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Direitos autorais
© All Rights Reserved
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© Anna-Lena Ahlström

Lars Kepler é o pseudónimo de uma dupla de escritores de sucesso na Suécia: Alexander


Ahndoril e Alexandra Coelho Ahndoril. O Hipnotista, primeiro volume da saga, alcançou um
enorme sucesso internacional e foi recentemente adaptado ao cinema pela mão do
realizador Lasse Hallström. Depois de O Executor, chega-nos A Vidente, cujos direitos de
tradução estão cedidos para 28 países, e que só na Suécia vendeu, até ao momento, mais
de 250 000 exemplares.

Para mais informações sobre os autores, visite o site [Link]


«A Vidente inquieta-nos do princípio ao fim. Uma intriga excecionalmente bem urdida.»
Göteborgs-Posten

«Lars Kepler, os sucessores de Larsson.»


El Mundo

«Lars Kepler revitalizam o género negro.»


Financial Times

«Há crime para lá de Millennium.»


Os Meus Livros

«Joona Linna é um polícia deveras merecedor de uma série de romances.»


José Riço Direitinho, Ípsilon

«A nova sensação do policial sueco.»


Sol
A vidente
Lars Kepler

Publicado em Portugal por


Porto Editora, Lda.
Divisão Editorial Literária – Lisboa
E-mail: dellisboa@[Link]

Título original:
Eldvittnet
© 2011, Lars Kepler
First published by Albert Bonniers Förlag, Stockholm, Sweden
Published in the Portuguese language by arrangement with Bonnier Group Agency,
Stockholm, Sweden

Design da capa: © Hummingbirds


Imagem da capa: © Love Lannér

1.ª edição em papel: março de 2013

Reservados todos os direitos. Esta publicação não pode ser reproduzida, nem transmitida, no todo ou em parte, por qualquer processo eletrónico, mecânico, fotocópia, gravação,
sistema de armazenamento e disponibilização de informação ou outros, sem prévia autorização escrita da Editora.

Este livro respeita as regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.


«... e todos os mentirosos terão como herança
a lagoa ardente de fogo e enxofre.»
Apocalipse 21:8
Um médium é uma pessoa que alega possuir um dom paranormal, a
capacidade de estabelecer ligações que vão além dos limites
estabelecidos pela ciência.
Alguns médiuns estabelecem contacto com os mortos em sessões
espíritas, enquanto outros oferecem orientação através, por
exemplo, das cartas de tarot.
As tentativas para comunicar com os mortos através de médiuns
remontam aos primórdios da história da humanidade. Mil anos antes
do nascimento de Cristo, já Saul, rei de Israel, tentava pedir
aconselhamento ao espírito do falecido profeta Samuel.
Por todo o mundo, sempre que a Polícia se depara com casos
particularmente difíceis, recorre a médiuns e espíritas. No entanto,
em nenhum documento figura a colaboração de um médium para a
resolução de um crime.
1

Elisabet Grim tem cinquenta e um anos e cabelo grisalho. Os


seus olhos são alegres e, quando sorri, vê-se que um dos dentes da
frente é ligeiramente mais saliente do que o outro.
Trabalha como enfermeira no Centro Birgitta, uma quinta a norte
de Sundsvall que alberga um centro de acolhimento especial para
menores. É uma instituição privada de acolhimento, que recebe oito
raparigas entre os doze e os dezassete anos, nos termos da lei
relativa às disposições especiais de proteção de menores.
Uma boa parte das raparigas admitidas no centro tem um historial
de abuso de drogas, quase todas apresentam comportamentos
autodestrutivos e sofrem de distúrbios alimentares, e algumas são
extremamente violentas.
Na verdade, não há alternativa a estes lares de acolhimento,
equipados com alarmes, grades nas janelas e portas de segurança.
A instância seguinte é geralmente um estabelecimento prisional do
universo adulto ou um centro psiquiátrico. O Centro Birgitta é uma
das poucas exceções. A quinta alberga raparigas que são
preparadas para regressar ao regime aberto.
«Aqui vêm parar as boazinhas», costuma dizer Elisabet.
Pega no último pedaço de chocolate preto, mete-o na boca e
sente o sabor doce e o travo amargo debaixo da língua.
Lentamente, os ombros começam a descontrair-se. O fim do dia
foi um caos – e até tinha começado bem. Aulas durante a manhã, e
recreio e banho no lago depois do almoço.
A seguir ao jantar, a supervisora foi-se embora e ela ficou sozinha
na quinta.
No turno da noite, o pessoal fora reduzido quatro meses depois
de o consórcio de saúde a que pertence Birgitta ter sido comprado
pela holding Blancheford.
As alunas estão autorizadas a ver televisão até às dez da noite.
Elisabet estava no gabinete do pessoal, a tentar manter em dia as
avaliações individuais, quando ouviu gritos furiosos. Dirigiu-se
rapidamente para sala da televisão e encontrou Miranda a insultar a
pequena Tuula, chamando-lhe cabrona e puta. Depois arrancou-a
do sofá e começou a dar-lhe pontapés nas costas.
Elisabet já se habituara à violência de Miranda. Correu para elas e
afastou-as, levou um soco na cara e viu-se obrigada a dar-lhe um
valente berro para a avisar de que aquele comportamento era
inaceitável. Sem mais discussão, levou-a para a sala de revista e
depois para o quarto de isolamento.
Elisabet desejou-lhe boa noite, mas Miranda não respondeu.
Ficou sentada na cama, a olhar para o chão e a sorrir para si própria
quando Elisabet fechou a porta e deu a volta à chave.
Teria havido tempo para a conversa do final do dia com a aluna
mais recente, Vicky Bennet, mas o conflito entre Miranda e Tuula
não o permitiu. Vicky observou timidamente que era a sua vez de ter
a conversa pessoal e, quando percebeu que teria de ser adiada,
ficou aborrecida, partiu uma chávena de chá, agarrou num caco e
cortou-se na barriga e nos pulsos.
Quando Elisabet entrou, encontrou Vicky sentada com as mãos
diante da cara e o sangue a escorrer-lhe pelos braços.
Limpou-lhe as feridas, que eram superficiais, pôs-lhe um penso
rápido na barriga, ligou-lhe as mãos com gaze, consolou-a e
chamou-lhe «minha pequenina», até ver um sorriso insinuar-se-lhe
nos lábios. Pela terceira noite consecutiva, deu-lhe dez miligramas
de Sonata para ela conseguir adormecer.
2

