PROCESSO INDUSTRIAL DE PRODUÇÃO DE ENZIMAS
1 INTRODUÇÃO
Os processos industriais estão presentes na maioria dos produtos e fluxos de
trabalho. Estes processos contam com automações, reações químicas e operações
que as fazem executar, especificamente, a demanda de sua indústria.
Enzimas são catalisadores biológicos capazes de acelerar, retardar ou inibir
reações e têm ganhado espaço devido ao seu potencial de escalabilidade. A
indústria de biotecnologia enzimática tem seus processos, reações e operações
voltados à produção, via fermentação, recuperação, do extrato enzimático, refino e,
em algumas, otimização de enzimas. Tais procedimentos requerem uma variedade
de equipamentos a seu dispor, precisando de dimensionamentos, variando de
acordo com a escala do sistema.
Dentro de um fermentador, acontecem diversas reações de clivagem, na
degradação do substrato que induzirá a produção da enzima de interesse.
Geralmente em batelada, este reator é carregado com soluções do microrganismo e
da fonte de carbono, onde as reações químicas acontecerão e, ao fim, obtém-se o
extrato que passará pelos processos de refino.
Apesar de complexas, estas reações seguem uma lei de velocidade de
reação, proposta por Michaelis e Menten, chamada cinética de reação Michaelis-
Menten, em que propuseram uma reação que abrangesse a velocidade e o
comportamento de degradação do substrato e o produto formado, levando em
consideração a constante de equilíbrio (k) e a concentração do substrato([S]), tanto
na fermentação em estado sólido (FES) quanto na fermentação submersa (FS),
afinal ambas resultam no mesmo produto, mas com substratos diferentes (BORZANI
et al., 2001; BON et al., 2008; MONTEIRO & SILVA, 2009; ANSONI, 2015; AGUIAR
et al., 2018).
2 CARACTERÍSTICAS DOS EQUIPAMENTOS
Por haver grandes diferenças entre os processos de fermentação industrial e
o tipo de fermentação impacta diretamente nos equipamentos, aqui a abordagem
versa sobre a fermentação submersa, com esta podendo ser em batelada, semi-
batelada ou processo contínuo. O fluxo deste processo também é extenso, logo será
evidenciada apenas a etapa da fermentação, com o equipamento que a engendra.
Biorreatores são vasos de reação químicos e/ou biológicos que hospedam as
conversões químicas feitas por microrganismos uni ou pluricelulares. Que a partir da
década de 50, evoluíram junto com a microbiologia industrial e fazem parte do
escalonamento dos bioprocessos, ficando responsáveis pela fermentação (ANSONI,
2015). A Figura 1 demonstra um biorreator de fermentação.
Os reatores têm aeração e agitação mecânicas, cujos volumes variam entre
20 e 1000 m3. Conta com controles de agitação, pH, pressão, formação de espumas,
oxigênio dissolvido (OD) e temperatura, definidos de acordo com o processo (BON
et al.,2008).
Figura 1: Biorreator de fermentação para bioprocessos Tecnal BIO-TEC-PRO.
Fonte: Site da Tecnal (2020).
Os reatores têm os vasos de reação compostos de material inoxidável, ou
vidro, ou ambos, para que a reação não implique em desgastes do material do
equipamento e nem este venha a inibir ou participar da reação em curso. Seu
revestimento pode ser encamisado com mantas e serpentinas internas.
A tampa, que também é feita de material inoxidável, possui as entradas com
os sensores de pH e O2, assim como entradas para adição de ácidos, bases,
antiespumantes e outros nutrientes para configurar o meio reacional. Ainda na
tampa, pode haver entradas para aspersores de ar em disco e sensores do nível do
volume que pode variar muito com o tipo de fermentação e sensores do nível de
espuma. Possuindo um septo para inóculo (material mássico de microrganismo),
mancal para acoplar o servo-motor e consensadores de refluxo.
O reator necessita de filtros para ar e também de chicanas para direcionar o
feixe de tubos que o compõem.
