Fundamentos do Processo Licitatório
Fundamentos do Processo Licitatório
CONVÊNIOS
Unidade 1 - Aspectos gerais do
processo licitatório
GINEAD
Unidade 1
Objetivos
• Estudar os conceitos fundamentais dos processos públicos de contratação;
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1.1 Noções introdutórias
Sabemos que o Estado não é autossuficiente na produção dos materiais necessários para
o desempenho de suas atividades cotidianas. Precisa, para isso, de atuação do mercado,
contratando fornecedores, pessoas físicas ou jurídicas, com aptidão para satisfazer às suas
demandas. Sendo assim, inúmeras relações negociais são celebradas tendo por objeto
uma gama mais variada possível: aquisição de gêneros alimentícios, materiais hospitalares,
mobiliário de escritório, construção de rodovias, entre outras.
Individualmente, temos liberdade quando pretendemos adquirir, alienar, locar bens ou,
ainda, contratar a execução de determinada obra ou a prestação de um serviço. O Estado,
diferentemente disso, precisa cumprir uma série de procedimentos formais para garantir
contratos administrativos, tal como determina a Constituição em seu Art. 37, XXI:
Nesse mesmo sentido, a Lei Federal nº 8.666/93, que institui normas para licitações e contratos
da Administração Pública, dispõe em seu Art. 2º:
Desse modo, para firmar contrato com seus fornecedores, em regra, o Estado deve instaurar
previamente uma competição entre os eventuais interessados por meio da licitação pública.
Em algumas situações, pode o caso concreto conformar uma das hipóteses legais de licitação
dispensada, dispensável ou inexigível, autorizando-se o afastamento da licitação com a
consequente contratação direta – conforme artigos 17, 24 e 25 da Lei nº 8.666/93, os quais
serão estudados na Unidade 2.
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GINEAD
Figura 1.1: O Estado comprador
De acordo com Edgar Guimarães (2012), a origem do termo licitação advém da expressão latina
“licitatio”, dos verbos “liceri” ou “licitari”, e corresponde ao ato ou efeito de licitar, oferta de
lances em um leilão ou hasta pública.
Na prática, a licitação é uma competição prévia a um pretendido contrato, sendo praticada por
meio de diferentes modalidades, conforme especificação do art. 22 da Lei nº 8.666/93.
Saiba mais
A licitação pública é o processo utilizado para a aquisição de inúmeros pro-
dutos e serviços pela Administração Pública. Para se ter ideia da magnitude
de recursos financeiros envolvidos, apenas no ano de 2017, a União investiu
mais de 8,1 milhões de reais para a aquisição de material de expediente,
que compreende materiais de escritório, como papel, tinta de impressora,
canetas, entre outros. (Disponível em: <[Link]
acesso-a-informacao/licitacoes-e-contratos/licitacoes/pregao/relatorio-de-
-[Link]>. Acesso em: 10 nov. 2018).
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GINEAD
1.2 Objetivos da licitação
Por muitos anos, a licitação foi definida como um processo negocial instaurado pela Administração
Pública em busca de melhores condições de contratação. No entanto, ela não é mais apenas isso.
A legislação atual agregou à antiga interesses de cunho social. Com as alterações promovidas
pela Lei nº 12.349/ 2010, o art. 3º da Lei nº 8.666/93 passou a dispor como dever da licitação a
garantia do desenvolvimento nacional sustentável, nos seguintes termos:
Já sabemos que a licitação deve ser um bom negócio para o Estado, pois, se causar algum
prejuízo aos cofres públicos, o processo é tido como ilegal. Logo, se o preço ofertado pelos
fornecedores for superior aos praticados no mercado, a proposta deve ser desclassificada
pelo gestor público, conforme determina a Lei nº 8.666/93. O servidor deve obter, pela via
dos procedimentos prévios ao contrato, boas condições de aquisição, pautadas não só na
legalidade, mas também na economicidade.
Veja que a inclusão do desenvolvimento nacional sustentável como uma das finalidades da
contratação pública conecta de forma inteligente as obrigações constitucionais atribuídas ao
Estado na forma de políticas sociais. Desse modo, considerando sua posição de garantidora
de direitos fundamentais, entende-se que sua estrutura para o atendimento das necessidades
internas da máquina estatal deve compreender a sustentabilidade como parâmetro de consumo.
