ABC dos povos indígenas no Brasil
Marina Kahn
Ilustrações Apo Fousek
Nível leitor A partir de 8 anos
Anos escolares 3º e 4º
Temas abordados Pluralidade cultural / Culturas indígenas
GUIA DE LEITURA
PARA O PROFESSOR
2ª edição
48 páginas
A autora Marina Kahn nasceu em São
Paulo em 1957. Estudou Ciências Sociais e
trabalhou na Funai por mais de uma década.
Morou no território dos Ticuna, no alto rio
Solimões e, depois, no Parque do Xingu.
Hoje, afastada do cotidiano das aldeias,
presta assessoria a associações indígenas e
instituições não indígenas em interação.
O ilustrador Apo Fousek nasceu em
São Paulo em 1974. É artista plástico
multimídia com formação em Design
Gráfico. Busca explorar em seu trabalho a
relação dos seres humanos com a natureza,
a ética com os animais e as práticas de
consumo consciente, bem como alternativas
de vida por meio das subculturas.
ABC dos povos indígenas Marina Kahn
no Brasil
RELEVÂNCIA DO TEMA
“TUPI OR NOT TUPI, THAT IS
THE QUESTION”
Refletir sobre a identidade indígena brasileira é também refle-
Trata-se de uma referência direta
a uma das mais famosas frases da tir sobre a conquista do território e o genocídio dessas popula-
literatura mundial: “To be or not to be, ções ao longo da história do Brasil. Na frase do escritor moder-
that is the question” (Ser ou não ser, nista Oswald de Andrade (1890-1954) “Tupi or not tupi, that is
eis a questão), presente em A tragédia the question” (Tupi ou não tupi, eis a questão), mais que irreve-
de Hamlet, o príncipe da Dinamarca, rência há uma menção sobre o ser indígena em uma terra que já
do dramaturgo inglês William
foi povoada apenas por eles.
Shakespeare (1564-1616).
A Constituição brasileira de 1988, redigida após o regime
A frase de Oswald de Andrade, por sua militar, rompeu com as legislações anteriores, em que o Estado
vez, foi escrita séculos depois, fazendo
adotava uma atitude assistencialista diante dessas populações, e
parte do Manifesto Antropofágico,
passou a obrigá-lo a assumir uma postura afirmativa da diversi-
publicado originalmente na Revista
de Antropofagia, em maio de 1928.
dade cultural e do reconhecimento da identidade indígena. Nela,
O Manifesto tornou-se a voz do o índio é considerado não apenas o primeiro e natural dono da
movimento antropofágico, uma das terra, mas também cidadão, cujos direitos são assegurados por
vertentes do Modernismo brasileiro, lei. Assim como o restante dos brasileiros, ele deve ter acesso à
que criticava a dependência cultural educação, à saúde, à habitação e à segurança.
do Brasil em relação aos modelos Ainda hoje, porém, muitos grupos indígenas continuam mar-
europeus e aspirava a uma cultura
ginalizados, sofrendo ataques e perdendo o direito sobre terras
puramente brasileira, formada por
demarcadas pelo Estado. O avanço da fronteira agrícola em dire-
elementos de origem africana,
indígena e latina. ção à floresta amazônica, a exploração de jazidas de minério em
várias partes da região Norte do país e a construção da hidrelé-
trica de Belo Monte, na bacia do rio Xingu, localizada no estado
do Pará, são exemplos de investidas econômicas que colocam em
risco milhares de povos.
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ABC dos povos indígenas Marina Kahn
no Brasil
A hidrelétrica de Belo Monte afetará a biodiversidade local,
TERRAS INDÍGENAS provocando o desaparecimento de espécies nativas e dificultando
O artigo 231, § 2º, da Constituição a pesca nas aldeias situadas na Terra indígena do Xingu (TIX),
Federal estabelece que as terras indígenas no Mato Grosso. As discussões em torno da demarcação da Terra
são as habitadas pelos índios “em indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, é outro exemplo do
caráter permanente, as utilizadas
confronto entre interesses econômicos e sobrevivência dos ín-
para suas atividades produtivas, as
imprescindíveis à preservação dos
dios. Fazendeiros do arroz reivindicam o direito de exploração
recursos ambientais necessários a da terra, delimitada no início dos anos 1990 e em posse dos ín-
seu bem-estar e as necessárias a sua dios desde 1998.