Os bocais de saída podem ser tubos e mangueiras, ou apenas uma torneira,
variando de local de acordo com o volume de extrato que é formado ao fim da
reação, podendo também ser retirado, manualmente, ou mecanicamente, de dentro
do vaso.
Por último, por ser de nível industrial, o reator necessita de um controlador
com interface eletrônica a fim de monitorar e ajustar as condições operacionais,
antes durante e depois do processo (TECNAL, 2020).
3 PROCESSO ESCOLHIDO
3.1 Produção de Enzimas
A produção de enzimas já é amplamente utilizada e a de origem microbiana é
cada vez mais visada, devido sua condições independem de fatores sazonais, à
escalabilidade, barateamento do processo e possibilidade de otimização, levando
em conta os métodos de engenharia genética já existentes, como a tecnologia de
DNA recombinante (BON et al., 2008; MONTEIRO & SILVA, 2009).
3.2 Processo de Fermentação
O processo de fermentação industrial dispõe de vários estágios e que se
dividem em dois principais extremos à fermentação: o upstream e o
downstream.(Figura 2)
Figura 2: Sequência do processo de acordo com uma visão macroscópica.
Fonte: Própria do autor (2020).
O primeiro consiste no tratamento feito nas matérias-primas, como: a escolha
do agente biológico, crescimento, isolamento dos agentes e esterilizações dos
substratos, meios de cultura, ajustes de pH, temperaturas, aerações e condições
necessárias para que tudo ocorra em pontos ótimos dentro do reator e, por último, a
fermentação. Já o segundo ponto, após a fermentação, desenvolve o refinamento do
extrato obtido, separando os produtos e subprodutos, purificando-os e, por último, o
tratamento de refugos do processo (Figura 3) (MONTEIRO & SILVA, 2009). Caso
necessário, o processo de fermentação pode passar por uma série de reatores até
alcançar o produto principal (COPERSUCAR, 1987).
Figura 3: Fluxograma do processo de fermentação industrial, de forma detalhada, incluindo etapas
upstream e downstream. Ressaltando o processo escolhido dentre os demais existentes.
Fonte: Adaptado de Monteiro & Silva (2009).
A fermentação para obter enzimas possui dois métodos: as submersas (FS) e
as em estado sólido (FES), cuja primeira técnica é mais empregada na área
industrial pelo melhor controle das condições ótimas de fermentação, melhor
crescimento microbiano em ambientes úmidos/aquáticos e homogeneização dos
nutrientes e substratos no meio utilizado, pontos que não são contemplados pela
fermentação submersa (BON et al., 2008; MONTEIRO & SILVA, 2009).
3.3 Fermentação Submersa
A FS é realizada dentro de biorreatores fechados, com sistema de aeração,
seja por agitadores, ou por aeradores de ar estéril, com revestimento de camisas e
serpentinas para ajustar e controlar a temperatura, assim como sensores e/ou
medidores de pH, temperatura, volume, concentração de OD e até mesmo pressão.
Para isso, inocula-se o agente biológico em meio líquido contendo os nutrientes e
substratos, deixando pelo tempo, já determinado na etapa upstream e retirado após
o tempo de fermentação para os processos downstream (Figura 4). As diferenças de
estado dos processos também podem causar diferenças, afinal num processo
descontínuo. Como a batelada e semi-batelada, os componentes são inseridos de
forma intermitente entre cada fermentação, o oposto do processo contínuo que
alimenta ininterruptamente o sistema com meio estéril com o microrganismo e o
volume sendo controlado pela saída constante do extrato, cujo cultivo, crescimento
celular e degradação do meio, devem obrigatoriamente se apresentar em estado
estacionário antes e durante o processo de obtenção do fermentado
(COPERSUCAR, 1987; BON et al., 2008; MONTEIRO & SILVA, 2009; ANSONI,
2015; TECNAL, 2020).
