Johanna Döbereiner,
CNPAB/EMBRAPA, SEROPÉDICA, RJ.
A IMPORTÂNCIA DA FIXAÇÃO
BIOLÓGICA DE NITROGÊNIO PARA
A AGRICULTURA SUSTENTÁVEL
elemento mais importante ções elevadas. as, duas espécies de Herbaspirillum e
O para elevadas produções
na agricultura tropical é o
nitrogênio, que forma 80%
da atmosfera na forma
gasosa de N2, mas que as plantas não
conseguem utilizar. Somente certas
bactérias, chamadas diazotróficas ou
A extensão da FBN para plantas
não leguminosas, principalmente
gramíneas e cereais, se tornou um dos
maiores desafios dos últimos 20 anos.
Inicialmente, pensava-se que havia
somente bactérias diazotróficas na
rizosfera, já que certas gramíneas
uma de Acetobacter denominadas A.
diazotrophicus, fixam N2 no interior
da planta e não são capazes de
sobreviver no solo por muito tempo.
Sua transferência se dá nos toletes ou
sementes de uma planta para outra. As
três espécies excretam metade do
fixadoras de N2 (FBN), são capazes de como a grama batatais (Paspalum nitrogênio, que elas fixam para a
transformar o N2 da atmosfera em notatum) crescem bem em solos planta que o assimila, diretamente e
NH3, ou aminoácidos, que as plantas ácidos, sem adubo nitrogenado. Na sem competição com outros microrga-
podem usar. Este processo é conheci- rizosfera desta gramínea, foi encontra- nismos do solo. A comprovação de
do desde o início do século na da a primeira bactéria nova no Brasil, contribuições da FBN substanciais foi
simbiose das leguminosas, que são que se associa especificamente a este feita pelo uso de 15N, em quantidades
infectadas por bactérias do gênero gênero (Döbereiner, 1966). Nos anos pequenas, aplicadas no solo e que são
Rhizobium ou Azorhizobium, em seguintes, foram isoladas de cana-de- diluídas nos casos que há fixação de
simbiose com a planta. São visualmen- açúcar e cereais como milho, arroz e N2. Com esta metodologia, Boddey &
te observadas pela presença dos sorgo três novas espécies de Döbereiner (1988) e Boddey et al.
nódulos nas raízes, ou, em certos Azospirillum que não somente coloni- (1991) comprovaram contribuições da
casos, também no colmo. Sua colora- zam a rizosfera, como também contêm FBN ao arroz e a gramíneas
ção interna ativa é avermelhada, pois certas estirpes que são capazes de forrageiras. Os maiores benefícios da
apresentam estruturas específicas infectar a planta, e, assim, fornecer o FBN foram demonstrados para varieda-
contendo leghemoglobina, que supre nitrogênio de forma mais eficiente des brasileiras de cana-de-açúcar, que
as bactérias com baixas concentrações (Baldani & Döbereiner, 1980). foram selecionadas com níveis de
de O2 para a geração de ATP, neces- Nos últimos anos, foram ainda adubação nitrogenada, muito abaixo
sário ao processo de fixação de N2, descobertas mais três novas espécies das necessidades da planta (Lima et
mas que, em concentrações mais de bactérias diazotróficas que são al., 1987). Estudos adicionais com 15N,
elevadas, inativa a enzima nitrogenase. endófitas obrigatórias, isto é, coloni- confirmados com balanços de N, num
Há um grande número de zam raízes, colmos e folhas de cana- grande tanque, contendo solo muito
leguminosas nos trópicos com impor- de-açúcar, cereais e gramíneas pobre adubado com fósforo, potássio
tância ecológica e na produção de forrageiras em números de até 106 e micronutrientes, confirmaram que
alimentos, como a soja. Esta planta foi células por grama de planta seca certas variedades de cana podem obter
introduzida no Brasil nos anos 60, e (Döbereiner et al., 1993). Estas bactéri- produções de até 200 toneladas/ha,
vem sendo feita a seleção e adaptação Quadro 1. Contribuição da FBN em variedades de cana-de-açúcar, estimada pela
das variedades importadas aos solos diluição de 15N e pelo balanço de N na planta e no solo (urquiaga [Link]., 1992).
locais sem nenhuma aplicação de
adubos nitrogenados. Com isto, a
produção de soja no Brasil obtém do
ar todo o nitrogênio necessário para
altas produções, enquanto que nos
EUA e outros países produtores deste
vegetal aplicam-se doses relativamente
baixas, porém constantes, na soja. Esta
tecnologia tornou o Brasil o segundo
produtor de soja no mundo, represen-
tando hoje um dos maiores produtos
de exportação do país.