reprodução física e cultural, segundo O aprimoramento nas formas de identificação dos indígenas
seus usos, costumes e tradições”. pelos censos e a ampliação de programas de saúde podem ser os
Dessa maneira, o Estado é obrigado responsáveis, entre outros, pelo aumento gradativo da popula-
a delimitar toda área habitada por ção indígena nas últimas décadas, especialmente de 2000 para cá.
comunidades indígenas, estabelecendo Segundo o censo de 2010, há no Brasil mais de 800 mil índios,
a homologação e a demarcação da terra, divididos em 238 povos.
assegurando a proteção dos limites do
território e da integridade dos habitantes.
A primeira Terra indígena do Brasil
foi a do Xingu (TIX), decretada pelo
presidente Jânio Quadros (1917-1992)
em 1961. A demarcação e o contato
com os grupos indígenas da região foram
feitos pelos irmãos Villas Bôas: Orlando
(1914-2002), Cláudio (1916-1998)
e Leonardo (1918-1961). Localizada
no norte do Mato Grosso, é cortada
pelos principais afluentes do rio Xingu
e dividida em Alto, Médio e Baixo
Xingu, abrigando pouco mais de 6 mil
indígenas pertencentes a 16 etnias. É a
maior do país, seguida da Terra indígena
Raposa Serra do Sol, onde vivem 19 mil
indivíduos pertencentes a cinco etnias.
Atualmente, existem no Brasil 670 terras
indígenas, ocupando cerca de 13,2% do
território nacional. A maior parte delas,
contudo, concentra-se na Amazônia
Legal: são 409 apenas nessa área. As
demais distribuem-se entre as regiões
Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul,
estando presentes em praticamente
todos os estados, com exceção do Rio
Grande do Norte e do Piauí.
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ABC dos povos indígenas Marina Kahn
no Brasil
UM POUCO DE HISTÓRIA
Vestígios arqueológicos apontam que os indígenas brasileiros
descendem de povos originários da Ásia, que migraram do norte
do continente americano, pelo istmo do Panamá, e ocuparam a
América do Sul há cerca de 10 mil anos.
Quando os europeus chegaram ao território que hoje compre-
ende o Brasil, depararam com uma população bastante heterogê-
nea, formada por diferentes etnias, vivendo em aldeias ao longo
da costa e na bacia do rio Paraná. Entre esses povos destacavam-se
dois, os Tupinambá e os Guarani, que, juntos, somavam mais de
2 milhões de indivíduos. Esses números não são exatos, haven-
do divergências de fontes confiáveis a respeito deles. Por exem-
plo, Florestan Fernandes (1920-1995) [A investigação etnológica no
Brasil e outros ensaios. São Paulo: Global, 2009] e Darcy Ribeiro
(1922-1997) [O povo brasileiro: evolução e sentido do Brasil. São
Paulo: Companhia das Letras, 1995] afirmam que, no século XVI,
a população indígena era estimada em cerca de 2 milhões. Já a
Fundação Nacional do Índio (Funai) calcula aproximadamente
10 milhões de índios no período das Grandes Navegações.
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ABC dos povos indígenas Marina Kahn
no Brasil
Os Tupinambá constituíam a maioria deles e estavam por toda
parte, do norte ao sul das terras ocupadas e exploradas pelos por-
tugueses, enquanto os Guarani concentravam-se na porção cen-
tro-meridional. Esses dois povos faziam roçado, pescavam, caça-
vam e domesticavam plantas selvagens, como a mandioca (p. 24).
Eram bons agricultores, plantando milho, batata-doce, cará, taba-
co, amendoim, abóbora, urucum (p. 37), vários tipos de cabaça,
erva-mate, que é matéria-prima do tererê (p. 35) etc. Contavam
ainda com a generosidade da terra tropical, que fornecia abun-
dante variedade de frutas o ano todo. Desenvolveram ferramentas
para os trabalhos de subsistência, como o arco, a flecha e o tacape
de pedra; objetos de uso cotidiano, como as cuias; e a técnica de
queimada, destinada à calcinação dos solos para plantio.