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Figura 1.2: Finalidade sustentável das licitações
Com isso, a Administração Pública, especialmente por meio de seu poder de compra, coloca-se
como interventora no mercado com práticas diferenciadas de consumo, estimulando e criando
políticas que fortaleçam um modelo menos pautado no acúmulo despropositado e que seja
mais racional. Interessa saber que não só o contrato apreende esse objetivo, mas o processo
prévio de escolha do contratante – incluindo-se habilitação, fase de lances, elaboração da
especificação técnica do produto/serviço – revela essa função.
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GINEAD
Tome nota
O Tribunal de Contas da União recomendou um acompanhamento institucio-
nalizado dos entes que compõem a Administração Pública Federal, sugerindo
a mensuração por meio do Índice de Avaliação da Sustentabilidade na Admi-
nistração (IASA). Esse índice é composto pela avaliação de 11 eixos temáticos,
tais como racionalização no uso de energia elétrica e de água, atendimento a
requisitos de acessibilidade, racionalização no uso de papel e implementação
de processo eletrônico, além de adesão a programas de sustentabilidade.
Em 2017, o TCU realizou auditoria e identificou que a Administração Pública
Federal ainda apresenta um grau insuficiente de gestão e de implementação
das ações de promoção da sustentabilidade.
Hoje em dia, o tema das licitações encontra fundamento tanto no plano constitucional quanto
no infraconstitucional.
Âmbito constitucional
Cabe salientar, em especial, dois dispositivos aplicáveis, sendo o primei-
ro relacionado à competência legislativa (Art. 22, inciso XXVII), e o segun-
do, ao dever legal de licitar (Art. 37, caput e inciso XXI).
Pelo Art. 22, tem-se que à União compete legislar, de forma privativa, acerca de normas gerais
de licitação e contratação, cabendo às demais pessoas políticas (Estados-Membros, Municípios,
Distrito Federal), a faculdade de disciplinar aspectos específicos sobre a matéria. Isso é devido
ao disposto pelo Art. 1º da Constituição, o qual dispõe que um dos fundamentos da República
Federativa do Brasil é a soberania, que será exercida exclusivamente pela União Federal.
Os estados e os municípios brasileiros não são dotados de soberania, tendo apenas autonomia;
ou seja, há limites de gestão prefixados pelo ordenamento jurídico. Logo, ainda que ausente a
submissão hierárquica entre os entes federativos, os estados, os municípios e o Distrito Federal
devem, ao criar suas normas específicas, observância às normas gerais expedidas pela União.
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É possível que façam sua complementação, porém limitando-se a disposições pertinentes às
especificidades de seu território.
As normas específicas expedidas pelos Estados e Municípios, como pudemos perceber, não
devem se contrapor aos princípios regedores da licitação – razão pela qual as exigências
mínimas podem ser aumentadas no âmbito estadual e municipal, porém não podem ser
ignoradas ou criadas novas hipóteses de dispensa de licitação, além daquelas enumeradas na
Lei nº 8.666/93.
Para o Direito, tem-se como critério delimitador do conceito a análise dos elementos contidos na
Constituição Federal, da qual podemos concluir como norma geral todas aquelas relacionadas,
por exemplo, à observância dos princípios da Administração Pública, à obrigatoriedade
de contratação mediante processo seletivo prévio (dever legal de licitar), à garantia da
competitividade e da igualdade no certame, dentre outros.
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GINEAD
A necessidade de compreensão e distinção entre as ideias de normas gerais e específicas
é necessária para se fixar o limite da possibilidade que têm os Estados, os Municípios e o
Distrito Federal de, ao legislar sobre tal matéria, fixarem regras diversas das estabelecidas para
a Administração Pública Federal, conferindo uniformidade normativa à Federação e evitando
conflitos internos.
Resumindo, o que entendemos é que há incidência nacional da norma geral, sendo aplicada a
todas as pessoas políticas de quaisquer dos níveis da Federação, transcendendo os limites de
autonomia dos entes políticos.
Isso não ocorre com as Leis Federais, Estaduais ou Municipais, as quais têm seu campo próprio
de incidência, que é o território de sua edição.
