Papel de Leopoldina na Independência do Brasil
Papel de Leopoldina na Independência do Brasil
Fernando Nicolazzi1
I.
Das muitas Independências que vêm circulando em nosso espaço público nos
últimos anos, na forma de palavras, objetos, sons, imagens, relatos... enfim, usos que
configuram não apenas histórias e memórias sobre fatos passados, mas igualmente
expectativas por tempos vindouros, gostaria de mencionar apenas uma. Trata-se não da
mais conhecida, aquela que foi gloriosamente proclamada por Pedro às margens do
Piranga, mas sim da que foi decidida pouco antes do famoso 7 de setembro, em sessão
do Conselho de Estado presidida por sua esposa, a princesa Leopoldina, quem por
direito detém o posto de “primeira chefe de Estado do Brasil”, segundo nos é informado
por Gastão Reis, “economista e palestrante”, na série Brasil: a última cruzada, realizada
pela produtora Brasil Paralelo.2
referências às produções da empresa seguem em diante apenas com o título do episódio, o nome do
autor do comentário e o momento do vídeo em que o trecho aparece).
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Brasil Paralelo: restaurando a pátria, resgatando a história
Seminário 3x22: Independência, memória e historiografia
24-28 de maio de 2021
3 BRASIL PARALELO. “Independência ou morte”, Paulo Rezzutti, 00:07:35. Em todos os trechos citados,
busquei manter na transcrição o tom de oralidade com que foram enunciados no vídeo.
4 BRASIL PARALELO. “Independência ou morte”, Paulo Rezzutti, 00:08:05.
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sociedades secretas, bebia com o povão, visitava as mulheres, pegava as mulheres dos
nobres... [neste momento, a cena corta para uma imagem da imperatriz Eugénie de
Montijo, esposa de Napoleão III, cercada por suas damas de honra na pintura feita por
Franz Winterhalter, em 1855] enfim, ele corrompia a estrutura portuguesa que já havia
e colocava todo mundo do lado dele. Um grande sucesso, ele foi aclamado, jogado para
cima. Era um molecão, né! Imagina, 24 anos, tu é o príncipe andando por lá, o cara fazia
de tudo”.5
Alguns dias depois, o “molecão” se deslocou rumo a São Paulo com o mesmo
intuito que havia realizado na província mineira e, sobretudo, buscando apaziguar os
ânimos que estavam bastante exaltados por conta das investidas do “irmão de José
Bonifácio” contra as elites locais. O Andrada, no entendimento de Nogueira, era
“carrasco nas contas públicas, ele pegou alguns desvios de verbas públicas. E ele
denunciou e mandou os caras serem perseguidos”.6 Pedro, então, resolveu se fazer
presente em terras paulistas para acalmar as coisas. Antes disso, porém, nomeou sua
esposa, Leopoldina, como regente. “Era a primeira vez na história que uma mulher
comandava o país”, nos conta a voz in off que conduz a narrativa. “É uma coisa que vale
a pena a gente relembrar, porque também está meio no baú das coisas esquecidas”,
complementa Gastão Reis.7
Ocorre que ainda em agosto chegaram ao Brasil as novas reivindicações das
Cortes portuguesas, deixando a ex-colônia bem como seu príncipe regente numa
humilhante posição de subalternidade, colocando em risco o processo emancipatório
então em curso. É neste momento que a astúcia política de Leopoldina se manifestou
de maneira decisiva, no sentido de reorganizar a história e encaminhar o país para o
destino que naturalmente lhe pertencia. Ela convocou e presidiu uma sessão do
Conselho de Estado onde tomou-se a decisão, fomentada pela própria princesa regente
e com a importante concordância de José Bonifácio, de aconselhar Pedro pela separação
do Brasil de Portugal.
