UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
LICENCIATURA EM ARTES VISUAIS
SEMINÁRIOS DE HISTÓRIA DA ARTE MODERNA
LUÍS EDEGAR DE OLIVEIRA COSTA
TURMA U 2020/01
RENAN LEANDRO SOUZA LEITE
FORÇA DAS RUAS!
A arte urbana é uma manifestação que cada vez mais atrai a atenção dos jovens,
importante espaço de discussão sobre arte e espaço público, a proposta FORÇA DAS
RUAS! é um mostra de cine-debate com filmes e documentários que apresentam os
movimentos dentro da arte urbana contemporânea, o Graffiti, o Muralismo Latino Americano
e a Pixação Brasileira. Com o objetivo de abrir um diálogo sobre as diferentes
manifestações artísticas que têm utilizado a cidade e sua arquitetura como suporte de
expressão, procurando dar um panorama histórico pela voz dos principais artistas destes
movimentos, propondo o debate sobre a ressignificação do espaço urbano e contexto
social.
Graffiti
O graffiti surgiu em NY no fim dos anos 1970 junto com o movimento Hip-Hop, e foi
ganhando mundo, as galerias e espaços institucionais e foi sendo absorvida pela sistema,
gerando uma nova relação com espaço urbano. O filme Wild Style (1983), narra o
surgimento do movimento hip-hop e do graffiti em Nova Iorque, contando no elenco com
grafiteiros, [Link], dj's e mc's da época, o filme Saída Pela Loja de Presentes (2010), com
direção do artista Banksy que faz uma crítica ao sistema de arte e a domesticação do
graffiti, com a participação dos principais grafiteiros da atualidade, o documentário Cidade
Cinza (2013), que traz como protagonistas OSGEMEOS principais grafiteiros brasileiros
com reconhecimento internacional que travam uma batalha com o governo da cidade de
São Paulo que estava apagando os graffiti’s da cidade.
Muralismo Latino Americano
As narrativas históricas e sociais dos murais latinos, a influência dos muralista mexicanos, a
relação dos artistas nas questões políticas e as ações coletivas dos muralistas chilenos, as
relações das ações artísticas com as ações políticas e pedagógicas, começamos com Los
Muralistas Mexicanos en La Pintura Nacional (2016), uma narrativa visual sobre a
influência do muralismo mexicano na pintura chilena através do texto do muralista Fernando
Marcos Miranda, o documental El Árbol de Víctor (2016), um registro do processo de
construção da pintura mural realizada no Chile por grafiteiros e muralistas em homenagem
à Víctor Jara, e uma entrevista com Mono Gonzalez, El Muro y La Brigada Vivem (2012),
um dos fundadores e ativistas da Brigada Ramona Parra que tem sua história narrada no
documentário Huellas del Color (2005), coletivo muralista surgido nos anos 1970
responsável pela agitação e propaganda de movimentos socialistas e de resistência à
ditadura de Pinochet. El Mural de Argomedo (2017), documentário sobre um mural no
Chile que resiste à 40 anos, e finalizamos esta etapa com a entrevista A Arte do
Grafiteiro e Muralista Eduardo Kobra (2017), para o Canal Programa Diferente sobre
Muralismo, com um dos principais muralistas brasileiros com murais espalhados pelo
mundo e autor do maior Mural registrado no livro de recordes.
Pixação Brasileira
A pixação é uma assunto polêmico e polarizado dentro da sociedade, manifestação que foi
ganhando força a partir dos anos 1980 em todo Brasil, com característica regionais próprias
foi se desenvolvendo nas grandes metrópoles.O documentário Luz, Câmera Pichação
(2011), traz a cena da pixação carioca, dando voz a antigos pixadores que vão narrando a
história do movimento e o documentário Pixo (2009), traz à cena paulista da pixação, que é
reconhecida pela efervescência, um fenômeno cultural que ocupou a principal metrópole do
país.
Um panorama amplo da arte de rua, do nascimento do Graffiti em Nova Iorque, sua relação
com o Hip-Hop e sua expansão pelas grandes metrópoles, a relação com a cidade e com
os espaços públicos, passando pelo muralismo como crítica e ação social, ferramenta de
agitação e propaganda revolucionária, e por fim jogando novo olhar sobre a pixação como
manifestação expressiva transgressora que reflete a disrupção social que estamos imersos.
