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Consumo, Poupança E Investimento: Objetivos de Aprendizagem

O documento discute a teoria do consumo, poupança e investimento. Ele introduz os tópicos que serão estudados, incluindo a teoria do consumo e poupança, consumo sob incerteza e gastos com investimento. Ele também discute a importância do estudo do consumo e investimento para o crescimento econômico e flutuações.

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Nelson Intope
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Consumo, Poupança E Investimento: Objetivos de Aprendizagem

O documento discute a teoria do consumo, poupança e investimento. Ele introduz os tópicos que serão estudados, incluindo a teoria do consumo e poupança, consumo sob incerteza e gastos com investimento. Ele também discute a importância do estudo do consumo e investimento para o crescimento econômico e flutuações.

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Prof. Me.

Sidinei Silvério da Silva

CONSUMO, POUPANÇA E

I
UNIDADE
INVESTIMENTO

Objetivos de Aprendizagem
■ Apresentar a teoria de consumo e poupança.
■ Compreender a dinâmica do consumo sob incerteza.
■ Entender a natureza do gasto com investimento.

Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
■ Teoria de consumo e poupança
■ Consumo sob incerteza
■ Gasto com investimento
13

INTRODUÇÃO

Olá, caro(a) aluno(a)! Seja bem-vindo(a) ao estudo do consumo, poupança e


investimento.
No primeiro tópico, apresentaremos a demanda agregada de bens e serviços,
ou seja, estudaremos os fatores que determinam a poupança e a formação bruta
de capital. A poupança é simplesmente aquilo que resta após uma unidade econô-
mica, digamos, uma família, decidir o quanto vai consumir de sua renda. Assim,
a decisão sobre quanto consumir é a mesma decisão sobre quanto economizar.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

É importante destacar que, para um indivíduo ou família, um aumento na


renda corrente eleva o consumo e a poupança desejados. De forma análoga,
em âmbito nacional, um aumento no produto corrente eleva tanto o consumo
desejado quanto a poupança nacional desejada. Em ambas as esferas, domici-
liar e nacional, um aumento na renda futura esperada ou na riqueza aumenta
o consumo desejado. Entretanto, pelo fato de que essas mudanças aumentam
o consumo desejado sem afetar a renda ou o produto corrente, elas provocam
uma redução na poupança desejada.
No segundo tópico, analisaremos o consumo sob incertezas, assumindo a
hipótese do consumo seguir um passeio aleatório, em que os indivíduos podem
ajustar o seu consumo. Se o consumo esperado se modificar, o indivíduo oti-
miza em suavizá-lo ao longo do tempo. Se a utilidade marginal do consumo no
presente é maior do que a utilidade marginal do consumo futuro, o indivíduo
otimiza se aumentar o consumo corrente.
Finalmente, caro(a) aluno(a), destacamos que há duas principais razões para
o estudo do comportamento de investimento. A primeira é que, mais do que
outros componentes da demanda agregada, os gastos com investimento flutuam
acentuadamente durante o ciclo de negócios, declinando nas recessões e elevan-
do-se nos surtos de crescimento rápido. A segunda razão é que o investimento
desempenha um papel fundamental na determinação da capacidade produtiva
de longo prazo da economia.
Então, vamos lá! Ótimo estudo!

Introdução
14 UNIDADE I

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
TEORIA DE CONSUMO E POUPANÇA

Caro(a) aluno(a), este tópico e os próximos investigam as escolhas de consumo e pou-


pança das famílias, bem como as decisões de investimento das empresas. A discussão
desse tema, aqui, justifica-se pela importância do consumo e do investimento, tanto
para o crescimento econômico como para as flutuações. O estudo fundamentou-se,
portanto, nos pressupostos de Romer (1996), Sachs e Larrain (2000), Dornbusch
(2003), Blanchard (2007), Abel, Bernanke e Croushore (2008) e Froyen (2006).
De acordo com Romer (1996), no que diz respeito ao crescimento, a divi-
são dos recursos da sociedade entre o consumo e os vários tipos de investimento
(em capital físico, capital humano e pesquisa e desenvolvimento) é central para
os padrões de vida no longo prazo. Essa divisão é determinada pela influência
da alocação das rendas entre consumo e poupança, dadas as taxas de retorno e
outras restrições que elas enfrentam, bem como pela demanda de investimento
das empresas, dadas as taxas de juros e outras restrições que elas encaram.
Em relação às flutuações, o consumo e o investimento compõem a grande
maioria da demanda por bens. Assim, para entender como as forças (compras gover-
namentais, tecnologia e política monetária) afetam a produção agregada, precisamos
entender como o consumo e o investimento são determinados (ROMER, 1996).

CONSUMO, POUPANÇA E INVESTIMENTO


15

Há duas outras razões para estudar consumo e investimento. A primeira se dá


pelo fato de que eles introduzem algumas questões importantes envolvendo os mer-
cados financeiros. A segunda é porque grande parte do trabalho empírico robusto
na macroeconomia, nos últimos 25 anos, tem se preocupado com o estudo do con-
sumo e do investimento (ROMER, 1996).

A DECISÃO DE CONSUMO E DE POUPANÇA DE UM INDIVÍDUO


Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

No âmbito da economia agregada, o efeito cumulativo das decisões indivi-


duais de consumo e poupança ajuda a determinar a taxa de crescimento da
economia, a balança comercial e o nível de produção e emprego. As despe-
sas de consumo das famílias respondem, em média, cerca de dois terços do
Produto Interno Bruto (PIB) dos países.
Na esfera familiar, se o consumo for menor e o ato de poupar maior, o
valor poupado pode ser usado para o consumo no futuro. Se, por outro lado,
a família consumir mais, “despoupará”, no período atual, e o consumo futuro
ficará, consequentemente, menor.
Para ilustrar a decisão de consumo e de poupança de um indivíduo, supo-
nha que a Sra. Magda, enfermeira que atua em um hospital público na região
Sul do Brasil, recebe R$ 120.000 anuais, após os impostos. Com isso, ela pode-
ria, se quisesse, consumir R$ 120.000 por ano de bens e serviços. Magda,
entretanto, tem duas outras opções.
Primeiro, ela pode economizar, consumindo menos de R$ 120.000 por ano.
Por que Magda deveria consumir menos do que sua renda permite? A razão é o
fato de que ela está pensando no futuro. Consumindo menos do que sua renda
corrente, ela acumulará economias que lhe permitirão, em algum momento no
futuro, consumir mais do que sua renda. Precaver-se para a aposentadoria, por
exemplo, é uma importante motivação para poupar no presente.
Segundo, Magda poderia consumir mais do que sua renda corrente, tomando
empréstimo ou sacando de poupanças previamente acumuladas. Consumir mais
do que sua renda traz satisfação maior para Magda, mas o custo para ela é que,
em algum momento futuro, quando precisar pagar o empréstimo, ela terá de
consumir menos que sua renda.
Teoria de Consumo e Poupança
16 UNIDADE I

Se Magda consumir menos, hoje, poderá consumir mais no futuro e vice-versa.