Ao contrário do que se pensa, esses povos resistiram à con-
quista, lutando bravamente contra os colonizadores. A história
que conhecemos foi escrita por cronistas e missionários jesuítas
a serviço da Coroa portuguesa. Uma pena que o encontro desses
dois mundos (o do branco europeu e o do indígena) só tenha
uma versão. Acabamos privados de conhecer os relatos de co-
ragem e bravura dos povos Tupi e Guarani, cujas culturas são
tradicionalmente transmitidas pela oralidade.
No período de colonização, muitas etnias foram exterminadas
nos conflitos diretos com colonizadores, que portavam armas de
fogo, ou por doenças trazidas por eles, como o sarampo e a gripe.
Aspectos geográficos e históricos
Com a chegada dos europeus, muitos povos migraram para o
interior do país, buscando se isolar do colonizador e dos grupos
indígenas inimigos.
As divisões territoriais efetuadas pelas metrópoles europeias
e depois pelos Estados nacionais latino-americanos, surgidos no
século XIX, não respeitaram a territorialidade indígena. Ainda
hoje, muitos grupos estão situados em zonas fronteiriças, viven-
do em mais de um país. Os Ashaninka, por exemplo, estendem-
-se do Alto Juruá, território amazônico no Brasil, até a cordilhei-
ra andina no Peru. Os Wajãpi (p. 41) dividem-se entre o Amapá,
território brasileiro, e a Guiana Francesa.
No Brasil, em geral, o movimento migratório desses povos
está atrelado aos projetos de desenvolvimento econômico. À me-
dida que as fronteiras foram se expandindo para o oeste e norte
do país, a população indígena foi se refugiando em terras cada
vez mais inóspitas, como o interior da floresta amazônica.
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ABC dos povos indígenas Marina Kahn
no Brasil
AS LÍNGUAS FALADAS
Quando os europeus aportaram no Brasil, os Tupinambá for-
mavam o maior grupo indígena e estavam distribuídos em di-
versas aldeias ao longo da costa. Rapidamente os jesuítas institu-
cionalizaram o tupi, idioma falado por eles, como a língua geral
(p. 23) dos povos nativos e passaram a utilizá-la na catequização.
No entanto, fora da faixa litorânea, estima-se que havia mais de
mil línguas indígenas de norte a sul do país.
Aos poucos, o tupi passou a ser usado por quase toda a colô-
nia, o que levou o Marquês de Pombal a proibi-lo em 1758, para
preservar a língua portuguesa. Assim, ele foi extinto, mas deu
origem a dois dialetos: língua geral (ou nheengatu) e língua geral
paulista (falada principalmente pelos bandeirantes).
Além do tupi, muitas das línguas indígenas faladas na época
da colonização se extinguiram com seus povos, restando hoje,
segundo o censo de 2010, pouco mais de 270 delas, divididas
em dois troncos: o tupi e o macro-jê. O fato de as línguas per-
tencerem ao mesmo tronco não significa que etnias distintas
consigam se compreender. Mesmo em diálogos muito simples,
sobre coisas cotidianas, as diferenças linguísticas são muitas.
Nas escolas das aldeias, as aulas são dadas por professores in-
dígenas e as crianças têm educação bilíngue: estudam o portu-
Glossário guês e sua língua nativa.
Antropólogos e linguistas vêm desenvolvendo projetos de or-
ALFABETO FONÉTICO
tografia dessas línguas. Para isso, usam o alfabeto fonético in-
Sistema de símbolos que representa,
com base no alfabeto latino, os sons
ternacional e trabalham em parceria com seus falantes. O novo
dos idiomas falados. Essa padronização Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa incorporou ao nosso
auxilia, por exemplo, o estudo de alfabeto três letras importantes para a grafia das línguas indíge-
línguas estrangeiras. nas brasileiras: k, w e y, antes usadas apenas em casos especiais
(estrangeirismos, por exemplo).
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no Brasil
HÁBITOS E COSTUMES
Os povos indígenas têm uma relação estreita com a natureza.
Suas rotinas são orientadas pela observação dos fenômenos na-
turais e pela movimentação dos astros. Praticam a caça e a pesca
apenas para a alimentação, nunca para o comércio ou como es-
porte, e, tradicionalmente, não criam animais para abate.
O peixe e a mandioca são a base da alimentação da maioria
dos povos. A mandioca, nativa do Brasil, serve de matéria-prima
para o beiju (p. 8). Algumas etnias, como as do Alto Xingu, tam-
bém a utilizam no preparo de uma espécie de mingau.