As alunas estão a dormir e o silêncio reina na quinta. A luz acesa


na receção faz o mundo exterior parecer impenetravelmente negro.
Com uma ruga profunda na testa, Elisabet está sentada diante do
computador, a registar os acontecimentos do dia no livro de registo.
É quase meia-noite quando lhe ocorre que não conseguiu sequer
tomar o comprimido da noite. A sua pequena droga, como costuma
dizer, a brincar. As noites de serviço e os dias esgotantes deram-lhe
cabo do sono. Costuma tomar dez miligramas de Stilnoct às dez,
para adormecer às onze e descansar umas horas.
A noite de setembro envolveu o bosque, mas ainda se consegue
ver a superfície lisa do lago Himmelsjön a brilhar como madrepérola.
Finalmente, pode desligar o computador e tomar o comprimido.
Põe o casaco de malha pelas costas e pensa que lhe saberia bem
um pouco de vinho tinto. Gostaria de estar sentada na sua cama,
com um livro e um copo de vinho, a ler e a trocar impressões com
Daniel.
Mas ficou com o turno da noite e vai dormir ali, no quarto do
pessoal.
Sobressalta-se quando Buster começa a ladrar lá fora. O cão
ladra tão desesperadamente que Elisabet sente um arrepio.
É muito tarde, já devia estar deitada.
Àquela hora, costuma estar a dormir.
Quando o computador se apaga, a sala fica às escuras. O silêncio
é total. Elisabet toma consciência dos barulhos que produz – o
sopro das molas da cadeira quando se levanta, o chiar das solas
nos mosaicos do chão quando se aproxima da janela. Procura ver lá
para fora, mas a escuridão reflete apenas o seu rosto, a sala de
receção, com o computador e o telefone, as paredes com os seus
motivos amarelos e verdes.
Subitamente, vê a imagem refletida da porta, nas suas costas, a
abrir-se.
O coração começa a bater-lhe mais depressa. A porta, antes
encostada, está agora entreaberta. Deve ser a corrente de ar, diz
para si própria, tentando convencer-se. A salamandra na sala de
refeições suga uma enorme quantidade de ar.
Elisabet é invadida por uma estranha inquietação e o medo
começa a infiltrar-se-lhe nas veias. Sem ousar virar-se, continua a
olhar para o reflexo da porta na vidraça escura.
Escuta o silêncio, o computador que ainda zumbe.
Numa tentativa de sacudir o mal-estar, estende a mão, apaga o
candeeiro na janela e volta-se.
A porta está agora completamente aberta.
Sente um arrepio na nuca, que lhe desce pelo corpo.
As luzes de emergência brilham debilmente em frente à sala de
refeições e aos quartos das alunas. Elisabet sai da receção para ir
verificar se as portinholas da salamandra estão fechadas, quando
ouve um murmúrio vindo dos quartos.
3

Elisabet para, perscrutando o corredor. A princípio não se ouve


nada, mas depois volta a ter aquela sensação. Um leve sussurro,
tão vago que quase passa despercebido.
– Agora és tu a fechar os olhos – murmura alguém.
Elisabet mantém-se perfeitamente imóvel, fixando a escuridão.
Fecha e abre os olhos várias vezes, mas não distingue nenhum
vulto.
Enquanto pensa que talvez seja uma das raparigas a falar durante
o sono, ouve um ruído estranho. Como se alguém tivesse deixado
cair um pêssego muito maduro no chão. E outro. Um som pesado e
húmido. A perna de uma mesa raspa no chão e, em seguida, caem
mais dois pêssegos.
Pelo canto do olho, Elisabet apercebe-se vagamente de um
movimento. O deslizar de uma sombra. Volta-se e vê a porta da sala
de refeições fechar-se lentamente.
– Espera – diz ela, embora pense que é apenas a corrente de ar.
Aproxima-se rapidamente da porta, agarra na maçaneta e sente
uma resistência estranha. Há uma pequena luta de forças, e depois
a porta abre-se sem resistência.
Elisabet entra na sala de refeições, alerta, procurando abarcar
com o olhar toda a divisão. A mesa corrida, com o tampo estriado,
emite um brilho ténue. Avança cautelosamente, aproximando-se da
salamandra e vendo os seus movimentos refletidos nas portinholas
de latão fechadas.
Os tubos aquecidos emitem calor.
De repente, ouve um ruído forte e um estalido por detrás das
portinholas. Recua e embate numa cadeira.
Era apenas um pedaço de lenha a arder, que bateu na portinhola
da salamandra. A sala estava vazia.
Respira fundo, sai da sala de refeições, fechando a porta, e volta
ao corredor, pronta a dirigir-se para o quarto do pessoal. A meio do
caminho, detém-se e põe-se novamente à escuta.
Do lado dos quartos das alunas não vem qualquer som. No ar
pairam odores acres, metálicos. Elisabet perscruta a escuridão do
corredor, mas não há qualquer movimento. Apesar disso, alguma
coisa a atrai para a fila de portas. Umas parecem estar só
encostadas, outras fechadas.
Do lado direito do corredor ficam as casas de banho. A seguir, há
um pequeno vestíbulo, com a porta do quarto de isolamento, onde
dorme Miranda.
Pelo buraco da fechadura vê-se uma réstia de luz.
Elisabet para e sustém a respiração. Uma vozinha sussurra
qualquer coisa num dos quartos, mas cala-se repentinamente
quando Elisabet se aproxima.
– Estejam caladas! – exclama Elisabet na direção geral dos
quartos.
Sente o coração acelerar quando ouve uma rápida sucessão de
pancadas surdas. É difícil localizar o som, mas parece ser Miranda,
deitada na cama, a bater com os pés descalços na parede. Elisabet
decide espreitá-la pelo óculo da porta quando se apercebe de um
vulto no pequeno vestíbulo. Um vulto humano.
Sobressalta-se e começa a recuar, o corpo pesado como se
estivesse num sonho.
Compreende imediatamente que a situação é de perigo, mas o
medo entorpece-lhe os movimentos.
Só quando o chão do corredor range, sente o impulso de fugir
para salvar a vida.
O vulto na escuridão move-se subitamente, com rapidez.
Elisabet volta-se e começa a correr, ouvindo os passos atrás de
si, escorrega no tapete, bate com o ombro na parede e continua a
correr.
Uma voz fraca pede-lhe que pare, mas ela não para, continua a
correr, lança-se pelo corredor.
As portas abrem-se, batem na parede com um baque surdo e
voltam para trás.
Em pânico, atravessa a sala de revista, apoiando-se nas paredes.
O quadro com o cartaz da Convenção da ONU sobre os direitos das
crianças solta-se do grampo e cai no chão. Chega à porta principal,
procura atabalhoadamente a maçaneta e sai disparada para o ar frio
da noite, mas escorrega nos degraus da entrada e cai de lado,
sobre uma das pernas. A dor no tornozelo é tão forte que Elisabet
deixa escapar um grito. Arrasta-se pelo chão, ouvindo passos
pesados lá dentro, no átrio. Consegue avançar um pouco, perde um
dos sapatos e levanta-se gemendo.
4