Dito de outra forma, ela enfrenta um trade-off, uma decisão entre o consumo cor-
rente e o consumo futuro. A taxa pela qual Magda troca o consumo corrente pelo
consumo futuro depende da taxa de juros real em vigor na economia. Como ela
recebe uma taxa de juros real de r sobre sua poupança, o real que ela economiza
hoje valerá 1+ r reais daqui a um ano. Supondo que Magda utilize os 1+ r reais
extras para aumentar seu consumo no próximo ano, ela efetivamente trocou o equi-
valente a um real de consumo hoje por 1+ r reais de consumo daqui a um ano.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
A lei psicológica fundamental em que podemos basear-nos com inteira confian-
ça, tanto a priori, partindo do nosso conhecimento da natureza humana, como a
partir dos detalhes dos ensinamentos da experiência, consiste em que os homens
estão dispostos, de modo geral e em média, a aumentar o seu consumo à medida
que a sua renda cresce, embora não em quantia igual ao aumento de sua renda.
(John Maynard Keynes)

Efeito de mudanças na renda corrente

A renda corrente é um fator importante e que afeta as decisões de consumo e de


poupança. Suponha que Magda receba, em seu trabalho, uma gratificação excep-
cional de R$ 12.000 que aumente sua renda do ano em curso para R$ 132.000,
após impostos. O que Magda fará com essa renda extra? Ela poderia esbanjar e
gastar toda a renda extra em uma viagem turística ou poderia economizar toda
a gratificação, deixando inalterado seu consumo corrente e usar a gratificação
acrescida dos juros para aumentar seu consumo futuro. Além disso, também
poderia gastar parte da gratificação com consumo corrente e poupar o resto,
permitindo um aumento em seu consumo futuro.
Desse modo, a parcela da gratificação que Magda gasta dependerá de fatores
como sua vontade de adiar a satisfação e avaliação de suas necessidades atuais e
futuras. Dito de outra forma, dependerá da sua propensão marginal ao consumo,
que é a fração adicional da renda corrente que ela consome no período corrente.

CONSUMO, POUPANÇA E INVESTIMENTO


17

As lições que aprendemos a partir do exemplo de Magda aplicam-se às decisões


de milhões de indivíduos e famílias, ou seja, aplicam-se na esfera macroeconômica.

Efeito de mudanças sobre a renda futura esperada

Para entender o efeito de mudanças sobre a renda futura esperada, suponha que
em vez de receber a gratificação de R$ 12.000 durante o corrente ano, Magda
fique sabendo que receberá uma gratificação de R$ 12.000 (após os impostos) no
ano que vem. A promessa da gratificação está legalmente determinada e Magda
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

não tem dúvida alguma de que receberá a renda extra no ano que vem. Como
essa informação afetará o consumo e a poupança de Magda no presente ano?
Como sua renda corrente está inalterada, Magda pode manter seu consumo e
a poupança correntes inalterados, até receber, de fato, a gratificação para aumentar
seu consumo. Se suas decisões forem guiadas por uma motivação de uniformi-
dade do consumo, porém, ela preferirá utilizar a gratificação para aumentar seu
consumo corrente e seu consumo futuro.
Em suma, um aumento na renda futura esperada de um indivíduo tende a
levá-lo a aumentar seu consumo corrente e a reduzir sua poupança corrente. O
mesmo se aplica na esfera macroeconômica: se as pessoas esperam que a produ-
ção e a renda agregadas sejam mais altas no futuro, o consumo desejado corrente
deve aumentar e a poupança nacional desejada corrente, diminuir.

Efeitos de mudança na riqueza

A riqueza afeta o consumo e a poupança. Suponhamos, por exemplo, que Magda


descubra que seu pai comprou, em seu nome, 100 ações de uma companhia fabri-
cante de aviões comerciais no valor de R$ 5.000. Esse aumento inesperado de R$
5.000 em sua riqueza tem o mesmo efeito sobre seus recursos disponíveis que o
aumento de R$ 5.000 sobre sua renda corrente que examinamos anteriormente.
Em síntese, um aumento na riqueza eleva o consumo e reduz a poupança
corrente. Uma redução na riqueza, por outro lado, restringe o consumo corrente
e aumenta a poupança. Ademais, os altos e os baixos no mercado de ações cons-
tituem uma importante fonte de mudanças na riqueza.

Teoria de Consumo e Poupança


18 UNIDADE I

Efeito de mudanças na taxa de juros real

Como fora estudado, a taxa real de juros é o preço do consumo corrente em


termos de consumo futuro. Assim, como o consumo e a poupança de Magda
se comportam diante de um aumento na taxa real de juros?
Em um primeiro momento, pelo fato de que cada real de poupança cor-
rente, no ano, cresce para 1+ r reais no próximo ano, um aumento na taxa
de juros real significa que cada real de poupança corrente terá um retorno
mais alto em termos de aumento no consumo futuro. Essa recompensa maior

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
para a poupança atual tende a aumentar a poupança.
Em um segundo momento, uma taxa de juros real mais alta significa que
Magda pode alcançar qualquer meta de poupança futura com um montante menor
de poupança corrente. Pelo fato de que precisa poupar menos para atingir sua
meta, ela pode aumentar seu consumo corrente e, com isso, reduzir sua poupança.
Os efeitos descritos são conhecidos como efeito substituição da taxa de
juros real sobre a poupança, que evidencia a tendência para reduzir o con-
sumo no presente e aumentá-lo no futuro, e como efeito renda da taxa de
juros real sobre a poupança, o qual evidencia a mudança no consumo cor-
rente em decorrência de uma taxa de juros real mais alta. Esses efeitos podem
tornar um consumidor mais rico ou mais pobre.
Em relação à poupança nacional, pelo fato de que a economia nacional
é constituída por tomadores de empréstimos e por poupadores, e já que, em
princípio, os poupadores podem aumentar ou diminuir sua poupança em
resposta a um aumento na taxa de juros real, a teoria econômica não pode
responder qual seria o efeito de um aumento na taxa de juros real sobre ela.

