Abandono Escolar de Raparigas em Moçambique
Abandono Escolar de Raparigas em Moçambique
Dissertação submetida como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Estudos de
Desenvolvimento
Orientadores:
Professora Doutora Maria Antónia Belchior Ferreira Barreto, Investigadora, ISCTE-IUL
Doutor Ricardo Miguel Almeida da Silva Falcão, Investigador, ISCTE-IUL
Outubro de 2019
Escola de Ciências Sociais e Humanas
Departamento de Economia Política
Dissertação submetida como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Estudos de
Desenvolvimento
Orientadores:
Professora Doutora Maria Antónia Belchior Ferreira Barreto, Investigadora, ISCTE-IUL
Doutor Ricardo Miguel Almeida da Silva Falcão, Investigador, ISCTE-IUL
Outubro de 2019
i
Dedicatória
À minha linda família, Javi e Sara.
À Vitória, à Inês e ao João, à Tita e ao Luís.
Agradecimentos
Aos orientadores deste trabalho, a Professora Antónia Barreto e o Doutor Ricardo Falcão, que
me acompanharam, me deram força, incentivo e preciosos ensinamentos.
E a todos e a todas os que contribuíram de alguma forma para finalizar este trabalho.
Muito obrigada!
ii
RESUMO
O trabalho debruça-se sobre os fatores que influenciam o abandono escolar das raparigas no
norte de Moçambique, analisando dados quantitativos e qualitativos. É um estudo de caso da
Escola Secundária de Anchilo, no norte do país, Província de Nampula, onde tem vindo a ser
implementado um programa (Programa Futuro Maior) de atribuição de bolsas de estudo pela
ONGD Helpo. O norte de Moçambique apresenta particularidades próprias do contexto
económico, geográfico e social onde se insere, pelo que o conhecimento existente de
caracterização do abandono escolar das raparigas a nível nacional necessita de validação para
ser aqui aplicado. Realizaram-se entrevistas individuais e focus group a professores(as), a
alunos(as), a pais e mães e a representantes governamentais na tentativa de compreender as
perceções de cada grupo em relação ao abandono escolar das raparigas e aos fatores que
contribuem para tal. O estudo confirmou as desvantagens no acesso à educação por parte das
raparigas, identificando fatores institucionais (por exemplo a distância da escola ao local de
residência das famílias), fatores culturais (por exemplo os relacionados com o casamento
prematuro e a gravidez na adolescência e a falta de suporte familiar) e fatores relacionados com
os papéis de género e expetativas de futuro para as raparigas que influenciam o processo de
tomada de decisão por parte destas e das suas famílias. Os fatores económicos não tiveram
relevância neste estudo.
PALAVRAS-CHAVE
Abandono escolar, Moçambique, Educação da rapariga, Ensino Secundário, Papéis de género
iii
ABSTRACT
The paper focuses on the factors that influence girls' dropout in northern Mozambique, analyzing
quantitative and qualitative data. It is a case study of Anchilo Secondary School in the north of
the country, Nampula Province, where a program (Programa Futuro Maior) for the awarding of
scholarships by NGO Helpo has been implemented. Northern Mozambique has its own
particularities based on its economic, geographical and social context, so the existing knowledge
of characterization of girls' dropout at national level needs validation to be applied here. Individual
interviews and focus groups were conducted with teachers, students, parents, and government
representatives in an attempt to understand each group's perceptions of girls' dropout and
contributing factors. The study confirmed the disadvantages of girls 'access to education by
identifying institutional factors (eg distance from school to families' place of residence), cultural
factors (eg those related to early marriage and teenage pregnancy and lack of family support)
and factors related to gender roles and future expectations for girls that influence girls and
families' decision making. Economic factors were not relevant in this study.
KEYWORDS
School dropout, Mozambique, Girl's Education, Secondary Education, Gender roles
iv
ÍNDICE
v
4.1.2. ESCOLA SECUNDÁRIA DE ANCHILO .......................................................................40
4.2. O ABANDONO ESCOLAR SEGUNDO O PROGRAMA FUTURO MAIOR .............................41
4.3. ENTREVISTAS INDIVIDUAIS E FOCUS GROUP ................................................................42
4.3.1. PERCEÇÃO SOBRE A EXISTÊNCIA DE ABANDONO ESCOLAR.................................42
4.3.2. FATORES INSTITUCIONAIS E ABANDONO ESCOLAR ...............................................43
4.3.3. GRAVIDEZ/CASAMENTO PREMATURO E ABANDONO ESCOLAR ............................48
4.3.4. FATORES CULTURAIS E ABANDONO ESCOLAR ......................................................50
4.3.5. FATORES ECONÓMICOS E ABANDONO ESCOLAR .................................................55
4.3.6. PERCEÇÕES SOBRE GÉNERO E EXPETATIVAS DE FUTURO ...................................56
CONCLUSÃO ...............................................................................................................................59
ANEXOS ......................................................................................................................................71
vi
ÍNDICE DE QUADROS
Quadro 3.1 Dados recolhidos para esta investigação e respetiva fonte de origem ---------------- 31
Quadro 3.2 Número de bolsas de estudo atribuídas a estudantes do ensino secundário em
escolas da Província de Nampula e da Província de Cabo Delgado, por ano de funcionamento
do programa ---------------------------------------------------------------------------------------------------------- 32
Quadro 4.1 Número de inscritos na 7.ª classe nas escolas primárias de origem em 2018,
desagregado por género -------------------------------------------------------------------------------------------39
Quadro 4.2 Número de inscritos na 7.ª classe nas escolas primárias de origem em 2019,
desagregado por género ------------------------------------------------------------------------------------------ 39
Quadro 4.3 Número de abandonos escolares por gravidez nas escolas primárias de origem em
2018, na 6.ª e 7.ª classes ----------------------------------------------------------------------------------------- 40
Quadro 4.4 Número de rapazes e de raparigas matriculados na ES de Anchilo nos anos letivos
de 2018 e 2019, e IPG calculado, por classe ----------------------------------------------------------------- 40
vii
ÍNDICE DE FIGURAS
Figura 3.1 Edifício com três salas de aula na Escola Secundária de Anchilo ------------------------ 29
Figura 3.2 Vista aérea da Escola Secundária de Anchilo ------------------------------------------------- 29
Figura 3.3 Vista aérea da Escola Primária Completa de Matibane ------------------------------------ 30
Figura 4.1 Distribuição percentual das causas indicadas para o abandono escolar no ensino
secundário das raparigas inscritas no Programa Futuro Maior, no período 2013-2019 das
comunidades de Matibane (n=20) e Napacala (n=14) e que frequentavam a ES de Anchilo --- 41
viii
GLOSSÁRIO
ADE – Apoio Direto às Escolas
ES – Escola Secundária
ix
PEE – Plano Estratégico da Educação
PGE – Parceria Global para a Educação (Global Partnership for Education - GPE)
x
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
INTRODUÇÃO
O presente trabalho de investigação debruça-se sobre a situação escolar das raparigas no norte de
Moçambique, utilizando como estudo de caso a Escola Secundária de Anchilo, na Província de
Nampula. Surge na sequência da minha experiência profissional a trabalhar com a ONGD Helpo,
primeiro na Província de Nampula, de 2011 a 2015 e depois através da sede da organização em
Portugal, de 2015 até à data. O trabalho desenvolvido pela Helpo no norte de Moçambique tem o foco
na melhoria das condições de educação em comunidades rurais. A perceção existente no terreno e os
casos que chegam ao conhecimento da Helpo revelam claras desvantagens no acesso à educação por
parte das raparigas, perceção que é comprovada pela simples análise aos números de alunos e alunas
matriculados em cada escola, como é o caso da Escola Secundária de Anchilo que tem mais 200
rapazes matriculados do que raparigas. Sabendo que a situação é mais complexa do que a simples
comparação entre os números de estudantes matriculados, está aqui apresentada a primeira razão de
ser desta investigação, a de procura de mais informação na tentativa de explicar comprovadamente
quais os fatores por detrás destes números e o grau de correspondência entre estas perceções e a
realidade.
A segunda razão de ser desta investigação tem a ver com a falta de informação e de estudos que
expliquem as desigualdades de género no acesso à educação na zona geográfica em causa. Quer
porque se situa num país onde ainda há muito por compreender, quer porque se situa numa zona, o
Norte, onde as tradicionais caracterizações nacionais devem ter uma aplicação limitada devido às suas
particularidades (assentes nas diferenças culturais, económicas e geográficas da sua população).
Existe investigação a nível internacional sobre a igualdade de género na educação, mas são poucos
os estudos que abordaram estas questões em Moçambique, o que justifica a necessidade de produção
de informação de cariz científico nesta área. As particularidades do norte de Moçambique, as
desigualdades entre esta área e o sul do país, principalmente entre as zonas rurais e as áreas urbanas,
e o facto da Província de Nampula ter taxas muito baixas de escolarização, e muito altas de casamento
infantil, determinam a urgência em se elaborar uma base teórica que possa ser utilizada para suporte
de intervenções futuras neste contexto. A tendência é a de se apresentar o país de maneira uniforme,
mas a complexidade dos fatores e das relações sociais e culturais vigentes exigem que se ultrapassem
as visões globais da educação e de igualdade de género em Moçambique e que sejam estudados e
caracterizados contextos específicos como os do norte de Moçambique.
Geralmente, espera-se que as desigualdades de género na educação sejam mais visíveis no ensino
secundário, dada a existência de taxas de matrícula altas e as baixas expetativas para a conclusão
desse nível de ensino. Este padrão é de fato confirmado em alguns países, principalmente na Eritreia,
Madagáscar, Moçambique, Zâmbia e Zimbábue. No entanto, o oposto também é verdadeiro em vários
países (Benin, República Centro-Africana, Chade, Guiné, por exemplo), onde muitas meninas
abandonam cedo e as que ingressam no ensino secundário são selecionadas positivamente de maneira
a reduzir sua vulnerabilidade. Essa diversidade nos níveis e composição da desigualdade de género
impede a defesa de políticas gerais para toda a região. Em vez disso, reforça a necessidade de
considerar a situação de cada país (Eloundou-Enyegue et al., 2004).
1
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
O Programa Futuro Maior levado a cabo no norte do país pela ONGD Helpo reuniu desde 2012 um
grande volume de informação sobre as causas do abandono escolar no ensino secundário, cuja análise
ficará através deste trabalho disponível para futuras investigações nesta área geográfica e neste tema.
É importante perceber se os programas e as políticas implementados para combater o abandono
escolar das raparigas vão realmente ao encontro daquilo que são as especificidades deste contexto e
das motivações que levam as raparigas e as suas famílias a tomarem a decisão de abandonar ou
frequentar a escola. Este trabalho pretende identificar os fatores mais significativos para esta tomada
de decisão, analisando dados estatísticos e a bibliografia existente e cruzando essa informação com
as perceções que grupos de pessoas com relevância para a tomada de decisão têm, quer sobre o que
influencia o abandono escolar, quer sobre aquilo que é expectável ser o papel a desempenhar pelas
raparigas neste contexto. Foram ouvidos professores e professoras, representantes da comunidade,
pais e mães, alunos e alunas, e representantes governamentais ao nível provincial e distrital. Para os
pais, o argumento de que a educação das filhas lhes garantirá um emprego e uma forma de sustento
no futuro pode ser uma visão distante e incerta, enquanto que o casamento da filha adolescente
garante, no imediato uma forma de sobrevivência para a rapariga e um alívio das despesas da família.
Para as próprias raparigas, casar pode ser uma forma de afirmação mais valorizada do que a ida à
escola. Por outro lado, intervenientes como os representantes das instituições governamentais
reconhecem grande valor à permanência das raparigas na escola e ao cumprimento das metas
internacionais, havendo um número significativo de investimento em programas e projetos com este
objetivo.
A primeira parte do trabalho apresenta o enquadramento teórico-conceptual com relevância para o
estudo e para a problemática da Educação da Rapariga. Para cada tema é apresentada primeiramente
uma perspetiva global, seguida de uma perspetiva nacional aplicada ao caso de Moçambique, e
terminando na apresentação dos conceitos sobre os quais incidiu o estudo, o abandono escolar e a
educação da rapariga. A segunda parte deste trabalho está dividida em dois capítulos, a metodologia
e a apresentação e discussão dos resultados. A metodologia apresenta primeiramente a problemática,
a pergunta de partida e os objetivos do estudo, explicando depois quais os procedimentos utilizados
para a recolha, tratamento e comentário de dados, e justificando cada uma das opções tomadas. A
apresentação e discussão dos resultados analisa os resultados obtidos no estudo e relaciona-os com
o quadro teórico apresentado na primeira parte.
2
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
I. A SITUAÇÃO DA EDUCAÇÃO
1
Na redação do texto original da recomendação consta a frase: “Notes that the problem of compulsory education
and the raising of the school leaving age differs greatly in different countries and that therefore no single and uniform
measure can be recommended at the present time” (IBE, 1934).
3
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
dos progressos feitos por parte dos implementadores dos projetos e dos programas nesta área (ex:
agências internacionais, organizações da sociedade civil – OSC, e governos). Da recolha de dados faz
obrigatoriamente parte a desagregação dos dados por género, de forma a avaliar o impacto das
medidas nas mulheres e raparigas. Como muitas destas iniciativas são implementadas por
organizações locais ou internacionais, houve a necessidade de especialização, tanto na recolha de
informação como na prestação de contas aos financiadores, como na utilização de procedimentos que
se tornaram cada vez mais globais e uniformizados. Privilegiou-se a utilização de linguagem comum à
qual as organizações se adaptaram de forma a facilitar o contacto com os financiadores e organizações
internacionais.
2
(i) expandir e melhorar os cuidados e a educação abrangente da primeira infância, especialmente para as crianças
mais vulneráveis e desfavorecidas; (ii) garantir que até 2015 todas as crianças, principalmente meninas, crianças
em circunstâncias difíceis e pertencentes a minorias étnicas, tenham acesso a um ensino primário completo e
gratuito, obrigatório e de boa qualidade; (iii) garantir que as necessidades de aprendizagem de todos os jovens e
adultos sejam atendidas através do acesso equitativo a programas apropriados de aprendizagem e habilidades
para a vida; (iv) alcançar uma melhoria de 50% nos níveis de alfabetização de adultos até 2015, especialmente
para mulheres, e acesso equitativo à educação básica e continuada para todos os adultos; (v) eliminar as
disparidades de género no ensino primário e secundário até 2005 e alcançar a igualdade de género na educação
até 2015, com o objetivo de garantir o acesso pleno e igualitário das meninas e a conquista no ensino básico de
boa qualidade; (vi) melhorar todos os aspetos da qualidade da educação e garantir a excelência, para que
resultados de aprendizagem reconhecidos e mensuráveis sejam alcançados por todos, especialmente em literacia,
numeracia e habilidades essenciais para a vida (UNESCO, 2000).
3
Garantir que, até 2015, todas as crianças, de ambos os sexos, terminem um ciclo completo do ensino primário.
4
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
qualidade da educação que em muitos países leva a que as crianças não saibam ler nem escrever
apesar de passarem vários anos na escola.
A educação é uma área prioritária em termos de financiamento internacional, o que também influencia
as medidas implementadas devido às diferentes prioridades dos financiadores. Estes, apesar de
seguirem de forma global o que está definido nos ODS, podem investir mais em educação superior,
técnica e vocacional (como por exemplo a Cooperação Holandesa - MINBUZA) ou mais em educação
básica (como a Cooperação do Reino Unido) (Verger et al., 2014).
O IMPACTO DA EDUCAÇÃO
Em 2016, 263 milhões de crianças, jovens e adolescentes estavam fora da escola (UIS, 2018). Destes,
63 milhões (24%) têm idades entre os 6 e os 11 anos (correspondendo ao EP em Moçambique), 61
milhões (23%) têm idades entre os 12 e os 14 anos (correspondendo ao ESG1 em Moçambique) e a
larga maioria, 139 milhões (53%) tem idades entre os 15 e os 17 anos (correspondente ao ESG2 em
Moçambique) (UIS, 2018). O ensino secundário é aquele onde o abandono escolar tem uma maior
expressão. Jovens em idade de frequentar o segundo grau do ensino secundário têm quatro vezes
maior probabilidade de se tornarem desistentes do que as crianças em idade de frequentar o ensino
primário (UIS, 2018). Em todas as faixas etárias, a África subsariana é a região que apresenta os
valores mais elevados, atingindo taxas de 61% de raparigas fora da escola em idade de frequentar o
nível 2 do ensino secundário (ESG2) (UIS, 2018). Parece haver uma equiparação entre os números de
abandono escolar para rapazes e raparigas a nível mundial, mas com diferenças significativas a nível
regional.
