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ITICA LITERARIA
Brunel, Madelénat,Gliksohn,Couty ‘
a
Universidade hoje
PMO MU(ereN
LITERARIA
aoa OR Vet ete
[Link], D. CoutyApresentagio de Machado de Assis — I. Teixeira
literatura hispano-amerieana— J. Joset
io helenistiea — P. Petit
Aliteratura grega — F. Robert
A relighio grega — F_ Robert
A psicotogia social — J. Maisonneuve
Oineonselente — J.-C. Filloux
Accriticaliterdria — P. Brunel, D. Madelénat, J.-M. Gliksohn e D. Couty
Em preparagio
As teorias da personalidade — S, Clapier-Valladon
‘A economia dos E.U. George
Sociologia do direi y-Bruhl
As primeiras civilizagoes do Mediterrneo — J. Gabriel-Leroux
Historia dos E.U.A. — R. Rémond
Literatura brasileira — L. Siegagno Picchio
Alidéia de cultura — V. Fell
Universidade hoje
ACRITICA
LITERARIA
PBrunel, [Link]énat,
[Link], D. CoutyTituto original
LA CRITIQUE LITTERAIRE
Publicado por: Presses Universitaires de France,
col. Que sais-je?
© Presses Universitaires de France, 1977
1! edligdo brasileira: junho de 1988
Tradugdo: Mazina Appenceller
Revisto da tradupdo: Alexandre Soares Carneiro
Revisto tipogrdfica: Coordenagao cle Mauricio Balthazar Leal
Producio gréfica: Geraldo Alves
Composicio: Astel — Artes Grificas
Ante-final: Moacit K. Matsusaki
Ademilde L. da Silva
Capa — Projeto: ME
Tlustragéo: Vilio Pomar, Edgar Poe, Charles Baudelaire
cet le corbeati, 1982
Todos os direitos para a lingua portuguesa reservados &
LIVRARIA MARTINS FONTES EDITORA LTDA.
Introdugio (P. Brune!) .
CAPITULO I — Deserever (P. Brunel)
1. “Sine doctrina”, 7
HL, Aistéeles, 9
LL As artes pottcas, 12
IV, Aristeles tradurid e trado, 14
V. A pottica segundo Paul Valéty, 17
VIL A pottiea hoje, 19
CAPITULO II — Saber (D. Madelénat)
1. Arqueologia, 27
1. O primeco séeulo XIX, 32
HL Sainte-Beuve, 40
IV. O segundo séoulo XIX ou a era postvsta, 47
V_ A histéria ltrdria moderna, 52
CAPITULO III — Julgar (.-[Link]) «.
1. O mundo da critica, $9
IL Impressionism identiticagdo, 67
IL. Douteinas,opinides, prevoncetos, 72
59
CAPITULO IV — Compreender (B. Coaty) veeseseses 79)
1. Rumo a uma cifncia da fiteraura, 80
HL A anise da narrativa, 99
UL Varies sobre o tema, 98
IV. Compreender © qué?, 101
CAPITULO V — A critica em questo (P. Brunel) .... 105
1. A época das polémicas, 105
HH, Situagao da evtca Herd
UL. A tentagdo psicanaliticay 111
IV. Uma crise da eritea?, 115
108
Bibliografia sumdria .... 117Introducao
£ um lugar-comum lembrar esta pretensa caracteristica
( proprio autor que dizem ser o melhor represen-
‘ante do espirito francés naquilo que ele tem de contestador,
Voltaire, teve 0 cuidado de observar que, no passado, no
século XVI € mesmo no século XVII, “os literatos dedica-
vam-se bastante 2 critica gramatical dos autores gregos
é trabalhios que devemos os dicionérios, as
edigdes corretas ¢ os comentiirios sobre as obras-primas da
Antigtidade”’. Assim, @li@eSeteViaiaeritica a0 Como]
‘principal exigencia cont
muava a ser 0 discernimento.
Discernimento, critica: palavras da mesma familia, E
se, tal como aqueles criticos gramaticos, remontarmos a0
etymon, encontraremos 0 termo latino cemere € 0 grezo
krinein, que significavam, principalmente, “separar”, “dis-
tinguir”. O essencial da operacao critica deveria ser, portan-
to, separar 0 joio do trigo. Percebemos imediatamente algu-
mas aplicagdes deste principio. No que toca atribuicéo,
por exemplo: separar a obra auténtica da multidao das ap6-
ctifas (ndo faz muito tempo, alguns criticos profissionais
se deixaram enganar por uma falsa Chasse spirituelle, de
Rimbaud, publicada por Pascal Pia, ¢ isso, segundo Claude
‘Mauriac, “atingiu a critica em sua prdpria existéncia’"). Ou
ainda,
ou
seja, no aquela que agtada ao “editor” (as “tropas arma-
das”, num célebre pensamento de Pascal), mas aquela a
1. Durante um debate no ridio, em 21 de maio de 1949. Citado
por Bruce MORRISSETTE, Le Bataille Rimbaud, Nizet, 1959, p. 192.. apés um pa-
que se chegow apés uma pesquisa minucio:
ciente trabalho de decifragio (as “carrancas armadas”)
‘Afinal, 0 grande pergo de qualquer entica 6 confiar
apenas no critério do gosto, o que resulta numa curiosa
diminuigdo da atividade critica, que consistiré apenas em
julgar as obras do espfrito para separar os eleitos dos maldi-
tos, ou, mais exatamente, os que elegi dos que amaldicoei.
La Brayére disse com razio: “Entre os homens hé bem
mais vivacidade do que gosto; ou, para ser mais preciso,
so poucos os homens cujo espirito € acompanhado de um
gosto seguro ¢ de uma critica judiciosa.”? Contudo, justa-
‘mente no momento em que julga a critica, ndo pode evitar
conceber a critica como julgamento. Esta € uma tendéncia
tao poderosa que chega a orientar até as tentativas de defini-
Gao. Para Emile Littré, a critica literdria é “a arte de julger
as produgdes litersrias”, 0 critico é “aquele que julga as
obras do espfrito”, e uma critica € “o julgamento produzido
por um critico”. Esta onipoténcia do critico tem algo de
inritante, e podemos compreender que C. S. Lewis tenha
comegado [Link] Experiment of Criticism tomando a defini-
cio comum (“O objeto tradicional da erftica literdiria € jul-
gar 05 livros”) e invertendo 0 processo que els implica (0
bom gosto é aquele que nos leva aos bons livros, 0 mau
gosto 0 que nos leva aos livros ruins: afinal, por que ndo
poderfamos “definir um bom livro como um livro que lemos
de uma determinada maneira, ¢ um livro ruim. como um
livro que lemos de uma outra maneira”
Devemos responsabilizar Aristételes por ter orientado
[Link] para a norma? Considerado durante muito tempo
a referéncia suprema, neste e em muitos outros campos,
0 Estagirita demostrava uma flexibilidade bem maior. Mui-
2. Caractires, “Des ouveages de Vesprit™, $11
[Link]. Lewis, An Experiment of Criticism, Cambridge University
1961; trad. franc, Jean AUTRET, Gallimard, 1965, col. “Les Es:
CXX, pp. 7-8.
as vezes os Diafoirus® da literatura pr 50 disgnds.
licos em seu nome:
'Nesses termos, ela jé constitui um dos ramos do saber.
e, a0 mesmo tempo,
‘Com Sainte-Beuve,
storia Iiterarta pretende se tornar uma espécie de “his-
‘ria natural literéria” e “estabelecer uma classificagao dos
ritos”. Com Lanson, sonha em se unir & erudigao para
fazer pacientes pesquisas monogrilicas ou para construir
vastas sinteses hist6ricas, “o quadro da vida literéria da na-
‘cdo, a historia da cultura e da atividade da multidae leitora
Aesconhecida, assim como dos individuos ilusres que esere-
Marcel Proust censurou Sainte-Beuve por ter apenas
observado a literatura a partir da categoria do tempo”
por ter, de tanto “cerear-se de todas as informagées possi
veis sobre um escritor, confrontar stias correspondéncias,
fazer perguntas a homens que o [haviam] conhecido”, me-
nosprezado “aquilo que uma vivéneia um pouco mais pro-
funda de nds mesmos nos ensina: que um livro é produto
de um eu diferente daquele que manifestamos em nossos
habitos, na sociedade, em nossos vicios”. Poderfamos dizer
da critica literéria proustiana 0 mesmo que Proust dizia do
género literario praticado por Maurice Barres: “nada mais
Edo que a forma de utitizagdes possiveis de impresses mais
preciosas” do que ela prépria. Nesses termos, ela merece
fotalmente 0 epiteto 26 QM. gue por vezes€
Fito, personagens de O doente imagindrio, comeédia de Molié
re, ambos médioosignotantes e pretensiosos.(N.T.)