Em geral, as habitações são coletivas, dispostas lado a lado,
em círculo. É na vida em comunidade, por meio dos rituais
e das narrativas mitológicas, que os adultos transmitem aos
mais jovens as tradições, os saberes e a história de seus povos.
A huka-huka (p. 18), por exemplo, é uma habilidade transmi-
tida de geração a geração. Dificilmente um jovem aprenderá a
disputa praticando-a sozinho, sem alguém, como o pai, o avô
ou um irmão mais velho, que compartilhe a experiência com
ele. Em geral, os guerreiros indígenas vêm de famílias que se-
guem essa tradição.
Os homens pescam, caçam, cuidam das roças e geralmente
são os responsáveis pelo comércio do artesanato com os caraíbas
(homens brancos), saindo da aldeia com frequência para visitar
os grandes centros e feiras, nos quais vendem cestos, cuias, cola-
res, cerâmicas e todo tipo de arte. As mulheres cuidam das casas
e dos filhos, preparam os alimentos, cultivam roças e produzem
artesanato para uso da família e comercialização. As crianças vão
à escola e brincam.
ABC dos povos indígenas Marina Kahn
no Brasil
Na infância, os indígenas começam a ter os primeiros con-
tatos com os saberes tradicionais de seu povo, observando o
comportamento dos adultos e ouvindo as narrativas mitológi-
cas sobre a origem do mundo, dos seres humanos e do contato
com o homem branco. Os jovens ajudam os adultos a cuidar
das crianças e da aldeia. Na reclusão (p. 31), aprofundam os co-
nhecimentos sobre seu povo, a natureza e as relações humanas.
Nesse período, o caráter é moldado e o corpo preparado para
a vida adulta.
É cada vez mais frequente o interesse dos jovens indígenas
pelos acontecimentos exteriores à aldeia e a sua cultura. Muitos
têm buscado experiências de estudo em cidades e estados dis-
tintos dos seus, além de manifestar o desejo de viajar e conhecer
idiomas estrangeiros. Contudo, não perdem a identidade indíge-
na e, normalmente, depois de completarem os estudos, retornam
à aldeia, assumindo responsabilidades e funções importantes na
dinâmica social do grupo – por exemplo, como professores ou
agentes de saúde.
MANIFESTAÇÕES ARTÍSTICAS
E CULTURAIS
Na cultura ocidental, as manifestações artísticas funcionam
como expressão estética e comunicativa. Entre os indígenas brasi-
leiros, porém, elas estão mais atreladas ao cotidiano e aos rituais.
Os artefatos e adornos são confeccionados com plumas, pa-
lhas, madeira, sementes e todo tipo de material encontrado na
natureza. Os corpos são enfeitados com tintas feitas de jenipapo
(p. 21) e urucum (p. 37). O sistema de grafismos corporais do
povo Wajãpi (p. 41) foi o primeiro a ser reconhecido pelo Insti-
tuto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como
bem imaterial.
Recentemente, indígenas de várias partes do Brasil passaram
a realizar registros audiovisuais de suas manifestações artísticas
e culturais. Tendo em vista que suas culturas são essencialmente
orais, essas produções têm o sentido de transmissão e preserva-
ção do conhecimento. No caso específico dos cineastas indígenas,
os vídeos são voltados para o público em geral, muitos dos quais
participaram de mostras e competições nacionais e estrangeiras,
conquistando prêmios e permitindo aos índios compartilhar
suas experiências de forma mais ampla.
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ABC dos povos indígenas Marina Kahn
no Brasil
COMO TRABALHAR O LIVRO EM
SALA DE AULA
Explore com os alunos três questões fundamentais para a dis-
PLURALIDADE CULTURAL, cussão do ABC dos povos indígenas no Brasil: pluralidade cultu-
ALTERIDADE E IDENTIDADE ral, alteridade e identidade. Ao trabalhar esses temas com eles,
O Brasil é formado por diferentes você terá a oportunidade de incentivá-los a valorizar a diversida-
povos vindos dos mais diversos lugares. de étnica e cultural do povo brasileiro, identificando e reconhe-
Quando os portugueses aportaram em
cendo sua história e experiência pessoal. Afinal, admitir a diver-
nossas terras, o território era ocupado
sidade não significa suprimir a própria história, e sim reconhecer
por uma variedade enorme de grupos
a diferença. Veja algumas propostas de atividade nessa linha:
indígenas. Já nos primeiros anos da
ocupação portuguesa, franceses, 1. Comece explicando para a turma o que é um abecedário
holandeses e espanhóis também como o ABC dos povos indígenas no Brasil. É importante que
fundaram ou tentaram fundar os alunos tenham claro que os elementos culturais forma-
colônias por aqui. dores desse ABC não pertencem todos a uma única etnia,
Para o funcionamento da empresa mas a várias delas, situadas em diferentes regiões do país.