Hely Lopes Meirelles (2011) ensina que os estados, os municípios, o Distrito federal e os
territórios, respeitando as normas gerais de cunho nacional, não podem modificar os prazos
mínimos de convocação, de interposição e decisão de recursos, bem como limites máximos de
valor fixados para as modalidades licitatórias. Eles não podem, da mesma forma, ampliar os
casos de dispensa, inexigibilidade e vedação de licitação.
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1.4 Princípios aplicáveis às licitações
O ordenamento jurídico é formado por princípios e regras que, por serem escritas, dizemos
que são “positivas”, ou seja, foram postas em algum documento que as tornou de cumprimento
obrigatório. Os princípios jurídicos são preceitos de ordem genérica que dão unidade e
coerência a um sistema normativo. Nessa linha de raciocínio, os princípios constitucionais, na
lição de Carmen Lúcia Antunes Rocha (1994):
Sendo assim, nenhuma ação administrativa deve estar em contradição com qualquer um dos
princípios norteadores da Administração Pública. Logo, se mais de um caminho se apresentar
ao intérprete, em uma aparente antinomia – conflito de normas – ele deverá buscar, dentre as
diversas soluções possíveis, a que melhor coadune com os princípios jurídicos, devendo rejeitar
as que eventualmente se apresentem como violadoras ou ofensivas. Carlos Ari Sundfeld (1994)
afirma que “[...] na aplicação do Direito, os princípios cumprem duas funções: determinam a
adequada interpretação das regras e permitem a colmatação de suas lacunas”.
Já sabemos que a Constituição Federal estabelece, de forma expressa em seu Art. 37, que
a Administração Pública deve atender aos princípios da legalidade, impessoalidade,
moralidade, publicidade e eficiência. No entanto, há outros princípios importantes que não
estão positivados; contudo, por serem preceitos de superioridade normativa material, devem
ser resguardados. Assim, mesmo os princípios constitucionais implícitos devem ser acatados
pela atividade administrativa.
Dessa forma, percebemos que o Art. 37 da CF/88 não exaure todos os princípios a que
Administração Pública deve se submeter, já que o ordenamento jurídico registra outros que foram
distribuídos – de forma implícita ou explicita – pelo texto constitucional e infraconstitucional,
que também são de obediência obrigatória.
Há princípios que foram dispostos pela Lei nº 8.666/93: em seu Art. 3º,
essa lei impõe a obrigatoriedade de as licitações serem processadas e
julgadas de acordo com os princípios da legalidade, da impessoalidade,
da moralidade, da igualdade, da publicidade, da probidade administrati-
va, da vinculação ao instrumento convocatório e do julgamento objetivo.
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Isso posto, vamos estudar os principais princípios que regem o processo licitatório e a
contratação pública. Salientamos que os princípios têm força normativa e, por isso, disciplinam,
orientam e vinculam a atividade do gestor público.
1.4.1 Legalidade
O princípio da legalidade encontra-se na Constituição Federal em seus artigos 5º, inciso II, e 37,
caput. Obriga o gestor público a atuar em conformidade à lei, vedando-lhe a prática de atos
contrários à norma. Possibilita à Administração atuar apenas por meio de ações autorizadas
ou dispostas pela legislação.
Em decorrência disso, o gestor público deve observância ao que dispõe o ordenamento jurídico,
somente podendo agir quando permitido pela lei, respeitando os limites por ela fixados.
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A legalidade é preceito basilar ao Estado Democrático de Direito, garantindo previsibilidade
às ações desempenhadas pela Administração, facilitando o controle da sociedade. É por isso
que Marcus Vinicius Corrêa Bittencourt (2004) defende que esse princípio representa uma das
maiores garantias do administrado perante o Estado. Trata-se de uma integral subordinação
do Poder Público à previsão legal. Em decorrência disso, entendemos que o governo não pode,
mediante ato administrativo, conceder direitos, estabelecer obrigações ou impor proibições
aos cidadãos.
1.4.2 Impessoalidade
O princípio da impessoalidade também é estabelecido pelo texto constitucional. Entenda que,
ao positivá-lo, o constituinte reiterou que a Administração Pública deve pautar suas ações sem
favoritismos, sem privilégios ou simpatias. Sequer animosidades pessoais, políticas ou ideológicas
podem interferir na atividade administrativa. Isso significa que discriminações ilegítimas pelo
sistema constitucional não podem ser realizadas na gestão do patrimônio público.
