa ser feito.
Ouço a voz de Miah na minha cabeça: Uma fêmea pode botar até
duzentos ovos. Dois meses depois, se o ninho sobrevive, os filhotes
saem dos ovos e rastejam em direção ao mar. A maioria não
sobrevive.
Fico parada como uma pedra e mal respiro, mas meus
pensamentos estão acelerados e queria ter trazido meu caderno
para registrá-los, para registrar isso. Assisto enquanto a tartaruga
cavouca a areia e, algum tempo depois — minutos, horas — cobre o
ninho e se arrasta de volta até a água. Penso no esforço. Na força
que ela precisa ter para nadar centenas de quilômetros, lutando
para voltar à praia onde nasceu, para fazer um ninho para seus
filhotes. E agora imagino os filhotes de tartaruga, sem a mãe para
ajudá-los, e de repente sinto vontade de chorar.
A gente não pode fazer alguma coisa?
A gente ajuda como pode, mas chega uma hora que temos que
deixar a natureza assumir.
Enquanto a observo voltar desajeitada para o oceano, quero gritar
pedindo que fique. Quero agarrá-la e arrastá-la até o ninho e obrigá-
la a ficar ali. Mas em vez disso assisto enquanto ela nada para
longe.
Depois de alguns minutos, levanto, bato a areia do corpo, e vou
na ponta dos pés até o ninho. Pego a única coisa que trouxe — a
lanterna — e enterro ali pertinho, marcando o lugar. Tiro a blusa de
frio dos ombros e estendo sobre a areia. Não é uma rede, mas pode
oferecer alguma proteção contra guaxinins e coiotes e marcar o
ninho até que possamos voltar.
A ILHA

DOIS
DIA 9

Eu sei o seguinte sobre o armazém: Terri não é da ilha e faz


trabalho voluntário aqui. Ela tem três netos e um cão chamado
Banjo. As pessoas que vêm para acampar são as que compram
mais besteiras. O item mais popular da loja é — que surpresa! —
repelente. Antes de ser um armazém, era uma escola, mas a escola
fechou em 1972 porque não havia muitas crianças na ilha. Nos dias
em que a loja não tem movimento, geralmente no inverno, Terri vai
para casa mais cedo porque de que adianta ficar aqui se ninguém
aparece? Exceto pelo sermão sobre Miah, Terri e eu ficamos amigas
bem rápido.
Sento no meu canto de sempre, escrevendo no caderno — que
agora carrego comigo para todo lado —, porque é menos solitário
aqui do que na casa da Addy no assento da janela. Minhas
anotações são rabiscos atravessando as páginas e invadindo as
margens e de ponta-cabeça e em balões. Só mesmo um
criptoanalista para decifrá-las. Estou sendo o mais sincera possível
comigo mesma, o que é mais difícil do que parece. Quem não ia
preferir escrever coisas bonitas e fingir que elas são a realidade?
Mas essas anotações são como me sinto — um amontoado de
emoções e pensamentos loucos, sem edição, sem ordem, tudo
entornando de uma vez só. Bem-vindo ao caos que é meu cérebro.
Meu celular vibra e é a Saz. Estamos trocando mensagens a
manhã inteira. Assunto: sexo. Especificamente: nossa primeira vez.
É o seguinte, ela diz. Não importa o que dizem, não importa o que mostram na
internet ou nos filmes, é diferente na vida real. Nem pior nem melhor, só diferente. É
diferente de fazer sozinha porque tem outra pessoa ali e talvez ela não saiba como te
tocar como você sabe se tocar, mas o fato de que vocês se desejam já conta muito.
Transar com a Yvonne faz com que eu me sinta invencível, e também faz com que eu
me sinta completamente, sei lá, humana. Faz sentido? Acho que não faz sentido. Mas
você entendeu o que quero dizer, Hen. Você sempre entende. É por isso que sei que
sempre vamos estar bem. Porque você é minha intérprete neste mundo.
Respondo: Faz sentido. De certa forma, ele me tocando e eu não gozando foi
mais importante do que eu mesma me tocando e gozando. Nunca me senti mais
humana na vida. Como se cada pedacinho de mim estivesse aberto e exposto, mas
também completamente desperto, e como se eu pudesse sentir tudo no mundo, as
coisas boas e as ruins. Como se, de certa forma, eu fosse capaz de sentir mais.
Mas como a gente se protege?
Saz escreve: Yvonne e eu usamos dental dam. Porque adivinha? As lésbicas
também podem pegar dsts, galera. Eu nunca nem tinha ouvido falar nisso, mas a
Yvonne teve mais parceiros que eu, incluindo Robbie Ziffren, e ela é supercuidadosa.
(Você lembra do Ziff? Ele estava no último ano quando a gente estava no segundo.)
Respondo: Lembro mais ou menos do Ziff. (Ele andava com os irmãos Lawler,
né?) Mas não estou falando de dental dams ou camisinha ou anticoncepcional
porque sei sobre tudo isso (obrigada, mãe). Estou falando de como a gente garante
que não vai se machucar? No coração, na mente, na alma etc.
Fico sentada olhando para o telefone, para os pontinhos que
indicam que ela está digitando. Espero e espero e espero.
Atrás do balcão, Terri levanta, se alonga e começa a rotina de
fechar a loja.
— Cinco minutos, Claude — ela diz.
— Tá bom.
Junto minhas coisas demorando o máximo possível. Caderno na
bolsa. Caneta na bolsa. Chapéu na cabeça. Levanto. Empurro a
cadeira. Confirmo que o caderno está na bolsa. Confirmo que a
caneta está na bolsa. Espano o pó da mesa. Finjo procurar a chave
sendo que não uso chave desde que saímos de Ohio porque todo
mundo na ilha deixa as portas abertas.
Quando não tenho mais como enrolar, começo a ir em direção à
porta. Estou com a mão na maçaneta quando meu celular vibra.
Olho para a tela. Depois de todo esse tempo, a Saz escreveu só
uma frase. Não tem como garantir.

Encontro Wandinha na pousada, trocando os lençóis de um dos


quartos do andar de baixo, o que fica ao lado da biblioteca. Bato na
porta aberta e ela olha da cama para mim, as tranças pretas
balançando.
— E aí, Forasteira.
Ela não parece surpresa ao me ver.
Entro no quarto e ela se atrapalha com o lençol de elástico, então
pego uma ponta e juntas cobrimos o colchão e alisamos os vincos
com as mãos, e colocamos o lençol de cima e o edredom. Durante
tudo isso, tento não visualizar Wandinha rindo com Miah na
varanda, que é exatamente o que meu cérebro quer fazer.
Arrumamos os travesseiros e nós duas damos um passo para
trás, ficando ombro a ombro. Pego uma ponta do edredom e puxo,
para ficar bem uniforme.
Ela diz:
— O que você quer?
— Perguntar sobre o Miah.
— Ele contou sobre a gente?
— Só que vocês tiveram algo no verão passado.
Odeio dizer essas palavras em voz alta porque odeio que elas
sejam verdade. É idiota, mas não quero pensar em Miah e
Wandinha. Só quero pensar sobre Miah e eu.
— Então aconteceu? Vocês transaram?
— A gente tem saído…
— Então você está transando com ele.
— Eu queria conversar com você antes de sairmos de novo.
— Por quê?
— Porque amigas vêm em primeiro lugar.
— Eu não diria que somos amigas, Forasteira.
— Só achei que devia te perguntar. Me pareceu a coisa certa a
fazer. Então se você e Miah ainda tiverem alguma coisa, não vou
mais sair com ele.
Ela senta na beirada da cama. O tempo todo, enquanto olha para
mim, ela passa a mão no edredom, alisando os vincos que formou
ao se sentar.
— Passamos duas ou três semanas juntos no verão passado, e
só. Mas não. Não temos mais nada. Não desde o verão passado.
— Você gosta dele?
— Eu mal o conheço. — Ela levanta, pegando o lençol usado do
chão. — Você vai ver. Até o fim do verão, provavelmente também
não vai saber nada sobre ele. Então você não vai me incomodar. Só
tome cuidado. O Miah basicamente só se importa com ele mesmo.
De novo: Só tome cuidado.
— Como assim?
— Ele tem toda uma vida no continente sobre a qual nunca fala
nada, e quando não quer mais saber de você, simplesmente
acabou. Nada de “Ei, foi divertido, obrigado pelas memórias”. Então,
vá em frente, pode ficar com ele.
Espero um pouco, caso ela mude de ideia. Ela junta os lençóis
embaixo de um dos braços e passa por mim em direção ao
banheiro, onde larga os lençóis em um cesto de roupa suja e
começa a juntar as toalhas.
Não sei o que fazer ou dizer, então saio do quarto. Já estou
desejando nunca ter entrado quando ouço: — Ei, Claude?
— Quê?
Volto para a porta, meio que esperando que ela grite comigo.
Wandinha joga uma trança por sobre o ombro e pega o cesto de
roupa suja, equilibrando-o no quadril.
— Obrigada. Foi legal da sua parte ter perguntado.
DIA 10

Chega mais uma caixa enviada por Neil Henry, Capri Lane, 720,
Mary Grove, Ohio. Nesta: uma pilha de livros, algumas fotos do
Bradbury e do Dandelion e de mim quando criança, meu All Star
vermelho, dois brincos, e minha camiseta da Miss Piggy. Visto a
camiseta, que de repente parece pequena demais, como se
pertencesse a alguém muito mais jovem. Tiro e jogo no lixo.
O bilhete diz:

Querida Clew,
Mais alguns tesouros das profundezas do seu quarto. Me avise se quiser ou precisar
de mais alguma coisa. Bradbury e eu estamos com saudades, e suas coisas também
estão, por isso pensei em mandar mais algumas. Espero que esteja se cuidando,
garota. Esperando ansiosamente por agosto.
Com amor,
Papai

Todos esses anos sem pisar no meu quarto e, de repente —


agora que estou longe —, meu pai está lá o tempo inteiro.
Pego o celular e escrevo uma mensagem: Por favor pare de me mandar
coisas. Volto para casa em agosto e agora só tenho mais coisas para empacotar e
levar de volta. A não ser que você não queira minhas coisas por aí porque elas te
fazem pensar em mim, nesse caso NÃO ENTRE NO MEU QUARTO.
Todos os pensamentos raivosos jorram de dentro de mim. Como
ele ousa entrar no meu quarto e desmontá-lo, extrair minhas coisas
como se estivesse fazendo uma cirurgia, separar minhas coisas
umas das outras, invadir meu lar.
Deixo a mensagem sem enviar, mas também não apago. Minha
mãe diz que às vezes precisamos escrever nossos sentimentos,
mas não necessariamente precisamos compartilhá-los — talvez a
pessoa de quem você está com raiva não entenda ou não se
importe, então mandar uma mensagem ou um e-mail longo só vai
piorar as coisas. O importante é deixar os sentimentos saírem.
Acrescento: Caso você esteja se perguntando, a mamãe e eu estamos bem. Ela
está ocupada com o trabalho, e eu conheci um cara e dormi com ele, o que quer
dizer — segundo o dr. Alex Comfort — que sou uma mulher agora. Não sou mais a
Clew. Não sou mais a sua garotinha.
E o que eu quero dizer é: Ainda sou sua filha, mas agora é
diferente. Mas não por causa do Jeremiah. Por sua causa.
E fico sentada ali, as palavras tiradas de dentro de mim e na tela.
Deixo que fiquem ali por um bom tempo antes de apagá-las.

Quase não vou à praia, mas algo me guia até lá. Uma sensação
de obrigação, talvez, com as tartarugas e comigo mesma. Acho que
preciso dessa rotina. Sete e meia: coquetéis. Oito e meia: jantar.
Dez horas: oceano. É reconfortante saber o que vou fazer e quando.
Caminho até a praia Little Blackwood, há um zunido no ar, e o
calor toma conta da minha pele. Um momento me faz perder o
fôlego: quando saio da cobertura das árvores e piso na areia, e a lua
está no céu e também na água, e é tudo o que vejo, uma lua
vermelha enorme que parece estar pegando fogo.
Passo pelas dunas, procurando pelo ninho de tartaruga que
marquei com a lanterna e cobri com a blusa. A lanterna foi
substituída por uma estaca de madeira, e uma rede cobre a areia.
Não há nenhum sinal da minha blusa.
Avanço um pouco mais e afundo na areia, e de repente não estou
sozinha na praia. É engraçado aqui, nesta ilha — como as vezes é
possível sentir o passado. Talvez seja a cor do céu ou o volume das
cigarras ou o crepúsculo caindo sobre o pântano. Ou talvez sejam
só minhas oscilações de humor. Esta noite, sob a lua vermelha, os
fantasmas da família Blackwood estão por toda parte, pegando
carona com as tartarugas até o mar e dançando em suas melhores
roupas e tentando lutar contra as chamas enquanto Rosecroft
queima.
Segundo minha mãe, no dia 11 de março de 1993, tia Claudine
acordou sabendo que ia morrer. Ninguém lhe tirou o chão. Nenhuma
surpresa. Ela morava na pousada na época — ou na casa que veio
a se tornar a pousada —, que tinha herdado depois que o pai
morreu, e que queria deixar para a guarda florestal. Ela pediu à
amiga de sua mãe Clovis Samms que a levasse até a mansão
Rosecroft uma última vez, embora estivesse em ruínas, já que tinha
pegado fogo dois meses antes. Ao meio-dia, ela voltou para a cama,
os pés já frios. O frio foi subindo e se espalhando por seu corpo.
Horas mais tarde, ela estava morta. A autópsia revelaria câncer,
mas, se um dia foi diagnosticada, Claudine nunca contou.
Penso sobre ter ou não essa consciência. Sobre Claudine acordar
sabendo que morreria — como seria acordar de manhã e saber que
o fim está próximo. Sobre Tillie Donaldson Blackwood acreditando
que sua vida estava só começando no dia de seu casamento. É
melhor estar preparada? Ter de esperar pelo fim sabendo que não
há nada que possa ser feito? Ou é melhor que o mundo mude de
uma hora para a outra — como o meu mudou, como o de Claudine
mudou — sem aviso?
Tiro o caderno azul da bolsa e anoto essas coisas, meus olhos se
ajustando à escuridão e ao luar. Estou tão entregue aos meus
pensamentos que nem percebo Jeremiah Crew até ele estar em pé
ao meu lado.
— Capitã.
Olho para ele, piscando. Por um segundo, ele também é como um
fantasma.
— Sentiu saudade de mim? — ele diz.
— Não.
Sim. E não é só meu coração que começa a bater mais rápido.
Meu corpo inteiro começa a pulsar ao vê-lo.
— Tenho quase certeza de que sentiu.
Ele me entrega alguma coisa e demoro para reconhecer o que é.
Minha blusa.
— Obrigado por marcar o ninho.
Ele senta ao meu lado. Estendo a blusa sobre os joelhos como
um cobertor, embora o que eu esteja sentindo seja o oposto de frio.
— Então — ele diz.
— Então.
Ele passa a mão na areia. Pega um pouco na mão. Espalha.
Esfrega as mãos para limpar a areia.
— Escuta — ele diz. — Me desculpa. Uma vez um merda, sempre
um merda, em algum nível. Você não tinha que me contar, mas
contou mesmo assim. Um pouco depois do acontecido, mas contou.
— Você tem razão. Eu não tinha que te contar. É meu corpo. Eu
decido o que acontece com ele. E você não ficou bravo quando
achou que eu fosse só uma garota fácil que você podia pegar este
verão.
— Nunca achei que você fosse uma garota fácil. Nada em você é
fácil, Capitã. Mas tudo bem. E você tem razão. E eu também senti
sua falta.
— Eu não disse que senti sua falta.
— Mas sentiu.
Estou pensando em Wandinha e Terri e nos avisos que elas me
deram sobre ele. Mas então penso Talvez elas não o conheçam
como eu o conheço. E é por isso que parte de mim responde: —
Senti.
Porque o que eu tenho a perder?
Olho para ele e ele olha para mim e nenhum de nós desvia o
olhar. E consigo ver ali dentro. Ele ainda gosta de mim. E não
consigo evitar: eu gosto dele.
Ele diz:
— Então, eu tive um tempo para pensar e proponho o seguinte:
você é sincera comigo; eu sou sincero com você. Esta é quem você
é, este sou quem eu sou. A gente começou muito bem, então vamos
continuar. É pegar ou largar.
Enterro os pés na areia enquanto tento formular pensamentos e
palavras e organizá-los de um jeito sensato, inteligente, articulado.
Nunca fiz isso antes — nunca despejei minha alma para uma
pessoa que acabei de conhecer. Mesmo com a Saz, quando
tínhamos dez anos, levou algum tempo. E se eu não conseguir fazer
isso? E se eu já tiver despejado tudo o que podia? Abro a boca e
digo a primeira coisa que sai.
— Você e a Wandinha. O que vocês tiveram, exatamente? E você
ainda gosta dela? E tem planos de sair com ela de novo neste verão
enquanto também sai comigo? Porque não sei se sou tão evoluída
assim. Na verdade tenho certeza que não sou. Não que eu te ame
ou precise que você me ame, mas tenho quase certeza de que só
posso transar com alguém que só transa com uma pessoa por vez.
Ele ri.
— Uau. Você abraçou mesmo essa coisa da sinceridade. Então
está dizendo que vamos transar de novo?
— Estou falando hipoteticamente.
— Não foi o que pareceu.
Levanto as mãos como quem diz Quem sabe?
— Acho que vamos ter que esperar para ver. — Ele esfrega o
rosto. Olha para o oceano, e vejo que está organizando os próprios
pensamentos. — Então, a Wandinha e eu saímos durante umas
duas semanas no verão passado. Era basicamente só sexo, e de
vez em quando a gente ia até a praia ou curtia no Dip, que era
basicamente o que ela queria fazer. Não tenho planos de sair com
ela de novo, menos ainda enquanto saio com você. Se quisesse
ficar com a Wandinha, eu estaria com a Wandinha.
— Não quero acabar descobrindo que você está, tipo,
comparando nós duas de alguma forma, e que eu sou um prêmio de
consolação.
— Você nunca vai ser um prêmio de consolação, Capitã. Você é o
urso de pelúcia gigante do parque de diversões, do tamanho de um
carro, que custa um zilhão de tickets. Aquele que a gente se acaba
tentando ganhar naqueles jogos de acertar os jacarés ou atirar nos
patos ou em qualquer outra brincadeira do tipo só para ir embora
com ele pra casa. Eu também não sou exatamente um cara que
transa com mais de uma garota por vez. Além disso, você sabe que
estamos em uma ilha, né?! — Ele dá um meio sorriso. — Então, do
que você tem mais medo? Em relação a nós dois?
Penso um pouco.
— Tenho medo de que você vai estar muito a fim de mim em um
dia e no seguinte não vai estar mais, e eu vou ser pega de surpresa.
Porque os sentimentos podem mudar da noite para o dia, pelo jeito.
E talvez o problema seja eu. Talvez eu seja demais. Ou talvez não
seja o bastante.
Todas as coisas que venho pensando desde que meu pai me
contou que ia sair de casa.
— Você é o bastante. Acredite. Você é mais que o bastante.
Ele ri um pouco, mas percebo que também está falando sério.
— Não que você tenha que gostar de mim para sempre, mas
acho que não sobreviveria a mais uma rodada de Agora o chão está
aqui, agora não está mais.
— Isso não vai acontecer.
— Como você sabe?
— Porque eu sou o cara que está lá. Quando o pai vai embora,
quando a mãe desmorona. E quando eu tenho sentimentos, eles
não mudam da noite para o dia.
Abro a boca para perguntar sobre a Wandinha e ele diz: — Eu
disse quando eu tenho sentimentos.
O que significa que talvez eu seja diferente, de alguma forma.
Respiro fundo. Solto.
— E do que você tem mais medo?
— De você.
Nossos olhares se cruzam, o dele e o meu, e é o momento mais
erótico da minha curta vida. Tem tanto calor, mas mais do que isso.
Algo que parece amor.
— E de mim — ele continua. — Eu morro de medo de mim. Eu
tenho mania de sabotar as coisas boas da minha vida, porque,
durante muito tempo, quando algo de bom acontecia, eu achava que
não merecia. Então eu fodia com tudo, na maioria das vezes de
propósito. Hoje eu sei que não preciso fazer isso, mas não quer
dizer que não vou fazer. Como você deve ter percebido — seu tom
de voz é meigo e brutal ao mesmo tempo.
Penso um pouco.
— Então eu tenho dificuldade para confiar porque as pessoas vão
embora, e você estraga as coisas boas de propósito porque assim
pelo menos não vai se machucar.
— Basicamente.
— Perfeito.
— Pelo menos sabemos no que estamos nos metendo.
Ele bate o braço no meu e eu bato de volta. Em algum lugar
dentro de mim, o muro cai um pouquinho.
Digo:
— Só para constar, também acho que você é um urso de pelúcia
gigante; se não achasse, nunca teria me envolvido com você. Quer
dizer, que tipo de garota você acha que eu sou?
— Do tipo que eu nunca vi antes.
Ele sorri.
Eu sorrio.
— Então isso quer dizer que você quer que eu seja sua
namorada?
— Foi isso que eu disse?
— Basicamente. Quer dizer, claro, se você quiser que eu seja.
— Eu quero que você seja.
— Eu quero ser.
Ele se aproxima e me beija. Então me abraça e eu me aninho
nele e a sensação é boa.
Digo:
— Talvez seja melhor a gente não falar sobre o que vai acontecer
quando formos embora daqui.
Faço um gesto indicando a ilha.
— Como você quiser, Capitã.
Ficamos ali sentados e por algum motivo eu só consigo pensar no
que vai acontecer quando formos embora.
Ele olha para o céu.
— É lua cheia. O que quer dizer maré cheia. O que quer dizer
caça ao tesouro.
Imagino navios piratas e moedas de ouro e baús de joias —
montanhas de estrelas cintilantes e reluzentes. Imagino Miah e eu
navegando pelos mares em um navio pirata, espalhando ouro por
toda parte e para todo mundo. De repente tudo parece possível.
Digo a mim mesma Você consegue. Só tenha cuidado.
— Vamos fazer isso amanhã. Eu levo galochas para você.
— Por que vou precisar de galochas?
— Você vai ver. Que número você calça?
— 39.
Ele assovia.
— O quê? É um tamanho normal.
— Nada em você é normal, Capitã. Nem seus pés gigantescos.
Chego antes da meia-noite, e minha mãe ainda está acordada,
trabalhando no pequeno escritório. Fico à porta por um instante
observando, reparo na inclinação de sua cabeça enquanto lê
alguma coisa, no jeito que se debruça sobre o notebook ao digitar,
no modo como cantarola sozinha de vez em quando, como se
estivesse ouvindo uma música que não consigo ouvir.
De repente me sinto preenchida de amor. Me aproximo e, sem
dizer nada, a abraço. Minha mãe larga os papéis que está lendo e
também me abraça, e ficamos assim por um bom tempo.
DIA 11

Na tarde seguinte, Miah e eu passamos pela mansão Rosecroft aos


solavancos na caminhonete, descendo por uma estrada de terra que
corta os arbustos. No painel, as conchas e ossos de jacaré e outras
relíquias da ilha surgem no reflexo do para-brisa, aparecendo e
desaparecendo conforme passamos sob as copas das árvores. Ele
está cantando, totalmente desafinado, e eu seguro o quepe de
pescador para que não saia voando.
Enquanto ele canta, penso sobre segundas chances e sobre ser
humano. Sobre não ter ideia se alguma coisa vai dar certo ou não.
Eu acreditava que sabia tudo sobre mim e sobre as pessoas à
minha volta. Meu mundo estava em ordem. Tudo em seu lugar. E
agora estou em uma caminhonete com um garoto que acabei de
conhecer — um garoto com quem transei — que está me levando
para um lugar onde nunca estive.
A caminhonete dá um tranco e para à beira do pântano. Miah
estica a mão atrás do banco e pega um par de galochas verde-
escuras e grossas e cheias de lama.
— Você está com sorte.
— Não tem nenhuma mais bonita? De bolinhas vermelhas?
— Saia da caminhonete.
Fico empoleirada descalça no estribo e calço um pé da galocha e
depois o outro. Tem água no pé esquerdo, mas não vou tirar de
novo. Em vez disso, fico em pé diante dele — vestidinho de verão,
quepe de pescador, galochas, pé esquerdo imerso em dois
centímetros de água parada —, e o encaro como quem diz
Tcharam.
— Você é oficialmente da ilha, Claude Henry. É uma de nós
agora. — Nesse momento, são as palavras mais lindas que ele
poderia dizer, como se eu tivesse passado a vida toda esperando
por elas. Ele está descalço, óbvio, e com a bermuda militar
supercurta.
— Você sabe que parece um otário com isso aí.
Faço um gesto indicando a bermuda.
— Na verdade prefiro guerreiro domador de animais selvagens,
colecionador de dentes de tubarão, arauto da liberdade. Por que
você não pega nelas, Capitã? Vá em frente… sei que você quer.
São a coisa mais macia da face da terra. — Ele me beija. — Depois
dos seus lábios.
Eu o beijo de volta e de repente estamos basicamente nos
pegando encostados na caminhonete. Seu braço me envolve, e ele
me puxa para perto, e estou toda pressionada contra ele.
— Pronta? — ele pergunta em meu ouvido, e de início acho que
ele quer dizer Você está pronta para transar de novo? Aqui, comigo,
nesta caminhonete?
— Pronta.
Sim, estou pronta.
Mas ele pendura a câmera no ombro e saímos, e vou atrás dele
por um caminho que se abre em uma vista de céu e água.
Seguimos pisoteando a areia, compacta e dura, não macia e branca
como em Little Blackwood e nas dunas. A água do pântano faz
zigue-zague, e avançamos pisoteando o raso e saltando as seções
mais profundas. Ele estende a mão e eu pego. Quando chegamos a
um corpo de água do tamanho de um rio pequeno, ele para.
— Não estou gostando da cara desse córrego.
— Isso é um córrego?
— A maré ainda está subindo, o que significa que vamos ter que
nadar na volta.
Ele faz uma careta olhando para o meu vestido.
— Você não é o único fodão aqui.
Ele vai primeiro, e a água chega só até seus joelhos. Ele acena
para mim e estende a mão, e eu entro, o vestido grudando em mim
como uma segunda pele, e avanço com dificuldade pelo lodo. Passo
por ele e escalo até a margem, avançando até o gramado do
pântano.
Ele vem atrás de mim, e já estamos molhados e cobertos de
lama. Ele vai à frente, passando pelos bambus até chegar à praia,
ao pouco que há dela. De uma só vez, a areia vira lama, espessa e
escura e pegajosa. Minhas botas emitem um som surdo conforme
ando. É um ato de equilíbrio tentar avançar sem afundar, e sinto o
chão me puxando para baixo, para baixo, para baixo. Sempre que
fico presa, Miah pega meu braço e me puxa.
— Lama de marisma — ele diz. — Algumas pessoas chamam de
lama do pântano. Esse mato crescendo dela é capim-marinho.
— Eu sei tantas coisas sobre a natureza agora.
Isso o faz rir. Ele tira a camiseta, e de início acho que vai
continuar e tirar a bermuda também. Fico meio gelada e quente ao
mesmo tempo porque quero muito que ele tire a roupa, e imagino
arrancar o vestido e ficar só de galochas, calcinha e um palmo de
repelente. Mas ele estende a camiseta na minha direção.
— Você está se queimando. Mais ainda que o normal.
— Obrigada.
Visto a camiseta e faço um nó na cintura, e sinto o cheiro dele em
mim — fresco e terroso, como uma brisa. É a camiseta do meu
namorado, penso. Ele é meu namorado.
Ele afunda na lama e eu afundo, e nós dois ficamos presos e nos
impulsionamos para a frente, como se estivéssemos avançando por
areia movediça.

Conchas e pedras estão espalhadas pela areia e pela lama até


onde a vista alcança, como se só restasse isso no mundo. Elas se
estendem até o oceano, até o horizonte. Caminho olhando para
baixo, sem saber ao certo o que pegar e o que deixar. Miah está
juntando coisas. Isso é um dente de tubarão. Isso é uma concha
fossilizada. Isso é um dente de algum animal pré-histórico. Isso é
um pedaço de um jacaré. Isso é um osso de tatu. Todas essas
coisas parecem iguais para mim e não sei como ele consegue
diferenciá-las. É como se falasse a língua do pântano e eu estivesse
por fora. Só que agora não estou por fora porque ele está traduzindo
cada pedacinho para mim de um jeito que faz com que eu me sinta
parte da ilha e parte dele.
Ele se abaixa e desenha um círculo na areia.
— Tem um dente de tubarão aqui.
Estudo a areia como se fosse o pedaço de terra mais importante
na Terra. Me abaixo e pego um triangulozinho minúsculo. Fico com
a palma aberta para que ele veja.
— Você tem talento.
E o jeito como diz isso sugere que não está falando só sobre
dentes de tubarão. Ele se aproxima e me beija, a língua
encontrando a minha. Eu o bebo, seu calor, seu cheiro, seu gosto.
— Não vejo a hora de ficar pelado com você de novo — ele diz.
E começamos a nos beijar como dois animais selvagens, e
quando estamos prestes a tirar a roupa e nos jogar na lama e no
capim-marinho e no pântano, uma buzina ressoa de algum lugar.
Olho para cima e é a barca passando. Grady acena para nós do
convés, com um sorriso malicioso enorme, e penso na cena, nós
dois nos agarrando, meu cabelo arrepiado.
Miah e eu nos separamos e seguimos pela praia, ele desenhando
círculos, eu pegando os dentes de tubarão, até juntar um punhado.
Ele pega um e segura no alto.
— Milhões de anos atrás, isso caiu no fundo do oceano no lugar
exato e foi coberto de areia. E aqui estamos nós, só você e eu,
milhões de anos depois, encontrando esse dente.
Chacoalho os dentes na mão e penso que são pequenos
fragmentos quebrados de alguma coisa. Como pequenos corações
partidos.
— Para onde você acha que o amor vai quando as pessoas
deixam de nos amar? Você acha que existe, tipo, um ferro-velho
para todo o amor perdido e descartado?
Abro a mão e organizo os dentes no formato de um coração.
— Aonde o amor vai para morrer?
— É, ou para esperar ser reciclado.
— Amor reciclado. É algo para se pensar. Não sei. Talvez seja
ainda mais forte porque é forjado de todos esses tipos diferentes de
amor, de todas as partes que sobreviveram.
— Talvez — respondo.
Fico pensando nisso enquanto ele desenha mais um círculo e eu
pego mais um dente. Acrescento ao coração que fiz, então fecho a
mão e chacoalho todos os dentes de novo, misturando os pedaços.
Imagino todas as facetas diferentes do amor: compreensão, sexo,
segurança, romance, mágoa, confiança, vulnerabilidade. Todos os
pedaços que formam o amor romântico e o amor não romântico —
como o amor que sinto pela Saz e pelas minhas outras amigas, e o
amor que sinto pela minha mãe. E, embora eu não queira, pelo meu
pai.
Digo:
— Eu acreditava que o fato de meus pais serem felizes, ou
parecerem felizes, fazia de mim invencível, como se eu pudesse
entrar em qualquer lugar no mundo e todos seriam meus amigos
porque eu não sabia que o amor podia mudar ou desaparecer. Quer
dizer, eu tinha amigos que tinham pais separados, mas ver isso de
fora é diferente de sentir na pele.
— Talvez a questão não seja eles serem felizes juntos. Talvez
esses superpoderes tenham vindo do fato de eles saberem te amar.
Meus pais não se suportavam e, quando eles estavam juntos, não
havia muito espaço para nós, os filhos. Se eles estivessem no
mesmo cômodo, eu virava e saía porque sempre acabava com um
controle remoto ou coisa pior atirada contra você.
— Sério?
— Muito sério.
— Eu nunca nem ouvi meus pais discutindo. Minha amiga Saz diz
que isso é estranho.
— Talvez exista um mundo onde os pais não gritam, mas
conversam quando brigam. Não sei. Acho que não via o meu pai
como, sei lá, como uma pessoa até mais ou menos um ano atrás.
Ele era só uma força invisível que fodia com a vida da minha mãe e
com a minha. — Ele olha para o horizonte, como se estivesse vendo
alguma coisa, uma memória, talvez. — Mas, se ele não tivesse feito
isso, talvez eu não estivesse aqui nesta praia com você.
Ele olha para mim e vejo o foco voltando.
— Eu também não estaria aqui. Se meus pais não tivessem se
separado.
Eu trocaria caminhar nesta praia com Jeremiah Crew se isso
significasse que meus pais ainda estariam juntos? Eu trocaria quem
eu sou agora, neste momento, o sol brilhando sobre mim, os dentes
de tubarão na minha mão?
Ele desenha mais um círculo e juntos ficamos olhando para a
areia. Me abaixo. Pego o dente. Seguro para o alto.
Digo:
— Eu queria que eles tivessem ficado juntos e mesmo assim eu
estivesse aqui.
— Se eles não tivessem se separado, provavelmente você seria
outra Claude.
— Provavelmente.
— Como ela era? A Claude pré-ilha?
— Uma grande sonhadora, que queria sair e ver o mundo e viver
uma vida incrível em algum lugar. Eu era, sei lá, agitada, mas
confortável, talvez não tanto na minha própria pele, mas em casa,
na escola. Eu achava que sabia exatamente quem eu era. Mas
também era bem ingênua. Podemos dizer que tenho uma
compreensão muito mais profunda de como o mundo funciona
agora. — Dou um sorriso para ele. — Meu professor de escrita me
disse que eu precisava sentir mais para fazer os leitores sentirem. E
eu queria que alguma coisa acontecesse comigo para deixar minha
escrita mais interessante.
Por mais banais que possam parecer, são as coisas mais difíceis
que já contei a alguém. Esta sou eu, penso. É pegar ou largar.
— Então você anda escrevendo agora?
Por algum motivo, me calo, talvez por uma sensação de culpa,
porque devia estar escrevendo mais. Ou talvez porque ultimamente
tenho rabiscado algumas coisas sem um objetivo ou propósito real,
então não tenho certeza de que posso chamar isso que tenho feito
de “escrever”.
Respondo:
— Na verdade não.
Ele levanta a câmera e aponta para os caranguejos que passam
correndo por nossos pés.
— Minhas fotos são um jeito de contar histórias, mas sem a
pressão de um monte de palavras. Eu pensava nelas como um
modo de capturar tudo o que é bom. Tudo o que minha vida não
era. Mas agora tiro fotos de tudo: do triste, do perturbador, do feio. É
meio por isso que coleciono ossos. Eles contam uma história.
Geralmente uma história trágica, porque, você sabe, são ossos, mas
para mim existe beleza nisso.
— Existe beleza em toda história. E existe uma história em tudo.
— Como esses dentes.
Ele desenha um círculo na areia. Pego um dente e entrego para
ele e penso no que Wandinha disse sobre nunca ter conhecido
Jeremiah Crew de verdade. Talvez eu seja diferente.
Ele diz:
— Ou talvez eu esteja nesta ilha há tempo demais.
E ele me dá um sorriso que sinto até os dedos dos pés. Desvio o
olhar, olhando diretamente para o sol, porque não é nem de longe
tão ofuscante.
— E como era o Miah pré-ilha?
— Você não teria gostado dele. Mal-encarado. Com raiva do
mundo. Sinceramente, parece uma pessoa muito imprudente, muito
infeliz, que viveu há muito tempo. Este é o único eu que eu conheço.
— Ele dá de ombros, e é sincero. — Isso não significa que não me
pergunto quem eu seria ou como tudo estaria se meu pai tivesse
ficado ou fosse uma pessoa diferente. Mas talvez, independente do
que acontecesse, do que ele fizesse ou de quem ele fosse, eu teria
me tornado este cara que está na sua frente agora. Eu só sei que
passei por algumas merdas e elas me transformaram em… bom, em
mim.
Enquanto caminhamos, pequenos caranguejos correm por toda
parte. Ele diz: — Escuta.
Ficamos parados e dá para ouvi-los correndo pelos bambus —
uma música bem baixinha. A ilha já parece uma relíquia congelada
de outra era. E agora, neste momento, sinto o tempo parar. De
repente enxergo cada sombra, cada cor. Ouço cada som. Olho ao
redor, e talvez pela primeira vez na vida estou no presente. Não no
passado nem no futuro, aqui.
Fico em pé, meio enterrada na lama, a mão cheia de dentes de
tubarão e conchas e areia, e observo Jeremiah Crew se afastando
de mim, com a cabeça baixa, vasculhando a praia. Ele se abaixa,
pega uma pedra, continua andando. E nesse momento sinto meu
corpo se preencher de algo que parece amor por esse garoto que
sabe tantos dos meus segredos. Que está me ensinando a achar
dentes de tubarão. Que trouxe galochas para mim. Que está me
mostrando sua ilha. Esse garoto descalço, feito de sol e luz, que é
um só com a lama e a areia e o pântano. Colecionando tesouros.
Encontrando beleza nas menores coisas. Ferido como eu, mas sem
olhar para trás. No presente. Olhando para a frente. Se
maravilhando com o que está diante de si. À vontade na própria
pele. À vontade onde quer que esteja.
Penso: Eu poderia morar aqui, poderia ser feliz aqui. Bem aqui
com ele. Eu poderia ficar aqui para sempre.

