Emma Bovary: Reflexões e Identidade
Emma Bovary: Reflexões e Identidade
BÁRBARA PRINCE
Editorial
ROBERTO JANNARELLI, VICTORIA REBELLO & ISABEL RODRIGUES
Comunicação
MAYRA MEDEIROS, PEDRO FRACCHETTA & GABRIELA BENEVIDES
Preparação
SOFIA SOTER
Revisão
KARINA NOVAIS & NATÁLIA MORI
Produção gráfica
DESENHO EDITORIAL
Projeto gráfico e capa
LUCIANA FACCHINI
Apresentação
VIVIAN VILLANOVA
Textos de
MARIA RITA KEHL
CLAUDIA AMIGO PINO
NORMA TELLES
VIVIAN VILLANOVA é comunicadora social e criadora do canal de YouTube Vivieuvi, que já conta
com mais de seiscentos vídeos sobre arte e cultura. Colabora com o programa Metrópolis, da TV
Cultura, e com eventos do mercado da arte como SP-Arte, ArtRio e ArtWeekend, além de ministrar
cursos livres sobre arte. Assina a direção artística de projeto de arte de rua e poesia com mulheres.
Acredita na arte como guia para ver, pensar e sentir a vida.
A
MARIE-ANTOINE-JULES SÉNARD
MEMBRO DA ORDEM DOS ADVOGADOS DE PARIS, EX-PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA
NACIONAL E EX-MINISTRO DO INTERIOR
GUSTAVE FLAUBERT
Paris, 12 de abril de 1857
Para Louis Bouilhet
SUMÁRIO
FOLHA DE ROSTO
EMMA BOVARY SOU EU
DEDICATÓRIA
SUMÁRIO
PARTE 1
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
PARTE 2
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
XII
XIII
XIV
XV
PARTE 3
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
BOVARY, BOVARISMO
O INSOLENTE PRAZER DE EMMA BOVARY E GUSTAVE FLAUBERT
RETOQUES AO RETRATO DE EMMA
PÁGINA DE DIREITOS AUTORAIS
PARTE 1
I
Estávamos na sala de estudos quando o diretor entrou, seguido de um
novato sem uniforme e de um funcionário da escola que carregava uma
grande carteira. Aqueles que estavam dormindo acordaram, e todos se
puseram de pé como que surpreendidos em pleno trabalho.
O diretor fez sinal para que nos sentássemos; depois, dirigiu-se ao
professor.
— Monsieur Roger — disse-lhe a meia-voz —, eis um aluno que lhe
confio, ele está entrando no sétimo ano. Se fizer por merecer, com seu
trabalho e conduta, passará para a turma dos maiores, adequada à sua idade.
Parado no canto atrás da porta, onde mal podíamos vê-lo, o novato
era um rapaz do campo, de mais ou menos quinze anos, e mais alto do que
todos nós. Tinha os cabelos cortados retos na testa, como um mestre de coro
de aldeia; parecia comportado e muito constrangido. Embora não tivesse os
ombros largos, o paletó verde de botões pretos parecia apertá-lo embaixo do
braço, e a abertura das mangas revelava pulsos vermelhos habituados a andar
descobertos. As pernas, em meias azuis, apareciam por baixo das calças
amareladas, muito esticadas pelos suspensórios. Calçava sapatos grosseiros,
mal engraxados e reforçados com pregos.
Começamos a recitar as lições. Ele escutava a plenos ouvidos, atento
como se ouvisse um sermão, sem ousar cruzar as pernas, nem apoiar-se nos
cotovelos, e às duas horas, quando o sino tocou, o professor foi obrigado a
avisá-lo que deveria formar uma fila conosco.
Tínhamos o hábito de, ao entrar na sala, jogar nossos bonés no chão,
para ficar com as mãos mais livres; da soleira da porta, era preciso
arremessá-los debaixo do banco, fazendo-os bater na parede e levantar muita
poeira; aí é que estava o estilo.
Mas, seja porque não tivesse reparado na manobra ou porque não se
atrevesse a imitá-la, o novato ainda segurava o boné no colo quando a oração
terminou. Era um desses chapéus de estilos mistos, onde se encontram traços
da barretina de pele, da chapska1, do chapéu redondo, do boné de caça em
pele de lontra e do gorro de algodão, uma daquelas pobres coisas, enfim,
cuja feiura silenciosa tem expressões profundas, como o rosto de um
imbecil. Ovoide e cheio de barbatanas, o boné começava por três rolos
circulares; em seguida alternavam-se, separados por uma faixa vermelha,
losangos de veludo e pele de coelho; a seguir, vinha uma espécie de saco que
terminava em um polígono cartonado, coberto com um complexo bordado
em sutache, do qual pendia, na ponta de um cordão longo e muito fino, um
emaranhado de fios dourados, em formato de borla. Era novo; a viseira
brilhava.
— Levante-se — disse o professor.
Ele se levantou; o boné caiu. Toda a classe começou a rir.
Abaixou-se para pegá-lo. Um colega ao lado o derrubou com uma
cotovelada, e ele o apanhou mais uma vez.
— Livre-se de uma vez do boné — disse o professor, que era um
homem espirituoso.
Uma explosão de risos dos alunos desorientou o pobre rapaz, tanto
que não sabia se devia segurar o boné, deixá-lo no chão ou enfiá-lo na
cabeça. Tornou a sentar-se e a segurá-lo no colo.
— Levante-se — repetiu o professor — e diga-me seu nome.
O novato articulou, com a voz trêmula, um nome ininteligível.
— Repita!
Ouviu-se o mesmo balbuciar de sílabas, encoberto pelas vaias da
classe.
— Mais alto! — gritou o professor. — Mais alto!
O novato, tomando então uma resolução extrema, escancarou a boca
e berrou, a plenos pulmões, como se para chamar alguém, a seguinte
palavra: Charbovari.
Foi uma algazarra que explodiu, elevou-se em crescendo, com
rompantes de vozes agudas (gritavam, latiam, sapateavam, repetiam:
Charbovari! Charbovari!),2 e depois se espalhou em notas isoladas,
acalmando-se a duras penas, e que às vezes ressurgia de repente em uma
fileira de bancos, onde estourava, aqui e ali, como uma bomba mal apagada,
algum riso contido.
No entanto, sob uma chuva de punições, a ordem aos poucos se
restabeleceu na sala, e o professor, tendo conseguido descobrir o nome de
Charles Bovary, após tê-lo feito ditar, soletrar e reler, ordenou ao pobre
coitado que fosse para o canto da disciplina, ao pé de sua mesa. O garoto fez
menção de ir para lá, mas hesitou.
— O que está procurando? — perguntou o professor.
— Meu bo… — disse timidamente o novato, olhando inquieto à sua
volta.
— Quinhentos versos para toda a classe! — exclamou o professor em
voz furiosa, detendo, tal como Quos ego3, uma nova ventania. — Fiquem
quietos! — continuou indignado, enxugando o rosto com o lenço que havia
acabado de tirar da touca. — Quanto a você, novato, copie vinte vezes o
verbo ridiculus sum.4
Depois, com uma voz mais suave:
— Ora! Você encontrará o seu boné; ninguém o roubou!
Tudo voltou à calma. Os alunos se debruçaram sobre as pastas, e o
novato permaneceu duas horas em uma postura exemplar, ainda que
recebesse, de vez em quando, alguma bolinha de papel lançada de um bico
de pena, e que acabava por espirrar em seu rosto. Mas ele se limpava com as
mãos e continuava imóvel, os olhos baixos.
Ao final da tarde, na sala de estudos, desapoiou os punhos da
carteira, arrumou seus pertences, e pautou seu papel com cuidado.
Percebemos que ele trabalhava com seriedade, procurando todas as palavras
no dicionário e fazendo muito esforço. Graças, sem dúvida, a essa boa
vontade, não precisou voltar a uma série inferior; pois, embora conhecesse
razoavelmente as regras, tinha pouca elegância no fraseado. Fora o padre de
sua aldeia quem o iniciara no latim; seus pais, por economia, só o mandaram
para a escola o mais tarde possível.
Seu pai, Monsieur Charles-Denis-Bartholomé Bovary, antigo
assistente de cirurgião-chefe, envolvido, por volta de 1812, com questões de
recrutamento militar, e forçado, por aquela época, a abandonar o serviço,
tirara proveito de seus privilégios pessoais para agarrar um dote de sessenta
mil francos que se oferecia pela filha de um comerciante de malhas, a qual
se apaixonara por sua figura. Bonito, falante, fazendo soar alto suas esporas,
de costeletas que desciam até o bigode e dedos sempre cheios de anéis, e
vestido com cores vistosas, Monsieur Bovary tinha o aspecto de um homem
destemido, com a desenvoltura fácil de um caixeiro-viajante. Uma vez
casado, viveu dois ou três anos da fortuna de sua esposa, comendo bem,
acordando tarde, fumando cachimbos de porcelana, voltando para casa
apenas após os espetáculos e frequentando os cafés. O sogro faleceu e
deixou muito pouco; ele ficou indignado, lançou-se nos negócios, perdeu
algum dinheiro, e retirou-se para o campo, onde planejava fazer render a
terra. Contudo, como não entendia de agricultura muito mais do que
entendia de malhas, como preferia montar seus cavalos a mandá-los para a
lavoura, bebia sua sidra engarrafada em vez de vendê-la em barricas, comia
as melhores aves do galinheiro e engraxava os sapatos de caça com a banha
de seus porcos, não demorou a perceber que seria melhor abandonar
qualquer tipo de especulação.
Por duzentos francos por ano, encontrou para alugar uma
propriedade, meio fazenda, meio casarão, em uma aldeia nos confins da
região de Caux e da Picardia; e, desolado, corroído de remorso, culpando os
céus, com inveja de todos, adoeceu aos quarenta e cinco anos, desgostoso da
vida, dizia ele, e decidido a viver em paz.
Em outros tempos, sua esposa fora louca por ele; amara-o com mil
servilismos que acabaram por afastá-lo ainda mais. Antes alegre, expansiva e
muito afetuosa, ao envelhecer, tornara-se (como um vinho que, exposto ao
ar, se transforma em vinagre) de difícil temperamento, irritadiça, nervosa.
Muito havia sofrido, sem reclamar, de início, quando o via correr atrás de
todas as prostitutas de aldeia, e quando vinte lugares mal-afamados o
mandavam de volta para casa à noite, apático e fedendo de bêbado! Então o
orgulho dela se revoltou. Foi quando se calou, engolindo a raiva em um
estoicismo mudo, que guardou até a morte. Estava sempre às compras,
lidando com negócios. Visitava advogados, o juiz, lembrava-se do
vencimento das contas, barganhava prazos; e, no lar, passava, costurava,
lavava, supervisionava a criadagem, pagava os ordenados, enquanto o
homem da casa, sem se preocupar com coisa alguma, cada vez mais
entorpecido em uma sonolência amuada, da qual só despertava para proferir
ofensas, permanecia fumando ao pé da lareira, cuspindo nas cinzas.
Quando ela teve um filho, foi preciso deixá-lo com uma ama de leite.
De volta à casa da família, o pequeno foi mimado como um príncipe. A mãe
o alimentava com doces; o pai deixava que corresse descalço, e, para bancar
o filósofo, dizia até que o menino podia andar nu em pelo, como uma cria
animal. Em oposição às tendências maternas, ele tinha em mente um certo
ideal viril da infância, segundo o qual buscava formar seu filho, desejando
que fosse criado com rigor, à maneira espartana, para que tivesse boa
constituição. Ele o mandava dormir no frio, ensinava-o a beber rum em
grandes tragadas e a insultar as procissões. Entretanto, naturalmente
tranquilo, o menino não respondia bem a esses esforços. A mãe carregava-o
para todo lado; recortava figuras, contava histórias, se entretinha com ele em
monólogos sem fim, cheios de alegrias melancólicas e tagarelices meigas.
Em sua vida isolada, transferiu para a cabeça da criança todas as suas
vaidades esparsas, destruídas. Sonhava com as altas esferas, e o imaginava
grandioso, brilhante, estabelecido na engenharia civil ou na magistratura.
Ensinou o filho a ler e, com ajuda de um velho piano que possuía, o ensinou
até a cantar duas ou três canções românticas. Mas Monsieur Bovary, pouco
afeito às letras, dizia que nada daquilo valia a pena! Por acaso aquilo
ajudaria a mantê-lo nas escolas do governo, a comprar um cargo ou um
fundo de negócios? Além disso, com audácia, um homem sempre vence na
vida. Madame Bovary mordia os lábios, e o garoto vagava pela aldeia.
Ele seguia os lavradores, e enxotava os corvos com punhados de
terra, fazendo-os levantar voo. Comia amoras ao longo das valas, tomava
conta dos perus com uma vara, secava a colheita, corria nos bosques, pulava
amarelinha no pórtico da igreja nos dias de chuva, e, nas grandes
festividades, implorava ao sacristão para que o deixasse tocar o sino, para se
pendurar na corda com todo o corpo e sentir-se embalado por ela em seu
voo.
Assim, cresceu como um carvalho. Desenvolveu mãos fortes, uma
pele corada.
Aos doze anos, a mãe conseguiu que começasse os estudos. O
professor encarregado foi o padre. Porém, as aulas eram tão curtas e
irregulares que não poderiam servir para muita coisa. Davam-se nos
momentos livres, na sacristia, em pé e às pressas, entre um batizado e um
velório; ou então o pároco mandava buscar o aluno após o toque das
trindades, quando não precisava mais sair. Subiam para o quarto dele,
acomodavam-se; os mosquitos e as mariposas voavam em torno da vela.
Fazia calor, o menino adormecia, e o bom professor, cochilando com as
mãos sobre a barriga, não demorava a roncar, de boca aberta. Outras vezes,
quando o padre, voltando de levar a comunhão a algum doente dos
arredores, via que Charles andava aprontando pelos campos, chamava-o,
aplicava um sermão de quinze minutos e aproveitava a ocasião para fazê-lo
conjugar os verbos à sombra de alguma árvore. Eram atrapalhados pela
chuva, ou por algum conhecido que passava. No mais, estava sempre
satisfeito com o aluno, e dizia até que o jovem rapaz tinha boa memória.
Charles não poderia parar por ali. A mãe foi enérgica. Envergonhado,
ou cansado, talvez, o pai cedeu sem resistência, e esperaram ainda mais um
ano até que o garoto fizesse sua primeira comunhão.
Passaram-se ainda seis meses; e, no ano seguinte, Charles foi enfim
conduzido ao colégio de Rouen, onde o pai mesmo o levou, ao final do mês
de outubro, na época da feira de São Romão.
Seria agora impossível que qualquer um de nós se lembrasse de algo
a respeito dele. Era um menino de temperamento equilibrado, que brincava
durante o recreio, estudava o conteúdo, prestava atenção nas aulas, dormia
bem no dormitório, se alimentava bem no refeitório. Tinha como
responsável um vendedor de quinquilharias da rua Ganterie, que saía com
ele uma vez por mês, aos domingos, quando sua loja estava fechada, e o
levava ao porto para ver os barcos, depois o trazia de volta ao colégio a
partir das sete horas, antes do jantar. Toda noite de quinta-feira, ele escrevia
uma longa carta à mãe, com tinta vermelha e três lacres de cera; depois
estudava seus cadernos de história ou lia um antigo volume de Anacársis5
encontrado na sala de estudos. Quando em passeio, conversava com o
funcionário da escola, que também era do campo.
De tanto se dedicar aos estudos, mantinha-se sempre na média da
classe; uma vez, recebeu até menção honrosa em história natural. Porém, ao
final do nono ano, seus pais o tiraram do colégio para que cursasse medicina,
convencidos de que ele poderia prosseguir sozinho até obter o bacharelado.
A mãe escolheu um dormitório para ele, no quarto andar, na rua Eau-
-de--Robec6, com um tintureiro que conhecia. Acertou os detalhes de sua
pensão, arranjou móveis, uma mesa e duas cadeiras, mandou vir de casa uma
velha cama de cerejeira, e comprou ainda um pequeno fogareiro em ferro
fundido, com a provisão de lenha necessária para aquecer seu pobre menino.
Partiu ao final da semana, após milhares de recomendações para que se
portasse bem, agora que ele estaria abandonado à própria sorte.
O programa do curso, que ele leu no quadro de avisos, o deixou
atordoado: aulas de anatomia, aulas de patologia, aulas de fisiologia, aulas
de farmácia, aulas de química, e de botânica, e de clínica, e de terapêutica,
sem contar a higiene nem a matéria médica, todos termos cuja etimologia ele
desconhecia e que eram como portas de santuários cheios de trevas
assombrosas.
Ele não entendia nada; ouvia bem, mas não conseguia aprender.
Ainda assim, estudava. Encapava seus cadernos, acompanhava todas as
aulas, não perdia uma única consulta. Cumpria sua pequena tarefa cotidiana
à maneira de um cavalo de moenda, que gira sobre o mesmo eixo, de olhos
vendados, ignorando o serviço que executa.
Para que ele economizasse nas despesas, sua mãe enviava-lhe a cada
semana, pelo mensageiro, um pedaço de vitela assada, que ele comia pela
manhã, quando voltava do hospital, batendo as solas contra a parede para
aquecer os pés. Em seguida, era preciso correr para as aulas, para o
anfiteatro, para o asilo, e depois voltar para casa, percorrendo de volta todas
as ruas. À noite, após o parco jantar oferecido pelo proprietário, ele voltava
para o quarto e retomava os estudos, com as roupas úmidas que fumegavam
sobre o corpo, diante do fogareiro incandescente.
Nas belas noites de verão, quando as ruas mornas estavam vazias e as
empregadas jogavam peteca nas soleiras das portas, ele abria a janela e se
apoiava sobre os cotovelos. O rio, que fazia daquele bairro de Rouen uma
pequena Veneza ignóbil, corria lá embaixo, amarelo, violeta ou azul, entre
pontes e grades. Trabalhadores, agachados na margem, lavavam os braços na
água. Penduradas nas varas que saíam do alto dos sótãos, meadas de algodão
secavam no ar. À frente, além dos telhados, o grande céu puro se estendia,
com sol vermelho poente. Como devia ser agradável lá! Que frescor nos
bosques de faias! Ele abria as narinas para inspirar os aromas do campo, que
não vinham até ali.
Emagreceu, ficou mais alto, e seu rosto adquiriu uma espécie de
expressão lastimosa que o tornava quase interessante.
Naturalmente, por indiferença, acabou por desligar-se de todas as
resoluções que havia tomado. Uma vez faltou à consulta, no outro dia, às
aulas, e, apreciando a preguiça, pouco a pouco, não voltou mais.
Incorporou o hábito de frequentar os cabarés, com paixão especial
pelo dominó. Confinar-se a cada noite em um recinto público imundo, para
bater ossinhos de carneiro marcados por pontos pretos sobre mesas de
mármore, parecia-lhe um precioso ato de liberdade, que levantava sua
autoestima. Era como uma iniciação ao mundo, o acesso a prazeres
proibidos; e, ao entrar, apoiava a mão na maçaneta da porta com uma alegria
quase sensual. Assim, muitas coisas nele comprimidas puderam se dilatar;
decorou versos que cantava para dar boas-vindas, entusiasmou-se com
Béranger7, aprendeu a fazer ponche e conheceu enfim o amor.
Graças a esses trabalhos preparatórios, fracassou completamente em
seu exame para oficial de saúde. Na mesma noite, era aguardado em casa
para festejar o sucesso!
Partiu a pé e parou na entrada da aldeia, de onde pediu que
chamassem a mãe e contou-lhe tudo. Ela o perdoou, atribuindo a reprovação
à injustiça dos examinadores, e o reconfortou um pouco, encarregando-se de
dar um jeito nas coisas. Só cinco anos mais tarde Monsieur Bovary soube da
verdade; que era velha, e que ele aceitou, sem poder supor, aliás, que um
filho seu fosse um tolo.
Charles então retomou o trabalho e estudou sem descanso as matérias
de seu exame, cujas questões decorou com antecedência. Foi aprovado com
uma nota bastante boa. Que belo dia para sua mãe! Deram um grande jantar.
Onde exerceria sua arte? Em Tostes. Lá existia apenas um velho
médico. Havia muito tempo que Madame Bovary ansiava pela morte dele, e
o pobre homem ainda não tinha batido as botas quando Charles se instalou
do outro lado da rua, como seu sucessor.
Não bastava ter criado o filho, tê-lo feito estudar medicina e ter
descoberto que ele poderia exercê-la em Tostes: faltava-lhe uma esposa. Ela
encontrou: a viúva de um oficial de justiça de Dieppe, que tinha quarenta e
cinco anos de idade e mil e duzentas libras de renda.
Embora fosse feia, seca como uma vareta, e tivesse o rosto cheio de
brotoejas, a verdade é que não faltavam a Madame Dubuc pretendentes a
escolher. Para alcançar sua meta, a mãe Bovary foi obrigada a eliminar todos
eles, e desfez, com muita habilidade, as intrigas de um açougueiro que era
sustentado pelos padres.
Charles vislumbrara no casamento a possibilidade de melhorar suas
condições, imaginando que seria mais livre, e que poderia dispor de sua
pessoa e de seu dinheiro. Porém, quem mandava era sua esposa; ele deveria
dizer isto e não dizer aquilo diante das pessoas, jejuar às sextas-feiras, vestir-
se como ela julgava adequado, importunar, por ordem sua, os clientes que
não o pagavam. Ela violava sua correspondência, vigiava seus passos e
escutava as consultas, atrás da divisória, quando as pacientes eram mulheres.
Era preciso servir o chocolate dela todas as manhãs, oferecer
cuidados sem fim. Ela reclamava sem cessar dos nervos, de dores no peito,
dos seus humores. O barulho dos passos a incomodava; quando iam embora,
a solidão era-lhe terrível; se retornavam, era para vê-la morrer, sem dúvida.
À noite, quando Charles voltava para casa, ela tirava os braços franzinos de
sob os lençóis, pendurava-os em volta de seu pescoço, fazia-o sentar-se na
beirada da cama e começava a falar de suas tristezas: ele a esquecia, ele
amava outra! Bem que lhe haviam dito que seria infeliz; e ela terminava por
pedir a ele algum xarope para a sua saúde e um pouco mais de amor.
1 Chapéu de origem polonesa, usado por lanceiros militares da França no século XIX.
2 A reação da turma pode ser interpretada como um trocadilho, associando a sonoridade do nome de Charles à
palavra charivari, que significa barulheira, algazarra, confusão. A origem do termo vem de uma antiga tradição
aldeã de zombar, com cantorias e panelaços, de recém-casados cuja união era malvista.
3 Expressão em latim, retirada da obra Eneida de Virgílio. Netuno usa essas palavras para ameaçar os ventos
rebeldes desencadeados no mar. Pode ser traduzida como “Eu deveria…”.
4 “Sou ridículo”, em latim no original.
5 A viagem do jovem Anacársis pela Grécia, em meados do século IV (1788), ficção escrita por Jean-Jacques
Barthélemy (1716–1795) sobre o filósofo cita do século VII a.C.
6 Bairro da cidade de Rouen, pobre e periférico à época, nas margens do riacho Robec. Seus principais
moradores eram artesãos do ramo de tecidos.
7 Pierre-Jean de Béranger (1780–1857). Poeta francês, autor de canções de teor político e patriótico no período
pós-Revolução Francesa. Gustave Flaubert era crítico a Béranger.
II
Certa noite, por volta das onze horas, foram acordados pelo barulho de um
cavalo que parou à porta. A criada abriu a janela do sótão e conversou
durante algum tempo com um homem que ficou lá embaixo, na rua. Tinha
vindo à procura do médico; trazia uma carta. Nastasie desceu as escadas
tremendo e abriu a fechadura e os ferrolhos, um de cada vez. O homem
prendeu o cavalo e entrou, seguindo a criada. Sacou do gorro de lã de tufos
cinzentos uma carta embrulhada em um pedaço de pano e entregou-a com
delicadeza a Charles, que se apoiou com os cotovelos no travesseiro para ler
melhor. Nastasie, ao lado da cama, segurava a lamparina. A esposa, por
pudor, permanecia virada para o outro lado, dando as costas.
Aquela carta, fechada com um lacre de cera azul, suplicava a
Monsieur Bovary que fosse imediatamente até a fazenda Bertaux, para tratar
de uma perna quebrada. Ora, de Tostes a Bertaux são uns vinte e cinco
quilômetros, passando por Longueville e Saint-Victor. A noite estava escura.
Madame Bovary temia que o marido se acidentasse. Portanto, foi decidido
que o cavalariço iria na frente. Charles partiria três horas depois, ao nascer
da lua. Enviariam um garoto ao seu encontro, para mostrar o caminho da
fazenda e abrir as porteiras.
Por volta das quatro da manhã, Charles, bem agasalhado em seu
casaco, pôs-se a caminho de Bertaux. Ainda entorpecido pelo calor do sono,
deixava-se ninar pelo trote suave de seu cavalo. Quando o animal parava por
conta própria diante dos buracos rodeados de espinhos escavados à beira dos
sulcos das plantações, Charles acordava sobressaltado, lembrava-se da perna
quebrada e tratava de relembrar todas as fraturas que conhecia. A chuva já
não caía; o dia começou a raiar, e, nos galhos secos das macieiras, os
passarinhos se mantinham imóveis, eriçando as plumas no vento frio da
manhã. A planície campestre estendia-se a perder de vista, e os buquês de
árvores em torno das fazendas formavam, em intervalos distantes, borrões de
um tom violeta-escuro sobre a grande superfície cinza, que se perdia no
horizonte, no tom sombrio do céu. Charles, de tempos em tempos, abria os
olhos; então, com o cansaço do espírito e o sono que ressurgia de forma
involuntária, logo entrava em uma espécie de torpor, no qual suas sensações
recentes confundiam-se com lembranças, fazendo-o se perceber como um
duplo, ora como estudante, ora como homem casado, dormindo em sua
cama, como pouco antes, atravessando uma sala de pacientes operados,
como outrora. O odor quente das cataplasmas se misturava em sua mente ao
verde aroma do orvalho; ouvia deslizar sobre os suportes os aros das cortinas
das camas e sua mulher a dormir… Ao passar por Vassonville, avistou, à
beira de uma valeta, um jovem sentado na relva.
— O senhor é o médico? — perguntou o menino.
E, diante da resposta de Charles, pegou seus tamancos e saiu
correndo à sua frente.
No caminho, o agente de saúde compreendeu, pela conversa do guia,
que Monsieur Rouault devia ser um fazendeiro dos mais abastados. Tinha
fraturado a perna na noite anterior, voltando da comemoração do Dia de
Reis, na casa de um vizinho. Sua esposa falecera havia dois anos. Ele não
tinha ninguém além de sua filha mocinha, que o ajudava a cuidar da casa.
Os sulcos das rodas na estrada tornavam-se mais profundos. Ele se
aproximava da casa de Bertaux. O rapazote, enfiando-se em um buraco da
cerca viva, desapareceu, e depois voltou do fundo de um pátio, para abrir a
porteira. O cavalo escorregava no capim molhado; Charles abaixou-se para
passar sob os galhos. Os cães de guarda latiam no canil, repuxando as
correntes. Ao entrar na propriedade de Bertaux, seu cavalo teve medo e
recuou.
Era uma fazenda de boa aparência. Via-se, por cima das portas
abertas dos estábulos, grandes cavalos de tração, que comiam tranquilamente
em cochos novos. Ao longo das instalações, estendia-se um grande
espalhador de esterco, de onde subia vapor, e, entre galinhas e perus,
ciscavam ainda cinco ou seis pavões, o luxo dos galinheiros da região de
Caux. O curral de ovelhas era comprido, e o celeiro, alto, de muros lisos
como a palma da mão. No galpão, havia duas charretes e quatro arados, com
seus chicotes, cabrestos e equipamentos completos, cujos pelegos de lã azul
se sujavam com a poeira fina que caía dos celeiros. O terreno do pátio era
em aclive, com árvores espaçadas em simetria, e o barulho alegre de um
bando de gansos ressoava perto do açude.
Uma jovem, com um vestido de lã merino azul, enfeitado com três
babados, veio até a entrada da casa para receber Monsieur Bovary e conduzi-
lo até a cozinha, onde flamejava um fogo intenso. A refeição dos
empregados borbulhava no entorno, em pequenas panelas de tamanhos
desiguais. Roupas úmidas secavam na lareira. A pá, a pinça e o bocal do
fole, todos de proporções colossais, brilhavam como aço polido enquanto, ao
longo das paredes, se estendia uma bateria de utensílios de cozinha, que
refletiam de modo diverso as chamas, junto com as primeiras centelhas de
sol que entravam pelas vidraças.
Charles subiu até o primeiro andar para ver o doente, que estava
deitado na cama, suando sob as cobertas, tendo arremessado para bem longe
sua touca de algodão. Era um homenzinho gordo, de cinquenta anos, pele
branca, e olhos azuis, calvo na testa, e que usava brincos. Mantinha ao seu
lado, sobre uma cadeira, um garrafão de aguardente, da qual se servia de
quando em quando, para ter mais coragem; mas, logo que viu o médico, seu
entusiasmo decaiu e, em vez de praguejar como nas doze horas anteriores,
começou a gemer baixinho.
A fratura era simples, sem complicação de qualquer espécie. Charles
não poderia ter desejado algo mais fácil. Então, lembrando-se da conduta de
seus professores junto ao leito dos feridos, reconfortou o paciente com todo
tipo de gracejos, afagos cirúrgicos que são como o óleo para lubrificar os
bisturis. A fim de fazer uma tala, foram buscar na cocheira um feixe de
ripas. Charles escolheu uma, cortou-a em pedaços e aplainou-a com um
estilhaço de vidro, enquanto a criada rasgava pedaços de lençol para fazer
tiras, e Mademoiselle Emma tratava de costurar almofadinhas. Como ela
demorou muito até encontrar o estojo, seu pai perdeu a paciência; ela não
respondeu nada; mas, concentrada na costura, espetava os dedos e logo os
levava à boca para chupar.
Charles ficou surpreso com a brancura das unhas da moça. Eram
brilhantes, finas nas pontas, mais limpas do que os marfins de Dieppe8, e
cortadas em formato amendoado. As mãos, entretanto, não eram bonitas, não
muito alvas, talvez, e um pouco ressecadas nas falanges; eram também
muito longas, sem inflexões suaves nos contornos. O que ela tinha de belo
eram os olhos; embora fossem castanhos, pareciam pretos por causa dos
cílios, e seu olhar chegava ao outro com franqueza, em uma espécie de
ousadia inocente.
Uma vez que o curativo estava feito, o médico foi convidado, pelo
próprio Monsieur Rouault, a comer alguma coisinha antes de partir.
Charles desceu até a sala, no térreo da casa. Dois conjuntos de
talheres, com taças de prata, estavam postos sobre uma pequena mesa ao pé
de uma grande cama com dossel, forrada por um tecido estampado com
personagens turcos. O perfume de íris e de lençóis úmidos escapava do
armário alto de madeira de carvalho, em frente à janela. No chão, pelos
cantos, havia sacos de trigo dispostos em pé. Era o excedente do celeiro ao
lado, aonde se subia por três degraus de pedra. Para decorar o recinto,
pendurada por um prego no meio da parede verde descascada devido ao
salitre, uma cabeça de Minerva9 desenhada em grafite, emoldurada em
dourado, que trazia, embaixo, escrito em letras góticas: “Ao meu caro
papai”.
Falaram primeiro do doente, depois do tempo, dos grandes frios, dos
lobos que percorriam os campos à noite. Mademoiselle Rouault não se
divertia muito no interior, sobretudo desde que fora deixada quase sozinha
nos cuidados com a fazenda. Como a sala estava fresca, ela tremia ao comer,
o que revelava um pouco os lábios carnudos, que tinha o costume de morder
nos momentos de silêncio.
Seu pescoço saía de uma gola branca, virada para fora. O cabelo,
cujas duas metades pretas pareciam peças individuais, de tão lisas, estava
dividido ao meio por uma fina risca, que se afundava ligeiramente de acordo
com a curva do crânio; deixando ver apenas as pontas das orelhas,
misturava-se atrás em um coque volumoso, com um movimento ondulado
em direção às têmporas, de um jeito que o médico do campo via pela
primeira vez em sua vida. As maçãs do rosto eram rosadas. Como um
homem, ela portava, preso entre dois botões do corpete, um lornhão10 com
aros de casco de tartaruga.
Quando Charles, após ter subido para se despedir de Monsieur
Rouault, retornou à sala antes de partir, encontrou-a em pé, com a testa
encostada na janela, olhando para o jardim onde as estacas dos feijões
tinham sido derrubadas pelo vento. Voltou-se para ele.
— O senhor procura algo? — disse ela.
— Meu chicote, por favor — respondeu ele.
Ele se pôs a procurar sobre a cama, atrás das portas, embaixo das
cadeiras; tinha caído no chão, entre os sacos e a parede. Mademoiselle
Emma o avistou; ela inclinou-se sobre os sacos de trigo. Charles, por
cavalheirismo, antecipou-se e, ao estender o braço na mesma direção, sentiu
o peito tocar as costas da jovem, curvada sob ele. Ela reergueu-se, muito
enrubescida, e, olhando para trás, estendeu-lhe o nervo de boi11.
Em vez de retornar a Bertaux após três dias, conforme havia
prometido, ele voltou logo no dia seguinte, e depois duas vezes por semana,
regularmente, sem contar as visitas inesperadas que por vezes fazia, como
que por acaso.
De resto, tudo correu bem; a recuperação seguiu conforme previsto e
quando, ao final de quarenta e seis dias, viram que Monsieur Rouault tentava
andar sozinho em seu casebre12, começaram a considerar Monsieur Bovary
um homem de grande capacidade. Monsieur Rouault dizia que não teria sido
mais bem tratado pelos principais médicos de Yvetot, nem mesmo de Rouen.
Quanto a Charles, ele não se perguntou por que vinha a Bertaux com
prazer. Se pensasse no assunto, teria, sem dúvida, atribuído seu zelo à
gravidade do caso, ou talvez ao lucro que esperava dele. Seria por isso, no
entanto, que as visitas à fazenda constituíam, entre as pobres ocupações de
sua vida, uma adorável exceção? Naqueles dias, Charles acordava na hora
certa, partia a galope, apressava o cavalo, depois descia para limpar os
sapatos na relva e calçava as luvas pretas antes de entrar. Gostava de chegar
ao pátio, de sentir o toque da porteira no ombro ao abri-la, e do galo que
cantava no muro, dos meninos que vinham ao seu encontro. Gostava do
celeiro e dos estábulos; gostava do velho Rouault, que lhe batia na mão,
chamando-o de seu salvador; gostava dos tamanquinhos de Mademoiselle
Emma sobre os ladrilhos limpos da cozinha; os saltos faziam com que
ficasse um pouco mais alta, e, quando ela caminhava à sua frente, as solas de
madeira, erguendo-se com rapidez, estalavam com um ruído seco contra o
couro da botina.
Ela sempre o conduzia até o primeiro degrau da escada de entrada.
Enquanto não traziam o cavalo dele, ela permanecia ali. Já tinham se
despedido, não conversavam mais; o ar livre a envolvia, bagunçando os
fiozinhos de cabelo da nuca, ou sacudindo junto aos quadris os cordões do
avental, que tremulavam feito bandeirolas. Certa vez, em uma época de
degelo, as cascas das árvores gotejavam no pátio, e a neve derretia nos
telhados. Ela estava na soleira; foi buscar a sombrinha e abriu-a. A
sombrinha, de uma seda iridescente que filtrava o sol, iluminava a pele clara
de seu rosto com o movimento dos reflexos. Ela sorria com o calor brando; e
ouviam-se as gotas d’água, uma a uma, caindo no tecido fino esticado.
Nos primeiros tempos em que Charles frequentou Bertaux, Madame
Bovary não deixou de se informar sobre o doente, e mesmo no livro de
registros, no qual anotava os débitos e créditos, escolheu para Monsieur
Rouault uma bela página em branco. Entretanto, quando soube que ele tinha
uma filha, tratou de buscar informações; e descobriu que Mademoiselle
Rouault, criada no convento das Ursulinas, recebera, como se diz, uma boa
educação, e que aprendera, por consequência, dança, geografia, desenho,
tapeçaria e piano. Foi o cúmulo!
— Então é por isso — dizia a si mesma — que ele tem a expressão
tão alegre quando vai vê-la, e que veste seu colete novo, correndo o risco de
estragá-lo na chuva? Ah! Essa mulher! Essa mulher!…
Por instinto, detestou-a. No começo, desabafava com indiretas, e
Charles não compreendia; depois, com reclamações esporádicas que ele
deixava passar, por medo de uma tempestade; por fim, com interpelações à
queima-roupa, às quais ele não sabia responder. Por qual motivo ele
retornava a Bertaux, se Monsieur Rouault já se curara e aquela gente ainda
estava devendo? Ah! É porque existia uma pessoa lá, alguém que sabia
conversar, uma bordadeira, um espírito elevado. Era disso que ele gostava:
precisava de mocinhas da cidade! E ela continuava:
— A filha do velho Rouault, uma mocinha da cidade! Ora essa! O
avô era pastor, e um de seus primos por pouco não foi parar no banco dos
réus, por causa de um golpe sujo em uma briga. Não vale a pena fazer tanto
estardalhaço, nem se exibir aos domingos na igreja com um vestido de seda,
como uma condessa. Pobre homem, aliás, que sem as couves-nabiças do ano
passado teria se atrapalhado muito para pagar as contas em atraso!
Exausto, Charles deixou de ir a Bertaux. Héloïse o havia feito jurar
que não iria mais, com a mão sobre o missal, depois de muitas lágrimas e
beijos, em uma grande explosão de amor. Ele obedeceu; mas o ardor de seu
desejo protestou contra sua conduta servil e, por uma espécie de hipocrisia
ingênua, avaliou que a proibição de vê-la era como um direito de amá-la.
Além disso, a viúva era magra, tinha os dentes longos, vestia, em todas as
estações, um xale preto cuja ponta descia-lhe entre as omoplatas, e seu corpo
duro vivia encerrado em vestidos justos, em forma de bainha, demasiado
curtos, que deixavam os tornozelos descobertos, com as tiras dos sapatos
largos cruzadas sobre meias de cor cinza.
A mãe de Charles vinha vê-los de vez em quando; mas, depois de
alguns dias, a nora parecia tê-la afiado conforme o seu ponto; e então, como
duas facas, elas o escarificavam com suas críticas e observações. Ele fazia
mal em comer tanto! Por que sempre oferecia um trago ao primeiro que
aparecia? Que teimosia em não querer usar flanela!
Aconteceu que, no início da primavera, um notário de Ingouville,
detentor dos fundos da viúva Dubuc, partiu, um belo dia, levando consigo
todo o dinheiro do seu escritório. Héloïse, é verdade, possuía ainda, além da
parte em um navio, avaliada em seis mil francos, sua casa na rua Saint-
François; e, no entanto, de toda aquela fortuna da qual se fez tanto alarde,
nada fora trazido para aquele casamento, a não ser alguma mobília e alguns
trapos. Foi preciso tirar a coisa a limpo. A casa de Dieppe estava corroída de
hipotecas até as estruturas; o dinheiro que ela confiara ao notário, só Deus
sabia, e a parte no navio não excedia mil escudos. Então a boa mulher havia
mentido! Em sua exasperação, Monsieur Bovary pai, quebrando uma cadeira
contra o piso, acusou a esposa de ter feito a desgraça do filho, atrelando-o a
uma égua magra da qual nem os arreios tinham valor. Foram a Tostes.
Explicaram-se. Houve cena. Héloïse, aos prantos, atirando-se nos braços do
marido, suplicou que a defendesse dos pais dele. Charles tentou falar por ela.
Eles se zangaram e partiram.
Mas o golpe estava dado. Oito dias depois, quando ela estendia
roupas no quintal, surpreendeu-se ao cuspir sangue e, no dia seguinte,
enquanto Charles lhe dava as costas para fechar as cortinas, ela disse “Ah!
Meu Deus!”, deu um suspiro e perdeu a consciência. Ela estava morta! Que
assombro!
Quando tudo terminou no cemitério, Charles voltou para casa. Não
encontrou ninguém no térreo; subiu ao outro andar. No quarto, viu o vestido
dela ainda pendurado ao pé da alcova. Então, apoiando-se na escrivaninha,
ali permaneceu até o anoitecer, perdido em um devaneio doloroso. Ela o
havia amado, no final das contas.
16 Romance escrito pelo francês Bernardin de Saint-Pierre (1737–1814), publicado em 1787, que retrata o amor
de dois jovens na Île de France, hoje Ilhas Maurício.
17 Louise de la Vallière (1644–1710), amante renomada do rei Luís XIV da França, que se retirou para um
convento após mais de uma década de permanência na corte.
18 Denis-Antoine-Luc, conde de Frayssinous (1765–1841). Autor de conferências teológicas em defesa da fé
católica, em períodos que antecederam a Revolução Francesa e a Restauração.
19 Obra do autor francês François-René de Chateaubriand (1768–1848), escrita durante o seu exílio na Inglaterra,
na década de 1790, como uma defesa da fé católica, atacada durante a Revolução Francesa. Foi publicada em 1802.
20 Walter Scott (1771–1832), escritor escocês, considerado o criador do romance histórico.
21 Mary Stuart (1542–1587), rainha da Escócia e da França, executada a mando de Elizabeth I, sob acusação de
conspiração.
22 Joana d’Arc (1412–1431), heroína francesa da Guerra dos Cem Anos, condenada à fogueira sob acusação de
bruxaria e canonizada no século XX. Héloïse (c. 1100–c. 1163), célebre freira e intelectual francesa. Agnès Sorel
(1422–1450), amante de Carlos VII da França, notável por sua beleza. A bela Ferronière, também conhecida como
Madame Le Ferron, amante de Francisco I da França (1494–1547). Clémence Isaure, personagem lendária a quem
se atribui a criação, em 1323, da Academia de Jogos Florais, sociedade literária de Toulouse.
23 São Luís IX (1214–1270), rei da França. Conhecido por seu senso de justiça, concedia audiências no Bosque
de Vincennes, à sombra de um carvalho.
24 Pierre Terrail, o senhor de Bayard (1476–1524), conhecido como o “cavaleiro sem medo e sem mancha”, que
lutou com Francisco I da França.
25 Luís XI (1423–1483), rei da França. Estabeleceu os alicerces para a monarquia absolutista ao derrotar o
feudalismo, com apoio da burguesia comerciante.
26 Referência à noite de São Bartolomeu, em 1572, quando protestantes foram massacrados em Paris a mando de
Carlos IX.
27 Como era conhecido Henrique IV da França (1553–1610), por sua origem na antiga região francesa de Béarn.
28 Luís XIV (1638–1715), rei da França, também chamado de “Rei Sol”. Seu reinado foi o mais longo daquele
país e caracterizou a consolidação do Absolutismo. É reconhecido pela delimitação das fronteiras da França, pelos
investimentos em ciência e artes, pela prosperidade e opulência nos costumes.
29 Espécie de livro ou álbum de recordações que, em meados do século XIX, era oferecido como presente de
Natal ou no primeiro dia do ano, nos meios abastados. Podiam conter gravuras, poesias ou fragmentos de textos.
30 Termo pejorativo pelo qual os turcos do Império Otomano designavam os “infiéis” a Maomé, sobretudo os
cristãos.
31 Relativas a ditirambos, formas poéticas escritas para exaltar o deus grego Dionísio e os prazeres que ele
representa.
32 Em referência ao escritor, poeta e político francês Alphonse de Lamartine (1790–1869), que influenciou o
Romantismo na França e em outros países.
VII
Ela pensava, às vezes, que eram aqueles, no entanto, os dias mais bonitos
de sua vida, a lua de mel, como diziam. Para provar de sua doçura, seria
preciso, sem dúvida, ir àqueles países de nomes sonoros onde os dias
seguintes ao casamento têm a mais deliciosa preguiça! Em carruagens com
cortinas de seda azul, sobe-se lentamente as estradas íngremes, ouvindo o
canto do cocheiro, que se repete nas montanhas com as sinetas das cabras e o
ruído surdo da cachoeira. Quando o sol se põe, respira-se o perfume dos
limoeiros nas margens dos golfos; depois, à noite, no terraço das vilas, a sós
e com os dedos misturados, os recém-casados olham para as estrelas
enquanto fazem planos. Parecia-lhe que certos lugares da Terra deviam
produzir felicidade, como uma planta específica a um solo, que cresce mal
em qualquer outro lugar. Por que não podia se debruçar na varanda dos
chalés suíços ou calar sua tristeza em uma casinha de campo escocesa, com
um marido vestido em terno de veludo preto com mangas longas, e que usa
botas macias, chapéu pontudo e manguitos?
Talvez tivesse desejado confiar a alguém todas essas coisas. No
entanto, como falar de um mal inapreensível, que muda de aspecto como as
nuvens, que turbilhona como o vento? Faltavam-lhe as palavras, a ocasião, a
ousadia.
Se Charles o tivesse tencionado, porém, se o tivesse suspeitado, se o
seu olhar, apenas uma vez, tivesse vindo ao encontro do pensamento dela,
parecia-lhe que uma abundância súbita se teria desprendido do coração dela,
como o fruto de uma árvore em espaldeira que cai ao toque das mãos.
Entretanto, à medida que se estreitava a intimidade de suas vidas, um
distanciamento interior a separava dele.
A conversa de Charles era chata como uma calçada de rua, onde as
ideias de todo mundo desfilavam em seus trajes comuns, sem despertar
emoção, risos ou devaneios. Nunca tivera curiosidade, dizia ele, enquanto
morava em Rouen, de ir ao teatro para ver os atores de Paris. Não sabia
nadar, nem esgrimir, nem atirar com pistola, e, certo dia, não conseguiu
explicar a ela um termo de equitação que ela havia encontrado em um
romance.
Um homem, ao contrário, não deveria saber tudo, sobressair-se em
múltiplas atividades, iniciá-la nos vigores da paixão, nos refinamentos da
vida, em todos os mistérios? Aquele não lhe ensinava nada, não sabia nada,
não desejava nada. Acreditava que ela estivesse feliz; e ela o reprovava por
aquela calma tão bem acomodada, por aquele peso sereno, pela própria
felicidade que ela lhe dava.
Ela às vezes desenhava; e era uma grande diversão para Charles ficar
ali, de pé, observando-a, debruçada na cartolina, piscando os olhos para
enxergar melhor o trabalho, ou fazendo bolinhas de migalhas de pão com o
polegar. Quanto ao piano, quanto mais rápido seus dedos corriam, mais ele
ficava maravilhado. Ela percutia as notas com desenvoltura, e percorria o
teclado de cima a baixo sem interrupção. Assim sacudido por ela, o velho
instrumento, cujas cordas se encrespavam, podia ser ouvido até os confins da
aldeia se a janela estivesse aberta, e, muitas vezes, o assistente do oficial de
justiça que passava na estrada principal, sem chapéu e de chinelos, parava
para ouvir, com sua folha de papel na mão.
Emma, por outro lado, sabia administrar a casa. Enviava aos doentes
a conta das consultas, em cartas desenvoltas, que não cheiravam a cobrança.
Quando, aos domingos, recebiam algum vizinho para almoçar, dava um jeito
de oferecer um prato elegante, sabia dispor sobre folhas de uvas as pirâmides
de ameixas, servia os potes de doces de cabeça para baixo sobre uma
travessa, e falava até em comprar taças para enxágue bucal para a
sobremesa. Tudo isso resultava grande consideração para Bovary.
Charles acabou por estimar-se muito mais por possuir uma mulher
como aquela. Mostrava com orgulho, na sala, dois pequenos croquis feitos
por ela em grafite, que mandara enquadrar, em molduras bem largas, e
pendurar sobre o papel de parede com longos cordões verdes. Ao sair da
missa, era visto na porta com belos chinelos de tapeçaria.
Voltava para casa tarde, às dez horas, às vezes à meia-noite. Pedia
então algo para comer, e, como a criada já havia dormido, era Emma quem o
servia. Ele tirava a sobrecasaca, para jantar mais à vontade. Contava-lhe,
uma a uma, todas as pessoas que havia encontrado, as aldeias por onde
passara, as prescrições que havia escrito e, satisfeito consigo mesmo, comia
o resto do picadinho de bife, descascava o queijo, mastigava uma maçã,
esvaziava a jarra, depois metia-se na cama, deitava-se de barriga para cima e
roncava.
Como por muito tempo tivera o hábito das toucas de algodão, seu
lenço não se mantinha preso às orelhas; assim, seus cabelos amanheciam
grudados no rosto de qualquer jeito, e embranquecidos pela penugem do
travesseiro, cujos fios se desfaziam durante a noite. Usava sempre botas
robustas, que tinham sobre o peito do pé duas dobras grossas, inclinadas para
os tornozelos, enquanto o resto da parte superior continuava em linha reta,
esticada como se por um pé de madeira. Ele dizia que eram mais do que
boas para o campo.
Sua mãe o apoiava nessa economia; pois ela vinha vê-lo como
outrora, sempre que havia em sua casa alguma tempestade um pouco
violenta; e, no entanto, Madame Bovary mãe parecia prevenida contra sua
nora. Considerava-a um tipo muito elevado para a posição financeira que
tinham; a lenha, o açúcar e as velas desapareciam como em uma casa
grande, e a quantidade de brasa que queimava na cozinha daria para vinte e
cinco pratos! Arrumava suas roupas de cama, mesa e banho nos armários e
ensinava-lhe a vigiar o açougueiro quando trazia a carne. Emma recebia as
lições; Madame Bovary as distribuía sem parcimônia; e as palavras minha
filha e minha mãe eram trocadas ao longo do dia, acompanhadas de um
pequeno frêmito dos lábios, cada uma lançando termos doces em uma voz
trêmula de raiva.
Nos tempos de Madame Dubuc, a velha ainda se sentia a favorita;
mas o amor de Charles por Emma lhe parecia uma deserção de sua ternura,
uma usurpação daquilo que lhe pertencia; e observava a felicidade do filho
com um silêncio triste, como alguém arruinado que, pela janela, olha para as
pessoas sentadas à mesa em sua antiga casa. Por meio de recordações,
lembrava-o de suas penas e sacrifícios e, comparando-os às negligências de
Emma, concluía que não era nada razoável adorá-la de maneira tão
exclusiva.
Charles não sabia o que responder; respeitava a mãe, e amava
infinitamente a esposa; considerava o julgamento de uma como infalível, e
achava a outra irrepreensível. Quando Madame Bovary já havia partido,
arriscava timidamente, e nos mesmos termos, uma ou duas das observações
mais insignificantes que ouvira sua mãe fazer. Emma, provando-lhe com
uma palavra que ele estava enganado, mandava-o de volta a seus pacientes.
No entanto, de acordo com teorias que considerava boas, ela desejou
entregar-se ao amor. Ao luar, no jardim, recitava todas as rimas apaixonadas
que sabia de cor, e cantava para ele, suspirando, adágios melancólicos; mas
encontrava-se em seguida tão calma quanto antes, e Charles não parecia nem
mais apaixonado e nem mais comovido.
Assim, quando já havia lascado a pedra sobre seu coração sem
produzir qualquer faísca, incapaz, além do mais, de compreender aquilo que
não sentia, e também de acreditar em tudo o que não se manifestava em
formas convencionais, persuadiu-se sem esforço de que a paixão de Charles
não tinha nada mais de exorbitante. Suas demonstrações de afeto tornaram-
se regulares; beijava-a em determinadas horas. Era mais um hábito entre
outros, como uma sobremesa planejada com antecedência, após a monotonia
do jantar.
Um guarda-caça, curado por Charles de uma pneumonia, tinha dado
a Madame Bovary um filhote de galgo italiano; ela o levava para passear,
pois às vezes saía para ficar sozinha por alguns instantes e não ter mais
diante dos olhos o eterno jardim com a estrada empoeirada.
Ia até a floresta de faias de Banneville, perto do pavilhão abandonado
à beira do muro, ao lado dos campos. Entre a relva, viam-se longos juncos
de folhas cortantes.
Começava olhando em volta, para conferir se alguma coisa havia
mudado desde a última vez que viera. Encontrava nos mesmos lugares as
dedaleiras e os goivos, os buquês de urtigas que rodeavam as grandes pedras,
e as manchas de líquen ao longo das três janelas, cujos painéis, sempre
fechados, desfaziam-se em podridão sobre as barras de ferro oxidadas. Seu
pensamento, a princípio sem rumo, vagava ao acaso, como seu pequeno
galgo, que corria em círculos pelo campo, ganindo para as borboletas
amarelas, caçando ratinhos, ou mordiscando papoulas à beira de um trigal.
Então suas ideias pouco a pouco se fixavam e, sentada na grama, que
revolvia levemente com a ponta da sombrinha, Emma repetia para si mesma:
— Por quê, meu Deus? Por que me casei?
Ela se perguntava se não teria havido uma maneira, por outras
combinações do acaso, de conhecer outro homem; e tentava imaginar quais
teriam sido aqueles eventos não ocorridos, aquela vida diferente, aquele
marido que ela não conhecia. Nenhum, de fato, se assemelhava ao dela. Ele
poderia ter sido bonito, espirituoso, distinto, atraente, como eram, sem
dúvida, aqueles que haviam se casado com suas antigas colegas do convento.
O que elas estariam fazendo no momento? Na cidade, com o barulho das
ruas, a badalação dos teatros e as luzes do baile, tinham existências onde o
coração se dilata, onde os sentidos desabrocham. Já sua vida era fria como
um sótão com uma claraboia voltada para o norte, e o tédio, uma aranha
silenciosa, tecia a teia nas sombras, em todos os cantos de seu coração.
Lembrava-se dos dias em que se distribuíam prêmios, quando subia ao
púlpito para receber as pequenas coroas. De cabelo trançado, vestido branco,
e sapatos de lã escura descobertos, tinha um modo gentil, e os cavalheiros,
quando ela retomava o lugar, inclinavam-se para cumprimentá-la; o pátio
estava cheio de carruagens, diziam-lhe adeus pelas portinholas, o professor
de música passava acenando com o estojo de violino. Como tudo aquilo
estava longe! Como estava longe!
Chamava Djali33, segurava-a entre os joelhos, passava os dedos em
sua cabeça longa e fina, e dizia-lhe:
— Vamos lá, beije sua dona, você que não tem sofrimentos.
Então, considerando o aspecto melancólico do animal esguio, que
bocejava com lentidão, ela se enternecia e, comparando-o consigo mesma,
falava-lhe em voz alta, como quem consola alguém aflito.
Chegavam, às vezes, rajadas de vento, brisas marítimas que, rolando
em um impulso sobre todo o planalto da região de Caux, levavam um frescor
salino até os campos. Os juncos assobiavam junto à terra, e as folhas das
faias farfalhavam em um tremor rápido, enquanto as copas, ainda
balançando, continuavam seu grande murmúrio. Emma estreitava o xale
contra os ombros e se levantava.
Na avenida, uma luz esverdeada, rebatida pela folhagem, clareava o
musgo rasteiro que estalava suavemente sob seus pés. O sol se punha; o céu
estava vermelho entre os galhos, e os troncos uniformes das árvores
plantadas em linha reta pareciam uma colunata marrom, destacando-se sobre
um fundo dourado; o medo a tomava, ela chamava Djali, voltando rápido
para Tostes pela estrada grande, desabava em uma poltrona, e por toda a
noite não falava mais.
Mas, ao final de setembro, algo de extraordinário sucedeu em sua
vida: foi convidada a ir a Vaubyessard, à residência do marquês
d’Andervilliers.
Secretário de Estado no período da Restauração, o marquês,
procurando retornar à vida política, preparava com antecedência sua
candidatura à Câmara dos Deputados. Fazia, no inverno, inúmeras
distribuições de lenha e, no Conselho Geral, sempre exigia com exaltação
estradas para o seu distrito. Tivera, na época dos calores fortes, um abscesso
na boca, do qual Charles o aliviara, como que por milagre, com uma punção
precisa de lanceta. Seu encarregado dos negócios, enviado a Tostes para
pagar pela operação, relatou, à noite, que tinha visto cerejas impressionantes
no jardim do médico. Ora, as cerejeiras cresciam mal em Vaubyessard, o
marquês pedia algumas mudas a Bovary, sentiu-se no dever de agradecer por
elas em pessoa, avistou Emma, achou que ela tinha um belo porte e que não
cumprimentava como as camponesas; tanto que, no castelo, não se julgou
que convidar o jovem casal seria ultrapassar os limites da condescendência,
nem, por outro lado, cometer uma deselegância.
Em uma quarta-feira, às três horas, Monsieur e Madame Bovary,
montados em seu cabriolé, partiram para Vaubyessard, com um grande baú
amarrado na parte de trás e uma caixa de chapéus que foi colocada na frente.
Charles segurava, além disso, uma caixa entre as pernas.
Chegaram ao anoitecer, quando os lampiões no parque começavam a
ser acesos para iluminar o caminho dos veículos.
33 Referência à cabra de Esmeralda, personagem de O corcunda de Notre-Dame (1831), de Victor Hugo (1802–
1855).
VIII
Ocastelo, de construção moderna, ao estilo italiano, com duas alas
salientes e três escadarias de entrada, estendia-se no fundo de uma imensa
área gramada onde pastavam algumas vacas, entre grandes árvores
espaçadas, enquanto canteiros de arbustos, azaleias, lilases e viburnos
projetavam seus tufos irregulares de vegetação ao longo das curvas do
caminho arenoso. Um rio passava sob uma ponte; através da neblina,
distinguiam-se construções com telhados de colmo, espalhadas nas
campinas, que bordeavam, em declive suave, duas colinas cobertas de
bosques, e por trás, no denso arvoredo, erguiam-se, em duas linhas paralelas,
os galpões e as cavalariças, restos preservados do antigo castelo demolido.
O cabriolé de Charles parou em frente aos degraus do meio; os
criados apareceram; o marquês se aproximou e, oferecendo o braço à esposa
do médico, conduziu-a ao vestíbulo.
Era pavimentado com lajes de mármore, muito alto, e o som de
passos e vozes ressoava como dentro de uma igreja. Em frente, erguia-se
uma escadaria reta e, à esquerda, uma galeria com vista para o jardim levava
à sala de bilhar, de onde se ouvia, desde a porta, o carambolar das bolas de
marfim. Como precisou atravessá-la para ir ao salão, Emma viu em torno do
jogo homens com expressões sérias, de queixo pousado sobre gravatas altas,
enfeitados, e sorrindo em silêncio ao empunhar os tacos. Na madeira escura
dos lambris, grandes quadros dourados traziam, na parte inferior das
molduras, nomes escritos em letras pretas. Ela leu: “Jean-Antoine
d’Andervilliers d’Yverbonville, conde de Vaubyessard e barão de Fresnaye,
mortos na batalha de Coutras, 20 de outubro de 1587”. E em outro: “Jean-
Antoine-Henry-Guy d’Andervilliers de Vaubyessard, almirante da França e
cavaleiro da ordem de São Miguel, ferido no combate de La Hougue-Saint-
Vaast, em 29 de maio de 1692, falecido em Vaubyessard, em 23 de janeiro
de 1693”. Mal se distinguiam os que o seguiam, pois a luz dos lampiões,
rebatida pelo feltro verde da mesa de bilhar, fazia pairar uma sombra no
recinto. Dando um aspecto bronzeado às telas horizontais, rompia-se contra
elas em arestas finas, conforme as rachaduras do verniz; e de todos aqueles
grandes quadrados pretos emoldurados em ouro emergia, aqui e ali, alguma
porção mais clara da pintura, um rosto pálido, dois olhos que encaravam,
perucas desenroladas sobre os ombros empoeirados das fardas vermelhas, ou
então a fivela de uma liga acima de uma panturrilha roliça.
O marquês abriu a porta do salão; uma das senhoras se levantou (a
própria marquesa), veio ao encontro de Emma e a fez sentar-se ao seu lado,
em um sofá de dois lugares, onde se pôs a conversar com ela de modo
amigável, como se a conhecesse havia muito tempo. Era uma mulher de uns
quarenta anos, com belos ombros, nariz aquilino e voz arrastada, e naquela
noite usava, sobre os cabelos castanhos, um simples lenço de renda guipura
que caía pelas costas em forma de triângulo. Uma jovem loura estava ao seu
lado, em uma cadeira de encosto alto; e os cavalheiros, que traziam uma
florzinha na lapela das casacas, conversavam com as senhoras, todos ao
redor da lareira.
Às sete horas, foi servido o jantar. Os homens, em maior número,
sentaram-se na primeira mesa, no vestíbulo, e as senhoras na segunda, na
sala de jantar, com o marquês e a marquesa.
