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Psicanálise e Psicofármacos: Reflexões

O documento discute o tratamento psicanalítico no contexto da cultura contemporânea, onde psicofármacos são amplamente disponíveis. A autora argumenta que a angústia é essencial para a estrutura subjetiva e o tratamento psicanalítico, e que o uso de medicação deve ser considerado caso a caso para cada paciente, em vez de uma abordagem universal. A lógica do "caso a caso" é defendida contra a lógica de mercado de "para todos".

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Psicanálise e Psicofármacos: Reflexões

O documento discute o tratamento psicanalítico no contexto da cultura contemporânea, onde psicofármacos são amplamente disponíveis. A autora argumenta que a angústia é essencial para a estrutura subjetiva e o tratamento psicanalítico, e que o uso de medicação deve ser considerado caso a caso para cada paciente, em vez de uma abordagem universal. A lógica do "caso a caso" é defendida contra a lógica de mercado de "para todos".

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Vera Lopes Besset

O tratamento psicanalítico
no tempo dos psicofármacos*

A clínica psicanalítica, diversamente de seus primórdios, encontra-se inserida no contexto


de uma cultura tributária dos avanços da ciência e da tecnologia, na qual psicofármacos
potentes têm o status de objetos de consumo. Quais as incidências disso em uma clínica
situada no campo da linguagem e que tem a fala como instrumento? Devemos recuar ante
o recurso do encaminhamento para a medicação ou, ao contrário, valer-nos desse uso
diante da angústia dos sujeitos que buscam tratamento? Algumas noções e conceitos da
psicanálise, articulados a dados de nossa experiência, servem de base para uma reflexão
sobre o tema e o esboço de algumas respostas. Neste texto, nossa proposta é fazer valer a
lógica do “caso a caso” na abordagem do particular de cada sujeito, em contraponto ao
universal do “para todos” de uma lógica de mercado, dita da globalização.
> Palavras-chave: Psicanálise, psicofármacos, angústia, sujeito

The present-day psychoanalytic clinic, in contrast to its origins, has moved into the
context of a tributary of scientific and technological advances, where powerful
psychopharmacological products have taken on the status of consumer goods. What artigos > p. 43-50
is the place of this approach in a type of clinic based on language and whose
instrument is therefore speech? Should we give way to the pressure to refer patients
to medical treatment or, on the contrary, make use of such treatment to ease the
anxiety of subjects that come to us for treatment? This article discusses
psychoanalytic notions and concepts, articulated with data from our experience, in
pulsional > revista de psicanálise >

order to reflect on this issue and draw up tentative solutions. Our proposal here is
to make use of a “case-by-case” logic in approaching the particularity of each subject,
ano XVII, n. 177, março/2004

in contrast to a logic of a universal globalized market applicable to any and all cases.
> Key words: Psychoanalysis, psychopharmacological products, anxiety, subject

*> Texto apresentado no CONPSI III, realizado em João Pessoa, no período de 27 a 31 de maio de 2003, em
Mesa-Redonda. Uma primeira versão deste texto, sob o título “Psicofármacos e clínica psicanalítica: re-
fletindo sobre os destinos da angústia”, foi apresentado na reunião do grupo de pesquisa sobre psicaná-
lise e psicofármacos dos Estados Gerais da Psicanálise-SP, que discutiu o tema “Psicofármacos e clínica
psicanalítica: sobre usos e abusos”, no IX Simpósio da Anpepp, em setembro de 2002, em Águas de
Lindóia, SP.

