Sumário
Introdução
1. Vá além do ruído dentro de sua cabeça
2. Descubra seu ritmo interior
3. Ancore-se na paz infinita
4. Aprenda a diferença entre saber e crer
5. Comece por você
6. Escolha a gratidão
7. Alivie o fardo em momentos difíceis
8. Liberte-se pelo perdão
9. Ame agora
10. Cultive o divino
11. Torne-se o eu universal por meio da bondade
12. Pratique, pratique e pratique
Sobre o autor
Créditos
Introdução
Ao longo dos anos, conheci muitas pessoas que estão em
uma jornada de autodescoberta. Algumas dedicam a vida a
encontrar a iluminação e vivem explorando ideias e técnicas
do mundo todo. Outras querem apenas se entender um pouco
melhor, crescer como indivíduos ou experimentar uma
sensação maior de plenitude e alegria em sua vida.
Viaje comigo durante parte de sua jornada e você poderá se
surpreender. Vamos nos afastar da esfera de teorias e opiniões
e nos aproximar de uma forma única de conhecimento. Iremos
para um lugar dentro de você que é livre das distrações do dia
a dia. Um lugar onde você sentirá clareza, plenitude e alegria
reais. Um lugar de paz interior. Nosso caminho nos levará
através da consciência plena e do coração pleno rumo à paz
plena. Quem quer que você seja, a paz está em você — o
autoconhecimento é o que lhe permite sentir essa paz, e este
livro vai mostrar como.
Acredito que há muita confusão intelectual quando o
assunto é se entender, mas o objetivo de adquirir
autoconhecimento não poderia ser mais simples: é sentir a
clareza renovadora, a plenitude interior e a alegria profunda e
incomensurável — e muitas outras maravilhas —, a começar
pelo universo de paz dentro de nós. Essa sensação de paz está
no cerne de quem realmente somos.
Para esclarecer: meu objetivo é ajudar você a desenvolver sua
compreensão de paz e do que a conexão com a paz interior
pode representar na sua vida, mas só você é capaz de fazer sua
jornada do ruído exterior para a paz interior. Ninguém pode
dar a paz a você; é algo que só você consegue descobrir, dentro
de você. Ao fazer isso, você passa a ter um novo entendimento
de si mesmo. Há muitas coisas que são automáticas em nossa
vida, coisas que nos acontecem facilmente, mas encontrar a
paz interior pode dar trabalho. Estar plenamente consciente
exige esforço. Como Einstein disse, “A sabedoria não resulta do
ensino, mas de uma vida toda buscando por ela”.
Com o desenrolar das histórias e ideias contidas neste livro,
espero que você adquira perspectivas inesperadas sobre algo
que todos temos em comum, algo que sinto que deveríamos
celebrar muito mais em nossa vida: nosso incrível espírito
humano. Também há um personagem extraordinário que
quero muito que você conheça. Mas logo falarei mais dessa
pessoa.
Muitas pessoas dizem que se sentem desafiadas pelo volume
crescente de ruído ao seu redor. Em nossas cidades lotadas e
nossas vidas movimentadas e digitalmente ampliadas, costuma
ser difícil encontrar tempo e espaço para a simplicidade
tranquila de existir. O “progresso” também está chegando cada
vez mais a áreas rurais, levando benefícios e oportunidades
necessárias, mas também novas demandas para indivíduos e
comunidades. É uma boa época para viver, em que a inovação
cria possibilidades maravilhosas, mas às vezes o barulho que
acompanha esse progresso pode ser uma distração indesejável.
Na verdade, o barulho lá fora não é nada comparado ao
barulho que muitas vezes criamos dentro de nossas mentes: os
problemas e questões que achamos impossíveis de resolver, as
ansiedades e dúvidas pessoais que não conseguimos aliviar, as
ambições e expectativas que parecemos incapazes de satisfazer.
Podemos sentir irritação, rancor e até raiva dos outros e ficar
desapontados com nós mesmos. Ou talvez nos sintamos
imobilizados pela falta de foco ou pela sensação de estarmos
sobrecarregados, pela confusão e pela procrastinação, ou pela
acrobacia mental que realizamos todos os dias na busca por
prazer e segurança. Neste livro, irei abordar o impacto que o
pensamento negativo causa em nós e apresentar uma forma de
chegar a uma noção mais profunda e imutável de nossa
identidade que vai além dos nossos pensamentos.
UM CAMINHO DIFERENTE
Como sei que minha estratégia funciona? Ela funcionou para
mim, e é por isso que tenho confiança para compartilhá-la
com você. Eu tinha sede e encontrei um poço, e minha sede
foi saciada. Existem outras estratégias? Com certeza. Por que
não as experimentei? Porque eu não tinha mais sede.
Você pode usar minha estratégia independentemente de suas
visões religiosas, éticas ou políticas (ou, aliás, sua
nacionalidade, classe, gênero, idade ou sexualidade). Ela não é
um substituto para aquilo em que você acredita, porque o
assunto aqui é saber, e não acreditar — uma diferença de
importância fundamental que irei explorar mais adiante. Saber
pode lhe proporcionar uma conexão muito profunda com o
que há de melhor no espírito humano e lhe permitir vivenciar
seu eu em todas as suas dimensões. Já com aquilo em que
acredita, cabe a você decidir como se relaciona.
Convido você a valorizar seu coração e confiar nele, e não
depender apenas de sua mente como guia. A mente molda
grande parte de nossa experiência cotidiana, e pode ser
incrivelmente útil entender como ela se comporta, seja para o
bem ou para o mal. É importante reconhecermos o efeito
positivo e negativo da mente em nossa vida, aproveitando
oportunidades para enriquecer nossas ideias e aprimorar nosso
intelecto. Muitas vezes, porém, nossas sociedades defendem a
mente em detrimento do coração. O cérebro não é capaz de
tudo. Por exemplo, acredito que, sozinha, nossa mente não
consegue dar uma resposta satisfatória à pergunta “Quem é
você?”. Minha mente nunca me levou ao lugar de paz interior
dentro de mim. Para funcionar direito, nossa mente depende
muito do que é colocado dentro dela, enquanto o coração se
baseia mais no dna de um ser humano.
Por falar em mente, tenho um pedido para você como leitor:
apenas aceite o que escrevo neste livro se sentir que for verdade
para você. Independentemente de seu intelecto ser cético ou
acolhedor à minha mensagem, abra-se também para o que seu
eu interior está dizendo. Dê uma chance a essa filosofia. Em
vez de lhe dizer o que pensar, os capítulos a seguir irão
apresentar algumas possibilidades a considerar. Não estou aqui
para convencer você com lógica; irei apenas compartilhar
experiências, visões e histórias que podem fornecer
perspectivas úteis. Palavras sinceras expressadas de maneira
clara podem agir como pontos de partida para a compreensão,
e ofereço as palavras neste livro como um caminho através de
ideias e muito mais — rumo ao mundo da experiência interior.
Por favor, pondere sobre o que digo com a mente, mas também
escute com o coração.
QUEM SOU EU?
Antes de avançarmos, devo falar um pouco sobre mim.
Nasci em Haridwar, na Índia, em 1957, e cresci perto de
Dehra Dun, nos sopés dos Himalaias indianos. A nascente do
rio Ganges brota nas montanhas no alto da cidade e é
considerada uma área de peregrinação sagrada pelos hindus.
Inclusive, Hari dwar significa “porta para deus”. Não é um lugar
muito grande, mas todo ano milhões de visitantes participam
de festivais sagrados lá. É algo incrível de ver.
Fui criado, portanto, em um lugar onde as pessoas levam a
religião muito a sério e expressam suas crenças de formas
poderosas e evocativas. Meu pai, Shri Hans Ji Maharaj, era um
orador ilustre sobre a paz e atraía multidões. Desde pequeno,
ele viajava para as montanhas — tendo depois visitado muitas
cidades grandes e pequenas — em busca de homens sagrados
que pudessem lhe proporcionar sabedoria. Ele se decepcionou
inúmeras vezes.
A revelação se deu quando ele conheceu Shri Swarupanand
Ji, um guru,* no que era o norte da Índia e depois da Partição
se tornou o Paquistão. Meu pai sentiu que finalmente havia
encontrado um verdadeiro professor — alguém com uma
compreensão profunda do espírito humano. Essa experiência o
transformou de verdade. Ele havia encontrado o que estava
buscando: uma compreensão profunda do eu e uma sensação
quase indescritível de paz interior. Eu o vi chorar quando
recordou a sensação de aprender com o homem a quem se
referia como “mestre”. Ele costumava citar um poeta indiano
do século xv Kabir, que havia passado por algo semelhante com
seu próprio professor:
Eu estava sendo arrastado por esse rio de escuridão — deste mundo, da sociedade
—, e então meu mestre me deu uma lamparina.
Ele me mostrou esse lugar lindo dentro de mim, e agora estou contente.
Meu pai e minha mãe por fim se fixaram em uma casa em
Dehra Dun, mas meu pai ainda trabalhava no centro que havia
fundado em Haridwar, que não ficava muito longe. Lá, ele
começou a compartilhar sua mensagem com quem quisesse
ouvir. Sua filosofia expressava uma tradição antiga que tinha
sido passada de professores a alunos ao longo dos séculos e, no
caso do meu pai, de Shri Swarupanand Ji, que escolhera meu
pai como sucessor. O fundamento da mensagem do meu pai
era que a paz que você busca não está esperando em algum
lugar do mundo; ela já está dentro de você — mas você deve
escolher se conectar com ela. Como você verá, a questão da
escolha é central na minha filosofia.
Meu pai se recusava a seguir a linha convencional sobre
quem tinha o direito de alcançar a sabedoria. A sociedade
indiana era marcada por soberba, desconfiança em relação a
estrangeiros e um sistema de castas brutal, mas meu pai via os
indivíduos como parte de uma família humana universal.
Qualquer que fosse sua raça, origem social ou gênero, você era
bem-vindo para se juntar a ele e escutar suas palavras. Lembro
que, em um evento, ele chamou um casal americano ao palco,
tornando-os convidados de honra e os sentando em cadeiras.
Era um desafio claro a todos que pensassem que não indianos
eram espiritualmente impuros e os mais reles dos reles.
Compartilho minhas opiniões sobre nossas conexões humanas
universais no capítulo 11.
Aprendi com meu pai sempre que pude, sentando-me
muitas vezes aos seus pés enquanto ele se dirigia a plateias de
seguidores e pessoas que buscavam conhecimento. Discursei
pela primeira vez em um de seus eventos quando eu tinha
quatro anos. Minha mensagem naquele dia era simples: a paz é
possível quando você começa por você mesmo. Sempre senti
essa verdade dentro de mim e, embora fosse muito jovem, me
pareceu completamente natural ficar de pé e compartilhar essa
ideia com as pessoas diante de mim.
Um dia, dois anos depois, eu estava brincando na rua com
meus irmãos quando um amigo da família veio até nós,
dizendo: “Seu pai quer ver todos vocês lá dentro. Agora”.
Pensamos: “Opa, o que será que fizemos?”. Quando entramos,
meu pai nos perguntou se gostaríamos de receber
Conhecimento. Foi essa a palavra que ele usou para descrever a
série de ideias e técnicas relacionadas ao autoconhecimento.
Sem parar para pensar, todos dissemos que sim.
Essa sessão com meu pai não durou muito, e foi só ao longo
dos anos seguintes que desenvolvi uma boa compreensão do
que ele havia me transmitido naquele dia, e que irei transmitir
para você. Percebi que eu havia começado a adquirir uma
perspectiva mais ampla sobre a vida, entendendo melhor que
não somos moldados apenas pelo que há fora de nós ou por
nossos pensamentos. Existe outra coisa acontecendo dentro
também — algo incrivelmente poderoso.
Eu também já contava com uma noção de mundo interior,
mas foi nesse momento em particular que comecei a ver como
o autoconhecimento era uma rota para a paz pessoal e que
praticá-lo possibilitava que eu me mantivesse centrado e
ancorado. Senti que esse Conhecimento estava me gerando
foco e confiança quando os outros pareciam inseguros de si.
Com o Conhecimento, não há necessidade de estar em
nenhum lugar nem pensar em mais nada. Não há necessidade
de uma consciência de nada além da doce delícia de
simplesmente existir. Comecei então a entender que a paz não
é um luxo em nossa vida; é uma necessidade.
Um dia, um pouco depois de aprender as técnicas de
autoconhecimento, eu estava sentado em nosso jardim em
Dehra Dun quando uma sensação extraordinária de paz se
instalou dentro de mim. Foi quando, pela primeira vez,
realmente entendi que a paz interior é mais do que uma série
de sentimentos passageiros e que sua essência não está
relacionada ao mundo exterior. Falarei mais sobre essa
experiência no capítulo 3.
DO GANGES A GLASTONBURY
Quando eu tinha oito anos e meio, meu pai faleceu. Como
você deve imaginar, foi um choque terrível para mim, minha
mãe, minha irmã, meus irmãos e toda a família. Deixou um
buraco imenso em nossas vidas e nas de todos os seus
seguidores.
Meu pai havia me mandado para uma escola católica romana
em Dehra Dun, a St. Joseph’s Academy, para que eu aprendesse
inglês. Ele tinha esperança de que um dia eu pudesse
compartilhar sua visão do autoconhecimento com pessoas do
exterior — com toda a humanidade, na verdade. Depois que
ele faleceu, meu propósito de vida ficou claro para mim: eu
tinha que dar continuidade ao trabalho dele, compartilhando a
mensagem de que a paz é possível, onde quer que as pessoas
escutassem, por todo o mundo.
Uma ambição bastante ousada para um menino, mas pareceu
óbvio que era o que eu precisava fazer. A única forma de
começar era me dirigindo aos seguidores do meu pai, então
reuni coragem suficiente para enfrentar as multidões sozinho e
logo estava falando por toda a Índia. Até hoje, fico admirado
com o caráter extraordinário do povo indiano. O país passou
por tanta coisa, tantas conquistas e desafios, mas sobreviveu
graças à resiliência do povo. Encontrei muitos indivíduos
incríveis em minhas viagens pela Índia.
Nos anos 1960, visitantes dos Estados Unidos e da Europa
chegaram a Dehra Dun, muitas vezes em busca de novas ideias
sobre a vida. Alguns começaram a ir para me ouvir. Trato do
meu primeiro encontro com esses visitantes estrangeiros neste
livro. Um grupo ouviu minha mensagem com atenção e,
depois de um tempo, eles disseram que queriam compartilhar
meus ensinamentos com as pessoas de seu país, e me
convidaram para ir à Inglaterra. Eu queria ir, mas, como tinha
apenas treze anos, os professores exigiam minha presença na
St. Joseph’s, e a viagem precisou ser marcada para as férias
escolares.
Poucos dias depois de chegar ao Reino Unido, em junho de
1971, me levaram de carro de Londres até o interior. No fim da
viagem, estava no Pyramid Stage em pleno festival de música
de Glastonbury. Era apenas o segundo Glastonbury, que agora
se tornou um evento famoso em todo o mundo. Naquela noite,
falei um pouco sobre o poder do autoconhecimento e da paz
pessoal para uma plateia bastante surpresa e barulhenta. A
mensagem pareceu fazer sentido para muitos. Minha chegada
ao Reino Unido e essa aparição no Glastonbury atraíram a
atenção da imprensa, e as pessoas começaram a me procurar.
Naquele ano, estive nos Estados Unidos pela primeira vez, e
o interesse começou a crescer por lá também. Eu pretendia
voltar para casa para o retorno das aulas, mas decidi ficar mais
um pouco. Lembro-me de ligar para minha mãe e dizer que
não planejava voltar. Na época eu estava em Boulder, no
Colorado. Contei que coisas maravilhosas estavam acontecendo
nos Estados Unidos. Que era este o verdadeiro propósito da
viagem: descobrir se as pessoas de fora estavam interessadas
nessa mensagem de paz. Na Índia, muita gente é terrivelmente
pobre, mas tem acesso aos tesouros do autoconhecimento. Será
que os povos relativamente ricos dos Estados Unidos e de
outros países sentiam a necessidade de criar uma conexão
melhor com seu eu? Logo ficou muito claro que as pessoas no
Ocidente tinham sim a mesma sede de autoconhecimento e paz
interior que os habitantes da minha terra.
Então, lá estava eu: treze anos de idade e muitos milhares de
quilômetros longe de casa, mas com uma sensação clara da
oportunidade diante de mim. E eu conhecia minha própria
mente. Depois de alguns argumentos persuasivos, minha mãe
concordou — relutante — que eu deveria ficar um pouco
mais. Nenhum de nós sabia na época, mas eu logo começaria
uma vida nova nos Estados Unidos, discursando para
multidões cada vez maiores tanto lá como em outros lugares.
E, em poucos anos, eu conheceria minha mulher, Marolyn, e
começaria uma família.
PROCURANDO NO LUGAR CERTO
Há muito tempo viajo pelo mundo levando minha
mensagem de paz pessoal. Quando sentimos essa paz dentro de
nós, começamos a influenciar aqueles ao nosso redor. É lindo
como a paz é contagiosa. Falei sobre isso em toda parte, desde
reuniões das Nações Unidas até prisões de segurança máxima,
de países que passaram por conflitos recentes (como África do
Sul, Sri Lanka, Colômbia, Timor-Leste e Costa do Marfim) a
auditórios e estádios em muitas outras nações. Conversei com
todo tipo de gente, desde líderes mundiais até ex-guerrilheiros,
de multidões de 500 mil e audiências televisivas de milhões a
pequenos grupos, e com muitas pessoas individualmente.
Agora estou falando com você por meio deste livro.
Aonde quer que eu vá, quero compartilhar essa mensagem
antiga de autoconhecimento e paz que me foi passada ao longo
dos anos, mas sempre procuro relacionar a sabedoria antiga ao
que está acontecendo hoje. Você verá que, embora eu esteja
preocupado com os impactos pessoais e sociais trazidos pelo
desenvolvimento industrial e tecnológico, também celebro os
benefícios da modernidade.
A tecnologia sem dúvida representa um papel significativo
na minha vida cotidiana. Pilotar, por exemplo, é importante
para mim. Quando eu era jovem, sempre pensava em aviões e
sonhava em poder voar. Queria muito estar entre as nuvens.
Depois que cheguei aos Estados Unidos, decidi estudar para me
tornar piloto. Desde então, pilotar me possibilita assumir o
controle das minhas viagens e chegar a lugares distantes para
compartilhar minha mensagem. Pilotar é uma parte
imensamente gratificante da minha vida.
Ao longo das décadas de viagens e discursos, vi um aumento
extraordinário nos padrões de vida mundiais. Nem todos se
beneficiaram disso, claro, como uma viagem à Índia (ou às
áreas mais pobres dos Estados Unidos) pode mostrar. Mas o
aumento na prosperidade material como um todo é
impressionante. No entanto, aonde quer que eu vá, parece não
haver um aumento correspondente no número de pessoas que
se sentem felizes com suas circunstâncias, em total sintonia
consigo mesmas, e com uma visão clara sobre seu propósito.
Muita gente me diz que sente que seu eu está ausente, mas não
está ausente de verdade — só estão procurando no lugar
errado.
Pode ser tentador sair por aí para encontrar o que estamos
buscando — e isso pode nos trazer ótimas experiências —, mas
a verdadeira plenitude só existe quando direcionamos nossa
consciência para dentro de nós. A paz é formada perfeitamente
em nosso interior a partir do momento em que somos criados,
mas podemos perder contato com ela quando encontramos as
distrações da vida. As pessoas procuram autoconhecimento e
paz em toda parte, mas não há por que ficar buscando quando
você já tem o que procura.
Precisamos sentir de verdade quem somos. E este é o
personagem extraordinário de que falei antes e que é central
nesse processo, a pessoa que você precisa conhecer melhor do
que todos: você. Acredito que você tem tudo de que precisa
dentro de você — todos os recursos necessários para se
conhecer de verdade. Clareza, contentamento e bondade estão
dentro de você. A escuridão está dentro de você, mas também a
luz. Mesmo quando você estiver triste, a alegria continua em
você. Esses sentimentos não vêm de nenhum outro lugar, são
parte de você, embora possa perdê-los de vista. Basicamente, o
que faço é oferecer um espelho para que você possa começar a
ver seu eu interior com clareza.
QUAL É A SUA HISTÓRIA?
Minha família demorou a ter uma televisão, e as emissoras
de rádio só ficavam no ar algumas horas por dia, mas nossa
casa era cheia de contadores de histórias. Há uma tradição
muito longa de contação de histórias na Índia, com professores
transmitindo histórias para estudantes, estudantes
compartilhando-as com os outros e assim por diante. Essa
fórmula oral fazia com que as narrativas pudessem refletir
preocupações e acontecimentos contemporâneos para que
sempre permanecessem relevantes. O antigo escriba indiano
sagrado Veda Viasa valorizava a tradição oral, mas acreditava
que certas histórias estavam se perdendo com o tempo, por
isso começou a escrevê-las. Ele agora é reverenciado como o
autor do épico sânscrito Mahabharata e é muitas vezes
creditado como autor ou compilador de outras coletâneas
famosas de textos como os Vedas e os Puranas. As histórias
orais e escritas mantinham todos em nossa casa entretidos,
mas também aprendíamos com elas. Como orador, compartilho
histórias que me tocaram ao longo dos anos — incluindo
narrativas do outro lado do mundo — e apresento algumas das
minhas favoritas neste livro.
Histórias tradicionais normalmente começam com “Era uma
vez”, mas a grande história que quero lhe contar começa um
pouco diferente: “Era esta vez em que você vive”. Você tem uma
história que está escrevendo desde que nasceu, e é importante
que permaneça no centro da ação. Você precisa saborear quem
você é. Se não tomar cuidado, todos os outros podem se tornar
os personagens principais do drama da sua vida — cônjuges,
familiares, amigos, colegas, celebridades, políticos, até
desconhecidos —, portanto é preciso colocar você no palco
central. “Não é egocentrismo?”, as pessoas me perguntam.
Muito pelo contrário — e vou dizer por que começar com você
mesmo é na verdade a melhor coisa a fazer pelos outros.
CONHECE A TI MESMO
Em algum momento da história humana, as pessoas
começaram a perceber que existe um nível de consciência
além do pensamento necessário para a sobrevivência do dia a
dia. Não se sabe exatamente quando essa compreensão surgiu.
O que sabemos é que sinais de autoconhecimento podem ser
traçados como um lindo fio que percorre muitas das maiores
culturas e civilizações, cada uma se adaptando das maneiras
que faziam sentido para elas.
Pense nas famosas palavras tantas vezes atribuídas ao filósofo
grego Sócrates: conhece a ti mesmo. Acredita-se que a mesma
frase estivesse escrita em pedra no Templo de Apolo em
Delfos. Alguns historiadores argumentam que os gregos podem
ter adotado essas palavras dos antigos egípcios. Diz-se que, no
templo interno de Luxor, no Egito, há uma inscrição que diz:
“Homem, conhece a ti mesmo, assim conhecerá os deuses”.
Adiante trataremos mais dos deuses. A questão é que a frase
não é “conheça sua história” nem “conheça sua cultura” nem
“conheça sua sociedade”. É extremamente precisa: “conheça
você mesmo”.
Você se conhece?
Quando faço essa pergunta, a maioria das pessoas apenas
sorri e diz algo como “talvez” ou “não sei direito”. Quem é
você? É uma pergunta simples que pode ser difícil de
responder, em parte porque tentamos responder com palavras
em vez de sentimentos. Palavras são um bom lugar para
começar, mas conhecer seu eu está mais relacionado ao que
sentimos do que a como nos definimos. Estou aqui para dizer
que, ao longo de muitos séculos, as pessoas experimentam a
plenitude que acompanha o verdadeiro autoconhecimento — e
você também pode experimentar.
Parte do meu trabalho é ajudar a equilibrar os efeitos de um
mundo que pode facilmente distrair você de quem você é.
Muitas pessoas irão dizer o que você não é; estou aqui para
ajudá-lo a saber o que você é. Muitas pessoas terão o maior
prazer em lhe dizer tudo que há de errado em você; estou aqui
para ajudá-lo a valorizar tudo que há de certo em você. Muitas
pessoas serão rápidas em dizer que você deveria ser mais assim
ou assado; estou aqui para dizer que você tem a perfeição
dentro de você. Ao longo do caminho, você conseguirá
responder sozinho a “Quem sou eu?”. E talvez até a “Por que
estou aqui?”.
Até hoje, minha mensagem começa com a verdade
fundamental de que a paz está dentro de cada um de nós, sem
exceção. Essa parece uma afirmação importante diante de tanta
confusão, cinismo, medo e desespero em nosso mundo. Você
verá que minha filosofia é simples, prática e fácil de aplicar.
Não envolve estudar por anos e anos — você tem o necessário
dentro de você agora. Mas o autoconhecimento só pode
começar de verdade quando você assume a responsabilidade
pelo seu bem-estar e decide explorar seu interior. Pela minha
experiência, a paz só é possível quando se começa pelo seu eu.
O filósofo grego Aristóteles dizia: “Conhecer a si mesmo é o
começo de toda sabedoria”. Do autoconhecimento e da paz
fluem sensações deliciosamente doces de alegria, clareza,
plenitude, amor, resiliência e muitas outras coisas — sensações
que podem ser desfrutadas por si mesmas e não precisam estar
vinculadas a nada nem a ninguém. Apenas permita que esse
pensamento fique dentro de você por um momento: você tem
um estoque vitalício de paz interior que não depende das
outras pessoas nem é definido por elas nem por nada dentro
de você. É seu e apenas seu. É absolutamente perfeito e vive
bem no seu coração. É para lá que estamos indo.
OUÇA O SOM SECRETO
O poeta indiano Kabir disse: “Se quiser a verdade, digo-lhe a
verdade: ouça o som secreto, o som real, que há dentro de
você”. O autoconhecimento é como música — quando você
começa a se entender, começa a ouvir os muitos belos sons que
essa vida pode tocar para você. É como se seus ouvidos fossem
se sintonizando com mais e mais frequências. Por fim, apesar
de todo o ruído, você se ouve. Torna-se um músico também,
produzindo melodias maravilhosas que deliciarão aqueles que
são capazes de ouvir. E é bem possível que você inspire
algumas harmonias. Mas, como qualquer músico, você deve
aprender seu instrumento e praticar, praticar, praticar.
Lembro-me de uma época, em Dehra Dun, em que as
pessoas faziam música em casa, por puro e simples prazer.
Pouquíssimos poderiam ser chamados de músicos de verdade,
mas eles tocavam e tocavam, muitas vezes enquanto as outras
pessoas e os animais da casa cuidavam da própria vida a seu
redor. Alguém às vezes tinha um dhapli (um tamborim), e
poderia haver um pequeno teclado como um harmônio e um
instrumento de uma corda chamado ektara. O som era
geralmente bem simples, mas era maravilhoso como os
músicos ficavam imersos na experiência de tocar.
Meu pai às vezes saía para escutar. “Shhh”, ele dizia. “Não
deixe que saibam que estou aqui, senão vão parar de tocar.” Ele
queria que vivessem aquele momento e se expressassem sem
pensar, sem se preocupar em tocar para os outros nem se
esforçar para ser tecnicamente corretos. Isso é muito parecido
com praticar o autoconhecimento: o foco não é a perfeição do
instrumento usado nem a reação da plateia à apresentação; é a
sensação experimentada pelo músico.
Imagine como a sensação de paz pode mudar a maneira
como você vive cada momento precioso. Imagine se todos ao
seu redor puderem adquirir essa conexão profunda com quem
são. Imagine se todos puderem ouvir e tocar a música do
autoconhecimento. Pense no impacto sobre os indivíduos, as
famílias, as comunidades, a política, a guerra, o nosso mundo.
Bem, vamos começar por uma pessoa de cada vez — no caso,
você.
Vamos lá.
* Na Índia, “gu” significa “trevas”, e “ru”, “luz”. Um guru, portanto, é
alguém que pode levá-lo das trevas para a luz. Você pode pensar nos gurus
como guias de vida. (N. A.)
1. Vá além do ruído dentro de sua cabeça
Nosso tempo é muito precioso — quem sabe quanto tempo
temos? A cada dia recebemos esse dom maravilhoso que é a
vida. A maior responsabilidade que temos com nós mesmos é
garantir que vivamos todos os momentos da melhor maneira
possível. Quando isso acontece, é como se a vida brotasse em
toda a sua glória. Mesmo nos períodos difíceis, podemos sentir
a alegria pura da própria vida. Mas, para aproveitar ao máximo
nosso tempo, devemos cuidar de nossa atenção, oferecendo-a
apenas ao que importa — àquilo de que realmente precisamos
e o que mais nos satisfaz. O restante é ruído.
Todos os dias, quero que meus objetivos sejam claros. O
objetivo de hoje é alegria. O objetivo de hoje é gentileza. O
objetivo de hoje é plenitude. O objetivo de hoje é amor. Acima
de tudo, o objetivo de hoje é viver em paz. Atividades
extracurriculares podem surgir — todas as coisas práticas ou
necessárias que entram em nossa vida —, mas nada deve me
distrair da prioridade de viver a vida ao máximo.
As pessoas sempre falam sobre a necessidade de concentrar
nossa atenção. Minha sugestão é que olhemos com mais
clareza quando estivermos olhando dentro e fora de nós.
Existem oportunidades incríveis a serem aproveitadas em
nosso mundo, mas, se estivermos envolvidos apenas com o que
está acontecendo “lá fora” e perdermos contato com o que
acontece dentro de nós, podemos perder nossa perspectiva e
começar a nos sentir desequilibrados.
Quando digo “dentro de nós”, estou me referindo à parte
mais profunda de quem somos. Penso nisso como o coração
em vez de como a mente. É muito fácil acabarmos perdendo
todo o nosso tempo no mundo inquieto da mente — a
província dos pensamentos, ideias, expectativas, projeções,
ansiedades, críticas e fantasias a respeito das coisas externas —
e então um dia nos perguntamos: “É apenas isso que existe? É
apenas isso que sou? Sou apenas um veículo para esses
pensamentos em fluxo constante?”. Essa sede por um sentido
pessoal de completude além do que acontece em nossa mente
transcende culturas.
Bom, será mesmo apenas isso que existe? Será mesmo apenas
isso que somos? Ou será que somos muito mais do que uma
mente dentro de um corpo? A resposta é que existe muito
mais — muito, muito, mas muito mais — na vida e em nós do
que aquilo que passa pela nossa cabeça. Inclusive, costuma ser
nossa mente que nos distrai de uma conexão mais profunda
com nosso eu. O desafio para muitas pessoas é que elas
crescem cercadas pelas distrações externas mas nunca são
ensinadas a se conectar com seu interior além do pensamento.
Sem essa conexão mais profunda, podemos sentir que uma
parte de nós está faltando — talvez a parte mais importante —,
mas não sabemos bem o que é ou onde encontrar. O que falta é
uma conexão com nossa sensação de paz interior, com o âmago
de quem somos. Quando estamos conectados com a paz, nossa
experiência de vida é enriquecida pela clareza, por uma
sensação nítida daquilo que realmente importa. Quando
iniciamos cada dia em um lugar de calma — em que
conhecemos nosso eu verdadeiro —, podemos sair para o
mundo lá fora concentrados no que mais queremos fazer, viver
e sentir.
Portanto, paz, plenitude e muitas outras maravilhas estão
disponíveis, mas precisamos verificar se estamos buscando no
lugar certo. Antes de chegarmos lá, pode ser útil entender um
pouco mais essa coisa chamada ruído.
A CORRERIA DA VIDA
Talvez você se identifique com esta cena: você acorda, abre
os olhos devagar, boceja e se espreguiça. E, imediatamente, eles
pulam em cima de você. Todos os pensamentos sobre o dia à
sua frente. Todos os objetivos que precisam ser cumpridos e os
planos que devem ser seguidos. Todas as expectativas e
opiniões da família, dos amigos e dos colegas. Todos os
problemas de casa ou do trabalho. Todas as preocupações sobre
coisas que aconteceram ontem ou podem acontecer amanhã. O
passado e o futuro se encontrando em uma cacofonia
completa.
É como se as muitas distrações de seu mundo estivessem
esperando pacientemente do lado da cama até você sair do
sono. E agora elas ganham vida. A sua vida. Na verdade, às
vezes as distrações são tão impacientes que acordam você mais
cedo. “Hora de acordar!”, elas gritam. “Precisamos ser
alimentadas!”
Ouço um coro de reclamações de alguns dos meus amigos:
“Há demandas demais!”
“Não tenho um minuto para mim!”
“Nunca para!”
É muito comum as pessoas falarem como se fossem servas
do corre-corre — da correria — da vida. É muito fácil
deixarmos as distrações definirem nossa agenda, e o tempo
parece derreter em pleno ar. Quando isso acontece, podemos
perder as bênçãos de nossos dias — o contentamento e a
alegria que existem para saborearmos. É assim que o ruído
pode prejudicar nossa experiência de vida.
AS MARAVILHAS E OS DESAFIOS DA TECNOLOGIA
Era para a tecnologia nos ajudar a resolver os problemas da
correria. Diziam que ela acabaria com as tarefas chatas e
demoradas e nos deixaria livres para fazer mais o que amamos.
Não foi bem o que aconteceu.
Eu gosto da tecnologia, portanto não tome isso como uma
sugestão para voltarmos a uma forma de vida menos avançada.
A invenção e a inovação fizeram coisas incríveis pela
humanidade ao longo da minha vida. O progresso tecnológico
ajudou a elevar os níveis de prosperidade, saúde e conforto
para milhões. Possibilitou que viajássemos mais longe, mais
rápido e com mais segurança do que nunca. Permitiu que
mantivéssemos contato com entes queridos que vivem a
muitos quilômetros de distância. Trouxe novos serviços,
informações e entretenimento para nossos lares. E espero que
traga muito mais, sobretudo para as pessoas mais pobres do
planeta.
Minha experiência pessoal de mudança tecnológica começou
quando meus pais compraram uma geladeira. Na época, a Índia
estava muito atrasada em termos de progresso técnico, então,
quando esse objeto caro chegou à nossa casa, ficamos todos
admirados. Ela foi instalada em um cômodo separado da
cozinha, e não sabíamos bem o que colocar lá dentro. Por um
tempo, abrigou apenas galões de água gelada, até alguém dizer:
“Ei, dá para armazenar as verduras e frutas!”. E nos mostraram
o que ela podia fazer.
Eu era cheio de curiosidade quando era criança, e queria
muito saber se a luz dentro da geladeira se apagava quando a
porta se fechava. Então entrei e fechei a porta. Cerca de dois
minutos depois, alguém veio e abriu. A pessoa ficou em
choque — havia uma coisa viva dentro da geladeira! Mas eu
tinha minha resposta.
Então chegou o telefone. Mas, em vez de digitar um número,
erguíamos o fone e a telefonista estava lá, esperando para nos
conectar. Se fosse uma chamada local, bastava dar o nome, e ela
nos colocava em contato.
Mais adiante, quando visitávamos Delhi, usávamos um
telefone para descobrir se um amigo da família, que tinha uma
das únicas tvs da cidade, ligaria seu aparelho naquela noite.
Sempre queríamos ir lá para assistir. Que jornada incrível
desde aquela época até os dias de hoje, quando o filme mais
recente está disponível no tablet ou no celular.
Podemos apreciar os benefícios da tecnologia e aceitar a
inovação, mas, junto com as maravilhas, vêm desafios.
Devemos ter cuidado para garantir que a tecnologia sempre
funcione a nosso favor. Quando sinto que a tecnologia está
começando a me dominar, eu não gosto. Quero manter o
controle e tomar as decisões que me afetam. Quero ser a
pessoa que desliga e liga a tecnologia.
VAI PASSAR
Às vezes acho surpreendente a conexão emocional que as
pessoas estabelecem com seus aparelhos. Eu estava no Camboja
alguns anos atrás fazendo um discurso para alguns alunos
excelentes. Em certo ponto, durante as perguntas, uma jovem
se levantou, parecendo aflita. “Assisti aos seus vídeos”, ela
disse, “e você disse que não deveríamos viver no passado,
deveríamos viver no presente…” Imediatamente comecei a
imaginar que ela devia ter passado por algo traumático, talvez a
morte dos pais, e já estava me sentindo grato por ela se abrir
comigo. Então ela disse: “Ontem perdi meu celular. E ainda
choro por isso e me sinto mal. O que posso fazer para ser feliz
de novo?”.
Eu não esperava por uma tragédia tão pequena, mas a jovem
parecia triste de verdade. Respondi algo assim: “Você nasceu
com um celular? Não. Você não pode julgar os momentos de
sua vida por um celular. Para viver, você precisa de um celular?
Sabe quanto tempo a civilização existiu antes de haver um
celular? Por milhares e milhares de anos, as pessoas não
tinham celulares. Então, todos eram tristes? Não. As coisas
vêm e vão. Sua alegria não pode estar ligada a essas coisas. Você
deve se preocupar? Sim. Deve ficar triste? Não.
“Quando o vento sopra muito forte, as árvores que não
sabem se curvar se quebram. Mas as que sabem balançar com o
vento ficam. É apenas uma tempestade; vai passar. Mas você
tem que estar acima disso. Você vai ficar bem.”
SEMPRE CONECTADOS
Consigo ver que o progresso tecnológico definitivamente
está transformando o mundo ao nosso redor de muitas formas,
e fico feliz com isso. É quando se trata do mundo dentro de
nós que meus sentimentos ficam um pouco mais complicados.
A tecnologia — sobretudo em comunicações — pode ser um
amplificador do ruído em nossa vida, um multiplicador das
distrações que disputam nossa atenção. Muitas pessoas relatam
que se sentem bombardeadas por e-mails, mensagens de texto,
notificações, postagens e tudo o mais. Só que também nos
preocupamos com as mensagens que ainda não recebemos e
com as pessoas que ainda não nos seguem.
Os humanos conseguem se adaptar muito depressa a novas
situações, mas parece que alguns de nós estão sendo levados
pela maré de inovação em vez de seguir seu próprio curso. A
tecnologia está aí para nos ajudar a manter contato com os
outros, mas, em vez disso, estamos perdendo contato com nós
mesmos. Às vezes parece que nossos aparelhos estão nos
puxando para baixo. É como se tivéssemos comprado um
cavalo para nos levar de um lugar a outro, mas acabamos
carregando o cavalo.
Quando sentimos as demandas da tecnologia nos chamando,
devemos nos perguntar: neste momento, me sinto livre ou
entreguei uma parte de mim a essa conectividade constante?
Dizem que é um mundo “sempre conectado” — será que não
pode ser bom para nós apertarmos o pause com mais
frequência?
Um problema é que diferentes formas de redes sociais
apresentam um fluxo contínuo de material novo. Isso pode ser
interessante e enriquecedor, mas, em vez de sermos
revigorados pelo que há de novo, acabamos sempre querendo o
que vem em seguida. Então ficamos ansiosos sobre talvez
perder algo importante. Há um acrônimo em inglês para esse
sentimento: fomo — fear of missing out, ou medo de ficar de
fora.
Vemos uma onda nova de tecnologia entrando em nossa
vida: inovações que podem fazer grandes coisas por nós, mas
com consequências que precisamos considerar com cuidado. A
inteligência artificial, a realidade aumentada, a realidade
virtual: existem muitas possibilidades fascinantes, mas
devemos garantir que a tecnologia ajude a melhorar nossa
realidade do dia a dia. Lembro-me de um comentário feito
pelo economista John Kenneth Galbraith: “A busca de avanços
técnicos complexos oferece uma pista sobre por que os Estados
Unidos são bons em engenhocas espaciais e ruins em questões
de pobreza”.
Às vezes me perguntam: “O que vai acontecer quando a
inteligência artificial chegar?”. Bom, você ainda será você. Eu
ainda serei eu. Os seres humanos ainda serão seres humanos.
Você pode achar divertido, mas sempre que precisam de
alguma manutenção, uso uma pedra afiada de 2,6 bilhões de
anos para soltar a parte de trás dos meus aparelhos digitais.
Algumas tecnologias retêm seu valor.
O grande escritor de ficção científica e acadêmico Isaac
Asimov disse: “O aspecto mais triste da vida de hoje é que a
ciência acumula conhecimento mais rápido do que a sociedade
acumula sabedoria”. Mas sempre temos a oportunidade de
mudar isso. E sempre precisamos nos lembrar de que existe
uma realidade mais profunda dentro de nós que é cheia de
sabedoria.
FALTA DELEITE
Nossa sensação de sobrecarga não está relacionada apenas à
tecnologia, claro. Às vezes as expectativas que depositam em
nós podem aumentar a pressão que sentimos. E há também
nossas próprias expectativas: os desejos e vontades não
realizados, aqueles quereres persistentes que não conseguimos
deixar de lado. Ambição é uma coisa boa, mas não quando nos
impede de aproveitar toda a riqueza da vida. Alguns de nós
vivem tão ocupados tentando ser bem-sucedidos que não têm
tempo para aproveitar o que já são. E alguns estão tão ocupados
tentando chegar a algum lugar que não veem onde estão agora.
Pode ser um mundo “sempre conectado” em nossa mente
também.
Toda geração tenta encontrar maneiras de reagir a esse
desejo insaciável de alguma outra coisa. O filósofo romano
Sêneca parecia entender o fomo. Em seu ensaio Sobre a
brevidade da vida, ele escreveu:
Os homens viajam por toda parte, vagando por praias estrangeiras e
pondo à prova por terra e mar sua inquietação, a qual sempre odeia o
que está ao redor. “Vamos agora para a Campânia”, dizem. Então, quando
ficam entediados com o luxo: “Vamos visitar áreas não cultivadas; vamos
explorar as florestas de Bruttium e Lucânia”. E, ainda assim, em meio à
selva, falta algum deleite […]. Eles fazem viagem após viagem e trocam
um espetáculo por outro. Como diz Lucrécio: “Assim, cada homem
sempre foge de si mesmo”. Mas para quê, se não tem como fugir de si
mesmo?
Falta algum deleite em meio à selva da vida moderna. O
mundo exterior apresenta oportunidades maravilhosas para
nos conectarmos com as pessoas e experimentarmos coisas
novas. A tecnologia de comunicações prolonga tudo isso
imensamente, o que é ótimo. Mas o que estamos mesmo
buscando está dentro de nós. Quero saber o seguinte: como é o
mundo das redes sociais dentro de você? Você segue você? Você
curte você? Você sabe como ser seu próprio amigo? Se não
conseguir ser amigo de si mesmo, tem como ser amigo de
alguém mais?
Às vezes basta soltar nosso aparelho e ficar com a pessoa que
é nossa fã número um: nós mesmos. Como o filósofo chinês
Lao-Tsé disse: “Conhecer os amigos é sinal de inteligência, mas
conhecer a si próprio é a verdadeira sabedoria”.
AGORA UMA BOA NOTÍCIA
Então, você quer encontrar um equilíbrio melhor entre o
que está no mundo lá fora e o que acontece dentro de você?
Reduzir as distrações em sua vida e encontrar contentamento?
Experimentar a doce sensação de ser feliz e completo no
momento? Diminuir o volume do ruído e se escutar? Isso é
tudo perfeitamente possível. Primeiro, porém, precisamos
reconhecer que o ruído no mundo exterior é irrelevante para a
sensação de paz interior. Em outras palavras, temos apenas que
lidar com o ruído dentro de nossa cabeça.
As pessoas tentam de tudo para escapar do barulho. Entram
embaixo das cobertas e cobrem as orelhas com travesseiros.
Escalam montanhas, entram em florestas, fogem. Sobem a
quase 10 mil metros de altitude e mergulham nas profundezas
sob as ondas. Vão a peregrinações e visitam retiros silenciosos
em cantos remotos. Frequentam templos ou igrejas ou
mesquitas ou shoppings ou bares ou bocas de fumo. Mas o
ruído ainda está lá. Vive dentro da cabeça delas, então não há
mais onde possa estar. Como disse o escritor americano Ralph
Waldo Emerson:
Por mais que viajemos o mundo em busca da beleza,
Devemos carregá-la conosco ou não a encontraremos.
Portanto, todo homem ou mulher sempre foge de seu eu —
mas de que adianta se não há como escapar? A menos que
encontremos a paz dentro nós, o ruído sempre nos encontrará.
Agora a boa notícia.
O ruído não está simplesmente acontecendo conosco;
estamos deixando que ele nos aconteça. Podemos escolher
quando desligar nossos aparelhos. Podemos escolher como
gerenciar nossa caixa de entrada mental. Podemos escolher a
quem dar ouvidos, com quem nos importar e a quem
responder.
Mencionei que as pessoas tentam escapar do ruído a quase 10
mil metros de altura. Permita-me levar você a essa altitude por
um momento. Como piloto, já estive em várias cabines e
pilotei diferentes tipos de aeronave. Há muita automação agora,
com computadores tomando grande parte das decisões. Na
verdade, com o avanço da tecnologia, os pilotos não cuidam
mais da aeronave, e sim da tecnologia que muitas vezes pilota a
aeronave por eles. Em última instância, porém, é um humano
que pilota o avião, não o computador, sobretudo em uma
emergência. Quando eu estava em treinamento, meus
instrutores viviam dizendo: “Se houver um problema com a
tecnologia, basta desligar tudo e fazer o que sempre fizemos —
pilotar o avião”.
É também o que precisamos fazer quando o ruído fica muito
alto em nossa vida: desligar as outras coisas e pilotar o próprio
eu. E fazemos isso por meio das nossas escolhas.
Um único momento de escolha positiva pode ser o começo
de uma jornada transformadora pelo autoconhecimento até a
calma interior, o foco, o contentamento e a paz. Seguimos em
direção à paz interior quando escolhemos — escolhemos —
também voltar nossa atenção para dentro. Quando estamos
plenamente conectados com nosso eu interior, o ruído deixa de
ser um intruso e passa a ser nosso amigo — mas um amigo
particularmente agitado, barulhento e animado que vemos
apenas quando nos convém.
É importante notar o “também” nessa frase, “também voltar
nossa atenção para dentro”. Não precisa ser uma escolha
absoluta entre tecnologia e paz interior, entre ruído e
contentamento, entre os mundos exterior e interior. Às vezes
as pessoas pressupõem que ou podem ter todos os benefícios
da modernidade ou a paz interior, como se uma coisa fosse
incompatível com a outra. Não temos que sacrificar uma pela
outra; precisamos apenas garantir que somos nós que estamos
decidindo para onde voltar nossa atenção.
A GANGUE DE LADRÕES
Vamos pôr em prática nossa estratégia de escolha positiva
em uma questão específica. Nosso tempo está sendo roubado
de nós: é o que muitas pessoas parecem sentir. É verdade?
Talvez algumas redes sociais sejam ladras de atenção (algumas
parecem ser projetadas dessa forma) e, no fundo, todos
sabemos que nossos desejos podem nos distrair do
contentamento.