4, Gustave LANSON, Etudes d’histirelitéraire, pp. ss
5, Marcel PROUST, Conire Sainte-Beuve, Gallimard, col. “Idées!
NRF”, 0°81, pp. 157,172mas
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APIO ET
dado a uma
Uma “arte de desfrutar
05 livros”, implicando uma escolha e, portanto, um julga-
mento, ainda que menos incisivo. A critica caprichosa €
a critica jornalistica ndo procedem, elas também, das im-
pressGes do momento?
Tal € 0 dilema no qual parece encerrada
(a universalidade abstrata da critica nor-
mativa, 0 cientificismo da hist6ria litersria )eOSTEApHGNOS)
el Durante as tiltimas décadas, nao escapou
‘rerhua dest dfn: RSE MUAWEHGRAS ENCES
Com Lucien Goldman, por exemplo,
vai no sentido da sociologia, enquanto o “estruturalismo
genético” quer “descobrir no universo imagindrio expresso
pela obra as estruturas da visio de mundo de um grupo
social ao qual de alguma forma o escritor se acha ligado,
edo qual ele as extraiu””. Ora quis ser, ela propria, uma
cigncia da literatura; nao uma “ciéncia dos contetidos”, mas
“uma ciéncia das condigées do contetido, ou seja, das for-
mas”: uma “‘lingdistica do discurso” € nisto “conforme a
natureza verbal de seu objeto”*. Outras vezes, pelo contré-
rio, caminhou no sentido de uma “critica parcial, apaixo-
nada, politica”, como descjava Baudelaire e como depois
desejou Claude-Edmonde Magny®. Jean Paulhan louva a
critica violenta e ferina, ¢ Paul Léautaud a pratica, Sartre
afirma que a critica “engaja integralmente o homem””
jas essa tiltima
6. Bste dilema € muito bem apresentado por Claude-Edmonde
MAGNY, em Les sandales d’Empédocte, Seuil, 1945, pp. 9.
7. Jacques LEENHARDT, “Psychocrtique et sociologie de
rature”, in Les chemins actuels de la etigue, UGE, 1968, ol.
8 389, p. 375,
8. Roland BARTHES, Critique e vert, Seuil, 1966, pp. 57's.
9, Les sandales d'Fmpédoce, p. 15.
10,"“Qu'[Link] que lalittérature?" in Stations, M, Gallimard, 1948,
p. 310.
lie
4
existe? Néo seria ela, como pretende Etiemble, apenas uma
seita de tedlogos “que se anatematizam para se reconciliar
@ custa do homem livre”?", Ou devemos, como propés
Roland Barthes, separara ‘ciéncia da literatura” da “critica
literdria”, a primeira sendo um “discurso geral eujo abjeto
no é um determinado sentido, mas a propria pluralidade
de sentidos da obra” e a segunda, “este outro discurso que
assume abertamente a responsabilidade de dar um sentido
Particular 4 obra?” Os debates esto abertos, mas uma
GBBRM, x osicimos apresntar um programa compe-
to da critica literdria em tao poucas paginas. Selecionamos,
portanto, aquilo que nos parece significativo, e tivemos 0
cuidado de mostrar que, se 0s franceses tém espitito critico,
[Link] literdria nao é uma exclusividade francesa. A pri
cipal dificuldade foi separar
RRR. 1< vo 1052 sho sobretucoconstantcs
‘0 decorrer dos séculos uma ou outra pode ter tido maior
importancia, mas as demais nao deixaram de atuar no gran-
de mecanismo do espirito humano.
TI, ETIEMBLE, Esvals de finérature (oraiment) générale, Gallic
rmard, 1974, "Sur la entique literate”, pp. 243-248,
12. Critique et verte, . 56.CAPITULO i
Descrever
1, “Sine doctrina””
Sine doctrina, vita est quasi mortis imago (sem a ciéncia,
vida € quase uma imagem da morte): por mais que omestre
da filosofia 0 diga, o senhor Jourdain’ vive perfekamente
bem sem “doutrina” e faz prosa sem sabé-lo
ou aquilo ue se convencioneu chamar por este nome, tam-
bn co basis pensar no primero
pastor ou no primeiro xamé, ou em qualquer outra forma
de eriagio oral, mas em lieraturas mais claboradas. René
Sieffert escreve que, no Japao, “todos os clissicos, e mesmo
muitos dos modetos, sempre fizeram poesia como senhot
Jourdain fazia prosa — sem sabé-lo”"; seria de um sentido
inato do belo, exacerbado pelo budismo, que teriam nascido
0 Kojiki (“Observagdes sobre os fatos do pasado”) no sécu:
Jo VIIL, os relatos (monogaiari) do século XI, as epopéias
do século XIII, os nd de Zeami do século XV e os contos
¢ dramas dos séeulos XVIL e XVII.
eae Acero ‘ribo que escande 0 canto do solista
proferindo as onomatopéias rituais ou repetindo os refrdes,
‘95 comensais que sabem de cor as f6rmulas estereotipadas
repetidas pelo rapsodo nao se preocupam em criticar uma
*Senhor Jourdain — principal personagem da pega Le bowgeots
‘genil homme (O burgués fdalgo), de Moliére. Fabricante de tecidos
tendinheirado, ¢ levade a agir de forma cada vez mais ridieula por seu
‘esejo de se formar um “homem de bem”. (N-T)
1. René SIEFFERT, La litrature japonaise, Publications orienta
listes de France, 1973, p. 36.“obra” na qual colaboram. Composta de sentencas, de
provérbios do calendério, a primeira poesia chinesa (os
poemas do Kuo Fong no Che King) impoe-se com a forca
da tradigdo. E aceita sem julgamentos, e se um dia alguém
ousa criticé-la, decide-se queimar 0s livros (inclusive 0
Che King), como 0 fez 0 imperador T’sin Che Huang Ti
em 213 a. C, Maso consentimento nao exclui a emulagao,
‘© concurso de textos entre dois grupos. Curiosamente,
trata-se de concursos sem juiz. Ou, se ha algum — Pale-
mon, na segunda bucdlica de Virgilio —, recusa dar a
sua opinido: todo o prazer vinha do arrebatamento mi-
tuo.