WILD STYLE
1983, 82 MIN, EUA, Direção Charlie Ahearn.
O famoso grafiteiro Lee Quinones interpreta Zoro, um artista de rua apaixonado por Rose,
interpretada pela grafiteira Lady Pink. O filme é uma incursão pela cultura do hip hop no
bairro do Bronx, em Nova York, nos anos 1980. Lendas da época como Fab 5 Freddy, o
rapper Grandmaster Flash, e o grupo Cold Crush Brothers também aparecem nesta crônica
que mostra a ascensão do grafite, do break e do rap. Ao longo do filme, os personagens
grafitam trens durante a noite, falam sobre arte urbana e terminam numa enorme jam ao ar
livre. Com foco na ascensão do Graffiti como manifestação criativa de vanguarda, o filme
mostra também os primeiros interesses da mídia com relação à cultura Hip-Hop. Mostra
também como eram as block parties, os primeiros Mcs, as primeiras rodas de Breaking e
danças sociais, os primeiros Djs e os grandes festivais undergrounds da época.
Link do filme: [Link]
SAÍDA PELA LOJA DE PRESENTES
2010, 86 min, EUA, Direção Banksy.
Colocado como "o primeiro desastre de filme sobre street art", "Exit Through the Gift Shop"
contém filmagens exclusivas de Banksy, Shepard Fairey, Invader e muitos dos mais infames
artistas de graffiti do mundo em trabalho. É um filme que conta a história de Thierry Guetta,
um imigrante francês em Los Angeles, e sua obsessão pela arte de rua (street art). É
apresentado como um documentário, mas alguns críticos e comentadores têm questionado
sua veracidade. O filme mostra a constante documentação de cada momento do próprio
Guetta, à sua chance de contato com seu sobrinho, o artista Invader, e sua documentação
de um hospedeiro de artistas de rua com foco em Shepard Fairey, e também Banksy,
embora o rosto deste nunca é mostrado e sua voz é distorcida para preservar sua
anonimidade.
Link do filme: [Link]
CIDADE CINZA
2012, 80 min, Brasil, Direção Marcelo Mesquita e Guilherme Valiengo.
Em 2008 a prefeitura de São Paulo resolveu iniciar uma política de limpeza urbana, na qual
os muros da cidade seriam pintados com a cor cinza de forma a apagar as intervenções
neles realizadas. Artistas como OsGemeos, Nunca e Nina, que tiveram importantes obras
destruídas pela iniciativa, se juntam para repintar um muro de 700 metros.
Link do Filme: [Link]
LOS MURALISTAS MEXICANOS
2016, 19 min, Chile, Direção Patricio Quintana Venegas.
Um vídeo produzido em homenagem ao muralista chileno Fernando Marcos Miranda
(1919-2015), com a leitura ilustrada de um de seus últimos textos, em que reverencia os
muralistas mexicanos e a inspiração que impulsionaram o movimento no Chile, a busca por
uma estética latinoamericana.
Link do filme: [Link]
El ÁRBOL DE VÍCTOR
2016, 16 min, Chile, Direção Esteban Méndez
Este vídeo é um registro do processo de construção da pintura mural ‘El Árbol de Víctor’,
que reuniu grafiteiros e muralistas chilenos em uma homenagem ao Víctor Jara, importante
personagem da cultura chilena.
Link do filme: [Link]
EL MURO Y LA BRIGADA
2012, 17 min, Chile, Produção Editorial USACH
Um entrevista com Mono Gonzalez, cenógrafo, gravurista e muralista, um dos fundadores e
criadores do estilo de pintura da Brigada Ramona Parra, vai narrando suas histórias e
abrindo seus arquivos, a militância, a resistência, à clandestinidade, os murais, os signos e
as consignas, um testemunho da história do muralismo chileno em movimento.
Link do filme: [Link]
HUELLAS DEL COLOR
2005, 15 min, Chile, Direção [Link] Manquez M.
