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Papel de Leopoldina na Independência do Brasil

O documento descreve como a produtora Brasil Paralelo retrata a história da independência do Brasil, dando destaque ao papel da imperatriz Leopoldina. Segundo a narrativa, foi Leopoldina quem convenceu Pedro a declarar independência em uma reunião do Conselho de Estado que ela presidiu. A produtora usa palestrantes para glorificar Leopoldina e afirmar que ela, não Pedro, foi a verdadeira líder da independência.

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Papel de Leopoldina na Independência do Brasil

O documento descreve como a produtora Brasil Paralelo retrata a história da independência do Brasil, dando destaque ao papel da imperatriz Leopoldina. Segundo a narrativa, foi Leopoldina quem convenceu Pedro a declarar independência em uma reunião do Conselho de Estado que ela presidiu. A produtora usa palestrantes para glorificar Leopoldina e afirmar que ela, não Pedro, foi a verdadeira líder da independência.

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Brasil Paralelo: restaurando a pátria, resgatando a história

Seminário 3x22: Independência, memória e historiografia


24-28 de maio de 2021

Brasil Paralelo: restaurando a pátria, resgatando a história.


A Independência entre memórias públicas e usos do passado

Fernando Nicolazzi1

“Se a história é uma mestra, qual é a sua


face? Ela é a configuração do passado
apenas?”
Micheliny Verunschk (O som do rugido da
onça, 2021).

“The individual can only remember the


revelation, not the event itself.”
Michel-Rolph Trouillot (Silencing the past,
1995).

I.
Das muitas Independências que vêm circulando em nosso espaço público nos
últimos anos, na forma de palavras, objetos, sons, imagens, relatos... enfim, usos que
configuram não apenas histórias e memórias sobre fatos passados, mas igualmente
expectativas por tempos vindouros, gostaria de mencionar apenas uma. Trata-se não da
mais conhecida, aquela que foi gloriosamente proclamada por Pedro às margens do
Piranga, mas sim da que foi decidida pouco antes do famoso 7 de setembro, em sessão
do Conselho de Estado presidida por sua esposa, a princesa Leopoldina, quem por
direito detém o posto de “primeira chefe de Estado do Brasil”, segundo nos é informado
por Gastão Reis, “economista e palestrante”, na série Brasil: a última cruzada, realizada
pela produtora Brasil Paralelo.2

1 Professor do Departamento de História/UFRGS e pesquisador do CNPq. Gostaria de agradecer ao gentil


convite feito por Wilma Peres Costa e Télio Cravo para participar do Seminário 3x22: 1822 –
Independência: Memória e Historiografia e aos colegas e às colegas que ofereceram excelentes
contribuições ao longo de todo o evento. Este texto é parte do projeto coletivo Outros200, realizado no
âmbito do Laboratório de Estudos sobre os Usos Políticos do Passado/LUPPA, e contou com as pesquisas
realizadas por Gabriel dos Santos Barboza, Gabriel Garcia e João Pedro Simões, a quem também
manifesto meus agradecimentos.
2 BRASIL PARALELO. “Independência ou morte”. In: Brasil: a última cruzada, Gastão Reis, 00:28:35 (as

referências às produções da empresa seguem em diante apenas com o título do episódio, o nome do
autor do comentário e o momento do vídeo em que o trecho aparece).

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Brasil Paralelo: restaurando a pátria, resgatando a história
Seminário 3x22: Independência, memória e historiografia
24-28 de maio de 2021

Segundo o relato, narrado de forma épica pela voz de palestrantes contratados


pela empresa, tudo começou com o amor, pois a jovem Habsburgo estava apaixonada
pelo Bragança muito antes de conhecê-lo efetivamente. Prova disso é que havia sido
por ele presenteada com um colar de diamantes que tinha um medalhão onde podia ser
visto o retrato do seu futuro marido e Imperador do Brasil. Enquanto todos na corte
ficaram espantados com o tamanho dos diamantes, Leopoldina ficou apenas “fixada na
imagem do príncipe dela”, encantada pelo “moço do retrato”, com quem viria a se casar
pouco tempo depois.3
Seu casamento com o filho do rei de Portugal, além de um tratado diplomático
habilmente costurado pela casa austríaca, foi também o encontro de duas
personalidades que marcariam profundamente o nascimento do Brasil como Estado
independente. “É bonitinho ver o encontro dos dois” – diz Paulo Rezzutti, “biógrafo de
D. Pedro e Leopoldina” – “dois jovens totalmente tímidos, sabe, um olhando para o pé
um do outro... e aí dá uma olhadinha, assim, de rabo de olho, para ver, né, como que é
a pessoa, que tal... Isso logo quando eles se encontram no navio que trouxe ela.” 4
Somos ensinados, então, que Leopoldina vinha de uma linhagem de mulheres
altamente preparadas para a vida política e para o exercício do poder. Dispunha,
portanto, de plena capacidade para perceber os rumos que os acontecimentos mais
significativos de uma determinada época estavam tomando. Tal formação seria
fundamental para os eventos que estavam prestes a acontecer, os quais colocariam seu
nome na história brasileira, mas também despertariam, cerca de dois séculos depois,
memórias significativas num contexto de particular importância para as formas de usos
do passado no Brasil.
Em meados de 1822, Pedro seguiu em viagem para Minas Gerais com o intuito
de angariar apoio político contra as ordens que vinham das Cortes em Lisboa, as quais
procuravam impor obstáculos ao rumo natural dos fatos que estavam se desenhando
naquele momento. Segundo Rafael Nogueira, apresentado como “professor de história
e pesquisador”, seguidor fiel de Olavo de Carvalho e atual presidente da Biblioteca
Nacional, “ele foi até lá, conquistou o povo porque ele fazia de tudo: discursava nas

3 BRASIL PARALELO. “Independência ou morte”, Paulo Rezzutti, 00:07:35. Em todos os trechos citados,
busquei manter na transcrição o tom de oralidade com que foram enunciados no vídeo.
4 BRASIL PARALELO. “Independência ou morte”, Paulo Rezzutti, 00:08:05.