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José Afonso da Silva (2012), ao tratar do princípio da impessoalidade, esclarece que os atos
administrativos são imputáveis não ao funcionário que os pratica, mas ao órgão ou à entidade
a que pertence, não havendo personalização do agente, a qual somente ocorrerá para lhe
imputar falta e responsabilizá-lo perante a Administração. Portanto, a responsabilidade do ato
recai sobre o cargo ou o órgão, independentemente de quem o ocupa.
Consideram-se agentes públicos para a aplicação desse princípio não apenas a Administração
Pública contratante, mas também os próprios fornecedores proponentes, que devem agir
de boa-fé e com honestidade, sendo-lhes vedada atuação ardil, malícia ou finalidade escusa,
como conluios para contratação feita a altos preços, acordos para afastar concorrentes, ações
desleais etc. Tratam-se de atos considerados criminosos pelo Art. 87 da Lei de Licitações.
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Figura 1.6: Gestão pública ética
É interessante registrar que a Lei nº 8.666/93 faz referência expressa ao princípio da moralidade
e também da probidade administrativa. Embora eles sejam correlatos, não são propriamente
idênticos. Improbidade significa uma conduta imoral qualificada pela lei dessa forma,
notadamente pelo disposto na Lei nº 8.429/92, que definiu o que seriam atos de improbidade
e que dispõe sobre as sanções aplicáveis aos agentes públicos nos casos de enriquecimento
ilícito. Portanto, para haver improbidade administrativa, deve ocorrer tipificação tratando o
ilícito dessa forma.
Sabendo Vossa Excelência que uma das maiores mazelas que, infelizmente, ainda afli-
gem o País, é a prática desenfreada e impune de atos de corrupção, no trato com os
dinheiros públicos, e que a sua repressão, para ser legítima, depende de procedimento
legal adequado – o devido processo legal – impõe-se criar meios próprios à consecu-
ção daquele objetivo sem, no entanto, suprimir as garantias constitucionais pertinen-
tes, caracterizadoras do Estado de Direito. (Jarbas Passarinho. Ministro da Justiça.
Diário do Congresso Nacional, seção I, p. 14124, ago. 1991 - BRASIL, Exposição de
Motivos n°0388, de 14 de agosto de 1991). (BRASIL, Lei n° 8429/92).
Sendo assim, observe que a Lei nº 8.666/93, ao se referir expressamente aos princípios da
moralidade e da probidade, o faz de maneira proposital. Conforme ensina Maria Sylvia Zanella
Di Pietro (2018), o conceito de probidade é vago e abrange diversos comportamentos não
previstos pelo ordenamento jurídico. Já a improbidade administrativa apresenta contornos
bem definidos pelo direito positivo. Logo, a Lei de Licitações, sem utilizar a palavra improbidade
nos artigos 88 a 99, realiza a sanção de atos ímprobos.
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1.4.4 Segurança jurídica
O princípio da segurança jurídica é de considerável valor no Estado Democrático de Direito,
notadamente por se dispor a garantir que as expectativas geradas por atos do Poder Público
sejam atendidas por meio da manutenção dos efeitos a que se propuseram, não frustrando a
confiança dos cidadãos.
Tal princípio pode ser analisado sob dois ângulos: em natureza objetiva e natureza subjetiva.
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Figura 1.7: Ampla participação depende de previsibilidade e segurança
Para participar de uma licitação, os fornecedores organizam recursos, como tempo e gastos
com a elaboração de projetos, e a segurança jurídica é o instrumento que os protege de uma
eventual ação arbitrária pelo Estado, impedindo a “mudança de ideia” sem o acontecimento de
fatos novos. Nos contratos administrativos, relaciona-se ao brocardo latino pacta sunt servanda,
que significa que “os pactos devem ser respeitados”.
1.4.5 Igualdade
O princípio da igualdade, também conhecido como isonomia, tem fundamento constitucional,
pois a CF/88 estabelece, em seu Art. 5º, que todos são iguais perante a lei.
Para esclarecer como isso ocorre na prática, leia o que diz o acórdão proferido pelo STF na Ação
Direta de Inconstitucionalidade 3070-1:
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AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. ARTIGO 11, § 4º, DA
CONSTITUIÇÃO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE. LICITAÇÃO.
