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Cidade Universitária da Ilha do Fundão

~@(Jf]~ !P!l&JUD©~g ~@(Jf]~ @@Jofló©O@~

UFRG·S
FàCOLDADE DE ARQUITETURA
. BIBLIOTECA
PROGRAMA DE PESQUISA E POS GRADUAÇÃO EM ARQUITETURA
P OPAR/UFRGS

EDISON ZANCKIN ALICE

Cidade Universitária da Ilha do Fundão


Seus planos, seus edifícios.

Estudo das re}ações entre a so}ução


urbana e as tipologias edificadas na
Cidade Universitária do Fundão,
analisando e identificando, nas
diversas versões dos seus 50 anos,
suas coerências e possíveis
contradições.

Orientador:
Arq. Carlos Eduardo Dias Comas. Dr.

Porto Alegre
2004
RESUMO

Parte do mais valioso acervo da AMB foi produzido dentro das décadas de 30
e 40, com ênfase nos programas de caráter público. Dentre estes, o assunto "Cidade
Universitária" tinha preferência na pauta do Ministro Capanema , que o transforma
em tema internacional de arquitetura, envolvendo arquitetos estrangeiros - Le
Corbusier e Piacentini & Morpurgo - e os brasileiros - Lucio Costa , Firmino
Saldanha , Affonso Reidy e Paulo Fragoso. Esta mescla acabou confirmando a
capacidade dos arquitetos brasileiros e afirmando os princípios da nova vertente
arquitetônica no País. Estas experiências deixaram um valioso repertório ,
disponibilizado para Jorge Moreira em todos os seus estudos do plano para a sede
da Universidade do Brasil na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro, quase duas
décadas adiante. Este trabalho procura estudar e identificar, as coerências e
possíveis contradições entre as soluções urbanas e as tipologias edificadas, nas
diversas versões e estudos do plano da Ilha.
ABSTRACT

Part of the most valuable patrimony of AMB was produced in the 30's and
I
f
l
40's, with an emphasis on the programmes of public character. Among those, the
subject "Cidade Universitária" (University Campus) was one of high interest for
Minister Capanema , who transformed it into an architecture international theme,
involving foreing architects - Le Corbusier and Piacentini & Morpurgo - and Brazilian
ones - Lúcio Costa, Firmino Saldanha, Affonso Reidy and Paulo Fragoso. This
variety resulted in confirming Brazilian architect's ability and solidifying the principies
of the new architectural tendency in our country. These experiences left a valuable
repertoire, wich was made available for Jorge Moreira in ali his studies of the plan for
the seat of the University of Brazil on the Fundão lsland , in Rio de Janeiro, almost
two decades later. This research tries to study and identify what is possibly
contradictory among the urban solutions and the constructed typologies in the
diverse versions and studies of the plan of the lsland.

r
I
r
AGRADECIMENTOS

A Sônia, minha esposa, a meus filhos Cristiano, Tiago, Lucas, Sabrina e a Vó

I
I
l
'
Maria, que estiveram sempre atentos e pacientes, dando apoio a esta tarefa.
Aos meus, não mais presentes, pais Antonieta e América.
As minhas queridas irmãs professoras Elaíne e Heloisa,
auxílios permanentes desde Porto Alegre ao Rio.
Ao casal de amigos Liones Severo e Tânia Duarte Correa,

'~
l que viabilizaram a viagem para as pesquisas no Rio.
Aos amigos e irmãos Amoldo e Mara, Eduardo e Suzana, Maria e Calica,
Denise e Rogério, Carlos e Clorinda, sempre em oração pelo meu êxito.
I Aos padrinhos desta conquista Dulce Daudt e Albano Volkmer,
presentes e entusiastas desde o inicio.
.' Ao chefe Crhrystoph e a turma da UFRGS, Perrone, Paulo Maas,
I
Claudia Taitelbaun, Manbrini, Luisa Duran, aos prestativos e eficientes futuros
r arquitetos Andréa, Alencar Massulo de Oliveira e Carolina Wallau de Oliveira.
~ A futura arquiteta Janaina Carla Dalarosa, que foi fundamental na
l organização de todo material da pesquisa e da parte do espiritual.
I Ao solidário colega e amigo Cairo Albuquerque da Silva,
pela valiosa orientação e apoio bibliográfico.
Aos colegas mestrandos que juntos, durante os três últimos anos, nos

' ,
I

i
entusiasmamos mutuamente, Daniel Pitta Fischmann, Miguel Antonio Farina,
Julio Co/lares, Jose Carlos Marques, Fátima Beltrão, Maria Isabel Marocco,
Diniz Álvaro Machado, Eduardo Pizzato, Helena Karpouzas, Renato Marques,
Maturino Luz, Julio Caetano, Dalton Bemardes, Carlos Hübner, Luiz Felipe Helfer,
r,
I
Paulo Cesa Filho, Jose Lourenço Degani, David Leo Bondar,
Marta Peixoto, Marco Peres e José Carlos Campos.
Aos queridos e atenciosos amigos Anna Paula Cafíez e Sergio Marques,
~ programadores das minhas pesquisas no Rio.
A turma do ETU - Fundão, antigo ETUB, Romildo, Edson e ao Prof Arq. Paulo
I ~
Jardim de Moraes pela atenção durante as minhas pesquisas na Ilha do Fundão.
A Silvia Arango, disponibilizando sua obra para a qualificação deste trabalho.
A Carlos Eduardo Dias Comas, meu entusiasmado orientador,
i
cuja eficiência me deu suporte para alçar um vôo maior.
E ao meu grande mestre do oficio Moacyr Moojen Marques,
donde tudo iniciou.

' ~
i

I
1
L_
SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO
t• INTRODUÇÃO
8

10

'
1 AMBIENTE UNIVERSITÁRIO- PROCED~NCIA E PRECEDÊNCIAS 17
1.1 A PREMIÉRE EM BOLOGNA17
1.2 O COLLEGE INGL~S E O CAMPUS AMERICANO 21

f 2 IDÉIAS E PLANOS NO BRASI


2.1 O IMPERADOR E O MINISTRO
24
24
I
2.1.1 Madrid da Geração de 25 28
~ 2.1.2 A Cidade Universitária De Roma32
2.2 CIDADE UNIVERSITÁRIA BRASILEIRA- PRIMEIROS PROJETOS 35
~ 2.2.1 Lucio Costa - Propostas e Consultas 37
i 2.2.2 A Universidade Dentro D'água 37
I 2.3 OS PROJETOS PARA A QUINTA DA BOA VISTA 38
i
2.3.1 Le Corbusier- Primeiro Anteprojeto 38
r
I 2.3.2 Lucio Costa em Equipe - Segundo Anteprojeto 46
i 2.3.3 Piacentini & Morpurgo- Terceiro Anteprojeto 57

I 3 MIES E OS HERMANOS LATINOS 68

I
3.1 CHICAGO 68
3.2. O CASO DE CARACAS 69
3.3 O CASO DO MÉXICO 75

4 A ILHA PROJETADA E CONSTRUIDA 83


4.1 O ETUB E A DECISÃO PELA ILHA 83
4.2 JORGE MACHADO MOREIRA - O AUTOR 88
4.2.1 Experiências em Porto Alegre 91
[Link] Universidade do Rio Grande do Sul e o Centro Cívico 91
4.2.2 A Produção Influente do Amigo Reidy 97
[Link] O Centro Tecnológico da Aeronáutica CTA e o Centro Cívico do Rio de Janeiro 97

4.3 A SIMBOLOGIA DO MODERNISMO 101

I 4.4 CIDADE UNIVERSITÁRIA DA ILHA DO FUNDÃO


4.4.1 O Programa
4.4 .2 O Plano em Quatro Momentos
[Link] O Primeiro de 49 a 52
4.4 .2.2 Os Edifícios em 52
[Link] Primeira Versão em 54
102
102
103
104
111
116
[Link] Segunda Versão entre 56 e 60 118

'
I
r
i
r
[Link] Os Quatro Primeiros da Ilha
[Link] A Repercussão da Reforma de 66
4.4 .2.7 A Versão 70134
[Link] Os Edifícios em 70
4.5 DE 70 À ATUALIDADE
121
133

136
139

5 A NOVA PRECEDÊNCIA 144

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 147


[
l
l
l

APRESENTAÇÃO

O interesse pelo assunto tem relação direta com a minha atividade desde
1975 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, como participante da equipe
de projetos do Escritório Técnico do Campus, com a tarefa de planejar as futuras
instalações físicas da Universidade no Campus do Vale, desde outubro de 75.
I

I
Estava findando um tempo em que a Universidade Federal recebia
r diretamente recursos do tesouro por meio de programas especiais, para a


i
construção e melhoria de suas instalações e a UFRGS foi rápida no gatilho. A

~
necessidade de rapidez na assimilação destes recursos, requeria uma solução de
projeto que comprometesse a maior quantidade de recursos no menor tempo
i possível de obra. O plano da UFRGS no Vale da Agronomia em Porto alegre é o

I
reflexo direto desta época. A solução mais conveniente era em pavilhões repetidos ,
compostos por elementos padronizados, em dois pisos, que acabou se constituindo
na primeira grande obra com estrutura pré-moldada no estado e uma das pioneiras
no Brasil em obras públicas pelo seu porte.

O programa seguia as determinações da reforma de 68, definindo o


departamento como unidade de medida, que estabelecia com prioridade as suas
inter-relações dentro de uma matriz de cursos. Em direta decorrência, o partido
urbano é simples, com a área acadêmica numa seqüência de pavilhões, junto à
borda interna do grande anel viário , envolvendo todo o núcleo administrativo e de
I apoio do Campus. A mesma clareza do plano geral não esta suficientemente

I ~
presente nos blocos de edifícios repetidos em exagero, provocando dificuldade na
identificação dos seus setores. Nas extensas passarelas transversais que unem os
pavilhões pelos topos é que se encontram algumas investidas mais formais em
arcos e cascas de concreto .

UFRGS
FACULDA DE DE ARQUITETURA
BIB LI OTECA
9

Esta condição facilitava a administração e o comprometimento dos recursos


existentes, donde decorre a determi ação de construir em duas etapas, uma de
execução da estrutura e outra de vedações e acabamentos.

A convivência com o projeto desde os primeiros esquemas, quando ainda


tudo era "um lugar', gerou questões relacionadas em direto com o plano e seus
edifícios, que foram, e ainda são, externadas para a equipe de arquitetos no sentido
de motivar uma constante reflexão, sobre um tema cuja característica principal é a
sua velocidade de mutação.

,
I
Algumas versões do plano foram estudadas posteriormente, alterando
substancialmente o traçado e as dimensões do sistema viário em troca de
topografias mais planas em áreas mais rarefeitas de vegetação. Admitiu-se então
estudar, a partir da ultima década quando os recursos começaram a escassear de
vez, outros tipos de construções em solução mais verticalizada, o que antes nem era
cogitado. Este foi um raro momento em que tivemos tempo para refletir. Talvez com
menos pressa, poderíamos aproveitar melhor a oportunidade e resolver o Campus
com um pouco mais de arquitetura , evitando cometer, ou não, o que tinha sido
cometido no Fundão.

t
I
r

I
I
INTRODUÇÃO

A diversidade e a velocidade de mutação dos dados dos programas relacionados


com o espaço físico universitário no Brasil me levou a procurar entender e decifrar a
coerência dos encontros entre o seu programa clássico e suas respectivas respostas
J urbanísticas e arquitetônicas. O interesse em ingressar no assunto, foi incentivado pelo

I
'
Professor Comas, numa de suas instantâneas e precisas indicações de temas durante o
curso de Mestrado, sempre atento ao perfil e a atuação profissional de cada aluno seu.

' No Brasil não se tem conhecimento de nenhum caso de uma Cidade Universitária
totalmente construída conforme o projeto original. Sempre sofrem transformações ao
longo do tempo, relacionadas com ações de uma nova gestão administrativa que quebrou
a seqüência planejada pela anterior, com a escassez de recursos financeiros e até com
as intervenções da uma "clientela autodidata", propondo absurdos na maioria das vezes.
Assim , entendo que estas transformações e suas implicações políticas, econômicas ou
administrativas, podem acontecer, porém , dentro de um conceito espacial previamente
estabelecido, como agente de proteção e preservação da boa arquitetura.

A obra a ser estudada é a Cidade Universitária da Universidade do Brasil, hoje


UFRJ , projetada por Jorge Machado Moreira na década de 50 cuja arquitetura foi
parcialmente construída na Ilha do Fundão. Esta foi a primeira obra moderna de porte
urbano no Brasil , e nela, estavam concentradas todas as atenções do meio arquitetônico
\
brasileiro da época , com mais esta oportunidade para confirmar o momento de
hegemonia da historia da arquitetura moderna brasileira.

Na medida em que a pesquisa foi se desenvolvendo, as varias versões do projeto


foram se esclarecendo , mostrando que o plano esteve em constante avaliação por no
mínimo uma década, de 1952 até a saída de Jorge Moreira em 1962. O plano original é
do período de 1949 a 1952, a primeira versão foi apresentada em 1954, a segunda entre

,
,
r
11

o período de 1956 a 1960, dando por concluída a primeira etapa de implantação da


Universidade na Ilha e a última em 1 70, iniciando o momento atual da sua histeria.

O texto compõe-se de 6 capítulos, identificados na seqüência: 1 O Ambiente


Universitário - Procedência e Precedências, 2 Idéias e Planos Brasileiros, 3 Mies e Os
Hermanos Latinos, 4 A Ilha Projetada e Construída, 5 A Nova Precedência .

Os três primeiros capítulos referem-se , por cronologia, às origens, contexto e


referencias arquitetônicas do tema para o projeto na Ilha do Fundão, mescladas com a
biografia do autor. O quinto capítulo apresenta, em texto principal , as analises do Plano
Inicial para a Cidade Universitária na Ilha do Fundão e suas versões, entre 49 e 66 .

A busca das origens dos espaços universitários que anuncia Bologna como sede
da primeira congregação oficial das "Universitas" no séc. XIV, segue o rumo sugerido por
Comas, em sua observação sobre "a necessidade de, tanto o projeto como a critica,
estreitar a relação da obra com uma antecedência formal qualificada". As "Universitas",
comunidades medievais de proteção mútua, formadas por cidadãos de varias origens,
talvez tenham sido a origem dos grupos de mestres e alunos, mais tarde reconhecidos e
oficializados no séc. XIV. O ensino tinha o rígido controle da igreja, que é pressionada
pelos habitantes dos burgos, surgem as escolas catedrais que dão origem as
Universidades.

Como convinha aos seus anseios a igreja pleiteava participação no plano de


renovação do Centro Político da cidade. O seu primeiro edifício é o, construído
especificamente para os cursos de Artes e. Legislação em 1563, projetado por Antonio
Morandi. Os demais edifícios do novo centro foram construídos a partir de 1564,
conformando o aspecto definitivo da Piazza Magiore em 1568. Neste edifício surgem os
primeiros conceitos de espaços projetados para o ensino: no Teatro Anatômico para a
Medicina; nos Pátios e Passagens cobertas como lugares de criação para as Artes e
eventos acadêmicos; nas salas de Aula Magna , uma para Artes outra para Legislação.
~
I

A segunda parte deste primeiro capítulo faz menção às organizações compositivas


dos "Colleges" ingleses e do "Campus" americano, com alusões ao "Studio Bolonhese"
nos seus espaços abertos e nos Cortiles.
12

O segmento "Idéias e Planos Brasileiros" observa a contextualização e as ações do


Imperador [Link] 11 fundando a pedra da Universidade do Império na Praia Vermelha
em 1881 , bairro histórico com vocação acadêmica , mais tarde confirmado por Agache no
seu plano de Remodelação e Embelezamento do Rio de Janeiro em 1929, como sede da
Cidade Universitária. E do Ministro Gustavo Capanema, que a partir de 30, solicita as
viabilidades do programa na Praia Vermelha. O projeto para a Cidade Universitária de
Roma era recente e Capanema convida o seu autor, o arquiteto italiano Marcello
Piacentini, para apreciar também a viabilidade da Universidade na Quinta da Boa Vista,
que conclui estar admirado pela suntuosidade de ambos.
Fatores como menor valor nas desapropriações e melhores condições de execução,
definem a escolha pela Quinta.

Com a oficialização da Universidade do Brasil em julho de 35, Capanema solicita a


elaboração de um plano de diretrizes para a instalação de sua sede no Rio de Janeiro. O
conseqüente aumento no numero de matriculas acompanhado da precariedade dos
edifícios, aceleram o processo da sua organização física em corpo único. Em setembro,
por portaria , Capanema institui duas comissões: uma , formada por professores, diretores
das unidades, diretor do escritório e representantes dos arquitetos e engenheiros, para
definir os cursos, localização , programas e diretrizes para o projeto; outra especifica para
visitar as recentes Cidades Universitárias de Madrid e de Roma. Em Madrid, Luiz Otero
confessa a relação direta do seu projeto com a organização do "Campus" americano. De
Roma vinham os códigos da monumentalidade clássica e austera da arquitetura de
Piacentini .

Convidado pelo Ministro, Lucia Costa apresenta a primeira proposta de projeto para
a Universidade na Quinta com algumas sugestões para a comissão do plano. Em paralelo
existiam as iniciativas do Escritório do Plano da Universidade, estabelecendo planos de
zoneamento e urbanização. Eram dois setores desenvolvendo em paralelo a mesma
função . Este conflito induz o Ministro à novas ações administrativas para os serviços de
projeto e obra , o que permite melhores condições para harmonizar as relações entre os
' profissionais liberais e as comissões oficiais

,. Depois de propor os sonhos da Universidade na Lagoa Rodrigo de Freitas , Lucia

,•
13

recomenda os serviços de Le Corbusier, que apresenta propostas em anteprojetos


simultâneos para o MESP e para a uinta. Este foi o projeto que inaugurou uma nova
fase no processo, afinal, a nova arquitetura acabava de ser apresentada pela primeira vez
no Brasil com todos os seus componentes, desde a escala urbana até a mais detalhada
solução do edifício. Mesmo alegando questões técnicas e econômicas para a
desaprovação do projeto , a verdade estava na simpatia que a comissão tinha com o estilo
Piacentini da Universidade de Roma . Seguindo as recomendações do Ministro que sugere
a ocupação da área mais plana do terreno, Lucio Costa, num segundo anteprojeto,
propõe uma concepção oposta a de Le Corbusier. Ao invés de isolar as partes em relação
ao plano e o plano em relação à cidade, como propôs Le Corbusier, Lucio distribui o
pedestre por um grande percurso central em direta afinidade entre as escolas e os seus
pátios conformados com alguma "brasilidade", desde a monumental Praça do Pórtico ate
o conjunto da saúde junto ao Hospital. Quando se refere ao plano de Lucio Costa, o texto
registra a idoneidade da comissão multidisciplinar de professores responsável pelo
programa. Salienta a importância que Lucio dedica aos aspectos referentes ao clima e às
cond ições ambientais do bairro da Quinta. Com a não aceitação deste plano, volta a ser
cogitado o nome de Marcelo Piacentini, que imediatamente envia ao Brasil seu substituto
Vitório Morpurgo, para o desenvolvimento de um terceiro plano, com plena aceitação da
comissão do Ministro e inviabilizado pela legislação brasileira .

Avaliando os três projetos, o parágrafo finaliza comentando a conceituação do


plano de Lucio Costa, como demonstração da forte aspiração do autor em comemorar a
existência da Universidade como um organismo único e sedimentado.

O texto segue em uma breve descrição dos projetos posteriores aos da Quinta,
para o Campus do IIT de Mies em Chicago, em 38 , para as Cidades Universitárias de
Caracas e México, em 42 e 50, de Raul Villanueva e O' Gorman , numa relação de ida e
volta, quando utilizam alguns conceitos espaciais dos projetos brasileiros, deixando outros
disponíveis para futuras obras. Seja no regramento por geometria ortogonal de Chicago
com o mesmo objetivo da padronização de Lucio para a Quinta . Ou nas produções ao
mesmo tempo em Caracas 28 etapa e México, com mutuas influências na disposição da
área central dos seus "Campi" tendo na Aula Magna, Reitoria , e Biblioteca , representantes
respectivos do "povo soberano", o "lugar do governo" e o "saber acumulado". Na Cidade
Universitária em Caracas era possível perceber, um modelo de cidade , onde o melhor do

~
14

urbanismo moderno estava , por fim sendo realizado . No México, a nova universidade
encaminha a busca da nova identida e do homem mexicano.

O assunto objeto desta pesquisa e inicia com o repertorio de elementos e conceitos


de arquitetura que estavam disponíveis para o projeto da Cidade Universitária da
Universidade do Brasil, em Madrid em 25 até o México em 50, passando pelos três da
Quinta e ouvindo Le Corbusier no Conservatório.

O que se tinha como definitivo era de que fisicamente a Universidade deveria


continuar sendo urbana e fisicamente centralizada e os últimos estudos, em comparação
com outros locais, indicavam a preferência de sua localização na Vila Valqueire. Local
para o qual é formulado um edital para a construção da Cidade Universitária, em situação
totalmente ilegal , envolvendo projeto, construção , administração e custos das obras,
todos sob a responsabilidade dos concorrentes. Este grave equivoco provoca a repulsa
imediata do Ministro que determina a formação de um único órgão com autonomia para
coordenar os trabalhos na escolha do futuro local, planejar e orientar as construções da
nova Cidade Universitária. Com estas atribuições, em dezembro de 44 fica instituído o
Escritório Técnico da Universidade do Brasil- ETUB, dirigido pelo Eng. Luiz Hildebrando
de Horta Barboza.

A primeira providencia de Barboza no ETUB foi definir a localização do novo


Campus entre onze opções, considerando área , custos com desapropriação e distancia
ao centro da cidade. A escolha incide pela região das nove ilhas de Manguinhos, mais
tarde unificadas formando a Ilha Universitária. Uma breve descrição apresenta a Ilha
composta e suas principais características naturais.

A segunda, foi definir o grupo de trabalho no ETUB, encarregando Jorge Moreira


para coordenar o Setor de Arquitetura do ETUB , planejar a nova Cidade Universitária e
projetar os seus edifícios . Parte da histeria de Moreira, é a do próprio movimento da
arquitetura moderna no Brasil. Vivenciou as experiências com as casas do professor
Warchavchik em São Paulo e Rio, presidia o Diretório Acadêmico quando apoiou a

I, reforma de Lucio na ENBA, concluiu o curso em 32 e de imediato assume cargo de


direção em empresa privada .

,'
L
15

A proximidade e a atenção com as arquiteturas de Mies, Wright e Le Corbusier, são


as ferramentas para enfrentar uma nova etapa , quando participa de concursos de projetos
públicos, cujos desempenhos o credita participação na equipe de projeto da sede do
MESP. Das experiências para o Campus Medico da UFRGS e para o Centro Cívico em
Porto Alegre, na primeira inaugurou a sua lida independente com a escala urbana e na
segunda , uma ação de projeto tanto drástica quanto desproporcional, tentava configurar a
"ilha moderna" no centro da cidade, desconsiderando suas preexistências importantes.
Passando pela caracterização do trabalho do amigo Reidy, num projeto para programa de
ensino superior, no CTA em São José dos Campos em 40 e para o plano de urbanização
para o Centro Cívico no Rio de Janeiro, de onde Moreira extraiu elementos para a sua
arquitetura.

