Psicologia: Ciência e Senso Comum
Entre todos os animais, nós, os seres humanos, somos os únicos capazes de criar e transformar o
conhecimento; somos os únicos capazes de aplicar o que aprendemos, por diversos meios, numa
situação de mudança do conhecimento; somos os únicos capazes de criar um sistema de símbolos,
como a linguagem, e com ele registar nossas próprias experiências e passar para outros seres
humanos. Essa característica é o que nos permite dizer que somos diferentes dos gatos, dos cães,
dos macacos, dos leões, e outros animais considerados irracionais; precisamente porque não têm a
capacidade pensante, que caracteriza o homem.
O senso comum: conhecimento da realidade. Existe um modo de vida que pode ser entendido como
a vida por excelência: é a vida do quotidiano. É no quotidiano que tudo fluí, que as coisas
acontecem, que nos sentimos vivos, que sentimos na realidade.
Sem o conhecimento intuitivo, espontâneo, de tentativa e erros, a nossa vida quotidiana não teria o
devido sentido .
Os gregos, por volta do século 4 a.C. já dominavam complicados cálculos matemáticos, ainda hoje
difíceis, mas eles precisavam entender para resolver problemas arquitectónicos, navais, agrícolas,
etc. Com o tempo tais conhecimentos especializaram-se, até atingirem um nível de satisfação que
permitiu ao Homem de atingir a lua. A este tipo de conhecimento, que definiremos com mais
cuidado logo adiante, chamamos de Ciência. Deste modo foram-se constituindo várias áreas de
conhecimento, entre as quais podemos citar:
Filosofia – Forma mais geral de perceber e compreender a natureza. A especulação em torno deste
tema forneceu um corpo de conhecimentos denominados de filosofia. A Filosofia é fruto do
raciocínio e da reflexão humana. É o conhecimento especulativo sobre fenómenos, gerando
conceitos subjectivos. Busca dar sentido aos fenómenos gerais do universo, conhecimentos sobre a
origem do Homem, seus mistérios, princípios morais. A fonte destas tradições e crenças é a Bíblia
(registo do conhecimento religioso judaico-cristão), base da conduta para muitos, diferente da
história. É um conhecimento revelado pela fé divina ou crença religiosa. Não pode, por sua origem,
ser confirmado ou negado. Depende da formação moral e das crenças de cada indivíduo.
Ciência (Conhecimento Científico) – procura conhecer, além dos fenómenos, suas causas e leis. É o
conhecimento racional, sistemático, exacto e verificável da realidade. Sua origem está nos
procedimentos de verificação baseados na metodologia científica. Arte – traduz a emoção, o belo e
a sensibilidade, na pré-história encontramos desenhos do corpo humano nas paredes das cavernas
que exprimiam tal sensibilidade e emoção.
Ciência, Arte, Ética, Religião, Filosofia, e Senso Comum são domínios do conhecimento humano.
Nosso objectivo é definir a Psicologia como ciência. Para tal constitui imperativo analisar o que é
ciência?”, para que possamos compreender a psicologia como ciência.
A CIÊNCIA
Ciência, do latim «scire» que significa conhecimento, pode ser definida como o conjunto de
conhecimentos sobre factos ou aspectos da realidade (objecto de estudo) expresso por meio de uma
linguagem precisa e rigorosa.
Características da Ciência
A Ciência é racional, sistemática, exacta e verificável da realidade. A Sua origem está nos
procedimentos de verificação baseados na metodologia científica. Podemos então dizer que o
Conhecimento Científico: É racional e objectivo; Transcende aos fatos; É analítico;
Requerexactidão e clareza; É comunicável; É verificável; Depende de investigação metódica;
Busca e aplica leis; É explicativo; Pode fazer predições; É aberto; É útil (Galliano, 1979, apud
Paiva Bello, 2004;s/p).
A ciência é um processo; facto que um novo conhecimento é produzido sempre a partir de algo
anteriormente desenvolvido onde negam-se, reafirmam-se, descobrem-se novos aspectos, e assim a
ciência avança
A Ciência deve verificar a objectividade; suas as conclusões devem ser passíveis de verificação e
isentas de emoções, para tornarem-se válidas para todos.
Objectivos/propósitos da Ciência
1. Oferecer uma explanação objectiva, factual e útil do universo. Neste caso, ela procura uma
explanação verificável dos fenómenos naturais e sociais, diferentes; da abordagem artística,
religiosa, etc.
Conceito de Psicologia
Esta definição permaneceu até aos meados do séc. XIX devido ao seu desenvolvimento
`condicionado´ com a Filosofia.
Como uma ciência autónoma com um objecto de estudo e métodos próprios de investigação, ela é
definida como ciência que estuda o comportamento do homem e dos outros animais.