ANÁLISE DE PROPOSTA MAIS VANTAJOSA. CONSIDERAÇÃO DOS
VALORES RELATIVOS AOS IMPOSTOS PAGOS À FAZENDA PÚBLICA
DAQUELE ESTADO. DISCRIMINAÇÃO ARBITRÁRIA. LICITAÇÃO.
ISONOMIA [...]
1. É inconstitucional: o preceito, segundo o qual, na análise de licita-
ções, serão considerados, para averiguação da proposta mais vantajosa,
entre outros itens os valores relativos aos impostos pagos à Fazenda Pú-
blica daquele Estado-membro. Afronta ao princípio da isonomia, igual-
dade entre todos quantos pretendam acesso às contratações da Admi-
nistração [...]
5. [...] (ADI 3070, Relator(a): Min. EROS GRAU, Tribunal Pleno, julgado
em 29/11/2007, DJe-165 DIVULG 18-12-2007 PUBLIC 19-12-2007 DJ 19-
12-2007 PP-00013 EMENT VOL-02304-01 PP-00018 RTJ VOL-00204-03
PP-01123). (BRASIL, STF).
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Um exemplo relacionado às licitações é o tratamento preferencial concedido às microempresas
e empresas de pequeno porte, pela Lei Complementar 123/06, que não é tido como afronta
ao princípio da isonomia; é visto, aliás como forma de concretizá-lo, tal como exposto nos
acórdãos do Tribunal de Constas da União:
Penso, ainda, não ter sido outro o espírito com que o legislador ordinário
promulgou a LC 123/2006, estabelecendo as normas gerais relativas ao
tratamento diferenciado e favorecido a ser dispensado às microempre-
sas e empresas de pequeno porte no âmbito dos Poderes da União, dos
Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e o Executivo baixou o De-
creto 6204/2007, regulamentando o tratamento favorecido, diferencia-
do e simplificado a ser aplicado aos entes em questão nas contratações
públicas no âmbito da Administração Federal. Além do mais, como bem
assentou o representante do parquet, o atendimento ao interesse pú-
blico visado pelo instituto da licitação, lato sensu, compreende não só a
melhor proposta financeira, mas também fomentar a ampliação da ofer-
ta de bens e serviços, inibindo a formação de estruturas anômalas de
mercado. TCU. Acórdão 1231/2008 Plenário (Voto do Ministro Relator).
[...]
Com isso, entendemos que esse princípio não é propriamente uma régua que trata de forma
idêntica todos os sujeitos. Por meio dele, o Direito reconhece que algumas discriminações
são necessárias para se propiciar igual acesso a direitos. Logo, desde que fundamentadas, a
Administração licitadora pode estabelecer certas discriminações, compatibilizando o referido
princípio com o interesse público.
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GINEAD
Ilustração 1.2: Princípio da igualdade
Vedação à
formal discriminação legal.
Art. 5º, caput, CF
Isonomia
Redistribuição de
material poder; justiça social -
Art. 3º, I, III, IV da CF
1.4.6 Publicidade
O dever de publicidade é um mecanismo de controle fundamental à democracia que tem
tornando possível acompanhar as decisões administrativas, bem como o exercício do controle
praticado pelos órgãos competentes e pela própria sociedade. É uma disposição constitucional
expressa, estando o princípio no Art. 37 da CF/88, bem como consignado no caput do artigo
3º da Lei n.º 8.666/93, além de presente em vários dos dispositivos dessa lei, inclusive como
condição de eficácia dos atos praticados na licitação.
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Princípio da publicidade na Constituição
Art. 5º, XXXIII - todos têm direito a receber dos órgãos públicos informa-
ções de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que
serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade, ressal-
vadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade
e do Estado;
b) para a retificação de dados, quando não se prefira fazê-lo por proces-
so sigiloso, judicial ou administrativo;
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Figura 1.8: Gestão pública transparente
A publicidade propicia a todos o conhecimento não só das pretensões do Estado, como também
suas ações e decisões. Além disso, possibilita o direito de recorrer, pois, a partir da data de
publicação, os prazos começam a contar.