O cão ladra e corre em volta dela, arfando e ganindo. Elisabet


afasta-se da casa a coxear e atravessa o pátio de gravilha. O cão
recomeça a ladrar, nervoso, intermitentemente. Elisabet sabe que
não conseguirá andar na floresta, e a quinta mais próxima ainda fica
longe – a meia hora de carro. Não tem para onde fugir. Olha em
volta, no meio da escuridão. Contorna o fumeiro e aproxima-se da
antiga destilaria, cuja porta abre com mãos trémulas. Entra e fecha-
a silenciosamente.
Arquejando, deixa-se cair no chão e procura o telemóvel.
– Meu Deus, meu Deus…
As mãos tremem-lhe de tal forma que deixa cair o telemóvel. A
tampa solta-se e a bateria salta. Está a apanhar as peças quando
ouve o ruído de passos na gravilha.
Sustém a respiração.
A pulsação é tão forte que parece ribombar. Sente um zunido nos
ouvidos. Procura ver para o exterior através da janela baixa.
O cão está a ladrar à porta. Buster seguiu-a até ali. Está a raspar
na porta e a ganir desesperadamente.
Encolhe-se no canto junto à lareira de pedra, tentando respirar
sem fazer barulho, agacha-se atrás do cesto de verga e coloca a
bateria no telemóvel.
Quando a porta se abre, Elisabet solta um grito. Em pânico,
desliza junto à parede, mas não consegue fugir.
Vê as botas, a figura envolta em sombra e depois o rosto
hediondo, o enorme martelo na mão.
Baixa a cabeça, ouve a voz e tapa a cara com as mãos.
O vulto hesita, mas logo se precipita sobre ela, prendendo-a ao
chão com um pé e desfechando-lhe um golpe violento. Elisabet
sente a dor na testa, mesmo na linha do cabelo. Deixa de ver. A dor
é horrível, mas ao mesmo tempo sente o sangue quente a escorrer-
lhe pelas orelhas e pelo pescoço como uma carícia.
A segunda pancada atinge-a no mesmo sítio, fazendo ressaltar a
cabeça, mas a única coisa que Elisabet sente é o ar a ser sugado
pelos pulmões.
Confusa, antes de perder a consciência, chega a pensar que o ar
é extraordinariamente doce.
Elisabet não sente as outras pancadas, nem o seu corpo a
sacudir-se à medida que a golpeiam. Não dá conta de que lhe tiram
do bolso as chaves da receção e do quarto de isolamento, tão-
pouco tem consciência de que fica estendida no chão e de que o
cão entra e lambe o sangue que lhe escorre da cabeça esmagada,
enquanto a vida a abandona lentamente.
5

Alguém se esqueceu de uma grande maçã vermelha em cima da


mesa. A maçã brilha e parece magnífica. Ela decide comer a maçã
e depois fingir que não sabe de nada. Ignorar as perguntas, não
ouvir a conversa, ficar ali sentada com um ar chateado.
Estende o braço, mas quando por fim agarra a maçã, percebe que
está completamente podre.
Os dedos afundam-se na polpa fria e húmida.
Nina Molander acorda com o gesto de encolher a mão, a meio da
noite. Está deitada na cama. A única coisa que se ouve é o cão a
ladrar lá fora. O medicamento novo fá-la acordar de noite. Tem de ir
à casa de banho. As pernas e os pés incham-lhe, mas precisa do
remédio, senão fica com pensamentos negros, desinteressa-se de
tudo e só aguenta estar deitada, de olhos fechados.
Ocorre-lhe que precisaria de vislumbrar uma luz qualquer, alguma
coisa que a motivasse. Que não fosse só a morte, só os
pensamentos sobre a morte.
Afasta o edredão, pousa os pés no chão de madeira, que está
morno, e sai da cama. Tem quinze anos. Os cabelos são loiros,
lisos, e o corpo é robusto, com ancas largas e seios grandes. A
camisa de noite de flanela branca fica esticada sobre a barriga.
A casa está em sossego, e o corredor repousa sob o brilho
esverdeado do painel luminoso que indica a saída de emergência.
Por trás de uma porta, ouvem-se uns sussurros estranhos, e Nina
pensa que as outras alunas estão na paródia e nem lhe
perguntaram se gostaria de participar.
Também não queria, pensa.
No ar paira um cheiro a fogo apagado. O cão começa a ladrar
novamente. No corredor, o chão é mais frio. Tem vontade de atirar
com a porta da casa de banho várias vezes. Está-se borrifando para
que Almira se chateie e atire coisas às costas das pessoas.
As velhas tábuas de madeira rangem ao de leve. Nina continua a
andar para a casa de banho, mas quando sente o pé direito pisar
qualquer coisa húmida detém-se. Da porta do quarto de isolamento,
onde Miranda dorme, escorre um líquido escuro, que formou uma
poça. Nina fica imóvel, sem saber o que fazer, mas depois repara
que a chave está na fechadura.
É estranho.
Segura o puxador de metal polido, abre a porta, entra e acende a
luz.
Há sangue por todo o lado – sangue que pinga, brilha, escorre.
Miranda está deitada na cama.
Nina recua alguns passos e nem se apercebe de que fez chichi
pelas pernas abaixo. Apoia-se na parede com uma mão, vê as
pegadas de sangue no chão e pensa que vai desmaiar.
Volta-se, sai para o corredor, abre a porta do quarto mais próximo,
acende a luz, entra e corre para a cama de Caroline, e abana-lhe o
ombro.
– A Miranda está ferida – sussurra. – Acho que a Miranda está
ferida.
– Que é que estás a fazer no meu quarto? – pergunta Caroline,
sentando-se na cama. – Merda, que horas são?
– Há sangue no chão! – grita Nina.
– Acalma-te.
6

