0% acharam este documento útil (0 voto)
33 visualizações17 páginas

Primeira Forma Fundamental da Superfície

(1) O documento discute a primeira forma fundamental de uma superfície, que fornece uma maneira de calcular comprimentos, ângulos e áreas na superfície. (2) A primeira forma fundamental é dada por três escalares E, F e G que dependem da parametrização da superfície. Estes escalares permitem calcular o comprimento de curvas na superfície. (3) Duas superfícies são isométricas se tiverem a mesma primeira forma fundamental, o que significa que comprimentos de curvas são preservados
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
33 visualizações17 páginas

Primeira Forma Fundamental da Superfície

(1) O documento discute a primeira forma fundamental de uma superfície, que fornece uma maneira de calcular comprimentos, ângulos e áreas na superfície. (2) A primeira forma fundamental é dada por três escalares E, F e G que dependem da parametrização da superfície. Estes escalares permitem calcular o comprimento de curvas na superfície. (3) Duas superfícies são isométricas se tiverem a mesma primeira forma fundamental, o que significa que comprimentos de curvas são preservados
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

5.

PRIMEIRA FORMA FUNDAMENTAL 99

5. Primeira forma fundamental


A primeira coisa que um habitante de uma superfı́cie, com alguma curiosidade pela
geometria, talvez queira saber é como medir a distância entre dois pontos da superfı́cie.
Evidentemente, esta distância será, em geral, diferente da distância medida por um
habitante do espaço tridimensional pois o segmento de recta que dá o caminho mais
curto entre dois pontos de R3 não está, em geral, contido na superfı́cie.
Nesta secção estudaremos o instrumento que nos permite calcular comprimentos,
ângulos e áreas numa superfı́cie: a primeira forma fundamental da superfı́cie.

Se γ(t) = σ(x(t), y(t)) define uma curva numa superfı́cie S, totalmente descrita por
um mapa σ, o comprimento do arco de γ desde γ(t0 ) até γ(t1 ) é dado por
Z t1
s= kγ 0 (t)k dt.
t0

Mas, pelo Teorema da Função Composta,

∂σ ∂σ
γ 0 (t) = x0 (t) (x(t), y(t)) + y 0 (t) (x(t), y(t)),
∂x ∂y

pelo que

0 2
 ∂σ
0 0 ∂σ 0 ∂σ 0 ∂σ 
kγ (t)k = x (t) + y (t) | x (t) + y (t)
∂x ∂y ∂x ∂y
 ∂σ ∂σ   ∂σ ∂σ   ∂σ ∂σ 
= x0 (t)2 | + 2x0 (t)y 0 (t) | + y 0 (t)2 | .
∂x ∂x ∂x ∂y ∂y ∂y

Denotando
 ∂σ ∂σ   ∂σ ∂σ   ∂σ ∂σ 
(q) | (q) , (q) | (q) e (q) | (q)
∂x ∂x ∂x ∂y ∂y ∂y

por, respectivamente, E(q), F (q) e G(q) (ou, abreviadamente, E, F e G), podemos


escrever Z t1  1
Ex0 (t)2 + 2F x0 (t)y 0 (t) + Gy 0 (t)2
2
s= dt.
t0

A matriz " #
E(q) F (q)
FI =
F (q) G(q)

é a matriz da chamada primeira forma fundamental do mapa σ de S em p = σ(q), ou


seja, da forma bilinear simétrica

Ip : Tp S × Tp S → R
(v, w) 7→ (v | w).

De facto, se
∂σ ∂σ ∂σ ∂σ
v = v1 (q) + v2 (q) e w = w1 (q) + w2 (q)
∂x ∂y ∂x ∂y
100 SUPERFÍCIES EM R3

então

(v | w) = v1 w1 E(q) + v1 w2 F (q) + v2 w1 F (q) + v2 w2 G(q)


" #" #
h i E(q) F (q) w1
= v1 v2 .
F (q) G(q) w2

Daqui em diante cometeremos o abuso de linguagem de chamar primeira forma


fundamental de σ em p aos escalares E(q), F (q) e G(q).

Exemplos 5.1. (1) Para o plano parametrizado por σ(x, y) = p + xu + yv (ou seja,
o plano que passa por um dado ponto p e tem a direcção dos vectores u e v, unitários,
ortogonais) ∂σ ∂σ
∂x (x, y) = u e ∂y (x, y) = v. Assim, E(x, y) = (u | u) = kuk = 1,
2

G(x, y) = kvk2 = 1 e F (x, y) = (u | v) = 0.

(2) O cilindro circular vertical, parametrizado por σ(x, y) = (cos x, sin x, y), tem como
primeira forma fundamental E(x, y) = 1, F (x, y) = 0 e G(x, y) = 1, tal como o plano.