O projeto da primeira Cidade Universitária brasileira dentro da nova linguagem da

' arquitetura era mais uma oportunidade de demonstrar e dedicação e a estima que os
arquitetos dedicavam aos projetos de programas públicos da época , transformando-os em
símbolos da nova arquitetura .

Da mesma maneira que anteriormente o segundo capítulo iniciou com a referência


a COMAS sobre a importância das precedências das obras, este inicia mencionando
RUTH , sobre a percepção do critico diante da obra em "O lugar da Critica".

A parte do texto que trata dos projetos, trata também das suas peculiaridades
desde a formação da grande Ilha até a atualidade, numa abordagem cronológica das
versões do plano inicial. Como interessava entender as tipolog ias dos edifícios
relacionadas ao plano e suas versões, os comentários e as descrições foram feitos de
maneira seqüencial , primeiro expondo a solução urbana, depois descrevendo o edifício e
seus elementos, como produto arquitetônico decorrente.

Do inicio de 49 a 52 até a atualidade, transformações funcionais e físicas , não


permitiam a sustentação do seu conceito inicial. O texto comenta todas as versões do
plano fí~artindo do seu primeiro traça_sl~e-~e os pr~ncípios Corbusian§)
[Link] e lfícios assentados por pilotis em base de paisagismo ú~ Quatro anos depois a
primeira obra para o- lnstituto de Puericultura já desacerta a idéia, induzindo à partição em
lotes, quando o paisagismo de Burle Marx faz o contorno do edifício com exclusividade
16

ate os limites das vias. Esta condição repercute diretamente nos desenhos dos novos
edifícios, que a partir de 54 são servido por um sistema de circulação mais adequado e
melhor dimensionado. Confirma-se em 60 definitivamente a hierarquização do sistema
viário em via central, consagrando as construções no meio dos grandes jardins,
repercutindo nos acessos, fachadas, jardins e espaços abertos entre os edifícios, como
novos elementos de arquitetura .

Após o encerramento das atividades de Jorge Machado Moreira no ETUB em


1962, a ultima tentativa de ordenar o espaço urbano no Fundão foi o estudo para o seu
plano diretor em 72, depois do "Plano de Obras Prioritárias para o triênio 70172", na busca
de recuperar o conceito de universidade como ambiente único e acadêmico.

O texto encerra concluindo em comentários sobre a dificuldade em estabelecer o


grau em que o projeto do primeiro Campus moderno brasileiro assimilou os dados
disponíveis nas experiências anteriores da Quinta. Sobre a dificuldade em sustentar o
conceito de edifícios padronizados em parque continuo do primeiro plano trocando pela
atual formula em edifícios isolados em centro de lotes, que o tamanho da Ilha e sua
solução urbana ainda não permitiu unir. Enfim , experiências que de alguma maneira
serviram às propostas posteriores para programas semelhantes.

!,
I
1 AMBIENTE UNIVERSITÁRIO- PROCEDÊNCIA E PRECEDÊNCIAS

Como o projeto, também a qualidade da critica na arquitetura necessita de


uma estreita relação com uma antecedência qualificada de forma e conceito. Nesta
observação, COMAS alija a critica de superfície e recomenda critérios para a sua
profundidade. Com referência a este municiamento que antecede à critica
consistente, em Critica com critério, chama a atenção de que a mesma , "necessita
da explicitação fundamentada dos critérios e razoabilidade lógica na exposição de
premissas e argumentos - apoiados em descrição precisa de obras e contexto 1 .

Sob esta ótica, a única via que interessa é a da qualidade da obra estudada ,
e, no caso da Cidade Universitária brasileira , quais castas históricas estavam
disponíveis para as suas arquiteturas inicialmente propostas , desde as projetadas na
Quinta até a definitiva construída no Fundão. A consistência desta argumentação
tem fundamento nos elementos de arquitetura que a Historia disponibilizou na Itália,
Inglaterra e Estados Unidos, nos séculos XV, XVI e XVIII respectivamente.

1.1 A PREMIÉRE EM BOLOGNA

As "Universitas", nome dado às comunidades formadas por cidadãos de várias


procedências na Idade Média, provavelmente tenham sido a origem conceitual dos
espontâneos agrupamentos de mestres e alunos. Inicialmente, e em paralelo à
pratica acadêmica , mantinham o compromisso de manter um ambiente de mútua
proteção contra possíveis extorsões, devido ao grande número de estrangeiros
participantes. A partir do séc. XIV estes grupos foram legalmente reconhecidos como
Universidades com a finalidade única de ensinar. Até esta oficialização, os
antecedentes mais significativos estavam em Salerno que, durante os séculos XI e
XII , se constituiu no mais importante centro europeu de ciências médicas; Reggio e

UFRGS
1 FACULDADE OE A RQUITET U RA
COMAS , 1994, p. 81 (Revista Projeto n° 181 ) BIBLIOTECA
18

Modena, em 1222; mais tarde em Pádua, Vicenza e Paris, com a Escola de Dialética
e Lógica ensinando às margens do Seine.

A necessidade de organizar corporações de mestres e aprendizes, para


atender a solicitação dos habitantes dos burgos, forçou a Igreja a ampliar o seu
universo pedagógico. Aparecem as escolas catedrais, dando origem ao sistema de
"Stud ium Generale Universidade - lugares freqüentados por estudantes de vários
paises", e ao definitivo "Universitas Studiorum" confirmando as suas vocações
transnacionais".

Bologna é o lugar de origem deste novo momento. Estudos da história da


educação são unânimes em afirmar que, se Bolonha não foi a primeira sede em
ordem cronológica, foi a mais antiga organização universitária no sentido etimológico
do termo, onde varias nações de estudantes se reuniam e contratavam seus
mestres, superando as diferenças das nacionalidades dos aprendizes pela
organização e institucionalização das Universitas. A decisão de dotar a cidade de
uma sede para o ensino universitário, respondia à exigência de um eficaz controle
da autoridade religiosa sobre o estudo.

Fachada do Archigginasio2

2
Disponível em : <http ://[Link]/arch iginnasio/storia palazzo/visita1 .htm>. Acesso em
9 fev . 2004 .
19

O "Palazzo deii'Archig innasio", ~oi o seu primeiro edifício, construído em 1563


para reun ir a escola de Legislação (Direito Civil e Canônico) e de Artes (Filosofia,
Medicina, Matemática, Ciências Físicas e Naturais), ate então sediadas em vários
lugares dispersos pela cidade. O edifício do novo "Studio Bolonhese" - projetado
pelo arquiteto Antonio Morandi "Terrabilia" - respondeu aos anseios da nova política
cu ltural italiana , inaugurando a materialização do plano de renovação do Centro
Político da cidade de Bologna, desenvolvido e implantado pelo Vice Pontificie
Cardeal Píer Donato Cesi .

Os trabalhos prosseguiram em 1564 com a criação da "Piazza" e da "Fontana


del Netuno"; em 1565, com o "Ospedale de la Morte" - hoje "Museo Cívico", anexo
ao "Archiginnasío" e com o "Palácio do Banchi" (1565 - 1568), conformando o
aspecto definitivo da "Piazza Magiore", espaço de luz e respiro para as suas simples
mas severas fachadas . O Palácio apresenta externamente um longo porticado de
139 metros em trinta arcos, que se articula em dois planos com um pátio central em
dupla ordem de arcos. Duas amplas escadas conduzem a um plano superior com
dez salas de aula , duas salas de Aula Magna - uma para Artes e outra para
Legislação. No pavimento térreo uma antiga sala de aula é hoje ocupada pela
"Societá Med ica Chirúrgica", pela "Accademia dell' Agricultura", sucessora da
"Societá Agrária". Pelo grande espaço central térreo chega-se a Capela de Santa
Maria dei Bulgari e, por um nível superior, ao "Teatro Anatômico". O ensino médico ,
introduzido na Universidade de Bologna no "Duocento", tem na pratica anatômica-
inaugurada por Mondini de'Liuzzi em 1315, o mais avançado centro de estudos
neste campo, cujas exigências por eficiência e tradição deram origem as novas
instalações do "Teatro Anatômico". Destinado ao ensino da anatomia mediante a
dissecação de cadáveres, foi projetado e constru ído em 1637 pelo arquiteto
bolonhes Antonio Paolucci "Levanti". O "Cortile"-lugar de criação , conformado por
planos em arcadas duplas - base de sustentação do edifício - representa a influencia
da arquitetura dos colégios universitários espanhóis da qual Bolon ha é um protótipo,
relembrando os espaços dos palácios nobres onde se desenvolviam suntuosas
cerimônias de caráter público . O "Cortile" era local de eventos históricos em
Bolonha. Um destes eventos - a "Teriaca ' - anualmente congregava mestres e
alunos em torn o do uso de um fármaco obtido com a combinação de ci nqüenta
elementos, como cura de muitos males.
20

-
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Fachada do Archigginasio voltada para a Piazza Magiore 3

4
Fachada do Archigginasio Vista interna no Teatro Anatômico 5

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6 7
Aula de Anatomia Produção do Fármaco Teriaca

3
Disponível em: <[Link] .HTM>. Acesso em 9 fev . 2004.
4
Disponível em : <[Link] palazzo/[Link]>. Acesso em
9 fev . 2004 .
5
Disponível em : <http ://[Link]/storia palazzo/[Link]>. Acesso em
9 fev. 2004.
6
Disponível em : <[Link] Acesso em 9 fev . 2004 .
21

1.2 O COLLEGE INGL~S E O CAMPUS AMERICANO

Simultânea à Bolonha é a Universidade de Oxford em 1675 , descendente do


sistema "Studium Generale" do "College" inglês e, mais tarde, a organização norte-
americana idealizada para a Universidade de Virgínia por Thomas Jefferson , em
1827. De ambas o que interessa refere-se as suas tipologias tradicionais,
conceitualmente diferentes mas fisicamente muito influentes nos primeiros planos
urbanísticos e arquitetônicos à Cidade Universitária Brasileira . Neste aspecto
GOROVITZ é bastante didático, quando aborda os aspectos histórico-cultura is
destas instituições, mostrados no grande espaço de natureza cívica peculiar dos
Campi americanos ou do inglês. A idéia de claustro fazia a montagem conceitual e
física do College Inglês, como abrigo de todas as atividades de resguardo e
recolhimento, antes só para a oração no convento , depois também para o estudo e
para a ciência, segundo Comas, "[ ... ] A 'aldeia acadêmica' criada por Jefferson era a
alternativa brilhante aos colleges ingleses ou aos campi ameri cano mais antigos,
aqueles inaceitáveis como modelo por obvias razões políticas e relig iosas, estes por
causa de sua liberdade ad hoc, inconseqüente8" .

7
Disponível em : <[Link] palazzo/teriaca .jpg> . Acesso em
9 fev. 2004 .
8
COMAS , 2000 , p.120.
9
GOROVITZ. Matheus . Os Riscos do Projeto. 1993. p.89.
22

O projeto de Thomas Jefferson se constitui numa composição axial em quatro


linhas de pavilhões iguais, duas a duas a partir do eixo, entre três grandes espaços
abertos em planos escalonados. O central aberto na extremidade baixa, tem limite
oposto com foco no pórtico mais elevado da Biblioteca e lateralmente definido pelas
colunatas das galerias cobertas, na feição do Cortile bolonhês. Este espaço era
plantado em patamares com grama e árvores, vazando na transversal pelas galerias
entre os pavilhões para as duas alas extremas, com jardins de linhagem francesa ,
lateralmente definidas por edifícios de serviço.

10
Universidade da Virg ínia- 1827

11
Universidade da Virg!nia

10
GOROVITZ, Matheus . Os Riscos do Projeto, 1993 . p.91
11
GOROVITZ . Matheus. Os Riscos do Projeto. 1993. p.91.
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~/

Universidade de Virgínia- Thomas Jefferson -Vista Aérea , Plantas e Vistas 12

Em suma, Bologna, Oxford e Virgínia ofereciam composições ditatoriais ou


democráticas, em construções paralelas, contínuas e/ou contíguas, em linha,
abertas ou fechadas. Espaços abertos em jardins e praças, pátios fechados e semi-
abertos. Percursos em galerias cobertas e abertas, entre, ou nos contornos dos
jardins e praças.

12
COMAS, 2002 , p.380 .
2 IDÉIAS E PLANOS NO BRASIL

2.1 O IMPERADOR E O MINISTRO

O lançamento da pedra fundamental por O. Pedro 11 para o edifício do


Curatorium, foi a iniciativa do Império para a construção da primeira Universidade no
Brasil, em 12 de fevereiro de 1881 na Praia Vermelha , rio de Janeiro 1 . Confirmando
a marca secular da vocação deste bairro como a primeira sede do ensino superior
no Brasil, mais tarde são constru ídos os edifícios da Faculdade de Medicina e do
Instituto Benjamim Constant. A vontade e o interesse do Imperador por esta obra
estão registrados no arquivo da família imperial no Museu de Petrópolis, através de
anotações e esboços de idéias na Planta Geral da Universidade, projeto do
Engenheiro Antonio de Paula Freitas para o Campus na Praia Vermelha.

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I 2
Praia Vermelha , planta geral

I MELLO J R. 1956 , p. 55 .
2
lbid ., p.4
A consagração da Praia Ver elha como vocação de bairro acadêmico,
aconteceu em 1929 com o plano Agache "Cidade do Rio de Janeiro: Extensão,
Remodelação e Embelezamento". Talvez influenciado pelas idéias imperiais,
confirmava ali a construção da Cidade Universitária através de uma proposta
generosa em área de 390.000 m2 , porém basicamente modesta nos aspectos
econômicos da construção 3 .

4
Praia Vermelha

r
Contingências históricas e econômicas faziam com que o ensino superior se
desenvolvesse cada vez mais de modo fragmentário no Brasil, dentro de um espírito
r individualista , diretamente responsáveis pelo baixo rendimento dos seus recursos
humanos e materiais. Daí a tendência de reçrganizá-lo sob a forma de Universidade
r
~ em corpo único, abandonando a tradição de escolas e faculdades isoladas e auto-
suficientes, que se acentua no Brasil a partir da década de 30, dentro da pol ítica
expansionista de Gustavo Capanema, Ministro da Educação e Saúde do Governo
Getulio Va rgas. Revisando a proposta do plano Agache, numa de suas primeiras
providências sobre o assunto em 35 , o Ministro Capanema solicita novos estudos
sobre a viabilidade das instalações universitárias na Praia Vermelha, suspendendo
alguns projetos e propondo estudos para remoção das ativid ades da Escola

3
lbid., p. 55
4
lbid. , p. 1-2 .
.I
Nacional de Agricultura e do Hospit I Psiquiátrico. Neste mesmo ano, dois planos
urbanísticos para a Praia Vermelha f ram apresentados, um pelo Arquiteto Evaristo
Sá, outro proposto pelo Engenheiro José Otacílio Saboya Ribeiro. Como comenta
Donato, felizmente o plano de Evariste que considerava pouco a topografia e os
valores históricos do local ficou no papel. A proposta de Saboya estava encorpada
pelas considerações com as questões urbanas do bairro, e suas relações com a
cidade do Rio de Janeiro. No entanto estes dois estudos não evoluíram.

A consciência da necessidade de um Campus Universitário criava corpo com


as idéias do Ministro, que habilmente se cercara da mais culta e admirável elite
brasileira , talvez o maior de seus méritos como idealista e homem publico. À esta
elite culta preocupava a falta do espírito universitário no Brasil. Reagindo contra a
trad ição de escolas e faculdades isoladas, o governo já de inicio orienta o plano no
sentido da unificação de todos os setores de ensino e pesquisa , sob a forma de um
único Campus. Sugere ainda o Ministro que primeiro se devia conceituar a
universidade e, em seguida, projetar a sua construção.

O projeto criado pela Portaria de 19 de julho de 1935 transforma a


Universidade do Rio de Janeiro em Universidade do Brasil num processo que dura
até 37. Capanema solicita a elaboração de um plano para a futura Universidade
Nacional, tendo como um dos objetivos a determinação das diretrizes para a
instalação, no Rio de Janeiro, da sua primeira Cidade Universitária 5 .

5
MELLO JR. , 1956, p . 54 .
6
História Geral da Arte , p. 5.
27

Com o início deste processo, acontece, por pressão dos estudantes


candidatos, um rápido e significativo aumento das matrículas , fato acompanhado da
comprometedora situação material da quase totalidade dos seus edifícios, outrora
adaptados para o ensino . A centralização destas antigas escolas, faculdades e
institutos que antes surgiam esporádicas, num Campus único, encontra a justificativa
na necessária interdependência e relação recíproca das suas ciências e,
conseqüentemente, dos seus laboratórios e aulas práticas. Os laboratórios de todos
os tipos e especialidades preponderavam sobre as salas de aula teórica ou de salas
de simples exposição verbal. Estava sendo substituído o tempo em que o ensino
dependia tão somente da eloqüência e da retórica . O sistema centralizado, tanto
demonstrava as suas inúmeras vantagens econômicas, didáticas , administrativas e
técnicas, pela otimização do uso do espaço , como era importante pela iniciativa
pioneira, podendo ser modelo no país.

Também por Portaria, em setembro de 35, Capanema institui uma Comissão


composta por professores, Diretores das unidades e do Escritório Técnico, Sindicato
Nacional de Engenheiros, Instituto Central de Arquitetos e o Clube de Engenharia,
para tratar inicialmente dos assuntos assim pautados: Cursos que deveriam ser
instalados na Cidade Universitária; Localização da Cidade Universitária; Programas
r construtivos para os diferentes edifícios da Cidade Universitária; Anteprojeto de

[ Plano Geral da Cidade Universitária. A mensagem do Ministro à comissão por ele


recém criada :
f

I [ .. .] era propósito do governo, de uma forma positiva e simples, fazer uma


Universidade que deixe de ser o que tem sido até hoje no Brasil e se
converta em uma realidade viva , em uma comunidade escolar verdadeira.
Para isso torna-se necessária à criação daq uilo que se tem chamado uma
cidade universitária. (MELLO, 1956, p. 54)

No planejamento da nova Universidade considerações com programa,


dimensões , custo e tempo cada vez mais ti nham que ficar esclarecidas. Os seus
prog ramas exigiam projetos adequados, instalados em local adequado, cujos custos
para a sua implantação dependiam das zonas mais e menos urbanizadas, as suas
dimensões seriam medidas pela lotação, entre os limites reco mendados de 5.000 e
30.000 matriculas e, elegendo o século como a sua unidade de tempo.
28

Preocupado com a magnitud que a proposta tomava , associada a nossa


incapacidade - por inexperiência - em resolvê-la, o Ministro decidiu solicitar aos
Embaixadores da Espanha e da Itália, dados sobre as recentes instalações
universitárias de Madrid e Roma , designando comissão especifica de visitas.

2.1.1 Madrid da Geração de 25

Uma das mais importantes obras produzidas na Espanha no início do século


passado, mais precisamente no período de 27 a 36, é a Cidade Universitária de
Madrid, exemplo de representatividade e pragmatismo, inovação e trad ição, na
caracterização de uma geração que, não aceitando avaliar este conjunto seguindo
só os princípios do Movimento Moderno ou de seu Racionalismo Ortodoxo,
considerou também sempre muito fortes as amarras com a trad ição e a historia
espanhola.

I 7
Cidade Universitária de Madrid - Planta Gera f
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29
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r
Desde 1836, a Universidade de Madrid utilizava uma série de casarões
dispersos pela sua malha urbana, ct..ja inadequação ficou mais grave e evidente na
guerra de Marrocos, principalmente nos edifícios dos cursos das áreas da saúde , o
que, em função do aumento de atendimentos estas dificuldades se potencializaram .

A caracterização desta Universidade como obra representativa e emblemática ,


não é patrimônio exclusivo de um só momento, foi desenvolvida ao longo das
distintas fases: a Monarquia, a Republica e o período postguerra .

8
Edifícios Isolados - Escolas de Cervantes

Pelo Real Decreto de maio de 27 foi criada a Junta de la Cíudad Universitária,


presidida pelo Rei de Espanha, que tornou público o grande projeto em 30 , com o
conceito de: "Agrupar bajo un plan magnífico y completo modernas construcciones
en un bello y amplio parque, con todas las comodidades y todo el detalle moderno,
las distintas escuelas y facultades que hoy integra n en todo el mundo la completa
i preparación científica , !iteraria y artística de las juventudes, dejando el anticuado
[ sistema de edifício único universítario para trocarias por edificios independientes9 ".

l 7
8
PATAO , 1997, p.283.
URRURTIA, 1997, p.211.
9
PATAO. 1997 , p. 275.
30

Para a coordenação do projeto foi escolhido o arquiteto Modesto López Otero


que escolhe a colaboração dos arq itetos L. Lacasa, M. Sanchez Arcas e Blanco
Soler, grupo identificado com a geração de 25 da arquitetura espanhola. Os seus
estudos urbanísticos utilizaram as referências dos planos modernos das
universidades da Europa , Inglaterra e Estados Unidos, mas a influencia do Campus
americanos foi decisiva, em detrimento ao modelo antigo das universidades

l européias instaladas em pleno centro urbano e concebidas de forma compacta em


t reduzidos recintos.
l
~ O programa para a nova Cidade foi atendido mediante a divisão em zonas por
similitude de usos. O plano de urbanização foi estruturado em cima de um esquema
viário composto por um eixo principal pela Avenida Universitária em direção Norte-

fl Sul , entre os extremos com o Anfiteatro e a Praça . que servia aos núcleos de
edifícios por vias transversas. Sob uma trama ortogonal e linear severa de
circulações internas, predominava o critério de respeitar o traçado pré-existente da
t
antiga Granja de Monchoa, com a planificação para a construção dos edifícios numa

I inter-relação com as áreas verdes dispostas em sua periferia , como forma também
de amortecer a inevitável invasão desordenada de uma Madrid crescente.
10
BOH IGAS sugere que a Cidade Universitária seja entendida como demonstração
material do espírito moderno da geração de Madrid de 25: "[ ... ] espíritu ai margen-
precisa de la línea ortodoxa del Movimiento Moderno, y aunque hoy mucho de los
edifícios puedan parecemos eclécticos supusieron en su momento un cierto impacto
de renovación".

Na configuração inicial da Cidade Universitária de Madrid houveram fatores


notáveis, como os estudos prévios das fontes estrangeiras obtidas em visitas à
Holanda. Alemanha , França, Itália , Inglaterra e Estados Unidos. No final deste
período , o arquiteto Lopez Otero, diretor dos projetos e obras da Universidade de
Madrid, comentou que, "[ ... ] lo mas perfecto lo encontramos em Norteamérica, por
constituir verdaderas ciudades, no solo universidades o residencias aísladas. De
manera que la influencia de los Campus norteamericanos fue decisiva , en detrimento
del modelo de las universidades europeas".

·o
' PATAO , 1997 , p. 306.
31

Cidade Universitária de Madrid - Vista do grupo Médico 11

11
PATAO, 1997, p.287.
12
lbid .. p.293.
rl
32

13
Pavilhão das Oficinas, Cidade Universitária de Madri

~
I
[

I
II
14
Maquete do edifício de Filosofia e Letras

t
II 2.1.2 A Cidade Universitária De Roma

l
l Posterior ao acervo de Madrid, é a Cidade Universitária de Roma, projetada
por Piacentini e constru ída entre 1932 e 1935. A condição de monumentalidade -
especialidade do arquiteto do Fascio -era presença necessária , existindo desde a
proposta na escala urbana ate as menores dimensões do edifício e seus espaços
abertos. Tratava-se de uma cidade dentro da cidade, proposta que muito agradava
ao Ministro Capanema , antevendo condição semelhante para as soluções na Praia
Vermelha e na Quinta da Boa Vista.

