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Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e nao mais lutando por
dinheiro e poder, entdo nossa sociedade poderd enfim evoluir a um novo nivel.
feLivrosDe Christian Jacq:
Série RAMSES
Vol. 1 — O Filho da Luz Vol.
2 — O Templo de Milhdes de Anos
Vol. 3 — A Batalha de Kadesh
Vol. 4 — A Dama de Abu-Simbel
Vol. 5 — Sob a Acacia do Ocidente
—
Ft
Série A PEDRA DA LUZ
Vol. 1 — Nefer, o Silencioso
Vol. 2 — A Mulher Sabia
Vol. 3 — Paneb, o Ardoroso
Vol. 4 — O Lugar da Verdade
—
Rs
A SABEDORIA VIVA
DO ANTIGO EGITO
AS EGIPCIASCHRISTIAN JACQ
NYainAR SN z oi
© MUNDO MAGICO
DO ANTIGO EGITO
28 EDICAO
Tradugaéo
MARIA D. ALEXANDRE
BERTRAND BRASIL
2001Copyright © 1983, Editions du Rocher
Titulo original: Le monde magique de L’Egypte ancienne
Capa: Raul Fernandes
Composic¢do: Art Line
2001
Impresso no Brasil
Todos os direitos reservados pela:
BCD UNIAO DE EDITORAS S.A.
Av. Rio Branco, 99 — 20° andar — Centro
20040-004 — Rio de Janeiro — RJ
Tel.: (Oxx21) 2263-2082 Fax: (Oxx21) 2263-6112LISTAS DAS ABREVIATURAS
AEMT
Borghouts, Ancient Egyptian Magical Texts, Leiden.
ASAE :
Annales du Service des Antiquités de I’Egypte, Cairo.
BIFAO
Bulletin de I'Institut Francais d’Archéologie Orientale, Cairo.
BSFE .
Bulletin de la Société Francaise d’Egyptologie.
CdE
Chronique d’Egypte, Bruxelas.
cT
Coffin Texts.
Djed-her
Cf. Jelinkova-Reymond.
JEA
Journal of Egyptian Archaeology, Londres.
LdA
Lexikon der Agyptologie, Wiesbaden.
LdM
Livro dos Mortos.
Pir.
Textos das Piramides.
so
Sources orientales, Editions du Seuil.
Socle
Cf. Klasens.Text. Sarc.
Textos dos Sarcéfagos.
ZAS
Zeitschrift fiir Agyptische Sprache.Sumario
CAPITULO |
CAPITULO II
CAPITULO III
CAPITULO IV
CAPITULO V
CAPITULO VI
CAPITULO VII
CAPITULO VIII
CAPITULO IX
APENDICE
EPILOGO
BIBLIOGRAFIA
Contra CapaINTRODUCAO
A MAGIA ETERNA
ae =r34
MoainAnSs
Mesmo em nossos dias, a vida de um egiptdlogo freqiientemente caminha passo a
passo com a aventura. Verdade que é necessario passar longas horas debrugado
sobre os papiros, atento aos textos dos templos e das estelas. As bibliotecas sdo
cavernas cheias de tesouros onde, gracas aos trabalhos dos antecessores, é
possivel reconhecer os caminhos que levardo a descoberta. Mas toda essa
erudicdo, por mais indispensavel que seja, nado substitui um contato vivo com o
Egito.
Um egiptélogo que nao creia na religido egipcia, que nao partilhe uma
simpatia absoluta com a civilizagdo que estuda, nado pode, na nossa opinido,
pronunciar mais do que palavras sem vida. O intelectualismo, por mais brilhante
que seja, jamais substituiu o sentimento vivido, mesmo numa disciplina cientifica.
Os maiores sabios séo aqueles que participam do mistério do Universo e tentam
exprimi-lo por meio de sua viséo do Conhecimento, amadurecida ano apds ano.
Sendo isto verdade para ciéncias como a fisica, como demonstraram
Eisenberg, Einstein e tantos outros, sera facil compreender que o Antigo Egito
reclame, da parte de quem o estuda, uma atitude bem diversa do raciocinio glacial
e do “distanciamento” histdrico.
Uma noite de Natal, em Luxor, foi-me oferecido um presente suntuoso: um
convite para jantar em casa de uma familia de encantadores de serpentes. O avd,
amigo da Franca, falava admiravelmente a nossa lingua. Deu-me o lugar de honra,
a seu lado, durante a refeigéo, na presenca da mulher e de seus quatro filhos e trés
filhas. Do lado de fora, a noite estava calida. Ao creptsculo, o sol havia-se
estilhagado em dezenas de cores, até desaparecer pouco a pouco num Ultimo raio
luminoso que veio morrer nas paredes do templo de Luxor, a obra-prima do farad
Aménofis III e de seu genial arquiteto, Amenhotep, filho de Apu.
A casa de meu anfitrido nada tinha de régio. Decorada com simplicidade,
era, no entanto, um templo em louvor a amizade. Pombos grelhados, arroz, tortas,
bolos... um verdadeiro festim em homenagem ao viajante.
Nessa festa cristé de Natal, no decurso de uma longa refeigéo que so
terminou pouco antes da aurora, a nossa conversa versou sobre um tnico assunto:magia. O meu anfitrido e seu filho preenchiam uma funcao extraordinaria: sair a
cata de serpentes e escorpides. Aos jornalistas que de vez em quando vinham
questiona-los acerca da bizarra profissdo, eles se apresentavam como pessoas
simples, cuidadosas, herdeiras de uma antiga tradigéo familiar, mercadores de
venenos ligados a uma funcao lucrativa. Tais declaragdes nao me satisfaziam. No
decorrer das minhas pesquisas, como qualquer egiptélogo, eu havia deparado com
a magia. Muitos “sabios” tentaram separa-la da religido egipcia, como se ela fosse
um caminho incompativel com a grandeza das concepgées metafisicas expostas nos
grandes textos. Mas a magia é resistente. No Egito, esta presente em toda parte,
na sinuosidade de um conto que se acredita “literario”, ou no interior de um
tumulo, ou nas paredes de um templo. Na época dos farads, aqueles que se
ocupavam dos animais venenosos eram magos que haviam recebido uma iniciacdo,
possuiam conhecimentos, utilizavam formulas especificas cuja manipulagéo
requeria qualificagdes excepcionais.
Lembrei ao meu anfitrido esses conhecimentos. Ele sorriu, admitindo:
“Temos de reconhecer que ser irmao de uma serpente nao esta ao alcance de
qualquer um... Talvez, realmente, seja Util uma certa magia...” Segundo as regras
da delicadeza oriental, a verdadeira conversa tinha se iniciado.
Persuadido de que meu anfitrido ainda conhecia e praticava as regras da
antiga magia egipcia, confrontei a experiéncia dele e os meus conhecimentos de
egiptdlogo. Foi assim que nasceu este livro acerca do mundo magico da civilizagéo
faradnica. Dos textos antigos até a experiéncia vivida, nao ha lacunas. Eis a razdo
por que hoje é possivel abordar um assunto outrora considerado tabu.*
* Em notas, o leitor sera remetido para os textos egipcios, a maior parte dos quais
apenas acessiveis aos especialistas. O aspecto fundamental da documentacao
escrita, completada pela informacao oral, é que varias vezes desvenda as chaves.
Hermépolis, a antiga cidade santa do deus Thot, patrono dos magos
egipcios, o Hermes dos gregos, nado passa hoje de uma cidade em ruinas. No
entanto, aqui e além subsistem vestigios da grandeza passada. Uma das mais
impressionantes é o tumulo de Petosiris, sumo sacerdote de Thot, iniciado nos
mistérios. Esse tumulo nao é consagrado a morte, mas sim a vida na eternidade.
Seus textos admiraveis foram redigidos para ajudar o homem a realizar-se, a
encontrar a verdade profunda do seu ser, sem a qual nenhuma felicidade podera
ser vivida na Terra. Numa das paredes do tuimulo de Petosiris |6em-se estas frases:
“Aquele que se coloca na via do deus passa toda a sua vida na alegria,
cumulado de riquezas, mais do que seus pares. Envelhece na sua cidade, é um
homem venerado na sua provincia, seus membros mantém-se jovens como os de
uma crianga. Os filhos estéo diante dele, numerosos e considerados os primeiros da
cidade; esses filhos sucedem-se de geracdo em geracdo... Chega, enfim, a
necrépole em alegria, no belo embalsamamento do trabalho de Anubis.” “+Para atingir a sabedoria evocada pelo grande sacerdote Petosiris, nao basta
a boa vontade. Torna-se indispensavel uma certa ciéncia a que os egipcios
chamavam “magia”. Essa nogdo-chave, hoje confundida com magia negra,
feitigaria, poderes psiquicos e outros fendmenos de certa forma inquietantes, tinha,
na época dos faraés, um significado preciso.
Religido e magia nado podem ser separadas uma da outra. Pode-se imaginar
um ritual sem irradiagdo magica? Nao é verdade que as religides como o
cristianismo, 0 judaismo, o islamismo, embora, por vezes, se defendam disso,
exercem uma magia sobre a alma humana, a fim de a submeter a realidades que
Os nossos sentidos se revelam incapazes de registrar?
Os escribas egipcios redigiram milhares de paginas, reunidas em cédices
que os egiptdlogos classificam de “magico-religiosas”. Uma leitura rapida, embora
superficial, desses escritos leva-nos a conclusdo de que os egipcios formulavam
votos: viver uma vida longa sobre a Terra, nao ser privado de alimentos no Além,
nao morrer da picada de uma serpente, manter-se saudavel na Terra, gozar de
todo o seu potencial fisico, entrar e sair pelas portas orientais do Céu (isto é, ter
um espirito suficientemente formado para “circular” no Cosmo), conhecer as almas
dos ocidentais (quer dizer, anuir aos mistérios dos Antigos). Como se vé, misturam-
se esperangas materiais e esperancas espirituais. Essa 6 uma das caracteristicas
essenciais do pensamento egipcio. Ha um céu, ha uma terra, ambos agem um
sobre o outro. A nossa vida terrestre, nos seus aspectos mais vulgares, esta
impregnada de uma forca espiritual a que os sabios do Egito chamam heka,
“magia”. Este termo, de etimologia incerta, significa provavelmente “reger os
poderes”, o que efetivamente constitui o cume da arte do mago.
Quem deseja praticar a magia deve estar consciente dos poderes que
regem, qualquer vida, manipulando-os experimentalmente. Nao ha lugar para
qualquer experiéncia estritamente individual: como veremos, 0 aprendiz de mago
forma-se nas escolas especializadas dos templos, sob a vigilancia de mestres que
nao o deixam agir a sua vontade nem ao sabor da sua fantasia.