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sociedades secretas, bebia com o povão, visitava as mulheres, pegava as mulheres dos
nobres... [neste momento, a cena corta para uma imagem da imperatriz Eugénie de
Montijo, esposa de Napoleão III, cercada por suas damas de honra na pintura feita por
Franz Winterhalter, em 1855] enfim, ele corrompia a estrutura portuguesa que já havia
e colocava todo mundo do lado dele. Um grande sucesso, ele foi aclamado, jogado para
cima. Era um molecão, né! Imagina, 24 anos, tu é o príncipe andando por lá, o cara fazia
de tudo”.5
Alguns dias depois, o “molecão” se deslocou rumo a São Paulo com o mesmo
intuito que havia realizado na província mineira e, sobretudo, buscando apaziguar os
ânimos que estavam bastante exaltados por conta das investidas do “irmão de José
Bonifácio” contra as elites locais. O Andrada, no entendimento de Nogueira, era
“carrasco nas contas públicas, ele pegou alguns desvios de verbas públicas. E ele
denunciou e mandou os caras serem perseguidos”.6 Pedro, então, resolveu se fazer
presente em terras paulistas para acalmar as coisas. Antes disso, porém, nomeou sua
esposa, Leopoldina, como regente. “Era a primeira vez na história que uma mulher
comandava o país”, nos conta a voz in off que conduz a narrativa. “É uma coisa que vale
a pena a gente relembrar, porque também está meio no baú das coisas esquecidas”,
complementa Gastão Reis.7
Ocorre que ainda em agosto chegaram ao Brasil as novas reivindicações das
Cortes portuguesas, deixando a ex-colônia bem como seu príncipe regente numa
humilhante posição de subalternidade, colocando em risco o processo emancipatório
então em curso. É neste momento que a astúcia política de Leopoldina se manifestou
de maneira decisiva, no sentido de reorganizar a história e encaminhar o país para o
destino que naturalmente lhe pertencia. Ela convocou e presidiu uma sessão do
Conselho de Estado onde tomou-se a decisão, fomentada pela própria princesa regente
e com a importante concordância de José Bonifácio, de aconselhar Pedro pela separação
do Brasil de Portugal.
“Uma mulher muito sagaz e ela via que o melhor para este contexto era, de fato,
a Independência para o Brasil. Ela já estava casada com esse intento há muito tempo,

5 BRASIL PARALELO. “Independência ou morte”, Rafael Nogueira, 00:27:45.


6 BRASIL PARALELO. “Independência ou morte”, Rafael Nogueira, 00:29:15.
7 BRASIL PARALELO. “Independência ou morte”, Gastão Reis, 00:28:35.

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ao passo que Pedro I talvez não. Ele ainda estava dosando ainda algumas decisões”,
afirma Luiz Philippe de Orleans e Bragança, apresentado como “cientista político e
membro da família real”, que ocupa hoje uma vaga na Câmara dos Deputados e chegou
a ser cogitado para ser candidato a vice-presidente na chapa de Jair Bolsonaro.8 “Quem
assinou a ata da reunião do Conselho de Estado onde se decidiu a Independência foi
dona Leopoldina. E dom Pedro apenas ratificou o ato de sua esposa,” assegurou Dom
Bertrand, tio de Luiz Philippe e “descendente da família real”, um dos principais
expoentes do movimento monarquista brasileiro, também muito ativo nas festividades
promovidas pela Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade. 9
José Bonifácio, por sua vez, estava em consonância com a posição da regente e
resolveram ambos expor para Pedro a decisão ali tomada, enviando cartas assim que
foram encerrados os trabalhos do Conselho. É neste momento que a “emblemática
carta de José Bonifácio” aparece na narrativa, marcando sem dúvida o ápice emotivo da
produção, conforme é possível perceber pelos comentários publicados sobre o vídeo. 10
Lido por uma voz que inspira experiência e serenidade, cujo dono é o professor deRose,
desenvolvedor de um método de formação caracterizado pela “urdidura de técnicas e
conceitos” usados como “instrumento de upgrade pessoal”,11 o texto da carta é
acompanhado por desenhos em branco e preto que representam os principais
envolvidos no fato (Pedro, Leopoldina, Bonifácio), intercalados por imagens da
simbologia imperial fomentada pela empresa (brasões, esfera armilar, coroas), de
correntes rompendo-se, cataratas de sangue, o Pão de Açúcar e igrejas barrocas. Ao
fundo, uma música de caráter épico envolve a leitura, dando um ar de solenidade e
reforçando a carga dramática criado no episódio.
Assim que a leitura termina, somos guiados pelo registro aéreo do monumento
realizado por Ettore Ximenes localizado no Parque do Ipiranga, no exato momento em
que o narrador in off profere as conhecidas divisas “Independência ou morte!”.

8 BRASIL PARALELO. “Independência ou morte”, Luiz Philippe O. Bragança, 00:30:57.


9 BRASIL PARALELO. “Independência ou morte”, Dom Bertrand, 00:32:00.
10 Convém ressaltar que, como um dos próprios entrevistados afirma em obra que serviu de referência

para a produção, nenhuma das cartas foi jamais encontrada, restando apenas o relato feito por
testemunhos da época. REZZUTTI, Paulo. Dona Leopoldina: a história não contada: mulher que
arquitetou a Independência do Brasil. Rio de Janeiro: Leya, 2017 (edição digital).
11 Segundo informações constantes no site DeRose Method: [Link] (acesso

em 14/06/2021).

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O fato está consumado: graças à sagacidade da princesa e o aval de Bonifácio, a


Independência foi proclamada e o espectador da Brasil Paralelo já pode se sentir à
vontade para liberar em lágrimas o fervor patriótico que estava há muito contido em
seu peito. Como avisa um dos seguidores da empresa, “se você for brasileiro de verdade,
prepare o lenço pois vai se emocionar! Nenhuma independência é tão linda como a
nossa”. O comentário foi postado no raiar do dia 28 de abril de 2018, pelo usuário SIPEA
– Pesquisa Paranormal Brasileira, um canal com cerca de 7.500 inscritos que se define
como um “sistema de pesquisa sobre evidências anômalas”, cujo principal objetivo é
retratar “relatos paranormais, casuística ufológica além de desmontar mentiras, falácias
e montagens da web”.12 E assim como este caçador de ovnis fã da Brasil Paralelo, vários
outros “brasileiros de verdade” manifestaram em comentários aos vídeos os
sentimentos despertados pela narrativa épica contada pela produtora e seus
convidados.
Araori Coelho,13 por exemplo, considera este “um dos documentários mais
comoventes” que já viu. Ricardo Gomes afirmou ser o “capítulo mais lindo de nossa
história” e William Feitosa postou que estava “chorandooooo”, seguido por emojis com
rostos em pranto. Comoção, beleza, lágrimas, estes são termos ou sensações
constantemente expressados pelos variados públicos da Brasil Paralelo, cuja narrativa
indica algumas formas de recepção da história e de mobilização da memória nacional
em torno da Independência na contemporaneidade. Deise Cristina Santos Gonçalves
conseguiu sintetizar bem isso, ao publicar o seguinte comentário: “Parabéns por
resgatar nossa verdadeira história, me comovi muito. Nossa história é linda, agora
entendo a minha simpatia involuntária pela monarquia. Obrigada”, inserindo ao final da
sua postagem um emoji com a imagem de uma coroa.14
Neste texto, busco oferecer alguns elementos interpretativos a respeito das
produções sobre a história do Brasil realizadas pela empresa Brasil Paralelo,
particularmente aquela voltada para o tema da Independência, assim como analisar
algumas das modalidades de reação e recepção deste conteúdo manifestadas pelos seus

12 Cf. [Link] (acesso em


02/06/2021).
13 Os nomes que seguem são aqueles usados pelos usuários do Youtube que postaram comentários no

referido vídeo, e seguem referenciados pela data em que publicaram suas opiniões.
14 Os três comentários foram postados em 21/12/2017.