(3) Para a parametrização da esfera em termos da latitude e longitude,

σ(θ, ϕ) = (cos θ cos ϕ, cos θ sin ϕ, sin θ),

∂σ ∂σ
∂θ (θ, ϕ)= (− sin θ cos ϕ, − sin θ sin ϕ, cos θ) e ∂ϕ (θ, ϕ) = (− cos θ sin ϕ, cos θ cos ϕ, 0).
Portanto a primeira forma fundamental é E(θ, ϕ) = 1, F (θ, ϕ) = 0 e G(θ, ϕ) = cos2 θ.
Isto quer dizer que o comprimento, de γ(t0 ) a γ(t1 ), de qualquer curva na esfera, dada
por  
γ(t) = cos u(t) cos v(t), cos u(t) sin v(t), sin u(t) ,

é igual a Z t1 1
(u0 (t)2 + cos2 θ v 0 (t)2 ) 2 dt.
t0

Nos exemplos (1) e (2) acima, a primeira forma fundamental é a mesma. A justi-
ficação geométrica para isto é a seguinte: uma folha de papel plana pode ser enrolada
num cilindro, de modo óbvio, sem deformação;

se traçarmos uma curva na folha plana, depois de enrolada torna-se uma curva no
cilindro e, como não houve deformação, os comprimentos de ambas as curvas coincidem.
O mesmo já não se passa com a esfera e o plano.
5. PRIMEIRA FORMA FUNDAMENTAL 101

Este tipo de questão geométrica pode ser abordada com o auxı́lio do cálculo diferen-
cial sobre uma superfı́cie apresentado no final da Secção 2. Com efeito, a transformação
geométrica do plano no cilindro que referimos acima é um difeomorfismo especial, como
veremos em seguida.

Definição. Um difeomorfismo f : S1 → S2 é uma isometria se, para cada curva γ


em S1 , a curva f ◦ γ em S2 tem comprimento igual ao de γ. Se existir uma isometria
f : S1 → S2 , diz-se que S1 e S2 são superfı́cies isométricas.

Teorema 5.2. Um difeomorfismo f : S1 → S2 é uma isometria se e só se, para


cada mapa σ1 de um atlas de S1 , as primeiras formas fundamentais de σ1 e f ◦ σ1 são
idênticas.

Demonstração: Como o comprimento de uma curva em S pode ser calculado como


a soma dos comprimentos dos arcos de curva em que cada um é descrito por um único
mapa do atlas de S, podemos supor que S1 e S2 estão descritos por uma parametrização
global.
Sejam então σ1 : U → S1 um mapa global de S1 , σ2 = f ◦ σ1 : U → S2 o correspon-
dente mapa de S2 e E1 , F1 , G1 e E2 , F2 , G2 as primeiras formas fundamentais de σ1 e
σ2 , respectivamente.

“⇐”: Se E1 = E2 , F1 = F2 e G1 = G2 e γ(t) = σ1 (u(t), v(t)) define uma curva arbitrária


em S1 , o comprimento de γ de γ(t0 ) a γ(t1 ), isto é, o integral
Z t1 1
(E1 u0 (t)2 + 2F1 u0 (t)v 0 (t) + G1 v 0 (t)2 ) 2 dt
t0

é evidentemente igual ao comprimento da curva σ2 (u(t), v(t)) = f ◦ σ1 (u(t), v(t)) =


f ◦ γ(t), de f (γ(t0 )) a f (γ(t1 )).

“⇒”: Reciprocamente, se f é uma isometria então, qualquer que seja a curva γ(t) =
σ1 (u(t), v(t)) em S1 de domı́nio I = (α, β), a curva f ◦ γ1 (t) = σ2 (u(t), v(t)) tem o
mesmo comprimento. Portanto, para quaisquer t0 , t1 ∈ I,
Z t1 Z t1
1 1
(E1 u0 (t)2 +2F1 u0 (t)v 0 (t)+G1 v 0 (t)2 ) 2 dt = (E2 u0 (t)2 +2F2 u0 (t)v 0 (t)+G2 v 0 (t)2 ) 2 dt
t0 t0

Isto implica que

E1 u0 (t)2 + 2F1 u0 (t)v 0 (t) + G1 v 0 (t)2 = E2 u0 (t)2 + 2F2 u0 (t)v 0 (t) + G2 v 0 (t)2 (5.2.1)

para qualquer t ∈ I. Fixemos t0 ∈ I e sejam u0 = u(t0 ) e v0 = v(t0 ). Então:

• É evidente que existe um sub-intervalo J de I contendo t0 tal que, para cada t ∈ J,


(u0 + t − t0 , v0 ) ∈ U . Logo γ1 (t) = σ1 (u0 + t − t0 , v0 ) define uma curva γ1 : J → S1 .
Para esta curva particular, a igualdade (5.2.1) diz-nos que E1 = E2 , pois neste
caso u0 (t) = 1 e v 0 (t) = 0.
102 SUPERFÍCIES EM R3

• Analogamente, podemos considerar a curva γ2 definida por γ2 (t) = σ1 (u0 , v0 + t −


t0 ). Neste caso u0 (t) = 0 e v 0 (t) = 1 pelo que, por (5.2.1), G1 = G2 .