“Uma mulher muito sagaz e ela via que o melhor para este contexto era, de fato,
a Independência para o Brasil. Ela já estava casada com esse intento há muito tempo,
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ao passo que Pedro I talvez não. Ele ainda estava dosando ainda algumas decisões”,
afirma Luiz Philippe de Orleans e Bragança, apresentado como “cientista político e
membro da família real”, que ocupa hoje uma vaga na Câmara dos Deputados e chegou
a ser cogitado para ser candidato a vice-presidente na chapa de Jair Bolsonaro.8 “Quem
assinou a ata da reunião do Conselho de Estado onde se decidiu a Independência foi
dona Leopoldina. E dom Pedro apenas ratificou o ato de sua esposa,” assegurou Dom
Bertrand, tio de Luiz Philippe e “descendente da família real”, um dos principais
expoentes do movimento monarquista brasileiro, também muito ativo nas festividades
promovidas pela Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade. 9
José Bonifácio, por sua vez, estava em consonância com a posição da regente e
resolveram ambos expor para Pedro a decisão ali tomada, enviando cartas assim que
foram encerrados os trabalhos do Conselho. É neste momento que a “emblemática
carta de José Bonifácio” aparece na narrativa, marcando sem dúvida o ápice emotivo da
produção, conforme é possível perceber pelos comentários publicados sobre o vídeo. 10
Lido por uma voz que inspira experiência e serenidade, cujo dono é o professor deRose,
desenvolvedor de um método de formação caracterizado pela “urdidura de técnicas e
conceitos” usados como “instrumento de upgrade pessoal”,11 o texto da carta é
acompanhado por desenhos em branco e preto que representam os principais
envolvidos no fato (Pedro, Leopoldina, Bonifácio), intercalados por imagens da
simbologia imperial fomentada pela empresa (brasões, esfera armilar, coroas), de
correntes rompendo-se, cataratas de sangue, o Pão de Açúcar e igrejas barrocas. Ao
fundo, uma música de caráter épico envolve a leitura, dando um ar de solenidade e
reforçando a carga dramática criado no episódio.
Assim que a leitura termina, somos guiados pelo registro aéreo do monumento
realizado por Ettore Ximenes localizado no Parque do Ipiranga, no exato momento em
que o narrador in off profere as conhecidas divisas “Independência ou morte!”.
para a produção, nenhuma das cartas foi jamais encontrada, restando apenas o relato feito por
testemunhos da época. REZZUTTI, Paulo. Dona Leopoldina: a história não contada: mulher que
arquitetou a Independência do Brasil. Rio de Janeiro: Leya, 2017 (edição digital).
11 Segundo informações constantes no site DeRose Method: [Link] (acesso
em 14/06/2021).
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referido vídeo, e seguem referenciados pela data em que publicaram suas opiniões.
14 Os três comentários foram postados em 21/12/2017.
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15 Trata-se de um tipo de material cuja especificidade impõe alguns cuidados metodológicos que não
poderão ser aqui discutidos em função dos limites do texto. Ver, por exemplo, LAITANO, Bruno
Grigoletti. Postando o passado: a difusão da memória da ditadura civil-militar brasileira na internet
através do canal do Youtube da Comissão Nacional da Verdade. Dissertação de Mestrado em História.
Porto Alegre: UFRGS, 2018.
16 Busquei desenvolver melhor a categoria de culturas de passado no ensaio “Culturas de passado e
eurocentrismo: o Périplo de Tláloc”, publicado em AVILA, Arthur Lima de; NICOLAZZI, Fernando; TURIN,
Rodrigo (orgs.). A história (in)disciplinada. Teoria, ensino e difusão de conhecimento histórico. Vitória:
Editora Milfontes, 2019, p. 211-244.
17 PAUL, Herman. “Relations to the past: a research agenda for historical theorists”. In: Rethinking
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II.
A empresa Brasil Paralelo e seus materiais já são bem conhecidos em nosso
cenário político. Produtora voltada para o mercado de consumo de conteúdos culturais,
notadamente nos campos da política e da educação, iniciou seus trabalhos em 2016,
com um congresso que reuniu importantes frações da extrema-direita e do pensamento
conservador nacional, e ganhou impulso a partir da intensificação de ações extremistas
e fundamentalistas que levaram à presidência o ex-capitão do exército, Jair Bolsonaro.
A série Brasil: a última cruzada foi lançada em setembro de 2017, poucos dias depois
das comemorações do dia 7, e o episódio sobre a Independência foi disponibilizado em
dezembro daquele ano.