13
PATAO , 1997, p. 299.
14
lbid., p.294 .
33

..,.
....

..
\'!Al' EU: ~ (i! r.:~

-.. ---
Cidade Universitária de Roma - Planta Geral 15

Um desenho da Planimetria Geral de Implantação, datado de 1935, publicado


por Marcos Tognon em "Arquitetura Italiana no Brasil - A obra de Marcello
Piacentini", mostra um clássico grande eixo central tentando vazar a Reitoria, no seu
.
percurso de quase 400 metros, desde a Vialle de la Regina até a Vialle de la
Scienze de um limite ao outro da área . Era necessário então coordenar as atividades
do grande projeto com a legislação urbana de Roma e seu plano diretor. Piacentini
recebe e coordena a colaboração de outros arquitetos como: Pagano no projeto do
edifício para o Instituto de Física , Arnaldo Foschini no Instituto de Higiene e
Ortopedia, Giovanni Michelucci no edifício da Mineralogia , o Instituto de Qu ímica de
Pietro Ascheri e Gio Ponti na sede do Instituto de Matemática. Atendia-se assim a

15
TOGNON , 1999, p.115.
, 34

determinação de Mussolíni com a maior participação da sociedade italiana nesta


tarefa nacional. Os edifícios da Reit ia, Biblioteca e Aula Magna foram projetados
diretamente por Piacentini, que neles demonstra uma terceira maneira de expressar
rl a monumentalidade em arquitetura : a combinação da luz e a materialidade.
I TOGNON descreve assim o volume da Reitoria da Cidade Universitária de Roma ,

~ [ ... ] a monumentalidade em um ambiente arquitetõnico novo pode ser


conquistada por uma harmonia luminosa e um empenho tipológ ico; a
Reitoria ganharia, em sua versão final nobres atributos materiais para uma
luminosidade predominante, o mármore liso, claro, aplicado em placas
homogêneas, um contraste com os outros edifícios da praça , estes
plasmados com o tijolo vermelho romano; e, se as aberturas retangulares
consistem o dado mínimo das composições de todos os edif ícios, à
monumental sede da Reitoria é consentida versão moderna". (TOGNON ,
1999, p. 34)

16
Cidade Universitária de Roma, Maquete - Piacentini e Morpurgo

16
TOGNON , 1999, p.108.
, 35

2.2 CIDADE UNIVERSITÁRIA BRASILEIRA- PRIMEIROS PROJETOS

Através de uma nova Portaria ministerial, em setembro de 35, Capanema


designa uma comissão para analisar tecnicamente as condições na Praia Vermelha
e na Quinta da Boa Vista. Intermediado pela nossa Embaixada na Itália, Capanema
consulta Piacentini , sobre a localização na Praia Vermelha e na Quinta . Piacentini
também manifestou sua preferência pela Praia Vermelha , seguindo as
recomendações da comissão e de Agache, redigiu o seu ·Relazione sulle Proposte di
Localitá per la Nuova Citta Universitária Nazionalle in Rio de Janeiro", entregue em
23 de agosto, voltando à Itália no dia seguinte. Sobre as duas situações Piacentini
politicamente assim se manifestou sobre a Praia Vermelha ,

[ ... [ Uma solene afirmação de pujança política e arte e ainda uma soberba
página arquitetônica acrescentada à beleza da encantadora Capital do
Brasil", e na Quinta "[ ... ] o grande e suntuoso jard im imperial consistiria uma
zona preparatória, dando ao conjunto urbanístico um aspecto
eminentemente senhorial e uma aura de respeito e silêncio. (MELLO JR ,
1956, p. 56)

Os estudos técnicos para esta avaliação, foram solicitados ao Prof. Saboya


Ribeiro para a Praia Vermelha e ao engenheiro Emidio de Moraes Ribeiro, para
relatar as condições na Praia Vermelha , Leblon, Gávea e Quinta da Boa Vista. Em
janeiro de 36 acontece a primeira das doze reuniões desta comissão, que,
atendendo sobretudo às condições práticas de execução , opinou pela Quinta , cujas
desapropriações não passariam de 18.000 contos, enquanto que na Urca atingiriam
em torno de 45.000 contos 17 . Era necessário então iniciar a fase executiva com
projeto e obra , a partir da qual o envolvimento do escritório técnico seria maior, tanto
pela necessidade de um levantamento topográfico e cadastral de precisão , como o
que estava ocorrendo em paralelo com as respostas às questões jurídicas que
necessitavam ser solucionadas no que se referia aos terrenos e áreas a
desapropriar. Também, por intermédio de uma sub-comissão, o Escritório do Plano
da Universidade estudava a programação construtiva e suas fases de implantação.
As indefin ições aumentam - compatíveis à grandiosídade da proposta - co nsultas e
questionamentos acompanham os anseios de Capanema.

17
MELLO JR , 1956, P. 54 .
36

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i

Foto aérea da Quinta da Boa Vista 18

Planta Gera l da Quinta da Boa Vista 19

18
COSTA, 1995 , p.172 .
19
TOGNON , 1999 , p. 99.
r
~I 2.2.1 Lucio Costa - Propostas e Consultas
37

Por solicitação direta do Ministro em maio de 36, a equipe de arquitetura


formada por Lucio Costa . Paulo Fragoso, Afonso Eduardo Reidy, Ângelo Bruhns e
Firmino Saldanha, indicada em abril próximo passado , apresenta proposta relativa
ao projeto da futura Cidade Universitária da Universidade do Brasil , que se configura
bastante abrangente apresentando, além dos honorários, sugestões como a de
organizar um escritório de projetos para acordá-los com as determinações da
Comissão do Plano da Cidade Universitária. O projeto dos edifícios seria
representado por plantas, cortes, elevações e perspectivas; projetos detalhados de
cálculo, estrutura e instalações; especificação e fiscalização .

O envolvimento simultâneo entre os profissionais das Comissões Oficiais e do


Escritório do Plano da Universidade com os profissionais autônomos contratados
pelo Ministro, criou certos conflitos de relacionamento impedindo que a direção do
escritório fosse ouvida. Eram dois órgãos tratando do mesmo assunto. Esta situação
confusa foi determinante para que o Ministro agilizasse o processo de outra forma. E
em 8 de julho impôs as novas condições de trabalho ao grupo de profissionais,
como; trabalhar diariamente na sede do Escritório da Universidade pelo numero de
horas necessárias, apresentar anteprojeto de urbanização com indicações dos
edifícios dentro de três meses seguidos dos anteprojetos e projetos definitivos. Cri ou
a possibilidade de também chamar outros arquitetos , acertando a remuneração após
apreciação e orientação de uma comissão de professores designada pelo Governo
Federal , com a reserva de direito de anular todas as condições de contrato caso os
profi ssionais não satisfi zessem as exigências citadas. Neste mesmo mês,
Capanema recomenda mais articulação entre a com issão de professores e o grupo
de arquitetos contratado , através de reuniões e encontros sistemáticos, visando mais
produção e objetividade na realização do projeto.

2.2.2 A Universidade Dentro D'água

Um pouco anterior e provavelmente também motivo destas mudanças foi a


surpreendente proposta de Lucio Costa para a construção da sede da Universidade
do Brasil na Lagoa Rod rigo de Freitas. Sem aterro e direto sobre a água , todos os
38

edifícios padronizados por suas alturas seriam assentados sobre estacas e


interligados por meio de pontes e jardins suspensos. Uma grande avenida aérea
cortaria os jardins desde a rua Humaitá, atravessando todo o maciço universitário
lacustre. O ineditismo da idéia surpreende os diretores do Escritório do Plano e uma
das objeções técnicas aecisivas foi a do eng . Rubens Torres , lembrando da péssima
qualidade do fundo da Lagoa para fundações , que iriam a 30 metros de
profundidade, inviabilizando assim a proposta .

2.3 OS PROJETOS PARA A QU INTA DA BOA VISTA

2.3.1 Le Corbusier- Primeiro Anteprojeto

Atendendo à solicitação do Ministro Capanema em julho de 36 , a primeira


tarefa de Corbusier no Brasil, foi a de emitir um parecer sobre a proposta de
Piancentíni para a Cidade Universitária na Praia Vermelha em 35, a qual qualificou
como um projeto excessivamente fantasioso , declarando sucintamente que, "não há
nada aq ui que se relacione com a vida e o trabalho de milhares de estudantes
brasileiros".

20
Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista - Le Corbusier- Planta Geral

20
GOROVITZ, 2003 , p . 36.
39

Já no primeiro agosto , apresentou juntamente com a proposta para o MESP,


seu plano para a Cidade Uníversitár a da Universidade do Brasil na Quinta da Boa
Vista. É um estudo composto por um Plano Urbanlstico, uma Perspectiva Geral e um
Relatório, feitos em cima de um esquema geral em planta , com indicações do
zoneamento dos diversos setores e a disposição dos edifícios em cada um. Os
projetos para a Universidade e para o Ministério foram desenvolvidos
simultaneamente no Rio, em escritórios diferentes mas com o mesmo entusiasmo.
Rogerio traduz o interesse de Corbusier por ambos, "[ .. .] seria o edifício do
Ministério, o primeiro monumento da arquitetura moderna , e a Cidade Universitária,
a concretização de um fragmento de sua cidade ideal, a cidade da civilização
I maquinista". (OLIVEIRA, 1981, p.153)

~ A complexidade de situações no terreno da Quinta impressionou Le Corbusier,


pela forma , topog rafia entre morros, variedade de circulações cortantes e suas
l articulações com a cidade.
~
Como artifício de preservação conceitual do elemento urbano autônomo , a
composição propõe edificações isoladas com volumetria em destaque, articulando-
I
r
se por espaços de circulações adequados e competentes para o pedestre e veículo,

~ valorizando os componentes naturais da paisagem local e sua adjacência. Excluindo


a ligação ferroviária, a Cidade Sede não se articula fisicamente com a trama urbana
da Cidade Universitária em outro ponto e o reconhecimento do sistema urbano do
bairro da Qu inta é apenas esboçado em planta , com pouca consideração ao traçado
preexistente. O projeto considerou menos o lugar e mais a cidade, excepcionalmente
quando tratou o entorno do Palácio Imperial com o conj unto de dez mil palmeiras ,
mas sempre com a cidade emprestando · a sua topografia privilegiada para os
cenários naturais como revelam os croquis e perspectivas. Predominava um imenso
vazio de borda, entre a parte urbana da Quinta e o plano da Cidade Universitária,
revelado pelos desenhos. A respeito Rogério observa que, "Percebe-se a introversão
de um esquema que, desenvolvendo-se a partir de seu interior, expande-se até
encontrar os limites do terreno, contra recortando espaços abertos e edificações
limítrofes. O recorte é intencionalmente abru pto, casual [ .. .]". (OLIVE IRA, 1981,
p.154)
t
40

í Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista - Le Corbusier - Croqui preliminar 21

Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista - Le Corbusier. Croquis dos cortes 22

Le Corbusier fez na Quinta o que admirava na Acrópole: explorou a paisagem


circundante ofertando as mais diversas e interessantes visuais aos edifícios, às vias
e aos espaços abertos. Também a experiência anterior no Plano da Cidade Mundial
em 29, estava contribuindo para a nova cidade em 36, como observa Comas,

A Cidade Universitária recorda o Mundaneum em muitos aspectos. O


Mundaneum se organizava a base de recintos murados justapostos. com as
edificações dispostas ao longo do eixo longitudinal no interior de cada
recinto um eixo transversal comum enfatizando a prioridade emblemática do
Museu quase centralizado. A prioridade e a quase centralização do Museu
se mantém na Cidade Universitária, a via elevada fazendo o papel de muro.
A dissociação entre eixo de concepção e eixo de percepção é estratégia
que persiste ao lado do deslocamento de eixos da composição .... Contudo,
a serialidade quase inexistente no Mundaneum , tem aqui importância
compativel com a diversidade dos componentes do programa . ... A Cidade
Universitária inclui recintos de composição serial com elementos repetitivos
- os conjuntos de escolas - mas também diferenciação do elemento
repetitivo axial por tamanho - o conjunto da Medicina - e a composição de
elementos singulares colocados em linha - o conjunto da Aula Magna.
(COMAS , 2002 , p. 113)

21
Gorovitz, 1993, p. 34 .
22
lbid. , p. 44 .
41

Croquis Le Corbusier da Cidade Mundiai 23

24
Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista - Croqui preliminar

Autonomia I Universalidade, então , pode ser o binômio que caracteriza o plano


Corbusier para a Universidade na Quinta. Os seus espaços de formas autônomas
estão subordinados funcionalmente ao conjunto , como também o conjunto pode ser
autônomo em relação ao seu contexto, na consideração de seus aspectos físicos ,
ambientais e histórico-culturais. Com o caráter autônomo e bucólico do plano na
Quinta, Le Corbusier repete entusiasmado o que já havia externado ao visitar as
universidades americanas , "Cada colégio ou universidade é uma unidade urbanística

23
GOROVITZ, 1993, p.59.
24
GOROVITZ, 1993, p.35.
42

em si, uma cidade pequena ou grande. Mas uma cidade verde". A condição de
universalidade, diretamente relacionada com a condição homogênea que o plano
apresenta , são os atributos de uma arquitetura que sugere poucas alternativas de
escolha para o indivíduo no uso dos espaços. A evidente ausência de uma estrutura
urbana pegada a preexistência resulta em um sistema de espaços abertos que
envolvem as ed ificações , ordenados e comprometidos somente com o espaço maior.
Matheus se refere a estes espaços como elementos que,

[... ] não se configuram como particulares, não decorrem de um modo


especifico de agenciamento dos edifícios - eles são isotrópicos, infinitos,
indiferenciados - atributos que os conserva m independentes da presença
das edificações .... é impossível identificar espaços que pelas dimensões ou
por seu posicionamento se diferenciem no conjunto . .. .é ele que permite
estabelecer relações entre as partes do projeto. (GOROVITZ, 1993, p. 47)

' ,r-..1, .

25
Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista - Le Corbusier - Croqui Plano

26
Cidade Un iversitária na Quinta da Boa Vista - Le Corbusier Croqui do conjunto da Medicina

25
HARRIS, 1987, p.103.
26
lbid. , p, 104.
43

A ênfase da proposição de Corbusier está na solução viária, com a presença


marcante das vias elevadas e passagens de nível que servem a uma imensa
plataforma de distribuição centralizada , fazendo desta técnica uma de suas
imposições mais imperativas. A sua ordenação, feita por um sistema de eixos
paralelos e ortogonais, reais e virtuais, de pedestres e veículos, sujeito à direção da
estrada de ferro. A disciplina funcional é imposta por um subsistema de circulação,
composto por vias elevadas para o trafego motorizado e de pedestres ao nível do
solo. A relação entre os edifícios é assim comentada por Comas.

Os corpos unem transversalmente os blocos das escolas proporcionando


outras possibilidades de diferenciação dentro da repetitividade. incluindo a
de alinhamento edifício junto ao entorno existente. As edificações recuqm

ll perceptivelmente alinhadas com o traçado viário. (COMAS, 2002 , p. 11 3)

r
,

27
Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista- Le Corbusier Sistema viário e acesso

O que orienta e alinha a implantação dos edifícios é o eixo de categoria virtual,


- ...-
que começa no Grande Aud itório, na seqüência o Museu do Conhecimento, a
Esplanada das dez mil palmeiras imperiais, finalizando com o volume da grande
placa do Hospital Universitário, no outro extremo. A orientação dos edifícios no
'
sentido transversal ao vale e no meio da generosa paisagem da Quinta priorizavava
a que as montanhas aparecessem em todos os seus horizontes. Em sentido oposto ,
a virtualidade coincide com o volume da Faculdade de Arquitetura, parte de um
conjunto de três, dispostos no sentido da composição, Engenharia , Artes e Música.
A síntese de Comas esclarece a idéia,

27
GOROVITZ, 1993 , p. 75 .
44

[ ... ] dois eixos ortogonais estruturam a concepção. Um se orienta grosso


[ modo NE-SO, equivale ao eixo de acesso e corresponde à borda da faixa
de ferrovia e autopista . O outro, NO-SE , corresponde à linha media do vale
l e se apresenta como o eixo das edificações embiemáticas do
l empreendimento: a Aula Magna, o Museu do Conhecimento e o Hospital.
(...J As escolas se equacionam como blocos de cinco andares de altura,
alinhados com o eixo NO-SE, afastados cem metros entre si e vinculados
por corpos mais baixos ou de igual altura . (COMAS , 2002, p. 11 2)

O grande espaço central é resultado da geometria viária onde a auto-estrada


se junta com precisão às vias da Cidade Universitária por um sistema de trevo ,
conduzindo aos estacionamentos, mas de forma indefinida com as vias da malha
preexistente. Na interpretação de Matheus, o centro do projeto é tão somente
geométrico. "[ ... ] e não um espaço de celebração, o que resulta na ausência de
espaços onde a integração social da coletividade poderia ser celebrada , como as
praças e avenidas, dimensionada para uso publico" . (GOROVITZ, 1993)

Cidade Un iversitária na Quinta


da Boa Vista - Le Corbusier
28
Detalhe da planta geral

9
Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista - Le Corbusie?
O plano propõe a divisão do Campus em quatro grupos de cursos: Medicina;
Direito; Letras, Filosofia e Ciências; Artes, Arquitetura e Engenharia, dispostos ao
redor do Museu do Conhecimento, simbolizando a interdisciplinaridade característica
da educacão universitária moderna. A excepcionalidade fica por conta dos volumes
da imponente e excêntrica torre da Biblioteca em equilíbrio com os da Aula Magna e
do Museu, em cenári o das palmeiras , todos situados no centro geométrico da
composição.

28
HARRIS, 1987. p. 103.
29
GOROVITZ, 1993, p. 103.
45

r
(

Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista - Le Corbusier30

As Faculdades, o Centro Desportivo e os Alojamentos são conjuntos de


pavilhões de tipologias repetidas, que se reúnem e se articu lam por um critério de
afinidade de programa. Nestes, os anfiteatros são exceções que, pela forma ,
denunciam seus espaços internos adequados à função de auditório. Noutra escala,
a mesma característica esta presente no grande edifício da Au la Magna, cuja
solução formal, expressa a necessidade de vencer o grande vão para a platéia
propondo a exposição da estrutura em exoesqueleto.

O projeto foi apresentado em 6 pranchas de desenhos, identificadas com a


sigla CUS - Cidade Universitária do Brasil:

CUB1 -Planta geral de situação- 1:2000


CUB2- Planta geral de situação, 1:200 (colorida)
CUB3- Três cortes, eixos: Leste-Oeste, Oeste-Leste e Norte-Sul
CUB4- Perspectiva geral "a vo/ d ' oiseau"
CUB5- Planta , Ligação com o centro da cidade; colorida
CUB6- Perspectiva sobre a estrada de ferro e esplanada ; 1:2000

Apreciado pelos componentes da Comissão que - mesmo concordando com


as novas idéias do urbanismo e da arquitetura - não aceitavam o modo como tinham
sido resolvidas as questões de conforto, como a orientação solar dos edifícios,
necessitando condicionar mecanicamente o ar na maioria dos seus ambientes , o que
seria inviabilizado por questões econômicas e técnicas. Quanto à concepção geral,
as objeções da comissão referi am-se à exagerada centralização das atividades e

30
GOROVITZ. 1993, p. 38.
46

dimensão das áreas abertas resultantes, à área considerada demasiado ampla no


grande pilotis e às dimensões dos viadutos.

Planos e propostas se avolumavam e as restrições da Comissão do Plano, em


pareceres, na maioria das vezes de engenheiros julgando a arquitetura , limitavam as
tarefas de propor novas soluções.

Imediatamente após a recusa do plano de Corbusier, a equipe de Lucio Costa


composta pelos arquitetos Afonso Eduardo Reidy, Firmino Saldanha e Paulo
Fragoso, por solicitação do Ministro, apresenta à Comissão Geral dos Professores a
sua versão para ocupação da Quinta com a Universidade. Na abertura dos trabalhos
o Ministro comunicou os convites feitos a Piacentini e a Le Corbusier, e as
respectivas decisões sobre estes projetos. Mesmo não aceito, o trabalho de
Corbusier seria entregue aos arqu itetos como elemento informativo .

2.3.2 Lucio Costa em Equipe - Segundo Anteprojeto

Tendo sido rejeitada pela comissão de professores a proposição de Le


Corbusier, solicitou-me o ministro Capanema novo projeto que ocupasse ao
maximo a área plana do terreno . (COSTA , 1981 . p. 173)

31
Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista - Lucia Costa

UFRGS
31 FACULDADE OE ARQUITETURA
GOROVITZ. 1993, p. 42 .
BI BLIOTECA
47

Conceitualmente o plano de Lucio Costa e os associados Firmino Saldanha ,


Afonso Reidy e Paulo Fragoso, distinguia a presença da Universidade como único
organismo e de cada escola sua em particular. Celebrando compromisso com a
trad ição através da arquitetura, Lucío celebra também a existência da Universidade
como instituição culturalmente sedimentada e historicamente vinculada.

O programa complexo elaborado por uma comissão de professores a partir


das propostas de varias congregações, estava acompanhado, por solicitação do
projeto, de dados climáticos, orientação e das condições ambientais especificas do
bairro. Estava pré-determinado, como no plano de Corbusier, pelo Escritório do

I
Plano, a implantação do Hospital em local sossegado e de acesso independente
com a conveniência de aproveitar a parte plana e desimpedida do terreno, sugerindo
l o extremo oposto para a entrada principal da Universidade.
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32
Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista - Lucio Costa - Planta Geral

32
lbid ., p. 4 11 .
4

Comas observa que Lucia Costa entendeu mais conveniente interpretar este
programa classificando dois grupos de elementos, dos serviços departamentais e
administrativos, e das salas de congregação, aula teórica e auditórios. A condição
básica era de que cada escola tivesse orientação uniforme, em isolamento e
resguardo, com independência entre os departamentos, possibilitando que estes se
articulem com as salas de aula , em planta flexível e clara definição das suas
circulações e acessos. COMAS interpreta a estrutura do plano de Lucia Costa e
equipe, como proposta que,

[ .. .] valida tacitamente as criticas da Comissão e explícita na memória um


método distinto. Enquanto Le Corbusier parte da trama viária, Lucio parte do
sistema departamental, que implica a seu ver numa padronização das
escolas em relação aos elementos e/ou particu larizados do programa, a
Reitoria, a Biblioteca Central, a Au la Magna, o Museu, o Hospita l e a escola
residência de Enfermagem, o Estádio, o Teatro e a escola de Musica de
Câmara, as residências e o clube Universitário. (COMAS, 2002 , p. 114)
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33
Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista - Plano Lúcio Costa

33
COSTA, 1995 . p. 178.
49

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Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista - Lucio Costa- Maquete 34

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35
Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista - Lucio Costa - Perspectiva Geral

34
GOROVITZ, 1993, p. 56.
35
COSTA , 1995, p. 172.
50

I
r

Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista - Lucio Costa - Detalhe Planta Gerat36

A geometria deste conceito orienta as escolas no sentido da melhor


disponibilidade da área , segue a direção do meio do ângulo entre as ruas Maracanã
e Derby, conforma o grande cana l aberto em Passeio Central ladeado pelas escolas,
com 100 metros de largura, composto por faixas laterais arborizadas e de rolamento
de 20 e 9 metros respectivamente, por onde as percepções se oferecem ricas a
quem percorre a Cidade Universitária desde o Hospital ao norte até Pórtico na Praça
de Acesso , Au la Magna, Reitoria , Biblioteca e Planetário ao sul, extremos de intensa
solicitação pública. Ao contrario do plano de Corbusíer, este era um canal real, que
distribuía o circuito peatonal ao longo de toda a Cidade Universitária, conectando-se
a eixos perpendiculares e secundários para o acesso às Escolas , estimulando o
passante a sensações diversas durante o percurso. Um sistema tipicamente dócil,
que aceitava acréscimos e subtrações sem no entanto alterar a sua estrutura. Prova
l disso foi a localização posterior da Escola de Música e da Escola de Enfermagem . A

I Escola de Música junto ao setor de esporte, por recomendação do programa ,


necessitava de relativa independência em razão da natureza do ensino e ser
freqüentada por alunos de pouca idade, devendo por isso ter acesso fá cil e direto. A
f Escola de Enfermagem, que em virtude das condições especiais de sua
~
~6

" GOROVITZ, 1993, p. 42 .


f
L
l organização, contava com uma situação diversa das demais, se tratava de uma
residência escola e a proximidade com o Hospital e sua estrutura era conveniente. A
t
l rua Derby também é figurante quando encontra a rua lindeira do Centro Olímpico
vinculando a Cidade Universitária com a trama do bairro-sede criando um terceiro
ponto de interesse público.