• Finalmente, considerando a curva γ3 dada por γ3 (t) = (u0 + t − t0 , v0 + t − t0 ),


podemos concluir que E1 + 2F1 + G1 = E2 + 2F2 + G2 , donde F1 = F2 .

Exemplo. Seja S1 a fita infinita no plano OY Z dada por 0 < y < 2π e seja S2
o cilindro circular vertical dado por x2 + y 2 = 1, com excepção dos pontos da recta
x = 1, y = 0. Então, S1 é coberto pela parametrização global σ1 (u, v) = (0, u, v), e S2
por σ2 (u, v) = (cos u, sin u, v), com (u, v) ∈ (0, 2π) × R em ambos os casos. A função
f : S1 → S2 que aplica σ1 (u, v) em σ2 (u, v) é uma isometria pois, como vimos nos
Exemplos 5.1, σ1 e σ2 têm a mesma primeira forma fundamental.
Um argumento análogo também mostra que uma parte do cone circular é isométrica
a parte do plano. Isto tudo generaliza-se de forma óbvia a cilindros e cones generalizados.

Vejamos agora a questão da medição de ângulos numa superfı́cie.


Sejam γ1 e γ2 duas curvas, numa superfı́cie S, que se intersectam num dado ponto
p = γ1 (t1 ) = γ2 (t2 ). Então γ1 (t) = σ(u1 (t), v1 (t)) e γ2 (t) = σ(u2 (t), v2 (t)). O ângulo de
intersecção, no ponto p, das curvas γ1 e γ2 é definido como sendo o ângulo θ formado
pelos vectores γ10 (t1 ) e γ20 (t2 ). Portanto

(γ10 (t1 ) | γ20 (t2 ))


cos θ = .
kγ10 (t1 )k kγ20 (t2 )k

Mas
∂σ ∂σ
γ10 (t1 ) = u01 (t1 ) (u1 (t1 ), v1 (t1 )) + v10 (t1 ) (u1 (t1 ), v1 (t1 ))
∂u ∂v
e
∂σ ∂σ
(u2 (t2 ), v2 (t2 )) + v20 (t2 ) (u2 (t2 ), v2 (t2 )),
γ20 (t2 ) = u02 (t2 )
∂u ∂v
pelo que (γ1 (t1 ) | γ2 (t2 )) = Eu1 (t1 )u2 (t2 )+F (u1 (t1 )v2 (t2 )+v10 (t1 )u02 (t2 ))+Gv10 (t1 )v20 (t2 )
0 0 0 0 0 0

e, consequentemente,

Eu01 (t1 )u02 (t2 ) + F (u01 (t1 )v20 (t2 ) + v10 (t1 )u02 (t2 )) + Gv10 (t1 )v20 (t2 )
cos θ = 1 1
(Eu01 (t1 )2 + 2F u01 (t1 )v10 (t1 ) + Gv10 (t1 )2 ) 2 (Eu02 (t2 )2 + 2F u02 (t2 )v20 (t2 ) + Gv20 (t2 )2 ) 2

ou, abreviadamente,

Eu01 u02 + F (u01 v20 + v10 u02 ) + Gv10 v20


cos θ = 1 1 . (5.2.2)
(Eu02 0 0 02 2 02 0 0 02 2
1 + 2F u1 v1 + Gv1 ) (Eu2 + 2F u2 v2 + Gv2 )

Exemplo. Dada uma parametrização σ : U → S duma superfı́cie S, γ1 (t) = σ(a, t) e


γ2 (t) = σ(t, b) (a e b constantes adequadas) definem duas curvas em S, chamadas curvas
paramétricas. Estas curvas intersectam-se no ponto σ(a, b) da superfı́cie. Então, pela
fórmula (5.2.2), o ângulo de intersecção θ é igual a
F
arccos √ .
EG
5. PRIMEIRA FORMA FUNDAMENTAL 103

Portanto, θ é igual a π/2 (diz-se neste caso que a parametrização é ortogonal) exacta-
mente quando F = 0.

Definição. Um difeomorfismo f : S1 → S2 diz-se conformal se, para quaisquer curvas


γ1 e γ2 em S1 que se intersectam, o ângulo de intersecção das curvas f ◦ γ1 e f ◦ γ2 em
S2 é igual ao ângulo de intersecção de γ1 e γ2 .

Teorema 5.3. Um difeomorfismo f : S1 → S2 é conformal se e só se, para cada mapa


σ1 dum atlas de S1 , as primeiras formas fundamentais de σ1 e f ◦ σ1 são proporcionais,
ou seja, E2 = λE1 , F2 = λF1 e G2 = λG1 para alguma função suave λ : U → R+ .

Demonstração: É, em termos gerais, análoga à demonstração do teorema anterior


mas mais longa e exigente no cálculo. Por estas razões omitimo-la.

Exemplos. (1) Toda a isometria é conformal. O recı́proco não é verdadeiro, como


veremos já de seguida.