>43
A clínica no contemporâneo fala do sujeito, no âmbito da experiência.
O contexto no qual se insere a clínica psi- Na clínica da neurose, entretanto, o ape-
canalítica difere daquele de seus primór- lo aos psicofármacos pode, entretanto,
dios, no final do século XIX. Especialmen- comparecer na vertente daquilo que faz
te, no que concerne à eficácia dos psico- calar.
fármacos e seu poder de sedução junto a No contemporâneo, com a queda dos
consumidores, médicos e pacientes mui- semblantes, o abalo da crença nos signi-
tas vezes ávidos desse tipo de novidade à ficantes mestres (Miller, 1998-99), que
disposição no mercado. Trata-se de um afeta todo e qualquer sujeito, a demanda
campo marcado pela existência de psico- dos sujeitos parece ter se deslocado, em
fármacos potentes e com o status de ob- consonância com as exigências da cultu-
jetos produzidos pela ciência. ra, do saber ao gozo. Assim, trata-se me-
Neste tempo, em que reina a pulsão, o im- nos de uma suposição de saber que de
perativo categórico de gozo do supereu demanda de gozo. Demanda referida a
apresenta-se quase em oposição ao da uma oferta que a psicanálise, distinta-
repressão da era vitoriana, que viu nascer mente das psicoterapias, condescenden-
a psicanálise. Quais as incidências disso tes com o gozo do blá-blá-blá, não se in-
em uma clínica situada no campo da lin- teressa em sustentar.
guagem? Devemos recuar perante o re- Nesse contexto, o que busca um sujeito
curso da medicação ou, ao contrário, va- ao procurar um analista? Muitas vezes,
ler-nos desse uso diante da angústia dos apenas alívio para seu padecer. Essa de-
sujeitos que procuram tratamento? Qual- manda inicial, entretanto, pode dar lugar
quer esboço de resposta a essas questões a uma demanda de saber sobre aquilo
implica, é nossa proposta, uma reflexão que causa o sofrimento. Diante de um
sobre o lugar e a função da angústia em paciente que não demanda falar para
artigos

um tratamento psicanalítico (Besset, construir um saber sobre aquilo que lhe


2001a). afeta, mas busca a palavra do psicanalis-
No percurso de um tratamento, ante uma ta como um medicamento que garanta um
pulsional > revista de psicanálise >

angústia avassaladora, mais freqüente nas “mais-de-gozar”, cabe-nos buscar novos


psicoses, algumas vezes a tentativa de um recursos. Como fazer isso sem trair a es-
ano XVII, n. 177, março/2004

apaziguamento pela via da medicação, pecificidade da clínica psicanalítica, do


com o encaminhamento para profissio- trabalho com a palavra?
nais habilitados,1 se faz necessária. Visa-se, Neste texto, nossa proposta é fazer valer
nesse caso, preservar a possibilidade de a lógica do “caso a caso” na abordagem

1> Mesmo no caso de psicanalistas de formação psiquiátrica.

>44
do particular de cada sujeito, em contra- faz um sintoma, a angústia torna-se facil-
ponto ao universal do “para todos” de mente objeto de medicação. Nada mais
uma lógica de mercado, dita da globaliza- distante, no entanto, da proposta da psi-
ção. Entretanto, não se trata de estabele- canálise. É respeitando a angústia como
cer uma oposição aos psicofármacos, algo inerente ao humano e sinal daquilo
mas de propor balizas que possam nor- que, do gozo, satisfação paradoxal,
tear seu uso. revela-se como estranho ao eu, que po-
A clínica psicanalítica constrói-se com demos seguir na via inaugurada por
base na suposição de um sujeito do in- Freud. Ou seja, prosseguir para além do
consciente, que emerge nas falhas do objetivo terapêutico de alívio ou de apa-
discurso, naquilo que se diz para além ziguamento.
do que se quer dizer. Desse sujeito e de As manifestações da angústia afetam o
sua divisão, a angústia é, por excelência, corpo do sujeito que fala (Lacan, 1988),
o sinal, o que não engana (Lacan, 1962- presentificando, assim, sua divisão. Assi-
1963). Sendo assim, não há estrutura sub- nalam a incompletude do Outro do signi-
jetiva sem angústia e tratamento psicana- ficante, remetendo o sujeito à sua própria
lítico que dela possa fazer economia. Ob- incompletude, que o faz distinto do eu. A
serve-se que, aí, é da angústia do anali- angústia é uma presença que escapa a
sante que se trata, posto que, em suas in- qualquer saber; qualquer saber suposto,
tervenções, o analista não coloca em já que não se trata de algo do terreno de
cena sua própria angústia (Besset, 2002b). uma verdade, mas de uma certeza. Con-
Nesta época, em que a religião prolifera e cebida como o único afeto que não en-
a angústia resiste, rebelde aos nomes e gana, a angústia é o real, o “impossível
medicamentos com as quais se tenta de se escrever” (Besset, 2002a). No âmbi-
amarrá-la, o desafio para o analista é, to do tratamento analítico, ela tem pa-
artigos

com a palavra, tratar o que do sintoma pel crucial, pois exerce não só função
insiste. de motor como de baliza do percurso
efetuado.
pulsional > revista de psicanálise >