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variados públicos a partir de postagens na caixa de comentários do canal da empresa no


Youtube.15 Situo minha perspectiva no âmbito dos estudos sobre as diferentes culturas
de passado que operam em nossa sociedade, entendidas aqui como as formas pelas
quais os variados passados são simbolizados, ritualizados, cultuados e cultivados em
determinados contextos.16
De acordo com a referida perspectiva, dois postulados analíticos merecem ser
mencionados. Em primeiro lugar, considero que não há passado que não seja objeto de
uma determinada forma de uso. Seja para fins políticos de construções identitárias, seja
para fins comerciais (como no caso do turismo histórico e das modas retrôs), seja ainda
para fins científicos de produção de conhecimento, trata-se sempre de formas variadas
de uso do passado ou modalidades específicas de “relação com o passado”. 17 E isso tem
menos a ver com uma compreensão utilitarista das formas de experiência do tempo do
que com um modo de entendimento que considera o viés performático de nossas
relações com os diferentes passados, ou seja, que busca perceber as práticas culturais
que configuram tais relações.
Nesse sentido, a ideia de passado que interessa nesta análise reside em sua
dimensão performativa, como o produto ou o resultado de uma determinada ação (ou
de um determinado uso), a qual incide tanto no campo da produção de discursos sobre
experiências pregressas, quanto na recepção destes discursos.18 Disso resulta o segundo
postulado analítico aqui assumido: a reflexão atual sobre a história e seu lugar social
não pode prescindir de uma atenção sistemática e aprofundada aos públicos aos quais
os discursos históricos são destinados, ou seja, às formas próprias de recepção destes
discursos.

15 Trata-se de um tipo de material cuja especificidade impõe alguns cuidados metodológicos que não
poderão ser aqui discutidos em função dos limites do texto. Ver, por exemplo, LAITANO, Bruno
Grigoletti. Postando o passado: a difusão da memória da ditadura civil-militar brasileira na internet
através do canal do Youtube da Comissão Nacional da Verdade. Dissertação de Mestrado em História.
Porto Alegre: UFRGS, 2018.
16 Busquei desenvolver melhor a categoria de culturas de passado no ensaio “Culturas de passado e

eurocentrismo: o Périplo de Tláloc”, publicado em AVILA, Arthur Lima de; NICOLAZZI, Fernando; TURIN,
Rodrigo (orgs.). A história (in)disciplinada. Teoria, ensino e difusão de conhecimento histórico. Vitória:
Editora Milfontes, 2019, p. 211-244.
17 PAUL, Herman. “Relations to the past: a research agenda for historical theorists”. In: Rethinking

History: The Journal of Theory and Practice, June 2014.


18 TILMANS, Karin et al. (eds). Performing the past. Memory, history, and identity in Modern Europe.

Amsterdam: Amsterdam University Press, 2010.

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Em um contexto em que múltiplas modalidades de popularização da história


encontram espaço na esfera pública, algumas complementares entre si, outras
antagônicas, atentar a como os discursos históricos se inserem como partes
constitutivas de determinadas culturas de passado significa considerar a prática
historiográfica a partir das demandas e expectativas sociais que são projetadas a ela.
Por que em determinadas situações as pessoas buscam a história e o que buscam nela?
Eis dois questionamentos que orientam as considerações que se seguem e guardam
relevância no contexto de comemorações do bicentenário da Independência.

II.
A empresa Brasil Paralelo e seus materiais já são bem conhecidos em nosso
cenário político. Produtora voltada para o mercado de consumo de conteúdos culturais,
notadamente nos campos da política e da educação, iniciou seus trabalhos em 2016,
com um congresso que reuniu importantes frações da extrema-direita e do pensamento
conservador nacional, e ganhou impulso a partir da intensificação de ações extremistas
e fundamentalistas que levaram à presidência o ex-capitão do exército, Jair Bolsonaro.
A série Brasil: a última cruzada foi lançada em setembro de 2017, poucos dias depois
das comemorações do dia 7, e o episódio sobre a Independência foi disponibilizado em
dezembro daquele ano.
As produções da empresa ganharam tamanha ressonância nos círculos
autoritários do país que o filho do presidente, Eduardo Bolsonaro, em seu intento de
ocupar um posto de embaixador nos Estados Unidos, afirmou publicamente que se
preparava para a sabatina a que seria submetido no Senado estudando os conteúdos
oferecidos pela empresa. O episódio sobre a Independência, que já passa de 1 milhão
de visualizações no Youtube, foi especificamente mencionado pelo deputado como
material que fazia parte de seus estudos. Considerando a capacidade de engajamento
social que grupos ligados ao governo Bolsonaro possuem, com forte atuação em redes
e plataformas digitais, a proposta de conteúdos oferecida pela empresa dispunha assim
de um vasto mercado para sua circulação. 19

19Sobre as estratégias mercadológicas da empresa, ver também PAULO, Diego Martins Dória. “Os mitos
da Brasil Paralelo – uma face da extrema-direita brasileira (2016-2020)”. In: Rebela. Revista Brasileira de
Estudos Latino-Americanos, vol. 10, n. 1, 2020.

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O sucesso comercial da produtora, no entanto, precisa ser inserido num contexto


mais amplo em que um gosto popular pelo passado nacional ganhou relevância no
espaço público brasileiro. Talvez um marco cronológico significativo para isso possa ser
situado nas celebrações dos 500 anos, ocorridas no ano de 2000 e com ampla
repercussão midiática. Embora não possua dados para subsidiar quantitativamente esta
hipótese, o fato é que o fenômeno comemorativo contemporâneo faz parte de um
processo em que a história do Brasil, sob variadas formas, ocupa um lugar importante
na esfera pública.
A atuação do jornalista Eduardo Bueno, neste caso, pode ser mencionada como
um indício importante. Com livros publicados desde o momento em que as
comemorações ganharam ressonância, no final da década de 1990, os quais formaram
a coleção best-seller intitulada Terra brasilis, Bueno se tornou um autor de história
conhecido e reconhecido nacionalmente, a ponto de ser contratado por um banco para
escrever a história de São Paulo, por ocasião do aniversário de 450 da cidade, e estrear
uma série televisiva no programa Fantástico, da Rede Globo.20 Naquele mesmo
contexto, cabe ressaltar ainda o surgimento de revistas de ampla circulação e fácil
acesso, vendidas em bancas de jornal, como a História Viva e a Revista de História da
Biblioteca Nacional, que começaram a circular respectivamente em 2003 e 2005.21
Esse gosto popular pela história certamente foi favorecido pelas novas formas
de difusão de conteúdos históricos possibilitadas pelo advento da Web 2.0 e do uso
massivo das redes sociais, sobretudo na segunda década do século XXI. A realidade
digital permitiu, entre outras coisas, um engajamento muito maior entre os públicos da
história e os produtores e divulgadores de tais conteúdos, não necessariamente
historiadores profissionais. Não há dúvidas de que o surgimento e o rápido crescimento
das atividades da Brasil Paralelo devem ser igualmente inseridos neste processo. Mas