O Comportamento abrange tudo o que pessoas e outros animais fazem: conduta, emoção, formas
de comunicação, processos de desenvolvimento.
Em suma: A psicologia é a ciência que estuda o homem nas suas diversas manifestações
Importância da Psicologia
Por ser uma ciência multiperspectiva e se aplicar em todas as áreas da vida humana, a Psicologia
possui uma vasta importância:
No ensino permite ao professor conhecer as particularidades individuais dos alunos para
melhor planificar e administrar as aulas, identificar e resolver os problemas de aprendizagem
segundo o desenvolvimento dos alunos e fazer uma avaliação do processo de ensino e
aprendizagem.
• Por ser uma área de conhecimento cientifico que se constituiu recentemente (final do séc. XIX)
não obstante a sua existência dentro da filosofia como preocupação humana;
• Outro motivo que dificulta a definição do objecto de estudo da Psicologia é o facto de o cientista
– o pesquisador confundir-se com o objecto a ser pesquisado
• A terceira dificuldade justifica-se pelo facto dos fenómenos psicológicos serem tão diversos, que
não podem ser acessíveis ao mesmo nível de observação, não podem ser sujeitos aos mesmos
padrões de descrição, medida, controle e interpretação.
A identidade da Psicologia é o que diferencia dos demais ramos das ciências humanas, e pode ser
obtida considerando que cada um desses ramos enfoca o Homem de maneira particular (economia,
política, história) trabalham essa matéria-prima de maneira particular, construindo conhecimentos
distintos e específicos a respeito dela. A psicologia colabora com o estudo da subjectividade: é essa
a sua forma particular, específica de contribuição para a compreensão da totalidade da vida humana.
A subjectividade é a síntese singular e individual que cada um de nós vai construindo conforme
vamos nos desenvolvendo e vivenciando as experiências da vida social e cultural. É a síntese que
nos identifica por ser única e nos iguala à medida em que os conhecimentos que a constituem são
experienciados no campo comum da objectividade social. É o mundo de ideias, significados,
emoções, construído inteiramente pelo sujeito a partir das suas relações sociais, suas vivências e sua
constituição biológica. É a fonte das manifestações afectivas. A subjectividade é a maneira de
sentir, pensar, fantasiar, sonhar, amar, e de fazer de cada um. É o nosso modo de ser.
Entretanto a subjectividade não é inata. Ela se constrói, apropriando-se do material do mundo social
e cultural.
Psicologia industrial: estuda a estruturação do trabalho, a conduta dos trabalhadores, a selecção dos
trabalhadores, o incremento da produção e da produtividade, a avaliação dos funcionários e as
greves dos trabalhadores.
Psicologia clínica: dedica-se a prevenção e terapia dos desajustamentos de conduta qualquer que
seja o seu grau de gravidade.
Psicologia militar: estuda a conduta do Homem no campo de combate, os aspectos psicológicos das
relações entre os chefes e os subalternos, os problemas psicológicos de uso de materiais de guerra.
Métodos da Psicologia
O estudo da Psicologia como ciência pressupõe o uso de métodos, que possa facilitar a análise do
seu objecto de estudo, os fenómenos psíquicos (memória, percepção, a sensação, o pensamento,
assim como a imaginação) que numa só linguagem são reduzidos em comportamentos.
Descrição cuidadosa dos fenómenos psíquicos que os estados da consciência acusavam, mas feita
pelo próprio indivíduo. Consiste na orientação da consciência reflexiva para aquilo que se passa em
nós, ou seja, concentração do espírito sobre si mesmo para analisar os fenómenos que o indivíduo
experimenta.
É a observação e a descrição que o indivíduo faz dos seus estados psíquicos. Supõe um
desdobramento do sujeito que é ao mesmo tempo observador e observado. O sujeito é o próprio
objecto.
g) Questionário: Consiste num conjunto de perguntas cujo conteúdo e extensão dependem dos
objectivos da investigação e se aplica como substituto da entrevista quando se trabalha com
amostras grandes.
h) Método comparativo: Serve para fazer extrapolação de uma conclusão feita sobre o estudo de
um animal para relacionar ao Homem, permite a formação de um perfil comportamental.
i) Método analítico ou psicanalítico: É um método interpretativo que busca o significado oculto, isto
é, que torna claro o significado daquilo que é manifestado por meio das palavras e acções.
j) Testes psicológicos : Consistem num sistema de tarefas, perguntas, seleccionadas, que tem como
objectivo a avaliação e comparação de sujeitos quanto a qualidade da personalidade, habilidades,
nível de desenvolvimento intelectual, efectuando-se esta comparação sobre a base de normas
estabelecidas previamente.