Mas quem abre a porta para esses ladrões? Nós! Nós trazemos
o mundo exterior para dentro de nós. Muitas vezes, é
interessante e gratificante encontrar coisas, pessoas e
informações novas — afinal, isso é parte do aprendizado. Mas
precisamos nos manter no comando da entrada de nossa
mente e nosso coração. Quando deixamos que qualquer pessoa
ou coisa entre, podemos nos tornar cúmplices do roubo de
nosso próprio tempo. Outras pessoas podem ser catalisadoras,
mas nós somos a principal fonte de nossa agitação. Somos a
principal fonte de nossa confusão. Somos a principal fonte de
nosso descontentamento. Somos a principal fonte de nossa
distração. Mas também somos a principal fonte de todas as
qualidades imensamente positivas que podem nos levar de
volta a um caminho de alegria, clareza, plenitude, foco e paz
interior.
Quando estamos sempre buscando o que vem depois,
quando o que nos torna humanos começa a desaparecer,
quando começamos a depender tanto de algo que perdemos
contato com nós mesmos: é então que precisamos fechar por
um tempo a porta para o mundo exterior e nos reconectar com
o mundo interior. É lá que encontramos nossa verdadeira
liberdade.
Voltar ao comando de si dessa forma pode ser extremamente
libertador. Ajuda-nos a encontrar, compreender e ser
completamente uma pessoa que está vivendo e respirando no
aqui e agora. Sempre temos a opção de deixar o ruído do
mundo fazer o que faz e levar a atenção para dentro. Sou a
única pessoa que pode fazer isso por mim. Você é a única
pessoa que pode fazer isso por você. Ninguém mais tem acesso
a seu controle de volume.
Ruído gera mais ruído. As pessoas disfarçam o barulho com
mais barulho, e assim por diante, cada vez mais alto. Mas existe
uma coisa que vence o barulho: o silêncio dentro de você. Aqui
estão algumas palavras do poeta Rumi:
Você é canção, uma canção desejada.
Passa pelo ouvido até o centro,
Onde o céu está, onde venta,
Onde se sabe em silêncio.
Quando aquietamos o barulho da mente, o coração pode ser
ouvido. Então começamos a encontrar uma voz muito doce e
gentil: um chamado, não em palavras, mas em sensações. Que
sensação é essa? É a expressão interna de “eu sou, eu sou, eu
sou”. Essa canção do coração nos convida a estar à altura do
desafio, e o desafio não é nenhum outro além da vida em si.
CLAREZA E AÇÃO
Você pode estar pensando: tudo isso é muito bom, mas e
quando as coisas demandam minha atenção? Quando o barulho
da vida não pode ser ignorado? Sim, sempre há questões de
que realmente precisamos tratar, mas também há muitas
situações do dia a dia que entram em nossa imaginação
negativa e assumem uma importância maior do que a que de
fato têm. Lembre-se daquela menina cambojana e seu celular
perdido. Aquilo virou o mundo dela de cabeça para baixo, mas
era apenas um momento passageiro. Não era uma coisa grande,
mas juntas todas as tempestades em copo d’água podem
assumir o controle de nossa vida.
Quando passamos por dor e sofrimento, buscamos
explicações, mas buscar explicações também pode se tornar
um problema. Em vez de tentar explicar, a primeira coisa que
faço diante de um problema sério é me voltar para dentro e
reconhecer o fator mais importante: “Eu sou. Eu sou. Eu sou”.
Isso me dá a maior e melhor perspectiva a partir da qual posso
ver qualquer problema que surge. O autoconhecimento
começa com o entendimento de que a coisa mais importante
está absolutamente certa: você está vivo. Você está aqui,
respirando, com todas as possibilidades que isso oferece.
Parabéns!
Quando os problemas vierem — e eles virão —, sempre
podemos escolher vê-los pelo que são, encará-los abertamente,
ou desviar deles e seguir adiante. Como piloto, você pode estar
na cabine e tudo estar indo bem até encontrar uma
turbulência. Você não a vê — você a sente. Normalmente
começa devagar e, muitas vezes, acaba por conta própria. Mas
às vezes piora e você precisa agir. É hora de deixar essa altitude
e encontrar um ar melhor. Subir, descer, ir para a esquerda,
para a direita, tanto faz. O mesmo vale para tempestades, mas a
vantagem é que elas você consegue ver com antecedência.
Na nossa vida cotidiana, sempre haverá momentos
turbulentos e, às vezes, conseguimos até ver quando eles estão
vindo, mas muitas vezes não. É quando temos que escolher: ou
vou me preocupar com isso ou vou me dirigir a uma altitude
diferente. Qualquer opção é melhor do que voar pela
turbulência sem se decidir por uma nem por outra, porque
então passa a ser desagradável. Quando isso acontece,
esquecemos tudo menos a turbulência, em vez de desfrutar a
jornada. Esquecemos a vista bonita pela janela. E paramos de
conversar com os passageiros à nossa volta.
Em meio aos problemas, podemos nos inspirar na flor de
lótus. Ela consegue vicejar mesmo quando suas raízes estão na
água suja. Por mais imundo que seja o ambiente, a flor está
sempre linda. Quando nos sentimos cercados por desafios,
podemos escolher não deixar que a água suja de nossa situação
nos impeça de expressar a alegria de simplesmente existir.
E SE?
Remorsos do passado e ansiedade pelo futuro — é difícil
avançar na vida se nos permitirmos ficar presos entre esses
dois sentimentos. As memórias nos atormentam. As
preocupações sobre o amanhã nos assombram. E se isso não
tivesse acontecido? E se aquilo acontecer? Nossa imaginação
negativa nos aprisiona de duas formas. Algumas pessoas não
conseguem pensar no passado, por isso ficam buscando a
aparente segurança do futuro. Outras vivem em um mundo
fantástico de nostalgia sobre o dia de ontem porque têm medo
do amanhã. E se? E se? E se?
Esparta era uma das maiores cidades-estado da Grécia antiga
e seu povo era famoso por ser muito forte. Após invadir o sul
da Grécia e conquistar outras cidades importantes, o rei Filipe
ii da Macedônia voltou sua atenção a Esparta. O relato do
escritor grego Plutarco nos conta que Filipe enviou aos
espartanos uma mensagem perguntando se deveria ir como
amigo ou inimigo.
“Não venha”, eles responderam.
Então Filipe enviou outra mensagem: “Aconselho a se
entregarem o quanto antes, pois, se eu levar meu exército a
suas terras, destruirei suas fazendas, matarei seu povo e
arrasarei sua cidade”.
Mais uma vez, os espartanos responderam de forma lacônica:
“Se”.
Filipe nunca tentou conquistar Esparta.
E se? E se? E se? Talvez, em certo momento, devamos adotar
a estratégia espartana e enfrentar nosso medo. Também
podemos levar uma vida moldada por nossa imaginação
negativa e pelas ilusões disformes que ela projeta sobre a
realidade.
Vou contar uma história sobre ilusões e o efeito que elas têm
sobre nós.
Era uma vez uma rainha que tinha um colar deslumbrante.
Um dia, ela estava na sacada, secando o cabelo, quando tirou o
colar e o pendurou em um gancho. Um corvo estava passando,
viu a joia cintilando sob o sol, apanhou-a e saiu voando. Antes
que chegasse longe, o corvo derrubou o colar em uma árvore e
o objeto caiu em um dos galhos sobre o rio poluído.
Quando a rainha foi pegar o colar e não o encontrou, teve
um surto. “Quem o roubou?”, ela gritou. Mandou todos
procurarem, mas ninguém conseguiu encontrá-lo. Ela disse ao
rei: “Se eu não encontrar meu colar, nunca mais vou comer”.
O rei ficou profundamente preocupado e mandou o exército
e seus súditos em busca do colar, mas a joia não foi
encontrada. Por fim, o rei fez um anúncio: “Quem encontrar o
colar ficará com metade do meu reino”. Então as pessoas
realmente começaram a procurar.
No dia seguinte, um general passou pela árvore e pensou ver
o colar dentro do rio. Ele pulou imediatamente na água suja,
porque queria metade do reino. O ministro viu o general
pulando e também pensou ter visto o colar e saltou. O rei viu
seu general e o ministro procurando no rio e pulou. A essa
altura, mais soldados e aldeões tinham vindo, e todos entraram
na água também.
Finalmente, alguém com um pouco de sabedoria disse: “O
que vocês estão fazendo? O colar não está aí embaixo. Está lá
em cima na árvore. Vocês estão indo atrás do reflexo dele”.
Então o rei disse: “Como você encontrou o colar, metade do
meu reino é seu”. E a pessoa sábia disse: “Agradeço, mas sou
feliz como estou”.
Saltamos na direção de nossas ilusões. E a maior ilusão é que
as distrações de nossa vida são o que buscamos, mas a
realidade interior nos oferece mais maravilhas do que
poderíamos sonhar em ver. Sempre temos a possibilidade de
entrar em contato com essa realidade.
ESPELHO, ESPELHO MEU
Toda a nossa vida é vivida no hoje. Agora. Neste segundo. E
neste. E neste. Não podemos viver no ontem, não podemos
viver no amanhã. Além disso, é hoje que a mágica acontece.
Hoje é o momento em que conseguimos sentir paz, alegria e
amor de verdade. É onde deveríamos estar: presentes no
presente. Para viver o hoje, precisamos remover o ontem e o
amanhã e, então, o que nos resta é a realidade. O único fomo
com que deveríamos nos preocupar é o medo de ficar de fora
da realidade de estarmos vivos.
Hoje é um espelho. Ele nos reflete perfeitamente. É
verdadeiro e justo, e retrata não apenas nosso rosto, nosso
cabelo e nossas roupas, mas tudo ao nosso redor. Reflete nossa
clareza ou confusão. Reflete nossa confiança ou incerteza.
Reflete nossa bondade ou raiva.
Se você estivesse diante de um espelho, o que veria? Quem
você veria? O que seu reflexo representa para você? Você está
se vendo com seus próprios olhos? Vê que sua aparência
mudou ao longo dos anos, mas consegue sentir que algo
dentro de você nunca muda?
NO CENTRO DO SEU MUNDO
Nascemos com paz no coração e ela está sempre dentro de
nós, no centro de nosso mundo. Apesar das dificuldades e
distrações, apesar dos nossos problemas e confusões, a paz é
possível dentro de todos.
O que quer que aconteça em nossa vida, sempre há essa
oportunidade de reunir todos os elementos que nos tornam
inteiros. Quando nossa vida exterior se torna mais
movimentada e exigente, podemos perder de vista o que mais
importa. Mas tudo fora de nós vem e vai, está apenas de
passagem. Se você tirar o ruído de sua vida, a única coisa que
sobra é você. Você — no fundo do seu coração — é a constante.
Existem caminhos diferentes que nos levam à paz, mas
apenas uma direção: para dentro. Algumas pessoas passam a
vida inteira em uma busca espiritual perpétua, indo visitar
todos os cantos do que existe lá fora na esperança de que isso
lhes dê a grande resposta que está aqui dentro. Meu conselho é
parar de procurar. A paz não é uma ideia. Não é uma teoria.
Não é uma fórmula. Não é algo a ser descoberto numa
passagem escrita em um livro antigo, escondido em uma
prateleira secreta em um edifício estranho num lugar obscuro
no alto de uma montanha envolta por névoa. A paz está nas
pessoas, não nas coisas. Está em você. E está aí para ser sentida,
tocada, vivenciada, apreciada e celebrada. O poeta indiano
Kabir diz:
Fique em silêncio na sua mente, em silêncio em seus sentidos e também
em silêncio em seu corpo. Então, quando tudo estiver em silêncio, não
faça nada. Nesse estado, a verdade se revelará a você.
O processo de atingir o autoconhecimento e revelar a paz
interior é simples, mas não necessariamente fácil. Alguns
podem adquirir clareza em um instante; outros podem tentar a
vida toda. Nas páginas a seguir, vou explorar mais o que
envolve encontrar a paz e os tesouros maravilhosos que ela
pode trazer. Mas antes devemos pensar por que tudo isso
importa tanto. E o que é essa tal de vida, afinal?
2. Descubra seu ritmo interior
Existe um poder que percorre o universo há bilhões de anos.
Estava lá antes de nós e estará lá depois. Permeia todos os
átomos e deu à luz algo maravilhoso chamado Natureza, o que
inclui tudo que os humanos criam.
Tudo que vemos, tocamos, ouvimos, cheiramos e
degustamos é uma expressão desse poder. Ele está nas
montanhas e nos vales, e no fundo das cavernas subterrâneas.
Está nas florestas e selvas, e em todos os grãos de areia dos
desertos e praias. Está nos vastos oceanos, nos lagos e lagoas, e
nos rios estrondosos, nas cachoeiras e nos riachos calmos. Está
na chuva, na névoa e na neblina, no gelo e na neve, em todos
os raios de sol e todas as rajadas de vento. E está em todas as
cidades, grandes e pequenas, nas aldeias e nos lares. Está em
tudo que respiramos, comemos e bebemos. Está dentro de nós
e ao nosso redor — está em todos os lugares.
É assim que entendemos a força vital que conecta todos os
seres vivos. Algumas pessoas chamam esse poder de Deus;
outras podem usar um nome diferente. Para mim, não faz
diferença qual palavra associamos a esse poder; ele
simplesmente existe.
O MILAGRE QUE É VOCÊ
O poder se manifesta de muitas formas, da poeira cósmica —
os elementos básicos de nosso universo — às inúmeras
espécies, todas evoluindo, se reproduzindo, se adaptando.
Imagine a escala de nossa própria transformação, de
organismos unicelulares no oceano a criaturas caminhando
sobre a terra até andar na Lua.
Por um momento, tente imaginar todas as coisas que
existem na Terra. Imagine a escala e a amplitude dessa vida ao
longo dos muitos milhões de anos. Pense na variedade incrível
de animais e plantas que já viveram. Estima-se que existam
mais árvores neste planeta agora do que estrelas em nossa
galáxia — mais de 3 trilhões, segundo um estudo publicado na
revista Nature. Isso apenas hoje. Pense nos trilhões e trilhões e
trilhões de árvores que já existiram e se foram desde que a
Terra tomou forma.
Pense nas rosas silvestres que existiram e se foram, nos
insetos que existiram e se foram, nas montanhas e nas ondas
que existiram e se foram, nas pessoas que existiram e se foram.
Pense na escala desse corpo de criação que viveu antes de nós e
entenda que tudo isso levou a você — a este momento de sua
presença aqui como uma expressão viva do poder universal.
Essa energia que reverbera pelo universo chega até você em
sua respiração, possibilitando que você exista. Aqui está você,
surfando nessa onda de criatividade incrível. Este momento
está se formando há bilhões de anos.
Você consegue se sentir dentro do grande fluxo de energia
que começou lá atrás e vai continuar até sabe-se lá quando?
Você é parte do ritmo pulsante da Natureza que dá vida, tira
vida, dá vida, tira vida. Uma semente cai e uma árvore vai
crescer. Outra semente cai e se tornará alimento. Outra
semente cai e vai apodrecer. Aprecie por um momento a bela
indiferença da Natureza a tudo menos aos atos irrefreáveis de
criação e morte.
Em algum lugar, agora, estrelas estão explodindo com uma
força inimaginável. Aqui, na Terra, pessoas estão nascendo. E
existe você, neste universo em constante expansão, em
constante mudança — vivenciando a perfeição de existir.
VOCÊ É UMA HISTÓRIA DE SUCESSO AMBULANTE
O poder do universo abriu por um momento o passado e o
futuro para criar o agora — essa fatia estreita de tempo em que
todas as ações acontecem. É nela que existimos. É nela que
tudo existe. Que problema ou expectativa poderia ser tão
importante em nossa vida a ponto de nos distrair de tal
maneira que nos esquecemos de aproveitar a beleza impecável
do agora?
Toda vez que você vê uma árvore, uma flor, uma folha de
grama — é o que deu certo. Sobreviveu à infância, cresceu,
brotou, vive. E você também é prova desse milagre chamado
vida. Você é uma história de sucesso ambulante. Que coisa
incrível é o ser humano. Devemos nos celebrar!
Dizem que somos apenas os acidentes ou consequências da
evolução. Afinal, somos 99% feitos de oxigênio, hidrogênio,
carbono, cálcio, nitrogênio e fósforo. Se misturarmos esses
elementos em uma garrafa, acrescentarmos 0,85% de mais
potássio, enxofre, sódio, cloro e magnésio, e então
adicionarmos os últimos 0,15% de elementos menores, daria
um ser humano? Bom, essa pode ser a descrição de nosso
corpo, mas não somos nada além disso? Você poderia se
apaixonar pelo conteúdo de uma garrafa? Consegue falar com
essa garrafa sobre beleza e família e bondade? Será que ela
poderia apreciar a maravilha da existência?
Somos muito mais do que a soma de nossos elementos
físicos, sobretudo porque conseguimos nos conectar
conscientemente com nosso eu e todos os seres vivos ao nosso
redor. Todo momento nos oferece a oportunidade de entender
e expressar nossa gratidão pela vida. Se escolhemos aproveitar
essa oportunidade é outra questão.
O RITMO DIVINO DE NOSSA RESPIRAÇÃO
Os seres humanos que buscam um milagre para explicar
nosso propósito esquecem que esse milagre acontece todos os
dias em sua vida: eles respiram. Nascemos, e o drama humano
se desenrola ao nosso redor e dentro de nós. A cada respiração,
temos a oportunidade de escolher nossa função e representar
nosso papel, escrever a história de nossa vida.
Existe muito ruído no mundo, mas também existe uma
canção sendo entoada: a canção constante da inspiração e da
expiração. Existem muitos ritmos no mundo, e eles costumam
estar fora de sintonia entre si, mas existe um ritmo que está
em perfeita sintonia com você: o ritmo constante da inspiração
e da expiração. Cada sopro que passa por nós é uma bênção,
entrando e saindo.
No dia em que você nasceu, todos na sala estavam
concentrados em apenas uma coisa, e não era se você era
menino ou menina. Apenas uma coisa: você está respirando?
Se isso não acontecer, os médicos vão fazer de tudo para
garantir que o sopro da vida entre em você. Como é
reconfortante para uma mãe ouvir a respiração do bebê. Como
é reconfortante que o ritmo da respiração de seu bebê sussurre
de novo e de novo: “Está tudo bem, está tudo bem, está tudo
bem”.
Na outra ponta da jornada, quando você está de volta ao
hospital, como sabem se você partiu? Verificam a respiração.
Há também uma máquina incrível que diz se você está vivo ou
não. Então, o que acontece se a máquina declarar que você não
está mais vivo, mas conseguirem ver que você ainda está
respirando? A médica vai bater em você ou na máquina? Bom,
ela não vai vir até você para avisar: “Você morreu”. Respiração
é vida.
Aqui vai um dístico do poeta e santo hindu Tulsidas:
Este corpo é o barco para atravessar o oceano de confusão. O ir e vir da respiração
é minha bênção.
Na minha imaginação, me vejo nesse oceano, içando minha
vela para fazer a travessia. Eu escolho içar a vela. As ondas são as
ondas do bem e do mal, do certo e do errado, de tudo que a
mudança nos traz. Existem as ondas de amor e repulsa, de
esperança e decepção, de remorso e ansiedade. Devemos
velejar através de tudo isso, e tudo de que precisamos para
cumprir nossa jornada já está dentro de nós. Bastar levantar as
velas e encontrar o vento que esteja soprando para você,
pronto para levar seu barco pelas águas turbulentas até os
mares tranquilos, os mares da clareza.
Em nossa vida, nos perdemos no mar da confusão quando
nos deixamos influenciar, para usar um termo hindu, pela
“maia” — a ilusão de que o transitório que existe no mundo
exterior e dentro do nosso cérebro é a verdadeira realidade.
Mas, em última instância, nossa realidade está no fundo de
nós. Sabedoria é esse conhecimento.
O louva-a-deus-flor é um inseto que consegue assumir a
forma da planta em que está pousado. Outro inseto que passe
por perto vê uma flor, não um predador perigoso. No
momento da constatação, quando o louva-a-deus se move e se
revela, a ficha da presa cai. Mas com que frequência nós vemos
o que a vida de fato é? Mesmo se entrevirmos a verdade,
simplesmente retornamos à ilusão — como o inseto que vê
apenas uma flor? Quanto tempo de nossa vida passamos
acreditando na “maia”? No entanto, o ir e vir da respiração é a
bênção que nos aponta para a realidade — a cada inspiração e
expiração.
Tudo indica que as pessoas sentem há muito tempo uma
relação entre a respiração e a sensação de nosso eu interior —
algo mais do que nossos elementos físicos. Por exemplo, a
palavra hebraica “ruah” também significa “espírito”,
“respiração” e “vento”, e aparece várias vezes no Velho
Testamento. Podemos encontrar outras palavras que combinam
esses e outros significados parecidos em outras línguas e em
obras religiosas. Um exemplo em particular — e a evolução de
seu significado — nos diz algo significativo sobre como
podemos perder de vista o que é mais importante. As formas
mais antigas do termo “psique” eram originalmente uma fusão
das palavras que significavam “vida” e “respiração”, mas
“psique” também passou a significar “alma, espírito e essência”.
Recentemente, porém, o termo “psique” foi associado à mente
— pense em “psicologia” — e poucos agora o associam à
respiração. Do mesmo modo, hoje damos muita atenção ao
nosso pensamento e nos esquecemos facilmente da respiração.
Podemos acabar optando pela complexidade de nossa mente e
negligenciando a simplicidade vital de nossa respiração.
CELEBRE CADA RESPIRAÇÃO
A chegada da respiração em nossa vida não é condicional.
Dia após dia ela vem a nós sem marcar hora, sem julgar. Vem
quando fomos bons e maus. Vem quando não pensamos nela e
quando pensamos. Não há nada mais valioso. Nenhum
dinheiro pode comprar a capacidade de respirar, portanto isso
não nos torna ricos? Estamos em posse de algo inestimável.
O dom da respiração: devemos aceitá-lo, entendê-lo, estimá-
lo. E devemos também reconhecer quando o ruído da vida —
especialmente todos aqueles pensamentos que voam ao redor
da nossa cabeça — nos distrai da beleza do ritmo da vida,
entrando e saindo. Por exemplo, o remorso e a ansiedade
podem nublar nossa clareza. O que é clareza? É a compreensão
clara de como somos abençoados pela existência.
O oposto de clareza é confusão, e uma das fontes mais
potentes de confusão é a preocupação. Vamos pensar na
linguagem de novo. A raiz histórica da palavra “worry”, em
inglês, vem da palavra do inglês antigo “wyrgan”, que
significava “estrangular”. Mais adiante, o sentido evoluiu para
“apanhar pela garganta e dilacerar”, como lobos que worry —
estrangulam — presas. O medo nos pega pela garganta — esse
ponto no corpo em que o ar flui para dentro de nós. Podemos
nos preocupar a ponto de perder a alegria de viver quando
deveríamos estar celebrando essa vida a cada respiração. Traga
clareza para dentro — e, mais uma vez, começaremos a abrir
os braços para a vida, assim como ela faz conosco.
COMECE FAZENDO PEDIDOS
Existem aqueles entre nós que valorizam cada momento mas
se deixam distrair facilmente pelo medo, e existem aqueles que
mal notam que estão respirando. Nesse caso, a existência se
torna uma suposição automática. A vida foi delegada ao piloto
automático. Quando você perde contato consigo mesmo, perde
contato com a realidade.
Muitas vezes, é preciso uma ameaça mortal para tirar nossa
atenção da preciosidade da vida. Diga a uma pessoa que ela só
viverá mais uma semana e, de repente, o valor que ela dá a
cada respiração aumenta. Em vez de esperar uma crise para
apreciar o dom, talvez devêssemos seguir o conselho do
imperador e filósofo romano Marco Aurélio: “Faça tudo como
se fosse a última coisa que você estivesse fazendo nesta vida”.
Pense na história de Aladim e sua lâmpada. Quando ele
esfrega a lâmpada, um gênio poderoso vem e lhe concede
desejos. Imagine que eu lhe desse a lâmpada do Aladim e
dissesse: “Por duas horas, essa lâmpada é sua. Fique à vontade:
você pode desejar o que quiser durante essas duas horas. Mas,
depois, a lâmpada é minha”. O que você faria? Pensaria: “Ah, só
posso ter a lâmpada por duas horas, que triste. Se ao menos eu
pudesse ter a lâmpada por duas horas e meia, poderia fazer
muito mais. Ou três horas. E seria melhor terminar aquela
outra coisa que tenho para fazer antes de começar a fazer
pedidos. Para ser sincero, não é a melhor hora para eu ficar
com a lâmpada. Posso ficar com a lâmpada na próxima quarta-
feira em vez de hoje?”.
A lâmpada é a sua vida. Pare de perder o tempo precioso e
comece a esfregar essa lâmpada. Faça seus pedidos, um depois
do outro. Aproveite a oportunidade da vida e mantenha esse
gênio o mais ocupado possível.
Aqui vai uma história sobre aproveitar oportunidades. Era
uma vez um homem que ganhava a vida vendendo ferro-velho.
Ele era muito, mas muito bom nisso, mas era um miserável.
Ele era tão miserável que tinha vendido seus próprios
pertences de metal e os substituído por outros mais
vagabundos de madeira, pedra e papel. Não havia nada de
metal na casa dele.
Até que um dia um homem apareceu à sua porta e disse:
“Está vendo essa pedra? Ela vai transformar qualquer sucata
em ouro. Você é livre para usá-la como quiser, mas voltarei em
uma semana para buscá-la”.
O vendedor se lembrou de que tinha vendido tudo que era
de metal em sua casa e que precisava comprar mais. Então,
assim que o homem saiu, ligou para o mercado e perguntou o
preço da sucata e o do ouro. O ouro era muito mais valioso
que o metal, claro, mas ele achou o preço da sucata alto
demais. “Hmmm”, ele pensou, “tenho a semana toda: vou
esperar.”
E a semana inteira ele esperou. Toda vez que ligava e
perguntava o preço da sucata, era alto demais para ele. Mesmo
quando o preço começou a cair, ele achou que ainda era
demais. Dia após dia ele adiou comprar o metal básico de que
precisava. Ele se recusava a pagar aquela quantia por ferro-
velho. Então, exatamente uma semana depois, o homem
apareceu à sua porta.
“Vim buscar minha pedra”, ele disse.
O vendedor ficou em choque: ele tinha perdido a noção do
tempo e não usara a pedra nenhuma vez. Em desespero, correu
pela casa em busca de objetos de metal, mas tudo que pegava
era de madeira, pedra ou papel. De repente, o homem apareceu
ao seu lado e tirou a pedra de suas mãos.
“Acabou o tempo”, ele disse.
ENTRE DUAS PAREDES
O número 25 550 — você sabe o que ele representa? É a
quantidade de dias que teríamos se vivêssemos setenta anos.
Não é tanto assim, é? Se você vivesse até os cem, seriam apenas
36 500. Isso faz a gente refletir, não faz?
Agora precisamos fazer outra conta: subtraia todos os dias
que já viveu. Como está sua contagem atual? (Fiz o meu
cálculo e decidi parar.)
Mesmo que as coisas corram como o planejado e você leve
uma vida longa, o tempo é precioso. E também precisamos
levar em consideração o fator da incerteza, pois ninguém sabe
ao certo quanto crédito temos no banco da vida.
Sabemos que houve um dia em que você chegou a este
mundo e haverá outro em que você partirá. Isso você não pode
mudar, mas em todos os dias entre esses dois pontos você pode
mudar o que sente e o que vivencia neste mundo. É assim que
se vive plenamente. Entenda que, todo dia, cabe a você
aproveitar o tempo que tem. (E tentar não reclamar demais dos
impostos.)
Aqui vai uma forma de pensar na sua existência: você
chegou à vida por uma porta em uma parede e vai sair por
uma porta em outra. Algumas pessoas são fascinadas pelo que
há do outro lado da segunda parede; eu sou fascinado pelo que
há entre as paredes.
Você pode pedir às pessoas do outro lado para descreverem
como é, mas — pela minha experiência, ao menos — ninguém
responde. Nem mesmo Houdini, o grande escapologista que
havia prometido à esposa que enviaria uma mensagem
codificada do além, foi capaz de escapar do caráter definitivo
da morte.
E o que acontece na ausência de comunicação desse lado da
segunda parede? Especulamos: “O além é assim” ou “O Paraíso
é assado”… Então, tentamos criar imagens de algo que está
além de nossa imaginação.
Não sabemos se a existência é possível depois dessa parede,
mas de uma coisa temos certeza: estamos aqui agora, com uma
chance de cumprir qualquer missão que nos pareça
importante. Para mim, essa missão é simples: quero encher
minha vida de alegria e compartilhar minha mensagem de que
a paz é possível em todo o mundo.
Nossa vida é um longo hoje, não um longo ontem nem
amanhã. O momento presente dura 25 550 dias — ou seja lá
com quantos dias cada um de nós é abençoado. Podemos
aprender com o passado, mas não temos como viver nele.
Podemos imaginar o amanhã, mas não temos como viver nele.
O único momento que realmente podemos vivenciar é o agora.
O agora vem uma respiração de cada vez. Nossa vida é
mensurada por nossas respirações.
Muitas mudanças irão acontecer com cada um de nós entre
passar pela primeira parede e chegar à segunda. O que quer
que aconteça — de bom ou de mau — pode nos ajudar se
continuarmos a reconhecer que o tempo é valiosíssimo. Talvez
o maior sucesso possível seja viver cada momento o mais
plenamente possível, mesmo quando enfrentamos problemas.
O poeta romano Horácio captou esse sentimento na frase carpe
diem. Literalmente significa “colha o dia”, mas é expressada
com mais frequência como “aproveite o dia”. Gosto das duas
expressões, mas “colha” também me sugere a linda ideia de
que o dia de hoje é uma flor que está desabrochando pronta
para nos deliciar. Isso me faz lembrar os famosos versos do
poeta britânico Robert Herrick:
Colhei enquanto podeis vossos botões de rosa,
O tempo passa correndo;
E essa flor que hoje sorri cheirosa
Amanhã estará morrendo.
Há um belo fio de autoconhecimento tenuemente costurado
na história, expressado em palavras que ressoam 350 anos
depois.
DEIXE A VIDA FLORESCER
Às vezes, nos distraímos pensando no amanhã e no ontem e
não colhemos o momento. Em outras, podemos sentir que o
hoje nos oferece muito pouco — que não há belos botões de
rosa para colher. Muitas pessoas vivem nesse espírito de
descontentamento.
Embora em alguns momentos a vida possa parecer um
deserto árido, as sementes necessárias para criar um jardim
magnífico estão lá, esperando na terra pelas condições
adequadas para crescer. Elas estavam em nós desde o momento
em que nascemos. Nossa função é regar, regar, regar a terra e
deixar entrar a luz da claridade para dar a essas sementes
aquilo de que elas precisam para florescer. E, quando fizermos
isso, o deserto florescerá e irá se encher de todas as cores
imagináveis. A paz quer se mostrar. A paz quer que você saiba
que ela está lá. A paz quer florescer.
Sempre fico impressionado com a resiliência e a paciência
dessas sementes dentro de nós. Elas esperam uma vida inteira
pela chegada da água e da luz, conservando o potencial de
florir. “Estou pronta”, elas dizem, “para quando vierem a chuva
e o sol.” E é disso que precisamos nos lembrar: por mais que
sintamos que a vida é um deserto, sempre temos esse potencial
para florescer.
APRENDENDO COM AS ÁRVORES
Tudo na natureza criou um espaço para si e uma relação com
o que há ao redor. Tudo tem seu propósito e tenta cumpri-lo.
Mas às vezes parecemos esquecer o nosso propósito e o nosso
potencial de florir.
Talvez tenhamos algo a aprender com as árvores. Você sabia
que pesquisas científicas recentes sugerem que algumas
árvores têm um “batimento cardíaco”? Elas movimentam os
galhos para cima e para baixo à noite, criando um pulso lento
de água que flui pelo seu corpo. Elas são grandes estrategistas
de sobrevivência, assim como nós. Descobrem o que precisam
fazer para sua espécie se desenvolver, acondicionando suas
sementes de maneira que prosperem. Elas estão fazendo esse
trabalho há muitos anos, o que é o motivo pelo qual existem
mais de 3 trilhões delas (embora alguns de nossa espécie
estejam reduzindo a população das árvores com fins sórdidos).
As árvores se estruturam para tolerar o ambiente em que
estão, e com isso poderem continuar sendo árvores vitoriosas.
Vi lugares nas montanhas onde existia uma pequena fenda na
rocha que parecia ser o lugar mais improvável para uma árvore
crescer, mas uma havia crescido. Bem ali. Encontrou o que
estava buscando e aproveitou a oportunidade.
Quaisquer que sejam nossas circunstâncias, qualquer que
seja nosso ambiente, precisamos encontrar uma forma de
deixar nossa natureza interior se expressar plenamente.
Nenhuma oportunidade de fazer isso deve ser ignorada ou
abandonada; nenhuma oportunidade deve ser adiada até
amanhã. Mesmo quando o chão ao nosso redor parecer estéril,
há um mundo incrível dentro de nós que é cheio de potencial
fértil. Se conseguirmos começar a trazer a luz da clareza e a
água da compreensão para dentro de nossa vida, nosso deserto
irá florescer.
COMPLETO DESPERTAR
Por que temos tanta dificuldade para deixar nossa vida
florescer? Por que o ruído silencia a música da vida tantas e
tantas vezes? Porque acabamos nos esquecendo do que é
importante. A jornada rumo à paz começa com a valorização da
coisa mais simples, mas mais importante que temos: nossa
existência. Sempre tivemos a oportunidade de expressar
gratidão por essa vida, agradecendo cada respiração em vez de
desperdiçar nossa atenção.
Quando foi a última vez que você sentiu gratidão profunda
pela vida? Não estou falando sobre aqueles pensamentos
funerários, do tipo quando você vê um caixão e pensa: “Antes
ele do que eu”. Estou me referindo a estar completamente
desperto para o dia e para a noite, aproveitando a existência para
valer.
Um ser humano pode ser uma celebração de vida. Que
maravilha é sermos gratos pela vida — gratos pelas pessoas que
amamos, gratos pela luz do sol e pela chuva, gratos pelas
estações, gratos pela doce música de nossa existência, gratos
pelo dom de respirar. Sem gratidão, a vida é como um
compromisso social em que não queremos estar: “Olá.
Obrigado por me convidar. Tchau”. Com gratidão, nos
tornamos a alma da festa chamada vida.
UM LEMBRETE URGENTE
Existem, então, duas paredes — nascimento e morte — e,
quando nos aproximamos de onde imaginamos ser a segunda
parede, ela assombra nossa mente. Preocupar-se com a morte
pode se tornar uma distração enorme, terrível e ruidosa —
talvez o mais barulhento de todos os nossos problemas. Se não
tivermos cuidado, podemos acabar celebrando cada aniversário
nosso pensando na morte quase o dia todo. E aí está uma
ironia terrível: cada momento que passamos preocupados com
a morte é um desperdício da vida preciosa. Podemos ficar tão
tomados pelo desejo de viver para sempre que nos esquecemos
de viver o hoje.
Por mais que tentemos, não temos como evitar passar por
essa segunda parede em algum momento. Até os mais
inteligentes entre nós — ou talvez eu deva dizer: geralmente os
mais inteligentes entre nós — se esquecem da verdade natural
de que somos mortais.
Existe uma história antiga sobre isso que sempre me faz rir:
era uma vez um médico muito inteligente — muito inteligente
mesmo. E todos falavam isso para ele. Ele havia passado
décadas de sua vida ajudando as pessoas a viver, mas agora
sentia que a Morte estava se aproximando e ele não queria ir.
Então traçou um plano.
Ele sabia que a Morte só poderia levar um dele, não dois. Por
isso, fez uma réplica de si mesmo, exatamente igual até o
último detalhe. Era perfeita, e ele ficou muito orgulhoso.
Um dia, a Morte entrou — sem marcar hora, imagino — e
viu dois médicos na cama. O médico tinha sentido que aquele
dia fatídico estava se aproximando e já havia se deitado ao lado
da réplica. Uma boa tática. Era mesmo uma cópia excelente,
então a Morte ficou confusa: “Só posso levar um; quem eu
levo?”, ela se perguntou.
Ela pensou por um minuto, então disse: “Doutor, parabéns!
Você fez um trabalho incrível se replicando. Mas cometeu um
erro”.
O médico estava ali deitado, e as palavras da Morte
começaram a se revirar em sua mente. Ele pensou consigo
mesmo: que erro? Como posso ter cometido um erro? Ela está
enganada, não está?
Depois de um tempo, não aguentou mais e disse: “Mas não
há erro nenhum!”.
Então a Morte disse: “Essa! Essa é a falha!”.
O médico havia sido derrotado pela própria arrogância. Não
somos seres perfeitos (desculpe se isso é novidade para você) e
não temos como escapar de nossa mortalidade. A sabedoria é
reconhecer isso e fazer questão de viver todos os dias com os
olhos bem abertos: vendo a realidade com clareza, aceitando o
que existe e aproveitando todas as oportunidades de alegria e
contentamento. Carpe diem.
NAVEGANDO RIO ABAIXO
Existe uma canção de Kabir em que ele diz: “Você é apenas
um barquinho de papel navegando rio abaixo”. São palavras
muito sábias porque, à medida que você navega pelo rio,
adivinhe? O papel vai se encharcando e começa a se
desintegrar, o que significa que o barco vai perdendo a forma e
se misturando à água lentamente.
Nesse meio-tempo, você precisa saber que é livre para
aproveitar esta vida. Tudo está preparado para você ser o
instrumento de qualquer que seja o seu propósito e aproveitar
a riqueza de sua existência. Tudo começa quando você faz esse
círculo contínuo de conexão dentro de você: da gratidão à paz,
da paz à gratidão.
É assim que tento reagir à realidade da segunda parede: digo
“tento” porque ninguém tem clareza 100% do tempo. Quero
viver em um estado de sentir plenamente todos os aspectos do
meu eu interior e da alegria que vem da paz. Quando estou
nesse estado, adoraria que o dia continuasse para sempre. Mas
sei que, em algum momento, a noite vai chegar.
Não tenho medo da morte. Eu a uso como inspiração para
viver o melhor de cada momento, e isso me dá uma sensação
de urgência. Para mim, qualquer outra forma de existir não é
boa o suficiente: é não aproveitar a riqueza que todos
recebemos em comum. Qualquer outra forma de viver é uma
perda.
TUDO É TEMPORÁRIO
Este corpo vai embora um dia, eu sei, e, quando meu eu
físico se for, todos os meus pensamentos e experiências irão
com ele. O que restará? Bom, não há nada neste mundo que
realmente me pertença. Às vezes posso dizer: “Ah, aquilo me
pertence e é meu”, mas isso é temporário. Tudo que posso
chamar de meu um dia não será.
Isso me faz lembrar uma história de que gosto sobre
Alexandre, o Grande (embora muito provavelmente seja uma
ficção). Diz a lenda que, no leito de morte, Alexandre disse:
“Tenho três comandos. Só meus médicos devem carregar meu
caixão. Meu caminho para a cova deve ser coberto de ouro,
prata e joias. Minhas mãos devem estar penduradas para fora
do caixão”.
Os amigos e conselheiros ficaram confusos, então seu
general favorito deu um passo à frente e perguntou por que
essas coisas eram importantes. Alexandre respondeu: “Quero
que as pessoas saibam que, no fim, os médicos são impotentes
e não podem nos curar da morte. Quero que saibam que uma
vida gasta correndo atrás de riqueza é uma perda de tempo
valioso. E quero que saibam que todos chegamos a este mundo
de mãos abanando e saímos da mesma forma”.
Sim, todos saímos da mesma forma. E as únicas coisas que
de fato possuo nesta vida são minha paz e meu
autoconhecimento. Eles são minha realidade. Quando esta vida
acabar, o que restará de mim serão as memórias no coração dos
outros.
Sabe quando você vai à casa de alguém e tem um momento
maravilhoso? Pode ser que a comida e o ambiente sejam
fabulosos. Mas muito depois de ter digerido o jantar e se
esquecido de como era o lugar, a sensação de prazer
permanece. Você leva essa sensação com você e ela basta.
UM CONVITE AO INFINITO
Por bilhões de anos, eu e você não fomos nada. Por bilhões
de anos ou mais no futuro, não seremos nada. Nosso tempo
aqui é a exceção. Nossa função é viver esses minutos, horas e
dias de maneira excepcional.
Meu convite é o seguinte: ouse vivenciar o hoje atemporal da
paz interior. Sua vida aqui é finita, mas você tem a
oportunidade de transcender isso e se conectar por um
momento com o infinito — a alegria da existência pura. É uma
forma de experimentar conscientemente esse poder universal.
A oportunidade para nós, como seres finitos, é encontrar o
infinito. É para esse mundo atemporal da existência pura que
iremos no próximo capítulo.
3. Ancore-se na paz infinita
Quando eu era criança em Dehra Dun, tínhamos dias de
outono mágicos, pouco antes dos primeiros indícios de
inverno, quando os céus eram muito, muito azuis e o ar sobre
os Himalaias era completamente claro. Toda manhã havia uma
camada de orvalho sobre a grama e as plantas, e a primeira luz
iluminava a água no ar de modo que as gotas cintilavam como
diamantes. Essas gotas de orvalho eram muito pequenas, mas
brilhavam como pequenos sóis.
Quando o sol aquecia o ar, todo o orvalho evaporava,
deixando esse cenário matinal fresco em que tudo se tornava
nítido e podia-se ver o céu infinito. Era como se o tempo mal
passasse. Devagar, à tarde, nuvens ondulantes de margens
prateadas iam chegando.
Eu costumava me sentar no jardim da frente, entre duas
árvores de magnólia. Tínhamos ervilhas-de-cheiro crescendo
nas paredes, cada uma com uma linda flor, e o aroma era
delicado e delicioso, com um leve toque de lavanda. Havia
também as florzinhas que chamávamos de boca-de-cão —
algumas pessoas chamam de boca-de-leão —, e costumávamos
apertá-las como se estivessem abrindo e fechando a boca e
latindo para nós em silêncio. Era muito gostoso ficar naquele
lugar.
Um dia, saí para o jardim e senti o desejo de colher o
momento. Lembro que meu coração estava inteiramente aberto
para o dia e eu estava feliz de andar por ali observando tudo
que crescia. Pouco depois, eu estava sentado embaixo de um
dos pés de magnólia, olhando para as nuvens e flores, quando
fui tomado por uma sensação avassaladora de que o que me
criou também criou aquelas árvores e as flores perfumadas, e
salpicou o orvalho no quintal, e transportava o sol de um
horizonte a outro, e fazia aquelas nuvens gordas passarem pelo
céu azul. Naquele momento, o ser que havia me criado
originalmente disse, muito baixo: “Apenas sinta”.
Foi um sentimento perfeito de um momento perfeito.
Apenas sinta.
Daquele momento em diante, eu conseguia me sentar
embaixo do pé de magnólia e mergulhar num sentimento em
que não tinha nenhuma vontade, nenhum desejo, nenhuma
necessidade interior de fazer nada. Era bom apenas existir.
Desde então, uma voz continuou a me dizer: “Este dia é para
você”, e isso se refere àquele dia no jardim assim como se
refere ao dia de hoje.
GUARDANDO O SENTIMENTO
Essa parte sensível de mim não mudou. Não mesmo. Mas
reconheço que, às vezes, acumulei muitas camadas em cima da
pureza dessa experiência. Você deve saber a que estou me
referindo: “Preciso ter isso, e preciso ter aquilo. E precisa ser
assim, e precisa ser assado. E eu sou isso, e sou aquilo. E
depois devo fazer isso, e depois devo fazer aquilo”.
Em vez de sair e aproveitar a nova manhã, posso me ver
distraído com problemas e preocupações. Isso me mostra que
os problemas da minha vida correm o risco de tomar conta da
vida em si. Sim, mesmo uma pessoa que fala sobre paz desde
os quatro anos de idade acha difícil, às vezes, permanecer em
contato com a clareza interior. A escuridão do ruído e da
ignorância consegue ser forte assim.
Aquele dia no jardim foi para mim, e entendi que nunca devo
abandonar aquela sensação. Experimentei essa conexão
profunda vezes e mais vezes. Ela é a minha realidade — uma
sensação de paz perfeita — e tudo o mais é ruído (às vezes um
ruído agradável, às vezes um ruído que distrai). A perfeição é
não apenas a memória daquele momento da infância, mas a
experiência viva de ser capaz de apenas sentir o agora.
A PAZ ENVOLVE TODAS AS BÊNÇÃOS
Refleti muito sobre minha experiência no jardim. Passei a
entender que a paz dentro de nós não é sobre nada além de si
mesma. Não está lá para cumprir um objetivo; está lá para
estar. Não depende de coisas externas para ter uma finalidade
ou um valor; apenas existe. É algo inteiramente seu e não
envolve nem depende de mais ninguém nem de nada. Como o
jovem sentado sob a árvore naquele momento perfeito, ela só
está.
Era com ela que eu estava me conectando naquele momento
e é ela que quero conhecer na minha vida. A sensação de paz é
a versão mais profunda de mim. Mas também é parte de algo
maior do que eu, maior do que todos nós. Depois que eu e
você morrermos, a possibilidade de paz continuará vivendo em
todos os átomos do universo. É infinita. Quando apenas
sentimos, estamos nos unindo a essa paz infinita.
Todas as sensações positivas que fluem da paz interior
também são um fim em si mesmas. A alegria dentro de você
não está relacionada a nada mais; é alegria em si. O amor
dentro de você não depende de mais ninguém; é puro amor.
Você precisa de clareza para ver o mundo de paz dentro de
você e o mundo ao seu redor, mas existe também uma clareza
que é uma clareza pura — de sentir e desfrutá-la pelo que ela
é, não pelo que ela faz.
Aqui vai um ponto importante: a paz envolve todas as outras
bênçãos, mas nada envolve a paz. Existe alegria na paz, mas a
alegria sozinha não é paz. Existe bondade na paz, mas a
bondade sozinha não é paz. Existe clareza na paz, mas a clareza
sozinha não é paz. São apenas palavras diferentes para
expressar aspectos da mesma coisa. A paz é um estado único e
total de existência.
COMO DORMIR SEM DORMIR
Uma vez perguntaram ao meu pai: “Como é mergulhar
fundo e se conectar com a paz?”. Ele respondeu: “É como
dormir sem dormir”.
Na primeira vez que ouvi essa história, eu estava dirigindo e
tive que parar na beira da estrada. Achei isso muito profundo.
Imagine estar nesse estado: como dormir sem dormir. É a
combinação de dois estados em um. Imagine como esse sono
sem sono pode ser revigorante.
Quando tiramos do nosso eu mais interior a necessidade de
se preocupar com outras coisas, podemos desfrutar de uma
sensação imensa de liberdade. O peso do apego sai dos nossos
ombros. Será que nós, humanos, somos capazes de desfrutar de
alguma coisa apenas pelo que ela é, e não pelo que nos permite
fazer depois? Bom, isso pode ser contra nosso mundo movido
por ações, mas acredito que sim. A paz é possível para todos,
mas é preciso escolher desfrutar dela, e não tentar fabricá-la.