Emma sentiu-se, ao entrar, envolvida pelo ar cálido, uma mescla do
perfume de flores e dos tecidos finos, do aroma das carnes e do cheiro das
trufas. As velas dos candelabros prolongavam as chamas sobre as
campânulas de prata; os cristais facetados, cobertos de uma névoa fosca,
refletiam raios pálidos entre si; os buquês estavam alinhados por toda a
extensão da mesa, e nos pratos de bordas largas, cada um dos guardanapos,
dispostos à maneira de um chapéu de bispo, continha, na abertura das
dobras, um pãozinho oval. As patas vermelhas das lagostas transbordavam
das travessas; frutas grandes em cestos abertos sobrepunham-se à musse; as
codornas ainda tinham as penas, e emanavam vapores; e, de meias de seda,
calças curtas, gravata branca, e gola jabô, sério como um juiz, o mordomo-
chefe, passando entre os ombros dos convidados os pratos já cortados, com
um golpe de colher, fazia saltar o pedaço desejado. Sobre o grande
aquecedor de porcelana com hastes de cobre, uma estátua feminina coberta
até o queixo olhava imóvel para a sala cheia de gente.
Madame Bovary reparou que várias senhoras não haviam colocado
suas luvas dentro dos copos.34
Entretanto, na ponta da mesa, sozinho entre todas aquelas mulheres,
debruçado no prato cheio, com o guardanapo amarrado como o de uma
criança, um velhote comia, deixando pingar da boca gotas de molho. Tinha
os olhos irritados e usava os cabelos em um pequeno rabo, preso com uma
fita preta. Era o sogro do marquês, o velho duque de Laverdière, antigo
favorito do conde d’Artois, nos tempos das caçadas de Vaudreuil, residência
do marquês de Conflans, e que havia sido, diziam, amante da rainha Maria
Antonieta, entre os srs. Coigny e Lauzun. Havia levado uma vida estrondosa
de libertinagem, cheia de duelos, apostas e mulheres roubadas, tinha
devorado sua fortuna e aterrorizado toda a família. Um criado, atrás de sua
cadeira, descrevia-lhe, aos berros, em seu ouvido, os pratos que ele apontava
com o dedo, gaguejando; e os olhos de Emma se voltavam de forma
involuntária para aquele velho de lábios pendentes, como algo extraordinário
e augusto. Ele tinha vivido na corte e dormido em camas de rainhas!
Serviram champagne gelado. Emma arrepiou-se toda ao sentir o frio
na boca. Nunca tinha visto romãs, nem comido abacaxis. Até o açúcar
refinado parecia-lhe mais branco e fino do que em outros lugares.
As senhoras, em seguida, subiram aos seus quartos para se arrumar
para o baile.
Emma fez a toalete com a consciência meticulosa de uma atriz em
noite de estreia. Fez os cabelos de acordo com as recomendações do
cabeleireiro, e entrou no vestido de barège35 disposto sobre a cama. As
calças de Charles apertavam-no na barriga.
— As alças sob os pés vão me atrapalhar para dançar — disse ele.
— Dançar? — respondeu Emma
— Sim!
— Mas você perdeu a cabeça? Será motivo de risada, fique no seu
lugar. Além disso, é mais apropriado para um médico — acrescentou ela.
Charles calou-se. Andava de um lado para o outro, esperando que
Emma terminasse de se vestir.
Ele a via por trás, no espelho, entre duas velas. Seus olhos pretos
pareciam mais escuros. Seu cabelo dividido ao meio, suavemente puxado em
direção às orelhas, reluzia com um brilho azul; uma rosa balançava na haste
móvel em seu coque, com gotas de orvalho fictícias na borda das folhas.
Usava um vestido cor de açafrão claro, realçado por três buquês de
minirrosas misturadas com ramos verdes.
Charles veio beijá-la no ombro.
— Deixe-me! — disse ela. — Está me amarrotando.
Ouviu-se um ritornelo de violino e os sons de uma trompa. Ela
desceu as escadas, evitando correr.
As quadrilhas haviam começado. As pessoas chegavam, empurrando
umas às outras. Ela se posicionou perto da porta, em uma banqueta.
Quando a contradança terminou, o piso ficou livre para os grupos de
homens que conversavam em pé, e para criados vestidos de libré que traziam
grandes bandejas. Ao longo da fileira de mulheres sentadas, leques pintados
se agitavam, os buquês escondiam parte dos rostos sorridentes, e frascos
com tampas de ouro giravam nas mãos entreabertas, cujas luvas brancas
marcavam o formato das unhas e apertavam os punhos. Os enfeites de renda,
os broches de diamantes, as pulseiras de medalhão vibravam nos corpetes,
cintilavam sobre os seios, farfalharam nos braços descobertos. Os penteados,
bem colados à testa e retorcidos na nuca, tinham, em coroas, cachos ou
ramos, miosótis, jasmins, flores de romã, espigas ou centáureas. Pacíficas
em seus lugares, mães emburradas usavam turbantes vermelhos.
O coração de Emma palpitou um pouco quando, com seu par lhe
segurando pelas pontas dos dedos, colocou-se em linha à espera do primeiro
toque do arco. Logo a emoção desapareceu; balançando-se ao ritmo da
orquestra, deslizava para a frente, com movimentos sutis do pescoço. Um
sorriso surgia em seus lábios a certas nuances do violino, que tocava
sozinho, às vezes, enquanto os outros instrumentos silenciavam; ouvia-se o
barulho nítido das moedas de ouro depositadas ao lado, sobre as toalhas das
mesas; então tudo começava outra vez, o trompete projetava o timbre
sonoro, os pés retomavam o ritmo, as saias se avolumavam e se tocavam; os
pares davam-se as mãos, soltavam-nas; os mesmos olhos que se abaixavam,
voltavam a fixar-se sobre seus pares.
Alguns homens (cerca de quinze), com idades entre vinte e cinco e
quarenta anos, dispersos entre os dançarinos ou conversando nas portas,
destacavam-se da multidão por um ar de família, quaisquer que fossem suas
diferenças de idade, de vestimenta ou de porte.
Seus trajes, mais bem-feitos, pareciam de um tecido mais macio, e
seus cabelos, cacheados em direção às têmporas, engomados com pomadas
mais refinadas. Tinham a tez da riqueza, aquele tom branco que realça a
palidez da porcelana, os reflexos do cetim, o verniz dos belos móveis, e de
quem cultiva a saúde com um regime discreto de alimentos requintados.
Seus pescoços giravam à vontade em gravatas baixas; suas costeletas longas
caíam sobre colarinhos virados; enxugavam os lábios em lenços bordados
com um grande monograma, que emanavam um perfume adocicado.
Aqueles que começavam a envelhecer mantinham o aspecto jovial, enquanto
algo de maduro irradiava do rosto dos jovens. Em seus olhares indiferentes
pairava a tranquilidade das paixões saciadas a cada dia; e trespassava seus
modos gentis aquela brutalidade particular que comunica o domínio das
coisas meio fáceis, nas quais se exerce a força e a vaidade se diverte, o
manejo de cavalos puro-sangue e a companhia de mulheres perdidas.
A três passos de Emma, um cavalheiro de terno azul falava da Itália
com uma jovem pálida, que usava um conjunto de pérolas. Exaltavam a
espessura dos pilares de São Pedro, Tivoli, o Vesúvio, Castellamare e
Cascine, as rosas de Gênova, o Coliseu ao luar. Emma escutava com o outro
ouvido uma conversa cheia de palavras que não entendia. Rodeavam um
rapaz muito jovem que havia vencido, na semana anterior, Miss Arabella e
Romulus,36 e ganhado dois mil luíses37 saltando uma vala na Inglaterra. Um
reclamava de seus corredores, que estavam engordando; outro, dos erros de
impressão que haviam deturpado o nome de seu cavalo.
O ar do baile estava pesado; as lâmpadas iam enfraquecendo. Os
convidados voltavam para a sala de bilhar. Um criado subiu em uma cadeira
e quebrou duas vidraças; ao barulho dos estilhaços, Madame Bovary virou a
cabeça e percebeu, no jardim, junto aos vidros das janelas, os rostos dos
camponeses que observavam o que ocorria. Então lhe veio à lembrança
Bertaux. Reviu a fazenda, o brejo lamacento, seu pai de bata sob as
macieiras, e tornou a ver-se, como em outros tempos, removendo com o
dedo a nata das terrinas de leite na leiteira. Contudo, nas fulgurações da hora
presente, sua vida passada, tão nítida até então, esvaía-se por completo, e ela
quase duvidava tê-la vivido. Estava lá; e ao redor do baile, não havia nada
além de sombras, espalhadas sobre todo o resto. Ela comia então um sorvete
de marasquino, que segurava na mão esquerda em uma concha platinada,
semicerrando os olhos, com a colher entre os dentes.
Uma senhora, perto dela, deixou cair o leque. Um dançarino passou.
— Que gentileza seria, monsieur — disse ela —, se apanhasse meu
leque, que caiu atrás do sofá!
O homem inclinou-se e, ao fazer o movimento de esticar o braço,
Emma viu a mão da jovem que arremessava algo branco no chapéu dele,
dobrado em forma de triângulo. O cavalheiro, trazendo de volta o leque,
ofereceu-o à senhora, respeitosamente; ela agradeceu acenando com a
cabeça e pôs-se a inalar o aroma de seu buquê.
Depois do jantar, em que foram servidos muitos vinhos da Espanha e
do Reno, sopas de marisco e de leite de amêndoas, pudins à Trafalgar e todo
tipo de charcutaria acompanhada de geleias que chacoalhavam nos pratos, as
carruagens, uma após a outra, começaram a partir. Ao puxar do canto a
cortina de musselina, podiam-se ver, deslizando pelas sombras, as luzes das
lanternas. As cadeiras ficavam vagas; alguns jogadores ainda permaneciam;
os músicos refrescavam, com a língua, as pontas dos dedos; Charles estava
meio adormecido, recostado em uma porta.
Às três da manhã, o cotilhão38 começou. Emma não sabia dançar.
Todos valsavam, a própria Mademoiselle d’Andervilliers e a marquesa; não
havia mais ninguém além dos hóspedes do castelo, cerca de uma dúzia de
pessoas.
Nesse ínterim, um dos dançarinos, apelidado de “Visconde”, cujo
colete aberto parecia moldado no peito, veio, pela segunda vez, convidar
Madame Bovary, assegurando-lhe que a conduziria e que ela se sairia bem.
Começaram devagar, depois foram mais depressa. Giravam: tudo ao
redor girava, as lâmpadas, os móveis, os lambris, e o chão, como um disco
em um eixo. Ao passar pelas portas, o vestido de Emma, pela barra, raspava
nas calças de seu par; suas pernas se entrelaçavam; ele baixava o olhar em
direção a ela, ela erguia o seu a ele; um torpor a tomava, parou.
Recomeçaram; e, com um movimento mais rápido, o Visconde, arrastando-a,
desapareceu com ela até o final do salão, onde, ofegante, ela quase caiu, e,
por um instante, apoiou a cabeça em seu peito. E então, ainda girando,
porém com mais calma, ele a reconduziu ao seu lugar; ela desfaleceu contra
a parede e pôs a mão sobre os olhos.
Quando os reabriu, no meio do salão, uma senhora sentada em uma
banqueta tinha diante de si três dançarinos ajoelhados. Ela escolheu o
Visconde, e o violino recomeçou.
Todos observavam. Iam e vinham, ela com o corpo imóvel e o queixo
abaixado, e ele sempre na mesma pose, a cintura arqueada, o cotovelo
arredondado, a boca para a frente. Sabia valsar, aquela lá! Continuaram por
muito tempo e fatigaram todos os outros.
Conversaram ainda alguns minutos e, depois das despedidas, ou
melhor, do bom-dia, os hóspedes do castelo foram dormir.
Charles arrastava-se pela rampa, os joelhos pareciam bambos. Havia
passado cinco horas seguidas em pé, na frente das mesas, assistindo aos
jogos de uíste sem entender nada. Assim, deu um grande suspiro de
satisfação quando tirou as botas.
Emma pôs um xale nos ombros, abriu a janela e apoiou-se nos
cotovelos.
A noite estava escura. Algumas gotas de chuva caíam. Ela inspirou o
vento úmido, que refrescava suas pálpebras. A música do baile ainda
badalava em seus ouvidos, e ela se esforçava para manter-se acordada, a fim
de prolongar a ilusão daquela vida luxuosa que logo teria de abandonar.
Veio o amanhecer. Ela olhou as janelas do castelo, longamente,
tentando adivinhar quais seriam os quartos de todos aqueles em quem havia
reparado na noite anterior. Teria gostado de conhecer suas existências, de
penetrá-las, de misturar-se a elas.
Contudo, ela tremia de frio. Despiu-se e aconchegou-se entre os
lençóis, contra Charles, que dormia.
Houve muita gente no desjejum. A refeição durou dez minutos; não
serviram nenhum licor, o que surpreendeu o médico. Em seguida,
Mademoiselle d’Andervilliers recolheu pedacinhos de pão em um cesto, para
levá-los aos cisnes no lago, e foram passear na estufa, onde plantas bizarras,
eriçadas de pelos, empilhavam-se em pirâmides sob os vasos suspensos que,
como ninhos de serpentes sobrecarregados, transbordavam longos cordões
verdes entrelaçados. O laranjal, que se encontrava ao fundo, conduzia por
um caminho coberto às dependências do castelo. O marquês, para divertir a
jovem, levou-a para conhecer os estábulos. Acima dos cochos em forma de
cesto, placas de porcelana traziam em preto o nome dos cavalos. Cada
animal se agitava em sua baia, quando alguém passava perto, estalando a
língua. O chão da selaria reluzia ao olhar, como o piso de um salão. Os
arreios de carruagem estavam pendurados no meio, em duas colunas
giratórias, e os freios, os chicotes, os estribos, e as barbelas, alinhados ao
longo de toda a parede.
Charles, enquanto isso, foi pedir a um criado que atrelasse seu
cabriolé. Levaram-no até a escadaria da entrada e, com todos os embrulhos
ali enfiados, o casal Bovary prestou as devidas cortesias ao marquês e à
marquesa e partiu para Tostes.
Emma, silenciosa, observava o girar das rodas. Charles, sentado na
extremidade do assento, conduzia com os braços afastados, e o cavalinho
trotava desajeitado entre os varais, que eram largos demais para ele. As
rédeas frouxas batiam no lombo do animal encharcado de suor, e a caixa
amarrada na parte de trás do cabriolé dava pancadas regulares contra a
carroceria.
Estavam nos arredores de Thibourville quando, diante deles, de
repente, cavaleiros passaram rindo, com charutos na boca. Emma acreditou
ter reconhecido o Visconde: virou-se e enxergou no horizonte nada além do
movimento das cabeças, descendo e subindo, segundo a cadência desigual
do trote ou do galope.
Um quilômetro adiante, foi preciso parar para remendar, com corda,
a retranca que se rompera.
Charles, dando uma última olhada nos arreios, viu algo no chão,
entre as pernas do cavalo; e apanhou uma cigarreira toda forrada de seda
verde, com um brasão estampado no meio, como na portinhola de uma
carruagem.
— Tem dois charutos dentro — disse ele. — Serão para esta noite,
depois do jantar.
— E você fuma? — perguntou ela.
— Às vezes, quando a ocasião se apresenta.
Guardou o achado no bolso e chicoteou o cavalinho.
Quando chegaram em casa, o jantar não estava pronto. A patroa
zangou-se. Nastasie respondeu com insolência.
— Vá embora! — disse Emma. — Isso só pode ser zombaria, está
demitida.
Para o jantar, havia sopa de cebola, com um pedaço de vitela com
azedinha. Sentado diante de Emma, Charles esfregou as mãos com alegria e
disse:
— Como é bom estar de volta!
Ouvia-se o choro de Nastasie. Ele gostava um pouco daquela pobre
menina. Ela havia lhe feito companhia, em outros tempos, durante muitas
noites, no ócio de sua viuvez. Fora sua primeira paciente, sua conhecida
mais antiga da região.
— Você a demitiu de vez? — disse ele, por fim.
— Sim. Quem está me impedindo? — respondeu Emma.
Então se aqueceram na cozinha, enquanto lhes preparavam o quarto.
Charles pôs-se a fumar. Fumava empinando os lábios, cuspindo a todo
minuto, reclinando a cada tragada.
— Vai te fazer mal — disse ela, com desdém.
Ele largou o charuto e correu para beber, na bomba, um copo de água
fria. Emma, pegando a cigarreira, jogou-a depressa no fundo do armário.
Como foi longo o dia seguinte! Ela passeou pelo jardim, indo e
voltando pelas mesmas aleias, parando em frente aos canteiros, em frente à
espaldeira, em frente ao padre de gesso, contemplando com perplexidade
todas aquelas coisas de antes, que ela conhecia tão bem. Como o baile já lhe
parecia distante! Quem afastava, a tanta distância, a manhã de dois dias antes
e o entardecer de hoje? A viagem a Vaubyessard abrira um buraco em sua
vida, como aquelas grandes fendas que uma tempestade, em uma única
noite, às vezes abre nas montanhas. Resignou-se, no entanto; guardou com
devoção, na cômoda, seu belo traje e até seus sapatos de cetim, cujas solas se
haviam amarelado pela cera escorregadia do piso de madeira. Seu coração
era como eles: no contato com a riqueza, havia-se colocado sobre ele algo
que não se apagaria.
Tornou-se então uma ocupação para Emma a lembrança daquele
baile. Sempre que chegava a quarta-feira, dizia a si mesma, ao acordar: “Ah!
Faz oito dias… quinze dias… faz três semanas que eu estive lá!”. E, pouco a
pouco, as fisionomias confundiam-se na memória, esqueceu as árias das
contradanças, não via mais com tanta nitidez as librés e os aposentos; alguns
detalhes se foram, mas a nostalgia ficou.
34 Indicando que consideravam ultrapassada a regra social de que as mulheres não deveriam consumir bebidas
alcoólicas, sobretudo em público.
35 Tecido de lã fina, produzida na região dos Altos Pirineus, onde se situa o vilarejo de Barèges.
36 Nomes de cavalos de corrida, inspirados em personagens do poema satírico The Rape of the Lock (1712), do
poeta britânico Alexander Pope (1688–1744).
37 Moeda de ouro da época, com a imagem do rei da França.
38 Dança exuberante e de passos complexos, em pares, que costumava marcar o final de um baile.
IX
Com frequência, quando Charles saía, ela buscava no armário, entre as
dobras das roupas de cama, onde a havia deixado, a cigarreira em seda
verde.
Ela a olhava, abria-a, e até aspirava o cheiro do forro, misturado com
verbena e tabaco. A quem pertencera? Ao Visconde. Talvez fosse um
presente de sua amante. Fora bordada em algum tear de palissandra39, móvel
gracioso, escondido de todos os olhares, que havia sido ocupado por muitas
horas e sobre o qual se curvaram os cachos macios da trabalhadora
pensativa. Um sopro de amor passara pela trama da tela; cada gesto da
agulha fixara ali uma esperança ou uma lembrança, e todos aqueles fios de
seda entrelaçados eram nada mais que a continuidade da mesma paixão
silenciosa. E então o Visconde, certa manhã, a levara consigo. De que
haviam falado, enquanto ele se demorava diante das lareiras de ampla
moldura, entre os vasos de flores e os relógios Pompadour? Ela estava em
Tostes. Quanto a ele, estava em Paris agora; lá longe! Como era essa tal
Paris? Que nome desmedido! Ela o repetia em voz baixa, para agradar a si
mesma; soava em seus ouvidos como o badalo de uma catedral, flamejava a
seus olhos até nos rótulos dos potes de creme.
À noite, quando os peixeiros passavam de carroça sob as janelas
cantando “Les Compagnons de la Marjolaine”40, ela acordava e, ouvindo o
barulho dos aros de ferro das rodas, que, ao deixar a localidade, logo
abafavam-se na terra, dizia a si mesma:
— Estarão lá amanhã!
Ela os acompanhava em pensamento, subindo e descendo as colinas,
atravessando as aldeias, seguindo pela estrada principal à luz das estrelas.
Ao fim de uma distância indeterminada, sempre havia um lugar confuso
onde se extinguia o sonho.
Comprou um guia de Paris e, com a ponta do dedo sobre o mapa,
fazia compras pela capital. Subia e descia os bulevares, parando em cada
esquina, nos alinhamentos das ruas, diante dos quadrados brancos que
representavam as casas. Com os olhos cansados ao final, ela fechava as
pálpebras e via, na escuridão, contorcendo-se ao vento, as lamparinas de gás
e estribos de carroças que se exibiam em grande estampido à frente dos
teatros.
Passou a assinar o La Corbeille, jornal feminino, e o Sylphe
des
41
salons. Devorava, sem deixar passar nada, todos os relatos de estreias de
teatro, corridas e festas, interessava-se pela apresentação de cantoras, pela
inauguração de lojas. Conhecia as novas modas, a habilidade dos bons
costureiros, os dias em que a alta sociedade frequentava o parque Bois de
Boulogne ou da Ópera. Estudou, na obra de Eugène Sue, descrições de
mobiliários; lia Balzac e George Sand, buscando neles satisfações
imaginárias para seus desejos pessoais. Até mesmo à mesa trazia seu livro e
folheava as páginas, enquanto Charles comia e conversava com ela. A
lembrança do Visconde voltava sempre em suas leituras. Entre ele e os
personagens inventados, estabelecia comparações. Contudo, o círculo do
qual ele era o centro pouco a pouco se ampliou, e aquela auréola que ele
possuía, afastando-se de seu rosto, expandiu-se mais ao longe, para iluminar
outros sonhos.
Paris, mais vaga que o oceano, cintilava aos olhos de Emma em uma
atmosfera encarnada. A vida abundante que se agitava naquele tumulto era,
entretanto, dividida em partes, classificadas em quadros distintos. Emma
percebia apenas dois ou três, que escondiam todos os outros, e que
representavam por si sós toda a humanidade. O mundo dos embaixadores
desfilava sobre pisos de madeira reluzentes, em salões revestidos de
espelhos, em torno de mesas ovais cobertas por tapeçarias de veludo com
franjas de ouro. Lá havia vestidos de caudas, grandes mistérios, angústias
dissimuladas em sorrisos. Em seguida, vinha a sociedade das duquesas; eram
todos pálidos; levantavam-se às quatro horas; as mulheres — pobres anjos!
— usavam o ponto inglês na barra de suas anáguas, e os homens,
capacidades obscuras sob aparências fúteis, extenuavam seus cavalos por
pura farra, iam para Baden para a temporada de verão e, por volta dos
quarenta, finalmente, casavam-se com mulheres herdeiras. Nas cabines de
restaurante onde se janta depois da meia-noite, ria, à luz de velas, a multidão
colorida e diversa dos homens de letras e das atrizes. Eram pródigos como
reis, cheios de ambições ideais e de delírios fantásticos. Era uma existência
acima das outras, entre o céu e a terra, nas tempestades, algo sublime.
Quanto ao resto do mundo, estava perdido, sem lugar preciso, como se não
existisse. Aliás, quanto mais as coisas estavam próximas, mais o seu
pensamento se desviava. Tudo o que a cercava de imediato, o campo
monótono, pequenos burgueses estúpidos, a mediocridade da existência,
parecia-lhe uma exceção no mundo, um acaso particular em que se
encontrava presa, enquanto, para além dali, estendia-se, até onde a vista
alcançava, o imenso território de felicidades e paixões. Ela confundia, em
seu desejo, as sensualidades do luxo com as alegrias do coração, a elegância
dos hábitos com a delicadeza dos sentimentos. Não eram necessários ao
amor, como às plantas indianas, os solos preparados e uma temperatura
particular? Os suspiros ao luar, os longos abraços, as lágrimas que escorrem
nas mãos que se abandonam, todas as febres da carne e os langores da
ternura não se separavam, portanto, da sacada dos grandes castelos cheios de
ócio prazeroso, da saleta com cortinas de seda e um tapete bem espesso,
jardineiras abundantes, uma cama montada sobre um estrado, nem do brilho
das pedras preciosas e dos alamares da libré.
O mensageiro, que toda manhã vinha tratar a égua, atravessava o
corredor com tamancos grosseiros; sua blusa tinha buracos, seus pés ficavam
nus dentro dos calçados. Estava ali o mordomo de calças curtas com o qual
teria de se contentar! Quando seu trabalho terminava, não voltava mais
durante o dia; pois era o próprio Charles, ao retornar, quem colocava o
cavalo no estábulo, retirava a sela e passava o cabresto, enquanto a criada
trazia um feixe de palha que jogava, como podia, na manjedoura.
Para substituir Nastasie (que finalmente deixara Tostes, derramando
rios de lágrimas), Emma pôs a seu serviço uma jovem de quatorze anos, órfã
e de fisionomia doce. Proibiu-lhe as toucas de algodão, ensinou-lhe que
deveria dirigir-se a ela na terceira pessoa, servir o copo d’água sobre um
pires, bater nas portas antes de entrar, e também a passar, engomar, e vesti-
la, quis torná-la sua camareira. A criada nova obedeceu sem murmúrios para
não ser dispensada; e, como a senhora costumava deixar a chave no
aparador, Félicité, todas as noites, pegava um pequeno suprimento de açúcar
e levava para comer sozinha, na cama, depois de ter feito suas orações.
À tarde, às vezes, ia conversar com os cocheiros. Madame Bovary
permanecia no andar de cima, no quarto.
Ela usava um robe aberto, que revelava, entre as lapelas em xale do
corpete, uma camisola plissada com três botões dourados. Seu cinto era um
cordão com grandes borlas, e os chinelinhos de cor grená tinham um tufo de
fitas largas, que se espalhavam pelo peito do pé. Havia comprado um mata-
borrão, uma papeleira, uma caneta bico de pena e envelopes, embora não
tivesse a quem escrever; tirava o pó da prateleira, olhava-se no espelho,
pegava um livro e, sonhando entre as linhas, deixava-o cair no colo. Tinha
vontade de viajar ou de voltar a morar no convento. Queria, ao mesmo
tempo, morrer e morar em Paris.
Charles, na neve ou na chuva, cavalgava pelos atalhos. Comia
omelete nas mesas das fazendas, enfiava o braço nas camas úmidas, recebia
no rosto o jato morno de sangue ao ouvir a respiração dos agonizantes,
examinava as bacias, enrolava bem os lençóis sujos; mas encontrava, todas
as noites, um fogo aceso, a mesa posta, móveis confortáveis e uma mulher
de toalete fina, charmosa e exalando a frescor, mesmo que não soubesse de
onde vinha aquele aroma, ou se não era sua pele que perfumava a camisa.
Ela o encantava com uma série de delicadezas: era às vezes uma
maneira nova de fazer arandelas de papel para as velas, um babado que
trocava no vestido, ou o nome extraordinário de um prato muito simples, e
que a criada havia errado, mas que Charles engolia, até o fim, com prazer.
Ela viu, em Rouen, senhoras que usavam no relógio um feixe de pingentes;
ela comprou os pingentes. Quis ter sobre a lareira dois grandes vasos de
vidro azul, e, algum tempo depois, um estojo de marfim, com um dedal de
prata. Quanto menos Charles entendia essas elegâncias, mais se submetia à
sedução. Acrescentavam algo ao prazer de seus sentidos e à doçura do lar.
Era como uma poeira de ouro que se espalhava ao longo da pequena trilha de
sua vida.
Ele ia bem, tinha boa aparência; sua reputação estava perfeitamente
estabelecida. Os camponeses o estimavam por não ser orgulhoso. Acariciava
as crianças, nunca ia ao cabaré e, além disso, inspirava confiança por sua
moral. Obtinha bons resultados, em particular, com catarros e doenças do
tórax. Temendo matar sua gente, Charles, na verdade, não receitava muito
mais do que poções calmantes, de vez em quando um vomitório, um escalda-
pés ou sanguessugas. Não é que as cirurgias o assustassem; sangrava as
pessoas sem restrição, como cavalos, e tinha para a extração de dentes uma
força infernal.
Por fim, para manter-se atualizado, fez uma assinatura do La Ruche
Médicale, um novo periódico do qual havia recebido o prospecto. Lia-o um
pouco depois do jantar; mas o calor do ambiente, somado à digestão, fazia
com que adormecesse depois de cinco minutos; e permanecia lá, com o
queixo nas mãos, e os cabelos esparramados feito crina até o pé da lâmpada.
Emma olhava-o e dava de ombros. Se ao menos tivesse como marido um
desses homens de ardores taciturnos, que trabalham à noite sobre os livros, e
que portam, finalmente, aos sessenta anos, quando vem a idade do
reumatismo, um broche em forma de cruz42 no terno preto, malfeito. Teria
gostado que o nome Bovary, que era o seu, fosse ilustre, de vê-lo exposto
junto aos livreiros, repetido nos jornais, conhecido em toda a França. Mas
Charles não tinha ambição! Um médico de Yvetot, com quem ultimamente
se havia encontrado em consultas, humilhara-o um pouco, à beira do leito do
enfermo, diante dos parentes reunidos. Quando Charles lhe contou, à noite,
sobre o episódio, Emma enfureceu-se em voz alta contra o colega. Charles
ficou tocado. Beijou sua testa com lágrimas nos olhos. Contudo, ela estava
exasperada de vergonha, tinha vontade de bater nele, foi para o corredor
abrir a janela e tragou o ar fresco para se acalmar.
— Que infeliz! Que infeliz! — dizia ela, baixinho, mordendo os
lábios.
Sentia-se, na verdade, mais irritada com ele. Charles adquiria, com a
idade, modos grosseiros; cortava, na hora da sobremesa, as rolhas das
garrafas vazias; passava, depois de comer, a língua nos dentes; fazia, ao
tomar sopa, uma espécie de cacarejo a cada vez que engolia; e, como estava
engordando, seus olhos, já pequenos, pareciam subir para as têmporas pelo
inchaço das bochechas.
Emma, às vezes, enfiava-lhe no colete a borda vermelha de suas
malhas de tricô, endireitava sua gravata, ou jogava fora as luvas desbotadas
que ele estava prestes a colocar; e não era, como acreditava Charles, por ele;
era por ela mesma, por uma expansão do egoísmo, da irritação nervosa. Às
vezes, também lhe falava das coisas que havia lido, como a passagem de um
romance, uma peça nova, ou uma anedota sobre a alta sociedade que fora
contada no folhetim; pois, afinal, Charles era alguém, um ouvido sempre
aberto, uma aprovação sempre pronta. Ela fazia muitas confidências ao seu
cachorrinho! Poderia tê-las feito às lenhas da lareira e ao pêndulo do relógio.
No fundo da alma, no entanto, esperava por um evento. Como
marinheiros em apuros, percorria os olhos desesperados sobre a solidão de
sua vida, procurando ao longe alguma vela branca nas brumas do horizonte.
Ela não sabia qual seria esse acaso, o vento que o empurraria para ela, para
qual margem a levaria, se seria uma chalupa ou um navio de três mastros,
carregado de angústia ou cheio de felicidade até as escotilhas. Entretanto, a
cada manhã, ao acordar, aguardava-o para aquele dia, e ouvia todos os
ruídos, levantava-se sobressaltada, ficava perplexa por ele não ter vindo;
então, ao pôr do sol, sempre mais triste, desejava estar no dia seguinte.
A primavera reapareceu. Ela sentiu-se sufocar nos primeiros calores,
quando as pereiras floriram.
Desde o começo de julho, contou nos dedos quantas semanas lhe
faltavam para chegar ao mês de outubro, pensando que o marquês
d’Andervilliers, talvez, pudesse dar outro baile em Vaubyessard. Porém,
todo o mês de setembro decorreu sem cartas nem visitas.
Após o aborrecimento pela decepção, seu coração tornou a ficar
vazio, e a série dos dias iguais recomeçou.
Iriam suceder-se em fileira, sempre parecidos, incontáveis, e
oferecendo nada! As outras existências, por mais chatas que fossem, tinham
ao menos a chance de algum acontecimento. Uma aventura trazia às vezes
peripécias sem fim, e o cenário mudava. Para ela, porém, nada acontecia.
Deus assim o quisera! O porvir era um corredor todo escuro, que tinha, ao
fundo, a porta bem fechada.
Abandonou a música. Por que tocar? Quem ouviria? Como ela nunca
poderia, em vestido de veludo de mangas curtas, em um piano Érard43, em
concerto, tateando com os dedos leves sobre as teclas de marfim, sentir,
como uma brisa, circulando ao seu redor, um murmúrio de êxtase, não valia
a pena entediar-se com o estudo. Abandonou no armário seus cadernos de
desenho e a tapeçaria. Para quê? Para quê? A costura a irritava.
— Já li tudo — dizia a si mesma.
E ficava esquentando as pinças da lareira, ou vendo a chuva cair.
Como ficava triste aos domingos, quando soavam as vésperas! Ela
escutava, em um torpor atento, soar uma a uma as badaladas rachadas dos
sinos. Algum gato no telhado, andando devagar, arqueava as costas sob os
raios pálidos do sol. O vento, na estrada principal, soprava faixas de poeira.
Ao longe, às vezes, um cachorro uivava: e o sino, em intervalos iguais,
continuava sua toada monótona que se perdia no campo.
Enquanto isso, o povo saía da igreja. As mulheres de tamancos
lustrados, os camponeses de blusas novas, as criancinhas que saltitavam à
frente sem chapéu, todos voltavam para casa. E, até o anoitecer, cinco ou
seis homens, sempre os mesmos, ficavam jogando rolha em frente à porta
principal da hospedaria.
O inverno foi frio. As vidraças, todas as manhãs, ficavam carregadas
de gelo, e a luz, esbranquiçada através delas, como por vidros foscos, às
vezes não variava durante o dia. A partir das quatro da tarde, era preciso
acender a lâmpada.
Nos dias de sol, ela descia até o jardim. O orvalho havia deixado
rendas de prata com longos fios claros que se estendiam de um repolho para
o outro. Não se ouviam os pássaros, tudo parecia dormir, a árvore em
espaldeira coberta de palha e a vinha como uma grande cobra doente sob o
espigão do muro, onde se via, de perto, o arrastar dos tatus-bolinha de patas
numerosas. Nos pinheiros, perto da cerva viva, a estátua do padre com
chapéu de três pontas que lia o breviário perdera o pé direito, e até o gesso,
descamando com a geada, deixara-lhe crostas brancas no rosto.
Então ela subia, fechava a porta, espalhava as brasas e, abatida pelo
calor do ambiente, sentia o tédio ainda mais pesado recair sobre si. Poderia
ter descido para conversar com a criada, mas certo pudor a impedia.
Todo dia, à mesma hora, o professor da escola, com um gorro de seda
preto, abria os toldos de sua casa, e o guarda-campestre passava, carregando
o sabre atravessado sobre a blusa. De tarde e de manhã, os cavalos do
correio, três a três, atravessavam a rua para beber água no brejo. De vez em
quando, soava a campainha da porta de um cabaré, e, quando ventava, dava
para ouvir ranger, sobre as duas hastes, as pequenas bacias de cobre do
cabeleireiro, que serviam de tabuleta na loja. Tinha como decoração uma
antiga gravura de moda colada na vidraça e um busto feminino em cera, cujo
cabelo era louro. O cabeleireiro também lamentava-se de sua vocação
interrompida, de seu futuro perdido, e, sonhando com alguma loja em uma
cidade grande, como em Rouen, por exemplo, no porto, perto do teatro,
passava o dia todo caminhando da prefeitura à igreja, sombrio, e esperando a
clientela. Quando Madame Bovary abria os olhos, via-o sempre ali, como
uma sentinela no posto, de boina grega sobre as orelhas e paletó de lasting44.
À tarde, às vezes, o rosto de um homem aparecia por trás das janelas
da sala, um rosto bronzeado, de costeletas pretas, e que lentamente dava um
sorriso largo e suave, de dentes brancos. Uma valsa logo começava e, no
órgão, em um pequeno salão, dançarinos da altura de um dedo, mulheres de
turbante rosa, tiroleses de fraque, macacos de terno preto, senhores de calças
curtas, rodavam e rodavam entre as poltronas, sofás, e consoles, repetindo-se
nos pedaços de espelho, ligados nos cantos por um filete de papel dourado.
O homem girava a manivela, olhando para a direita, para a esquerda e para
as janelas. De vez em quando, lançando contra o poste de amarração um
longo jato de saliva marrom, levantava do joelho o instrumento, cuja alça
dura cansava-lhe o ombro; e, ora dolente e arrastada, ora alegre e ligeira, a
música da caixa escapava, ressoando por uma cortina de tafetá rosa, sob uma
grade de cobre em arabescos. Eram melodias que se tocavam em outros
lugares, nos teatros; cantadas nos salões e dançadas à noite sob os
candelabros acesos, ecos do mundo que chegavam a Emma. Sarabandas
intermináveis se desdobravam em sua cabeça; e, como uma bayadère45
sobre as flores de um tapete, seus pensamentos precipitavam-se com as
notas, balançando de sonho em sonho, de tristeza em tristeza. Quando o
homem já havia recebido as esmolas em seu boné, baixava um velho
cobertor de lã azul, pendurava o órgão nas costas e retirava-se para longe em
um passo pesado. Ela o observava partir.
Era sobretudo na hora das refeições que ela não aguentava mais,
naquela salinha do térreo, com a fumaça do fogão, a porta que rangia, as
goteiras nas paredes, as lajotas úmidas; toda a amargura da existência lhe
parecia servida no prato e, no vapor da fervura, subia do fundo de sua alma
como outras baforadas de fadiga. Charles demorava a comer; ela mordiscava
algumas castanhas, ou então, apoiada nos cotovelos, divertia-se com a ponta
da faca, riscando a toalha encerada.
Ela deixava tudo para a criadagem, e Madame Bovary mãe, quando
foi a Tostes para uma parte da Quaresma, ficou muito surpresa com a
mudança. Emma, aliás, antes tão cuidadosa e delicada, passava dias inteiros
sem se arrumar, usava meias de algodão cinza, iluminava a casa com velas.
Repetia que era preciso economizar, já que não eram ricos, acrescentando
que estava muito feliz, muito contente, que Tostes lhe agradava muito, e
outros discursos novos que calavam a boca da sogra. De resto, Emma não
parecia mais disposta a seguir os conselhos dela; certa vez, tendo Madame
Bovary metido na cabeça defender que os patrões deveriam vigiar a religião
dos criados, respondera-lhe com um olhar tão colérico e com um sorriso tão
frio, que a boa mulher não a pressionou mais.
Emma tornava-se difícil, caprichosa. Pedia pratos para si, não os
tocava, um dia tomava apenas leite puro, e, no seguinte, xícaras de chá às
dúzias. Muitas vezes insistia em não sair, depois se sentia sufocada, abria as
janelas, colocava um vestido leve. Quando havia maltratado a criada, dava-
lhe presentes ou mandava-a passear à casa dos vizinhos, do mesmo modo
que jogava, às vezes, todas as moedas brancas da bolsa para os pobres,
embora não fosse muito delicada, nem facilmente acessível à emoção alheia,
como a maioria das pessoas vindas do campo, que guardam sempre na alma
algo da calosidade das mãos paternas.
Ao final de fevereiro, Monsieur Rouault, como lembrança de sua
cura, levou pessoalmente ao genro um belíssimo peru, e ficou três dias em
Tostes. Estando Charles com seus pacientes, Emma lhe fez companhia. Ele
fumou no quarto, cuspiu nas chapas de lenha, falou-lhe das plantações, dos
bezerros, das vacas, das aves e do conselho municipal; tanto que, quando ele
se foi, ela fechou a porta com um sentimento de satisfação que a
surpreendeu. Além disso, não escondia mais seu desprezo, por nada, nem
por ninguém; e às vezes metia-se a expressar opiniões singulares,
reprovando o que os outros aprovavam, e aprovando coisas perversas ou
imorais, o que fazia o marido arregalar os olhos.
Aquela miséria duraria para sempre? Não conseguiria sair daquilo?
Ela valia, afinal, tanto quanto todos aqueles que viviam felizes! Tinha visto
duquesas em Vaubyessard que tinham o físico mais pesado e modos mais
comuns, e ela execrava a injustiça de Deus; encostava a cabeça nas paredes
para chorar; invejava as existências tumultuosas, as noites dos bailes de
máscaras, os prazeres insolentes com todas as loucuras que ela não conhecia
e que deviam provocar.
Empalidecia e sofria de precipitações cardíacas. Charles
administrava-lhe valeriana e banhos de cânfora. Tudo o que tentavam
parecia irritá-la ainda mais.
Em certos dias, tagarelava em uma abundância febril; a essas
exaltações seguiam-se, de repente, torpores em que ficava sem falar, sem se
mover. O que a reanimava então era derramar-lhe nos braços um frasquinho
de água-de-colônia.
Como ela se queixava de Tostes continuamente, Charles imaginou
que a causa de sua doença estivesse, sem dúvida, em alguma influência local
e, fixando-se naquela ideia, pensou seriamente em se estabelecer em outro
lugar.
A partir de então, ela começou a beber vinagre para emagrecer,
contraiu uma pequena tosse seca e perdeu por completo o apetite.
Custou a Charles abandonar Tostes após quatro anos de residência, e
no momento em que ele começava a se estabelecer. Se fosse necessário, no
entanto! Ele a levou a Rouen para ver seu antigo mestre. Era uma doença
dos nervos: ela devia mudar de ares.
Depois de procurar, de um lado a outro, Charles soube que havia, no
distrito de Neufchâtel, um vilarejo de porte chamado Yonville-l’Abbaye,
cujo médico, que era um refugiado polonês, acabara de deixar o local na
semana anterior. Ele então escreveu ao farmacêutico do lugar para saber qual
era o número da população, a distância a que se encontrava o colega mais
próximo, os ganhos por ano de seu antecessor etc.; e, tendo as respostas sido
satisfatórias, resolveu mudar-se na primavera, se a saúde de Emma não
melhorasse.
Um dia em que, antevendo a mudança, arrumava uma gaveta, ela
espetou os dedos em algo. Era um arame de seu buquê de casamento. Os
botões das flores de laranjeira estavam amarelados de poeira, e as fitas de
cetim, com bordas prateadas, desfiadas nas pontas. Ela o jogou no fogo.
Ardeu mais rápido do que palha seca, e depois se foi como um arbusto
vermelho sobre as cinzas, que se consumia lentamente. Ela o viu queimar.
As pequenas bagas de papelão estouravam, os fios de arame se contorciam,
as fitas de galão derretiam; e as corolas de papel, enrijecidas, balançavam
sobre a chapa como borboletas negras, que, por fim, voaram pela chaminé.
Quando partiram de Tostes, no mês de março, Madame Bovary
estava grávida.
51 Uma escala de temperatura comumente usada no século XIX, estabelecida em 1730 pelo francês René-Antoine
Ferchault de Réaumur (1683–1757).
52 Referência aos artistas italianos da cena lírica em Paris, sobretudo os que se apresentavam no Le Théâtre des
Italiens, atual Opéra Comique.
53 Até o século XIX, espaço dedicado aos livros onde, mediante uma taxa de assinatura, o público podia
consultar e emprestar livros, revistas e jornais.
54 Periódico que reunia material de diversos folhetins, publicado em Paris entre 1841 e 1885.
55 Alusão satírica ao Journal de Rouen, do qual Flaubert era crítico.
III
No dia seguinte, ao acordar, avistou o escrevente na praça. Ela estava de
penhoar. Ele levantou a cabeça e a cumprimentou. Ela respondeu com uma
inclinação rápida e fechou novamente a janela.
Léon esperou durante todo o dia para que as seis da tarde chegassem;
mas, ao entrar na hospedaria, encontrou apenas Monsieur Binet sentado à
mesa.
O jantar da véspera fora para ele um evento considerável; jamais, até
aquele momento, havia conversado durante duas horas seguidas com uma
dama. Como conseguira expor, e em tal linguagem, uma quantidade de
coisas que antes não teria falado tão bem? Era tímido, em geral, e guardava
aquela reserva que se associa tanto ao pudor quanto à dissimulação.
Considerava-se, em Yonville, que ele tinha modos adequados. Ouvia o bom
senso das pessoas maduras, e não parecia muito eufórico com a política, algo
marcante para um jovem. Possuía talentos, pintava aquarelas, sabia ler na
clave de sol e dedicava-se com gosto à literatura após o jantar, quando não
jogava cartas. Monsieur Homais considerava-o por sua instrução; Madame
Homais estimava-o por sua complacência, pois ele com frequência
acompanhava ao jardim os pequenos Homais, moleques sempre lambuzados,
muito malcriados e um tanto quanto apáticos, como a mãe. Tinham, para
cuidar deles, além da criada, Justin, estudante de farmácia, um primo
distante de Monsieur Homais que haviam acolhido por caridade, e que servia
ao mesmo tempo como empregado doméstico.
O boticário revelou-se o melhor dos vizinhos. Orientou Madame
Bovary acerca dos fornecedores, mandou vir especialmente o seu vendedor
de sidra, fez questão de degustar a bebida e cuidou para que a barrica fosse
bem armazenada na adega; indicou ainda a forma de conseguir uma boa
provisão de manteiga a um bom preço e fechou um acordo com
Lestiboudois, o sacristão, para que, além das funções sacerdotais e
mortuárias, zelasse pelos principais jardins de Yonville, recebendo por hora
ou por ano, conforme o gosto das pessoas.
A necessidade de ocupar-se dos outros não era a única coisa que
movia o farmacêutico a tanta cordialidade obsequiosa, ele tinha um plano
por trás.
Havia transgredido a lei de 19 ventoso56, ano XI, artigo 1o, que
proibia a qualquer indivíduo sem diploma o exercício da medicina; tanto
que, sob denúncias tenebrosas, Monsieur Homais fora encaminhado para
Rouen, ao senhor procurador do rei, em seu gabinete particular. O
magistrado recebera-o de pé, de toga, estola de arminho nos ombros e
barrete na cabeça. Era de manhã, antes da audiência. Ouvia-se no corredor
os passos pesados das botas dos guardas, como um barulho distante de
grandes ferrolhos que se fechavam. Os ouvidos do farmacêutico zumbiam ao
pensar que poderia sucumbir a uma crise nervosa; vislumbrou o fundo das
masmorras, a família aos prantos, a farmácia vendida, todos os frascos
espalhados; e sentiu-se obrigado a entrar em um café para tomar um copo de
rum com água gasosa, para recuperar o ânimo.
Pouco a pouco, a lembrança daquela advertência esmaecia, e ele
continuava, como antes, a dar consultas inofensivas nos fundos de sua loja.
Porém, o prefeito zangava-se, os colegas sentiam inveja, era preciso
desconfiar de tudo; aproximar-se de Monsieur Bovary, por meio de
gentilezas, significaria ganhar sua gratidão, e impedi-lo de falar mais tarde,
caso notasse alguma coisa. Assim, todas as manhãs, Homais trazia-lhe o
jornal, e muitas vezes, à tarde, saía um pouco da farmácia para ir prosear na
casa do médico.
Charles estava triste: a clientela não chegava. Ele permanecia sentado
por longas horas, sem falar, ia dormir no gabinete ou observava a esposa
costurar. Para se distrair, aplicou-se na própria casa como faz-tudo e até
tentou pintar o sótão com um resto de tintas que os pintores haviam deixado
para trás. Contudo, o dinheiro o preocupava. Gastara tanto com as reformas
em Tostes, as toaletes de Madame Bovary e a mudança que todo o dote, mais
de três mil escudos, esgotara-se em dois anos. Além do mais, quantas coisas
foram danificadas ou perdidas no transporte de Tostes para Yonville, sem
falar no padre de gesso, que, caindo da carroça em uma sacudida forte,
despedaçara-se em mil cacos na calçada de Quincampoix!
Uma preocupação melhor veio para distrai-lo: a gravidez da esposa.
À medida que o termo se aproximava, ele a estimava mais. Era um outro
vínculo de sangue que se estabelecia, como o sentimento permanente de uma
união complexa. Quando via de longe seu caminhar preguiçoso e a cintura
balançar suavemente sobre os quadris sem espartilho, e quando, frente a
frente, ele a contemplava à vontade e ela, sentada, assumia posturas cansadas
na poltrona, sua alegria não se continha; levantava-se, beijava-a, acariciava
seu rosto, chamava-a de mamãezinha, queria fazê-la dançar, e proferia, meio
rindo, meio chorando, toda sorte de gracejos carinhosos que lhe vinham à
mente. A ideia de haver procriado o deleitava. Nada lhe faltava naquele
momento. Conhecia a existência humana em toda a sua dimensão, e
acomodava-se sobre os cotovelos com serenidade.
Emma, de início, sentiu um grande estranhamento, depois ansiou
pelo parto, para saber como era ser mãe. Porém, não podendo fazer os gastos
que queria, ter um berço em forma de barquinho com cortinas de seda cor-
de-rosa e touquinhas bordadas, renunciou ao enxoval em um acesso de
amargura, e encomendou-o de uma só vez a uma artesã do vilarejo, sem
escolher nem discutir nada. Não se divertiu, portanto, com esses preparativos
em que a ternura das mães se desperta, e seu afeto, desde a origem, foi talvez
atenuado em alguma medida.
No entanto, como Charles, em todas as refeições, falava do pequeno,
logo ela passou a pensar naquilo de modo mais contínuo.
Ela desejava um menino; ele seria forte e moreno, ela o chamaria de
Georges; e a ideia de ter um filho homem era como a esperança de revanche
por todas as impotências passadas. Um homem, ao menos, é livre; pode
percorrer as paixões e os países, transpor obstáculos, tomar gosto pelas
alegrias mais longínquas. Mas uma mulher é impedida continuamente. Ao
mesmo tempo inerte e flexível, tem contra si as fraquezas da carne com as
dependências da lei. Sua vontade, como o véu do chapéu preso por um
cordão, palpita com todos os ventos; há sempre algum desejo que
impulsiona, e alguma conveniência que restringe.
Deu à luz em um domingo, por volta das seis horas, ao nascer do sol.
— É uma menina! — disse Charles.
Ela virou a cabeça e desmaiou.
Quase de imediato, Madame Homais acorreu e a beijou, assim como
Madame Lefrançois, do Lion d’Or. O farmacêutico, discreto, enviou-lhe
apenas alguns cumprimentos preliminares, pela porta entreaberta. Quis ver a
criança, e achou-a bem formada.
Durante sua convalescença, ela ocupou-se muito com a busca de um
nome para a filha. Primeiro, passou em revista todos aqueles que tinham
terminações italianas, como Clara, Louisa, Amanda, Atala; gostava muito de
Galsuinde, mais ainda de Yseult ou Léocadie. Charles desejava que a criança
tivesse o nome da mãe; Emma se opôs. Percorreram o calendário de ponta a
ponta e consultaram os estrangeiros.
— Monsieur Léon — disse o farmacêutico —, com quem eu falava
outro dia, está surpreso que a senhora não escolha Madeleine, que está
muitíssimo na moda agora.
Contudo, Madame Bovary mãe protestou com veemência contra
aquele nome de pecadora. Monsieur Homais, por sua vez, tinha predileção
por todos aqueles que lembravam um grande homem, um feito ilustre ou
uma concepção generosa, e nesse sistema havia batizado seus quatro filhos.
Assim, Napoléon representava a glória, e Franklin, a liberdade; Irma, talvez,
uma concessão ao romantismo; e Athalie, uma homenagem à mais imortal
obra-prima do teatro francês57. Pois suas convicções filosóficas não
impediam suas admirações artísticas, o pensador que trazia em si não
sufocava o homem sensível; sabia estabelecer diferenças, separar a
imaginação do fanatismo. Daquela tragédia, por exemplo, julgava as ideias,
mas admirava o estilo; amaldiçoava a concepção, mas aplaudia cada detalhe,
e exasperava-se com os personagens, entusiasmado com seus discursos.
Quando lia as grandes obras, sentia-se como que transportado; mas, quando
pensava que os carolas tiravam vantagem disso para seus negócios, ficava
desolado, e, na confusão de sentimentos em que se enredava, teria desejado,
ao mesmo tempo, poder coroar Racine com as duas mãos e discutir com ele
por uns bons quinze minutos.
Por fim, Emma lembrou-se de que, no castelo de Vaubyessard, ouvira
a marquesa chamar uma jovem de Berthe; a partir de então foi aquele o
nome escolhido, e, como Monsieur Rouault não podia vir, pediram que
Monsieur Homais fosse o padrinho. Ele deu como presente todos os
produtos de seu estabelecimento, a saber: seis caixas de jujubas, um frasco
inteiro de racahout, três tubos de goma arábica, e, além disso, seis bastões
de açúcar-cande que havia encontrado em um armário. Na noite da
cerimônia, houve um grande jantar; o padre estava presente; animaram-se.
Monsieur Homais, na hora dos licores, entoou “Le Dieu des bonnes gens”58.
Monsieur Léon cantou uma barcarola, e Madame Bovary mãe, que era a
madrinha, cantou uma música do tempo do Império; finalmente, Monsieur
Bovary pai exigiu que descessem com a criança e começou a batizá-la com
uma taça de champagne que derramava do alto sobre sua cabeça. Esse
escárnio com o primeiro dos sacramentos indignou o abade Bournisien;
Monsieur Bovary pai respondeu com uma citação de A guerra dos deuses59;
o padre quis ir embora; as senhoras suplicavam; Monsieur Homais se
interpôs; e conseguiram fazer sentar-se outra vez o eclesiástico, que retomou
tranquilamente, do pires, sua xicrinha de café, bebida pela metade.
Monsieur Bovary pai ficou ainda um mês em Yonville, onde
deslumbrou os habitantes com um magnífico boné de policial com galões
prateados, que usava pela manhã para fumar seu cachimbo na praça. Tendo
também o hábito de beber muita aguardente, com frequência mandava o
criado ao Lion d’Or para comprar-lhe uma garrafa, que era lançada na conta
do filho; e usava, para perfumar seus lenços, todo o estoque de água-de-
colônia da nora.
Esta não desgostava de sua companhia. Ele havia corrido o mundo:
falava de Berlim, de Viena, de Estrasburgo, de seu tempo como oficial, das
amantes que tivera, dos grandes almoços dos quais havia participado; e se
mostrava amável, e às vezes até, fosse na escadaria ou no jardim, agarrava-a
pela cintura e gritava:
— Charles, tome cuidado!
Então Madame Bovary mãe temeu pela felicidade do filho e, com
receio de que o esposo, no longo prazo, exercesse uma influência imoral nas
ideias da jovem, apressou-se em adiantar sua partida. Talvez tivesse
preocupações mais sérias. Monsieur Bovary era um homem que não
respeitava nada.
Um dia, Emma foi tomada pela necessidade súbita de ver sua
filhinha, que fora colocada com a ama de leite, esposa do carpinteiro; e, sem
olhar no almanaque para ver se ainda duravam as seis semanas da Virgem,60
dirigiu-se à casa dos Rollet, que ficava no final do vilarejo, ao pé da encosta,
entre a estrada principal e os campos.
Era meio-dia; as casas estavam com as venezianas fechadas, e os
telhados de ardósia, que reluziam à luz áspera do céu azul, pareciam estalar
fagulhas do alto das empenas. Um vento pesado soprava. Emma sentiu-se
fraca ao caminhar; as pedrinhas da calçada a machucavam; hesitou entre
voltar para casa ou entrar em algum lugar para sentar-se.
Naquele momento, Monsieur Léon saiu de uma porta vizinha com
um maço de papéis debaixo do braço. Veio cumprimentá-la e parou na
sombra em frente à loja de Lheureux, sob o toldo cinza estendido.
Madame Bovary disse que ia ver a filha, mas que havia começado a
sentir cansaço.
— Se… — respondeu Léon, não se atrevendo a prosseguir.
— O senhor tem compromisso em algum lugar? — perguntou ela.
Diante da resposta do escrevente, pediu-lhe que a acompanhasse. À
noite o fato já era conhecido em Yonville, e Madame Tuvache, esposa do
prefeito, declarou na frente da criada que Madame Bovary estava se
comprometendo.
Para chegar à casa da ama de leite era preciso, depois da rua, virar à
esquerda, como que para chegar ao cemitério, e seguir, entre casinhas e
pátios, um pequeno caminho ladeado por alfenas. Estavam em flor, assim
como as verônicas, as rosas-mosqueta, as urtigas e os espinhos leves que
brotavam dos arbustos. Através do buraco nas sebes, via-se, nas fazendolas,
algum porquinho no chiqueiro, ou vacas com cabrestos, roçando os chifres
nos troncos das árvores. Os dois, lado a lado, caminhavam devagar, ela se
apoiando nele e ele retendo seu passo, que media ao dela; diante dos dois,
um enxame de moscas pairava, zumbindo no ar quente.
Reconheceram a casa por uma velha nogueira que a sombreava.
Baixa e coberta de telhas marrons, tinha lá fora, sob a claraboia do sótão,
uma réstia de cebolas pendurada. Feixes de gravetos, encostados na cerca de
espinhos, rodeavam um canteiro de alfaces, alguns pés de lavanda e ervilhas
em estacas. A água suja escorria e se espalhava pela grama, e havia no
entorno vários trapos indistintos, meias de tricô, uma camisola de chita
vermelha, e um grande lençol de linho grosso estendido sobre a cerca viva.
Ao som da porteira, a ama de leite apareceu, segurando nos braços uma
criança que mamava. Puxava com a outra mão um pobre pirralho, coberto de
escrófula no rosto, filho de um comerciante de malhas de Rouen, e deixado
no campo pelos pais, muito ocupados com seus negócios.
— Entre — disse ela —, a sua filhinha está dormindo.
O quarto, que ficava no térreo e era o único da casa, tinha ao fundo,
encostada à parede, uma grande cama sem cortinas, enquanto a amassadeira
de pão ocupava o lado da janela, na qual uma vidraça fora remendada com
uma rodela de papel azul. No canto, atrás da porta, botinas de tachas
brilhantes estavam enfileiradas sob a pedra do lavadouro, perto de uma
garrafa cheia de óleo com uma pena no gargalo; um almanaque Mathieu
Laensberg estava deitado na lareira empoeirada, entre pederneiras, pontas de
velas e iscas para fogo. Por fim, a última inutilidade do recinto era uma
deusa Fama tocando trombetas, imagem recortada, sem dúvida, de algum
prospecto de perfumaria, e que seis pregos de tamancos seguravam na
parede.
A bebê de Emma dormia em um berço de vime junto ao chão. Ela a
pegou com o cobertor que a envolvia, e pôs-se a cantar baixinho enquanto a
balançava.
Léon andava pelo cômodo; parecia-lhe estranho ver aquela bela
senhora com vestido de tafetá em meio a toda aquela miséria. Madame
Bovary enrubesceu; ele se virou, pensando que em seu olhar pudesse haver
alguma impertinência. Então ela deitou novamente a pequenina, que acabara
de vomitar em seu colarinho. A ama de leite logo veio limpá-lo, afirmando
que não mancharia.
— Ela já me fez isso muitas outras vezes — disse ela —, e não me
ocupo com outra coisa a não ser lavá-la o tempo todo! Se a senhora tiver a
delicadeza de pedir a Camus, da mercearia, que me deixe pegar um pouco de
sabão quando for preciso… Seria até mais cômodo para a senhora, a quem
eu não incomodaria.
— Está bem, está bem! — disse Emma. — Até logo, dona Rollet!
E saiu, limpando os pés na soleira.
A mulher acompanhou-a até o final do pátio, falando sem parar da
dificuldade que tinha para levantar-se à noite.
— Estou tão esgotada que às vezes adormeço na cadeira; assim, a
senhora deveria dar-me ao menos meio quilo de café moído, que duraria um
mês, e que eu poderia tomar com leite pela manhã.
Depois de ter aturado os agradecimentos, Madame Bovary se foi; e já
estava um pouco adiantada no caminho quando, ao barulho de tamancos,
olhou para trás: era a ama!
— O que foi?
Então a camponesa, puxando-a para o recuo, atrás de um olmo,
começou a lhe falar de seu marido que, com a profissão que tinha e os seis
francos por ano que o capitão…
— Termine logo — disse Emma.
— Bem — continuou a ama de leite, suspirando entre cada palavra
—, tenho medo de que ele fique triste em me ver tomando o café sozinha; a
senhora sabe, os homens…
— A senhora o terá — repetiu Emma —, visto que lhe darei! A
senhora me irrita!
— Infelizmente, minha pobre e cara senhora, o que ele tem, em
consequência de seus ferimentos, são dores terríveis no peito. Diz até que a
sidra o deixa abatido.
— Vamos de uma vez, dona Rollet!
