História da educação
de surdos
BIBLIOGRAFIA: LACERDA, CRISTINA B. F. DE. UM POUCO DA HISTÓRIA DAS
DIFERENTES ABORDAGENS NA EDUCAÇÃO DOS SURDOS. CAD. CEDES (ONLINE) 199,
VO. 19, N.46, PP. 68-80
Antigüidade – Gregos e Romanos
Aristóteles: “A linguagem é que dá ao indivíduo a condição de humano”
Portanto, se não falam, os surdos não são considerados humanos.
Romanos: Os surdos não tem direitos legais. Até sec. XII, não podiam se casar.
“A infortunada criança era prontamente asfixiada ou tinha sua garganta
cortada ou era lançada de um precipício para dentro das ondas. Era uma traição
poupar uma criatura de quem a nação nada poderia esperar”.
(Lane e Philip,”The deaf experience”, 1984, p. 165)
IDADE MÉDIA
A igreja católica acreditava que as almas dos surdos
não poderiam ser consideradas imortais , porque eles
não podiam falar os sacramentos.
Idade Moderna
Pedro Ponce de Léon (1520 – 1584)
Primeiro professor de surdos da história (filhos de
nobres)
Monge beneditino (Espanha)
Ensinava o surdo a falar para que pudesse ser
reconhecido em seus direitos legais
Jacob Rodrigues Pereire
(1715 – 1780)
Tinha fluência na Língua de Sinais, mas
defendia a oralização dos surdos.
Usava um alfabeto digital especial em que
cada formato da mão designava a posição
e o movimento dos O.F.A.
Nos últimos anos converteu-se do
judaísmo ao cristianismo e deixou de
tentar transformar surdos sinalizadores
em falantes.
Abade L’Epée
L´Epée sabia que a linguagem de sinais era eficiente para a catequese e
poderia ser também para a educação.
Supôs que, na ausência da audição, o surdo poderia ter na escrita sua
principal forma de aprendizagem.
Para o ensino da escrita francesa – inventou sinais para marcar aspectos
gramaticais presentes no francês – inventou os Sinais Metódicos. Para ele,
através dos sinais e da escrita/leitura os surdos poderiam ter acesso não
apenas à escolaridade básica, mas à literatura e outras formas de expressão
cultural.
Instituto Nacional de Surdos de Paris
178
9
Instituto Nacional de Surdos de Paris
2005
Samuel Heinicke
(Alemanha, 1727 – 1790)
Por volta de 1754, educou sua primeira
aluna surda. Seu sucesso em ensinar esta
menina foi tão grande, que tomou a
decisão de se devotar inteiramente a este
trabalho. Inaugurou a primeira instituição
para surdos em Leipzig, em 1778. Dirigiu
esta escola até sua morte. Foi o autor de
vários livros na instrução aos surdos.
Seus métodos de ensino eram
estritamente orais.
Ferdinand Berthier (1803 – 1886)
Foi o aluno mais brilhante do Instituto de
Surdos de Paris.
Foi professor neste instituto e uma figura
importante na comunidade literária.
Veio para os EUA em 1816, para trabalhar na
educação de surdos
Escreveu vários livros, entre eles a biografia
de L’Epée.
Idade Contemporânea
Jean Marc Itard
(1774 – 1838)
Médico e cirurgião, trabalhou no
Instituto Nacional de Surdos de Paris
Realizou procedimentos para erradicar
a surdez: Aplicar cargas elétricas nos
ouvidos, usar sanguessugas, perfurar o
tímpano, colocar cateteres nos ouvidos
Jean Marc Itard
(1774 – 1838)
A surdez é uma doença: você não a escolheria, apesar de poder se conformar com ela”
Idade Contemporânea
Jean Marc Itard
(1774 – 1838)
Médico e cirurgião, trabalhou no Instituto
Nacional de Surdos de Paris
Realizou procedimentos para erradicar a
surdez: Aplicar cargas elétricas nos ouvidos,
usar sanguessugas, perfurar o tímpano, colocar
cateteres nos ouvidos
TREINAMENTO AUDITIVO - IDEALIZADO POR ITARD
EUSTÁQUIO, VOMITIVOS, PERFURAÇÃO DA MEMBRANA TIMPÂNICA ETC JEAN ITARD
“TRATAMENTO” DA SURDEZ POR ELETROGALVANISMO SÉC XIX
Alexander Graham Bell
(Alemanha 1847 – Canadá 1922)
Se nós tivéssemos a condição
mental dos surdos como objetivo
principal de sua educação, sem
referência à linguagem, nenhuma
linguagem tem um alcance tão
grande sobres suas mentes do que
a linguagem de sinais
Alexander Graham Bell
(Alemanha 1847 – Canadá 1922)
(...) Mas isto não é possível,
pois o principal objeto da
educação dos surdos é
ajustá-los para viver no
mundo de pessoas ouvintes e
falantes.