Ó
CEGOS PARA O ÓBVIO
A paz está bem aqui em nós, mas muitas pessoas nunca
conseguem senti-la. Ela está em todos os lugares, mas é
arredia. Nesse sentido, é muito semelhante à luz. Olhe pela
janela e você pode ver um muro. Se olhar mais de perto, verá
os tijolos naquele muro e até os pequenos detalhes da
argamassa entre os tijolos. Se tiver o olhar atento, poderá
também perceber os efeitos do clima sobre o tijolo e o ângulo
da sombra, bem como as muitas cores realçadas pela luz do sol
ou do luar ou dos postes. E também há os reflexos da luz de
outras superfícies sobre esse muro, cada uma acrescentando
uma tonalidade à luz que recai sobre ele. Vemos o muro, mas
não vemos a luz, porque a luz está por toda parte.
A luz natural não existe para iluminar o mundo para nós — é
apenas uma vantagem maravilhosa e vital de a luz ser luz.
Assim como acontece com a paz interior, podemos reconhecer
o efeito da luz sobre o mundo ao nosso redor, mas também
devemos reconhecer a essência da luz como uma coisa em si.
Às vezes a coisa mais maravilhosa que podemos fazer é
simplesmente existir. As distrações da vida cotidiana desviam
nossa atenção de vivenciar o universo dentro de nós. Passamos
pela vida vendo as cores que nos são refletidas pelo mundo
exterior sem enxergar todo o espectro da realidade interior.
Nossa experiência de vida é transformada quando
reconhecemos que vivemos nessa terra radiante e somos parte
dela.
O HOJE ATEMPORAL
Olhamos fotos de nós mesmos quando éramos bebês ou
crianças, ou retratos de nossos filhos quando eram pequenos, e
pensamos nos anos que se passaram. Quando vemos velhos
amigos, costumamos dizer: “Quanto tempo!”. Nesses
momentos, sentimos o rio do tempo correndo em direção ao
mar da eternidade. Pode ser assustador e, muitas vezes, traz
sentimentos de remorso ou ansiedade quando pensamos nas
distrações com que nos permitimos desperdiçar nosso tempo.
E então voltamos ao corre-corre da vida cotidiana.
Nesses momentos — antes de as tiranias da nossa agenda,
dos nossos problemas e das nossas preocupações voltarem a
nos dominar —, deveríamos nos perguntar: qual é o valor do
tempo se não entendemos o valor de cada respiração? Se o
agora não é importante para mim, como o ontem pode ser? Se
o agora não é importante para mim, como o amanhã pode ser?
Não importa o quanto planejemos, não importa o que
façamos, não importa o que aconteça, só podemos viver neste
lugar chamado “agora”. É nele que estamos.
Independentemente de termos seis meses ou completado cem
anos, nessa jornada estamos todos vivos neste momento.
Muitos de nós acreditam que é importante viver no aqui e
agora, mas sabemos a verdade disso? Valorizamos o agora
profundamente? Temos gratidão pelo agora?
Existe uma forma de pensar no tempo que é muito diferente
da estrutura linear com a qual estamos acostumados. Pode ser
um pouco difícil de compreender a princípio, mas vou tentar
descrevê-la. Vamos começar pelo tempo normal. A convenção
é dividir nosso tempo em frações cada vez menores: anos,
meses, semanas, dias, horas, segundos. As empresas são
movidas pelo tempo. Cada vez mais funcionários são
monitorados de perto pelo quanto produzem no tempo em que
estão no trabalho, às vezes levando em conta até os segundos.
E, se você já teve algum assunto jurídico para resolver, talvez
tenha passado pelo incômodo financeiro gerado pela planilha
de horários de um advogado.
Existem bons motivos para dividir nossos momentos dessa
forma. Ter uma noção compartilhada de tempo ajuda quando
você está se programando para encontrar amigos para jantar ou
pegar um avião ou assistir a um concerto. Mas existem
perspectivas diferentes sobre como devemos pensar no tempo
em um sentido mais amplo. A ciência, a religião e a filosofia
estão repletas de debates efervescentes sobre o que é o tempo e
como podemos entendê-lo. Do ponto de vista empírico,
realmente parece que — para usar uma metáfora espacial — o
tempo segue em frente. Consigo dizer com confiança que, se
eu quebrar minha perna hoje, ela não vai estar inteira amanhã,
mas pode estar daqui a seis semanas.
No entanto — e é aqui que as coisas ficam interessantes de
verdade —, temos outra perspectiva sobre o tempo que
podemos usar quando queremos nos conectar com algo mais
profundo. Conseguimos entrar e sair dessa estrutura temporal
ao nosso bel-prazer quando sabemos como ter esse acesso.
Você pode ver isso da seguinte forma: no mundo exterior,
vemos cada momento como uma unidade em um conjunto de
momentos, como um trem de carga muito comprido seguindo
os trilhos. No mundo interior, podemos sentir o momento
como algo absoluto: um hoje atemporal. O tempo interior é
um começo e um fim em si mesmos, como a paz, a energia e a
luz. Simplesmente existe.
Imagine da seguinte forma: a cada momento interior, a
marcha do tempo é substituída pela dança do tempo. Assim
como quando eu ficava sentado sob a árvore de magnólia, no
hoje atemporal você é livre para sentir. Não há necessidade de
se aprimorar ou de buscar a verdade — você encontrou a paz
infinita que estava buscando. Estas palavras do celebrado poeta
William Blake ecoam essa ideia:
Ver um Mundo em um Grão
De Areia e um Paraíso na Flora
Segure o Infinito na palma da mão
E a Eternidade em uma hora.
Enquanto pensamos no infinito, é importante saber que não
há limite para a felicidade e o contentamento que podemos
sentir no momento. Pessoas morreram por excesso de tristeza,
mas ninguém nunca morreu por excesso de felicidade. Vamos
preencher nosso coração com alegria.
NETI NETI
Reconheço que o conceito de infinito pode ser confuso ou
frustrante. Tentamos usar a mente para apreender essa ideia,
mas é difícil dar forma a algo que não se encaixa facilmente
em nossa imaginação. Minha sugestão é: não responda à ideia
de tempo infinito com a mente. Deixe seu coração tentar e
sentir isso também.
Aqui vai uma coisa que pode ajudar a explicar um pouco
mais o tempo infinito. Existe uma expressão em sânscrito que
captura a sensação de que uma experiência é mais do que uma
simples explicação ou definição: neti neti. Literalmente, quer
dizer “nem isso nem aquilo” e é uma fusão de duas palavras,
derivada de na iti, ou “nem tanto”. Às vezes é usada quando
uma pessoa está tentando descobrir as camadas de si mesma —
“não sou isso, nem isso, nem aquilo” — até chegar ao
verdadeiro “eu”. Estamos no começo dessa mesma jornada
neste livro: desenvolvendo nossa capacidade de deixar para trás
o tempo normal e a mente agitada quando quisermos e
mergulhar no infinito para poder desfrutar do nosso eu em sua
forma mais pura.
Muitas vezes, quando uma pessoa vive uma experiência
profunda, ela não a captura em palavras. Na verdade, ela pode
nem saber exatamente o que encontrou. Será que você não
conhece essa sensação? Às vezes, a essência de uma experiência
não está presente nas palavras que buscamos para descrevê-la.
A linguagem pode ser útil e lindamente expressiva, mas nem
sempre consegue nos levar ao cerne da experiência humana.
Uma voz pergunta: “Qual foi a sua experiência? Foi isso? Foi
aquilo?”.
E você só consegue responder: “Não, não foi bem isso. Nem
aquilo”.
“Mas o que você estava fazendo naquele momento?”
“Nada!”
“O que você estava pensando?”
“Nada!”
“Então o que você sentiu?”
“Tudo!”
Se a experiência não pode ser explicada facilmente, as
pessoas presumem que seja complicada. Mas normalmente é a
tentativa de explicar que é complicada, não a experiência em
si. Em vez de apresentar um retrato claro e completo do que
aconteceu, há ocasiões em que só conseguimos oferecer um
vislumbre. E pode acontecer de uma experiência ser
cognoscível mas inexprimível. Aqui vão alguns versos do poeta
Rumi:
Existe um beijo que queremos com todo o nosso ser,
o toque do Espírito no corpo.
A água do mar suplica à pérola que rompa sua concha.
E o lírio anseia sua amada silvestre com tanta paixão!
À noite, abro a janela e peço à lua que venha e encoste o rosto no meu.
Sopre dentro de mim.
Feche a porta-linguagem,
E abra a janela-amor.
A lua não usará a porta,
Apenas a janela.
Quando saí para o jardim de casa em Dehra Dun, eu não
estava pensando: “Agora vou ter uma experiência incrível”.
Comecei a aproveitar cada momento um pouco mais, sem
entender por quê, e então a magia cresceu dentro de mim. Foi
deliciosamente simples, e deixei que acontecesse. Minha janela
estava aberta.
Há momentos em que as pessoas entram em um jardim, e
ele está lindo, e o aroma é maravilhoso, e elas pegam suas
tesouras e cortam as flores e levam para casa. Já fiz isso, e é
uma delícia ter um pouco de cor e perfume do jardim dentro
de casa. Mas às vezes a oportunidade está lá para simplesmente
apreciarmos a beleza pelo que ela é, sem ter que mudá-la. A
Natureza em um vaso pode ser linda; encontrar a Natureza
como ela é pode ser uma experiência incrivelmente pura e
profunda.
DEIXANDO DE LADO
Para entender a paz interior, precisamos afastar os conceitos
intelectuais para revelar a forma natural e a beleza do eu. Não
se cria a paz; ela é descoberta dentro de você. É um processo de
deixar de lado o que não é necessário.
As pessoas dizem que querem ter uma revelação, mas esta é
a revelação que procuram: deixar as coisas de lado para
podermos revelar, entender e desfrutar nosso verdadeiro eu em
sua simplicidade perfeita. O escritor francês Antoine de Saint-
Exupéry capturou a elegância da simplicidade quando disse: “A
perfeição não é alcançada quando não há mais nada a ser
incluído. A perfeição é alcançada quando não há mais nada a
ser retirado”.
Pense por um momento na sua camisa ou no seu vestido
favorito. Na sua mente, vá até o guarda-roupa e coloque a peça
de roupa na cama. Crie uma imagem mental nítida dela. À
medida que você usa esse vestido ou essa camisa, a roupa vai se
sujando com o tempo. Você trabalha, brinca, viaja, corre de um
lado para o outro, come espaguete — mais cedo ou mais tarde,
ela vai se enxovalhar. Então você lava. Qual é o processo de
lavagem? Muito simples: você tira a sujeira. Você não pega a
limpeza de algum lugar lá fora e a põe dentro da camisa. Você
tira o que não é necessário e deixa o que é: a peça de roupa
limpa. O mesmo vale para encontrar a paz dentro de você.
Você não inclui a paz em seu eu interior; deixa todo o resto
sair. O autoconhecimento envolve permitir que seu verdadeiro
eu brilhe no momento presente.
Isso me faz lembrar a história apócrifa sobre Michelangelo e
o segredo da grande escultura. “Como você conseguiu criar
essa representação sublime de Davi?”, perguntaram ao escultor.
“Bom”, ele respondeu, “fui tirando tudo que não se parecia
com Davi.”
Siga o caminho do autoconhecimento e comece a se
concentrar em você, deixando de lado todo o resto. Assim você
passa a ser a constante. É fácil os outros se tornarem a
constante em nossa vida e termos apenas vislumbres raros de
nós mesmos. É o que acontece quando o barulho domina.
Precisamos deixar esse ruído de lado.
Você consegue imaginar um estado de existência que seja
verdadeiramente livre de todas essas distrações? No exterior,
há o seu corpo e, claro, ele vai mudar. Mas existe algo dentro
de você que vai permanecer aconteça o que acontecer,
independentemente dos outros. Esse é o você atemporal.
DA AUSÊNCIA À PRESENÇA
Mas como deixar de lado aquilo de que não precisamos?
Como deixamos o ruído de lado? Tenho uma sugestão: não se
concentre nos sentimentos negativos dentro de você. Em vez
disso, fortaleça os positivos.
A presença e a ausência percorrem o universo. Podemos
identificar as duas, mas, quando se trata da nossa vida,
devemos escolher o que queremos tornar mais presente e
poderoso. Pela minha experiência, é muito melhor
incentivarmos a presença em vez de tentar manipular a
ausência. Se nos faltar coragem, o medo assume a dianteira.
Qual é a melhor forma de enfrentar o medo? Recorrer à
coragem e trazê-la de volta. Se você não estiver em contato
com sua clareza, surge a confusão. A confusão é retirada
buscando de volta a clareza. Como se remove o crime?
Ajudando as pessoas a levarem uma vida consciente, a começar
por você. Para pôr fim à escuridão, traga a luz.
Você se lembra na escola quando o professor entrava e
perguntava: “Está todo mundo aqui?”? Isso sempre me fazia rir.
As pessoas que não estavam não poderiam dizer: “Não, não
estou”. Só podemos trabalhar com o que está presente.
Portanto, não temos como simplesmente nos livrar do ódio.
Ele deixaria um vácuo e, na Natureza, os vácuos são
preenchidos por algo. Em vez disso, precisamos escolher o
amor. Se o amor está ausente, ele cria um vácuo que é logo
preenchido pelo ódio. Traga o amor à dianteira, e o ódio
perderá a força.
Quando você pensa em um buraco no chão, ele é algo que é
ou que não é? É uma coisa com um formato próprio ou é
apenas uma ausência de outra coisa? Buracos existem, mas
apenas porque algo não está lá. Não se pode transportar um
buraco de um lugar para outro, certo? Compartilho minha
filosofia sobre buracos porque ela pode nos ajudar a entender
esse argumento sobre a presença e a ausência dentro de nós.
O que é tristeza? A ausência de alegria.
O que é confusão? A ausência de clareza.
O que é escuridão? A ausência de luz.
O que é guerra? A ausência de paz.
A guerra é um buraco, um vazio, uma negação. Então, como
acabamos com a guerra? Nós a preenchemos com algo. E a
melhor coisa com que preenchê-la é a paz. Onde podemos
encontrar a paz? Dentro de cada um de nós. E onde podemos
encontrar o buraco da guerra? Dentro de cada um de nós.
Portanto, é assim que podemos dar os primeiros passos
rumo à paz entre as pessoas: encher os buracos de ódio,
tristeza, confusão, escuridão e guerra dentro de nós com o
amor, a alegria, a clareza, a luz e a paz que existem dentro de
nós.
UMA SINFONIA DE SIMPLICIDADE
Uma vez, fui a um concerto de música clássica em Viena. O
auditório estava lotado e havia um burburinho tremendo de
conversas ansiosas. Os músicos subiram ao palco e começaram
a afinar seus instrumentos. Então as conversas foram ficando
mais altas e as pessoas que chegavam na última hora entraram
para ocupar seus assentos, o que significava que os outros
precisavam se levantar e voltar a se sentar para deixar que
passassem. Era um caos. Eu não estava gostando nada daquilo:
minha mente estava ficando agitada demais. Poderia facilmente
me levantar e sair, mas tinha sido difícil conseguir os
ingressos.
De repente, a afinação parou, o maestro surgiu, todos
aplaudiram e… silêncio. Houve um delicioso momento de
tensão silenciosa enquanto o regente erguia e segurava a batuta
no ar. Então a música começou. Era baixa no início, e
podíamos ouvir todas as ressonâncias das cordas, o movimento
dos dedos. Aos poucos, foi se tornando uma experiência
sensorial incrível.
Às vezes é assim dentro de nós. Há um concerto
acontecendo em nosso coração. Para alguns, a afinação e o
palavrório duram anos. Para outros, a batuta se ergue e a paz
adentra, e então a música começa. O barulho, o silêncio e a
música estão todos dentro de nós.
Vez ou outra, também pode haver um ritmo que nos leve a
dançar — um ritmo mais forte do que todos os outros ritmos
da vida ao nosso redor. Por meio do autoconhecimento,
sentimos nosso verdadeiro compasso e nos movimentamos de
acordo com ele. É essa a sensação de estarmos verdadeiramente
concentrados. Todo o resto fica para trás. Vem o silêncio, e
então uma bela sinfonia começa a tocar em nosso coração.
Você se ouve.
DESAPEGO, AMBIÇÃO E ESCOLHA
Devemos aspirar a ser completamente desapegados do
mundo ao nosso redor? Essa é uma pergunta que me fazem
com frequência. Minha visão é simples: não é possível ser
100% desapegado. Qualquer um que se diga totalmente livre
das pressões e distrações do dia a dia deve estar se iludindo.
Algumas pessoas têm receio de que o autoconhecimento as
leve a uma existência entediante e abstrata — a um retiro da
realidade. Se alcançarmos o contentamento, viraremos mesmo
um vegetal (uma batata, talvez, ou um nabo) enraizado em um
só lugar? Não haverá nada interessante acontecendo em nosso
cérebro de batata ou de nabo, e sem nenhuma aspiração? De
jeito nenhum! Em algumas das histórias sobre Buda, vemos
que ele atingiu a iluminação e então se tornou ambicioso de
verdade. Ele quis levar a mensagem de paz a todos os lugares
logo que encontrou o contentamento.
Quero deixar isto bem claro: o autoconhecimento não
transforma nosso eu exterior em um ser perfeito que plana
pela vida, intocado por questionamentos e problemas. O que
ele pode fazer é nos dar a clareza de que precisamos para
reconhecer que temos uma escolha. Não escolhemos quando
nascemos nem quando morremos. Com relação a todo o resto,
podemos arriscar.
Viver de maneira consciente envolve saber que você sempre
tem uma escolha — mesmo em momentos difíceis — e, então,
escolher com cuidado. Vivemos inconscientemente quando
não sabemos que podemos escolher ou escolhemos não
escolher. A inconsciência de uma pessoa pode levar à
inconsciência de outra e, assim, o ciclo de ignorância segue
adiante. E ele tem consequências. Por outro lado, nos
tornarmos conscientes de nossas escolhas pode ser
extremamente fortalecedor e gratificante. Voltarei a essa ideia
no capítulo 5.
TRANSCENDENDO NOSSAS PREOCUPAÇÕES
É tentador pensar que, se nos livrarmos de todas as
preocupações, teremos paz. Posso falar apenas pela minha
experiência: se eu parar de pensar em comida, minha fome vai
passar? Não. E se alguém me disser “Pare de pensar em
comida”, minha fome vai passar? Não. Enquanto você estiver
vivo, provavelmente vai passar por momentos em que vai se
preocupar com alguma coisa — às vezes um pouco, às vezes
muito. É então que vale a pena escolher se afastar da mente
inquieta e se aproximar do coração pacífico, se puder.
Conheço pessoas que foram até os confins do planeta em
busca de um lugar que pudesse lhes proporcionar a mente
despreocupada que tanto desejavam. O que aconteceu? Elas
voltaram e se sentaram em uma poltrona. Então fecharam os
olhos e pensaram: “Finalmente cheguei! Agora posso aproveitar
a verdadeira paz”. Tudo ficou em silêncio por um momento.
Ou dois. Então, elas começaram a ouvir os grilos cantando. Ou
o vento soprando nas árvores. As ondas batendo na praia. Ou
um pássaro solitário cantando em algum lugar longínquo da
floresta. E então os pensamentos da sua casa voltaram a encher
sua mente, como uma bagagem que tivesse ficado perdida no
aeroporto mas por fim foi entregue.
Assim todo homem e toda mulher sempre fogem de si
mesmos — mas de que adianta, se não há como escapar de si
mesmo? Quando estamos inquietos dentro de nós, maravilhas
naturais soam como uma cacofonia; quando estamos à vontade
dentro de nós, quase tudo pode se tornar música. A menos que
encontremos a resposta para o barulho da preocupação, ele
sempre vai viajar conosco. Nossa maior defesa é uma
capacidade que levamos por toda parte: saber que sempre
podemos escolher o caminho do autoconhecimento rumo à
paz interior.
O poeta Kabir disse: “Se é para se preocupar, preocupe-se
com a verdade. Se é para se preocupar, preocupe-se com a
alegria. Se é para se preocupar, preocupe-se com o bem em sua
vida”. Dessa forma, tornamos a preocupação ausente quando
escolhemos tornar qualidades positivas presentes.
ESCUTE SEU CORAÇÃO
Para mim, o processo de autoconhecimento — da
consciência plena passando pelo coração pleno para chegar à
paz plena — é muito semelhante a disparar um foguete para o
espaço. A consciência plena diz respeito a acalmar a mente e
concentrar a atenção: levar o foguete à plataforma de
lançamento. Deixamos para trás tudo que não é necessário para
o voo e dirigimos nossa atenção para estarmos prontos para
partir. O coração pleno envolve se conectar totalmente com o
lado de dentro para que possamos gerar uma sensação de
completude forte o bastante para nos fazer decolar. E a paz
plena é o que sentimos em nosso coração quando estamos
subindo, subindo e subindo — livrando-nos da gravidade.
Então o foguete reforçador se solta e estamos voando na
vastidão de nosso universo interno, além das dimensões do
tempo normal e do espaço.
Meu coração é o lugar dentro de mim onde fico
profundamente feliz por nenhum motivo além da felicidade
em si. Existem oceanos que velejo dentro do meu coração, não
para ir a algum lugar, mas porque é uma viagem incrível. O
coração é onde desenvolvemos coragem para ver a clareza em
meio à confusão e onde conseguimos desfrutar da clareza em
si. Estou no paraíso quando meu coração está contente, quando
ele canta com gratidão por existir. É então que me sinto vivo
de verdade. Foi isso que encontrei naquela manhã mágica em
Dehra Dun.
Precisamos nos certificar de que estejamos conectados de
verdade com nosso coração, e não com o que a nossa cabeça
diz que o nosso coração pode querer. Essa mente ocupada está
sempre pronta para se intrometer e interceptar tudo à sua
maneira. Nossa mente acha muito difícil parar de procurar no
mundo exterior o que vem a seguir. Se o que você tem é uma
ideia do coração, então isso é só mais um ruído. Nosso coração
não está aqui para ser direcionado ou para receber ordens
sobre o que sentir; nosso coração simplesmente expressa o que
sente.
É quando estamos em paz que nossas prioridades podem ser
reconhecidas com mais clareza e nossa atenção pode ser mais
bem direcionada. É sentindo a paz em nosso coração que
podemos nos conhecer melhor. E esse parece um bom
momento para voltarmos nossa atenção para a diferença entre
crer e saber.
4. Aprenda a diferença entre saber e crer
A maneira como pensamos exerce forte impacto na maneira
como vivemos. Usando nossa capacidade intelectual, podemos
entender nossos desafios e oportunidades, e fazer isso nos
ajuda a tomar decisões melhores. Ao mesmo tempo, a
inteligência coletiva da humanidade nos permite moldar o
mundo para nosso benefício mútuo. A melhora nos padrões
médios de vida é apenas um exemplo do impacto do
pensamento em nossa vida.
Devemos, portanto, celebrar o poder do cérebro — mas
sabemos que ele também é inteligente a ponto de ver as
limitações do pensamento. Interagimos com o mundo de
diferentes maneiras; contudo, em sociedades mais modernas, é
o pensamento que domina como as pessoas levam a vida.
Muita gente tenta encaixar tudo que encontra na estrutura
daquilo em que acredita, mas essa parece uma maneira rígida
de responder à riqueza e ao fluxo da existência, à correria
maravilhosa e caótica da vida.
Sinto que existe uma forma mais gratificante de se
relacionar com o mundo dentro e fora de nós. Para mim, o
ponto fulcral da experiência humana é quando estamos
intelectualmente despertos ao que é novo mas plenamente
centrados em nosso eu. Dessa forma, nossa mente está aberta
para mudar enquanto nosso coração nos mantém ancorados
em quem somos. Por meio do autoconhecimento, podemos
começar a aguçar nosso foco no que acontece dentro de nós:
sem ignorar o mundo, apenas aumentando as crenças com o
saber — saber o que realmente importa. Numa época em que o
pensamento costuma ser mais valorizado do que qualquer
outra coisa, esse equilíbrio consciente é radical.
ENCONTRANDO OS LIMITES DO PENSAMENTO
Mas qual é o problema de deixar que nossa mente domine
nossa experiência de vida? Bom, é porque os pensamentos e
crenças se esforçam para explicar e expressar aspectos
importantes de quem somos.
Imagine o seguinte cenário: você se senta com a pessoa que
mais ama no mundo e pergunta: “Você me ama?”. E ela
responde: “Penso que sim”. Ela pensa que ama você? E se ela
dissesse: “Creio que sim”. Ela crê que ama você? É o mesmo
que dizer: “De jeito nenhum”. Você sabe se ama uma pessoa ou
não.
Aqui vai outra pergunta simples que pode revelar os limites
do pensamento: quem é você? As pessoas costumam ter
dificuldade para responder a essa pergunta porque exige que
elas vão além da crença e adentrem o sentimento. Não temos
como responder de forma relevante dando nosso nome, idade,
gênero, profissão, estado civil e cor favorita. Não temos como
responder de forma relevante por meio da lógica ou da teoria.
Trata-se de ter uma conexão consigo mesmo que é tão
profunda e clara que você não precisa responder com palavras
— você apenas sabe.
Swami Vivekananda, o monge hindu indiano que foi porta-
voz internacional da filosofia Vedanta, disse: “Acreditar
cegamente é degenerar a alma humana. Seja um ateu se quiser,
mas não acredite em nada sem questionar”. Gostamos de
acreditar porque quando acreditamos outra pessoa está fazendo
a lição de casa por nós. Não é que não entendamos as
consequências de acreditar cegamente; é só que parece muito
mais fácil do que saber. Mas, na realidade, saber não é nada
difícil: o segredo é conhecer seu eu, não conhecer outra coisa
ou pessoa.
UM UNIVERSO INTERIOR
Quando Sócrates disse “Conhece a ti mesmo”, foi um convite
para desfrutar do universo mais interno dentro de cada um. E
o que você encontra quando chega a esse lugar de
conhecimento dentro de si? Não é uma lista de convicções.
Não é a revelação dos seus traços de caráter, tipos de
personalidade ou indicadores psicológicos. Não é uma teoria de
quem você é. O que você descobre é uma sensação de paz
infinita e uma compreensão profunda da sua presença no
momento atual. É a conexão completa de você com o poder
universal. E esta é a experiência mais rara em um mundo de
ruído e corre-corre: a alegria de apenas ser.
A racionalização da mente se expressa por uma linha de
questionamentos. Quem? O quê? Onde? Quando? Como? Por
quê? E por aí vai. Essas perguntas podem ser incrivelmente
úteis em nosso cotidiano, mas não vão nos levar ao infinito.
Para experimentar o que existe, no sentido mais profundo,
temos que nos afastar da estrutura da mente. É quando
deixamos os questionamentos de lado que começamos a saber.
É por isso que, na Índia, o autoconhecimento é chamado de
rajaioga. Yoga não significa “dobre-se em tudo quanto é
posição”; significa “união”. Rāja significa “rei”. Portanto, Rāja
Yoga é a ioga majestosa que põe você em união com o divino, a
maior de todas as uniões. E o divino não é algo misterioso
escondido no alto de uma montanha — é a paz em seu
coração.
Meu coração fala comigo da mesma forma direta como meu
corpo se expressa. Quando seu corpo está com fome, ele fala.
Quando está com sono, ele fala. Quando sente dor, ele fala. Não
se oferece nem se espera nenhum “por favor”. Não existem
gentilezas nem bons modos. “Você está com fome: é melhor
comer alguma coisa”, ele diz. O autoconhecimento permite
que você ouça seu eu interior com clareza, de modo que,
quando seu coração está saciado, você sabe. Quando seu
coração está cheio de alegria, você sabe. Quando seu coração
está cheio de amor, você sabe. A língua da paz interior é clara,
forte e imediata. Tem uma poesia simples que é deliciosa de
ouvir.
ENCONTRANDO NOSSO CAMINHO
Qual é a primeira regra de navegação para pilotos? Saber
onde você está. Um mapa, por mais preciso e detalhado que
seja, é inútil se você não souber sua localização. Crer sem
conhecer o eu é como ter um mapa sem entender onde está.
Se você não souber onde está, como vai chegar aonde quer?
Os pilotos podem passar por algo chamado “perda de
orientação”. Quando isso acontece, eles não sabem sua
inclinação, sua altitude nem sua velocidade. Não estão onde
pensam estar. Na verdade, estão perdidos e confusos. Podemos
passar por algo bastante parecido no nosso dia a dia. Sem nos
conhecer, podemos ter muitas ideias e planos mas pouca noção
do que realmente importa. Sem nos conhecer, podemos ter
perguntas infinitas que nos levam mais e mais longe de uma
resposta satisfatória. Sem nos conhecer, podemos sentir uma
necessidade constante de buscar a paz sem nunca sentir a paz
que já está dentro de nós.
Convido você a saber onde está neste momento procurando
também dentro de si e valorizando sua existência no aqui e
agora. O autoconhecimento significa conhecer sua posição atual.
Saber que somos abençoados pela vida e que a oportunidade
está aí para nós — cada um de nós — nos sentirmos plenos a
cada dia, cada hora, cada minuto. Quando estamos em contato
com a paz interior, podemos aproveitar a jornada da vida de
verdade, sentindo alegria e contentamento no agora em vez de
esperar chegar a seu destino imaginário amanhã.
O SENTIDO VEM DE DENTRO
O que existe dentro de nós é o ponto de partida para todo o
sentido. Podemos olhar pela janela e pensar “Ah, que mundo
lindo!” sem nos dar conta de que a beleza começa dentro de
nós. Se a humanidade fosse extinta, a beleza desapareceria
junto conosco, porque a beleza vem de nós. Você carrega um
universo infinito de beleza dentro de você, bem agora. O
autoconhecimento é o caminho que nos leva a todas essas
maravilhas que existem dentro de nós e estão só esperando
pela nossa atenção.
Pense na doçura de uma manga. Todos os ingredientes
necessários para produzir aquele sabor incrível estão na fruta,
mas só ganham vida quando a descascamos e nos deliciamos
com ela. Sem nosso desejo de saborear e nossa sede de suco, a
manga seria apenas um objeto com determinadas propriedades
químicas. Quando acrescentamos nosso desejo e nossa sede,
comer a manga se torna uma experiência deliciosa. No fundo,
a doçura da vida está dentro de você para ser provada.
Você tem muita sede e alguém lhe diz para escolher entre
um copo de água gelada e uma apresentação de trinta minutos
sobre as qualidades de um copo de água gelada. Qual você vai
escolher? É óbvio! Em vez de tentar saciar nossa sede de
autoconhecimento com uma teoria sobre quem somos nós,
podemos sempre escolher vivenciar quem somos.
Sem a vivência, tudo que pensamos e em que acreditamos é
teoria. Podemos nos viciar em teorias, na esperança de que
expliquem tudo milagrosamente. E então começamos a moldar
a realidade para que se encaixe em nossas ideias. Lembro-me
de uma piada que ouvi de um economista: “Essa ideia funciona
muito bem na prática, mas será que funciona na teoria?”.
A teoria tem muitas utilidades — utilidades de importância
crucial às vezes —, mas também tem seus limites. Imagine um
homem que prometeu à namorada que faria um delicioso
jantar para celebrar o aniversário de namoro.
“O que você fez para jantar, amor?”
“Ah, te amo tanto que passei a tarde toda pensando no que
queria preparar para você”, ele responde.
“Que bom!”
“Mas na prática não preparei nada.”
“Ah.”
Esse é um debate bastante filosófico. Pode ser interessante
reunir os melhores ingredientes intelectuais sobre o ser
humano, mas é muito mais fascinante se eles forem
transformados em experiência. Esse não é um argumento
contra a investigação filosófica; estou apenas ressaltando que
ideias e teorias sobre quem somos têm limitações. A vida não é
teórica.
O QUE É POSSÍVEL SABER?
Podemos nos distrair teorizando sobre o eu e perder a
oportunidade de conhecer nosso eu. O que é possível saber?
Podemos saber que estamos vivos, que esses momentos pelos
quais estamos passando são reais, que devemos aproveitar cada
momento ao máximo, que a paz interior traz a sensação
profunda de plenitude que buscamos, que, quando estamos em
paz, os mundos interior e exterior brilham ainda mais para
nós, em toda a sua glória. O conhecimento não é uma
explicação; é sentir o divino dentro de você.
A verdade disso está bem diante de nós, mas pensar demais
pode nos distrair de verdades simples. Como disse o
dramaturgo grego Eurípides, “Inteligência não é sabedoria”. Às
vezes, parece que as pessoas estão lendo um guia de 2 mil
páginas sobre um livro de uma página e, quanto mais leem,
menos entendem.
Existe uma história antiga da qual gosto muito. As pessoas
mais inteligentes se reuniram para descobrir o que era mais
importante: o Sol ou a Lua. Elas deliberaram e deliberaram e
deliberaram, argumentando e contra-argumentando. Por fim,
chegaram a uma conclusão: a Lua é mais importante. E por
que a Lua é mais importante? “Veja”, disseram, “durante o dia,
quando há luz de sobra, o Sol brilha. Mas à noite, quando está
escuro, a Lua brilha. Por isso ela é mais importante.”
Na primeira vez que ouvi essa história, ri e pensei: “Que
ridículo”. E então me ocorreu: na verdade, é assim que
pensamos às vezes. Esquecemos de dar valor às coisas
essenciais da vida — aos elementos vitais bem debaixo do
nosso nariz. Quando reconhecemos isso e começamos a
valorizar o que realmente importa, é como se uma luz
brilhasse sobre nós, iluminando o dom incrível que nos foi
dado.
ENCONTRANDO O CAMINHO LIVRE
Eu estava no carro na hora do rush em Londres quando,
mais à frente, vi alguém descendo a rua de maneira muito
curiosa. Ele estava andando em um ritmo normal, mas, mesmo
de longe, eu podia ver que a linguagem corporal dele era um
pouco diferente das pessoas ao seu redor. Quando me
aproximei, ficou óbvio que aquela pessoa — um homem
sozinho — não enxergava e estava usando uma bengala para
encontrar o caminho.
Eu já tinha visto muitas pessoas com deficiência visual
usando uma bengala antes, então não foi isso que chamou
minha atenção — foi o fato de que esse homem não
demonstrava nenhuma preocupação em relação ao muro à sua
direita, nem à estrada à esquerda, nem aos possíveis obstáculos
ao redor. Ele estava usando a bengala para mapear uma área
livre em que pudesse se locomover com segurança. O homem
tinha movimentos tão seguros que sugeriam que sua mente
não se distraía com o trânsito, com a conversa entre o homem
e a mulher em frente à loja, com a música que saía do carro
estacionado mais adiante, com o cachorro latindo do outro
lado da rua, com nada. Ele sabia onde estava, e fazia uma
pergunta clara o tempo todo: tenho um caminho livre à minha
frente para poder continuar?
Pensei em como aquela estratégia era eficaz em comparação
com a forma como percorremos a vida mentalmente. Às vezes,
imaginamos possíveis obstáculos e problemas em toda parte.
Vemos perigos onde não existem e deixamos de notar aqueles
que estão lá. Permitimos que nossa atenção seja capturada pelo
que se movimenta ao nosso redor em vez de onde estamos
agora e aonde queremos ir depois. Quando vemos a montanha,
ela pode nos assustar, mas a trilha dá a volta até lá em cima.
Ficamos parados pensando em todos os obstáculos diante de
nós e deixamos de ver a simplicidade do caminho livre à
frente.
O que pessoas com deficiência visual fazem quando
encontram um obstáculo? Buscam um caminho livre ao redor
dele. O que fazemos quando encontramos um obstáculo em
nossa mente? Muitas vezes, apenas continuamos insistindo
nele, na esperança de que, de alguma forma, ele saia dali por
conta própria.
Quero destacar o seguinte: segundo a minha experiência, ter
autoconhecimento não tira magicamente os obstáculos do
caminho. O que isso pode fazer é nos ajudar a encontrar o
caminho livre. Daí então é possível escolher o que faremos em
resposta. Se nos concentrarmos no que é importante para nós e
continuarmos buscando o caminho livre, podemos continuar
seguindo em frente.
Sei que, às vezes, nossa vida pode ser dominada pelos
obstáculos, e que essa sensação pode se tornar opressiva.
Também sei que muitas pessoas encontram grandes obstáculos
para adquirir o autoconhecimento, sentir alegria, ver a paz
florescer em seu coração, ter clareza e fazer boas escolhas. Mas
esses são apenas conceitos em que elas acreditam, e sei que
existe um caminho livre para nós quando escolhemos nos
conectar com a paz interior e avançar a partir dela.
UMA CONVERSA ENTRE A CABEÇA E O CORAÇÃO
Quando colocamos mais ênfase nos sentimentos, existe um
perigo de que nossas reações emocionais ao mundo deixem de
ser questionadas? Talvez. Sabemos que nossos sentimentos
nem sempre equivalem à realidade. Todos podemos ser
inutilmente irracionais às vezes. Nossas emoções também
podem ser moldadas pela mente. Se não nos conhecermos,
podemos nos deixar enganar por qualquer coisa, incluindo
nossas emoções, mas, com o autoconhecimento, buscamos nos
conectar com um conjunto mais profundo de sentimentos.
É útil ouvir com a mesma atenção os pensamentos e os
sentimentos mais profundos para que eles fiquem equilibrados.
Se parecerem discordar uns dos outros, deve ser um bom
momento para convidar o coração e a mente para se sentarem
e terem uma conversa. E, já que vamos fazer isso, pode ser
bom convidar outra parte nossa: o instinto ou a intuição — a
soma de todas as nossas experiências.
Nossa mente costuma ser quem fala mais alto em nossa
conversa interior — sempre ouvimos seu coro de quem, o quê,
onde, quando, como e por quê —, portanto pode ser bom
cultivar a voz do coração. Enquanto a mente se ocupa falando
sobre expectativas, planos, aspirações e ansiedades, o coração
vai dizer apenas uma coisa de muitas maneiras diferentes:
“Esteja pleno”. E é por isso que, para mim, a resposta mais
expressiva à pergunta “Quem é você?” está no coração.
Enquanto nossa mente vive tentando criar sentido, nosso
coração transborda de sentidos lindíssimos. Pegue aquele
exemplo do amor: nenhuma explicação é necessária. Nossa
mente pode tentar nos dar motivos, mas ou sentimos o amor
no coração ou não. Não é possível explicar por que sentimos: o
amor simplesmente existe. Não é maravilhoso?
O mesmo vale para a paz: ela simplesmente existe no nosso
coração. A sede de paz está em nós e a fonte de paz está em
nós. É por isso que é sempre fascinante conversar com alguém
sobre paz pela primeira vez, porque todos têm que partir da
própria mente — entendendo um ao outro por meio de
palavras primeiro — e, então, vislumbrar a beleza sem forma
da paz interior. No fim das contas, a paz faz sentido como um
sentimento. Ao longo deste livro, defino o que sinto que a paz
pode ser para nós, em nossa vida, mas só você pode senti-la e
entendê-la por sua conta.
A IMPORTÂNCIA DE QUESTIONAR TUDO
Nossa mente está cheia do que foi depositado nela ao longo
dos anos — daquilo que escolhemos aceitar e acreditar.
Levamos nossas crenças conosco e, às vezes, elas podem
parecer uma bagagem pesada, nos deixando sobrecarregados.
Imagine por um momento abandonar as malas cheias de
crenças. Imagine como isso deixaria você se sentindo leve,
aberto a novas ideias e experiências.
Vale a pena considerar como aprendemos aquilo em que
acreditamos e que sabemos. Por exemplo, a aprendizagem
mecânica — decorar por repetição — é uma forma de coletar
informações desde crianças, quando fazíamos isso com nossos
pais. Usamos esse método na vida adulta também. Na primeira
vez que visitei o Japão, eu queria muito aprender a dizer
“obrigado”, então perguntei para alguns amigos.
“Arigatou gozaimasu”, eles responderam.
“Como?”, perguntei.
“Arigatou gozaimasu!”
“Como!?” Parecia complexo demais para os meus ouvidos.
“Arigatou gozaimasu!”
“Hmmm…”
Aos poucos, eles me ajudaram a partir em pedaços menores,
entender e treinar a frase até que ela fizesse sentido para mim,
de modo que eu pudesse usá-la nas conversas. Praticamos o
mesmo com outras frases úteis. Era um trabalho de fazer com
que as palavras se tornassem minhas.
A aprendizagem mecânica pode ser útil, mas temos que
tomar cuidado para não nos fixar em tudo que nos dizem.
Durante a infância, nossos pais e professores compartilharam
conosco suas visões de mundo. Parte de se tornar
independente é se preparar para reconsiderar o que nos foi
ensinado. As suposições e os questionamentos que fazemos
sobre a vida: são suposições e questionamentos nossos? Grande
parte do ruído dentro de nossa cabeça vem de outras pessoas,
mas sempre temos a opção de baixar o volume das vozes delas
para podermos nos escutar.
Seus pais devem ter lhe dito coisas com as melhores
intenções, mas não necessariamente estavam certos. Geração
após geração após geração, ideias erradas são passadas adiante
como heranças envelhecidas, e carregamos essas ideias
herdadas em nossa mala pesada. Acho que todos conseguimos
pensar em “verdades” pelas quais nossos pais e professores
botavam a mão no fogo e que agora parecem simplesmente
erradas. Precisamos apenas continuar questionando o que
aprendemos para poder continuar vendo o mundo com clareza
— não pelos olhos dos outros, mas pelos nossos.
Um dia, em uma aula de ciências na escola, o professor
disse: “Abram na página 132 do livro de física”. Depois de
alguns minutos lendo o texto, o professor apontou que o livro
estava errado ao definir o átomo como indivisível. “Risquem
isso”, ele gritou. E aquilo me fez pensar: todos que fizeram
aquela matéria no ano anterior tinham usado o mesmo livro e,
na cabeça deles, o átomo talvez ainda fosse indivisível. Não sei
que diferença acreditar nisso fazia para eles, mas aquele
episódio me ensinou que é bom não permanecer fixo em
nenhuma teoria.
Ao longo dos anos, vi que ideias herdadas podem nos
impedir de aprender algo novo, ao passo que aquilo que
aprendemos com a experiência nos encoraja a nos abrir para
um mundo de possibilidades. Será que não ganhamos mais
confiança com a experiência do que com as ideias?
Temos essa oportunidade maravilhosa de levar a vida de
maneira consciente em vez de seguir sem pensar as convicções
de nossos pais e professores (o que no fundo não passa de uma
reencarnação intelectual). E é por isso que convido você a estar
consciente de como minhas palavras ressoam aí. Não acredite
nelas simplesmente, teste-as, não em comparação com suas
teorias mas com sua experiência.
APENAS FIQUE EM SILÊNCIO
Quando alguém começa a questionar nossas crenças, isso
pode nos deixar com medo. Crença e medo se enrolam um no
outro como dois arbustos espinhosos crescendo lado a lado. É
muito difícil separá-los. Se você vive com medo, é tentador
encontrar refúgio nas crenças, mas as crenças podem levar a
mais medos.
Acho útil encarar o aprendizado pensando no equilíbrio
entre mente e coração: minha mente deve estar aberta à
mudança constante, mas meu coração é imutável. Isso me dá
forças em meu interior, mas também disposição para ouvir os
pontos de vista dos outros. Vou contar uma história antiga
sobre isso.
Um jovem estava buscando se tornar sábio, então começou a
procurar por um homem sábio. Ele buscou e buscou até
encontrar alguém que parecia se encaixar na descrição. Ele
abordou o homem e disse: “Poderia, por favor, me dar
sabedoria?”.
A princípio, o sábio pareceu relutante. “Você está mesmo
pronto para receber sabedoria?”, ele questionou.
“Com certeza”, disse o homem, “estou buscando há anos.
Viajei aos quatro cantos do mundo, e estou pronto.”
O sábio pensou por um momento e respondeu: “Certo, vou
lhe ensinar, mas antes preciso regar minhas plantações. Por
favor, venha comigo até o poço e espere enquanto pego água.
Tenho também uma condição: aconteça o que acontecer,
apenas fique em silêncio e não diga nada. Depois que eu
terminar de regar as plantas, vou lhe dar sabedoria”.
O jovem pensou consigo mesmo: “Que ótimo, basta ficar em
silêncio, observar enquanto ele rega as plantas, e ele vai me dar
sabedoria”.
Eles foram até o poço, e o sábio jogou o balde no buraco.
Depois de cerca de um minuto, puxou de volta o balde, que
estava cheio de buracos, e vazou água por toda parte até ficar
vazio. Logo em seguida, o sábio pegou o balde vazio e o jogou
no poço de novo.
O jovem começou a pensar: “Hum, que estranho… Será que
ele é sábio mesmo? Será que não sabe que o balde está cheio de
buracos? Como vai regar as plantas se toda vez que traz a água
para cima o balde se esvazia?”. Mas então pensou: “Tudo bem,
basta ficar em silêncio e ele vai me dar sabedoria”.
O sábio puxou o balde para cima. Mais uma vez, a água
escorreu pelos buracos e o balde se esvaziou rapidamente. O
jovem sentia suas dúvidas crescerem, mas disse para si mesmo:
“Só fique em silêncio, e você terá sabedoria”.
Uma terceira vez, o balde subiu escorrendo água dos
buracos. Ficou vazio num piscar de olhos, mas o sábio apenas o
jogou de volta no poço. O jovem já estava começando a duvidar
a essa altura. “Por que ele não vê que o balde está vazando e
cheio de buracos? Será que esse homem pode mesmo ser um
professor?”
Pela quarta vez, o balde voltou do poço com água saindo dos
buracos, e o sábio o jogou dentro do poço novamente. O jovem
pensava: “Qual é o problema desse homem? Será que ele é
capaz de me ensinar alguma coisa?”.
Pela quinta vez, o sábio tirou o balde, que estava vazando
água por toda a lateral do poço e criando uma enorme poça no
chão. Dessa vez, o jovem não conseguiu mais se conter. Disse
para o sábio: “Com licença, você não sabe que seu balde está
cheio de buracos e não consegue conter o que quer que seja?”.
O sábio deixou o balde cair, sorriu e voltou a se sentar perto
do jovem. “É verdade, o balde está cheio de buracos e não
consegue conter a água. E você mostrou que seu balde tem
muitos buracos e não consegue conter nada. Sua mente é cheia
de convicções, assim como esse balde é cheio de buracos.”
Como muitas histórias antigas, a conclusão é simples: se sua
mente já está cheia de convicções, será difícil aprender
qualquer outra coisa com os outros, mas a sabedoria flui de
dentro para fora, como os círculos de uma pedra atirada num
lago. Ou num poço.
Uma vez um cético foi ver meu pai discursar. Seu plano era
vaiar lá no fundo e ele estava esperando o momento certo para
contestar — uma mensagem, uma história, qualquer coisa. Isso
o obrigou a ouvir com muita atenção o que meu pai estava
dizendo. Cada palavra. Ele não vaiou em nenhum momento.