Política Fiscal

Em termos de política fiscal, é importante frisar que o consumo desejado e a


poupança nacional desejada seriam alterados por duas mudanças específicas na
política fiscal: um aumento nos gastos do governo e uma redução de impostos.

CONSUMO, POUPANÇA E INVESTIMENTO


19

No que se refere aos impostos e a rentabilidade real da poupança, pelo


fato de que parte dos ganhos com juros deve ser paga como impostos, a ren-
tabilidade real recebida pelos poupadores é, de fato, menor do que a diferença
entre a taxa de juros nominal e a inflação esperada. Matematicamente, temos:
e
r a t p
 (1  t )i  r
, em que a −t representa a taxa de juros real esperada
e
após impostos; (1− t )i − p , a taxa de juros nominal após os impostos, menos
a taxa de inflação esperada.
Em suma, a taxa de juros real esperada após os impostos é a taxa de juros
adequada para os consumidores usarem nas decisões de consumo e poupança,
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

pois ele mede o aumento do poder de compra de sua poupança após o paga-
mento dos impostos.

Efeito de Crowding Out


O Efeito de Crowding Out ou Efeito de Deslocamento corresponde a uma
redução no investimento e de outras componentes da demanda agregada
sensíveis às taxas de juro, sempre que o Governo aumenta a despesa
pública. Esse efeito é justificado pelo fato de existir um mecanismo de
transmissão entre o mercado monetário e o de bens e serviços. Quando
o Estado aumenta os gastos ou reduz os impostos, ocorre, no curto prazo,
um aumento da demanda agregada, o qual é ampliado pelo efeito do
multiplicador do consumo. Contudo, o aumento da demanda agregada
e, consequentemente, dos preços, originará um aumento da demanda de
moeda por motivo de transações, que, por sua vez, irá provocar um aumento
das taxas de juro. As taxas de juro poderão aumentar, também, pela emissão
de dívida pública para financiar o acréscimo de despesa do Governo. Esse
aumento das taxas de juro irá provocar uma redução do investimento e de
outras componentes da demanda agregada mais sensíveis às taxas de juro.
É a essa redução de componentes da demanda agregada após o aumento
das despesas públicas que é dada a designação de efeito de crowding out.
O impacto da política orçamental é atenuado, ocorrendo, também, uma
alteração nas componentes da demanda agregada.
Fonte: adaptado de Nunes (2019, on-line)1.

Teoria de Consumo e Poupança


20 UNIDADE I

TEORIA DO CONSUMO DA RENDA PERMANENTE

Você já deve ter percebido que as pessoas decidem o quanto consumir e o quanto
poupar, não apenas pela renda atual, mas, particularmente, pelas expectativas
sobre o futuro. A partir dessa premissa, esta seção, prezado(a) aluno(a), apre-
senta a teoria do consumo da renda permanente, desenvolvida pelo economista
Milton Friedman, na década de 1950. Nessa perspectiva teórica, a da “renda per-
manente” os consumidores olham para além da renda atual.
É importante destacar que a teoria da renda permanente (desenvolvida por Milton

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Friedman) e a teoria do ciclo de vida (desenvolvida por Franco Modigliani), na verdade,
tratam-se de uma mesma teoria sobre o consumo, mas seus enfoques são distintos.
O Ciclo da Vida trata sobre o planejamento dos consumidores ao longo de
toda a sua vida, defendendo a hipótese de que a renda segue um padrão regular
ao longo da vida da pessoa. Já a renda permanente, ao contrário, considera que as
pessoas experimentam variações aleatórias e temporárias em suas rendas de ano
para ano. Assim, a renda total de uma pessoa, para Friedman, seria separada em
duas parcelas: (i) a permanente, na qual a pessoa espera que permaneça no futuro;
e a (ii) transitória, em que a pessoa não espera que vá permanecer no futuro.
Para exemplificarmos esses conceitos relacionados à renda permanente, suponha-
mos que Magda, além de trabalhar no hospital público enquanto servidora efetiva,
atua, esporadicamente, em hospitais privados. Podemos dizer que o salário de Magda
como funcionária pública é garantido. Ela espera receber, todo mês, os seus R$ 10.000,
uma vez que o valor adquirido com os bicos não é garantido. No entanto, Magda con-
segue, em média, com os bicos, por mês, R$ 2.000. Nessa situação, como Magda age?
Ela considera como sua renda permanente R$ 10.000 + R$ 2.000 = R$ 12.000,00.
Todo o resto que Magda conseguir a mais com os bicos é considerado algo transitório.
Como Magda deveria consumir? O consumo de Magda deve estar relacionado
ao gasto de uma proporção de sua renda permanente. Assim, digamos que, no
mês de outubro, ela tenha conseguido R$ 5.000 só com os bicos: o que Magda faz?
Renda total no mês: R$10.000 + R$ 5.000 = R$ 15.000,00. Essa renda é esperada
de ocorrer nos próximos meses? Não. Quanto há de renda permanente? Ainda
12.000,00. Logo, esses R$ 15.000 - R$12.000 = R$ 3.000 reais a mais, por serem
transitórios, deveriam ser consumidos pelo resto da vida, e não apenas no mês.

CONSUMO, POUPANÇA E INVESTIMENTO


21

De acordo com o modelo da renda permanente, o consumo reage à renda


permanente ( Yp ), que é definida como um tipo de média da renda atual e futura.
Especificamente, para uma família com um fluxo de renda flutuante, ( Yp ), é defi-
nida como o nível constante de renda que daria para a família a mesma restrição
orçamentária intertemporal que tem com o fluxo de renda flutuante.
Matematicamente, podemos proceder da seguinte forma: a restrição orçamen-

tária intertemporal (no exemplo de dois períodos) é


C 1  C 2  Q1  Q 2 , em
1 r 1 r
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

que Q1 e Q2 , geralmente, são diferentes.