As Brigadas Muralistas Chilenas estão engajadas nas expressões das ruas, na agitação e
propaganda, desde os anos setenta até a atualidade, eles mantiveram um movimento
cultural popular que dá conta do contexto político e social do Chile, refletido na via pública.
Link do filme: [Link]
EL MURAL DE ARGOMEDO
2017, 14 min, Chile, Direção Marcelo Tapia Olmedo
Documentário realizado pela UPLA TV sobre o mural da rua Argomedo, em Valparaíso, no
morro da Playa Ancha: um pedaço da memória do bairro e seus habitantes e um vestígio do
processo histórico que homens e mulheres chilenos viveram com fervor e empenho durante
o período da Unidade Popular.
Link do filme: [Link]
A ARTE DO GRAFITEIRO E MURALISTA EDUARDO KOBRA
2017, 38 min, Brasil, Produção Programa Diferente
A trajetória do grafiteiro e muralista Eduardo Kobra, um dos artistas mais reconhecidos da
atualidade por seu trabalho exposto nas ruas de diversos países do mundo. Autodidata, ele
começou como pichador na periferia de São Paulo e acaba de lançar um livro com fotos e
textos que retratam parte considerável da sua obra, em quase 30 anos de atividades. Além
de uma entrevista exclusiva com Kobra, acompanhe o histórico de trabalhos que já se
tornaram referência da arte urbana, como o Muro das Memórias, onde o artista faz releituras
de cenas da São Paulo antiga, pinturas em 3D e o projeto Greenpincel, pelo qual denuncia
com imagens impactantes a matança de animais e a destruição da natureza. Também são
bastante conhecidas as homenagens de Kobra a personalidades de diferentes áreas, como
Albert Einstein, Ayrton Senna, Nelson Mandela, Madre Teresa de Calcutá, Abraham Lincoln,
Salvador Dali, Jean-Michel Basquiat, Frida Kahlo e Andy Warhol, entre outros.
Link do filme: [Link]
LUZ, CÂMERA PICHAÇÃO
2011, 104 min, Brasil, Direção Bruno Caetano, Gustavo Coelho, Marcelo Guerra
"PICHAÇÃO" não é graffiti. Esta é uma distinção que só acontece no Brasil. Quer maior
subversão que assinar uma cidade que parece não ter sido projetada para você, com seu
nome inventado? "Luz, Câmera, PICHAÇÃO" é o primeiro documentário que conta com a
presença apenas de pichadores (as), sem ninguém de fora da cultura, muito menos
especialistas ou intelectuais, afinal de contas, é a fala do pichador, quase nunca ouvida,
suas formas de socialização, suas histórias de vida, suas grafias, seus sucessos, seus
riscos, suas perdas e seus ganhos que os compõem por inteiro. Desta maneira, fugindo de
explicações vindas de fora, que cairiam no risco da redução, o filme, focado especialmente
na cultura da PICHAÇÃO no Rio de Janeiro, conhecida como Xarpi Carioca, propõe uma
convivência e uma simpatia direta com o que aparenta, à primeira vista, ser incompreensível
e, justamente por isso, alvo de tanta violência. Família, emprego, amigos, amores, riscos,
afetos, rua, cidade, madrugada, ou seja, um filme que trata, sobretudo, de aflições comuns
a uma juventude urbana periferizada contemporânea.
Link do filme: [Link]
PIXO
2009, 62 min, Brasil, Direção João Wainer e Roberto Oliveira
Pixo é um documentário que expõe o impacto da pichação como fenômeno cultural na
cidade de São Paulo e sua influência internacional como uma das principais correntes da
Street Art. O filme participou da exposição Né dans la Rue (Nascido na Rua), da Fondation
Cartier pour l’Art Contemporain, em Paris. O documentário mostra a realidade dos
pichadores, acompanha algumas ações, os conflitos com a polícia e mostra um outro olhar
sobre algumas intervenções já muito exploradas pela mídia. O filme não traz respostas,
mas fornece argumentos para o debate: pichação é arte ou é crime?
Link do filme: [Link]
FORÇA DAS RUAS!
Proposta de atividade de Artes Integradas:
Atividade consiste na exibição e debate com os educandos de filmes com a temática:
Arte Urbana, Espaço Público, Imaginário Coletivo
-Conteúdo:
Artes - Arte Contemporânea, movimentos artísticos.