— Então — retomou esta última, fazendo uma reverência —, se não
fosse pedir muito da senhora — curvou-se novamente —, quando quiser —
e seu olhar suplicava —, uma garrafinha de aguardente — disse ela, enfim
—, e eu esfregarei os pés de sua pequena, que são tão macios quanto a
língua.
Livre da ama, Emma retomou o braço de Monsieur Léon. Ela
caminhou rapidamente por algum tempo; depois diminuiu o passo, e seu
olhar, que passeava diante de si, reencontrou o ombro do jovem, cuja
sobrecasaca tinha uma gola de veludo preto. Seus cabelos castanhos caíam
sobre ela, lisos e bem penteados. Ela notou suas unhas, que eram mais
compridas do que se costumava usar em Yonville. Mantê-las era uma das
grandes ocupações do escrevente; e ele guardava, para esse propósito, um
canivete muito específico em sua escrivaninha.
Voltaram a Yonville seguindo a margem do rio. Na estação quente,
com as margens alargadas, era possível ver a base dos muros dos jardins, que
tinham uma escada de alguns degraus que desciam até a água. Ela corria sem
ruído, rápida e fria ao olhar; grandes plantas delgadas curvavam-se juntas, de
acordo com a corrente que as empurrava, e como cabeleiras verdes
abandonadas, esparramavam-se em sua limpidez. Às vezes, na ponta dos
juncos ou sobre as folhas das ninfeias, um inseto de patas finas andava ou
pousava. O sol atravessava em um raio os pequenos glóbulos azuis das
ondas que se sucediam e se cansavam; os velhos salgueiros sem galhos
viam-se refletidos na água com suas cascas cinzentas; para além, em todo o
entorno, as campinas pareciam vazias. Era o horário do almoço nas fazendas,
e a jovem mulher e seu acompanhante, ao caminhar, ouviam apenas a
cadência de seus passos sobre a estrada, as palavras que trocavam, e o
balanço do vestido de Emma que soava ao redor do corpo.
Os muros dos jardins, cobertos com cacos de garrafas, estavam
quentes como os vidros de uma estufa. Entre os tijolos, nabos haviam
crescido; e, sob a borda de sua sombrinha aberta, Madame Bovary, enquanto
passava, fazia granular em poeira amarela um pouco de suas flores murchas,
ou algum galho de madressilva ou de uma trepadeira que pendiam para fora,
arrastando-se por um momento sobre a seda ao agarrar-se nas franjas.
Conversavam a respeito de uma companhia de bailarinos espanhóis,
que eram aguardados para breve no teatro de Rouen.
— O senhor irá? — perguntou ela.
— Se eu puder — respondeu ele.
Não tinham nada mais a dizer um ao outro? Seus olhos, no entanto,
estavam plenos de uma conversa mais séria; e, ainda que se esforçassem
para encontrar frases banais, sentiam que um mesmo langor invadia aos dois;
era como um murmúrio da alma, profundo, contínuo, que dominava suas
vozes. Surpreendidos de espanto àquela suavidade nova, não pensavam em
narrar a sensação ou descobrir sua causa. As alegrias futuras, como as
margens dos trópicos, projetam na imensidão que as precede sua indolência
nativa, uma brisa perfumada, e a pessoa adormece nesse inebriamento, sem
qualquer inquietação com o horizonte que não se percebe.
A terra, em um determinado ponto, estava afundada por pegadas dos
animais dos rebanhos; era preciso caminhar sobre grandes pedras verdes,
espaçadas no barro. Muitas vezes, Emma parava um minuto para escolher
onde pousar sua bota — e, vacilando sobre os cascalhos que tremiam, com
os cotovelos no ar, a cintura inclinada, e o olhar indeciso, ela ria, com medo
de cair nas poças.
Quando chegaram à frente do jardim dela, Madame Bovary
empurrou o portãozinho, subiu correndo os degraus e desapareceu.
Léon voltou ao seu escritório. O patrão não estava; deu uma olhada
nos arquivos, depois apontou uma pena, pegou o chapéu e saiu.
Foi até as Pastagens, no alto da encosta d’Argueil, na entrada da
floresta; deitou-se no chão, à sombra dos pinheiros, e olhou para o céu por
entre os dedos.
— Como estou entediado! — dizia. — Como estou entediado!
Lamentava-se por viver naquele vilarejo, com Monsieur Homais
como amigo e Monsieur Guillaumin como professor. Este último, sempre
ocupado, portando óculos de hastes douradas e costeletas vermelhas sobre a
gravata branca, não entendia nada das delicadezas do espírito, embora
simulasse um tipo rígido e inglês que havia deslumbrado o escrevente nos
primeiros tempos. Quanto à mulher do farmacêutico, era a melhor esposa da
Normandia, doce como um cordeiro, estimando suas crianças, seu pai, sua
mãe, seus primos, chorando pelos males do próximo, permitindo tudo no lar,
e detestando os espartilhos; mas tão lenta ao mover-se, tão irritante de ouvir,
de um aspecto tão comum e de uma conversa tão restrita, que ele jamais
havia pensado, embora ela tivesse trinta anos, e ele vinte, e dormissem porta
à porta, e se falassem todos os dias, que ela poderia ser uma mulher para
alguém, e nem que ela possuísse de seu sexo outra coisa além do vestido. E
quem mais havia? Monsieur Binet, alguns comerciantes, dois ou três donos
de cafés, o vigário, e, por fim, Monsieur Tuvache, o prefeito, com seus dois
filhos, gente rica, grosseira, obtusa, que cultivava suas próprias terras, fazia
comilanças em família, era devota, por sinal, e de uma companhia de todo
insuportável.
No contexto comum de todos aqueles rostos humanos, a figura de
Emma destacava-se de forma isolada e mais distante; pois sentia entre ela e
ele como que vagos abismos.
No início, estivera na casa dela diversas vezes, na companhia do
farmacêutico. Charles não parecera muito interessado em recebê-lo; Léon
não sabia como se portar, entre o medo de ser indiscreto e o desejo por uma
intimidade que julgava quase impossível.
56 Período geralmente compreendido entre 19 de fevereiro e 21 de março do calendário republicano (ou
revolucionário), que vigorou na França entre 1793 e 1806.
57 Em referência à peça de Jean Racine (1639–1699), cujo título é o nome da personagem principal, Athalie.
58 Canção de Béranger que exalta um Deus dos humildes.
59 Poema épico e anticlerical de Évariste de Parny (1753–1814), que satiriza O paraíso perdido, de John Milton
(1608–1674).
60 Seis semanas de resguardo da parturiente, segundo a tradição católica da época.
IV
Desde os primeiros dias de frio, Emma deixou o quarto para ficar na sala,
um cômodo comprido, de teto baixo, onde havia, sobre a lareira, um
esqueleto de coral denso espalhando-se contra o espelho. Sentada na
poltrona, junto à janela, ela observava as pessoas do vilarejo passando na
calçada.
Léon, duas vezes por dia, ia do escritório ao Lion d’Or. Emma, de
longe, ouvia-o chegar; inclinava-se para escutar, e o jovem deslizava atrás da
cortina dela, sempre vestido da mesma maneira, e sem virar a cabeça. Ao
entardecer, quando, com o queixo na mão esquerda, ela abandonava no colo
a tapeçaria começada, muitas vezes estremecia com a aparição repentina
daquela sombra escorregadia. Levantava-se e pedia que pusessem a mesa.
Monsieur Homais chegava durante o jantar. Com a boina grega na
mão, entrava a passos silenciosos para não incomodar ninguém, repetindo
sempre a mesma frase: “Boa noite, pessoal!”. Então, quando estava
acomodado em seu lugar, junto à mesa, entre o casal, pedia ao médico
notícias dos pacientes, e este o consultava sobre a probabilidade dos
honorários. Em seguida, conversavam sobre o que liam no jornal. Monsieur
Homais, àquela hora, já o havia quase decorado; e relatava-o na íntegra, com
as reflexões do jornalista e todas as histórias das catástrofes individuais que
haviam acontecido na França ou no estrangeiro. Esgotado o assunto, não
tardava em lançar algumas observações sobre os pratos que via. Às vezes,
levantando-se um pouco, até indicava com delicadeza à senhora o pedaço
mais macio, ou, voltando-se para a criada, aconselhava-a no manuseio dos
ensopados e na higiene dos temperos; falava de forma deslumbrante de
aromas, da osmazoma, de sucos e gelatinas. Com a cabeça mais cheia de
receitas do que a sua farmácia de potes, Monsieur Homais destacava-se por
fazer grandes quantidades de compotas, vinagres e licores doces, e conhecia
também todas as invenções novas dos calefatores econômicos, com a arte de
conservar queijos e de tratar os vinhos estragados.
Às oito horas, Justin vinha buscá-lo para fechar a farmácia. Então
Monsieur Homais fitava-o com ironia, sobretudo se Félicité estivesse ali,
tendo notado que seu aluno se afeiçoava à casa do médico.
— O meu garotão — dizia ele — está começando a ter ideias, e eu
acho, diabos me levem, que está apaixonado por sua criada!
Um defeito mais grave, e pelo qual o censurava, era o de ouvir
constantemente as conversas. Aos domingos, por exemplo, não se podia
fazê-lo sair do salão, onde Madame Homais o chamara para levar as
crianças, que haviam adormecido nas poltronas, repuxando com as costas as
capas de algodão, que eram muito grandes.
Não vinha muita gente aos jantares do farmacêutico, pois suas
maledicências e suas opiniões políticas haviam afastado dele,
sucessivamente, várias pessoas respeitáveis. O escrevente estava sempre lá.
Assim que ouvia a campainha, corria ao encontro de Madame Bovary,
pegava-lhe o xale, e guardava, debaixo do balcão da farmácia, as grandes
pantufas que ela usava sobre os sapatos quando havia neve.
Primeiro jogavam algumas partidas de trinta e um; a seguir,
Monsieur Homais jogava écarté com Emma; Léon, atrás dela, dava palpites.
Em pé, e com as mãos apoiadas no encosto da cadeira, observava os dentes
da presilha que prendia seu coque. A cada movimento que ela fazia para
jogar as cartas, seu vestido erguia-se do lado direito. De seus cabelos
repuxados, descia-lhe um tom castanho sobre as costas, que, empalidecendo
gradualmente, pouco a pouco se perdia na sombra. Seu traje, então, recaía
dos dois lados sobre o assento, bufante, cheio de dobras, e estendia-se até o
chão. Quando Léon às vezes sentia a sola de sua bota pousar sobre o tecido,
afastava-se, como se tivesse pisado em alguém.
Quando a partida de cartas terminava, o boticário e o médico
jogavam dominó, e Emma, mudando de lugar, apoiava os cotovelos na mesa
e folheava o jornal de atualidades que havia trazido, l’Illustration. Léon
metia-se perto dela; olhavam juntos as gravuras e encontravam-se ao final de
cada página. Muitas vezes, ela lhe pedia para recitar versos; Léon
declamava-os com uma voz arrastada, que fazia expirar cuidadosamente nas
passagens de amor. Contudo o barulho dos dominós o incomodava;
Monsieur Homais era bom jogador, ganhava de Charles a pleno duplo-seis.
Depois, terminadas as três centenas, estendiam-se diante da lareira e não
tardavam a dormir. O fogo morria entre as cinzas; o bule de chá estava
vazio; Léon ainda lia. Emma ouvia-o, girando maquinalmente o abajur da
lâmpada, onde havia, pintados no tecido, pierrôs em seus carros e
equilibristas segurando marombas. Léon parava, indicando com um gesto o
auditório adormecido; então conversavam baixinho, e o diálogo que
mantinham parecia-lhes mais doce, porque não se ouvia.
Assim, estabeleceu-se entre eles uma espécie de associação, uma
permuta contínua de livros e de romances; Monsieur Bovary, pouco
ciumento, não se admirava.
Ele recebeu, pelo seu onomástico61, uma bela cabeça frenológica62,
marchetada com números até o tórax e pintada de azul. Foi uma gentileza do
escrevente. Houve muitas outras, chegou a buscar encomendas para ele em
Rouen; e tendo o livro de um romancista lançado a moda das plantas
suculentas, Léon as comprava para Madame Bovary, trazendo-as no colo à
bordo da Andorinha, espetando os dedos nas folhas rijas.
Ela mandou ajustar, junto à janela, uma tábua formando um peitoril,
para apoiar os vasos. O escrevente também suspendeu seu jardim;
avistavam-se cuidando das plantas às janelas.
Entre as janelas do vilarejo, havia uma ainda mais ocupada; pois aos
domingos, desde a manhã até a noite, e todas as tardes, se o tempo estivesse
bom, podia-se ver, da claraboia de um sótão, o perfil magro de Monsieur
Binet, debruçado sobre o torno, cujo ronco monótono se ouvia até o Lion
d’Or.
Certa noite, ao voltar para casa, Léon encontrou no quarto um tapete
de veludo e lã com estampa de folhagens sobre um fundo claro. Chamou
Madame e Monsieur Homais, Justin, as crianças, a cozinheira, contou ao
patrão; todos quiseram conhecer o tapete; por que a esposa do médico
demonstrava tanta generosidade ao escrevente? Aquilo pareceu curioso, e
pensaram, definitivamente, que ela devia ser sua amante.
Ele o dava a entender, de tanto que falava sem cessar dos encantos e
da presença de espírito dela, a ponto de Monsieur Binet, certa vez, lhe
responder muito bruscamente:
— O que me importa, dado que não sou desse círculo?
Torturava-se para descobrir um jeito de se declarar; e, sempre
hesitando entre o medo de assustá-la e a vergonha de ser tão covarde,
chorava de desânimo e desejo. Em seguida, tomava decisões enérgicas;
escrevia cartas que depois rasgava, estabelecia prazos que adiava. Muitas
vezes, punha-se a caminho, planejando todo tipo de ousadia; mas a resolução
logo o abandonava na presença de Emma, e quando Charles, surgindo de
repente, o convidava para entrar em seu cabriolé para irem juntos ver algum
doente nas proximidades, ele aceitava de imediato, saudava Madame Bovary
e partia. O marido não era uma parte dela?
Quanto a Emma, não se perguntou se o amava. O amor, assim
acreditava, deveria chegar de supetão, com grandes estilhaços e clarões —
um furacão dos céus que cai sobre a vida, que a perturba, arranca as
vontades como folhas e leva o coração inteiro para o abismo. Ela não sabia
que, nos terraços das casas, a chuva forma poças quando as calhas estão
entupidas, e assim ela permaneceu em sua segurança, até que descobriu
subitamente uma fissura na parede.
61 Ou “dia do nome”. Nas tradições católicas antigas, corresponde ao dia em que se celebra o nome de batismo,
associado a algum santo ou personagem bíblico.
62 Modelo para o estudo da frenologia, pseudociência popular no século XIX que associa o formato e as
protuberâncias da cabeça a características mentais e morais de um indivíduo.
V
Foi em um domingo de fevereiro, em uma tarde em que nevava.
Tinham todos, Monsieur e Madame Bovary, Homais e Monsieur
Léon, saído para ver, a meia légua de Yonville, no vale, uma fiação de linho
que estava sendo inaugurada. O boticário havia levado Napoléon e Athalie
com ele, para que se exercitassem, e Justin os acompanhava, carregando os
guarda-chuvas no ombro.
Nada, porém, era menos curioso do que essa curiosidade. Um grande
espaço vazio, onde se encontravam, desordenadas, entre montes de areia e
cascalho, algumas rodas de engrenagem já enferrujadas, circundava um
longo edifício quadrangular perfurado por uma série de janelinhas. Não
havia terminado de ser construído, e o céu podia ser visto através das vigas
do telhado. Amarrado à trave do frontão, um buquê de palha entremeado de
espigas fazia estalar ao vento suas fitas tricolores.
Homais falava. Explicava ao pessoal a importância futura daquele
estabelecimento, tentava estimar a resistência dos pavimentos, a espessura
das paredes, e lamentava muito não ter uma trena, como a que Monsieur
Binet possuía para uso particular.
Emma, que lhe dava o braço, apoiava-se um pouco em seu ombro, e
olhava para o disco do sol irradiando ao longe, na bruma, sua palidez
ofuscante; mas virou a cabeça: Charles estava lá. Tinha o boné afundado até
as sobrancelhas, e seus lábios grossos tremiam, o que acrescentava ao seu
rosto algo de estúpido; até suas costas, costas tranquilas, eram irritantes de
ver, e ela encontrava ali, espalhada pela casaca, toda a mediocridade do
personagem.
Enquanto ela o analisava, provando em sua irritação uma espécie de
voluptuosidade depravada, Léon deu um passo à frente. O frio que o
empalidecia aparentava depositar em seu rosto um langor mais suave; entre a
gravata e o pescoço, a gola da camisa, um pouco frouxa, deixava à mostra a
pele; um pedaço de orelha ultrapassava uma mecha de cabelo, e os grandes
olhos azuis, voltados para as nuvens, pareceram a Emma mais límpidos e
mais belos do que os lagos das montanhas onde o céu se reflete.
— Desgraçado! — gritou de repente o boticário.
E correu até o filho, que acabara de se precipitar sobre um monte de
cal para pintar os sapatos de branco. Ante as repreensões que o assolaram,
Napoléon pôs-se a berrar, enquanto Justin limpava-lhe os sapatos com um
punhado de palha. Seria necessário um canivete; Charles ofereceu o seu.
“Ah!”, pensou consigo mesma. “Ele carrega um canivete no bolso,
feito um camponês!”
A geada caiu, e voltaram para Yonville.
Madame Bovary, à noite, não foi à casa dos vizinhos, e, quando
Charles saiu, no momento em que se sentiu sozinha, o paralelo recomeçou
com a nitidez de uma sensação quase imediata, e com aquele alongamento
de perspectiva que a memória dá aos objetos. Olhando da cama para o fogo
claro que ardia, via ainda, como antes, Léon de pé, dobrando com uma mão
seu bastão de passeio e, com a outra, segurando Athalie, que chupava
tranquilamente um pedaço de gelo. Achava-o encantador; não conseguia
desvencilhar-se daquele pensamento; lembrou-se de suas outras atitudes, em
outros dias, das frases que dissera, do som de sua voz, de toda a sua pessoa;
e ela repetia, avançando os lábios como que para um beijo:
— Sim, encantador! Encantador! Será que não ama? — perguntou-
se. — Mas a quem? A mim!
Todas as evidências se apresentaram de uma vez, e seu coração deu
saltos. A chama da lareira fazia tremular no teto uma claridade alegre; ela
virou-se de costas, espreguiçando os braços.
Começou então a eterna lamentação:
— Ah! Se o céu assim o tivesse desejado! Por que não poderia ser?
Quem impediria?
Quando Charles voltou, à meia-noite, ela fingiu despertar e, como ele
fizera barulho ao despir-se, ela se queixou de uma enxaqueca; então
perguntou com indiferença o que havia acontecido no encontro daquela
noite.
— Monsieur Léon — disse ele — subiu cedo para o quarto.
Ela não pôde deixar de sorrir, e adormeceu com a alma plena de um
encantamento novo.
No dia seguinte, ao cair da noite, recebeu a visita de Monsieur
Lheureux, vendedor de novidades. Era um homem hábil, aquele negociante.
Nascido na Gasconha, mas tendo se tornado normando, somava sua
eloquência sulista com a astúcia daqueles da região de Caux. Seu rosto
gordo, flácido e imberbe parecia tingido por uma decocção de alcaçuz claro,
e os cabelos brancos tornavam ainda mais vívido o brilho áspero dos
olhinhos pretos. Não se sabia o que ele fora no passado: vendedor
ambulante, diziam alguns, banqueiro em Routot, segundo outros. O certo é
que sabia fazer, de cabeça, cálculos complicados o suficiente para
impressionar o próprio Monsieur Binet. Educado, ao ponto de ser
obsequioso, mantinha a cintura sempre um pouco curvada, na posição de
quem cumprimenta ou convida.
Após ter deixado à porta seu chapéu com forro em crepe, deixou
sobre a mesa uma caixa de papelão verde, e começou por se queixar à
senhora, cheio de cortesias, de haver ficado, até aquele dia, sem obter a sua
confiança. Uma pobre loja como a sua não era feita para atrair uma mulher
elegante; e frisou a palavra. Ela precisava apenas pedir, e ele se encarregaria
de lhe fornecer o que quisesse, tanto em artigos de armarinho, como de
cama, mesa e banho, chapelaria ou novidades; pois ele ia à cidade quatro
vezes ao mês, regularmente. Tinha contatos com as melhores casas. Podia-se
falar dele nos Trois Frères, na Barbe d’Or ou no Grand Sauvage; todos
aqueles senhores o conheciam feito a palma da mão! Naquele dia, portanto,
vinha, de passagem, mostrar à senhora diferentes artigos que por acaso tinha,
graças a uma oportunidade das mais raras. Assim, tirou da caixa uma meia
dúzia de golas bordadas.
Madame Bovary examinou-as.
— Não preciso de nada — disse ela.
Então Monsieur Lheureux exibiu com delicadeza três echarpes
argelinas, diversos pacotes de agulhas inglesas, um par de pantufas de palha,
e, por fim, quatro porta-ovos em casca de coco, recém cinzelados por
trabalhadores forçados. Com as mãos apoiadas na mesa, o pescoço tenso, o
corpo inclinado, seguia, com a boca aberta, o olhar de Emma, que passeava
indeciso entre suas mercadorias. De vez em quando, como que para sacudir a
poeira, dava um peteleco na seda das echarpes, abertas em todo o seu
comprimento; e elas tremulavam com um barulho leve, fazendo cintilar, na
luz esverdeada do crepúsculo, como estrelinhas, as lantejoulas douradas
sobre o tecido.
— Quanto custam?
— Uma miséria — respondeu ele —, uma miséria; mas não precisa
se apressar; quando a senhora quiser; não somos judeus!
Ela refletiu por alguns instantes, e acabou por agradecer Monsieur
Lheureux, que respondeu sem comoção:
— Tudo bem, nos entenderemos outra hora; com as senhoras eu
sempre me acertei, a não ser com a minha!
Emma sorriu.
— Quis dizer-lhe que — retomou ele, com um jeito simpático depois
da brincadeira — não é o dinheiro que me preocupa… Eu lhe daria, se fosse
preciso.
Ela fez um gesto de surpresa.
— Ah! — disse ele com vigor e com a voz baixa. — Eu não
precisaria ir longe para consegui-lo para a senhora, tenha certeza disso.
Pôs-se a pedir notícias do velho Tellier, dono do Café Français, a
quem Monsieur Bovary estava tratando.
— O que ele tem, o velho Tellier? Está tossindo tanto que sacode a
casa inteira, e temo que em breve precise de um paletó de madeira em vez de
um pijama de flanela. Fez tanta farra quando era jovem! Essas pessoas,
madame, não tinham o menor limite! Ele é calcinado em aguardente! Mas é
lamentável, de qualquer modo, ver um conhecido ir embora.
Enquanto fechava a caixa, discorria também sobre a clientela do
médico.
— É o clima, sem dúvida — disse ele, olhando para as vidraças com
uma cara amuada —, a causa dessas doenças! Eu também não estou na
minha melhor forma; será mesmo necessário, um dia desses, que eu venha
consultar o doutor, por uma dor que tenho nas costas. Enfim, até logo,
Madame Bovary; à sua disposição; seu muito humilde criado!
E fechou a porta com cuidado.
Emma pediu que o jantar fosse servido no quarto, ao pé da lareira,
em uma bandeja; demorou a comer; tudo lhe pareceu bom.
— Como fui prudente! — dizia consigo mesma, pensando nas
echarpes.
Ouviu passos nas escadas: era Léon. Levantou-se e pegou na
cômoda, entre os panos de prato para embainhar, o primeiro da pilha. Parecia
muito ocupada quando ele apareceu.
A conversa foi apática, com Madame Bovary abandonando-a a cada
minuto, enquanto ele permanecia como que embaraçado. Sentado em uma
cadeira baixa perto da lareira, girava o estojo de marfim entre os dedos; ela
empurrava a agulha, ou, de vez em quando, com a unha, enrugava as dobras
do tecido. Ela não falava; ele se mantinha quieto, absorto em seu silêncio,
como teria ficado por suas palavras.
“Pobre menino”, pensava ela.
“Em que eu a desagrado?”, perguntava-se ele.
Léon, porém, acabou dizendo que precisaria ir a Rouen, um dia
desses, por uma questão relacionada aos estudos.
— Sua assinatura de música terminou; devo renová-la?
— Não — respondeu ela.
— Por quê?
— Porque…
E, apertando os lábios, puxou lentamente uma agulha com um longo
fio de linha cinza.
Aquele trabalho irritava Léon. Os dedos de Emma pareciam ferir-se
nas pontas; veio-lhe à cabeça uma frase galante, mas não se arriscou.
— Vai abandoná-la, então? — prosseguiu ele.
— O quê? — disse ela prontamente. — A música? Ah! Meu Deus,
sim! Tenho minha casa para manter, meu marido para cuidar, mil coisas,
enfim, muitos deveres vêm antes!
Ela olhou para o relógio. Charles estava atrasado. Então se fez de
preocupada. Duas ou três vezes até repetiu:
— Ele é muito bom!
O escrevente gostava de Monsieur Bovary. Mas aquela ternura para
com ele o surpreendeu de modo desagradável; ainda assim, deu sequência ao
elogio, que pretendia fazer a cada um, dizia ele, sobretudo ao farmacêutico.
— Ah! É um homem honesto — retomou Emma.
— Sem dúvida — replicou o escrevente.
E pôs-se a falar de Madame Homais, cujos trajes, muito descuidados,
normalmente os faziam rir.
— E o que é que tem? — interrompeu Emma. — Uma boa mãe de
família não se importa com o vestuário.
E retornou ao seu silêncio.
Foi o mesmo nos dias seguintes; seus discursos, seus modos, tudo
mudou. Foi vista levando a sério os cuidados com a casa, voltando à igreja
regularmente e tratando a criada com mais severidade.
Retirou Berthe da ama de leite. Félicité a trazia quando havia visitas,
e Madame Bovary a despia para mostrar-lhe os membros. Declarava ter
adoração por crianças; era seu consolo, sua alegria, sua loucura, e
acompanhava suas carícias com expansões líricas que, a outros que não os
moradores de Yonville, teriam lembrado Sachette63, em O corcunda de
Notre-Dame.
Quando Charles voltava para casa, encontrava seus chinelos perto
das cinzas, para aquecer. Seus coletes já não ficavam mais sem forro, nem
suas camisas sem botões, e tinha até mesmo o prazer de contemplar, dentro
do armário, todas as toucas de algodão dispostas em pilhas iguais. Ela não
relutava mais, como outrora, em dar voltas no jardim; o que ele propunha era
sempre consentido, embora ela não pudesse adivinhar os desejos aos quais se
submetia sem murmurar; e, quando Léon o via junto à lareira, depois do
jantar, com as mãos na barriga, os dois pés nos suportes de lenha, as
bochechas avermelhadas pela digestão, os olhos úmidos de felicidade, com a
criança arrastando-se pelo tapete, e aquela mulher de porte esguio que, por
cima do encosto da poltrona, vinha beijá-lo na testa:
“Que loucura”, dizia consigo. “E como chegar até ela?”
Ela lhe pareceu tão virtuosa e inacessível, que qualquer esperança,
mesmo a mais vaga, o abandonou.
Porém, com aquela renúncia, ele a colocava em condições
extraordinárias. Ela se libertou, para ele, das qualidades carnais das quais ele
nada tinha a obter; e foi, em seu coração, ascendendo sempre e se
desprendendo, à maneira magnífica de uma apoteose que alça voo. Era um
daqueles sentimentos puros que não interferem no exercício da vida, que se
cultivam porque são raros, e cuja perda afligiria mais do que a posse traria
felicidade.
Emma emagreceu, a face tornou-se pálida, o rosto se alongou. Com o
cabelo escuro dividido, os grandes olhos, o nariz reto, o andar de pássaro, e
enfim sempre silenciosa, não parecia atravessar a existência sem quase tocá-
la, e levar na fronte o vago sinal de alguma predestinação sublime? Estava
tão triste e tão calma, tão meiga e ao mesmo tempo tão reservada, que perto
dela sentia-se um arrebatamento por um encanto glacial, como o arrepio que
se experimenta nas igrejas, sob o perfume das flores misturado à frieza dos
mármores. Mesmo os outros não escapavam àquela sedução. O farmacêutico
dizia:
— É uma mulher de grandes recursos, que não ficaria deslocada em
uma subprefeitura.
As burguesas admiravam sua economia; os clientes, a sua polidez; os
pobres, a sua caridade. Mas ela estava cheia de paixões, de raiva, de ódio.
Aquele vestido de pregas retas escondia um coração transtornado, e os lábios
tão pudicos não denunciavam o tormento. Estava apaixonada por Léon, e
buscava a solidão, a fim de poder deleitar-se mais à vontade com a imagem
dele. A visão de sua pessoa perturbava a volúpia daquela contemplação.
Emma palpitava ao som de seus passos; depois, em sua presença, a emoção
se apaziguava, e, logo após, restava-lhe apenas um imenso assombro que
terminava em tristeza.
Léon não sabia, quando saía da casa dela desesperado, que ela se
levantava em seguida para vê-lo na rua. Inquietava-se com seus passos;
observava suas feições; inventou toda uma história para encontrar pretexto
para visitar seu quarto. A esposa do farmacêutico parecia-lhe muito feliz em
dormir sob o mesmo teto que ele; e seus pensamentos regressavam
continuamente àquela casa, como os pombos do Lion d’Or, que
mergulhavam ali, nas calhas, de patas rosadas e asas brancas. Quanto mais
Emma percebia o amor, mais o reprimia, para que não aparecesse e para
diminuí-lo. Teria desejado que Léon suspeitasse; e imaginava acasos,
catástrofes que o teriam facilitado. O que a continha, sem dúvida, era a
inércia ou o pavor, e o pudor também. Pensava que o havia afastado
demasiado, que não haveria mais tempo, que tudo estava perdido. Depois o
orgulho, a alegria de dizer a si mesma “Sou virtuosa”, e de olhar-se no
espelho fazendo poses resignadas, consolavam-na um pouco do sacrifício
que acreditava estar fazendo.
Então, os apetites da carne, a cobiça por dinheiro e as melancolias da
paixão confundiam-se todos no mesmo sofrimento; em vez de desviar seu
pensamento, prendia-o ainda mais, excitando-se com a dor e procurando
oportunidades em todos os lugares. Irritava-se com um prato malservido ou
com uma porta entreaberta, lamentava-se pelo veludo que não tinha, pela
felicidade que lhe faltava, pelos sonhos muito altos, pela casa muito
apertada.
O que a exasperava era que Charles parecia não ter ideia de seu
suplício. A convicção de que a fazia feliz parecia-lhe um insulto imbecil, e a
segurança dele quanto a isso, uma ingratidão. Para quem ela era prudente?
Não era ele o obstáculo para toda felicidade, a causa de toda miséria, como o
pino pontiagudo de uma correia complexa que a afivelava por todos os
lados?
Assim, ela transferiu apenas para ele o ódio abundante que resultava
de seus aborrecimentos, e cada esforço para diminuí-lo servia somente para
aumentá-lo; pois aquela dor inútil somava-se aos outros motivos de
desespero, e contribuía ainda mais para o afastamento. A própria delicadeza
para consigo lhe causava revolta. A mediocridade doméstica a impulsionava
para fantasias luxuosas, a ternura matrimonial a desejos adúlteros. Teria
desejado que Charles lhe batesse, para detestá-lo com mais propriedade, para
vingar-se. Às vezes ficava estupefata com as conjecturas atrozes que lhe
ocorriam; e era preciso continuar sorrindo, ouvir-se a repetir que era feliz,
fingir que o era, fazê-lo crer!
Sentia repugnância, no entanto, por aquela hipocrisia. Era tomada
pela tentação de fugir com Léon, para algum lugar bem distante, para tentar
um destino novo; mas logo se abria em sua alma um precipício vago,
obscuro.
“Além disso, ele não me ama mais”, pensava ela. “O que vai
acontecer? Que socorro esperar, que consolo, que alívio?” Permanecia
destroçada, ofegante, inerte, soluçando em voz baixa com lágrimas que
escorriam pelo rosto.
— Por que não contar ao patrão? — perguntava-lhe a criada, quando
entrava durante suas crises.
— São os nervos — dizia Emma. — Não conte nada, você o deixará
aflito.
— Ah! Sim — respondia Félicité. — A senhora é justamente como a
Guérine, filha do velho Guérin, o pescador de Pollet, que conheci em
Dieppe, antes de vir para sua casa. Ela estava tão triste, tão triste, que ao vê-
la parada na soleira de casa, parecia um manto funerário estendido na frente
da porta. Sua doença, ao que parece, era uma espécie de névoa que tinha na
cabeça, e os médicos não podiam fazer nada a respeito, nem o padre.
Quando a atacava com muita força, ia sozinha para a beira do mar, tanto que
o tenente da alfândega, ao fazer suas rondas, muitas vezes a encontrava
deitada de bruços e chorando sobre as pedrinhas. Então, depois do
casamento, tudo passou, dizem.
— Mas, para mim — respondia Emma —, veio depois do casamento.
63 Alusão à personagem de Victor Hugo, Gudule, antes Paquette Guybertaut, cujo comportamento como mãe
enterneceu os vizinhos, críticos à sua vida pregressa como prostituta. As sachettes, ou saquettes, eram mulheres
penitentes que viviam em reclusão.
VI
Uma noite em que a janela estava aberta, e que, sentada à beira, ela acabara
de observar Lestiboudois, o sacristão, que estava podando um arbusto, ouviu
de repente soar o toque das trindades.
Era o início de abril, quando as prímulas florescem; um vento morno
corre pelos canteiros arados, e os jardins, como as mulheres, parecem se
enfeitar para as festividades de verão. Através das grades do caramanchão e
além, nas redondezas, podia-se ver o rio na campina, traçando sinuosidades
errantes sobre a relva. A neblina da tarde passava entre os álamos
desfolhados, esfumando seus contornos com uma tonalidade violeta, mais
pálida e mais transparente que uma gaze sutil sobre os galhos. Ao longe, o
gado caminhava; não se ouviam seus passos e nem seus mugidos; e o sino,
ainda badalando, ecoava pelos ares a lamentação pacífica.
Ao toque repetido, o pensamento da mulher perdia-se em velhas
lembranças da juventude e do convento. Recordou-se dos grandes castiçais,
que ultrapassavam no altar os vasos cheios de flores e o tabernáculo de
pequenas colunas. Teria gostado, como antes, de estar ainda misturada à
longa fileira de véus brancos, que marcavam de preto, aqui e ali, os capuzes
rígidos das freiras inclinadas sobre o genuflexório; aos domingos, na missa,
quando erguia a cabeça, via o rosto gentil da Virgem entre os redemoinhos
azulados que subiam dos incensos. Então, um enternecimento a tomou;
sentiu-se fraca e abandonada, como a pluma de um pássaro que rodopia na
tempestade; e foi sem tomar consciência disso que se encaminhou para a
igreja, disposta a qualquer devoção, desde que absorvesse sua alma e que
fizesse toda a existência desaparecer.
Na praça, encontrou Lestiboudois voltando; pois, para não encurtar o
dia, preferiu interromper o trabalho e depois retomá-lo, de modo que fez soar
o toque das trindades segundo sua conveniência. Além disso, o sino, tocado
mais cedo, lembrava as crianças da hora do catecismo.
Algumas delas, que já haviam chegado, jogavam bolinhas de gude
nas lajes do cemitério. Outras, montadas no muro, agitavam as pernas,
ceifando com os tamancos as grandes urtigas que cresciam entre o pequeno
cercado e as últimas sepulturas. Era o único ponto verde; todo o resto era
apenas pedras, sempre cobertas por uma poeira fina, apesar da vassoura da
sacristia.
As crianças de chinelos corriam como se estivessem em um piso
feito só para elas, e ouviam-se os estouros de suas vozes entre as badaladas
do sino. Diminuíam com as oscilações da corda grossa que, caindo do alto
do campanário, arrastava a ponta pelo chão. As andorinhas passavam
soltando gritinhos, cortando o ar com seu voo afiado, e voltando
rapidamente para os ninhos amarelos sob as telhas do beiral. Nos fundos da
igreja, ardia uma chama, isto é, o pavio de uma lamparina em vidro
suspenso. A luz, de longe, parecia uma mancha esbranquiçada que tremia
sobre o óleo. Um longo raio de sol atravessava toda a nave e tornava ainda
mais sombrias as laterais e os cantos.
— Onde está o padre? — perguntou Madame Bovary a um menino
que se divertia sacudindo o torniquete em seu buraco muito largo.
— Logo virá — respondeu ele.
De fato, a porta do presbitério guinchou, e o abade Bournisien
apareceu; as crianças, em confusão, fugiram para dentro da igreja.
— Esses pestinhas! — murmurou o religioso. — Sempre os mesmos!
Não respeitam nada! — acrescentou, recolhendo uma apostila de catecismo
esfarrapada em que acabara de esbarrar com o pé. — Perdão — disse, logo
que percebeu a presença de Madame Bovary —, não a reconheci.
Enfiou a apostila no bolso e parou, ainda balançando entre os dedos a
chave pesada da sacristia.
O brilho do sol poente que o atingia em cheio no rosto empalidecia o
tecido da batina, reluzente nos cotovelos, desfiada na parte inferior. Manchas
de gordura e tabaco percorriam o peito largo na linha dos botõezinhos, e
tornavam-se mais numerosas à medida que se afastavam da aba, onde
repousavam as dobras abundantes de pele vermelha; estava salpicado de
máculas amarelas que desapareciam nos pelos ásperos da barba grisalha.
Havia acabado de jantar e tinha a respiração pesada.
— Como vai a senhora? — acrescentou ele.
— Mal — respondeu Emma. — Estou sofrendo.
— Ora, eu também — disse o clérigo. — Esses primeiros dias de
calor nos deixam incrivelmente moles, não é? Enfim, o que a senhora quer?
Nascemos para sofrer, como disse São Paulo. Mas e Monsieur Bovary, o que
acha?
— Ele? — perguntou ela, com um gesto de desdém.
— O quê? — respondeu o bom homem, admirado. — Ele não lhe
recomenda alguma coisa?
— Ah! — disse Emma. — Não é dos remédios da Terra que preciso.
O padre, de vez em quando, olhava para dentro da igreja, onde todas
as crianças, ajoelhadas, empurravam-se pelos ombros e caíam como castelos
de cartas.
— Eu gostaria de saber… — continuou ela.
— Espere, espere. Riboudet! — gritou o clérigo com uma voz
furiosa. — Vou aí esquentar suas orelhas, moleque malvado!
Depois, voltando-se para Emma:
— É filho de Boudet, o carpinteiro; seus pais ficam à vontade e o
deixam fazer seus caprichos. No entanto, ele aprenderia rápido, se quisesse,
porque é muito sagaz. E às vezes, de brincadeira, eu o chamo de Riboudet
(como a encosta que se pega para ir a Maromme), e até digo: mon Riboudet.
Ha! Ha! Mont-Riboudet!64 Outro dia, contei essa ao Monsenhor, que deu
risada… Dignou-se a rir. E Monsieur Bovary, como está?
Ela parecia não entender. Ele continuou:
— Sempre muito ocupado, sem dúvida. Pois somos certamente, ele e
eu, as duas pessoas da paróquia que mais coisas têm a fazer. Mas ele é
médico do corpo — acrescentou com um riso profundo —, e eu, das almas!
Ela fixou no padre seus olhos suplicantes.
— Sim… — disse ela. — O senhor alivia todas as misérias.
— Ah! Nem me fale, Madame Bovary! Hoje pela manhã tive de ir a
Bas-Diauville por uma vaca que estava inchada; pensaram que era um
feitiço. Todas as vacas, não sei como… Mas, desculpe! Longuemarre e
Boudet! Francamente! Parem já com isso!
Em um salto, disparou para dentro da igreja.
Os garotos se aglomeravam ao redor do grande púlpito, subiam no
banco do mestre de coro, abriam o missal; e outros, de fininho,
aventuravam-se logo no confessionário. O padre, de repente, distribuiu uma
saraivada de tabefes em todos. Agarrando-os pela gola dos paletós, erguia-os
do chão e os punha de joelhos no piso do coro, com força, como se quisesse
plantá-los ali.
— Vamos lá — disse ele, quando voltou para junto de Emma,
desdobrando o grande lenço de chita e colocando uma de suas pontas entre
os dentes. — Os lavradores são dignos de pena!
— Não só eles — respondeu ela.
— Seguramente! Também os operários das cidades, por exemplo.
— Não falo desses…
— Queira me perdoar! Lá conheci pobres mães de família, mulheres
virtuosas, garanto à senhora, verdadeiras santas, a quem faltava até o pão.
— Mas aquelas — retomou Emma (e os cantos de sua boca se
contorciam enquanto falava) —, aquelas, senhor padre, que têm pão e que
não têm…
— Fogo no inverno — disse o padre.
— Ah! E o que importa?
— Como? O que importa? Parece-me, a mim, que quando se está
bem aquecido, bem alimentado… afinal de contas…
— Meu Deus! Meu Deus! — suspirava ela.
— A senhora está incomodada? — disse ele, aproximando-se com
um ar inquieto. — É a digestão, sem dúvida, não é? Deve ir para casa,
Madame Bovary, beber um pouco de chá; vai fortalecê-la, ou um copo de
água fresca com açúcar mascavo.
— Por quê?
Ela tinha a aparência de alguém que desperta de um sonho.
— É que a senhora passava a mão na testa. Pensei que pudesse estar
sentindo tontura.
Depois, voltando atrás:
— Mas a senhora me perguntava algo? O que era? Não sei mais.
— Eu? Nada… nada… — repetia Emma.
Seu olhar, que vagava ao redor, caiu lentamente sobre o velhote de
batina. Olhavam-se, face a face, sem falar.
— Então, Madame Bovary — disse ele enfim —, perdoe-me, mas o
dever está acima de tudo, a senhora sabe; tenho de despachar meus
diabinhos. As primeiras comunhões estão por vir. Ainda seremos
surpreendidos, receio! Além disso, a partir da Ascensão, eu os mantenho
todas as quartas-feiras, sem falta, por mais uma hora. Essas pobres crianças!
Nunca é cedo demais para encaminhá-los na voz do Senhor, como, aliás, ele
mesmo nos recomendou pela boca de seu divino Filho… Fique bem,
madame; meus respeitos ao marido!
E entrou na igreja, ajoelhando-se ao passar pela porta.
Emma o viu desaparecer entre a fileira dupla de bancos, caminhando
com passos pesados, a cabeça um pouco inclinada para o ombro, com as
mãos entreabertas e um pouco afastadas.
Em seguida, ela deu meia-volta, de uma só vez, como uma estátua
sobre um pivô, e tomou o caminho de casa. A voz grossa do padre e as vozes
agudas dos garotos ainda alcançavam seus ouvidos e ecoavam atrás dela:
— Sois cristão?
— Sim, sou cristão.
— E quem é o verdadeiro cristão?
— Verdadeiro cristão é aquele que é batizado… batizado… batizado.
Ela subiu os degraus da escada de casa, apoiando-se no corrimão, e,
quando entrou no quarto, deixou o corpo cair na poltrona.
A claridade esbranquiçada das vidraças descia em ondulações
suaves. Os móveis pareciam ainda mais estáticos e perdidos na sombra,
como em um oceano tenebroso. A lareira estava apagada, o relógio
continuava batendo, e Emma se espantava vagamente com a calma dos
objetos, enquanto trazia dentro de si tantas turbulências. Entre a janela e a
mesa de trabalho, estava a pequena Berthe, que cambaleava em seus
sapatinhos de tricô, e tentava chegar perto da mãe, para agarrar, pelas pontas,
as faixas de seu avental.
— Me larga! — disse ela, afastando-a com a mão.
A menininha logo voltou e aproximou-se ainda mais de seus joelhos;
e, apoiando-se com os braços, erguia para ela seus grandes olhos azuis,
enquanto um fio de saliva pura lhe escorria dos lábios sobre a seda do
avental.
— Me larga! — repetiu a mulher, muito irritada.
Seu rosto assustou a criança, que começou a chorar.
— Ah! Me larga, ora! — disse ela, dando-lhe uma cotovelada.
Berthe foi parar no pé da cômoda, contra o puxador de cobre; cortou
a bochecha, derramando sangue. Madame Bovary correu para levantá-la,
puxou o cordão da sineta, chamou a criada com todas as forças, e ia começar
a praguejar quando Charles apareceu. Estava na hora do jantar, ele voltava
para casa.
— Veja só, meu querido — disse-lhe Emma com a voz tranquila. —
Olhe a pequena, estava brincando e acaba de se machucar no chão.
Charles assegurou-lhe que o caso não era grave, e foi buscar um
emplastro.
Madame Bovary não desceu para a sala; preferiu ficar sozinha
cuidando da filha. Então, vendo-a dormir, o que ainda guardava de
inquietação dissipou-se aos poucos, e sentiu-se bastante tola e exagerada de
ter-se aborrecido por tão pouco. Berthe, de fato, nem chorava mais. Sua
respiração levantava de forma imperceptível a colcha de algodão. Lágrimas
pesadas estavam acumuladas nos cantos das pálpebras semicerradas, que
mostravam, entre os cílios, duas pupilas pálidas, fundas; o esparadrapo,
colado na bochecha, repuxava no sentido oblíquo a pele esticada.
“É estranho”, pensava Emma, “como essa criança é feia!”
Quando Charles, às onze da noite, voltou da farmácia (onde fora
buscar, depois do jantar, o que ainda restava de emplastro), encontrou a
esposa de pé ao lado do berço.
— Garanto que não será nada — disse ele, beijando-a na testa. —
Não se deixe atormentar, minha pobre querida, ou ficará doente!
Ele havia passado muito tempo na casa do boticário. Apesar de não
ter se mostrado tão comovido, Monsieur Homais, ainda assim, se esforçara
para animá-lo, levantar-lhe o moral. Então conversaram sobre os diversos
perigos que ameaçavam a infância e sobre as imprudências dos criados.
Madame Homais sabia como era, tendo ainda no peito a marca de um
punhado de brasa que uma cozinheira, certa vez, deixara cair em sua blusa.
Portanto, os bons pais tomavam muitas precauções. As facas nunca eram
afiadas, nem os pisos encerados. Havia grades de ferro nas janelas e barras
reforçadas nas lareiras. Os pequenos Homais, apesar da independência, não
podiam circular sem um supervisor atrás deles; ao menor resfriado, o pai os
enchia de expectorante, e até os quatro anos todos usavam,
indiscutivelmente, gorros acolchoados. Era, verdade seja dita, uma mania de
Madame Homais; o esposo, em seu íntimo, ficava aflito, temendo pelos
órgãos do intelecto e os possíveis efeitos de tamanha compressão, até chegar
a dizer-lhe:
— Pretende transformar eles em caraíbas65 ou botocudos66?
Charles, no entanto, havia tentando interromper a conversa várias
vezes.
— Gostaria de falar com o senhor — havia cochichado no ouvido do
escrevente, que se pôs a descer as escadas na sua frente.
“Será que suspeita de alguma coisa?”, perguntou-se Léon. Seu
coração acelerava enquanto se perdia em conjecturas.
Charles, por fim, tendo fechado a porta, pediu-lhe que visse
pessoalmente em Rouen qual poderia ser o preço de um belo daguerreótipo;
era uma surpresa sentimental que reservava para sua esposa, uma atenção
delicada, seu retrato em casaca preta. Mas primeiro queria estar preparado;
tais providências não deveriam atrapalhar Monsieur Léon, uma vez que ia à
cidade quase todas as semanas, mais ou menos.
Com que finalidade? Homais suspeitava que no fundo existisse
alguma história de rapaz jovem, alguma intriga. Enganava-se; Léon não
corria atrás de nenhuma namoradinha. Mais do que nunca, ele andava triste,
e Madame Lefrançois reparava muito bem na quantidade de comida que ele
deixava no prato. Para saber mais, Homais interrogou o coletor de impostos;
Binet respondeu, em um tom ríspido, que não era pago para bancar o
policial.
O camarada Léon, contudo, parecia-lhe muito singular; pois, com
frequência, reclinava-se na cadeira com os braços abertos, e queixava-se
vagamente da existência.
— É que o senhor busca poucas distrações — dizia o coletor de
impostos.
— Quais?
— Eu, no lugar do senhor, teria um torno!
— Mas eu não sei usar — respondia o escrevente.
— Ah, é verdade! — dizia o outro, coçando o queixo com um misto
de desdém e satisfação.
Léon estava farto de amar em vão; assim, começou a sentir aquele
desânimo causado pela repetição da mesma vida, quando nenhum interesse a
dirige, e nenhuma esperança a sustenta. Estava tão enfadado com Yonville e
com seus moradores que a visão de certas pessoas, de certas casas, o
irritavam até não poder mais; e o farmacêutico, bem-humorado como era,
tornava-se para ele completamente insuportável. No entanto, a perspectiva
de uma nova situação o assustava tanto quanto o seduzia.
A apreensão logo se transformou em impaciência, e Paris então
acenou para ele, ao longe, com a fanfarra de seus bailes de máscaras e o riso
de suas cocotinhas. Já que precisava concluir os estudos de Direito, por que
não partir? Quem o impedia? Começou então a fazer os preparativos
interiores; organizou de antemão suas ocupações. Mobiliou, na cabeça, seu
apartamento. Levaria uma vida de artista! Faria aulas de violão! Teria um
roupão, uma boina basca, chinelos de veludo azul! E já podia até admirar,
sobre a lareira, dois floretes em cruz, com uma caveira e o violão acima.
A coisa mais difícil era o consentimento da mãe; nada, porém,
parecia mais razoável. Até o patrão o incentivava a visitar outro local de
estudo, onde pudesse se desenvolver ainda mais. Optando por uma solução
intermediária, Léon procurou algum posto como segundo escrevente em
Rouen, mas não encontrou, então redigiu à mãe uma longa carta detalhada,
na qual explicava as razões para ir morar em Paris de imediato. Ela
consentiu.
Ele não se apressou. Todos os dias, durante um mês inteiro, Hivert
transportou para ele, de Yonville a Rouen, de Rouen a Yonville, baús, malas,
pacotes; e, quando Léon havia montado seu guarda-roupa, mandado forrar
três poltronas, comprado um estoque de lenços, em suma, feito mais arranjos
do que para uma viagem ao redor do mundo, adiou de semana em semana,
até que recebeu uma segunda carta da mãe em que o instava a partir, já que
desejava prestar o exame antes das férias.
Quando chegou o momento dos abraços, Madame Homais chorou;
Justin soluçava; Homais, um homem forte, dissimulou sua emoção, e quis
ele mesmo carregar o casaco de seu amigo até o portão do tabelião, que
levava Léon a Rouen em seu veículo. Este último mal tinha tempo para
despedir-se de Monsieur Bovary.
Quando chegou ao topo da escadaria, parou, pois se sentia sem
fôlego. À entrada, Madame Bovary levantou-se com presteza.
— Sou eu outra vez! — disse Léon.
— Eu tinha certeza!
Ela mordiscou os lábios, e um fluxo de sangue correu sob sua pele,
que se coloriu em rosa desde a raiz dos cabelos até a borda do decote.
Permaneceu de pé, apoiando-se com o ombro no lambri.
— Monsieur Bovary não está? — retomou ele.
— Está ausente.
Ela repetiu:
— Está ausente.
Então houve um silêncio. Olharam-se; e seus pensamentos,
confundidos na mesma angústia, enlaçaram-se estreitamente, como dois
peitos a palpitar.
— Eu gostaria de dar um beijo em Berthe — disse Léon.
Emma desceu alguns degraus e chamou Félicité.
Ele lançou um olhar amplo ao seu redor, que se estendeu até as
paredes, as estantes, a lareira, como para penetrar tudo, para levar tudo
consigo. Ela retornou, e a criada trouxe Berthe, que sacudia um cata-vento
de cabeça para baixo, pendurado na ponta de um fio.
Léon a beijou no pescoço várias vezes.
— Adeus, pobre criança! Adeus, pequenina, adeus!
E entregou-a para a mãe.
— Leve-a — disse esta para Félicité.
Ficaram a sós.
Madame Bovary, de costas, tinha o rosto apoiado em uma vidraça;
Léon segurava o boné na mão e batia-o suavemente contra a coxa.
— Vai chover — disse Emma.
— Tenho um casaco — respondeu ele.
— Ah!
Ela virou-se, com o queixo baixo e a testa para a frente. A luz
deslizava sobre ela, como sobre um mármore, até a curva das sobrancelhas,
sem que fosse possível saber o que Emma olhava no horizonte, nem o que
pensava no fundo de seu ser.
— Vamos, adeus! — suspirou ele.
Ela reergueu a cabeça em um movimento brusco:
— Sim, adeus… Vá logo!
Avançaram um em direção ao outro; ele estendeu a mão, ela hesitou.
— À moda inglesa, então — disse ela, oferendo a sua, esforçando-se
para sorrir.67
Léon sentiu-a entre os dedos, e a própria substância de todo o seu ser
pareceu descer até aquela palma úmida.
Então ele abriu a mão; seus olhos se reencontraram, e ele
desapareceu.
Quando passou pelo mercado, parou e escondeu-se atrás de uma
pilastra, para contemplar uma última vez aquela casa branca com as suas
quatro venezianas verdes. Acreditou ter visto uma sombra atrás da janela, no
quarto; mas a cortina, soltando-se da abraçadeira, como se ninguém a
tocasse, movia lentamente as longas dobras oblíquas, que se espalharam de
um salto, e então ficaram paradas, mais imóveis que uma parede de gesso.
Léon pôs-se a correr.
Viu de longe, na estrada, o cabriolé do patrão, e ao lado dele um
homem de avental de juta que segurava o cavalo. Homais e Monsieur
Guillaumin conversavam juntos. Aguardavam-no.
— Dê-me um abraço — disse o boticário com lágrimas nos olhos. —
Aqui está o seu casaco, meu bom amigo; cuidado com o frio! Cuide-se!
Preserve-se!
— Vamos, Léon, no carro! — disse o coletor de impostos.
Homais inclinou-se sobre o para-lama e, com a voz entrecortada
pelos soluços, deixou escapar estas duas palavras tristes:
— Boa viagem!
— Boa noite — respondeu Monsieur Guillaumin. — Soltar rédeas!
Eles partiram e Homais se virou.
Madame Bovary havia aberto a janela para o jardim e observava as
nuvens.
Amontoavam-se no poente, na direção de Rouen, e logo enrolavam
suas volutas escuras, por onde transpassavam por trás grandes linhas do sol,
como flechas douradas de um troféu suspenso, enquanto o resto do céu vazio
tinha a brancura da porcelana. Uma rajada de vento fez curvar os álamos, e,
de repente, a chuva caiu, crepitando sobre as folhas verdes. Então o sol
reapareceu, as galinhas cantaram, os pardais batiam as asas nos arbustos
úmidos, e as poças de água na areia carregavam, ao escoar, as flores rosadas
de uma acácia.
“Ah! Como ele já deve estar longe!”, pensou ela.
Monsieur Homais, como de costume, veio às seis e meia, durante o
jantar.
— Bem — disse ele, sentando-se —, então embarcamos nosso jovem
há pouco?
— Parece que sim! — respondeu o médico.
Então, virando-se na cadeira:
— E quais as novidades por aqui?
— Nada de especial. Minha esposa, apenas, esteve um pouco
comovida esta tarde. O senhor sabe, as mulheres, uma coisinha de nada as
perturba! Sobretudo a minha! E seria errado revoltar-se contra isso, já que a
composição nervosa delas é muito mais vulnerável que a nossa.
— Esse pobre Léon! — dizia Charles. — Como irá viver em Paris?
Irá se acostumar?
Madame Bovary suspirou.
— Ora essa! — disse o farmacêutico, estalando a língua. — As
porções finas nos restaurantes! Os bailes de máscaras! Champagne! Tudo vai
correr bem, garanto ao senhor.
— Não creio que ele se desencaminhe — objetou Bovary.
— Nem eu! — respondeu Monsieur Homais com vigor. — Embora
tenha de seguir os outros, para não correr o risco de parecer um jesuíta. E o
senhor não sabe a vida que levam esses brincalhões, no Quartier Latin, com
as atrizes! Além disso, os alunos são muito bem-vistos em Paris. Desde que
tenham algum talento para a sedução, são recebidos nas melhores
sociedades, e há até as senhoras do faubourg Saint-Germain, que se
apaixonam por eles, o que lhes proporciona, em consequência,
oportunidades de realizar belos casamentos.
— Mas — disse o médico — temo por ele pois… lá…
— O senhor tem razão — interrompeu o boticário. — É a outra face
da moeda! E somos continuamente obrigados a manter a mão no bolso.
Desta forma, o senhor está em um parque, digamos; um sujeito se apresenta,
bem-vestido, enfeitado até, alguém que se poderia tomar por diplomata; ele
se aproxima; começam a conversar; ele se insinua, oferece-lhe rapé ou
apanha-lhe o chapéu. A relação se estreita; ele o leva ao café, convida a ir à
sua casa de campo, apresenta-lhe, entre dois vinhos, todo tipo de gente, e
três quartos do tempo é apenas para surrupiar sua bolsa ou para levá-lo por
maus caminhos.
— É verdade — respondeu Charles —, mas eu pensava sobretudo
nas doenças, na febre tifoide, por exemplo, que ataca os estudantes que vêm
do interior.
Emma estremeceu.
— Por causa da mudança de dieta — continuou o farmacêutico — e
da perturbação no ordenamento geral. E, além disso, a água de Paris, veja
só! Pratos de restaurantes, todas essas comidas condimentadas acabam
esquentando o sangue e não valem, digam o que quiserem, um bom
ensopado. Quanto a mim, sempre preferi a culinária caseira: é mais
saudável! Além disso, quando eu estudava farmácia em Rouen, morei em
uma pensão, e comia com os professores.
Assim continuou a expor suas opiniões gerais e simpatias pessoais,
até que Justin veio buscá-lo para uma gemada que precisava ser feita.
— Nenhum instante de repouso! — gritou ele. — Sempre
trabalhando feito um condenado! Não posso sair um minuto! É preciso,
como um cavalo de arado, andar suando sangue e água! Que coleira
miserável!
Então, ao chegar à porta:
— A propósito — disse ele —, sabe da notícia?
— O que foi?
— É que é muito provável — retomou Homais, erguendo as
sobrancelhas e exibindo uma expressão das mais sérias — que os comícios
agrícolas da região do Sena Inferior sejam realizados este ano em Yonville-
l’Abbaye. O boato, ao menos, está circulando. Esta manhã, o jornal tocou
um pouco no assunto. Seria de extrema importância para o nosso distrito!
Mas conversaremos sobre isso mais tarde. Estou enxergando bem, obrigado;
Justin trouxe a lanterna.
64 Homofonia na língua francesa. “Meu” (“mon”) e “monte” (“mont”) têm a mesma pronúncia, e inspiram o
trocadilho do personagem.
65 Povos indígenas das Pequenas Antilhas, que dão nome ao mar do Caribe.
66 Denominação usada pelos colonizadores para se referir ao conjunto de povos indígenas que usavam botoques
nos lábios e nas orelhas. Há registros de captura e exposição de indivíduos desses povos na Europa, até o final do
século XIX.
67 O aperto de mão na França, no início do século XIX, era considerado uma inovação inglesa. A tradição
francesa era que as senhoras oferecessem a mão para ser beijada.
VII
Odia seguinte foi, para Emma, um dia fúnebre. Tudo lhe parecia envolto
em uma atmosfera obscura que pairava de forma confusa ao redor das
coisas, e a dor consumia sua alma com gemidos suaves, como faz o vento de
inverno nos castelos abandonados. Era aquele devaneio que se tem sobre o
que não voltará mais, a lassidão que nos apodera após cada fato consumado,
aquela dor trazida pela interrupção de todo movimento costumeiro, o cessar
abrupto de uma vibração prolongada.
Como na volta de Vaubyessard, quando as quadrilhas rodopiavam em
sua cabeça, ela sentia uma melancolia lúgubre, um desespero entorpecido.
Léon reaparecia mais grandioso, mais bonito, mais doce, mais vago; embora
estivesse separado dela, não a abandonara, estava ali, e as paredes da casa
pareciam guardar sua sombra. Não conseguia tirar os olhos daquele tapete
por onde ele andara, daqueles móveis vazios onde ele estivera sentado. O rio
ainda fluía, e impulsionava lentamente suas pequenas ondulações ao longo
da margem escorregadia. Haviam andado por ali muitas vezes, ao mesmo
murmúrio das ondas, sobre as pedrinhas cobertas de musgo. Que belos dias
de sol tiveram! Que belas tardes, sozinhos, à sombra, no fundo do jardim!