A bibliografia consultada aponta para uma relação direta entre educação e pobreza: se todos os adultos
completassem a escola secundária, a pobreza mundial diminuiria para menos de metade, e um
aumento em dois anos de escolaridade nos adultos retiraria 60 milhões de pessoas da pobreza
(UNESCO, 2017). No caso das mulheres, cada ano adicional de educação aumenta o seu rendimento
futuro entre 10 e 20% (Psacharopoulos e Patrinos, 2002). A mortalidade infantil também está
relacionada com a escolaridade das mães, sendo os níveis de mortalidade mais elevados nas áreas
rurais do que nas urbanas e nas crianças cujas mães têm baixo nível de escolarização. Em
Moçambique a mortalidade infantil é de 69 em cada mil nascidos vivos nas áreas urbanas contra 72
por mil nascidos vivos da área rural. Por níveis de escolaridade da mãe, a mortalidade infantil é de 56
por mil nascidos vivos nas mulheres com nível secundário ou mais, contra 70 por mil nascidos vivos
entre os filhos de mães não escolarizadas (Ministério da Saúde et al., 2013) 4.
A revisão bibliográfica de Serena Masino e Miguel Niño-Zarazúa em 2015, feita com o objetivo de
identificar intervenções que aumentaram a qualidade da educação e da aprendizagem em países em
desenvolvimento, agrupa as intervenções em três categorias gerais: a) Intervenções do lado da oferta
que incluem a qualidade das infraestruturas, a contratação e formação de professores e a
disponibilização de materiais escolares; b) Incentivos para mudança de comportamentos, nos quais se
inclui o pagamento de incentivos aos professores para uma maior presença na escola, e do lado dos
4
Importa deixar claro que são construções conceptuais que se estão aqui a relacionar de forma a enquadrar a
análise da importância da educação, no entanto estas relações não podem ser livremente extrapoladas para
contextos específicos como, neste caso, o do norte de Moçambique.
5
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
estudantes, a entrega de dinheiro para a frequência escolar, ou ainda a atribuição de bolsas de estudo;
c) Intervenções baseadas na participação da comunidade que incluem situações de envolvimento na
gestão escolar, como por exemplo a gestão das refeições escolares estar sob a alçada da comunidade.
Esta revisão bibliográfica conclui que as intervenções com maior sucesso são aquelas que combinam
duas ou mais das três categorias apresentadas, ou seja, as que se preocupam com uma complexidade
de fatores. Os autores sugerem que é necessário mais trabalho para perceber os custos e benefícios
sociais destas intervenções, para melhor definir estratégias de intervenção, principalmente a nível da
formulação de políticas. Esta revisão não inclui nenhum estudo feito em Moçambique, mas ao nível do
ensino secundário inclui um estudo realizado no Malawi sobre transferências de dinheiro (Baird et al.,
2010 citado em Masino & Niño-Zarazúa, 2015), que encontrou melhorias nos resultados dos testes de
avaliação realizados pelas raparigas que receberam as transferências de dinheiro, obrigando-as à
frequência escolar.
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
Em Moçambique a língua oficial é o Português, que nas zonas rurais apenas se aprende com a
frequência da escola, uma vez que as famílias falam as línguas locais em casa. Na zona norte de
Moçambique, a língua predominante é o Emakhua. Este facto dificulta o acesso aos serviços públicos
e à informação por parte de pessoas que não saibam falar a língua oficial. Mesmo aqueles que
frequentam a escola têm dificuldades em expressar-se ou em compreender o Português. Na
comunicação diária apenas 12,8% da população utiliza o Português, com 25,4% a utilizar o Emakhua
(falado nas províncias do Norte) e 10,4% o Xichangana (falado no sul do país) (Ministério da Saúde et
al., 2013). Nos últimos anos o país tem vindo a fazer experiências de ensino nas línguas locais para os
dois primeiros anos do ensino primário, permitindo que, por exemplo, em Nampula, as crianças
aprendam em língua Emakhua na 1.ª e na 2.ª classe, incluindo a utilização de materiais como os
manuais escolares traduzidos para a língua local. Como dificuldade para a implementação do ensino
bilingue é apontada a escassez de professores que falem as línguas locais. Esta questão coloca as
populações das zonas rurais em desvantagem em relação às populações dos grandes aglomerados
urbanos que falam Português no seio das suas famílias e que estão por isso em melhores condições
de comunicar com os serviços oficiais, nos quais o Português é a única língua falada.
Os professores têm baixas qualificações académicas e elevadas taxas de absentismo (UNICEF
Moçambique, 2014; Raupp et al., 2013). A rápida expansão da rede de escolas no país no período pós-
guerra civil sem que existisse um número suficiente de professores com qualificações pedagógicas,
levou à contratação de professores com baixas qualificações, com efeitos que ainda hoje se fazem
sentir. As escolas das zonas rurais encontram-se por vezes isoladas, situadas em locais sem acesso a
saneamento ou eletricidade, para onde por vezes os professores têm dificuldades em chegar. As
escolas têm condições muito precárias ao nível das infraestruturas, as carteiras escolares são escassas
e as crianças não dispõem de qualquer material escolar a não ser o manual, de distribuição gratuita
pelo Governo de Moçambique (mas apenas no ensino primário). A pobreza das famílias dificulta o
investimento na educação e apesar de pelo menos ao nível do ensino primário os custos serem baixos,
é comum um ingresso tardio das crianças no EP1 (1.ª classe), condicionando desfavoravelmente todo
o seu percurso escolar (UNICEF Moçambique, 2014). A UNESCO também alertou recentemente para
o desafio que as condições socioeconómicas representam para os esforços de desenvolvimento no
país, uma vez que a pobreza continua a ser severa, generalizada e especialmente concentrada nas
zonas rurais do centro, norte e zonas costeiras (UNESCO, 2015).
O PLANEAMENTO DA EDUCAÇÃO
Moçambique conseguiu a sua independência de Portugal em 1975, altura a partir da qual o país refere
ter iniciado um vasto investimento no alargamento da rede escolar, mas cuja expansão foi travada e
reduzida durante a guerra civil entre 1980 e 1992 (MINED, 2012). O primeiro Plano Estratégico da
Educação (PEE) de Moçambique vigorou entre 1998 e 2005 com o principal foco no aumento do acesso
ao ensino primário (MINED, 2012), principalmente através da expansão da rede de escolas e do
aumento da eficiência dos recursos usados (Fox et al., 2012). O segundo Plano incorporava a área da
Cultura e ficou conhecido como PEEC 2006-2010/2011, dando continuidade às políticas do plano
anterior e ao alcance dos ODM (MINED, 2012). Atualmente está em vigor o PEE 2012-2016 (a sua
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
primeira versão foi um documento elaborado como requisito para a obtenção de financiamento através
da Fast Track Initiative – Education for All - Parceria Global para a Educação (MINED, 2012))
prolongado até 2019 e está em preparação um novo PEE para os próximos anos. O PEE 2012-2016
refere alinhamento com a Declaração de Dakar – Educação para Todos de 2000 e com aos ODM em
vigor na altura (MINED, 2012). As questões de género surgem frequentemente mencionadas ao longo
do documento, estabelecendo também a ligação entre o Plano Estratégico, a Declaração de Dakar e
os ODM, referindo o objetivo da eliminação da desigualdade de género no Ensino Primário e
Secundário e a conclusão do Ensino Primário por rapazes e raparigas até 2015 (MINED, 2012).
O PEE 2012-2016, ainda em vigor, assume a Educação como um setor estratégico para o país:
Com a conquista da nossa Independência Nacional em 1975, a Educação passou a constar no topo das prioridades na
Governação da nossa Pátria Amada. Moçambique encara a Educação como um direito humano e um instrumento chave
para a consolidação da Paz, da unidade nacional e para o desenvolvimento económico, social e político do País através
da formação de cidadãos com elevada autoestima e espírito patriótico (MINED, 2012).
Neste Plano fala-se em educação de qualidade para todos e na sua importância para combater a
pobreza e promover o desenvolvimento do país (MINED, 2012). O PEE apresenta como objetivo para
o Ensino Primário “assegurar que todas as crianças tenham oportunidade de concluir uma educação
básica de 7 classes com qualidade”, dando destaque ao ingresso na escola na idade certa (6 ou 7
anos) e à diminuição do rácio aluno/professor. O Ensino Pré-escolar vem mencionado no PEE, mas
sem metas quantificadas (MINED, 2012). Para o Ensino Secundário Geral, o PEE estabelece como
objetivo geral a expansão da rede de forma sustentável e a garantia da sua qualidade. No primeiro
objetivo específico é feita referência especial às raparigas e jovens com necessidades educativas
especiais, cujo acesso ao ensino secundário deverá ser assegurado (MINED, 2012).
A REDE EDUCATIVA
A fase mais precoce do sistema educativo é o ensino pré-escolar que em Moçambique não está
totalmente sob a tutela do ministério da Educação, mas sim do Ministério do Género, Criança e Ação
Social, dividido em creches (0-2 anos) e jardins de infância (2-5 anos). Este nível tem uma grande
intervenção do setor privado, sendo a maior parte da oferta feita em formato de escolinhas comunitárias
e/ou geridas por organizações não governamentais ou entidades religiosas. A sua frequência é
facultativa e apenas 4% das crianças moçambicanas em idade pré-escolar tem acesso a este nível de
ensino através de intervenções formais (MINED, 2012).
A partir dos 6 anos de idade as crianças deverão frequentar o Ensino Primário. Este é o nível de ensino
onde estiveram centradas as atenções durante mais tempo. A sua frequência é gratuita desde 2004 e
está dividido em dois graus, EP1 da 1.ª à 5.ª classe e EP2 da 6.ª à 7.ª classe (MINED, 2012). As escolas
primárias funcionam normalmente em dois turnos, podendo algumas, devido à escassez de salas de
aula, funcionar em três turnos. Estas escolas estão agrupadas em Zonas de Influência Pedagógica
(ZIP) com uma escola-sede responsável pela coordenação da ZIP. Em cada escola existe um corpo de
dirigentes composto por um Diretor(a) e um Diretor(a) Pedagógico(a). Nas escolas primárias existe um
órgão composto por representantes da comunidade que têm assento no Conselho de Escola. O
Conselho de Escola é um órgão que pretende promover a participação ativa da comunidade na tomada
de decisões e organização de atividades, considerando-se que este envolvimento está positivamente
8
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
ligado aos resultados dos alunos. Formalmente o Conselho de Escola é o órgão máximo de consulta,
monitorização e fiscalização de cada estabelecimento de ensino (DNEP, 2015)5. O Ensino Primário
sofre de grandes dificuldades ao nível das infraestruturas com insuficiência de salas de aula. Um estudo
feito na Província de Nampula observou que em 65% das 92 salas as crianças estavam sentadas no
chão e 15% estavam debaixo da árvore (Raupp et al., 2013). As salas apresentaram uma média de 57
alunos por aula. Este estudo revelou atrasos significativos na chegada dos professores à aula e mesmo
dos diretores da escola ao serviço. Revelou ainda uma grande falta de capacidades de leitura em língua
portuguesa por parte dos alunos da 2.ª e 3.ª classes do ensino básico (Raupp et al., 2013).
A expansão da rede pública de ensino primário não foi acompanhada por um aumento na qualidade do
ensino, havendo crianças que, apesar de frequentarem o ensino secundário, têm dificuldades em ler e
escrever em língua portuguesa. Ao nível do ensino primário, é possível encontrar alunos e alunas que,
mesmo na terceira classe, não consigam reconhecer as letras. Por exemplo, um estudo (Adelmann et
al., 2011) citado por UNICEF (UNICEF Moçambique, 2014) que analisou as competências de leitura de
alunos de 60 escolas de Cabo Delgado, concluiu que os alunos da 3ª classe têm muita dificuldade em
conseguir ler e da amostra de 631 alunos da 3ª classe, 59% foram incapazes de ler uma única palavra
em português.
Após a conclusão do Ensino Primário a prossecução dos estudos é feita através das Escolas
Secundárias que constituem o Ensino Secundário Geral (MINED, 2012). A transição entre o ensino
primário e o ensino secundário, entre a 7.ª e a 8.ª classe, é uma prova de fogo para os alunos e alunas
que querem/conseguem continuar os seus estudos. O primeiro grau do ensino secundário geral
compreende a 8.ª, 9.ª e 10.ª classes e o segundo grau a 11.ª e a 12.ª classes, sendo que algumas
escolas secundárias apenas têm o primeiro grau (MINED, 2012). A escola secundária tem mais
exigências em termos de material escolar do que a escola primária. Enquanto que no ensino primário,
os manuais escolares de cada disciplina são de distribuição gratuita, a partir da 8.ª classe isso deixa
de acontecer, o que resulta em escolas onde nenhum dos alunos (e muitas vezes nem os professores)
têm sequer um manual para estudar ou acompanhar as aulas. O preço destes livros é muito alto e
poucas são as famílias que conseguem suportar esta despesa, associada à matrícula escolar, a todo
o material para as aulas (cadernos, mochilas, material de desenho, material para a prática de atividade
desportiva, etc.) e ao próprio uniforme escolar que é de utilização obrigatória.
A gratuidade do ensino primário não existe no ensino secundário, onde há lugar a pagamento de
propinas. Os estudantes têm de pagar uma matrícula anual, que varia de escola para escola (pode
chegar a 1/10 do valor do salário mínimo nacional para os trabalhadores do terceiro setor), no entanto
em setembro de 2019, ou seja muito recentemente, a isenção do pagamento de taxas de matrícula e
de inscrição foi alargada para a 8.ª e 9.ª classes, já do ensino secundário6. As escolas secundárias, à
semelhança das escolas primárias, também funcionam em dois turnos, um de manhã e outro de tarde,
além de um terceiro turno, o noturno, que recebe sobretudo estudantes maiores de 18 anos e, até há
5
A minha experiência pessoal em escolas primárias da zona rural da província de Nampula é de que, pelo menos
o presidente do conselho de escola é uma figura muito presente e participativa, que conhece com detalhe a
comunidade e que colabora frequentemente nas atividades da escola.
6
Instrução Ministerial n.º 04/GM/MINEDH/2019 (Atinente à gratuitidade da educação básica) publicado a 24 de
setembro.
9
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
AS ESTATÍSTICAS DA EDUCAÇÃO
A taxa de analfabetismo em Moçambique apresentada pelo Inquérito ao Orçamento Familiar (IOF) é
de 44,9% para o país (57,8% no caso das mulheres e 30,1% no caso dos homens) (INE, 2015). O Norte
do país apresenta valores mais desfavoráveis, com as províncias de Zambézia, Nampula, Cabo
Delgado e Niassa (províncias do norte do país) a apresentarem taxas de analfabetismo para as
mulheres acima dos 70%, em contraste com as taxas de analfabetismo dos homens que, nestas 4
províncias se situam entre 34,3% para a Zambézia e 46,7% para Cabo Delgado (INE, 2015).
O Inquérito Demográfico e de Saúde de 2011 – IDS (Ministério da Saúde et al., 2013) mostra que o
norte do país, nomeadamente as províncias de Nampula, Tete, Cabo Delgado e Niassa, apresentam
taxas de escolarização líquidas (TLF)7 no ensino primário mais baixas do que a média nacional que é
de 77,1, variando entre 61,7 (Cabo Delgado) e 73,2 (Nampula). A comparação entre a média da TLF
7
A taxa líquida de frequência (TLF) do ensino primário é a percentagem da população que frequenta o ensino
primário e a população escolar considerada oficial para frequentar esse nível (6-12 anos); por definição, não pode
exceder 100 (Ministério da Saúde et al., 2013).
10
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
das zonas urbanas com as zonas rurais também revela as disparidades, sendo de 85,6 nas zonas
urbanas e de 73,7 nas zonas rurais. A nível nacional, 33% das mulheres não tem qualquer nível de
escolaridade, percentagem que é de 19% para os homens. Nas áreas rurais, a percentagem de
mulheres que não tem nenhum nível de escolaridade é de 40% e nas urbanas é de 17%. A análise dos
dados por faixa etária revela que o acesso à educação tem vindo a aumentar, com as gerações mais
novas a apresentarem valores mais elevados. Na análise por quintis de riqueza, no quintil mais baixo
48% das mulheres não tem qualquer escolaridade enquanto que no quintil mais elevado esta
percentagem desce para 8% (Ministério da Saúde et al., 2013).
O documento de análise à situação das crianças em Moçambique publicado pela UNICEF em 2014
reconhece os progressos feitos pelo país no sector da Educação, associando o maior número de
crianças escolarizadas à abolição das propinas escolares em 2004, à reforma educativa, e a grandes
investimentos na construção de escolas e na formação de professores (UNICEF Moçambique, 2014).
O ensino primário aumentou significativamente as suas taxas de frequência nas últimas décadas. Este
nível de ensino, dividido em dois ciclos, EP1 entre a 1.ª e a 5.ª classes, e EP2 entre a 6.ª e a 7.ª classes,
aumentou entre 2004 e 2011, em 42% o número de alunos matriculados no EP1 e em 77% o número
de alunos matriculados no EP2 (MINED, 2012). No entanto, metade das crianças que inicia o ensino
primário não o termina, havendo ainda preocupações ao nível da qualidade da aprendizagem (UNICEF
Moçambique, 2014).