Existem testes psicológicos para medir tanto aspectos cognitivos como aspectos afectivos da
personalidade.
Os testes psicológicos não consistem em obter dados novos que serão necessários para o
aprofundamento dos conhecimentos científicos, mas sim em estabelecer as qualidades psicológicas
da pessoa submetida à experiência para se analisar se corresponde ou não as normas ou padrões
revelados anteriormente
Este grupo de testes é utilizado para revelar a existência ou a ausência de certas capacidades,
aptidões, caracterizar com o máximo de precisão certas qualidades do indivíduo para exercer certa
profissão, etc. Podem ser: testes de inteligência, de capacidades, de aptidões, de personalidade.
j) Métodos de estudo individual ou histórico do caso: Neste método são empregue muitos
métodos e técnicas combinadas. Para se estudar o comportamento de um indivíduo importa
conhecer o maior número possível de factos sobre o mesmo, a fim de que possam ser
compreendidas as principais forças e influências que orientam seu desenvolvimento.
O estudo do caso é frequentemente empregue pelo orientador educativo, visando ajudar os alunos
na solução de seus problemas.
Principios da Psicologia
A pscologa como qualquer ciência, para a sua compreensão, obedece a alguns princípios, entre os
quais destacamos:
3. Princípio de Precissãoː segundo este princípio, a pesquisa deve ser precisa, deve definir
estretamente aquilo que se pretende pesquisar.
4. Princípio do Determinismoː refere-se à crença de que todos os eventos têm causas naturais. Os
psicólogos acreditam que as acções das pessoas são determinadas por um imenso número de
factores que podem ser internos ou externos.
6. Princípio do Ceticismoː defende que não é possível compreender toda a realidade, eliminar
todos os erros. A conclusão a que se pode chegar hoje, pode não ser válida para o dia seguinte.
Filosofia: a correlação que existe entre o corpo e a alma na Filosofia vai permitir de modo que a
psicologia especule e forneça hipóteses empiricamente testados. Neste sentido, pode-se afirmar que
a Filosofia forneceu à psicologia os primeiros quadros conceptuais.
Antropologia: interessa-se pelas formas culturais dos povos. Esses dados são importantes porque
dão ao psicólogo a consciência da relatividade cultural dos valores, dos motivos, das aspirações dos
indivíduos, o que obriga a ter presente a influência da cultura no comportamento do indivíduo.
Um dos principais ramos da Biologia que se relaciona com a Psicologia é a Genética. A Genética
estuda os processos hereditários subjacentes ao comportamento.
a) Fase filosófica
É a fase relacionada com a Ética e a Filosofia. Compreendia o estudo da natureza dos reflexos da
mente e da alma. Era um saber especulativo, de carácter racional. Os filósofos explicavam os
fenómenos da natureza (formação de cosmos e origem do próprio Homem) de forma mitológica. O
saber psicológico estava envolto à vasta área do conhecimento filosófico, portanto, classificado
como especulativo, por não poder provar suas conclusões.
Dedicava-se ao estudo dos factos psíquicos que eram interpretados com base na experiência do dia-
a-dia, isto é, do quotidiano vivido. É nesta fase que se abre o caminho para a cientificidade da
psicologia. A interpretação e consequente conhecimento dos fenómenos psíquicos era
fundamentada, em parte pelo saber filosófico, influenciado pela experiência quotidiana (social e
reflexão sistemática) dos cientistas.
c) Fase científica
Por de trás de qualquer produção humana material ou espiritual (cadeira, religião), existe sempre
uma história; Cada um tem uma história pessoal, longa ou curta. A psicologia tem cerca de dois mil
anos de história.
Para compreender a psicologia é necessário compreender sua história, história essa que está ligada a
cada momento histórico, às exigências do conhecimento da humanidade, as demais áreas de
conhecimento humano e aos novos desafios colocados pela realidade económica e social e pela
insaciável necessidade do Homem de compreender a si mesmo.
É entre os filósofos gregos que surge a primeira tentativa de sistematizar uma psicologia. De facto,
os avanços permitem que os cidadãos se ocupem de coisas do espírito, como a filosofia e a arte –
homens como, Sócrates, Platão, Hipócrates e Aristóteles dedicam-se a compreender esse espírito
empreendedor do conquistador grego, ou seja, a Filosofia começou a especular o Homem e a sua
interioridade. O próprio termo Psiché=alma e logos=logos (razão), portanto etimologicamente
Psicologia significa estudo da alma.
Sócrates (496-399 a.C.): Com ele a Psicologia na antiguidade ganha consistência: segundo
Sócrates o que distingue o Homem do animal é a RAZÃO porque permite ao Homem de sobrepor-
se aos instintos, que seriam a base da irracionalidade – definindo a razão como essência e
peculiaridade do Homem, Sócrates abre um caminho que será explorado pela Psicologia: fruto desta
reflexão são por exemplo, as Teorias da consciência que de certa forma são resultado desta
sistematização na Filosofia.