Edward Miner Gallaudet
(1837 -1917)
Defendia o uso combinado da
linguagem de sinais com a fala.
Interessava-se, sobretudo, pelo
ensino universitário de estudantes
[Link] que a
oralização não tinha os mesmos
resultados entre os surdos –
alguns obtinham sucesso e outros
não.
Edward Miner Gallaudet
(1837 -1917)
Portanto: a oralização deveria ser
mantida para os casos em que os
sujeitos demonstrassem boa
resposta, para os outros a
educação deveria ser feita em
sinais.
Gallaudet University
CONGRESSO DE MILÃO
- 1880 -
O Congresso – considerando a incontestável superioridade da fala sobre os sinais na
reintegração do surdo-mudo na sociedade, e para dar-lhe mais perfeito conhecimento da
linguagem , declara – que o método oral puro deve ser preferido aos sinais para a educação e
instrução do surdo-mudo.
O Congresso – considerando que o uso simultâneo da fala e sinais tem a desvantagem de
prejudicar a fala, a leitura labial e a precisão das idéias, declara que o método Oral puro deve ser
o preferido (Kinsey, 1880)
ORALISMO
As decisões tomadas no Congresso de Milão levaram a que
a linguagem gestual fosse praticamente banida como forma
de comunicação a ser utilizada por pessoas surdas no
trabalho educacional. A única oposição clara feita ao
oralismo foi apresentada por Gallaudet que, desenvolvendo
nos Estados Unidos um trabalho baseado nos sinais
metódicos do abade DeL'Epée, discordava dos argumentos
apresentados, reportando-se aos sucessos obtidos por seus
alunos (Sachs 1990, Lane 1989).
Com o Congresso de Milão termina uma época de
convivência tolerada na educação dos surdos entre a
linguagem falada e a gestual e, em particular, desaparece a
figura do professor surdo que, até então, era freqüente. Era
o professor surdo que, na escola, intervinha na educação,
de modo a ensinar/transmitir um certo tipo de cultura e de
informação através do canal visogestual e que, após o
congresso, foi excluído das escolas
Assim, no mundo todo, a partir do Congresso de Milão, o oralismo foi o referencial
assumido e as práticas educacionais vinculadas a ele foram amplamente desenvolvidas
e divulgadas. Essa abordagem não foi, praticamente, questionada por quase um
século. Os resultados de muitas décadas de trabalho nessa linha, no entanto, não
mostraram grandes sucessos. A maior parte dos surdos profundos não desenvolveu
uma fala socialmente satisfatória e, em geral, esse desenvolvimento era parcial e
tardio em relação à aquisição de fala apresentada pelos ouvintes, implicando um
atraso de desenvolvimento global significativo. Somadas a isso estavam as dificuldades
ligadas à aprendizagem da leitura e da escrita: sempre tardia, cheia de problemas,
mostrava sujeitos, muitas vezes, apenas parcialmente alfabetizados após anos de
escolarização. Muitos estudos apontam para tais problemas, desenvolvidos em
diferentes realidades e que acabam revelando sempre o mesmo cenário: sujeitos
pouco preparados para o convívio social, com sérias dificuldades de comunicação, seja
oral ou escrita, tornando claro o insucesso pedagógico dessa abordagem (Johnson et
al. 1991, Fernandes 1989).
Nada de realmente importante aconteceu em relação ao oralismo
até o início dos anos 50, com as novas descobertas técnicas e a
possibilidade de se "protetizar" crianças surdas muito pequenas. Era
um novo impulso para a educação voltada para a vocalização. Foram
desenvolvidas novas técnicas para que a escola pudesse trabalhar
sobre aspectos da percepção auditiva e de leitura labial da
linguagem falada, surgindo assim um grande número de métodos,
dando ensejo a momentos de nova esperança de que, com o uso de
próteses, se pudessem educar crianças com surdez grave e profunda
a ouvir e, conseqüentemente, a falar.