No que diz respeito à escolarização das raparigas, o Inquérito Demográfico e de Saúde (IDS) revela
que nos primeiros anos de escolarização, a taxa de frequência entre rapazes e raparigas não tem
diferenças significativas, mas que estas começam a surgir a partir dos 15 anos de idade, o que sugere
que as raparigas não prosseguem os seus estudos para o ensino secundário. As taxas líquidas de
escolarização do ensino secundário8 são muito baixas, 23,7 a nível nacional e por províncias, apenas
em Maputo Cidade (província da capital do país) está acima de 50 (59,4). Na Província de Nampula, a
taxa de escolarização no ensino secundário é de apenas 18,6, uma média entre a taxa de frequência
escolar por parte dos rapazes que é de 20,3 e a das raparigas, bastante mais baixa, de 16,8 (Ministério
da Saúde et al., 2013).
O IDS apresenta ainda dados do Índice de Paridade de Género nas taxas de escolarização bruta e
líquida, mas estes serão apresentados no capítulo que aborda especificamente as questões da
educação da rapariga (Capítulo 2).
CONTEXTOS FAMILIARES
Em Moçambique, o conceito de família inclui uma família alargada da qual fazem parte pessoas com
diferentes graus de parentesco, sendo comum num mesmo agregado familiar estarem presentes
crianças que sejam sobrinhos, sobrinhas, primos, primas, irmãos ou irmãs dos(as) chefes da família.
Estima-se que 1/3 dos agregados familiares acolham crianças que não são seus filhos ou filhas, mas
sim, sobrinhos/sobrinhas ou irmãos/irmãs (UNICEF Moçambique, 2014). Este facto parece ter
relevância quando as crianças acolhidas por estes familiares são órfãs (19%) (Ministério da Saúde et
8
A taxa líquida de frequência (TLF) do ensino secundário é a percentagem da população que frequenta o ensino
secundário e a população em idade escolar considerada oficial para frequentar esse nível (13-17 anos); por
definição não pode exceder 100. (Ministério da Saúde et al., 2013).
11
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
al., 2013), considerando a UNICEF que estas crianças ficam assim em maior risco de vulnerabilidade
e em consequente desvantagem em relação aos filhos e filhas biológicos das famílias que os acolhem
(UNICEF Moçambique, 2014).
O Inquérito ao Orçamento Familiar (IOF) analisa as despesas mensais dos agregados familiares
agrupando-as em diversas tipologias, sendo uma destas a Educação. As despesas do agregado
familiar em Educação não ultrapassam os 1,1%, o que resulta num valor de 16 meticais per capita (INE,
2015). Este indicador desagregado em zonas rurais e zonas urbanos revela as disparidades existentes,
aqui analisadas no que respeita às despesas com a Educação. Se nas zonas urbanas, houve um
aumento de 15 meticais para 44 meticais per capita entre o IOF de 2008/2009 e o IOF de 2015/2015,
já nas zonas rurais esse aumento foi de apenas 1 para 2 meticais, representando 0,2% da despesa
mensal do agregado familiar (INE, 2015).
12
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
9
Para uma análise mais detalhada consultar Luce Irigaray e Judith Butler.
13
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
institucional, o conceito de género está bem enraizado. A igualdade de oportunidades entre rapazes e
raparigas, homens e mulheres, e a eliminação de desvantagens para as raparigas e mulheres pelo
facto de serem do género feminino são consideradas de forma inequívoca na agenda política nacional
e internacional. Tem presença nas convenções atrás mencionadas e nos Objetivos globais, quer nos
Objetivos de Desenvolvimento do Milénio, através do ODM 3 (“Promover a igualdade de género e o
empoderamento das mulheres”) e atualmente nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável através
do ODS 5 “Alcançar a igualdade de género e empoderar todas as mulheres e raparigas”, mas também
através da inclusão das questões da igualdade de género em metas de outros ODS. Neste âmbito,
serve como exemplo a clara referência às questões de género presente no ODS 4 “Assegurar uma
educação inclusiva e equitativa de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da
vida para todos” através da meta “até 2030, eliminar as disparidades de género na educação (…)”
(BCSD Portugal, 2019).
Focando-se este trabalho na situação da rapariga e nas condicionantes que esta situação representa
no norte de Moçambique no que respeita ao acesso à educação, importa explicar aqui qual o
entendimento global das questões de género e especialmente da igualdade de género. Na sua forma
mais simplista, género é usado como sinónimo de mulher, mas género também é usado para designar
relações sociais entre os sexos, rejeitando explicitamente explicações biológicas, mas sim refletindo
construções culturais e ideias sobre os papéis do homem e da mulher (Scott, 1986). Joan W. Scott
(1986; 1983) considera que o género é um elemento integrante das relações sociais baseado nas
diferenças percetíveis entre os sexos e pode ser visto como uma forma de dar significado a relações
de poder em campos que não se esgotem nas relações de parentesco e incluam o mercado laboral, a
educação e a política.
Se por um lado os olhares sobre a situação feminina, a sua sexualidade e as relações de poder entre
homens e mulheres são tradicionalmente olhares ocidentais sobre sociedades africanas, com fortes
limitações ao nível da análise, por outro, a tendencial procura de generalizações que expliquem as
relações de causa efeito é também ela limitada porque as relações de género não devem ser analisadas
fora dos contextos sociais, históricos e culturais onde se produziram, sob pena de serem redutivas e
criarem falsas interpretações (Scott, 1986; Scott, 1983). Por exemplo, a investigação da sexualidade
em África liderada por feministas africanas é um fenómeno relativamente recente o que justifica que o
conhecimento em África sobre sexualidade tenha sido conceptualizado, primeiramente por
antropólogos colonialistas e posteriormente em contextos de risco e perigo para a saúde pública
(Arnfred, 2009). Arnfred, que durante anos estudou a sexualidade e o género em Moçambique, alerta
em vários momentos para a visão deturpada do assunto, construída por olhares ocidentais e através
de adaptações redutoras e simplistas das questões de género, muito influenciadas pelo Cristianismo.
A sexualidade foi muito representada como uma área problemática por atores não académicos, como
colonialistas, presidentes africanos e agências de desenvolvimento, o que Arnfred aponta como uma
das razões que retardaram a pesquisa académica nesta área (Arnfred, 2015). Esta discussão é
relevante para este trabalho por dar ênfase à importância da análise contextual e das perceções,
procurando produzir conhecimento científico que resulte do contacto direto com as populações, numa
perspetiva crítica e com disponibilidade para colocar em questão a narrativa generalista e em vigor,
14
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
tendo como ponto de partida para a análise as perspetivas das pessoas e não o discurso macro, como
acontece frequentemente. Arnfred fala na necessidade de substituir as categorias e suposições
ocidentais de dominação masculina/subordinação feminina por outras mais inclusivas e abertas a
outras realidades através de um processo de “desaprendizagem” (Arnfred, 2015). O primeiro passo
para a “desaprendizagem” é identificar as suposições prejudiciais que estão enraizadas e que têm feito
parte das nossas crenças de tal forma que parecem naturais e normais. Um dos pontos importantes do
trabalho de Arnfred é a revelação das discrepâncias entre o discurso nacional promovido em
Moçambique e aquilo que as conversas e entrevistas a mulheres (principalmente das províncias do
Norte) lhe revelaram (Arnfred, 2015; Arnfred, 2011).
Para este trabalho importa fazer uma ligação à área temática da Saúde e Direitos Sexuais e
Reprodutivos (SDSR) que tem vindo a tentar promover uma abordagem holística, trabalhando as
questões da sexualidade na adolescência o que requer o confronto com barreiras incluídas nas normas
e valores sociais (como as desigualdades de género), assim como em leis e políticas (Starrs et al.,
2018). A baixa escolaridade, a pobreza e a ruralidade são fatores que impedem a satisfação das
necessidades das pessoas em termos de saúde sexual e reprodutiva, quando comparadas com
pessoas que têm maior escolaridade, que vivem em áreas urbanas e em melhores condições
económicas (Starrs et al., 2018). O casamento prematuro é um dos aspetos que não permite o alcance
de SDSR para todas as pessoas, e que está associado a vários impactos negativos, principalmente na
saúde das raparigas. O casamento prematuro é atualmente proibido em muitos países, constando a
sua eliminação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (Malé e Wodon, 2016), como é o caso
de Moçambique onde é proibido casar antes dos 18 anos de idade. Há autores que defendem que leis
que determinem a idade do casamento ou do consentimento sexual são imperfeitas e que os países
deverão, em vez disso, criar oportunidades para a capacitação e suporte dos adolescentes para que
estes tomem decisões informadas e saudáveis (Petroni et al., 2019). Também estes autores referem
que há cada vez mais evidência de que o estigma associado ao início da atividade sexual por
adolescentes (principalmente em países onde há leis que definem a idade de início da atividade sexual)
antes do casamento pode efetivamente contribuir para o casamento prematuro (Petroni et al., 2019).
Os autores defendem que medidas legais que aumentem a idade de casamento para os 18 anos devem
ser acompanhadas de uma perspetiva de capacitação, que explicitamente respeite e proteja os direitos
dos adolescentes para expressar a sua sexualidade sem receio de consequências criminais e com
acesso a informação e serviços de saúde sexual e reprodutiva que vão ao encontro das suas
necessidades (Petroni et al., 2019). ).
Este trabalho é uma tentativa de compreender como é que os papéis culturalmente expectáveis para
rapazes e raparigas influenciam o acesso e a qualidade da educação nas raparigas.
15
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
tinha a função de mobilização da população e juntamente com a FRELIMO fez campanha contra
práticas culturais como os ritos de iniciação femininos, o lobolo e a poligamia entre 1970 e a primeira
metade da década de 80, de forma que no início dos anos 80 era suposto terem sido erradicados
(Arnfred, 2011). Estas campanhas foram levadas a cabo de forma uniforme em todo o país,
independentemente do contexto cultural e geográfico onde decorriam.
Moçambique tem hoje uma Política de Género (República de Moçambique, 2018) com a visão de “uma
sociedade na qual homens e mulheres usufruam de direitos e oportunidades iguais, contribuam e se
beneficiem dos processos de desenvolvimento”, com um eixo específico para a educação e formação,
de forma a que raparigas e rapazes tenham os mesmos direitos e oportunidades no acesso à educação.
Como medidas de atuação, este eixo contempla uma revisão curricular para tornar os currículos
sensíveis à questão do género e eliminar estereótipos de género nas escolas.
O Plano Estratégico da Educação, atualmente em vigor e com horizonte temporal até 2019, assume o
compromisso de ter em consideração as questões de género, embora reconhecendo grandes desafios
na redução das desigualdades (MINED, 2012).
A importância política das questões de género é notória no país, que tem também um ministério onde
o género é um fator importante, o Ministério do Género, Criança e Ação Social (MGCAS) com as
respetivas direções provinciais, e que é responsável pela implementação da referida Política de
Género.
Atualmente uma das questões com maior relevância em Moçambique no que respeita à situação das
raparigas tem a ver com as elevadas taxas de casamento prematuro (assunto desenvolvido no capítulo
2.3.4) com 48% das raparigas entre os 20 e os 24 anos que casou antes dos 18 (Ministério da Saúde
et al., 2013). Para fazer face a este assunto, Moçambique tem em vigor uma Estratégia Nacional de
Combate aos Casamentos Prematuros 2016-2019 com o objetivo geral de criar um ambiente favorável
à redução progressiva dos casamentos prematuros e garantir a sua prevenção e a mitigação (República
de Moçambique, 2015). Existe uma forte rede de organizações da sociedade civil com trabalho de
investigação e advocacy para o combate ao casamento prematuro no país. A CECAP – Coligação para
a Eliminação dos Casamentos Prematuros em Moçambique- é atualmente liderada por um Comité de
Coordenação composto por 11 organizações nacionais e internacionais sob a presidência do FORCOM
– Fórum Nacional das Rádios Comunitárias. Uma das grandes vitórias da CECAP foi a recente
publicação da Lei de Prevenção e Combate às Uniões Prematuras aprovada pela Assembleia da
República a 15 de julho de 2019 e a promulgação no dia 14 de outubro pelo Presidente da República,
Filipe Nyusi (ROSC, 2019).
Existem atualmente grandes programas de intervenção com o foco na rapariga e na promoção da
igualdade de género, como é o caso do Rapariga Biz e da Iniciativa Spotlight.
O programa Rapariga Biz é implementado nas províncias de Nampula e Zambézia e tem como
beneficiárias 1 milhão de raparigas entre os 10 e os 24 anos (UNFPA Moçambique, 2019). O programa
visa a capacitação em saúde sexual e reprodutiva, liderança, cidadania e direitos humanos de raparigas
adolescentes vulneráveis para prevenir os casamentos prematuros e a gravidez na adolescência
(UNFPA Moçambique, 2019).
16
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
Um terço (33%) das mulheres moçambicanas sofreu violência física desde os seus 15 anos e 12%
declararam ter sido forçadas a ter relações sexuais alguma vez (Ministério da Saúde et al., 2013). É
este o foco de atuação da iniciativa Spotlight lançada em março para atuar em três províncias piloto
nas áreas prioritárias de combate à violência sexual e baseada no género (UNICEF Moçambique,
2019).
17
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
países no tipo de ações e políticas a implementar para eliminar a discriminação de género, mesmo na
educação. Considera que a desigualdade de género na educação é estrutural e ideológica,
relacionando-a com normas, valores e práticas de género negativas que devem ser desafiadas e
permitirem o exercício do direito à educação por parte de raparigas e rapazes. O relatório afirma ainda
que as crenças instaladas sobre os papéis de género promovem um círculo vicioso de oportunidades
reduzidas na educação e no emprego.
Os fatores que influenciam o acesso e a qualidade da educação das raparigas são complexos, de várias
naturezas e específicos de cada contexto. Para este trabalho foi, no entanto, necessário agrupar estes
fatores de forma a facilitar a análise, sendo estes explicados nos capítulos seguintes.
10
Este índice, calcula-se dividindo a TLF ou TBF do sexo feminino pela TLF e TBF do sexo masculino nos dois
níveis de educação, primário e secundário. O seu valor mostra a dimensão das diferenças do género no acesso a
escolarização. Se não houver diferença de género no acesso à escolarização, o IPG é igual a 1, e se existir
desigualdade no acesso a escolarização a favor do sexo masculino, o IPG tenderá a zero. Se as diferenças
favorecerem o sexo feminino, o IPG vai ser maior que um.
18
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
O Inquérito ao Orçamento Familiar 2014/2015 (INE, 2015) identificou diversos motivos para as pessoas
entre 5 e os 24 anos não frequentarem a escola. Estas razões foram: 1) atingiu o nível que desejava
(1,5%); 2) não existe o nível seguinte (1,2%); 3) falta de vagas (5,2%); 4) a escola fica muito distante
(7,0%); 5) é muito cara (14,3%); 6) é muito novo/velho (0,5%); 7) trabalha (10,5%); 8) de nada
serve/falta de interesse (31,2%); 9) reprovou (1,6%); 10) casou-se (18,4%); 11) gravidez (5,5%); 12)
outros (3,2%). Na província de Nampula o casamento representou um valor maior (21,4%) do que a
média nacional, assim como a distância à escola que apresenta o dobro do valor nacional, sendo de
14,2%. Outra grande diferença entre os valores nacionais e os valores da província de Nampula é ao
nível do custo da escola, uma vez que esta é a primeira razão para a não frequência da escola em
Nampula, com 22% das pessoas inquiridas. Em Nampula, o casamento e a gravidez juntos foram
apontados como razão para a não frequência da escola por 26,3% das pessoas. Ainda em Nampula,
30,6% da população entre 5 e 24 anos não frequenta a escola, perto de 40% da população com 5 anos
ou mais não tem qualquer nível de escolaridade (INE, 2015) e apenas 0,5% frequentou o ensino
superior. Ao nível do ensino secundário, 6,5% frequentou o nível 1 e 3,6% o nível 2 (INE, 2015).
No ensino primário, o relatório do desempenho do setor da educação de 2012 revelou um aumento da
desistência entre 2008 e 2010, em todas as classes e antevia uma estagnação na taxa de conclusão a
médio prazo (MINED, 2013). O relatório apresentou um índice de paridade de 0,98 na 1.ª classe aos 6
anos, no entanto é referida a existência de diferenças entre as províncias, embora sem serem
apresentados os dados (MINED, 2013). No mesmo documento é referido que as taxas brutas de
escolarização para o ensino secundário (previstas no PEE) não foram ainda atingidas o que se deveu
à redução do número de graduados da 7.ª classe. O relatório indica que os números de admissão de
estudantes no ES estão aquém do esperado devido ao não cumprimento do programa das construções
escolares e à fraca qualidade de ensino. Apesar disso são identificados avanços em termos das taxas
líquidas e equidade de género com cada vez mais jovens e mais raparigas a continuarem a sua
educação na escola secundária (MINED, 2013).