(2) Consideremos a esfera unitária definida por x2 +y 2 +z 2 = 1 e recordemos a projecção


estereográfica
−1
σN : S 2 \ {(0, 0, 1)} −→  R2 
x y
(x, y, z) 7−→ 1−z , 1−z .

Provemos que, vista como uma aplicação de S 2 \ {(0, 0, 1)} no plano horizontal z = 0,
ou seja, como

f : S 2 \ {(0, 0, 1)} −→ {(x, y, 3


 z) ∈ R | z= 0}
x y
(x, y, z) 7−→ 1−z , 1−z , 0

é conformal. Para isso consideremos a parametrização global


 2x 2y x2 + y 2 − 1 
σN (x, y) = , , ((x, y) ∈ R2 )
x2 + y 2 + 1 x2 + y 2 + 1 x2 + y 2 + 1

de S 2 \ {(0, 0, 1)}. Os coeficientes da respectiva primeira forma fundamental são

4 4
E1 (x, y) = , F1 (x, y) = 0 e G1 (x, y) = 2 .
(x2 2
+ y + 1)2 (x + y 2 + 1)2

Por outro lado, como a primeira forma fundamental do mapa f ◦ σN (x, y) = (x, y, 0) do
plano horizontal é E2 (x, y) = 1, F2 (x, y) = 0 e G2 (x, y) = 1, podemos concluir que

E1 (x, y) = λ(x, y)E2 (x, y), F1 (x, y) = λ(x, y)F2 (x, y) e G1 (x, y) = λ(x, y)G2 (x, y)

para λ(x, y) = 4/(x2 + y 2 + 1)2 . Logo f é conformal. É pois um exemplo duma aplicação
conformal que não é uma isometria.
104 SUPERFÍCIES EM R3

Fixados dois pontos A, B sobre uma superfı́cie S, chama-se arco geodésico de ex-
tremos A, B sobre S a uma curva em S, desde A até B, que tenha comprimento mı́nimo
em relação a qualquer outra nas mesmas condições. Dá-se o nome de geodésica de S a
toda a curva γ nesta superfı́cie que contenha um arco geodésico para cada par de pontos
de γ (cf. Exercı́cio 4.11). Por exemplo, no plano as geodésicas são evidentemente as
rectas, enquanto na esfera as geodésicas são circunferências de cı́rculo máximo. Noutras
superfı́cies, a determinação das geodésicas é mais complicada. Por exemplo, as figuras
seguintes mostram uma geodésica do elipsóide (1/5)x2 + (2/5)y 2 + z 2 = 1, a partir
do ponto de coordenadas x = 3/5, y = 1/5 (utilizamos um traço mais fino quando a
geodésica passa pela parte de trás do elipsóide) e geodésicas sobre um cilindro e um
cone de revolução:

A figura seguinte mostra algumas geodésicas do parabolóide hiperbólico z = xy a


5. PRIMEIRA FORMA FUNDAMENTAL 105

partir, respectivamente, do ponto (5, −5, −25) e do ponto (5, 2, 10) (observe que, entre
elas, em cada caso, se encontram duas rectas):

As geodésicas e os mapas conformais têm obviamente um grande interesse em car-


tografia e navegação. Por exemplo, numa viagem marı́tima é natural que se procure
seguir o caminho mais curto, ou seja, o arco geodésico, para não se perder tempo inutil-
mente (tal é o objectivo da chamada navegação ortodrómica). Todavia, este objectivo
nunca pode, por diversas razões, ser totalmente atingido na prática. Frequentemente há
conveniência em que o rumo se mantenha constante, isto é, que o eixo do barco forme
sempre um mesmo ângulo com a linha Norte-Sul; nesta situação, o barco irá descre-
vendo sobre o mar uma curva que corta os meridianos segundo um ângulo constante
(os mapas conformais têm assim um grande interesse); mas sucede que esta curva —
chamada loxodromia — não é uma geodésica (por exemplo, se o barco se deslocar na
direcção Este-Oeste, a linha descrita será um paralelo, que não é em geral um arco de
cı́rculo máximo). A navegação loxodrómica pode contudo ser utilizada em trajectos
curtos porque então a loxodromia não se afasta muito da geodésica. Para trajectos
mais longos, convirá usar uma curva composta de arcos de loxodromia, inscrita no arco
geodésico.
Consideremos de novo a projecção estereográfica da esfera sobre o plano. Trata-se,
como vimos, duma representação planar conformal da esfera; as imagens dos meridi-
anos serão rectas que passam pelo centro C da esfera e as imagens dos paralelos serão
circunferências de centro C; uma loxodromia irá pois projectar-se numa curva isógona
(isto é, que mantém o mesmo ângulo) relativamente às rectas que passam por C, ou
seja, uma espiral logarı́tmica. Todavia, para a navegação, o ideal será encontrar um
mapa conformal da esfera no qual as imagens dos meridianos sejam rectas paralelas
entre si, pois que, nesse caso, a imagem da loxodromia será manifestamente uma recta.
Isto foi primeiramente observado e estudado pelo matemático português Pedro Nunes
106 SUPERFÍCIES EM R3

(1502-1578). Um tal mapa foi depois concebido em 1569 por Mercator. A projecção de
Mercator (veja os Exercı́cios 3.7 e 3.8) é utilizada em muitos mapas terrestres e apresenta
apenas o inconveniente de, sendo os pólos afastados para distância infinita do equador,
as regiões próximas dos pólos aparecerem excessivamente dilatadas e deformadas.
O interesse das aplicações conformais não se limita de maneira nenhuma à cartografia.
Trata-se de um dos assuntos mais importantes da Análise moderna.

