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Manual de Jurisdição Civil: Temas Essenciais

Este manual abrange nove temas sobre jurisdição civil, incluindo princípios de obrigações e direitos reais, atribuições do Ministério Público, ações e processos, pressupostos processuais e procedimentos cautelares. O manual foi produzido por formadores da jurisdição civil para apoiar a formação inicial de magistrados e promotores de justiça.
Direitos autorais
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Manual de Jurisdição Civil: Temas Essenciais

Este manual abrange nove temas sobre jurisdição civil, incluindo princípios de obrigações e direitos reais, atribuições do Ministério Público, ações e processos, pressupostos processuais e procedimentos cautelares. O manual foi produzido por formadores da jurisdição civil para apoiar a formação inicial de magistrados e promotores de justiça.
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Manual de Jurisdição Civil

(1a Versão)

-Alda H. Manjate
-Matilde Monjane
-Rui Arnaldo Siquela
-Ribeiro José Cuna (Coordenação)

Temas:
Tema 1 - Princípios fundamentais: Obrigações e Direitos Reais
Tema 2 -Atribuições do Ministério Público na Jurisdição Civil
Tema 3 -Das Acções e Formas de Processo
Tema 4 -Pressupostos processuais
Tema 5 -Dos Procedimentos Cautelares
Tema 6 -Processo declarativo - Actos dos magistrados do Ministério Público
Tema 7 -Processo executivo
Tema 8 -Lições sobre Processo Especial de Inventário Obrigatório
Tema 9 -Direito Comercial

Março de 2012

1
Apresentação

No processo de formação há necessidade de produção de textos, por mais elementares que sejam,
que possam servir de apoio com vista a uma melhor compreensão dos conteúdos tratados com o
formando e até para um melhor tratamento e estruturação da matéria por parte do formador e
melhor desempenho do seu papel como facilitador.

Foi nessa perspectiva que foram produzidos alguns textos para apoio ao formando em torno de
alguns temas da jurisdição civil que são objecto de abordagem o curso de formação inicial para
ingresso na carreira de magistrado judicial e do Ministério Público.

Os temas tratados neste manual, num total de nove, são referentes, designadamente: aos
princípios fundamentais do direito das obrigações, direitos reais e do direito processual civil;
Atribuições do Ministério Público na jurisdição civil; Acções e formas de processo; Pressupostos
processuais; Procedimentos cautelares; Processo declarativo - Actos dos magistrados do
Ministério Público; Processo executivo; processo especial de inventário obrigatório; Direito
Comercial.

Os textos em referência foram produzidos pelos formadores da jurisdição, esperando-se que no


futuro sejam enriquecidos face às críticas e contribuições que forem feitas em torno dos mesmos.

Embora seja escusado dizê-lo, recomenda-se aos formandos a consulta à bibliografia existente
sobre a matéria de modo a complementar devidamente a informação contida nos textos, pois só
assim estarão habilitados para fazer uma leitura crítica, no sentido positivo, aos referidos textos.

O presente manual constitui a primeira versão, havendo assim perspectiva de elaboração de


posteriores versões que, para além de integrarem os actuais textos, naturalmente actualizados
e/ou aprofundados em alguns aspectos, contarão com novos textos atinentes a conteúdos tratados
ao longo da formação, relativamente aos quais neste momento ainda não há textos disponíveis
para integrarem o presente manual, sendo certo que a equipa de formadores está comprometida
com a produção de mais textos de modo a abranger neste aspecto todos os módulos do curso.

Maputo, 17 de Março de 2012.

Ribeiro José Cuna


/Procurador da República/

2
Índice geral

Páginas

Tema 1 - Princípios fundamentais: Obrigações e Direitos reais......................................................9


Matilde Monjane..............................................................................................................................9
Rui Siquela.......................................................................................................................................9
Introdução......................................................................................................................................11
Princípios fundamentais: Obrigações e Direitos reais...................................................................11
Princípios fundamentais do direito processual civil......................................................................15
Tema 2 - Atribuições do Ministério Público na Jurisdição Civil..................................................19
Ribeiro José Cuna..........................................................................................................................19
Abreviaturas...................................................................................................................................21
Introdução......................................................................................................................................22
[Link]ções prévias................................................................................................................23
[Link]ção e natureza do Ministério Público............................................................................23
1.2. Autonomia e composição do Ministério Público....................................................................25
[Link] e carreira da Magistratura do Ministério Público..................................................26
[Link]ção e progressão na carreira da Magistratura do Ministério Público............................27
[Link]ção do Ministério Público......................................................................................28
[Link]ções do Ministério Público..............................................................................................29
[Link]ências de actuação judicial......................................................................................30
[Link]ências de actuação extrajudicial..............................................................................35
[Link]ções finais sobre as competências do Ministério Público na jurisdição cível............44
Conclusão......................................................................................................................................46
-Referências Bibliográficas...........................................................................................................48
Tema 3 - Das Acções e Formas de Processo.................................................................................50
Alda H. Manjate.............................................................................................................................50
-Das acções e formas de processo.................................................................................................52
•Acções declarativas de simples apreciação..............................................................................52
•Acções declarativas de condenação.........................................................................................53
•Acções declarativas constitutivas.............................................................................................53
-Acções executivas........................................................................................................................54
-Os Procedimentos cautelares........................................................................................................54
-Espécies e enumeração dos procedimentos cautelares.............................................................55
Tema 4 - Pressupostos processuais................................................................................................57
Ribeiro José Cuna..........................................................................................................................57
Abreviaturas...................................................................................................................................59
Introdução......................................................................................................................................60
[Link] processuais............................................................................................................61
[Link]ção.......................................................................................................................................61
[Link] judiciária...........................................................................................................61
[Link]ências da falta de personalidade judiciária.........................................................63
[Link] judiciária...............................................................................................................64
[Link]ências da incapacidade judiciária (não suprida).................................................65

3
[Link] das partes...........................................................................................................65
[Link]órcio e coligação....................................................................................................66
[Link] da falta de legitimidade........................................................................................68
1.5.O interesse processual..............................................................................................................68
[Link]ínio judiciário.................................................................................................................69
[Link]ência............................................................................................................................69
[Link] da competência................................................................................................71
[Link]ência internacional e interna....................................................................................71
[Link].Competência internacional............................................................................................71
[Link].Competência interna......................................................................................................77
[Link].Extensão e modificação da competência...........................................................................84
[Link]ção das regras de competência e seus efeitos..............................................................88
[Link]ência absoluta. Legitimidade e tempo para sua arguição..................................88
[Link] da incompetência absoluta....................................................................................88
[Link]ência relativa..........................................................................................................89
[Link] e prazo para sua arguição...........................................................................89
1.7.6. Efeitos da incompetência relativa....................................................................................89
Conclusão......................................................................................................................................89
-Bibliografia...................................................................................................................................91
-Legislação.....................................................................................................................................91
Tema 5 - Dos Procedimentos Cautelares.......................................................................................92
Alda H. Manjate.............................................................................................................................92
-Dos Procedimentos Cautelares.....................................................................................................94
Noção:............................................................................................................................................94
Requisitos Gerais.......................................................................................................................94
Processamento...........................................................................................................................94
Carácter instrumental e provisório.................................................................................................95
Caducidade da providência............................................................................................................95
Garantia penal da providência.......................................................................................................95
Contraditório diferido....................................................................................................................96
Procedimentos Cautelares Especificados......................................................................................96
Alimentos Provisórios- art. 388 e seguintes do C.P.C...............................................................96
Restituição Provisória da Posse.................................................................................................97
Arresto Preventivo.....................................................................................................................98
Embargo de obra nova...............................................................................................................99
2. Procedimento Cautelar Não Especificado...............................................................................101
Tema 6 - Processo declarativo - Actos dos magistrados do Ministério Público.........................103
Ribeiro José Cuna........................................................................................................................103
Abreviaturas.................................................................................................................................105
Introdução....................................................................................................................................106
[Link] do processo declarativo ordinário.........................................................................107
[Link]................................................................................................................................108
[Link]ção inicial.....................................................................................................................109
2.1.1. Possíveis atitudes do juiz face à petição inicial.............................................................115
[Link].Indeferimento liminar da petição. Motivos. Atitudes possíveis do autor................115
[Link].Convite ao autor para completar ou corrigir a petição............................................117

4
[Link].Arquivamento do processo......................................................................................118
[Link].Ordenar a citação do réu..........................................................................................118
[Link].[Link] da citação - a citação tem efeitos que podem ser de natureza material
(substantiva) ou de natureza processual (adjectiva)...........................................................119
[Link]ção........................................................................................................................121
[Link] da contestação-defesa............................................................................122
[Link].Princípios da contestação-defesa.............................................................................123
2.3.O ónus de impugnação...........................................................................................................124
[Link]ções ao ónus de impugnação especificada............................................................125
[Link].Ónus especial de impugnação, nas acções que tenham por base um título de obrigação
assinado pelo réu......................................................................................................................125
[Link]ção-reconvenção..................................................................................................127
[Link] de admissibilidade da reconvenção...........................................................127
[Link] à contestação/resposta à reconvenção................................................................129
[Link] de contestação. Efeitos da revelia......................................................................131
[Link] supervenientes................................................................................................131
[Link] dos articulados supervenientes..........................................................................132
[Link] de má fé...........................................................................................................................133
[Link] actos do Ministério Público..........................................................................................133
[Link] dos magistrados do Ministério Público no processo declarativo sumário -
particularidades. Tendência geral do processo sumário..............................................................135
[Link]............................................................................................................................135
[Link] de indeferimento liminar.........................................................................................136
[Link] de má fé e outros actos dos magistrados do Ministério Público..................................137
Conclusão....................................................................................................................................137
-Bibliografia.................................................................................................................................139
-Legislação...................................................................................................................................139
-Anexos........................................................................................................................................140
Tema 7 - Processo executivo.......................................................................................................168
Ribeiro José Cuna........................................................................................................................168
Abreviaturas.................................................................................................................................170
Introdução....................................................................................................................................171
[Link]ísticas da acção [Link]ções gerais.........................................................171
[Link] da acção executiva..............................................................................................173
[Link]-Credor/devedor.......................................................................................................173
2.2.Título executivo.................................................................................................................174
2.3. Certeza, liquidez e exigibilidade da obrigação.................................................................175
[Link]ção para pagamento de quantia certa..............................................................................176
[Link]ção ordinária................................................................................................................176
[Link] inicial da execução..................................................................................176
[Link]ção à execução.......................................................................................................180
[Link]...........................................................................................................................183
[Link]ção dos credores e verificação dos créditos......................................................184
[Link].......................................................................................................................186
[Link].Entrega de dinheiro......................................................................................................186
[Link].Adjudicação dos bens penhorados...............................................................................187

5
[Link].Consignação dos seus rendimentos.............................................................................190
[Link].Venda...........................................................................................................................192
[Link].[Link] extrajudicial...................................................................................................192
[Link].[Link] judicial...........................................................................................................193
[Link]ção e anulação da execução...................................................................................198
3.1.7. Remição.............................................................................................................................201
[Link]ção sumária..................................................................................................................202
[Link]ção para entrega de coisa certa.......................................................................................204
[Link]ção para prestação de facto (positivo/negativo)..............................................................207
[Link]ções prévias...........................................................................................................207
[Link]ção para prestação de facto positivo............................................................................209
[Link] quando o exequente opta pela autorização para que o facto seja praticado à
custa do executado...................................................................................................................212
[Link] quando exequente opta pela indemnização pelo dano sofrido decorrente da
não prestação do facto pelo executado....................................................................................213
[Link]ção para prestação de facto negativo...........................................................................214
[Link]ção conexa a acção penal (acidentes estradais)..............................................................215
[Link]ção especial por alimentos..............................................................................................217
[Link]ção por custas na jurisdição civil....................................................................................219
[Link]ções prévias...........................................................................................................219
[Link] de processo.............................................................................................................221
[Link]ção da execução por custas na jurisdição civil..........................................................222
Conclusão....................................................................................................................................225
-Bibliografia.................................................................................................................................228
-Legislação...................................................................................................................................228
Tema 8 - Lições sobre processo especial de inventário obrigatório............................................229
Ribeiro José Cuna........................................................................................................................229
Abreviaturas.................................................................................................................................231
Introdução....................................................................................................................................232
[Link]ções prévias..............................................................................................................232
[Link]ão do processo de inventário e sua função..................................................................232
[Link] obrigatoriedade ou não do inventário face ao novo regime do Código do Notariado.....234
[Link]ção do inventário obrigatório.......................................................................................236
[Link] do inventário obrigatório, regime jurídico e aspectos práticos....................................236
[Link] da abertura do processo, nomeação de cabeça-de-casal, prestação de
juramento pessoal de bem desempenhar as funções e de declarações por parte do cabeça-de-
casal e apresentação por este da relação de bens.....................................................................237
[Link]ção de todos interessados e do Ministério Público para os termos do inventário e
exame da relação de bens........................................................................................................244
[Link]ção dos bens da herança e seu exame pelos intervenientes no processo..............246
[Link]ção da conferência de interessados.....................................................................247
[Link]ções........................................................................................................................248
[Link]ção da forma de partilha pelo magistrado do Ministério Público e despacho
determinativo da partilha do juiz.............................................................................................249
[Link]ção do mapa de partilha e seu exame pelos interessados...................................251

6
[Link]ção por sentença do mapa de partilha pelo tribunal e remessa do processo à
contadoria para efeitos de elaboração da conta.......................................................................251
[Link] e anulação da partilha...........................................................................................252
[Link].Disposições gerais...........................................................................................................253
[Link] do inventário....................................................................................................254
Conclusão....................................................................................................................................256
-Bibliografia.................................................................................................................................257
-Legislação...................................................................................................................................258
Tema 9 - Direito Comercial.........................................................................................................259
Ribeiro José Cuna........................................................................................................................259
Abreviaturas.................................................................................................................................262
Introdução....................................................................................................................................263
[Link] financeiros. Notas introdutórias...............................................................................263
[Link]...................................................................................................................................264
[Link]ção e aspectos relevantes...........................................................................................264
[Link] do Leasing............................................................................................................265
[Link]ção do Leasing.......................................................................................................265
[Link]ância do Leasing..................................................................................................266
[Link] em confronto com a venda a prestações............................................................266
[Link]............................................................................................................................266
[Link]ção e aspectos relevantes...........................................................................................266
[Link] do Franchising......................................................................................................268
[Link]ção do Franchising.................................................................................................269
[Link]ância do Franchising............................................................................................269
[Link] em confronto com o contrato de distribuição.............................................270
[Link]ência..................................................................................................................................270
[Link]ção e aspectos relevantes...........................................................................................270
[Link] da Agência...........................................................................................................270
[Link]ção da Agência......................................................................................................271
[Link]ância da Agência..................................................................................................272
[Link]ência em confronto com o contrato de mandato........................................................272
[Link]................................................................................................................................272
[Link]ção e aspectos relevantes...........................................................................................272
[Link] do Factoring.........................................................................................................273
[Link]ção do Factoring....................................................................................................275
[Link]ância do Factoring................................................................................................275
[Link] e figuras afins.................................................................................................276
2.Títulos de crédito......................................................................................................................276
[Link]ções prévias. Crédito.............................................................................................276
[Link]ção, função e características dos títulos de crédito...........................................................277
[Link]ção dos títulos de crédito........................................................................................280
[Link]...................................................................................................................................281
[Link]ça.............................................................................................................................282
[Link]...............................................................................................................................283
[Link] penal do Cheque....................................................................................................284
[Link] comercial.......................................................................................................285

7
[Link]ção de estabelecimento comercial.................................................................................285
[Link] do estabelecimento comercial..........................................................................285
[Link] e relações jurídicas sobre o estabelecimento comercial...........................................287
[Link] e cessão de exploração...................................................................................288
[Link] comerciais..............................................................................................................289
[Link]ções prévias...........................................................................................................289
[Link], personalidade jurídica, capacidade jurídica e autonomia patrimonial das
sociedades comerciais..............................................................................................................289
4.1.2.Órgãos das sociedades comerciais......................................................................................290
[Link].Assembleia-geral.........................................................................................................291
[Link].Administração..............................................................................................................292
[Link].Fiscalização..................................................................................................................293
[Link] dos titulares dos órgãos sociais..............................................................294
[Link] de sociedades comerciais.............................................................................................296
[Link] comerciais em nome colectivo.........................................................................296
[Link].Da administração e fiscalização da sociedade.............................................................297
[Link] em comandita...................................................................................................297
[Link].Da administração e fiscalização da sociedade.............................................................298
[Link] de capital e indústria........................................................................................299
[Link].Da administração e fiscalização da sociedade.............................................................299
[Link] por quotas.........................................................................................................299
[Link].Sociedades por quotas com um único sócio....................................................................300
[Link].Da administração e fiscalização da sociedade.............................................................300
[Link] anónimas..........................................................................................................302
[Link].Da administração e fiscalização da sociedade.............................................................303
[Link].Administração..........................................................................................................303
[Link].Fiscalização..............................................................................................................306
Conclusão....................................................................................................................................307
-Bibliografia.................................................................................................................................309
-Legislação...................................................................................................................................309

8
Tema 1 - Princípios fundamentais: Obrigações e Direitos reais

Matilde Monjane

Rui Siquela

9
Índice

Páginas

Tema 1 - Princípios fundamentais: Obrigações e Direitos reais......................................................9


Matilde Monjane..............................................................................................................................9
Rui Siquela.......................................................................................................................................9
Introdução......................................................................................................................................11
Princípios fundamentais: Obrigações e Direitos reais...................................................................11
Princípios fundamentais do direito processual civil......................................................................15

Introdução

10
Os princípios gerais de direito desempenham um papel importante, tanto para a interpretação do
próprio direito como para a resolução de casos concretos da vida real, fora o facto de conferirem
coesão às normas jurídicas, pois estas assentam nos princípios que lhes enformam.

Sem pretender esgotá-los, no presente texto propomo-nos fazer uma abordagem geral dos
princípios gerais específicos de algumas áreas jurídicas, nomeadamente o direito civil (direito
das obrigações e direito das coisas) e o direito processual civil.

Assim, relativamente ao aos princípios fundamentais do direito das obrigações e direitos reais ou
direito das coisas, trataremos do princípio da autonomia da vontade; princípio da
consensualidade; princípio da atipicidade; princípio da integralidade do cumprimento; princípio
da pontualidade; princípio da boa fé; e princípio nominalista.

No caso especial do direito das coisas, não se descura do conceito de direito real, bem como dos
seus caracteres, designadamente a sequela, a prevalência, a tipicidade, a publicidade, aspectos
relacionados com a existência actual e determinada da coisa, a inseparabilidade do direito e da
coisa, a referência do direito à totalidade da coisa, enfim, o carácter da permanência.

No que respeita aos princípios fundamentais do direito processual civil, ocupar-nos-emos do


princípio dispositivo; princípio do contraditório; princípio inquisitório; princípio da legalidade;
princípio da igualdade das partes; princípio da imediação; princípio da economia processual;
princípio da limitação dos actos processuais; princípio da plenitude da assistência dos juízes;
princípio da oralidade; princípio da livre apreciação das provas; princípio do conhecimento
oficioso.

O que se pretende relativamente aos princípios a abordar, é essencialmente tratar do respectivo


conteúdo e alcance.

Princípios fundamentais: Obrigações e Direitos reais

1. Princípio da autonomia da vontade


Liberdade contratual (duas vertentes):
- Liberdade de celebração

Proibições de celebração de certos contratos – art 876 e 877, CC

- Liberdade de estipulação – art 405, CC

2. Princípio da Consensualidade (integra consensualidade)

Duas acepções: Direitos reais – art 408, CC

Dir. Civil: 219, CC

11
3. Princípio da atipicidade

Art 405, CC

4. Princípio da integralidade do cumprimento

Art 763, CC

5. Princípio da pontualidade – pontualidade do cumprimento - art 406, n. 1, CC

6. Princípio da boa fé – art 227, 762, n. 2, CC;

7. Princípio nominalista – art 550, CC

1. Princípio da autonomia da vontade – Princípio em virtude do qual, dentro dos


limites estabelecidos na lei, a vontade livremente expressa tem o poder de crier,
modificar, e extinguir relações jurídicas.

- Liberdade contractual – significa que são os particulares que determinam o


conteúdo e os efeitos dos negócios jurídicos que celebram.

Este princípio manifesta-se fundamentalmente de dois aspectos:

a) Liberdade de celebração - Compete `as pessoas a decisão sobre a


celebração dos negócios, ninguém sendo obrigado a contratar ou a
deixar de faze-lo, excepto nos casos em que a lei determina o contrário.
Ex.: Obrigatoriedade e contratar – art 876 e 877, CC;

b) Liberdade de estipulação – as partes são livres de fixar o conteúdo dos


contratos, de celebrar contratos diferentes dos previstos na lei ou de
incluir, nos ai estão previstos, as cláusulas que entenderem, desde que
utilizem essa liberdade dentro dos limites que a lei lhes impõe.

É ainda permitido `as partes celebrar contratos mistos, ou seja, em que


integrem regras de dois ou mais contratos regulados legalmente.

- art 405, CC

[Link]ípio da Consensualidade (integra consensualidade ) – usa-se o termo


consensualidade em duas acepções:

12
- Por um lado significa que os contratos com eficácia real produzem os seus efeitos
reais pelo mero consenso das partes, isto é, no momento da sua celebração e
independentemente de qualquer outra formalidade. É este o regime consagrado na
lei moçambicana – art 408, CC
- Por outro lado significa também que assim o o princípio Segundo o qual a
validade do declaração negocial não depende da observância de forma especial,
excepto quando a lei a prescrever, podendo, portanto, a vontade das partes
manifestar-se validamente de qualquer modo – art 219, CC

3. Princípio da atipicidade ( ou princípio e numerus apertus ) – verifica-se sempre


que a ordem jurídica permite aos sujeitos jurídicos a criação de direitos ou posições
jurídicas diversas das que se encontram previstas na lei.
Ex.: no domínio das obrigações Art 405, CC

* Excepções: art 457 e 483, n. 2, CC

4. Princípio da tipicidade ( ou numerus clausus )- verifica-se quando a lei tipifica


direitos, negócios, efeitos ou situações jurídicas não reconhecendo outros para além
desses, que na lei se encontram expressamente previstos. – Vide Direitos reais – vide
lei de terras.

5. Princípio da integralidade do cumprimento Significa que o cumprimento deve ser


realizado integralmente e não por partes, excepto se outro for o regime
convencionado por lei ou pelos usos- art 763, CC

6. Princípio da pontualidade – O contrato deve ser pontualmente cumprido - art 406,


n. 1, CC

Este princípio significa que os contratos devem ser cumpridos pontualmente quanto
ao tempo ou momento de cumprimento e ainda que a prestação deve ser executada
ponto por ponto, isto é, nos exactos termos em que foi convencionada ou a lei a
impõe.

7. Princípio da boa fé – Há duas acepções do termo boa fé na lei:

a) A consideração razoável e equilibrada dos interesses dos outros, a


honestidade e a lealdade nos comportamentos e, designadamente na
celebração e execução dos negócios jurídicos. Neste caso a boa fé ‘e um
conceito indeterminado ( ou uma cláusula geral de direito privado ),
cabendo ao julgador o seu preenchimento casuístico, de acordo com as
circunstâncias do caso e as convicções historicamente dominantes em
cada momento na sociedade. Ex.: rt 227, 762, n. 2, CC;

13
b) A convicção errónea e não culposa da existência de um facto ou de um
direito ou da validade de um negócio, a ignorância desculpável dos
fundamentos de invalidade ou de um vício de um negócio. Ex.: art 243,
612 e 1648, n. 1, CC.

Direito Real

Conceito:

Direito real é uma situação jurídica active através da qual se faz a afectação de coisas de
modo inerente aos interesses de uma pessoa individualmente considerada.

Caracteres do direito real:

1. A sequela – o facto de o seu titular poder atingir a coisa onde quer que ela se encontre –
Meneses Cordeiro. A sequela manifesta-se de modo pontual, quando e na medida do
necessário. Através dela o titular faz cessar uma perturbação ou afasta impedimento ao
exercício material do direito real em questão. Desse modo faz valer a atribuição da coisa
que a ordem jurídica lhe fez.

Tais meios podem ser: a) extrajudiciais, como a acção directa e a legítima defesa ( art 336,
CC );

c) Judiciais, acções reais, como as acções possessórias ( art 1276 CC e ss,


e 1033, e ss, CPC ) e a acção de reivindicação ( art 1311 e 1315, CC ),
entre outros.

2. A prevalência – consiste no poder que tem o titular do direito real de impor e fazer valer a
existência do seu direito em relação a qualquer indivíduo que tenha constituído sobre a
coisa um direito posterior.

3. A tipicidade - a lei tipifica direitos, negócios, efeitos ou situações jurídicas não


reconhecendo outros para além desses, que na lei se encontram expressamente previstos.
Ex: art 1306, CC.

O princípio e tipicidade que vigora no direito moçambicano encontra-se enunciado no art. 1306,
do CC.

Os sujeitos da ordem judicial apenas podem tornar-se titulares ou obrigados em termos


reais no quadro dos tipos de direitos reais previstos na lei, não sendo permitida a constituição
privada de direitos reais que a mesma não preveja;

Decorre ainda do mesmo princípio que a proibição da aplicação por analogia do regime
de um dado direito real a situações ou direitos não reais;

14
No princípio da tipicidade cabe ainda que não podem os sujeitos partir de direitos
legalmente previstos e modifica-los. O direito modificado já não seria o mesmo, mas um direito
novo.

O que se tipifica são os direitos reais, isto é, o seu conteúdo, e não as respectivas
categorias e vicissitudes – constituição, modificação, transmissão, extinção.

Isto não se passa nos mesmos termos com o direito de uso e aproveitamento do solo – o
legislador criou para este direito uma tipicidade reforçada. Vide art 12 da lei de terra
(constituição, transmissão e extinção).

4. A publicidade o direito real implica ser cognoscível, pelos sujeitos da ordem jurídica, ou,
mais restritamente, pelos interessados?
5. Existência actual e determinada da coisa -
6. A inseparabilidade do direito e da coisa – art 1545, CC;
7. A referência do direito `a totalidade da coisa – ex.: não pode uma flat pertencer a A e a
sala da mesma flat pertencer a B;
8. A permanência - a negação enquanto característica do direito real. Segundo uma certa
visão os direito de crédito se extinguiriam em resultado do seu exercício, isto é, do
cumprimento, sendo transitórios, já os direito reais seriam permanentes, de exercício
continuo – maxime, a propriedade.

Esta posição é porém negada pela doutrina dominante.

Princípios fundamentais do direito processual civil

Princípios fundamentais do Processo Civil, Obrigações e Direitos Reais:

Princípio – será a orientação que informa o conteúdo de um conjunto de normas jurídicas,


que tem de ser tomado em consideração pelo intérprete, podendo contudo , em alguns casos ter
aplicação directa.

Os princípios extraem-se das fontes e dos preceitos através da construção científica e servem, por
sua vez, de orientação ao legislador na definição de novos regimes.

Processo Civil

[Link]ípio dispositivo

Princípio que domina que domina o processo civil, segundo o qual às partes cabe iniciar o
processo, dar-lhe o conteúdo que entendam (formulando o pedido, e a causa de pedir ), suspendê-
lo ou pôr-lhe termo, por desistência, confissão ou transacção.

O juiz encontra-se vinculado ao quadro processual desenhado pelas partes, só podendo,


designadamente levar em conta os factos alegados e provados pelas partes, salvo quando se trate

15
de factos notórios ou de factos que venham ao conhecimento do Tribunal em virtude do
exercício das suas funções (cfr. Art 514, CPC ).

Vide art 264, CPC

2. Princípio do contraditório

Traduz-se em facultar a cada uma das partes no processo a intervenção nos actos de produção
de prova da contraparte, de forma que ela possa impugnar quer a admissão dos meios de prova,
quer a força probatória dos mesmos.

Segundo este princípio, deve, pois, ser sempre dada oportunidade à parte, contra quem é
formulado um pedido, invocado um argumento ou produzida uma prova, de se pronunciar, não
havendo decisão antes de tal acontecer.

Vide art 3,

 Excepções: art. 393 e 394, 402, e ss, 421 e ss, todos do CPC.

3. Princípio inquisitório

Por contraposição ao princípio dispositivo, o princípio inquisitório é aquele segundo o qual a


vontade relevante no processo é a do juiz, a quem a direcção da lide.
Vide art. 264 e 266, todos do CPC

4. Princípio da legalidade

A marcha e termos do processo são os determinados na lei não decididos pelo juiz em função
das conveniências do caso concreto.

Esta é designada pela doutrina por princípio da legalidade das formas processuais.

Vide art. 659, do CPC – O princípio da legalidade manifesta-se no que respeita ao conteúdo
da decisão, pois em princípio o Tribunal deve julgar segundo a lei ( art 659, CPC ).

 Excepções: Art. 266,

Só excepcionalmente o juiz decide segundo a equidade.

5. Princípio da igualdade das partes

Segundo este princípio, as partes no processo devem ter tratamento igual, dispondo de
idênticas oportunidades de expor as suas razões e de convencer o tribunal a proferir uma decisão
que lhe seja favorável.

6. Princípio da imediação

16
Traduz-se no contacto directo do juiz com as diversas fontes de prova, possibilitando que
perceba todos dos factos e de valorar as provas, eliminando os factores de falseamento e os que
induzam em erro...

Deste princípio resulta por exemplo que as provas pessoais sejam produzidas oralmente
perante o juiz, e também que só possam intervir na decisão da matéria de facto os juízes que
tenham assistido a todos os actos de instrução e discussão praticados na audiência final.

Vide art. 654, CPC

7. Princípio da economia processual

Segundo este princípio, na tramitação dos processos, devem ser evitadas dilações de qualquer
ordem.

Vide art 137 e art 138, CPC

8. Princípio da limitação dos actos processuais

Trata-se de expressão do princípio da economia processual – vide art 137, CPC


9. Princípio da plenitude da assistência dos juízes

Deste princípio decorre que “ só podem intervir na decisão da matéria de facto os juízes que
tenham assistido a todos os actos de instrução e discussão que tenham tido lugar na audiência de
julgamento.

 Excepções: art. 654, CPC

10. Princípio da oralidade

Significa que a produção de prova deve ser feita em sessão de actos orais, normalmente em
audiência de discussão e julgamento.

Vide art 647, nº 1, 652, nº 3, CPC.

11. Princípio da livre apreciação das provas

O tribunal baseia a sua decisão, em relação as provas produzidas, na sua íntima convicção,
formada a partir do exame e avaliação que faz dos meios de prova trazidos ao processo e de
acordo com a sua experiência da vida e de conhecimento das pessoas.

Vide art. 655, CPC

12. Princípio do conhecimento oficioso

17
Dever que o Tribunal tem de conhecer aspectos jurídicos da causa, sem dependência das
razões de direito invocadas pelas partes.

Vide art. 664, CPC

Matola, Março de 2011.

Matilde Monjane
/Magistrada Judicial)

Rui Siquela
/Magistrado Judicial/

18
Tema 2 - Atribuições do Ministério Público na Jurisdição Civil

Ribeiro José Cuna

Índice

Páginas

19
Tema 2 - Atribuições do Ministério Público na Jurisdição Civil..................................................19
Abreviaturas...................................................................................................................................21
Introdução......................................................................................................................................22
[Link]ções prévias................................................................................................................23
[Link]ção e natureza do Ministério Público............................................................................23
1.2. Autonomia e composição do Ministério Público....................................................................25
[Link] e carreira da Magistratura do Ministério Público..................................................26
[Link]ção e progressão na carreira da Magistratura do Ministério Público............................27
[Link]ção do Ministério Público......................................................................................28
[Link]ções do Ministério Público..............................................................................................29
[Link]ências de actuação judicial......................................................................................30
[Link]ências de actuação extrajudicial..............................................................................35
[Link]ções finais sobre as competências do Ministério Público na jurisdição cível............44
Conclusão......................................................................................................................................46
-Referências Bibliográficas...........................................................................................................48

Abreviaturas

20
-CC - Código Civil;
-CCJ - Código das Custas Judiciais;
-[Link] - Código Comercial;
-CP - Código Penal;
-CPC - Código de Processo Civil;
-CPP - Código de Processo Penal;
-CPT - Código de Processo de Trabalho;
-CRM - Constituição da República de Moçambique;
-CSMMP - Conselho Superior da Magistratura do Ministério Público;
-DL - Decreto-Lei;
-EMMP - Estatuto dos magistrados do Ministério Público;
-LOMP - Lei Orgânica do Ministério Público;
-MP - Ministério Público;
-PGA - Procurador-Geral Adjunto;
-PGA’s - Procuradores-Gerais Adjuntos;
-PGR - Procuradoria-Geral da República;
-PGR - Procurador-Geral da República;
-PR - Presidente da República;
-PGR - Procurador-Geral da República;
-Sub-PGA - Sub-Procurador-Geral Adjunto;
-Vice-PGR - Vice - Procuradoria-Geral da República.

Introdução

21
No presente texto faz-se uma abordagem em torno das atribuições do Ministério Público na
jurisdição civil.

Deste modo, não iremos tratar das diversas competências do MP consagradas na legislação civil
substantiva e processual, com destaque para o Código Civil, Código de Processo Civil e Código
do Registo Civil, por tal dever ter lugar em alguns módulos especialmente reservadas para o
efeito, ainda que só para casos julgados de abordagem prioritária no âmbito da formação de
magistrados.

Será feita referência a aspectos que julgamos pertinentes abordá-los antes de tratar das
competências do MP, designadamente a definição e natureza do MP, a sua autonomia e
composição, categorias e carreira, promoção e progressão na carreira da magistratura do MP e a
representação do MP, por considerá-los básicos para um conhecimento geral do MP enquanto
magistratura ou instituição e, como tais, questões prévias à abordagem das atribuições do MP.

Posto isso, passaremos a abordagem das atribuições do MP, começando pelas competências de
actuação judicial, aquelas cujo exercício implica necessariamente intervenção nos diversos
processos que tramitam ou que visam tramitá-los no Judiciário, ao que se seguirá o tratamento
das competências de actuação extrajudicial, aquelas que respeitam a acções ou actividades do
MP fora do âmbito dos processos judiciais, sendo que umas e outras a tratar são apenas aquelas
pertinentes à jurisdição cível.

Já na parte final do texto são tecidas considerações finais sobre as competências do MP na


jurisdição cível, terminado a abordagem com uma conclusão.

[Link]ções prévias

22
Antes de nos referirmos às atribuições do MP na jurisdição civil, tema central do presente texto,
porque pertinente iremos antes fazer alusão a alguns aspectos que consideramos prévios,
concretamente uma breve elaboração sobre o que seja o MP, visto fazer sentido falar das
atribuições de uma instituição de que se tem conhecimento ou noção.

Neste sentido, começaremos por avançar a definição e natureza do MP, seguindo-se a menção à
sua autonomia e composição. Ainda nesta sede faz-se alusão às categorias e carreira da
Magistratura do MP, a promoção e progressão na carreira desta Magistratura e, finalmente, à sua
representação.

Referidos estes aspectos, passar-se-á à abordagem das atribuições do MP.

[Link]ção e natureza do Ministério Público

À luz da Constituição da República de Moçambique em vigor e da Lei Orgânica do Ministério


Público, o Ministério Público define-se com sendo “... uma magistratura hierarquicamente
organizada, subordinada ao Procurador-Geral da República” (art. 234/1 da CRM e art. 1/1,
LOMP).

Decorre da referida definição e das disposições da LOMP, que os magistrados do MP, integrando
uma magistratura hierarquicamente organizada, subordinam-se aos seus superiores hierárquicos
(todos ao PGR e os de escalão inferior ao respectivo chefe), de quem podem receber directivas,
ordens e instruções, de cuja observância são responsáveis, contanto as mesmas sejam legais
(arts. 51/1, 52, nºs. 1, 2 e 3, e art. 53/1, todos da LOMP),

A reserva do carácter legal relativamente as directivas, ordens e instruções,


superiormente dadas para que pelo seu cumprimento os magistrados possam
responder e, por conseguinte, possam ser obrigatórias, passa pelo facto das mesmas
serem legalmente justificadas pelo fim ou finalidade de servir a justiça.

NÃO OBSTANTE ESTAREM subordinados A ORDENS E


INSTRUÇÕES DOS SEUS SUPERIORES HIERÁRQUICOS
responsáveis perante os seus superiores hierárquicos, na sua actuação
estão sujeitos a critérios de legalidade, objectividade e isenção (art.
234/2 CRM e art. 2/1, LOMP), incorrendo no crime de Promoção
dolosa do Ministério Público o magistrado que, em violação àqueles
critérios que devem nortear a sua actuação, “…proceder criminalmente
contra determinada pessoa, tendo conhecimento de que as provas são
falsas…”1.
1
Cfr. artigo 288 do CP.

23
Aliás, no que toca a sua vinculação na sua actuação a critérios de legalidade, objectividade e
isenção, no acto da tomada de posse os magistrados do MP ao abrigo do disposto no art. 96 do
EMMP prestam, por sua honra, juramento em dedicar todas as suas energias no cumprimento da
Constituição e demais leis, com isenção e objectividade, em defesa da legalidade e dos interesses
do Estado Moçambicano.

Neste sentido, face a várias interpretações legais ou diferentes possibilidades de apreciação da


matéria de facto, será legal a instrução no sentido de ser seguida uma delas. Em contrapartida,
seria “…ilegal a ordem, e por isso não obrigatória, que consistisse em impor uma apreciação
determinada dos factos, sem prévio conhecimento destes, ou antes de conhecido o resultado das
respectivas provas, ou que determinasse independentemente do condicionamento legal e de
facto, uma acusação ou abstenção de acusação em casos concretos.2

Ao magistrado do MP está reservado o direito de não acatar directivas, ordens e instruções


manifestamente ilegais, devendo a recusa ser feita por escrito e ser devidamente fundamentada,
caso em que o autor da ordem ou instrução poderá fazê-la cumprir por outro magistrado (art.
53/1, 2 e 4, EMMP).

Em caso de exercício injustificado ou de má-fé da faculdade de recusa por um determinado


magistrado, tal procedimento configura infracção disciplinar.

A organização hierárquica do MP pode se afirmar como se justificando pelo facto de, sendo o
Ministério Público a quem compete exercer a acção penal no interesse público ou da sociedade,
garantir-se que não haja disparidades no procedimento criminal nos diversos processos cuja
matéria tenha semelhanças, mediante uniformização da actuação dos magistrados do MP, o que
passa por uma coordenação e uniformização de procedimentos concretizável através do PGR ao
mais alto nível, com base na emanação de directivas e instruções.

Contra ordens e instruções ilegais os magistrados do MP têm a garantia de recusar o seu


cumprimento nos termos legais.

Em termos de direito comparado, se no Brasil os magistrados do MP na sua actuação devem


apenas obediência à Constituição, a lei e sua consciência, não podendo receber ordens e
instruções dos seus superiores hierárquicos, situação semelhante a Moçambique se verifica em
Portugal onde, convivendo a autonomia do MP com a sua organização hierárquica, cada
magistrado tem a garantia de estabilidade, o direito de “solicitar ao superior hierárquico que a
ordem ou instrução sejam emitidas por escrito”, bem como de “recusar o cumprimento de
directivas, ordens e instruções ilegais”, e ainda “com fundamento em grave violação da sua
consciência jurídica”3.

2
DE FERREIRA, Manuel Cavaleiro, Curso de Processo Penal, Lições proferidas no ano lectivo 1954-
1955, Lisboa, 1955, Página 85.
3
DO CARMO, Rui, A Autonomia do Ministério Público e o Exercício da Acção Penal, in revista do
Centro de Estudos Judiciários, Almedina, 2.o Semestre 2004/Número 1, Página 110.

24
Aliás, o Estatuto do MP de Portugal vai mais longe ao prescrever sobre a necessidade de o PGR,
numa garantia de transparência e controlo externos, estar obrigado a publicitar, na 2.ª série do
Diário da República, as directivas a que deve obedecer a actuação de todos os magistrados do
MP, quando interpretem disposições legais, assim como a obrigatoriedade de serem escritas as
ordens e instruções dos superiores hierárquicos que se destinem a produzir efeitos em processo
determinado (DO CARMO, Rui, 2.o Semestre 2004), como decorre dos artigos 12/3 e 79/1,
ambos do Estatuto do MP de Portugal, aprovado pela Lei n.o 47/86, de 15 de Outubro.

A natureza do MP depreende-se da sua própria definição constitucional e legal, é uma


magistratura como tal, com carácter hierárquico do ponto de vista da sua organização 4 e
independente da magistratura judicial, sendo as carreiras das duas magistraturas inter-
comunicáveis5 (art. 1/1, da LOMP, e art. 50/1 e 2, do EMMP).

1.2. Autonomia e composição do Ministério Público

O Ministério Público tem autonomia administrativa e funcional, na medida em que possui


serviços administrativos próprios ao nível do seu órgão superior, a PGR, cuja garantia de
planeamento, orientação, coordenação e execução compete ao Secretariado-Geral, que tem uma
estrutura orgânica que comporta áreas de apoio à actividade do MP e questões de natureza
burocrática, administrativa, de gestão financeira, do pessoal e patrimonial (art. 2, n. os 2 e 3,
LOMP).

Embora a lei não o refira expressamente, a autonomia do MP reveste também natureza


financeira6 e patrimonial, razão porque a estrutura orgânica do Secretariado-Geral compreende
áreas de apoio de gestão financeira e patrimonial.

No que concerne a sua composição, o MP comporta os seguintes órgãos (art. 8, da LOMP, com
alterações introduzidas pela Lei n.o 14/2012, de 8 de Fevereiro):

1º A Procuradoria-Geral da República, órgão superior da Magistratura do MP;


2º A Sub-Procuradoria-Geral;
3º O Gabinete Central de Combate à Corrupção;
4º A Procuradoria de Província;
5º O Gabinete Provincial de Combate à Corrupção;
4
O Ministério Público compreende, nos termos do art. 235 da CRM de 2004, a respectiva magistratura, a
Procuradoria-Geral da República e órgãos subordinados.
5
A intercomunicabilidade traduz a possibilidade de determinado magistrado do MP, durante a sua
carreira, querendo passar à carreira da magistratura judicial, e vice-versa, devendo em tal caso requerer
ingresso na carreira para se pretende mudar. Tal hipótese, diga-se de passagem rara, em virtude de alguém
ao escolher uma das duas carreiras é pressuposto é que tenha antes reflectido sobre a escolha certa, poderá
ocorrer quando depois de iniciada a carreira, venha a concluir não ser a carreira que o possa satisfazer
profissionalmente, tendo em conta a diferença de funções entre uma e outra magistratura.
6
A autonomia financeira do Ministério Público traduz-se em decidir pela aplicação dos recursos
financeiros disponibilizados como bem entender, em atenção as despesas de que deva fazer face e as
prioridades que entender definir.

25
4º A Procuradoria de Distrito.

[Link] e carreira da Magistratura do Ministério Público

Nos termos do art. 83 e respectivas alíneas, da LOMP, com a redacção introduzida pela Lei n. o
8/2009, de 11 de Março, a magistratura do MP compreende as seguintes categorias:

1ºProcurador-Geral Adjunto;
2oSub-Procurador-Geral Adjunto;
3ºProcurador da República Principal;
4ºProcurador da República de 1ª;
5ºProcurador da República de 2ª;
6ºProcurador da República de 3ª.

A carreira da Magistratura do MP tem início na categoria de Procurador da República de 3ª ao


nível duma Procuradoria da República Distrital, como lugar de ingresso ou de primeiro acesso a
definir pelo CSMMP em que o magistrado deve permanecer em exercício de funções pelo tempo
mínimo de 2 (dois) anos (art. 85/1 e 2, EMMP), sendo que a categoria de PGA constitui o topo
da carreira da magistratura (art. 240/1 CRM).

Disto resulta que o PGR e o Vice-PGR, ambos nomeados pelo PR, não estão compreendidos na
carreira da Magistratura do MP, sendo cargos de nomeação política.

Os Procuradores da República dos diferentes níveis, à excepção do PGR, do Vice-PGR e dos


PGA’s, em conformidade com o disposto no art. 94 do EMMP, são nomeados, exonerados e
demitidos pelo CSMMP, e tomam posse perante o respectivo Presidente, prestando no acto o
juramento consagrado no art. 96 do EMMP (art. 95/2, EMMP).

Os PGA’s são nomeados pelo PR, sob proposta do CSMMP, após concurso público de avaliação
curricular, sendo que são requisitos para nomeação à categoria de PGA: ser cidadão
moçambicano de reputado mérito; possuir licenciatura em Direito; estar no pleno gozo dos
direitos civis e políticos; ter à data do concurso idade igual ou superior a trinta e cinco anos e ter
exercido, pelo menos durante dez anos, a actividade forense ou de docência em Direito, como
resulta do art. 240/2 da CRM de 2004 e art. 93, EMMP.

Os PGA’s tomam posse perante o PR (art. 95/1, EMMP).

O EMMP estabelece no seu art. 84 e respectivas alíneas, os requisitos de ingresso na carreira da


Magistratura do MP, designadamente: ser cidadão moçambicano; estar no pleno gozo dos
direitos civis e políticos7; ter idade não inferior a vinte e cinco anos; ser licenciado em Direito;

7
Não estará no pleno gozo dos direitos políticos a pessoa condenada na pena fixa de suspensão dos
direitos políticos ou na de suspensão temporária dos direitos políticos (arts. 60, 61 e 77/2, todos do CP).

26
ter frequentado com aproveitamento um curso de formação específica e reunir os demais
requisitos gerais de provimento no Aparelho do Estado.

O afastamento de determinado PGA e/ou dos demais Procuradores de categorias inferiores


compreendidas na carreira (Sub-PGA, Procurador da República Principal, Procurador da
República de 1ª, Procurador da República de 2ª e Procurador da República de 3ª) da magistratura
do MP, só pode ter lugar por aplicação de sanção disciplinar, assistindo em todo o caso ao
visado o direito de interpor recurso para o Tribunal Administrativo (arts. 54; 58/1, alíneas a) e
b), e 65/2, EMMP).

A lei premeia o magistrado que é aposentado, terminando consequentemente a sua carreira, por
motivo não disciplinar mediante sua jubilação, termo que significa “…aposentação honrosa de
serviço oficial; contentamento”8 (art. 104/1, do EMMP). O prémio atribuído ao magistrado do
MP jubilado consiste, de acordo com o disposto no art. 104/2 do EMMP, em continuar ligado à
Procuradoria de que fazia parte, gozar dos títulos, honras e imunidades correspondentes à sua
categoria e poder assistir às cerimónias solenes de traje profissional.

No que respeita as imunidades e no que toca a prisão preventiva, podendo o magistrado jubilado
ser preso ou detido, sem culpa formada, fora de flagrante delito, deve ser imediatamente
apresentado ao juiz competente nos termos da lei processual, sendo a prisão preventiva e o
cumprimento da pena privativa de liberdade feitos em estabelecimento prisional comum, em
regime de separação dos restantes presos, como resulta do prescrito no n.o 3, do art. 104, com
referência aos [Link] 2 e 3 do art. 119, ambos do EMMP.

O magistrado do MP jubilado também tem direito de uso e porte de arma de defesa pessoal;
cartão especial de identificação de modelo a ser aprovado pelo CSMMP; protecção especial para
si, seu cônjuge e bens sempre que razões ponderosas de segurança o exijam e outros direitos
consagrados na lei (n.o 3, do art. 104, com referência as alíneas b), c), e) e l, n. o 1 do art. 113,
ambos do EMMP).

Portanto, assistem ao magistrado do MP jubilado alguns dos direitos reconhecidos ao magistrado


em efectividade de exercício de funções.

É permitido ao magistrado do MP em exercício de funções pedir exoneração ao CSMMP, que só


é autorizada, no prazo de 30 (trinta) dias, em casos devidamente justificados, produzindo efeitos
somente a partir do conhecimento do despacho de deferimento (arts. 58/1, alínea b) e 106/1 e 2,
ambos do EMMP).

[Link]ção e progressão na carreira da Magistratura do


Ministério Público

8
DICIONÁRIO LÍNGUA PORTUGUESA-Dicionários do Estudante, Empresa Literária FLUMINENSE,
Lisboa-Portugal, Julho 2004, página 598.

27
Em conformidade com o disposto nos n. os 1, 3, 4 e 5, do art. 86 do EMMP, a promoção dos
magistrados do MP faz-se por concurso documental, sendo sempre condicionada pela existência
de vaga. Podem ser promovidos os magistrados que estejam a exercer efectivamente a função
pelo tempo mínimo de três anos na categoria e tenham média de classificação de serviço não
inferior a Bom, nos últimos três anos (art. 87, alíneas a) e b), EMMP).

A promoção sempre implica “…a mudança de uma categoria para outra imediatamente superior
da respectiva carreira e opera-se para o primeiro escalão da nova categoria”9.

A progressão faz-se mediante mudança de escalão dentro da respectiva faixa salarial.

Por força das disposições do art. 91do EMMP, os actos relativos a promoção e progressão na
carreira estão sujeitos a publicação no Boletim da República e no jornal de maior circulação no
País.

[Link]ção do Ministério Público

O sistema de administração da justiça funciona mediante uma interacção e concurso de acções


dos seus actores, nomeadamente os tribunais, o MP, os advogados e demais órgãos ou entidades.

Nos tribunais onde os casos submetidos são julgados e decididos, o MP faz-se representar a
vários níveis pelos procuradores que exaram despachos ou promoções nos processos e intervêm
nestes em representação de determinadas entidades a quem o MP deva prestar patrocínio
judiciário ou quando tenha legitimidade própria10.

Deste modo, nos Plenários do Tribunal Supremo, do Tribunal Administrativo e no Conselho


Constitucional, o MP é representado pelo PGR; nas secções do Tribunal Supremo e do Tribunal
Administrativo, por PGA’s; nos Tribunais Superiores de Recurso, por Sub-PGA’s e nos
Tribunais de escalão inferior, que poderão ser provinciais ou distritais, por Procuradores da
República, que serão os das demais categorias inferiores, designadamente Procuradores
principais, Procuradores Provinciais e Procuradores distritais (art. 5/1, alíneas a), b), c) e d), da
LOMP, na redacção introduzida pela Lei n.o 8/2009, de 11 de Março).

Estabelece o art. 5, n.o 2, da LOMP, que nos “…demais casos a representação do Ministério
Público faz-se nos termos da lei”.

Entendemos que a lei se refere à representação do MP noutros tribunais, pois, como se sabe
existem os tribunais aduaneiros, os tribunais fiscais e os tribunais laborais 11, pelo que nestes
casos dever-se-á ter em conta as leis orgânicas dos tribunais em causa.
9
Cfr. n.o 2, art. 86 do EMMP.
10
A título de exemplo, os procuradores podem intervir nas acções especiais de interdição ou inabilitação
por anomalia psíquica, surdez-mudez ou cegueira, visto que tem legitimidade para as requerer (art. 141,
[Link] 1 e 2, e art. 156, ambos do CC).
11
Os tribunais laborais criados pela Lei n. o 18/92, de 14 de Outubro, ainda não foram instalados e, por
conseguinte, não estão em funcionamento.

28
Neste sentido, nos tribunais aduaneiros o MP é representado por um magistrado a designar pelo
CSMMP (art. 20/1, Lei n.o 10/2001, de 7 de Julho, e art. 58/1, alínea b), EMMP). A Lei n. o
10/2001, de 7 de Julho, conferia ao PGR competência para designar o representante do MP junto
dos tribunais aduaneiros, mas face ao regime consagrado pela LOMP, que é posterior àquela lei
(define a competência, organização, composição e funcionamento dos tribunais aduaneiros), tal
competência passou a pertencer ao CSMMP.

Nos tribunais fiscais o MP é representado por procuradores da república de nível provincial, e


porque os tribunais fiscais são tribunais de primeira instância em matéria fiscal, em segunda
instância, concretamente ao nível do Tribunal Administrativo, em Plenário e Segunda Secção, o
MP é representado pelo PGR e pelos PGA’s, respectivamente (arts. 14/1 e 32, alíneas a), b) e c),
Lei n.o 2/2004, de 21 de Janeiro).

Enfim, nos tribunais laborais o MP é também representado por procuradores a nomear pelo
CSMMP (art. 6, Lei n.o 18/92, de 14 de Outubro e art. 58/1, alínea b), EMMP).

[Link]ções do Ministério Público

Por atribuição entende-se como sendo “acto de atribuir; prerrogativa; competência;…” 12, pelo
que falar de atribuição é o mesmo que falar de competência ou prerrogativa, de modo que na
presente abordagem iremos usar o termo competência para nos referirmos à atribuição, por ser a
expressão de eleição da Lei no. 22/2007, de 1 de Agosto, relativa a LOMP e ao EMMP.

As competências do MP estão, grosso modo, consagradas no art. 4 e respectivas alíneas, da sua


lei orgânica, sendo que as mesmas podem ser repartidas entre aquelas que podem ser apelidadas
de actuação judicial e as que podem ser adjectivadas de actuação extrajudicial.

São competências de actuação judicial, aquelas cujo exercício implica necessariamente


intervenção nos diversos processos que tramitam ou que visam tramitá-los no Judiciário, e serão
competências de actuação extrajudicial, aquelas que respeitam a acções ou actividades do MP
fora do âmbito dos processos judiciais.

Neste sentido, são competências de actuação judicial do MP, ao abrigo da LOMP: Exercer a
acção penal; Dirigir a instrução preparatória dos processos-crime; Assegurar a defesa jurídica
daqueles a quem o Estado deva protecção especial, nomeadamente os menores, os ausentes e os
incapazes; Participar nas audiências de discussão e julgamento, colaborando no esclarecimento
da verdade e enquadramento legal dos factos, podendo para o efeito fazer directamente
perguntas e promover a realização de diligências que visem a descoberta da verdade material;
Recorrer às instâncias superiores das decisões nos termos da lei; Representar e defender junto
dos tribunais os bens e interesses do Estado e das autarquias locais, os interesses colectivos e
difusos, bem como outros definidos por lei; Promover a representação ou assistência jurídica do

12
DICIONÁRIO LÍNGUA PORTUGUESA-Dicionários do Estudante, Empresa Literária
FLUMINENSE, Lisboa-Portugal, Julho 2004, página116.

29
Estado e outras pessoas colectivas de direito público, nos processos judiciais movidos em
tribunais estrangeiros em que aqueles sejam parte; Fiscalizar os actos processuais dos órgãos
da polícia criminal; Velar para que a pena de prisão determinada na sentença, bem como o
respectivo regime de reclusão sejam estritamente cumpridos; Dar parecer sobre os pedidos de
modificação do regime do cumprimento da pena, bem como da concessão da liberdade
condicional; Pronunciar-se sobre a legalidade dos pedidos de concessão da liberdade
condicional; Promover a execução das decisões dos tribunais para que tenha legitimidade.

Em contrapartida, são competências de actuação extrajudicial, nomeadamente: Zelar pela


observância da legalidade e fiscalizar o cumprimento das leis e demais normas legais;
Controlar a legalidade das detenções e a observância dos respectivos prazos; Inspeccionar as
condições de reclusão nos estabelecimentos prisionais e outros similares; Fiscalizar a execução
dos contratos de trabalho dos reclusos; Controlar e orientar metodologicamente todos os órgãos
do Estado que tenham competência legal para proceder a detenção de cidadãos.
A estas competências é de acrescentar o atendimento ao público ou concessão de audiências e a
prestação de informação e consultas jurídicas que, embora não esteja expressamente consagrada
na lei, é de vital importância para a prossecução das atribuições do MP.

Vamos nos debruçar, primeiro, sobre as competências de actuação judicial para, de seguida,
abordarmos as competências de actuação extrajudicial, porém, somente aquelas que são
pertinentes à jurisdição civil.

[Link]ências de actuação judicial

Dentre as competências de actuação judicial acima mencionadas, iremos elaborar de seguida


sobre aquelas que interessem à jurisdição civil ou, pelo menos, revestem natureza transversal e,
por conseguinte, são também de interesse para aquela jurisdição.

Neste sentido, são competências a abordar, designadamente: Assegurar a defesa jurídica


daqueles a quem o Estado deva protecção especial, nomeadamente os menores, os ausentes e os
incapazes; Participar nas audiências de discussão e julgamento, colaborando no esclarecimento
da verdade e enquadramento legal dos factos, podendo para o efeito fazer directamente perguntas
e promover a realização de diligências que visem a descoberta da verdade material; Recorrer às
instâncias superiores das decisões nos termos da lei; Representar e defender junto dos tribunais
os bens e interesses do Estado e das autarquias locais, os interesses colectivos e difusos, bem
como outros definidos por lei; Promover a representação ou assistência jurídica do Estado e
outras pessoas colectivas de direito público, nos processos judiciais movidos em tribunais
estrangeiros em que aqueles sejam parte; Promover a execução das decisões dos tribunais para
que tenha legitimidade; e, em especial, a competência para requisição de esclarecimentos,
documentos ou diligências.

[Link] a defesa jurídica daqueles a quem o Estado deva protecção especial,


nomeadamente os menores, os ausentes e os incapazes (art. 4/1, alínea d), LOMP).

30
Trata-se duma competência que está ligada à função, papel do MP enquanto advogado de
determinadas entidades e, como tal, prestar-lhes o necessário patrocínio jurídico e judiciário (art.
236 CRM e art. 15/1 CPC).

É de interesse público que pessoas dadas como ausentes, bem assim os menores e incapazes,
tenham a sua defesa jurídica assegurada, sob pena e risco de passarem por situações de eventuais
injustiças, pelo que embora a representação dos menores incumba aos seus pais enquanto seus
legais representantes por via do exercício do poder parental, e a representação dos incapazes, ou
seja, os maiores declarados por sentença judicial interditos ou inabilitados 13, seja deferida por lei
aos seus tutores (art. 284/2 e art. 370/1, ambos da Lei n. o 10/2004, de 25 de Agosto), os quais
poderão nos limites da lei praticar actos em representação dos referidos menores, ausentes e
incapazes, a lei deferiu também ao MP a competência de assegurar a defesa jurídica dos mesmos.

[Link] nas audiências de discussão e julgamento, colaborando no esclarecimento da


verdade e enquadramento legal dos factos, podendo para o efeito fazer directamente perguntas e
promover a realização de diligências que visem a descoberta da verdade material (art. 4/1,
alínea e), LOMP).

Se em processo-crime a missão do MP não termina com a dedução da acusação 14, uma vez que é
em sede de julgamento e perante o tribunal que os factos constantes da acusação devem ser
provados15, devendo o MP colaborar para a descoberta da verdade, requerendo para o efeito que
os interrogados esclareçam as suas respostas ou que lhes sejam feitas novas perguntas (art. 425, §
3o, e art. 429, CPP), semelhantemente em processo cível em que o MP represente alguma das
partes, seja o Estado ou qualquer outra entidade, incluindo menores, incapazes e ausentes, na
qualidade de advogado de tais entidades também participará nas audiências de discussão e
julgamento, colaborando no esclarecimento da verdade e enquadramento legal dos factos,
podendo para o efeito fazer directamente perguntas às testemunhas a fim de se completar ou
esclarecer os seus depoimentos e, consequentemente, colaborar para a descoberta da verdade
material, como se depreende das disposições conjugadas dos arts. 519/1 e 638/2 e 5, ambos do
CPC, devendo ser provados em julgamento os factos constantes do questionário.

Quanto ao enquadramento legal dos factos, o MP fá-lo na fase de alegações e discussão dos
aspectos jurídicos da causa, quando a sua discussão escrita não tenha sido deferida pelo juiz
durante a audiência de discussão e julgamento (art. 657 do CPC).

[Link] às instâncias superiores das decisões nos termos da lei (art. 4/1, alínea f),
LOMP).

Nos processos judiciais em que seja parte o MP ou represente alguma das partes, poderá não se
conformar com determinada decisão (despacho, sentença ou acórdão) proferida pelo tribunal. Em

13
Cfr. arts. 138 a 156 do CC, e arts. 944 e seguintes do CPC.
14
Tenha-se em conta que no processo-sumário crime não há lugar a acusação, seguindo a tramitação do
processo os termos prescritos pelo DL n.o 28/75, de 1 de Março e arts. 557 e seguintes do CPP.
15
A acusação é deduzida com base em indícios considerados bastantes, não podendo assim os factos
levados ao tribunal de cuja prática os arguidos são acusados considerar-se provados senão em julgamento.

31
tal caso, compete-lhe interpor recurso para o tribunal superior (art. 678 CPC), contanto se trate
de uma decisão que o admita16.

[Link] e defender junto dos tribunais os bens e interesses do Estado e das autarquias
locais, os interesses colectivos e difusos, bem como outros definidos por lei (art. 4/1, alínea g),
LOMP).

A lei confere ao MP a representação do Estado, das autarquias locais e dos interesses colectivos
e difusos, representação que deve ser entendida em termos de patrocínio judiciário (art. 20/1
CPC e art. 109, da Lei n.o 2/97, de 18 de Fevereiro), o que implica a prestação de assistência
jurídica e judiciária àquelas entidades e, consequentemente, o MP deverá nessa perspectiva
representar e defender juntos dos tribunais os bens e interesses de tais entidades.

No que toca à defesa dos interesses colectivos e difusos, impõe-se uma alusão ao direito de
acção popular que, a par do MP, constitui um mecanismo de defesa de tais interesses por parte
de todos cidadãos, seja pessoalmente, seja através de associações de defesa dos interesses em
questão (art. 81/1 e 2, alíneas a) a c), da CRM).

No exercício do patrocínio judiciário, o MP poderá representar as entidades e interesses acima


referidos, bem como outras entidades, intervindo nos processos a título principal ou acessório.

Terá intervenção principal quando representa o Estado, autarquias locais, incapazes e ausentes,
interesses colectivos ou difusos, e quando defender os interesses dos menores (art. 6/1, alíneas a)
a e), LOMP).

Em contrapartida, terá intervenção acessória quanto às autarquias locais, se as mesmas constituir


advogado, uma vez quem podem legalmente fazê-lo, e se tal ocorrer a posterior, após ter
intervindo a título principal, o MP cessa a sua intervenção principal e assume intervenção
acessória.

Relativamente aos incapazes e ausentes, o MP terá intervenção acessória caso os respectivos


representantes se oporem a que os mesmos sejam por si representados (art. 6/2, LOMP e art. 109,
Lei n.o 2/97, de 18 de Fevereiro).

Terá ainda intervenção acessória fora dos casos previstos no n.o 1, art. 6, da LOMP, quando
sejam interessados na causa as autarquias locais, outras pessoas colectivas de utilidade pública,
incapazes ou ausentes, ou quando a acção vise a realização de interesses colectivos ou difusos
(art. 6/3, alínea a), LOMP).

Por outras palavras, o MP terá intervenção acessória no processo quando, tratando-se de uma
autarquia local, esta tenha constituído advogado próprio, como aliás já se referiu.

Tratando-se de outra pessoa colectiva de utilidade pública, sendo dotada de personalidade


jurídica e judiciária e com autonomia administrativa e patrimonial, tenha constituído advogado
próprio por o diploma que o cria assim o permitir.
16
Sobre as decisões que não admitem recurso veja-se o art. 679 do CPC.

32
Tratando-se de incapazes ou ausentes, estes sejam representados pelos respectivos representantes
legais.

Enfim, tratando-se de uma acção que vise a realização de interesses colectivos ou difusos, a
mesma tenha sido instaurada por determinado grupo de cidadãos, quer pessoalmente quer
através de uma associação de defesa dos interesses em causa, no exercício do direito de acção
popular.

A intervenção processual do MP em representação do Estado junto dos tribunais, ou em


representação e defesa, junto dos tribunais, dos bens e interesses do Estado e das autarquias
locais, traduz-se na prática em nome de tais entidades e na qualidade de patrono das mesmas, de
actos processuais diversos dependendo da espécie de processo.

A propósito desta competência do MP em alusão, há quem veja na mesma o inconveniente desta


instituição em determinados casos poder deparar com situações em que as partes em litígio nos
termos da lei devem por si serem representadas, como de resto o próprio legislador o admitiu ao
consagrar no art. 6, n.o 4, da LOMP, a indicação de advogado para representar uma das partes em
caso de conflito entre entidades, pessoas ou interesses que o MP deva representar.

Porventura para obviar a tais situações, no caso do Brasil enquanto ao MP compete defender os
interesses da colectividade, a representação judicial e extrajudicial dos interesses da União e a
consulta e assessoramento jurídico do Poder Executivo cabe a Advocacia-Geral da União.

Consideramos que a consagração de uma solução similar em Moçambique passa, primeiro, por
saber o nível de demanda pelos serviços do MP das diferentes entidades, pessoas ou interesses
que o MP deva representar, sendo certo que em matéria civil, administrativa, de família e
menores, a representação e defesa dos interesses da colectividade (interesses colectivos e
difusos) e dos menores, ausentes e incapazes, é de recomendar que tenha sempre de competir ao
MP.

Já a representação e defesa dos bens e interesses do Estado e das autarquias locais, essa poderia
ser atribuída a um organismo público criado especialmente para o efeito, se bem que tal pode
merecer críticas relacionadas com o facto de Moçambique ser um país com poucos recursos, em
especial financeiros, não sendo oportuno avançar nesse sentido para evitar a dispersão dos já
poucos recursos.

Para terminar no concernente a questão da representação e defesa dos interesses colectivos ou


difusos, vale a pena referir que em termos de conceitos, são direitos e interesses difusos cujas
pessoas ou sujeitos são indeterminados e, consequentemente, indivisíveis ou ligados a um facto
de natureza indivisível, a exemplo do ar que respiramos, que respeita a todo mundo ou
generalidade de pessoas e não só a uma pessoa. Direitos e interesses colectivos são os
transindividuais de natureza indivisível, sem titular determinado, mas que respeitam a grupos ou
categorias de pessoas e há possibilidade de determiná-los.

33
[Link] a representação ou assistência jurídica do Estado e outras pessoas colectivas de
direito público, nos processos judiciais movidos em tribunais estrangeiros em que aqueles sejam
parte (art. 4/1, alínea i), LOMP).

Como vimos acima, ao MP compete representar e defender junto dos tribunais os bens e
interesses do Estado e das autarquias locais.

Ora, a função do MP como advogado do Estado e outras pessoas colectivas de direito público
não se limita ao território nacional, deve também prestar a estas entidades assistência jurídica e
judiciária também no estrangeiro sempre que as mesmas sejam parte em determinados processos
judiciais, devendo realizar oficiosamente as necessárias diligências para o efeito.

[Link] a execução das decisões dos tribunais para que tenha legitimidade (art. 4/1,
alínea p), LOMP).

As decisões judiciais são de cumprimento obrigatório. Porém, pode suceder que determinada
pessoa condenada por sentença não dê cumprimento à mesma, em tal caso quando o MP tenha
legitimidade compete-lhe promover a sua execução, a exemplo da decisão do tribunal que em
processo-crime condene o réu numa pena concreta e em indemnização numa quantia pecuniária
com vista a reparação dos danos sofridos pela vítima e/ou ofendidos (art. 34, § 1 o, CPP). Em tal
hipótese, não pagando o condenado voluntariamente a quantia relativa à indemnização, o MP
tem competência para promover a execução da sentença nos termos das disposições do art. 1,
[Link]. 1, 2, 3 e 4, do DL n.o. 292/74, de 28 de Junho.

Outrossim, em processo cível quando determinada decisão proferida a favor de uma entidade
cuja representação e defesa, junto dos tribunais, compete ao MP, deverá este em caso de
incumprimento voluntário pelo condenado ou devedor promover a sua execução, apresentando o
competente requerimento inicial de execução.

[Link] especial da competência para requisição de esclarecimentos, documentos ou


diligências

No exercício das suas funções o MP poderá necessitar de ter acesso a determinadas informações,
documentos ou precisar que sejam realizadas certas diligências imprescindíveis ao exercício das
suas funções, tal como sucede na área cível em que para reagir a determinada acção judicial
movida contra o Estado, autarquia local ou qualquer outra entidade pública, em regra precisa de
obter informações sobre a matéria de facto controvertida junto à entidade que lida com tal
matéria17 (art. 486/3 CPC); na jurisdição laboral em que nos processos especiais de acidentes de
trabalho e doenças profissionais na fase conciliatória do processo o MP poderá precisar, para
efeitos de instrução do processo, que se realizem as diligências indispensáveis com vista a
identificação e conhecimento dos beneficiários legais dos sinistrados ou doentes e para a
obtenção das provas de parentesco (art. 98/1, do CPT); na área criminal em que para efeitos de
instrução preparatória de determinado processo podem ser necessárias diligências, documentos
ou esclarecimentos.
17
A informação é fornecida ao MP afim de que este elabore a contestação, pelo que interessa ao MP
dados de facto, matéria de facto apenas, e não de direito.

34
Nestes casos, e em especial na área cível, usando da competência conferida pelas disposições do
art. 4, n.o 2, da LOMP, o MP poderá requisitar, directamente, a quaisquer órgãos do Estado,
instituições, empresas, funcionários, autoridades ou seus agentes, quaisquer esclarecimentos,
documentos ou diligências que se mostrarem pertinentes e indispensáveis para o exercício das
funções.

Tendo em conta que a parte final do art. 4, n. o 2, da LOMP, ressalva que a requisição deve ser
feita nos limites da Constituição da República e demais leis, quando determinada requisição seja
susceptível de pôr causa direitos fundamentais dos cidadãos, a mesma deverá ser sancionada por
autoridade judicial.

A LOMP, no seu art. 48 impõe aos órgãos e agentes da Administração Pública o dever de prestar
a colaboração que lhes for requerida pelo MP, no exercício das suas funções, pelo que qualquer
requisição de esclarecimentos, documentos ou diligências que se mostrarem pertinentes e
indispensáveis, deve merecer, por força da lei, a necessária colaboração dos órgãos e agentes do
Estado, porque dever legal.

Referir que esta competência embora seja tendencialmente de actuação judicial, também tem
muita potencialidade de ser usada na actuação extrajudicial do MP, pelo que nesse sentido pode
ser considerada uma competência de carácter misto.

[Link]ências de actuação extrajudicial

Como referimos acima, são competências de actuação extrajudicial as que dizem respeito a
actuação do MP fora do âmbito dos processos judiciais. Segue, pois, a abordagem das que são
pertinentes à jurisdição civil, trata-se das competências para zelar pela observância da legalidade
e fiscalizar o cumprimento das leis e demais normas legais; Do atendimento ao público e
prestação de informação e consulta jurídicas; e das prerrogativas Especiais dos Procuradores da
República no âmbito da Reposição da Legalidade, estas duas últimas que, na verdade, são
competências transversais a todas áreas de jurisdição no domínio da administração da justiça.

[Link] pela observância da legalidade e fiscalizar o cumprimento das leis e demais normas
legais (art. 4/1, alínea b), LOMP).

O MP é considerado o guardião da legalidade, pois, deve velar para que as instituições públicas
e privadas pautem a sua conduta em conformidade com a lei, ou melhor, com o Direito.

Para o efeito, para além de actuar no âmbito de determinado processo, os Procuradores da


República que, a diversos níveis, garantem o funcionamento do MP, gozam de prerrogativas
especiais no âmbito da reposição da legalidade para actuarem judicial ou extrajudicialmente,
porquanto quando constatem, oficiosamente ou mediante participação, que determinado agente,
entidade, órgão ou instituição pública ou privada praticou alguma ilegalidade, tendo legitimidade
têm competência para comunicar à entidade, órgão ou instituição em causa convidando-o para se
conformar com a lei, ficando estes obrigados a informar, no prazo fixado na comunicação, sobre

35
as diligências realizadas com vista à reposição da legalidade, ou então prestar esclarecimentos
que se mostrarem necessários18 (art. 47/1 e 2, da LOMP).

[Link] ao público e prestação de informação e consulta jurídicas

O MP sendo uma magistratura que constitui, “…com tradições históricas, …em muitas
situações, o primeiro contacto dos cidadãos com o sistema judicial” 19, tal faz com que
desempenhe um importante papel no acesso dos cidadãos ao direito e à justiça.

O facto de o MP ser, muitas das vezes, o primeiro contacto dos cidadãos, explica-se pelo facto
de, diferentemente dos tribunais que exercem as suas competências, só tomam conhecimento de
um caso ou conflito apresentado por algum interessado quando a sua actuação seja provocada
mediante instauração de um processo, o MP pode agir judicial e extrajudicialmente, ou seja, para
lograr a solução de um caso não precisa necessariamente de recorrer ao tribunal, sendo exemplo
flagrante as prerrogativas especiais dos Procuradores da República no âmbito da reposição da
legalidade nos termos das disposições do art. 47, da LOMP, a que aliás nos referiremos com
algum detalhe no ponto que segue.

Contudo, para que o MP possa procurar solucionar um caso quando tenha competência para o
efeito, desde logo tal deve lhe ser apresentado, o que em princípio pressupõe a concessão de
audiência ao interessado, é aqui que surge o primeiro contacto dos cidadãos com o sistema
judicial, que geralmente quando deparam com algum problema tendem a recorrer ao MP e
apresentá-lo, o que leva a que os magistrados tenham de conceder audiências de atendimento ao
público20.

Embora não previsto pela lei, o atendimento ao público impõe-se porque só por essa via o MP
pode tomar conhecimento dos casos que os cidadãos têm para apresentá-los, clamando pela sua
solução. Trata-se, assim, de uma competência de actuação extrajudicial cujo exercício é
imprescindível para viabilizar algumas das competências que se encontram consagradas
legalmente.

18
O agente, entidade, órgão ou instituição poderá prestar esclarecimentos se considerar que o acto por si
praticado não configura qualquer ilegalidade, demonstrando tal facto.
19
DIAS, João Paulo, Sociólogo, Investigador do Centro de Estudos Sociais, O Ministério Público e o
acesso ao direito e à justiça: entre a pressão e a transformação, in REVISTA DO MINISTRIO
PÚBLICO, ANO 26, Jan-Mar 2005, Número 101, página 96.
20
Ao nível da Procuradoria da República da Cidade de Maputo, por exemplo, há uma prática de o
Procurador-Chefe conceder audiências ao público, nos últimos anos às quartas-feiras, para o que os
pedidos são feitos pelos interessados, mediante preenchimento de um formulário próprio disponível na
secretaria da instituição, que deve ser entregue até ao dia anterior, ou seja, terça-feira. No referido
formulário é identificado o interessado e há um espaço destinando a descrição sumária do caso, bem
como um espaço reservado a despacho. Os casos apresentados podem dar lugar a instauração de um
processo ou a sua solução mais ou menos imediata pelo MP, ou a simples recomendação ou conselho
jurídico ao interessado sobre como proceder (por. Ex: instaurar competente acção) atento à sua natureza e
às competências do próprio MP. Os demais Procuradores da República também concedem audiências ao
público, cada um adoptando uma periodicidade que julgar consentânea com a sua agenda de trabalho, e
neste caso os interessados preenchem um formulário pedindo a concessão de audiência.

36
Recebido certo interessado em audiência pelo magistrado do MP e exposto o caso, é evidente
que o magistrado terá de o analisar e encontrar a possível solução que deverá ser comunicada
mais ou menos imediatamente ao interessado.

Este facto implica que o magistrado do MP na prática preste, na medida do necessário,


informação e aconselhamento jurídicos ao interessado, visto que quando não se trate de um caso
para cuja solução o MP tenha competência, há que dar subsídios mínimos ao interessado sobre
como proceder.

O magistrado do MP pode ainda promover formas de conciliação, prestar patrocínio judiciário


(na área cível, laboral ou de família e menores)21 ou instaurar processo adequado ao caso quando
se trate de um caso para o qual tenha legitimidade ou quando assim deva proceder por força do
princípio da legalidade, podendo ainda em última caso encaminhá-lo para outras entidades ou
instâncias de resolução de conflitos22.

Através do serviço de atendimento ao público os cidadãos têm acesso a um dos órgãos de


administração da justiça, o MP, que lhes proporciona a resolução dos seus conflitos ou a
prossecução dos seus direitos, quer por via extrajudicial mediante mecanismos de conciliação ou
mediação, quer por via judicial.

Com efeito, “Estes processos…permitem indiciar a prestação de informação e consulta jurídica


aos cidadãos. A prestação destes serviços permite fazer uma triagem dos assuntos levados pelos
cidadãos, podendo estes ser esclarecidos logo no momento ou, então, ser encaminhados para a
apresentação de um processo judicial ou, pelo menos, aconselhando os cidadãos nesse sentido.
No âmbito da prestação de informação e consulta jurídicas, os magistrados do Ministério Público
exercem, por vezes, e ainda que informalmente, funções de mediador, conciliador ou árbitro,
procurando resolver, no imediato, os assuntos que preocupam e afligem os cidadãos”23.

A competência extrajudicial dos magistrados do MP para conceder audiências ao público e,


nesse contexto, prestar informação e consulta jurídicas, bem como exercer, ainda que
informalmente, funções de mediador e conciliador, é legitimada na prática pelo facto de ao nível
das procuradorias os mapas referentes aos dados estatísticos mensais, seja qual for a área
jurisdicional, compreender um espaço destinado a indicação do número de audiências
concedidas.

21
Julgamos que até na área criminal relativamente aos crimes particulares que lhe sejam denunciados em
audiência.
22
Refira-se que o PGR, Juiz Augusto Paulino, nota na sua Informação à Assembleia da República de
2008 e na Informação à Assembleia da República de 2009, que as questões objecto das audiências
concedidas pelos Procuradores da República estão relacionadas com a morosidade processual nos
diversos órgãos do sistema de administração da justiça; irregularidades e morosidade na instrução
preparatória dos processos-crime; pedidos de anulação de sentenças manifestamente injustas ou ilegais;
detenções ilegais ou irregulares; violência doméstica; conflito de terras; conflitos laborais; inventários
obrigatórios; pensões de alimentos; má actuação de alguns magistrados do MP; e má actuação de alguns
agentes da lei e ordem ou da Polícia da República de Moçambique e da Polícia Municipal; casos de
corrupção e outros.
23
DIAS, João Paulo, Ob. Cit., páginas 103 a 104.

37
Aliás, a própria informação do PGR não descura este aspecto, dá conta do número total de
audiências concedidas pelas procuradorias provinciais durante o ano a que respeita, fazendo até
uma análise comparativa com o número de audiências do ano anterior ao que diz respeito, a fim
de aferir se houve um incremento ou decréscimo, e eventual menção dos respectivos motivos
justificativos.

A propósito, vale a pena referir que durante o ano de 2006 as procuradorias registaram um total
de 6.826 audiências concedidas ao público24, e no ano seguinte (2007) um total de
8.951audiências, o que representa um aumento na ordem de 3. 102 audiências correspondentes a
34,6%. Esta cifra aumentou para as 9. 412 audiências no ano de 2008, resultando daí que houve
um acréscimo na ordem de 461 audiências concedidas equivalentes a 4,8%, uma subida que não
sendo significativa quando comparada com a verificada de 2006 a 2007, não deixa de representar
um certo incremento da procura, pelos cidadãos, dos serviços do MP de atendimento ao público
ou audiências concedidas pelos magistrados do MP.

Em 2009 o número total de audiências a nível nacional foi de 12. 169 25, contra 9. 412, o que
representa um acréscimo na ordem de 2. 757 audiências, correspondendo tal subida uma
percentagem de 22,6%.

Sobre os dados acima referidos respeitantes as audiências, veja-se a tabela que segue abaixo
como figura 1 e o respectivo gráfico, como figura 2.

O gráfico, em especial, reflecte a tendência crescente das audiências de ano para ano no período
considerado, com a linha de cor azul referente ao ano de 2006 a estar abaixo das demais, porque
ilustrativa dos dados estatísticos mais baixos, e a linha de cor roxa a se sobrepor às demais, pelo
facto de respeitar aos dados do ano de 2009, que registou o maior número de audiências no
período considerado.

Figura 1

24
Na tabela na qual consta o total de audiências referentes ao ano de 2006, consta um total de 5.849.
Porém, segundo uma informação indicada junto à tabela, constante da Informação Anual do PGR à
Assembleia da República de 2008, na verdade o total das audiências concedidas em 2006 foi de 6.826,
contra os 5.849 reflectidos na tabela, como resultado da falta de indicação das audiências de Nampula e
Zambézia.
25
Os dados constantes da tabela incluem também as audiências concedidas a nível central, isto é, ao nível
da PGR.

38
26

Números totais parcelares por província/ano


2006 2007 2008 2009
PGR 212 106 148 252
Niassa 575 629 251 382
Cabo Delgado 237 646 123 982
Nampula - 692 668 2.102
Zambézia - 189 416 583
Tete 352 290 736 650
Províncias Manica 1.737 2.303 2.930 3.857
Sofala 1.050 1.340 1.168 887
Inhambane 922 2.109 2.541 717
Gaza 367 251 210 928
Maputo 224 216 56 663
Cidade de Maputo 173 180 165 166
Total-todas províncias 5.849 8.951 9. 412 12.169

Figura 2

26
Fontes: Procuradoria-Geral da República, Informação Anual de 2008 do Procurador-Geral da República
à Assembleia da República, Académica, Lda., Abril de 2008, Página 118; Procuradoria-Geral da
República, Informação Anual de 2008 do Procurador-Geral da República à Assembleia da República,
Procuradoria-Geral da República, Imprensa Nacional de Moçambique, Abril de 2009, Página 130;
Informação Anual do Procurador-Geral da República à Assembleia da República, Março de 2010, Página
140.

39
Embora não tenhamos elementos que nos permitam aferir da eficácia do exercício dessa
competência, em termos de constatar a relação entre o número de audiências concedidas e o
número de soluções, a final, alcançadas após a prestação de informação e consulta jurídicas em
audiência, ou conciliação ou mediação feita pelos magistrados do MP, a instauração de
processos que hajam tido lugar ou, pelo contrário, que se evite que se interponha um processo
sem fundamento, o incremento de ano a ano, no período considerado, do número das audiências
concedidas, para além de revelarem o quanto as actividades de informação e consulta jurídica,
bem assim a conciliação e mediação são uma das competências (de actuação extrajudicial)
particularmente importantes dentre as actividades dos magistrados do MP, não deixa, outrossim,
de reflectir uma certa fé e expectativa dos cidadãos em encontrar no MP uma solução face aos
problemas que os afligem e que devam ser encaminhados aos órgãos da justiça.

Aliás, a propósito do aumento do número de audiências durante o ano de 2007


comparativamente a igual período de 2006, o PGR, Juiz Augusto Paulino, refere na Informação
Anual de 2008 que tal “…aumento do número de audiências deve-se à crescente consciência dos
cidadãos sobre o recurso à justiça, tendo, na procuradoria, um aliado para aconselhar sobre como
levar o caso à solução por via judicial”27.

Não obstante a vantagem que representa para os cidadãos a actividade de atendimento ao público
ou audiências concedidas pelos magistrados do MP, em que na prática exercem informação e
consulta jurídicas e ainda, quando tenham legitimidade, o patrocínio em certas acções (cíveis,
laborais ou de família e menores), pode-se-lhe apontar uma crítica, desde logo o facto de não
encontrar base legal para o seu exercício.

Contudo, contra tal crítica, que até é pertinente, pode se argumentar no sentido da legitimação do
atendimento ao público com fundamento na “…existência de alguma tradição histórica no
estabelecimento de uma relação directa e informal, entre os cidadãos e os magistrados do
Ministério Público, …. Esta tradição é bem vincada na área laboral e tem vindo a ser reforçada
no âmbito da justiça de família e menores.”28

Outrossim, levanta-se a questão de, para além da legitimidade dos magistrados do MP para
prestar informação e consulta jurídicas poder estar a ultrapassar as suas competências, estar a
imiscuir-se dentro das competências de outras profissões jurídicas, em especial os advogados.

A esta crítica também pertinente, é de responder que no domínio de acesso à justiça, a prestação
aos cidadãos de um serviço fácil, rápido e informado à escala nacional, abrangendo na medida
do possível e do ponto de vista geográfico todo o território nacional, não se compadece com uma
deficiente cobertura da Ordem dos Advogados, pois, como é sabido, para além de, por si só, os
advogados já serem poucos face ao número de habitantes, regra geral encontram-se concentrados
na capital do país, a Cidade de Maputo29.

27
Procuradoria-Geral da República, Informação Anual de 2008 do Procurador-Geral da República à
Assembleia da República, Académica, Lda., Abril de 2008, Página 22.
28
DIAS, João Paulo, Ob. Cit., página 108.
29
Cerca de 85% dos advogados em Moçambique tem o seu domicílio profissional na Cidade de Maputo, e
os restantes entre 70% a 80% domiciliados nas cidades da Beira e de Nampula (Fonte: Intervenção por
ocasião da semana do advogado e da entrega de carteiras profissionais. Disponível em

40
A intervenção do Bastonário da Ordem dos Advogados, o Advogado Gilberto Correia, datada de
14 de Setembro de 2009, feita por ocasião da semana do advogado e da entrega de carteiras
profissionais e passagem de 15 anos após a criação da Ordem em 1994, é indicativa da
insuficiência de advogados para dar assistência aos cerca de 20 milhões de moçambicanos
quando, em parte da sua resposta a uma pergunta que ele próprio coloca sobre se a advocacia
moçambicana tem contribuído para assegurar eficazmente o direito de defesa reconhecido a
todos os cidadãos refere que, podendo tal resposta só ser negativa, “Os mais acomodados dirão
que somos muito poucos, cerca de 600 advogados, para satisfazer a demanda de acesso à justiça,
num país com uma população de cerca de 20 milhões de habitantes.”30

Outro aspecto a ter em conta é que os cidadãos por via do MP tem acesso a um serviço gratuito,
sem contudo desvalorizar de modo algum o papel a desempenhar ou desempenhado pelos
técnicos e assistentes jurídicos do IPAJ que, ao abrigo do art. 9 e alíneas a), b) e c), do n. o 2, do
art. 18, ambos do Estatuto do IPAJ, entre os tipos de serviços a prestar no exercício da sua
actividade, de acordo com uma escala, consta o atendimento e consulta jurídica ao público.

Enfim, outra crítica que se pode apontar está relacionada a questão dos critérios de isenção e
objectividade que, a par do critério da legalidade, devem nortear a actuação dos magistrados do
MP quando, na eventualidade de terem dado conselho jurídico ao interessado para propor uma
acção, uma vez efectivada a instauração da acção o MP tenha de representar a parte demandada
(Estado, Autarquia local, incapaz, ausente ou qualquer outra entidade a quem deva prestar
patrocínio judiciário).

Referir que a par da concessão de audiências pelos magistrados do MP, por vias das quais se
presta aos cidadãos informação e consulta jurídicas, ou conciliação e mediação, ou ainda a
instauração de um processo judicial, consoante os casos, existe o mecanismo da Linha do
Procurador, que se refere as linhas telefónicas disponíveis nas procuradorias provinciais, e
recentemente no GCCC e Gabinetes Provinciais de Combate à Corrupção 31, através das quais
interessados, para além de denunciar certos factos que configuram crimes, podem colocar suas
preocupações aos magistrados do MP que poderão ter resposta imediata mediante prestação de
informação ou aconselhamento jurídico32, recomendação para se dirigir a instituição competente,
recomendação para se dirigir à procuradoria a fim de ser recebido em audiência para melhor
tratamento do assunto ou instauração do competente processo.

[Link] Especiais dos Procuradores da República no âmbito da Reposição da


Legalidade

[Link]/, consultado em 18.03.2010).


30
Intervenção por ocasião da semana do advogado e da entrega de carteiras profissionais, disponível em
[Link]/, consultado em 18.03.2010.
31
Desde Outubro de 2008 no caso do GCCC. Referir que mesmo ao nível da PGR já foi introduzida uma
linha telefónica de contacto entre o PGR e os cidadãos.
32
Sem descurar que a Linha do Procurador tem em vista fazer face a ilegalidades que devem ser
resolvidas com urgência, que exigem intervenção imediata do MP.

41
Quando iniciamos acima a abordagem em torno das competências de actuação extrajudicial,
começamos por nos referir à competência do MP para zelar pela observância da legalidade e
fiscalizar o cumprimento das leis e demais normas legais.

A propósito, referimos que sendo o MP considerado o guardião da legalidade, deve velar para
que as instituições públicas e privadas pautem a sua conduta em conformidade com o Direito, e
que para o efeito para além de actuar no âmbito de determinado processo, os Procuradores da
República, seja a nível superior, provincial ou distrital, gozam de prerrogativas especiais no
âmbito da reposição da legalidade para actuarem extrajudicialmente.

Usando de tais prerrogativas, quando os Procuradores da República constatem, oficiosamente ou


mediante participação33, que determinado agente, entidade, órgão ou instituição pública ou
privada praticou alguma ilegalidade, tendo legitimidade têm competência para comunicar à
entidade, órgão ou instituição em causa convidando-o para se conformar com a lei (art. 47/1,
LOMP), ficando estes obrigados a informar, no prazo fixado na comunicação, sobre as
diligências realizadas com vista à reposição da legalidade, ou então prestar esclarecimentos que
se mostrarem necessários.

No entanto, a comunicação dos Procuradores da República convidando a entidade, órgão ou


instituição a fim de se conformar com a lei não reveste natureza de uma decisão de cumprimento
obrigatório, de modo que não procedendo o notificado de acordo com o convite feito, os
procuradores recorrem aos tribunais perante os quais requerem a providência de tutela
jurisdicional adequada à reposição da legalidade ou interesses violados, pois os tribunais é que
têm a função de penalizar as violações da legalidade (art. 212/2, CRM), para o que as suas
decisões “…são de cumprimento obrigatório para todos os cidadãos e demais pessoas jurídicas e
prevalecem sobre as de outras autoridades”.

Assim, a entidade que não tenha aceitado o convite do procurador para se conformar com a lei,
face à ilegalidade por si cometida e constatada, terá de o fazer obrigatoriamente se vier a ser
condenada por sentença judicial que tenha dado provimento à acção judicial do MP.