As produções da empresa ganharam tamanha ressonância nos círculos
autoritários do país que o filho do presidente, Eduardo Bolsonaro, em seu intento de
ocupar um posto de embaixador nos Estados Unidos, afirmou publicamente que se
preparava para a sabatina a que seria submetido no Senado estudando os conteúdos
oferecidos pela empresa. O episódio sobre a Independência, que já passa de 1 milhão
de visualizações no Youtube, foi especificamente mencionado pelo deputado como
material que fazia parte de seus estudos. Considerando a capacidade de engajamento
social que grupos ligados ao governo Bolsonaro possuem, com forte atuação em redes
e plataformas digitais, a proposta de conteúdos oferecida pela empresa dispunha assim
de um vasto mercado para sua circulação. 19
19Sobre as estratégias mercadológicas da empresa, ver também PAULO, Diego Martins Dória. “Os mitos
da Brasil Paralelo – uma face da extrema-direita brasileira (2016-2020)”. In: Rebela. Revista Brasileira de
Estudos Latino-Americanos, vol. 10, n. 1, 2020.
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20 “Nossa Caixa reconta a fundação de São Paulo”, O Estado de São Paulo, 29/08/2003. Sobre a série É
muita história, exibida entre setembro e novembro de 2007, ver
[Link]
historia/ (acesso em 15/06/2021). Uma análise sobre as produções de história realizadas pelo jornalista
pode ser encontrada em BONALDO, Rodrigo Bragio. Presentismo e presentificação do passado: a
narrativa jornalística da história na coleção Terra Brasilis de Eduardo Bueno. Dissertação de Metrado em
História. Porto alegre: UFRGS, 2010.
21 Ver ainda, sobre um contexto posterior ao referido, OLIVEIRA, Rodrigo Perez. “Por que vendem tanto?
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isso pode também ser percebido a partir dos profundos deslocamentos da situação
política e social do país ocorridos na década de 2010.
A crise econômica de 2008, cujos efeitos mais devastadores tardaram ainda
alguns anos para chegar ao Brasil, os acontecimentos que ficaram conhecidos como
Jornadas de Junho, em 2013, as grandes manifestações sociais de 2015, bem como a
consumação do golpe em 2016 ocasionaram um contexto de profunda crise social que
se manifestou nas formas como a temporalidade era experienciada. Se o futuro parecia
pouco promissor (a categoria sociológica do desalentado e seu aumento vertiginoso a
partir de 2015 ilustra isso22), o presente tampouco era um tempo que alimentava muita
confiança (pesquisa realizada pela FGV em 2017 sinalizou que apenas 31,2% dos
entrevistados concordavam com a afirmação: no Brasil há uma democracia 23). A crise
era também uma crise do tempo.
A revista britânica The Economist conseguiu sintetizar bem esse movimento de
colapso de perspectivas futuras e perda de confiança no presente em duas capas
lançadas respectivamente em novembro de 2009 e em setembro de 2013, que tiveram
ampla repercussão na mídia brasileira e nas redes sociais do país. Na primeira, o Cristo
Redentor decolava e o editorial afirmava que o risco para o Brasil e sua história de
grande sucesso da América Latina era apenas o excesso e a soberba (a hubris). Quatro
anos depois, contudo, o vôo prometido falhava e a revista então indagava: “o Brasil
estragou tudo?”, mencionando como a economia estagnada, o Estado inchado e as
manifestações de rua indicavam a profunda instabilidade do período. Assim, o crescente
descompasso entre as experiências de crescimento vivenciadas na primeira década do
século e as expectativas surgidas com as tensões políticas e a estagnação econômica da
década seguinte denotava a profundidade da crise.
Diante deste cenário, não seria forçoso considerar que, junto ao mencionado
gosto pela história, o interesse pelo passado nacional pode ser situado como espécie de
recurso terapêutico para tempos de incertezas. Afinal, se todo passado é sempre objeto
22 Em 2015, houve um aumento de mais de 100% no número dos desalentados (pessoas sem ocupação
que desistiram de buscar postos de trabalho) em comparação com 2012. PERUCHETTI, Paulo; RACHTER,
Laísa. “Quem são os desalentados no Brasil?”. [Link]
desalentados-no-brasil (acesso em 15/06/2021)
23 FGV/DAPP. O dilema do brasileiro. Entre a descrença no presente e a esperança no futuro. Rio de
Janeiro, 2017.