Revelacdo essencial dos sabios: a Magia, compreendida como forca
geradora, foi concebida antes da criagdo que conhecemos. E filha do deus do Sol
Cujos raios de luz sao uma manifestagao magica, porque portadores de vida.
Para o egipcio antigo, tudo vive. Pensar que alguma coisa é inanimada
prova que o nosso olhar nao se abriu corretamente para a realidade. O homem, tal
como qualquer outra parcela viva, é 0 resultado de um jogo de forcas. Podera
suporta-las passivamente ou podera tentar identifica-las. A qualidade do seu
destino ira depender da resposta que der a essas quest6es. As forgas magicas
parecem-nos hostis na medida em que o nosso grau de conhecimento é
insuficiente. O cientista contemporaneo critica o primitivo que se extasia ou se
assusta diante de fendmenos naturais que julga sobrenaturais. Mas esse mesmo
cientista, apesar de todo o seu saber, mantém-se escravo de zonas de sombra que
por vezes tornam falso o raciocinio mais seguro de si. Isto quer dizer que o homemde hoje, tal como o de ontem, se confronta com o desconhecido, fonte e finalidade
da sua existéncia. Nesse dominio, 0s magos do Antigo Egito tm muito a nos
ensinar.
A forca sobrenatural que mantém a vida nao esta fora do alcance da
inteligéncia humana. Reside no coracao do ser, no seu templo interior. Ao descobri-
la e ao utiliza-la depois, 0 mago constatava que a sua acdo tinha repercussdes
nesse mundo e no outro, como se nao existisse qualquer barreira real entre eles.
Conhecer o deus da magia é descobrir o poder dos poderes, penetrar no jogo
harmonioso das divindades. E também o morto, aquele que passa para 0 outro lado
do espelho, deve conservar o seu poder magico para atingir a ultima realidade.
Esta magia pode ser definida como a energia essencial que circula no
Universo, tanto dos deuses como dos humanos. Nao existem “vivos” e “mortos”,
mas sim seres mais ou menos capazes de captar essa energia contida no nome
secreto dos deuses. Estudando os hierdglifos, isto é, “as palavras dos deuses”,
progride-se no conhecimento desses nomes carregados de energia. No Egito, nada
se mantém intelectual no mau sentido do termo, quer dizer, cortado do real. Eis
por que qualquer objeto animado magica e ritualmente — por exemplo, as coroas
reais — registra um segredo vital. Espirito e matéria tecem-se na mesma
substancia. O importante, na pratica da magia, é identificar 0 lago que une todas as
coisas, que reine 0 conjunto das criaturas numa cadeia de unido cdsmica.
As linhas precedentes provam suficientemente que nao se deve reduzir a
magia do Antigo Egito a uma feiticaria de baixo estrato. Na realidade, encontramo-
nos perante uma ciéncia sagrada que exige especialistas com boa formacdo,
capazes de apreender as forcas mais secretas do Universo. Segundo um texto
magnifico, intitulado Ensinamento para Merikaré, “o Criador deu ao homem a
magia para repelir o efeito fulgurante do que acontece inesperadamente”. Dito de
outro modo, todos somos escravos de um certo determinismo. A maior parte das
vezes, 0S acontecimentos felizes ou infelizes nos apanham desprevenidos. Nao
somos donos do nosso destino. O Egito nado nega esse determinismo, mas
considera possivel escapar dele utilizando a magia. Pela pratica dessa arte,
podemos modificar o nosso destino, lutar contra as tendéncias negativas da
aventura humana, quer esta seja coletiva ou individual, afastar os perigos de que
tomamos consciéncia.
No Egito, a magia era considerada uma ciéncia exata. Embora certos
amadores, como os feiticeiros de aldeia, utilizassem algumas receitas magicas
elementares, a grande magia de Estado era revelada apenas a uma elite de
escribas, que devem ser comparados aos fisicos contemporaneos da energia
atémica. Com efeito, essa magia é destinada a preservar a ordem do mundo. Um
ato como esse nao é fruto de uma improvisacgado ou de um ilusionismo qualquer.
Repousa sobre uma linha continua de experiéncias controladas pelo mago.
A existéncia humana repousa sobre um equilibrio precario. Muitos perigos a
ameacgam: génios malignos, forcas negativas, mortos errantes, miltiplasmanifestagdes do “mau-olhado”, quer dizer, de uma energia negativa que, pelo seu
simples poder, destrdi tudo que existe. O primeiro dever do mago é travar essa
negatividade, preservar aquilo que existe. Mas deve igualmente velar para que os
momentos de “passagem” se desenrolem corretamente. O nascimento, o
casamento, a morte, o fim de um ano e 0 inicio do seguinte sao outros tantos
exemplos de situagdes muito delicadas em que a intervencdo magica é
indispensavel.
Os magos afirmam que os seus segredos remontam a mais alta
Antigiiidade. Nao é a referéncia a uma convengao, mas sim o cuidado de se referir
aos modelos primordiais, aos mitos da Criagdo. De uma certa maneira, 0 mago
esta em contato direto com o Arquiteto dos mundos. Qualquer ato magico é, por
definicao, um ato criador enraizado nas profundezas da origem. O magico “refaz tal
como foi feito no comego”, coloca no presente “a primeira vez", restitui o mundo
“aquele tempo”. O tempo magico é um tempo primordial. Pelo estudo da magia,
chegamos a centelha de onde jorrou toda a Criagao.
O deus da magia, Heka, é uma criacdo da Luz. Falar de magia “negra” e de
magia “branca” é considerado uma decadéncia. Na realidade, existe apenas uma
magia solar, portadora da Luz, que favorece a iluminagdo do mago. O resto é
somente ilusionismo, feiticaria ou busca de poderes.
No mundo das divindades, o deus da magia tem uma fungao precisa: afastar
© que deve ser afastado, evitar que o mal e a falta de harmonia perturbem a
ordem das coisas. Quando é realmente habitado pela forca divina, 0 mago
preenche igualmente essa funcdo. Ele é Hérus. A magia da sua mae isis esté nos
seus membros. E Ré de nomes misteriosos, é aquele que se encontrava no
oceano de energia das primeiras idades. Identifica-se com os maiores deuses do
pantedo, sentindo a magia no préprio corpo como forca viva: circula-Ihe nos pés,
nas maos, na cabega, no corpo inteiro. E sabido que a forga magica emite uma luz,
e que em certas ocasides irradia um cheiro caracteristico.
“E eis que recolhi esse poder magico em todo lugar onde se encontra, em
todo homem no qual se encontra”, diz o mago no capitulo 4 do Livro dos Mortos. “E
mais rapido que o galgo, mais veloz que a luz.” O mago enche o seu ventre de
poder magico, estanca a sede gracas a ele.“ Essa “magia no ventre” sobe
seguidamente ao espirito, como um fluido que circula nos canais secretos do corpo.
Dessa maneira, 0 mago, filho de Ré, senhor da Luz e do Sol, e de Thot, encarnado
pela Lua, descobre a extensdo das suas percepcdes. O seu saber esta consignado
num escrito que vem da moradia do deus do Sol, depois de ter sido selado no
palacio de Thot.
Sem magia, a sobrevivéncia é impossivel. As formulas apropriadas fornecem
aquele que se apresenta perante as portas da morte a coragem e a ciéncia
adequadas para franquear o obstaculo sem este ser aniquilado.
O mago viaja no céu. Diante da estrela Orion afirma ter comido as poténcias
vitais e ter-se nutrido dos espiritos dos antigos deuses cujos nomes secretosconhece. Orion escuta o viajante do Além. Reconhece que ele adquiriu
efetivamente todos os poderes, que nenhum foi esquecido.! Eis por que o
ressuscitado, identificado com uma estrela, brilhara nas alturas celestes. Esse é 0
destino do mago: tornar-se uma luz no Cosmo, para iluminar 0 caminho dos outros
homens.
O coracao intuitivo
A magia é um assunto de percepcdo. Ora, o centro das mais sutis
percepgées é 0 coracdo. Nao o érgao de carne, mas sim o centro imaterial do ser.
Esse coracgdo, na concepgao do Egito, é o testemunho da vida do homem. E
impossivel mentir-lhe ou engana-lo. O coracgao-consciéncia concebe, pensa, da
ordens aos nervos, aos musculos, aos membros. E ele que permite que os sentidos
funcionem corretamente. Tudo parte do coracdo e a ele volta. Ele é emissor e
receptor. Sensagdes e impressdes sdo a ele conduzidas para que faca delas a
sintese e extraia a liao dessas informagdes vindas do mundo exterior.
Segundo a mitologia da cidade de Ménfis, o deus Ptah concebeu 0 mundo no
proprio coracao antes de o exprimir pela lingua. Em cada ser consciente desperta
um coragéo herdeiro do coragao divino. Receptaculo da forga divina, 0 coracdo
responde pela retidao do mago perante os seus juizes, aqui e no Além. A qualidade
da pratica magica esta estreitamente ligada a qualidade do coracdo. Ao mago
compete desenvolver essas faculdades intuitivas que Ihe permitiréo descobrir o
cofre misterioso do Conhecimento, prefiguracdo do Graal. O coracdo lhe ditara o
meio de o abrir de modo a descobrir a ess€ncia da magia.
Um amuleto especial, o escaravelho do coragéo, detém um_ papel
determinante no momento da passagem da morte terrestre para a vida eterna. O
escaravelho é o simbolo das metamorfoses e das mutagdes. Colocando-o no
coracgaéo da muimia, 0 mago confere ao morto o poder de atravessar as zonas mais
obscuras onde o ser se arrisca a sofrer graves atentados. No momento da
abordagem feliz das margens dos paraisos, 0 coragéo do homem justo ser-lhe-4
restituido. Esse dom é preparado na Terra durante a vida do individuo. A atitude
magica consiste em fazer com que pulse em si um coracdo de origem celeste que
venha despertar a percepcao do invisivel.
de Estado
A magia era considerada no Estado egipcio uma atividade primordial. Os
livros magicos nao sao escritos por autores que os redigem segundo a sua fantasia,
sendo antes obra de instituigdes oficiais como a Casa de Vida, e fazem parte dos
arquivos reais. Um dos primeiros objetivos da magia é proteger o farad de qualquer
influéncia negativa. Como escreveu Jean Yoyotte, “a visdo egipcia do mundo
procede de uma alta magia de Estado, coerente, raciocinada, admiravelmente
perceptivel e serena”.