Se é certo que a função jurisdicional compete aos tribunais e, por conseguinte, as suas decisões
são de cumprimento obrigatório para todos os cidadãos e demais pessoas jurídicas e prevalecem
sobre as de outras autoridades, repugna-nos que no exercício das prerrogativas especiais, quando
determinada comunicação dos Procuradores da República convidando certa entidade, órgão ou
instituição para se conformar com a lei, por não revestir natureza de uma decisão de
cumprimento obrigatório, não sendo tal comunicação acatada, os Procuradores tenham de
recorrer aos tribunais a fim de requerem a providência de tutela jurisdicional adequada à
reposição da legalidade ou interesses violados.

Com efeito, as prerrogativas especiais parecem, à partida, importantes instrumentos de actuação


extrajudicial por parte dos procuradores, mas logo sem esforço constata-se da análise às
disposições do art. 47, da LOMP, que as mesmas não são mais do que competências de mera

33
Tratando-se de instituição pública pode ser o caso de uma decisão lesiva dos direitos de determinado
cidadão ou que contraria o disposto na lei.

42
actuação formal e, quiçá, que redundam na perda de tempo por parte dos procuradores, sempre
que as suas comunicações não sejam levada em conta pelos visados.

Há, pois, que conferir outros efeitos as prerrogativas em alusão, em termos de lhes dotar de
utilidade prática no âmbito da actuação extrajudicial pelos magistrados do MP.

Buscando inspiração no sistema jurídico brasileiro em que existe o chamado Termo de


Ajustamento de Conduta (TAC), um instrumento de actuação extrajudicial através do qual, em
especial no domínio dos direitos difusos, as partes se comprometem, perante os procuradores da
República, a cumprirem determinadas condições estipuladas no aludido instrumento, em termos
de resolver o problema que estão causando ou a compensar danos e prejuízos já causados,
sendo que em caso de incumprimento do acordado o procurador da República pode instaurar um
pedido de execução, com vista ao cumprimento do determinado no documento por via judicial,
pois, o TAC reveste natureza de título executivo extrajudicial.

O TAC é um assim um instrumento com utilidade prática quando comparado com as


prerrogativas especiais no âmbito da reposição da legalidade conferidas aos Procuradores da
República no nosso ordenamento jurídico, visto que diminui significativamente o número de
acções declarativas no judiciário e, consequentemente, diminui problemas relacionados com a
morosidade e o custo dos processos judiciais.

Aliás, quando o acordado no TAC é cumprido, a resolução do problema é antecipada de uma


maneira mais rápida e eficaz do que se o caso fosse a juízo.

Conforme o diz ZANELLATO, Marco Antono, as principais vantagens do TAC é que (…)
”Permite uma solução negociada para grande parte das lesões a interesses ou direitos difusos,
colectivos e individuais homogéneos; oferece solução mais célere; (…); ajuda a descongestionar
a justiça; garante acesso mais eficaz dos lesados à tutela individual e colectiva de seus
interesses”34.

A principal diferença entre o TAC consagrado no sistema brasileiro e as prerrogativas especiais


no âmbito da reposição da legalidade, reside no facto de o TAC, uma vez firmado dispensar o
recurso a acção de reconhecimento do direito violado em caso de seu cumprimento, fazendo uso
da acção executiva, só devendo a procuradoria se socorrer de acção declarativa na ausência do
TAC.

Pelo contrário, no caso das prerrogativas especiais, em caso de a comunicação no sentido de


reposição da legalidade não ser acatada, o procurador deve recorrer ao tribunal para obter o
reconhecimento do direito violado, para depois instaurar a execução em caso de incumprimento
da sentença condenatória, pelo que há duplicação de esforços comparando com a utilidade do
TAC, o que fragiliza a actuação extrajudicial dos magistrados do MP.

34
ZANELLATO, Marco Antono, TERMO DE AJUSTAMENTO DE CONDUTA - TAC: ASPECTOS
GERAIS E POLÊMICOS, disponível em
[Link]
consultado em 16.12.2010.

43
Pelo acima exposto, e com vista a dotar de utilidade prática as prerrogativas especiais no âmbito
da reposição da legalidade conferidas aos Procuradores da República e, consequentemente,
conferir-lhes eficácia como instrumento de actuação extrajudicial dos magistrados do MP, é de
recomendar a inserção de disposições legais na LOMP em termos de conferir natureza de título
executivo extrajudicial a um instrumento que, seja qual for a designação que vier se atribuir,
resultando do exercício das prerrogativas especiais, permita ao magistrado do MP instaurar acção
executiva quando antes a entidade, pessoa ou órgão que tenha violado a lei, tenha reconhecido o
facto e se comprometido a fazer a devida reposição, não venha a cumprir o acordado.

[Link]ções finais sobre as competências do Ministério


Público na jurisdição cível

As competências do MP ligadas à jurisdição civil, designadamente as de assegurar a defesa


jurídica daqueles a quem o Estado deva protecção especial, nomeadamente os menores, os
ausentes e os incapazes; Participar nas audiências de discussão e julgamento, colaborando no
esclarecimento da verdade e enquadramento legal dos factos; Recorrer às instâncias superiores
das decisões nos termos da lei; Representar e defender junto dos tribunais os bens e interesses
do Estado e das autarquias locais, os interesses colectivos e difusos, bem como outros definidos
por lei; e promover a representação ou assistência jurídica do Estado e outras pessoas
colectivas de direito público, nos processos judiciais movidos em tribunais estrangeiros em que
aqueles sejam parte (art. 4/1, alíneas d), e), f), g) e i), LOMP), traduzem-se na prática, em
concreto, em processos declarativos, processos executivos e processos especiais, de actos
processuais em representação do Estado, autarquias locais ou outras pessoas colectivas de
utilidade pública (mesmo no estrangeiro), incapazes (mormente menores), ausentes e incertos,
mediante elaboração de peças processuais tais como petição inicial, contestação, resposta à
contestação/reconvenção e articulados supervenientes, recursos, reclamação contra despacho
saneador nos termos pertinentes do código de processo civil, requerimentos diversos, embargos,
etc.

O MP pratica actos processuais como o fazem o advogado constituído ou o advogado oficioso,


intervindo no processo não munido de jus imperii, mas em pé de igualdade com os privados,
porquanto estamos no âmbito das relações jurídico-privadas, estando vinculado às regras
processuais que vinculam o advogado constituído e o advogado oficioso, como é o caso da
obrigatoriedade de observância do ónus de impugnação especificada e a sujeição aos efeitos da
revelia, salvo nos casos em que represente incapazes, ausentes e incertos, quanto ao ónus de
impugnação, ou quando represente o incapaz e a causa estiver no âmbito da incapacidade, no
caso dos efeitos da revelia (arts. 490/4 e 485, alínea b), ambos do CPC).

Quanto à prática de actos pelo MP na qualidade de patrono de uma das partes ao processo,
poderá fazê-lo intervindo, quer a título principal quer a título acessório nos termos do disposto
no artigo 6, da LOMP.

Ainda tendo em atenção as competências acima mencionadas, ao MP cabe participar nas


audiências de discussão e julgamento relativas aos processos em que representa uma das partes,

44
mormente o Estado e outras pessoas colectivas públicas, bem assim recorrer, nos termos da lei,
para as instâncias superiores das decisões judiciais proferidas nos referidos processos quando não
se conforme com as mesmas.

No que se refere à participação nos julgamentos, quando representa uma das partes ou tenha
legitimidade para o efeito, o MP colaborará no enquadramento jurídico dos factos em sede de
alegações de direito perante o tribunal, a não ser que as partes tenham acordado em que a
discussão do aspecto jurídico da causa se faça por escrito, ou o juiz assim o tenha decidido a
requerimento de uma das partes, caso em que o enquadramento jurídico dos factos será feito por
escrito (arts. 653/5 e 657, ambos do CPC).

As competências do MP podem ainda ser aferidas à luz de legislação substantiva e processual


diversa, da qual se depreende a sua legitimidade para instaurar determinadas acções judiciais ou
para intervir em processos judiciais movidos por outras entidades.

Neste sentido, o MP tem legitimidade para requerer a curadoria provisória (art. 91 do CC);
requerer a justificação da ausência e curadoria definitiva (art. 99 CC); requerer interdição por
anomalia psíquica, surdez-mudez ou cegueira (art. 141 do CC); requerer a inabilitação por
prodigalidade, abuso de bebidas alcoólicas ou de estupefacientes (arts. 141, aplicável ex vi art.
156, ambos do CC); para promover a execução por custas (art. 101 CCJ); para requerer o
inventário obrigatório (art. 1326/2 do CPC); para intentar a acção de anulação de casamento;
para propor a acção de impugnação da paternidade (arts. 63/1 e 247/1, Lei n.o 20/2004, de 25 de
Agosto); para requerer o processo de justificação judicial para suprimento da omissão do registo
ou a sua reconstituição avulsa, declaração da sua inexistência jurídica ou nulidade (art. 301/1, do
Código do Notariado, aprovado pela Lei n.o 12/2004, de 8 de Dezembro); para requerer a
dissolução de sociedades (art. 229/2 [Link]).

Em tais casos a legitimidade do MP é ditada por razões de interesse público.

Como já referido, o MP também legitimidade relativamente a processos movidos por outras


entidades, a exemplo do processo de justificação judicial para suprimento da omissão do registo
ou a sua reconstituição avulsa, declaração da sua inexistência jurídica ou nulidade, em que
intervém a fim de promover o que tiver por conveniente (art. 311, do Código do Notariado,
aprovado pela Lei n.o 12/2004, de 8 de Dezembro) e do incidente de falsidade de documentos
(art. 366/1 do CPC), actuando nestes casos como mero fiscal da lei.

45
Conclusão

A CRM e a LOMP em vigor, definem o MP como sendo uma magistratura hierarquicamente


organizada, subordinada ao PGR.

Da referida definição depreende-se que o MP reveste natureza hierárquica quanto a sua


organização.

Uma consequência da definição acima mencionada é que os magistrados do MP, integrando uma
magistratura hierarquicamente organizada, subordinam-se aos seus superiores hierárquicos
(todos ao PGR e os de escalão inferior ao respectivo chefe), e por força dessa subordinação
podem receber directivas, ordens e instruções, de cuja observância são responsáveis, desde que
as mesmas sejam legais, visto que lhes é reservado pela lei o direito de não acatar directivas,
ordens e instruções manifestamente ilegais, devendo a recusa ser feita por escrito e ser
devidamente fundamentada, caso em que o autor da ordem ou instrução poderá fazê-la cumprir
por outro magistrado.

Disto resulta que as directivas, ordens e instruções devem ser dadas pelos superiores hierárquicos
nos limites da lei, bem assim os magistrados subordinados devem cumpri-las respeitando a lei,
tanto é que uns a outros na sua actuação estão sujeitos a critérios de legalidade, objectividade e
isenção.

De qualquer modo, o exercício injustificado ou de má-fé da faculdade de recusa por um


magistrado configura infracção disciplinar.

O MP tem autonomia administrativa e funcional, pelo que possui serviços administrativos


próprios e um Secretariado-Geral, cuja estrutura orgânica comporta áreas de suporte à actividade
do MP e questões de natureza burocrática, administrativa, de gestão financeira, do pessoal e
patrimonial.

A composição do MP compreende a própria magistratura do MP; a PGR, que é o seu órgão


superior; o CSMMP, que é o seu órgão de gestão e disciplina; e os órgãos subordinados.

A magistratura do MP compreende categorias e uma carreira própria.

São categorias da magistratura do MP o PGA; Sub-PGA; Procurador da República Principal;


Procurador da República de 1ª; Procurador da República de 2ª; e Procurador da República de 3ª.

A carreira da Magistratura do MP inicia na categoria de Procurador da República de 3ª ao nível


duma Procuradoria da República Distrital, como lugar de ingresso ou de primeiro acesso, tendo
como topo a categoria de PGA.

O Sub-PGA, Procurador da República Principal, o Procurador da República de 1ª, o Procurador


da República de 2ª e Procurador da República de 3ª, são nomeados, exonerados e demitidos pelo

46
CSMMP, enquanto o PGA é nomeado pelo PR sob proposta do CSMMP, após concurso público
de avaliação curricular.

O PGA e os demais Procuradores de categorias inferiores compreendidas na carreira da


magistratura do MP, (Sub-PGA, Procurador da República Principal, Procurador da República de
1ª, Procurador da República de 2ª e Procurador da República de 3ª), só podem ser afastados por
aplicação de sanção disciplinar, assistindo contudo ao visado o direito de interpor recurso para o
Tribunal Administrativo.

O MP é representado nos tribunais de diversos escalões, sendo que nos Plenários do Tribunal
Supremo, do Tribunal Administrativo e no Conselho Constitucional, o MP é representado pelo
PGR; nas secções do Tribunal Supremo e do Tribunal Administrativo, por PGA’s; nos Tribunais
Superiores de Recurso, por Sub-PGA’s e nos Tribunais de escalão inferior, que poderão ser
provinciais ou distritais, por Procuradores da República, que serão os das demais categorias
inferiores, referimo-nos aos Procuradores principais, aos Procuradores Provinciais e aos
Procuradores distritais.

Ao MP são conferidas competências diversas pela Constituição da República, pela sua lei
orgânica e legislação diversa, sendo que tais competências podem ser agrupadas entre as de
actuação judicial, por contraposição às competências de actuação extrajudicial.

No exercício das competências de actuação judicial, o MP poderá praticar actos processuais em


representação do Estado, autarquias locais ou outras pessoas colectivas de utilidade pública,
incapazes, ausentes e incertos, actos que se traduzem na petição inicial, contestação, resposta à
contestação/reconvenção e articulados supervenientes, bem assim fazer alegações orais ou por
escrito em sede de audiência de julgamento.

Dentre as competências do MP de actuação extrajudicial, sendo de referir as Prerrogativas


Especiais dos Procuradores da República no âmbito da Reposição da Legalidade e o atendimento
ao público ou concessão de audiências e a prestação de informação e consultas jurídicas, impõe-
se referir que no caso particular das Prerrogativas Especiais dos Procuradores da República no
âmbito da Reposição da Legalidade, permitindo que o MP, através dos seus procuradores,
viabilize de certo modo a competência para zelar pela observância da legalidade e fiscalizar o
cumprimento das leis e demais normas legais, o facto de a comunicação dos Procuradores da
República não ser vinculativa, obrigando os procuradores recorrem aos tribunais quando o
notificado não proceda de acordo com o convite feito, tal faz com que as referidas Prerrogativas
Especiais sejam meramente formais e estejam desprovidas de utilidade prática no âmbito da
actuação extrajudicial pelos magistrados do MP, do que resulta haver necessidade de conferir-
lhes alguma utilidade prática, mediante consagração de um instrumento que, sendo resultado de
uso daquelas prerrogativas, constitua título executivo extrajudicial.

47
-Referências Bibliográficas

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Ministério Público - Ministério Público do Estado de Rio de Janeiro, n. o 11, Rio de Janeiro,
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48
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2010;
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MINISTÉRIO PÚBLICO II - Democracia, São Paulo, Editora Atlas S.A. - 1999;
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consultado em 01.04.2010.

49
Tema 3 - Das Acções e Formas de Processo

Alda H. Manjate

50
Índice

Páginas

Tema 3 - Das Acções e Formas de Processo.................................................................................50


Alda H. Manjate.............................................................................................................................50
-Das acções e formas de processo.................................................................................................52
•Acções declarativas de simples apreciação..............................................................................52
•Acções declarativas de condenação.........................................................................................53
•Acções declarativas constitutivas.............................................................................................53
-Acções executivas........................................................................................................................54
-Os Procedimentos cautelares........................................................................................................54
-Espécies e enumeração dos procedimentos cautelares.............................................................55

51
-Das acções e formas de processo

As normas do processo civil contêm os trâmites, isto é, indicam o caminho que deve ser
percorrido até se alcançar a resolução de determinado conflito.

É portanto, por meio da propositura da acção que o titular dum direito pode desencadear a
actividade do tribunal para que profira a decisão necessária à resolução do conflito.

Com efeito, nos termos do artigo 4 do C.P.C, as acções são declarativas ou executivas, consoante
o seu fim.

Nas acções declarativas o autor procura que o tribunal declare a solução, com fundamento no
direito substantivo. O tribunal proferirá uma decisão em que declara, no caso concreto, a
existência ou inexistência do direito invocado ou de certo facto.

As acções executivas têm por finalidade a realização coerciva das providências destinadas à
efectiva reparação do direito violado.

A distinção equivale a diferença entre o simples declarar e executar, entre o dizer e o fazer.
Conforme resulta do nₒ 2 do artigo 4 do C.P.C, as acções declarativas podem ser de simples
apreciação, de condenação ou constitutivas.

•Acções declarativas de simples apreciação

Visam obtêr unicamente a declaração da existência ou inixistência de um direito ou de um


facto.O autor com isso se satisfaz. Normalmente a acção é proposta para pôr termo a uma
situação de incerteza, funcionando assim como forma de prevenção de litígios.

As acções de simples apreciação podem ser positivas negativas.São positivas quando o autor
pretende que o tribunal declare a existência de um direito ou de um facto.

Pelo contrário, são negativas quando o autor requer que seja declarado que o direito não existe
ou que determinado facto não ocorreu.

Pelas acções de simples apreciação negativa pretende-se obter a declaração de inexistência de


um direito de outrem com a finalidade de pôr termo a uma situação de incerteza capaz de causar
grave insatisfação ou dano apreciável ao autor. Neste caso, caberá ao réu a prova da existência
do direito que se arroga – art. 343, n.o 1 do Código Civil.

Ex: acção destinada a declarar a existência ou inexistência de uma servidão de passagem;


reconhecimento do direito de propriedade; inexistência de dívida.

52
•Acções declarativas de condenação

Nestas o autor propõe uma acção de condenação pretendendo não só que seja declarado o seu
direito, que está a ser violado pelo réu, mas também que este seja condenado à reitegração desse
mesmo direito, quer por meio de uma determinada prestação, quer por meio de uma atitude de
abstenção ou omissão.

A sentença de condenação pressupõe, como é evidente, uma prévia declaração da existência do


direito. Mas, o tribunal não se fica por aí como acontece nas acções de simples apreciação, pois,
emite ainda uma ordem destinada a reintegrar o direito violado.

O autor pede mais do que a declaração do seu direito, pois pede a condenação do réu.

Ex: o caso de incumprimento de uma obrigação. O credor pretende que o tribunal, depois de
declarar a existência do seu direito e o respectivo incumprimento, condene o réu à realização da
prestação devida e à indemnização pelos danos causados pelo não cumprimento.

•Acções declarativas constitutivas

O autor pretende obter, através do tribunal, um efeito jurídico novo que vai alterar a esfera
jurídica do réu, independentemente da sua vontade. Este efeito depende da decisão do tribunal,
desde que estejam verificados os pressupostos que o condicionam.

Perante o pedido formulado pelo autor, o tribunal ao proferir a sentença, produz alterações na
ordem jurídica, que consistem na constituição, modificação ou extinção de uma relação ou
situação jurídica.

O novo efeito jurídico pretendido pelo autor não depende da vontade do réu e por isso não é
requerida a condenação deste. O efeito depende apenas da decisão do tribunal, que a proferirá
desde que estejam verificados os pressupostos. A sentença cria um novo estado jurídico, pela
modificação ou extinção do anterior.

Estas acções são assim, na grande generaliddade dos casos, o meio processual adequado ao
exercício de certos direitos potestativos.

O direito potestativo é o poder conferido a uma pessoa de introduzir uma alteração na esfera
jurídica de outras pessoas, criando, modificando ou extinguindo direitos, sem a cooperação
destas.

Ex: acção de divórcio; de separação judicial de pessoas e bens. Acção de investigação de


paternidade. Acção em que o pedido de servidão de passagem é formulado pelo dono de um
prédio encravado, art. 1550 Cod. Civil. Acção de impugnação pauliana em que o autor, titular do
direito potestativo, não é sujeito da relação material controvertida, art. 610 e 616, n. o 4 do Cód.
Civil.

53
Em todas estas acções o autor não pede a relização de qualquer prestação, visto que elas se
destinam a produzir certos efeitos jurídicos que não exigem o concurso da vontade do réu, a
prestação, como na generalidade das acções de condenação.

Em jeito de conclusão, podemos dizer que todas as acções visam o reconhecimento da existência
ou inexistência de um direito. É no que vem À seguir a esse reconhecimento ou não
reconhecimento do direito, comum em princípio a todas elas, que reside o traço diferenciador.

Se, além do reconhecimento da existência do seu direito, o autor requer que se ordene ao réu a
realização de uma prestação, a acção diz-se de condenação.

Se além do direito invocado, o autor pretende a produção de um certo efeito jurídico, isto é, a
constituição de uma nova relação, a modificação ou extinção de uma relação enterior, a acção é
constitutiva.

Se o autor, após o reconhecimento da existência ou não existência do direito, não pretende mais
do que a declaração formal dessa existência ou inexistência do direito, a acção é de simples
apreciação.

-Acções executivas

Nestas é invocada a falta de cumprimento de uma obrigação constante de documento, que


constitui título executivo. o exequente requer a reintegração do direito violado ou a aplicação de
sanções pela violação.

Nos termos do artigo 817 do [Link], não sendo a obrigação voluntariamente cumprida, tem o
credor o direito de executar o património do devedor. Através da penhora dos bens do devedor e
a respectiva venda será realizada a importância com que o credor será pago.

Em conformidade com a natureza da obrigação violada, a execução pode ser para pagamento de
quantia certa- art. 810 e segs.- para entrega de coisa certa, art. 928 e segs.- e para prestação de
facto.- art.933 e segs.

-Os Procedimentos cautelares

Contrapostas às acções e em paralelo , o artigo 2, n. o 2 do C.P.C prevê os procedimentos


necessários para acautelar o efeito útil da acção. São os chamados procedimentos cautelares,
regulados nos artigos 381 e seguintes.

Chamam-se procedimentos e não acções, porque carecem de autonomia.

54
Através das providências cautelares pretende-se evitar os eventuais prejuízos provenientes do
tempo que demora o decurso normal da acção.

-Espécies e enumeração dos procedimentos cautelares

1- Alimentos provisórios - art. 388 CPC


2- Restituição provisória da Posse – art. 393 CPC
3- Suspensão de deliberações sociais – art. 396 CPC
4- Providências caut. não especificadas – art. 399 CPC
5- Arresto – art. 402 CPC
6- Embargo de obra nova – art. 412 CPC
7- Arrolamento – art. 421 CPC

-Formas de processo

No domínio das acções declarativas existe uma certa diversidade de formas ou tipos de
processos.

Nos termos do artigo 460, n.o 1, o processo pode ser comum ou especial.

O processo especial aplica-se aos casos expressamente designados na lei; o processo comum é
aplicável a todos os casos a que não corresponda processo especial – art. 460, n.o 2.

Tal significa que o processo comum constitui a regra, enquanto o processo especial será a
excepção.

Os processos especiais constam dos artigos 944 e seguintes. Dentre eles contam-se o de
interdição ou inabilitação, o de revisão de sentença estrangeira, o de despejo, o de suprimento de
consentimento, o de inventário.

De entre os processos especiais refridos constam os chamados processos de jurisdição voluntária


– art. 1409 e seguintes. Nestes não existe um conflito de interesses a dirimir, mas apenas um
interesse fundamental, que o juiz procura regular da forma mais conveniente e oportuna.
Predomina a equidade e o bom senso em contraposição aos processos de jurisdição contenciosa
em que se usa critérios de estrita legalidade. São disso exemplo as acções de regulação do
exercício poder parental.

O processo comum se desdobra em duas espécies:

Declarativo:
a) – ordinário – art. 467 CPC
b) – sumário – art. 783 CPC

55
Critério: valor da causa, art. 305 e segs do CPC. Se o valor da causa exceder a alçada do tribunal
judicial de província, empregar- se- á o processo ordinário – art. 462, 1ª parte. Se não exceder
este valor, empregar-se-á o processo sumário.

A alçada dos tribunais judiciais de província está fixada em 50 vezes o salário mínimo nacional
em vigor para a função pública e a dos tribunais judiciais de distrito de 1ª e 2ª classes, é de 25 e
10 vezes aquele valor- art. 38, nₒ 1 e art. 118 da Lei da Organização Judiciária, Lei nₒ 24/2007 de
20 de Agosto.

Executivo: ordinário/ sumário – art. 465 CPC


Ordinário- título executivo que não seja decisão judicial condenatória ou de tribunal arbitral;
decisão judicial ou arbitral que condene no cumprimento de obrigação que careça de ser
liquidada em execução de sentença, nos termos dos artigos 806 e seguintes.

Sumário - actas de conciliação ou mediação, decisão judicial condenatória ou arbitral ainda, que
ilíquida desde que a liquidação dependa de simples cálculo aritmético.

O processo ordinário é tido como um processo comum tipo. Por isso, está regulada no código de
uma forma permenorizada. O processo sumário regula-se, em primeiro lugar pelas disposições
que lhe são próprias, art. 783 a 791 e , em tudo o que não estiver prevenido nestas e nas
disposições gerais e comuns, pelo que se encontra estabelecido no processo ordinário- art. 463
do C.P.C

Matola, Março de 2011

Elaborado por:
Alda H. Manjate

56
Tema 4 - Pressupostos processuais

Ribeiro José Cuna

57
Índice

Páginas

Tema 4 - Pressupostos processuais................................................................................................57


Ribeiro José Cuna..........................................................................................................................57
Abreviaturas...................................................................................................................................59
Introdução......................................................................................................................................60
[Link] processuais............................................................................................................61
[Link]ção.......................................................................................................................................61
[Link] judiciária...........................................................................................................61
[Link]ências da falta de personalidade judiciária.........................................................63
[Link] judiciária...............................................................................................................64
[Link]ências da incapacidade judiciária (não suprida).................................................65
[Link] das partes...........................................................................................................65
[Link]órcio e coligação....................................................................................................66
[Link] da falta de legitimidade........................................................................................68
1.5.O interesse processual..............................................................................................................68
[Link]ínio judiciário.................................................................................................................69
[Link]ência............................................................................................................................69
[Link] da competência................................................................................................71
[Link]ência internacional e interna....................................................................................71
[Link].Competência internacional............................................................................................71
[Link].Competência interna......................................................................................................77
[Link].Extensão e modificação da competência...........................................................................84
[Link]ção das regras de competência e seus efeitos..............................................................88
[Link]ência absoluta. Legitimidade e tempo para sua arguição..................................88
[Link] da incompetência absoluta....................................................................................88
[Link]ência relativa..........................................................................................................89
[Link] e prazo para sua arguição...........................................................................89
1.7.6. Efeitos da incompetência relativa....................................................................................89
Conclusão......................................................................................................................................89
-Bibliografia...................................................................................................................................91
-Legislação.....................................................................................................................................91

58
Abreviaturas

C.C - Código Civil;


CPC - Código de Processo Civil;
CRM - Constituição da República de Moçambique;
DL - Decreto-Lei;
LOJ - Lei da Organização Judiciária;
LF - Lei da Família.

59
Introdução

O presente texto trata dos pressupostos processuais, de fundamental importância o seu


conhecimento e domínio, porquanto são aspectos que à partida devem ser analisados pelo juiz
quando aprecia a petição inicial, bem assim devem ser do conhecimento do magistrado do
Ministério Público, do Advogado constituído ou Advogado oficioso, que têm intervenção nos
processos concedendo patrocínio judiciário às partes nos termos da lei, pois, representando a
parte activa têm antes de dar impulso processual inicial certificar-se de que a sua acção tem
condições para prosseguir, que não será liminarmente indeferida, e representando a parte passiva
devem estar à altura de defendê-la de uma acção que eventualmente sofra de vícios relacionados
com pressupostos processuais.

Na abordagem que iremos fazer, começaremos por dar a noção de pressupostos processuais,
seguindo-se a referência aos mesmos como tais, nomeadamente a personalidade judiciária, a
capacidade judiciária, a legitimidade, o interesse processual, o patrocínio judiciário e a
competência do tribunal nas suas modalidades internacional e interna, esta que pode ser em razão
da matéria, em razão do valor, em razão da hierarquia e em razão do território, regras ou critérios
da sua determinação, bem como sobre a sua extensão e modificação e, no final, apresentaremos a
conclusão.

60
[Link] processuais

[Link]ção

Pressupostos processuais são os requisitos que condicionam a apreciação pelo tribunal do mérito
da acção ou o conhecimento do fundo da causa.

Pode, também, se dizer que são os elementos cuja verificação depende o dever do juíz de se
pronunciar sobre a procedência ou improcedência do pedido35.

A doutrina distingue os pressupostos processuais em positivos e negativos.

Pressupostos processuais positivos - aqueles cuja existência é fundamental para que o juíz deva
se pronunciar sobre a procedência ou improcedência da acção.

Pressupostos processuais negativos - factos cuja verificação inibe o juíz de apreciar o mérito do
pedido.

São pressupostos positivos a personalidade judiciária, a capacidade judiciária, a legitimidade, o


interesse processual, o patrocínio judiciário e a competência do tribunal.

São pressupostos negativos, entre outros, a litispendência e a preterição do tribunal arbitral.

[Link] judiciária

Nos termos do disposto no art. 5/1 CPC “A personalidade judiciária consiste na susceptibilidade
de ser parte”, ou seja, consiste na possibilidade de determinada pessoa requerer ou contra si ser
requerida determinada providência de tutela jurisdicional reconhecida pela lei.

Trata-se dum pressupsto processual referente às partes (autor vs réu, exequente vs executado,
demandante vs demandado, requerente vs requerido) que, via de regra, são identificadas no
começo da acção quando determinada pessoa toma a iniciativa de dar o impulso processual
através da petição inicial (arts. 264/1 e 467/1, ambos do CPC).

O critério legal geral de aferição da personalidade judiciária consagrado no art. 5/2 é o da


correspondência ou equiparação entre a personalidade jurídica (capacidade de gozo de
direitos)36 e a personalidade judiciária, é o chamado princípio da equiparação.

Têm personalidade judiciária as pessoas singulares (maiores, menores, interditos, inabilitados),


as pessoas colectivas (associações ou fundações) e sociedades a que seja reconhecida

35
Sobre a obrigação do tribunal de julgar veja-se o art. 8/1 [Link] e art. 3/2, Lei n o. 7/09, de 11 de Março.
36
Sobre o começo e termo da personalidade jurídica e sobre a capacidade jurídica (de gozo), veja-se os
arts. 66/1, 67 e 68/1, todos do [Link].

61
personalidade jurídica.

Excepções ao supra referido princípio da equiparação estão consagradas nos artigos 6, 7 e 8,


todos do CPC, pois nestes reconhece-se personalidade judiciária a entes sem personalidade
jurídica, como é o caso da herança jacente37 e patrimónios autónomos semelhantes; sucursais,
agências, filiais e delegações; pessoas colectivas ou sociedades irregulares.

No caso particular duma sociedade irregular, tendo em conta que ela pode deduzir reconvenção
quando demandada, quid juris se lograr a procedência do seu pedido reconvencional e pretender
executar a sentença proferida a seu favor?

Esta questão tem que ver, por um lado, com a legitimidade da sociedade irregular enquanto
exequente, por outro, com a sua falta de personalidade judiciária também como exequente.

Porque no caso considerado teremos uma sentença como título executivo (arts. 45/1 e 46/1,
ambos do CPC), e figurando na mesma a sociedade irregular considerada como credora, resulta
daí que ela tem efectivamente legitimidade como exequente (art. 55/1 CPC).

No entanto, não obstante ter legitimidade activa como exequente, poderá o devedor respectivo
contra quem deduziu a reconvenção e contra quem moveu execução para (pagamento de quantia
certa) opor-se à execução com fundamento na falta de personalidade judiciária da sociedade
irregular?

A falta de personalidade judiciária não constitui nenhum dos fundamentos de oposição à


execução baseada em sentença nos termos dos artigos 812 e 813, alíneas a) a h), ambos do CPC,
cuja epígrafe deste último é o seguinte: “Fundamentos de oposição à execução baseada em
sentença”, e em cujo corpo se refere o seguinte: “Fundando-se a execução em sentença
judicial, a oposição só pode ter algum dos fundamentos seguintes:” (o destacado é nosso).

De acordo com o art. 813 CPC, que consagra uma espécie de numerus clausus dos fundamentos
de oposição à execução baseada em sentença, no que aos pressupostos processuais respeita
apenas relevam como fundamentos de oposição a legitimidade, a coligação (ilegal) de
exequentes e o caso julgado (art. 813, alíneas c), d) e g), CPC), sendo as duas primeiras
excepções dilatórias (art. 494/1, alíneas b) e i), CPC), e a última uma excepção peremptória (art.
494, al. a), CPC).

Portanto, à luz da lei e quando a execução é baseada em sentença, não é relevante que o
exequente não tenha personalidade judiciária para efeitos de executar determinada sentença,
bastando que tenha legitimidade, por figurar nela como credor.

Aliás, tal se compreende perfeitamente, pois a sociedade irregular figura na sentença, enquanto
título executivo, como credora e exequente porque a lei lhe permitiu deduzir reconvenção no
caso em consideração, e qualquer consagração pela lei da falta de personalidade judiciária como
fundamento de oposição à execução de sentença por parte da sociedade irregular seria um contra-
senso, uma incoerência, porquanto determinada sentença proferida a favor da sociedade irregular
37
O conceito de herança jacente é dado pelo at. 2046 [Link].

62
por efeito de dedução de pedido reconvencional julgado procedente não teria qualquer efeito útil,
sabido que uma sentença só vale como tal quando a pessoa a favor de quem foi proferida poder
executá-la judicialmente em caso de incumprimento voluntário pelo condenado/devedor.

Portanto, a falta de personalidade judiciária de uma sociedade irregular não inibe esta de mover
execução com base em sentença proferida em seu favor e na qual figura como credora.

Mas já será relevante a falta de personalidade judiciária da sociedade irregular para efeitos de
fundamentar oposição à execução por si movida, quando esta não se baseie em sentença, mas em
qualquer outro título, visto que em tal caso o executado não está limitado aos fundamentos
previstos pelo art. 813 CPC para sustentar a sua oposição à execução, pois, neste caso, para “…
além dos fundamentos de oposição especificados no artigo 813. o na parte em que sejam
aplicáveis, podem alegar-se quaisquer outros que seria lícito deduzir como defesa no processo de
declaração.” (art. 815/1 CPC), como é o caso da falta de personalidade judiciária que
determinaria a procedência dos embargos ou recurso de agravo, enquanto meios de oposição, e
consequente absolvição do executado da instância, como se alcança das disposições conjugadas
dos artigos 493/1, 494/1, alínea c), ambos aplicáveis por força dos arts. 815/1 e 801, bem assim
ao abrigo dos artigos 812 e 817/2, todos do CPC.

Nestes termos, a falta de personalidade judiciária de determinada sociedade irregular não


constitui fundamento de oposição à execução baseada em sentença proferida a favor da referida
sociedade irregular, bastando que figure nela como credora, mas já é fundamento de oposição a
falta de personalidade judiciária da sociedade irregular quando a execução é baseada em título
diverso de sentença.

[Link]ências da falta de personalidade judiciária

A falta de personalidade judiciária, que é uma excepção dilatória de conhecimento oficioso (arts.
494/1, al. c) e 495, ambos do CPC com a redaccão dada pelo Decreto-Lei n o. 1/2005, de 27 de
Dezembro), tem como efeito o indeferimento liminar da petição inicial após a leitura desta e
constatação da sua falta por força do art. 474/1, al. b)38, ou a abstenção pelo juíz de conhecer do
pedido e absolvição do réu da instância no despacho saneador ou na sentença final, caso a falta
venha a ser alegada ou conhecida depois dos articulados (arts. 288/1, al. c); 510/1, al. a) e 660,
todos do CPC39).

38
Parte da doutrina (caso de Antunes Varela e outros) sustenta que não obstante a natureza, em princípio,
irremovível ou irremediável, da carência de personalidade judiciária, casos há em que a sua falta pode vir
a ser suprida, nomeadamente na hipótese de a acção ter sido proposta fora dos casos previstos pelo art.
7/1 e 2 do CPC, com a redaccão dada pelo Decreto-Lei n o. 1/2005, de 27 de Dezembro, pois, neste caso o
Juíz poderá fixar o prazo dentro do qual a administração poderá sanar o vício, intervindo na acção e
ratificando os actos precedentemente praticados, com a cominação do réu ser absolvido da instância.
39
Redacção dada pelo Decreto-Lei n o. 1/2005, de 27 de Dezembro e Decreto-Lei n. o 1/2009, de 24 de
Abril.

63
[Link] judiciária

A capacidade judiciária consiste na susceptibilidade de estar, por si, em juízo (art. 9/1 CPC),
tendo por base e por medida a capacidade de exercício de direitos (art. 9/2 CPC).

Assim, os incapazes (menores, interditos e inabilitados) por não terem capacidade de exercício
“…só podem estar em juízo por intermédio dos seus representantes, ou autorizados pelo curador,
excepto quanto aos actos que possam exercer pessoal e livremente” (art. 10/1 CPC) 40. Portanto, é
pelo mecanismo da representação que é suprida a falta de capacidade judiciária dos incapazes.
No caso particular dos cônjuges, em regra, estes “…dispõem de igual capacidade judiciária…”
(art. 17/1, CPC41), ou seja, cada um dos cônjuges pode estar, por si, em juízo, independentemente
da intervenção ou consentimento do outro cônjuge.

Porém, excepcionalmente deverão “…ser propostas por ambos os cônjuges, ou por um deles com
o consentimento do outro, as acções de que possa resultar perda ou a oneração de bens que só
por ambos possam ser alienados, ou a perda de direitos que só por ambos possam ser exercidos”,
regime também válido relativamente àqueles que vivam em união de facto 42 nos termos da lei
(art. 103/3, Lei no. 10/2004, de 25 de Agosto e art. 18/1 e 3, do CPC, com as alterações
introduzidas pelo Decreto-Lei no. 1/2005, de 27 de Dezembro)43.

Também, devem ser propostas contra os cônjuges, e não apenas contra um deles, as acções
emergentes de facto cometido por ambos, as acções emergentes de facto cometido por um deles,
“…mas em que pretenda obter-se decisão susceptível de ser executada sobre os bens comuns ou
sobre os bens próprios do outro…), bem assim as acções compreendidas no artigo 18 do CPC,
sendo, outrossim, válido este regime relativamente às pessoas que vivam em união de facto nos
termos da lei (art. 19/1 e 2, CPC, com a redacção dada pelo Decreto-Lei n o. 1/2005, de 27 de
Dezembro).44

Muito embora esteja previsto na secção relativa à personalidade e capacidade judiciária, o


regime jurídico referente à proposição de acções pelos e contra os cônjuges abordado nos três
últimos parágrafos antecedentes, é rigorosamente um problema de legitimidade enquanto
pressuposto processual, que se reconduz ao litisconsórcio necessário, e não de personalidade e
capacidade judiciária.

40
Quanto aos menores, têm capacidade judiciária relativamente as acções respeitantes aos actos previstos
no art. 127 do [Link].
41
Redacção dada pelo Decreto-Lei no. 1/2009, de 24 de Abril.
42
Sobre a noção e efeitos da união de facto vejam-se os artigos 202 e 203, ambos da Lei n o. 10/2004, de
25 de Agosto.
43
A título de exemplo, seria o caso duma acção visando a declaração de nulidade de venda dum imóvel,
próprio dum dos cônjuges ou comum de ambos, feita por determinada pessoa que carece de legitimidade
para efectuá-la e, por isso, nula, ou o caso de de acção de reivindicação de propriedade.
44
Seria o caso de uma acção declarativa de condenação por qualquer das dívidas previstas pelo art. 111,
Lei no. 10/2004, de 25 de Agosto.

64
Com efeito, as disposições dos artigos 18 e 19 do CPC, estabelecem sobre a necessidade de
intervenção, como regra, de ambos os cônjuges nas acções em que estes sejam parte activa ou
parte passiva, do que resulta que a falta de intervenção de um deles é motivo de ilegitimidade
(art. 28/1 e 2, CPC), não se colocando a questão de saber se os cônjuges são susceptíveis de
serem parte (personalidade judiciária), ou de saber se podem estar, por si, em juízo (capacidade
judiciária).

Enfim, quanto ao Estado (de Moçambique), este é representado pelo Ministério Público, seu
advogado, o mesmo sucedendo com entidades autónomas 45 que tenham sob sua administração ou
fruição bens ou direitos do Estado, quando estes sejam objecto de determinada causa, muito
embora em tal caso tais entidades autónomas possam constituir advogado que intervenha no
processo juntamente com o Ministério Público, prevalecendo, em todo o caso, a orientação deste
em caso de divergências (art. 20/2 e 3, CPC, com a redacção dada pelo Decreto-Lei n o. 1/2005,
de 27 de Dezembro).

[Link]ências da incapacidade judiciária (não suprida)

A incapacidade judiciária não suprida, excepção dilatória de conhecimento oficioso (arts. 494/1,
al. c) e 495, ambos do CPC 46), tem como consequência o indeferimento liminar da petição
inicial. Porém, antes de indeferir liminarmente a petição, é recomendável ou conveniente que o
juiz convide o autor a supri-la, fixando-lhe um prazo para o efeito, pois a incapacidade judiciária
apénas assume a natureza de excepção se não for devidamente sanada (art. 474/1, al. b)47, 477/1
e 494, no. 1, al. c) e no. 248, todos do CPC).

Outra consequência da incapacidade judiciária não suprida, é a abstenção pelo juiz de conhecer
do pedido e absolvição do réu da instância em sede de despacho saneador ou de sentença final,
se a incapacidade judiciária for apurada mais tarde (arts. 288/1, al. c), 510/1, al. a) e 660, todos
do CPC).

[Link] das partes

O critério geral de aferição de legitimidade vem consagrado no art. 26 CPC.

A parte é legítima como autor, se for ela quem juridicamente pode fazer valer a pretensão em
face do demandado, no pressuposto de que a pretensão exista, ou seja, quando tem interesse
directo em demandar o qual se exprime pela utilidade derivada da procedência da acção; tem
legitimidade como réu, se for a pessoa que juridicamente pode opôr-se à procedência da
pretensão, isto é, quando tem interesse directo em contradizer, pelo facto de ser a pessoa cuja
esfera jurídica será directamente atingida pela providência requerida (art. 26/1 e 2 CPC).

45
Casos de institutos públicos.
46
Redacção dada pelo Decreto-Lei no. 1/2005, de 27 de Dezembro.
47
Redacção dada pelo Decreto-Lei no. 1/2009, de 24 de Abril.
48
Redacção dada pelo Decreto-Lei no. 1/2005, de 27 de Dezembro.

65
No entanto, casos há em que a lei indica expressamente quem são as pessoas com legitimidade
para requerer determinada providência49, não havendo nesse caso que se lançar mão do critério
consagrado naquele artigo para se aferir da legitimidade ou não das partes.

Não havendo indicação da lei em contrário sobre a legitimidade activa e passiva, deverão para
efeitos de legitimidade serem considerados como titulares do interesse relevante e, por
conseguinte, como partes legítimas, os sujeitos da relação controvertida tal como esta é
configurada pelo autor.

[Link]órcio e coligação

Se a regra no processo é a dualidade das partes, no sentido de haver um só autor e um só réu,


casos há em que uma acção é proposta por vários autores e/ou contra dois ou mais réus, são os
casos de pluralidade das partes. Haverá pluralidade activa, se a acção é movida por dois ou
mais autores contra o mesmo réu, e pluralidade passiva, quando o autor demanda ao mesmo
tempo vários réus, e pluralidade mista, quando a acção é proposta por dois ou mais autores
contra vários réus.

Quanto à sua natureza, a pluralidade das partes distingue-se entre o litisconsórcio e a coligação
nos termos previstos pelos artigos 27 a 31, CPC, com as alterações introduzidas pelo Decreto-Lei
no. 1/2005, de 27 de Dezembro.

Há litisconsórcio, quando à pluralidade das partes corresponde unicidade da relação material


controvertida.
Ilucidativo de litisconsórcio é o caso de vários credores de uma obrigação plural, seja solidária
seja conjunta, demandarem o mesmo ou os mesmos réus, pois o pedido se funda numa relação
material respeitante a várias pessoas.

Há coligação, quando à pluralidade das partes corresponde também a pluralidade das relações
materiais litigadas, permitindo-se, contudo, a cumulação em virtude da unicidade da fonte das
relações em questão, da dependência entre os pedidos ou da conexão substancial entre os
fundamentos destes.

49
Casos de acção de divórcio litigioso em que tem legitimidade um dos cônjuges contra o outro (art.
195/5, Lei no. 10/2004, de 25 de Agosto); de acção de investigação de maternidade e acção de
investigação de paternidade (rigorosamente e atento às espécies de acções em função do seu fim, trata-se
de acções declarativas constitutivas visando o reconhecimento judicial da maternidade e/ou paternidade –
art. 4/2, alínea c), CPC) em que têm legitimidade activa o filho da pretensa mãe e o filho do pretenso pai,
e legitimidade passiva a pretensa mãe e o pretenso pai, respectivamente (arts. 226 e 279, ambos da Lei n o.
10/2004, de 25 de Agosto); da acção especial de interdição por anomalia psíquica, surdez-mudez ou
cegueira que pode ser movida pelo cônjuge do interditando, pelo tutor ou curador deste, por qualquer
parente sucessível e pelo Ministério Público, sendo que quando o interditando esteja sob o poder parental
a legitimidade é restringida ao pai, à mãe que exerça plenamente aquele poder e ao Ministério Público
(art. 141 [Link]).

66
Caso de coligação, seria o caso de dois promitentes-compradores, apresentando dois contratos-
promessa diferentes, mas obedecendo ao mesmo tipo, demandarem o mesmo promitente
vendedor a fim de obterem a interpretação e execução de cláusulas contratuais perfeitamente
semelhantes, pois em tal caso os dois pedidos procedem de relações materiais distintas.

Nos termos do CPC o litisconsórcio reveste duas modalidades, o litisconsórcio necessário e o


litisconsórcio voluntário, um e outro com um regime jurídico distinto.

O litisconsórcio voluntário constitui o regime-regra, aplicável para a generalidade das relações


jurídicas com pluralidade de sujeitos. Nesta modalidade de litisconsórcio os sujeitos não têm que
intervir em conjunto na acção, só o fazendo quando assim o quiserem.

Quando intervenham de forma isolada, o juiz somente pode e deve conhecer da quota-parte que o
sujeito tenha no direito ou no dever litigado, ainda que o autor pretenda que o tribunal se
pronuncie sobre tal direito ou dever na sua íntegra. A título de exemplo, pode se referir o caso de
uma obrigação conjunta com vários credores, que poderão, querendo, demandar em conjunto o
devedor (comum) para deste exigir judicialmente o cumprimento da dívida. Porém, nada impede
que cada um deles, de forma isolada, demande o devedor para exigir judicialmente o
cumprimento da dívida, caso em que o tribunal não poderá conhecer, senão da quota-parte que o
demandante tenha no crédito comum, ainda que o autor tenha pedido ao tribunal a cobrança de
toda dívida.

Por força da lei ou estipulação das partes, mormente em alguns casos de contitularidade de
direitos reais (defesa da composse - art. 1286 [Link], reivindicação da coisa comum pelo
consorte - art. 1405/2 [Link]), pode ser permitido que o direito (comum) seja exercido contra
terceiros por um só dos seus contitulares, ou que a prestação devida seja exigida de um só dos
obrigados, em tal caso haverá também litisconsórcio voluntário, se dois ou mais deles moverem a
acção contra terceiros ou se dois ou mais devedores forem simultaneamente demandados.

Refira-se, porém, que em tal caso se um deles instaurar a acção, o tribunal poderá conhecer de
todo o objecto do direito ou da obrigação.

Tal sucede, por exemplo, no caso da obrigação com diversos devedores, em regime de
solidariedade, por força do qual se o credor exigir do único devedor demandado a totalidade da
prestação, o tribunal não poderá considerar parte ilegítima o réu do qual a dívida se pretende
cobrar, bem assim não pode limitar-se a conhecer da quota-parte da responsabilidade do réu
demandado na dívida comum.

Litisconsórcio necessário - diferentemente do litisconsórcio voluntário, no litisconsórcio


necessário a falta de qualquer dos interessados tem como efeito a ilegitimidade dos
intervenientes na acção.

Sempre que a lei ou o negócio jurídico exijam a intervenção de todos os interessados, quer para
o exercício do direito, quer para a reclamação do dever correlativo, haverá litisconsórcio
necessário.

67
O litisconsórcio necessário ocorre também quando, fora dos casos em que seja imposta por lei
ou negócio jurídico, pela natureza da relação material controvertida, seja essencial a intervenção
de todos os interessados para que a decisão a obter produza o seu efeito útil normal, como é o
caso típico da acção de divisão de coisa comum em que é necessária a intervenção de todos
comproprietários para que a divisão produza o seu efeito útil.

A coligação de autores e a conjunção de réus, por pedidos diversos, é permitida, desde que a
causa de pedir seja a mesma e única, ou quando os pedidos estejam entre si numa relação de
dependência (art. 30/1 CPC).

Também é permitida a coligação quando, embora seja diferente a causa de pedir, a procedência
dos pedidos principais esteja essencialmente dependente da apreciação dos mesmos factos ou da
interpretação e aplicação das mesmas regras de direito ou de cláusulas de contratos análogos
(art. 30/2 CPC).

[Link] da falta de legitimidade

A ilegitimidade de qualquer das partes, ou de ambas, configurando excepção dilatória de


conhecimento oficioso (arts. 494/1, al. c) e 495, ambos do CPC com a redaccão dada pelo
Decreto-Lei no. 1/2005, de 27 de Dezembro), dela resulta como efeito o indeferimento liminar da
petição inicial, se aquela for verificada na apreciação da petição (art. 474/1, al. b), do CPC50).

Se não for verificada na petição inicial, a sua consequência será que o juíz abster-se-á de
conhecer do pedido e absolverá o réu da instância (arts. 288/1, al. d); 510/1, al. a) e 660, todos
do CPC).

1.5.O interesse processual

O interesse processual, pressuposto processual não expressamente referenciado pela lei 51,
consiste na necessidade justificada, razoável e fundada de usar do processo, de instaurar ou de
fazer prosseguir a acção52.
50
Redacção dada pelo Decreto-Lei no. 1/2009, de 24 de Abril.
51
Nos arts. 2/2, 3/1 e 264/1, todos do CPC, está implícito o interesse processual na alusão ao princípio
geral da correspondência entre um direito e uma acção, destinada a fazer reconhecer o direito em juízo ou
a realizá-lo coercivamente, e a impossibilidade do tribunal resolver o conflito de interesses que a acção
pressupõe sem solicitação por uma das partes e a chamada da outra para deduzir oposição, pois o recurso
a uma acção judicial por uma das partes pressupõe que a mesma não tenha logrado a satisfação do seu
direito extra-judicialmente, sendo assim necessário, razoável e justificado o recurso ao tribunal através de
acção adequada ao caso.
52
Tal facto justifica porque razão na petição inicial é habitual o autor procurar demonstrar que tentou,
sem sucesso, uma solução amigável do litígio antes de mover a acção e que, perante tal situação, não lhe
resta outra alternativa senão ao recurso a via judicial. O interesse processual justifica-se pela necessidade
de evitar que sejam encaminhados ao tribunal todos e quaisquer litígios que poderiam ser resolvidos sem
a sua intervenção, tanto mais que mesmo quando o caso seja submetido à sua apreciação, por estatuição

68
A falta de interesse processual como pressuposto processual pode ter consequências diversas,
tudo dependendo da fase do processo em que é apurada e
do tipo do processo, podendo ser, entre outras, o indeferimento liminar, a absolvição da
instância, a absolvição do pedido, a condenação no pedido53.

[Link]ínio judiciário

Consiste na assistência técnica prestada às partes por profissionais de foro na condução do


processo em geral, ou na realização de certos actos em especial.

A falta de constituição obrigatória de advogado nos casos previstos pelos arts. 32 e 60 do CPC,
tem os efeitos próprios da falta de um pressuposto processual, contanto a parte a que respeite não
faça o seu suprimento no prazo que lhe for fixado pelo juíz.

Com efeito, se a falta se verificar relativamente ao autor, o réu será absolvido da instância, se a
falta for do réu, a sua defesa ficará sem efeito e o processo correrá à sua revelia, e se a falta for
do recorrente o recurso ficará sem efeito (art. 33 CPC).

Casos de nomeação oficiosa de mandatário estão previstos nos artigos 4354 e 44, ambos do
CPC).

[Link]ência

Competência é o poder de o tribunal julgar determinada acção, pressuposto que deve se


verificar quanto ao tribunal perante o qual a acção foi proposta para que possa decidir sobre o
mérito da questão.

Relativamente a competência, evidentemente que se pode colocar questões de aplicação da lei


no tempo relativamente a regulação de questões referentes a competência.

A propósito cumpre referir que, em regra, ao contrário da lei reguladora da forma dos diversos
actos processuais que é de aplicação imediata nos termos do artigo 142 do CPC, não são
relevantes as modificações de facto e de direito que ocorram posteriormente ao momento em que

legal deve tentar uma conciliação das partes em sede de audiência preparatória, a não ser que se trate de
uma causa que não admita tentativa de conciliação nos termos do art. 508/2 do CPC, com a redacção dada
pelo Decreto-Lei no. 1/2005, de 27 de Dezembro).
53
No caso de condenação no pedido, se o réu não contestar justamente porque, por hipótese, se tratava de
uma obrigação futura, ainda não vencida e, por conseguinte, o autor não tinha ainda interesse processual,
sobre ele recairá a responsabilidade pelas custas, apesar de ter saído vencedor na acção (art. 449/1 e 2,
al.b), do CPC).
54
Redacção dada pelo Decreto-Lei n o. 1/2005, de 27 de Dezembro e Decreto-Lei n o. 1/2009, de 24 de
Abril.

69
a competência do tribunal é fixada, que é o momento em que a acção se propõe, como resulta das
disposições do artigo 63/1 e 2, 1a parte, do CPC, artigo 36/1 e 2, 1a parte, Lei n.o 24/2007, de 20
de Agosto - LOJ).

Portanto, a partir do momento em que determinada acção é proposta e, por conseguinte, é fixada
a competência do tribunal face a lei vigente no momento, quaisquer modificações de facto e de
direito que posteriormente venham a ocorrer são irrelevantes para efeitos de determinar a
alteração da competência inicialmente determinada. É a estabilidade da competência do tribunal.

Decerto ligado à estabilidade da competência do tribunal, em regra o juiz que for transferido,
promovido ou aposentado, deve concluir o julgamento, a não ser que a aposentação tenha por
fundamento a incapacidade física, moral ou profissional55 para o exercício do cargo ou se, em
qualquer dos casos, mostrar-se preferível a repetição dos actos já praticados, os quais serão
reduzidos a escrito (art. 654/1 e 2, CPC)56.

A título excepcional, é relevante para efeitos de alteração da competência, a supressão do órgão


judiciário a que a causa estava afecta ou se tal órgão judiciário, embora não seja suprimido,
deixe de ser competente em razão da matéria e da hierarquia (artigo 36/2, 2a parte, Lei n.o
24/2007, de 20 de Agosto, e art. 63/2, 2a parte, CPC), cuja violação das respectivas regras
implica incompetência absoluta (art. 101 CPC), pois, neste caso o tribunal que no momento em
que a acção foi proposta era competente, deixa de o ser e torna-se competente o tribunal a que a
nova lei atribuir competência (art. 63/2, 2a parte, CPC), o mesmo sucedendo quando a
determinado órgão judiciário é pela nova lei atribuída competência de que inicialmente carecesse
para o conhecimento da causa, para o qual transitarão os processos pendentes.

Como que um mecanismo de garantia à estabilidade da competência do tribunal, o Código de


Processo Civil, no seu artigo 64, e a Lei n. o 24/2007, de 20 de Agosto, no seu artigo 37, proíbem
o desaforamento que se traduz na impossibilidade legal de nenhuma causa poder ser deslocada
do tribunal competente para outro, excepto no casos especialmente previstos na lei (art. 64 CPC),
designadamente nos casos de apensação de processos a requerimento de qualquer partes com
interesse atendível na junção, por se tratar de acções em que vários autores poderiam coligar-se
contra um ou vários réus, ou acções em que um autor poderia demandar conjuntamente vários
réus, pois em tal caso pendendo as acções em tribunais diferentes, sendo atendido o pedido de
junção, determinadas acções serão deslocadas dum tribunal para outro afim se serem apensadas
ao que tiver sido instaurado em primeiro lugar, ou se os pedidos forem dependentes uns dos
outros, para serem apensados segundo a ordem da dependência (art. 275, n. o 1, com referência ao
art. 30, e [Link] 2 e 3, do CPC).

Outros casos de desaforamento, podem ocorrer por efeito de modificação da competência,


quando por acordo ou convenção expressa as partes tenham afastado a aplicação das regras de
competência em razão do valor e do território, porque sendo a competência fundada no acordo
tão vinculativa ou obrigatória como a que resulta da lei (art. 100/1 e 3, CPC), teremos que um
tribunal que, em princípio, seria competente para conhecer de determinada causa, deixará de o

55
As possibilidades de erro nos actos praticados por um juiz que tenha sido aposentado por incapacidade
física, moral ou profissional, aconselha de per si a repetição dos actos praticados pelo juiz aposentado.
56
Redacção introduzida pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro.

70
ser para passar a sê-lo outro que, não fosse o acordo expresso das partes modificando a
competência, não seria competente.

Outro caso ainda de desaforamento, seria o de falta de arguição de incompetência relativa


decorrente da violação das regras da competência em razão do valor e do território, ou ainda de
violação do pacto privativo de atribuição de competência (art. 108 CPC57), na medida em que em
tal situação também o tribunal que por força das regras da competência fundadas no razão valor e
no território, ou por força do pacto privativo, determinada causa é conhecida por um tribunal
que, embora não fosse competente, a falta de arguição, tempestivamente e por quem tem
legitimidade, da incompetência relativa, dá lugar a que a causa seja conhecida por outro tribunal
que, na verdade, carece de competência em razão do valor, do território e do pacto privativo de
atribuição de competência.

[Link] da competência

[Link]ência internacional e interna

A competência distingue-se em internacional e interna.

A competência internacional designa a fracção do poder jurisdicional atribuída aos tribunais


moçambicanos no seu conjunto, face aos tribunais estrangeiros, para julgarem acções que tenham
algum elemento de conexão com ordens jurídicas estrangeiras, a sua verificação depende da
existência das circunstâncias previstas no artigo 61, com referência ao artigo 65, ambos do CPC,
sendo bastante apenas uma delas.

A competência interna, que assenta no fraccionamento do poder de julgar entre tribunais


moçambicanos no plano interno, desdobra-se na competência em razão da matéria, competência
em razão da hierarquia, competência em razão do valor e competência em razão do território,
atendendo-se em alguns casos excepcionais também à qualidade do réu (art. 62 do CPC).

[Link].Competência internacional

Para que os tribunais moçambicanos tenham competência internacional para julgarem acções
que tenham algum elemento de conexão com outras ordens jurídicas basta a verificação de
qualquer uma das circunstâncias previstas pelo artigo 65 do CPC58, não sendo assim necessária a
verificação cumulativa ou conjunta de tais circunstâncias.

Portanto, basta a verificação isolada de uma de tais circunstâncias para que os tribunais
moçambicanos tenham competência internacional, não havendo qualquer relação de sucessão ou
dependência, conferindo-se deste modo a cada uma de tais circunstâncias autonomia.
57
Redacção dada pelo pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro.
58
Com alterações introduzidas pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro e DL n.o 1/2009, de 24 de Abril.

71
Tal autonomia associada à largueza com que tais circunstâncias consagradas pela lei, revela da
parte desta o objectivo de facilitar o acesso aos tribunais moçambicanos por parte de cidadãos
estrangeiros, bem assim o conhecimento de determinadas causas por tribunais moçambicanos,
por relativamente a litígios que têm conexão com vários sistemas jurídicos ser aconselhável
serem resolvidos em território nacional, obviamente por tribunais moçambicanos estarem numa
posição melhor para com menos dispêndio de tempo decidir o caso, a título de exemplo por o
facto que serve de causa de pedir à acção tiver sido praticado em território nacional ou não poder
o direito tornar-se efectivo senão por meio de acção proposta em tribunal moçambicano. No
primeiro caso a produção de prova é, em princípio, mais fácil de realizar no lugar onde o facto
ocorreu, que é o território nacional e, no segundo caso, a falta de competência dos tribunais
moçambicanos frustraria a realização do direito do autor da acção.

Em atenção às circunstâncias ou critérios determinativos da competência internacional dos


tribunais moçambicanos, a doutrina refere-se a princípios correspondentes a tais critérios,
designadamente o princípio da coincidência, o princípio da causalidade, o princípio da
reciprocidade e o princípio da necessidade.

a) Princípio da coincidência - Nos termos da alínea a) do número 1 do artigo


65 do CPC, os tribunais moçambicanos têm competência internacional desde que a acção
deva ser proposta em Moçambique, de acordo com suas regras de competência territorial
prescritas pela lei moçambicana.

Ressalta neste critério atributivo da competência internacional uma coincidência entre a


competência interna fundada no território e a competência internacional assim atribuída aos
tribunais moçambicanos, é nisto que consiste o princípio da coincidência.

Por força do referido princípio da coincidência, sempre que em conformidade com as regras
reguladoras da competência territorial estabelecidas na ordem interna, a acção (ou execução)
deva ser instaurada em Moçambique, os tribunais moçambicanos consequentemente têm
competência internacional para julgar ou processar a execução, consoante os casos, apesar de
possuir elementos de conexão com ordens jurídicas externas. Tudo se passa como se, ocorrendo
em Moçambique o facto a que a lei atende para atribuir competência territorial aos tribunais
moçambicanos, fosse irrelevante qualquer elemento de conexão com ordens jurídicas
estrangeiras, por a competência internacional dos tribunais moçambicanos ocorrer
automaticamente, por outras palavras, basta a verificação da competência territorial59 para que a
competência internacional seja um dado adquirido.

A título de exemplo, se dois tanzanianos envolvem-se num acidente na província de Maputo e


um deles que se julgue com razão e pretenda mover uma acção para efeitos de efectivação de
responsabilidade civil, sendo em conformidade com as regras de competência estabelecidas pelo
número 2 do artigo 74 do CPC, competente para julgar a acção o tribunal do lugar onde o facto
gerador da responsabilidade civil ocorreu, no caso considerado o Tribunal Judicial Provincial de
Maputo ou Tribunal judicial distrital local, consoante o valor dos danos em causa, e
consequentemente a acção dever ser proposta em Moçambique, resulta daí que os tribunais
59
As regras da competência territorial estão estabelecidas nos artigos 73 a 89, do CPC.

72
moçambicanos também têm competência internacional para julgar a acção nos termos do artigo
65/1, alínea a), do CPC, embora a acção tenha conexão com uma ordem jurídica estrangeira dada
a nacionalidade das partes envolvidas.

b) Princípio da causalidade

Em conformidade com as disposições da alínea b) do número 1 do artigo 65 do CPC 60, o


segundo critério atributivo da competência internacional aos tribunais moçambicanos é a
circunstância de ter sido praticado em território moçambicano o facto que serve de causa de
pedir na acção.

Neste caso, é em função da causa de pedir que serve de fundamento à acção que a lei atribui
competência internacional aos tribunais moçambicanos para julgar a acção, o que se deve ao
facto de, em princípio, ser mais fácil a produção de prova em território nacional61 porque lugar
da prática do facto.

Inspirando-nos num exemplo de Antunes Varela e outros, na sua obra intitulada “Manual de
Processo Civil”, 2a Edição, Coimbra Editora, Limitada, 1985, página 202, poderíamos referir a
hipótese dum casal sul-africano que, sendo domiciliado na República da África do Sul, deslocou-
se a Moçambique para fazer turismo e durante a sua estadia desentende-se gravemente por um
dos cônjuges pretender requerer judicialmente o divórcio com fundamento no adultério que alega
ter sido cometido em Moçambique pelo outro cônjuge.

Para julgar tal acção os tribunais moçambicanos não seriam, em princípio, competentes visto que
de acordo com as regras da competência territorial nos termos do artigo 75 do CPC aquela devia
ser proposta na República da África do Sul por ser o local onde o casal tem domicílio ou
residência, porém, os tribunais moçambicanos têm competência, na modalidade internacional,
para julgar a acção, na medida em que a causa de pedir ou facto concreto que serve de
fundamento ao pedido ocorreu em território moçambicano.

c) Princípio da reciprocidade

Este princípio que decorre das disposições da alínea c), do número 1 do artigo 65 do CPC 62,
implica a competência internacional dos tribunais moçambicanos quando seja réu estrangeiro
e autor moçambicano, desde que, invertida a posição das partes, o moçambicano pudesse ser
demandado perante os tribunais do Estado de que o réu é nacional, pelo que esta regra
atributiva de competência internacional aos tribunais moçambicanos pressupõe
reciprocidade de tratamento, daí a designação princípio da reciprocidade63.

60
Com as alterações introduzidas pelo DL n. o 1/2005, de 27 de Dezembro.
61
A propósito pense-se na prova por apresentação de coisas móveis ou imóveis e na prova por inspecção a
elas (art. 518 CPC) em que pode ser difícil a sua realização e produção quando deva ocorrer fora do lugar
onde se deu a causa de pedir.
62
Redacção dada pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro.
63
Em material de direito substantiva, o reconhecimento e gozo de direitos civis por estrangeiros na ordem
jurídica moçambicana depende da reciprocidade de reconhecimento e gozo aos moçambicanos pelo
Estado de que os estrangeiros em causa são nacionais (art. 14/1 e 2, CC).

73
Este princípio e regra atributiva de competência internacional aos tribunais moçambicanos
permite que cidadãos moçambicanos não fiquem em desvantagem, pois, não fosse a consagração
legal de tal critério, poderiam em determinadas circunstâncias serem demandados por
estrangeiros perante tribunais estrangeiros e, em contrapartida, em iguais circunstâncias, não
poderem demandar estrangeiros perante os tribunais moçambicanos.

d) Princípio da necessidade

O quarto critério atributivo da competência internacional aos tribunais moçambicanos


consiste no facto do direito não poder tornar-se efectivo senão através de acção proposta em
tribunal moçambicano, havendo uma condição que é facto de entre a acção a propor e o
território moçambicano existir qualquer elemento ponderoso de conexão pessoal
(nacionalidade moçambicana de um ou de ambos os litigantes) ou real (situação em
Moçambique dos bens a que a acção se refere), é o que se alcança do postulado no artigo
65/1, alínea d), do CPC.

Como resulta de própria lei, se a razão da atribuição da competência (internacional) aos tribunais
moçambicanos é o facto de o direito não poder tornar-se efectivo ou realizar-se senão por meio
de acção proposta em tribunal moçambicano, conclui-se daí que esta regra visa permitir a
instauração em território nacional de acção para a qual nenhuma outra ordem jurídica se
considera competente, na medida que tal acção havendo algum elemento ponderoso de conexão
pessoal ou real, poderá ser proposta perante os tribunais moçambicanos, e por essa via evita-se a
frustração da realização do direito do autor, verificadas as condições acima referidas
estabelecidas pela lei, essa a razão da designação do princípio (necessidade) referente ao critério
em alusão. Tem aplicação quando não se oferece ao interessado outra solução.

Com a nova redacção introduzida pelo Decreto-Lei n.o 1/2005, de 27 de Dezembro, e Decreto-
Lei n.o 1/2009, de 24 de Abril, o artigo 65 do CPC consagrou três novos critérios ou factos
atributivos da competência internacional aos tribunais moçambicanos, passando aquele artigo a
comportar as alíneas e), f) e g), contrariamente ao regime anterior ao referido Decreto-Lei que
compreendia quatro alíneas.

A primeira das novas circunstâncias atributivas da competência (internacional) aos tribunais


moçambicanos, traduz-se no facto de tratar-se de acções relativas a direitos reais ou pessoais de
gozo sobre imóveis localizados em território moçambicano (art. 65/1, alínea e), CPC).

Este critério de alguma maneira é uma expressão do princípio da coincidência, ainda que de
forma relativa. Com efeito, na modalidade de competência interna e de acordo com as regras de
competência territorial, os tribunais moçambicanos têm igualmente competência para julgar
acções relativas a direitos reais sobre imóveis situados em Moçambique, como se alcança do
prescrito no artigo 73/1 do CPC sob a epígrafe “(Foro da situação dos bens)”.

Ora, se de acordo com as regras de competência (interna) territorial devem “…ser propostas no
tribunal da situação dos bens as acções relativas a direitos reais sobre imóveis…” 64, resulta daí
que tratando-se de acção relativa a direitos reais sobre imóveis os tribunais moçambicanos têm
64
Cfr. artigo 73/1 CPC.

74
competência interna para julgá-la, e havendo uma coincidência entre o critério consagrado no
artigo 73/1 CPC e o consagrado na alínea e), do número 1, artigo 65, do mesmo diploma legal,
temos que mesmo que este artigo não tivesse consagrado tal critério da localização dos bens em
território nacional (moçambicano), nem por isso os tribunais moçambicanos deixariam de ser
competentes para julgar acções respeitantes a direitos reais sobre imóveis situados em
Moçambique.

Portanto, à semelhança do que sucede na alínea a), do número 1, artigo 65, CPC, e na alínea e),
do mesmo número, artigo e diploma legal, há uma coincidência entre a competência interna
baseada no território e a competência internacional atribuída aos tribunais moçambicanos tendo
em conta o critério de localização dos bens em território moçambicano, razão porque
consideramos estarmos perante mais um caso do princípio da coincidência.

O segundo dos três novos critérios consagrados pelo Código de Processo Civil na alínea f),
número 1, artigo 65, face à nova redacção dada pelo Decreto-Lei n.o 1/2005, de 27 de Dezembro,
consiste na circunstância de se tratar de um processo especial de falência ou insolvência
relativamente a pessoas colectivas ou se sociedades domiciliadas em Moçambique.

O elemento a ter em conta neste critério é o domicílio da pessoa colectiva ou sociedade cuja
falência ou insolvência se pretende requerer na acção especial adequada, e desde que o domicílio
da pessoa colectiva ou sociedade em causa seja em Moçambique, os tribunais moçambicanos
terão competência internacional para julgar acções especiais de declaração de falência ou
insolvência propostas contra aquela, mesmo existindo alguns elementos de conexão com ordens
jurídicas estrangeiras.

Esta competência (internacional) atribuída aos tribunais moçambicanos com base no critério do
domicílio da pessoa colectiva ou sociedade, que deve ser em Moçambique, é parcialmente
coincidente com a competência (interna) territorial estabelecida pelas disposições do artigo 82/1
do CPC, porquanto referindo-se este artigo ao “…tribunal da situação do estabelecimento e, na
falta deste, o do domicílio ou da sede do arguido”, regula a competência (interna) territorial
relativamente a processos de falência movidos, tanto contra empresários em nome individual
quanto contra empresários em nome colectivo, e o artigo 65/1, alínea f), CPC, atribui
competência internacional aos tribunais moçambicanos para julgar processos de falência ou
insolvência instaurados contra empresários em nome colectivo.

Portanto, a única diferença nos dois artigos em análise reside no facto do artigo 82/1 do CPC ser
mais abrangente, por incluir quer os empresários em nome individual como os empresários em
nome colectivo65, enquanto o artigo 65/1, alínea f), CPC, restringe-se aos empresários em nome
colectivo, havendo no essencial a coincidência do domicílio que deve ser em Moçambique.

O terceiro e último dos três novos critérios estabelecidos pela Código de Processo Civil
atributivos da competência internacional aos tribunais moçambicanos, cumpre referir a
circunstância de se tratar “…de processo destinado a apreciar a validade das deliberações dos
órgãos sociais das pessoas colectivas ou das sociedades domiciliadas em Moçambique”66.

65
Sobre os empresários comerciais vejam-se as alíneas a) e b), do artigo 2 do Código Comercial.
66
Cfr. alínea g), número 1, artigo 65 do CPC, redacção dada pelo DL n. o 1/2009, de 24 de Abril.

75
A questão da competência internacional dos tribunais moçambicanos para julgar acção destinada
a apreciar a validade das deliberações dos órgãos sociais das pessoas colectivas ou das
sociedades, levantar-se-á nos casos em que determinada deliberação dum órgão social de uma
pessoa colectiva ou uma sociedade esteja inquinada do vício de nulidade ou anulabilidade67.

De acordo com o Código de Processo Civil os tribunais moçambicanos têm competência


internacional para julgar tais acções, mas o critério com base no qual a lei moçambicana atribui
tal competência, tratando-se de uma pessoa colectiva ou sociedade estrangeira, haverá conjugá-
lo com o disposto no artigo 65/2 do CPC, que prevê que quando para a lei seja competente, de
acordo com a lei moçambicana, o tribunal do domicílio do réu, os tribunais moçambicanos
possam exercer jurisdição na condição do réu ter domicílio em Moçambique, e o artigo 86/2, 2a
parte, também do CPC68, que prevê a possibilidade de a acção instaurada contra pessoas
colectivas ou sociedades estrangeiras, que tenham sucursal, agência, filial, delegação ou
representação em Moçambique ser proposta no tribunal da sede destas.

A propósito, refira-se que por força do disposto no número 3 do artigo 65 do CPC 69, as pessoas
colectivas ou sociedades estrangeiras consideram-se domiciliadas em Moçambique, contanto
tenham em território nacional sede estatutária ou efectiva, sucursal, agência, filial, delegação ou
representação.

Deste modo, da conjugação das disposições do artigos 65, n.o 1, alínea g) e 2a parte, n.o 2, do
artigo 8670, CPC, teremos que tratando-se de uma pessoa colectiva ou sociedade estrangeira a
competência internacional dos tribunais moçambicanos para julgar acções destinadas a apreciar
a validade das deliberações dos órgãos sociais só será efectiva se a pessoa colectiva ou sociedade
estrangeira demandada tiver sucursal, agência, filial, delegação ou representação em
Moçambique, sendo a acção proposta no tribunal da sede destas (da sucursal, agência, filial,
delegação ou representação).

[Link].Competência interna

A nível interno, o fraccionamento do poder de julgar entre tribunais moçambicanos, divide-se


em razão da matéria, em razão do valor, em razão da hierarquia e em razão do território.
Excepcionalmente, atende-se à qualidade do réu (art. 62 do CPC).

a) Competência em razão da matéria

Nos termos do artigo 223/1, alíneas a), b) e c), e n.o2, da Constituição da República, em
Moçambique existem tribunais judiciais, administrativos, de trabalho, fiscais, aduaneiros,
67
Sobre a nulidade e anulabilidade das deliberações das pessoas colectivas e sociedades civis e
comerciais, prazo da sua arguição e respectiva acção e legitimidade das partes, cfr. artigos 177 e 178, do
CC, aplicáveis ex vi artigo 157 do mesmo diploma legal, e artigos 142 a 145, Código Comercial.
68
Redacção dada pelo DL n.o 1/2009, de 24 de Abril.
69
Com as alterações introduzidas pelo DL n. o 1/2005, de 27 de Dezembro.
70
Dispõe sobre as regras de competência (interna) territorial.

76
marítimos, arbitrais e comunitários. Assim, no plano interno o poder jurisdicional é dividido por
estas categorias ou espécies de tribunais em função da natureza da matéria de que as causas
tratam, não havendo entre tais espécies de tribunais nenhuma relação de hierarquia ou
dependência, pois, situam-se no mesmo plano horizontal.

A competência em razão da matéria tem subjacente o princípio da especialização, visto que a


vastidão do Direito e consequente especificidade das normas que integram os seus ramos ou
sectores não se compadece com a atribuição da competência a um único órgão judiciário para
julgar acções referentes a matérias diversas, sendo pelo contrário recomendável a especialização
dos tribunais por matérias para melhor tratamento e resolução das diversas causas71.

Os tribunais judiciais, que são tribunais comuns em matéria civil ou criminal (art. 223/4 CRM e
art. 68/1, CPC72), contrapõem-se aos tribunais especiais. Os primeiros, que constituem a regra
da organização judiciária, têm competência genérica e, por conseguinte, qualquer causa que não
seja atribuída por lei a um tribunal especial, será da sua competência. Em contrapartida, os
tribunais de competência especializada só serão competentes para as causas que versem sobre
matérias que lhes sejam especialmente atribuídas (art. 66 CPC e art. 33, Lei n. o 24/2007, de 20 de
Agosto).

Portanto, qualquer acção cuja matéria extravase as matérias conferidas aos tribunais especiais,
será da competência dos tribunais judiciais.

Na categoria dos tribunais judiciais, tendo em conta a competência em razão da matéria, pode-se
distinguir tribunais de competência genérica e tribunais de competência especializada73 (art. 49,
LOJ).

A Constituição da República admite ainda no seu artigo 223/5 a existência na primeira instância
de tribunais de competência específica, a exemplo do Tribunal de Polícia da Cidade de Maputo
(arts. 3 e 5, ambos do Decreto n.o 40/93, de 31 de Dezembro).

71
Porém, há necessidade dos magistrados judiciais e do Ministério Público, bem assim advogados, terem
domínio do direito em geral, pois, os ramos de direito não constituem compartimentos estanques, como se
pode depreender do previsto no art. 97/1 CPC, que dá ao juiz a faculdade de, se o conhecimento do
objecto da acção depender da decisão duma questão que seja da competência do tribunal (secção)
criminal ou do tribunal administrativo, sobrestar na decisão até que o tribunal competente se pronuncie,
ou sobrestando, a suspensão ficar sem efeito pelo facto da acção penal ou acção administrativa não for
exercida dentro de um mês ou se o respectivo processo estiver parado, por negligência das partes, durante
o mesmo prazo. Num e noutro caso o juiz (cível) decidirá a questão (prejudicial) de foro criminal ou
administrativo, e para tal obviamente que precisa de ter conhecimentos ou preparação técnica bastante, o
que passa pelo domínio mínimo das áreas jurídicas respectivas.
72
Redacção dada pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro.
73
Pode ser feita através da criação de secções especializadas para certas causas, a exemplo das secções
cíveis, criminais, laborais e comerciais no Tribunal Judicial da Cidade de Maputo. É tribunal de
competência especializada o Tribunal de Menores da Cidade de Maputo (art. 6 do Decreto n. o 40/93, de
31 de Dezembro).

77
b) Competência em razão do valor

O Código de Processo Civil não contém nenhuma disposição que regula a atribuição da
competência em razão do valor, visto que com a aprovação e entrada em vigor do DL n. o 1/2005,
de 27 de Dezembro, mais tarde o DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro o artigo 68, que estava
integrado na secção II, do capítulo III, Livro II, do Código de Processo Civil que, no regime
anterior àquele diploma legal, regulava a competência em razão do valor, atribuindo aos
tribunais inferiores competência para conhecerem das causas que a lei submete à sua jurisdição,
até ao limite de valor expressamente indicado, ficou alterado e passou a dispor sobre o tribunal
comum e tribunais que exercem a função judicial, e o artigo 69 que também está integrado na
secção II, do capítulo III, Livro II, do Código de Processo Civil, foi revogado pelo artigo 3, do
Decreto-Lei n.o 1/2005, de 27 de Dezembro.

Contudo, o Código de Processo Civil continuou a regular, nos seus artigos 100 e 108, a
competência convencional e a incompetência relativa em razão do valor.

De qualquer modo, a competência dos tribunais judiciais em razão do valor será aferida face ao
regime da LOJ.

Dentro da mesma espécie de tribunais pode haver uma discriminação da competência em razão
do valor da causa, e no caso particular dos tribunais judiciais, o tribunal judicial de distrito de 1 a
classe é competente para, em matéria cível e em primeira instância, julgar acções cujo valor não
exceda cem vezes o salário mínimo nacional, para as quais não sejam competentes outros
tribunais74; o tribunal judicial de distrito de 2 a classe é competente para, em matéria cível e em
primeira instância, julgar acções cujo valor não exceda cinquenta vezes o salário mínimo
nacional, para as quais também não sejam competentes outros tribunais75; e os tribunais judiciais
de província conhecem, em matéria cível, de quaisquer causas que não sejam da competência de
outros tribunais, seja qual for o valor, pois, em razão do valor os tribunais judiciais de província
julgam até ao infinito, como se alcança das disposições dos artigos 73/1, alínea a), 84/1, alínea
b), 85/1, alínea a), todos da LOJ.

Para efeitos de determinação de competência deve entender-se como salário mínimo nacional, o
salário mínimo que estiver em vigor para a função pública (art. 118 da Lei da LOJ).

c) Competência em razão da hierarquia

Diferentemente da competência em razão da matéria em que o poder jurisdicional é dividido por


diversas categorias ou espécies de tribunais em função da natureza da matéria de que as causas
versam e sem quaisquer espécies relação de hierarquia ou dependência entre tais tribunais, por
se situarem no mesmo plano horizontal, no caso da competência em razão da hierarquia o poder
jurisdicional é dividido dentro de cada espécie ou categoria de tribunais dispostos numa relação

74
A serem competentes outros tribunais estes seriam de competência especializada, visto que os tribunais
judiciais são comuns e, por conseguinte, de competência genérica, cabendo na sua esfera de jurisdição
todas questões e acções que extravasem o âmbito de competência dos tribunais especializados.
75
Idem, rodapé anterior.

78
de hierarquia, porque num plano de vertical, sendo as funções de cada um sucessivamente mais
delicadas que os de escalão inferior.

É em razão da maior delicadeza das funções dos tribunais colocados nos escalões superiores da
hierarquia, com destaque para o poder de revogação e reforma das decisões proferidas pelos
tribunais de escalão inferior, que os juízes dos primeiros devem ser recrutados, ou pelo seu
especial saber ou capacidade técnica (mérito), ou pela sua maior experiência ou antiguidade.

Resultando a competência em razão da hierarquia da distribuição de funções entre tribunais da


mesma espécie ou categoria escalonados verticalmente e de acordo com uma hierarquia legal,
por interessar ao processo civil importa fazer referência à pirâmide organizacional dos tribunais
judiciais.

Na base da pirâmide estão os Tribunais Judiciais de Distrito, e subindo de hierarquia estão a


seguir os Tribunais Judiciais de Província, aos quais são de hierarquia superior os Tribunais
Superiores de Recurso, e no topo da pirâmide encontramos o Tribunal Supremo que é, por
conseguinte, “… o mais alto órgão da hierarquia dos tribunais judiciais e tem jurisdição em todo
o território nacional”76 (art. 225/1 da CRM e art. 29/1, alíneas a) a d), LOJ).

Embora não estejam integrados na hierarquia dos tribunais judiciais, impõe-se a referência aos
Tribunais comunitários pelo seu papel na resolução de pequenos conflitos com respeito pela
Constituição da República (art. 5, LOJ).

Da competência dos tribunais em razão da hierarquia e consequente hierarquia judiciária não


resulta haver poder de direcção por parte dos juízes dos tribunais superiores, bem assim não há
dever específico de obediência por parte dos juízes dos tribunais inferiores, dado o princípio da
independência de que todos gozam independentemente da sua categoria e, por conseguinte,
inexistência de qualquer dever de acatamento a quaisquer que sejam as ordens e instruções,
senão à Constituição e à lei (art. 217/1 e 2, da CRM, art. 10/1 e 2, LOJ).

A consequência da hierarquia judiciária consiste no poder conferido aos tribunais superiores de,
mediante recurso, revogarem e reformarem as decisões dos tribunais inferiores e consequente
dever de acatamento por estes das decisões proferidas em via de recurso pelos primeiros (art.
10/2, 2a parte, LOJ).

Da apreciação à Lei da Organização Judiciária, constata-se serem “…fundamentalmente três os


pontos em que se traduz a diferente competência funcional das várias ordens de tribunais
judiciais em razão da hierarquia”77, referentes designadamente aos recursos, aos conflitos de
competência e às acções de indemnização.

76
Cfr. Artigo 39, Lei n.o 24/2007, de 20 de Agosto.
77
Antunes Varela, J. Miguel Bezerra e Sampaio e Nora, Manual de Processo Civil, 2a Edição, Coimbra
Editora, Limitada, 1985, página 213.

79
Relativamente aos recursos, a regra78 é a de que é competente para conhecer do recurso
interposto de qualquer decisão judicial o tribunal de grau ou escalão imediatamente superior
àquele que a proferiu, como se alcança das disposições do artigo 34; das alíneas a), d), h), do
artigo 50; alínea a), do artigo 62; alíneas a) e c), n. o 1, do artigo 74; e alínea a), n. o 1, do artigo
86, todos da LOJ; e artigos 70, 1a parte; 72/1 e 88, todos do artigo CPC79.

No que toca aos conflitos de competência, é competente para o seu conhecimento o tribunal de
grau imediatamente superior aos tribunais em conflito, seja negativo, seja positivo, tal como se
pode concluir do prescrito na alínea b), artigo 50; alíneas b) e c), artigo 62; alínea b), n. o 1, art.
74, todos da LOJ; artigo 70, in fine, do artigo CPC80.

No entanto, um reparo deve ser feito relativamente à última parte do artigo 70 do CPC, onde se
refere que os Tribunais judiciais provinciais “…resolvem os conflitos de competência entre as
autoridades judiciais da província”, pois, em atenção a hierarquia judiciária não podem os
Tribunais Judiciais de Província resolverem os seus próprios conflitos de competência, podendo
resolver os conflitos de competência dos Tribunais judiciais distritais que lhes são
hierarquicamente inferiores, como aliás resulta do disposto no artigo 74/1, alínea b), da LOJ.

Enfim, no concernente as acções de indemnização, trata-se daquelas acções propostas contra


magistrados, quer judiciais quer do Ministério Público, por actos praticados no exercício das suas
funções, cabendo neste caso também a competência para conhecer de tais acções ao órgão
judiciário de escalão ou categoria imediatamente superior àquele onde o demandado exerce
funções81, como se alcança do disposto na alínea d), artigo 51; alínea c), artigo 63; alínea b), n. o
1, art. 73, todos da LOJ; e artigo 70, 2a parte, e artigo 71/1, alínea b), ambos do CPC.

d) Competência em razão do território

Não basta aferir a competência dentro de uma categoria ou espécie de tribunais em razão da
matéria, do valor e da hierarquia (v.g., tribunal judicial distrital), é preciso também determinar,
do ponto de vista territorial e em função do lugar onde o mesmo tem a sua sede, circunscrição

78
Pode-se considerar uma excepção, contudo não em sentido rigoroso, o disposto no artigo 45, alínea c),
LOJ, visto o julgamento, em segunda instância, pelo Plenário do Tribunal Supremo, do recurso de uma
decisão proferida em primeira instância por uma secção do mesmo tribunal, embora o Plenário e as
secções tenham composição diferente (cfr. artigos 44 e 48, LOJ), é ao mesmo da mesma instância judicial
que a decisão e o recurso são julgados, o Tribunal Supremo. Tal tem a sua razão de ser, pois, sendo este o
mais alto órgão da hierarquia dos tribunais judiciais e, por conseguinte, não existindo outro acima dele, só
poderia ser o mesmo Tribunal Supremo a ter competência para o conhecimento e decisão de tais acções,
no caso em referência ao nível do Plenário em segunda instância.
79
Com as alterações introduzidas pelo DL n. o 1/2009, de 24 de Abril.
80
Com a redacção dada pelo DL n.o 1/2009, de 24 de Abril.
81
Excepção a esta regra, também não em sentido rigoroso à semelhança do que vimos relativamente aos
recursos, resulta do disposto no artigo 46, alínea d), LOJ, na medida em que tratando-se de acções
instauradas contra juízes e magistrados do Ministério Público do Tribunal Supremo, tais acções são
conhecidas e decididas pelo próprio Tribunal Supremo, o que se compreende por ser o órgão superior da
hierarquia dos tribunais judiciais, pelo que não havendo outro acima dele só poderia ser o próprio
Tribunal Supremo a conhecer e decidir de tais acções, no caso em alusão ao nível do Plenário em
instância única.

80
ou área geográfica na qual cada tribunal tem competência, o tribunal que em concreto é
competente, pois, dentro “…de cada espécie ou categoria de tribunais e no mesmo grau de
jurisdição, a repartição de julgar faz-se depois em função do território”82.

A razão da competência territorial, é que aos vários tribunais da mesma espécie e do mesmo
escalão na hierarquia judiciária corresponde uma área geográfica própria e, a par disso e como
critério de aferição do tribunal territorialmente competente, relativamente aos tribunais judiciais
a lei processual indica os locais onde as acções devem ser propostas com base no elemento ou
factor de conexão que para tal reputa relevante ou decisivo.

A propósito estabelece o artigo 35, LOJ, sob a epígrafe “ (Competência territorial) ”, que o “…
Tribunal Supremo tem competência em todo o território nacional e os demais tribunais judiciais,
nas respectivas áreas de jurisdição”, o que, por um lado, significa que a competência territorial
tem por base o lugar onde cada tribunal tem a sua sede83 e, por outro, quer dizer que trata-se de
uma competência subjectiva por fixar o poder de julgar de cada tribunal individualmente
considerado, contrariamente ao que sucede com as competências em razão da matéria, valor e
hierarquia, que respeitam à competência de determinada categoria ou espécie de tribunais e
determinado escalão de tribunais na hierarquia judiciária.

Com vista a determinar em concreto o tribunal (judicial) competente em razão do território, há


que conjugar “…dois elementos: a circunscrição territorial correspondente ao tribunal, de um
lado; o factor decisivo de conexão de cada tipo de acções, do outro” 84, destacando-se à luz do
Código de Processo Civil como factores decisivos de conexão o foro real ou da situação dos
bens, o foro do lugar do cumprimento da obrigação, o foro do autor, o foro do réu, o foro
hereditário e o foro da execução.

a) Foro real ou da situação dos bens – resulta do artigo 73/1 do CPC que as acções
referentes a direitos reais sobre imóveis, bem como as acções para arbitramento, as de
despejo, as de preferência sobre imóveis e ainda as de reforço, substituição, redução e
expurgação de hipotecas, a título de exemplo as acções de reivindicação e de
preferência, devem ser propostas no tribunal da situação dos bens, ressalvado que,
havendo algum elemento de conexão com uma ordem jurídica estrangeira, deve se tratar
de bens localizados em território moçambicano (art. 65/1, alínea e), CPC85).