As taxas de literacia entre as mulheres são significativamente mais baixas (45,37) do que entre os
homens (73,26), se considerarmos a população entre 15 e 60 anos de idade (UNESCO, 2015).
Considerando a população jovem com idades entre os 15 e os 24 anos, a taxa de literacia continua a
ser significativamente superior no caso dos rapazes (79,8) em relação às raparigas (56,5), quando
analisado o período temporal 2008-2012 (UNICEF, 2018).
Estevão e Álvares (2014) identificam os seguintes custos sociais causados pelo abandono escolar:
limitação de oportunidades de vida; mais dificuldades na integração do mercado de trabalho e maior
probabilidade de precariedade laboral e baixos salários; inibição de uma participação plena na vida
comunitária devido a dificuldades na interpretação e expressão e na capacidade crítica; maiores riscos
de pobreza e exclusão social com repercussões na qualidade da democracia por os baixos níveis de
participação dos cidadãos estarem associados à falta de qualificações.
As razões da disparidade de números entre rapazes e raparigas são complexas e difíceis de isolar. Em
Moçambique, os números estão muito associados a elevadas taxas de casamento prematuro e de
gravidez na adolescência, uma vez que o país é um dos 10 países a nível mundial com maior número
de casamentos antes dos 18 anos, apesar desta ser uma situação proibida por lei.
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
Há, no entanto, outros fatores que contribuem para o abandono escolar, como situações relacionadas
com a baixa capacidade das escolas para dar resposta às necessidades de ensino aqui agrupados na
categoria fatores institucionais (por exemplo, edifícios escolares de construção precária, falta de
mobiliário escolar, falta de material escolar e inexistência de bibliotecas, baixa qualificação dos
professores e elevadas taxas de absentismo por parte destes, reduzida cobertura geográfica de escolas
secundárias) e fatores culturais que não promovem a manutenção das raparigas na escola, onde se
inclui o casamento prematuro, a assistência à família e realização de tarefas domésticas, e o
desinvestimento na educação das raparigas. A caracterização generalista ao abandono escolar parece
carecer de uma análise mais aprofundada, quer ao nível da sua validação no contexto geográfico e
cultural do norte de Moçambique, quer ao nível das perceções que os diferentes intervenientes da
sociedade têm sobre o assunto.
Para que as políticas sejam efetivas na possível recuperação de crianças que tenham estado em
situação de abandono escolar, fazendo com que regressem à escola, devem estar ajustadas às
diferentes situações que levaram ao abandono. Concretamente, é preciso perceber se a maior parte
das crianças chegou a frequentar a escola, mas desistiu, caso no qual as intervenções se devem focar
em reduzir as taxas de abandono, atacando as suas causas, mas se as crianças nem sequer se
matricularam, então o problema pode ter a ver com uma entrada tardia no sistema de ensino, e as
medidas a adotar terão de ser diferentes (UNESCO, 2017).
A complexidade dos fatores e das relações sociais e culturais torna impossível estabelecer relações
causais que partam da globalidade que se pretende para a educação e que sejam aplicadas em casos
particulares como o do norte de Moçambique, apesar de parecer ser essa a tendência.
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
21
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11
Em Nampula, o casamento representa 21,4% e a gravidez 4,9% (INE, 2015).
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
12
Esterilização feminina, esterilização masculina, pílula, DIU, injeções, implante, preservativo masculino,
preservativo feminino, diafragma, espuma, amenorreia por lactância e contraceção de emergência.
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
a partir das generalizações dadas como verdadeiras e raramente questionáveis. Dos ritos de iniciação
feminina faz parte a prática de alongamento dos lábios vaginais (puxa-puxa) que se inicia antes da
puberdade, entre os 8 e os 12 anos (Vera Cruz & Mullet, 2014). Nas zonas rurais as raparigas
deslocam-se para um local secreto de forma a praticarem o alongamento vaginal, incitadas por uma
mulher mais velha (que nunca é a mãe das raparigas), o que acontece antes dos ritos de iniciação
(Arnfred, 2015). Estas práticas são levadas a cabo na companhia de outras raparigas (Arnfred, 2015),
o que lhes confere um cariz coletivo. Segundo Arnfred (2011), os ritos de iniciação no norte de
Moçambique são valorizados e mantidos como forma de reforçar a identidade coletiva das mulheres.
Discordante deste discurso surgem posições como a da UNICEF que associa a cultura de supremacia
masculina à prática de rituais como os ritos de iniciação (UNICEF Moçambique, 2014).
Atualmente a posição do governo parece ser a de trabalhar em conjunto com as comunidades não no
sentido de erradicar os ritos de iniciação, mas sim no sentido de adiarem a idade das raparigas e
adaptarem o discurso à mesma.
25
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
76,3% têm como atividade principal a atividade de camponesa, enquanto que nos homens a
percentagem é de 55,9%. As mulheres chefes de família distribuem-se praticamente entre as
camponesas e as pequenas comerciantes (10,5%), com atividades como administrativa, alto dirigente,
técnicos universitários e não universitários, a não terem mais de 2% de mulheres chefes de família em
cada (INE, 2015).
O Centro Internacional de Pesquisa sobre a Mulher (ICRW – International Center for Research on
Women) levou a cabo um estudo precisamente para examinar as ligações entre os diferentes
determinantes do abandono escolar incluindo características socioeconómicas, características das
escolas e das habitações, crenças e práticas de género, as experiências das raparigas em
relacionamentos amorosos, a iniciação sexual, o casamento precoce e a gravidez (Stoebenau et al.,
2015). Os autores concluíram que as perceções que as raparigas tinham em relação àquilo que podiam
ou deviam ser, juntamente com a sua autoavaliação do desempenho escolar, as expetativas que a
família tem para a rapariga e o nível de educação da mãe da rapariga foram os determinantes mais
fortes sobre a permanência ou não da rapariga na escola.
No documento publicado pela UNICEF em 2014 que analisa a situação das crianças em Moçambique
(UNICEF Moçambique, 2014)13 a sociedade moçambicana é descrita como “(…) fundamentalmente
patriarcal, com os homens a tomarem as principais decisões, especialmente na família e na
comunidade, com expectativas de que as mulheres e raparigas sejam submissas”
Os grupos étnicos do norte de Moçambique são matrilineares14: Macua de Nampula, Cabo Delgado,
Niassa e Zambézia (o grupo Macua é o grupo dominante no Norte de Moçambique), os Maconde de
Cabo Delgado e os Yao do Niassa (Arnfred, 2015; Arnfred, 2011). A matrilinearidade neste contexto
significa que a mulher permanece com a sua família no casamento, e que os seus filhos pertencem à
linhagem da mãe e não do pai. O casamento não tem muita importância, nem sequer a paternidade,
mas sim a maternidade. É o tio materno o responsável pela educação dos filhos e filhas da sua irmã.
As mulheres são educadas na arte de sedução (através dos ritos de iniciação), uma vez que precisam
seduzir os homens de forma a engravidar e poder continuar com a sua linhagem (Arnfred, 2011).
Apesar desta matrilinearidade não ser transversal a todo o país, raramente é encontrada referência a
ela nos documentos de caracterização do país, onde como foi referido anteriormente predominam
visões uniformes.
13
Este documento, apesar de fazer uma caracterização muito abrangente da situação da criança em Moçambique,
em nenhum momento faz referência às especificidades culturais dos diferentes grupos.
14
Estas sociedades matrilineares são frequentemente descritas como primitivas em oposição a desenvolvidas
(Arnfred, 2011), numa descrição claramente estigmatizada.
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
III. METODOLOGIA
3.1. PROBLEMÁTICA
As revisões bibliográficas sobre o acesso e a qualidade da educação revelam uma grande quantidade
de causas que condicionam positiva e negativamente o acesso e a qualidade da educação, mas não
revelam a existência de uma caracterização do ensino secundário em Moçambique que permita
perceber em que medida estas causas se aplicam a este contexto, com que significado, quais as suas
relações com as características culturais e a existência ou não de boas práticas que possam ser
replicadas. Por exemplo, no caso das raparigas, as causas de abandono escolar estão muito
relacionadas com o casamento precoce e a gravidez na adolescência, no entanto, há fatores
relacionados com a capacidade das escolas e do sistema educativo acolher os estudantes do ensino
secundário, sobre os quais não existe nenhuma caracterização conhecida das situações. De entre
estes fatores, e com base na minha experiência de trabalho com este nível de ensino, é possível
destacar situações de doença da aluna ou de um seu familiar, de necessidade em procurar trabalho
para ajudar a família, de violência na escola, ou mesmo situações em que as condições da escola não
favorecem a sua frequência, como a grande distância à escola, a elevada taxa de absentismo por parte
dos professores, a baixa qualidade dos materiais, e, claro, o não reconhecimento da importância da
educação e a redução dos papéis das raparigas a trabalhos domésticos e tarefas familiares, o que as
desfavorece nos casos em que a família tem que optar por enviar apenas algumas crianças à escola,
optando quase sempre por privilegiar os rapazes.
A Província de Nampula, onde decorreu esta investigação, dista mais de 2000 quilómetros da capital
Maputo, apresenta especificidades culturais significativas, entre elas a etnia (Macua), a língua diferente
(Macua) e a forte presença da religião islâmica (concentrada na parte litoral da província enquanto que
a população católica se concentra nas zonas do interior). Estatisticamente Nampula apresenta números
mais preocupantes do que a generalidade do país, como por exemplo, a taxa de frequência do ensino
secundário em Nampula é de apenas 18,6, quando na província de Maputo Cidade é de 59,4 (Ministério
da Saúde et al., 2013). É assim pertinente perceber as relações culturais específicas que estas
populações têm com o ensino formal, particularmente com o ensino secundário, e nesse âmbito analisar
as perceções dos vários elementos que hoje integram o sistema educativo sobre o fenómeno complexo
de abandono escolar por parte das raparigas.
Objetivos
1) Identificar fatores que contribuem para o abandono escolar das raparigas no ensino secundário;
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
numerosas, que sobrevivem exclusivamente do que produzem na machamba (horta familiar), que
vivem em casas de construção precária, sem acesso a eletricidade, água ou saneamento. A escola
situa-se na vila de Anchilo. As figuras 3.1. e 3.2. dizem respeito à Escola Secundária de Anchilo. A
primeira mostra um dos edifícios da escola, composto por três salas de aula e uma sala para uso da
direção e professores. À direita deste edifício localiza-se o bloco administrativo com os gabinetes da
direção e direção pedagógica, assim como administrativos. Atrás deste edifício encontram-se outros
dois edifícios com salas de aula e uma biblioteca, como se pode ver na figura 3.2.
Figura 3.1. Edifício com três salas de aula na Escola Secundária de Anchilo
Latrinas
Biblioteca
Salas de aula
Bloco Administrativo
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
O Programa Futuro Maior atribuiu desde 2012 o seguinte número de bolsas de estudo:
Para esta investigação apenas foi analisada uma parte deste programa, a correspondente a bolsas de
estudo atribuídas a estudantes da ES de Anchilo ou a estudantes provenientes das EPC de Matibane
(identificados pela Helpo com os códigos FNA ou MNA) ou Napacala (identificados pela Helpo com os
códigos FNC ou MNC), na Província de Nampula, que são as únicas escolas primárias incluídas no
programa FM que enviam alunos e alunas para a ES de Anchilo. Por esta razão, o período temporal
considerado foi o de 2013-2019, uma vez que em 2012 não foram atribuídas bolsas a estudantes destas
32
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
duas escolas primárias. Uma vez que o Programa Futuro Maior (descrito no capítulo 3.4.) regista o
percurso escolar de cada aluno e aluna, foi feito o seguimento de todas as raparigas que desde 2013
fizeram parte do mesmo até ao presente ano letivo, 2019, num total de 106 raparigas identificadas com
os códigos FNA, FNC, MNA, MNC. Nos casos em que os alunos ou alunas deixam de estudar, os
responsáveis pelo seu acompanhamento (na sua maioria professores nas escolas) registam essa
informação, fazendo um ponto de situação sobre o percurso escolar de cada estudante
semestralmente. Quando o estudante não é encontrado é feita uma averiguação sobre as razões da
ausência, o que acontece junto da direção da escola, dos pais e encarregados de educação e da
liderança comunitária. Quando as razões da ausência da escola são apuradas, é feita uma
comunicação onde se regista essa informação. A verificar-se a situação de abandono por parte do
aluno ou da aluna, a causa identificada pela equipa local é agrupada numa das seguintes categorias:
• Casamento
• Gravidez
• Gravidez e Casamento
• Mudança de residência
• Não quer estudar
• Procura de emprego
• Doença
• Falecimento
• Distância a percorrer para chegar à escola
• Outra (com indicação para descrever qual)
Para o estudo foram considerados todos os casos de abandono escolar por parte das raparigas das
comunidades de Matibane e Napacala e recolhida informação sobre as causas identificadas segundo
as categorias acima referidas.
Os dados qualitativos utilizados neste estudo de caso foram recolhidos através da realização de
entrevistas individuais e de focus group que decorreram no local, em outubro de 2018 e abril de 2019.
As entrevistas foram utilizadas para explorar a perceção de grupos de atores chave com intervenção
na educação da rapariga em relação ao abandono escolar e ao papel de cada grupo no contexto social
onde se situa a ES de Anchilo. As entrevistas, de perguntas abertas, justificam-se uma vez que houve
a intenção de dar liberdade aos entrevistados para abordarem as questões de acordo com os seus
próprios termos (Bryman, 2012), o que não seria possível de fazer se a opção tivesse sido por perguntas
fechadas. Os guiões utilizados para a realização destas entrevistas encontram-se no anexo B.
Bryman (2012) apresentou outras vantagens na utilização de perguntas abertas, como o facto de
permitirem respostas que não tinham sido previstas pelo investigador e a consequente exploração de
novas áreas de conhecimento, com liberdade para o investigador inserir novos temas para discussão
ou aprofundamento. Uma vez que esta investigação teve como um dos objetivos analisar a perceção
dos diferentes grupos de pessoas em relação ao abandono escolar das raparigas e ao papel que cada
grupo desempenha neste contexto, não fazia sentido utilizar métodos de recolha de dados que
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
Para a análise dos dados qualitativos foi utilizada a técnica “Análise Qualitativa de Conteúdo”.
Primeiramente foi feita a transcrição das entrevistas individuais e de focus group através de uma
reprodução fiel do ouvido na gravação, nos casos em que foi possível recorrer à gravação, o que não
aconteceu na totalidade dos casos. Por motivos diferentes, em 3 situações não foi possível obter uma
gravação completa da entrevista (E3, E4 e E9). No caso E3, a gravação dura apenas 23 minutos por
questões técnicas. A parte da entrevista não gravada foi registada através de notas escritas. No caso
E4, a não gravação foi uma opção de forma a não intimidar a entrevistada, e no caso E9 a gravação
não foi autorizada pela pessoa entrevistada. Foram feitos registos por escrito para ambas as
entrevistas. Com base no suporte teórico e nos objetivos da pesquisa definimos categorias,
subcategorias de análise e nos textos transcritos definimos as unidades de registo. A analise de
conteúdo assentou em duas categorias criadas com base nos objetivos e na pergunta de partida que
orientaram a investigação (anexo F):
1. Abandono escolar
2. Papéis de género no contexto do norte rural de Moçambique
Foram criadas 5 sub-categorias para o Abandono escolar:
a) Problemática do Abandono Escolar;
b) Fatores Institucionais;
c) Relação com Gravidez/Casamento prematuro;
d) Fatores Culturais;
e) Fatores Económicos
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
Com os dados destes dois quadros juntamente com o número de repetentes que se matricularam na
7.ª classe em 2019 (41 raparigas e 38 rapazes) foi calculada a taxa efetiva de transição entre a 7.ª e a
8.ª classe em 76,98% (71,52% para as raparigas, e em 80,97% para os rapazes), valor superior à taxa
nacional que em 2015 era de 73,91 (75,53% para as raparigas e 72,49% para os rapazes) (UIS, 2019c).
A taxa de transição entre os alunos destas 7 escolas primárias e a escola secundária de Anchilo é
superior à taxa nacional calculada em 2015 (data mais recente encontrada), no entanto, é mais baixa
quando determinamos esta taxa desagregada por género. Estes dados revelam que em Nampula, a
39
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
diferença entre rapazes e raparigas é muito maior do que a nível nacional, com desvantagem para as
raparigas.
Em relação ao número de abandonos escolares por gravidez nas 7 escolas primárias de origem, estes
são apresentados no quadro 4.3. Para perceber o significado destas situações a nível da província de
Nampula, foram consultados os dados oficiais registados pela Direção Provincial de Educação de
Nampula. Estes revelam grande disparidades ao nível dos distritos, com o distrito de Nacala-Porto a
apresentar 114 casos entre os EP e o ES, enquanto que outros distritos como Liupo, apresentam
apenas 4 situações. Estas diferenças parecem estar mais relacionadas com a capacidade de registo
destes casos e encaminhamento dos dados do que com a efetiva ocorrência de gravidezes na
adolescência. Prova disso é o facto de terem sido reportados 4 casos pela escola de Matibane que não
constam destes registos.