É também possı́vel deduzir uma fórmula que permite calcular a área A(R) duma
região R ⊆ S, contida num mapa σ : U → W ⊆ S, a partir da primeira forma funda-
mental. Com efeito, pode provar-se que
Z Z
∂σ ∂σ
A(R) = k (x, y) ∧ (x, y)k dx dy
σ −1 (R) ∂x ∂y
e, como

∂σ ∂σ 2  ∂σ ∂σ ∂σ ∂σ   ∂σ ∂σ  ∂σ ∂σ   ∂σ ∂σ 2
k ∧ k = ∧ | ∧ = | | − | = EG−F 2 ,
∂x ∂y ∂x ∂y ∂x ∂y ∂x ∂x ∂y ∂y ∂x ∂y
Z Z p
A(R) = EG − F 2 dx dy.
σ −1 (R)

Note que, por σ ser regular,


EG − F 2 > 0 (5.3.1)

em qualquer ponto.

Exemplo 5.4. Determinemos a área dum fuso numa esfera de raio r, isto é, a região
compreendida entre dois arcos de cı́rculo máximo com ângulo de intersecção θ:

É claro que podemos assumir que as circunferências de cı́rculo máximo se intersectam


nos pólos (são pois meridianos), porque podemos sempre por uma rotação da esfera —
o que não altera as áreas, pois a aplicação dum movimento rı́gido a uma superfı́cie não
altera a primeira forma fundamental — chegar a esta situação.
Para calcular a área observemos (recorde o Exemplo 5.1(3)) que, para o mapa

σ(u, v) = (r cos u cos v, r cos u sin v, r sin u),


5. PRIMEIRA FORMA FUNDAMENTAL 107

EG − F 2 = r4 cos2 u. Então a área do fuso é igual a


Z π Z θ
2
r2 cos u du dv = 2θr2 .
− π2 0

Em particular, para θ = 2π obtemos o valor da área da esfera, ou seja, 4πr2 .

Definição. Um difeomorfismo f : S1 → S2 diz-se equiareal se aplica cada região de S1


numa região de S2 com igual área.

Teorema 5.5. Um difeomorfismo f : S1 → S2 é equiareal se e só se, para cada mapa


σ1 dum atlas de S1 , as primeiras formas fundamentais de σ1 e de f ◦ σ1 satisfazem

E1 G1 − F12 = E2 G2 − F22 .

Demonstração: Como a área duma região em S pode ser calculada como soma de
áreas de sub-regiões em que cada sub-região é descrita por um único mapa do atlas de
S, podemos supor que S1 e S2 estão descritas por uma parametrização global.
Sejam então σ1 : U → S1 um mapa global de S1 , σ2 = f ◦ σ1 : U → S2 o corres-
pondente mapa de S2 e E1 , F1 , G1 e E2 , F2 , G2 as primeiras formas fundamentais de σ1
e σ2 , respectivamente. Um difeomorfismo f : S1 → S2 é equiareal se e só se, para cada
região R de S1 ,
Z Z q Z Z q
E1 G1 − F12 dx dy = E2 G2 − F22 dx dy,
σ1−1 (R) (f ◦σ1 )−1 (f (R))

ou seja,
Z Z q Z Z q
2
E1 G1 − F1 dx dy = E2 G2 − F22 dx dy.
σ1−1 (R) σ1−1 (R)

Isto equivale a dizer que


q q
E1 G1 − F12 = E2 G2 − F22 ,

isto é,
E1 G1 − F12 = E2 G2 − F22 ,

pois E1 G1 − F12 , E2 G2 − F22 > 0.

Exemplos. (1) Toda a isometria é equiareal. O recı́proco não é verdadeiro, como


veremos no exemplo seguinte.

(2) Consideremos a projecção de Arquimedes f : P 7→ Q, da esfera x2 + y 2 + z 2 = 1


(menos os pólos norte e sul) no cilindro x2 + y 2 = 1, definida do seguinte modo: para
cada ponto P 6= (0, 0, ±1) na esfera, existe uma única recta horizontal que passa por
P e pelo eixo OZ; esta recta intersecta o cilindro em dois pontos, um dos quais (que
denotamos por Q) está mais perto de P .
108 SUPERFÍCIES EM R3

Para determinarmos uma fórmula para f , sejam (x, y, z) as coordenadas cartesianas


de P e (X, Y, Z) as de Q. Como o segmento P Q é paralelo ao plano XOY , temos
Z = z e (X, Y ) = λ(x, y) para algum escalar λ. Mas (X, Y, Z) está no cilindro logo
1
1 = X 2 + Y 2 = λ2 (x2 + y 2 ) e, consequentemente, λ = ±(x2 + y 2 ) 2 . Tomando o sinal +
obtemos o ponto Q logo
 x y 
f (x, y, z) = 1 , 1 , z .
(x2 + y 2 ) 2 (x2 + y 2 ) 2

Teorema 5.6. [Teorema de Arquimedes] A aplicação f é equiareal.