Na verdade, no fim da sessão, estava praticamente pronto para
pedir Conhecimento ao meu pai. Ele havia chegado com uma
série de preconceitos e um plano, mas se abriu o suficiente
para permitir que seu coração e sua cabeça escutassem.
PRECISANDO SABER
As pessoas às vezes me dizem: “Ah, caia na real — todo esse
papo sobre paz interior é uma fantasia!”. Na verdade, são
muitos os que duvidam de que a paz é possível. Alguns chegam
a essa conclusão depois de uma reflexão cuidadosa, e eu
respeito isso. Outros simplesmente descartam a paz num piscar
de olhos. Se você não tem autoconhecimento em sua vida,
grandes princípios como “a paz é possível” podem ser
ameaçadores. Algumas pessoas têm medo de deixar que
qualquer dúvida entre em sua casa ou em suas fortes
convicções.
Dúvidas podem nos deixar malucos. Se você duvida de que a
pessoa que ama é sincera com você, o medo não será afastado
por teorias. Precisamos saber.
Permita-me dramatizar isso. (É útil saber que Akbar foi um
governante indiano do século xvi e Birbal era seu conselheiro.)
Um dia, a esposa de Akbar, o imperador, veio até ele e disse:
“Você privilegia Birbal em vez de meu irmão. Ele é seu
parente, era ele que você deveria colocar em primeiro lugar.
Birbal não é ninguém!”.
Akbar respondeu: “Sim, privilegio Birbal. Ele é sagaz e
inteligente”.
Sua esposa protestou: “Meu irmão também, e quero que ele
seja nomeado”.
Akbar questionou: “Ah, como isso vai acontecer?”.
E ela disse: “Muito simples: dê uma volta no jardim. Chame
Birbal. Diga a ele para vir me buscar. Vou me recusar a ir e,
assim, você pode demiti-lo pelo fracasso”.
Mais tarde, Akbar estava caminhando nos jardins e ordenou:
“Chamem Birbal”. Rapidamente, Birbal veio.
“Pois não, majestade? Como posso ajudar?”
“Vá buscar minha esposa. Gostaria que ela estivesse aqui
enquanto faço meu passeio.”
Birbal olhou para Akbar e disse: “Vossa majestade tem tantos
servos, por que logo eu recebi essa honra?”.
O imperador tinha um sorriso no rosto. “Por motivo
nenhum”, ele respondeu, “apenas escolhi você.”
Birbal percebeu que havia um problema. Então entendeu o
que estava acontecendo: a esposa do imperador devia ter
conspirado contra ele. E logo deduziu que a esposa não tinha a
mínima intenção de ir.
No caminho para visitar a imperatriz, ele parou um dos
guardas e disse: “Vou conversar com sua majestade. Enquanto
eu estiver falando, venha e comece a sussurrar no meu ouvido.
Quero que você diga algumas palavras alto o bastante para que
ela escute. As palavras são: ‘E ela é muito linda’”.
Birbal foi e conversou com a imperatriz.
“O imperador deseja que vossa majestade o acompanhe no
jardim” e assim por diante, mas não estava chegando a lugar
nenhum. Depois de um tempo, o guarda entrou, começou a
sussurrar em seu ouvido e, como instruído, disse: “E ela é
muito linda”. Em seguida, saiu.
Birbal se voltou para a imperatriz: “Ah, vossa majestade não
precisa vir agora, mas creio que precisam de mim lá”. E saiu.
Dois minutos depois, a imperatriz estava ao lado do
imperador no jardim. Ele disse para ela: “Viu? Falei que Birbal
é muito inteligente. Como fez isso, Birbal?”.
E Birbal respondeu: “Majestade, bastou plantar uma
sementinha de dúvida, e ela precisava saber”.
SOBRE ENSINAR
Meu pai costumava dizer a mim e aos meus irmãos: “Nunca
entendi como, mas meu mestre respondia a todas as perguntas
que eu nem mesmo tinha feito”. Uma das coisas que
aprendemos com meu pai foi a ouvir e contemplar o que nos
era ensinado. Com frequência, as perguntas ficavam claras
depois de eu ter ouvido as respostas com atenção.
Sou muito grato pelo que meu pai me deu, especialmente
esse dom de ser capaz de entrar em mim mesmo e me sentir
pleno. A relação de pai e filho acabou há muito tempo, quando
ele faleceu, mas o dom que ele me deu continua a render
frutos. Minha ambição é compartilhar as sementes desse fruto
com o maior número de pessoas possível.
Nem sempre foi fácil ser visto como um professor quando
eu era jovem. Lembro-me de olhar para salões cheios de
médicos, advogados e outras pessoas maduras e cultas sentadas
pacientemente esperando que eu falasse. Lá estava eu, com
nove ou dez anos; eles na casa dos trinta, quarenta, cinquenta
— esperando para me fazer perguntas. E eu lhes daria as
respostas.
Quando eu discursava, muitas pessoas me perguntavam:
“Mas como você sabe isso?”. E minha resposta era sempre:
“Porque vivenciei isso”. E então as pessoas pediam: “Pode me
mostrar?”. E eu respondia: “Sim, mas antes você precisa sentir
sua sede de paz”. Isso porque se preparar para o
autoconhecimento começa com encontrar seu desejo de se
conhecer.
Não há por que entrar nessa jornada se o que você busca é
confirmar suas crenças preexistentes; o essencial é sentir a
necessidade de vivenciar quem você é de verdade. É como
quando você dá um presente embrulhado para uma criança.
Ela começa a perguntar: “O que é? É isso? É aquilo? Acho que já
sei!”. Ela está tentando associar o formato do presente ao que
quer que ele seja. Mas a única maneira de saber o que tem
dentro é rasgar o papel de embrulho. O mesmo vale para o eu.
Na Índia, quando minhas turnês de palestras terminavam, eu
voltava à escola e me tornava um estudante de novo. Às vezes
era tão difícil para o professor se acostumar como era para
mim. Em um momento, eu estava sendo ouvido com grande
atenção; no outro, os professores estavam gritando: “Você está
atrasado!” (e era provável que eu estivesse mesmo).
Por isso, me perguntei: quem sou eu? A resposta começou
com este pensamento simples: “Minha vida está em constante
mudança, mas graças ao autoconhecimento estou sempre
conectado ao meu eu”. Com grande clareza eu via que nada
duraria para sempre, portanto não precisava me preocupar em
alternar entre os papéis diferentes que tinha na vida. Pensei:
“Não vou ser um estudante para sempre, mas, quando estiver
na escola, posso ser essa versão de mim”. E: “Não vou ser
criança a vida toda, mas, enquanto for, posso ser esse filho”. E:
“Não necessariamente vou ser um palestrante sobre sabedoria
na Índia até o fim dos meus dias, mas, enquanto estiver aqui,
posso ser isso”.
Entender que nada na vida é fixo foi libertador. Permitiu que
eu fosse mais flexível em relação à minha perspectiva e tornou
muito mais fácil suportar alguns dos meus professores mais
rabugentos.
SUSPENDENDO A CRENÇA
“A sabedoria começa pela reflexão”, disse Sócrates, mais uma
vez sintetizando uma verdade profunda em poucas palavras. O
mesmo pensamento ecoa no desejo do poeta inglês Coleridge
de que os leitores permitam à imaginação uma “suspensão
voluntária da descrença por um momento, o que constitui a fé
poética”.
Nascido em 1772, Samuel Taylor Coleridge queria que as
pessoas se livrassem da mente lógica quando lessem, de
maneira que pudessem vivenciar algo diferente — algo além do
que já pensavam. Nesse espírito, Coleridge começou um
projeto chamado Baladas líricas, colaborando com o também
poeta William Wordsworth para criar uma coletânea de
poemas extremamente criativos. Coleridge descreveu o
objetivo de Wordsworth como algo que
despertaria da letargia do costume a atenção da mente e a apontaria para
a beleza e as maravilhas do mundo diante de nós; um tesouro
inexaurível, mas para o qual, em virtude do véu da familiaridade e da
solicitude egoísta, temos olhos que não enxergam, ouvidos que não
escutam e corações que não sentem nem compreendem.
Em um espírito parecido, o que estamos buscando aqui é
uma suspensão voluntária da crença. Sim, sempre precisamos do
pensamento inteligente e de ideias sensatas para nos explicar
como entendemos o mundo. A ciência proporciona vantagens
enormes para todos. Mas, quando o assunto é
autoconhecimento, devemos silenciar o pensamento e ouvir a
voz mais profunda dentro de nós. Precisamos ter olhos que
enxerguem de verdade, ouvidos que escutem de verdade e um
coração que sinta e entenda de verdade — que saiba de
verdade.
Além de desenvolver a mente, que mal há em suspendermos
nossas crenças e despertarmos nossa atenção da letargia da
vida automática, apontando-a para as maravilhas do mundo
diante — e dentro — de nós?
5. Comece por você
Um jovem estava descendo a rua quando viu um homem
muito mais velho, curvado pelo peso de um fardo enorme de
madeira que carregava nas costas. O jovem pensou: “Esse
senhor já está aí há um bom tempo, enquanto eu só estou
começando a vida — por que não peço um pouco de sabedoria
para ele?”. Então ele se aproximou e disse: “Velho, por favor,
me dê um conselho sobre a vida”. O homem olhou para ele,
tirou o fardo pesado dos ombros, colocou-o no chão e se
empertigou. Então, olhou para ele de novo, curvou-se, colocou
a lenha de volta nos ombros, levantou-se e saiu andando.
Qual é a moral da história? Talvez seja que devemos limitar
os fardos que carregamos. Ou talvez nos diga que boa parte da
vida gira em torno de seguir em frente com o que é necessário
e que deveríamos evitar dar tempo a distrações. Ou que às
vezes podemos dizer mais com ações do que com palavras. Mas
o que sempre tiro dessa história é a lembrança de que a vida
exige que nos mantenhamos em pé. Podemos precisar da ajuda
dos outros de vez em quando, mas no fim das contas devemos
assumir a responsabilidade por nós. É disso que trata este
capítulo.
NAVEGANDO NOSSO PRÓPRIO NAVIO
Vamos voltar um pouco. Quando nascemos, éramos o centro
do nosso mundo. Nenhuma das complexidades e confusões da
vida nos afetava, e conseguíamos expressar a energia pura de se
estar vivo e ter necessidades. Pense na maneira natural como
um bebê ri ou chora. Pense no sorriso largo da criança quando
está se divertindo. Por que deixamos esses sentimentos de
lado? Na vida adulta, podemos nos tornar atores representando
papéis para os outros, tentando deixar todos felizes. Mas onde
está nossa alegria? Onde está nosso amor? Onde está nossa paz?
Já estão no fundo de nós, mas às vezes esquecemos que estão
lá.
Quando essa falta de conexão com o eu acontece, buscamos
respostas no mundo exterior. Outras pessoas podem nos ajudar
— sendo boas ouvintes e orientando com a experiência delas
—, mas no fim somos nós que precisamos encontrar essa
conexão de volta com quem realmente somos. No fundo,
apenas eu sou responsável pela minha felicidade e apenas você
é responsável pela sua.
VOCÊ SE APROVA?
Às vezes acreditamos erroneamente que o que nossos
familiares, amigos e colegas pensam de nós é o que somos.
Acabamos moldando nossas opiniões para nos encaixar no que
eles pensam — ou no que pensamos que os outros pensam.
Podemos nos tornar como aqueles políticos que vivem
consultando pesquisas de opinião para ver suas taxas de
aprovação e dizem apenas o que acreditam que as pessoas
querem ouvir. Mas as opiniões dos outros e as suas
necessidades são duas coisas diferentes. O imperador e filósofo
Marco Aurélio expressou isso nos seguintes termos:
A felicidade de todo homem depende de si mesmo, contudo observa que
fazes tua felicidade consistir nas almas e conceitos de outros homens.
É difícil respeitar alguém que não se respeita. A propósito,
vemos a necessidade de aceitação por toda parte. As pessoas se
preocupam com o que estranhos pensam de sua aparência.
Preocupam-se se disseram algo inteligente nas reuniões.
Preocupam-se se são populares. Mais importante do que tudo
isso: você se aprova? Você gosta de passar tempo com você? Você
se entende e se valoriza? A questão não é ser autocentrado; é se
centrar em si.
NÃO SE OFENDA, NÃO OFENDA
Em casa, no trabalho, na escola, em público — podemos
sentir que estamos sendo julgados o tempo todo e então nós
retribuímos o favor julgando tudo em resposta. Julgamos as
pessoas por julgarem! Assim se forma uma atmosfera negativa,
como um sistema climático, e, antes que você se dê conta,
caem tempestades.
Imagine duas substâncias químicas que são estáveis sozinhas
mas explodem quando combinadas: agora pense nelas como o
desejo que você e outra pessoa têm de julgar um ao outro.
Misture as duas substâncias e dê início ao processo de
combustão emocional.
Mas existe outra forma. Nem sempre é fácil pôr em prática,
mas, se pararmos de julgar os outros e nos concentramos no
quanto nós nos aprovamos, tudo se transforma. Quando nos
sentimos centrados em nosso eu, não nos perturba ouvir as
opiniões dos outros, quaisquer que sejam elas.
Um mantra muito útil é: “Não se ofenda, não ofenda”. Em
outros termos, se você não trouxer a bordo uma carga de
comentários negativos, você não achará necessário despejar
esses comentários no próximo porto.
Quando sentimos a tentação de nos concentrar no caráter do
outro, podemos em vez disso nos concentrar em nós mesmos.
Como eu estou? Eu me entendo? Eu estou sendo generoso e
amoroso com todos? E eu estou sentindo a paz dentro de mim?
Digo a mim mesmo: não busque bondade nos outros antes de
encontrar a bondade em você. Não busque amor nos outros
antes de encontrar o amor em você. Não busque paz nos
outros antes de encontrar a paz em você.
O poeta Rumi capturou isso maravilhosamente:
Ontem eu era inteligente, então quis mudar o mundo. Hoje sou sábio,
então estou mudando a mim mesmo.
A mesma sabedoria foi expressa cerca de seiscentos anos
depois pelo escritor russo Liev Tolstói:
Em nosso mundo todos pensam em mudar a humanidade, mas ninguém
pensa em mudar a si mesmo.
Em outros termos: comece por você.
NÃO É DA SUA CONTA
Existe um ditado maravilhoso que nos lembra que existe
outra forma de responder a críticas: “O que as pessoas pensam
sobre você não é da sua conta”. Sim! Se alguém que você
respeita faz uma observação sensata sobre você, ótimo —
aprenda com ela. Se não, siga seu caminho.
Marido e mulher seguiam uma longa jornada andando ao
lado do cavalo. Alguns aldeões os viram e disseram: “Aquele
casal é doido: eles têm um cavalo mas não cavalgam”.
O homem e a mulher escutaram e disseram um para o
outro: “Certo, vamos cavalgar”. Então os dois se sentaram no
animal.
Na vila seguinte, algumas pessoas saíram de casa para
observar os estranhos e disseram: “Que cruéis são aquelas
pessoas: estão os dois montados no pobre cavalo”.
Mais uma vez, eles ouviram os comentários. O homem
pensou consigo: “Devo mostrar compaixão pelo cavalo e pela
minha esposa”, então a convidou para ficar sentada enquanto
seguia a pé, e ela cavalgou.
Em outras casas mais adiante, as pessoas saíram e falaram:
“Vejam só aquela moça; não tem pena do marido”.
Então, para proteger a mulher de críticas, o homem disse:
“Desça, vou montar no cavalo”.
É claro que os habitantes do vilarejo seguinte disseram:
“Você não tem compaixão nenhuma pela mulher? Você está
cavalgando e ela está a pé!”.
Então o homem desceu e disse: “Mulher, se formos ouvir
essas pessoas, nunca chegaremos ao nosso destino. Vamos
continuar como estávamos”. E voltaram a caminhar ao lado do
cavalo.
QUEM LIGA?
Na Índia, quase todas as famílias administram os gastos com
muito cuidado, porque é necessário, mas, quando se trata do
casamento do filho ou da filha, esbanjam de maneira
extraordinária. Às vezes fazem empréstimos muito maiores do
que sua renda anual. Pegam emprestado porque querem causar
boa impressão. Acontece em todo o mundo, mas os indianos
transformaram isso em uma arte. E depois precisam pagar a
conta.
Aqui vai uma dica que pode poupar muito dinheiro: convide
para seu casamento apenas as pessoas que já amam e respeitam
você. O mesmo vale para aniversários, datas comemorativas e
outros grandes eventos sociais. O ponto central é o seguinte: se
estiver buscando atingir a perfeição no exterior — aos olhos
dos outros —, você deve estar fazendo as coisas do jeito errado.
As percepções das pessoas sobre você não podem ser
controladas. Os sentimentos dos outros mudam e evoluem.
Quando confiamos em nós e nos valorizamos, opiniões sobre
nós são apenas uma coisa passageira — às vezes injusta, às
vezes certeira, às vezes até agradável, mas nunca de
importância duradoura. O que perdura é o que sinto sobre
mim, e o que sinto sobre você.
Em muitos casos, as pessoas que julgam não estão pensando
exatamente em nós — é mais provável que estejam pensando no
que achamos delas. Ou talvez seja como a escritora americana
Ann Landers apontou certa vez: “Aos vinte, nos preocupamos
com o que os outros pensam de nós. Aos quarenta, não nos
importamos com o que pensam de nós. Aos sessenta,
descobrimos que nunca nem pensaram em nós”.
Uma vez, quando eu estava discursando para detentos na
penitenciária de Pune, na Índia, um prisioneiro se levantou
para me fazer uma pergunta. “Estou aqui pelos motivos
errados”, ele disse. “Quero dizer, não era para eu estar aqui,
mas vou ser libertado em breve e voltarei para casa. O que as
pessoas lá vão pensar de mim?”
Logo percebi como essa questão era importante para muitos
detentos, porque todos se voltaram para ele. Sua pergunta
tinha tocado um ponto sensível. Havia centenas e centenas de
pessoas naquele salão, e de repente tudo ficou quieto por um
momento. O lugar ficou em silêncio e, então, todos olharam de
novo para mim, curiosos sobre o que eu iria dizer.
Respondi: “Quer mesmo saber?”.
E ele disse que sim.
“Bom, sinto muito em dizer”, respondi, “mas elas não
estavam pensando em você. Elas têm seus próprios problemas.
Você está pensando no que elas pensam de você, mas a maioria
das pessoas está ocupada pensando em outras coisas. Você acha
que elas estão sem fazer nada, pensando em você? Bom, você é
importante, mas não é tão importante assim. As pessoas
seguem em frente!”
Os detentos pareceram achar essa perspectiva útil, talvez
porque todos saibamos que, quando se trata de outras pessoas
nos julgando, sempre há “duas escolas de pensamento”. É
quase absurdo: em nossa cabeça, estamos imaginando o que se
passa na cabeça delas, embora, em nossa cabeça, saibamos que
isso não é tão importante assim; na cabeça delas, elas devem
estar pensando em outra coisa. E assim vai. Pode levar tempo e
esforço, mas a solução é dedicar sua energia ao que você pode
saber: quem você é, dentro do seu coração. Todo o resto é ruído.
TIGELA DE BUDA
Para todos que já se sentiram desencorajados pelos outros,
gostaria que ouvissem as seguintes palavras com muita clareza:
você tem o poder de decidir o que é certo para você. Estou aqui
para fazê-lo se lembrar desse poder, para dizer que ele está bem
vivo dentro de você, para sugerir que tente se conectar de
perto com essa força aí dentro e convidá-lo a se impor uma vez
mais. Ser desencorajado é ter sua coragem escondida de você
mesmo — mas a coragem é sua, e sempre é possível encontrar
e sentir a coragem interior.
Um dia, Buda estava andando com um discípulo, e todos na
cidade o estavam criticando, dizendo: “Você não presta para
nada. Não faz isso, não faz aquilo…”.
O discípulo perguntou: “Buda, não o incomoda que todas
essas pessoas o critiquem?”.
Buda esperou até voltarem para casa, então pegou sua tigela
e se aproximou do discípulo.
Ele disse: “De quem é esta tigela?”.
E o discípulo: “É sua”.
Então chegou mais perto do discípulo.
“De quem é esta tigela?”
“Ainda é sua.”
Ele continuou fazendo isso, e o discípulo continuou a
responder: “É sua; é sua”.
Então Buda pegou a tigela e a pôs no colo do discípulo, e
disse:
“Agora, de quem é essa tigela?”
O discípulo respondeu: “Ainda é sua”.
“Exato!”, disse Buda. “Se você não aceitar a tigela, ela não é
sua. Se eu não aceitar as críticas, elas não me pertencem.”
SEM RESMUNGAR
Se não tomarmos cuidado, a negatividade de uma pessoa
pode formar uma nuvem sobre todos. Deve ser por isso que
são Bento, o fundador vi da Ordem dos Beneditinos, era contra
resmungos (isso aparece várias e várias vezes na Regra de São
Bento, o “manual” da vida no mosteiro). É fácil imaginar como
um resmungão seria irritante se você estivesse vivendo em um
mosteiro com ele 24 horas por dia.
Isso me lembra uma piada. Um jovem entra em um
mosteiro e, na primeira manhã, lhe explicam: “Neste lugar,
temos uma grande regra: é proibido falar. Mas, uma vez por
ano, perguntamos a você como vai, e você pode dizer duas
palavras”.
Então, o primeiro ano se passa e perguntam: “Como vai?”.
Ele diz: “Frio demais”.
Outro ano se passa.
“Como vai?”
“Cama dura.”
E outro ano se passa.
“Como vai?”
“Quieto demais.”
Finalmente, o monge superior vai até ele e diz: “Você está
aqui há três anos e não fez nada além de reclamar, reclamar,
reclamar”.
TUDO DE QUE VOCÊ PRECISA ESTÁ AÍ DENTRO
Às vezes, podemos buscar aprovação e outras distrações para
preencher uma sensação de vazio dentro de nós. Mas ninguém
mais pode preencher esse vazio. Seria como colocar água em
uma tigela rachada. Devemos nos aceitar, e isso significa aceitar
as forças e os recursos maravilhosos que temos aqui dentro. No
fundo, não precisamos nos preocupar com a opinião dos
outros, porque tudo de que precisamos está dentro de nós.
Isso é tão importante que quero repetir: tudo de que
precisamos está dentro de nós! Clareza, alegria, serenidade,
amor — esses e muitos outros sentimentos positivos estão
dentro de você, esperando para florescer. O mesmo vale para
todas as qualidades negativas, obviamente. A clareza está em
você, mas a confusão também. A alegria está em você, mas o
desespero também. A serenidade está em você, mas o caos
também. O amor está em você, mas o ódio também.
Suas qualidades negativas costumam simplesmente aparecer,
mas você pode ter que se esforçar um pouco para encontrar as
boas. As qualidades positivas brotam da sua paz interior, e isso
lhe dá uma base sólida e imutável no fundo do seu ser. Mas
você deve saber onde buscar esse tesouro. O que me leva a
uma história.
Um homem deixa sua vila e vai à cidade para ganhar
dinheiro. Ele se sai muito bem e, depois de alguns anos fora,
decide que é hora de voltar para ver a família. Então inicia
uma longa jornada de volta para sua terra, as malas e bolsas
cheias de presentes. Um ladrão o avista quase imediatamente e
pensa: “Esse homem tem dinheiro. Não estou nem aí para os
presentes, quero é a bolsa dele”. Ele vai até o homem e puxa
assunto. Pergunta aonde está indo e diz: “Estou indo na mesma
direção, vamos juntos”.
Naquela noite, eles se hospedam em uma estalagem. No
jantar, o homem revela que se deu muito, mas muito bem na
cidade e agora está voltando para construir uma casa grande e
cuidar da família. O ladrão fica encantado ao ouvir aquilo.
Inventa uma desculpa para ir dormir cedo, mas em vez disso
vai ao quarto do homem. Revira todas as bolsas mas não
encontra o dinheiro. Olha em todas as gavetas mas não acha
nada. Vira os lençóis do avesso mas não encontra nenhuma
moeda.
Na noite seguinte, eles se hospedam em outra estalagem.
“Então, você ganhou mesmo muito dinheiro”, diz o ladrão, “e
está levando tudo de volta para construir uma casa e cuidar da
família, certo?”
“Ah, sim”, diz o homem, “ganhei muito mais dinheiro do
que imaginava, e fico muito contente por poder levar tudo de
volta e construir alguma coisa bonita.”
Mais uma vez, o ladrão sai às escondidas e examina o quarto
do homem, procurando em todos os lugares em que consegue
pensar. Nada.
Na noite seguinte, eles chegam a outra estalagem e, de novo,
o homem janta com o ladrão. No fim da refeição, o ladrão diz:
“Então, você logo vai estar em casa e investir aquele dinheiro”.
“Isso mesmo”, diz o homem, “vai ser ótimo.” Depois, o ladrão
dá boa-noite e vai revirar desesperadamente cada centímetro
do quarto do homem em busca da bolsa. Nada.
Na manhã seguinte, eles estão chegando perto da vila natal
do homem, e o ladrão não consegue mais se conter. “Preciso
confessar uma coisa”, ele diz. “Sou um ladrão e, quando você
me contou que tinha todo aquele dinheiro, eu quis muito
roubar. Toda noite, olhei seu quarto, procurando até dentro das
botas e embaixo do travesseiro. Não encontrei nada. Você
ganhou mesmo dinheiro?”
“Ah, sim”, diz o homem alegremente, tirando duas bolsas
cheias dos bolsos, “logo percebi que você era um ladrão. Então,
toda noite, a caminho do jantar, eu entrava no seu quarto e
escondia minha fortuna embaixo do seu travesseiro. Eu sabia
que você olharia embaixo do meu, mas nunca embaixo do
seu.”
Para encontrar o tesouro inestimável da paz interior, olhe
dentro de você. Nenhuma loja a vende, nenhum senhorio a
controla, nenhum governo a regula, e ninguém pode roubá-la
de você. Você é rico de autoconhecimento e de todo o tesouro
que lhe permitirá descobrir a paz dentro de você.
Tornamo-nos especialistas em sentir o mundo exterior —
ver, tatear, degustar, cheirar, ouvir —, mas você sabia que
também podemos projetar nossos sentidos para dentro de nós?
Quais são as texturas e formas do seu mundo interior? Quais
imagens você vê quando tenta olhar dentro de você? Qual é o
sabor das suas necessidades e desejos? Qual é o aroma das suas
emoções? Qual é o som secreto do seu eu? Consegue se ouvir
com clareza?
Quando eu era criança, tínhamos aqueles livros de pintar
por números: 1 significava vermelho, 2 amarelo, 3 azul, e assim
por diante. Eram divertidos. Então chegaram livros novos em
que a tinta já estava na página; bastava passar água e a imagem
começava a aparecer. Era um pouco elementar demais. Um dia,
pensei: por que me dar a todo esse trabalho? Então peguei o
livro todo e o mergulhei na água, deixei secar, abri — e estava
tudo pintado. Mas não fazia sentido nenhum: era apenas uma
confusão. Então comecei a desenhar e pintar do zero.
Há muitas pessoas neste mundo que levam a vida na
esperança de ouvir onde pintar. Elas dizem: “Deem quadrados
em que eu possa pintar ou passar água, não me peçam para
criar algo sozinha”. Mas nos foi dada a oportunidade de nos
expressar — pintar lindas imagens com as forças que temos
dentro de nós. A cada nova manhã, podemos escolher a versão
mais fantástica de nós mesmos. Ignore os números. Pinte fora
dos contornos. Pinte o que está dentro do seu coração. Pinte a
versão mais deslumbrante de quem você é.
UNS E ZEROS
Há muito tempo, eu estava falando em um evento em Santa
Cruz, na Califórnia, e finalizamos com uma sessão de
perguntas e respostas. Lembro que o salão estava cheio; havia
pessoas em pé do lado de fora, olhando pelas portas e janelas.
A certa altura, uma mulher — uma professora de ioga —
levantou a mão para indicar que tinha uma pergunta, e toda a
atenção se voltou a ela.
“O que você acha de ioga?”, ela perguntou.
Posso ter interpretado mal, mas senti que ela estava
esperando que eu dissesse: “Ah, ioga é algo que todos devemos
fazer”, para que ela tivesse mais clientes ou mais fama.
Relembrando, consigo ver que minha resposta pode ter
parecido absurda. Respondi:
“Ah, ioga? Sim, é como um zero.”
Zero.
Ela ficou muito irritada. Estava longe de ser a resposta que
ela esperava, então ela saiu. Depois que ela foi embora,
expliquei o que quis dizer às pessoas que estavam no salão:
“Pensem da seguinte forma: você é um e ioga é zero.
Coloque zero na frente de um, o que você ganha? Um fica um,
zero fica zero. Coloque zero depois de um, e você fica com dez.
Acrescente outro zero, e você fica com cem.”
Achei uma resposta um bocado inteligente, mas fui lento
demais para explicar minha genialidade para a professora de
ioga.
Há um ponto sério aqui: o que colocamos à frente de nós
não nos acrescenta. Trabalho, dinheiro, crenças, as
necessidades dos outros, ioga: não devem vir antes de nós. Por
outro lado, tudo que colocarmos depois de nós multiplica o que
somos. Acima de tudo, precisamos elaborar esse um porque
sem ele não há nada. Depois, podemos começar a colocar zeros
após o um.
Há 7 bilhões de uns no mundo. Eu sou um. Você é um. Na
sua vida, tudo precisa começar por seu um particular — você.
O QUE VOCÊ VAI ESCOLHER?
Quando entendemos quem realmente somos, isso nos dá
uma ferramenta poderosa. Essa ferramenta molda nossa vida e
o mundo ao nosso redor. Estou falando de escolha. O
autoconhecimento lhe permite ver que você pode escolher
entre paz e conflito, entre amor e ódio, entre alegria e
aborrecimento. Não escolher também é uma escolha, aliás. Se
você decidir boiar no rio da vida, não pode reclamar quando
ele o levar aonde você não quer ir.
Precisamos estar conscientes do que está acontecendo em
nossa vida. Quando estamos num carro ou numa bicicleta a
caminho de casa, como saber que estamos na direção certa e
não nos perdemos? Porque tudo que vemos está confirmando
onde estamos e aonde estamos indo. Na vida, quais são as
pistas ao longo do caminho? Você as está vendo com clareza?
Eu estou consciente de onde estou hoje e do que quero
experimentar neste mundo?
É possível ser consciente o tempo todo? Não, porque viver
de maneira inconsciente é quase natural: somos muito bons
nisso. Mas e se escolhêssemos trabalhar em sermos
conscientes? Bom, isso pode ter um efeito profundo em nós e
nos outros. Mas devemos sempre começar conosco. Você é o
centro do seu universo, mas precisa escolher entender e
vivenciar isso plenamente — saber isso.
O que escolhemos em nossa vida vai fazer toda a diferença
para nós e tocar a vida das pessoas ao nosso redor. Muitos
pensam que não têm escolha, mas sempre têm. Sempre. Você
pode estar em uma situação terrível e sentir que tem pouca
liberdade, segurança ou oportunidade — e essas situações
acontecem mesmo, e são assustadoras. Ainda assim, porém,
você pode escolher se conectar com a paz dentro de você. Mas
apenas nós podemos fazer essa escolha; os outros não podem
fazer isso por nós.
Atravessar a vida pode ser muito semelhante a dirigir um
carro. Dirigir se resume a fazer escolhas — onde você vira, em
que marcha está, a que velocidade, onde para, o que toca no
rádio. Quando você ocupa o banco de motorista da sua vida,
você está no comando e suas decisões têm consequências. Se
parar de fazer boas escolhas, vai se perder, ficar sem gasolina,
se atrasar ou até bater. Se fizer boas escolhas, poderá ir aonde
quiser e aproveitar a viagem.
Vamos levar essa analogia um pouco além. Quando você está
dirigindo, se olhar pelo retrovisor o tempo todo, não vai ver o
que está à sua frente. Se ficar imaginando o que pode surgir
depois de cada esquina, pode deixar de notar o que está
acontecendo bem diante de seus olhos. É muito mais
gratificante estar no momento: ver a estrada à frente com
clareza, responder fazendo boas escolhas e apreciar cada
quilômetro da jornada. Você está no banco de motorista da sua
vida?
PRIMEIROS PASSOS
Começamos por nós quando escolhemos aceitar o dom da
vida que nos foi dado em cada momento e entender que esse
dom está aqui para nós — para fazermos o que quisermos com
ele. Começamos por nós quando escolhemos ouvir nosso
coração, mais do que a balbúrdia das opiniões, necessidades e
vontades dos outros. Começamos por nós quando
reconhecemos que temos um mundo de paz e força em nosso
interior, que os tesouros do eu que não podem ser roubados
estão guardados para nós sempre que decidirmos nos voltar
para dentro. Começamos por nós quando sentimos nossa sede
de saber quem somos.
Aqui estão alguns versos meus sobre ouvir o coração e a
maravilha de encontrar nosso eu pela primeira vez:
Na escuridão, você disse para aprender a olhar
Fiquei confuso a princípio
Mas agora vejo.
Sem um copo, você disse para aprender a degustar
Tive sede a princípio
Mas agora bebo.
Sem me mover, você disse para aprender a tocar
Fiquei dormente a princípio
Mas agora sinto.
No silêncio, você disse para aprender a ouvir
Fiquei surdo a princípio
Mas agora ouço.
Tratamos de muitos assuntos neste capítulo, então vou
deixar um lembrete de três maneiras simples como podemos
nos conectar com nós mesmos:
Saiba que tudo de que precisamos está dentro de nós — sinta a
variedade incrível de recursos que você tem dentro de você.
Temos um potencial imenso, mas devemos expressá-lo na maneira
como vivemos — não há ninguém como você, então se torne a
melhor versão de quem você pode ser.
Lembre-se: você sempre tem uma escolha — qualquer que seja a sua
situação, você tem mais de uma opção.
P.S. QUEM É O IDIOTA?
Não posso deixar de incluir esta história aqui no fim. É
minha versão de uma narrativa clássica de Akbar e Birbal sobre
como perdemos tempo julgando os outros sem olhar para nós
mesmos de maneira clara.
Havia um imperador na Índia, Akbar, e ele convocou seu
ministro favorito, Birbal, porque precisava de ajuda.
“Birbal, busque cinco idiotas para mim.”
“Sim, majestade”, Birbal respondeu e saiu da sala. Enquanto
saía, pensava: “Aceitei o pedido dele, mas como vou encontrar
cinco idiotas? Por que fui dizer sim? Não vai ser nem um
pouco fácil!”.
Birbal era o homem mais inteligente da corte, mas ficou
com receio de não encontrar uma solução. Então, deixou todas
as suas outras funções de lado e saiu às ruas em busca de
idiotas. Ele estava se perguntando como poderia realizar a
tarefa quando viu um homem deitado no chão, movendo as
pernas de maneira frenética enquanto mantinha as mãos bem
afastadas.
“O que você está fazendo?”, perguntou Birbal.
“Minha mulher está redecorando a casa e mediu uma janela
para comprar material para a cortina, e me mandou ir ao
mercado e comprar exatamente essa quantidade de cortina”,
ele disse, apontando com a cabeça para a distância entre as
mãos. “Então caí e estou esperneando aqui no chão porque não
posso usar as mãos para me levantar.”
“Bom, acho que encontrei o primeiro idiota”, pensou Birbal.
Mais ou menos uma hora depois, ele viu um homem
montado em um burro enquanto equilibrava uma cesta
enorme na cabeça.
“O que você está fazendo?”, perguntou Birbal.
“Ah, eu amo meu burro! Não quis colocar essa carga pesada
sobre ele, então estou carregando na minha cabeça.”
Birbal ficou radiante. Outro idiota.
Começou a anoitecer, então Birbal parou perto de um
candeeiro de rua, onde havia um homem de quatro
procurando alguma coisa no chão.
“O que está fazendo?”, perguntou Birbal.
“À tarde, eu estava com meus amigos na selva, a uns
quilômetros daqui”, disse o homem. “Fizemos um piquenique
e eu estava com meu anel, mas o anel caiu.”
“Bom, você não deveria estar procurando o anel na selva?”,
perguntou Birbal.
“Você está doido?”, retrucou o homem. “Não há luz na selva
a essa hora, escureceu!”
Birbal esfregou as mãos com alegria.
No dia seguinte, Birbal levou os três para encontrar o
imperador.
“Senhor, encontrei seus idiotas”, ele disse, e explicou o que
cada um estava fazendo quando os encontrou.
“Mas, Birbal, eu pedi cinco idiotas”, disse o imperador.
“Senhor, o quarto idiota sou eu por perder o dia de ontem
procurando idiotas”, disse Birbal.
“E o quinto idiota?”, perguntou o imperador.
Birbal apenas sorriu.
6. Escolha a gratidão
Quando pergunto “Pelo que você sente gratidão na vida?”,
costumo ouvir respostas como: “Ah, minha família, meus
amigos, minha casa, meu trabalho”. É perfeitamente
compreensível — todas essas coisas são bênçãos maravilhosas,
claro —, mas às vezes tenho a impressão de que as pessoas só
estão dizendo aquilo pelo que pensam que deveriam ser gratas.
Sempre espero que também citem a dádiva mais importante
que recebemos — a vida! Sem ela, tudo mais é impossível, mas
isso simplesmente escapa de nossa mente.
DESEMBRULHANDO O PRESENTE
Ouço muitas pessoas declararem: “Precisamos viver o hoje”.
Mas quantas realmente sentem a verdade disso em seu
coração? Quantas vezes por dia pensamos: “Estou vivo,
obrigado”? Essa é a primeira coisa que passa pela nossa cabeça
de manhã, ou nossa mente nos leva direto a pensamentos
como “Que horas são? O que preciso fazer hoje? Cadê a pasta
de dente? Preciso de café!”? O ruído. O ruído. O ruído. Quando
estamos sintonizados no ruído, paramos de ouvir todo o resto
— e paramos de nos ouvir.
O presente da vida merece ser desembrulhado e valorizado.
(E, aliás, sem dúvida há uma data de validade nesse presente,
então comece a rasgar esse papel de embrulho!) Nosso coração
se enche de gratidão quando vemos, com absoluta clareza, a
oportunidade que nos é dada a cada momento. E é sobre essa
gratidão que quero falar aqui: o conhecimento íntimo de que
cada respiração traz a bênção da vida. E com essa clareza vem
uma sensação incrível de plenitude.
Quando meu sentimento de gratidão interior se expressa, ele
diz: “Estou vivo e sei de verdade que estou vivo”. Então sinto a
pulsação vital por todo o meu corpo. Agora, a energia incrível
que sustenta o universo está me sustentando. Meus glóbulos
transportam oxigênio dos meus pulmões para onde é
necessário. Tenho esses elétrons, prótons e nêutrons dentro e
ao redor de mim. E cada nova respiração propulsiona minha
existência aqui neste planeta deslumbrante, com todas as
possibilidades que isso traz. Um ser humano é um conjunto
lindamente construído de partes e processos complexos —
uma verdadeira maravilha viva —, então que presente melhor
podemos nos dar do que valorizar nossa criação e vivenciar o
momento em sua plenitude?
Em sua forma mais pura e potente, minha gratidão pela vida
é pelo presente em si: não pelo que ele me permite fazer, mas
simplesmente pela experiência de existir neste mundo, agora.
Essa canção de gratidão vibra para mim quando faço a jornada
de fora para dentro.
Existem bilhões de pessoas na face da Terra, e cada pessoa é
única na maneira como se sente em relação ao que lhe foi
dado. Cada um de nós pode cantar uma canção diferente: uma
canção sobre como me sinto por estar vivo, como me sinto
quando estou tranquilo e como me sinto quando estou alegre.
Alguns não sabem sobre o dom que lhes foi dado; outros o
celebram com frequência. Quem quer que você seja, sempre
existe essa oportunidade de sentir gratidão pelo maior bem que
lhe foi ofertado.
SENTINDO GRATIDÃO
A gratidão não é algo que criamos com o pensamento; é algo
que sentimos. Podemos nos sentir plenos, mas não podemos
nos pensar plenos. Podemos nos sentir gratos, mas não
podemos nos pensar gratos. A questão não é pensar que temos
sorte; é dar graças à vida por meio dos sentimentos.
A gratidão também não tem a ver com educação; é escolher
valorizar minha existência na maneira como eu me sinto.
Costumamos ouvir que precisamos dizer “obrigado” quando
ganhamos algo (crianças passam por isso o tempo todo), mas a
gratidão pela vida vem de dentro.
Quando chega a hora certa de começar a sentir gratidão pela
vida? Agora. Não é preciso esperar uma cerimônia, o
alinhamento dos planetas nem uma crise pessoal. Todos
precisamos voltar nossa atenção para dentro e dar valor ao que
nos é dado. Nesse momento perfeito de gratidão, todas as
distrações desaparecem. É como se nossa jornada finalmente
tivesse chegado a seu destino, mas uma nova jornada
emocionante também estivesse começando. A gratidão é o
ponto de encontro perfeito entre o passado e o futuro — é
uma celebração do agora.
SOMOS COMPLETOS
A gratidão vem do que é, não do que poderia ser. Isso não
quer dizer que devamos abandonar nossas necessidades e
vontades, nossos desejos, esperanças e sonhos. É só que não
precisamos esperar o sucesso exterior chegar para agradecer
pelo que já temos. Nossa imaginação e nosso entusiasmo
podem realizar grandes coisas no mundo exterior — para nós e
para os outros —, mas não precisamos de conquistas para nos
tornar completos; somos completos.
Sempre podemos escolher aceitar as coisas como elas são,
vivenciá-las como elas são e ser gratos a elas pelo que elas são.
Quando realmente somos gratos pelo que é, nossa gratidão é
infinita. Nosso contentamento não pode ser medido. Nossa
alegria não pode ser medida. Nosso amor não pode ser medido.
Nossa compreensão não pode ser medida. Nossa felicidade não
pode ser medida. Nossa paz interior não pode ser medida. Não
é possível passar uma fita métrica ao redor deles, como um
alfaiate, e dizer que tamanho têm. Não há como colocá-los em
balanças. São infinitos e não têm forma, mas são
profundamente reais para nós.
Quando valorizamos cada respiração, essa é a realidade.
Quando nos conectamos profundamente com a paz dentro de
nós, essa é a realidade. Tudo isso só pode acontecer no aqui e
agora. Qual é o carma bom para “agora”? O carma bom para
agora é a consciência. O carma bom para agora é a alegria. O
carma bom para agora é a gratidão.
ALÉM DO SOFRIMENTO, ALÉM DO SUCESSO
Sempre me perguntam: “E as coisas ruins que acontecem na
minha vida? Preciso ser grato por elas?”. Ou, como uma pessoa
me perguntou certa vez, com bastante raiva: “Devo agradecer a
confusão? Devo agradecer o sofrimento? Devo agradecer a
dor?”. Não, mas nesses sentimentos também há uma seta
apontando para algo bom: a vida em si. Sem a vida, você não
poderia sentir nem o mal nem o bem. Sem a vida, não teria
como sentir raiva, não teria como sentir dor. Sem a vida, não
teria a oportunidade de ver os momentos ruins se
transformarem em bons. Aqui vai uma história sobre isso.
Um rei, seu ministro e seu cavaleiro estavam em uma
missão secreta para visitar um reino vizinho quando o rei
machucou o polegar enquanto cortava uma maçã. Começou a
sangrar profusamente, mas o cavaleiro fez um curativo e eles
seguiram em frente. O rei estava aborrecido por ter se
machucado e começou a se perguntar, vezes e mais vezes: “Por
que isso aconteceu?”. Alguns quilômetros depois, virou-se para
o ministro e perguntou: “Por que me cortei?”.
“Senhor, tudo que acontece é por um motivo”, disse o
ministro.
O rei achou a resposta irritante, ainda mais com o polegar
latejando. Ele pensou: “Vamos ensinar uma lição a ele”. Então
chamou o cavaleiro e disse para ele encontrar uma vala funda
e jogar o ministro nela de maneira que não pudesse sair.
O cavaleiro obedeceu, embora o ministro tenha resistido
bastante, tendo chegado a morder a orelha do cavaleiro a ponto
de sangrar. O ministro começou a gritar: “Por que você está
fazendo isso comigo?”.
“Bom”, disse o rei, “tudo que acontece é por um motivo.”
O rei e o cavaleiro deixaram o ministro na vala e seguiram
andando e andando até entrarem em uma floresta. Eles
caminharam por horas e encontraram uma aldeia estranha.
Antes que se dessem conta, foram cercados por aldeões; o povo
local ficou ensandecido de fúria contra os visitantes invasores.
A pena por entrar na aldeia sem ser convidado era morte por
sacrifício. Os aldeões decidiram matar o rei primeiro, então o
amarraram e começaram a fazer uma fogueira.
O rei gritou: “É terrível! Por que estão fazendo isso? Me
salvem! Parem!”.
O homem que estava comandando a cerimônia já estava nos
preparativos finais quando de repente se voltou para o chefe da
aldeia e disse: “Não podemos sacrificar este homem”.
“Por que não?”, perguntou o chefe.
“Todos que sacrificamos devem ser perfeitos, mas olhe isto!”
E levantou o polegar enfaixado do rei.
Os aldeões esbravejaram, mas logo se voltaram para o
cavaleiro e o amarraram. Mais uma vez, o homem no comando
estava nos preparativos quando notou a orelha ensanguentada
do cavaleiro.
“Também não podemos sacrificar este homem”, ele gritou e,
mais uma vez, desamarrou as cordas.
O chefe e os aldeões ficaram loucos de raiva. Começaram a
gritar e discutir. Em meio àquele caos, o rei e o cavaleiro
conseguiram sair às escondidas. De volta à floresta,
caminharam sem parar até chegarem à vala onde o ministro
tinha ficado.
“Tire-o dali!”, gritou o rei. E continuou: “Desculpe por ter
jogado você lá embaixo; aquele corte salvou minha vida.” O rei
então contou a história dos aldeões enlouquecidos e como
haviam escapado da morte.
“Que bom que me jogou na vala”, disse o ministro, “porque
não tenho nenhum ferimento e teria sido sacrificado no lugar
de vocês.”
Essa história nos lembra o lado bom que vem junto com as
nuvens em nossa vida. O que o lado bom nos diz? Diz que
existe um sol forte atrás daquela nuvem escura, esperando para
nos aquecer e iluminar nosso caminho.
Longe de mim desconsiderar o impacto das coisas horríveis
que podem nos acontecer. Estou apenas apontando que a dor
que sentimos não é tudo. Aliás, isso também vale para o prazer.
Tudo muda. Podemos sofrer, mas o sofrimento não nos define.
Podemos ter um grande sucesso, mas o sucesso não nos define.
Sucesso e sofrimento podem percorrer nossa vida, mas a paz é
constante.
A dor física, a dor mental e a dor emocional podem
sobrecarregar nossa mente, mas sempre existe algo de belo
acontecendo em nosso coração. Pode ser difícil sentir a paz
interior quando estamos no meio de um momento terrível,
mas olhe dentro de você, e encontrará algo além do
sofrimento: uma gentil lembrança de que há alegria esperando
do outro lado da dor.