O córrego que era um lago agora é um rio. O ar está mais quente


e mais úmido. Os insetos estão rondando. Miah está à minha frente,
analisando o horizonte. Tem água até onde a vista alcança.
— Tem jacaré aqui? — pergunto.
— Não dos pequenos.
— O que quer dizer com isso?
— Quero dizer vamos logo, Capitã.
Ele me ajuda a descer pela margem e entrar na água, e solto um
grito porque escorrego e deslizo, e nós dois caímos na gargalhada,
e meus braços estão em volta do seu pescoço e ele segura a
câmera acima da cabeça e me carrega, e meu vestido subiu até a
cintura, e ele o puxa para baixo e o alisa sobre meus joelhos.
Então ele me beija e me sinto segura aqui, assim, em seus
braços, como se nada de ruim fosse acontecer nunca mais. Quero
ficar exatamente aqui o resto do verão, talvez o resto da vida. Mas
de repente ele me coloca no chão, na outra margem, e estou
ensopada e enlameada, e ele mata um mosquito no meu braço e o
tira de mim.
Olho para ele depois de olhar para a picada, que já é um vergão
vermelho-vivo. Nossos olhares se encontram.
— O que foi?
E ele coloca as mãos em meu rosto, tira o cabelo da minha testa,
e me beija de novo.
DIA 11
(PARTE DOIS)

Minha mãe e eu vamos de braços dados até a pousada. Estou de


preto porque faz com que me sinta sofisticada. Lábios vermelhos.
Sapatilhas. Óculos de sol enorme na cabeça. Deixo o quepe de
pescador. Demos quinze passos e minha pele e meu cabelo já estão
úmidos por causa do calor e tenho duas picadas novas no braço
porque queria cheirar a Miss Dior e não a repelente.
Olho para a pousada, que parece nova e limpa, apesar de sua
idade, e por algum motivo penso na Sociedade da Gaveta Secreta.
Pergunto à minha mãe se já ouviu falar dela.
— Addy e eu desafiávamos uma à outra a entrar escondido lá e
deixar bilhetes para as pessoas de quem gostávamos. Meu Deus,
aqueles bilhetes ainda devem estar lá, a não ser que tenham
passado a limpar a gaveta.
Estou pensando no que escreveria quando nos aproximamos dos
degraus da pousada, e olho para cima e vejo Miah antes de ele me
ver. Ele está esperando na varanda, sentado no corrimão, e quando
vira o rosto para nós, perco o fôlego. Está com um paletó da cor do
oceano, e uma camisa azul-claro. Ele é tão lindo que meu coração
dói, e quero ficar mais perto dele.
Minha mãe olha para Miah, olha para mim.
— De agora em diante, vou ser a dama de companhia de vocês
dois.
— Mãe. — Penso Ah, meu Deus, por favor, que ela não saiba que
a gente transou.
— Nós três vamos nos divertir muito neste verão.
Nesse momento, Miah me vê e seu rosto se ilumina. Ele nos
encontra no último degrau.
— Capitã.
— Quase não te reconheci de sapatos.
— Eles são como prisões para os pés.
Ao meu lado, minha mãe limpa a garganta.
— Jeremiah.
— Sra. Henry.
— Pode me chamar de Lauren. — Ela não o corrige quanto ao
sobrenome. — Então, me fale sobre você. Quanto tempo vai ficar
aqui? O que você faz quando não está na ilha? E quais são suas
intenções com a minha filha?
Ela franze as sobrancelhas de brincadeira.
— Ignore, por favor — digo a ele.
Ele responde:
— Mais três semanas. Tento não arranjar encrenca. E não faço a
menor ideia.
Isso faz minha mãe sorrir.
— Muito bem. O interrogatório acabou. — Para mim, ela diz: —
Não se preocupe. Vou conversar com aquele casal simpático de
Cleveland. Vejo você no jantar.
Depois que ela se afasta, pergunto a ele:
— Você vai comer com a gente?
— Não posso. Achei que ia. Por isso as prisões nos pés. Mas o
Bram teve uma emergência na Outward Bound. Depois que eu
ajudar a resgatar um pessoal que ficou encalhado numa trilha,
venho te buscar e podemos caminhar na praia. Tem uma chuva de
meteoros hoje à noite que é para ser incrível, desde que a lua não
atrapalhe.
Ouço vozes e uma porta batendo, e de repente vários hóspedes e
funcionários estão perambulando por ali e se aproximando de nós.
Aceno para Jared e Wandinha, mas na minha cabeça penso Não
venham até aqui, não venham até aqui. Wandinha olha para além
de mim, onde está Miah, e se afasta. Tento não me concentrar no
quanto o cabelo dela brilha nessa luz do fim da tarde.
— Você deixou o celular na caminhonete. — Miah me entrega o
aparelho. — E eu trouxe mais uma coisa para você.
É um recipiente transparente de tampa preta. Cheio de tesouros.
Abro a tampa e balanço o conteúdo de um lado para o outro,
examinando os dentes de tubarão e as conchas e outros pedaços
de coisas que não consigo identificar. Pego o dente pré-histórico
que ele encontrou.
— Mas isso é seu.
— Encontramos juntos.
Pela primeira vez, sinto uma formalidade estranha com ele. Talvez
seja porque estamos vestidos como se estivéssemos indo para o
baile da escola e ele não está descalço e minha mãe está em algum
lugar por ali, mas não sei o que dizer.
O toque de um sino me pega de surpresa. Miah fica de pé, os pés
aprisionados pelos sapatos, e diz mais uma vez: — Depois venho te
buscar.
E me beija no rosto, demorando ali por um instante. Em meu
ouvido, ele diz: — Você é espetacular, Claudine Llewelyn Henry.

Depois do jantar, dirigimos até as dunas e estendemos o cobertor,


e somos as duas únicas almas ali. Deitamos lado a lado, sob a
maior lua que eu já vi. Miah diz: — Talvez a gente não veja nada.
Mas vai saber? Os meteoros mais reluzentes às vezes podem
brilhar mais que a lua, se tivermos sorte.
Estou sentindo a mesma formalidade estranha de antes, embora
eu seja a única arrumada. O paletó já era, a calça foi substituída por
uma bermuda, e ele está descalço de novo.
A noite parece muda, como se estivesse esperando, e ficamos em
silêncio, deitados ali, sem nos tocar. Quero me aproximar e beijá-lo
ou pegar sua mão ou sentir sua pele. Estendo a mão para tocar seu
braço dourado, logo abaixo da manga dobrada. Meus dedos são
leves como uma brisa. Ele olha para eles e então para mim.
— Capitã.
— Miah-rujo. — E eu dou risada. — Capitã. Miah-rujo. Entendeu?
Ele me encara por um bom tempo e começa a rir também.
— Boba.
De repente um único rastro de luz arde lá em cima, e o céu ganha
vida com traços de luz e cor. Imediatamente ficamos em silêncio,
olhando para cima. Os meteoros são como fogos de artifício sem o
barulho, e imagino os sons que fariam se pudessem — um tipo de
sinfonia alegre e cadenciada.
— Achei que não ia dar para ver.
— Não ia.
Ficamos em silêncio de novo, assistindo. Estão fazendo isso só
para a gente, penso. Uma apresentação só para nós dois.
Em algum momento, muito tempo depois, digo a ele:
— Meu pai diz que são raras as pessoas com quem podemos
ficar em silêncio. Silêncio amigável, é como ele chama. Ele diz que
a maioria das pessoas fala demais sobre coisa nenhuma. — Sinto
os olhos de Miah em mim. — Ele diz que existe uma grande
diferença entre ficar em silêncio quando os dois estão ali, juntos, e
ficar em silêncio quando um está ali, presente, e o outro está ali,
mas longe.
Minha voz se esvai e agora estou pensando no meu pai, sendo
que não quero pensar nele. De jeito nenhum.
Olho para Miah e seus olhos voltam à sinfonia lá em cima.
— Capitã, ficar em silêncio com você, com nós dois aqui, sob este
céu, é melhor do que conversar com qualquer outra pessoa sobre
qualquer coisa.

À meia-noite, as nuvens surgiram. Dirigimos no escuro até a


mansão Rosecroft, que está encoberta pela névoa. A lua está
borrada e fora de alcance, mas o céu está claro em razão de seu
brilho. Quando chegamos às ruínas, Miah para a caminhonete mas
deixa o motor ligado.
Digo:
— Eu detestaria desaparecer sem antes escrever minha história.
Estou pensando em Tillie Blackwood, mas também em mim
mesma, no modo como desapareci de Ohio e de quem eu era,
saindo da minha vida e entrando no segredo dos meus pais.
— Por isso as histórias são importantes, Capitã. Talvez você
possa escrever sobre essas pessoas um dia.
— Talvez.
E pela primeira vez em algum tempo, eu sinto: aquela velha ânsia
de trabalhar em meu romance, ou talvez escrever algo novo. Não só
cenas e ideias e sentimentos, mas algo completo, do início ao fim,
sobre de onde venho e para onde vou e o fato de que estive aqui.
Miah mexe no rádio e de repente ouço música: “Joy to the World”,
do Three Dog Night. Ele aumenta o volume e sai da caminhonete,
deixando as portas abertas. A música escapa, nos envolvendo aqui,
envolvendo as ruínas, carregando o ar. E ele começa a dançar, e o
garoto tem gingado — algo que já sei. Começo a me mexer também
e a música me preenche e eu sou a música e a música sou eu.
Nós dois dançamos pelas ruínas, sob a névoa, sob o brilho
estranho da lua. Eu meio que espero que a mansão se dissolva
diante dos nossos olhos, sob nossos pés, absorvida pela neblina.
Ele finge tocar guitarra e eu finjo tocar bateria, e agora a lanterna
dele é um microfone e cantamos nela embora eu não saiba a letra
muito bem.
Pulamos e nos sacudimos, e nós somos os tremores de terra.
Estou mais livre do que nunca, e neste instante é a melhor música
que já ouvi. Então Miah me puxa para perto, contra seu corpo, e
balançamos juntos. Ponho meus braços ao redor de seu pescoço e
o beijo, e a gente é só possibilidade e quase e talvez.

Depois sentamos na traseira da caminhonete, as pernas


balançando, a música tocando baixinho. A neblina subiu e a lua está
de volta.
Pergunto:
— E você?
— O que tem eu, Capitã?
— Você quer escrever a sua história?
— Tipo, para além de deixar antecedentes criminais?
— Estou falando sério. E as suas fotos?
— Não sei. Nunca pensei nisso. Quer dizer, não de verdade.
Passei a maior parte da vida tentando não sonhar alto demais.
O luar projeta uma sombra em seu rosto, e por um instante sinto
como se estivesse vendo dentro dele.
Antes que eu possa perguntar por que ele nunca se deixou
sonhar alto, ele diz: — Mas quando estou com você, tudo fica
calmo; tudo parece estar no lugar certo, como se eu coubesse na
minha pele. E não estou falando só de quando estou com você.
Ele diz essa última frase de um jeito sensual, mas sua expressão
é difícil de descrever. É uma mistura de tristeza e luz. Minha
expressão deve estar parecida porque estou pensando na garota
que eu era em Mary Grove, Ohio, que às vezes não se sentia à
vontade na própria pele.
Tudo parece estar no lugar certo.
Sim, parece, penso, e olho para minha própria pele, que — pelo
menos nesta noite — tem o caimento perfeito.
DIA 11
(PARTE TRÊS)

A pousada está silenciosa e escura. Passamos por ela enquanto


voltamos das ruínas, e o que eu sei é que não estou indo para casa
ainda porque a noite é mágica e nós também. Sem uma palavra,
vamos até a casa do Miah.
Paramos na entrada, o motor da caminhonete em ponto morto.
Ele diz:
— Eu posso te levar para casa.
— Ou eu posso entrar.
Ele inclina a cabeça, estudando meu rosto. Esboça um sorriso
que está mais para o fantasma de um sorriso, como se fosse só um
eco. Está tentando me interpretar. E consegue. Então eu deixo. Não
desvio o olhar. Não fico impaciente. Olho em seus olhos. Uma
corrente elétrica passa entre nós, carregando o ar e a noite e a lua.
Finalmente, ele diz:
— Gosto mais da sua ideia.
Bem baixinho. Como se falar alto demais pudesse afastá-la.
Lá dentro, a casa parece diferente das outras vezes que já estive
aqui. Ou talvez eu me sinta diferente. Ele me dá um refrigerante, e
de início nem percebo que estou segurando porque meu coração
está batendo forte, tão alto que tenho certeza de que ele consegue
ouvir.
Ele senta no sofá e eu digo:
— Quero ver seu quarto.
E me sinto corajosa e ousada e perfeita na minha própria pele.
Ele levanta e pega minha mão e me leva pela sala e para o quarto
com vigas de madeira no teto e janelas em uma das paredes com
vista para o quintal e, para além dele, a água.
Ele acende uma luz, que lança um feixe no formato de uma lua
crescente no chão.
— Tem música?
— Pode ter.
— Pode escolher.
Enquanto ele vasculha uma pilha de vinis, observo as fotos na
parede — mais imagens em preto e branco de carvalhos, cavalos,
dunas, vários ossos de animais.
— São lindas — digo, para ele, para mim mesma. — Até os
ossos.
Uma foto em especial atrai meu olhar. Um close de uma mão
aberta, e nela três objetos brancos em formato de coração que
parecem conchas. Fico olhando para ela, e há algo de triste e
adorável que me paralisa. Sinto a mesma coisa quando leio as
cartas da Zelda Fitzgerald ou qualquer coisa do Ray Bradbury.
Ele diz:
— Vértebras de cervo.
— Tornar adorável algo que não é.
Uma ânsia incômoda preenche meu peito, um tipo de inveja,
porque não importa aonde vá ou o que esteja fazendo, ele parece
saber exatamente quem é. E é mais do que isso — ele sabe olhar
para as coisas de um jeito que eu não sei.
— Quando Bram me deu a câmera, ele disse: “Por que você não
transforma toda essa raiva em algo útil? Procure histórias. Tente ser
mais um observador do que um participante, e desenvolva um
pouco de empatia”.
— Funcionou?
— Engraçadinha. Ora, sim, Capitã, funcionou.
Me aproximo para observar as fotos na prateleira embutida. Uma
mulher com o mesmo sorriso que ele. Um cara de uns vinte e
poucos anos com uma bermuda verde-militar familiar — uma versão
mais velha e mais entroncada do Miah. Duas garotas, uma ruiva,
uma morena, de braços dados e rindo. Duas garotas mais novas,
uma de cabelo castanho encaracolado, a outra loira, fazendo careta
para a câmera. E é a família dele. É tão estranho pensar que ele
tem pessoas lá fora que o conhecem e o amam. Me pergunto como
é o Miah fora da ilha. Será que ele é diferente do Miah que eu
conheço?
Estou imaginando esse outro Jeremiah Crew, que eu mal
conheço, quando a música — crua e que fala de uísque — preenche
o quarto.
Ele anda até mim. Pega minha mão e entrelaça os dedos nos
meus. Balançamos um pouco com a música, e olho em seus olhos e
penso no quanto é inacreditável que seja possível viver dezoito anos
sem conhecer uma pessoa, e de repente ela chega e, do nada, te
conhece melhor que qualquer um. E você não consegue nem
imaginar o que fazia antes de ela te conhecer e te ver e te ouvir e
conversar com você sobre todas as coisas pelas quais passou e
todas as coisas que importam para ela.
— Não precisamos fazer nada, Capitã.
— Eu sei. Mas eu quero. Você não precisa me prometer nada.
Não precisa me amar.
— Não posso prometer que não vai acontecer.
— Eu posso partir seu coração.
— Eu sei.
— Ou você pode partir o meu.
— Então talvez a gente devesse só dar as mãos agora, concordar
que foi bom nos encontrarmos, e dizer adeus.
— Ou podemos ver o que vai acontecer.
Nossos olhares se cruzam e eu já me sinto nua. Mas não é
assustador. É gostoso. Parece que é o mais perto que vou chegar
de alguém me ver como realmente sou. Como realmente sou e tudo
o que isso envolve. As coisas de que gosto em mim e as coisas de
que não gosto.
Ele diz:
— Como você deve se lembrar, aqui o sexo é sempre seguro.
Me aproximo mais e o beijo. E ele me beija e é suave como um
sussurro. E me sinto como se estivesse caindo, como se não tivesse
controle sobre meu coração ou minha cabeça ou meu corpo, o que
quer dizer que na verdade não estou segura, e sinto todos esses
alarmes dispararem porque quanto mais eu gosto dessa pessoa,
maior é a chance de ele me magoar.
Para, Claudine. Porque eu não posso estar aqui e não estar ao
mesmo tempo. Tenho de escolher.
Eu o beijo com mais força, e sua boca responde, e suas mãos
estão em meu rosto e minhas mãos estão em suas costas, e agora
desabotoo a camisa azul-claro. E digo a mim mesma: Somos só o
Miah e eu neste quarto e essas mãos e nós dois. Somos os únicos
aqui.
Em algum momento, meu cérebro apaga e meu corpo assume o
controle, mas, ao contrário da primeira vez, estou aqui. Sem
narração mental, só completa e absolutamente cem por cento na
cama, aqui. A música que está tocando é “Tennessee Whiskey”. E
fico feliz por não ser uma música idiota que vou ficar com vergonha
de lembrar um dia. É perfeita, na verdade. Exatamente como nós
somos perfeitos neste momento.
É uma sensação de que meu coração está seguro pela primeira
vez em um bom tempo. E aprendi o suficiente para saber que não
vai ser sempre assim, mas é assim agora com Miah enquanto
caímos na cama e tiramos a roupa até ficarmos só pele na pele.
Em nenhum momento eu deixo meu corpo, como achei que
aconteceria. Não estou nos observando de cima ou da prateleira ou
da cadeira de balanço perto da janela ou do lado de fora da janela
olhando para dentro do quarto. Estou na cama com ele. Não me
pergunto se meu corpo é uma decepção. Não me preocupo com
onde colocar o braço ou a perna. Só me movimento com ele, e de
início estamos só nos movimentando juntos, mas separados. Ele
está me tocando, e o quarto começa a rodar cheio de luz. Cheio de
vaga-lumes de luz rodopiando e brilhando ao meu redor. Quando eu
o toco, ele geme no meu ouvido e se afasta.
Observo enquanto ele pega a camisinha. Ele hesita e sei que não
vai fazer nada enquanto eu não disser que tudo bem. Então eu digo:
— Tudo bem.
E observo enquanto ele a coloca como fez na primeira vez.
E ele volta e me beija. E logo depois sinto a ponta dele, e embora
não seja a primeira vez, parece a primeira vez. Talvez como a
primeira vez devia ter sido.
Ele está indo devagar, observando meu rosto, lendo meu rosto.
Passo a mão por suas costas e seus braços, que estão tensos por
causa do jeito que ele está se segurando sobre mim, e quero mais.
Quero ele inteiro.
Mas primeiro ele se aproxima e me beija, e eu o beijo com mais
força e mais vontade para que ele saiba que tudo bem. Que sim.
Que é agora. Meu corpo quer o dele. E eu estou queimando, da
cabeça aos pés, pequenos incêndios por toda parte.
Então eu o sinto. Inteiro. E dói um pouco, mas é mais a surpresa
de mais uma vez ter outro corpo dentro do meu, me acostumar a
algo novo.
Mas é engraçado como meu corpo se adapta rápido. Tipo Ah, oi.
Por que não fizemos assim antes?
E estou envolvida. E ele está envolvido. E ele está literalmente
dentro de mim, na minha vagina. (Vagina, é sério? Quer dizer,
pênis? Tipo, por que essas palavras são tão pouco sensuais?)
Então, meu Deus, eu rio alto disso. E ele se afasta e olha para mim
e diz: — É… Capitã?
E eu digo:
— Vagina? Pênis? Será que podiam ter inventado palavras
menos sensuais que essas?
E ele começa a rir também, e beija minha testa e resmunga
alguma coisa no meu pescoço tipo: — Esse seu cérebro, meu
Deus…
E a risada cai sobre os lençóis, entra no colchão e paramos de
falar. Ficam só a música e o som da nossa respiração.
Demora um pouco, mas alcançamos um ritmo, e durante alguns
minutos não é mais como uma segunda primeira vez. Eu sei que ele
também está sentindo por causa do modo como olha para mim, e do
modo como me beija, e porque parou de se preocupar em não me
machucar e só se movimenta comigo e não se reprime, e eu digo a
mim mesma para não me reprimir também. O que para mim quer
dizer não me ater a este verão e a meus pais e à Saz e a tudo que
era familiar, incluindo minha virgindade. O modo como ele me toca
me diz que ele lembrou do que eu disse sobre o sexo não ser só
para ele.
Ele me toca aqui…
E aqui…
E aqui…
E se movimenta dentro de mim, os olhos nos meus.
Então…
Chega um momento em que eu me solto de verdade. Está mais
para me soltar e assumir completamente o controle ao mesmo
tempo. Me sinto infinita. Livre. É um momento perfeito e belo, meu
corpo ficando mais pesado e mais leve ao mesmo tempo. Me agarro
a essa sensação e sinto quando ela se derrete nos lençóis e sobe
em direção às vigas do teto e sai pelas janelas, e desaparece no
oceano.

A cama dele fica encostada na janela, e do travesseiro posso


olhar para cima e ver o céu e as estrelas. Ele está dormindo, a
respiração uniforme e regular. Eu fico deitada olhando para ele.
Suas pálpebras tremendo. Seu peito subindo e descendo. Sua mão
em minha perna, me mantendo próxima.
— Eu poderia amar você — sussurro. — Talvez já ame. Achei que
era melhor avisar.
E fecho os olhos e cochilo um pouco, antes que eu tenha que ir
embora.
DIAS 12-14

Estamos na metade do verão e ando pensando muito sobre sexo.


Quando e onde podemos transar de novo, quando e como posso
sair de fininho com Miah. Caminho pela estrada principal ou pela
praia e me sinto mais alta e mais atraente, uma nova Claude que se
sente totalmente à vontade na própria pele. Sou a Capitã Marvel e a
Viúva Negra e a Dominó e todas as minhas super-heroínas
preferidas em uma só. Sou uma guerreira domadora de animais,
colecionadora de dentes de tubarão, arauto da liberdade.
Transamos em todos os lugares — na caminhonete, na praia,
onde guardavam as carruagens na mansão Rosecroft. Entro
escondida na casa do Miah, deito em sua cama e nos encontramos
no escuro. Sussurramos embaixo dos lençóis até os chutarmos para
longe, assim como os travesseiros e as cobertas e o que mais tiver
o azar de estar na cama com a gente.
Cada músculo do meu corpo dói com a nova atividade, e me sinto
animada e ávida e mais alguma coisa. Feliz. Estou tão ocupada que
não vou até o armazém, nem para checar minhas mensagens.

Os dois dias seguintes são cheios de aventuras.


Caminhamos quilômetros na lama do pântano procurando
tesouros.
Seguimos os rastros das tartarugas que saíram do oceano e
marcamos os ninhos.
Vamos até o pico Barba-Negra e procuramos por tesouros piratas.
Ele me leva até um lugar que chama de árvore Amor é Amor, um
carvalho e uma palmeira que cresceram juntos, os troncos
mesclados e entrelaçados em um só.
Na praia próxima ao museu da ilha, ficamos na chuva observando
uma família de peixes-boi. São quatro. Criaturas mansas que
fungam. Rolam e balançam. Miah fica em pé atrás de mim e me
abraça, e na floresta logo atrás do museu ele me mostra um chalé
— metade laboratório, metade estúdio de fotografia — que
pertenceu a um dos Blackwood. As janelas estão quebradas e as
árvores invadem o lugar mas, tirando isso, parece intocada, como
se o dono pudesse voltar a qualquer momento.
Ele diz:
— Se pudéssemos ficar aqui para sempre, transformaria este
lugar num estúdio para nós. Para você escrever e eu revelar fotos.
Enquanto isso, conversamos sobre tudo.
Ele descobre que:
Eu já tive amigos imaginários chamados Fitinha e Fio Dental.
Eu brincava que meus pais iam se separar e eu tinha que
escolher com quem ia morar. Sempre escolhia minha mãe.
No quarto ano chamei a Jessica Leith de burra na cara dela, e
nunca mais esqueci o quanto me senti horrível quando ela começou
a chorar.
Odeio minhas sardas e uma vez tentei apagá-las com removedor
de esmalte.
Tenho medo que a Saz e eu nunca mais sejamos amigas como
antes.
Tenho medo que o sr. Russo esteja certo e eu nunca consiga
escrever algo profundo ou verdadeiro.
Secretamente me pergunto se é impossível me amar e se foi por
isso que meu pai nos deixou.
Eu descubro que:
Ele tinha onze anos quando bebeu uísque pela primeira vez, e
escondia as bebidas no vão embaixo da casa porque era onde seu
pai escondia as dele.
A primeira vez que veio para a ilha, ele roubou um barco da
pousada, mas bateu no quebra-mar no norte da ilha e teve que
voltar quase 25 quilômetros andando até a casa onde mora hoje. Foi
o momento em que as coisas mudaram e ele decidiu aceitar a ilha
como ela é.
Ele tem muitos amigos, mas nenhum melhor amigo, e ninguém o
conhece de verdade.
Algo muito triste aconteceu com ele há uns dois anos, mas ele
ainda não está pronto para falar sobre isso.
Sua cor favorita é azul como o céu, ou verde como as árvores.
Seu nome do meio é Shepherd. Durante aproximadamente três
minutos no nono ano, ele tentou fazer o apelido Shep pegar.
Sua música favorita é “Joy to the World”, do Three Dog Night, não
só porque o nome dele é citado na letra, mas porque ela captura
como ele se sente morando nesta ilha.
Se ele pudesse morar em qualquer lugar que não fosse aqui,
seria em algum lugar no Oeste, um lugar com campos vastos e
onde as pessoas são abertas e tranquilas e te deixam em paz
quando é isso que você quer.
A foto que ele mais se orgulha de ter tirado é a das vértebras de
cervo em formato de coração. Ele gosta da simplicidade da foto.
Gosta de não ter sido necessário se esforçar muito para captar um
sentimento, como às vezes acontece com outras fotos. Gosta de
sua sinceridade.
Nem todos os garotos são iguais. O modo como toquei Shane ou
Matteo ou até o Wyatt é diferente de como toco Miah, porque eles
são pessoas diferentes. É como se eu tivesse que pensar mais com
Shane e os outros. Por meio de muita tentativa e erro, tive de
aprender as coisas que eles gostavam e as que não gostavam. Mas
tocar Miah é mais instintivo, como se meu corpo e minhas mãos e
minha boca conhecessem seu corpo e suas mãos e sua boca desde
sempre.
Acima de qualquer coisa, ele me conhece — por inteiro —, e eu o
conheço. E neste momento, bem aqui nesta ilha, agora, nos
encaixamos.
COISAS QUE APRENDO SOBRE MIM
MESMA

Eu amo:

Quando ele me beija bem atrás da orelha e na curva onde o


pescoço encontra a clavícula.
Quando ele sussurra na minha pele, fazendo-a vibrar.
Suas mãos que são ao mesmo tempo ásperas, gentis, fortes,
macias e delicadas como uma brisa.
O modo como ele me explora, como se estivesse desenhando
um mapa de todas as minhas zonas erógenas — os lugares
que me fazem rir e sorrir e suspirar.
A sensação de sua respiração no meu quadril, e na parte
interna da minha coxa.
O modo como ele me olha antes de me beijar, como se eu
fosse a única pessoa deste mundo.
O modo como me encaixo nele depois, cabeça em seu peito,
ombro embaixo de seu braço, perna sobre a sua.
O quanto me sinto forte e bonita. O quanto conheço meu corpo
como nunca conheci antes. O quanto este meu corpo é
desejável, poderoso, invencível e livre. Completa e
absolutamente livre.
DIA 15

Mais uma caixa enviada pelo meu pai. Assim que a abro, sinto o
cheiro de casa e sou atingida por uma onda de saudade, do tipo que
se aloja na garganta e nos impede de engolir ou respirar.

Querida Clew,
Estou contando os dias para te ver. Até lá, aqui vão algumas de suas coisas favoritas
de Mary Grove: amanteigados da Joy Ann, chocolates com dragê da Taggart’s, aquelas
bolinhas azedas nojentas da doceria Veach’s, e a última edição do jornal, porque sei
que você e sua mãe gostam de ler a coluna “Pessoas comuns”, e esta está muito boa.
Até logo.
Com amor,
Papai

Reviro o papel de seda verde e vermelho ilustrado de renas que


forra a caixa. Coloco um chocolate na boca e folheio a Tribuna de
Mary Grove. Minha mãe e eu fazíamos uma leitura dramática da
coluna “Pessoas comuns” para o meu pai.
— Preciso musicar isso — ele disse certa vez. — Talvez uma
ópera.
E, durante a semana seguinte, nós três cantamos nossas frases
favoritas um para o outro em nossas vozes de ópera mais
espalhafatosas. Por um instante, consigo nos ouvir. Canto algumas
frases da coluna e começo a ler o artigo que ele marcou com um
Band-Aid da Jane Austen que deve ter pego no armário do meu
banheiro.
Rio alto e por um momento imagino meu pai lendo o mesmo
artigo, sobre uma viúva idosa que fez uma bandeira norte-
americana enorme com fiapos que saíram da secadora. Ele estaria
sentado na varanda, bebendo café em sua caneca preferida do Sex
Pistols, que eu dei para ele de Dia dos Pais quando tinha nove
anos. A única que ele usa desde então. Consigo ver seu rosto,
como deve ter sorrido para o jornal porque não conseguiu se
segurar. Como deve ter corrido para dentro de casa com o dedo
marcando a página, para procurar a coisa mais estranha com que
poderia marcá-la.
Eu o imagino depois disso, dirigindo pela cidade para reunir
minhas coisas favoritas, mesmo que isso significasse que ele não
poderia comer todos os amanteigados sozinho. E depois voltando
para casa para encaixotar tudo, arrumando as coisas em papel de
seda natalino. Escrevendo um cartão sem ter ideia do que escrever
porque sabe que eu estou brava com ele, e estou com a minha mãe,
que também está brava com ele. Mas escrevendo mesmo assim e
mandando tudo mesmo assim porque por algum motivo quer que eu
receba essas coisas.
E de repente não consigo engolir porque tem um caroço na minha
garganta que cresceu até ficar do tamanho de uma bola de beisebol.
A dor é tão aguda que meus olhos se enchem de lágrimas na hora,
e pisco várias vezes até o jornal em minhas mãos ficar embaçado.

Levo oito minutos para correr até a praia, e chego exatamente às


dez da manhã. Miah não chegou ainda, então caminho na água e
fico de olho.
Dez e vinte.
Fico só de biquíni e deito na areia, que está tão quente que
queima minhas costas. De vez em quando sento e procuro por ele.
Dez e meia.
A gente tinha combinado uma aventura. Foi ele quem sugeriu.
Ontem à noite, disse:
— Te encontro na praia às dez da manhã.
Logo antes de me levantar, minhas pernas em volta da sua
cintura, e me beijar.
Onze.
Viro de barriga para baixo, embora seja exposição demais para
minha pobre pele sardenta do Meio-Oeste. Coloco um amanteigado
na boca e saboreio, porque quero que eles durem. Descanso o
queixo sobre as mãos e mantenho os olhos na trilha entre as dunas.
Onze e meia.
Entro na água para me refrescar. Minha pele arde da areia e do
sol. Uma onda vem e algo passa pelo meu pé, mas é só uma
concha. Pego a concha e jogo de volta para o mar. Adeus,
inseguranças, penso ao vê-la voar. Ela desaparece, e a imagino
navegando em direção às profundezas mais profundas do oceano.
Me abaixo, pego outra concha. Adeus, preocupação. Jogo. E
pego mais uma e mais outra. Adeus, chão que desaparece. Adeus,
coração partido. Adeus, medo.
Quando chega o meio-dia já enchi o oceano com tudo o que
venho carregando desde que saí de Ohio — talvez desde antes
disso —, e Miah ainda não veio.
Em casa, nenhum bilhete, nada que explique por que ele não
apareceu. Eu me besunto de protetor solar, abasteço a mochila de
água e petiscos, fones de ouvido, caneta, caderno, celular, e volto a
sair. Antes, deixo um bilhete na porta, dizendo que esperei por ele e
para onde fui.
Acabo indo ao armazém. Quando entro, Terri diz:
— Faz alguns dias que não te vejo. Alguém exagerou no sol.
— Andei ocupada.
Não digo com quem. Tento parecer o mais ocupada possível, para
que ela não pergunte. Espalho minhas coisas e sento, puxando
outra cadeira para apoiar os pés.
Tem quatro mensagens de voz da Saz. Três delas deixadas nos
últimos três dias, todas sobre sexo. A última, de hoje de manhã, diz
apenas: Oi. Me liga quando puder.
O primeiro pensamento que me ocorre é: Ah não. Ouço várias
vezes, e meu estômago se revira em todas elas. Saz costuma usar
cada minuto disponível nas mensagens e, quando é cortada, liga de
novo para deixar mais uma. Mais que isso: tem uma cor em sua voz
— um cinza melancólico, um marrom desbotado, o mesmo tom de
quando a avó dela morreu. Tento retornar a ligação, mas nem
chama. Digo para a caixa postal:
— Estou te ligando. Eu te amo mais que beijar e preliminares e o
sexo em si.
Largo o celular, virado para cima, no silencioso, e tento escrever,
tento me concentrar. Terri está lendo um livro, e o único cliente que
entra no armazém é um homem de meia-idade que compra sorvete
e um refrigerante.
Depois que ele sai, pergunto:
— Ei, Terri? — Seu nariz já está enfiado em Pássaros feridos de
novo. — Qual você acha que seria uma desculpa aceitável para
alguém te dar o cano?
Ela tira os olhos da página, mas percebo que foi um esforço.
— Depende do que vocês iam fazer e de quem deu o cano.
— Digamos que ele é seu namorado e vocês tinham combinado
uma aventura.
— Eu conheço essa pessoa?
— Não importa.
A última coisa que quero agora é mais um sermão sobre Jeremiah
Crew.
Ela franze o cenho porque é claro que sabe de quem estou
falando.
— Espera aí. — Ela marca a página com o dedo e começa a
folhear o livro até encontrar o que está procurando. — Eu diria que
“Não há ambição nobre o bastante para justificar ter partido o
coração de alguém”. — Ela mostra o livro. — Colleen McCullough.
— Esse livro sabe das coisas.
— É.
Anoto essa citação no meu caderno e circulo cem vezes. Repasso
nossa última conversa sem parar, procurando por colunas de
fumaça, tremores de terra, algo que fiz de errado ou que ele fez de
errado, alguma dica de por que Miah não apareceu. Se eu tivesse o
celular dele, poderia mandar uma mensagem ou ligar, mas ele não
me deu o número e não tem o meu porque me devolveu.
Ele pode estar com outra garota, alguém de Jacksonville. Alguém
sobre quem eu nem sei e que tem muito mais experiência e é mais
fácil de lidar e ama a natureza e tem o cabelo comprido e leve e
uma pele que não queima no sol.
Digo a mim mesma: Calma. Seja sensata. Seja a Claude
Racional, não a Claude Emotiva. Por que você sempre tem que
imaginar o pior?
Ele pode estar morto em algum lugar. Eu devia estar preocupada,
não com raiva, porque e se algo terrível tiver acontecido? Ele pode
ter sido atacado por javalis ou comido por um jacaré ou se afogado
no pântano. Visualizo cada cenário, incluindo a expressão em seu
rosto enquanto ele é engolido inteiro e depois cuspido, só os ossos
para alguém fotografar ou transformar em móbile.
Me sinto tão, tão idiota.
Porque ele me fez confiar nele e contar todas as minhas coisas,
sendo que provavelmente nunca se importou e planejava desde
sempre me dar o cano assim que algo melhor aparecesse. É isso
que eu ganho por me permitir parar de pensar por, tipo, um segundo
sobre todas as coisas que ele pode fazer com meu coração. E agora
ele se foi, levando com ele o chão, e todas as coisas que eu contei,
e a minha virgindade. É isso que você ganha por se importar.
Mas quando volto à casa da Addy e meu bilhete ainda está na
porta e não há nenhum sinal de que ele tenha passado lá, sei o que
está acontecendo. Miah está fodendo com tudo porque está feliz.
DIA 16

Às dez horas da manhã seguinte, Jeremiah Crew aparece na minha


varanda — descalço, calção de banho, camiseta do documentário
Alegria de verão — como se nada tivesse acontecido. Ele bate na
porta e eu saio e, pelo que vejo, parece intacto da cabeça aos pés,
nenhum ferimento, cicatriz ou membro faltando.
— Ah, que bom — digo. — Você está vivo.
— Eu disse que a gente se via às dez.
Ele abre um sorriso, tentando deixar tudo mais leve, tentando ser
meu melhor amigo. As covinhas nos cantos de sua boca brilham
para mim, tentando me seduzir a perdoá-lo.
— Às dez de ontem. Na praia. Onde eu fiquei esperando.
— Merda, já é hoje?
Ele finge procurar o celular, embora nunca carregue um.
— Eu achei que você pudesse estar morto ou com outra garota
por aí. Quer dizer, até onde sei, há centenas delas.
— É por isso que gosto de você, Capitã: você tem uma
imaginação incrível.
Ele se apoia contra o batente da porta — tão casual, mas nada
casual. Sinto seu cheiro e ele cheira a mar.
Estou tão firme quanto uma das colunas da varanda, não vou
ceder nem um pouquinho.
— Estou falando sério. Eu nem tenho seu telefone.
— Mesmo se tivesse, não teria conseguido me ligar.
— Não é essa a questão.
— Então eu te dou meu telefone.
— Não quero.
Ele se endireita, se afastando da porta.
— Tá bom, então o que você está dizendo? Que não pode confiar
em mim? Ou que não pode confiar em ninguém?
— Não vire isso contra mim. Onde você estava?
— Eu precisei resolver um problema. Por favor, vamos. Uma
aventura faria bem a nós dois.
E ele vira, esperando que eu o siga.
— Tinha a ver com o trabalho?
Ele para na escada, uma mão no corrimão, olhando para mim
com os olhos semicerrados.
— Não.
— A Shirley e o Bram estão bem?
— Sim.
Fico esperando mais, mas ele não diz.
— Então é isso?
Percebo que ele está tentando decidir o que dizer, quanto me
contar e, depois de tudo que compartilhei e do quanto confiei nele,
isso me queima por dentro, sinto minhas orelhas e meu rosto
pegando fogo. Ele abre a boca e o que eu ouço é Eu mudei de ideia
sobre você. Não gosto mais de você. O que ele realmente diz é:
— Aconteceu uma coisa. Eu não consegui ir te encontrar. Mas
estou aqui agora.
Ele fala com sotaque carregado do sul, como faz quando não quer
falar sério. Mas tem algo mais. Ele está aqui, mas não está.
— Se surgiu um problema, você podia ter me procurado ou
deixado um bilhete ou pedido a alguém que me avisasse. Quer
saber, não importa. Quer dizer, você é livre para fazer o que quiser.
Mas é falta de educação deixar alguém esperando.
— Então vamos agora.
Eu poderia dizer que tenho outros planos, tentar deixá-lo com
ciúme, mas em vez disso sou sincera.
— Não quero ir.
E volto para dentro e fecho a porta.
Fico ali encostada na porta, o rosto e as orelhas queimando de
raiva e mais alguma coisa — a ferroada da traição, mas não tão
forte. Decepção, talvez. Me sinto decepcionada. Ele está me
decepcionando ao não dizer a verdade sobre onde estava. Espero
um ou dois minutos antes de olhar pela janela, e ele foi embora.