Ele lia em voz alta, de cabeça descoberta, apoiado em um banco de galhos
secos; o vento fresco das campinas tremulava as páginas do livro e os
pergolados… Ah! Ele se foi, o único encanto de sua vida, a única esperança
possível de felicidade! Como não havia aproveitado aquela alegria, quando
ela se apresentou! Por que não a ter retido com as duas mãos, entre os
joelhos, quando ela queria fugir? Amaldiçoou-se por não ter amado Léon;
ansiava por seus lábios. Foi tomada pela vontade de juntar-se a ele, de se
jogar em seus braços, de lhe dizer: “Sou eu, sou sua!”. Mas Emma
embaraçava-se de antemão pelas dificuldades da empreitada, e seus desejos,
avolumados pelo arrependimento, tornaram-se apenas mais ativos.
Desde então, a lembrança de Léon foi como o centro de seu
aborrecimento; crepitava com mais força do que, nas estepes da Rússia, uma
fogueira de viajantes abandonada na neve. Corria em sua direção, aninhava-
se nele, revolvia delicadamente aquela chama prestes a se apagar, buscava ao
seu redor qualquer coisa que pudesse avivá-la mais; e as reminiscências mais
longínquas, bem como as ocasiões mais imediatas, o que sentia e o que
imaginava, seus desejos de volúpia que se dispersavam, seus projetos de
felicidade que estalavam ao vento como galhos mortos, sua virtude estéril,
suas esperanças frustradas, o lixo doméstico, ela reunia tudo, pegava tudo, e
usava para aquecer sua tristeza.
No entanto, as chamas se extinguiram, fosse porque a provisão se
esgotasse, ou porque o acúmulo fosse considerável demais. O amor, pouco a
pouco, se extinguiu pela ausência, o arrependimento foi sufocado pelo
hábito, e o clarão do incêndio que empurpurava seu pálido céu cobriu-se
ainda mais de sombras e se apagou aos poucos. No sono da consciência,
tomava a repugnância do marido por aspirações ao amante, as chamas do
ódio pelo calor da ternura; mas como o furacão ainda soprava, a paixão se
reduziu a cinzas, e nenhum socorro chegou, nenhum sol apareceu, fez-se
noite completa por todos os lados, e ela permaneceu perdida em um frio
horrível que a atravessava.
Então, os dias ruins de Tostes recomeçaram. Considerava-se agora
muito mais infeliz, pois experienciava a dor e tinha certeza de que ela não
terminaria.
Uma mulher que se impusera tantos sacrifícios poderia muito bem se
permitir alguns caprichos. Comprou um genuflexório gótico, e gastou, em
um mês, catorze francos em limões para limpar as unhas; encomendou um
vestido de caxemira azul de Rouen; escolheu a mais bela das echarpes de
Monsieur Lheureux, que amarrava na cintura por cima do robe; e, com as
persianas fechadas, com um livro na mão, ficava estirada em um sofá vestida
naquele traje.
Com frequência, variava o penteado: usava-o em coques, em cachos
macios, em tranças; fez um repartido na lateral da cabeça e enrolou os
cabelos por baixo, como um homem.
Quis aprender italiano: comprou dicionários, uma gramática, um
estoque de papel branco. Tentou as leituras sérias, história e filosofia. Às
vezes, à noite, Charles acordava sobressaltado, achando que vinham chamá-
lo por causa de um doente.
— Estou indo — balbuciava.
E era o barulho de um fósforo que Emma riscava para reacender a
lâmpada. Mas sua leitura era como suas tapeçarias, que, uma vez começadas,
sobrecarregavam o armário; ela as pegava, depois largava, passava para
outras.
Tinha ataques, em que poderia facilmente ser levada a
extravagâncias. Sustentou um dia, contra o marido, que poderia muito bem
beber meio copo grande de aguardente e, como Charles cometeu a besteira
de desafiá-la, ela engoliu a aguardente até o fim.
Apesar de seu jeito evaporado (era a palavra dos burgueses de
Yonville), Emma, entretanto, não parecia alegre e, quase sempre, mantinha
nos cantos da boca aquela contração imóvel que enruga o rosto das
solteironas e dos ambiciosos decadentes. Estava pálida, branca como linho; a
pele do nariz repuxava-se até as narinas, os olhos fixavam-se de modo vago.
Ao descobrir três fios brancos nas têmporas, falou muito de sua velhice.
Muitas vezes era tomada por fraquezas. Um dia, chegou até a cuspir
sangue e, enquanto Charles se apressava, deixou transparecer sua
inquietação:
— Ah! — respondeu. — O que importa?
Charles refugiou-se em seu gabinete; e chorou com os cotovelos
apoiados na mesa, sentado na cadeira de escritório, sob a cabeça frenológica.
Então, escreveu à mãe, rogando-lhe que viesse, e, juntos, tiveram
longos debates a respeito de Emma.
Como resolver? O que fazer, já que ela recusava qualquer
tratamento?
— Sabe do que sua esposa precisaria? — retomava Madame Bovary
mãe. — De ocupações obrigatórias, trabalhos manuais! Se fosse como tantas
outras, forçada a ganhar o pão, não teria esses vapores, que lhe vêm das
tantas ideias que enfia na cabeça e do ócio em que vive.
— Mas ela se ocupa — disse Charles.
— Ah! Ela se ocupa! Em quê? Em ler romances, livros ruins, obras
contra a religião em que os padres são ridicularizados por discursos tirados
de Voltaire. Mas tudo isso já vai longe, meu pobre filho, e quem não tem
religião acaba sempre por se dar mal.
Assim, ficou decidido que Emma seria impedida de ler romances. A
tarefa não parecia nada fácil. A boa senhora encarregou-se: quando passasse
por Rouen, deveria ir pessoalmente ao locador de livros e dizer-lhe que
Emma gostaria de interromper a assinatura. Não teriam o direito de avisar a
polícia caso o livreiro persistisse em seu trabalho de envenenador?
As despedidas da sogra e da nora foram secas. Durante as três
semanas em que estiveram juntas, não trocaram mais do que quatro palavras,
à parte informações e cumprimentos quando se encontravam à mesa, e à
noite antes de ir para a cama.
Madame Bovary mãe partiu em uma quarta, que era o dia da feira em
Yonville.
A praça, desde a manhã, estava atulhada por uma fila de carroças
que, arriadas e com os varais para o ar, estendiam-se ao longo das casas
desde a igreja até a hospedaria. Do outro lado, havia barracas de lona onde
se vendiam artigos de algodão, cobertores e meias de lã, com cabrestos para
os cavalos e pacotes de fitas azuis, cujas pontas esvoaçavam ao vento.
Ferragens pesadas estavam espalhadas no chão, entre as pirâmides de ovos e
os cestos de queijos, dos quais se projetavam palhas pegajosas; perto das
máquinas de trigo, galinhas que cacarejavam em gaiolas planas enfiavam o
pescoço entre as grades. A multidão, amontoada no mesmo lugar sem querer
se mexer, às vezes ameaçava quebrar a fachada da farmácia. Estava sempre
cheia às quartas-feiras, e o povo corria para lá, menos para comprar
remédios do que para fazer consultas, tão famosa era a reputação de
Monsieur Homais nas aldeias vizinhas. Sua autoconfiança sólida havia
fascinado os camponeses. Consideravam-no um médico maior do que todos
os médicos.
Emma encontrava-se apoiada na janela (fazia-o com frequência: a
janela, no interior, substitui os teatros e os calçadões) e se divertia
observando a aglomeração provinciana, quando avistou um senhor vestido
em sobrecasaca de veludo verde. Vestia luvas amarelas, embora estivesse
usando perneiras grossas; e dirigia-se à casa do médico, seguido de um
camponês que caminhava de cabeça baixa, com um ar reflexivo.
— Eu poderia ver o patrão? — perguntou a Justin, que conversava na
soleira com Félicité.
E, tomando-o como criado da casa:
— Diga-lhe que é Monsieur Rodolphe Boulanger de la Huchette.
Não foi por vaidade territorial que o recém-chegado havia inserido ao
seu nome a preposição68, mas para fazer-se conhecer melhor. La Huchette,
na verdade, era um distrito próximo a Yonville, onde acabara de adquirir um
castelo, com duas fazendas que ele mesmo cultivava, sem muito incômodo,
no entanto. Vivia solteiro, e diziam ter ao menos quinze mil de renda!
Charles entrou na sala. Monsieur Boulanger apresentou-lhe seu
empregado, que queria que lhe aplicassem uma sangria porque sentia o
corpo todo formigar.
— Isso vai me purgar — objetava diante de todos os argumentos.
Monsieur Bovary ordenou então que lhe trouxessem uma faixa e uma
bacia, e pediu a Justin que a segurasse. Depois, dirigiu-se ao camponês já
pálido:
— Não tenha medo, meu bravo.
— Não, não — respondeu o outro —, vá em frente!
E, com ares de fanfarrão, estendeu o braço gorducho. Sob a picada da
lanceta, o sangue jorrou e respingou no espelho.
— Aproxime a vasilha! — exclamou Charles.
— Vejam só! — disse o camponês. — Parece até uma fonte
escorrendo! Como tenho sangue vermelho! Deve ser bom sinal, não?
— Às vezes — continuou o médico —, não se sente nada no início,
mas depois o desmaio aparece, particularmente em pessoas bem
constituídas, como este aqui.
O camponês, àquelas palavras, largou o estojo que girava entre os
dedos. Um solavanco de seus ombros fez estalar o encosto da cadeira. Seu
chapéu caiu.
— Eu suspeitava — disse Bovary, encostando o dedo sobre a veia.
A bacia começava a tremer nas mãos de Justin; seus joelhos
vacilaram, e ele ficou pálido.
— Esposa! Esposa! — chamou Charles.
Em um salto, ela desceu as escadas.
— Vinagre! — gritou ele. — Ah! Meu Deus, dois ao mesmo tempo!
Em meio à emoção, mal conseguia aplicar a compressa.
— Não é nada — dizia Monsieur Boulanger tranquilamente,
segurando Justin em um abraço.
E fez com que ele se sentasse sobre a mesa, apoiando as costas na
parede.
Madame Bovary pôs-se a tirar-lhe a gravata. Havia um nó nos
cordões da camisa; ficou por alguns minutos movendo os dedos leves no
pescoço do jovem; depois, derramou vinagre sobre o lenço de cambraia;
umedecia suas têmporas com tapinhas, assoprando-as com delicadeza.
O carroceiro acordou, mas a síncope de Justin ainda perdurava, e
suas pupilas desapareciam na esclerótica pálida, como flores azuis no leite.
— É necessário — disse Charles — esconder isso dele.
Madame Bovary pegou a bacia. Quando se inclinou para colocá-la
debaixo da mesa, seu vestido (era um vestido de verão com quatro babados,
de cor amarela, corte longo, largo na saia) se expandiu ao seu redor sobre os
ladrilhos da sala; e como Emma, abaixada, cambaleava um pouco ao
estender os braços, o volume do tecido cedia aqui e ali, de acordo com as
inflexões do corpete. Em seguida, buscou uma jarra de água, e diluía alguns
torrões de açúcar quando o farmacêutico chegou. A criada fora buscá-lo no
meio do alvoroço; vendo seu aluno de olhos abertos, retomou o fôlego.
Então, dando voltas, olhava-o de cima a baixo.
— Tolo! — dizia ele. — Tolo, realmente! Tolo, em quatro letras!
Grande coisa, afinal, uma flebotomia! E um grandalhão que não tem medo
de nada! Uma espécie de esquilo, como os que sobem para sacudir as nozes
em alturas vertiginosas. Ah! Sim, fale, gabe-se! Que bela disposição para
praticar a farmácia mais tarde; pois você pode ser chamado em
circunstâncias graves, perante os tribunais, a fim de esclarecer a consciência
dos magistrados; será preciso, portanto, manter o sangue frio, raciocinar,
mostrar-se homem, ou então passar por um imbecil!
Justin não respondia. O boticário continuou:
— Quem pediu para você vir? Está sempre importunando Monsieur e
Madame Bovary! Às quartas-feiras, aliás, sua presença é ainda mais
indispensável para mim. Há agora vinte pessoas em casa. Deixei tudo por
causa de minha preocupação com você. Vamos, vá embora! Corra! Espere
por mim, e tome conta dos frascos!
Quando Justin terminou de se vestir e partiu, conversaram um pouco
de desmaios. Madame Bovary jamais os tivera.
— É extraordinário para uma senhora! — disse Monsieur Boulanger.
— Além disso, existem algumas pessoas muito delicadas. Já vi, em um
duelo, uma testemunha perder a consciência ao simples barulho das pistolas
sendo carregadas.
— A mim — disse o boticário —, a visão do sangue de outras
pessoas não me afeta em nada; mas a simples ideia do meu sangue
escorrendo seria o suficiente para me causar desmaios, se eu pensasse muito
nisso.
Enquanto isso, Monsieur Boulanger dispensou o criado,
aconselhando-o a tranquilizar a mente, já que seu capricho havia passado.
— Ele me proporcionou o privilégio de tê-los conhecido —
acrescentou ele.
E olhou para Emma durante aquela frase. Depositou três francos no
canto da mesa, despediu-se com certa indiferença e partiu.
Logo estava do outro lado do rio (era o caminho de volta para La
Huchette); e Emma o viu na campina, caminhando sob os álamos,
diminuindo o passo de vez em quando, como alguém que está refletindo.
“Ela é muito graciosa!”, dizia a si mesmo. “É muito graciosa, aquela
esposa do médico! Belos dentes, olhos negros, pés delicados, e o porte de
uma parisiense. De onde saiu, diabos? Onde foi que esse homem a
encontrou?”
Monsieur Rodolphe Boulanger tinha trinta e quatro anos; tinha um
temperamento brutal e uma inteligência astuta, além de ter frequentado
bastante as mulheres e de conhecê-las bem. Esta lhe parecera bonita;
pensava nela, portanto, e no marido.
“Acho-o muito estúpido. Ela está cansada dele, sem dúvida. Tem as
unhas sujas e uma barba de três dias. Enquanto ele trota para seus pacientes,
ela fica remendando meias. Daí vem o tédio! E a vontade de morar na
cidade, de dançar a polca todas as noites! Pobre mulherzinha! Está sedenta
por amor, como uma carpa sobre a mesa da cozinha está sedenta por água.
Com três palavras de galanteio, ela me adoraria, tenho certeza! Isso seria
doce! Encantador! Sim, mas como livrar-me dela depois?”
Então, os empecilhos do prazer, vislumbrados em perspectiva, o
fizeram, em contraste, pensar na sua amante. Era uma atriz de Rouen, que
ele sustentava; e, quando se fixou em sua imagem, da qual, mesmo em
lembrança, sentia-se saciado:
“Ah! Madame Bovary”, pensou ele, “é muito mais bonita do que ela,
tem mais frescor, sobretudo. Virginie está ficando muito gorda,
definitivamente. É tão cansativa com suas alegrias. E, por falar nisso, que
mania de comer camarão!”
O campo estava deserto, e Rodolphe ouvia à sua volta apenas a
batida regular da relva que açoitava seus sapatos, com o barulho dos grilos
abafado ao longe sob a aveia; relembrava Emma na sala, vestida como
estivera, e a despia.
— Ah! Será minha! — exclamou ele, esmagando, com um golpe de
cajado, um torrão de terra à sua frente.
E logo examinou a parte estratégica do empreendimento. Perguntava-
se:
“Onde se encontrar? De que maneira? Teremos sempre a criancinha a
tiracolo, e a criada, os vizinhos, o marido, todo tipo de aborrecimentos
consideráveis. Ah! Perde-se muito tempo!”
E logo recomeçava:
“É que ela tem olhos que penetram o coração como uma broca. E a
pele pálida! Como adoro mulheres pálidas!”
No topo da encosta de Argueil, sua resolução estava tomada.
“Basta procurar as oportunidades. Bem, passarei lá de vez em
quando, enviarei caças, aves; Pedirei uma sangria, se for preciso; ficaremos
amigos, irei convidá-los à minha casa… Ah! Por Deus!”, acrescentou, “Os
comícios serão em breve; ela estará lá, eu a verei. Começaremos, e com
ousadia, porque é o mais seguro.”
68 Em alguns países europeus, o uso de preposições precedendo o sobrenome poderia indicar uma origem nobre
ou fazer referência à propriedade familiar.
VIII
Chegaram, de fato, os famosos comícios! Desde a manhã da solenidade,
todos os habitantes, às suas portas, entretinham-se com os preparativos;
haviam decorado com guirlandas o frontão da prefeitura; em um campo, uma
tenda fora armada para o festim, e, no meio da praça, em frente à igreja, uma
espécie de bombarda deveria sinalizar a chegada do senhor governador e os
nomes dos lavradores premiados. A guarda nacional de Buchy (não havia
nenhuma em Yonville) viera para se juntar ao corpo de bombeiros, do qual
Binet era o capitão. Nesse dia, usava uma gola ainda mais alta do que de
costume; e, apertado em sua túnica, tinha o busto tão rígido e imóvel que
toda a parte vital de sua pessoa parecia ter descido até as duas pernas, que se
erguiam cadenciadas, a passos marcados, em um único movimento. Como
persistia uma rivalidade entre o coletor de impostos e o coronel, ambos, para
mostrar seus talentos, conduziam seus homens separadamente. Viam-se, em
ordem alternada, ir e voltar as dragonas vermelhas e os plastrões negros. Não
terminava nunca e recomeçava sempre! Jamais se vira tamanha exibição de
pompa! Vários burgueses, desde a véspera, haviam lavado suas casas;
bandeiras tricolores pendiam nas janelas entreabertas; todas as tabernas
estavam cheias; e, pelo tempo bom que fazia, os gorros engomados, as
cruzes de ouro e os xales coloridos pareciam mais brancos que a neve,
reluzindo ao sol forte, e realçavam, com sua miscelânea de tons espalhados,
a monotonia sombria das sobrecasacas e batas azuis. As agricultoras das
redondezas removeram, ao apear dos cavalos, o grande alfinete que prendia
ao corpo os vestidos, enrolados por medo de manchas; e os maridos, ao
contrário, para preservar os chapéus, mantinham sobre eles lenços de bolso,
segurando uma ponta entre os dentes.
A multidão chegava à rua principal pelas duas extremidades do
vilarejo. Jorrava das vielas, dos becos, das casas, e ouviam-se, de tempos em
tempos, as portas que se batiam, atrás das burguesas com luvas de linha, que
saíam para ver a festa. O que se admirava sobretudo eram dois longos
arbustos de teixos, cobertos de luminárias que bordeavam um palanque onde
as autoridades ficariam; havia ainda, contra as quatro colunas da prefeitura,
quatro espécies de vara, cada uma com um pequeno estandarte de tecido
esverdeado, engrandecido com inscrições em letras douradas. Lia-se em um
deles: AO COMÉRCIO; em outro: À AGRICULTURA; em um terceiro: À INDÚSTRIA;
e no quarto: ÀS BELAS-ARTES.
Porém, o júbilo que iluminava todos os rostos parecia obscurecer o
de Madame Lefrançois, dona da hospedaria. De pé nos degraus da cozinha,
ela murmurava:
— Que besteira! Que besteira com essa barraca de lona! Acham que
o governador vai ficar muito feliz em jantar ali, debaixo de uma tenda, feito
um saltimbanco? Chamam esse constrangimento de fazer o bem do país!
Não havia necessidade de buscar um taberneiro em Neufchâtel! E para
quem? Para vaqueiros! Maltrapilhos!
O boticário passou. Usava uma casaca preta, calças de nanquim69,
sapatos de castor e, de extraordinário, um chapéu — um chapéu baixo.
— A seu dispor! — disse ele. — Desculpe-me, estou apressado.
E como a viúva robusta lhe perguntasse aonde ia:
— Parece engraçado, não é? Eu, que vivo mais confinado em meu
laboratório do que o rato do bom homem70 dentro do queijo.
— Que queijo? — perguntou ela.
— Não, nada! Não é nada! — respondeu Homais. — Só queria lhe
dizer, Madame Lefrançois, que costumo viver muito recluso em casa. Hoje,
porém, dadas as circunstâncias, é necessário que…
— Ah! O senhor vai até lá? — disse ela com um ar de desdém.
— Vou, sim — replicou o boticário desconcertado. — Por acaso não
faço parte da comissão consultiva?
Madame Lefrançois olhou-o por alguns minutos e acabou por
responder sorrindo:
— É outra coisa! Em que o cultivo lhe diz respeito? O senhor
entende disso?
— Certamente, eu entendo, pois sou farmacêutico, isto é, químico! E
a química, Madame Lefrançois, tendo por objetivo o conhecimento da ação
recíproca e molecular de todos os corpos da natureza, compreende a
agricultura em seu domínio! E, de fato, composição de fertilizantes,
fermentação de líquidos, análise de gases e influência de miasmas, o que é
tudo isso, eu lhe pergunto, se não química pura e simples?
A dona da hospedaria nada respondeu. Homais continuou:
— A senhora acha que para ser agrônomo é preciso ter arado a terra
ou engordado galinhas? É antes necessário conhecer a constituição das
substâncias em questão, as jazidas geológicas, as ações atmosféricas, a
qualidade dos solos, dos minerais, das águas, a densidade dos diferentes
corpos e sua capilaridade! O que sei eu? É preciso dominar a fundo todos os
princípios de higiene, para dirigir e avaliar a construção das instalações, a
dieta dos animais, a alimentação dos criados! É preciso ainda, Madame
Lefrançois, dominar a botânica; saber discernir as plantas, compreende,
quais são benéficas, quais são deletérias, quais são improdutivas e quais são
nutritivas, se é bom arrancá-las aqui e replantá-las acolá, disseminar
algumas, destruir outras; em suma, é preciso manter-se a par da ciência por
folhetos e publicações, estar sempre atento, para indicar melhorias…
A dona da hospedaria não tirava os olhos da porta do Café Français,
e o farmacêutico continuou:
— Quisera Deus que nossos fazendeiros fossem químicos, ou que
pelo menos ouvissem mais os conselhos da ciência! Assim, recentemente
escrevi um sólido opúsculo, um estudo de mais de setenta e duas páginas,
intitulado Da sidra, de sua fabricação e de seus efeitos; seguido de algumas
novas reflexões sobre o assunto, que enviei à Sociedade Agronômica de
Rouen; o que me valeu a honra de ser recebido entre seus membros, seção de
agricultura, classe de pomologia; bem, se meu trabalho tivesse sido entregue
à publicidade…
O boticário parou, de tanto que Madame Lefrançois parecia
preocupada.
— Olhe só para eles! — dizia ela. — Não se entende nada! Uma
espelunca dessas!
Encolhendo os ombros de modo a repuxar sobre o peito a malha da
blusa tricotada, apontou com as duas mãos para o bar de seu rival, de onde
saíam canções.
— De resto, não vai durar muito — acrescentou —; antes de oito dias
estará tudo acabado.
Homais recuou espantado. Ela desceu os três degraus e sussurrou em
seu ouvido:
— O quê? O senhor não sabia? Irão fechá-lo esta semana. É
Lheureux quem o obriga a vender. Assassinou o negócio com tantas contas
não pagas.
— Que catástrofe pavorosa! — exclamou o boticário, que tinha
sempre expressões congruentes a todas as circunstâncias imagináveis.
A dona da hospedaria, portanto, começou a lhe contar a história, que
soubera por Théodore, criado de Monsieur Guillaumin, e, embora execrasse
Tellier, culpava Lheureux. Era um ludibriador, um rasteiro.
— Ah! Veja — disse ela —, lá vai ele no mercado; cumprimentando
Madame Bovary, que está de chapéu verde. Está até de braços dados com
Monsieur Boulanger.
— Madame Bovary! — disse Homais. — Apresso-me a prestar-lhe
meus respeitos. Talvez ela fique satisfeita em ter um lugar no recinto, sob o
peristilo.
Sem ouvir Madame Lefrançois, que o chamava de volta para contar
mais, o farmacêutico afastou-se a passos rápidos, com um sorriso no rosto e
os joelhos esticados, distribuindo cumprimentos à direita e à esquerda, e
ocupando muito espaço com as grandes abas da casaca preta, que flutuavam
ao vento atrás dele.
Rodolphe, tendo-o visto de longe, tratou de acelerar o passo; mas
Madame Bovary perdeu o fôlego; ele então diminuiu o passo e lhe disse,
sorrindo, em um tom brusco:
— É para evitar aquele grosseirão: a senhora sabe, o boticário.
Ela o cutucou.
“O que significa isso?”, ele se perguntou e a espiou com o canto dos
olhos, ainda caminhando.
O perfil dela estava tão calmo que não se adivinhava nada.
Destacava-se em plena luz, sob a aba ovalada do chapéu, cujas fitas pálidas
lembravam folhas de junco. Seus olhos com longos cílios curvados estavam
voltados para a frente e, embora bem abertos, pareciam um pouco apertados
pelas maçãs do rosto, por causa do sangue, que pulsava suavemente sob a
pele fina. Um tom rosado atravessava a ponta de seu nariz. Ela inclinava a
cabeça sobre o ombro, e viam-se entre seus lábios as pontas peroladas dos
dentes brancos.
“Estará zombando de mim?”, pensava Rodolphe.
O gesto de Emma, porém, havia sido apenas um aviso; pois
Monsieur Lheureux os acompanhava, e dirigia-se a eles de vez em quando,
como se tentasse iniciar uma conversa:
— Que dia magnífico! Todo mundo ao ar livre! Os ventos estão a
leste.
E nem Madame Bovary, nem tampouco Rodolphe, respondia,
enquanto, ao menor movimento que faziam, Lheureux se aproximava,
dizendo “Perdão, como que disseram?”, levando a mão ao chapéu.
Quando estavam em frente à casa do ferreiro, em vez de seguir a
estrada até a barreira, Rodolphe, abruptamente, pegou um atalho, arrastando
Madame Bovary, e gritou:
— Boa tarde, Monsieur Lheureux! Um prazer!
— Como o dispensou! — disse ela, rindo.
— Por que — continuou ele — deixar-se invadir pelos outros? Ainda
mais hoje, que tenho a alegria de estar com a senhora…
Emma corou. Ele não terminou a frase. Depois, falou do bom tempo
e do prazer de caminhar na grama. Algumas margaridas voltavam a brotar.
— Veja que lindos malmequeres — disse ele —, suficientes para
fornecer oráculos a todos os amantes do país. — E acrescentou: — E se eu
colhesse alguns? O que acha?
— Está apaixonado? — disse ela, tossindo um pouco.
— Ora! Ora! Quem sabe? — respondeu Rodolphe.
O campo começava a ficar cheio, e as donas de casa esbarravam nas
pessoas com grandes guarda-chuvas, cestas e criancinhas. Muitas vezes, era
preciso desviar da longa fila de camponesas, criadas de meias azuis, sapatos
baixos, anéis de prata, e que cheiravam a leite quando se passava perto delas.
Caminhavam de mãos dadas e, assim, espalhavam-se por toda a extensão do
campo, desde a fileira de álamos até a tenda do banquete. Mas era chegado o
momento da avaliação, e os produtores, um após o outro, entravam em uma
espécie de hipódromo formado por uma longa corda sustentada por hastes.
Os animais estavam lá, de focinho voltado para a corda, alinhando
confusamente seus traseiros irregulares. Porcos sonolentos chafurdavam no
chão; bezerros berravam; ovelhas baliam; as vacas, com os jarretes
dobrados, espalhavam o ventre na grama e, ruminando com lentidão,
piscavam as pálpebras pesadas sob os mosquitos que zumbiam ao seu redor.
Os carroceiros, de braços descobertos, seguravam pelo cabresto garanhões
encabritados, que relinchavam a plenas narinas ao lado das éguas. Elas
permaneciam tranquilas, alongando a cabeça de crinas pendentes, enquanto
os potros descansavam à sua sombra, ou, às vezes, vinham mamar; e, na
longa ondulação de todos esses corpos amontoados, via-se erguer ao vento,
como um jorro, alguma crineira branca, ou o sobressair de chifres afiados e
cabeças de homens que corriam. Ao longe, fora dos cercados, cem passos
adiante, havia um grande touro preto amordaçado, com uma argola de ferro
na narina, e que não se movia mais do que um animal de bronze. Uma
criança esfarrapada o segurava por uma corda.
Enquanto isso, entre as duas fileiras, os senhores avançavam com
passos pesados, examinando cada animal, e depois se consultavam em voz
baixa. Enquanto caminhavam, um deles, que parecia mais notável, tomava
algumas notas em um caderno. Era o presidente do júri: Monsieur
Derozerays de la Panville. Assim que reconheceu Rodolphe, foi rapidamente
em sua direção e lhe disse, sorrindo com ar amável:
— Como assim, Monsieur Boulanger, está nos abandonando?
Rodolphe explicou que logo iria até eles. Mas quando o presidente
desapareceu:
— Na verdade, não — replicou para Emma —, não irei; sua
companhia vale mais.
Enquanto zombava dos comícios, Rodolphe, para circular mais à
vontade, mostrava ao guarda seu cartão azul, e às vezes parava diante de
algum belo exemplar de raça, que Madame Bovary pouco admirava. Ele
notou, e então começou a fazer brincadeiras sobre as senhoras de Yonville,
por causa de seus trajes; depois se desculpou pela própria negligência com
os seus. Tinham aquela incoerência das coisas comuns e rebuscadas, em que
o vulgo, de costume, acredita vislumbrar a revelação de uma existência
excêntrica, as desordens do sentimento, as tiranias da arte, e sempre certo
desprezo pelas convenções sociais, algo que o seduz ou exaspera. Assim, a
camisa em cambraia de punhos plissados inflava ao vento, na abertura do
colete, que era de sarja cinza, e a calça de listras largas expunha, na altura
dos tornozelos, suas botinas de nanquim, com detalhes em couro
envernizado. Eram tão lustrosas que a grama se refletia nelas. Pisoteava com
elas o estrume dos cavalos, com uma mão no bolso do paletó e o chapéu de
palha colocado de lado.
— Além disso — acrescentou —, quando se vive no campo…
— É tudo uma perda de tempo — disse Emma.
— É verdade! — respondeu Rodolphe. — E pensar que nenhuma
dessas benditas pessoas é capaz de perceber nem mesmo o corte de um traje!
Depois falaram da mediocridade provinciana, das existências que ela
abafava, das ilusões que se perdiam.
— Eu também — disse Rodolphe — afundo-me em uma tristeza…
— O senhor?! — disse ela com espanto. — Mas pensei que fosse tão
alegre!
— Ah! Sim, na aparência, porque no meio de todo mundo sei colocar
no rosto uma máscara zombeteira; e, no entanto, quantas vezes, à vista de
um cemitério, ao luar, perguntei-me se não seria melhor ir me juntar aos que
estão ali adormecidos…
— Oh! E os seus amigos? — disse ela. — Não pensa neles?
— Meus amigos? Quais então? Tenho algum? Quem se importa
comigo?
E acompanhou aquelas últimas palavras com uma espécie de assobio
entre os lábios.
Foram obrigados a se afastar um do outro, por causa de um grande
amontoado de cadeiras que um homem carregava atrás deles. Estava tão
sobrecarregado que se viam apenas as pontas de seus tamancos e as
extremidades dos braços bem estendidos. Era Lestiboudois, o coveiro, que
carregava as cadeiras da igreja pela multidão. Cheio de imaginação para tudo
o que dizia respeito a seus interesses, havia descoberto esse meio de tirar
proveito dos comícios; e sua ideia fazia sucesso, pois ele não sabia mais a
quem atender. De fato, os aldeões, que estavam com calor, disputavam entre
si pelos assentos, cuja palha cheirava a incenso, e apoiavam-se nos encostos
sujos de cera de velas, com certa veneração.
Madame Bovary retomou o braço de Rodolphe; ele continuou, como
se falasse consigo mesmo:
— Sim! Tantas coisas me fazem falta! Sempre sozinho! Ah! Se eu
tivesse um objetivo na vida, se tivesse encontrado afeição, se tivesse
encontrado alguém… Ah! Como eu teria empenhado toda a energia de que
sou capaz, teria superado tudo, rompido com tudo!
— Parece-me, no entanto — disse Emma —, que o senhor não é
muito digno de pena.
— Ah! A senhora acha? — disse Rodolphe.
— Porque, afinal — continuou ela —, o senhor é livre.
Ela hesitou.
— Rico — acrescentou.
— Não zombe de mim — respondeu ele.
Ela jurava que não estava de zombaria, quando um tiro de canhão
soou; no mesmo instante, todos se empurraram, em uma confusão, na
direção do vilarejo.
Era um falso alarme. O senhor governador não havia chegado; e os
membros do júri estavam muito embaraçados, sem saber se deviam começar
a sessão ou esperar mais.
Enfim, no final da praça, apareceu um grande landau71 de aluguel,
puxado por dois cavalos magros, açoitados com toda a força por um
cocheiro de chapéu branco. Binet teve o tempo justo de gritar “Às armas!” e
o coronel de imitá-lo. Correram para o sarilho dos fuzis. Apressaram-se.
Alguns até esqueceram o colarinho. A comitiva governamental pareceu
adivinhar o embaraço, e a dupla de pangarés, rebolando em seus arreios,
chegou a trote picado em frente ao peristilo da prefeitura, no momento em
que a guarda nacional e os bombeiros faziam suas formações, tamborilando
e marcando o passo.
— Balanço! — gritou Binet.
— Alto! — gritou o coronel. — Perfilar à esquerda!
E, depois de um portar armas em que o tilintar das abraçadeiras,
desdobrando-se, soava como um caldeirão de cobre degringolando escada
abaixo, todos os fuzis foram baixados.
Então, viu-se descer da carruagem um senhor, vestido com um
casaco curto com bordados de prata, calvo na parte da frente e com um tufo
de cabelos atrás da cabeça, de tez pálida e aparência das mais benignas. Seus
olhos, muito grandes e cobertos por pálpebras espessas, semicerravam-se
para contemplar a multidão, ao mesmo tempo em que ele levantava o nariz
pontudo e fazia sorrir a boca afundada. Reconheceu o prefeito por sua faixa
e lhe explicou que o Senhor governador não pudera vir. Ele mesmo era um
conselheiro do governo; e acrescentou algumas desculpas. Tuvache
respondeu com cortesias, o outro admitiu estar confuso; e permaneceram
assim, cara a cara, com as testas quase se tocando, com os membros do júri à
volta, a câmara municipal, os notáveis, a guarda nacional e a multidão. O
senhor conselheiro, encostando no peito o chapeuzinho preto de três pontas,
reiterava os cumprimentos, enquanto Tuvache, curvado como um arco,
sorria, gaguejava, procurava suas frases, bradava sua devoção à monarquia, e
se honrava pelo evento em Yonville.
Hippolyte, serviçal da hospedaria, apanhou pelas rédeas os cavalos
do cocheiro e, mancando com o pé torto, conduziu-os até a varanda do Lion
d’Or, onde muitos camponeses se aglomeravam para olhar o veículo. O
tambor tocava, o canhão trovejava e os cavalheiros em fila subiram para
tomar seus lugares no palanque, nas poltronas de veludo de Utrecht72
vermelhas que haviam sido emprestadas pela Madame Tuvache.
Todas aquelas pessoas se assemelhavam. Os rostos flácidos e louros,
um pouco bronzeados pelo sol, tinham a cor de sidra doce, e as costeletas
bufantes escapavam de colarinhos altos e rígidos, sustentados por gravatas
brancas com nós bem esticados. Todos os coletes eram de veludo, e
trespassados; todos os relógios traziam na ponta de uma longa fita algum
pingente oval, de cornalina; e apoiavam as mãos nas coxas, afastando com
cuidado o gancho das calças, cujos tecidos, ainda preservados, reluziam mais
do que o brilho das botas de couro robustas.
As damas da sociedade mantinham-se atrás, sob o vestíbulo, entre as
colunas, enquanto os comuns da multidão ficavam na frente, de pé ou
sentados em cadeiras. De fato, Lestiboudois levara para lá todas aquelas que
havia trazido do campo, e ainda corria a cada minuto para buscar mais na
igreja, causando tal obstrução com seu comércio que se tinha grande
dificuldade em chegar à escadinha do palanque.
— Eu acho — disse Monsieur Lheureux (dirigindo-se ao
farmacêutico, que passava para ocupar seu lugar) — que deveriam ter
fincado ali dois mastros venezianos: com algo um pouco sóbrio e opulento
como novidade, teria causado uma impressão muito bonita.
— Sem dúvida — respondeu Homais. — Mas o que o senhor quer?
Foi o prefeito quem tomou conta de tudo. Não tem um grande gosto, o pobre
Tuvache, e é mesmo completamente desprovido daquilo que se chama de
gênio das artes.
Nesse ínterim, Rodolphe, com Madame Bovary, havia subido ao
primeiro andar da prefeitura, à sala de deliberações, e, como estava vazia,
afirmara que ali seria um ótimo lugar para apreciar o espetáculo mais à
vontade. Pegou três banquetas em volta da mesa oval, sob o busto do
monarca, e, tendo-as levado para perto de uma das janelas, sentaram-se lado
a lado.
Houve uma comoção no palanque, longos cochichos, discussões.
Finalmente, monsieur conselheiro levantou-se. Àquela altura, sabia-se que se
chamava Lieuvain, e repetiam seu nome um ao outro no meio da multidão.
Então, depois de ter verificado a ordem de algumas folhas e de ter fixado os
olhos nelas para ver melhor, ele começou:
“Senhores, que me seja permitido em primeiro lugar (antes de lhes
falar do assunto desta reunião de hoje, e este sentimento, tenho certeza, será
compartilhado por todos), que me seja permitido, digo, fazer justiça à
administração superior, ao governo, ao monarca, senhores, ao nosso
soberano, a esse rei bem-amado a quem nenhum ramo da prosperidade
pública ou privada é indiferente, e que conduz, com mão tão firme quanto
sábia, a carruagem do Estado entre os perigos incessantes de um mar
tempestuoso, sabendo, aliás, fazer respeitar a paz, bem como a guerra, a
indústria, o comércio, a agricultura e as belas-artes.”
— Eu deveria — disse Rodolphe —, recuar um pouco.
— Por quê? — disse Emma.
Naquele momento, a voz do conselheiro se elevou em um tom
extraordinário. Declamava:
“Não é mais, senhores, o tempo em que a discórdia civil
ensanguentava nossas praças públicas, quando o proprietário, o comerciante,
o próprio trabalhador, adormecendo na noite de um sono tranquilo,
estremeciam com o despertar súbito ao som de sinetas incendiárias, tempo
em que as máximas mais subversivas minaram audaciosamente as bases…”
— É que poderiam — retomou Rodolphe — ver-me lá de baixo; e eu
teria de inventar desculpas por quinze dias, e, com minha má reputação…
— Ah! O senhor está se caluniando — disse Emma.
— Não, não, ela é execrável, juro à senhora.
“Mas, senhores”, continuava o conselheiro, “se, afastando de minha
memória esses quadros sombrios, volto o olhar para a situação atual de nossa
bela pátria: o que vejo? Por toda parte florescem o comércio e as artes; em
toda parte novas formas de comunicação, como numerosas artérias novas no
corpo do Estado, estabelecendo novas relações; os nossos grandes centros de
manufatura retomaram suas atividades; a religião, mais fortalecida, sorri
para todos os corações; nossos portos estão cheios, a confiança renasce, e a
França enfim respira!”
— Além disso — acrescentou Rodolphe —, do ponto de vista das
pessoas, talvez tenham razão.
— Como assim? — perguntou ela.
— O quê? — disse ele. — A senhora não sabe que existem almas
sempre atormentadas? Precisam, sucessivamente, de sonho e de ação, das
paixões mais puras, dos prazeres mais furiosos, e assim se lançam em todo
tipo de fantasia, de loucura.
Então, ela o olhou como se contempla um viajante que já passou por
países extraordinários, e replicou:
— Não temos nem mesmo essa distração, nós, pobres mulheres!
— Triste distração, pois nela não se encontra a felicidade.
— Mas algum dia a encontramos? — perguntou ela.
— Sim, um dia a encontramos — respondeu ele.
“E é isso que compreenderam”, dizia o conselheiro. “Os senhores,
agricultores e trabalhadores rurais; os senhores, pioneiros pacíficos de toda
uma obra de civilização! Os senhores, homens de progresso e moralidade!
Os senhores compreenderam, eu afirmo, que as tempestades políticas são
ainda mais perigosas do que as desordens atmosféricas…”
— Um dia a encontramos — repetiu Rodolphe —, um dia, de
repente, e quando já se desesperava. Então os horizontes se abrem, é como
uma voz gritando: “Ali está!”. Sente-se a necessidade de fazer àquela pessoa
a confidência da vida, de lhe dar tudo, de sacrificar tudo a ela! Não se
explica, se adivinha. Vislumbrou-se nos sonhos.
Ele a olhava.
— Enfim — prosseguiu —, está aí o tesouro há tanto tempo
procurado, ali, à frente; brilhando, cintilando. No entanto, ainda se duvida,
não ousamos acreditar; permanecemos deslumbrados, como se
emergíssemos das trevas para a luz.
Ao concluir, Rodolphe acrescentou a pantomima à frase. Passou a
mão pelo rosto, tal qual um homem atordoado; depois a deixou cair sobre a
mão de Emma. Ela a retirou. O conselheiro ainda lia:
“E quem se espantaria, senhores? Apenas alguém que fosse tão cego,
tão imerso (não tenho medo de dizê-lo), tão imerso nos preconceitos de outra
época a ponto de ainda menosprezar o espírito das populações agrícolas.
Onde encontrar, de fato, mais patriotismo do que no campo, mais devoção à
causa pública, em resumo, mais inteligência? E não me refiro, senhores, a
essa inteligência superficial, ornamento fútil das mentes ociosas, mas à
inteligência profunda e moderada que se aplica acima de tudo a perseguir
objetivos úteis, contribuindo assim ao bem de cada um, ao progresso comum
e ao apoio dos Estados, fruto do respeito às leis e do exercício do dever…”
— Ah! Outra vez — disse Rodolphe. — Sempre o dever. Estou farto
dessas palavras. São um bando de velhos estúpidos em coletes de flanela, e
beatas com rosários e aquecedores de pés, entoando sem parar em nossos
ouvidos: “O dever! O dever !”. Ah! Por Deus! O dever é sentir o que é
grandioso, prezar o que é belo, e não aceitar todas as convenções da
sociedade, com as ignomínias que nos impõe.
— Porém… porém… — objetava Madame Bovary.
— Ah, não! Por que discursar contra as paixões? Acaso não são a
única coisa bela que existe na face da Terra, a fonte do heroísmo, do
entusiasmo, da poesia, da música, das artes, enfim, de tudo?
— Mas também é preciso — disse Emma — seguir um pouco a
opinião das pessoas e obedecer à sua moral.
— Ah! É que existem duas — respondeu ele. — A pequena, a
convencional, aquela dos homens, aquela que varia a todo tempo e que berra
tão alto, se agita embaixo, rasteira, como essa reunião de imbecis que a
senhora vê. Mas a outra, a eterna, está ao redor e acima, como a paisagem
que nos cerca e o céu azul que nos ilumina.
Monsieur Lieuvain acabara de limpar a boca com seu lenço de bolso.
Continuou:
“E o que eu teria de fazer, senhores, para demonstrar aqui mesmo a
utilidade da agricultura? Quem provê nossas necessidades? Quem, então,
nos fornece a subsistência? Não é o agricultor? O agricultor, senhores, que,
semeando com mão laboriosa os férteis sulcos dos campos, faz brotar o
trigo, que, moído, é pulverizado por aparelhos engenhosos, sai sob o nome
de farinha, e, transportado para as cidades, é logo entregue ao padeiro, que o
transforma em alimento para o pobre e para o rico. Não é ainda o agricultor
que engorda, para nossas roupas, seus rebanhos abundantes nos pastos? Pois
como nos vestiríamos, como nos alimentaríamos sem o agricultor? É
preciso, senhores, ir tão longe para buscar exemplos? Quem não refletiu
muitas vezes sobre toda a importância que atribuímos a este modesto animal,
ornamento de nossos poleiros, que fornece ao mesmo tempo um travesseiro
macio para as nossas camas, sua carne suculenta para as nossas mesas, e
ovos? Mas eu não terminaria se tivesse de enumerar um após o outro os
diferentes produtos que a terra bem cultivada, como uma mãe generosa,
proporciona aos filhos. Aqui, é a videira; em outros lugares, são as macieiras
de sidra; lá, a couve-nabiça; mais adiante, os queijos; e o linho; senhores,
não nos esqueçamos do linho! Que teve um desenvolvimento considerável
nos últimos anos e para o qual chamarei particularmente a vossa atenção.”
Ele não precisava solicitá-la: pois todas as bocas da multidão
estavam abertas, como se bebessem suas palavras. Tuvache, a seu lado,
ouvia-o arregalando olhos; Monsieur Derozerays, de vez em quando,
fechava um pouco as pálpebras; e, mais adiante, o farmacêutico, com o filho
Napoléon entre as pernas, levava ao ouvido a mão em concha, para não
perder uma sílaba. Os outros membros do júri balançavam lentamente o
queixo em seus coletes, em sinal de aprovação. Os bombeiros, ao pé do
palanque, apoiavam-se nas baionetas; e Binet, imóvel, permanecia parado
com o cotovelo para fora, e a ponta do sabre no ar. Talvez ouvisse, mas não
devia enxergar nada, por causa da viseira do capacete que lhe caía sobre o
nariz. Seu tenente, o filho mais novo de Monsieur Tuvache, exagerara outra
vez no seu; pois era enorme, e desequilibrava em sua cabeça, deixando à
mostra um pedaço do lenço de chita. Sorria ali embaixo com doçura infantil,
e seu rostinho pálido, pelo qual as gotas escorriam, tinha uma expressão de
satisfação, abatimento e sonolência.
A praça estava cheia de gente até as casas. Dava para ver pessoas
debruçadas em todas as janelas, outras de pé em todas as portas, e Justin, na
frente da vitrine da farmácia, parecia completamente absorto na
contemplação do que olhava. Apesar do silêncio, a voz de Monsieur
Lieuvain se perdia no ar. Chegava em fragmentos de frases, interrompidos
aqui e ali pelo som das cadeiras na multidão; então, de repente, ouvia-se ao
fundo um longo mugido de boi, ou então o balido dos cordeiros respondendo
uns aos outros nas esquinas. De fato, os vaqueiros e os pastores haviam
conduzido seus animais até lá, e eles berravam de tempos em tempos,
enquanto arrancavam com a língua algum pedaço de folhagem que lhes
pendia sobre o focinho.
Rodolphe havia se aproximado de Emma, e dizia-lhe em voz baixa,
falando rápido:
— Esta conspiração do mundo não a deixa revoltada? Existe um
único sentimento que ela não condene? Os instintos mais nobres e as
simpatias mais puras são perseguidos, caluniados e, se duas pobres almas
finalmente se encontram, tudo se organiza para que não possam se unir. Elas
tentarão, no entanto, baterão suas asas, chamarão uma à outra. Oh! Não
importa, cedo ou tarde, em seis meses, dez anos, irão se encontrar, se
apaixonar, porque o destino assim exige e porque nasceram uma para a
outra.
Ele mantinha os braços cruzados no colo e, levantando assim o rosto
para Emma, a olhava de perto, fixamente. Ela distinguia, em seus olhos,
pequenos raios dourados que irradiavam das pupilas negras, e sentia até o
perfume da pomada que lustrava seu cabelo. Então um torpor a tomou, e ela
se lembrou do visconde com quem dançara em Vaubyessard, cuja barba
exalava, como aquele cabelo, o cheiro de baunilha e limão; e,
automaticamente, fechou um pouco as pálpebras para respirar melhor.
Porém, no gesto que fez ao recostar na cadeira, notou ao longe, bem no
fundo do horizonte, a velha Andorinha, que descia devagar a costa de Leux,
arrastando atrás de si uma longa nuvem de poeira. Era naquele veículo
amarelo que Léon, com tanta frequência, voltara a ela; e por aquela estrada
que partira para todo sempre! Ela acreditou vê-lo ali na frente, à janela;
então tudo se confundiu, passaram nuvens; pareceu-lhe que ela ainda girava
na valsa, sob a luz dos lustres, nos braços do visconde, e que Léon não
estava longe, que logo viria… e ainda assim sentia a cabeça de Rodolphe ao
seu lado. A doçura da sensação penetrou assim seus desejos antigos e, como
grãos de areia à ventania, subiu em turbilhão no sopro sutil do perfume que
se espalhava por sua alma. Ela abriu as narinas diversas vezes, com força,
para aspirar o frescor das heras do capitel. Tirou as luvas, secou as mãos; e
então, com o lenço, abanou o rosto, enquanto escutava, através da pulsação
nas têmporas, o rumor da multidão e a voz do conselheiro em salmo.
Ele dizia:
“Continuai! Perseverai! Não dai ouvidos às sugestões da rotina, nem
aos conselhos precipitados de um empirismo temerário! Aplicai-vos
sobretudo ao melhoramento do solo, aos bons fertilizantes, ao
desenvolvimento das raças equinas, bovinas, ovinas e suínas! Que estes
comícios sejam para os senhores como arenas pacíficas onde o vencedor, ao
sair, estenderá a mão ao vencido e com ele confraternizará, na esperança de
melhor êxito! E vós, veneráveis servos! Humildes criados, cujos penosos
trabalhos não haviam sido levados em consideração por nenhum governo até
agora, vinde receber a recompensa por vossas virtudes silenciosas, e
convencei-vos de que o Estado, doravante, tem os olhos fixos em vós, que
vos encoraja, que vos protege, que fará valer as justas reivindicações e
aliviará, tanto quanto estiver ao seu alcance, o fardo de vossos árduos
sacrifícios!”
Monsieur Lieuvain então sentou-se e Monsieur Derozerays se
levantou, começando outro discurso. O seu, talvez, não tenha sido tão
floreado quanto o do conselheiro; mas se destacava por um caráter de estilo
mais positivo, isto é, por conhecimentos mais específicos e considerações
mais elevadas. Assim, o elogio ao governo ocupava menos espaço; já a
religião e a agricultura ocupavam mais. Notava-se nele a relação entre uma e
outra, e como sempre haviam contribuído para a civilização. Rodolphe, com
Madame Bovary, falava de sonhos, pressentimentos, magnetismo.
Remontando ao berço das sociedades, o orador retratava os tempos
selvagens em que os homens viviam de bolotas de carvalho, nas profundezas
da floresta. Depois haviam abandonado as peles dos animais, assumiram o
tecido, cavaram sulcos, plantaram as vinhas. Isso foi bom, e não havia nessa
descoberta mais inconvenientes que vantagens? Monsieur Derozerays
colocava-se a questão. Do magnetismo, pouco a pouco, Rodolphe havia
chegado às afinidades, e, enquanto o senhor presidente citava Cincinato com
seu arado, Diocleciano plantando seus repolhos,73 e os imperadores da China
inaugurando o ano com a semeadura, o jovem senhor explicava à jovem
senhora que essas atrações irresistíveis tinham origem em alguma existência
anterior.
— Assim, quanto a nós — dizia ele —, por que nos conhecemos?
Que acaso assim o quis? É que através da distância, sem dúvida, como dois
rios que correm para se encontrar, nossas inclinações particulares nos
impulsionaram um para o outro.
Ele tomou sua mão; ela não a retirou.
“Conjunto de boas culturas!”, gritou o presidente.
— Mais cedo, por exemplo, quando fui à sua casa…
“A Monsieur Bizet, de Quincampoix.”
— Já sabia que iria acompanhá-la?
“Setenta francos!”
— Cem vezes eu quis ir embora, e a segui, fiquei.
“Fertilizantes.”
— Como eu ficaria esta noite, amanhã, nos outros dias, toda a minha
vida!
“A Monsieur Caron, de Argueil, uma medalha de ouro!”
— Pois nunca encontrei na companhia de ninguém um encanto tão
completo.
“A Monsieur Bain, de Givry-Saint-Martin!”
— Eu também o levarei na lembrança.
“Por um carneiro merino…”
— Mas a senhora me esquecerá, terei passado como uma sombra.
“Para Monsieur Belot, de Notre-Dame…”
— Oh! Não, não é verdade, eu serei alguma coisa em seus
pensamentos, em sua vida?
“Raça suína, prêmio ex æquo74: aos srs. Lehérissé e Cullembourg;
sessenta francos!”
Rodolphe apertou-lhe a mão, e sentiu-a quente e trêmula, como uma
pomba em cativeiro que deseja retomar seu voo; mas, fosse porque estivesse
tentando libertá-la, ou porque respondesse à pressão, ela fez um movimento
com os dedos; ele gritou:
— Ah! Obrigado! A senhora não me rejeita! Como é boa!
Compreende que eu lhe pertenço! Permita que a veja, que a contemple!
Um golpe de vento que chegou pelas janelas franziu a toalha da
mesa, e, na praça, embaixo, todos os grandes chapéus das camponesas se
levantaram, como asas de borboletas brancas que se agitam.
“Utilização de bagaço de oleaginosas”, continuou o presidente.
Ele se apressava:
“Adubo flamengo… cultivo de linho… drenagem, arrendamentos em
longo prazo… serviços de criados.”
Rodolphe não falava mais. Os dois se olhavam. Um desejo sublime
fazia tremer seus lábios secos; e, devagarinho, sem esforço, seus dedos se
misturaram.
“Catherine-Nicaise-Élisabeth Leroux, de Sassetot-la-Guerrière, por
cinquenta e quatro anos de serviço na mesma fazenda, uma medalha de
prata, do prêmio de vinte e cinco francos!
“Onde ela está, a Catherine Leroux?”, repetia o conselheiro.
Ela não se apresentava, e ouviam-se vozes cochichando:
— Vá!
— Não.
— À esquerda!
— Não tenha medo!
— Ah! Como é boba!
— Afinal, ela está presente? — gritou Tuvache.
— Sim! Lá está!
— Que se aproxime então!
Então, viu-se avançar até o palanque uma velhota com jeito
assustado, e que parecia encolher dentro de suas pobres roupas. Calçava
umas galochas brutas de madeira, e, cobrindo o quadril, um grande avental
azul. Seu rosto magro, emoldurado por uma touca sem borda, tinha mais
marcas de rugas que uma maçã reineta75 murcha, e as mangas de sua bata
vermelha ultrapassavam suas mãos compridas, de articulações nodosas. A
poeira dos celeiros, o potássio dos alvejantes e a gordura das lãs tanto
haviam-nas incrustado, esfolado, endurecido, que tinham a aparência suja,
ainda que fossem enxaguadas com água límpida; e, por terem servido,
permaneciam entreabertas, como se elas mesmas quisessem apresentar o
testemunho humilde de todo o sofrimento que haviam padecido. Algo de
uma rigidez monástica destacava a expressão em seu rosto. Nada de triste ou
de enternecido amolecia aquele olhar pálido. Da convivência com os
animais, incorporou seu mutismo e placidez. Era a primeira vez que se
encontrava em meio de uma companhia tão numerosa; e, intimamente
amedrontada pelas bandeiras, pelos tambores, pelos senhores em terno preto
e pela cruz de honra do conselheiro, ela permanecia imóvel, sem saber se
deveria ir adiante ou fugir, nem por que motivo a multidão a empurrava e
por que o jurados lhe sorriam. Assim se apresentava, diante daqueles
burgueses radiantes, seu meio século de servidão.
— Aproxime-se, venerável Catherine-Nicaise-Élisabeth Leroux! —
disse monsieur conselheiro, que havia tomado das mãos do presidente a lista
de laureados.
Alternando entre examinar a folha de papel e a velha senhora, repetia
em um tom paternal:
— Aproxime-se, aproxime-se!
— A senhora é surda? — disse Tuvache, lançando-se em sua
poltrona.
E pôs-se a gritar em seu ouvido:
— Cinquenta e quatro anos de serviço! Uma medalha de prata! Vinte
e cinco francos! Para a senhora!
Quando recebeu a medalha, ela a observou. Então, um sorriso de
beatitude se estendeu em seu rosto, e ouviam-se seus murmúrios enquanto se
afastava:
— Vou dá-la ao nosso padre, para que me reze algumas missas.
— Que fanatismo! — exclamou o farmacêutico, inclinando-se para o
notário.
A sessão havia terminado; a multidão se dispersou; e, uma vez que os
discursos estavam lidos, cada um retomava seu lugar e tudo voltava ao de
costume: os senhores maltratavam os criados, e estes golpeavam os animais,
triunfadores indolentes que voltavam ao estábulo, uma coroa verde entre os
chifres.
Nesse meio-tempo, os guardas nacionais haviam subido ao primeiro
andar da prefeitura, com brioches espetados nas baionetas, e o tocador de
tambor do batalhão que carregava uma cesta de garrafas. Madame Bovary
deu o braço a Rodolphe; ele a reconduziu à casa; separaram-se diante da
porta; depois, ele vagou sozinho pela campina, esperando a hora do
banquete.
O festim foi longo, barulhento, mal servido; estavam tão amontoados
que era difícil mover os cotovelos, e as tábuas estreitas que serviam de
bancos quase se quebraram com o peso dos convivas. Comeram
abundantemente. Cada um se aplicava em sua quota. O suor escorria de
todas as testas; e um vapor esbranquiçado, como a névoa de um rio em uma
manhã de outono, flutuava sobre a mesa, entre as lâmpadas suspensas.
Rodolphe, encostado na lona da tenda, pensava tanto em Emma que não
ouvia nada. Atrás dele, no gramado, criados empilhavam os pratos sujos;
seus vizinhos falavam, ele não respondia; enchiam seu copo, e um silêncio
pairava em sua mente, apesar do ruído crescente. Sonhava com o que ela
havia dito e com o formato de seus lábios; seu rosto, como em um espelho
mágico, brilhava nas placas das barretinas militares; as dobras de seu vestido
pendiam pelas paredes, e os dias de amor desdobravam-se ao infinito na
perspectiva do futuro.
Voltou a vê-la à noite, durante os fogos de artifício; mas ela estava
com o marido, com Madame Homais e o farmacêutico, que se atormentava
bastante com os perigos dos foguetes perdidos, e, a todo momento, deixava a
companhia do grupo para fazer recomendações a Monsieur Binet.
Os artefatos pirotécnicos enviados ao endereço de Monsieur
Tuvache, por excesso de precaução, haviam sido armazenados em sua cave;
com isso, a pólvora úmida não se inflamava, e a peça principal, que deveria
retratar um dragão mordendo a própria cauda, falhou por completo. Vez ou
outra, lançava-se um pobre morteiro; então a multidão boquiaberta soltava
um clamor, ao qual se misturava o grito das mulheres a quem se haviam feito
cócegas na cintura no meio da escuridão. Emma, silenciosa, aconchegava-se
no ombro de Charles; e, com o queixo levantado, seguia no céu negro o jato
luminoso dos foguetes. Rodolphe a contemplava à luz dos lampiões que
queimavam.
Extinguiam-se pouco a pouco. As estrelas iluminavam-se. Algumas
gotas de chuva começaram a cair. Ela amarrou o xale sobre a cabeça
descoberta.
Naquele momento, a carruagem do conselheiro saiu da hospedaria.
Seu cocheiro, que estava embriagado, cochilou de repente; e via-se de longe,
por cima da capota, entre as duas lanternas, a massa do corpo que balançava
para a direita e para a esquerda conforme o chacoalhar das suspensões.
— Na verdade — disse o boticário —, deveríamos agir com rigor
contra a embriaguez! Gostaria que anotássemos na porta da prefeitura, em
um quadro ad hoc76, os nomes de todos aqueles que, a cada semana, se
intoxicaram com álcool. Além disso, em termos de estatística, poderiam
funcionar como anais irrefutáveis, que se necessário… Mas perdoem-me.
E correu novamente em direção ao capitão.
Ele voltava para casa. Ia rever seu torno.
— Talvez o senhor não fizesse mal — disse Homais — em mandar
um de seus homens ou em ir o senhor mesmo…
— Deixe-me em paz — respondeu o coletor de impostos —, visto
que não há nada!
— Fiquem tranquilos — disse o boticário, quando havia retornado
para perto de seus amigos. — Monsieur Binet me garantiu que as medidas
foram tomadas. Nenhuma faísca escapará. As bombas de água estão cheias.
Vamos dormir.
— Minha nossa! E como estou precisando — disse Madame Homais,
bocejando consideravelmente —; mas, não importa, tivemos uma tarde bem
bonita para a nossa festa.