Essência , condição e excepcionalidade, materializados respectivamente nas


Escolas, Hospital e Pórtico, são elementos básicos e mínimos que Lucia propõe para
confirmar o grande eixo articulador do seu projeto. Nas Escolas Lucia busca atender
a todas com solução uniforme de orientação dispondo o conjunto a 80° anti-horário

~ norte-sul. Decorre daí a solução com plantas padronizadas em fita simples de


r circulação lateral, dispostas em seqüência paralela , conformando pátios internos
l entre os pilotis e as paredes de pouca altura , na busca de algum resguardo, que,

~ como comenta Comas,

l
Ir [ ... ] se integram pelo pilotis aberto. O contorno confinado vai garantir
identidade e relativa flexibilidade de resolução do térreo, incluindo
estacionamento para professores, mas chama atenção o fato do pilotis não
ser justificado nestes termos, como o faz Le Corbusier. Lucia se preocupa
em não reduzir a utilidade do pilotis a estacionamento, apoiado no clima
benigno que permite igualmente reviver o costume antigo de tratar o
corredor como varanda e não fechar escadas nem saguões. O pilotis é
acesso coberto, portaria, cantina , espaço de recreação e socialização e a
imaginação de Lucio o povoa de estudantes. Ao mesmo tempo, cônscio das
demandas de hierarquia, insiste nas vantagens da separação de acessos
de professor e aluno. (COMAS , 2002 , p. 11 6)

O que antes era feito tratando o embasamento do edifício com material opaco
e de aspecto robusto - componente que representava a solidez da construção , no
plano de Lucia Costa para a Quinta esta é substituída pelo pilotis, por onde o
horizonte fica desimpedido e a vista se prolonga sob as construções, contribuindo
para maior sensação de leveza e, em conseqüência , de bem estar. Respeitando as
especificidades, esta organização causa muita semelhança às diferentes escolas do
programa , quando repete em todas, a Sala de Congregação, Sala de Aula Teórica,
Sala Especial de Prova e o Conjunto Admin istrativo. Assim a opção por sistemas
padronizados e coordenados entre estrutura e instalações, com a solução em laje
dupla e a conseqüente ausência de vigas internas, permite mais fl exibilidade na
compartimentação interna dos recintos das escolas . Solução literalmente oposta e
classificada como "de dentro para fora ".
52

37
Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista - Lucio Costa - maquete

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Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista - Lúcio Costa 38

Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista - Lucio Costa - Pátios e Pilotis 39

37
GOROVITZ, 1993, p. 40.
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40
Lúcio Costa, Perspectiva passeio central
r..-

O Hospital é a idéia do plano de Le Corbusier em barra de 15 pisos usada por


Reidy, conectado com alas de plantas em barras baixas para os serviços das
clínicas especiais, das Escolas de Medicina e de Enfermagem. Na observação de
COMAS , tamanho, local e representação , fazem a montagem do conceito da
arquitetura ''de fora para dentro". O volume se impõe logo depois de um renque
enviesado de arvores, enfrentando por sua empena cega , o eixo central da
composição que ordena o conjunto das escolas, acertado com elementos de
fachadas adequados à captação do melhor sol para as enfermarias .

.
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41
Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista - Lu cio Costa- Centro Médico

38
GOROVITZ. 1993, p. 49.
39

l
lbid ., p. 48.
40
lbid ., p.4 1.
41
lbid., p. 82 .
54

Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista - Lucio Costa


42
Esplanada das Palmeiras lmperiais

Sem tomar a feição do bairro, o plano explora o terreno até os seus limites,
conforma a entrada principal da Cidade Universitária em uma área triangular de 300
m. de lado aproximadamente, formada pelo encontro das vias lindeiras Oerby e
Maracanã. Lucio propôs assim a troca da mesquinhez desta esquina pela
generosidade de uma Grande Praça, "[ ... ] ao fundo da qual será erguido o pórtico de
grandes proporções e singeleza, marcada apenas por uma figura de caráter
monumental". A Praça é uma composição em quadrilátero inserido no grande
espaço triangular extremo e confirmado pelo Pórtico, Auditório, Reitoria, Biblioteca,
Planetário e Museu, acertada com o entorno por um ambiente aberto e externo de
preparo ao Pórtico. Comas comenta esta parte da composição,

[ ...] o Pórtico monumental remete à Universidade de Roma e enfrenta


Piacentini no seu próprio jogo. A Praça emerge unificada pela integração do
Pórtico com Biblioteca e torre da Reitoria num colchete assimétrico e pela
reiteração da altura igual de Pórtico e Biblioteca no vestíbu lo da Aula Magna
fronte ira , a versão simplificada do Aud itório dos Sovietes proposta por Le
Corbusier O Aud itório da Au la ocupa o triangulo residua l junto à Rua Derby,
o Planetário o oposto atrás da Biblioteca. Reitoria, Biblioteca e Au la Magna
anteriormente justapostas agora se defrontam, o Museu se afasta. (COMAS ,
2002 , p.117)
L

42
lbid ., p. 84.
Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista - Lucio Costa - Perspectiva Pórtico4 3

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Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista - Lucio Costa- Pórtico44

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Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista - Lucio Costa


45
Praça Acesso. Auditório e Biblioteca

Ao contrário do plano de Le Corbusier que implanta em centralidade


acentuada todos estes elementos excepcionais, Lucio prioriza o franco cana l centra l
aberto até o acesso, dispondo elementos de concepções plásticas diferentes . como
"o Auditório com seu teto acústico suspenso à estrutura aparente e a Reitoria em
prisma impecável de pura geometria", num grande espaço aberto regular. Esta

43
lbid ., p . 83 .
44
lbid ., p. 84 .
montagem resultou em uma ambiência de acolhimento e chegada que por si só é o
Pórtico. O ambiente é o Pórtico .

Lucio declara que não procurou imitar a aparência exterior das universidades
americanas, nem tampouco as universidades européias modernas, como em Roma
ou desarticulada como em Madrid. Contudo, conceitualmente o grande recinto
aglutinador do Campus Americano e o espaço de estudo e resguardo dos Colleges
ingleses, estavam presentes nos ambientes da Praça de Acesso e nos Pátios
íntimos e exclusivos das unidades.

O projeto de Lucio Costa foi apresentado em sete pranchas, identificadas com


as siglas UB- Universidade do Brasil , contendo:

UB1 -Planta geral de Situação- esc. 1:2000


UB2 - Planta do pavimento térreo - 1:2000
UB3 - Cortes, elevação da entrada, Clube, Escola de Direito, Hospital e
Museu
UB4- Estrutura das escolas e dos departamentos
UB5- Perspectiva geral
UB6- Perspectiva da entrada principal
UB7- Esquema mostrando os pontos de vista das perspectivas.

Para relator do projeto Lucio Costa e Associados foram designados, em


comissão especial , os professores Leitão da Cunha , Souza Campos, Azevedo do
Amara l, Rocha Vaze Paulo Pires. Durante a análise do traba lho, foram formuladas
algumas perguntas, as quais respondeu imediatamente em dia posterior.

Todas as subcomissões de professores, com exceção dos professores de


arquitetura que não se pronunciaram , foram contrárias ao plano conforme os
registros de Donato de Mello Jr. , em decisão unânime, o projeto não poderia ser
aceito por se afastar das bases estabelecidas pela comissão geral.

45
lbid. , p . 84 .
Lucio Costa em carta ao Ministro Capanema expõe toda a sua revolta contra o
que chamava de "pura mistificação" da comissão e que pensou em exigir um
inquérito, porem logo desistiu, compreendendo a inutilidade de qualquer reação ao
fato consumado. No entanto fez questão de deixar para registro a sua conclusão
sobre o assunto; [ ... ] e o mais triste é que enquanto se preservar, durante anos e
anos, na construção dessa coisa errada , estará dormindo em qualquer prateleira de
arquiteto, a solução verdadeira- a coisa certa 46 •

Pela legislação n° 452 de julho de 37, a nova Universidade do Brasil foi


declarada sob o conceito de "uma comunidade de professores e alunos consagrados
ao estudo", onde, além das escolas e dos institutos, também serão construídos os
edifícios da Reitoria , Biblioteca , Auditório, um Estádio e a Piscina para as atividades
físicas de ensino e lazer. Sua localização seria no Distrito Federal , num terreno com
dois milhões e trezentos mil metros quadrados de área , no bairro da Quinta da Boa
Vista. A condição era a de que os jardins do bairro se incorporariam à Universidade!
que os devia conservar como patrimônio histórico e artístico nacional. Do capítulo
referente às edificações, declara o documento, "A Universidade do Brasil ,
organizada como Cidade Universitária, será edificada segundo um plano de
conjunto",

2.3.3 Piacentini & Morpurgo -Terceiro Anteprojeto

A - Reitoria, Direito. Ciências


Naturais e Ciências Humanas
B - Ciências Médicas
C - Belas Artes
I D- Educação Flsica e Esportes
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E - Engenharia

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F - Residência
G - Sanatório
H -Música
J- Hospital
L- Farol da Civilização
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47
Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista - Piacentini e Morpurgo- Planta Geral

46
MELLO JR. , 1956, p . 62 .
47
TOGN ON . 1999. p. 102.
58

t 1 li l

Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista- Piacentini e Morpurgo - Carimbo 48

Conforme o acordo de 36, quando da sua primeira visita ao Brasil, Piacentini


seria consultado para futuros estudos de projeto da nova Cidade Universitária
brasileira. Compromissos com a Universidade de Roma , na direção da Faculdade de
Arquitetura e outros internacionais assumidos anteriormente, o impediam de assumir
o projeto no Rio. Indicou o Engenheiro Francesco Guidi, diretor do Escritório Técnico
da Universidade de Roma , especialista em instalações, mas acabou confi rmando,
f como substituto, seu colaborador romano Vittorio Bailo Morpurgo. Morpurgo

I
permanece no Brasil de setembro a dezembro de 37 , onde desenvolve os primeiros
estudos que são levados a Piacentini na Itália para os retoques finais . De Roma, por
carta em maio de 38 , Piacentini informa Capanema que o projeto está concluído e
em fase fin al de apresentação . A mesma mensagem informa também sobre o
anteprojeto do Hospital Universitário, desenvolvido sem os mesmos detalhes de
informação dos programas dos outros centros. O projeto foi enviado pelo correio em
junho de 38 .

48
lbid .. p. 97.
59

49
Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista- Piacentini e Morpurgo- Maquete

Piacentini e Morpurgo optam por atender as determinações de lei de julho de


37 , considerando as características físicas e ambientais da Quinta , preservando e
incorporando os seus Jardins e atendimento ao programa de área física para a nova
Universidade do Brasil. A "dimensão" deste projeto não se restringia a um ambiente
construído até os limites da Quinta , no entend imento de Piacentini tinha a missão de

49
1bid., p. 100.
60

consagrar suas monumentalidades e melhorar seus arredores. Assim, a proposta


reforçou o caráter monumental dos grandes eixos renovadores de Pereira Passos
para as Avenidas Central e Presidente Vargas, solução considerada adequada e
sobretudo oportuna à uma capital nacional. Um eficiente traçado viário comunicava o
centro principal do Rio e a Cidade Universitária pela grande avenida das Palmeiras,
desenhada desde a antiga Praça da República na avenida Presidente Vargas até o
Pórtico de entrada na Praça da Reitoria, núcleo principal da Cidade Universitária.
Esta intervenção procurava requalificar a região ao Norte da Av. Presidente Vargas,
sob os auspícios da iniciativa pública e privada.

O plano para a extensão de Roma era a mais recente obra urbana de


Piacentini cujo elemento de maior destaque era a avenida central em eixos paralelos
conformando um grande espaço central. Como preceito básico do desenho da nova
cidade brasileira do estudo, Morpurgo mencionava Roma para estabelecer as vias
articuladoras dos encontros monumentais entre a arquitetura e as suas respectivas
praças. Funcionalmente, são muitas avenidas, algumas ruas, poucos e pequenos
desvios, mas todos privilegiam as preferências visuais dos conjuntos dos núcleos
universitários. A orientação do seu desenvolvimento é o mesmo dos planos
anteriores, norte/sul, com o acesso girado a quase 90 graus, em posição paralela
entre o Palácio Imperial e a linha férrea , até o Pórtico duplo/vazado que define um
dos lados da Praça da Reitoria e no seu sentido maior o primeiro eixo transversal.
Este tem limites entre a torre das Enfermeiras e Hospital ao norte e ao sul pelo
estádio do Centro Olímpico. Em posição paralela com o Pórtico, no outro lado da
Praça, o segundo e maior eixo transversal da composição articula os Centros de
Ciências Médicas ao norte, o Centro de [Link] Artes e no extremo sul o Centro
Olímpico. O Palácio da Música e o Núcleo das Engenharias têm somente vínculos
geométricos com a estrutura da composição, suas conexões com o conjunto são
desacertadas e desproporcionais. A linha férrea é interpretada como um grande
canal de rio , por onde trespassam pontes, sintonizando os principais eixos visivos da
composição com o núcleo esportivo e das Engenharias.
61

Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista- Piacentini e Morpurgo Maquete Praça Reitoria50

Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista - Perspectiva aérea- Piacentini e Morpurgo 51

50
lbid ., p. 11 2 .
51
lbid ., p . 11 2 .
62

l
Cada centro é um conjunto de unidades ou atividades afins, conformando
núcleos de edifícios e pátios vazados apenas pelos grandes canais de circulação.

l Neste sentido a organização espacial da Praça da Reitoria segue a do Fórum


Romano de Camilo Sitte de 1909, limitada
horizontalizadas dos edifícios das Ciências, Letras, Filosofia e Direito e no fundo
nas laterais pelas elevações
f
pelos edifícios da Reitoria e Sala Magna. O grande espelho d'água central refletia as
t
l formas quadradas das elevações circundantes e as curvas de Minerva, a deusa da
l sabedoria. No sentido norte, os edifícios da Escola de Belas Artes são alas do eixo
l das Palmeiras finalizado ao fundo pelo Teatro, antes da encosta do morro confo rmar
l as suas arquibancadas, aberto para o Farol da Civilização Latina .

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52
Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista - Detalhe Planta Geral

52
lbid. , p. 102.
63

Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista- Piacentíní e M o rpurgo::>::~

Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista- Piacentini e Morpurg- Área Medica 54

Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista - Piacentini e Morpurgo


Teatro e Farol da Civilização 55

53
lbid ., p. 123.
54
lbid., p 122 .
55
lbid ., p. 123.
64

'

Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista - Piacentini e Morpurgo


Vistas Aérea e Frontal do Pórtico 56

Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista - Piacentini e Morpurgo


57
Maquete

56
lbid. , p. 116.
65

...
..

Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista - Piacentini e Morpur~o


8
Detalhe Planta Geral

A conclusão deste eixo interno é o conjunto do Centro de Medicina, Hospital e


Clínicas , conformando suas construções entre espaços abertos e fechados, se
expondo para acesso público pela via perimetral dos bairros vizinhos, privilegiando,
em circuito oposto, as circulações internas dos estudantes. A correspondência
oposta à Torre das Enfermeiras é o Estádio Olímpico, proposto segundo a tipologia
do stadium romano , leva em consideração a importância do primeiro eixo transversal
pelo grande Pórtico no reforço de um necessário vinculo independente e direto por
viaduto duplo sob a linha do trem. A extremidade sul do eixo transversal interno
termina decomposta em duas ortogonais direcionadas ao Estádio e às Engenharias.
Também por conveniência, o Centro das Engenharias está organizado junto à via
férrea, vinculado ao campus por uma das pontes. O mesmo rigor axial dos demais
conjuntos está presente a partir do portal vazado, formado por volumes frontais e
laterais, afeiçoados em pátios internos idênticos, que orienta o ingresso interno aos
ed ifícios paralelos dos laboratórios, dispostos em alas até o acesso externo pela via
do bairro circundante. Isolados por distância e altura , o Setor Residencial e o
Sanatório ocupam a topografia disponível do vizinho Morro do Telégrafo em

57
lbid ., p.1 01 .
58
lbid ., p.1 02 .
66

disposição axial com o conjunto do Observatório e do Farol e convergentes ao


centro da Praça da Reitoria. COMAS observa que a mesma solução clássica e
abstrata está presente nas produções de Piacentini & Morpurgo para os projetos de
Roma e do Rio, na maioria das vezes nascidos fechados e rígidos desde o solo,
como monumentos de pouca exploração plástica. Como exceção fica o Estádio
Olímpico e sua forma eliptica de topos vazados. A comparação com o lllinois
lnstítute of Technology de Mies em 38 é oportuna. Resolvido dentro do sistema
xadrez da cidade de Chicago ,
O projeto foi apresentado em cinco pranchas de desenhos contendo:
Anteprojeto Geral de Planimetria -esc. 1:2.000 - 4 desenhos
Anteprojeto da Reitoria - 18 desenhos
Anteprojeto do Estádio e anexos - 20 desenhos
Anteprojeto da Faculdade de Direito- 14 desenhos
Anteprojeto do Hospital Geral - duas plantas

Em setembro de 38 o projeto foi apreciado e aprovado sem nenhuma objeção


pela comissão formada pelos mesmos integrantes que não aceitaram as propostas
anteriores de Corbusier e Lu cio Costa. Decisão assim comentada por Comas,

[...] se fosse questionada com os mesmos critérios das avaliações


anteriores, a proposta italiana poderia dar melhor resposta quanto à
orientação, morfologia das unidades pelo excessivo espaço interno, sistema
viário e distâncias superdimensionadas , além da questionável remodelação
do Palácio histórico. (COMAS ,2002, p. 124)

Esta proposta foi inviabilizada pelas determinações do art. 15 da Lei 452 , que
em acordo com o Decreto 23.569 da regulamentação profissional de engenharia e
arquitetura , declarava que "Os projetos serão mandados fazer por engenheiros civis,
arquitetos e urbanistas brasileiros ... ". Esta situação provoca a cri ação da Comissão
do Plano da Universidade do Brasil , que institui oficialmente em fevereiro de 40 o
Serviço de Arqu itetura, com o arquiteto Carlos de Azevedo Leão na chefia da equipe
composta pelos arquitetos Oscar Niemeyer Helio Uchoa, Atílio Correa Lima, Jorge
Machado Moreira, e o Serviço de Engenharia com o comando do engenheiro
Otacílio Negrão de Lima. A primeira tarefa era estudar as viabilidades do novo
Campus na Vila Valqueire, no terreno do Derby Club, nas Praias da Gávea e da
Piedade. A topografia e a ausência de construções credenciavam inicialmente a Vila
67

Va!queire , que mais tarde confronta custos, tempos de transporte e distâncias com
Manguinhos, Gávea, Niterói , Ilha do Governador, Castelo, Praia Vermelha e
Petrópolis. Até 44 surgem as mais variadas idéias, desde o absurdo aterro na praia
do Botafogo do Prof. Domingos Cunha, então diretor da Escola Nacional de
Engenharia, ao aproveitamento de uma área de propriedade particular em Marechal
Hermes. Voltam as atenções para a Vila Valqueire em 44 que, por decreto, tem seus
edifícios e terrenos declarados como bens de utilidade pública.
3 MIES E OS HERMANOS LATINOS

Imediatamente e posteriores à Quinta, são os planos das Cidades


Universitárias do lllinois lnstitute of Technology- IIT - de Mies, para Chicago em 38,
para Caracas em 44 de Raul Vil lanueva e para do México em 50 de O' Gorman.

l 3.1 CHICAGO

Campus do IIT: versões do projeto - Mies Van Der Rohe '

No IIT, acordado com algumas condições impostas pela comunidade, Mies


mantem o sistema viário existente, enfrenta escassez de tempo e de recursos
financeiros , racionaliza na definição dos espaços e a determinação dos materiais,
tudo em busca de uma expressão duradoura e contemporânea para uma obra que
provavelmente enfrentaria mais de 20 anos em construção.
69

O resultado é um conjunto de edifícios baixos dispostos em malha única , na


trama de 24 x 24 pés, resolvidos dentro do xadrez de Chicago, descrito por Comas
como,
[ ... ] um plano de axialidade neoclássica e assimetrias neoplasticas , onde as
funções principais se agrupam em caixas de vidro e aço, com painéis de
recheio de tijolos, detalhamento justo, proporções sóbrias , espaço neutro e
um ar de objetividade impessoal , que evocam com elegância as industrias
de Albert Kahn ou estruturas berlinenses como a Caldeira de Mendelsohn
para o Edifício Rudolf Mosse de 28 . O pilotis esta ausente, mas a metáfora
predominante é a da universidade como fábrica ou a elevação fabril ao
estatuto prestigioso da academia . (COMAS , 2002 , p. 124)

As produções dos hermanos da América , em épocas mais recentes, como na


Venezuela e no México, apresentam testemunhos importantes ancorados nos fortes
I
conceitos de tempo e lugar, como no movimento de onde emergiu, via arquitetura
i
moderna , a nova sociedade mexicana do período pos-revolucionario.
l
l
3.2 O CASO DE CARACAS

[ ... } donde Caracas encontró por primera vez, como patrimonio suyo, una
expresión pro pia en la manera de organizar el espacio y retomar la forma ...
Es esta una contribución que, por local y universal, ai recatar los va lores de
la tradición en nuevas e inéditas soluciones en el diseno contemporáneo.
hace posible un modelo de ciudad, donde lo mejor de la utopía del
urbanismo moderno se ve por fin realizado. (PINTÓ., 2002 , p. 84)

- :

.. . ...
-
..- .
.....-A

2
Cidade Universitária de Caracas - Perspectiva Aérea do Conjunto

1
GOROVITZ, 1993, p. 39.
2
PINTO, 2002 , p. 84 .
70

O conjunto da Cidade Universitá ria de Caracas DF , Patri mônio Cultural


Histórico Nacional, é a histeria materializada de um compromisso que criou a nova e
qualificada arquitetura venezuelana dentro de uma grande dimensão conceitua l. O
projeto parte do modelo americano, isolado e periférico em relação à cidade e num
primeiro esquema de composição bem de acordo com a tradição acadêmica,
estruturada por simetria em eixo, fechando um circuito entre zonas e pontos de
atração.
M CDK1NA ·

CLASt:S; , '*
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"' [Link]:J(JVCIAS:
[Link]/10 S{)CJAL

SER>IICIOS.

