Aula 2: Propriedades Reológicas dos Fluidos
Prof. Gabriel de Castro Fonseca (DQBIO/UFSJ)
Projeto de Biorreatores
Contextualização
Qual é a importância da Para fazer um estudo mais aprofundado do projeto e
mistura para biorreato- operação de biorreatores reais é preciso considerar as
res? propriedades dos fluidos e a qualidade da mistura em
seu interior.
Em bioprocessos, os fluidos frequentemente con-
têm sólidos em suspensão, consistem de mais do que
uma fase e têm propriedades não newtonianas, o que
aumenta a complexidade desses sistemas e torna
necessário utilizar conceitos de mecânica dos fluidos e
transferência de calor e massa.
Fluidos
Como os fluidos se movi- Imagine uma pilha de cartas de baralho organizada so-
mentam? bre uma mesa. Uma pessoa coloca a mão com firmeza
sobre o topo do deque e aplica uma pequena força da
direita para a esquerda. O resultado esperado é que as
cartas se desloquem no mesmo sentido da força, mas
as cartas não se movem todas à mesma velocidade. A
carta no topo da pilha se desloca mais que a segunda
carta, que se desloca mais que a terceira, e assim por
diante. A carta no fundo da pilha sequer se movimenta.
Isso acontece porque além da força aplicada às
cartas inicialmente, há outra força em ação no sistema,
que é o atrito. O atrito entre a última carta e a mesa
a mantém parada e o atrito entre cada carta e a carta
imediatamente superior contribui para a formação de
um perfil de velocidades no movimento do baralho.
Um fluido pode se movimentar de forma análoga a
um baralho de cartas. Por definição, um fluido é uma
substância que experimenta deformação contínua
quando sofre uma força de cisalhamento, isto é, uma
força que causa o deslizamento de camadas paralelas
umas sobre as outras, como a força aplicada sobre as
cartas no nosso exemplo e como mostrado na Figura 1.
No caso dos fluidos, a propriedade responsável
pela perda de velocidade relativa entre cada camada
paralela é chamada viscosidade. Embora os chama-
dos fluidos ideais tenham viscosidade zero (invíscidos),
além de serem incompressíveis, todo fluido real tem
alguma viscosidade finita.
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Figura 1: Deformação laminar devida ao cisalhamento (a) planar
e (b) rotacional.[1]
Como se classifca o movi- Pensemos novamente no exemplo do movimento das
mento dos fluidos? cartas de baralho. Se a força aplicada sobre elas for
pequena, as cartas apenas deslizarão umas sobre as
outras perdendo velocidade gradualmente conforme se
aproximam do fundo da pilha. Em nenhum momento as
cartas trocam de lugar, a ordem do embaralhamento
será preservada.
Se for aplicada uma força muito grande, porém, as
cartas vão voar e podem inclusive trocar de lugar,
alterando a ordem em que estavam inicialmente de
forma imprevisível.
O movimento dos fluidos pode ter a mesma ca-
racterística. Para baixas velocidades, as camadas
paralelas de fluido se movem como lâminas ordenadas
e consequentemente chama-se essa forma de movi-
mento de escoamento laminar.
Para altas velocidades, no entanto, o movimento
do fluido deixa de ser organizado. Formam-se turbi-
lhões que transportam o fluido em direções diferentes
da direção geral do movimento, acabando com a
característica laminar do deslocamento. Esse tipo de
escoamento é chamado turbulento.
Resumo
Fluidos Um fluido é uma substância que sofre deformação
contínua quando submetido a uma tensão de cisalha-
mento. Essa deformação é causada pela viscosidade,
uma grandeza relacionada ao atrito entre diferentes ca-
madas do fluido em movimento.
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Figura 2: Camada limitite de fluido sobre placa plana.[1]
Como se classifica o mo- Existe um parâmetro adimensional usado para carac-
vimento dos fluidos? terizar o escoamento dos fluidos chamado Número de
Reynolds. Esse número é definido de forma diferente
dependendo da geometria do espaço onde o fluido está
confinado. Para tubos e para tanques agitados ele vale
respectivamente
Duρ
Re = (1)
µ
ωi Di2 ρ
Rei = (2)
µ
Onde D [L] é o diâmetro do tubo, Di [L] é o diâmetro
do impelidor (instrumento usado para agitação do
tanque), u [LT−1 ] é a velocidade média linear do fluido,
ωi [T−1 ] é a velocidade angular do impelidor, ρ [ML−3 ] é
a densidade e µ [MT −1 L−1 ] é a viscosidade do fluido.
No caso do tubo, considera-se o escoamento lami-
nar quando Re < 2100 e turbulento quando Re > 4000.
Para 2100 < Re < 4000, o escoamento é de transição.
No caso do tanque agitado, os valores que delimitam o
estado do escoamento variam conforme a geometria do
impelidor e do tanque, mas comumente o escoamento
laminar ocorre quando Re ≤ 10.