Língua estrangeira - Espanhol e Inglês
História - Contexto histórico latino-americano do sé[Link]
Sociologia - Movimento Social, Espaço Público, Memória
-Objetivo geral:
Fazer com que os educandos conheçam e debatam a Arte Urbana e seu diálogo com
o Espaço Público através do contato com a produção artística contemporânea, a sua
formação, cultura e a história a partir de investigações, despertando o seu interesse
na pesquisa e tornando-o sujeito de sua própria história. Proporcionando a
valorização de sua história e respeito pela diversidade existente nelas, e do seu
patrimônio cultural. Buscando também a interdisciplinaridade entre as disciplina de
Artes, Língua Estrangeira, História e Sociologia.
-Objetivos:
1. Propor uma abordagem interdisciplinar utilizando a Arte Urbana, como ponto de
partida. A intenção é promover atividades nas áreas de Artes Visuais, Língua
Estrangeira, História e Sociologia.
2. Incentivar os educandos a conhecer a produção artística nacional e latino americana
com enfoque histórico e social.
3. Refletir sobre movimentos artísticos e movimentos sociais, ações coletivas e a
utilização do espaço público, valorização da memória e as relações espaço e tempo.
4. Promover a fruição e a apreciação da produção artística individual e coletiva.
-Procedimentos didáticos:
Exibição de onze filmes organizados em sete encontros de noventa minutos, roda de
conversa ao término de cada filme e documentário, três primeiros encontros trazem
como tema o Graffiti, o quarto sobre Muralismo Latino Americano, o quinto e sexto
encontros abordarão a Pixação, o sétimo e último encontro será para o debate e
avaliação. Atividade complementar 1 sugerida no primeiro encontro, atividade
complementar 2 sugerida no segundo encontro e atividade complementar 3 no terceiro
encontro.
-Público Alvo:
Estudantes do Ensino Médio e Ensino de Jovens e Adultos.
-Duração:
Sete encontros de noventa minutos.
-Avaliação:
Será feita mediante participação dos estudantes, avaliação coletiva.
-Recursos:
Sala multiuso com cortinas, cadeiras, projetor, telão, computador, caixa de som.
Sugestões de atividades complementares:
1) Graffiti Hoje
Depois da exibição do primeiro filme, sugerir a pesquisa na internet, nas rede sociais ou no
recurso que dispor, quem são os principais grafiteiros e grafiteiras da atualidades, na nossa
cidade, no nosso estado, no Brasil e no mundo.
2) Ouvir um disco de Víctor Jara
Atividade a ser proposta depois da exibição do segundo filme. Disponibilizar o link de três
discos de Víctor Jara, para que eles possam escolher um para ouvir, depois da escuta
pesquisar na internet ou no recurso que dispor sobre o músico. Personagem importante da
cultura chilena ele recebe uma homenagem em forma de pintura mural que é registrado no
filme El Árbol de Víctor (2016), instigar a discussão da relação entre a poética do músico
com a dos muralistas.
Discos de Víctor Jara sugerido:
La Población- [Link]
Pongo en Tus Manos Abiertas…-[Link]
El Derecho de Vivir en Paz - [Link]
3) Leitura da entrevista dos diretores do filme Pixo.
Texto sugerido como disparador do debate, propor a leitura da entrevista com os diretores
do filme Pixo(2010), que segue abaixo, como atividade complementar na sequência de
exibição do terceiro filme da mostra.