2018 2019
Rapazes Raparigas Total IPG Rapazes Raparigas Total IPG
8.ª classe 139 108 247 0,78 203 130 333 0,64
9.ª classe 122 81 203 0,66 113 70 183 0,62
10.ª classe 110 61 171 0,55 144 75 219 0,52
11.ª classe 81 60 141 0,74 69 52 121 0,75
12.ª classe 95 37 132 0,39 97 41 138 0,42
Total 547 347 894 0,63 626 368 994 0,59
Quadro 4.4 – Número de rapazes e de raparigas matriculados na ES de Anchilo nos anos letivos de
2018 e 2019, e IPG calculado, por classe (Fonte: DID Helpo).
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
No ano letivo de 2018, na ES de Anchilo matricularam-se 347 raparigas, para um total de 547 rapazes,
uma diferença de mais 200 rapazes do que raparigas. Destas 347 alunas, 53 (15,3%) não foram
submetidas a avaliação, o que significa que não terminaram os seus estudos nesta escola neste ano
letivo e apenas 225 (64,8%) foram aprovadas.
MATIBANE NAPACALA
Casamento/Gravidez Mudança de residência Casamento/Gravidez Mudança de residência
Causa desconhecida Causa desconhecida Suspensão
20% 14%
70%
14%
Figura 4.1 – Distribuição percentual das causas indicadas para o abandono escolar no ensino
secundário das raparigas inscritas no Programa Futuro Maior, no período 2013-2019 das
comunidades de Matibane (n=20) e Napacala (n=14) e que frequentavam a ES de Anchilo (Fonte:
DID Helpo)
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
As causas apresentadas são semelhantes nas duas comunidades, sendo o casamento/gravidez o fator
que mais parece influenciar o percurso escolar das raparigas, representando em ambos os casos mais
de metade das situações de abandono escolar. As causas desconhecidas são assinaladas quando se
perde o rastro às alunas, o que pode representar situações de mudança de residência ou casamento
(ou ambas). Também a mudança de residência pode estar associada a situações de casamento que
levam à deslocação da família para outra localidade.
Estes números são diferentes dos números apresentados como razões para a não frequência escolar
do IOF que atribuem 26,3% às situações de casamento (21,4%) e gravidez (4,9%) na Província de
Nampula15 (INE, 2015). Nos casos de Matibane e Napacala, estes números revelam um peso muito
maior destas situações.
15
De referir que as estatísticas apresentadas pelo IOF não são desagregadas nem por género nem por faixa etária,
mas sim para toda a população de 5 a 24 anos de idade, o que pressupõe que os motivos casamento e gravidez
terão certamente uma expressão mais significativa se os números forem apresentados com essa desagregação e
tendo em conta a faixa etária dos estudantes do ensino secundário (13-17 anos).
42
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
estão a esconder na escola, disseram. Um pai disse que nenhum aluno desistiu da sua área de
residência. Todos acham que a educação é importante “um dia pode-lhe servir, nós somos idosos,
pode ir a um gabinete, embora nós não chegamos ao gabinete, mas cada um com a sua sorte”. Foi
muito percetível a carga que estes dois grupos colocaram na questão da identificação da problemática,
com os professores a reconhecerem inequivocamente que é uma situação que se verifica na escola,
enquanto que o grupo de pais que participou no focus group, apesar de reconhecerem que muitas
crianças desistem da escola, não conhecem casos específicos de raparigas que tenham abandonado
os seus estudos na Escola Secundária de Anchilo. Estes pais assinalam que “os seus filhos querem
muito estudar” e para eles, pais, há necessidade dos seus filhos “aprenderem alguma coisa, alguma
arte”.
Já o membro do Conselho de Escola (E5) entrevistado individualmente conhece e acompanhou casos
de raparigas que abandonaram os estudos, referindo que o “problema” naquela escola é a “má
compreensão dos próprios encarregados de educação”
Os grupos de alunas e alunos (GF1 e GF2) revelarem que conhecem muitos casos de abandono
escolar, mas a aluna (E6) entrevistada individualmente foi aquela que se manifestou de forma mais
convincente em relação à existência destas situações dizendo claramente que “Sim, conheço, muitas.”
Todas as alunas presentes no focus group (GF2) associam o abandono da escola a uma decisão
errada. A aluna identifica diferenças entre rapazes e raparigas na importância de se manterem na
escola dizendo que “Há diferença porque os rapazes é que estudam muito mais do que meninas”. Esta
afirmação significa que os rapazes é que têm mais acesso e continuam os seus estudos.
As duas representantes do Governo entrevistadas reconhecem que as raparigas são mais vulneráveis
do que os rapazes, abandonam mais a escola e precisam por isso de uma atenção específica. A
importância de manter as raparigas está na aquisição de capacidades para tomar decisões, na
independência económica e aumento da sua capacidade para sustentar a família “Não será igual ela
estudar, começar a trabalhar, estar a ganhar seu pão e estar a sustentar a sua família, em relação a ir
pedir ao marido “Dá-me lá x”, pode ter esse marido, pode não ter. Mas se é ela, há-de planificar “final
do mês eu tenho de tirar X para a minha família” e vai fazer." (E8 - representante do governo distrital).
No geral, todos os grupos revelaram ter conhecimento de as raparigas têm mais dificuldades no acesso
à escola pelo facto de serem raparigas, quando comparadas com os rapazes, havendo fatores de
diversa natureza (culturais, económicos e institucionais) que as colocam em desvantagem no acesso
à educação.
43
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
escola leva a cabo sessões de sensibilização da comunidade: “Todos os nossos encontros, na abertura
do ano fala-se disso. A escola se lamenta muito, crianças entram bem, enchem nas turmas, mas depois
de 6 meses são todas grávidas, o que é que está a acontecer?” refere o professor (E1).
A transferência para o ensino noturno (constante do Despacho 39/GM/2003 entretanto revogado) foi
considerada nas entrevistas através de uma pergunta direcionada que ajudasse a perceber qual o
posicionamento dos entrevistados. Neste grupo, apenas a professora se manifestou contra esta medida
que disse acabar por prejudicar as raparigas que se encontram num “barco cheio de água e sem direção
(…) vão lá nos primeiros dias (do ensino noturno), mas não conseguem se inserir e acabam ficando”,
ou seja, abandonam. O professor e o membro da direção da escola consideram que a transferência é
uma medida adequada para desincentivar outras raparigas de engravidarem.
Tenho como opinião que é claro que não podemos misturar as raparigas grávidas com aquelas raparigas que ainda nem
conhecem o que é gravidez nem nada. Nós temos a nossa tendência de separar para evitar muita coisa que pode
acontecer. Como exemplo, já tivemos um caso muito sério naquela sala lá à ponta, uma menina, nós não sabíamos que
estava grávida. Surgiu um aborto espontâneo lá. Epá naquele dia toda a escola ficou agitada. Foi numa manhã, no
período matinal. Surgiu aquela situação. Até criança que não conhece aquilo viu aquela situação. Nós só fomos
comunicados aqui mais tarde, depois de quase todas as turmas correrem para lá, com muita agitação. Está a ver criança,
como é? Então aquilo ali foi uma lição para nós e de verdade sempre a nossa tendência, a minha opinião é de separar
uma rapariga grávida com as raparigas normais que estão aí, porque também elas se ofendem. Há bocas aí entre elas
e depois pode surgir também um conflito entre elas e a tal rapariga grávida sair prejudicada. Então sempre tentamos
mitigar esta situação, este risco. (E3 - Membro da Direção da Escola)
A interpretação da professora vai ao encontro do trabalho de Salvi (2018) que entende o Despacho
39/GM/2003 como uma autoestrada para o abandono escolar, embora atuasse formalmente como uma
estratégia de regresso à vida académica. Na justificação do membro da direção da escola sobre a
necessidade da transferência que foi aqui descrita é visível aquilo que Salvi (2018) também encontrou
nas entrevistas que fez e que é uma associação à gravidez como doença que precisa de ser contida e
que é de fácil propagação na sala de aula, sendo a transferência para o ensino noturno defendida como
uma forma de proteger outras raparigas.
O professor (E1) e o membro da direção da escola (E3) assumiram o discurso oficial de estratégia de
reentrada no ensino sem o questionarem, enquanto a professora (E2), talvez por estar mais próxima
das alunas, adotou o discurso oposto.
A transferência de raparigas grávidas para o curso noturno é identificada pela aluna (E6) como uma
medida que prejudica os estudos “Não favorece porque não é normal uma rapariga entrar à noite, ir ao
curso noturno”. O aluno (E7) diz que é uma boa medida "Frequentar a escola à noite? É uma boa
medida porque de dia não vão conseguir com o bebé a chorar." O grupo de alunos (GF3) entrevistados
considera que as raparigas grávidas não conseguem frequentar a escola à tarde por não conseguirem
andar por causa do sol. Revelam que há raparigas que dizem que é mais fácil estudar à noite, que para
elas é bom, enquanto outras dizem que não é bom por ser perigoso e “apanharem bandidos”. Há ainda
quem refira que é positivo porque à noite estuda-se pouco e fica-se com tempo livre durante a tarde
para fazer atividades. Os alunos têm esta opinião apesar de neste mesmo grupo ter sido mencionado
um caso de uma rapariga que engravidou e ficou a viver com os pais, mas abandonou a escola porque
vivia longe e não conseguia estudar à noite.
44
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
A mudança para o ensino noturno não era consensual havendo vozes discordantes mesmo dentro do
Ministério da Educação (o que provavelmente levou à sua recente revogação), como a própria
representante do Governo Provincial (E9) assumiu na entrevista “o Despacho 39 representa alguma
inquietação dentro do Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano, que pretende proteger
todas as meninas, as eu estão grávidas e as outras, partindo do princípio que no curso noturno a
rapariga se pode sentir melhor e protegida.”
Apesar da revogação desta legislação, há duas notas que parecem ser importantes e que podem estar
aqui implícitas. Uma é a ideia de que a gravidez, mesmo na adolescência, é sempre interpretada como
indesejável e oposta à educação, que Salvi (2018) refere como uma ideia errada e que deve ser
considerada quando se definem programas e políticas nesta área. O olhar ocidental associa o papel de
mãe ao papel de esposa, com a dependência e subordinação entendidas como características do
segundo papel (Salvi. 2018), no entanto, a gravidez é a passagem para a vida adulta, o que confere
estatuto e reconhecimento social que pode ser motivo de valorização por parte destas jovens em
detrimento da procura de emprego que a frequência escolar lhes poderá vir a garantir (ou não). Será
que a narrativa que opõe educação e gravidez existente em Moçambique contribui para reproduzir o
estigma associado às jovens mães, uma vez que estas são tradicionalmente consideradas como tendo
comportamentos “desviantes” (Salvi, 2018)?
A outra ideia que pode ser retirada desta análise é a associação da gravidez a um castigo (a
transferência para o ensino noturno), o que contribui para um sentimento de vergonha por parte das
raparigas e à sua estigmatização (reforçada pelo discurso que opõe a gravidez à educação acima
mencionado). Neste sentido, é aqui transcrita a resposta dada pelo aluno (E7) que quando questionado
sobre o que conversava com os seus amigos quando tinham conhecimento do abandono escolar de
uma rapariga por gravidez, fez a associação ao sentimento coletivo de vergonha "Falamos, até
costumamos reunir, desaconselhar que isso aqui fica feio a falarem sobre Matibane que as alunas não
acabam de estudar por causa de gravidez.”. Refere que essas raparigas envergonham a comunidade
de Matibane “(…) tão nos a envergonhar a nós, que saímos de Matibane também”.
Para evitar o abandono escolar das raparigas, a escola também realiza momentos de sensibilização
da própria rapariga e sua família, como dá o exemplo o membro da direção da escola (E3) entrevistado
“Este foi por causa de gravidez e nós tentamos perseguir. Primeiro solicitamos os pais e encarregados
que não compareceram. Tentámos enviar também algumas colegas amigas para poderem convencer,
mas também não conseguiram.”
Para o professor (E1), a intervenção da escola é insuficiente, mesmo a transferência para o ensino
noturno "Então é esse tipo de intervenção que a escola tem feito, mudar de horário, aconselhar que
não desista, só isso.”. O professor considera que deve haver repreensão deste comportamento,
principalmente para os rapazes envolvidos nas situações de gravidez. "O que falta é uma medida que
pudesse repreender esse comportamento aos envolvidos, logo no terreno. Esse, “você se envolveu
com esse, sabe que é uma criança, qual é a sua idade?”, e ter uma pena.”
Quando falamos com as alunas e os alunos, é dito que os professores têm um papel importante na
sensibilização das raparigas. O aluno (E7) entrevistado conta o caso de regresso à escola por
insistência de um professor que promoveu apoio para as raparigas que estavam em situação de
45
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
abandono. Apesar deste caso ter terminado com o regresso à escola da aluna, a professora (E2)
entrevistada referiu que também fez tentativas de recuperação de uma aluna que abandonou a escola
por gravidez, mas que se revelaram infrutíferas. Há, no entanto, uma grande importância atribuída aos
professores por parte das alunas (GF2) que indicaram ser os professores os responsáveis pela
educação das crianças. Opinião que é partilhada pela representante do Governo Provincial (E9) que
considera que as professoras podem ser um importante modelo para as alunas, além de serem,
juntamente com as mães, responsáveis pela educação das raparigas.
É percetível que a escola e o conselho de escola se encontram alinhados na atuação com vista à
promoção da educação da rapariga, o que parece surgir de orientações ao nível provincial e nacional.
Na escola existe uma professora que ocupa o cargo de ponto focal do género, que tem como funções
fornecer informação à Direção Provincial de Educação e Desenvolvimento Humano de Nampula e aos
Serviços Distritais de Educação da Cidade de Nampula "Um programa como tal não temos, mas
acompanhamos as moças, tentamos perceber, tentamos identificar o autor, e tentamos chamar os pais
para conversar, para saber qual é a posição dos pais, para encaminhar melhor a miúda." (E2 -
professora)
São as escolas que reúnem a informação sobre os números de raparigas que casam e engravidam
através do Diretor de turma que a transmite à Secção Pedagógica, e esta por sua vez, transmite aos
Serviços Distritais de Educação.
Das atividades que os serviços governamentais realizam no âmbito da educação da rapariga destaca-
se o seguinte:
Primeiro é velar do género, tanto na escola, assim como na comunidade. Nós fazemos trabalhos na escola e
completamos na comunidade porque afinal de contas essa criança está na escola, mas sai da comunidade. Como se
não bastasse, temos também outros trabalhos que nós fazemos junto à saúde que começamos na escola e vamos para
a comunidade onde está a criança. (E8 - Representante do Governo Distrital)
Não há dúvida de que há uma proximidade entre os Serviços Distritais de Educação e a Escola
Secundária de Anchilo, tendo a professora relatado várias visitas destes à escola e a sua participação
em sessões de formação. Também o membro da direção da escola (E3) relatou existir uma troca
constante de informação sobre a situação da rapariga na escola. Existe nas escolas uma grelha de
registo de informação destinada a relatar casos de gravidez e casamento com procedimentos definidos
para a sua comunicação aos serviços distritais. Parece assim haver uma preocupação com esta
questão, tornando a educação da rapariga um tema transversal a nível ministerial, provincial, distrital e
escolar e comunitário. Haverá, no entanto, algumas dificuldades no passo seguinte, como referiu a
professora: “(…) porque eles mensalmente ou trimestralmente costumam pedir dados. Então nós temos
de passar os dados que nós temos aqui. Só que eu também acho que os serviços distritais só levam
os dados, eu não sei o que é que eles fazem porque acabamos mandando os dados e já não há mais
nenhum envolvimento." (E2 - professora).
Tanto os serviços distritais como a direção provincial seguem as orientações da Estratégia de Género
do Sector da Educação. Os Serviços Distritais de Educação promovem palestras nas escolas sobre o
tema da educação da rapariga “(…) veio fazer algumas palestras, já deram comprimidos para
prevenção, camisinhas, eles já vieram fazer essas palestras, só que depois eles deixaram de vir não
sei porquê, não têm tido apoio." (E2 -professora). Sempre que possível, os serviços procuram reintegrar
46
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
A atuação do Conselho de Escola foi referida como tendo alguns limites como falta de confiança entre
os pais e os membros do conselho e até situações de ameaças de alguns pais que não querem ser
confrontados com a situação de abandono escolar da sua filha.
Das características da escola que podem ser fatores promotores de abandono escolar, a que mais
vezes foi referida nas entrevistas e focus group foi a distância entre a escola e o local de residência da
família que foi reconhecida pelos pais, mãe e membro do conselho de escola como uma das principais
causas que contribuem para o abandono escolar. A mãe (E4) entrevistada diz que, para que a distância
não fosse um problema, mudou a residência da família de Matibane para a vila de Anchilo próximo da
escola secundária.