Platão (427-347 a.C.): Discípulo de Sócrates, procura o «lugar» para a razão no nosso corpo
(cabeça), onde se encontra a ALMA do Homem. A medula será o elemento de ligação da alma com
o corpo – este elemento era necessário porque Platão concebia a alma separa do corpo (dualismo).
Quando alguém morria a matéria (corpo) desaparecia, mas a alma ficava livre para ocupar outro
corpo (reincarnação).
Hipócrates e a Teoria dos Humores (496-361 a.C.)
Uma análise mais acurada das diferenças individuais, estreitamente ligadas a uma reflexão mais
sistemática na relação mente-corpo, foi feita com Hipócrates de Cosmes. Sendo médico, sua ciência
era finalizada à medicina, mas, enquanto filósofo, funda uma verdadeira e própria ciência do
Homem onde confluía observações sociológicas, psicológicas e fisiológicas. O contínuo esforço de
síntese e de sistematização de tais observações não tiveram precedentes na história do pensamento
humano e permanecerão em seguida apreciados por um período de 20 séculos. Todavia, a medicina
hipocrática passou na história como aquela que se baseava na teoria dos quatro humores.
Hipócrates defende que existem 4 humores no corpo humano: o sangue, a fleuma, a bílis amarela e
a bílis preta. Segundo a prevalência de cada um destes elementos sobre o outro a pessoa
desenvolverá um certo temperamento que poderá ser respectivamente: sanguíneo, fleumático,
colérico e melancólico e também vários tipos de predisposições à doença. O Homem é «são»
quando estes humores estão «reciprocamente bem temperados por propriedade e quantidade» e a
mistura é completa. Contrariamente a isto o Homem é doente quando existe excesso ou defeito
destes elementos.
Mais importantes ainda são os seus estudos neurológicos. Numa das suas obras afirma que o
cérebro é o órgão mais potente do corpo e que os órgãos de sentido actuam em base à sua
capacidade de discernimento. Ainda nesta obra Hipócrates descreve os delírios e alucinações e
afirma a dependência de anomalias das faculdades intelectuais dos traumas cranianos.
Com estas afirmações, Hipócrates põe em relevo uma concepção que se está afirmando no
pensamento grego, isto é, que o Homem é parte da natureza e pode ser estudado com os métodos da
ciência natural. Esta concepção encontrou a sua expressão mais forte em Aristóteles.
Aristóteles (384-322 a.C.) : Discípulo de Platão, foi um dos mais importantes pensadores da
história da filosofia – superou o dualismo da dissociação entre a alma e o corpo (inovação). Para ele
a psyché era o princípio activo da vida, isto é, tudo aquilo que cresce, se reproduz e alimenta possui
a sua psyché ou alma (vegetação, animais, Homem, possuem alma:
O império romano nasce às véspera da era cristã, domina parte da Grécia, Europa e do Oriente
Médio. A Característica deste período é o advento do cristianismo. Força religiosa que passa à força
política dominante que não obstante as invasões barbárias de 400 d.C., que levam à degradação
territorial e económica, o cristianismo sobrevive e até se fortalece, tornando-se a religião principal
da Idade Média, período que então se iniciara:
Inspirado em Platão faz cisão entre corpo e alma, a diferença para ele é que a alma, não é somente a
sede da razão mas também a prova de uma manifestação divina no Homem. A alma era imortal por
ser o elemento que liga o Homem à Deus e sendo a alma também a sede do pensamento a Igreja
passa a se preocupar também com a sua compreensão. Santo Agostinho postula a famosa epístola:
”conhece-te, aceita-te, supera-te”.
Vive numa período que preanuncia a ruptura da Igreja católica, o advento do protestantismo – época
que prepara a transição para o capitalismo, com a revolução francesa e a revolução industrial na
Inglaterra. Perante esta crise social e económica a Igreja devia encontrar novas justificações em
relação ao conhecimento como a relação com Deus e o Homem. São Tomas de Aquino foi buscar
em Aristóteles a distinção entre essência e existência – como Aristóteles, ele considera que o
Homem, na sua essência, busca a perfeição através da sua existência mas introduzindo o ponto de
vista religioso, ao contrario de Aristóteles, afirma que somente Deus seria capaz de reunir a
essência e a existência, em termos de igualdade. Portanto, a busca da perfeição do Homem seria a
busca de Deus.
S. Tomás encontra argumentos racionais para justificar os dogmas da Igreja e continua garantindo
para ela o monopólio do estudo do psiquismo.