Por isso, podemos afirmar que o “edital é a lei interna da licitação”, pois é instrumento que
sujeita o ente público licitante e também todos os fornecedores que pretendam participar da
contratação. Isso está previsto expressamente no artigo 41 da Lei nº 8.666/93, ao afirmar que
“[...] a Administração não pode descumprir as normas e condições do edital, ao qual se acha
estritamente vinculada” (BRASIL, Lei nº 8.666/93).
Carlos Ari Sundfeld (1994) nos ensina que a vinculação ao instrumento convocatório evita
surpresas indesejadas aos fornecedores, como alguma criação de etapas não previstas ou
a estipulação de novos critérios de habilitação ou julgamento destinados a privilegiar algum
licitante. Ainda, torna previsível ao mercado o interesse da Administração, podendo as empresas
cotarem os produtos em consonância ao interesse do contratante.
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[...] o edital é o fundamento de validade dos atos praticados no curso da licitação, na
acepção de que a desconformidade entre o edital e os atos administrativos pratica-
dos no curso da licitação se resolvem pela invalidade destes últimos. Ao descumprir
normas constantes do edital, a Administração Pública frustra a própria razão de ser
da licitação. Viola os princípios norteadores da atividade administrativa, tais como a
legalidade, a moralidade, a isonomia.
Sendo assim, todos os interessados em celebrar contrato com a Administração, bem como ela
mesma, encontram-se jungidos ao instrumento convocatório, sob pena de se ferir as “regras
do jogo”, o que resultaria em nulidades processuais, prejudicando-se a licitação.
A legislação brasileira estabelece o pregão como modalidade preferencial para a maioria dos
contratos firmados pelo Estado. Nessa modalidade, o tipo de licitação é o “menor preço”; por
isso o critério de análise restringe-se ao valor de compra.
De forma residual, há outros tipos de julgamento, como os que incluem a melhor técnica. O
princípio do julgamento objetivo impõe que, mesmo nessas modalidades, inexistirá apreciação
subjetiva, visto que os critérios avaliados devem constar em edital antecipadamente à sua
avaliação, bem como a pontuação atribuída nessa análise metodológica.
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Figura 1.9: Controle social facilita fiscalização
A Constituição Federal possibilita, em seus artigos 37, § 3º e 74, § 2º, o controle social dos atos
da Administração Pública, podendo, inclusive, denunciá-la ao Tribunal de Contas em caso de
constatação de ilegalidades. Na mesma toada, a Lei nº 8.666/93 contém inúmeros dispositivos
que permitam a participação popular, como se observa: no artigo 4º, que traz a possibilidade
do acompanhamento de todo o processo licitatório; nos artigos 7º, § 8º e 63, relacionados à
obtenção de informações; nos artigos 15, § 6º e 41, § 1º, que propiciam a impugnação de preço
e de ato convocatório; no artigo 39, caput, que prevê a audiência pública; e nos artigos 101 e
113, § 1º, que estabelecem a representação ao Ministério Público e ao Tribunal de Contas.
Pelo princípio federativo, tais decretos são de observância obrigatória somente no âmbito federal,
devendo a modalidade pregão ser regulamentada por estados, municípios e Distrito Federal.
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Saiba mais
Na forma eletrônica – que é o método mais moderno e utilizado de pregão –,
o controle dos atos praticados foi expandido, pois há relatórios gerados pelo
site que abriga o certame, estando disponíveis a qualquer cidadão. Há fácil
acesso ao edital, que antes deveria ser obtido pessoalmente nas repartições
públicas. Pela via eletrônica, ele deve estar disponível no sistema com, no
mínimo, 8 dias antecedentes à sessão de abertura de propostas (BRASIL, Lei
nº 10.520/02, art. 4º, V), dinamizando possíveis intervenções, como impug-
nações ou solicitação de esclarecimentos.
Esses mecanismos possibilitam controle difuso, feito por diversos setores da sociedade, o
que ajuda a evitar fraudes nas contratações, desfavorecendo o superfaturamento e possíveis
conluios. A população sabe o que o Poder Público está comprando e acompanha as negociações
e o andamento completo da contratação.
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GINEAD
Figura 1.10: O Estado deve decidir ouvindo igualmente as partes
Sendo assim, deve haver a observância ao princípio da publicidade, como assegurar a ciência do
processo ao interessado, a oportunidade para conferir resposta a eventuais denúncias, produzir
prova de seu direito, acompanhar os atos da instrução e utilizar-se dos recursos cabíveis.