Estariamos bem enganados se acreditassemos que a magia, na época dosfarads, era uma atividade individual. Essa foi a expressdo mais decadente e a
menos rica de significado. Os egipcios utilizaram, sobretudo, os rituais dos templos,
celebrados em todo o pais. Todo ato de culto é magico. Pensemos, por exemplo,
no fato de o farad ser o unico habilitado a dirigir os ritos necessarios para manter a
presenca dos deuses na Terra. A imagem do rei, gravada na parede de cada
templo, anima-se magicamente para entrar na alma do sacerdote que
efetivamente dirigira a ceriménia.
O maior centro de magia do Egito era provavelmente a cidade santa de
Helidpolis, a cidade do Sol (a altura do Cairo), onde se elaborava a mais antiga
teologia. Ali eram conservados numerosos papiros “magicos”, no sentido amplo do
termo, incluindo textos médicos, botanicos, zoolégicos ou matematicos. A maior
parte dos sabios e dos fildsofos gregos dirigiu-se a Helidpolis para la receber
comunicagéo de uma parte dessa ci€ncia acumulada durante séculos. Foi ali,
nomeadamente, que Platéo tomou conhecimento da lenda da Atlantida que fez
correr tanta tinta e cujo verdadeiro significado ainda hoje nos é desconhecido, e sé
pode ser deduzido dos textos egipcios.
O primeiro principio magico é a necessidade da oferenda aos deuses. Gracgas
a esse ato, a Criacdo continua. “Dar Maat (a harmonia universal) ao mestre de
Maat (0 Criador)”, segundo a formula ritual, é permitir que a vida se prolongue.
O que o Antigo Egito mais temia era 0 caos, esse estado de negatividade
oposto a Maat, a ordem das coisas. Nao basta a boa vontade para evitar a
desordem que, a termo, condena toda a civilizagdo. A magia é uma arma de valor
excepcional, gragas a qual as barcas solares circulam corretamente nos céus, os
mortos recebem o alimento que Ihes é devido, o Estado funciona e celebram-se as
festividades. Sem a intervencdo magica do Estado, as importantes cheias do Nilo
nao ocorreriam, as culturas nao seriam irrigadas, os cagadores nao poderiam matar
caga, os pescadores ndo pescariam peixes, os artesdos nado acabariam as suas
obras, os templos nao poderiam cumprir a sua missdo.
Uma visdo como esta surpreende-nos. Tantos fendmenos nos parecem hoje
tao “naturais” que ja nao conseguimos alcangar o seu significado recéndito. A caca,
por exemplo, era para o egipcio uma aventura muito especial que consistia em
entrar no mundo das forcas obscuras, nado dominadas pelo homem. O perigo
poderia acontecer a cada instante, quer tomasse a forma de um animal do deserto
ou de um crocodilo furioso. O cagador considerava ser 0 seu papel afrontar as
forgas do mal. Para as dominar, também se utilizavam formulas magicas.
O rei mago
O faraé do Egito nao tem pai nem me. Vive a vida e néo morre a morte. E
© grande mago por exceléncia, porque nele encarna a forca da vida. No Império
Antigo, sé o faradé esta apto a comunicar-se com o principio divino para que a
humanidade subsista. E, pois, o rei, mestre das forcas naturais e sobrenaturais, que
detém o poder real, adquirido pela ingestao das forcas magicas em um banqueteextraordinario, misto de uma perturbacao césmica, acompanhando a vinda do rei
aos espacos celestes. As estrelas escurecem. A luz rarefaz-se. O céu e a terra
tremem. Um personagem aterrador provoca esses acontecimentos: o faraé em
pessoa. Ele é aquele que se nutre de seus pais e maes. E um mestre de sabedoria
do qual a mae nao conhece o nome. A sua gloria esta no céu, o seu poder esta no
horizonte como o de Atum, o Criador, que 0 engendrou. O rei tornou-se mais
poderoso que ele. Touro do céu, ele assimila o ser de cada divindade. Come
homens e deuses. Khonsu, um génio temivel, mata os seres de que o rei tem
necessidade e extrai, para si, 0 que ha nos seus corpos. Outro génio, Chesmu,
cozinha-os para ele nas pedras de uma fornalha. O rei come-Ihes a magia, engole-
Ihes os espiritos. Os gordos sao para a refeicéo da manha, os médios para a
refeicdo do dia, os pequenos para a ceia. O farad apanha os coragées dos deuses,
come a coroa vermelha, engole a verde. Todo 0 Cosmo reconhece o seu dominio.
Nutre-se dos pulmdes dos sabios e da sua magia. O seu tempo de vida é a
eternidade.
Este texto foi classificado de “hino canibal”, supondo que aludia a rituais
muito arcaicos em que os egipcios teriam consumido carne humana. Na realidade,
era um modo de invocar a captagdéo do poder magico pela ingestéo direta da
vitalidade divina considerada como alimento.
Cheio de magia, o farad esta protegido. O ser maléfico que 0 mordesse sé
conseguiria envenenar-se a si mesmo. Cada parte do corpo real esta divinizada. O
ventre do farad, por exemplo, é Nut, a deusa do céu. Ora, a forca magica encontra-
se precisamente nesse “ventre celeste”.
Face aos deuses, o farad manifesta a sua autoridade. Ordena-lhes que
construam uma escada para ele subir ao céu. Se nao obedecem, nao terdo
alimentos nem oferendas. Mas o rei toma uma precaucao. Nao é ele, enquanto
individuo, que se exprime, mas sim 0 poder divino: “Nao sou eu que vos digo isso,
a vos, deuses, é a Magia que vos diz isso”.
Quando o faraéd completa a sua ascensdo, a magia esta aos seus pés. “O.
céu treme”, afirma ele, “a terra estremece diante de mim, porque eu sou um
magico, possuo a magia”. E ele, de resto, que instala os deuses nos seus tronos,
provando desse modo o seu maximo poderio reconhecido pelo Cosmo.
No Egito do Império Antigo, tudo que diz respeito a pessoa real é de ordem
magica. Como o farad é 0 tinico sacerdote, tem por fungao “carregar” magicamente
os rituais do Estado. O nome real esta contido numa “carteia”, cujo nome egipcio,
chenit, significa “o que cerca” (ou seja, o contentor do universo sobre o qual reina o
farad). Segundo o principio do jogo de palavras, capital para a compreensdo do
funcionamento da lingua hieroglifica, esse termo implica também a idéia de
“conjuragdo”. O nome real esta protegido magicamente pela carteia. Atributos,
insignias, roupagens reais estado carregados de magia. A coroa vem em primeiro
lugar na lista desses objetos. E considerada um ser vivo, uma deusa, a um tempo
leoa agressiva e serpente que ataca os inimigos do rei. Cantam-se-Ihe hinos. S6 0farad é capaz de a usar e de utilizar as suas virtudes secretas.
O faraé, protegido por Iss, avanca para Osis. A deusa ostenta no penteado o
signo hierogifico do trono que define a Sua natureza simbdica. Ela é a deusa-trono de
onde nascem os res. Com a mao direta emite um fliido que atinge a nuca do farad, um
dos centros vias da sua Pessoa. Com a mao esquerda segura o braco dreto do
monarca: ato magico necessario, porque o farad aperta no punho os dois cetros que Ihe
permitem exercer a soberana sobre a terra dos homens. O rei veste-se segundo a sua
funcéo: coroa dupa (juntando em uma s6 a coroa branca do Ako Egto e a coroa
vermelha do Bao Egto), 2 peruca nemes e o grande saiste cerimonial, Diante de Osis é
deposto um pequeno akar no qual se encontram flores e um quemador de perfume. O rei
oferece a0 deus da ressurreicdo a esséncia sutil de todas as cosas. (As capes de
Tutankhamon)
Magos célebres
Segundo Maneton, o sacerdote de Sebennitos que, na época grega,
consagrou uma obra célebre a histéria dos reis do Egito, o farad Athotis (primeira
dinastia) era um médico que redigia livros de anatomia. Praticou, portanto, uma
arte magica, abrindo o caminho para os seus sucessores. Nessa perspectiva,
considera-se que todos os farads foram magos institucionais.
No Império Antigo, Imhotep foi o mais célebre dos magos. A sua fama era
tal que, séculos mais tarde, os gregos 0 identificaram com o seu deus da medicina,
Asclépio. No Império Novo, os escribas prestavam culto ao “deus” Imhotep; antes
de escrever, deitavam na terra um pouco de agua em memoria de seu ilustre
patrono. A personalidade de Imhotep é, portanto, essencial para se perceber a
extensao do “campo magico” no Antigo Egito. Esse personagem nao era um
pequeno feiticeiro de aldeia, mas sim o primeiro-ministro do todo-poderoso faradDjoser e o inventor da arquitetura de pedra cuja primeira obra-prima foi a piramide
de degraus de Saqqara. Em outras palavras, um homem de Estado de primeiro
plano cuja competéncia magica era julgada indispensavel para levar corretamente
a cabo a sua funcdo. Certas “receitas”, atribuidas a Imhotep, foram transmitidas a
posteridade, como esta:““ “Pegar uma mesa de madeira de oliveira de quatro pés.
Coloca-la num local puro, no meio, cobri-la completamente com um tecido. Colocar
quatro tijolos debaixo da mesa, um em cima do outro. Diante da mesa, colocar um
incensorio de argila. Colocar carvao de madeira de oliveira no incensdrio, e uma
gansa selvagem gorda triturada com mirra, fazer bolinhas e coloca-las no braseiro,
pronunciar uma formula, e passar a noite sem falar a quem quer que seja, na terra.
Ver-se-a 0 deus sob a forma de um sacerdote vestindo um traje de linho”. O mago
invoca, entéo, aquele que esta sentado nas trevas, porém no meio dos grandes
deuses, buscando e recebendo os raios do sol.
Hardedef, um dos filhos de Khéops, era conhecido pelo seu extenso
conhecimento e as suas sabias palavras. Descobriu diversos livros antigos de
magia, cujas formulas foram integradas nos escritos rituais. Knaemuase, quarto
filho de outro faraé célebre, Ramsés II, era sumo sacerdote de Ptah em Ménfis.
Construiu e restaurou numerosos monumentos. Tinha uma paixao pela arqueologia
e pelo estudo dos documentos antigos. Passava por grande sabio e inspirou duas
historias de magia acerca das quais voltaremos a falar.
Horus, filho de Panechi, era um mago que viveu na Epoca Baixa. Teve de
combater um mago etiope que ameacava a seguranca do Estado. Este Horus vivera
quinze séculos antes e havia reencarnado para vir em socorro do seu pais.