colonial, os portugueses trouxeram Relacione o verbete à ilustração e deixe espaço para que eles
cativos de várias regiões da África, falem e ouçam os colegas. É importante ressaltar as opiniões
pertencentes a distintas etnias. Com
divergentes ou consensuais sobre determinados elementos,
a abolição da escravatura, imigrantes
porém faça a mediação apenas quando for necessária.
começaram a chegar para trabalhar
nas fazendas de café e nas indústrias;
os primeiros foram os italianos e os
Na fase escolar, aprendemos uma série
japoneses.
de habilidades, como ler, escrever e
A heterogeneidade étnica contribuiu expor nossos pontos de vista. Também
para a formação da cultura e do povo conhecemos muitas pessoas. Todas essas
brasileiros. Nós compartilhamos experiências influenciam nosso caráter e
uma história, um idioma e uma nossa história. Nós nos transformamos,
nacionalidade. Porém, no campo da mudamos, e mesmo assim não esquecemos
diversidade humana, não somos todos nossas origens e o que vivemos em família.
iguais. Além de uma história pátria
Morando em aldeias como seus
comum, cada um de nós carrega
antepassados, os indígenas assumem
a própria, da qual fazem parte as
uma identidade e legitimam sua história.
experiências individuais e outras
Quando saem de suas terras para
vividas coletivamente.
comercializar o artesanato, por exemplo,
Dessa maneira, nenhuma cultura é é natural que incorporem hábitos e
estática. Nenhum indivíduo permanece costumes da sociedade ocidental.
o mesmo ao longo da vida. Desde No entanto, essa relação não
o momento em que nascemos até implica perdas necessariamente,
atingirmos a idade escolar, vivemos mas pode fomentar a troca
em um grupo social bastante restrito, cultural, a possibilidade
com nossos pais, irmãos, avós, tios, de reconhecimento da
primos, vizinhos e alguns amigos. identidade e da diferença.
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ABC dos povos indígenas Marina Kahn
no Brasil
2. Divida os alunos em pequenos grupos e proponha que fa-
çam uma pesquisa em jornais e revistas levantando foto-
grafias de indígenas ou de possíveis descendentes. Depois,
reúna a turma em círculo a fim de analisá-las. Deixe que os
alunos expressem suas opiniões à vontade.
Muito provavelmente as fotos de indígenas selecionadas
pelos alunos serão de indivíduos ornamentados com pe-
nas e pinturas corporais, e as de descendentes, de indiví-
duos portadores de traços indígenas. Esse é o gancho para
a desconstrução de tal imaginário, com informações sobre
a história e as culturas indígenas, tendo como eixo a diver-
sidade dos povos. É importante que os alunos compreen-
dam que os indígenas podem viver tanto em aldeias quan-
to em cidades, bem como usar vestimentas feitas de penas
ou roupas industrializadas. Não são apenas os elementos
externos que legitimam a identidade. Essa é formada, prin-
cipalmente, pelos hábitos culturais e por variantes subje-
tivas. Por exemplo, algumas pessoas que descendem de
indígenas nunca viveram em aldeias e mesmo assim consi-
deram-se indígenas. É o caso do autor Daniel Munduruku,
descendente da etnia Munduruku, mas nascido na cidade
de Belém do Pará. Ele reconheceu-se indígena e o trabalho
que desenvolve tem por objetivo a preservação e a divulga-
ção da cultura de seu povo.
3. É interessante propor aos alunos que identifiquem elemen-
tos de origem indígena em nossa cultura. O beiju (p. 8) e
o guaraná (p. 17) são dois exemplos a explorar em sala
de aula. O beiju é um alimento presente na refeição dos
brasileiros nas áreas urbanas e, sobretudo, nas rurais. O
guaraná, usado tradicionalmente pelos povos indígenas,
tornou-se uma bebida industrializada, conhecida fora do
Brasil como o refrigerante típico do país.