O grupo de pais (GF3) referiu que a distância é um dos principais motivos que afasta as crianças de
Matibane da escola, uma vez que o caminho a percorrerem é perigoso e longo, demorando pelo menos
2 horas a percorrer. “Uma criança de 14 anos é muito pequena para sair para a escola secundária”. Os
pais dizem que são 15 quilómetros desde a Escola de Matibane até à Escola Secundária de Anchilo, e
que há crianças que vivem outros 7 quilómetros no sentido oposto. Os pais dizem que a distância
prejudica mais as raparigas do que os rapazes. Há um ponto do percurso onde é frequente ocorrerem
assaltos, mesmo durante o dia. Dizem que ninguém na comunidade de Matibane estuda no curso
noturno, uma vez que não é seguro fazer o percurso a partir das 17h. Em relação à insegurança no
caminho para frequentar a escola, o membro do Conselho de Escola reforça a mensagem dos pais:
Eu estou a ver que de facto existem algumas meninas que saem de longe e à noite não conseguem vir sozinhas, mas a
maioria são da área daqui do Anchilo e frequentam, conseguem aderir e vir no turno noturno. Só essas zonas de
Matibane, Napacala, Muezia, como ficam um pouco distantes e há muita marginalidade agora, talvez há essas
dificuldades como vir. (E5 - membro do Conselho de Escola)
O membro do Conselho de Escola aponta para a necessidade de se proporcionar alojamento perto da
Escola Secundária para os estudantes que vivam longe, de forma a eliminar o fator distância.
(…) até porque se houvesse possibilidade, nós teríamos de ter uma casa, não é bem um lar, não seriamos nós a custear,
mas os alunos podiam trazer o seu mantimento durante a semana, preparar-se e ficar aqui de segunda até sexta feira,
47
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
então aí poderíamos ter mais meninas. Porque nem todas são casadas, algumas são essas casadas que depois de
terem bebé são deixadas. Então essas mesmo, nós poderíamos acolher vivendo nesta casa e aproveitar os estudos. (E5
- membro do Conselho de Escola)
Tanto o grupo de pais de Matibane como o membro do Conselho de Escola indicam medidas que as
escolas poderiam tomar para evitar o abandono escolar. No primeiro caso (GF1), apontam para a
necessidade de criar uma escola secundária de nível 1 (8.ª, 9.ª e 10.ª classe) na EPC de Matibane, de
forma a evitar as deslocações dos alunos e das alunas que terminam a 7.ª classe, ou seja, que
concluem o Ensino Primário. Falam na necessidade de as crianças aprenderem alguma arte a partir da
escola, “porque aqui é fora”, como uma Escola de Artes e Ofícios que poderia ter “uma máquina de
alfaiataria”. Estas ideias são partilhadas pelas representantes do governo distrital e provincial, pelo que
parece ser uma posição atual por parte do Ministério da Educação cuja estratégia pretende criar
Círculos de Interesse nas escolas, como medida de combate ao abandono escolar das raparigas, uma
vez que proporcionarão atividades para as raparigas fazerem nas escolas após o período letivo
podendo aprender um ofício, como “aprender a fazer croché” (E8 - representante do governo distrital).
Apenas uma pessoa fez referência a situações de assédio sexual nas escolas, foi a representante dos
serviços distritais de educação (E8) e fê-lo apenas nomeando o assédio como mais um dos fatores que
afastam a rapariga da escola, sem detalhar as razões da afirmação.
16
Fez mais sentido fazer esta análise no capítulo “Fatores institucionais” uma vez que a transferência das raparigas
para o ensino noturno resultava de uma orientação ministerial e era aplicada no âmbito das funções
desempenhadas pelo governo e pela escola.
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
as raparigas a contraírem matrimónio muito cedo, antes da própria idade.” (E3 - membro da direção da
escola) / “Então, os pais sabem, porque na sua maioria são esses que forçam as suas filhas a irem
para o casamento tão cedo” (E1 - professor). O professor justifica este comportamento dos pais com
“falta de informação”.
Também a representante do governo provincial (E9) revela que há casos em que a menina é obrigada
a casar pelos familiares e que meninas órfãs são mais vulneráveis a esta situação. O mesmo acontece
com a representante do governo distrital (E8) que contou o caso de uma menina que foi obrigada a
casar com 14 anos quando frequentava a 5.ª classe, forçada pelos familiares. A menina ainda continuou
na escola durante algum tempo, mas acabou por desaparecer devido a mudança de residência.
Já o estudo realizado pela UATAF-AFC (s/d) em Nampula e Zambézia revela que as motivações para
o casamento prematuro são a pressão familiar das famílias, decorrente das dificuldades financeiras
das famílias. O professor (E1) tem uma opinião muito semelhante a esta afirmando que os pais, que
incentivam as suas filhas a casar são motivados por “pobreza, fatores socioculturais e analfabetismo”.
O membro do Conselho de Escola (E5), por sua vez, responsabiliza as raparigas: “A maioria das
meninas, essas de que eu me apercebi é que muito mais são culpadas elas. É isso que estamos a
falar. Chega ali no mercado. Apanha aqueles comerciantes que estão ali e ela vai querer pedir qualquer
coisa, é quando ele introduz a conversa de amantismo. Então, dali, a partir de amantismo, até alguns
os pais não têm conhecimento.” (E5 - membro do Conselho de Escola). O professor (E1) refere que os
pais não fazem tudo o que poderiam para evitar situações de gravidez na adolescência e que se
queixam de que também eles são surpreendidos por situações de gravidez “Os pais só se limitam a
dizer epá esses não ouvem, a gente também só descobre”. A mãe (E4) justifica a atitude das raparigas
com a pressão social, dizendo que quando as meninas casam o fazem “(…) para mostrar às outras
meninas que elas são capazes de casar”. O aluno (E7) diz que as meninas casam porque têm esse
sonho: “Sim, têm o sonho de casar e não ouvem o pai naquilo que diz sobre a educação.”
Uma visão semelhante foi encontrada no estudo da UATAF-AFC (s/d). Os grupos de discussão deste
estudo apontaram a vontade da própria rapariga em casar para satisfazer as suas necessidades em
termos de nível de vida desejado e influenciado por novelas e filmes aos quais assistem. Os ritos de
iniciação e o desejo de ter netos antes de morrer também são referidos como motivações para o
casamento prematuro (UATAF-AFC, s/d). Também Salvi (2018) contraria a ideia de que as gravidezes
na adolescência não são desejadas nem planeadas considerando que podem ser tão planeadas como
as gravidezes em idade adulta e que este entendimento deverá ser tomado em conta na definição de
políticas.
A gravidez surge como primeira resposta por parte dos alunos e das alunas quando lhes é perguntado
quais as causas que levavam as raparigas a abandonar a escola. No entanto, também aqui são
apontadas motivações diferentes para o abandono escolar com as raparigas (E6 e GF2) a defenderem
que este é resultado dos ciúmes do marido que não deixa a rapariga ir à escola, enquanto que os
rapazes (GF3) referem que é a própria rapariga que "Ela não estuda porque tem preguiça com o bebé
na mão ou no colo (…)”. A pressão que os maridos passam a exercer sobre as raparigas também é
referida pelo membro da direção da escola (E3) que diz já ter testemunhado situações dessas.
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
A professora (E2) diz que mesmo quando as raparigas voltam à escola depois de serem mães, acabam
por desistir passado algum tempo: “O bebé era pequenino e ela vinha à escola, só que depois acho
que foi de segundo trimestre para o terceiro, já não vejo mais a moça. Sumiu. Eu até tentei incentivar
e trazer umas roupinhas para ela, para ela ficar motivada para dar continuidade, mas ela já está em
casa." Entre as razões que levam uma rapariga a abandonar a escola mesmo após ter feito uma
tentativa de regressar depois de ser mãe, podem estar as dificuldades de organização do seu tempo
para cuidar do bebé, mas também possíveis atitudes conservadoras por parte dos professores em
relação às mães adolescentes que podem aumentar o estigma e a discriminação (UNESCO 2017).
A representante do governo distrital (E8) fez alusão à desvantagem em que se encontram as raparigas
“(…) o rapaz pode casar e continuar a estudar, mas a menina pode casar e o rapaz dizer “você não sai
daqui, não vai à escola” e a menina simplesmente ficar.”
A professora não se manifesta contra a participação das raparigas nos ritos de iniciação, mas sugere
que haja um faseamento na passagem de informação:
Na comunidade também acho que devem aprender, mas é aquilo que eu disse, devem aprender de forma doseada, não
podem aprender tudo num único dia ou naquele mês, porque elas, muitas das vezes, assim que vão de férias, acho que
ficam quase um mês a receber essas informações. Então elas deviam receber de forma faseada. Apanhou o período, ou
tu és uma rapariga, deves aprender a te cuidar desta e daquela forma, e ponto final. Tens tantos anos, deves aprender
a cuidar-te assim e assim. Porque muitas vezes verifico, elas não sabem nem cuidar do uniforme, que elas usam, agora
como é que ela vai cuidar de uma família, se ela não sabe ela sozinha cuidar-se. Vem com um cabelo desorganizado,
mas o pai acha que como já tem maminhas está preparada para casar. É a desgraça porque a partir do momento em
que ela começa a fazer os filhos já não vai ter o tempo ou a oportunidade de cuidar dela. (E2 - professora)
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
A mãe entrevistada (E4) relaciona a frequência dos ritos de iniciação sexual com o casamento, dizendo
que quando as raparigas regressam dos ritos já querem casar. No tempo em que a mãe era jovem, os
ritos de iniciação ocorriam por volta dos 15/16 anos e atualmente houve uma antecipação ocorrendo
os ritos a partir dos 11 anos de idade, justificando que isso acontece porque atualmente as filhas são
mais desobedientes o que incentiva as mães a enviarem-nas para os ritos numa tentativa de torná-las
mais obedientes. A descrição que Arnfred (2011) faz dos ritos de iniciação femininos do povo Macua
mostra que estes são ritos de passagem para a idade adulta, sendo as adolescentes criadas mulheres
pelas mãos das mulheres mais velhas responsáveis pelos ritos17. A ideia de que as mulheres adultas
são criadas através da passagem dos rituais e não apenas através das transformações físicas dos seus
corpos, vai ao encontro da afirmação desta mãe. Através dos ritos, é transmitida uma atitude central
da vida adulta que é o respeito pelos mais velhos e por outros adultos que não pode ser adquirida sem
este passo (Arnfred, 2011).
Nem o membro do Conselho de Escola (E5) nem o grupo de pais (GF1), nem os alunos ou alunas se
pronunciaram em relação aos ritos de iniciação sexual femininos. Parece haver aqui um discurso por
parte das instituições (escola e governo) que valoriza em grande escala o impacto dos ritos de iniciação
femininos, contrariamente aos pais e alunos e alunas que não mencionam o assunto, o que se pode
dever a uma de duas razões. Ou o tema está sobrevalorizado pelas instituições ou é um tema sensível
que as pessoas evitam abordar, sendo mesmo um tabu. Talvez até como resultado das tentativas de
erradicação dos ritos de iniciação femininos que foram levadas a cabo nos anos 80 pela OMM (Arnfred,
2011). As representantes do governo (E8 e E9) disseram que os ritos de iniciação femininos, que
apesar de serem potencialmente positivos, ainda têm um efeito negativo ao não adaptarem as
mensagens à idade das raparigas e ao trabalharem com raparigas muitos jovens. Estas resposta
revelam a posição oficial do país em relação aos ritos que atualmente abandonou a posição proibitiva
para assumir uma posição mais tolerante, na qual se admite espaço para os ritos, mas trabalhando em
conjunto com as matronas ou conselheiras18.
Os fatores relacionados com a não valorização da escola foram agrupados pelo Inquérito ao Orçamento
Familiar 2014/2015 na categoria de nada serve/falta de interesse que representa 31,2% (INE, 2015).
Esta categoria teve algum significado nas respostas obtidas neste trabalho, com os pais (GF1) a
dizerem claramente que os alunos perdem a motivação para ir à escola porque veem os irmãos que já
concluíram a 12.ª classe e continuam sem “ofício”: “Se o irmão tivesse ofício ele também iria sacrificar-
se, mas como o irmão ficou em casa sem nada, ele também abandona”. Está muito presente a ideia
de que frequentar a escola, principalmente para os jovens da comunidade de Matibane (comunidade
onde vivem estes pais que participaram no focus group) exige um grande investimento, principalmente
para os estudantes devido à distância que têm de percorrer até à escola. Os pais transmitiram a ideia
de que se esse esforço fosse recompensado através de um emprego, os jovens não abandonariam a
escola. Por outro lado, a mãe entrevistada (E4), apesar de ter em sua casa dois filhos que já terminaram
a 12.ª classe e que não têm ocupação laboral, continua a incentivar a sua filha cuidando até da filha
desta para ela frequentar a escola. Esta diferença de posições pode ter a ver com o facto de não existir
17
Arnfred utiliza a célebre frase de Simone de Beauvoir para ilustrar a criação de mulheres através da passagem
pelos ritos “One is not born, but rather becomes, a woman” (de Beauvoir 1949/1997 citada por Arnfred, 2011)).
18
Matronas ou conselheiras são as designações para as mulheres responsáveis pelas ritos de iniciação femininos.
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
o fator distância no caso particular desta família que vive perto da escola e não em Matibane e com o
facto desta jovem estar inscrita no ensino à distância e apenas ter de se deslocar alguns dias à escola.
A entrevista feita a esta mãe dá peso à importância do suporte familiar na continuidade das raparigas
na escola, o que parece ser o fator diferenciador neste caso. Ela própria referiu que as raparigas
continuam na escola se os pais tiverem vontade disso, fazendo como ela, cuidando da neta para que
a filha possa ir à escola e incentivando-a constantemente. O suporte familiar pode fazer toda a diferença
entre continuar a estudar ou abandonar a escola no caso de uma rapariga grávida. As normas sociais
e o desequilíbrio de poderes de género significam que frequentemente os cuidados parentais recaem
sobre a mãe da rapariga, pelo que o suporte desta é essencial (Birchall, 2018).
As respostas dos professores e do membro do conselho de escola também foram neste sentido. O
professor (E1) explica que “O problema é a visão que esses pais têm. O emprego está muito distante,
se é um pai não escolarizado nunca vai pensar no emprego porque ele sabe que nasceu, cresceu, tem
sua bicicleta, construiu e tem seus cabritos, mas nunca estudou. Então vai ser difícil pensar o futuro do
seu filho.” Os pais destes estudantes são maioritariamente camponeses que nunca trabalharam como
assalariados, o que segundo o professor implica algum distanciamento com aquilo que é atualmente
expectável para os seus filhos, a frequência da escola e procura de emprego.
O membro da direção da escola (E3) apontou a não colaboração dos pais no acompanhamento das
raparigas “São poucos pais que colaboram. Poucos mesmo. Se formos a fazer uma estatística, não
chegamos nem a 5% de pais que têm aquela vontade de pôr a escola a caminhar e a fiscalizar estes
caminhos. São poucos pais.” O membro do conselho de escola (E5) disse que os pais podem mesmo
chegar a ter uma posição defensiva após situações de abandono escolar das suas filhas: "Quando uma
entidade vai lá insistir, os pais ficam aborrecidos e começam a ameaçar. Epá porque é que está a
insistir se nós já dissemos que não pode incomodar a minha filha?”.
O membro do conselho de escola (E5) refere ainda que os encarregados de educação desconhecem
o valor da educação, o que associado à sua situação de pobreza, faz com que “a tendência do
encarregado de educação é mandar casar sem olhar que afinal de contas minha filha amanhã pode
levar o meu nome longe”. Esta posição do membro do conselho de escola contraria, no entanto, a
afirmação que responsabiliza as raparigas pela situação de casamento e que foi proferida
anteriormente. Estas contradições revelam a complexidade da situação devido ao grande número de
fatores que pode influenciar a tomada de decisões das raparigas e das suas famílias, e a
impossibilidade de definir relações causais.
Também os alunos e alunas, à semelhança dos restantes entrevistados, abordaram a falta de suporte
familiar como um fator que influencia o abandono escolar. A aluna (E6) entrevistada disse conhecer
casos em que “falam que os meus pais não gostam quando eu vou à escola”. Esta aluna fala de uma
diferença entre estudantes que vivem com os pais e estudantes que são órfãos e que por isso têm mais
dificuldades em frequentar a escola: “(…) colega, a minha situação é essa, eu sou órfão do pai, sou
órfão da mãe, e os meus avós quando eu falo assunto da escola, eles não obedecem, pensam que eu
estou a desafiar, agora não consegui mesmo terminar o ano, assim estou parado e eu quero a escola,
mas não tenho como entrar à escola.” (E6 - aluna, a citar um colega). Por outro lado, esta aluna também
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
mencionou a falta de motivação por parte dos próprios estudantes: “Há outras que, quando entram na
escola não entram com muita vontade, que não apertam os estudos." (E6 – aluna).