A Lei nº 8.666/93 traz expressamente essa obrigatoriedade nos artigos 49, § 3º e 78, parágrafo
único. Dessa forma, a Administração licitante deverá assegurar meios necessários para que
os interessados exerçam o aludido direito, propiciando, dentre outras coisas, a inafastável
publicidade de seus atos, informando seus motivos determinantes, conferindo vistas dos autos
e, ainda, apresentando prazo razoável para seu exercício.
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1.4.11 Motivação
Pelo princípio da motivação, o gestor público tem a obrigação de justificar de forma escrita as
situações fáticas e jurídicas que dão causa ao atos administrativos praticados.
Os motivos apresentados no ato administrativo vinculam o gestor, como registra a Teoria dos
motivos determinantes; por isso não podem ser alterados ao arbítrio do decisor.
1.4.12 Eficiência
O princípio da eficiência foi inserido sob o contexto da Reforma do Aparelho do Estado, com a
Emenda Constitucional 19/98, a qual deteve como pressuposto a redução do aparelhamento
estatal, com o intuito de buscar um modelo de gestão que melhor atendesse ao interesse
público. Ou seja, pretendida mudança da Administração Pública burocrática para a gerencial.
O conceito desse princípio é complexo, pois a expressão detém inúmeros sentidos, que
variam conforme os autores e as teorias ponderadas. Alguns pesquisadores, como bem
constata Emerson Gabardo (2002), conferem-lhe explicação que em muito confunde eficiência
com economicidade, eficiência com celeridade, ou outros de seus atributos. Isso porque, se
a proposta de positivação da eficiência como princípio constitucional estava intimamente
relacionada ao ideário da transformação estatal em estrutura subsidiária, isso não significa
que, após sua entrada em vigor, sejam esses seus efeitos jurídicos.
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Entendemos isso em virtude de o Direito ser um sistema que deve ser lido e interpretado em
conjunto. Desse modo, o princípio da eficiência deve ter interpretação em consonância com os
demais preceitos constitucionais.
Por meio de sua positivação levada a efeito pela Emenda Constitucional 19/98, potencializou-
se o conteúdo normativo dos demais comandos do ordenamento jurídico – tanto os de
economicidade e celeridade (que não coincidem com o princípio da eficiência, posto que dele
são atributos) quanto os de cumprimento de direitos fundamentais, como defendem Gabardo
e Hachem (2010).
[...] a eficiência é princípio que se soma aos demais princípios impostos à Administra-
ção, não podendo sobrepor-se a nenhum deles, especialmente ao da legalidade, sob
pena de sérios riscos à segurança jurídica e ao próprio Estado de Direito.
Portanto, no exercício da função administrativa, saiba que não basta apenas o agente público
observar a legalidade, a moralidade, mas, sim, buscar resultados positivos em suas ações para
a sociedade.
Sob esse aspecto, o referido princípio impõe, desde logo, uma adequada estruturação
organizacional administrativa e o melhor modo de atuar do gestor da coisa pública, na busca
por benefícios que atendam aos anseios de uma coletividade.
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Síntese
No campo das licitações, entendemos, até aqui, que a Administração Pública licitadora, por
força de seu comando, deve agir de forma rápida, eficaz e objetivar, com o processo licitatório,
a obtenção de bens, serviços e comodidades para atender à população, não podendo, , em
decorrência de uma concepção equivocada, valer-se de seus princípios para suprimir direitos
fundamentais, por exemplo: suprimir a ampla defesa em decorrência de uma celeridade
despropositada.
Por sua vez, entendemos que os agentes gestores do patrimônio público devem apresentar
uma conduta com base em ações moralmente corretas, éticas, com lealdade, boa-fé, eficiência,
revelando-se, em todos os sentidos, bons administradores.
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Referências
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GINEAD
GUIMARAES, E. Diligências nas licitações das entidades do sistema ‘s’. JAM
Jurídica (Salvador), v. 10, p. 09-14, 2012.
MOTTA, C. P. C. Eficácia nas licitações e contratos. 12. ed. Belo Horizonte: Del
Rei, 2011.
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GINEAD