E ao mago Es-Atum, sacerdote que viveu na época de Nectanebo II (359-
341), que se deve a salvaguarda da famosa Estela de Metternich. Es-Atum
constatara que uma inscrigéo num templo da cidade santa de Helidpolis tinha sido
retirada. Para que esse precioso testemunho nao se perdesse, mandou copiar o
texto numa estela que chegou até nés.
Esta pequena galeria de retratos tinha como simples objetivo ilustrar a
continuidade do estatuto de mago no decurso dos séculos que viram desenrolar-se
a aventura egipcia. Seria possivel, evidentemente, citar dezenas de outras figuras.
Pensemos ainda em Harnuphis, o ultimo mago egipcio de grande renome. Estava
presente nos campos de batalha da Mordavia, em 172, no lugar em que guerreava
0 exército de Marco Aurélio. Faltou agua, e os gregos, privados de provisdes,
arriscavam-se a morrer de sede. O mago egipcio provocou a chuva, apavorando os.
barbaros e salvando os soldados de Marco Aurélio. A velha ciéncia da terra do Egito
provava assim que nada tinha perdido da sua eficacia.
Textos magicos
Os textos magicos, que formam uma parte considerdvel da “literatura”
egipcia, estao inscritos em suportes materiais variados: papiros (desde o Império
Médio), dstracos (placas de calcario), estelas, estatuas, multiplos pequenosobjetos. Os eruditos contempordneos, habituados a fazer dissecagdes racionalistas,
ganharam 0 habito de classificar os textos egipcios em “literarios”, “histéricos’,
“religiosos”, “magicos” etc. Essas distingdes formais nao correspondem a realidade.
O Conto do Naufrago, reconhecido como “literario”, é uma histéria de magia
admiravel. Os Textos dos Sarcdfagos, ditos “funerarios”, apelam constantemente
para a magia. O fato de um texto estar escrito em hierdglifos faz com que ja se
pressuponha a sua eficacia; poder-se-ia entao dizer que todo escrito egipcio é por
esséncia magico, ainda que se tenha de reconhecer diversos graus na aplicagao
desse principio.
Alguns textos, no entanto, destacam-se do conjunto pela sua importancia ou
pela sua originalidade. Entre eles, o Livro dos Dois Caminhos, inscrito em
sarcéfagos do Império Médio, confere ao morto o conhecimento dos caminhos do
Além. Dois caminhos, um de terra, outro de agua, sdo separados por um rio de
fogo. Outras tantas vias de acesso simbdlico a um pais povoado de génios
temiveis. E la que se encontra uma espécie de Graal que o justo descobre depois
de ter vencido numerosas provas cujas chaves sé um conhecimento “magico”
podera fornecer-lhe.
Os Livros de Horas sao conjuntos de formulas que o mago recita durante as
horas do dia e da noite para obter os favores das divindades. O Papiro Bremner-
Rhind, onde se conta a luta das poténcias solares contra a monstruosa serpente
Apofis, génio das trevas, registra também um tratado esotérico sobre a natureza
divina. E-nos revelado que o Mestre do Universo criou 0 conjunto dos seres quando
o céu e a terra ainda nao existiam. O plano da criacado foi concebido no préprio
coracao dele. De Um, 0 arquiteto dos mundos, tornou-se Trés. Provocou mutagao e
transmutacées, instalou-se no monte inaugural, primeira terra emergida. Quanto
aos homens (remetj), esses nasceram das lagrimas (remetj) do deus, quando
chorou sobre o mundo.
A Estela de Metternich é a mais célebre das estelas magicas. Data do século
IV a.C. e registra um texto notavel que trata da cura magica de Horus crianca,
picado por um animal venenoso nos pantanos do Delta onde vivia escondido em
companhia de Isis, sua mae. Na parte superior da frente da estela, vé-se Horus de
pé em cima de crocodilos, agarrando criaturas maléficas. O jovem deus é protegido
por Thot, o Mago, e por Hathor, deusa da Harmonia. Por baixo, uma historia em
quadrinhos simbdlica inclui sete registros onde figuram deuses e génios,
desenvolvendo a sua atividade em miultiplas cenas de conjuracgéo. No cimo da
estela, oito babuinos celebram com seus gritos 0 nascimento da Luz. A Estela de
Metternich evoca igualmente o papel da grande maga, Isis. Quando encontra
Horus, seu filho, agonizando, apela aos habitantes dos pantanos, mas nenhum
deles conhece um remédio apropriado. Ninguém pode Pronunciar palavras de cura
eficazes. Iria o Criador, Atum, permitir que a vida se esvaisse? Isis retira Horus do
atatide onde repousa e lanca um longo lamento que atinge o céu. A sua ameaca é
aterradora: enquanto o seu filho nao for curado, a Luz nao brilhara. As poténciascelestes, assim forcadas, intervém a favor do jovem deus: “Desperta, Horus!”, 6
dito a ele. O veneno perde a sua capacidade letal, depois torna-se indcuo. Hérus
cura-se. A ordem do mundo é restabelecida. A barca divina percorre novamente os
espacos celestes.
E uma verdadera “histéria em quadrinhos” magia a que é narrada na Estee de
Metternich, documento importante que por si s6 mereceria um extenso estudo. No cimo do
monumento, véem-se oto babuinos adorando 0 Sol nascente, enquanto Thot drige o rtual
Trata-se da criacéo magica da Luz e da lta contra as’ forcas das trevas, expressa
simboicamente nos registros inferiores da este. A figura central é a de Hérus, representado
como uma crianca nua, com os pés pousados em cima de rocodis, e tendo nas maos animas
venenosos ou perigosds. Se 0 jover deus, portador da cintura da infancia, ndo teme qualquer
perigo e domina as forcas do mal, € porque protegido por numerosas divndades,
nomeadamente por Bés, cuja enorme cabeca sorrdente é garantia de seguranca. (Estela de
Mettemich, rosto)
Outro documento surpreendente: “a estatua curadora” de alguém chamado
Djed-Her, guardido das portas do templo de Athribis. Descoberta em 1918 e
conservada no Museu do Cairo, oferece informagées acerca das praticas religiosas
do século IV d.C. Assente num pedestal e medindo 65 centimetros de altura, esse
monumento de granito negro representa uma personagem acocorada, bracoscruzados, as costas contra um pilar. O corpo esta coberto de inscrigdes, com a
excecdo do rosto, dos pés e das maos. A superficie do pedestal esta cavada de
modo que duas bacias ligadas por um cérrego recolham a agua que se impregnou
de magia depois de ter sido derramada sobre a estatua. Bebendo essa agua, 0
doente curar-se-a.
Sobre qualquer estatua curadora, a mencgdo do nome prdprio do defunto é
importante. Aqueles que queriam utilizar magicamente a sua estatua, o morto
pedia que lessem em seu favor os textos rituais. Aparecia também como um
salvador produzindo milagres. “Oh, sacerdotes, escribas, sabios que vejam este
Salvador! Recitem os escritos Dele, aprendam as fdrmulas magicas Dele!
Conservem-Lhe os escritos, protejam-Lhe as formulas magicas! Anunciem a
oferenda funeraria que o rei faz, em mil coisas boas e puras, para o ka (a poténcia
vital) deste Salvador que se nomeou Hérus-o-Salvador”.
Na mesma categoria de documentos se classifica uma base de estatua de
granito negro (32,2 centimetros de comprimento, 12 centimetros de altura)
adquirida em 1950 pelo Museu de Leiden. Coberta de textos magicos, é
aproximadamente da época ptolemaica. Os textos revelam que Isis, vinda de uma
moradia secreta onde tinha colocado Seth, utilizou todo o seu conhecimento
magico para curar uma crianca mortalmente picada por um dos sete escorpides que
a precediam nos seus deslocamentos.
Entre as estatuas “magicas”, deve ser dado um lugar a parte a do faradé
Ramsés III, encontrada no deserto oriental.“22 A sua funcdo era a de proteger os
viajantes contra os animais malfazejos, nomeadamente as serpentes. Os que se
aventuravam nas paragens do istmo do Suez se beneficiavam assim dos favores de
Ramsés III divinizado, cuja efigie, colocada num pequeno oratdrio, emitia uma
influéncia benéfica. Na estatua (ou, mais exatamente, no grupo esculpido, porque o
rei era acompanhado por uma deusa) estavam gravadas formulas magicas que,
assegurando a salvaguarda de Horus crianca, garantiam também a do viajante.
Uma corporagdo de magos, os sat, quer dizer, “os protetores’, estava
encarregada de velar pela seguranca daqueles que percorriam as pistas do deserto.
Ramsés III teve relacdes especialmente estreitas com o universo da magia. Na
ocasiao do sombrio processo criminal batizado “conspiracao do harém”, conspiragao
fomentada por dignitarios, estes utilizaram a magia mais negativa para tentar
eliminar o chefe do Estado. Um dos conjurados tinha conseguido retirar dos
arquivos reais um texto magico ultra-secreto. Fez uso dele contra o seu soberano.
Os membros da maquinacao fabricaram figuras de cera que representavam os
guardas do faraé e conseguiram assim paralisa-los. Esperavam, sem duvida, poder
ir mais longe e atingir a propria pessoa do farad, mas foram identificados e
capturados. A utilizagdéo da magia como arma criminosa foi considerada delito
muito grave, castigado com a condenacao a morte, sendo a sentenca executada
sob a forma de suicidio.
Varios museus guardam papiros magicos, de interesse desigual. Citamosanteriormente o Papiro Bremner-Rhind e poderiamos estabelecer uma longa lista
de documentos (entre os quais alguns inéditos ou nao traduzidos, ou ainda
inacessiveis por motivos obscuros). Um deles, 0 Papiro demdtico de Londres e de
Leiden, goza de um renome algo injustificado. Esse documento de época tardia
mistura praticas divinatérias, receitas de baixa feiticaria e antigos elementos
mitoldgicos. E o reflexo de uma mentalidade magica, dando um lugar nado
negligenciavel a sortilégios dos quais um bom numero visa conquistar a mulher
amada. Esse papiro nao foi, de resto, redigido para uso apenas dos egipcios, mas
também dos gregos e dos cristaos.
Arquivos sagrados e bibliotecas magicas
Em egipcio, os arquivos sagrados séo chamados bat Ra, “poténcias do deus-
luz”. “Os livros”, explica um papiro,“22 “sdo a poténcia do deus-luz no meio do qual
vive Osiris”. E, pois, por intermédio desses arquivos sagrados que se comunicam as
duas grandes poténcias divinas, Ré, deus-luz, e Osiris, senhor das regides
tenebrosas. Os autores dos livros magicos néo séo homens, mas sim Thot, 0
mestre das palavras sagradas; Sia, 0 deus da sabedoria; Geb, o senhor da terra.