Esta regra da competência territorial, que é imperativa, tem quanto a nós o mérito de facilitar a
produção de prova por parte dos intervenientes processuais mediante apresentação da coisa, se
for o caso, nos termos do artigo 518 do CPC, bem como de atribuir competência a um tribunal

82
Antunes Varela, J. Miguel Bezerra e Sampaio e Nora, Manual de Processo Civil, 2a Edição, Coimbra
Editora, Limitada, 1985, página 215.
83
No caso particular do Tribunal Supremo, por ser o mais alto órgão da hierarquia dos tribunais judiciais
e, por conseguinte, ter jurisdição em todo o território nacional, sem a sua sede na capital da República de
Moçambique, que é a Cidade de Maputo que tem estatuto de provincial (arts. 39, n. o 1, e 40, ambos da
LOJ, e art. 301, da CRM.
84
Antunes Varela, J. Miguel Bezerra e Sampaio e Nora, Manual de Processo Civil, 2a Edição, Coimbra
Editora, Limitada, 1985, página 216.
85
Com as alterações introduzidas pelo DL n. o 1/2005, de 27 de Dezembro.

81
que, pela sua proximidade com o bem objecto da acção, está melhor posicionado para examiná-
lo ou inspeccioná-lo, se tal for necessário (art. 612/1 CPC).

b) Foro do lugar do cumprimento da obrigação – é no tribunal do lugar onde, por lei ou


convenção escrita, devem ser cumpridas as obrigações que a acção destinada a exigir o
seu efectivo cumprimento, ou a indemnização pelo seu não cumprimento 86, deve ser
proposta ou instaurada (art. 74/1 CPC).

c) Foro do autor – este critério de atribuição de competência territorial tem aplicação nas
acções de divórcio e de separação de pessoas e bens (art. 75 CPC), constituindo uma
excepção à regra geral do foro do réu consagrada no artigo 85/1 do CPC.

Tal excepção se compreende e tem a sua razão de ser pelo facto de que o requerente do divórcio
ou separação é lógico ser a vítima da violação do dever conjugal consubstanciada nos factos que
vai invocar na acção como fundamento 87 e a título de causa de pedir, não sendo justo penalizar o
cônjuge lesado obrigando-o a instaurar a acção no tribunal do domicílio do réu.

d) Foro do réu – esta regra atributiva de competência territorial vem consagrada nos
artigos 85 e 86, ambos do CPC88, e porque constitui regra geral é de aplicação supletiva,
ou seja, só tem aplicação nos casos não previstos em sede de disposições do Código de
Processo Civil ou disposições especiais sobre a competência territorial, como se alcança
do prescrito no número 1, do artigo 85 do CPC.

No entanto, em alguns casos esta regra inverte-se passando-se a se aplicar a regra excepcional do
foro do autor, o que ocorre quando o réu não tenha domicílio habitual ou for ausente ou incerto
(art. 85, n.o 1, 1a parte, e n.o 3, 2a parte, CPC89).

Refira-se que em atenção à regra do foro do réu, quando haja mais de um na causa, devem ser
todos demandados no domicílio do maior número, e se for igual o número dos diferentes
domicílios dos réus, o autor tem a faculdade de escolher o de qualquer deles (art. 87/1 CPC). No
caso cumulação contra vários réus de pedidos que estejam entre si numa relação de dependência
ou subsidiariedade, deve a acção ser proposta no tribunal competente para apreciação do pedido
principal (art. 87/2 CPC90).

e) Foro hereditário – a acção de inventário e para a habilitação de uma pessoa como


sucessora por morte de outra deve ser instaurada no tribunal do lugar da abertura da
sucessão (art. 77/1 CPC) que, nos termos do artigo 2031 do CC, é o do lugar do último
domicílio do autor da herança ou de cuius.

86
Sobre o lugar da prestação vejam-se os artigos 772 a 776, todos do CC, e sobre a falta de cumprimento
das obrigações, vejam-se os artigos 798 a 803, do mesmo diploma legal.
87
Sobre os fundamentos de divórcio e separação judicial de pessoas e bens, vejam-se os artigos 181 e
195/5, com referência àquele artigo, ambos da Lei n. o 10/2004, de 25 de Agosto (Lei da Família).
88
Com a redacção dada pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro.
89
Com as alterações introduzidas pelo DL n. o 1/2005, de 27 de Dezembro.
90
Idem, rodapé anterior.

82
Tal regra tem, quanto na nossa opinião, a sua razão de ser pelo facto de, em regra, as pessoas
construírem e organizarem o seu património no lugar do seu domicílio, ou pelo menos próximo
deste, razão porque sendo a sucessão aberta fora do país e tendo o falecido deixado bens em
Moçambique, a lei atribui competência para o inventário ou para a habilitação ao tribunal do
lugar da situação dos imóveis, ou da maior parte deles, ou, na falta de imóveis, o do lugar onde
estiver a maior parte dos móveis (art. 77/2, alínea b), CPC)91.

f) Foro da execução – relativamente a execução o Código de Processo Civil consagra


regras especiais atributivas de competência territorial. Assim, para a execução que tenha
por base decisão (título) proferida por tribunais moçambicanos, é competente o tribunal
de 1a instância92 em que a causa foi julgada e, tendo a decisão sido proferida por árbitros
em território nacional, é competente para a execução o Tribunal Judicial de Província do
lugar da arbitragem (art. 90/1 e 2, CPC93);

Ainda no âmbito das disposições especiais sobre execuções, a título de regra geral de
competência em matéria de execuções, tendo a execução por base título diverso de sentença, é
competente o tribunal do lugar onde a obrigação deva ser cumprida - execução para pagamento
de quantia certa ou para prestação de facto - (art. 94/1 CPC); tratando-se de execução para
entrega de coisa certa, é competente o tribunal do lugar da localização da coisa a entregar, e
quando se trate de execução por dívida com garantia real, é competente o tribunal do lugar da
situação dos bens onerados – execução por dívida com garantia real – (art. 94/2 CPC).

 Valores subjacentes aos critérios da competência territorial.

Do acima exposto, constata-se que os valores subjacentes à atribuição da competência em razão


do território, estando em causa a maior ou menor proximidade das partes com o tribunal, a
escolha dos elementos de conexão decisivos para a fixação da competência são determinados ou
norteados por critérios de justiça e de razoabilidade, de comodidade das partes com o objectivo
de adoptar soluções que impliquem menores gastos de dinheiro e de tempo à parte lesada (art.75
CPC, e arts. (art. 90/1 e 2, CPC), e ainda pela boa administração da justiça mediante a escolha
do tribunal que se encontre melhor posicionado face aos elementos da lide ou causa e, por
conseguinte, ofereça maior garantia de uma boa decisão com menor dispêndio de actividade e
de tempo (artigos 73/1, 77/1, 518 e 612/1, todos do CPC).

[Link].Extensão e modificação da competência

 Extensão da competência

91
Com a redacção dada pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro.
92
A referência pela lei a tribunal de 1 a instância é susceptível de induzir em erro, por poder se pensar na
competência em razão da hierarquia, porém, não cremos haver motivos para tal, uma vez que referindo-se
a lei a tribunal de 1a instância em que a causa foi julgada, é o pressuposto é que tal tribunal de 1 a instância
existe e a priori pode ser identificado em concreto, tem que ser um tribunal em concreto e não outro,
tendo obviamente competência na circunscrição ou território abrangido pela sua jurisdição.
93
Redacção dada pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro e DL n.o 1/2009, de 24 de Abril.

83
As regras da competência acima referidas sofrem, nalguns casos, desvios decorrentes da
consagração pela lei de outros princípios, permitindo que determinado tribunal que, em
princípio, não seria competente para conhecer de certa questão, o seja, é a extensão da
competência com certas limitações relativamente às decisões tomadas pelos tribunais em tais
circunstâncias, como adiante veremos.

Desde logo importa fazer alusão ao desvio referente ao reconhecimento pela lei ao tribunal da
causa para conhecer dos incidentes (questões incidentais) e das questões que o réu suscite como
meio de defesa (art. 96/1 CPC).

Deste desvio às regras de competência resulta que o tribunal onde a acção foi proposta, no caso
de ser levantado algum incidente da instância (v.g., de habilitação de herdeiros ou da falsidade
de documentos), ainda que não seja competente para julgar a validade e eficácia das relações
materiais que lhes estão subjacentes, terá ainda assim competência para julgar tal incidente, o
mesmo sucede relativamente à matéria de defesa suscitada pelo réu, que constituindo matéria
susceptível de ser levantada em acção autónoma, esta a ter sido instaurada o tribunal competente
seria outro, neste caso também por se tratar de matéria de defesa o tribunal onde a acção foi
proposta é competente para apreciar tal matéria.

Contudo, a decisão que for proferida sobre os incidentes e questões suscitadas como defesa,
mesmo quando transitada em julgado, vale apenas dentro do processo em que foi proferida, ou
seja, constitui caso julgado formal, a não ser que alguma das partes requeira o julgamento para
que a decisão que for proferida sobre a questão objecto do incidente ou defesa possa valer
também fora do processo e o tribunal seja competente internacionalmente e em razão da matéria
e da hierarquia (art. 96/2 CPC).

Desta forma, a lei obsta a que a preparação e julgamento da questão incidental e da matéria
suscitada na defesa tenham de ser no juízo que, em regra, é competente, poupando tempo às
partes e proporcionando-lhes uma justiça célere quanto possível.

Outra situação de desvio e consequente extensão da competência, prende-se com as questões


prejudiciais, que ocorrem quando a decisão a proferir na acção estiver dependente da resolução
prévia de uma questão do foro ou da competência do tribunal criminal ou administrativo. Em tal
hipótese a lei confere ao juiz ou tribunal da causa (civil) o poder de sobrestar na decisão até que
o tribunal competente se pronuncie (art. 97/1 CPC).

Ora, se em tal situação o juiz pode sobrestar (parar) na decisão, sendo uma faculdade não é um
dever, o que significa que consoante o juízo que fizer da conveniência ou não de sobrestar na
decisão, poderá conhecer ou não da questão prejudicial (criminal e/ou administrativa). Se não
sobrestar na decisão é evidente vai exercer competência para apreciar uma questão para que, em
princípio, não é competente, é também uma extensão da competência.
Está subjacente à faculdade de sobrestar o interesse da maior garantia de acerto ou perfeição na
decisão, visto que é pressuposto ser mais acertada uma decisão sobre questão criminal ou
administrativa quando tenha sido tomada por um tribunal (secção) criminal ou tribunal
administrativo, respectivamente.

84
No entanto, de forma a salvaguardar o interesse da celeridade processual, a lei não obriga o juiz
cível a sobrestar, antes deixa ao seu critério a decisão de sobrestar ou não, e mesmo quando
tenha decidido sobrestar e aguardar pela decisão da questão prejudicial (criminal ou
administrativa) e consequente suspensão da instância, a suspensão assim ocorrida fica sem efeito
caso a acção penal ou a acção administrativa não for exercida dentro de um mês ou, tendo sido
exercida, estiver parada, por negligência das partes, durante o mesmo prazo.

À semelhança do que sucede com a decisão sobre questões incidentais ou questões suscitadas
como defesa, a decisão do juiz da acção sobre questões prejudiciais não produz efeitos fora do
processo em que for proferida, portanto, a decisão tem força de caso julgado formal e não
material, porque estranha à matéria da competência do tribunal (art. 97/2 CPC).

Enfim, outra situação ainda relacionada com a extensão da competência, está ligada às questões
levantadas por via de dedução do pedido reconvencional ou da reconvenção.

Se perante uma reconvenção o tribunal onde a acção foi proposta carecer de competência, desde
que esta não seja em razão da nacionalidade, da matéria e da hierarquia, o tribunal da acção
será competente para apreciar e decidir sobre o pedido reconvencional, embora careça de
competência em razão do valor e do território (art. 98 CPC94). Relevam também neste caso de
extensão de competência razões de economia de tempo para as partes litigantes, particularmente
o réu que não se vê obrigado a mover outra acção junto ao tribunal realmente competente, bem
assim razões de celeridade processual.

Embora não esteja previsto no capítulo do Código de Processo Civil relativo a extensão e
modificações de competência, importa referir um outro caso que configura efectivamente
extensão de competência, referimo-nos à hipótese de pluralidade de réus.

Como vimos acima em sede de competência interna em razão do território e a propósito da


regra do foro do réu, este em regra deve ser demandado no tribunal do seu domicílio, salvo
disposição especial ou do Código de Processo Civil em contrário. Trata-se de uma regra
supletiva (art. 85 CPC).

Contudo, aplicando-se efectivamente a regra do foro do réu, no caso de pluralidade de réus a


regra em alusão não será evidentemente respeitada em ralação a todos, e como solução a lei
prescreve no sentido dos réus serem todos demandados no domicílio do maior número, e se for
igual o número dos diferentes domicílios dos réus, devem estes serem demandados no tribunal
correspondente aos domicílios de alguns dos réus que o autor escolher (art. 87/1 CPC).

Como se pode constatar, o réu ou réus colocados em minoria poderão ser demandados num
tribunal que não corresponde ao seu domicílio, sem poderem alegar a incompetência territorial
do tribunal, dado estarmos perante um caso de extensão da competência. O mesmo se diga em
relação ao réu ou réus que estão em igualdade de condições do ponto de vista numérico com os
restantes co-réus, mas que o autor não optou na sua escolha pelo tribunal correspondente aos
seus domicílios.

94
Redacção dada pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro.

85
 Modificação da competência

A modificação da competência resulta da faculdade conferida pela lei às partes para, respeitando
certos limites, modificar a competência fixada pela própria lei e, consequentemente, estabelecer
um foro convencional da sua conveniência, que é de uma das partes ou tribunais internacionais,
por via do afastamento, por convenção expressa, da aplicação das regras de competência em
razão do valor e do território (arts. 99/1 e 100/1, 2a parte, CPC95), faculdade usada com relativa
frequência.

A validade do foro convencional depende, nos termos das alíneas a) a c), do n.o 3, do artigo 99
CPC96 e dos números 2 e 4, do artigo 100, do mesmo diploma legal, da verificação de
determinados requisitos formais, designadamente:

a) Corresponder a designação a um interesse sério das partes ou de uma delas, contanto não
envolva inconveniente grave para a outra;
b) Não respeitar a questões sobre direitos indisponíveis, nem a questões abrangidas pelas
alíneas d), e), f) e g) do n.o 1 do artigo 65 CPC que são referentes a competência
internacional;
c) Ser reduzido a escrito ou observar os requisitos de forma do contrato fonte da obrigação
(quando for mais solene) e designar as questões que respeita e o tribunal que fica sendo
competente (v.g., Tribunal Judicial da Província de Maputo); e
d) Referir as questões a que se refere ou que abrange (v.g., todas as questões ou conflitos
que surgirem da interpretação ou aplicação do presente contrato).

Quanto as limitações à faculdade de estabelecimento de foro convencional por via de


modificação da competência, a lei proíbe o afastamento das regras de competência em razão da
matéria e da hierarquia por vontade das partes (art. 100/1, 1a parte, CPC).

O foro convencional vincula as partes com a mesma força obrigatória resultante do foro legal
(art. 100/3 CPC).

Como vimos acima, a competência interna pode ser em razão da matéria, em razão da
hierarquia, em razão do valor e em razão do território, mas excepcionalmente também atende-se
à qualidade do réu (art. 62 do CPC).

Desde logo, cumpre referir que de forma a garantir a imparcialidade97 na apreciação e decisão
dos casos, atendendo à qualidade do juiz, seu cônjuge ou certos parentes (descendente ou
ascendente ou quem com ele conviva em economia comum), relativamente às acções que
devessem ser propostas contra aqueles no tribunal judicial da área territorial em que o juiz
exerce jurisdição, a lei atribui competência ao tribunal da área territorial mais próxima,
considerando como tal aquela que menor dista da área territorial em que o juiz exerce jurisdição
(art. 89/1 CPC98).

95
Redacção introduzida pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro.
96
Idem, rodapé anterior.
97
Sobre as garantias da imparcialidade vide artigos 122 e seguintes do CPC.
98
Redacção introduzida pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro.

86
Neste caso, a lei no lugar de atender às regras da competência em razão do território, pretere ou
afasta-as para, excepcionalmente, atender à qualidade do réu ou réus, e para não penalizar que o
autor quer o réu pela eventual maior distância do outro tribunal da área territorial mais próxima,
considera como tal o que menor dista da área territorial em que o juiz exerce jurisdição.

O acima referido tem aplicação também relativamente aos magistrados do Ministério Público por
força do disposto no artigo 125/1 e 3, CPC.

O prescrito no artigo 89/1 CPC não tem aplicação nas áreas territoriais em que exista mais do
que um juiz ou magistrado do Ministério Público, o que se compreende porque nesse caso a
imparcialidade está salvaguardada pelo facto de que não será o próprio juiz ou magistrado do
Ministério Público a intervir nos processos instaurados contra si, seu cônjuge ou certos parentes,
e tal a suceder deverão por imperativo legal aqueles declararem-se impedidos.

Outras situações em que a lei atende à qualidade do réu para fixar o tribunal competente, em
processo cível ou criminal, são designadamente os casos:

a) Do Presidente da República, Presidente da Assembleia da República, Primeiro-Ministro;


Presidente, Vice-Presidente e Juízes Conselheiros do Tribunal Supremo, Presidente e
Juízes Conselheiros do Conselho Constitucional, Presidente e Juízes Conselheiros do
Tribunal Administrativo, Procurador-Geral da República, Vice-Procurador-Geral da
República, Procuradores Gerais Adjuntos e Provedor de Justiça; e juízes eleitos do
Tribunal Supremo;
b) Deputados da Assembleia da República, membros do Conselho de Ministros e outras
entidades nomeadas pelo Presidente da República nos termos da Constituição e demais
entidades que gozam de foro especial; juízes profissionais dos tribunais superiores de
recurso e magistrados do Ministério Público junto dos mesmos; juízes eleitos dos
mesmos;
c) Juízes profissionais dos tribunais judiciais de província e magistrados do Ministério
Público junto dos mesmos; juízes eleitos dos tribunais judiciais de província;
d) Juízes profissionais dos tribunais judiciais de distrito e magistrados do Ministério
Público junto dos mesmos,

Como se constata da análise do postulado nos artigos 46, alíneas a) a c); 51, alíneas a) a d); 63,
alíneas a) a c); e 73, n.o 1, alínea b) e n.o 2, alínea b), todos da LOJ, o legislador atendendo à
qualidade do réu e em função do seu maior ou menor peso atribuiu competência a um tribunal de
maior ou menor escalão na hierarquia judiciária vigente em Moçambique, sendo que no caso
particular dos juízes e magistrados do Ministério Público a diversos níveis, a lógica está em que
as acções contra si instauradas são da competência da instância judicial que lhes é imediatamente
superior relativamente àquela na qual ou junto da qual exercem funções.

87
[Link]ção das regras de competência e seus efeitos

Consoante as regras de competência infringidas sejam de interesse e ordem pública (interesse da


boa administração da justiça) ou constituam meras normas de interesse e ordem particular (caso
da acção correr no tribunal que acarreta menores dispêndios de tempo e dinheiro para uma das
partes), haverá lugar a incompetência absoluta ou incompetência relativa.

[Link]ência absoluta. Legitimidade e tempo para sua arguição

A incompetência absoluta ocorre quando haja infracção das regras de competência em razão da
matéria e da hierarquia e das regras de competência internacional, a não ser que neste último
caso haja mera violação dum pacto privativo de jurisdição (art. 101 CPC).

A incompetência absoluta pode ser arguida por qualquer das partes e deve ser suscitada
oficiosamente pelo tribunal em qualquer estado do processo, enquanto não houver sentença com
trânsito em julgado proferida sobre o fundo da causa (art. 102/1 CPC, com a redacção dada pelo
Decreto-Lei no. 1/2005, de 27 de Dezembro).

Exceptua-se o caso de a acção ser da competência do tribunal especial e ter sido proposta
perante o tribunal judicial comum, pois neste caso só pode ser arguida e suscitada oficiosamente
até ser proferido o despacho saneador, ou até ao início da audiência de discussão e julgamento,
não havendo lugar a despacho saneador (art. 102/2 CPC, com a redacção dada pelo Decreto-Lei
no. 1/2005, de 27 de Dezembro).

[Link] da incompetência absoluta

A incompetência absoluta, excepção dilatória de conhecimento oficioso (arts. 494/1, al. f) e 495,
ambos do CPC), tem como efeitos o indeferimento liminar da petição inicial, contanto seja
verificada logo de início face ao teor da petição (art. 474/1, alínea b) CPC99) e a absolvição do
réu da instância se for verificada depois do despacho liminar, portanto, já em sede de despacho
saneador ou de sentença final (arts. 103, 104, 105/1, 288/1, alínea a) e 660/1, todos do CPC100).

[Link]ência relativa

A incompetência relativa verifica-se quando ocorre violação das regras de competência em razão
do valor, do território ou do pacto privativo da competência (art. 108 do CPC101).

99
Redacção dada pelo Decreto-Lei no. 1/2009, de 24 de Abril.
100
Redacção dada pelo Decreto-Lei no. 1/2005, de 27 de Dezembro.
101
Redacção dada pelo Decreto-Lei no. 1/2005, de 27 de Dezembro.

88
[Link] e prazo para sua arguição

Contrariamente à incompetência absoluta, a incompetência relativa por ofender interesses de


carácter privado, tem um regime acentuadamente menos gravoso. É assim que apenas o réu
pode argui-la, não podendo ser arguida pelo autor, e não pode e nem deve ser conhecida ex
officio pelo tribunal (arts. 109/1, 494/1, al. f) e 495, todos do CPC).

No que respeita ao prazo de arguição, a incompetência relativa só pode ser arguida dentro do
prazo fixado para a contestação, oposição ou resposta ou, não havendo lugar a estas, por
qualquer outro meio de defesa que seja lícito ao réu deduzir (art. 109/1 do CPC102).

1.7.6. Efeitos da incompetência relativa

A procedência da excepção de incompetência relativa do tribunal tem como efeito a remessa do


processo ao tribunal competente, a não ser que a incompetência resulte de violação de pacto
privativo de jurisdição, pois neste caso o efeito será a absolvição do réu da instância, como se
alcança do prescrito no art. 111/3 do CPC103).

Conclusão

O conhecimento dos pressupostos processuais, no que ao seu regime jurídico relativo a


legitimidade, conhecimento (oficioso ou não pelo tribunal) e prazo para sua arguição, bem como
no que aos seus efeitos respeita, é de capital importância, porquanto permite ao tribunal por
termo a uma acção mediante despacho liminar por a mesma estar inquinada de vícios que o
impediriam, a final, de apreciar o mérito da causa, libertando-se de acções que nem devem
prosseguir uma vez instauradas devido a falta de determinados pressupostos processuais, se estes
forem insanáveis ou, sendo sanáveis, não o sejam efectivamente pela parte a que respeitam.

O domínio dos pressupostos processuais permite, outrossim e em princípio, sanar os vícios de


que determinados processos enfermam, quando os mesmos sejam sanáveis nos termos da lei
processual civil e, consequentemente, permitir o seu prosseguimento e a decisão pelo tribunal
sobre a sua procedência ou improcedência, ou seja, o conhecimento do fundo da causa.

O conhecimento e domínio dos pressupostos processuais e respectivo regime jurídico interessa,


não só ao tribunal, como também às partes, e particularmente ao Ministério Público que intervém
em acções em várias circunstâncias, para que possam desencadear processos com viabilidade de
102
Redacção dada pelo Decreto-Lei no. 1/2005, de 27 de Dezembro.
103
Redacção dada pelo Decreto-Lei no. 1/2005, de 27 de Dezembro.

89
sucesso, bem como se aperceber de vícios com eles relacionados e argui-los em sua defesa, tanto
mais que existem excepções dilatórias referentes a pressupostos processuais que não são de
conhecimento oficioso, como é o caso da incompetência relativa e da preterição do tribunal
arbitral, se bem que mesmo as de conhecimento oficioso podem ser arguidas por qualquer das
partes, razão porque estas igualmente devem ter o domínio dos mesmos.

Em resumo, em matéria de pressupostos processuais, a falta de personalidade e capacidade


judiciária, não suprida, bem assim a ilegitimidade de uma ou de ambas as partes, sendo
excepções dilatórias de conhecimento oficioso e que podem ser arguidas pelas partes, têm como
efeito o indeferimento liminar da petição inicial ou a abstenção pelo juiz de conhecer do pedido e
absolvição do réu da instância, consoante seja arguida ou conhecida na petição inicial ou no
despacho saneador/sentença final.

Quanto ao patrocínio judiciário, que se traduz na constituição de advogado, a sua falta quando
seja obrigatória e não sendo suprida no prazo que for fixado pelo juiz, resultam daí os efeitos
próprios da falta de um pressuposto processual, designadamente a absolvição do réu da instância,
se a falta respeitar ao autor, a não consideração da defesa, caso a falta seja do réu, correndo o
processo à sua revelia, e a ineficácia do recurso, se a falta for do recorrente.

A competência, enquanto o poder do tribunal julgar determinada acção ou causa e decidir sobre
o mérito da questão desta, reveste duas modalidades, a competência interna e competência
internacional, consagrado a lei regas de determinação de uma outra mediante aplicação de
determinados critérios. A competência interna pode ser em razão da matéria, em razão do valor,
em razão da hierarquia e em razão do território.

Como que desvio ou excepção às regras de determinação da competência, no interesse da maior


garantia de acerto na decisão, razões de economia de tempo para as partes litigantes e da
celeridade processual, a lei prevê casos de extensão e modificação da competência, dando lugar
a que determinado tribunal que de acordo com as regras gerais não seria competente para
conhecer de certa causa, passe a ter competência para o efeito, designadamente quando, quanto a
extensão da competência atribui esta ao tribunal competente para a acção para decidir questões
incidentais, questões suscitadas pelo réu como meio de defesa, questões prejudiciais, questões
levantadas através da reconvenção, e quando relativamente a modificação da competência
confere às partes a faculdade de estabelecer por acordo escrito um foro convencional da sua
conveniência com respeito a certos limites.

Violadas a regras da competência verifica-se a incompetência do tribunal, que pode ser de


natureza absoluta ou relativa.

Sendo absoluta, é uma excepção dilatória de conhecimento oficioso cujos efeitos são o
indeferimento liminar da petição inicial, e a absolvição do réu da instância, neste caso se for
verificada depois do despacho liminar.

Tratando-se de incompetência relativa, é uma excepção não de conhecimento oficioso, carecendo


de ser arguida pelo réu no prazo legal, sendo que a sua procedência tem como efeito a remessa

90
do processo ao tribunal competente, salvo se a incompetência resultar de violação de pacto
privativo de jurisdição, caso em que terá como efeito a absolvição do réu da instância.

-Bibliografia

1. VARELA, Antunes, BEZERRA, J. Miguel e Sampaio e Nora, Manual de Processo Civil, 2a


Edição, Coimbra Editora, Limitada, 1985;
2. VARELA, Antunes, BEZERRA, J. Miguel e Sampaio e Nora, Manual de Processo Civil, 2a
Edição, Coimbra Editora, 2004.

-Legislação

1. BRITO, Susana, GOUVEIA, MASSANGAI, Jorge Bacelar e Arão Feijão, Código Civil e
Legislação complementar, Maputo, 1996;
2. Decreto n.o 40/93, de 31 de Dezembro (Cria o Tribunal de Polícia da Cidade de Maputo e o
Tribunal de Menores da Cidade de Maputo);
3. Lei no. 10/2004, de 25 de Agosto, aprova a lei da família e revoga o Livro IV do Código Civil,
Imprensa Nacional de Moçambique, Maputo, 2004;
4. Lei n.o 24/2007, de 20 de Agosto (Lei da Organização Judiciária);
5. NETO, Abílio, Código de Processo Civil Anotado, Livraria Almedina, Coimbra, 1994.

Matola, Fevereiro de 2012.

Ribeiro José Cuna


/Procurador da República/

91
Tema 5 - Dos Procedimentos Cautelares

Alda H. Manjate

Índice

Páginas

Tema 5 - Dos Procedimentos Cautelares.......................................................................................92


Alda H. Manjate.............................................................................................................................92
-Dos Procedimentos Cautelares.....................................................................................................94

92
Noção:............................................................................................................................................94
Requisitos Gerais.......................................................................................................................94
Processamento...........................................................................................................................94
Carácter instrumental e provisório.................................................................................................95
Caducidade da providência............................................................................................................95
Garantia penal da providência.......................................................................................................95
Contraditório diferido....................................................................................................................96
Procedimentos Cautelares Especificados......................................................................................96
Alimentos Provisórios- art. 388 e seguintes do C.P.C...............................................................96
Restituição Provisória da Posse.................................................................................................97
Arresto Preventivo.....................................................................................................................98
Embargo de obra nova...............................................................................................................99
2. Procedimento Cautelar Não Especificado...............................................................................101

-Dos Procedimentos Cautelares

Noção:

O processo cautelar é o que se destina a evitar um prejuízo grave ﴾periculum in mora), que
ameaça um direito subjectivo; prejuízo tão iminente que não pode esperar pela solução final de
uma acção declarativa ou executiva ﴾acção principal) instaurada ou a instaurar em curto prazo e

93
que exige a adopção de medidas urgentes, depois de um breve exame e instrução da causa
﴾summaria cognitio), durante o qual o juiz tem de convencer-se apenas da probabilidade ou
verosimilhança da existência do direito﴾ fumus boni juris) e do perigo invocados.104

Requisitos Gerais

- Probabilidade séria da existência de um direito, fumus boni juris.


- Fundado receio de lesão grave ou de difícil reparação, periculum in mora.

Processamento

Com a petição, deve o requerente oferecer prova sumária do direito ameaçado e justificar o
receio da lesão, isto é, oferecer o rol de testemunhas, os documentos e requerer os meios de
prova permitidos por lei, 302 C.P.C.105

O prazo para a oposição é de 8 dias, art. 303 C.P.C.

O número de testemunhas não poderá ser superior a oito, sendo que cada facto não pode ser
respondido por mais de três, art. 304 C.P.C.

A dedução deve ser feita por artigos, art. 151 C.P.C.

Em obediência aos ditames do art. 467 C.P.C.

Não é objecto de distribuição, vai para secção que estiver de turno, se houver mais de uma. art.
212 C.P.C.

Tribunal competente, art. 83 do C.P.C.

Valor dos procedimentos cautelares, art. 313 C.P.C.

Os procedimentos cautelares são sempre urgentes e devem ser decididos no prazo máximo de 30
dias, precedendo, a sua apreciação, qualquer outro serviço judicial não urgente, art. 381/A.

Carácter instrumental e provisório

O procedimento cautelar é sempre dependência da acção que tenha por fundamento o direito
acautelado e pode ser instaurado como preliminar ou como incidente da acção declarativa ou
104
Adelino de Palma Carlos, citado por Jorge Augusto Pais de Amaral, Direito Processual Civil, Almedina, 5ª
edição, 2004, pag 27 e 28.
105
É subsidiariamnente aplicável aos procedimentos cautelares o disposto nos arts. 302 a 304 do C.P.C., referentes
aos incidentes da instância.

94
executiva, art. 384/1 C.P.C. Por outras palavras, pode ser requerido antes ou no decurso da acção
de que depende. Corre sempre por apenso, art. 384, n◦2 e 3 C.P.C, daí o seu carácter
instrumental.

A providência cautelar tem uma vida necessariamente limitada, só dura enquanto não é proferida
a decisão final.

A função das providências cautelares é precisamente afastar o periculum in mora, defender o


presumido titualr do direito contra os danos e prejuízos que lhe pode causar a formação
demorada da decisão final.

Caducidade da providência

Nos termos do art. 389, n. 1 do C.P.C, o procedimento cautelar extingue-se e, quando decretada,
a providência caduca‫׃‬

- Se a acção principal não for proposta dentro de 30 dias, contados da data em que tiver sido
norificada ao requerente a decisão que tenha ordenado a providência cautelar, ou se tendo-a
proposto, o processo estiver parado durante mais de 30 dias, por sua negligência;
- Se a acção principal vier a ser definitivamente julgada improcedente;
- Se o réu for absolvido da instância e o requerente não propuser nova acção em tempo de
aproveitar os efeitos da proposição anterior, art. 289, n◦ 2 C.P.C;
-Se o direito que o requerente pretende acautelar se tiver extinguido.

A improcedência ou caducidade da providência cautelar obsta somente a que seja requerida


providência idêntica. Não impede o requerente de intentar nova providência com o fim de
acautelar riscos de lesão diferentes daqueles que invocou na providência frustrada.

Garantia penal da providência

Incorre na pena do crime de desobediência qualificada todo aquele que infrinja a providência
cautelar decretada, sem prejuízo das medidas adequadas à sua execução coerciva, art. 387/A.
Considera-se que o juiz, ao decretar a providência, deu uma ordem ao requerido no sentido de
que este deve adoptar um determinado comportamento, que se traduzirá em acção ou omissão.

Na origem da sanção penal está a ideia de que, sem ela, por vezes a providência não se mostraria
viável, para em tempo útil impedir a ocorrência da lesão que se pretendeu prevenir. Trata-se do
crime de desobediência previsto e punido nos termos do art. 188 do [Link].

Contraditório diferido

95
Quando a providência seja decretada sem que o requerido tenha sido ouvido, o juiz, na decisão
que proferir, deve marcar audiência de comparência das partes, dentro de um prazo não superior
a 10 dias. Nesta audiência, ouvidas as partes, o juiz pode confirmar, modificar ou revogar a
providência inicialmente decretada. No entanto, a marcação desta audiência não impossibilita
que o requerido use dos demais meios de oposição à providência, designadamente embargar ou
agravar do despacho recorrido106.

A. Se a decisão da providência o foi sem a audiência do requerido, este, não concordando


poderá reagir, através de:

Recurso- nos termos gerais, do despacho que decretou a providência, quando entenda que, face
aos elementos apurados aquela não devia ter sido deferida; recurso de agravo, art. 733 e
seguintes C.P.C.

Embargos- quando pretenda alegar factos ou socorrer-se de meios de prova não, devidamente,
considerados pelo tribunal e que afastem os fundamentos da providência ou determinem a sua
redução.

B. Se a decisão da providência o foi com audiência do requerido, este com aquela não
concordando, poderá reagir, através de:

Recurso- nos termos gerais, do despacho que decretou a providência, quando entenda que, face
aos elementos apurados, aquela não devia ter sido deferida. Recurso de agravo,art. 733e
seguintes C.P.C.

● Agravar em 8 dias, art. 685/1; embargar em 10 dias, art. 816 C.P.C. Correm por apenso aos
autos da providência107.

Procedimentos Cautelares Especificados

Alimentos Provisórios- art. 388 e seguintes do C.P.C

Por alimentos entende-se tudo o que é indispensável ao sustento, habitação e vestuário. No caso
de o alimentado ser menor, os alimentos compreendem também a instrução e educação, art. 411
da Lei da família.

Tratando-se de alimentos provisórios, o conceito é mais restrito, visto abranger apenas o


estritamente necessário para a satisfação daquelas necessidades, conforme estabelece o art. 388
do C.P.C.

106
Tomás Luís Timbane, A Revisão do Código de Processo Civil, Faculdade de Direito da Universidade Eduardo
Mondlane, Maputo, 2007, página 90.
107
Tomás Luís Timbane, ob. cit, página 90.

96
Recebida a petição de alimentos provisórios, o juiz designa loga dia para julgamento, art. 389, se
não houver fundamento para o indeferimento liminar ou aperfeiçoamento.

É na própria audiência que o requerido apresentará a sua contestação ou nela se fará representar
por procurador com poderes para transigir.
Não alcançado acordo o juiz decidirá depois da produção de prova. A sentença é proferida
oralmente, ficando exarada na acta.

A decisão é exequível nos termos do art. 1118 e seguintes C.P.C.

O valor do procedimento é determinado pelo valor da mensalidade pedida multiplicado por 12 –


art. 313, n◦ 3, alínea a) C.P.C.

Acção de investigação de matenidade e paternidade, art. 229, 279 da Lei da Família;


Acção de alimentos devidos a mãe solteira, art. 425/2 da Lei da Família;
Alimentos provisórios devidosa ao arrestado, art. 404/2 C.P.C

Restituição Provisória da Posse

Constitui um meio de defesa colocado ao dispor do possuidor, nos casos em que dela tenha sido
esbulhado de forma violenta, art. 1279 do C.C, art.393 C.P.C

Noção de posse, art. 1251 do C.C.

Requesitos:

- Posse
-Ulterior esbulho
-Violência

Se o esbulho não foi praticado de forma violenta, o possuidor esbulhado ou perturbado pode
requerer a providência cautelar não especificada, art. 399 C.P.C.

A providência pode ser decretada sem a audiência do esbulhador, se a sua audição puser em
risco o fim da providência, art.394 C.P.C.

A violência relevante para o preenchimento do requisito pode ser física ou moral. Esbulho
violento resulta do emprego de força física ou de intimidação contra o possuidor.

É também violento o esbulho obtido pela coação moral, art. 255 C.C, proveniente da
superioridade numérica das pessoas dos esbulhadores, da presença da autoridade, do apoio de
força pública.108

108
Hélder Martins Leitão, Dos Procedimentos Cautelares, Colecção Nova Vademucum, 9ₐ edicção, 2004, página
82.

97
Em rigor não seria uma providência cautelar por lhe faltar o periculum in mora. Para obter a
restituição o requerente não precisa alegar e provar que corre um risco, que a demora da decisão
definitiva na acção possessória o expõe à ameaça de dano; basta que alegue e prove a posse, o
esbulho e a violência. O benefício da providência é concedido, não em atenção a um perigo de
dano eminente, mas como compensação da violência de que o possuidor foi vítima.109

O prazo designado no artigo 1282 do [Link], nos termos do qual a acção de restituição de posse
caduca se não for intentada dentro do ano subsequente ao facto de turbação ou esbulho, ou do
conhecimento dele se foi tomado as ocultas, sendo aplicável à acção definitiva, terá de
considerar-se extensivo à providêcia cautelar, dado o seu carácter instrumental.

Arresto Preventivo

O credor que tenha justo receio de perder a garantia patrimonial do seu crédito, pode requerer o
arresto de bens do devedor, nos termos da lei de processo – art. 619 do C.C.

O arresto consiste na apreensão judicial dos bens do devedor, requerida pelo credor que tenha
justificado receio de perder a garantia patrimonial do seu crédito, art. 406 do C.P.C.

Requisitos

- Probalidade séria da existência do crédito


- Justo receio de perda de garantia patrimonial

O arresto visa, não antecipar a penhora, mas conservar, como garantia do credor, um património
em risco de dissipação, por perda efectiva ou diminuição sensível do património do devedor.
Pode, no entanto, ser convertida em penhora nos termos do art. 846 do C.P.C.

Na reforma do D.L 1/2005 de 25 de Dezembro, foi eliminada a proibição do arresto contra


comerciantes.

Tendo sido intentado como incidente, deve ser instaurado no tribunal onde corre a acção
principal e processado como apenso desta, art. 383, n◦ 3 C.P.C.

No caso de ser requerido como preliminar, é competente tanto o tribunal onde deva ser proposta
a acção principal como o do lugar onde os bens se encontrem e, no caso de estes se localizarem
em várias lugares, é competente qualquer deles, art. 83, n◦ 1, alínea a) C.P.C.

O requerente do arresto deve deduzir os factos que tornam provável a existência do crédito e
justificam o receio invocado, relacionando os bens que devam ser apreendidos, com todas as
indicações necessárias à realização da diligência, não bastando uma simples referência genérica,
art. 403, n◦ 1 C.P.C.

109
Jorge Augusto Pais de Amaral, ob. cit., página 39.

98
Quando se trate de arresto de navios, o requerente deve ainda demostrar que a penhora é
admissível atenta a natureza do crédito, art. 403, n◦ 5. Trata-se de situações em que o crédito
resulta de contratos marítimos, como o de fretamento. As despesas feitas com o fornecimento de
combustível a um navio constituem crédito marítimo.110111

O arresto tanto pode ser dependência de uma acção declarativa de condenação para o
cumprimento de certa obrigação, como de uma acção executiva destinada ao cumprimento
coercivo da obrigação imposta por qualquer título executivo.

Examinadas as provas, o arresto é decretado sem audiência da parte contrária somente nos casos
em que esta ponha em risco o fim da providência, desde que se mostrem preenchidos os
requesitos legais, art. 404, n◦ 1 C.P.C.

No caso de a decisão ser tomada sem audiência do arrestado, este pode impugná-la depois de ter
sido notificado pessoalmente nos termos do art.405. Pode usar de dois meios: O agravo ou o
embargo, ou ainda ambos.

Usará o agravo quando no seu entender, a decisão, não se justifica, tendo em conta os elementos
constantes dos autos; usará o embargo quando quiser alegar e provar factos que invalidem os
fundamentos da decisão ou, pelo menos determinem a sua redução112, art. 406, n.◦ 1 C.P.C.

O arresto fica sem efeito não só nos casos designados no art. 382, n◦ 1 alíneas a), b) e c) mas
também no caso de, obtida sentença com trânsito em julgado, o requerente não promover a
execução nos seis meses subsequentes ou se, promovida a execução, o processo estiver parado
durante mais de trinta dias por negligência do exequente.

O valor do procedimento cautelar é determinado pelo montante do crédito que se pretenda


garantir, art. 313, n.◦ 3, alínea e) C.P.C.

Embargo de obra nova

Por meio desta providência cautelar, pode o interessado requerer a suspensão de uma obra,
trabalho ou serviço novo que seja ofensivo do seu direito de propriedade ﴾ou de compropriedade)
ou de outro direito real de gozo ou da posse, que lhe cause ou ameaçe causar prejuízo, art. 412,
n.◦ 1, C.P.C.

O interessado pode também realizar directamente o embargo por via extrajudicial, notificando
verbalmente, perante duas testemnunhas, o dono da obra ou, na sua falta, o encarregado ou quem
o substituir para não continuar. Se optar pelo embargo extra judicial, terá de requerer a sua
ratificação judicial, dentro de 5 dias sob pena de o embargo ficar sem efeito, art. 412, n◦ 2 e 3.

Requisitos

110
Abílio Neto, Código de Processo Civil Anotado, 21ª edição, Ediforum, Lisboa, 2009, página 628.
111

112
Jorge Augusto Pais de Amaral, [Link], página 47.

99
- Existência provável de um direito do embargante;
- Prejuízo ou ameaça de prejuízo no seu direito de propriedade113 ou na sua posse, por obra,
trabalho ou serviço novo;
- Que o embargo seja requerido dentro de trinta dias contados do conhecimento do facto.

O emprego da expressão seja mandado suspender, art. 412, n◦1 in fine significa que a
providência não tem justificação se a obra já estiver concluída.

A obra deve considerar-se concluída quando, depois de verificado o prejuízo, o mesmo não possa
ser aumentado pela prossecução da obra nem ser eliminado pela sua suspensão.

Igualmente, não pode usar-se o embargo de obra nova no caso desta ainda não ter sido iniciada.
O requerente do embargo de obra nova só pode reagir contra o autor da obra, trabalho ou serviço,
quando algum destes empreendimentos começa a lesar ou ameaça prejudicar o seu direito, pelo
que só apartir do início de tal conduta lesiva, começa a contar-se o prazo de trinta dias para o
embargante poder vir a juízo fazer valer o seu direito. Aquele prazo não começa a contar-se
apartir do momento em que o embargante têve conhecimento da obra, mas antes, do momento
em que teve conhecimento de que a obra era lesiva do seu direito ou do momento em que soube
que aquela o iria prejudicar.114 115

Sendo decretado o embargo ou depois de ratificado o embargo extra judicial, é lavrado auto, no
qual se descreverá, minuciosamente, o estado da obra e a sua medição quando possível. Notifica-
se o dono da obra ou, na sua falta, o encarregado ou quem o substitua, para a não continuar, art.
418, n◦ 1.

Se o embargado continuar a obra, sem autorização, depois da notificação e enquanto o embargo


subsistir, pode o embargante requerer que seja destruída a parte inovada, art. 420, n◦ 1.

Averiguada a existência de inovação, é o embargado condenado a destruí-la, sem prejuízo da


responsabilidade criminal do dono da obra. Se não fizer dentro do prazo fixado, promover-se-á,
nos prórpios autos, a execução para prestação de facto devida.116

A sanção prevista para a continuação da obra sem autorização é, portanto, a sua reposição no
estado em que se encontrava, destruindo-se a parte que constituiu a inovação.

113
Singular ou comum, real ou pessoal de gozo.
114
Abílio Neto, [Link], pg 633. 31.1.
115
Só pode requerer-se uma providência cautelar não especificada quando nenhuma das providências nomindas for
adequada em abstracto, ao caso concreto. Havendo essa adequação, ao requerente não é lícito usar a figura da
providência cautelar não especificada por não ocorrerem todos os requesitos da providência aplicável. Assim, a
circunstância de ter expirado o prazo de 30 dias para requerer o embargo não legitima o recurso ao procedimento
cautelar comum. Abílo Neto, [Link], pg 633.34.1
116?
Nos termos do art. 933 do C.P.C, Hélder Martins Leitão, [Link], pg 153. No mesmo sentido, Jorge Augusto Pais
de Amaral, [Link], pg 49.

100
O valor da providência é determinado pelo prejuízo que se quer evitar, art. 313, n◦ 3, aílnea d)
C.P.C.117

2. Procedimento Cautelar Não Especificado

Para acautelar um risco de lesão não especialmente prevenido na lei, pode ser requerida uma
providência cautelar comum adequada a essa situação, art. 399 do C.P.C.

A lei definindo várias providências cautelares, na impossibilidade de prever todas as situações


que as possam desencadear, admite a possibilidade de ser requerida uma providência cautelar
comum. Esta porém, só poderá ser requerida quando a situação não for susceptível de ser
acautelada por alguma das que se encontram tipificadas na lei.

Requisitos

-Probabilidade séria da existência do direito a tutelar;


- Justo e fundado receio de que outrém cause lesão grave e de difícil reparação a esse direito;
- Não existência de providência específica para a cautelar o mesmo direito;
- Não exceder o prejuízo resultante da providência o dano que com ela se pretende evitar.

Alegando-se a violação de direitos da personalidade, tal como a saúde e a integridade física e


ainda normas que defendam o direito dos cidadãos a um ambiente sadio e ecologicamente
equilibrado, a providência cautelar não especificada é o meio processual adequado para fazer
sustar a instalação de um posto de abastecimento de combustível próximo a uma escola
frquentada por crianças.118

A providência pode, não obstante, ser recusada pelo tribunal, quando o prejuízo dela resultante
para o requerido exceda consideravelmente o dano que com ela o requerente pretende evitar.

O pedido de suspensão de actividade lesiva do ambiente, a qualidade de vida, a saúde e


segurança das crianças, direitos de origem constitucional, prevalecem sobre o dano económico,
art. 335, n◦2 do [Link].

A providência decretada pode ser substituida por caução adequada sempre que esta se mostre
suficiente para prevenir a lesão, art. 401, n◦ 3, art. 387, n◦ 3 C.P.C.

O valor da providência é determinado pelo prejuízo que se pretende evitar, art. 313, n◦3, alínea
d) C.P.C.

Matola, Abril 2011.

/Alda H. Manjate/
117
Perante a dificuldade em mensurar o prejuízo, pode optar-se pela indicação de valor susceptível de recurso.
118
Abílio Neto, [Link]., página 546, B.6.

101
Magistrada do Ministério Público

102
Tema 6 - Processo declarativo - Actos dos magistrados do
Ministério Público

Ribeiro José Cuna

Índice

Páginas

Tema 6 - Processo declarativo - Actos dos magistrados do Ministério Público.........................103


Ribeiro José Cuna........................................................................................................................103
Abreviaturas.................................................................................................................................105
Introdução....................................................................................................................................106
[Link] do processo declarativo ordinário.........................................................................107
103
[Link]................................................................................................................................108
[Link]ção inicial.....................................................................................................................109
2.1.1. Possíveis atitudes do juiz face à petição inicial.............................................................115
[Link].Indeferimento liminar da petição. Motivos. Atitudes possíveis do autor................115
[Link].Convite ao autor para completar ou corrigir a petição............................................117
[Link].Arquivamento do processo......................................................................................118
[Link].Ordenar a citação do réu..........................................................................................118
[Link].[Link] da citação - a citação tem efeitos que podem ser de natureza material
(substantiva) ou de natureza processual (adjectiva)...........................................................119
[Link]ção........................................................................................................................121
[Link] da contestação-defesa............................................................................122
[Link].Princípios da contestação-defesa.............................................................................123
2.3.O ónus de impugnação...........................................................................................................124
[Link]ções ao ónus de impugnação especificada............................................................125
[Link].Ónus especial de impugnação, nas acções que tenham por base um título de obrigação
assinado pelo réu......................................................................................................................125
[Link]ção-reconvenção..................................................................................................127
[Link] de admissibilidade da reconvenção...........................................................127
[Link] à contestação/resposta à reconvenção................................................................129
[Link] de contestação. Efeitos da revelia......................................................................131
[Link] supervenientes................................................................................................131
[Link] dos articulados supervenientes..........................................................................132
[Link] de má fé...........................................................................................................................133
[Link] actos do Ministério Público..........................................................................................133
[Link] dos magistrados do Ministério Público no processo declarativo sumário -
particularidades. Tendência geral do processo sumário..............................................................135
[Link]............................................................................................................................135
[Link] de indeferimento liminar.........................................................................................136
[Link] de má fé e outros actos dos magistrados do Ministério Público..................................137
Conclusão....................................................................................................................................137
-Bibliografia.................................................................................................................................139
-Legislação...................................................................................................................................139
-Anexos........................................................................................................................................140

Abreviaturas

CC - Código Civil;
CCJ - Código das Custas Judiciais;
CPC - Código de Processo Civil;
DL - Decreto-Lei;
MP - Ministério Público.

104
Introdução

O presente texto é uma abordagem em torno dos actos dos magistrados do Ministério Público no
âmbito do processo declarativo, seja ordinário, seja sumário, no contexto da jurisdição cível.

Tendo em conta o contexto da abordagem, que é o processo declarativo enquanto espécie ou tipo
de acção, será inevitável fazer referência a alguns aspectos de tramitação e regime jurídico desta
espécie de processo, dada a sua relação, directa ou indirecta, com os actos dos magistrados do

105
MP, designadamente quando este através do magistrado actua enquanto patrono de uma das
partes do processo, ou em nome próprio nos casos em que tem legitimidade.

Neste sentido, independentemente de se tratar de processo ordinário ou sumário, para além de


alguns aspectos ligados aos actos dos juízes que devam ser do domínio do MP de modo a que
este esteja habilitado para influir no curso da acção praticando os necessários actos processuais
para o efeito, sem esgotar todos aspectos será feita referência ao formalismo do processo
declarativo ordinário e do processo sumário, aos articulados que nestas duas formas de processo
declarativo podem ter lugar, designadamente a petição inicial, a contestação, a resposta à
contestação/reconvenção e os articulados supervenientes, bem como uma referência a
reclamação contra o despacho organizativo da especificação e questionário.

Para além dos actos do MP que este pratica na qualidade de patrono de uma das partes do
processo, será feita abordagem a aspectos ligados a actos oficiosos do Ministério Público no
exercício da função fiscalizadora que lhe é incumbida pela lei, concretamente o visto de má fé,
sem se perder de vista o regime do Código do Processo Civil, introduzido pelo DL n. o 1/2005, de
27 de Dezembro, que suprimiu tal função.

Sendo a presente abordagem feita à luz do regime do código de processo civil em vigor, quando
tal se mostre útil, oportuno e pertinente, será feita relativamente a alguns aspectos uma
comparação com o regime anterior.

Refira-se que este texto constitui segunda versão, residindo fundamentalmente a novidade da
presente versão no facto de incluir exemplos práticos de algumas peças processuais que
traduzem alguns dos actos dos magistrados do MP e advogados particulares, designadamente a
petição inicial, a contestação e a resposta à contestação, bem como exemplos práticos de
despachos liminares, estes que traduzem actos dos magistrados judiciais, e exemplos práticos de
reclamação contra o despacho organizativo da especificação e questionário que pode ser feita
pelo MP em representação de qualquer entidade parte no processo, o mesmo podendo suceder
com o Advogado particular ou oficioso.

[Link] do processo declarativo ordinário

Em atenção ao regime consagrado no CPC, bem assim de acordo com a doutrina, o processo
declarativo ordinário compreende períodos ou fases distintas, designadamente a dos (1a)
articulados; a do (2a) saneamento e condensação do processo, na qual pode haver o julgamento
antecipado da lide; a da (3a) instrução; a da (4a) discussão e a do (5a) julgamento da causa.

Cada uma destas fases do processo declarativo ordinário tem uma função específica.

106
1a Fase dos articulados - trata-se da fase introdutória, pois é nela que se define os termos da
acção e se expõe as razões, quer de facto quer de direito, que fundamentam a pretensão de cada
uma das partes, sendo fundamental que estas exponham de forma clara, objectiva e
fundamentada as razões de facto, pois, é destes que o juiz se pode servir em regra, mas em
contrapartida “…não está sujeito às alegações das partes no tocante à indagação, interpretação e
aplicação das regras de direito…” relativamente aos factos articulados pelas partes (art. 664
CPC).

2a Saneamento e condensação do processo/julgamento antecipado da lide – esta fase visa:


a) O julgamento imediato da acção quando se verifique existirem elementos bastantes para o
efeito, ou quando algum pressuposto processual assim o determine;
b) A correcção de todas irregularidades formais sanáveis119; e
c) A expurgação do processo de todas questões supérfluas, caso a acção haja de prosseguir,
que se traduz na selecção da “…matéria de facto relevante para a decisão da causa …
desde que deva considerar-se controvertida e careça de prova, especificando os factos que
julgue assentes por virtude de confissão, acordo das partes ou prova documental” (art.
511/1 CPC120).

3a Instrução - esta fase tem por finalidade a produção de prova sobre os factos constantes do
questionário, ou inexistindo este sobre factos que relevem para o exame e decisão da causa, e
sejam controvertidos e careçam de prova121.

4a Discussão - é a fase em que os patronos das partes fazem os debates, obviamente para
convencer o tribunal quanto às pretensões dos seus constituintes.

Os debates são sempre orais quando respeitam à matéria de facto e apreciação crítica da prova
produzida (art. 652, nos. 2, 3, al. e) e 5, do CPC), e poderão ser escritos quando respeitem a
matéria de direito, desde que um dos advogados assim o requeira e o juiz defira o requerimento
nesse sentido feito (arts. 653/5 e 657, ambos do CPC122).

5a) Julgamento - é a fase em que se toma a decisão da causa, comportando dois momentos
diversos:

a) O julgamento da matéria de facto pelo tribunal colectivo (por maioria) por meio de
acórdão no qual declara quais os quesitos que julga provados e quais os que julga não provados
(art. 653/2 e 3, CPC123);
b) Julgamento final que se traduz na aplicação do direito aos factos provados pelo juiz
singular, proferindo sentença (art. 658 do CPC124).

119
Quanto as irregularidades sanáveis estão praticamente previstas pelo art. 494/2 CPC.
120
Redacção dada pelo DL n.o 1/2009, de 24 de Abril.
121
Os factos notórios, ou seja, factos do conhecimento geral ou público, não carecem de prova nos termos
do art. 514/1 CPC.
122
Redacção dada pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro.
123
Redacção dada pelo DL n.o 1/2009, de 24 de Abril.
124
Redacção dada pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro.

107
No entanto, nem sempre as acções declarativas terminam depois de terem percorrido todas estas
fases. Há acções que podem terminar antes de findarem os articulados mediante indeferimento
liminar da petição ou despacho posterior reconhecendo qualquer excepção dilatória ou
peremptória125; podem terminar a qualquer momento como consequência de confissão ou
desistência de uma das partes, ou por transacção entre elas (arts. 293 a 301 do CPC); podem
findar na fase de saneamento e condensação do processo através de despacho saneador, quer por
absolvição da instância quer por condenação (parcial ou total) no pedido ou por improcedência
da acção126; enfim, podem as acções não passarem por algumas fases, concretamente as de
saneamento e condensação, e de instrução quando haja revelia do réu nos termos do prescrito
pelo art. 484 CPC (ressalvado o previsto pelo art. 485 CPC), pois, neste caso, da fase dos
articulados a acção passará à fase de discussão, seguindo-se a do julgamento da causa.

Contudo, importa referir que estas fases não constituem compartimentos estanques, pois,
interpenetram-se entre si, de modo que uma acção pode ser decidida logo na fase dos
articulados, bem assim pode e deve ser julgada, quando haja condições para o efeito, na fase de
saneamento e condensação do processo. Parte significativa da instrução pode ter lugar, não na
própria fase da instrução, antes na fase dos articulados por força do art. 523/1 CPC.

Já na fase de saneamento e condensação, em sede de audiência preparatória, pode haver


discussão da causa127.

Enfim, na fase de discussão e julgamento (última fase), há nesta a interpenetração tanto da


discussão e julgamento da matéria de facto, como a instrução do processo.

[Link]

Noção - são as peças escritas através das quais “…as partes expõem os fundamentos da acção e
da defesa e formulam os pedidos correspondentes” (art. 151/1 CPC).

A razão de designação genérica legal de articulado resulta do facto de os fundamentos, quer da


acção quer da defesa, deverem ser deduzidos por artigos semelhantes às dos textos legislativos
que têm a mesma designação (art. 151/2 CPC).

À luz do regime jurídico em vigor, os articulados são, em regra, dois: a petição inicial e a
contestação.

125
Neste aspecto relevam particularmente os pressupostos processuais (excepções dilatórias nos termos
dos arts. 474 e 479/3, ambos do CPC, com a redacção dada pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro e DL n. o
1/2009, de 24 de Abril).
126
Nos termos do art. 510 do CPC, com a redacção dada pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro e Decreto-
Lei n.o 1/2009, de 24 de Abril.
127
Pense-se na hipótese de, além de existirem algumas excepções por discutir, o processo conter já
elementos bastantes para o tribunal conhecer do mérito da causa nos termos do art. art. 510 do CPC.

108
Só no caso do réu na sua contestação deduzir alguma excepção ou formular qualquer pedido
reconvencional poderá o autor apresentar terceiro articulado, a réplica, que face ao novo regime
é a resposta à contestação ou resposta à reconvenção, para responder à excepção ou para se
defender relativamente a matéria reconvencional, doutro modo o período dos articulados termina
com a contestação.

Fora os articulados “normais”, petição inicial e contestação, e nalguns casos resposta à


contestação/reconvenção, excepcionalmente pode haver lugar aos designados articulados
supervenientes.

Através dos articulados supervenientes as partes trazem ao processo factos posteriores ao último
articulado, bem como factos de que só posteriormente delas tiveram conhecimento, podendo o
fazer até ao encerramento da discussão, devendo, porém, o fazer no prazo de dez dias a contar
da data em que elas ocorreram ou em que delas a parte teve conhecimento, sob pena de rejeição
pelo juiz (art. 506/1, 2 e 3, do CPC128).

[Link]ção inicial

Noção - é o articulado através do qual o autor propõe a acção. Nele o autor formula a pretensão
de tutela jurisdicional que visa obter, expondo as razões de facto e de direito que servem de
fundamento.

Por força do princípio da iniciativa processual de parte consagrado nos arts. 3/1, 1 a parte, e
264/1, ambos do CPC, quem pretender a reparação do seu direito violado ou ameaçado de que é
titular, deverá requerer ao tribunal o meio de tutela jurisdicional adequado à reparação da
violação ou afastamento da ameaça, e fá-lo-á através da petição inicial nas acções declarativas.

O art. 467/1 CPC, com a redacção dada pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro, consagra os
elementos ou requisitos que devem constar duma petição inicial, sendo de destacar as razões de
facto, visto que na apreciação da matéria de facto o juiz deve cingir-se apenas aos factos
alegados pelas partes, o que já não sucede relativamente à matéria de direito em que o juiz faz a
indagação, interpretação e aplicação das regras de direito sem qualquer sujeição às razões de
direito invocadas pelas partes (art. 664 CPC).

Digno de realce é, outrossim, a formulação do pedido, na medida em que o juiz “…não pode
condenar em quantidade superior ou em objecto diverso do que se pedir” (art. 661/1 CPC)129.

Refira-se que face ao regime introduzido pelo Decreto-Lei no. 1/2005, de 27 de Dezembro e
Decreto-Lei n.o 1/2009, de 24 de Abril, o rol de testemunhas e a junção de documentos devem ter
lugar na própria petição inicial, e não no momento em que as partes são notificadas para a
instrução, quando após a fase do despacho saneador o processo deva prosseguir, como sucedia
no regime anterior, porquanto no que respeita às testemunhas, à luz do novo regime, com vista à
128
Redacção dada pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro.
129
Deverá, porém, não se perder de vista que há excepções a esta regra da vinculação do juiz ao pedido do
autor, que é o caso das acções possessórias (art. 1033 CPC).

109
instrução, as partes são notificadas para alterarem o respectivo rol, querendo, e não para o
apresentar (arts. 467/2, 512, 523/1 e 631/1, novo regime, CPC)130.

Em atenção ao disposto no artigo 467/1, alíneas a) a e), do CPC 131, são requisitos da petição
inicial:

 Designação do tribunal onde a acção é proposta e identificação das partes, mediante


indicação dos seus nomes, domicílios ou sedes e, sempre que possível, das suas
profissões e locais de trabalho;
 Indicação da forma do processo;
 Exposição dos factos (causa de pedir) e razões de direito que servem de fundamento à
acção;
 Formulação do pedido; e
 Declaração do valor da causa.

Como acima referimos, com “…a petição inicial o autor deve, desde logo, juntar documentos e
apresentar o rol de testemunhas, podendo requerer outras provas”132

Sobre a petição inicial como peça processual através da qual o autor dá o impulso processual
inicial, vejam-se como exemplos práticos os anexos IA, IB e IC.

 Reflexão em torno do valor das acções sobre o estado das pessoas ou sobre interesses
imateriais.

 Nos termos do artigo 312 do CPC, na redacção dada pelo DL n. o 1/2005, de 27 de


Dezembro, relativamente ao valor da causa, as acções sobre o estado das pessoas ou
sobre interesses imateriais consideravam-se, sempre de valor equivalente a
1.501,00MT133. No que toca à forma do processo comum ou declarativo, prescrevia por
sua vez o artigo 462 do CPC, também na que lhe era dada pelo DL n. o 1/2005, de 27 de
Dezembro, que aquela espécie de processo (declarativo) seguiria o processo ordinário ou
sumário consoante o valor da causa excedesse ou não a alçada do tribunal judicial
provincial.

Ora, considerando que em matéria cível os tribunais judiciais de província e os tribunais judiciais
de distrito de 1a e 2a classes têm alçadas, que são de valores equivalentes a cinquenta, vinte e
cinco, e dez vezes o salário mínimo134, respectivamente (art. 38/1, da Lei n. o 24/2007, de 20 de

130
Relativamente aos documentos, estes poderão ser apresentados até ao encerramento da discussão na 1 a
instância, contudo a parte será condenada em multa, a não ser que prove que os não pôde oferecer com o
articulado (art. 523/2 CPC).
131
Redacção dada pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro.
132
Cfr. n.o 2, artigo 467, do CPC, com as alterações introduzidas pelo Decreto-Lei n. o 1/2005, de 27 de
Dezembro.
133
Por efeito de conversão da moeda, pois, na sua redacção consta a quantia de 1.500.001,00MT da antiga
família.
134
Para o efeito, considera-se salário mínimo o que está em vigor para a função pública (art. 118, Lei n. o
24/2007, de 20 de Agosto).

110
Agosto), tendo em conta, por um lado, que o valor da causa é relevante para efeitos de
determinação da forma de processo comum a seguir, se ordinária ou sumária, e por outro, que
alçada é o valor até ao qual determinado tribunal julga sem recurso135, ou seja, julga sem que a
sentença que proferir possa ser objecto de recurso, era pertinente colocar as seguintes questões:

1a Tendo em conta que o valor das acções sobre o estado das pessoas ou sobre interesses
imateriais estava sempre dentro da alçada do tribunal judicial provincial, significaria isso que
tais acções em processo declarativo seguiriam sempre a forma sumária?

2a Considerando que o valor das acções sobre o estado das pessoas ou sobre interesses
imateriais estava abaixo da alçada, quer dos tribunais judiciais de província quer dos tribunais
judiciais de distrito de 1a e 2a classes, uma sentença proferida por qualquer destes tribunais em
tais acções era ou não susceptível de recurso?

Para responder a estas duas questões vamos fazer primeiro uma análise ao antigo regime do
Código de Processo Civil regulador do domínio de aplicação do processo ordinário, sumário e
sumaríssimo136, bem como uma análise ao regime jurídico sobre a matéria consagrado na anterior
lei da organização judiciária, a Lei n.o 10/92, de 6 de Maio, ora revogado pelo artigo 119, da Lei
n.o 24/2007, de 20 de Agosto, e o Decreto n.o 24/98, de 2 de Junho (também revogado porque
revogada a Lei n.o 10/92, de 6 de Maio, de que era dependência), que actualizou à luz da Lei n. o
10/92, de 6 de Maio, os valores determinativos das alçadas e das competências dos tribunais
judiciais em matéria cível, para depois fazer uma ponte a fim de responder às questões acima
colocadas à luz da legislação em vigor sobre as alçadas e competências dos tribunais judiciais
em matéria cível.

À luz do regime jurídico consagrado pelo Código de Processo Civil anterior às alterações
introduzidas pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro, quanto à forma de processo comum a
seguir, se ordinária, sumária ou sumaríssima (art. 461 CPC), tratando-se de interesses
imateriais, tudo dependia da interpretação que se fizesse do número 2 do artigo 1, do Decreto n. o
24/98, de 2 de Junho, que sobre o valor das respectivas acções prescrevia:

“Nas acções sobre o estado de pessoas e sobre interesses direitos imateriais continuará a
aplicar-se o actual valor determinativo da alçada do tribunal judicial de província, mais um
metical”.

Não vamos nos debruçar sobre as controvérsias que a interpretação do artigo acima citado
suscitava (não era pacífica a sua interpretação), limitar-nos-emos a expor a interpretação que nos
parecia e parece certa, sem contudo deixar de respeitar posições divergentes.

Atentando-se para o artigo 1/2 do Decreto n.o 24/98, de 2 de Junho, que estabelecia no sentido
de, em matéria cível e no que tocava as alçadas, continuar-se a aplicar o valor actual (na altura)
determinativo da alçada do tribunal judicial provincial (entenda-se actual na vigência da Lei n. o
10/92, de 6 de Maio), e mais um metical, tendo em conta que à data de publicação daquele

O valor da causa estará dentro da alçada do tribunal quando seja igual ou inferior a ela.
135

Com as alterações introduzidas ao Código de Processo Civil pelo DL n. o 1/2005, de 27 de Dezembro, o


136

processo sumaríssimo deixou de existir.

111
Decreto, o valor da alçada do tribunal judicial provincial era de 1.500.000,00MT (um milhão e
quinhentos mil meticais, ou mil e quinhentos meticais por efeito de conversão da moeda), que
acrescido de um metical perfazia 1.500.001,00MT (um milhão e quinhentos e um meticais), em
matéria de interesses imateriais era este para todos os efeitos o valor da alçada, quer dos
tribunais judiciais de província quer dos tribunais judiciais de distrito de 1a e 2a classes.

Portanto, em matéria de interesses imateriais ficou uniformizado o valor da alçada dos tribunais
judiciais de província e dos tribunais judiciais de distrito de 1 a e 2a classe, na medida em que em
matéria de interesses imateriais a lei não distinguia os valores das alçadas daqueles tribunais
tendo em conta as suas categorias hierárquicas.

Deste modo, atendendo que, por um lado, a alçada do tribunal provincial em matéria de
interesses imateriais era de 1.500.001,00MT e, por outro, que nos termos do artigo 312 do CPC,
na sua redacção anterior às alterações introduzidas pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro, as
acções sobre interesses imateriais consideravam-se sempre de valor equivalente à alçada do
tribunal provincial mais um metical, resultava daqui que o valor da acção ou da causa sobre
interesses imateriais, era de 1.500.001,00MT ou 1.501,00MT (alçada do tribunal provincial),
mais um metical, o que perfazia 1.500.002,00MT (um milhão e quinhentos mil, e dois meticais)
ou 1.502,00MT.

Sendo de 1.502,00MT o valor da acção ou da causa sobre interesses imateriais, era este, pois, a
que devia se atender em matéria de interesses imateriais o valor da acção para efeitos do
disposto no artigo 305/2 CPC, concretamente para efeitos de determinação da competência do
tribunal, da forma do processo comum e da relação da causa com a alçada do tribunal.

Disto resulta que a forma do processo comum a seguir nas acções sobre interesses imateriais, era
ordinária nos termos do artigo 462/1, 1a parte CPC, na sua redacção anterior às alterações
introduzidas pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro, e havia sempre lugar a recurso,
independentemente de a acção ter sido instaurada num tribunal judicial de província ou num
tribunal de distrito, visto que o valor da acção na quantia de 1.500.002,00MT excedia sempre o
valor da alçada daqueles tribunais em matéria cível sobre interesses imateriais que era de
1.501,00MT nos termos do artigo 1/2, do Decreto n.o 24/98, de 2 de Junho, como aliás acima
explanado.

Da fixação nos termos acima referidos, por um lado, da alçada dos tribunais judiciais de
província e dos tribunais judiciais de distrito de 1 a e 2a no valor de 1.501,00MT e, por outro, do
valor da acção na reduzida ou baixa quantia de 1.501,00MT em matéria de interesses imateriais,
tendo em conta os reflexos do valor da acção na determinação da competência do tribunal, da
forma do processo comum e da sua relação com a alçada do tribunal, pode-se retirar a conclusão
de que o legislador pretendia permitir que qualquer pessoa, independentemente da sua
capacidade financeira, pudesse fazer face aos custos que a instauração de uma acção acarreta, na
medida em que seriam baixos e sustentáveis porque baixo o valor da causa na base do qual são
achadas as despesas processuais (art. 7/16 CCJ e art. 305/3 CPC), sem, contudo, comprometer as
garantias processuais proporcionadas por uma forma de processo mais solene quanto a forma
ordinária, porquanto apesar do valor da causa ser baixo aplicava-se ainda assim a forma
ordinária.

112
Feita a reflexão em torno das questões acima colocadas à luz do Código de Processo Civil no
regime anterior às alterações introduzidas pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro,
concretamente se (1a) tendo em conta que o valor das acções sobre sobre interesses imateriais
estava sempre dentro da alçada do tribunal judicial provincial, tal significava que tais acções em
processo declarativo seguiam sempre a forma sumária, e (2a) considerando que o valor das
acções sobre o estado das pessoas ou sobre interesses imateriais estava abaixo da alçada, quer
dos tribunais judiciais de província quer dos tribunais judiciais de distrito de 1 a e 2a classe, uma
sentença proferida por qualquer destes tribunais em tais acções era ou não susceptível de recurso,
respondendo às mesmas cumpre dizer que relativamente à primeira, as acções sobre o estado das
pessoas ou sobre interesses imateriais seguiam sempre a forma ordinária, e relativamente à
segunda, nas acções em alusão havia sempre lugar a recurso.

Vamos agora analisar as mesmas questões à luz do regime do Código de Processo Civil, tendo
em conta as alterações introduzidas pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro.

Nos termos do artigo 312 do CPC 137, as acções sobre o estado das pessoas ou sobre interesses
imateriais consideram-se sempre de valor equivalente a 1.501,00MT (mil quinhentos e um
metical).

Ora, tendo em conta que em matéria cível a alçada dos tribunais judiciais de província é de valor
equivalente a cinquenta vezes o salário mínimo, e a dos tribunais judiciais de distrito de 1 a e 2a
classes, de valor equivalente a vinte e cinco e dez vezes o salário mínimo, respectivamente (art.
38/1, da Lei n.o 24/2007, de 20 de Agosto), estando as referidas alçadas acima do valor das
acções sobre o estado das pessoas ou sobre interesses imateriais anteriormente referido,
teríamos que tais acções (v.g., acções de divórcio, acções de reconhecimento judicial de
maternidade/paternidade) em processo declarativo ou comum seguiriam a forma sumária e das
sentenças nelas proferidas não haveria nunca recurso.

Em atenção ao cima explanado, somos da opinião de que tal posição contraria o espírito da lei e
o fim visado pelo legislador à luz do regime do Código de Processo Civil, antes das alterações
introduzidas pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro, bem como do Decreto n. o 24/98, de 2 de
Junho, em matéria do valor da acção e da alçada que era fixada para os tribunais judiciais de
província e tribunais judiciais de distrito de 1 a e 2a, pois, embora o valor da acção fosse de
1.502,00MT, excedia sempre o valor da alçada daqueles tribunais em matéria cível sobre
interesses imateriais que era de 1.501,00MT por força do artigo 1/2, do Decreto n. o 24/98, de 2
de Junho.

Repugna-nos que face ao regime do Código de Processo Civil, com as alterações introduzidas
pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro, o valor das acções sobre o estado das pessoas ou sobre
interesses imateriais se considerasse sempre de valor equivalente a 1.501,00MT, e tendo em
conta que o mesmo tem reflexos no cálculo dos encargos processuais (art. 7/16 CCJ e art. 305/3
CPC) qualquer pessoa pudesse, em princípio, fazer face aos custos que a instauração da acção
implicava ou implica, mas em contrapartida as partes vissem as suas garantias processuais
sacrificadas por o processo dever seguir a forma sumária e não haver recurso.
137
Redacção dada pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro.

113
Com efeito, não excedendo tal valor das acções sobre interesses imateriais a alçada do tribunal
provincial, o processo devia seguir a forma sumária por força do art. 462 CPC, na redacção pelo
DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro, e também não haveria nunca recurso, independentemente de
a acção ter sido instaurada no tribunal provincial ou distrital, em virtude de tal valor estar abaixo,
quer da alçada do tribunal provincial quer das alçadas tribunais judiciais de distrito de 1 a e 2a
classe.

Não cremos que era essa a essa a intenção do legislador, isto é, permitir que os encargos
processuais fossem bastante reduzidos e sacrificar, em contrapartida, as garantias processuais,
pelo que entendimos que as acções sobre interesses imateriais, cujo valor era de 1.501,00MT,
seguiam a forma ordinária e havia recurso, doutro modo, relativamente àquilo que constituía o
desiderato do legislador no regime anterior às alterações introduzidas pelo DL n. o 1/2005, de 27
de Dezembro, teria havido uma rotura com a aprovação deste diploma legal.

O que acima dissemos é corroborado pela mais recente alteração introduzida pelo DL n. o 1/2009,
de 24 de Abril.

Com efeito, por força do novo regime introduzido pelo citado Decreto-Lei, se o art. 462/1 e 2, do
CPC, estabelece no sentido de empregar-se o processo ordinário ou o processo sumário,
consoante o valor da causa exceda ou não a alçada do Tribunal Judicial de Província, e às acções
sobre estado de pessoas ou interesses imateriais, quando não sigam processo especial, aplicar-se
processo ordinário, o art. 312 é peremptório e dispensa qualquer exercício de interpretação para
chegar à conclusão a que acima chegamos, quando dispõe:

“As acções sobre o estado de pessoas ou sobre interesses imateriais consideram-se sempre de
valor equivalente a 30.000,00MT, mas admitem sempre recurso”.

Resulta das disposições conjugadas dos artigos acima mencionados que as acções sobre o estado
de pessoas ou sobre interesses imateriais, sempre que não sigam processo especial, aplicar-se-
lhes-á processo ordinário, conferindo às partes maiores garantias processuais, em virtude de se
tratar do processo declarativo mais solene, não obstante o seu valor relativamente diminuto para
efeitos de custas processuais.

Em contrapartida, e numa espécie de vantagem acrescida, haverá sempre recurso, quando num
processo ou acção que não seja sobre o estado de pessoas ou sobre interesses imateriais, com
valor igual, não haveria recurso.

2.1.1. Possíveis atitudes do juiz face à petição inicial

Distribuída a petição e autuada com os documentos que a acompanham138, é o processo concluso


ao juiz que examina a petição e toma uma das seguintes quatro atitudes:

138
Não se levanta a questão do pagamento do preparo quando o Ministério Público seja autor ou
represente entidade isenta de custas judiciais nos termos do CCJ e legislação aplicável.

114
a) Indeferir liminarmente a petição;
b) Convidar o autor a completar ou a corrigir a petição;
c) Mandar arquivar o processo;
d) Ordenar a citação do réu.

[Link].Indeferimento liminar da petição. Motivos. Atitudes possíveis do autor.

 Indeferimento liminar da petição. Motivos.

A petição inicial quando seja considerada inepta, ou seja, quando contenha deficiências
substanciais que de forma irremediável comprometam a sua finalidade, nomeadamente quando
falte ou seja ininteligível a indicação do pedido ou da causa de pedir; quando haja contradição
entre o pedido e a causa de pedir e quando se cumule pedidos substancialmente incompatíveis,
será liminarmente indeferida (arts. 474/1, al. a), 193/2, als. a), b) e c), ambos do CPC).

Há também lugar a indeferimento liminar da petição quando se constate faltar algum dos
pressupostos processuais de conhecimento oficioso, quando for manifesto que a acção foi
proposta fora de tempo, desde que a caducidade seja de conhecimento oficioso, ou quando por
qualquer motivo for evidente que a pretensão do autor não pode proceder, enfim, quando a
petição não possa ser aproveitada para a forma de processo que deva seguir (art. 474, n o. 1, als.
b), c) e no. 3, e art. 495, ambos do CPC e art. 333 C.C).

No entanto, caso se constate que só em parte a acção pode ser liminarmente indeferida, tal não
deve dar lugar a indeferimento liminar parcial, por a lei não o admitir, a não ser que disso resulte
a exclusão de algum dos réus139.

Como exemplo de despacho de indeferimento liminar, vejam-se os anexos II A e II B.

 Atitudes possíveis do autor.

Face ao indeferimento da petição o autor, que pode ser qualquer entidade que nos termos da lei é
representada pelo MP, ou o MP em nome próprio, ou qualquer entidade representada por
advogado particular, quer constituído quer oficioso, poderá:

1a conformar-se com o despacho e pura e simplesmente renunciar à acção. O efeito desta atitude
é que o despacho transita em julgado com a consequente extinção e absolvição do réu da
instância.

2a apresentar, no prazo de cinco dias, nova petição na qual corrija a falta que tiver determinado
o indeferimento liminar, contanto a correcção seja legalmente possível, considerando-se neste
139
Pode ser a hipótese de uma acção em que o autor numa acção declarativa de condenação demanda dois
ou mais réus, e à partida o juiz constata que um deles é manifestamente parte ilegítima, poderá no
despacho liminar indeferir liminarmente a acção no sentido de absolver a parte que se mostre ser
ilegítima, ordenando a citação das demais (arts. 288/1, al. d) e 474/n o. 1, al. b) in fine e no. 2, 494/1, al. b)
e 495, todos do CPC).

115
caso a acção proposta na data em que a primeira petição deu entrada na secretaria (art. 476/1 e 2
CPC), resultando daí o aproveitamento pelo autor da propositura tempestiva da acção, a
distribuição já realizada e o pagamento já efectuado do preparo inicial140.

Não querendo aproveitar o prazo previsto pelo art. 476/1 CPC para apresentação de nova petição,
poderá apresentar nova petição quando assim o entender, sem prejuízo dos prazos de caducidade
aplicáveis, tratando-se porém de instauração de nova acção.

3a impugnar o despacho de indeferimento liminar. Fa-lo-á mediante recurso de agravo,


admissível independentemente do valor da causa e do fundamento do indeferimento, a interpor
no prazo de oito dias contados da notificação do despacho (arts. 475/1 e 685/1, ambos do
CPC141).

Admitido o recurso142, manda-se citar o réu, quer para os termos do recurso em especial, quer
para a defesa na acção, em geral (art. 475/3 CPC).

Caso a decisão final do recurso (por parte do tribunal superior competente) mantiver o
indeferimento liminar do recurso, poderá o autor apresentar nova petição (com a falta
determinante do indeferimento corrigida) no prazo de cinco dias contados da data da notificação
da decisão, considerando-se neste caso a acção proposta na data em que a primeira deu entrada
na secretaria (arts. 475/5, 2a parte, 476/1143 e 2, ambos do CPC, com a redacção dada pelo DL
1/2005, de 27 de Dezembro).

Caso o agravo tenha provimento, determinando a decisão final a revogação do despacho de


indeferimento liminar, haverá lugar ao prosseguimento da acção, ordenando-se a notificação do
réu para contestar, querendo, pois o réu já fora citado após a interposição do recurso contra o
despacho de indeferimento liminar (art. 475/5 CPC144).

[Link].Convite ao autor para completar ou corrigir a petição

O convite para completar ou corrigir a petição que se mostre deficiente ou irregular no prazo a
fixar pelo juiz, apresentando nova petição, é, nos termos do art. 477 CPC, apenas admitido em
três tipos de situações:

a) Quando a acção não possa ser recebida por falta de requisitos legais;
140
Se não for uma entidade isenta de custas nos termos Código das Custas Judiciais.
141
Redacção dada pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro.
142
O requerimento de interposição de recurso pode ser indeferido nos termos do disposto no art. 687/3
CPC, cabendo reclamação contra o despacho que não admita recurso ao presidente do tribunal superior
competente para conhecer do recurso ora não admitido (art. 688/1 CPC, com a redacção do DL 1/2005, de
27 de Dezembro).
143
A referência à “…parte final do n o. 4 do artigo anterior”, entenda-se art. 475 CPC, feita pela parte final
do art. 476/1 CPC, deve-se entender como sendo referida ao n o. 5 do art. 475, pois com a redacção dada
pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro, o teor do disposto no n o. 4 do art. 475 CPC antes da sua alteração,
passou a constituir o no. 5 do mesmo artigo, mantendo-se taxativamente a redacção anterior.
144
Redacção dada pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro.

116
b) Quando a acção não possa ser recebida pela circunstância de a petição não vir
acompanhada de certos documentos; e
c) Quando a petição comporte irregularidades ou deficiências susceptíveis de comprometer o
êxito da acção.

Os requisitos legais cuja falta pode dar lugar ao convite pelo juiz para que o autor complete a
petição são, entre outros, o valor da causa, e menção da forma do processo, a articulação das
razões de facto, a assinatura da petição e identificação completa das partes (art. 467/1, als. a),
b), c), 1a parte, e e), do CPC145).

No que concerne aos documentos cuja não junção à petição dá lugar ao convite para sua junção
por deverem acompanhar a petição, trata-se dos documentos que são indispensáveis à prova dum
pressuposto essencial à acção, como é o caso da certidão de casamento nas acções de divórcio
ou separação, ou da certidão de óbito nos processos especiais de inventário obrigatório, ou ainda
da certidão de registo predial na acção especial de entrega judicial de imóvel, entre outros.

Relativamente às deficiências da petição que podem comprometer o êxito da acção146, destaque


vai para as que impeçam o controlo do prazo a que esteja sujeito o surgimento ou a caducidade
(de conhecimento oficioso) do direito invocado pelo autor (duração da separação de facto
conducente à ruptura da vida em comum; duração da falta de notícias do ausente, de cujos bens
se requer a curadoria definitiva; duração da posse do imóvel cuja propriedade se pretende
reconhecida; etc.).

Os anexos III A e III B constituem exemplos de despachos para convite ao autor com vista a
completar e/ou corrigir a petição.

 Possíveis atitudes do autor perante o convite

a) Aceitação do convite e junção do documento ou preenchimento do requisito legal em falta -


daí resulta que acção prossegue, em regra, o seu curso normal, devendo o juiz ordenar a citação
do réu (art. 478/1 CPC);
b) Não-aceitação do convite e consequente não junção do documento ou preenchimento do
requisito legal em falta - a consequência é o indeferimento liminar da petição inicial (art. 314/3
CPC);
c) Aceitação do convite para correcção de deficiências ou irregularidades da petição - poderá
resultar daí o indeferimento da petição ou despacho ordenando a citação do réu, tudo
dependendo do sentido do esclarecimento que for prestado;
d) Não-aceitação do convite para correcção de deficiências ou irregularidades da petição - o
juiz manda prosseguir a acção, ordenando a citação do réu, ficando à iniciativa deste o

Redacção dada pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro.


145

146
Segundo Antunes Varela e outros, o convite do juiz para corrigir ou completar a petição não visa, ao
contrário do que o texto da lei pode sugerir, garantir o êxito da acção, mas sim o esclarecimento dum
aspecto decisivo da acção, que poderá ser a procedência ou a improcedência da acção, o prosseguimento
desta e bem assim a absolvição da instância como consequência de indeferimento liminar (Antunes
Varela, J. Miguel Bezerra e Sampaio e Nora, Manual de Processo Civil, 2a Edição, Coimbra Editora,
Limitada, 1985, páginas 263 a 264).

117
esclarecimento da dúvida que a petição suscita, ou que o esclarecimento tenha lugar na instrução
posterior da causa.

[Link].Arquivamento do processo

A lei não prevê o arquivamento do processo, que é uma hipótese muito rara, mas ela pode ter
lugar quando a pretensão do autor seja estranha à ordem jurídica, a exemplo do professor que,
segundo Antunes Varela e outros, requer a condenação do antigo aluno a ir a sua casa
cumprimentá-lo todos meses, como sempre o fez depois de ter deixado a escola.

[Link].Ordenar a citação do réu

Se não se verificar nenhum dos defeitos determinantes do indeferimento, correcção, compleição


ou arquivamento da petição, deve o juiz ordenar a citação147 do réu (art. 478/1 CPC).

A citação é normalmente ordenada após a distribuição, o pagamento do preparo inicial e a


conclusão do processo ao juiz a quem foi distribuído, mas excepcionalmente poderá preceder a
distribuição quando o autor assim o requeira e justifique a precedência (caso de ausência
iminente do réu, havendo interesse na sua citação antes da sua saída, ou iminência da prescrição
que só se interrompe pela citação ou notificação judicial nos termos do art. 323/1 C.C.),
contanto não deva efectuar-se editalmente (art. 478/2 do CPC148).

Em termos práticos, e a título de exemplo, o despacho de citação pode ser exarado nos seguintes
termos: Cite-se nos termos do art. 486/1 CPC149 ou, simplesmente, cite-se.

 Valor do despacho que ordena a citação

Do despacho de citação do réu resulta a presunção de que a petição não enferma de nenhum dos
defeitos determinantes do seu indeferimento liminar ou do seu arquivamento, ou não padece de
qualquer dos vícios que a tornam deficiente ou irregular.

Esta presunção poderá ser ilidida em sede de despacho saneador, em que o juiz após um exame
minucioso e melhor instruído, constatando a existência de ineptidão da petição, a falta de
pressupostos processuais, a extemporaneidade da acção ou a inconcludência da acção, que à
partida não eram manifestas, poderá decretar a absolvição da instância ou do pedido com
fundamento em qualquer dos motivos assim apurados que teriam determinado o indeferimento
liminar, como se alcança das disposições do art. 479/3 CPC.

 Impugnação do despacho que ordena a citação


147
O conceito de citação, este que desempenha um papel essencial na concretização do princípio do
contraditório consagrado pelo art. 3/1, 2 a parte, do CPC, é dado pelo art. 228/1 do mesmo diploma e o
respectivo regime consagrado nos artigos seguintes.
148
Redacção dada pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro.
149
Redacção dada pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro.

118
Face ao despacho de citação, caso o réu entenda que a petição devia ter sido indeferida in limine
e não prefira reservar a sua defesa para a contestação, poderá impugnar o despacho de citação
por meio de recurso de agravo a interpor no prazo de oito dias, a contar da data da sua citação,
visto que o despacho que ordena a citação não é notificado, o réu toma conhecimento do mesmo
quando em seu cumprimento é citado (arts. 479/1 e 685/1, ambos do CPC).

Se o agravo for reparado (pelo próprio juiz que proferiu o despacho impugnado) ou vier o
recurso a obter provimento no tribunal superior, a petição será indeferida e o autor notificado do
despacho respectivo, mas por razões de economia processual de defesa do autor contra eventual
risco de caducidade superveniente do seu direito (as mesmas razões que estão subjacentes ao
benefício concedido no caso de indeferimento liminar), poderá este apresentar nova petição
(corrigida ou rectificada) no prazo de cinco dias, a qual considerar-se-á proposta na data em que
a primeira petição deu entrada na secretaria (art. 479/2 CPC).

[Link].[Link] da citação - a citação tem efeitos que podem ser de natureza


material (substantiva) ou de natureza processual (adjectiva).

Entre os efeitos materiais da citação, distinguem-se:

(a) A cessação da boa-fé150 do possuidor (art. 481, al. a), CPC), pois, desde que o réu é
citado fica a saber que está a lesar ou pode estar a lesar direito de outrem, sendo que em
caso de procedência da acção a sua posição de possuidor de má-fé considera-se
consumada desde a data da citação, e não do trânsito em julgado da sentença
condenatória;
(b) Interrupção da prescrição - o prazo prescricional que esteja a correr a favor do réu
devedor interrompe-se com a citação (art. 323/1 e 4 C.C.), seja qual for a natureza do
processo em que a citação do réu se efectue, bem assim independentemente do tribunal
em que a acção foi proposta e tenha ordenado a citação, seja competente ou
incompetente.

A lei vai mais longe no efeito interruptivo da prescrição, a ponto de defender o credor contra
factos não imputáveis a sua pessoa susceptíveis de retardar a citação em seu prejuízo.