Demonstração: Seja S1 a esfera menos os pólos norte e sul, com o atlas consistindo nas
duas parametrizações definidas por σ1 (θ, ϕ) = (cos θ cos ϕ, cos θ sin ϕ, sin θ) nos abertos
{−π/2 < θ < π/2, 0 < ϕ < 2π} e {−π/2 < θ < π/2, −π < ϕ < π}. A imagem de
σ1 (θ, ϕ) por f é o ponto
σ2 (θ, ϕ) = (cos ϕ, sin ϕ, sin θ) (5.6.1)

do cilindro. É fácil verificar que isto dá um atlas da superfı́cie S2 (parte do cilindro
entre os planos z = 1 e z = −1) consistindo em duas parametrizações, ambas dadas pela
equação (5.6.1) e definidas nos mesmos abertos do atlas de S1 . Como σ2−1 ◦ f ◦ σ1 = id,
é imediato que f é um difeomorfismo.
Por outro lado, calculámos no Exemplo 5.1(3) a primeira forma fundamental de σ1 :
E1 = 1, F1 = 0, G1 = cos2 θ. Para σ2 obtemos, de forma similar, E2 = cos2 θ, F2 =
0, G2 = 1. Em conclusão, E1 G1 − F12 = E2 G2 − F22 e f é equiareal.

Este resultado foi provado por Arquimedes, que se orgulhava tanto dele que pediu
que fosse gravado no seu túmulo. Segundo a lenda, tal foi feito pelo general romano
Marcellus, que liderou a conquista de Siracusa na qual Arquimedes foi morto, em 212
A.C. Evidentemente, como Arquimedes não tinha o Cálculo Diferencial à sua disposição,
a sua demonstração era muito diferente da que apresentámos aqui. Concretamente o
que Arquimedes provou foi que se colocarmos uma esfera dentro dum cilindro com o
5. PRIMEIRA FORMA FUNDAMENTAL 109

mesmo raio R, a área S1 da superfı́cie esférica da figura é igual à correspondente área


S2 da superfı́cie cilı́ndrica (definida pelos mesmos planos horizontais) e igual a 2πRh.

Os cartógrafos chamam ao processo de projectar uma esfera num cilindro seguido


do desenrolar do cilindro no plano, projecção cilı́ndrica equiareal. O Teorema de Ar-
quimedes mostra que esta projecção nos dá uma representação precisa das áreas, embora
distorça a forma pois não existe nenhuma projecção que represente com precisão a área
e a forma simultaneamente, como veremos mais adiante.

(3) O Teorema de Arquimedes pode ser usado para calcular de forma muito rápida a área
do fuso determinada no Exemplo 5.4. Se θ é o ângulo de amplitude do fuso, a imagem
do fuso pela aplicação f é um rectângulo curvo no cilindro de largura rθ e altura 2r:

Se aplicarmos em seguida a isometria do cilindro no plano, este rectângulo curvo


é transformado num rectângulo no plano, de largura rθ e altura 2r. Pelo Teorema de
Arquimedes o fuso tem a mesma área do rectângulo curvo e, como qualquer isometria é
equiareal, tem a mesma área que o rectângulo plano, ou seja, 2θr2 .

Do conhecimento da área dum fuso qualquer, podemos deduzir imediatamente uma


fórmula para a área dum triângulo esférico. Um triângulo esférico é um triângulo numa
esfera, cujos lados são arcos de cı́rculo máximo:
110 SUPERFÍCIES EM R3

Teorema 5.7. (Fórmula de Girard). A área dum triângulo esférico com ângulos
α, β e γ, numa esfera de raio r, é igual a r2 (α + β + γ − π).

Demonstração: Sejam A, B e C os vértices do triângulo correspondentes aos ângulos


α, β e γ, respectivamente. As três circunferências de cı́rculo máximo dividem a esfera
em seis fusos, dois deles de amplitude α com pólos em A e A0 (ponto antı́poda de A),
dois de amplitude β com pólos em B e B 0 (ponto antı́poda de B) e dois de amplitude γ
com pólos em C e C 0 (ponto antı́poda de C):

Um dos fusos de amplitude α contém o triângulo ABC e o outro fuso contém o triângulo
A0 B 0 C 0 . Denotemos a região reunião destes dois fusos por AA0 . O mesmo se passa com
os dois fusos de amplitude β (denotemos a sua reunião por BB 0 ) e os dois de amplitude
γ (denotemos a sua reunião por CC 0 ). Então

AA0 ∩ BB 0 = AA0 ∩ CC 0 = BB 0 ∩ CC 0 = ABC ∪ A0 B 0 C 0

e como
S 2 = AA0 ∪ BB 0 ∪ CC 0

temos

A(S 2 ) = A(AA0 ) + A(BB 0 ) + A(CC 0 ) − 2(A(ABC) + A(A0 B 0 C 0 )).


