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Tradução: Marcos Marcionilo

Direção: Andréia Custódio


Diagramação e capa: Telma Custódio

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE


SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

A512d

Maingueneau, Dominique
Variações sobre o ethos / Dominique Maingueneau ; tradução Marcos
Marcionilo. - 1. ed. - São Paulo : Parábola, 2020.
176 p. ; 23 cm (Lingua[gem] ; 89)

Tradução de: Variations sur l’ethos


Inclui bibliografia
ISBN 978-85-7934-183-0

1. Linguística. 2. Análise do discurso. I. Marcionilo, Marcos. II. Título.

20-62863 CDD: 401.41


CDU: 81’42

Meri Gleice Rodrigues de Souza - Bibliotecária CRB-7/6439

Direitos reservados à
PARÁBOLA EDITORIAL
Rua Dr. Mário Vicente, 394 - Ipiranga
04270-000 São Paulo, SP
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ISBN: 978-85-7934-183-0
© da edição: Parábola Editorial, São Paulo, 2020.
Sumário

Prefácio...................................................................................................... 7

Introdução................................................................................................ 9

VARI AÇ ÕE S
I
Ethos encaixados
1. No teatro............................................................................................. 48
2. Ethos de narrador, ethos de personagem ........................................... 60
3. Encenações do antiethos.. ....................................................................70

II
Corpos públicos
4. O corpo do porta-voz. . .........................................................................84
5. O ethos do sobrelocutor.....................................................................101
6. O ethos no corpo................................................................................ 114

III
Para além do texto: a parte das coisas
7. Uma oração em seu lugar................................................................... 128
8. Agenciamentos e ethos editorial........................................................142
9. O ethos testado pela internet ........................................................... 155

Poderes e limites do ethos......................................................................167

Referências............................................................................................ 169
5
Prefácio

D
urante mais de 2.000 anos, o conceito de ethos esteve reservado à
arte oratória. Ele se introduziu na paisagem da análise do discurso
no início dos anos 1980; mais foi um pouco mais tarde que veio a
adquirir forte visibilidade1. E eu contribuí para a emergência dessa
problemática ao desenvolver uma concepção pessoal do ethos (Main-
gueneau, 1984, 1987, 1999). Com o passar dos anos e das pesquisas, sem
questionar radicalmente meus pressupostos iniciais, fui levado a enfrentar
novas questões e a esclarecer certos pontos (Maingueneau, 2002, 2013c,
2014a). Meu esforço visava especialmente afinar essa noção, analisando
mais precisamente seus componentes, levando em conta a diversidade
dos gêneros e os tipos de discurso: o ethos não pode funcionar do mesmo
modo num texto filosófico, numa peça de teatro, numa interação con-
versacional, num site ou num telejornal.
Mais do que conceber o ethos como um instrumento completamente
dominado, que me permitisse estudar quaisquer corpora, me pareceu
útil avaliar seus poderes e limites. Se este livro traz no título o termo
“variações”, não é apenas por abordar corpora variados, mas também
1
Especialmente graças à obra coletiva Imagens de si no discurso: a construção do ethos [Amossy
(org.), 2005].

7
Dominique Maingueneau | Variações sobre o ethos
8
porque, em grande parte, avalia a resistência do ethos em ambientes
infrequentes. Para além dessa ou daquela análise, o conjunto da obra
se guia pela tese de que é preciso ”dessubstancializar”, renunciar a ver
no ethos um elemento bem delimitado e estável, como o deixa pensar
certo número de trabalhos que elegem como meta estudar “o ethos de
X”, onde X é uma personalidade pública. Estudar o ethos é, na realidade,
estudar a enunciação em seu conjunto, mas sob certo ângulo. É preciso
ainda que esse ângulo seja pertinente, ofereça um ponto de observação
interessante para destravar certas propriedades dos enunciados que nos
proponhamos a estudar.
O livro está dividido em duas seções de extensões desiguais. A pri-
meira (“Introdução”) apresenta a problemática do ethos, levando em
conta determinado número de dificuldades decorrentes de seu uso. A
segunda, muito mais longa, se compõe de três grupos de capítulos que
põem o ethos à prova em corpora diversos, mas que estão longe de ser re-
presentativos da variedade infinita das manifestações do discurso. Começo
pela abordagem de textos nos quais um ethos se encaixa no outro (“Ethos
encaixados”), depois de ethos de natureza política (“Corpos públicos”).
O terceiro e último grupo de capítulos (“Para além do texto: a parte das
coisas”) ressalta a influência determinante dos dispositivos materiais so-
bre o ethos. Apenas a parte central do livro se interessa, então, por ethos
que poderíamos chamar de “clássicos”, aqueles que estudamos durante
a maior parte do tempo em análise do discurso. A imbricação das três
partes e dos capítulos deste livro é relativamente arbitrária, mesmo assim,
tentei conferir fluidez a sua leitura, construir uma trajetória coerente,
inclusive de um ponto de vista histórico: os textos que não se enquadram
no mundo contemporâneo são abordados no início.
Pode ser motivo de admiração a diversidade dos exemplos abordados
neste livro: vai-se de uma peça de Molière à internet, passando por pro-
gramas eleitorais, orações ou peças publicitárias. Essa diversidade não é
nada gratuita: ela resulta de uma abordagem para a qual todo enunciado
pode ser matéria de reflexão, e a análise do discurso deve apreender o
universo do discurso em toda a sua diversidade, em vez de se restringir a
alguns setores da vida social: educação, política, mídia, saúde, justiça…2