ENTREVISTA JOÃO WAINER / ROBERTO T. OLIVEIRA
Pichação, a marca da desigualdade social
por Maíra Kubík Mano
3 de dezembro de 2009, Edição 29 Le Monde Diplomatique Brasil
Com uma história completamente diferente do grafite, que ganhou o mundo na década de
1970, a pichação é uma expressão típica da capital paulistana. As mensagens, muitas
vezes incompreensíveis, saem direto da periferia para os edifícios mais altos do centro
reafirmando o que deveria ser óbvio: os jovens e pobres existem
Se a nossa pesquisa de público não estiver errada, boa parte dos leitores de Le Monde
Diplomatique Brasil não tem muita familiaridade com a realidade dos pichadores. Talvez
muitos achem que as letras estreitas e pretas que marcam os prédios de São Paulo
colaboram para deixar a cidade com um aspecto sujo ou poluído. Para os irmãos João
Wainer e Roberto T. Oliveira, porém, essa é uma autêntica manifestação da periferia
paulistana. “É o protesto de quem recebe tudo o que tem de pior”, diz Wainer, que há anos
fotografa essas “quebradas”. “Tudo é horrível: a escola, o hospital, a convivência com a
polícia. As famílias são complicadas. Quando eles se expressam de alguma maneira, não
dá para fazerem um troço bonitinho”. Nem legível, ao que tudo indica: “A pichação é
sofisticadíssima. Criou um código que não é feito para a sociedade entender, mas sim para
o parceiro da quebrada”, completa.
Foi com o intuito de desvendar para um público mais amplo esses quase hieróglifos
paulistanos que eles fizeram o filme Pixo. A produção, que recebeu menção honrosa da
última Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, é um dos assuntos dessa entrevista,
assim como as polêmicas pichações no Centro Universitário Belas Artes e na Bienal de São
Paulo.
Le Monde Diplomatique brasil – Por que vocês afirmam que “pixo” não é grafite?
João Wainer – O grafite nasceu em Nova York nos anos 1970 com o Wild Style, que é
aquela letra gordinha, colorida, trançada. E daí foi para o mundo inteiro. O pixo, porém, se
desenvolveu completamente separado, sem informação nenhuma sobre aquele movimento
que vinha dos Estados Unidos. Sua história em São Paulo é totalmente diferente daquela do
grafite. Basta ver o formato das letras, que é reto e anguloso, com uma cor só.
Roberto T. Oliveira– Na verdade, o pixo é a única vertente da pintura de rua que não foi
influenciada pelo Wild Style.
Diplomatique – Mas por que isso ocorreu justamente em São Paulo?
Wainer – As primeiras pichações foram as políticas, contra a ditadura. Depois, o pessoal do
movimento punk começou a fazê-las para demarcar o território, como algo de protesto. Há
alguns casos isolados como, por exemplo, o “Cão Fila km 26”.
Esse era um cara que tinha um canil e pichava a cidade inteira com “Cão Fila km 26” como
uma propaganda do negócio dele, era um marketing viral. A partir daí a molecada da periferia
começou a criar as suas gangues e a pichar pela cidade inteira.
O traço reto e anguloso tem um pouco a ver com a arquitetura da cidade. São Paulo é uma
cidade toda reta. É o que o Choque, fotógrafo, fala no filme: os pichadores veem a cidade
como um caderno de caligrafia gigante, com linhas guias entre os andares, nas muretas.
Diplomatique – É um caderno em branco.
Wainer– Sim. Eles vão pintando como se fosse um caderno de caligrafia, com aquela letra
que vai até em cima e volta.
Oliveira – Além disso, o pixo é uma comunicação fechada, entre eles. Também tem
protesto, claro, mas é diferente. Eles pintam algumas casas a partir da informação que têm.
Eles lêem aqueles jornais populares e vão marcar a casa de quem cometeu um
assassinato. Mas o principal é o ego, o ibope: eles querem pichar no lugar que os outros
vejam.
Diplomatique – O ato de pichar já é um protesto?
Wainer – Eu acho que é um protesto instintivo. Ele faz para aparecer. É uma resposta a tudo
de ruim que ele recebe da sociedade, mas que não tem preparo para conceituar. Além
disso, é uma atitude coletiva, uma consciência coletiva dos pichadores, que seguem
protestando.
Diplomatique – Mas não é um protesto organizado.
Wainer– Não, não é um protesto organizado. A pichação é anarquia, não tem lei, não tem
regra.
Oliveira– Nada na pichação é organizado. Não existe essa palavra para eles. Muitas vezes
os pichadores não têm nenhum plano: eles identificaram um prédio, chegam e vão subindo.
Aí no meio é que percebem como é que vai ser. Seria mais fácil se eles bolassem
estratégias, mas eles não pensam nisso. Nem para pichar, nem para escapar da polícia. É
tudo muito instintivo.