O museu fica à beira do mar no sudoeste da ilha, uma construção


branca simples que no passado era usada como casa de gelo da
mansão Rosecroft. Percebo que minha mãe fica surpresa ao me ver,
mas tudo o que diz é:
— Que bom que veio.
Entro e de repente é como se tivesse voltado no tempo. A
construção é antiga, com paredes gastas e rachadas feitas de um
concreto que é mistura de cal e conchas trituradas. O ar é bolorento,
como se as janelas não fossem abertas há centenas de anos, ou
durante todo o tempo que este lugar esteve aqui. Minha mãe tranca
a porta porque o museu só abre às terças e sextas ou com hora
marcada.
Os expositores de vidro guardam principalmente ossos de
animais, um casco antigo de tartaruga, pontas de flechas de todos
os tamanhos e louças e talheres com um B de Blackwood gravado,
entre outros pertences da família — uma Bíblia, um livro de visitas
aberto em uma página coberta de assinaturas, castiçais, várias
joias. Fotos e quadros dos residentes mais famosos cobrem as
paredes, remontando à época dos nativos americanos.
Sigo minha mãe até a sala dos fundos, que cheira a mofo, e é
menor que o armazém e tem pilhas que vão do chão ao teto de
livros e caixas e caixotes. De repente vejo o que ela passou as duas
últimas semanas fazendo: os arquivos etiquetados, os documentos
separados em pilhas, marcados por nomes e épocas. É como se
toda a ilha — todos os seus anos, toda a sua gente — estivesse
bem aqui. E isso é uma das coisas que me impressionam na minha
mãe. Ela está ordenando a história desse lugar, encontrando
histórias universais a partir dos retalhos. Ela fez isso em catorze
dias, em meio à maior desilusão amorosa de sua vida.
Ela diz:
— Antes de eu chegar aqui, esses documentos estavam
expostos, qualquer um podia pegá-los e levá-los embora. Ninguém
tinha se preocupado em organizá-los até agora. Mas ainda não
achei nada sobre Tillie, e já dei uma olhada em quase tudo. Estou
com medo de que Claudine possa ter destruído o que quer que
existisse, porque é tão estranho… Tipo, quem não deixa nada para
trás?
Reconheço o tom em sua voz e a expressão em seu rosto.
Quando um projeto toma conta dela, ela fica corada e vidrada e
seus olhos brilham, e quase dá para ouvir seu cérebro estalando e
girando, mesmo quando ela está fazendo alguma coisa que não tem
nada a ver com o projeto em si, como jantando ou assistindo TV.
Quando ela está profundamente envolvida em um trabalho, parte
dela está sempre ocupada com ele, não importa o que aconteça.
— Você está na fissura — digo.
Porque ela sempre descreveu o processo assim: como se
apaixonar por alguém pela primeira vez. Você é arrebatado e só
consegue pensar naquilo, e sente por todo o corpo, não só na
cabeça.
Ela levanta as mãos como quem diz Não tenho escolha. Então
fala:
— Estou na fissura.
Quero estar na fissura também. Quero um projeto como esse que
ocupe cada centímetro do meu corpo e me deixe flutuando como um
balão de hélio.
Ela me mostra seu sistema de arquivamento e se joga na cadeira
atrás da escrivaninha antiga da madeira à janela. Me esparramo no
chão, arquivando e organizando os documentos por data. De vez
em quando paro para ler algumas das palavras. Descrições de
festas ou caçadas ou jantares. Doenças. Brigas. Casos amorosos.
Crianças nascidas e perdidas. O grande e o pequeno, o significativo
e o mundano. Pedaços de vidas.
Há dor e amor e sofrimento aqui. Tudo já esquecido. Penso na
desilusão causada pelo meu pai e na dor que estou sentindo por
Miah agora. A vida é um acúmulo de dores. Elas nos preenchem e
nos tiram o ar e achamos que nunca mais vamos conseguir respirar.
Mas antes de nos darmos conta, somos apenas palavras em um
papel, silenciados e adormecidos até que alguém encontre essas
palavras e as leia.
Por um tempo me perco na história. Então minha mãe e eu nos
revezamos contando uma para a outra algumas das coisas que
descobrimos, e de repente sou levada de volta a Ohio, de volta a
outros projetos com os quais a ajudei ao longo dos anos.
Ela me conta que:
De acordo com uma carta do marido de Tillie, os dois
costumavam montar uma mesa na praia, onde jogavam baralho e
depois bebiam sob os carvalhos.
Navegavam de madrugada até as ilhas vizinhas.
Vestiam suas melhores roupas e bebiam champanhe e dançavam
pelos gramados como Daisy Buchanan e Jay Gatsby.
Pela primeira vez vejo Tillie em cores vivas e em movimento, e
não sei por que isso me surpreende, porque é claro que um dia ela
foi uma pessoa viva, que respirava.
Minha mãe me conta que:
Na extremidade norte da ilha, a bisavó de Shirley, Clovis, se
tornou a primeira curandeira, e as pessoas — incluindo Tillie —
vinham de longe, como de Savannah e Charleston, para se
consultar com ela.
Eu conto a ela:
Beatrice, filha de Clovis, reunia histórias, criando a primeira
história oral da ilha. Um dia ela saiu de sua casa, na extremidade
norte, com uma bengala e uma faca, e disse à família que voltaria
quando tivesse conversado com todas as pessoas que tivessem
uma história para contar.
A outra filha de Clovis, Aurora, se tornou guardiã do farol depois
que seu pai e seus irmãos se perderam no mar.
Ela me conta:
Claudine voltou da escola para garotas da srta. Porter para a ilha
quando tinha dezenove anos. Nunca mais foi embora. Se casou
com o filho do paisagista da mansão Rosecroft, um homem
chamado Tom Buccaneer.
Depois que Tom morreu em um acidente de avião, Claudine se
armou com uma pistola e começou a patrulhar as praias,
procurando caçadores ilegais, preparada para proteger seu lar a
qualquer custo.
Ela me conta:
A mansão Rosecroft supostamente foi incendiada por um desses
caçadores. A família viu as chamas da pousada, mas quando
chegaram à casa — o centro da vida dos Blackwood na ilha — era
tarde demais.
Digo a ela que há outros rumores sobre o incêndio, e o principal
deles é que a própria Claudine botou fogo na mansão dois meses
antes de morrer, para que a casa morresse com ela, garantindo que
ninguém mais vivesse lá.
Todas essas palavras e histórias. Minha mãe diz que são a cor da
vida humana: os pequenos momentos que são tão e somente
nossos. Penso: Claudine — exatamente como todos nós — estava
escrevendo sua história enquanto vivia.
Paro de pensar em Jeremiah Crew e em onde ele está agora. Me
perco nesse outro mundo. Começo a reconhecer nomes que nunca
tinha ouvido antes. Começo a juntar os pedaços da vida dessa e
daquela pessoa. Aprendo sobre a separação de brancos e negros
na ilha, os Geechee no norte, os Blackwood no sul. Clovis Samms
foi a primeira a cruzar essa fronteira imaginária.
Então encontro uma carta sobre Samuel Blackwood Jr., então
com vinte e dois anos, e seu casamento com Tillie Donaldson, de
Indianápolis, de dezenove anos, junto com um recorte de jornal.
Depois de um namoro rápido e uma lua de mel em Nova York,
Samuel e Tillie planejavam seguir para a casa de inverno, “uma ilha
na costa da Geórgia, de beleza natural abundante”.
Sinto uma pontada no coração pela jovem Tillie, que acreditava
ter a vida inteira pela frente, e teve o chão removido de debaixo dos
seus pés.
Pergunto à minha mãe:
— Como Tillie conheceu o marido?
— Acho que ele era amigo do irmão mais velho dela e foi visitar a
família num feriado da faculdade.
— Sabe, eu era fascinada pela tia Claudine e pelo fato de ela ter
ficado aqui a vida inteira. Tudo porque o chão desapareceu. Ou foi
tirado de debaixo dos seus pés. Mas esse chão que sumiu não
parece ter impedido Claudine. Ela escreveu e reuniu histórias da
família e se casou com o homem que amava e protegeu o lar que
amava. É sobre Tillie que quero saber mais.
— Eu também. Acho que em parte por não saber por que ela
morreu. E em parte por não conseguir conhecê-la porque ela não
deixou nenhuma pista.
— Você já ouviu as histórias de fantasmas?
Ela está de joelhos agora, mexendo em um arquivo. Para de
vasculhar e olha para mim.
— Não.
Eu conto a história real de Tillie — a que Miah me contou. Que ela
morreu de sofrimento por ter perdido o bebê e o irmão e a mãe.
Então conto que Jeremiah Crew e eu ficamos trancados no porão da
mansão Rosecroft.
Minha mãe fica sentada ouvindo e, quando termino, diz:
— Bom, pelo menos é alguma coisa que sabemos sobre ela.
E sinto um leve sopro de hélio preenchendo meu corpo e me
levantando do chão.
Ela diz:
— Sabe, isso também aconteceu comigo há bastante tempo.
Fiquei presa no porão daquela casa. Infelizmente, eu estava
sozinha, não junto com um cara bonitinho.
Ela me conta sobre a primeira vez que veio visitar a tia Claudine,
quando a casa ainda tinha telhado e piso e todas as paredes
estavam intactas. Enquanto os adultos faziam coisas chatas de
adultos, minha mãe saiu perambulando sozinha e acabou no porão.
Ela diz que era usado como depósito também, e ficou mexendo em
livros e roupas antigas até ouvir a mãe chamá-la. Foi quando tentou
abrir a porta — a mesma pela qual tinha entrado e que levava ao
corredor — e estava trancada. Ela disse que bateu na porta e gritou
sem parar, até que acabou saindo por uma janela. Quando voltou
para dentro da casa, perguntou por que ninguém a ajudou, e eles
disseram que não a ouviram e, além do mais, a porta não estava
trancada.
— Então eu mesma tentei abrir a porta e consegui. Simples
assim.
Ela senta nos calcanhares.
— Você acha que foi Tillie?
— Talvez. Não sei se acredito em fantasmas, mas acho que todos
somos feitos de energia, e faz sentido que deixemos um pouco
dessa energia para trás, principalmente no caso de alguém que
morreu de maneira tão trágica. Sempre penso que isso deixa uma
marca.
Olho ao redor, não só desta sala em que estamos, mas da ilha
para além das janelas, e me pergunto se vou deixar uma marca
quando for embora daqui.
Passamos quatro horas conversando e lendo, e em certo
momento observo minha mãe e seu cabelo caído sobre a página do
livro que está folheando, e o modo como o sopra de tempos em
tempos, sem tirá-lo com as mãos, que estão muito ocupadas com os
documentos.
— Mãe? — chamo.
Ela levanta a cabeça.
— Oi?
— Obrigada por me apresentar a este lado da família.
Ela sorri, e de repente parece a mãe que conheci minha vida
inteira, a que afastava pesadelos e tinha as respostas para todas as
perguntas que eu pudesse fazer.
— Mais do que as palavras — ela diz, que é uma abreviação de
Eu te amo mais do que as palavras são capazes de expressar.
— Mais do que as palavras — repito.
DIA 16
(PARTE DOIS)

Uma caminhonete preta está parada na estrada em frente à casa da


Addy. Passo por ela e sigo pela entrada, minha mente ainda no
museu com minha mãe e Tillie e Claudine. Miah está esperando por
mim nos degraus da varanda. Estou surpresa e não estou, feliz e
irritada por vê-lo. Ele está sentado como um velho, curvado sob o
sol. No instante em que me vê, volta a ser o Miah, levanta, se estica,
sorri para mim.
— O que você está fazendo aqui? — pergunto.
— Tenho uma surpresa para você.
Olho para a caminhonete atrás dele.
— É importante, Capitã.
E seu sorriso hesita, como se ele mal conseguisse mantê-lo.
Cada pedacinho de mim — bom, quase — quer dizer que não, mas
tem alguma coisa em sua voz e naquele sorriso hesitante, e mais
que isso: tem o fato de eu não querer ser a pessoa que passa o
resto da vida com medo de que o garoto com quem estou saindo
esteja transando com outra garota ou sendo engolido por um jacaré,
ou que simplesmente não se permite acreditar em mais nada. Por
todos esses motivos, respondo: — Tá bom.
Seguimos em direção ao norte pela estrada principal. A
caminhonete pula e sacode pelos sulcos criados pela chuva e pelo
calor de julho. Ouço meus dentes batendo com o impacto, mas ele
está em silêncio. O tipo de silêncio distante. Olho para ele para ter
certeza de que ainda está ali, uma mão no volante, a outra na
perna.
Eu não falo e ele também não, e este não é um silêncio amigável.
Sou eu, tão absorta em meus pensamentos que não consigo reagir.
É ele em outro lugar, longe daqui. Olho pela janela e me concentro
nas árvores.
Alguns minutos depois, ele para a caminhonete no acostamento
estreito de grama da estrada principal, deixando apenas espaço
suficiente para mais um veículo passar. Ele desce, faz a volta até o
meu lado e se apoia na janela.
— Por que paramos?
— Eu não posso querer te dar uns beijos?
Ele está sorrindo para mim, mas não exatamente, porque ainda
está em outro lugar, então é como se estivesse sorrindo por
telefone.
— Pode, mas por que paramos?
Porque eu sei que ele está inventando alguma.
— É hora de você aprender a andar de bicicleta.
— Aqui?
Olho para a estrada que se estende à minha frente.
— Aqui.
— Mas eu estou de vestido. E chinelo. Não posso aprender a
andar de bicicleta de vestido e chinelo. E, sei lá, pode chover. —
Olho para o céu, que é só azul e sol. — E acho que não fui feita
para andar de bicicleta. E, é sério, tudo bem. Quer dizer, se eu
nunca aprender a andar de bicicleta, vou ficar bem.
Isso é verdade, mas também estou me sentindo distante dele e
irritada e, tipo, Por que é que eu estou aqui?
Enquanto isso, ele mexe na caçamba da caminhonete. Volta com
um capacete vermelho-vivo e diz: — Capitã, você vai aprender a
andar de bicicleta para que, hoje à noite, com a maré baixa, a gente
possa pedalar pela praia sob as estrelas.
Ele me dá o capacete.
E abre a minha porta, e estou de pé no acostamento da estrada
principal de vestido e chinelo, e ele desaparece atrás de um
carvalho gigante e volta com uma bicicleta azul antiga.
— Não tem um lugar melhor pra aprender? A estrada é muito
esburacada e alguém pode vir.
— Não está mais esburacada — ele responde.
E olho para além dele, e só então vejo que a estrada está
totalmente plana e nivelada.
— Eu nivelei para que você pudesse praticar em uma superfície
lisa.
Deve ter levado horas. E talvez parte dele ainda esteja aqui e não
tão distante afinal, e por isso coloco o capacete e vou até a bicicleta
e lanço uma perna por cima do banco e fico ali esperando. Não
quero parecer uma idiota, não quero cair ou me quebrar e não quero
decepcioná-lo. Mas ele veio até aqui e nivelou a estrada para que
eu pudesse aprender a andar de bicicleta nela, o que provavelmente
é a coisa mais bonita que alguém já fez por mim, então o mínimo
que posso fazer é tentar.
Ele vai até a frente da bicicleta e vira para mim. Pergunto: — E se
eu não conseguir?
— Ah, eu tenho quase certeza que você consegue fazer qualquer
coisa que enfiar nessa sua cabecinha teimosa.
— Eu não sou teimosa.
Ele ri, e a risada parece mais com ele do que qualquer coisa que
o ouvi dizer hoje. Então ele coloca uma mão no banco e a outra no
guidão esquerdo.
— Muito bem, você precisa lembrar de algumas coisas. Pedale
com força. Pedale rápido. E mantenha o queixo e os olhos para a
frente. A bicicleta vai para onde seus olhos estiverem olhando. O
truque é pedalar. Quanto mais rápido você for, mais fácil é. E não
pense demais.
— Para você é fácil.
— No três. Um… dois…
— Espera. Me dá um beijo.
Ele se aproxima, segurando a bicicleta entre as pernas. Então
segura meu rosto com as mãos e me puxa para perto. E me dá um
beijo longo e profundo, como se eu fosse um soldado indo para a
guerra. Absorvo tudo porque suas mãos em meu rosto e sua boca
na minha me fazem sentir que ele está aqui afinal e, mais do que
isso, me fazem sentir que eu estou aqui também.
Ele faz a contagem regressiva de novo, e no três saímos, eu
pedalando e ele empurrando. Pedalo o mais rápido que consigo, a
bicicleta bambeia e, no momento em que acho que vou cair, ele a
estabiliza.
— Eu vou ficar ao seu lado até você ficar tão boa nisso que vai
ser capaz de sair voando em direção à praia.
Continuamos assim por um tempo — eu pedalando rápido, ele
empurrando. A bicicleta bambeia, ele segura, meus pés encostam
no chão. Várias vezes. Não há nada no mundo além de Miah e eu e
essa bicicleta. Toda hora eu aperto o freio com muita força e quase
saio voando por cima do guidão.
— Pega leve com o freio. Na pior das hipóteses, vamos cair. Mas,
se acontecer, que se dane. Você vai ficar bem.
— Eu não quero cair.
— Mas pode acontecer. Quanto antes você aceitar isso, melhor,
Capitã.
— Isso é uma lição de vida idiota, não é?
— Só estou aqui para te ensinar a andar na droga da bicicleta.
Ele abre seu sorriso leve, tipo, Está tudo bem, só estou brincando.
Mas sua voz de repente assume um tom afiado que nunca ouvi
antes.
— Ei.
— O quê?
— Isso. — Aponto para ele. — Esse tom. Qual é o seu problema?
— Nenhum.
— Mentira. Não é do seu feitio desdenhar de mim e depois fingir
que nada aconteceu e que Está tudo ótimo, está tudo bem.
— Talvez você não me conheça tão bem.
E quase parece que ele está me testando.
— Talvez se você me contasse o que está acontecendo, eu
poderia te conhecer melhor.
— Escuta, eu estou bem, Capitã. Estou ótimo. Vou ficar ainda
melhor se você aprender a andar de bicicleta.
Olho para ele com olhos semicerrados, só para que saiba que não
estou engolindo nada disso, nem por um instante.
— Agora vamos. Vamos nessa.
— Tá bom — respondo. — Mas essa conversa não acabou.
Pedalo, mais para me afastar dele. Ele corre ao meu lado.
— Pedale com força, rápido.
Pedalo cada vez mais forte e mais rápido para que ele não
consiga acompanhar. A última coisa que ouço ele gritar é: — Queixo
para cima. Olhos para a frente.
E tudo fica quieto. Estou pedalando e pedalando, e em alguns
segundos percebo que ele não está mais ali. Por um instante,
absorvo tudo — o ar em meu rosto, a sensação revigorante e
incrível de atravessar rápido pelo mundo. Sou completa e
absolutamente livre. Quero continuar em frente. Quero ir cada vez
mais rápido até voar em direção ao céu como no filme E.T. Quero
voar sobre a terra e as nuvens e o sol.
De repente os pedais giram rápido e forte demais para meus pés
acompanharem. Freio com muita força e quase passo por cima do
guidão, uma nuvem de poeira se levanta à minha volta. Mas me
seguro, enfiando os dois pés na estrada, tossindo um pulmão para
fora e, quando viro, vejo Miah correndo em minha direção.
Ele quase me derruba, e começamos a rir e eu pulo de alegria,
mas me enrosco na bicicleta e nós dois tombamos na terra da
estrada. Ficamos deitados recuperando o fôlego, e as árvores e o
céu são nosso telhado.
Piscamos para o azul. Digo a mim mesma para deixar o silêncio
estar. Para deixar ele se abrir quando quiser. Se quiser.
Acalmo meu coração e meu pulso. Acalmo meu cérebro, que está
dizendo Ele está mudando de ideia. Por isso fez o que fez ontem.
Você não o conhece de verdade, por mais que fiquem juntos na
cama. É isso que você ganha quando se permite gostar demais.
Mesmo que ele diga a coisa que mais te apavora — “Não gosto
mais de você; nunca gostei de você ou amei você porque você é
impossível de amar” —, você vai ficar bem.
Digo a mim mesma para viver no agora em todo esse azul e parar
de me preparar para o pior. Fico deitada bem quietinha até o azul
me envolver inteira, até ele correr por minhas veias e me tornar
parte dele.
Do chão, ele diz:
— Minha mãe teve um ataque de pânico em uma mercearia
semana passada. Minha irmã ligou para a pousada ontem para dizer
que ela está de cama desde então. Não foi trabalhar nem comeu, e
a Kenzie está tentando cuidar de tudo. Eu não fazia ideia.
— Ela está bem? Sua mãe?
— Vai ficar, o tanto quanto possível. O primeiro ataque de que me
lembro, eu tinha seis anos, mas não sabia o que era. Eu achava que
ela estava brincando… — Sua voz vai sumindo. — Então era isso
que eu estava fazendo ontem. Precisei ir até Jacksonville cuidar das
coisas.
Tem mais alguma coisa que ele não diz. Ouço por sob suas
palavras.
Me ajeito no chão e digo, com muita calma, bem baixinho: — Mal
posso imaginar como deve ser isso, e sinto muito que tenha
acontecido. Mas você não pode ficar irritado comigo ou descontar
em mim ou fazer com que eu sinta que sou uma inconveniência. E
você não pode simplesmente sumir. A primeira coisa que vou
pensar é que fiz alguma coisa e você mudou de ideia ou que você
está fodendo com tudo porque isso é bom, você e eu, e eu prefiro
simplesmente saber a verdade. Você é sincero comigo; eu sou
sincera com você. É pegar ou largar.
Ele sustenta meu olhar por um segundo.
— Merda. — Ele volta a olhar para o céu. — Tudo bem. —
Suspira. E vejo que está pensando e se esforçando e tentando
decidir o que falar. Finalmente, diz: — Então, estou acostumado
com isso. Acontece. Aconteceu a minha vida inteira e eu sempre
estou lá, eu apareço, eu lido com a situação. Mas era para eu ter
oito semanas neste verão aqui na ilha. Só eu. Oito semanas. Só
isso. Dois meses para eu ficar aqui e fazer o trabalho que preciso
fazer sem ter que cuidar de todo mundo.
— E o seu irmão? Ele é mais velho. Ele não pode ajudar?
— Era mais velho.
— O quê?
— Meu irmão era mais velho.
Antes que eu possa perguntar o que aconteceu, se essa é a coisa
triste sobre a qual ele não está pronto para falar, ele diz: — É o
primeiro verão que não pego a barca para casa todo fim de semana.
Estou me preparando para passar um ano fora, e elas precisam se
acostumar comigo longe. Mas como posso ir se minha mãe precisa
de mim? A verdade é que ela está doente, mas não a ponto de não
saber o que está fazendo. “Então agora que você tem esse vidão,
vai dar as costas para a gente? Vai contar para sua irmã de dez
anos que não se importa o bastante com ela para ficar aqui e cuidar
dela? Ou simplesmente vai embora, igual ao seu pai? Quem você
acha que te aguentou durante todos aqueles anos em que você se
metia em encrenca? É claro que você quer ficar lá no meio daquela
gente rica e não aqui onde eu te criei.” — Ele solta o ar como se
estivesse segurando a respiração. — Isso vai parecer idiota, Capitã,
mas eu só quero ter dezoito anos. Ser livre para fazer merda e
tomar minhas próprias decisões e não ser adulto o tempo todo. Mas
tipo, e se eu for embora e acontecer alguma coisa, alguma coisa
pior, e eu não estiver lá? Ou e se eu ficar em Jacksonville e não
acontecer nada? De qualquer jeito, é uma merda.
Imagino como seria essa vida para ele. Sem ilha. Sem aventuras.
Sem Jeremiah Crew iluminado pelo sol, só Jeremiah Crew
trabalhando e se preocupando e definhando em lugares fechados.
— É a sua vida também.
— Mas não é. Nunca foi. Sempre foi de outra pessoa.
— Meu pai partiu o coração da minha mãe — digo. — E às vezes
eu só quero desistir da faculdade e ficar com ela e garantir que
ninguém nunca mais a machuque. Mas ela é a adulta. Ela é a mãe.
Eu tenho que viver minha vida.
— Mas a diferença é que ela te deixa livre para pensar em você
mesma. Você não precisa se sentir egoísta se quiser ir embora e
viver sua vida. Você tem essa opção. Eu não consigo nem olhar nos
olhos das minhas irmãs sabendo que vou embora, muito menos da
minha mãe. Um dia antes de eu vir para a ilha este verão, minha
irmã Channy me deu um presente embrulhado em um saco de
papel. Era o ursinho favorito dela, que ela tem desde bebê. Ela
dorme com ele toda noite. Ela disse: “Estou te dando o Bibo para
você não ter que ir embora”.
Não sei o que dizer, então pego sua mão, entrelaçando meus
dedos nos dele. Ficamos deitados ali um tempão, o azul
preenchendo nós dois.
Depois de alguns minutos, viro para olhar para ele.
— Então, o que você vai fazer no outono? A resposta real.
— Vou entrar para o circuito de rodeio, virar um caubói
profissional.
— Isso é antes ou depois da Nasa e da CIA?
— Entre uma e outra.
Sinto uma irritação, uma frustração por ele ainda estar se
esquivando. Quero perguntar para onde ele vai de verdade e o que
vai fazer de verdade, mas só fico deitada aqui, nesse chão, olhando
para o céu, vivendo o presente.
De repente, ele diz:
— Eu sei que você meio que conheceu a Shirley, mas quero que
conheça o Bram também. A gente devia ir jantar com eles, como ela
disse. Para que eles te contem sobre o lixo que eu era quando me
conheceram.
Ele está se abrindo. Isso é importante, mas algo me diz para não
agir como se fosse, para não correr o risco de ele mudar de ideia e
retirar o convite.
— Eu adoraria — respondo, leve e animada. — Jeremiah Crew,
obrigada por me ensinar a andar de bicicleta.
Embora eu queira dizer muito mais.
— Claudine Henry. Obrigado.
— Pelo quê?
Eu sento e olho de cima para ele, deitado ali.
Seus olhos encontram os meus.
— Por ser quem você é.
DIA 17

Pedalo uma bicicleta preta antiga até o armazém, onde encontro um


aviso preso à porta em um rabisco assimétrico: Fui até o continente.
Volto logo. Tento a maçaneta, mas está trancada. Olho pela janela,
e as cadeiras estão com as pernas para cima sobre as mesas e
nada da Terri atrás do balcão.
Fico sentada no degrau por um tempo, tentando conseguir algum
sinal. Levanto o celular para este lado e para aquele. Tento ligar
para a Saz assim mesmo e, como a ligação não completa, escrevo
uma mensagem.
Sei que você pediu para eu ligar mas não estou conseguindo. Espero que esteja
bem e que todos estejam vivos, principalmente você, Sazzy.
Leio o que escrevi e acrescento:
O que você e a Yvonne estão pensando em fazer em relação à faculdade? Ela não
vai para Prescott no Arizona? Vocês conversam sobre isso ou não? Em algum
momento vocês sentem vontade de ficar em Mary Grove para não se afastarem?
Não tem sinal para a mensagem ir, e tento de tudo. Vejo um prego
velho na madeira da porta e o arranco. Nunca arrombei uma
fechadura antes, mas remexo o prego no buraco da fechadura e
espero que funcione. A porta nem se mexe, então fico na ponta de
um pé, e do outro, estendendo o celular em direção ao céu. Largo o
celular no chão e faço uma parada de mão e minha saia cobre
minha cabeça e o mundo se transforma em um borrão preto e
amarelo de folhas e flores. Penso Como seria o mundo se só
existissem essas cores?
De repente ouço um assovio alto e comprido e caio no chão.
Grady passa apressado, olhando para mim.
— Bela calcinha.
Ele ri.
Bato a saia, coloco o quepe de pescador de volta na cabeça,
pego minhas coisas.
— O que você está aprontando, Claudette?
E por um segundo penso Por que ele está me chamando assim?
Mas aí lembro que foi o nome que eu disse a ele.
Quase invento alguma coisa, louca e bizarra, mas em vez disso
digo: — Tentando conseguir um sinal de celular.
— Se precisa de sinal, você pode ir até o Dip.
— Eu achava que só tinha sinal aqui.
— Às vezes, com sorte, conseguimos nos conectar com o mundo
lá no Dip.
Tem algo estranho no modo como ele olha para mim, meio de
lado e com as pálpebras pesadas, e no modo como fala — você
pode ir até o Dip —, meio vulgar, mas suave.
— Não, obrigada — respondo.
— Azar o seu.
Subo na bicicleta e me afasto dele cambaleando.
Ouço quando ele grita:
— Ou talvez seja meu.

A caminho de casa, passo por um grupo de campistas dispersos


sob as árvores densas perto da trilha. Quase paro para perguntar se
estão perdidos, mas vejo que estão reunindo destroços e galhos
mortos, vítimas de um furacão recente, e empilhando na lateral da
estrada. Um deles olha para mim, volta a se abaixar e segue
trabalhando.
Já estou seguindo em frente quando ouço um grito. Olho para
cima e é Miah, sem camisa e empoleirado no alto de um dos
carvalhos, à vontade como se fosse o Tarzan, se segurando com
uma mão enquanto aponta alguma coisa para mostrar aos
campistas, que não devem ser campistas, mas jovens da Outward
Bound. Ele puxa um galho morto, preso na árvore, e observo os
músculos de seus braços e ombros se enrijecerem. Em um segundo
o galho cede e cai em direção à terra.
É inevitável parar, os pés plantados um em cada lado da bicicleta,
e ficar olhando para ele, observando-o completamente envolvido no
trabalho. Parece em paz e feliz. Tão feliz que não o chamo, porque
não quero atrapalhar ou distraí-lo. Quero que fique bem onde está.

Janto cedo na casa da Addy para poder encontrar Miah a tempo


de uma caminhada ao pôr do sol, o que quer dizer que exploramos
os cânions e os vãos desse outro mundo entre as dunas. Quando as
trilhas se estreitam, fico atrás dele, observando o dourado do sol
poente iluminando seu cabelo e se demorando sobre sua pele.
Finjo que estamos em outro mundo quando ele diz: — Quero
passar a noite com você. A noite inteira. Do início ao fim. Você na
minha cama. Quero acordar ao seu lado e ver como você é de
manhã. E tenho outras perguntas, tipo: suas sardas são de verdade
ou é maquiagem? E será que você ronca muito alto?
— Primeiro, as sardas são de verdade. Você já devia saber que
elas não saem. Segundo, eu não ronco. Terceiro, minha mãe nunca
vai deixar.
— Então eu fico com você.
— Também não acho que ela vai gostar dessa ideia.
— Por que você não me convida para ir até a casa e a gente vê o
que acontece?
DIA 18

A primeira e única festa que já dei foi no sétimo ano. Saz e eu


passamos dias fazendo a decoração e os convites e criando um
jogo de tabuleiro do tamanho do Twister que era uma mistura de
Sete Minutos no Paraíso e Verdade ou Desafio e Eu Nunca, para
garantir que, no mínimo, alguém pegaria no nosso peito.
Convidamos todo mundo da nossa turma e passamos a noite inteira
vendo o menino de quem eu gostava (Zachary Dunn) e a menina de
quem ela gostava (Harriet Loos) se pegando em um canto.
Encontro Jared na cozinha da pousada, na pia, lavando e
secando a louça.
— Estou chamando algumas pessoas para ir em casa amanhã à
noite e queria que você fosse.
— É só me avisar o horário. Posso levar bebidas.
— Minha mãe vai estar lá, então não sei quanto exatamente
vamos poder beber.
— Refrigerantes então, e talvez eu descole uma sobremesa.
Wandinha aparece, colocando mais pratos sujos na pia.
— Essas “pessoas” seriam o Jared, eu, você e o Miah?
— E o Emory.
Sinto um cheiro característico — maconha, talvez. Então Grady
passa por mim.
— Não vejo a hora — ele diz.
— Ótimo. — Embora não estivesse nos meus planos convidá-lo.
— E Grady, pelo visto.
Wandinha olha para Jared.
— Ele seria mais interessante se não forçasse tanto a barra.
Jared diz para mim:
— Estaremos lá.