A Psicologia no Renascimento
Mil e duzentos anos depois da morte de S. Tomás de Aquino, inicia uma época de transformações
radicais no mundo europeu: RENASCIMENTO ou RENASCENÇA – o mercantilismo, e a
descoberta de novas terras (América, Índia, Rota pacífica) propicia a acumulação das riquezas para
a Franca, Itália, Inglaterra, Franca, Espanha. Na transição para o capitalismo emerge nova forma de
organização social e económica, dá-se também um processo de valorização do Homem.
Foi no período do Renascimento, aproximadamente entre os séculos XV e XVI (anos 1400 e 1500)
que, segundo alguns historiadores, os seres humanos retomaram o prazer de pensar e produzir o
conhecimento através das ideias. Neste período as artes, de uma forma geral, tomaram um impulso
significativo. Neste período Michelangelo Buonarrote esculpiu a estátua de David e pintou o tecto
da Capela Sistina, na Itália; Thomas Morus escreveu A Utopia (utopia é um termo que deriva do
grego onde u =não + topos = lugar e quer dizer em nenhum lugar); Tomaso Campanella escreveu A
Cidade do Sol; Francis Bacon escreveu A Nova Atlântica; Voltaire escreve Micrômegas, Nicholas
Maquiavel escreve O Príncipe, caracterizando um pensamento não descritivo da realidade, mas
criador de uma realidade ideal, do dever ser.
Já no fim do período do Renascimento, René Descartes (1596-1659), um dos filósofos que mais
contribuiu para o avanço da ciência postula a separação entre a mente (alma, espírito) e corpo,
afirmando que o Homem possui uma substância material e uma substância pensante e que o corpo,
desprovido do espírito era somente uma máquina – dualismo corpo e mente que torna possível o
estudo do corpo humano morto, o que era impensável nos séculos anteriores (o corpo era
considerado sagrado pela Igreja, por ser a sede da alma) e dessa forma possibilita o avanço da
anatomia e da fisiologia que inicia a contribuir muito para o progresso da Psicologia.
No século XIX, o papel da ciência torna-se necessário devido ao crescimento na ordem económica
– CAPITALISMO que traz a industrialização. A ciência deve dar novas respostas e soluções
práticas no campo da técnica. Alguns dos períodos marcantes são o advento do FEUDALISMO,
que se caracterizava basicamente por produção em massa para subsistência; pela relação senhor
feudal–servo; sociedade estável; hierarquia–base de verdade; centralização do poder. Segue-se o
período do CAPITALISMO, que põe o mundo em movimento com a necessidade de abastecer os
mercados e produzir mais: criou novas necessidades; questiona as hierarquias para derrubar a
nobreza e o clero dos seus lugares há séculos estabelecidos; superou-se o antropocentrismo (o
Homem – centro do universo), passando a ser visto um ser livre, capaz de construir o futuro; o
servo, liberto do seu vínculo com a terra pode escolher seu trabalho e seu lugar social; o capitalismo
torna todos os Homens consumidores, em potências das mercadorias produzidas; acima de tudo, o
conhecimento tornou-se livre, independente da fé, os dogmas da Igreja foram questionados e a
racionalidade do Homem apareceu como a grande possibilidade de construção do conhecimento. O
Capitalismo traz como consequência a formação de uma nova classe, a BURGUESIA. No século
XVII e XVIII (anos 1600 e 1700) a burguesia assumiu uma característica própria de pensamento,
tendendo para um processo que tivesse imediata utilização prática; disputa-se o poder e surge como
nova classe social e económica, defende a emancipação do Homem; com tal, era preciso quebrar a
ideia do universo estável, para poder transformá-lo, era preciso questionar a NATUREZA para
viabilizar a sua exploração em busca de matérias-primas – condições materiais para o
desenvolvimento da ciência moderna: CONHECIMENTO COMO FRUTO DA RAZÃO. Em
resultado disso, abre-se a possibilidade de se desvendar a natureza e leis de observação rigorosa e
objectiva – não mais submetidos a leis ou dogmas religiosos ou pela actividade eclesial e portanto
sentiu-se a necessidade da ciência:
A possibilidade de realizar trabalhos de pesquisa mais aprofundados, que exigiam algum tipo de
suporte financeiro (só possível com a classe dos burgueses) fez com que surgissem novos contornos
nas diversas áreas do saber. São exemplos disso:
Na Economia, Karl Marx procurou explicar a relações sociais através das questões económicas,
resultando no Materialismo-Dialético;
Charles Darwin revolucionou a Antropologia, ferindo os dogmas sacralizados pela religião, com a
Teoria da Hereditariedade das Espécies ou Teoria da Evolução (selecção natural).