Rodolphe repetiu em voz baixa e com olhar terno:
— Ah! Sim, muito bonita!
E, depois dos cumprimentos, viraram-se as costas.
Dois dias depois, no Fanal de Rouen, havia um longo artigo sobre os
comícios. Homais o havia escrito, com verve, no dia seguinte:
Para que esses festões, essas flores, essas guirlandas? Para onde
corria a multidão, como ondas de um mar em fúria, sob as torrentes
de um sol tropical que derramava seu calor sobre nossos solos
preparados?
E acrescentava:
Quanto a mim, estou bem, exceto por um resfriado que peguei outro
dia na feira de Yvetot, onde fui garantir um pastor, tendo mandado o
meu embora, por sua delicadeza excessiva para comer. Coitados de
nós com todos esses bandidos! Além disso, também era imoral.
Soube por um mascate, que, viajando pela sua região neste
inverno, teve um dente arrancado, que Bovary ainda trabalha duro.
Não me surpreende, e ele me mostrou seu dente; tomamos um café
juntos. Perguntei-lhe se os tinha visto, disse-me que não, mas que
tinha visto dois animais no estábulo, do que concluo que o negócio
anda correndo bem. Tanto melhor, meus queridos filhos, e que o bom
Deus lhes envie toda a felicidade imaginável.
Sinto muito por ainda não conhecer a minha querida
netinha Berthe Bovary. Plantei para ela, no jardim, debaixo do seu
quarto, uma ameixeira, e não quero que ninguém a toque, a não ser
para depois lhe fazer compotas, que guardarei no armário para
quando ela vier.
Adeus, meus queridos filhos. Um beijo, minha filha; ao
senhor também, meu genro; e à pequenina, nas duas bochechas.
Com muitas saudações do afetuoso pai,
Théodore Rouault.
78 Apesar desta menção, a carta, mesmo no original em francês, não exibe erros ortográficos ou gramaticais. O
autor opta por aludir a esses erros, ao estilo rústico de escrita do sr. Rouault, mas não os transcreve diretamente para
o leitor — a carta que o narrador nos mostra não é exatamente a que Madame Bovary lê.
XI
Ele havia lido recentemente o elogio a um novo método para a cura de pés
tortos; e, como era um partidário do progresso, concebeu a ideia patriótica de
que Yonville, para estar à altura, deveria ter operações de estrefopodia.
— Pois — dizia ele a Emma —, qual é o risco? Examine — (e
enumerava, nos dedos, as vantagens da tentativa) —: sucesso quase certo,
alívio e embelezamento do paciente, fama rapidamente adquirida pelo
cirurgião. Por que seu marido, por exemplo, não desejaria livrar aquele
pobre Hippolyte, do Lion d’Or? Note que ele não deixaria de contar de sua
recuperação a todos os viajantes, e ademais — (Homais baixava a voz e
olhava em volta) — quem me impediria de enviar uma notinha sobre isso ao
jornal? Hein? Meu Deus! Um artigo circula… todos comentam… e acaba
por virar uma bola de neve! E quem sabe? Quem sabe?
De fato, Bovary poderia ter êxito; nada assegurava a Emma que ele
não fosse competente, e que satisfação maior para ela do que de tê-lo
envolvido em uma iniciativa em que sua reputação e sua fortuna sairiam
maiores? Ela desejava apenas se apoiar em algo mais sólido que o amor.
Charles, solicitado pelo boticário e por ela, deixou-se convencer.
Mandou trazer de Rouen o volume do dr. Duval79, e, todas as noites, com a
cabeça entre as mãos, enterrava-se na leitura.
Enquanto estudava o equinismo, os varos e os valgos, ou seja,
estrefopodia, a estrefendopodia e a estrefexopodia (ou, melhor dizendo, as
diferentes deformidades do pé, seja para baixo, para dentro ou para fora), a
estrefipopodia e a estrefanopodia (ou seja, torção para baixo e
redirecionamento para cima), Monsieur Homais, por toda espécie de
argumentos, exortava o criado da hospedaria a deixar-se operar.
— Sentirá apenas, e talvez, uma leve dor; é uma simples punção,
como uma pequena sangria, menor que a remoção de certos calos.
Hippolyte, refletindo, revirava os olhos estúpidos.
— De resto — retomava o farmacêutico —, isso não me diz respeito!
É para você! Por pura humanidade! Eu gostaria de vê-lo, meu amigo, livre
de sua claudicação horrenda, com esse balanço da região lombar, que,
embora finja que não, deve prejudicá-lo consideravelmente no exercício de
sua profissão.
Então Homais lhe descrevia como se sentiria mais vivo e disposto, e
até lhe dava a entender que estaria em melhor condição de agradar as
mulheres; e o cavalariço começava a sorrir de modo desajeitado. Finalmente,
o atacava pela vaidade:
— Céus, você não é um homem? O que seria então, se tivesse
precisado servir o exército, combater sob as bandeiras? Ah! Hippolyte!
Assim, Homais se afastava, declarando que não compreendia aquela
teimosia, aquela cegueira em recusar os benefícios da ciência.
O infeliz cedeu, pois foi uma conspiração. Binet, que nunca se metia
nos assuntos alheios, Madame Lefrançois, Artémise, os vizinhos, e até o
prefeito, Monsieur Tuvache, todo mundo o incitou, repreendeu, fez com que
sentisse vergonha; mas o que acabou por fazê-lo decidir foi o fato de que não
lhe custaria nada. Monsieur Bovary se encarregava até de fornecer a
máquina para a operação. Emma teve a ideia dessa generosidade; e Charles
consentiu, dizendo a si mesmo, no fundo de seu coração, que sua esposa era
um anjo.
Com os conselhos do farmacêutico, e tendo recomeçado por três
vezes, mandou então que o carpinteiro, ajudado pelo serralheiro, construísse
uma espécie de caixa com cerca de quatro quilos, em que não se economizou
ferro, madeira, chapa, couro, parafusos e porcas.
No entanto, para saber qual tendão de Hippolyte cortar, era preciso
primeiro saber que tipo de pé torto ele tinha.
Seu pé fazia com a perna uma linha quase reta, o que não o impedia
de ser voltado para dentro, de modo que era um equino misturado com um
pouco de varo, ou então um varo leve e fortemente marcado de equino.
Porém, com aquele equino, largo como uma pata de cavalo, de pele rugosa,
tendões ressecados, e dedos grandes, cujas unhas pretas pareciam pregos de
uma ferradura, o estrefópode, de manhã à noite, galopava como um cervo.
Viam-no sempre na praça, saltitando em volta das carroças, lançando para a
frente seu equilíbrio irregular. Parecia até ter mais força naquela perna do
que na outra. Por ter servido, contraíra, por assim dizer, as qualidades morais
da paciência e da energia, e quando lhe davam algum trabalho pesado,
escorava-se nela, preferivelmente.
Ora, por se tratar de um equino, seria necessário cortar o tendão de
Aquiles, mesmo que mais tarde precisasse operar o músculo tibial anterior
para se livrar do varo; pois o médico não ousava arriscar duas operações de
uma vez, e até já tremia, com medo de acertar alguma região importante que
não conhecia.
Nem mesmo Ambroise Paré80, aplicando pela primeira vez desde
Celso, após quinze séculos de intervalo, a ligadura imediata de uma artéria;
nem Dupuytren81 abrindo um abscesso através de uma camada espessa de
massa encefálica; nem Gensoul82, quando fez a primeira ablação do maxilar
superior, tinham o coração tão palpitante, a mão tão trêmula, a mente tão
tensa quanto Monsieur Bovary quando se aproximou de Hippolyte, com seu
tenótomo83 entre os dedos. Como nos hospitais, via-se ao lado, sobre uma
mesa, um monte de fiapos, fios encerados, muitas ataduras, uma pirâmide de
ataduras, todas as ataduras do boticário. Fora Monsieur Homais quem havia
organizado, desde a manhã, todos os preparativos, tanto para impressionar a
multidão como para iludir a si mesmo. Charles espetou a pele; ouviu-se um
estalo seco. O tendão foi cortado, a operação chegara ao fim. Hippolyte não
se recuperava da surpresa; pendurava-se nas mãos de Bovary para cobri-las
de beijos.
— Vamos, acalme-se — disse o boticário —, mais tarde poderá
demonstrar gratidão ao seu benfeitor!
Desceu então para contar o resultado a cinco ou seis curiosos que
estavam plantados no pátio, e imaginavam que Hippolyte reapareceria
andando direito. Charles, tendo afivelado o paciente ao motor mecânico, foi
para casa, onde Emma, toda ansiosa, o esperava na porta. Ela pulou para
abraçá-lo; sentaram-se à mesa; ele comeu muito, e quis até, durante a
sobremesa, tomar um café, um prazer que só se permitia aos domingos,
quando havia visitas.
A noite foi um encanto, cheia de conversas, de sonhos em comum.
Falaram de sua fortuna vindoura, das melhorias a serem feitas na casa; ele
via sua consideração se expandindo, seu bem-estar aumentando, sua esposa
o amando eternamente; e ela descobria-se feliz em reavivar-se em um
sentimento novo, mais saudável, melhor, em experimentar, enfim, alguma
ternura por aquele pobre rapaz que a estimava. A lembrança de Rodolphe,
por um momento, passou-lhe pela cabeça; mas seus olhos se voltaram para
Charles, e ela até notou, com surpresa, que ele não tinha os dentes tão feios.
Estavam na cama quando Monsieur Homais, apesar da resistência da
cozinheira, entrou no quarto de repente, trazendo na mão uma folha de papel
recém escrita. Era o artigo destinado ao Fanal de Rouen. Trazia-o para
lerem.
— Leia o senhor mesmo — disse Bovary.
Ele leu:
79 Vincent Duval (1795–1876), médico e autor de diversos livros de medicina, entre eles o Traité pratique du
pied-bot (Tratado prático do pé torto congênito), publicado em 1839. O pai e o irmão de Flaubert eram médicos e
possuíam uma extensa biblioteca, o que contribuiu para a pesquisa do autor à época da composição dos personagens
de Madame Bovary.
80 Ambroise Paré (1510–1590), francês considerado o precursor da cirurgia moderna. Foi cirurgião militar do
exército francês e cirurgião ordinário do rei.
81 Guillaume Dupuytren (1777–1835), anatomista e cirurgião francês. Conhecido por dar nome à “contratura de
Dupuytren”, um progressivo enrijecimento e encurtamento de tecido na palma da mão.
82 Joseph Gensoul (1797–1858), cirurgião francês pioneiro nas áreas de oftalmologia, ortodontia e
otorrinolaringologia.
83 Instrumento cirúrgico usado para cortar tendões.
84 Em latim no original, “de vista”.
85 Passo no qual o bailarino salta e cruza rapidamente as pernas no ar.
86 Derrame.
XII
Recomeçaram a amar-se. Muitas vezes até, no meio do dia, Emma lhe
escrevia de repente; depois, pelas vidraças, fazia um sinal para Justin, que,
desamarrando depressa o avental, voava para Huchette. Rodolphe chegava;
era para dizer-lhe que ela estava entediada, que seu marido era odioso e sua
existência, terrível!
— Acaso posso fazer algo a respeito? — exclamou ele um dia,
impaciente.
— Ah! Se quisesse…
Ela estava sentada no chão, entre seus joelhos, com o cabelo solto, o
olhar perdido.
— O quê, então? — disse Rodolphe.
Ela suspirou.
— Poderíamos ir morar em outro lugar… qualquer canto…
— Você está louca! — disse ele rindo. — Isso é possível?
Ela insistiu; ele se fez de desentendido e desviou do assunto.
O que ele não entendia era toda aquela perturbação em algo tão
simples como o amor. Ela tinha um motivo, uma razão, e um auxiliar a seu
afeto.
Sua ternura, de fato, aumentava cada dia mais sob a repulsa ao
marido. Quanto mais se entregava a um, mais execrava o outro; nunca
Charles lhe parecia tão desagradável, com dedos tão quadrados, mente tão
obtusa, modos tão comuns, quanto depois de seus encontros com Rodolphe,
quando estavam juntos. Assim, enquanto fazia-se de esposa e virtuosa,
inflamava-se pela ideia daquele rosto cujos cabelos pretos se voltavam em
cachos para a fronte bronzeada, daquele porte ao mesmo tempo tão robusto e
tão elegante, daquele homem, enfim, que possuía tanta experiência na razão,
tanta impetuosidade no desejo! Era para ele que lixava as unhas com o
cuidado de um escultor, e por quem nunca havia coldcream87 suficiente em
sua pele, e nem patchuli em seus lenços. Encarregava-se de pulseiras, anéis,
colares. Quando ele estava para vir, ela enchia de rosas os dois grandes vasos
de vidro azul, e arrumava seu quarto e sua pessoa como uma cortesã que
aguarda um príncipe. Era preciso que a criada alvejasse as roupas sem
cessar; e, durante todo o dia, Félicité não saía da cozinha, onde o pequeno
Justin, que muitas vezes lhe fazia companhia, olhava-a trabalhar.
Com o cotovelo apoiado na longa tábua onde ela passava roupas, ele
observava ansioso todas aquelas coisas de mulher espalhadas ao seu redor:
as anáguas de bombazina, os xales, os colarinhos e as calças de amarrar,
largas nos quadris e estreitas embaixo.
— Para que servem? — perguntava o garoto, passando a mão na
crinolina ou nos colchetes.
— Então nunca viu nada disso? — respondia Félicité, rindo. —
Como se sua patroa, Madame Homais, também não usasse.
— Ah, claro que sim! Madame Homais!
E acrescentava em um tom meditativo:
— Será ela uma dama como Madame Bovary?
Mas Félicité ficava impaciente com ele rondando-a assim. Era seis
anos mais velha, e Théodore, criado de Monsieur Guillaumin, começava a
cortejá-la.
— Deixe-me em paz! — dizia ela, mudando de lugar o pote de goma.
— É melhor que vá triturar amêndoas; está sempre procurando confusão
perto das mulheres; espere para se envolver com isso, moleque malvado,
quando tiver barba na cara.
— Ora, vamos! Não fique zangada, já estou indo limpar as botinas.
Logo alcançava os sapatos de Emma sobre a lareira, cobertos de lama
— a lama dos encontros — que se soltava como pó em seus dedos, e que ele
observava subir lentamente em um raio de sol.
— Como tem medo de danificá-las! — dizia a cozinheira, que não
punha tanto esforço quando ela mesma as limpava, porque a patroa, assim
que o tecido já não estava mais novo, deixava-as para ela.
Emma tinha vários no armário, que gastava à vontade, sem que
Charles jamais se permitisse a menor observação.
Foi assim que desembolsou trezentos francos por uma perna de pau
que julgou por bem presentear a Hippolyte. Era forrada de cortiça, e tinha
articulações de mola, um mecanismo complexo coberto por calça preta,
finalizado com uma bota em verniz. Mas Hippolyte, não se atrevendo a fazer
uso de uma perna tão bonita todos os dias, implorou a Madame Bovary que
lhe arranjasse outra mais prática. O médico, é claro, arcou com os custos
daquela aquisição.
Assim, o cavalariço aos poucos retomou seu ofício. Viam-no como
outrora, percorrendo o vilarejo, e quando Charles ouvia de longe, nos
paralelepípedos, o barulho seco da bengala, pegava logo um outro caminho.
Era Monsieur Lheureux, o comerciante, que havia se encarregado da
encomenda; o que lhe deu a oportunidade de frequentar a casa de Emma.
Conversava com ela sobre os novos artigos trazidos de Paris, sobre mil
curiosidades femininas, mostrava-se muito complacente, e nunca cobrava
dinheiro. Emma abandonava-se a essa facilidade de satisfazer todos os seus
caprichos. Então, quis adquirir, para dar a Rodolphe, um belo chicote que
poderia ser encontrado em Rouen, em uma loja de guarda-chuvas. Monsieur
Lheureux, na semana seguinte, colocou-o sobre sua mesa.
No dia seguinte, contudo, ele se apresentou na casa dela com uma
fatura de duzentos e setenta francos, sem contar os centavos. Emma ficou
muito envergonhada: todas as gavetas da escrivaninha estavam vazias;
deviam mais de quinze dias a Lestiboudois, dois trimestres à criada, um
tanto de outras coisas, e Bovary esperava impaciente a remessa de Monsieur
Derozerays, que tinha o hábito, todos os anos, de pagá-lo na época das festas
de São Pedro.
Ela conseguiu, no início, despistar Lheureux; mas ele enfim perdeu a
paciência: estava sendo perseguido, sem capital, e, se não recuperasse
algum, seria obrigado a pegar de volta todas as mercadorias que estavam
com ela.
— Pode pegá-las! — disse Emma.
— Ah! É de dar risada! — respondeu ele. — Me faz falta apenas o
chicote. Aliás! Vou pedi-lo de volta ao senhor seu marido.
— Não, não! — disse ela.
“Ah! Eu peguei você!”, pensou Lheureux.
Certo de sua descoberta, ele se foi, repetindo a meia-voz, com seu
assobio habitual:
— Está bem! Veremos! Veremos!
Ela tentava imaginar como sair da situação quando a cozinheira
chegou e depositou sobre a lareira um pequeno rolo de papel azul, da parte
de Monsieur Derozerays. Emma avançou nele, abriu-o. Havia quinze
napoléons88. Era a conta exata. Ouviu Charles na escada; jogou o ouro no
fundo da gaveta e pegou a chave.
Três dias depois, Lheureux reapareceu.
— Tenho um arranjo a lhe propor — disse ele —; se, em vez da soma
acordada, a senhora quisesse levar…
— Aqui está — respondeu ela, colocando em sua mão quatorze
napoléons.
O comerciante ficou estupefato. Então, para dissimular a decepção,
derramou-se em desculpas e ofertas de serviço, todas as quais Emma
recusou; depois ficou alguns minutos apalpando no bolso do avental as duas
moedas de cem sous que ele lhe dera como troco. Prometeu a si mesma
economizá-las, para devolver mais tarde…
“Ah!”, pensou ela. “Charles não vai nem se lembrar disso.”
87 Cosmético cremoso cuja primeira fórmula, atribuída ao médico grego Galeno (129–216), continha óleo de
oliva, cera de abelha e insumos de ervas ou flores. Ao longo dos séculos, outros ingredientes como óleo de
amêndoa, espermacete e leite de rosas foram adicionados, até o desenvolvimento das fórmulas modernas.
88 Moeda de ouro com o valor de vinte francos. As moedas sous, mencionadas adiante, tinham o valor de cinco
francos cada.
89 “Amor no coração”, em italiano no original.
90 Na peça Ricardo III (1593), de William Shakespeare (1564–1616), o personagem duque de Clarence é
executado por afogamento em um barril.
XIII
Mal chegou em casa, Rodolphe sentou-se abruptamente à escrivaninha,
sob a cabeça do cervo que fazia troféu na parede. Porém, ao segurar a pena
entre os dedos, não soube encontrar nada, tanto que, apoiando-se nos
cotovelos, pôs-se a refletir. Emma lhe parecia recolhida em um passado
distante, como se a resolução que ele tomara tivesse disposto entre eles, de
súbito, um imenso intervalo.
A fim de recuperar algo dela, foi procurar no armário, na cabeceira
da cama, uma velha lata de biscoitos de Reims, onde costumava guardar as
cartas de mulheres, e da qual escapava um cheiro de poeira úmida e de rosas
murchas. Primeiro viu um lencinho de bolso, coberto de gotas pálidas. Era
dela, de uma vez que seu nariz havia sangrado em um passeio; não lembrava
mais. Perto, esbarrando em todos os cantos da lata, estava a miniatura dada
por Emma; sua toalete lhe pareceu pretensiosa e seu olhar oblíquo do mais
lamentável efeito; então, à força de observar aquela imagem e evocar a
memória da modelo, os traços de Emma, pouco a pouco, confundiram-se em
sua memória, como se a figura viva e a figura pintada, friccionando-se uma
na outra, fossem reciprocamente apagadas. Enfim leu suas cartas; estavam
cheias de explicações relativas à viagem, curtas, técnicas e imperativas,
como bilhetes de negócios. Queria reler as mais longas, aquelas de outrora;
para encontrá-las no fundo da caixa, Rodolphe revirou todas as outras; e
vasculhou mecanicamente aquela pilha de papéis e objetos, encontrando um
emaranhado de buquês, uma liga, uma máscara preta, grampos e cabelos —
cabelos! Castanhos, loiros; alguns até, agarrados à ferragem, arrebentavam
quando a caixa era aberta.
Assim, flanando entre a memória, examinava as letras e o estilo das
cartas, tão variados quanto a ortografia. Eram ternas ou joviais, jocosas,
melancólicas; havia as que pediam amor e outras que pediam dinheiro. À
vista de uma palavra, lembrava-se dos rostos, de certos gestos, do som de
uma voz; às vezes, porém, não se lembrava de nada.
De fato, aquelas mulheres, acorrendo ao mesmo tempo em seu
pensamento, esbarravam umas nas outras e se apequenavam ali, como se
estivessem sob um mesmo nível de amor que as igualava. Assim, pegando as
cartas misturadas, divertiu-se por alguns minutos fazendo-as cair em
cascatas, da mão direita para a mão esquerda. Por fim, entediado e
sonolento, Rodolphe colocou a caixa de volta no armário, dizendo a si
mesmo:
— Que monte de piadas…
O que resumia sua opinião; pois os prazeres, como alunos no pátio de
um colégio, haviam pisoteado tanto seu coração que nada de verde poderia
crescer, e o que por ali passava, mais aturdido que as crianças, não deixava
sequer, assim como crianças fariam, seu nome gravado no muro.
— Vamos — disse para si mesmo —, comecemos!
Escreveu:
“Talvez pense que é por avareza que renuncio a ela… Ah! Não
importa! Tanto faz, temos que acabar com isso!”
O mundo é cruel, Emma. Onde quer que estivéssemos, teria nos
perseguido. Teria lhe obrigado a tolerar perguntas indiscretas,
calúnias, desdém, indignação talvez. Indignação contra si! Oh! E eu
que gostaria de fazê-la sentar-se em um trono! Eu que carrego sua
lembrança como um talismã! Pois puno-me com o exílio por todo o
mal que lhe fiz. Partirei. Para onde? Não sei de nada, estou louco!
Adeus! Seja sempre boa! Guarde a memória do infeliz que o perdeu.
Ensine meu nome a sua filha, que ela o repita em orações.
Estarei longe quando você ler estas tristes linhas; porque quis fugir
o mais rápido possível para evitar a tentação de revê-la. Nada de
fraqueza! Eu voltarei; e talvez, mais tarde, possamos conversar
muito friamente sobre nossos antigos amores. Adeus!
Seu amigo.
99 Ópera de Gaetano Donizetti (1797–1848) baseada no romance A noiva de Lammermoor, de Walter Scott.
Originalmente em italiano, a ópera ganhou uma versão francesa do próprio compositor, apresentada em Paris em
1839.
100 Três-seis. Aguardente típica da Normandia, de forte teor alcoólico. A possível origem do nome refere-se à
forma como era consumida, três partes de álcool para três de água, formando seis medidas.
101 Seção final de uma ária ou movimento de uma composição musical, na qual se costuma acelerar o andamento.
102 Bebida refrescante preparada com um xarope à base de amêndoas e néctar de flor de laranjeira, originalmente
feita com cevada (orge, em francês).
103 Cantores líricos de destaque à época retratada no romance.
PARTE 3
I
Monsieur Léon, enquanto estudava Direito, frequentara bastante o La
Chaumière104, onde até obtivera um belo sucesso entre as cocotes, que o
achavam com um ar distinto. Era o mais decente dos alunos: não usava os
cabelos nem muito compridos, nem curtos demais, não devorava o dinheiro
do trimestre no primeiro dia do mês, e mantinha-se em bons termos com os
professores. Quanto aos excessos, sempre se abstinha, tanto por medo como
por delicadeza.
Muitas vezes, quando o deixavam lendo em seu quarto, ou sentado à
noite sob as tílias do Jardim de Luxemburgo, ele deixava cair seu Código no
chão, e a lembrança de Emma lhe regressava. Pouco a pouco, contudo, o
sentimento enfraqueceu, e outras paixões acumularam-se sobre ele, embora
ainda persistisse através delas; pois Léon não perdia de todo a esperança, e
havia para ele uma espécie de promessa incerta que oscilava no futuro, como
um fruto dourado pendendo de alguma folhagem fantástica.
Então, ao revê-la após três anos de ausência, sua paixão despertou.
Seria preciso, pensava, enfim resolver-se a querer possuí-la. Além disso, sua
timidez dissipara-se pelo contato com companhias animadas, e, ao voltar
para a província, desprezava todos os que não pisavam de sapato
envernizado o asfalto do bulevar. Ao lado de uma parisiense de rendas, no
salão de algum doutor ilustre, personagem com carruagem e condecorações,
o pobre escrevente sem dúvida tremeria como uma criança; mas ali, em
Rouen, no porto, diante da esposa desse pequeno médico, sentia-se à
vontade, certo de antemão que impressionaria. O aprumo depende do
ambiente onde se coloca: não se fala ao térreo como ao quarto andar, e a
mulher rica parece ter à sua volta, para resguardar sua virtude, todas as suas
notas bancárias, como uma couraça, no forro do espartilho.
Ao deixar Monsieur e Madame Bovary na véspera, Léon, de longe,
os seguira na rua; depois, vendo-os parar no Croix Rouge, dera meia-volta e
passara a noite meditando um plano.
No dia seguinte, então, por volta das cinco horas, entrou na cozinha
da hospedaria, de garganta apertada e bochechas pálidas, com aquela
resolução dos covardes que nada pode deter.
— Monsieur Bovary não está — respondeu um criado.
Pareceu-lhe um bom presságio. Subiu.
Ela não se inquietou com sua chegada; desculpou-se, pelo contrário,
por haver se esquecido de dizer-lhe onde estavam hospedados.
— Ah! Eu adivinhei — respondeu Léon.
— Como?
Ele alegou ter sido guiado a ela, ao acaso, por um instinto. Ela pôs-se
a sorrir, e de imediato, para compensar sua tolice, Léon contou que passara a
manhã procurando-a sucessivamente em todos os hotéis da cidade.
— A senhora então decidiu ficar? — acrescentou ele.
— Sim — disse ela —, e fiz mal. Não se deve acostumar-se com
prazeres impraticáveis, quando se tem à volta mil exigências…
— Ah! Eu imagino…
— Ora! Não, porque o senhor não é uma mulher.
Os homens também tinham seus sofrimentos, e a conversa começou
por algumas reflexões filosóficas. Emma estendeu-se muito na miséria das
afeições mundanas e no eterno isolamento em que o coração permanece
enterrado.
Para valorizar-se, ou por uma imitação ingênua daquela melancolia
que provocava a sua, o jovem declarou estar entediado durante todo o tempo
de seus estudos. O procedimento jurídico o irritava, outras vocações o
atraíam, e sua mãe não parava, em cada carta, de atormentá-lo. Pois que
especificavam cada vez mais os motivos de suas dores, cada um, à medida
que falava, exaltava-se um pouco naquela confidência progressiva. Às vezes
paravam ante a exposição completa de sua ideia, e buscavam enquanto isso
imaginar uma frase que pudesse traduzi-la. Ela não confessou sua paixão por
outro; ele não disse que a havia esquecido.
Talvez já não se lembrasse dos jantares depois do baile, com as
moças fantasiadas de estivadoras; e ela não se lembrava, sem dúvida, dos
encontros de outrora, quando corria de manhã pela relva, em direção ao
castelo do amante. Os ruídos da cidade mal os alcançavam; e o quarto
parecia especialmente pequeno, para aproximar ainda mais sua solidão.
Emma, vestida com um penhoar de tecido canelado, apoiava o coque no
encosto da velha poltrona; o papel de parede amarelo formava uma espécie
de fundo dourado atrás dela; e sua cabeça desnuda repetia-se no espelho com
o risco branco no meio, e as pontas das orelhas salientes sob os cabelos
divididos.
— Mas desculpe-me — disse ela —, estou errada! Aborreço o senhor
com minhas eternas queixas!
— Não, nunca! Nunca!
— Se o senhor soubesse — continuou ela, levantando para o teto
seus belos olhos, dos quais escorriam lágrimas — tudo o que eu havia
sonhado!
— E eu, então! Oh! Sofri muito! Muitas vezes saía, partia, arrastava-
me pelo cais, aturdido pelo barulho da multidão sem poder banir a obsessão
que me perseguia. Há no bulevar, em um vendedor de estampas, uma
gravura italiana que representa uma musa. Está envolta em uma túnica e olha
para a lua, com miosótis nos cabelos soltos. Algo continuamente me
impulsionava para lá; fiquei lá durante horas inteiras.
Em seguida, com uma voz trêmula:
— Ela parecia um pouco a senhora.
Madame Bovary virou o rosto, para que ele não visse em seus lábios
o sorriso irresistível que sentia irromper.
— Muitas vezes — continuou ele —, escrevi-lhe cartas que depois
rasgava.
Ela não respondia. Ele prosseguiu:
— Às vezes imaginava que um acaso a traria. Acreditava reconhecê-
la nas esquinas, e corria atrás de todas as carruagens de cuja portinhola
flutuava algum xale, algum lenço semelhante aos seus…
Ela parecia determinada a deixá-lo falar sem interrupção. Cruzando
os braços e baixando o rosto, olhava a roseta dos chinelos, e fazia, em
intervalos, pequenos movimentos sobre o cetim, com os dedos dos pés.
Entretanto, suspirou:
— O que há de mais lamentável, é arrastar, assim como eu, uma
existência inútil, não é mesmo? Se nossas dores pudessem servir a alguém,
poderíamos nos consolar na intenção do sacrifício. Gostaria muito —
acrescentou — de ser uma freira enfermeira.
— É lamentável! — replicou ele. — Mas os homens não têm essas
missões santas, e não vejo em qualquer parte algum ofício… a não ser talvez
aquele do médico…
Com um ligeiro encolher dos ombros, Emma o interrompeu para
queixar-se de sua doença, da qual quase morrera; que pena! ela não sofreria
mais. Léon mais do que depressa invejou a paz dos cemitérios, e até mesmo,
certa noite, havia redigido seu testamento, recomendando que fosse
enterrado no belo cobre-leito com listras de veludo que recebera dela; pois
era assim que desejariam ter estado, cada um fazendo para si um ideal sobre
o qual ajustavam, no presente, suas vidas passadas. Na verdade, a palavra é
um laminador que alonga sempre os sentimentos.
Àquela invenção do cobre-leito:
— Ora, por quê? — perguntou ela.
— Por quê? — hesitou ele. — Porque eu a amei muito!
Aplaudindo-se de haver superado a dificuldade, Léon, com o canto
dos olhos, espiou a fisionomia dela.
Foi como o céu, quando um golpe de vento expulsa as nuvens. A
concentração de pensamentos tristes que os assombrava parecia ter
desaparecido de seus olhos azuis; todo o seu rosto reluziu.
Ele esperava. Enfim, ela respondeu:
— Eu sempre desconfiei…
Então, contaram-se os pequenos acontecimentos daquela existência
longínqua, da qual acabavam de resumir, em uma única palavra, os prazeres
e as melancolias. Ele se lembrava das clematites do jardim, dos vestidos que
ela usara, dos móveis de seu quarto, toda a casa.
— E nossos pobres cactos, onde estão?
— O frio deste inverno matou-os.
— Ah! Como pensei neles, sabe? Muitas vezes via-os como outrora,
quando, nas manhãs de verão, o sol batia nas venezianas... e eu avistava seus
braços nus que passavam entre as flores.
— Pobre amigo! — disse ela, estendendo-lhe a mão.
Léon, muito depressa, colou nela os lábios. Em seguida, depois de
respirar fundo, acrescentou:
— A senhora era para mim, naquele tempo, não sei que força
incompreensível que encantava minha vida. Uma vez, por exemplo, fui até
sua casa; mas não deve se lembrar, sem dúvida.
— Pois não — disse ela —, continue.
— Estava lá embaixo, na antessala, pronta para sair, no último
degrau… usava até mesmo um chapéu com florezinhas azuis; e, sem
qualquer convite de sua parte, sem querer, eu a acompanhei. A cada minuto,
no entanto, eu tinha cada vez mais consciência de minha estupidez, e
continuava a caminhar junto à senhora, sem ousar segui-la plenamente, e
sem querer deixá-la. Quando a senhora entrava em uma loja, eu ficava na rua
e, pela vitrine, a olhava tirar as luvas e contar as moedas sobre o balcão. Em
seguida, a senhora tocou a campainha de Madame Tuvache, atenderam-na, e
eu fiquei como um idiota diante da grande porta pesada, que tornara a fechar
atrás da senhora.
Madame Bovary, ao escutá-lo, admirava-se de ser tão velha; todas
aquelas coisas que ressurgiam pareciam-lhe aumentar sua existência; faziam
o efeito de imensidões sentimentais às quais remontava; e ela dizia, de vez
em quando, com a voz baixa e os olhos semicerrados:
— É verdade, sim! É verdade! É verdade!
Ouviram soar oito horas nos diferentes relógios do bairro de
Beauvoisine, que é cheio de pensionatos, igrejas e grandes hotéis
abandonados. Não se falavam mais; mas sentiram, ao se olhar, um farfalhar
na cabeça, como se algo ressonante tivesse escapado reciprocamente de suas
pupilas fixas. Tinham acabado de dar as mãos; e o passado, o futuro, as
reminiscências e os sonhos, tudo se confundia na doçura daquele êxtase. A
noite se avolumava nas paredes, onde ainda brilhavam, meio perdidas nas
sombras, as cores pesadas de quatro gravuras representando quatro paisagens
da torre de Nesle105, com uma legenda abaixo, em espanhol e francês.
Através da janela de guilhotina, via-se um canto de céu escuro entre telhados
pontiagudos.
Ela levantou-se para acender duas velas sobre a cômoda, e voltou a
sentar-se.
— Bem… — disse Léon
— Bem? — respondeu ela.
Ele buscava uma forma de renovar o diálogo interrompido quando
ela lhe disse:
— Por que será que ninguém, até o presente, me expressou
sentimentos semelhantes?
O escrevente exclamou que as naturezas ideais eram difíceis de
compreender. Ele, à primeira vista, amara-a; e desesperava-se ao pensar na
felicidade que teriam vivido se, por obra do acaso, encontrando-se mais
cedo, tivessem se unido um ao outro de maneira indissolúvel.
— Pensei o mesmo algumas vezes — replicou ela.
— Que sonho! — sussurrou Léon.
Manuseando delicadamente o viés azul de seu longo cinto branco,
acrescentou:
— Quem nos impede de recomeçar?
— Não, meu amigo — respondeu ela. — Estou velha demais, e o
senhor, muito jovem… Esqueça-me! Outras o amarão… O senhor as amará.
— Não como a senhora! — protestou ele.
— Uma criança, eis o que o senhor é! Vamos, sejamos sábios! Assim
o desejo!
Ela lhe apresentou as impossibilidades daquele amor, e afirmou que
deveriam manter-se, como antes, nos simples termos de uma amizade
fraterna.
Falava seriamente? Nem mesmo Emma sabia, ocupada que estava
pelo charme da sedução e a necessidade de defender-se; e, observando o
jovem com um olhar enternecido, ela rejeitava com doçura as carícias
tímidas que suas mãos frementes arriscavam.
— Ah! Perdão — disse ele, recuando.
Emma foi tomada por um vago temor diante daquela timidez, mais
perigosa para ela que a audácia de Rodolphe quando avançava com os
braços abertos. Jamais um homem lhe parecera tão bonito. Uma candura
sutil escapava de sua postura. Ele baixava os cílios longos, finos e curvados.
Seu rosto de pele macia ruborizava — pensava ela — de desejo por sua
pessoa, e Emma sentia uma vontade invencível de levar seus lábios até ele.
Então, inclinando-se para o relógio como se olhasse a hora:
— Como está tarde, meu Deus! — disse. — Como tagarelamos!
Ele entendeu a alusão e apanhou o chapéu.
— Eu até me esqueci do espetáculo! — continuou ela. — Aquele
pobre Bovary, que me deixou aqui apenas para isso! Monsieur Lormeaux, da
rua Grand-Pont, ia me conduzir até lá com sua esposa.
E a oportunidade foi perdida, pois ela partiria no dia seguinte.
— É verdade? — disse Léon.
— É.
— Preciso, contudo, vê-la novamente — replicou ele. — Eu
precisava lhe dizer…
— O quê?
— Algo… grave, sério. Ah! Não, aliás, a senhora não irá partir, é
impossível! Se soubesse… Escute-me… Então não me entendeu? Não
adivinhou?
— O senhor é mesmo bom com as palavras — disse Emma.
— Ah! Que brincadeira! Chega, chega! Por misericórdia, deixe-me
vê-la outra vez… uma vez… apenas uma vez.
— Bem…
Ela parou; então, como se mudasse de ideia:
— Ah! Aqui não!
— Onde a senhora quiser.
— O senhor gostaria…
Ela pareceu refletir, e, em um tom breve, declarou:
— Amanhã, às onze horas, na catedral.
— Estarei lá! — exclamou ele, segurando suas mãos, que ela soltou.
Como estavam de pé, ele atrás e Emma abaixando a cabeça, ele se
inclinou em direção ao seu pescoço e a beijou longamente na nuca.
— Mas o senhor é louco! Ah! Louco! — dizia ela com risadinhas
sonoras, enquanto os beijos se multiplicavam.
Então, inclinando a cabeça sobre seu ombro, ele pareceu buscar o
consentimento de seus olhos, que caíram sobre ele, plenos de uma majestade
glacial.
Léon deu três passos para trás, para sair. Parou na soleira. Então,
cochichou com a voz trêmula:
— Até amanhã.
Ela respondeu acenando com a cabeça, e desapareceu como um
pássaro no cômodo ao lado.
Emma, à noite, redigiu ao escrevente uma carta interminável na qual
se desvencilhava do encontro: tudo estava acabado, e eles não deveriam
mais, para o bem de ambos, se ver. Contudo, quando selou a carta, como não
sabia o endereço de Léon, viu-se muito desconcertada.
— Eu mesma lhe entregarei — disse a si mesma — quando ele
chegar.
Léon, no dia seguinte, de janela aberta e cantarolando na varanda,
engraxou ele mesmo os sapatos, com várias camadas. Vestiu uma calça
branca, meias finas, um terno verde, borrifou o lenço com todos os aromas
que possuía e, depois de ter enrolado os cabelos, mandou desenrolar, para
dar-lhes uma elegância mais natural.
“Ainda é muito cedo!”, pensou ao olhar o cuco do cabeleireiro, que
marcava nove horas. Leu um jornal de modas velho, saiu, fumou um
charuto, subiu três ruas, achou que estava na hora e dirigiu-se com presteza
para o adro da catedral.
Era uma bela manhã de verão. A prataria brilhava nas lojas dos
ourives, e a luz que surgia obliquamente sobre a catedral lançava um reflexo
nas fissuras das pedras cinzentas; uma companhia de pássaros rodopiava no
céu azul em torno dos campanários em trifólio; a praça, retumbante de
gritos, tinha o aroma das flores que margeavam seu pavimento, rosas,
jasmins, cravos, narcisos e tuberosas, espaçadas de forma desigual por
vegetação úmida, erva-gateira e amora para os pássaros; a fonte, ao centro,
borbulhava e, sob grandes guarda-sóis, entre melões dispostos em pirâmides,
vendedoras, de cabeça descoberta, enrolavam em papel os buquês de
violetas.
O jovem pegou um. Era a primeira vez que comprava flores para
uma mulher; e seu peito, inalando-as, encheu-se de orgulho, como se aquela
homenagem destinada a outra lhe retornasse para si.
No entanto, temendo ser visto, entrou decididamente na igreja.
O bedel estava posicionado na soleira, no meio do portal à esquerda,
abaixo da estátua de Salomé dançando, de penacho na cabeça, florete na
panturrilha, e bastão na mão, mais majestoso que um cardeal e reluzente
como um santo cibório.
Foi em direção a Léon e, com aquele sorriso de benignidade
aduladora que os eclesiásticos assumem quando questionam as crianças,
falou:
— O senhor, sem dúvida, não é daqui. Deseja ver as curiosidades da
igreja?
— Não — disse Léon.
Andou primeiro pelos corredores. Depois foi olhar a praça. Emma
não chegava. Ele subiu até o coro.
A nave refletia-se nas pias de água benta cheias, com o início das
ogivas e algumas porções de vitrais. O reflexo das pinturas, rompendo-se na
borda do mármore, continuava mais adiante, nas lajes, como um tapete de
muitas cores. A ampla luz do dia prolongava-se pela igreja em três enormes
raios, pelos três portais abertos. De tempos em tempos, ao fundo, um
sacristão passava, fazendo diante do altar a genuflexão oblíqua dos devotos
apressados. Os lustres de cristal pendiam imóveis. No coro, a chama de uma
lamparina de prata ardia; e das capelas laterais, das partes sombrias da igreja,
escapavam algo como exalações de suspiros, com o som de uma grade que
caía, repercutindo seu eco sob as altas abóbadas.
Léon, com um passo sério, caminhava perto das paredes. Jamais a
vida lhe parecera tão boa. Ela viria logo, charmosa, agitada, espiando atrás
de si os olhares que a seguiam — de vestido de babados, lornhão dourado,
botinhas finas, em toda sorte de elegâncias que ele não havia saboreado, e na
inefável sedução da virtude que sucumbe. A igreja, como um gigantesco
toucador, disporia-se em torno dela; as abóbadas curvariam-se para recolher
à sombra a confissão do seu amor; os vitrais resplandeceriam para iluminar
seu rosto, e os incensários abrasariam para que ela aparecesse como um anjo,
na fumaça dos perfumes.
No entanto, ela não vinha. Ele sentou-se em uma cadeira e seu olhar
encontrou um vitral azul onde se viam barqueiros que carregavam cestas.
Contemplou-o longamente, com atenção, e contou as escamas dos peixes e
as casas de botões dos casacos, enquanto seu pensamento vagava em busca
de Emma.
O bedel, de certa distância, indignava-se interiormente com aquele
indivíduo, que se permitia admirar sozinho a catedral. Parecia-lhe que se
portava de forma monstruosa, roubando-o em algum sentido, e quase
cometendo sacrilégio.
Finalmente, um farfalhar de seda nas lajes, a aba de um chapéu, uma
pelerine preta… Era ela! Léon se levantou e correu ao seu encontro.
Emma estava pálida. Andava depressa.
— Leia! — disse ela ao entregar-lhe um papel. — Ah, não!
Ela retirou a mão abruptamente, para entrar na capela da Virgem,
onde, ajoelhando-se contra uma cadeira, pôs-se a rezar.
O jovem rapaz irritou-se com aquela fantasia beata; depois, no
entanto, sentiu um certo encanto ao vê-la, no meio do encontro, assim
perdida em orações, como uma marquesa andaluza; e não tardou a se
entediar, pois ela não terminava.
Emma rezava, ou melhor, esforçava-se em rezar, esperando que lhe
descesse do céu alguma resolução repentina; e, para atrair o socorro divino,
encheu os olhos com os esplendores do tabernáculo, inspirou o perfume das
julianas brancas em flor nos grandes vasos, e concentrou o ouvido no
silêncio da igreja, o que só fazia aumentar o tumulto do seu coração.
Ela se levantou, e estavam prestes a sair, quando o bedel se
aproximou calorosamente, dizendo:
— A senhora, sem dúvida, não é daqui. Deseja ver as curiosidades da
igreja?
— Ora, não! — exclamou o escrevente.
— Por que não? — perguntou ela.
Pois ela se agarrava à sua virtude vacilante e à Virgem, às esculturas,
aos túmulos, em todas as oportunidades.
Assim, para proceder na ordem, o bedel os conduziu até a entrada
junto à praça, onde apontou-lhes com o bastão um grande círculo de
ladrilhos pretos, sem inscrições ou entalhes.
— Esta — disse ele majestosamente — é a circunferência do belo
sino de Amboise. Ele pesava dezoito mil quilos. Não havia igual em toda a
Europa. O operário que o fundiu morreu de alegria…
— Vamos embora — disse Léon.
O bom homem retomou o passo; depois, voltando à capela da
Virgem, estendeu os braços em um gesto sintético de demonstração e, mais
orgulhoso do que um proprietário rural exibindo suas árvores em
espaldeiras, prosseguiu:
— Esta simples laje cobre Pierre de Brézé, senhor de Varenne e de
Brissac, grande marechal de Poitou e governador da Normandia, que morreu
na Batalha de Montlhéry, em 16 de julho de 1465.
Léon, mordendo os lábios, batia o pé no chão.
— E, à direita, este senhor distinto todo encouraçado de ferro, sobre
um cavalo empinado, é seu neto Louis de Brézé, senhor de Breval e de
Montchauvet, conde de Maulevrier, barão de Mauny, camareiro do rei,
cavaleiro da Ordem e igualmente governador da Normandia, falecido em 23
de julho de 1531, um domingo, conforme consta na inscrição; e, abaixo, este
homem pronto para descer ao túmulo retrata exatamente o mesmo. Não é
possível, não é, ver uma representação mais perfeita do nada?
Madame Bovary pegou seu lornhão. Léon, imóvel, olhava-a, sem
ousar mais uma única palavra, um único gesto, tão desanimado estava diante
da escolha dupla pela tagarelice e pela indiferença.
O eterno guia continuava:
— Junto dele, esta mulher ajoelhada que chora é sua esposa, Diane
de Poitiers, condessa de Brézé, duquesa de Valentinois, nascida em 1499,
falecida em 1566; e, à esquerda, a que carrega uma criança, a Santíssima
Virgem. Agora, virem-se para este lado: aqui estão os túmulos de Amboise.
Ambos eram cardeais e arcebispos de Rouen. Este foi ministro do rei Luís
XII. Foi muito bom para a Catedral. Foram encontradas em seu testamento
trinta mil coroas de ouro para os pobres.
Sem parar, enquanto falava, empurrou-os para dentro de uma capela
repleta de balaustradas, afastou algumas delas, e desvelou uma espécie de
bloco, que poderia muito bem ser uma estátua malfeita.
— Ela decorava, em outros tempos — disse com um longo gemido
—, o túmulo de Ricardo Coração de Leão, rei da Inglaterra e duque da
Normandia. Foram os calvinistas, senhor, que a reduziram a este estado.
Enterraram-na, por maldade, na terra, sob a sede episcopal de Monsenhor.
Vejam, aqui está a porta pela qual ele chega aos seus aposentos. Passemos
agora aos vitrais da Gárgula.
Mas Léon tirou rapidamente uma moeda de prata do bolso e agarrou
Emma pelo braço. O bedel ficou estupefato, sem entender essa generosidade
fora de hora, enquanto ainda restavam ao visitante tantas coisas a serem
vistas. Assim, lembrou-lhe:
— Ei, senhor. A flecha! A flecha!106
— Obrigado — disse Léon.
— O senhor não sabe o que está perdendo! Ela terá cento e trinta e
quatro metros, três a menos que a grande pirâmide do Egito. É toda em ferro
fundido, e…
Léon fugia; pois parecia-lhe que seu amor, que, duas horas antes,
havia se imobilizado na igreja como as pedras, evaporaria como fumaça, por
essa espécie de cano truncado, de gaiola oblonga, de chaminé com orifícios,
que se arrisca tão grotescamente sobre a catedral como a tentativa
extravagante de algum caldeireiro fantasista.
— Aonde vamos? — disse ela.
Sem responder, ele continuava andando a passos rápidos, e Madame
Bovary já mergulhava o dedo na água benta quando ouviram atrás de si uma
respiração alta e ofegante, entrecortada regularmente pelo ricochetear de um
bastão. Léon virou-se.
— Monsieur!
— O quê?
Ele reconheceu o bedel, carregando debaixo do braço e equilibrando
contra a barriga cerca de vinte grandes volumes de brochura. Eram as obras
que tratavam da catedral.
— Imbecil! — resmungou Léon, lançando-se para fora da igreja.
Um garoto brincava no pátio.
— Vá me chamar uma carruagem!
A criança disparou como uma bala, descendo a rua Quatre-Vents;
então ficaram sozinhos por alguns minutos, frente a frente e um pouco
envergonhados.
— Ah! Léon! De verdade… não sei… se devo… — ela falava em
tom afetado.
Depois, com um jeito sério, acrescentou:
— É muito indecoroso, sabe?
— Em quê? — respondeu ele. — Isso se faz em Paris!
Essa palavra, como um argumento irresistível, determinou-a.
Enquanto isso, a carruagem demorava a chegar. Léon temia que ela
voltasse para dentro da igreja. Enfim, chegou.
— Saiam ao menos pelo portal norte! — gritou o bedel, que
permanecera à soleira. — Para ver a Ressureição, o Juízo final, o Paraíso, o
Rei Davi e os Condenados nas chamas do inferno.
— Aonde o senhor vai? — perguntou o cocheiro.
— Aonde o senhor quiser! — disse Léon, empurrando Emma para
dentro.
A máquina pesada pôs-se a caminho.
Desceu a rua Grand-Pont, atravessou a praça Des Arts, o cais
Napoléon, a ponte Neuf e parou de súbito diante da estátua de Pierre
Corneille.
— Continue! — disse uma voz do interior.
O veículo tornou a partir, e, deixando-se levar, desde o cruzamento
La Fayette, pelo embalo da descida, entrou a galope pleno na estação da
estrada de ferro.
— Não, siga em frente! — gritou a mesma voz.
A carruagem deixou os portões, e logo, chegando à alameda, trotou
suavemente entre os grandes olmos. O cocheiro enxugou a testa, colocou o
chapéu de couro entre as pernas e empurrou a carruagem para fora dos
calçamentos laterais, até a beira da água, perto do gramado.
Prosseguiu ao longo do rio, no caminho de sirga107 pavimentado de
cascalho seco, e, por bastante tempo, seguiu para Oissel, além das ilhas.
De repente, disparou em um salto por Quatremares, Sotteville,
Grande-Chaussée, pela rua d’Elbeuf, e fez sua terceira parada em frente ao
Jardin des Plantes.
— Ande, ora! — gritou a voz, ainda mais furiosa.
Retomou seu curso no mesmo instante, e passou por Saint-Sever,
pelo cais Des Curandiers, pelo cais Aux Meules, mais uma vez pela ponte,
pela praça do Champ-de-Mars e por trás dos jardins do hospital, onde velhos
de casaco preto caminhavam ao sol, ao longo de um terraço tomado de verde
pela hera. Subiu novamente o bulevar Bouvreuil, percorreu o bulevar
Cauchoise, depois todo o Mont-Riboudet até a encosta de Deville.
Voltou; e então, sem ideia prévia ou direção, ao acaso, a carruagem
vagou. Foi vista em Saint-Pol, em Lescure, no monte Gargan, na Rouge-
Mare e na praça Gaillardbois; rua Maladrerie, rua Dinanderie, em frente a
Saint-Romain, Saint-Vivien, Saint--Maclou, Saint-Nicaise, em frente à
Alfândega, na baixa Vieille-Tour, em Trois-Pipes e no cemitério
Monumental. De vez em quando, o cocheiro, em seu assento, lançava
olhares desesperados para as tabernas. Não entendia que fúria de locomoção
levava aqueles indivíduos a não querer parar. Tentava algumas vezes, e
imediatamente ouvia exclamações coléricas atrás de si. Então chicoteava
ainda mais os dois pangarés cobertos de suor, sem se importar com os
solavancos, enganchando aqui e ali, descuidado, desmoralizado, e quase
chorando de sede, de fadiga e de tristeza.
No porto, no meio de carretas e barricas, e nas ruas, na esquina dos
marcadores, os burgueses arregalavam os olhos de espanto diante daquela
coisa tão extraordinária na província, uma carruagem com persianas
fechadas, que surgia assim continuamente, mais fechada que um túmulo e
balançando como um navio.
Certa vez, no meio do dia, em pleno campo, quando o sol dardejava
mais forte contra as velhas lanternas prateadas, uma mão nua enfiou-se pelas
cortininhas de tecido amarelo e lançou pedaços de papel picado, que se
dispersaram ao vento e caíram mais adiante, como borboletas brancas, em
um campo de trevos vermelhos em flor.
Então, por volta das seis horas, a carruagem parou em uma viela do
bairro Beauvoisine, e uma mulher desceu, andando com o véu abaixado, sem
virar a cabeça.
104 Um dos três maiores bailes públicos a céu aberto de Paris, favorito dos boêmios nos anos 1840.
105 Uma das antigas torres das muralhas de Paris.
106 A flecha (ou agulha) da catedral de Rouen foi construída entre 1822 e 1876, para substituir a anterior, destruída
em um incêndio. Até 1880, foi a construção mais alta do mundo.
107 Área ao redor de um rio pavimentada para o reboque de embarcações.
II
Ao chegar à hospedaria, Madame Bovary surpreendeu-se por não encontrar
a diligência. Hivert, que a havia esperado por cinquenta e três minutos,
acabara por ir-se.
Nada a forçava a partir; mas ela havia dado sua palavra de que
voltaria na mesma noite. Aliás, Charles a esperava; e ela já sentia no coração
aquela docilidade covarde que é, para muitas mulheres, tanto o castigo como
o resgate do adultério.
Apressou-se a fazer a mala, pagou a conta, pegou um cabriolé no
pátio e, incitando o cavalariço, encorajando-o, perguntando a cada minuto
sobre o horário e os quilômetros percorridos, conseguiu alcançar a
Andorinha perto das primeiras casas de Quincampoix.
Assim que se sentou em seu canto, ela fechou os olhos e os abriu
novamente ao pé da encosta, de onde reconheceu, ao longe, Félicité, que se
mantinha atenta em frente à casa do ferreiro. Hivert reteve os cavalos, e a
cozinheira, alçando-se até o postigo, disse misteriosamente:
— Madame, deve ir imediatamente à casa de Monsieur Homais. É
urgente.
O vilarejo estava silencioso como sempre. Nas esquinas das ruas,
havia montículos cor-de-rosa fumegando no ar, pois era a época das geleias,
e todos em Yonville preparavam seus estoques no mesmo dia. Admirava-se
diante da farmácia um amontoado muito maior, que superava os outros com
a superioridade que um laboratório próprio deve ter sobre os fogões
burgueses, e uma necessidade geral, sobre as fantasias individuais.
Ela entrou. A grande poltrona estava virada, e até o Fanal de Rouen
jazia no chão, estendido entre os dois pilões. Ela empurrou a porta do
corredor; e, no meio da cozinha, entre os jarros escuros cheios de groselha
debulhada, rapadura, torrões de açúcar, balanças sobre a mesa e tachos no
fogo, avistou todos os Homais, grandes e pequenos, de avental que subia até
o queixo e segurando garfos nas mãos. Justin, de pé, abaixou a cabeça, e o
farmacêutico gritou:
— Quem mandou você ir buscá-lo no cafarnaum108?
— O que é isso? O que está acontecendo?
— O que está acontecendo? — respondeu o boticário. — Estamos
fazendo geleias. Estão cozinhando, mas transbordariam por causa da fervura
muito forte, e eu pedi outro tacho. Então ele, por indolência, por preguiça,
foi pegar, pendurada no prego no meu laboratório, a chave do cafarnaum!
O boticário chamava assim um gabinete, sob os telhados, cheio de
utensílios e mercadorias de sua profissão. Costumava passar longas horas lá,
sozinho, rotulando, transvasando, reatando pacotes; e considerava-o não
como um simples depósito, mas como um verdadeiro santuário, de onde
saíam em seguida, elaborados por suas mãos, todo tipo de pílulas, pastilhas,
chás de ervas, loções e poções, que espalhariam nos arredores a sua fama.
Ninguém no mundo punha os pés lá; e respeitava tanto o lugar que ele
mesmo o varria. Enfim, se a farmácia, aberta a todos, era o lugar onde exibia
o seu orgulho, o cafarnaum era o refúgio onde, concentrando-se
egoisticamente, Homais se deleitava no exercício das suas predileções.
Então a imprudência de Justin parecia-lhe uma irreverência monstruosa; e,
mais rubro que as groselhas, repetia:
— É, do cafarnaum! A chave que tranca os ácidos com álcalis
cáusticos! Para buscar um tacho de reserva! Um tacho com tampa! E que
talvez eu nunca utilize! Tudo tem sua importância nas operações delicadas
de nossa arte! Mas que diabo! É preciso estabelecer distinções e não
empregar para usos quase domésticos o que se destina aos farmacêuticos! É
como cortar uma galinha com um bisturi, como se um magistrado…
— Mas calma! — disse Madame Homais.
— Papai! Papai! — disse Athalie, puxando-o pela sobrecasaca.
— Não, deixe-me! — retomou o boticário. — Deixe-me! Poxa!
Melhor abrir uma mercearia, honestamente! Vamos, vá! Não respeite nada!
Quebre! Destrua! Solte as sanguessugas! Queime o malvavisco! Marine os
pepinos nos frascos! Rasgue as ataduras!
— O senhor tinha, no entanto… — disse Emma.
— Um momento! Sabe a que estava se expondo? Não viu nada, no
canto, à esquerda, na terceira prateleira? Fale, responda, articule alguma
coisa!
— Eu não… sei — balbuciou o rapaz.
— Ah! Não sabe! Pois bem, eu sei! Você viu uma garrafa, em vidro
azul, lacrada com cera amarela, que contém um pó branco, na qual até eu
tinha escrito: Perigo! E sabe o que tinha lá dentro? Arsênico! E você vai
tocar nisso! Pegar uma bacia que está ao lado!
— Ao lado! — exclamou Madame Homais, apertando as mãos. —
Arsênico? Você poderia envenenar a todos nós!
As crianças começaram a gritar, como se já sentissem dores atrozes
nas entranhas.
— Ou envenenar um paciente! — continuou o boticário. — Então
você queria que eu fosse para o banco dos réus, para o tribunal de
julgamento? Ver-me arrastado para o cadafalso? Você ignora o cuidado que
tenho no manuseio, embora eu tenha uma prática extraordinária. Muitas
vezes me espanto quando penso na minha responsabilidade! Pois o governo
nos persegue, e a legislação absurda que nos rege é como uma verdadeira
espada de Dâmocles109 suspensa sobre nossas cabeças!
Emma já não pensava mais em perguntar o que queriam com ela, e o
farmacêutico continuava em frases ofegantes:
— Eis como reconhece nossa bondade para com você! Eis como me
recompensa pelo cuidado paternal que lhe dedico! Pois, sem mim, onde você
estaria? O que faria? Quem lhe fornece alimentação, educação, vestuário e
todos os meios para figurar um dia, com honra, nas fileiras da sociedade?
Mas para isso é preciso suar a camisa, e adquirir, como dizem, calos nas
mãos, Fabricando fit faber, age quod agis.110
Citava latim, de tão exasperado. Teria citado chinês e groenlandês se
conhecesse essas duas línguas; pois encontrava-se em uma daquelas crises
em que a alma inteira mostra indistintamente o que encerra, como o oceano
que, nas tempestades, se entreabre desde as algas em suas orlas à areia de
seus abismos.
Continuou:
— Estou começando a me arrepender terrivelmente de ter me
encarregado de sua pessoa! Por certo, teria sido melhor deixá-lo apodrecer
em sua miséria e na sujeira em que você nasceu! Você nunca servirá para
nada além de um guardião de bestas com chifres! Não tem qualquer aptidão
para a ciência! Mal sabe colar uma etiqueta! E vive aqui, na minha casa,
como um cônego, no bem-bom, fartando-se!
Emma, voltando-se para Madame Homais, disse:
— Fizeram-me vir até aqui…
— Ah! Meu Deus! — interrompeu a boa senhora com um ar triste.
— Como poderei lhe dizer? É uma tragédia!
Ela não terminou. O boticário trovejava:
— Esvazie-o! Limpe bem! Traga-o de volta! Ande logo!
Sacudindo Justin pela gola da blusa, fez cair um livro de seu bolso.
O menino abaixou-se. Homais foi mais rápido e, pegando o
exemplar, examinou-o com os olhos arregalados, boquiaberto.
— O amor… conjugal! — disse, separando lentamente as duas
palavras. — Ah! Muito bem! Muito bom! Muito bonito! E tem gravuras!
Ah! É demais!
Madame Homais aproximou-se.
— Não! Não toque nele!
As crianças quiseram ver as imagens.
— Saiam! — disse ele imperiosamente.
E saíram.