Um pouco depois das seis, minha mãe me encontra na cozinha,


fazendo um inventário dos petiscos que temos para ver se preciso
pedir alguma coisa do continente para a festa. Ela começa a ajudar,
levantando um pacote de batata chips. Anoto. Ela levanta um pacote
de amêndoas. Faço que não com a cabeça. Seguimos assim por um
tempo, uma dança perfeitamente orquestrada que fazemos desde
que eu era criança.
Ela limpa a garganta.
— Então. Jeremiah.
— Jeremiah. Às vezes Miah. Mas nunca [Link].
— Bom saber. Você tem passado bastante tempo com ele.
— Você me disse para não ficar me lamentando pela casa.
— Acho que não usei a palavra lamentando, mas é bom ver você
fora do banco da janela.
Abro um refrigerante. Sirvo um pouco para ela. Bebo da lata.
Espero para ver o que ela vai dizer em seguida.
— Já faz um bom tempo que não temos aquela conversa.
Aí está.
— Eu me lembro. Está tudo bem.
Quinto ano. Minha mãe entrou no meu quarto e sentou na minha
cama e respondeu todas as perguntas que eu tinha sobre sexo. No
dia seguinte ela me deu um livro sobre a saúde e a sexualidade da
mulher e aprendi a me masturbar. Me masturbei quase todos os dias
durante todo o quinto ano, como um hobby secreto milagroso do
qual só eu sabia. Usava a mão, a escova de dente elétrica, meus
bichinhos de pelúcia, tudo em que eu pudesse me esfregar. Meus
bichinhos de pelúcia ficaram com o pescoço torto de tanta
esfregação.
Agora ela diz:
— Eu não vou perguntar, mas você sabe que estou aqui. E, por
favor, só me diga se está se cuidando.
— Se alguma coisa estiver acontecendo, estou me cuidando. Não
sou burra.
— Sei disso.
E ela é tão curta e grossa comigo quanto estou sendo com ela.
— Desculpa.
— Também peço desculpa.
Sento ao lado dela e bebemos nossos refrigerantes, nós, as
mulheres Llewelyn. Mesmo jeito de sentar, mesmo jeito de balançar
o pé como se estivéssemos ouvindo música. Ainda parecidas,
mesmo com todo esse espaço entre nós.
— Você quer me contar sobre ele?
— Não.
— Quantos anos ele tem?
— A minha idade.
— Ele parece mais velho.
— Não é.
— Ele vai para a faculdade?
— Acho que está tirando um ano sabático. Veio para cá para
trabalhar com a Outward Bound porque quer ajudar os outros. —
Não digo que era isso ou o reformatório. — Ele é um fotógrafo muito
talentoso. Tira fotos de coisas onde não há muita beleza, e coloca
beleza ali.
Eu claramente fiz com que ele parecesse o sonho de qualquer
mãe, porque a minha mãe, que poderia ganhar a vida como vidente
de tão boa em ler as pessoas — principalmente eu —, diz: — Uau.
Parece sério.
— É e não é. Só vai durar este verão.
— Eu lembro da minha primeira vez — ela diz.
— Ah, meu Deus.
— O nome dele era Ryan e ele era um ano mais velho, e eu
achava que ele era a pessoa mais incrível que existia. Eu estava
indo para o último ano e ele foi para a faculdade no Texas e disse
que queria que eu continuasse sendo sua namorada. Acho que ele
só me ligou umas duas vezes depois que foi embora. Estava
sempre ocupado demais, e depois descobri que tinha voltado para
visitar os pais, mas não tinha me avisado. Fiquei arrasada. Ele
tentou me reconquistar no verão, mas eu já tinha superado.
— Você queria que tivesse esperado, que tivesse sido com outra
pessoa? — pergunto, pensando em meu pai, na vida que poderia ter
sido.
— Não. Na época ele era tudo para mim. Mas é uma decisão
muito íntima. Eu não me relacionei com muitos homens, Claude,
mas tive sorte de serem bons homens.
Ela fica em silêncio e sei que está esperando que eu diga alguma
coisa.
— Não vou conversar sobre ele com você. — Mas eu queria
poder dizer: Eu acho que amo esse garoto. Mas não quero amar
esse garoto porque vou ter que me despedir dele em duas semanas
e provavelmente nunca mais vamos nos encontrar. Então estou
tentando não amá-lo. Estou tentando só ficar com ele e me divertir e
não me apegar demais. É isso que devo fazer, não é? É assim que
a Alannis faz, e ela namora desde os doze anos.
— Tudo bem. Desde que saiba que sempre pode conversar
comigo.
Ficamos olhando para nossos pés balançando.
Ela diz:
— Addy vem nos encontrar.
— Quando?
— Domingo.
Não sei o que me faz perguntar: — O papai não vem, né?
— Não.
— Que bom.
DIA 19

Sento no chão da sala jogando Jenga com Jared, Wandinha, Emory


e Grady. Seu cabelo platinado fica caindo nos olhos e ele está com
três anéis de caveira na mão esquerda. Seus dedos são compridos
e finos e me lembram uma aranha.
Emory diz:
— Eu tinha quinze anos na minha primeira vez. Achei que tinha
sido incrível. Mas quando olho para trás, sendo o homem experiente
de dezenove anos que sou hoje…
Wandinha tosse alto na direção dele enquanto inclina o tronco
para a frente, encostando nos blocos de leve.
Emory bate em seu braço e ela recolhe a mão, afastando-a da
torre, que oscila mas não cai. Ela dá um tapa de brincadeira em seu
ombro.
— Babaca.
Ele ri.
— Como estava dizendo, olhando para trás, penso: É, na verdade
foi um desastre. Nenhum dos dois sabia o que estava fazendo.
Miah volta do banheiro e senta ao meu lado.
— O que eu perdi?
Wandinha responde:
— Como Você Perdeu. Especificamente quando e, se estiver a
fim de falar, com quem. — Ela sorri para Miah, para mim, e meu
corpo inteiro fica rígido porque é claro que está fazendo isso de
propósito. Ela continua: — Eu tinha dezessete anos. O nome dele
era Nicholas. Eu esperei o máximo que consegui. Minhas irmãs
estão se guardando para o casamento, e tenho quase certeza de
que minha família acha que também estou. Não posso conversar
com nenhum deles sobre isso porque provavelmente seria expulsa
da família ou algo do tipo.
Pergunto:
— Foi por isso que você se expulsou primeiro? Antes que eles
pudessem fazer isso?
Ela congela, o dedo em um bloco.
— Talvez. — Um dos blocos cede, e ela puxa e o deposita sobre a
torre, e se afasta. — E você? — Está olhando para Miah.
— O que tem eu?
Ele inclina o tronco para trás, analisando a torre com um olho e
depois com o outro. Faz cócegas no meu pé.
— Quantos anos tinha na sua primeira vez?
Wandinha fica olhando para mim e para ele, para mim e para ele.
De repente quero levantar e correr até o banheiro porque não quero
ouvir sobre todas as garotas que vieram antes de mim.
— Um cavalheiro não expõe — ele diz, e sua voz soa educada
mas descolada.
Ela o encara e ele a encara de volta, e nenhum dos dois pisca.
— Eu exponho. — Grady se aproxima, estende a mão. Puxa um
bloco e o deixa sobre a torre como quem não se importa se ela
desmoronar. — Eu tinha treze anos. Acho que o nome dela era
Bridget. Talvez Brittany.
Jared balança a cabeça.
— Cara. Que tal um pouco de respeito?
Grady só pisca para ele.
— Quê?
— Ou você é muito bom em fingir que é um babaca ou realmente
é um babaca.
Emory pergunta para Grady:
— Só garotas?
Grady pega um punhado de batatas chips.
— Principalmente garotas. Na verdade eu tenho namorada. —
Isso faz com que todos fiquemos em silêncio. — Ela mora no
continente. Faz uns cinco anos que terminamos e voltamos,
terminamos e voltamos.
— Ela vem para cá? — Wandinha pergunta.
— Ela está em Savannah. Vamos nos ver quando as aulas
voltarem.
E é quando descobrimos que Grady estuda escultura e artes
cênicas na Faculdade de Arte e Design de Savannah, prova de que
nunca devemos julgar um livro pela capa.

Estou na cozinha com Jared, pegando mais bebidas, e dali


consigo ver os demais jogando Twister. Tento não olhar quando
Miah e Wandinha cruzam pernas e braços e outras partes do corpo,
tento não pensar nos dois usando as mesmas posições para outras
atividades.
Jared olha para a sala, então para mim.
— Não conta pra eles, mas eu só transei com uma pessoa. Ano
passado. Eu tinha vinte anos.
— Não vou contar. Na verdade, acho isso bem legal.
— Não era para ser nada de mais, mas foi legal. Quer dizer, foi
sexo. Ela queria. Eu queria. Sabíamos como ia ser. Meio que
combinamos como ia ser. Mas acho que, na próxima vez, quero
estar apaixonado.
Vejo pela porta quando Wandinha desmorona, quase levando
Emory com ela. Miah está praticamente fazendo uma parada de
mão, o que me faz pensar em paradas de mão na praia, o que me
faz pensar em nadar pelada à meia-noite sob o luar.
Digo:
— O amor complica as coisas. As pessoas dizem isso o tempo
todo, mas é verdade.
— Eu prefiro uma coisa complicada do que nada. — Ele põe gelo
em um copo e dá o copo para mim. — Então. — Olha para mim com
malícia. — Não temos encontrado vocês ultimamente.
— Estamos nos aventurando por aí.
— Legal. Fico feliz que ele tenha te encontrado, porque ele é um
cara legal e você faz ele feliz.
— Eu também estou feliz por ter encontrado Miah.
Ele me ajuda a servir. Um grito lá da sala. Risadas.
— Você não precisa se preocupar. Com a Wandinha, quero dizer.
É diferente com você — ele diz.
— Obrigada.
Mas assim que respondo, me pergunto: E daí que é diferente
comigo? Eu não tenho um futuro com esse garoto.
Como se pudesse ler minha mente, Jared pergunta: — Ele vai
embora logo, não vai?
— Vai.
Em treze dias.
— O que vocês vão fazer?
— Não sei. Não conversamos muito sobre isso. Estamos focando
no agora.
— Espero que deem um jeito. É engraçado. Somos uma família
estranha aqui. É como a Ilha dos Brinquedos Quebrados.
Mais risadas quando Miah e Emory tombam ao mesmo tempo.
Wandinha está tirando fotos com o celular enquanto Grady faz a
volta da vitória ao redor da mesinha de centro.
— É, acho que é.
E estou feliz por fazer parte dela.

Todos vão embora por volta da meia-noite, e Miah é o último a


sair. À porta, ele diz, um pouco mais alto que o necessário: — Boa
noite, Capitã.
Ele direciona a voz para o quarto da minha mãe.
— Boa noite, Miah — respondo, embora minha mãe tenha ido
deitar há vinte minutos.
Ele me beija e sai para a noite e eu fecho a porta atrás dele, caso
ela esteja ouvindo. Não me apresso ao apagar as luzes, servir um
copo de água. Minha rotina da hora de dormir. Pego meu caderno
do assento da janela. Escovo os dentes. Lavo o rosto. Dou uns
petiscos ao Dandelion. Vou até meu quarto e fecho a porta com um
ruído seco.
Uma batida na minha janela, e Miah está lá fora. Abro a janela e
ele diz: — Estão me comendo vivo aqui.

Estou em cima dele na minha cama, e ele está rindo. Me


aproximo para beijá-lo, e quando me afasto vejo uma expressão
diferente em seu rosto. Difícil de ler, mas uma mistura de felicidade
e mais alguma coisa… amor, talvez.
Pergunto:
— Por que você não quis brincar de Como Você Perdeu?
— Porque não tenho doze anos.
Ele me beija de novo, e a expressão ainda está lá.
— Queria que você não tivesse transado com ela. Seria muito
mais fácil sermos amigas.
— Eu também queria não ter transado com ela.
— Então, foram quantas? Garotas, quero dizer.
E, ao perguntar, meu coração acelera, e quero dizer Não me
conte. Por favor, não me conte.
— Por quê?
— Acho que só quero saber em que posição eu estou.
— Primeiro, eu não classifico as mulheres. Não faço uma lista, se
é isso que está pensando. Segundo, nem tem muito o que listar.
Quando não estou em uma ilha deserta, passo a maior parte do
tempo cuidando de uma mulher adulta e quatro irmãs mais novas.
— Desculpa.
— Tudo bem. Você quer me contar em que posição estou?
— Você é o único com quem transei.
— Mas não sou o único com quem deu uns pegas.
— Parece que faz tanto tempo. Que eu era outra pessoa.
E parece mesmo. Shane Waller e Matteo Dimas e Wyatt Jones
parecem garotos que aconteceram com outra pessoa.
Pergunto:
— Você já ouviu falar da ostra vienense?

Cinco minutos depois, estamos folheando Os prazeres do sexo,


estudando os retratos falados policiais e sussurrando passagens
misóginas um para o outro. Ele lê com o mesmo tom engraçado do
sr. Hernandez, meu professor de espanhol do primeiro ano, e enfio a
cara no travesseiro para abafar a risada.
— Cara, esse livro é horrível mesmo — ele diz. — Mas as
posições são… interessantes.
Ele mostra uma. Faço que não com a cabeça.
— Tem umas melhores.
Pego o livro dele.
Decidimos pela flanquette, que é tipo Twister, mas sem o
tabuleiro. O livro não ajuda muito, e logo ele recebe um pé no nariz,
no olho, no queixo, e eu tenho uma cãibra na panturrilha, então
fazemos uma pausa enquanto dou vários pulos, enrolada no lençol
porque não tem a menor chance de eu ficar me sacudindo na frente
dele com os peitos de fora.
A cãibra acaba passando. Nos recompomos. Subo de novo na
cama e tentamos mais uma vez. Dessa vez ele recebe um pé na
cara antes de eu acabar caindo da cama com um baque alto.
Congelamos, eu ainda no chão, e aguçamos os ouvidos.
— Acho que precisamos de algo um pouco mais silencioso —
digo.
Deito de novo e ele fecha o livro, jogando-o embaixo da cama.
— Talvez seja uma boa hora para eu te contar sobre a pesquisa
que estou fazendo.
Sua voz é quase um sussurro.
— Que tipo de pesquisa?
— Pesquisa sexual.
— Tipo pornô?
— Estou falando de artigos realmente educativos, tipo “Como dar
prazer à sua mulher” e “Como garantir que está agradando sua
garota”. Imaginei que conhecimento nunca é demais no que diz
respeito a satisfazer a namorada.
— Quando você fez essa pesquisa?
— Na última vez que saí da ilha.
— E aí, aprendeu alguma coisa?
— Nadinha. — Ele pega meu celular. — Posso? Para fins
ilustrativos? — Faço que sim com a cabeça. Ele se apoia em um
cotovelo. O brilho da tela ilumina seu rosto enquanto ele finge ler. —
Pensando bem, não é verdade. Existem oito mil terminações
nervosas no clitóris.
— Certo. Eu não sabia disso.
— Também: “Ela pode não gostar de contato direto”. Um dizia:
“Use o corpo dela como guia”. — Ele fica deitado ali, fingindo rolar a
tela. — Inútil, inútil, inútil. — Então para de rolar a tela e finge jogar
meu celular longe. Se aproxima e me beija. — Quero a luz acesa
para ver cada pedacinho de você.
Pego sua mão e coloco entre as minhas pernas, posicionando
seus dedos exatamente como posicionaria os meus.
— Se quer saber como dar prazer à sua mulher — digo —, é só
perguntar.
Um pouco depois, ele faz o mesmo, guiando minha mão, me
mostrando quando e onde tocá-lo.
Depois, ficamos deitados de lado, de frente um para o outro, e
pergunto: — Como é o sexo para você?
Ele pega minha mão, pressiona nossas palmas uma contra a
outra, dedo com dedo.
— Meu Deus, Capitã. Suas mãos são grandes para uma garota.
— Responda a pergunta.
Ele entrelaça os dedos nos meus.
— Sei lá. Eu dizia que ninguém me dá mais prazer do que eu
mesmo, mas aí você apareceu. Acho que é como uma pressão,
uma pressão boa, em cada centímetro quadrado do meu corpo, que
vai se acumulando, até finalmente se reunir toda em um ponto, e
parece que vou explodir em pedacinhos. E quando explodo, é como
se antes eu estivesse carregando toneladas, tipo o… como é o
nome dele? Atlas. Só que em vez de carregar o mundo, eu consigo
levantá-lo acima da cabeça e girá-lo até lançá-lo para outro sistema
estelar. É nascer do sol, pôr do sol e a maré perfeita, tudo junto. —
Ele solta minha mão e percorre minhas curvas com os dedos. —
Como é para você?
— Sabe aquela noite que dirigimos com os faróis apagados e
vimos um milhão de vaga-lumes? É como se você pudesse pegar
cada um deles e guardar em um vidro, e quando todos acendem ao
mesmo tempo, você abre a tampa e os liberta.
Ele assovia.
— É tarde demais para mudar minha resposta?
— Sim.
— Você devia colocar isso em um livro um dia, Capitã.
— Talvez eu coloque.
— Eu vou saber que você está falando de mim.
— Ou talvez seja assim com qualquer pessoa.
— É, acho que não.
Nos beijamos por um tempo, minhas mãos em seu cabelo, sua
pele na minha. Me concentro na sensação e no calor, esquecendo
minha mãe no fim do corredor.
Depois de um tempo, ele sussurra:
— Um daqueles artigos tinha um conselho interessante.
— Qual?
Ele diz no meu ouvido:
— Não esqueça do resto do corpo dela.

Um pouco mais tarde ainda, me viro para a mesinha de cabeceira


e enfio a mão na gaveta. Dou a Miah um amanteigado do pacote
que escondi ali.
— O que é isso?
— Um gostinho de Mary Grove, Ohio.
Ele coloca na boca e fecha os olhos.
— São de uma pequena confeitaria no centro. A Joy Ann. A
melhor confeitaria do mundo. Tem cheiro de doces e aniversários e
todas as datas felizes.
Conto a ele sobre a família que é dona da confeitaria, sobre o
esquilo que fica em frente à porta todos os dias para ganhar um
biscoito de manteiga de amendoim, sobre o ritual matutino secreto
que meu pai e eu seguimos nos últimos seis anos.
Ele diz:
— É um biscoito incrível.
Dou mais um a Miah e como um também, então fecho a gaveta.
Volto a me encaixar nele, minha cabeça em seu peito, e ficamos
deitados ali. Sinto sua respiração subindo e descendo, e seu cabelo
faz cócegas em meu rosto.
Digo:
— É como vaga-lumes, mas também é como escrever. A
sensação de quando você escreve uma frase ou um parágrafo ou
uma cena muito boa e verdadeira, e se sente invencível, como se
pudesse fazer qualquer coisa. É tipo um superpoder, e naquele
momento você é intocável, a melhor que existe. É assim que você
faz eu me sentir, Jeremiah Crew. Que eu sou a melhor que existe.
Ele acaricia meu cabelo. Acaricia minhas costas, seus dedos
traçando círculos pela minha coluna.
— Você é — ele diz.
DIA 20

Bram e Shirley Bailey vivem no norte da ilha. Seguindo pela estrada


principal, passamos por uma placa que diz ÁREA DE CONSERVAÇÃO.
APENAS MORADORES. PROIBIDA A ENTRADA. Miah segue em frente. Por
mais selvagem que a floresta seja perto da casa da Addy e da
pousada, aqui é ainda mais. Palmeiras e carvalhos se misturam a
pinheiros e porções inteiras da estrada desaparecem sob o verde da
vegetação rasteira que se espalha.
Passamos pela pequena igreja batista; pelo hotel em ruínas que
um dia pertenceu a Clovis Samms; e pelos sambaquis, uma área
próxima ao pântano formada por montes construídos há
quatrocentos anos pelos nativos americanos para cerimônias. Miah
diz que ainda é possível encontrar ferramentas pré-colombianas e
pedaços de cerâmica ao escavar ali.
Os Bailey moram em uma área chamada Belle Hammock, em
uma casa vermelha robusta com janelas largas e uma varanda
espaçosa e teto de metal que reluz ao sol do fim da tarde. Um
ônibus escolar está estacionado no quintal, brotando da terra como
as plantas e flores que crescem ao seu redor.
Bram é um homem parrudo de uns cinquenta anos, com cabelos
grisalhos, a pele negra envelhecida e o rosto espirituoso, como
quem acabou de ouvir uma piada. Embora sua boca quase não se
mexa, seus olhos sorriem, e gosto dele imediatamente.
Shirley abre os braços e me envolve em um abraço, dizendo para
Miah por cima da minha cabeça: — Até que enfim você a trouxe
aqui.
Sentamos na varanda e comemos ostras, que chupamos com
molho de limão, e Shirley conta histórias sobre a ilha.
— Ele disse que você é uma Blackwood.
Ela acena com a cabeça em direção a Miah.
— Parente distante. Da parte pobre da família. Meu nome é em
homenagem à minha tia-bisavó Claudine.
— Eu a conheci quando era criança. Achava que ela era uma
rainha porque se portava como uma, aqueles cães a seguindo por
toda parte. Ela sempre tinha uma pistola no cinto, e alguns diziam
que era a mesma pistola antiga que a mãe dela usou para se matar.
— Você sabe o que aconteceu de verdade?
— Com Tillie?
Bram joga mais ostras em nossos pratos e me passa o molho.
— Como reza o costume sulista, ninguém falou nada a respeito
depois que aconteceu — Shirley diz. — Mas o mais provável é uma
depressão que se agravou porque ela perdeu o bebê. Mas não era
assim que as pessoas chamavam. Elas diziam: “Ah, pobre Tillie.
Você ficou sabendo? Aquela pobre jovem morreu de coração
partido”. — Shirley sorri para mim. — Você teria gostado dela. Era
boa gente. Vibrante. Gentil. Muito engraçada e divertida. Viva. Era
tão viva. — Ela balança a cabeça. — Minha bisavó Clovis era talvez
sua melhor amiga. Ela sofreu bastante quando Tillie morreu.
— Sua bisavó era a curandeira.
— Durante cinquenta e dois anos. Ela morreu com cem anos.
Pergunto sobre seus ancestrais — Clovis e Aurora, a guardiã do
farol, e Beatrice, a contadora e colecionadora de histórias.
Shirley levanta da mesa e vai até a sala, onde fica em pé diante
da estante, as mãos nos quadris, obviamente procurando alguma
coisa. Bram diz: — Prateleira de baixo, o terceiro de lá para cá.
Ele dá uma piscadinha para nós.
Ela se abaixa, pega algo da prateleira, e volta com um álbum de
fotos.
— Este homem — diz, com um meneio de cabeça em direção a
Bram. — Ele sempre sabe onde as coisas estão.
— Que bom — ele diz para ela. Então, para nós: — Essa mulher
perderia o próprio nariz se não estivesse grudado na cara.
Mas ouço o amor por trás de suas palavras.
Shirley senta e abre o álbum e passa para mim. Mostra uma foto
em preto e branco meio desfocada de uma mulher de branco, que
parece que mal consegue ficar quieta para a foto.
— Essa é Clovis. A única foto que temos dela.
Fico olhando para Clovis e ela olha para mim, e penso em todas
as histórias que ela deve ter vivido e reunido — muito antes que
Beatrice pudesse registrá-las — e levado consigo quando morreu.
A conversa se volta para o trabalho deles na Outward Bound. Eles
estavam envolvidos com a organização havia dezesseis anos
quando conheceram Miah.
— A gente nunca tinha visto um babaca maior que esse aqui —
Bram diz, acenando com o copo em direção a Miah. — A primeira
vez que ele veio, Shirley ameaçou pedir demissão todos os dias.
Miah olha para mim.
— Eu te disse. — Aponta para si mesmo. — Um lixo.
Shirley balança a cabeça.
— Mas conseguíamos ver o que havia de bom por trás da dor.
Geralmente tem algo bom escondido em algum lugar nas pessoas
se você procurar bem.
Miah diz:
— Ninguém nunca se preocupou em procurar antes de vocês.
E de repente consigo imaginá-lo aos treze anos, o garoto que
cuidava de todos, quisesse ele ou não. Que acreditava que nunca
poderia se dedicar à própria vida porque a vida dos outros era mais
importante. Estendo a mão e ele a pega sem se distrair da
conversa, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Agora eles querem saber sobre mim — para qual faculdade vou
no outono, o que vou estudar, em que minha mãe trabalha. Eles não
perguntam sobre meu pai, e não sei se Miah contou a eles por que
estou na ilha.
Durante a sobremesa, a conversa se volta para a Outward Bound
mais uma vez.
Pergunto:
— Vocês vão embora no fim do verão ou ficam aqui o ano todo?
E Shirley responde:
— Logo vamos para Montana com este aqui. — E de início acho
que ela está se referindo a Bram, mas ela está olhando para Miah.
— É o primeiro ano dele como guia.
Olho para Miah. Ele olha para o prato.
— Isso é incrível — digo, e a torta fica presa na minha garganta.
Bebo. Engulo. Mas o caroço ainda está lá.
Na caminhonete, depois do jantar, não conversamos sobre a
Outward Bound. É como se ele soubesse que é melhor não tocar no
assunto, e eu definitivamente não quero tocar no assunto, então
fingimos que não é algo pairando entre nós. Digo a mim mesma que
não descobri nada que já não soubesse. Em menos de duas
semanas, ele vai embora da ilha. Ponto-final. Isso não mudou.
Ele diz:
— Você está quieta aí, Capitã.
— Desculpa.
— O Bram e a Shirley amaram você.
— Eu amei eles também.
E penso: O amor complica tudo. Dói e faz você ter dúvidas e faz
você desejar que não amasse. Faz você querer tomar cuidado para
que nada de mau ou surpreendente aconteça. Faz você nunca mais
querer amar porque só vai se magoar de novo.
— Você quer me perguntar sobre Montana?
— Na verdade não.
Uma coisa é brincar sobre a Nasa e a CIA; outra é saber a
verdade, porque a verdade significa ter que imaginá-lo do outro lado
do país fazendo o que tem de fazer. Enquanto eu estou em Nova
York fazendo novos amigos e conhecendo outros garotos. E Miah
está em Montana fazendo novos amigos e conhecendo outras
garotas. E não vamos esquecer da Saz em Chicago fazendo novos
amigos também. E meu pai em Ohio, e minha mãe em outro lugar
que não seja Ohio, e todos separados por aí.
De repente todas as coisas em que eu evitava pensar estão bem
aqui. A ponte levadiça sobe. O portão fecha. Eu fico sentada na
minha fortaleza, olhando para fora. Eu o vejo, mas ele não me vê.
— Tá bom.
Ele desacelera, para, vira a caminhonete e agora estamos indo
em direção ao norte de novo.
— Aonde estamos indo?
— Ah, você está aí, Capitã. Achei que tivesse ido embora.
— Estou aqui.
— Então venha comigo.
— Aonde estamos indo?
— Quero te mostrar uma coisa.

Passando a casa do Bram e da Shirley, o farol fica ainda mais ao


norte, vermelho e desbotado, como se estivesse ali desde o início
dos tempos. Foi aqui que a filha de Clovis, Aurora Samms, assumiu
o lugar do pai e dos irmãos depois que eles morreram no mar. A
fundação de sua casa ainda está aqui, um quadrado grande de
pedra e tijolo, não mais que um contorno na grama.
Saímos da caminhonete e Miah traz um cobertor, e o vento tenta
nos levar para longe.
— Ali era a casa da Aurora — ele grita quando passamos
correndo pela fundação.
— O que aconteceu? Pegou fogo também?
— A Aurora foi a última a morar na casa. Ela morreu em algum
momento nos anos 70, e a guarda florestal simplesmente deixou
que a casa caísse.
Corremos contra o vento, segurando nossas roupas, nos
segurando, até o farol. Ele força a porta, que está empenada por
causa do vento e do tempo, e finalmente ela se abre. Do lado de
dentro, o cheiro é de umidade, de cem anos de tempestades e
furacões, mas está tranquilo e silencioso. Entramos e quase não há
luz. Ele fecha a porta e o vento bate contra ela, tentando entrar. Eu
meio que espero que ele nos deixe no escuro, para provar que
podemos adaptar nossos olhos, mas ele trouxe uma lanterna porque
Miah está sempre preparado.
As escadas sobem em curva a partir da entrada, e Miah segue
por ela. Vou atrás, em uma espiral para cima. Passamos por
pequenas janelas retangulares que batem na esquadria e cuja vista
dá para o preto do oceano. É a parte mais escura da ilha, e tento
imaginar aquela jovem, Aurora, vivendo aqui sozinha, cuidando da
luz.
— Vamos subir muito?
Minha voz sai irritada e mal-humorada, a voz de uma criança, mas
não é como estou me sentindo. Minha voz devia soar confusa e
distante.
Miah responde:
— Até lá em cima.
Olho para baixo e a espiral da escada é como uma concha. Ela
vai se estreitando conforme subimos até que, duzentos andares
depois, finalmente termina em um piso de madeira, gasto e riscado
e surrado em alguns pontos. O lugar é um círculo perfeito coberto
de janelas. No centro fica a luz em si, como um olho cego enorme,
preto e silencioso.
Miah me passa a lanterna e estende o cobertor.
— Venha, Capitã.
Não quero ir porque quero ficar aqui, na fortaleza. Não quero que
ele pense que estou apaixonada e que vou sentir saudades. Quero
que ele pense que estou trezentos por cento bem e tranquila e O
que for para ser, será. Foi o que prometi a ele, afinal.
Ele desliga a lanterna. As janelas batem e do outro lado o vento
uiva, mas aqui dentro estamos seguros. Ele deita, as mãos atrás da
cabeça, e espera por mim.
Então eu sento. E em seguida deito, e o teto tem estrelas
desenhadas.
— Olha — eu digo.
— Aurora pintou as estrelas. É o que a Shirley diz. Para que lhe
fizessem companhia nas noites escuras em que ela ficava sozinha
aqui.
Encontro o Carro de David e a Cruz do Norte e as Três Marias,
traçando-os com os olhos.
Depois de um minuto, ele diz:
— Em que você está pensando, Capitã?
De alguma forma, é mais fácil responder assim, no escuro,
olhando para as constelações.
— Você vai para Montana.
— Você não gosta de Montana?
— Nunca fui. Mas você vai para lá. E eu vou para Nova York. E a
Saz vai para Chicago. E não sei ao certo por que estamos fazendo
isso se não vai dar em nada.
— E com isso você quer dizer nós dois?
Mantenho os olhos nas estrelas.
— Sim. Quer dizer, eu sei que concordamos que só íamos nos
divertir e que era só esse verão, e tudo bem por mim. De verdade.
Mas também fico pensando Para quê? Tipo, para que fazer tudo
isso se vai acabar?
E não sei se estou falando de Miah ou da Saz ou do casamento
dos meus pais ou do amor em geral.
— Olha, eu não penso assim. Só porque vou para Montana não
quer dizer que isso não signifique alguma coisa agora.
— Eu entendo. Mas é que prometi para você que não ia sofrer
quando você fosse embora, mas talvez eu sinta um pouco de
saudade.
— Uau. Um pouco?
— Talvez.
Ele estende a mão na escuridão e pega a minha.
— Tenho a sensação de que vou sentir muita saudade.
E beija as costas da minha mão e então coloca nossas mãos,
entrelaçadas, sobre o peito.
Olho para ele no escuro, e meus olhos se adaptaram o bastante
para ver que ele está olhando para mim.
— Você é um ótimo namorado, sabia disso?
— Eu tento.
— Lembre que eu ainda não tive um namorado de verdade, então
não tenho muito parâmetro.
— Lembre que eu moro em uma ilha, então não tenho muita
prática.
Ficamos deitados ali, ouvindo o vento e o barulho das janelas.
Digo:
— Acho melhor a gente não falar sobre o fim do verão.
Assim como Saz e eu prometemos não falar sobre a faculdade
até chegar a hora de irmos, como se de alguma forma não falar
pudesse nos proteger.
E é melhor não pensar nisso.
— Você é quem manda, Capitã.
E isso faz eu me sentir melhor e pior porque é claro que estou
pensando nisso.
Em um minuto, ele pergunta:
— Está sentindo?
— O quê?
Aqui em cima, no topo desta torre antiga, me preparo para o
vento, o trovão, a tempestade.
— O chão.
Fecho os olhos e me concentro, até sentir, através do cobertor, a
madeira sob minhas mãos, minhas pernas, minhas costas, minha
cabeça.
— Estou sentindo.
Sem dizer uma palavra me aproximo até ficar encostada nele,
bem onde me encaixo, e ele me puxa para perto para que minha
cabeça fique em seu peito e seu braço me envolva.
— Eu te protejo — ele diz, tão baixo que quase não ouço. —
Posso ser seu chão.
Meu coração se agarra a isso enquanto eu digo a mim mesma
Este momento é suficiente. O agora é suficiente. Não precisamos
ser mais nada além do agora.
DIAS 21-22

Para nos prepararmos para a visita da Addy, minha mãe e eu


trocamos os lençóis dos quartos e passamos aspirador na casa e
limpamos o banheiro. Damos a Miah uma lista de compras e três
horas e meia depois ele traz quatro sacolas marrons grandes.
Observo pela janela quando anda tranquilo até a caminhonete,
sorrindo para mim durante todo o caminho.
Digo à minha mãe:
— Posso ficar com ele enquanto a Addy estiver aqui.
— Bela tentativa, mas não. Alguém pode dormir no sofá do
escritório.
O que quer dizer eu.
— Mas vocês duas têm muito o que conversar. Se a Saz viesse,
ficaríamos acordadas a noite toda.
— A Addy e eu somos velhas. Vamos dormir antes das dez.

O armazém está aberto de novo. Deixo a bicicleta do lado de fora,


perto da porta, embaixo de uma placa que diz GELO, SORVETE, BEBIDAS
E MAIS!Quando entro, Terri levanta o olhar do livro (O vale das
bonecas) para mim e diz:
— Ouvi dizer que Addy Birch chega hoje — porque a ilha é
pequena e todo mundo fica sabendo de tudo.
Pergunto a ela sobre o tempo que passa fora da ilha, e ela me
conta sobre o novo neto da irmã e o filme que assistiu, com aquele
garoto do Rocketman. Compro um sorvete e digo que preciso ligar
para minha amiga.
Jogo a bolsa sobre a mesa e, antes mesmo que Terri possa voltar
ao livro, Saz atende.
— Mas que merda é essa?
— Desculpa. O armazém estava fechado desde quarta e é
literalmente o único lugar onde tem sinal. Você está bem?
Abro a embalagem do sorvete e dou uma mordida, aproveitando o
frescor que desce por minha garganta.
— Preciso te contar uma coisa.
— Você vai casar.
— É sobre o seu pai.
— Meu pai?
O sorvete começa a pingar na mesa. Por algum motivo demoro
um pouco para perceber que ela está falando do meu pai, tipo meu
pai, Neil Henry. O que prova o quão pouco tenho pensado nele
ultimamente.
— Meus pais estavam no White Lion. Sabe, aquele bar que fica
no lado oeste? Acho que eles viram seu pai lá com alguém.
Demoro um minuto para responder porque estou tentando
imaginar meu pai em um bar.
— Alguém?
— Uma mulher. Não sei quem era. Ela tinha cabelo castanho.
Eles não reconheceram.
— O que eles estavam fazendo?
— Só bebendo alguma coisa. Minha mãe disse que quando seu
pai viu os dois, ele foi embora, tipo, um minuto depois, e a mulher
ficou, então talvez só fosse alguém com quem ele estava
conversando, alguém que ele conheceu enquanto estava lá. Quer
dizer, né? Deve ter sido isso.
— Se foi só isso, por que você está me contando?
— Porque vai que tem mais alguma coisa… Achei que você devia
saber. Eu ia querer saber.
— Ia? — Minha voz sai alta e aguda.
— Sim. E ia querer ouvir de você.
Quero desligar na cara dela. Na verdade, queria que essa
conversa nunca tivesse acontecido porque até agora o dia tinha sido
bom, claro e quente, mas não demais, e a Addy está vindo e talvez
eu veja Miah mais tarde. Mas não quero desligar na cara dela
porque é a Saz e ela é minha melhor amiga e não quer me fazer mal
e me ama mais que a Etsy e doces e o Byron, seu irmão favorito.
Então, com a voz seca e baixa, agradeço e digo a ela que tenho que
ir porque a Addy está quase chegando e que também a amo. Não
que a amo mais que isso e aquilo e aquele outro, porque meu
cérebro deu branco, mas ainda assim a amo.

Addy chega na barca da tarde. Minha mãe e eu vamos encontrá-


la, e ela abraça minha mãe primeiro, depois me abraça e depois
abraça minha mãe de novo. Addy Birch é bem-vestida e elegante,
com cabelo grisalho mais curto que o meu e olhos azuis dançantes.
Desde o segundo em que desce da barca, com calças de linho
brancas e um quimono esvoaçante, parece a Addy que conheço
desde que era garotinha — atemporal, jovem — e sinto um caroço
na garganta. Minha casa.
Minha mãe sempre foi próxima da Addy. Ficou ao lado dela
quando Danny se afogou no repuxo do mar. Ficou ao lado dela
quando Addy se divorciou do marido, Ray. Foi quando Addy veio
para a casa da ilha — que herdou da mãe — para retomar o fôlego,
como dizia. Sempre foram Addy e minha mãe, minha mãe e Addy,
como a Saz e eu.
Jantamos na pousada e ninguém fala do meu pai. Pego a imagem
dele em um bar conversando com uma estranha e empurro o mais
fundo possível dentro de mim. Bem lá no fundo onde ninguém vai
conseguir ver, onde seria necessário ter uma escavadeira para
chegar.
Addy fala sobre o homem que acabou de começar a namorar —
um advogado de Columbus — e fala sobre seu trabalho como
arquiteta paisagista, que a faz viajar por toda a Costa Leste e às
vezes para a Califórnia.
Addy nunca fez com que eu me sentisse diminuída. Sempre senti
que ela era minha amiga também. Mas por mais que seja ótimo vê-
la, também parece errado. Como se ela não devesse estar aqui.
Como se, apesar de estarmos em sua casa, vivendo em seu
universo, ela estivesse trazendo o mundo lá de fora para este, onde
não é seu lugar.

Estou ocupada com a Addy e a minha mãe no museu, e ele está


ocupado desobstruindo trilhas com o pessoal da Outward Bound.
Fico sentada no chão, organizando os arquivos, e penso nele,
repassando nossas aventuras na cabeça. Eu as examino várias
vezes para não perder nem um detalhezinho, mas já sinto as bordas
começando a borrar conforme nos aproximamos da partida.
Digo a mim mesma que os pais da Saz só tiveram a impressão de
ter visto meu pai. Que a pessoa que viram na verdade era um
homem com cabelo enrolado e a barba bagunçada que era
igualzinho ao Neil Henry.
— Já volto — digo.
E levanto e vou até o cômodo onde os objetos ficam expostos,
onde remexo minha bolsa até encontrar o caderno azul, que está
começando a ficar com as páginas lotadas. Saio para a tarde e
sento no degrau. Abro o caderno ao meio e encontro as páginas em
branco. Aliso o papel, passando a mão na página como se
conseguisse sentir o branco e as palavras que estão por vir.