[Link] [Link]!!AOE CARACAS


AFl~OEl-
lllif ~<:ON...,.,..,:<IOI) y v;~ION

Cidade Universitária de Caracas- Plano e obras em 48 3

Em 42 , os recentes planos de saúde pública na Venezuela dão origem aos


estudos de Villanueva para a construção do Grande Hospital Clínico com 1000 leitos.
Este gera outro conjunto de edifícios para a Faculdade de Medicina, agente de origem
da futura Cidade Universitária. Num segundo momento, o processo passa a articular
as construções da primeira etapa com os novos organismos abertos, característicos
da arquitetura moderna, decompondo algumas hierarquias, sem deixa r porém de
contextualizá-los com os va lores tradicionais da praça , da rua, do pátio e do corredor,
e co m as considerações relativas ao clima e à vegetação, com luz e cor.

UFRGS
3
ARANGO, 2002. p. 60 . FACU LDA DE OE ARQ U ITETURA
BI B LIOTECA
71

4
Cidade Universitária de Caracas - Passeio interno

5
Cidade Universitária de Caracas- Murais em espaço aberto

4
PINTÓ , 2000, p.84
72

Cidade Universitária de Caracas - Passeio e Esculturas6

Esta homogeneidade, seria mais conveniente ser conquistada e segundo


Villanueva, los edificios deben tener un solo conjunto arquitectônico, lo que obliga a
que un solo arquitecto planee o vigile la arquitectura de todos ellos". (PINT0.2002,
p.83)

I CIUDAD UNIVERSrTARIA DE CARACAS A FINES DE 1948

EDIF1CJOS CONSTRUfDos SEGÚN EL [Link] DE 1945

U EscUEl..A TECNICA 1NDU5TRIA1. ( 1 94&- 48)


EN BU NUEVA LOCAUZAC.IÓN
VIA DE PENF:TRACIÓN CONSTRU(DA
- --
Cidade Universitária de Caracas- Plano e obras em 53 7

5
Panorâmica de la Arquitectura Latinoamericana, p. 207
6
PINTÓ, 2000 , p. 83 .
73

Na orientação geral dos seus 40 edifícios em 200 hectares, os extremos são


ocupados a Oeste pelos Edifícios das Áreas Médicas, a Leste pela zona de
Esportes, pelo Jardim Botânico a Norte e pela Avenida Los Ilustres ao Sul. O
conjunto administrativo se destaca como uma unidade no conjunto central da Cidade
Universitária, assim como as distintas torres e blocos singulares para cada escola,
pertencentes a uma mesma tipologia . Os elementos repetidos aparecem com
algumas variações na decomposição das partes, como nas plantas livres dos
acessos e nos fechamentos em paredes em blocos vazados. No caso de Caracas, o
Hospital e o Estádio Olímpico estariam a serviço do cidadão, como comenta Silvia ,

[ ... ] Así simbolicamente, la Universidad estaria comendada por el cultivo del


cuerpo. Sanarse y deportes: mente sana en cuerpo sano. Sin embargo,
interponiéndose en e! eje de estas dos actividades , Villanueva coloco la
Escuela de Belas Artes, musica y Arquitectura, es decir, las areas dedicadas
ai cu ltivo del espititu . (ARANGO, 2002, p. 55)

8
Cidade Universitária de Caracas - Foto aérea

7
ARANGO , 2002 , p. 68.
8
PINTÓ, 2000 , p. 53.
74

L
t

Cidade Universitária de Caracas- Foto aérea 9

I
I

l
10
Cidade Universitária de Caracas- Maquete

9
Nuevos Caminos de La Arqu itectura Latino Americana . p.76
~ 10
PINT6, 2000, p. 53 .
Mais tarde as transformações viárias de entorno necessárias ao
desenvolvimento urbano de Caracas, circundam a Cidade Universitária por vias de
alta velocidade, ameaçando a inicialmente proposta "Ilha Verde", por Viflanueva ,
I com repercussão no sistema viário interno, compatibilizando os estacionamentos

l
~
com as praças e os espaços abertos secos . O esquema Mexicano influi diretamente
Villanueva na disposição e proposta dos novos edifícios de Caracas, onde o centro
da Universidade seria a Aula Magna e uma Praça Coberta - o povo soberano. No

ll lugar da Reitoria - o Lugar do Governo, localizado discretamente numa lateral e a


Biblioteca - o Saber Acumulado , no edifício mais alto do conjunto.

~ 3.3 O CASO DO MÉXICO


r
l
l " Sabia que e se templo era e/lugar que requería su invencible propósito.
l ... sabia que su inmediata obligación era e! suefío".
l (Jorge Luis Borges, Las Ru ínas Circulares)
l
l

l
l

t 11
Cidade Universitária do México- Planta de situação

11
BURIAN , 1998 . p. 93.
76

Mais do que um simples período no tempo ou um estilo de arquitetura , a


modernidade foi também um conceito preso no poder da convicção de que a
arquitetura tem a capacidade de transformar a sociedade. Se a modernidade
internacional era capaz de produzir um novo ambiente construído, que por sua vez
daria luz ao novo homem universal com uma só identidade, a modernidade
mexicana concebia o seu homem moderno como aquele capaz de representar os
contrastes e as diferenças nacionais do México, dentro da nova identidade
moderna 12 .

13
Cidade Universitária do México- Foto aérea

No conto Las Ruínas Circulares, Jorge Luis Borges descreve um sonho tão
intensamente desejado que magicamente se transforma em realidade, depois de um
longo e doloroso processo. É a historia de um Mago que depois de chegar a um
templo de ru ín as circulares, reconhece neste antigo sítio seu destino e lugar, ambos
adequados para criar ali o seu sonho. Nesta ficção, dois elementos essenciais estão
~ presentes, o tempo e o lugar, enquanto que na realidade da Cidade Universitária,

I como sím bolo da modernidade mexica na , estes mesmos elementos podem ser
considerados presentes. A temporalidade foi a época pós-revolucionária , solo fértil

1.
12
ARREDONDO , Célia Ester Zambrano. 1998, p.91
13
BURIAN , 1998, p. 95 .
77

para criar um homem emergente, como união de todos os mexicanos. O lugar, as


ruínas circulares de Cuicuilco, uma cidade pré-hispânica de 6000 a.C. , coberta por
lava em 300 a.C. , local para a Cidade Universitária.

A Cidade Universitária do México foi o "Topo Mítico" para a criação do "novo


mexicano", como representação dos seus ideais e aspirações. Sua arquitetura
representava a contradição entre querer ser moderno e a identidade nacional, como
imagem criada para a nova sociedade . Esta foi a primeira obra mexicana dentro do
espírito do movimento moderno num problema de escala urbana. A sua origem
mítica contrasta com a sua real composição que corresponde aos princípios do
urbanismo moderno, cujos conceitos estão fortemente relacionados com os aspectos
funcionais de uma cidade moderna.

Houve uma tentativa de esquematizar o plano do Campus mexicano por zonas


de atividades em diferentes edifícios de oficinas, de aulas e de serviços, que
poderiam servir a todas as faculdades e não ser exclusiva de nenhuma. Porém, o
projeto final se desenvolveu dentro do esquema tradicional , onde cada faculdade
tem o seu próprio edifício com os seus próprios serviços.

Conceitos racionais e míticos parecem emerg ir do plano do Campus


Mexicano. A disposição dos edifícios principais, localizados na grande praça sobre o
eixo principal, responde tanto a sua importância funcional como simbólica . Em
decorrência de seu sistema principal de circu lação , o Campus está dividido em 4
partes, orientadas ao Norte, com as Faculdades e os Serviços; a Área Esportiva
localizada ao Sul; o Estádio Olímpico a Oeste e a área Residencial a Leste. Devido
às condições topográficas do sítio, a integração funcional do Campus ficou
resolvida por passagens escalonadas com algumas reminiscências pré-
hispânicas, enquanto que o desenho moderno utilizado na composição de cada
edifício deu unidade ao conjunto edificado .

O desenho básico do plano do Campus mantém a regularidade no eixo


principal, mas evita ser simétrico no arranjo dos seus ed ifícios quando se alternam
entre o cheio e o vazio em toda a periferia do conjunto.
78

Il
l
l
l
l
I

Cidade Universitária do México, Foto Aérea 14

Mesmo como representação da modernidade que propôs a nova forma e


identidade da vida mexicana, o novo Campus enfrentou , a dificuldade de expressar
a identidade local por uma linguagem formal e funci onalista. Uma característica do
código universal da estética moderna, estava presente na horízontalidade dos seus
edifícios, utilizada como um conceito formal até o ponto extremo do exagero.

Como na Bauhaus, um dos mecanismos de expressão da nova identidade


nacional era a integração entre artistas e arquitetos, criando trabalhos murais
evocativos à missão de cada escola e a seus propósitos ed ucativos . Uma conexão
pessoal e ideológica existente entre os arquitetos e os três importantes nomes da
pintura no México - Orozco , Rivera e Siquieros - consagraram a nova tendência da
79

arte pictórica no País, nas décadas de 30 e 40. O muralismo estava inserido em


todas as obras de arquitetura, inclusive nas da fase pós-cubista , porém com sua
própria realidade. A Cidade Universitária do México se encontra decisivamente
influenciada por isto. Na realidade pode ser considerada como o epicentro deste
movimento, que de uma forma mais primária e prática implicava na cobertura das
volumetrias dos edifícios com grandes superfícies de mosaicos, e em poucos casos
se verifica uma verdadeira síntese lingüística. No grande estádio da Cidade
Universitária, as distintas texturas se integram com a parede de lava, na qual se
inscrevem as formas escultóricas que acompanham o movimento geral da plástica
arquitetônica . Nem todas as correntes eram favoráveis a este movimento, como o
racionalismo de Jose Villagran Garcia - responsável pela melhor obra do conjunto da
Cidade Universitária mexicana , a Faculdade de Arquitetura, um exemplo da
expressão de sua rígida disciplina interior - que se negou ao compromisso com esta
integração. A autoridade de Villag ran entendia que somente a conjunção do útil, do
lógico, do estético e do social é que conferem o caráter a uma obra de arquitetura.

15
Cidade Universitário do México- Edifício de Ciências Humanas

I 14
BULLRICH, 1969. p. 89 .

~
15
BURIAN , 1998 , p. 98 .

I
o

Cidade Universitária do México - Edifício da Reitoria 16

Cidade Univers itária do México - Biblioteca Central 17

16
1bid .. p. 103.
81

Cidade Universitária do México- Fachada das salas de cirurgia 18

--- - ·-~ --

20
Cidade Universidade do México 19 Cidade Universitária de Caracas
Mural do Aud itório de Ciências Mural no espaço aberto

Apesar de toda esta carga mítica que envolveu o projeto da Cidade


Universitária mexicana com a intenção de desenhar o seu plano e os seus edifícios
como partes de uma visão teórica do urbanismo moderno Corbusiano, mesmo
assim, a aplicação dos conceitos de arquitetura moderna não é controlada. Os
espaços abertos são simplesmente praças ou passagens entre ed ifícios,
aparentemente pouco relacionados com seu entorno. Ou em outro exemplo, a

17
BULLRICH, 1969, p.29
18
BULLRICH , 1969, p. 88.
19
BURIAN , 1998, p. 103 .
82

tentativa forçada de integrar a horizontalidade, às vezes exagerada de alguns de


seus componentes, com um parque ou com a linha do horizonte, como nas
escrituras da sagrada teoria moderna.

O valor desta obra está em permitir que coexistam a intenção de expressar o


movimento da arquitetura moderna internacional, com a emotividade da estética e os
va lores míticos mexicanos em uma única síntese. É a luta entre o funcional e o
emocional , que parece ser uma das grandes questões do movimento moderno, as
quais parece que a arquitetura nunca conseguiu responder.

Se as experiências na Quinta foram as precedências para Mies, Villanueva e


O' Gorman , na elaboração dos planos de Chicago, Caracas e México, estes, por sua
vez, deixaram disponíveis para os futuros projetos, modelos de composições
urbanas, estruturadas sobre fortes conceitos. Primeiro foi a racionalização ,
estabelecida por Mies na arquitetura do liT e por Lucio na Quinta , que encaminhava
soluções simples e consistentes como fianças afirmativas de suas arquiteturas
perante a sociedade. Depois, a tentativa de conciliar os dois momentos
arquitetônicos no Campus de Caracas com os elementos do espaço aberto, praças,
pátios e suas passagens cobertas. Do México, vem o legado simbólico de uma
arquitetura que, desacertada com os princípios modernos, se relacionava com a
tradição quando se integrava com a arte pictórica e escultórica .

20
BULLRICH , 1969, p. 87.
4 A ILHA PROJETADA E CONSTRUIDA

4.1 O ETUB E A DECISÃO PELA ILHA

Um edital de concorrência para a construção da Cidade Universitária na Vila


Valqueire estabeleceu que os concorrentes iriam projetar, construir e administrar as
obras com recursos de financiamentos por eles mesmos obtidos e pagos
mensalmente, de acordo com as condições do Tesouro Nacional. Era uma
simplificação burocrática para uma solução tanto estranha como ilegal. Este
equívoco administrativo foi "a gota d'água" para pôr fim ao processo que se arrastou
por mais de 1O anos, provocando mudanças importantes na política e nas decisões
1
quanto à construção da primeira Cidade Universitária no Brasil. Capanema
encaminha proposta ao Presidente da República , Gen. Getúlio Vargas, sugerindo as
seguintes determinações: organ izar um escritório especial sob direta dependência
do Departamento Admin istrativo do Serviço Público - DASP - que assumisse os
encargos de plena realização dos projetos de construção da Cidade Universitária;
delegar ao Ministério da Educação e Saúde Pública a apresentação de dados e
estudos de natureza propriamente universitária; consignar de dotação apropriada o
orçamento de 1945 para atender as despesas previstas. Esta proposta foi aprovada
em 17 de outubro de 1944, dando origem ao decreto lei 7217 de dezembro de 44 , o
qual instituiu o Escritório Técnico da Universidade do Brasil- ETUB, sob a direção
geral do Eng. Luiz Hildebrando de Barros Horta Barbosa.

Onze localizações foram estudadas e relacionadas com as respectivas áreas


e distâncias em relação ao centro da cidade:
Ilha Universitária- Fundão 5.997 .000 m2 8.500 m
Manguinhos 3.500 .000 m2 8.200 m
Ilha do Governador 3.450 .000 m2 15.000 m
Fazenda Boa Esperança 3.340.000 m2 21.000 m
Vila Valqueire 2.980 .000 m2 21.500 m

1
MELLO JR. 1956, p . 65
84

Niterói 4 .000.000 m2 13.000 m


Quinta da Boa Vista 2.309.000 m2 5.800 m
Praia Vermelha 390.000 m2
Gávea 3.020.000 m2 11.600 m

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Cidade Universitária no Rio de Janeiro - localizações estudadas2

O Plano Diretor da Cidade do Rio de Janeiro revelava a privi legiada situação


da zona de Manguinhos - entre continente e ilhas - para a qual converg iam as
principais vias urbanas, interurbanas existentes e projetadas da cidade, o que
acarretaria - com o decorrer do tempo - numa proximidade maior com as populações
a que deveria servir. O crescimento da população universitária na zona Norte do Rio
r de Janeiro, confirmava-se com os dados do recenseamento de 40 acusando 52% de

l alunos dali oriundos, enquanto que na Zona Sul o percentual contava com pouco
mais de 39% e Niterói , com 9% .

Na época , o Rio já era um centro urbano de população e densidade


considerável onde os melhores locais para a imp!antação da Universidade só

2
Publicação do ETUB , p.07
8

poderiam ser obtidos a preços elevados. Os dados comparativos confirmam o custo


da área útil na Praia Vermelha, avaliado em 36 , a cr$ 71,501m2, no bairro da Quinta
da Boa Vista, em cr$ 31,501m2, enquanto que todas as obras para recuperação e
saneamento da Ilha Universitária estavam orçadas em cr$ 17,401m2.

Horta Barbosa reviu todas estas propostas anteriores, consultou e ouviu vários
Ministérios, Diretores e professores de diversas unidades, de onde surge o
aproveitamento da região de Manguinhos, com a unificação de suas ilhas fronteiras .
A decisão foi fortalecida pelos pareceres dos órgãos afins como o Departamento de
Nacional de Obras e Saneamento e da Comissão do Plano da Cidade e considerada
como definitiva pelo DASP , encerrando assim, quase 1O anos depois, o demorado
processo de escolha da área para a localização da Cidade Universitária da
Universidade do Brasil no Rio de Janeiro. Sobre a escolha , o professor Donato Mello
Jr. justificou, "Predominava na filosofia do planejamento da Universidade a idéia
central do Campus: um espaço com certo isolamento e resguardo para suas
elevadas finalidades , manutenção e cultivo do seu espírito 3"

A escolha considerou a localização mais centralizada possível em relação às


populações (atual e futura à época), evitando desapropriações que em decorrência
sempre geram problemas de âmbito social, econômico e, na maioria das vezes,
também polftico . Quanto às condições ambientais, em comparação com as demais
áreas estudadas, a Ilha apresentava as mesmas vantagens naturais da Quinta, com
o privilégio de isolar-se das grandes concentrações urbanas, a ausência de bens a
demolir, o numero reduzido de população a remover, maior área de terreno com
mínima interferência na sua famosa geografia e o favorável resguardo à beira do
mar.

O terreno da Cidade Universitária da Universidade do Brasil , vizinho da Ilha do


Governador, é o resultado da união de nove ilhas, num total de aproximadamente
6.000.000 ,00 m2. Algumas correções posteriores. evitando aterros mais profundos,
red uziram a área para 5.500 .000 ,00 m2. Oeste tota l, 1.063.000,00 m2 foram

3
MELL O JR. , 1956 , p. 66
86

aterrados e aproximadamente 250.000,00 m2 foram destinados às instalações do


Asilo dos Inválidos da Pátria, organização administrada pelo Ministério da Guerra.
A área líquida dispon ível para a Cidade Universitária fi cou com 4.300.000,00 m2,
saneados e livres para a sua planificação.

Oceano Atlântico

Ilha do Fundão e os bairros vizinhos 4

A união resultou em uma gleba de forma alongada, paralela ao continente e


estreita no centro, com largos extremos de braços extensos e disformes em direção
ao oceano, limitada por algumas margens remanescentes preservando, assim ,
algum valor natural. A sua maior dimensão tem a direção noroeste com
aproximadamente 4600 m de extensão e variações de 700 a 1600m no sentido
transversal, em superfície predominantemente pl ana de área comparável à do bairro
de Copacabana.

4
XAVIER , 1991 , p. 243.
7

n. w• oo o o.v·t " iil "tl0 8:

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Ilhas separadas - Cidade Universitária da Universidade do Brasil5


f

Ilhas separadas - Cidade Universitária da Universidade do Brasil6

Em paralelo, pela atuação de Lucio Costa, Affonso Reidy, Jorge Machado


Moreira, Oscar Niemeyer, Ernani Vasconcelos, Carlos Leão e outros, estava
mundialmente consolidada a marca da nova arquitetura brasileira. Cada um
experimentou e processou a sua maneira, entendendo que aquele era o momento
de transformar e encontrar caminhos próprios, sem abandonar a idéia de fortalecer a
vertente racionalista da arquitetura moderna.

5
Publicação do ETUB , p.1 6.
6
lbid. , p. 17
8

Presença constante em varias equipes, Jorge Machado Moreira destacava-se


pelo rigor e dedicação que enfrentava as questões tecnológicas e formais. Enfim , a
história estava passando e Moreira pronto para embarcar, com a bagagem
adequada , no lugar e no momento certo .

Em 49 Moreira é convidado por Horta Barboza, para assumir o comando no


planejamento físico das novas instalações da Cidade Universitária na Ilha do Fundão
no Rio de Janeiro .

4.2 JORGE MACHADO MOREIRA- O AUTOR

O ambiente político-revolucionário pós 30 tem repercussão direta nas


atividades do oficio e do ensino da arquitetura no Brasil da época . Com a redução as
obras públicas, o já agonizante gênero eclético tem decreto de extinção e a Escola
de Belas Artes, dirigida por Lucia Costa, entra em processo de reforma do seu
sistema acadêmico.

No momento que se oferecia promissor às novas reflexões, surgem as


propostas brasileiras de Warchavchik para as casas modernas em São Paulo, com
projetos de soluções homogêneas entre a arquitetu ra e arquitetura de interior,
mostradas, com relativo entusiasmo pela receptividade, numa exposição de arte
moderna no bairro Pacaembu . Com a casa Nordchild em 31, Warchavchik conquista
também o mercado do Rio, onde instala a segunda exposição de sua "autêntica
arquitetu ra", visitada e aprovada por Wrigth. Recebe o convite de Lucia para lecionar
Arquitetu ra Moderna na reformada Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro ,
atividade que dura apenas oito meses, mas que mesmo assim exerceu forte
influência aos estudantes de arquitetura da época , entre os quais Jorge Machado
Moreira. Foi neste meio, de grandes debates e proposições, que Moreira alinha-se
com convicção aos funda mentos do novo movimento e inicia a sua vida de ação
pública. Na presidência do Diretório Acadêmico da Escola Nacional de Belas Artes
participou das discussões por melhor qualidade e condições do ensino, apoiou a
reforma dirigida por Lucia Costa para moderni zação do curso , discutiu va lores das
taxas a serem pagas pelos alunos. Grad uado em 1932 , assume em seg uida a
Direção de Arquitetura da Construtora Baerlein , vence alguns obstáculos de
89

linguagem de estilo inicialmente impostos pela empresa , fazendo prevalecer o seu


ponto de vista.

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Edifício para Construtora Baerlein- Perspectiva Acesso '

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8
Edifício para Construtora Baerlein - Perspectiva Externa

7
CZAJKOWSKI , 1999. p.67.
8
lbid. , p. 67.
I
l
l
l
i
[

' Edifício para Construtora Baerlein - Plantas Baixas


9

I Manteve fidelidade ao sentido estrito do racionalismo , sem evocar com ênfase


r o passado como Lucia Costa , mas também não muito formalista como Niemeyer.
t Em 35, com esta mesma atitude e disposição, participa dos concursos de projetos
para as sedes da Prefeitura de Belo Horizonte, ABI e MESP, e do Ministério da
Fazenda com José de Souza Reis e Oscar Niemeyer em 36. O prêmio foi o
reconhecimento e consideração de Lucia Costa pelo seu trabalho, confirmado com o
convite para integrar o grupo de arquitetos com Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão,
Ernani Vasconcelos e Oscar Niemeyer, para elaborar, a pedido do Ministro
Capanema, o projeto da nova sede do MESP. O mesmo código entre os integrantes
era a garantia de segurança e confiança do grupo nesta tarefa. Mesmo assim
recomendam ao Ministro a contratação de Le Corbusier como consultor deste
projeto e mais tarde também para o da Universidade. Ainda em 36, Lucia escolhe a
mesma equipe para o segundo projeto do MESP - que se concretiza - e outra para a
Cidade Universitária que fica no papel , ambas com a participação de Jorge Machado
Moreira. O sucesso destas suas experiências garantia credibilidade e confiança da
sociedade, indício de um futuro animador. Um ano depois Moreira se desliga da

9
lbid ., p. 66.
91

Construtora Baerlein , passa a atuar como autônomo na construção do edifício do


Ministério até a sua oficialização no Serviço de Arquitetura da Universidade do Brasil
em 40. De 40 e 49 Moreira desenvolveu 26 projetos, a maioria para Sanatórios de
Tuberculosos do Serviço Nacional contra a Tuberculose, alguns edifícios
residenciais e administrativos, o Plano do Campus Médico, o Hospital de Clínicas da

r URGS e o Centro Cívico em Porto Alegre.