2
Sobre essa questão, cf. Maingueneau (2019).
Introdução

Do ethos retórico à incorporação

E
studar o ethos é se apoiar em um dado simples, intuitivo, coextensivo
a todo uso da linguagem: o destinatário constrói uma representação
do locutor por meio daquilo que ele diz e de sua maneira de dizê-lo.
Deixem-me esclarecer: uma representação avaliada, pois falar é uma
atividade erguida sobre valores supostamente partilhados. Ao tomar a palavra,
o que um locutor faz, então, é pôr em risco sua imagem e tentar orientar,
mais ou menos conscientemente e em um sentido que lhe seja favorável, a
interpretação e a avaliação dos signos que envia ao destinatário.
Na Antiguidade grega, essa dimensão da atividade verbal foi destacada e
teorizada no campo da arte oratória, especialmente na Retórica de Aristóteles,
para quem a prova pelo ethos consiste em causar boa impressão, em dar uma
imagem de si capaz de convencer o auditório ganhando sua confiança: “Persua-
dimos pelo caráter (= ethos) quando o discurso é apresentado de modo a tornar o
orador digno de fé; com efeito, nós nos fiamos mais rápida e preferentemente em
pessoas de bem, em todos os assuntos em geral, e completamente em questões
que não admitem certeza alguma, mas deixam lugar à dúvida” (1356 a 4-7)1.


1
Sigo a tradução francesa de M. Dufour (Paris: Les Belles Lettres, 1938).

9
Dominique Maingueneau | Variações sobre o ethos
10
Para chegar a esse ponto, o orador pode se mover entre três grandes tipos de
ethos: a phrónesis, ou prudência, a areté, ou virtude, e a eunoia, ou boa vontade
(1378 a 6-14).
Em grego, o termo “ethos” é polissêmico, e Aristóteles joga com isso.
Duas características se destacam, porém, de seu significado:
(1) “o vínculo estreito que essa palavra mantém com a ideia de ‘si’ contida no
pronome reflexivo;
(2) a ligação existente entre ᾖθος e a noção de costume (ἔθος)” (Woerther,
2007: 21).

Com efeito, os filólogos fazem ᾖθος remontar à raiz indo-europeia


*swedth (“costume”, “acostumar-se”), que se pode correlacionar a *swe (ao
qual está ligado o adjetivo latino suus). Por sinal, *swedth é a raiz tanto de
ᾖθος (caráter), quanto de ἔθος (costume). Em outros termos, tanto entre os
gregos como no mundo contemporâneo, o ᾖθος está fundamentalmente
ligado aos processos de constituição de um “si” relativamente estável no
interior de uma coletividade. Trata-se de uma noção radicalmente híbrida
(socio/discursiva), de um comportamento verbal socialmente avaliado,
que não podem ser apreendidos fora de uma situação de comunicação
historicamente determinada.
Em retórica, a prova pelo ethos mobiliza tudo aquilo que, na enun-
ciação, contribui para emitir, moldar a imagem do orador.
Tom de voz, ritmo da fala, seleção vocabular e argumentos, gestos, expres-
são facial, olhar, postura, figurino etc. são igualmente signos, elocutórios e
oratórios, indumentários e simbólicos, pelos quais o orador dá de si mesmo
uma imagem psicológica e sociológica (Declercq, 1992: 48).