Assim sendo, para obviar a essas situações, por uma lado, caso a citação não seja efectuada
dentro dos cinco dias subsequentes ao ingresso da petição em juízo, por facto não imputável ao
autor, por efeito legal a prescrição tem-se por interrompida após o decurso desses cinco dias (art.
323/2 C.C.), e por outro lado, a anulação da citação não prejudica o efeito interruptivo da
prescrição (art. 323/3 C.C.)151.

150
Conceito de boa-fé é dado pelo art. 1260/1 C.C.
151
O art. 482 CPC que condiciona a subsistência dos efeitos da citação anulada à circunstância do réu ser
regularmente citado dentro de trinta dias, contados do trânsito em julgado do despacho de anulação,
salvaguarda o disposto no art. 323/3 C.C. que dispõe no sentido da anulação da citação não impedir o
efeito interruptivo da prescrição decorrente da citação.

119
a) Constituição do devedor em mora – nas obrigações sem prazo certo para o cumprimento,
o devedor não fica constituída em mora enquanto não for interpelado (judicial ou
extrajudicialmente) pelo credor. A citação do réu constitui este, enquanto devedor, em
mora nas obrigações não dependentes de prazos certos e nem provenientes de facto
ilícitos (art. 805/1 C.C.).

No entanto, representando a citação uma forma de interpelação (judicial) que produz o


vencimento da obrigação, caso o réu não conteste a existência da obrigação, o autor será
condenado a pagar as custas do processo e os honorários do advogado do réu (art. 662/3 CPC)152.

Entre os efeitos processuais da citação destacam-se:

a) Estabilização dos elementos essenciais da causa – como efeito da citação resulta que a
instância dever-se-á manter a mesma quanto às pessoas ou sujeitos (autor e réu), ao
pedido (pretensão formulada pelo autor) e à causa de pedir (facto concreto que serve de
fundamento jurídico à pretensão), “…salvas as possibilidades de modificação
consignadas na lei”153 (art. 481, al. b), com referência ao art. 268, ambos do CPC).
b) Inibição de propositura da mesma acção - a citação inibe o réu de propor contra o autor
acção destinada à apreciação da mesma questão jurídica (art. 481, al. c), CPC)154.

[Link]ção

Contestação é o articulado através do qual o réu chamado a juízo para se defender, responde à
petição do autor.

Enquanto articulado ou peça escrita em resposta à petição do autor, ou seja em sentido formal, a
contestação compreende duas modalidades, em função do seu conteúdo: a contestação-defesa e
a contestação-reconvenção.

Contestação-defesa - é a generalidade das contestações, através dela o réu limita-se a repelir,


directa ou indirectamente, a pretensão do autor nos termos em que esta é formulada na petição.

Contestação-reconvenção - através dela o réu contra-ataca, deduz contra o autor uma pretensão
autónoma, diferente do símples pedido de improcedência da acção ou de não conhecimento do
mérito desta.

152
É corolário da falta de interesse processual enquanto pressuposto processual, pois em tal caso não há
necessidade fundada, justificada e razoável de uso de processo.
153
As alterações podem ter lugar ao abrigo das disposições dos arts. 270 a 273 do CPC, com a redacção
dada pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro e DL 1/2009, de 24 de Abril.
154
Tal visa impedir a ocorrência de casos de litispendência (art. 497/1 e 2 CPC), além de que a pretensão
que o réu eventualmente poderia pretender formulá-la através duma outra acção contra o autor, poderá
deduzi-la na sua defesa mediante contestação-reconvenção (art. 501 do CPC, com a redacção dada pelo
DL 1/2005, de 27 de Dezembro).

120
Em qualquer das suas modalidades, a contestação deve ser apresentada no prazo de vinte dias,
nos processos declarativos com forma ordinária, e no prazo de dez dias, nos de forma sumária,
assistindo ao MP a faculdade de requerer prorrogação de tal prazo (antes do mesmo findar), que
em princípio não deverá ir além de noventa dias, quando careça de informações que devam ser
prestadas por determinadas instituições ou tenha de aguardar resposta a consulta feita a instância
superior, devendo em qualquer dos casos justificar o pedido no requerimento (arts. 486/1 e 3, e
783, CPC155).

Quanto à sua forma, a contestação pode ser contestação articulada, contestação por negação e
contestação por mera junção de documentos.

Contestação articulada - aquela em que o réu alega discriminadamente, sob a forma de artigos,
as razões de facto e de direito que servem de fundamento à sua defesa ou à sua reconvenção (art.
488 CPC156). É consequência do ónus de impugnação especificada (tomada de posição definida
face a cada um dos factos articulados pelo autor) que, salvas algumas excepções, é imposto ao
réu pelo art. 490/1 CPC, cuja inobservância tem, em regra, efeitos processuais gravosos para
este.

Contestação por negação - aquela em que o réu nega em bloco, de forma indiscriminada, a
matéria de facto constante da petição.

Esta forma de contestação não é permitida pela lei, proíbe-a expressamente (art. 490/3 CPC), do
que resulta que a contestação por negação não tem relevância como contestação.

Contestação por mera junção de documentos - consiste no puro ou simples oferecimento real da
prova documental, desacompanhada de qualquer alegação escrita sobre os factos a que o
documento respeita e através do qual se pretende fazer a respectiva prova de modo a contrariar a
pretensão do autor.

[Link] da contestação-defesa

A contestação-defesa reveste duas modalidades: a defesa por impugnação ou defesa directa e


defesa por excepção ou defesa indirecta (art. 487/1 CPC).

Defesa por impugnação - aquela em que o demandado nega de frente, frontalmente, os factos
alegados pelo autor ou em que, embora não ponha em causa a realidade desses factos, defende-se
procurando demonstrar que o efeito jurídico que o autor pretende extrair deles não procede, é o
que resulta do art. 487/2, 1a parte CPC).

Portanto, na defesa por impugnação, o réu contradiz, ataca de forma directa ou frontal a
realidade dos factos constitutivos (ou supostamente constitutivos) do direito a que o autor se
arroga – matéria de facto -, ou contradiz o efeito jurídico que se pretende extrair dos factos
155
Redacção dada pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro.
156
Redacção dada pelo DL n.o 1/2009, de 24 de Abril.

121
articulados, põe em causa a aplicação do direito objectivo feita pelo autor aos factos por si
alegados - matéria de direito no que ao efeito jurídico respeita.

A dúvida por parte do réu sobre um facto hipotético articulado pelo autor, equivale à
impugnação, desde que não se trate de facto pessoal de que aquele deva ter conhecimento (art.
490/2CPC).

Defesa por excepção - contrapõe-se à defesa por impugnação. Em sentido lato, trata-se duma
defesa indirecta através da qual, não se nega a realidade em si dos factos articulados na petição,
nem se ataca o efeito jurídico que deles se pretende extrair, mas alega-se factos novos com vista
a repelir, a afastar a pretensão do autor, podendo revestir variadas formas, nomeadamente a
improcedência (total ou parcial) do pedido; a absolvição da instância; o indeferimento da
petição por ineptidão; etc.

Em sentido restrito, que decorre da lei, a defesa por excepção compreende somente a que,
baseada em factos susceptíveis de obstar à apreciação do mérito da acção, dá lugar a absolvição
da instância ou a remessa do processo para outro tribunal157, bem assim a que, tendo por base
factos impeditivos, modificativos ou extintivos do direito invocado pelo autor, determina a
improcedência (total ou parcial) do pedido (arts. 487/2, 2a parte, e 493, ambos do CPC).

Tal como sucede com a petição inicial, face as alterações introduzidas pelo DL n o. 1/2005, de 27
de Dezembro e DL 1/2009, de 24 de Abril, o rol de testemunhas e a junção de documentos
devem ter lugar na própria contestação158, e não no momento em que as partes são notificadas
para a instrução, quando após a fase do despacho saneador o processo tenha que prosseguir,
como sucedia face ao regime anterior, porquanto no que concerne às testemunhas, à luz do novo
regime para efeitos de instrução as partes são notificadas para alterarem o rol respectivo,
querendo, e não para o apresentar (arts. 488, 512, 523/1, 631/1, todos do CPC).

[Link].Princípios da contestação-defesa

Entre outros, na elaboração da contestação-defesa destaca-se o princípio da concentração de


todos meios de defesa do réu na contestação.

O princípio da concentração de todos meios de defesa do réu na contestação está consagrado no


art. 489 CPC, e por força deste princípio o réu deve deduzir desde logo na contestação, salvas

157
A propósito da absolvição da instância e seus efeitos, há que se ter em conta as excepções dilatórias
que servem de fundamento à mesma nos termos das disposições conjugadas dos arts. 288, 289, 493 e 494,
todos do CPC, com a redacção dada pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro. Quanto à improcedência (total
ou parcial) da acção ou do pedido, há que se ter em atenção as excepções peremptórias consagradas a
título meramente exemplificativo no art. 496 CPC, podendo se referir a título adicional, mas sem as
esgotar, o erro, a coacção, a caducidade, o pagamento, o perdão, etc (factos que face a lei substantiva
servem de causa impeditiva, modificativa ou extintiva da pretensão formulada pelo autor).
158
Os documentos poderão, porém, ser apresentados até ao encerramento da discussão na primeira
instância, condenando-se o apresentante em multa, salvo se provar que os não pôde oferecer com o
articulado (art. 523/2 CPC).

122
algumas excepções159, todos meios de defesa, directa ou indirecta, de que disponha contra a
pretensão formulada pelo autor, ainda que tenha deduzido alguma excepção dilatória que, em
princípio, determinaria o não conhecimento do fundo da causa pelo tribunal, se for julgada
procedente, doutro modo, o meio de defesa não deduzido na contestação, preclude, será
extemporâneo160.

2.3.O ónus de impugnação

Ao réu incumbe, na elaboração da contestação, o ónus de impugnação dos factos articulados na


petição, isto é, de tomar posição definida perante os factos narrados pelo autor, como
fundamento da sua pretensão. Tem que declarar se aceita os factos como reais, ou se os rejeita
porque inexistentes ou inverídicos.

O princípio do ónus de impugnação dos factos é imposto pelo artigo 490/1, 1a parte, sob pena
(consequência) de se considerarem admitidos por acordo os factos articulados pelo autor, a não
ser que estejam em oposição com a defesa no seu conjunto, ou se recaírem sobre direitos
indisponíveis, ou ainda se só poderem ser provados por documento (art. 490/1 CPC)161.
159
Excepções ao princípio da concentração, são os casos dos incidentes que a lei manda deduzir em
separado (art. 489/1, 2a parte CPC), como é o caso dos incidentes de chamamento à autoria e de oposição
(provocada), que devem ser deduzidos em separado com a contestação, mas dentro do prazo fixado para
o oferecimento desta (art. 326/1 e 347, CPC). É a defesa que a doutrina designa por defesa separada.

Outro grupo de excepções, é o previsto no n o. 2 do art. 489 CPC, em três situações, nomeadamente: 1 a as
excepções que sejam supervenientes, ou seja, as excepções que se verificaram após a apresentação da
contestação; 2a os meios defesa supervenientes, ou seja, os meios de defesa tendo por base factos
ocorridos após o termo do prazo fixado para a contestação, ou factos de que o réu só teve conhecimento
após o término do prazo da contestação, recaindo sobre si o ónus de prova de superveniência (art. 506/2 e
489/2, CPC); 3a e os meios de defesa cuja dedução a lei admita mesmo depois de apresentada a
contestação, v.g. a incompetência absoluta do tribunal (art. 489/2 e 102/1, CPC). É a defesa diferida
segundo a doutrina.

Com o devido respeito à doutrina consagrada e mais autorizada, salvo melhor entendimento julgamos que
as excepções previstas no n o. 2 do art. 489 CPC, poderiam se considerar também como excepções ao
princípio da oportunidade da defesa, que se pode extrair tanto da epígrafe como do próprio texto do art.
489/2 CPC, pois a lei impondo que toda defesa seja deduzida na contestação, permite que
excepcionalmente ela seja deduzida em momento posterior (releva aqui o factor tempo) ao da contestação
(defesa), ao contrário da excepção prevista pelo n o. 1 do mesmo artigo que permite, prevê a dedução de
defesa separada da contestação, porém no mesmo prazo que esta.
160
Tal visa obviar ao retardamento da acção por parte do réu, que poderia deduzir defesa em sucessivos
articulados. Aliás, o réu depois da contestação só poderá, em princípio, apresentar mais algum articulado
a título de articulado superveniente, e o regime aplicável aos articulados supervenientes não permite ao
réu apresentar meios defesa de que dispunha no momento da contestação e que, por conseguinte, os devia
ter deduzido em sede de contestação.
161
É o caso da alegação de factos que configuram adultério ou abandono do lar conjugal numa acção de
divórcio litigioso, ou a alegação de que A é filho de B e carece de alimentos que B, alegadamente seu pai,
pode prestar-lhos, mas não o faz, ainda que o cônjuge demandado não conteste, ou conteste sem impugnar

123
Outra consequência do princípio do ónus da impugnação - encarado como extensão-, é que
quando o réu declara que não sabe se determinado facto é real: tal declaração equivale a
confissão, contanto se trate de facto pessoal ou de que o réu deva ter conhecimento, e equivale a
impugnação no caso contrário (art. 490/2 CPC).

O princípio do ónus da impugnação que incumbe ao réu na contestação e respectivas


consequências da sua inobservância, é extensivo ao autor relativamente a resposta à contestação
ou a resposta à reconvenção, e ainda extensivo a qualquer articulado posterior àqueles dois
articulados (art. 505/1 CPC162).

O princípio do ónus da impugnação tem a sua razão de ser se se tiver em conta que, fora o facto
do processo cível ser um processo de partes, estas são quem melhor conhece os factos que
interessam à correcta decisão da causa, pelo que poderão colaborar, e devem, não podendo
litigar de má fé sob pena de sanções legais, na descoberta da verdade sobre a matéria de facto.

-Impugnação especificada - a lei não impõe a impugnação pura dos factos, exige também que a
impugnação seja feita de forma especificada, ou seja, tem de ser feita facto por facto, e não de
uma forma genérica, e associado a exigência de impugnação especificada a lei processual proíbe
a contestação por negação, assente numa impugnação em termos gerais (art. 490/1, 1a parte, e
no. 3, CPC).

[Link]ções ao ónus de impugnação especificada

O ónus de impugnação especificada consagrado no art. 490/1 e na sua extensão prevista no n o. 2


do mesmo artigo, que vincula a generalidade dos mandatários judiciais na elaboração dos
articulados (contestação, reposta à contestação e/ou à reconvenção, articulados supervenientes),
não se aplica “…aos incapazes, ausentes e incertos, quando representados por Ministério
Público ou advogado oficioso..” (art. 490/4 CPC, com a redacção dada pelo DL 1/2005, de 27 de
Dezembro)163.

A não vinculação dos incapazes, ausentes e incertos ao princípio do ónus de impugnação


especificada está condicionada à entidade que os representa, de tal sorte que quando a entidade

especificamente os factos alegados pelo cônjuge autor como configurando adultério ou abandono do lar
conjugal, nem por isso se considerarão admitidos por acordo tais factos. O mesmo se diga quanto a
alegação de A em como é filho de B, pois ainda que este não conteste ser pai de A, dever-se-á provar tal
facto por documento mediante certidão de nascimento.
162
Redacção dada pelo DL 1/2009, de 24 de Abril.
163
No regime do CPC anterior às alterações introduzidas pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro, tendo em
conta que a excepção estava consagrada com referência, não as pessoas representadas, mas sim às
entidades que as representavam, concretamente o advogado oficioso e o Ministério Público (art. 490/4
CPC, na redacção anterior ao DL 1/2005, de 27 de Dezembro), sendo este representante, não só dos
ausentes, incapazes e incertos (arts. 15/1 e 16/1, CPC), mas também legal representante do Estado (art.
20/1 CPC), a este também se aplicava a excepção ao princípio do ónus de impugnação especificada,
situação que já não se verifica face ao novo regime introduzido por aquele diploma.

124
que os representa seja diversa do MP e do advogado oficioso, ou seja, quando tenham
constituído advogado, aí já sujeitam-se àquele princípio.

Esta excepção tem a sua razão de ser, porquanto o advogado oficioso e o MP quando
representam os incapazes, ausentes e incertos, com mais incidência para estes dois últimos, pela
impossibilidade prática de conferenciarem com os mesmos, não estão em condições de ter (ou
pelo menos presume-se que não estão) um conhecimento tão preciso dos factos que interessam à
causa, ao contrário do advogado constituído pela parte que pode dialogar com o mesmo e
fornecer-lhe toda informação relativa a matéria de facto objecto da acção.

Três categorias de factos estão ressalvadas do princípio do ónus de impugnação especificada,


nomeadamente: a) quando os factos não impugnados especificamente estejam em oposição com
a defesa no seu conjunto; d) se os factos recaírem sobre direitos indisponíveis; ou se c) os factos
só poderem ser provados por documento (art. 490/1 CPC).

[Link].Ónus especial de impugnação, nas acções que tenham por base um


título de obrigação assinado pelo réu

Quando a acção de condenação tenha por base um documento (título) comprovativo da


obrigação, assinado pelo réu ou supostamente assinado por este, tendo em conta a relevância de
tal documento, o autor tem a faculdade de requerer que o demandado seja citado para efeitos de,
na contestação, declarar se confessa ou nega a firma (assinatura) cuja autoria lhe é imputada pelo
autor (arts. 491/1 e 473, CPC, com a redacção dada pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro)164.

Perante uma citação nestes termos, o réu poderá ter uma das seguintes atitudes:

a) Confissão da assinatura e reconhecimento do crédito invocado pelo autor - é a confissão


do pedido pelo réu que conduzirá à sua condenação definitiva.

A confissão poderá ser tácita quando uma vez citado, o réu não faça declaração alguma, atento
ao regime aplicável à revelia do réu nos termos dos arts. 483 a 485, CPC, com a redacção dada
pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro, mas já não haverá confissão tácita quando haja falta de
declaração por parte do réu citado na qualidade de herdeiro ou representante de algum dos
firmantes e for incapaz, ou quando tiver sido citado por éditos (art. 491/1 e 3 CPC)165.
164
Tenha-se em conta que se o documento reunir os requisitos previstos pelo art. 46, al.c), CPC na
redacção pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro, o autor no lugar de mover acção declarativa, poderá (e
será razoável que o faça), lançar mão de acção executiva (arts. 801 e seguintes do CPC). A propósito
cumpre referir que se o autor lançar mão duma acção declarativa baseada num documento que lhe
permitiria partir imediatamente para uma acção executiva, tal acto reputar-se-á supérfluo, porque
desnecessário para a declaração ou defesa do seu direito, resultando disto que as custas deste acto ficarão
à sua conta (art. 448/2 CPC).
165
Tal se compreende dada a dificuldade que razoavelmente determinado herdeiro ou representante de um
dos firmantes, sendo incapaz teria para reconhecer a assinatura do autor da herança, pois não se trataria
duma assinatura pessoal, da sua autoria. Quanto ao réu citado por éditos, também se justifica a não
confissão da firma por falta de declaração, dado o carácter precário da citação edital, pois o réu pode até

125
b) Confissão da firma (expressa ou tacitamente) e negação da obrigação 166 - neste caso o
réu é logo condenado provisoriamente no despacho saneador, caso a acção deva
prosseguir, ficando a execução suspensa até à condenação definitiva, contanto o réu
preste caução (art. 491/2 CPC).

Se o réu impugnar a autenticidade da firma, a acção seguirá os seus termos normais (sem
condenação provisória do demandado), cabendo ao autor o ónus de provar, através de meios
adequados, a autoria da assinatura imputada ao demandado (art. 342/1 C.C.), porém, se vier a se
reconhecer que a firma em questão é da autoria deste, mas que antes a negara, será condenado
como litigante de má fé (art. 491/4 CPC).

O ónus de impugnação especificada vincula também ao MP quando em representação do Estado


e outras pessoas colectivas públicas, v.g., autarquias locais e institutos de utilidade pública, salvo
quando represente incapazes, ausentes e incertos167.

Sobre exemplos práticos de contestação-defesa nas modalidades de defesa por impugnação ou


defesa directa e defesa por excepção ou defesa indirecta, vejam-se os anexos IV A e IV B.

[Link]ção-reconvenção

Noção - consiste na dedução pelo réu (reconvinte) de um pedido autónomo (pedido


reconvencional) contra o autor (reconvindo).

O traço fundamental e característico do pedido reconvencional é o seu carácter autónomo, de tal


modo que transcende a simples improcedência da pretensão do autor e os corolários daí
decorrentes, os respectivos efeitos. É pela natureza autónoma do pedido reconvencional que
passa a haver uma nova acção dentro do mesmo processo, passando consequentemente a haver
duas acções cruzadas no mesmo processo.

Deste modo, o pedido reconvencional, enquanto nova acção dentro dum processo, deve reunir os
elementos duma petição inicial, ressalvados os que respeitam a identificação do tribunal e das
partes168, e a forma do processo, o que se percebe visto que tais elementos já constarão da
petição que deu lugar à acção que o réu está a contra-atacá-la através da contestação

mesmo depois da citação edital não ter tomado conhecimento que corre contra si uma acção e é chamado
a se defender, logo o seu silêncio poderia não seria voluntário.
166
Seria o caso de reconhecer como sua a firma aposta em documento comprovativo e obrigação
pecuniária, mas negar a obrigação alegando ter já pago ou satisfeito o respectivo crédito, sem contudo o
provar (segundo o art. 342/2 C.C o ónus de prova dos factos extintivos do direito invocado compete
àquele contra quem o direito é invocado).
167
No regime anterior às alterações introduzidas pelo DL 1/2005, o MP em nenhum caso estava vinculado
ao ónus de impugnação especificada, independentemente da entidade que representava.
168
Estando já rigorosa e exaustivamente identificadas as partes na petição inicial, é prática comum a sua
identificação nos articulados subsequentes mediante mera menção dos seus nomes.

126
reconvenção (art. 501/1 e 2, CPC, com as alterações introduzidas pelo DL 1/2005, de 27 de
Dezembro)169.

[Link] de admissibilidade da reconvenção

A admissão da reconvenção está condicionada à verificação de determinados requisitos, quer


processuais quer substantivos.

1oRequisitos processuais - para que o pedido reconvencional seja admitido devem se verificar os
seguintes requisitos:

a )competência do tribunal - o tribunal onde a acção foi proposta, relativamente a reconvenção


deve ser competente em razão da matéria, da hierarquia e da nacionalidade, sendo irrelevante a
falta de competência em razão do valor ou do território (art. 98 CPC170).

Portanto, basta que não haja incompetência absoluta do tribunal para que a reconvenção seja
admitida e o tribunal possa e deva conhecer dela, de contrário o reconvindo (autor noutra acção)
é absolvido da instância.

b)Forma de processo - a forma de processo aplicável ao pedido reconvencional deve


corresponder à aplicável ao pedido principal, excepto se a diferença dever-se apénas à diferença
dos valores dos pedidos (art. 274/3)171.

2oRequisitos substantivo - relativamente aos requisitos substantivos, nos termos do art. 274/2
CPC, em três casos é admissível a reconvenção:

a) Conexão entre o pedido do réu e o facto jurídico que serve de fundamento à acção ou à
defesa - a génese do pedido reconvencional está no facto jurídico (real ou concreto) que
serve de fundamento, quer à acção quer à defesa. Há que se atentar ao facto jurídico que
serve de fundamento à acção ou à defesa, se do mesmo pode resultar um pedido por parte
do réu, pedido esse que poderia ser formulado numa outra acção, mas que é lícito a este

169
Do pedido-reconvencional deverão constar os factos e razões de direito que servem de fundamento, a
formulação do pedido e o valor da reconvenção (art. 501/1 e 2, com referência ao art. 467/1, ambos do
CPC, com a redacção dada pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro).
170
Redacção dada pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro.
171
O processo declarativo pode ter a forma ordinária ou sumária, consoante o valor da causa exceda ou
não a alçada do tribunal judicial provincial (art. 462/1 do CPC, com a redacção dada pelo DL 1/2009, de
24 de Abril).

127
deduzi-lo, a título de reconvenção, na acção que lhe foi movida pelo autor 172 (art. 274/2,
al. a), CPC).
b) Pretensão de obtenção de compensação ou efectivação do direito a benfeitorias ou de
despesas cuja entrega lhe é pedida - é admissível deduzir reconvenção para efeitos de
indemnização por benfeitorias173 ou despesas (estas diversas das benfeitorias porque nada
têm a ver com a conservação ou melhoria da coisa) que realizou pela coisa cuja entrega é
exigida na acção (art. 274/2, al. b), CPC).

Embora o Código de Processo Civil no seu art. 274/2 não preveja a admissibilidade da
reconvenção para efeitos de compensação de créditos (cujo regime jurídico vem consagrado nos
artigos 847 a 856 CC), não repugna que, ressalvada a controvérsia doutrinal quanto à sua
natureza jurídico-processual174, para tais casos ela seja admitida, por não ser razoável que, por
exemplo, numa acção declarativa de condenação para pagamento de quantia certa, não possa o
réu, caso também tenha direito de crédito de cujo devedor é o autor, deduzir pedido
reconvencional, demonstrado e provado o seu crédito, pedindo ao tribunal que condene o autor a
satisfazer o seu crédito e, consequentemente, declarar por sentença a compensação das dívidas,
pois, doutro modo estaria obrigado a mover outra acção contra o autor, de quem é devedor e
credor em simultâneo.

Aliás, se a compensação torna-se efectiva através de uma declaração (extrajudicial) de uma das
partes à outra (art. 848/1 CC), pode a mesma ser feita judicialmente.

172
Para elucidar este caso, Antunes Varela e outros referem-se a um exemplo em que o autor pede a
condenação do réu na prestação a que este se obrigou no contrato bilateral ou sinalagmático por ambos
firmados. Em tal hipótese o réu pode, através da reconvenção, exigir o cumprimento judicial da prestação
a que o autor, por força do mesmo contrato, se encontra adstrito para com o réu. É um exemplo em que o
facto jurídico que serve de fundamento à acção, concretamente o contrato bilateral, dele emergiu o pedido
reconvencional do réu.

Num outro exemplo, Antunes Varela e outros referem-se a exigência ao condutor, pelo dono da viatura,
de indemnização por danos causados, atribuindo o acidente à manifesta imperícia do réu. Neste caso o réu
poderá, se for o caso, exigir do autor, através da reconvenção, indemnização dos prejuízos materiais e
morais que sofreu na sua pessoa, caso atribua a causa do acidente ao mau estado de conservação em que a
viatura se encontrava, por culpa exclusiva do autor. Neste caso, o facto jurídico que serve de fundamento
à defesa, concretamente o mau estado de conservação em que a viatura se encontrava, por culpa exclusiva
do autor, dele emerge o pedido reconvencional do réu, ou seja, com base no facto jurídico que serviu de
fundamento à sua defesa, o réu deduziu reconvenção (Antunes Varela, J. Miguel Bezerra e Sampaio e
Nora, Manual de Processo Civil – De acordo com o DL n. o 242/85, 2a Edição (Reimpressão), Coimbra
Editora, Limitada, 2004, páginas 327 a 328).
173
O direito a benfeitorias vem consagrado nos arts. 1273 e 1275, ambos do C.C.
174
A generalidade dos autores reconhece à compensação de créditos natureza reconvencional nos casos
em que o contra-crédito invocado pelo réu exceda o valor reclamado pelo autor na acção, pois em tal caso
haverá um pedido autónomo por parte do réu, concretamente a condenação do autor no pagamento da
diferença que lhe é favorável. Porém, a divergência surge nos casos em que o contra-crédito é igual ou
inferior ao exigido pelo autor, pois em tal caso o réu pretende a improcedência total ou parcial do pedido
do autor, e não a condenação deste numa prestação a seu favor, e neste caso a compensação reveste
natureza híbrida de reconvenção e excepção peremptória, com maior tendência para a natureza de
excepção peremptória dado o efeito que dele emerge, a improcedência total ou parcial do pedido do autor.

128
c) Reversão, a favor do réu, do mesmo efeito jurídico pretendido pelo autor - quando o réu
concorde com o efeito jurídico pretendido pelo autor, mas pretenda que o mesmo seja
decretado a seu favor, em tal caso pode fazê-lo mediante reconvenção alegando novas
causas susceptíveis de fundamentarem a sua pretensão, coincidente com a do autor, mas
em seu benefício (art. 274/2, al. c, CPC), pois, tal pode ter importantes reflexos
(patrimoniais ou pessoais)175, designadamente nas acções de divórcio ou de separação
judicial de pessoas e bens.

Constitui exemplo prático da contestação-reconvenção a que consta do presente texto como


anexo VA.

Nos termos do artigo 488 do CPC176, constituem elementos da contestação:

 A individualização da acção contra a qual o réu se defende;


 A exposição separada das excepções deduzidas, dos factos, das razões de direito e das
conclusões da defesa177; e
 A junção de documentos, apresentação do rol de testemunhas e requerimento de outros
meios de prova.

[Link] à contestação/resposta à reconvenção

Resposta à contestação, articulado que também se designa por réplica, é o articulado através do
qual o autor responde à contestação do réu, só admissível quando este tenha deduzido alguma
excepção, seja dilatória seja peremptória, ou quando o réu tenha formulado um pedido
reconvencional (art. 502/1, CPC178).

No caso de haver lugar a resposta à contestação por virtude do réu na contestação ter deduzido
alguma excepção, aquela deve cingir-se somente à matéria da excepção (art. 502/1, 1a parte ,
CPC), o mesmo sucedendo relativamente ao âmbito da resposta à contestação no caso de o réu
ter deduzido reconvenção, caso em que a resposta à contestação também deve restringir-se à
matéria da reconvenção, na medida em que esta é que é condição para que haja lugar a resposta
à contestação.

A resposta à contestação e a resposta à reconvenção têm, assim, por função responder às


excepções invocadas pelo demandado e de contestar o pedido reconvencional, respectivamente.

Relativamente ao prazo para apresentação da resposta à contestação, é de dez dias subsequentes


à notificação da contestação ao autor, sendo contudo de vinte dias caso tenha havido
reconvenção (art. 502/2, com referência ao art. 492, e art. 504/1 do CPC, com a redacção dada
175
A propósito vejam-se os artigos 188 e 201, ambos da Lei n o. 10/2004, de 2 de Agosto, quanto aos
efeitos patrimoniais.
176
Redacção dada pelo DL n.o 1/2009, de 24 de Abril.
177
Na prática, nem sempre se revela conveniente a exposição separada das razões de facto e das razões de
direito, antes e com relativa frequência se fazendo a exposição de umas e outras em simultâneo.
178
Redacção dada pelo DL n.o 1/2009, de 24 de Abril.

129
pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro), sendo que na resposta à reconvenção não pode o autor
deduzir nova reconvenção (art. 504/2 CPC).

A resposta à contestação ou resposta à reconvenção a deduzir pelo autor, são articulados


relevantes juridicamente, de tal modo que a sua falta ou a falta de impugnação, em qualquer
deles, dos novos factos alegados pela parte contrária (na contestação em que se deduza excepção
ou se deduza reconvenção), tem como efeito que se consideram admitidos por acordo tais factos
(art. 505/1, com referência ao art. 490, CPC com a redacção dada pelo DL 1/2009, de 24 de Abril
- ónus de impugnação especificada)179, salvo quando se trate de incapazes, ausentes e incertos,
desde que representados por Ministério Público ou advogado oficioso (art. 490/4, aplicável ex vi
art. 505/1, CPC).

Tal como sucede na contestação, na resposta à contestação (em que foi deduzida alguma
excepção) e na resposta à reconvenção, ao Ministério Público pode ser concedida prorrogação
de prazo, a seu pedido, devidamente fundamentado, quando careça de informações que não
possa obter dentro do prazo para o oferecimento do articulado em alusão ou quando aguarde
resposta a consulta feita a instância superior, não podendo a prorrogação ir para além de noventa
dias (art. 505/2, com referência ao art. 486/3, ambos do CPC180).

Face ao novo regime introduzido pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro, a tréplica enquanto
articulado, peça através da qual o réu responde à replica do autor, deixou de existir, porque
revogado o art. 503 CPC que a consagrava (vide art. 3 do DL 1/2005).

Sobre exemplo prático de resposta à contestação, vide anexo VB.

[Link] de contestação. Efeitos da revelia

Quando o réu representado pelo MP (toda e qualquer entidade, excepto o incapaz, desde que a
causa esteja no âmbito da incapacidade) 181 não conteste, tendo sido ou devendo considerar-se
citado regularmente na pessoa deste, consideram-se confessados os factos articulados pelo autor
(art. 484/1 CPC), salvo quando, havendo vários réus, algum deles contestar, quanto aos factos
que o contestante impugnar; quando o réu ou algum dos réus for um incapaz, independentemente
de ser ou não representado pelo MP, e a causa estiver no âmbito da incapacidade; quando se
trate de relações indisponíveis182; e quando se trate de factos cuja prova se exija documento
escrito (art. 485, CPC183).

179
A não ser que os factos alegados pelo réu e não especificadamente impugnados pelo autor estejam em
manifesta oposição com a resposta à contestação/reconvenção no seu conjunto.
180
Redacção dada pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro.
181
No regime anterior às alterações introduzidas pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro, o regime dos
efeitos da revelia, para além dos casos em que o réu fosse um incapaz e a causa estivesse no âmbito da
incapacidade, também não se aplicava quando o réu fosse uma pessoa colectiva, designadamente
associações, fundações e sociedades civis sem fim lucrativo (art. 157 [Link]).
182
V.g. acção declarativa constitutiva (acção de divórcio litigioso) em que o Ministério Público representa
réu ausente.
183
Redacção dada pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro.

130
[Link] supervenientes

Na pendência da causa podem ocorrer factos relevantes, quer relativamente à pretensão


deduzida pelo autor, quer quanto à defesa deduzida pelo réu ou contra-pretensão por este
deduzida, porque factos constitutivos, modificativos ou extintivos do direito que assiste a uma ou
outra parte.

Tais factos, desde que tenham influência no conteúdo da relação controvertida e por isso a
sentença deva tê-los em consideração (art. 663/1 e 2, CPC), poderão ser deduzidos em novo
articulado pela parte a quem aproveitam, até ao encerramento da discussão, ou seja, o momento
que precede o julgamento da matéria de facto (art. 506/1 CPC184). Ao articulado em que se
deduz tais factos, que é um novo articulado, designa-se por articulado superveniente,
denominação que decorre da natureza superveniente dos factos nele deduzidos.

Com efeito, nos termos do art. 506/2 CPC, factos supervenientes são aqueles ocorridos
posteriormente ao termo dos prazos marcados nos artigos precedentes ao art. 506, artigos que
consagram o regime jurídico da petição inicial, contestação, resposta à contestação/reconvenção
(superveniência objectiva), bem como os verificados antes, mas cuja ocorrência só mais tarde
veio ao conhecimento da parte a quem aproveitam (superveniência subjectiva), devendo
produzir-se prova da superveniência.

O prazo para apresentação de novo articulado ou articulado suprveniente, é de dez dias


posteriores à data em que os factos ocorreram no caso de superveniência objectiva, ou à data em
que a parte teve conhecimento deles no caso de superveniência subjectiva (art. 506/3, 1a parte,
CPC).

[Link] dos articulados supervenientes

Tal como sucede com a petição inicial, o articulado superveniente pode ser objecto de rejeição
liminar (indeferimento liminar) por extemporaneidade ou por manifesta impertinência dos factos
alegados, ou seja, quando estes não interessem à boa decisão da causa por não influírem no
conteúdo da relação controvertida (art. 506/3 CPC).

Caso não haja rejeição liminar do novo articulado, é este notificado à parte contrária para
responder, também em novo articulado, no prazo de cinco dias (art. 506/3, 2a parte, CPC).

Poder-se-á questionar se na resposta ao novo articulado aplica-se o ónus de impugnação


especificada consagrado no artigo 490 CPC.

Ora, tendo em conta que o disposto no artigo 506/3, que consagra o regime de resposta ao novo
articulado, manda observar o prescrito no artigo 505 no que diz respeito a resposta ao novo

184
Redacção dada pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro.

131
articulado, resulta daí que efectivamente na resposta ao novo articulado deve-se observar o ónus
de impugnação especificada.

Concretamente, a falta de resposta ao articulado superveniente ou a falta de impugnação, na


resposta ao articulado superveniente, dos novos factos alegados pela parte contrária, tem como
efeito que se consideram admitidos por acordo tais factos (art. 505/1185, com referência ao art.
490, CPC, aplicável por força do art. 506/3), salvo quando se trate de incapazes, ausentes e
incertos, desde que representados por MP ou advogado oficioso (art. 490/4, aplicável ex vi art.
505/1, e este por força do art. 506/3 CPC).

Com efeito, por um lado, tendo em conta que a resposta ao articulado superveniente, é um meio
de defesa como qualquer outro, como é o caso de contestação, e por outro, tendo em conta que
os factos articulados que interessem à decisão da causa são incluídos ou aditados na matéria de
facto controvertida, ou na especificação e questionário nas causas em que a estes haja lugar (arts.
506/4 e 650/2, al. f), CPC), e sobretudo tendo em conta que o artigo 506/3 do CPC manda aplicar
o prescrito no artigo 505, que manda observar o ónus de impugnação especificada relativamente
a resposta à contestação ou à reconvenção, apesar do artigo 505 não abranger na sua previsão os
articulados supervenientes, resulta daí que a parte que apresenta resposta ao novo articulado
deverá observar o ónus de impugnação especificada, sob as cominações previstas pelo artigo 490
CPC.

Aliás, o legislador ao mandar observar o disposto no artigo 505 na apresentação da resposta ao


novo articulado, fê-lo com o objectivo de obrigar à observância do ónus de impugnação
especificada neste articulado superveniente, doutro modo não se perceberia a remissão àquele
artigo (art. 506/3 CPC). Por força desta remissão o MP tem a faculdade de requerer ao tribunal
prorrogação de prazo, até ao limite de noventa dias, para apresentar resposta ao novo articulado
“…quando careça de informações que não possa obter dentro…” do prazo fixado pelo art. 506/3
para apresentação de resposta ao novo articulado, “…ou quando tenha de aguardar resposta a
consulta feita a instância superior….” (art. 486/3, aplicável ex vi arts. 505/2 e 506/3, todos do
CPC186).

Quaisquer provas de que a parte disponha deve oferecê-las com o novo articulado
e com a resposta a este, como resulta do art. 506/3, in fine do CPC.

[Link] de má fé

O conceito de má fé pode-se extrair das disposições do artigo 456/2 CPC. Em atenção a este
artigo, há má fé quando o litigante não só tenha deduzido pretensão ou oposição cuja falta de
fundamento não ignorava, como também quando tenha, de forma consciente, alterado a verdade
dos factos ou omitido factos essenciais, e ainda quando tenha feito do processo ou dos meios
processuais um uso manifestamente reprovável, em qualquer dos casos com o fim de conseguir
um objectivo ilegal ou de entorpecer a acção da justiça, ou de impedir a descoberta da verdade.
185
Com a redacção dada pelo DL 1/2009, de 24 de Abril.
186
Redacção dada pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro.

132
Antes do novo regime introduzido pelo DL 1/2005, competia ao MP pronunciar-se sobre a má fé
dos litigantes (art. 658/1, CPC, regime anterior), mas face as alterações introduzidas por aquele
diploma legal, este acto de fiscalização do MP deixou de existir, devendo, porém, ter lugar
relativamente aos processos que se encontravam pendentes à data de entrada em vigor do
Decreto-Lei em alusão, desde que a citação do réu ou de terceiros ainda não tivesse sido
efectuada ou ordenada (art. 4/1, DL 1/2005, de 27 de Dezembro).

Constatando má fé por parte de algum litigante, o MP deverá promover a sua condenação em


multa, bem assim a condenação numa indemnização à parte contrária em atenção aos critérios
consagrados no artigo 457 CPC, desde que esta a tenha pedido (art. 456/1 CPC).

Não obstante face ao novo regime não competir ao MP fiscalizar a existência ou não de má fé, é
importante que o magistrado do MP tenha capacidade de aferi-la, quando seja o caso, nos casos
em que intervenha num processo em representação de uma das partes, para que possa pedir ao
tribunal a condenação da parte contrária, litigante em má fé, em indemnização a favor da
entidade que representa.

[Link] actos do Ministério Público

Enquanto Advogado de alguma entidade parte em determinado processo, mormente o Estado e


outras pessoas colectivas públicas, o MP poderá praticar actos que se traduzem em reclamação,
com fundamento na deficiência, excesso, complexidade ou obscuridade, face ao despacho
organizativo da especificação e questionário (art. 511/1 e 2, CPC187).

Com efeito, ocorrendo que o MP não se conforme com o despacho organizativo da especificação
e questionário, com qualquer um dos fundamentos acima mencionados, cabe-lhe fazer
reclamação, avançando-se como exemplos práticos duas reclamações que constituem anexos VI
A e VI B.

O despacho organizativo da especificação e questionário é de capital importância para o rumo e


sentido de decisão pelo tribunal no processo, pois decidindo o tribunal mediante interpretação e
aplicação do direito aos factos, estes deverão ser aqueles que tiverem sido dados por provados,
sabido que a matéria seleccionada para a especificação é a que é considerada como provada
antes do julgamento, e relativamente a matéria constante do questionário, pode vir a ser provada
em sede de julgamento, não sendo de todo irrelevantes os termos em que a especificação e o
questionário são elaborados, razão porque contra o despacho organizativo de especificação e
questionário pode ser apresentada reclamação com fundamento em deficiência, excesso,
complexidade ou obscuridade, como resulta do disposto no art. 511/2 do CPC188.

187
Redacção dada pelo DL n.o 1/2009, de 24 de Abril.
188
Redacção dada pelo DL n.o 1/2009, de 24 de Abril.

133
O despacho que recair sobre as reclamações só pode ser impugnado com o recurso que vier a ser
interposto da decisão final (art. 511/4 do CPC 189), constituindo o recurso também um acto de
magistrados do MP.

De conformidade com o n.o 2 do art. 676 do CPC190, os recursos podem se ordinários ou


extraordinários. Integram a modalidade de recursos ordinários a apelação, a revista, o agravo e
o recurso para o plenário do Tribunal Supremo, e são recursos extraordinários a revisão, a
oposição de terceiros e a suspensão da execução e anulação de sentenças manifestamente injustas
ou ilegais.

Enfim, excepcionalmente, o MP poderá fazer uma promoção no sentido que julgar pertinente e
legal, na forma de parecer, quando o processo lhe tenha sido presente com vista para o efeito,
após despacho do juiz que, face a determinada questão que deva decidir, julgue conveniente
ouvir primeiro o MP, sem que fique vinculado ao parecer por este dado191.

No entanto, é evidente que tal acto não poderá se justificar que tenha lugar quando o MP
represente uma das partes do processo, pois, em tal caso não estaria garantida a imparcialidade e
objectividade do parecer do MP.

Embora não seja um acto do MP susceptível de ser praticado em sede de processo declarativo,
uma menção se impõe aos pareceres jurídicos que, a nível central, a Procuradoria-Geral da
República pode emitir nos casos de consulta obrigatória previstos na lei ou por solicitação do
Conselho de Ministros e, a nível local, a alusão aos pareceres jurídicos emitidos pelas
Procuradorias da Província sobre questões que lhe hajam sido submetidos pelos órgãos do
Estado e instituições estatais da província, pois tratando-se de pareceres jurídicos emitidos por
órgãos do MP, nas diversas áreas jurídicas, no fundo trata-se de actos desta instituição, como se
pode constatar do disposto na alínea d), do art. 12, e alínea j), do art. 42, ambos da Lei n. o
22/2007, de 1 de Agosto).

189
Redacção dada pelo DL n.o 1/2009, de 24 de Abril.
190
Redacção dada pelo DL n.o 1/2009, de 24 de Abril.
191
No caso especial do processo de justificação judicial, uma forma de processo prevista pelo art. 292 do
Código do Registo Civil, aprovado pela Lei no. 12/2004, de 8 de Dezembro, como um dos meios
processuais privativos de actos de registo civil e regulado por este mesmo diploma legal nos seus artigos
306 a 313, quando o processo lhe é presente proveniente do tribunal para onde é remetido pela
Conservatória de Registo Civil competente devidamente instruído, via de regra por prova documental e
testemunhal (art. 310 do Código do Registo Civil), o MP promove a procedência ou improcedência do
pedido nele deduzido, apresentando os fundamentos de facto face a leitura que faz dos autos e os
fundamentos de direito, revestindo a sua promoção um verdadeiro parecer. Portanto, este é um caso
paradigmático em que o Ministério Público pode fazer promoção na forma de parecer por força da lei,
porém, em sede de processo de justificação judicial e não de processo declarativo comum.

134
[Link] dos magistrados do Ministério Público no processo
declarativo sumário - particularidades. Tendência geral do
processo sumário

O processo sumário é empregue quando o valor da causa não exceda a alçada do tribunal
judicial provincial192 (art. 462 CPC, com a redacção dada pelo DL 1/2009, de 24 de Abril).

O processo sumário tem um regime específico que é integrado pelas:

1o Disposições especiais do processo sumário (arts. 783 a 792, CPC);


2o Disposições gerais e comuns (arts. 137 a 466, CPC); e
3o Disposições que regem o processo ordinário (arts. 467 a 782), neste último caso na falta ou
insuficiência das normas especiais do processo sumário e das normas gerais e comuns, como
resulta do disposto no artigo 463/1 CPC.

As normas próprias e especiais do processo sumário revelam duas notas características desta
forma de processo:

-Notória simplificação dos actos que integram o formalismo do processo sumário; e


-Apreciável aceleração do ritmo do processo mediante encurtamento dos prazos mais
significativos.

[Link]

À semelhança do processo ordinário, o processo sumário também comporta, via de regra, apenas
dois articulados: a petição inicial e a contestação.

Excepcionalmente, poderá haver um terceiro articulado, a resposta à contestação quando se


verifique uma das seguintes três situações:

1o Quando o réu tenha deduzido alguma excepção, caso em que o autor poderá responder
somente quanto à matéria desta (art. 785 CPC);
2o Quando o réu tenha deduzido reconvenção, caso em que o autor poderá responder somente
quanto à matéria do pedido reconvencional (art. 786 CPC); e
3o Tratar-se de acção de simples apreciação negativa (art. 786 CPC).

O prazo para contestação é mais curto, sendo de dez dias e não vinte como no processo
ordinário (art. 783 CPC).

Enquanto no processo ordinário a cominação para a falta de contestação consiste em dar-se por
confessados os factos articulados pelo autor, no processo sumário a consequência é a
A alçada dos tribunais judiciais provinciais é de valor equivalente a cinquenta vezes o salário mínimo
192

nacional (art. 38/1, 1a parte, Lei no. 24/2007, de 20 de Agosto).

135
condenação no pedido (condenação de preceito), salvo se o pedido recair sobre uma relação
indisponível ou se o réu for um incapaz (o Ministério Público representa o incapaz nos termos
previstos pelo art. 15/1 CPC) e a acção se situe no âmbito da incapacidade (art. 784/2 e 3, CPC).

No caso específico de falta de contestação havendo vários réus, a condenação de preceito


funciona relativamente aos réus que não tenham contestado, desde que não sejam incapazes, a
não ser que se trate de litisconsórcio necessário ou que o réu não contestante seja um mero
garante da obrigação (art. 784/3 CPC).

Se houver lugar a um terceiro articulado, este deverá ser oferecido no prazo de cinco dias
contados da notificação da apresentação da contestação quando se trate de responder à matéria
das excepções, e de dez dias caso a resposta se reporte à reconvenção ou se trate de acção de
simples apreciação negativa (arts. 785 e 786, CPC).

Portanto, a petição inicial, a contestação e excepcionalmente a resposta à contestação, traduzem


os actos processuais que em processo sumário poderão ser praticados pelo Ministério Público
quando represente uma das partes do processo, pois, são estes os articulados que podem ter lugar
nesta forma de processo declarativo.

Tenha-se em atenção que por força do disposto no artigo 463/1, in fine CPC, também no
processo sumário, verificados os respectivos pressupostos legais, poderá haver lugar a
articulados supervenientes cujo regime se encontra consagrado em sede de processo ordinário,
pelo que os articulados supervenientes poderão traduzir actos processuais também que o MP
poderá praticar quando intervenha no processo em representação de uma das partes.

[Link] de indeferimento liminar

À semelhança do que sucede no processo ordinário, a petição inicial pode ser liminarmente
indeferida nos termos do art. 784/1 CPC, designadamente no caso de ineptidão da petição
inicial, ocorrência manifesta de excepções dilatórias que sejam de conhecimento oficioso,
extemporaneidade da acção, sendo a caducidade de conhecimento oficioso, e no caso de o juiz
reconhecer que o autor pretende realizar um fim proibido por lei (art. 784/1, com referência ao
art. 474/1, als. a), b), e c), 1a parte, e 495, CPC).

No entanto, o juiz poderá convidar o autor a corrigir ou completar a petição inicial deficiente ou
irregular, se for caso disso, em vez de indeferi-la liminarmente (art. 477, aplicável ex vi art.
463/1, CPC193).

[Link] de má fé e outros actos dos magistrados do Ministério


Público

193
Redação dada pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro.

136
Relativamente ao visto de má fé e outros actos dos magistrados do MP, em sede de processo
sumário aplica-se mutatis mutandis o que foi referido acima em sede de processo declarativo
ordinário por força do disposto no artigo 463/1 CPC.

Conclusão

Em processo declarativo, seja na forma ordinária seja na forma sumária, o Ministério Público
prática actos processuais em representação do Estado, autarquias locais ou outras pessoas
colectivas de utilidade pública, incapazes, ausentes e incertos, actos que se traduzem na petição
inicial, contestação, resposta à contestação/reconvenção e articulados supervenientes,
reclamações contra a especificação e questionário, e o recurso, nas suas mais diversas formas, de
sentença ou despacho.

Deste modo, o MP pratica actos como o fazem o advogado constituído ou o advogado oficioso,
intervindo no processo, não munido de jus impere, mas em pé de igualdade com os privados,
porquanto estamos no âmbito das relações jurídico-privadas, estando vinculado às regras
processuais que vinculam o advogado constituído e o advogado oficioso, como é o caso da
obrigatoriedade de observância do ónus de impugnação especificada e a sujeição aos efeitos da
revelia, salvo nos casos em que represente incapazes, ausentes e incertos, no caso do ónus de
impugnação, ou quando represente o incapaz e a causa estiver no âmbito da incapacidade, no
caso dos efeitos da revelia.

O magistrado do MP deverá ter em atenção que a extensão da prorrogação de prazo para


apresentação de contestação, resposta a contestação/reconvenção e resposta a novo articulado,
ficou reduzida para noventa dias, contra os seis meses no regime antigo, devendo a prorrogação
ser requerida antes do termo final do prazo legal para apresentação do articulado.

Enfim, para além de actos processuais que pode praticar enquanto patrono de uma das partes do
processo, o magistrado do MP pode ainda fazer despacho, em forma de promoção,
pronunciando-se sobre a má fé dos litigantes, porém, apenas nos processos em que à data da
entrada em vigor do novo regime introduzido pelo DL n. o 1/2005, de 27 de Dezembro, a citação
ainda não tinha sido efectuada ou ordenada, bem assim ainda poderá fazer promoção, sob forma
de parecer, pronunciando-se sobre qualquer questão que deva ser decidida pelo juiz, desde que
este exare despacho no sentido de remessa do processo ao MP para o efeito, ou naqueles
processos em que a lei assim o prevê.

Quanto à prática de actos pelo MP na qualidade de patrono de uma das partes ao processo, refira-
se que poderá fazê-lo intervindo, quer a título principal quer a título acessório.

Enfim, apesar de não serem actos dos magistrados do MP que estes possam praticar no âmbito
dum processo declarativo, é pertinente a referência aos pareceres jurídicos que podem ser
emitidos pela Procuradoria-Geral da República e pelas Procuradorias da Província,

137
respectivamente a nível central e nível local, quando obrigatórios ou a pedido dos órgãos do
Estado em cada nível, por no fundo tratar-se de actos dos magistrados do MP, pois a
Procuradoria-Geral da República e as Procuradorias da Província são órgãos do MP e é através
deles que este funciona, representado por magistrados, o seu capital humano.

-Bibliografia

[Link], Antunes, BEZERRA, J. Miguel e NORA, Sampaio, Manual de Processo Civil, 2a


Edição, Coimbra Editora, Limitada, 1985;
[Link], Antunes, BEZERRA, J. Miguel e NORA, Manual de Processo Civil, 2a Edição,
Coimbra Editora, 2004.

-Legislação

[Link], Susana, GOUVEIA, Jorge Bacelar e MASSANGAI, Arão Feijão, Código Civil e
Legislação complementar, Maputo, 1996;
[Link]ção da República de 2004;
[Link], José Norberto, Colectânea de Legislação Constitucional, Ministério da Justiça -
Centro de Formação Jurídica e Judiciária, Maputo, 2009;
[Link] no. 10/2004, de 25 de Agosto, aprova a lei da família e revoga o Livro IV do Código Civil,
Imprensa Nacional de Moçambique, Maputo, 2004;
[Link], Abílio, Código de Processo Civil Anotado, Livraria Almedina, Coimbra, 1994.

138
-Anexos

Anexo IA – Acção Declarativa de Condenação194


(responsabilidade civil por danos)
194
Embora neste exemplo prático de petição inicial à partida ressaltem dois aspectos que podem ser
invocados na contestação, concretamente a incompetência material do tribunal judicial para decidir o caso
e o facto do agente alegadamente causador do dano não ter sido demandado conjuntamente com o Estado,
dado o direito de regresso a favor deste em caso de condenação, tal não é relevante para efeitos do
objectivo pretendido com o exemplo, visto que o fim é mostrar como do ponto de vista formal ou de
forma deve ser elaborada uma petição, sem a preocupação de cuidar em todos os exemplos de questões de
conteúdo ou substância, estas que interessam ao mérito ou fundo da causa, se bem que os aspectos
anteriormente referidos impedem a apreciação pelo tribunal do fundo ou mérito da causa, porque
excepções dilatórias de conhecimento oficioso, desde que suscitadas pela parte a quem aproveitam ou
apreciadas ex officio pelo tribunal, o que significa que em casos reais não podem ser descurados sob pena
e risco de indeferimento liminar da petição pelo tribunal.
Aliás, no caso real que serviu de fonte de inspiração para elaboração do exemplo em alusão, também
foram descuradas tais questões, uma razão porque em sede de exemplos práticos de contestações
apresentaremos uma peça processual (contestação) em confronto com a petição em apreço.

139
Petição Inicial

Meritíssimo Senhor Juiz de Direito Tribunal Judicial do Distrito Urbano n.o 1


Maputo

Aurélio Liliane, solteiro, maior, empresário, residente na cidade de Maputo, Av. Karl Marx, n.o
1, 40o andar, vem propor e fazer seguir a presente

Acção Declarativa de Condenação, com processo ordinário,

Contra Estado de Moçambique, representado pelo Ministério Público,


nos termos e fundamentos seguintes:

Dos factos

Autor é empresário de profissão e como tal dedica-se à actividade de electricidade e mecânica -
auto, possuindo uma oficina sita próximo da sua residência, concretamente na Av. Karl Marx, n. o
3, R/C, nesta cidade, onde desenvolve a sua actividade empresarial de reparação eléctrica e
mecânica de viaturas.


No passado dia 4 de Dezembro de 2008, o agente da Polícia da República de Moçambique afecto
ao Comando da PRM - Cidade de Maputo, de nome Arlindo Carlos, alegando irregularidade da
matrícula e graves deficiências mecânicas, apreendeu na via pública, bem próximo das
instalações onde funciona a oficina do ora autor, que se encontrava estacionada, a viatura de
marca Toyota CALDINA, com a chapa de matrícula MMA-00-00, que autor comprara passavam
duas semanas afim de reacondiciona-la e proceder a sua posterior revenda. Doc 1.


O agente que apreendeu a viatura, não dispondo das chaves e encontrando-se o ora autor ausente
do local, efectuou a ligação directa e conduziu a mesma até ao recinto do Comando da PRM -
Cidade de Maputo, onde a estacionou no respectivo parque.


Informado sobre o sucedido via telefone por um dos mecânicos que na ocasião se encontravam
de serviço e que não puderam impedir a apreensão da viatura, o ora autor dirigiu-se ao Comando
da PRM - Cidade de Maputo, onde foi informado que a viatura fora apreendida por infracção ao
Código da Estrada, e que deveria retornar na manhã do dia seguinte para resolver o assunto com
a instituição, tendo assim procedido.

No entanto,

À sua chegada ao Comando na manhã do dia seguinte (5 de Dezembro de 2008), para o seu
espanto e tristeza, constatou que a sua viatura tinha pegado fogo, o que decerto deveu-se à
conduta do já referido agente Arlindo Carlos, que consta ter tentado movimenta-la no interior do

140
parque do Comando quando se estava a fazer a arrumação das viaturas ali estacionadas, o que fez
certamente com recurso à ligação directa, de que terá resultado um curto-circuito, incêndio e
explosão, visto que o tanque de combustível encontrava-se cheio de gasolina.


Em consequência do incêndio a viatura sofreu danos avaliados em 70.000,00MT, tendo valido a
pronta intervenção do corpo de bombeiros que evitou o pior, pois, consta ter sido chamado, via
telefone, pelo Oficial de permanência que se encontrava de serviço no Comando. Há nexo de
causalidade entre a conduta do agente em causa e os danos causados.


O Comando da PRM reconheceu a culpa pelo sucedido, porém, os prejuízos causados ao autor
ainda não foram reparados, por o Comando Geral da PRM condicionar o pagamento dos
prejuízos à condenação por sentença judicial.

Do Direito


A responsabilidade do Estado decorre do disposto no art. 58/2 da CRM de 2004 art. 501 do
[Link], e no caso em apreço pela violação ilícita, com mera culpa, do direito de propriedade do
Autor pelo agente do Réu Estado (art. 483/1 do [Link]).


As partes são legítimas, têm personalidade e capacidade judiciárias, o processo é próprio e o
tribunal é competente.

Do pedido

Nestes termos e demais de direito, deve a presente acção ser julgada provada e procedente,
e consequentemente deve o réu Estado ser condenado a pagar ao autor a quantia de
75.000,00MT a título de indemnização.

Para tanto, D. e A. se requer a citação do Estado de Moçambique para contestar, querendo,


sob cominação legal, seguindo os autos ulteriores termos até final.

Valor: 70.000,00MT
Junta: 1 documento, procuração forense e duplicados legais

Maputo, ao 24 de Fevereiro de 2009.


O Advogado
Com carteira profissional n.o…

(Nome)

141
Anexo IB – Acção Declarativa de Condenação
(responsabilidade civil por danos)
Petição Inicial

REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE
PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA
Procuradoria da República da Cidade de Maputo

Meritíssimo Senhor Juiz de Direito do Tribunal Judicial da Cidade de Maputo

Estado de Moçambique, representado pelo Ministério Público (art. 20/1 CPC), vem propor e
fazer seguir a presente

Acção Declarativa de Condenação, com processo ordinário, contra

António Imprudente, residente na Avenida de Moçambique, Bairro 25 de Junho, no. 500,


nos termos e fundamentos seguintes:


António Imprudente, adiante designado R., à data dos factos era funcionário do Estado de
Moçambique, doravante designado A., com a categoria de condutor de veículos ligeiros pesados
profissional, nomeado por despacho do Governador da Cidade de Mapulandia, visado pelo
Tribunal Administrativo em 23 de Agosto de 2007 e publicado no BR n. o 00/2007, II Série, de 17
de Outubro do mesmo ano. Doc. 1.


Na qualidade de motorista tinha por função fazer transporte de recolha e distribuição dos
funcionários afectos ao Governo da Cidade de Mapulandia, usando para o efeito o autocarro de
marca Toyota Coaster, matrícula MQA-00-00, com capacidade para 25 passageiros, propriedade
do Estado- Governo da Cidade de Mapulandia, ora R.. Doc. 2


R. tem uma rota um horário previamente definidos que deve respeita-los e segui-los, que na
recolha dos funcionários das suas residências para o local de trabalho, quer na distribuição dos
mesmos do local de trabalho para suas residências, sendo que após a recolha deve estacionar o
carro no parque até às 18:30min.


No dia 5 de Novembro de 2008, R. cumpriu mais uma jornada laboral ao recolher e distribuir os
funcionários transportando-os de casa para o serviço e vice-versa, tendo o último funcionário que

142
deixou na sua residência sido o Sr. Mário Sincero, o qual quando desceu junto à paragem
próxima da sua residência eram cerca das 16:50min.

No entanto,

Após ter cumprido a jornada laboral, R. em vez de conduzir a viatura até ao parque, onde
inclusive existem dois guardas que, para além de garantir a segurança às viaturas de R., têm a
responsabilidade de fazer o registo das horas de chegada ao parque das viaturas e reportar
qualquer incidente de que tomarem conhecimento, usou a viatura para satisfazer interesses
pessoais e estranhos aos do A.

Com efeito,

R. violando a sua obrigação de parquear a viatura, usou a mesma para fazer transporte colectivo
de passageiros, fazendo o trajecto Benfica-Museu, e uma vez ter chegado ao destino (Museu) e
apetecido pela enchente de passageiros que estavam a espera de oportunidade para apanhar
transporte, efectuou outra viagem com destino a Benfica, mas dado a longa fila da viaturas que
encontrou ao longo do trajecto decorrente de intenso tráfego, vulgo engarrafamento, só chegou
ao destino por volta das 20horas, embora tivesse partido às 17 horas e, porventura, na crença de
que recolheria ao parque com ligeiro atraso justificável.


Já de regresso do Benfica e sem passageiros se dirigia ao parque para estacionar o autocarro,
dada a hora adiantada e consciente de estar a fazer uso indevido e no interesse pessoal da viatura,
preocupado e com pressa de chegar ao destino, R. dirigiu-a a alta velocidade, uma vez que
circulava a cerca de 80Km/h como de resto confessou, velocidade que é excessiva nos termos da
lei dado que circulava no período nocturno, cerca das 20:30min, dentro de localidades (Benfica,
25 de Junho e Inhagóia), e ainda havia algum tráfego intenso de viaturas.


Conduzindo nestas circunstâncias R. violou culposamente o disposto nos números 1 e 2, alíneas
d) e e), do Código da Estrada, aprovado pelo Decreto – Lei n. o 39: 672, de 6 de Novembro de
1959, e como consequência ao fazer a rotunda sita próximo do Laboratório Central de
Engenharia, na zona de Lhanguene, perdeu o controlo da viatura e na tentativa de evitar um
embate aos blocos de separação das faixas de rodagem, virou bruscamente para o lado esquerdo
indo sair e embater num obstáculo fixo que se encontrava fora a faixa de rodagem.


Para além de ter violado o Código da Estrada, R. com a sua conduta violou culposamente o
disposto nos artigos 98/4 e 99/11, ambos do Estatuto Geral dos Funcionários do Estado,
aprovado pelo Decreto n.o 14/87, de 20 de Maio, que se destinam a proteger interesses ou bens
do Estado, bem como o prescrito no artigo 7, [Link] 1 e 3, do Regulamento Geral de Utilização de
viaturas do Estado, aprovado pelo Decreto n.o 1/79, de 1 de Fevereiro.

10º

143
Como consequência do acidente a viatura ficou com a parte frontal e o motor seriamente
danificados, não sendo o motor recuperável porque ficou, entre outros acessórios, com a cabeça,
bloco e radiadores partidos, sendo os danos avaliados em 195.000,00MT equivalentes ao preço
do motor, acessórios (grelha, faróis e farolins) e mão-de-obra. Docs. 3 e 4.

11º
Estão comprovados nos autos os danos patrimoniais causados, há nexo de causalidade entre o
comportamento culposo (mera culpa) de R. e os referidos danos, pois estes resultaram da sua
conduta e, por conseguinte, há imputação da mesma à sua pessoa, estando assim reunidos os
requisitos da responsabilidade civil por factos ilícitos ou responsabilidade subjectiva que sobre
R. impende nos termos do artigo 10, do Regulamento Geral de Utilização de viaturas do Estado,
e dos artigos 483 e 487/1 e 2, ambos do CC.

12º
As partes são legítimas, têm personalidade jurídica e capacidade judiciárias, o processo é próprio
e o tribunal é competente.

Nestes termos e demais de direito, deve a presente acção ser declarada procedente, porque
provada e, consequentemente, ser réu António Imprudente condenado a pagar ao autor
Estado a quantia de 195.000,00MT (cento e noventa e cinco mil meticais) a título de
indemnização por danos, acrescida de juros de mora à taxa legal a liquidar em execução de
sentença.

Para tanto, requer-se que D. e A. seja citado R. para contestar, querendo, sob cominação
legal, seguindo os autos seus termos até final.

Valor: 195.000,00MT
Junta: 4 documentos e duplicados legais
Testemunhas:
Mário Sincero;
Hilário Dente.

Maputo, ao 24 de Fevereiro de 2009.

O magistrado do Ministério Público

(nome)
/Procuradora da República/

Anexo IC – Acção Declarativa de Condenação


(incumprimento de contrato)
Petição Inicial

144
REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE
PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA
Procuradoria da República da Província de Maputo

Meritíssimo Senhor Juiz de Direito do Tribunal Judicial da Província de Maputo

Estado de Moçambique – Ministério dos Recursos Preciosos, representado pelo Ministério


Público (art. 20/1 CPC), vem propor e fazer seguir a presente

Acção Declarativa de Condenação, com processo ordinário, contra

Cerâmica Faltosa, Lda, NUIT 4001, sede na Cidade da Matola, Bairro Fomento, Q-3, Rua da
Cerâmica, no. 75, R/C, representada pelo seu sócio - gerente Sr. Milambo Cúmplice,

Fazendo-o nos termos e fundamentos seguintes:


Estado de Moçambique - Ministério dos Recursos Preciosos, doravante designado A., celebrou
com o Banco Mundial no ano de 2002, Acordo de Financiamento para capacitação institucional
do Ministério dos Recursos Minerais.


Para efeitos de gestão dos fundos concedidos pelo Banco Mundial, por despacho do Ministro do
pelouro, publicado no Boletim da República no dia 1 de Janeiro de 2003, foi criada a Unidade do
Projecto de Capacitação, Assistência e Apoio Institucional, abreviadamente designada por
UPCAM, tendo como uma das atribuições é adquirir equipamento, serviços e contratar
consultores. Doc. 1.


No cumprimento desta atribuição e outras consagradas no despacho da sua criação, a UCPAM
representada pelo seu coordenador Sr. Horácio Enganado, conduziu o processo de instalação e
apetrechamento de centros onde funcionam os projectos - pilotos de apoio à mineração de
pequena escala em quatro províncias, nomeadamente Gaza, Manica e Cabo Delgado.


No âmbito do referido processo e com vista a materialização dos objectivos prosseguidos, a
instalação e apetrechamento de centros onde funcionam os projectos - pilotos e posterior
assistência, entre A. e Cerâmica Faltosa, Lda, adiante designada R., foi celebrado contrato de
fornecimento de bens, datado de Dezembro de 2005. Doc. 2

145

Ao abrigo do referido contrato, a R. tinha devia fornecer ao ora A. material de construção em
cerâmica e respectivos acessórios para instalação de projectos - pilotos de Apoio à Mineração de
Pequena Escala nas províncias acima mencionadas.

Para o efeito,

A título de preço relativo ao valor devido pelo fornecimento do material e acessórios, a R.
recebeu da A. a quantia total de 750.000,00MT. Doc 3


Embora tenha recebido a totalidade do valor, a R. não forneceu na totalidade o material de
construção em cerâmica e respectivos acessórios para instalação de projectos - pilotos de Apoio à
Mineração de Pequena Escala nas Províncias de Gaza, Manica e Cabo Delgado, tendo ainda por
fornecer material nos seguintes valores por cada província:

Gaza – 220.000,00MT;
Manica – 180.000,00MT; e
Cabo Delgado – 150.000,00MT

R. tem assim ainda por fornecer ao A. material no valor total de 550.000,00MT (quinhentos e
cinquenta mil meticais).


R. já foi interpelada por cartas pelo ora A., instando-a a cumprir com o acordado fornecendo o
material em falta no valor referido no artigo que antecede, porém, sem sucesso, porque R. não se
dignou sequer responder às cartas que já lhe foram dirigidas nos meses de Setembro e Novembro
de 2006. Docs. 4, 5 e 6.

10º
A. fez assim todas diligências por forma a levar R. a entregar-lhe o devido, pelo que através da
presente acção pretende exigir judicialmente o cumprimento da obrigação contratual a que está
adstrita (art. 817 [Link] e art. 2/1, CPC, com a redacção dada pelo DL 1/2005, de 27 de
Dezembro).

11º
R. encontra-se em mora no cumprimento da sua obrigação, devendo reparar os danos que pelo
seu incumprimento causou ao A., os quais são computados em 850.000,00MT equivalentes ao
valor que teve de desembolsar para adquirir o material semelhante junto a outra empresa e evitar
assim a paralisação dos projectos nas Províncias de Gaza, Manica e Cabo Delgado (arts. 804 e
805/1, ambos do [Link]).

12º
A. perdeu interesse na prestação que R. já devia ter efectuado há bastante tempo, pois, viu-se
obrigado a adquirir material semelhante junto de outras empresas a operar em Moçambique e
pagou o respectivo preço no valor de 850.000,00MT, dada a alta de preços entretanto registada

146
no mercado, e porque o incumprimento do contrato pela R. foi por facto que lhe é imputável, tem
o autor o direito de pedir judicialmente a resolução do contrato e ser indemnizado pelos danos
sofridos (art. 801, [Link] 1 e 2, e art. 808/1, ambos do [Link])

13º
As partes são legítimas, têm personalidade jurídica e capacidade judiciárias, o processo é próprio
e o tribunal é competente.

Nestes termos e demais de direito, deve a presente acção ser declarada provada e
procedente, e consequentemente:

-declarar-se judicialmente resolvido o contrato e consequentemente condenar-se a ré


Cerâmica Faltosa, Lda a devolver por inteiro ao A. a sua prestação correspondente a
quantia de 750.000,00MT (setecentos e cinquenta mil meticais), acrescida de juros de mora
à taxa legal, a liquidar em execução de sentença, até integral pagamento.

-deve ainda a ré Cerâmica Faltosa, Lda ser condenada no pagamento de indemnização ao


autor Estado moçambicano no valor de 850.000,00MT.

Requer-se, outrossim, que D. e A. se ordene a citação do Estado de Moçambique para


contestar, querendo, sob cominação legal, seguindo os autos ulteriores termos até final.

Valor: 1.600.000,00MT
Junta: 6 documentos e duplicados legais

Maputo, ao 24 de Fevereiro de 2009.

O magistrado do Ministério Público

(nome)
/Procurador da República/

Anexo IIA – Despacho liminar-remessa do processo

REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE
Tribunal Judicial do Distrito Urbano n.o 1
1a Secção

147
Processo n.o 00/07

Veio Aurélio Liliane, melhor identificado na sua petição inicial constante a fls… dos autos,
propor a presente acção declarativa de condenação, com processo ordinário, contra Estado de
Moçambique, representado pelo Ministério Público.

Na sua petição inicial, referindo-se aos factos e como causa de pedir, o autor refere-se ao facto
de no dia 4 de Dezembro de 2008, o agente da Polícia da República de Moçambique, de nome
Arlindo Carlos, em exercício de funções no Comando da PRM - Cidade de Maputo, ter
apreendido, na via pública e bem próximo das instalações onde funciona a sua oficina, a sua
viatura de marca Toyota CALDINA, com a chapa de inscrição MMA-00-00, que se encontrava
estacionada, por alegada irregularidade da matrícula e graves deficiências mecânicas da mesma,
tendo posteriormente efectuado a ligação directa e a conduzido até ao recinto do Comando da
PRM - Cidade de Maputo, onde viria a pegar fogo por supostamente o referido agente Arlindo
Carlos ter tentado movimenta-la no interior do parque do Comando onde estava estacionada
quando se fazia arrumação das viaturas, com recurso à ligação directa, resultando daí um curto-
circuito, incêndio e explosão, pelo facto do tanque de combustível encontrar-se cheio de
gasolina.

Ora, o acto de apreensão de uma viatura particular por agente da PRM e, por conseguinte, agente
do Estado, é um acto de gestão pública, porque no caso em apreço praticado pelo agente Arlindo
Carlos na qualidade de funcionário público investido de poderes de autoridade, o mesmo
acontecendo quanto a alegada deslocação da viatura no recinto do parque, ao fazê-lo, a ser o
caso, o agente agiu investido de poderes de autoridade, não se tratou de acto de gestão privada195.

Assim sendo, estamos perante matéria de competência da primeira secção – área do contencioso
administrativo do Venerando Tribunal Administrativo, visto que o autor pretende a efectivação
da responsabilidade civil do Estado derivada de actos de gestão pública (art. 15/1, alínea a), e art.
25, alínea h), ambos da Lei n. o 5/92, de 6 de Maio; art. 98, al. b), e art. 102, ambos da Lei n. o
9/2001, de 7 de Julho, Lei do Processo Administrativo Contencioso), do que decorre que estamos
perante a incompetência deste tribunal em razão da matéria, que constitui uma excepção dilatória
de natureza absoluta e de conhecimento oficioso que conduz à remessa do processo ao tribunal
competente (artigos 101, 102/1, 493/2, 288/1, al. a), 494/1, al. f), e 495, todos do CPC).

Pelo acima exposto, ordeno a remessa dos autos ao Tribunal Administrativo.


Custas pelo autor.

Registe-se e notifique-se.

Maputo, ao 27 de Fevereiro de 2009.

195
Se estamos ou não perante um acto de gestão pública causador do dano, porque se presta a discussões e
pontos de vista eventualmente diversos, tal não constitui questão fundamental do presente exemplo
prático, mas sim releva acima de tudo a percepção sob os termos em que um despacho liminar pode ser
exarado face a uma petição, quando se constate haver incompetência em razão da matéria.

148
O juiz de direito

(Nome)

Anexo II B – Despacho liminar de indeferimento

REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE
Tribunal Judicial do Distrito Urbano n.o 1
1a Secção

Processo n.o 00/07

Veio Aurélio Liliane, melhor identificado nos autos, propor a presente acção declarativa de
condenação, com processo ordinário, contra Estado de Moçambique, representado pelo
Ministério Público.

Na sua petição inicial, expondo os factos que servem de fundamento à acção, refere que no dia 4
de Dezembro de 2008, o agente da Polícia da República de Moçambique, Arlindo Carlos, afecto
ao Comando da PRM - Cidade de Maputo, apreendeu nas instalações onde funciona a sua oficina
a sua viatura de marca Toyota CALDINA, com a chapa de inscrição MMA-00-00, sob pretexto
da irregularidade da matrícula e graves deficiências mecânicas da mesma, tendo efectuado a
ligação directa e conduzido a viatura em causa até ao recinto do Comando da PRM - Cidade de
Maputo, onde viria a pegar fogo por supostamente o referido agente ter tentado movimenta-la no
interior do parque do Comando onde estava estacionada quando se fazia arrumação das viaturas,
com recurso à ligação directa, o que terá originado um curto-circuito, incêndio e explosão, pelo
facto do tanque de combustível encontrar-se cheio de gasolina.

Pretende o autor que o Estado seja condenado a pagar-lhe a quantia de 75.000,00MT a título de
indemnização.

Nos termos do artigo 58/2 da CRM, o Estado é responsável pelos danos decorrentes de actos
ilegais dos seus agentes praticados no exercício das suas funções, estando, porém, salvaguardado
o seu direito de regresso.

Deste modo, para que no caso em apreço a decisão possa regular definitivamente a situação
concreta das partes relativamente ao pedido de condenação no pagamento de indemnização, ou
seja, para que o Estado, sendo condenado a pagar indemnização, possa exercer o direito de
regresso contra o seu agente, devia ter sido demandado juntamente com este na acção movida
pelo autor destinada a exigir responsabilidade civil, de modo que tendo sido demandado sozinho
e, por conseguinte, a faltando a intervenção do seu agente na acção como réu, estamos perante a

149
ilegitimidade do Estado, que constitui uma excepção dilatória de conhecimento oficioso que
conduz à absolvição da instância, como resulta das disposições conjugadas dos artigos 28/2,
493/2, 494/1, alínea b), e 495, todos do CPC, com a redacção dada pelo Decreto-Lei n. o 1/2005,
de 27 de Dezembro.

Nestes termos, vai liminarmente indeferida a presente petição (art. 474/1, alínea b), do CPC)196.

Custas pelo autor.

Registe-se e notifique-se.

Maputo, ao 27 de Fevereiro de 2009.

O juiz de direito

(Nome)

Anexo III A
(despacho - convite ao autor para completar a pi)

REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE
Tribunal Judicial da Cidade da Beira
2a Secção

Processo n.o 00/100

Autora Melita Fulane, melhor identificado nos autos, propôs a presente acção declarativa de
condenação, pedindo a condenação do réu Santos Tivane no pagamento da quantia de
60.000,00MT, com juros de mora à taxa legal, relativa a dívida resultante de alegados serviços
por si prestados e não pagos pelo réu.

Porém, apreciada a petição da autora constata-se que esta não identificou devidamente o réu,
visto falta a indicação da residência deste, e embora indique a espécie de acção não mencionou a
forma de processo, bem assim não especificou de que serviços se trata e quando o réu devia ter
pago o preço devido pelos mesmos, para além de não ter indicado o valor da causa.

196
Haveria lugar a despacho liminar de indeferimento da petição e consequente absolvição da instância
com fundamento na ilegitimidade admitindo que, por mero lapso, o tribunal não deu conta da sua
incompetência em razão da matéria.

150
Assim sendo, convido a autora para, no prazo de cinco dias, completar a sua petição,
identificando devidamente o réu, indicar a forma de processo que a presente acção vai seguir,
referir em concreto os serviços que alegadamente prestou ao réu e quando este devia ter
efectuado o pagamento e indicar a o valor da acção, em obediência ao disposto no artigo 467/1,
alíneas a), b), c) e e), do CPC, sob pena de indeferimento liminar (art. 477/1 CPC).
Notifique-se.

Maputo, ao 27 de Fevereiro de 2009.

O juiz de direito

(Nome)

Anexo III B
(despacho - convite ao autor para completar/corrigir a pi)

REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE
Tribunal Judicial da Província de Sofala
3a Secção

Processo n.o 00/03

Mirza Arlindo, com demais elementos de identificação constantes na sua petição, propõe a
presente acção declarativa constitutiva, com processo ordinário, pedindo a dissolução por
divórcio do casamento entre si e o réu Patrício Zandamela, alegando ter o casamento perdido
sentido para as partes para a sociedade, devido a constantes discussões entre os cônjuges,
violência doméstica cometida pelo réu e comportamento desonroso deste.

151
Compulsados os autos constata-se que, por um lado, autora não juntou à petição certidão de
casamento, documento indispensável à prova do pressuposto essencial da presente acção, o
casamento, por outro, autora não faz alusão em concreto dos factos que servem de fundamento à
acção e que configuram comportamento desonroso do réu e, por conseguinte, susceptíveis de
configurar violência doméstica e vida e comportamento desonroso do réu, nos termos do artigo
181/1, alíneas a) e c), aplicável por força do artigo 195/5, ambos da Lei n. o 10/2004, de 25 de
Agosto.

Assim sendo, notifique-se o autor convidando-se o mesmo para, no prazo de cinco dias,
completar e corrigir a petição juntando à mesma certidão comprovativa do casamento cuja
dissolução pretende e articular os factos concretos que alegadamente configuram violência
doméstica e vida e comportamento desonroso do réu (artigo 467/1, alínea c), do CPC, com a
redacção introduzida pelo Decreto-Lei n.o 1/2005, de 27 de Dezembro), sob a cominação da
petição ser liminarmente indeferida (art. 477/1 CPC).
Notifique-se.

Maputo, ao 27 de Fevereiro de 2009.

O juiz de direito

(Nome)

Anexo IV A
(contestação por excepção/impugnação)

REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE
PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA
Procuradoria da República do Distrito Urbano n.o 1

Meritíssimo Senhor Juiz de Direito do Tribunal Judicial do Distrito Urbano n.o 1

Maputo
1a Secção
Proc. 00/07

152
Nos autos de Acção Declarativa de Condenação, com processo ordinário, à margem
indicados, em que é autor Aurélio Liliane, melhor identificado na petição inicial, vem

Estado de Moçambique, representado pelo Ministério Público,

contestar nos termos e fundamentos seguintes:

Excepcionando
Da incompetência do tribunal


O autor Aurélio Liliane visa através da presente acção a condenação do réu Estado em
indemnização por danos à sua viatura de marca Toyota CALDINA, com a chapa de matrícula
MMA-00-00, alegadamente causados pelo seu agente de nome Arlindo Carlos, afecto ao
Comando da PRM - Cidade de Maputo, que supostamente apreendeu tal viatura, na via pública e
próximo das instalações onde funciona a oficina do ora autor, sob pretexto de irregularidade da
respectiva matrícula e graves deficiências mecânicas, e não dispondo das chaves da mesma terá
efectuado a ligação directa e a conduzido até ao recinto do Comando da PRM - Cidade de
Maputo, onde a estacionou no respectivo parque.


Que uma vez no parque a viatura veio a pegar fogo na manhã do dia seguinte (5 de Dezembro de
2008), apontando o autor como motivo de tal ocorrência a alegada conduta do agente Arlindo
Carlos, que segundo o autor consta ter tentado movimenta-la no interior do parque do Comando
quando se fazia a arrumação da viaturas ali estacionadas, o que supostamente fez com recurso à
ligação directa, o que terá causado um curto-circuito, incêndio e explosão, por alegadamente o
tanque de combustível encontrar-se cheio de gasolina na ocasião.
Ora,

A apreensão de uma viatura por agente da PRM no exercício das suas funções e, como tal,
agente do Estado investido de poderes de autoridade configura um acto de gestão pública.

Assim sendo,


Visando o autor com a sua acção o ressarcimento de danos decorrentes de actos de gestão
pública alegadamente causados por um agente do Estado, e sendo a respectiva acção sobre a
responsabilidade da Administração ou Estado e seu agente da competência do Tribunal
Administrativo, estamos perante a incompetência em razão da matéria do tribunal onde a acção
foi proposta, a qual é absoluta e de conhecimento oficioso, obstando ao conhecimento do fundo
da causa pelo tribunal e consequente remessa do processo ao tribunal competente (arts. 101,
102/1, 493/1, alínea f) e 495, todos do CPC, com a redacção dada pelo DL 1/2005, de 27 de
Dezembro).

Da ilegitimidade do Estado

153

O réu Estado realiza as suas acções através dos seus agentes, sendo responsável pelos actos
ilegais praticados por estes de que advenham prejuízos para terceiros.

No entanto,

Porque é lhe salvaguardado o direito de regresso contra os seus agentes de cujos actos ilegais
resultem danos que sejam reparados pelo réu Estado (art. 58/2 CRM), este deve ser demandado
juntamente com o agente causador do dano, no caso sub judice o agente Arlindo Carlos, de modo
a regular-se definitivamente a situação concreta das partes no que respeita ao pedido formulado,
doutro modo, há ilegitimidade do Estado (art. 28/2 CPC).


Não tendo o réu Estado sido demandado juntamente com o seu agente Arlindo Carlos, resulta
que é parte ilegítima nesta acção, e constituindo a ilegitimidade uma excepção dilatória de
conhecimento oficioso que obsta ao conhecimento do mérito da causa, deve o réu Estado ser
absolvido da instância (artigos 288/1, alínea d), 493/2, 494/1, alínea b), e 495, todos do CPC,
com a redacção dada pelo Decreto-Lei n.o 1/2005, de 27 de Dezembro).

À cautela, impugnando

Mesmo admitindo por mera hipótese teórica que as excepções deduzidas não procedem,
impugna-se os factos alegados pelo autor.

Com efeito,

Diz o réu que o carro pegou fogo porque o agente Arlindo Carlos efectuou ligação directa e tal
deu lugar a curto-circuito de que resultou a explosão por o tanque encontrar-se cheio de gasolina.

10º
Deve simplesmente o autor fazer prova da sua alegação por qualquer dos meios em Direito
permitidos, doutro modo deve tal alegação ser julgada improcedente, por não estarem reunidos
os requisitos de responsabilidade civil, o dano, o nexo de causalidade e a conduta do agente
causadora do dano, bem como a culpa do agente, tratando-se de responsabilidade por actos
ilícitos, como o exigem os artigos 483/1 e 487, ambos do Código Civil.

Concluindo

11º
Na acção estamos perante duas excepções dilatórias que obstam ao conhecimento do fundo da
causa pelo tribunal, importando a excepção de incompetência em razão da matéria a remessa do
processo tribunal competente, e a excepção de ilegitimidade a absolvição do réu da instância, e
julgando-se por mera hipótese as mesmas improcedentes, quanto aos factos articulados pelo
autor os mesmos carecem de prova para se aferir se estão ou não reunidos os requisitos de
responsabilidade civil do Estado por acto ilícito do seu agente.

154
Nestes termos e demais de direito, deve o réu Estado ser absolvido da instância com
fundamento nas excepções deduzidas ou, se assim não se entender, julgar-se a acção
improcedente por não provada,

Fazendo-se justiça

Valor: 70.000,00MT
Junta: duplicados legais

Maputo, 18 de Março de 2009.

A magistrada do Ministério Público

(…)
/Procuradora da República/

Anexo IV B
(contestação por excepção/impugnação)

REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE
PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA
Procuradoria da República da Cidade de Maputo

Meritíssimo Senhor Juiz de Direito do Tribunal Judicial da Cidade de Maputo


Maputo

Proc. 00/07

Nos autos de Acção Declarativa de Condenação, com processo ordinário, à margem indicados
em que são autores Jerónimo Martinho e Carlitos Martinho, vem

155
Estado de Moçambique - Ministério das Obras Públicas e Habitação, representado pelo
Ministério Público (art. 20/1 CPC),

Contestar nos termos e fundamentos seguintes:

Por excepção
Da incompetência territorial


Através da presente acção os ora autores Jerónimo Martinho e Carlitos Martinho pretendem a
anulação do contrato de alienação celebrado entre o réu Estado e a co-ré Delfina Teresa, tendo
por objecto o imóvel sito na Cidade da Matola, Rua Gago Coutinho, parcela 01A, Província de
Maputo, descrito na Conservatória do Registo Predial de Maputo sob o no. 0.304, a fls. 167vo,
livro B/20.


Esta acção é, deste modo, relativa a um direito real, o direito de propriedade, sobre o imóvel em
litígio e referido no artigo que antecede, e estando o mesmo localizado na Província de Maputo,
por aplicação do princípio do foro real ou da situação dos bens, é o Tribunal Judicial desta
província o competente em razão do território para conhecer do presente litígio (art. 73/1 CPC).


Do acima referido resulta que estamos perante a incompetência do Tribunal Judicial da Cidade
de Maputo perante o qual a presente acção foi proposta, a qual é de natureza relativa, porque em
razão do território, tendo o réu Estado legitimidade para argui-la, o que o faz aqui e agora,
tempestivamente, requerendo a esse tribunal que a julgue procedente e consequentemente ordene
a remessa dos autos ao Tribunal Judicial da Província de Maputo (artigos 108, 109/1 e 111/3,
493/2, 494/1, alínea f), todos do CPC).

À cautela,
Contesta por impugnação


Os autores pedem ao tribunal a anulação de todo processo de alienação e registo do imóvel,
alegando que a alienação feita pelo réu Estado teve por objecto bem alheio, não avançando
qualquer fundamento relativamente ao pedido de anulação do registo do imóvel.

Ora,

O pedido de anulação do processo de alienação de imóvel feita pelo réu Estado a favor da ré
Delfina Teresa não procede, em atenção ao fundamento avançado pelos ora autores.

Com efeito,

156
A alienação que se pretende seja anulada por sentença judicial ou judicialmente, é lícita e legal,
visto que a mesma teve lugar após a reversão do imóvel objecto dos autos a favor do réu Estado
nos termos da lei, por abandono dos respectivos proprietários, abandono que, enquanto
presunção legal, não foi de modo algum ilidido após publicação de edital no jornal, nos termos
do art. 10 do Decreto-Lei no. 16/75, de 13 de Fevereiro. Docs. 1 e 2.

Portanto,

O processo de reversão do imóvel a favor do réu Estado decorreu com observância de todas
formalidades legais, não importando detalhar em torno do mesmo visto que não foi, sequer,
posto em causa pelos aqui autores.


Por efeito da reversão, o imóvel passou a pertencer ao réu Estado, tendo este procedido ao
registo da propriedade sobre o mesmo a seu favor, como se prova dos documentos 3 e 4 que vão
juntos e se dá o respectivo teor por inteiramente reproduzido para todos efeitos.


Tendo adquirido a propriedade do imóvel, réu Estado com legitimidade arrendou-o à ré Delfina
Teresa, e esta na sua qualidade de inquilina do Estado e encontrando-se em situação contratual
regular requereu a compra do mesmo ao réu Estado, o qual tendo legitimidade para o fazer por
então ser proprietário do imóvel em questão, autorizou a compra e outorgou com a ré Delfina
Teresa contrato e termo de adjudicação, e uma vez ter decorrido o processo de alienação com
observância das formalidades legais sem qualquer reclamação por quem quer que seja, emitiu a
favor da dita ré Delfina Teresa título de adjudicação uma vez paga a totalidade do preço devido.
Docs. 5, 6, 7 e 8.

10º
Do acima exposto, conclui-se que o processo de alienação do imóvel em litígio, que não foi
objecto de impugnação, foi legítimo e legal, visto que réu Estado alienou o imóvel após ter
adquirido a propriedade sobre o mesmo por efeito de reversão nos termos da lei, logo tinha
legitimidade para aliená-lo a favor de quem nos termos da lei estava em situação contratual
regular, no caso em apreço a sua co-ré Delfina Teresa (art. 2/1, Lei n o. 5/91, de 9 de Janeiro, art.
1/1, Decreto no. 2/91, de 16 de Janeiro, e art. 892, 1a parte, Código Civil, a contrario senso).