Portanto, solicite aos alunos, como tarefa de casa, que
construam um painel com recortes representativos dos
hábitos alimentares, objetos de uso cotidiano e costumes
tradicionalmente indígenas que foram incorporados à cul-
tura brasileira. Espera-se que eles escolham alimentos pre-
parados com mandioca (farinha, beiju, tapioca, mandioca
cozida ou assada) e objetos como rede, esteira, peças de ce-
râmica, peteca, cestos e bolsas de palha, enfeites e adornos
de plumas usados no Carnaval, canoa etc.
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ABC dos povos indígenas Marina Kahn
no Brasil
Convide-os a construir um mural-varal na sala de aula, ex-
INDÍGENAS E GRÉCIA ANTIGA? pondo os painéis.
Como ocorre com as populações 4. Vale também promover a contrapartida da análise, res-
indígenas brasileiras, a Grécia antiga era saltando a presença de elementos da cultura ocidental na
formada por diferentes povos: ateniense, indígena. Um bom exemplo é a Olimpíada dos Povos Indí-
espartano, eólio, dório, jônio e arcádio, genas, mencionada no verbete “corrida de tora” (p. 9), cuja
por exemplo. Embora compartilhassem última edição ocorreu na ilha fluvial Porto Real, localizada
o idioma e alguns hábitos e costumes, no município de Porto Nacional, no Tocantins.
esses povos nunca formaram uma
Evidencie a similitude entre a relação dos povos gregos,
unidade política e habitaram diferentes
regiões ao redor do mar Mediterrâneo.
na Antiguidade, com os povos indígenas brasileiros de
Como as sociedades indígenas, hoje. Para isso, apresente fotografias atuais da região na
desenvolveram narrativas mitológicas, qual situava-se Olímpia e confronte-as com as de aldeias
que podem ser apreciadas nas indígenas.
esculturas, nos objetos de uso cotidiano, Os Jogos Olímpicos têm início com a chama da tocha; a
nos altos-relevos e nos gêneros Olimpíada dos Povos Indígenas, por sua vez, com o ritual
literários, como cânticos e poemas. Na da fogueira. Se possível, exiba para a turma vídeos desses
região de Olímpia, área envolta pela dois acontecimentos.
natureza mediterrânica, criaram os Jogos A fim de auxiliar os alunos na análise das imagens, solicite
Olímpicos, reunindo competições de que eles descrevam o que veem. Pergunte sobre as persona-
atletismo e lutas de força. gens, as paisagens, os elementos semelhantes e os diferentes.
Para saber mais: 5. Para finalizar o trabalho sobre trocas culturais, discuta
Olímpia: [Link] como costumes comuns operam na cultura indígena e na
Ficheiro:[Link] nossa. Por exemplo: ritos de passagem, cerimônias religio-
sas e festividades. Você pode destacar os verbetes “festa”
Templo de Hera em Olímpia:
(p. 15) e “Kuarup” (p. 22). Converse com os alunos sobre as
[Link]
festas de que eles participaram e pergunte se já ajudaram a
of_Hera,_Olympia (em inglês)
organizar alguma. Será uma boa oportunidade para a tur-
Jogos Olímpicos na Antiguidade: ma compartilhar experiências individuais e coletivas.
[Link]
6. As imagens dialogam diretamente com os verbetes; por-
olympic-games (em inglês)
tanto, reserve um tempo da aula para observá-las.
[Link]
primaryhistory/ancient_greeks/the_ Os desenhos buscam ilustrar diferentes situações. Por
olympic_games (em inglês) exemplo, a dupla de páginas do verbete “esteira” (p. 12-13)
mostra variados empregos para o traçado da palha: na
Vídeo do acendimento da tocha
casa, na esteira de dormir, na esteira onde se deposita o
olímpica: [Link]
peixe, nos cestos para armazenamento e transporte de ali-
Olimpíada dos Povos Indígenas: mentos e no cesto para carregar o bebê.