5. PRIMEIRA FORMA FUNDAMENTAL 111

Mas A(ABC) = A(A0 B 0 C 0 ), pois a aplicação que leva cada ponto P da esfera no seu
antı́poda P 0 é claramente uma isometria, logo equiareal. Consequentemente,

1 
A(ABC) = A(AA0 ) + A(BB 0 ) + A(CC 0 ) − A(S 2 )
4
1
= (4αr2 + 4βr2 + 4γr2 − 4πr2 )
4
= r2 (α + β + γ − π).

Isto significa que, diferentemente do que se passa na geometria euclidiana plana, na


geometria esférica a soma dos ângulos internos dum triângulo é sempre superior a π.
Este resultado tem muitas consequências interessantes. Por exemplo:

(1) Não existe nenhuma isometria entre a esfera e o plano (ou mesmo entre uma parte da
esfera e uma parte do plano). Em termos cartográficos, isto significa que é impossı́vel ter-
mos um mapa (plano) duma porção da superfı́cie terrestre que represente distâncias com
total precisão. Porquê? Porque tal isometria teria que preservar distâncias e ângulos,
e teria que aplicar circunferências de cı́rculo máximo (que são as geodésicas na esfera)
em rectas (que são as geodésicas no plano). Portanto a soma dos ângulos internos dum
triângulo esférico teria que coincidir com a soma dos ângulos internos do correspondente
triângulo plano, que é π, e isto implicaria que o triângulo esférico tivesse área nula.

(2) Não existe nenhum conceito de semelhança na geometria esférica. Dois triângulos
semelhantes na geometria euclidiana têm os mesmos ângulos mas são de tamanhos di-
ferentes. Contudo, na geometria esférica os ângulos dum triângulo determinam a sua
área e portanto o seu tamanho e forma.

(3) A fórmula de Girard pode ser estendida a qualquer polı́gono esférico convexo (definido
pela intersecção de n circunferências de cı́rculo máximo): se α1 , α2 , · · · , αn são os ângulos
internos do polı́gono, a sua área é igual a
n
X 
r2 αi − (n − 2)π . (5.7.1)
i=1

(Esta fórmula pode ser facilmente provada dividindo o polı́gono em triângulos e usando
a fórmula de Girard.)
Suponhamos agora que dividimos a superfı́cie da esfera em polı́gonos esféricos con-
vexos. Se denotarmos por V o número de vértices, por A o números de arestas e por F
o número de faces (polı́gonos), qual é a soma dos ângulos de todos os polı́gonos? Por
um lado, é evidente que cada vértice contribui com 2π para o total, pelo que essa soma
é 2πV . Por outro lado, se utilizarmos a fórmula (5.7.1) em cada polı́gono, obtemos
n
X 
2
r αi = r2 π(n − 2) + A(polı́gono).
i=1
112 SUPERFÍCIES EM R3

Fazendo a soma sobre todos os polı́gonos obtemos, no primeiro membro, a soma total
dos ângulos multiplicada por r2 e, no segundo membro, a área total da esfera, 4πr2 ,
mais
r2 π(n1 − 2 + n2 − 2 + · · · + nF − 2),

onde n1 , n2 , · · · , nF denotam o número de lados (arestas) dos F polı́gonos. Observando


que cada aresta é uma aresta simultânea de dois polı́gonos, n1 − 2 + n2 − 2 + · · · + nF − 2
é igual a 2A − 2F . Concluı́mos então que a soma total dos ângulos é igual a

4π + 2πA − 2πF.

Igualando isto a 2πV e dividindo por 2π, deduzimos a famosa fórmula de Euler

V − A + F = 2.

Observação. A fórmula (5.7.1) pode ainda ser generalizada a uma superfı́cie arbitrária
(fórmula de Gauss-Bonnet), mas não o faremos aqui por falta de tempo. Por exemplo,
consideremos a pseudo-esfera, isto é, a superfı́cie de revolução definida pela curva geratriz
 p  1 
γ(u) = eu , 0, 1 − e2u − cosh−1 u (u ∈ (−∞, 0])
e

chamada tractriz:

Neste caso, a área de um triângulo de ângulos internos α, β, γ, é igual a π − α − β − γ,


o que significa que na geometria da pseudo-esfera a soma dos ângulos internos dum
triângulo é sempre inferior a π (é mais um exemplo de geometria não euclidiana).
5. PRIMEIRA FORMA FUNDAMENTAL 113

Exercı́cios

5.1 Calcule a primeira forma fundamental dos seguintes mapas:

(a) σ(u, v) = (u − v, u + v, u2 + v 2 );
(b) σ(u, v) = (cosh u, sinh u, v);
(c) σ(u, v) = (u, v, u2 + v 2 ).