- Actitica intervém, como sempre, mais tarde, Se jx por~
que
cia a -0” daquilo que até entao
fa ndo-escrito (assim, por exemplo, 0s Anais dos Hans
osteriores nos informam que, no ano 175 de nossa era,
gravaram-se em pedra os elissicos do confucionismo,
fim de se Ihes estabelecer um texto eritico?). A escrita €
© instrumento daqueles que querem conservar 0 privilégio
do saber (0s braimanes), mas também daqueles cujo espirito
se desliga, Apesar de ter-se efetuado de forma lenta, a evo-
lucéo na india no deixou de ser exemplar: indispensivel
ao clero, uma vez que rege a forma dos cantos sagrados,
1 poética se inscreve a margem da religido védica, [Link]-
serva alguma independéncia’; ela toma forma nos manuais
e€ resulta em listas de figuras praxes. Trata-se realmente
2 Exemplo de ETIEMBLE em L'éeriure, Gallimard, 1973, col
“dgesINRF", 1280, p. 53,
3. ETIEMBLE, Linératures laigues, in Essis de linérawre (vral-
iment) générale, p. 73.
de “ensaios de critica literdria", como diz Louis Renou?*
he,
IL, Aristoteles
Poderiamos considerar a Poética de Aristételes
(384-322 a. C.) uma excegdo. Uma tradigéo obstinada afir-
ma, de fato, que esse tratado impos uma espécie de Diktat
a toda literatura ulterior e que nao ha, “indubitavelmente,
uum outro exemplo na histdria de uma arte poética que prece-
da (e em muitos séculos) a pratica da escrita, ao invés de
refleti-la”. Ora, parece-nos muito mais que a obra reflete
‘uma pritica anterior da escrita, e que é bem mais descrtiva
do que normativa,
De acordo com o curso normal das coisas ¢ das escritos,
tal como € concebida e praticada po
sparece ao termo de uma producao abundante
na elogiiéncia atica
(Big sha a es
'Na Poética, sao descritas as “es-
Pécies” (eide) pocticas: a epopéia segundo Homero, atragé-
dia segundo Euripedes ¢ — talvez (pois a reflexao sobre
este género parece ter desaparecicdo) —a comédia, segundo
Crates ou Aristofanes. Aparecendo apés o século V, idade
de ouro da literatura grega, a Poética (que data provavel-
mente da época do “Liven”, 334-323 a. C.) apresenta um
balanco do passado antigo e recente: trata no somente de
Euripedes, mas também de seus sucessores Agaton, Astida-
‘mas, Teodeto ou Afareu, Consciente de se localizar no fim
de uma Historia, Aristételes chegou a escrever uma breve
historia da poesia a partir de Homero (1448 6), uma breve
4. Louis RENOU, “Literature sansrite, in Histoire des tran
+5, Gallimard, 1955, col. Encyclopédie de la Pléade,t 1, p. 97.
5, Pierre AUBENQUE, artigo “ArisSteles", in Encyclopaedia Uni-
versal, HLhistoria da tragédia a partir dos autores de aitirambos (1
a) ¢ uma breve hist6ria da comédia a partir de Epicarmo
¢ Formis (1449 6),
Se trata rapidamente dessa historia € porque quer des-
cobrir principio de cada género, mais do que suas origens..
primeiro grande feito de Aristételes foi ter eriado a logica
€, portanto, ter feito do discurso (logos) a forma mais coe-
rente e mais eficaz, Para isso, era importante conhecé-lo.
A Retdrica nao pretende ser uim conjunto de receitas, mas
um conhecimento dos fundamentos do discurso que permi-
tiriam uma elaboragdo metédica da técnica oratoria. Da
mesma forma, a Poética pretende descobrir 0 “efeito pré-
prio” de cada um dos géneros posticos e, para isso, deve
cxaminar seus “motores”. E, além disso, ela estabelece 0
princfpio de toda “poesia”: @ imitagéo (mimesis)
Tudo comecd com uma definigao do homem como ser
imitante. Mas Aristoteles ndo trata de qualquer imitagao:
por tum jogo de restrigGes sucessivas, passa da imitagao artis-
tica em geral a imitagao pela voz, ¢ depois para a imitagao
pela linguagem, o que chamarfamos, com ume palavra que
ele ignora, de “literatura”. A epopéia, a tragédia ¢ a comé-
dia imitam a vida, imitando portanto um movimento que
conduza um fim. Mas hé entre a tragédia ¢ a comédia uma
diferenga de matéria (pessoas de mérito de um lado, pessoas
mediocres do outro), entre a epopéia e a tragédia uma dife-
renga de maneira (personagens em agao num caso, narracao
no outro). De qualquer forma, ndo pode tratar-se de uma
simples c6pia, mas sim de uma estilizagao. Podemos lembrar
2 frase de Gide em seu Journal: “A obra de arte & exagero.”
efeito da imitagao € 0 prazer, mas também a puriti-
cagao (catharsis). O poeta deve oferecer 0 prazer concedido
pela piedade e pelo temor suscitados com ajuda de uma
imitagéo (1453 6), Num trecho da Politica, Aristételes ja
‘empregava a palavra catharsis para estabelecer uma compa-
racdo entre a purificacao ritual € a purificagao musical
‘Quando volta a empregé-Ia a propdsito da tragédia, na Poé-
fica, insere-a num contexto fortemente marcado pelo léxico
da medicina: refere-se & purgagdo dos humores e a uma
10
écie de homeopatia. Nestes dois casos, porém, deve-se
respeitar a nuanca de um “como se”: a catharsis religiosa
€ a catharsis médica so apenas pontos dé comparagao que
petmitem uma abordagem do efeito poético e de sua descri-
io. Como escreveu Goethe, Arist6teles “‘entende por ca-
tharsis a realizagao tranquilizadora que € efetivamente bus-
cada em toda representagao dramética, assim comoem toda
obra postica™.
A catharsis pode nascer dos fatos imitados ou da organi-
zagdo dos fatos. Intervém portanto a poética no sentido es-
trito do termo (poesis), ou seja, “a forma de compor a fébula
quando se pretende que a composicéo postica seja bela”
Para descrevé-la, Arist6teles insiste no problema da exten-
io: o limite da obra literatia corresponde a natureza e pode-
mos fazer um exame completo de sua anatomia da mesma
forma que fazemos com um belo animal (1451 a). Esforga-se
por encontrar uma ordem (na tragédia, por exemplo, a intri-
a, as peripécias, o desenlace ou a alternancia das partes
liricas e das partes draméticas). Tem o cuidado de examinar
a traducéo do pensamento por palavras ou clocugao (lexis):
donde uma longa descri¢éo do material verbal, onde apare-
ce uma distingao fundamental entre 0s elementos neuttos
(aletra, asflaba, a particula, a conjungao, 0 nome, o verbo,
0 caso, a locugio) ¢ 0s elementos excepcionais da linguagem
(05 nomes compostos e sobretudo # metsfora)
‘Assim como Descartes se propde nao a “ensinar 0 mé-
todo que cada um deve seguir para conduzir sua razao de
forma correta, mas somente mostrar como procurou condu-
zir a sua”, Aristoteles ndo quis ensinar aos poetas como
proceder em sta profissio. Sua Poética deveria principal-
mente permitir que 0 piblico conhecesse e compreendesse
melhor aquele oficio. O conceito de natureza (physis) € aqui
essencial: um género nasce € se constitui, uma obra tem
tum corpo. Mas o tom do manual nao deixa de ser didatico
€ Aristételes, as vezes, para dizer 0 que é, diz 0 que deve
6. GOETHE, “Nachlese 2u Aristoteles' Poctik”. 1827, texto reeo-
ido em Kleine Schriften
uwser. Poderfamos até extrair do conjunto alguns desenvol-
vimentos normativos (que concernem a peripécia ou a0 re-
conhecimento na tragédia, e a0 estilo, onde se requer uma
dosagem sabia dos elementos neutros e dos elementos ex-
cepeionais: “E preciso ter medida em cada uma das partes
da elocugao”, 1458 b). Nestas condigdes, explica-se melhor
0 fato de esta Poética ter sido com freqiiéncia considerada,
uma “arte postica”,
IIL As artes poéticas
A Epistola aos Pisdes, de Horacio (65-8 a. C.), conhe-
ida desde a Antighidade como Ars Poetica, abre a série
das artes poéticas. Inscreve-se na linhagem da Poética de
Atistételes, talvez por intermédio de uma obra alexandrina
de Neoptolemo de Parion, hoje desaparecida. Horécio tem
reputacdo de satirico e quando emprega a palavra criticus,
(na primeira epistola do livro Il, por exemplo) é para desig-
nar o censor das letras. Na Arie Poética, sabe ridicularizar
65 poetas cfclicos que anunciam suas narragdes medocres
com promessas prodigiosas e fazem com que um rato nasca
de uma montana (v. 136 ss.). Como Arist6teles, e em ter~
mos por vezes andlogos, descreve a obra literdria e o olhar
critico que se exerce sobre ela:
‘Acontece © mesmo com a poesia e com a pintura
uma, vista de perto, cativa mais, outra deve ser vista de
mais longe; uma pede a obscuridade, outra a luz, pois no
teme o olhar penetrante do eritico; uma agradou uma vez,
2 outra sempre agradaré, mesmo se voltarmos a ela dez
vezes (v. 361-365),
E lembra entao que a natureza se une & arte. Mas sua
obra est cheia de conselhos e preceitos: invenao, dispo-
sigdo ¢ elocugdo devem estar em estreita dependéncia para
que a obra seja una; é preciso encontrar o tom que convenha
ao géneto, ao assunto, ao personagem; a imitagao nao deve
12
ser nem banal nem servil; o inveross{mil ndo deve ser apre-
sentado ao espectador. E necessdrio seguir regras, pois os
dons nio sao suficientes. Todos devem fugir dos bajuladores
€ buscar 0 auxilio de um critico judicioso, como Quintilius
Varus, que assinalard o que € preciso mudar (v. 438 ss.)