Depois do jantar, de volta à casa da Addy, de volta ao escritório,


deixo a janela aberta, como Saz e eu sempre fazemos uma para a
outra. Por um bom tempo, fico sentada ali, o ar da noite aquecendo
meu rosto, olhando para a escuridão que zumbe. A janela está
aberta e estou esperando. Por favor, venha. Embora não tenhamos
combinado nada, espero que Miah apareça.
Bato em um mosquito na minha perna. Em outro na minha orelha.
Fecho a janela, deixando só uma fresta, e deito encolhida no sofá,
agitada embaixo do lençol. Termino os amanteigados e escrevo até
meus olhos ficarem pesados e eu não conseguir mais mantê-los
abertos. Deito a cabeça no travesseiro e, em algum momento,
cochilo. Por volta da meia-noite, sinto o sofá-cama afundar um
pouco, e Miah chegou. Abro os olhos e ele apagou todas as luzes
exceto uma.
— Você demorou — digo. — Os insetos estavam me devorando.
— Acho que nós dois sabemos que vale a pena esperar por mim.
Ele dá uma piscadinha exagerada e eu reviro os olhos.
Ele tira a caneta da minha mão e, quando se estica em direção ao
abajur, eu digo:
— Espera. — Em vez de contar sobre minha conversa com a Saz
ontem ou o tempo que passei com Addy, mostro o caderno. — Você
perguntou se eu estava escrevendo. Estou. Pelo menos estou
anotando essas ideias, mas ainda não sei o que são. Talvez não
sejam nada, ou talvez um dia possam virar alguma coisa.
Ele me olha e me ouve, ouve de verdade. E diz, com a voz mais
suave do mundo:
— Espero poder ler um dia.
DIAS 23-24

De manhã cedinho, minha mãe, Addy e eu caminhamos até a praia.


Paramos para pegar conchas e observar os barcos de camarão
ancorados na costa, e ouço uma melodia na voz da minha mãe,
como música. Quando ela ri, as linhas em volta de seus olhos
formam pequenos vincos, e lembro de algo que li uma vez, sobre a
diferença entre um sorriso falso e um verdadeiro, e que sempre
podemos reconhecer um verdadeiro pelas linhas ao redor dos olhos.
Addy e minha mãe contam histórias antigas da família, as que eu
gosto de ouvir, sobre quando eram jovens na Geórgia. Participo de
vez em quando, mas essas histórias são delas, e vou ficando para
trás para dar privacidade, embora sejamos as únicas pessoas na
praia, sob o vasto céu azul. Fico observando a cabeça loira da
minha mãe e a cabeça grisalha da Addy. Elas entrelaçam os braços
e por um instante parecem irmãs, deslizando pela areia como
cisnes. Addy diz alguma coisa e minha mãe começa a rir de novo.
Ela ri tanto que curva o tronco e se apoia nos joelhos e, quando
volta a se endireitar, enxuga os olhos e continua rindo. Por algum
motivo, a cena faz meus olhos se encherem de lágrimas, e me
concentro em pegar conchas.
E elas esperam que eu as alcance, e Addy me pergunta sobre a
faculdade e se estou animada e se já sei quem vai ser minha colega
de quarto. Respondo as perguntas, mas quero dizer a ela para viver
o presente. Não vamos falar sobre a faculdade. Não quero pensar
sobre a faculdade, embora tenha passado tanto tempo pensando
exatamente nisso. Acima de tudo, não quero pensar sobre o que vai
acontecer com Miah e eu quando formos embora daqui.
Me abaixo para pegar um dente de tubarão e ela diz:
— Sabia que o Danny colecionava dentes de tubarão? Tinha
vidros cheios deles no quarto. Ele amava essa ilha. Durante muito
tempo foi difícil voltar para cá depois que ele morreu.
— Você já pensou em vender a casa?
— O tempo todo. Mas tem alguma coisa nesse lugar… — Ela
divaga. — Esse lugar o levou embora, mas também pode nos curar.
Tivemos nossa cota de tragédia nessa família, mas encontramos
consolo aqui há gerações. Por isso sempre vou pensar nessa ilha
como nossa. Ela nos pertence de maneiras que não podemos ver
ou descrever.
— A ilha sempre encontra um jeito de dar o que a gente mais
precisa.
Digo quase sem pensar, como se as palavras de Miah estivessem
bem aqui, esperando a oportunidade perfeita de serem ditas.
— É verdade.
Ela me olha de um jeito que me diz que ela entende, ou que já
ouviu isso antes.
Entrelaça os braços no meu e no da minha mãe, e nós três
caminhamos assim por um tempo. Minha mãe diz:
— A Claude conheceu um garoto.
Addy levanta a sobrancelha para mim.
— Um garoto bom, espero.
Minha mãe continua:
— O nome dele é Jeremiah Crew, e ele trabalha na ilha.
— Eu conheço o Jeremiah — Addy responde, e é difícil dizer se
isso é bom ou ruim.
Me abaixo para pegar mais um dente de tubarão, esperando que
elas não percebam o quanto fiquei vermelha. O dente é o melhor
que já achei até agora. Do tamanho de uma moeda, liso e preto.
Estou pensando que não vejo a hora de mostrar a Miah quando meu
pensamento se volta para Danny. Dou o dente de tubarão à Addy.
— Para você.
Ela pisca várias vezes, e fico com medo de que comece a chorar,
mas ela pega o dente e guarda no bolso e dá uma batidinha.
— Obrigada — diz. — Ele teria amado.

Naquela noite, enquanto minha mãe e Addy abrem uma garrafa


de vinho, saio de fininho com Miah. Dirigimos até o cais da barca.
Ele pega um balde e duas varas de pescar da caçamba e
caminhamos pelo deque, onde pescamos e soltamos, pescamos e
soltamos, enquanto a noite se assenta ao nosso redor. Do outro
lado da água, no fim do mundo, vejo o brilho do continente.
Quando terminamos de pescar, sentamos no banco à beira do
cais e olhamos para as estrelas, sem pressa, evitando voltar.
— Precisamos ir — digo, embora não queira.
— Eu sei.
Ficamos ali um pouco mais, então levanto e ele levanta, e minha
mão está na dele e estamos entrando na caminhonete de novo.
Quando voltamos para a casa, as luzes da sala estão acesas e
consigo ver minha mãe e a Addy pela janela da frente, exatamente
onde estavam quando saí. Sob as estrelas, encostados na lateral da
casa, Miah me beija. Fico na ponta dos pés para poder ficar quase
da altura dele, para poder beijá-lo com tanta vontade quanto ele
está me beijando.
Quero você quero você quero você, penso. Agora agora agora.

No dia seguinte, a tempestade do fim de tarde deixa o ar mais


fresco e menos sufocante, e Addy se oferece para preparar o jantar.
Depois, nós três sentamos na varanda, o Dandelion nos olhando
pela janela, e tomamos sorvete enquanto eu conto a elas as
histórias de fantasmas que ouvi desde que chegamos.
— Tem também uma mulher de branco — Addy diz. — Lá onde
guardavam as carruagens na mansão. Eu a vi uma vez quando era
criança. Ela estava pairando na janela de cima. Olhando para mim.
Ela levanta, a casquinha de sorvete na mão, e encena, olhando
sem expressão para mim, depois para minha mãe.
— Quem era ela?
— Não sei. — Ela senta de novo. — Ninguém nunca conseguiu
descobrir. Mas se quer saber minha opinião, era a Tillie. Alguns
fantasmas ficam parados e outros se movem. A Tillie é do tipo que
se move. Ela supostamente protege a mansão Rosecroft, e isso
inclui o terreno e todas as construções.
Conto a ela sobre Tillie ter pegado a pulseira do Miah, e depois
menciono a Sociedade da Gaveta Secreta, que minha mãe disse
que elas escreviam bilhetes e deixavam lá.
Addy suspira. Ela e minha mãe trocam um olhar, e de repente
consigo vê-las com a minha idade, mais jovens até. Addy diz:
— Todo verão eu me apaixonava por alguém, e todo verão antes
de voltar para casa eu escrevia uma carta dizendo tudo o que não
conseguia dizer pessoalmente porque era covarde. Quando Ray e
eu nos divorciamos, vim passar um tempo aqui, para me recompor.
— Ela olha para minha mãe. — E escrevi algumas cartas para ele
também. — Ela ri e coloca o último pedaço da casquinha na boca.
— E você? — Ela volta o olhar para mim. — Está escrevendo
alguma coisa aqui?
— Um pouco. Nada de extraordinário. Mas um pouco.
Addy diz:
— A escrita pode nos salvar.
Minha mãe pisca para mim e eu respondo:
— É o que dizem.
Não quero falar sobre minha escrita, então digo a elas que vou
entrar para beber alguma coisa. Na cozinha, Dandelion se enrosca
nas minhas pernas, e me abaixo para fazer carinho nele. Em um
instante ouço a porta de tela bater.
— Então, como você está de verdade?
Addy está em pé ao meu lado, as mãos no quadril.
— Ah, você sabe.
— Sei.
Ela se abaixa ao meu lado e acaricia o queixo de Dandelion.
— Sinto muito pelos seus pais, querida. Sua mãe é uma das
mulheres mais incríveis deste planeta e minha melhor amiga. Ela é
mais minha irmã que as minhas irmãs de verdade. Uma coisa
assim… Não sei. É difícil de imaginar, embora eu tenha passado por
isso. Mas ela ama aquele homem. Eu nunca vou entender.
E é difícil saber o que ela não entende — por que minha mãe ama
meu pai, ou por que essa separação está acontecendo. Mas nesse
momento parece que uma cortina se levanta e eu vejo minha mãe
ali atrás, totalmente exposta, e tudo o que quero fazer é desviar o
olhar, mas não consigo, porque agora já vi.
Digo:
— Ela sempre se manteve no controle, pelo menos por fora. Acho
que o trabalho ajuda. É bom ela estar ocupada.
— Desde que não esteja se escondendo. Ela faz isso, sabia? Foi
por isso que eu vim. Para garantir que ela não está se escondendo
demais. Quero que ela saiba que pode contar comigo, sempre. E é
claro que pode contar com você. Você precisa ficar de olho nela por
mim até eu poder voltar, principalmente agora que as pessoas
sabem.
— As pessoas sabem?
— Sobre a separação, sobre o fato de sua mãe estar em uma ilha
na costa da Geórgia sem data para voltar, sobre a namorada.
Ela sussurra essa última parte tão baixinho que quase não dá
para ouvir. Mas eu ouço. A namorada.
E nesse momento o chão desaparece mais uma vez. Olho para
baixo, procurando por ele e, embora tecnicamente esteja ali, sei que
não está mais. Não preciso perguntar Que namorada? porque eu
sei. Não só porque os pais da Saz viram meu pai em um bar com
uma mulher. O modo como meu estômago se revira me diz. O
calafrio que sinto nos ossos me diz. As batidas aceleradas do meu
coração me dizem.
Não quero que você pense que tem outra pessoa. É importante
que você saiba disso.
Mas tem outra pessoa. O que quer dizer que ele não só me tirou o
chão, mas também mentiu.
— Eles trabalharem juntos é tão clichê.
— Pois é. — Porque é mais fácil que dizer Eu não sabia. Eu não
sabia de nada disso. Eu nem sabia que ela existia até agora. Não
quero ouvir isso. O que quer que isso seja. Quero esquecer que ouvi
tudo. Quero enfiar a mão dentro dos meus ouvidos e pegar as
palavras e arremessá-las de volta para ela.
— Sua mãe está lidando muito bem com a situação, mas é difícil
para ela. E sei que é difícil para você também.
De alguma forma consigo dizer:
— É.
Se é verdade que minha mãe sabia de tudo isso, que manteve
segredo e escolheu não me contar, então ela também mentiu. E
porque é ela, é muito pior que meu pai ter mentido.
Addy passa o braço sobre meus ombros e me aperta. Sinto o
cheiro do seu perfume e do seu xampu. Vejo a pinta na lateral de
seu pescoço, logo abaixo da orelha. Penso em quanto tempo faz
que a conheço, minha vida inteira, e que conheço seu perfume e
seu xampu e a pinta atrás da orelha há todo esse tempo também.
Mas agora esses detalhes parecem não significar nada.
O que eu ouço é Todos sabiam, menos você. Todos achamos que
você é muito burra por não ser capaz de enxergar que isso estava
acontecendo com seu próprio pai.
O que ela realmente diz é:
— Me avise se precisar de alguma coisa. Não estou aqui só pela
sua mãe.
— Obrigada.
E de repente preciso ir, porque se eu não for, vou começar a
chorar, e não vou parar até ter derretido, formando uma poça
enorme no chão. Digo:
— Vou ficar de olho nela.
Então digo à Addy que preciso ir ao banheiro, e entro e fecho a
porta e vomito todo o jantar. Depois sento no vaso fechado por um
tempo que pode ter sido minutos ou horas. Então lavo a boca e
passo o batom de novo e ajeito o cabelo até ficar parecida comigo
mesma novamente.
De volta à varanda, minha mãe e a Addy estão sentadas bebendo
limonada e conversando com vozes leves e alegres. Ver a Addy
sempre fez bem para minha mãe, e minha mãe precisa disso agora.
Minha mãe olha para cima quando eu sento ao lado dela, e fazia
um bom tempo que eu não via seu rosto tão feliz.
— Você está bem? — ela pergunta.
— Sim. — Dou um sorriso. Sou boa com sorrisos porque também
sei me esconder. Continuo: — Só com sede. — Bebo. Minha mão
não treme.
Ela o ama, e ele não a merece. Ele não merece nenhuma de nós
duas.
Quero chegar pertinho da minha mãe e quero que ela me abrace,
que me proteja de tudo. Quero que Addy vá embora da nossa casa,
que é a casa dela. Quero que a gente vá embora da casa dela.
Quero voltar para casa, mas não para Ohio, porque meu pai mora lá
e não é mais minha casa. Quero uma casa que nunca vi, onde vou
estar segura e minha mãe e eu vamos ser felizes e eu nunca mais
vou precisar pensar no meu pai.
DIA 24
(PARTE DOIS)

Estou sentada na cama, olhando para o nada como se fosse uma


tela de cinema, rostos surgindo nela. São três as mulheres que
trabalham diretamente com meu pai. Michelle, Fiona e Pamela, a
assistente executiva. Conheço todas elas há anos. Elas já jantaram
lá em casa. Estavam na festa de vinte anos de casados dos meus
pais. Estavam na minha formatura. Pairando como fantasmas às
sombras. Como Tillie na janela da mansão. Assistindo das coxias.
Esperando. Todas têm cabelo castanho.
Não sei muito bem para onde ir, mas preciso sair desta casa. Digo
à minha mãe que fiquei de encontrar Miah. Abraço a Addy e digo
que nos vemos mais tarde, embora não esteja pensando em voltar
para casa até elas estarem dormindo ou até ela ir embora da ilha.
Saio.
Mal sinto minhas pernas.
Mas de alguma forma dou um jeito de caminhar.
Não tem mais chão.
As palavras se repetem na minha cabeça como um disco riscado.
Não tem mais chão.
Não tem mais chão.
Não tem mais chão.
É a segunda vez na minha vida que o chão desaparece, e agora
percebo que você não pode confiar que ele sempre vai estar ali
porque ele é uma coisa móvel e mutável que qualquer um pode tirar
de você a qualquer momento. É a mesma coisa com o amor.
Sigo o caminho até a pista de areia que faz um círculo em frente à
pousada. Percorro o círculo três vezes, então volto até a casa e
pego a bicicleta e voo pela estrada principal.

Passo pelos cavalos pastando como se esse fosse um fim de


tarde qualquer. Bato na porta do chalé azul-vivo. Espero que ele
apareça. Não sei ao certo o que vou fazer se ele não aparecer. Não
sei aonde mais ir. Espero e espero, mas ele não atende.

Vou até o armazém, o mais rápido que minhas pernas são


capazes de me levar. Dou impulso na bicicleta com toda a minha
força, tentando ir mais rápido, embora eu não tenha aonde ir porque
estou em uma ilha.

Quando chego ao armazém, largo a bicicleta e corro até a porta.


Bato nela, sem parar, até meus pulsos doerem, embora — que
surpresa! — o armazém não esteja aberto porque é tarde e a Terri já
foi embora faz tempo. Pego o celular, mas é claro que está sem
sinal.

De volta na bicicleta, voo até o Dip, batendo em todas as


saliências da estrada, rezando muito para não sair voando por cima
do guidão. Ouço a música antes de enxergar a casa, e lá estão as
luzes e as pessoas, e largo a bicicleta e saio correndo.

Por volta das dez, estou no quintal jogando alguma coisa do tipo
errou o alvo, bebeu. Miah não está em lugar nenhum, então somos
Wandinha e eu contra Jared e Emory, e viro uma cerveja atrás da
outra e gosto porque o álcool e a música estão abafando o barulho
da minha cabeça. Digo a mim mesma que não há mais nada no
mundo além desta ilha e deste jogo e destas pessoas, meus
amigos.
Quando perdemos a vez, Jared e eu sentamos e ficamos
assistindo os outros jogarem.
Ele diz:
— Meu amigo Rashid era o melhor nesse jogo.
— Aquele que morreu?
— É.
Analiso seu rosto, que é sempre aberto e claro. Agora está difícil
de ler, como se um véu tivesse caído sobre seus olhos.
Finalmente digo:
— O que aconteceu com ele?
Ele demora um pouco para responder. Então diz que vai fazer três
anos que Rashid se matou em agosto. Mas é tudo o que diz sobre a
morte. Em vez de falar dela, Jared fala da vida curta e brilhante de
Rashid, e da força que é preciso ter quando se é aquele que foi
deixado para trás. Como a tia Claudine, penso. Depois da morte de
sua mãe.
Jared diz:
— O Miah já te levou ao antigo aeródromo?
— Acho que não.
— A gente devia ir antes de você ir embora, talvez levar um
almoço. Não tem muita coisa pra ver lá, mas por algum motivo eu
gosto. Tenho quase certeza de que você vai gostar também.
Paro de pensar sobre uma das piores coisas que podem
acontecer com alguém — suicídio, seu melhor amigo morto para
sempre, e todo o choque que vem com isso — e começo a pensar
sobre um garoto chamado Rashid que aproveitou cada segundo que
passou aqui e um garoto chamado Jared que escolheu aproveitar a
vida o máximo possível.

Em algum momento, entro para procurar o banheiro. Fecho a


porta e me aproximo do espelho e examino meu rosto, não por
inteiro, mas cada traço — boca, nariz, olhos, sobrancelhas, sardas,
testa, queixo. Dou um passo para trás e me olho por inteira. Sorrio.
A garota sorri de volta. Mostro a língua. Ela mostra a língua. Faço
uma careta. Ela faz uma careta. Mas é como o xampu, o perfume e
a pinta da Addy — são só detalhes que não significam nada.

Saio do banheiro e esbarro com Grady, com tanta força que


quase caímos.
— Cuidado — ele diz, salvando a bebida antes que derrame por
toda parte.
— Desculpa.
Ele me analisa e vou ticando itens numa lista, boca, nariz, olhos,
sobrancelhas, e o restante, como se eu tivesse esquecido de
colocar algo de volta no lugar.
Digo:
— Então você vai voltar para a Faculdade de Arte e Design de
Savannah.
Porque preciso que o holofote esteja nele, não em mim.
— Esse é o plano.
— Com a sua namorada.
— Não com ela. Mas, é, ela vai estar lá também.
— Como você consegue? Estão juntos, não estão juntos. Como é
isso?
— É o que funciona. Não só para mim. Para ela também.
— Então você transa com outras pessoas durante o verão?
— Por quê?
— Curiosidade.
— Está falando de você ou em geral?
— Em geral.
— Hm, então minha resposta é que não é nada com que você
precise se preocupar.
— Ela sabe que você transa com outras pessoas?
— De novo, você não tem que se preocupar com isso. Apesar de
parecer se preocupar. Bastante.
— Não estou preocupada — respondo. Encaro Grady sem piscar.
Estou pensando em honestidade e que não importa o quanto você
se abra e mostre quem é, as pessoas sempre vão mentir. — Você
trouxe alguma das suas artes?
— Na verdade não. Uma ou duas talvez.
— Posso ver?
Não tenho certeza de quem está falando — eu, que bebi muito e
estou andando por aí sem chão, ou a garota do espelho, cujos
traços estão todos no lugar, como sempre. O que eu sei é que uma
chama levemente sinistra está começando a queimar no meu
estômago, o que significa que estou prestes a fazer algo de que vou
me arrepender.
Grady diz:
— Claro.

O quarto dele é no andar de cima, no fim do corredor, com vista


para o pântano. É só um quarto, não um covil do sexo cheio de
pôsteres e bongs, como eu esperava.
Sento na cama.
— Então me mostre.
Parece que estou desafiando Grady. Me mostre. Me mostre o tipo
de cara que você é. Me mostre que estou aqui. Ele deixa a porta
aberta.
— O que você está fazendo?
— Esperando que você me mostre sua arte.
Tento dizer com a leveza de um dia de verão. E sei que devia
levantar e sair daqui, mas tem uma dor terrível e oca dentro de mim
e preciso que ela vá embora. Preciso me preencher com alguma
coisa para que não haja mais espaço para a dor e todos os
pensamentos que vêm com ela.
Ele fecha a porta. Meu coração bate rápido demais e meu rosto
está queimando e vermelho e uma pequena voz dentro de mim diz
O que você está fazendo, Claudine? Se afasta. Vai embora. Sai
correndo.
Ele vem até mim e estende a mão. Eu estendo a minha e ele me
puxa até eu ficar em pé, e agora aquela mão está em meu rosto,
traçando a linha do meu queixo, e sua testa está encostada na
minha, e seus olhos estão na minha boca, e eu estou parada como
uma estátua, rígida e imóvel. Mas não me afasto porque de repente
quero sua boca na minha, para afastar os pensamentos que estão
voltando à minha cabeça. Talvez fosse isso o que eu queria desde
que dei de cara com ele, lá embaixo.
Então — sem pedir — ele me beija. E me vem a surpresa de uma
boca nova e diferente daquela com que estou acostumada. Me
obrigo a beijá-lo de volta embora parte de mim esteja dizendo Para
com isso. Vai embora. As mãos dele estão no meu rosto, como em
um livro ou um filme, e apesar de eu achar que é uma jogada que
ele conhece bem e usa o tempo todo, e apesar de a voz dentro de
mim estar começando a gritar PARA COM ISSO AGORA MESMO,
continuo beijando.
Beijo com mais vontade e ele me beija com mais vontade. Seus
dentes batem nos meus e, em vez de parar, continuo. Cada vez
mais forte.
Eu o beijo até sentir sua mão nas minhas costas, embaixo da
camiseta, então me afasto como se de repente meu cérebro tivesse
voltado ao normal, com todo meu bom senso, comigo, a Claude de
verdade que — com ou sem chão — não quer beijar Grady.
— Não posso fazer isso. Meu Deus.
— Você podia há um segundo — ele responde.
— Mudei de ideia. Desculpa.
Ele sorri pra mim, mas não é um sorriso amigável. A raiva está
escondida nos cantos da boca. Ele diz: — Eu não te entendo.
— Não precisa entender.
Quando vou em direção à porta, ele entra na minha frente.
— Tenho quase certeza de que você subiu aqui para dar em cima
de mim. E você começou tudo isso, e agora está indo embora. O
que é frustrante, se é que você me entende. Você tem sorte de eu
ser um cara legal.
— Muita sorte. Com licença, por favor.
É como se cada pedacinho de mim estivesse segurando a
respiração, até meu coração, que não está mais batendo acelerado,
talvez nem esteja batendo.
Como ele não sai, digo:
— Eu posso ter subido até aqui e posso ter começado isso, o que,
acredite, não é uma escolha de que me orgulho, mas quando eu
peço para você sair da frente, é para você sair da frente.
Quero ficar esperando até ele sair da frente porque eu não devia
ter de dar a volta para chegar na porta. Mas também sei que preciso
sair daqui, quanto mais rápido melhor, e inteira.
Ele não me impede quando dou a volta por ele, quando saio do
quarto, atravesso o corredor, passo por Wandinha, desço a escada,
saio da casa, atravesso a varanda, saio para o quintal, passo por
Jared, que chama meu nome, e Emory e os outros. Esqueço a
bicicleta e corro o mais rápido que consigo.
DIA 24
(PARTE TRÊS)

A luz do chalé azul está acesa agora. Em um segundo, a porta abre


e ali está ele. Descalço, sem camisa, sorrindo para mim. Não digo
nada. Meio que espero começar a chorar até inundar sua casa e
essa ilha inteira. Mas em vez disso me jogo em cima dele. Beijo-o
com força. Pegando-o de surpresa. Ele me abraça e me levanta e
me leva para dentro, e agora estou encostada contra a parede da
cozinha e beijando-o com toda a força. Agarro sua bermuda, quase
arrancando-a de seu corpo, e é aí que ele se afasta. Coloca a mão
na minha.
— Ei. O que é isso?
— Eu quero você.
— É, isso deu para entender. O que aconteceu?
— Nada. Não posso só querer você?
— Justo.
Volto a beijá-lo e ele começa a corresponder, e aí está — sua
boca maravilhosa, a boca que eu conheço, a boca que eu devia
estar beijando. E ele me envolve com um dos braços e meio que me
carrega até o quarto, onde caímos na cama e fico o mais colada
nele que consigo. Estou entregue a ele e ao calor de nós dois, e ao
mesmo tempo a boca de Grady está ali. Preciso esquecer a
sensação da boca dele na minha. Esquecer tudo o que Addy falou
sobre o meu pai. Preciso tirar isso de mim, mandar de volta para o
continente, talvez para a lua.
É como se minha vida dependesse do sexo que vou fazer.
O resto de suas roupas caem, e as minhas também, e estamos
nus, mas não o bastante, e não quero pensar em nada além de nós
e do meu corpo e do que estou sentindo. Porque, se eu parar, Grady
surge e meu pai surge, e tenho que pensar na minha mãe e em
mim, em nós duas, sem casa e expulsas a não ser pela casa onde
Addy deixou que ficássemos. Não quero outro antes e depois. Antes
de o meu pai nos deixar. Depois de o meu pai ter encontrado essa
outra mulher. Chega de antes e depois. Uma vez na vida eu quero
ser Claude Agora.
De repente percebo a falta da camisinha.
Pergunto:
— Você não está esquecendo alguma coisa?
— Merda. Espera.

Depois, fico deitada olhando para o teto, e Grady ainda está ali e
meu pai ainda está ali e o sexo não os afastou. E de repente tem
mais alguma coisa ali. A realidade de que Miah vai embora, de que
eu vou embora. E a realidade do que fiz. A punhalada em meu peito
se transforma em vazio, depois em aperto, como se o ar estivesse
me deixando.
Vou para longe, longe. Ele acha que estou deitada ali, mas na
verdade não estou neste quarto, nem nesta ilha, nem mesmo neste
planeta. Estou em algum lugar distante, olhando para cá através dos
meus olhos, que funcionam como telas de computador, transmitindo
as imagens para mim no espaço. E é isso que acontece quando
você quer evitar se envolver demais. Porque inevitavelmente as
pessoas vão te magoar, e é melhor amortecer a queda. Assim, você
ainda cai, mas não de tão alto, e talvez não doa tanto quando atingir
o chão.
Miah diz:
— Ei. Capitã.
Eu meio que volto a mim, e fica claro que ele estava falando
alguma coisa que não ouvi.
Ele vira de lado, um braço em cima de mim.
— Onde você está?
— Aqui.
— Não está, não. O que está acontecendo?
— Nada. — Tudo. Em vez de fazer com que me sentisse mais
próxima, o sexo me deixou mais distante, não só dele, mas de
todos.
— É. Não. Não faça isso.
Ele tenta pegar meu braço, mas eu desvio.
— Talvez eu só queira me divertir sem ficar pensando demais o
tempo inteiro.
— Ótimo, eu também, mas não quando você está estranha assim.
— Não estou estranha.
— Até parece.
— Não seja babaca.
— Não seja babaca você.
— Você é o babaca que quase não usou camisinha.
— Ora, ora, você também estava lá, Capitã. E espero que saiba
que não foi de propósito. Você vai conhecer caras que vão dizer que
não conseguem gozar de camisinha, e eles vão tentar te convencer
a deixar pra lá. Vão ficar falando Vamos curtir o momento, não
vamos nos preocupar…
— Por que você está falando de outros caras?
— Só quero te deixar preparada para quando eu não estiver por
perto.
— Obrigada, mas eu não sou burra. E não vou transar com um
cara que tentar fazer isso comigo.
E agora estou fervendo de raiva, e ainda estamos sem roupa, e
ele já está pensando em quando não estivermos mais juntos.
— Desculpa. Com quatro irmãs mais novas, a gente se acostuma
a ser o protetor.
— Não quero falar sobre outros caras com quem vou transar, não
com você, não agora.
— Entendi. E só para você saber, também não quero falar sobre
isso.
Ficamos em silêncio por um instante. Depois de um tempo ele
pergunta: — Então, de quem você está com raiva? Do seu pai? —
Ele senta um pouco e fica olhando para mim, e tudo que eu quero é
sumir, mas ele continua: — Ei. Por favor. Sou eu.
E ele toca meu rosto e levanta meu queixo e não me deixa
desviar o olhar. E o modo como me toca é tão doce e gentil que me
afasto. Mas conto a ele. Conto porque tenho que contar.
Sai tudo quebrado, pequenos estilhaços de vidro, afiados demais
para juntar, numerosos demais para colar de volta. Conto sobre meu
pai e a namorada. Em seguida conto sobre Grady.
Ele fica ouvindo. Tão quieto. Tão imóvel.
— Fala alguma coisa.
— Não sei o que dizer.
Sua voz é como um cômodo vazio, que foi esvaziado de repente e
completamente.
— Por favor, fala alguma coisa.
Tem um peso no meu peito que não me deixa respirar, tão pesado
e se espalhando tão rápido que me sufoca. Nesse momento, de
repente sinto como se o funcionamento dos meus órgãos —
pulmões, coração — dependesse de ele falar alguma coisa.
— Acho melhor eu não falar nada.
— Miah, me desculpa. Eu não sabia o que estava fazendo. Fui te
procurar e você não estava lá…
Ele vira para olhar para mim, e o vazio está em seus olhos
também. Quando ele fala, sua voz é controlada e calma. Tão calma.
— Você vai mesmo jogar essa pra cima de mim, como se a culpa
fosse minha? Se eu não estou lá, você vai ficar com o primeiro cara
que aparecer?
— Não, é claro que não. Escuta, não foi isso que eu quis dizer, e
não sei por que fiz isso. Foi como se eu estivesse lá, mas não
estivesse ao mesmo tempo. Sei que não faz nenhum sentido, e não
conserta nada, mas foi como me senti.
— Você não pode usar o sexo ou beijos ou o que quer que seja
para apagar as merdas que acontecem. Meu Deus, Claude.
Ele nunca me chama de Claude, e sinto: as lágrimas queimando
minhas pálpebras. Antes que eu consiga contê-las, uma delas cai e
escorre pelo meu rosto.
— Se faz você se sentir melhor, só me senti pior ainda.
— Não, não faz eu me sentir melhor. Mas, ei, eu entendo. A vida
pode ser uma merda, e isso tudo com seu pai é foda. Mas não fui eu
que fiz isso, Capitã. Não fui eu.
Ele está sentado ali tranquilo. Tão tranquilo. Sua voz é equilibrada
e comedida e completamente sem emoção, e eu fiz isso com ele.
Ele levanta, e por um segundo acho que vai me abraçar. Mas ele
veste a bermuda, a camiseta, e sai do quarto. Espero um, dois, três
segundos, então visto minha roupa e vou atrás dele. Sem olhar para
mim, ele abre a porta.
— Aonde você vai? — pergunto.
— Vou levar você para casa.

O caminho até a casa da Addy parece levar três anos. Quando


chegamos, quando ele para a caminhonete, ficamos sentados com
o motor em ponto morto, o que quer dizer que ele não vai me levar
até a porta, então digo: — Sinto muito.
Nunca na vida eu quis tanto voltar no tempo para consertar
alguma coisa. Se eu não tivesse ido até o Dip. Se eu não tivesse
dado de cara com Grady. Se eu não tivesse subido até o quarto
dele. Repasso tudo isso várias vezes, como se reviver a situação
fosse fazer com que o resultado mudasse.
— Sinto muito — repito.
— Eu também.

Meia hora depois, no sofá-cama, me deito, a cabeça no


travesseiro. Estou sozinha na minha cabeça e comigo mesma, o
lugar mais perigoso onde poderia estar.
Ele tem todo o direito de estar chateado e com raiva. Você
também estaria chateada e com raiva. Você sabe que errou e odeia
ter errado, mas isso não muda nada; você precisa pedir desculpas e
repetir que sente muito e parar de ter tanto medo de ser quem é.
Desenterro o caderno azul da gaveta e escrevo cada pedacinho
de pensamento terrível.
DIA 25

Na manhã seguinte, caminhamos com Addy até o cais para ela


pegar a barca. Miah leva a mala cheia como se não pesasse nada,
e quando chegamos ao cais, Grady está sentado lá com Emory e
alguns dos caras da ilha. Seus olhos se voltam para mim e depois
para Miah. Ele levanta.
— Pode deixar que eu levo.
— Não precisa — Miah responde. — Pode deixar.
Miah passa por ele apressado, levanta a mala como se não
pesasse quase quarenta quilos, e a coloca na barca. Addy oferece
uma gorjeta, mas ele ergue a mão e se afasta.
— Não precisa — diz a ela, abrindo aquele sorriso.
— A gente se vê depois — diz para mim.
Não A gente se vê em uma hora ou A gente se vê hoje à noite, só
A gente se vê depois. Observo Miah passar por Grady de novo,
Grady dizer alguma coisa para ele que não ouço, e Miah seguir em
frente sem dizer uma palavra, Grady olhando para ele o tempo todo.
— O que foi isso?
Minha mãe está ao meu lado.
— Você sabe. Homens — respondo despreocupada, mas olho
para o seu rosto para procurar sinais de que ela concorda porque
sabe sobre meu pai e a outra mulher, quem quer que seja ela.
— Homens — ela repete.
— Homens — Addy diz. — Quisera eu não amar tanto esses
infelizes.
O capitão passa caminhando devagar e Grady vai atrás dele.
Desvio o olhar para que ele não possa me olhar nos olhos. De
repente chegam outros hóspedes com malas, subindo na barca,
tomando seus assentos. Archie, o cão da ilha, os acompanha
tranquilo, o rabo abanando preguiçoso com todo esse calor.
Os braços de Addy envolvem minha mãe e depois a mim.
— Cuide bem dela — ela diz em meu ouvido. — E deixe que ela
cuide de você.
— Pode deixar.
— E cuide bem desse seu coração. Tivemos sofrimento suficiente
nessa família por um bom tempo.
E não sei se ela está falando de forma geral ou especificamente
sobre Miah, mas quero dizer Você devia dizer aos outros que tomem
cuidado comigo, não o contrário.
Então ela abraça minha mãe mais uma vez e, quando a solta,
vejo lágrimas nos olhos da minha mãe, e preciso desviar o olhar
disso também.
Acenamos enquanto Addy sobe na barca e toma seu assento, e
acenamos mais uma vez quando a barca parte. Minha mãe fica ali
mais tempo do que eu, a mão no ar, um sorriso no rosto. Quando
Addy está fora do campo de visão, minha mãe vira para mim.
— É difícil vê-la indo embora.
Não digo nada, mas a abraço.
— Estou feliz por sermos só nós duas de novo.
Ela analisa meu rosto, mas não entrego nada. Fico sem
expressão e sorrindo, a filha atenciosa, cujo coração ainda está
intacto.
— Estava pensando em ir no museu hoje te ajudar, se você
quiser.
Ela segue analisando meu rosto, segue tentando me ler, mas
finalmente diz: — Seria ótimo.