Aqui vão algumas palavras de Sócrates:
Se você não consegue o que quer, você sofre; se consegue o que não quer,
você sofre; mesmo quando consegue exatamente o que quer, você ainda
sofre porque não pode ter aquilo para sempre. Sua mente cria essa
situação. Ela quer estar livre da mudança, livre da dor, livre das
obrigações da vida e da morte. Mas a mudança é lei e nenhuma
pretensão alterará essa realidade. A vida não é sofrimento; a questão é
apenas que você mais padece do que desfruta dela, até que solte as
amarras da mente e saia livre pelo caminho, aconteça o que acontecer.
A NUVEM MAIS ESCURA
Como todo mundo, tenho dias bons e ruins. Mas, mesmo
quando o dia foi terrível, quero ser capaz de me voltar para
dentro e dizer: “Sou grato por estar vivo”. E, quando tenho um
dia fantástico — quando sinto que tudo está a meu favor —,
quero poder me voltar para dentro e dizer: “Sou grato por estar
vivo”. Nem as adversidades nem a felicidade precisam nos
distrair da paz a ser encontrada em nosso coração.
A nuvem mais escura que entrou na minha vida surgiu
quando eu estava na Argentina, preparando-me para discursar
em um evento. Recebi uma ligação dizendo que minha esposa,
Marolyn, tinha sido levada às pressas para o hospital. Ela estava
em um hotel em San Diego, com nosso filho caçula, e eles
tinham pedido pizza pelo serviço de quarto. Ela tinha se
abaixado para abrir a porta do carrinho de serviço quando
desmaiou de repente e caiu no chão. No dia seguinte, no
hospital, tiraram uma amostra de fluido da coluna vertebral
dela e havia sangue, e o exame apontou que havia algo
acontecendo na cabeça dela — um problema sério com um
vaso sanguíneo. Disseram que o risco de que ela pudesse
morrer era grande.
Baixei o celular e olhei ao redor. Eu estava a milhares de
quilômetros de distância, em um fuso horário completamente
diferente. Naquela noite, encontraria uma multidão de pessoas,
muitas das quais tinham esperado anos para que eu visitasse
sua cidade natal. Estava sendo difícil conciliar todas as
informações e emoções que rodopiavam dentro de mim.
Nesse momento, decidi me sentar e me conectar comigo em
silêncio. Ao fazer isso, senti o verdadeiro peso dos
acontecimentos terríveis que se desdobravam a quilômetros de
distância, mas também senti a paz em meu interior. Uma
grande sensação de calma e clareza fluiu para dentro de mim.
Tomei providências para que aprontassem nosso avião e,
enquanto isso acontecia, me preparei para falar com uma
plateia importante.
Naquele dia, encontrar um equilíbrio entre o bem e o mal
permitiu que eu me mantivesse no caminho certo. Fui até o
evento e discursei, depois saí para o aeroporto logo em
seguida. Viajei durante a noite, e aquele voo pareceu surreal.
Minha mente estava a mil com todas as consequências
possíveis da situação de Marolyn, mas havia outra parte de
mim que estava muito clara quanto ao que eu precisava fazer.
Pousamos, passamos pela alfândega, e fui direto para o
hospital. Marolyn estava acordada, mas os médicos disseram
que a cirurgia era fundamental. Seria uma operação complexa.
Eu queria estar perto do hospital, então me hospedei em um
hotel. Fiquei lá, alternando entre o hotel e o hospital, durante
pouco mais de um mês. Todo dia, nossos familiares e amigos
nutriam esperanças. Sempre havia novidades, mas eu
conseguia sentir a força e a simplicidade que vinham do
autoconhecimento. E com isso eu podia ajudar Marolyn e
nossa família.
Durante esse tempo, toda a família mergulhou nas
profundezas do sofrimento, mas ainda havia gratidão pela vida
em si. Não éramos gratos pelo problema, mas a gratidão estava
em nós mesmo assim — uma luz na escuridão, uma luz que
nos permitia continuar vendo o quadro geral do que estava
acontecendo. Depois de todos aqueles dias, Marolyn começou a
se recuperar. Devagar, devagarzinho. Então voltou para casa e
cuidamos dela. Agora você nem imaginaria que ela passou por
aquela experiência horrível. Nossa capacidade de nos curar —
física, mental e emocionalmente — é extraordinária. (No
próximo capítulo, falo mais sobre como podemos reagir aos
momentos difíceis da vida.)
O RIO DA PAZ
Penso na paz interior como um rio que flui dentro de nós.
Às vezes, sentimos que estamos em um terreno árido, sem
nada crescendo na terra. Não há textura, não há cor, não há
abrigo. Então um fio de paz brota no solo duro, cintila sob a
luz e começa a correr pelo terreno fissurado, encontrando
antigos leitos de rio.
Enquanto a água borbulha e se move ao longo do vale, coisas
vão acontecendo. Folhas de grama começam a crescer na
margem do rio. Sementes lançadas na terra seca brotam e dão
flor. Insetos chegam para comer as folhas. Insetos maiores vêm
comer os menores e atraem pássaros em busca de comida, e os
pássaros trazem todo tipo de outras sementes, e as sementes
caem no solo agora fértil.
Então surgem as árvores, e os galhos se enchem de frutos
maduros, e há todas as cores e formatos de folhas imagináveis
formando uma pintura gloriosa de um lado a outro do
horizonte, e o canto de insetos e pássaros enche o ar de
música. Perfumes doces flutuam sobre a vasta floresta como
um convite para toda a vida entrar na festa da radiante criação.
A evolução de cada planta e animal tem elementos únicos,
mas todos precisam de água para sobreviver. A paz é a água que
permite à vida prosperar. Sou grato pela paz que flui em minha
vida, pela existência com que fui abençoado e pelas muitas
cores e padrões de vida que florescem para mim sempre que
me conecto comigo mesmo.
O QUE É SUFICIENTE?
Gosto de comida boa, lugares fantásticos e inovações
tecnológicas como a maioria das pessoas. Se você tiver a sorte
de ser relativamente próspero, esse mundo oferece algumas
coisas incríveis. O problema vem quando ficamos colecionando
e possuindo coisas sem as apreciar.
Uma vez, eu estava em uma emissora de tv discutindo
questões globais, e alguém começou a falar sobre ganância e de
como via esse problema em absolutamente todos os lugares.
No caminho para casa, no carro, comecei a pensar em
antídotos para a ganância. Então, quando paramos em um
semáforo, um carro parou ao lado do nosso e o motorista
estava com a música no volume máximo. Muito, mas muito
alta. Bum. Bum. Bum. Bum. Meu primeiro pensamento foi:
“Que desagradável. Ele não precisa fazer isso”. Mas então
repensei: “Na verdade, pode ser que ele goste tanto da música
que quer que todo mundo ouça”. Talvez aquela pessoa estivesse
apenas apreciando a música. Então me passou pela cabeça que
o antídoto para a ganância é a apreciação. E, quando
apreciamos algo de verdade, queremos compartilhar aquilo. O
contrário é quando cobiçamos algo e guardamos só para nós.
A ganância é o sentimento de que não podemos ser felizes
até conseguirmos mais; no entanto, quando começamos a
apreciar, nos aproximamos de uma sensação de plenitude. O
momento em que nos conectamos plenamente com esse
sentimento de gratidão é o fim da ganância.
Precisamos ser sinceros conosco e reconhecer o que de fato
priorizamos a cada dia. É a apreciação da vida em si que está
no topo de nossa lista do que é mais importante ou ela vai
sendo empurrada mais e mais para baixo por outras
prioridades até nem a vermos mais? Relacionamentos, casa,
carreira, férias, eventos, hobbies, tecnologia e todo o resto —
merecem mesmo ficar acima de aproveitar o dom da vida em
si? Sinto que precisamos priorizar a experiência de nossa
bênção, não deixar que ela se esconda sob todo o resto. Como
seria nossa vida se colocássemos a apreciação por essa bênção
no topo — todos os dias? Como isso mudaria a forma como
tratamos as coisas? O que você acha que isso mudaria em sua
vida?
Vejo pessoas que estão perto do fim de seu tempo na Terra e
sabem disso, e mesmo assim sua mente insiste em pôr todo o
resto no topo dessa lista de prioridades. Onde está o prazer
sincero e profundo desses dias preciosos que agraciam nossa
vida? Precisamos mesmo ter prioridades maiores do que essa?
Quanto mais nossa mente busca a plenitude no mundo lá fora,
mais longe ficamos da sensação de plenitude verdadeira dentro
de nós. Aqui vai uma sabedoria do poeta Kabir:
O peixe na água tem sede, e toda vez que vejo isso dou risada.
Quando somos gananciosos, somos esse peixe sentindo sede
na água. Água, água por toda parte, nenhuma gota para beber.
Temos tudo de que precisamos mas não damos valor. A
gratidão pelo que temos sacia nossa sede.
VOCÊ SENTE QUE TEM SUCESSO?
No fundo, tudo no mundo exterior é temporário e pode
abandonar você a qualquer momento. Simples assim. É o que
você sente, agora, que realmente importa. Você sente que tem
sucesso? Só você pode decidir. Você sente que tem sucesso? Só
você pode criar o sucesso que deseja. Você sente que tem
sucesso? O que sua resposta lhe diz sobre sua relação com você
mesmo?
Sabe quantos bilhões de pessoas trabalham arduamente na
vida para ouvir outra pessoa dizer “Você tem sucesso”? Sabe
quantos bilhões de pessoas sonham com a linha arbitrária que
outra pessoa traçou que declara “Isso é sucesso”?
É isso que é a vida ou é alguma outra coisa? Bom, existe um
mundo interior e, nesse mundo, você não precisa se esforçar
pelo que os outros dizem que é sucesso; você pode
simplesmente encontrar esse sentimento aí dentro. Não precisa
lutar pela fama; pode se sentir amado como você é. Não precisa
lutar pelo respeito dos outros; pode dar valor a quem você é.
Não precisa pesar e medir suas posses; pode continuar
desembrulhando o presente da vida.
VONTADES E NECESSIDADES
Um motivo da nossa confusão sobre a plenitude é que nem
sempre sabemos a diferença entre nossas necessidades e nossas
vontades.
Ar — talvez três minutos sem ele e já éramos.
Calor — talvez três horas sem ele e já éramos.
Água, comida, sono — também precisamos.
Batata frita — é uma vontade.
Assistir a um novo filme imperdível — é uma vontade.
Comprar aquele carro novinho — é uma vontade.
Não há nada de errado nas vontades. Elas dão prazer a nossa
vida e mantêm o dinheiro circulando e as pessoas em seus
empregos. Aquilo de que você gosta hoje pode já não gostar
amanhã. Essa é a natureza do desejo. Se o desejo não muda, é
inútil. Ele se altera o tempo todo. Você compra uma tv nova e,
quando a traz para casa, põe na tomada e a liga, está passando a
propaganda de uma tv mais nova. Então é ela que você vai
desejar. Você vai a um restaurante com um amigo; olha o
cardápio e, depois de pensar bastante, pede um prato. E,
quando ele chega, você olha para a comida do seu amigo e é
ela que você deseja. Esse é o desejo: nunca satisfeito.
Acabamos dando atenção demais às nossas vontades
enquanto esquecemos as nossas necessidades. Não é de se
admirar: existe uma indústria de vontades multibilionária e
muito chamativa que anuncia constantemente todas essas
coisas que podem ser seus próximos desejos.
Você já ouviu aquela frase sobre relacionamentos que diz
“Familiaridade gera desprezo”? Ela sugere que podemos nos
tornar complacentes com as pessoas quando passamos muito
tempo com elas. O mesmo costuma valer para os elementos
essenciais de nossa vida. Quantos acordaram hoje de manhã e
agradeceram por ter água, ar, comida e calor? E por terem
dormido?
A meu ver, não há mal nenhum em querer mais disso ou
daquilo, mas temos que nos certificar de que isso não é à custa
de tornar algo menos em nossa vida. Existe um preço por
querer essa coisa ou ela está apenas acrescentando algo
agradável? Se estiver adicionando algo bom, e não subtraindo,
ótimo!
Sempre fico impressionado quando uma pessoa tem a
determinação e o foco necessários para melhorar a vida
material para ela e sua família, sobretudo se ela vive em um
lugar com condições econômicas adversas. Mas, onde quer que
você esteja, é necessário manter um equilíbrio. Acredito que o
segredo é continuarmos melhorando nossa situação sem
perder de vista a maravilha pura da existência. A riqueza do
mundo pode saciar nossas vontades, mas é a riqueza do
coração que sacia nossas necessidades.
Você deve ter imaginado o que vem agora. Então, a paz
interior é uma vontade ou uma necessidade? Uma vez
perguntei isso a uma plateia, e as pessoas se sentiram bastante
confrontadas; tiveram que pensar muito. Se sentir uma
conexão com a paz interior é uma vontade ou uma
necessidade, cabe a cada um de nós decidir. Mas sei o que a paz
interior é para mim: uma necessidade profunda. Não é algo
que busco ligar e desligar, como um ar-condicionado. É algo
que se parece mais com o próprio ar, na verdade. Ninguém
pensa: “Não preciso respirar entre as nove da noite e as seis da
manhã”.
A paz precisa dançar em nós o tempo todo, não apenas
quando nos sentamos e nos concentramos nela. Sem a paz,
nada que tentamos fazer para nos alegrar funciona; com a paz,
temos o que é vital para nosso bem-estar. O objetivo é
prosperar, não apenas sobreviver.
Algumas pessoas têm muita dificuldade para entender esse
conceito de paz como uma necessidade. Meu ponto é que, se a
paz interior for apenas uma ideia intelectual na sua vida —
algo que você não vê mal em ligar e desligar de acordo com as
circunstâncias —, você deve estar preso em acreditar, em vez
de saber. No entanto, é necessário apenas um momento para
reconhecer o tesouro dentro de nós. Essa sensação de gratidão
está a um só segundo de distância.
QUEM É CONTENTE?
Quando não estamos em contato com a paz dentro de nós,
nossa mente consegue nos levar em longas viagens de
distração. Podemos nos incomodar tanto que nada parece certo
em nossa vida. Projetamos fantasias na vida dos outros e
deixamos de ver as bênçãos na nossa.
Quando isso acontece, começamos a nos afogar em um mar
de expectativas, e cada expectativa traz mais decepção, e cada
decepção leva a mais expectativas, e assim por diante. Nas
palavras de Kabir: “A vaca não dá mais leite, mas você está
esperando manteiga”. Não adianta criar expectativas em algo
que é incapaz de cumpri-las.
Benjamin Franklin — o polivalente gênio americano —
escreveu: “Quem é sábio? Aquele que aprende de todos. Quem
é poderoso? Aquele que governa suas paixões. Quem é rico?
Aquele que é contente. Quem é contente? Ninguém”.
Esse “Ninguém” me faz sorrir. É um comentário mordaz
sobre a condição humana. Mas aqui discordo de Franklin:
quando nos tornamos o centro de nossa vida, podemos sim
experimentar o sucesso verdadeiro, podemos sentir a
plenitude, podemos sentir o contentamento profundo. Todos
nós. E isso começa por sentir gratidão pelo que temos.
Isso me lembra uma história que ouvi certa vez, e vou
encerrar este capítulo compartilhando esse conto sobre um
quebrador de pedras e sua busca pela plenitude.
Havia um homem que trabalhava como quebrador de pedras.
Todos os dias, ele ia até a montanha, cortava algumas rochas e
as levava para casa. Em sua oficina, ele criava pequenos ídolos,
tigelas e outros objetos, e dessa forma ele ganhava a vida.
Ele estava descontente porque dava muito trabalho ir até a
montanha, cortar a rocha e trazê-la para casa. Quando estava
trabalhando, havia poeira por toda parte, e ele dependia de
pessoas ricas para comprar seus materiais. Ele sentia que não
tinha poder, por isso estava insatisfeito.
Um dia, ele estava passando pela casa de um homem rico.
Havia uma festa acontecendo, e as pessoas estavam comendo e
bebendo. Ele pensou: “Quero uma vida boa e fácil, e não
quebrar pedras todos os dias!”. Ele ergueu os olhos e disse:
“Deus, por favor, me torne assim”.
Naquele dia, Deus estava ouvindo. (Como você deve ter
notado, Ele ou Ela nem sempre ouve, mas naquele dia o
quebrador de pedras estava com sorte.) Bum! Simples assim.
Ele foi transformado em um homem rico com uma casa
grande e muitas outras coisas que vêm junto com esse estilo de
vida.
“É isso!”, ele pensou. “As pessoas se curvam diante de mim,
me respeitam, esperando meu comando.” Ele ficou muito feliz.
Um dia, por acaso, viu o rei passando. Pessoas ricas estavam
à beira da estrada prestando homenagem ao soberano, e todos
tremiam diante de seu nome. O homem pensou: “Uau, isso
sim é poder!”. Ele estava sendo feliz até aquele momento, mas
então desejou mais, por isso disse: “Deus, quero ser rei”. Nesse
dia, também, Deus estava ouvindo. E assim o homem que
tinha sido um quebrador de pedras e um homem rico se
tornou rei.
Certa manhã de verão, o homem que agora era rei saiu para
a varanda. O sol brilhava e todos, até onde a vista alcançava,
tentavam se esconder de seus raios poderosos. “Então”, ele
pensou, “o sol é mais poderoso do que eu! Todos estão com
medo do sol.” E nesse dia também Deus estava escutando
quando ele disse: “Deus, quero ser o sol”.
No momento seguinte, lá estava ele, brilhando no céu.
“Agora sim”, ele pensou. “Todos estão abaixo de mim, não há
ninguém acima. Controlo a vida de todos. Sem mim, ninguém
pode enxergar. Todos se levantam quando me levanto. E todos
vão dormir quando vou dormir. A vida é boa.”
Todo dia, o homem que agora era o sol brilhava, sentindo
seu poder, até que um dia uma nuvem colossal se pôs sobre
seu antigo reino. Ele estava tentando brilhar através da nuvem
mas não conseguia. “Hmm, será que aquela nuvem pode ser
mais poderosa do que eu? Deus, quero ser a nuvem.”
Então lá estava ele, uma nuvem imensa no céu. Ele pensou:
“Agora tenho poder verdadeiro: posso bloquear o sol”. Mas um
dia, para seu grande espanto, ele começou a se mover. “O que
está fazendo eu me mover?”, ele se perguntou. E percebeu que
era o vento. “O vento é mais poderoso que eu? Não é
possível!”, ele pensou. “Deus, quero ser o vento.”
Agora ele era o vento, e soprou e soprou, e se deliciou com
seu poder. Até que, um dia, ele estava soprando e soprando e
não conseguia mover coisa alguma: “O que é mais poderoso do
que o vento?”, ele se perguntou. Era a maior montanha que ele
já tinha visto, e ela estava impedindo o vento de mover o que
quer que fosse.
“Deus, torne-me uma montanha”, ele pediu. Bum! E se
tornou a montanha. “Agora sou a coisa mais poderosa”, ele
pensou. “O vento pode mover a nuvem, a nuvem que pode
esconder o sol, o sol que é mais poderoso do que o rei, o rei
que é mais poderoso do que o homem rico, que é mais
poderoso do que o quebrador de pedras. Mas o vento não pode
mover montanhas, e agora sou a maior montanha. Aí sim!”
Ele ficou feliz por um tempo, até que, um dia, ouviu um
barulho de uma pancadinha atrás da outra. Era como se
alguém estivesse cortando uma parte dele fora. “Quem pode
ser tão poderoso que é capaz de cortar a montanha?”, ele
pensou. “Essa deve ser a pessoa mais poderosa da Terra.” Então
ele baixou os olhos e viu que era um quebrador de pedras.
7. Alivie o fardo em momentos difíceis
Um paciente foi ao médico e disse: “Doutor, tudo dói”.
O doutor perguntou: “Como assim, ‘tudo dói’?”.
“Quando aperto aqui, dói; quando aperto aqui, dói; quando
aperto aqui, dói. Todo o meu corpo dói.”
“Já sei qual é o problema”, respondeu o médico. “Você está
com o dedo quebrado.”
Quando você está passando por uma dor na vida, pode
parecer que tudo é fonte de sofrimento. Os momentos difíceis
lançam uma luz ruim sobre o mundo ao nosso redor. Um pôr
do sol maravilhoso, uma festa cheia de velhos amigos, um
jantar no seu restaurante favorito: o que normalmente seria
uma fonte de prazer pode se tornar um lembrete de tudo que
parece errado em sua vida. Tudo dói.
Conheço essa dor. Sei que não existem respostas fáceis
quando a vida fica difícil. Às vezes parece que estamos
avançando. Às vezes parece que estamos retrocedendo. Em
alguns dias é fácil, em outros é difícil. Alguns dias são muito
difíceis. Mas, como diz o velho ditado, “A dor é inevitável, o
sofrimento é opcional”.
Para mim, existe uma distinção importante a ser feita entre
momentos complicados e momentos difíceis. A vida pode nos
oferecer vários tipos de momentos complicados. Os problemas
envolvidos nem sempre são fáceis de resolver, mas, no fundo,
sentimos que podemos fazer algo a respeito deles — podemos
mudar nossa situação. Nos momentos difíceis, porém,
sentimos que não há esperança e há pouco ou nada que
possamos fazer. Essas ocasiões podem ser um duro golpe na
nossa coragem, e emoções como medo, frustração, remorso e
tristeza dominam nossa vida.
Às vezes, não há nada que possamos fazer para mudar a
situação. Alguns aspectos da vida estão além do nosso controle,
e precisamos ser realistas em relação a eles. Mas sempre temos
uma escolha com relação a como reagimos dentro de nós. Os
momentos difíceis podem nos afastar da clareza e da sabedoria,
mas essas forças estão sempre conosco. O simples ato de
reconhecer que temos a opção de nos conectar com nossas
forças interiores pode ser o começo de uma virada na forma
como nos sentimos.
Quando passamos por dificuldades, existem duas realidades
lado a lado: o mal que está atravessando nossa mente e o bem
que está para sempre em nosso coração. A todo momento
temos a possibilidade de nos conectar com o bem interior, se
assim decidirmos. Mesmo nas ocasiões mais difíceis.
Aqui, compartilho algumas reflexões que podem aliviar a
escuridão emocional que acompanha os momentos difíceis da
vida. Quero começar defendendo o bem na humanidade,
porque não existe escuridão maior do que acreditar que é você
que está errado neste mundo.
JÁ OUVIU A NOTÍCIA?
É incrível o volume de informações a que temos acesso hoje
pela tv e por outros aparelhos. Somos muito bem-informados.
Mas as notícias também nos expõem a algumas das coisas mais
perturbadoras que acontecem em nossa região e em outros
lugares. Uma história se torna notícia porque é fora do
comum, portanto, se continuarmos consumindo mais e mais
notícias negativas, nossa percepção da realidade pode se tornar
distorcida. O mundo parece um lugar cada vez mais perigoso e
as pessoas podem parecer majoritariamente más.
Claro, acontecem coisas terríveis no mundo, mas absorver
todas as notícias ruins e ficar torcendo as mãos não ajuda
ninguém e só nos deixa aflitos. Em vez disso, podemos dedicar
nossa energia a nos solidarizar com aqueles que passam pelos
acontecimentos terríveis e tomar atitudes diretas para ajudá-
los. Também podemos questionar que papel nós temos nessa
situação, se é que temos algum. Somos parte do problema em
algum sentido? E devemos sempre considerar que existe muito
mais amor, compaixão e generosidade neste mundo do que
ódio — pense em todas as boas notícias que não são
divulgadas.
Se você ainda duvida que sua espécie tenha a capacidade de
fazer o bem, você deve estar passando por um momento difícil.
Aqui vai uma sugestão: olhe com atenção dentro de você e
procure o bem em você antes de dar atenção ao bem e ao mal
nos outros. Encontre as forças internas em você. Encontre o
amor em você. Por mais que alguém tenha se afastado do ponto
de partida da paz, sempre há a possibilidade de voltar. E o
mesmo vale para nós, claro. Um campo abandonado tem o
potencial de se tornar um belo jardim. A paz é possível sim.
QUANDO NOSSOS ENTES QUERIDOS MORREM
Um dos momentos mais difíceis pelos quais passamos é
quando alguém que amamos morre. Isso pode nos deixar com
muitas perguntas sem resposta, com uma sensação profunda
de vazio, estupor, raiva e confusão.
Cada pessoa é única em sua forma de sentir dor. Passamos
por estágios de luto, às vezes voltando a cada sentimento
enquanto nossa mente e nosso coração se recuperam. Já vi
muitas pessoas atravessarem um período de luto e depois
voltarem a ser exatamente como antes, enquanto outras saem
com a vida profundamente mudada. Também conheci pessoas
que ficaram emocionalmente destruídas por muitos anos.
Não tenho um remédio simples para os piores momentos de
perda e tristeza, apenas algumas reflexões que podem ajudar.
Pela minha experiência, depois que meus sentimentos iniciais
de luto se apaziguam, busco entender como minha relação
com aquela pessoa mudou — não acabou, mas mudou. Pode
levar um tempo para entender que seu ente querido deixou o
corpo fisicamente. Mas, claro, se ele não está no corpo, deve
estar em algum lugar. E onde ele sempre estará é com você, em
seu coração.
As memórias não podem substituir a pessoa que viveu em
todas as suas muitas qualidades: o cheiro da pele, a melodia da
voz, o brilho dos olhos quando ela ria, o calor do corpo em
uma noite fria. Mas o melhor do seu ente querido continua
vivendo em suas memórias. Você carrega essa forma nova
daquela pessoa aonde quer que vá. Eu quero que as lembranças
felizes de quem perdi dancem dentro de mim.
Eu tinha oito anos e meio quando meu pai morreu. Eu era
muito apegado a ele. Ele era muito amoroso mas bastante
rígido. As pessoas tinham grande reverência por ele, mas,
quando se é criança, você apenas aceita as coisas como elas são,
então era normal para mim — ele era só meu pai. Milhares se
reuniam para ouvi-lo falar, e aqueles eventos eram mágicos.
Todos vinham com um propósito, que era se conhecer um
pouco mais. Ele se sentava e começava a falar e, naquele
momento, caía um silêncio absoluto. Era uma grande sorte
fazer parte daquilo. Vivenciar apenas um daqueles dias na vida
seria muito especial, mas pude viver aquilo por anos.
Nos dias seguintes ao falecimento de meu pai, eu não
entendia bem o que havia acontecido. Lembro que apenas
chorei e chorei. E, depois de um tempo, compreendi uma
coisa: no meu coração, eu ainda conseguia vê-lo, ouvi-lo, senti-
lo. Anos se passaram desde então, mas ainda o vejo e ainda o
escuto e ainda o sinto em mim. Quando alguém morre, não há
nada que você possa fazer. O que você pode fazer é começar a
aceitar. Então, talvez, aos poucos, consiga começar a entender
que essa pessoa está com você de uma forma nova. Esse
sentimento de conexão nunca pode ser tirado de você.
Muitas pessoas sentiram uma grande tristeza quando meu
pai faleceu. Alguns dias depois, uma multidão se reuniu, e
todos estavam muito tristes. Eu não queria que eles
continuassem sentindo tanta tristeza e, de repente, subi ao
palco e caminhei até o microfone. Contemplei aqueles rostos e
disse: “Não há por que chorar. Aquele por quem vocês estão
chorando ainda está aqui conosco em nosso coração, no seu
ser, e sempre estará”. Quando as pessoas ouviram esse
sentimento da minha boca, foi muito inspirador para elas, e
começaram a comemorar. Talvez elas conseguissem ver um
aspecto do meu pai em mim, mas também conseguiram sentir
a energia dele dentro delas.
Assim como a energia não pode ser destruída, apenas
transformada ou transferida, nossos entes queridos se tornam
outra coisa, em outro lugar. É assim que a Natureza funciona.
É assim que o poder universal se movimenta. Evolução
constante. Uma semente se transforma em uma árvore, e essa
árvore dá frutos, e cada um dos frutos tem uma semente, e
cada uma das sementes tem o potencial de se transformar em
outra árvore. Quando você segura uma semente, o que você
tem na mão? Algo minúsculo, mas também a possibilidade de
uma floresta. Sinta a floresta na semente.
Seu ente querido sempre estará presente em você. A energia
dele é passada adiante através de você. E ele é parte dessa
energia universal infinita que é a consciência. Abra seu coração
e sinta a presença dele.
OLHE PARA A LUA
Muitos cientistas acreditam que a Lua veio da Terra. A teoria
(às vezes chamada de hipótese do grande impacto) é que um
corpo gigantesco atingiu nosso jovem planeta, e um novo
satélite fabuloso se formou a partir dos escombros. Alguns se
referem a esse corpo como Theia, batizando-o em homenagem
a Selene, a deusa Lua da mitologia grega. Portanto, a Lua pode
ser parte Terra e parte Theia.
Quando a Lua nos deixou, ela não foi muito longe. Agora ela
orbita em torno de seu velho lar e, enquanto se movimenta,
nos influencia aqui embaixo. Talvez possamos pensar que
nosso ente querido que morreu se tornou nossa Lua. Ele é
sempre parte de nós. Ele rodeia nossa vida. Ilumina nossas
noites. Influencia as marés de nossas emoções, movimentando-
se ao nosso redor. Erga os olhos e veja o reflexo da luz do Sol
no rosto dele.
Podemos honrar a pessoa que faleceu e aceitá-la na nova
forma como ela está conosco. Não há necessidade de se apegar
ao passado. Podemos flutuar sobre a maré da vida, deixando
que a água nos sustente enquanto erguemos os olhos para o
céu da noite e sentimos a conexão com essa Lua. Podemos
sentir nossa dor sem deixar de saber que existe uma sensação
permanente de união com ela em nosso coração. Podemos
estimar o que foi celebrando o que é: levando nossos entes
queridos ao longo da vida com nosso amor.
Aqui vai um poema meu sobre a forma como guardamos
nossos entes queridos conosco e a força que isso traz:
Quando a noite parece pesada pelas trevas
A lua se ergue e começa a brilhar
Haverá uma luzinha para você
Não apenas para ser admirada
Mas também para guiar.
DESCANSAR DENTRO DE VOCÊ
Existe um desafio mais difícil do que perder alguém que
amamos? Para alguns, é o pensamento sombrio de que um dia
vão morrer. As pessoas podem encontrar seus medos em fases
diferentes da vida. Esse medo aperta ainda mais se adoecemos
ou estamos em uma situação perigosa, mas pode nos
assombrar mesmo quando estamos sãos e salvos.
Muita gente me pede para falar sobre encarar a morte.
Embora possa parecer um contrassenso, acho importante
primeiro admitir a realidade da nossa mortalidade. Devemos
entender que, no fim, todos temos que partir. É uma fantasia
pensar que a vida que você tem agora vai durar para sempre.
Mas exatamente quando isso vai acontecer? Ninguém sabe
dizer! O que você realmente sabe sobre vida e morte? A única
coisa da qual tem certeza é que nasceu e está vivo agora, neste
momento.
Quando estamos doentes, é muito importante lembrar que
temos uma força incrível lá no fundo. Precisamos encontrar
esses aliados e usá-los se possível, botar para trabalhar toda a
energia positiva que temos dentro de nós. Doenças graves (e
tristeza, decepção, ansiedade e tantas outras experiências e
sentimentos negativos) podem nos afastar de nossa coragem —
e de nossa clareza, nossa plenitude, nossa alegria e nossa paz.
Mas nossa coragem ainda está lá dentro de nós. Nossa clareza
ainda está lá dentro de nós. Nossa plenitude ainda está lá
dentro de nós. Nossa alegria ainda está lá dentro de nós. Nossa
paz ainda está lá dentro de nós. Em momentos difíceis, sempre
temos acesso aos recursos em nosso coração.
Há uma qualidade da paz que eu gostaria muito de anunciar:
ela permite que você descanse dentro de você. Quando o
mundo exterior o levar aos seus limites, saiba que você sempre
pode se conectar com algo imutável e ancorador aí dentro.
Quando estiver esgotado pelas batalhas da vida, saiba que pode
descansar aí dentro. Como meu pai dizia sobre a sensação de
mergulhar dentro de si e sentir seu eu: é como dormir sem
dormir. Quando precisamos, podemos nos afastar do ruído e
mergulhar nessa sensação de paz interior que nos alimenta.
GRANDES EXPECTATIVAS
Uma forma de nos ajudarmos a passar por momentos
difíceis — por qualquer momento, na verdade, bom ou ruim
— é notar como as expectativas moldam nossa experiência.
Todo dia ponho expectativas em meu despertador. Tenho
expectativas, quando pego um saleiro, de que haverá sal nele.
Não há mal nenhum em criar expectativas, desde que
entendamos que elas nem sempre condizem com a realidade.
Como disse o boxeador Mike Tyson, sem meias palavras: “Todo
mundo tem um plano até levar um murro na boca”.
É preciso coragem para aceitar a vida como ela é, em vez de
se deixar distrair pelo medo ou pela fantasia. A clareza sobre o
que é pode nos poupar de muitas mágoas. Ou, nas palavras de
Sêneca, “Sofremos mais na imaginação do que na realidade”.
O que acontece quando você se deixa levar pelas
expectativas? Bom, é provável que consiga superar a decepção
de um saleiro vazio. Conheço algumas pessoas que teriam um
surto se os eletroeletrônicos parassem de funcionar, mas
sobreviveriam. Os verdadeiros problemas começam com os
outros e as expectativas que projetamos neles. Há uma
quantidade imensa de raiva e tristeza gerada por desejos não
realizados. Os relacionamentos caem por terra. Pode ser um
desastre.
Era uma vez um jovem fazendeiro que toda semana
precisava transportar com as mãos seus sacos pesados de
hortaliças do mercado. Era um trabalho árduo, e a quantidade
que ele conseguia carregar sozinho era limitada, por isso ele
economizou muito para comprar um burro. Sua esposa
discordava. Ela dizia que eles precisavam de uma vaca, porque
a vaca daria leite e manteiga. Compraram então uma jovem
vaca. O sofrimento do jovem por ter que carregar sacos
pesados até o mercado não diminuiu, mas ele continuou
trabalhando duro até terem dinheiro suficiente para comprar
um burro. O burro mudou sua vida. O problema era que havia
pouco espaço no quintal e não demorou para a vaca crescer, e
o burro estava se sentindo infeliz. Corria, inclusive, o risco de
ser esmagado.
O jovem ficou frustrado com aquela situação e rezou a Deus:
“Senhor, isso não pode continuar assim: por favor, pode matar
a vaca? Assim meu burro terá o espaço de que precisa”. Na
manhã seguinte, ele acorda e descobre que o burro morreu.
“Ah, Deus”, ele diz, “pensei que a esta altura o Senhor soubesse
a diferença entre uma vaca e um burro.”
Expectativas!
Pense em algumas das cerimônias de casamento a que você
foi ou de que ouviu falar. Assim que percebe que os noivos ou
os familiares estão querendo o “casamento perfeito”, você sabe
que vai dar problema. A primeira coisa que um amigo ou
organizador de casamentos vai dizer é: “Nada nunca acontece
exatamente como o planejado”.
Claro, é ótimo criar expectativas em áreas importantes da
vida — relacionamentos, casa, trabalho, casamento —, mas não
devemos nos fixar nelas. A decepção tira a magia do momento.
Perdemos uma parte grande demais da vida lamentando que o
agora não chegou perto do nosso ideal. Então de quem é a
culpa quando isso acontece: da realidade ou da nossa
imaginação? Se formos rígidos em nossa perspectiva, sentimos
ainda mais o impacto de acontecimentos inesperados e
decepções. Nos tornamos mais fortes quando aprendemos a
nos virar com o que existe. Pense na maneira como uma árvore
balança com o vento. Pense na maneira como um pássaro voa
em uma tempestade. Pense na maneira como o peixe se move
com a maré.
Quem cria nossas expectativas? Nós! Somos nós que criamos
nossas expectativas. Somos nós que aceitamos as expectativas
dos outros. Às vezes uma expectativa é alcançada, às vezes não.
A questão é: os outros podem depositar expectativas em nós,
mas não precisamos criar expectativas próprias. Quando nos
sentimos decepcionados, muitas vezes nos decepcionamos
conosco. E isso me parece um desperdício de nosso tempo
precioso.
POR QUE VOCÊ NÃO SE PARECE COM VOCÊ?
É preciso esforço para se afastar dos próprios pensamentos e
ver o quanto você está fixado em um resultado em particular. É
como uma pessoa teimosa que se perde: ela prefere acreditar
em sua interpretação do mapa em vez de acreditar no mundo
que vê ao seu redor, até ser obrigada a reconhecer que algo deu
muito errado. E então põe a culpa no mapa. Somos pegos na
armadilha de seguir nossa mente, mesmo quando nosso
coração está nos dizendo que alguma coisa não está certa.
Uma vez cheguei a uma grande palestra, e alguns dos
organizadores estavam esperando perto da porta para me guiar.
Eles tinham me visto discursar muitas vezes antes, e fiquei
grato por quererem me receber dessa forma.
Naquele dia, eu não estava usando terno nem gravata, o que
era raro quando participava de algum evento. Foi uma viagem
longa, então devo ter decidido me vestir de maneira
confortável. Quando estacionei o carro, o grupo de recepção
ficou parado olhando para nós. Eles não saíram do lugar. Então
abri a porta. “Não, não, não!”, eles gritaram. “Tire o carro! Tire
o carro! Estamos esperando uma pessoa que vai chegar a
qualquer momento! Tire o carro!”
Eles estavam olhando bem na minha cara, mas percebi que
esperavam um terno e uma gravata. Tirando isso, o resto de
mim não se encaixava na expectativa deles. Foi quando um deles
se deu conta da realidade e ficou constrangido. “Ah! Mil
desculpas, não percebemos que era você!” Os outros ficaram
me olhando como se dissessem: “Por que você não se parece
com você?”.
UM PROBLEMA ANTIQUÍSSIMO
“Aquele que tem uma natureza calma e feliz dificilmente
sentirá a pressão da idade, mas, para quem tem uma disposição
oposta, juventude e velhice são igualmente um fardo.” Assim
declarou o filósofo Platão (que viveu até os oitenta e poucos,
aliás). Quanto mais envelheço, mais entendo essas palavras.
Envelhecer é algo complexo, e pode ser um forte teste de
caráter.
Nosso ego sem dúvida sofre um duro golpe. Mas grande
parte do que toma nossa mente sobre o assunto é ruído
provocado pelo medo. “Não posso fazer isso, tenho sessenta
anos!” Certo, então talvez você não consiga correr uma
maratona — ou talvez seu tempo de maratona supere as cinco
horas. Seja como for, grande coisa!
Qualquer que seja sua idade, há muitas coisas que você não
pode mais fazer, algumas que você não consegue fazer tão bem
e muitas que você pode fazer. Aceite o que é e esqueça o que
não pode ser. Grande parte de envelhecer está na nossa mente.
Na juventude, amamos a vida e não ligamos para a morte. É
quando temos medo de viver e de morrer que envelhecemos.
CAIA NA REAL
Você estava preparando o jantar, saiu para fazer alguma coisa
e agora tudo queimou. Era a única comida que tinha em casa e
está muito tarde para fazer compras. Tenho certeza de que você
já passou por isso ou por uma situação parecida. Exatamente
quando você está pensando no que aconteceu, alguém
intervém: “Positividade sempre!”.
A verdade é a seguinte: não estou me sentindo positivo —
não há nada para comer! O que preciso ser é realista, não
positivo. O que me traz ao seguinte argumento: minhas
mensagens sobre o consolo da paz interior e a necessidade de
aproveitar o dia não são simples conselhos de “positividade
sempre!”. Não estou dizendo isso para embelezar qualquer
situação ruim com um otimismo sorridente. Em vez disso,
podemos apreciar e aproveitar mais a vida se virmos o mundo
e nos entendermos com clareza. Os momentos difíceis pelos
quais você passa são reais, mas a alegria dentro de você
também é real. Os momentos difíceis pelos quais você passa
são reais, mas a paz dentro de você também é real. Viver de
maneira consciente significa ser o mais realista possível sobre
qualquer situação — no mundo ao seu redor e no mundo
dentro de você. Sinta a decepção, sinta a tristeza, sinta a raiva,
sinta a solidão, sinta a depressão: reconheça a dor, mas saiba
também que você sempre pode escolher se conectar com a paz
interior.
Um grande provérbio chinês diz: “Não culpe Deus por ter
criado o tigre; agradeça por não ter dado asas a ele”. Imagine o
caos que um tigre alado poderia causar! Felizmente, não temos
que lidar com essas criaturas imaginárias, e também não temos
que lidar com situações imaginárias. Aprendi que a vida fica
mais fácil se nos concentrarmos em lidar com o que existe. A
realidade é o melhor lugar para viver.
Ser realista pode nos ajudar a nos preparar para o que
acontecerá em nossa vida. Se você estiver passando por um
bom momento, saiba que momentos ruins virão — mais cedo
ou mais tarde. Não precisa se preocupar, apenas saber. Se
estiver passando por um momento ruim, saiba que bons
momentos virão mais cedo ou mais tarde. Não precisa projetar
a mente para todos os cenários futuros possíveis; basta saber
que a mudança está acontecendo e sentir sua resiliência.
Como parte de sermos realistas, podemos saber que —
mesmo nas piores tempestades da vida — há um lugar que é
muito calmo, e esse lugar está dentro de nós. É isto que sei:
posso estar num lugar dentro de mim tanto em momentos
maravilhosos como em momentos terríveis. Nem sempre
consigo escapar das tempestades da vida ou atravessá-las, mas
posso ir a um lugar de calma dentro de mim.
Por isso, tenho um estado de espírito positivo mas sou
realista. Quando piloto um avião, sempre levo combustível a
mais. Quando você está aprendendo a pilotar, ouve o seguinte
conselho: “Três coisas são inúteis em uma emergência: a pista
de decolagem atrás de você, o céu sobre você e o combustível
na bomba”. Se você passou por quase toda a pista de decolagem
e ainda não decolou, toda essa pista atrás de você não terá
servido para nada. Se perdeu potência e está descendo para um
pouso de emergência, é a quantidade de ar abaixo de você que
é crucial, não o céu acima. E o combustível parado na bomba
do aeroporto não adianta nada se você está no ar. Isso é ser
realista.
TORNANDO-SE O PILOTO DE SUA VIDA
Ouvi uma história quando estava na Flórida aprendendo a
pilotar helicópteros que sempre me faz rir. É um bom
lembrete de como às vezes podemos ser os criadores de nossos
próprios problemas, nossos próprios momentos difíceis. Eu
deveria começar dizendo que pilotos tendem a contar altas
histórias ou capricham nos detalhes. Esta é baseada em
acontecimentos reais, mas deve haver certo exagero em
algumas partes.
Um rapaz tinha um daqueles pequenos aviões em que
precisava girar o propulsor à mão para dar partida. Um dia, ele
fez isso e nada aconteceu. Não havia potência e o propulsor
não se moveu. Então ele entrou na cabine de piloto e
aumentou o empuxo, o que pôs mais potência no motor —
exatamente como quando você está tentando dar partida em
um carro velho. Tentou de novo, mas também sem resultado.
Acrescentou mais empuxo. E depois mais.
Finalmente, o piloto girou o propulsor com força e o motor
ganhou vida, mas ele tinha colocado tanto empuxo que a
potência do avião começou a subir demais. Agora a máquina
queria se mover, o que era bom, mas ele estava fora da cabine,
o que era muito ruim! O homem tinha posto um grande calço
na frente de uma das rodas, então o avião não mudaria de
posição, mas a outra roda não queria ficar parada e começou a
se movimentar. Portanto, uma roda estava parada e a outra
estava livre, o que significava que o avião começou a rodar em
um círculo. Então foi ganhando velocidade.
Nesse momento, o piloto tentou segurar um suporte em
uma asa, mas isso fez com que a outra roda saltasse sobre o
calço. Agora não havia nada que impedisse o avião de
atravessar a pista de decolagem além dele agarrado à aeronave.
Ele não poderia se segurar para sempre, até porque estava
tonto de tanto rodar. Quando finalmente soltou, o avião se
endireitou, seguiu pela pista ganhando velocidade, passou por
uma inclinação e então decolou — sem piloto dentro.
Nas imediações, havia alguns pilotos treinando em
helicópteros que viram o que aconteceu, então começaram a
perseguir o avião. Imagine essa cena sobrevoando você — uma
perseguição aérea. O avião vazio voava tranquilamente, alheio a
todo o resto, fazendo o que foi feito para fazer. Ele voou por
cerca de uma hora e 45 minutos até fazer um suavíssimo
pouso de emergência em campo aberto. Os pilotos de
helicóptero ficaram impressionados com a leveza com que o
avião planou.
O motivo por que essa história me vem à mente é que às
vezes é o piloto quem bate o avião. Eles entram na cabine e
pensam: “Certo, tenho que fazer isso, e tenho que fazer aquilo, e
tenho que fazer aquilo outro”, e suas atitudes causam os
problemas. Sozinho, o avião da história cumpriu seu serviço
maravilhosamente bem enquanto estava no ar, sem ninguém.
Quando está pilotando, você precisa dar ao avião uma
orientação que seja produtiva e realista, deixando que ele faça
o que foi feito para fazer e mais nada. Na vida, também é
assim. Se vivermos pensando: “Bom, devo fazer com que
minha vida faça isso por mim, e aquilo, e aquilo outro”, podemos
acabar caindo. A vida tem uma simplicidade linda se
deixarmos que ela faça o que foi feita para fazer.
Quando as coisas dão errado, nossa tendência é culpar os
outros, o azar ou o carma. Às vezes, porém, tudo se resume a
como nos portamos. Temos clareza? Temos planos realistas?
Estamos nos adaptando a condições inesperadas? Estamos
tentando fazer nossa vida funcionar de uma maneira que não
tem como funcionar, em vez de permitir que faça o que ela faz
de melhor? Pela minha experiência, queremos tentar encontrar
o equilíbrio entre controlar nossa vida e deixar que ela floresça
— entre guiar o avião e deixar que ele voe.
ENCONTRE SUA CHAMA
Existe um provérbio que diz: “É melhor acender uma vela do
que amaldiçoar a escuridão”. Você pode passar a noite toda
deitado na cama e maldizer a escuridão, mas isso não vai trazer
a luz. Podemos nos sentar na floresta escura de nossos
problemas e choramingar — e sei que os problemas podem ser
opressivos às vezes —, mas em algum momento temos que
dizer: “Basta”.
Nessas situações, precisamos criar coragem, riscar um
fósforo e acender aquela vela. Então podemos usar a chama
dessa vela para acender outra vela. Adivinha? A luz da primeira
vela não se apaga: temos o dobro de luz. E podemos continuar
assim até iluminarmos nossa vida de novo. Mas é necessária
uma vela acesa para iluminar outras velas, portanto sempre
precisamos encontrar a chama dentro de nós.