Escrevendo esses livros, legaram a humanidade mensagens que ela podera utilizar
com conhecimento de causa.
O mago deve, portanto, possuir um conhecimento perfeito do mundo divino.
No apogeu da sua arte, ele é considerado o Mestre da Enéade, corporacgao de nove
deuses protagonista na origem de toda a criagdo. Portador da grande coroa, 0
mago torna-se redator de textos sagrados.
O egipcio gosta da escrita. E a escrita que registra o conhecimento. “Ama os
livros como amas a tua mae” é recomendado aquele que procura a sabedoria. O
mago nao se contenta em ler: engole os textos, coloca pedacos de papiro numa
tigela, bebe o Verbo magico, ingere as palavras portadoras de significado. Esse rito
extraordindrio foi transmitido aos construtores de catedrais.
Perto da mumia era depositado um papiro encarregado de repelir as forcas
hostis e de permitir ao morto entrar em completa seguranca nas regides
desconhecidas do Além. Esses escritos magicos eram colocados ora perto da
cabeca, ora perto dos pés, ora entre as pernas do corpo mumificado. O morto
dispunha assim de formulas eficazes, de itinerarios, de indicagdes que deviam ser
seguidas para que a sua viagem pdstuma fosse bem-sucedida.
Cada templo possuia uma biblioteca magica onde se conservavam as obras
necessarias as praticas rituais e ao ensino esotérico dos praticantes. Em Edfu, por
exemplo, dispunham de obras para combater os génios malignos, repelir o
crocodilo, apaziguar Sekhmet, cacador de ledes, proteger o faraé no seu palacio. O
mago rege a sua vida cotidiana pelas leis césmicas; por exemplo, “O dia vinte do
primeiro més da inundagao é o dia de receber e de enviar cartas. A vida e a morte
saem nesse dia. Faz-se nesse dia 0 livro “fim da obra”. E um livro secreto, que faz
malograr os encantamentos, que detém e trava as conjuras e intimida todo ouniverso. Contém a vida, contém a morte”.
O escrito magico goza de uma vida auténoma, dado se encontrar escrito em
hieréglifos, signos portadores de poténcia. Os Textos das Piramides, que incluem
numerosas formulas magicas, oferecem a este respeito um exemplo muito
significativo. Esses textos, inscritos nas paredes internas das piramides do Império
Antigo (V e VI dinastias), apresentam-se sob a forma de colunas de hierdglifos.
Cada um deles é considerado um ser vivo, a tal ponto que os animais perigosos ou
impuros (por exemplo, os ledes, as serpentes) sdo cortados em dois ou mutilados
para nao fazer mal ao faraé morto e ressuscitado. Na propria composigéo dos
textos magicos notam-se usos caracteristicos, como 0 processo enumerativo que
consiste em dar longas listas de inimigos vencidos ou partes do corpo do homem
identificadas as dos deuses. Também se empregam palavras incompreensiveis,
formadas de conjuntos de sons julgados eficazes: ha uma mistura de egipcio, de
babilénio, de cretense e de outras linguas estrangeiras, desembocando em
férmulas do estilo “abracadabra”. Esses desvios bizarros da magia sacra nao devem
fazer com que se esqueca 0 valor da palavra. Ler em voz alta as formulas magicas
é conferir-Ihes eficacia e realidade. A lingua hieroglifica é baseada, em grande
parte, num “alfabeto” sagrado que inclui letras-mae (consoantes e
semiconsoantes). As vogais nado sao notadas, sdo elementos pereciveis,
passageiros, dependendo de uma época e um lugar. Em troca, “o esqueleto de
consoantes” é o elemento imortal da lingua. Esta idéia de um valor magico da
linguagem foi conservada durante muito tempo. Na época copta, um amuleto
preservava vinte e quatro nomes magicos, cada um deles iniciado por uma das
letras do alfabeto grego.“!
“Eu sou a Grande Palavra”, declara o faraé,“ indicando desse modo que é
capaz de dar vida a todas as coisas. Ha uma palavra secreta nas trevas” “2,
Qualquer espirito que a conheca escapara a destruicdo e vivera entre os vivos. O
viajante do Além descobre-a e reveste a magia que ira permitir-Ihe manejar a
varinha de um deus verdadeiro. Quem possuir a formula sera capaz de fazer a sua
propria magia.“Exemph de texto magico: uma pagina do Papiro Sak 825 onde se revela o rtual da
Casa de Vida. A esquerda, escrito dito “hierdtico”, forma cursiva do precedente.
Quando os deuses falaram, rasgaram 0 nada e abriram a via as forgas da
vida. Eis a razdo por que 0 mago repete as palavras dos deuses, como as de Horus
que afastam a morte, extinguem o fogo dos venenos, reentregam o sopro da vida e
arrancam o homem a um destino maléfico. Palavras e formulas pronunciadas nado
sao ditas por acaso; inspiram-se em lendas sagradas, em acées acontecidas nos
tempos divinos e que se repetem no mundo dos homens. Uma formula magica sd é
eficaz na medida em que remonta a uma alta antigilidade ou, mais exatamente, a
origem da vida. A formula de oferenda, por exemplo — peret kheru —, significa: “o
que aparece na voz”, sendo apenas 0 Verbo capaz de animar a matéria.
O titulo geral para a formula magica é “formula para...” e se tornar, ser, ter
poder sobre. Deve ser lida, recitada, decorada, compreendida, gravada, utilizada
como um verdadeiro utensilio espiritual e material. Repetir quatro vezes um texto
magico torna-o plenamente eficaz, mas é igualmente necessario prestar atengdo
ao som, ao ritmo, a salmodia.
A matéria-prima do mago é essa palavra que, acrescentando-se ao gesto,
produz o ato magico. Pelas formulas tornadas vivas, 0 mago encanta o céu, a terra,
as poténcias noturnas, as montanhas, as aguas, compreende a linguagem dos
passaros e dos répteis. O alvo é consideravel: a recitagdo correta das férmulas
torna-o capaz de aceder ao cortejo de Osiris e de fazer parte da confraria dos reis
do Alto e do Baixo Egito, a sociedade inicidtica mais fechada que é possivel
conceber.
As prdprias divindades véem-se obrigadas a obedecer as palavras de poder
do mago:“O vos, todos os deuses e todas as deusas, voltai para mim 0 vosso
rosto! Sou o vosso mestre, filho do vosso mestre! Vinde a mim e acompanhai-me
sou 0 vosso pai! Sou um companheiro de Osiris, percorri o céu em todos os
sentidos, explorei a terra, atravessei o mundo intermedidrio seguindo os passos
dos Iluminados veneraveis, porque detenha inumeras formulas magicas”.!2>
O mago proclama-se eficaz pela sua boca, glorioso pela sua forma. Tendo
cavado o horizonte e percorrido 0 Cosmo em todas as diregdes, recolheu o
ensinamento dos bem-aventurados.
Aquele para o qual sao recitadas as formulas beneficia-se de privilégios
importantes: bebe a agua do rio, sai para o dia como o deus Horus, vive como um
deus, é adorado pelos vivos como um sol.2° Quem recita as palavras justas ira por
toda parte e o seu coracao ficara estavel qualquer que seja a forma que adotar. 22
Ejaculara o seu sémen sobre a terra, tera herdeiros que prosseguiréo a sua obra.
Nem o seu poder nem a sua sombra serdo presas dos deménios. E isso,
acrescentam os redatores dos livros de magia, foi “um milhdo de vezes veridico”.
Existe até uma formula para protecdo contra qualquer morte, quer seja
provocada por doenga, por animais nocivos, por afogamento, uma espinha de
peixe, um osso de passaro, a fome, a sede, a agressdo de humanos ou pelasdivindades.2 E preciso, com efeito, lutar incessantemente contra as agressdes do
invisivel que se manifesta de mil e uma maneiras. Por isso, 0 mago recita com
freqiiéncia formulas complexas para afastar o desenlace fatal daquele que esta
asfixiado.@* A falta de ar parece ter sido uma das obsessdes dos egipcios, para os
quais a respiracdo era uma das mais deslumbrantes manifestacdes da vida.
A magia evita também que o homem justo seja comido pelas serpentes.
Para protegé-lo com eficacia, a melhor solucdo consiste em Ihe dar a aparéncia de
uma serpente, que sera ele proprio capaz de engolir as suas perigosas
congéneres. 2%! Voltaremos a falar destes temas caracteristicos da magia egipcia.
Magia de Estado, magia privada: os dois termos nao sao contraditérios, mas
tém como alvo objetivos sensivelmente diferentes. A primeira atinge uma
dimens&o césmica; a segunda, por vezes inicitica, arrisca-se a cair, em qualquer
momento, no mau caminho que conduz aos poderes mais temiveis. Nao acontece
hoje o mesmo com as disciplinas cientificas de que tanto nos orgulhamos?
A magia egipcia é uma visdo do mundo que ilumina zonas ao mesmo tempo
luminosas e obscuras da alma humana. Ela foi, muito antes da psicandlise, uma via
de pesquisa fecunda para o conhecimento da ultima realidade que ha em nds.
Serviu igualmente para manipular, néo sem perigo, uma energia psiquica que a
ciéncia mais racional comega a descobrir, tateante e com um certo espanto.
O Antigo Egito tem ainda muito a nos ensinar, tanto no dominio da magia
como em muitos outros. Ougamos, pois, os magos formular as suas certezas, as
suas angustias, celebrar os seus sucessos e interrogarem-se sobre os riscos de
insucesso. E também a nossa aventura que eles contam.CAPITULO I
O MAGO, HOMEM DE
CONHECIMENTO
init
Um pai de familia egipcio, mago por acréscimo, vive um ritual cotidiano no seio da
sua propria familia. Quando esta esta toda reunida, por ocasido de uma festa ou de
uma circunstancia considerada excepcional, o pai torna-se o simbolo de uma forca
sobrenatural. Nao se dirigem a ele de qualquer maneira e ninguém se permite
jamais tomar a palavra. No Ocidente, freqiientemente temos perdido esse sentido
do sagrado nas nossas acdes mais simples. Ora, como escrevia Hermes
Trismegistos, “o que esta embaixo é como o que esta no alto”. Ainda que este
julgamento possa chocar, creio que um banquete como aquele que foi celebrado na
Noite de Natal em Luxor é uma ceriménia sagrada.
“O mago”, diz o meu anfitrido, “é um homem que conhece as coisas”. Os
filhos dele aprovaram com um aceno de cabeca. Nao dissimulei a minha surpresa.