Boileau (1636-1711) inspirow-se em Horacio e nao em
Aristoteles’ para sua célebre Arte Poética em quatro cantos
(1674). Ele tivera predecessores franceses, principalmente
‘Vauquelin de La Fresnaye que, em sua Art Poétique (1605),
havia parafraseado a Epistola aos Pis6es, e, antes dele, Du
Bellay (Défense et illustration de la langue francaise [Defesa
e ilustracdo da lingua francesa), 1552) ¢ Ronsard (Abrégé
de Vart poétique francais | Compéndio de arte poética france-
sa}, 1565), que haviam preconizado o eniquecimento da
lingua por novos vocébulos ¢ 0 enriquecimento da literatura
nacional pela imitacao dos Antigos. Como Horacio, Boileau
‘um satirico: ele ataca toda uma geragdo, condenando afe-
tados como Cotin, burlescos como Scarron, enfaticos como
Guez de Balzac, académioos, escritores de moda e sobre~
tudo Chapelain, cuja protixidade € cujo papel de érbitro
do gosto ele néo suporta. A longa exposicdo consagrada
2 epopéia ndo se baseia em nenhuma doutrina precisa; per-
de-se em ataques contra Desmarets de Saint-Sorlin ¢ contra
© “maravilhoso cristo”, que Boileau recusa. Para estabe-~
lecer suas regras, Boileau quase sempre comeca por descre-
ver uma conduta andrquica de resultados desastrosos:
‘La plupart, emportés d'une fougue insensée,
Toujours loin du droit sens vont chercher leur pensée:
Ils croiraient s‘abaisser, dans leurs vers monstrueux,
Sills pensaient ce qu'un auire a pu penser comme eu.
Evitons ces exces: laissons I'Italie
De tous ees faux brillants 'éclatante folie
‘Tout doit tendre au bon sens (...)” (1, 39-45).*
7. Apes de reconhecer sua dvida em reagto a Aristteles(exagerada
por seus adverséros), Boileau nega ter ido Vida, um dos primeitos comen
tadores de Avisttles, que publicara uma Arte Podica em latim em 1527
* A maiora, levada por uma impetuosidadeinsensata/ Vai procurar
seu peasumento sempre longe do bom senso Acteditariam estar se tebai
BEste € 0 estranho estatuto da descrigao na crftia literd-
ria, da forma como € concebida por Boileau: ela atinge a
imaginagao para dizer 0 que ndo se deve fazer, introduz
0 preceito abstrato que devers ser registrado pela razio.
Muitas vezes esses preceitos parecerdo banais ou ultra-
passados, € o dogmatismo de Boileau nao Ihe atrai simpa-
tias. Mas talvez isso se deva ao fato de se ter conduzido
obra (que alids se prestava a isso) para o lado da norma.
E preciso lembrar que esta pretendia ser, antes de mais
nada, um trabalho de vulgarizacdo, destinado as “honnétes
gens”. O autor sabe esbocar répidos quadros hist6ricos, su-
gerir com alguns toques sutilmente escolhidos as caracte-
risticas de um género ou de um estilo, tornar-se eco € espe-
Iho da sociedade de seu tempo. Terfamos a tentagio de
dizer que € a desctigéo que salva a Art Poétique da medio-
cridade.
IV, Aristételes traduzido e traido
Danicl Momet definia Boileau como “o porta-vor, a
consciéncia do classicismo”, e Pierre Clarac apresentou a
Arie Poética como 0 “sumirio da doutrina clissiea”. De
fato, @ teoria vinha apés a prética; mas isso nao significa
que a literatura classica tenia se elaborado sem doutrinas.
Durante os séculos XVI e XVII, a Poética de Aristételes
serviu de ponto de partida para consideragdes criticas sobre
literatura, numerosas e divergentes demais para constituir
uma teoria estavel.
A primeira traducio latina da Poética, devida a Geor-
gius Valla, foi publicada em Veneza em 1498. Ela alimentou
na Itélia “uma atividade critica consideravel que nunca se
‘Nando em seus versos monstruosos/ Se pensassem aquilo que umn outro
também pudesse pensar. Evitemos estes excessos: deixemos & Ilia! A
ruidosa loucura de todos estes Tasos brlhantes/ Tudo deve tender 20
‘bom senso (..) (NT)
ry
verificara em nenhuma época, em nenhum pais”. A partir
de 1527, ¢ mesmo bem depois de 1600, sucedem-se edigies,
comentirios ¢ tratados “aristorélicos”.
Seria entediante enumerat todas essas obras. A primei-
1a € De arte poetica, de Vida, bispo de Alla, de 1527. Em
seguida, vém, entre outras, a Poetica (em italiano) de Tris-
sino (1529), as tradug6es da Poetica em italiano por Dolce,
‘em latim, por Paccius (1536), a Poetica de Daniello (1536),
‘8 comentarios de Robortello (1548), de Bernardo Segni
(1549), de Maggi (1550), de Vettori (1560), a Arie Poetica
de Mutio (1551), 08 Discorsi de Giraldi Cinthio (1554), 0
didlogo de Frascator, Naugerius, sive de Poetica (1555), 0
de Minturno, De Poeta (1559), a Arte Poetica, do mesmo
(1563), os Sete livros de poética, em latim, de Scaliger, 0
comentario de Castelvetro (1570), 08 Discorsi de Tasso
(1587-1594). Houve também adversérios, como Piccolomi
¢ Francesco Pattizzi. No século XVII, dois holandeses,
Heinsius € Vossius, tomam o lugar dos itatianos. Na Franca,
a maioria desses escritos era bem conhecida: os Discours
de Corneille aludem a cles e, em 1674, 0 padre Rapin, no
prefaicio das Reéflexions sur la Poétique d’Aristote, esboca
um breve catélogo de todos os comentadores, com base
nos elementos que Chapelain the havia fornecido no ano
anterior.
Dois nomes dominam esta lista, os de Scaliger ¢ Castel-
vetro, Scaliger (1484-1558) nasceu na Itélia, mas viveu na
Franca. Escrevia em latim, e s6 fala da literatura latina ou
grega. Desde o inicio de sua obra, exibe uma superioridade
de visio e exprime-se de maneira apropriadamente filos6-
fica, seja ligando qualquer atividade humana (entre as
quais, 0 discurso) & necessidade, seja definindo o terceiro
tipo de discurso, a poesia, por seu objetivo ultimo: “Ensinar
{8 René BRAY, Formation de la doctrine classique en France (1926),
reed. Nizet, 1974, A abra mais completa sobre a questi ¢ a de J.E,SPIN
GARN, A Hisiory of Literary Criiciomin te Renaissance, com referencias
specials &influgncia da Talia na formago e desenvolvimento do classi
smo moderno, New York, Columbia University Press, 1899.dando prazer.” A imitagio, fundamento da poesia, € tam-
bbém seu “fim intermedirio”: ela permite nao somente re-
produzir por palavras as coisas que existem, mas também
Tepresentar aquelas que néo existem, como se existissem
da maneira que poderiam ou deveriam ser. Isto significa
‘que Scaliger foi capaz de ir mais longe que Aristételes. Mas
ele também se apsia em Hordcio (conformidade social €
‘moral dos personagens, compromisso do prazer e da institui-
0 moral). Sua influéncia foi enorme na Franca do século
XVII, a ponto de se pretender que a voga de Scaliger tenha
provocado a de Aristételes
‘A tradugao (em lingua vulgar) cle Ludovico Castelvetro
(1505-1571) € acompanhada por um comentario de um novo
tipo: ele nao se contenta em explicar as dificuldades do tex-
to, ele quer desenvolver 0 esboco de arte poética que ele
contém. Compreendeu bem, por exemplo, 0 caréter “ho-
meopético” da catharsis. Em compensagéo, acrescenta a
Aristételes consideragdes sobre a unidade de espaco € s0-
bretudo sobre a unidade de tempo que passarao por aristot
licas, apesar de 0 serem bem pouco.