Na elaboração do ethos, interagem ainda elementos de naturezas


muito diversas: da escolha do registro linguístico e vocabular ao plane-
jamento textual, passando pelo ritmo e pelo figurino… Não se trata de
uma representação estática, mas de uma forma dinâmica, construída pelo
destinatário por meio do próprio movimento da fala do locutor.
Na tradição retórica, o ethos foi quase sempre considerado com
suspeição: apresentado como tão ou, às vezes, mais eficaz até que o “lo-
gos”, desconfia-se de que ele possa inverter a hierarquia moral entre o
inteligível e o sensível. De fato, diferentemente dos outros polos da tríade
ethos-logos-pathos, tem-se aqui um estatuto instável: ora se lhe atribui um
papel periférico, ora um papel central. Por sinal, essa mesma hesitação
também se encontra no próprio Aristóteles, que modaliza duplamente
sua afirmação quando enfatiza sua importância: “É o caráter (ᾖθος) que,
pode-se dizer, quase constitui a mais eficaz das provas”, escreve ele (1356a).
Aristóteles insiste no fato de que o ethos deriva da própria enunciação:
Persuadimos pelo caráter quando o discurso é de natureza a tornar o orador
digno de fé (…). Contudo, é necessário que essa confiança seja o efeito do
discurso, não de uma prevenção sobre o caráter do orador (1356a)2.

Roland Barthes destaca esse ponto:


São os traços de caráter que o orador deve mostrar ao auditório (pouco im-
porta sua sinceridade) para causar boa impressão (…) O orador enuncia uma
informação e, ao mesmo tempo, diz: eu sou isso, não sou aquilo (1970: 212).

A eficácia do ethos assemelha-se assim ao fato de ele envolver, de


alguma maneira, a enunciação sem estar explicitado no enunciado. O
ethos do qual falamos aqui é, portanto, um ethos propriamente discur-
sivo: o destinatário atribui a um locutor inscrito no mundo, fora de sua
enunciação, traços que são, na realidade, intradiscursivos, pois associados
à maneira com que ele está falando.
Oswald Ducrot conceituou esse ethos discursivo recorrendo à dis-
tinção entre o “locutor-L” (= o enunciador) e o “locutor-λ” (= o locutor
enquanto ser do mundo), distinção que se cruza com a dos pragmáticos
entre mostrar e dizer: o ethos se mostra no ato de enunciação, ele não se
diz no enunciado.
Não se trata de afirmações bajulatórias que o orador pode fazer sobre si
mesmo no conteúdo de seu discurso, afirmações que, ao contrário, trazem
o risco de chocar o ouvinte, mas da aparência que lhe conferem o ritmo, a
entonação, calorosa ou severa, a seleção das palavras, dos argumentos…
Em minha terminologia, direi que o ethos está vinculado ao L, ao locutor
enquanto tal: é enquanto fonte da enunciação que ele se vê revestido de
algumas características que, em contrapartida, tornam essa enunciação
aceitável ou desencorajante (Ducrot, 1984: 201).

Na realidade, esse ethos discursivo põe em interação um ethos


mostrado, decorrente da maneira de falar, e um ethos dito, aquilo que
o locutor diz de si mesmo enquanto enuncia, por exemplo, ser ele um