A família foi descrita essencialmente de forma crítica em relação ao seu papel na educação da rapariga.
O professor (E1): "Há pais, por causa do número de filhos que têm quando tem uma mulher como filha,
que já passou pelos ritos de iniciação, a miúda quando volta dali começa um conflito familiar entre pais
e filha “Você já é grande, tem de sair daqui. Tem de se casar porque nós queremos também aproveitar
de si.”. Esta afirmação tem subjacente a ideia de que os pais tratam de forma diferente as raparigas e
os rapazes, não promovendo a escolarização das raparigas porque, neste caso, a melhor possibilidade
de retorno para a família é o casamento da rapariga e não a sua escolarização. Também a professora
(E2) fala da procura de retorno para a família por parte das raparigas “E são obrigadas ou são
incentivadas a casar para poderem trazer alguma coisa para darem continuidade ao nível de vida que
eles têm.” O membro da direção da escola (E3) menciona que "Família quer alívio das despesas”,
associando o abandono escolar das raparigas às dificuldades económicas das famílias. Não é muito
claro se esse retorno é meramente económico ou se é também um retorno ao nível do prestígio da
família na comunidade. Aqui apenas ficou claro que os professores consideram que a família tem
expetativas de retorno e que as suas decisões em relação à continuidade ou não na escola, dependem
da probabilidade desse retorno.
O papel da família também foi abordado nas três entrevistas do grupo de pais. Os pais (GF1) contaram
que os encarregados incentivam diariamente os seus filhos a irem para a escola e que isso significa
acordarem o aluno (o que acontece muito cedo devido à distância para a escola) e dizer-lhe para se
preparar para ir para a escola (depois de fazer as tarefas de casa). Dizem não haver pais a recusar
que os filhos vão à escola, que todos incentivam (apesar de os professores terem uma posição diferente
em relação à generalidade dos pais). Fazem o mesmo para rapazes e raparigas (o que também não
está de acordo com a afirmação dos professores). A mãe entrevistada individualmente (E4) cuida da
neta para permitir que a filha frequente a escola e dá-lhe incentivo moral para que chegue a completar
a 12.ª classe, tal como os seus dois filhos rapazes já completaram.
Nas situações de abandono escolar, os pais são chamados a dar explicações sobre tal, o que é
geralmente bem aceite e compreendido, embora o membro do conselho de escola duvide que sejam
tomadas medidas posteriores para inverter a situação. "Epá naquele momento quando você fala com
eles, eles aceitam. Realmente aceitam e reconhecem que eu já falhei, eles reconhecem mesmo os
erros deles, depois daí quando chega em casa talvez o assunto é outro, mas aceitam naquele
momento, não repudiam nada mesmo." (E5 – membro do conselho de escola).
A família e a escola devem complementar-se:
Acho que a educação, principalmente, na fase de início, tem de começar em casa. Se a criança vai à escola vai completar
apenas, mas se em casa a educação está um pouco assim perturbada, na escola também vai ser assim porque não tem
acompanhamento. A criança quando vai à escola precisa de alguém para fazer o acompanhamento do início ao fim. Nós
temos verificado casos em que as crianças vivem por exemplo com os tios, com os avós, não têm aquela atenção total.
E alguns pais, encarregados também, não são todos, mas alguns, então, se vai à escola, já foi, se não foi é com ela. Não
é assim. Não pode funcionar assim. Não vai à escola, procura saber porquê. O acompanhamento tem de começar em
casa e na escola ir completar. (E8 - representante do Governo Distrital)
Esta afirmação da representante do governo distrital tem também implícita uma diferenciação de
comportamento entre filhos e filhas biológicos e adotivos, como também foi referido pela aluna (E6).
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
Na pesquisa bibliográfica também foi encontrada esta referência à diferença de tratamento entre filhos
biológicos e adotivos ou filhos de familiares, com a UNICEF a dizer que as crianças acolhidas por
familiares estão em maior risco de vulnerabilidade e desvantagem face aos filhos biológicos (UNICEF
Moçambique, 2014). Quando se faz esta análise desagregada por género como apresentada no IDS
de 2011, percebemos que as crianças do sexo feminino órfãs de ambos pais tendem a frequentar
menos a escola que as crianças masculinas e que há uma diferença geográfica significativa. Na maior
parte das províncias das regiões Centro e Sul, as percentagens de crianças órfãs que frequentam a
escola é superior a 70% e enquanto nas províncias da Região Norte, as percentagens estão abaixo de
50% e principalmente no Niassa, onde esta percentagem é de apenas 27%. As crianças que têm ambos
pais vivos e vivendo pelo menos com um deles, tendem a frequentarem mais a escola do que as
crianças órfãs, pois a percentagem é de 81%, sendo mais elevada na área urbana que na rural, 93% e
76%, respetivamente (Ministério da Saúde et. al., 2013).
O papel da liderança da comunidade também foi abordado em várias entrevistas. Por exemplo:
Eles mesmo nas reuniões, eu já participei na área onde eu vivo, têm sempre tendência de falar sobre educação das
raparigas e essa violação que fazem os próprios pais e encarregados de educação, também apelam que deve ter muito
cuidado, deixam a rapariga para estudar, sim, costumam falar nos seus encontros, os próprios líderes, levam as nossas
mensagens e fazem chegar à população (E5 – Membro do conselho de escola).
Os líderes comunitários são sensibilizados pela escola e pelo governo e transmitem essas mensagens
à população, no entanto, os pais (GF1) alertaram para os limites desta intervenção dizendo que um
líder comunitário só pode ter conhecimento de uma situação de abandono quando o Diretor da Escola
lhe escreve a dar essa informação sobre o abandono escolar e nesses casos “O líder chama a família
da menina para conhecer porque é que abandonou”. A representante dos serviços distritais (E8) referiu
que há lideranças comunitárias “(…) que entendem e ficam no mesmo caminho connosco e tem alguns
casos restritos que não, em que os líderes ficam no pensamento da comunidade. Porque alguns líderes
nós capacitamos e damos essa informação de que não podemos deixar as nossas meninas casarem
cedo e eles concebem."
A influência da comunidade em relação educação da rapariga foi mencionada nas quatro entrevistas
realizadas aos alunos e às alunas. A aluna (E6) disse que há vizinhos que reconhecem que é importante
ir à escola e há outros que não gostam que a criança vá à escola. Estas mesmas informações foram
transmitidas pelo grupo de alunas (GF2) dizendo que há pessoas que aconselham a estudar, mas que
há outras que não encontram razões para a frequência da escola uma vez que conhecem casos de
quem estudou e não tirou daí retorno. Surge aqui novamente a ideia do retorno já mencionada pelos
professores como importante para a tomada de decisão. Já o grupo de alunos (GF3) só mencionou
aspetos positivos na influência da comunidade onde as raparigas são incentivadas a estudar (quer pela
sua família, quer pelas outras mulheres).
A justificação da falta de envolvimento dos pais na situação escolar dos seus filhos e filhas apareceu
também associada à questão da ruralidade por parte dos professores: “Eu parto do princípio de que,
como estamos no campo, os pais levam a rapariga para atividades domésticas e o rapaz é que deve
prosseguir.” (E2 - professora).
“Já fiz umas visitas lá para o interior de Matibane, consegui identificar crianças que estão lá num sítio, um deserto, ali o
único divertimento é só o sítio onde se vende vinho. Ali, estão ali. O que é que podemos imaginar? Esse tipo de povo
54
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
nesse sítio aí? Que não tem jornal, não tem televisão, só amanheceu, foi à machamba, voltou, está num sítio para beber
vinho. Que tipo de ideias podem surgir? Se nunca podem pensar na escola como coisa boa." (E1 - professor)
É importante referir aqui que a maior parte dos professores que lecionam na Escola Secundária de
Anchilo deslocam-se diariamente a partir da cidade de Nampula, não sendo oriundos daquelas zonas
rurais.
Do lado dos alunos e alunas, a questão da ruralidade não foi mencionada. No caso dos pais ouvidos
através de focus group (GF1), foi feita uma referência ao meio rural onde se insere a comunidade de
Matibane para justificar o envolvimento das raparigas nas tarefas domésticas: “Aqui como é fora, muito
pior nesse tempo seco, as raparigas saem de madrugada em busca de água”. Esta afirmação é útil
para fazer a passagem para a análise da importância das tarefas domésticas a cargo das raparigas,
que foram apontadas pelo membro da direção da escola (E3) como uma das maiores dificuldades para
as raparigas se manterem na escola, juntamente com a distância entre a escola e a casa, e a gravidez
(já referida no capítulo anterior). No entanto, quem mais peso deu à realização de tarefas domésticas
foi a aluna entrevistada (E6) que sublinhou a diferença entre rapazes e raparigas: “Os rapazes, eles
podem amanhecer e só pensar nos estudos. Nós que somos mulheres e somos criadas na casa dos
nossos pais, não conseguimos como apertar os estudos. Amanhecer e fazer atividade de casa.”. Como
exemplo de tarefas, esta aluna mencionou “ajudar nossa mãe, lavar pratos, tirar água, na cozinha, lavar
roupas”.
Além das tarefas domésticas, foram mencionadas situações de trabalho que envolvem as raparigas,
como por exemplo pequenos negócios informais onde as raparigas se envolvem devido à situação de
pobreza em que vivem “(…) ora põem-se a vender produtos, aqueles produtos caseiros, badjias, pães,
bolinhos, em redor da fábrica ou pela rua. Acham melhor assim do que vir estudar." (E3 – membro da
direção da escola). Parece estar implícita uma responsabilização das alunas, sendo o trabalho uma
opção escolhida por estas em detrimento da frequência da escola.
O IOF 2014/2015 calculou como sendo de 10,5% a percentagem da população nacional (5,2% no caso
de Nampula) que não frequenta a escola por motivos relacionados com o trabalho (casa/serviço).
Parece haver algum desconhecimento sobre questões de saúde sexual, o que pode ser resultado da
falta de conteúdos de educação sexual nas escolas. Numa das entrevistas é feita uma associação entre
a primeira menstruação e a atividade sexual, o que também foi encontrado num estudo realizado na
Etiópia e no Ruanda no qual os entrevistados reconheciam que há pessoas que acreditam que a
menstruação é um sinal de atividade sexual, o que pode estar relacionado com a falta de procura de
aconselhamento parental por parte das raparigas, com estas a enfrentarem o estigma de serem
sexualmente ativas e a culpa de eventuais consequências da sua sexualidade (Coast et al., 2019),
como a gravidez.
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
Apesar disso, a pobreza das famílias foi referida várias vezes tanto pelo membro do conselho de escola
como pelo professor, no entanto, como motivação para o casamento ou gravidez das raparigas e não
como razão para o abandono escolar por falta de capacidade em fazer face às despesas escolares.
Muito mais é esse problema de as próprias crianças quando passam naquele mercado, com a pobreza que têm querem
pedir alguma coisa com aqueles comerciantes e como tal, como menina é, caem nessas condições de má vida. Sim, é
muito o que reina é isso. Então o pai, vendo que epá o que posso fazer? Vale a pena levar essa menina. Pronto. A
maioria são desses, são que estão casadas, é o que lhe obriga a deixar a escola. (E5 - membro do conselho de escola)
Seria de esperar uma referência com maior expressão em relação às questões económicas, uma vez
que o IOF 2014/2015 identificou que 14,3% das pessoas entre os 5 e os 24 anos não frequentam a
escola por esta ser muito cara (INE, 2015).
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
Os três entrevistados no grupo dos professores conseguiram dizer claramente quais as tarefas que
estão associadas ao marido numa situação de casamento: “O homem é aquele que deve sair procurar,
procurar uma mata, debastar para depois a sementeira, essas tarefas, a caça, a pesca, são essas
tarefas que essa comunidade aqui vive.” (E1 - professor); "O homem está para trabalhar, está para
procurar e trazer (…)" (E2 - professora), "Homens preferem beber (…)" (E3 - membro da direção da
escola).
Sobre o papel das mulheres e dos homens, o membro do conselho de escola (E5) rejeita totalmente a
ideia de que há tarefas de casa que só podem ser feitas por mulheres: “Esse nome de mulher não
significa que tudo está encarregue a ela quando trata de casa.”, acrescentando que “(…) quando sai
da machamba, mulher deve levar criança e você deve levar lenha, deve levar material, até em casa,
porque afinal de contas nós somos iguais. Sim, não há nenhuma diferença entre o homem e a mulher,
não há." Sobre o papel dos homens, o membro do conselho de escola faz as seguintes considerações:
O pai tem tarefa. Por exemplo, vamos supor que existe um tempo no qual a própria menina não consegue fazer nada
depois do parto, quem pode responsabilizar deve ser o rapaz. Ele deve assumir a responsabilidade de fazer tratamento
de casa, lavar, varrer a casa e ir ao rio tirar água e ajudar a menina. Também essa é responsabilidade dele. Ele deve
assumir essa responsabilidade, não deve ser só a menina porque ninguém é empregada para fazer tudo isso. Lá porque
é menina. Não. O homem também tem essa competência de fazer tudo aquilo que faz a menina. Até pode vir na cozinha.
Pode fazer cozinha (E5 – membro do conselho de escola).
A aluna (E6) considera uma boa mãe aquela que "Incentiva a filha a ir à escola, dar bons conselhos,
como andar na vida, andar bem na vida.", mas, ao contrário do membro do conselho de escola, a aluna
diz que há tarefas que devem ser feitas pela mulher: "A tarefa de mulher no casamento é de respeitar
o marido e fazer atividades de casa que o marido não pode fazer." (E6 – aluna). Esta aparente
incapacidade por parte do marido em fazer as tarefas de casa é associada ao fato de os rapazes não
receberem estes ensinamentos nas casas dos seus pais, enquanto que as raparigas são ensinadas a
fazer as tarefas do lar, como lavar pratos e cozinhar, enquanto que ao marido cabe ir procurar trabalho
para sustentar a mulher e os filhos, sendo ele o responsável pela educação das crianças. O aluno (E7)
também se refere ao papel da mãe como o de cuidadora “a mãe tem direito de cuidar da casa e dos
filhos”. Já ao pai cabe a tarefa de educar o seu filho para evitar comportamentos “(…) como não
frequentar a escola, tratar a bandidagem e andar de qualquer maneira à noite." Tanto o aluno como a
aluna concordam que é ao pai que cabe a responsabilidade da educação, apesar de serem as mães
as cuidadoras. O aluno (E7) coloca uma grande carga no facto de o pai ir corrigir os eventuais erros da
mãe no desempenho das suas tarefas domésticas "O pai vem mandar só. Vem corrigir naquilo que a
mãe fez, nesse caso de não lavar o bebé, não organizar a casa e está sempre à procura (de) bens de
consumo."
A obediência surgiu por várias vezes nas respostas às questões sobre as características dos filhos e
das filhas. Destes, espera-se que obedeçam aos mais velhos. Esta relação de poder determinada pela
idade é abordada por Signe Arnfred (2011) como sendo, em algumas sociedades africanas mais
importante do que a relação de poder baseada no sexo/género.
"O filho segue orientações da sociedade e de casa. Em relação à filha é complexo. Deve ter orientação
adequada de convivência social de uma mulher." (E3 - membro da direção da escola).
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
"E as raparigas, elas como estão a fazer atividades domésticas, acho que são as mais confiadas, são
as que ajudam entre aspas a família, (…). Quando ela começa a ter maminhas, começa a ter o período,
já está preparada para assumir um lar.” (E2 - professora).
“Basta verem que essa está mesmo a crescer, já estão a dar essa orientação “você deve começar a
ter a sua machamba”, logo com 10 anos tem de começar a aprender a fazer a sua própria machamba."
(E1 - professor).
Os pais (GF1) têm a expetativa que os seus filhos possam vir a ajudar o pai sendo “um enfermeiro, um
doutor, um presidente.” Referem que toda a gente quer isso para os filhos. “Não há nenhum que aceita
comer erva. Todos queremos comer uma coisa boa, só que é difícil. Queríamos que estudasse,
concluir, estar num sítio para nos ajudar, para ajudar o irmão.” Está aqui novamente presente a ideia
do retorno para a família como uma expetativa dos pais. O grupo de alunos (GF3) diferencia o papel
do bom filho do da boa filha principalmente no que respeita ao retorno que cada um deles proporciona
à família. O bom filho poderá vir a receber um bom salário, caso estude, e com esse salário poderá
ajudar os seus pais. A boa filha deverá estudar, obedecer aos pais e criar os seus filhos quando acabar
os estudos.