Diplomatique – Ou seja, não há um horizonte de transformação mais profunda da
sociedade.
Wainer– Eu acho que a transformação que ocorre com o pichador é outra. Enquanto é o
moleque na quebrada, quietinho e que não faz nada, ele não é ninguém. É um cara meio
invisível. Mas quando começa a pichar, ele passa a ser alguém, a ter um status.
Oliveira– Muitas vezes ele não tem dinheiro para pegar um ônibus, mas no nicho dele ele é o
cara.
Wainer – Exatamente. Ele passa a ter valor e a partir daí aumenta a sua autoestima. Ele
começa a achar que existe a partir do momento em que escreve seu nome numa parede
alta e que os moleques da quebrada passam de ônibus e veem.
Diplomatique – E isso é o suficiente?
Wainer – Para eles já é alguma coisa. Não tem nada pior do que você ser ignorado. É
melhor ser odiado do que ser ignorado. É essa a opção que eles fizeram.
Diplomatique – E as classes média e alta os odeiam?
Wainer– Odeiam. Todo mundo odeia.
Diplomatique – No “Pixo” tem uma cena que vocês gravaram durante a pichação do Centro
Universitário Belas Artes, em São Paulo, em 2008. Um dos alunos chega para pintar um
painel em branco com spray, que seria o trabalho de conclusão de curso dele, e uma mulher
o agride com um buquê de flores, aos gritos. É assim que a sociedade reage?
Wainer– É. Eu acho mais chocante ainda a reação das outras meninas que estão na porta
da Belas Artes. Em geral, ninguém parou para refletir e isso ocorreu em uma faculdade de
arte. Parecia que todos ali cursavam economia ou algo do tipo.
Oliveira – Ninguém nem pensou em entender. Todos os alunos estavam muito revoltados
com a faculdade. Foi essa reação careta dos estudantes que mais me impressionou. O
“Pixo” traz o depoimento de algumas meninas criticando a escola por ter dado uma bolsa de
estudos para o pichador. Esse era o xis da questão. Não era só o fato de ele ter pintado. Se
fosse um aluno pagante o problema pesaria muito menos. É evidente o preconceito pelo fato
de ele ser bolsista. Mas na hora de julgá-lo ninguém considerou os quatro anos que ele ficou
lá sem nada que desabonasse sua conduta. Ele nunca fez nada de errado na escola e se
sacrificava para estar lá.
Diplomatique – Mas acho que essa questão da pichação dos espaços, digamos, artísticos
ganhou outra dimensão quando foi para a 28ª Bienal de São Paulo, em outubro do ano
passado.
Wainer– Sim. Causou um debate, mas não com o pessoal da Bienal. O debate foi fora. O
pessoal da Bienal também não quis conversar, nem tentar entender.
Oliveira– Pelo contrário, quiseram prender e processar os pichadores.
Wainer– O que eu acho engraçado é que era um andar vazio, com tudo em branco. Eles
estavam pedindo para ter algum tipo de interferência. Mas se a interferência viesse de um
moleque de classe média, de um playboyzinho que estivesse lá, colasse um adesivo e
pintasse alguma coisa não teria o mesmo problema que com os caras da favela. A questão
é que eles são da periferia, são pichadores. Se fosse outro tipo de intervenção na Bienal não
teria esse tipo de discussão.
Diplomatique – Essa mesma rejeição acontece com o rap?
Wainer– Claro. Isso porque o sentimento do rap é o mesmo do pixo, ambos são
manifestações da periferia. É o protesto do cara que recebe muita coisa ruim na quebrada.
Tudo é horrível: a escola, o hospital, a convivência com a polícia. As famílias são
complicadas. Às vezes o pai é alcoólatra. Esses moleques convivem com o que tem de pior
e quando se expressam de alguma maneira, não dá para fazerem um troço bonitinho. Não
tem como. Imagine o Mano Brown fazendo um troço bonitinho. Nunca.
Diplomatique – Mas é uma produção elaborada.