2
Destaques meus.

Introdução
11
Dominique Maingueneau | Variações sobre o ethos
12
homem simples, que ama seu país etc. Porém, enquanto o ethos mostra-
do é uma dimensão constitutiva de toda enunciação, o ethos dito não é
obrigatório: o locutor nem sempre fala de si mesmo. No interior do ethos
dito, podemos isolar um ethos propriamente verbal, que incide sobre as
propriedades da própria enunciação: “Não sei falar em público”, “não
gosto de muita falação”… De fato, a distinção entre ethos dito e mostrado
e ethos dito verbal e não verbal se inscreve em um continuum: é impossí-
vel definir uma fronteira nítida entre o “dito”, quando ele é sugerido, e o
“mostrado”, entre os comentários sobre a fala e o que não decorre disso.
O ethos está crucialmente vinculado ao ato de enunciação, mas os
destinatários mantêm também uma representação do ethos do locutor
antes mesmo de ele vir a falar. Desse modo, podemos estabelecer uma
distinção entre ethos discursivo e ethos pré-discursivo (ou prévio). Mas essa
distinção pré-discursivo/discursivo tem de levar em conta a diversidade das
situações de comunicação. Existem circunstâncias em que o destinatário
não parece ter representações prévias do ethos do locutor (por exemplo,
quando ele abre um romance escrito por um autor desconhecido), mas é
difícil imaginar uma ausência total de ethos: mesmo que nada saibamos
do indivíduo que escreveu um romance, saberemos ao menos que ele se
considera escritor, um romancista que publica certo gênero de romance
por tal editora. O simples fato de um texto resultar de um tipo, de um
gênero de discurso e de determinado posicionamento ideológico induz ex-
pectativas em termos de ethos. O mesmo não acontece quando os locutores
estão constantemente presentes na cena midiática: isso é especialmente
evidente no caso da política, da música ou do cinema, onde aqueles que
tomam a palavra são muito frequentemente já conhecidos dos destinatários.
O ethos efetivo de um enunciador resulta, então, da interação entre seu
ethos pré-discursivo, seu ethos discursivo (ethos mostrado), os fragmentos
do texto no qual ele evoca sua própria personalidade (ethos dito).
Existe uma segunda concepção do ethos, que o apreende não como
uma maneira de falar, mas como um comportamento, um costume. Ela
está igualmente presente na Retórica de Aristóteles, onde o termo “ethos”
designa propriedades atribuídas ao orador enquanto ele enuncia, assim
como disposições estáveis conferidas a indivíduos inseridos em coleti-
vidades: haveria, por exemplo, um ethos específico desse ou daquele
regime político. Mais amplamente, Aristóteles “adapta o uso desse termo
a campos tão diversos quanto a biologia, a ética, a política ou a poética”
(Woerther, 2007: 302) e, é claro, a retórica.
Em Aristóteles, o ethos retórico se alimenta da polissemia do termo
grego do qual ele se apodera, se bem que se trata mais de um conceito
heurístico do que de um conceito rigorosamente definido. Os múltiplos
valores assumidos por esse termo nos diversos domínios de nossas ciên-
cias humanas e sociais contemporâneas levam a pensar que a situação
não é fundamentalmente diferente hoje. Nessas condições, pode ser
útil distinguir o ethos como potencial do ethos como noção. Enquanto
“potencial”, o ethos não deriva de nenhum campo em particular. En-
quanto “noção”, ele resulta de um espaço interdisciplinar determinado
(sociologia, antropologia, musicologia, ciência política). Para a análise
do discurso, trata-se das ciências da linguagem, onde existe um acordo
implícito acerca de algumas ideias fundamentais:
— o ethos é uma noção discursiva, ele se constrói mediante o discurso, não
se trata de uma “imagem” do locutor externa à fala;
— ele está vinculado a um processo interativo de influência de outros;
— é uma noção híbrida (sócio/discursiva), um comportamento social avaliado,
que só pode ser apreendido fora de uma situação de comunicação histórica
e socialmente determinada.
Em sociologia, a noção de ethos foi alimentada pelos trabalhos de
autores como Max Weber, Norbert Elias ou Pierre Bourdieu. Ao recor-
rerem a essa noção, os sociólogos postulam
a existência de meios sociais estruturante e estruturalmente constituídos,
historicamente sedimentados, para poderem ser lugares de socialização, quer
dizer, lugares relacionais que favoreçam, mediante a experiência e a aprendiza-
gem, a interiorização de normas, valores, princípios éticos que permitam ado-
tar uma relação particular com o mundo, especialmente atribuindo a ele uma
valência no registro do “bem”, do “justo”, do “normal” (Fusulier, 2011: § 25).

A noção de ethos se transforma em conceito quando é utilizada por


um autor ou corrente específica, que o faz entrar em uma rede de ter-
mos. Nas ciências da linguagem, Marcelo Dascal (1999), por exemplo, o
integra em uma “retórica cognitiva” fundamentada em uma pragmática
filosófica, enquanto Ruth Amossy (2010) constrói um quadro teórico em
torno da “apresentação de si”, dando sequência a Erving Goffman. Já eu
o inscrevo, sobretudo, numa problemática da “incorporação”.
Introdução
13
Dominique Maingueneau | Variações sobre o ethos
14
A incorporação