11º
Não procede assim o fundamento da ilegitimidade do réu Estado relativamente a alienação do
imóvel com fundamento de se tratar de bem alheio, supostamente da titularidade dos autores,
tanto é que estes não juntaram aos autos prova documental da propriedade do imóvel a que se
julgam com direito.

Concluindo
12º
Verifica-se no caso em apreço a incompetência do Tribunal Judicial da Cidade de Maputo, de
natureza relativa, porque em razão do território, e porque foi arguida tempestivamente e por
quem tem legitimidade importa a remessa dos autos ao tribunal competente, o Tribunal Judicial

157
da Província de Maputo, e quanto a alienação do imóvel que se pretende seja anulada a mesma é
lícita, porque feita por quem tem legitimidade para o fazer, o réu Estado que alienou o imóvel
após a aquisição da propriedade sobre o mesmo por efeito de reversão nos termos da lei.

Nestes termos e demais de direito, deve a presente contestação ser declarada provada e
procedente e, consequentemente, julgar-se procedente a excepção de incompetência do
tribunal em razão do território e consequente remessa dos autos ao Tribunal Judicial da
Província de Maputo, ou, se assim não se entender, julgar-se ainda assim procedente e
provada a contestação com os fundamentos acima referenciados, e improcedente e não
provada a acção.

Valor: 400.000,00MT
Junta: 8 documentos e duplicados legais

Maputo, ao 04 de Março de 2009.

O magistrado do Ministério Público

(nome)
/Procurador da República/

Anexo V A
(contestação-reconvenção)

Meritíssimo Senhor Juiz de Direito do Tribunal Judicial da Província de Maputo

Cerâmica Faltosa, Lda, NUIT 4001, sede na Cidade da Matola, Bairro Fomento, Q-3, Rua da
Cerâmica, no. 75, R/C, representada pelo seu sócio - gerente Sr. Milambo Cúmplice, vem nos

Autos de Acção Declarativa de Condenação, com processo ordinário, que lhe move

Estado de Moçambique – Ministério dos Recursos Preciosos, representado pelo Ministério


Público, apresenta contestação nos termos seguintes:

158
Constitui a verdade que réu Cerâmica Faltosa, Lda e autor Estado de Moçambique - Ministério
dos Recursos Preciosos, através da Unidade do Projecto de Capacitação, Assistência e Apoio
Institucional, abreviadamente designada por UPCAM, representada pelo seu coordenador Sr.
Horácio Enganado, contrato de fornecimento de bens, datado de Dezembro de 2005. Doc. 1.


Por força do referido contrato, ré obrigou-se efectivamente a fornecer ao ora A. material de
construção em cerâmica e respectivos acessórios para instalação de projectos - pilotos de Apoio à
Mineração de Pequena Escala nas províncias Gaza, Manica e Cabo Delgado.


Refira-se que nas negociações preliminares tendo em vista a celebração do referido contrato,
houve três encontros entre as partes, sendo que no primeiro autor inteirou a ré em torno do
projecto no âmbito do qual se inseria o contrato que iria ser celebrado, concretamente a
efectivação do processo de instalação e apetrechamento de centros onde funcionam os projectos -
pilotos de apoio à mineração de pequena escala- em quatro províncias, nomeadamente Gaza,
Manica e Cabo Delgado.


No segundo encontro ré fez a entrega ao autor de amostras de material e acessórios que se
propunha vender-lhe, e depois de exames no terceiro encontro autor manifestou seu acordo, sem
qualquer reserva, que aceitava tal material e acessórios cujas amostras lhes haviam sido
entregues por ocasião do segundo encontro, como se prova das actas que se juntam como
documentos 2, 3 e 4 e se dá o respectivo conteúdo por inteiramente reproduzido.

No entanto,

Celebrado o contrato e entregue o material em cerâmica e acessórios objecto do mesmo, passado
um mês autor veio dizer à réu, por carta, que tal material não era afinal de boa qualidade, embora
antes tivesse o examinado e concordado em comprá-lo, tendo exigido a sua substituição por
outro de qualidade superior. Doc. 5.

Ciente de estar a lidar com uma instituição de prestígio, ré de imediato enviou amostras de outro
material de cerâmica, que uma vez após exame também foi aprovado e, posteriormente, ré
enviou metade do material pretendido pelo autor, pois, tinha condicionado a entrega da outra
metade ao pagamento do preço correspondente a novo material por aquele exigido, conforme
adenda feita ao contrato e que junta como documento 6.

Contudo,


O Autor persistiu em exigir, por meio de cartas, a entrega da outra metade do material sem que
efectuasse o pagamento adicional, o que não foi aceite pela aqui ré, uma vez que tal não estava
em conformidade com o acordado. Portanto, ré opôs-se à exigência por excepção de não
cumprimento do contrato nos termos do artigo 428/1 Código Civil.

159

Não tendo sido pago o valor adicional, ré também nunca mais fez a entrega da outra metade do
material, não correspondendo assim à verdade o exposto nos artigos 7º a 12º da sua petição.

Reconvindo

Como se alcança do acima referido, ré tem um crédito a seu favor a ser satisfeito pelo autor, o
qual corresponde a metade do material adicional que entregou a este, mas que contrariando o
acordado até à data não se dignou pagar, antes exigiu entrega da outra metade em clara violação
às cláusulas contratuais constantes da adenda ao contrato.

10º
O material adicional entregue está avaliado em 400.000,00MT (quatrocentos mil meticais), uma
vez que ré não chegou a entregar a outra metade pelas razões acima referidas, e embora ré já
tenha interpelado autor desde Junho de 2008, quer por cartas, quer através de pedidos de
audiência, ainda não efectuou o pagamento do valor que lhe deve. Docs. 7, 8 e 9.

11º
É, na verdade, autor que se encontra em mora no cumprimento da sua obrigação, devendo nos
termos do artigo 806 [Link] reparar os danos que pelo seu incumprimento tem estado a causar a
aqui ré nos termos dos artigos. 804 e 805/1, ambos do [Link], assistindo à ré ao abrigo do artigo
817 do mesmo diploma legal, o direito de exigir judicialmente o cumprimento pelo autor da
obrigação contratual que sobre si impende.

12º
Deve, assim, autor ser condenado a pagar à ré a quantia de 400.000,00MT (quatrocentos mil
meticais) correspondente ao material e acessórios adicionais entregues e não pagas, acrescida de
indemnização correspondente a juros de mora à taxa legal a contar desde a data em que se
constituiu em mora.
Concluindo
13º
Ré nada tem a pagar ao autor, visto que entregou na totalidade o material em cerâmica e
acessórios pagos pelo autor, mas este ainda tem por lhe pagar a quantia referida no artigo
antecedente referente ao material adicional posteriormente entregue no âmbito da adenda ao
contrato celebrado entre as partes.

Nestes termos e demais de direito, deve a presente acção ser julgada improcedente e não
provada, e procedente e provada a presente contestação-reconvenção e, consequentemente,
condenar-se o autor Estado a pagar à ré a quantia de 400.000,00MT (quatrocentos mil
meticais), acrescida de juros de mora à taxa legal a liquidar em execução de sentença, até
integral pagamento.

Valor da reconvenção: 400.000,00MT


Junta: 9 documentos e duplicados legais

160
Testemunhas: Inácio Mutemba;
-Cátia Serafim; e
-Felizarda da Costa.

Maputo, ao 15 de Março de 2009.

O Advogado
Com carteira profissional n.o…

(nome)

Anexo V B
(resposta a contestação)

Meritíssimo Senhor Juiz de Direito do Tribunal Judicial do Distrito Urbano n.o 1

Maputo
1a Secção
Proc. 00/07

Nos autos de Acção Declarativa de Condenação, com processo ordinário, à margem


indicados, em que é autor Aurélio Liliane, notificado da contestação do réu

Estado de Moçambique, representado pelo Ministério Público, vem autor apresentar

resposta à contestação, nos termos e fundamentos seguintes:

Da excepção de incompetência do tribunal


Não procede a alegada excepção de incompetência, em razão da matéria, do tribunal judicial ou
comum para conhecer do presente litígio.

Efectivamente,

A questão de fundo que deve ser apreciada e decidida pelo tribunal comum nada tem a ver com
um acto de gestão pública praticado pelo réu Estado, através do seu agente Arlindo Carlos,
investido do seu ius imperi, na medida em que a causa de pedir invocada pelo aqui autor não é a
injusta e ilegal apreensão da sua viatura, visto que esta não apresentava quasiquer deficiências
mecânicas e tem a respectiva matrícula regularizada, antes pelo contrário a conduta do agente do
Estado que deu causa ao incêndio da viatura com os consequentes danos daí decorrentes.

161
Portanto,

Constitui causa de pedir e que deve ser apreciada pelo tribunal a circunstância do agente do
Estado ter tentado efectuar uma ligação directa para deslocar a viatura no interior do parque do
Comando da PRM - Cidade de Maputo para efeitos de arrumação no local, conduta que de per si
revela negligência e imperícia por parte do agente, vai daí o incêndio que ocorreu em
consequência da conduta em alusão.


Não se pode pretender que tal conduta seja um acto de gestão pública por estar fora do âmbito do
poder do Estado, o acto do agente está fora do exercício das funções normais porque não está no
âmbito destas fazer a ligação directa da viatura para deslocá-la e deixar a ignição ligada após o
parqueamento, sendo pelo contrário um acto de gestão privada e relativamente aos danos
decorrentes da mesma sobre o Estado impende responsabilidade civil e o tribunal comum, no
caso em apreço o Tribunal Judicial do Distrito Urbano n. o 1, é efectivamente competente para,
por sentença, obrigar o réu Estado a indemniza o autor.


Quanto à alegada excepção de ilegitimidade do réu Estado, também não procede, porquanto não
estamos perante o litisconsórcio necessário nos termos do artigo 28/1 CPC em que exigindo a lei
ou o negócio a intervenção de vários interessados na relação controvertida, a falta de qualquer
um deles é motivo de ilegitimidade.

Com efeito,

No caso em apreço não há nenhuma lei nem negócio que exige a intervenção de vários
interessados na relação controvertida, havendo pelo contrário disposições legais consagradas
pelo artigo 501 do CC que prescrevem a responsabilidade civil do Estado por danos causados a
terceiros resultantes de actos de gestão privada dos seus agentes, nos mesmos termos em que os
comitentes respondem pelos danos causados pelos seus comissários.

Portanto,

Estamos perante a figura do litisconsórcio voluntário e não necessário e, assim sendo, o Estado
pode ser demandado sozinho e não resultar daí qualquer ilegitimidade da sua parte.

Nestes termos e demais de direito, devem as excepções deduzidas serem julgadas


improcedentes, procedente a presente resposta, concluindo-se como se fez na petição inicial.

Valor: 70.000,00MT
Junta: duplicados legais

Maputo, ao 26 de Março de 2009.

162
O Advogado
Com carteira profissional n.o…

(nome)

Anexo VI A
(reclamação contra despacho especificação/questionário)

REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE
PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA
Procuradoria da República da Província de Tete

Meritíssimo Senhor Juiz de Direito do Tribunal Judicial da Província de Tete

Proc. nº 00/08

Estado de Moçambique-Direcção Provincial da Agricultura de Tete, Autor nos autos à margem


identificados, vem nos termos do art. 511/2 CPC,

Reclamar, por excesso e deficiência, contra a matéria de facto incluída na Especificação e


Questionário,
Fazendo-o nos termos e com os fundamentos seguintes:

1o
Os presentes autos versam sobre duas questões fundamentais, designadamente a de saber qual o
valor pago pelo R. a título de entrada para o pagamento da viatura objecto dos autos e a de saber
quanto faltou por pagar.

Com efeito,
2o
Que A. vendeu por adjudicação em concurso público à R. a viatura de marca Opel, com a
matrícula MIA-00-00, pelo preço de 120.000,00MT, tal não constitui matéria controvertida e,
por conseguinte, não carece de prova, visto que tal não foi impugnado especificadamente pelo
R., resultando daí que admitiu tal facto por acordo por força do disposto no art. 490/1 do CPC.

Outrossim,
3o

163
Não constitui matéria controvertida que, tendo adiantado 40.000,00MT como início de
pagamento, para pagamento da quantia em falta pela compra da viatura R. emitiu à ordem do ora
A. dois cheques pré-datados, sendo um com o n. o 00002300, datado de 01.06.2008, no valor de
40.000,00MT e outro com o n.o 00002400, datado de 01.07.2008, também no valor de
40.000,00MT, e que ambos foram devolvidos por falta de provisão.

Pois,
4o
Os cheques em alusão encontram-se juntos aos autos e contém no verso o carimbo do banco
sacado em como foram devolvidos por falta de provisão.

5o
Se assim é, os factos acima referidos devem ser levados à especificação

6o
Na alínea B) da especificação se refere que “A. enviou ao R., em duas ocasiões, cartas datadas de
05.06.2008 e 03.07.2008, exigindo-o para pagar os valores referentes aos cheques devolvidos”.

Ora,
7o
Considerando que as cartas em causa foram efectivamente recebidas pelo R., que as assinou
confirmando tal facto, julgamos relevante que tal seja levado em consideração na especificação,
por constituir prova de que efectivamente tomou conhecimento da interpelação.

Assim sendo,
8o
Deve a referida alínea B) da especificação ser reformulada, sugerindo-se a seguinte redacção:
“B) Em duas ocasiões, por meio de cartas datadas de 05.06.2008 e 03.07.2008 recebidas pelo
R., A. interpelou aquele para que pagasse os valores referentes aos cheques devolvidos pelo
banco por falta de provisão”

Do acima exposto e face a matéria articulada na petição e na contestação, e considerando a falta


de impugnação especificada por parte do R., não se podendo considerar matéria controvertida,
deve considerar-se que está provado que:

1)Em Junho de 2008 A. vendeu à R. viatura de marca Opel, com a matrícula MIA-00-00, pelo
preço de 120.000,00MT;
2)Para pagamento da quantia de 80.000,00MT em falta pela compra da viatura, R. emitiu à
ordem do A. dois cheques pré-datados, sendo um com o n. o 00002300, datado de 01.06.2008, no
valor de 40.000,00MT e outro com o n.o 00002400, datado de 01.07.2008, também no valor de
40.000,00MT; e
3)Os cheques uma vez vencidos e apresentados no prazo legal ao banco sacado para pagamento
foram devolvidos por falta de provisão.

Nestes termos e demais de direito, a matéria constante do questionário nos números 1), 2) e 3),
deve toda ser retirada e aditada à especificação como provada nos precisos termos acima

164
referidos, por prova documental (cheques juntos) e por acordo, visto que não foi impugnada
especificadamente.

Outrossim, a alínea B) da especificação deve ser reformulada considerando-se a reformulação


acima proposta.

Pede Deferimento.

Junta: Duplicados legais.

Maputo, 13 de Maio de 2009.

O magistrado do Ministério Público

Nome

Anexo VI B
(reclamação contra despacho especificação/questionário)

REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE
PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA
Procuradoria da República da Província de Maputo

Meritíssimo Senhor Juiz de Direito do Tribunal Judicial da Província de Maputo

Proc. nº 01/07

165
Estado de Moçambique-Direcção Provincial dos Recursos Minerais, Autor nos autos à margem
identificados, vem ao abrigo do art. 511/2 CPC, apresentar

Reclamação,

Por excesso e deficiência, contra a matéria de facto incluída na Especificação e Questionário,


nos termos e os fundamentos seguintes:

1o
Salvo melhor análise, constitui matéria relevante nos presentes autos saber se entre A. e Ré foi
ou não celebrado contrato de fornecimento de bens, concretamente material de construção em
cerâmica e respectivos acessórios para instalação de projectos - pilotos de Apoio à Mineração de
Pequena Escala nas províncias de Gaza, Manica e Cabo Delgado e se o mesmo foi ou não
pontualmente cumprido.

Ora,

2o
No número 3 do questionário consta o seguinte: ”R. não cumpriu integralmente o contrato
celebrado com o A.?”.

3o
Que R. não cumpriu o contrato de fornecimento de bens é facto provado, sendo controvertida a
questão de saber a que valor corresponde a quantidade de material de construção em cerâmica e
respectivos acessórios que R. não entregou e, não tendo entregue, desde quando R. se constituiu
em mora.
Deste modo

4o
A matéria referida no número 3 do questionário deve ser retirada e aditada à matéria
seleccionada na especificação, por ter sido provado que R. ficou de entregar parte do material,
conforme suas respostas às cartas de interpelação dirigidas pelo A. em que se referiu a
indisponibilidade do material no mercado nacional e internacional, embora tivesse garantido a
disponibilidade do mesmo nos seus armazéns para entrega imediata (por documento), fazendo-se
constar tal matéria em dois números com a seguinte redacção:

“1.R. durante as negociações e até à celebração do contrato garantiu ter disponível o material
de construção em cerâmica e respectivos acessórios nos seus armazéns para entrega imediata.
2.R. não entregou o material na data aprazada alegando indisponibilidade do mesmo no
mercado nacional e internacional.”

Em contrapartida,
5o
Devem ser elaborados novos quesitos com o seguinte teor:

166
a)R. não entregou material de construção em cerâmica e respectivos acessórios nos valores de
220.000,00MT para a província Gaza, 180.000,00MT para Manica e 150.000,00MT para Cabo
Delgado, totalizando 550.000,00MT (quinhentos e cinquenta mil meticais)?
b)R. constitui-se em mora no fornecimento dos bens desde 10 de Janeiro de 2006?
Pede Deferimento.

Junta: Duplicados legais.

Maputo, 14 de Maio de 2009.

A magistrada do Ministério Público

Nome
/Procuradora da República/

167
Tema 7 - Processo executivo

Ribeiro José Cuna

Índice

Tema 7 - Processo executivo.......................................................................................................168


Ribeiro José Cuna........................................................................................................................168
Abreviaturas.................................................................................................................................170
Introdução....................................................................................................................................171
[Link]ísticas da acção [Link]ções gerais.........................................................171
[Link] da acção executiva..............................................................................................173
[Link]-Credor/devedor.......................................................................................................173
2.2.Título executivo.................................................................................................................174
2.3. Certeza, liquidez e exigibilidade da obrigação.................................................................175
[Link]ção para pagamento de quantia certa..............................................................................176
[Link]ção ordinária................................................................................................................176
[Link] inicial da execução..................................................................................176
[Link]ção à execução.......................................................................................................180
[Link]...........................................................................................................................183
[Link]ção dos credores e verificação dos créditos......................................................184
[Link].......................................................................................................................186
[Link].Entrega de dinheiro......................................................................................................186
[Link].Adjudicação dos bens penhorados...............................................................................187

168
[Link].Consignação dos seus rendimentos.............................................................................190
[Link].Venda...........................................................................................................................192
[Link].[Link] extrajudicial...................................................................................................192
[Link].[Link] judicial...........................................................................................................193
[Link]ção e anulação da execução...................................................................................198
3.1.7. Remição.............................................................................................................................201
[Link]ção sumária..................................................................................................................202
[Link]ção para entrega de coisa certa.......................................................................................204
[Link]ção para prestação de facto (positivo/negativo)..............................................................207
[Link]ções prévias...........................................................................................................207
[Link]ção para prestação de facto positivo............................................................................209
[Link] quando o exequente opta pela autorização para que o facto seja praticado à
custa do executado...................................................................................................................212
[Link] quando exequente opta pela indemnização pelo dano sofrido decorrente da
não prestação do facto pelo executado....................................................................................213
[Link]ção para prestação de facto negativo...........................................................................214
[Link]ção conexa a acção penal (acidentes estradais)..............................................................215
[Link]ção especial por alimentos..............................................................................................217
[Link]ção por custas na jurisdição civil....................................................................................219
[Link]ções prévias...........................................................................................................219
[Link] de processo.............................................................................................................221
[Link]ção da execução por custas na jurisdição civil..........................................................222
Conclusão....................................................................................................................................225
-Bibliografia.................................................................................................................................228
-Legislação...................................................................................................................................228

Abreviaturas

C.C - Código Civil;


[Link] - Código Comercial;
CCJ - Código das Custas Judiciais;
CE - Código da Estrada;
CP - Código Penal;
CPC - Código de Processo Civil;
CPP - Código de Processo Penal;
DL - Decreto - Lei;
MP - Ministério Público.

169
Introdução

Neste texto constitui objecto de abordagem o processo executivo, meio processual através do
qual o titular de determinado crédito que, não sendo satisfeito de livre vontade pelo devedor,
dispondo de título dele se socorre para obter a sua realização por via judicial.

Em função do seu fim, a execução pode ser execução para pagamento de quantia certa, execução
para entrega de coisa certa e execução para prestação de facto (positivo/negativo). Estas espécies
de execução integram o processo executivo na sua forma regra, porquanto há execuções que
seguem a forma especial, concretamente a execução especial por alimentos e a execução por
custas e multas pelo Ministério Público, tendo regime específico consagrado no Código de
Processo Civil e no Código das Custas Judiciais, respectivamente, aplicando-se-lhes também, a
título subsidiário, as disposições de execução para pagamento de quantia certa.

Na abordagem que iremos fazer neste texto começaremos por fazer referência às características
da acção executiva e tecer considerações gerais, para depois tratarmos dos pressupostos da acção
executiva, designadamente as partes e o título executivo, este que se reveste de especial
importância dado que serve de base à execução e dele se aferem o fim e os limites da execução.

170
Porque consoante o seu fim a execução pode ser de determinada espécie, seguidamente
abordaremos as várias espécies de execução na sua forma regra, nomeadamente a execução para
pagamento de quantia certa, a execução para entrega de coisa certa, a execução para prestação de
facto, quer positivo, quer negativo, a execução conexa a acção penal, e a execução na sua forma
especial, concretamente a execução especial por alimentos e a execução por custas, terminando
com uma conclusão.

Sendo este texto sobre o processo executivo uma segunda versão, tem a novidade de,
relativamente a fase de pagamento como ponto culminar do processo executivo, terem sido
abordados em pormenor as formas por que é feito, nomeadamente através da entrega de dinheiro,
da adjudicação dos bens penhorados, da consignação dos seus rendimentos ou pelo produto da
sua venda.

Outra novidade não digna de destaque, é o facto de ter sido avançado um exemplo prático
simples de embargos de executado.

[Link]ísticas da acção [Link]ções gerais

Em sede de processo declarativo, na fase de saneamento e condensação do processo, pode haver


julgamento antecipado ou imediato da acção, desde que se constate existirem nos autos
elementos bastantes para o efeito (art. 510/1, al. c), CPC), proferindo-se sentença.

No processo declarativo, quando a acção não seja julgada antecipadamente na fase de


saneamento e condensação do processo, a causa é decidida na fase de julgamento final, quando o
juiz singular faz a aplicação do direito aos factos provados, proferindo sentença (art. 658 do
CPC197).

Num e noutro caso surge a sentença, cuja parte final, supondo tratar-se de acção declarativa de
condenação por dívida, pode ser redigida nos termos seguintes:

“Tendo em conta o acima exposto, nos termos do art. 658 do CPC, com a redacção dada pelo
DL 1/2005, de 27 de Dezembro, condeno o réu Mário a pagar ao autor Estado de Moçambique
a quantia de 80.000,00MT (oitenta mil meticais).

Custas pelo réu.


Registe e notifique.

(Nome e assinatura)

Juiz de direito”

197
Redacção dada pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro.

171
A sentença condenatória assim proferida constitui, a par de outros previstos de forma taxativa
no art. 46 do CPC, título executivo, “…pelo qual se determina o fim e os limites da acção
executiva”198 (art. 45/1 CPC), servindo assim de base à execução.

A posse de determinado título executivo, mormente de sentença condenatória, de nada serve ao


credor se não pode obter a satisfação do respectivo crédito, pois nem sempre o devedor cumpre
com a sentença de livre e espontânea vontade.

É através da acção executiva que vai se executar, dar cumprimento à sentença passada em
julgada, bem como às demais espécies de títulos executivos (art. 4/3 CPC), sendo que do seu
conteúdo resultará a espécie da correspondente acção executiva, designadamente execução para
pagamento de quantia certa, execução para entrega de coisa certa e execução para prestação de
facto (positivo/negativo).

No exemplo acima referido da sentença condenatória, em que o réu Mário foi condenado a pagar
ao autor Estado de Moçambique a quantia de 80.000,00MT, se Mário, apesar de condenado, não
efectuar o pagamento do valor em dívida, de nada valerá a sentença condenatória proferida a
favor do Estado de Moçambique, em tal hipótese há que passar à execução da decisão, contanto
o devedor tenha dinheiro ou outros bens susceptíveis de penhora que, uma vez vendidos, se
traduzam na quantia em dívida.

A acção executiva tem assim a característica de ser um meio processual que visa a realização
coactiva, por via judicial, de um crédito atestado por determinado título executivo.

A execução na sua vertente de processo regra, pode ser ordinária ou sumária, podendo revestir
forma especial, a exemplo da execução especial por alimentos (art. 465, do CPC, e arts. 1118 e
seguintes, CPC).

Seguem a forma ordinária as execuções que, seja qual for o seu valor, tenham por base título
executivo que não seja decisão judicial condenatória, ou decisão judicial ou arbitral que
condene no cumprimento de obrigação que careça de ser liquidada em execução de sentença
(art. 465/1, alíneas a) e b), CPC199).

Em contrapartida, seguem a forma sumária as execuções que têm por base actas de conciliação
ou mediação, decisão judicial condenatória ou arbitral, ainda que condene no cumprimento de
obrigação que careça de ser liquidada em execução de sentença, contanto a liquidação dependa
de simples cálculo aritmético (art. 465/2, CPC200).

[Link] da acção executiva

198
Nos termos do no. 2 do art. 45 do CPC “O fim da execução … pode consistir no pagamento de quantia
certa, na entrega de coisa certa ou na prestação dum facto, quer positivo quer negativo”.
199
Redacção dada pelo DL 1/2009, de 24 de Abril.
200
Redacção dada pelo DL 1/2009, de 24 de Abril.

172
A instauração de uma acção executiva está condicionada à existência de determinados
pressupostos; o credor, que é a pessoa que vai promover a execução, o devedor, que é a pessoa
contra quem vai ser promovida a execução, e o título executivo sem o qual não pode haver lugar
a execução.

[Link]-Credor/devedor

No que toca às partes, enquanto pressupostos da acção executiva, a “…execução tem de ser
promovida pela pessoa que no título executivo figure como credor e deve ser instaurada contra a
pessoa que no título tenha a posição de devedor” 201, sendo que se o título for ao portador, deverá
a execução ser promovida pelo portador do título.

Disto resulta que a pessoa que figura no título como credor é parte legítima como exequente, e
será parte legítima como executado a pessoa que no título tiver a posição de devedor, embora
figurar no título como credor não seja a mesma coisa que ser credor, bem assim ter no título a
posição de devedor seja algo diferente de ser, na verdade, devedor.

Sobre esta regra geral da determinação da legitimidade, há que ter em conta os desvios previstos
pelo artigo 56 do CPC, estamos a nos referir aos casos em que houve sucessão no direito ou na
obrigação, caso em que a execução deve correr entre os sucessores das pessoas que no título
figuram como credor ou devedor da obrigação exequenda, devendo o exequente deduzir no
requerimento para a execução os factos constitutivos da sucessão.

Outro desvio tem a ver com execução por dívida com garantia real. Em tal caso, porque o bem
dado de garantia está onerado e pode ser perseguido onde quer que esteja, a execução pode ser
instaurada directamente contra o possuidor dos bens onerados e, se estes não forem suficientes
para o pagamento da dívida, pode a execução prosseguir no mesmo processo contra o devedor,
com vista a total liquidação do crédito.

De qualquer modo, o possuidor dos bens onerados deverá ser demandado juntamente com o
devedor.

Embora a sua epígrafe não seja expressa se se trata ou não de um desvio à regra geral da
aferição da legitimidade na execução, pode se entender que as disposições do art. 57 do CPC
consagram efectivamente um desvio, tendo em conta a possibilidade de a execução fundada em
sentença condenatória ser promovida, não apenas contra o devedor, mas também contra as
pessoas relativamente às quais tal sentença tenha força de caso julgado202.

Cfr. art. 55/1 CPC.


201

Seria, entre outros, os casos do nomeado à acção que nega a qualidade que lhe é atribuída (art. 323/1
202

CPC); do chamado que declara não aceitar a autoria (art. 327/1 CPC); do primitivo réu que requere a sua
exclusão da causa em virtude de o chamado à autoria não fazer declaração alguma (art. 328/2 CPC).

173
Actuando como exequente e, por conseguinte, parte na acção executiva, ao MP cabe
especialmente promover a execução por custas e multas impostas em qualquer processo (art. 59
CPC)203, sendo executado em tal caso o devedor de custas e multas.

2.2.Título executivo

O título executivo é condição necessária e suficiente para instauração do processo de execução;


necessária, porque é imprescindível ao surgimento de qualquer acção executiva, e suficiente
porque a sua existência torna desnecessária qualquer diligência para a consubstanciação da
execução.

É do título executivo que vai se aferir a espécie respectiva, se execução para pagamento de
quantia certa, execução para entrega de coisa certa ou execução para prestação de facto
(positivo/negativo).

São títulos executivos: as sentenças condenatórias, os documentos exarados ou autenticados por


notário, os documentos particulares e os documentos que, por disposição especial, seja atribuída
força executiva204 (arts. 46205 e 48, CPC), não podendo ser quaisquer outros que não os previstos
no citado artigo 46 do CPC e “os documentos a que, por disposição especial, seja atribuída força
executiva”206, visto que a enumeração feita pela lei é de carácter taxativo, e tal se constata pela
seguinte passagem: “À execução apenas podem servir de base:” (o sublinhado é nosso), embora
tal enumeração seja extensiva aos documentos com força executiva por força de disposição
especial.

2.3. Certeza, liquidez e exigibilidade da obrigação

A execução tem por base um título, pelo qual se determina o fim e os limites da acção executiva,
e face ao título pode se aferir da certeza, liquidez e exigibilidade da obrigação a que o devedor
está adstrito.

 Certeza

203
A tramitação da execução por custas em matéria cível é regulada pelo Código das Custas Judiciais nos
seus arts. 100 a 112, sendo lhe aplicáveis as disposições do CPC que regulam a execução para pagamento
de quantia certa.
204
É o caso de documentos emitidos pelas empresas públicas em conformidade com a sua escrita, os quais
servem de título executivo contra quem se mostrar devedor para com as referidas empresas (art. 41, Lei
no. 17/91, de 3 de Agosto); o caso das certidões de conta de custas devidas a tribunais superiores (art. 103,
corpo, CCJ).
205
Redacção dada pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro.
206
Cfr. alínea d), do artigo 46 do CPC, com a redacção pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro.

174
Quanto à certeza da obrigação, entende Hélder Martins Leitão que tal “…corresponde à certeza
do respectivo crédito”207, certeza que, socorrendo-nos do elemento subjectivo, corresponde ao
“…estado do nosso conhecimento a respeito de um facto” 208, sendo importante dizer que “…um
crédito é certo para alguém quando essa pessoa está segura de que ele existe …”209.

Portanto, haverá certeza da obrigação e do crédito respectivo quando o mesmo não seja uma
mera suposição, seja uma realidade, de modo que se, por exemplo, se pretender promover a
execução para entrega de coisa certa, esta possa ser identificada sem lugar a dúvidas, ou se
pretender promover a execução por quantia certa, a respectiva quantia possa ser determinada de
forma certa.

 Liquidez

A liquidez é um dos requisitos da obrigação exequenda, pois, só a obrigação líquida, exacta,


pode ser executada (art. 810 CPC), de modo que a execução de uma obrigação ilíquida está
necessariamente sujeita à sua liquidação, e caso a sua liquidação dependa de simples cálculo
aritmético, o exequente determinará o respectivo quantitativo (art. 805/1 CPC).

 Exigibilidade

Uma obrigação é exigível se o respectivo credor pode legitimamente exigir o seu cumprimento ao
devedor. Para melhor compreensão, a obrigação é inexigível quando, estando sujeita a prazo
certo, este ainda não decorreu ou ainda não venceu; não estando a obrigação sujeita a prazo, o
devedor não tenha sido ainda interpelado; estando dependente de prestação a efectuar pelo credor
ou por terceiro, não tenha ainda sido efectuada; tratando-se de uma obrigação condicional, ainda
não tenha se verificado a condição.

No entanto, nem sempre a obrigação reúne os requisitos de certeza, liquidez e exigibilidade, e


porque tal pode constituir fundamento à oposição da execução por parte do executado (arts. 802,
813, al. f), e 815CPC), o exequente deverá promover diligências de modo a torná-la certa,
líquida e exigível, sendo que quanto a liquidação esta pode ser feita no próprio processo pelo
exequente ou pelo tribunal a pedido do exequente (arts. 805/1 e 806/1, CPC)210.

[Link]ção para pagamento de quantia certa.

[Link]ção ordinária

207
LEITÃO, Hélder Martins – Advogado, Do Processo de Execução, 7 a Edição, Almeida & Leitão, Lda,
Porto, 2006, Página 41.
208
LEITÃO, Hélder Martins – Advogado, Ob. cit, Página 41.
209
LEITÃO Hélder Martins – Advogado, Ob. cit, Página 41.
210
Uma das situações que dão lugar às obrigações ilíquidas são as de condenação pelo tribunal no
pagamento de indemnização no valor a liquidar em execução de sentença nos termos do art. 661/2 CPC.

175
A execução para pagamento de quantia certa, na forma ordinária, é regulada pelos artigos 811 a
923 do CPC, podendo na sua tramitação compreender as seguintes fases:

1a Requerimento inicial da execução; 2a Oposição à execução; 3a Penhora; 4a Convocação dos


credores e verificação dos créditos; 5a Pagamento; e 6a Extinção e anulação da execução.

[Link] inicial da execução

1a Requerimento inicial da execução - a execução inicia com um requerimento propriamente


dito, o qual não carece de ser deduzido por artigos211, visto que na tramitação da execução
enquanto processo em nenhum momento haverá que se fazer a especificação e questionário (art.
151/2, CPC, a contrario senso), pelo simples facto de que o processo de execução não
compreende o saneamento e condensação como uma das suas fases.

Contudo, no caso em que a quantia exequenda seja ilíquida e a sua liquidação deva ser feita na
execução, porque pode haver lugar a contestação por parte do executado no prazo fixado para a
dedução dos embargos, e porque nesta hipótese após a contestação seguem-se os termos do
processo de declaração (arts. 805, 806 e 807/2, CPC), o requerimento deverá consequentemente
ser elaborado na forma de artigos.

No requerimento inicial de execução, para além de obviamente identificar o tribunal perante o


qual instaura a execução, identificar as partes (exequente/executado) e indicar o valor, o
exequente terá de indicar o fim da execução, indicar eventualmente os fundamentos do pedido -
senão constarem do título executivo - e deduzir o pedido, requerendo que o executado seja citado
para, no prazo de dez dias, pagar ou nomear bens a penhora, pois, está em causa a efectiva
realização do seu crédito pelo devedor, e não a sua definição que já está assente, sendo que a
citação é feita depois de ordenada a penhora quando se trate de execução de dívida com garantia
real (art. 811/1 e 3212, e art. 467, ex vi art. 466, todos do CPC), para o que o exequente deverá
nomear à penhora, no requerimento de execução, o bem que haja sido dado de garantia.

Não sendo a obrigação líquida, o exequente deverá no requerimento de execução fixar o


quantitativo, quando dependa de simples cálculo aritmético, ou não dependendo de simples
cálculo aritmético especificará os valores que considera compreendidos na prestação devida e
concluirá por um pedido líquido, bem assim pedirá a citação do executado para contestar a
liquidação (arts. 805/1 e 806/1 e 2, CPC).

O exequente deverá naturalmente instruir o requerimento de execução com o título executivo que
lhe serve de base e através do qual se determinará o fim e os limites da execução.

Supondo que o Estado de Moçambique tem a seu favor uma confissão de dívida, na quantia de
180.000,00MT, feita por escritura notarial por António Comprometido, que entretanto não
211
Mas a prática demonstra a preferência generalizada dos exequentes pela dedução por artigos dos
requerimentos iniciais de execução.
212
Redacção dada pelo DL 1/2009, de 24 de Abril.

176
satisfaz o crédito no prazo fixado, o Estado de Moçambique poderá com base no confissão de
dívida assim feita, que constitui título executivo, mover execução para pagamento de quantia
certa, para o efeito terá de apresentar um requerimento perante tribunal competente que pode ser
formulado nos seguintes termos:

REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE
PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA
Procuradoria da República da Província de Maputo

Meritíssimo Juiz de Direito do Tribunal Judicial da Província de Maputo

Estado de Moçambique, representado pelo Ministério Público, vem requerer

Execução para pagamento de quantia certa, com processo ordinário,

Contra

António Comprometido, solteiro, Empresário, residente no Bairro …, com base no seguinte:

1o
Por escritura notarial outorgada no … Cartório Notarial da Cidade da Matola, o executado
o

confessou-se devedor do aqui exequente Estado, no valor de 180.000,00MT, conforme


documento no. 1 que se junta e se dá por inteiramente reproduzido para todos efeitos.

2o
A referida quantia fora cedida de empréstimo ao ora executado no âmbito de iniciativas locais
visando o combate à pobreza e a promoção de iniciativas de desenvolvimento local. Doc. 2.

3o
Embora tivesse sido determinado o dia 20 Setembro como prazo final para o executado efectuar
o pagamento da totalidade da dívida, até à data ainda nada pagou, apesar de interpelado, razão
porque exequente recorre à presente via com vista a ver satisfeito o seu crédito.

4o
O crédito mostra-se assim vencido, sendo certo, líquido e exigível.

Nestes termos e demais de direito que o tribunal suprir, requer-se que recebido, distribuído e
autuado o presente requerimento, seja o executado citado para, no prazo legal, pagar ou

177
nomear bens à penhora sob pena de, não o fazendo, ser devolvido esse direito ao exequente (art.
811/1 CPC).

Valor:180.000,00MT
Junta: 2 documentos e duplicados legais.

O magistrado do Ministério Público

(Nome e assinatura) ”

Outro exemplo que se pode dar, pode ser o de um caso em que Magda, uma empresária que
explora uma avícola, ter fornecido a Armando, também empresário que explora um restaurante,
frangos no valor total de 215.000,00MT, sendo que para efeitos de pagamento passou uma
livrança na referida quantia que venceu no dia 03 de Março de 2009, mas não foi paga por
Armando, o que levou Magda a fazer o protesto da mesma junto ao cartório notarial, instaurando
depois execução contra Armando e seu avalista Lourenço. O requerimento para o efeito pode ser
elaborado nos seguintes termos:

“Meritíssimo Juiz de Direito do Tribunal Judicial da Cidade de Maputo

Magda, maior, Empresária, com domicílio profissional na Av. de Moçambique, n. o 3, Cidade de


Maputo, vem propor e fazer seguir contra

Armando, maior, solteiro, Empresário, residente no Bairro Central, Av. Eduardo Mondlane, n. o
04, Cidade de Maputo, e

Lourenço, maior, solteiro, Gestor de Empresas, residente no Bairro Central, Av. Salvador
Allende, n.o 09, Cidade de Maputo,

Acção Executiva para pagamento de quantia certa, com processo ordinário,

Com os seguintes fundamentos:

1o
No dia 24 de Fevereiro de 2009, o executado Armando subscreveu uma livrança na quantia de
215.000,00MT (duzentos e quinze mil meticais), tendo como data de vencimento o dia 03 de
Março de 2009.

2o
A livrança em alusão tem as assinaturas do subscritor e do seu avalista Lourenço devidamente
reconhecidas, feitas na presença do Ajudante do Notário e que se dá por integralmente
reproduzida para todos o efeitos. Doc. 1.

178
3o
O aval prestado pelo senhor Lourenço é garantia pessoal por lei, resultando daí que fê-lo
responsável com o seu próprio património pelo cumprimento da obrigação assim assumida
perante a exequente (art. 735/1, aplicável por força do art. 780/3, ambos do [Link]).

4o
Após o vencimento da letra a exequente no prazo legal interpelou os executados para pagar (art.
741/1, aplicável por força do art. 780/1 alínea c), ambos do [Link]) , porém, sem sucesso
porque os executados não se mostraram disponíveis para o fazer, embora sejam obrigados a
tanto, tendo sido infrutíferas tentativas de uma resolução amigável do assunto feitas pela
exequente.

5o
A livrança foi escrita e assinada pelo devedor e seu avalista, os ora executados, tendo sido
apresentada a protesto face a falta de pagamento (art. 747/1, aplicável ex vi art. 780/1, alínea
d), ambos do [Link]).

Assim,

6o
A livrança constitui título executivo nos termos da alínea c), do artigo 46, do CPC, na redacção
dada pelo Decreto-Lei n.o 1/2005, de 27 de Dezembro.
7o
A exequente e os executados são partes legítimas, gozam de personalidade jurídica e judiciária e
o tribunal é competente.

Nestes termos e demais de direito aplicáveis, requer-se que recebido, distribuído e autuado o
presente requerimento, sejam os executados citados para, no prazo de dez dias, pagarem à
exequente a quantia de 215.000,00MT (duzentos e quinze mil meticais), acrescida de juros de
mora à taxa de 5% ao ano, contados desde o dia 03 de Março de 2009 até integral pagamento,
ou no mesmo prazo nomearem à penhora bens suficientes para efeitos de pagamento, sob pena
de, não o fazendo, ser devolvido esse direito ao exequente (art. 811/1 CPC).

Valor: 215.000,00MT
Junta: 1 documento, procuração forense e duplicados legais.

O advogado

(Nome e assinatura) ”

Não havendo motivos para indeferimento liminar, o juiz proferirá despacho liminar ordenando a
citação do executado, podendo o fazer em termos bastante simples como se segue:

179
“Cite-se nos termos do art. 811/1 do CPC.

(Nome e assinatura)

Juiz de direito”

[Link]ção à execução

2a Oposição à execução - citado o executado, poderá adoptar uma das seguintes condutas: opor-
se à execução, pagar a quantia em dívida ou remeter-se ao silêncio.

Pretendendo opor-se à execução, o executado fá-lo-á por meio de embargos ou de agravo,


podendo usar ambos meios de defesa, desde que não reproduza num os meios de defesa que
invoque noutro (art. 812 CPC), e no caso em que a oposição é deduzida contra execução baseada
em sentença os fundamentos a invocar não podem ser outros que não os previstos no artigo 813
CPC, sendo que na oposição feita contra execução baseada noutro título, o executado já não está
limitado aos fundamentos consagrados neste artigo na parte em que sejam aplicáveis, pois,
poderá alegar quaisquer outros que seria lícito deduzir como defesa no processo de declaração
(art. 815 CPC).

Tal se compreende porque se a execução é baseada em sentença, significa que o litígio já foi
decidido pelo tribunal no âmbito dum processo em que o devedor/executado teve a oportunidade
de se defender invocando todos os meios de defesa de que dispunha, logo seria permitir o
arrastamento da acção executiva se o executado pudesse invocar outros meios de defesa que teve
a oportunidade de alegá-los no processo declarativo em que a sentença que se pretende executar
foi proferida. Seria uma clara consagração legal de manobras dilatórias.

Os embargos, que são autuados por apenso à acção executiva, devem ser deduzidos no prazo de
dez dias, podendo ser liminarmente rejeitados com fundamento na sua extemporaneidade, de o
fundamento neles invocados não se enquadrar no disposto nos artigos 813 a 815 CPC, ou com
fundamento de ser manifesta a improcedência da oposição do executado (arts. 816 e 817/1,
alíneas. a) a c), ambos do CPC).

Sendo os embargos recebidos, o exequente será notificado para contestar no prazo de dez dias,
após o que segue-se, sem mais articulados, os termos do processo de declaração (art. 817/2
CPC)213.

213
Após a apresentação da contestação pelo exequente/embargado, havendo ou não audiência
preparatória, seguir-se-ia a fase de saneamento e condensação, podendo o tribunal conhecer de alguma
excepção dilatória ou peremptória, ou conhecer do fundo da causa proferindo logo sentença (arts. 508 e
510, CPC, com a redacção dada pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro).

180
Como exemplo prático de embargos de executado, apresenta-se o seguinte:

“Meritíssimo Juiz de Direito do Tribunal Judicial da Província de Maputo

António Comprometido, solteiro, Empresário, residente no Bairro …, citado para os termos de

Execução para pagamento de quantia certa, com processo ordinário,


Que lhe move

Estado de Moçambique, representado pelo Ministério Público, vem tempestivamente deduzir


oposição por Embargos,

Com os seguintes fundamentos:

Da ilegitimidade do executado

1o
Como base da acção executiva exequente Estado apresenta confissão de dívida no valor de
180.000,00MT, feita por escritura notarial outorgada no … o Cartório Notarial da Cidade da
Matola, que juntou como documento n o. 1 e que deu por inteiramente reproduzido para todos
efeitos.

Contudo,
2o
Embora executado António Comprometido, ora embargante, tenha feito e assinado tal confissão
de dívida que serve de base à execução, fê-lo na qualidade de sócio-gerente da sociedade
denominada Desenvolvimento do Distrito, Lda., esta que é de facto devedora do Estado, e não
em nome pessoal.

Assim sendo,
3o
A execução devia ter sido instaurada contra a referida sociedade, representada pelo aqui
embargante, tendo em atenção o postulado no artigo 55/1 do CPC, resultando daí que
embargante é parte ilegítima na execução.

4o
A ilegitimidade do executado constitui, pois, fundamento de oposição à execução ao abrigo do
disposto na alínea c), artigo 813, aplicável ex vi artigo 815/1, ambos do CPC.

Nestes termos e demais de direito aplicáveis, requer-se que autuados por apenso à execução,
seja recebidos, porque tempestivos e devidamente fundamentados, notificando-se o embargado
para contestar no prazo de dez dias, seguindo-se os termos do processo ordinário de declaração
julgando-se, afinal, procedentes e provados os presentes embargos e absolvendo-se o ora
embargado da instância (art. 817/2 CPC).

181
Valor: 180.000,00MT
Junta: procuração forense e duplicados legais.

O advogado

(Nome e assinatura) ”

Proferindo despacho em que recebe os embargos, poderá o juiz fazê-lo nos termos seguintes:

“Recebo os presentes embargos de executado, porque deduzidos em tempo e ajustarem-se ao


disposto no art. 815/1 CPC e art. 817/1, alíneas a) e b), a contrario senso, ambos do CPC.
Notifique-se o exequente para contestar no prazo de dez dias (art. 817/2 CPC).

Data e assinatura

Juiz de direito”

Relativamente ao agravo, cujo regime jurídico está previsto nos artigos 733 a 753 do CPC, o
prazo para a sua interposição enquanto meio de oposição à execução é de oito dias (art. 685/1
CPC).

Quer o meio de oposição deduzido contra a execução seja embargos, quer seja agravo, se a
oposição assim deduzida for julgada procedente, a consequência será a extinção da execução, e
se a oposição for julgada improcedente a execução prosseguirá seus termos.

Se ao invés de se opor à execução, citado nos termos do artigo 811/1 do CPC o executado pagar
a quantia exequenda, naturalmente que a execução será julgada extinta nos termos do artigo
919/1, 1a parte, CPC.

Remetendo-se ao silêncio, o processo prossegue seus termos passado que está o prazo para pagar
ou nomear bens à penhora, e porque o processo não deve ficar refém do executado, com vista a
permitir o seu prosseguimento o direito de nomear bens à penhora, que em primeiro lugar assiste
ao executado (art. 833/1, CPC214), é devolvido ao exequente, independentemente de despacho
(art. 836/1, al. a) CPC), passando o processo à fase de penhora.

[Link]

3a Penhora - através da penhora o tribunal faz diligências conducentes a repor o prejuízo do


credor/exequente que motivou a instauração da execução, concretamente vai desapossar o
214
Redacção dada pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro.

182
devedor/executado de determinados bens a fim de serem alienados e com o seu produto
satisfazer-se o crédito do exequente215.

Serão objecto de penhora todos os bens susceptíveis de penhora, desde que integrem o
património do devedor, por ser este que responde pelas suas dívidas, ou, não fazendo parte do
seu património e pertençam a terceiro, devam responder pela dívida se tiverem sido dados de
garantia216 ou, tendo sido alienados pelo executado para frustrar a sua penhora, tenham sido
objecto de impugnação pauliana (art. 821 CPC e arts. 601 e 610, ambos do CC).

Deste modo, o exequente ao exercer o direito de nomear bens à penhora em alguma das
circunstâncias previstas pelo artigo 836 CPC, deverá ter em conta que há bens absoluta ou
totalmente impenhoráveis previstos no artigo 822 CPC, e bens relativa ou parcialmente
impenhoráveis consagrados no artigo 823 CPC217, de modo que poderá o exequente requerer ao
tribunal a realização de diligências para a localização e identificação de bens penhoráveis do
executado, podendo até diligências nesse sentido serem oficiosamente determinadas pelo juiz
(art. 833/2, CPC com as alterações introduzidas pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro).

Também ao exercer o direito de nomeação de bens à penhora, o exequente deverá identificá-los


na medida do possível em conformidade com o disposto no art. 837, nos. 1, 3 a 6, CPC.

Nos termos do artigo 835 do CPC218, caso a dívida exequenda tenha garantia real, a penhora
começará pelos bens a que respeita a garantia, só podendo recair sobre outros bens quando se
reconheça a insuficiência dos ditos bens para se lograr o fim da execução.

Da penhora de móveis e da penhora de imóveis são lavrados auto e termo, respectivamente (arts.
849 e 838/2, ambos do CPC).

[Link]ção dos credores e verificação dos créditos

4a Convocação dos credores e verificação dos créditos - efectuada a penhora, devem ser citados:

“…
a) O cônjuge do executado, quando a penhora tenha recaído sobre bens imóveis que este
não possa alienar livremente, ou quando o exequente requeira a sua citação, nos termos
do n.o 2 do artigo 825.o; (*)
b) Os credores com garantia real, relativamente aos bens penhorados; (*)

215
Se não forem encontrados nos bancos saldos suficientes para pagamento da quantia exequenda, pois ao
abrigo do art. 833/2 CPC o juiz, oficiosamente ou a pedido do exequente, pode ordenar a realização de
diligências adequadas junto dos bancos com vista a localização e identificação de bens penhoráveis do
executado, do que resulta que sendo identificadas contas bancárias por este tituladas podem os respectivos
saldos serem penhorados.
216
Trata-se de bens onerados com garantia real, visto que esta pode ter sido constituída directamente pelo
terceiro.
217
Redacção dada pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro.
218
Redacção dada pelo DL 1/2009, de 24 de Abril.

183
c) As entidades referidas nas leis fiscais com vista à defesa dos possíveis direitos da
Fazenda Nacional; (*)
d) Os credores desconhecidos. (*)”219

A necessidade de citação do cônjuge do executado deve-se ao facto de a penhora poder ter


recaído sobre bens comuns do casal, e em tal hipótese, não se tratando de dívida comum, o
cônjuge do executado tem a faculdade de requerer a separação de bens de forma a impedir que
seja afectada sua meação nos bens comuns (art. 825/2 CPC).

Relativamente aos credores com garantia real, sobre os bens penhorados, as entidades referidas
nas leis fiscais com vista à defesa dos possíveis direitos da Fazenda Nacional e os credores
desconhecidos, são citados para reclamarem os seus créditos220, sendo que quanto aos direitos da
Fazenda Nacional, casos de dívidas por impostos, é citado o MP enquanto representante do
Estado, e quanto aos credores desconhecidos a sua citação é feita por éditos de vinte dias, com
publicação de anúncios no jornal (arts. 247, 248/1, 864/2, 2 a parte, todos do CPC), em que se
lhes dá a conhecer sobre a pendência da execução e é lhes fixado prazo para deduzirem perante o
tribunal reclamação dos seus créditos, tendo o credor com garantia real sobre os bens
penhorados a faculdade de reclamar o pagamento dos seus créditos com o produto daqueles (art.
865 CPC).

Deduzida a reclamação dos créditos, podem estes ser ou não impugnados pelo exequente e pelo
executado (art. 866 CPC221), podendo o reclamante cujo crédito tenha sido impugnado responder
nos termos do art. 867 CPC, após o que, havendo ou não lugar a produção de prova, proferir-se-
á despacho saneador e/ou sentença em que se reconhecerá ou não os créditos, fazendo-se a
graduação dos mesmos em caso de reconhecimento (art. 868 CPC).

O MP citado para reclamar eventuais créditos da Fazenda Nacional, e havendo-os222, supondo


que se trata de dívida no valor de 115.000,00MT decorrente da falta de pagamento de IVA por
um empresário em nome individual, poderá a reclamação ser deduzida nos termos seguintes:

REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE
219
Art. 864/1 CPC.
220
A garantia pode ser a consignação de rendimentos, o penhor, a hipoteca e os privilégios creditórios,
(arts. 656, 666, 686, 733, todos do CC).
221
Com as alterações introduzidas pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro.
222
Logo que for citado nos termos do art. 864/1, al. c), para efeitos do disposto no art. 865, ambos do
CPC, o MP deverá, consoante a categoria do Tribunal onde corre a execução, oficiar à Direcção Nacional
de Impostos ou à Direcção da Área Fiscal relativa ao domicílio do executado solicitando informação
sobre existência de eventuais créditos a favor do Estado por dívida de impostos pelo executado, e
enquanto aguardar resposta deverá requerer prorrogação de prazo para se pronunciar no processo (art.
486/3, aplicável ex vi art. 466/1, CPC, com as alterações introduzidas pelo DL 1/2005, de 27 de
Dezembro).

184
PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA
Procuradoria da República da Província de Maputo

Meritíssimo Juiz de Direito do Tribunal Judicial Provincial de Maputo

Proc. No. 1/2007

Ministério Público junto deste Tribunal, notificado nos termos do art. 864/1, al. c), vem ao
abrigo do art. 865/2, 2a parte, ambos do CPC, por apenso a execução à margem indicada,

Contra Nico Armando, casado, empresário, residente no Bairro …(endereço completo),

Reclamar crédito,

Fazendo-o com os fundamentos seguintes:

1o
Na execução em alusão, encontram-se penhorados os bens devidamente mencionados no
competente auto de penhora constante a fls. 23, sob as verbas no.s 1, 2 e 3.

Ora
2o
O executado, enquanto empresário em nome individual, é devedor à Fazenda
Pública/Repartição de Finanças da Matola, na quantia de 115.000,00MT, relativa a quantias
por si recebidas, a título de IVA, dos clientes a quem vendeu mercadoria diversa, nos meses de
Novembro e Dezembro ano de 2006, e que devia os ter encaminhado ao Estado (doc. 1).

3o
Nestes termos e demais de direito que o tribunal suprir, requer que autuado por apenso à
execução em epígrafe, seja o crédito verificado e graduado no lugar legal.

Valor: 115.000,00MT
Junta: certidão comprovativa de dívidas fiscais e duplicados legais.

O magistrado do Ministério Público

(Nome e assinatura) ”

[Link]

185
5a Pagamento - a fase de pagamento constitui o ponto mais alto da execução por quantia certa,
dadas as expectativas do exequente que podem ser satisfeitas com a efectiva realização do seu
crédito.

O pagamento pode ser efectuado mediante entrega de dinheiro, adjudicação dos bens
penhorados, consignação dos seus rendimentos ou pelo produto da respectiva venda (art. 872
CPC).

[Link].Entrega de dinheiro

É feita mediante pagamento do crédito do exequente, quando nenhum outro credor deva preteri-
lo, pelo dinheiro existente quando a penhora tenha recaído sobre moeda corrente ou sobre
crédito em dinheiro cuja importância foi depositada (art. 874 CPC).

O pagamento mediante a entrega de dinheiro ao exequente ou qualquer credor que deva preteri-
lo, recaindo sobre moeda corrente ou sobre crédito em dinheiro cuja importância tenha sido
depositada, é a forma mais simples e prática de efectuar o pagamento do crédito, visto fazer-se
apenas a entrega do dinheiro correspondente e na medida da moeda corrente ou crédito em
dinheiro que tenha sido penhorado e do crédito a satisfazer.

[Link].Adjudicação dos bens penhorados

Se tiverem sido penhorados determinados bens, que não moeda corrente ou crédito em dinheiro,
e desde que não sejam bens que devam ser vendidos nas bolsas de valores ou directamente a
determinadas entidades (art. 884, com as alterações introduzidas pelo DL 1/2005, de 27 de
Dezembro, e art. 885, CPC)223, pode o exequente requerer que tais bens lhe sejam adjudicados
(art. 875 CPC).

A faculdade de requerer a adjudicação dos bens penhorados assiste igualmente a qualquer


credor reclamante, relativamente aos bens sobre os quais tenha invocado garantia, ressalvado
que tendo já sido proferida a sentença de graduação de créditos no momento em que tal pedido é
apreciado, o mesmo só é atendido quando o crédito do requerente tenha sido efectivamente
reconhecido e graduado (art. 875/1, 2o parágrafo, CPC).

Aliás, não poderia ser de outro modo, visto que não faria sentido atender ao pedido de
adjudicação dos bens penhorados deduzido por credor reclamante depois de ter sido proferida a
sentença de graduação de créditos que não reconheceu e graduou o crédito que pressupõe a
adjudicação dos bens ora requerida.

Devem ser vendidos nas bolsas de valores os títulos de crédito que nelas tenham cotação (art. 884/1,
223

CPC, redacção dada pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro).

186
Portanto, o credor reclamante cujo crédito não tenha sido reconhecido e graduado por sentença
não pode requerer a adjudicação dos bens penhorados, se o fizer o seu pedido deverá ser
indeferido nos termos da 2a parte, 2o parágrafo do n.o 1, artigo 875 CPC.

O requerente da adjudicação deve indicar o preço que propõe, não podendo este ser inferior ao
valor pelo qual os bens teriam de ser postos em arrematação, quando a adjudicação seja pedida
antes da segunda praça (art. 875/2 CPC); tratando-se de imóvel, o preço proposto não poderá ser
inferior ao resultante do rendimento colectável inscrito na matriz, e tratando-se de móvel não
deve ser inferior ao valor que lhe tenha sido atribuído no acto de penhora (art. 896/2 CPC).

Sendo a adjudicação requerida após o anúncio da venda judicial, esta não é sustada, e a
consideração do pedido está condicionada à falta de licitantes ou concorrentes que ofereçam
preço superior (art. 875/3 CPC).

Trata-se de garantir que os bens penhorados sejam adjudicados ao melhor preço possível, é
assim que requerida a adjudicação, por despacho do juiz, designa-se dia e hora para a abertura
de propostas de preço superior ao oferecido ou proposto pelo requerente, dando-se publicidade
ao mesmo mediante sua menção nos editais e anúncios, sendo o despacho notificado tanto ao
executado como àqueles que podiam requerer a adjudicação, bem assim aos titulares de qualquer
direito de preferência na alienação dos bens, como se depreende do estabelecido no artigo 876/1
e 2, CPC.

Não aparecendo nenhuma proposta e ninguém se apresentando a exercer o direito de preferência,


é aceite o preço oferecido pelo requerente e adjudica-se-lhes os bens, sendo notificado para em
dia e hora certa fazer o depósito da importância devida e assinar o auto de adjudicação e entrega
de bens, sob pena de ser capturado e os bens irem novamente à praça para serem arrematadas
por qualquer quantia, ficando à sua responsabilidade a diferença de preço, cessando a prisão,
que não pode durar mais de um ano logo, logo que esteja cobrada a quantia em causa (artigo
877/4, com referência ao artigo 894/5, este com referência ao artigo 904, todos do CPC224).

Do anteriormente referido conclui-se que apenas quando não apareça nenhuma proposta, que por
imperativo legal deve ser superior ao preço oferecido pelo requerente, e ninguém se apresente a
exercer o direito de preferência, cuja efectivação também pressupõe que o titular respectivo
ofereça preço superior, é que se aceita o preço oferecido pelo requerente da adjudicação (art.
877/1 CPC).

Quid júris quando seja oferecido preço superior ao proposto pelo requerente da adjudicação?

Quando haja preço superior ao preço oferecido pelo requerente, as propostas assim feitas são
entregues na secretaria do tribunal e abertas na presença do juiz, e assistem à abertura, querendo,
o executado, exequente, os reclamantes de créditos com garantia sobre os bens a vender e os
proponentes, e caso o preço mais elevado tenha sido oferecido por mais de um proponente, como
que um mecanismo de desempate abre-se imediatamente licitação entre eles, a não ser que os
proponentes declarem que pretendem adquirir os bens em compropriedade (art. 893/1 e 2,
aplicável ex vi art. 877/2, ambos do CPC).
224
Redacção dada pelo DL 1/2009, de 24 de Abril.

187
Pode suceder que havendo propostas de preço superior ao oferecido pelo requerente, no acto da
sua abertura esteja presente apenas um dos proponentes, nesse caso o proponente presente “…
pode…cobrir a proposta dos outros”225, o que significa que é considerada a proposta do
proponente presente se este aumentar o preço da sua oferta com vista a superar a dos outros
proponentes, pois, dispõe a lei que se “…nenhum deles estiver presente ou nenhum quiser cobrir
a proposta dos outros, procede-se a sorteio para determinar a proposta que deve prevalecer”226.

Para efeitos de deliberação sobre as propostas de preço superiores ao oferecido pelo requerente,
nos termos do artigo 894/1, aplicável ex vi art. 877/2, ambos do CPC, em acto contínuo à sua
abertura ou depois de efectuada a licitação ou o sorteio a que houver lugar, o executado e o
exequente, bem como os credores que hajam comparecido, procedem à sua apreciação.

Pode suceder que nem o executado e o exequente, nem os credores tenham comparecido; nesse
caso considera-se aceite a proposta de maior preço, salvo se a mesma for havida ou considerada
como excessivamente baixa pelo juiz.

Feita a apreciação às propostas de preço para efeitos de deliberação, entre os interessados,


designadamente o executado, o exequente e os credores, podem não haver consenso ou acordo,
em tal situação prevalece o voto dos credores que, entre os que estejam presentes ao acto,
tiverem maioria de créditos sobre os bens a que a proposta se refere, o que pressupõe que tais
bens estejam onerados para garantia de pagamento de créditos em questão, como resulta do
disposto no artigo 894/2, 1a parte, aplicável por força do artigo 877/2, ambos do CPC.

Contudo, caso o executado não concorde com nenhuma das propostas de preços, pode opor-se à
aceitação de qualquer delas, requerendo prazo, não superior a oito dias, a fim de oferecer
pretendente que se responsabilize por preço superior, marcando-se imediatamente dia para se
deliberar sobre a proposta do pretendente (artigo 894/2, 2a parte, aplicável por força do artigo
877/2, ambos do CPC).

Assim, mesmo que determinado pretendente tenha oferecido preço superior ao proposto pelo
requerente da adjudicação, não se conformando com o mesmo, o executado dispõe de uma
oportunidade para que o seu bem (penhorado) seja adjudicado pelo melhor preço possível.

Quando alguma proposta seja aceite, o proponente respectivo é nos termos do artigo 894/3 do
CPC notificado para, em dia e hora certa, depositar numa instituição bancária o correspondente à
décima parte do preço e assinar o auto de transmissão e entrega dos bens, sob pena de captura e
de os bens irem novamente à praça para serem arrematadas por qualquer quantia, recaindo sobre
o primeiro proponente a responsabilidade pela diferença de preço, não podendo a prisão durar
mais de um ano e cessando logo que esteja cobrada a quantia por que for responsável (números 3
e 4, do artigo 904227, aplicável com as necessárias adaptações ex vi artigo 894/5, este por sua
aplicável por força do artigo 877/2, todos do CPC).

225
Cfr. 1a parte, n.o 3 do artigo 893, aplicável ex vi art. 877/2, ambos do CPC.
226
Cfr. 2a parte, n.o 3 do artigo 893, aplicável por força do art. 877/2, ambos do CPC.
227
Redacção dada pelo DL 1/2009, de 24 de Abril.

188
Outra sanção em que incorre o proponente cuja proposta foi aceite e que, uma vez notificado,
falte à obrigação de efectuar numa instituição bancária, em dia e hora certa, ao depósito
correspondente à décima parte do preço e assinar o auto de transmissão e entrega dos bens, é
que “…não é admitido a lançar na nova praça, mas, se depositar o preço até ao momento da sua
abertura, fica ela sem efeito, subsistindo a arrematação”228.

A captura do proponente cuja proposta foi aceite por incumprimento ao prescrito no número 3
do artigo 894 do CPC, é uma sanção de natureza civil, visto que a mesma cessa assim que esteja
cobrada a quantia por que for responsável.

A propósito da obrigação de depósito da décima parte do preço em dia e hora certa, há que ter
em conta que no caso particular do exequente pode requerer que o bem adjudicado lhe seja
entregue como prestação diversa da que lhe é devida, o pagamento de quantia certa ou da
quantia exequenda, ou seja, a realização da sua prestação na forma de dação em cumprimento,
visto que ao abrigo do artigo 837 do Código Civil ela é admitida e exonera o devedor se o credor
der o seu assentimento, nada obstando assim que este a requeira.

Aliás, estando já graduados os créditos, o exequente a quem os bens são adjudicados é


dispensado de depositar a parte do preço que não seja necessária para pagar os credores que lhe
antecedem na ordem de graduação e não excede a importância que tem direito a receber, sendo
igual dispensa concedida ao credor com garantia sobre os bens que adquirir, como se alcança
das disposições do número 1 do artigo 906, CPC, aplicável extensivamente por força do artigo
878, do mesmo diploma legal. Disto decorre que a adjudicação dos bens ao exequente ou ao
credor com garantia sobre os mesmos, reveste a forma de dação em cumprimento por via de
dispensa de pagamento do respectivo valor e na medida do crédito, pois, o pagamento da quantia
certa ou prestação pecuniária é realizada através de uma prestação diversa da devida.

Tal tem a sua razão de ser, na medida em que não tem interesse prático exigir do exequente ou
credor com garantia sobre os bens que lhe são adjudicados, o depósito do preço correspondente
para, dependendo da graduação do seu crédito, logo a seguir entregar-se-lhe, como que de volta,
a quantia por si paga. Desde que tenha preferência sobre os demais credores é prático ser
dispensado do depósito da importância correspondente ao bem adjudicado e na medida do seu
crédito ou até ao montante deste, não tendo preferência, basta que se lhe exija que deposite
apenas a parte do preço que seja necessária para pagar os credores que lhe antecedem na ordem
de graduação até ao valor que tem direito a receber.

Na situação inversa, isto é, quando ainda os créditos não estejam graduados, “…o exequente não
é obrigado a depositar mais do que a parte excedente à quantia exequenda e o credor só é
obrigado a depositar a parte excedente ao montante do crédito que tiver reclamado sobre os bens
adquiridos…”229, e ficam estes hipotecados à parte do preço não depositada ou não são entregues
ao adquirente sem que este preste caução equivalente ao seu valor, consoante sejam imóveis ou
doutra natureza (artigo 906/2, aplicável extensivamente ex vi artigo 878, ambos do CPC).

228
Cfr. n.o 5, do artigo 904, aplicável com as necessárias adaptações ex vi artigo 894/5, este por sua
aplicável por força do artigo877/2, todos do CPC)
229
Cfr. art. artigo 906/2, aplicável extensivamente ex vi artigo 878, ambos do CPC.

189
Pode suceder que feita a graduação dos créditos e por efeito desta o adquirente (exequente ou
credor com garantia sobre os bens) não tenha direito à quantia que deixou de depositar ou a parte
dela. Neste caso, é notificado para proceder ao depósito no prazo de oito dias, sob a cominação
de ser preso e executado nos termos do artigo 904, começando a execução pelos próprios bens
adquiridos ou pela caução, ou seja, não fazendo o depósito o adquirente é capturado e os bens
vão novamente à praça a fim de serem arrematados por qualquer importância, cabendo ao
primeiro adquirente a responsabilidade pela diferença de preço, e a prisão, que não pode durar
mais de um ano, cessa assim que esteja cobrada a quantia por que for responsável (artigo 906/3
com referência ao artigo 904230, aplicável extensivamente por força do artigo 878, todos do
CPC).

[Link].Consignação dos seus rendimentos

O pagamento do crédito do exequente pode ser efeito mediante consignação dos rendimentos231
dos bens penhorados, imóveis ou móveis sujeitos a registo, a pedido do exequente e enquanto tais
bens não forem vendidos ou adjudicados. A consignação dos rendimentos só é deferida se o
executado, ouvido sobre o pedido do exequente, não requerer a venda dos bens (art. 879/1 e 2,
CPC).

Como vimos acima, após a efectivação da penhora e junta a certidão dos direitos, ónus ou
encargos inscritos, quando for necessária, devem ser citados os credores para a execução nos
termos do artigo 864/1 do CPC.

Caso a consignação seja requerida antes da referida citação, esta é dispensada, só sendo feita se
o pedido do requerente for indeferido (art. 879/3 CPC).

No que se refere ao processamento da consignação de rendimentos, esta uma vez requerida e


estando os bens locados, sendo o pedido deferido é o despacho que ordena a consignação
notificado aos locatários, e quando os bens não estejam ainda locados ou haja de celebrar-se
novo contrato, os bens serão locados em hasta pública, a não ser que o consignatário e executado
acordem em locá-los mediante propostas ou por negociação particular (art. 880/1 e 2, CPC).

A consignação das rendas destina-se, primeiro, ao pagamento das custas, e só depois de estas
terem sido pagas é que as rendas passam a ser recebidas pelo consignatário até que se mostre
paga a totalidade do seu crédito, como se alcança do artigo 659/1 do CC e artigo 880/4 CPC. Tal
se compreende, porquanto não preferindo o credor requerer a venda dos bens penhorados,
quando tenha requerido a consignação de rendimentos devem obviamente estes lhe serem
entregues até que se mostre paga a totalidade do seu crédito.

230
Redacção dada pelo DL 1/2009, de 24 de Abril.
231
A consignação de rendimentos é também uma garantia especial das obrigações, pode ser constituída
mesmo que a obrigação seja condicional ou futura, e pode ser voluntária ou judicial. Esta decorre da
decisão do tribunal, como é o caso da consignação de rendas dos bens penhorados por decisão do tribunal
a requerimento do exequente no âmbito dum processo executivo (art. 656/1 e 658/1 e 2, ambos CC).

190
Com vista a tornar prático e consequentemente facilitar o recebimento das rendas do bem
penhorado pelo consignatário, este fica na posição de senhorio, porém, para efeitos apenas de
recebimento das rendas, visto que não pode resolver o contrato, nem tomar qualquer decisão
respeitante aos bens, sem consentimento do executado e, havendo divergência entre o
consignatário e o executado, decidirá o juiz (art. 880/4 CPC). Disto resulta que a posição do
consignatário como senhorio em razão da consignação de rendimentos (rendas) é precária.

A consignação tem efeitos sobre a execução, na medida em que uma vez efectuada e pagas as
custas da execução, a consequência é que esta é julgada extinta, levantando-se as penhoras que
incidam sobre outros bens, visto já não se justificar a existência da execução, porque o fim a que
ela se destinava, o pagamento de quantia certa, é feito gradualmente mediante a consignação das
rendas, esta que é, em face do despacho que a institua, registada por averbamento ao registo da
penhora, pois, a consignação está sujeita a registo e tratando-se de títulos de crédito nominativos
a consignação deve ser nelas mencionada e averbada (art. 660/2 CC e 881/1 e 2, CPC).

O registo da consignação tem efeitos importantes a favor do consignatário, porque caso os bens
venham a ser vendidos ou adjudicados, livres do ónus da consignação, aquele “…será pago do
saldo do seu crédito pelo produto da venda ou adjudicação, com prioridade da penhora a cujo
registo a consignação foi averbada”232, ou seja, vendido ou adjudicado o bem o consignatário
será pago do saldo do seu crédito pelo produto da venda ou adjudicação, porém, deverá primeiro
ser pago o crédito garantido pela penhora registada antes da consignação de que esta é, por
conseguinte, averbamento (art. 881/3 CPC).

O acima exposto relativamente aos efeitos da consignação, nos termos do número 4, do artigo
881 do CPC, aplica-se com as necessárias adaptações à consignação de rendimentos de títulos de
crédito nominativos, para o que deve a consignação ser mencionada nos títulos e averbada.

[Link].Venda

Os bens penhorados podem ser vendidos, judicial ou extra-judicialmente, para que com o
produto se efectue o pagamento do crédito do exequente e/ou dos demais credores. A venda é, a
requerimento do exequente, ordenada por despacho, que é notificado a este e aos credores
reclamantes de créditos com garantia sobre os bens a vender (artigo 882/1 e 2, CPC).

A venda reveste duas modalidades: judicial e extrajudicial.

A venda judicial pode ser realizada mediante propostas em carta fechada ou por arrematação
em hasta pública (art. 883/1 CPC). Quanto a venda extrajudicial pode ser numa das formas
previstas nas alíneas a), b), c) e d), do número 2, do artigo 883, CPC233.

232
Cfr. artigo 881/3 do CPC.
233
Redacção dada pelo Decreto-Lei n.o 1/2005, de 27 de Dezembro.

191
[Link].[Link] extrajudicial

A venda extrajudicial pode revestir as modalidades de 1a venda em bolsas de valores ou de


mercadorias; 2a venda directa a entidades que tenham direito a adquirir determinados bens; 3a
venda por negociação particular e 4a venda em estabelecimento de leilões.

1a venda em bolsas de valores ou de mercadorias - são vendidos em bolsas de valores234 os


títulos de crédito que nelas tenham cotação, caso na província de execução houver bolsas de
mercadorias, nestas são vendidas as mercadorias que aí forem cotadas (art. 884/1 e 2, CPC235).

2a venda directa - a venda directa é, nos termos do artigo 885 do CPC, feita quando haja bens
que, por imperativo legal, devam ser entregues a determinadas entidades. Penhorados
determinados bens que por imperativo legal devam ser entregues a determinadas entidades, a
venda deverá lhe ser feita directamente, pois, em tal caso a lei não dá a possibilidade de opção
quanto ao comprador.

3a venda por negociação particular - a modalidade de venda por negociação particular tem lugar
em duas situações: 1a quando o executado e os credores que representem a maioria dos créditos
com garantia sobre os bens a vender assim o requeiram, ou 2a quando os bens penhorados sejam
de reduzido valor de modo que não suportem as despesas da hasta pública ou a realização da
venda se mostre urgente (alíneas a) e b), do artigo 886, CPC).

Decorre do disposto no número 1, artigo 887 do CPC, que a venda por negociação particular é
ordenada por despacho no qual designa-se a pessoa sobre quem impende a responsabilidade de a
efectuar, a qual procede como mandatário, podendo fixar-se também no despacho o preço
mínimo. O instrumento da venda só é lavrado depois de o comprador ter feito o depósito do
preço numa instituição bancária a ordem do tribunal, devendo se fazer declaração no acto da
venda da pendência de recurso da sentença que se executa ou de embargos de executado ou
agravo do despacho liminar, quando seja o caso (art. artigo 887/3 236 e 4, CPC), declaração que
não é senão uma manifestação do princípio da boa fé na formação dos contratos consagrado no
artigo 227/1 do Código Civil.

4a venda em estabelecimento de leilões - à semelhança do que ocorre com a venda por


negociação particular, a venda em estabelecimento de leilões também é feita quando assim o
requeiram o executado e os credores que representem a maioria dos créditos com garantia sobre
os bens a vender, com a única diferença de que no caso desta modalidade de venda extrajudicial,
o Código de Processo Civil no seu número 1, do artigo 888, refere-se expressamente a bens
móveis, diferentemente do que sucede com a modalidade de venda por negociação particular em
que a lei não distingue a natureza dos bens, resultando daí que, quer se trate de bens imóveis quer
se trate de bens móveis, desde que requerida e deferida esta modalidade de venda extrajudicial
pode ser efectuada.

234
No caso moçambicano existe a Bolsa de Valores de Moçambique abreviadamente designada por BVM.
235
Redacção dada pelo Decreto-Lei n.o 1/2005, de 27 de Dezembro.
236
Redacção dada pelo DL 1/2009, de 24 de Abril.

192
Como é obvio, a modalidade da venda em estabelecimento de leilões é feita por pessoal do
estabelecimento e em conformidade com as regras em uso, doutro modo, o estabelecimento
estaria sujeito a admitir a entrada à pessoas estranhas para fazerem-na, o que constituiria uma
intromissão nas funções do estabelecimento.

Feita a venda, o gerente do estabelecimento deposita o preço líquido numa instituição bancária, à
ordem do tribunal, devendo juntar ao processo o respectivo conhecimento (art. 888/2, CPC237).

O leilão é anulado por despacho do juiz quando, face às reclamações dos credores, do executado
ou de qualquer licitante, se constate e prove ter havido irregularidades que viciaram o resultado
final da licitação, sendo o dono do estabelecimento sancionado mediante condenação na
reposição do que tiver embolsado, sem prejuízo da indemnização pelos danos que haja causado.
A anulação implica a repetição do leilão noutro estabelecimento e, não existindo, a solução é a
opção pela venda judicial ou por negociação particular, é o que resulta do prescrito nos números
4 e 5, do artigo 888 do CPC.

[Link].[Link] judicial

A venda judicial está dependente da não realização da venda extrajudicial em qualquer uma das
suas modalidades acima mencionadas, a qual traduz-se na arrematação dos bens em hasta
pública, excepto “…se, nos termos do artigo 886.o, se decidir que a venda se faça por meio de
propostas em carta fechada”238.

Quando se deva proceder à venda judicial, é designado o dia e a hora para a praça ou para a
abertura das propostas, consoante a venda seja feita por meio de arrematação em hasta pública
ou através de propostas em carta fechada, com a necessária antecipação para, mediante afixação
de editais e publicação de anúncios, se dar ao facto a necessária publicidade (artigos 883/1 e
890/1, ambos do CPC), podendo o juiz para o mesmo fim, ao abrigo da segunda parte do número
1, artigo 890 do CPC, oficiosamente ou a requerimento dos interessados, decidir que a venda
judicial seja tornada pública por outros meios.

O tempo que deve anteceder a praça ou a abertura das propostas relativamente a afixação de
editais e publicação de anúncios é de dez dias. Os editais são afixados, quer na porta do tribunal
quer na porta do órgão de administração local em que os bens se encontrem, e ainda na porta do
bem a vender quando se trate de prédio urbano239, e os anúncios são publicados em dois números
ou edições seguidas num dos jornais mais lidos da localidade da situação dos bens ou, não
havendo na localidade periódico, num dos jornais que nela sejam mais lidos, excepto se o juiz

237
Redacção dada pelo DL 1/2009, de 24 de Abril.
238
Cfr. artigo 889, in fine, CPC.
239
Prédio urbano é classificado como coisa imóvel e entende-se como “…qualquer edifício incorporado
no solo, com os terrenos que lhe sirvam de logradouro” (número 1, alínea a) e número 2, 2 a parte, do
artigo 204, C.C).

193
em qualquer dos casos, tendo em conta o valor diminuto dos bens, os achar dispensáveis240 (art.
890/2 e 3, CPC241).

Nos termos dos números 4 e 5, do artigo 890 do CPC, são elementos que devem constar nos
editais e anúncios:
b) o nome do executado, a secretaria por onde corre o processo e o dia, hora e local da
arrematação ou da abertura das propostas;
c) a identificação sumária do bem e declaração do valor em que vai à praça, quando se trate
de imóvel; se for móvel, somente se indicará a sua espécie; e
d) a menção da pendência de recurso interposto contra a sentença que se executa ou de
embargos de executado ou agravo do despacho liminar, se for o caso.

Para que possam exercer o seu direito de preferência na alienação dos bens242, querendo e
podendo, os titulares deste direito são notificados do dia e hora da arrematação ou do dia e hora
da entrega dos bens ao proponente (art. 892 CPC).

1aVenda por meio de propostas

Quando a venda se faça por meio de propostas em carta fechada que são entregues na secretaria
do tribunal, à sua abertura, na presença do juiz, podem assistir o executado, o exequente, os
reclamantes de créditos com garantia sobre os bens a vender e os proponentes e se o preço mais
elevado for oferecido por mais de um proponente, para efeitos de desempate abre-se de imediato
licitação entre eles, excepto se os proponentes declararem que pretendem adquirir os bens em
compropriedade (art. 893/1 e 2, do CPC).

Quando ao acto de abertura de propostas esteja presente apenas um dos proponentes, pode esse
cobrir a proposta dos outros, isto é, aumentar o preço da sua oferta para superar a dos demais
proponentes, que são na realidade concorrentes à aquisição ou compra do bem, e não estando
presente nenhum deles ou nenhum quiser cobrir a proposta dos outros, faz-se sorteio para
determinar a proposta que deve prevalecer (artigo 893/3, do CPC).

Apresentadas as propostas segue-se a deliberação sobre as mesmas e adjudicação dos bens. Para
tal, em acto contínuo à sua abertura ou depois de efectuada a licitação ou o sorteio a que houver
lugar, as propostas são apreciadas pelo executado, exequente e os credores que hajam
comparecido. Caso nenhum tenha comparecido, considera-se aceite a proposta de maior preço,
excepto se a mesma for considerada excessivamente baixa pelo juiz (artigo 894/1 CPC).

Na falta de acordo entre os interessados quanto a proposta a considerar e aceitar, prevalece o


voto dos credores que, estando presentes, representem a maioria de créditos sobre os bens a que
240
Relativamente a dispensa de publicação de anúncios quando assim o juiz o considere, atento ao valor
diminuto do bem a vender, importa referir que em sede de disposições gerais o Código de Processo Civil
no seu número 4, artigo 248, na redacção dada pelo DL n. o 1/2005, de 27 de Dezembro, também prevê a
não publicação de anúncios para efeitos de citação edital também nos casos de diminuta importância em
que o juiz os considere dispensáveis.
241
O número 2 do artigo 890 sofreu alteração face a redacção dada pelo DL n. o 1/2005, de 27 de
Dezembro.
242
O direito de preferência pode resultar da lei ou da convenção pelas partes.

194
a proposta respeita, sem prejuízo do executado discordar e opor-se à aceitação de qualquer
proposta, requerendo prazo, não superior a oito dias, para oferecer pretendente que se
responsabilize por preço superior. Neste caso é marcado logo dia para se deliberar sobre a
proposta do pretendente (artigo 894/2, do CPC).

Em qualquer dos casos, aceite alguma proposta243 segue-se a notificação do proponente para, em
dia e hora certa, depositar o correspondente a décima parte do preço e assinar o auto de
transmissão e entrega dos bens, e o restante deve ser depositado pelo proponente directamente
numa instituição bancária, sob pena da sua captura e de os bens serem postos novamente à venda
judicial por meio de propostas em carta fechada por qualquer quantia, recaindo sobre o
proponente remisso ou incumpridor a responsabilidade pela diferença de preço, sendo que a
prisão não pode durar mais de um ano e cessa logo que esteja cobrada a quantia por que for
responsável o proponente (art. 894/3 e números 3 244 e 4, do artigo 904, aplicável com as
necessárias adaptações por força do número 5, do já citado artigo 894, ambos do CPC).

Tal como vimos anteriormente a propósito da adjudicação, a captura do proponente é uma


sanção que reveste natureza civil, visto que ela cessa logo que esteja cobrada a quantia por que
for responsável.

Frustrando-se a venda por motivo de irregularidades referentes à abertura, licitação, sorteio,


apreciação e aceitação das propostas, que devem ser arguidas no próprio acto, ou por motivo de
nenhuma proposta ter sido aceite relativamente a todos ou parte dos bens, os interessados
presentes resolverão sobre a forma como deve fazer-se a respectiva venda, ou não tendo
comparecido nenhum interessado ao acto de abertura de propostas, a forma de fazer a venda é
resolvida pelo juiz (art. 895 CPC).

2a Venda por arrematação

A arrematação dos bens é, quanto ao local da sua realização, feita de acordo com o princípio do
foro da localização dos bens, visto que tem lugar sempre no tribunal da situação dos bens, quer
se trate de imóveis quer se trate de móveis. Excepcionalmente, por acordo expresso do executado
e dos credores ou por determinação judicial, relativamente a móveis a arrematação pode ser feita
no lugar que for julgado mais conveniente que não seja o da situação dos bens (art. 896/1 CPC).

Relativamente ao valor por que os bens vão à praça, nos termos do postulado no número 2,
artigo 896 do CPC, o dos imóveis é o resultante do rendimento da matéria colectável inscrito na
matriz e o dos móveis pelo que lhes tenha sido atribuído no acto da penhora, sem prejuízo de, em
ambos os casos, o exequente e o executado, por acordo espontâneo, assentarem noutro valor.
Quanto aos créditos e imóveis “…não inscritos na matriz são postos em praça pelo valor que lhes
for atribuído pelo exequente”245.

243
Pode ser uma proposta dum proponente ou dum titular de direito de preferência.
244
Redacção dada pelo DL 1/2009, de 24 de Abril.
245
Cfr. artigo 896/3 do CPC.

195
A arrematação pressupõe obviamente uma certa organização dos bens ditada por razões de
conveniência com o fim de a facilitar, de modo que em conformidade com as disposições do
número 2, artigo 897 do CPC, quanto aos móveis, incluindo os créditos, podem ser arrematados
singularmente, por lotes ou em globo, consoante as partes acordarem ou o juiz considerar mais
conveniente, e no que toca aos imóveis são arrematados singularmente, ou seja, um por um,
excepto se razões especiais de proximidade ou dependência recomendarem a arrematação
conjunta, por se presumir esta mais rendosa.

A arrematação, que é presidida pelo juiz, obedece a um formalismo ou solenidade.

O juiz manda anunciar a abertura da praça e o oficial, que exerce as funções de pregoeiro,
anuncia em voz alta o primeiro lanço que aparecer acima do valor por que os bens foram postos
em praça e os valores que se sucederem, tomando conta dos respectivos licitantes, só se
considerando finda a licitação quando tiver anunciado, por três vezes, o lanço mais elevado e o
mesmo não for coberto (art. 897/1 e 3, CPC).

Finda a licitação, segue-se a interpelação dos titulares do direito de preferência a fim de


declararem se pretendem exercer o seu direito e caso mais de um preferente queira o fazer, abre-
se licitação entre eles, sendo o bem adjudicado ao que maior preço oferecer, é o que resulta do
prescrito no número 4 do artigo 897 do CPC.

A arrematação, “…que pode ser adiada, oficiosamente ou a requerimento de qualquer


interessado, quando haja fundada suspeita de conluio entre os concorrentes à hasta pública” 246,
cessa assim que o produto dos bens arrematados se mostre suficiente para cobrir as despesas da
execução e assegurar o pagamento ao exequente, a não ser que haja outros bens sobre os quais
tenha sido graduado algum crédito vencido, pois, neste caso a arrematação deverá continuar para
a venda de tais bens se o titular do crédito para o efeito o requerer (art. 899/1 CPC).

A arrematação pode não se efectivar em virtude de, passada uma hora, não haver lanço superior
ao valor por que os bens foram postos em praça, é a hipótese de praça deserta.

Em tal situação, a praça é encerrada e designa-se logo dia, se for possível, para a segunda praça,
mas os bens vão a esta por metade do preço, podendo, em alternativa, ordenar-se, oficiosamente
ou a requerimento dos interessados a que se referem as disposições da alínea a) do artigo 886,
que sejam vendidos particularmente ou por meio de propostas em carta fechada (art. 901/1 e 2,
CPC).

Caso os bens devam ir à arrematação em segunda praça, esta não poderá ter lugar sem que
tenham passado pelo menos seis dias, sendo menor a publicidade dada à mesma, porquanto por
um lado, a sua notícia é dada por um único edital afixado com a antecedência mínima de três
dias e por um único anúncio publicado com igual antecipação e, tratando-se de prédio urbano, a
afixação de edital é feita na porta deste e, caso se trate de bens de outra espécie, na do edifício
onde a arrematação deva realizar-se (art. 902/1 e 2, CPC), por outro, resulta do número 3 do
artigo 902 do CPC, que os preferentes não são novamente notificados, cabendo

246
Cfr. artigo 899/2 CPC.

196
consequentemente aos mesmos, se tiverem interesse em exercer o seu direito, informar-se por
iniciativa própria sobre a data, hora e local da arrematação.

Na eventualidade da segunda praça também ser deserta, os bens serão vendidos por propostas
em carta fechada ou por negociação particular, ou em alternativa vão à terceira praça, neste
caso para serem vendidos por qualquer preço, conforme o juiz julgue mais conveniente, sendo a
terceira praça anunciada nos mesmos termos que a segunda, ou seja, à mesma se dá menor
publicidade comparativamente à primeira e os preferentes não são novamente notificados (artigo
903/1 e 2, CPC).

Prescreve o artigo 900 do CPC que da arrematação é lavrado um auto, que deverá ser único para
todas as que se efectuem no mesmo dia e pelo mesmo processo.

Assiste ao arrematante a faculdade de exigir que lhe seja passado título de arrematação,
contanto tenha depositado o preço e pago a sisa, se for devida, “…no qual se identifiquem os
bens, se certifique o pagamento do preço e da sisa e se declare a data da transmissão, que
coincidirá com a da praça em que os bens tenham sido adjudicados”247.

Tal como sucede relativamente a adjudicação, quando o adquirente dos bens penhorados seja o
exequente ou o credor com garantia sobre os bens que adquirir, estando os créditos já graduados
é dispensado de depositar a parte do preço que não seja necessária para efeitos de pagamento dos
credores que lhe antecedem na ordem de graduação e não excede a quantia que tem direito a
receber (n.o 1, artigo 906, CPC).

Quando os créditos ainda não estejam graduados, o exequente não tem obrigação de depositar
mais que a parte excedente à quantia exequenda e o credor apenas é obrigado a depositar a parte
excedente ao montante do crédito que tiver reclamado sobre os bens adquiridos, mas, tratando-se
de imóveis, ficam hipotecados à parte do preço não depositada, e tratando-se de bens de outra
natureza não são entregues ao adquirente sem que preste caução correspondente ao seu valor
(artigo 906/2, do CPC).