Da angústia e de seu tratamento No bojo de um tratamento psicanalítico,


Observamos, com alguma freqüência, a o destino da angústia não seria o seu de-
ano XVII, n. 177, março/2004

incidência de fenômenos similares às cri- saparecimento, mas uma transformação


ses ou ataques de angústia descritos por que concerne às relações do sujeito com
Freud nos primórdios de seu percurso, esse afeto. Ao contrário da solução tera-
apesar de se apresentam sob a nova rou- pêutica, que tenta curar o sujeito, ortope-
pagem do pânico, fornecida pela classifi- dicamente, daquilo que é incurável, com-
cação psiquiátrica atual (Veras, 2002). Cir- pete-nos trabalhar para obter uma mu-
cunscrita pelo discurso médico, que dela dança de sua posição subjetiva. Mudança
>45
de posição que, no início, se impõe com que compete a cada analista desempe-
relação a seu dito, retificação necessária nhar a seu modo, particular, depurado
à instalação do dispositivo: associação li- seu estilo.
vre, em que um sintoma pode se articu- Algumas vezes, em que pese a demanda
lar como questão. Mudança, no final, de de medicação, a oferta de uma escuta ins-
posição com relação a um gozo, satisfação taura uma suposição de saber que possi-
pulsional. bilita o início de um tratamento. Nesses
Sendo assim, trata-se de, por intermédio casos, é possível, a partir da recusa, pro-
da palavra, na dimensão da linguagem, duzir uma demanda de escuta. Do percur-
conduzir o sujeito ao limite, lá onde tudo so de um tratamento, no qual a questão
cessa e nada se pode dizer. Conduzi-lo ao do recurso aos psicofármacos se coloca,
real que o trouxe, em sua busca de auxí- extraímos alguns dados para nossa dis-
lio. Para tanto, é necessário, primeiro, cussão sobre o tema. São dois momentos
implicá-lo na busca de um sentido, nun- distintos e os encaminhamentos, aparen-
ca pleno, o que seria impossível, pela es- temente diversos, obedecem a uma mes-
trutura da palavra, e interminável, como ma orientação. Num primeiro momento,
o próprio Freud apontou. Pois há sempre tratou-se da instauração de uma experi-
um outro sentido possível, um outro, um ência e, pouco mais tarde, de sua manu-
outro... A cadeia se faz assim, os significan- tenção.
tes se sucedem e a sobredeterminação
organiza o aparelho psíquico. Psicofármaco:
Valendo-se do percurso realizado em sua Necessário ou contingente?
própria análise, em sua formação, o ana- Freqüentemente, somos procurados, na
lista deve poder mudar as relações com clínica, por sujeitos em mal de amor. Mui-
sua própria angústia. Desse modo, pode- tas vezes, é a interrupção de um circuito,
artigos

rá suportar o sinal de angústia do sujeito que podemos nomear de gozo, satisfação


cujo tratamento dirige, de maneira a con- pulsional, que lança esse sujeito no de-
duzi-lo para além da angústia a querer samparo, desvelando a angústia (Besset,
pulsional > revista de psicanálise >

aquilo que deseja. Para tanto, no lugar de 2001c). Afeto que na experiência analítica
uma neutralidade, pode valer-se da pode ganhar estatuto de sinal, nos con-
ano XVII, n. 177, março/2004