Agora, vamos descobrir um valor de Y p , tal que a família vai ter as mesmas
possibilidades intertemporais de consumo se a produção for igual a Y p em cada
período. Evidentemente, Y p deve satisfazer a igualdade:

Yp Q
Y p  (1  r )  Q1  (1  2r )
A equação apresentada pode ser solucionada para Y p , em termos de Q1 e Q2 :

(1  r )  Q 2 
Y p
  Q 
(2  r )  1 (1  r ) 
 
Note que a renda permanente seria exatamente a média da produção atual e futura,
no caso específico, em que a taxa de juros é zero (quando a família não herda um
estoque de ativos financeiros no tempo). Todavia, em geral, a taxa de juros não é zero,
portanto, dizemos que a renda permanente é um “tipo” de média da futura produção.
Em um caso especial e importante de maximização da utilidade, a família
tenta manter uma trajetória de consumo perfeitamente estável, portanto, o con-
sumo é igual em todos os períodos. Nesse caso, o consumo é exatamente igual à
renda permanente (C= 1 C= 2 Y p ) . Desse modo, a poupança é dada pela dife-
rença entre a renda atual e a renda permanente: S 1  Q  C 1  Q  Y p ,
1 1
assim como mostra o gráfico a seguir:

Teoria de Consumo e Poupança


22 UNIDADE I

í
Na Figura 1, a curva da indiferença
tangencia a reta do orçamento no
mesmo ponto em que a reta do
orçamento intercepta a reta de

=  45 graus. Assim, o consumo é o
mesmo nos dois períodos e igual
  à renda permanente, Y p .
É conveniente distinguir
í os efeitos sobre o consumo de

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
°

= Qp 
três tipos de choques: choques
atuais temporários, choques
Figura 1 - Consumo familiar e renda permanente
Fonte: Sachs e Larrain (2000, p. 99). permanentes e choques futuros
antecipados. Em um nível abs-
trato, a teoria da renda permanente é muito interessante. Contudo, em geral, as
famílias só têm certeza absoluta da renda atual quando a receita muda. Assim,
como podemos saber se essa alteração vai ser transitória ou permanente? Antes
das pessoas tomarem decisões sobre o futuro, quase sempre precisam definir
suas expectativas das variáveis econômicas futuras.
Em termos de evidência empírica, aplicação recente do modelo da renda
permanente que aparece na função do consumo aleatório de Robert Hall, da
Universidade de Stanford, Hall demonstrou que, sob certas condições, a esti-
mativa da renda permanente do ano corrente deve dar a melhor ideia de qual
vai ser a sua renda permanente no próximo ano. Isso significa que o consumo
do próximo ano deve ser igual ao consumo do ano corrente mais um montante
aleatório resultante dos choques inesperados que vão afetar, no próximo ano, a
estimativa familiar da renda permanente.

TEORIA DO CONSUMO DO CICLO DE VIDA

Esta seção, prezado(a) aluno(a), apresenta a teoria do consumo do ciclo de vida,


a qual foi desenvolvida pelo economista Franco Modigliani na década de 1950.
Essa teoria defende que o horizonte de planejamento natural dos consumidores

CONSUMO, POUPANÇA E INVESTIMENTO


23

perdura a vida inteira. Nesse sentido, o modelo do ciclo de vida, assim como o
modelo da renda permanente, baseia-se na teoria de que o consumo de um deter-
minado período depende das expectativas de renda da vida toda, e não da renda
atual. A contribuição da hipótese do ciclo de vida está em observar que a renda
tende a sofrer flutuações sistemáticas no decorrer da vida de uma pessoa, pois o
comportamento da poupança é determinado, fundamentalmente, pelo estágio da
família no ciclo de vida. Esses conceitos são exemplificados pela figura a seguir:
Assim como é demonstrado na
Figura 2, quando as pessoas são
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.


jovens, sua renda é baixa e, fre-
quentemente, elas contraem
dívidas (“despoupam”), porque +
sabem que ganharão mais dinheiro

no futuro. Nos anos de trabalho, a
renda atinge um pico por volta da -
meia-idade, o que permite que as 
pessoas paguem as dívidas contra-
ídas anteriormente e poupem para
a velhice. Quando atingem a apo- 
sentadoria, a renda de trabalho é
zero e as pessoas passam a consu- Figura 2 - A hipótese do ciclo de vida de consumo e poupança
mir os recursos acumulados. Fonte: Sachs e Larrain (2000, p. 106).

Via de regra, as pessoas poupam nos anos produtivos, visando à aposentadoria


e o fazem porque a renda do primeiro período é maior do que a do segundo. O con-
sumo durante a aposentadoria é financiado tanto pela poupança acumulada nos anos
produtivos quanto pelas transferências recebidas do governo e dos descendentes.
Quanto mais generoso é o sistema de seguro social, menos a família precisa poupar
durante o período produtivo para garantir seu consumo no período de aposentadoria.
Vamos analisar outras implicações da teoria do ciclo de vida. Quando o con-
sumo for o mesmo em todos os períodos, ele será igual a renda permanente. O
consumo é uma fração da riqueza, e o fator de proporcionalidade (k ) , ou a pro-
pensão marginal a consumir a riqueza, depende da taxa de juros. Na prática, o
fator de proporcionalidade k também depende de outros fatores, por exemplo,
a taxa de preferência temporal e a idade dos membros da família.
Teoria de Consumo e Poupança
24 UNIDADE I

No modelo de dois períodos k  (1  r ) / (2  r ) , que está entre 0, 5 e 1 .


Em um número maior de períodos, k é menor: por quê? Porque um aumento
de uma unidade na riqueza tende a ser dividido entre vários períodos. Portanto,
a propensão marginal a consumir tem uma relação inversamente proporcional
à idade dos membros da família, e famílias mais idosas consomem uma fração
maior da riqueza do que as mais jovens, em qualquer período. O que conta para
uma determinada família é o número de períodos restantes no horizonte de pla-
nejamento e as famílias mais idosas tendem, em média, a ter horizontes mais
curtos que as famílias mais jovens.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
EVIDÊNCIAS NO MODELO DO CICLO DE VIDA