Nos termos do número 3 do artigo 906 do CPC, se por efeito da graduação dos créditos o
adquirente, seja o exequente seja o credor com garantia sobre os bens, não tenha direito à
importância que deixou de depositar ou a parte dela, é notificado para proceder ao depósito no
prazo de oito dias, sob pena de ser preso e executado nos termos do artigo 904, sendo que a
execução começa pelos próprios bens adquiridos ou pela caução.

[Link]ção e anulação da execução

6a Extinção e anulação da execução - a razão determinativa de instauração de uma acção


executiva por quantia certa por determinado credor contra determinado devedor, é o facto de este
não pagar o valor em dívida.

247
Cfr. artigo 905/1 CPC.

197
Deste modo, se o executado, ou mesmo terceiro, na pendência da acção executiva pagar a dívida
e as custas, ou pagar apenas a dívida e prometer pagar as custas, o exequente não terá mais
interesse no prosseguimento da execução e esta cessará e extinguir-se-á nos termos das
disposições dos artigos 916/1 e 919/1, ambos do CPC.

Para tal, paga a quantia exequenda ou comprovado o seu depósito, ordena-se a suspensão e a
liquidação da responsabilidade do executado (arts. 916/2 e 3, do CPC).

A liquidação da responsabilidade do executado pode ter extensão diferente consoante seja feita
antes ou depois dos bens penhorados tiverem sido vendidos ou adjudicados. Se for antes, a
liquidação abrange somente as custas e o que faltar do crédito do exequente; se for depois, tendo
já sido feita a graduação dos créditos a liquidação abrange também os créditos reclamados a
fim de serem pagos pelo produto dos bens penhorados e ainda não vendidos ou adjudicados,
conforme a graduação e até onde o produto obtido chegar; não tendo ainda sido feita a
graduação dos créditos reclamados que tenham de ser liquidados, a execução prossegue
somente para verificação e graduação de tais créditos e só depois se faz a liquidação (n. os 1 e 2,
do artigo 917 CPC).

Feita a liquidação da responsabilidade do executado nos termos acima referidos e depositada a


respectiva quantia, ou depois de pagas as custas, a execução é, em conformidade com o
estabelecido no artigo 919 do CPC, julgada extinta.

Dá também lugar à extinção da execução a desistência do exequente, porém, esta depende da


aceitação do embargante se estiverem pendentes embargos de executado (art. 918/1 e 2, CC).

Tendo sido lhe paga a quantia exequenda, o exequente poderá apresentar um requerimento nos
termos seguintes:

“Meritíssimo Juiz de Direito do Tribunal Judicial Provincial de Maputo

Proc. 100/08

Milton Dalila, exequente melhor identificado no processo à margem indicado em que é


executado Dinho Folgado, também melhor identificado no processo à margem, vem nos termos
do art. 916/2 CPC,

Requerer

A Vossa Excia. o seguinte:

1o
Executado é devedor do aqui requerente e exequente pela quantia de 125.000,00MT, como aliás
se pode constatar do teor dos autos.

198
No entanto,

2o
Sucede que no pretérito dia 03 do mês corrente, efectuou o pagamento de tal quantia em dívida
mediante transferência bancária conta a conta, creditando a conta titulada pelo requerente cujo
número respectivo foi solicitado pelo executado para o efeito. Doc. 1.

3o
Disso resulta que o prosseguimento da presente execução deixa de ter qualquer interesse para o
exequente, pelo que se mostra pertinente que se ordene a suspensão da execução e a liquidação
da responsabilidade do executado, visto que da quantia paga ao exequente nenhuma parcela se
destina ao pagamento das custas.

Junta: 1 documento e duplicados legais.

O advogado

(Nome e assinatura)
Carteira profissional no….”

Sendo o exequente Estado, representado pelo MP, satisfeito o seu crédito e havendo por pagar as
custas, o poderá também apresentar o requerimento similar nos seguintes termos:

REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE
PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA
Procuradoria da República da Província de Maputo

Meritíssimo Juiz de Direito do Tribunal Judicial Provincial de Maputo

Proc. No. 1/2007

Estado de Moçambique, representado pelo Ministério Público, exequente no processo à margem


indicado em que é executado Nico Armando, melhor identificado nos autos, vem nos termos do
art. 916/2 CPC requerer

199
A Vossa Excia. o seguinte:

1o
Executado é devedor do aqui requerente pela quantia de 115.000,00MT, como depreende do
teor de fls… dos autos.

Entretanto,

2o
No passado dia 03 do mês corrente, executado efectuou o pagamento da totalidade da quantia
em dívida mediante entrega de cheque que apresentado ao banco foi devidamente pago, tendo
assim entregue ao executado o competente documento de quitação. Doc. 1.

Assim sendo,

3o
Exequente deixou de ter interesse no prosseguimento da presente execução, e salvo melhor
entendimento mostra-se pertinente que se ordene a suspensão da execução e a liquidação da
responsabilidade do executado, visto que da quantia paga ao exequente nenhuma parcela se
destina ao pagamento das custas.

Junta: 1 documento e duplicados legais.

O magistrado do Ministério Público

(Nome e assinatura) ”

Liquidada a responsabilidade do executado e pagas as custas, devendo a execução ser julgada


extinta, o juiz pode proferir despacho nos termos seguintes:

“Mostram-se pagas as custas e a quantia exequenda, pelo que julgo extinta a presente execução
(artigo 919/1 do CPC).

Notifique-se nos termos do artigo 919/2 do CPC.

Juiz de direito

Data e assinatura”

A execução julgada extinta pode ser renovada a requerimento do exequente ou de qualquer


credor reclamante nos termos do artigo 920 do CPC, assim como pode a execução que esteja a

200
correr termos ser anulada por falta ou nulidade de citação do executado ao abrigo das
disposições do artigo 921 do mesmo diploma legal.

3.1.7. Remição

Como vimos acima, o pagamento da quantia exequenda pode ser feito mediante a entrega de
dinheiro, a adjudicação dos bens penhorados, a consignação dos seus rendimentos ou pelo
produto da venda dos bens.

Depois de adjudicados ou vendidos os bens e, por conseguinte, tendo deixado de pertencer ao


executado, determinadas pessoas a quem a lei reconhece legitimidade, designadamente o cônjuge
não separado judicialmente de pessoas e bens e os descendentes ou ascendentes do executado,
podem ao abrigo do artigo 912 do CPC recuperá-los, total ou parcialmente, mediante exercício
do direito de remição, pagando o preço pelo qual foram adjudicados ou vendidos, que deverá ser
depositado no momento da remição.

Por razões evidentes de certeza jurídica, a lei estabelece o momento até ao qual o direito de
remição pode ser exercido.

Assim, de acordo com as disposições das alíneas a), b) e c), do artigo 913 do CPC, tratando-se de
bens vendidos em bolsas, o direito de remição deve ser exercido até ao momento da sua entrega;
se os bens tiverem sido vendidos por negociação particular, até ao momento da sua entrega ou
da assinatura do título, ou dentro de dez dias contados da data em que o remidor teve
conhecimento da venda248; enfim, nos demais casos, até ao momento da assinatura do auto de
arrematação, adjudicação ou transmissão e entrega dos bens.

A lei faz prevalecer o direito de remição sobre o direito de preferência, no entanto, havendo
vários preferentes e se abrir licitação entre eles, a remição tem de ser feita pelo preço
correspondente ao lanço mais elevado (art. 914 CPC).

Entre os titulares do direito de remição há uma ordem de preferência legal, estando em primeiro
lugar o cônjuge, em segundo lugar os descendentes e, em terceiro e último lugar, os ascendentes
do executado, e quando concorram à remição vários descendentes ou vários ascendentes,
preferem os de grau mais próximo; em caso de igualdade de grau, abre-se licitação entre os
concorrentes e prefere o que oferecer maior preço (art. 915/2 e 2, CPC).

Porque pressuposto do exercício do direito de remição, a qualidade de cônjuge ou descendente


ou ascendente pressupõe a prova do casamento ou do parentesco por documento, mas se o
requerente não puder juntá-lo imediatamente é lhe dado prazo razoável para o fazer (art. 915/3
CPC).

248
Quando o conhecimento da adjudicação ou venda dos bens seja superveniente ao momento da sua
entrega ou da assinatura do título.

201
[Link]ção sumária

Como já referimos acima, seguem a forma sumária as execuções que tenham por base actas de
conciliação ou mediação, decisão judicial condenatória ou arbitral, ainda que condene no
cumprimento de uma obrigação a liquidar em execução de sentença, desde que a liquidação
dependa de simples cálculo aritmético (art. 465/2, CPC249).

A execução sumária para pagamento de quantia certa é regulada pelas disposições dos artigos
924 a 926, CPC250, sendo-lhe subsidiariamente aplicáveis as disposições da execução ordinária,
com as necessárias adaptações (art. 466/3, CPC com as alterações introduzidas pelo DL 1/2005,
de 27 de Dezembro).

Ao contrário da execução ordinária em que o executado é citado para pagar ou nomear bens à
penhora no prazo de dez dias, só nomeando bens à penhora o exequente caso o executado não o
faça no prazo legal (arts. 811/1 e 836/1, al. a), CPC), na execução sumária à partida o exequente
tem a faculdade de imediatamente no requerimento executivo nomear bens à penhora se a
execução se basear em decisão judicial condenatória251, mesmo que contra ela tenha sido
interposto recurso com efeito meramente devolutivo (art. 924 CPC), com as alterações
introduzidas pelo DL 1/2009, de 24 de Abril)252.

249
Redacção dada pelo DL 1/2009, de 24 de Abril.
250
Redacção dada pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro e DL 1/2009, de 24 de Abril.
251
Excepcionalmente, na execução ordinária o exequente tem a faculdade de nomear à penhora, no
requerimento de execução, o bem que haja sido dado de garantia real (art. 811/3, CPC).
252
O art. 924 CPC ao dispor sobre a possibilidade do exequente na execução sumária nomear logo no
requerimento executivo bens à penhora, se a execução se basear em decisão judicial condenatória, mesmo
que contra ela tenha sido interposto recurso com efeito meramente devolutivo, na sua última parte acresce
“…que não careça de ser liquidada nos termos dos artigos 806. o e seguintes”.

Ora, salvo melhor interpretação, esta última parte nos parece desnecessária, porque supérflua, na medida
em que tendo em atenção as disposições conjugadas do art. 465/1, al. b) e n o. 2, CPC, só poderão seguir a
forma sumária as execuções fundadas em actas de conciliação ou mediação, decisão judicial ou arbitral
condenatória que não careça de ser liquidada em execução de sentença nos termos do artigos 806 e
seguintes. Portanto, a partir do momento em que determinada execução sumária é baseada em actas de
conciliação ou mediação, decisão judicial ou arbitral condenatória, o pressuposto é que esta é
condenatória em obrigação que não carece de ser liquidada nos termos dos artigos 806 e seguintes do
CPC por força do art. 465/1, al. b) e no. 2, CPC, de contrário a execução deverá seguir forma ordinária.

Relacionado com a redacção do artigo 924, CPC, com as alterações introduzidas pelo DL 1/2009, de 24
de Abril, contraditória nos parece a passagem com o seguinte teor: “…ainda que pendente de recurso com
efeito meramente devolutivo…”, pois, em princípio nada impede a execução de uma sentença não
transitada em julgada quando o recurso contra ela interposto tenha efeito meramente devolutivo, embora o
pagamento ao exequente ou qualquer credor esteja dependente ou condicionada a prestação de caução
(art. 47/1 e 3, do CPC). Em contrapartida, não pode, em princípio, ser executada determinada sentença
condenatória quando o recurso contra ela interposto tenha efeito suspensivo, suspenda a sua execução,
pelo que, salvo melhor análise, pensamos ter havido lapso na referência ao efeito meramente devolutivo,
parece-nos que se pretendia fazer referência ao efeito suspensivo.

202
Usando o exequente da faculdade de, logo no requerimento executivo, nomear bens à penhora, é
esta ordenada e o executado é citado simultaneamente do requerimento executivo e do despacho
determinativo da penhora para, querendo, no prazo de cinco dias deduzir embargos de executado
e cumulando-se nos mesmos embargos a oposição à penhora que pretenda deduzir.

Portanto, verifica-se um encurtamento do prazo para a oposição à execução, deixando a


oposição à penhora de poder ser deduzida em momento posterior ao da oposição à execução
para ser deduzida em simultâneo com aquela, tornando assim esta forma de processo mais célere.

Sendo uma mera faculdade a nomeação de bens à penhora no requerimento de execução, caso o
exequente não faça uso da mesma o executado será citado a fim de que, no prazo de cinco dias,
pague ou nomeie bens à penhora, podendo, outrossim, no mesmo prazo deduzir oposição (art.
925/2, CPC253). Neste caso, o direito de nomear bens à penhora assistirá ao executado, em
virtude do exequente não ter usado dessa faculdade no requerimento executivo, só podendo se
devolver ao exequente nas circunstâncias previstas pelo art. 836, aplicável ex vi art. 466/3,
CPC254.

De qualquer modo, por razões de maior celeridade no processo sumário, o prazo para o
executado, uma vez citado, pagar ou nomear bens à penhora, bem assim deduzir oposição, é
mais curto relativamente ao prazo aplicável ao processo ordinário, pois no processo sumário é de
cinco dias, enquanto no processo ordinário é de dez dias.

O prazo para a contestação dos embargos de executado é de cinco dias no processo sumário,
também mais curto em confronto com o prazo de dez dias fixado no processo ordinário para o
mesmo efeito (arts. 925/3, com as alterações introduzidas pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro, e
817/2, ambos do CPC).

Em tudo quanto não está previsto em sede de execução sumária para pagamento de quantia certa,
nomeadamente no que se refere aos fundamentos da oposição à execução, à penhora, à
convocação dos credores e verificação dos créditos, ao pagamento, e à extinção e anulação da
execução, aplicar-se-ão “…supletivamente as disposições do processo de execução ordinário,
com as necessárias adaptações.”255

[Link]ção para entrega de coisa certa

Determinado credor pode ter direito a determinada prestação que consista na entrega de coisa
certa, seja móvel, seja imóvel.

Quid juris se o devedor não faz a entrega da coisa ao credor? Este tem o direito de requerer em
sede de execução que a entrega da coisa seja feita por via judicial (art. 827 CC).

253
Redacção dada pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro.
254
Redacção dada pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro.
255
Por força do art. 466/3, CPC, com as alterações introduzidas pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro.

203
Tratando-se de execução para entrega de coisa certa fundada em sentença judicial ou arbitral
condenatória, o exequente no requerimento de execução requererá que o executado seja citado
para, no prazo de 5 (cinco) dias, fazer a entrega, bem assim deduzir no mesmo prazo embargos
de executado (art. 928/2256, art. 925/2, este aplicável por força do n.o 1 do art. 928, todos do
CPC257).

Os embargos de executado, como meio de defesa que o executado pode usar, podem ser
deduzidos com os fundamentos previstos pelos artigos 813 e 815 258, na parte aplicável, e ainda
com fundamento de benfeitorias a que o executado tenha direito (art. 929/1, CPC 259), sendo que
se for caso de benfeitorias que autorizam a retenção, recebidos os embargos a execução será
suspensa até ao pagamento do valor das benfeitorias, salvo se o exequente depositar ou
caucionar a quantia pedida (art. 929/2 do CPC260).

Se o executado mesmo depois de ter sido citado, nem entregar a coisa, nem deduzir embargos,
ou seja, remeter-se ao silêncio permanecendo refractário, a entrega da coisa será feita
judicialmente, procedendo-se para o efeito às buscas e outras diligências que forem reputadas
necessárias pelo tribunal (art. 930/1 CPC).

Se se tratar de coisa móvel a determinar por conta, peso ou medida, ou seja, coisa fungível (art.
207 CC), o funcionário (judicial) manda efectuar, na sua presença, as operações necessárias e
entrega ao exequente a quantidade devida, e tratando-se de coisa imóvel, o funcionário faz a
investidura do exequente na posse da mesma, o que se concretiza mediante a entrega de
documentos e das chaves, se os houver, e notifica o executado, os arrendatários e quaisquer
outros detentores para respeitarem e reconhecerem o direito do exequente (art. 930/2 e 3, CPC).

Pode suceder, porém, que a coisa que o exequente devia receber ou devia lhe ser entregue não
seja encontrada, o que é concebível tratando-se de coisa móvel261.

256
Redacção dada pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro.
257
Redacção dada pelo DL 1/2009, de 24 de Abril.
258
Ao contrário do que sucede na execução para pagamento de quantia certa fundada em sentença judicial
condenatória, seja ordinária (quando a decisão judicial condene no cumprimento de obrigação a liquidar
em execução de sentença, nos termos dos arts. 806 e seguintes), seja sumária (quando a decisão judicial
condene no cumprimento de obrigação que não careça de ser liquidada em execução de sentença, nos
termos dos arts. 806 e seguintes, ou sendo ilíquida a liquidação dependa de simples cálculo aritmético) -
art. 465 CPC - em que na oposição a deduzir à execução o executado só pode invocar um dos
fundamentos previstos no art. 813 CPC, com a redacção dada pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro ,
porque execução tendo por base sentença judicial (arts. 813 e 466/3, CPC, com a redacção dada pelo DL
1/2005, de 27 de Dezembro), na execução para entrega de coisa certa, ainda que fundada em sentença, o
executado pode deduzir outros fundamentos que seria lícito invocar em processo de declaração, como se
pode constatar do disposto no art. 929/1, CPC.
259
Redacção dada pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro.
260
No que diz respeito a fundamento de benfeitorias a que o o executado tenha direito, pode suceder que o
devedor tenha a posse legítima de determinada coisa imóvel e realize nela benfeitorias necessárias e úteis
cujo levantamento não possa ser feito sem o detrimento da coisa. Neste caso, citado o executado para
entregar a coisa, poderá deduzir embargos invocando o direito de retenção da coisa que lhe assiste
enquanto não for satisfeito o valor das benfeitorias que realizou (arts. 1273/2 e 754, ambos do [Link], e
art. 929/1 e 2, CPC).

204
Em tal caso, o legislador consagrou uma solução por via da qual ao exequente será pago valor
correspondente à coisa, pois, perante tal vicissitude a execução para entrega de coisa de certa
como que é convertida em execução para pagamento de quantia certa, mediante liquidação pelo
exequente do valor e do prejuízo decorrente da falta da entrega, em conformidade com o
disposto nos artigos 805 e seguintes do CPC, procedendo-se de imediato, por nomeação do
exequente, à penhora dos bens necessários para o pagamento da quantia apurada, seguindo-se a
convocação dos credores e verificação dos créditos, o pagamento, e a extinção e anulação da
execução, como resulta do prescrito no art. 931/1 e 2, CPC.

Como se pode constatar, frustrada a entrega da coisa que era devida ao exequente, este “…recebe
a indemnização de perdas e danos pela falta de entrega da coisa” 262, só podendo a execução se
tornar “…absolutamente impossível se o executado não tiver bens que possam ser penhorados e
vendidos para se efectuar o pagamento da indemnização”263.

Entretanto, tenha-se em atenção o número 3, do artigo 928 do CPC, com as alterações


introduzidas pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro, que passamos a se citar na íntegra, incluindo o
subtítulo em que está inserido e a epígrafe do artigo em alusão:

“SUBTÍTULO III

Da execução para entrega de coisa certa

Artigo 928.o

(Citação do executado)

1. (…)
2. (…)
3. Nos restantes casos o executado é citado para, no prazo de dez dias, fazer a entrega.”

Tendo em conta que a abordagem que estivemos a fazer sobre a execução para entrega de coisa
certa é a que é baseada em sentença condenatória (art. 928/1, CPC264), será pertinente a questão
de saber quais os restantes casos a que as disposições do citado número 3, do artigo 928 do CPC
se referem?

Partindo do princípio de que qualquer execução tem por base um título, pelo qual se determinam
o fim e os limites da acção executiva (art. 45/1 CPC), entendemos e somos de concluir, salvo
melhor análise e entendimento em contrário, que os restantes casos a que as disposições em
questão aludem são os casos de execução para entrega de coisa certa tendo por base título

261
Pense-se numa viatura automóvel, num barco, numa aeronave, no recheio duma casa e outros bens
móveis.
262
LEITÃO, Hélder Martins – Advogado, Do Processo de Execução, 7 a Edição, Almeida & Leitão, Lda,
Porto, 2006, Página 283.
263
LEITÃO, Hélder Martins, Ob. cit, Página 283.
264
Redacção dada pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro.

205
diverso da sentença condenatória, isto é, que não seja sentença condenatória, portanto, outro
título dentre os previstos no art. 46, alíneas b), c) e d), CPC265.

Nos ditos restantes casos, a única diferença de regime é que o executado quando citado tem o
prazo de dez dias para fazer a entrega, isto é, dispõe de prazo mais longo do que quando a
execução para entrega de coisa certa tem por base sentença condenatória, aplicando-se em tudo
o resto o que foi acima explanado relativamente à execução para entrega de coisa certa fundada
em sentença condenatória.

Tenha-se em atenção o art. 928/1 do CPC266 que manda aplicar o disposto no artigo 924 e
seguintes, com as necessárias adaptações, na execução para entrega de coisa certa que se funde
em decisão judicial ou arbitral condenatória, visto que em tal caso a execução seguirá forma
sumária, pois, o disposto no artigo 924 e seguintes do CPC refere-se à execução sumária para
pagamento de quantia certa.

Acresce que a execução tendo por base decisão judicial ou arbitral condenatória segue, nos
termos do art. 465/2, do CPC, forma sumária, facto que reforça o que acima dissemos que a
execução para entrega de coisa certa tendo por base decisão judicial ou arbitral condenatória
deve seguir forma sumária, aplicando-lhe, com as necessárias adaptações, o disposto no artigo
924 e seguintes do CPC.

Em contrapartida, seguirá forma ordinária a execução para entrega de coisa certa tendo por base
título executivo que não seja decisão judicial ou arbitral condenatória, são os ditos restantes
casos referidos no número 3, do artigo 928 do CPC, em que a execução pode ter por base título
executivo não seja decisão judicial ou arbitral condenatória e que, por força do prescrito na
alínea a), do número 1, do artigo 465, do CPC 267, deve seguir forma ordinária, aplicando-se-lhes
subsidiariamente as disposições da execução para pagamento de quantia certa (art. 466/2
CPC268), resultando daí que o prazo para dedução dos embargos pelo executado/embargante e
contestação aos mesmos pelo exequente/embargado será de dez dias.

[Link]ção para prestação de facto (positivo/negativo)

[Link]ções prévias

Dissemos acima que seguem a forma ordinária as execuções que, independentemente do seu
valor, tenham por base título executivo que não seja decisão judicial condenatória, ou tendo por
base decisão judicial ou arbitral, tal decisão condene no cumprimento de obrigação que careça
de ser liquidada em execução de sentença (art. 465/1, alíneas a) e b), CPC269).

265
Redacção dada pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro.
266
Redacção dada pelo DL 1/2009, de 24 de Abril.
267
Redacção dada pelo DL 1/2009, de 24 de Abril.
268
Redacção dada pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro.
269
Redacção dada pelo DL 1/2009, de 24 de Abril.

206
Quanto a forma sumária, seguem-na as execuções que têm por base actas de conciliação ou
mediação, decisão judicial condenatória ou arbitral, que mesmo condenando no cumprimento
de obrigação a liquidar em execução de sentença, esta dependa de simples cálculo aritmético
(art. 465/2, CPC270)

Ora, não se vislumbrando a possibilidade de, tratando-se de prestação de facto, quer positivo,
quer negativo, determinada sentença condenar no cumprimento de obrigação que careça de ser
liquidada em execução de sentença, teremos que na execução para prestação de facto
(positivo/negativo)271 esta seguirá forma ordinária quando tenha por base título executivo que
não seja decisão judicial condenatória, e seguirá forma sumária quando o respectivo título seja
actas de conciliação ou mediação, decisão judicial condenatória ou arbitral (art. 465/1, al. a) e
n.o 2, CPC272).

Esta referência às formas que a execução para prestação de facto pode seguir com fundamento
nas disposições comuns sobre as formas de processo, tem a sua pertinência tendo em conta que
atentando para as disposições específicas que regulam esta espécie de execução, constata-se nada
disporem sobre as formas de processo, pelo que a resposta deve ser encontrada em sede de
disposições comuns sobre as formas de processo na parte que respeita ao processo de execução
(arts. 465 e 466, CPC).

Analisando o regime jurídico relativo a execução para prestação de facto consagrado nos artigos
933 a 943 do CPC, tendo em conta particularmente o prazo de dez dias, quer para o devedor
deduzir embargos face ao requerimento de execução (arts. 933/2, 940/2 e 941/2, CPC), quer para
o mesmo devedor dizer o que se lhe oferecer quanto ao prazo indicado pelo exequente para a
prestação de facto em cujo título executivo não estava indicado (art. 939/1 CPC), por este prazo,
reitera-se, de dez dias, ser característico da execução ordinária para pagamento de quantia
certa273, somos de concluir que as disposições do artigo 933 são marcadamente da execução que
segue forma ordinária.

Assim, porque à execução para prestação de facto aplicam-se, na parte em que o puderem ser,
disposições que regulam a execução de processo para pagamento de quantia certa, no caso em
que a execução para prestação de facto deva seguir forma sumária (art. 466/2, CPC274), dever-se-
á ter em conta o prazo de cinco dias para dedução de oposição à execução previsto no artigo
925/2, aplicável por força do artigo art. 466/2, CPC, e porque nada está previsto quanto ao prazo
para contestação dos embargos de executado, aplicar-se-á também o prazo de cinco dias para
este efeito previsto em sede de execução sumária para pagamento de quantia certa (art. 925/3,
aplicável por força do art. art. 466/2, ambos do CPC275).
270
Redacção dada pelo DL 1/2009, de 24 de Abril.
271
Obrigação de fazer ou de não fazer algo (facere e non facere).
272
Redacção dada pelo DL 1/2009, de 24 de Abril.

273
Vejam-se a propósito as disposições do art. 811/1, que estabelecem o prazo de dez dias para o
executado pagar ou nomear bens à penhora e do art. 816, que também prescrevem o prazo de dez dias
para a dedução de embargos de executado.
274
Redacção dada pelo DL 1/2009, de 24 de Abril.
275
Redacção dada pelo DL 1/2009, de 24 de Abril.

207
Nesta perspectiva da aplicabilidade à execução para prestação de facto, na parte em que o
puderem ser, das disposições que regulam a execução de processo para pagamento de quantia
certa, importa referir que nada estando previsto em sede de execução para prestação de facto, na
forma ordinária, sobre o prazo para contestação dos embargos de executado, aplicar-se-á para
este efeito o prazo de dez dias previsto em sede de execução ordinária para pagamento de
quantia certa (art. 817/2, aplicável por força do art. art. 466/2, ambos do CPC276).

Feitas estas considerações gerais sobre as formas de processo de execução para prestação de
facto e respectivo regime, importa agora curar da tramitação do próprio processo, que difere
consoante se trata de facto positivo ou negativo.

[Link]ção para prestação de facto positivo

A execução para prestação de facto positivo tem lugar quando o título respectivo imponha ao
devedor a obrigação de adoptar uma conduta positiva, como seria por hipótese o caso de
Maurício que foi condenado a construir um muro de vedação da casa de Ilda. Se Maurício,
mesmo tendo sido condenado a prestar este facto, não o faz, Ilda ver-se-á compelida a executar a
sentença condenatória com vista a que Maurício construa efectivamente o muro nos termos em
que se obrigou ou foi obrigado por força da sentença.

1. Execução para prestação de facto com prazo certo

Tendo sido fixado na sentença condenatória o prazo em que Maurício deve construir o muro,
ultrapassado tal prazo Ilda promoverá a execução da sentença apresentando perante o tribunal o
competente requerimento de execução no qual, tratando-se de facto fungível, requererá a
construção do muro em questão por terceiro (art. 933/1 CPC), devendo, contudo, terminar o
pedido requerendo a citação do executado para deduzir por embargos a oposição que tiver (art.
933/2 CPC).

O requerimento de execução pode ser elaborado nos termos seguintes:

“Meritíssimo Juiz de Direito do Tribunal Judicial Distrital de Dondo

Processo 19/07

Ilda …(nome completo), melhor identificada nos autos à margem indicados,

Vem requerer contra

Maurício… (nome completo) também melhor identificado nos autos,


276
Redacção dada pelo DL 1/2009, de 24 de Abril.

208
Execução para prestação de facto, com processo sumário,

Com base no seguinte:

1o
Por douta sentença constante a fls. 70 dos autos, proferida por esse Tribunal, foi o executado
Maurício condenado a construir na casa da exequente, sita no Bairro…, rua. …, n. o 68, muro de
vedação na parte lateral direita da referida casa, tendo lhe sido determinado o prazo de 45 dias
para o efeito.

No entanto,

2o
A sentença já transitou em julgado e o prazo determinado para que executado construísse o
muro, conforme sentenciado, já correu e se esgotou, passando 20 dias desde o termo final do
mesmo a esta parte sem que erguesse o dito muro.

Portanto,

3o
O executado não prestou o facto a que está obrigado, esta a razão porque exequente vem, por
esta via, requerer a execução de sentença, e tratando-se de facto fungível, exequente opta pela
prestação por terceiro, tanto mais que aquele já mostrou não ter vontade para o fazer.

Nestes termos e demais de direito que o tribunal suprir, requer-se que seja o executado citado
para, no prazo de cinco dias, deduzir a oposição que tiver, seguindo-se posteriores termos até
final, com custas a cargo do executado.

Valor: 40.000,00MT
Junta: duplicados legais.

Data

O advogado

(Nome e assinatura)
Com carteira profissional no...”

Supondo que Maurício estivesse obrigado a construir o muro na casa da Ilda, não por força de
uma sentença, mas porque aceitando tal obrigação fez uma declaração que assinou com seu
próprio punho, na qual reconheceu a obrigação de prestar esse facto, construir o muro no prazo
de 45 dias, constituindo tal declaração um título executivo na forma de documento particular (art.

209
46, al. c), CPC277), tendo em conta o que expendemos anteriormente no que respeita às formas de
execução para prestação de facto, a execução seguiria forma ordinária e o respectivo
requerimento poderia ser elaborado nos termos seguintes:

“Meritíssimo Juiz de Direito do Tribunal Judicial Distrital de Dondo

Ilda …(nome completo), escriturária, residente no Bairro …(endereço completo),

Vem requerer contra

Maurício… (nome completo), contabilista, residente no Bairro …(endereço completo),

Execução para prestação de facto, com processo ordinário,

Nos termos e fundamentos seguintes:

1o
Nos princípios do mês de Agosto do ano corrente, quando conduzia a sua viatura de marca
Honda, modelo Accord, com a chapa de inscrição …, por acidente executado derrubou quase
por completo, numa extensão de cerca de 30 metros, a parte lateral direita do muro de vedação
da casa da exequente, sita no Bairro…, rua. …, n.o 68.

2o
Porque executado reconheceu a falha por si cometida, acordou-se que o mesmo, no prazo de 45
dias, ergueria novo muro em substituição do ora derrubado, tendo para o efeito e para garantia
da exequente, executado feito uma declaração escrita na qual se comprometia a construir tal
muro no prazo referido, declaração que assinou com o seu próprio punho e, por conseguinte,
constitui título executivo para efeito da presente execução (art. 46, al. c), CPC com a redacção
dada pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro).

Entretanto,

3o
O prazo determinado para que executado construísse o famigerado muro já terminou há mais de
20 dias sem que aquele se dignasse prestar o facto a que se obrigou, não respondendo sequer às
interpelações que lhe foram feitas para o fazer.
Assim,
3o
Exequente vem, por esta via, requerer que, tratando-se de facto fungível, o mesmo seja prestado
por outrem, demonstrado que está que executado não quer o fazer de livre vontade.

277
Redacção dada pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro.

210
Nestes termos e demais de direito que o tribunal suprir, requer-se que seja o executado citado
para, no prazo de dez dias, deduzir a oposição que tiver, seguindo-se posteriores termos até
final, com custas a seu cargo.

Valor: 40.000,00MT
Junta: duplicados legais.

Data

O Advogado

(Nome e assinatura)
Com carteira profissional no...”

[Link] quando o exequente opta pela autorização para que o


facto seja praticado à custa do executado

Apresentado o requerimento de execução e terminado o prazo para oposição por parte do


executado, ou julgados improcedentes os embargos, se exequente optar pela autorização para
que o facto seja praticado à custa do executado, apresentará ao tribunal outro requerimento
pedindo a nomeação de peritos para avaliarem o custo da prestação a qual, uma vez terminada,
por nomeação do exequente, procede-se à penhora dos necessários bens a fim de se obter a
quantia que se tiver determinado e o valor das custas, seguindo-se após a penhora os termos das
disposições dos artigos 864 e seguintes (art. 935/1 e 2, CPC), ou seja, a convocação dos credores
e verificação dos créditos, o pagamento, e a extinção e anulação da execução.

Portanto, há como que uma conversão da execução para prestação de facto para execução para
pagamento de quantia certa a partir do momento em que se procede à penhora, tendo em conta
que o exequente optou “…pela autorização para que à custa do executado seja praticado o facto,
quer por ele próprio exequente, quer por terceiro”278.

No entanto, ainda nesta hipótese em que o exequente optou para que o facto a que o executado
está obrigado seja praticado à custa deste, poderá exequente antes de terminada a avaliação do
custo da prestação e realização da quantia apurada, fazer ele próprio ou mandar fazer sob sua
direcção e vigilância, as obras e trabalhos necessários com vista a prestação do facto em causa,
ficando neste caso obrigado a prestar contas no tribunal onde corre a execução, podendo o
executado na contestação alegar excesso na prestação do facto (art. 936/1 e 2, CPC)279.

LEITÃO, Hélder Martins, Op. Cit., Página 288.


278

279
Alegando o executado excesso na prestação do facto, naturalmente que concorrerá para a resolução
desta questão a avaliação que entretanto será feita e terminada por peritos.

211
Apresentada a contestação em que o executado alegue excesso na prestação do facto, e caso tal
alegação seja julgada improcedente e, consequentemente, serem aprovadas as contas
apresentadas pelo exequente, o crédito deste será pago pelo produto da execução a que alude o
artigo 935, isto é, por nomeação do exequente, proceder-se-á à penhora dos necessários bens
para se obter a quantia que se tiver apurado na conta apresentada pelo exequente, seguindo-se os
termos das disposições dos artigos 864 e seguintes (art. 935/1 e 2, CPC), isto é, a convocação
dos credores e verificação dos créditos, o pagamento e a extinção e anulação da execução (art.
937 CPC).

[Link] quando exequente opta pela indemnização pelo dano


sofrido decorrente da não prestação do facto pelo executado

Se o exequente, terminado o prazo para oposição ou julgados improcedentes os embargos,


pretender a indemnização pelo dano sofrido decorrente da não prestação do facto pelo executado,
apresentará no mesmo processo um requerimento no qual fará liquidar o valor correspondente ao
referido dano, após o que o executado é notificado, e não citado uma vez que já o foi para efeitos
de oposição à execução, para contestar a liquidação assim feita que, não sendo contestada,
considerar-se-á fixada (art. 934 com referência ao art. 931, e este com referência aos arts. 805 e
seguintes (806/1 e 2, e 807/1), todos do CPC).

Fixada a liquidação, por nomeação do exequente procede-se imediatamente à penhora dos bens
necessários para efeitos de pagamento da quantia apurada, seguindo-se a convocação dos
credores e verificação dos créditos, o pagamento e a extinção e anulação da execução (art.
931/2, aplicável ex vi art. 934, ambos do CPC).

2. Execução para prestação de facto positiva, com prazo indeterminado.

Até aqui estivemos a abordar a execução para prestação de facto positiva, com prazo
determinado.

Quid juris se se tratar de execução sem prazo fixado?

A resposta é nos dada pelas disposições dos artigos 939 e 940, ambos do CPC, com a redacção
dada pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro.

O exequente indicará no requerimento de execução o prazo que reputar suficiente e requererá


que seja o devedor citado para, no prazo de dez dias, dizer o que se lhe oferecer e que seja, a
final, fixado judicialmente o prazo.

Portanto, o prazo será fixado pelo juiz, que para o efeito procederá às necessárias diligências,
como seria o caso de ordenar prova pericial, por um só perito por si nomeado, ou socorrer-se do
parecer de técnicos.

212
Fixado o prazo e se o devedor não prestar o facto dentro do mesmo, inicia a execução à qual se
aplicará o previsto nos artigos 933 a 938, sendo que ao invés de ser citado para deduzir
embargos à execução, nos termos do art. 933/2, aplicável por força do art. 940/2, ambos do CPC,
será notificado, porquanto terá antes já sido citado para efeitos de dizer o que se lhe oferecer face
ao prazo requerido pelo exequente para prestação do facto (art. 939/1 CPC).

Seguidamente, a execução prosseguirá seus termos, aplicando-se mutatis mutandis tudo quanto
acima já expendemos sobre a execução para prestação de facto com prazo determinado.

[Link]ção para prestação de facto negativo

Consistindo a obrigação do devedor em não praticar determinado facto, caso o devedor ainda
assim prevarique, pode o credor requerer que a violação cometida por aquele seja verificada
através de perícia (exame ou vistoria) e que o tribunal ordene a demolição da obra porventura
feita, bem assim o pagamento de indemnização ao exequente pelo prejuízo sofrido em
consequência da violação, ou somente a indemnização pelo dano (art. 941/1 CPC).

O executado é citado, quer para nomeação de peritos, quer para, no prazo de dez dias, deduzir
oposição que tiver por embargos nos termos dos artigos 813 e seguintes, sendo que ao pedido de
demolição os embargos podem fundar-se no facto daquela representar para o
embargante/executado um prejuízo consideravelmente superior ao sofrido pelo exequente,
suspendendo-se a execução face a oposição com este fundamento, em seguida ao exame ou
vistoria, mesmo sem prestação de caução por parte do embargante (art. 941/2 e 4, CPC)280.

Reconhecendo o juiz a falta de cumprimento da obrigação, ordenará a demolição da obra à custa


do executado e a indemnização do exequente, ou determinará somente esta, quando não haja
lugar à demolição281, seguindo-se posteriormente, com as necessárias adaptações, o estabelecido
nos artigos 934 a 938 (art. 942/1 e 2, CPC).

Concretamente, se o exequente tiver optado também pela indemnização, ou apenas por esta,
verifica-se a conversão da execução para prestação de facto negativo para execução por quantia
certa, ou seja, procede-se imediatamente, por nomeação do exequente, à penhora dos bens,
seguindo-se a convocação dos credores e verificação dos créditos, o pagamento e a extinção e
anulação da execução.

280
A suspensão da execução, independentemente do executado prestar ou não caução, tem a sua razão de
ser, pois a prosseguir aquela tendo o executado alegado nos embargos que deduziu que o prejuízo
decorrente da demolição será consideravelmente superior ao sofrido pelo exequente, a serem julgados
procedentes os embargos com este fundamento não teriam, a final, nenhum efeito prático, visto que o que
se pretenderia evitar com a sua dedução, a demolição da obra, seria já um facto consumado.
281
Quando o credor, tendo optado logo pela indemnização apenas, ou tendo optado pela demolição
acrescida ou não de indemnização, a oposição do executado à demolição com fundamento de que tal
causará um prejuízo consideravelmente superior ao sofrido pelo exequente seja julgada procedente pelo
tribunal.

213
Se tiver optado somente pela demolição da obra, apresentará ao tribunal um requerimento
pedindo a nomeação de peritos para avaliarem os custos da demolição e, por nomeação do
exequente, proceder-se-á à penhora dos necessários bens para efeitos de pagamento da quantia
que se tiver determinado e o valor das custas, seguindo-se após a penhora os termos dos artigos
864 e seguintes (art. 935/1 e 2, CPC), portanto, a convocação dos credores e verificação dos
créditos, o pagamento, e a extinção e anulação da execução.

No caso de ter optado somente pela demolição da obra, exequente poderá também, antes de
terminada a avaliação do custo da demolição e o pagamento da quantia apurada, fazer ele
próprio ou mandar fazer sob sua direcção e vigilância a demolição, prestando depois contas no
tribunal onde corre a execução, sem prejuízo do executado na contestação alegar excesso na
demolição.

De qualquer modo, alegando executado ou não excesso na demolição, aprovadas as contas o


crédito do exequente será pago pelo produto da execução dos bens do executado, para o que, por
nomeação do exequente, efectivar-se-á penhora dos necessários bens para se obter a quantia que
se tiver apurado na conta apresentada pelo exequente, seguindo-se a convocação dos credores e
verificação dos créditos, o pagamento e a extinção e anulação da execução.

[Link]ção conexa a acção penal (acidentes estradais)

O Código da Estrada, aprovado pelo Decreto-Lei n. o 1/2011, de 23 de Março, consagra regras


que devem ser observadas pelos automobilistas na condução de veículos automóveis. Se por
imperícia, inconsideração, negligência, falta de destreza ou falta de observância de algum
regulamento, violarem tais regras, podem causar acidentes estradais e, consequentemente,
incorrer na prática de factos que configuram tipos legais de crimes, como é o caso do crime de
acidente de viação de que resulte morte e do abandono de sinistrado (arts. 153 e 154, ambos do
CE), resultando daí a instauração de procedimento criminal pelo Ministério Público enquanto
titular da acção penal (art. 5 CPP e art. 155/5 do CE).

Naturalmente que da prática de factos criminosas na condução de veículo automóvel poderão


resultar danos para os ofendidos que careçam de devida reparação ou indemnização, ou seja,
levanta-se a questão de responsabilidade civil cuja “…imputação e … graduação são regidas pela
lei civil”282, de tal modo que em processo penal, mesmo quando o ofendido não tenha pedido
indemnização por perdas e danos, no caso de condenação o juiz oficiosamente arbitrá-la-á ao
abrigo do disposto no art. 34, corpo e § 1o, do CPP283.

Portanto, em processo penal tendo por objecto facto criminoso cometido na condução de veículo
automóvel, sendo o réu julgado culpado será condenado numa pena concreta em atenção aos
282
Cfr. art. 128 CP.
283
Relativamente a reparação por perdas e danos causados por factos criminosos cometidos na condução
de veículos automóveis, dados os riscos inerentes à circulação de viaturas, de forma a garantir-se que a
respectiva indemnização seja efectivamente satisfeita, o legislador consagrou a obrigatoriedade de seguro
de responsabilidade civil automóvel (art. 57/1 e 2, CE, na redacção dada pelo art. 1, Lei n o. 2/2003, de 21
de Janeiro).

214
critérios consagrados no artigo 84 do CP, e com vista à reparação dos danos sofridos pela vítima
e/ou ofendidos (art. 34, § 1o, CPP), será fixada uma quantia pecuniária a título de indemnização,
que poderá ser determinada de forma exacta logo na sentença, se houver elementos bastantes
para o efeito, ou será relegada a fixação do respectivo quantitativo para a execução de sentença
(art. 34, § 3o, CPP)284.

De qualquer modo, seja possível determinar de pronto o montante da indemnização no momento


da proferição de sentença em processo penal, não seja possível e tenha de ter lugar no momento
da sua execução, proferida efectivamente a sentença nasce aí um título executivo por força do
qual o devedor terá obrigação de pagar ao credor uma quantia monetária (art. 46, al. a), CPC).

Não cumprindo o devedor voluntariamente tal sentença, haverá que executá-la perante o tribunal
(secção cível), como se constata do disposto no artigo 34, § 3 o do CPP, o que passa pela
promoção do processo de execução para pagamento de quantia certa.

Ora, porque estaremos perante execução para pagamento de quantia certa, seja determinada na
própria sentença, seja a liquidar em execução de sentença, no que toca à tramitação de tal
execução, neste caso baseada em sentença judicial que condene no cumprimento de uma
obrigação, que careça de ser liquidada em execução de sentença ou não, proferida em processo
penal, vale neste caso, aplica-se mutatis mutandis tudo quanto dissemos em sede de execução
para pagamento de quantia certa, seja na forma ordinária, seja na forma sumária.

Sublinhe-se que a aplicação do regime jurídico em matéria cível relativo a execução para
pagamento de quantia certa, seja na forma ordinária, seja na forma sumária, só tem lugar depois
que foi proferida sentença condenatória em processo penal285 e a mesma não seja
voluntariamente cumprida pelo devedor/condenado no que respeita ao pagamento de
indemnização e o credor decida executá-la.

A propósito, importa referir que pressupondo, em princípio, a promoção de execução para


pagamento de quantia certa a contratação de advogado por parte do credor, com vista a garantir
que “…a satisfação das indemnizações devidas por factos criminosos não dependa das condições

284
Como se sabe, como resultado de acidente de viação causado por veículo automóvel, pode suceder que
a vítima tendo sobrevivido no momento em que a sentença é proferida pelo tribunal se encontre ainda em
tratamento e a recuperar-se da doença causada pelo acidente. Em tal caso, não há condições para se
determinar o quantitativo da indemnização antes da vítima se encontrar totalmente recuperada e curada, a
fim de que possa avaliar os prejuízos decorrentes dos custos de assistência médica e medicamentosa, de
eventuais vantagens patrimoniais que deixou de ganhar em virtude de se encontrar doente (danos
patrimoniais) e de avaliar para efeitos de indemnização as dores que teve que suportar em virtude de se
encontrar doente, com eventuais submissões a intervenções cirúrgicas, bem assim de avaliar os traumas
que tal situação lhe criou, dada a eventual violência do facto e possíveis deformações no seu aspecto
físico ou mesmo incapacidades físicas ou de alguns órgãos, ou perca de alguns destes (danos morais).

Relegando-se a liquidação do quantitativo exacto da indemnização para execução de sentença, esta serve
de título executivo, devendo a execução ser requerida perante o tribunal cível, entenda-se secção cível do
tribunal comum (art. 34, § 3o, CPP).
285
Condenando o réu também no pagamento de indemnização à vítima e/ou aos ofendidos.

215
económicas efectivas dos ofendidos, mas da simples verificação judicial da ofensa
ilegítima…”286, o legislador encontrou uma solução de modo a assegurar que o MP com relação
as sentenças condenatórias proferidas em processo penal arbitrando indemnização a favor do
ofendido passasse a “…conseguir o pagamento de tais indemnizações, mediante meios simples e
práticos”287.

Para o efeito, se em determinado processo penal o titular do direito à indemnização não


constituiu advogado, o magistrado do MP junto do tribunal competente deverá verificar pelo
exame do processo, após este ter lhe sido presente com vista no 30o dia, a contar da data do
trânsito em julgado da decisão condenatória, se o pagamento da indemnização fixada se mostra
ou não já efectuado voluntariamente.

Não se mostrando paga, promoverá para que o pagamento seja feito voluntariamente, mandando
notificar o devedor para que este, no prazo de trinta dias, prove o pagamento ou deposite à ordem
do tribunal o montante da indemnização devida.

Findo o prazo referido para o devedor provar o pagamento ou depositar à ordem do tribunal o
montante da indemnização devida sem que faça uma ou outra coisa, o MP promoverá a
correspondente execução a favor do titular da indemnização (art. 1, n. os. 1, 2, 3 e 4, do DL n. o.
292/74, de 28 de Junho).

Do acima referido constata-se que, face ao não pagamento voluntário de indemnização devida
por facto criminoso, a execução com vista a garantir o seu pagamento por via judicial pode ser
feita oficiosamente pelo MP288, tendo para o efeito papel preponderante, para além do magistrado
do MP, o escrivão do processo, pois, para aquele agir em conformidade com a lei, este deve dar-
lhe vista no 30o dia a contar da data do trânsito em julgado da decisão condenatória.

Concluindo, a execução conexa a acção penal tendo por base título executivo constituído por
sentença condenatória proferida em processo penal por factos criminosos praticados na
condução de veículo automóvel, em virtude de acidente estradal, pode ser promovida pelo
próprio titular do direito à indemnização, ou seja, o credor, perante secção cível do tribunal
comum, bem como oficiosamente pelo MP junto a secção criminal onde a sentença foi proferida,
contanto o titular do direito à indemnização não tenha constituído advogado no processo penal.

[Link]ção especial por alimentos

A noção de alimentos é dada pelo artigo 407 da Lei n.o 10/2004, de 25 de Agosto. Em
conformidade com as disposições deste artigo, entende-se por alimentos tudo quanto é
indispensável, necessário à satisfação das necessidades da vida do alimentado, nomeadamente o
286
Preâmbulo do DL n.o. 292/74, de 28 de Junho.
287
Preâmbulo do DL n.o. 292/74, de 28 de Junho.
288
Esta execução a promover oficiosamente pelo MP, porque o objectivo do legislador é garantir que o
pagamento de indemnizações a favor do titular do direito à indemnização que não constituiu advogado em
processo penal, mediante meios simples e práticos, tal execução deve correr no processo penal em que a
sentença condenatória foi proferida, portanto, na secção criminal e não na secção cível.

216
seu sustento, habitação, vestuário, saúde e lazer, e no caso do alimentado ser menor, ou ser
maior mas à data em que tiver atingido a maioridade ou emancipado não tiver ainda completado
a sua instrução, os alimentos deverão compreender a sua educação e instrução.

As pessoas obrigadas a alimentos são indicadas pelo artigo 413, Lei n. o 10/2004, de 25 de
Agosto, segundo a ordem neste estabelecida.

Quando a obrigação de prestar alimentos não seja voluntariamente cumprida pelo obrigado, o
alimentado deverá socorrer-se de meios processuais que tem ao seu dispor para levar a pessoa
sobre quem impende a obrigação a cumpri-la, não tendo a seu favor título executivo terá o
alimentado primeiro de mover acção declarativa de condenação a fim de se fixar, por sentença,
a pensão de alimentos a seu favor289.

No entanto, pode suceder que mesmo uma vez condenado o obrigado a alimentos podendo,
persista em não prestá-los, caso em que haverá que se passar à execução. É a execução especial
por alimentos que, enquanto processo de natureza especial, como se depreende da sua própria
designação, e seguindo os termos do processo sumário, a sua tramitação tem as especialidades
previstas pelos artigos 1118 e 1119, ambos do CPC.

Ora, ao prescrever o artigo 1118/1 do CPC que a “…execução por prestação de alimentos segue
os termos do processo sumário, qualquer que seja o valor…”, é pertinente questionar que espécie
de processo sumário a que se refere, se a execução para pagamento de quantia certa, a
execução para entrega de coisa certa ou a execução para prestação de facto.

Tendo em conta que a prestação de alimentos cuja execução se pretende efectivar através da
execução especial por alimentos é fixada num valor certo mensal, portanto, uma obrigação
pecuniária certa e líquida, o processo sumário a que o citado artigo 1118 do CPC alude é o
relativo à execução para pagamento de quantia certa, que já foi acima objecto de abordagem,
reiterando-se tudo quanto a propósito foi expendido a respeito do seu regime jurídico e
tramitação.

Tendo, contudo, em atenção as especificidades da execução por prestação de alimentos, temos


que nesta a nomeação de bens à penhora assiste exclusivamente ao exequente, que a fará logo no
requerimento inicial (art. 1118/1, al. a), CPC), portanto, contrariamente ao que sucede na
execução para pagamento de quantia certa em que o executado pode nomear bens à penhora
(art. 925/2, CPC, com a redacção dada pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro), na execução por
prestação de alimentos só o exequente o pode fazer.

Outra especificidade, é que o executado só é citado depois de efectuada a penhora e em nenhum


caso os embargos suspendem a execução (art. 1118/1, alíneas b) e c), CPC)290.
289
No caso de alimentos devidos a menores, a tramitação da respectiva acção é regulada pelos arts. 128 e
seguintes da Lei da Organização Tutelar de Menores (Lei n. o. 8/2008, de 15 de Julho).
290
Na execução sumária para por quantia certa, quando o exequente não tenha usado da faculdade de
nomear bens à penhora no requerimento de execução, o executado é citado antes da penhora para pagar
ou nomear bens à penhora, sendo que os embargos que deduza contra a execução podem suspender esta,
desde que preste caução ou no caso previsto pelo n. o 5 do art. 818 CPC (art. 925/2 e art. 818/1, este
aplicável ex vi art. 466/3, CPC, com a redacção dada pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro).

217
Dado o carácter sensível da questão de alimentos, o legislador consagrou medidas de carácter
penal contra o obrigado a prestar alimentos a menores ou ao seu cônjuge, que tendo sido
condenado judicialmente a prestá-los falte a essa obrigação, podendo o fazer (art. 131/1, da Lei
de Organização Tutelar de Menores, aprovada pela Lei n.o 8/2008, de 15 de Julho).

Com efeito, em tal caso há lugar a procedimento criminal pelo Ministério Público por crime de
desobediência mediante simples denúncia por parte de quem tem legitimidade para exigir o
cumprimento da obrigação, sendo que o procedimento criminal e a pena ficam extintos “…
quando se prove estarem pagos os alimentos em causa, ou quando estes forem pagos dentro de
prazo não superior a sessenta dias…”291, como se constata do disposto no artigo 1, [Link] 1 e 2, e §§
1o e 2o, da Lei n.o 2053, de 22 de Março (Lei do Abandono da Família).

Contudo, a instauração de procedimento criminal por falta de prestação de alimentos por quem
foi condenado a tal por sentença judicial a favor de um menor ou do seu cônjuge, não impede a
instauração de execução especial por alimentos com vista a obtenção do pagamento da pensão
alimentar (art. 131/2, da Lei de Organização Tutelar de Menores).

A cessação da execução por alimentos provisórios, que segue os mesmos termos aplicáveis ao
pedido de alimentos provisórios nos termos dos artigos 389 e seguintes (art. 1121/2 CPC), tem
lugar quando a sua fixação fica sem efeito (art. 1120 CPC)292, não havendo lugar à restituição de
alimentos provisórios recebidos (art. 411/2, Lei n.o 10/2004, de 25 de Agosto), e tratando-se de
alimentos definitivos para efeitos da sua alteração ou cessação, o respectivo pedido deve ser
deduzido no próprio processo especial de execução (art. 1121/1 CPC), seguindo-se depois os
termos previstos no artigo 1121/3 do CPC.

É preciso ter-se em atenção que nos termos do artigo 466/4, CPC 293, ao processo especial de
execução por alimentos aplicam-se subsidiariamente as disposições do processo ordinário ou
sumário, consoante o título em que se fundem, nos termos do artigo 465 CPC, o que nos parece
contraditório com o disposto no artigo 1118/1 do CPC, uma vez que resulta claramente deste
artigo que a “…execução por prestação de alimentos segue os termos do processo sumário,
qualquer que seja o valor…”, de modo que estando o artigo 466 inserido nas disposições comuns
sobre as formas de processo de execução, prevalecerão as disposições específicas sobre a
execução especial por alimentos e, por conseguinte, a esta forma de processo aplicar-se-ão
subsidiariamente apenas as disposições do processo sumário, pois tal resulta clara e
expressamente do artigo 1118/1 ao prescrever no sentido da execução por prestação de alimentos
seguir os termos do processo sumário.

291
Vide § 2o do art. 1, Lei n.o 2053, de 22 de Março.
292
São os casos em que nos termos do art. 382/1, alíneas a) a d) CPC, as providências cautelares, no caso
vertente a providência cautelar de alimentos provisórios, fica sem efeito.
293
Redacção dada pelo DL 1/2005, de 27 de Dezembro.

218
[Link]ção por custas na jurisdição civil

[Link]ções prévias

A tramitação dum processo, recurso, incidente ou a prática de determinado acto em tribunal


acarreta despesas, ou seja, custas, para uma ou todas as partes intervenientes no mesmo (art. 76
CCJ), sendo que as regras de acordo com as quais se determina sobre quem deve recair a
responsabilidade pelo seu pagamento vêm consagradas nos artigos 446 e seguintes do CPC, e a
decisão sobre a parte à qual deve ser imputada a responsabilidade de pagar é da competência do
tribunal e, na falta de decisão, de acordo com as regras previstas no art. 86 CCJ.

Para efeitos de se apurar as custas devidas é feita uma conta pela contadoria do tribunal de
conformidade com as regrais previstas pelo art. 80 CCJ.

Feita a conta, deve esta, após o visto do Ministério Público em como o examinou e não se mostra
haver lugar a qualquer reforma por aquela se mostrar feita de harmonia com as disposições legais
(art. 84, corpo e §§ 1o e 4o, CCJ), ser notificada no prazo de 5 (cinco) dias ao respectivo
responsável pelo seu pagamento, quer na sua própria pessoa, quer na pessoa do seu procurador
que o represente nos autos, para vir no processo examiná-la e impugná-la ou pagá-la, conforme
discorde ou concorde com a mesma, como decorre das disposições do art. 87, corpo e §§ 1 o e 2o,
CCJ.

O magistrado MP ao examinar a conta e constatar ter a mesma sido elaborada de acordo com as
disposições legais e não haver lugar a sua reforma, exara um despacho que pode ser nos
seguintes termos:

“Examinei a conta que antecede. Está conforme.


Assinatura:
Data”
Ou

“Examinei a conta no. 3/2030. Está conforme.


Assinatura:
Data”

No entanto, poderá suceder, como muitas vezes acontece, que o responsável pelas custas não
seja encontrado no seu domicílio a fim de ser notificado da conta para examiná-la e impugná-la
ou pagá-la.

Quando tal ocorre e compulsados os autos constatar-se que efectivamente o responsável pelas
custas encontra-se ausente em parte incerta, facto que se pode aferir do teor da certidão negativa
lavrada pelo oficial de diligências ou quando o processo tenha corrido à revelia, o responsável
pelas custas deverá ser notificado por um único edital a afixar à porta do tribunal (art. 87, § 3 o,
CCJ), para o que o MP uma vez lhe presente o processo com vista poderá fazer uma promoção,
mais ou menos com o seguinte teor:

219
“Face ao teor da certidão negativa que antecede de que se depreende encontrar-se o
responsável pelas custas ausente em parte incerta, promovo a sua notificação por um
único edital a fixar à porta do tribunal (art. 87, § 3o, CCJ).
Assinatura:
Data”

Ou

“Compulsados os autos constata-se que o responsável pelas custas encontra-se ausente


em parte incerta, pelo que promovo a sua notificação nos termos do disposto no art. 87,
§ 3o, CCJ).
Assinatura:
Data”

Quando o responsável pelas custas uma vez notificado não pretenda impugnar a conta, deve
pagá-la nos prazos previstos pelos artigos 89 a 90, do CCJ, nada obstando a que o pagamento
seja efectuado pela parte contrária ou por terceiros, ficando os mesmos com direito de regresso
em relação ao responsável pela conta (art. 91 CCJ)294.

Não sendo pagas as custas, nem pelo responsável respectivo, nem por terceiro, o MP promoverá
a sua execução.

A execução por custas constitui matéria cujo conhecimento é particularmente indispensável por
parte dos magistrados do MP, visto competir a este promover o seu início e termos subsequentes,
sendo que os processos de execução por custas são frequentes, pois não raras vezes os
responsáveis pelas mesmas não se dignam efectuar o seu pagamento de forma voluntária e, em
tal caso, haverá que se fazer a cobrança coerciva nos termos da lei.

Dada a necessidade do seu conhecimento, neste texto procura-se fazer uma abordagem em ternos
elementares e mais virados para prática sobre a tramitação de um processo de execução por
custas, desde o seu início quando se dá o impulso processual inicial, até ao seu termo.

[Link] de processo

Referimos acima que seguem a forma ordinária as execuções que, independentemente do valor,
tenham por base título executivo que não seja decisão judicial condenatória, ou decisão judicial
ou arbitral que condene no cumprimento de obrigação que careça de ser liquidada em execução
de sentença, e que seguem a forma sumária as execuções que têm por base actas de conciliação
ou mediação, decisão judicial condenatória ou arbitral, que ainda que condene no cumprimento

Tal poderá acontecer numa hipótese em que o prosseguimento de determinado processo está
294

condicionado ao pagamento de determinada conta e o respectivo responsável não se mostra interessado


no seu pagamento por o prosseguimento do processo não lhe convier.

220
de obrigação que careça de ser liquidada, a liquidação dependa de simples cálculo aritmético
(art. 465/1, alíneas a) e b), e n.o 2, CPC295).

Ora, porque a execução por custas é baseada na conta elaborada pela contadoria ou certidão de
conta, conforme se trate de custas devidas no tribunal onde a execução é promovida ou de custas
devidas a tribunal superior, poderíamos concluir que ela seguirá forma ordinária nos termos do
artigo art. 465/1, alínea a), CPC.

Com efeito, porque à luz do CCJ a existência de conta não paga no tempo fixado pela lei pelo
responsável, é documento bastante para que a execução possa ser promovida, resulta daí que à tal
conta ou certidão de conta a lei confere a natureza de título executivo 296, pois, é com base na
conta que, sem quaisquer outras diligências, o MP promove a execução.

Contudo, tal não nos parece ser o entendimento correcto, visto que a execução por custas é
regulada por diploma específico, o Código das Custas Judiciais, que consagra um regime
especial que lhe confere particularidades, sendo lhe aplicáveis, a título subsidiário, as
disposições do Código de Processo Civil que regulam a execução para pagamento de quantia
certa, pelo que é nosso entendimento que a execução por custas é uma execução especial, uma
execução que foge ao regime regra das execuções acima referidas.

[Link]ção da execução por custas na jurisdição civil

O pagamento da conta nos prazos legais reveste carácter voluntário, mas sucede com alguma
frequência que o responsável não efectua o pagamento de forma voluntária, tal quando sucede
haverá lugar a pagamento coercivo por ordem do juiz que, após o processo lhe ter sido concluso,
coordenará e ordenará o levantamento da quantia necessária para o efeito, que sairá do depósito
que o responsável tenha à ordem do tribunal no processo em causa, ou mandará proceder ao
desconto nos ordenados do devedor (art. 100 CCJ).

Contudo, pode acontecer que por esta forma não possa cobrar-se os valores em dívida
decorrentes da conta, e regra geral tal ocorre297, pelo que em tal hipótese remete-se o processo à
contadoria a fim de se fazer o rateio da conta para se apurar o valor em dívida, após o que o
processo vai com vista ao MP para promover a execução por custas, sendo que o respectivo
despacho poderá ser proferido nos seguintes termos:

“Promovo a citação do responsável pelas custas para os termos da execução (art. 101
CCJ).
Assinatura:
Data”

295
Redacção dada pelo DL 1/2009, de 24 de Abril.
296
Cfr. art. 46, alínea d), CPC.
297
Regra geral, a cobrança coerciva em conformidade com o disposto no art. 100 CCJ não tem lugar,
optando-se geralmente por apresentar o processo com vista ao MP para efeitos de promover a execução
por custas.

221
Promovida a execução pelo MP, está assim dado o impulso processual inicial para o
desencadeamento da execução por custas, e deve esta correr por apenso ao processo em que foi
feita a conta da qual as custas resultam, para o que autua-se a certidão da citação 298 (art. 102, §1o,
CCJ).

A execução por custas, enquanto processo, segue os termos de execução para pagamento de
quantia certa, de acordo com o regime consagrado no art. 102 CCJ, mas com as especificidades
consagradas no CCJ.

Deste modo, o direito de nomear bens à penhora considera-se logo devolvido ao exequente, no
caso em apreço o MP, de modo que este uma vez lhe presente o processo com vista após a
citação do executado (o responsável pelas custas), quando não conheça em concreto os bens do
executado, como tem sido normal, promoverá a penhora dos bens deste que forem encontrados
no seu domicílio ou a penhora de saldos bancários existentes em contas tituladas pelo executado,
no valor correspondente a quantia exequenda, e sua transferência à ordem do tribunal (art. 102/2
CCJ), para o que fará uma promoção que poderá se apresentar nos seguintes termos:

“Promovo a penhora dos bens do executado que forem encontrados no seu domicílio no
valor equivalente a quantia exequenda (art. 102/2 CCJ).
Assinatura
Data”

Ou

“Promovo que se oficie aos bancos da praça ordenando-se a penhora de saldos


existentes em contas tituladas pelo ora executado, até ao valor equivalente a quantia
exequenda, e sua transferência à ordem do tribunal (art. 102/2 CCJ).
Assinatura
Data”

Na pendência da execução o executado ou o responsável pelas custas poderá pagar a quantia


exequenda, o que mais ou menos é frequente ocorrer, caso em que a execução deverá cessar e
extinguir-se por decisão judicial (art. 102/5 CCJ e arts. 916, 919 e 287, alínea e), todos do CPC).
Perante tal circunstância, o MP elaborará uma promoção que poderá ser com o seguinte
conteúdo:

“Mostrando-se paga a quantia exequenda, promovo a cessação da presente execução e


consequente extinção da instância por inutilidade superveniente da lide (art. 102/5 CCJ
e arts. 916, 919 e 287, alínea e), todos do CPC).
Assinatura
298
Tenha-se em conta que poder-se-á autuar a execução por custas com base na certidão negativa ou no
edital afixado à porta do tribunal, quando se trate dum caso em que o responsável pelas custas encontra-se
ausente em parte incerta. Nesta hipótese, para não obrigar à citação edital do executado, para os termos da
execução, com publicação de anúncios, o MP poderá promover a citação edital com dispensa de anúncios,
caso o valor a cobrar não seja tão elevado a ponto de se mostrar imperiosa a publicação de anúncios nos
termos do art. 248/4 CPC.

222
Data”

Face a uma promoção do MP nos termos acima referidos, pode o juiz exarar despacho que pode
ser assim:

“Julgo extinta a instância por inutilidade superveniente da lide, visto se mostrarem


pagas a quantia exequenda e as custas (art. 102/5 CCJ e arts. 919/1 e 287, alínea e),
ambos do CPC).

Assinatura
Data”

Note-se que no caso anteriormente considerado, o executado deve pagar não só a quantia
exequenda correspondente ao valor das custas, como também o valor provável do acrescido,
como decorre do disposto no artigo 102/5 CCJ.

Sucede também que as custas tenham sido contadas e estejam em dívida num tribunal superior.
Neste caso, “…a secretaria extrairá, em duplicado, certidão da conta, com indicação dos
responsáveis pelas custas. Um dos exemplares fica na secretaria …, outro é entregue ao
Ministério Público, que o remeterá à 1a instância, onde o respectivo delegado promoverá a
citação do executado, seguindo-se os ulteriores termos conforme o disposto no artigo anterior”
(art. 103 CCJ)299.

Em termos práticos, o que sucede é que subindo um processo em recurso para um tribunal
superior, a título de exemplo do tribunal judicial distrital para o tribunal judicial provincial, findo
o mesmo e contadas as custas e não pagas estas pelo respectivo responsável no prazo legal uma
vez notificado nos termos do CCJ, a secretaria do tribunal judicial provincial extrai certidão da
conta não paga e remete-a ao MP que, por sua vez, remete-a à Procuradoria distrital onde o
respectivo Procurador - Chefe manda remeter ao Procurador da República afecto à secção donde
o recurso foi interposto e subiu para o tribunal judicial provincial a fim de promover a execução
por custas.

Recebida a certidão da conta, o MP ao nível da primeira instância faz um requerimento que pode
ser nos seguintes termos:

“Meritíssimo Senhor Doutor Juiz de Direito do Tribunal Distrital da Machava

Ministério Público vem requerer a presente

EXECUÇÃO POR CUSTAS,


contra:

299
Note-se que onde se refere no art. 103 CCJ ao delegado, deve se entender por Magistrado ou
Procurador da República, face a terminologia usada pela Lei Orgânica do Ministério Púbico e do Estatuto
dos Magistrados do Ministério Público, aprovado pela Lei no. 22/2007, de 1 de Agosto.

223
Carlitos Não Pagou, com domicílio no Bairro …, Rua…, …ºandar, nos termos e fundamentos
seguintes:

O ora executado interpôs recurso de apelação para o Tribunal Judicial Provincial de Maputo
registado sob o nº. 1020/07, no âmbito do qual sobre si impede a responsabilidade por custas no
valor de 4.057,21MT.

Não tendo o ora executado pago voluntariamente as custas em causa, apesar de notificado para
o fazer, ao Ministério Público foi ao abrigo do disposto no artigo 103 corpo, 1ª parte, CCJ,
remetida certidão da conta para efeitos legais.

Nestes termos e demais de direito que esse douto Tribunal suprir, deve a presente execução ser
declarada precedente, ordenando-se a citação do executado para os termos de execução ao
abrigo do artigo 103, corpo, 2ª parte do CCJ.

Valor: 4.057,21MT
Junta: Duplicados legais e um documento.

Data
O magistrado do Ministério Público
Nome
Assinatura
/Procurador da República/”

Ao requerimento junta-se a certidão da conta e dá entrada na secção, seguindo-se o mais já acima


explanado nos termos do art. 102 CCJ, ou vai à distribuição se houver no tribunal mais de
uma.

Refira-se que poderá acontecer que perante uma execução se constate que o executado,
responsável pelas custas, não possui património. Ora, sendo este que responde pelas suas
obrigações, conforme princípio geral consagrado no artigo 601 do CC, o processo será
arquivado condicionalmente, sem prejuízo de prosseguir logo que sejam conhecidos alguns bens
do executado ou devedor, desde que ainda não tenha decorrido o prazo da prescrição que é de
cinco anos (arts. 111 e 112, CCJ).

Conclusão

O processo executivo é o meio processual através do qual o titular de determinado crédito obtém
a sua efectiva realização por via judicial, podendo a execução, consoante o seu fim, ser execução

224
para pagamento de quantia certa, execução para entrega de coisa certa e execução para prestação
de facto (positivo/negativo).

O processo executivo tem uma forma regra, que compreende cada uma das espécies de execução
anteriormente referidas, mas pode também revestir forma especial, que é a execução especial por
alimentos, podendo a execução por custas e multas pelo Ministério Público considerar-se
também uma execução especial, pois, esta tem um regime específico consagrado no Código das
Custas Judiciais, embora se lhe aplicam também as disposições de execução para pagamento de
quantia certa.

A instauração de um processo executivo pressupõe a existência de determinados pressupostos,


nomeadamente o título executivo, as partes, ou seja, o credor e o devedor que, em regra, figuram
no título executivo, havendo desvios a esta regra geral de legitimidade das partes decorrentes,
por um lado, da existência de títulos ao portador cuja execução deve ser promovida pelos
respectivos portadores e, por outro lado, resultantes de sucessão no direito ou na obrigação, casos
em que a execução deve correr entre os sucessores das pessoas que no título figuram como
credor ou devedor da obrigação exequenda. Existem também os desvios decorrentes de sentenças
condenatórias cuja execução pode ser promovida também contra as pessoas relativamente às
quais ela tenha força de caso julgado.

O título executivo, enquanto um dos pressupostos da acção executiva, reveste-se de particular


importância porque, por um lado, é condição necessária e suficiente para instauração do processo
de execução, dada a sua imprescindibilidade ao surgimento de qualquer acção executiva e a sua
suficiência para existência da acção executiva, sem necessidade de qualquer diligência para a
consubstanciação da execução.

Por outro lado, é do título executivo que vai se aferir a espécie respectiva, se execução para
pagamento de quantia certa, execução para entrega de coisa certa ou execução para prestação de
facto (positivo/negativo), bem como o fim e os limites da acção executiva, e ainda dele se afere
da certeza, liquidez e exigibilidade da obrigação a que o devedor está adstrito.

O regime jurídico da execução para pagamento de quantia certa tem nos termos do CPC
aplicação subsidiária às demais espécies de execução, de modo que sempre que o fim específico
da execução para entrega de coisa certa e da execução para prestação de facto (positivo/negativo)
não é satisfeito pelo próprio devedor/executado, há como que uma conversão destas espécies de
execução para execução por quantia certa, de modo a garantir que o credor seja indemnizado
pela falta da entrega da coisa, no caso da execução para entrega de coisa certa, ou para garantir
que a prestação, sendo de natureza fungível, seja realizada por terceiro à custa do
devedor/executado, sem prejuízo de indemnização, o que passa pela nomeação de bens à
penhora, seguindo-se a convocação dos credores e verificação dos créditos, o pagamento e a
extinção e anulação da execução, e no caso da execução para prestação de facto negativo,
tratando-se de uma obra a conversão para execução por quantia certa visa permitir que a
demolição desta seja feita à custa do executado, sem prejuízo de indemnização a favor do
exequente.

225
Consoante a execução siga forma sumária ou ordinária, será mais ou menos célere, pelo
encurtamento de prazos na execução sob forma sumária e alguns desvios que lhe são específicos,
como é o caso da faculdade que assiste ao exequente de nomear, de imediato, bens à penhora no
requerimento executivo.

O pagamento na execução por quantia certa, que constitui fim último do exequente, pode ser
feito através da entrega de dinheiro, da adjudicação dos bens penhorados, da consignação dos
seus rendimentos ou pelo produto da sua venda.

A entrega de dinheiro consiste no pagamento do crédito do exequente, quando nenhum outro


credor deva preteri-lo, pelo dinheiro existente quando a penhora tenha recaído sobre moeda
corrente ou sobre crédito em dinheiro cuja importância foi depositada; a adjudicação dos bens
penhorados pode ser requerida pelo exequente e por qualquer credor reclamante, no que se refere
aos bens sobre os quais tenha invocado garantia; a consignação dos rendimentos dos bens só
pode ser requerida pelo exequente e enquanto tais bens não forem vendidos ou adjudicados, só
sendo deferida se o executado, ouvido sobre o pedido do exequente, não requerer a venda; enfim,
a venda, efectuada a requerimento do exequente, pode ser judicial e extrajudicial, sendo que a
judicial pode ser feita por meio de arrematação em hasta pública ou através de propostas em
carta fechada e a extrajudicial pode revestir quatro modalidades, nomeadamente a venda em
bolsas de valores ou de mercadorias, a venda directa a entidades que tenham direito a adquirir
determinados bens, a venda por negociação particular e a venda em estabelecimento de leilões.

Feita a venda ou adjudicação dos bens penhorados, determinadas pessoas, designadamente o


cônjuge não separado judicialmente de pessoas e bens e os descendentes ou ascendentes do
executado, podem recuperá-los, total ou parcialmente, através do exercício do direito de remição,
pagando o preço pelo qual foram adjudicados ou vendidos.

A execução para prestação de facto, ao qual aplicam-se, na parte em que o puderem ser,
disposições que regulam a execução de processo para pagamento de quantia certa, tem um
regime jurídico que difere consoante se trate de facto positivo ou negativo, e tratando-se de
execução para prestação de facto positivo, o seu regime jurídico também será diferente consoante
se trate de execução para prestação de facto com prazo certo e execução para prestação de facto
com prazo indeterminado, devendo-se assim ter em linha de conta tais diferenças de regime.

No que toca a execução conexa a acção penal (acidentes estradais), no caso em que a mesma não
deva ser promovida oficiosamente pelo MP, existindo sentença condenatória proferida em
processo penal arbitrando indemnização a favor do ofendido, a sua execução passa pela
promoção do processo de execução para pagamento de quantia certa.

Enfim, no que concerne a execução especial por alimentos e a execução por custas, dado o seu
carácter especial têm especificidades que lhes são próprias consagradas pelo CPC e pelo CCJ,
respectivamente, aplicando-se-lhes, contudo, a título subsidiário, o regime da execução para
pagamento de quantia certa, sendo que no que caso da execução especial por alimentos, dada a
natureza sensível da questão de alimentos, quando o alimentado seja menor ou cônjuge, e tendo
o obrigado a alimentos sido condenado por sentença judicial a prestar alimentos, em processo

226
criminal podem ser-lhe aplicadas medidas de carácter penal por desobediência à sentença
condenatória.

-Bibliografia

[Link]ÃO, Hélder Martins - Advogado, Do Processo de Execução, 7a Edição, Almeida &


Leitão, Lda, Porto, 2006.

-Legislação

[Link], Susana, GOUVEIA, Jorge Bacelar e MASSANGAI, Arão Feijão, Código Civil e
Legislação complementar, Maputo, 1996;
2.Código Comercial, aprovado pelo Decreto-Lei n.o 2/2005, de 27 de Dezembro;
3.Código da Estrada, aprovado pelo Decreto-Lei n.o 1/2011, de 23 de Março;
4.Código das Custas Judiciais;
[Link]-Lei n.o. 292/74, de 28 de Junho;
[Link], Abílio, Código de Processo Civil Anotado, Livraria Almedina, Coimbra, 1994;
[Link], Carlos, Colectânea de Legislação de Família e Menores, 2a edição, Revista e
Aumentada, Ministério da Justiça - Centro de Formação Jurídica e Judiciária, Maputo, 2009.

227
Tema 8 - Lições sobre processo especial de inventário
obrigatório

Ribeiro José Cuna

228
Índice

Páginas

Tema 8 - Lições sobre processo especial de inventário obrigatório............................................229


Ribeiro José Cuna........................................................................................................................229
Abreviaturas.................................................................................................................................231
Introdução....................................................................................................................................232
[Link]ções prévias..............................................................................................................232
[Link]ão do processo de inventário e sua função..................................................................232
[Link] obrigatoriedade ou não do inventário face ao novo regime do Código do Notariado.....234
[Link]ção do inventário obrigatório.......................................................................................236
[Link] do inventário obrigatório, regime jurídico e aspectos práticos....................................236
[Link] da abertura do processo, nomeação de cabeça-de-casal, prestação de
juramento pessoal de bem desempenhar as funções e de declarações por parte do cabeça-de-
casal e apresentação por este da relação de bens.....................................................................237
[Link]ção de todos interessados e do Ministério Público para os termos do inventário e
exame da relação de bens........................................................................................................244
[Link]ção dos bens da herança e seu exame pelos intervenientes no processo..............246
[Link]ção da conferência de interessados.....................................................................247
[Link]ções........................................................................................................................248
[Link]ção da forma de partilha pelo magistrado do Ministério Público e despacho
determinativo da partilha do juiz.............................................................................................249
[Link]ção do mapa de partilha e seu exame pelos interessados...................................251
[Link]ção por sentença do mapa de partilha pelo tribunal e remessa do processo à
contadoria para efeitos de elaboração da conta.......................................................................251
[Link] e anulação da partilha...........................................................................................252
[Link].Disposições gerais...........................................................................................................253
[Link] do inventário....................................................................................................254
Conclusão....................................................................................................................................256
-Bibliografia.................................................................................................................................257
-Legislação...................................................................................................................................258

229
Abreviaturas

CC - Código Civil;
CCJ - Código das Custas Judiciais;
CN - Código do Notariado;
CPC - Código de Processo Civil;
CP - Código Penal;
CRM - Constituição da República de Moçambique;
DL - Decreto - Lei;
EGFAE - Estatuto Geral dos Funcionários e Agentes do Estado.

230
Introdução

A presente abordagem visa transmitir conhecimentos teóricos em torno dos processos de


inventário obrigatório no que ao seu regime jurídico e tramitação respeita, e numa pretensão de
transmitir, outrossim, conhecimentos de ordem prática, são mencionados alguns exemplos de
despachos que, na prática, podem ser exarados, quer pelo magistrado do Ministério Público, quer
pelo magistrado judicial.

Os processos de inventário obrigatório normalmente são requeridos pelo MP, o que é uma
consequência da obrigatoriedade legal do MP promover a instauração deste processo especial
quando seja o caso.

Na abordagem que iremos fazer desta espécie de processo iremos, num primeiro momento, fazer
considerações prévias, em que vamos tratar essencialmente da razão do inventário obrigatório e
sua função, para depois passarmos a curar da sua tramitação, com destaque para as fases porque
a mesma passa, desde o requerimento inicial feito pelo MP até à sentença homologatória da
partilha proferida pelo tribunal.

Tratando-se de segunda versão, o presente texto tem como novidade tratar de questões
relacionadas com a obrigatoriedade ou não do inventário, tendo em conta o novo regime do
Código do Notariado, aprovado pelo Decreto-Lei n.o 4/2006, de 23 de Agosto, nos casos em que
existam menores ou equiparados.

Outrossim, são tratadas questões sobre licitações, sobre a emenda e anulação da partilha que
podem ter lugar, mesmo depois de transitar em julgado a sentença homologatória. Enfim, são
tratados sumariamente aspectos ligados a incidentes do inventário, mormente o da remoção do
cabeça-de-casal, por ser o mais frequente.

Esta abordagem, na qual se procurou tratar apenas de aspectos básicos que permitam o formando
dispor de conhecimentos elementares e subsídios que o habilitem a lidar com processos de
inventário obrigatório, é fruto da pouca experiência do autor na sua actividade como magistrado
do MP e da consulta a bibliografia existente sobre a matéria, e embora tal seja escusado dizê-lo,
recomenda-se a consulta por parte dos formandos das obras existentes tratando do processo de
inventário obrigatório com vista a enriquecerem o seu conhecimento sobre a matéria.

231
[Link]ções prévias
[Link]ão do processo de inventário e sua função

Toda e qualquer pessoa física em vida pode ser titular de determinado património, que não lhe
pode ser expropriado senão nos termos da lei e de que pode dispor livremente, pois o direito de
propriedade tem garantia constitucional e é reconhecido pelo Estado (art. 82 da CRM).

Ocorrendo a morte natural de determinada pessoa física titular de certo património, levanta-se a
questão da sua sucessão300 nesse mesmo património - exceptuadas as relações jurídicas que
devam extinguir-se por morte do respectivo titular, por força da sua natureza e da lei e os direitos
renunciáveis que devam extinguir-se à morte do titular por vontade deste 301 -, porquanto desde a
ocorrência de tal facto o património do finado passa a constituir o que se designa por herança,
sendo o direito à mesma reconhecida e garantido pelo Estado ao abrigo do artigo 83 da CRM.

Aberta a sucessão, que será voluntária, quando se trate de sucessão testamentária ou contratual,
e legal quando se trate de sucessão legitimária e legítima (arts. 2027 e 2028, CC), à ela serão
chamados os herdeiros e legatários com capacidade sucessória, que não sejam considerados
indignos (art. 2034 CC), e segundo a prioridade estabelecida pela lei, passando-se de uma classe
para outra consoante os primeiros sucessíveis não queiram ou não possam aceitar o chamamento
à titularidade das relações jurídicas do falecido (arts. 2032/1 e 2, 2033 e 2049/3, todos do CC).

Chamado à sucessão, o herdeiro ou legatário poderá aceitar ou não, e não obstante a aceitação
ou o repúdio serem, via de regra, espontâneos, não havendo aceitação e repúdio dentro dos
quinze dias seguintes, poderão ser provocados mediante notificação para o efeito ordenada pelo
tribunal, sendo de referir a propósito a actuação do MP, visto que tem legitimidade para requerer
que ao sucessível que face ao chamamento se remete ao silêncio seja notificado para, no prazo
que lhe for fixado, declarar se aceita ou repudia a herança (art. 2049/1 CC).
A aceitação da herança pode ser expressa, entendo-se como tal quando o interessado outorga
qualquer documento, ou intervém num inventário instaurado por si ou por outrem, ou promovido
pelo MP (art. 2056/2 CC), ou pode ser tácita (art. 2049/2 CC). A aceitação é irrevogável (art.
2061 CC).

Quanto ao repúdio da herança, este só pode ser expresso, ou seja, deve revestir forma escrita,
documento ou escritura pública, de acordo com a forma exigida para a alienação de bens (art.
2063 e 220, ambos do CC). O repúdio é também irrevogável (art. 2066 CC).

300
Nos termos do art. 2024 do [Link], sucessão é “…o chamamento de uma ou mais pessoas à
titularidade das relações jurídicas patrimoniais de uma pessoa falecida e a consequente devolução dos
bens que a este pertenciam”.
301
Seria o caso da relação de casamento (art. 193 da Lei n o. 10/2004, de 25 de Agosto), do usufruto (art.
1476/1, al. a), [Link]), da renda vitalícia (art. 1238 [Link]), da obrigação alimentar (art. 417/1, al. a), Lei
no. 10/2004, de 25 de Agosto), que se extinguem com a morte do respectivo titular; do direito e da
obrigação de preferência que, em princício, não se transmitem por morte (art. 420 [Link]) e da servidão
que pode se extinguir por renúncia (art. 1569/1, al. d), [Link]).

232
Nos termos do artigo 2052/1 CC, a aceitação da herança pode ser pura e simples ou a benefício
de inventário.

A aceitação da herança a benefício de inventário tem uma função protectora dos herdeiros
relativamente aos credores da herança.

Com efeito, tendo em conta que a herança responde pelo pagamento das dívidas do falecido (art.
2068 CC), no caso de os herdeiros serem demandados pelos credores, se tiverem aceitado a
herança pura e simplesmente, recairá sobre si o ónus de provar que no acervo da herança não
existem bens de valor suficiente à cobertura do valor das dívidas.

Contudo, se tiverem aceitado a herança a benefício de inventário, o ónus de prova anteriormente


referido inverte-se, ou seja, “…terão de ser os credores do inventariado a fazer a prova de que,
para além dos bens descritos no inventário, outros existem, pertencentes ao falecido, que podem
responder pelas respectivas dívidas”302.

Como é evidente, a função protectora do inventário será ainda mais relevante quando estejam
em causa interesses de incapazes (menor, interdito e inabilitado) e ausentes, porventura a razão
porque a herança a estes deferida deve sê-lo a benefício de inventário (arts. 2053 e 2102/2,
ambos do CC).

Para além da função protectora, o inventário (divisório)303, “…tem a de dividir a herança, isto
é, distribuir pelos herdeiros, fiel e equitativamente, o património hereditário” 304 (o destacado é da
autoria do autor da obra citada).

[Link] obrigatoriedade ou não do inventário face ao novo


regime do Código do Notariado

Feita a breve explanação sobre a razão do processo de inventário e sua função, cumpre analisar
se face ao novo regime do CN, aprovado pelo DL n. o 4/2006, de 23 de Agosto, continua ou não a
existir casos em que a aceitação da herança deve ser imperativamente a benefício de inventário,
mormente quando existam herdeiros menores ou equiparados.

302
DE SÁ, Domingos Silva Carvalho, Procurador da República, Do Inventário-Descrever, Avaliar e
Partir, Livraria Almedina, 3a Edição, 1998, páginas 16 a 17.
303
Por contraposição ao inventário divisório que tem a função de dividir pelos herdeiros a herança, existe
o inventário arrolamento que se restringe à descrição e avaliação dos bens e que é feita em casos de certas
pessoas vivas, como é o caso do art. 93/1 C.C. - arrolamento dos bens entregues ao curador provisório do
ausente; art. 1468, al. a), C.C. – arrolamento dos bens entregues ao usufrutuário; art. 354/1, Lei n o.
10/2004, de 25 de Agosto - arrolamento dos bens do tutelado.
304
DE SÁ, Domingos Silva Carvalho, Procurador da República, Do Inventário-Descrever, Avaliar e
Partir, Livraria Almedina, 3a Edição, 1998, página 17.

233
Com efeito, o CN no regime anterior às alterações aprovadas pelo DL n. o 4/2006, de 23 de
Agosto, estabelecia no seu artigo 91, n.o 1, alínea a), a obrigatoriedade de inventário para a
habilitação de herdeiros quando existissem menores ou equiparados, o qual passamos a citar:

“1. A habilitação de herdeiros pode ser feita por via notarial:


a) Quando não houver lugar a inventário obrigatório;

(…)”

Ora, nos termos dos artigos 2053/1 e 2102/2, ambos do CC, há lugar a inventário judicial
obrigatório quando a herança deva ser deferida a menor, interdito, inabilitado ou pessoa
colectiva, bem como quando algum dos herdeiros não possa, por motivo de ausência ou de
incapacidade permanente, outorgar em partilha extrajudicial. Da conjugação destas disposições
do Código Civil com as da alínea a), do número 1, artigo 91, do Código do Notariado acima
expressamente citado, no regime anterior às alterações aprovadas pelo DL n. o 4/2006, de 23 de
Agosto, resulta que devendo a herança ser deferida a menor, interdito, inabilitado ou pessoa
colectiva, ou no caso em que algum dos herdeiros não pudesse, por motivo de ausência ou de
incapacidade permanente, outorgar em partilha extrajudicial, não era admissível a habilitação
notarial de herdeiros e, consequentemente, era obrigatória a instauração de inventário judicial
para habilitação dos herdeiros e partilha judicial.

No entanto, face ao novo regime do CN introduzido pelo DL n. o 4/2006, de 23 de Agosto, é


pertinente a questão de saber se ainda o inventário judicial é obrigatório quando existam
menores ou equiparados, isto porque o citado código permite no seu artigo 87, sem distinguir os
casos, que a habilitação de herdeiros possa ser feita por via notarial.

Somos da opinião que a intenção do legislador moçambicano é de acabar com a distinção


inventário obrigatório/facultativo, permitindo que menores, através dos seus representantes
legais ou curadores, possam outorgar em habilitação notarial e consequente partilha
extrajudicial dos bens hereditários, e tal se depreende das disposições da alínea k) do artigo 3,
Lei n.o 4/2006, de 3 de Maio, que autoriza o Governo a aprovar alterações ao CN, ao prescrever
sobre o âmbito das alterações, que o Governo deve permitir que todas as habilitações de
herdeiros se possam realizar notarialmente, ainda que à herança se habilitem apenas menores ou
incapazes.

Dizemos intenção porque “…a previsão da habilitação de herdeiros menores não foi
acompanhada de medidas que garantam a efectiva defesa de … interesses” 305 daqueles, como
actualmente sucede em Portugal cujo sistema jurídico é próximo do moçambicano.

Com efeito, no caso de Portugal em que a instauração de inventário não é obrigatória mesmo
quando existam menores, os interesses destes ainda assim estão acautelados mediante
acompanhamento do tribunal e do Ministério Público, visto “…que a partilha extrajudicial de
herança deferida a menor se encontre condicionada a autorização prévia do tribunal; que o
Ministério Público, sempre que, de acordo com os elementos que tenha podido obter … entenda

305
TIMBANE, Tomás Luís, A Revisão do Processo Civil, Faculdade de Direito da Universidade Eduardo
Mondlane, Central Impressora e Editora de Maputo, SARL, Maputo, 2007, página 144.