5.2 Seja σ̃ = σ ◦ Φ : Ũ → S uma reparametrização de um mapa σ : U → S da superfı́cie S.


Prove que " # " #
Ẽ F̃ E F
= JT J
F̃ G̃ F G

onde J é a matriz jacobiana da mudança de coordenadas Φ, e Ẽ, F̃ , G̃ e E, F ; G são,


respectivamente, os coeficientes da primeira forma fundamental de σ̃ e σ.

5.3 O cone circular parametrizado por σ(u, v) = (u cos v, u sin v, u), u > 0, 0 < v < 2π,
pode ser “desenrolado”, pelo que é isométrico a parte de um plano (XOY , por exemplo).
Verifique que esta isometria é dada por
 √ v √ v 
f : σ(u, v) 7→ σ̃(u, v) = u 2 cos √ , u 2 sin √ , 0
2 2

e descreva que parte do plano XOY é isométrica ao cone. Mostre que a aplicação f é de
facto uma isometria.

5.4 A aplicação da metade do cone circular x2 + y 2 = z 2 , z > 0, no plano OXY , dada por
(x, y, z) 7→ (x, y, 0), é uma isometria?

5.5 Um mapa global σ : U ⊆ R2 → S de uma superfı́cie S diz-se conformal se a projecção

f: S → Π
(x, y, z) 7→ (σ −1 (x, y, z), 0),

na superfı́cie plana Π = {(x, y, z) ∈ R3 | (x, y) ∈ U, z = 0}, é conformal. Mostre que:

(a) O mapa σ é conformal se e só se E = G e F = 0.


114 SUPERFÍCIES EM R3

(b) O mapa
 x3 y3 
σ(x, y) = x − + xy 2 , y − + x2 y, x2 − y 2
3 3
da superfı́cie de Enneper

é conformal.

5.6 Prove que o mapa de Mercator da esfera (Exercı́cio 3.7) é conformal.


5.7 (a) Prove que qualquer isometria é uma aplicação conformal. Mostre que a projecção
estereográfica é um exemplo de uma aplicação conformal que não é uma isometria.
(b) Prove que qualquer isometria é uma aplicação equiareal.
Considere a projecção de Arquimedes f : P 7→ f (P ) = Q, da esfera x2 + y 2 + z 2 = 1
(menos os pólos norte e sul) no cilindro x2 + y 2 = 1, definida do seguinte modo: para
cada ponto P 6= (0, 0, ±1) na esfera, existe uma única recta horizontal que passa por
P e pelo eixo OZ; esta recta intersecta o cilindro em dois pontos, um dos quais (que
denotamos por Q) está mais perto de P . Mostre que se trata de um exemplo de uma
aplicação equiareal que não é uma isometria.
5.8 Prove que qualquer aplicação conformal e equiareal é uma isometria.
5.9 Considere as superfı́cies

S1 = {(x, y, z) ∈ R3 | y = 0, |x| < π/2}

e
S2 = {(x, y, z) ∈ R3 | x2 + y 2 = 1, y > 0}
e seja g : S1 → S2 definida por

g(x, 0, z) = (sin x, cos x, z).


5. PRIMEIRA FORMA FUNDAMENTAL 115

(a) Prove que g é uma isometria.


√ √ √
2 2 3
(b) Sabendo que o caminho mais curto em S2 entre os pontos ( 2 , 2 , −3) e (− 21 , 2 , 4)
define uma curva (regular) determine:
(i) o comprimento desse caminho;
(ii) esse caminho.
√ √ √ √
2 2 2 2
(c) Determine a área do triângulo em S2 de vértices ( 2 , 2 , 0), (− 2 , 2 , 0) e (0, 1, 2).

5.10 Uma circunferência máxima numa esfera é uma circunferência obtida intersectando a
esfera com um plano passando pelo seu centro.

(a) Prove que o caminho mais curto entre dois pontos numa esfera é um arco de circun-
ferência máxima.
(b) O que diz a fórmula de Girard sobre a área de um triângulo esférico?
(c) Um velejador pretende circum-navegar a Austrália, seguindo a rota triangular mais
curta possı́vel. Prove que um dos ângulos do triângulo mede, pelo menos, π3 + 16 1

radianos. (Assuma que a terra é uma esfera de raio 6400Km e que a área da Austrália
mede 7680000Km2 .)

5.11 Suponha a esfera unitária coberta por F triângulos cujos lados são arcos de circunferência
máxima, e tais que a intersecção de quaisquer dois triângulos é vazia ou é um vértice ou
uma aresta comum aos dois triângulos. Denote por E o número total de arestas nessa
cobertura e por V o número de vértices.

(a) Mostre que 3F = 2E.


(b) Deduza, usando a Fórmula de Girard, que 2V − F = 4.
(c) Conclua que V − E + F = 2 (a chamada Fórmula de Euler).

Você também pode gostar