Figura 4: Fluxograma da fermentação submersa.
Fonte: Própria do Autor (2020).
3.3 Cinética de reação
A cinética de reação informar sobre a velocidade que as transformações
ocorrem. As reações que envolvem organismos vivos são essencialmente
complexas, envolvendo diversas moléculas diferentes e apresentando
reversibilidade. Este estudo cinético é, então, uma análise que envolve o
crescimento de biomassa (X), a formação de produto (P) e a quantidade de
nutrientes do substrato remanescente (S) que são os valores de concentração
tratados como as variáveis do sistema, em função do tempo (Figura 5).
Figura 5: Curvas de ajuste dos valores de concentração de biomassa (X), de substrato (S)e de
produto (P).
Fonte: Adaptado de Hiss (2009).
Pode-se calcular tanto a velocidade instantânea de transformação, a qual
deriva-se (equação 1) as equações de crescimento (equação 2) volumétrico – que
serve para os três parâmetros, encontrando a reta tangente das curvas de ajuste.
Equação 1: Derivada para qualquer um dos parâmetros X, P, S.
Fonte: Adaptado de Hiss (2009).
Equação 2: Equação de crescimento para cálculo das velocidades médias dos parâmetros X e P.
Fonte: Adaptado de Hiss (2020).
Estas seriam apenas para as formações, por isso, o substrato não aparece na
Equação 2, afinal, ele é consumido.
A velocidade de consumo do substrato é dada pela Equação 3, onde r S é a
velocidade de consumo, (rS)CP e (rS)mP são as velocidades de consumo para o
crescimento microbiano e manutenção (BORZANI, 2001; HISS, 2009).
Equação 3: Equação para descrever o consumo de substrato aliado a todo o processo de formação
do produto, crescimento microbiano e manutenção da colônia.
Fonte: Adaptado de Hiss (2009).
3.4 Cálculo das velocidades
Pode-se notar que as velocidades dependem de vários fatores dentro da
reação, necessitando, primeiro, traçar as curvas de ajuste. Essas definições de
velocidades, neste caso, específicas, são calculadas com dados obtidos
experimentalmente e que possam integrar as equações anteriores (Equação 1, 2 e
3) para se chegar a cada resultado, após plotar a curva de ajuste (HISS, 2009).
REFERÊNCIAS
AGUIAR, G. P. S. et al. PRODUÇÃO DE LIPASE MICROBIANA A PARTIR DE
RESÍDUOS DE CORVINA. Revista de Engenharia e Tecnologia, [s. l], v. 10, n. 1,
p. 118-129, abr. 2018. Quadrimestral.
ANSONI, Jonas Laerte. Metodologia Para Projeto de Biorreatores Industriais Via
Otimização Multiobjetivo Com Base Em Parâmetros De Desempenho
Calculados Por Técnica De CFD. 2015. 205 f. Tese (Doutorado) - Curso de
Ciências, Escola de Engenharia, Universidade de São Paulo, São Carlos, 2015.
BON, Elba P.S. et al. BIOPROCESSOS PARA PRODUÇÃO DE
ENZIMAS. Research Gate, [s. l], p. 95-122, jan. 2008.
BORZANI, W, SCHIMIDELL, W., LIMA, U.A., AQUARONE, E. Biotecnologia
Industrial. São Paulo: Blucher, 2001.
COPERSUCAR. Centro de Tecnologia. Divisão Industrial - Fermentação. 434p.,
1987.
HISS, Haroldo. Cinética de Processos Fermentativos. In: HISS, Haroldo. Cinética
De Fermentações. São Paulo: Clube de Autores, 2009.
Monteiro, V. N., & Silva, R. do N. (2009). Aplicações Industriais da Biotecnologia
Enzimática. Revista Processos Químicos. v3, n5, p 9-23.
TECNAL. BIORREATOR COMPLETO. Disponível em: [Link]
BR/produtos/detalhes/11105_biorreator_completo. Acesso em: 18 nov. 2020.