Com a respiração entrecortada, Nina olha ansiosamente para


Caroline. Tem de a fazer compreender, mas ao mesmo tempo
surpreende-se ao ouvir a sua própria voz, que grita a meio da noite.
– Há sangue por todo o lado!
– Cala-te! – grita-lhe Caroline, saindo da cama.
Os gritos de Nina acordaram as outras internas, e ouvem-se
vozes nos quartos.
– Anda ver – diz-lhe Nina, angustiada, arranhando os braços. – A
Miranda está esquisita, tens de a ir ver, tens de…
– Podes acalmar-te? Eu vou ver, mas tenho a certeza de que…
Do corredor vem um grito. É Tuula. Caroline sai rapidamente do
quarto. Tuula está a olhar para o quarto de isolamento, os olhos
muito abertos. Indie sai para o corredor, a coçar-se debaixo do
braço.
Caroline agarra Tuula e leva-a dali, mas já viu o sangue nas
paredes e o corpo lívido de Miranda. Tem o coração a bater
desenfreadamente. Põe-se à frente de Indie, acha que nenhuma
delas precisa de ver mais suicídios.
– Houve um acidente – explica-lhe rapidamente. – Podes levar
toda a gente para a sala de refeições, Indie?
– Há algum problema com a Miranda? – pergunta Indie.
– Sim. Temos de acordar a Elisabet.
Lu Chu e Almira saem do mesmo quarto. Lu Chu só tem as calças
do pijama vestidas e Almira vem embrulhada no cobertor.
– Vão para a sala de refeições – diz-lhes Indie.
– Posso lavar a cara primeiro? – pergunta Lu Chu.
– Leva a Tuula.
– Mas o que é que aconteceu, porra? – pergunta Almira.
– Não sabemos – responde Caroline.
Enquanto Indie tenta levar todas as raparigas para a sala de
refeições, Caroline percorre rapidamente o corredor em direção ao
quarto do pessoal. Sabe que Elisabet toma um medicamento para
dormir e nunca ouve nenhuma delas levantar-se durante a noite.
Bate à porta com quanta força tem.
– Elisabet, acorde! – grita.
Nada. Não se ouve o mais leve som.
Caroline passa pela sala de revista e dirige-se para o gabinete do
pessoal. A porta está aberta e decide entrar. Pega no telefone e liga
para Daniel, a primeira pessoa que lhe ocorre.
Há ruídos na linha.
Indie e Nina entram no gabinete. Nina tem os lábios exangues e o
corpo treme-lhe.
– Espera na sala de refeições – diz-lhe Caroline com firmeza.
– Mas o sangue? Viste o sangue? – grita Nina, que arranha o
braço direito até fazer ferida.
– Daniel Grim – responde uma voz cansada do outro lado da
linha.
– Sou eu, a Caroline. Houve aqui um acidente, e a Elisabet não
acorda, não consigo acordá-la, por isso é que lhe estou a telefonar,
não sei o que hei de fazer.
– Tenho sangue nos pés – grita Nina. – Tenho sangue nos pés!
– Calma – exclama Indie, tentando arrastar Nina para fora do
gabinete.
– O que é que se passa? – pergunta Daniel, numa voz
subitamente desperta e controlada.
– A Miranda está no isolamento, mas há sangue por todo o lado –
responde Caroline, engolindo em seco. – Não sei o que havemos
de…
– Está ferida com gravidade? – pergunta Daniel.
– Acho que sim… Acho que…
– Caroline – interrompe-a Daniel. – Vou telefonar a chamar uma
ambulância e depois…
– Mas o que é que faço? O que é que hei de…
– Vê se a Miranda precisa de ajuda e tenta acordar a Elisabet –
responde Daniel.
7

A central de emergência de Sundsvall situa-se num edifício de


tijolo de três andares, na Björneborgsgatan, junto ao parque Bäck.
Jasmin não costuma ter problemas com o turno da noite, mas hoje
sente-se anormalmente cansada. São quatro da manhã – já passou
a «hora do lobo». Está sentada diante do computador, com os
auscultadores postos, a soprar o café na caneca. Da copa continua
a chegar o som de conversa e risos. Os jornais da tarde do dia
anterior publicavam em grandes títulos que uma operadora da
central de emergência tinha uma atividade paralela de sexo por
telefone. A verdade é que a pessoa em causa tinha apenas um
trabalho administrativo na empresa que vendia sexo por telefone,
mas os vespertinos apresentavam as coisas como se ela recebesse
os dois tipos de chamadas na central de emergência.
Por cima do ecrã do computador, Jasmin olha através da janela.
O dia ainda não começou a clarear. Um camião passa
ruidosamente. Mais adiante, há um candeeiro de rua cujo brilho
pálido incide numa árvore, numa caixa cinzenta da eletricidade e
numa pequena área do passeio deserto.
Jasmin pousa a caneca do café para atender uma chamada.
– SOS 112. Diga, por favor.
– O meu nome é Daniel Grim. Sou terapeuta, trabalho no Centro
Birgitta. Uma das alunas acaba de me telefonar. Parece-me que há
uma situação muito grave. Têm de ir lá.
– Pode dizer-me o que aconteceu? – pergunta Jasmin, enquanto
procura Birgitta no computador.
– Não sei, telefonou-me uma das raparigas. Não percebi bem o
que disse, estavam todas a gritar ao pé dela, e ela estava a chorar e
a dizer que havia sangue pelo quarto todo.
Jasmin faz sinal à colega Ingrid Sandén de que são precisos mais
operadores.
– O senhor está no local? – pergunta Ingrid.
– Não, estou em casa. Estava a dormir, mas uma das alunas
telefonou…
– Refere-se ao Centro Birgitta, a norte de Sunnås? – pergunta
Jasmin calmamente.
– Por favor, vão depressa – diz ele com a voz trémula.
– Vamos mandar a Polícia e uma ambulância a Birgitta, a norte de
Sunnås – repete Jasmin, para ter a certeza.
Jasmin corta a ligação, alerta imediatamente a Polícia e pede uma
ambulância. Ingrid continua a interrogar Daniel:
– O Centro Birgitta não é uma instituição de acolhimento de
menores em risco?
– Sim, é um lar especial – responde ele.
– Não devia haver pessoal no local?
– Sim, a minha mulher… chama-se Elisabet… está no turno da
noite. Vou ligar agora para ela… Não sei o que se passa, não sei
nada.
– A Polícia vai a caminho – diz Ingrid, para o tranquilizar. Pelo
canto do olho, vê a luz azul do primeiro veículo de emergência
passando velozmente na rua deserta.
8