Porque, muitas vezes traduzido, muitas vezes glosado,
Arist6teles foi freqientemente traido nos séculos XVI ¢
XVII. Além da coleira das tés unidades, que em vao procu-
ramos na Poética, a nocéo de coeréncia é com muita facili-
dade substitufda pelas de verossimithanga e conveniénci
e atribui-se-Ihe um moralismo que se aproxima mais do esp\
Tito horaciano. Com Racine, a catharsis torna-se purgacio
das paixées. Como lembra corretamente Pierre Somville,
“o texto da Poética jamais pretendeu qualquer absolutismo,
¢ nada nele justifica este papel de cstandarte dogmatico
que the foi attibuido por uma ideologia muitas vezes basca-
da no moralismo e na censura™, Precisemos que se trata
de uma deformacéo quase que exclusivamente de responsa-
bilidade dos franceses. Nem Philip Sidney (1554-1585), em
sua An Apology for Poeirie, publicada em 1595, nem Lope
9, Pierre SOMVILLE, Essa sur la pottique d’Aristote, Vrin, 1975,
p.167
16
de Vega (1562-1635), em seu Arte nuevo de hacer comedias
en este tiempo (1607) foram tao dogmaticos quanto Aubig-
nac ou Rapin, Mesmo a Letire a Academie (Carta a Acade-
mia) de Fénclon (1714), embora bem mais flexfvel do que
a Art Poétique, de Boileau, ndo deixa de ser moralista. Cou-
be a um aleméo, Lessing (1729-1781), reencontrar Arist6-
tcles, livrando-o da tradigfo francesa. Afinal, “sair-se bem
‘com regras é uma coisa, observé-las realmente € outra. Os
franceses primam no primeiro caso; mas, quanto a0 segun-
do, parece que somente os Antigos souberam fazé-lo"™,
¥V. A poética segundo Paul Valéry
Nos séculos XIX e XX, a critica descritiva ndo morre
Mantém seus direitos diante de uma critica preocupada em
julgar e de uma critica desejosa de interpretar. “Um dos
sonhos do positivismo em ciéncias humanas € a distincao,
‘ou mesmo a oposicao, entre interpretacao —subjetiva, vul-
neravel, eno limite arbitraria —e descricao, atividade segu-
ra e definitiva. A partir do século XIX foram formulados
projetos para uma critica ‘cientifica’, que banisse qualquer
“interpretagio’ © que fosse pura ‘descricao’ das obras.”
termo poética, empregado substantivamente, reassume
conseqiientemente um lugar de honra ou, em todo caso,
E do gosto da época.
Primeiro fato a observar: Paul Valéry (1871-1945), que
nunca deixou de acrescentar um acompantiamento eritico
a sua eriagdo poética e que ja havia escrito muitos textos
de critica literaria, como 0 texto “Au sujet d’Adonis” ("A
respeito de Adonis”), 0 estudo sobre “Victor Hugo createur
par la forme” (“Victor Hugo, criador pela forma”) ou “La
10, LESSING, La dramaturgie de Hambourg (1767-1769).
1. Tzvetan TODOROV, Pestigue (Quresr-ce que le structurale,
2), Seuil, 1968, reed. ol. “Points”, n2 45, p17.
1tentation de (Saint) Flaubert” (“A tentagdo de [Sao] Fiau-
bert"), foi nomeado professor de Pottica do Coliége de
France, proferindo sua aula inaugural no dia 10 de dezem-
bro de 1937. Ele prdprio havia escolhido ¢ proposto o titulo
de sua cadeira, e sua primeira tarefa foi explicar este nome,
que ele dizia ter “restitaido, num sentido bem primitivo,
que no é 0 empregado”. Nao se tratava de uma coletnea
de regras, nem de uma arte poética: “A era da autoridade
nas artes jé terminou ha muito tempo, ¢ a palavra ‘Poética’
jd ndo desperta a idéia de prescrigdes incdmodas e supera-
das.” Reportando-se a etimologia, Valéry propée-se a ex-
primir a “nocéo bem simples de fazer” (poiein).
E posstvel considerar a obra iterdris como fato consuma-
doe, neste caso, a critica literdria dedicar-se-d a descrevé
Que podemos frente a este objeto que, por sua ver,
rio pode nada frente a nds? Mas temos influéncia sobre
cle. Podemos avali-lo segundo a sua natureza, espacial ou
temporal, contar as palavras de um texto ou as silabas de
tum verso; constatar que tal livro apareceu em tal época:
{que tal composigao de um quadro inspirs-se em tal outra;
‘que hi um hemistiquio em Lamartine que existe em Tho-
‘mas, e que uma determinada pagina de Vietor Hugo perten-
ce, desde 1645, a um obscuro padre Francois. Podemos veri-
ficar que um determinago racioeinio é um paralogismo; que
tal soneto € incorreto; que o desenko de certo braco ¢ um
esafio & anatomia, € que um certo emprego de palavras
E ins6lito. Tudo iss0 € 0 resultado de operacbes que pode-
‘mos assimilar a operagdes puramente materiais, pois se refe-
tem a formas de sobreposigio da obra, ou de fragmentos
da obra, a algum modelo,
Mas também podemos considerar a obra em vias de
se fazer, ou a obra como 0 termo de um fazer. Pois “a
obra do espirito s6 existe em ato” e “a execucio do poema
que éo poema”. Se partitmos desse principio, ndo podere-
mos mais tratar as obras literdrias como coisas ®
1 Podemos encontrar este texto em Oewires, de VALERY, Gall
‘ard, 1962, Bibliotheque de la Pléade, tI, pp. 1340-1358.
18
No entanto, ao lermos vérios textos de Valéry, e do
Valéry desta mesma €poca, percebemos que a definicdo se
modifica. O texto intitulado “L'enseignement de la Posti-
queen College de France” (“O ensino da Poética no College
de France”)! fornece uma definigao dessa abordagem da
obra literiria que certamente nao € totalmente contraria
A definigao precedente, mas jue dela difere sensivelmente,
Valéry declara que entende o termo “segundo a sua etimo-
logia, ou seja, como nome de tudo o que concerne a criagao
© & composicao de obras cuja substdncia e meio seja alingua-
gem —€ nao no sentido restrito de coleténea de regras
ou de preceitos estéticos referentes a poesia”. Arte da fin-
guagem, a arte literdria baseia-se na convengio, mas “figu-
ras” —espécie de linguagem em estado nascente—, provem
de um “mecanismo” que seria preciso poder desmontar,
A literatura sendo, e necessariamente, “uma espécie de ex-
tensio e de aplicagio de certas propriedades da linguagem”,
1 Pottica sera o estudo dessas propriedades, desse ato vir-
tual nos dados da linguagem. Como podemos observar, tra-
ta-se de reduzir a Poética ao que Aristételes chamava poie-
sis, € até mesmo a simples “elocucdo”.
VIL A poética hoje
Nessas condigdes, compreendemos que os tedricos da
pottica atuais, ao mesmo tempo que invocam o testemunho
de Valéry, tomem um certo distanciamento em relacdo a
ele. Assim, Tzvetan Todorov (nascido em 1939), autor de
uma Poétique (1968) e de uma Poétique de la prose (1971),
recusa a primeira concepcéo de Valéry, mas aceita a segun~
da. Assimila a ela “a mais cétebre das Poéticas, a de Arist6-
teles”, que “nada mais era que uma teoria sobre as proprie-
dades de alguns tipos de discursos literdrios”, pois, para
cle, a poética interroga “as propricdades desse discurso pat-
13, bid, 1, pp. 1438-1446.