Minha mãe e eu passamos o resto do dia juntas no museu,


separando e organizando os documentos de Claudine, e não digo
nada sobre meu pai.
Caminhamos de volta para a casa juntas e não digo nada.
Jantamos juntas e não digo nada.
Sentamos na varanda da pousada e ficamos assistindo os vaga-
lumes reluzindo nas árvores e na grama. E não digo nada. Ela já
sofreu bastante e agora é meu trabalho protegê-la e comprar
perfume de madressilva e dizer a ela que ela é linda e garantir que
ela tenha um chão — por mais frágil que ele seja — onde caminhar.
A porta de tela bate e olho para cima. Wandinha acena para mim
como quem diz Vem aqui. Olho para o outro lado, ouço passos, e é
claro que ela está vindo na minha direção. Ela franze as
sobrancelhas pra mim.
— Preciso conversar com você, Forasteira.
— Estou ocupada.
— Claude — quem diz isso é minha mãe.
— Tá bom.
Levanto, arrastando os pés, e, seguindo Wandinha, atravessamos
a varanda, entramos na pousada e vamos até a biblioteca, que está
vazia.
Ela pergunta:
— Grady te machucou?
— Não.
— Fala a verdade.
— Não. Eu fui burra. Foi culpa minha. — Eu me machuquei. Não
Grady. Não Miah. Eu.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não.
— Claude?
E talvez por ela ter usado meu nome pela primeira vez, respondo:
— Começou a acontecer, mas eu parei.
— Você sabe que ele é um babaca completo.
— Eu sei.
Ela solta um suspiro.
— O Miah sabe?
— Eu contei.
— Por quê?
— Eu tive que contar.
— Merda. — Ela balança a cabeça, e as tranças vão para a frente
e para trás como pêndulos. — Olha só, quando eu tinha dezesseis
anos, comecei a me enfiar dentro de uma caixa porque achei que
isso ia garantir que eu não me machucasse. Cuidei daquela caixa
como se fosse meu lar. No início, a caixa era boa. Pequena,
compacta, tudo estava seguro dentro dela. Eu a mantinha
organizada e limpa. Eu a pintava. Pintava quem eu queria ser. Não
deixava que os outros me vissem ou ouvissem. Mantive minha
sexualidade pequena e silenciosa, em vez de grande e viva. Mas
logo não conseguia mais respirar, e foi quando abri as abas da
caixa, uma a uma. A última a ser aberta foi quando fugi do Alabama
para viver a vida que eu queria viver. E disse para alguém além de
mim mesma Esta sou eu. Quero ser cantora. Quero mudar o mundo
com a minha música. Quero me apaixonar e ter meu coração
partido. Sou pansexual. Pareço durona, mas não sou. Pelo menos
não sempre. Então, é, aqui estou. Fora da caixa. E às vezes é uma
merda. Mas pelo menos consigo respirar.
Depois de um bom tempo, digo:
— Tá bom.
— Tá bom?
— É.
— Era só isso que eu queria dizer.
E ela sai. Um segundo depois, vou até a porta e chamo seu
nome: — Ei, Wandinha!
Ela está perto da escada que leva à sala de jantar, uma mão no
corrimão. Vira para olhar para mim.
— Forasteira?
— Obrigada.

Minha bicicleta está esperando na varanda da casa da Addy.


Minha mãe e eu subimos os degraus e olho ao redor, para as
árvores e a pousada e a estrada, mas não tem ninguém.
Minha mãe pergunta:
— De onde surgiu isso?
— Não sei.
Dentro da casa, nos aninhamos no sofá, Dandelion no meio, e
assistimos um filme, as palavras de Wandinha flutuando na minha
cabeça. Eu me fecho em uma caixa? É isso que tenho feito? Roo as
unhas, perdida nos meus pensamentos.
Quando Jean Seberg aparece na tela, minha mãe olha pra mim.
— Agora reconheço esse corte de cabelo.
Sua voz me tira da minha própria cabeça. Vejo o rosto luminoso
de Jean Seberg.
— Ela parece espontânea, é assim que quero ser.
— Parece, e esse filme a transformou em um ícone, mas ela teve
uma vida infeliz. — A voz da minha mãe é suave. Estamos lendo as
legendas. — Ela morreu aos quarenta anos. Suicídio. Ficou
desaparecida durante dez dias até encontrarem seu corpo no banco
de trás do carro, a três quadras do apartamento onde morava em
Paris.
Isso me abala mais do que deveria. Na tela, Jean Seberg sorri e ri
e anda a passos largos pela rua, e uma parte de mim ainda quer ser
como ela, ou pelo menos essa versão de faz de conta.
— Se eu pudesse cavar um buraco e me esconder nele, era o que
eu faria — sua personagem diz.
Penso A gente nunca sabe o que alguém está escondendo. Todos
nos escondemos quando precisamos.
— Está tudo bem com o Jeremiah?
A pergunta me surpreende, mas mantenho os olhos colados na
tela.
— Eu fiz uma coisa bem idiota e bem dolorosa que queria poder
desfazer, mas não posso.
— Quer conversar sobre isso?
— Não. Já estou me sentindo muito mal. Só queria que o
problema sumisse, tipo, de algum jeito construir uma máquina do
tempo e voltar para ontem e mudar tudo para que não tivesse
acontecido.
Espero que ela diga Talvez você devesse se esforçar mais. Ser
uma pessoa mais agradável, menos complicada, menos fodida da
cabeça. Todas as coisas que digo a mim mesma.
Em vez disso, ela diz:
— Ah, meu Deus, nós somos mesmo parecidas.
Olho para ela.
— Só estou dizendo que, de vez em quando, no decorrer da vida,
eu fiz coisas idiotas que queria poder desfazer e consertar.
— Você é perfeita.
— Não sou. Ninguém é, graças a Deus. Se fosse, o mundo seria
muito chato. São tantas as coisas que eu queria ter feito diferente na
época, até mesmo com seu pai. Mas só podemos prestar atenção,
torcer para aprender alguma coisa, tentar não foder com tudo de
novo, pelo menos não do mesmo jeito, e seguir em frente, sabendo
que, com certeza, vamos foder com tudo. Bastante. — Minha mãe
raramente fala palavrão, e levanto as sobrancelhas. Ela sorri. —
Desculpa. O importante é dar o seu melhor, sempre, não ser dura
demais consigo mesma quando não consegue, e se livrar dos
arrependimentos. Confie em mim, porque sou bem mais velha que
você e sei das coisas.
Passo a mão no cabelo, ajeitando-o ao redor das orelhas, em
volta da testa.
— Eu entendo que vou foder as coisas, não importa o que eu
faça. E entendo que não devia ser tão dura comigo mesma. Mas no
momento não quero que Miah seja uma lição de vida. Quero que ele
seja mais que isso.
— Então fala com ele, mesmo que ele não queira ouvir, até dizer
tudo o que precisa ser dito.
DIA 25
(PARTE DOIS)

São onze horas e pedalo pela noite até a casa do Miah. Não sei ao
certo o que vou dizer a ele, mas sei que preciso dizer como me
sinto.
Então meu pai tem uma namorada.
As palavras dão voltas e voltas na minha cabeça. Digo-as em voz
alta, esperando que isso pare o looping infinito e que elas escapem
para o ar onde eu possa vê-las, bem à minha frente, mas fora de
alcance. Quero fazê-las sumir, mas não posso fazê-las sumir,
porque elas são verdade.
Meu pai tem uma namorada.
Não que eu achasse que meus pais fossem voltar a ficar juntos.
Na verdade, não sei o que eu achava ou deixava de achar. Mas o
fato de existir uma namorada deixa evidente que isso não vai
acontecer e que minha mãe e eu estávamos atrapalhando.
E essas palavras também são verdade. Nós estávamos
atrapalhando.

Encontro Miah do lado de fora, na varanda, sob o luar, bermuda,


camiseta preta, pés descalços. Ele levanta, os braços cruzados
sobre o peito, olhando para as estrelas. Apoio a bicicleta em uma
árvore e caminho pela grama e pelos brotos de cacto. Subo os
degraus e agora estou ao lado dele.
— E aí — digo, quase sem fôlego.
— E aí.
Ele não tira os olhos do céu.
Penso em todas as coisas que quero dizer, e não digo nada. Sigo
seu olhar em direção ao céu e é como um cobertor do azul mais
escuro e profundo, repleto de um milhão de luzinhas.
Ele fala sem olhar para mim:
— O que você quer, Capitã?
— Quero te dizer que sinto muito. Quero pedir desculpas mil
vezes e te dizer por que acho que fiz o que fiz, não que seja uma
justificativa. Quero te dizer o quanto estou com medo de ter fodido
tudo, sendo que isso foi a melhor coisa que me aconteceu em um
bom tempo. Você foi a melhor coisa que me aconteceu em um bom
tempo. Queria que o que aconteceu com o Grady não tivesse
acontecido, mas aconteceu e foi minha culpa e quero que você
saiba que eu tenho consciência de que é minha culpa e de mais
ninguém. Quero te dizer o quanto odeio meu pai no momento e o
quanto estou confusa e o quanto me sinto perdida, mas que eu sei
que isso não melhora as coisas. Quero estar aqui com você, mesmo
que só eu fique falando e você nunca mais fale comigo. Quero ter a
chance de te dizer como me sinto e o que você significa para mim.
Tipo, você não faz ideia do quanto é importante para mim. Quero te
dizer que não quero que esse seja o fim de nós dois, aqui, agora.
Quero pedir a você que me perdoe.
Minha garganta secou e meus olhos estão cheios de lágrimas.
Miah está olhando para mim, não para o céu. Por um instante, ele
só fica parado ali. Mas então diz: — Vamos sair daqui.
Antes que ele possa mudar de ideia, entro na caminhonete.
Espero, ouvindo minha respiração. Parece que acabei de correr
uma maratona. Me concentro em inspirar, expirar. Estável. Calma.
Espero, e ele não entra, e ele mudou mesmo de ideia. Mas então
ouço um baque surdo quando algo é jogado na caçamba da
caminhonete, e a porta abre e ele entra.

Dirigimos em silêncio, sacudindo pela estrada principal. Não tenho


ideia de onde ele está me levando. Tento pensar nas palavras certas
para dizer, mas são muitas as coisas a serem ditas, então só
ficamos sentados ali. Viramos em direção à praia em uma trilha
ampla e coberta de vegetação que não reconheço. Sempre que
acho que já conheço a ilha, ele me leva por uma estrada como esta,
para algum lugar onde nunca estive.
Não conversamos e não ouvimos música, só a das cigarras, que
parece mais alta que o normal. Árvores passam em um borrão e
avançamos no escuro, faróis apagados, vaga-lumes iluminando o
caminho. Meio que espero que a gente siga em frente até chegar ao
oceano, mas em algum momento ele desacelera a caminhonete, e
paramos.
Ele desce e eu desço, e ainda não falamos. Ele pega alguma
coisa na caçamba — uma sacola — e sigo atrás dele sob a
cobertura das árvores durante o que parece ter sido um quilômetro e
meio. Atravessamos as dunas internas, que ficam mais próximas da
floresta, e antes de chegarmos à praia ele segue para o pequeno
vale entre as dunas internas e as externas. Aqui, protegidos do
vento, ele para, larga a sacola e me dá uma caixa de fósforos.
— Para que isso?
— Para acender isso.
Ele levanta uma garrafa de fluido de isqueiro.
— Está um pouco quente para fazer uma fogueira, não?
Mas tarde demais: ele está juntando gravetos e empilhando-os na
base das dunas. Ele encharca a pilha com o fluido de isqueiro e faz
sinal para mim. Risco o fósforo e jogo sobre os gravetos. Assisto
enquanto o fogo pega e cresce, estalando, crepitando, as chamas
dançando na noite.
Ele remexe a mochila e tira um caderno, que me entrega.
— Escreva cada merda que você tem medo de dizer em voz alta.
Escreva tudo que está te impedindo de ser você mesma. Escreva
tudo que está te afastando de mim.
— Por quê?
— Para a gente queimar.
Não falo do dia que passei na praia esperando por ele, jogando
conchas e preocupações no oceano. Estou ocupada demais
pensando que não tem papel suficiente no caderno ou nesta ilha
para escrever tudo o que me assusta ou cada pensamento ruim que
enche minha cabeça.
Ele escreve Grady em uma folha. Então arranca a folha e a
segura sobre o fogo. Assisto enquanto o papel solta fumaça e
queima, se dissolvendo, uma letra de cada vez.
Ele escreve Sinto saudade do meu irmão, arranca, joga no fogo.
Ele escreve Quero viver minha própria vida, não a dos outros.
E Só quero ter dezoito anos.
Escrevo Odeio meu pai.
Sinto falta da Saz.
Grady não significa nada.
Sinto muito, Miah.
Nunca mais vou confiar em ninguém.
Durante os vinte minutos seguintes, nos revezamos escrevendo
coisas e jogando-as no fogo. Me esvazio no papel até não sobrar
mais nada.
Quando terminamos, ficamos sentados na areia. Ele cheira a raio
de sol e lençóis limpos, e não sei se devo tocá-lo ou não, porque
parece que não tenho mais esse direito. Fico sentada com as mãos
no colo e tento pensar no que mais quero dizer a ele.
Então ele diz:
— Eu sei como é estar passando por um momento difícil.
Olho para ele, e ele está olhando para o fogo.
— Isso não significa que eu devia ter feito o que fiz.
— Não, não significa. — Ele solta um grunhido de frustração e
balança a cabeça olhando para o chão. Fecha os olhos. Volta a abri-
los. — Merda. — Solta um suspiro. — Mas eu entendo. Às vezes a
gente faz as coisas só para piorar tudo. Quando eu tinha treze anos
e a vida era a maior merda, eu queria alguma coisa que
anestesiasse a dor e encontrei. Funcionou por um tempinho, mas o
problema é que a gente quer mais, a gente precisa de mais e, antes
que a gente se dê conta, não consegue sentir mais nada. — Ele fica
olhando para as mãos. — Mas você sabe o que eu finalmente
descobri? — Volta a olhar para o fogo. — A gente tem que sentir. A
gente tem que sentir mesmo que ache que isso vai nos matar.
— Eu sinto muito. Sobre o Grady. Sinto tanto.
— Eu sei. Não temos um tempo ilimitado aqui, e ainda quero ficar
com você também. Tipo, quero muito ficar com você.
— Mas?
Me preparo porque sei o que está por vir.
— Mas dói muito. E acho que devia te desculpar, porque se quero
ficar com você antes de irmos embora dessa ilha, vou precisar fazer
isso. E quero fazer isso, mas estamos sendo muito honestos um
com o outro, e eu estaria mentindo se dissesse que… Quero dizer,
tanto quanto você se preocupava com a Wandinha? Não sei. A
questão é que você entrou aqui, Capitã. Entrou de verdade.
E ele está falando de seu coração, ou talvez dele por completo.
— Então o que isso significa?
— Significa que precisamos ser maiores do que o que aconteceu
com o Grady. Somos maiores que o Grady. — Então ele olha para
mim. — Bom, eu sei que eu sou. — Olhamos nos olhos um do outro
e os cantos de sua boca viram para cima, e de repente as covinhas
estão ali. Diferentes, mas ali. — Mas eu ainda me sinto péssimo.
— Sinto muito — repito.
— Eu sei.
E as covinhas desaparecem. Seus olhos voltam para o fogo.
Existem milhões de coisas que quero falar para ele, mas não digo
nada porque sei que não vão ajudar. Então acabo dizendo: — Me
conta sobre o seu irmão. Se quiser.
Ele demora um pouco para responder.
— Eu nunca senti que o conheci de verdade, porque quando
cheguei a uma idade suficiente, ele já tinha ido embora para o
treinamento do Exército, para a primeira missão, e para a seguinte.
Ele era durão, mas engraçado. Sempre que voltava para casa,
usava aquela bermuda idiota, a que você ama tanto. Ele dizia que
depois de usar todos aqueles equipamentos no deserto, usar aquela
bermuda era como “colocar as bolas em um travesseiro feito de
anjos”. É idiota, mas quando visto aquela bermuda sinto que ele
ainda está aqui. Que somos só nós dois saindo para aventuras.
— Não acho que seja idiota.
— Antes do Bram e da Shirley, talvez ele tenha sido a única
pessoa na minha vida que nunca me decepcionou. Mas isso não
quer dizer que sempre fui um bom irmão para ele.
— Como era o nome dele?
— Flynn.
— Sinto muito pelo Flynn.
— É, eu também. — Então ele olha para mim. — E tem mais uma
coisa que descobri, Capitã. Em algum momento, você precisa
começar a confiar que tem um chão de novo. Qual é a pior coisa
que pode acontecer? Tudo bem, o chão pode desaparecer. Você já
sobreviveu a um chão que desapareceu, e ainda está aqui, andando
por aí. Então pode sobreviver a outros. É, você pode se vigiar vinte
e quatro horas por dia, mas isso não vai impedir que as coisas ruins
aconteçam. Porque a vida vai acontecer como tem que acontecer. A
única coisa que você pode ter certeza é que, em algum momento,
algo de ruim vai acontecer. O que faz com que coisas como luas de
sangue e caças ao tesouro e você sejam ainda mais importantes. —
Ele pega minha mão. — Sinto muito pelo seu pai.
— Pelo menos ele ainda está aqui. E eu sei disso. Tento me
lembrar disso. Eu só sinto que fui a última a saber, que todo mundo
via que isso ia acontecer menos eu. — Com a mão livre, pego o
caderno, escrevo Me sinto tão burra, e seguro a folha até as chamas
a tomarem e a engolirem e a transformarem em pó.
Ficamos sentados assim por um bom tempo, observando o fogo
morrer. Me concentro na sensação da sua mão na minha — dedos,
pele, calor. Não importa o que aconteça com a gente, quero sempre
lembrar da sensação de segurar sua mão.
Digo:
— Eu andei pensando e você devia sonhar grande. Você precisa
sonhar grande. O que quer que isso signifique. Montana. Outward
Bound. O circuito de rodeios. A lua. Você merece viver sua própria
vida, Jeremiah Crew.
Olho em seus olhos, e é difícil descrever a expressão em seu
rosto. É como se de repente eu pudesse vê-lo como um garotinho,
antes de toda a perda e a mágoa, antes de precisar crescer rápido
demais e se tornar um adulto e cuidar de todo mundo.
Ele estende o braço e me puxa para perto.
Em algum momento, nos deitamos. Ele fecha os olhos. Eu fecho
os meus.
— Estou aqui — ele diz.
Fico deitada ali por um bom tempo, sentindo seu braço me
envolvendo. Dizendo a mim mesma que está tudo bem. Nesse
momento, está tudo bem, eu estou bem, e ele está aqui. Dizer isso a
mim mesma é o bastante.
Ele está aqui.
Ele está aqui.
Ele está aqui.
— Eu também estou aqui — sussurro.
DIA 26

Na manhã seguinte, encontro minha mãe na cozinha. Nos movemos


pelo espaço, nos servindo de café e cereal, cortando frutas,
servindo iogurte em uma tigela, e sem falar. Não digo nada. Não
quero dizer nada. Nunca. Então ela olha para mim e pergunta: —
Está tudo bem?
E começo a chorar.
Em um segundo, seus braços me envolvem e estou chorando em
seu ombro. Fico ali por um momento, abraçada a ela, então me
obrigo a me afastar.
Digo:
— Preciso conversar com você.
Pela expressão em seu rosto, percebo que ela está se
preparando. Provavelmente acha que estou grávida.
— É uma conversa para o assento da janela ou para uma
caminhada?
— Nenhum dos dois. É uma conversa do tipo monstros-na-
floresta.
É nosso código para Vamos sentar na cama e construir um forte
de travesseiros para manter os monstros longe. Era o que fazíamos
quando eu tinha sete anos e morria de medo das árvores que
rodeavam nossa casa. Eu tinha certeza de que algo sombrio e
ameaçador vivia ali, e minha mãe sentava comigo à noite e me
explicava que não havia monstros na floresta, mas que, se
houvesse — o que não havia —, para chegar até mim, eles teriam
primeiro de destrancar a porta da frente e, se de alguma forma
conseguissem fazer isso, teriam de passar pelo cachorro e depois
pelo meu pai e depois por ela. Tantas linhas de defesa.
Deixamos o café e a comida no balcão da cozinha e vamos até o
quarto dela. Uma vez protegidas e sentadas de pernas cruzadas,
joelho com joelho, cara a cara, conto a ela sobre a conversa com
Addy. Enquanto falo, começo a chorar de novo — lágrimas pela
namorada do meu pai, lágrimas pela montanha-russa que tem sido
minha vida.
Ela me envolve em seus braços e fica abraçada comigo e,
embora isso não mude nada, é o bastante. Permito que seja o
bastante.
Ela diz:
— Primeiro de tudo, sinto muito que você tenha descoberto assim.
Eu amo a Addy, mas não era papel dela te contar nada. Dito isso,
ela não sabia que você não sabia, e eu devia ter te contado. Isso é
responsabilidade minha. Seu pai e eu estamos tentando lidar com a
situação da melhor forma possível, mas nenhum de nós dois sabe o
que está fazendo. Segundo, isso não é sua culpa. Vamos deixar
isso bem claro agora mesmo.
— Eu sei.
Mas não sei se sei mesmo. E sinto uma necessidade esmagadora
de me aninhar em seu colo como se eu fosse uma garotinha de
novo e quero que as coisas sejam simples e fáceis, e que os
monstros na floresta sejam a única coisa a temer.
— O que exatamente a Addy disse?
— Só que ele tem uma namorada e que eles trabalham juntos.
Espero que ela me diga que isso não é verdade, mas seu rosto
confirma.
— Você sabia.
Ainda estou esperando que, por um milagre, ela diga Não, eu não
sabia, eu não fazia ideia. Não que eu queira ser a pessoa a dar a
notícia, mas preciso que ela não tenha mentido para mim, nem
mesmo por omissão.
— Eu sei há um tempinho.
Meu estômago revira.
— Você devia ter me contado.
— Eu sei.
Ela não arranja desculpas.
— É mais um segredo.
— Eu sei e sinto muito.
— Eu odeio ele.
— Relacionamentos são complicados, querida. São necessárias
duas pessoas para começar um, e duas pessoas para acabar com
um também. As coisas não são preto no branco. E sei que tudo isso
parece repentino para você, que o amor pode simplesmente
desaparecer ou mudar em um piscar de olhos. Mas pelo menos no
nosso caso estou percebendo que foi uma sucessão de pequenos
rompimentos. Mesmo que eu não tenha entendido na época.
— Eu ainda odeio ele.
— Eu entendo. Eu meio que odeio ele também. Mas também
conheço seu pai melhor que qualquer pessoa, e ele se fecha nele
mesmo. Sempre foi assim. É como aquele livro que você ama.
— As vantagens de ser invisível.
— Aquela frase sobre aceitar o amor que achamos que
merecemos? É seu pai.
— Então, quem é ela?
— Michelle.
— É sério?
— Acho que sim. Ele disse alguma coisa sobre morar com ela,
então estamos conversando sobre vender a casa, sobre eu comprar
um lugar para mim. Quer isso aconteça ou não, não significa que ele
te ama menos. Seu pai te ama mais do que qualquer pessoa,
incluindo ele mesmo.
— Tá bom.
E ouço a mim mesma. Pareço a Claude Robô falando, mas por
dentro me sinto como um tornado ou um bicho encurralado e
assustado e com raiva. Era isso que você queria dizer, sr. Russo?
Você acha que agora vou conseguir escrever algo real e verdadeiro
e que faça as pessoas sentirem?
— Claude.
— Quê?
— Eu sou sua mãe. Te conheço a vida inteira. E você precisa
conversar comigo, não importa o que aconteça. Estou te dizendo
isso como uma pessoa que também sabe se esconder quando quer.
— Tá bom.
— Isso inclui qualquer coisa. Seu pai. A casa. A Saz. A faculdade.
Sexo.
— Eu definitivamente não quero falar com você sobre sexo.
— Tudo bem. Você sabe, minha mãe nunca nem falou essa
palavra para mim. Talvez seja por isso que quero garantir que você
possa falar comigo, mas eu entendo. Só me diga que você está se
cuidando, porque sou mãe e as mães precisam saber disso.
— Estou me cuidando.
— E você está bem?
Ela está falando de sexo e do Miah, não de todas as outras
coisas.
— Estou bem.
Ela solta um suspiro. Inclina a cabeça na direção da minha e
minha testa encosta na sua. Ficamos sentadas assim por um
minuto. Então ela se afasta. Eu me afasto. Imagino minha casa, que
logo vai ser a casa de outra pessoa, e meu quarto verde, que
também não vai mais ser meu quarto verde, mas o quarto verde de
outra pessoa.
Ela diz:
— Estou feliz por ver você chorar. Estava preocupada com você.
Se as lágrimas não saem como lágrimas, elas saem de alguma
outra forma. E, ei, tudo bem ainda ser criança para seus próprios
pais. Por mais que você cresça. Tudo bem deixar eu ser a mãe. Na
verdade, faz bem para mim também. Especialmente agora. Então
me deixe ser a mãe.

Naquela tarde, nós duas, Lauren e Claude, Claude e Lauren,


saímos para o dia. O sol e o calor nos envolvem, como se
dissessem Vocês vão ficar bem.
Minha mãe olha para o céu.
— Tudo está bem. Tudo vai ficar bem. Tudo será para o bem. —
Minha mãe e meu pai não seguem nenhuma instituição religiosa,
mas ela gosta dessa citação dos Quakers. Então ela olha para mim,
as sobrancelhas arqueadas: — Vamos matar o trabalho.
— A gente devia pegar bicicletas e pedalar até a mansão
Rosecroft.
Ela levanta as sobrancelhas até a linha do cabelo.
— Quando você aprendeu a andar de bicicleta?
Mas já estou montada na bicicleta — pernas nuas, pés descalços,
cabeça descoberta porque esqueci o quepe de pescador — e
descendo a rua.

Pedalamos lado a lado na estrada principal, o sol no nosso rosto,


o cabelo ao vento. Na mansão, nós duas caminhamos com cuidado
pela grama e pelos tijolos até chegar a uma escadaria larga nos
fundos da casa, a que fica mais próxima do pântano. Vou primeiro e
ela me segue, subindo as escadas que levam ao segundo andar. A
maior parte do piso está destruída, mas no topo da escadaria ainda
há um único cômodo, amplo e arejado, o céu azul de telhado, e com
um aroma leve de flores.
Entramos e perco o fôlego.
A porta do closet está aberta, e ela me mostra o buraco da bala.
Encaixo o dedo nele, como ela disse que fazia quando era mais
nova, e me pergunto se Claudine algum dia fez a mesma coisa. Ela
vinha até aqui ou mantinha o quarto fechado? Era aqui que ela
dormia? Ou ficava o mais longe possível? Penso nela nessa casa
antiga e imponente, percorrendo os corredores, sentada sozinha
nesses cômodos enormes, descendo as escadarias — como faço
agora — até o andar de baixo, ninguém além do fantasma de Tillie
para lhe fazer companhia.
Parada ali, de repente me sinto preenchida de amor por Tillie,
essa jovem linda e triste que morreu cedo demais. E é então que me
dou conta. Foi por isso que Claudine ficou aqui todos aqueles anos.
Ela não queria deixar a mãe.

De volta do lado de fora, no térreo, percorremos a extensão da


casa, indo por um lado, voltando pelo outro — minha mãe
descrevendo como era o lugar, cômodo a cômodo. Os móveis azuis
de vime na varanda do lado norte. O grande balanço de madeira. As
portas douradas de carvalho com dobradiças pretas de ferro. O hall
de entrada quadrado. O recipiente de bronze usado para as
correspondências. A sala de jogos onde ficava o registro de
visitantes. O arco que levava ao grande salão com lareira, o lema
dos Blackwood gravado na cornija: VIVIS SPERANDUM. ONDE HÁ VIDA, HÁ
ESPERANÇA.O grande sofá vermelho onde Claudine cochilava, onde
ninguém ousava sentar porque era só dela. E assim por diante.
Quando o sol começa a se pôr, já remontamos a casa,
reconstruindo as ruínas.
Sento na cama relendo Zelda pela centésima vez. Fitzgerald está
em Hollywood tentando se tornar roteirista, enquanto Zelda está no
hospital Highland na Carolina do Norte, em tratamento para a
esquizofrenia. Ele está tendo um caso escandaloso com uma
colunista de fofocas chamada Sheilah Graham, que mais tarde vai
escrever um livro sobre isso, enquanto Zelda está trancada em um
sanatório na montanha, onde literalmente vai morrer queimada.
Vai se foder, Scott Fitzgerald.
Largo o livro e me jogo para trás, a cabeça no travesseiro, e
espero que Miah chegue.
Ficamos deitados em cima dos lençóis, vestidos, de frente um
para o outro. De início, volta aquele sentimento de não saber se
devo tocá-lo. Ele é Miah, mas não é ao mesmo tempo, ou talvez
seja coisa minha. Talvez muita coisa tenha acontecido — meu pai,
Grady — para voltarmos a ser como éramos antes de a Addy ter
vindo para a ilha. Digo isso a ele agora.
— Bom, o que vamos fazer quanto a isso, Capitã?
— Não sei.
Ele pega minha mão e a coloca sobre seu coração.
— Vamos ficar aqui.
E me beija. E eu o beijo. Ficamos assim durante um minuto,
talvez dois.
Nos afastamos.
Ele diz:
— Sabe, não precisamos fazer nada. Às vezes não estamos com
cabeça para isso, e tudo bem.
— Você ainda quer?
— Quase sempre. Sim.
— Quero dizer comigo.
— Eu também. Eu quase sempre quero com você.
Eu o beijo. Ele me beija. Descanso a mão sobre seu coração de
novo e sinto seus batimentos, um pouco mais rápidos que o normal,
mas regulares, tão regulares.
DIA 27

Acordamos antes de o sol nascer, e vamos de bicicleta até a praia.


Deixamos as bicicletas perto da trilha que atravessa as dunas até a
costa. Levo minha bolsa e ele, a câmera. Quando subimos a última
duna, eu vejo. O céu é uma paleta de azuis-claros e tons de rosa e
dourado. A água capturou todas essas cores e as reflete, e tudo, o
oceano e o céu, é banhado pela mesma luz deslumbrante. O
universo parece novo em folha.
Quando digo isso ao Miah, ele responde: — A Shirley chama de
diapuro, quando o mundo parece começar de novo.
Como nós dois, penso.
Inspiro o ar, fresco e leve. No meio da manhã estará pesado como
um cobertor úmido, mas agora a sensação na pele é gostosa.
Digo:
— Preciso escrever.
Mas a verdade é que já estou escrevendo. Minha mente repassa
todas as imagens e palavras e cenas que está criando. Preciso
colocá-las para fora, no papel.
Perambulo por um minuto até encontrar o lugar perfeito para
sentar com a vista perfeita do nascer do sol e do garoto que está
passeando pela praia, de um lado para o outro, tirando fotos.
De vez em quando, levanto a cabeça para ver se ele ainda está
lá. Assisto quando ele vai até a água, quando ajoelha na areia para
conseguir o ângulo que quer, quando cobre a tela da câmera com a
mão para ver as fotos que está tirando. Ele vira para olhar para mim,
como se pudesse sentir que estou observando.
Ele ri.
— Estou te vendo, Capitã.
Escrevo:
Estou te vendo, Capitã. Eu queria poder desenhá-lo com palavras
e colocá-lo no papel exatamente como está agora, como se fizesse
parte do nascer do sol.

E de repente — um clique. Levanto a cabeça, e lá está Miah,


deitado no chão, a alguns metros de distância, apontando a câmera
para mim. Estou tão perdida em mim mesma que demoro um
instante. Aí está você, penso. Estou feliz por você estar aqui.
Um pouco depois — só Deus sabe quanto tempo — ele está em
pé à minha frente, sem camisa.
— Vem nadar comigo.
— Não posso. Está fluindo.
Embora eu queira fazer os dois, ficar e ir.
— Quando vou poder ler?
— Provavelmente nunca.
Ele ri.
— Tá bom — diz. — Fica aqui. — E sei que ele quer dizer Deixe
fluir. Ele vira e sai correndo. O céu além dele é azul e claro. Quando
o sol chegou aqui? Enquanto corre, ele tenta tirar a bermuda e
quase cai. Clique. Vou tirando foto-palavras enquanto ele vai.
Clique. Quando ele grita: — Tira o olho!
Clique. Quando corre a toda velocidade até a água. Clique.
Clique. Clique.
DIA 27
(PARTE DOIS)

Sento no armazém, em uma das quatro cadeiras montadas em um


canto, mordendo uma pelezinha solta no dedo. O lugar está vazio
exceto por Terri atrás do balcão.
Exatamente ao meio-dia, meu pai liga.
— Pai.
— E aí, filhota.
Não faço nem ideia do que vou dizer ou se vou mencionar a outra
mulher, ao menos de nome. Preciso ouvir o que ele tem a dizer
primeiro.
— Conversei com a sua mãe, filhota, sinto muito. — Não Clew.
Ela agora é sua mãe e eu pelo jeito sou filhota. — Sinto muito que
você tenha descoberto assim e sinto muito por ter pedido a você
que não falasse sobre isso com ninguém e sinto muito por ter te
decepcionado.
Meu coração bate forte nas minhas orelhas. Se eu pudesse fazer
as coisas voltarem ao normal, tudo ficaria bem. Minha casa ainda
seria minha casa. Meus pais ainda seriam meus pais. Talvez meu
pai não tivesse se apaixonado pela Michelle do trabalho e isso
pudesse voltar ao normal também.
Ele diz:
— Eu queria estar aí.
— Queria mesmo?
— Sim…
— Você queria ter nos deixado antes?
— Clew…
E de repente sou Clew de novo. Ah, não, penso. Você não pode
usar esse apelido assim, quando quiser. Não usa, usa. Não usa,
usa.
— Queria?
— É complicado.
— Você conheceu alguém e vai se separar da mamãe. Não
parece tão complicado assim.
A linha fica completamente em silêncio.
— Você me disse que não tinha ninguém. Você disse literalmente
“É importante que você saiba disso”. Por que disse isso, se era
mentira?
— Me desculpa.
É minha vez de ficar quieta.
— Clew? Você ainda está aí?
— Você sabe que se casar com ela vai ter que fazer parte de uma
família de novo, né? Você se deu conta disso?
A linha fica em silêncio de novo.
Dou a ele tempo suficiente para responder. Como ele não
responde, continuo: — Então acho que o problema era mesmo a
gente, não era? Não é que você não queria uma família. Você não
queria a nossa família.
— As coisas não são assim. Eu não devia ter dito isso. Eu só não
sabia como falar, então falei do jeito errado.
— É verdade que você e a mamãe vão vender a casa?
— Estamos pensando, nada é definitivo.
— É por isso que está me mandando aquelas caixas? Para tirar
minhas coisas daí?
— Eu mandei aquelas coisas porque achei que você pudesse
querer.
— Bom, não estou nem aí para o que você vai fazer com o resto.
Acenda um fósforo e queime tudo se quiser.
Assim que digo isso, me arrependo. Minhas coisas não têm culpa
de nada. Não deviam ser vítimas.
E de repente começo a ligar os pontos — nos expulsar, vender a
casa. Ele sempre soube que ia fazer isso. Por isso eu não
conseguia achar a camiseta do Nirvana. Já estava na casa dela,
dobrada em alguma gaveta ou em uma prateleira. E essa mulher vai
usar as coisas da minha mãe e as coisas dos meus pais e as
nossas coisas, e viver a nossa vida, mas em uma versão nova e
melhorada que não inclui mais minha mãe e eu.
Antes que eu possa dizer mais alguma coisa, ele diz: — Eu sei
que vou ver você logo e a gente vai poder conversar mais, mas tem
algumas coisas que preciso que você saiba agora. Primeiro, não
quero que você duvide do que eu sinto por você, nunca. Apesar de
eu nem sempre ter sido o pai que você talvez esperasse, eu te amo
muito. Segundo, eu nem sempre vou corresponder às suas
expectativas, mas não vai ser por falta de tentar.
Enquanto ele fala, começo a beliscar a pele do meu braço. Mas
então paro.
— Leva um tempo até conhecermos nossos pais. Você tem sorte
de ter uma mãe muito especial. Não sei se você tem total
consciência disso, mas vai perceber conforme for ficando mais
velha. Eu não sou tão especial assim, você sabe disso e eu
também, mas espero que os anos que estão por vir também te
mostrem o quanto eu te amo e o quanto você é importante para
mim, não importa o quanto eu foda com tudo.
E embora eu esteja acostumada a ouvir meu pai falar palavrão,
não quero que ele faça isso, que diga que me ama e seja todo
sensível e verdadeiro. Quero odiá-lo. Fico sentada ali tentando odiá-
lo.
— Eu não quero ver a Michelle.
Mal consigo pronunciar seu nome.
— Não precisa. Não agora.
Eu não quero ver a Michelle nunca.
Não digo nada. Ele espera.
Finalmente, ele solta um suspiro triste.
— Podemos conversar mais quando você chegar em casa.
Vamos até a confeitaria e vamos comprar todo o estoque de
amanteigados. Vamos comprar quantos forem necessários. Vamos
comprar a porra da confeitaria inteira.
— A gente não pode simplesmente ir até a Joy Ann como se
fosse normal, como se tudo isso não tivesse acontecido. Como se
tudo isso não estivesse acontecendo. Coisas como eu e você e a
Joy Ann morreram quando você nos mandou embora.
— Elas não precisam morrer, Clew. Nem quando você estiver na
faculdade. Nem quando estiver na Califórnia sendo uma escritora
famosa. — Então, ele diz: — Eu te amo mais que Beethoven e a
confeitaria Joy Ann e a camiseta do Nirvana que você sempre
rouba. Eu te amo mais que tudo.
E agora ele está roubando essa brincadeira que faço com a Saz e
usando isso para tentar me ganhar, e é a gota d’água. Desligo sem
dizer que o amo também.