Wainer– Claro. A pichação é sofisticadíssima. No dia em que o diretor da Fundação Cartier
viu a primeira pichação feita pelo Djan Ivson, brasileiro convidado para expor em Paris,
achou genial. É muito sofisticado criar um código que não é feito para a sociedade entender,
mas sim para o parceiro da quebrada. E usar a cidade como suporte, como mídia, também
é algo muito elaborado.
Diplomatique – E a pichação dá acesso a uma cidade que por outros meios eles não
conseguem interagir?
Wainer– Sim. Quando o moleque vai para o centro e picha o nome dele numa parede, se
torna alguém importante porque é um lugar que ele não tem acesso e mesmo assim a
marca dele está lá, no alto do prédio. Isso aí o faz virar outra pessoa.
Diplomatique – A essência desse sentimento está também na ilegalidade da pichação?
Oliveira – Se for legal não é pichação. É como esse exemplo da Fundação Cartier, que
recebeu uma representação do pixo: aquilo já não era mais autêntico. Até porque essa é
uma atividade que talvez não tenha o mesmo sentido fora do Brasil. Fazer pixo é na rua, o
que eles fazem na galeria é artes plásticas. Veja Os Gêmeos: eles fazem exposições
maravilhosas, incríveis, mas é na rua que eles estão cada vez mais viscerais, pichando
somente letras. Pixo na galeria só se for invadido, ilegal.
Diplomatique – O pixo pode ser considerado uma rebelião silenciosa em São Paulo?
Oliveira – Bom, fizemos o filme também para dar oportunidade para as pessoas
perceberem um pouco mais a cidade. Me causa arrepios ver todo muito andando com os
vidros dos carros fechados, com nojo de São Paulo, como se fosse uma paisagem feia. É
preciso começar a percebê-la e entendê-la. São Paulo está inteira pintada. Quando um
gringo chega pelo aeroporto de Guarulhos, a primeira coisa que ele vê é a Via Dutra e o
dique do rio Tietê pichados.
Diplomatique– A pichação vai evoluir para algum lugar?
Oliveira – Sempre vão tentar acabar com ela. No nosso país, em que não há acesso nem à
educação, em que não há um caminho até faculdade, os moleques só enxergam a vida na
quebrada. Para dar um exemplo dessa situação, um dos moleques que entrevistamos no
filme é analfabeto, mas sabe ler pichação. Ele não entende letra de fôrma, mas decifra
rapidamente uma parede pintada. Se os pichadores evoluírem, melhorarem de vida e
começarem a pensar de outro jeito, a tendência é que o movimento acabe, pois a cidade vai
se transformar numa coisa melhor.
Wainer – Quando o grafite começou em Nova York, nos anos 1970, era um momento de
crise econômica. A criminalidade estava em alta e a polícia tinha mais o que fazer do que
correr atrás de grafiteiro. Eles até faziam um pouco de vista grossa. E aí o grafite dominou
Nova York. Só nos anos 1990, sob a administração do Rudolph Giuliani, os policiais
começaram a combater os grafiteiros. E deu resultado: conseguiram reduzir muito sua
intervenção na cidade. São Paulo está hoje no mesmo ponto em que Nova York nos anos
1970: a polícia tem mais o que fazer. Eu imagino que mais para frente, quando São Paulo
resolver boa parte dos problemas que tem, pode ser que eles comecem uma política mais
forte contra a pichação. Mas depende muito do governo e de suas prioridades.
Oliveira– É engraçado isso. Quando fomos com o Djan para Paris, achamos que ele ia
pintar lá. Mas quando perguntamos se picharia ele respondeu: “Não tenho vontade, essa
cidade é tão bonita. Não tem a ver aqui. Talvez na periferia”. Além disso, a pressão lá é
violenta. Em algumas cidades não, mas na maioria das grandes capitais europeias a polícia
infiltra gente no meio dos pichadores. Os caras têm muito medo, inclusive. Os artistas de
rua nesses lugares estão muito cerceados, estão muito reprimidos. A exceção é Berlim, que
é uma cidade de artistas. Aliás, existem três grandes centros hoje de arte urbana no mundo:
São Paulo, Berlim e Melbourne, na Austrália.
Diplomatique – Então quem está lá fora vê o pixo aqui em São Paulo com outros olhos.