“Conhecer as coisas”... esta expressdo, na aparéncia banal, é freqiiente nos textos
hieroglificos. Significa: magicamente os deuses na Terra. “Conhecimento”,
prosseguiu 0 mago de Luxor, “eis a palavra-chave da arte magica”.
Quem ignora as formulas magicas nao podera circular 4 sua vontade neste
mundo ou no outro.* A ignorancia prende o homem a terra, 0 reduz a escravidao. O
mago esta “informado” pelos deuses Sia, detentor da intuigdo das causas, e Hu, 0
Verbo criador. Tomam-no pela mao e conduzem-no até a um cofre misterioso.
Abrem-no diante dele. O mago vé, entao, o que esta no interior: o préprio segredo
da magia.2=*
* O capitulo 572 dos Textos dos Sarcéfagos foi redigido para conferir o poder
magico aquele que viaja no reino dos mortos. E necessario apelar a corporagaéo dos
Seguidores de Hérus, sabedores entre os sabedores, que conhecem os segredos da
origem. Fornecem ao mago uma protecéo onde quer que se encontre, com a
condigao de que seja apto ao conhecimento e nao ceda ao esquecimento.
Intuicdo e Verbo: nao é verdade que se trata, hoje como ontem, das duas
“ferramentas” indispensaveis aquele que procura? Do encantador de serpentes dos
campos de Luxor ao fisico atémico mais “evoluido” néo se manteve idéntica a viaseguida: perceber pela intuicao, formular pelo Verbo?
O mago nao é um necromante nem um ocultista. Para o Egito, ele é um
sdbio e um sacerdote, Lé e escreve hierdglifos, conhece os livros antigos e as
formulas de poder. E mago porque é conhecedor. A sua funcdo oficial é
concretizada pelo porte de um rolo de papiro, simbolo da abstracaéo e do
conhecimento esotérico.
Esses fatos sdo desconcertantes para a nossa mentalidade moderna, que
associa a magia aos videntes das festas populares ou as praticas mais aberrantes.
O magg, na civilizagdo do Antigo Egito, 6 uma personagem publica que faz parte do
universo “normal”. O que seria “anormal” seria viver sem magia; em outras
palavras, com os olhos e os ouvidos fechados. Apto para as mais altas fung6es, o
mago ocupa um lugar importante na corte do farad.
Nas aldeias, os magos locais, detentores de segredos técnicos por vezes
muito Uiteis ao bem-estar de todos, sdo pequenos proprietarios muito escutados e
consultados a propdsito de tudo pela populacdo. Possuem o saber sem o qual cada
um se sentiria em perigo.
Como sacerdotes, os magos recebem uma iniciagdo sacerdotal. Os que
ocupam o cimo da hierarquia sdo submetidos a um modo de vida que Porfirio
evocava nestes termos:‘2% “Pela contemplacao, atingem o respeito, a seguranca da
alma e a piedade, pela reflexdo, atingem a ciéncia: e, pelas duas, ascendem a
pratica de costumes esotéricos e dignos dos tempos de outrora’. Nao esquegamos
que o chefe dos magos é€ o prdprio farad, que transporta as coroas carregadas de
magia, a mais concentrada e eficaz.
E a entrada no conhecimento que autoriza 0 mago a declarar: “Eu sou o
mestre da vida a qual se renova eternamente, e o meu nome é Aquele que vive
dos ritos”.22: Como khery-heb, titulo que significa “aquele que esta encarregado do
livro dos rituais”, ele 6 em voz alta os textos sagrados, dando-lhes uma animacao
magica que os torna plenamente eficazes.
Era nas salas secretas da Casa de Vida que 0 mago se iniciava na leitura e
na compreensdo desses textos utilizados nas cerim6nias publicas e privadas. Existia
uma Casa de Vida perto de cada grande templo, de tal modo que em nenhum
ponto do territdrio faltavam especialistas responsaveis pela primeira das ciéncias
do governo: a pratica dos rituais.
Algumas figuras se destacam no corpo oficial dos magos, nomeadamente a
do grande sacerdote de Helidpolis, cujo titulo egipcio, ur mau, significa “grande
vidente” ou “aquele que vé o (deus) grande”. A sua vestimenta ritual é uma pele
de fera ornada de estrelas, da qual se podera encontrar uma longinqua analogia no
manto cdsmico usado pelos reis da Franca nas cerimGnias da coroacgaéo. O sumo
sacerdote de Helidpolis, “chefe supremo dos segredos do céu”, é o guardido da
mais antiga tradicdo solar e de uma magia de luz que vela pelo renascimento
cotidiano da forga da vida. Com efeito, sem a aplicagéo da magia o sol nado se
levantaria em cada manha.Igualmente magos, os sacerdotes da deusa leoa Sekhmet sao especialistas
em medicina e cirurgia. Praticos e conjuradores, a sua gama de competéncia vai da
mais banal picadela de inseto ao mais grave traumatismo. Os seus émulos mais
modestos sdo curandeiros de aldeia, aptos a praticar os primeiros socorros. A
comunidade iniciatica dos construtores de Deir el-Medineh, a quem se deve a maior
parte dos templos e dos tumulos do Império Novo, contratou um encantador de
serpentes e de escorpides de modo a poderem ser evitados eventuais incidentes.
oe O82
Na boca do ser mumficado, estendido no solo, penetram raios de luz. O
ressusctado poderd, portanto, falar o Verbo, o que se traduz pela saida de um
braco, simbobo da aco, para fora da mortalha. (As capelas de Tutankhamon)
A magia é indissociavel das atividades que classificamos de “artisticas”. As
instrumentistas de sistro, os dancarinos, os mUsicos (masculinos e femininos),
componentes do pessoal dos templos, néo existem para se sacrificar ao prazer
estético, mas sim para banhar a alma das divindades com efluvios harmoniosospara poderem continuar a velar pelo equilibrio e serenidade dos homens.
Nada é gratuito no mundo magico do Antigo Egito, onde tudo é jogo de
correspondéncias sutis que sé os iniciados na magia podem perceber.
Como se tornar mago?
A esta questo essencial nao se pode responder com um “tipo de emprego”.
A pratica magica nao é aprovada com um diploma nem julgada por meio de
exames. O saber moderno, quase inteiramente codificado, nao leva em conta,
infelizmente, a experiéncia vital. Tal nado era o caso em civilizagées como a do
Egito.
Existe, evidentemente, um método para se tornar mago. Mas esse método
no é exposto de uma maneira racional. Os textos nao o deixam na sombra, antes
apelam ao nosso sentido intuitivo e a nossa inteligéncia do coragdo mais do que as
nossas faculdades de deducao e anilise.
O capitulo 261 dos Textos dos Sarcéfagos intitula-se Tornar-se Mago. Eis o
seu contetido. O adepto dirige-se aos magos que estaéo em presenca do Mestre do
Universo. Pede-lhes respeito na medida em que os conhece, dado que eles Ihe
guiaram os passos. Nao é ele aquele que o Unico criou antes que fossem instituidas
as duas refeigdes na Terra, 0 dia e a noite, o bem e o mal, quando o Criador abriu
0 seu olho unico, na sua solidio? O mago apresenta-se como aquele que maneja o
Verbo. E filho da Grande Mae, daquela que pés o Criador no mundo, desse que, no
entanto, nado tem mae! O pai dos deuses é 0 mago em pessoa. E ele que os faz
viver.
Estranho texto, na verdade. Nada ha de técnico nessas paginas; trata-se de
um verdadeiro compéndio de metafisica e de espiritualidade que traz a luz um
processo de criacdo. Unicas indicagées praticas: o adepto manteve o siléncio
durante a ceriménia de entronizacao, curvou as costas, sentou-se em presenca dos
mestres qualificados de “touros do céu”. Eles Ihe reconheceram a dignidade de
“possuidor de poténcia” e de herdeiro do Criador.*
* E conhecido um ato de nascimento iniciatico de um mago, assim relatado (Papiro
magico Leiden, 55): Eu sou a face do Carneiro. Juventude é o meu nome. Nasci sob
a veneravel Perseia, em Abidos. Sou a encarnacdo do grande nobre que esta em
Abidos (a saber, Osiris), sou 0 guardiao do grande corpo (de Osiris) que esta em
Uupek (lugar sagrado de Abidos). Quer dizer que o adepto participou da
reconstituicéo do corpo de Osiris disperso, provando assim a sua capacidade, antes
de se identificar perante o deus ressuscitado.
O adepto veio tomar posse do seu trono e receber as marcas da sua funcao.
Pertence-Ihe o que veio a existéncia antes dos deuses. Também lhes ordena que
descam dos céus e venham ter com ele como sinal de deferéncia.
A aquisicdo da qualidade de mago resulta de uma entrevista com osmestres dessa matéria que julgam o candidato a respeito de seus conhecimentos
esotéricos muito mais do que sobre a sua aptiddo pratica, que sera desenvolvida
posteriormente. Tal como o morto, ao aceder ao estado de ser iluminado (0 akh),
ele reencontra a vida no seu principio, também o adepto consegue, do mesmo
modo e enquanto vivo, comunicar-se com a luz da origem, contendo a magia na
sua verdadeira pureza.
Primeira revelacdo feita pelos mestres: qualquer problema humano que se
apresente ao mago tem um modelo no mundo divino. O mesmo acontecimento foi
produzido a escala césmica antes de ter uma repercussdo terrestre. Eis a razao por
que o mago deve conhecer a genealogia divina, a teologia, os diversos relatos que
dizem respeito a criagéo do mundo. Nisso encontrara todas as solugdes.
Identificando-se com os quatro pontos cardeais, o adepto torna-se 0 Cosmo.
Excelente método para conhecer as suas leis, captar as poténcias invisiveis e dirigi-
las — pelo menos parcialmente — a sua vontade. No momento do ritual de
investidura, 0 mago é despojado do seu “eu”, da sua visdo demasiado pessoal do
mundo, para permitir que o Cosmo o penetre. Talvez se recorresse a drogas para
mergulha-lo num sono artificial enquanto os seus Irmaos o carregavam
magicamente de energia de modo a prepara-lo para as suas tarefas futuras.
As poténcias invisiveis manifestam-se sob a forma de génios bons ou maus.
O adepto tem de confronta-los. Mais ainda, identifica-se com eles, o que é o melhor
meio de os conhecer e de adquirir 0 maximo de poténcia magica. Podera lutar
contra os génios resolutamente maléficos, extirpa-los do corpo de um doente.
Quando os génios malignos atacarem um humano, uma cidade, um campo
protegido por um mago de qualidade, teréo de se haver com um adversario de
respeito.