234
que a defesa dos interesses do menor na herança passa pela instauração de inventário o possa
fazer; que o pai ou o representante legal do menor seja obrigatoriamente advertido no respectivo
acto notarial de que o deve registar no prazo de três meses…”306.

Disto resulta que, não obstante não ser obrigatória a aceitação da herança a benefício de
inventário quando existam menores ou equiparados, no caso de Portugal ainda assim estão
acautelados os interesses daqueles, na medida em que a partilha extrajudicial está dependente de
autorização prévia do tribunal, sem prejuízo do MP requerer a instauração de inventário
quando, face a determinados elementos que tenha podido obter, entenda que os interesses dos
menores só poderão ser salvaguardados mediante instauração de inventário.

Portanto, embora o inventário para partilha judicial da herança não seja obrigatório, é uma
possibilidade.

Cremos que o legislador moçambicano ao admitir a habilitação notarial mesmo existindo


menores ou equiparados, não pretende de modo algum dar espaço a que os interesses daqueles
fiquem desprotegidos, fê-lo na melhor das intenções, seguramente a de permitir que se evite o
inventário judicial, um processo judicial mais ou menos longo, fazendo-se a partilha
extrajudicial. Contudo, porque “…a consagração do regime de habilitação notarial de menores
atravessa de forma horizontal vários diplomas legais, designadamente o Código Civil, o Código
de Processo Civil …. É, pois, necessário acompanhar o novo regime legal de alterações em cada
um destes diplomas legais, de modo a que estejam previstas e reguladas todas as questões
relativas aos efeitos da habilitação notarial de menores” 307, com vista a salvaguarda dos seus
interesses.

É em função do que referimos anteriormente que entendemos que a intenção do legislador


moçambicano é de eliminar a dicotomia inventário obrigatório/facultativo, bem como permitir
que menores ou equiparados outorguem em habilitação notarial e consequente partilha
extrajudicial, mas a reforma legal para o efeito deve se estender aos demais diplomas legais que
versam sobre o direito sucessório, mormente o Código Civil e o Código de Processo Civil,
doutro modo ainda não teremos criadas todas condições legais à luz das quais possa ser feita a
partilha extrajudicial da herança nos casos em que existam menores ou equiparados, terminando
a questão na habilitação notarial e não mais do que isso.

[Link]ção do inventário obrigatório

[Link] do inventário obrigatório, regime jurídico e aspectos


práticos

O processo de inventário obrigatório tem, em resumo, as seguintes fases:


306
LEITÃO, Hélder Martins, Advogado, Do Inventário-Do requerimento inicial até à sentença
homologatória, Almeida & Leitão, Lda, 10a Edição, página 29.
307
TIMBANE, Tomás Luís, Op. Cit., página 144.

235
1. Requerimento da abertura do processo, nomeação de cabeça-de-casal, prestação de
juramento pessoal de bem desempenhar as funções e de declarações por parte do
cabeça-de-casal e apresentação por este da relação de bens;

2. Citação de todos interessados e do Ministério Público para os termos do inventário e


exame da relação de bens;

3. Descrição dos bens da herança e seu exame pelos intervenientes no processo;

4. Realização da conferência de interessados;

5. Promoção da forma de partilha pelo magistrado do Ministério Público e despacho


determinativo da forma da partilha;

6. Elaboração do mapa de partilha e seu exame pelos interessados;

7. Homologação por sentença do mapa de partilha pelo tribunal e remessa do processo à


contadoria para efeitos de elaboração da conta.

Há que abordar cada uma destas fases, mencionando particularmente alguns artigos do Código
Civil e do Código de Processo Civil que consagram disposições legais nos termos das quais elas
têm lugar.

[Link] da abertura do processo, nomeação de cabeça-de-


casal, prestação de juramento pessoal de bem desempenhar as funções e
de declarações por parte do cabeça-de-casal e apresentação por este da
relação de bens

Nos termos do artigo 1326 do CPC, o inventário obrigatório deve ser requerido pelo MP, do que
decorre que, sempre que determinada herança deva ser partilhada por meio de processo de
inventário obrigatório, designadamente por um dos interessados ser menor, interdito, inabilitado
ou ausente, deve ser requerido oficiosamente pelo MP (arts. 2053 e 2102/2, ambos do CC),
bastando para o efeito ser levado ao seu conhecimento ocorrência de óbito de determinada
pessoa e dispor de certidão de óbito respectiva, desde que efectivamente existam bens deixados
pelo falecido que devam ser partilhados.

Documento base para o MP promover a abertura do processo é a certidão de óbito, podendo os


demais, como é o caso das certidões de nascimento dos interessados e títulos de propriedade
relativos ao património hereditário, serem juntos ao processo posteriormente.

Para efeitos de promoção de instauração do processo de inventário obrigatório, nos serviços do


MP normalmente existe um impresso destinado a essa finalidade, o qual é preenchido pelos
funcionários que auxiliam os magistrados do MP no exercício das suas funções e juntam ao

236
mesmo a certidão de óbito e demais documentos que tiverem sido entregues pelos interessados, e
após a assinatura pelo magistrado é o requerimento remetido à secretaria do tribunal e segue-se a
distribuição, no caso de haver secções.

Do impresso acima referido, entre outros aspectos, consta o nome do inventariado, local da sua
residência habitual, indicação genérica de que deixou bens e herdeiros sujeitos a inventário de
incapazes, assim como o nome e residência do cabeça-de-casal e valor provável do inventário.

De qualquer modo, propomo-nos apresentar os termos de um requerimento de inventário


obrigatório como se segue:

REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE
PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA
Procuradoria da República da Cidade de Maputo

Meritíssimo Senhor Juiz de Direito do Tribunal Judicial da Província de Maputo

Tendo falecido …(nome do autor da herança), que foi residente na Matola … (indicar o
endereço completo), sem deixar testamento, no estado de casado com … (nome do cônjuge
sobrevivo) em regime de …(regime de bens) e deixando bens e herdeiros sujeitos a inventário de
incapazes, promovo nos termos do art. 1326/2 CPC que, D. e A., se proceda ao respectivo
inventário obrigatório, nomeando-se para o cargo de cabeça-de-casal e citando-se a mesma
para prestar declarações ao abrigo dos arts. 2080/1, al. a) [Link] e 1327 CPC, a senhora …
(nome do cônjuge sobrevivo), residente em … (endereço completo).

Junta: certidão de óbito


Valor provável: 15.000,00MT

Matola, aos … de … de 2008.

O Magistrado do Ministério Público

(Nome)
/Procurador da República/”

Note-se que no que se refere ao valor da causa no requerimento de inventário indica-se o valor
provável, pois “…no processo de inventário tal valor não é mais do que um valor provisório, o
qual vai sendo corrigido para mais ou para menos à medida que o processo avança e fixando-se

237
apenas quando ele chega ao seu termo. Isto mesmo se afirma no artigo n.o 308.o n.o 3 do Código
de Processo Civil.”308

 Cabeça-de-casal

No requerimento que apresente para abertura de inventário obrigatório, o Ministério Público


indicará a pessoa que desempenhará o cargo de cabeça-de-casal, devendo ser alguém com
legitimidade para o efeito, respeitando-se a ordem de preferência estabelecida pela lei, sob pena
de uma possível impugnação desta, incluindo pelo próprio nomeado (arts. 1326/1, in fine, 1332/1
e 1333/1, todos do CPC, art. 2080 CC e art. 203, da Lei n o. 10/2004, de 25 de Agosto – Lei da
Família).

 Relação de bens

O cabeça-de-casal é obrigado a apresentar a relação de todos os bens, organizada em


conformidade com o disposto no art. 1337 CPC, com destaque para a ordem porque os diversos
bens devem ser relacionados, como se segue: “…direitos de crédito, títulos de crédito, dinheiro,
moedas estrangeiras, objectos de ouro, prata e pedras preciosas e semelhantes, as restantes coisas
móveis, os imóveis”, com indicação dos valores no caso dos bens referidos no art. 1338 CPC 309.
O cabeça-de-casal deverá apresentar também todos documentos relacionados com a herança no
acto da prestação de declarações, para o que deverá ser advertido no acto da sua citação, e caso
não os apresente deverá explicar as razões disso e o tribunal fixar-lhe-á prazo para o fazer (art.
1327/4 CPC).

 Casos duvidosos

-Seguro de vida

Relacionado com a relação de bens, ocorrem por vezes situações em que determinados
interessados apresentam-se perante o MP e solicitam que este promova a instauração de processo
de inventário obrigatório, quando o pretenso bem da herança trata-se de seguro de vida, o que se
pode constatar logo de início ou após a prestação de declarações pelo cabeça-de-casal.

Ora, em tal caso não há motivos para instauração ou prosseguimento de inventário obrigatório,
por o capital segurado não poder integrar o património deixado por óbito de determinada pessoa
e, por isso mesmo, não dever sequer o seguro de vida ser relacionado ou constar da relação de
bens, por se tratar dum “…direito cuja efectivação depende da sua morte e apenas são
transmissíveis os direitos e não meras expectativas jurídicas…” 310, bastando em tal caso que o
308
Domingos Silva Carvalho de Sá, Procurador da República, Do Inventário-Descrever, Avaliar e Partir,
Livraria Almedina, 3a Edição, 1998, página 46.
309
Não raras vezes determinados cabeças-de-casal por desconhecimento apresentam a relação de bens sem
observância ao disposto no art. 1337 CPC, sendo o caso mais grave o da apresentação da relação de bens
sem indicação dos respectivos valores nos casos em que deva haver tal indicação por força do disposto no
art. 1338 do CPC, situação em que, mediante promoção ou não do MP, o tribunal deve ordenar a
notificação do cabeça-de-casal para apresentar a relação de bens devidamente organizada com indicação
dos respectivos valores.
310
DE SÁ, Domingos Silva Carvalho, Op. Cit., página 95.

238
beneficiário deste tipo de contrato (contrato a favor de terceiro) apresente perante a empresa
seguradora certidão de óbito comprovativa de falecimento do subscritor do contrato e o seu
documento de identificação pessoal enquanto beneficiário, e não havendo qualquer causa de
exclusão da responsabilidade da seguradora ser-lhe-á pago o capital segurado.

-Direito ao arrendamento

Logo após a conquista da independência nacional proclamada em 1975, vários imóveis, quer
destinados a habitação, quer destinados a comércio, indústria ou agricultura, foram
nacionalizados pelo Estado de Moçambique à luz do DL n o. 5/76, de 5 de Fevereiro, tendo para
efeitos de administração do parque imobiliário que passou a pertencer ao Estado mediante
nacionalização sido criada a Administração do Parque Imobiliário do Estado (APIE), entidade
com competência para celebrar contratos de arrendamento tendo por objecto imóveis
propriedades do Estado.

A lei do arrendamento, Lei no. 8/79, de 3 de Julho, com a redacção dada pela Lei n o. 8/87, de 19
de Setembro, prevê no seu artigo 5/2 a transmissão do contrato de arrendamento para habitação
por morte ou incapacidade do inquilino ao cônjuge sobrevivo ou aos membros do agregado
familiar constantes do contrato.

Ora, tendo em conta as disposições deste artigo, é pertinente questionar se a transmissão do


contrato de arrendamento para habitação é ou não a título sucessório e se pode, assim, ser
relacionado pelo cabeça-de-casal como um dos bens da herança.

Tendo em conta que o direito ao arrendamento de que determinada pessoa é titular por força de
contrato de arrendamento celebrado com a APIE tendo por objecto imóvel do Estado, é um
potencial direito de propriedade, visto que o inquilino encontrando-se em situação contratual
regular pode requerer a compra do imóvel (art. 2/1, Lei no. 5/91, de 9 de Janeiro e art. 1/1,
Decreto no. 2/91, de 16 de Janeiro)311, poder-se-ia entender que o direito de arrendamento deve
ser considerado como parte integrante das relações jurídicas transmissíveis por morte do titular,
pois, como já dissemos, o direito de arrendamento tendo por objecto imóveis do Estado tem
conteúdo potencialmente patrimonial312, por ser um virtual direito de propriedade a adquirir pelo
inquilino, pelo que não devia ser excluído do acervo hereditário.
311
Com a cada vez crescente alienação dos imóveis do Estado, de acordo com informações que têm vindo
a ser tornadas públicas, reduziu consideravelmente o parque imobiliário propriedade do Estado, e
atendendo ao valor comercial dos imóveis e o preço por que são alienados pelo Estado, que é de algum
modo simbólico, está subjacente a tal facto a preocupação do Estado proporcionar habitação aos cidadãos.
Aliás, já no Decreto-Lei no. 5/76, de 5 de Fevereiro, ficou consagrado no art. 1 que “Cada família tem
direito a ser proprietária da sua própria habitação”, e nos termos do art. 91/1 da Constituição em vigor,
“Todos os cidadãos têm direito à habitação condigna, sendo dever do Estado, de acordo com o
desenvolvimento económico nacional, criar as condições …infra-estruturais”, e nessa perspectiva de
acordo com o preâmbulo do Decreto n o. 2/91, de 16 de Janeiro, “Para corresponder ao objectivo social
decorrente da democratização da habitação, o Estado vem subsidiando globalmente as rendas da maioria
dos inquilinos que não correspondem ao valor real…”, inquilinos que na sua grande maioria já
compraram os imóveis ao Estado.
312
Na noção de sucessão dada pelo art. 2024 [Link] está patente a natureza patrimonial das relações
jurídicas da pessoa falecida para cuja titularidade são chamadas determinadas pessoas.

239
A prática jurisprudencial tem sido no sentido de admitir o direito ao arrendamento tendo por
objecto imóveis do Estado como parte integrante da herança 313, visto que a sua inclusão na
relação de bens e consequente descrição, culminando com a sua partilha, não tem sofrido
qualquer contestação do tribunal, nem do MP.

Contudo, se analisarmos a questão noutra perspectiva chegaremos a um entendimento contrário.

Com efeito, antes de tudo é preciso notar que nos termos do diploma legal acima citado, por
morte ou incapacidade do inquilino, transmite-se o contrato de arrendamento para habitação, e
não qualquer outro tipo de contrato, como seja para comércio, indústria e agricultura, o que
demonstra a preocupação que o legislador teve de salvaguardar o direito ao alojamento ou a
habitação, considerados nos preâmbulos do DL no. 5/76, de 5 de Fevereiro, e da Lei n o. 8/79, de
3 de Julho, como correspondendo a uma necessidade essencial e elementar de cada cidadão e da
sua família e como um direito fundamental dos cidadãos.

Ora, tendo em conta que a lei supracitada prevê a transmissão do contrato de arrendamento para
habitação por morte do inquilino ao cônjuge sobrevivo ou aos membros do agregado familiar
constantes do contrato, sendo o cônjuge sobrevivo um herdeiro, embora sem preferência legal
relativamente a determinados sucessíveis, o mesmo podendo suceder quanto aos membros do
agregado familiar constantes do contrato, os quais normalmente são herdeiros do inquilino por
terem com este relações de parentesco - via de regra são descendentes -, porque a indicação legal
não respeita a ordem de preferência dos sucessíveis consagrada no CC com carácter imperativo
(arts. 2132 a 2137, 2157), somos de entendimento que tal transmissão do contrato não é a título
sucessório, mas sim por mero efeito da lei - decorre da própria lei -, visando simplesmente
garantir que o cônjuge sobrevivo ou os membros constantes do agregado familiar continuem a ter
ao seu dispor habitação após a morte do inquilino.

Aliás, embora difícil na prática, teoricamente é possível que determinado membro do agregado
familiar de um inquilino não seja cônjuge nem herdeiro deste, mas ainda assim o contrato de
arrendamento pode ser transmitido a seu favor por morte do inquilino, por força do disposto na
lei do arrendamento, na medida em que basta que alguém conste do agregado familiar para que a
seu favor seja transmitido o contrato por óbito do inquilino.

 Subsídio por morte

É frequente interessados num processo de inventário obrigatório reclamarem a partilha, nos


autos, do subsídio por morte por falecimento de um funcionário do Estado, o que pressupõe que
tal subsídio deva ser previamente incluído na relação de bens da herança.

O subsídio por morte consiste num valor correspondente a seis meses das remunerações relativas
a função que o funcionário ou agente do Estado exercia no momento do seu falecimento,
incluindo o vencimento e outros suplementos do mês em que ocorrer o óbito314.

313
Pelo menos ao nível da Cidade de Maputo onde o autor deste texto teve alguma experiência na
promoção e impulso processual de processos de inventário obrigatório.

240
Do anteriormente referido resulta que o subsídio por morte não existe à data do falecimento do
autor da herança, não integra o seu património, não podendo assim em vida o autor da herança
reclamá-lo, pelo que não pode o subsídio por morte ser relacionado a fim de ser partilhado como
se de herança se tratasse.

O próprio EGFAE, aprovado pela Lei n.o 14/2009, de 17 de Março, prescreve no seu artigo 165/1
que o subsídio por morte é abonado à pessoa de família a cargo do funcionário, desde que
previamente indicada por ele em declaração depositada nos respectivos serviços. Portanto, o
subsídio por morte é pago à pessoa que estava na dependência económica do funcionário
falecido, bastando que o indique em declaração por si subscrita e depositada no serviço
processador de salários.

Sucedendo que tal declaração não exista, por eventualmente não ter sido feita pelo funcionário
falecido, ou tenha sido extraviada ou seja inoperante315, o subsídio por morte é pago,
sucessivamente, ao cônjuge sobrevivo, se não houve separação judicial ou de facto, incluindo o
que se encontrava em união de facto; ao mais velho dos descendentes do grau mais próximo e a
um dos ascendentes em linha recta do grau mais próximo316.

Trata-se, no fundo, de um subsídio que visa permitir que a pessoa que estava na dependência
económica do falecido possa satisfazer as suas necessidades básicas face ao desaparecimento
físico da pessoa que lhe proporcionava sustento, de forma a aprender a lidar, durante algum
tempo, com a nova realidade e procurar fontes alternativas de sustento.

 Competência do tribunal

No que respeita à competência do tribunal, é competente para conhecer dos processos de


inventário o tribunal comum ou tribunal judicial (arts. 66, 67 e 68/1, todos do CPC, art. 33, Lei
no. 24/2007, de 20 de Agosto) - competência em razão da matéria -, podendo ser um tribunal
distrital ou provincial, consoante o valor do inventário seja inferior (ou igual) ou superior a
cinquenta vezes o salário mínimo nacional (arts. 73/1, al. a), 85/1, al. a), 115/2 e 118, Lei n o.
24/2007, de 20 de Agosto) - competência em razão do valor.

Em regra, o tribunal do lugar da abertura da sucessão é o “…competente para o inventário e para


a habilitação de uma pessoa como sucessora por morte de outra” (art. 77/1 CPC) - competência
em razão do território - estando as excepções a esta regra geral previstas nos números 2 e 3 do
mesmo art. 77 do CPC.

A propósito, é preciso ter-se em conta que a sucessão abre-se no momento da morte do seu autor
e no lugar do seu último domicílio (art. 2031 CC), que é o do lugar da sua residência habitual, ou

314
Cfr. art. 164/1 do Estatuto Geral dos Funcionários e Agentes do Estado, aprovado pela Lei n. o 14/2009,
de 17 de Março.
315
Pode ser o caso em que, nos termos gerais de direito, venha a ser considerada ineficaz por enfermar de
qualquer vício.
316
Cfr. art. 165/2, alíneas a), b) e c), do EGFAE.

241
de qualquer residência quando resida alternadamente em diversos lugares, ou ainda, não tendo
residência habitual, o seu domicílio será o do lugar da sua residência ocasional (art. 82 CC).

No caso do autor da herança ter falecido no estrangeiro, dispõe a alínea a) do número 2 do art. 77
do CPC, que “Tendo o falecido deixado bens em Moçambique, é competente para o inventário
ou para a habilitação o tribunal do lugar da situação dos imóveis, ou da maior parte deles, ou, na
falta de imóveis, o do lugar onde estiver a maior parte dos móveis”, e caso o falecido não tenha
deixado bens em Moçambique, será competente para a habilitação o tribunal do domicílio do
habilitando (art. 77/2, al. b), CPC).

 Nomeação de cabeça-de-casal. Suas funções.

Recebido na secretaria do tribunal judicial o requerimento, instruído pelo menos da certidão de


óbito do autor da herança e feita a distribuição a determinada secção, se for o caso, após a sua
autuação e registo é o processo especial de inventário obrigatório presente ao juiz com conclusão
que, após analisar o requerimento e verificar os documentos juntos aos autos, não tendo motivos
para considerar que o cargo de cabeça-de-casal ou o cabeçalato deve ser deferido a pessoa
diversa da indicada no requerimento, proferirá despacho que pode revestir os seguintes temos:

“Para cabeça-de-casal nomeio a senhora …(nome completo), a qual deverá prestar juramento e
legais declarações no dia …(data), pelas …(horas).
Cite-se nos termos do art. 1327, no. 4 do CPC.

Data
assinatura”

O cabeça-de-casal, uma das figuras mais importantes no processo de inventário obrigatório,


exerce funções dentro e fora do processo. Dentro do processo tem, entre outras, as funções de
arrolar e descrever os bens da herança (arts. 1327/4 e 1337, ambos do CPC), e fora do processo
tem funções de administrador dos bens (arts. 2079 e 2087, CC).

Fora do processo, tendo em atenção as disposições do art. 2090 CC, no exercício da função de
administração da herança, o cabeça-de-casal pratica ou deve praticar actos necessários e
indispensáveis à boa conservação do património hereditário, designadamente “manter
arrendadas as propriedades e cobrar as respectivas rendas; colher os frutos e alienar os
deterioráveis; continuar o giro comercial ou a indústria do inventariado...; efectuar as obras
necessárias à conservação dos bens da herança; pagar os impostos e contribuições em dívida;
pagar a água, a luz, os salários, prémios de seguro e despesas com o funeral e sufrágios do autor
da herança, etc.”317.

Fora do processo, o cabeça-de-casal tem ainda o direito de mover acções possessórias com vista
a entrega ou a manutenção da posse dos bens da herança, podendo mover tais acções mesmo
contra os demais herdeiros, bem assim de mover outras acções para cobrança de dívidas da

317
DE SÁ, Domingos Silva Carvalho, Op. Cit., página 51.

242
herança ou de despejo; representar a herança em acções contra ela movidas, etc. (arts. 2088 e
2089, [Link]).

O cabeça-de-casal deve prestar contas anualmente da administração que faz da herança (art. 2093
CC).

Uma vez nomeado para cabeça-de-casal, em cumprimento da ordem do juiz da causa que ordena
a sua citação nos termos do art. 1327/4 CPC, o cabeça-de-casal ora nomeado é advertido no acto
da sua citação de que no acto de declarações que deverá prestar nos termos do art. 1327/3,
alíneas a) a d), do CPC, deverá apresentar testamentos, contratos antenupciais, escrituras de
doação e documentos comprovativos da perfilhação dos filhos, bem como a relação de todos os
bens que vão constar no inventário, para o que far-se-á constar do mandado de citação tal facto.

Não apresentando todos ou alguns dos elementos exigidos, o cabeça-de-casal deverá explicar os
motivos da sua falta, designando-se prazo para apresentá-los.
Após ter prestado juramento legal de bem desempenhar o cargo, juramento que sendo um acto
pessoal não pode ser delegado noutra pessoa318, o cabeça-de-casal presta declarações nas quais
identifica o autor da herança, data e lugar em que faleceu, identifica os herdeiros e menciona
demais elementos pertinentes e necessários ao desenvolvimento do processo (art. 1327/1 e 3,
alíneas a) a d), e art. 1326/3, ambos do CPC). Das declarações de cabeça-de-casal é lavrado um
auto.

 Fim ou prosseguimento do processo.

Prestadas as declarações pelo cabeça-de-casal, pode suceder, como nalguns casos acontece, que
se constate não haver fundamento para inventário, mostrando a prática que tal ocorre quando
não existam bens a partilhar. Em tal hipótese será ouvido o MP enquanto requerente e analisados
os documentos constantes dos autos, após o que confirmando-se inexistir fundamento para o
inventário e, por conseguinte, não dever prosseguir, será este dado por findo nos termos do art.
1328/1 e 2, CPC.

Situação diversa seria aquela em que após a prestação de declarações pelo cabeça-de-casal nada
indique inexistir fundamento para o inventário, mas que com o desenvolvimento do processo
venha a se apurar que não existem bens a partilhar em virtude de vier a se constatar que os bens
relacionados foram vendidos pelo autor da herança em vida, ou que as contas bancárias
relacionadas têm saldo zero, ou mesmo negativo, o que se pode apurar após a remessa de
informações pelos bancos uma vez oficiadas para o efeito pelo tribunal. Neste caso, o processo
se extinguiria por inutilidade superveniente da lide ao abrigo das disposições do artigo 287, al.
e), CPC, visto que teria se constatado ser inútil o seu prosseguimento numa fase posterior à da
prestação de declarações pelo cabeça-de-casal.

Feito o juramento legal, as declarações que o cabeça-de-casal deve prestar pode delegá-las em
318

mandatário judicial (art. 1327/3 CPC).

243
[Link]ção de todos interessados e do Ministério Público para os termos
do inventário e exame da relação de bens

 Citação de todos interessados e do Ministério Público para os termos do inventário.

Não se constatando existir fundamento determinativo do fim do processo logo após a prestação
de declarações pelo cabeça-de-casal, o processo deverá prosseguir, e assim são citados para os
seus termos o MP, os interessados na partilha da herança e seus cônjuges, os legatários, os
credores da herança e os donatários, não sendo o cabeça-de-casal citado, mas sim notificado do
despacho que ordena tal citação (art. 1329/1 CPC), os quais poderão deduzir oposição ao
inventário quando entendam inexistir fundamento para o mesmo, impugnar a sua própria
legitimidade ou de outras pessoas citadas para intervir no processo, bem assim a competência do
cabeça-de-casal (art. 1332/1 e 1333/1, ambos do CPC).

Existindo menores, como em regra existem nos inventários obrigatórios, estes enquanto
incapazes são representados pelo seu representante legal (no caso o progenitor - pai ou mãe -
sobrevivo) a quem compete o exercício do poder parental (arts. 287, 309 a 313, Lei n o. 10/2004,
de 25 de Agosto), e quando este concorra com eles à partilha por eventualmente ser cônjuge
sobrevivo com direito a meação, aos incapazes é nomeado curador319 que os represente em todos
os actos (art. 1331/1 CPC), e quanto ao ausente quando o mesmo não compareça e nem tenha
sido deferida a curadoria320, é representado também por um curador (art. 1331/2 CPC).

Existindo algum interdito ou inabilitado, será representado pelo seu tutor e curador,
respectivamente. Às pessoas incapacitadas em virtude de anomalia psíquica ou outro motivo
grave (surdez-mudez, cegueira, paralisia), mas que não tenham sido judicialmente interditas ou
inabilitadas, é nomeado curador especial (arts. 14 e 236, ambos CPC).

A escusa do cargo de cabeça-de-casal, ou seja, a impugnação pelo cabeça-de-casal da sua


legitimidade, constitui um incidente do inventário nos termos do art. 1401, que manda aplicar o
prescrito no art. 1400, ambos do CPC. Outro incidente do inventário susceptível de ocorrer é o
da remoção do cabeça-de-casal regulado pelas disposições do art. 1399 CPC, o qual poderá
ocorrer sempre que se verifique uma das situações previstas pelo art. 2086 CC.

Aos credores da herança é vedada a dedução de qualquer destes incidentes (art. 1333/2 CPC).

 Exame da relação de bens

Como se referiu anteriormente, na acto da sua citação nos termos do art. 1327/4 CPC, o cabeça-
de-casal é expressamente advertido para, entre outros aspectos, no acto de declarações apresentar
a relação de todos bens que deverão constar do inventário, sendo que a relação deverá ser
elaborada observando-se o disposto nos artigos 1337 e 1338, CPC. Relativamente aos bens cuja
prova de propriedade se exija documento, dever-se-á juntar aos autos o respectivo título de

319
O curador de menor presta juramento, lavrando-se o respectivo auto que assina.
320
A curadoria provisória e definitiva é regulada pelos arts. 89 e seguintes do CC e arts. 1103 e seguintes
do CPC.

244
propriedade comprovativo de que os mesmos pertencem ao inventariado, ou seja, o autor da
herança.

Apresentada a relação de bens, é o processo facultado aos interessados a fim de examinarem a


relação de bens assim apresentada pelo cabeça-de-casal e, para o mesmo efeito, o processo é
presente com vista ao MP, podendo aqueles e este se pronunciar relativamente à relação, como
seria a situação de estarem em falta alguns bens ou terem sido relacionados bens que não fazem
parte da herança, caso em que apresentarão reclamação pertinente, como seria o caso de
acusarem a falta de algum bem da herança ou requererem a exclusão de algum bem relacionado
que não faça parte do acervo hereditário a dividir (arts. 1340, 1342 e 1344, todos do CPC).

[Link]ção dos bens da herança e seu exame pelos intervenientes no


processo

 Descrição dos bens da herança.

Presente o processo com vista ao MP para exame da relação de bens e não se mostrando faltar
qualquer bem nem haver algum que deva ser excluído da relação e, consequentemente, não
havendo nenhuma reclamação, ou apresentada eventualmente alguma reclamação sobre a
relação de bens, uma vez a mesma decidida, presente o processo ao MP com vista promoverá
este que se faça a descrição dos bens da herança, para o que proferirá despacho que pode ser nos
termos que se seguem:

“Promovo que se proceda à descrição dos bens que integram a herança (art. 1350 CPC).

Data
Assinatura”

Concordando o juiz com a promoção, exara despacho que pode ser nestes termos:

“Como se promove
Data
Assinatura”

Ou

“Conforme promovido.

Data
Assinatura”

Ou ainda

“Proceda-se à descrição dos bens (art. 1350 CPC).

245
Data
Assinatura”

Ordenada a descrição por despacho, o processo prossegue elaborando na secretaria do tribunal o


funcionário encarregado do processo a descrição dos bens hereditários, a qual tem por base a
relação de bens apresentada (art. 1350/1 CPC), de modo que na maior parte das vezes é uma
repetição desta.

Como foi anteriormente mencionado, após a prestação de declarações pelo cabeça-de-casal e


prosseguindo o processo, são citados para os seus termos, entre outras pessoas, os credores da
herança (art. 1329/1 CPC). Estes uma vez citados têm a faculdade de reclamarem a descrição de
dívidas que não tenham sido arroladas pelo cabeça-de-casal na relação de bens, podendo fazê-lo
até à conferência de interessados destinada à aprovação do passivo se o credor respectivo tiver
sido citado pessoalmente para os termos do inventário, ou até ser proferido despacho
determinativo da forma de partilha, no caso contrário (art. 1345/1 e 2, CPC).

O credor que não reclame o seu crédito no processo de inventário para que tenha sido citado,
poderá exigir o seu pagamento pelos meios comuns (art. 1345/3 CPC)321.

 Exame da descrição dos bens da herança pelos intervenientes no processo.

Feita a descrição dos bens, são seguidamente citados todos os interessados e dá-se vista ao MP
para eventuais reclamações contra qualquer inexactidão da descrição ou contra o excesso da
avaliação, e ainda para se suscitar qualquer questão que possa influir na partilha (art. 1351, com
referência ao art. 1340/1, ambos do CPC).

Como é sabido, os nascituros têm capacidade sucessória (art. 2033/1 CC), pelo que feita a
descrição dos bens havendo algum interessado nascituro é o inventário suspenso até ao
nascimento deste (art. 1351/2 CPC).

[Link]ção da conferência de interessados

Terminado o prazo para apresentação de eventuais reclamações em torno da descrição de bens e


decididas quaisquer questões que tenham sido levantadas, é realizada conferência de
interessados de que participarão todos interessados para, entre outros aspectos, discutir e

321
A propósito é preciso observar que o credor cauteloso preferirá reclamar o pagamento do seu crédito
em sede de processo de inventário, pois é mais seguro e prático, na medida em que respondendo a
herança pelas dívidas do falecido (art. 2068 CC), só poderá haver partilha pelos interessados quando o
activo seja superior ao passivo, e exigindo o credor o pagamento do seu crédito pelos meios comuns ao
demandar qualquer interessado deverá fazê-lo limitando a sua responsabilidade na medida do que haja
recebido como herança (art. 2071/1 CC), havendo porém o inconveniente de recair sobre o credor o ónus
de provar que o herdeiro recebeu herança bastante para satisfazer o crédito cujo pagamento pretende (art.
2071/2 CC, a contrario senso), a não ser que a herança tenha sido aceite de forma pura e simples.

246
deliberar, por unanimidade, sobre as verbas que vão compor, total ou parcialmente, o quinhão de
cada um deles nos termos previstos pelo art. 1352 do CPC.

Assim sendo, presente o processo com vista ao magistrado do MP, exarará despacho que pode
ser

“Promovo a realização da conferência de interessados (art. 1352 CPC).


Data

Assinatura”
Ou

“Promovo a marcação de data para a realização da conferência de interessados (art. 1352


CPC).
Data

Assinatura”

Segue-se o despacho do juiz, que pode ser nos seguintes termos:


“Para conferência de interessados designo o dia .../…/….

Data
Assinatura”

Na prática, na conferência de interessados os interessados deliberam sobre a forma da partilha


da herança, quando em rigor deviam acordar e deliberar sobre os aspectos previstos no artigo
1352 CPC, pois os interessados têm a oportunidade de se pronunciar sobre a forma de partilha
após a realização da conferência de interessados nos termos do disposto no artigo 1373/1 CPC.

[Link]ções

A realização da conferência de interessados tem por objecto ou assunto a tratar, que os


interessados acordem, “…mas só por unanimidade, sobre as verbas que hão-de compor, no todo
ou em parte, o quinhão de cada um deles e os valores por que devem ser adjudicadas” 322, bem
como “…acordar em que as verbas sejam sorteadas, separadamente ou em lotes, pelos
respectivos quinhões323”, e ainda a deliberação, também por unanimidade, sobre a aprovação do
passivo da herança e a forma por que deverá ser pago (art. 1352/4, 1a parte, CPC).

No entanto, pode suceder que os interessados não cheguem a acordo algum sobre as questões
acima referidas, neste caso nos termos das disposições do artigo 1363 do CPC abre-se licitação
entre eles.

322
Cfr. número 2, do artigo 1352, CPC.
323
Cfr. número 3, do artigo 1352, CPC.

247
Decidindo-se pela abertura de licitação entre os interessados, a sua abertura tem lugar, sendo
possível, no mesmo dia em que foi realizada a conferência de interessados e logo a seguir a ela,
podendo qualquer interessado desistir da declaração de que pretende licitar, faculdade que pode
ser exercida até ao momento em que a respectiva verba seja posta a lanços. Contudo, uma
declaração nesse sentido não impede que a verba seja posta em licitação (art. 1370/1 e 2, CPC),
o que significa que os demais interessados que não tenha desistido participarão dela, não
obstante algum ou alguns interessados ter desistido da mesma.

A licitação entre os interessados em processo de inventário tem a estrutura de uma arrematação,


com a particularidade de que é restrita aos herdeiros e ao cônjuge meeiro, sendo que cada verba
é licitada de per si, excepto se todos concordarem na formação de lotes para licitação, ou no caso
em que algumas verbas não possam separar-se sem inconveniente (art. 1371/1 e 2, CPC).

Determinados interessados podem adquirir em compropriedade bens hereditários que compõem


uma verba ou lote, pois a lei permite que diversos interessados, por acordo, licitem na mesma
verba ou lote a fim de lhes ser adjudicado em comum na partilha, como se depreende do previsto
no artigo 1371/3 do CPC.

Porque a licitação segue a estrutura de uma arrematação, deverá ser feita de acordo com o
formalismo consagrado pelo artigo 897 do CPC na parte aplicável.
Deste modo, ela é presidida pelo juiz, que manda anunciar a abertura da praça e o oficial,
exercendo no acto as funções de pregoeiro, anuncia em voz alta o primeiro lanço que aparecer
acima do valor por que os bens foram postos em licitação e os valores que se sucederem,
tomando conta dos respectivos licitantes, considerando-se finda a licitação quando tiver
anunciado, por três vezes, o lanço mais elevado e o mesmo não for coberto ([Link] 1 e 3, do art.
897, CPC).

A licitação pode ser anulada a requerimento do MP quando entenda que o representante de


algum menor ou equiparado não defende ou não defendeu devidamente na licitação, os direitos e
os interesses do seu representado, sendo que o requerimento para o efeito, devidamente
fundamentado por imperativo legal, deve ser feito imediatamente ou dentro do prazo de cinco
dias, contados da data da licitação (art. 1372/1 CPC).

A procedência da arguição do MP e consequente anulação da licitação, ouvido obviamente o


arguido em respeito ao princípio do contraditório, implica a repetição do acto, para o qual
compete ao MP a representação do menor ou equiparado (2o parágrafo, do n.o 1, artigo 1372,
CPC).

[Link]ção da forma de partilha pelo magistrado do Ministério


Público e despacho determinativo da partilha do juiz

Realizada a conferência de interessados, são ouvidos sobre a forma de partilha da herança os


interessados e o MP, para o que o processo é lhe presente com vista para despacho, que poderá
ser no sentido acordado pelos interessados quando haja unanimidade entre eles e considere tal
acordo como justo.

248
Caso o MP concorde com a deliberação dos interessados sobre a forma de partilha da herança,
que em regra na prática é tomada na conferência de interessados, como aliás já se referiu,
proferirá o seguinte despacho:

“Promovo a efectivação da partilha nos termos deliberados na conferência de interessados (art.


1373/1 CPC).
Data
Assinatura”
Ou

“Promovo a efectivação da partilha em conformidade com o deliberado na conferência de


interessados (art. 1373/1 CPC).

Data
Assinatura”

Ou ainda, supondo que há três interessados e devendo se dividir a herança em três partes iguais,
o despacho pode ser nestes termos:

“Promovo a partilha da herança em três partes iguais correspondentes ao número de


interessados (art. 1373/1 CPC).
Data
Assinatura”

Ouvidos os interessados e o MP sobre a forma de partilha, o tribunal profere seguidamente


despacho determinativo da forma de partilha (art. 1373/2 CPC), o qual pode ser impugnado na
apelação interposta da sentença homologatória da partilha, pois tal despacho poderá ir ou não
ao encontro do pronunciamento dos interessados e do MP no que se refere a forma como
entendem que a partilha deve ser feita, do mesmo modo que a promoção do MP pode ou não ir
de acordo com o pronunciamento dos interessados sobre a forma de partilha, facto que embora
bastante raro, por vezes sucede.

Ao proferir despacho determinativo da forma de partilha, o tribunal poderá fazê-lo nos termos
que a seguir exemplificadamente se indicam:

“Proceda-se à partilha (art. 1373/2 CPC).

Data
Assinatura”

Ou, sendo caso de concordar com a promoção do MP, pode ser

“Como se promove.

249
Data
Assinatura”

Ou ainda,

“Proceda-se em conformidade.

Data
Assinatura”

[Link]ção do mapa de partilha e seu exame pelos interessados

Proferido despacho determinativo da forma de partilha pelo tribunal, é pela secretaria deste
através do funcionário encarregue do processo, em conformidade com o despacho, elaborado
mapa de partilha (art. 1375 CPC), o qual após ter sido rubricado pelo juiz é posto à reclamação
dos interessados, que poderão requerer qualquer rectificação ou reclamar contra qualquer
irregularidade, e para o mesmo efeito dá-se vista ao MP que também poderá requerer qualquer
rectificação ou reclamar contra qualquer irregularidade (art. 1379/1 e 2, CPC).

Para o efeito, o juiz proferirá despacho nesse sentido, que pode ser:

“Rubriquei o mapa de partilha, o qual não contém emendas, rasuras ou entrelinhas. Ponha-o à
reclamação (art. 1379/1 CPC).
Data
Assinatura”

Ou simplesmente,

“À reclamação (art. 1379/1 CPC).


Data
Assinatura”

Posto o mapa de partilha à reclamação do MP, este caso entenda não haver nenhuma
rectificação ou reclamação a fazer, por não se mostrar existir nenhuma irregularidade324, tendo
assim o processo lhe sido presente com vista proferirá despacho que poderá ser:

“Examinei o mapa de partilha que antecede. Nada a reclamar nem a rectificar (art. 1379/2
CPC).
Data
Assinatura”
324
Os casos que por vezes, ainda que raras, dão lugar a rectificações, têm sido de constar no mapa de
partilha nome errado de algum interessado, ou de se mencionar no mapa termos de partilha diversos dos
constantes do despacho determinativo da mesma, aspectos que configuram normalmente pequenos lapsos
por parte do funcionário judicial que intervém no processo para dar cumprimento ao despacho elaborando
o mapa de partilha.

250
[Link]ção por sentença do mapa de partilha pelo tribunal e
remessa do processo à contadoria para efeitos de elaboração da conta

Não havendo reclamação contra o mapa de partilha, ou havendo-a, uma vez decidida, é proferida
sentença homologatória do mapa de partilha pelo tribunal, a qual é susceptível de recurso, com
efeito meramente devolutivo (art. 1382 CPC).

A sentença homologatória reveste termos simples, podendo ser nos seguintes:

“SENTENÇA
Homologo por sentença o mapa de partilha constante a fls… e … dos presentes autos de
inventário obrigatório a que se procedeu por óbito de …(nome do inventariado ou autor da
herança), que foi residente nesta cidade e no qual desempenhou o cargo de cabeça-de-casal …
(nome do cabeça-de-casal ou inventariante), residente no Bairro …(endereço), também nesta
cidade.

Custas pela herança.


Registe e notifique

Data
O Juíz de Direito
Nome”

Ou,

“SENTENÇA
Homologo por sentença a partilha constante a fls… a … do presente processo de inventário
obrigatório, instaurado por óbito de …(nome do inventariado ou autor da herança), no qual foi
cabeça-de-casal ...(nome do cabeça-de-casal).
As custas serão de acordo com o disposto no art. 1383 CPC.

Registe e notifique
Data
O Juiz de Direito
Nome”

Proferida sentença homologatória do mapa de partilha, o processo é remetido à contadoria a fim


de se elaborar a conta, sendo que as custas são pagas pelos herdeiros, pelo meeiro e pelo
usufrutuário (art. 1383 CPC).

[Link] e anulação da partilha

251
Homologada a partilha por sentença pelo juiz, pode ser objecto de emenda ou anulação em
determinadas circunstâncias.

Haverá lugar a emenda da partilha no mesmo inventário, mesmo depois de transitar em julgado
a sentença homologatória, quando tendo havido erro de facto na descrição ou qualificação dos
bens ou qualquer erro susceptível de viciar a vontade das partes, todos os interessados ou seus
representantes acordem na emenda, sem prejuízo do disposto no artigo 667 do CPC (art. 1386/1
e 2, CPC), concretamente a correcção por simples despacho, a requerimento de qualquer das
partes ou oficiosamente pelo juiz, de aspectos relacionados com a omissão do nome dos
interessados, omissão quanto a custas, ou aspectos ligados a erros de escrita ou de cálculo ou a
quaisquer inexactidões devidas a outra omissões ou lapso manifesto.

Pode ocorrer qualquer das situações que nos termos do já citado artigo 1386/1 CPC dão ligar a
emenda da partilha, mas os interessados ou seus representantes não estejam de acordo quanto à
emenda. Neste caso, ela só pode ter lugar fora do inventário em acção instaurada para o efeito,
sendo o prazo para se pedir a anulação de um ano, a contar do conhecimento do erro que serve de
fundamento ao pedido de emenda, desde que tal conhecimento seja posterior à sentença,
seguindo a acção, que é dependência do processo de inventário, processo ordinário ou
sumário325, conforme o valor (art. 1387/1 e 2, CPC).

Relativamente à anulação da partilha judicial já confirmada ou homologada por sentença


passada em julgado, se não for decretada por via do recurso extraordinário326, ela só pode ser
decretada quando algum dos co-herdeiros tenha sido preterido da partilha ou não tenha
intervindo na mesma e se mostre que os demais interessados para tanto concorreram por ter
procedido com dolo ou má fé, devendo a anulação ser pedida no prazo de um ano a contar do
conhecimento da partilha; a acção segue processo ordinário ou sumário, consoante o valor e é
dependência do processo de inventário ([Link] 1 e 2, do art. 1388, com referência ao n. o 2 do art.
1387, ambos do CPC).

Contudo, se algum dos co-herdeiros não tiver outorgado na partilha já homologada por sentença
passada em julgado, sem que para tal nenhum dos outros interessados tenha procedido com dolo
ou má fé, ou seja, que tal não tenha ocorrido por facto imputável a nenhum dos demais
interessados, ou tendo sido preterido em virtude dos outros interessados terem procedido com
dolo ou má fé, se ao invés da anulação da partilha, preferir que a sua quota lhe seja composta
em dinheiro, ao abrigo do n.o 1 do artigo 1389 do CPC, requererá no processo de inventário que
seja convocada a conferência de interessados para se determinar o montante da sua quota,
seguindo o mais previsto nos números 2 a 5 do citado artigo 1389.

325
Sobre o domínio de aplicação do processo ordinário e sumário, veja-se o artigo 462 do CPC, com a
redacção dada pelo Decreto-Lei n.o 1/2009, de 24 de Abril.
326
Integram a espécie de recursos extraordinários a revisão, a oposição de terceiros e a Prerrogativa do
Procurador Geral da República de requerer a suspensão e anulação de sentenças manifestamente injustas
e ilegais (n.o 2, do art. 676, do CPC, com as alterações introduzidas pelo DL n. o 1/2005, de 27 de
Dezembro.

252
[Link].Disposições gerais

O artigo 2039 do CC dá a noção de representação sucessória327 que consiste em a lei chamar os


descendentes de um herdeiro ou legatário a ocupar a posição daquele que não pôde (v.g., por ter
falecido na pendência do inventário) ou não quis aceitar a herança ou o legado (por a/o ter
repudiado).

Assim, caso o meeiro ou algum herdeiro falecer antes de concluído o inventário, o cabeça-de-
casal deve indicar os herdeiros do falecido, notificando-se a indicação aos outros interessados e
citando-se para o inventário as pessoas indicadas, podendo a legitimidade destes ser impugnada
nos termos do artigo 1332 CPC328, tanto pelos interessados como pelas próprias pessoas
indicadas. A falta de impugnação tem como consequência que as pessoas indicadas têm-se como
habilitadas ( art. 1390/1 CPC).

A lei acautela também os direitos dos herdeiros do legatário ou credor que tenha sido citado
para o inventário e que faleça na pendência deste, pois confere-lhes ao abrigo do artigo 1390/2
do CPC a faculdade de fazer-se admitir no processo como interessado usando do meio prescrito
no artigo 1334.

Por razões de economia processual e para obviar à repetição de actos processuais inúteis, porque
desnecessários, tem lugar no mesmo processo o inventário a que haja de proceder-se por
falecimento, depois de feita a partilha, de algum interessado que não deixe outros bens além dos
que lhe foram adjudicados, deferindo-se o juramento de cabeça-de-casal a quem competir e
seguindo-se os demais termos (art. 1391 CPC). Do mesmo modo, devendo o inventário do
cônjuge supérstite “…correr no tribunal em que se procedeu a inventário por óbito do cônjuge
predefunto, os termos necessários para a segunda partilha são lavrados no processo da
primeira”329.

Num e noutro caso não há repetição da avaliação dos bens que já tenham sido avaliados noutro
inventário, a não ser que haja razões para crer que o seu valor se alterou, seja para mais seja para
menos, podendo-se, outrossim, aproveitar para a segunda partilha a descrição já feita no
processo (art. 1393/1 e 2, CPC).

A omissão de alguns bens num processo de inventário implica a realização, no mesmo processo,
de partilha adicional (art. 1395 CPC).

[Link] do inventário

O processo de inventário comporta incidentes que podem ser suscitados na sua pendência,
designadamente a remoção do cabeça-de-casal; a escusa ou exoneração dos cargos da tutela,
327
O direito de representação assiste apenas aos descendentes daquele que não pôde ou não quis aceitar a
herança ou o legado, como se depreende dos artigos 2040, 2041/1, 2042, 2043 e 2058, todos do CC.
328
Redacção dada pelo DL n.o 1/2005, de 27 de Dezembro e DL n.o 1/2009, de 24 de Abril.
329
Cfr. art. 1392/1 CPC.

253
curatela ou curadoria provisória dos bens do ausente; a escusa do cargo de cabeça-de-casal; e a
remoção de cargos da tutela, curatela ou curadoria provisória dos bens do ausente, sendo a
remoção do cabeça-de-casal o incidente mais frequente.

O incidente de remoção de cabeça-de-casal pode ser requerido com base num dos fundamentos
previstos nas alíneas a), b), c) e d), do número 1 do artigo 2086 do CC, designadamente quando:
(1a) tenha havido por parte do cabeça-de-casal ocultação dolosa da existência dos bens
hereditários ou de doações feitas pelo falecido, ou se, também, haja denúncia dolosa de doações
ou encargos inexistentes; (2a) o cabeça-de-casal não faça uma administração prudente e zelosa
do património hereditário, prejudicando obviamente a sua manutenção ou enriquecimento 330; (3a)
quando o cabeça-de-casal não tenha requerido o inventário obrigatório, havendo lugar a este, no
prazo de três meses contados da data em que teve conhecimento da abertura da sucessão, ou não
tenha cumprido no inventário, ainda que não seja obrigatório, os deveres que a lei do processo
lhe impuser331; e (4a) o cabeça-de-casal revele incompetência para o exercício do cargo, que será
aferida com base na sua disponibilidade para praticar todos os actos necessários à manutenção
e/ou enriquecimento da herança até à sua partilha, bem como a sua colaboração com o tribunal.

A lei confere legitimidade para pedir a remoção a qualquer interessado, e no caso de inventário
obrigatório também ao MP (art. 2086/2 CC).

No que se refere a sua tramitação, no requerimento em que se deduza o incidente de remoção do


cabeça-de-casal deve o requerente oferecer de imediato o rol de testemunhas e requerer outros
meios de prova, e o requerido, que é o cabeça-de-casal, é notificado para responder ou deduzir a
oposição que tiver, no prazo de oito dias, devendo também indicar o rol de testemunhas de que
disponha e requerer outros meios de prova (art. 1399/1, com referência aos arts. 302 e 303, todos
do CPC).

As testemunhas que cada parte pode arrolar não pode ser superior a três sobre cada facto, e o
número total não pode ser superior a oito (art. 304/1, aplicável ex vi art. 1399/1, ambos do CPC).

Seguidamente, o juiz profere decisão, e sendo julgado procedente o incidente e


consequentemente removido o cabeça-de-casal, é nomeado outro que tenha legitimidade nos
termos do artigo 2080 do CC (art. 1399/2 CPC).

A remoção pode ter como causa a falta da prática de um acto processual para que o cabeça-de-
casal tenha sido notificado, a exemplo de nos termos do artigo 1327/4 do CPC ter sido
notificado, no acto da prestação de declarações e por decisão do juiz, para em prazo determinado
apresentar a relação de bens e não o fazer, sem qualquer causa justificativa, facto que revelaria
da sua parte incompetência para o exercício do cargo nos termos da alínea d), número 1, artigo
2086 do CC. Em tal hipótese a falta de apresentação da relação de bens pelo cabeça-de-casal
configura incumprimento de decisão judicial e, por conseguinte, fá-lo incorrer no crime de
desobediência qualificada previsto e punido pelos artigos 188 e 189, ambos do CP, visto que
após a sua nomeação para o cargo presta juramento legal de bem desempenhar as funções (art.
330
Fora do processo de inventário constitui competência do cabeça-de-casal administrar os bens
hereditários (arts. 2079 e 2087, [Link]).
331
São deveres impostos pela lei do processo os previstos no artigo 1327/4 CPC.

254
1327/3, 1a parte, CPC), pelo que deve entregar-se ao MP a certidão do facto a fim de promover o
competente procedimento criminal, como estabelece o artigo 1399/3 do CPC.

Conclusão

A morte de determinada pessoa física titular de património desencadeia o fenómeno sucessório


com vista a transmissão das relações jurídicas patrimoniais do falecido à titularidade dos seus
herdeiros, com excepção daquelas que devam extinguir-se por morte do titular, quer por força da
sua natureza, quer por força da lei, e os direitos renunciáveis que devam extinguir-se à morte do
titular por vontade deste, na medida em que em tal caso o património deixado pelo falecido passa
a constituir herança que deve ser deferida aos sucessíveis.

À luz da legislação vigente, a herança deve ser aceite a benefício de inventário quando deferida a
incapazes, interditos, inabilitados e ausentes, o que passa pela instauração do competente
processo de inventário obrigatório pelo Ministério Público, sobre quem aliás impende tal
responsabilidade.

A necessidade imposta por lei de promoção de inventário obrigatório pelo MP, tem a sua razão
de ser se se tiver em conta que a este incumbe a defesa dos interesses dos incapazes e dos
ausentes, sabido que a aceitação da herança a benefício de inventário tem uma função protectora
dos herdeiros relativamente aos credores da herança no que toca ao pagamento das dívidas do
falecido, porquanto tendo os herdeiros aceite a herança a benefício da herança, na eventualidade
de serem demandados pelos credores, estes terão de provar que para além dos bens descritos no
inventário, existem outros pertencentes ao falecido que podem responder pelas dívidas que
deixou.

Além da função protectora, o inventário obrigatório permite acautelar os interesses dos


incapazes, dos menores em particular, e dos ausentes, na medida em que permite uma partilha da
herança tão justa e equitativa possível, visto que tem também por função dividir o património
hereditário pelos herdeiros de forma fiel e equitativa.

Para além de promover a abertura do inventário obrigatório, o MP toma parte activa na sua
tramitação, visto que está na vanguarda das fases porque o processo vai passando desde a sua
abertura até a homologação do mapa de partilha.

Com efeito, via de regra em cada passo que é dado no processo de inventário há uma prévia
promoção do magistrado do MP, como que dando o necessário impulso processual com vista ao
normal desenrolar do processo, se bem que é suposto o magistrado judicial proferir despacho no

255
sentido da promoção do MP quando a mesma seja acertada, e proferir despacho em sentido
diverso do da promoção do MP quando entenda não ser o caso, pois poderá haver erro ou lapso
por parte de um ou dos dois, ainda que raramente sucede.

Face as alterações introduzidas ao Código do Notariado pelo Decreto-Lei n. o 4/2006, de 23 de


Agosto, há que ter em conta que há uma clara intenção do legislador moçambicano em permitir
que menores ou equiparados outorguem em habilitação notarial e consequente partilha
extrajudicial, deixando de ser obrigatório o inventário judicial, mas para tal deverá a reforma
legal nesse sentido se estender aos demais diplomas legais que também regulam questões de
direito sucessório, como é o caso do Código Civil e do Código de Processo Civil.

As fases do processo de inventário obrigatório que, em regra, marcam o seu curso normal, nem
sempre todas elas se verificam, na medida em que há casos em que o processo termina mais
cedo, quando se constate face às declarações da cabeça-de-casal ou dos documentos juntos aos
autos e prova produzida, que não há bens a partilhar, caso em que o MP promoverá que os
mesmos sejam dados por findos ou que sejam extintos por inutilidade superveniente da lide,
consoante se constate inexistir fundamento para o inventário logo após as declarações da cabeça-
de-casal ou numa fase posterior do processo no decurso do mesmo.

Nos termos da lei a conferência de interessados tem por fim, acima de tudo, que os interessados
cheguem a acordo, por unanimidade, sobre as verbas que vão compor, total ou parcialmente, o
quinhão de cada um deles e os valores por que devem ser adjudicadas. Contudo, tal acordo é uma
possibilidade, de modo que não sendo alcançado a solução legal é a abertura de licitação entre os
interessados.

A partilha da herança é homologada por sentença, que uma vez transitada em julgado é
insusceptível de recurso ordinário, porém a partilha assim homologada por sentença passada em
julgado poderá ser objecto de emenda ou anulação nos termos da lei, de modo que pode haver
lugar a emenda da partilha judicial, no mesmo inventário, quando tenha havido erro de facto na
descrição ou qualificação dos bens ou qualquer erro susceptível de viciar a vontade das partes e
todos os interessados ou seus representantes acordem em que ela se faça, e pode haver lugar a
anulação da partilha judicial, ou por via do recurso extraordinário, ou quando algum dos co-
herdeiros tenha sido preterido da partilha ou não tenha intervindo na mesma e se constate que os
demais interessados para o efeito concorreram procedendo com dolo ou má fé.

No decurso do processo de inventário pode haver incidentes, dos quais cabe destaque ao de
remoção do cabeça-de-casal por ser o mais frequente.

-Bibliografia

[Link] SÁ, Domingos Silva Carvalho, Procurador da República, Do Inventário-Descrever,


Avaliar e Partir, Livraria Almedina, 3a Edição, 1998;

256
[Link]ÃO, Hélder Martins, Advogado, Do Inventário-Do requerimento inicial até à sentença
homologatória, Almeida & Leitão, Lda, 10a Edição, 2006;
[Link], Tomás Luís, A Revisão do Processo Civil, Faculdade e Direito da Universidade
Eduardo Mondlane, Central Impressora e Editora de Maputo, SARL, Maputo, 2007.

-Legislação

[Link], Susana, GOUVEIA, Jorge Bacelar e MASSANGAI, Arão Feijão, Código Civil e
Legislação complementar, Maputo, 1996;
[Link] Geral dos Funcionários e Agentes do Estado, aprovado pela Lei n.o 14/2009, de 17 de
Março;
[Link], Jorge Bacelar e Nhamissitane, Emídio Ricardo, Código Penal e Legislação
Complementar, Maputo, 1996;
[Link] no. 24/2007, de 20 de Agosto (Lei da Organização Judiciária);
[Link] no. 10/2004, de 25 de Agosto (Lei da Família);
[Link] no. 8/79, de 3 de Julho (Lei do arrendamento), com a redacção dada pela Lei no. 8/87, de
19 de Setembro;
[Link] n.o 4/2006, de 3 de Maio;
[Link], Abílio, Código de Processo Civil Anotado, Livraria Almedina, Coimbra, 1994.

257
Tema 9 - Direito Comercial

Ribeiro José Cuna

258
Índice

Páginas

Tema 9 - Direito Comercial.........................................................................................................259


Ribeiro José Cuna........................................................................................................................259
Abreviaturas.................................................................................................................................262
Introdução....................................................................................................................................263
[Link] financeiros. Notas introdutórias...............................................................................263
[Link]...................................................................................................................................264
[Link]ção e aspectos relevantes...........................................................................................264
[Link] do Leasing............................................................................................................265
[Link]ção do Leasing.......................................................................................................265
[Link]ância do Leasing..................................................................................................266
[Link] em confronto com a venda a prestações............................................................266
[Link]............................................................................................................................266
[Link]ção e aspectos relevantes...........................................................................................266
[Link] do Franchising......................................................................................................268
[Link]ção do Franchising.................................................................................................269
[Link]ância do Franchising............................................................................................269
[Link] em confronto com o contrato de distribuição.............................................270
[Link]ência..................................................................................................................................270
[Link]ção e aspectos relevantes...........................................................................................270
[Link] da Agência...........................................................................................................270
[Link]ção da Agência......................................................................................................271
[Link]ância da Agência..................................................................................................272
[Link]ência em confronto com o contrato de mandato........................................................272
[Link]................................................................................................................................272
[Link]ção e aspectos relevantes...........................................................................................272
[Link] do Factoring.........................................................................................................273
[Link]ção do Factoring....................................................................................................275
[Link]ância do Factoring................................................................................................275
[Link] e figuras afins.................................................................................................276
2.Títulos de crédito......................................................................................................................276
[Link]ções prévias. Crédito.............................................................................................276
[Link]ção, função e características dos títulos de crédito...........................................................277
[Link]ção dos títulos de crédito........................................................................................280
[Link]...................................................................................................................................281
[Link]ça.............................................................................................................................282

259
[Link]...............................................................................................................................283
[Link] penal do Cheque....................................................................................................284
[Link] comercial.......................................................................................................285
[Link]ção de estabelecimento comercial.................................................................................285
[Link] do estabelecimento comercial..........................................................................285
[Link] e relações jurídicas sobre o estabelecimento comercial...........................................287
[Link] e cessão de exploração...................................................................................288
[Link] comerciais..............................................................................................................289
[Link]ções prévias...........................................................................................................289
[Link], personalidade jurídica, capacidade jurídica e autonomia patrimonial das
sociedades comerciais..............................................................................................................289
4.1.2.Órgãos das sociedades comerciais......................................................................................290
[Link].Assembleia-geral.........................................................................................................291
[Link].Administração..............................................................................................................292
[Link].Fiscalização..................................................................................................................293
[Link] dos titulares dos órgãos sociais..............................................................294
[Link] de sociedades comerciais.............................................................................................296
[Link] comerciais em nome colectivo.........................................................................296
[Link].Da administração e fiscalização da sociedade.............................................................297
[Link] em comandita...................................................................................................297
[Link].Da administração e fiscalização da sociedade.............................................................298
[Link] de capital e indústria........................................................................................299
[Link].Da administração e fiscalização da sociedade.............................................................299
[Link] por quotas.........................................................................................................299
[Link].Sociedades por quotas com um único sócio....................................................................300
[Link].Da administração e fiscalização da sociedade.............................................................300
[Link] anónimas..........................................................................................................302
[Link].Da administração e fiscalização da sociedade.............................................................303
[Link].Administração..........................................................................................................303
[Link].Fiscalização..............................................................................................................306
Conclusão....................................................................................................................................307
-Bibliografia.................................................................................................................................309
-Legislação...................................................................................................................................309

260
Abreviaturas

CC - Código Civil;
[Link] - Código Comercial;
DL - Decreto - Lei.

261
Introdução

No presente texto propomo-nos tratar de matérias de direito comercial, de grande importância


dada a relevância da actividade comercial no sector económico e, consequentemente, a
necessidade do seu domínio.

O exercício da actividade empresarial pressupõe a obtenção de financiamentos, pelo que se


mostra de grande importância a abordagem de meios de obtenção de tal financiamento, que não
necessariamente o crédito bancário.

De grande relevo é a questão relacionada com os títulos de crédito, pois estes permitem a
circulação rápida e segura da riqueza, substituindo neste aspecto a moeda, sendo outrossim
relevante a forma de organização dos agentes económicos de modo desenvolver com sucesso as
suas actividades.

Deste modo, com o objectivo de abordar todos estes aspectos que julgamos bastante importantes
na área comercial, começaremos por tratar dos contratos designados por contratos financeiros,
designadamente o leasing ou contrato de locação financeira, o franchising, a agência e o
factoring ou contrato de cessão financeira, através dos quais determinado empresário comercial
como que obtém financiamento, indispensável ao desenvolvimento de qualquer actividade
comercial.

Seguidamente, trataremos dos títulos de crédito, concretamente a letra, a livrança e o cheque, que
têm grande importância na circulação da riqueza e, por conseguinte, o seu domínio é igualmente
importante no contexto do direito comercial, para terminar com a abordagem em torno do
estabelecimento comercial e das sociedades comerciais, que são também aspectos
particularmente relevantes na área comercial, na medida em que aquele e estes são
indispensáveis à actividade comercial por constituírem formas através das quais a actividade
empresarial é desenvolvida eficazmente.

A novidade da presente versão consiste no facto de, para além da uma referência geral e sumária
aos diversos tipos societários e suas características, fazer-se uma abordagem aos órgãos das
sociedades comerciais em geral e relativamente a cada tipo societário em particular,
nomeadamente a assembleia-geral, a administração e o conselho fiscal ou fiscal único, e as suas
funções e competências, bem como os deveres e obrigações a que os seus titulares estão
adstritos.

262
[Link] financeiros. Notas introdutórias

O Leasing, o Franchising, a Agência e o Factoring são, a par de outros 332, contratos financeiros,
pois dos mesmos resulta a obtenção de um financiamento, este que se reveste de vital e
preponderante importância para o desenvolvimento de qualquer actividade comercial, quer seja a
título individual, quer seja a título colectivo.

Com o objectivo de permitir melhor compreensão em torno dos contratos financeiros em alusão,
iremos na sua abordagem dar particular enfoque à sua noção, importância, partes intervenientes e
direitos e obrigações que sobre estas impendem.

[Link]
[Link]ção e aspectos relevantes

O termo Leasing advém do verbo inglês to lease, que significa arrendar, tratando-se de um
arrendamento com características especiais, como adiante iremos constatar.

Está subjacente à noção de Leasing a ideia de que a realização do lucro não implica,
irremediavelmente, a propriedade de equipamentos, meios de produção ou imóveis afectos à
produção de bens e serviços, bastando, por conseguinte, o direito de determinada empresa ao seu
uso, mediante o pagamento de uma renda mensal, por um período suficientemente longo com
vista a rentabilizar o investimento.

Deste modo, podemos dizer que Leasing, também designado contrato de locação financeira, é o
contrato através do qual uma das partes, o locador, se obriga, mediante retribuição a ceder à
outra, o locatário, o gozo ou uso temporário de uma coisa, móvel ou imóvel, adquirida ou
construída por indicação desta, podendo o locatário comprá-la, decorrido o prazo de vigência do
contrato, por um preço determinado ou determinável mediante critérios fixados no contrato.

Aliás, a lei já nos dá o conceito de locação financeira ao defini-la como sendo “…o contrato
pelo qual uma das partes (locador) se obriga, mediante retribuição, a ceder à outra (locatário)
o gozo temporário de uma coisa, móvel ou imóvel, adquirida ou construída por indicação do
locatário e que este pode comprar, decorrido o período acordado, por um preço determinado ou
determinável mediante simples aplicação dos critérios fixados no contrato;”333.

Através do leasing faz-se a cedência temporário do gozo de uma coisa, móvel ou imóvel, ao
locatário, mediante retribuição por este e amortização do financiamento através da fixação de
uma renda, sendo que o locador mantém a propriedade do bem até ao termo do contrato.

É contrato financeiro também o mútuo.


332

Cfr. art. art. /2, al. p) , Lei n o. 15/99, de 1 d Novembro e art. 1 do Regulamento do Contrato de Locação
333

Financeira (Leasing), aprovado pelo Decreto n. o 45/94, de 12 de Outubro.

263
Em regra, o locatário tem a opção de compra, mediante o pagamento de um valor residual
correspondente a um preço determinado ou determinável, o qual subsiste no termo da vigência
do contrato de locação financeira e efectuados todos os pagamentos (rendas), sendo
correspondente a uma determinada percentagem do preço de aquisição do bem objecto do
contrato. É este valor, designado valor residual, que será o preço de compra, pelo qual o
locatário tem a opção (faculdade) de adquirir o bem.

Fora a faculdade de comprar o bem, o locatário poderá renovar o contrato ou restituir o bem
locado, sendo que neste último caso o bem deverá ser entregue ao locador tal como foi recebido,
ressalvadas as deteriorações decorrentes de uma prudente utilização.

[Link] do Leasing

O leasing é, em regra, utilizado por empresas industriais, comerciais ou profissões liberais, sendo
também utilizado por pessoas singulares ou particulares.

Intervêm no leasing três entidades, nomeadamente o vendedor, que é fabricante ou distribuidor


do bem; o comprador, que é a empresa de leasing e cede o bem locado mantendo a propriedade
do mesmo; e o locatário, que é quem toma o bem locado.

A empresa de leasing ou empresa locadora, ou ainda, na terminologia legal, a sociedade de


locação financeira334, normalmente é uma sociedade comercial, porquanto a necessidade de
disponibilidade de grandes meios económicos, técnicos, de pessoal e outros, para efeitos de
exercício desta actividade obriga a que as entidades que a exerçam assumam a forma de
sociedades comerciais, permitindo a lei que os bancos, instituições de crédito, exerçam
actividade de locação financeira (arts. 3, al. a) e 4/2, Lei n o. 15/99, de 1 d Novembro, com a
redacção dada pela Lei no. 9/2004, de21 de Julho).

[Link]ção do Leasing

O leasing pode cessar por caducidade e resolução.

a) Caducidade – decorrido o prazo fixado no contrato de locação financeira para a sua


vigência, este cessa por caducidade caso o locatário não opte pela sua renovação.

b) Resolução – o leasing pode cessar em consequência da sua resolução com fundamento,


entre outras causas, na dissolução ou liquidação da sociedade locatária, nos termos gerais
de direito ou por causas resultantes de incumprimento nos termos fixados no contrato
(arts. 25, 26 e 30, do Regulamento de Contrato de Locação Financeira, aprovado pelo
Decreto n.o 45/94, de 12 de Outubro).

334
O art. 2/2, al. p), Lei n o. 15/99, de 1 d Novembro, define as sociedades de locação financeira como
sendo “instituições de crédito que têm por objecto exclusivo o exercício da actividade de locação
financeira.”.

264
Também pode dar lugar à resolução do contrato, a morte do locatário, a dissolução ou fusão da
empresa locatária ou a dissolução da sociedade de leasing.

[Link]ância do Leasing

A importância do leasing está ligada ao exercício da actividade económica pelo empresário.

Com efeito, o empresário sempre que no exercício da sua actividade pretenda adquirir meios
necessários à sua actividade, sejam móveis ou imóveis, ou modernizá-los, o que significa fazer
investimento e financiamento335, equaciona várias alternativas, designadamente, adquiri-los
usando para o efeito recursos próprios, contrair empréstimo que lhe permita adquiri-los ou usar a
locação financeira, visto que este contrato financeiro lhe permite também atingir tal objectivo, a
aquisição de meios indispensáveis ao desenvolvimento da sua actividade empresarial.

Dadas as dificuldades da generalidade das empresas em adquirir meios necessários à sua


actividade mediante recursos próprios, bem assim as dificuldades e custos decorrentes da
contracção de empréstimos junto aos bancos, o leasing revela-se de enorme importância como
uma forma de financiamento, porquanto permite o aumento da capacidade de endividamento
sem, contudo, afectar a capacidade de obtenção de empréstimos.

[Link] em confronto com a venda a prestações

No que respeita a figuras afins ao leasing, cumpre fazer referência à venda a prestações.

Na venda a prestações há uma verdadeira transferência da propriedade da coisa objecto do


contrato para o comprador, mediante o preço fraccionado, pelo que não se confunde com o
leasing, em virtude de neste não haver transferência de propriedade do bem, bem assim não há
compra do bem, constituindo a compra apenas uma opção pela qual o locatário poderá decidir
decorrido o prazo de vigência do contrato.

[Link]
[Link]ção e aspectos relevantes

335
O investimento é classificado em investimento de substituição, que deve ser feita quando a
continuidade da exploração depende, dentre outros aspectos, da substituição de equipamentos;
investimento de expansão, quando o investimento visa responder de forma eficaz a aumentos de procura;
investimento de modernização ou inovação, quando o investimento é necessário para melhorar a
qualidade do produto final ou desenvolver novos produtos a colocar no mercado; e investimento
estratégico, quando a longo prazo se pretende efectuar um investimento de modo a alterar de forma
profunda o mercado, a produção e o produto final.

265
Na noção de franchising é preciso ter em atenção os interesses que, como adiante veremos, estão
subjacentes a este tipo de contrato financeiro, designadamente:

 o da empresa franchisadora que dispõe de um determinado mercado para os seus


produtos/serviços, sem necessidade de um investimento correspondente para o efeito;
 o interesse do franchisado (comerciante ou empresa) que, sem perder a sua autonomia,
adquire mediante um investimento, o know how ou saber, a experiência e outros
conhecimentos essenciais ao comércio, integrando-se numa rede.

Tendo em conta os interesses das partes ao contrato de franchising ou contrato de franquia, em


função da actividade económica objecto do contrato pode-se se definir três tipos de contratos de
franchising, nomeadamente o franchising de distribuição, o franchising de serviços e o
franchising de produção.

 Franchising de distribuição – contrato pelo qual o franchisado se obriga a vender


determinados produtos num estabelecimento, com o nome a imagem do franchisado;

 Franchising de serviços - contrato pelo qual o franchisado proporciona determinado


serviço com a marca e técnica do franchisador;

 Franchising de produção - contrato pelo qual o franchisado fabrica, em conformidade


com as indicações do franchisador, determinados produtos que vende com a marca deste
(franchisador).

Acima de tudo, deve-se ter em atenção que o contrato de franchising é um mecanismo “…de
colaboração entre duas ou mais empresas comerciais, uma franchisadora, outra franchisada,
através do qual a primeira, proprietária de um nome ou razão social conhecida por siglas,
símbolos, marca de fabrico, de comércio ou de serviços, assim como de um Know How particular
(próprio), põe à disposição da outra o direito de utilizar, através do pagamento de uma prestação,
um conjunto de produtos ou de serviços, originais ou específicos para explorar obrigatoriamente
e totalmente de acordo com técnicas comerciais experimentadas, de uma forma exclusiva, … a
fim de realizar um melhor impacto sobre o mercado considerado e obter um desenvolvimento
acelerado da actividade comercial das empresas em causa, assim como uma maior rentabilidade
para as duas partes que conservam juridicamente uma independência total.”336.

Embora não se mostre tarefa fácil dar o conceito de franchising, dada a sua complexidade, tendo
em conta os contributos da doutrina e o que acima ficou explanado, numa tentativa de dar um
conceito o menos complexo possível, podemos dizer que franchising é o contrato pelo qual
determinada empresa, designada franchisador, franqueador ou licenciador, de forma exclusiva
e em determinado lugar, concede uma marca de fabrico, de comércio ou de serviços próprios e o
respectivo Know How, para outra empresa, denominada franchisada, franquiada ou licenciada,
a fim de que esta, de modo exclusivo faça a produção, distribuição ou prestação de bens ou
serviços com a marca de fabrico, de comércio ou de serviços concedidos, usando para o efeito

PIZARRO, Sebastião Nobrega e CALIXTO, Margarida Mendes, Contratos Financeiros, Livraria


336

Almedina, 2a Edição, Coimbra, 1995, páginas 116 a 117.

266
também o Know How concedido pelo franchisador, mantendo ambas as partes autonomia
jurídica337.

O franchising é, assim, um método de cooperação e colaboração entre empresas, que permite a


optimização dos seus capitais e iniciativas, e através do mesmo o franchisador autoriza o uso da
sua marca, sigla ou símbolo, cede ao franchisado o Know How inerente a produção ou
distribuição dos produtos ou serviços ligados a marca, sigla ou símbolo, e presta-lhe assistência.
Em contrapartida, sobre o franchisado impende a obrigação de pagar prestações periódicas.

O know how, que está obviamente em constante evolução, é todo o conjunto de procedimentos
comerciais e técnicos usados pelo franchisador, portanto, a sua experiência ou conjunto de
conhecimentos, que são transmitidos ao franchisado por várias formas, podendo ser através de
fichas técnicas ou de sessões de formação e estágios.

A cláusula de exclusividade, que pode ser total ou parcial, tem evidentes implicações na
concorrência, visto que impõe ao franchisador a obrigação de não instalar um concorrente na
zona territorial concedida ao franchisado, e este em contrapartida obriga-se a comercializar
apenas serviços ou produtos do franchisador.

No que respeita ao pagamento de prestações periódicas ou taxa contínua de franchising a cargo


do franchisado, fora o inicial fees ou taxa de integração na rede franchising, trata-se de uma
prestação proporcional ao volume de negócios atingido, um pagamento que em regra tem uma
periodicidade mensal.

[Link] do Franchising

No franchising intervêm duas partes, o franchisador, ou franqueador, e o franchisado, ou


franquiado.

O franchisador geralmente é uma empresa sob a forma de sociedade anónima, o que obviamente
é justificado pela necessidade de possuir uma enorme e forte estrutura produtiva, de modo a
poder financiar os avultados financiamentos impostos pela contínua evolução do know how e
suportar despesas de marketing.

O franchisado poderá ser um empresário em nome individual, sendo contudo essenciais as suas
qualidades e características, pois o franchising é um contrato Intuito Personae, está subjacente o
elemento confiança no franchisado, razão por que o franchisador faz uma selecção do
franchisado que garanta, em princípio, uma melhor execução do contrato a celebrar, dando-lhe
como complemento a formação profissional específica necessária.

O franchisado ou franquiado não tem que ser necessariamente uma empresa, pode ser um empresário
337

em nome individual.

267
[Link]ção do Franchising

O franchising pode cessar por:


a) Caducidade – ocorre com o termo do prazo por que foi celebrado, sendo esta a forma
mais corrente;
b) Resolução – ocorre quando por incumprimento, nos termos convencionados pelas partes,
a parte lesada decide resolver de imediato o contrato, podendo a resolução ser feita nos
termos gerais de direito (art. 801/2 CC).

[Link]ância do Franchising

Às empresas produtoras de bens e serviços de nada adianta se não poderem colocá-los com
eficiência e eficácia no mercado, pois tal é essencial à obtenção do lucro necessário à
manutenção e desenvolvimento da empresa.

A empresa para fazer face a esse desafio poderá colocar, ela mesma, os seus serviços e produtos,
criando e utilizando para o efeito redes de filiais ou sucursais, ou então optar pela nomeação e
contratação de agentes distribuidores.

A criação de redes de filiais e sucursais revela-se desvantajosa, dados os custos que tal
pressupõe.

Deste modo, o franchising, enquanto método de cooperação e colaboração entre empresas, por
permitir a optimização dos seus capitais e iniciativas empresariais, mostra-se de capital
importância na prossecução do objectivo de colocação, em maior medida, de produtos e serviços
no mercado.

Com efeito, por um lado, o franchising permite um cada vez maior conhecimento da marca do
franchisador e dos produtos e serviços a ela associados e, consequentemente, uma maior
penetração no mercado, criando condições necessárias à sua expansão e desenvolvimento, sem
necessidade de um grande investimento (como teria de o fazer se tivesse de criar
sucursais/filiais), com ganhos acrescidos uma vez que contará com os pagamentos do
franchisado (prestações periódicas e preço de aquisição dos produtos/serviços fornecidos).

Por outro lado, o franchising permite que o franchisado adquira o direito ao uso de uma marca, o
Know How inerente e assistência necessária ao desenvolvimento da actividade relacionada com a
produção ou distribuição de produtos ou serviços, sem grandes constrangimentos financeiros por
tal permitir o acesso ao crédito bancário por parte do franchisado (para suportar o investimento
inicial relacionado com a aquisição de instalações, sua preparação e inicial fees, ou seja,
pagamento de uma taxa de franchising ou direito de entrada no sistema de franchising),
dependendo do nível de conhecimento público do franchisador.

268
[Link] em confronto com o contrato de distribuição

O contrato de distribuição, é um contrato de compra e venda de produtos, em que o comprador


procede à posterior revenda. Ora, se neste aspecto não encontramos grandes diferenças com o
franchising, qualquer confusão entre estes dois contratos fica ultrapassada se se tiver em conta
que no franchising há cedência do know how e assistência por forma a garantir a qualidade dos
produtos e serviços distribuídos ou vendidos.

[Link]ência
[Link]ção e aspectos relevantes

Tendo em conta os elementos que o compõem e os contributos da doutrina, o contrato de agência


pode ser definido como sendo o contrato pelo qual uma das partes, o agente, se obriga a
promover, de forma autónoma e mediante retribuição por conta da outra, o proponente, a
celebração de contratos e a venda de produtos num determinado círculo de clientes que lhe pode
ser atribuído.

O Código Comercial, aprovado pelo DL n. o 2/2005, de 27 de Dezembro, no seu artigo 522 dá a


noção de contrato de agência como sendo “… o contrato pelo qual uma das partes se obriga a
promover por conta da outra a celebração de contratos, de modo autónomo e estável e mediante a
retribuição, podendo ser-lhe atribuída certa zona ou determinado círculo de clientes”.

O contrato de agência tem assim por objecto a actividade de prospecção do mercado pelo agente
e a promoção de venda de produtos do proponente e de celebração de contratos entre este e a
clientela.

Embora o agente actue por conta do proponente, também designado principal, não perde por
esse facto a sua autonomia na actividade por ela desenvolvida, consubstanciando-se a sua
autonomia na liberdade de organizar a sua própria actividade, cabendo ao principal ou
proponente fornecer ao agente toda as informações necessárias ao desempenho da sua actividade.

Entre o agente e o principal há uma relação de dependência e, ligada a esta relação de


dependência, há a autonomia do agente no exercício da sua actividade.

Pela actividade desenvolvida é devida uma retribuição pelo principal ao agente, a qual traduz-se
no pagamento de uma comissão, calculada em função do número e valor dos negócios, bem
como do grau de envolvimento e responsabilidade do agente.

[Link] da Agência

São partes do contrato de agência o agente, o principal ou proponente, e o cliente. Portanto, este
tipo de contrato tem um carácter tripartido no que toca aos sujeitos intervenientes.
269
Contudo, o contrato de agência é celebrado apenas entre duas partes ou dois sujeitos, o agente e
o principal. O cliente tem intervenção numa fase posterior quando promovida pelo agente a
celebração do contrato com o principal, o contrato venha efectivamente a materializar-se.

O agente pode ser, quer uma pessoa singular, quer uma pessoa colectiva.

São obrigações do agente:

a) Representar os interesses comerciais do principal através da promoção da celebração de


contratos entre este e a clientela;
b) Actuar por conta do principal num determinado círculo de clientes;
c) Não exercer, no mesmo círculo de clientes, na vigência do contrato e até dois anos após a
sua cessação, actividades concorrentes com as do principal, e não promover a celebração
de contratos por conta e a favor de outros principais, ainda que seja de diferente ramo de
negócios - exclusividade -, salvo convenção em contrário (arts. 527, [Link] 1 e 2, e 532,
[Link]);
d) Guardar sigilo, mesmo após a cessação do contrato, sobre os segredos do principal de que
tenha tomado conhecimento no exercício da sua actividade ou que lhe tenham sido
confiados (art. 531 [Link]).

São obrigações do principal:

a) Fornecer ao agente as informações necessárias ao desenvolvimento da sua actividade;


b) Pagar ao agente retribuição pelo desenvolvimento da actividade;
c) Não recorrer a outros agentes para o mesmo ramo de actividade – exclusividade – salvo
convenção em contrário (art. 526/1 [Link]).

[Link]ção da Agência

O contrato de agência pode cessar por:

a) Mútuo acordo – quando o contrato cessa mediante acordo das partes, sob forma escrita,
decidindo pôr termo à relação contratual (art. 546 [Link]);
b) Caducidade - decorrido o prazo acordado para a sua duração; verificada a condição
resolutiva ou, sendo a condição suspensiva, quando se torne certo que ela não pode
verificar-se; por morte ou pela extinção do agente, consoante seja uma pessoa singular ou
colectiva; e pela falência do agente ou do principal (art. 547, alíneas a), b), c) e d),
[Link]);
c) Denúncia – quando no contrato de agência por tempo indeterminado uma das partes
comunica à outra, por escrito, a sua pretensão de pôr termo ao contrato com antecedência
fixada pela lei (art. 549 [Link]);
d) Rescisão – com fundamento na violação da cláusula de exclusividade pelo agente ou pelo
principal (arts. 526/2 e 527/3, [Link]);

270
e) Resolução – ocorre quando uma das partes resolve o contrato em virtude da outra parte
ter faltado ao cumprimento das suas obrigações ou quando tenham ocorrido
circunstâncias que tornem impossível ou prejudiquem gravemente a realização do fim
contratual, devendo a resolução revestir forma escrita (art. 551 [Link]).

[Link]ância da Agência

A produção de determinados bens para que dela resultem ganhos para o produtor é necessário
que este assegure a sua comercialização, para o que tem de conquistar mercados, internos e
externos, sendo que nessa procura de conquista de mercados, que deve ser permanente de forma
a alargar o leque dos clientes, deparar-se-á com a concorrência de outros produtores, pelo que tal
actividade implica da sua parte o estabelecimento de relações comerciais complexas.

Tendo em conta o peso empresarial decorrente da acumulação da actividade produtiva e do


escoamento e colocação dos bens produzidos no mercado, visto que a utilização pelo produtor
dos seus próprios trabalhadores, que deverá deslocá-los para locais distantes, para além de ser
menos eficaz, acarreta elevados custos de organização, o recurso a intermediários que, com a
sua própria organização, capacidade e credibilidade junto aos consumidores, vão se encarregar
da difusão e divulgação dos produtos no mercado, levando os clientes a comprá-los, revela-se
como uma alternativa cómoda e rentável para o produtor, o que passa pela celebração do contrato
de agência.

Deste modo, a importância do contrato de agência reside justamente no facto de permitir ao


produtor para, com recurso a intermediários, os agentes, procurar e conquistar novos mercados,
colocar os bens produzidos, aumentando consequentemente a sua produtividade, a custos baixos
do que se tivesse de o fazer usando seus próprios meios e sua organização.

[Link]ência em confronto com o contrato de mandato

Contrato de mandato – o contrato de mandato envolve única e tipicamente a prática de actos


jurídicos (art. 1157 CC), não se confundindo deste modo com o contrato de agência, na medida
em que neste o agente pratica fundamentalmente actos materiais, só celebrando contratos
quando excepcionalmente tenha sido autorizado a fazê-lo pelo principal, pelo que a celebração
de contratos, enquanto acto jurídico, aparece como actividade acessória da obrigação de
promover a celebração de contratos e de promover a venda de bens.

[Link]
[Link]ção e aspectos relevantes

Tendo em conta as obrigações que impendem sobre as partes do contrato de factoring, que
adiante serão objecto de referência, bem como contributos da doutrina, o factoring, também

271
designado contrato de cessão financeira, pode ser definido como o contrato pelo qual uma das
partes, o aderente, se obriga a ceder a globalidade dos seus créditos documentados, presentes e
futuros, decorrentes do fornecimento de bens ou da prestação de serviços a terceiro (devedor), e
outra, o factor, se obriga a proceder à sua cobrança, podendo reembolsar antecipadamente o
respectivo valor à data do seu vencimento e assumir o risco de não cumprimento por parte do
devedor.

Temos também uma definição legal do que seja factoring ou cessão financeira, segundo a qual é
“…o contrato pelo qual uma das partes (factor) adquire, da outra (aderente), créditos a curto
prazo, derivados da venda de produtos ou da prestação de serviços a uma terceira pessoa
(devedor);”338.

Na definição de factoring ressalta uma figura contratual, a cessão de créditos cujo regime está
consagrado nos artigos 577 a 588 do Código Civil, sendo assim estes dispositivos legais
aplicáveis ao contrato de factoring.

Da noção de factoring acima dada ressalta também que o aderente se obriga a ceder, durante
determinado tempo de vigência do contrato, a globalidade de créditos, o que significa que a
cessão abrange todos os créditos do cedente ou aderente, não podendo assim este escolher os
créditos a ceder da sua parte.

No entanto, as partes fazendo uso da liberdade contratual consagrada no art. 405 do CC poderão
convencionar no contrato algumas restrições, limitando a cessão a determinado ramo de
actividade do aderente.

Os créditos que o aderente se obriga a ceder são presentes e futuros, ou seja, aquele cede ao
factor não apenas os créditos que detém sobre terceiros, seus devedores, como também os que
venha a constituir.

A relação contratual que se estabelece entre o aderente e o factor consubstancia-se, por um lado,
mediante a cessão de créditos pelo primeiro e, por outro lado, na assunção de responsabilidades
pelo segundo relacionada com a sua cobrança e riscos inerentes.

Através do contrato de factoring é concedido financiamento ao aderente quando haja antecipação


de fundos pelo factor, pois este contrato lhe permite dispor de recursos financeiros que doutro
modo teria de aguardar pela satisfação do crédito pelo devedor.

[Link] do Factoring

São intervenientes do contrato de factoring duas partes, o factor ou cessionário, e o aderente ou


cedente.

338
Cfr. art. 2/2, al. r), 2 a parte, Lei no. 15/99, de 1 de Novembro, na redacção dada pela Lei n o. 9/2004, 21
de Julho.

272
Embora não seja parte do contrato, dada a sua relevância na dinâmica do contrato, importa referir
um terceiro elemento, o devedor.

A actividade de factoring pode ser exercida não só por sociedades comerciais constituídas tendo-
a exclusivamente por seu objecto social (sociedades de factoring), como também pode ser
exercida por bancos enquanto instituições de crédito (arts. 3, al. a) e 4/2, Lei no. 15/99, de 1 d
Novembro, com a redacção dada pela Lei no. 9/2004, de21 de Julho).

O aderente, enquanto parte do contrato de factoring que cede os seus créditos ao factor, em
princípio será uma sociedade comercial, porque esta estará melhor colocada para recorrer a este
tipo contratual, podendo profissionais liberais recorrer aos serviços de factoring.

O devedor é um terceiro relativamente ao contrato, é cliente do aderente e devedor dos créditos


cedidos, devendo a cessão lhe ser notificada, judicial ou extrajudicialmente (art. 583/1 CC).

São obrigações do aderente:

a) Ceder a globalidade dos seus créditos, presentes e futuros, ao factor;


b) Enviar ao factor, periodicamente, as listas dos seus devedores;
c) Notificar os devedores da celebração do contrato de factoring;
d) Garantir a existência e exigibilidade dos créditos cedidos (art. 587/1 CC);
e) Entregar ao factor todos documentos e meios probatórios do crédito cedido, como é caso
de facturas (art. 586 CC);
f) Transmitir ao factor todos os direitos inerentes aos créditos cedidos, designadamente as
garantias (art. 582/1 CC);
g) Remunerar os serviços prestados pelo factor mediante pagamento de uma comissão
sobre o montante dos créditos cedidos ou através do pagamento de juros no caso de
pagamento antecipado por aquele, à data do seu vencimento.

O aderente tendo, por força do contrato, que ceder a globalidade dos seus créditos está
vinculado à exclusividade, pelo que celebrado “…um contrato de factoring, está-lhe vedada a
possibilidade de celebrar contratos semelhantes, com outros factores, durante o período de
vigência daquele contrato.”339.

São obrigações do factor:

a) Proceder à cobrança dos créditos cedidos;


b) A título suplementar, se assim for convencionado, o factor assume as obrigações de
cobertura do risco de incumprimento pelo devedor e do pagamento antecipado,
relativamente à data de vencimento dos créditos cedidos.