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de uma determinada ação, sua busca não poderia também ser motivada por um desejo
de encontrar saídas para a crise? Quando nem o futuro, nem o presente parecem
propiciar um lugar de estabilidade, restam os tempos passados e suas vastas
possibilidades de uso como expediente possível. O caráter exemplar de algumas
experiências pretéritas pode sempre ser mobilizado por e para públicos desejosos de
encontrar um porto seguro onde atracar sua embarcação quando navegam em mares
revoltosos. Como se sabe, demandas por volta da ditadura e volta da monarquia
ganharam ressonância no contexto da crise. A empresa Brasil Paralelo parece ter
captado bem essas demandas populares e passou a oferecer um produto ajustado a tais
públicos: um passado de glórias, acontecimentos realizados por indivíduos excepcionais,
uma história higienizada de conflitos e contradições, revisitando o Brasil Imperial e
revisando a história da ditadura. Uma mitologia nacional, enfim.
O que se ofereceu, portanto, foi uma mitologia nacional, não encarada aqui
como mero recurso metafórico. Creio ser possível pensar a atuação da empresa e suas
formas de usos do passado a partir daquilo que o historiador francês Raoul Girardet
chamou de “mitologias políticas”.24 Convém ressaltar que, neste caso, falar em mito ou
em mitologia não significa aceder simplesmente ao campo do irracional ou do
puramente instintivo.25 Nas palavras do historiador conservador francês, o mito é “um
sistema de crença coerente e completo. Ele já não invoca, nessas condições, nenhuma
outra legitimidade que não a de sua simples afirmação, nenhuma outra lógica que não
a de seu livre desenvolvimento”.26
Trata-se de uma forma de imaginário político ou de estrutura imaginária que é
povoada por determinadas figuras, ou seja, prefigurada por elas, e que, na forma como
são dispostas e apresentadas, produzem um efeito de adesão controlada por parte dos
públicos aos quais tal estrutura é voltada. A forma como são organizadas e combinadas
tais figuras constituem o que o autor define como “constelações mitológicas”. Quatro
24 GIRARDET, Raoul. Mitos e mitologias políticas. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. Agradeço à
Kátia Baggio por ter me indicado a leitura da obra.
25 Neste caso, minha abordagem, embora dialogue diretamente com ela, mantém algumas reservas em
relação àquela oferecida por Diego Martins Dória Paulo em PAULO, Diego Martins Dória. “Os mitos da
Brasil Paralelo – uma face da extrema-direita brasileira (2016-2020)”, op. cit. Uma versão mais curta do
texto foi publicada no Le Monde Diplomatique Brasil, em 18/05/2020.
26 GIRARDET, Raoul. Mitos e mitologias políticas, op. cit., p. 11-12.
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grandes imagens se destacam, as quais permitem situar as linhas gerais que movem o
empreendimento da Brasil Paralelo. 27
Em primeiro lugar, a imagem da conspiração, ou seja, a ideia de que existe
subjacente aos fatos um grande complô previamente arquitetado por determinados
atores sociais, contra o qual uma ação política necessita ser realizada. No caso, a
conspiração envolve uma suposta hegemonia do marxismo cultural percebida tanto na
grande imprensa como nas instituições formais de ensino, particularmente as
universidades públicas. Tal hegemonia estaria vinculada ainda a um plano de dominação
esquerdista na América Latina capitaneada pelo Foro de São Paulo. A origem desse
discurso conspiratório encontra-se sobretudo nas obras e na atuação digital de Olavo
de Carvalho, cujo fundamentalismo ideológico é plenamente incorporado pela Brasil
Paralelo.28
O recurso à conspiração como forma de explicar os processos sociais se baseia
na ideia de que ela oferece uma organização lógica para os fatos no tempo, permitindo
dotar tais processos de sentido por meio de uma rede mecânica de causalidade: o
presente pode ser explicado por meio de uma concatenação de fatos organizados no
processo conspiratório, ou seja, chegamos hoje no ponto em que estamos por causa da
dominação marxista na cultura ocorrida após a ditadura e no contexto pós-Guerra Fria.