O mago age invocando uma poténcia que Ihe é superior e gracas a qual ele
se torna eficaz. A formula tipica dos textos magicos revela-nos a forma: “Nao sou
eu que digo isto, nado sou eu Quem o repete, mas é o deus que o diz, e é
seguramente o deus que o repete”.2=
Nao é, pois, 0 mago que fala, mas sim a poténcia divina através dele. Na
luta do “bem” contra o “mal”, ndo ha o confronto de um humano contra “alguma
coisa” extra-humana ou super-humana, mas sim um duelo entre forcas
sobrenaturais, algumas delas positivas, encarnando-se no espirito e no corpo de
um mago. O préprio paciente, quer se trate de um doente a curar ou de um
“médium a manipular”, é identificado com uma divindade que nao pode ser
destruida. Que melhor seguranca para escapar a uma sorte demasiado cruel?
Apuleio (escritor latino, 125 d. C), 0 autor de O Asno de Ouro, notavel
romance iniciatico no qual se evocam os mistérios de Isis e Osiris, era um mago de
nomeada. Em sua obra, relata o encantamento de Lucius, transformado em burro,
tendo de percorrer um longo caminho antes de recuperar a forma humana. S6 ainiciagaéo nos mistérios o libertara da prisdo da sua animalidade. Apuleio foi
perseguido pelas autoridades judiciarias do seu tempo e acusado de feiticaria num
processo pUblico, tendo de pdr a prova todas as possibilidades da arte da oratoria
para escapar a uma condenagao. Apuleio nada ignorava da magia egipcia. “E”,
escrevia ele, “uma arte agradavel aos deuses imortais, uma das primeiras coisas
que se ensina aos principes”.‘2° De fato, o faradé, na sua “educacdo” ritual, é
identificado magicamente com as divindades.
Aquele que se torna mestre em magia é declarado ritualmente:®™
“Misturas-te com os deuses do céu e nao é possivel estabelecer diferenca entre ti e
um deles. O teu corpo é Atum (0 Criador) para a eternidade”. Nao seria nada facil
encontrar melhor para afirmar que 0 mago acede as mais altas esferas do espirito.
Ali se impregna de poder a fim de ser um interlocutor qualificado das forgas do
Cosmo. E de resto um “cosmonauta” antes de estes existirem, explorando
universos desconhecidos apés longa preparacao fisica e psiquica.
O resultado desta aventura foi piedosamente recolhido nos textos de
diversos livros: “Nao ha em mim nenhum membro privado de deus”, explica o
mago, “Thot é a protecao de todos os meus membros. Eu sou Ré de cada dia (...)
os homens, os deuses, os bem-aventurados, os mortos, nenhum nobre, nenhum
sujeito, nenhum sacerdote poderiam apoderar-se de mim”.*
* Texto que comporta diversas variantes. Por exemplo: “Nao ha em mim nenhum
membro que seja privado de deus e Thot é a protecéo do meu corpo, a minha
carne esta na plenitude da vida, em cada dia” (...) “Aquele que dura milhares de
anos’ é 0 meu nome, caminho em todos os sentidos no céu e na terra, o temor que
eu inspiro reina nas entranhas dos deuses”. (Goyon, Rituels, 257)
Para dissipar qualquer ambigiiidade, cada parte do corpo do mago é
formalmente identificada com a de uma divindade. Por exemplo, a cabeca é a de
Atum, 0 olho direito € o do mesmo Atum quando ele dissipa o creptsculo, o olho
esquerdo é o de Horus que desalinha o dia da lua nova quando se corre o risco de
se produzir uma lunacao desfavoravel, as narinas sdo as de Thot e de Nut (a deusa
do céu), a boca é a da Enéade de Atum, companhia de nove divindades que rege o
Cosmo, os labios sao os de Isis e de Néftis, os dedos sdo serpentes de lapis-lazuli,
as vértebras sao os ossos das costas de Geb, o deus da Terra, 0 ventre é o de Nut,
os pés sao as abdbadas das plantas dos pés de Chu, o deus do ar luminoso quando
atravessa o mar. Conclusdo: “Nao ha nele membros que sejam privados de deus
que pora a sua chancela sobre o que ele tragou, dado que os amuletos de
Helidpolis Ihe sao aplicados”.22
Esta frase enigmatica merece um comentario. Colocar uma chancela, para 0
egipcio, é inscrever o divino no real. Os selos reais sao conhecidos desde a primeira
dinastia. Mais tarde, os mais célebres terao a forma de um escaravelho, simbolo do
“devir”. Em outras palavras, quando o rei toma uma decisdo e a sela, estaconsciente do seu “devir", das conseqiiéncias dos seus atos. Em magia, essa
tomada de consciéncia é absolutamente necessdria para nao se extraviar. A
aplicagao dos “amuletos de Helidpolis” corresponde a um momento primordial da
iniciagéo do mago. Reconhecido como apto para as suas fung6es, vé o seu corpo
revestido das insignias de poder que o Mestre mago, presidindo a ceriménia,
maneja. Os amuletos sao ditos “de Helidpolis” porque esta antiga cidade do sol era
a capital da magia. Séo também colocados sobre a mumia para torna-la
indeterioravel. E de resto um dos sentidos profundos da mumificacao: identificar
um despojo mortal com um corpo imortal para que a alma, munida com esse
suporte, penetre no Além em pais conhecido.
Figuras do outro mundo: seres de aparénca humana, com coroas rea’, serpente cujo corpo é semeado de
cabegas humanas, [Link]éstos formados com coroas, cetfos facas, Outros tartos etmentos de
conhecimento e de signos a identificar no caminho do viajante. (As capelas de Tutankhamon)Todo morto mumificado, segundo os rituais, torna-se um mago capaz de
ressuscitar. O egipcio nao confia na simples crenga para franquear o obstaculo do
nada. O conhecimento parece-Ihe ser um melhor caminho.
Luz do mago
Quando o mago volta o seu olhar para o céu, vé Ré, o deus-luz. Quando
volta o olhar para a terra, vé Geb, principe das divindades e deus-terra. Essas duas
divindades ajudam-no a conjurar o mal.“% O concurso de Ré é especialmente
precioso: gracas a luz divinizada, ele vé tudo e dissipa as trevas.
Ré tem o poder de mudar a morte em vida. Repete essa operacao magica a
cada manha, no lago de chamas, no momento de um combate encarnigado contra
os seus inimigos que tentam impedir que a luz dé de novo a vida. O mago também
trava essa guerra contra as poténcias das trevas.@2 Em primeiro lugar no momento
da ceriménia de iniciagdo, depois na sua atividade cotidiana. Tem necessidade da
luz divina para ser aquele que ilumina o Egito, as Duas Terras, vermelha e branca,
que rejeita a obscuridade para se tornar o touro das montanhas do Oriente e 0 ledo
das montanhas do Ocidente, aquele que percorre em cada dia as extensdes
celestes. Quando abre o olho, a luz surge. Quando o fecha, a noite estende-se
sobre 0 mundo. Os deuses ignoram o seu verdadeiro nome.
Identificado com a luz que viaja ao longe, o mago liberta a estrada do sol
para que ele possa seguir em paz.“*! Colabora, portanto, na obra solar de cada dia
e na regeneracdo da humanidade.
Segundo o Antigo Egito, o estado de ser mais perfeito, que a via inicidtica
coroa, é o akh, a personalidade luminosa, irradiante, de eficiéncia sobrenatural. O
corpo pertence a terra, o akh pertence ao céu. E este ser iluminado que Ré revela
ao mago capaz de contemplar o sol, de descobrir 0 divino contemplando o astro
diurno. Muito mais tarde, serdo qualificados de “iluminados” aqueles que tiverem
recebido a iniciagdo; hoje esse termo tornou-se pejorativo. Ser-Ihe-a preferido o de
“Filho da Luz”, expressdo egipcia que caracteriza o farad, designando-lhe o seu
verdadeiro pai e conferindo-lhe a dimensdo sobrenatural da sua funcao.
O mago astrélogo
A astrologia egipcia 6 um dos campos de pesquisa mais dificeis e menos
explorados.* “Nao ha talvez pais”, escreve Diodoro de Sicilia®* falando do Egito,
“onde a ordem e o movimento dos astros sejam observados com mais exatidado do
que no Egito. Eles” (os astrélogos) “conservam ha ja um numero inacreditavel de
anos registros em que essas observagdes sdo consignadas. Neles se encontram
informag6es acerca da relagdo de cada planeta com o nascimento dos animais e
sobre os astros cuja influéncia é boa ou ma. No tumulo de Osimandias, em Tebas,
havia no terrago um circulo de ouro de 365 cévados de circunferéncia, dividido em
365 partes; cada divisdo indicava um dia do ano e ao lado estavam escritos olevantar e deitar naturais dos astros, com os progndsticos que os astrdlogos
egipcios fundamentavam no exame dos dias”.
* Infelizmente nao existe nenhum estudo sério acerca deste assunto. A
documentacao existente é abundante, mas de manejo muito dificil. Sera preciso
esperar ainda muito tempo até que se possa dispor de um tratado de astrologia
egipcia que, baseado nos textos hieroglificos e nas representacdes de zodiacos ou
de outros elementos celestes, forneca finalmente a verdadeira base da astrologia
ocidental, tao deformada pela tradigao greco-latina e pela maior parte das praticas
atuais.
O zodiaco de Dendera, documento célebre que mereceria uma interpretacdo
aprofundada, nao é o Unico testemunho da astrologia egipcia que, na Epoca Alta,
se centrava essencialmente na figura do farad. Os hordéscopos individuais sé sao
atestados tardiamente. Mas 0 mago sempre se preocupou com as relacées entre a
sua acdo e as disposigdes césmicas. Segundo o capitulo 144 do Livro dos Mortos,
ele leva em consideracao a posicao das estrelas no céu. Em sil€ncio e no segredo,
consulta os livros de astrologia, apenas acessiveis a iniciados de longa data.
Contrariamente ao que hoje se passa, a astrologia nao é facultada a profanos.
Mantém-se ciéncia de templo, que sd méaos peritas e espiritos responsaveis
manejam.
Gracas ao conhecimento das leis astrolégicas, podem os bem-aventurados
circular 4 sua vontade no céu, na terra e no império dos mortos. Acompanha-os 0
espirito do mago.
Quando faz as suas observagées do céu, 0 mago grava sete vezes as suas
pegadas no solo. Recita sete vezes formulas magicas em honra da Coxa, quer
dizer, da Ursa Maior, orientando-se para norte, para o eixo do mundo.&2
Os conhecimentos astroldgicos séo um dos suportes necessarios ao ato
magico. A familiaridade com os astros é indispensavel para utilizar as forgas do
Cosmo, a ponto de poder capturar a luz e agarrar bem a lua com as maos,{*' ou,
por outras palavras, dominar a sua influéncia em vez de a suportar.