Da estrada 86 sai um caminho estreito que conduz diretamente a


um denso bosque e continua na direção do lago Himmelsjön e do
Centro Birgitta.
O cascalho range sob os pneus do carro da Polícia, salta e
embate com estrépito nos para-lamas. A luz dos faróis agita-se
entre os troncos altos dos pinheiros.
– Já tinhas vindo aqui? – pergunta Rolf Wikner, metendo a quarta.
– Já… Há uns dois anos, talvez. Uma das raparigas tentou pegar
fogo a um dos edifícios – responde Sonja Rask.
– Porque é que eles não conseguiram falar com o pessoal? –
resmunga Rolf.
– Devem estar pelos cabelos… independentemente do que tenha
acontecido.
– Mas seria bom para nós termos mais informações.
– Pois é – responde ela calmamente.
O silêncio instala-se entre os dois colegas, enquanto ouvem as
comunicações via rádio. Já vai a caminho uma ambulância, e da
esquadra saiu um segundo carro.
Como é típico das pequenas estradas florestais, esta segue em
linha reta. Os pneus pisam ruidosamente os buracos e ressaltos do
caminho. A luz azul de emergência penetra profundamente entre as
árvores, fazendo brilhar os ramos, que parecem correr para trás, ao
lado do carro.
Assim que entram no terreiro que rodeia os edifícios vermelho-
escuros de Birgitta, Sonja contacta novamente a central da Polícia.
Nos degraus da entrada do edifício principal está uma jovem em
camisa de noite. Tem os olhos arregalados, mas o rosto pálido e
uma expressão ausente.
Rolf e Sonja saem do carro e dirigem-se rapidamente para a
rapariga, iluminados pela luz azul intermitente, mas ela parece não
reparar neles.
Um cão começa a ladrar nervosamente.
– Está alguém ferido? – pergunta Rolf em voz alta. – Alguém
precisa de ajuda?
A rapariga aponta com um gesto vago para a orla da floresta,
cambaleia e tenta dar um passo, mas as pernas cedem, e ela cai de
costas, batendo com a cabeça nos degraus.
– Magoou-se? – pergunta Sonja assim que consegue chegar junto
dela.
A rapariga está estendida nos degraus, com os olhos fixos no céu,
a respiração muito rápida e superficial. Sonja constata que ela se
arranhou nos braços e no pescoço.
– Vou entrar – anuncia Rolf, com determinação.
Sonja fica junto da rapariga em estado de choque, esperando a
ambulância, enquanto Rolf entra no edifício. No chão de madeira
veem-se marcas ensanguentadas de botas e de pés descalços em
várias direções, e é possível identificar passadas compridas na
direção do átrio de entrada e no sentido inverso. Rolf sente a
adrenalina espalhar-se-lhe pelo corpo. Tem o cuidado de não pisar
os vestígios, mas sabe que a sua primeira missão é salvar vidas.
Numa sala de convívio, que tem as luzes todas acesas, encontra
quatro raparigas sentadas nos dois sofás.
– Há alguém ferido? – pergunta-lhes.
– Talvez um bocadinho – responde-lhe, com um sorriso, uma
jovem franzina, de cabelo ruivo, que veste um fato de treino cor-de-
rosa.
– Onde? – pergunta Rolf, tenso.
– A Miranda está na cama – responde uma outra, mais velha, de
cabelo escuro e liso.
– Ali dentro? – pergunta ele, apontando para a zona dos quartos.
A rapariga mais velha faz-lhe sinal que sim e Rolf segue as
pegadas de sangue, passa por um refeitório com uma mesa de
madeira comprida e uma salamandra e entra no corredor sombrio
onde ficam os quartos das alunas. O sangue foi pisado por sapatos
e por pés descalços. Atrás dele, as velhas tábuas do chão rangem.
Rolf detém-se, desprende a lanterna do cinto, aponta-a para o
corredor e percorre rapidamente com o olhar as paredes onde foram
pintados à mão, com motivos decorativos, provérbios e citações da
Bíblia. Por fim, dirige o feixe de luz para baixo.
O sangue escorreu sob uma porta situada num pequeno vestíbulo
escuro. A chave está na fechadura. Rolf avança cautelosamente,
passa a lanterna para a outra mão, estica o braço e baixa o puxador
da porta, pegando-lhe pela ponta.
Com um estalido, a porta entreabre-se e o puxador ressalta para
a posição inicial.
– Miranda! Sou polícia, chamo-me Rolf – vai dizendo, enquanto se
aproxima. – Vou entrar…
O único som que se ouve é o da respiração de Rolf.
Empurra levemente a porta e aponta a luz para o interior do
quarto. A cena com que depara é tão violenta que vacila e tem de se
apoiar na ombreira da porta.
Num ato reflexo, desvia o olhar, mas já viu tudo o que precisava
de ver. Ouve o som da própria pulsação dentro da cabeça,
misturado com o do sangue que pinga na poça do chão.
Em cima da cama está o corpo de uma rapariga. Uma grande
parte da cabeça desapareceu. As paredes estão salpicadas de
sangue, e o quebra-luz escuro do candeeiro continua a pingar para
o chão.
Atrás de Rolf, a porta fecha-se e ele assusta-se tanto que deixa
cair a lanterna. O quarto fica mergulhado na escuridão. Rolf volta-
se, tentando, às cegas, encontrar a lanterna, e ouve umas mãos
pequenas de rapariga martelar no outro lado da porta.
– Agora ela vê-te! – grita uma voz jovem. – Está a olhar!
Rolf chega à porta e agarra no puxador para a tentar abrir, mas
está bloqueada. O buraco da fechadura brilha no escuro. Com as
mãos a tremer, pressiona o puxador e empurra com o ombro.
A porta abre-se e Rolf sai aos tropeções para o corredor. Para e
enche os pulmões de ar. Um pouco afastada, a rapariguinha ruiva
observa-o, os olhos muito abertos.
9