A ciência passou a assumir uma posição quase que religiosa diante das explicações dos fenómenos
sociais, biológicos, antropológicos, físicos e naturais.
Na metade do século XIX temas e problemas até então estudados pelos filósofos passam a ser
estudados pela fisiologia, neurofisiologia em particular – formulação de teorias dobre o SNC,
demonstrando que o pensamento, as percepções e os sentimentos humanos eram produtos deste
sistema. O capitalismo trouxe uma “maquina” – criação fantástica que determinou a forma de ver o
mundo (o mundo visto como uma máquina), o mundo como um relógio, todo o universo como se
fosse uma máquina, isto é, que podemos conhecer o seu funcionamento, a sua regularidade, as suas
leis, uma forma de pensar que atingiu as ciências humanas, facto que, para se conhecer o psiquismo
humano passa a ser necessário compreender o mecanismo e o funcionamento da máquina de pensar
do Homem: o CÉREBRO!
Assim a psicologia começa a trilhar os caminhos da fisiologia, da neuroanatomia e da
neurofisiologia.
Resultado disso, em 1846, a Neurologia descobre que a doença mental é fruto da acção directa ou
indirecta de diversos factores sobre as células cerebrais; Neuroanatomia descobre que a actividade
motora nem sempre está ligada à consciência para não estar necessariamente na dependência dos
centros cerebrais superiores, [Link]. quando alguém queima a mão na chapa quente, primeiro tira a
mão para depois perceber o que aconteceu, fenómeno denominado REFLEXO, e o estímulo que
chega a medula espinal, antes de chegar aos centros cerebrais superiores, recebe uma ordem para a
resposta, que é tirar a mão; caminho natural dos fisiologistas, estudo da fisiologia do olho e a
percepção das cores – fenómenos psicológicos. Foram importantes os estudos do psicofisiologista
russo Ivan PAVLOV sobre o reflexo condicionado.
Em 1860 é formulada uma lei no campo da psicofísica, a lei de Fechner–Weber que estabelece a
relação ESTÍMULO – SENSAÇÃO, permitindo a sua mensuração – aumento da intensidade de
uma luz e o seu efeito – com esta lei os fenómenos psicológicos vão adquirindo status científicos,
porque, para a concepção da ciência da época o que não era mensuràvel, não era possível de estudo
científico.
Método: para explorar a mente ou a consciência do indivíduo, Wundt, cria um método que
denomina introspeccionismo – o experimentador pergunta ao sujeito, especialmente treinado para a
auto-observação, os caminhos percorridos no seu interior por uma sensorial (a picada de agulha por
exemplo).
A PSICOLOGIA CIENTÍFICA
O berço da Psicologia moderna foi a Alemanha de final do século 19. Wundt, Weber e Fechner
trabalharam juntos na Universidade de Leipzig – seguiram para aquele País muitos estudiosos dessa
nova ciência; como o inglês Edward B. Titchner e o americano William James.
O Seu status de ciência é obtido a medida que se “liberta” da filosofia, que marcou a sua história até
aqui e atrai novos estudiosos e pesquisadores, que sob novos padrões de produção de conhecimento,
passam a:
A Psicologia científica nasce na Alemanha mas se desenvolve, cresce rapidamente nos Estados
Unidos como resultado de grande avanço económico colocado na vanguarda do sistema
capitalista. É ali que surgem as primeiras abordagens ou escolas em psicologia, as quais deram
origem inúmeras teorias que existem actualmente. Essas abordagens são O Funcionalismo (por
William James, 1842-1910); O Estruturalismo (por Edward Titchner, 1867-1927), O
Associacionismo (por Edward Thorndike, 1874-1949).
As primeiras abordagens ou escolas em psicologia, as quais deram origem às enumeras teorias que
existem actualmente são:
Embora Inaugurada por Wundt, somente o seu seguidor Edward Titchner (1867-1927) usa o termo
estruturalismo pela primeira vez para diferencià-lo do funcionalismo. O estruturalismo define como
objecto de estudo da psicologia “os estados elementares da consciência, mas vistos como estruturas
do SNC. O método de observação de Titchner, assim como o de Wundt, é o introspeccionismo, e os
conhecimentos psicológicos produzidos são eminentemente experimentais, isto é, produzidos a
partir do laboratório.
O Associacionismo
A psicologia enquanto ramo da Filosofia estuda a alma, a psicologia científica que Wundt
preconiza, a “psicologia sem alma”, o conhecimento científico produzido no laboratório com uso de
instrumentos de medição/mensuração. Da subordinação à Filosofia a Psicologia se liga à medicina,
usando o método de investigação das ciências naturais como critério rigoroso da construção dos
conhecimentos.
As três mais importantes tendências teóricas da psicologia neste séc. consideradas por inúmeros
autores são: Behaviorismo, Gestaltismo e a Psicanálise.