Segredos bem guardados e exigéncias rituais
“Isto”, afirma o capitulo 162 do Livro dos Mortos, “é um grande livro secreto.
Nao 0 deixeis ver a qualquer pessoa, seria um ato detestavel. Aquele que o
conhece e guarda segredo, continua a ser. O nome deste livro é ‘a soberana do
templo escondido”’.
Essas recomendacées, formuladas em intencdo tanto dos praticantes da
magia como dos profanos imprudentes, nao proibiam aos adeptos 0 acesso aos
segredos. Impunham-lhes o sil€ncio em relagéo a individuos inaptos ou
desastrados.
Sabemos como esse livro e os segredos nele contidos foram comunicadosaos magos do Egito. O deus Thot reuniu os mestres em magia e entre eles foi
recebido o postulante. Este lavou a boca, ingeriu natréo* e provou que era capaz
de se juntar a Enéade, a corporagéo das nove poténcias criadoras.“% Isso
subentende que ele era capaz de levar a cabo, com sucesso, as experiéncias de
base. Junto do mestre em magia que preenchia a funcdo do deus Hérus, com uma
mascara de falcdo, o postulante teve a revelacdo das palavras e das formulas que
datavam da época em que Osiris, o antepassado primordial, ainda estava vivo e
reinava na terra do Egito.
* Natrao: carbonato de soda natural; servia aos egipcios para conservar as
mumias. (N.T.)
Nos dois registros inferiores, os modos de se desiocar nos espacos do outro mundo:
de cabeca para bao ou em pé. No regétro superior, Isis e Nefts sustentam um ser
semicrcular que magnetiza um soi. As duas grandes magas fazem desse modo circular a
luz da orgem num universo curvo. Com efeto, os egipcos consideravam a superficie
terrestre (endo a Terra) como um plano horontal de percepcdo e 0 Cosmo’ como
circular ou curvo. (Tumul de Ramsés IX)
A primeira prova para se poder concluir que 0 postulante compreendeu bem
0 que lhe foi confiado, seria a de vencer uma vibora com chifres.
Sangue-frio, conhecimento da férmula sonora que hipnotiza o réptil,
seguranca manual para poder domina-lo: o futuro mago é confrontado com a sua
morte.Tendo triunfado na prova fisica, segue-se a revelacdo metafisica. Os
mestres em magia revelam ao adepto que os dois deuses tao diferentes, mesmo
tao opostos — Ré, o luminoso, e Osiris, 0 tenebroso —, so apenas um e o mesmo
ser. E no interior da Casa de Vida que esse deus Unico é evocado, sob o nome de
“Alma Reunida”, simbolizado por uma mumia envolta numa pele de carneiro. “2
Contemplando-a, 0 novo adepto reunia o seu prdprio espirito e entrava no caminho
da ressurreicdo.
Sé um ser em estado de pureza pode aceder ao conhecimento dos segredos
e da Unidade. E i impuro o que é anti-harménico, antivital. O homem esta enredado
nos prdprios lagos, néo é naturalmente transparente a vida. A magia ensina-o a
libertar-se dos entraves que ele impde a si mesmo. A pureza exterior, a simples
higiene tao apreciada pelos sacerdotes do Egito, é uma manifestacao tangivel da
pureza interior. Por isso, o mago lava-se com freqiiéncia. Com a boca purificada, as
palavras que profere também o estado. O ato de lavar as maos, assim como o de
lavar os pés, desembaracgam-no de energias nocivas. “Os teus pés sdo lavados em
cima de uma pedra, na margem do lago do deus”, diz o capitulo 172 do Livro dos
Mortos. Este ato ritual era, portanto, considerado suficientemente importante para
ser executado no interior do templo. Também se lavavam os pés de um rei no
decurso de uma grande ceriménia, e é mais ou menos certo que esse rito real
inspirou a cena dos Evangelhos em que Cristo da grande importancia ao ato de
lavar os pés.
Uma vez purificado, 0 corpo é digno de receber um vestuario ritual. O
capitulo 117 do Livro dos Mortos é uma formula especifica para vestir o trajo uab,
ou seja, “o Puro”, um verdadeiro “corpo novo”, de brancura imaculada, que 0 mago
devera evitar manchar com atos contrarios a harmonia.
Recebendo esse traje, o adepto recolhe-se e implora as divindades para que
afastem dele as impurezas espirituais e corporais, que o traje de pureza lhe seja
oferecido para toda a eternidade. Essa tradicdo sera preservada até épocas mais
tardias da civilizagdo egipcia, uma vez que num papiro grego da Biblioteca Nacional
(Paris) se pede ao mago que se vista com um tecido leve, que cante um hino e
recite uma formula em presenca de um “médium” que esta diante do sol.
Hoje, tal como outrora, néo se pratica a magia de qualquer maneira nem
em quaisquer condigdes. As exigéncias rituais estéo assim indicadas no Livro da
Vaca do Céu,“" inscritas em colunas de hierdglifos nos tumulos reais do Império
Novo: “Se um homem pronuncia esta formula para seu proprio uso, deve ser
untado com dleos e ungiientos, tendo na mao o turibulo cheio de incenso, deve ter
natrdo de uma certa Qualidade atras das orelhas, tendo na boca uma qualidade
diferente de natrdo; deve estar vestido com duas pecas de roupa nova, depois de
se ter lavado na agua da enchente, ter calcado sandalias brancas e ter a imagem
da deusa Maat (a Harmonia Universal) pintada na lingua com tinta fresca”.
Outras prescrigdes elementares:“2! “Que esta formula seja lida quando se
esteja puro e sem mancha, sem ter comido carne de rebanho ou peixe e sem tertido relagdes com mulher”.
Assim preparado, respeitador de regras estritas, 0 mago esta apto a tracar
no solo o desenho sagrado em que se inscrevem, sob a forma de simbolos, as
forgas que manipula. Na “sala das duas Maat” (quer dizer, das duas verdades, a
césmica e a humana), vestido de linho, coberto de galena, devidamente purificado,
ungido com mirra, calgado com sandalias brancas, 0 mago faz a oferenda de bois,
galinaceos, resina de terebintina, pao, cerveja e legumes. Depois traga o desenho
ritual em conformidade com o que se encontra nos escritos secretos, sobre um solo
puro, coberto de um branco extraido de um terrigo que nao tenha sido pisado nem
por porcos nem por cabras.“2+ Os construtores da Idade Média nao agiram de modo
diferente ao tragarem o seu “quadro de loja”, que em algumas lojas iniciaticas da
Maconaria contemporanea é efetivamente recriado a cada sessdo de trabalho.
O mago é, desse modo, um verdadeiro mestre-de-obras, designado para
conceber um plano. Cinge em torno da fronte “a faixa do conhecimento” e faz esta
espantosa declaracdo: “Os meus pensamentos sao grandes sortilégios magicos que
saem da minha boca”.@*
Antes disso passou por um rito de ressurreicdo durante o qual se deita numa
esteira de junco, tornando-se uma muimia viva que entra magicamente em contato
com as poténcias superiores. O mago revive a paixdo de Osiris, regressado do
além-morte.@2
O tribunal divino, os guardiaes das portas, o barqueiro
Se um mago recita 0 livro secreto, sobre a terra, em favor de um homem,
este nao sera despojado pelos génios que, em todos os lugares, atacam quem
cometeu o mal. Nao sera decapitado, nado morrera sob a faca do deus Seth, nao
sera conduzido a nenhuma prisdo. Entrara serenamente no tribunal divino que
espera todos os seres no creptsculo da sua existéncia terrestre, e dele saird
justificado, desembaracado do terror da injustica.2@*
Eis, pois, um dos grandes servicos prestados pela magia: permitir ao justo
apresentar-se de cabeca erguida, sem temor, diante dos seus juizes. Alguns
egiptdlogos, sentindo talvez preocupac6es com o seu prdprio caso, acusaram os
egipcios de serem “embusteiros”: teriam enganado os deuses, abusando da magia.
Na realidade, isso demonstra uma ingenuidade que nos deixa desarmados. E a
magia do conhecimento que o tribunal pde a prova, nado os “truques” de um
ilusionista de feira. Se o homem nao possui as leis dessa magia, esta efetivamente
desarmado e condenado de antemao a reviver um novo ciclo material, sem que
isso implique uma reencarnacao no sentido habitual do termo.
Outros perigos espreitam o adepto nas estradas do outro mundo. Para
passar as quatro fronteiras do céu, o viajante deve convencer os guardas a
deixarem-lhe a via livre, recitando-lhes as palavras daqueles cujos lugares sdo
secretos.“2 Numerosos capitulos dos Textos dos Sarcéfagos‘® evocam essas
personagens sinistras, freqiientemente armadas com facas, velando lagos deprofundidades insondaveis e caminhos que se alongam nas trevas, cruzamentos
onde as pessoas se perdem. S6 a magia aniquila o poder desses génios
inquietantes.
Fen]
Someaaen
peel
O texto heroatico horzontal (a0 alto) evoca a oferenda que o farad é Ostis fazem.
Nas couinas da dreta sao nomeadas as oferendas. E de, notar, sobretudo na parte
esquerda, a porta encabecada por dot ohos "completes" E essa porta que separa os
iS mundos, © nosso e oO ™ © “morto” que se encontra no sarcdfago, se
Ubrapussou es Growas exiles ae | Pot, ser Vivo, € OS seus guardas, tomou-se VO
ra_sempre. E ele que, por sua vez, mostraré o caminho aos do “outro lado’.
Sarcéfago do Imperio Médo)
Uma outra personagem exige do viajante do Além qualificagdes magicas de
primeira ordem. Trata-se do barqueiro, que detém o tesouro entre os tesouros: a
barca, gragas a qual se pode atravessar as grandes extens6es aquaticas dos
campos celestes. Quando 0 iniciado exige utilizar a barca,““*! 0 barqueiro submete-
0 a um interrogatdrio: “Quem és?”, pergunta. “Sou um mago”, responde o adepto,
que em seguida afirma estar “completo, equipado, dispondo do uso dos membros”.
Esta afirmacdo é considerada insuficiente. Tera de provar a sua qualidade de mago
enunciando as diferentes partes da barca e as suas correspondéncias mitoldgicas e
esotéricas. O profano nao tem qualquer possibilidade de conseguir essa proeza. Em
troca, 0 mago formado na profissdo triunfa: comandara as cidades do Além, fara o
inventario das riquezas do outro mundo e dara aos pobres aquilo de que tém
necessidade na terra. O que significa que 0 estatuto social do mago é elevado: nao