Além disso, a conspiração permite reconhecer culpados e materializar um inimigo que
serve de foco e de alvo da ação política. Em outras palavras, a conspiração aglutina
forças em um combate que assume as vezes de uma nova cruzada contra infiéis (no
caso, o comunismo e suas sempre imprecisas variantes).
A segunda imagem constitutiva das mitologias políticas sugerida por Girardet é
a do salvador. No contexto brasileiro, com a ascensão de Bolsonaro como uma força
política que se potencializa a partir da ideia de “Mito”, essa imagem parece ser auto-
explicativa. Mas no caso da narrativa da Brasil Paralelo, embora possa ser devidamente
inserida no campo mais vasto dos discursos que sustentam a base ideológica do
bolsonarismo, a figura do salvador é mais difusa, podendo ser encontrada em
27 Girardet fundamenta suas análises a partir do estudo da história europeia, particularmente a francesa
do século XIX. Em função do espaço, não mencionarei os casos e situações estudados por ele,
restringindo-me aqui à apropriação conceitual de sua obra e adaptando-a ao objeto aqui analisado.
28 ROCHA, João Cezar de Castro. Guerra cultural e retórica do ódio. Crônicas de um Brasil pós-político.
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29 Ricardo Salles, em seu ensaio clássico elaborado na virada dos anos 1980 para 90, intitulado
justamente Nostalgia imperial, já prognosticava a possibilidade de uma reatualização do século XIX em
plena República Nova: “Talvez não esteja longe o dia em que o isolamento e a estabilidade institucional
do Império escravista despertem nostalgia e, mais importante, ação política e social excludente dos
setores beneficiários de nossa modernidade”. SALLES, Ricardo. Nostalgia imperial. Escravidão e
formação da identidade nacional no Brasil do Segundo Reinado. 2a. Edição. Rio de Janeiro: Ponteio,
2013, p. 163.
30 BOYM, Svetlana. The future of nostalgia. Nova York: Basic Books, 2001. Sobre o tema da nostalgia e
sua relação com os usos da Independência e da escrita da história, ver ainda FREIXO, André. “Passados
privados, ou privados do passado? Nostalgia, in-diferença e as comemorações do Sete de Setembro
brasileiro”. In: Revista Nupem, vol. 11, n. 23, 2019, e FELIPPE, Eduardo Ferraz. “Renovar votos com o
futuro: nostalgia e escrita da história”. In: História da Historiografia, n. 25, 2017.
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historia magistra vitae 2.0, articulando um uso político do passado como guia e
ensinamento com a mobilização afetiva do discurso patriótico, tudo potencializado pela
movimentação algorítmica das redes sociais.31 Dessa maneira, a mitologia nacionalista
fomentada pela empresa se torna elemento central no que se poderia aqui chamar,
apropriando-me livremente da expressão oferecida por Sara Ahmed, de uma “política
cultural das emoções” que, como veremos na seção seguinte, encontra ampla
ressonância na forma com estes conteúdos são recebidos pelos públicos. 32
Finalmente, a quarta e última imagem que faz parte da constelação mitológica
abordada por Girardet e mobilizada pela Brasil Paralelo é a figura da unidade. Em uma
conjunção entre o espaço privado e a esfera pública, a noção de família e de pátria,
pensadas em uma justaposição de sentidos (se a pátria é a família do povo, a família é o
núcleo fundante da pátria), ocupam lugar como eixo unificador de uma determinada
compreensão moral e moralizante da história. Tanto uma quanto a outra são elementos
indivisíveis que organizam a luta política: elas são a razão de ser da cruzada.
Obviamente, trata-se da compreensão de um modelo familiar fundamentado no
moralismo cristão e de pátria como essa categoria abstrata que manifesta a vontade
sincera e essencializada de um povo abstrato. Dessa maneira, tudo aquilo que
questiona, desestabiliza ou coloca em risco essa unidade, tudo aquilo que corrompe a
família e se contrapõe àquela vontade, encarada de forma unificada e homogênea,
precisa ser combatido e, em último caso, eliminado. A figura da unidade, portanto, é
aquilo que estabelece os critérios de diferença que definem o outro a ser combatido.