Encontro Miah em frente à sua casa, sem camisa, curvado sobre


uma pilha de ossos e um balde de água sanitária que faz meus
olhos arderem com o cheiro. Uma música alta sai de um rádio antigo
e de início ele não me vê.
Fico observando e ele parece absorto e feliz com o trabalho,
como naquele dia com o pessoal da Outward Bound, mas desta vez
preciso chamar sua atenção.
— Isso não parece mórbido? Todos esses ossos?
Meu tom parece de irritação, como se eu estivesse acusando
Miah de alguma coisa. Estendo a mão e abaixo a música.
Ele enfia um a um dentro do balde.
— Encare como se fosse aquele ferro-velho de que você sempre
fala, para onde o amor vai quando acaba. Pense neles como
sobreviventes. As coisas que permanecem. Como o amor que
sobrevive mais um dia.
Pergunto:
— O que vai acontecer com a gente daqui a uma semana?
Ele levanta, tirando o cabelo dos olhos.
— Como assim?
— O que vai acontecer com a gente?
— Não sei.
— Você por acaso pensou nisso?
— Sim, pensei nisso. É claro que pensei nisso. Não é tipo: “Pá,
pum. Valeu, coração. Obrigado por um ótimo verão”.
— Fala sério.
— Estou falando. Não sei o que vai acontecer com a gente,
Capitã. Não sei nem o que vai acontecer comigo. Talvez eu vá
embora, talvez eu fique. Talvez daqui a cinco anos eu esteja nesse
mesmo lugar, da casa da minha mãe para cá, daqui para a casa da
minha mãe, alvejando ossos e pensando na garota que conheci
certo verão. Quando éramos Claude e Miah. Guerreiros domadores
de animais selvagens, colecionadores de dentes de tubarão, arautos
da liberdade.
— Não faça piada. Não agora.
— Desculpa. — Ele senta no degrau mais alto da varanda, as
mãos molhadas penduradas nos joelhos. — Capitã, somos duas
pessoas que não esperavam se conhecer, mas se conheceram,
provavelmente anos antes do que deveríamos.
— Nunca conheci alguém como você.
— Eu também nunca conheci alguém como você. E nunca mais
vou conhecer porque tenho quase certeza de que não existem
muitas Claudes Henry pelo mundo. Mas não podemos engessar o
braço antes de quebrar.
— Então o que a gente faz?
— Não sei. Não consigo nem imaginar me despedir de você, e
não consigo imaginar uma versão de nós dois em que ligamos e
mandamos mensagens um para o outro como todo mundo.
— Então qual é o objetivo disso tudo?
Quero voltar quatro semanas atrás, com o verão todo à nossa
frente. Mas não tem como, e de repente quero ficar longe dele,
porque não posso simplesmente ficar aqui e fingir viver o presente
quando na minha cabeça já está na hora de ele ir embora e estou
assistindo ele navegar para longe desta ilha e de mim para sempre.
Ele diz:
— Senta aqui comigo…
— Eu preciso ir.
— Não foge.
— Não posso ficar, porque se eu ficar vou perder a cabeça, e não
quero perder a cabeça. Quero que você lembre de mim assim. —
Abro um sorriso e aponto para ele como quem diz Tcharam! —
Então não estou fugindo de você; estou fugindo do fato de que você
vai embora e eu vou embora. Só por um tempinho. Só o bastante
para recuperar o fôlego.
E antes que ele possa dizer alguma coisa ou tentar me impedir,
corro.

A praia está vazia exceto pelas gaivotas e maçaricos. Atravesso a


areia direto para a água. O vento está tentando me empurrar de
volta para a praia, mas eu insisto, indo cada vez mais fundo, até que
o chão some e eu afundo de repente, de uma vez, os braços
subindo em direção à superfície por conta própria, sem nenhuma
instrução minha, buscando o ar.
Obrigo meu corpo a descer, descer, descer, imaginando como
seria viver aqui nesse outro mundo. A raiva queima tão grande e
profunda dentro de mim que fico surpresa por não afundar com seu
peso. Raiva do meu pai, da minha mãe, da Michelle, da Saz, da
Yvonne, do Grady, de todo mundo, até do Miah.
Prendo a respiração até meus pulmões ficarem vazios e fico tonta
e meu corpo me puxa para a superfície. Puxo o ar enquanto o
mundo gira, e penso nas tartarugas fêmeas e como deve ser não
poder ficar de pé, e ter que rastejar pela costa, desmoronar ali,
desorientadas e perdidas.
Digo a mim mesma Sinta isso. Sinta cada pedacinho terrível,
desconfortável e esmagador. Você precisa sentir para chegar ao
outro lado.
Me arrasto para fora da água e me jogo na areia. Fico deitada ali
olhando para o céu e pensando sobre meu primo Danny. Penso em
todas as coisas que ele não vai viver, todas as coisas que nunca vai
ver ou experimentar. Mas tem outras coisas que ele nunca vai
conhecer — a dor e os segredos e como a gente se sente quando
nosso coração se parte ao meio.

Volto caminhando até o armazém, e agora penso nos meus pais.


No meu pai dizendo que me ama. Na minha mãe precisando ser a
mãe. Então me imagino me despedindo do Miah semana que vem.
Por tudo isso ligo para a Saz mais uma vez para dizer que a amo.
Ela atende na hora.
Ela diz:
— Eu também te amo.
— Mais que dentes de tubarão e tartarugas e luas de sangue.
— Mais que pizza sem abacaxi e festa do pijama e a Yvonne.
Mais que tudo e que todos.
Pergunto:
— O que vai acontecer com o seu quarto depois que você for para
a faculdade?
— Nada. Meus pais vão deixar exatamente igual para quando eu
vier para casa. Você lembra que, assim que a irmã da Mara foi para
a faculdade, os pais dela transformaram o quarto dela em uma
academia? Minha mãe falou: “Eu vou para a piscina pública de
biquíni, mas não faço isso com o seu”.
Respiro fundo. Solto.
— Meus pais vão vender a casa. O que quer dizer que meu
quarto verde vai ser o quarto verde de outra pessoa, até pintarem de
outra cor, e minha casa vai ser a casa de outra pessoa, e eles vão
se mudar e mudar tudo.
E não sei o que é pior — que um quarto seja transformado em
outra coisa, ou que não seja mais seu quarto, nunca mais.
— Sabe, você não é mais a mesma Claude Henry que morava na
Capri Lane em um quarto verde com uma cama com dossel. Além
disso, você sempre vai ter um lar comigo, Hen.
Por um tempo, não consigo falar. Então, de alguma forma, dou um
jeito de dizer: — Estou com saudade, Sazzy.
— Eu também.
— Queria que você estivesse aqui.
— Você sabe que eu estou, não sabe? Aí? Ainda que você não
consiga me ver.
E talvez ela esteja e talvez não, e talvez eu saiba e talvez não.
Mas é isso que você diz à sua melhor amiga quando não sabe mais
o que dizer e só quer estar ao lado dela e fazer as coisas ruins
desaparecerem.
Por isso respondo:
— Eu sei.
DIA 28

Vou de bicicleta até Rosecroft. Tirando os dois cavalos selvagens à


beira das árvores, o lugar está deserto. Subo a escada e passo pela
placa de PROIBIDA A ENTRADA até chegar às ruínas. Avanço com
cuidado, cômodo por cômodo, passando por cima de tijolos e
escombros até chegar ao centro da casa.
Fico ali e vejo — não a casa de Claudine, mas a minha.
Aqui fica a sala, e a janela — a que fica mais perto da porta —
que deixei aberta para a Saz, como a que ela deixou aberta para
mim em sua casa no fim da rua, caso a gente não consiga dormir.
E aqui, em frente à mesma janela, era onde colocávamos a árvore
de Natal, para que desse para ver da rua, porque não tem nada
melhor que andar pela calçada em uma noite fria de inverno e ver
aquelas luzes. O piano fica em frente, contra aquela parede ali, e no
outro canto o sofá. Eu odiava tocar, mas durante anos fiz aula com a
sra. Gernhoffer, que ficava tão frustrada comigo que terminava a
aula com a peruca completamente torta. Meu pai tocava melhor que
todos nós, e Bradbury uivava sem parar. “Jingle Bells” era a música
favorita do cachorro. Pendurávamos nossas meias na lareira aqui na
sala de estar no subsolo.
Aqui fica a varanda, de frente para o riacho. Meu pai colocou tela
para que o cachorro e o gato também pudessem aproveitar. Nós
cinco — minha mãe, meu pai, Claude, Bradbury, Dandelion —
sentávamos aqui fora depois do jantar e ficávamos ouvindo as
árvores.
Essas marcas de altura na entrada da cozinha, isso era uma coisa
que minha mãe fazia — media todo mundo que visitava nossa casa,
até os adultos, até os animais de estimação. Meu banheiro era este,
no corredor do andar de cima. Se olhar bem, dá para ver a marca na
banheira onde taquei a escova de cabelo no primeiro dia de aula do
fundamental II, porque meu cabelo não estava colaborando.
Aqui era o escritório da minha mãe, com as prateleiras do chão ao
teto que meu pai construiu durante um fim de semana quando
tínhamos acabado de nos mudar para que cada um dos livros de
pesquisa dela tivessem um lar. Era nesta poltrona que eu sentava
enquanto ela trabalhava, lendo e ajudando quando podia, e
aprendendo a encontrar uma história em tudo. Foi aqui que comecei
a escrever histórias, quando tinha dez anos.
O quarto dos meus pais era este no final do corredor, com vista
para o riacho. Foi aqui que minha mãe e eu conversamos sobre o
Papai Noel e, mais tarde, sobre sexo. Era aqui que Dandelion
ficava, na cômoda do meu pai, derrubando todas as coisas dele
uma a uma até que meu pai levantasse para dar comida para o
maldito gato.
E este quarto verde grande com o teto inclinado era o meu. Era
cheio de música e espaço para dançar. Meus livros ficavam nesta
parede. Meu armário ficava aqui, mas a maior parte das roupas vivia
no chão. A cama com dossel ficava ali. Os pôsteres ficavam aqui e
aqui e aqui. Minha escrivaninha — onde comecei a escrever meu
romance ruim e longo demais — ficava em frente a essa janela. E
foi nesta janela que fiquei assistindo Wyatt Jones e seus amigos
jogarem papel higiênico na minha casa até meu pai fazê-los parar…
Fico sentada no verde da grama, o verde do meu chão, até
enxergar cada detalhe.

Uma hora depois estou na escada, encostada contra uma das


colunas. Através da camiseta, sinto o tijolo áspero e gelado. Pego a
caneta e o caderno e escrevo.
Perco a noção do tempo. Nada de contar os dias ou minutos.
Nada de me preocupar com quanto tempo passou ou quanto ainda
resta do dia. Preencho páginas com pensamentos e cenas e
pedaços de mim. Escrevo até ter cãibra na mão, então fecho os
olhos e descanso a cabeça no tijolo gelado e áspero.
Quando abro os olhos de novo, o sol está se pondo. O céu é rosa
e dourado e laranja. Fico sentada assistindo o céu ficar mais claro e
depois mais escuro quando o sol começa a sumir. Escrevo vigésimo
oitavo pôr do sol, porque foram quantos eu vi aqui. Então guardo
minhas coisas e vou para casa.
Naquela noite deixo a janela aberta e adormeço com o cantarolar
das cigarras. Por volta de meia-noite Miah entra escondido no meu
quarto, deita na minha cama. Sinto sua pele e seu peito e sua
respiração no meu pescoço quando ele me puxa para perto.
— Eu sei o seguinte — ele diz. — Estou bem aqui. Estamos bem
aqui. Não sei te dizer qual é o objetivo disso tudo, só que estou
muito feliz por ter te conhecido, e não sei te dizer o que vai
acontecer amanhã ou na semana que vem ou no próximo verão ou
daqui a cinco anos. Mas sei que agora, neste momento, nesta ilha,
estou onde deveria estar, com você.
DIAS 29-30

Eu queria que tivesse um jeito de congelar o tempo. Como se


estivéssemos vivendo em um conto de Ray Bradbury e cada um
tivesse cinco chances na vida de parar o tempo pelo tempo que
quisesse, para poder viver determinado momento indefinidamente.
Nos dias 29 e 30, era isso que eu queria. Conseguir respirar
porque ele está aqui e eu estou aqui e ninguém vai embora.
A ILHA

TRÊS
DIA 31

Um dia antes de ele ir embora, chove. Minha mãe está em pé na


sala, documentos espalhados pelo chão como ladrilhos. Ela
examina as páginas, os óculos na ponta do nariz. De vez em
quando movimenta os papéis, dá um passo para trás, analisa mais
uma vez. Dandelion entra, senta sobre uma das pilhas e começa a
limpar o rosto. Ela o pega e o coloca no sofá.
— O que são?
— Cartas escritas imediatamente depois da morte de Tillie.
Parece que houve um inquérito antes de a polícia concluir
oficialmente que foi suicídio.
— O marido dela era suspeito?
— Durante, tipo, um segundo, mas nunca pra valer. Todos sabiam
a devoção que ele tinha por ela. E o relatório do legista — ela bate
em um dos papéis com o pé — foi bastante conclusivo a respeito do
suicídio.
Ficamos de pé lado a lado, olhando para os papéis. Pedaços de
uma vida. Quero sentar no chão neste momento e ler tudo. Quero
ajudar minha mãe a colocá-los em ordem para que possamos ter a
imagem mais clara possível de como era Tillie antes e depois, para
que possamos resolver o mistério do porquê de uma vez por todas.
Mas Miah está esperando. Meu coração parece estar em um cabo
de guerra.
Digo:
— Estou indo para a casa do Miah.
— Tá bom.
Ela está distraída, e percebo que está absorta, desmontando o
quebra-cabeça e montando de novo, parada ali.
— Ele vai embora amanhã e talvez eu volte tarde.
Ela junta o cabelo, prende em um rabo de cavalo e franze a testa
para mim. Os óculos são verdes e lembro de quando ela comprou,
durante uma viagem em família, em uma farmácia em Memphis.
— Quanto é tarde?
— De manhã?
— Claude.
— Mãe. Você vai saber onde estou, e se quiser ir me buscar e me
trazer de volta, pode fazer isso. Mas é importante para mim.
— O que exatamente eu devia responder? Se eu disser não, vou
me colocar entre você e esse garoto e talvez você fique ressentida
comigo para sempre, ou pelo menos por um bom tempo. Se eu
disser sim, sou a mãe mais negligente do mundo, alguém que minha
própria mãe deserdaria em um piscar de olhos se soubesse.
— Que tal “Eu entendo”? Que tal “Não amo essa ideia, mas
entendo, porque lembro de quando tinha dezoito anos e estava
apaixonada, e você é uma adulta semirresponsável que logo vai
para a faculdade e eu vou sentir saudade da época que pedia minha
permissão para passar a noite com um garoto confiável que não
bebe e faz arte com ossos”?
— Ele faz arte com ossos?
— De animais, não humanos, e talvez eu não devesse ter falado
isso. — Ela senta no braço do sofá e fica me analisando. — Você
me disse quando chegamos aqui para eu te falar se precisasse de
alguma coisa. Eu preciso disso — digo. — Por favor.
Ela solta um suspiro.
— Você está apaixonada mesmo?
— Acho que sim.
Ficamos olhando uma para a outra por um bom tempo. Então ela
diz: — Pode ir.

Miah e eu dirigimos pela estrada principal, e nenhum de nós diz


nada porque não precisamos. O tempo diz tudo. Lúgubre. Úmido.
Cinzento. Por mais que ele fique falando sobre viver o presente, sei
que ele está sentindo o que estou sentindo — nosso tempo acabou.
Digo a mim mesma que tudo vai ficar bem.
Na metade do caminho para Rosecroft, ele para no acostamento
em uma clareira entre as árvores onde há um caminho que leva até
a floresta. Remexe no porta-luvas e no console central até achar um
chaveiro, que brilha dourado e prateado contra o dia sombrio.
Ele sai da caminhonete e vem até o meu lado, abre minha porta.
Caminhamos juntos, de mãos dadas, os dedos entrelaçados, sobre
as folhas úmidas embaixo dos carvalhos.
— Aonde estamos indo?
— Você vai ver.
Vários metros depois, chegamos a um portão arqueado e
enferrujado com uma fechadura antiga e uma placa de PROIBIDA A
ENTRADA. Ele tenta chave por chave, até encontrar a certa.
Pergunto:
— O que é este lugar?
A chuva cai implacável e incansável, como se fosse continuar
caindo assim pelo resto das nossas vidas. Tiro o quepe de pescador
e me entrego, e em segundos fico encharcada, da cabeça aos pés.
— Cemitério Behavior.
Ele abre o portão.
E vejo os túmulos: retângulos cinza achatados, todos enfileirados,
placas gastas que se projetam da terra, lápides planas cobertas de
musgo, anjos entalhados com mãos estendidas ou juntas em
oração.
Miah diz para o cemitério e as árvores e o céu:
— Pedimos permissão aos mortos para entrar.
E entramos, a chuva caindo em um coro contínuo e ritmado.
Alguns dos túmulos estão cobertos de flores, livros, pratos, copos,
lamparinas.
— Existe uma crença de que os espíritos dos mortos ficam por aí,
e o único jeito de evitar que incomodem os vivos é dar a eles um
tipo de oferenda, coisas que eram deles quando estavam vivos. —
Sua voz é sussurrada, como se os mortos pudessem ouvi-lo. — As
lamparinas são para iluminar a caminhada deles até o
desconhecido.
Caminhamos por cada fileira, lendo os epitáfios, palavras de amor
e perda, nomes e datas, e versos doces e tristes de Rudyard Kipling
e J. M. Barrie e Oscar Wilde.
ESTA VIDA É BREVE, MAS EM SUA BREVIDADE NOS OFERECE ALGUNS
MOMENTOS ESPLÊNDIDOS, ALGUMAS AVENTURAS SIGNIFICATIVAS.
NA SEGUNDA ESTRELA, VIRE À DIREITA E SIGA EM FRENTE ATÉ O AMANHECER.
VIVER É A COISA MAIS RARA DO MUNDO. A MAIORIA DAS PESSOAS APENAS
EXISTE.
No fim da fileira, ao lado da mãe, está Claudine Blackwood. SE
RECUSAVA A FICAR ENTEDIADA PRINCIPALMENTE PORQUE NÃO ERA
ENTEDIANTE.É Zelda Fitzgerald.
— Eu também amo a Zelda — digo.
Alguns nomes reconheço, outros não.
Digo:
— Existem tantas histórias aqui que ninguém fora dessa ilha vai
chegar a conhecer.
— Mais um motivo para escrevê-las.
Seguimos até a seção afro-americana do cemitério, passando por
Clovis e Aurora e Beatrice Samms, seus túmulos cobertos de flores.
Um lampião descansa sobre a lápide de Clovis, a luz queimando
forte na escuridão do dia.
— Quem cuida do lampião?
— Teoricamente, a família de Clovis, mas a guarda florestal
também fica de olho. E eu dou uma olhada de vez em quando. Para
garantir que não apague.
No fim do cemitério fica um muro de pedra em ruínas, na altura do
ombro, curvado como uma meia-lua. Sentamos nele, e Miah me
conta as histórias de nossas aventuras para que eu as reviva do seu
ponto de vista. Ele fala sobre como se sentiu na primeira vez que
achei um dente de tubarão sozinha. Diz que sempre pensará em
mim ao ver um vaga-lume acender. Fala sobre nossa noite nas
ruínas e que ela mudou para sempre o modo como ele as vê. Fala
sobre quando ficamos presos na lama de marisma e que não ia
querer ficar preso com mais ninguém nesse mundo.
Seu tom é leve, mas eu não me sinto leve.
Pergunto:
— O que estamos fazendo?
— Estamos aqui sentados nesse muro incrível.
— Estou falando sério. Você vai embora amanhã e pronto, nunca
mais vou te ver?
— Talvez?
— Não quero ir embora.
— Também não quero ir embora.
Ele pega minha mão e faz carinho com o dedão.
— E se não formos embora? E se ficarmos bem aqui?
— No cemitério?
— No cemitério. Na ilha. Continuamos… isso. Você vem me ver
em Nova York. Eu vou ver você em Montana.
Quero que ele lute por mim, lute por nós.
Ele esfrega o queixo.
— Tá bom. Você deixa a faculdade para lá. Eu deixo a Outward
Bound para lá.
— Não é brincadeira.
— Não estou brincando.
E por um instante me permito fingir que poderia acontecer, Miah e
eu. Nós. Morando aqui na casa azul-vivo sob o céu azul-vivo,
vivendo aventuras e nunca mais nos preocupando com chãos que
desaparecem porque vamos ter areia e grama e um oceano onde
mergulhar.
Ele solta um suspiro.
— Ou.
— Não diga ou.
— Tá bom. — Há gotas de chuva em seu cabelo e em seu rosto e
em seus cílios. — Capitã, você tem lugares aonde ir neste mundo.
Histórias a escrever. Aventuras a viver. Se eu ia preferir viver essas
aventuras com você? Com toda certeza. Mas não sei como isso
pode dar certo.
— Você podia ir para Nova York comigo. Tem várias faculdades
ótimas lá com cursos de fotografia. E tantos lugares para fotografar.
Quer dizer, é uma ilha também. Só um tipo diferente de ilha.
Mas mesmo enquanto digo isso já sei que ele nunca vai querer ir
para Nova York.
— Capitã. Você não me conhece? Eu seria muito infeliz lá.
E algo nisso parece tão definitivo.
— Então acabou?
— Espero que não. Mas temos o agora. E o resto do dia. E esta
noite. E amanhã. É isso que eu sei.
Ele sorri, e é triste, mas feliz.
Dou um sorriso feliz, mas triste, para ele também.
E ele me beija, mas é tarde demais. Sinto em meu coração —
uma pequena morte.
— É melhor a gente ir — ele diz — Mas antes. Fique aí.
Ele aponta para a extremidade do muro, então salta e sai
correndo, descalço, até a outra ponta.
Estou dizendo a mim mesma para não chorar. Não chora. Não faz
isso. Salto para o chão e fico ao lado do muro.
Em um segundo, ouço:
— Está aí, Capitã?
É um sussurro, vindo pela rachadura ao lado do meu ouvido, claro
como o dia. Viro para olhar para ele e ele acena.
— Sim — sussurro no muro.
— Do que você tem mais medo?
Quase respondo De sentir sua falta. De nunca mais ver você.
Mas, em vez disso, respondo: — De não escrever minha própria
história. De não descobrir quem eu devo ser. Do que você tem mais
medo?
— Ainda de você.

Vamos até a casa dele para nos secarmos. Tomo uma ducha de
três minutos porque é o tempo que estou disposta a desperdiçar
longe dele. Ele me dá uma camiseta e uma bermuda, e ando pela
casa me sentindo engolida por Jeremiah Crew. Estou descalça e
tenho o cheiro dele.
Enquanto ele toma banho, examino as fotos nas paredes como se
estivesse em um museu. Estudo cada uma delas. Os ossos, as
ruínas, os esqueletos das coisas.
Do banheiro, ouço uma cantoria. “Joy to the World”, sua música
favorita.
Na cama dele, ainda estou com sua camiseta e a bermuda está
no chão. Miah está sem roupa. Do lado de fora da janela, a chuva
cai. Passo os dedos por sua pele.
— Se você pudesse mudar uma coisa no seu corpo, o que seria?
— Ah, meu Deus, Capitã. Não sei. Meu dedão esquerdo.
— Eu me livraria das minhas sardas.
— Eu gosto das suas sardas. — Ele começa a traçar as sardas da
minha barriga. — Elas me lembram o verão e dias longos e raios de
sol e luas de sangue.
— Parece que eu tenho sarampo. — E eu sei que não devia estar
fazendo isso, destacando as coisas de que não gosto em mim
mesma, mas estou tentando ser leve e alegre e livre e não pensar
no tempo que está passando rápido demais. Estou tentando não
sentir saudade dele porque ele ainda está bem aqui.
Paro de tocá-lo e levanto os braços no ar como se estivesse
regendo uma sinfonia. Ele pega um e começa a examinar como se
fosse a coisa mais fascinante do mundo, analisando cada uma das
sardas bem de perto. Ele passa os dedos pela minha pele. Dá um
beijo em meu cotovelo. Gira meu braço um pouco para a direita,
para a esquerda, e beija a parte interna do meu pulso. As costas da
minha mão vêm na sequência, depois meu ombro e a palma da
minha mão.
— O que você está fazendo?
— Estou beijando todas as suas sardas. — Ele beija meu joelho.
— Ou talvez você inteira. — Ele beija meu outro joelho. — Acho que
nunca beijei você aqui. — E beija meu umbigo. — Ou aqui. — Beija
minha orelha. E assim por diante, sem pressa.
Eu sei sem beijar todo o seu corpo que ele tem uma pinta em
formato de coração no ombro esquerdo e uma cicatriz embaixo do
queixo. Sei que os pelos do seu braço, que são dourados na maioria
das luzes, ficam avermelhados ao sol. Sei que seu dedão direito é
um pouco mais comprido que seu dedão esquerdo e que tem outra
cicatriz no joelho esquerdo.
Enquanto ele sobe do meu outro braço até meu ombro, minha
orelha, fico preocupada com todo esse exame minucioso do meu
corpo à luz do dia. As sardas, carne demais aqui, carne de menos
ali, cada saliência e defeito. Mas é como suas fotos, reais e sinceras
e adoráveis, e ninguém nunca fez isso antes. Então deixo que ele
me beije. E paro de me preocupar porque somos só Miah e eu, e
não tenho mais como me esconder, nem se eu quisesse.
— Nunca beijei você aqui — ele diz. — Ou aqui.
Eu podia simplesmente ficar. Eu podia viver nessa ilha com
Jeremiah Crew.
— Ou aqui.
Ele beija minha testa, e o que quer que aconteça com a gente, sei
que vai ter pelo menos uma pessoa no mundo que me viu inteira.

Deitados ali mais tarde, ele me envolve em seus braços, minha


cabeça em seu peito.
— Quero passar o dia todo com você amanhã — ele diz.
— Eu também.
— Tem muitas coisas que não fizemos ainda, Capitã. Quero te
levar para o norte para caçar ostras. E precisamos ir acampar no
Vale Azul e fazer canoagem pelo pântano.
E eu preciso continuar te amando. E você tem que me amar. E
preciso dormir em seus braços porque é quando durmo melhor, sem
acordar e ficar na cama sem dormir. Um sono tranquilo e feliz.
— Acho que vamos ter que voltar — digo.
— Acho que sim.

Estou determinada a ficar acordada a noite toda para não perder


um minuto. Quando sinto que ele está quase dormindo, digo: —
Estou flutuando.
Com voz de sonho, ele diz:
— Eu também te amo.
E está adormecendo, adormecendo.
Quero cutucá-lo para que acorde, para que repita e eu possa
garantir que ouvi direito. Quero gritar Na verdade, você disse
primeiro, embora ache que não. Você me ama, Jeremiah Crew.
Mas em vez disso fico deitada ali, sentindo sua respiração ao meu
lado, baixa e uniforme. Ele se vira e me puxa mais para perto e eu
fico olhando para o teto e me permito viver naquelas quatro
palavrinhas.
DIA 32

Quando acordo, o lado dele da cama está vazio. Fico deitada ali,
sem querer levantar, porque quando eu levantar o dia vai
oficialmente começar, junto com a contagem regressiva até sua
partida. Talvez se eu ficar aqui deitada o dia todo, de algum jeito
consiga congelar o tempo.
— Bom dia, Capitã. — Ele está em pé à porta, já vestido.
Bermuda preta, camiseta azul-celeste. — Este dia está uma merda.
— Seu walkie-talkie vibra e ele olha para o aparelho, balançando a
cabeça. — Todo mundo precisa de alguma coisa, eles sempre
precisam de alguma coisa quando sabem que preciso estar em
outro lugar. — Ele se aproxima e me beija. — Tipo aqui com você
nesta cama.
Tento puxá-lo para a cama comigo, mas ele se afasta,
resmungando um pouco.
Pergunto:
— Então o que isso quer dizer?
— Quer dizer que tenho umas duas horas de coisas para fazer,
mas depois sou todo seu.
Ele sorri.
Eu sorrio.
E parte de mim se pergunta se ele não está fingindo estar
ocupado para se proteger, porque sabe que vai ter de ir embora e é
melhor acabar logo com isso. E parte de mim se pergunta se não
seria mais fácil nunca mais vê-lo. Posso dizer a mim mesma que o
inventei e que o verão não foi real, e voltar para Ohio e ver a Saz e
meu pai e todos os meus amigos, e depois ir para a faculdade como
se nada tivesse acontecido.
Mas aconteceu, e nós acontecemos, e tudo que eu quero é mais
um dia com ele. Um dia inteiro, do início ao fim, sem essa história de
Isso termina aqui, e sim Um dia vou te ver de novo.
Mas não, ele não está inventando, porque agora está no walkie-
talkie, andando pelo corredor, falando com uma pessoa invisível.
Sento, ponho os pés no chão e pego minhas roupas.

Vamos nos encontrar depois do almoço e ir até a praia. Ele me


deixa no armazém, onde compro um caderno novo porque o meu
está quase cheio. Este é grande e grosso, com uma capa verde da
cor do capim-marinho. Caminho até a casa ao sol.
Na casa da Addy, encontro minha mãe na cozinha, livro na mão,
bebendo café. Seu cabelo está amontoado na cabeça em um coque
bagunçado, e ela está com a camiseta ESCRITORA FODONA que dei
para ela no último Natal.
— Cheguei.
— Você chegou. — Ela larga o livro. — Tudo bem?
— Tudo.
Sinto o muro entre nós, e não quero que ele exista. Eu a abraço e
ela me abraça de volta como se também estivesse sentindo. Juntas
derrubamos o muro, e então nos afastamos, porque os abraços são
assim — uma hora eles têm de acabar, mesmo que a gente não
queira. Sirvo suco em dois copos, pego duas tigelas do armário,
abro as caixas de cereal. Ela me dá uma xícara de café. Então faz
um gesto mostrando o assento da janela e o pacote ali em cima.
— É dele?
— Sim.
— Eu disse para ele parar de me mandar coisas.
— Então não abra. — Ela sorri. — Mas se conheço seu pai, é um
pedido de desculpas.
Pego nossas tigelas e nossos copos e nossas canecas — um ato
de equilíbrio — e levo tudo até a mesa. Sento de costas para o
assento da janela. Minha mãe senta à minha frente.
Comemos um pouco em silêncio, então pergunto: — Como ele
era quando vocês se conheceram?
Sua mão congela no ar. Ela larga a caneca e olha para o teto.
— Complicado. Divertido. Um pouco convencido, mas de um jeito
encantador. Ele acreditava que era capaz de tudo. Usava preto
porque estava passando por uma fase artística e se sentia mais
velho que todo mundo, e era um gênio da música. Fiquei um pouco
fascinada por ele.
Ela não pergunta por que quero saber.
— Depois que ele se formou em Juilliard, por que vocês não
ficaram em Nova York? Por que ele não tentou viver de música?
— Seu pai nunca se sentiu em casa lá, na faculdade ou na
cidade. A música sempre foi algo natural para ele, mas não acho
que uma grade fixa de aulas funcionava para ele.
— Mas ele podia ter feito algo com a música mesmo assim.
— Não é fácil ganhar a vida como artista.
— Você consegue — digo.
— E me sinto extremamente grata por isso, mas também meio
Meu Deus, espero que não descubram que sou uma fraude.
— Você acha que ainda estariam juntos se ele não tivesse
desistido da música?
— Não sei. Mas quero que você me prometa uma coisa. Que vai
sair mundo afora e viver toda a sua Claudice.
— Prometo.
Ficamos sentadas ali, pegando a colher de cereal no mesmo
instante, pegando as canecas de café no mesmo instante,
perfeitamente sincronizadas.
— Para — digo.
— Para você.
E agora estamos rindo. E agora nós duas soltamos o ar ao
mesmo tempo, relaxadas, como um suspiro, o que faz com que as
risadas voltem.
— Mãe? Vou sentir sua falta.
— Eu vou sentir a sua. Péssimo. Mas vou para Nova York te
visitar. Talvez até leve o Dandelion. E o dia de Ação de Graças vai
chegar mais rápido do que você imagina. Enquanto isso, vou torcer
por você enquanto sai pelo mundo afora e escreve sua própria vida,
e vou estar muito ocupada de tanto sentir orgulho de quem você é.
— O que você vai fazer?
— Depois que eu te levar até Nova York e te deixar no dormitório
e te der um abraço de despedida? Provavelmente comer um quilo
de oreos e chorar abraçada com o Dandelion.
— E depois disso?
— Não sei. — Ela olha para além de mim, para a janela. —
Provavelmente ficar aqui por um tempo. Sua tia Katie quer vir. E —
ela dá de ombros — eu gosto daqui. É bom. Tem trabalho a ser
feito.
— A ilha sempre encontra um jeito de dar o que a gente mais
precisa. Como o nascer do sol. Quando o mundo começa de novo.
Shirley, amiga do Miah, chama de diapuro.
— Diapuro. — Ela dá seu melhor sorriso de mãe. — É adorável.
Digo:
— Eu te amo mais que andar de bicicleta e a mansão Rosecroft
no crepúsculo e as palavras. Eu te amo mais que as palavras.
— Eu te amo mais que as palavras, também. — Ela se recosta na
cadeira, as duas mãos envolvendo a caneca, o sol iluminando o
dourado do seu cabelo. — Sabe, você puxou isso dele… “Te amo
mais que”.
— Não. A Saz e eu inventamos quando éramos pequenas.
— Você e a Saz podem ter transformado em algo de vocês, mas
você puxou do seu pai.

Uma batida à porta, e é Jared. Ele me entrega um bilhete com um


sorriso pesaroso, e meu coração imediatamente se entristece. É
isso. A despedida do Miah. Quase devolvo o papel a Jared, mas
abro.

Capitã, apagando incêndios por toda parte. (Não incêndios de


verdade, graças a Deus.) Vou pegar a barca mais tarde para a
gente poder passar um tempo juntos. Encontro você na Addy hoje
às cinco.
Com amor,
Miah

Jared e eu vamos de bicicleta até o antigo aeródromo para um


piquenique no almoço. Uma égua e seu potro pastam por ali. Depois
deitamos na grama e ficamos assistindo. Meus olhos estão pesados
do calor e da refeição.
Ele chama:
— Claude?
Viro a cabeça e ele está olhando para mim, a mão cobrindo os
olhos.
— Quê?
Também levo a mão aos olhos para olhar para ele.
— Como é se apaixonar?
Apoio os braços sobre a cabeça e volto os olhos e o rosto para o
céu. Demoro para responder porque não sei ao certo como é. É
mais sentimento que palavras, e nunca parei para pensar em como
descrever. Penso no medo e nas dúvidas e nos questionamentos e
na preocupação que vêm com todo esse sentimento. Se abrir sobre
cada coisinha até se sentir como um sapo na mesa de dissecação,
completamente exposta. Se importar demais, ou talvez o bastante, e
o medo que vem com isso. O fato de existir uma pessoa nesse
mundo que tem a capacidade de te magoar mais que qualquer outra
pessoa de tanto que você a ama. Ter de confiar que ela não vai
fazer isso e que talvez, só talvez, ela está sendo sincera e, pelo
menos por um tempo, ela pode ser seu chão.
Finalmente, respondo:
— Quando é a pessoa certa, a gente se sente invencível e notada
e em casa, não importa onde a gente esteja no mundo.
Ele suspira.
— Eu gostaria de me sentir invencível.
Depois pedalamos de volta até a pousada, e ele me leva
escondido até a suíte Blackwood, onde ficam as cartas da
Sociedade da Gaveta Secreta. O quarto é arejado e claro, e a
escrivaninha ocupa uma parede inteira. Parece estar adormecida,
como um gigante enorme e pesado. Duas malas estão ao lado da
cômoda. Roupas penduradas no armário.
— Alguém está se hospedando aqui?
Jared responde:
— Não tem problema. Eu pedi permissão.
Não tenho certeza se acredito nele, mas é tarde demais — ele já
está enfiando a mão no fundo da boca do gigante, as reentrâncias
da gaveta, e tirando um punhado de cartas. Ele as entrega para
mim, e lemos juntos.
De pai para filho, de mãe para filha, de marido para esposa, de
irmã para irmão, entre amigos. Palavras de sabedoria e anseio e
amor. Pedidos de desculpas, poemas, um pedido de casamento, um
epitáfio. Às vezes os bilhetes são anônimos. Alguns são só uma ou
duas frases; outros, páginas.
Pergunto:
— Qual foi o mais antigo que você já leu?
— Hm… 1994, acho.
— Tem mais antigos que isso?
— Limpamos de vez em quando para abrir espaço para bilhetes
novos. Tem caixas de bilhetes no sótão.
— Então pode ter alguns bilhetes dos Blackwood.
— Com certeza tem algumas cartas dos Blackwood lá. Foi uma
Blackwood que começou a SGS.
— Claudine?
— A mãe dela.
E ele aponta para a parede sobre a escrivaninha, onde há um
porta-retrato simples pendurado. Dentro da moldura dourada há um
bilhete, do tamanho de um cartão-postal, escrito em caneta preta
sobre papel azul-claro, as bordas amareladas. A letra é elegante e
de uma inclinação perfeita, como se estivesse fazendo uma
reverência.

Querido amigo,
Bem-vindo à Sociedade da Gaveta Secreta. Você está
convidado a deixar cartas, bilhetes, lembranças. Escreva, seja o
que for. Suas palavras importam. Guarde-as aqui, onde ficarão
em segurança.

Cordialmente,
Tillie Donaldson Blackwood
23 de setembro de 1933

Cinco anos antes de ela morrer, e o ano em que Claudine nasceu.