Primeiro ele andou de um lado para o outro, a passos largos,
segurando o volume aberto entre os dedos, revirando os olhos, engasgado,
petrificado, apoplético. Depois, foi direto ao seu aluno, e postou-se diante
dele com os braços cruzados:
— Quer dizer que você tem todos os vícios, pobre infeliz? Cuidado,
você está em um declive! Então não refletiu que esse livro infame poderia
cair nas mãos dos meus filhos, meter a faísca em seus cérebros, macular a
pureza de Athalie, corromper Napoléon! Ele já é um homem feito. Tem
certeza, pelo menos, que não o leram? Pode me certificar…?
— Mas enfim, Monsieur — disse Emma —, precisava me contar
que…?
— É verdade, Madame… Seu sogro morreu!
De fato, Monsieur Bovary pai morrera dois dias antes, de repente, de
um ataque de apoplexia, ao sair da mesa; e, por excesso de precaução com a
sensibilidade de Emma, Charles implorara a Monsieur Homais que a
informasse com cuidado sobre a horrível notícia.
Ele meditara sobre sua frase, havia-a arredondado, polido, ritmado;
era uma obra-prima de prudência e transições, de belas curvas e de
delicadeza; mas a raiva vencera a retórica.
Emma, renunciando a obter quaisquer detalhes, deixou então a
farmácia; pois Monsieur Homais havia retomado o curso de suas
vituperações111. Acalmava-se, no entanto, e resmungava em um tom
paternal, enquanto se abanava com a boina.
— Não é que eu desaprove totalmente a obra! O autor era médico.
Tem alguns dados científicos que não fazem mal a um homem conhecer e,
ousaria dizer, que um homem deve mesmo conhecer. Mas depois, mais
tarde! Espere ao menos até que você mesmo seja um homem e que seu
caráter esteja formado.
À batida de Emma na aldrava, Charles, que a esperava, avançou de
braços abertos e disse-lhe com lágrimas na voz:
— Ah! Minha cara amiga…
Ele inclinou-se suavemente para beijá-la. Porém, ao contato de seus
lábios, a lembrança do outro a tomou, e ela passou a mão no rosto, tremendo.
No entanto, ela respondeu:
— Sim, eu sei… eu sei…
Ele mostrou a carta onde a mãe narrava o acontecimento, sem
qualquer hipocrisia sentimental. Apenas lamentava que o marido não tivesse
recebido o socorro da religião, tendo morrido em Doudeville, na rua, na
soleira de um café, depois de uma refeição patriótica com antigos soldados.
Emma devolveu a carta; depois, no jantar, por educação, simulou
certa repugnância. Mas, como ele a encorajou, ela pôs-se a comer
resolutamente, enquanto Charles, à sua frente, permanecia imóvel, em uma
postura abatida.
De vez em quando, levantando a cabeça, destinava-lhe um longo
olhar cheio de angústia. Em um dado momento, suspirou:
— Eu gostaria de tê-lo visto mais uma vez!
Ela permanecia em silêncio. Por fim, entendendo que deveria falar:
— Quantos anos tinha mesmo o seu pai?
— Cinquenta e oito!
— Ah!
Isso foi tudo.
Quinze minutos depois, ele acrescentou:
— Minha pobre mãe… O que será dela agora?
Ela fez um gesto de não saber.
Ao vê-la tão taciturna, Charles supunha que ela estivesse aflita e
parou de falar, para não agravar aquela dor que a sensibilizava. No entanto,
sacudindo a sua própria, perguntou:
— Divertiu-se bastante ontem?
— Sim.
Quando a mesa foi retirada, Bovary não se levantou, nem Emma; e, à
medida que ela o olhava, a monotonia do espetáculo bania, pouco a pouco,
toda a piedade de seu coração. Parecia-lhe um homem débil, fraco, nulo, um
pobre coitado em todos os sentidos. Como livrar-se dele? Que noite
interminável! Algo atordoante como o vapor do ópio a entorpecia.
Ouviram no vestíbulo o barulho seco de um bastão no assoalho. Era
Hippolyte, trazendo a bagagem da senhora. Para depositá-la no chão, traçou
penosamente um quarto de círculo com sua perna de madeira.
“Ele nem pensa mais nisso”, disse a si mesma, olhando para o pobre
diabo, cuja grande cabeleira ruiva pingava de suor.
Bovary procurava alguma moedinha no fundo da carteira; e, sem
parecer compreender tudo o que havia de humilhante para ele na mera
presença daquele homem, como a censura personificada da sua incurável
inaptidão, disse a ela, reparando nas violetas de Léon na lareira:
— Olha! Tem um lindo buquê.
— Sim — disse ela com indiferença. — É um ramalhete que comprei
mais cedo… de uma pedinte.
Charles pegou as violetas e, refrescando sobre elas os olhos
vermelhos de lágrimas, cheirou-as delicadamente. Ela logo as tirou de sua
mão, e foi colocá-las em um vaso com água.
No dia seguinte, Madame Bovary mãe chegou. Ela e o filho
choraram muito. Emma, a pretexto de dar ordens, desapareceu.
No outro dia, foi preciso discutir juntos os assuntos do luto. Foram
sentar-se, com as caixas de costura, na beira da água, sob o caramanchão.
Charles pensava no pai, e surpreendia-se ao sentir tanta afeição por
aquele homem que até então acreditara amar de forma muito medíocre.
Madame Bovary mãe pensava no marido. Os piores dias de outrora lhe
pareciam invejáveis. Tudo se apagava sob o arrependimento instintivo de um
hábito muito antigo; e de vez em quando, enquanto manuseava a agulha,
uma lágrima pesada escorria ao longo de seu nariz e lá ficava, suspensa
durante um momento. Emma lembrava que havia apenas quarenta e oito
horas eles estavam juntos, longe do mundo, inebriados, sem ter olhos
suficientes para apreciar um ao outro. Ela tentava recobrar os detalhes mais
imperceptíveis daquele dia desaparecido, mas a presença da sogra e do
marido a incomodava. Ela teria gostado de não ouvir nada, de não ver nada,
a fim de não perturbar a contemplação do seu amor, que se perderia, o que
quer que fizesse, sob as sensações externas.
Ela desfazia o forro de um vestido, cujos retalhos espalhavam-se ao
seu redor; a mãe Bovary, sem erguer os olhos, fazia guinchar a tesoura; e
Charles, de chinelos e com sua velha sobrecasaca marrom, que lhe servia de
roupão, mantinha-se com as mãos nos bolsos e também em silêncio. Perto
deles, Berthe, com um aventalzinho branco, raspava com a pá a areia das
aleias.
De repente, viram entrar pelo portão Monsieur Lheureux, o
comerciante de tecidos.
Vinha oferecer seus serviços, em vista da circunstância fatal. Emma
respondeu que achava que poderiam passar sem ele. O comerciante não se
deu por derrotado.
— Mil desculpas — disse ele. — Gostaria de solicitar uma conversa
em particular.
Então, em voz baixa:
— É relativo àquele assunto… sabe?
Charles ficou vermelho até as orelhas.
— Ah! Sim, de fato.
E, em seu transtorno, virando-se para a esposa, acrescentou:
— Você não poderia… minha querida…?
Ela pareceu tê-lo entendido, pois levantou-se, e Charles disse à mãe:
— Não é nada! Sem dúvida alguma bagatela doméstica.
Ele não queria que ela soubesse da história da nota promissória,
temendo suas observações.
Assim que ficaram a sós, Monsieur Lheureux começou, em termos
bastante diretos, a felicitar Emma pela sucessão, depois a falar de assuntos
indiferentes, das espaldeiras, da colheita e de sua própria saúde, que estava
sempre mais ou menos, nem bem nem mal. Na verdade, esforçava-se para
diabos, embora não ganhasse, apesar do que as pessoas diziam, nem o
suficiente para ter manteiga no pão.
Emma o deixava falar. Estava tão prodigiosamente entediada havia
dois dias!
— E a senhora está completamente recuperada? — continuava ele.
— Por Deus, eu vi seu pobre marido em um estado daqueles! Ele é um bom
menino, embora tenhamos tido nossas diferenças.
Ela perguntou quais, pois Charles lhe havia escondido a contestação
dos artigos fornecidos.
— Mas a senhora sabe bem! — disse Lheureux. — Eram para seus
pequenos caprichos, os baús de viagem.
Ele havia baixado o chapéu sobre os olhos e, com as duas mãos atrás
das costas, sorrindo e assobiando, olhava-a no olhos, de um modo
insuportável. Suspeitava de algo? Ela se via perdida em todo tipo de
apreensões. Ao final, porém, ele continuou:
— Nós nos entendemos, e venho mais uma vez propor um arranjo.
Era o de renovar a nota assinada por Bovary. Ele, além disso, agiria
como desejasse; não deveria se preocupar, sobretudo já que teria um monte
de incômodos.
— E até ele faria melhor em deixar alguém encarregado, a senhora,
por exemplo; com uma procuração, seria conveniente, e então teríamos
juntos alguns pequenos negócios…
Ela não compreendia. Ele ficou em silêncio. Então, passando aos
negócios, Lheureux declarou que a senhora não podia deixar de levar algo
dele. Ele lhe enviaria um corte de lã de barège preta, doze metros, o
suficiente para fazer um vestido.
— O que a senhora tem é bom para ficar em casa. Faz-lhe falta um
outro para as visitas. Reparei nisso assim que entrei. Tenho um olhar atento.
Não enviou o tecido, trouxe-o pessoalmente. Depois voltou para tirar
as medidas; voltava sob outros pretextos, esforçando-se, a cada vez, por
parecer amável, prestativo, enfeudando-se, como teria dito Homais, e sempre
oferecendo conselhos a Emma sobre a procuração. Não falava da nota. Ela
não pensava no assunto. Charles, no início de sua convalescença, havia lhe
contado algo a respeito, mas tantas agitações passaram por sua cabeça que
ela não lembrava mais. Além disso, teve o cuidado de não abrir qualquer
discussão financeira; a mãe Bovary ficou surpresa, e atribuiu sua mudança
de humor aos sentimentos religiosos que ela contraíra enquanto esteve
enferma.
Contudo, assim que a sogra se foi, Emma não demorou a
impressionar Bovary com seu senso prático. Seria preciso pegar
informações, verificar as hipotecas, ver se seria um caso de licitação ou de
liquidação. Citava termos técnicos ao acaso, pronunciava as grandes
palavras de ordem, do futuro, da previsão, e continuamente exagerava os
embaraços da sucessão; tanto que um dia mostrou-lhe o modelo de uma
autorização geral para “gerir e administrar seus negócios, fazer todos os
empréstimos, assinar e endossar todas as notas, pagar todas as quantias etc.”.
Havia aproveitado as lições de Lheureux.
Charles, ingenuamente, perguntou-lhe de onde vinha aquele papel.
— De Monsieur Guillaumin.
E, com o maior sangue frio do mundo, acrescentou:
— Eu não confio muito nele. Os notários têm uma reputação tão
ruim! Talvez devêssemos consultar… Conhecemos apenas… Ah! Ninguém.
— A menos que Léon… — respondeu Charles, que refletia.
Mas era difícil entender-se por correspondência. Então, ela ofereceu-
se para fazer a viagem. Ele agradeceu. Ela insistiu. Foi um ataque de
gentilezas. Por fim, ela exclamou, em um tom de motim fictício:
— Não, por favor, eu irei.
— Como você é boa! — disse ele, beijando-lhe a testa.
Logo no dia seguinte embarcou na Andorinha para ir a Rouen
consultar Monsieur Léon; e lá ficou por três dias.
108 Nome de uma cidade na antiga Judeia, usado na linguagem comum para designar um lugar em que há
desordem, bagunça, ou objetos diversos amontoados. À época, o termo era recente na língua francesa.
109 Personagem de uma anedota da Grécia Antiga, Dâmocles foi colocado por um dia no lugar do rei, a quem
invejava. Sobre o trono, ficou pendurada uma espada, suspensa apenas por um fio, para que Dâmocles entendesse
que a posição de monarca era arriscada.
110 Em latim no original. “A prática faz a perfeição, faça o que fazes” (no sentido de dedicar-se).
111 Repreensões, broncas.
III
Foram três dias plenos, encantadores, esplêndidos, uma verdadeira lua de
mel.
Ficaram no hotel Boulogne, no porto. Viviam lá, de persianas
fechadas, portas trancadas, flores pelo chão e bebidas refrescantes, que lhes
serviam logo pela manhã.
Ao entardecer, pegavam uma barca coberta e iam jantar em uma ilha.
Era a hora em que se ouve, à beira dos estaleiros, ressoar as marretas
dos calafetadores contra os cascos dos navios. A fumaça do alcatrão
escapava por entre as árvores, e viam-se no rio gotas largas e gordurosas,
ondulando de forma desigual sob a cor púrpura do sol, como placas
flutuantes de bronze florentino.
Desciam no meio dos barcos atracados, cujos longos cabos oblíquos
roçavam um pouco a parte superior da barca.
Os ruídos da cidade pouco a pouco se distanciavam, o rolar das
charretes, o tumulto das vozes, o latido dos cães no convés dos navios. Ela
desamarrava o chapéu e eles acostavam na ilha.
Acomodavam-se na sala de baixo de uma taberna, que tinha redes
pretas penduradas na porta. Comiam espelanos112 fritos, creme e cerejas.
Deitavam-se na relva; beijavam-se furtivamente sob os álamos; e teriam
desejado, como dois Robinsons113, viver para sempre naquele pequeno lugar
que lhes parecia, em sua felicidade, o mais magnífico da Terra. Não era a
primeira vez que viam árvores, céu azul, grama, que ouviam a água correr e
a brisa soprando na folhagem; mas sem dúvida nunca haviam admirado tudo
aquilo, como se a natureza não existisse antes, ou só tivesse começado a ser
bela depois da satisfação de seus desejos.
À noite, tornavam a partir. O barco seguia pelas margens das ilhas.
Eles permaneciam ao fundo, ambos escondidos pelas sombras, sem falar. Os
remos quadrados soavam entre os suportes de ferro; marcavam o silêncio
como a batida de um metrônomo, enquanto na popa o cabo que se arrastava
não interrompia o chacoalhar suave na água.
Uma vez que a lua apareceu, não deixaram de compor frases,
julgando o astro melancólico e cheio de poesia; ela até mesmo pôs-se a
cantar: “Uma noite, lembras-te? Navegávamos…”114 etc.
Sua voz harmoniosa e frágil perdia-se nas ondulações; e o vento
levava os versos que Léon ouvia passar, como o bater de asas, ao seu redor.
Ela mantinha-se em frente, encostada no anteparo do barco, onde o
luar entrava por uma das venezianas abertas. Seu vestido preto, cujos
drapeados espalhavam-se em leque, tornava-a mais esguia. Tinha a cabeça
levantada, as mãos unidas e os olhos voltados para o céu. Às vezes, a sombra
dos salgueiros a escondia por inteiro, e ela reaparecia de repente, como uma
visão, à luz da lua.
Léon, no chão, ao seu lado, encontrou debaixo da mão uma fita de
seda vermelho-papoula.
O barqueiro a examinou e acabou por dizer:
— Ah! Pode ser de um grupo que levei para passear outro dia. Veio
um bando de foliões, senhores e senhoras, com bolos, champanhe, cornetas e
tudo mais! Havia um em particular, um homem alto e bonito, com um
bigodinho, que era incrivelmente divertido! E falavam assim: “Vamos,
conte-nos alguma coisa… Adolphe… Dodolphe…”, algo assim.
Ela estremeceu.
— Está sofrendo? — perguntou Léon, aproximando-se dela.
— Ah! Não é nada. Sem dúvida, o frescor da noite.
— E a quem tampouco deve faltar mulheres — acrescentou o velho
marinheiro, acreditando dizer uma gentileza ao estranho.
Em seguida, cuspindo nas mãos, retomou os remos.
Foi preciso, no entanto, separar-se! A despedida foi triste. Era para
Madame Rolet que ele deveria enviar as cartas; e ela lhe deu recomendações
tão precisas a respeito do envelope duplo, que ele admirou enormemente sua
astúcia amorosa.
— Então você me diz que está tudo certo? — disse ela no último
beijo.
— Está, claro!
“Mas por que então”, pensou ele depois, voltando sozinho pelas ruas,
“ela se atém tanto a essa procuração?”
112 Peixe de água salgada semelhante ao salmão, que desova nos rios durante a primavera. Caracterizado também
por seu forte odor.
113 Em alusão a Robinson Crusoé, um náufrago que viveu isolado em uma ilha tropical, personagem do romance
homônimo de Daniel Defoe (1660–1731).
114 Trecho do poema “Le Lac”, de Alphonse de Lamartine (1790–1869). No original, “Un soir, t’en souvient-il?
Nous voguions”.
IV
Léon logo assumiu diante de seus camaradas um ar de superioridade,
absteve-se de sua companhia, e negligenciou completamente os dossiês.
Esperava pelas cartas dela; relia-as. Escrevia a ela. Evocava-a com
toda a força de seu desejo e de suas lembranças. Em vez de diminuir pela
ausência, o desejo de revê-la aumentou, tanto que, em uma manhã de
sábado, ele escapou do escritório.
Quando, do alto da encosta, avistou no vale o campanário da igreja
com sua bandeira de estanho que girava ao vento, sentiu aquele deleite
misturado com a vaidade triunfante e a ternura egoísta que os milionários
devem ter quando voltam para visitar suas aldeias.
Foi perambular em torno da casa dela. Uma luz brilhava na cozinha.
Ele esperou ver sua sombra atrás das cortinas. Nada apareceu.
Madame Lefrançois, ao vê-lo, soltou grandes exclamações, e achou-o
“alto e magro”, enquanto Artémise, ao contrário, achou-o “fortalecido e
bronzeado”.
Jantou no pequeno salão, como antes, mas sozinho, sem o coletor de
impostos; pois Binet, cansado de esperar pela Andorinha, adiantara
definitivamente sua refeição em uma hora, e passara a jantar às cinco em
ponto, embora ainda afirmasse, na maioria das vezes, que a velha
geringonça estava atrasada.
Léon decidiu-se; foi bater na porta do médico. A senhora estava no
quarto, de onde só desceu quinze minutos depois. O senhor parecia
encantado em revê-lo; mas não se mexeu durante toda a noite, nem durante
todo o dia seguinte.
Encontrou-a sozinha, à noite, muito tarde, atrás do jardim, no beco
— no beco, como com o outro! Caía uma tempestade, e eles conversavam
sob um guarda-chuva à luz dos relâmpagos.
A separação tornava-se intolerável.
— Prefiro morrer! — dizia Emma.
Contorcia-se em seus braços, chorando.
— Adeus! Adeus! Quando voltarei a vê-lo?
Voltaram atrás em seus passos para se beijarem novamente; e foi lá
que ela lhe fez a promessa de encontrar logo, por qualquer meio, uma
oportunidade permanente de ver-se em liberdade, ao menos uma vez por
semana. Emma não tinha dúvidas. Estava, aliás, cheia de esperança. Logo
lhe chegaria dinheiro.
Assim, comprou para o quarto um par de cortinas amarelas com
listras largas, cujo preço baixo Monsieur Lheureux havia exaltado; sonhou
com um tapete, e Lheureux, afirmando que “não era nada de outro mundo”,
prometeu gentilmente que lhe forneceria um. Ela não podia mais passar sem
seus serviços. Vinte vezes por dia mandava chamá-lo, e em um instante ele
deixava seus afazeres, sem se permitir um murmúrio. Tampouco conseguiam
entender muito bem por que Madame Rolet almoçava na casa dela todos os
dias, e até lhe fazia visitas particulares.
Foi por essa época, ou seja, no início do inverno, que ela pareceu
tomada por um grande ardor musical.
Em uma noite em que Charles a ouvia, ela recomeçou quatro vezes
seguidas a mesma peça, sempre se descontentando, enquanto, sem notar
qualquer diferença, ele exclamava:
— Bravo! Muito bem! Não pare, não! Continue!
— Ah, não! Está execrável! Meus dedos estão enferrujados.
No dia seguinte, pediu a ela que lhe tocasse mais alguma coisa.
— Pois bem, para fazê-lo feliz!
E Charles confessou que ela havia perdido um pouco o jeito.
Confundia-se com as pautas, embaralhava-se; então, parando de súbito:
— Ah! Chega! Eu deveria fazer aulas, mas…
Ela mordeu os lábios e acrescentou:
— Vinte francos como pagamento é muito caro!
— Sim, de fato… um pouco… — disse Charles, rindo de um jeito
bobo. — No entanto, parece-me que talvez pudéssemos encontrar por
menos; pois há artistas sem reputação que muitas vezes valem mais que as
celebridades.
— Procure-os — disse Emma.
No dia seguinte, ao voltar para casa, ele fitou-a com um olhar
astucioso, e não conseguiu enfim conter esta frase:
— Como é teimosa às vezes! Estive em Barfeuchères hoje. Pois bem,
Madame Liégeard me assegurou que suas três filhas, que estão no
pensionato La Miséricorde, tinham aulas mediante cinquenta soldos por
sessão, e com uma professora famosa ainda por cima!
Ela deu de ombros e não abriu mais seu instrumento.
Contudo, quando passava perto (se Bovary estivesse por lá),
suspirava:
— Ah! Meu pobre piano!
Quando recebia visitas, ela não deixava de informar que havia
abandonado a música e que não poderia retomá-la, por motivos de força
maior. Então, apiedavam-se dela. Que lástima! Logo ela, que tinha talento
tão grande! Falaram até com Bovary. Faziam-no sentir vergonha, sobretudo
o farmacêutico:
— O senhor está agindo errado! Nunca se deve deixar as faculdades
da natureza sem cultivo. Além do mais, pense, meu bom amigo, que ao
colocar sua senhora para estudar, economizará mais tarde com a educação
musical de sua filha! Pessoalmente, acho que as mães devem ensinar os
próprios filhos. É uma ideia de Rousseau, talvez um pouco nova ainda, mas
que acabará triunfando, tenho certeza, como o aleitamento materno e a
vacinação.
Charles então voltou mais uma vez à questão do piano. Emma
respondeu em um tom ácido que era melhor vendê-lo. Aquele pobre piano,
que lhe dera tantas vaidosas satisfações, vê-lo ir embora era para Bovary
como o inexprimível suicídio de uma parte da esposa!
— Se você quisesse… — dizia ele — vez ou outra, uma aula, não
seria, no fim das contas, extremamente ruinoso.
— Mas as aulas — respondia ela — só são proveitosas quando
frequentes.
Eis como agiu para obter do marido a permissão para ir à cidade,
uma vez por semana, para ver o amante. Considerou-se até, no final de um
mês, que havia feito progressos consideráveis.
V
Era quinta-feira. Levantava-se e vestia-se silenciosamente para não acordar
Charles, que teria feito comentários sobre o fato de ela se arrumar cedo
demais. Em seguida, andava para lá e para cá; punha-se diante das janelas,
olhava para a praça. A alvorada movia-se entre os pilares do mercado, e a
casa do farmacêutico, cujas venezianas estavam fechadas, permitia ver na
cor pálida da aurora as letras maiúsculas do letreiro.
Quando o relógio marcava sete e quinze, ela partia para o Lion d’Or,
onde Artémise, bocejando, vinha abrir-lhe a porta. Esta remexia para a
senhora as brasas enterradas sob as cinzas. Emma ficava sozinha na cozinha.
De vez em quando, saía. Hivert atrelava os cavalos sem pressa e, ouvindo,
além disso, Madame Lefrançois, que, passando por um postigo a cabeça
coberta por um gorro de algodão, encarregava-o das compras e dava-lhe
explicações que perturbariam qualquer outro homem. Emma batia as solas
das botinas contra os ladrilhos do pátio.
Por fim, depois de ter tomado sua sopa, vestido o capote, acendido o
cachimbo e empunhado o chicote, ele instalava-se silenciosamente em seu
assento.
A Andorinha partia a trote, e, ao longo de quatro quilômetros, parava
aqui e ali para apanhar os viajantes que a aguardavam de pé à beira da
estrada, em frente aos portões dos pátios. Aqueles que tinham avisado no dia
anterior faziam-se esperar; alguns ainda estavam na cama em casa; Hivert
chamava, gritava, praguejava, e então descia da boleia e ia bater com força
nas portas. O vento soprava pelas claraboias rachadas.
Enquanto isso, os quatro bancos se preenchiam, a carruagem rolava,
as macieiras em filas sucediam-se; e a estrada, entre suas duas longas valas
cheias de água amarela, estreitava-se continuamente em direção ao
horizonte.
Emma a conhecia de ponta a ponta; sabia que depois de uma
pastagem havia um poste, em seguida um olmo, um celeiro ou uma cabana
de um trabalhador da estrada; às vezes até, para surpreender-se, fechava os
olhos. No entanto, nunca perdia a noção clara da distância a ser percorrida.
Enfim, as casas de tijolos se aproximavam, a terra ecoava sob as
rodas, a Andorinha deslizava entre jardins onde se viam, através de um
cercado, estátuas, um vignot115, teixos cortados e um balanço. Então, de uma
só vez, a cidade aparecia.
Descendo como um anfiteatro e afogada na neblina, ela se expandia
para além das pontes, confusa. O campo aberto então se reerguia em um
movimento monótono, até tocar ao longe a base indecisa do céu pálido.
Assim, vista do alto, a paisagem inteira tinha o aspecto imóvel de uma
pintura; os navios ancorados amontoavam-se em um canto; o rio
arredondava sua curva ao pé das colinas verdes, e as ilhas, em formato
oblongo, pareciam grandes peixes negros parados na superfície da água. As
chaminés das fábricas expeliam imensos penachos marrons que revoavam
pelas pontas. Ouvia-se o ressonar das fundições com o carrilhão claro das
igrejas que se erguiam na bruma. As árvores dos bulevares, sem folhas,
formavam um matagal roxo no meio das casas, e os telhados, reluzindo com
a chuva, refletiam desigualmente, conforme a altura dos bairros. Às vezes,
uma rajada de vento carregava as nuvens em direção à encosta de Sainte-
Catherine, como ondulações aéreas quebrando em silêncio contra uma
falésia.
Algo de vertiginoso emanava para ela daquelas existências
aglomeradas, e seu coração insuflava-se em abundância, como se as cento e
vinte mil almas que ali pulsavam a tivessem enviado, de uma só vez, o vapor
das paixões que ela lhes atribuía. Seu amor aumentava frente ao espaço e
enchia-se de tumulto com os vagos zumbidos crescentes. Derramava-o para
o exterior, pelas praças, calçadas, e ruas, e a velha cidade normanda
estendia-se diante de seus olhos como uma capital desmedida, como uma
Babilônia na qual entrava. Ela se inclinava para fora com as duas mãos sobre
a portinhola, inspirando a brisa; os três cavalos galopavam, as pedras
estalavam na lama, a diligência balançava, e Hivert, de longe, saudava as
carroças na estrada, enquanto os burgueses que haviam pernoitado no
bosque Guillaume desciam calmamente a encosta, em seus pequenos
veículos de família.
Parava-se na barreira; Emma desafivelava os tamancos, calçava
outras luvas, endireitava o xale e, vinte passos adiante, descia da Andorinha.
A cidade então acordava. Trabalhadores, de boinas gregas,
esfregavam as fachadas das lojas, e mulheres que carregavam cestas nos
quadris soltavam a intervalos um grito sonoro, nas esquinas das ruas. Ela
andava com os olhos no chão, rente aos muros, sorrindo de prazer sob o véu
negro abaixado.
Por medo de ser vista, ela não costumava seguir o caminho mais
curto. Deixava-se tragar pelos becos escuros, e chegava toda suada ao final
da rua Nationale, perto da fonte que lá está. Aquele era o bairro do teatro,
dos bares e das raparigas. Muitas vezes carroças passavam perto dela,
carregando alguma decoração trêmula. Rapazes de avental jogavam areia nas
lajes, entre arbustos verdes. Sentia-se o cheiro de absinto, de charutos e de
ostras.
Ela virava em uma rua; reconhecia-o pelo cabelo ondulado que
escapava do chapéu.
Léon, na calçada, continuava andando. Ela o seguia até o hotel; ele
subia, abria a porta, entrava… Que abraço!
Então as palavras, depois dos beijos, se precipitavam. Contavam-se
as tristezas da semana, os pressentimentos, as ansiedades pelas cartas; mas
naquele momento tudo se esquecia, e olhavam-se frente a frente, com risos
de volúpia e expressões de ternura.
A cama era grande, feita de mogno, e tinha forma de barco. As
cortinas vermelhas de levantina116, que desciam do teto, abaulavam-se muito
para baixo em direção à ampla mesa de cabeceira; e nada no mundo era tão
bonito quanto sua cabeça morena e sua pele branca destacando-se sobre
aquela cor púrpura, quando, por um gesto de pudor, ela fechava os dois
braços nus, escondendo o rosto nas mãos.
O apartamento tépido, com seu tapete discreto, seus ornamentos
jocosos e sua luz tranquila, parecia muito apropriado para as intimidades da
paixão. Os varões com acabamentos em flecha, os ganchos de cobre e as
grandes bolas dos suportes de lenha reluziam de repente, se o sol entrasse.
Havia sobre a lareira, entre os candelabros, duas daquelas grandes conchas
cor-de-rosa das quais, levadas ao ouvido, se ouvia o barulho do mar.
Como amavam aquele belo quarto cheio de alegria, apesar de seu
esplendor um tanto desbotado! Encontravam sempre os móveis no lugar, e às
vezes grampos de cabelo que ela havia esquecido, na outra quinta-feira, sob
a base do relógio. Almoçavam ao pé da lareira, em uma mesinha de pedestal
incrustada de palissandra. Emma cortava, e colocava-lhe os pedaços no prato
dirigindo-lhe todo tipo de gracejos insinuantes; e ria com um riso sonoro e
libertino quando a espuma do champanhe transbordava do copo leve sobre
os anéis de seus dedos. Estavam tão completamente perdidos na fruição de si
mesmos que acreditavam estar na própria casa, onde deveriam viver até a
morte, como dois eternos recém-casados. Diziam nosso quarto, nosso tapete,
nossas poltronas, ela até dizia meus chinelos, um presente de Léon, uma
fantasia que ela tivera. Eram chinelos de cetim rosa, bordados com cisnes.
Quando ela se sentava no colo dele, sua perna, muito curta, ficava suspensa
no ar; e o gracioso sapato, que não tinha a parte do calcanhar, sustentava-se
apenas pelos dedos do pé descalço.
Ele saboreava pela primeira vez a delicadeza inexprimível da
elegância feminina. Nunca havia encontrado aquela graça de linguagem,
aquela reserva ao vestir-se, aquelas poses de pombinha adormecida.
Admirava a exaltação de sua alma e as rendas de sua saia. Além disso, não
era uma mulher do mundo, e ao mesmo tempo uma mulher casada? Uma
verdadeira amante, enfim?
Pela diversidade de seu humor, ora místico, ora alegre, falante,
taciturno, arrebatado, langoroso, ela continuava despertando nele mil
desejos, evocando instintos ou reminiscências. Era a apaixonada de todos os
romances, a heroína de todos os dramas, o vago ela de todos os volumes de
versos. Encontrava-se em seus ombros a cor âmbar da odalisca ao banho;117
ela tinha o corpete longo das castelãs feudais; parecia também a mulher
pálida de Barcelona,118 mas era acima de tudo um anjo! Muitas vezes, ao
observá-la, parecia-lhe que sua alma, escapando na direção de Emma,
espalhava-se como uma onda sobre o contorno da cabeça dela, e descia
arrastando-se na brancura do peito.
Ele se punha no chão, diante dela; e, com os cotovelos sobre os
joelhos, contemplava-a com um sorriso, e a fronte retesada.
Ela se inclinava para ele e sussurrava, como que sufocada de
inebriamento:
— Ah! Não se mova! Não fale! Olhe para mim! Sai de teus olhos
algo tão doce, que me faz tão bem!
Ela o chamava de menino:
— Menino, você me ama?
Ela mal ouvia a resposta, na pressa dos lábios dele que lhe subiram à
boca.
Havia no pêndulo do relógio um pequeno cupido de bronze, em uma
pose risonha, arredondando os braços sob uma guirlanda dourada. Acharam
graça muitas vezes; mas, quando era preciso partir, tudo lhes parecia sério.
Imóveis, um frente ao outro, repetiam:
— Até quinta-feira! Até quinta-feira!
De repente, ela segurava a cabeça dele com as duas mãos, beijava-o
depressa na testa, exclamando “Adeus!”, e lançava-se às escadas.
Ela ia à rua Comédie, ao cabeleireiro, para ajeitar o penteado. Caía a
noite. Acendiam o gás na loja.
Ela escutava o sinal do teatro, convocando os atores ao palco; e via,
diante dali, passarem homens de rosto pintado de branco e mulheres de
figurino desbotado, que entravam pela porta dos bastidores.
Fazia calor naquele pequeno cômodo muito baixo, onde o fogão
zumbia em meio às perucas e pomadas. O cheiro dos ferros, com aquelas
mãos gordurosas que lhe remexiam a cabeça, não tardava a atordoá-la, e ela
adormecia um pouco sob o penteador. Muitas vezes, enquanto a penteava, o
cabeleireiro lhe oferecia ingressos para o baile de máscaras.
Depois ela partia! Subia novamente as ruas; chegava à Croix Rouge;
recuperava seus tamancos, que havia escondido de manhã debaixo de um
banco, e apertava-se em seu lugar entre os passageiros impacientes. Alguns
desciam ao pé da encosta. Ela ficava sozinha na diligência.
A cada curva, via-se cada vez mais a iluminação da cidade, que
formava um largo vapor luminoso sobre as casas misturadas. Emma
ajoelhava-se nas almofadas, e errava o olhar sobre aquele deslumbramento.
Ela soluçava, chamava Léon, e lhe enviava palavras ternas e beijos que se
perdiam ao vento.
Havia na encosta um pobre diabo vagando com sua bengala, bem no
meio das diligências. Uma pilha de trapos cobria seus ombros, e um velho
chapéu castor esfarrapado, curvado feito uma tigela, escondia seu rosto; mas,
quando o tirava, desvelava, no lugar das pálpebras, duas órbitas arregaladas
e ensanguentadas. A carne desfiava-se em fiapos vermelhos; e dela refluíam
líquidos que congelavam em crostas verdes até o nariz, cujas narinas negras
fungavam convulsivamente. Para falar, ele reclinava a cabeça com uma
risada idiota; então suas pupilas azuladas, rolando em um movimento
contínuo, iam esbarrar, em direção às têmporas, na borda da ferida aberta.
Cantava uma pequena melodia enquanto seguia as charretes:
Quando em vez um dia de calor
Faz a mocinha sonhar com o amor.
E todo o resto falava dos pássaros, do sol e da folhagem.
Às vezes, ele aparecia de repente atrás de Emma, de cabeça
descoberta. Ela se afastava com um grito. Hivert vinha para zombá-lo.
Incentivava-o a montar uma barraca na feira de Saint-Romain, ou bem lhe
perguntava, rindo, como andava sua namorada.
Com frequência, quando estavam em movimento, o chapéu do
homem entrava bruscamente na diligência pela portinhola, enquanto ele se
agarrava, com o outro braço, ao estribo, entre os respingos das rodas. A voz
dele, a princípio fraca e chorosa, tornava-se aguda, e arrastava-se pela noite,
como o lamento indistinto de uma vaga angústia; através do toque dos
guizos, do murmúrio das árvores e dos roncos da caixa oca, havia nela algo
longínquo que perturbava Emma. Descia ao fundo de sua alma como um
turbilhão em um abismo, e a levava entre espaços de melancolia sem limites.
Hivert, percebendo um contrapeso, esticava-se em direção ao cego com
grandes golpes de seu chicote. As tiras açoitavam seus ferimentos e ele caía
na lama, urrando.
Então os passageiros da Andorinha acabavam adormecendo, alguns
com a boca aberta, outros com o queixo abaixado, apoiados no ombro do
vizinho, ou então com o braço na correia, oscilando regularmente com o
bamboleio do veículo; e o reflexo da lanterna que balançava lá fora, nas
garupas dos cavalos entre os varões, penetrando no interior pelas cortinas de
chita cor de chocolate, lançava sombras sangrentas sobre todos aqueles
indivíduos imóveis. Emma, aturdida de tristeza, tiritava sob as roupas; e
sentia os pés cada vez mais frios, com a morte na alma.
Charles, em casa, aguardava-a; a Andorinha estava sempre atrasada
às quintas-feiras. A senhora enfim chegava! Mal beijava a pequena. O jantar
não estava pronto, não importa! Ela desculpava a cozinheira. Tudo parecia
permitido àquela garota.
Muitas vezes o marido, percebendo sua palidez, perguntava-lhe se
não estava doente.
— Não — dizia Emma.
— Mas — respondia ele — você está tão estranha esta noite.
— Ah! Não é nada! Não é nada!
Havia até dias em que, assim que chegava, subia para o quarto; e
Justin, que estava por lá, circulava a passos mudos, mais engenhoso em
servi-la que uma excelente camareira. Posicionava os fósforos, o castiçal,
um livro, dispunha a camisola, abria os lençóis.
— Vamos — dizia ela —, está bom, saia!
Pois ele permanecia de pé, as mãos penduradas e os olhos abertos,
como que entrelaçado nos inúmeros fios de um devaneio súbito.
O dia seguinte era terrível, e os que se seguiam eram ainda mais
intoleráveis, pela impaciência de Emma em recuperar sua felicidade —
desejo mordaz, atiçado por imagens conhecidas, e que, no sétimo dia,
irrompia à vontade nas carícias de Léon. O ardor dele escondia-se sob
expansões de admiração e reconhecimento. Emma saboreava aquele amor de
maneira discreta e absorta, entretinha-o com todos os artifícios de sua
ternura, e temia um pouco que se perdesse mais tarde.
Frequentemente, dizia-lhe, com a suavidade de uma voz melancólica:
— Ah! Você vai me deixar! Vai se casar! Será como os outros.
Ele perguntava:
— Quais outros?
— Os homens, ora — respondia ela.
Depois acrescentava, afastando-o com um gesto lânguido:
— Vocês são todos infames!
Um dia em que falavam filosoficamente das desilusões terrenas,
chegou a dizer (para testar seu ciúme, ou talvez cedendo a uma necessidade
muito forte de desabafar) que uma vez, antes dele, havia amado alguém,
“não como você!”, replicou rapidamente, jurando pela cabeça da filha que
nada havia acontecido.
O jovem acreditou nela, e ainda assim a questionou para saber o que
o homem fazia.
— Era um capitão de navio, meu amigo.
Isso não era prevenir todas as investigações e, ao mesmo tempo,
colocar-se bem no alto, por esse suposto fascínio exercido sobre um homem
que devia ser de natureza belicosa e acostumado a honrarias?
O escrevente então sentiu quão ínfima era sua posição; invejou as
dragonas, as medalhas, os títulos. Tudo isso devia agradá-la: ele assim
suspeitava, por seus hábitos dispendiosos.
No entanto, Emma escondeu muitas de suas extravagâncias, como o
desejo de ter, para levá-la a Rouen, um tílburi azul, atrelado a um cavalo
inglês, e conduzido por um cavalariço com botas de cano em dobra. Fora
Justin quem lhe havia inspirado o capricho, implorando para que ela o
contratasse como criado de quarto; e, se essa privação não diminuía a cada
encontro o prazer da chegada, certamente aumentava a amargura do retorno.
Não raro, quando conversavam juntos sobre Paris, ela acabava murmurando:
— Ah! Como viveríamos bem lá!
— Não estamos felizes? — replicava o jovem gentilmente, passando-
lhe a mão no cabelo.
— Somos, é verdade — dizia ela. — Estou louca; beija-me!
Ela estava mais encantadora do que nunca com o marido, fazia-lhe
creme de pistache e tocava valsas depois do jantar. Ele se considerava,
portanto, o mais afortunado dos mortais, e Emma vivia sem inquietações, até
que uma noite, de repente:
— É Mademoiselle Lempereur, não é, quem lhe dá aulas?
— É.
— Bem, eu a vi mais cedo — retomou Charles —, na casa de
Madame Liégeard. Falei de você; ela não a conhece.
Foi como um raio. No entanto, ela respondeu com um ar natural:
— Ah! Sem dúvida terá esquecido meu nome.
— Mas talvez haja em Rouen — disse o médico — várias
Mademoiselles Lempereur que são professoras de piano.
— É possível!
Depois, com mais vigor, acrescentou:
— Eu tenho os recibos! Olhe.
Ela foi até a escrivaninha, vasculhou todas as gavetas, misturou os
papéis, e acabou perdendo a cabeça tão completamente que Charles insistiu
para que ela não se incomodasse tanto com esses miseráveis comprovantes.
— Ah! Vou encontrá-los — disse ela.
De fato, na sexta-feira seguinte, Charles, enquanto enfiava uma de
suas botas no gabinete escuro onde eram guardadas as suas roupas, sentiu
uma folha de papel entre o couro e a meia, pegou e leu:
“Recebido, por três meses de aulas, e materiais diversos, a soma de
sessenta e cinco francos. Félicie Lempereur, professora de música.”
— Por que diabos isso está nas minhas botas?
— Sem dúvida — respondeu ela —, caiu daquela velha caixa de
documentos que fica na beirada da prateleira.
A partir desse momento, sua existência não passou de uma
montagem de mentiras, onde ela envolvia seu amor como em véus, para
escondê-lo.
Era uma necessidade, uma mania, um prazer, ao ponto de, se ela
dissesse a alguém que havia passado, ontem, pelo lado direito de uma rua,
era preciso crer que havia tomado o lado esquerdo.
Uma manhã, quando ela tinha acabado de sair, como sempre, vestida
com roupas leves, começou a nevar de repente; e enquanto Charles
observava o tempo pela janela, avistou Monsieur Bournisien no cabriolé de
Monsieur Tuvache, que o levava para Rouen. Então ele desceu para confiar
ao eclesiástico um xale encorpado para entregar à senhora, assim que
chegasse à Croix Rouge. Mal chegara à estalagem, Bournisien perguntou
onde estava a esposa do médico de Yonville. A hoteleira respondeu que ela
pouco frequentava seu estabelecimento. Assim, naquela noite, ao reconhecer
Madame Bovary na Andorinha, o pároco contou-lhe de seu embaraço, sem
parecer, de resto, atribuir alguma importância; pois ele começou a elogiar
um pregador que naquela época fazia maravilhas na catedral, e a quem todas
as senhoras corriam para ouvir.
Não importava que ele não tenha pedido explicações, outros mais
tarde poderiam mostrar-se menos discretos. Assim, ela julgou útil descer a
cada vez na Croix Rouge, de modo que a boa gente de seu vilarejo que a
visse nas escadarias não suspeitasse de nada.
Um dia, porém, Monsieur Lheureux a encontrou saindo do hotel
Boulogne de braço dado com Léon; ela teve medo, imaginando que ele
abriria a boca. Ele não era tão estúpido.
Contudo, três dias depois, ele entrou no quarto dela, fechou a porta e
disse:
— Eu precisaria de dinheiro.
Ela declarou que não poderia lhe dar. Lheureux derramou-se em
queixas, e lembrou-a de toda a complacência que havia demonstrado.
De fato, das duas promissórias assinadas por Charles, Emma só
pagara uma. Quanto à segunda, o comerciante, a seu pedido, consentira em
substituí-la por outras duas, que foram até mesmo renovadas para um
longuíssimo prazo. Depois, ele tirou do bolso uma lista de suprimentos não
saldados, a saber: as cortinas, o tapete, o tecido para as poltronas, vários
vestidos e diversos artigos de toalete, cujo valor chegava a cerca de dois mil
francos.
Ela abaixou a cabeça; ele continuou:
— Mas, se a senhora não tem espécie, tem em bens.
Referiu-se a um casebre miserável em Barneville, perto de Aumale,
que não rendia grande coisa. Dependia outrora de uma pequena fazenda
vendida por Monsieur Bovary pai, pois Lheureux sabia de tudo, até o
número de hectares e o nome dos vizinhos.
— Eu, no seu lugar — dizia ele —, me livraria, e ainda teria o
excedente em dinheiro.
Ela argumentou a dificuldade de um comprador; ele deu esperança de
encontrar algum; mas ela perguntou como poderia fazer para vendê-lo.
— A senhora não tem a procuração? — respondeu ele.
A palavra veio a ela como uma lufada de ar fresco.
— Deixe-me a fatura — disse Emma.
— Oh! Não vale a pena! — replicou Lheureux.
Voltou na semana seguinte e gabou-se de ter, depois de muitos
esforços, descoberto um certo Langlois, que havia muito estava de olho na
propriedade, sem apresentar sua oferta.
— Não importa o preço! — exclamou ela.
Era preciso esperar, contudo, para avaliar o sujeito. Valia a pena uma
viagem e, como ela não podia fazê-la, ele se ofereceu para ir até o local
tratar com Langlois. Uma vez de volta, anunciou que o comprador oferecia
quatro mil francos.
Emma alegrou-se com aquela notícia.
— Francamente — acrescentou ele —, está bem pago.
Ela pôs as mãos em metade do valor imediatamente, e, quando estava
pronta para liquidar sua fatura, o comerciante lhe disse:
— Dói-me, juro, vê-la privar-se de uma só vez de uma quantia tão
substancial quanto essa.
Então, ela olhou para as notas bancárias; e, sonhando com o número
ilimitado de encontros que aqueles dois mil francos representavam,
balbuciou:
— Como assim? Como assim?
— Ah! — respondeu ele, rindo de um jeito bonachão — Coloca-se
tudo o que se quer nas faturas. Acaso não sei como são as famílias?
Ele a olhava fixamente, enquanto segurava dois longos papéis que
deslizava entre as unhas. Por fim, abrindo sua pasta, estendeu sobre a mesa
quatro notas promissórias, de mil francos cada.
— Assine-me isso — disse ele —, e guarde tudo.
Ela ralhou, escandalizada.
— Mas se lhe dou o excedente — respondeu descaradamente
Monsieur Lheureux —, isso não é prestar-lhe um serviço?
Pegando uma pena, escreveu no final do memorando: “Recebido de
Madame Bovary, quatro mil francos.”
— O que a preocupa, se em seis meses receberá o restante por seu
casebre, e se coloco o prazo da última promissória para depois desse
pagamento?
Emma atrapalhava-se um pouco nos cálculos, e seus ouvidos
zumbiam como se moedas de ouro, estripadas das bolsas, soassem ao seu
redor pelo chão. Por fim, Lheureux explicou que tinha um amigo, Vinçart,
banqueiro de Rouen, que descontaria as quatro notas, e depois ele mesmo
entregaria à senhora o excedente da dívida real.
Mas, em vez de dois mil francos, trouxe apenas mil e oitocentos, pois
o amigo Vinçart (como era justo) recolhera duzentos, para taxas de comissão
e de desconto.
Negligentemente, pediu um recibo.
— A senhora entende… no comércio… às vezes… E com a data, por
favor, a data.
Um horizonte de fantasias realizáveis abriu-se diante de Emma. Ela
teve a prudência de reservar mil coroas, com as quais foram pagas, no
vencimento, as três primeiras notas; mas a quarta, por acaso, chegou à casa
em uma quinta-feira, e Charles, aborrecido, esperou pacientemente a volta
da esposa para uma explicação.
Se ela não o havia informado da nota, foi para poupá-lo das questões
domésticas; sentou-se no seu colo, acariciou-o, arrulhou, fez uma longa
enumeração de todos os itens indispensáveis comprados a crédito.
— Por fim, você concordará que, dada a quantidade, não é muito
caro.
Charles, sem saber mais o que fazer, logo recorreu ao eterno
Lheureux, que jurou acalmar as coisas se o doutor lhe assinasse duas notas,
uma de setecentos francos, pagáveis dali a três meses. Para buscar
condições, ele escreveu uma carta patética para a mãe. Em vez de enviar a
resposta, ela mesma veio; e, quando Emma quis saber se ele havia
conseguido alguma coisa, ele respondeu:
— Sim. Mas ela exige ver a fatura.
No dia seguinte, ao raiar do dia, Emma correu a Monsieur Lheureux
para implorar-lhe que fizesse outra nota, que não passasse de mil francos;
pois, para mostrar a de quatro mil, seria preciso dizer que ela havia pago dois
terços, e confessar, consequentemente, a venda do imóvel, uma negociação
bem conduzida pelo comerciante, e que só veio a ser conhecida mais tarde.
Apesar dos preços muitos baixos de cada artigo, Madame Bovary
mãe não deixou de achar o gasto exagerado.
— Não poderíamos passar sem um tapete? Por que renovar o tecido
das poltronas? No meu tempo, havia apenas uma poltrona em casa, para os
idosos… pelo menos era assim na casa da minha mãe, que era uma mulher
honesta, garanto. Nem todo mundo pode ser rico! Nenhuma fortuna resiste
ao esbanjamento! Eu teria vergonha de me mimar assim! E eu, no entanto,
sou velha, preciso de cuidados… Aí estão! Aí estão, caprichos! Pavonadas!
Como? Seda para forro, a dois francos! Enquanto se encontra percal a dez
soldos, e mesmo a oito soldos, que cumpre perfeitamente o papel.
Emma, recostada no canapé, respondia com a maior calma possível:
— Ei! Já chega, Madame! Já chega!
A outra continuava o sermão, prevendo que acabariam no hospital.
Além disso, era culpa de Bovary. Felizmente, ele havia prometido destruir
aquela procuração…
— Como?
— Ah! Ele me jurou — replicou a boa senhora.
Emma abriu a janela, chamou Charles, e o pobre rapaz foi forçado a
confessar as palavras arrancadas por sua mãe.
Emma desapareceu, depois voltou depressa, entregando-lhe
majestosamente uma grande folha de papel.
— Agradecida — disse a velha.
E jogou a procuração no fogo.
Emma soltou uma gargalhada estridente, sonora, contínua: ela teve
um ataque de nervos.
— Ah! Meu Deus! — gritou Charles. — Ora! Você também está
errada! Vem para criar caso com ela!
Sua mãe, encolhendo os ombros, alegava que tudo aquilo era cena.
Mas Charles, rebelando-se pela primeira vez, defendeu a esposa, de
modo que Madame Bovary mãe quis ir embora. Ela partiu no dia seguinte, e
na soleira, como ele tentava segurá-la, ela argumentou:
— Não, não! Você a ama mais do que a mim, e está certo. De resto,
que pena! Você verá! Passar bem! Porque tão cedo, como você diz, não virei
para lhe criar caso.
Charles não estava menos pesaroso diante de Emma, que não
escondia o rancor que lhe guardava por ter-lhe faltado com a confiança;
foram necessárias muitas súplicas antes que ela consentisse em retomar sua
procuração, e ele até a acompanhou a Monsieur Guillaumin, para fazê-lo
redigir uma segunda, igualzinha.
— Eu compreendo — disse o notário —; um homem de ciência não
pode se preocupar com os detalhes práticos da vida.
Charles sentiu-se aliviado por aquela reflexão bajuladora, que dava à
sua fraqueza as aparências lisonjeiras de uma preocupação superior.
Quantas extravagâncias, na quinta-feira seguinte, no hotel, em seu
quarto, com Léon! Ela riu, chorou, cantou, dançou, mandou trazer sorvetes,
quis fumar cigarros, pareceu-lhe excêntrica, mas adorável, deslumbrante.
Ele não sabia qual reação de todo o seu ser a empurrava com mais
força para os prazeres da vida. Tornava-se irritadiça, gulosa e voluptuosa; e
passeava com ele pelas ruas, de cabeça erguida, sem medo, dizia, de se
comprometer. Às vezes, porém, Emma estremecia com a ideia repentina de
encontrar Rodolphe; pois parecia-lhe que, embora estivessem separados para
sempre, não estava completamente liberta de sua dependência.
Certa noite, ela não voltou para Yonville. Charles estava a ponto de
perder a cabeça, e a pequena Berthe, não querendo ir para a cama sem a mãe,
soluçava com toda força. Justin saíra aleatoriamente pela estrada. Monsieur
Homais deixara a farmácia.
Finalmente, às onze horas, não aguentando mais, Charles atrelou o
cabriolé, saltou para dentro dele, chicoteou o animal e chegou por volta das
duas da manhã à Croix Rouge. Ninguém. Pensou que talvez o escrevente
pudesse tê-la visto; mas onde ele morava? Charles, felizmente, lembrou-se
do endereço de seu patrão. Correu para lá.
O dia começava a surgir. Ele reconheceu os letreiros acima de uma
porta; bateu. Alguém, sem abrir, gritou as informações solicitadas, enquanto
acrescentava um tanto de insultos contra aqueles que perturbavam as pessoas
durante a noite.
A casa em que o escrevente morava não tinha campainha, nem
aldrava, nem porteiro. Charles esmurrou com força contra os toldos. Um
policial vinha passando; ele então teve medo e foi-se embora.
“Estou maluco”, dizia a si mesmo. “Sem dúvida, convidaram-na a
ficar para o jantar na casa de Monsieur Lormeaux.”
A família Lormeaux não morava mais em Rouen.
“Terá ficado para cuidar de Madame Dubreuil. Opa! Madame
Dubreuil está morta há dez meses! Onde ela está, então?”
Uma ideia lhe ocorreu. Pediu, em um café, pelo diretório; e
rapidamente procurou o nome da Mademoiselle Lempereur, que morava na
rua Renelle-des-Maroquiniers, 74.
Quando entrou naquela rua, a própria Emma apareceu na outra ponta;
mais do que abraçá-la, jogou-se sobre ela, exclamando:
— Quem reteve você ontem?
— Eu estava doente.
— E de quê? Onde? Como?
Ela passou a mão pela testa e respondeu:
— Na casa de Mademoiselle Lempereur.
— Eu tinha certeza! Estava indo para lá.
— Ah! Não há necessidade — disse Emma. — Ela acabou de sair;
mas, no futuro, fique tranquilo. Não me sinto livre, você entende, se sei que
o menor atraso o perturba dessa forma.
Era uma espécie de permissão que ela se dava para não se incomodar
em suas escapulidas. Então, aproveitou a seu bel-prazer, amplamente.
Quando o desejo de ver Léon a tomava, ela partia sob qualquer pretexto e,
como ele não a esperava naquele dia, ia procurá-lo no escritório.
Foi uma grande alegria nas primeiras vezes; mas logo ele não
escondeu mais a verdade, a saber: que seu chefe reclamava muito daqueles
inconvenientes.
— Ah! Ora essa — dizia ela.
Ele se esquivava.
Ela quis que ele se vestisse todo de preto e que deixasse crescer uma
barba pontuda no queixo, para se parecer com os retratos de Luís XIII.
Desejou conhecer sua moradia, achou-a medíocre; ele corou, ela não deu
atenção, então o aconselhou a comprar cortinas semelhantes às suas.
— Ah! Ah! Você se apega às suas moedinhas! — disse ela rindo,
como ele se opôs à despesa.
Era preciso que Léon, a cada vez, narrasse a ela toda a sua conduta,
desde o último encontro. Ela pediu versos, versos para si, uma peça de amor
em sua homenagem; ele nunca conseguiu encontrar a rima do segundo verso,
e acabou por copiar um soneto de um keepsake.
Foi menos por vaidade do que com o propósito único de agradá-la.
Ele não discutia suas ideias; aceitava todos os seus gostos; tornava-se ele o
amante, mais do que ela era a sua. Ela possuía palavras ternas com beijos
que lhe arrebatavam a alma. Onde ela aprendera aquela corrupção, quase
imaterial, por ser profunda e dissimulada?
115 Regionalismo. Elevados de terra em desenho de espiral, com treliças para vinhas no topo, típicos dos jardins da
Normandia à época. O nome é uma analogia ao vignot, variedade de molusco gastrópode, também da região.
116 Tecido de seda muito leve, original de Levante, região histórica banhada pelo Mediterrâneo oriental, e que
inclui países como Turquia, Síria, Líbano, Egito e Israel.
117 Referência às imagens do orientalismo, presentes sobretudo nas pinturas de Jean-Auguste Dominique Ingres
(1780–1867).
118 Alusão ao poema “L’Andalouse”, de Alfred de Musset (1810–1857).
VI
Nas viagens que fazia para vê-la, Léon muitas vezes jantava na casa do
farmacêutico, e sentira-se obrigado, por educação, a convidá-lo por sua vez.
— Com prazer! — respondeu Monsieur Homais. — Além do mais,
devo me revigorar um pouco, pois estou incrustado aqui. Iremos ao
espetáculo, ao restaurante, faremos loucuras!
— Ah! Bom amigo! — murmurou com ternura Madame Homais,
amedrontada com os perigos vagos que ele se dispunha a correr.
— O que é? Você acha que não estrago minha saúde o suficiente
vivendo entre as emanações constantes da farmácia? Aí está, aliás, o caráter
das mulheres: elas têm ciúme da ciência, e se opõem a que tomemos as
distrações mais legítimas. Não importa, conte comigo; um dia desses, eu
baixo em Rouen e vamos juntos fazer saltar os mônacos119.
O boticário, em outros tempos, teria se resguardado de tal expressão,
mas passara a usá-la de um jeito brincalhão e parisiense que achava de muito
bom gosto; e, como Madame Bovary, sua vizinha, interrogava o escrevente
com curiosidade sobre os costumes da capital, ele falava até gírias a fim de
impressionar os burgueses, dizendo turne, bazar, chicard, chicandard,
Bredastreet, e je me la
casse para “estou indo embora”.120
Assim, em uma quinta-feira, Emma surpreendeu-se ao encontrar, na
cozinha do Lion d’Or, Monsieur Homais em traje de viagem, ou seja,
coberto com um velho casaco que nunca fora visto, enquanto carregava uma
mala em uma das mãos e, na outra, o aquecedor de pés de seu
estabelecimento. Ele não havia confiado seus planos a ninguém, por medo
de inquietar o público com sua ausência.
A ideia de revisitar os lugares onde havia passado a juventude sem
dúvida o exaltava, pois durante todo o caminho não parou de discursar;
então, assim que chegou, saltou depressa da diligência para ir em busca de
Léon. O escrevente lutou em vão para desvencilhar-se; Monsieur Homais o
arrastou para o grande café Normandie, onde entrou majestosamente sem
tirar o chapéu, considerando muito provinciano descobrir-se em lugar
público.
Emma esperou por Léon durante quarenta e cinco minutos. Por fim,
ela correu para o escritório dele e, perdida em todo tipo de conjecturas,
acusando-o de indiferença e recriminando-se por sua fraqueza, passou a
tarde com a testa encostada na vidraça.
Às duas horas, os dois senhores ainda estavam sentados um em frente
ao outro. O salão esvaziava-se; a tubulação do aquecimento, em forma de
palmeira, arredondava contra o teto branco seu feixe dourado; e perto deles,
atrás do vidro, em plena luz do sol, um pequeno jato d’água gorgolejava em
um tanque de mármore onde, entre agriões e aspargos, três lagostas
dormentes estendiam-se até as codornas, deitadas e empilhadas, sobre o
flanco.
Homais deleitava-se. Embora se inebriasse com o luxo ainda mais do
que com a boa comida, o vinho de Pommard, no entanto, excitava um pouco
suas faculdades, e, quando apareceu a omelete ao rum, expôs teorias imorais
sobre as mulheres. O que o seduzia acima de tudo era a elegância. Adorava
uma toalete chique em um apartamento bem mobiliado e, quanto às
qualidades corporais, não detestava um bom bocado.
Léon olhava para o relógio em desespero. O boticário bebia, comia,
falava.
— O senhor deve ter — disse ele de repente — certa privação aqui
em Rouen. No mais, seus amores não moram longe.
E, como o outro corava:
— Vamos, seja franco! Acaso negará que em Yonville…?
O jovem gaguejou.
— Na casa de Madame Bovary, o senhor não cortejava…?
— A quem, ora?
— A criada!
Ele não estava brincando; mas, a vaidade prevalecendo sobre toda a
prudência, Léon, sem querer, contestou. Além disso, só gostava de mulheres
morenas.
— Estou de acordo — disse o farmacêutico. — Elas têm mais
temperamento.
Pendurando-se ao ouvido do amigo, indicou os sintomas pelos quais
se reconhecia uma mulher de temperamento. Lançou-se até em uma
digressão etnográfica: a alemã era vaporosa, a francesa, libertina, a italiana,
passional.
— E as negras? — perguntou o escrevente.
— É um gosto de artista — disse Homais. — Garçom! Duas meias
taças!
— Vamos embora? — retomou Léon ao fim, impaciente.
— Yes.
Mas ele quis, antes de ir embora, ver o maître do estabelecimento e
dirigir-lhe algumas felicitações.
Então o jovem, para ficar sozinho, alegou que tinha compromissos.
— Ah! Posso escoltá-lo! — disse Homais.