Além da soja, outras leguminosas
como feijão e leguminosas forrageiras
e de reflorestamento (Franco et al.,
1995) têm as mesmas características,
mesmo que nem sempre consigam
obter nitrogênio suficiente da simbiose
para suprir as necessidades de produ-
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sem nenhuma adubação nitrogenada
(Urquiaga et. al., 1992), conforme
demonstrado no quadro 1.
A descoberta das bactérias
endófitas, principalmente de
Acetobacter diazotrophicus, pode
explicar melhor estas elevadas contri-
buições da FBN em certas variedades
selecionadas para isto.
Os dados do quadro 1 mostram as
grandes diferenças entre genótipos, ou
variedades de cana que são a chave
para elevadas contribuições da FBN.
Enquanto somente pensava-se em
bactérias na rizosfera, foi difícil
entender contribuições tão elevadas, e
principalmente as grandes diferenças
entre variedades. A descoberta das
bactérias endófitas, que colonizam
todo o vegetal, podem explicar estes
resultados de forma mais completa,
devido a uma associação mais eficien-
te.
Mesmo que os efeitos das bactéri-
as diazotróficas sejam menos efetivos
em cereais, nas variedades brasileiras,
se plantadas com baixos níveis de
adubo nitrogenado e elevadas doses
de fósforo e micronutrientes, obser-
vam-se efeitos significativos das
bactérias na produtividade do milho,
arroz, sorgo e trigo (Garcia de
Salomone, 1993; Baldani et al., 1983;
Baldani et al., 1981; Koyama e App,
1979). Com isto abriu-se um caminho
para uma agricultura mais econômica,
e, principalmente, mais ecológica, já
que estas bactérias nunca fixam mais
N2 do que as plantas precisam. A
disponibilidade de N para as bactérias
inativa imediatamente a FBN, e as
bactérias utilizam o N mineral em vez
de fixar o da atmosfera. Assim o
Brasil, inconscientemente, tornou-se o
menor usuário de adubos
nitrogenados no mundo, com uso em
média de [Link]-1, enquanto os
países tropicais no Oriente, como a
Índia, seguindo a chamada revolução
verde, usam dez vezes mais N por ha,
mas produzem pouco mais cereais que
o Brasil.
BIBLIOGRAFIA
Baldani, V.L.D. e Döbereiner, J.
1980. Host plant specificity in the
ascida em 1924, na Tchecoslováquia, Johanna Döbereiner
infection of cereals with Azospirillum
spp. Soil Biol. Biochem. 12:433-439
Baldani, J.I.; Pereira, P.A.A.;
Rocha, R.E.M & Döbereiner J.1981.
Especificidade na infecção de raízes
N chegou em 1950 ao Brasil, mais tarde naturalizando-se brasilei-
ra. Formada em agronomia pela Universidade de Munique, tem
mais de 300 trabalhos publicados ganhando 12 prêmios impor-
tantes. Reconhecida internacionalmente nos meios científicos, ocupa um lugar
por Azospirillum spp. em plantas com na Academia de Ciências do Vaticano, sendo, inclusive, indicada para
via fotossintética C3 e C4. receber o Prêmio Nobel de Química. Entre as várias pesquisas realizadas,
Baldani, V.L.D.; Baldani, J.I & descobriu que as bactérias do gênero Rhizobium retiram o nitrogênio do ar e o
Döbereiner, J., 1983. Effects of transferem para a planta, que, por sua vez, usa esse nitrogênio como nutriente,
Azospirillum inoculation on root fazendo com que cresça rapidamente. Com isso, a utilização de nutrientes
infection and nitrogen incorporation in químicos passa a ser dispensável, economizando bilhões de dólares.
wheat. Can. J. Microbiol. 29:924-929
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