Para os oralistas, a linguagem falada é prioritária como
forma de comunicação dos surdos e a aprendizagem da
linguagem oral é preconizada como indispensável para o
desenvolvimento integral das crianças. De forma geral,
sinais e alfabeto digitais são proibidos, embora alguns
aceitem o uso de gestos naturais, e recomenda-se que a
recepção da linguagem seja feita pela via auditiva
(devidamente treinada) e pela leitura orofacial (Trenche
1995).
COMUNICAÇÃO TOTAL
O descontentamento com o oralismo e as pesquisas sobre línguas de sinais deram origem a
novas propostas pedagógico-educacionais em relação à educação da pessoa surda, e a
tendência que ganhou impulso nos anos 70 foi a chamada comunicação total. "A
Comunicação Total é a prática de usar sinais, leitura orofacial, amplificação e alfabeto
digital para fornecer inputs lingüísticos para estudantes surdos, ao passo que eles podem
expressar-se nas modalidades preferidas" (Stewart 1993, p. 118).
O objetivo é fornecer à criança a possibilidade de desenvolver uma comunicação real com
seus familiares, professores e coetâneos, para que possa construir seu mundo interno. A
oralização não é o objetivo em si da comunicação total, mas uma das áreas trabalhadas
para possibilitar a integração social do indivíduo surdo.
COMUNICAÇÃO TOTAL
A comunicação total pode utilizar tanto sinais retirados da língua de sinais usada
pela comunidade surda quanto sinais gramaticais modificados e marcadores
para elementos presentes na língua falada, mas não na língua de sinais.
O que a comunicação total favoreceu de maneira efetiva foi o contato com
sinais, que era proibido pelo oralismo, e esse contato propiciou que os surdos se
dispusessem à aprendizagem das línguas de sinais, externamente ao trabalho
escolar. Essas línguas são freqüentemente usadas entre os alunos, enquanto na
relação com o professor é usado um misto de língua oral com sinais.
Educação Bilingüe para Surdos
❑Segundo a definição da UNESCO educação bilingue é:
“o direito que têm as crianças que utilizam uma língua
diferente da língua oficial de serem educadas na sua
língua”.
❑Na educação bilingue para surdos a língua de sinais é
tida como a língua materna das pessoas surdas, e
propõe a exposição mais cedo possível a ela de modo a
oportunizar o desenvolvimento dos processos
cognitivos e de linguagem.
❑A língua escrita e a língua oral são ensinadas como línguas
estrangeiras (L2) no Bilingüismo, sendo dependentes da aquisição
da língua de sinais.
❑Em países como Dinamarca e Suécia, a educação bilingüe tem
formado sujeitos surdos competentes em língua de sinais, leitura e
escrita. Desde de 1981, o bilingüismo foi implantado pelo
parlamento sueco e grande parcela da população surda daquele
país trabalho hoje em áreas que exigem formação universitária.
❑A base para a educação bilingüe é a leitura que pode ser
de várias formas:
❑Legendas na televisão, escrita dos textos narrados em
língua de sinais, textos com personagens surdos, revistas
que falam sobre a comunidade surda, atualidades e
outros.
❑Tornar-se letrado numa proposta bilingüe pressupõe a
utilização de língua de sinais para o ensino de todas as
disciplinas. Proporcionada como primeira língua (L1), o
aprendizado de língua de sinais é oferecido aos surdos
em situações significativas, como jogos, brincadeiras e
narrativas de estórias, mediante a interação com outros
surdos adultos competentes na língua de sinais. Faz
parte também da proposta bilingüe que todos as
pessoas que trabalham na escola aprendam língua de
sinais.
Os discursos sobre a surdez , entre os séculos XVII e
XVIII, sustentavam 03 pré-construídos:
a) o surdo é deficiente, mas pode atingir nível de
escolaridade similar aos ouvintes – desde que sejam
compensadas, ou superadas, as limitações que a perda da
audição lhe impõe.
b) a linguagem é condição necessária para que tal nível
seja atingido.
c) todo o ser humano deve ter o direito, assegurado pelo
Estado, à educação – seguindo os princípios que
sustentaram a revolução francesa: liberdade, fraternidade
e igualdade.