19ticular que € 0 discurso literdrio™*. Aigm de Aristételes
¢ Valéry, ele elege como seus predecessores os formalistas
russos e Roman Jakobson.
Ao voltar a0 sentido original do termo “poética”, os
formalistas russos tentaram, com efeito, provocar o renasci-
‘mento desse tipo de pesquisa, ou seja, a andlise da fungio
poética da linguagem,
No inverno de 1914-1915, por iniciativa do jornalista
O. M. Brik (1888-1945), alguns pesquisadores e estudantes
fundaram o Circulo Lingiistico de Moscou para promover
a linguistica ea poética. Uma primeira coletinea de estudos
{oi publicada em 1916 e, em 1917, foi criada a Sociedade
de Estudos da Linguagem Po¢tica (Opoiaz). Recusando a
abordagem psicoldgica, filoséfica ou sociolégica que domi-
nava até entdo a critica literaria na Ruissia, 0 centro das
preocupacdes dos formatistas russos era a obra, que tenta-
vam descrever em termos téenicos (V. Chklovski, “A Arte
como procedimento” em Sobre a teoria da prosa, 1925).
Do estudo do problema do som no verso, a pesquisa esten-
deu-se ao estudo do verso (Tomachevski), mas também do
conto (Prop) e do romance (Chklovski). Nos seus quinze
anos de atividade, os formalistas russos produziram um con-
siderdvel conjunto de obras. O principio estabelecido por
Chklovski é 0 de que “a criagio de uma poética cientifica
cexige que se admita desde o inicio a existéncia de uma lingua
poctica e de uma lingua prosaica, cujas leis séo diferentes,
idéia que € provada por miiltiplos fatos”™.
Roman Jakobson (nascido em 1896), fundador do Cir-
culo Lingtistico de Moscou, viveu na Tehecostovaquia de
1920 a 1939; tendo sido um dos membros mais ativos do
Circulo Lingiistico de Praga, muito fez para difundir as
idéias dos formalistas russos. Seus primeitos trabalhos (A
poesia moderna russa, 1921; Sobre o verso tcheco, 1923)
V4. Podtique, pp. 1921.
15. V. CHKLOVSKI, Poétique, reeuils sur la théorie deta langue
pottique, Petiogrado, 1919. Encontraremos importantes textos dos forma
Tstastusios nacoletinea Théorie ensemble, Seuil, 1965, coh. "Tel quel”
20
sdo insepardveis das obras dos estudiosos russos. Durante
2 guerra, Jakobson se exilou nos Estados Unidos, onde da
aulas até hoje. Dedicou-se a mostrar a “poesia da gramé-
tica” € a “gramética da poesia”. Seus trabathos como lin-
Blista (Ensaios de pottica geral) e de teérico da poética
(0s textos reunidos sob 0 titulo de Quesiées de poética) tor-
nnaram-se classicos e alimentaram uma parte importante da-
quilo que se convencionou chamar a “nova critica” (ver
capitulo IV).
Jakobson vé nos trabalhos dos formalistas russos uma
tentativa na direcao de “uma ciéncia da arte poética”. Ele
proprio define a Poética como “o estudo lingtistico da fun-
do poética no contexto das mensagens verbais em geral
‘na poesia em particular”. Retomando as palavras de Bau-
delaire (“A gramética, a érida gramatica, toma-se algo co-
mo uma feitigaria evocadora”), debrugou-se particularmen-
te sobre as “figuras da gramitica” e considera que na textura
sgramatical da linguagem poética reside grande parte de seu
valor intrinseco. Dedica-se, por exemplo, a revelar arelacio
entre as disposigdes das categorias gramaticais e as correla-
Ges métricas ou estroficas do poema. A célebre andlise
‘que fez Gjuntamente com Claude Lévi-Strauss) dos Chats
(Gatos) de Baudelaire dé uma boa idéia da minticia com
que procede Jakobson na anilise de texto. Nao que descreva
pelo simples prazer de descrever; o exame da textura grama-
tical deve levar questéo que considera fundamental
“Diante dos procedimentos vigentes que o inventério Ihe
forneceu, como uma obra poética explora-os com um novo
objetivo e atribuithes um novo valor, & luz de suas novas
fungoes?”
“O emprego do termo poética por Roman Jakobson
para designar o estudo e a teoria do discurso litersrio, a
pesquisa das razdes da originalidade na prépria obra parece
irreversivel”; esta constatagao de Henri Meschonnic (nas-
16. Questions de poduigue, evil, 173, p. 231. Fstacoletinea contém
‘aandlise dos Chats, que fora publicads anteriormente na revista L’'Homme
em 1962
aido em 1932) é confirmada no Dictionaire encyclopédique
des sciences du langage (Diciondrio enciclopédico das cién-
cias da linguagem) de Ducrot e Todorov (Seuil, 1972), onde
6s outros sentidos do termo (a escolha feita por um autor
entre todos 0s termos possiveis, ou os eédigos normativos
construfdos por um te6rico ou por uma escola litersria) s80
descartados, em favor da “teoria interna da literatura” (pp.
106 ss.). Em Pour la poétique (1970), Meschonnic nao quer
partir de Jakobson sem criticé-lo. Para ele, a poctica néo
se relaciona apenas com as categorias lingisticas, e a obra
também nao estd integralmente na gramética do texto como
tal. Censura Todorov por limitar a poética a descricio
exaustiva € tautoldgica ds obra. Denuncia 0 paradoxo de
uma critica que encontra uma poética dos géneros no m
mento em que a literatura dela se despojou. Para ele, “a
‘obra, ¢ toda a literatura, no passam de atualizagao”"”. A
cada vez, sua Tinguagem € vinica. A critica literéria, que
pretende aqui continuar sendo uma pottica, deve, portanto,
“yisar a forma-sentido, a homogeneidade do dizer e do viver.
la ndo € separavel de uma pratica da eserita: €a sua conscién-
cia”. A critica ndoé mais nem o censor estranho reivindicado
por Hordcio (¢ depois por Boileau) nem o observador impas-
sivel pressuposto pela pottica jakobsoniana, mas o prdprio
escritor (pois o discurso sobre a escrita nao mais se distingue
da propria eserita, nem a “critica” da “literatura”. Nao esta-
mos tao longe do primeiro projeto de Valéry, ou da critica
tal como a concebia ¢ tal como a praticava 0 poeta inglés
‘T. S. Eliot (1888-1965), ali citado por Meschonnic:
Para nds, falar de poesia é uma parte, uma extensio
dda experigneia’que dela temos. Como qualquer atividade
filos6fica, a critica € inevitavel e néo exige qualquer justfi
cacao. Perguntar “O que € a poesia?” € situar a fungio
crtica."
Fitew mescHoNtc, pout poi, Cama 197,46
UTS: ELIOT, The Use of Pocy ond the Use of Citta, Faber,
1938, pp. 1920
2
Outrora traido pelos aristotélicos dos séculos XVI
XVIL, Aristételes se encontraria aqui ultrapassedo por
aqueles que, retomando 0 titulo de seu ensaio, colocam-se
sob sua protegdo. Meschonnic chega a passar por antiaris-
totélico ao escrever que “a postica (tal como ele a concebe)
€ superior ao antigo pensamento aristotélico da literatura
pelo fato de levar a eserita a sério: como um viver””. Pode-
mos nos perguntar s¢ ele tem o direito de confundir 0 pensa-
‘mento aristotélico € 0 formalismo com 0 qual decidiu aca-
bar. Aristételes partia de uma descrigao do efeito, do poder
(dunamis) da palavra poética, mesmo se depois tentava con-
siderd-la com frieza, decompé-la ¢ até subjugé-la. Como
lembra Pierre Aubenque, a Poética de Aristoteles “nao d
xa de estar em relagéo com 0 conjunto de sua filosofia”,
uma filosofia que coloca o problema do ser. Mimesis, a obra
recria 0 ato (energeia) que constitui a vida. Também para
cle a atividade poética nao se reduzia a “um conceito abstra-
to” € revelava-se “inseparavel de um viver™.