disponibilidade, ancorada na serenida- tornos da demanda dirigida ao Outro da


de, seguindo as indicações de Laurent transferência. Sinal de um gozo que o su-
(2000), com base em Heidegger. A dispo- jeito desconhece como tal.
nibilidade ao particular da demanda de O que aparece, então, como tristeza, de-
cada sujeito, a serenidade (Gelassenheit) solação, deixa entrever, aos poucos ou de
no manejo do tempo das sessões, são in- pronto, segundo cada caso, a angústia,
dicações preciosas sobre o fazer clínico, esse afeto que não engana. Não que seja
>46
produto dessa vicissitude da vida amoro- 1991, p. 210). Em outro momento, resume
sa daquele sujeito, ao contrário: o amor a relação entre amor e saber: “Aquele a
velava a angústia, se a tomamos como quem suponho um saber, eu o amo” (La-
sinal dessa perda original, do traumatis- can, 1975, p. 64).
mo da subversão do humano à lingua- Freud inventa uma nova clínica, justamen-
gem. Mas, observe-se, não se trata aí da te, por se colocar como mestre do amor
perda do objeto, mas do que Freud no- (Lacan, 1991), em resposta à demanda dos
meia perda de uma posição libidinal neuróticos. Para tanto, à falta de saber
(Freud, 1915/1989, p. 242). Sendo assim, o dos médicos, impotentes diante das con-
sinal de angústia desvela a situação de versões histéricas, ele contrapõe a supo-
desamparo na qual a perda do lugar de sição de um saber no sujeito, saber a de-
amado mergulha o sujeito. Em alguns ca- cifrar. É, então, a suposição de um saber
sos, são mulheres que exibem com lágri- não sabido que instaura a transferência e
mas o desespero ante a separação. Foi inaugura a experiência da clínica psicana-
assim com Doralice, nome que escolhe- lítica. Desse modo, Freud institui, mais do
mos para essa paciente tanto pela refe- que descobre, um sujeito divido pela lin-
rência à Dora quanto aos versos do poe- guagem. O sujeito do inconsciente é tri-
ta que canta o lamento de um homem butário dessa suposição e correlativo
que não queria amar: “Doralice, eu bem mesmo a ela (Ramos, 2001).
que lhe disse, amar é tolice, é bobagem, Na primeira entrevista, chama a atenção
ilusão...” o contraste entre a juventude e beleza de
Ao abordar o tema da transferência, La- Doralice e o modo como se apresenta,
can discorre sobre o amor, conjuga amor tristemente vestida. Nela, essa jovem mu-
e desejo, colocando o amado no lugar de lher fala um pouco sobre suas queixas,
objeto de desejo daquele que se declara basicamente ligadas à relação com o ma-
artigos

amante. Sublinha a reciprocidade dessa rido. Ao final, disse que não sabia se ia
relação, apontando para a distinção da voltar, pois teve também a recomendação
experiência analítica no que concerne a de um psicanalista que é psiquiatra e trata
pulsional > revista de psicanálise >

esse ponto. Descreve o analista, então, com medicamentos. Disse-lhe que, efeti-
como aquele que, como Sócrates, deslo- vamente, dispunha-se de psicofármacos
ano XVII, n. 177, março/2004