Relativamente a obrigação de cobertura do risco de incumprimento pelo devedor, cumpre dizer


que cabe ao factor fazer a selecção dos créditos que serão objecto de transmissão, pelo que em

339
PIZARRO, Sebastião Nobrega e CALIXTO, Margarida Mendes, Op. Cit., página 141.

273
função da apreciação que fizer sobre o risco de insolvabilidade do devedor, poderá cobrir, ou
não, o risco de incumprimento, por parte do devedor.

Quanto ao pagamento antecipado dos créditos cedidos, o factor poder assumir a obrigação de
efectuar o pagamento ao aderente dos créditos cedidos, antes de estarem vencidos, obrigação esta
que a ser assumida pelo factor reveste-se de grande importância para o aderente, dadas as
vantagens da antecipação dos fundos antes do vencimento do crédito respectivo.

[Link]ção do Factoring

Os contratos de factoring têm um prazo determinado de duração ou vigência, o qual é


convencionado pelas partes, pelo que poderão cessar por caducidade decorrido tal período de
duração fixado no contrato.

Os contratos de factoring poderão, também, cessar nos termos gerais de direito mediante
resolução por uma das partes por incumprimento culposo da outra parte (art. 801/2 CC),
podendo as partes acordar no contrato os factos que importem a resolução do contrato.

[Link]ância do Factoring

Determinada empresa no exercício da sua actividade pode deparar com uma complexidade de
tarefas que tornem indispensável a descentralização de algumas funções, de modo a garantir a
sua eficiência e eficácia no seu funcionamento.

A cobrança de créditos resultantes de bens vendidos ou serviços prestados, aparece como uma
tarefa que, além de poder ser morosa, necessita de um acompanhamento permanente, sendo para
o efeito necessário mobilizar meios adequados.

A existência das sociedades que exercem actividades de factoring permite a diversas empresas
desembaraçarem-se da tarefa de cobrar elas próprias os seus créditos decorrentes das suas
actividades, pois têm a possibilidade de os ceder para as sociedades de factoring ao abrigo de
contratos de factoring.

Fora a descentralização de funções, que permite que as empresas se concentrem em outras


tarefas para a quais vão alocar meios que teriam de ser postos ao serviço de cobrança de créditos,
o contrato de factoring reveste-se de particular importância porque, nos casos em que prevê um
pagamento antecipado relativamente à data de cobrança efectiva do crédito cedido ao factor,
funciona como um meio de financiamento alternativo ao recurso ao crédito bancário340, para além
de permitir a transferência de riscos de cobrança dos créditos cedidos ao factor.

340
A par dos bancos e outras instituições, as sociedades de factoring são uma espécie de instituições de
crédito nos termos do art. 3, al. d), Lei no. 15/99, de 1 de Novembro.

274
Portanto, o contrato de factoring permite ao aderente obter resultados vantajosos que se
reflectem, sobretudo, na sua liquidez.

Em contrapartida, vista a sua importância na perspectiva do factor, o contrato de factoring


permite a este contrapartidas financeiras decorrentes da cobrança de comissões sobre o
montante dos créditos cedidos e do pagamento de juros no caso de antecipação de fundos, em
resumo, os serviços do factor são remunerados.

[Link] e figuras afins

O contrato de factoring apresenta semelhanças com o mútuo, quando dele conste a obrigação de
antecipação de fundos pelo factor, mediante o pagamento de juros pelo aderente, e apresenta
similaridades com o seguro de crédito quando o factor assume o risco de insolvabilidade do
devedor, mediante a cobertura de riscos de não pagamento.

Apesar destas semelhanças, o contrato de factoring não se confunde com nenhum dos contratos
anteriormente referidos, o mútuo e o seguro de crédito.

Com efeito, o contrato de mútuo caracteriza-se particularmente pelo facto nele se estipular juros
a pagar pelo mutuário, aspecto este diferenciador do factoring uma vez que neste só há lugar a
juros quando haja antecipação de fundos por parte do factor.

Quanto ao seguro de crédito, embora neste contrato a seguradora garanta a insolvabilidade do


devedor para efeitos de pagamento de determinada dívida resultante de crédito concedido pelo
mutuante, não se confunde com o factoring porque no seguro de crédito não há qualquer
cedência de créditos, diferentemente do que ocorre no factoring.

2.Títulos de crédito

[Link]ções prévias. Crédito

Antes de darmos a noção de título de crédito, importa fazer menção ao crédito, dada a sua
relação com o conceito de título de crédito.

Há crédito quando determinada prestação a realizar pelo devedor seja diferida no tempo, como
sucede numa compra e venda em que fica acordado que o devedor da prestação pecuniária
correspondente ao preço da coisa objecto do contrato realize a prestação que sobre si impende,
no todo em parte, num prazo determinado. É o caso da chamada venda a crédito.

Outra situação de realização diferida da prestação ocorre no contrato de empréstimo, sendo que
neste caso o diferimento da realização da prestação - crédito - não decorre da convenção das
partes, mas da própria estrutura ou conteúdo natural do negócio. A própria estrutura deste

275
negócio implica que a contra-prestação do devedor seja realizada posteriormente, no prazo
fixado no contrato.

Nas duas situações anteriormente referidas há dois pressupostos básicos:

a) A confiança do credor na honestidade e solvabilidade do devedor em termos de poder


cumprir a obrigação no prazo convencionado ou concedido;
b) O decurso do tempo entre a prestação presente do credor e a futura prestação do devedor,
em regra no prazo determinado - carácter diferido (temporalmente) da prestação do
devedor.

O crédito reveste-se, assim, de grande importância no desenvolvimento das actividades


comerciais, por permitir ao comerciante aceder antecipadamente aos bens de capitais (bens
utilizáveis, directa ou indirectamente, para a produção de outros bens) de que carece para
desenvolver a sua actividade comercial, ou pelo menos minimizar o risco próprio da sua
actividade mediante o diferimento do pagamento dos bens fornecidos pelos seus credores, o que
lhe permite tentar vendê-los antes do vencimento da obrigação de efectuar o seu pagamento.

[Link]ção, função e características dos títulos de crédito

Os títulos de crédito são constitutivos dos direitos que neles são mencionados, pois são
indispensáveis para a própria constituição, exercício e transmissão dos direitos neles
mencionados, não podendo consequentemente subsistir sem o respectivo título.

Para além de ser constitutivo do direito que nele é mencionado, o título é indispensável para que
o direito possa ser exercido e transmitido, o que significa que o direito adere permanentemente
ao título. Os títulos são assim documentos

276
dispositivos341, justamente por “…serem imprescindíveis para o exercício e transmissão do
direito que representam”342.

O carácter dispositivo dos títulos de crédito compreende-se dada a sua função jurídico-
económica, na medida em que se destinam a tornar mais simples, rápida e segura a circulação da
riqueza e a concessão do crédito, inspirando confiança aos respectivos portadores. Com a
circulação dos títulos de crédito satisfaz-se de forma eficaz as necessidades da vida económica
no que se refere à simplicidade, rapidez e segurança da circulação da riqueza, pois esta
transmite-se através da mera circulação dos títulos. Daí que segundo Miguel Pupo Correia343 os
títulos de crédito são também designados, por vezes, títulos circuláveis ou títulos negociáveis.

Na esteira da abordagem sobre função jurídico-económica dos títulos de crédito, importa referir a
sua importância para o titular do direito, para o devedor e para terceiros que o adquiram de boa
fé.

Com efeito, quanto ao titular do direito, o título garante ao mesmo que apenas a ele pertence o
direito, o que concorre para o credor conceder crédito pelo meio próprio de cada espécie de
títulos, porquanto este confere maior segurança à sua posição creditícia.

Relativamente ao devedor, é que este fica liberado logo que paga a quem se mostra legitimado
pela posse do título segundo a lei respectiva de circulação, liberando-se também, em princípio,
ainda que essa pessoa não fosse, na realidade, o verdadeiro titular. Não impende, assim, sobre o
devedor, qualquer obrigação de averiguar sobre a titularidade de quem lhe apresente o título,
sendo suficiente que o título seja autêntico e legitime o apresentante.

Enfim, no que toca a terceiros de boa fé que venham a adquirir o título, estes têm a tranquilidade
de que serão, um após outro, sucessivos titulares do direito, sem que lhes possam ser opostas
341
A propósito da indispensabilidade do título para que o direito possa ser exercido e transmitido, o autor
Miguel J. A. Pupo Correia diz que “…o título adere permanentemente ao direito, de modo tal que aquele
é indispensável para que o direito possa ser exercido e transmitido…” (vide Correia, Miguel J. A. Pupo,
Direito Comercial, 10a Edição revista e actualizada, Lisboa, Setembro de 2007, EDIFORUM Edições
Jurídicas, Lda, página 439).

Com o devido respeito por opinião deste autor consagrado, pensamos que dizer que o título adere
permanentemente ao direito, tal transmite a ideia de dependência do título em relação ao direito, quando
na verdade o direito é que está dependente do título, visto que, como diz o próprio consagrado Pupo
Correia, o título é indispensável para que o direito possa ser exercido e transmitido, logo o direito é que
está dependente do título sem o qual, em princípio, não pode ser exercido e transmitido. Por este facto,
somos da opinião que o direito adere permanentemente ao título, e não o contrário. Como diz
BULGARELLI, no “… título de crédito … o direito materializa-se no documento, passando este a
representar assim um direito, normalmente distinto do que lhe deu causa, susceptível de ser transferido,
portanto, de circular de forma simples …valendo pelo que nele se contém …”. Portanto, o “… direito se
incorpora ao documento…” (vide Bulgarelli, Waldirio, Títulos de Crédito, 9 a Edição actualizada, São
Paulo, Editora Atlas S.A., 1992, páginas 52 e 55).
342
CORREIA, Miguel J. A. Pupo, Direito Comercial, 10 a Edição revista e actualizada, Lisboa, Setembro
de 2007, EDIFORUM Edições Jurídicas, Lda, página 439.
343
Ibidem, página 440.

277
pelo devedor as excepções oponíveis aos anteriores possuidores, o que reforça grandemente a
confiança a cada novo titular relativamente ao crédito atestado pelo título, criando-lhe
consequentemente maior predisposição para aceitar o título como meio de pagamento diferido.

Para terminar, dando a noção de título de crédito, há que referir a tentativa de Vivante, citado por
Miguel J. A. Pupo Correia, de condensar numa definição sucinta esta tríplice função e as
consequentes características essenciais do título de crédito, definindo-o como “o documento
necessário para exercitar o direito literal e autónomo nele mencionado”344.

Como vimos acima, a confiança está na base do desempenho da função dos títulos de crédito –
instrumentos de circulação de riqueza. Tal confiança decorre do facto do titular que tem o título
em seu poder estar, por esse facto, habilitado para exercer o direito nele mencionado; cada titular
do título poder, facilmente, transmiti-lo para realizar o seu valor, sem precisar de esperar pelo
cumprimento da obrigação correspondente ao direito nele mencionado; correspondência entre o
teor literal do título e o direito que ele representa; e impossibilidade de pôr em causa a posição
jurídica do actual detentor do título mediante invocação de excepções oponíveis aos anteriores
detentores do título.

Destes elementos proporcionadores de segurança e confiança aos títulos de crédito e da


definição acima dada, resultam as características dos títulos, designadamente a incorporação ou
legitimação, também chamada cartularidade, a circulabilidade, a literalidade e a autonomia.

 Incorporação ou legitimação

A incorporação ou legitimação, também designada cartularidade, significa que é indispensável


a detenção do título para o exercício e transmissão do direito nele mencionado, o chamado
direito cartular. É a materialização do direito no documento, o direito se incorpora ao
documento.

Desta característica resulta que o titular do direito não poderá exercê-lo ou transmiti-lo se não
tiver a posse do título. A posse ou detenção material do título de acordo com as regras que
regulam a sua circulação, confere ao detentor ou possuidor a legitimação formal para exercer ou
transmitir o direito nele mencionado, havendo a presunção jurídica de que o possuidor do título,
em conformidade com as regras da sua circulação, está de boa fé e, por conseguinte, é ele o
verdadeiro dono, o titular do direito (real) sobre o próprio título345.

 Circulabilidade

Os títulos de crédito enquanto instrumentos de circulação de riqueza, para que cumpram a sua
função jurídico-económica, fora o elemento confiança é necessário que a sua titularidade possa
ser transmitida de uma pessoa para outra, sucessivamente, implicando cada transmissão da

CORREIA, Miguel J. A. Pupo, Op. Cit., página 441.


344

345
O título em si é algo diverso do direito nele mencionado. Enquanto bem móvel, porque tratado pela
ordem jurídica como uma coisa, sobre ele incide um direito real enquanto coisa corpórea que lhe tem por
objecto, é este direito real que recai sobre o título que corresponde à titularidade do título de crédito e do
qual resulta a titularidade do direito mencionado no título.

278
titularidade a transmissão do direito nele mencionado. Portanto, os títulos de crédito devem ser
de simples, rápida e segura circulação.

 Literalidade

A literalidade significa que o direito cartular, o direito mencionado no título é um direito literal,
vale apenas nos precisos termos mencionados no título no que se refere ao seu conteúdo,
extensão, limites e modalidades. Esta característica em particular confere confiança ao título de
crédito, visto que, por um lado, o possuidor não pode exigir do devedor o que não conste do
título, podendo, em contrapartida, pode exigir o que nele está mencionado, como é o caso do
valor e prazo, e, por outro lado, o devedor não pode alegar contra o possuidor meios de defesa
não mencionados no título. É “…a medida do direito contido no título.”346.
O carácter literal do título e as consequências daí decorrentes, fazem com que a sua
circularidade seja plena.

 Autonomia.

A autonomia, também é característica essencial dos títulos de crédito, dada a sua importância na
sua circulação.

Por um lado, da autonomia decorre que o direito cartular nele mencionado é novo e diferente do
direito subjacente resultante da relação fundamental que determinou o seu surgimento, não
podendo consequentemente serem opostos ao portador do título, em princípio, meios de defesa
emergentes da relação fundamental que determinou o surgimento do título.

Por outro lado, da autonomia resulta que o direito cartular, o direito mencionado no título, é
autónomo, cada possuidor do título adquire o direito nele referido de forma originária, “…tudo
se passa como se o direito cartular não fosse propriamente transmitido, mas adquirido de forma
originária, de cada vez que o título circula para um novo titular”. 347 Por este facto, ao novo
adquirente não podem ser opostas excepções resultantes da relação fundamental ou relação base
que possam ser opostas ao credor originário (art. 642/2 e 3, [Link]), dando-se assim enormes
garantias ao credor, adquirente de boa fé, com a consequente fácil circulação dos títulos, dada a
confiança que inspiram.

[Link]ção dos títulos de crédito

Os títulos de crédito podem ser classificados de acordo com o critério do conteúdo do direito
cartular e do critério relativo à sua circulação.

Quanto ao conteúdo do direito cartular, os títulos de crédito podem ser:

346
BULGARELLI, Waldirio, Títulos de Crédito, 9 a Edição actualizada, São Paulo, Editora Atlas S.A.,
1992, página 55.
347
CORREIA, Miguel J. A. Pupo, Op. Cit., página 446.

279
a) Títulos de crédito propriamente ditos - aqueles que incorporam direitos de crédito em
sentido estrito, geralmente direitos a uma prestação pecuniária, é o caso das letras,
livranças e cheques;

b) Títulos representativos - aqueles que incorporam direitos sobre determinadas coisas,


regra geral mercadorias, atribuindo ao seu possuidor o direito de crédito à entrega das
mercadorias. Ex: conhecimento de carga ou de embarque.

Os títulos de crédito propriamente ditos e os títulos representativos, no caso em que estes


representem coisas fungíveis, revestem-se de especial importância no âmbito do direito
processual civil, pois configuram, regra geral, títulos executivos nos termos do artigo 46, alínea
c), CPC.

Quanto ao critério da sua circulação, os títulos podem ser:

a) Títulos ao portador – aqueles em que não se identifica o seu titular ou beneficiário,


transmitindo-se mediante a sua entrega ou simples tradição.

Presume-se titular do título ao portador quem for seu detentor ou possuidor. Esta espécie é
emitida sem o preenchimento do nome do beneficiário ou com a indicação “ao portador” (art.
663, [Link] 1 e 2, [Link]);

b) Títulos à ordem – aqueles que são emitidos a favor de determinada pessoa cujo nome é
mencionado como beneficiário, podendo este transmitir o título mediante endosso, ou
seja, simples assinatura feita no próprio documento seguida da sua entrega (arts. 672 e
673, [Link]);

c) Títulos nominativos – aqueles em que se menciona o nome do seu titular e que a sua
circulação requer um formalismo complexo, pois a sua transferência apenas se efectua
plena e eficazmente depois do registo no livro próprio do emitente, indicando-se neste o
nome do novo titular e averbando-se no título, ou entrega-se ao adquirente novo título em
seu nome, averbando-se no registo a entrega (arts. 696 e 697/1, [Link]).

[Link]

A letra é um título através do qual o seu emitente, designado sacador, dá uma ordem pagamento
(saque) de uma determinada quantia, em certo tempo e lugar, a um devedor, denominado sacado,
sendo a ordem de pagamento a favor de uma terceira pessoa (o tomador).

A letra poderá, contudo, ser à ordem do próprio sacador, ou seja, o sacador pode ser
simultaneamente o tomador, pode se indicar a si próprio como tomador, sendo neste caso sacador-
tomador (art. 706, al. a), [Link]).

É evidente que sendo a ordem dada pelo sacador ao sacado a favor do tomador, o sacado terá de se
obrigar a tal, sob pena de o título não o vincular. Assim, o sacado assume a obrigação de pagar a

280
quantia indicada na letra, se e quando aceitar a ordem mediante assinatura do título, acto que se
designa por aceite (arts. 724 e 731, [Link]), passando de sacado para aceitante.

Enquanto título de crédito e, como tal, destinado à circulação, como aliás vimos a circulabilidade
como uma das características dos títulos, a letra circulará através de endosso, do que resulta que um
título à ordem. O tomador enquanto titular da letra pode transmiti-lo a outra pessoa, que será o
endossado, podendo este por sua vez transmiti-lo também por meio endosso, sendo que a
transmissão ser feita inclusivamente a favor do sacado, salvo indicação na própria letra da
intransmissibilidade mediante menção da expressão “não à ordem” (art. 714 [Link]).

Como vimos, por força da característica de autonomia dos títulos de crédito, cada endossado
adquire uma espécie de direito cartular originário, um novo direito, pelo que no caso da letra cada
endosso dará lugar a uma nova obrigação cartular consubstanciada na ordem de pagamento de uma
quantia, numa prestação pecuniária (art. 719/1 [Link]).

O aceitante da letra, sendo a pessoa que assume a obrigação de pagar a quantia mencionada na letra
ao portador legitimado por uma série de endossos feitos de acordo com as regras que a regulam,
será o principal obrigado (art. 731/1 [Link]), mas respondem também pela obrigação, de forma
solidária, todos os subscritores do título - endossantes – e o sacador (arts. 712/1, 718/1 e 750,
[Link]), embora os endossantes e o sacador sejam apenas garantes do pagamento.

Portanto, o sacador ou emitente da letra obriga-se perante o tomador e os sucessivos endossados a


pagar a letra, caso o sacado não assuma a obrigação cartular nela mencionada, não a aceite ou,
tendo a aceite, não proceda ao seu pagamento, o mesmo sucedendo em relação a cada um dos
endossantes que promete ao seu endossado e aos posteriores que a letra será aceite e paga pelo
sacado, estando obrigado a pagá-la se este não o fizer.

Relacionado com a letra existe o aval, acto pelo qual qualquer pessoa ou qualquer um dos
subscritores (avalista) garante, total ou parcialmente, o seu pagamento, escrevendo na própria letra
ou numa folha anexa “bom para aval” ou por qualquer forma equivalente, fazendo depois uma
assinatura (arts. 733 e 734, [Link]).

O avalista fica obrigado pelo pagamento da letra pela mesma forma que a pessoa a favor de quem
deu a garantia, o afiançado e no caso de pagar a letra fica sub-rogado nos direitos resultantes desta
contra o afiançado e demais obrigados (art. 735 [Link]).

Na falta de aceite ou de pagamento da letra, o respectivo portador para exercer as acções legais
contra os obrigados deve comprovar essa falta através do protesto (arts. 746, 747 e 751, [Link]),
salvo se o sacador, um endossante ou um avalista tiver dispensado o protesto pela cláusula “sem
despesas”, “sem protesto” ou outra cláusula equivalente (art. 749 [Link]).

[Link]ça

281
A livrança é uma promessa de pagamento de determinada quantia, em dadas condições de tempo
e lugar, feita pelo seu emitente ou subscritor a favor do tomador ou de um posterior endossado
que no momento do vencimento seja seu legítimo portador.

A livrança é, assim, um título à ordem, transmissível por endosso, dado que nele é mencionado o
beneficiário (art. 778, al. e), [Link]).

A diferença entre a letra e a livrança, reside no facto de o primeiro título ser uma ordem de
pagamento de certa quantia, enquanto no segundo há uma promessa de pagamento. Outra
diferença é que na letra intervêm, em regra, três personagens (sacador, sacado e tomador), ao
passo que na livrança intervêm dois personagens, o subscritor e o tomador.

O subscritor de uma livrança responde por esta da mesma forma que o aceitante de uma letra, ou
seja, é obrigado a pagar a livrança na data do seu vencimento (art. 731/1, aplicável ex vi art.
781/1, [Link]).

À livrança são aplicáveis as disposições reguladoras da letra, na parte em que não sejam
contrárias à natureza daquele título.

Deste modo, entre outros aspectos, a livrança é transmissível por endosso, sendo que os
endossantes, subscritores da livrança348 e o avalista, respondem solidariamente pelo pagamento
desta; no caso da falta de pagamento, o exercício do direito de acção do legítimo portador da
livrança contra os subscritores está condicionado à efectivação de protesto (arts. 714/1, 718/1,
746, 747, 750, 751, todos aplicáveis por força do art. 780/1, [Link]).

[Link]

O cheque traduz uma ordem de pagamento (tal como a letra) de determinada quantia, dada por
um sacador a um sacado, sendo esta sempre uma instituição de crédito ou a ela equiparada, ou
seja, instituições que têm por objecto social receber do público depósitos de dinheiro,
genericamente designados bancos pela Lei n.o 5/98, de 15 de Junho (Lei do Cheque). O cheque é
um meio de pagamento à vista ao próprio depositante dos fundos ou a terceiro (art. 809/1
[Link]).

O cheque é um título de crédito, visto reunir as características deste documento, com particular
ênfase para a circulabilidade, através dele se transmite o crédito, o direito ao pagamento pelo
banco sacado da quantia nele mencionada.

Porque dotado de circulabilidade, o cheque quanto à forma de circulação pode ser título à ordem
e título ao portador, consoante contenha ou não o nome do beneficiário da ordem de pagamento
(art. 786/1, alíneas a) e c), [Link]).

348
Incluindo evidentemente o emitente, pois ele também é subscritor e endossante, neste caso desde que
transmite a livrança a outra pessoa (endossado). Aliás, por força do art. 781/1 [Link].

282
O cheque, enquanto título à ordem, é transmissível por endosso pelo respectivo beneficiário, e
enquanto título ao portador é transmissível mediante simples entrega real (art. 3, corpo e § 1o, e
art. 7, do Decreto n.o 13.004, de 12 de Janeiro de 1927, e art. 795/1 [Link]).

Tal como sucede com a letra e a livrança, o sacador, os endossantes e o avalista do cheque são
solidariamente responsáveis perante o seu legítimo portador pelo seu pagamento, face ao não
pagamento pelo sacado, ficando salvaguardado o afastamento de tal responsabilidade por
determinado endossante mediante a indicação das palavras “sem responsabilidade” ou “sem
garantia” (art. 10, §§ 1o e 2o, e art. 11, do Decreto n.o 13.004, de 12 de Janeiro de 1927 e arts.
793, 799 e 808, do [Link]).

Face a falta de pagamento de um cheque apresentado no prazo legal, o respectivo portador deve
verificar tal falta, nomeadamente através do protesto ou qualquer outra forma legal, a fim de que
possa exercer contra o sacador e demais co-obrigados a competente acção que prescreve no
prazo de seis meses contados do termo do prazo de apresentação para pagamento (arts. 21 e 26,
art. 23 do Decreto n.o 13.004, de 12 de Janeiro de 1927, e arts. 821, 822 e 825/1 e 2, [Link]).

Tendo em conta a sua circulabilidade e consequente risco de perda, destruição ou extravio, o


legislador encontrou formas de garantir que o portador receba efectivamente a quantia nele
mencionada. Assim sucede com o cheque cruzado, que é o cheque atravessado por duas linhas
paralelas no seu rosto, o qual só pode ser pago a um banco ou um cliente do banco sacado (arts.
17 e § 5o, Decreto n.o 13.004, de 12 de Janeiro de 1927, e arts. 818 e 819, [Link]), o que obsta às
consequências de eventual perda ou extravio, pois em qualquer circunstância o beneficiário do
pagamento será identificado por ser, ou um banco, ou cliente do banco sacado.

Outra modalidade de cheque que visa obstar às consequências da sua perda ou extravio, é o
cheque a levar em conta, mencionando-se na sua frente a cláusula “para levar em conta”, o qual
não pode ser pago em numerário, fazendo-se o seu pagamento mediante lançamento de escrita a
favor do portador (crédito em conta, transferência de conta a conta ou compensação), como o
prescreve o art. 18, corpo, Decreto n.o 13.004, de 12 de Janeiro de 1927, e art. 820/1 e 2, [Link].

[Link] penal do Cheque

O cheque, enquanto meio de pagamento que, por um lado, permite a movimentação de fundos
em poder do banco349, quer pelo próprio depositante, quer por terceiro, e por outro lado permite
pagamentos à distância, substituindo-se à moeda reduzindo a circulação desta, se tal constitui
uma grande utilidade aquilo, presta-se porém a fraudes que se traduzem na sua emissão pelo
sacador sem que este disponha de fundos na sua conta bancária para o seu pagamento uma vez
apresentado para o efeito.

Para combater tais fraudes e conferir ao cheque a necessária confiança enquanto título de crédito
e meio de pagamento, o legislador aprovou legislação penal para os casos de emissão de cheque
sem provisão. É assim que é ”…considerada criminosa a emissão de um cheque que, apresentado
O sacador ao emitir um cheque deve fazê-lo dispondo de fundos na sua conta para sua cobertura no
349

banco sacado (art. 784 e 809, [Link]).

283
a pagamento no competente prazo…não for integralmente pago por falta de provisão” 350, sendo
equiparada a tal conduta criminosa a proibição ao banco sacado, dentro do prazo legal da sua
apresentação, do pagamento de cheque emitido e entregue, sem relevante razão de direito, bem
assim o acto de endossar cheque recebido conhecendo-se da falta de provisão (art.11/1, alíneas a)
e b), Lei do Cheque).

O crime de emissão de cheque sem provisão é punível com a moldura penal abstracta de dois a
oito anos de prisão maior (art. 24, Decreto n.o 13.004, de 12 de Janeiro de 1927, com a redacção
dada pelo Decreto-Lei n.o 182/74, de 2 de Maio).

[Link] comercial
[Link]ção de estabelecimento comercial

Estabelecimento comercial é “…o conjunto de elementos reunido e organizado pelo empresário


para através dele exercer a sua actividade comercial, de produção ou circulação de bens ou
prestação de serviços”351.

O estabelecimento comercial é, assim, a organização do empresário mercantil, pois este para


desenvolver devidamente a sua actividade precisa reunir e organizar elementos diversos que os
usará como meio da sua actividade. O estabelecimento comercial tem um titular, aquele que tem
direito sobre ele.

Da noção acima dada podemos dizer que o estabelecimento comercial é um acervo patrimonial,
visto congregar um conjunto de bens e direitos, todos afectos à actividade do empresário porque
destinados à dita actividade.

O estabelecimento comercial carece de um suporte humano, pelo que compreende também um


conjunto de pessoas que actuam com vista à prossecução da finalidade comum da empresa,
podendo reduzir-se à pessoa do empresário na forma mais simples de estrutura empresarial.

O estabelecimento comercial é uma organização funcional, na medida em que os elementos de


que se compõem reunidos pelo empresário para através deles exercer a sua actividade, devem ser
devidamente organizados, conjugados entre si, inter-relacionados, hierarquizados, em
conformidade com as suas específicas naturezas e funções específicas, com vista a permitir que a
actividade mercantil visada seja efectivamente desenvolvida, portanto, que o resultado global
pretendido possa emergir.

Por outro lado, oi estabelecimento comercial é estruturado e organizado tendo em conta


determinado objecto, actividade de determinado ramo da economia. Portanto, é tendo em conta

350
Cfr. art. 23 do Decreto n.o 13.004, de 12 de Janeiro de 1927.
351
CORREIA, Miguel J. A. Pupo, Op. Cit., página 50.

284
as funções específicas que será organizado, estruturado e configurado de determinada forma de
modo a permitir a realização da actividade mercantil específica.

[Link] do estabelecimento comercial

No conjunto de elementos de estabelecimento comercial temos os corpóreos, os incorpóreos, a


clientela e o aviamento.

 Elementos corpóreos

São elementos corpóreos do estabelecimento comercial, os de natureza material, susceptíveis de


apreensão material, nomeadamente as mercadorias, que são bens móveis destinados a ser
vendidos (matérias-primas, produtos semi-acabados e produtos acabados); os meios de trabalho
usados pelo empresário na prossecução das tarefas do estabelecimento, concretamente máquinas
(veículos e outros) e utensílios.

Nos elementos corpóreos abrangem-se também bens móveis, designadamente a mobília das
instalações e outros bens móveis indispensáveis ao normal desenvolvimento da actividade do
empresário através do estabelecimento, estando incluído o dinheiro em caixa.

Quanto a bens imóveis, faz parte de elementos corpóreos do estabelecimento o imóvel onde o
estabelecimento se encontra instalado, contanto tal imóvel pertença ao comerciante, não
pertencendo a este o imóvel integrará o estabelecimento o direito ao respectivo uso, o direito ao
arrendamento, neste caso como elemento incorpóreo.

 Elementos incorpóreos

São considerados elementos incorpóreos do estabelecimento os direitos emergentes de contrato


ou outras fontes, que respeitam ao funcionamento do estabelecimento, como são os casos, entre
outros:

“ - do direito ao arrendamento ou resultante de comodato do imóvel ou imóveis destinados às


instalações;
- dos direitos reais de gozo (v.g., o usufruto de um imóvel, etc.);
- os créditos resultantes de vendas, empréstimos, locações, etc.;
- dos direitos resultantes de certos contratos estritamente relacionados com a esfera de actividade
mercantil, como o de agência, o de distribuição, o de concessão, o de “franchising”, os contratos
de edição e de autorização de produção fonográfica e videográfica…
(…)”352.

 A clientela

352
CORREIA, Miguel J. A. Pupo, Op. Cit., página 53.

285
A clientela, encarada como conjunto de clientes de determinado estabelecimento, pode ser certa
ou virtual. Será certa a clientela, quando resulte de relações contratuais com alguma estabilidade,
que pode ter por base contratos de fornecimento ou de prestação de serviços a clientes durante
certos prazos ou por tempo indeterminado; será virtual a clientela, quando corresponda às
expectativas ou possibilidades de que novos clientes optem pela empresa dirigindo-se à mesma
para adquirir bens ou serviços.

Dada a importância da clientela no rendimento da actividade do empresário, a qual pressupõe


deste a realização de uma trabalho por vezes aturado de marketing de forma a conquistar clientes
com os quais vai celebrar contratos, bem para a sensibilização de mais clientes de modo a levá-
los a optar pela empresa quando pretendam comprar determinados bens ou serviços, o legislador
consagrou no Código Comercial disposições tendentes a proteger a clientela enquanto elemento
do estabelecimento, concretamente para evitar o seu desvio no caso em que o empresário der de
locação, usufruto ou trespasse o seu estabelecimento, pois em tal situação durante um período de
cinco anos contados a partir da data do negócio, o empresário cedente do estabelecimento “não
pode … estabelecer na área de influência e no mesmo ramo de actividade que desempenhava
aquando da efectivação do negócio, salvo o consentimento expresso do outro contraente”353.
Disto resulta que a clientela não pode, em princípio, ser separada de determinado
estabelecimento comercial, porque elemento deste.

O ordenamento jurídico moçambicano não consagra, assim, o direito à clientela, pois proíbe o
próprio empresário que deu o estabelecimento de locação, usufruto ou trespasse de se
estabelecer, durante determinado tempo, na área de influência e no mesmo ramo de actividade
aquando da realização do negócio, embora lhe pertença, em princípio, o mérito pela existência de
tal clientela cujo desvio se pretende evitar. Pelo contrário, o ordenamento jurídico moçambicano
tende a manter a clientela no conjunto dos elementos do estabelecimento comercial.

 Elementos de facto. O aviamento.

O aviamento é capacidade da empresa gerar lucros resultantes do conjunto de factores nela


reunidos. O art. 72/1, in fine, do Código Comercial define o aviamento como sendo a “…
capacidade do estabelecimento de produzir resultados operacionais positivos decorrentes da sua
boa organização”.

Concorrem para o aviamento o conjunto de elementos da empresa, bem assim determinadas


situações de facto que lhe potenciam a lucratividade, tais como “…as relações com os
fornecedores de mercadorias e de crédito (os bancos e demais instituições de crédito), as relações
com os clientes354, a eficiência da organização, a reputação comercial, a posição mais ou menos
forte no mercado, etc.”355.

353
Cfr. art. 76/1 e 2, [Link].
354
As relações com os clientes reconduzem-se à clientela enquanto um dos elementos do estabelecimento
comercial, concorrendo para um elevado índice de aviamento quando devidamente utilizada para esse
efeito.
355
CORREIA, Miguel J. A. Pupo, Op. Cit., página 55.

286
O aviamento, enquanto capacidade lucrativa da empresa e como tal conferindo mais-valia356 a
esta relativamente aos elementos patrimoniais que o integram, naturalmente que será tido em
conta na determinação do respectivo valor global.

[Link] e relações jurídicas sobre o estabelecimento


comercial

O estabelecimento comercial pode ser objecto de direitos e relações jurídicas.

Desde logo, o estabelecimento comercial pode ser objecto de propriedade, tendo em conta que
não obstante o seu carácter incorpóreo, comporta bens corpóreos diversos, que podem ser
móveis e imóveis. Consequentemente, o estabelecimento comercial é susceptível de
reivindicação e demais meios de defesa da propriedade de acções possessórias, bem assim de
usucapião e usufruto (arts. 1276, 1287, 1302 e 1311, do CC, e arts. 76/1, 77/1, al. b), e 78,
[Link]).

Dado ser um acervo patrimonial, o estabelecimento pode ser objecto de penhora e execução em
acção de execução proposta contra o empresário comercial (art. 81/1 [Link]).

[Link] e cessão de exploração

No que se refere às relações jurídicas que podem recair sobre o estabelecimento comercial,
cumpre fazer menção ao trespasse e à cessão da exploração.

 Trespasse

Através do trespasse, que deve revestir forma escrita sob pena de nulidade, o estabelecimento
comercial como unidade é transmitido definitivamente e entre vivos, designando-se trespassante
o alienante, e trespassário o adquirente (art. 71/1, al. b) e n.o 2, art. 73, ambos do [Link], e art.
220 CC). No trespasse o estabelecimento é alienado como um todo unitário.

O trespasse pode ser feito mediante variadas formas, nomeadamente a compra e venda, a troca, a
doação, etc., devendo assim se ter em conta a regulamentação específica de cada um destes
negócios jurídicos.

 Cessão de exploração

Tal como resulta do disposto no art. 71/1, al. a), do Código Comercial, o estabelecimento
comercial pode ser objecto de contrato de locação, usualmente denominado cessão de
exploração ou concessão de exploração do estabelecimento comercial, devendo o contrato
revestir forma escrita, sob pena de nulidade (art. 73 [Link] e 220 CC).

356
Cfr. art. 72/2 [Link].

287
Através do contrato de locação “…o titular do estabelecimento proporciona a outrem,
temporariamente e mediante retribuição, o gozo e fruição do estabelecimento, ou seja, a sua
exploração mercantil. O cedente ou locador demite-se temporariamente do exercício da
actividade comercial, e quem o assume é o cessionário ou locatário” 357, e dada a importância do
estabelecimento comercial para o desenvolvimento da actividade do cessionário ou locatário,
com o objectivo de proteger o ponto empresarial onde se encontrar estabelecido o empresário
comercial cessionário, a lei permite renovação compulsória, não mais do que uma vez, da
locação nos termos aplicáveis do art. 75 [Link].

[Link] comerciais

[Link]ções prévias

A realização de empreendimentos comerciais e industriais geralmente exige meios financeiros e


capacidade de organização e gestão que ultrapassam as disponibilidades e capacidades de um só
indivíduo, daí que tais empreendimentos sejam levados a cabo mediante congregação de esforços
de várias pessoas, pois a união faz a força.

As sociedades comerciais, cujos tipos vêm consagrados no artigo 82/1 [Link], constituem o
instrumento jurídico através do qual a referida congregação ou união de esforços se concretiza.

Antes de fazer uma referência em termos bastantes gerais aos tais tipos de sociedade, importa
tratar primeiro de aspectos ligados ao conceito de sociedade comercial, personalidade jurídica
das sociedades comerciais, capacidade jurídica e sua autonomia patrimonial, e órgãos das
sociedades comerciais.

[Link], personalidade jurídica, capacidade jurídica e autonomia


patrimonial das sociedades comerciais

 Conceito

Tendo em atenção as disposições do art. 83, alínea a), do Código Comercial e do art. 980 do
Código Civil, que se aplica subsidiariamente à matéria comercial 358, a sociedade comercial pode
ser definida como sendo uma organização de factores de produção destinados ao exercício de
uma certa actividade económica, que não seja de mera fruição, destinada à produção, para
venda ou troca sistemática, visando o lucro a repartir pelos associados.

Na sociedade comercial mostram-se particularmente relevantes o elemento finalístico e o


elemento teleológico.

357
CORREIA, Miguel J. A. Pupo, Op. Cit., página 72.
358
Cfr. arts. 1 e 8, do [Link].

288
Com efeito, a sociedade comercial deve ter por fim imediato ou por objecto o exercício de certa
actividade económica que não seja de mera fruição – elemento finalístico -, e deve por fim
mediato a repartição pelos sócios dos lucros resultantes da sua actividade.

 Personalidade jurídica

As sociedades comerciais enquanto pessoas colectivas privadas constituem entidades jurídicas


próprias e distintas de cada um dos seus sócios, portanto, são sujeitos de direitos e obrigações, o
que pressupõe que sejam dotadas de personalidade jurídica que adquirem-na a partir da data do
respectivo acto constitutivo (art. 86 [Link]).

A sociedade comercial, mercê da sua personalidade jurídica, será assim ela própria, e não os
seus sócios, sujeito de direitos e obrigações resultantes de negócios celebrados com terceiros. A
sociedade comercial, porque sujeito de direitos e obrigações ela própria, ou seja, entidade
autónoma, poderá estabelecer relações jurídicas com os próprios sócios, que também para todos
efeitos são havidos como terceiros por não se confundirem com ela.

 Capacidade jurídica

As sociedades comerciais no desenvolvimento da sua actividade económica com vista a


prossecução do seu fim - a obtenção do lucro e sua distribuição pelos sócios - terão de praticar
actos necessários para o efeito, pelo que têm capacidade para praticarem todos actos de que
resultem “…direitos e obrigações necessários, úteis ou convenientes à prossecução do seu
objecto social, salvo aqueles que lhe sejam vedados por lei” 359, é o chamado princípio da
especialidade, pois restringe a capacidade das sociedades comerciais aos actos estritamente
necessários à prossecução do seu fim.

 Autonomia patrimonial

Ligado à personalidade jurídica das sociedades comerciais, porque seu pressuposto, é a


autonomia patrimonial, isto é, o facto de a sociedade ter património próprio, distinto e
independente dos patrimónios dos seus sócios.

Da autonomia patrimonial da sociedade resulta que o seu património, e não qualquer outro, é que
responde pelas suas dívidas, embora haja sociedades em que, em princípio, determinados sócios
podem ser obrigados a responder pelas dívidas da sociedade, mas tal não põe em causa a
autonomia patrimonial da sociedade, visto que tais sócios só respondem pelas dívidas a título
subsidiário, ou seja, depois de excutido o património da sociedade.

Portanto, tais sócios, designados sócios de responsabilidade ilimitada, não respondem


directamente pelas dívidas da sociedade, são apenas garantes das dívidas da sociedade.

359
Cfr. art. 88, n.o 1 [Link].

289
Da autonomia patrimonial da sociedade decorre também que os credores particulares dos sócios
não poderão fazer-se pagar pelos bens da sociedade, pois são credores dos sócios da sociedade e
não da sociedade, esta que é entidade diversa dos sócios.

4.1.2.Órgãos das sociedades comerciais

O funcionamento das sociedades comerciais é garantido por órgãos sociais que para o efeito são
conferidos pela lei e pelos estatutos competências próprias, trata-se em regra da assembleia-
geral, da administração e do conselho fiscal ou fiscal único, sendo por imperativo legal
obrigatória a existência do conselho fiscal ou fiscal único nas sociedades que tenham dez ou
mais sócios, que emitam obrigações ou que revistam a forma de sociedade anónima (art. 127, n. o
1, alíneas a), b) e c), e n.o 2, alíneas a), b) e c), [Link]).

A aceitação por pessoas eleitas ou designadas para o exercício dos cargos sociais deve ser
expressa, visto que deve ser feita por escrito (art. 127, n.o 3, [Link]).

[Link].Assembleia-geral

Em assembleia-geral os sócios reúnem e deliberam nos termos estabelecidos para cada tipo
societário (art. 128/1, [Link]). Sem prejuízo dos estatutos disporem em contrário, é nas reuniões
da assembleia-geral, às quais nos termos do artigo 130/2 do [Link] todos sócios têm direito a
participar, discutir e votar, que são tomadas deliberações respeitantes à vida da sociedade.

Porém, excepcionalmente podem os sócios deliberar sem recurso a assembleia-geral, para o que
todos devem declarar por escrito o sentido do seu voto, em documento que inclua a proposta da
deliberação, devidamente datado, assinado e endereçado à sociedade (art. 128/4 [Link]).

O Código Comercial restringe no seu artigo 131 o direito do sócio a participar, discutir e votar
nas reuniões da assembleia-geral, quando em relação à matéria objecto da deliberação o sócio se
encontre em conflito de interesses com a sociedade, restrição que á válida independentemente de
o sócio votar pessoalmente ou por meio de representante, e ainda quando represente outro sócio
numa votação.

As reuniões da assembleia-geral são ordinárias e extraordinárias. As reuniões ordinárias têm


lugar nos três meses imediatos ao termo de cada exercício e destinam-se a deliberar sobre o
balanço e o relatório da administração referentes ao exercício e sobre a aplicação dos resultados,
quando tenha havido lucros, bem como eleger os administradores e membros do conselho fiscal
ou fiscal único quando se verifiquem vagas nesses órgãos, é o que dispõe o artigo 132/1, alíneas
a), b) e c), [Link].

Para além das questões anteriormente referidas, a assembleia-geral ordinária pode ainda
deliberar sobre a instauração de acções de responsabilidade contra administradores e sobre a

290
destituição daqueles que ela considere responsáveis, não sendo imperioso que esta matéria conste
da ordem dos trabalhos (art. 132/2, [Link]).

Quanto as reuniões extraordinárias da assembleia-geral, têm lugar sempre que são convocadas
pelo presidente da mesa deste órgão ou a requerimento da administração, do conselho fiscal ou
fiscal único ou de sócios que representem, pelo menos dez por cento do capital social (art. 132/3
[Link]).

Seja qual for o número de sócios presentes ou representados na assembleia-geral, em primeira


convocação, ela pode deliberar, a não ser que o contrato disponha em contrário ou a deliberação
tenha por objecto a alteração do contrato de sociedade, fusão, cisão, transformação, dissolução
da sociedade ou outros assuntos para as quais a lei exija maioria qualificada, porque nestes casos
devem estar presentes na reunião da assembleia-geral ou representados sócios que detenham, no
mínimo, participações correspondentes a um terço do capital social (art. 136/1 e 2, [Link]).

Contudo, em conformidade com as disposições do artigo 136/3 [Link], tratando-se de segunda


convocação, a assembleia pode deliberar sobre quaisquer que sejam as questões,
independentemente do número de sócios presentes ou representados e o capital social por eles
representado. Trata-se de obviar a que o funcionamento da sociedade fique paralisado devido a
não comparência dos sócios às reuniões da assembleia-geral.

[Link].Administração

A administração da sociedade pode ser feita por pessoas singulares com plena capacidade
jurídica360 e pessoas colectivas, sendo que a primeira administração deve ser designada pelos
sócios, como prescreve o artigo 149/3, com referência a alínea i) do n.o 1 do artigo 92, ambos do
[Link]. Tendo sido designada administrador uma pessoa colectiva, deve esta nomear uma
pessoa singular para exercer o cargo em sua representação e responde com a pessoa designada
pelos actos da mesma (art. 149/2 [Link]).

Em contrapartida à responsabilidade solidária imposta pela lei à pessoa colectiva, a lei confere-
lhe a faculdade de destituir a pessoa singular que nomeou para exercer o cargo em sua
representação, independentemente de deliberação da assembleia-geral da sociedade (art. 149/4
[Link]).

O administrador tem por dever do cargo trabalhar pelo desenvolvimento e prosperidade da


sociedade, tendo em conta os interesses dos sócios e dos trabalhadores, estando assim de acordo
com as disposições do artigo 150 do [Link] obrigado a actuar com diligência de um gestor
criterioso e coordenado.

Para o exercício da sua função, o administrador da sociedade tem ao abrigo do artigo 151/1 do
[Link], as competências de gestão e representação da sociedade, nos termos estabelecidos para
cada tipo societário, recaindo sobre a sociedade responsabilidade civil pelos actos e omissões do
administrador ou de gerentes designados pela sociedade para o desempenho de algum ramo de
360
Não deve ser um menor ou equiparado, designadamente interdito ou inabilitado por sentença judicial.

291
negócio que se integre no seu objecto, nos mesmos termos em que os comitentes respondem
pelos actos e omissões dos comissários (art. 151/3 [Link])361.

Decorrente dos poderes de representação da sociedade conferidos ao administrador, os actos


praticados por este, mediante aposição da sua assinatura com indicação da sua qualidade, em
nome da sociedade e dentro dos poderes que a lei lhe confere, vinculam-na para com terceiros,
sem prejuízo de opor a estes as limitações dos poderes de representação constantes dos estatutos
ou resultantes das deliberações dos sócios ou do seu objecto social, contanto prove que o terceiro
sabia ou não podia ignorar, tendo em conta a circunstância, e se entretanto a sociedade o não
assumiu, por deliberação expressa ou tácita dos sócios ([Link] 1, 2 e 4, do art. 152, [Link]).

O conhecimento de terceiros das limitações dos poderes de representação constantes dos


estatutos ou resultantes das deliberações dos sócios ou do seu objecto social não pode, contudo,
em conformidade com o artigo 152/3 do [Link], ser provado apenas pela publicidade dada aos
estatutos da sociedade.

O cargo de administrador da sociedade é renunciável por meio de carta dirigida ao conselho de


administração nas condições reguladas pelo artigo 153 do [Link].

[Link].Fiscalização

Ao conselho fiscal compete a fiscalização da sociedade, sem prejuízo dos estatutos


determinarem a sua substituição por um fiscal único. O conselho fiscal é um órgão colegial
composto por três ou cinco membros, devendo estes serem auditores de contas ou sociedade de
auditores de contas (art. 154/1 e 2, [Link]).

Sendo o membro do conselho fiscal uma sociedade de auditores de contas deve designar um
sócio ou um empregado seu, que deverá ser um auditor de contas, para exercer as funções que
lhe são conferidas junto da sociedade, e os restantes membros do conselho fiscal devem ser
pessoas singulares com plena capacidade jurídica (art. 154/3 e 4, [Link]).

Deste modo, o conselho fiscal não poderá comportar mais de um membro que seja uma
sociedade de auditores, ou seja, auditor de contas sob a forma de pessoa colectiva.

A circunstância da sociedade ter um órgão de fiscalização próprio, o conselho fiscal ou fiscal


único, não impede que a fiscalização seja feita também por uma sociedade de auditoria
independente, como se alcança do disposto no n.o 5 do artigo 154 do [Link].

Com vista a garantir a imparcialidade na actuação do conselho fiscal ou fiscal único, o Código
Comercial consagra nas alíneas a), b), c), do n.o 1 e n.o 2, do seu artigo 155, impedimentos para
os respectivos membros, importando a sua superveniência a caducidade automática da
designação (art. 155/3 [Link]).
361
A responsabilidade do comitente pelos danos decorrentes de actos cometidos pelo comissário é
regulada pelo art. 500 do CC, estando salvaguardo a favor do comitente de exigir do comissário o
reembolso de tudo quanto haja pago (direito de regresso), a não ser que haja culpa também da sua parte.

292
Os membros do conselho fiscal e fiscal único são eleitos na assembleia-geral ordinária e
mantêm-se em funções até à assembleia-geral ordinária seguinte, sendo que no acto da eleição
deve ser designado o presidente. Os membros do conselho fiscal e fiscal único poderão, contudo,
ser designados no contrato de sociedade, podendo ser reeleitos (art. 156/1, com referência a
alínea i) do n.o 1 do artigo 92, n.o 2 do artigo 156, do [Link]).

Os sócios podem em assembleia-geral deliberar pela destituição dos membros do conselho fiscal
e fiscal único com fundamento em justa causa. Porém, por respeito ao princípio do contraditório,
tal só pode ocorrer depois de ser dada aos membros oportunidade a fim de que, na assembleia em
que se pretende tomar tal deliberação, apresentarem as razões das suas acções e omissões (art.
156/3 [Link]).

As competências do conselho fiscal e fiscal único estão consagradas no art. 157 do [Link], e
para permitir o cumprimento das suas obrigações têm os poderes constantes das alíneas a) a d),
do n.o 1 do artigo 158, do [Link] e estão vinculados aos deveres consagrados nas alíneas a) a d),
do n.o2, do mesmo artigo e diploma legal.

Os membros do conselho fiscal e fiscal único têm, de acordo com o prescrito no n. o 3 do artigo
158 do [Link], o dever de no exercício das suas funções agir no interesse da sociedade, dos
credores e do público em geral, bem como, atento às suas funções, empregar a diligência de um
fiscal rigoroso e imparcial.

As reuniões do conselho fiscal são convocadas e presididas pelo presidente do órgão, reunindo
sempre que algum membro o requerer ao presidente. O conselho fiscal reúne, pelo menos, uma
vez por trimestre (art. 159/1 e 2, [Link]).

Os membros do conselho fiscal não podem delegar as suas funções e tomam as suas deliberações
por maioria. O conselho só pode reunir estando presentes a maioria dos seus membros (art.
159/3 [Link]).

Das reuniões do conselho é elaborada uma acta que deve ser assinada por todos os membros
presentes. Devem constar da acta as deliberações tomadas, relatório sucinto de todas
verificações, fiscalizações e demais diligências dos seus membros desde a reunião anterior e
respectivos resultados (art. 159/4 [Link]).

Resulta das disposições do n.o 5 do artigo 159 do [Link], que tratando-se de fiscal único, o
relatório sucinto de todas verificações deve, no mínimo uma vez por trimestre, ser exarado no
livro da sociedade ou colado, ou doutro modo incorporado, devidamente assinado.

[Link] dos titulares dos órgãos sociais

Como vimos acima, os administradores no exercício da sua função estão obrigados a trabalhar
pelo desenvolvimento e prosperidade da sociedade, tendo em consideração os interesses dos
associados e dos trabalhadores, devendo o fazer com a diligência de um gestor criterioso, do

293
mesmo modo que os membros do conselho fiscal e fiscal único têm o dever de no exercício das
suas funções agir no interesse da sociedade, dos credores e do público em geral, empregando a
diligência de um fiscal rigoroso e imparcial.

Face estas obrigações inerentes aos órgãos de que são titulares, nos termos das disposições
conjugadas dos [Link] 1 e 4, do artigo 160 do [Link], os administradores respondem
solidariamente para com a sociedade pelos danos decorrentes dos seus actos e omissões, desde
que praticados com violação dos deveres legais ou estatutários, a não ser que provem que,
embora tenham os praticado com preterição dos deveres legais ou estatutários, agiram sem culpa.

Os administradores estão isentos de responsabilidade para com a sociedade em duas situações:

1a Quando os danos resultem de uma deliberação da administração de que não tenham tomado
parte, ou tendo dela participado tenham votado vencidos e não tenham participado na sua
execução, devendo neste caso fazer constar da acta o sentido do seu voto (art. 160/2 [Link]); e

2a Quando o acto ou omissão de que decorre o dano assentar em deliberação dos sócios, ainda
que anulável, excepto se a ela dolosamente deram execução ou se a deliberação foi tomada por
proposta dos próprios administradores (art. 160/3 [Link]).

Porque inerente ao cargo, a responsabilidade dos administradores não é passível de exclusão ou


limitação, sendo nula qualquer cláusula que a exclua ou limite, como resulta do prescrito no art.
161/1 do [Link].

Tendo ocorrido danos causados por actos ou omissões dos administradores, o facto de os sócios
deliberarem pela aprovação do balanço e as contas, não decorre daí que a sociedade renuncie ao
direito à indemnização contra os administradores, só podendo a renúncia ou transacção sobre ele
ser feita mediante deliberação expressa dos sócios sem o voto contrário de uma minoria que
represente, pelo menos, dez por cento do capital social e desde que o dano não constitua
diminuição relevante da garantia dos credores (art. 161/2 e 3, [Link]).

Está dependente da deliberação dos sócios, por maioria simples, a propositura da acção de
responsabilidade pela sociedade, sendo que a deliberação nesse sentido tem como consequência
imediata a destituição dos administradores visados (art. 162/1 e 2, [Link]).

A acção de responsabilidade deve ser proposta pela sociedade no prazo de três meses contados
da data da deliberação dos sócios, podendo o sócio ou sócios de responsabilidade ilimitada ou
que represente capital não inferior a dez por cento, propô-la se entretanto a sociedade não a tiver
intentado, devendo neste caso ser provocada a intervenção da sociedade na acção nos termos
pertinentes da lei de processo362 (art. 162/1, 2a [Link] e art. 163/1 e 2, [Link]).

Para com os credores da sociedade, os administradores respondem quando ao abrigo do art.


164/1 do [Link] o património social se torne insuficiente para a satisfação dos seus créditos em
consequência da inobservância de uma disposição legal ou estatutária que se destine principal ou
exclusivamente a proteger os credores.
362
Sobre a intervenção provocada vejam-se os artigos 356 e seguintes do CPC.

294
Para acautelar a garantia de solvabilidade dos créditos dos credores da sociedade, o Código
Comercial permite-lhes no seu artigo 164/2, exercer o direito à indemnização de que a sociedade
seja titular sempre que haja justo receito de diminuição relevante da garantia patrimonial e a
sociedade ou os sócios o não tenham feito.

Para além de responderem para com a sociedade e credores da sociedade, os administradores


também respondem “, nos termos gerais, para com os sócios e terceiros, pelos danos que a estes
directamente causem no exercício das suas funções”363.

Resulta do n.o 2 do artigo 166 do [Link], que os membros do conselho fiscal e fiscal único
respondem para com a sociedade, os credores da sociedade, os sócios e terceiros, nos mesmos
termos que os administradores, e respondem ainda solidariamente com os administradores pelos
actos e omissões destes nos casos em que o dano não teria ocorrido se tivessem cumprido com a
diligência que se lhe exige as suas obrigações.

As disposições dos artigos 160 a 165 do Código Comercial que regulam a responsabilidade dos
administradores da sociedade aplicam-se, com as necessárias adaptações, aos gerentes e
procuradores da sociedade.

[Link] de sociedades comerciais

As sociedades comerciais podem ser em nome colectivo, de capital e indústria, em comandita,


por quotas e anónimas.

Esta tipologia das sociedades comerciais obedece ao princípio de numerus clausus, na medida
em que determinada sociedade comercial só pode revestir um dos tipos acima mencionados,
como se constata do prescrito no art. 82/1 e 2, [Link].

Iremos abordar, em termos muito gerais, cada um dos tipos societários acima mencionados,
referindo as características básicas de cada um deles.

[Link] comerciais em nome colectivo

As sociedades comerciais em nome colectivo caracterizam-se pelo facto dos sócios responderem
subsidiariamente pelas obrigações da sociedade (art. 253/1 [Link]), ou seja, os sócios têm
responsabilidade ilimitada, embora sejam apenas chamados a tal responsabilidade uma vez
excutido o património da sociedade.

Dado o carácter ilimitado da responsabilidade neste tipo societário, para obstar a eventuais
fraudes decorrentes de comportamentos de determinadas pessoas, e para não defraudar
expectativas legítimas de credores, aquele que não sendo sócio da sociedade, comporte-se
363
Cfr. Art. 165 do [Link].

295
perante terceiros como se fosse – sócio de facto -, responde solidariamente com os sócios para
com a pessoa que tenha negociado na convicção de tal pessoa ser sócio (art. 253/4 [Link]).

As sociedades comerciais em nome colectivo são sociedades Intuito Personae, isto é,


pressupõem ou assentam na confiança entre os seus sócios, daí que para que determinado sócio
possa transmitir a sua parte na sociedade validamente, entre vivos, tal está sujeito a
consentimento de todos os outros (art. 259/1 [Link]), o que impede a eventual entrada na
sociedade de novo sócio que não seja da confiança dos demais.

[Link].Da administração e fiscalização da sociedade

No que se refere a administração, esta é feita por todos os sócios, independentemente de terem
constituído a sociedade ou terem adquirido essa qualidade posteriormente, salvo se o estatuto
dispuser em contrário. Contudo, os sócios podem eleger para administradores, mediante
deliberação, pessoas que não sejam sócios (art. 267/1 e 2, [Link]).

Nos termos das disposições do n.o 3 do art. 267 do [Link], a destituição de um administrador
que tenha a qualidade de sócio, só pode ocorrer havendo justa causa e por deliberação tomada
por maioria dos restantes sócios ou por decisão judicial proferida em acção proposta por
qualquer deles, excepto se o estatuto estipular em contrário.

Tendo o administrador a qualidade de sócio e tendo a sociedade somente dois sócios, ou tendo
mais de dois sócios e o sócio-administrador tenha sido designado para o órgão por cláusula
especial dos estatutos, a sua destituição apenas pode ser decidida pelo tribunal, é o que
prescreve o n.o 4 d art. 267 do [Link]. Se não tiver a qualidade de sócio, o administrador pode
ser destituído a todo tempo, desde que para tal concorram os votos de todos sócios ou da maioria
deles, se houver justa causa (art. 267/5 [Link]).

No que toca a fiscalização da sociedade, não havendo conselho fiscal ou fiscal único364, ela cabe
a todos sócios (art. 267/6 [Link]).

Na sociedade em nome colectivo os administradores, a quem competem a gestão e


representação da sociedade, têm poderes iguais e independentes, a não ser que o estatuto
disponha em sentido contrário, o que significa que qualquer um deles pode obrigar a sociedade
independentemente da intervenção dos demais, bastando a sua assinatura acompanhada com a
menção da qualidade em que intervém, que pode ser indicada mediante aposição de carimbo da
administração ou selo da sociedade (art. 268/1 e 2, [Link]).

Contudo, em conformidade com o prescrito no n.o 3 do art. 268 do [Link], qualquer dos
administradores tem a faculdade de se opor aos actos que outro pretenda realizar, e em tal caso
compete à maioria dos administradores decidir sobre o mérito da oposição, isto é, se a mesma
procede ou não.
364
Pois, tendo em conta o disposto no art. 127/2, alíneas a), b) e c), do [Link], a sociedade em nome
colectivo poderá não ter conselho fiscal ou fiscal único.

296
[Link] em comandita

As sociedades em comandita revestem duas modalidades, as sociedades em comandita simples e


as sociedades em comandita por acções, neste último caso quando as participações sociais dos
sócios comanditários são representadas por acções (art. 270 [Link]).

São sócios comanditários os que respondem somente pela realização da sua participação de
capital, portanto, sócios que limitam a sua responsabilidade à realização da sua participação, não
podendo ser chamados a responder pelas obrigações da sociedade. São, portanto, sócios de
responsabilidade limitada.

Porém, não podem contribuir com indústria para efeitos de realização da sua participação (art.
271/2 [Link]).

São sócios comanditados os que respondem pelas obrigações da sociedade nos termos
estabelecidos para a responsabilidade dos sócios na sociedade em nome colectivo. São, portanto,
sócios de responsabilidade ilimitada.

À semelhança do que sucede na sociedade em nome colectivo, dada natureza ilimitada dos
sócios comanditados, estes só poderão transmitir validamente as sua participações, quer entre
vivos, quer mortis causa, havendo consentimento unânime dos restantes sócios e deliberação
maioritária dos votos dos sócios comanditários (art. 276/1 [Link]). Também está aqui subjacente
o carácter Intuito Persone da sociedade em comandita relativamente aos sócios comanditados.

[Link].Da administração e fiscalização da sociedade

A administração das sociedades em comandita compete a todos os sócios comanditados, ou seja,


os de responsabilidade ilimitada, independentemente de terem constituído a sociedade ou terem
adquirido a qualidade de sócio posteriormente, excepto se o estatuto dispuser em contrário.
Poderão exercer a administração da sociedade pessoas que não sejam sócios comanditados,
desde que sejam eleitos para o cargo por deliberação unânime dos sócios comanditados e de
dois terços dos sócios comanditários, como resulta das disposições dos n. os 1 e 2, do art. 275 do
[Link].

Sendo o administrador sócio comanditado, desde que o estatuto não disponha em contrário, a sua
destituição está condicionada a ocorrência de justa causa e por deliberação tomada por maioria
dos restantes sócios comanditados e da maioria dos sócios comanditários, ou por decisão judicial
proferida em acção proposta por qualquer deles (art. 275/3 [Link]).

Tendo a sociedade apenas um ou dois sócios comanditados e sendo qualquer deles ou ambos os
únicos administradores, só por decisão judicial a sua destituição pode ser decretada com
fundamento em justa causa, a requerimento de qualquer sócio (art. 275/4 [Link]).

297
De conformidade com o n.o 5 do art. 275 do [Link], a destituição do administrador não sócio
pode ser feita a todo tempo, desde que para tal concorram os mesmos votos necessários à sua
eleição, mas se ocorrer justa causa basta para a sua destituição que concorram votos da maioria
dos sócios comanditados e da maioria dos sócios comanditários.

As disposições específicas sobre as sociedades em comandita são omissas quanto a fiscalização


da sociedade, pelo que tendo em conta o previsto no n.o 1 do art. 273 do [Link], aplicar-se-ão as
disposições das sociedades em comandita sobre a fiscalização, bem como da parte geral do
Código Comercial que regulam os órgãos das sociedades.

[Link] de capital e indústria

São sociedades de capital e indústria as sociedades em que há duas espécies de sócios: uns, que
contribuem para a formação do capital da sociedade com dinheiro, créditos e outros bens
materiais, limitando a sua responsabilidade ao valor da contribuição com que subscreveram para
o capital social; outros, que são sócios que não contribuem para o capital da sociedade, apenas
ingressam na sociedade contribuindo com o seu trabalho, não tendo qualquer responsabilidade
pelas dívidas sociais (art. 278/1, alíneas a) e b), [Link]).

Por a impedir que os sócios de indústria não prejudiquem a sociedade através de actividades
concorrenciais, bem assim levá-los a contribuírem com todo o seu esforço para a actividade da
sociedade, a lei proíbe a estes de se empregarem em qualquer operação comercial estranha ao
objecto da sociedade, a menos que o contrato de sociedade o permita (art. 281 [Link]).

[Link].Da administração e fiscalização da sociedade

É a um ou mais sócios capitalistas que compete a administração da sociedade de capital e


indústria, podendo também os sócios de indústria exercer a administração, para o que deverão
prestar uma caução previamente fixada no contrato de sociedade, que deverá ser de valor
equivalente ao do capital subscrito pelos sócios capitalistas e destinar-se-á exclusivamente a
responder pelos danos causados por actos de má administração que eventualmente venham a ser
praticados (art. 280/1, 2 e 3, [Link]).

O valor da caução poderá, porém, ser diverso do capital subscrito pelos sócios capitalistas, desde
que o contrato de sociedade assim disponha.

Nada prescrevem as disposições específicas sobre as sociedades de capital e indústria


relativamente a destituição dos administradores e a fiscalização da sociedade, do que resulta que
aplicar-se-ão sobre a matéria as disposições estatutárias e o regime geral do Código Comercial
que regula os órgãos das sociedades.

298
[Link] por quotas

São sociedades por quotas as sociedades em que o capital divide-se em quotas, respondendo
solidariamente os seus sócios pela realização do respectivo capital (art. 283/1 [Link]).

Em regra, apenas o património da sociedade responde pelas dívidas da sociedade, pois, nada
impede que no contrato de sociedade os sócios convencionem que determinados sócios
respondam solidária ou subsidiariamente com a sociedade até determinado limite, pelas suas
dívidas sociais (arts. 286 e 287/1, [Link]).

A lei deixa ao critério dos sócios e dos accionistas a fixação do capital social deste tipo
societário365, sendo que o número dos seus sócios não pode ser superior a trinta, sendo permitida
a sua constituição com um único sócio, consagrando a lei um regime especial para efeitos de
celebração de negócios por esta modalidade da sociedade por quotas (arts. 288/1, 289/1 e 2366, e
328 e ss., [Link]).

[Link].Sociedades por quotas com um único sócio

A sociedade por quotas com um único sócio ou sociedade por quotas unipessoal, é constituída
por um único sócio, pessoa singular, de cujo capital que constitui uma única quota é inicialmente
o único titular (art. 328/1, 1a parte, [Link]).

Por razões de transparência, a lei obriga a que o negócio jurídico celebrado, directamente ou por
interposta pessoa, entre a sociedade e o sócio único, conste sempre de documento escrito, desde
que o negócio em questão seja necessário, útil e conveniente à prossecução do objecto da
sociedade, sob pena de nulidade (art. 329/1 [Link]). O negócio deve ainda “…ser sempre
objecto de relatório prévio a elaborar por um auditor de contas sem relação com a sociedade que,
nomeadamente, declare que os interesses sociais se encontrem devidamente acautelados e
obedecer o negócio às condições e preços normais do mercado, sob pena de não poder ser
celebrado”367.

Ao sócio único da sociedade por quotas unipessoal compete tomar pessoalmente decisões que
por lei são da competência deliberativa dos sócios, devendo ser lançadas num livro destinado a
esse fim e assinadas pelo sócio em causa (art. 330 [Link]). Aliás, sendo único sócio a decisões
não poderiam ser tomadas senão pelo próprio, sob pena de um estranho a sociedade ser admitido
a fazê-lo.

As sociedades por quotas unipessoal originária são regidas pelas disposições dos artigos 328 a
330 do Código Comercial, enquanto a unipessoalidade se mantiver, bem como às sociedades por
365
Antes das alterações introduzidas ao artigo 289/2 do [Link], pelo pelo DL n. o 2/2009, de 24 de Abril,
o valor do capital social era fixado pela lei, que correspondendo ao somatório dos valores nominais das
quotas, não podia ser inferior a 20.000,00MT (vinte mil meticais).
366
Redacção dada pelo DL n.o 2/2009, de 24 de Abril.
367
Cfr. Art. 329/2 do [Link].

299
quotas supervenientemente unipessoais, decorridos que sejam noventa dias sem ter sido
reconstituída a pluralidade de sócios, e ainda pelas disposições aplicáveis às sociedades por
quotas, com as necessárias adaptações (n.o 1, 2a parte e n.o 2, do art. 328 do [Link]).

[Link].Da administração e fiscalização da sociedade

A administração das sociedades por quotas é, de acordo com o art. 320/1 do [Link], feita por um
ou mais administradores que podem constituir-se em órgão colegial, podendo ser sócios ou
pessoas estranhas à sociedade. Tendo se constituído órgão colegial de administração, o mesmo
reunirá sempre que for convocado por qualquer dos administradores que dele faz parte, sendo
que da reunião deve ser elaborada a respectiva acta (art. 320/2 [Link]).

A designação dos administradores pode ser feita no contrato de sociedade ou serem eleitos
mediante deliberação dos sócios e, salvo disposição em contrário, o seu mandato tem a duração
de quatro anos, podendo ser reeleitos. Aos administradores é permitido fazer-se representar no
exercício das suas funções, desde que para tal haja autorização expressa nos estatutos (art.
321/1, 2 e 3, [Link]).

Quando a sociedade tenha apenas um administrador, considera-se obrigada pelos actos por este
praticados dentro dos seus poderes, em nome dela. Existindo dois administradores, a ambos
competem iguais poderes de administração, obrigando qualquer deles a sociedade por actos
praticados dentro dos limites dos seus poderes, ou pelos dois conjuntamente se assim os estatutos
dispuserem (art. 323/1 e 2, [Link]).

Pelos estatutos pode ser criado o conselho de administração, que deverá ser constituído por, pelo
menos, três membros. As deliberações do conselho de administração consideram-se tomadas por
votos favoráveis da maioria dos administradores e a sociedade fica vinculada pelos negócios
jurídicos pela maioria dos administradores ou pela maioria ratificados, salvo se os estatutos
dispuserem em contrário (art. 323/3 e 4, [Link]).

Nos termos do n.o 8 do art. 323 do [Link], o conselho de administração reúne sempre que for
convocado por qualquer administrador, devendo de qualquer reunião ser elaborada a respectiva
acta que é assinada pelos administradores presentes no livro de actas ou em folha solta ou em
documento avulso. Sendo a acta elaborada em folha solta ou em documento avulso, as
assinaturas dos administradores presentes devem ser reconhecidas por notário.

Os administradores estão obrigados, no exercício das suas competências, a agir com respeito
pelas deliberações dos sócios regularmente tomadas sobre matérias de gestão da sociedade, como
prescreve o art. 323/9 do [Link].

Recai sobre os administradores a obrigação de não concorrência, pois não podem exercer, por
conta própria ou alheia, actividade abrangida no objecto social da sociedade que esteja a ser
exercida por ela ou o seu exercício tenha sido objecto de deliberação dos sócios. Porém, os
administradores podem não estar vinculados à obrigação de não concorrência com a sociedade
se assim os sócios consentirem expressamente (art. 324 [Link]).

300
A destituição dos administradores pode ser feita a todo tempo mediante deliberação dos sócios,
podendo o contrato de sociedade exigir para a destituição de qualquer administrador que a
deliberação seja tomada por uma maioria qualificada ou outros requisitos (art. 326/1 e 2,
[Link]).

No entanto, fundando-se a destituição em justa causa, pressupondo esta a prática pelo


administrador de um acto faltoso, em violação da lei ou dos estatutos, como seria o caso de agir
com desrespeito pelas deliberações dos sócios regularmente tomadas sobre matérias de gestão da
sociedade ou violação da regra da proibição da concorrência, a destituição pode ser deliberada
por simples maioria, é o que resulta da 2a parte do n.o 2 do art. 326 do [Link].

Não sendo a destituição com fundamento em justa causa deliberada pelos sócios por simples
maioria, assiste a qualquer sócio a faculdade de requerer em juízo a suspensão e destituição do
administrador em acção proposta contra a sociedade, sendo que tendo esta apenas dois sócios, a
destituição só pode ser decidida judicialmente em acção intentada pelo outro (art. 326/3 e 4,
[Link]). Aliás, neste último caso não seria doutro modo, visto que existindo somente dois
sócios, não poderia o sócio administrador votar na deliberação sobre a sua destituição, por haver
conflito de interesses na matéria a deliberar.

Ao administrador destituído sem justa causa é reconhecido ao abrigo do n.o 6 do art. 326 do
[Link], o direito a indemnização no valor correspondente as remunerações até ao limite
estipulado no contrato de sociedade ou até ao termo da duração do exercício do seu cargo ou, não
tendo este sido conferido por prazo certo, as remunerações correspondentes a dois exercícios.

Sobre a fiscalização da sociedade por quotas, tendo sido instituído nela conselho fiscal por
escritura ou documento escrito da sua constituição, o Código Comercial manda aplicar, na parte
aplicável, as disposições relativas ao conselho fiscal das sociedades anónimas (art. 327 do
[Link]).

[Link] anónimas

São sociedades anónimas as sociedades cujo capital é divido por acções e cada sócio limita a sua
responsabilidade ao valor das acções subscritas (art. 331 [Link]).

Dada a grandeza deste tipo societário, a lei prescreve o limite mínimo de sócios, que não podem
ser menos de 3 (três), não limitando o número máximo. Contudo, poderá se constituir com um
único sócio quando a lei o dispense ou quando o Estado intervenha, quer directa, quer
indirectamente, através de determinadas entidades (art. 332 [Link]).

A sociedade anónima constitui-se mediante a subscrição da totalidade do capital social,


devendo ainda este estar realizado em, pelo menos, vinte e cinco por cento. Não é permitido o
diferimento da realização do capital em espécie, nem do pagamento do prémio de emissão, caso
a ele haja lugar, salvo no primeiro caso quando nisso a sociedade tiver interesse e sempre para a
data fixada no contrato de sociedade (art. 336/1 e 2, [Link]).

301
Em conformidade com o art. 334 do [Link], a qualidade de sócio desta espécie de sociedade é
adquirida com a outorga do contrato de sociedade ou de registo da deliberação de aumento de
capital de que resulte a entrada de novo sócio, desde que não dependa da emissão e entrega do
título de acção.

[Link].Da administração e fiscalização da sociedade

[Link].Administração

A administração das sociedades anónimas é feita por um conselho de administração ou por um


único administrador.

O conselho de administração é constituído por um número ímpar de membros, podendo ser ou


não accionistas da sociedade (art. 418/1 [Link]).

A existência de um único administrador é estipulada no contrato de sociedade e desde que o


capital social não exceda quinhentos mil meticais, podendo o administrador único ser pessoa
estranha à sociedade (art. 419, 1a parte, do [Link]).

O mandato dos administradores tem a duração de quatro anos, a não ser que o contrato
prescreva período mais curto, sendo permitida a reeleição uma ou mais vezes. Findo o prazo do
mandato os administradores devem se manter em funções
até que sejam designados novos administradores e tomem posse (art. 420/1 e 2, e art. 425/2,
ambos do [Link]).

Aos administradores não é permitido fazerem-se representar no exercício do seu cargo, mas
podem fazê-lo em reuniões do conselho de administração e por outro administrador, mediante
carta dirigida ao conselho (art. 420/3 [Link]).

O administrador que faltar definitivamente é substituído pelo primeiro suplente, e se não


existirem suplentes na primeira assembleia-geral seguinte são eleitos um ou mais
administradores, mesmo que tal ponto não conste da ordem dos trabalhos, a fim de exercerem
funções até ao termo do mandato dos restantes administradores (art. 422/1 e 2, [Link]). Trata-se
de garantir que o conselho de administração tenha sempre todos os administradores em funções e
não haja situações de vacatura dos cargos.

Ao presidente do conselho de administração, que pode ser escolhido pelo próprio conselho de
administração ou ser designado pela assembleia-geral que elege os administradores, consoante o
estipulado no contrato de sociedade, pode ser atribuído voto de qualidade nas deliberações do
órgão (art. 423/1 e 2, [Link]).

O Código Comercial consagra no seu artigo 421 impedimentos à eleição de qualquer cargo de
administração da sociedade anónima, devendo a responsabilidade dos administradores ser

302
caucionada se o contrato de sociedade assim o estabelecer (art. 424/1 [Link]). A remuneração
dos administradores é fixada nos termos do disposto no n.o 2 do art. 424 do [Link].

A investidura dos administradores obedece a uma formalidade que, de acordo com o n.o 1 do art.
425 do [Link], se traduz na assinatura do termo de posse lavrado no livro de actas do conselho
de administração, sendo que a inobservância de tal formalidade importa a nulidade da
investidura.

A lei impõe aos administradores da sociedade que exerçam as suas funções como
administradores fiduciários de todos accionistas, devendo tratar os seus direitos de forma igual
independentemente da participação de cada um deles no capital social, ou seja, não importa se
são controladores, minoritários ou titulares de acções preferenciais, todos devem ter os seus
direitos como accionistas tratados de forma igual. É relação de fidúcia que o art. 426 do [Link]
impõe aos administradores368.

Para obviar a celebração de negócios fraudulentos em prejuízo da sociedade, não é permitido aos
administradores celebrar, directamente ou por interposta pessoa, contratos com a sociedade, sob
pena de nulidade, sendo esta proibição extensiva a actos ou contratos celebrados com sociedades
que se encontrem em relação de domínio ou de grupo com aquela de que o contratante é
administrador, é o que resulta do art. 427/1, 1a parte e n.o 2, [Link].
Excepcionalmente, contratos assim celebrados são válidos desde que tenham “…sido
previamente autorizados por deliberação do conselho de administração, no qual o interessado
não pode votar, e com o parecer favorável do conselho fiscal ou do fiscal único”369.

Os administradores estão vinculados à obrigação de não exercer, por conta própria ou alheia,
actividade abrangida pelo objecto da sociedade, impedindo-os deste modo de concorrer com ela,
é a regra da proibição da concorrência consagrada pelo n.o 1 do art. 428 do [Link], permitindo-
se-lhes excepcionalmente que o façam quando tenham sido autorizados pela assembleia-geral.

A violação da regra de proibição de concorrência pelo administrador é, em conformidade com


as disposições do n.o 2 do art. 428 do [Link], passível de sanção mediante sua destituição do
cargo com justa causa, acrescida de pagamento pelo administrador prevaricador de uma
importância correspondente ao valor do acto ou contrato ilegalmente celebrado.

Para além da proibição de concorrência, o administrador está adstrito às obrigações estabelecidas


nas alíneas a), b), c) e d), do n.o 1 do art. 429 do [Link].

Os administradores podem ser destituídos dos seus cargos mediante deliberação dos sócios com
fundamento em justa causa, designadamente quando violem quaisquer obrigações que nessa
qualidade sobre si impendem, podendo a destituição ser feita mediante revogação do mandato
por deliberação dos sócios mesmo sem justa causa, tendo neste caso o administrador destituído
direito a receber indemnização no valor correspondente as remunerações que auferiria até ao
termo do seu mandato (art. 430/1 do [Link]).

368
Outros deveres fiduciários do administrador estão consagrados nas alíneas a) a g) do n. o 1 do art. 433,
[Link].
369
Cfr. 2a parte do n.o 1 do art. 427 do [Link].

303
Para além da destituição poder ser feita por deliberação dos sócios, ela pode nos termos do n. o 2
do art. 430 do [Link] ser decretada, a todo momento, pelo tribunal com fundamento em justa
causa a requerimento de um ou mais accionistas titulares de acções correspondentes a dez por
cento do capital.

Enquanto órgão de administração, o conselho de administração tem, para além das


competências fixadas nas alíneas a) a n) do n.o 2 do art. 431, do [Link], a competência de gerir
as actividades da sociedade, obrigar a sociedade ou representá-la em juízo ou fora dele, sendo
que na sua actuação deve observar as deliberações dos accionistas sobre as matérias que lhes são
especialmente atribuídas por lei ou contrato, bem como as intervenções do conselho fiscal ou
fiscal único nos casos em que a lei ou o contrato de sociedade assim o determinarem (arts. 412/2,
431/1 e 437/1, alínea a) e n.o 2, alínea a), do [Link]).

A competência ou poderes de representação são exercidos em conjunto pelos administradores,


ficando a sociedade obrigada pelos negócios jurídicos concluídos pela maioria dos
administradores ou por eles ratificados. Poderá, porém, não ser suficiente a maioria dos
administradores para obrigar a sociedade, ou pelo contrário ser esta obrigada por um número
menor se assim o contrato de sociedade o estabelecer (art. 435/1 e 2, [Link]).

É apondo a sua assinatura com indicação da sua qualidade que os administradores obrigam a
sociedade (art. 435/3 [Link]).

A competência de gestão corrente da sociedade do conselho de administração, é delegável num


ou mais administradores, não sendo, contudo, delegáveis as competências de deliberação sobre
relatórios e contas anuais; sobre prestação de cauções e garantias, pessoais ou reais, pela
sociedade; sobre extensões ou reduções da actividade da sociedade e sobre estabelecimento ou
cessação de cooperação com outras sociedades (art. 432/1 e 2, [Link]).

Com a delegação de poderes não decorre daí que os administradores fiquem isentos de
responsabilidade pelos danos causados à sociedade por actos ou omissões do administrador-
delegado ou dos membros da direcção, pois respondem solidariamente com os mesmos, desde
que hajam tido conhecimento desses actos ou omissões ou do propósito de os praticar e não
tenham solicitado a intervenção do conselho de administração para tomar as medidas pertinentes
e adequadas, como resulta do prescrito no n.o 4 do art. 432 do [Link].

Aliás, será pelo facto da referida responsabilidade solidária dos administradores que a lei, face a
delegação de poderes, reserva ao conselho de administração competência para tomar quaisquer
resoluções sobre as matérias objecto de delegação (art. 432/3 [Link]).

As reuniões do conselho de administração têm, se o contrato social não dispuser diferentemente,


a periodicidade mínima de um mês, reunindo o órgão sempre que for convocado pelo seu
presidente ou por outros dois administradores, não podendo deliberar sem que esteja presente ou
representada a maioria dos seus membros (art. 434/1 e 2, [Link]).

304
O conselho de administração delibera validamente por maioria dos votos dos administradores
presentes ou representados, e ainda dos que votam por correspondência caso o contrato de
sociedade o permitir, estando vedado ao administrador votar sobre as matérias em que tenha, por
conta própria ou de terceiro, um interesse em conflito com o da sociedade, proibição esta que tem
relação com o dever fiduciário que impende sobre o administrador de assegurar a tutela dos
interesses de accionistas, empregados e demais participantes da sociedade com vista a realizar o
objecto e a função sociais (n.o 4 do art. 434 e alínea e), n.o 1 do art. 433, [Link]).

Em atenção ao estabelecido no n.o 5 do art. 434 do [Link], cada reunião do conselho de


administração é reduzida a acta que é assinada por todos administradores que nela tenham
participado.

[Link].Fiscalização

As sociedades anónimas devem ter obrigatoriamente o conselho fiscal ou fiscal único, cujas
funções são indelegáveis (art. 127/2, alínea c), e art. 436/5, 1a parte, [Link]).

O conselho fiscal compõe-se de três membros efectivos, sem embargo do contrato de sociedade
estender a cinco membros, havendo um ou dois suplentes quando sejam três membros, e dois
suplentes quando haja cinco membros (art. 436/2 e 3, [Link]).

Para além da fiscalização dos actos administrativos e verificação do cumprimento dos seus
deveres legais e estatutários, o conselho fiscal ou fiscal único tem as competências consagradas
nas alíneas b), c), d) e e), do n.o 1 do art. 437 do [Link], cabendo individualmente aos membros
do conselho fiscal as competências previstas nas alíneas a), b), e c), do n.o 2 do mesmo artigo e
diploma legal.

Em atenção ao disposto no n.o 1 do art. 438 do [Link], sobre os membros do conselho fiscal,
tendo os mesmos deveres dos administradores, no que couber, sobre os mesmos também recai
responsabilidade individual nas mesmas condições que os administradores respondem pelos
danos decorrentes de omissão no cumprimento dos seus deveres e pelos actos praticados com
culpa ou com violação da lei ou dos estatutos.

Os membros do conselho fiscal são obrigados a guardar sigilo sobre factos e informações de que
tenham conhecimento em razão das suas funções, mas têm o dever individual de, ouvida a
assembleia-geral, levar ao conhecimento do Ministério Público sobre a prática de factos de
natureza criminal (art. 438/2 [Link]).

305
Conclusão

O leasing ou contrato de locação financeira, o franchising, a agência e o factoring ou contrato de


cessão financeira, são contratos financeiros, visto que através dos mesmos determinada
empresário comercial, seja em nome individual, seja em nome colectivo, como que obtém
financiamento, indispensável ao desenvolvimento de qualquer actividade comercial.

Com efeito, através do leasing o locatário acede a equipamentos, meios de produção necessários
à produção de bens e serviços, por ter direito ao seu uso, mediante o pagamento de uma renda
mensal, por um período suficientemente longo, que doutro modo teria de comprá-los com
recursos próprios ou com recurso a crédito bancário, endividando-se e limitando a sua
capacidade de endividamento.

Através do contrato de franchising o franchisado tem a possibilidade de usar uma razão social
conhecida por siglas, símbolos, marca de fabrico, de comércio ou de serviços, fabricando bens ou
prestando serviços com a referida marca, assim como dispor do Know How necessário a
produção de bens e serviços.

Quanto ao contrato de agência, este permite ao principal poupar recursos na colocação de bens
no mercado, recorrendo a intermediários que se encarregam de o fazer a custos bastantes
reduzidos.

Enfim, relativamente ao contrato de cessão financeira ou factoring, por via deste é concedido
financiamento ao aderente, nos casos em que haja antecipação de fundos pelo factor, permitindo-
lhe dispor de recursos financeiros que doutro modo teria de aguardar pela satisfação do crédito
pelo devedor ou eventualmente recorrer ao crédito.

No capítulo dos títulos de crédito, como é o caso da letra, da livrança e do cheque, estes têm
enorme importância na circulação da riqueza, uma vez que sendo dotados da característica de
circularidade, bem assim de confiança e autonomia, permitem de alguma forma a substituição da
moeda enquanto meio de troca, satisfazendo de forma eficaz as necessidades da vida económica
no que se refere à simplicidade, rapidez e segurança da circulação da riqueza, pois esta
transmite-se através da mera circulação dos títulos.

Enfim, no que se refere ao estabelecimento comercial e as sociedades comerciais, aquele e estes


são indispensáveis à actividade comercial.

306
Efectivamente, no que toca ao estabelecimento comercial, através do mesmo o empresário
comercial organiza-se para desenvolver devidamente a sua actividade a partir do momento em
que tem no estabelecimento o mecanismo através do qual reúne e organiza elementos diversos
que os usa como meio da sua actividade.

O mesmo se diga no que respeita às sociedades comerciais, através das quais os agentes
económicos logram realizar empreendimentos comerciais e industriais que exigem meios
financeiros e capacidade de organização e gestão que ultrapassam as disponibilidades e
capacidades de um só indivíduo, podendo as mesmas ser em nome colectivo, de capital e
indústria, em comandita, por quotas e anónimas.

As sociedades comerciais têm órgãos que garantem o seu funcionamento, designadamente a


assembleia-geral, a administração e o conselho fiscal ou fiscal único, sendo obrigatória a
existência deste nas sociedades que tenham dez ou mais sócios, que emitam obrigações ou que
revistam a forma de sociedade anónima.

A assembleia-geral é o órgão que toma as deliberações respeitantes à vida da sociedade, tendo


direito a participar nas suas reuniões, que são ordinárias e extraordinárias, discutir e votar, todos
sócios.

A administração é o órgão que tem, entre outras, as competências de gestão e representação da


sociedade, tendo o respectivo titular o dever de trabalhar pelo desenvolvimento e prosperidade da
sociedade, tendo em conta os interesses dos sócios e dos trabalhadores, é a obrigação de actuar
com diligência de um gestor criterioso e coordenado.

A sociedade responde civilmente pelos actos e omissões do administrador ou de gerentes


designados pela mesma para o desempenho de algum ramo de negócio objecto do seu contrato
social.

O conselho fiscal ou fiscal único é o órgão da sociedade encarregue da fiscalização da sociedade,


sem prejuízo desta ser feita também por uma sociedade de auditoria independente.

Dada a natureza das funções daquele órgão e a consequente necessidade de imparcialidade que
se exige dos seus membros, que têm o dever de no exercício das suas funções agir no interesse
da sociedade, dos credores e do público em geral, bem como empregar a diligência de um fiscal
rigoroso e imparcial, a lei consagra impedimentos para o cargo cuja superveniência importa a
caducidade automática da designação.

Nos termos gerais e sem prejuízo do regime específico para cada tipo societário, sobre os
administradores, membros do conselho fiscal, gerentes e procuradores da sociedade, impende
responsabilidade solidária para com a sociedade pelos danos resultantes dos seus actos e
omissões, desde que praticados com violação dos deveres legais ou estatutários, salvo se
provarem que agiram sem culpa, sendo em regra o direito à indemnização da sociedade
irrenunciável.

307
-Bibliografia

[Link], Waldirio, Títulos de Crédito, 9a Edição atualizada, São Paulo, Editora Atlas
S.A., 1992;
[Link], Miguel J. A. Pupo, Direito Comercial, 8a Edição revista e actualizada, 2003,
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[Link], Miguel J. A. Pupo, Direito Comercial, 10a Edição revista e actualizada, Lisboa,
Setembro de 2007, EDIFORUM Edições Jurídicas, Lda;
[Link], Sebastião Nobrega e Calixto, Margarida Mendes, Contratos Financeiros, Livraria
Almedina, 2a Edição, Coimbra, 1995.

-Legislação

[Link], Susana, GOUVEIA, Jorge Bacelar e MASSANGAI, Arão Feijão, Código Civil e
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2.Código Comercial, aprovado pelo Decreto-Lei n.o 2/2005, de 27 de Dezembro;
[Link] no. 15/99, de 1 de Novembro, com as alterações introduzidas pela Lei n. o 9/2004, de 21de
Julho;
[Link], Abílio, Código de Processo Civil Anotado, Livraria Almedina, Coimbra, 1994.
[Link] do Contrato de Locação Financeira (Leasing), aprovado pelo Decreto n. o 45/94,
de 12 de Outubro;
[Link], João Carlos, Colectânea de Legislação Penal Complementar, 2a Edição Revista e
Aumentada, Ministério da Justiça - Centro de Formação Jurídica e Judiciária, Maputo, 2006.

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