E o que é a luz? É a consciência: a única luz verdadeira que
pode nos guiar na vida. Mesmo nos momentos mais difíceis.
Minha perspectiva sobre os momentos difíceis não é nova,
mas a mensagem é tão relevante hoje como imagino que tenha
sido nos tempos de Platão, ou quando o poeta Kabir escreveu
no século xv, ou milhares de anos antes deles. Meu recado é
simples: o mundo pode ser um lugar difícil, mas as pessoas
nascem boas, e a paz pode ser encontrada em todos. A morte
leva os que amamos e os transforma em algo que ainda
conseguimos sentir e honrar. É preciso coragem para enfrentar
a realidade, mas isso nos liberta para viver a vida como ela
realmente é. Devemos controlar nossas expectativas ou elas
irão nos controlar. E, tanto nos dias mais difíceis como nos
mais agradáveis, sempre temos essa possibilidade de nos
conectar dentro de nós com nosso verdadeiro eu — de escolher
sentir a alegria, a plenitude e a paz em nosso coração.
Isso me lembra um poema de Kabir.
Luz reluzente da lua cintila dentro de nós
Olhos cegos não podem se banhar nela
Dentro de nós estão a lua e o sol
E dentro de nós está o som silencioso
Dentro de nós tocam todos os instrumentos em harmonia
Os ouvidos surdos não escutam sequer uma palavra da canção
Se você se ativer ao “meu”
Não terá êxito em tarefa alguma
Quando não me apego mais ao que é meu
A pessoa que amo vem completar minha tarefa
Com o desejo de ser livre, ganha-se Conhecimento
Mas apenas depois do autoconhecimento se é livre de verdade
Pois, quando as plantas desejam ter frutos, as flores se abrem
Quando o fruto está pronto, a planta não precisa mais das flores
Assim como o cervo almiscarado carrega o almíscar em seu umbigo
O cervo em busca do aroma não o busca dentro de si, mas na grama
Todos os instrumentos dentro de você estão tocando em
harmonia. Escute a paz aí dentro e talvez assim você consiga se
ouvir.
8. Liberte-se pelo perdão
Imagine um mundo onde todos vivem em paz. Imagine o
que brotaria da paz mundial — as lindas flores da bondade.
Imagine um mundo onde a sociedade usasse seus talentos,
recursos e energia para o bem de todos. Onde os muitíssimos
bilhões de dólares atualmente gastos em defesa fossem usados
para atacar doenças em vez de atacar uns aos outros. Onde
comunidades e famílias não fossem despedaçadas pela
violência e pelo crime, mas unidas, fortes, compreensivas e
amorosas. Onde a casa de todos fosse segura, confortável e
acolhedora. Onde novas tecnologias fossem desenvolvidas para
servir a humanidade, para nos ajudar a prosperar. Onde
houvesse comida e água para todos, e tivéssemos o maior
prazer em compartilhar o que temos com amigos, vizinhos e
desconhecidos. Onde fronteiras não fossem mais do que linhas
em mapas antigos. Onde criaturas de todos os tamanhos e
formas tivessem espaço para se desenvolver. Onde a Natureza
fosse amada e respeitada. Onde nossas vilas e cidades
transbordassem de gratidão e generosidade.
Imagine esse mundo.
Em vez de enfrentar o cano da arma da destruição,
poderíamos viver assim — em paz. Todos. Juntos.
“Sim!”, dizemos. “É isso que queremos!” Mas esse mundo
ideal só aconteceria se, antes, entendêssemos de verdade o que
é a paz. Pouquíssimos entendem. Sabemos muito sobre a
guerra mas quase nada sobre a paz.
Podemos ter muitas ideias sobre paz, mas em geral elas são
pouco mais do que sonhos utópicos. E o que significa a palavra
“utopia”? Em grego, ou significa “não” e topos significa “lugar”
— portanto, juntos: “não lugar”. Estamos sonhando com um
lugar que nunca pode existir a menos que comecemos a
procurar por ele de maneira diferente. A paz é encontrada
dentro de você. Começa dentro do seu eu e dentro do meu eu.
Só podemos começar a saber o que é a paz quando sentimos
a paz interior em primeira mão, daí a importância do
autoconhecimento. Quando entendemos a paz dentro de nós, e
estamos em contato com essa paz, aí sim conseguimos entender
o que é a paz entre as pessoas. Aí sim conseguimos escolher ser
verdadeiramente pacíficos na maneira como agimos. Aí sim a
paz mundial que estamos buscando tem a chance de se tornar
realidade em vez de existir na forma de uma “utopia” abstrata.
APENAS UMA SEMENTE
Acredito que conversas sobre paz podem produzir todo tipo
de “se”, “mas” e “talvez” em relação aos “outros”. Perguntamos:
se os outros não querem viver em paz, como podemos tornar
possível a paz mundial? A paz pessoal parece ótima, mas como
todos os outros na sociedade vão seguir nosso exemplo? Talvez
os outros sejam o problema, não a solução?
Nosso foco nos “outros” nos distrai de olhar dentro de nós.
De fato, inspirar bilhões de indivíduos a aceitar a paz é uma
tarefa enorme, mas existe uma boa forma de começar: uma
pessoa de cada vez. E quem é a pessoa com que precisamos
começar? Nós mesmos!
Imagine você e eu em um campo vasto, com mais e mais
campos se estendendo até o horizonte. Eu digo: “Quero que
você crie uma floresta nesse campo e em todos os campos ao
redor”. Você diz: “Está bem, parece uma ótima ideia!”. Mas
como você vai começar?
Parece um desafio imenso e complicado — praticamente
impossível —, mas na verdade é muito simples se você
entender a natureza de uma árvore. Cada árvore tem o
potencial de se multiplicar. Tudo de que você precisa para
começar é terra saudável e a semente certa, porque uma árvore
pode propagar uma floresta. Não é preciso plantar 10 mil
árvores uma a uma. Não é preciso água, equipamento pesado,
especialistas nem nada parecido. Nada disso é necessário se
você tiver terra fértil e uma semente. Apenas uma semente.
APRENDENDO A ESCOLHER
Existem momentos em que é legítimo brigarmos, ou mesmo
irmos à guerra? Talvez. Cabe a cada um de nós escolher guerra
ou paz para nós, de acordo com o que sentimos em nosso
coração. Temos guerra e paz dentro de nós, e existe clareza e
confusão em nós também. Só podemos fazer a escolha certa
quando nos entendemos.
Em uma parte muito conhecida do grande épico sânscrito
Mahabharata, o deus Krishna acompanha Arjun, um guerreiro,
até o campo de batalha. O que acontece em seguida diz algo
sobre o significado da paz e da guerra, em parte porque nosso
herói, Arjun, toma uma decisão surpreendente.
Uma grande batalha está prestes a começar, e Arjun diz que
não quer lutar. Olha para as fileiras de soldados ao redor e vê
uma longa linha de familiares, amigos, professores, camaradas.
Ele não tem vontade de usar o arco contra aqueles que ele ama
e conhece. Seus motivos parecem nobres e altruísticos.
Você pode pensar que Krishna ficaria feliz com isso. Nem
tanto. Por quê? Porque Arjun não tem autoconhecimento. O
guerreiro não entendeu os muitos fatores que devem moldar
sua decisão. Seus sentimentos são utópicos, e ele não enxerga o
quadro geral. Seus sentimentos não estão conectados com a
realidade de sua situação. Em outras palavras, ele não se
conhece de verdade.
Krishna conversa com Arjun, explicando a história por trás
da batalha e ajudando-o a entender seu lugar no mundo,
incluindo seu dever como guerreiro de fazer parte de uma
guerra justa. Aos poucos, Arjun vai entendendo sua posição,
então percebe que agora é completamente livre para decidir
por conta própria. O importante é fazer a escolha certa, e isso
começa por saber que você tem uma escolha.
Digamos que você esteja na prisão e há muitos anos olhe
pela janela da cela, planejando sua fuga. Há um muro alto
muito perto de você, e ele é tudo que você vê. Ele domina sua
visão, mal deixando alguma luz entrar em sua cela. Você acha
que esse é o único muro que o separa da liberdade, mas um
pouco atrás desse muro há outro. O segundo muro é ainda
mais alto do que o primeiro, mas o muro mais próximo da sua
cela bloqueia sua visão desse segundo muro. Depois desse
segundo muro há um muro ainda mais alto, mas você também
não consegue ver esse terceiro muro por causa do primeiro.
Há semanas, você vem reunindo em segredo todos os
equipamentos necessários para escalar o primeiro muro. Você
mede suas cordas com cuidado mais uma vez e chega à
conclusão de que tem o suficiente para escalar. Mas, no alto do
primeiro muro, depara com o segundo muro, e suas cordas
não são suficientes para chegar ao alto dele. Você interpretou
mal a situação.
Sem ver o quadro geral, não temos como tomar a decisão
certa. Sem autoconhecimento, não temos como nos conectar
com a paz em nosso coração. Sem estarmos conectados com a
paz em nosso coração, podemos escolher lutar pelos motivos
errados. E, sem estarmos conectados com a paz em nosso
coração, podemos escolher não lutar pelos motivos errados. Da
paz interior vem a clareza de escolher. Em vez de sonhar com
utopias, precisamos ver a realidade com clareza e fazer nossa
escolha.
OUTRO SALTO GIGANTE
Então a paz mundial é mesmo possível? Os humanos são
realmente capazes de viver juntos em harmonia? Muitas
pessoas acham que não. A negatividade que você vai encontrar
sobre esse tema pode ser bastante desanimadora. Sêneca disse:
“Não é porque as coisas são difíceis que não ousamos nos
arriscar; é porque não ousamos nos arriscar que elas são
difíceis”. Ousamos dar uma oportunidade para a paz?
Gostaria de levá-lo de volta a algo que aconteceu há um
certo tempo. Durou doze segundos e atravessou apenas 37
metros, mas mudou o mundo. Estou falando do primeiro voo
motorizado. Sem dúvida, muitos haviam olhado para o plano
ousado dos irmãos Wright e dito: “Isso não vai dar certo”. Ou:
“Vocês são ingênuos”. Ou: “Se Deus quisesse que voássemos,
teria nos dado asas”. Mas aqueles dois homens, que começaram
a carreira consertando bicicletas, tinham grande imaginação. E
não entendiam a palavra “não”. O nome disso é persistência.
Precisamos de mais persistência e ousadia quando o assunto é
paz.
Existe outro exemplo de voo que costumo dar às pessoas que
dizem que a paz é impossível: fomos à Lua. Essa missão — esse
salto gigante da imaginação para a realidade — só aconteceu
por causa de pessoas que declararam “Não dá para fazer isso”
ou de gente que disse “Vamos tentar”? Ouça a ambição nas
palavras do presidente John F. Kennedy em 1962:
Escolhemos ir à Lua. Escolhemos ir à Lua nesta década e fazer outras
coisas não porque sejam fáceis, mas porque são difíceis, porque esse
objetivo servirá para organizar e mensurar o melhor de nossas energias e
habilidades, porque é um desafio que estamos dispostos a aceitar, que
não iremos adiar e que pretendemos vencer.
Talvez tenhamos que desaprender parte da negatividade que
trouxemos a bordo desde aquelas primeiras aventuras lunares.
Fazer da paz uma realidade aqui na Terra definitivamente seria
nossa maior realização coletiva, então que tal fortalecer nossa
determinação? E se seguirmos o exemplo de Kennedy e
dissermos:
Escolhemos atingir a paz entre as pessoas. Escolhemos fazer isso nesta
década não porque seja fácil, mas porque é difícil, porque esse objetivo
servirá para organizar e mensurar o melhor das nossas energias e
habilidades, porque é um desafio que estamos dispostos a aceitar, que
não iremos adiar e que pretendemos vencer. Porque a paz é possível
quando cada um de nós começa por si mesmo.
A MALDIÇÃO DA VINGANÇA
Os conflitos acontecem quando perdemos o respeito uns
pelos outros. Na ausência de respeito, nossos princípios e
regras se tornam mais importantes do que as pessoas. A cabeça
toma conta do coração, e então começamos a projetar
conceitos naqueles que enfrentamos. Propagandistas de guerra
sabem há séculos que vale a pena desumanizar o outro lado. Se
você transformar seus opositores em monstros, fica mais fácil
que pessoas decentes os odeiem. Uma sociedade dá um passo
na jornada rumo à paz quando reconhece seu inimigo como
um ser humano, e isso começa com uma pessoa de cada vez.
Isso me traz ao tema da vingança, de “fui injustiçado, devo
dar o troco”. Esse sentimento pode parecer profundamente
justo, entranhado de certeza. Mais do que isso: pode parecer
que você precisa se vingar para se proteger. Mas isso faz
alguma coisa além de criar medo, ódio e um desejo de
vingança contra os outros?
A narrativa do Mahabharata é guiada pela Guerra de
Kurukshetra, um conflito que surgiu a partir de uma disputa
entre dois grupos de primos — os Káuravas e os Pândavas —,
ambos os quais se achavam os legítimos herdeiros do antigo
reino indiano de Kuru. Alguns acreditam que a guerra levou ao
princípio da Cáli Iuga, uma das quatro iugas, ou eras — na
mitologia indiana, um tempo em que a discórdia, a disputa e o
conflito dominam.
Existe uma história sobre vingança no Mahabharata que
nunca saiu da minha cabeça. Ela mostra o que acontece
quando perdemos a clareza sobre quem somos, sobretudo
aquela conexão com a paz em nosso coração. Trata também da
importância de escolher bem. Assim como Krishna e Arjun no
campo de batalha, a versão original é uma narrativa longa e
complexa — e grande parte está aberta a interpretação e
variações —, então vou resumir da maneira mais simples
possível.
Algum tempo depois da guerra, um nobre chamado Parikshit
se torna rei. Ele é considerado um ótimo governante, e o povo
é abençoado com paz e prosperidade. Um dia, ele sai em seu
cavalo e encontra Cáli Iuga, que assumiu a forma de uma
pessoa (isso é normal no Mahabharata, que é cheio de
personificações e metáforas).
Cáli Iuga para na frente de Parikshit e diz: “Sou Cáli Iuga e
quero me espalhar pelo seu reino — meu tempo chegou”.
Parikshit retruca: “Não vou permitir que faça isso porque sei
quem e o que você é. Você é o que deixará as pessoas confusas,
que as fará lutar entre si, e elas vão se esquecer de suas
responsabilidades”.
Cáli Iuga percebe que tem um grande desafio. “Como é
possível que eu esteja em todos os lugares menos no reino
dele?”, pensa, mas também sabe que Parikshit é um governante
poderoso e não se atreve a desafiá-lo diretamente. Ele
considera a situação por um momento, então diz: “Escute,
estou lhe pedindo abrigo”.
Bom, sempre é dever do rei oferecer abrigo quando lhe
pedem, portanto agora é a vez de Parikshit pensar rápido. “Há
algum lugar em que eu possa acomodá-lo onde ele não
prejudique meu reino?”, ele se pergunta. “Como posso mantê-
lo por perto de modo que eu sempre fique de olho nele?”
Então Parikshit diz as palavras fatídicas: “Tudo bem, pode se
abrigar na minha mente”.
Cáli Iuga fica radiante porque sabe que, de lá, pode ocupar
todo o reino.
Alguns dias se passam e Parikshit decide partir em uma
caçada. Em certo momento, sente sede; vê um ashram e entra
em busca de água. Lá encontra um rishi (um homem sábio)
chamado Shamika, que está em meditação profunda. Parikshit
diz a ele: “Dê-me um pouco d’água, rishi”. Mas Shamika não o
escuta. Então o rei diz: “Por favor, rishi, peço-lhe humildemente
um pouco d’água”. E Shamika ainda assim não responde.
Nesse momento, Parikshit fica furioso, o que é algo muito
raro. Na verdade, ele fica mais do que apenas furioso: sente-se
menosprezado. Ele vê uma cobra morta ali perto e coloca o
animal impuro em volta do pescoço do rishi — um insulto
terrível.
Um dos discípulos do rishi vê tudo isso acontecer e
amaldiçoa o rei, dizendo que ele encontrará a morte pela cobra
Takshak em sete dias. Parikshit percebe seu erro e pede
desculpas a Shamika, mas não há nada que ele possa fazer para
reverter a maldição.
Uma torre é construída rapidamente para proteger o rei, e
ele prepara seus soldados para matar qualquer cobra que se
aproxime. No sétimo dia, Parikshit pensa que talvez a maldição
não se realize. Pouco depois do crepúsculo, sente fome e pega
uma fruta. Ao fazer isso, um verme aparece. Ele brinca dizendo
que, se fosse uma cobra, deixaria que ela o mordesse. Então
Takshak deixa de ser um verme e assume seu corpo de cobra, e
cumpre a maldição.
Janmijay, filho de Parikshit, fica indignado. Ele está tão
furioso que deseja destruir todas as cobras do reino. Organiza
um enorme Sapt Satra, ou sacrifício de cobras, e seus homens
queimam todas as serpentes que conseguem encontrar. E assim
o ciclo de vingança continua.
Na história, Parikshit, o discípulo de Shamika e Janmijay
sentem que foram vítimas de injustiças. Dessa sensação vem
uma raiva que queima tudo em seu caminho, incluindo sua
própria noção de identidade. Janmijay por fim é persuadido a
parar o sacrifício por outro rishi, Astik. “As cobras que ainda
estão vivas são virtuosas (tirando Takshak, claro) e não
merecem ser destruídas”, diz Astik. “Sua glória aumentará se
poupar a vida delas.” Janmijay interrompe a queima.
Vou deixar para você a tarefa de descobrir mais sobre a
história de Cáli Iuga, se tiver interesse, senão vou acabar
resumindo o Mahabharata inteiro! A questão é que Cáli Iuga
veio e a clareza se foi. O que assume o lugar dela, então? Raiva,
dor, medo, vingança — vezes e mais vezes. Esse ciclo de horror
não gera nada além de tristeza. Você pode exigir olho por olho,
mas — como Gandhi teria dito — isso apenas deixaria o
mundo todo cego.
UMA PERSPECTIVA DIFERENTE SOBRE PERDÃO
O caminho que vai da fúria ao perdão pode ser íngreme e
difícil, ainda mais quando um grande mal foi causado a você e
àqueles que você ama. Uma reviravolta acontece se
conseguirmos ver o perdão não como uma aceitação submissa,
mas como uma forma corajosa de nos libertar da dor.
Alguns atos são tão terríveis, tão prejudiciais, tão cruéis e tão
odiosos que não podem ser aceitos. Devem ser respondidos com
justiça. Perdão significa cortar o laço com a ação histórica para
que ela não impeça nosso avanço. Perdão não liberta o
perpetrador da responsabilidade; nos liberta do perpetrador.
Conheci muitos sobreviventes de conflitos, e algumas de
suas histórias me levaram às lágrimas. Conheço os filhos de
pessoas mortas em guerras que cresceram com a vingança em
seu coração. Os sentimentos que trazemos desses
acontecimentos traumáticos nunca são fáceis de deixar para
trás, mas damos nossos primeiros passos para sair do
vitimismo quando escolhemos agir por conta própria. É muito
impressionante quando uma pessoa que busca vingança
encontra a força interior para superar seu medo e sua fúria.
Fico maravilhado com a determinação das pessoas de viver
bem hoje apesar do que lhes aconteceu no passado. E aí está
um ponto importante: elas sofreram, mas não quiseram viver o
resto da vida sentindo-se vítimas.
NA ÁFRICA DO SUL
Visitei a África do Sul pela primeira vez em 1972, aos catorze
anos. Fui discursar em eventos e fiquei horrorizado com o que
vi e vivenciei. Aquilo fez com que eu me lembrasse do sistema
terrível de castas da Índia, que eu odiava. Na época, Nelson
Mandela estava na cadeia por suas tentativas de derrubar o
regime.
O apartheid era completamente brutal. Em certa ocasião, o
governo sul-africano me disse: “Você não pode fazer um evento
misto. Pessoas de raças diferentes têm que ser mantidas
segregadas”. E eu respondi: “Desculpe, mas não vou fazer isso.
Quem quiser pode vir aos meus eventos. Falo com seres
humanos. Não com suas raças. Não com suas religiões”.
Virei persona non grata. Os funcionários do governo não
queriam prender aquele jovem palestrante convidado e
provocar um escândalo internacional, mas me seguiram e
monitoraram o tempo todo. Acho que quebrei praticamente
todas as regras em relação aos lugares aonde fui, como viajei,
com quem interagi e o que disse. O medo e a raiva deles eram
impressionantes.
Havia uma variedade maravilhosa de humanos nos meus
eventos — as mais diversas formas, tamanhos e cores de
pessoas que se podem imaginar —, mas todos tinham a mesma
busca: sentir a paz dentro de si e levar uma vida plena. Essa
possibilidade maravilhosa estava sendo nutrida bem diante da
segregação e da violência. Era contrária a todas as regras
existentes e me mostrou como a paz dentro de nós é mais forte
do que os jogos mentais em que as pessoas se envolvem às
vezes — jogos esses com consequências devastadoras.
Recentemente, realizei eventos em Soweto, um lugar onde as
pessoas foram machucadas de uma forma que você não
imaginaria. Muitos palestrantes convidados falam sobre perdão,
mas costumo ser o único a dizer que o perdão é antes de tudo
para você, e não para eles, os perpetradores. Digo o seguinte: as
pessoas podem cometer atos tão abomináveis que você
provavelmente não consegue perdoá-las, mas há uma coisa que
é possível fazer por você mesmo: cortar as amarras da dor. Ao
fazer isso, você garante que o que aconteceu ontem não
domine mais sua vida hoje.
Uma vez, na África do Sul, eu estava discursando em um
evento, e uma mulher na cadeia tinha me enviado uma
pergunta: “Fiz algo na vida pelo que não consigo me perdoar.
Matei dois dos meus filhos e quase me matei por causa do
abuso que estava sofrendo. Quero sentir a paz de que você fala.
Mas acho que perdi a capacidade de senti-la. Existe alguma
chance para mim?”.
Olhei para a plateia. Percebi que todos ali estavam muito
mais próximos daqueles acontecimentos terríveis do que eu.
Perguntei a eles: “Bom, vocês acham que existe alguma chance
para essa pessoa?”.
Foi muito surpreendente, mas todos — com uma só voz —
disseram: “Sim!”. Essa foi sua resposta — há esperança para ela.
Aquele momento vai ficar comigo para sempre. Ele me
mostrou, em alto e bom som, que há esperança sim para a
humanidade.
DEVER E RESPONSABILIDADE
Na história do Mahabharata que contei, Janmijay foi
questionado por Astik e respondeu que estava cumprindo seu
dever, seu darma. Algumas pessoas sentem uma forte obrigação
moral de lutar — pelo país, pela religião, pela comunidade, pela
família. Não vou tentar definir que dever você tem para com
os outros; quero apenas lembrar que você também tem um
dever para com você. E seu dever com você mesmo é entender
você antes de agir, e sentir a paz em você antes de decidir lutar
ou não. Sua mente pode ser convencida a aceitar a justificativa
pela guerra, mas e seu coração?
Alguns anos atrás, a Fundação Prem Rawat levou seu
Programa de Educação para a Paz (pep) ao Sri Lanka, um país
que sofreu uma guerra civil terrível. Usado inicialmente para
auxiliar detentos, o pep fornece apoio a uma grande variedade
de pessoas que querem se reintegrar à sociedade ajudando-as a
entender e se reconectar com sua sensação de paz interior. No
Sri Lanka, trabalhamos para ajudar ex-combatentes a se
reconectar consigo mesmos, e isso teve forte impacto. Um ex-
membro do Tigre Tamil me disse: “Se eu conhecesse essa
mensagem no começo da vida, nunca teria ido à guerra”. O pep
hoje está presente em mais de cem países e é oferecido a
pessoas em comunidades que estiveram envolvidas em
conflitos.
Na Colômbia, nossas equipes trabalharam com ex-
combatentes das Farc. Muitos lutavam desde crianças e não
conheceram outra vida além dessa. Durante décadas, houve
exércitos particulares em todo o país e eles estiveram
envolvidos em violências e crimes terríveis, em cujo caos as
drogas representaram um grande papel. Tendo concluído o
pep, um ex-combatente me disse: “Se um guerrilheiro
consegue aceitar essa mensagem em seu coração, imagine o
que você pode fazer pelo resto do mundo”.
CONFLITOS COTIDIANOS
Falar sobre guerra pode parecer um tanto abstrato para
aqueles que não passaram por ela. Mas a mesmíssima dinâmica
se desenrola no dia a dia, só que em escala menor. Pegue um
exemplo comum de conflito leve. Você está dirigindo seu
carro; alguém corta na sua frente e não se desculpa. Você fica
indignado. A raiva corre em suas veias. Você buzina e persegue
a pessoa até o próximo semáforo. O que aconteceu? Você está
se deixando controlar pelo seu sentimento. Aonde esses dez
segundos vão levar você? Ao paraíso? Ou só alguns metros à
frente na rodovia? Se vocês dois estiverem competindo por
algo que, no fundo, não tem importância, quem está perdendo
a razão — você ou a outra pessoa? Os dois!
Podemos tentar outra estratégia. Se virmos alguém tentando
entrar na nossa frente, podemos frear e deixar que ela entre.
Nós controlamos a situação. Alguém está tentando roubar
nossa vaga no estacionamento? Deixe a pessoa pegar. Estamos
no controle. Quem sabe ela esteja com uma questão
verdadeiramente urgente para resolver. Mesmo se a
necessidade dela não for maior do que a nossa, talvez nossa
ação plante uma semente de bondade na cabeça dela.
Isso é importante porque vemos que disputas mesquinhas
podem se transformar rapidamente em tragédias. Para onde
quer que olhemos, as pessoas estão aprisionadas em conflitos, e
jovens em regiões pobres costumam ser deixados na linha de
frente. Quantas vezes vemos uma notícia sobre mais um jovem
morto em uma região perigosa da cidade e tratamos isso como
algo normal? Quando isso acontece, devemos parar por um
momento e reconhecer que aquela pessoa perdeu a
humanidade aos nossos olhos. Ela não é mais uma pessoa para
nós, apenas mais uma estatística de crime. Se pararmos de ver
as vítimas de violência como seres humanos, a guerra nas
cidades só vai piorar.
ESPERANÇA VERS US APATIA
Estou envolvido em muitas iniciativas que tratam da
violência juvenil, e um desafio que todas enfrentam é a
desesperança que as pessoas sentem. Quem pode deter a
violência? Somente todos, juntos. O esforço começa em cada
um de nós. A polícia, os políticos, as organizações
comunitárias, a população local e os jovens em si — todos
precisamos estar envolvidos. Todos somos seres humanos, e
todos precisamos encontrar a esperança dentro de nós. Eu e
você precisamos encontrar a esperança dentro de nós também.
Se os jovens não veem esperança — de estarem envolvidos
na comunidade, de conseguirem um emprego, de viverem em
uma boa casa, de terem oportunidades, de serem respeitados e
amados —, eles viram as costas para a sociedade. Ainda mais
importante: eles viram as costas para si próprios. Se você não
sente amor nenhum por você, por que sentiria por outra
pessoa, sobretudo se teme que ela possa fazer mal a você? Esses
jovens acabam brigando entre si porque estão brigando consigo
mesmos.
Dentro deles há um ruído terrível de apatia. Nosso desafio é
ajudá-los a ver que existe sim algo que podem controlar e
sentir e valorizar. Está dentro deles. E, quando eles sentem essa
conexão com o sentimento de amor em seu coração, podem
desenvolver seu sentimento em relação às pessoas ao seu redor.
Assim, a paz interior tem algo de poderoso para oferecer a
todos.
QUESTÕES DE FAMÍLIA
É inevitável questionar certas escolhas que os jovens fazem:
por que a amizade com estranhos acaba sendo mais importante
do que o convívio com a família? Às vezes, parece que a família
não tem tempo para os jovens. Todos parecem ter coisas
demais exigindo sua atenção. Em certos casos, os pais
entendem que dar responsabilidade aos filhos é deixar que
sigam a vida por conta própria. Adivinhem só: desse jeito, eles
se sentem sozinhos e procuram amizade em gangues. Os
jovens podem se tornar tão desesperados por aceitação nessa
família que vão e matam alguém como um teste de iniciação.
Os governos precisam apoiar a família. As empresas
precisam apoiar a família. Mas, acima de tudo, nós precisamos
apoiar a família. E o que podemos fazer para fortalecer a
família? Comece pela sua.
UM SORRISO SURPREENDENTE
A prisão é o destino de muitos jovens que se perderam aos
próprios olhos e aos olhos da sociedade, assim como o de
muitas pessoas mais velhas que não conseguem fugir da
transgressão. O pep foi criado originalmente para ajudar
pessoas dentro da prisão a se reconectarem consigo mesmas,
descobrirem seus recursos interiores e sentirem a paz pessoal.
Ele pode mudar completamente a forma como os detentos
entendem quem são, transformando sua experiência dentro e
fora dos muros. O programa também se revelou útil para os
funcionários das instituições que apoiamos.
Nunca imaginei que entraria em tantas prisões de segurança
máxima. Visitar esses lugares é algo que nos faz refletir, e
sempre é uma experiência impressionante. Não consigo evitar
a sensação de que a prisão na verdade é uma pequena réplica
do mundo — um microcosmo. Lá dentro, você encontra todo
tipo de gente.
Ao longo da infância, ouvi meu pai falar sobre a conversa
entre Krishna e Arjun no campo de batalha. Foi só depois da
minha primeira visita a uma prisão que entendi como teria
sido essa conversa. A cacofonia e a sensação de deslocamento lá
dentro são diferentes de qualquer outra coisa. Não existe uma
atmosfera de paz em nenhuma prisão em que entrei. Mas,
quando estive nesses lugares, encontrei muitas vezes o que só
posso descrever como a forma mais surpreendente de sorriso:
surpreendente porque os detentos estão vivendo em um
ambiente desolador — e podem passar muitos anos lá —, mas
conseguem expressar uma energia extremamente positiva.
Durante uma visita, percebi o quanto aquelas pessoas
perderam em termos de controle quando foram parar lá
dentro. No mundo aqui fora, podem ter sofrido todo tipo de
pressão, mas, pelo menos, tinham uma casa. Por mais
degradado ou atribulado que fosse, havia um lugar para
chamar de seu. Atrás das grades, elas perdem isso. Não são
donas de nada. A prisão controla o ambiente e o horário delas,
os guardas detêm o poder e os outros detentos podem ser
motivo de competição e perigo. Sem dúvida é desagradável
conviver com muros, grades e cercas, mas ficar trancado com
indivíduos que estão levando uma vida inconsciente pode ser
incrivelmente difícil. No fundo, por mais terrível que seja o
ambiente físico, são as pessoas que tornam a prisão de fato
deprimente umas para as outras.
O que posso dizer a alguém nessa situação? Apenas o
seguinte: não posso tirar você daqui, mas posso ajudá-lo a se
libertar dentro de você. Sou muito direto com os detentos:
“Você pode, sim, sentir a paz aqui!”. A paz interior não diz
respeito ao que você tem ou deixa de ter. Claro, todos preferem
a liberdade e um lar confortável à vida em uma cela, mas a paz
não está lá fora; está dentro de você.
Quando entendem isso, os detentos percebem que têm, sim,
uma escolha: podem escolher se conectar com a paz, o amor e
a autoestima dentro deles ou não. Na cadeia, ter uma escolha
pode ser incrivelmente libertador. A escolha é um tipo de
poder. Os detentos se sentem isolados e ameaçados; ter a
possibilidade de acessar um lugar que oferece alegria,
serenidade e clareza é uma tábua de salvação. É uma grande
mudança perceber que existe um lugar aonde você pode ir em
que você é sempre o número um, que é o seu lugar, em que
você pode se sentir reconfortado, em que pode ser quem você
é de verdade.
Os detentos às vezes falam da maneira como o pep os
conecta com todo o bem interior. Um deles me disse: “Sua
mensagem ecoa no meu coração. Estou descobrindo meu
poder, meu amor, minha natureza, minha paz, minha alegria,
minha arte”. Esse sorriso que os detentos abrem para mim
mostra que agora eles entendem o que o autoconhecimento
pode oferecer — que estão escolhendo a paz.
O QUE VOCÊ PODE MUDAR?
Depois que aquela porta pesada se fecha atrás deles, muitos
prisioneiros culpam os outros por seu sofrimento. Passar a
responsabilidade para os outros é uma forma de vingança e dá
continuidade ao ciclo de desespero. Isso não acontece apenas
com prisioneiros, claro. Pessoas em todos os lugares fazem
isso.
No dia em que um prisioneiro começa a olhar de verdade
para dentro de si, algo profundo acontece. Ele se dá conta —
talvez pela primeira vez — de que tem mais poder do que
imaginava. Finalmente entende que não tem como mudar o
sistema judicial. Não tem como mudar a história. Mas tem
como mudar a si mesmo. Que revelação!
Essa virada de desesperança para força é muito importante,
porque são os indivíduos que compõem a sociedade; não é a
sociedade que compõe o indivíduo. Progredimos juntos uma
pessoa por vez, incluindo aquelas em nossas cadeias. A menos
que os indivíduos dentro de uma comunidade sejam fortes,
essa comunidade sempre terá fraquezas. Se for impossível que
os indivíduos mudem, a sociedade terá problemas. Vezes e
mais vezes, em prisões em todo o mundo — e com ex-
combatentes também —, vejo que a paz é possível.
É preciso ter a mente aberta para se conectar com a minha
mensagem? Não sei; talvez baste que a pessoa esteja preparada
para escutar. Sei que muitos detentos vieram ao seu primeiro
evento do pep porque ficaram sabendo que ganhariam uma
caneta e um bloco de papel. Mas, enquanto estavam lá,
começaram a escutar — a escutar de verdade — e isso mudou a
vida deles.
Nas prisões, vejo guerreiros que estão enfim começando a
vencer a guerra interior, e é maravilhoso estar na presença
deles. O pep lhes oferece uma estratégia muito simples para
vencer essa guerra, e um exército poderoso de forças internas
preparado para lutar pela paz. Alguns deles estão atrás das
grades para sempre e sabem que talvez eu nunca mais volte à
sua prisão, mas me agradecem porque — finalmente —
experimentaram o que é viver em paz.
LIBERTE-SE
Às vezes, saio de uma prisão e volto ao mundo exterior com
lembranças de detentos sorridentes frescas na mente, mas
encontro pessoas “normais” bastante infelizes. Estar distante da
paz interior é uma sentença perpétua terrível, seja dentro ou
fora da prisão. Medos, expectativas e preconceitos se tornam
muros, portas e grades. E a pessoa que torna sua vida um
inferno é você. Não existe nenhuma possibilidade de liberdade
condicional a menos que você escolha fazer a mudança
acontecer para você. A prisão mais dolorosa é a prisão interior.
A guerra mais violenta é a guerra interior. O perdão mais
libertador é o perdão interior. A paz mais poderosa é a paz
interior.
Quaisquer que sejam suas circunstâncias — dentro ou fora
da prisão —, hoje é o dia de reconhecer que você cria sua
própria sensação de liberdade. Nossa vida pode estar longe de
ser perfeita, mas todos podemos sentir a paz perfeita dentro de
nós se assim escolhermos. Não subestime o grau de
transformação que acontece quando você se conecta com seu
verdadeiro eu, quando se liberta para sentir a paz interior.
Aqui vai uma história que contei quando discursava para
detentos na Dominguez State Jail, em San Antonio, no Texas,
alguns anos atrás. Fez sentido para eles, e acho que diz algo
sobre o perigo que corremos ao esquecer o poder que temos
dentro de nós.
Certa vez, houve uma competição entre o vento e o sol —
quem é melhor? O sol disse: “Sabe, sou o que sou”. E o vento
disse: “Sim, e acho que sou melhor do que você. Vamos
resolver isso da seguinte forma: está vendo aquele homem
caminhando? Ele está de casaco e aposto que, com meu poder,
consigo fazer com que ele o tire”.
O sol disse: “Claro, fique à vontade”. Então o vento começou
a soprar. E, quanto mais o vento soprava, mais o homem
apertava o casaco. E o vento soprou mais forte, e o homem
apertou mais e mais e mais o casaco. E o vento tentou de novo,
mas o homem estava se segurando ao casaco com tanta firmeza
que o vento ficou exausto e desistiu.
Então foi a vez do sol, e tudo que o sol fez foi brilhar. E,
quando ele brilhou, lá se foi o casaco porque o homem estava
se sentindo confortável.
Quem quer que seja e onde quer que esteja, dentro de cada
um de nós há um sol esperando para brilhar. Deixe brilhar.
9. Ame agora
Quando nasci, deram-me o nome Prem. Em hindi, significa
“amor” — uma forma pura e incondicional de amor oferecida
sem expectativa —, portanto o tema deste capítulo me é caro
há muito tempo.
O amor vem em muitas formas e determina grande parte da
nossa vida. Leva alguns de nós aos pontos mais altos e mais
baixos, tocando todos os nossos sentimentos. Mas existem
formas de pensar e sentir o amor que podem ajudar a torná-lo
glorioso e constante, em vez de uma tempestade de prazer e
dor que cai sobre nós de tempos em tempos.
Ao longo das próximas páginas, compartilho algumas
observações pessoais sobre o amor e algumas frases
maravilhosas de poetas e outros autores. Como você pode
imaginar, não estou interessado no amor como algo que
projetamos nos outros, nem no mundo lá fora, mas como algo
que experimentamos dentro de nós. Cada parte é uma
“observação” independente. São pensadas como momentos em
uma conversa: pontos de partida, em vez de conclusões.
O AMOR NÃO PRECISA DE MOTIVO
Para existir, o amor não precisa de motivos externos. As
expectativas mudam. Os desejos mudam. E as relações também
mudam. Mas o verdadeiro amor está sempre lá dentro de nós.
Não podemos dá-lo a alguém, nem podemos exigir que ele nos
seja dado. O amor é uma força interior. Uma graça interior.
Uma beleza interior.
O AMOR É COMPLETO EM SI MESMO
Como uma árvore dá sombra? Ela não faz nada. Apenas é ela
mesma e, sendo ela mesma, oferece sombra. Um rio promete
que pode resolver seus problemas de sede ou lhe trazer peixes?
Não, ele apenas corre, e as pessoas encontram nele o que
buscam. O vento exige respeito por encher as velas dos navios?
Não, ele simplesmente vai aonde vai. Como você pode ajudar
aqueles que ama? Sendo você.
O AMOR É SIMPLES
Alguns versos do poeta indiano Kabir:
No mercado
Quero o bem a todos.
Ninguém é meu amigo.
E ninguém é meu inimigo.
O amor pode ser simples assim.
O AMOR É UM FOGO
Se você já foi a uma aula de ioga, sabe que muitas pessoas
sofrem para encontrar seu equilíbrio. “Encontre seu centro”,
instrui o professor, e fileiras de pessoas ficam lá balançando
em uma perna só. Nosso equilíbrio emocional também pode
ser difícil, mas sei lhe dizer onde é seu centro: seu coração.
Seu coração é seu verdadeiro lar.
Quando nos sentimos perdidos, é porque nos esquecemos do
caminho de volta para nosso coração. Então ficamos confusos.
A palavra “foco” vem do termo em latim para lareira — a
lareira que é o centro da casa. Quando sentimos esse fogo
queimar dentro de nós, sabemos que estamos em casa;
sabemos que sentimos amor.
O AMOR BRILHA
Quando o Sol e a Lua estão no lugar certo, a magia acontece
e a Lua brilha. Quando somos gratos pelo que temos,
brilhamos com o amor da vida em si. Todos temos esse
potencial dentro de nós.
O AMOR ESTÁ DENTRO DE NÓS
Aqui vão dois trechos da extraordinária poeta santa hindu
Lalla Ded, que viveu na Caxemira do século xiv. Ela desafiou a
convenção social em sua busca pelo divino, abandonando seu
casamento e sua casa para se tornar poeta e cantora viajante.
Eu era apaixonada,
cheia de desejo,
busquei
em toda parte.
Mas no dia
em que o Verdadeiro
me encontrou,
eu estava em casa.
Você é a terra, o céu,
o ar, o dia, a noite.
Você é o grão,
a pasta de sândalo,
a água, as flores e tudo o mais.
Como eu poderia lhe trazer algo
em oferenda?
O AMOR VIVE NO MOMENTO
Há não muito tempo, enquanto trabalhava, eu estava
ouvindo uma canção inspirada por um dos poemas de Kabir.
As palavras e a música eram tão maravilhosas juntas que parei
o que estava fazendo no computador e me entreguei ao
momento. No poema, Kabir diz: não adie a plenitude para o
amanhã, sinta-a agora. Se tiver sede, beba agora. Se tiver fome,
coma agora.
Só podemos viver neste momento chamado “agora”, então só
podemos amar neste momento. Se pensarmos no amor como
algo apenas do passado ou do futuro, podemos perdê-lo no
presente. O amor não tem futuro — é agora ou nunca. Em vez
disso, podemos abrir nosso coração para o momento e
encontrar algo divino: não a fantasia de se sentir amado
amanhã, mas a experiência real de sentir amor em nosso
coração hoje.
O AMOR FLUI
Assim como não podemos controlar as marés, também não
podemos controlar o fluxo do amor. Ele se movimenta onde se
sente bem. Ele se sente bem quando é aceito.
O AMOR CANTA COM DOÇURA
Aqui vai uma variação de um conto de fadas escrito por
Hans Christian Andersen. O original foi inspirado pelo amor
não correspondido dele pela cantora de ópera Jenny Lind, que
se tornou conhecida como o Rouxinol Sueco.
Era uma vez um rei que amava a canção do rouxinol. Ao
entardecer, outro rei lhe enviou um rouxinol mecânico. O rei
ficou encantado. “Uau!”, ele pensou. “Que belo presente. Agora
não preciso esperar pelo rouxinol todo fim de tarde. Basta dar
corda e lá está ele.”
Então ele parou de abrir a janela, e o rouxinol parou de vir.
O rei estava apaixonado pelo pássaro mecânico. Ao seu
comando, o pássaro cantava, a qualquer hora do dia. Ele era
muito belo, com sua decoração de ouro e diamantes.
O rei instruía a ave a cantar sempre que queria, e ela sempre
obedecia. Cada vez mais, ele pedia que ela entoasse sua canção.
Mas, quanto mais ela cantava, menos satisfatória ele achava a
música. E mesmo assim pedia para o pássaro mecânico cantar
— manhã, tarde e noite.
Até que um dia o rouxinol quebrou. Ele foi mandado para os
artesãos mais habilidosos do reino, mas ninguém conseguiu
consertar o mecanismo.
Logo o rei adoeceu. Ele queria muito que o rouxinol
mecânico cantasse para ele. Na ausência do canto, tudo se
tornava terrivelmente quieto. Ele ficava deitado na cama e nada
que seus cortesãos diziam o consolava. Todos no país ficaram
com o coração pesado e temeram que o rei morresse.
Em certo momento, o rei instruiu seus soldados a saírem em
busca do rouxinol que vivia na floresta, a ave que cantava para
ele. Mas não conseguiram encontrá-lo.
Certa noite, quando tudo estava silencioso no castelo, o rei
foi até a janela, abriu-a e olhou para a floresta. Ele desejava
muito que o rouxinol de verdade voltasse. Ele o chamou,
dizendo com carinho: “Rouxinol, por favor, venha! Sei que eu
estava errado. Você é livre para ir e vir quando quiser, e isso
torna sua canção ainda mais bela. Você não está às minhas
ordens; eu estou às suas. Mas, por favor, tenha pena de mim!”.
Naquele dia, assim que o sol havia se posto, ele ouviu um
bater de asas lá fora. O rouxinol pousou em seu parapeito e
começou a cantar. O rei ficou radiante.
“Obrigado por vir”, ele disse ao rouxinol.
“Obrigado por abrir a janela”, respondeu o rouxinol.
AME O QUE É
O filósofo estoico Epiteto disse: “Se você deseja seu filho,
amigo ou companheiro quando ele não lhe é dado, saiba que é
como desejar um figo no inverno”. Pode parecer bastante
insensível da parte de Epiteto, mas existe certa bondade nessa
filosofia. Às vezes, a ausência, a perda e a rejeição são tão
dolorosas que nos refugiamos nas coisas imaginárias como
gostaríamos que elas fossem. É uma forma de autoproteção,
mas a dor persiste quando a ilusão passa.
Se conseguirmos ver a realidade com clareza, podemos
apreciar o que é, sem nos distrair com o que não é. Libertamo-
nos de desejar aquele figo no inverno para então amar o que já
temos.
O AMOR É INDESTRUTÍVEL
Mirabai, também conhecida como Meera, nasceu no século
vi na Índia e amava Krishna. Muitos a consideram uma grande
santa. Ela compôs poemas comoventes, expressando
sentimentos de profunda união espiritual e emocional com sua
inspiração, o deus Krishna, e a dor da separação física dele.
Seus bhajans — canções devocionais — vão além da esfera da
simples devoção. Escritos em dísticos, são obras das quais toda
a humanidade poderia se beneficiar. Para Mirabai, o amor é
algo que se doa, não algo que se conquista, e, quando o
verdadeiro amor é dado, dois corações se tornam um. Ela teve
uma vida extraordinária — a família de seu marido pediu
várias vezes que ela tirasse a própria vida, por exemplo —, mas
essa história ocuparia todas as páginas restantes deste livro.
Vou compartilhar apenas uma de suas expressões de amor
aqui.
Indestrutível, Senhor,
É o amor
Que me une a você:
Como um diamante,
Ele quebra o martelo que o atinge.
Meu coração vai até você
Como o brilho vai ao ouro.
Como a lótus vive na água,
Eu vivo em você.
Como a ave
Que observa a noite toda
A lua que passa,
Eu me perdi habitando em você.
Ah, meu amor, volte.
O AMOR NEM SEMPRE É FÁCIL
Muitos anos atrás, fui à Sardenha com minha família.
Enquanto saía de nosso carro alugado, meu filho, que era bem
pequeno na época, bateu a porta no meu dedo. Não sei se você
já passou por algo parecido, mas doeu muito. Doeu muito
mesmo. Quando olhei para meu filho, vi que ele também estava
sofrendo. Seu rosto expressava um pensamento claro: “Ah, não,
o que foi que eu fiz?”.
Percebi que, embora meu dedo doesse, meus sentimentos
não precisavam doer também. De que adiantaria gritar sobre a
dor e ficar com raiva daquele garotinho? Olhei para o rosto
dele e pensei comigo mesmo: “Posso tirar o sofrimento dele
pela forma como reajo”. Então disse: “Preciso dar uma volta;
quer vir comigo?”.
Fomos dar uma volta juntos e ele ficava perguntando: “Papai,
como está seu dedo?”.
“Está bem; está tudo bem”, eu dizia. Uma mentira inocente.
Minha mão estava tremendo. Doía muito, mas ele não
precisava saber isso.
Tenho que ser sincero, foi preciso um esforço consciente
incrível — incrível — para fazer isso. Eu conseguia sentir muito
bem a parte de mim que ainda queria gritar: “Por que você
tinha que fazer aquilo?”.