20 “Nossa Caixa reconta a fundação de São Paulo”, O Estado de São Paulo, 29/08/2003. Sobre a série É
muita história, exibida entre setembro e novembro de 2007, ver
[Link]
historia/ (acesso em 15/06/2021). Uma análise sobre as produções de história realizadas pelo jornalista
pode ser encontrada em BONALDO, Rodrigo Bragio. Presentismo e presentificação do passado: a
narrativa jornalística da história na coleção Terra Brasilis de Eduardo Bueno. Dissertação de Metrado em
História. Porto alegre: UFRGS, 2010.
21 Ver ainda, sobre um contexto posterior ao referido, OLIVEIRA, Rodrigo Perez. “Por que vendem tanto?

O consumo de historiografia comercial no Brasil em tempos de crise (2013-2019)”. In: Revista


Transversos, n. 18, 2020.

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isso pode também ser percebido a partir dos profundos deslocamentos da situação
política e social do país ocorridos na década de 2010.
A crise econômica de 2008, cujos efeitos mais devastadores tardaram ainda
alguns anos para chegar ao Brasil, os acontecimentos que ficaram conhecidos como
Jornadas de Junho, em 2013, as grandes manifestações sociais de 2015, bem como a
consumação do golpe em 2016 ocasionaram um contexto de profunda crise social que
se manifestou nas formas como a temporalidade era experienciada. Se o futuro parecia
pouco promissor (a categoria sociológica do desalentado e seu aumento vertiginoso a
partir de 2015 ilustra isso22), o presente tampouco era um tempo que alimentava muita
confiança (pesquisa realizada pela FGV em 2017 sinalizou que apenas 31,2% dos
entrevistados concordavam com a afirmação: no Brasil há uma democracia 23). A crise
era também uma crise do tempo.
A revista britânica The Economist conseguiu sintetizar bem esse movimento de
colapso de perspectivas futuras e perda de confiança no presente em duas capas
lançadas respectivamente em novembro de 2009 e em setembro de 2013, que tiveram
ampla repercussão na mídia brasileira e nas redes sociais do país. Na primeira, o Cristo
Redentor decolava e o editorial afirmava que o risco para o Brasil e sua história de
grande sucesso da América Latina era apenas o excesso e a soberba (a hubris). Quatro
anos depois, contudo, o vôo prometido falhava e a revista então indagava: “o Brasil
estragou tudo?”, mencionando como a economia estagnada, o Estado inchado e as
manifestações de rua indicavam a profunda instabilidade do período. Assim, o crescente
descompasso entre as experiências de crescimento vivenciadas na primeira década do
século e as expectativas surgidas com as tensões políticas e a estagnação econômica da
década seguinte denotava a profundidade da crise.
Diante deste cenário, não seria forçoso considerar que, junto ao mencionado
gosto pela história, o interesse pelo passado nacional pode ser situado como espécie de
recurso terapêutico para tempos de incertezas. Afinal, se todo passado é sempre objeto

22 Em 2015, houve um aumento de mais de 100% no número dos desalentados (pessoas sem ocupação
que desistiram de buscar postos de trabalho) em comparação com 2012. PERUCHETTI, Paulo; RACHTER,
Laísa. “Quem são os desalentados no Brasil?”. [Link]
desalentados-no-brasil (acesso em 15/06/2021)
23 FGV/DAPP. O dilema do brasileiro. Entre a descrença no presente e a esperança no futuro. Rio de

Janeiro, 2017.

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de uma determinada ação, sua busca não poderia também ser motivada por um desejo
de encontrar saídas para a crise? Quando nem o futuro, nem o presente parecem
propiciar um lugar de estabilidade, restam os tempos passados e suas vastas
possibilidades de uso como expediente possível. O caráter exemplar de algumas
experiências pretéritas pode sempre ser mobilizado por e para públicos desejosos de
encontrar um porto seguro onde atracar sua embarcação quando navegam em mares
revoltosos. Como se sabe, demandas por volta da ditadura e volta da monarquia
ganharam ressonância no contexto da crise. A empresa Brasil Paralelo parece ter
captado bem essas demandas populares e passou a oferecer um produto ajustado a tais
públicos: um passado de glórias, acontecimentos realizados por indivíduos excepcionais,
uma história higienizada de conflitos e contradições, revisitando o Brasil Imperial e
revisando a história da ditadura. Uma mitologia nacional, enfim.
O que se ofereceu, portanto, foi uma mitologia nacional, não encarada aqui
como mero recurso metafórico. Creio ser possível pensar a atuação da empresa e suas
formas de usos do passado a partir daquilo que o historiador francês Raoul Girardet
chamou de “mitologias políticas”.24 Convém ressaltar que, neste caso, falar em mito ou
em mitologia não significa aceder simplesmente ao campo do irracional ou do
puramente instintivo.25 Nas palavras do historiador conservador francês, o mito é “um
sistema de crença coerente e completo. Ele já não invoca, nessas condições, nenhuma
outra legitimidade que não a de sua simples afirmação, nenhuma outra lógica que não
a de seu livre desenvolvimento”.26
Trata-se de uma forma de imaginário político ou de estrutura imaginária que é
povoada por determinadas figuras, ou seja, prefigurada por elas, e que, na forma como
são dispostas e apresentadas, produzem um efeito de adesão controlada por parte dos
públicos aos quais tal estrutura é voltada. A forma como são organizadas e combinadas
tais figuras constituem o que o autor define como “constelações mitológicas”. Quatro

24 GIRARDET, Raoul. Mitos e mitologias políticas. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. Agradeço à
Kátia Baggio por ter me indicado a leitura da obra.
25 Neste caso, minha abordagem, embora dialogue diretamente com ela, mantém algumas reservas em

relação àquela oferecida por Diego Martins Dória Paulo em PAULO, Diego Martins Dória. “Os mitos da
Brasil Paralelo – uma face da extrema-direita brasileira (2016-2020)”, op. cit. Uma versão mais curta do
texto foi publicada no Le Monde Diplomatique Brasil, em 18/05/2020.
26 GIRARDET, Raoul. Mitos e mitologias políticas, op. cit., p. 11-12.