Sinto um arrepio percorrer meu corpo, e algo mais — uma
espécie de calor elétrico. Pelo que sei, esta é a única
correspondência de Tillie que restou. Um legado adorável e
romântico de uma mulher vibrante e viva. Pego o celular e tiro uma
foto da carta.
Antes de irmos embora, acrescento um bilhete meu.

Querida Claude, escreva sua própria história. Com amor, eu.


De volta à casa da Addy, sento no banco da janela e pego o
pacote, que está mais pesado do que parece. Dou uma boa
chacoalhada e faz barulho. O que quer que esteja aqui dentro,
nunca vai ser um pedido de desculpas suficiente, mas abro mesmo
assim.
Dentro tem uma montanha de papel de embrulho de Natal, prata e
azul com flocos de neve. Em cima, um cartão-postal. Bem-vindo a
Ohio, a pior parte do Meio-Oeste, está escrito sobre a foto do arco
azul gigante sobre a I-70 que dá as boas-vindas ao estado. Embaixo
do arco se estende uma rodovia plana e sem fim. Temos campos!
Milho! Porcos! Metanfetamina! E mais campos!
Viro o cartão. Atrás, meu pai escreveu:

Querida Clew,
Acho que você não vai encontrar isso na ilha e provavelmente já deve estar
morrendo de vontade. Se conseguir comer tudo antes de vir embora, vou ficar muito
impressionado. Maravilhado, até. Traga os sobreviventes (caso haja algum) para casa, e
prometo preparar para você. Te amo.
Com amor,
Seu pai, como ele é.
O lado bom e o ruim, goste
ou não. O pai que você tem,
que não te merece,
mas que vai sempre te amar,
não importa o que aconteça.

Largo o cartão e remexo o papel, e de repente começo a piscar


com muita força porque não vou chorar. Não vou chorar. Não vou
perdoá-lo e não vou chorar.
Cinco minutos depois, estou limpando o rosto com uma toalhinha
e olhando para meus olhos vermelhos e inchados no espelho do
banheiro. Volto para a sala de jantar, para o assento da janela, onde
deixei as coisas que vieram na caixa alinhadas, uma a uma. Doze
caixas de macarrão com queijo instantâneo.

São cinco horas quando Miah chega à casa da Addy com a


caminhonete. Ouço ele chegar e corro para encontrá-lo na varanda.
Ele diz:
— Desculpa, Capitã. Alguém invadiu o escritório da guarda
florestal, dois campistas da Outward Bound estão perdidos, Bram e
Shirley precisam que eu feche a casa deles, e minha irmã ligou.
— Sua mãe está bem?
— Não sei ainda.
Ele encosta a testa na minha e sussurra:
— Vamos fugir.
— Sim — respondo. — Vamos.
Ele fecha os olhos e eu também.
Depois de um instante, ele se afasta e solta um longo suspiro.
— Vou embora às nove e quarenta e cinco hoje à noite. Isso nos
dá um pouco mais de tempo.
Ele abre um sorriso triste, e está tentando muito parecer animado
e normal, e tem um momento em que o sorriso desaparece e ele
olha dentro de mim, tão intensamente que consigo sentir.
Ele diz:
— Tenho mais algumas coisas para fazer e depois venho te
encontrar.
De repente sou tomada por uma sensação que me inunda. Tento
descartá-la. Digo a mim mesma que é só tristeza por ele estar indo
embora e nosso tempo na ilha estar acabando. Mas é mais do que
isso. Sinto um lampejo de pânico porque algo dentro de mim está
dizendo Acabou. Esta é a nossa despedida.
— O que foi, Capitã?
Ele sorri de novo, mas seus olhos estão preocupados. Percebo
que ele acredita que é verdade, que ele vai vir me encontrar.
— Nada — respondo. Porque sinto que preciso afastar a
preocupação, olhar nos olhos dele nesse momento e ver apenas a
mim mesma.
Então ele me beija, e é só um beijo. Nada mais. Mas de alguma
forma é o mais significativo.
DIA 32
(PARTE DOIS)

No jantar, estou sentada tentando me concentrar na conversa, mas


meus olhos estão na porta, para ver se Miah chega. Disse a mim
mesma que estava sendo dramática antes. É claro que ele vai vir
me encontrar. Então tenho uma visão em que ele aparece,
exatamente como prometeu, e eu não o vejo, e ele vai embora, sem
a chance de se despedir.
Digo à minha mãe:
— Já volto. Banheiro.
Saio da sala de jantar, passo pelo banheiro e vou até a porta
dupla larga que leva para o gramado da frente, que está vazio.
Espero um minuto. Dois minutos. Então volto até a mesa e sento.
Minha mãe olha para mim, mas não diz nada.
Jared traz a sobremesa e me conta que amanhã vai sair da ilha
por alguns dias para visitar uns amigos. Ele diz:
— Você tem que me avisar quando voltar.
E respondo:
— Não sei se volto logo. Mas se você estiver aqui, talvez eu
venha te ver.
— Bom, você é sempre bem-vinda aqui na Ilha dos Brinquedos
Quebrados. Você é uma de nós agora.
Wandinha passa e eu aceno. Ela acena de volta.
Digo:
— É uma honra fazer parte do grupo.
Então Jared me abraça tão forte que não consigo respirar.
— Estou feliz por ter te conhecido — ele sussurra no meu ouvido.
— Também estou feliz por ter te conhecido.
Ele se afasta e eu sento retinha na cadeira, segurando as
lágrimas que surgiram por algum motivo. Espalho a sobremesa pelo
prato e largo o garfo.
Minha mãe está falando e os outros hóspedes estão falando, mas
é como se fossem música de fundo. São 21h21 e o barco dele sai
às 21h45.
21h22.
21h23.
21h24.
Às 21h25, não digo nada à minha mãe ou às outras pessoas da
mesa. Só levanto e saio. Desta vez subo a escadaria até o saguão e
saio pela porta da frente.
Do lado de fora está escuro e a chuva cai, só uma garoinha
agora, e as estrelas brotam como flores, hesitantes mas
esperançosas, e as cigarras cantam e é verão por toda parte.
Fico em pé na varanda procurando sua caminhonete. Hoje os
faróis estarão acesos porque os vaga-lumes, como as estrelas, se
apagaram momentaneamente por causa da chuva. Vou ver a
caminhonete antes de ouvi-la, se ele estiver vindo do sul.
21h28.
Desço os degraus espirrando a água empoçada nos vincos da
madeira antiga. Fico ali, na entrada, a chuva molhando minha pele e
meu cabelo e meu vestido. Olho para o sul e para o norte porque ele
pode vir de qualquer lugar.
21h31.
Digo a mim mesma que ele está atrasado como sempre.
Provavelmente está fazendo as malas apressado e tentando fechar
a casinha azul e a casa do Bram e da Shirley. Provavelmente está
apagando um incêndio ou ajudando os campistas da Outward
Bound que não estão mais perdidos por causa dele. Provavelmente
está carregando o barco antes de vir se despedir de mim.
21h35.
Vou encontrá-lo no barco. Tiro os sapatos e saio correndo,
embaixo dos carvalhos que parecem ter vindo de uma terra
encantada, em direção à água. Corro pelo caminho coberto de
conchas e quase nem sinto suas pequenas pontas afiadas cravando
nas solas dos meus pés, e procuro por faróis enquanto avanço. Não
paro de correr até chegar ao cais.
Que está vazio.
Fico ali por um bom tempo, olhando para a água, escura e sem
fim a não ser pelo brilho das luzes à distância. E essas luzes, eu sei,
são o continente. É como se estivesse a anos-luz de distância.
Espero que um barco apareça.
Espero que Miah venha.
Espero.
Espero.
De repente, não sinto mais a chuva em minha pele ou meu cabelo
ou minhas roupas porque a única coisa que sinto é a dor em meu
peito. Uma dor que nunca senti antes. É ao mesmo tempo terrível e
bela. E me preenche. Me preenche.
Eu achava que íamos ter mais tempo.
A gente sempre acha que vai ter mais tempo.
Me jogo no banco, que está úmido e me deixa mais úmida. Em
algum momento a chuva para completamente. Olho para cima e as
estrelas são um tapete de luz. Um sentimento me invade. Miah é
parte dele. Mas não tudo. São os verões da infância quando eu
tinha oito, dez, doze anos. E esses momentos belos em que tudo é
cheio de amor e luz e possibilidade.
Descanso a mão na madeira do banco e meus dedos topam com
algo gelado e liso. Olho para baixo. Um dente de tubarão. O maior
que já vi. E ali, desenhado em volta dele, um círculo.

Volto para a trilha e caminho em direção à pousada, o dente de


tubarão no bolso. Através das árvores, as luzes da varanda brilham
como um farol, como lanternas iluminando o caminho para o mundo
lá fora. Subo as escadas, os pés espirrando a água dos pequenos
vincos da madeira. Calço os sapatos, tiro o cabelo do rosto, e só.
Esta sou eu, é pegar ou largar — molhada e amarrotada e com
saudade do Miah.

— Claude?
A voz da minha mãe me chama do fim da varanda. Ela está
empoleirada na ponta do balanço, como se estivesse procurando
por mim. Vou até lá e sento ao lado dela, com um caroço na
garganta grande como o oceano.
— Tudo bem? — ela pergunta. E ela sabe. Vejo em seu rosto.
— Vai ficar. — Mas meu coração não acredita nisso.
Ela pega minha mão, e o balanço vai para a frente e para trás,
enquanto ouvimos a chuva.
Às 21h53, consigo sentir. A ilha está mais vazia porque ele não
está mais aqui.

Não quero ir para casa ainda, então vou até a praia, sem me
importar se vou dar de cara com jacarés ou cobras ou javalis. Sigo
por baixo das árvores, por cima das dunas, em direção à areia, até
me encontrar sob a lua e todo esse céu. Estou muito inquieta para
sentar. Largo a bolsa e tiro os sapatos e caminho. A maré vem como
um trovão, e sou a única aqui.
Caminho pelo menos um quilômetro e meio. Estou tentando não
olhar para as luzes à distância, as luzes das ilhas vizinhas. Porque
além dessas ilhas fica o continente, e no continente está Jeremiah
Crew, que não se despediu de mim.
A antiga Claude diria que ele não se importou, que eu não
signifiquei tanto para ele como ele significou para mim, e por isso
ele foi embora sem me ver, apesar de ter dito que viria.
Mas sei que não é verdade.
Ele não veio porque — o que ele disse mesmo no dia em que
estava alvejando os ossos? Não consigo nem imaginar me despedir
de você.
As ondas vêm trovejando. As ondas vão trovejando.
Vou para a areia fofa bem acima da maré. Então, por alguma
razão, começo a pensar nos meus pais. Talvez não exista um
motivo específico para eles se separarem. E não exista um jeito
específico de fazer o amor durar. Meus pais eram duas pessoas que
se amavam, durante um bom tempo. Até não se amarem mais. Mas
isso não muda o fato de que um dia se amaram e sempre vão me
amar.
Me ocupo tanto pensando nisso que quase não vejo — as
marcações de um rastro que leva ao oceano. Digo a mim mesma
que deve ser um caranguejo ou um guaxinim. Me abaixo, estudando
a trilha, que é quase como o rastro de um pneu, sulcos mais
profundos nas beiradas, sulcos mais leves no centro.
Meu coração começa a martelar, e engatinho para encontrar o
início do rastro, que fica em um ninho encostado nas dunas. Por
favor, que o rastro não acabe. Por algum motivo, não pode acabar.
Vou acompanhando, acompanhando, até o rastro desparecer na
água. E talvez ele tenha terminado antes de a maré subir, ou talvez
o filhote tenha conseguido chegar até a água. Digo a mim mesma
que conseguiu.
Passo os olhos pelo oceano, até onde a vista alcança, procurando
algum sinal desse bravo sobrevivente, mesmo sabendo que ele já
deve ter desaparecido, e pensar nele por aí no mundo me dá
vontade de chorar. Muito bem, penso. Espero que você consiga ir
até a África.
Então olho em direção ao brilho distante no horizonte que é o
continente e penso em Jeremiah Crew, que também está lá em
algum lugar. Talvez eu nunca mais o veja, e a ideia de nunca mais
vê-lo é uma faca gelada e afiada. Mas talvez ele tivesse razão.
Talvez não importe para onde eu vá ou o que eu faça ou quem eu
conheça — eu sempre terei Claude e Miah, Miah e Claude, para
sempre.
Digo:
— Jeremiah Crew, espero que você esteja a caminho do
aeroporto. Espero que entre naquele avião para Montana e não olhe
para trás.

Caminho até encontrar a pilha das minhas coisas e me jogo na


areia e remexo a bolsa e tiro dois cadernos, o azul e o verde. Abro a
capa gasta do azul e folheio as páginas, lendo à luz da lua cada
palavra que escrevi desde que cheguei aqui. Cada pensamento,
bom e ruim, cada dor, cada saudade, cada aventura.
Hemingway certa vez disse: “Tudo o que você precisa fazer é
escrever uma frase verdadeira. Escreva a frase mais verdadeira que
conhece”. Então não penso no sr. Russo me dizendo que não sinto
o suficiente, e não penso se vai ser bom ou não. Abro o caderno
verde — da cor do capim-marinho — que está em branco e começo
a escrever.

Você foi meu primeiro. Não só no sexo, ainda que tenha sido uma
parte importante, mas o primeiro a olhar além de todo o resto e
enxergar dentro de mim.
Alguns nomes e lugares foram trocados, mas a história é
verdadeira. Está tudo aqui porque um dia isso vai estar no
passado, e não quero esquecer o que passei, o que eu pensava,
o que eu sentia, quem eu era. Não quero esquecer você.
Mas, acima de tudo, não quero esquecer de mim.
DIA 35

Ando de bicicleta pela estrada principal, sob a cobertura verde das


árvores. Sinto o sol no meu rosto e o vento no meu cabelo. O dia
está luminoso. Eu estou luminosa.
Paro e, de onde estou, consigo ver a casa dele. Quero sentar no
degrau da entrada e esperar que ele volte e me leve em uma
aventura. Me leve para caçar tesouros. Me leve para uma
caminhada na praia sob o luar. Me beije na chuva em um cemitério
ao lado de um muro dos sussurros.
Não penso, só aperto o play, e de repente uma música ressoa em
meus ouvidos — sua música favorita, aquela que sempre será a
música dele, e de nós dois dançando nas ruínas, sob a neblina. E
ele está ali, sorriso espontâneo, olhando para mim como se eu fosse
um milagre. Você, ouço ele dizer, é espetacular, Claudine Llewelyn
Henry.
Ele. Eu.
Eu. Ele.
Nós. Entrelaçados. Mãos no meu rosto, meu cabelo, descendo
pelas minhas costas, seus dedos — macios como uma nuvem — na
minha pele, aonde nenhum garoto foi antes. Mas é mais do que
isso. São pés enlameados e porões trancados e luas de sangue e
tudo o que dissemos um para o outro quando ninguém mais estava
ouvindo.
Penso em todos os motivos pelos quais o amo.
Como o choque de seu toque, que é um tipo de relâmpago. Uma
corrente elétrica. Não o suficiente para te matar, mas o suficiente
para te deixar ligada e ávida e viva.
Como o fato de ele ter o cheiro do amanhã, se o amanhã tivesse
um cheiro.
Como uma camiseta gasta na medida certa.
Um pôr do sol sobre um campo de milho, do tipo que deixa tudo
dourado e quente.
Lençóis recém-lavados.
Neve fresca.
Ele é todas essas coisas e um lar.
A música acaba e o silêncio é preenchido pelo cantarolar
constante, bruxuleante das cigarras, como se o próprio ar estivesse
cantando. O sol bate, pesado sobre minha pele. A barca vai chegar
em uma hora e eu preciso voltar para a casa. Mas por um instante
fico enraizada nessa trilha de areia, olhando para além dos cavalos,
os rabos oscilando, que pastam no gramado, e os grandes e longos
braços dos carvalhos, gotejando barbas-de-velho. Para as cadeiras
de balanço azuis e os vários ossos e crânios — alvejados, de um
branco duro e claro — reunidos em um canto da varanda. A casa
está silenciosa, sem sinal de vida. A caminhonete está estacionada
em frente, empoeirada do nosso último passeio pela praia.
Afasto um inseto. Toco a nuca onde meu cabelo cresceu um
pouquinho. Ainda está curto. Acho que gosto assim. As sardas em
meu rosto e meus ombros se multiplicaram desde o início do verão,
mas não me importo mais como antes. Me sinto mais alta. Mais
velha. Bem e à vontade na minha própria pele. Claude Antes e
Depois.
Aqui nós rimos. Aqui brigamos. Aqui amamos e sonhamos. Aqui
foi onde o fogo começou. Aqui foi onde o primeiro tijolo caiu. Aqui foi
onde o chão desapareceu. Aqui foi onde construí um chão novo sob
meus pés.
Aqui foi onde eu comecei.
A última coisa que ele me disse: Tenho mais algumas coisas para
fazer e depois venho te encontrar. Digo a mim mesma que, se eu
ficar aqui mais um tempo, talvez ele apareça. Então quase o vejo,
andando em minha direção pela trilha. Pés descalços. Camisa para
fora da calça. Seu rosto se ilumina ao me ver. Pronto para nossa
próxima aventura.
AGRADECIMENTOS

No fim do meu último ano escolar, dias depois de eu ter completado


dezoito anos, meu pai entrou no meu quarto e disse que ele e minha
mãe iam se separar. Durante toda minha vida, tínhamos sido nós
três — minha mãe, meu pai e eu. Meus pais eram tudo. E de
repente, meu mundo virou de cabeça para baixo. Eu não conseguia
me recompor. Era como se o chão sob meus pés tivesse
desaparecido. Eu não podia dizer nada sobre a separação para
ninguém, o que tornou tudo aquilo ainda mais doloroso. Cinco dias
depois da formatura, minha mãe e eu nos mudamos da cidade onde
morávamos em Indiana — deixando para trás a casa onde passei a
infância, meu pai, meu cachorro, minha melhor amiga e o garoto de
quem eu gostava — para as montanhas da Carolina do Norte. Foi
um verão de últimas e primeiras vezes e, depois de todos esses
anos, aquela época da minha vida ainda rende memórias muito
fortes.
Sem ar é o livro que nunca pensei que escreveria. É, de várias
maneiras, ainda mais pessoal para mim que Por lugares incríveis. É
o livro de que eu precisava quando tinha dezesseis, dezessete,
dezoito anos. Mas não é uma história que eu poderia escrever sem
o apoio e o incentivo de várias pessoas.
Sete anos atrás, minha agente literária, Kerry Sparks, apostou em
mim, acreditou em mim e mudou minha vida para sempre —
pessoal e profissionalmente — de maneiras brilhantes e
inimagináveis. Ela é um raio de sol eletrizante, incrível e
maravilhosa, uma mamãe ursa suprema quando precisa ser, editora
superexperiente, amiga querida e hilária, e minha maior heroína
neste mundo. Obrigada a Kerry e a todos da Greenberg Rostan
Literary Agency por tudo o que são e fazem.
Melanie Nolan, da Knopf, é uma das melhores editoras com quem
já tive o privilégio de trabalhar. Desde aquele primeiro almoço,
quando falamos entusiasmadas do livro Little Darlings e eu percebi
que ela realmente entendia, passando pelas compras compulsivas
de botas de caubói, por cada comentário perspicaz, inspirado e que
levava a grandes revelações, e pelo modo habilidoso com que me
guiou, sem deixar de cultivar e nutrir minha liberdade criativa, nossa
colaboração tem sido inestimável. É uma honra trabalhar com ela.
Tenho o mais perfeito dos lares na Penguin Random House, e a
família editorial mais maravilhosa. Agradecimentos profundos,
sinceros e intermináveis a Barbara Marcus, Felicia Frazier, Judith
Haut, Jillian Vandall, Dominique Cimina, Morgan Maple, Arely
Guzmán, Pam White, Jocelyn Lange, Lauren Morgan, John Adamo,
Elizabeth Ward, Kelly McGauley, Jenn Inzetta, Alison Impey,
Adrienne Waintraub, Emily DuVal, Megan Mitchell, Jake Eldred, Kate
Keating, Noreen Herits, Gillian Levinson, Karen Sherman, Artie
Bennett, e a todos lá que ajudaram a trazer este livro ao mundo.
Vocês são, para sempre, alguns dos meus lugares mais incríveis. E
gratidão eterna ao artista Tito Merello, cuja pintura extraordinária de
Claude e Miah deu vida aos personagens na capa.
Meu fabuloso editor do Reino Unido, Ben Horslen, e toda a família
da Penguin Random House britânica também são os lugares mais
incríveis. Envio a eles milhões de agradecimentos e meu
reconhecimento eterno por nossa terceira jornada literária juntos.
Agradecimentos e reconhecimento eterno também a Sylvie
Rabineau e Lauren Szurgot da WME pela confiança e entusiasmo por
meus livros e por mim. Com elas ao meu lado, sinto que posso
conquistar o mundo — e quero ser como as duas quando crescer.
Tenho enorme gratidão pelo pessoal generoso e acolhedor da Ilha
Sapelo, especialmente Chris e Barbara Bailey, além do pessoal das
ilhas da costa da Carolina do Norte e da Ilha Cumberland. (Jared
Hilliard, tenho a sorte não apenas de chamá-lo de amigo, mas de
poder incluí-lo nesta história.)
Minha encantadora assistente, sem a qual eu não saberia o que
fazer, Briana Bailey (todas as menções a javalis são para você!). E
minhas assistentes de mídias sociais espetaculares Mackenzie e
Lila Vanacore, cujas ideias e experiência me enchem de admiração
todos os dias. Um agradecimento especial a Kenzie por deixar que
eu compartilhasse suas palavras profundas, misturando-as às
minhas, para o último discurso de Wandinha à Claude, aquele sobre
se libertar de caixas.
Meu primeiro leitor, Justin Conway (mais sobre ele logo mais), que
também é um editor espetacular. E meus primeiros leitores jovens
Annalise von Sprecken, Mackenzie e Lila, Katie-May Taylor e
Gabriel Duval. Assim como Kerry Kletter, que não é só uma das
melhores editoras que conheço, mas também uma das melhores
autoras. (Sério, por favor, faça um favor a si mesmo e vá comprar
todos os livros dela imediatamente!) Por falar em excelentes autores
que são amigos queridos, Angelo Surmelis e Ronni Davis são parte
muito importante do meu chão. Eles me mantêm de pé e me fazem
rir e me amam, com sardas e tudo.
Obrigada às Adoráveis por tornar tudo adorável, e a Lisa Brucker,
Grecia Reyes, Krista Ramirez, Beth Jennings White, Megan White,
Jennifer Koerner, Shari Franklin, Logan Franklin, Karen e Jon Prebl
e Janet Geddis (dona da Livraria Avid, A MELHOR) por sua amizade.
Obrigada, Alex, Hilda e Terrie (para não falar no Sloane!), por cuidar
dos peludos enquanto estávamos fora.
Muita gratidão à Wandinha de verdade pelo apoio à CLIC Sargent e
por me deixar usar seu nome. (Espero que você goste de sua
versão fictícia!)
Obrigada, Paula Mazur e Mitchell Kaplan, por acreditar em meus
livros e em mim, e por toda a compreensão e o talento belos e
sensíveis.
Meus conterrâneos, em Indiana — Elizabeth Bailey, uma das
minhas segundas mães adoradas, por ter me apoiado quando eu
tinha dezoito anos e precisava de alguém com quem conversar.
Obrigada por guardar meu segredo todos esses anos. Jim Resh e
sua equipe no Wayne County Convention & Tourism Bureau, por
serem apoiadores incansáveis dos meus livros e de mim. Joe
Kraemer, por ser meu irmão e melhor amigo e parceiro no crime e
nas más influências em geral (a maioria delas no bom sentido, no
entanto). A Saz é para você e para Laura Lonigro, que se foi cedo
demais mas será para sempre jovem em nossos corações e muito,
muito amada. Um brinde a vocês dois, nos degraus do Instituto de
Arte de Dayton. Nosso instituto de arte.
Obrigada à minha família por seu amor, humor e apoio
inabaláveis, incluindo minha prima-irmã Lisa von Sprecken, meu
primo-irmão Derek Duval, minhas tias adoráveis e adoradas, Lynn
Duval Clark e Doris Knapp, e meu tio Bill Niven, amado pai de
aluguel, protetor amigo e domador de gatos. Gratidão inestimável à
minha espetacular Ansley por me entender, de corpo e alma, por
quebrar tudo nas lives do Instagram comigo e pelas festas
espontâneas (Harry Styles e Jonas Brothers para sempre!). E para
meu maravilhoso Ashton por sempre ser um cavalheiro, me
ensinando as coisas com muita paciência, e me lembrando — com
frequência — de me acalmar. Todos os cheiros e o amor do mundo
para vocês dois.
Não sei como seria escrever sem gatos andando pelo teclado ou
correndo com materiais de escritório ou se certificando de que estou
acordada às três, quatro ou cinco da manhã. Graças a Deus tenho a
sorte de ter cinco gatinhos literários muito ativos — vossa alteza,
rainha Lulu, do teclado do computador e do despertar de manhã
cedinho; a fábrica de pelos, o sempre confuso e querido Rumi; a
grata e corajosa Scout (com suas patas polidáctilas gigantes); o
sempre enlouquecedor Linus “Merdinha” Niven Conway (em vários
momentos escrevi este livro apesar dele); e Luna olhos grandes,
nossa “lentinha” (mas estranhamente obstinada) resgatada, da
Costa Leste e da Oeste, que é mais viajante do que nós dois e está
destinada ao estrelato no cinema (considerem este o início de minha
campanha por Luna como Dandelion na versão cinematográfica).
Como eu disse, este livro é pessoal. Nem Claude nem eu
estaríamos aqui sem meus pais, Penelope Niven e Jack Fain
McJunkin Jr., que me ensinaram que eu podia ser ou fazer qualquer
coisa, que me ensinaram a nunca me limitar ou limitar minha
imaginação, que me deram amor incondicional, e que garantiram
que, independentemente de qualquer coisa, eu fosse incentivada e
estivesse habilitada a viver toda a minha “Jenniferzice”. Perdi meu
pai engraçado, brusco, corredor de maratonas, ladrão de biscoitos e
chef gourmet nas horas vagas há dezoito anos, e minha mãe
excepcional, efervescente, consoladora, escritora, alma gêmea há
seis, mas sou rodeada e preenchida por seu amor extraordinário. E
cada palavra que escrevo vem deles.
Este livro é pessoal ainda de outra maneira. Em 2018, viajei para
uma ilha remota da Geórgia, notebook em mãos, a ideia do Sem ar
se formando na minha cabeça. No primeiro dia lá, conheci meu
agora marido Justin Conway — o Jeremiah Crew da vida real —,
que tirou meus pés do chão e me colocou em sua caminhonete. Eu
tinha ido para lá em busca deste livro e, em vez disso, encontrei a
versão dourada, descalça, de idade adequada e de carne e osso do
personagem que eu vinha imaginando havia um ano ou mais. Esse
homem que, no nosso primeiro dia juntos, descobriu meus segredos
e me contou os seus. Que me ensinou a encontrar dentes de
tubarão. Que me trouxe galochas. Que me mostrou sua ilha. Que
me carregou por um córrego que tinha virado um rio. Que me guiou
pela noite à luz dos vaga-lumes. Ele. Eu. Eu. Ele. Nós.
Entrelaçados. Este livro é para ele. Para nossos pés enlameados e
porões trancados e luas de sangue e tudo o que dissemos um para
o outro quando ninguém mais estava ouvindo. A gente
simplesmente soube naquele primeiro dia. Seis meses depois
estávamos casados, e seguimos escrevendo nossa história de amor
todos os dias desde então.
Por último, mas não menos importante, preciso agradecer aos
meus leitores. Queridos adoráveis: nada disso seria possível sem
vocês. Nunca perdi isso de vista, e jamais perderei. Amo vocês mais
do que sou capaz de expressar.
Agora.
Feche o livro.
Mas primeiro — lembre-se de se abrir à possibilidade, ao quase e
ao talvez.
Use sua voz.
Se abra para os outros.
Escolha seu futuro. Escolha seu corpo. Escolha a si mesmo.
E vá para o mundo e escreva sua vida.
JUSTIN CONWAY

JENNIFER NIVEN é autora de Por lugares incríveis (2015), que ganhou


uma adaptação cinematográfica pela Netflix, e de Juntando os pedaços
(2016). Seus livros foram traduzidos para mais de 75 idiomas e premiados
no mundo todo. Quando não está escrevendo ou trabalhando em projetos
audiovisuais, supervisiona a revista literária on-line Germ. Divide seu
tempo entre a costa da Geórgia e Los Angeles.
[Link]

Copyright © 2020 by Jennifer Niven

Tradução publicada mediante acordo com Random House Children’s Books, uma divisão
da Random House LLC.

O selo Seguinte pertence à Editora Schwarcz S.A.

Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou
em vigor no Brasil em 2009.

A citação de Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, foi retirada da edição da Biblioteca Azul
(São Paulo, 2012), com tradução de Cid Knipel.

TÍTULO ORIGINALBreathless
CAPA Alison Impey
ILUSTRAÇÃO DE CAPA Tito Merello, sobre foto de MotionWorksFilmStudio
PREPARAÇÃO Luisa Tieppo
REVISÃO Renato Potenza Rodrigues e Jasceline Honorato
VERSÃO DIGITAL Rafael Alt
ISBN 978-65-5782-175-6

Todos os direitos desta edição reservados à


EDITORA SCHWARCZ S.A.
Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 32
04532-002 — São Paulo — SP
Telefone: (11) 3707-3500
[Link]
contato@[Link]
Por lugares incríveis
Niven, Jennifer
9788543802428
336 páginas

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Agora um filme Netflix, estrelado por Elle Fanning e Justice


Smith.

Violet Markey tinha uma vida perfeita, mas todos os seus planos
deixam de fazer sentido quando ela e a irmã sofrem um acidente de
carro e apenas Violet sobrevive. Sentindo-se culpada pelo que
aconteceu, a garota se afasta de todos e tenta descobrir como
seguir em frente. Theodore Finch é o esquisito da escola,
perseguido pelos valentões e chamado de "aberração" por onde
passa. Para piorar, é obrigado a lidar com longos períodos de
depressão, o pai violento e a apatia do resto da família.
Enquanto Violet conta os dias para o fim das aulas, quando poderá
ir embora da cidadezinha onde mora, Finch pesquisa diferentes
métodos de suicídio e imagina se conseguiria levar algum deles
adiante. Em uma dessas tentativas, ele vai parar no alto da torre da
escola e, para sua surpresa, encontra Violet, também prestes a
pular.
Um ajuda o outro a sair dali, e essa dupla improvável se une para
fazer um trabalho de geografia: conhecer lugares incríveis do estado
onde moram. Ao lado de Finch, Violet para de contar os dias e
finalmente passa a vivê-los. O garoto, por sua vez, encontra alguém
com quem pode ser ele mesmo, e torce para que consiga se manter
desperto.

"Me apaixonei por Violet e Finch antes mesmo de se apaixonarem


um pelo outro. A jornada deles é adorável e inteligente e corajosa.
Vai partir seu coração e relembrar o que significa estar vivo." —
Jennifer E. Smith, autora de A probabilidade estatística do amor à
primeira vista

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Querido Evan Hansen
Emmich, Val
9788554513481
336 páginas

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Dos criadores do premiado musical da Broadway Dear Evan


Hansen, esta é uma história emocionante sobre solidão, luto,
saúde mental e amizades inesperadas.

Evan Hansen sempre teve muita dificuldade de fazer amigos. Para


mudar isso, decide seguir as recomendações de seu psicólogo e
escrever cartas encorajadoras para si mesmo, com esperança de
que seu último ano na escola seja um pouco melhor. O que não
esperava era que uma das cartas fosse parar nas mãos de Connor
Murphy, o aluno mais encrenqueiro da turma.
Quando Connor comete suicídio e sua família encontra a carta de
Evan, todos começam a pensar que os dois eram melhores amigos.
Sem conseguir explicar a situação, Evan acaba refém de uma
grande mentira. Ao mesmo tempo, graças a essa (falsa) amizade, o
garoto finalmente se aproxima de Zoe, a menina de seus sonhos, e
passa a ser notado no colégio. No fundo, Evan sabe que não está
fazendo a coisa certa, mas se está ajudando a família de Connor a
superar a perda, que mal pode ter?
Evan agora tem um propósito de vida. Até que a verdade ameaça vir
à tona, e ele precisa enfrentar seu maior inimigo: ele mesmo.

Best-seller do New York Times

"Mesmo no formato de livro, a história de Evan Hansen canta.


Leitura obrigatória, especialmente para quem já se sentiu invisível."
Becky Albertalli, autora de Com amor, Simon

"Querido Evan Hansen é uma poderosa reflexão sobre o luto, a


depressão e as várias formas como estamos presentes (ou não) na
vida daqueles que estão em nosso redor sem nem perceber."
David Arnold, autor de Mosquitolândia

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O príncipe
Cass, Kiera 9788580866827
72 páginas Compre agora e leia

Antes que trinta e cinco garotas fossem escolhidas para


participar da Seleção... Antes que Aspen partisse o coração de
America... Havia outra garota na vida do príncipe Maxon.
Conto inédito e gratuito, O Príncipe não só proporciona um
vislumbre dos pensamentos de Maxon nas semanas que antecedem
a Seleção, como também revela mais um pouco sobre a família real
e as dinâmicas internas do palácio. Você descobrirá como era a vida
do príncipe antes da competição, suas expectativas e inseguranças,
assim como suas primeiras impressões quando as trinta e cinco
garotas chegam ao palácio. É uma leitura indispensável a todos que
terminaram A Seleção e ficaram querendo mais! Ao final, contém os
dois primeiros capítulos de A Elite, segundo volume da trilogia.

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O guarda
Cass, Kiera 9788580869507
102 páginas Compre agora e leia

O guarda é o segundo conto que se passa no universo criado


por Kiera Cass, autora da trilogia A Seleção. Depois de
conhecermos os verdadeiros pensamentos e inquietações de
Maxon em O príncipe, agora temos um vislumbre das ideias e
emoções do jovem Aspen, ex-namorado de America, que vai
trabalhar como soldado no palácio durante o concurso.
Antes de ir para o palácio competir pelo coração do príncipe Maxon,
America Singer era completamente apaixonada por Aspen. Criado
como um Seis, ele nunca imaginou que acabaria se tornando um
dos soldados responsáveis por proteger a monarquia. Em O guarda,
a história é contada pelo seu ponto de vista, a partir do momento
que a Seleção é reduzida à Elite. Sua rotina é composta de
exercícios e tarefas variadas dentro da casa da família real — desde
cuidar da correspondência até combater os ataques rebeldes. Pela
primeira vez, o enfoque é o mundo paralelo dos funcionários do
palácio, suas dinâmicas e rede de relacionamentos, que America
nunca chegou a conhecer.
O guarda também está disponível em edição impressa, como parte
da antologia Contos da Seleção, que traz ainda O príncipe com final
estendido e bônus exclusivos (como uma entrevista com a autora e
informações inéditas sobre os personagens), além dos três
primeiros capítulos de A escolha, último livro da trilogia, que será
lançado em maio de 2014.
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Se não fosse por você, eu não estaria aqui
Vários autores 9788554517861
75 páginas Compre agora e leia

Se você pudesse mandar uma carta para si mesmo quando


adolescente, o que diria? Convidamos os participantes da
quarta edição da Flipop a fazer exatamente isso, e o resultado
você encontra nesta coletânea gratuita.

A adolescência é um período cheio de descobertas, mudanças e


escolhas — algumas sem grandes consequências, outras
absolutamente determinantes na nossa vida. Imagine poder
reencontrar quem você foi na adolescência e poder dar conselhos
(ou spoilers!) que só alguém que sabe como a história termina pode
dar.
A Editora Seguinte convidou os participantes da quarta edição do
Festival de Literatura Pop (Flipop) a escreverem uma carta com tudo
o que diriam para eles mesmos quando adolescentes. O resultado é
uma reunião de testemunhos honestos, ora repletos de humor, ora
de angústia, ora de alívio — mas sempre carregados de
sentimentos. Algumas mensagens trazem conselhos aparentemente
banais, como olhar para os dois lados antes de atravessar a rua,
outras pedem que nada seja feito de forma diferente. Seja como for,
essas vinte e seis cartas mostram que a adolescência é muito mais
do que só uma fase — é por ter passado por ela que chegamos aqui
hoje.
Com cartas de Adriel Bispo, Alba Milena, Alec Silva, Aryane Cararo,
Beatriz D'Oliveira, Bruna Vieira, Carol Christo, Clara Alves, Felipe
Castilho, Gabriel Mar, Giulia Paim, Iris Figueiredo, Jana Bianchi, Jim
Anotsu, Koda Gabriel, Leo Hwan, Lorena Pimenta, Luiza de Souza,
Mia Roman, Nanni Rios, Natalia Borges Polesso, Rebeca Kim,
Samuel Gomes, Thalita Rebouças, Tiago Valente e Vitor Martins.

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