19. Pourla paéugue, p. 131,
20, bid. p16.CAPITULO I
Saber
A ctitica se propée explicar ¢ apreciar as obras ¢ os
autores de ontem € de hoje; a hist6ria literdria, subgénero,
especializa-se no exame das obras do passado, Ela traz
meméria, conserva e classifica 0s fendmenos que compoem
a vida das literaturas: os escritorese suas produgdes, 0 publ
‘co, as relagdes entre 0 autor € 0 consumidor do livro. Forne-
ce explicagdes. Mais profundamente, tenta fazé-los com-
preender e mesmo reviver 0 espago de uma leitura; ou pos-
tula, a partir do actimulo dos fatos, as normas ou leis que
regem sua estrutura e seu devenir.
A historia literéria surge assim como uma provincia
«da hist6ria, que é meméria do passado em intencio do pre-
sente, € como relagio muitas vezes passional com os grandes,
ancestrais mortos. Sem diivida, ela restringe seu campo de
pesquisa ao dominio da literatura; mas situar 0s escritos,
em seu contexto econdmico, social, politico e cultural, neles,
ver os sintomas ou sinais de uma mentalidade, de uma visio
caracteristica do mundo, € aproximar-se muito, e por vezes,
invadir 0 territério do historiador propriamente dito. Além
disso, a obra literdria revela 0 negativo do fato, as pulsdes,
insatisfeitas, as virtualidades reprimidas, aintencionalidade
secreta: a este titulo, ela fornece & historia um material pri-
mordial. A histrialiteréria copia os métodos da historia:
estabelecimento dos textos (estudo dos manuscritos, com-
paracdo das edigoes, restituicao de um estado definitivo ©
de sua génese) € dos fatos (hiogréficos, socioliterdrios, esta-
Uisticos), determinagéo de uma série de causas (imediatas
ou conjunturais, longinguas, profundas ou estruturais) ou,
pelo menos, fatores que condicionam a vida literdia a0 lon”
{20 dos séeulos. Conservar um espitito critico sempre atento,
evitar 0 espirito sistemdtico unir, em seu olhar sobre 0
25passado, um amor severo da verdade a uma simpatia que
supée imaginacao e sensibilidade: belo ideal relegado 20
inacessivel pela reflexsio moderna sobre a epistemoiogia his-
t6rica, Os conceitos operatérios que organizam os fatos,
{9s sinais simbélicos, os sentidos que afetam os fenémenos
dependem da mentalidade,presente. O historiador literério
constrdi inevitavelmente umn passado onde encontra as ques-
t6cs de scu tempo — nem gue seja fugindo detas —e onde
“psicanatisa” sta propria literatura, interrogando infancias
Tonginquas e miticas.
Provincia da critica, a historia literdria € discurso sobre
obras, “metalinguagem” detida pelos literatos que tém, em
maior ou menor grau, a ambicdo de também construir um
‘monumento que possua seu lugar na literatura; nenhuma
heterogencidade entre 0 comentario € 0 comentado, donde
rivalidades € reivindicagocs. O historiador literério aleza
seu oficio, sua técnica, meios da “objetividade”; mas, como
literato, niéo conseguiria evitar uma apreciagéo, O amador
apaixonado despreza as anotacdes € as fichas do especia-
lista; compara 0 peso de seu discurso a riqueza facil das
grandes criagoes e questiona o sistema implicito ¢ explicito
de valores em nome do qual se organizam os fenémenos
€ se pronunciam os julgamentos.
A situagéo da hist6ria cy no cruzamento de duas
atividades humanas cada vez mais separadas por suas res-
peetivas evolucdes, impdejIhe uma problematica singular,
uma tensio entre dois pos que a predispde a um ecletismo
pacificador € sintético, Tranquilidade itus6ria de uma sabia
erudigdo que a vida abata: agitada pelas dividas que atraves-
sam a eritica ¢ hist6ria, a historia literéria €, além do mais,
alvo dos ataques dos profissionais ou especialistas das duas
disciplinas. © eritico de humor iré considerd-la bem alheia
0 prazer € ao desfrute da literatura; 0 tedrico da pottica
verd nela apenas uma antecémara do conhecimento, uma
empregada que nfo deve se tornar patroa. O historiador
suspeitard dela por cagar sem autorizacao e sem armas leg!
mas em suas proprias terras: conceder-Ihe-ia no maximo
uma prudente marginalidade. E, apesar de contestada, €
26
portanto estimulada, por todos os lados, a historia literéria
passa bem: apds uma lenta gestagdo, quando néo se distin-
guia sensivelmente de seus pais, teve uma juventude bri-
Thanie e uma maturidade orgulhosa. Atualmente, tendo
controtado seus excessos © mais cuidadosa com seus meios,
adquiriv a experiéncia © a prudéncia que, aliadas ao rigor
met6dico, garantem-Ihe um lugar nas ciéncias humanas,
apesar da crise que acaba de atravessar
I, Arqueologia
Até 0 século XVII, a hist6ria litersria nao existe nem
de fato nem de diteito. Neste campo, todos esto mais preo-
‘cupados em saber fazer do que em saber, e a “arte poética”
(sob qualquer nome que apareca) reina, acarretando, em
termos de ensino, 0 imperialismo da gramatica e da ret6rica.
‘A Idade Média nos legou algumas biografias, dridas com
ages de informagées incertas, O Renascimento, conser-
vando o senso medieval da continuidade temporal, que que~
bra pela instauragdo de um novo ideal, acrescenta obras
mais compostas, retrospecgées eruditas, partidarias e polé-
‘Associam-se as querelas que se seguem & Défense et
itlustration de ta langue francaise os precursores da historia
literdria que querem mostrar que seu pais no possui uma
heranca inferior a dos Antigos. Assim, Etienne Pasquier
(1529-1615) escreve suas Recherches de la France (Pesquisas
da Franca, 1560) para estabelecer a superioridade da antiga
literatura francesa, com um “nacionalismo” exclusive €
agressivo que anuncia 0 de Nisard no século XIX. O histo-
riador Claude Fauchet (1530-1601) publica sua Recueil de
Vorigine de la langue et possie francaise, rime et roman, plus
les noms et sommaires des oeuvres de CXXVII pottes fran-
sais vivant avant an MCCC (Coletanea da origem da lingua
€ poesia francesa, rima e romance, mais os nomes ¢ sumérios
das obras de CXXVIL poetas franceses que viveram antes
do ano MCCC, 1581) para contrabalancar a admiraggo pro-
27igalizada & Antigilidade, Sao obras de circunstancia, mas
também testemunhos de uma corrente racionalista, rebelde
A autoridade dos Antigos, que romperd stas comportas no
final do século XVII.
‘Com 0 Classicismo, a teoria que reduz a regras as nor-
mas complexas do Belo ideal reina soberana; o dogmatismo
domina as formas embriondrias de uma virtual hist6ria lite-
raria que em nada diferem dos quadros herdados da Anti-
allidade: edigoes eriticas e anotadas de autores antigos pre-
cedidas por uma introducao parcialmente consagrada a vida
do escritor (os alexandrinos jé dispunham de seus escoliastas,
€ seus glosadores); biografias ou clogios, comentarios bre-
ves e pouco preocupados com a exatidao, ocasides para fra-
ses belas. Existe género mais contrério a0 espitito histérico
do que 0 paralelo, exercicio ret6rico por exceléncia, que
recusa tempo e anula, no espago de um discurso, os séculos,
que separam dois autores? Praticado excessivamente pelo
padre Rapin, voltamos a encontré-lo em Voltaire (Paralléle
Horace, de Boileau et de Pope (Paralelo entre Horécio,
Boileau ¢ Pope, 1761). A historiografia dispée apenas de
conceitos puramente morais, concebidos como eternos (0
bem € 0 mal € sua transposicao para a ordem estética, 0
belo € 0 feio...); ela ignora as nogdes dinémicas e diferen-
ciadas que apreendem o devir coletivo.