[Link]
Povos_Ind%C3%ADgenas
[Link] Vídeo do ritual da fogueira na
acendimento-da-chama-dos-jogos-dos- Olimpíada dos Povos Indígenas:
povos-indigenas-acontece-nesta-sexta [Link]
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ABC dos povos indígenas Marina Kahn
no Brasil
No verbete “huka-huka” (p. 18), o ilustrador sobrepõe
uma característica singular dos povos indígenas, que é a
organização circular da aldeia, com as casas dispostas lado
a lado, e o fundo sugere o disco de tronco de uma árvore,
no qual é possível ver os anéis que indicam a idade dela.
No verbete “reclusão” (p. 31), um garoto solitário está pen-
sando. O interessante dessa imagem é que, embora o perío-
do de reclusão seja o que o jovem fica mais tempo sozinho, é
também o momento no qual boa parte da aldeia está dedica-
da a ele. Os familiares mais velhos o visitam para transmitir as
tradições e os parentes auxiliam nos preparativos para a festa
que findará essa etapa e será compartilhada com toda a aldeia.
Agora que seus alunos já conhecem um pouco mais sobre a
pluralidade dos povos indígenas e sua influência na cultu-
ra brasileira, sugira que escolham um dos verbetes e ima-
ginem ou desenhem nova ilustração para ele. Recomende
que se inspirem nas conversas e nas imagens que viram.
Exponha os trabalhos no mural-varal.
INDICAÇÕES
FILMES
Para o professor
• Corumbiara (Brasil, 2009). Narrativa autobiográfica de
Vincent Carelli em sua busca por índios isolados na gleba
Corumbiara, em Rondônia. O cineasta passou vinte anos
tentando captar as imagens, a fim de provar a presença in-
dígena na região e permitir que a Funai delimitasse a área,
preservando-a dos ataques de posseiros e madeireiros.
• Xingu, a terra ameaçada (Brasil, 2006). Documentário de
Washington Novaes que aborda os desafios atuais da Terra
indígena do Xingu (TIX), apresentando os principais pro-
blemas enfrentados pelas comunidades indígenas, como a
expansão da plantation de soja no entorno da TIX.
Para os alunos
• Bicicletas de Nhanderu (Brasil, 2011). Documentário de
Patrícia Ferreira e Ariel Duarte Ortega, dois jovens cineas-
tas da etnia Guarani, que expõem a espiritualidade com-
partilhada pelos membros da aldeia Koenju, em São Mi-
guel das Missões, no Rio Grande do Sul.
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ABC dos povos indígenas Marina Kahn
no Brasil
• Uma escola Hunikui (Brasil, 2008). Documentário do
cineasta indígena Zezinho Yube que mostra o cotidiano
escolar em uma aldeia do povo Hunikui, localizada no es-
tado do Acre.
LIVROS
Para os alunos
• Baladan, Alicia. Uma história guarani. São Paulo: Edi-
ções SM, 2010. Reconto de lenda guarani sobre o rito de
passagem para a vida adulta, tendo como eixo a busca pela
teia de aranha, tida como milagrosa.
• Rios, Rosana. Mavutsinim e o Kuarup. São Paulo: Edições
SM, 2008. Narrativa Kamayurá que conta como foi criada
a humanidade pelo primeiro homem do mundo, Mavutsi-
nim, e de que forma ele instituiu o Kuarup.
FONTES DE PESQUISA
LIVROS
• Bôas, Orlando Villas. Orlando Villas Bôas: histórias e cau-
sos. São Paulo: FTD, 2006. Autobiografia do indigenista, na
qual ele relata sua experiência com os indígenas brasilei-
ros, no decorrer de décadas, e conta a história da expedição
Roncador-Xingu, liderada por ele e seus irmãos, Cláudio e
Leonardo.
• Ribeiro, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do
Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. Um dos livros
clássicos da história do Brasil, analisa a formação da cultura
e do povo brasileiros. Neste guia de leitura, foram utilizados
como referência os capítulos sobre a cultura indígena.
SITES
• Fundação Nacional do Índio (Funai):
[Link]
• Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (Iepé):
[Link]
• Instituto Socioambiental (ISA):
[Link] Elaboração do guia Fabiana Ferreira Lopes é
editora, com formação em História e Cinema.
• Museu do Índio: Atuou em movimentos campesinos e viveu no Xingu,
[Link] na aldeia Ahia Kalapalo. Atualmente vive na Itália.
• Vídeos nas Aldeias (VNA): Preparação Graziela R. S. Costa Pinto. Revisão
[Link] Marcia Menin e Carla Mello Moreira.
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