ca-se do lugar de amado, abrindo para o muito potentes atualmente. Acrescentei


sujeito a via de acesso ao saber sobre seu que, entretanto, para além do alívio que
próprio desejo (Lopes, 1993). Ao fazê-lo, buscava, ela parecia interessada, por tudo
instaura uma suposição de saber: “Desde o que havia dito, em saber um pouco so-
que haja em algum lugar, sujeito suposto bre o que a fazia sofrer. Essa intervenção
saber – abreviei para vocês hoje no qua- coloca a escolha do lado do sujeito, ao
dro com S.s.S. – há transferência” (Lacan, mesmo tempo que se instaura a suposi-
>47
ção de um saber no âmbito da experiên- desamparo. Com efeito, logo depois dela
cia. O querer saber remete, assim, a um ter vindo uma primeira vez, seu marido
saber que estaria ali, suposto. De fato, a havia saído de casa e relutava em voltar.
moça despediu-se, mas ligou uns dez dias Inconformada, somente aos poucos vis-
depois, pedindo-me uma hora para “co- lumbra o que de fato acontecera. Havia,
meçar o tratamento”. ela própria, proposto a separação, espe-
Pode-se afirmar que, nesse primeiro mo- rando produzir, confessa, recusa ou arre-
mento, a aceitação do recurso aos psico- pendimento, algo que provasse uma de-
fármacos e a escolha indicada ao sujeito claração, sem ambigüidades, do amor do
forjaram o espaço para a elaboração de marido por ela. Seu “desconsolo” revelou-
um saber, via freudiana de tratamento do se ligado mais a uma decepção do que
mal-estar.2 Os dados clínicos indicam, as- propriamente à ausência daquele que
sim, as conseqüências do encontro com amava tanto. Seria possível formular-se a
um analista, em que a suposição de saber pergunta: o que de fato perdera? Mas, no
dá lugar ao surgimento de um sujeito de- lugar de uma questão, a angústia não tar-
sejante, onde antes a inibição, depressão, dou a se manifestar.
escamoteava o desejo. Encontro com um Em um segundo momento do tratamento,
analista, dizemos, ou com um Outro a a questão do recurso aos psicofármacos
quem algo falta, a fala do sujeito, que ad- voltou a se apresentar. Diante das férias
quire seu peso e valor no enquadramen- da analista, e de seu medo de enlouque-
to de um tratamento. Talvez se possa di- cer, ante a angústia e as dificuldades para
zer, então, com base em Lacan, que o de- conciliar o sono, consentiu-se à demanda
sejo é remédio para a angústia (Besset, de indicação de um psiquiatra. Foi possí-
2001b). Desejo do analista, a partir do qual vel, então, usar o medicamento de forma
se pode recusar, quando pertinente, a so- contingente, pois que a retomada do per-
artigos

lução oferecida pelo medicamento. curso de análise modifica seu estatuto,


Ao voltar, Doralice apresenta-se de forma que se vislumbrava, anteriormente, como
distinta. Seu sofrimento, antes adivinhado necessário.
pulsional > revista de psicanálise >

nas roupas tristes e jeito contraído, ago-


ra se exibia quase sem pudor. Era uma Por uma clínica na transferência
ano XVII, n. 177, março/2004

mulher desfeita em lágrimas que se apre- Evidentemente, o recurso dos psicofárma-


sentava ao analista, a própria imagem do cos existe e não se trata de negarmos sua

2> Fazemos referência, aqui, às formulações de Lacan, no momento de seu último ensino, no que concer-
ne ao inconsciente como elocubração de saber, defesa contra o real, elaboração freudiana de saber (S2).

>48
importância e mesmo sua eficácia. Inte- tumava dizer, a cada vez que se dirigia ao
ressa, sim, refletir sobre seu uso, a cada analista na tentativa de aplacar o sofri-
vez, em cada caso e no mesmo caso, em mento infringido por sua “paranóia”, que
momentos diversos. Não para que possa- as palavras da analista eram o “seu” me-
mos deles lançar mão, posto que nossos dicamento. Desse modo, esse sujeito indi-
recursos são outros, de uma outra ordem ca que a fala de um analista, com o poder
e eficácia. Mas, para não recuar diante que lhe confere a transferência, pode atu-
deles, como se fossem o mal da humani- ar sobre o gozo, apaziguando-o.
dade. Ou, ao contrário, para não correr a Se a clínica psicanalítica tem um futuro
seu encalço, diante de nossa própria an- (Magalhães, 2001), isso pode depender da
gústia. Esse seria um recuo lastimável possibilidade em manter-se apartada da
ante o que nos cabe acolher e tratar: a sedução das ilusões, anunciadas tanto
angústia de um sujeito. Assim, perante o por Freud quanto por Lacan, sem por
universal do sofrimento humano, cabe- isso deixar de pagar o preço de sua inser-
nos deixar-nos guiar pela lógica que pre- ção na cultura. Assim, não recuar diante
side a clínica psicanalítica: a do particular, das exigências de um mercado de bens,
do “caso a caso”. como sua demanda de um “bem-estar” te-
Algumas vezes, como nos indicam os da- rapêutico para todos, implica apostar na
dos clínicos, é possível consentir com seu particularidade de nosso “saber fazer” clí-
uso ou até mesmo indicá-lo, como estra- nico no tratamento da angústia.
tégia para o prosseguimento do percurso.
Nos casos de psicose, por exemplo, em Agradecimentos: Gostaríamos de agra-
vista de angústias avassaladoras e parali- decer a contribuição dos colegas do gru-
santes e, mesmo, em alguns casos de po de pesquisa sobre psicanálise e psico-
neurose, excepcionalmente, em determi- fármacos dos Estados Gerais da Psicaná-
artigos