No entender da representante do governo distrital (E8), uma boa mãe é “aquela que abre-se com sua
filha e a filha abre-se com sua mãe”, numa aparente relação de amizade e cumplicidade. A boa esposa
é fiel ao seu marido, com quem compartilha a vida do início ao fim. O bom pai “é aquele que faz
acompanhamento aos seus filhos” e o bom marido “é relativo” tal como o bom filho: “Eu acho que
primeiro a criança deve ser obediente e também saber reclamar. (…) A criança precisa saber dizer não
e para saber dizer não precisa ela também ser informada.”. Se esta criança for uma rapariga “muda
alguma coisa, porque filha fica mais chegada com a mãe e não o pai. Tudo o que ela faz de ruim e de
bom vai a correr para a mãe informar.” De notar que as características da boa esposa não levantaram
quaisquer dúvidas enquanto que as características do bom marido não são claras, mas sim “relativas”.
As duas representantes do governo apontam para fatores culturais que não promovem a educação das
raparigas, mas sim dos rapazes “Pelo menos para nós aqui no Norte, temos aquela conceção de que
quem pode estudar, quem pode trabalhar muito, sustentar a família, ser chefe de família, é o homem.”
(E8 - representante do governo distrital). Pelo contrário, a menina tem de ficar em casa sendo
sobrecarregada com tarefas fora da escola, revelam como sendo o comportamento generalizado.
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
CONCLUSÃO
A maior parte da bibliografia encontrada sobre o abandono escolar das raparigas ou sobre a igualdade
de género na educação segue a linha das grandes organizações internacionais, como a UNESCO, a
UNICEF ou o Banco Mundial, sendo produzida no contexto da educação “global” apresentada no
capítulo 1.1. Claro que o seu valor é muito grande, no entanto, parece faltar contexto a este discurso,
como o fazem Signe Arnfred e Francesca Salvi que apresentam relatos e histórias de mulheres e
raparigas indo mais além da estatística e do abstrato dos números. Em termos de indicadores sobre o
estado da educação e da igualdade de género na educação, Moçambique apresenta números que
revelam disparidades significativas de cariz geográfico e cultural, fundamentados em diversos estudos
dos organismos referidos. O norte do país apresenta dificuldades estruturais (resultantes por exemplo
da diferente língua falada e visíveis na falta de acesso a serviços de saúde, água, saneamento básico
ou habitação de qualidade) que colocam a sua população em desvantagem e das quais a não
frequência escolar é também um sintoma.
Sobre a situação da rapariga em Moçambique, não há dúvida do empenho do país na definição de
políticas que promovam a igualdade de género, quer ao nível da subscrição de diversos compromissos
internacionais, quer ao nível do planeamento e organização estratégica. No entanto, falta efetividade
nestas políticas, uma vez que os números revelam grandes disparidades com desvantagem para as
mulheres e raparigas. Parece haver uma promoção dos papéis tradicionais associados às mulheres,
como aqueles que se dedicam às tarefas domésticas, ao casamento e maternidade (dentro do
casamento), como é sinal disso a existência de um Ministério que junta no seu nome as palavras Ação
Social, Género e Criança. Por outro lado, os próprios números podem não revelar na totalidade a
dimensão do problema devido a dificuldades na sua recolha, como as encontradas na análise
quantitativa deste estudo, o que se pode dever ao facto da recolha de dados ser feita manualmente
nas escolas e posteriormente transcrita pelos serviços distritais ou provinciais.
É visível que as raparigas estão mais afastadas da escola do que os rapazes (os dados quantitativos
revelam diferenças no acesso quer nas escolas primárias quer na secundária e todos os grupos
entrevistados reconheceram maiores dificuldades para as raparigas). No caso da Escola Secundária,
esta diferença vai ganhando expressão à medida que se sobe no ano de escolaridade. No entanto, as
raparigas que terminam a escola primária são muito poucas em relação àquelas que a iniciam na 1.ª
classe. Na EPC de Matibane, apenas 5 raparigas aprovaram o ano letivo na 7.ª classe em 2018,
enquanto que foram 90 as que iniciaram os seus estudos na 1.ª classe nesta escola neste ano letivo
(ver anexo G). No futuro, seria importante analisar o percurso escolar das raparigas na escola primária,
para perceber quais os fatores que as afastam da escola antes de chegarem ao ensino secundário.
Este afastamento resulta da conjugação de uma série de fatores que foram aqui sintetizados em
institucionais, culturais e económicos, relacionados com gravidez/casamento e relacionados com os
papéis de género e as expetativas de futuro das raparigas. Sabendo que não é possível definir
fronteiras entre estes fatores, houve a necessidade de tratá-los em separado por uma questão de
clareza e facilitação da análise.
59
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
FATORES INSTITUCIONAIS
O grupo de pais foi o que mais assinalou as falhas do sistema, apontando a distância à escola
secundária como uma das causas para a não prossecução dos estudos por parte dos rapazes e
raparigas de Matibane. Efetivamente, as estatísticas nacionais revelam que na província de Nampula
a distância à escola é um motivo apontado para a não frequência da escola por mais pessoas do que
a média nacional (INE, 2015) e seria de esperar esta indicação por parte destes pais, uma vez que os
seus filhos vivem a pelo menos 6 quilómetros de distância da escola. A mãe entrevistada também
apontou a distância como um fator de afastamento da escola, referindo que essa foi uma das suas
motivações para mudar de residência para a vila de Anchilo, próximo da escola.
Houve apenas uma referência ao assédio sexual (por parte da representante dos serviços distritais de
educação) apesar de haver bibliografia que dá muita relevância a esta questão dentro das escolas,
como o estudo que revela que 47% dos alunos já ouviu falar da ocorrência de casos de assédio sexual
na sua escola (CESC, 2017).
Uma das questões que mais foi abordada dentro dos fatores institucionais foi a transferência das
raparigas grávidas para o ensino noturno, o que se deve ao facto de ter sido colocada uma questão
específica a solicitar que os entrevistados comentassem essa situação. Verificou-se uma diferença no
discurso da professora e alunas, que se posicionaram contra esta medida, em relação ao discurso do
professor, do membro da direção da escola e dos alunos que a defenderam. Como argumentos para a
defesa desta medida (por parte destes homens e rapazes) foi utilizada a necessidade de proteger as
próprias raparigas. De salientar que foi aqui encontrada a referência à gravidez como doença, também
referida por Salvi (2018), o que aumenta a probabilidade de exclusão social das meninas grávidas.
Foi encontrado um alinhamento a nível institucional no sentido de promover a frequência da escola por
parte das raparigas, o que revela que a estratégia de comunicação governamental neste sentido é bem-
sucedida, e a importância que é dada à manutenção da rapariga na escola.
GRAVIDEZ/CASAMENTO
Dos fatores considerados pelos entrevistados como influenciadores do abandono escolar das
raparigas, a gravidez e o casamento foram claramente aqueles que mais peso tiveram nas respostas.
Era expectável após a análise do Programa Futuro Maior e das estatísticas nacionais que referem que
48% das raparigas de Moçambique entre os 20 e os 24 anos casou antes dos 18, sendo este valor de
62% na Província de Nampula (Ministério da Saúde et al., 2013). O Programa Futuro Maior revela que
o abandono escolar das raparigas na Escola Secundária se deve maioritariamente a situações de
casamento/gravidez, embora com um significado muito superior àquilo que está representado nas
estatísticas oficiais do país, nomeadamente no Inquérito ao Orçamento Familiar (INE, 2015). Não
devem ser descuradas as dificuldades na recolha de dados, ou um desajustamento dos números das
estatísticas oficiais (e nacionais) à realidade desta escola.
60
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
Contrariamente, o grupo de pais de Matibane que referiu claramente não conhecer situações destas
na sua comunidade. Apesar deste desconhecimento, a ocorrência de casos de abandono escolar de
raparigas devido a estas situações foi reportada pelo diretor da escola primária de Matibane em alunas
da 6.ª e da 7.ª classe. Também aqui o discurso dos pais diverge do discurso dos professores e membro
da direção da escola que dizem ser os próprios pais a incentivar o casamento das suas filhas. O
discurso das representantes do governo também foi nesse sentido, de que o processo de tomada de
decisão sobre o casamento é influenciado pelas famílias, por vezes contra a vontade das raparigas.
Esta diversidade de posições está de acordo com o encontrado na bibliografia que revela a
complexidade das relações entre gravidez, casamento e frequência escolar (Psaki, 2015).
Neste estudo não foi possível perceber se as jovens inscritas no Programa Futuro Maior que
abandonaram a escola por motivos relacionados com gravidez ou casamento o fizeram antes ou depois
de engravidarem ou casar, o que seria uma análise interessante de fazer para perceber melhor a
tomada de decisão de abandonar a escola. Também seria interessante relacionar o abandono escolar
das raparigas com o seu desempenho académico e a idade de entrada na escola, uma vez que alguns
estudos demonstraram que raparigas que engravidam ou casam prematuramente já tinham um historial
de baixo desempenho académico, ou tinham iniciado os seus estudos tarde (Birchall, 2018).
É importante destacar aqui que algumas das raparigas que engravidam decidem regressar à escola,
como no caso da família entrevistada, onde o fator decisivo para essa tomada de decisão parece ter
sido o suporte familiar, juntamente com a eliminação do fator distância, do peso económico e através
de uma política da escola que permite a reentrada da aluna através de uma sistema de ensino à
distância. Para perceber melhor estas relações seria importante incluir na análise mais casos de
raparigas que após uma situação de gravidez ou casamento tenham regressado à escola.
FATORES CULTURAIS
De entre os fatores culturais que promovem o abandono escolar por parte das raparigas foi mencionada
a não valorização da escola por parte das famílias como fator decisivo para a tomada de decisão, tendo
a família sido descrita de forma crítica em relação ao seu papel na educação da rapariga. No caso da
mãe entrevistada, parece ser que o suporte familiar que esta deu à sua filha após ter engravidado fez
toda a diferença entre a continuidade dos estudos ou o abandono escolar, a favor da primeira opção.
No entanto, os pais entrevistados recusaram a ideia de não incentivarem os seus filhos a frequentar a
escola, dizendo que não distinguem entre filhos e filhas e que reconhecem a importância da educação.
Este discurso é contraditório com a posição dos professores que afirmam que as famílias não suportam
na mesma medida os rapazes e as raparigas. Os professores, o membro da direção da escola e o
membro do conselho de escola facilmente associam os casos de abandono escolar a opções feitas
pelas famílias e pelas raparigas.
Dentro dos fatores culturais foi largamente abordada a questão dos ritos de iniciação femininos, com
conotação especialmente negativa por parte dos professores que consideraram estes como um ponto
de viragem na vida das alunas que, após os ritos, perdem alegadamente todo o interesse pela escola.
Não foram encontrados estudos que demonstrassem uma relação causal entre a frequência dos ritos
de iniciação e o abandono escolar, mas a mãe entrevistada assumiu que após a participação nos ritos,
61
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
as raparigas já querem casar. Seria importante desenvolver investigação que explorasse melhor estas
relações. Parece haver aqui um discurso por parte das instituições (escola e governo) que valoriza em
grande escala o impacto dos ritos de iniciação femininos, contrariamente aos pais e alunos e alunas
que não mencionam o assunto.
FATORES ECONÓMICOS
Os fatores económicos não tiveram muito peso nas respostas dadas, apesar da frequência do ensino
secundário ter custos. Seria importante perceber em que medida esta não referência aos fatores
económicos está relacionada com a existência do Programa Futuro Maior que atribui bolsas de estudo
a alunos e alunas desta escola eliminando assim o peso económico que a frequência da escola poderá
ter.
62
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
o contexto geográfico do norte do país ou se há também uma diferença entre o norte urbano e
o norte rural;
• Dado o grande desconhecimento sobre aspetos da sexualidade feminina, é fundamental
abordar estas questões e realizar estudos futuros com o objetivo de definir estratégias e
programas de saúde sexual e reprodutiva, a incluir nas escolas a partir, pelo menos, da 6.ª
classe;
• Seria importante fazer uma análise que olhasse para a idade dos estudantes, uma vez que as
entradas tardias estão frequentemente associadas a altas taxas de abandono escolar;
• Uma análise utilizando grupos de controlo poderia ajudar a perceber em que medida o fator
económico eliminado pelo Programa Futuro Maior pesa na tomada de decisão em relação à
frequência escolar das raparigas;
• O Programa Futuro Maior pode contribuir para uma melhor compreensão destas relações e
para a resposta a algumas das questões aqui levantadas como os fatores que contribuem para
o regresso de raparigas que tenham estado em situação de abandono escolar. Neste sentido,
a Helpo dará início ao levantamento desta informação no futuro.
63
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
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I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
ANEXOS
71
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
72
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
13 - Sente que a comunidade incentiva a manutenção das raparigas na escola? Ou haverá tarefas às quais se dá
mais valor do que à frequência da escola?
14 - Quais pensa serem as maiores dificuldades para as raparigas se manterem na escola? E qual a vantagem que
isso lhes poderá trazer?
15 - Sendo mulher, já foi procurada pelas raparigas para façarem de temas como a higiene feminina, o casameto ou
a gravidez?
16 - Sendo mulher e professora, acha que as raparigas olham para si como um modelo a seguir? E pensa que esse
modelo colide com o que é esperado delas na comunidade onde vivem?
73
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
9 - Se a rapariga for à escola e não tiver tempo para ajudar a família, o que vai a família dizer?
10 - O que diz às suas filhas, sobrinhas em relação à escola?
11 - Em que medida é que a Educação importa para as raparigas? E para o futuro de Nampula e de Moçambique?
Como imagina esse futuro?
12 - Nestas comunidades, quais julga serem os fatores que mais influenciam a frequência ou abandono escolar das
raparigas? Ou quem são as pessoas que mais influenciam o percurso das raparigas? Quem é responsável pela
educação, caráter e maneira de ser de uma criança além da escola?
13 - Sente que a comunidade incentiva a manutenção das raparigas na escola? Ou haverá tarefas às quais se dá
mais valor do que à frequência da escola?
14 - Quais pensa serem as maiores dificuldades para as raparigas se manterem na escola? E qual a vantagem que
isso lhes poderá trazer?
15 - Já aconteceram situações de conflito entre a escola e a comunidade? Como se resolveram?
74
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
6 - O que pensas sobre a proibição das raparigas grávidas frequentarem o ensino diurno? Conheces raparigas
nessa situação? Vocês falam sobre isso? O que te dizem elas?
7 - Para ti o que é um bom pai, uma boa mãe, um bom filho, uma boa filha?
8 - Pensas que as raparigas devem continuar na escola ou devem fazer outras tarefas como ajudar a cuidar dos
irmãozinhos, ajudar a família, casar? Que tarefas pensas que devem ser da responsabilidade da mulher num
casamento? E que tarefas devem ser da responsabilidade do homem? As tarefas devem ser partilhadas?
9 - Achas que a comunidade incentiva a manutenção das raparigas na escola? Ou haverá tarefas às quais se dá
mais valor do que à frequência da escola?
10 - Quais pensas serem as maiores dificuldades para as raparigas se manterem na escola? E que vantagens ir à
escola lhes poderá trazer?
11 - Quem é o responsável pela educação, caráter e maneira de ser de uma criança além da escola?
12 - Como vês o futuro de Moçambique? E de Nampula? Qual a importância da educação para esse futuro?
13 - Como imaginas o teu futuro? E que importância pode a escola ter para alcançares esse futuro?
14 - A tua família incentiva-te a estudar?
15 - As outras mulheres da tua comunidade incentivam-te a estudar?
75
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
9 - Num casamento, quais devem ser as responsabilidades do homem e da mulher? A divisão de tarefas deve ser
partilhada?
10 - Na Província de Nampula, quais julga serem os fatores que mais influenciam a frequência ou abandono escolar
das raparigas?
11 - Nos seus contactos com a liderança local e os representantes da comunidade, abordam o tema da educação
da rapariga?
12 - Como vê o futuro de Moçambique? E de Nampula? Qual a importância da educação para esse futuro?
76
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
77
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
Anexo D – Códigos para efeitos de tratamento dos dados atribuídos às entrevistas e focus group
realizados
78
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
79
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
Categoria Sub-categoria
1. Abandono escolar
a) Problemática do
abandono escolar a1) Perceção da situação
c) Relação com
Gravidez/casamento
prematuro c1) Gravidez/Casamento
d1) Falta de
suporte/incentivo familiar;
d2) Falta de
motivação/valorização da
Educação; d3) Ritos de
iniciação sexual; d4)
Contexto Rural; d5)
Realização de tarefas
domésticas; d6) Mau
comportamento na escola
(rapazes e raparigas); d7)
d) Fatores culturais Papel da família
e) Fatores económicos e1) Pobreza
2. Papéis de género
no contexto do norte
rural de Moçambique a1) Papel da mulher; a2)
Papel do homem; a3)
Papel do rapaz; a4) Papel
a) Papéis de género da rapariga
80
I ABANDONO ESCOLAR DAS RAPARIGAS NO NORTE DE MOÇAMBIQUE I
Anexo G – Número de alunos e alunas na Escola Primária Completa de Matibane em 2018 (Fonte:
DID Helpo)
81