Doeu mais ou doeu menos porque não fiz um escândalo?
Não, a dor física foi a mesma, mas a dor emocional logo
passou. Nem sempre é fácil, mas escolher a opção bondosa é se
voltar internamente para o amor.
AME-SE ANTES DE TUDO
Às vezes, nos voltamos aos outros para preencher o que
parece um vazio dentro de nós. Vejo amigos cuidando de todos
em sua vida menos de si mesmos. Alguns têm tanto medo de
ficar sozinhos que abrem mão de seu bem-estar para deixar os
outros felizes. Mas, se não nos amarmos, por que outras
pessoas dariam valor ao nosso amor? Devemos nos amar antes
de tudo.
O AMOR ESTÁ EM SEU CORAÇÃO
Algumas palavras do poeta Rumi:
No minuto em que ouvi minha primeira história de amor, comecei a procurar por
você, sem saber como era uma busca cega.
Os amantes não se encontram finalmente em algum lugar, estão o tempo todo um
no outro.
O AMOR É REAL
Estes são versos de Rabia al Basri, que viveu no século viii e
é considerado por alguns o primeiro santo verdadeiro da
tradição sufi:
No amor, não existe nada entre o coração e o coração.
A fala nasce do desejo,
A verdadeira descrição do verdadeiro gosto.
Aquele que degusta sabe;
Aquele que explica mente.
Como descrever a verdadeira forma de algo
Em cuja presença você se obscurece?
E em cujo ser você ainda existe?
E que vive como um sinal para sua jornada?
O AMOR ALÉM DAS PALAVRAS
Podemos nos comover com o que as pessoas dizem e
escrevem sobre suas experiências do coração. E a presença do
amor pode ser guardada lindamente na memória pela
linguagem que usamos. Pense nas palavras gentis e reveladoras
que vêm aos amantes durante aqueles primeiros dias tantas
vezes frágeis de um relacionamento. Pense nos votos feitos em
casamentos. Pense nos conselhos sábios que damos às crianças.
Pense nas palavras gentis que usamos para celebrar a família e
a amizade. Pense nos discursos de grandes líderes quando se
conectam plenamente com seu povo. Pense nos tributos em
funerais.
No entanto, em sua forma mais pura, o amor transcende a
linguagem. Quando nos aprofundamos mais e mais dentro de
nós, as palavras se perdem. Quando empreendemos essa
jornada interior, entramos em um estado de ser além do
tempo, além dos números, além das imagens, além das ideias,
além das definições, além dos rótulos, além da linguagem.
Nesse universo interior de paz, encontramos o sentimento
mais perfeito de amar e ser amado.
AME SUA VIDA
A cada momento, nos é dada a grande oportunidade de
aproveitar e apreciar o dom da existência. Agora, podemos dar
as costas para as trevas e nos voltar para a luz da gratidão, e
sentir a vida fluindo em nosso corpo. Quando fazemos isso,
amamos o que é para nós. Todos os dias, podemos escolher
amar nossa respiração. Amar nossa alegria. Amar nossa clareza.
Podemos nos apaixonar pela vida.
A cada respiração que entra e sai, podemos aceitar a graça da
vida. Quando isso acontece, nosso coração se enche de
gratidão, e isso traz ainda mais amor. E assim um ciclo infinito
flui continuamente.
Não escolhemos que a respiração venha, mas podemos
escolher amar cada respiração. E qual é o efeito dessa escolha
em nosso corpo? Começamos a sorrir.
Escolha amar.
10. Cultive o divino
Um homem estava caminhando por uma cordilheira alta
quando tropeçou e caiu. Ele continuou caindo por um tempo
até conseguir se segurar ao galho de uma pequena árvore que
crescia na parede do penhasco. Segurando-se no galho, ele
olhou para baixo e viu que havia um longuíssimo percurso até
o chão. Quando ergueu os olhos, viu que seria impossível
escalar de volta até um lugar seguro porque o penhasco era
vertical e não havia onde se apoiar. Então começou a sentir os
músculos de seu braço se cansando.
O homem ficou desesperado. Ele sentia os braços cada vez
mais pesados e cada vez mais fracos. Por fim, prestes a cair,
gritou: “Deus, por favor, me ajude, não quero morrer! Me
ajude!”.
De repente, uma voz retumbante veio do alto: “Certo, como
sinal de sua fé, solte o galho, que vou salvar você”.
O homem olhou para o alto do penhasco e para o chão lá
embaixo. Então gritou: “Tem mais alguém aí em cima?”.
JOGAR MOEDAS PARA DEUS
Há uma moral nessa piada de que vou tratar depois.
Primeiro, preciso falar um pouco do meu histórico com a
religião. Na infância, conheci algumas das diferentes
sociedades e religiões himalaicas, e aprendi como as águas de
diferentes culturas descem pelas montanhas trazendo uma
grande variedade de crenças como sufismo, budismo e
siquismo. Na escola, também tínhamos contato com o
catolicismo romano. Mas quase sempre vivi em meio a uma
devoção hindu extraordinária.
Minha mãe era uma hindu convicta, mas meu pai não tinha
nenhuma religião forte porque queria saber em vez de
simplesmente acreditar. Ele havia passado a vida procurando
por — e depois falando sobre — sabedoria. Para ele, a
sabedoria não era encontrada nos livros e não era consagrada
em construções.
Toda vez que nossa família saía da cidade para viajar,
passávamos por templos à beira da estrada. Era comum as
pessoas abrirem as janelas do carro e atirarem uma moeda para
Deus, e havia pessoas por perto que juntavam as moedas e as
levavam para dentro do templo, embora eu desconfiasse que
algumas fossem parar em seus bolsos. Sempre que passávamos
por um templo em particular, minha mãe lançava uma moeda,
e toda vez meu pai perguntava: “Por que você faz isso?”. Ela
respondia: “Para ir para o céu”. E meu pai retrucava: “Dê o
dinheiro para mim que levo você para o céu”. Mas ela só
revirava os olhos, abria a janela e atirava a moeda, cumprindo
sua devoção.
Eu ficava ali no banco de trás e, à medida que fui ficando
mais velho, conversas como essa me faziam pensar. Por um
lado, eu entendia a aspiração da minha mãe, mas cada vez mais
parecia que ela estava apenas imitando o que todos faziam.
(Algo parecido com a aprendizagem mecânica de que trato em
outra parte deste livro.) Seja como for, não é um pouco
estranho atirar uma moeda para Deus? Pare o carro, pelo
menos!
Como você pode imaginar, o ceticismo do meu pai fazia com
que ele entrasse em conflito com muitos religiosos
convencionais. Certa vez, ele foi visitar um lugar sagrado onde
havia muitos devotos, e um deles estava parado numa perna só,
orando a Deus em silêncio. Havia uma placa que dizia que ele
estava numa perna só havia muitas semanas e que não dizia
uma palavra. Meu pai foi até lá e disse: “Ah, Deus, por que deu
uma segunda perna para esse homem? Ele não a usa. E por que
deu uma boca a esse homem? Ele também não a usa”. O
homem ficou tão irritado que gritou: “Como ousa dizer isso?”.
E baixou a segunda perna.
O QUE VOCÊ É?
Muitas pessoas me perguntam sobre minhas crenças
religiosas. “O que você é?”, dizem. Normalmente respondo:
“Acima de tudo, sou um ser humano”. Para falar a verdade, não
gosto muito da forma como as pessoas são levadas a definir
que tipo de fé seguem. Assim que alguém responde a “O que
você é?” com uma palavra — hindu, cristão, muçulmano,
judeu, sikh, budista, ateu, jainista, taoista, xintoísta, bahaísta e
assim por diante —, uma jaula de expectativas parece surgir
em volta delas. O que deveria ser um ponto de partida para
uma conversa entre duas mentes abertas pode se tornar um
monólogo da pessoa que perguntou “O que você é?”. Seja como
for, “Por que você é?” não seria uma pergunta mais
interessante?
Pode ser uma surpresa saber que meu sentimento religioso é
mais próximo do de meu pai do que do de minha mãe. O
divino é incrivelmente importante para mim — molda toda a
minha vida —, mas não me sinto religioso.
Ao longo dos anos, conheci muitas pessoas de diferentes
tradições espirituais, e algumas me pareceram profundamente
amáveis. Sei que a espiritualidade é uma fonte de grande
alegria e apoio para meus amigos. Apreciei conversas
eloquentes sobre o divino com muitos religiosos, e aprendi
com elas, mas não compartilho da fé em um paraíso “lá em
cima”. Estou mais interessado em conhecer o divino dentro de
mim aqui embaixo.
Uma vez, quando eu estava na Ásia, notei que muitos dos
templos eram no alto de montanhas, e eu sempre me
perguntava o porquê. As pessoas estão aqui embaixo — os
templos não deveriam estar aqui embaixo também para que
pudéssemos ir a eles com facilidade?
QUEM É MAIOR DO QUE DEUS?
Existem muitas boas histórias sobre questões espirituais.
Aqui vai uma de que gosto especialmente, dos tempos de
Akbar e Birbal.
Um dia, um poeta entrou na corte do imperador Akbar. O
poeta cantou e recitou lindos poemas para ele, e o imperador
ficou muito feliz, sobretudo porque as palavras diziam como
ele era grandioso. Akbar deu uma joia para o poeta, que então
compôs mais versos, e estes eram ainda melhores e mais
elogiosos do que os primeiros. Akbar ofereceu ainda mais joias
para o poeta, e cada novo poema dizia coisas ainda mais
maravilhosas sobre o imperador.
O poeta dizia a Akbar: “Você é o maior, você é maravilhoso,
você é tão generoso”, e assim por diante, até que começou a
sentir medo de ficar sem adjetivos. Então, no fim da tarde,
soltou: “Você é maior do que Deus!”.
Todos na corte prenderam a respiração. Até aquele
momento, os cortesãos diziam “Sim, sim, sim!” a cada novo
poema porque não queriam ir contra Akbar. Mas, quando o
poeta disse “Você é maior do que Deus!”, todos pararam,
consternados. Eles simplesmente não tinham como concordar.
Akbar olhou para a corte e disse: “Então, sou mesmo maior
do que Deus?”.
Ninguém se atreveu a falar. “Sim” significaria ter a cabeça
cortada, e “Não” significaria ter a cabeça cortada.
O silêncio encheu o salão. Então as pessoas começaram a
olhar para o cortesão mais inteligente e perspicaz, Birbal.
Sempre houve uma tensão entre ele e os demais conselheiros
porque ele era muito inteligente, e eles invejavam sua relação
com o imperador.
Finalmente, um dos cortesãos levantou a voz: “Majestade,
talvez Birbal possa responder a essa pergunta”.
“Ótima ideia”, respondeu o imperador. “Birbal, me diga: sou
mesmo maior do que Deus?”
Birbal pensou por um momento e então disse: “Posso
responder amanhã?”.
O imperador pareceu um pouco impaciente, mas concordou:
“Sim, pode”.
No dia seguinte, a corte se reuniu e Birbal veio à frente.
Todos os outros cortesãos estavam se sentindo orgulhosos.
Pensavam: “Ele já era! Se disser ‘Sim’, está acabado. Se disser
‘Não’, está acabado”.
“Então, Birbal”, perguntou o imperador, “encontrou uma
resposta? Sou maior do que Deus?”
“Não sei se vossa majestade é maior do que Deus”, disse
Birbal, “mas existe uma coisa que vossa majestade pode fazer
que nem Deus pode.”
O imperador ficou em choque. “Como assim? Existe algo
que eu posso fazer que nem Deus pode?”
Birbal disse: “Se quiser expulsar alguém do seu reino, você
pode; mas se Deus quiser expulsar uma pessoa, aonde ela
poderia ir?”.
E isso vale para todos, dentro de nós. Todos —
independentemente de crenças, ações e origens — são bem-
vindos no reino do divino. Ninguém nunca é expulso dele.
O DIVINO INTERIOR
Se for uma pessoa espiritualizada, você deve ter o direito de
acreditar no que quiser. Respeito a liberdade de todos para
criar uma relação com seu divino ou com divino nenhum.
Meu divino é o poder universal que estava aqui antes de nós,
está a toda a nossa volta e estará depois que nos formos. Aqui
vão algumas palavras do poeta Kabir:
Assim como existe óleo na semente de sésamo
Assim como existe fogo na pederneira
O divino está em você
Se puder, desperte-se a isso.
O tempo dos humanos na Terra acabará. O tempo deste
planeta acabará. As estrelas que vemos iluminando nosso céu
passarão. Mas o divino sem forma vai continuar. A todo
momento em que estamos vivos, ele nos percorre, e assim uma
bênção incrível acontece dentro de nós: uma energia fluindo a
cada respiração, permitindo-nos existir. Esse é o meu divino.
Meu divino é bondoso não porque realiza meus desejos, mas
porque permite que o universo exista. E nessa possibilidade
existe bondade. Não é um divino que governa um paraíso no
alto das nuvens, mas um divino que oferece a possibilidade de
um paraíso para toda criatura, por toda a existência.
Meu divino vai além do bem e do mal: simplesmente é. Para
entender isso de verdade, você precisa ver o divino pelos olhos
dele — ver pelos olhos do divino dentro de você. Ele não tem
atributos humanos. Você não é o divino, mas ele não é algo
separado de você. Quando o chá é servido na chaleira, o chá
ainda é chá e a chaleira ainda é chaleira. A chaleira não é feita
de chá, mas contém o chá dentro dela. Você é um receptáculo
que abriga o divino dentro de você.
Sempre temos ideias diferentes do que é bom e mau, mas
devemos deixá-las de lado se quisermos sentir o divino que
guardamos dentro de nós. Devemos nos afastar da mente e
mergulhar no coração. Carregamos pressuposições e
expectativas, mas, para encontrar o divino, nem um pingo de
julgamento deve passar. O divino é algo além da dor e do
prazer, além das ideias e dos conceitos, além do bem e do mal,
além do julgamento. No entanto, sofremos para entender como
seria não julgar.
O paraíso começa por nós quando deixamos de lado os
julgamentos, as condições, as dúvidas e os conceitos e sentimos
a simplicidade da perfeição. Está lá para nós a cada respiração.
Apreciar tudo isso e nos conectar com o divino interior é
entender de verdade o contexto da vida. Será que um ser
humano é capaz de atingir essa compreensão? Será que um ser
humano é capaz de sentir o divino? Não é uma tarefa fácil. É
quase impossível. Mas é possível.
ENCONTRAR O DIVINO
O mundo é grande e cheio de pessoas, cada uma com suas
próprias ideias do que é a vida, o que ela significa e como
surgiu. Milhares de civilizações existiram antes de nós e, quem
sabe, haverá muitas outras civilizações no futuro. Cada cultura
tem sua própria visão de fé, mas sempre há uma oportunidade
para a paz interior existir em harmonia com a crença religiosa.
A religião sempre fala sobre o paraíso lá em cima, e eu falo
sobre o paraíso aqui embaixo. Para mim, é onde encontramos o
divino.
Não sinto necessidade do consolo de uma vida após a morte,
embora reconheça e respeite que outros precisem dele. Sinto a
necessidade de me conectar com a sensação infinita de paz
disponível no aqui e agora. Sempre quero vivenciar o divino
dentro de mim, no meu coração. O santo e poeta indiano
Tulsidas escreveu:
Apenas os santos que conhecem o coração do corpo atingiram o Auge, ó
Tulsi.
Compreenda isso e você encontrará sua liberdade, enquanto mestres
presos na tradição conhecem apenas a miragem no espelho.
VER O DIVINO EM VOCÊ
Para mim, encontrar o divino aqui dentro é uma experiência
verdadeiramente maravilhosa que abençoa minha vida.
Conheço muita gente que se sente da mesma forma sobre sua
experiência de paz interior. Mas a conexão às vezes pode nos
escapar. O divino pode desaparecer diante de nós quando nos
distraímos com o ruído fora e dentro da mente. Nossa mente
nos distrai da clareza do nosso coração. Mas cada um consegue
ver e sentir o divino quando se volta para dentro. Isso me
lembra uma história — uma boa lembrança de que vale a pena
se conhecer de verdade e não se deixar guiar pelas expectativas
da mente.
No alto das montanhas, havia uma vila muito antiga. Não
havia eletricidade nem tecnologia, e pouquíssimas pessoas a
visitavam. No centro, ficava uma casa bonita onde moravam
uma mulher e um homem. Era um lar feliz e simples. O
homem tinha um quarto separado onde entrava todos os dias
para rezar por cerca de uma hora.
Um dia, um viajante estava passando — uma ocasião rara.
Ele precisava muito se refrescar depois da longa subida pela
encosta, então deixou a mochila ao lado da porta da casa e foi
até o rio nas proximidades.
O homem da casa saiu, viu a mochila e a abriu. Havia roupas
e botas de reserva, e ele encontrou um espelho — o primeiro
que via na vida. Ele tirou o espelho da mochila, olhou-o e se
sobressaltou de espanto. Então, entrou em um estado de
profunda alegria porque, no espelho, finalmente viu a imagem
para a qual vinha orando todos aqueles anos. Ele sempre
imaginara que a deidade se parecia com seu pai de certa forma
e agora sabia que isso era verdade. O homem pegou o espelho
e o deixou sobre a mesa do quarto. Agora que conseguia ver a
forma da deidade para a qual estava orando, começou a rezar
por horas a fio, noite após noite.
A mulher logo notou que seu marido estava passando mais e
mais tempo naquele quarto e ficou desconfiada. Por fim, lhe
passou pela cabeça que ele poderia estar com outra mulher e
tê-la escondido lá. Então, um dia, quando ele havia saído, ela
entrou discretamente no quarto. Viu o espelho — o primeiro
que via na vida — e quase desmaiou. “É por isso que ele não
sai mais daqui”, ela pensou. “Ele está completamente
apaixonado por essa linda mulher no espelho!”
Ela ficou furiosa, pegou o espelho e o levou ao sacerdote
local. Lá estava ele com seu longo cabelo grisalho, uma grande
barba cinzenta, olhos brilhantes, um sorriso radiante. Ela disse
ao sacerdote o que havia acontecido, e ele ouviu com atenção.
O sacerdote nunca tinha visto um espelho, então o pegou
das mãos dela, olhou para ele com atenção e pulou de alegria.
“Esta é a deidade para a qual rezo todos os dias!”, ele gritou. E
entrou no templo e pendurou o espelho no centro do altar.
Quando o homem, a mulher e o sacerdote olharam o
espelho, eles não se reconheceram — viram aquilo em que
acreditavam. Por quê? Se você não se conhece, não tem como
ver como realmente é.
OS DOIS MONGES
Aqui vai uma história que mostra a diferença entre alguém
que leva uma vida devotada de coração e mente aberta e
alguém que leva seu dogma de um lado para outro aonde quer
que vá. Como em diversas histórias, há muitas versões dessa
narrativa; é desta que gosto.
Dois monges estão andando até o mosteiro quando dão de
cara com um rio. É o único caminho para casa, e eles precisam
atravessar. Não existe ponte, e eles se dão conta de que vão ter
que passar andando pela água, mas o rio é fundo e a corrente,
forte.
Então o monge vê uma linda mulher à margem, com
lágrimas nos olhos. Um dos monges se aproxima dela e
pergunta: “Qual é o problema?”.
“Preciso chegar à minha vila”, ela diz, “mas o rio é forte.
Tenho medo de ser levada pela corrente, mas preciso
atravessar.”
O monge diz: “Sem problemas. Levo você até outro lado”.
Ele a ergue, a põe sobre os ombros e a leva através do rio. Na
outra margem, ele a deixa no chão, ela agradece e ele a
abençoa. O outro monge atravessa o rio atrás deles e os dois
voltam a caminhar em direção ao mosteiro.
O monge que não ajudou fica em silêncio durante quase o
caminho todo até chegarem aos muros do mosteiro. De
repente diz: “O que você fez foi tão indecoroso! Como um
monge põe uma jovem sobre os ombros daquele jeito? Como
você ousa? Pensei que tivesse renunciado ao mundo!”.
O monge que tinha ajudado a mulher olhou para o outro e
disse: “Sabe, só carreguei a mulher nos ombros de um lado ao
outro do rio; você a trouxe até o mosteiro”.
ORAÇÕES DE GRATIDÃO
A piada que contei na abertura do capítulo fala das tensões
que podem acontecer quando a crença encontra o cotidiano.
Sei pelas conversas com meus amigos que a fé pode atravessar
fortes provações. Aqueles que sentem que sabem seu divino,
em vez de apenas acreditar nele, costumam parecer
particularmente resilientes diante desse questionamento. O
coração pode ser mais forte do que a mente em certas ocasiões.
Também entendo perfeitamente por que as pessoas recorrem à
oração para enfrentar momentos difíceis — no caso da piada,
quando o pobre homem sente o desejo compreensível de não
morrer na queda. Penso apenas que deveríamos considerar
orar também quando as coisas estão indo bem.
Para mim, uma verdadeira oração acontece quando alguém
dá graças, e não faz apenas pedidos pessoais. Se estiver numa
guerra, você verá soldados dos dois lados rezando pela vitória.
Aqui vai uma pequena história sobre oração.
Certo dia, um jovem estava pedalando para uma entrevista
de emprego importante quando sua bicicleta passou em cima
de uma pedra afiada e o pneu furou. “Que terrível”, pensou o
homem. “Se eu não consertar esse pneu, não vou conseguir o
emprego”, e ele começou a rezar por uma solução. Na esquina
seguinte estava outro jovem, sentado em frente a sua oficina de
bicicletas. “Que terrível”, ele pensou. “Se eu não conseguir
nenhum cliente hoje, vou perder a loja.” E começou a rezar.
Veja só: o problema de uma pessoa pode ser a resposta à
oração de outra. Mas a forma mais profunda e poderosa de
oração é quando simplesmente agradecemos pelo que é, em
vez do que pode vir a ser. Pela minha experiência, você sempre
recebe uma resposta às orações de gratidão.
Quando agradecemos de coração pela vida que nos é dada,
uma expressão maravilhosa da paz interior acontece. A voz do
nosso coração está pronta para cantar de gratidão — dando
valor a tudo que é bom e certo em nossa vida. Eis um
paradoxo delicioso para você: a gratidão nos faz nos sentir
completos, mas sempre somos capazes de mais. Todos temos
uma capacidade infinita de paz, alegria e amor — não é
incrível?
Existe uma linda canção do santo indiano Swami
Brahmanand que expressa o espírito da gratidão. Para o divino
dele, ele canta as seguintes palavras:
É uma criação incrível a que você criou,
De um mero pensamento você criou esta peça
Sem caneta, papel ou cor, criou a magnificência
Em tudo vejo um rosto, a partir de um rosto você criou todos os seres
Dentro de todos os templos do coração, você fez morada
Sem pilares e vigas, sustenta essa criação
Sem terra, criou um palácio encantador
Sem semente, criou uma floresta inteira
Você reside com todos mas se esconde
O coração de Brahmanand se enche de uma alegria imensa
Quando o mestre me mostra onde você se esconde.
Que eloquente essa homenagem ao divino dentro de nós.
Í
CRIANDO O PARAÍSO AQUI
Quaisquer que sejam suas crenças, existe um paraíso aqui
para você na Terra agora — um paraíso de tesouro e prazer em
todas as suas incontáveis formas. O que é o paraíso? Paraíso é o
lugar onde você se sente pleno. Como é o paraíso? É
paradisíaco.
Encontramos esse paraíso quando abrimos os olhos e o
coração para ele; quando o sentimos no aqui e agora; quando
reconhecemos a beleza de ser, aqui neste planeta hoje. Quando
uma criança nasce e pesa três quilos, a Terra fica três quilos
mais pesada? Não. E, quando a mesma pessoa morre na vida
adulta pesando noventa quilos, a Terra fica noventa quilos mais
leve? Não. É aqui que estamos — nesta Terra.
Aqui vai uma história que dramatiza o que estou dizendo
sobre o paraíso (e o inferno).
Um rei precisa combater uma guerra, e ele sabe que estará
na vanguarda da batalha. Ao contrário de alguns dos nossos
líderes políticos, que adoram começar uma guerra mas nunca
estão nem perto do combate, esse rei sabe que está prestes a
enfrentar um período sangrento. A noite toda, ele pensa:
“Posso morrer. E, se eu morrer, vou para o paraíso ou para o
inferno? Mas o que é o paraíso? E o que é o inferno?”.
Isso continua a noite toda.
De manhã, o rei veste sua armadura, monta em seu cavalo —
seu exército em formação atrás dele — e marcha em direção ao
campo de batalha. Todo o tempo, parte de sua mente está
revirando aquelas perguntas: “O que é o paraíso? O que é o
inferno?”.
Então, enquanto cavalga, ele vê um sábio muito venerado
andando na outra direção. Ele galopa até o sábio e ordena:
“Pare! Quero fazer duas perguntas. O que é o paraíso? E o que é
o inferno?”.
O sábio diz: “Estou atrasado. Não tenho tempo para
responder”.
O rei fica furioso. “Você sabe quem eu sou? Sou o rei! Você
não tem tempo para seu governante? Como é possível?” E fica
mais e mais raivoso.
O sábio olha para o rei e diz: “Rei, agora você está no
inferno”.
O rei para um momento para pensar: “Bom, ele está certo!
Ele é sábio mesmo”. Desmonta do cavalo, ajoelha-se e diz:
“Obrigado. Você abriu meus olhos. Muito obrigado!”.
O sábio olha para ele e fala: “Rei, agora você está no paraíso”.
Veja, tudo que ele disse foram três coisas, mas respondeu à
grande pergunta do rei. Onde estava a curiosidade sobre
paraíso e inferno? Nele. Onde estava o inferno? Nele. Onde
estava o paraíso? Nele.
Quando existe confusão, raiva e medo, você está no inferno.
Quando existe clareza e gratidão, está no paraíso. É assim que
funciona.
VIVENDO NO PARAÍSO
Quando entendemos a importância e a maravilha de cada
momento, chegamos mais perto de entender o que é a
imortalidade. O momento presente é imortal porque estamos
sempre nele. Sentimos o paraíso na Terra quando vivemos
conscientemente em cada momento, e fazemos isso estando
conscientes de que somos abençoados pela existência. O auge
da existência é sentir de verdade a paz interior — essa é a
experiência mais paradisíaca para mim.
O paraíso da paz interior é um fim em si mesmo, mas essa
sensação de plenitude também pode tornar o mundo ao nosso
redor um paraíso.
Quando se vive em paz, ver os delicados primeiros sinais do
nascer do sol é um paraíso.
Sentir o calor do sol que nasce, trazendo o dia e todas as suas
possibilidades, é um paraíso.
Ouvir o coro matinal dos pássaros, cantando para o deleite
do coração, é um paraíso.
Ver os raios de sol dançarem sobre o oceano é um paraíso.
Ver uma baleia desafiar a gravidade por alguns segundos de
alegria é um paraíso.
Sentir uma nuvem de aromas emanar de um jardim banhado
pelo sol é um paraíso.
Sentir um vento fresco no rosto é um paraíso.
Beber água gelada em um dia quente é um paraíso.
Comer a fruta mais doce direto do pé é um paraíso.
Ver o sol se pôr atrás do horizonte, despedindo-se do dia e
nos guiando para o descanso, é um paraíso.
Saber que sempre existem um nascer e um pôr do sol
acontecendo em algum lugar desta linda Terra é um paraíso.
Ver os contornos da paisagem banhados pelo luar suave é
um paraíso.
Ouvir o pio da coruja na floresta escura é um paraíso.
Ver estrelas cadentes, súbitas e sublimes, é um paraíso.
Ver alguém que você ama sorrir é um paraíso.
Sentir-se contente é um paraíso.
Sentir o divino em sua respiração é um paraíso.
Esses sentimentos são a alegria da vida em si — não passos
no caminho para alguma outra coisa, mas a pura alegria de
existir. Estão lá para todos saborearmos — onde quer que
vivamos, qualquer que seja nossa idade, no que quer que
acreditemos, quem quer que sejamos.
É essa a sensação de estar no paraíso. Então, o que é o
inferno? É quando não estamos no paraíso.
11. Torne-se o eu universal por meio da
bondade
Certo dia, em Dehra Dun, quando eu tinha doze anos, voltei
da escola e notei um trailer estranho estacionado na frente de
casa. Era produzido pela Commer, uma fabricante britânica,
portanto se destacava em meio aos carros Ambassador
produzidos na Índia que costumávamos ver na região. Nenhum
dos meus parentes jamais tinha saído da Índia, então a chegada
daquele veículo diferente era intrigante. Naquela época, eu era
um grande fã da série de tv Além da imaginação, que falava de
mistérios de ficção científica, alienígenas, suspense e essas
coisas, então minha cabeça foi à loucura. Quem poderia estar
dentro da Commer e por que estavam ali?
Eu era muito curioso na infância, e era bem confiante
também, então fui direto até lá e abri as portas. E fiquei em
choque: a parte de trás da van estava cheia de pessoas muito
pálidas, sentadas em silêncio e usando roupas um tanto
incomuns. Hoje pensamos apenas: “Ei, tem uns hippies num
trailer!”, mas na época praticamente tudo sobre aqueles
visitantes era novo para mim. Eles estavam usando uma
combinação estranha de roupas ocidentais e indianas, e todos
tinham o cabelo comprido, incluindo os homens. Era uma
visão incrível. Mas isso não era nada comparado ao cheiro que
emanava do carro, um aroma forte de corpos suados, incenso e
outros ingredientes que se misturaram em uma longa viagem
quente. Dei um passo para trás e tentei entender o que meus
olhos e meu nariz estavam me dizendo.
Um cara me olhou bem de perto e balançou os dedos em
sinal de cumprimento. Acho que dei um meio aceno em
resposta, mas meu cérebro ainda estava processando a cena.
Devagar, a estranheza da situação deu lugar a uma sensação
bastante agradável de: “Certo, tem uns estranhos aqui que são
claramente muito diferentes de nós, mas eles parecem seres
humanos simpáticos”.
Pouco depois, comecei a conversar com aqueles homens e
mulheres, e descobri que eles tinham vindo para me ver. Eles
queriam conhecer aquele garoto que falava do fundo do
coração sobre a paz interior. Ao longo dos dias seguintes, eles
me fizeram várias perguntas, e respondi da melhor maneira
que pude. Conforme o diálogo evoluía, um respeito mútuo foi
crescendo. As perguntas eram feitas em inglês, mas não eram
muito diferentes das que os indianos viviam me fazendo.
CRUZANDO A BARREIRA
Os visitantes ocidentais ficaram por um tempo, e outros
ocidentais se juntaram a eles, e começamos a nos conhecer um
pouco melhor a cada dia. No entanto, alguns dos adultos da
minha família e próximos a nós eram menos abertos do que eu
à ideia de cruzar essa barreira. Eles viam os estranhos como
impuros, e não digo impuros no sentido de que precisavam de
um bom banho depois de viver naquela van; quero dizer que
eram vistos como espiritualmente impuros. Naquele tempo —
os anos 1960 —, muitos indianos ficavam orgulhosos por
pessoas do Ocidente estarem começando a visitar seu país, mas
também eram um tanto desconfiados em relação a eles. Ouvir
falar dos estrangeiros era uma coisa, dar de cara com eles era
outra bem diferente.
Um dia, uma americana do grupo de visitantes entrou na
cozinha de nossa família para pedir um pouco de comida.
Pediram educadamente para ela sair, e depois disso a cozinha
toda teve de ser “consagrada” de novo — o que significa que
ela precisava ser limpa de cima a baixo. Era como se um
Intocável — alguém considerado “impuro” porque veio de uma
casta baixa ou alguém de fora do sistema de castas — tivesse
entrado. Fiquei complemente chocado com a maneira como
aquela pessoa tinha sido tratada. Eu disse: “Mas é só outra
humana que simplesmente entrou atrás de comida. Vamos dar
um pouco para ela!”. Mas a resposta foi clara: “Não, isso não
pode acontecer”.
Algo que entendi claramente alguns anos depois, quando fui
para a África do Sul, foi que as pessoas que se sentem
inferiores costumam procurar formas de se impor sobre as
outras. Alguns acreditam que se elevam ao controlar os outros,
mas isso não é nada mais do que um caso absurdo de inflação
do ego, e está fadado a fracassar no final. A melhor forma de
remediar a sensação de inferioridade é desenvolver amor e
respeito próprios, e não projetar qualidades negativas nos
outros. Quando nos colocamos em primeiro lugar, o desejo de
preconceito se evapora.
Os estranhos visitantes na Commer — alguns dos quais se
tornaram meus amigos por toda a vida — atravessaram muitas
barreiras físicas em sua jornada até a Índia. Eles tiveram
algumas experiências interessantes no Afeganistão e no
Paquistão, como você deve imaginar. Uma aventura como essa
parece quase impensável hoje, ou no mínimo um tanto
imprudente.
Cada vez mais, os ocidentais foram começando a usar dhoti
(um pano enrolado em volta das pernas e amarrado na cintura)
em vez de calças, e kurta (uma camisa larga sem colarinho que
se alarga na altura dos joelhos) em vez de camisas de estilo
ocidental. Para ser sincero, eu achava que eles ficavam
engraçados nessas roupas locais, mas eles adoravam. Na época,
quando eu viajava para fazer minhas palestras, usava dhoti e
kurta também, mas todo dia na escola estava de calça, paletó,
camiseta em estilo ocidental e gravata. Então, na maior parte
do tempo, os ocidentais estavam vestidos à moda indiana e os
estudantes indianos estavam vestidos à moda ocidental!
Foi só quando fui para a Inglaterra com alguns dos meus
novos amigos que me dei conta de como as duas culturas eram
diferentes. Foi a primeira vez que viajei para o exterior, então
era óbvio que seria estranho. Tudo era novo para mim, e quero
dizer tudo mesmo. Lembro que, logo depois de chegar, fui
tomado por este pensamento claro: “Não estou mais na Índia”.
Na verdade, não foi apenas o pensamento, foi uma sensação
profunda de estar longe de casa. Isso foi em junho de 1971, e o
que eu não sabia na época era que só voltaria à Índia em
novembro.
No dia em que cheguei a Londres, fui até uma casa que
tinham alugado para mim, tomei um banho e desci a escada.
Ao me sentar em um sofá esperando o jet lag passar, fui
cercado por um grupo de pessoas sentadas no carpete, a
maioria das quais eu nunca tinha visto antes. Eles estavam
olhando para mim e eu estava olhando para eles. Nenhuma
palavra foi trocada a princípio. E então, aos pouquinhos,
começamos a conversar, e a recepção deles se revelou muito
calorosa.
A partir daqueles primeiros dias na Inglaterra, desenvolvi
um forte compromisso de respeitar as pessoas do país em que
estou. Isso é uma coisa importante na minha vida, pois estive
em muitíssimos lugares para compartilhar a mensagem de paz.
Trago minha própria cultura, mas sempre quero respeitar a
cultura do lugar que estou visitando. Viajo pelo mundo, mas
minha casa agora é nos Estados Unidos. Como um imigrante,
quero me tornar parte da cultura local e também somar algo a
ela. Acho muito importante que os imigrantes tentem
encontrar esse equilíbrio.
A questão de os imigrantes “encontrarem o equilíbrio” vem
acontecendo há séculos. Quando os persas foram à Índia em
busca de refúgio, eles encontraram resistência. Alguns
habitantes locais achavam que o país já estava cheio e que já
havia demandas demais de comida e fontes de água. O rei, ao
receber um destacamento de persas influentes, pediu que lhe
trouxessem um copo de leite, bem como um pequeno jarro à
parte. Ele mostrou o copo para os persas e disse: “Assim como
este copo, estamos cheios. Colocar mais vai fazer o país
transbordar”. Então serviu mais leite do jarro no copo, fazendo
o líquido transbordar e se derramar no chão.
Nesse momento, um sábio persa deu um passo à frente e,
educadamente, pegou o copo do rei. Ele tirou um pouco de
açúcar do bolso e o misturou ao leite. “Agora o leite está ainda
mais doce”, ele disse, “e nada se perdeu do copo. Estamos aqui
para somar à sua sociedade, não para subtrair.”
BUSCANDO AS DIFERENÇAS
Quando estou pilotando um avião, às vezes faço um anúncio
como: “Se olharem pela janela agora, vocês verão a fronteira
entre tal e tal país logo abaixo de nós”. Claro, sempre escolho
uma fronteira que não é possível ver. As pessoas começam a
olhar para o chão muito atentamente e então percebem que
não existe nenhuma barreira visível, apenas a extensão
uniforme de uma cadeia montanhosa ou um deserto ou
campos ou o oceano. Estamos sempre buscando diferenças e
divisões.
Tente conversar sobre fronteiras com uma formiga. O dono
de uma casa constrói uma cerquinha em volta do lar, e a
formiga vai continuar andando de um lado para o outro o dia
todo, indo e voltando, indo e voltando. Tente falar sobre
fronteiras com um pássaro. “Ei, você aí das asas, cadê seu
passaporte?” Não existem fronteiras para corvos, abelhas ou
borboletas; não existem fronteiras para peixes, golfinhos ou
lulas; não existem fronteiras para as nuvens, o vento ou a água.
Na infância, aprendemos as diferenças entre as pessoas e
crescemos acreditando nelas. “Somos daqui, o que significa que
somos assim e assado. Eles são de lá, o que significa que são
assim e assado.” Mas as diferenças entre as pessoas muitas
vezes são apenas superficiais. Um indiano pode dizer: “Nossa
culinária é especial: olhe nosso chapatti maravilhoso”. Um
italiano pode dizer: “Nossa comida é especial: olhe nossa massa
maravilhosa”. Mas do que a massa é feita? E do que o chapatti é
feito? Eles estão comendo a mesma coisa preparada de
maneiras um pouco diferentes. Vejam só!
Se alguém precisar de uma cirurgia no coração, os médicos
vão fazer uma operação diferente de acordo com a raça da
pessoa? Os médicos não passam a faculdade de medicina
aprendendo a tratar as pessoas de maneiras diferentes
dependendo da cor.
Temos tanto em comum. “Estou com sede” pode ser dito em
muitas línguas, mas sempre significa a mesma coisa. Muitos
me perguntam: “De onde você é?”. Só me resta sorrir. O que
respondo? “Sou do mesmo lugar que você — da Terra!” Às
vezes o interlocutor me olha como se eu fosse um louco, mas
estou apenas falando a verdade.
Quando vou ao México, as pessoas pensam que sou
mexicano; quando vou à Malásia, pensam que sou malaio; e
isso acontece comigo em muitos outros lugares. O único lugar
em que já me pararam para perguntar se eu era estrangeiro foi
a Índia! Eu estava indo visitar minha irmã quando ela morava
em uma região no Norte. O exército não queria a entrada de
estrangeiros, e então, num cruzamento, um soldado olhou para
mim e pediu para ver meu passaporte. Eu disse: “Mas sou
indiano!”. O oficial veio ver qual era o motivo da confusão e
me reconheceu de imediato. Ele riu e se virou para o soldado:
“Sim, ele é indiano”.
Podem ser surpreendentes os fortes preconceitos que mesmo
pessoas de mente aberta alimentam sobre os outros porque são
diferentes. Uma vez, na Argentina, eu estava apresentando a um
grupo as técnicas do autoconhecimento (veremos mais sobre
isso no capítulo 12). Um dos mediadores que estavam
trabalhando comigo veio e disse: “Há uma pessoa aqui que não
deveria receber Conhecimento”.
“Por que não?”, perguntei.
“Porque ela acabou de me falar que é prostituta”, ele disse.
Respondi: “Se ela é prostituta, e você desaprova, não durma
com ela. O que isso tem a ver com dar Conhecimento?”.
CONEXÕES REAIS
Quando nos afastamos de ideias e conceitos em nossa cabeça,
o que nosso coração nos diz sobre os outros seres humanos? É
verdade que é possível encontrar ódio no mundo, assim como
egoísmo, inveja, preconceito e assim por diante. Algumas
pessoas vivem a vida sem consciência, e as consequências disso
podem fazer mal a elas e aos outros. Mas também existe um
bilhão de atos de bondade que passam despercebidos dia após
dia. A generosidade, a criatividade, a gentileza, a compreensão
— muitas coisas maravilhosas acontecem dentro e ao redor de
nós.
Em vez de ser idealistas ou pessimistas sobre a natureza
humana, precisamos ser realistas. A verdade é que todos temos
o bem e o mal dentro de nós. Vi uma escuridão incrível nos
olhos das pessoas — uma escuridão aparentemente sem fundo
nem qualquer vislumbre de luz. E vi uma luz incrível nos
olhos das pessoas — um brilho de esperança, alegria e amor
—, mesmo nas que passavam por momentos difíceis. Todos
temos o potencial de escuridão e luz, e elas vivem lado a lado
dentro de nós.
Tudo que considero bom em mim nunca está longe daquilo
de que não gosto. O amor nunca está longe do ódio. A clareza
nunca está longe da confusão. A luz nunca está longe das
trevas. Basta apertar um interruptor para transformar a luz em
escuridão e a escuridão em luz. Não precisamos nos preocupar
em tirar a escuridão de nossa vida; basta nos concentrarmos
em trazer a clareza. Não precisamos nos preocupar em tirar o
ódio da nossa vida; basta nos concentrarmos em trazer o amor.
Existem muitas qualidades dentro de nós — são aquelas com
que escolhemos agir ou expressar que determinam a maior
parte da nossa vida. Essa capacidade de escolher é parte
fundamental da experiência humana. Nossa humanidade se
fundamenta em nossa capacidade de escolher.
Era uma vez um homem, e ele era normal em todos os
aspectos exceto um: ele pensava que era um grão de trigo. Isso
não representava um grande problema até ele ver galinhas.
Quando ele via uma galinha, surtava, pensando que seria
comido.
Esse problema foi se agravando até que sua família não
aguentou mais. Sempre que iam juntos a algum lugar, ele
inevitavelmente via galinhas, e então gritava e saía correndo.
Os passeios não eram nada agradáveis. Então o levaram à
médica, que recomendou uma instituição especial. O homem
foi internado, e a médica o tratou. Dia após dia, ela trabalhou
com ele para convencê-lo de que ele era um ser humano, não
um grão de trigo.
Ele levou um longo tempo — um muito longo tempo —,
mas um dia a médica perguntou: “O que você é?”. E ele
respondeu: “Sou um ser humano”.
“Você tem certeza de que é um ser humano, e não um grão
de trigo?”
“Absoluta, sou um ser humano!”
“Adivinhe”, disse a médica, “você está curado. Pode deixar a
instituição.”
O homem ficou muito feliz porque iria voltar para casa. A
médica assinou sua alta, e ele a pegou e saiu. A médica ficou
muito aliviada.
Cerca de quinze minutos depois, o homem voltou. A médica
ficou surpresa: “O que está fazendo aqui? Você já pode ir! Está
curado!”.
Ele olhou para ela e disse: “Doutora, sei que estou curado,
mas alguém avisou às galinhas que não sou um grão de trigo?”.
Esse é nosso problema. Tudo bem, talvez não nos vejamos
como um grão de trigo, mas podemos ficar igualmente
confusos sobre o que somos exatamente. O que somos? Seres
humanos! E um ser humano é uma criatura que carrega em
seu peito um oceano de amor, de bondade, de luz. Todos temos
essas qualidades em algum lugar dentro de nós. Em vez de
buscar aquilo que nos separa, podemos sempre escolher
celebrar as maravilhas que vivem dentro de todos nós —
incluindo você e eu.
AS NECESSIDADES NOS UNEM
Culturalmente, as pessoas costumam buscar coisas
diferentes. Olhe como as diferentes comunidades e sociedades
veem a morte. O povo de Toraja, na ilha indonésia de Celebes,
mantém os corpos mumificados dos parentes mortos na casa
da família enquanto guarda dinheiro para pagar funerais
requintados. Os corpos ficam dessa forma por meses e às vezes
anos, sendo tratados como “doentes” em vez de mortos, e as
pessoas lhes trazem comida e bebida, e se sentam e conversam
com eles. Mesmo depois de serem enterrados na tumba da
família, os mortos ainda são tirados dos caixões com
frequência para ter o cabelo arrumado e as roupas trocadas, e
os parentes conversam com eles e tiram fotografias. Para
alguns, isso pode parecer macabro. Para outros, o ritual é uma
forma comovente de homenagear e relembrar os entes
queridos que se foram.
Na Mongólia e no Tibete, muitos povos locais acreditam que
o espírito humano vive depois da morte. Para ajudar no
processo de reencarnação, os corpos são cortados em
pedacinhos e deixados no alto de uma montanha,
normalmente perto de um lugar aonde abutres costumam ir.
As aves são vistas como anjos que ajudam o espírito a subir ao
céu enquanto esperam seu renascimento, daí o nome da
tradição: “enterro celestial”.
Na maioria das culturas hindus, o corpo do falecido é
cremado sem deixar vestígio, apenas uma foto com uma
guirlanda em volta do porta-retrato. Quando você entra na casa
de alguém e vê uma dessas fotografias enfeitadas com flores,
sabe que a pessoa se foi mas permanece no coração da família.
Se der a volta ao mundo, você encontrará muitas outras
formas de os mortos serem lembrados. Ouvi dizer que hoje em
dia é possível pegar as cinzas da cremação e, em vez de guardá-
las em uma urna, mandar fazer um diamante aplicando calor e
pressão extrema e, então, usá-lo para fazer uma joia.
Portanto, sim, existem diferenças culturais entre as pessoas,
e isso é algo que costumamos notar, desfrutar e até celebrar.
Mas essas diferenças são apenas parte de como vivemos na face
da Terra; elas não definem a essência do que somos. Vontades e
desejos, regras e rituais — tudo isso diz respeito ao estilo de
vida, não à vida em si. Existem outras coisas que nos unem,
independentemente de onde viemos e em que acreditamos,
sobretudo nossas necessidades fundamentais.
As necessidades são aquilo sem o que não conseguimos
viver. Todos sentimos fome e sede. Todos precisamos de abrigo.
Todos dividimos o mesmo ar que envolve este planeta
deslumbrante. Inspiramos e expiramos.
Como trabalhamos juntos para atender nossas necessidades é
sempre um misto fascinante de individualismo e
universalismo. Hoje em dia, quando olhamos o mundo que os
seres humanos construíram ao nosso redor, o que vemos?
Como respondemos ao desafio de saciar nossas necessidades
em comum? Às vezes vemos um progresso humano
maravilhoso, muita fartura e beleza, muita generosidade e
benefícios materiais. Outras, vemos os efeitos do medo e da
ganância: poluição, escassez de alimentos, problemas de saúde.
Aqui, mais uma vez, a escolha é a chave. Se conseguimos fazer
coisas ruins, também conseguimos fazer o bem. São os
humanos que criam circunstâncias terríveis para outros
humanos, mas sempre existe a possibilidade de aliviar essas
circunstâncias. E normalmente isso começa com pequenos
passos.