Toda cruzada, afinal de contas, prefigura um inimigo.
Essas quatro imagens conformam o imaginário político da Brasil Paralelo. Trata-
se de uma constelação mitológica que, embora apele decisivamente para o âmbito das
emoções e dos afetos, não se esgota em uma forma de mito pensada a partir da ideia
31 Sobre o topos da história mestra da vida, a referência ainda é KOSELLECK, Reinhart. “Historia Magistra
Vitae – sobre a dissolução do topos na história moderna em movimento”. In: Futuro passado.
Contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto; Editora PUC/RJ, 2006. A
retomada do discurso nacionalista pela chave de uma política das emoções é abordada, entre outros,
por ASSMANN, Aleida. “Re-imagining the Nation: memory, identity and the emotions”. In: European
Review, vol. 29, n. 1, 2020.
32 AHMED, Sara. The cultural politics of emotion. 2nd. Edition. Nova York: Routledge, 2015.
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de “irracionalidade como motor da ação política”. 33 Há, com efeito, uma dimensão
lógica e racional no projeto, um uso calculado das emoções e uma forma planejada de
mobilização dos afetos que, a julgar pela repercussão alcançada pela empresa, pode ser
considerada como politicamente eficaz.
Nesse sentido, a contraposição entre razão e mito (como manifestação
puramente instintiva ou emotiva) pode esconder elementos importantes na forma de
atuação da empresa, particularmente em como tais produtos são recebidos e
apropriados pelos seus variados públicos. 34 Uma atenção às respostas dadas ao
conteúdo oferecido sobre a Independência revela como funciona a lógica de
engajamento social assumida pela Brasil Paralelo.
III.
O episódio Independência ou morte possui atualmente (junho de 2021) cerca de
4.100 reações postadas na caixa de comentários do vídeo. Ainda que este tipo de
material demande cuidados redobrados em seu uso como fonte (existência de bots,
engajamentos artificiais, filtros utilizados pela empresa para selecionar o que é postado
etc.), ele pode ser utilizado como indício plausível para se pensar os efeitos provocados
e as respostas dadas à história narrada. Se talvez a simples quantificação das respostas
não seja a melhor estratégia, uma análise qualitativa dos comentários pode indicar
certas constâncias de reação dos públicos. 35
Antes de abordá-los, no entanto, convém esboçar rapidamente alguns dos
elementos que definem as formas de engajamento mobilizadas pela Brasil Paralelo. Em
outras palavras, atentar para as modalidades de relação com os públicos estabelecidas
pela produtora, seja por meio de seu modus operandi empresarial, seja por meio dos
conteúdos por ela oferecidos. Nesse sentido, trata-se de uma via de mão dupla a partir
33 PAULO, Diego Martins Dória. “Os mitos da Brasil Paralelo – uma face da extrema-direita brasileira
(2016-2020)”, op. cit., p. 102.
34 Uma coletânea que coloca em perspectiva a dimensão dos afetos nas relações políticas encontra-se
em DEMERTZIS, Nicolas (ed.). Emotions in politics. The affect dimension in political tension. Nova York:
Palgrave Macmillan, 2013.
35 Para uma análise precursora sobre os públicos da história e sobre uma cultura de história em torno da
do tema da Independência, a referência fundamental é o estudo realizado por João Paulo Garrido
Pimenta e sua equipe da Universidade de São Paulo: PIMENTA, João Paulo et al. “A Independência e
uma cultura de história no Brasil”. In: Almanack, n. 8, 2014.
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36 Por exemplo, ao longo do episódio e da série foram vários os comentários que destacaram a
qualidade da trilha sonora escolhida pela empresa, bem como a pertinência do conteúdo em relação ao
que é ensinado nas escolas e universidades. Como consequência disso, a empresa lançou em seguida
duas outras séries voltadas uma para a história da educação no Brasil, em uma crítica ao suposto
predomínio do modelo de Paulo Freire no sistema educacional brasileiro, e outra para o papel social da
música contemporânea na suposta crise cultural por que o ocidente está passando.