O Behaviorismo ou Comportamentalismo
O Comportamentalismo, ou Teoria S-R (do latim Stimulus – Responsio), nasce com o americano
John Watson (1878-1958), e se desenvolve na América em função das aplicações práticas, tornou-
se importante por ter definido o facto psicológico de modo concreto a partir da noção de
comportamento (behavior).
Em 1913, o americano John Watson num artigo de revista intitulado “A Psicologia tal como o
behaviorista a vê”, inaugura o termo behaviorismo.
Neste contexto, Watson lança bases para a postulação do behavior, comportamento como objecto da
Psicologia, dá à psicologia a consistência procurada por séculos: objecto observável, mensurável
cujos experimentos poderiam ser reproduzidos em diferentes condições e sujeitos.
O carácter observável do objecto contribui para o alcance de status da ciência da psicologia, ou seja
para a ruptura “definitiva” com a filosofia. Watson defende uma perspectiva funcionalista para a
psicologia, isto é, o comportamento deveria ser estudado como função de certas variáveis do meio.
Watson busca uma psicologia sem alma e sem mente, livre de conceitos mentalistas e métodos
subjectivos e que tenha a capacidade de prever e controlar.
R – S + para referir-se ao que o organismo faz e as variáveis ambientais que interagem com o
sujeito
Estudadas as conexões, os seus mecanismos, e identificadas as leis , pode-se explicar cada uma das
reacções como resultado de um determinado estímulo e poder prever qual reacção pode seguir uma
determinada situação estimulante.
2) comportamento operante (tem efeito sobre o mundo: ex: tocar um instrumento musical)
Nos anos de 1930, na Universidade de Haward (EUA), Skinner desenvolvendo o seu trabalho de
estudo do comportamento respondente, teoriza sobre um outro tipo de relação indivíduo-ambiente, a
qual viria a ser nova unidade de análise da ciência: comportamento operante, o qual teria a maioria
das nossas interacções com o ambiente – comportamento operante opera sobre o mundo, por assim
dizer, quer directa quer indirectamente e abrange um leque amplo de actividade humana, da
actividade do recém-nascido (balbuciar, acatar-se a um objecto, etc.) aos mais sofisticados
apresentados pelo adulto.
O comportamento operante inclui todos os movimentos de um organismo dos quais se possa dizer
que, em algum momento, têm efeito sobre ou fazem algo ao mundo em redor. O comportamento
operante opera sobre o mundo, por assim dizer, quer directa, quer indirectamente”.
Escolas Psicológicas
A Gestalt surge em reacção ao associacionismo. Gestalt é um termo alemão que se pode traduzir
como «forma»; «figura»; «configuração»; entendendo também um aspecto de organização da que se
entende melhor quando se fala da percepção visual. As principais figuras da Gestal são os alemães:
Max Wertmeir, Wolfgang Kohler (1887-1967) e Kurt Kofka.
A Gestalt nega decompor a consciência nos seus elementos mais elementares, nega a concepção e
métodos que descendem deste estudo e que tendem a uma teoria elementista
As leis da percepção visual: são leis sobre a constituição das totalidades perceptivas que eram
chamadas Gestalten ou factores estruturantes. Essas leis afirmam que as partes de um campo
perceptivo tendem a construir outras gestalts (formas unitárias) que são de tal forma coerentes e
unidas, quanto mais os elementos são:
A Psicanálise/Freud
Sigmund FREUD (1856-1939), médico vienense (Áustria), alterou, radicalmente, o modo de pensar
a vida psíquica. Freud ousou colocar os “processos misteriosos” do psiquismo”, suas “regiões
obscuras”, isto é as fantasias, os sonhos, os esquecimentos, a interioridade do homem, como
problemas científicos. A investigação sistemática destes problemas levou Freud à criação da
Psicanálise.
Freud emprega o termine Psicanálise pela primeira vez em 1896. A Psicanálise constituiu-se como
método e como teoria, e ainda como terapia. Como método consiste na interpretação e busca do
significado do oculto daquilo que é manifesto por meio de palavras ou acções e como teoria pode
ser definida como um conjunto de conhecimentos, sistematizados sobre o funcionamento da vida
psíquica.
Freud, como hebreu, herdou uma rica tradição do pensamento hebraico, e por outro lado, de
formação clássica (filosofia antiga) e perito linguista, ele veio a contacto com a literatura antiga e
moderna. Sobre esta base assentaram-se os seus estudos de medicina e ciências naturais, no campo
da fisiologia, neuropsicológica e farmacologia. Teve o mérito de ter descoberto a sexualidade (base
fundamental de seus estudos), embora este fosse um tema debatido antes da publicação do sua obra
intitulada ”os três ensaios sobre a teoria sexual”.