D
urante mais de 2.000 anos, o conceito de ethos esteve reservado à
A meu ver, para além da persuasão por meio de argumentos, a noção
de ethosoratória.
arte permite Ele se introduziu
refletir sobre a adesãona paisagem daao
dos sujeitos análise do discurso
universo confi-
no início
gurado dos anos
pelo locutor. 1980; mais
Escolher o ethosfoiconveniente,
um pouco mais aliás,tarde que nos
é decisivo veio a
adquirir
gêneros forte visibilidade.
de discurso em que os locutores têm de conquistar um público
ainda não ganho
Atualmente, mais queparaconceber
sua causa.o ethos como um instrumento comple-
Todavia, para abordar o ethos por esse ângulo, é preciso vencer a
tamente dominado, que permita estudar quaisquer corpora, parece mais
oposição empírica entre o oral e o escrito. Enquanto a retórica vinculou
útil avaliar seus poderes e limites. Se este livro traz no título o termo “va-
estreitamente o ethos à oralidade, todo texto escrito, mesmo que o negue,
riações”,
possuinãoumaé vocalidade abordar corpora
apenas porespecífica: variados,
a instância massetambém
subjetiva manifesta porque,
por
emmeio
grande parte, avalia a resistência do ethos em ambientes
de um corpo enunciante historicamente especificado. Trata-se, infrequentes.
com efeito, de um corpo
O livro está dividido em duasde enunciador
seções de(eextensões
não, obviamente, do corpo
desiguais. do
A primei-
locutor extradiscursivo),
ra (“Introdução”) apresenta considerado como um
a problemática fiador que,
do ethos, por seu
levando emtom,
conta
atesta o que é dito. O termo “tom” tem a vantagem de valer tanto para o
determinado número de dificuldades decorrentes de seu uso. A segunda
escrito quanto para o oral. O poder de persuasão de um discurso resulta,
(“Variações”), muito mais longa, se compõe de três grupos de capítulos,
então, em boa parte, do fato de ele levar o destinatário a se identificar
quecompõem o ethos à prova
o movimento de umem corpora
corpo, mesmo diversos, mas que estão
muito esquemático, longe de
investido
serderepresentativos da variedade
valores historicamente infinitaasdas
especificados: manifestações
“ideias” suscitam a do discurso.
adesão do
Começo pela abordagem de textos nos quais um
leitor porque a maneira de dizer implica uma maneira de ser. ethos se encaixa no ou-
tro (“Ethos encaixados”),
Trata-se depois de
de uma concepção ethos de natureza
marcadamente política
“encarnada” do (“Corpos
ethos.
públicos”). O terceiro
Algo da ordem e último grupo
da experiência de capítulos
sensível (“Para
entra em jogo naalém do texto: a
comunicação
parte das O
verbal. coisas”)
“fiador”ressalta a influência
vê atribuídos a si umdeterminante dos dispositivos
caráter e uma corporalidade, ma-
cujo
grau de precisão varia de acordo com os textos. O “caráter”
teriais sobre o ethos. Apenas a parte central do livro se interessa, então, corresponde
poraethos
um feixe
quede traços psicológicos.
poderíamos Já quanto à “corporalidade”,
chamar de “clássicos”, ela está
aqueles que estudamos
associada a uma compleição física e a uma maneira de se vestir, a um
durante a maior parte do tempo em análise do discurso. A imbricação das
modo de se mover no espaço social, a um comportamento. O destinatário
três partes e dos capítulos deste livro é relativamente arbitrária. Mesmo
constrói, de maneira mais ou menos fluida, mais ou menos consciente, a
assim,
figuratentei
desseconferir fluidez a em
fiador apoiando-se suaum leitura, construir
conjunto difuso uma trajetória coe-
de representações
rente, inclusive
sociais de um ponto
estereotipadas, de vistaouhistórico.
valorizadas desvalorizadas, que a enunciação
contribui para reforçar ou transformar.
Propus designar com o termo incorporação o processo pelo qual o
destinatário — ouvinte ou leitor — se apropria desse ethos. Efetivamente,
essa “incorporação” pode se dar em três planos:
— a enunciação da obra confere uma “corporalidade” ao fiador, ela lhe dá corpo;
— o destinatário incorpora, assimila assim um conjunto de esquemas cor-
respondentes a uma maneira específica de se relacionar com o mundo
habitando seu próprio corpo;
Tradução: Marcos Marcionilo

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