O comissário Joona Linna está diante da janela do seu quarto de


hotel em Sveg, quatrocentos e cinquenta quilómetros a norte de
Estocolmo. A luz da madrugada é fria e azulada como fumo. Na rua
Älvgatan, nenhum dos candeeiros está aceso. Terão de passar
ainda muitas horas até que ele saiba se encontrou Rosa Bergman.
A camisa cinzento-clara está desabotoada e pende-lhe sobre as
calças pretas do fato, o cabelo louro está, como sempre,
despenteado, e a pistola jaz em cima da cama, metida no coldre
axilar.
Apesar dos inúmeros interrogatórios a que foi submetido por
diferentes grupos de peritos, Joona foi autorizado a manter o seu
posto de comissário operacional na Polícia Criminal. Tem irritado
muita gente com o seu hábito de fazer as coisas à sua maneira, mas
nos últimos quinze anos foi o polícia da Escandinávia que resolveu o
maior número de casos difíceis.
No verão passado, foi apresentada ao Departamento de Assuntos
Internos da Polícia uma queixa contra Joona, por ele ter avisado um
grupo da extrema-esquerda de uma ação da Polícia secreta. Desde
então, foram-lhe proibidas determinadas missões, embora não
tenha sido formalmente suspenso.
O responsável pelo processo de averiguações afirmou claramente
que contactaria o procurador se entendesse haver a mais pequena
razão para a instauração de um processo.
As acusações são graves, mas neste momento Joona não se
preocupa com eventuais suspensões ou represálias.
Os seus pensamentos concentram-se na mulher idosa que o
seguiu, junto à igreja de Adolf Fredrik, e que lhe transmitiu um
recado de Rosa Bergman. Com as mãos magras mostrou-lhe duas
velhas cartas de um antiquíssimo jogo sueco chamado killelek.
– Este é o senhor, não é? – perguntara-lhe a mulher. – E esta é a
coroa, a coroa da noiva.
– O que é que a senhora quer? – perguntara-lhe Joona.
– Não quero nada – respondera a mulher. – Mas tenho um recado
para si da Rosa Bergman.
O coração começara a bater-lhe com força, mas ele obrigara-se a
encolher os ombros e responder, com amabilidade, que devia haver
um engano.
– Porque não conheço ninguém que…
– Ela gostava de saber por que razão o senhor faz de conta que a
sua filha morreu.
– Lamento, mas não sei de que está a falar – respondera Joona,
sorrindo.
Apesar do sorriso, a voz dele tinha-se tornado estranha, distante e
fria, como se abafada por uma pedra. As palavras da mulher
rodopiavam-lhe na cabeça, em turbilhão, e tinha vontade de lhe
agarrar nos braços magros e exigir saber o que acontecera, mas
mantivera a calma.
– Tenho de me ir embora – explicara. No momento em que se ia
afastar, a enxaqueca atingiu-lhe o cérebro como se a lâmina de uma
faca lhe tivesse atravessado o olho esquerdo. O seu campo de
visão ficou subitamente circunscrito por um halo incandescente,
irregular.
Quando recuperou fragmentos de visão, apercebeu-se de que
havia um círculo de pessoas à sua volta. As pessoas desviaram-se
para deixar passar o pessoal da ambulância.
A mulher tinha desaparecido.
Joona negou conhecer Rosa Bergman, disse que devia tratar-se
de um engano. Mas mentiu.
Porque sabe muito bem quem é Rosa Bergman.
Pensa nela todos os dias. Pensa em Rosa Bergman, mas ela não
devia saber nada a seu respeito. Porque se Rosa Bergman sabe
quem ele é, alguma coisa correu muito mal.
Joona saiu do hospital ao fim de umas horas e começou
imediatamente a procurar Rosa Bergman.
Tinha de o fazer sozinho, e por isso pediu uma licença no serviço.
De acordo com os registos públicos, não há nenhuma Rosa
Bergman na Suécia, mas em toda a Escandinávia existem mais de
duas mil pessoas com o apelido Bergman.
Joona esquadrinhou de forma sistemática os sucessivos registos.
Há duas semanas, já só lhe restava examinar os arquivos em papel
do registo civil nacional. Na Suécia, o registo civil foi, durante
séculos, uma tarefa da Igreja, mas em 1991 informatizou-se e
passou para a competência da administração fiscal.
Joona começou a examinar os registos da Igreja a partir do Sul.
Esteve sentado no arquivo regional de Lund, com um copo de café
na frente, a procurar o nome Rosa Bergman em ficheiros de cartões,
com as datas de nascimento possíveis e eventual paróquia de
batismo. Depois fez o mesmo em Visby, Vadstena e Gotemburgo.
Foi a Uppsala e visitou o enorme arquivo em Härnösand.
Vasculhou centenas de milhares de folhas de papel com registos de
datas e locais de nascimento e constelações familiares.
10

Joona passara a tarde do dia anterior no arquivo de Östersund.


Na sala pairava um cheiro adocicado a antiquário, que emanava de
velhos papéis manchados e pastas de capa dura. A luz do sol
deslocou-se lentamente nas paredes altas, acendeu um brilho no
vidro do relógio de pêndulo parado e seguiu o seu caminho.
Pouco antes da hora de fechar, Joona encontrou na paróquia de
Sveg, em Härjedalen, na província de Jämtland, o registo do
nascimento, oitenta e quatro anos antes, de uma rapariga a quem
foi dado o nome de Rosa Maja. Os pais chamavam-se Kristina e
Evert Bergman. Joona não encontrou dados sobre o casamento
deles, mas a mãe tinha nascido dezanove anos antes, na mesma
paróquia, e recebido o nome de Kristina Stefanson.
Joona demorou três horas a localizar uma mulher de oitenta e
quatro anos com o nome de Maja Stefanson, numa residência
assistida, em Sveg. Apesar de já serem sete da tarde, meteu-se no
carro e pôs-se a caminho de Sveg. Quando chegou, já passava da
hora de recolher e não o deixaram entrar.
Instalou-se então no Lilla Hotellet e tentou dormir, mas acordou às
quatro da manhã e está desde essa altura junto da janela, à espera
do nascer do dia.
Tem quase a certeza de ter encontrado Rosa Bergman, que deve
ter mudado o apelido para o nome de solteira da mãe e passado a
usar o seu segundo nome próprio.
Joona olha para o relógio e decide que são horas de sair. Fecha o
casaco, sai do quarto, desce à receção e abandona o hotel.
O lar de residência assistida Blåvingen é constituído por um
conjunto de edifícios pintados de amarelo, com um relvado bem
cuidado, atravessado por caminhos pedonais, com bancos para os
hóspedes repousarem.
Joona abre a porta do edifício principal e entra. Obriga-se a
caminhar lentamente pelo corredor iluminado por lâmpadas
fluorescentes, onde se veem as portas para a cozinha e a receção,
que estão fechadas.
«Ela não devia ter-me encontrado», pensa ele, mais uma vez.
«Não devia conhecer-me. Alguma coisa correu mal.»
Joona nunca fala daquilo que o levou à sua atual solidão, mas é
algo que está presente em todos os momentos da sua existência.
A vida de Joona ardeu como magnésio, inflamando-se de repente
e extinguindo-se em seguida, passando de chama intensa a cinzas
fumegantes.
Na sala de convívio está um homem magro, na casa dos oitenta
anos, a olhar fixamente as imagens muito coloridas que a televisão
mostra. É um dos programas da manhã, e nele vê-se um cozinheiro
a aquecer óleo de sésamo numa grande frigideira e a falar das
diferentes formas de reinventar a receita tradicional de lagostins.
O velhote vira-se para Joona, franzindo os olhos.
– Anders? – pergunta numa voz aguda. – És tu, Anders?
– O meu nome é Joona – responde ele, com a sua suave
pronúncia finlandesa. – Procuro a Maja Stefanson.
O homem fixa-o com olhos húmidos, as pálpebras avermelhadas.
– Anders, escuta, meu filho. Tens de me ajudar a sair daqui. Isto
está cheio de velhos.
Começa a bater com a mão no braço do sofá, mas logo se detém
quando uma enfermeira entra na sala.
– Bom dia – cumprimenta Joona. – Venho visitar a Maja
Stefanson.
– Ótimo – diz ela. – Mas devo adverti-lo de que a Maja está num
estado avançado de demência. Sempre que tem oportunidade, foge.
– Compreendo – diz Joona.
– Este verão, foi até Estocolmo.
A enfermeira conduz Joona por um corredor acabado de limpar,
com uma iluminação discreta, e abre uma porta.
– Maja! – chama, com voz carinhosa.
11