Como a viscosidade afeta Na maioria das aplicações práticas, o movimento de
o movimento do fluido? fluidos ocorre nas proximidades de uma superfície
sólida estacionária.
A camada de fluido em contato direto com o só-
lido adsorve à sua superfície, formando um filme cuja
velocidade de escoamento é igual a zero. As cama-
das de fluido que se movem em planos adjacentes a
esse filme são desaceleradas por ação de um arrasto
viscoso, cuja intensidade decresce com a distância da
superfície até praticamente desaparecer.
A porção do fluido onde o efeito do arrasto vis-
coso ainda é significativa é chamada camada limite
(Figura 2) e tem grande importância para o estudo de
reações heterogêneas.
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Como se pode quantificar O arrasto viscoso responsável pelo gradiente de
o efeito da viscosidade so- velocidade entre diferentes camadas de fluido é o
bre o movimento? instrumento da transferência de momento (quantidade
de movimento) nos fluidos.
Os fluidos podem ser classificados de acordo com
como o momento é transferido no espaço. Seja y uma
coordenada espacial que cresce no sentido perpen-
dicular ao movimento (por exemplo, a altura no caso
da Figura 1a ou o raio no caso da Figura 1b), seja vx
a velocidade do fluido na direção do movimento (x) e
F
seja τ = A a tensão de cisalhamento, isto é, a força
transferida entre camadas paralelas por unidade de
área,
dv
τ = −µ x (3)
dy
dvx
A derivada dy costuma ser chamada também razão de
cisalhamento, representada pelo símbolo γ̇ [T −1 ].
O estudo da relação entre tensão de cisalhamento
(força aplicada) e razão de cisalhamento (efeito dessa
força no gradiente de velocidade no fluido) é chamado
reologia.
Quando a viscosidade µ de um fluido é constante
em relação à tensão (observe que ela varia com rela-
ção à temperatura, pressão e composição do fluido),
diz-se que o fluido é newtoniano. Esse é o caso de
todos os gases, da água e outros líquidos de baixo peso
molecular, bem como soluções diluídas de componen-
tes com baixo peso molecular nesses líquidos.
Quando a viscosidade do fluido varia com a ten-
são (nesse caso ela é chamada “viscosdade aparente”,
µa ), ele é classificado como não newtoniano. Há
diferentes categorias de fluido não newtoniano e eles
aparecem frequentemente em bioprocessos. Os princi-
pais tipos de fluidos estão resumidos na Figura 3.
Pseudoplásticos e dilatantes: obedecem à relação
τ = K γ̇ n (4)
onde K é o chamado índice de consistência. A viscosi-
dade aparente do fluido é definida de forma análoga à
viscosidade de fluidos newtonianos como
τ
µa = = K γ̇ n−1 (5)
γ̇
Quando n < 1 o fluido é chamado pseudoplástico e
quanto mais tensão aplicada, menor a viscosidade apa-
rente. Exemplos de fluidos com esse comportamento in-
cluem soluções poliméricas, algumas graxas, suspen-
sões de amido, lodos com detergentes e maioria dos
fluidos biológicos não newtonianos.
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Como se pode quantificar Quando n > 1 o fluido é chamado dilatante, e quanto
o efeito da viscosidade so- mair a tensão aplicada, maior a viscosidade aparente.
bre o movimento? Exemplos incluem amido, soluções concentradas de
açúcar em água e misturas sólido-líquido como cimento
úmido e areia de praia molhada.
Plásticos de Bingham e Casson: alguns fluidos só exi-
bem deformação após um limiar de tensão τ0 ter sido
atingido. No caso dos plásticos de Bingham,
τ = τ0 + Kp γ̇ (6)
Nesses fluidos, após o limiar de tensão ser atingido,
eles se comportam como fluidos newtonianos. Exem-
plos incluem pasta de dentes, margarina, algumas
graxas, lodos e polpas de papel.
Os fluidos de Casson se comportam como pseu-
doplásticos após o limiar de tensão ser atingido,
obedecendo a
τ 1/2 = τ01/2 + Kp γ̇ 1/2 (7)
Exemplos incluem sangue, molho de tomate, chocolate
derretido e suco de laranja.
Como a reologia afeta os Em culturas de mofos (ou bolores, fungos filamentosos)
bioprocessos? ou onde há polissacarídeos extracelulares (excretados
por um microrganismo) pode haver variação nas ca-
racterísticas reológicas do sistema ao longo do tempo,
mesmo sem mudanças na concentração do meio.
Em sistemas biológicos, é comum que essa varia-
ção seja no sentido a viscosidade aparente diminuir.
Esse comportamento é chamado de tixotropia e tem
relação com a reorientação das células e macromolé-
culas presentes no fluido durante o início da cultura.
Após uma certa quantidade de tempo, as propriedades
reológicas atingem um equilíbrio.