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grandes imagens se destacam, as quais permitem situar as linhas gerais que movem o
empreendimento da Brasil Paralelo. 27
Em primeiro lugar, a imagem da conspiração, ou seja, a ideia de que existe
subjacente aos fatos um grande complô previamente arquitetado por determinados
atores sociais, contra o qual uma ação política necessita ser realizada. No caso, a
conspiração envolve uma suposta hegemonia do marxismo cultural percebida tanto na
grande imprensa como nas instituições formais de ensino, particularmente as
universidades públicas. Tal hegemonia estaria vinculada ainda a um plano de dominação
esquerdista na América Latina capitaneada pelo Foro de São Paulo. A origem desse
discurso conspiratório encontra-se sobretudo nas obras e na atuação digital de Olavo
de Carvalho, cujo fundamentalismo ideológico é plenamente incorporado pela Brasil
Paralelo.28
O recurso à conspiração como forma de explicar os processos sociais se baseia
na ideia de que ela oferece uma organização lógica para os fatos no tempo, permitindo
dotar tais processos de sentido por meio de uma rede mecânica de causalidade: o
presente pode ser explicado por meio de uma concatenação de fatos organizados no
processo conspiratório, ou seja, chegamos hoje no ponto em que estamos por causa da
dominação marxista na cultura ocorrida após a ditadura e no contexto pós-Guerra Fria.
Além disso, a conspiração permite reconhecer culpados e materializar um inimigo que
serve de foco e de alvo da ação política. Em outras palavras, a conspiração aglutina
forças em um combate que assume as vezes de uma nova cruzada contra infiéis (no
caso, o comunismo e suas sempre imprecisas variantes).
A segunda imagem constitutiva das mitologias políticas sugerida por Girardet é
a do salvador. No contexto brasileiro, com a ascensão de Bolsonaro como uma força
política que se potencializa a partir da ideia de “Mito”, essa imagem parece ser auto-
explicativa. Mas no caso da narrativa da Brasil Paralelo, embora possa ser devidamente
inserida no campo mais vasto dos discursos que sustentam a base ideológica do
bolsonarismo, a figura do salvador é mais difusa, podendo ser encontrada em

27 Girardet fundamenta suas análises a partir do estudo da história europeia, particularmente a francesa
do século XIX. Em função do espaço, não mencionarei os casos e situações estudados por ele,
restringindo-me aqui à apropriação conceitual de sua obra e adaptando-a ao objeto aqui analisado.
28 ROCHA, João Cezar de Castro. Guerra cultural e retórica do ódio. Crônicas de um Brasil pós-político.

Goiânia: Caminhos, 2021.

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personagens históricos específicos, que ganham relevância no seu relato histórico


(Leopoldina, Bonifácio, Pedro), mas sobretudo em uma forma mais abstrata, como a
defesa de um monarquismo cristão e patriótico.
O elogio do Império, encarado como momento de estabilidade política e ordem
social garantida pela existência do Poder Moderador, caracteriza um dos traços
distintivos da narrativa oferecida pela empresa, a saber, uma “nostalgia imperial”. 29
Neste caso, trata-se de uma forma nostálgica, encarada como uma “emoção histórica”,
que traz os traços fortes daquilo que Svetlana Boym chamou de “nostalgia restaurativa”,
ou seja, um desejo de retorno a ou mesmo de restauração de um lar perdido (o nostos
que forma a etimologia do termo), algo característico de movimentos nacionalistas e de
extrema-direita contemporâneos.30
Assim, a ideia de uma Idade de Ouro capaz de ser reatualizada e que serve de
projeção a partir de uma idealização do passado é a terceira imagem da constelação
mitológica que conforma a compreensão de história da Brasil Paralelo, vinculando-se
diretamente à nostalgia salvacionista anteriormente apresentada. Trata-se de uma
forma de figuração apaziguadora do passado, que emerge como fonte de virtudes e
exemplos por meio dos quais o presente pode e deve ser refundado com vistas à
construção de um novo futuro. Leopoldina é percebida tendo a presidente Dilma
Rousseff como imagem especular; os irmãos Bonifácio são representados como
intransigentes com a corrupção; o poder moderador aparece como garantia de ordem
e estabilidade num momento de crise; mesmo a Constituição de 1824 é encarada como
superior à carta de 1988.
Não há como deixar de pensar aqui em uma forma particular de retomada do
modelo magistral de história, neste caso em um contexto digital ou de uma espécie de

29 Ricardo Salles, em seu ensaio clássico elaborado na virada dos anos 1980 para 90, intitulado
justamente Nostalgia imperial, já prognosticava a possibilidade de uma reatualização do século XIX em
plena República Nova: “Talvez não esteja longe o dia em que o isolamento e a estabilidade institucional
do Império escravista despertem nostalgia e, mais importante, ação política e social excludente dos
setores beneficiários de nossa modernidade”. SALLES, Ricardo. Nostalgia imperial. Escravidão e
formação da identidade nacional no Brasil do Segundo Reinado. 2a. Edição. Rio de Janeiro: Ponteio,
2013, p. 163.
30 BOYM, Svetlana. The future of nostalgia. Nova York: Basic Books, 2001. Sobre o tema da nostalgia e

sua relação com os usos da Independência e da escrita da história, ver ainda FREIXO, André. “Passados
privados, ou privados do passado? Nostalgia, in-diferença e as comemorações do Sete de Setembro
brasileiro”. In: Revista Nupem, vol. 11, n. 23, 2019, e FELIPPE, Eduardo Ferraz. “Renovar votos com o
futuro: nostalgia e escrita da história”. In: História da Historiografia, n. 25, 2017.

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historia magistra vitae 2.0, articulando um uso político do passado como guia e
ensinamento com a mobilização afetiva do discurso patriótico, tudo potencializado pela
movimentação algorítmica das redes sociais.31 Dessa maneira, a mitologia nacionalista
fomentada pela empresa se torna elemento central no que se poderia aqui chamar,
apropriando-me livremente da expressão oferecida por Sara Ahmed, de uma “política
cultural das emoções” que, como veremos na seção seguinte, encontra ampla
ressonância na forma com estes conteúdos são recebidos pelos públicos. 32
Finalmente, a quarta e última imagem que faz parte da constelação mitológica
abordada por Girardet e mobilizada pela Brasil Paralelo é a figura da unidade. Em uma
conjunção entre o espaço privado e a esfera pública, a noção de família e de pátria,
pensadas em uma justaposição de sentidos (se a pátria é a família do povo, a família é o
núcleo fundante da pátria), ocupam lugar como eixo unificador de uma determinada
compreensão moral e moralizante da história. Tanto uma quanto a outra são elementos
indivisíveis que organizam a luta política: elas são a razão de ser da cruzada.
Obviamente, trata-se da compreensão de um modelo familiar fundamentado no
moralismo cristão e de pátria como essa categoria abstrata que manifesta a vontade
sincera e essencializada de um povo abstrato. Dessa maneira, tudo aquilo que
questiona, desestabiliza ou coloca em risco essa unidade, tudo aquilo que corrompe a
família e se contrapõe àquela vontade, encarada de forma unificada e homogênea,
precisa ser combatido e, em último caso, eliminado. A figura da unidade, portanto, é
aquilo que estabelece os critérios de diferença que definem o outro a ser combatido.
Toda cruzada, afinal de contas, prefigura um inimigo.
Essas quatro imagens conformam o imaginário político da Brasil Paralelo. Trata-
se de uma constelação mitológica que, embora apele decisivamente para o âmbito das
emoções e dos afetos, não se esgota em uma forma de mito pensada a partir da ideia