A mulher está a fazer a cama. Quando levanta a cabeça, Joona


reconhece-a de imediato. É a mulher que o abordou junto à igreja de
Adolf Fredrik. Foi ela que lhe mostrou as cartas do killelek. Foi ela
que lhe disse que tinha um recado de Rosa Bergman.
O coração de Joona começa a bater com mais força.
Aquela mulher é a única pessoa que sabe onde estão a sua
mulher e sua filha, mas não devia saber da existência de Joona.
– Rosa Bergman? – pergunta ele.
– Sim – responde a mulher, levantando a mão, como as crianças
na escola.
– O meu nome é Joona Linna.
– Sim… – responde Rosa Bergman, sorrindo, e aproxima-se a
arrastar os pés.
– Mandou-me um recado.
– Valha-me Deus, não me lembro – responde Rosa, sentando-se
no sofá.
Joona engole em seco e aproxima-se um pouco.
– Perguntou porque é que eu faço de conta que a minha filha
morreu.
– Não deve fazer isso – diz-lhe ela, em tom de repreensão. – Não
é bonito.
– O que é que sabe da minha filha? – Joona dá mais um passo na
direção da mulher. – Ouviu dizer alguma coisa?
A mulher fica a sorrir, com um ar ausente, e Joona baixa os olhos,
tentando pensar com clareza. Dirige-se para a kitchenette e deita
café em duas chávenas, sentindo as mãos a tremer.
– Rosa, isto é importante para mim. – Joona fala pausadamente e
pousa as chávenas na mesa. – Muito importante…
Rosa Bergman pestaneja um pouco e pergunta, com uma voz
assustada:
– Quem é você? Aconteceu alguma coisa à mãe?
– Rosa, lembra-se de uma menina chamada Lumi? A mãe dela
chamava-se Summa, e a Rosa ajudou-as a…
Joona interrompe-se quando encontra o olhar turvo e desnorteado
da mulher.
– Porque me procurou? – pergunta ainda, embora saiba que é
inútil.
Rosa Bergman deixa cair a chávena de café ao chão e começa a
chorar. A enfermeira entra e acalma-a facilmente.
– Venha. Eu acompanho-o – diz ela a Joona, em voz baixa.
Percorrem juntos o corredor, adaptado a cadeiras de rodas.
– Há quanto tempo está ela demente? – pergunta Joona.
– Foi um processo muito rápido… Começámos a notar os
primeiros sinais no verão passado, portanto foi mais ou menos há
um ano que ela… Antigamente dizia-se que a pessoa regressava à
infância, o que está muito próximo da verdade, para a maior parte
deles.
– Se ela… Se de repente ela tiver um momento de lucidez, peço-
lhe que me contacte.
– Isso acontece, de facto. Uma vez por outra – concorda a
enfermeira.
– Telefone-me imediatamente – diz Joona, dando-lhe um cartão.
– Comissário da Polícia? – pergunta ela, surpreendida, ao mesmo
tempo que afixa o cartão no quadro por trás da secretária, na
receção.
12

Quando sai, Joona inspira profundamente o ar puro, como se


tivesse estado a suster a respiração. Talvez Rosa Bergman tivesse
algo importante para lhe comunicar. É possível que alguém a tenha
incumbido de fazer alguma coisa, mas Rosa ficou demente antes de
conseguir realizar a tarefa.
Ele nunca saberá o que aconteceu.
Passaram doze anos desde que perdeu a mulher, Summa, e a
filha, Lumi.
O último rasto que o conduziria a elas havia-se apagado na mente
senil de Rosa Bergman.
Acabou.
Joona senta-se no carro, limpa as lágrimas, fecha os olhos
durante um momento e roda a chave na ignição para regressar a
Estocolmo.
Tinha percorrido trinta quilómetros na autoestrada E-45, em
direção a Mora, quando o diretor da Polícia Criminal, Carlos
Eliasson, lhe telefona.
– Temos um homicídio num centro de jovens em Sundsvall – diz-
lhe Carlos com uma voz tensa. – A central de emergência recebeu a
chamada pouco antes das quatro horas da manhã.
– Estou de licença – diz Joona, quase inaudivelmente.
– Ao menos podias ter vindo à noite de karaoke.
– Fica para a próxima – responde Joona entre dentes.
A estrada corta a floresta numa linha reta. Ao longe, entre as
árvores, vê-se o brilho de um lago.
– Joona? O que é que aconteceu?
– Nada.
Do outro lado da linha, alguém chama Carlos.
– Tenho agora uma reunião da direção, mas quero… Acabei de
falar com a Susanne Öst, e ela diz que a Polícia de Västernorrland
não tenciona apresentar um pedido formal à Polícia Criminal.
– Então porque é que me estás a telefonar?
– Disse-lhe que íamos mandar um observador.
– Nunca mandamos observadores.
– Vamos mandar agora – explica Carlos, baixando a voz. –
Infelizmente, o caso é delicado. Lembras-te do treinador da seleção
nacional de hóquei, o Janne Svensson? A imprensa nunca mais
deixou de escrever artigos sobre a incompetência da Polícia.
– Porque nunca descobriram…
– Nem me fales nisso. Foi o primeiro caso da Susanne Öst como
procuradora do Ministério Público – continua Carlos. – Não quero
dizer que a imprensa tinha razão, mas a Polícia de Västernorrland
teria lucrado com a tua ajuda nessa altura. Foram demasiado lentos,
seguiram o regulamento à letra, e o tempo foi passando… Não é
caso inédito, mas volta e meia escreve-se muito sobre estas coisas.
– Não posso falar mais – diz Joona determinadamente.
– Sabes bem que não falava contigo se se tratasse de um simples
caso de homicídio – diz Carlos, e suspira. – Mas vai correr muita
tinta, Joona. É uma coisa muito, muito brutal, muito sangrenta… E
foi feita uma encenação com o corpo da rapariga.
– Como? Encenação, como?
– Parece que está deitada na cama com as mãos a tapar a cara.
Joona fica em silêncio, segurando o volante com a mão esquerda.
Dos dois lados do carro desfila a imagem trémula e esbatida das
árvores. Do outro lado da linha, ouve-se a respiração de Carlos. Em
fundo, várias vozes. Sem dizer nada, Joona sai da E-45 e entra em
Losvägen, a estrada que segue para leste, em direção à costa, e
continua para Sundsvall.
– Vai lá, Joona, faz-me esse favor… Sê simpático e ajuda-os a
resolver o caso por eles próprios, de preferência antes de a
imprensa começar a escrever.
– Então já não sou observador?
– És, claro que és… Mas mantém-te por perto, acompanha a
investigação, faz sugestões… Só tens de te lembrar de que não
tens quaisquer funções operacionais.
– Porque estou a ser investigado pelos Assuntos Internos?
– É importante que sejas muito discreto – responde Carlos.
13