Enquanto descia pelas ruas com ele, falava de sua esposa, de seus
filhos, de seu futuro e de sua farmácia, da decadência em que ela estivera
outrora, e do ponto de perfeição a que a elevara.
Chegando em frente ao hotel Boulogne, Léon o deixou
abruptamente, subiu as escadas e encontrou sua amante em grande agitação.
Ao nome do farmacêutico, ela enfureceu-se. No entanto, ele
acumulava boas razões; não era culpa dele, ela não conhecia Monsieur
Homais? Era capaz de acreditar que ele preferia a companhia daquele
homem? Mas ela se afastou; ele a conteve; e, caindo de joelhos, envolveu-a
pela cintura com os dois braços, em uma pose langorosa, cheia de
sensualidade e de súplica.
Ela estava de pé; seus grandes olhos ardorosos olhavam-no
seriamente e de um modo quase terrível. Então as lágrimas obscureceram-
nos, suas pálpebras rosadas baixaram-se, ela abandonou as mãos, e Léon as
levava à boca quando um criado apareceu, avisando o senhor que o estavam
procurando.
— Você vai voltar? — perguntou ela.
— Vou.
— Mas quando?
— Agora mesmo.
— Foi um truque — disse o farmacêutico ao ver Léon. — Eu quis
interromper essa visita que parecia contrariar você. Vamos ao Bridoux para
um copo de garus121.
Léon jurou que precisava retornar ao escritório. Então o boticário fez
brincadeiras sobre a papelada, os procedimentos jurídicos.
— Deixe um pouco Cujas e Bártolo122 para lá, diachos! Quem o
impede? Seja corajoso! Vamos ao Bridoux; quero que veja o cachorro dele.
É muito curioso!
E como o escrevente ainda insistia:
— Também vou, então. Lerei um jornal enquanto espero pelo senhor,
ou folhearei um Código.
Léon, desorientado pela ira de Emma, pela tagarelice de Monsieur
Homais e talvez pelo peso do almoço, permanecia indeciso e como que
fascinado pelo farmacêutico, que repetia:
— Vamos ao Bridoux! Fica a dois passos daqui, na rua Malpalu.
Então, por covardia, por estupidez, pelo sentimento indescritível que
nos leva às ações mais antipáticas, ele se deixou conduzir ao Bridoux; e eles
o encontraram em seu pequeno pátio, vigiando três garçons ofegantes que
giravam a grande roda de uma máquina de água com gás. Homais deu-lhes
conselhos; beijou Bridoux; pegou os garus. Vinte vezes Léon quis ir embora;
mas o outro o segurava pelo braço, dizendo:
— Daqui a pouco! Estou saindo. Iremos ao Fanal de Rouen para ver
aqueles senhores. Quero apresentá-lo a Thomassin.
Léon livrou-se dele, no entanto, e correu de uma vez para o hotel.
Emma não estava mais lá.
Ela havia acabado de partir, exasperada. Ela o odiava agora. A falta
de compromisso quanto ao encontro parecia-lhe um ultraje, e ela buscava
ainda outros motivos para afastar-se dele: ele era incapaz de heroísmo, fraco,
banal, mais mole que uma mulher, avarento, além do mais, e covarde.
Então, acalmando-se, ela acabou por concluir que, sem dúvida, o
havia caluniado. Porém, o menosprezo daqueles a quem ainda se ama nos
distancia um pouco deles. Não se deve tocar nos ídolos: o dourado fica nas
mãos.
Passaram a falar com mais frequência de coisas indiferentes ao seu
amor; e, nas cartas que Emma lhe mandava, havia temas de flores, de versos,
da lua e das estrelas, recursos ingênuos de uma paixão enfraquecida, que
tentava se reanimar com toda ajuda externa. Ela sempre prometia a si mesma
que na próxima viagem haveria uma felicidade profunda; depois admitia que
não sentia nada de extraordinário. Essa decepção apagava-se rapidamente
sob uma esperança nova, e Emma voltava para Léon mais ardorosa, mais
ávida. Despia-se brutalmente, arrancando o laço fino do espartilho, que
assoviava em torno de seu quadril como uma cobra deslizante. Ela ia, na
ponta dos pés descalços, conferir mais uma vez se a porta estava fechada,
depois fazia, em um único gesto, com que toda a roupa caísse de uma vez; e,
pálida, calada, séria, lançava-se contra o peito dele, com um longo tremor.
No entanto, havia naquela fronte coberta de suor frio, naqueles lábios
balbuciantes, naquelas pupilas desgarradas, no enlace daqueles braços, algo
de extremo, vago e lúgubre, que parecia a Léon deslizar entre eles,
sutilmente, como se os separasse.
Ele não ousava lhe fazer perguntas; mas, percebendo-a tão
experiente, devia ter passado, dizia a si mesmo, por todas as provações de
sofrimento e prazer. O que uma vez o encantara passava a assustá-lo pouco.
Além disso, revoltava-se contra a absorção, cada dia maior, de sua
personalidade. Ressentia-se de Emma por essa vitória permanente. Esforçou-
se para não amá-la; depois, ao som de suas botas, sentia-se covarde, como os
ébrios ao ver bebidas fortes.
Ela não deixava, é verdade, de dispensar-lhe todo tipo de atenção,
dos requintes à mesa aos coquetismos dos trajes e à languidez do olhar. Ela
trazia rosas de Yonville no peito, que lhe atirava no rosto, mostrava-se
preocupada com a saúde dele, dava-lhe conselhos sobre sua conduta; e, para
retê-lo por mais tempo, esperando que talvez o céu interferisse, pendurou em
seu pescoço uma medalhinha da Virgem. Inquiria, como uma mãe virtuosa,
sobre os companheiros dele. Dizia-lhe:
— Não os veja, não saia, pense apenas em nós; me ame!
Ela teria gostado de poder vigiar sua vida, e veio-lhe a ideia de segui-
lo pelas ruas. Havia sempre, perto do hotel, uma espécie de vagabundo que
abordava os viajantes e que não recusaria… Mas seu orgulho revoltou-se.
— Ah! Deixa pra lá! Que ele me engane, o que me importa? Eu lá
vou me ater a isso?
Um dia, quando haviam se despedido mais cedo, e ela voltava
sozinha pelo bulevar, avistou as paredes de seu convento; então sentou-se
em um banco, à sombra dos olmos. Que calma naqueles tempos! Como ela
invejava os inefáveis sentimentos de amor que tentara, a partir dos livros,
evocar!
Os primeiros meses de casamento, as cavalgadas na floresta, o
visconde que valsava, e o canto de Lagardy, tudo repassou diante de seus
olhos… E Léon pareceu-lhe de repente tão distante quanto os outros.
Contudo, eu o amo, dizia-se ela.
Não importa! Ela não estava feliz, nunca estivera. De onde vinha
aquela insuficiência da vida, aquele apodrecimento instantâneo das coisas
sobre as quais se apoiava? Porém, se em algum lugar havia um ser forte e
belo, de natureza valente, repleto ao mesmo tempo de exaltação e de
refinamentos, coração de poeta na forma de um anjo, uma lira com cordas de
bronze, soando em direção ao céu dos poemas líricos elegíacos, por que, por
acaso, ela não o encontraria? Oh! Que impossibilidade! Não valia a pena,
aliás, procurar nada; era tudo mentira! Cada sorriso escondia um bocejo de
tédio, cada alegria, uma maldição, cada prazer, seu desgosto, e os melhores
beijos deixavam nos seus lábios apenas um desejo irrealizável de volúpia
ainda maior.
Um rangido metálico arrastou-se no ar e quatro badaladas foram
ouvidas do sino do convento. Quatro horas! E parecia-lhe que estava ali,
naquele banco, desde a eternidade. Mas uma infinidade de paixões pode
caber em um minuto, como uma multidão em um pequeno espaço.
Emma vivia ocupada com as suas, e não se preocupava mais com
dinheiro do que uma arquiduquesa.
Uma vez, porém, um homem franzino, corado e calvo entrou em sua
casa, declarando-se enviado por Monsieur Vinçart, de Rouen. Ele removeu
os alfinetes que prendiam o bolso lateral da longa sobrecasaca verde,
espetou-os na manga e estendeu gentilmente um pedaço de papel.
Era uma nota de setecentos francos, assinada por ela, e que
Lheureux, apesar de todos os seus protestos, passara à ordem de Vinçart.
Ela mandou a criada buscá-lo. Ele não podia vir.
Então o desconhecido, que ficara de pé, lançando à direita e à
esquerda olhares curiosos que as espessas sobrancelhas louras dissimulavam,
perguntou com ar ingênuo:
— Que resposta devo levar a Monsieur Vinçart?
— Bem — respondeu Emma —, diga a ele… que não os tenho…
Que pagarei na semana que vem… Que ele espere… sim, na semana que
vem.
O homem foi embora sem emitir palavra.
Porém, no dia seguinte, ao meio-dia, ela recebeu um protesto; e ao
ver o papel timbrado, sobre o qual se estendia repetidas vezes, em letras
grandes, “Hareng, oficial de justiça de Buchy”, assustou-se tanto que correu
com toda pressa até o comerciante de tecidos.
Ela o encontrou na loja, amarrando um pacote.
— Seu criado! — disse ele. — À sua disposição.
Lheureux, no entanto, não deixou de prosseguir com seu trabalho,
auxiliado por uma jovem de cerca de treze anos, um pouco corcunda, que o
servia como balconista e também como cozinheira.
Depois, estalando os tamancos no assoalho da loja, subiu à frente de
Madame Bovary até o primeiro andar, e a conduziu a um quartinho estreito,
onde uma mesa robusta de pino sustentava alguns livros de registro,
protegidos transversalmente por uma barra de ferro com cadeado. Contra a
parede, sob alguns retalhos de chita, entrevia-se um cofre, de tal tamanho
que devia conter algo mais do que notas promissórias e dinheiro. Monsieur
Lheureux, de fato, concedia empréstimos mediante penhora, e era lá que
havia colocado a corrente de ouro de Madame Bovary, com os brincos do
pobre e velho Tellier, que, finalmente pressionado a vender, havia comprado
em Quincampoix uma pequena mercearia, onde morria de bronquite, no
meio das velas, que eram menos amareladas que seu rosto.
Lheureux sentou-se na larga poltrona de palha, dizendo:
— O que há de novo?
— Tome.
E mostrou-lhe o papel.
— Bem, o que posso fazer?
Ela então enfureceu-se, lembrando que ele dera a palavra de não
fazer circular suas promissórias; ele concordava.
— Mas eu mesmo fui forçado, estava com a faca no pescoço.
— E o que vai acontecer agora? — replicou ela.
— Ora! É muito simples: um julgamento do tribunal, e depois o
arresto… já era!
Emma segurou-se para não bater nele. Perguntou-lhe gentilmente se
não havia um meio de acalmar Monsieur Vinçart.
— Ah, sim! Acalmar Vinçart… A senhora não o conhece; é mais
feroz que um árabe.
Entretanto, era preciso que Monsieur Lheureux interviesse.
— Escute! Parece-me que até agora tenho sido muito bom para a
senhora.
E, abrindo um de seus livros de registros, continuou:
— Veja!
Então, subindo pela página com o dedo:
— Vejamos… vejamos… No dia 3 de agosto, duzentos francos… No
dia 17 de junho, cento e cinquenta… 23 de março, quarenta e seis… Em
abril…
Ele parou, como se temesse fazer alguma besteira.
— E não digo nada das notas assinadas pelo seu marido, uma de
setecentos francos, outra de trezentos! Quanto às suas pequenas prestações,
com os juros, nunca acabam, confunde-se. Eu não me envolvo mais!
Ela chorou, chamou-o até de “meu bom Monsieur Lheureux”. Mas
ele sempre recorria àquele “cão do Vinçart”. Além disso, ele não tinha um
centavo, ninguém o pagava, tiravam-lhe a pele, um pobre lojista como ele
não podia fazer adiantamentos.
Emma mantinha-se em silêncio; e Monsieur Lheureux, que
mordiscava a pena, sem dúvida inquietou-se com o silêncio, pois continuou:
— Ao menos, se um dia desses, eu tivesse alguma entrada… eu
poderia…
— De resto — disse ela —, assim que os atrasados de Barneville
pagarem…
— Como?
E, ao saber que Langlois ainda não havia pagado, ele pareceu muito
surpreso. Então, com uma voz melosa, disse:
— E nós combinaremos, diga a senhora…?
— Oh! O que o senhor quiser!
Então, fechou os olhos para refletir, anotou alguns números e,
declarando que teria muitos problemas, que a coisa estava escabrosa e que
lhe sugavam o sangue, ditou quatro notas de duzentos e cinquenta francos
cada uma, espaçadas entre si com um mês de prazo.
— Contanto que Vinçart queira me ouvir! De resto, está combinado,
não faço ninguém perder tempo, sou claro como água.
Em seguida, mostrou-lhe negligentemente várias mercadorias novas,
nenhuma das quais, em sua opinião, era digna daquela senhora.
— Quando eu digo que aqui está um vestido a sete contos o metro,
com certificado de cores duráveis! Eles engolem essa! Ninguém lhes conta o
que é de verdade, a senhora imagina — disse, querendo, com essa confissão
de patifaria para com os outros, convencê-la plenamente de sua honestidade.
Então ele chamou-a mais uma vez para mostrar três medidas de
renda de guipura, que ele havia encontrado recentemente em uma vendue123.
— É bonito! — dizia Lheureux. — Usa-se muito agora, nas
cabeceiras das poltronas, é a moda.
Mais rápido que um ilusionista, ele embrulhou a guipura em papel
azul e colocou-a nas mãos de Emma.
— Pelo menos, que eu saiba quanto…
— Ah! Mais tarde — respondeu ele, virando-se e dando-lhe as
costas.
À noite, ela pressionou Bovary para que escrevesse à mãe pedindo-
lhe que enviasse bem depressa todos os atrasados da herança. A sogra
respondeu que não tinha mais nada; a liquidação estava encerrada, e que
restava, além da casa de Barneville, seiscentas libras de renda, que ela lhes
pagaria rigorosamente.
Então Emma expediu faturas a dois ou três clientes, e logo fez uso
extensivo desse meio, com o qual obtinha sucesso. Tinha sempre o cuidado
de acrescentar como postscriptum: “Não fale com meu marido sobre isso, o
senhor sabe como é orgulhoso… Queira me desculpar… Às suas ordens…”.
Houve algumas reclamações; ela as interceptou.
Para ganhar dinheiro, começou a vender suas luvas velhas, seus
chapéus velhos, sucatas velhas; e ela negociava com avidez — seu sangue
camponês a impelia ao ganho. Então, nas viagens à cidade, comprava
bugigangas do mercado de pulgas, que certamente entregaria, se não
houvesse outros compradores, para Monsieur Lheureux. Comprou penas de
avestruz, porcelana chinesa e baús; pegava dinheiro emprestado de Félicité,
de Madame Lefrançois, da hoteleira da Croix Rouge, de todos, em qualquer
lugar. Com o dinheiro que enfim recebeu de Barneville, pagou duas notas; os
outros mil e quinhentos francos se foram. Comprometeu-se novamente, e
sempre assim!
Às vezes, é verdade, tentava fazer cálculos, mas descobria valores
tão exorbitantes que não conseguia acreditar. Então recomeçava, confundia-
se logo, deixava tudo para lá e não pensava mais no assunto.
A casa estava muito triste! Viam-se os fornecedores saindo com
semblantes furiosos. Havia lenços largados sobre os fogões; e a pequena
Berthe, para grande escândalo de Madame Homais, usava meias furadas. Se
Charles, timidamente, arriscava uma observação, ela respondia com
brutalidade que não era culpa dela!
Por que essas exaltações? Ele encontrava em sua antiga doença
nervosa a explicação para tudo; e, repreendendo-se por ter tomado as
enfermidades dela por falhas, acusava-se de egoísmo, tinha vontade de
correr para beijá-la.
— Oh, não! — dizia a si mesmo. — Eu a aborreceria!
E não se movia.
Depois do jantar, ele caminhava sozinho pelo jardim; colocava a
pequena Berthe no colo e, abrindo seu jornal de medicina, tentava ensiná-la
a ler. A criança, que nunca estudava, não demorava a arregalar os olhos
tristes e chorar. Então ele a consolava; trazia-lhe água no regador para fazer
riachinhos na areia, ou quebrava os galhos dos alfeneiros para plantar
arvorezinhas nos canteiros, o que pouco prejudicava o jardim, todo tomado
de capim alto; deviam tantos dias a Lestiboudois! Logo a criança sentia frio
e pedia pela mãe.
— Chame a ama — dizia Charles. — Você sabe muito bem, filhinha,
que sua mãe não quer ser incomodada.
O outono começava e as folhas já caiam — como dois anos antes,
quando ela estava doente! Quando tudo isso ia acabar? Ele continuava a
andar, com as mãos atrás das costas.
Emma estava no quarto. Não se subia até lá. Ela ficava ali o dia
inteiro, inerte, malvestida, e, de vez em quando, queimando pastilhas do
incenso que comprara em Rouen, na loja de um argelino. Para não passar a
noite junto desse homem estendido que dormia, ela acabou, à força de
caretas, relegando-o ao segundo andar; e lia até de manhã livros
extravagantes nos quais havia quadros orgiásticos com situações sangrentas.
Muitas vezes um terror a dominava, ela soltava um grito, e Charles acorria.
— Ah! Vá embora! — dizia ela.
Ou, outras vezes, ainda mais queimada por aquela chama íntima que
o adultério avivava, ofegante, comovida, cheia de desejo, ela abria a janela,
inalava o ar frio, espalhava ao vento os cabelos muito pesados e, olhando as
estrelas, desejava amores principescos. Ela pensava nele, em Léon. Teria
dado tudo por apenas um daqueles encontros, que a saciavam.
Eram seus dias de gala. Queria que fossem esplêndidos! Quando ele
não podia pagar a despesa sozinho, ela complementava o excedente com
abundância, o que acontecia quase todas as vezes. Ele tentou fazê-la
entender que também estariam bem em outro lugar, em algum hotel mais
modesto; mas ela fez objeções.
Um dia, ela tirou da bolsa seis colherinhas de prata dourada (era o
presente de casamento do velho Rouault), implorando-lhe que as levasse
imediatamente à casa de penhores; e Léon obedeceu, embora aquele
expediente o desagradasse. Tinha medo de comprometer-se.
Então, ao refletir, chegou à conclusão de que sua amante adotava
modos estranhos, e que talvez não estivessem errados em querer que ele se
desligasse.
De fato, alguém enviara à sua mãe uma longa carta anônima, para
avisá-la de que ele se perdia com uma mulher casada; e no mesmo instante a
boa senhora, vislumbrando o eterno espantalho das famílias, isto é, a vaga
criatura perniciosa, a sereia, o monstro, que habita fantasticamente as
profundezas do amor, escreveu ao dr. Dubocage, chefe dele, que foi perfeito
no assunto. Ele o segurou por quase uma hora, querendo abrir seus olhos, e
preveni-lo do abismo. Tal intriga mais tarde prejudicaria seu
estabelecimento. Implorou-lhe que rompesse e, se não fizesse o sacrifício em
seu próprio interesse, que o fizesse pelo menos por ele, Dubocage!
Léon enfim jurou nunca mais ver Emma; e repreendeu-se por não ter
mantido a palavra, considerando todos os incômodos e preleções que aquela
mulher ainda lhe podia causar, sem contar as brincadeiras dos seus
camaradas, que conversavam de manhã em torno da lareira. Além disso, ele
se tornaria o primeiro escrevente, e o momento exigia seriedade. Assim,
renunciou à flauta, aos sentimentos exaltados, à imaginação; pois todo
burguês, na efervescência da juventude, fosse apenas por um dia, um
minuto, acreditou-se capaz de imensas paixões, de grandes
empreendimentos. O libertino mais medíocre já sonhou com sultanas; cada
notário traz em si os escombros de um poeta.
Passou a irritar-se quando Emma, de repente, soluçava em seu peito;
e seu coração, como pessoas que suportam apenas certa quantidade de
música, adormecia indiferente ao estrondo de um amor cujas delicadezas já
não distinguia.
Conheciam-se demais para sentir os fascínios da posse que
centuplicam a alegria. Emma estava tão desgostosa de Léon quanto ele
estava cansado dela. Ela reencontrou no adultério todas as monotonias do
casamento.
Mas como conseguir libertar-se? Ainda, por mais que se sentisse
humilhada pela baixeza de tal felicidade, agarrava-se a ela por hábito ou por
corrupção; e, a cada dia, ela persistia com determinação, estancando toda a
felicidade por desejar que fosse grande. Culpava Léon por suas esperanças
frustradas, como se ele a tivesse traído; e até ansiava por uma catástrofe que
levasse à separação, já que não tinha coragem de decidir-se.
Não deixou de lhe escrever cartas amorosas, em virtude da ideia de
que uma mulher deve sempre escrever ao amante.
Contudo, ao escrever, percebia um outro homem, um fantasma feito
de suas lembranças mais ardentes, de suas leituras mais belas, de suas
paixões mais fortes; e ele se tornava afinal tão verdadeiro e acessível, que ela
se agitava de admiração, sem, no entanto, poder imaginá-lo de forma nítida,
de tanto que perdia-se, como um deus, sob a abundância de seus atributos.
Ele habitava o território azulado onde as escadas de seda balançam das
sacadas, sob o sopro das flores, à luz da lua. Ela o sentia próximo, ele viria e
a arrebataria em um beijo. Em seguida, ela caía estatelada, destruída; pois os
impulsos de amor vago a extenuavam mais do que grandes libertinagens.
Sentia uma fadiga incessante e universal. Muitas vezes, Emma
recebia intimações, papéis timbrados que nem mesmo olhava. Teria desejado
não mais viver, ou dormir continuamente.
Na noite da mi-carême124, ela não voltou a Yonville; foi ao baile de
máscaras. Vestiu calças de veludo e meias vermelhas, com uma peruca de
coque baixo e um chapéu tricorne sobre as orelhas. Ela pulou a noite toda ao
som furioso dos trombones; formaram um círculo ao seu redor; e ela viu-se
de manhã no peristilo do teatro entre cinco ou seis máscaras, estivadoras e
marinheiros, colegas de Léon, que falavam em jantar.
Os cafés dos arredores estavam cheios. Avistaram, no porto, um
restaurante dos mais medíocres, onde o maître lhes abriu, no quarto andar,
uma pequena sala.
Os homens cochichavam em um canto, sem dúvida consultando-se
sobre as despesas. Havia um escrevente, dois estudantes de medicina e um
vendedor: que sociedade para ela! Quanto às mulheres, Emma logo
percebeu, pelo timbre de suas vozes, que deviam ser, quase todas, de última
categoria. Ela então teve medo, recuou a cadeira e baixou os olhos.
Os outros começaram a comer. Ela não comeu; tinha a testa em
chamas, formigamento nas pálpebras e um frio de gelar a pele. Sentia na
cabeça o chão do baile, ainda quicando sob a pulsação rítmica dos mil pés
que dançavam. Então, o cheiro de ponche com a fumaça dos charutos
aturdiu-a. Ela desvaneceu; levaram-na à janela.
O dia começava a raiar, e uma grande mancha de cor púrpura se
expandia no céu pálido, do lado de Sainte-Catherine. O rio lívido estremecia
ao vento; não havia ninguém nas pontes; a iluminação das ruas apagava-se.
Ela reanimou-se, e logo pensou em Berthe, que dormia distante, no
quarto da ama. Uma charrete cheia de longas tiras de ferro passou, lançando
contra os muros das casas uma vibração metálica ensurdecedora.
Ela esquivou-se abruptamente, livrou-se da fantasia, disse a Léon que
precisava voltar e viu-se enfim sozinha no hotel Boulogne. Tudo e ela
mesma eram-lhe insuportáveis. Desejava, escapando como um pássaro,
rejuvenescer em algum lugar, bem longe, nos espaços imaculados.
Saiu, atravessou o bulevar, a praça Cauchoise e os subúrbios, até uma
rua aberta dominada por jardins. Andava ligeiro, o ar livre a acalmava, e
pouco a pouco os rostos da multidão, as máscaras, as quadrilhas, os lustres, a
ceia, aquelas mulheres, tudo desaparecia como névoas varridas. Então, de
volta à Croix Rouge, jogou-se na cama, no quartinho do segundo andar, onde
havia imagens da torre de Nesle. Às quatro da tarde, Hivert a acordou.
Ao chegar em casa, Félicité mostrou-lhe atrás do relógio um papel
cinza. Ela leu:
119 Antiga moeda de prata ou cobre, do principado de Mônaco. Na linguagem comum, refere-se a dinheiro, de um
modo geral.
120 Os termos listados eram gírias parisienses bastante recentes à época, significando “pocilga”; “desordem”;
“chique” e “muito chique”. Breda Street é uma referência a um reduto boêmio e zona de prostituição em Paris, e “je
me la casse” soa como o atual “partiu”.
121 Elixir digestivo, cuja fórmula foi desenvolvida por Joseph Garus (1648–1722), à base de álcool, canela, mirra,
noz moscada, cravo-da-índia e aloe vera.
122 Jacques Cujas (1522–1590), jurista francês, representante proeminente do Humanismo Jurídico e contestador
do Direito Romano, na concepção do jurista italiano Bártolo de Sassoferrato (1313–1357).
123 Termo usado na Normandia para vendas particulares e informais, em que famílias expõem e comercializam
itens que não desejam mais.
124 Quinta-feira da terceira semana da Quaresma, que era marcada por uma pausa momentânea nas abstinências
recomendadas para o período e pela permissão para a realização de festas populares.
VII
Ela foi estoica, no dia seguinte, quando Monsieur Hareng, o oficial de
justiça, apareceu na sua casa com duas testemunhas para lavrar o auto de
penhora.
Começaram pelo gabinete de Bovary e não incluíram a cabeça
frenológica, que foi considerada um instrumento de sua profissão; mas
contaram os pratos da cozinha, as panelas, as cadeiras, os castiçais, e, no
dormitório, todos os badulaques da prateleira. Examinaram os vestidos dela,
a roupa de cama, o toucador; e sua existência, mesmo nos recantos mais
íntimos, foi, como um cadáver em autópsia, exposta por inteiro aos olhares
dos três homens.
Monsieur Hareng, abotoado em um estreito casaco preto, de gravata
branca e com as alças das calças muito repuxadas sobre os pés, repetia de
quando em quando:
— Permite-nos, Madame? Permite-nos?
Muitas vezes fazia exclamações:
— Encantador! Muito bonito!
Depois tornava a escrever, mergulhando a pena no tinteiro de chifre
que segurava com a mão esquerda.
Quando terminaram os quartos, subiram para o sótão.
Ela mantinha ali uma escrivaninha onde estavam guardadas as cartas
de Rodolphe. Foi preciso abri-la.
— Ah! Correspondência! — disse Monsieur Hareng com um sorriso
discreto. — Mas permita-nos! Pois preciso certificar-me de que a caixa não
contém alguma outra coisa.
Inclinou ligeiramente os papéis, para ver se não cairiam moedas. Ela
foi então tomada pela indignação, ao ver aquela mão grosseira, com dedos
vermelhos e molengos como lesmas, pousar naquelas páginas onde seu
coração havia batido.
Enfim partiram! Félicité voltou. Fora ordenada a ficar à espreita para
distrair Bovary; e elas rapidamente instalaram no sótão o guarda da penhora,
que jurou não sair de lá.
Charles, durante a noite, pareceu-lhe preocupado. Emma o espiava
com um olhar cheio de angústia, acreditando perceber acusações nas rugas
de seu rosto. Então, quando seus olhos se voltavam para a lareira ornada
com biombos chineses, para as cortinas largas, para as poltronas, para todas
aquelas coisas que haviam amenizado a amargura de sua vida, um remorso
apoderava-se dela, ou melhor, um arrependimento imenso que irritava a
paixão, longe de aniquilá-la; Charles revolvia as brasas tranquilamente, com
os pés nos suportes de lenha.
Houve um momento em que o guarda, sem dúvida entediado em seu
esconderijo, fez um pouco de barulho.
— Há alguém andando lá em cima? — disse Charles.
— Não! — respondeu ela. — É uma claraboia aberta que o vento
está agitando.
Ela partiu para Rouen no dia seguinte, domingo, para visitar todos os
banqueiros cujos nomes conhecia. Estavam no campo ou em viagem. Ela
não desanimou; pedia dinheiro a todos que conseguiu encontrar, alegando
que estava precisando, que o devolveria. Alguns riram-lhe na cara; todos
recusaram.
Às duas horas, ela correu até a casa de Léon, bateu-lhe à porta. Não
abriram. Ele enfim apareceu.
— O que a traz até aqui?
— Estou incomodando?
— Não, mas…
Confessou que o proprietário não gostava que recebessem mulheres.
— Preciso falar com você — disse ela.
Então ele pegou a chave. Ela o reteve.
— Ah! Não aqui, na nossa casa.
Foram então para o quarto no hotel Boulogne.
Ela bebeu um copo cheio d’água ao chegar. Estava muito pálida.
Disse a ele:
— Léon, você me fará um favor.
Sacudindo-o pelas duas mãos, que apertava com força, acrescentou:
— Escute, preciso de oito mil francos!
— Mas você está louca?
— Ainda não!
Logo em seguida, contando a história da penhora, ela lhe expôs sua
angústia; pois Charles ignorava tudo, sua sogra a odiava, o velho Rouault
não podia fazer nada; mas ele, Léon, sairia correndo em busca daquele
montante indispensável…
— Como você quer que…?
— Como você é covarde! — protestou ela.
Ele então disse de modo tolo:
— Você está exagerando o mal. Talvez com mil escudos o bom
sujeito se acalme.
Mais uma razão para tentar algo; não era possível que não
descobrissem três mil francos. Além disso, Léon poderia comprometer-se
em seu lugar.
— Vá! Tente! É preciso! Corra! Ah! Tente, tente! Eu te amaria tanto!
Ele saiu, voltou depois de uma hora, e disse com uma expressão
solene:
— Estive com três pessoas… inutilmente!
Depois ficaram sentados um em frente ao outro, nos dois cantos da
lareira, imóveis, sem falar. Emma encolhia os ombros, batendo os pés no
chão. Ele a ouviu sussurrar:
— Se eu estivesse no seu lugar, encontraria!
— Onde então?
— No seu escritório!
Ela o encarou.
Uma audácia infernal escapava de suas pupilas ardentes, e as
pálpebras cerravam-se de um jeito lascivo e encorajador; tanto que o jovem
sentiu-se enfraquecer sob a vontade muda daquela mulher que lhe
aconselhava um crime. Ele então teve medo e, para evitar qualquer
explicação, bateu na testa, exclamando:
— Morel deve voltar hoje à noite! Ele não recusará, espero — (era
um de seus amigos, filho de um negociante muito rico) —, e amanhã o trarei
até você.
Emma não pareceu acolher aquela esperança com tanta alegria
quanto ele imaginara. Suspeitava da mentira? Ele recomeçou, corando:
— No entanto, se você não me vir às três horas, não me espere mais,
minha querida. Preciso ir, com licença. Adeus!
Ele apertou a mão dela, sentiu-a inerte. Emma não tinha mais a força
de qualquer sentimento.
Soaram quatro horas, e ela levantou-se para voltar a Yonville,
obedecendo como um autômato ao impulso dos hábitos.
Fazia bom tempo; era um daqueles dias claros e ásperos de março,
em que o sol reluz em um céu todo branco. Os habitantes de Rouen, em
trajes de domingo, passeavam com um ar feliz. Ela chegou à praça do adro.
Estavam saindo das vésperas; a multidão fluía pelos três portais, como um
rio pelos três arcos de uma ponte, e no meio, mais imóvel que uma rocha,
estava o bedel.
Então se lembrou daquele dia em que, ansiosa e cheia de esperanças,
ela entrara sob aquela grande nave que se estendia diante de si, menos
profunda que seu amor; e continuou a andar, chorando sob o véu, atordoada,
vacilante, prestes a desmaiar.
— Cuidado! — gritou uma voz que saía do portão de um pátio que se
abria.
Ela parou para deixar passar um cavalo preto, trotando em piaffe125
entre os varões de um tílburi conduzida por um cavalheiro em pele de
zibelina. Quem era? Ela o conhecia… A carruagem acelerou e desapareceu.
Mas era ele, o visconde! Ela virou-se: a rua estava deserta. Sentiu-se
tão assoberbada, tão triste, que se apoiou contra um muro para não cair.
Então pensou que estivesse enganada. De resto, não sabia. Tudo,
dentro de si e fora, abandonava-a. Sentia-se perdida, rolando a esmo por
abismos indefiníveis; e foi quase com alegria que percebeu, ao chegar à
Croix Rouge, o bom Homais que via colocarem na Andorinha uma grande
caixa cheia de provisões farmacêuticas. Ele segurava na mão, em um lenço,
seis cheminots para a esposa.
Madame Homais gostava muito desses pãezinhos pesados, em forma
de turbante, que se comem na Quaresma com manteiga e sal: última relíquia
das comidas góticas, que talvez remonte ao século das Cruzadas, com os
quais os robustos normandos empanturravam-se outrora, acreditando ver
sobre a mesa, à luz das tochas amarelas, entre os jarros de hipocraz e as
carnes gigantescas, cabeças de sarracenos para devorar. A esposa do
boticário mastigava-os como eles, heroicamente, apesar da péssima dentição;
assim, Monsieur Homais nunca deixava de comprá-los quando fazia uma
viagem à cidade, sempre com o famoso fabricante da rua Massacre.
— Prazer em vê-la! — disse ele, oferecendo a mão para ajudar
Emma a subir na Andorinha.
Depois guardou os cheminots nas tiras da rede, e permaneceu de
cabeça descoberta e com os braços cruzados, em uma atitude pensativa e
napoleônica.
Mas, quando o Cego, como sempre, apareceu na subida da encosta,
ele bradou:
— Não compreendo que a autoridade ainda tolere práticas tão
condenáveis! Deveriam encarcerar esses infelizes, que seriam forçados a
fazer algum trabalho! Honestamente, o progresso anda a passo de tartaruga!
Estamos atolando em plena barbárie!
O Cego estendia o chapéu, que balançava na beirada da porta, como
um bolso da tapeçaria despregado.
— Aí está — disse o farmacêutico — uma afeição escrofulosa!
E, embora conhecesse aquele pobre diabo, fingiu que o via pela
primeira vez, murmurou as palavras córnea, córnea opaca, esclerótica,
fácies, depois lhe perguntou em tom paternal:
— Faz muito tempo, meu amigo, que você tem essa terrível
enfermidade? Em vez de embebedar-se na taberna, seria melhor seguir uma
dieta.
Insistiu para que consumisse bom vinho, boa cerveja, bons assados.
O Cego continuava sua canção; ele parecia, na verdade, quase idiota. Por
fim, Monsieur Homais abriu a bolsa.
— Tome, aí está uma moeda, devolva-me dois centavos; e não se
esqueça das minhas recomendações, ficará bem.
Hivert permitiu-se manifestar em voz alta alguma dúvida sobre a
eficácia daquilo. Contudo, o boticário certificou que ele mesmo o curaria,
com uma pomada antiflogística de sua própria composição, e deu-lhe seu
endereço:
— Monsieur Homais, perto do mercado, bastante conhecido.
— Pois bem, como compensação — disse Hivert —, nos fará uma
cena.
O Cego caiu ajoelhado e, com a cabeça reclinada, revirando os olhos
esverdeados e com a língua para fora, esfregava a barriga com as mãos
enquanto emitia uma espécie de uivo surdo, como um cão faminto. Emma,
tomada de repulsa, jogou-lhe, por cima do ombro, uma moeda de cinco
francos. Era toda a sua fortuna. Parecia-lhe bonito atirá-la fora assim.
A diligência já havia retomado a viagem quando, de repente,
Monsieur Homais inclinou-se pela portinhola e gritou:
— Nada de farinha ou laticínios! Use lã sobre a pele e exponha as
partes doentes à defumação de bagas de zimbro!
O espetáculo de objetos que desfilavam diante de seus olhos pouco a
pouco distraiu Emma de sua dor presente. Uma intolerável fadiga a oprimia,
e chegou em casa desnorteada, desanimada, quase adormecida.
“Venha o que vier!”, pensou.
Além do mais, quem sabe? Quem sabe não surgiria, a qualquer
momento, um evento extraordinário. Lheureux poderia até morrer.
Às nove da manhã, ela foi acordada pelo som de vozes na praça.
Havia um tropel ao redor do mercado para ler um grande cartaz colado em
uma das pilastras, e viu Justin subir em um poste de amarração e rasgar o
cartaz. Naquele momento, o guarda campestre pôs-lhe a mão no colarinho.
Monsieur Homais saiu da farmácia, e Madame Lefrançois, no meio da
multidão, parecia perorar.
— Madame! Madame! — exclamou Félicité ao entrar. — É uma
abominação!
A pobre moça, comovida, entregou-lhe um papel amarelo que
acabara de arrancar da porta. Emma leu em um piscar de olhos que todo o
seu mobiliário estava à venda.
Então, elas se olharam em silêncio. Não tinham, a criada e a senhora,
qualquer segredo entre si. Por fim, Félicité suspirou:
— Se eu fosse a senhora, iria até Monsieur Guillaumin.
— Acha que devo?
E a interrogação queria dizer: “Você que conhece o criado de lá, o
patrão alguma vez haveria falado de mim?”.
— Sim, vá em frente, fará bem.
Ela trocou-se, colocou o vestido preto com a capa de contas de
azeviche; e, para que não a vissem (ainda havia muita gente na praça),
tomou o caminho por fora do vilarejo, à beira da água.
Chegou sem fôlego ao portão do notário; o céu estava escuro e um
pouco de neve caía.
Ao ruído da sineta, Théodore, de colete vermelho, apareceu nos
degraus da entrada; veio recebê-la quase familiarmente, como se fosse uma
conhecida, e a conduziu até a sala de jantar.
Um grande aquecedor de porcelana zumbia sob um cacto que
preenchia o nicho, e em molduras de madeira preta, contra o papel de parede
cor de carvalho, havia a Esmeralda de Steuben, com o Potifar de
Schopin.126 A mesa posta, dois réchauds de prata, as maçanetas das portas
em cristal, o piso e os móveis, tudo brilhava em uma limpeza meticulosa,
inglesa; as vidraças eram decoradas, em cada canto, com vidros coloridos.
“Isso sim é uma sala de jantar”, pensou Emma, “como deveria ser a
minha.”
O notário entrou, segurando o roupão de palmas com o braço
esquerdo contra o corpo, enquanto tirava e colocava com a outra mão a touca
de veludo marrom, pretensiosamente posta do lado direito, de onde
despontavam três mechas louras que, presas ao topo, contornavam seu crânio
calvo.
Depois de lhe oferecer um assento, ele sentou-se para almoçar,
desculpando-se muito pela indelicadeza.
— Monsieur — disse ela —, eu lhe rogaria…
— O quê, Madame? Estou ouvindo.
Ela começou a lhe expor a situação.
Monsieur Guillaumin a conhecia, estando secretamente ligado ao
comerciante de tecidos, com quem sempre encontrava capital para os
empréstimos hipotecários que lhe pediam.
Então ele conhecia (e melhor do que ela) a longa história das notas
promissórias, mínimas no início, portando vários nomes como endossantes,
espaçadas por longos prazos de vencimento e renovadas continuamente, até
o dia em que, recolhendo todos os protestos, o comerciante havia instruído
seu amigo Vinçart a realizar, em seu próprio nome, os procedimentos
necessários, não desejando passar por um tigre entre seus concidadãos.
Ela intercalava sua história com recriminações contra Lheureux,
recriminações às quais o notário respondia de vez em quando com uma
palavra insignificante. Comendo costeleta e bebendo chá, ele abaixava o
queixo em sua gravata azul-celeste, espetada com dois alfinetes de diamante
ligados a uma corrente de ouro; e sorria um sorriso singular, de forma doce e
ambígua. Percebendo que os pés dela estavam úmidos, falou:
— Aproxime-se do aquecedor… mais alto… contra a porcelana.
Ela tinha medo de sujá-lo. O notário continuou em tom galante:
— As coisas belas não estragam nada.
Então ela tentou comovê-lo e, ela mesma emocionada, chegou a
contar-lhe da exiguidade de sua casa, seus conflitos, suas necessidades. Ele
compreendia: uma mulher elegante! E, sem parar de comer, virou-se
completamente em direção a ela, de modo que o joelho dele roçava suas
botinas, cujas solas se curvaram enquanto fumegavam contra o aquecimento.
Porém, quando ela lhe pediu mil escudos, ele apertou os lábios,
depois declarou lamentar muito não ter tido a direção da fortuna dela no
passado, pois havia cem meios muito convenientes, mesmo para uma dama,
de fazer valer seu dinheiro. Teria sido possível, fosse nas turfeiras de
Grumesnil ou nos terrenos de Le Havre, arriscar excelentes especulações,
quase garantidas; e ele a deixou consumir-se pela raiva ao pensar nas somas
fantásticas que certamente teria ganhado.
— Como foi — continuou ele — que a senhora não veio até mim?
— Não sei muito bem — disse ela.
— Por quê, hein? Acaso eu a assustava? Sou eu, pelo contrário,
quem deveria reclamar! Mal nos conhecemos! No entanto, eu lhe sou muito
devotado. Espero que a senhora não duvide mais.
Estendeu a mão, pegou a dela, cobriu-a com um beijo voraz, depois a
segurou sobre o joelho; e brincava com seus dedos delicadamente, falando-
lhe mil doçuras.
Sua voz insípida sussurrava como o fluxo de um riacho; uma
centelha respingava de sua pupila através do reflexo dos óculos, e as mãos
avançavam pela manga de Emma, para apalpar seu braço. Ela sentia contra o
rosto o sopro de uma respiração pesada. Aquele homem a incomodava
horrivelmente.
Ela levantou-se em um salto e lhe disse:
— Monsieur, estou esperando!
— O quê? — perguntou o notário, que tornou-se de repente muito
pálido.
— O dinheiro.
— Mas…
Então, cedendo à irrupção de um desejo muito forte:
— Pois bem, sim!
Arrastou-se de joelhos em direção a ela, sem importar-se com seu
roupão.
— Por favor, fique! Eu a amo!
Agarrou-a pela cintura.
Uma torrente púrpura subiu rapidamente ao rosto de Madame
Bovary. Ela recuou com uma expressão terrível, protestando:
— O senhor despudoradamente se aproveita do meu desespero! Sou
digna de pena, mas não estou à venda!
Assim, saiu.
O notário ficou estupefato, o olhar fixo nos chinelos elegantes de
tapeçaria. Era um presente de amor. Aquela visão por fim o consolou. Além
disso, refletia que uma aventura como aquela o teria arrastado longe demais.
— Que desgraçado! Que grosseiro! Que infâmia! — ela dizia a si
mesma, fugindo a passos nervosos sob os álamos da estrada. A decepção do
fracasso reforçava a indignação por seu pudor ultrajado; parecia-lhe que a
Providência estava obstinada a persegui-la e, reavivando seu orgulho, nunca
tivera tanta estima por si mesma, nem tanto desprezo pelos outros. Algo
belicoso a movia. Quisera poder bater nos homens, cuspir-lhes na cara,
esmagá-los todos; e continuava a andar rápido, em frente, pálida, trêmula,
furiosa, vasculhando com olhos rasos o horizonte vazio, como que se
deliciando com o ódio que a sufocava.
Quando avistou sua casa, um torpor a tomou. Não podia avançar; era
necessário, no entanto; de resto, para onde fugir?
Félicité a aguardava na porta.
— E então?
— Não! — disse Emma.
Durante quinze minutos, as duas consideraram as várias pessoas em
Yonville talvez dispostas a ajudá-la. Mas, a cada vez que Félicité nomeava
alguém, Emma respondia:
— Será possível? Não vai querer!
— E o patrão vai chegar!
— Eu sei bem… Deixe-me em paz.
Ela tentara de tudo. Não havia mais nada a fazer; quando Charles
aparecesse, ela então lhe diria:
— Retire-se daí. Este tapete em que está pisando não é mais nosso.
De sua casa, você não tem mais um móvel, um alfinete, uma palha, e fui eu
quem o arruinou, pobre homem!
Então haveria um grande soluço, e ele choraria copiosamente e, ao
final, passada a surpresa, ele a perdoaria.
— Sim — murmurou, rangendo os dentes —, ele vai me perdoar, ele
que, nem que tivesse um milhão a me oferecer, seria suficiente para perdoá-
lo por ter me conhecido… Nunca! Nunca!
Essa ideia da superioridade de Bovary sobre ela a exasperava. Então,
se ela confessasse ou não confessasse, naquele momento, logo mais,
amanhã, ele não deixaria de saber da catástrofe; portanto, era preciso esperar
aquela cena horrível e suportar o peso de sua magnanimidade. Veio-lhe o
desejo de retornar à casa de Lheureux: para quê? De escrever ao pai; era
tarde demais; e talvez se arrependesse de não ter cedido ao outro, ao ouvir o
trote de um cavalo no beco. Era ele, abriu o portão, estava mais pálido que
uma parede de gesso. Precipitando-se pelas escadas, ela escapou
rapidamente pela praça; e a esposa do prefeito, que conversava em frente à
igreja com Lestiboudois, viu-a entrar na casa do coletor de impostos.
Ela correu para contar a Madame Caron. As duas senhoras subiram
ao sótão e, escondidas pelo linho que pendia dos varões, postaram-se
comodamente para observar todo o interior da casa de Binet.
Ele estava sozinho, na janela do telhado, imitando com madeira um
daqueles marfins indescritíveis, compostos de crescentes, de esferas
escavadas umas nas outras, retas como um obelisco e sem qualquer
utilidade; e iniciava a última peça, logo alcançaria o fim! Na penumbra da
oficina, a poeira loura revoava de sua ferramenta, como um penacho de
faíscas sob as ferraduras de um cavalo a galope; as duas rodas giravam,
zuniam; Binet sorria, o queixo baixo, as narinas abertas, e parecia enfim
perdido em uma daquelas felicidades completas, pertencentes, sem dúvida,
apenas às ocupações medíocres, que divertem a inteligência com
dificuldades fáceis, e a satisfazem em uma realização além da qual não há
nada a sonhar.
— Ah! Lá está ela! — disse Madame Tuvache.
Mas não era possível, por causa do torno, ouvir o que ela dizia. Por
fim, as senhoras acreditaram ter distinguido a palavra francos, e Madame
Tuvache sussurrou:
— Está implorando a ele, para obter um atraso em suas
contribuições.
— É o que parece! — respondeu a outra.
Elas a viram andar de um lado para o outro, examinando as argolas
de guardanapo penduradas nas paredes, os castiçais, as extremidades dos
corrimãos, enquanto Binet acariciava a barba com satisfação.
— Será que ela irá encomendar alguma coisa? — disse Madame
Tuvache.
— Mas ele não vende nada! — objetou sua vizinha.
O coletor de impostos parecia estar ouvindo, arregalando os olhos
como se não entendesse. Ela prosseguia de maneira terna e suplicante.
Aproximou-se dele; seu peito arfava; já não falavam.
— Ela está se insinuando para ele? — disse Madame Tuvache.
Binet estava vermelho até as orelhas. Ela pegou suas mãos.
— Ah! É demais!
E ela sem dúvida lhe propunha uma abominação; pois o coletor de
impostos — mesmo sendo corajoso, tendo combatido em Bautzen e em
Lutzen, feito a campanha da França127 e até sido cotado para a cruz — de
repente, como se avistasse uma serpente, recuou para longe, gritando:
— Madame! Está mesmo pensando nisso?
— Deveriam chicotear essas mulheres! — disse Madame Tuvache.
— Mas onde ela está? — replicou Madame Caron.
Pois Emma havia desaparecido àquelas palavras; depois, ao perceber
que ela seguia pela rua principal e virava à direita, no sentido do cemitério,
perderam-se em conjecturas.
— Madame Rolet — disse ela ao chegar à ama de leite —, estou
sufocando! Afrouxe-me o corpete.
Ela caiu na cama, soluçando. Madame Rolet cobriu-a com uma
anágua e permaneceu de pé ao lado dela. Então, como ela não respondia, a
boa mulher distanciou-se, pegou sua roca e começou a fiar linho.
— Oh! Pare com isso! — murmurou ela, pensando ouvir o torno de
Binet.
“Quem a estaria incomodando?”, perguntou-se a ama. “Por que ela
veio aqui?”
Ela fora pedir socorro, impulsionada por uma espécie de pavor que a
expulsava de casa.
Deitada de costas, imóvel e olhando fixamente, ela discernia
vagamente os objetos, embora aplicasse sua atenção a eles com uma
persistência tola. Ela observava as lascas na parede, duas brasas fumegando
ponta a ponta, e uma aranha comprida que andava acima de sua cabeça, na
fresta da viga. Enfim, recobrou seus pensamentos. Lembrava-se… Um dia,
com Léon… Ah! Como estava longe… O sol brilhava no rio e as clematites
perfumavam o ar… Então, carregada em suas memórias como em uma
correnteza borbulhante, logo foi levada a lembrar-se do dia anterior.
— Que horas são? — perguntou.
Madame Rolet saiu, levantou os dedos da mão direita para o lado
onde o céu estava mais claro e voltou devagar, dizendo:
— Três horas, em breve.
— Ah! Obrigada! Obrigada!
Pois ele viria. Era certo! Teria encontrado o dinheiro. Mas ele talvez
pudesse ir para a casa dela, sem suspeitar que ela estivesse ali; e ordenou que
a ama corresse até lá para buscá-lo.
— Ande logo!
— Mas, minha cara senhora, estou indo! Estou indo!
Admirava-se por não ter pensado nele logo de início; na véspera, ele
havia dado sua palavra, não faltaria com ela; e ela já se via na casa de
Lheureux, exibindo as três notas sobre a mesa. Depois teria de inventar
alguma história para explicar as coisas a Bovary. Qual seria?
A ama demorava muito a voltar. Contudo, como não havia relógio na
tapera, Emma temia talvez exagerar na passagem do tempo. Começou a dar
voltas no jardim, passo a passo; seguiu pelo caminho ao longo da cerca viva
e voltou apressadamente, esperando que a boa mulher tivesse retornado por
outro caminho. Por fim, cansada de esperar, atormentada por suspeitas que
repugnava, sem saber mais se estava ali havia um século ou um minuto,
sentou-se no canto e fechou os olhos, tapou os ouvidos. A porteira rangeu, e
ela deu um salto; antes que pudesse falar, Madame Rolet lhe disse:
— Não há ninguém em sua casa!
— Como?
— Ora! Ninguém! E seu marido está chorando. Ele a chama. Estão
procurando pela senhora.
Emma não respondeu. Estava ofegante, olhando de um lado para o
outro, enquanto a camponesa, assustada com sua expressão, recuava
instintivamente, tomando-a por louca. De repente, deu-se um tapa na testa,
soltou um grito, pois a lembrança de Rodolphe, como um grande relâmpago
na noite escura, havia passado por sua alma. Ele era tão bom, tão delicado,
tão generoso! E, além disso, se ele hesitasse em prestar-lhe esse serviço, ela
saberia bem como coagi-lo, lembrando em um único piscar de olhos seu
amor perdido. Assim, partiu para Huchette, sem perceber que corria para
oferecer-se àquele que tanto a havia exasperado, nem desconfiar nem um
pouco dessa prostituição.
125 Movimento alto e cadenciado, em que o cavalo parece não sair do lugar.
126 Charles Auguste Steuben (1788–1856) e Henri-Frédéric Schopin (1804–1880), pintores.
127 Batalhas da era napoleônica em território da atual Alemanha (Bautzen e Lutzen) e no norte da França.
VIII
Ela se perguntava ao caminhar: “O que vou dizer? Por onde começarei?”.
E, à medida que avançava, reconhecia os arbustos, as árvores, os juncos do
mar na colina, o castelo lá longe. Reencontrava-se nas sensações de sua
primeira ternura, e seu pobre coração comprimido ali se dilatava
amorosamente. Um vento cálido soprava em seu rosto; a neve, derretendo,
gotejava dos brotos na relva.
Ela entrou, como em outros tempos, pelo pequeno portão do parque,
depois chegou ao pátio principal, contornado por uma fileira dupla de tílias
frondosas. Elas balançavam, sibilando, seus longos galhos. Todos os cães do
canil latiram, e o estrondo de suas vozes ressoava sem que ninguém
aparecesse.
Subiu a larga escada reta, com balaústres de madeira, que conduzia
ao corredor pavimentado com lajes empoeiradas onde se abriam vários
quartos em fileira, como nos mosteiros ou nas hospedarias. O dele estava ao
final, bem ao fundo, à esquerda. Quando veio a colocar os dedos na
fechadura, suas forças subitamente a abandonaram. Temia que ele não
estivesse ali, quase assim o desejava, e era, no entanto, sua única esperança,
a última chance de salvação. Ela se recompôs por um minuto e, revigorando
a coragem com o sentimento da necessidade atual, entrou.
Ele estava na frente do fogo, com os dois pés na moldura da lareira,
fumando um cachimbo.
— Olha! É a senhora! — disse ele, levantando-se abruptamente.
— Sim, sou eu! Eu gostaria, Rodolphe, de lhe pedir um conselho.
Apesar de todos os seus esforços, era-lhe impossível abrir a boca.
— A senhora não mudou nada, ainda é encantadora!
— Oh! — retomou ela amargamente. — São encantos tristes, meu
amigo, pois que o senhor os desprezou.
Ele então pôs-se a explicar sua conduta, desculpando-se em termos
vagos, por não conseguir inventar nada melhor.
Ela se deixou levar por suas palavras, mais ainda por sua voz e pelo
espetáculo de sua pessoa; tanto que fingiu acreditar, ou acreditou, talvez, no
pretexto de sua ruptura; era um segredo do qual dependia a honra e até a
vida de uma terceira pessoa.
— Não importa! — disse ela, olhando-o com tristeza. — Sofri muito!
Ele respondeu em tom filosófico:
— A existência é assim!
— Ela tem pelo menos — retomou Emma — sido boa para o senhor
desde a nossa separação?
— Ah! Nem boa… nem ruim.
— Talvez tivesse sido melhor nunca termos nos separado.
— Sim… talvez!
— Acha mesmo? — disse ela, aproximando-se, e suspirou. — Ó,
Rodolphe! Se soubesse! Eu te amei muito!
Foi aí que pegou sua mão, e eles permaneceram por algum tempo
com os dedos entrelaçados — como no primeiro dia, nos comícios! Com um
gesto de orgulho, ele se debatia sob a comoção. Mas, inclinando-se em seu
peito, ela lhe disse:
— Como queria que eu vivesse sem você? Não se pode desabituar da
felicidade! Fiquei desesperada! Achei que morreria! Vou lhe contar tudo,
você vai ver. E você… Você fugiu de mim!
Pois, durante os últimos três anos, ele a evitara cuidadosamente por
causa daquela covardia natural que caracteriza o sexo forte; e Emma
continuava com meneios graciosos de cabeça, mais terna que uma gata
amorosa:
— Você ama outras, admita. Oh! Eu as entendo! Eu as desculpo;
você as terá seduzido como seduziu a mim. Você é um homem! Você tem
tudo o que precisa para ser amado. Mas recomeçaremos, não é? Amaremo-
nos! Veja, estou rindo, estou feliz! Diga alguma coisa!
Ela era deslumbrante de se ver, com o olhar onde tremulava uma
lágrima, como a água de uma tempestade em um cálice azul.
Ele a puxou para sentar-se em seu colo e acariciou com o dorso da
mão seus cabelos lisos, que, à luz do crepúsculo, refletiam como uma flecha
dourada um último raio de sol. Ela inclinou o rosto; ele acabou por beijá-la
nas pálpebras, muito suavemente, com as pontas dos lábios.
— Mas você chorou! — disse ele. — Por quê?
Ela irrompeu em soluços. Rodolphe acreditou ser a explosão de seu
amor; como ela permanecia calada, tomou aquele silêncio como um último
pudor, e então exclamou:
— Ah! Perdoe-me! Você é a única que me agrada. Fui estúpido e
mau! Eu te amo, sempre te amarei! O que há com você? Diga!
Ele se ajoelhou.
— Bem! Estou arruinada, Rodolphe! Você vai me emprestar três mil
francos!
— Mas… mas… — disse ele, levantando-se aos poucos, enquanto
seu semblante assumia uma expressão séria.
— Você sabe — continuava ela rapidamente — que meu marido
havia depositado toda a sua fortuna com um notário; ele fugiu. Pedimos
emprestado; os clientes não pagavam. De resto, a liquidação não terminou;
receberemos depois. Mas hoje, por falta de três mil francos, vão nos
penhorar; é agora, neste mesmo instante; e, contando com sua amizade, eu
vim.
“Ah!”, pensou Rodolphe, muito pálido de repente. “Foi por isso que
ela veio!”
Por fim, ele disse em um tom calmo:
— Eu não os tenho, cara senhora.
Ele não estava mentindo. Se os tivesse, ele os teria dado, sem dúvida,
embora seja geralmente desagradável prestar-se a tão belas ações: uma
demanda financeira, de todas as tempestades que se abatem sobre amor, é a
mais fria e a que mais o abala.
Ela ficou por alguns minutos a encará-lo.
— Você não os tem!
Repetiu várias vezes:
— Você não os tem! Eu deveria ter me poupado dessa última
vergonha. Você nunca me amou! Não vale mais que os outros!
Ela se traía, perdia-se.
Rodolphe a interrompeu, afirmando que ele mesmo estava
“embaraçado”.
— Ah! Tenho pena de você! — disse Emma. — Sim, muita pena!
Fixou o olhar em uma carabina adamascada que brilhava na parede.
— Mas, quando se está tão pobre, não se coloca prata na coronha do
fuzil! Não se compra um relógio de pedestal com incrustações de casco de
tartaruga! — continuou, apontando para o relógio de Boulle128. — Nem
apitos de prata dourada para os chicotes — disse, os tocando —, nem
berloques para o relógio de pulso! Oh! Não lhe falta nada! Nem mesmo
porta-licores no quarto; pois você se ama, vive bem, tem um castelo,
fazendas, bosques; você caça com cães, você viaja a Paris… Ora! Quando
com apenas isso — exclamou, pegando sobre a chaminé as abotoaduras de
suas mangas —, com a menor dessas bobagens! Pode-se fazer dinheiro! Eu
não quero! Guarde-as!
E lançou para bem longe as duas abotoaduras, cuja corrente de ouro
arrebentou ao bater na parede.
— Mas eu teria te dado tudo — continuou —, teria vendido tudo,
teria trabalhado com as minhas próprias mãos, teria mendigado nas estradas,
por um sorriso, por um olhar, para ouvir você agradecer. E você fica aí,
tranquilo na poltrona, como se já não tivesse me feito sofrer o suficiente?
Sem você, sabe muito bem, eu poderia ter vivido feliz! Quem o forçava? Era
um desafio? Porém você dizia que me amava… e ainda há pouco… Ah!
Teria sido melhor me expulsar! Tenho as mãos quentes de seus beijos, e aí
está o lugar, no tapete, onde jurou aos meus joelhos uma eternidade de amor.
Você me fez acreditar: durante dois anos, arrastou-me no sonho mais
magnífico e suave! Hein! Nossos planos de viagem, lembra? Oh! Sua carta,
sua carta! Ela despedaçou meu coração! E então, quando eu volto para ele,
para ele, que é rico, feliz, livre! Para implorar, suplicando e trazendo-lhe
toda a minha ternura, um socorro que qualquer um prestaria, ele me afasta,
porque isso lhe custaria três mil francos!
— Eu não os tenho! — respondeu Rodolphe, com aquela calma
perfeita atrás da qual se escondem, como um escudo, as fúrias resignadas.
Ela saiu. As paredes tremiam, o teto a esmagava; e ela passou
novamente pela longa aleia, tropeçando nos amontoados de folhas mortas
que o vento dispersava. Enfim chegou ao valão diante da grade; ela quebrou
as unhas no fecho, de tanto que se apressou para abri-lo. Depois, cem passos
adiante, sem fôlego, prestes a cair, ela parou. Voltando-se para trás, avistou
mais uma vez o castelo impassível, com o parque, os jardins, os três pátios, e
todas as janelas da fachada.