31 Sobre o topos da história mestra da vida, a referência ainda é KOSELLECK, Reinhart. “Historia Magistra
Vitae – sobre a dissolução do topos na história moderna em movimento”. In: Futuro passado.
Contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto; Editora PUC/RJ, 2006. A
retomada do discurso nacionalista pela chave de uma política das emoções é abordada, entre outros,
por ASSMANN, Aleida. “Re-imagining the Nation: memory, identity and the emotions”. In: European
Review, vol. 29, n. 1, 2020.
32 AHMED, Sara. The cultural politics of emotion. 2nd. Edition. Nova York: Routledge, 2015.

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de “irracionalidade como motor da ação política”. 33 Há, com efeito, uma dimensão
lógica e racional no projeto, um uso calculado das emoções e uma forma planejada de
mobilização dos afetos que, a julgar pela repercussão alcançada pela empresa, pode ser
considerada como politicamente eficaz.
Nesse sentido, a contraposição entre razão e mito (como manifestação
puramente instintiva ou emotiva) pode esconder elementos importantes na forma de
atuação da empresa, particularmente em como tais produtos são recebidos e
apropriados pelos seus variados públicos. 34 Uma atenção às respostas dadas ao
conteúdo oferecido sobre a Independência revela como funciona a lógica de
engajamento social assumida pela Brasil Paralelo.

III.
O episódio Independência ou morte possui atualmente (junho de 2021) cerca de
4.100 reações postadas na caixa de comentários do vídeo. Ainda que este tipo de
material demande cuidados redobrados em seu uso como fonte (existência de bots,
engajamentos artificiais, filtros utilizados pela empresa para selecionar o que é postado
etc.), ele pode ser utilizado como indício plausível para se pensar os efeitos provocados
e as respostas dadas à história narrada. Se talvez a simples quantificação das respostas
não seja a melhor estratégia, uma análise qualitativa dos comentários pode indicar
certas constâncias de reação dos públicos. 35
Antes de abordá-los, no entanto, convém esboçar rapidamente alguns dos
elementos que definem as formas de engajamento mobilizadas pela Brasil Paralelo. Em
outras palavras, atentar para as modalidades de relação com os públicos estabelecidas
pela produtora, seja por meio de seu modus operandi empresarial, seja por meio dos
conteúdos por ela oferecidos. Nesse sentido, trata-se de uma via de mão dupla a partir

33 PAULO, Diego Martins Dória. “Os mitos da Brasil Paralelo – uma face da extrema-direita brasileira
(2016-2020)”, op. cit., p. 102.
34 Uma coletânea que coloca em perspectiva a dimensão dos afetos nas relações políticas encontra-se

em DEMERTZIS, Nicolas (ed.). Emotions in politics. The affect dimension in political tension. Nova York:
Palgrave Macmillan, 2013.
35 Para uma análise precursora sobre os públicos da história e sobre uma cultura de história em torno da

do tema da Independência, a referência fundamental é o estudo realizado por João Paulo Garrido
Pimenta e sua equipe da Universidade de São Paulo: PIMENTA, João Paulo et al. “A Independência e
uma cultura de história no Brasil”. In: Almanack, n. 8, 2014.

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da qual a Brasil Paralelo tanto oferece um produto que atende a determinadas


expectativas alimentadas por sua clientela, quanto produz outras expectativas a partir
das produções realizadas, num jogo de retroalimentação em que a noção de público
equivale ao mesmo tempo ao sujeito de uma demanda existente e ao objeto produzido
por novas demandas criadas. 36
É possível, então, reconhecer pelo menos cinco formas de adesão com os
públicos estabelecidas pela empresa. Em primeiro lugar, uma adesão comercial por
meio da compra ou assinatura dos produtos disponibilizados. Essa relação, que
atravessa também a defesa da ideologia empreendedorística, como notado por Diego
Martins Dória Paulo,37 é encarada menos como mero consumo cultural do que como
participação efetiva em um projeto político: o público faz parte da mesma história,
combate pelos mesmos valores, guerreia na mesma cruzada. Ao mesmo tempo em que
se trata de um investimento na formação pessoal, suprindo as carências provocadas
pela educação deturpada das escolas, a aquisição dos produtos equivale a uma
contribuição à luta. Produtora e público estabelecem, assim, uma relação de simbiose
moral.
Nesse sentido, uma segunda forma de engajamento se dá pelo encontro de
expectativas de determinados grupos sociais, que assumem o processo histórico a partir
de uma narrativa dicotômica e maniqueísta, estabelecendo os dois campos da disputa
política: o campo da virtude e o do vício, os bons de um lado, os maus de outro. A
polarização política é condição para esse tipo de engajamento. Complementar a isso, o
recurso constante a uma retórica dos vencidos funciona como terceiro modo de
engajamento. Trata-se de uma estratégia recorrente nos episódios da série: colocar-se
em uma posição de marginalizados, excluídos ou mesmo de derrotados nos confrontos
das chamadas “guerras culturais”, particularmente no processo de transição
democrática pós-ditadura, onde teria havido uma suposta hegemonia cultural

36 Por exemplo, ao longo do episódio e da série foram vários os comentários que destacaram a
qualidade da trilha sonora escolhida pela empresa, bem como a pertinência do conteúdo em relação ao
que é ensinado nas escolas e universidades. Como consequência disso, a empresa lançou em seguida
duas outras séries voltadas uma para a história da educação no Brasil, em uma crítica ao suposto
predomínio do modelo de Paulo Freire no sistema educacional brasileiro, e outra para o papel social da
música contemporânea na suposta crise cultural por que o ocidente está passando.
37 PAULO, Diego Martins Dória. “Os mitos da Brasil Paralelo – uma face da extrema-direita brasileira

(2016-2020)”, op. cit.