I
4.2.1 Experiências em Porto Alegre

4 .2.1.1 Universidade do Rio Grande do Sul e o Centro Cívico

A atuação de Moreira tinha sempre as referências dos CIAMs, as quais adotou


como rel igião . Na mesma medida em que o movimento moderno foi se consolidando
através de novas alternativas formais e tecnológicas, mais o seu projeto adquiria um
caráter ortodoxo, com ênfase nas obras de grande porte. Até aquela data a sua
experiência com a temática urbana estava limitada à participação no projeto para o
Campus Universitário na Mangueira em 36 , sob a orientação de Corbusíer, e depois
também no projeto de Lucio Costa. Vivências posteriores se restringiram a estudos
para Porto Alegre, quando ensaia alguns modelos envolvidos por programas de
resolução urbana importante no Campus Medico da URGS em 42 e no Centro Cívico
em43 .

10
Campus Médico f URGS -Hospital de Clínicas de Porto Alegre - Foto Maquete

10
lbid ., p. 120.
92

Campus Médico I URGS- Hospital de Clínicas de Porto Alegre- Perspectiva Externa 11

Campus Médico I URGS - Hospital de Clínicas de Porto Alegre- Croqui Implantação 12

11
lbid ., p. 123.
12
lbid ., p. 123
93

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Campus Médico I URGS - Hospital de Clinicas de Porto Alegre - Plantas Baixas 13

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Centro Cívico de Porto Alegre - Croquis de implantação 14

13
lbid ., p. 122
14
lbid ., p. 107.
94

Enfrentar a complexidade do projeto do Campus das Ciências Médicas da


Universidade do Rio Grande do Sul em Porto Alegre foi provavelmente a sua
primeira experiência como autor, onde procurou responder as questões
programáticas de cada edifício com a mesma importância que sua implantação. O
quarteirão se conformava em duas faces com os limites definidos pela Avenida
Protasio Alves e Rua São Manoel, e uma terceira resultante do traçado proposto
para o plano viário de 43. Moreira prioriza atender à melhor orientação para o
edifício do Hospital, dispondo suas maiores superfícies de fachadas a NE e SO,
direção da terceira face da via frontal projetada. Os demais edifícios do conjunto
seguem a esta regra , situam-se como alas de um grande espaço aberto central,
limitado por um renque frontal de 100 palmeiras junto ao acesso, numa menção ao
passado recente na Quinta . O paisagismo foi proposto em parque continuo, com
circulações exclusivas para pedestres, pouco considerou o entorno, dentro do
mesmo conceito da "ilha urbana moderna" proposta por Le Corbusier para a
Universidade na Quinta da Boa Vista . Do projeto original, somente o edifício do
Hospital de Clinicas foi constru ído, porém com alterações consideráveis impostas
pelo Reitor Prof. Eliseu Paglioli e desaprovadas por Moreira .

15
Campus MÉDICO I UFRGS- Plano de 43
Campus Méd ico I UFRGS - Maquete - Plano viário de 43 '0

A proposta de remanejar parte do centro de Porto Alegre em 43 , propondo a


construção de um Centro Cívico , em 200.000 m2 de área, que envolvia a Praça da
Matriz e adjacências , tanto foi radical na _promoção de rupturas importantes no
organismo urbano com demolição de monumentos, edifícios e espaços históricos,
como se opôs à configuração do conjunto do entorno , desconsiderando suas
preexistências. Mesmo a preservação de alguns eixos visua is estruturados a partir
do ed ifício do Palácio do Governo e de algumas vias preexistentes em conexão
direta com as projetadas , não era condição suficiente para que o novo conjunto
perdesse a configuração autônoma.

15
Arquivo pessoal Arq. Luiz Alberto Sohni Aydos.
16
Arq uivo pessoal Arq . Luiz Alberto Sohni Aydos.
96

Centro Cívico de Porto Alegre- Planta Geral e Implantação 17

Enquanto a relação edifício I terreno resultava em altos índices de ocupação


do solo nos quarteirões do entorno, no Centro Cívico, o projeto propôs composição
em edifícios isolados, de volumetrias altas e repetidas, intercalados por jardins e
espaços abertos de circulação pública em circuitos diferenciados para pedestres e
veículos.

Centro Cívico de Porto de Porto Alegre - Croquis de implantação18

17
CZAJKOWSKI ,1999., p. 106.
18
lbid. , p. 106.
, 97

4.2.2 A Produção Influente do Amigo Reidy

[Link] O Centro Tecnológico da Aeronáutica - Cta , e o Centro Cívico do Rio de


Janeiro

De todos os arquitetos do convívio de Moreira, Affonso Reidy, violino da nova


sinfônica moderna brasileira, junto com Lucio Costa e Oscar Niemeyer, foi o que
teve influência mais direta nas suas produções. Com as mesmas idéias no plano das
soluções forma is, enquanto Reidy explorava os aspectos plásticos e funciona is da
obra, Moreira elaborava o repertório adquirido no tempo do Ministério, dispensando
especial atenção ao detalhamento construtivo. Reidy conclui o curso em 30,
assumindo em seguida como assistente de Warchavchik na ENBA. Em 32 , é
responsável pelo serviço de arquitetura e urbanismo da Prefeitura do Rio de Janeiro,
onde permanece por quase trinta anos envolvido com alguns programas sociais
(para populações de baixa renda) e públicos para o município, onde predominavam
os abastados e representativos. Estas condições, no entanto, não o impediram de
considerar primeiro a arquitetura edificada como fez nos projetos para os Conjuntos
Residenciais do Pedregulho e da Gávea, onde são os ed ifícios em si que contam em
primeiro lugar, que pontuam o local por sua implantação e plástica , contribuindo para
dar a este sitio seu sentido definitivo

Com outra pauta de questões, os mesmos procedimentos são cometidos na


elaboração do anteprojeto para o Centro Técn ico da Aeronáutica, em São José dos
Campos, em meados dos anos 40. Tratava-se de um centro de pesquisas e
experiências exclusivas da Aeronáutica e da FAB , com programa especifi co para as
atividades do Instituto Técnico de Aeronáutica , órgão de ensino superior do mesmo
Ministério. Um conjunto de apoio, composto por laboratórios, hospital, residências ,
indústrias , área de esporte e lazer, atenderia uma população de 4.000 pessoas,
entre 1.500 estudantes e 2.500 professores e funcionários, caracteri zando o
complexo como área específica de ensino.
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Centro Técnico da Aeronáutica em São José dos Campos - Plano Geral19


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Centro Técnico da Aeronáutica em São José dos Campos- Perspectiva Geral20

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I Centro Cívico do Rio de Janeiro - Foto da Maq uete 21

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Revista PDF , n. 87 , p. 49.


20
lbid ., p. 48 .
21
I lbid ., p. 48 .
99

Centro Cívico do Rio de Janeiro - lmplantação21

Centro Cívico do Rio de Janeiro -Implantação da 18 . etapa 22

21
Revista PDF, N. 87, p. 50
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100

Com outra pauta de questões, os mesmos procedimentos são cometidos na


elaboração do anteprojeto para o Centro Técnico da Aeronáutica, em São José dos
Campos, em meados dos anos 40. Tratava-se de um centro de pesquisas e
experiências exdusivas da Aeronáutica e da FAB, com programa especifico para as
atividades do Instituto Técnico de Aeronáutica, órgão de ensino superior do mesmo
Ministério. Um conjunto de apoio, composto por laboratórios, hospital, residências,
indústrias, área de esporte e lazer, atenderia uma população de 4.000 pessoas,
entre 1.500 estudantes e 2.500 professores e funcionários, caracterizando o
complexo como área especifica de ensino.

O estudo de urbanização de Affonso Reidy para o centro do Rio, em 47, tinha


o objetivo de resolver os problemas do sistema de circulação entre as zonas norte e
sul da cidade que, subdimensionado, não suportava o tráfego dos rápidos veículos
modernos. Neste projeto Reidy, num exemplo de como estavam sendo tratados a
urbanização e os novos elementos da arquitetura, não restringe a sua ação tão
somente para resolver os problemas viários, propõe o Centro Cívico Municipal num
conjunto de edifícios administrativos para a Prefeitura, Câmara de Vereadores,
Biblioteca, Museu, Teatro e Auditório, em construções de volumetrias altas e
liberadas o máximo possível do térreo, favorecendo solução de paisagismo em
parque contínuo.

No Centro Cívico e no CTA, foram ensaiadas algumas soluções já citadas nos


projetos de Lucia Costa e de Le Corbusier para a Cidade Universitária na Quinta.
Ambos se orientam pelo mesmo sistema de circulações e reconhecem as vias
existentes no entorno, solução antes desconsiderada por Corbusier. A arquitetura do
Museu, resolvida por Corbusier, repetia a proposta do Museu do Conhecimento, o
Teatro do Centro Cívico era em exoesqueleto como na Aula Magna de Lucio e
Corbusíer.

Em sua prática, Moreira entendia que para a arquitetura se consagrar como


uma ação profissional inerente ao compromisso público, deveria ser mantida uma
obsessiva dedicação ao projeto, ao detalhe e à execução de suas obras, como

22
Revista PDF , n. 87, p. 51
101

contribuição para o aperfeiçoamento da tecnologia do projeto e da construção. Esta


atenção minuciosa e constante em todos os momentos do projeto, explica porque
hoje suas obras estão preservadas com consistência e contemporaneidade.

4.3 A SIMBOLOGIA DO MODERNISMO

Era através das obras do Estado que os arquitetos demonstravam o desejo


em compartilhar com a sociedade brasileira, o entusiasmo pela nova arquitetura,
transformando os seus espaços públicos em marcos simbólicos de um novo tempo.
Foi assim com a obra do Ministério e o projeto para a Cidade Universitária na Ilha
do Fundão seria mais uma obra a confirmar este novo comportamento, tanto na
espacialização de um programa de caráter iluminista, como pela oportunidade de
acrescentar mais um monumento ao acervo da Capital Federar.

Sede do MESP - Rio de Janeiro23

Os dados estavam à disposição, podendo ser herdados por análise e/ou


critica, dos projetos de Madrid, Roma e da Quinta. Ou, à luz da recomendação de
COMAS, já citada inicialmente, sobre importância da antecedência histórica e formai
como base para uma critica arquitetônica consistente, ou, por outra via, quando
Ruth, em "O Lugar da Critica", atribui virtudes à percepção do próprio analista e
crítico diante da obra.

23
CZAJKOWSKI, 1999, P.95.
102

Analisar é extrair da própria obra o que ela tem a dizer seguindo um


caminho inverso ao d.a interpretação, pois os instrumentos da analise serão
construidos à medida que a obra analisada os necessi.t ar. A analise tenta
veriftcar que questões a obra coloca ou que abordagens na subjetividade de
quem realiza a analise e, portanto o resultado será uma co-criação entre a
obra em si e aquele que a analisa. [ ... } Teorizar, construir uma teoria, é
tarefa que, na arquitetura, cabe primordialmente à obra
arquitetô[Link] arquitetônicas são inúteis se não forem instrumentos
do fazer arquitetõnico concreto; mas paradoxalmente a teoria nunca esta
presente enquanto tal no processo de projetação. E conclui, ninguém se
senta à prancheta para fazer teoria, e sim para fazer arquitetura. Mas se
não fizer teoria, o arquiteto fará desenhos, construções e volumes no
espaço, não necessariamente arquitetura. (ZEtN, 2001, p. 202 e 203 )

4.4 CIDADE UNIVERSITÁRIA DA ILHA DO FUNDÃO

4.4.1 O Programa

O momento era de incentivo ao desenvolvimento da cultura no país e os


recursos estavam disponíveis. As solicitações das unidades eram sempre
superdimensionadas porque contavam, por decisões do governo, com alguns cortes
nos seus orçamentos. Mesmo assim, estas demandas foram surpreendentemente
atendidas e no resultado final as unidades que passaram a ocupar o novo Campus,
tiveram as suas áreas praticamente duplicadas. Moreira não foi convidado a
participar das decisões iniciais, e estes foram os efeitos de sua ausência, durante o
processo de planejamento e dimensionamento do programa.

Algumas determinações prévias, como a definição da capacidade máxima


recomendável e o programa básico do Campus, seguiam os resultados das
experiências anteriores no Brasil, mais precisamente nos projetos da Quinta da Boa
Vista e no exterior, em Roma e Madrid. Quãnto à sua capacidade, ficou estabelecido
que a Cidade Universitária da Ilha do Fundão seria projetada para atender, nos seus
600 ha, uma população limitada entre 15 e 30 mil pessoas, entre professores, alunos
e fundonários. O programa aprovado em caráter de urgência peta comissão especial
do Ministério da Educação e Cultura, era composto por dez centros: Administrativo;
Filosofia, Ciências, Letras e Educação; Ciências Sociais, Políticas e Econômicas;
Médico, Odontológico, Farmacêutico e Hospitalar; Engenharia, Químico,
Tecnológico, Eletrotécnico e Física, Nuclear; Belas Artes, Arquitetura e Música;
Educação Física; Residencial; Serviços Auxiliares; Florestal e Zoológico.
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

103

O total das áreas, inicialmente previstas para os maiores centros do programa,


correspondia à metade dos 600 hectares da ilha, assim distribuídas; Centros Medico
e Residencial com 100 hectares, Centro de Engenharia com 70 hectares, Centro de
Educação Física com 40 hectares e Centro Florestal e Zoofógico com 80 hectares.
Entretanto, antes de qualquer trabaJho de projeto era necessário refletir sobre o
caráter do novo conjunto e como conceituá-lo. Não era para menos, tratava-se de
um conjunto comp~exo de atividades, com a função de atender as necessidades de
uma clientela exigente, diversificada e bastante esclarecida. Começava uma nova
etapa do desafio.

4.4.2 O Plano em Quatro Momentos

O inédito no plano do Fundão fica por conta dos mesmos princípios de


racionalidade, que tanto estavam presentes na sua solu -o u ana como na
montagem da arquitetura dos seus edíffcíos. O que nos parece interessante é
- - - - - - - C"

estabelecer as retações entre o resultado urbano e as tipologías das edificações


propostas para a Cidade Universitária, nos seus diversos momentos, projetados por
Moreira durante aproximadamente duas décadas.
J
I
O planejamento fisico para a Cidade Universitária no Fundão teve quatro
~
momentos importantes e em épocas diferentes: o plano inicial de 49 a 52; uma +
~ primeira versão e '54; a segunda entre 56 e 60, coincidindo com a conclusão da
í primeira etapa de implantação do Campus; a versão 70 até a situação atuaL Do
plano original à segunda versão, o desenvotvimento ficou por conta do
redimensionamento e da melhor definição do traçado do sistema de circulação.
Houve alterações que interferiram substancialmente nas tipologias das construções,
com conseqüências diretas no tratamento do espaço aberto, variando propostas
desde edifícios padronizados e unidos pelos térreos - como no plano de Lucio Costa
para a Quinta - até em construções isoladas e autônomas como as de hoje.

A partir de 70, surgem os primeiros ensaios de aproximação entre a iniciativa


privada e a Universidade, com esboços de propostas para hotéis, mercados e
cinemas na Ilha. Mas o interesse pela pesquisa foi o incentivou da mescla entre as
104

atividades acadêmicas e os programas de algumas estatais, materializadas em


edificações próprias.

4.4.2 .1 O Primeiro de 49 a 52

t
t
I

1- Puericultura
2- Hospital Universitário
3- Arquitetura
4- Engentlanas

Cidade Universitária na Ilha do Fundão- Plano inicial1949/1952


r 24
Reproduzido em Autocad a partir do original

I[ 24
lbid., p.1 30 I ( ' : J
105

A urbanização da Ilha mostra como o arquiteto experimentou a relação direta


entre os conceitos extremos, do racional e do orgânico, do natural e do artificial, num
caso de porte urbano. Comedido, Moreira logo tratou de interpretar leste
questionamento, e a resposta veio por um projeto de traçado simples, com soluções
de geometrias de muitas retas e algumas curvas.

Oríentados inicialmente por dados como a confonnação da Uha, suas


condições ambientais, perfil e tamanho da população usuária, os prímeiros estudos
de zoneamento já fonnalizavam a característica racional da arquitetura de Moreira, '1--
no agrupamento dos Centros - por afinidade de cursos - em três grandes áreas;
Saúde e Engenharias, situadas nos extremos opostos da gleba, e um terceiro,
situado entre ambos e disposto em fatias transversais, com os Centros das Áreas
das Ciências Humanas e Praça Cívica.

Cidade Universitária na Ilha do Fundão - Agrupamento dos Centros-Detalhe do plano de 194911 952
106

Sempre presentes na obra de Moreira, as considerações com a demanda


ambtentat não se limitaram tão somente ao edifício ou a um setor e seus arredores.
Foram mais abrangentes, preservaram as dimensões e as características das
margens naturais das ilhas componentes, que bordam com o seu orgânico contorno,
a rígida trama ortogonaf entre as topografias inalteradas das seis colinas herdadas.

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Ilha do Fundão - Paisagem herdada25

Com o predomínio da artificiatidade do aterro, a relação paisagística entre o


mar e a montanha passou a ser referência valiosa e importante na composição do
plano da Ilha. Se toda a composição se desenvolvia no sentido longitudinal, o seu

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~
principal acesso se caracterizou peJa ponte da Avenida Osvaldo Cruz ligando ao
continente, em sentido transversal ã maior direção da composição. Este acesso era
finalizado pela Praça Maior do Centro Cívico, bem ao centro da baía Nordeste e no
eixo dos dois promontórios remanescentes das ilhas de Bom Jesus e Catalão,
avançados ao mar como portal, considerando o forte fator paisagístico no sentido
I· mar I ilha.
~
25
ETUB. 1953, p. 12
f
107

Cidade Universitária na Ilha do Fundão - Praça Maior


Detalhe do Plano de 52

A orientação da Praça Maior não teve o mesmo sentido da grande praça de


acesso da composição de Le Corbusier para a Quinta. Tanto quanto Reidy no
projeto do Centro Cívico do Rio, Moreira orienta a sua ação de projeto na
consideração ao mar e à montanha, presentes em todos os seus horizontes. Entre
as formas da área mais bem valorizadas e exploradas pelo plano, está a da baia
nordeste, onde a preservação da sua integridade simboliza a homenagem à baia
mãe - Guanabara - como forma de sintonizar a Cidade Universitária com o contexto
urbano mais dinâmico do continente . Na composição deste portal, estavam as
mesmas peças dos planos anteriores, o Grande Anfiteatro como réplica do projeto ~
· para o Palácio dos Soviets e o Museu, o mesmo Museu de Arte Contemporânea do
Mundaneum, projetados quase 14 anos depois. Estavam também presentes na
Praça Maior do Centro Cívico do Fundão, os mesmos vizinhos dos planos da Quinta
-Arquitetura , Artes e Engenharia.
108

A estratégia de Moreira para o Fundão era diferente da utilizada por Reidy no


plano da Esplanada do Morro de Santo Antonio, na Cidade do Rio de Janeiro. O
projeto da Esplanada primeiro buscou sustentação no forte conceito para "o novo
espaço" do centro do Rio, de acordo com o caráter do lugar, definindo um partido e
seu sistema de circulação. Na i!ha a realidade era outra e também foram outras as
referências preexistentes -três horizontes com mar. montanhas e tênues ligações
com o continente.

Foto aérea da flha do Fundão 26

Estudos preliminarmente desenvolvidos no local pelo Escritório Técnico,


coordenados pelo Eng. Paulo Sá, tinham como objetivo estabelecer as melhores
condições para dois aspectos fundamentais. O primeiro na busca da melhor
orientação dos edifícios, visando um melhor iluminamento natural e conforto térmico
dos seus interiores. O segundo, com a finalidade de escolher os materiais mais
apropriados, do ponto de vista da condubbilidade, da reflexão térmica e do mais
rentável aproveitamento da luz di uma.

26
CZAJKOWSKI. 1999, p.131
109

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Ilha do Fundão- Orientação das avenidas e alameda- Estudos "in loco,.;{'

Para a montagem do partido urbano da Cidade Universitária, foram


consideradas a conformação da Uha e seus aspectos ambientais, mas não foi em
cima de nenhum deles que o plano urbanístico se estruturou. Fatores como a grande
dimensão do terreno - equivalente a 1O vezes a área do Campus do Vale da
UFRGS- e as distâncias com percursos de mais de 30 k.m em condições precárias
de tráfego nas vias que ligam a Ilha aos bairros do continente, bem como as
internas, entre os diversos setores dentro do próprio Campus, definiram a montagem
da composição urbana pelo sistema viário.

r Como nos planos de Corbusier e de Lucio Costa para a Quinta da Boa Vista,
no plano de Moreira para a Ilha o veículo foi demanda importante. No entanto, a Ilha
Universitária nunca seria a "ilha moderna e autônoma", porque precisava dos
vínculos com o continente para existir, a partir dos quais seu sistema viário foi
estruturado. Era , portanto, uma ilha real e sua autonomia discutível. O primeiro
estudo reforça a linearidade do terreno, servindo toda a sua extensão por uma -

' ainda estreita - via central, desde as Engenharias até o Hospital, com um traçado
subdimensionado, de ingênua geometria que mudava as direções para outras vias
também estreitas, por simples cruzamentos no nível do solo,. sem caracterizar ainda

t uma hierarquia de fluxo.

27
ETUB, 1953, p. 16

t
I
11 o

Cidade Universitária da Ilha do Fundão, Plano de 52 28

~
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28
CZAJKOWSKI, 1999, p. 130
111

O tema "Circulação", debatido no 4°. Congresso Internacional de Arquitetura


Moderna-ClAM-em 33, concluindo que: "Os sistemas de vias de nossas cidades
de hoje são heranças das eras passadas, quando elas eram traçadas para
pedestres e veículo de tração animaf29.., atualizou o repertorio de Moreira,
sinalizando à necessidade de soluções modernas.

Com o maior sentido da Ilha se desenvolvendo ao longo do continente, a


configuração de um sistema longitudinal de circulação abriria a possibilidade de um
maior número de opções de acessos transversais. Roberto Conduru, parecendo
estar, por similitude, se referindo ao plano de Corbusier para a Universidade na
Quinta, sintetiza esta situação numa interpretação da leitura que fez do plano de
Moreira. "{ ... ] o espaço tinha sido concebido como parque continuo, atravessado
pelas tramas independentes das vias de automóveis e pedestres, conectando os
edifícios, tratados como volumes isolados". (CONDURU, 1999, --)

Na realidade o desejo de Conduru era de que a solução de Moreira para a ltha


estivesse no padrão proposto por Corbusier para a Quinta. No entanto não estavam
presentes, o grande eixo imaginário cruzando os edrticios e os imponentes espaços
abertos, mas tinham em comum a natureza vizinha e exuberante de um, nas
l montanhas e de outro, no mar e nas montanhas. A consideração com a demanda

I
I
ambiental, constante preocupação na obra de Moreira, está marcadamente presente
desde os primeiros traços no plano da Uha, preservando topografias, margens e
r· vegetações das ilhas componentes.