Ficou perdida de estupor, mantendo a consciência de si mesma
apenas pelos batimentos de suas artérias, que ela acreditava ouvir escapando
como uma música ensurdecedora que preenchia o campo. O solo sob seus
pés cedia mais que uma onda, e os sulcos pareciam-lhe imensas vagas
escuras que arrebentavam. Todas as reminiscências, todas as ideias que havia
em sua mente desprendiam-se uma a uma, em um só impulso, como as mil
partes de um fogo de artifício. Viu o pai, o gabinete de Lheureux, seu quarto
ao longe, uma outra paisagem. A loucura a tomava, ela teve medo, e chegou
a se recompor, de um modo confuso, é verdade; pois não se lembrava da
causa de seu horrível estado, isto é, a questão do dinheiro. Não sofria por
nada além de seu amor, e sentia sua alma abandoná-la por essa lembrança,
como os feridos, agonizantes, sentem a existência partir através da chaga que
sangra.
A noite caía, corvos revoavam.
Pareceram-lhe de repente que glóbulos cor de fogo explodiam no ar
como bolas fulminantes que se chocavam e rodavam, rodavam, para fundir-
se na neve, entre os galhos das árvores. No meio de cada uma, o rosto de
Rodolphe aparecia. Elas se multiplicavam, reaproximavam-se, penetravam-
na; tudo desapareceu. Ela reconheceu as luzes das casas, que irradiavam ao
longe na névoa.
Então sua situação, tal qual um abismo, ressurgiu. Arfava a ponto de
arrebentar o peito. Então, em um arroubo de heroísmo que a deixava quase
feliz, desceu a encosta correndo, atravessou a passagem para vacas, a
estrada, a aleia, o mercado, e chegou à loja do farmacêutico.
Não havia ninguém. Ela ia entrar; mas, ao barulho de sineta, alguém
poderia vir; e, deslizando esgueirando-se pelo portão, segurando o fôlego,
avançou até a soleira da cozinha, onde havia uma vela acesa sobre o fogão.
Justin, em mangas de camisa, segurava uma travessa.
“Ah! Estão jantando. Vamos esperar.”
Ele voltou. Ela bateu na janela. Ele saiu.
— A chave! Lá de cima, onde estão os…
— Como?
Ele a olhava, espantado com a palidez de seu rosto, que contrastava
em branco sobre o fundo escuro da noite. Ela lhe parecia
extraordinariamente bela, e majestosa como um fantasma; sem entender o
que ela queria, pressentia algo terrível.
Mas ela replicou vivamente, em voz baixa, uma voz suave,
dissolvente:
— Eu quero a chave! Me dê!
Como a divisória era fina, ouvia-se o tilintar de garfos sobre os
pratos na sala de jantar.
Ela alegou precisar matar os ratos que a impediam de dormir.
— Eu precisaria avisar o senhor — disse Justin.
— Não! Fique!
Então, com ar de indiferença, acrescentou:
— Ah! Não precisa, eu direi a ele logo mais. Venha, me ajude!
Ela entrou no corredor onde se abria a porta do laboratório. Havia
contra a parede uma chave etiquetada cafarnaum.
— Justin! — gritou o boticário, perdendo a paciência.
— Vamos subir!
Ele a seguiu.
A chave girou na fechadura, e ela foi logo em direção à terceira
prateleira, tão bem era guiada pela lembrança, pegou o frasco azul, arrancou
a rolha, enfiou a mão, e, retirando-a coberta de um pó branco, pôs-se a
comê-lo.
— Pare! — gritou ele, atirando-se sobre ela.
— Cale-se! Vão vir…
Ele se desesperava, queria gritar.
— Não diga nada, tudo recairá sobre o seu patrão!
Então ela partiu subitamente apaziguada, e quase na serenidade de
um dever cumprido.
Quando Charles, transtornado pela notícia da penhora, voltara para
casa, Emma tinha acabado de sair. Ele gritou, chorou, desmaiou, mas ela não
voltou. Onde poderia estar? Mandou Félicité à casa de Monsieur Homais, de
Monsieur Tuvache, de Monsieur Lheureux, ao Lion d’Or, por toda parte; e,
nas intermitências da angústia, viu sua reputação destruída, sua fortuna
perdida, o futuro de Berthe despedaçado! Por que motivo? Nem uma
palavra! Esperou até as seis da tarde. Por fim, não aguentando mais, e
imaginando que ela havia partido para Rouen, saiu pela estrada, percorreu
dois quilômetros, não encontrou ninguém, esperou um pouco mais e voltou.
Ela havia chegado.
— O que aconteceu? Por quê? Explique-me!
Ela sentou-se à escrivaninha e escreveu uma carta que selou
lentamente, acrescentando a data e a hora. Então, disse-lhe em tom solene:
— Você a lerá amanhã; daqui até lá, por favor, não me faça qualquer
pergunta! Não, nenhuma!
— Mas…
— Oh! Deixe-me!
E estendeu-se toda na cama.
Um gosto amargo que sentia na boca a acordou. Vislumbrou Charles
e tornou a fechar os olhos.
Ela se vigiava com curiosidade, para discernir se não estava
sofrendo. Mas não! Nada ainda. Ouvia a pulsação do relógio, o barulho do
fogo, e Charles, de pé ao lado da cabeceira, respirando.
“Ah! É bem pouca coisa, a morte!”, pensava ela. “Adormecerei e
estará tudo acabado!”
Tomou um gole de água e virou-se para a parede.
O gosto pavoroso de tinta continuava.
— Estou com sede! Ah! Estou com muita sede! — suspirou ela.
— Ora, o que você tem? — disse Charles, alcançando-lhe um copo.
— Não é nada! Abra a janela… Estou sufocando!
E foi tomada por uma náusea tão repentina que mal teve tempo de
pegar o lenço debaixo do travesseiro.
— Leve-o! — disse ela rapidamente. — Jogue-o fora!
Ele a questionou; ela não respondeu. Mantinha-se imóvel, temendo
que a menor emoção a fizesse vomitar. No entanto, sentia um frio gélido que
lhe subia dos pés ao coração.
— Ah! Está começando! — murmurou ela.
— O que está dizendo?
Ela girava a cabeça com um gesto lento, cheio de angústia, e abria
continuamente as mandíbulas, como se carregasse algo muito pesado na
língua. Às oito horas, os vômitos reapareceram.
Charles observou no fundo da bacia uma espécie de cascalho branco,
grudado nas laterais da porcelana.
— É extraordinário! É singular! — repetiu ele.
Mas ela disse em voz firme:
— Não, você está enganado!
Então, delicadamente e quase acariciando-a, ele passou-lhe a mão
sobre a barriga. Ela soltou um grito agudo. Ele recuou assustado.
Então ela começou a gemer, no início de modo fraco. Um grande
arrepio lhe sacudia os ombros, e tornava-se mais pálida do que o lençol em
que afundava os dedos crispados. Seu pulso irregular estava quase
imperceptível.
Gotas de suor escorriam lentamente em seu rosto azulado, que
parecia congelado na exalação de um vapor metálico. Os dentes tremiam, os
olhos arregalados vagavam ao seu redor, e a todas as perguntas respondia
apenas balançando a cabeça; ela até mesmo sorriu duas ou três vezes. Pouco
a pouco, seus gemidos ficaram mais altos. Um uivo surdo lhe escapou;
alegou que estava melhor e que logo se levantaria. Mas as convulsões a
dominaram.
— Ah! É atroz, meu Deus! — gritou.
Ele se jogou de joelhos contra a cama.
— Fale! O que você comeu? Responda, pelo amor dos céus!
Ele a olhava com olhos de uma ternura como ela jamais tinha visto.
— Bem, ali… ali! — disse ela com a voz falha.
Ele se lançou até a escrivaninha, quebrou o lacre e leu em voz alta:
Que ninguém
seja acusado… Parou, passou a mão nos olhos e leu outra vez.
— Como? Socorro! Acudam-me!
Ele conseguia apenas repetir esta palavra: “Envenenada!
Envenenada!”. Félicité correu para a casa de Monsieur Homais, que a
exclamou na praça; Madame Lefrançois ouviu-a no Lion d’Or; alguns se
levantaram para contá-la aos vizinhos, e a noite inteira o vilarejo ficou em
vigília.
Desnorteado, gaguejando, prestes a cair, Charles dava voltas no
quarto. Chocava-se contra os móveis, arrancava os cabelos, e jamais o
farmacêutico acreditara que pudesse haver um espetáculo tão aterrorizante.
Ele voltou para casa para escrever a Monsieur Canivet e ao dr.
Larivière. Estava perdendo a cabeça; fez mais de quinze rascunhos.
Hippolyte partiu para Neufchâtel, e Justin esporeou com tanta força o cavalo
de Bovary que o deixou na encosta do bosque Guillaume, esfalfado e quase
morto. Charles quis folhear seu dicionário de medicina; não conseguia
enxergar, as linhas dançavam.
— Tenha calma! — disse o boticário. — É apenas uma questão de
administrar algum antídoto poderoso. Qual é o veneno?
Charles mostrou a carta. Era arsênico.
— Bem — retomou Homais —, precisaria ser analisado.
Pois ele sabia que, em todos os envenenamentos, deve ser feita uma
análise; e o outro, que não entendia, respondeu:
— Ah! Faça! Faça! Salve-a…
Então, reaproximando-se dela, desabou no chão sobre o tapete, e
ficou com a cabeça apoiada na beirada da cama, soluçando.
— Não chore! — disse ela. — Em breve não o atormentarei mais!
— Por quê? Quem a forçou?
Ela respondeu:
— Foi preciso, meu amigo.
— Você não estava feliz? É minha culpa? Mas fiz tudo o que pude!
— Sim… é verdade… você é bom!
Ela passava-lhe a mão pelos cabelos, lentamente. A doçura daquela
sensação sobrecarregava sua tristeza; ele sentia todo o seu ser desmoronar
em desespero com a ideia de que seria necessário perdê-la, quando, ao
contrário, ela confessava a ele mais amor do que nunca; e ele não encontrava
nada; ele não sabia, não ousava, a urgência de uma resolução acabando por
transtorná-lo.
Ela pensava ter acabado com todas as traições, as baixezas e as
inumeráveis luxúrias que a torturavam. Não odiava ninguém; uma confusão
de crepúsculo abatia-se sobre seus pensamentos, e de todos os barulhos da
terra Emma não ouviu nada além do lamento intermitente daquele pobre
coração, delicado e indistinto, como o último eco de uma sinfonia que se
afasta.
— Traga-me a pequena — disse ela, erguendo-se de cotovelos.
— Você não está pior, está? — perguntou Charles.
— Não! Não!
A criança chegou nos braços da criada, em sua longa camisola, de
onde saíam seus pés descalços, séria e quase sonhando ainda. Ela observava
com espanto a sala toda em desordem, e piscava os olhos, ofuscada pelos
candelabros acesos sobre os móveis. Lembravam-lhe, sem dúvida, as
manhãs do dia de ano-novo ou da mi-carême, quando, acordada cedo pela
luz das velas, vinha à cama da mãe para receber seus presentes por aquelas
datas, pois ela começou a dizer:
— Onde está, mamãe?
E como todos se mantinham calados:
— Mas não estou vendo meu sapatinho!
Félicité inclinou-a sobre a cama, enquanto ela ainda olhava para o
lado da lareira.
— Será que a ama o levou? — perguntou ela.
E àquele nome, que trazia de volta a lembrança de seus adultérios e
das suas calamidades, Madame Bovary virou a cabeça, como se nauseada
por outro veneno mais forte que lhe refluía à boca. Berthe, porém,
permanecia na cama.
— Oh! Como seus olhos estão grandes, mamãe! Como está pálida!
Como está suada!
Sua mãe a olhava.
— Estou com medo! — disse a criança, recuando.
Emma pegou sua mão para beijá-la; ela debatia-se.
— Chega! Quero que a levem daqui! — gritou Charles, que soluçava
na alcova.
Então os sintomas pararam por um momento; ela parecia menos
agitada; e, a cada palavra insignificante, a cada respiração um pouco mais
calma, ele recuperava esperança. Enfim, quando Canivet entrou, ele se jogou
em seus braços, chorando.
— Ah! É o senhor! Obrigada! O senhor é bondoso! Mas tudo está
melhor. Veja, olhe-a…
O colega não foi absolutamente dessa opinião e, como ele mesmo
disse, para não ficar dando voltas, prescreveu emético, que liberaria
completamente o estômago.
Ela não tardou a vomitar sangue. Seus lábios apertaram-se com força.
Tinha os membros contraídos, o corpo coberto de manchas escuras, e o pulso
escorregava sob os dedos como um fio esticado, como uma corda de harpa
prestes a se romper.
Depois começou a gritar horrivelmente. Amaldiçoava o veneno,
injuriava-o, suplicava que se apressasse, e afastava com os braços rígidos
tudo o que Charles, mais agonizante que ela, esforçava-se para fazê-la beber.
Ele estava de pé, com o lenço nos lábios, arquejando, chorando, e sufocado
por soluços que o sacudiam até os calcanhares; Félicité corria para lá e para
cá dentro do quarto; Homais, imóvel, soltava suspiros pesados, e Monsieur
Canivet, mantendo ainda seu aprumo, começava, porém, a sentir-se
perturbado.
— Diabo! Contudo… ela está expurgada, e, logo que a causa cesse…
— O efeito deve cessar — disse Homais —; é obvio.
— Mas salve-a! — exclamou Bovary.
Assim, sem ouvir o farmacêutico — que arriscava ainda essa
hipótese: “Talvez seja um paroxismo salutar” —, Canivet ia administrar
teriaga, quando se ouviu o estalar de um chicote; todas as vidraças
estremeceram, e uma berlinda de correios carregada a pleno peitoral por três
cavalos enlameados até as orelhas surgiu em um salto na esquina do
mercado. Era o dr. Larivière.
A aparição de um deus não poderia ter causado mais emoção. Bovary
ergueu as mãos, Canivet parou no mesmo instante e Homais tirou a boina
muito antes de o médico ter entrado.
Ele pertencia à grande escola cirúrgica que emergiu do avental de
129
Bichat , àquela geração, já extinta, de praticantes filosóficos que,
acalentando sua arte com amor fanático, exerciam-na com exaltação e
sagacidade! Tudo estremecia em seu hospital quando se encolerizava, e seus
alunos o veneravam tanto que buscavam, logo que se estabeleciam, imitá-lo
o máximo possível; de modo que eram vistos, nos vilarejos dos arredores, o
mesmo longo casaco de lã de merino e o mesmo largo terno preto, cujos
punhos desabotoados cobriam um pouco as mãos carnudas, mãos muito
bonitas, e que nunca tinham luvas, como que para estar mais prontas a
mergulhar na miséria. Desdenhoso de cruzes, títulos e academias,
hospitaleiro, liberal, paternal com os pobres e praticando a virtude sem nela
crer, quase passaria por santo se a perspicácia de sua mente não o tornasse
temido como um demônio. Seu olhar, mais afiado que seus bisturis, descia
direto à alma e desarticulava qualquer mentira por meio de alegações e
modéstia. E seguia assim, pleno daquela majestade benevolente que vem da
consciência do grande talento, da fortuna, e quarenta anos de uma existência
laboriosa e irrepreensível.
Franziu as sobrancelhas desde a porta, ao perceber o rosto cadavérico
de Emma, estendida de costas, boquiaberta. Então, enquanto parecia estar
ouvindo Canivet, passou o dedo indicador sob as narinas e repetiu:
— Está bem, está bem.
Fez um gesto lento de ombros. Bovary o observou: entreolharam-se;
e aquele homem, embora acostumado ao aspecto das dores, não pôde conter
uma lágrima que caiu sobre sua gola jabô.
Ele quis levar Canivet para o cômodo ao lado, Charles o seguiu.
— Ela está muito mal, não é? E se colocarmos cataplasmas? Eu não
sei! Encontre alguma coisa, o senhor que a tantos salvou!
Charles enlaçava-lhe o corpo com os dois braços, e o contemplava de
uma maneira espantada e suplicante, meio desfalecido contra o peito do
homem.
— Vamos, meu pobre menino, coragem! Não há mais nada a fazer.
O dr. Larivière se afastou.
— Está de saída?
— Eu retornarei.
Saiu como se fosse dar uma ordem ao cocheiro, com Monsieur
Canivet, que também não tinha interesse em ver Emma morrer em suas
mãos.
O farmacêutico juntou-se a eles na praça. Não conseguia, por
temperamento, ficar longe de pessoas famosas. Por isso, implorou a
Monsieur Larivière que lhe fizesse a ilustre honra de aceitar o convite para
almoçar.
Com presteza mandaram buscar pombos do Lion d’Or, tudo o que
havia de costeletas no açougue, creme no Monsieur Tuvache, ovos no
Monsieur Lestiboudois, e o próprio boticário ajudava nos preparativos,
enquanto Madame Homais dizia, puxando os cordões da camisola:
— Queira me desculpar, senhor; pois na nossa infeliz região, se não
somos avisados de véspera…
— Os copos de pedestal!!! — sussurrou Homais.
— Pelo menos, se estivéssemos na cidade, teríamos o recurso dos pés
recheados.
— Cale-se! À mesa, doutor!
Monsieur Homais julgou por bem, após as primeiras mordidas,
fornecer alguns detalhes sobre a catástrofe:
— Primeiro tivemos uma impressão de secura na faringe, depois as
dores intoleráveis no epigástrio, superpurgação, coma.
— Como ela se envenenou?
— Ignoro, doutor, e nem mesmo sei onde ela pôde conseguir aquele
ácido arsenioso.
Justin, que então trazia uma pilha de pratos, foi tomado por um
tremor.
— O que você tem? — disse o farmacêutico.
O jovem, àquela pergunta, deixou cair tudo no chão, com um grande
estrondo.
— Imbecil! — exclamou Homais. — Desajeitado! Desastrado!
Maldito burro!
Mas, de repente, controlando-se:
— Eu quis, doutor, tentar uma análise e, primo, delicadamente
introduzi em um tubo…
— Teria sido melhor — disse o cirurgião — introduzir-lhe os dedos
na garganta.
Seu colega Canivet permanecia calado, tendo acabado de receber
confidencialmente uma forte reprimenda a propósito de seu emético, de
modo que esse bom médico, tão arrogante e verborrágico na ocasião do pé
torto, estava muito modesto hoje; sorria sem parar, de um jeito aprobativo.
Homais desabrochava no orgulho de anfitrião, e a aflitiva imagem de
Bovary contribuía vagamente para seu prazer, por um paralelo egoísta que
fazia consigo mesmo. Então a presença do doutor o elevava. Exibia sua
erudição, citava de modo aleatório as cantáridas, a seiva dos upas, a
mancenilheira, a víbora.130
— E até li que várias pessoas se viram intoxicadas, doutor, e como
que petrificadas por chouriços que haviam passado por uma fumigação
exagerada! Ao menos, foi em um belo relatório, composto por uma de
nossas sumidades farmacêuticas, um de nossos mestres, o ilustre Cadet de
Gassicourt131!
Madame Homais reapareceu, carregando uma dessas máquinas
vacilantes que são aquecidas com aguardente de vinho; pois Homais insistia
em fazer seu café na mesa, tendo-o, aliás, torrado, porfirizado e misturado
por conta própria.
— Saccharum, doutor — disse, oferecendo um pouco de açúcar.
Então fez descer todos os filhos, curioso pelo parecer do cirurgião
sobre suas constituições.
Enfim, Monsieur Larivière ia partir, quando Madame Homais pediu-
lhe uma consulta para o marido. Seu sangue engrossava todas as noites após
o jantar, quando ele ia dormir.
— Ah! Mas a grosseria não é um problema.
Sorrindo um pouco com o trocadilho despercebido, o médico abriu a
porta. Porém, a farmácia estava abarrotada de gente; e ele teve grande
dificuldade em conseguir se desvencilhar de Monsieur Tuvache, que temia
que a esposa tivesse uma pneumonia, porque tinha o hábito de cuspir nas
cinzas; depois de Monsieur Binet, que às vezes tinha compulsões
alimentares, e de Madame Caron, que tinha formigamentos; de Lheureux,
que tinha vertigens; de Lestiboudois, que sofria de reumatismo; de Madame
Lefrançois, que estava com azia. Por fim, os três cavalos saíram em fuga, e
no geral considerou-se que ele não havia demonstrado qualquer
complacência.
A atenção do público foi distraída pela aparição de Monsieur
Bournisien, que passava sob os pilares do mercado com os santos óleos.
Homais, como o devia aos seus princípios, comparou os sacerdotes a
corvos atraídos pelo odor dos mortos; a visão de um eclesiástico lhe era
pessoalmente desagradável, pois a batina o fazia sonhar com a mortalha, e
execrava um pelo terror do outro.
No entanto, não recuando diante do que chamava de sua missão,
voltou à casa de Bovary na companhia de Canivet, a quem Monsieur
Larivière, antes de partir, havia encorajado fortemente a esse passo; o
boticário teria até mesmo, sem as observações de sua esposa, levado seus
dois filhos consigo, a fim de acostumá-los a circunstâncias fortes, para que
fosse uma lição, um exemplo, uma imagem solene que mais tarde
permaneceria em suas mentes.
O quarto, quando entraram, era cheio de uma solenidade triste. Havia
sobre a mesa de trabalho, coberta por uma toalha branca, cinco ou seis
bolinhas de algodão em uma travessa de prata, junto a um grande crucifixo,
entre dois castiçais acesos. Emma, de queixo contra o peito, abria as
pálpebras desproporcionalmente, e arrastava as pobres mãos sobre os
lençóis, com aquele gesto medonho e gentil dos agonizantes que parecem já
desejar cobrir-se com a mortalha. Pálido como uma estátua, e com os olhos
vermelhos como brasas, Charles, sem chorar, mantinha-se diante dela, ao pé
da cama, enquanto o padre, ajoelhado, murmurava palavras baixas.
Ela virou o rosto lentamente, e parecia tomada de alegria ao ver de
repente a estola violeta, sem dúvida redescobrindo no meio de uma calma
extraordinária a voluptuosidade perdida de seus primeiros impulsos místicos,
com visões de beatitude eterna que começavam.
O padre levantou-se para pegar o crucifixo; ela então esticou o
pescoço como quem tem sede e, colando os lábios contra o corpo do
Homem-Deus, ali depositou com toda a força expirante o maior beijo de
amor que já dera. Em seguida, ele recitou o Misereatur e o Indulgentiam,
mergulhou o polegar direito no óleo e começou as unções: primeiro nos
olhos, que tanto cobiçaram toda suntuosidade terrena; depois nas narinas,
entusiastas das brisas tépidas e dos perfumes amorosos; depois na boca, que
se abrira para a mentira, que havia gemido de orgulho e exclamado na
luxúria; depois nas mãos, que se deleitavam aos toques suaves; e finalmente
nas solas dos pés, outrora tão rápidos quando corriam para saciar seus
desejos, e que não andariam mais.
O padre limpou os dedos, jogou no fogo os fios de algodão
embebidos em óleo, e voltou a sentar-se perto da moribunda para dizer-lhe
que ela deveria juntar seus sofrimentos aos de Jesus Cristo e abandonar-se à
misericórdia divina.
Terminando suas exortações, ele tentou colocar em sua mão uma vela
abençoada, símbolo das glórias celestes das quais ela em breve estaria
rodeada. Emma, muito fraca, não conseguia fechar os dedos, e a vela, sem
Monsieur Bournisien, teria caído no chão.
No entanto, já não estava mais tão pálida, e seu rosto tinha uma
expressão de serenidade, como se o sacramento a tivesse curado.
O padre não deixou passar tal observação; e até mesmo explicou a
Bovary que o Senhor, por vezes, prolongava a existência das pessoas quando
julgava conveniente para sua salvação; e Charles lembrou-se de um dia em
que, assim perto da morte, ela havia recebido a comunhão.
“Talvez não precisássemos nos desesperar”, pensou ele.
Na verdade, ela olhava tudo ao redor, lentamente, como quem acorda
de um sonho; então, em uma voz distinta, ela pediu seu espelho, e
permaneceu debruçada sobre ele por algum tempo, até o momento em que
lágrimas pesadas escorreram de seus olhos. Ela então reclinou a cabeça com
um suspiro e tornou a cair sobre o travesseiro.
Seu peito logo começou a ofegar rapidamente. A língua inteira saiu-
lhe da boca; seus olhos, rodando, empalideceram como duas lâmpadas que
se apagam, a crer que já estivesse morta, se não fosse a assustadora
aceleração das costelas, sacudidas por um sopro furioso, como se a alma
tivesse saltado para desprender-se. Félicité ajoelhou-se diante do crucifixo, e
até o farmacêutico flexionou um pouco os joelhos, enquanto Monsieur
Canivet olhava vagamente para a praça. Bournisien pusera-se outra vez em
prece, o rosto inclinado contra a beirada da cama, arrastando a longa batina
preta atrás de si dentro do cômodo. Charles estava do outro lado, de joelhos,
braços estendidos em direção a Emma. Ele pegara suas mãos e apertava-as,
sobressaltado a cada batida de seu coração, como ao contragolpe de uma
ruína que cai. À medida que o estertor da morte tornava-se mais alto, o
eclesiástico apressava suas orações; elas misturavam-se aos soluços abafados
de Bovary, e às vezes tudo parecia desaparecer no murmúrio surdo das
sílabas latinas, que tilintavam como o toque fúnebre de um sino.
De repente, ouviu-se na calçada um barulho de tamancos pesados,
com o toque de um bastão; e uma voz elevou-se, uma voz rouca, que
cantava:
128 André-Charles Boulle (1642–1732). Seus móveis e relógios de pedestal ou de parede eram reconhecidos pelo
trabalho refinado de marchetaria com materiais raros como casco de tartaruga, marfim, metais nobres, madrepérola,
ossos e chifres.
129 Marie François Xavier Bichat (1771–1802), médico e anatomista francês, especialista em fisiologia cirúrgica.
130 Fontes de venenos de diferentes naturezas.
131 Charles-Louis Cadet de Gassicourt (1769–1821), farmacêutico e escritor francês. Farmacêutico de Napoleão,
também citado como suposto filho do rei Luís XV com Marie Thérèse Françoise Boisselet.
IX
Há sempre após uma morte algo como uma estupefação que se desprende,
tão difícil é compreender essa sobrevinda do nada e resignar-se a acreditar
nela. Quando percebeu, no entanto, a imobilidade de Emma, Charles lançou-
se sobre ela, gritando:
— Adeus! Adeus!
Homais e Canivet o arrastaram para fora do quarto.
— Modere-se!
— Sim — disse ele, debatendo-se —, serei razoável, não farei
nenhum mal. Mas deixem-me! Quero vê-la! É minha esposa!
E chorava.
— Chore — retomou farmacêutico. — Dê à natureza o seu curso,
isso o aliviará!
Tendo-se tornado mais fraco que uma criança, Charles deixou-se
conduzir escada abaixo, para a sala, e Monsieur Homais logo voltou para
casa.
Ele foi abordado na praça pelo Cego, que, arrastando-se até Yonville
na esperança da pomada antiflogística, perguntava a cada transeunte onde
morava o boticário.
— Ora, vamos! Como se eu não tivesse mais nada com que me
preocupar! Ah! Paciência, volte mais tarde!
E correu para a farmácia.
Precisava escrever duas cartas, fazer uma poção calmante para
Bovary, encontrar uma mentira que pudesse esconder o envenenamento e
redigi-la como artigo para o Fanal, sem contar as pessoas que o esperavam
para obter informações; e, quando todos os habitantes de Yonville já tinham
ouvido a história do arsênico que ela havia tomado por açúcar, ao preparar
um creme de baunilha, Homais, mais uma vez, retornou à casa de Bovary.
Encontrou-o sozinho (Monsieur Canivet acabara de partir), sentado
na poltrona, junto à janela, contemplando com um olhar idiota os ladrilhos
da sala.
— Seria preciso, neste momento — disse o farmacêutico —, o
senhor mesmo marcar a hora da cerimônia.
— Por quê? Qual cerimônia?
Em seguida, em uma voz balbuciante e assustada:
— Oh! Não, não é? Não, eu quero guardá-la.
Homais, por compostura, pegou uma jarra da prateleira para regar os
gerânios.
— Obrigado — disse Charles —, o senhor é bom!
E não terminou, sufocando sob a abundância de lembranças que
aquele gesto do farmacêutico lhe trazia.
Então, para distraí-lo, Homais achou por bem falar um pouco de
horticultura; as plantas precisavam de umidade. Charles baixou a cabeça em
sinal de aprovação.
— Além disso, os dias ensolarados agora voltarão.
— Ah! — disse Bovary.
O boticário, no limite das ideias, pôs-se a abrir com cuidado as
cortininhas da vidraça.
— Olha, aí vem Monsieur Tuvache passando.
Charles repetiu como uma máquina:
— Monsieur Tuvache passando.
Homais não ousou falar-lhe dos preparativos fúnebres; foi o
eclesiástico que conseguiu resolvê-lo.
Bovary trancou-se no escritório, pegou uma pena e, depois de ter
soluçado por algum tempo, escreveu:
132 Paul-Henri Thiry, Barão de Holbach (1723–1789). Filósofo e enciclopedista do Iluminismo, conhecido por sua
forte convicção ateísta.
133 Encyclopédie, ou Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers. Uma das primeiras grandes
enciclopédias, publicada em dezenas de volumes, de 1751 até o final do século XVIII.
134 Cartas de alguns judeus portugueses, alemães e poloneses a Voltaire, por Antoine Guénée (1717–1803).
135 Jean-Jacques Auguste Nicolas (1807–1888).
X
Recebera a carta do farmacêutico somente trinta e seis horas após o
acontecimento; e, por respeito à sua sensibilidade, Monsieur Homais a havia
elaborado de tal maneira que era impossível saber o que esperar.
O bom homem a princípio caiu, como que acometido de uma
apoplexia. Em seguida entendeu que ela não estava morta. Mas que poderia
estar… Por fim, vestira a blusa, pegara o chapéu, prendera uma espora no
sapato e partira desembestado; e, ao longo de todo o caminho, o pai,
ofegante, devorou-se em angústias. Uma vez mesmo, viu-se obrigado a
apear. Já não enxergava, ouvia vozes à sua volta, sentia-se enlouquecer.
O dia amanheceu. Avistou três galinhas pretas que dormiam em uma
árvore; estremeceu, aterrorizado com o presságio. Assim, prometeu à Santa
Virgem três casulas para a igreja, e que iria descalço do cemitério de Bertaux
à capela de Vassonville.
Entrou em Maromme acenando para as pessoas da hospedaria,
afundou a porta com um golpe de ombro, saltou para o saco de aveia,
despejou uma garrafa de sidra doce na manjedoura, e montou em seu
cavalinho, que faiscava o chão com as ferraduras.
Dizia a si mesmo que sem dúvida a salvariam; os médicos
descobririam um remédio, era certo. Lembrou-se de todas as curas
milagrosas que lhe haviam contado.
Depois ela lhe aparecia morta. Estava ali, na frente dele, estendida de
costas, no meio da estrada. Ele puxava as rédeas e a alucinação desaparecia.
Em Quincampoix, para criar coragem, bebeu três cafés, um em
seguida do outro.
Pensou que se haviam equivocado de nome ao escrever. Procurou a
carta no bolso, sentiu-a, mas não ousou abri-la.
Chegou a supor que talvez fosse uma troça, uma vingança de alguém,
uma fantasia de um homem de pileque; e, além disso, se ela estivesse morta,
alguém saberia? Mas não! O campo não tinha nada de extraordinário: o céu
estava azul, as árvores balançavam; um rebanho de ovelhas passou. Avistou
o vilarejo; viram-no correndo, inclinado sobre seu cavalo, que açoitava com
grandes golpes, e cujas correias pingavam de sangue.
Quando tomou conhecimento, caiu em lágrimas nos braços de
Bovary:
— Minha filha! Emma! Minha criança! Explique-me…
E o outro respondia soluçando:
— Eu não sei, eu não sei! É uma maldição!
O boticário os separou.
— Esses detalhes horríveis são inúteis. Eu os contarei ao senhor. Aí
vem toda a gente. Dignidade, poxa! Filosofia!
O pobre rapaz quis parecer forte, e repetiu várias vezes:
— Sim… tenha coragem!
— Pois bem — exclamou o velhote —, eu a terei, em nome do bom
Deus! Vou conduzi-la até o fim.
O sino badalava. Tudo estava pronto. Era preciso ir.
Sentados em uma tribuna, um ao lado do outro, viram passar e
repassar continuamente diante si os três mestres de coro que salmodiavam. O
serpentão136 era tocado a plenos pulmões. Monsieur Bournisien, muito
aparamentado, cantava em uma voz aguda; saudava o tabernáculo, levantava
as mãos, estendia os braços. Lestiboudois circulava pela igreja com seu
bastão de barbatana; perto do púlpito, o caixão repousava entre quatro
fileiras de velas. Charles queria se levantar para apagá-las.
Ele tentava, no entanto, instigar-se à devoção, lançar-se na esperança
de uma vida futura em que a reencontraria. Imaginava que ela partira em
viagem, para bem longe, havia muito tempo. Porém, quando pensava que ela
se encontrava lá embaixo, e que tudo estava acabado, que a levavam para a
terra, era tomado por uma raiva feroz, sombria, desesperada. Às vezes
acreditava não sentir mais nada; e saboreava o alívio de sua dor, enquanto se
culpava por sua desgraça.
Ouvia-se nas lajes algo como o ruído seco de um bastão de ferro
golpeando-as em tempos iguais. Vinha do fundo, e parou de súbito na nave
lateral da igreja. Um homem de jaqueta marrom pesada ajoelhou-se
penosamente. Era Hippolyte, o garçom do Lion d’Or. Havia colocado sua
perna nova.
Um dos cantores deu a volta na nave para pedir esmolas, e as grandes
moedas, uma após a outra, ressoavam na travessa de prata.
— Ande logo! Estou sofrendo! — protestou Bovary, atirando-lhe
com raiva uma moeda de cinco francos.
O religioso lhe agradeceu com uma longa reverência.
Cantavam, ajoelhavam-se, levantavam-se, não terminava nunca!
Lembrou que uma vez, nos primeiros tempos, haviam assistido juntos à
missa, e ficaram do outro lado, à direita, contra a parede. O sino recomeçou.
Houve um grande movimento de cadeiras. Os carregadores deslizaram seus
três bastões sob o caixão e saíram da igreja.
Justin então apareceu na soleira da farmácia. Ele voltou de repente,
pálido, cambaleando.
O povo ficava nas janelas para ver passar o cortejo. Charles, à frente,
arqueava a cintura. Fingiu um ar de bravura e saudava com um gesto aqueles
que, afluindo dos becos ou das portas, enfileiravam-se no meio da multidão.
Os seis homens, três de cada lado, caminhavam a passos curtos e
arfando um pouco. Os sacerdotes, os mestres de coro e os dois coroinhas
recitavam o De profundis; e suas vozes avançavam pelo campo, subindo e
descendo com ondulações. Às vezes desapareciam nas curvas do caminho;
mas a grande cruz de prata se distinguia sempre entre as árvores.
As mulheres vinham em seguida, cobertas por capas pretas de capuz
longo; traziam nas mãos uma grande vela acesa, e Charles sentia-se
desfalecer com a repetição contínua de preces e tochas, sob os odores
fastidiosos de cera e de batina. Uma brisa fresca soprava, o centeio e as
couves verdejavam, gotículas de orvalho vibravam à beira da estrada, nas
sebes espinhosas. Todo tipo de ruídos alegres preenchiam o horizonte: o
estalar de uma carroça rolando nos sulcos, o canto de um galo que ecoava,
ou o galopar de um potro que fugia sob as macieiras. O céu puro estava
salpicado de nuvens cor-de-rosa; a luminosidade azulada caía sobre as
cabanas cobertas de íris; Charles, ao passar, reconhecia os pátios. Lembrava-
se de manhãs como aquela, quando, depois de visitar algum doente, partia, e
voltava para Emma.
O pano preto, recoberto de lágrimas brancas, subia de vez em
quando, descobrindo o caixão. Os carregadores cansados diminuíam o passo,
e ela avançava em solavancos contínuos, como uma chalupa que sacode a
cada onda.
Chegaram.
Os homens continuaram até o fundo, em um ponto da relva onde a
cova fora aberta.
Alinharam-se ao redor; e, enquanto o padre falava, a terra vermelha,
acumulada nas bordas, escorria pelos cantos, sem ruído, continuamente.
Então, quando as quatro cordas foram dispostas, empurrou-se sobre
elas o caixão. Ele a observou descer. Ela descia cada vez mais.
Enfim, ouviu-se um choque; as cordas, rangendo, voltaram para
cima. Então Bournisien pegou a pá que Lestiboudois lhe estendeu; com a
mão esquerda, enquanto aspergia com a direita, empurrou vigorosamente
uma pazada de terra; e a madeira do caixão, atingida pelos cascalhos, fez
aquele barulho formidável que nos parece o eco da eternidade.
O eclesiástico passou a água benta para o vizinho. Era Monsieur
Homais. Ele a sacudiu gravemente, depois a estendeu a Charles, que se
afundara até os joelhos na terra, e a jogava com as mãos cheias, gritando:
— Adeus!
Lançava beijos; arrastava-se para o fosso para ser engolido com ela.
Levaram-no; e ele não tardou a se acalmar, experimentando talvez,
como todos os outros, uma vaga satisfação por ter chegado ao fim.
O velho Rouault, ao voltar, pôs-se tranquilamente a fumar um
cachimbo; algo que Homais, no seu íntimo, considerou inapropriado. Notou
também que Monsieur Binet se abstivera de aparecer, que Tuvache “fugira”
depois da missa, e que Théodore, criado do notário, vestia um casaco azul,
“como se não se pudesse encontrar um casaco preto, que era o costume, mas
que diabo!”. Para comunicar suas observações, ia de um grupo a outro.
Lamentavam a morte de Emma, sobretudo Lheureux, que não deixara de vir
ao enterro.
— Pobrezinha daquela senhora! Que dor para o marido!
O boticário continuava:
— Sem mim, os senhores sabem, ele teria sido levado a algum
atentado funesto contra si mesmo.
— Uma pessoa tão boa! E dizer que a vi ainda no sábado passado, na
minha loja!
— Não tive tempo livre — disse Homais — para preparar algumas
palavras que teria jogado em seu túmulo.
Ao voltar, Charles se despiu, e o velho Rouault passou a ferro sua
blusa azul. Era nova, e como ele, ao longo do caminho, enxugara os olhos
muitas vezes com as mangas, havia soltado tinta em seu rosto; e o rastro das
lágrimas formava linhas na camada de poeira que a sujava.
Madame Bovary mãe estava com eles. Os três permaneciam calados.
Enfim, o velhote suspirou:
— O senhor se lembra, meu amigo, de que fui a Tostes uma vez,
quando o senhor acabava de perder sua primeira esposa. Eu o consolei
naquele tempo! Encontrava o que dizer; mas agora… — Então, com um
longo gemido que levantou todo o seu peito: — Ah! É o fim para mim,
entende! Vi partir a minha esposa… meu filho depois… e eis agora minha
filha, hoje!
Quis voltar imediatamente para Bertaux, dizendo que não poderia
dormir naquela casa. Até se recusou a ver a neta.
— Não! Não! Isso me causaria muita dor. Apenas lhe dê muitos
beijos por mim! Adeus! É um bom menino! E, aliás, nunca me esquecerei
disso — disse ele, batendo na coxa —, não tenha medo! Receberá sempre o
seu peru.
Quando chegou ao topo da colina, voltou-se, como fizera outrora na
estrada de Saint-Victor, ao separar-se de Emma. As janelas do vilarejo
pareciam todas em chamas sob os raios oblíquos do sol, que se punha na
campina. Ele colocou a mão diante dos olhos; e percebeu no horizonte um
cercado de muros onde árvores, aqui e ali, formavam buquês negros entre
pedras brancas, depois continuou seu caminho, a trote curto, pois seu
cavalinho mancava.
Charles e a mãe passaram a noite, apesar do cansaço, conversando
juntos por muito tempo. Falavam dos dias passados e do futuro. Ela viria
morar em Yonville, cuidaria da casa, nunca mais se separariam. Ela foi
engenhosa e carinhosa, comprazendo-se interiormente em recuperar uma
afeição que por tantos anos lhe escapara. Soou a meia-noite. O vilarejo,
como sempre, estava silencioso, e Charles, acordado, ainda pensava em
Emma.
Rodolphe, que, para distrair-se, havia caminhado pelo bosque o dia
todo, dormia tranquilamente em seu castelo; e Léon, lá longe, dormia
também.
Havia outro que, àquela hora, não dormia.
Sobre a cova, entre os pinheiros, uma criança chorava ajoelhada, e
seu peito, destroçado pelos soluços, ofegava nas sombras, sob a pressão de
um remorso imenso, mais doce que a lua e mais insondável que a noite. De
repente, o portão rangeu. Era Lestiboudois; vinha buscar sua pá, que havia
esquecido mais cedo. Reconheceu Justin escalando o muro, e então soube o
que pensar do criminoso que andava roubando suas batatas.
136 Instrumento de sopro grave em forma de serpente. Feito em madeira e com bocal metálico, é considerado um
precursor longínquo dos instrumentos de metal atuais, embora também possua características dos sopros de
madeira.
XI
Charles, no dia seguinte, trouxe de volta a pequena. Ela pedia pela mãe.
Disseram-lhe que estava ausente, que lhe traria brinquedinhos. Berthe falou
dela muitas vezes; depois, com o tempo, não pensou mais nisso. A alegria
daquela criança desolava Bovary, e ele precisava se submeter às intoleráveis
consolações do farmacêutico.
Os assuntos financeiros logo recomeçaram, com Monsieur Lheureux
atiçando mais uma vez seu amigo Vinçart, e Charles comprometeu-se com
somas exorbitantes; pois nunca consentiria em vender o menor dos móveis
que haviam pertencido a ela. Sua mãe estava exasperada. Ele se indignou
mais do que ela. Havia mudado por completo. Ela abandonou a casa.
Então todos começaram a aproveitar. Mademoiselle Lempereur
cobrou seis meses de aulas, embora Emma nunca tivesse feito uma sequer
(apesar do recibo quitado que havia mostrado a Bovary): disse que era um
acordo entre as duas. O locador de livros cobrou uma assinatura de três anos;
Madame Rolet cobrou pelo envio de cerca de vinte cartas e, como Charles
exigia explicações, ela teve a delicadeza de responder:
— Ah! Eu não sei de nada! Eram para seus negócios.
A cada dívida que pagava, Charles acreditava que haviam chegado
ao fim. Mas surgiam outras, continuamente.
Ele exigiu o acumulado por visitas passadas. Mostraram-lhe as cartas
que sua esposa enviara. Então foi preciso pedir desculpas.
Félicité usava os vestidos da senhora; não todos, pois ele havia
guardado alguns, e ia vê-los em seu toucador, onde se trancava. Como ela
era mais ou menos do mesmo tamanho, Charles com frequência, ao vê-la por
trás, era tomado por uma ilusão e exclamava:
— Ah! Fique! Fique!
Mas, no Pentecostes, ela fugiu de Yonville, levada por Théodore, e
roubando tudo o que restava do guarda-roupa.
Foi por volta dessa época que Madame Dupuis, viúva, teve a honra
de informá-lo do “casamento de Monsieur Léon Dupuis, seu filho, notário de
Yvetot, com Mademoiselle Léocadie Leboeuf, de Bondeville”. Charles, entre
as felicitações que lhe dirigiu, escreveu esta frase:
“Como minha pobre esposa teria ficado feliz!”
Um dia em que, vagando sem rumo pela casa, ele havia subido ao
sótão, sentiu embaixo do chinelo uma bolinha de papel fino. Ele a abriu e
leu: “Coragem, Emma! Coragem! Eu não quero arruinar sua existência”. Era
a carta de Rodolphe, que havia caído no chão entre as caixas e ficara ali, e
que o vento da claraboia acabava de soprar em direção à porta. Charles
permaneceu imóvel e boquiaberto naquele mesmo lugar onde, uma vez,
ainda mais pálida que ele, Emma, em desespero, quisera morrer. Ao final,
descobriu um pequeno R na parte inferior da segunda página. Quem seria?
Lembrou-se da presença assídua de Rodolphe, de seu desaparecimento
súbito e do ar constrangido que tivera ao reencontrá-la, duas ou três vezes
desde então. Mas o tom respeitoso da carta o iludiu.
— Talvez tenham se amado platonicamente — disse a si mesmo.
Charles não era daqueles que vão ao fundo das coisas; recuou diante
das provas, e seu ciúme incerto perdeu-se na imensidão de sua dor.
“Todos”, pensou, “devem tê-la adorado. Todos os homens, é certo, a
cobiçaram.” Ela pareceu-lhe mais bela; e ele concebeu um desejo
permanente, furioso, que inflamava seu desespero e que não tinha limites,
porque era irrealizável.
Para agradá-la, como se ainda estivesse viva, ele adotou suas
predileções, suas ideias. Comprou botas de verniz, passou a usar gravatas
brancas. Passava cosméticos nos bigodes, assinou, como ela, notas
promissórias. Ela o corrompia do além-túmulo.
Foi obrigado a vender a prataria, peça por peça, e depois os móveis
da sala. Todos os cômodos ficaram vazios; mas o quarto, o quarto dela,
permaneceu como antes. Depois do jantar, Charles subia até lá. Empurrava
para diante do fogo a mesa redonda, e trazia para perto a poltrona dela.
Sentava-se à frente. Uma vela ardia em um dos candelabros dourados.
Berthe, junto dele, coloria gravuras.
Sofria, o pobre homem, ao vê-la tão malvestida, com as botas sem
cadarço e as cavas das blusas rasgadas até os quadris, pois a faxineira não
tomava nenhum cuidado. Mas ela era tão meiga, tão gentil, e sua cabecinha
inclinava-se tão graciosamente, deixando cair sobre as bochechas rosadas
seus belos cabelos louros, que um deleite infinito o invadia, um prazer
misturado com amargura, como os vinhos malfeitos que cheiram a resina.
Ele arrumava os brinquedinhos, fabricava-lhe marionetes de papelão, ou
remendava a barriga rasgada das bonecas. Então, caso seus olhos se
encontrassem com a caixa de costura, com uma fita espalhada, ou mesmo
com um alfinete deixado em uma fissura da mesa, pegava-se a sonhar, e seu
rosto era tão triste que ela ficava triste como ele.
Ninguém àquela altura vinha vê-los; pois Justin fugira para Rouen,
onde se tornara atendente de mercearia, e os filhos do boticário visitavam
cada vez menos a pequenina, não interessando a Monsieur Homais, dada a
diferença de suas condições sociais, que a intimidade se prolongasse.
O Cego, a quem não conseguira curar com o seu unguento,
regressara à encosta do bosque Guillaume, onde narrava aos viajantes a
tentativa vã do farmacêutico, a tal ponto que Homais, quando ia à cidade,
escondia-se atrás das cortinas da Andorinha, a fim de evitar seu encontro.
Ele o execrava; e, no interesse da própria reputação, querendo livrar-se dele
a todo custo, armou contra ele uma bateria oculta, que descortinava a
profundidade de sua inteligência e o lado atroz de sua vaidade. Por seis
meses consecutivos, pôde-se ler, no Fanal de Rouen, pequenos artigos assim
concebidos:
Ou então:
137 Pertencentes à ordem religiosa de São João de Deus, com votos de humildade e caridade. No sentido
pejorativo, referia-se a frades que lecionavam em escolas cristãs.
138 Farinha de cacau; farinha composta à base de leguminosas.
139 Dispositivo médico em forma de uma cinta de baterias que forneciam “eletricidade terapêutica” de baixa
tensão, criado no final do século XIX por Isaac Lewis Pulvermacher (1815–1884). Alegava-se que curava dores nas
costas, surdez, dispepsia, distúrbios dos nervos, doenças renais e outras condições. Completamente ineficaz como
modalidade terapêutica, caiu em desuso nos anos 1950.
140 Os citas eram um povo nômade que habitou o território conhecido como Eurásia, no período entre 700 e 300
a.C. Vestiam-se com túnicas, presas ao corpo com cintas adornadas.
141 Em latim, “Detém-te, viajante… pisas sobre uma esposa amada”.
BOVARY, BOVARISMO
por Maria Rita Kehl
A loucura e a luxúria são duas coisas que sondei bastante, onde naveguei por
minha vontade, e não serei nunca (espero), nem um alienado nem um Sade. […]
Minha doença de nervos foi a espuma dessas pequenas facécias intelectuais […].
Ninguém estudou isto, e os médicos são uma espécie de imbecis, como os
filósofos uma outra [...]. Os materialistas e os espiritualistas impedem igualmente
que se conheça a matéria e o espírito, porque separam uma do outro.9
MARIA RITA KEHL é psicanalista, jornalista e escritora. Mestra em Psicologia Social pela USP e
doutora em Psicanálise pela PUC-SP, é autora de vários livros, entre os quais Bovarismo brasileiro
(2018) e O tempo e o cão: a atualidade das depressões (2009), pelo qual recebeu o prêmio Jabuti. Em
2013 recebeu o prêmio do Movimento Humanos Direitos (MHuD), no Rio de Janeiro, por seu capítulo
sobre camponeses e indígenas no relatório da Comissão Nacional da Verdade.
1 Em Cartas exemplares de Flaubert (1830 a 1880). São Paulo: Imago, 1993. Tradução de Duda Machado.
2 KEHL, Maria Rita. “O julgamento de Madame Bovary e a resistência da moral burguesa” In: Deslocamentos
do feminino: a mulher freudiana na passagem para a modernidade. Rio de Janeiro:
Imago, 1998. 2a edição pela
Boitempo, 2016. p. 118.
3 Ver KEHL, Maria Rita. Bovarismo brasileiro. São Paulo: Boitempo, 2018. p. 21.
4 Expressão popular.
5 As infelizes “donas de casa” das famílias burguesas ou pequeno burguesas.
6 Refiro-me a De l’amour (1862), não a O vermelho e o negro.
7 Publicado em 1862.
8 Cujas origens, na França, datam da revolução de 1789.
9 FLAUBERT, Gustave. Cartas exemplares, op. cit., p. 12.
10 Datados de 1905.
11 Psicologia de massas e análise do
eu, 1921.
12 “Considerações atuais sobre a guerra e a morte”, 1915.
13 O mal-estar na civilização, 1930.
14 “O futuro de uma ilusão”, 1927.
15 Carta de Flaubert a Frédéric Baudry datada de junho de 1857. In: Cartas exemplares, op. cit.
O INSOLENTE PRAZER DE EMMA
BOVARY E GUSTAVE FLAUBERT
por Claudia Amigo Pino
Emma Bovary mora em uma aldeia no norte da França, onde chove boa
parte do tempo e há sempre lama nas ruas. É esposa de um médico torpe,
que vive de fazer sangrias nos camponeses da região. Ela se entedia. Dá
voltas pelo seu jardim para fazer passar as horas. Pensa na miséria de sua
existência.
Nada parece levar a crer que ela será uma heroína do nosso tempo.
Qual foi o ato heroico de Emma? Em primeiro lugar, questionar um
dos alicerces do mundo burguês: a pretensa felicidade do casamento. Ora, a
personagem feminina dos romances do início do século XIX tem como
objetivo se casar, por conta da recompensa afetiva (o amor do marido e dos
filhos), da recompensa econômica (uma forma de se sustentar) e social (se
tornar uma senhora do lar). É comum os romances terminarem quando esse
objetivo é conquistado, sem sabermos como essas personagens se
desenvolverão depois. É o caso, por exemplo, dos romances de Jane Austen.
Os romancistas franceses posteriores ao romantismo jogam luz nesse
momento pós-casamento. A mulher burguesa segura de si, querida pelo
marido e pelos filhos, sem preocupações econômicas, centro da vida social
de uma região, se torna o grande objeto de desejo e perdição dos heróis. É o
caso, por exemplo, de Madame de Renal, seduzida por Julien Sorel, o jovem
preceptor de seus filhos, herói de O vermelho e o negro, de Stendhal. É
também o caso de Madame de Bargeton, de As ilusões perdidas, de Balzac,
que se torna o centro das atenções do jovem escritor Lucien Chardon, um
dos frequentadores do seu salão.
Madame Bovary não se parece com elas. Ela não é rica (embora não
seja pobre), vive perdida em uma aldeia cheia de lama, não vê a menor graça
em seu marido, nem no papel de mãe. Ela não está somente entediada; para
ela o casamento é um embuste do começo ao fim:
Aquela miséria duraria para sempre? Não conseguiria sair daquilo? Ela valia,
afinal, tanto quanto todos aqueles que viviam felizes! Tinha visto duquesas em
Vaubyessard que tinham o físico mais pesado e modos mais comuns, e ela
execrava a injustiça de Deus; encostava a cabeça nas paredes para chorar; invejava
as existências tumultuosas, as noites dos bailes de máscaras, os prazeres insolentes
com todas as loucuras que ela não conhecia e que deviam provocar. (p. 105)
Adentrava em algo maravilhoso, onde tudo seria paixão, êxtase, delírio; uma
imensidão azulada a cercava, os picos do sentimento brilhavam sob sua mente, e a
existência comum aparecia apenas na distância, lá embaixo, na sombra, entre os
intervalos dessas alturas. (p. 225)
Flaubert também é um herói do nosso tempo. Mas talvez pela razão contrária
a sua personagem.
Aos 23 anos, por conta do seu primeiro ataque epiléptico, Flaubert é
obrigado a se recluir na casa de seus pais na aldeia de Croisset, no norte da
França, de onde praticamente não sai mais: daquele momento em diante, ele
só se dedicará a escrever. Porém, ele leva doze anos para publicar seu
primeiro livro, Madame Bovary. O primeiro manuscrito que se atreve a ler
para os amigos Maxime Du Camp e Louis Bouilhet é “A tentação de Santo
Antão”, narrativa baseada num quadro de Brueghel, o jovem, que retrata
uma alucinação com o diabo e diversas criaturas demoníacas. Flaubert tem
28 anos e espera com grande ansiedade a opinião de seus grandes amigos,
que, sem o menor pudor, lhe dizem que ele deve queimar o manuscrito e
nunca mais pensar nele. O texto se perdia em muitas descrições e imagens;
os amigos lhe recomendam escolher um tema mais banal, um fait divers da
vida burguesa, para evitar as digressões e divagações da “tentação”. Essa
anedota, contada por Maxime Du Camp, marca a concepção de Madame
Bovary.
Nos anos seguintes, Flaubert se dedicará completamente a esse
romance, definido em uma carta a sua amante Louise Colet de 28 de março
de 1852 como “diametralmente oposto a Santo Antão, mas creio que o estilo
dele será de uma arte mais profunda”. E essa será sua grande preocupação na
escrita desse novo manuscrito: o estilo. A redação é desmesuradamente
lenta: de acordo com o manuscrito, durou exatos quatro anos, sete meses e
onze dias. Na sua correspondência com Louise Colet há vários exemplos do
sofrimento na procura da palavra “certa”: “quatro páginas por semana”,
“cinco dias para uma página”, “dois dias para encontrar duas linhas”. Não
havia grandes aventuras para contar, pelo contrário, Flaubert afirma que
gostaria de fazer um livro sobre nada, sustentado apenas pelo seu estilo: “as
obras mais belas são aquelas com menos matéria” (16 de janeiro de 1852).
Para isso, diferentemente do que aconteceu no Santo Antão, Flaubert
planeja minuciosamente a narrativa, primeiro a partir de um plano geral, que
depois é desenvolvido em “roteiros” que estruturam todos os “quadros” da
narrativa. Embora passem por hesitações e mudanças ao longo da escrita,
eles não serão os grandes culpados da escrita lenta do romance. Flaubert se
deterá a maior parte do tempo nas correções do estilo de cada frase. Roland
Barthes afirma que, apesar de as correções serem muito variadas, a maioria
delas se concentra em dois pontos: eliminar as repetições de palavras e
trabalhar os conectores entre as frases, para dar fluidez ao texto. Esses dois
tipos de correções, por sua vez, levam a duas características dessa narrativa:
a riqueza imagética da descrição (necessária para não repetir as palavras) e a
identificação extrema com a personagem:
Emma sente que a sua vida se esvai como uma música e que o seu
sustento é mais mole que uma onda de água. Flaubert não descreve, ele cria
imagens, o que obriga o leitor a procurar suas próprias sensações para
interpretar esse sofrimento interno da personagem. E assim, quando ele já
está dentro da cabeça de Emma, ou Emma está dentro de sua cabeça, ela
explode como as mil peças de um fogo de artifício. Flaubert persegue de
forma obsessiva esse efeito em suas correções de estilo, que nunca de fato
chegam a parar. Para cada página do manuscrito final, ele escreve dez
páginas de rascunhos procurando a palavra, a imagem, o ritmo certos, e,
depois de publicado, o romance ainda passa por inúmeras correções.
O objetivo de Flaubert não era terminar um romance, mas escrever
sem fim, anulando a sua própria vida. Durante o período da escrita do
romance, o autor se isola completamente em Croisset, vê a amante Louise
Colet apenas de três em três meses durante uma noite, não frequenta a casa
dos amigos, quase não vai à cidade, não conhece pessoas, não faz passeios
em lugar nenhum. A sua obsessão com o estilo faz com que ele ceda a sua
vida às personagens ou que as personagens cedam a vida a ele: “Meus
personagens imaginários me afetam, me perseguem, ou melhor, sou eu que
estou neles. Quando escrevi o envenenamento de Emma Bovary, sentia
também o gosto de arsênico na boca, eu próprio fiquei bem envenenado a
ponto de ter duas indigestões, uma seguida da outra, duas indigestões reais,
pois vomitei durante todo o jantar” (Correspondência, 1869).
E assim, Flaubert antecipa o célebre final de Em busca do tempo
perdido, de Marcel Proust, em que o narrador chega à conclusão de que “a
verdadeira vida, a vida enfim descoberta e tornada clara, a única vida, por
conseguinte, realmente vivida, é a literatura”. Para o narrador proustiano,
isso não significa que os fatos da nossa vida cotidiana não devam ser
vividos, mas que eles só adquirem significado quando são repensados,
revividos e reorganizados na ficção.
Flaubert se torna um herói para a literatura moderna porque ele
realiza o sonho de viver para escrever, se tornando um verdadeiro “homem-
pena”, como ele afirma para Louise Colet: “Sou um homem-pena. Sinto por
meio dela, em relação a ela e muito mais com ela” (1o de fevereiro de 1852).
Por isso ele não pode deixar de escrever nunca, a sua escrita é a sua forma de
viver. O verbo “escrever” é para ele um verbo intransitivo, ele não escreve
um romance, um conto, ou um poema, ele escreve simplesmente.
E por que a literatura moderna pode querer que o escritor anule a sua
vida e apenas escreva? Porque essa é a sua grande demonstração de poder.
Até o realismo, a literatura dependia do real, era vista como uma espécie de
espelho da sociedade, como pretendia Stendhal. Com Flaubert, a literatura se
desprende do real, ela se torna artifício, um efeito obtido por meio da frase,
do ritmo, da imagem. E assim, Madame Bovary pode até ser baseado num
fato real, mas isso se torna completamente irrelevante. Por meio do trabalho
da linguagem, dessa escrita sem fim de Flaubert, a obra se desprende de seu
referente e faz que Madame Bovary seja eu, seja você, sejamos todos nós.
CLAUDIA AMIGO PINO é professora titular de Literatura Francesa na USP. O primeiro livro sério
que leu na vida foi Madame Bovary, e talvez essa seja a razão de ser professora de Literatura
Francesa. Estuda os processos de criação de obras contemporâneas e especialmente da crítica literária.
Já publicou os livros A ficção da escrita (Ateliê, 2004), Escrever sobre escrever (WMF Martins
Fontes, 2007), com Roberto Zular, e Roland Barthes: a aventura do romance (7Letras, 2015), além de
vários artigos e coletâneas.
RETOQUES AO RETRATO DE EMMA
por Norma Telles
NORMA TELLES é historiadora pela USP, mestre e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP, onde
foi professora entre 1978 e 2006. Autora de Encantações (Intermeios), Mulheres viajantes
(AnnaBlume) e Ronda das feiticeiras (Luas).
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
F587M
Flaubert, Gustave
Madame Bovary / Gustave Flaubert ; traduzido por Janaína Perotto ; ilustrado por Maria Flexa. – Rio
de Janeiro : Antofágica, 2022. 496 p.
Antofágica
prefeitura@[Link]
[Link]/antofagica
[Link]/antofagica
Rio de Janeiro — RJ
1a edição, 2022.
FELICIDADE, PAIXÃO E EMBRIAGUEZ SÃO MAIS DO QUE MEROS SONHOS EM
ANTOFÁGICA
VIDEOAULA
GRÁTIS
sobre Madame Bovary com Claudia
Amigo Pino, professora titular de
Literatura Francesa na USP.
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Dom Casmurro
Mrs. Dalloway