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esquerdista no país.38 Por isso o produto é vendido como “uma história de sacrifício,
virtude e coragem” que durante muitos anos foi negada e, assim, o objetivo do projeto
é “reverter as mazelas feitas na nossa cultura nos últimos anos”. 39
Ainda segundo o relato, “ideologias perversas contaminaram o imaginário
popular, causando danos incalculáveis em jovens, que hoje estão perdidos e sem norte
[...] Estamos distribuindo o antídoto em cada canto do país”. 40 O que se oferece,
portanto, é uma narrativa da história pensada sob a ótica daqueles que teriam sido
vencidos, mas que guardariam uma indiscutível legitimidade moral capaz de
fundamentar as lutas políticas contemporâneas a partir de uma suposta re-escrita da
história.41 Daí resulta uma quarta forma de adesão com o público: a história como
recurso terapêutico. Como já sugerido anteriormente, a empresa oferece um produto
adequado para tempos de incertezas, uma história que legitima e dá espessura temporal
para as crenças compartilhadas pelos públicos, propiciando uma espécie de conforto
moral a partir de um uso higienizado e edificante do passado.
Finalmente, uma quinta forma de adesão se dá por meio de uma narrativa
sintética, englobante, que tenta abarcar a totalidade do processo histórico brasileiro no
sentido de revelar os traços fortes de uma formação. A ideia de formação do Brasil,
enquanto pátria, e dos brasileiros, como patriotas, confere legibilidade para a
representação do passado nacional, inserindo-o de forma marcadamente eurocêntrica
no conjunto mais amplo das “sociedades judaico-cristãs ocidentais”, cujo fundamento
reside em três eixos bem delimitados na série: a filosofia grega, o direito romano, a
moral cristã.
Esses cinco elementos aqui brevemente esboçados estabelecem formas variadas
de vínculo entre a produtora, os produtos por ela vendidos e os públicos cuja atenção
ela consegue captar. Quando percebidos em relação à estrutura imaginária mobilizada

38 João Cezar de Castro Rocha lançou uma hipótese a respeito do funcionamento das guerras culturais
no bolsonarismo, mencionando a atuação da Brasil Paralelo na engrenagem dessa máquina de guerra.
ROCHA, João Cezar de Castro. Guerra cultural e retórica do ódio. Crônicas de um Brasil pós-político, op.
cit.
39 BRASIL PARALELO. “A cruz e a espada”, 00:00:09.
40 BRASIL PARALELO. “A Vila Rica”, 00:00:10.
41 Reinhart Koselleck escreveu sobre a relação entre experiência da derrota e re-escrita da história em

KOSELLECK, Reinhart. “Mudança de experiência e mudança de método. Um esboço histórico-


antropológico”. In: Estratos do tempo. Estudos sobre história. Rio de Janeiro: Contraponto; Editora
PUC/RJ, 2000.

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em sua mitologia política, é possível compreender melhor algumas das características


que emergem nas respostas dos seguidores da empresa. Dados os limites deste texto,
gostaria de mencionar apenas dois caminhos para esta reflexão: o primeiro segue pela
forma de mobilização dos afetos como elemento central da retórica narrativa da série;
o segundo diz respeito à compreensão nostálgica da história oferecida, a qual pressupõe
não apenas uma forma de apreensão da experiência de formação do Brasil, mas
também uma missão de restauração, resgate ou mesmo de regeneração cultural da
pátria a partir de um uso político do passado.
Uma das características que logo de cara chama a atenção da forma como o
conteúdo do vídeo é recebido pelos variados públicos é a carga de emotividade que ele
desperta. Lindo, espetacular, emocionante, beleza, prazer, comoção, lágrimas, choro
são termos e expressões recorrentes nos comentários, os quais são mobilizados por
algumas estratégias básicas: um relato centrado na figura de indivíduos que são
heroicizados pela narrativa (Leopoldina, Bonifácio, Pedro); o destaque ao fervor
patriótico da locução in off que conduz toda a narrativa por meio de um jogo de
imagens, sons e textos (como na leitura da carta de Bonifácio a Pedro); o uso de uma
trilha sonora que confere ao relato um toque de dramaticidade e um caráter épico,
composta desde a abertura por um hino cristão medieval (Da pacem domine) até o final
do vídeo, com a Sonata ao Luar, de Beethoven. 42
Essa dimensão da emotividade ou essa mobilização dos afetos encontra eco em
uma das principais respostas do público à mitologia política oferecida pela empresa, ou
seja, a ideia de restauração, que assume feições complementares: restauração da
monarquia, da pátria, da cultura, dos valores, da dignidade do povo, do orgulho, do
amor pela terra, da identidade nacional (todos esse são termos utilizados nos
comentários ao vídeo).43 Importa ressaltar ainda que na mesma rede semântica em que

42 Esse recurso de captação da audiência foi igualmente notado por Rodrigo Turin. TURIN, Rodrigo. “Os
tempos da Independência: entre a história disciplinar e a história como serviço”. In: Almanack, n. 25,
2020.
43 Um caminho que talvez poderia ser trilhado é o que coloca em perspectiva essa ideia contemporânea

de restauração com aquela que foi mobilizada no próprio contexto da Independência pelos atores
sociais da época, tal como estudado, entre outros, por Lúcia Maria Bastos Neves e Valdei Lopes de
Araujo. NEVES, Lúcia Maria Bastos. “Revolução: em busca do conceito no império luso-brasileiro (1789-
1822)”. In: FERES JR., João; JASMIN, Marcelo (orgs.). História dos conceitos: diálogos transatlânticos. Rio
de Janeiro: Editora da PUC/RJ; Loyola; IUPERJ, 2007, p. 129-140. ARAUJO, Valdei Lopes de. A experiência
do tempo. Conceitos e narrativas na formação nacional brasileira (1813-1845). São Paulo: Hucitec, 2008.

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a ação restaurativa ganha espaço, a ideia de resgate é igualmente instrumentalizada,


mas com uma significativa particularidade: se a restauração assume variadas dimensões
e objetos a serem restaurados, o resgate é predominantemente o da história, da
verdade ou, na conjunção de ambos, da “nossa história verdadeira”. Uma história que,
na constelação mitológica da empresa e no imaginário criado pelos públicos, havia sido
ocultada, escondida, negada e, inclusive, roubada por parte dos professores nas escolas,
dos historiadores nas universidades e dos jornalistas na grande mídia.
Restauração da pátria e resgate da história são, portanto, ações concomitantes
e complementares na cruzada fomentada pela empresa e assumidas por sua clientela,
o que mostra a efetividade da estrutura imaginária anteriormente salientada: vemos ali
uma conspiração articulada por inimigos da pátria, a qual é respondida por um anseio
salvacionista organizado em termos de uma unidade e voltado, sobretudo, para a
restauração de uma idade perdida e para o resgate de uma história negada. O fundo
moral dessa perspectiva acaba por assumir um viés afetivo que, além do evidente amor
pela pátria que é instigado e compartilhado, mobiliza também outras emoções
importantes.
Uma delas é o ódio que, no caso, tem um objeto privilegiado: os professores. São
eles os principais responsáveis pelo ocultamento ou mesmo pelo roubo da história. O
usuário Arthur Bernardo extravasou isso ao publicar o seguinte comentário: “sinto ódio
de todos os meus professores, por terem me negado a verdade por tanto tempo”. 44 Ele
foi acompanhado por Nilson Figueiredo Alves Junior: “que raiva de meus professores de
história do brasil [sic], que tornaram insignificante nosso passado”. 45 E se Djalma Jr.
praguejou “malditos professores de meia pataca”,46 Joaquim Anselmo ameaçou tomar
medidas jurídicas: “minha vontade é processar todos meus professores de historia
[sic]”,47 enquanto o usuário Scooby Motos esbravejava sua “vontade de vomitar na cara
dos meus professores e dos professores dos meus filhos, por nos negarem a verdade”. 48
Obviamente, há comentários que destacam a importância dos professores e do
conteúdo disponibilizado pela empresa para ser usado nas escolas, mas o que cabe

44 Comentário postado em 22/12/2019.


45 Comentário postado em 29/02/2020.
46 Comentário postado em 05/12/2020.
47 Comentário postado em 27/10/2020.
48 Comentário postado em 28/12/2017.