Modigliani e Ando apresentaram, em 1963, um dos primeiros testes empíricos


do modelo de ciclo de vida, conforme a seguinte expressão: em que Yd é a renda
disponível e W é a riqueza financeira do setor familiar. A equação foi estimada
por meio de dados anuais. Espera-se que c1 seja menor que 1 , pois mede a pro-
pensão marginal a consumir (PMgC) da renda atual. Também esperamos obter
um coeficiente k1 um pouco maior do que a taxa anual de juros. Por quê? Porque
uma pessoa que se comporta de acordo com a teoria do ciclo de vida gostaria de
gastar seus ativos no decorrer da vida. Se só consumir a renda de juros em cada
período, vai morrer com seus ativos intactos; portanto, deve consumir um pouco
mais do que os ganhos com juros. Ando e Modigliani estimaram que o valor de
c1 é 0, 7 e de k1 é 0, 06 , ligeiramente maior do que a taxa anual real de juros.
As descobertas de Ando e Modigliani foram incentivadoras para a teoria
do ciclo de vida. Testes posteriores do modelo forneceram mais fundamentos,
mas também mostraram algumas incoerências. Parece que as famílias realmente
poupam mais nos anos produtivos do que quando são muito jovens ou velhas.
No entanto, ao mesmo tempo, as pessoas idosas, aparentemente, não “despol-
pam” muito. Em outras palavras, mantêm seus ativos intactos e, eventualmente,
transferem esses ativos a seus herdeiros, em vez de consumi-los em vida. Não
consumir completamente a riqueza continua um dos contraexemplos importan-
tes da lógica do modelo do ciclo de vida.

CONSUMO, POUPANÇA E INVESTIMENTO


25
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

CONSUMO SOB INCERTEZA

Romer (1996) demonstra a hipótese do passeio aleatório em relação ao con-


sumo sob incerteza. Em particular, suponha que haja incerteza sobre a renda
do trabalho individual a cada período e que tanto a taxa de juros quanto a
taxa de desconto são zero. Além disso, suponha que a função de utilidade
.
instantânea, u2( ) , seja quadrática. Assim, o indivíduo maximiza:
T  a 
E[U ]  E     C t   Ct2   , a>0.
 t 1  2  
Vamos supor que a riqueza do indivíduo é tal que o consumo está sempre no
intervalo em que a utilidade marginal é positiva. Como antes, o indivíduo
deve pagar todas as dívidas pendentes no final da vida. Assim, a restrição
T T
orçamentária é novamente dada pela equação  t 1 C t  A0   t 1 Y t .
Para descrever o comportamento do indivíduo, usamos nossa aborda-
gem usual de equação de Euler. Especificamente, suponha que o indivíduo
tenha escolhido o consumo do primeiro período de forma otimizada, dada a
informação disponível, e que ele ou ela escolherá o consumo em cada período

Consumo sob Incerteza


26 UNIDADE I

futuro de forma otimizada, tendo a informação disponível. Agora, considere


C
uma redução em 1 , de dC , do valor que o indivíduo escolheu e um aumento
igual no consumo em alguma data futura do valor que ele ou ela teria escolhido.
Se o indivíduo otimiza, uma mudança marginal desse tipo não afeta a utili-
dade esperada. Já a utilidade marginal do consumo no período 1 é 1 − a 1 ; C
dessa forma, a mudança tem um custo de utilidade de (1  a 1)  dC . Além C
C
disso, como a margem de consumo do período t é 1− a t , a mudança tem
E C
um benefício de utilidade esperado de 1  1  a t   dC , em que 1  E

denota expectativas condicionais à informação disponível no período 1.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Assim, se o indivíduo otimiza,

1  aC 1  E 1  1  aC t  , para t = 2, 3,..., T . (A)

Como E 1  1  aC t  é igual a 1  a E 1 C t  , isso implica


C 1  E 1  C t  , para t = 2, 3,..., T . (B)

O indivíduo sabe que seu consumo, ao longo da vida, satisfará a restrição


orçamentária. Desse modo, as expectativas dos dois lados da restrição devem
ser iguais:
T T
 E 1  C t   A0   E 1  Y t  . (C)
t 1 t 1

A equação (B) implica que o lado esquerdo de (C) é T C 1 . Substituindo isso


em (C) e dividindo por T rendimentos, teremos:
T
1  
C1    A0   E 1  Y t   . (D)
T  t 1


1
Ou seja, o indivíduo consome de seus recursos esperados ao longo da vida.
T
A equação (B) implica que E 1 C 1 é igual a C 1 . Em termos mais gerais,
raciocinar sobre o que acabamos de fazer implica que, em cada período, o
consumo esperado no próximo período seja igual ao consumo atual. Isso

CONSUMO, POUPANÇA E INVESTIMENTO


27

significa que mudanças no consumo são imprevisíveis. Pela definição de


expectativas, podemos escrever

C t  E t 1  C t   et . (E)
e
em que t é uma variável cuja expectativa a partir do período t −1 é
E C C
zero. Assim, como t 1   t   t 1 , temos C C t e
 t 1  t .
Esse é o famoso resultado de Hall de que a hipótese do ciclo de vida/
renda permanente implica que o consumo segue um passeio aleatório (HALL,
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

1978). A intuição para esse resultado é direta: se espera que o consumo mude,
o indivíduo pode fazer um trabalho melhor de suavizar o consumo. Suponha,
por exemplo, que o consumo aumente: isso significa que a utilidade margi-
nal atual do consumo é maior do que a utilidade marginal futura esperada
do consumo e, portanto, que o indivíduo aumenta o consumo atual. Assim,
o indivíduo ajusta seu consumo atual ao ponto em que não se espera que o
consumo mude.

EVIDÊNCIAS EMPÍRICAS

O resultado do passeio aleatório de Hall contrariava fortemente as visões exis-


tentes sobre o consumo. A visão tradicional do consumo, ao longo do ciclo
de negócios, prevê o declínio do consumo; à medida que produção declina,
espera-se, no entanto, uma recuperação. Isso significa que existem movimen-
tos previsíveis no consumo. A ampliação de Hall para a hipótese da renda
permanente, em contraste, prediz que, quando a produção sofre uma queda
inesperada, o consumo declina apenas pelo montante da queda na renda per-
manente; como resultado, não se espera uma recuperação.
Devido a essa divergência nas previsões de ambas as perspectivas, espe-
cialistas dedicam-se a testar se mudanças previsíveis na renda produzem,
consequentemente, mudanças previsíveis no consumo, como o teste de
Campbell e Mankiw (1989).