I· [Link] Os Edifícios em 52

As apreciações e comentários aqui relatados foram feitos com base nos dados
da planta geral do primeiro anteprojeto para o conjunto da Cidade Universitária do

f Fundão.

Mais de 15 anos depois, as propostas de Corbusier e Lucio Costa para a


Quinta ainda eram as melhores e as mais atualizadas referências para pesquisa
sobre programa e planejamento fí sico de uma Cidade Universitária no Brasil. Mesmo

29
Carta de Atenas- 4° Congresso Internacional de Arquitetura- Atenas 1933 UFRGS
FACULDAD E DE ARQUITETURA
EIJBLIOTECA
11-

em situações de soluções e conceitos opostos como foram concebidosTos projetos

~
apresentavam uma importante variedade de elementos da nova arquitetura nas mais
diversas escalas, tanto para as edificações, como no grande espaço aberto e nas
circulações. A tarefa de Moreira na Ilha, começava com esse variado repertório à
l sua disposição e, já no primeiro plano, insinuava a idéia de parque único e continuo,
I reforçada pelas edificações pousadas no solo em pilotis.
r

Se no plano de lucio o sistema e os subsistemas se esclarecem e organizam


o conjunto, no plano de Moreira não existem os subsistemas e o esquema de
partição é direto e frontal, com o canal da grande avenida ao longo da Uha. Esta
condição repercute diretamente na definição da tipofogia dos futuros edifícios no
Fundão. Mesmo assim, essas heranças amparadas no conceito forte do "Parque
contínuo" ou do "Grande percurso" da Universidade da Quinta, poderiam ter sido
exploradas por Moreira com mais profundidade.

' Repetindo os componentes arquitetônicos dos edifícios de lucio para a


Quinta, dispondo em fita sobre pilotis as áreas dos departamentos, bibliotecas,
museus, laboratórios e administração, e os blocos de aula teórica, colados
transversalmente nos térreos destas fitas, o arranjo do conjunto não era ordenado
pelo mesmo percurso central e também não definia a privacidade de cada escola,
situação possível no esquema da Quinta. No Fundão se entende como possível a
setorização de atividades no nível do térreo junto aos pilotis, porém, em condição
aberta e sem privacidade.

Cidade Universitária na Ilha do Fundão - Detalhe do plano 52 - !a. tipologia dos edifícios
t
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11"

Cidade Universitária na Quinta da Boa Vista


Tipologias repetidas de Lucio Costa- Detalhe do Plano Lucio Costa (p . 46)

Na Ilha os conjuntos de edifícios dispõem-se isolados nos centros dos


quarteirões, compostos pelas mesmas peças do projeto de Lucia Costa , como os
grandes Centros da Faculdade de Medicina, Faculdade de Odontologia, Institutos
Médicos e Engenharia. Outros, apresentavam-se autônomos, mas compondo com
as mesmas peças, em menores dimensões, os demais Centros do conjunto.

Todos estes componentes, com exceção do Centro Residencial, estavam


dispostos na mesma direção, ou seja, em posição de destacada ortogonalidade com
a Avenida Central. Esta condição foi determinante no partido dos primeiros edifícios
construídos- o Instituto de Puericultura e o Hospital de Clinicas- cujas soluções de
arquitetura se desenvolveram em edifícios isolados nos centros dos lotes.

Os registros gráficos não documentam suficientemente, mas através de uma


análise cronológica se deduz que imediatamente após os projetos da Puericultura e
do Hospital, os edifícios da Engenharia e da Arquitetura foram projetados dentro do
mesmo conceito , no lugar de onde antes havia propostas de edificações compondo
conjuntos de elementos de tipolog ias repetidas.

o paisagismo encomendado a Burle Marx para o entorno dos edifícios da


Puericultura e da Arquitetura , reforça a tendência da unidade em lote isolado e dá
início à revisão da proposta inicial. As soluções de paisagismo, que poderiam ser
11 4

resolvidas dentro de uma mesma proposta formal em todo o Campus, são


diametralmente opostas e indívidua!tstas. No entorno do lnstituto de Puericultura, o
~
I paisagismo se estruturou em formas orgânicas e livres, contrapondo-se à rígida
geometria do edifício, que pelo pioneirismo talvez devesse evocar o mar e seus
movimentos. Na outra extremidade da Ilha, os jardins da Arquitetura tinham
finalidade didática, propondo a utilização das espécies mais representativas
brasileiras, dando ao estudante um conhecimento generalizado da nossa flora e de
seu emprego, como mais um elemento de arquitetura. Sua geometria seguia ao rigor
cartesiano do edifício , compondo canteiros, pátios, lagos e gramados com bambus,
arbustos, plantas aquáticas e de restinga, até os limites do lote, junto às vias do
entorno.

30
Cidade Universitária na Ilha do Fundão - Puericultura- Jardins de Burle Marx

30
CZAJKOWSKI, 1999, p. 132
115

Cidade Universitária na Ilha do Fundão -Arquitetura - Jardins de Surte Marx31


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32
Cidade Universitária na Ilha do Fundão- Jardins de Burle Marx - Arquitetura

Outros edifícios contemporâneos em fase de estudos e anteprojetos, como


nos casos do Centro Medico, Engenharia, Humanídades, Olímpico e Serviços

31
CADERNOS DE ESTUDOS FAU-UFRGS, n.20, p.7
3.2 lbid .. p.7
116

Gerais, mantinham as suas arquiteturas montadas ainda com alguns elementos


padronizados.

O plano de 52 concluiu-se entre edifícios dependentes e autônomos,


resolvidos em espaços limitados e infinitos. De qualquer maneira, a partição da ilha
inaugurava uma nova e longa etapa, motivando estudos e posteriores versões.
Estes eram os primeiros modelos e dados reais. apreciados na primerra avaliação
realizada em 54.

[Link] Primeira Versão em 54

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33
CZAJKOWSKI. 1999. p.130
117

O plano evoluiu com a melhor definição das dimensões e do zoneamento das


suas partes, quando passou a ser trabalhado com novos dados, como o número
mais exato e o perfil da população usuária - estudantes, professores e funcionários -
com os indices climáticos de insolação mais exatos, gráficos de ventos
predominantes, gabarito de altura em virtude da proximidade com o aeroporto do
Gateão e das melhores situações de ligação com o continente.

Também, a partir da revisão no plano de 52, o plano de 54 apresentou


importante alteração no sistema viário, com traçado mais adequado e dimensionado
de conformidade com as reais exigências do programa. A hierarquia insinuada
anteriormente, ficou evidente na proposta de 54, com a avenida central resolvida em
largura de seis pistas e extensão até os limites extremos do terreno, desde a ligação
com a Ilha do Governador, antes do Hospital, até depois da área das Engenharias.
As ligações transversais com os Centros de Arquitetura, Filosofia, Ciências e
Residencial nos extremos da Ilha, mudam ortogonalmente as direções através de
um sistema de rótulas planas.

Cidade Universitária na Ilha do Fundão


Detalhe do Plano 54

O que não fica claro é a importância do traçado da avenida que liga as duas
pontes - Osvaldo Cruz e Brigadeiro Trompowsky - pela borda interna da Ilha,
paralela ao continente que, neste segundo plano, apresenta as mesmas dimensões
da avenida principal atendendo tão somente as necessidades de apoio ou
simplesmente sendo uma via secundária.
11

[Link] Segunda Versão entre 56 e 60

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1- Prefeitura
2- Centro Biomédico
3· Centro Esportivo
4- Centro Residencíal
5 - Casa do Professor
6 - Centro d& Clências Jurídico-sociais
7 - Centro de Humanidades
8 - Reitoria e Aula Magna
9 - Centro de Ciências Exatas
10- Centro de Artes

Cidade Universitária na Ilha do Fundão- Plano Versão 56/60


Reprod uzido em Autocad a partir do original30

30
CZAJKOSWSKI. 1999, p. 130 (Original}
11 9
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A versão 60 do plano da Ilha, talvez seja o momento em que o trabalho de
Jorge Moreira atinge a maturidade. Passavam quase sete anos dos primeiros

I
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I
esboços de arquitetura, os quais evoluíram mesmo quando ainda eram poucas as
informações.

A frontatidade das partes da composição, esboçada de 49 a 52, estava


confirmada em 60, constituindo-se determinante na afirmação do sistema viário
r como elemento principal na ordenação do projeto urbano. Tratava-se de um sistema
único e direto, entre a circulação e as partes servidas em lotes bem caracterizados,
mantendo o zoneamento proposto em 52 . Comentando a respeito da relação entre
os edifícios e as vias no projeto de Lucio Costa para a Cidade Universitária na
Quinta, ROGERIO destaca que, "Ao eixo principal corresponde um caminho, um
canal que distribui a circulação de pedestre ao longo de toda a Cidade Universitária
através de conexões com eixos secundários a ele perpendiculares, que correm entre
as Faculdades". (OUVEIRA,1981, p.161)

A partir desta variante, a regularidade não mais existe, e o seu


desenvolvimento evidencia que também não são tão democráticas as conexões para
pedestre, pois não se tratavam de eixos secundá[Link] entre as escolas que partiam
de um eixo principal e sim de frentes para uma avenida central, em dimensões
diferentes e de acordo com as necessidades de cada curso. Desta revisão, a
estratégia que passa a regrar as arquiteturas dos edifícios, e que começa a substituir
a proposta inicial, é a de construções isoladas em meio de terreno. no lugar de
construções repetidas compostas com os mesmos elementos.

Confirmado o sistema viário em traçado de via central, determinando rigorosas


ortogonalidades, começam a se constituir e se impor novos elementos de arquitetura

~
como os acessos, fachadas. jardins e os espaços abertos das partes edificadas. Os
mesmos passam a ser valorizados. motivando novas alternativas e novos estudos
tipológicos dos edifícios.
I '
120

Cidade Universitária na Ilha do Fundão- Eixo de Acesso


Detalhe do Plano de 56160

Cidade Universitária na Ilha do Fundão- Volumetria e funcionalidade


Detalhe do Plano de 56/60
LI

[Link] Os Quatro Primeiros da Ilha

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Ilha Universitária - Esquema viário gerar1

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r O edifício que melhor caracterizou a qualidade da obra de Jorge Moreira foi o
Instituto de Puericultura, primeiro a ser construído no conjunto da Cidade
Universitária da Universidade do Brasil. Por esta obra, inicia a confirmação do plano
em partes autônomas, uma forte característica da segunda versão. Uma variedade

'~
formal bastante expressiva, interpreta um programa com grande diversidade de
componentes e recintos, composta pelo, Hospital, Ambulatório, Pupileira e Biotério.
O edifício deixa evidente a influência das soluções de arquitetura da Ville Savoye,
desde a sua implantação em centro de lote, soltando do solo, pelo pilotis, um volume

I
fechado e parcialmente vazado por aberturas quadradas em regular disposição.

31
XAVIER, 1991, p. 244.
122

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I[
I Cidade Universitária na ilha do fundão- Quarteirão do Instituto de Puericultura32

rl O projeto para o Hospital de Clínicas, atendendo a um programa para dois mif


leítos, destinado também para o ensino e às práticas de todas as especialidades
médicas, tinha amparo nas exigências de Jorge Machado Moreira na URGS em
Porto Alegre. O conjunto é composto por uma grande base em dois pavimentos para
os serviços e ambulatórios, retomando a idéia funcional do Hospital de Clinicas de
Porto Alegre, com fachadas reguladas como no Instituto de Puericultura. Uma outra
porção verticalizada com onze pavimentos em planta "duplo T', revisa a proposta em
"planta U" para o edifício do Minjstélio.

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33
Cidade Universitária na Ilha do Fundão - Maquete do Hospital de Clinicas

32
ETUB, 1953, p.24
123

O edifício da Facuidade Nacional de Arquitetura - FNA, por sua


representatividade e pioneirismo, foi a obra mais emblemática da produção de
Moreira. Era o primeiro produto dentro da nova arquitetura que materializava "o
abrigo do próprio ensino", onde Moreira procurou chegar o mais próximo possível de
seu projeto ideal, repetindo a solução de Corbusier para a sede do MESP, em
homenagem ao mestre passadas duas décadas.

34
Cidade Universitária na Ilha do Fundão - Croquis da FAU

O ideal racionalista do autor que se manifestou desde as soluções urbanas


mais gerais da Cidade Universitária, aparece na espacialização do contexto próximo
ao edifício, por suas vias, espaços abertos e jardins, entra na FNA e através de uma
adequada partição, resolve- com a mesma clareza e rigor- as suas necessidades
funcionais.

35
Cidade Universitária na Ilha do Fundão - Maquete da FAU

33
CZAJKOW SKI, 1999, p.1 47.
34
ETUB, 1953, p. 25
35
CZAJKOWSKI.1 999. p.148 .
124
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Cidade Universitária na Ilha do Fundão - Fachada mural da FAU 36

Os princípios de Corbusier estavam explícitos na obra de Jorge Moreira. Das


quatro tipologias recomendadas, evidencia-se na obra da FNA a conjugação de

l duas, sendo a porção horizontal composta por espaços, abertos e fechados, a

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exemplo da Villa Savoye e do bloco compacto e bem definido da Villa Stein,
presente na porção verticalizada da composição. As superfícies exibem toda a

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dimensão e caráter da fachada moderna, quando se mostram como peles que
vedam, protegem e comunicam o espaço entre as porções internas e externas do
edifício. São poucos os elementos encontrados que fogem às leis cartesianas, como
l a sutil curvatura da fachada mural e a permeabilidade, tanto horizontal como vertical ,
do hall principal em recorte sinuoso. São exceções que confirmam e realçam a
-
I regularidade do regramento espacial dominante na composição. O emblemático
perfil do Pão de Açúcar, que muito impressionou Corbusier e que sempre esteve
f presente em seus esboços, é igualmente encontrado nesta obra de Moreira,
l colocando assim a arquitetura como elemento que realça a paisagem , pelo artitrcio
l de enquadrar o céu , a montanha e o mar, captando suas imagens através das
l
janelas dos ateliês.
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36
Foto do autor, mar. 2003 .
L5

O conjunto da Escola Nacional de Engenharia, com programa para dois mil


alunos, foi resolvido por um sistema de nove blocos separados por jardins e
interligados por passarelas cobertas e abertas. As áreas correspondentes às
diversas especialidades do curso estão distribuídas num subconjunto de seis
pavilhões parafelos. com dois pavimentos, conectados por seus topos. no extremo
frontal com o bloco da administração - resolvido em pilotis aberto e quatro
pavimentos superiores - e no extremo oposto com o setor dos laboratórios pesados
-em altura de três pavimentos.

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37
Edifício da Escola de Engenharia da UNB - VtSta aérea do conjunto

38
Edifício da Escola de Engenharia da UNB -Vista aérea do conjunto

37
CZAJKOWSKI.1999. p.144.
38
lbid., p, 144.
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Cidade Universitária na Ilha do Fundao- Foto Sala de Aula 3 \t

Cidade Universitária na Ilha do Fundão- Croquis perspectivo intemo40

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Cidade Universitária na Ilha do Fundão- Foto da FAU4 1

39
Foto do autor, mar. 2003 .
°CZAJKOWSKI , 1999, p.27
4
41
CZAJKOWSKI, 1999, p.154
127

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Cidade Universitária na Ilha do Fundão- Planta Baixa Pavto Térreo da FAU42

13
Cidade Universitária na Ilha do Fundão - Planta Baixa Pavto tipo da FAU'

42
lbid. , p. 152
43
lbid., p. 153 .
128

Cidade Universitária na Ilha do Fundão


Pátio interno da FAU 44

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I

Cidade Universitária na Ilha do Fundão Transparências da FAU 45

44
lbíd ., p. 155.
45
lbíd. , p. 157 .
129

Se nas propostas anteriores de Lucio Costa e de Le Corbusier, as geometrias


dos edifícios não conformavam os programas e não deixavam clara a leitura da
função - porque os elementos de arquitetura eram padronizados e repetidos - no
Fundão, a presença da unidade passa a ser destaque quando resolve seus
programas em sede exclusiva.

As edificações da Praça Maior no Centro Cívico, do Centro Esportivo e do


Centro Residencial, são as excepcionalidades na composição. Na Praça Maior estão
confirmados os edifícios da Biblioteca e da Reitoria, em volumes independentes e
destacados em posição frontal ao eixo de acesso pela ponte Osvaldo Cruz,
ladeados pelo Museu do Conhecimento e pela Aula Magna. Este mesmo conjunto
estava presente na Praça da Reitoria do projeto de Piacentini para a Universidade
na Quinta, que procurava enquadrar um espaço único com as elevações dos
edifícios circundantes, conformando um dos acessos.

O Centro Esportivo e as Áreas Residenciais do plano da Cidade


Universitária.,dispostos ao longo das margens e delineados em direções diferentes
do sistema predominante, assumem também o caráter e a função de espaços de
contemplação e lazer à beira-mar.

Desde o primeiro projeto, o Centro Esportivo tinha no estádio seu elemento


principal, tanto pelo tratamento plástico diferenciado dos demais edifícios como por
sua localização em coincidência com o eixo de acesso peta ponte da Avenida
Trompowsky, com o continente e suas saídas pela Ilha do Governador. A
excepcionalidade não se refere tão somente ao plano maior em direções
diferenciadas, ela circunda e entra nos detalhes dos Centros quando propõe para o
Estádio Universitário uma estrutura de conformação elíptica e vazada como
convinha à paisagem da baía da Guanabara. Nesta versão o setor de Educação
Física recebe mais área para a instalação de quadras esportivas abertas entre os
setores Médico e Residencial.

Esta versão troca a paisagem frontal da tlha do Governador por uma melhor
orientação das unidades residenciais, sugerindo o mesmo privilégio paisagístico dos
ateliês da FNA em relação ao sol, a montanha e ao mar.
130

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Cidade Universitária na Ilha do Fundão- Estádio- Perspectiva parcia~

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Cidade Universitária na Ilha do Fundão- Autonomia Funcional


Detalhe do Plano de 56/60
46
lbid., p. 142.
131

No que se pode entender dos desenhos, no plano geral de 60, o setor


residencial continuava sendo resolvido em edifícios de tipologias repetidas, agora
em volumes de ediffcio-pfaca, todos situados em lote único, delimitado entre a
avenida e a praia, numa composição que finaliza um dos eixos transversais da
grande avenida longitudinal, no sentido Nordeste da Ilha.

Cidade Universitária na Ilha do Fundão- Área residencial


Detalhe do Plano de 56/60

Conceitos distintos daqueles inicialmente propostos para a Cidade


Universitária no Fundão, atinentes ao seu desenho urbano e suas futuras
edificaçôes, o plano de 60 consagra as construções no meio de grandes jardins ,
isolados dos demais por vias e acessos, confirmando definitivamente o lote como
unidade. De certa maneira esta condição expressava, ainda na maioria dos casos no
Fundão, a unidade universitária para as escolas, faculdades e institutos, em suas
sedes e seus domínios, segundo o conceito federativo vigente. Ao contrário dos
edifícios propostos no plano inicial, que tinha as únicas referências nos planos de
Lucio Costa e Corbusier para o mesmo programa, onde a maioria dos espaços,
independentemente dos diferentes cursos, mantinha as mesmas estruturas e
características físicas.
132

Jorge Machado Moreira chefiou o projeto no ETUB até 1962. Devido a um


acidente foi obrigado a interromper esta atividade, deixando concluídos o Instituto de
Pediatria e Puericultura- IPP, o Centro de Tecnologia- CT, Hospital Universitário-
HU, Faculdade Nacional de Arquitetura- FNA, a Gráfica e parte do Alojamento de
Estudantes.

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Cidade Universitária da Ilha do Fundão - 1° etapa 196247

Estava assim finalizada a primeira etapa e a atuação de Jorge Machado


Moreira na chefia e autoria do projeto de implantação da Cidade Universitária da
Universidade do Brasil.

47
XAVIER, 1991 , p. 244.

l
133

[Link] A Repercussão da Reforma de 66

O inicio de um movimento espontâneo de reforma na Universidade Brasileira,


coincide com o afastamento de Moreira. Após amplo inquérito entre os membros da
Universidade e em vários setores da comunidade, o mesmo resultou em um primeiro
documento, denominado "Diretrizes para a Reforma Universitária".

Em obediência à legislação reformista, que em 1966 se iniciava no âmbito


federal, a Universidade Federal do Rio de Janeiro, valendo-se dos estudos
realizados a partir de 62, foi a primeira a apresentar um Plano de Reestruturação e
um Estatuto, já adaptados às novas idéias, introduzindo as seguintes modificações
na política educacional: extinção de Disciplinas; fortalecimento dos Departamentos
como menor sub-unidade de execução do ensino e da pesquisa; definição das áreas
e setores de conhecimentos; criação dos grandes Centros agrupando unidades
escolares do caráter cientifico, filosófico. artístico, literário ou profissional; constante
adequação dos cursos à demanda do mercado de trabalho e às exigências do
desenvolvimento do pais; currículos versáteis; regime de habilitação por disciplina;
ensino e aprendizado constituindo processo único, realizado em comum por mestres
e alunos, exigindo cooperação, harmonia e convivência prolongada, somente
propiciada pelo regime de dedicação exclusiva; participação do corpo discente na
pesquisa; desenvolvimento da pesquisa básica, filosófica e tecnológica; criação
literária e artística; realização de exames vestibulares unjficados; registro central de
estudantes.

Os verdadeiros objetivos da reforma exigiam uma estrutura física adequada,


representada por um "Carnpus 11 integrado, urna antiga aspiração da Universidade.
Após a Revolução de 64 , passaram para a Universidade os encargos de planejar,
projetar. executar e fiscalizar as obras e serviços de implantação deste Campus. A
partir desta data, o Plano Diretor da Cidade Universitária da Ilha do Fundão, foi
totalmente reformulado , para se adequar ao espírito da Reforma e às metas
educacionais do Governo. A ênfase passava a ser as áreas da ciência, tecnologia,
saúde e da formação de novos professores. Estas novas diretrizes repercutiram
· diretamente nos dados de base do projeto, onde os 1.000.000,00 de m2 de
134

construção estimados no primeiro plano do Fundão, depois de revisados,


transformou-se em 750.000,00 m2.

4.4.2. 7 A Versão 70

1- Reitoria
2 - Centro de Ciências
Matemáticas e da Natureza
3 - Centro de Letras
4 - Centro de Filosofia e Ciência Humanas
5 - Centro de Ciências Jurídicas
Econômicas
6 - Centro de Ciências Medicas
7 - Centro de Tecnologia
8 - Conjunto Desportivo
9 - Casa do estudante
1O - Zona residencial de estudan es
11 - Zona residencial de funcion rios
12 - Restaurantes
13 -Zona Comercial
14- Zona de Serviços Industriais

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A -Asilo dos Inválidos da Pátria
B - Instituto de Engenharia Nucle r
C - Centro de Pesquisas da Petrdpras
Cidade Universitária na Ilha do Fundão - Plano de 72 48

48
Centro de Estudantes Universitários de Arquitetura- UFRJ, 1972.
135

Uma exposição de motivos formulada em conjuntr ,)elos Ministérios da


Educação e Cultura, Planejamento e Coordenação Geral e da Fazenda, em janeiro
de 70, estabeleceu o Plano de Obras Prioritárias na Universidade do Brasil para o
triênio 70!72. Tinha como principal objetivo, atender a nova demanda das 3674
disciplinas dos 148 cursos, para os 173 departamentos das 41 unidades, com a
construção de pelo menos 60% de sua área total programada. Esta oferta passou a
ser atraente também para estudantes de outros paises, o que lhe atribui o caráter de
significado internacional.