Esta situacdo desesperadamente estavel vai demorar
mais de um século para ser desbloqueada, e iré transfor-
mar-se gracas a uma nova estruturagao do mundo das letras,
‘a uma nova perspectiva em relagdo a coisa literdria, e gracas
também ao desenvolvimento da ciéncia histérica.
Do Renascimento ao século XIX, 0 aperfeigoamento
da imprensa e a expansio de um novo grupo social de leito-
res (a burguesia) fazem deslocar a relagao literdria do esté-
gio individual (0 principe-mecenas € seu poeta) a0 estigio
plural (escritores que se dirigem a um publico diversificado,
do qual a aristrocacia e os letrados s6 constituem uma parte
de maior prestigio, mas nao majoritéria). A complexidade
crescente da vida literdria, resultado de uma lenta evolugdo
quantitativa, acarreta a formagéo de uma classe de escri-
28
lores € a necessidade de uma meméria coletiva adaptada
a curiosidades novas e menos viciadas.
‘A imprensa, que conhece um répido desenvolvimento
no século XVII, mobiliza e vulgariza a informagéo, apare-
cendo como uma resposta as novas necessidades. O Journal
des Savanis, fundado em 1665, informa sobre os autores,
€ Ihes faz elogios finebres, mas consagra pouco espaco as
letras. © Mercure galant (1672), que no século seguinte se
tornaré Le Mercure de France, € 0 Journal de Trévoux
(1701-1767), publicado pelos jesu‘tas, atribuem grande im-
portincia a critica literaria. Cadernos especialmente dedica-
dos as literaturas estrangeiras, por sua forma de expor ne-
cessariamente didética, suas consideragGes histéricas ¢ geo
‘gréficas, preparam, A sua mancira, uma transformagio de
onto de vista — maior distancia e objetividade —em rela
‘edo a nossa literatura (Bibliotheque anglaise, Amsterdam,
1717-1728; Bibliotheque germanique, Berlim, 1720-1740;
Bibliotheque italique, Genebra, 1728-1734; Bibliotheque
britannique, 1733-1747; Le journal étranger, V754-1762, para
apenas citar os precursores em cada dominio).
paralelismo entre o sucesso politico € o britho liter
rio que marcam a primeira parte do reinado de Luis XIV
incita alguns espiritos a colocarem em questéio a supremac
da Antigiidade: a “Querela dos Antigos e dos Moderno:
(1687-1694) & um dos episédios dessa contestagao. A. pris
ipio por seu Poéme du siécle de Louis le Grand (Poema
do século de Luis, o Grande, 1687), depois por seu Paralléle
des Anciens et des Modemes (1688), Charles Perrault
(1628-1703) pleiteia a superioridade de seus contempori-
neosem relacdo aos gregose latinos, fundando-se no axioma
de um progresso continuo do espirito humano: eis 0 esboco,
de uma critica “relativista”, atenta as diferengas entre as
civilizagbes, que condicionam a diversidade das literaturas;
infelizmente, esta abertura potencial é barrada por um ra-
ionalismo de filiagao cartesiana, que pretende deduazir lo
‘camente as leis etemas do Belo e que substitui a adulagio
dos Antigos, sustentada pelo raciocinio (dogmatismo rac
nalizante), por uma concepedo abstrata e aprioristica da per-
29{cigdo, ilustrada por exemplos antigos ¢ moderaos (dogma-
‘tismo raciocinante): simples deslocamento de acento!
Contudo, a nogéo de decadéncia que desencoraja a his
t6ria literdria, determinando-the 0 relato de um lento dect-
nio, € substituda pela visio de uma curva hist6rica ascen-
dente ¢ valorizada; passamos do pessimismo clissico a0 oti-
mismo das Luzes. Por que recusar uma época portadora
de um futuro fecundo? Por que ndo extrapolar, a partir
do desenvolvimento passado de uma literatura, suas pro-
messas futuras? A historia forja pouco a pouco os instru-
mentos de uma descoberta do passado. Sem perder suas
caracteristicas retéricas, moralizantes e herdicas, ela exa-
mina mais de perto o documento com Bayle, interessa-se
pelas civilizagdes com Voltaire e pelas estruturas profundas
da sociedade com Montesquieu,
E,noentanto, a historia literdria s6 emerge com dificul-
dades. La Bruyére, Fénelon e Bayle tragam na época um
pido panorama dos séculos precedentes; Voltaire, critico
ferino, s6 desereve passado literério acessoriamente: em
Lesidcle de Louis XIV (1751), um capitulo lembra a perfei-
fo das letras; em Essai sur es moeurs et esprit des nations
(Ensaio sobre os costumes e 0 espirito das nacoes, 1756),
© estado das artes € sumariamente considerado em cada
etapa da historia da humanidade. Para ele, como para mui-
tos de seus contempordneos, 0 modelo se desdobra no seio
de um sistema dogmatico, ¢ situam 0 “Grande Século” 20
lado do século de Augusto; mas, apesar disso, 0 sistema
nfo se modifica. E. as iniimeras profissoes de fé relativistas
(sobre a variabilidade dos gostos, a influéncia dos climas...)
correspondem uma pratica estreitamente dogmatica e, cada
vez mais, uma critica de detalhe, quase gramatical, mfope
esmiugadora
‘Aquilo que poderiamos chamar de “‘pré-hist6ria liters-
ria” propriamente dita comega com a compilacdo, com Les
jugements des savants sur les principaux ouvrages des auteurs
(Os julgamentos dos sdbios sobre as principais obras dos
autores, 1685-1686) de Adrien Ballet (1649-1706), poligrafo
que nao possufa nem método nem exatidao. Denis-Frangois
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‘Camusat (1695-1732), talento engenhoso, mas confuso, pu-
blica em 1716 uma Histoire des journaux en France (His-
16ria dos jornais na Franca), continuado por uma Histoire
critique des journaux (Amsterdam, 1734), depois empreen-
de uma Bibliotheque francaise, ou Histoire litéraire de la
France (1723). Mais préximas do catélogo ou da coletanca
de historietas so as obras do beneditino dom Jean Liron
(1665-1749): Bibliotheque générale des auteurs de France
(1719) © Singularités historiques et litéraires (1734-1740)
‘Os beneditinos da Congregacéo de Saint-Maur elaboram,
a partir de 1733, a Histoire linéraire de la France; quando
a revolugao suprimir sua ordem, estarao no século XII €
no décimo terceiro volume, o que mostra a medida de suas,
minuciosas investigagdes, de seu recurso aos manuscritos,
as crénicas, a luz de uma critica textual jf modema: mas
© ponto de vista adotado — exame de autor por autor —
climina a possibilidade de qualquer visio de conjunto ¢ de
qualquer compreensio de uma evolucao organica das for-
mas literérias. Ainda mais minuciosas, as Memoires publiés
par l'Académie des Inscriptions et Belles-lettres (Memérias
publicadas pela Academia de Inscricoes e Belas-Letras, a
partir de 1717) merecem 0 mesmo reparo.
Intimeros autores limitam-se a um género, a um fend-
‘meno ou a um perido determinados. A partir de 1740, a
essas pesquisas eruditas correspondem colecées destinadas
um piblico mais vasto, mas estas se limitam ao conforto
a compitacéo. A mais ambiciosa continua sendo a Biblio-
théque francaise ou Histoire lttéraire de la France (18 vols.,
1740-1756), do abade Goujet; continuada por varios auto-
res, acaba comportando trinta e quatro volumes que tratam.
separadamente dos gramiticos, retéricos, potas, e que no
fornecem uma visdo sintética de um século ou de um tema.
As margens dessa “pré-hist6ria literéria” situam-se
obras que se aproximam do dicionério, como os Eléments
de littérature (1787), de Jean-Frangois Marmontel, que reti-
‘ne num volume, por ordem alfabética, seus artigos da Enc
clopédia; ou a Bibliotheque.d’un homme de gout (Biblioteca
de um komem de gosto, 1772) © a Nouvelle Bibliotheque
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