Consumo sob Incerteza


28 UNIDADE I

O Paradoxo da Poupança
À medida que as pessoas poupam mais em seu nível inicial de renda, elas
diminuem seu consumo. Mas esse consumo menor diminui a demanda,
que, por sua vez, diminui a produção. Nesse contexto, é possível dizer o que
acontece com a poupança? Analise a equação da poupança privada a seguir:
c 0  c1 
S   I  Y  T  .
Por um lado, o intercepto é maior (menos negativo). Os consumidores pou-
pam mais a qualquer nível de renda: isso tende a aumentar a poupança.
Mas, por outro lado, a renda, Y , é menor, e isso diminui a poupança. O
efeito líquido parece ambíguo. Na verdade, podemos dizer o sentido para

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
o qual ele vai. Isso significa que, à medida que as pessoas poupam mais, o
resultado é tanto uma diminuição do produto como uma poupança inalte-
rada. Esse surpreendente par de resultados é conhecido como o paradoxo
da poupança (ou o paradoxo do entesouramento).
Fonte: Blanchard (2007, p. 55).

O consumo é a única finalidade e o único propósito de toda produção.


(Adam Smith)

INVESTIMENTO

Prezado(a) aluno(a), agora, discutiremos o segundo principal componente dos gastos:


o investimento feito pelas empresas. Abel, Bernanke e Croushore (2008) argumen-
tam que a decisão sobre o montante a investir, bem como as decisões sobre consumo
e poupança dependem, em grande medida, das expectativas sobre o futuro da eco-
nomia. O investimento também compartilha com a poupança e o consumo a ideia
de se chegar a um meio-termo entre presente e futuro. Nessa direção, ao fazer um
investimento de capital, uma empresa empenha seus ativos correntes (que, de outra
forma, poderiam ser usados, por exemplo, para pagar maiores dividendos aos acio-
nistas) no aumento de sua capacidade para produzir e auferir lucros no futuro.

CONSUMO, POUPANÇA E INVESTIMENTO


29
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

ESTOQUE DE CAPITAL DESEJADO

Podemos considerar, caro(a) aluno(a), que se as empresas procuram maximizar


o lucro, o estoque de capital desejado de uma empresa é a quantidade de capital
que lhe permite conseguir o maior lucro esperado. Acredita-se que os gestores
conseguem determinar o nível de estoque de capital que maximiza o lucro, ao
comparar os custos e os benefícios de se utilizar o capital adicional, por exem-
plo, para a compra de uma nova máquina. Se os benefícios superarem os custos,
a ampliação do estoque de capital aumentará os lucros, mas se os custos tiverem
valor maior que os benefícios, a empresa não deve ampliar seu estoque de capi-
tal pretendido: pelo contrário, deve, se possível, reduzi-lo.
Em termos reais, o benefício de uma unidade adicional de capital, para uma
empresa, é o produto marginal do capital ( PMgK ), que representa o aumento
que uma empresa obtém na produção, adicionando uma unidade de capital, a
fim de manter constantes sua mão de obra e demais fatores de produção.
Além disso, é necessário considerar o custo de uso do capital, que é o custo
real esperado do uso de uma unidade de capital por determinado período de
tempo. Em geral, o custo de depreciação pelo uso do capital é o valor perdido à
medida que o bem se deprecia.

Investimento
30 UNIDADE I

O custo de uso do capital é a soma do custo de depreciação com o custo


dos juros e pode ser representado pela seguinte equação:
uc  r p k
d
k
p (r  d )  pk
, em que r pk
é o custo dos juros; d
k
p,
o custo de depreciação, e uc , o custo de uso do capital.

TIPOS DE CAPITAL E INVESTIMENTO

As contas nacionais identificam as três principais áreas de gasto em investi-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
mento. A primeira é o investimento no imobilizado da empresa, que mede
o valor gasto pelas empresas no “prédio” e em “equipamentos”. O segundo
é o investimento em estoques (matérias-primas, bens semiacabados e bens
acabados em poder da empresa). Já a terceira é o investimento residencial,
que inclui os valores gastos tanto com a manutenção das habitações quanto
com a produção habitacional. É importante destacar que, quando uma famí-
lia adquire uma casa já existente, não ocorre um investimento em termos de
economia global, pois não há uma mudança no estoque de capital, só uma
mudança de propriedade.
Em relação a todos os tipos de investimento, identifica-se uma diferença
importante, que é entre o investimento bruto e o investimento líquido. A
maioria dos tipos de capital tende a sofrer desgaste com o decorrer do tempo
até virar sucata (processo de depreciação). O nível total de investimento é
chamado investimento bruto e a parte do investimento que aumenta o esto-
que de capital é chamada investimento líquido. Logo, temos uma relação
simples, em que o investimento bruto é igual ao investimento líquido, soma-
dos à depreciação do capital, que pode ser expressa pela equação a seguir:
I  J  dK , em que I é o investimento bruto; J , o investimento líquido; e
d , o parâmetro de depreciação. A alteração no estoque de capital é igual à
taxa de investimento líquido: K 1
 K  J . Combinando as duas equações,
temos a equação básica de acumulação do capital: K 1
 (1  d )  K  I .

CONSUMO, POUPANÇA E INVESTIMENTO


31

O DIAGRAMA POUPANÇA-INVESTIMENTO

A determinação do equilíbrio do mercado de bens pode ser demonstrada, grafi-


camente, com o diagrama poupança-investimento, conforme a Figura 3:

Curva da poupança, S
Taxa de juros real, r
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

%

%

Curva do
investimento, I

  


Poupança nacional desejada, Sd, e investimento desejado, Id
Figura 3. Poupança Nacional Desejada e Investimento Desejado
Fonte: Abel, Bernanke e Croushore (2008, p. 98).

Ao longo do eixo vertical, é medida a taxa real de juros e, ao longo do eixo hori-
zontal, a poupança e o investimento adicional. A curva de poupança (S) mostra
a relação entre a poupança nacional desejada e a taxa de juros real. A inclina-
ção da curva da poupança para cima reflete a constatação empírica de que uma
taxa de juros real mais alta aumenta a poupança nacional desejada. Já a curva
do investimento (I) mostra a relação entre o investimento desejado e a taxa real
de juros. Ela inclina-se para baixo, porque a taxa de juros real mais alta aumenta
o custo de uso do capital e, com isso, reduz o investimento desejado. Por fim,
o equilíbrio no mercado de bens é representado pelo ponto (E), no qual a pou-
pança nacional desejada é igual ao investimento desejado.

Investimento
32 UNIDADE I

Efeito Tanzi-Olivera
À medida que a taxa de inflação se torna muito alta, o déficit orçamentário,
normalmente, também se torna maior. Parte do motivo diz respeito às
defasagens na arrecadação dos impostos. Esse efeito é conhecido como
efeito Tanzi-Olivera, em homenagem a Vito Tanzi e Julio Olivera, dois
economistas que enfatizaram sua importância. Conforme impostos são
arrecadados sobre a renda nominal passada, seu valor real cai com a inflação.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Fonte: Blanchard (2007, p. 471).