Algumas soluções poliméricas apresentam também um
comportamento viscoelástico, ou seja, uma resposta
elástica a mudanças na tensão de cisalhamento, por
exemplo, uma reversão na direção do movimento
quando a tensão é removida.
Resumo
Reologia Reologia é o estudo dos efeitos de uma força sobre o
movimento de um fluido. Os fluidos se dividem reologi-
camente em newtonianos e não newtonianos. Alguns
exemplos de fluidos não newtonianos são os pseudo-
plásticos, dilatantes e plásticos de Bingham e Casson.
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Figura 3: Classificação dos fluidos de acordo com seu comporta-
mento reológico.[1]
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Que fatores afetam a reo- A maioria das suspensões de fungos filamentosos pode
logia em um biorreator? ser modelada como fluidos pseudoplásticos ou, se
houver um limiar de tensão que precisa ser atingido,
como plásticos de Bingham ou de Casson.
Por outro lado a reologia de caldos diluídos e cul-
turas de leveduras e células que não formam cadeias
geralmente é newtoniana.
A reologia do caldo fermentado pode variar du-
rante a reação. Em fluidos pseudoplásticos, os valores
do índice de consistênca K e do seu expoente n podem
variar com o tempo. É possível um caldo começar como
fluido newtoniano (n = 1) e se tornar pseudoplástico
(n < 1 sem um valor constante).
Mudanças na reologia de caldos em fermentação
podem ser causados, por exemplo, por variações em
uma ou mais dessas propriedades:
(i) concentração celular;
(ii) morfologia celular (inclusive tamanho e forma);
(iii) pressão osmótica;
(iv) concentração de substrato ou produto polimérico;
Concentração celular: a viscosidade de suspensões
de esferas em um líquido newtoniano pode ser calcu-
lada através da Equação de Vand,
µ = µL (1 + 2, 5ψ + 7, 25ψ 2 ) (8)
onde µL é a viscosidade do líquido solvente e ψ é a
fração volumétrica de sólidos suspensos. Essa equação
se mostrou precisa para leveduras e esporos até uma
fração de 14 % de sólidos em volume.
Todavia, há muitas outras células que não obede-
cem a essa relação e podem ter uma influência mais
forte na reologia do sistema. Em algumas suspensões
de células vegetais com comportamento pseudoplás-
tico, a duplicação da concentração celular pode levar a
aumentos de quase cem vezes na viscosidade aparente.
Quando a viscosidade é tão fortemente dependente da
concentração celular, uma queda brusca na viscosi-
dade pode ser atingida diluindo o caldo de fermentação
com água ou meio e a remoção periódica de parte da
cultura facilita o escoamento do fluido.
Morfologia celular: características morfológicas
exercem uma profunda influência na morfologia do
meio. Crescimentos filamentosos produzem uma
“estrutura” organizada no meio, resultando em
comportamento pseudoplástico ou plástico, particular-
mente no caso de hifas muito ramificadas. Por outro
lado, caldos contendo células granuladas tendem a ter
comportamento mais newtoniano.
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Que fatores afetam a reo- Pressão osmótica: a pressão osmótica afeta o turgor
logia em um biorreator? da célula, isto é, sua pressão interna. Um aumento
no turgor eleva a flexibilidade das hifas de células
filamentosas, o que por sua vez reduz a viscosidade
aparente do caldo fermentativo.
Concentrações de produto e substrato: quando o
produto da fermentação é um polímero (por exemplo,
polissacarídeos como dextrana, alginato e goma xan-
tana), sua excreção contínua em uma cultura batelada
aumenta a viscosidade do caldo. Nesses casos, a
concentração de polímero costuma ter um efeito maior
sobre a reologia do meio do que a concentração celular.
Analogamente, quando o meio contém um subs-
trato polimérico, como amido, a viscosidade aparente
vai decrescer conforme a fermentação progride. Pode
ocorrer também uma mudança progressiva de com-
portamento não newtoniano para newtoniano. Em
fermentações de mofos e bolores, o crescimento da
rede filamentosa pode tornar o fluido mais viscoso e
com comportamento mais pseudoplástico.
Como o cisalhamento no Além de as células presentes no caldo fermentado afe-
reator afeta as células? tarem as características reológicas do fluido, o cisalha-
mento imposto ao fluido pelo sistema de agitação tam-
bém tem influência nas células. Altos cisalhamentos po-
dem levar ao rompimento da membrana celular, parti-
cularmente em células mais sensíveis, como as células
animais. Esse tipo de reação requer cuidados, como re-
atores especiais ou imobilização celular em partículas
sólidas.
Resumo
Reologia de biorreatores As características reológicas de um caldo fermentado
em um reator depende de vários fatores, como a con-
centração celular em seu interior, tipo de células e suas
características de crescimento. O tipo de produto ou
substrato presente no caldo também pode ter grande
influência.
Bibliografia
[1] P.M. Doran. (2013). Bioprocess Engineering Principles. Academic Press. 2a ed., Capítulos 7 e 8.