nados momentos do tratamento. No caso lise-SP, coordenado por Maria Cristina


clínico que abordamos neste texto, a Rios Magalhães, que discutiu a primeira
consulta ao psiquiatra e o apelo ao medi- versão deste texto, intitulado “Psicofárma-
pulsional > revista de psicanálise >

camento, de forma contingente, serviu cos e clínica psicanalítica: refletindo so-


para efetuar uma substituição provisória bre os destinos da angústia”, fazendo-nos
ano XVII, n. 177, março/2004

diante de uma interrupção do trabalho, chegar, gentilmente, suas considerações,


da ausência do analista. críticas e comentários.
Em outras ocasiões, nas quais o recurso
ao medicamento geralmente se impõe, Referências
pode ocorrer que o paciente seja refratá- B ESSET , Vera Lopes. Quem tem medo da
rio aos psicofármacos e seu uso não seja angústia? Revista Latinoamericana de
possível. Assim, um sujeito psicótico cos- Psicopatologia Fundamental, São Paulo, v. 1, n.
>49
1, p. 11-18, mar. 2001. LAURENT, Eric. Una sesión orientadora por lo
_____ Quando o desejo é “remédio” para a real. XI Encontro Internacional do Campo
Freudiano. [Link]/
angústia: considerações sobre a formação do
[Link] , 10/1/2000.
analista. Latusa, Rio de Janeiro, v. 1, n. 6, p.
159-167, nov. 2001a. M AGALHÃES, Maria Cristina Rios. Haverá
psicanálise no século XXI? ou A psicanálise
_____ Amor e dor: rima do gozo? Opção tem futuro? In: MAGALHÃES, Maria Cristina Rios
Lacaniana, São Paulo, n. 32, p. 65-68, dez. (org.). Psicofarmacologia e psicanálise. São
2001b. Paulo: Escuta, 2001. p. 11-22.
_____ O analista e suas relações com a MILLER, J.-A. L’expérience du réel dans la cure
angústia. Psicologia em Revista, Belo Horizonte. analytique. Seminário inédito (Paris VIII). 1998-
v. 8, n. 11, p. 105-110, jun. 2002. 99
_____ A clínica da angústia: faces do real. In: S OUZA L EITE , Márcio P. de. Psicanálise e
BESSET, V. L. Angústia. São Paulo: Escuta, 2002b. Neurociências. In: MAGALHÃES, Maria Cristina
p. 15-29. Rios (org.). Psicofarmacologia e psicanálise. São
FREUD, Sigmund (1917[1915]). Duelo y melancolia. Paulo: Escuta, 2001. p. 137-153.
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LACAN, Jacques. Le séminaire X (L’angoisse), ____ (org.). La angustia, su razón estrutural y
1962-1963. (inédito) sus modalidades clínicas. (Ramos, P. org.).
Buenos Aires: Servicio de Psicopatología del
_____ Le séminaire. Livre XI. Paris: Seuil, 1973.
Hospital Gral. de Agudos “Dr. José María
_____ Le séminaire. Livre XX. Paris: Seuil, Ramos Mejía”, 2001. p. 15-37.
1975.
VERAS, M. Versões do pânico. In: B ESSET, V. L.
_____ Intervencyones y textos. Buenos Aires: Angústia. São Paulo: Escuta, 2002. p. 199-207.
Manantial, 1988.
_____ Le séminaire. Livre VIII. Paris: Seuil,
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1991.
LOPES, Vera Silva. O amor e o analista: questões
sobre a transferência. Jornal Brasileiro de Artigo recebido em junho de 2003
pulsional > revista de psicanálise >

Psiquiatria, v. 42, n. 1, p. 33-36, [Link]. 1993. Aprovado para publicação em dezembro de 2003
ano XVII, n. 177, março/2004

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