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salientar é que os sentimentos negativos em relação aos docentes foram fomentados


pela própria estratégia mercadológica da empresa, cuja publicidade dizia que aquela era
uma série que iria “desbancar o seu professor de história” ou fazer você parar de
“acreditar nas mentiras do seu professor de história”.49 Os ecos disso ficam evidenciados
nas respostas do público: para Zeca Pereira, a série mostra “a história negada pelo
professor esquerdista que odeia a tradição e valores morais históricos”, 50 já para Rafael
Gasparotto, o episódio faz perceber que “uma história como a de nosso país é deturpada
e ironizada por professores preocupados apenas com doutrinação marxista”, 51 e Elizeu
Castro lamentou a quantidade de “tempo perdido nas salas de aula com professores de
esquerda”.52
Tudo isso levou outro usuário, Bruno Mendonça, a afirmar sobre a história
narrada pela Brasil Paralelo: “esse sim é um verdadeiro projeto de resgatar a história do
Brasil que foi negada durante muito tempo por professores analfabetos”. 53 Assim, essa
história negada que precisa ser resgatada é também uma história perdida, que exige ser
reencontrada. Yechezkel Brito chegou a lamentar a situação: “nossa... o Brasil perdeu
tanto ao romper com seu passado. Malditos Deodoro, Bocaiúva, Constant, e por aí
vai...”,54 e Amanda Martins salientou que “nós Brasileiros em meio a tanta decepção e
desespero perdemos o patriotismo quase por completo”.55 Esse sentimento de perda,
por sua vez, está diretamente vinculado à ideia de uma nostalgia restaurativa
fomentada pela empresa e anteriormente ressaltada. Disso resulta, então, um dos
traços que parecem distintivos deste tipo de conteúdo e da forma como ele é
apropriado pelos seus públicos: o ressentimento.
Maria Rita Kehl definiu o ressentimento como uma “constelação afetiva” que
nasce da experiência da perda, tornando o ressentido aquele que, sem saber como
resolver os dilemas dessa experiência, passa a atribuir sempre aos outros (professores,
jornalistas, esquerdistas, comunistas, militantes do Foro de São Paulo e toda a ampla

49 Propaganda divulgada no perfil do Instagram da empresa no ano de 2017.


50 Comentário postado em 23/12/2017.
51 Comentário postado em 24/12/2017.
52 Comentário postado em 13/01/2018.
53 Comentário postado em 23/01/2018.
54 Comentário postado em 28/12/2017.
55 Comentário postado em 03/01/2018.

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gama de inimigos construídos pela empresa) a responsabilidade pela situação em que


se encontra. Como se percebe, portanto, a figura da conspiração é fundamental para
estruturar o imaginário do ressentimento. Nas palavras da autora, “não se pode dizer
exatamente que o ressentido tenha perdido um objeto; o que ele perdeu foi um lugar.
A posição de vítima passiva de onde ele formula suas queixas sugere que o lugar perdido
não teria sido, a seu ver, um lugar conquistado, e sim um lugar que, de direito, deveria
ser seu”.56
Na mitologia política vendida pela Brasil Paralelo, o lugar que, tal como numa
cruzada, é preciso reconquistar, é o lar perdido que o sentimento nostálgico pretende
novamente habitar, um lar onde pátria e história passam a ser conceitos quase que
equivalentes: a restauração de uma e o resgate da outra são processos correlatos nesta
forma particular de uso político do passado. E o passado que surge deste processo,
nesse sentido, é um passado revelado, uma obra de revelação. Isso explica em grande
parte o tipo de relação dos públicos mantido com o conteúdo da empresa, que
manifesta antes de tudo uma relação de fé com a história finalmente revelada, até então
ocultada pelos professores, do que uma atitude de conhecimento, a qual pressupõe um
gesto crítico diante do objeto conhecido.
A Independência do Brasil vendida pela Brasil Paralelo é, portanto, o resultado
de uma revelação possibilitada pela bravura dos novos cruzados em sua guerra de
reconquista contra os infiéis. Revelação que ganha espessura temporal significativa, pois
se converte em uma “forma de transcender a nossa própria experiência e superar a
realidade que nos é imposta”.57 E esta superação só se torna efetivamente possível
quando um determinado passado, o passado do século XIX, mais do que algo a ser
superado ou esquecido, é configurado enquanto fonte de ensinamento e de virtudes a
serem reatualizadas. E se os construtores do Império conseguiram consolidar uma
sociedade predominantemente conservadora, por meio do que Ilmar Rohloff de Mattos
habilmente chamou de “recunhagem da moeda colonial”,58 não seria forçoso considerar
que o que se trata na proposta da Brasil Paralelo é de uma espécie de recunhagem da

56 KEHL, Maria Rita. Ressentimento. 3ª. Edição. São Paulo: Boitempo, 2020, p. 36.
57 BRASIL PARALELO. “O último reinado”, 00:00:25
58 MATTOS, Ilmar Rohloff de. O tempo Saquarema. A formação do Estado Imperial. 5ª. Edição. São

Paulo: Hucitec, 2004.

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moeda imperial, o processo a partir do qual restauração e resgate convertem-se na


atividade de regeneração moral da nação segundo seus valores originais e
estruturantes: aqueles de uma sociedade patriarcal e escravista.
O que as memórias públicas manifestadas a partir do modelo de história
oferecido pela Brasil Paralelo mostra, com isso, não é apenas a reação a uma
determinada forma de uso do passado, mas também demandas e expectativas
projetadas em relação à própria história e aos seus praticantes. Demandas e
expectativas que indicam como que as disputas pelos passados e pelos presentes da
Independência serão também, em larga medida, disputas sobre o lugar da história e de
seus praticantes. E se parece não haver dúvidas de que a primeira permanecerá como
objeto privilegiado do interesse público, a quem poderá ser conferida a legitimidade
social de sua prática será tema de embates que irão muito além das questões
epistemológicas da disciplina, empurrando-a diretamente para o espaço das querelas
políticas.

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