A TEORIA q

A famosa teoria q de investimento foi desenvolvida de forma pioneira por James


Tobin, da Universidade de Yale e ganhador do prêmio Nobel de Economia de
1982. Trata-se de um modelo importante acerca do comportamento de investi-
mento baseado na ideia dos custos de ajustamento.

Não há excesso de liberdade se aqueles que são livres são responsáveis. O


problema é a liberdade sem responsabilidade.
(Milton Friedman)

CONSUMO, POUPANÇA E INVESTIMENTO


33

A variável q é definida como o valor de mercado das ações da empresa divi-


dido pelo custo do capital. O custo de substituição do capital é o custo que teria
de ser pago para comprar o prédio e os equipamentos da empresa no mercado.
Portanto, q é a proporção entre o custo de adquirir a empresa por meio do mer-
cado financeiro e o custo de comprar o capital da empresa no mercado de produto.
Tobin e seus seguidores mostraram as condições sob as quais q é um bom
indicador da lucratividade de um novo investimento, especificamente quando q for
maior do que 1 . Isso significa que o investimento deve ser alto. Da mesma maneira,
quando q for menor que 1 , o mercado indica que o investimento deve ser baixo.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Suponha que o estoque de capital seja constante, que a PMgK seja cons-
tante e que a taxa de depreciação seja d . Assim temos:

q
 PMgK  d    PMgK  d    PMgK  d   ...
(1  r ) 1  r 2 1  r 3

Nesse ambiente simples, em que a PMgK é a mesma em cada período, a expres-

 PMgK  d 
são para q pode ser modificada para: q  .
r
Constatamos, então, que q tende a ser maior que 1, se a PMgK for maior
do que (r + d ) nos períodos futuros. Não só, mas que q tende a ser menor que
1, se a PMgK for menor do que (r + d ) nos períodos futuros.

Investimento
34 UNIDADE I

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Caro(a) aluno(a), chegamos ao término da Unidade I. Nela, estudamos temá-


ticas relacionadas ao consumo, poupança e investimento. Aprendemos que o
consumo depende tanto da riqueza, que é soma da riqueza não humana (finan-
ceira e imobiliária) com a riqueza humana (valor presente da renda esperada do
trabalho líquida de impostos), quanto da renda atual.
Verificamos que a resposta do consumo às variações da renda depende de
como os consumidores percebem essas variações, sejam transitórias ou perma-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
nentes. Além disso, é provável que, proporcionalmente, o consumo responda
menos às variações da renda.
No que se refere ao consumo sob incertezas, assumimos a hipótese de o con-
sumo seguir um passeio aleatório, em que os indivíduos podem ajustar o seu
consumo. Desse modo, se a utilidade marginal do consumo no presente é maior
do que a utilidade marginal do consumo futuro, o indivíduo otimiza se aumen-
tar o consumo corrente.
Em relação aos investimentos das empresas, que desempenham um papel
fundamental na determinação da capacidade produtiva de longo prazo da eco-
nomia, constatamos que eles dependem tanto do lucro atual quanto do valor
presente dos lucros futuros esperados. Nesse sentido, vale destacar que o inves-
timento é muito mais volátil do que o consumo e que as variações do lucro estão
estreitamente relacionadas com as variações do Produto Interno Bruto (PIB).
Finalmente, caro(a) aluno(a), destacamos a teoria q de Tobin. Nela, o eco-
nomista construiu uma variável correspondente ao valor de uma unidade de
capital já instalada em relação a seu preço de compra e observou como suas varia-
ções aproximavam-se daquelas do investimento. Essa razão é o q de Tobin, que,
intuitivamente, diz-nos: quanto maior for q , maior será o valor do capital em
relação ao preço de compra atual e, consequentemente, maior será o investimento.

CONSUMO, POUPANÇA E INVESTIMENTO


35

1. Considere a seguinte questão hipotética: no Brasil, para um determinado nível


de Produto Interno Bruto (PIB), o que acontece com a renda pessoal, a renda pes-
soal disponível, despesas de consumo pessoal e poupança pessoal se os lucros
das empresas diminuem, respectivamente?
a) Nulo, aumento, aumento e diminuição.
b) Nulo, aumento, diminuição e diminuição.
c) Aumento, aumento, aumento e diminuição.
d) Aumento, aumento, aumento e aumento.
e) Diminuição, diminuição, diminuição e diminuição.

2. Em uma determinada cidade da região norte do Brasil, a partir da restrição orça-


mentária para uma família que vive por dois períodos, sabendo-se que ela ganha
R$ 100 no primeiro período e R$ 200 no segundo período, e que a taxa
de juros é de 10% , qual é o rendimento permanente dessa família?

a) O rendimento permanente é igual a R$ 145, 60 .


b) O rendimento permanente é igual a R$ 146, 60.
c) O rendimento permanente é igual a R$ 147, 60.
d) O rendimento permanente é igual a R$ 148, 60.
e) O rendimento permanente é igual a R$ 149, 60.

3. Considere uma cidade do Rio Grande do Sul, o esquema do modelo de dois pe-
ríodos e que duas famílias recebem exatamente o mesmo rendimento em cada
período. Devido a diferenças nas suas preferências, no entanto, a família 1 eco-
nomiza R$ 200 , enquanto a família 2 economiza R$ 2.000, 00 . Qual
delas vai aumentar sua poupança se a taxa de juros subir?