Freud elaborou numa primeira instância uma teoria sobre personalidade, denominada 1ª tópica, na
qual estruturava a personalidade como sendo constituída pelas seguintes instâncias: consciente,
inconsciente e pré-consciente; Freud postula o inconsciente como objecto de estudo da Psicologia,
da mesma forma que quebra a tradição da psicologia como uma ciência da consciência e da razão.
Os mecanismos de defesa: são formas que o indivíduo usa para deformação da realidade, ou
melhor, são processos realizados pelo ego e são inconscientes, isto é, ocorrem independentemente
da vontade do indivíduo. Os mais comuns são: Recalcamento; Formação reactiva; Regressão;
Projecção; Racionalização; Sublimação; Negação.
Recalcamento
A medida defensiva fundamental do ego é o recalque. Freud considerou o recalque como a reacção
normal do ego infantil. O recalque consiste na exclusão dos impulsos e suas representações
ideacionais do consciente. Ocorre sempre que um desejo, um pulso, ou ideia, ao se tornar
consciente, provoca um conflito insuportável, resultando em ansiedade. O recalque de um desejo,
em contraste com sua rejeição consciente, é uma inibição num nível mais profundo da
personalidade. O fato de ser inconsciente poupa a personalidade consciente um conflito penoso.
A totalidade do acto transcorre fora do consciente. A rejeição é automática; se assim não fosse, o
conteúdo mental inaceitável não poderia permanecer inconsciente. É uma inibição reflexiva que
segue os princípios dos reflexos condicionados.
O estudo psicanalítico das neuroses e psicoses mostrou que as forças psicológicas recalcadas não
deixam de existir. O ego deve tomar medidas defensivas contra elas, medidas que lhe esgotam os
recursos dinâmicos e tornam-no menos capaz de exercer sua função adaptadora de perceber a
realidade externa. No recalque ocorre uma supressão de parte da realidade, ou seja, o indivíduo
“não vê” ou “não ouve”o que está acontecendo.
Repressão
Negação
Provavelmente é o mecanismo de defesa mais simples e directo, pois alguém simplesmente recusa a
aceitar a existência de uma situação penosa demais para ser tolerada. Ex: Um gerente ser
despromovido de um cargo que era obrigado a estar presente mais cedo e continuar chegando no
mesmo horário.
Sublimação
É o mecanismo de defesa mais aprovado pela sociedade. Quando temos um impulso que não
podemos expressar directamente, reprimimos a sua forma original, e deixamo-lo emergir sob uma
feição que não perturbe a outrem ou a nós próprios. Geralmente usamos a sublimação para
expressar motivos indesejáveis sendo que, como a maioria dos outros mecanismos de defesa, ela
opera inconscientemente mantendo-nos desconhecedores das motivos indesejáveis.
Racionalização
A racionalização é utilizada nas mais diferentes situações, quer envolvendo frustração, quer
envolvendo culpa. Ocorre pelo uso da razão na explicação de estados “deformados” da consciência.
O racional é usado para explicar o irracional, tomadas de posições sem sentido. Quando as pessoas
fazem coisas que não deviam, é comum sentirem culpa, e ao invés de admitirem a razão real de seu
comportamento, preferem com frequência racionalizar inventando razões plausíveis para o seu ato.
Ex: Um funcionário que tira dinheiro do caixa e fala que estava precisando muito e que logo no
próximo mês devolveria ao caixa o que tinha tirado.
Projecção
Às vezes as pessoas se recriminam ou se sentem mal por terem certo pensamento ou impulsos.
Podem atribui-los então a alguém, projectando nessa pessoa os seus próprios sentimentos. Isso fica
muito claro com relação a impulsos poderosos, como o sexo e a agressão. Ex: Um gerente que
sempre chega atrasado no trabalho reclama ao superintendente geral que seu funcionário nunca
chega pontualmente.
Deslocamento
Este mecanismo está relacionado à sublimação e consiste em desviar o impulso de sua expressão
directa. Nesse caso, o impulso não muda de forma, mas é deslocado de seu alvo original para outro.
Ex: Ao ser despedido de uma empresa, um funcionário leal sente raiva e hostilidade pela forma
como foi tratado, mas usualmente tem dificuldade de expressar seus sentimentos de forma directa.
Formação Reactiva
Às vezes, quando as pessoas sentem-se ameaçadas por um impulso opressor, podem combatê-lo
indo para o extremo oposto, e denunciando-o vigorosamente em outras pessoas. Assim,
funcionários que trabalham sem motivação e de forma relapsa, pode ridicularizar seu companheiro
de trabalho que cometeu algum deslize ou que também é relapso.