Oliveira – Tem gente que vem a turismo aqui para ver o pixo. Tem um dinamarquês que veio
a São Paulo e aprendeu a fazer a letra do pixo. Agora ele viaja a Europa pichando. Ele picha
São Paulo na Europa. Assim como ele, muitos alunos, professores, gente ligada à arte vem
para cá para estudar a pichação.
Diplomatique – Pixo é uma arte masculina?
Wainer– Não, algumas mulheres fazem pichação. São poucas, duas ou três se destacam.
É um ambiente bem democrático. A menina só tem que ganhar o respeito dos caras. Se ela
começar a pichar bem e muito, é aceita no grupo. A questão é volume. Se alguém
realmente for para a rua e começar a destruir a cidade, eles acolhem. Mesmo que seja
playboy. Basta identificar a marca do outro na rua.
Diplomatique – E como é que eles têm esse parâmetro do quanto alguém pichou?
Wainer– Andando pela rua, olhando, prestando atenção.
Oliveira– É, nesse caso não dá para mentir. Você não pode chegar na quebrada e dizer que
pichou a cidade inteira porque os caras vão descobrir. O movimento deve ter umas mil
pessoas participando ativamente, eles sabem de tudo. É muita gente. E os caras vivem
para isso, dedicam-se à pichação. Eles sabem aonde foi, quem estava junto, se ficou bom
ou não.
Diplomatique– Alguns pichadores falam no documentário que o que eles fazem é anárquico.
E eles reivindicam isso de fato?
Wainer– Mais ou menos, eles não sabem direito. Eles saem para zoar e querem ver o que
vai dar.
Oliveira– Eles não sabem exatamente o que é a anarquia. A palavra certa para eles é
mesmo a zoeira. Porque é um pouco de fase também, de almejar a liberdade. Eles são
moleques e querem curtir a vida, não têm preocupação com nada, as responsabilidades
são menores. Eles curtem a adrenalina. Quando estiverem casados, com emprego e família
não vai ser a mesma coisa. Agora eles têm 15, 16, 17 anos, faz parte da juventude.
Diplomatique– O pixo é uma coisa da juventude?
Oliveira– Não, não só. Tem gente na faixa dos 40 anos que picha porque isso já virou uma
motivação da vida do cara.
Wainer – Mas são poucos. Na verdade, a maioria dos pichadores que estão em atividade é
molecada, tem entre 15 e 22 anos, no máximo.
Diplomatique– E eles não têm outro espaço de lazer.
Wainer – Exatamente. É a adrenalina deles. Enquanto o playboy vai pegar onda em
Maresias, os moleques sobem em um prédio no centro de São Paulo. É a mesma
adrenalina de pegar uma onda grande. Todo mundo precisa disso. Não sei nem se é um
direito, mas é uma necessidade.
*Maíra Kubík Mano é jornalista, foi editora de Le Monde Diplomatique Brasil e atualmente é
docente do Bacharelado em Gênero e Diversidade da Universidade Federal da Bahia
(UFBA).
Referências Bibliográficas:
- Pixação e Vandalismo -
[Link]
- Entrevista diretores do Pixo -
[Link]
- Pixação-Arte é Pixação? -
[Link]
- Um olhar sobre o pixo-
[Link]
- O pixo além das paredes -
[Link]
ue-falam/
- Beside Colors- [Link]
- Goma fala - [Link]
Referências Discográficas:
- La Población, Víctor Jara - [Link]
- Pongo en Tus Manos Abiertos, Víctor Jara -
[Link]
- El derecho de Vivir en Paz , Víctor Jara-
[Link]
Referências de Filmes sobre Graffitti, Muralismo e Pixação.
- Muralismo- [Link]
- Muralismo Cobra- [Link]
- Cidade cinza.- [Link]
- Pixo- [Link]
- Chile Style- [Link]
- BRP- [Link]
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- Documental muralismo- [Link]
- Mono Gonzalez, A arte do Essencial-
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- A Árvore de Victor- [Link]
- O mural de Argomedo- [Link]
- Muralismo mexicano- [Link]
- Los Indecisos- [Link]
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- El Mono y el primero gol del pueblo chileno-
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