Visando enriquecê-la com instituições cientificas e culturais - pela


complementação ou integração das próprias atividades da Universidade, mediante
convênios de cessão de uso de áreas de terreno - foram localizados na Cidade
Universitária, a partir do inicio dos anos 70, o Instituto de Engenharia Nuclear da
Comissão Nacional de Energia Nuclear e os Centros de Pesquisas e
Desenvolvimento da Petrobrás, Eletrobrás, da Cia. Vale do Rio Doce e da Cia. de
Pesquisas de Recursos Minerais.

Acentuava-se na Universidade o interesse pela pesquisa e a sua conseqüente


aproximação com algumas empresas. Também havia a necessidade da Cidade
Universitária se tornar funcionalmente autônoma em relação à cidade do Rio de
Janeiro, com a possibilidade de participação de alguns segmentos da iniciativa
privada . como lojas. restaurantes e hotéis, idéia debatida desde os primeiros
estudos. Ambas as situações, quase que simultâneas, repercutem diretamente no
plano pela necessidade de estruturas físicas adequadas, motivando assim a primeira
revisão de porte desde o seu programa original.

A vocação da Ilha para atender o programa originalmente proposto pode ser


comprovada com os dados divulgados pelo Escritório Técnico, demonstrando que
em três anos o numero de matriculas duplicou na Cidade Universitária, passando de
3.769 em 69 para 7.706 em 72. Entretanto, o surgimento de novas necessidades no

r programa, alterou significativamente a sua composição urbana com reflexos no


conceito de ambiente exclusivamente universitário
136

Como nas versões anteriores. a abordagem se situa nas arquiteturas dos


edificios e sua coerência com a composição urbana da Cidade Universitária,
analisando a metamorfose do plano e de suas partes construídas, em relação ao
novo programa. A versão do plano desenvolvida na década de 60, estabeleceu
definitivamente o contorno da área edificâvel na Ilha em função da faixa das
preamares, cujos dados já estavam à disposição do projeto desde os primeiros
estudos. Mantida a estrutura básica com o traçado viário, alterou-se apenas alguns
aspectos pontuais em sua composição. No extremo Sul da Ilha a novidade ficava por
conta de uma área de exclusão com destino desconhecido e da inclusão de um
núcleo residencial para funcionários junto à área da FNA, originalmente destinada ao
Jardim Botânico da Universidade. No seu extremo Norte, o recuo das margens
provocou uma revisão na disposição dos edifícios do Centro Residencial de
Estudantes e Centro Esportivo.

Num estudo para esta versão- ou "Plano de Conjunto" como foi identificado
na época e que supostamente tenha sido desenvolvido a partir do início da década
de 60 - já faziam parte, o Centro de Pesquisas Tecnológicas em Petróleo e alguns
estudos de localizações de equipamentos urbanos complementares como hotel,
shopping . restaurante e clube náutico. O projeto idealizava assim o inicio de uma
nova etapa de implantação do Campus.

[Link] Os Edifícios em 70

A Reforma Universitária de 66 destacava a relação entre os cursos pela


integração interdepartamental, o que reforçava o conceito de Campus como
elemento físico unificador de todas as áreas do conhecimento. Os usos dos espaços
comuns como as salas de aula teórica , anfrteatros e serviços poderiam ser
otímizados e, se dimensionados adequadamente, resultaria em uma significativa
redução da área total construída. O que, em conseqüência repercutiria diretamente
no plano e nos seus edifícios até então pensados de maneiras diferentes.
Conceitualmente esta proposta se opunha à de Lucio Costa para a Quinta, onde o
curso ainda era identificado pela unidade universitária e o projeto estabelecia para
cada escola soluções de arquitetura adequadas ao atendimento das suas
especificidades, caracterizado por conveniente isolamento e resguardo das
137

unidades, independência entre departamentos na mesma unidade. maleabilidade de


planta, articulação direta entre departamento e aula, acessos independentes e pátios
como espaços de ambiência do curso. de acolhimento e proteção.

A reforma enfatizava a relação interdepartamental e esta matriz era


determinante para a constituição de uma estrutura física adequada. A unidade de
medida passava a ser o departamento composto por gabinete para a chefia e
espaços de secretaria e reuniões, que poderiam ser de uso comum.

Se o plano de Lucio deixava de ser padrão para Moreira, por causa da reforma
as suas soluções arquitetônicas em volumes repetidos e padronizados poderiam
cont1nuar sendo. A desmontagem da unidade e a promoção do departamento, eram
novos parâmetros no dimensionamento físico da Universidade. O repertório da
Quinta poderia ter sido acionado.

Em todos os aspectos, a Reforma foi o fator de transformação física na


Universidade Brasileira no final dos anos 60. Depois de revisado, o programa passou
a ser composto por Centros, cada Centro composto por cursos que se relacionavam
por afinidades de currículos e assim denominados; Centro Biomédico, Centro
Esportivo, Centro Residencial de Estudantes, Centro de Ciências Jurídico, Sociais e
Econômicas, Centro de Humanidades, Centro de Ciências Exatas e Tecnologia,
Centro Artístico- Musical e o Centro de Pesquisas Tecnológicas em Petróleo.

O caminho já tinha sido traçado anteriormente nas arquiteturas dos primeiros


edifícios. Em todos os estudos de projeto. para as futuras construções no Fundão.
ainda sob a influencia de Moreira, as tipologías sugeridas reviam os princípios da
composição que tinham dado certo em 52 . Afinal a arquitetura do edifício da FNA
tinha recebido o primeiro premio na categoria de edifícios públicos, na Exposição
Internacional de Arquítetura da IV Bienal Internacional do M.A.M. de São Paulo em
1957. O júri era composto pelos arquitetos Mareei Breuer, Philip Johnson, Kenzo
Tange, Jakob Mauricio Rutchi, Mario Henrique Glycério Tôrres e Francisco Beck, e
se manifestou em ata assim redigida. "Este trabalho atinge um nível de qualidade
digno de um edifício publico. Mais uma vez a disciplina na ordenação da fachada
impressionou o Júri. O edifício em questão formará parte excelente do conjunto da
13

Cidade Universitária tal como esta planejada". (Cadernos de Estudos- FAU-UFRGS,


n. 20, p. 01)

Na arquitetura destes novos centros, predominava a composição dos


elementos horizontais e verticais em marcante contraste, sugerindo pela vofumetria
a identificação das funções, fluxos e características espaciais internas. Cada Centro
era composto por subprogramas de cursos afins, distribuídos em espaços de
atividades compartilhadas para as atividades do ensino prático, Área Administrativa,
Auditórios, Museus e Biblioteca, fazendo a montagem das compactas porções
horizontais em pavimento térreo e superior, vazadas para a luz em pátios internos. O
bloco vertical resolvido em planta fita com circulação central, atenderia de um lado
as safas teóricas, alguns laboratórios especializados e de outro, os gabinetes, salas
de professores, secretarias e serviços.

Considerando os objetivos da Reforma, esta seria ainda uma solução no


mínimo questionável. A resposta física construída em edificações isoladas não
correspondia ao novo caráter universitário preconizado, principalmente na
funcionalidade do Campus. O mesmo necessitava ainda de soluções arquitetônicas
mais objetivas que possibilitassem a otimização no uso do espaço, como por
exemplo , a centralização das safas de aula teórica comum por grupos de Centros,
também a setorização de anfiteatros e dos serviços de apoio, em condições de uso
comum. Na partição destes Centros, poderiam ter sido cometida uma repetição de
recintos que, se compartilhados racionalmente entre os cursos, acarretariam em
importante redução de áreas. Assim, cada Centro era um individuo, que na
composição da Ilha se destacava no meio do quarteirão com jardins ao redor, como
a autonomia anunciada por Corbusier no seu plano para a Universidade na Quinta
da Boa Vista, sobre a qual Rogério se refere como,"[... ] a cisão entre a organização
e os elementos da cidade. A organização é transparente, o elemento é opaco.
Cidade e edifício se separam, e com isto separam-se os próprios edifícios".
(OLIVEIRA, 1981, p. 161)

Estava totalmente assumido o esquema compositivo de Corbusier, como


comenta Conduru em Razões ao Cubo,
l39

Na tipologia de volumes recomendada por Le Corbusier, Jorge Machado


Moreira se concentrou no grupo de "composition cubique {prisme purr.
Alternando entre o tipo "trés difficile (satísfatíon de I' esprít)", ilustrado com a
Villa Stein e o tipo "trés génereux", demonstrado com a ViUa Savoye.
{CONDURU, 1999, p. 25)

Embora o que pode ser considerado como dísfuncionalidades no


planejamento geral da Cidade Universitária do Fundão, todas as suas versões de 52
a 70, buscaram também seus códigos nas obras consagradas para os programas
similares de Madrid, México e [Link], confirmando a plena assimilação das
regras internacionais da arquitetura moderna, à feição brasileira.

Posteriormente, a Cidade Universitária sofreu várias ocupações,


desordenando o concerto de "Universidade em lugar e ambiente único", de ate
então, com algumas soluções isoladas para programas avulsos, o que dá origem a
um novo caráter da sua composição arquitetônica a partir de 72.

4.5 DE 70 À ATUAUDADE

A última tentativa de ordenação urbana no Fundão, foi o estudo para o seu


Plano Diretor em 72, propondo reduzir substancialmente a área comercial, na troca
de uma melhor localização dos Centros de Ciências Jurídicas, Sociais e Econômicas
e do Centro de Humanidades, antes distribuídos ao longo da margem interna
paralela ao continente. Nesta área, ao longo da avenida central situam-se o
Restaurante Universitário, uma sede da Eletrobrás, o entorno da Arquitetura, que em
66 foi considerado como área de exclusão e agora se destinava aos Institutos de
Energia Nuclear e de Engenharia Naval. Em 70 margem interna da península da Ilha
de Bom Jesus, no extremo Sudeste da Uha, estava prometida para o Asilo dos
Inválidos da Pátria.

Já estavam concluídos, o Centro de Ciências Médicas, o Centro de


Tecnologia, a Faculdade de Arquitetura do Centro de Letras e Artes, o Centro de
Ciências Matemáticas e da Natureza, parte do Centro Olímpico e do Alojamento de
Estudantes, a Zona de Serviços Industriais e o agregado Centro de Pesquisas da
Petrobras. O material disponível sobre os projetos dos agregados, restringe-se a
uma planta geral, onde se procura identificar aspectos nas arquiteturas dos seus

- -- -----------------------------------
140

edifícios mais recentes, como localização e orientação, em convivência com uma


pré-existência de duas décadas atrás. Permaneciam, a estrutura urbana original e a
arquitetura dos edifícios propostos anteriormente para a área acadêmica e a
consideração de que nada impedia o convívio dos novos programas de caráter
empresarial com os demais do conjunto.

Fazia parte do relatório de atividades, do período de - 1977 a 1981 - da


Universidade Federal do Rio de Janeiro, um questionamento ao usuário sobre a
desproporcional relação entre os edifícios e o espaço aberto, que passou a ser
determinante no comportamento coletivo das 23.000 pessoas na Ilha. Em 84 era
consenso que, na Ilha tudo funcionava de forma estanque devido às distâncias entre
os prédios e, os que nela trabalhavam e estudavam sentiam-se isolados uns dos
outros. No mesmo ano, o Sub-Reitor de Desenvolvimento, Prof. José Geraldo da
Cunha Camargo, criava novas expectativas através do Plano de Desenvolvimento
Universitário para o triênio 83 I 85, dando oportunidade para toda a comunidade
universitária opinar, formando um inventário de sugestões e prioridades, desdobrado
posteriormente em planos de ações anuais. O Prof. José Geraldo defendia a
"Humanização do Campus", porque entendia que, tanto os edifícios construídos
como os somente projetados, se dispunham ainda de modo bastante esparso, desde
o antigo plano, comprometendo cada vez mais a necessária integração entre a
comunidade acadêmica.

Algumas soluções foram tentado, como a implantação de um Centro de


Vivência, ligado às áreas de Jazer com infraestrutura de comércio, programado e
dimensionado conforme os anseios do inventário. Este Centro seria executado sem
ônus para a Universidade com a participação de grupos empresariais em licitações
abertas para a finalidade.

Outro projeto sem dispêndio foi o Centro Olímpico - resultado de algumas


orientações e estudos do Comitê Olímpico Brasileiro- COB -.instalando um centro
de treinamento esportivo no Rio, com o objetivo de melhor capacitar o atleta olímpico
no País. O projeto envolveria as instalações já existentes da Escola de Educação
Física , do Hospital Universitário e do Instituto de Nutrição no Centro Médico.
141

Um terceiro empreendimento denominado de "Projeto Catalão" ligado ao


Centro de Pesquisa Interdisciplinar, e que chegou a ter suas obras iniciadas em 83,
tinha a proposta de transformar as três toneladas de lixo do Campus em adubo
vegetal através de um Bíodigestor.

As novas edificações preencheriam os vazios entre as existentes e, em


decorrência, serviriam para aglutinar as pessoas. Com soluções pontuais, este
procedimento somente iria amenizar os efeitos da imponente dispersão no Campus,
não se constituindo em suficientes instrumentos para uma legítima e necessária
revisão, num conjunto urbano com a importância e o porte do Fundão. Dos três
empreendimentos o Centro Olímpico foi parcialmente implantado.

A Ilha da atualidade é uma paródia em que a legítima arquitetura restringe-se


aos seus primeiros edmcios, construídos num meio onde o que veio depois, parece
esgotar-se em tentativas isoladas. Permanece a mesma estrutura urbana em única
via longitudinal com as transversais nos seus extremos, agora totalmente
descaracterizados dos traços originais de projeto, com edificações que parecem
avulsas e resolvidas "a cada um por si". O tempo gasto na constante preocupação
com a escala demasiada, pode ter faltado para as devidas revisões do plano em
suas versões.

Numa comparação direta entre a última versão do plano em 1972 e o atuat -


aqui datado de 2002 - ou seja, 30 anos após - tem-se a certeza de que a
"arquitetura", depois de Moreira, nunca mais foi ouvida na Ilha. Este não é um
questionamento aos profissionais do Escritório Técnico da UFRJ, mas às mesmas
omissões administrativas que, por um período, também ocorreram na UFRGS,
principalmente após a implantação da primeira etapa do Campus do Vale no fim dos
anos 80, pela índefinição de uma política de gerenciamento do espaço físico
universitário.

O programa original foi atterado e, gradativamente estava se desconfigurando


a Ilha acadêmica com os seus edifícios universitários isolados nos centro das partes.
O que antes, em 72 , estava destinado ao Instituto de Engenharia Naval junto às
margens Sudeste da Ilha, hoje é um loteamento popular; toda a península da antiga
142

Ilha de Bom Jesus está ocupada por um desordenado conjunto de construções de


uso militar, antes somente prometido para as instalações do Asilo de Inválidos da
Pátria do Ministério do Exercito; a Companhia Metropolitana do Rio de Janeiro, na
Praia da Amendoeira , ao Norte da Ilha - reduziu as áreas do Alojamento e Clube
Universitário, hoje com dois pares de edifícios construídos, dos 12 originalmente
pensados.

A Cidade Universitária da UFRJ é na atualidade, o abrigo de algumas


atividades acadêmicas e muitas outras afins. O incremento no interesse pela
pesquisa , gerou novos Centros e Institutos, hoje identificados como módulos
acadêmicos I, 11 e 111. À área acadêmica, acrescentou-se o edifício da Faculdade de
Letras, única construção pós 70 que insinuou os princípios da composição de
Moreira, de repetição e disposição volumétrica entre espaços abertos internos, com
os mesmos elementos básicos que resolveu as arquiteturas da FNA, do Centro de
Tecnologia e do Instituto de Puericultura. Guardadas as devidas especificidades, os
outros edifícios construídos, pós 70 , para os Centros e Institutos destinados às
atividades de Pesquisa na Universidade, são desfiguras em qualquer tentativa de
harmonização com a preexistência construída e consagrada pela arquitetura dos
primeiros quatro. Exceto a fase inicial do projeto do Centro da Petrobrás, de Sergio
Bernardes - num rigoroso partido radial e simétrico - as demais sedes resultaram em
construções desordenadamente esfareladas, como as do Instituto de Engenharia
Nuclear, do Centro de Pesquisa da Eletrobrás e da Fundação Bio Rio .

49
Cidade Universitária na Ilha do Fundão - Zoneamento atual em módulos acadêmicos

49
Disponível em : <[Link] .[Link]>. Acesso em out. 2003.
143

Diante de uma diversidade funcional tão intensa, a transfiguração era


inevitável. A coerência entre os novos projetos e os valores arquitetônicos já
adquiridos na Ilha, sempre defendida nas três versões anteriores, num quarto
momento não foi mais priorizada.

1- Prefeítura
2-lnstíttlto de Puericultura e Pl;âíatria
3- Hospítal Universltãli<>
4- Fundação de Odon!ologia 12 ~Estação M~temológlca da Ul!ftJ
5- Centro de Clê[Link] e Saude 13- Centro de Ciências Matemáticas
6- Fundação Sio Rio 14- Centro de Tecnotagia da UFRJ
7- Alojamento Unlversítârio da UFRJ 15 - Faculdade de Letras
8- Cia, Metropolitano do RJ 16 - Instituto de Engenharia Nuclear
9- Escola de Educação Flslca e Desportos 17 - Reitoria
10 ·Centro de Pesquisa de Energia Elêtfíca 15 - Centro de Tecnologia Mineral
11 -Centro de Pesquísa e DesenVOlvimento da PETROBRÁS 19- Setvíços Gerais
-----------~--------

Cidade Universitária na Ilha do Fundão- plano de 70 a atualidade 50

r ;

50
Arquivo do Escritório Técnico d a Universidade- Divisão de Projetos - UFRJ

I
5 A NOVA PRECEDÊNCIA

Desde os primeiros estudos para a Cidade Universitária na Ilha do Fundão, já


estava disponível um acervo de obras similares de histórias diferentes, na Europa e
nos vizinhos latinos. Algumas confirmavam a forte relação com a sociedade na
construção de um novo patrimônio nacional, como no caso de Caracas, que
inaugurou a fase latino-americana das Cidades Universitárias, em 44, com
ViUanueva reforçando valores urbanos tradicionais como a praça, a rua e o pátio,
diretamente relacionados com o clima, vegetação, luz e cor. Outras, representantes
dos ideais e das aspirações de uma sociedade, como no México, onde o Campus
seria o lugar de criação do novo mexicano. No projeto para o Campus de Madrid, a
geração de 25 insinuava o início da renovação arquitetônica na Europa. Estes
projetos não ficaram no papel, são obras que confirmaram seus conceitos.

A fase brasileira mais recente do projeto da Cidade Universitária parece ter


esquecido a importância da base conceitual, partiu logo para o plano urbano e seus
edifícios. Donato Mello Jr. colega e colaborador de Jorge Moreira, alternando suas
atividades entre a docência e o trabalho prático de projeto no ETUB, em algumas
reflexões teóricas a respeito, salientava a sugestão de Capanema " ... primeiro se
devia conceituar a universidade e, em seguida, projetar a sua construção". Donato
concluiu, entendendo a Universidade como uma instituição de corpo "Campus", um
espaço com certo isolamento e resguardo para suas elevadas finalidades,
manutenção e cultivo do seu espirito "Universitas". A tarefa de resolver o plano para
a Cidade Universitária na Ilha do Fundão tinha prazo político. Com isso, a pressa
queimou etapas do processo de projeto, provavelmente dispersando a busca pela
consistência conceitual pretendida pelo Ministro.

Um mostruário muito rico de elementos de arquitetura estava à disposição de


Moreira nos planos para a Universidade na Quinta da Boa Vista. Elaborados em
bases concretas e consistentes conceitos, foram experiências que interessaram

I
L
como fonte de dados na ordenação e no ajuste do programa para a Universidade na
Ilha. Por Corbusier, se revelava a valorização dos componentes naturais da
paisagem como um artifício de preservação conceitual do elemento urbano
autônomo. Autônomos também eram seus edifícios. Lucio estimulava o significado e
a importância da percepção na obra, por meio de eixos visuais e reais, explorando
os percursos como Jugares com paisagens criadas, estimulando o passante a
sensações diversas. A monumentalidade, característica da obra moderna, foi
explorada por Piacentini & Morpurgo, propondo uma reciprocidade de encontros
entre vias e edifícios, destes com as praças e das praças com as vias, privilegiando
visuais para os conjuntos dos núcleos universitários.

Esta era a maior obra brasileira que até aquela data tinha safdo da prancheta
de um arquiteto defensor e praticante da nova arquitetura. podendo se constituir em
marco, num dos notáveis momentos da AMB, que, segundo Comas, era a fase
transitória entre a sua hegemonia e sua mutação. Como condição especial, a
exemplo da maioria da produção moderna brasileira, a nova obra no Fundão tinha a
oportunidade de participar do elenco de obras emblemáticas de histórico
compromisso com o ensino. Esta conexão é assim comentada por Ruth,

[ .. .}A arquitetura moderna sempre se caracterizou sua intenção "exemplar"


pelo didatismo; os grandes mestres pioneiros foram , além de arquitetos,
professores e dívulgadores das novas concepções. Dessa maneira, cada
obra dos pioneiros da modernidade tendia a não se bastar, mas igualmente
visava reforçar uma atitude de explicitação clara dos novos valores,
chegando às vezes ao panfletarismo. (ZEIN, 2001 , p. 37)

Pode ser difícil estabelecer em que grau o projeto do primeiro Campus


moderno brasileiro assimilou os dados disponíveis acima descritos, mas é certo que
a indefinição - quando não conseguiu sustentar o conceito de edifícios padronizados
em parque continuo do primeiro plano, solução muitas vezes ideal à obra pública-
deu origem formulada em edifício isolado no centro de lote, que no caso do Fundão,
o tamanho da Ilha e sua solução urbana ainda não permitiu unir.

O projeto da Ilha do Fundão, é significativo como marco que inaugurou a


espacialização de um programa relativo ao lugar da academia, seus recintos e pré-
requisitos. dentro dos conceitos modernos da arquitetura e do urbanismo no Brasil.
146

Por onde se passaram experiências, cujos resultados, favoráveis ou não, foram


fundamentais para o planejamento e implantação de algumas soluções urbanas nas
décadas de 60 e 70. O plano para a UFRGS no Vale da Agronomia que, dentro de
uma outra realidade econômica e política no País, buscou o caminho da
racionalidade do espaço e da construção, foi resolvido por uma arquitetura
simplificada entre recintos padronrzados e elementos pré-moldados. Mas o fato de
maior significado esteve por conta de Lucia Gosta anteriormente, quando - em
entrevista a Matheus Gorovitz (2003)- critica com veemência o projeto no Fundão,
destacando a sua descontrolada escala, mas provavelmente assimilando como
alerta para o seu controle em Brasília.
147

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