Veja a fome. A fome é natural, mas a escassez de alimentos é
um problema causado pelo ser humano. A natureza pode
fornecer todos os alimentos de que precisamos e mais ainda se
trabalharmos da maneira certa. Mas a distribuição de alimentos
é precária e o desperdício é muito grande. Fico abalado toda
vez que penso que ainda existem pessoas na Índia morrendo de
desnutrição, enquanto o país exporta grande parte do alimento
que produz.
Alguns anos atrás, eu e uma equipe da Fundação Prem Rawat
fomos ver como poderíamos ajudar a resolver alguns dos
problemas que ocorriam ao redor de Ranchi, a capital do
estado indiano de Jharkhand. A região sofreu fortes tensões
políticas e violência comunal, somadas a níveis altíssimos de
pobreza. Embora a terra compreenda cerca de 40% dos
recursos minerais de todo o país, uma porcentagem parecida
de pessoas estava vivendo abaixo da linha da pobreza e
desnutridas.
Havíamos encontrado um terreno que estávamos pensando
em comprar e construir um centro para ajudar a população
local. Nossos conselheiros disseram: “Não façam isso; essa
região tem um grave problema de terrorismo e crime, e não
podemos garantir a segurança de ninguém que trabalhe aqui”.
Mas, se tivéssemos desistido, esses problemas teriam
simplesmente continuado. Então seguimos em frente.
A questão era: como poderíamos exercer o maior impacto
possível para as comunidades locais? Alguém disse que
deveríamos construir um hospital, mas não tínhamos
conhecimento na área. Teria sido um grande desafio construí-
lo e um trabalho ainda mais complexo administrá-lo. Então
alguém sugeriu construir uma escola, mas já havia escolas de
sobra na região e eu também não achava que tínhamos a
capacidade de administrar uma instituição de ensino. Então
pensamos em nutrição, e isso realmente tocou um ponto
importante para todos. A situação era desesperadora para
muitas famílias. Algumas crianças que conheci haviam
aprendido a encontrar e desenterrar ninhos de rato para
roubar os restos de comida que os animais haviam coletado.
Decidimos construir um grande centro de alimentação que
ofereceria pratos de comida nutritiva todos os dias, de graça.
Eu queria a todo custo evitar a interferência política sobre
quem teria permissão de comer e quem não. Portanto,
convidamos todos os líderes comunitários da região e lhes
demos a escolha final sobre quem receberia as refeições
gratuitas. Pouco depois, as crianças começaram a vir, depois os
mais velhos e as mães com crianças de colo. Construímos
sanitários e impusemos a regra de que todos que os usassem
lavassem bem as mãos. Isso era novidade para muitas das
crianças. Em casa, algumas coletavam esterco dos campos
assim que acordavam, para ser usado como combustível. Elas
me contaram que depois da tarefa partiam direto para o café da
manhã, sem antes lavar as mãos.
As cozinhas do centro de alimentação eram, e continuam a
ser, impecavelmente limpas. Todas as pessoas que trabalham lá
usam máscaras, a comida — deliciosa e de origem local — é
preparada com cuidado e todos que chegam podem comer o
que quiserem.
Depois de alguns anos, vimos o impacto de termos escolhido
a alimentação como estratégia, e foi inacreditável. O crime
despencou porque as pessoas tinham mais dinheiro, tendo
economizado com o orçamento alimentar da família. Esse
dinheiro extra fez com que menos pais saíssem para encontrar
emprego longe e menos crianças passassem o dia trabalhando.
As crianças passaram a frequentar a escola em números muito
maiores e começaram a se formar. A saúde infantil melhorou,
e com isso a demanda sobre os hospitais locais diminuiu. E,
como viam que o que estávamos fazendo ajudava a população
local, os grupos terroristas locais deixaram nossas equipes e
nossos equipamentos em paz.
Mesmo agora, não consigo acreditar que apenas uma boa
refeição por dia pôde fazer tanta diferença para toda uma
região. Já criamos algo parecido em Gana e no Nepal,
programas que também tiveram um impacto positivo
considerável. Mais uma vez, pequenos passos vão criando
grandes mudanças.
(Um aparte: nosso centro no Nepal foi construído
adequadamente, seguindo os códigos de obras. Quando ocorreu
o grande terremoto de 2015, muitos dos edifícios próximos
desabaram ou deixaram de ser seguros, mas o nosso sofreu
apenas uma pequena rachadura, passando a servir também
como abrigo. Nesse momento o centro realmente salvou vidas.)
SOBRE A BONDADE
Aqui vai uma piada sobre a forma completamente diferente
como os seres humanos respondem às necessidades dos outros.
Há um homem perdido no deserto e ele sente muita sede.
Ele rastejando, e sua língua parece feita de areia. Ele está com
muita sede. Então passa por um homem montado num camelo.
Ele diz para o homem: “Por favor, por favor, por favor, pode me
dar um pouco d’água?”.
“Que tal eu lhe dar uma gravata?”, oferece o homem. E, dito
e feito, ele abre o alforje e há várias gravatas dentro. “Qual
delas você quer?”, ele pergunta.
“Não, não, não quero uma gravata”, diz o homem sedento.
“Você tem água?”
“Que tal uma gravata?”
“Não, não quero uma gravata”, repete o homem, e continua a
rastejar. Então ele olha para trás e pergunta: “Tem certeza de
que não pode me dizer onde encontro água?”.
“Ah, sim, posso dizer. Siga reto por mais um quilômetro e
você vai encontrar um oásis. Lá tem água de sobra.”
Então o homem segue rastejando até finalmente chegar a
um lindo oásis. Há árvores, plantas e flores maravilhosas, e ele
vê um lago fundo cintilando atrás da vegetação. Um
grandalhão está parado no caminho, então o homem sedento
rasteja até ele.
“Posso entrar no oásis e beber água?”, ele pergunta.
“Você está usando gravata?”
É assim que acabamos agindo se não pensarmos
conscientemente — obrigamos as pessoas a fazerem
malabarismos para poderem satisfazer suas necessidades. E se,
em vez disso, tratássemos os outros como gostaríamos de ser
tratados? E se buscássemos um objetivo em comum em vez de
diferenças competitivas? E se fôssemos simplesmente bondosos?
A palavra “kind” em inglês tem uma história em comum
com a palavra “kin”, que significa parente ou familiar. Quando
pensamos e agimos com kindness, com bondade, quebramos as
barreiras entre nós e eles. Se dermos bondade a todas as pessoas
que conhecemos, não estaremos perdendo nada, mas ganhando
tudo. Poderíamos multiplicar isso por 7 bilhões, e nada se
perderia, e tudo se ganharia.
Quando espalhamos bondade, criamos uma família com
aqueles com quem nos conectamos. Temos um espírito
familiar: sentimos que somos um. Mas para compartilhar
bondade é preciso, antes, sermos bondosos conosco. A bondade
começa com nosso próprio eu — uma conexão alimentada
pelas melhores qualidades humanas dentro de nós — e brota
desse lugar.
A empatia faz parte da experiência humana há muito, muito
tempo, mas a palavra só foi cunhada no século xx. Existem
muitas as definições para ela, mas quero apenas apontar o
poder da empatia em seu sentido mais puro: colocar-se no
lugar do outro. Você pode não viver a mesma experiência, e
pode não concordar com o outro, mas é importante entender
de que lugar essa pessoa vem. É uma forma muito melhor de
entender o mundo ao seu redor do que sempre ver os outros
como completamente separados de você. Em vez de começar
tentando categorizar a pessoa — por religião, cor,
nacionalidade ou seja lá o que for —, tente se ver naquilo que
ela pode estar sentindo. Desde fome até dor, tristeza, raiva e
guerra, basta tentar empatizar com as pessoas cujas
necessidades não estão sendo atendidas. Fazer isso é se lembrar
do significado de ser humano.
A SOCIEDADE E O EU
A bondade parte de dentro, então, se quisermos fazer do
mundo um lugar melhor, devemos antes olhar para nós. Rodei
o mundo algumas vezes e ainda não encontrei nenhuma
sociedade perfeita. O que vi é que é muito difícil fazer uma
sociedade toda mudar. Leva tempo. Às vezes progredimos, às
vezes regredimos. Se começarmos por nós, podemos conseguir
mudar o que nós pensamos e como nós agimos e, a partir daí,
podemos agir coletivamente.
A condição de cada tijolo determina a força de um edifício.
Se um tijolo estiver rachado e caindo aos pedaços, isso afeta os
que estão ao redor. E o efeito é passado adiante, botando mais
pressão sobre os tijolos vizinhos. Quando a segurança de um
edifício é avaliada, a integridade individual de cada tijolo deve
ser levada em consideração. O mesmo vale para o indivíduo e a
sociedade. Precisamos cuidar de cada unidade, e isso começa
com cada pessoa tentando se fortalecer o máximo possível.
Pense em um relógio. Dentro dele há muitas, muitas, mas
muitas peças. Algumas se mexem, outras não, mas todas são
essenciais. Por fora, você vê apenas um ponteiro de horas, um
ponteiro de minutos, um ponteiro de segundos, mas dentro há
um universo em miniatura. Todas as peças se unem para
colocar o ponteiro de horas no lugar certo, assim como o
ponteiro de minutos e o de segundos. Os relojoeiros sabem que
para isso acontecer com precisão, dia após dia, cada parte deve
estar funcionando perfeitamente.
Aqui vai mais uma forma de entender isso. Você está na
frente da tv, que mostra uma imagem do planeta visto do
espaço. Então começa a dar zoom, e mais zoom, e mais zoom, e
mais zoom. Agora você está vendo uma imagem de montanhas,
depois uma floresta na encosta de uma montanha, depois um
pequeno número de árvores, depois as folhas de uma árvore.
Você continua dando mais e mais zoom. A imagem das folhas
logo se transforma em borrões de cor, e você continua dando
mais e mais zoom até ver três retângulos: um vermelho, um
verde e um azul. Você chegou ao nível de um único pixel. Era
isso que você estava vendo o tempo todo, mas o que realmente
viu foi a imagem de uma folha, e uma árvore, e uma
montanha, e todo o mundo.
Cada ser humano é como um único pixel e, juntos,
formamos uma comunidade, depois uma sociedade, depois
uma população global. Se o quadro geral da sociedade parece
errado, precisamos perguntar o que há de errado com os pixels
— por que eles não estão se iluminando da maneira certa? E
quanto a mim: estou ajudando a construir uma boa imagem da
minha comunidade, da sociedade e do mundo? Estou me
iluminando da maneira certa? O que acontece se dermos zoom
em você?
Basta uma peça quebrada para parar um relógio, enfraquecer
um prédio, corromper uma imagem clara, prejudicar a
sociedade. E é por isso que nunca é egoísmo passarmos tempo
nos entendendo. Para iluminar um mundo inteiro, começa-se
acendendo uma vela.
SOMOS TODOS DO MESMO LUGAR
Visto de certa perspectiva, o título deste capítulo — “O eu
universal” — parece um paradoxo. Um “eu” não é algo que se
distingue de todo o resto? Não sou um eu único? Você não é
um você único?
Sim, desde que nascemos, existe algo singular em cada um
de nós, mas todos temos o mesmo conjunto de necessidades
fundamentais, incluindo a necessidade de paz no coração. A
paz interior não se reserva aos poderosos nem aos fracos, nem
aos ricos nem aos pobres, nem a uma raça ou outra. A paz está
aí para todos e dentro de todos.
Nossa mente está sempre trabalhando para tentar moldar o
mundo ao nosso redor, mas a existência tem uma beleza
simples. Pense em quando está dormindo: qual é a diferença
entre os ricos e os pobres? Entre as pessoas com ou sem
instrução? Entre os bons e os maus? Durante o sono, nossos
conceitos e diferenças desaparecem, e simplesmente
respiramos.
Compartilhamos um conjunto de necessidades fundamentais
e compartilhamos este planeta, mas também compartilhamos
algo ainda maior: nosso universo em constante expansão. Uma
linha em um mapa se torna insignificante quando imaginamos
a vastidão do espaço. Essa é a verdadeira natureza do nosso lar.
Aqui vão algumas palavras da filósofa francesa Simone Weil:
Devemos nos identificar com o universo em si. Tudo o que é menor do
que o universo é sujeito ao sofrimento.
A faísca divina do poder universal está em nós desde o
momento em que somos criados, e ela forma uma rede
invisível de conexão entre tudo e todos. Somos
simultaneamente diferentes e iguais. Somos um.
O dogma pode nos dividir, mas o divino interior nos une.
Nem todos são conscientes desse elo entre as pessoas, entre os
amigos, entre os desconhecidos, mas ele pode se revelar
subitamente a qualquer momento, como o sol ressurgindo
depois de uma tempestade. O poeta Kabir assim expressou
nosso universalismo:
Todos sabemos que existe uma gota no oceano, mas pouquíssimos sabem
que existe um oceano na gota.
Aí está o paradoxo outra vez: o oceano na gota. Por um
momento, sigamos o fluxo de Kabir e imaginemos a
humanidade como a água, movendo-se unida no oceano. Veja
como cada gota se ergue das ondas, é absorvida pelas nuvens e
então derramada em lugares diferentes — os montes, as
planícies, as cidades — antes de voltar a correr em direção ao
ponto onde tudo começou. Ao longo do caminho, as gotas se
juntam para formar córregos que crescem e se tornam rios
poderosos com nomes e histórias. O Mississippi, o Amazonas,
o Tâmisa e todos os outros se unem para formar um vasto
oceano sem nome que envolve a Terra. Esse é o fim da
jornada? Não, ela recomeça: gotas de água se erguem das
ondas… e daí por diante. E assim nossa jornada continua.
Somos ao mesmo tempo uma gota e um oceano.
A Terra recicla sua água há bilhões de anos. O começo e o
fim constante da água são como o alfa e o ômega do divino
interminável: o processo nunca para. E isso não é um
argumento a favor da reencarnação. Estou apenas dizendo que
o divino existia antes de nós, trabalha nos animando durante
toda a nossa vida e continuará existindo depois que nos
formos.
Recentemente, alguém me perguntou “Como vai?” e
respondi: “Está indo. Aquilo que sustenta a natureza da ida está
indo, e o que sustenta a natureza da vinda está vindo. Tudo que
vem vai, mas a natureza do divino está sempre presente. Essa é
a única constante”. Acho que a pessoa não estava esperando
por essa resposta.
Nossa forma humana é uma expressão passageira do ciclo da
vida que flui constantemente. Afinal, somos todos um com as
outras pessoas, com o universo e com o divino. Esse é o eu
universal.
12. Pratique, pratique e pratique
Pense na vida como um livro. A capa se abre quando
nascemos. Dentro encontramos os agradecimentos e o prefácio:
nossa primeira infância. Não podemos reivindicar muitos
créditos por essa parte, mas logo a história começa para valer.
A cada nova página virada, temos a oportunidade de escrever
algo, cada dia deixando tinta nova no papel em branco da nossa
existência.
Se você tiver sorte, haverá muitas páginas em seu livro, uma
história rica de aventuras e experiências. Assim como em todas
as histórias, haverá momentos difíceis ao longo do caminho.
Até que, um dia, faltará escrever em apenas uma página e,
nessa última página, uma palavra vai aparecer: “Fim”.
O que você está escrevendo em seu livro? Ele faz sentido?
Prende a sua atenção? Inspira você? É a história que você quer
contar?
Segundo uma antiga história hindu, quando o lendário sábio
Veda Viasa quis escrever o Mahabharata, ele precisou de alguém
com uma inteligência sublime para botar no papel sua
narração oral. Ele precisou de um escritor. Então recorreu a
Ganesha, o venerado deus da sabedoria. Ganesha disse que
escreveria contanto que sua pena não parasse de fluir. O que
Ganesha estava dizendo a Veda Viasa era: “Quero que você fale
com a voz do coração, e não pense demais nisso”. Por sua vez,
Veda Viasa pediu que Ganesha escrevesse “apenas o que fizer
sentido para você”. Tudo que você escrever na história da sua
vida deve fazer sentido para você. O que você está escrevendo é
a sua história ou a de outra pessoa? Ela tem clareza e
propósito? Tem significado para você?
Todo dia traz uma nova oportunidade para nos expressarmos
— uma nova página em branco à espera de ser preenchida. O
autoconhecimento pode nos ajudar a escrever algo memorável,
algo jubiloso, algo fiel a quem realmente somos. Algo cheio de
significado. Apenas eu consigo escrever a história da minha
vida e apenas você consegue escrever a sua. Todo dia
precisamos pegar nossa pena e escrever o que está em nosso
coração. Deixe a tinta fluir.
Sei que nem sempre é fácil fazer isso. Entendo que a jornada
da distração e do descontentamento até a paz interior e uma
vida plena nem sempre é uma linha reta. Às vezes podemos
sentir que nossa história está sendo abafada pelo mundo
repleto de ruídos. Em alguns casos, acho muito difícil. É
preciso prática. Para guiar o barco rio abaixo, não remamos só
uma ou duas vezes.
Neste capítulo, vou falar um pouco mais sobre os desafios
que enfrentamos no caminho rumo à paz interior, e o que
pode nos ajudar. Vou mostrar de novo por que isso é tão
importante em nossa vida. E, ao longo do percurso, vou falar
sobre como estamos todos de férias de sermos poeira. Sim,
poeira. Como sempre, em vez de dizer a você o que pensar,
espero que as palavras a seguir ofereçam novas formas para
nos entendermos e nos conectarmos conosco.
POR ONDE PASSAMOS
Se você viajou comigo da Introdução em diante,
percorremos um longo trajeto juntos. Falamos de como o
corre-corre da vida moderna cria ruído ao nosso redor, mas é o
ruído dentro de nossa cabeça que mais afeta a maneira como
vivemos. Refletimos sobre como a vida é preciosa e como, nos
conectando com a paz interior, podemos transformar nossa
experiência de vida. Observamos a diferença entre saber e
acreditar, e o valor de começar com você em vez de esperar
que o mundo exterior atenda a suas necessidades. Vimos como
a vida pode brotar em meio à gratidão, e como a paz interior
pode nos ajudar a passar por momentos difíceis e pelas guerras
dentro de nós. Ouvimos canções de amor, celebramos o paraíso
que pode ser encontrado aqui na Terra e sentimos nossas
conexões universais.
Ao longo deste livro, repeti a mensagem de que a paz está
sempre dentro de nós e que ela é algo que se pode conhecer, e
fiz isso com bons argumentos. A simplicidade dessa ideia é
central, mas nossa mente inquieta pode turvar e complicar
isso, distanciando-nos da clareza da paz interior. Todo dia
existem muitas coisas mutáveis que exigem nossa atenção —
em um momento, elas nos deixam felizes, no outro estão nos
causando problemas —, mas a paz interior é imutável. A vida
pode se concentrar apenas no caráter evolutivo do que existe
fora de nós, mas a paz pessoal não tem nada a ver com o que
está fora. Quem quer que sejamos, onde quer que moremos, o
que quer que façamos, qualquer que seja a mudança trazida
para nós: a paz está sempre aqui para nós e, através do
autoconhecimento, disponível para nós.
Adquirir conhecimento sobre si é um processo de
descoberta, de desvendar quem somos. O que está em jogo
quando permitimos que nosso eu interior fique escondido —
quando vivemos de maneira inconsciente? Bom, abrimos mão
da coisa mais preciosa que temos: nossa experiência da vida
em si. Também podemos sofrer todo tipo de dor mental e
emocional. E também podemos projetar nossa dor nas pessoas
que amamos e no mundo ao nosso redor.
O autoconhecimento nos conecta com o oposto disso: tudo
que é bom em nós. Paz é a clareza em nós. Paz é a
compreensão em nós. Paz é a serenidade em nós. Paz é a
bondade em nós. Paz é a gentileza em nós. Paz é a luz em nós.
Paz é a alegria em nós. Paz é a gratidão em nós. Paz é a beleza
em nós. Paz é o ir e vir dessa respiração em nós. Paz é o divino
em nós. Paz é tudo isso e mais. A paz reúne tudo que é bom
em uma experiência sincera e atemporal de quem realmente
somos.
É PRECISO CORAGEM PARA ACEITAR A PAZ
Permitir que o autoconhecimento entre em sua vida pode
trazer desafios. Para alguns, é preciso ir contra o fluxo de sua
situação social e profissional. Familiares, amigos e colegas
podem ficar desconfiados e desdenhosos. Podemos nos ver
cercados de pessoas que acreditam que o mundo interior não
oferece nada de mais e que adoram compartilhar essa opinião
conosco.
Algumas pessoas têm uma voz forte na cabeça falando para
elas não olharem para dentro, e isso costuma ser o ruído das
ideias que herdaram de outras pessoas. O coração diz: “Por
favor, por favor, por favor, me veja, me entenda, desfrute de
mim!”. E a mente diz: “Não, não, não!”. O eu fica, assim,
cindido.
Grande prazer e progresso podem vir de nossa interação com
o mundo, mas isso é apenas uma parte de quem somos. Dizer
“Existem dois mundos — o exterior e o interior — e os dois
importam para mim” requer coragem. É preciso ser valente
para dizer “Minha mente e meu coração podem estar em paz
um com o outro”.
As pessoas às vezes pensam que, se quiserem sentir a paz
interior e a plenitude, precisam se enclausurar em sua versão
de mosteiro ou algum outro retiro. Para elas, é como se
houvesse um gerador elétrico imenso nesse lugar remoto, e
elas só conseguissem acender as luzes da clareza e do
contentamento quando estão próximas dessa fonte de energia.
Talvez pensem que, caso se afastem demais do gerador, vão
voltar à escuridão. Eu vejo de outra forma. Como um ser
humano, sua paz, clareza e bondade emanam do seu coração.
Você tem um gerador de energia interno, uma fonte interna de
luz, um santuário interno de calma — e leva tudo isso com
você aonde quer que vá.
Às vezes sobrevoo o deserto do Saara, e nessas viagens uma
analogia me vem à mente: imagine que você precisa viajar
através de um deserto e tenha levado uma grande garrafa de
água, um pouco de comida e uma sombrinha — provisões
suficientes para sua jornada. Então você está nessa vasta
paisagem de terra, terra e mais terra. Não há nenhum oásis em
lugar algum, e está muito quente e seco. Agora pense nisso
como a jornada pela vida. Ter a paz pessoal dentro de si é como
carregar água, comida e sombra com você a cada passo do
caminho. Muitas pessoas viajam pela vida de mãos abanando e
tentam converter o deserto naquilo de que precisam. Já tentou
transformar areia quente em água fria? A realidade é simples,
mas mudá-la é difícil.
Pense na sede que você teria se atravessasse o deserto sem
água. Pense bem nessa sede: vou voltar a ela em breve.
COMO POSSO AJUDAR?
As pessoas sempre me perguntam: “Se eu fizer isso, aquilo e
aquilo outro, vou ter paz?”. Eles pensam que precisam criar a
paz por meio de ações, mas tudo que realmente precisam fazer
é se abrir ao que já existe dentro delas. Entender como se
conectar a esse lugar de paz interior e sentir gratidão por ela:
isso se chama Conhecimento, e é algo que todos podemos
aprender. O que é aprender? É aproveitar o dom da vida de
uma nova forma.
Alguns conseguem fazer a jornada de autoconhecimento
sozinhos; outros precisam de um pouco de orientação. São
muitos os professores e oradores no mundo; se você precisa de
um pouco de orientação de vez em quando, encontre o guia
que parecer certo para você. Ter alguém ao seu lado — alguém
que realmente entende o eu — pode ser reconfortante. Essa
pessoa pode apontar o caminho na escuridão.
É assim que vejo meu papel. Não cabe a mim dizer às
pessoas o que elas devem ou não devem ser; estou aqui para
lembrar que somos todos abençoados pelo milagre da
existência e para ajudar a apontar na direção da paz interior. Só
você pode decidir se é essa a direção que quer seguir. Só você
pode decidir se essa é a rota que quer tomar para chegar lá.
Você costuma ouvir música clássica indiana? É muito
diferente da música clássica ocidental. Tem instrumentos como
a cítara, a tabla e a bansuri (um tipo de flauta). Mas existe outro
instrumento importante que não costuma ser muito
comentado: chama-se tambura. Tem um longo braço com
cordas que o músico toca constantemente. A pessoa que a toca
costuma ficar no fundo. Inclusive, às vezes a tambura nem tem
microfone. Enquanto os outros músicos criam a raga, ou
texturas melódicas, a tambura produz um constante zumbido
harmônico. Todos os outros instrumentos relacionam o que
tocam com o som da tambura, de modo que ela os mantém no
tom certo. E a tambura também estabelece um ritmo sutil —
um embalo que sustenta a música, permitindo que os outros
instrumentos dancem ao redor da batida.
Por que estou descrevendo o papel da tambura? Porque acho
que é parecido com o que eu faço. Um bom professor não
tenta cantar a canção por você, tocar o instrumento por você
nem definir os ritmos de sua vida. Você toca sua raga, você
define seu ritmo: só estou aqui para ajudar você a continuar no
tom e sentir o embalo da sua vida. Posso ajudá-lo a se ouvir.
Meu pai, Shri Hans Ji Maharaj, uma vez utilizou uma
metáfora maravilhosa para explicar o papel do professor de
autoconhecimento. Falava sobre o Mestre, que é como as
pessoas costumam chamar seu professor principal,
especialmente na Índia. Nas suas palavras:
Dizem que o conhecimento é como o sândalo, e o Mestre, como a brisa.
O sândalo inteiro é cheio de fragrância, no entanto, mesmo se ele
quisesse distribuir sua fragrância, não conseguiria. Mas, quando a brisa
sopra, ela leva a fragrância para toda a floresta. Como resultado, outras
árvores se tornam tão fragrantes quanto o sândalo. Do mesmo modo, o
mundo inteiro pode ser fragrante de Conhecimento.
APRENDENDO A SENTIR
Aprendi sobre autoconhecimento aos pés do meu pai,
literalmente. Quando eu era criança, ficava sentado no palco
quando ele falava e ouvia o que ele dizia e as perguntas que as
pessoas faziam. Foi assim que passei a entender que nascemos
com tudo de que precisamos para sentir a paz, mas a correria
da vida diária pode obscurecer essas forças interiores. Ao
encontrar nossa clareza interior, começamos a deixar de lado
aquilo que não somos e ver com nitidez o que somos. A ideia é
permitir que aquilo de que não precisamos em nossa vida
simplesmente se desfaça. Do que não precisamos? Vamos
começar com expectativas ultrapassadas, medos, preconceitos e
regras.
Ao longo dos anos, aprendi que o entendimento não pode
ser colocado dentro de alguém; devemos aceitá-lo por conta
própria. Para isso, precisamos estar abertos ao que é novo. Se
você tem um copo vazio e uma garrafa com água, deve colocar
a garrafa acima do copo e deixar que a gravidade atraia a água.
A água não pode fluir para um copo vazio que esteja acima
dela. O conhecimento não pode fluir de um coração aberto
para um coração fechado.
Normalmente, as pessoas questionam tudo sobre o
autoconhecimento com a cabeça. Como exatamente funciona?
Como posso ter certeza se está funcionando para mim? Qual é
a prova? Em outros aspectos da nossa vida, questões
inteligentes como essas podem ser úteis, mas só é possível
aprender de verdade sobre seu eu por meio da experiência, não
da teoria. O que você sente que é certo? O que ressoa dentro de
você? A prova está em como você vivencia isso. Nossa mente
não quer abrir mão do controle, mas é ela que nos impede de
sentir profundamente o que somos de verdade. Às vezes
precisamos deixar o pensamento de lado — existe a hora de
acreditar e a hora de saber.
Quero contar sobre um momento em que senti a diferença
entre acreditar e saber. Anos atrás, eu estava aprendendo a
esquiar, e achei difícil. Eu via as pessoas — até crianças
pequenas — atravessando toda a montanha em alta velocidade.
Pareciam incríveis, movendo-se rapidíssimo e deixando rastros
de neve no caminho. Um instrutor da Suíça se ofereceu para
me ensinar. Então calcei meus esquis, e a primeira coisa que
ele disse foi: “Ande assim”.
“Não é assim que eles estão fazendo!”, eu reclamei. “Quero
aprender o que eles estão fazendo. Você vai me ensinar uma
coisa diferente?”
“É assim que se começa”, ele disse.
Resisti por um tempo e, então, disse comigo mesmo: “Tudo
bem, deixe que ele ensine. Se começar a fazer sentido,
continue. Se não, pense outra vez”.
No começo, se eu tentava ir para a esquerda, acabava indo
para a direita. Quando queria parar, às vezes via que estava
acelerando. Esquiar pode ser contraintuitivo quando se é
iniciante. Se fizer direito, inclinar-se para a frente dá
estabilidade, mas, por um tempo, seu cérebro só fica gritando:
“Incline-se para trás!”. Do mesmo modo, reclinar-se ajuda você
a se virar, mas costuma parecer natural se inclinar. E você fica
olhando para a frente dos esquis em vez de se concentrar na
direção em que está indo!
Notei que o instrutor ficava me perguntando: “Como você se
sente? Qual é a sensação? Você sente isso?”.
Para ser sincero, na maior parte do tempo o que eu sentia
era descontrole. Estava confuso sobre o que precisava fazer.
Mas continuava fazendo porque, quando se está aprendendo, é
preciso aceitar a incerteza e seguir adiante. Então comecei a
sentir. Comecei a parar de pensar demais em como virar e me
permiti fazer o que o professor havia descrito. Quanto mais
confiava na nova sensação, melhor eu me tornava.
Adquirir autoconhecimento é parecido. As pessoas
normalmente precisam de um pouco de ajuda para entender
como começar e como atravessar a incerteza.
AS TÉCNICAS DE CONHECIMENTO
A paz é possível para todos. Para ajudar as pessoas a
descobrirem seu potencial interior de paz pessoal, ofereço um
programa chamado Educação e Conhecimento para a Paz (peak,
na sigla em inglês). Você pode descobrir como acessar o peak
(em inglês) no meu site, <[Link]>. Ele o ajudará
a sentir as forças que estão dentro de você e trata de muitos
dos temas que você já encontrou neste livro, entre outros.
Sinta-se livre para usar esses recursos gratuitos e me envie
qualquer pergunta que tiver.
Se este livro e o programa peak fizerem sentido para você,
também existe a opção de aprender algumas técnicas práticas e
poderosas de autoconhecimento. Elas irão ajudá-lo a explorar
suas forças interiores e levar seu foco do mundo exterior para
o interior. Foram essas técnicas que meu pai me ensinou
naquele dia em Dehra Dun, quando eu tinha seis anos, como
descrevi na Introdução. Pela minha experiência, as técnicas são
mais bem transmitidas de pessoa para pessoa. Elas são algo
precioso que deve ser aprendido com alguém que realmente as
entende. (Aliás, se você leu os últimos onze capítulos e eles
tocaram seu coração, você já está no caminho de uma boa
compreensão do Conhecimento.)
A chave que abre a porta para uma sensação mais profunda
de consciência é sua sede de autoconhecimento. Essa é a sede
que mencionei antes. Se você não sentir essa sede, o peak e
qualquer outra estratégia podem se revelar infrutíferos. Se você
tiver mesmo esse desejo e essa necessidade de conhecer seu eu,
o peak fará todo o sentido. É como aprender uma língua nova:
você precisa ter a curiosidade e a motivação para começar,
então seguir com determinação e prática. O Conhecimento é a
língua do eu.
À Ê
DA EXPECTATIVA À EXPERIÊNCIA
Neste livro, falei sobre o problema das expectativas na nossa
vida. Também é comum haver grandes expectativas atreladas à
aquisição de autoconhecimento e paz. “Quando tiver paz, essa
deve ser a sensação. Quando tiver paz, é dessa maneira que
deve agir.” Assim surgem as expectativas. Sugiro uma estratégia
diferente: sinta sua sede, explore o autoconhecimento e
permita que o que vier se desenvolva naturalmente. É melhor
abandonar quaisquer ideias fixas que tiver sobre paz interior:
nossas expectativas vão apenas atrapalhar nossa experiência.
Um tempo atrás, eu estava no Sri Lanka para discursar, e a
mestra de cerimônias do evento se apresentou para mim no
camarim: “É um prazer conhecê-lo, mas eu estava achando que
encontraria um homem flutuando meio metro acima do chão”.
Ela tinha uma expectativa de como seria alguém conectado à
paz interior. Bom, eu não sou assim. Tenho paz o tempo todo?
Não. Tenho problemas de vez em quando? Sim. Vivo
experiências extraordinárias do mundo dentro de mim? Com
certeza. Já flutuei meio metro acima do chão? Ainda não.
Uma vez, eu estava reunido com pessoas que estavam
seguindo o caminho do autoconhecimento. Durante a sessão
de perguntas e respostas, uma moça levantou a mão e disse:
“Agora sei as técnicas de Conhecimento, mas não acontece
nada”. Todos ficaram alvoroçados com aquilo. Respondi: “Tudo
bem, se nada estiver acontecendo, não pratique”. Então ela
disse: “Ah, não, não, não! Não quero parar, porque sinto muita
paz e muita alegria. É muito, muito bonito”. O problema era
que ela estava pensando no que poderia sentir, em vez de
simplesmente sentir. Expectativas!
Alguém disse certa vez: “Não precisamos de asas para voar;
basta que as amarras que nos prendem sejam cortadas”. Se
cortarmos as amarras das expectativas, ficamos livres para
explorar, vivenciar e entender nosso eu. É na gratidão pelo que
é que o conhecimento começa, e nossa prática pode continuar
evoluindo até o último suspiro.
MINHA EXPERIÊNCIA DE PAZ
Ter uma forte conexão com a paz interior é uma bênção
incrível na minha vida — nos bons e nos maus momentos.
Para mim, não importa quais problemas eu tenha ou o que
esteja acontecendo no mundo; quando cruzo essa fronteira e
me conecto plenamente com meu eu, todas as preocupações se
evaporam. E esta é a possibilidade para todos os seres
humanos: estar nesse lugar onde seu coração canta e eles
simplesmente desfrutam da música de existir.
Falo muito sobre a clareza que vem do autoconhecimento
porque ela pode transformar como nos sentimos com relação a
nós mesmos e como encaramos a vida. Aqui vai uma analogia.
Quando pilota um avião, você usa seus sentidos para saber
como está indo — por exemplo, observando onde está o
horizonte para se manter em linha reta. Você pilota a partir da
sua base. Mas é fácil se desorientar no ar, sobretudo quando as
condições meteorológicas estão contra você ou se está escuro.
Seus conceitos e interpretações da realidade podem estar
errados. Os instrumentos oferecem todo um outro sistema
para somar a seus sentidos. Eles dizem exatamente se você está
em linha reta, em que velocidade está seguindo, qual o ângulo
da curva que está fazendo e assim por diante. Como instrutor,
posso dizer que costuma levar tempo para os pilotos
aprenderem a voar com instrumentos, em parte porque —
assim como aprender a esquiar — é preciso aprender a confiar
no especialista.
O autoconhecimento pode lhe permitir desenvolver um
conjunto de instrumentos internos conectados a seu
verdadeiro eu. E é aí que você encontra sua realidade. É aí que
realmente pode se orientar.
Para continuar com a analogia do voo, as cabines de
pilotagem acabaram ficando com luzes demais, então um
fabricante inventou uma coisa chamada “cabine escura”. Ela
minimiza quais luzes são acesas, o que ajuda o piloto a
estabelecer prioridades. Se não houver nenhuma luz, tudo está
ok; se uma luz se acender, você resolve o problema. Compare a
clareza disso com a forma como uma mente agitada fica
buscando o mundo exterior, sempre à caça tanto de problemas
como da paz.
Como todo mundo, preciso tomar cuidado para minha
mente não atrapalhar meu coração, e as expectativas também
podem me afetar, claro. Uma vez, no Japão, fui convidado para
ir a um templo por um professor, que era um especialista
muito respeitado em jardinagem. Era um belíssimo templo
com jardins magníficos. Entramos lá e nos sentamos, e todos
comentaram como era pacífico. Claro, minhas engrenagens
mentais estavam girando: “Isso não é paz”, pensei, “é silêncio”.
Fiquei sentado ali e comecei a ouvir — ouvir com atenção —
e percebi que não era tão silencioso, na verdade. A água que
estava correndo era bem barulhenta. Então, de repente, eu
conseguia ouvir grilos, e eles estavam todos em ação. Eu
conseguia ouvir as folhas farfalhando sob o vento e o canto dos
pássaros. Não era silencioso, mas depois de um tempo senti
que havia uma harmonia fabulosa nos sons. Deixei de lado as
definições intelectuais de “silêncio” e “paz” e apenas vivenciei
— naquele momento — a canção do jardim: a harmonia de
uma bela realidade.
Ê Á É
VOCÊ ESTÁ APROVEITANDO ESSAS FÉRIAS CHAMADAS VIDA?
Por que a busca de autoconhecimento é tão importante?
Vamos pensar mais uma vez na maravilha de nossa existência.
Muitos santos e poetas dizem que, quando morremos, vamos
para casa, que este mundo é um lugar que visitamos. Quer
você acredite que existe vida após a morte, quer não, há algo
sublime na ideia de que estamos apenas de passagem aqui.
Pensei muito sobre isso, e uma conclusão a que cheguei é que
nós, humanos, nos esquecemos muito facilmente de onde
viemos: pó. Éramos parte da poeira cósmica antes de
nascermos, e vamos voltar ao pó depois de morrermos. “Do pó
ao pó”, como expressa o Livro de oração comum dos cristãos.
Escrevi alguns versos sobre esse tema:
UM
O pó sob meus pés
De tolos e sábios
Misturados pelo moinho do tempo
O príncipe e o plebeu
O santo e o ladrão
Jogados à terra
O prato do mendigo e a coroa do rei
Enferrujados no mesmo terreno
Carregados pelo mesmo vento
Espalhados sem graciosidade
A história de todas as coisas
A poeira sob meus pés.
Acredita-se que nosso universo tenha nascido há pouco
menos de 14 bilhões de anos, e que esta Terra esteja em sua
forma atual há cerca de 4,5 bilhões de anos. O Homo sapiens
surgiu há 200 mil anos. Os humanos modernos tomaram
forma nos últimos 10 mil anos — desde a última Era do Gelo.
Isso significa que os seres humanos — na forma como
reconhecemos hoje — só estão aqui há uma fração minúscula
do tempo em que a Terra existe, e uma fração ainda menor do
tempo na vida de todo o universo. Há bilhões de anos,
estávamos flutuando pela galáxia como partículas de poeira.
Então a grande energia universal agiu sobre nós, e nos foi dada
a oportunidade de viver esta vida aqui neste planeta, no espaço
de um instante na longa história do tempo.
Portanto, nos foram dadas férias de ser poeira, e essas férias
começam quando nascemos e terminam quando morremos.
Todas as plantas e criaturas vivas estão de férias. E a que
destino maravilhoso fomos trazidos! Mas será que sabemos que
estamos nestas férias fabulosas? Estamos aproveitando nosso
tempo? Estamos distraídos demais para apreciar esta vida?
Estamos saboreando tudo que podemos deste momento
precioso — desta oportunidade para experimentar um trilhão
de coisas diferentes antes de voltarmos a ser pó?
Às vezes esqueço que estou de férias. Todo dia quero lembrar
que a coisa mais importante para mim é apreciar esse tempo,
essa oportunidade, essa beleza: curtir e aproveitar cada
momento ao máximo. Em cada um desses momentos há a
possibilidade de sentirmos nossa conexão com tudo o mais —
vivenciar o eu universal que encontramos no capítulo 11.
A mesma poeira cósmica que nos formou também construiu
todos os planetas de nosso sistema solar. Somos parte da Via
Láctea acima de nós e da terra sob nossos pés. Estamos
conectados às árvores e aos pássaros que pousam e voam de
seus galhos. À borboleta que rodeia a flor. Ao peixe que
percorre as correntes do rio cintilante. À luz do sol e à chuva.
Sempre seremos parte da matéria, mas, nesse curto período,
também fomos abençoados com a consciência. Recebemos a
capacidade temporária de sentir e entender, então a questão é:
estamos aproveitando nossas férias?
CARPE DIEM
A Terra, quando finalmente se desintegrar, vai voar pelo
universo como poeira e se tornar inúmeras outras coisas, em
outro lugar. Essa é a renovação constante da criatividade
universal. Por isso, a oportunidade que temos é continuar nos
conectando com o agora — não com o ontem que já passou
nem com o amanhã que nunca vem, mas com o milagre de
nossa existência neste momento, e neste, e neste, e assim por
diante. Muitas vezes, porém, achamos difícil essa apreciação
tão simples da vida. O filósofo chinês Lao-Tsé expressou isso
da seguinte forma:
Cada momento é frágil e fugaz.
O momento do passado não pode ser retido,
por mais belo que tenha sido.
O momento do presente não pode ser sustentado,
por mais agradável que seja.
O momento do futuro não pode ser capturado,
por mais desejável que venha a ser.
Mas a mente se desespera para fixar o rio:
Possuída por ideias do passado, preocupada com imagens do futuro, ela ignora a
verdade pura do momento.
Qual é a verdade pura deste momento? Sabedoria não é se
dar conta do valor de uma coisa quando ela se for; sabedoria é
reconhecer o valor daquilo que temos agora. O que temos
agora? A possibilidade de vivenciar a maravilha de existir. A
possibilidade de ver com clareza o que é mais importante em
nossa vida. A possibilidade de conhecer de verdade quem
somos. A possibilidade de dar as costas para o ruído e desfrutar
da paz interior. Nosso coração está sempre batendo à porta de
nossa mente, lembrando-nos da possibilidade de ser um só
com tudo que há de bom em nós.
Imagine um mercado central — lá você vai encontrar os
melhores alimentos que o mundo tem a oferecer: as frutas e
verduras mais frescas, as melhores carnes e peixes, queijos
maravilhosos, os doces mais deliciosos conhecidos pela
humanidade e as bebidas mais refrescantes oriundas de uma
centena de fontes. Falam que você pode comer e beber o que
quiser, mas sob uma condição: você não pode levar nada com
você. Qual seria sua reação? Você ficaria desapontado? Ou
pensaria: “Vou aproveitar tudo enquanto estou aqui”?
Parece familiar, não é? Temos muito a aproveitar, mas não
podemos levar nada conosco. Carpe diem.
LOBO BOM, LOBO MAU
Isso nos traz a um ponto vital que percorre todo este livro e
é essencial na prática do autoconhecimento — escolha. A cada
momento, temos uma escolha, e é a seguinte: damos atenção
ao bem em nós ou ao mal em nós? Ao positivo ou ao negativo?
Havia um grupo de indígenas nativos americanos e, um dia,
um garotinho da tribo se aproximou do chefe e perguntou:
“Chefe, tenho uma pergunta: por que algumas pessoas são boas
às vezes, mas ruins em outras?”.
O chefe disse: “É porque temos dois lobos dentro de nós,
lutando entre si. Existe um lobo bom e existe um lobo mau”.
Então o menino pensou por um tempo e quis saber: “Chefe,
qual lobo vence?”.
O chefe respondeu: “Aquele que você alimentar”.
Não é preciso ficar castigando nosso lobo mau — isso não
ajuda o bem em nós. Em vez disso, alimente o lobo bom: dê-
lhe tempo, consciência, compreensão, cuidado, amor. O que vai
acontecer? O lobo bom se fortalece.
Ódio, raiva, medo e confusão alimentam o lobo mau.
Amor, alegria, calma e clareza alimentam o lobo bom.
Portanto, devemos nos perguntar: o que vamos escolher
hoje? Escolhemos estimular o preconceito ou a compreensão?
Escolhemos estimular a confusão ou a clareza? Escolhemos
estimular a guerra ou a paz?
Aqui vão alguns versos que li muito tempo atrás sobre como
nossas escolhas nos definem — palavras que guardo comigo
até hoje:
Se quiser ser forte, seja gentil.
Se quiser ser poderoso, seja bom.
Se quiser ser rico, seja generoso.
Se quiser ser inteligente, seja simples.
Se quiser ser livre, seja você mesmo.
ESCOLHENDO SER LIVRE
Certa vez, quando eu estava falando com as pessoas que
estavam aprendendo as técnicas de Conhecimento, um homem
disse: “Estou com medo”.
“Medo de quê?”, respondi.
“Não consigo deixar as coisas de lado: não consigo entrar
nesse sentimento.”
“Por quê?”, perguntei. “Você só está se voltando para dentro.
Não tenha medo de si mesmo. Voe!”
Um tempo depois, ele voltou para me ver e disse que aquela
conversa tinha sido tão forte que ele tinha deixado o medo de
lado e se permitido voar. Perguntei como era a sensação. Ele
contou que era como se não houvesse limites para a liberdade
que ele sentia. Nenhum limite.
Nossa natureza é ser livre. O que nos prende pode não ser
tão grande assim. Mas é preciso nos conectarmos com a
necessidade interior. Você consegue sentir essa necessidade de
liberdade dentro de você? Consegue se libertar para olhar com
os olhos do divino dentro de você?
Quando eu estava crescendo, aprendi com os pássaros uma
lição sobre a liberdade. Se você pegar um pássaro livre e o
colocar numa gaiola, ele vai fazer de tudo para sair. Mas sabe o
que acaba acontecendo depois de algum tempo? Ele vai
aprender a viver na gaiola. Um dia, se você abrir a porta da
gaiola, adivinha? O pássaro não vai sair voando. Sei disso
porque uma vez tentei libertar alguns pássaros que estavam
presos e eles não saíram do lugar. Tinham se esquecido do que
significava liberdade. O mesmo pode acontecer conosco.
O que quer que esteja acontecendo em nossa vida, somos
livres para nos conectar com a realidade de quem somos —
para sermos livres de ser controlados pelo que está
acontecendo lá fora —, mas precisamos escolher isso por nós
mesmos. Conforme o ritmo de nossa respiração aumenta e
diminui, ele nos traz o milagre da vida. Volte-se para dentro e,
a cada momento, você pode escolher se conectar com a paz
infinita dentro de você. Volte-se para dentro, e o ruído do
mundo se transforma em silêncio, permitindo que você escute
a música divina do agora. Volte-se para dentro e escute sua
melodia interior. Comece!
timeless today
Há mais de cinquenta anos, prem rawat vem
discursando para centenas de milhões de pessoas em
mais de cem países com o objetivo de espalhar sua
mensagem de paz. Nascido na Índia, fez seu primeiro
discurso público aos quatro anos de idade e, aos treze,
começou a palestrar ao redor do mundo. Prem é autor
best-seller e também piloto, fotógrafo, compositor, pai
de quatro filhos e avô de quatro netos.
Copyright © 2021 by Rawat Creations
O selo Fontanar foi licenciado pela Editora Schwarcz S.A.
Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de
1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.
título original Hear Yourself: How to Find Peace in a Noisy World
capa Eduardo Foresti/ Foresti Design
preparação Tamara Sender
revisão Luciana Baraldi e Bonie Santos
versão digital Rafael Alt
isbn 978-65-5782-384-2
Todos os direitos desta edição reservados à
EDITORA SCHWARCZ S.A.
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Telefone: (11) 3707-3500
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