37 PAULO, Diego Martins Dória. “Os mitos da Brasil Paralelo – uma face da extrema-direita brasileira
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esquerdista no país.38 Por isso o produto é vendido como “uma história de sacrifício,
virtude e coragem” que durante muitos anos foi negada e, assim, o objetivo do projeto
é “reverter as mazelas feitas na nossa cultura nos últimos anos”. 39
Ainda segundo o relato, “ideologias perversas contaminaram o imaginário
popular, causando danos incalculáveis em jovens, que hoje estão perdidos e sem norte
[...] Estamos distribuindo o antídoto em cada canto do país”. 40 O que se oferece,
portanto, é uma narrativa da história pensada sob a ótica daqueles que teriam sido
vencidos, mas que guardariam uma indiscutível legitimidade moral capaz de
fundamentar as lutas políticas contemporâneas a partir de uma suposta re-escrita da
história.41 Daí resulta uma quarta forma de adesão com o público: a história como
recurso terapêutico. Como já sugerido anteriormente, a empresa oferece um produto
adequado para tempos de incertezas, uma história que legitima e dá espessura temporal
para as crenças compartilhadas pelos públicos, propiciando uma espécie de conforto
moral a partir de um uso higienizado e edificante do passado.
Finalmente, uma quinta forma de adesão se dá por meio de uma narrativa
sintética, englobante, que tenta abarcar a totalidade do processo histórico brasileiro no
sentido de revelar os traços fortes de uma formação. A ideia de formação do Brasil,
enquanto pátria, e dos brasileiros, como patriotas, confere legibilidade para a
representação do passado nacional, inserindo-o de forma marcadamente eurocêntrica
no conjunto mais amplo das “sociedades judaico-cristãs ocidentais”, cujo fundamento
reside em três eixos bem delimitados na série: a filosofia grega, o direito romano, a
moral cristã.
Esses cinco elementos aqui brevemente esboçados estabelecem formas variadas
de vínculo entre a produtora, os produtos por ela vendidos e os públicos cuja atenção
ela consegue captar. Quando percebidos em relação à estrutura imaginária mobilizada
38 João Cezar de Castro Rocha lançou uma hipótese a respeito do funcionamento das guerras culturais
no bolsonarismo, mencionando a atuação da Brasil Paralelo na engrenagem dessa máquina de guerra.
ROCHA, João Cezar de Castro. Guerra cultural e retórica do ódio. Crônicas de um Brasil pós-político, op.
cit.
39 BRASIL PARALELO. “A cruz e a espada”, 00:00:09.
40 BRASIL PARALELO. “A Vila Rica”, 00:00:10.
41 Reinhart Koselleck escreveu sobre a relação entre experiência da derrota e re-escrita da história em
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42 Esse recurso de captação da audiência foi igualmente notado por Rodrigo Turin. TURIN, Rodrigo. “Os
tempos da Independência: entre a história disciplinar e a história como serviço”. In: Almanack, n. 25,
2020.
43 Um caminho que talvez poderia ser trilhado é o que coloca em perspectiva essa ideia contemporânea
de restauração com aquela que foi mobilizada no próprio contexto da Independência pelos atores
sociais da época, tal como estudado, entre outros, por Lúcia Maria Bastos Neves e Valdei Lopes de
Araujo. NEVES, Lúcia Maria Bastos. “Revolução: em busca do conceito no império luso-brasileiro (1789-
1822)”. In: FERES JR., João; JASMIN, Marcelo (orgs.). História dos conceitos: diálogos transatlânticos. Rio
de Janeiro: Editora da PUC/RJ; Loyola; IUPERJ, 2007, p. 129-140. ARAUJO, Valdei Lopes de. A experiência
do tempo. Conceitos e narrativas na formação nacional brasileira (1813-1845). São Paulo: Hucitec, 2008.
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Brasil Paralelo: restaurando a pátria, resgatando a história
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56 KEHL, Maria Rita. Ressentimento. 3ª. Edição. São Paulo: Boitempo, 2020, p. 36.
57 BRASIL PARALELO. “O último reinado”, 00:00:25
58 MATTOS, Ilmar Rohloff de. O tempo Saquarema. A formação do Estado Imperial. 5ª. Edição. São
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