4. Suponha que, em uma cidade brasileira, estudam alunos de Economia e de Edu-


cação Física. O que podemos concluir, a partir da hipótese de renda permanente,
sobre os padrões de vida dos estudantes se ambos os grupos vêm de famílias
com o mesmo nível de recursos econômicos?
36

5. Suponha que, em determinado país asiático, o estoque inicial de capital tem um


valor de US$ 100 milhões. O investimento bruto foi de US$ 8 milhões
no ano 1 e US$ 15 milhões no ano 2 . Se o capital se depreciar em 10% ao
ano, qual é o investimento líquido em cada um dos dois anos?
a) −2 milhões no ano 1 e 5, 2 milhões no ano 2 .
b) 2 milhões no ano 1 e−5, 2 milhões no ano 2 .
c) −3 milhões no ano 1 e 4, 2 milhões no ano 2 .
d) 4 milhões no ano 1 e 6, 2 milhões no ano 2 .
e) −4 milhões no ano 1 e 6, 2 milhões no ano 2 .
37

GASTO E CONSUMO DAS FAMÍLIAS BRASILEIRAS CONTEMPORÂNEAS


O Brasil conta com larga tradição em pesquisa e usa levantamentos domiciliares ancorados
no conceito de renda. Os censos demográficos, as pesquisas nacionais por amostragem de
domicílios e as pesquisas mensais de emprego se baseiam nesse conceito. Renda, no en-
tanto, é um conceito intermediário. Estamos tão acostumados a raciocinar em termos de
unidades monetárias, que esquecemos que se trata de uma abstração.
O bem-estar dos indivíduos, nas famílias, não advém do consumo de um bem homogêneo
repartido igualmente dentro de cada unidade domiciliar, mas sim de cestas de consumo
que envolvem bens compartilhados, assim como bens individuais repartidos em parcelas
desiguais dentro da família. A demanda das famílias não é por um bem homogêneo cuja de-
manda afeta todas as indústrias por igual, mas por uma grande variedade cuja composição
se altera com as mudanças no padrão demográfico, nas desigualdades sociais e no mundo
das representações simbólicas, chamado por economistas de “preferências”. Finalmente, aos
estudiosos de políticas públicas especializados em transportes urbanos, saúde, educação,
saneamento, cultura ou política agrária não interessa apenas a renda dos indivíduos, mas
principalmente como ela é gasta em cada uma dessas áreas.
Quando se percorrem essas linhas, a pergunta que surge não é por que estudar o consumo
agora, mas por que se demorou tanto. A resposta é que as dificuldades são grandes.
A primeira questão se refere à própria coleta dos dados. Perguntar a idade, o nível educa-
cional ou a renda de um indivíduo requer um pouco mais do que uma pergunta bem estru-
turada e um entrevistador bem treinado. Já para investigar o padrão de consumo de uma
família, o entrevistador do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), virtualmente,
passa a viver na casa daquela família por um período longo, deixando carnês a serem preen-
chidos , perguntando e voltando a perguntar detalhes de gasto ad nauseum. As dificuldades
são tamanhas, que as duas primeiras Pesquisas de Orçamentos Familiares (POFs) foram a
campo apenas nas nove maiores regiões metropolitanas (RMs) do Brasil. Apenas a POF cole-
tada em 2002 e 2003 é representativa de todo o país.
Ao disponibilizar esses dados tão cuidadosamente coletados para os pesquisadores, surge a
segunda dificuldade: a leitura, a montagem e a compreensão das bases.
Apesar das dificuldades enumeradas, os limites das análises oriundas de pesquisas domi-
ciliares centradas no mercado de trabalho também estão cada vez mais evidentes. O Ipea
tomou, então, a iniciativa de produzir este livro contendo o que há de melhor na produção
acadêmica brasileira sobre consumo das famílias. Os técnicos da casa Fernando Gaiger Sil-
veira, Luciana Mendes Santos Servo e Sérgio Francisco Piola e a professora da Universidade
Federal de Pernambuco (UFPE) Tatiane Menezes organizaram um trabalho em dois volumes,
dos quais este é o segundo.
Fonte: Soares (2007).
MATERIAL COMPLEMENTAR

Macroeconomia - Em uma Economia Global


Sachs e Larrain
Editora: Pearson Education
Sinopse: ao longo do livro, o autor apresenta uma perspectiva
internacional, analisando cuidadosamente as diferenças
institucionais importantes no âmbito macroeconômico, com
destaque para a incorporação de avanços teóricos recentes da
teoria macroeconômica.

Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme


Ano: 2010
Sinopse: após quase oito anos de prisão, Gordon Gekko, o
corretor da Bolsa de Nova Iorque condenado por fraude, lavagem
de dinheiro e extorsão, é finalmente posto em liberdade. Agora,
sem possuir absolutamente nada e sem ninguém que o espere,
ele é um homem transformado e apenas quer recuperar a relação
com a filha, Winnie (Carey Mulligan).

No portal Trading Economics, você encontrará, prezado(a) aluno(a), informações macroeconômicas


de todos os países do globo terrestre, em tempo real, como PIB, taxa de juros, desemprego, inflação
e dívida pública.
Web: [Link]
39
REFERÊNCIAS

ABEL, A. B.; BERNANKE, B. S.; CROUSHORE, D. Macroeconomia. São Paulo: Pearson


Addison Wesley, 2008.
BLANCHARD, O. Macroeconomia. 4. ed. São Paulo: Pearson-Prentice-Hall, 2007.
CAMPBELL, J. Y.; MANKIW, N. G.; Consumption, income, and interest rates: reinterpre-
ting the time series evidence. NBER Macroeconomics Annual, v. 4, p. 185-216, 1989.
DORNBUSCH, R. Macroeconomia. 8. ed. São Paulo: McGraw-Hill, 2003.
FROYEN, R. Macroeconomia. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 2006.
HALL, R. E. Stochastic implications of the life cycle-permanent income hypothesis: the-
ory and evidence. Journal of Political Economy, Chicago, v. 86, n. 6, p. 971-87, 1978.
ROMER, D. Advanced Macroeconomics. New York: McGraw-Hill, 1996.
SACHS, J.; LARRAIN, F. Macroeconomia: Em uma Economia Global. São Paulo:
Makron Books, 2000.
SOARES, S. Por que agora um livro sobre o consumo das famílias? In: SILVEIRA, F. G.
et al. (org.). Gasto e consumo das famílias brasileiras contemporâneas. Brasília:
Ipea, 2007.

REFERÊNCIAS ON-LINE

1
Em: [Link] Acesso
em: 03 jun. 2019
GABARITO

1. E.
2. C.
O rendimento permanente é igual a 147, 6 (1, 1 / 2, 1 *(100 200 /1,1)).
3. A Família 2 , porque se recebe uma parte maior da renda como juros sobre a
poupança.
4. Se ambos partirem de uma situação semelhante, então, a renda permanente dos
estudantes de Economia seria maior do que daqueles que estudam Educação
Física, porque as perspectivas futuras de renda da primeira são maiores do que
as da segunda.
5. A.
No ano, 1 é de −2 milhões ( 8  10% de 100) . Já no ano 2 , é igual a 5, 2
milhões (  15  10% de 98) .

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