A norte de Sundsvall, Joona sai da estrada do litoral e entra na


86, que segue para o interior em direção a um curso de água, o
Indalsälven.
Após duas horas de viagem, chega ao local remoto onde se
encontra o centro de acolhimento de menores.
Reduz a velocidade e vira para um caminho estreito de cascalho.
Os raios de sol conseguem penetrar por entre os pinheiros altos,
salpicando-lhes os troncos de luz.
«Uma rapariga que morreu», pensa Joona.
Enquanto toda a gente dormia, uma jovem foi assassinada e
deitada na cama, como uma encenação. Na opinião da Polícia local,
o crime foi cometido com terrível violência e agressividade. Não há
ainda um suspeito, é demasiado tarde para fechar as estradas, mas
todos os colegas do distrito estão informados, e a investigação é
conduzida pelo comissário Olle Gunnarsson.
São quase dez horas quando Joona para o carro e sai, junto à
barreira exterior montada pela Polícia. Sobre a valeta, ouve-se o
zumbido de uma nuvem de insetos. A floresta abre-se ali numa
ampla clareira. Árvores ainda húmidas brilham ao sol na encosta
que termina no lago. Numa tabuleta de metal colocada à beira do
caminho, pode ler-se: BIRGITTA, CENTRO DE ACOLHIMENTO DE MENORES.
Joona dirige-se para um grupo de edifícios pintados de vermelho-
escuro que, como é típico das quintas da região de Hälsingland, se
dispõem em volta de um terreiro. Diante dos edifícios estão uma
ambulância, três carros da Polícia, um Mercedes branco e outras
três viaturas.
Um cão, preso a uma corrente entre duas árvores, ladra
ininterruptamente.
Diante do edifício principal está um homem de meia-idade, com
um bigode de morsa, barriga proeminente e fato de linho
amarrotado. Vê Joona aproximar-se, mas não faz menção de o
cumprimentar. Continua a enrolar o cigarro e depois lambe a
mortalha. Joona passa por cima de uma nova barreira, e o homem
põe o cigarro atrás da orelha.
– Sou o observador da Polícia Criminal.
– Gunnarsson – responde o outro. – Comissário.
– A minha missão é acompanhar o trabalho aqui.
– Sim, desde que não nos atrapalhe – diz o homem, encarando-o
com frieza.
Joona olha para o edifício principal. Os técnicos já chegaram. As
divisões estão iluminadas por holofotes, e as janelas emitem uma
luz estranhamente forte.
Um polícia, com o rosto lívido, sai do edifício, a mão a tapar a
boca. Desce os degraus a cambalear, apoia-se na parede, inclina-se
para a frente e começa a vomitar nas urtigas que rodeiam o barril de
água da chuva.
– Vai-lhe acontecer o mesmo quando for lá dentro – avisa
Gunnarsson com um sorriso.
– O que é que se sabe neste momento?
– Não se sabe a ponta de um chavelho… O alerta foi dado
durante a noite, com um telefonema do terapeuta do centro. Daniel
Grim, é o nome do homem. Quatro da manhã. Estava em casa, que
fica em Sundsvall, na Bruksgatan, e tinha acabado de receber um
telefonema daqui… Quando ligou para a central de emergência não
sabia quase nada, só percebeu que as miúdas estavam aos gritos e
a falar em sangue.
– Portanto foram as miúdas que telefonaram? – pergunta Joona.
– Sim.
– Mas não ligaram para o número de emergência, ligaram para o
terapeuta.
– Exatamente.
– Mas com certeza estava aqui pessoal a fazer a noite.
– Não.
– Mas não devia estar?
– Provavelmente – responde Gunnarsson com voz cansada.
– Qual das raparigas ligou para o terapeuta?
– Foi uma das mais velhas – responde Gunnarsson, procurando
no bloco de notas. – Caroline Forsgren, chama-se ela. Mas, tanto
quanto pude perceber, não foi a Caroline que encontrou o corpo,
foi… Isto é uma confusão, várias das raparigas entraram no quarto.
Um horror, devo dizer-lhe. Tivemos de levar uma delas para o
hospital. Estava histérica, e os paramédicos acharam que era mais
seguro.
– Quem foi o primeiro a entrar no quarto? – pergunta Joona.
– Dois colegas, o Rolf Wikner e a Sonja Rask – responde
Gunnarsson. – E eu cheguei… digamos, às seis menos um quarto.
Falei com a procuradora do Ministério Público, que ficou um
bocadinho acagaçada e contactou Estocolmo… E agora temo-lo a si
às costas.
Gunnarsson esboça um sorriso frio.
– Há algum suspeito? – pergunta Joona.
Gunnarsson respira fundo e declara, em tom de preleção:
– Diz-me a minha longa experiência que é preciso deixar a
investigação seguir o seu curso. Temos de chamar pessoas, ouvir
as testemunhas, salvaguardar as pistas…
– Pode-se entrar para ver? – pergunta Joona, olhando para a
porta.
– Eu não recomendaria… Daqui a pouco já temos as fotografias.
– Quero ver a rapariga antes de a tirarem de lá.
– É um caso de violência extrema, muito intensa, com grande
dose de agressividade – diz Gunnarsson. – O autor é uma pessoa
alta e forte. Depois de morta, a rapariga foi deitada na cama.
Ninguém deu por nada até que uma das miúdas quis ir à casa de
banho e pisou o sangue que saía por baixo da porta do quarto.
– Estava quente?
– Sabe, não é muito fácil lidar com estas raparigas. Estão
assustadas e sempre em estado de irritação, a protestar
constantemente contra tudo o que nós dizemos, não nos ouvem,
gritam connosco… Primeiro, era porque tinham de ir aos quartos
buscar as coisas delas… era o iPod, era o bâton do cieiro, era o
casaco… e, quando as quisemos levar para o anexo, duas delas
fugiram para o bosque.
– Fugiram?
– Acabámos de as encontrar, mas… temos de as convencer a
voltar de livre vontade. Deitaram-se no chão e exigem que o Rolf as
traga às cavalitas.
14

Joona põe o equipamento de proteção, sobe os degraus e entra


no edifício principal. No átrio ouve-se o zumbido das ventoinhas dos
holofotes, e o ar já está quente. Não há recanto que não esteja
visível sob a luz forte. No ar vogam partículas de pó.
Joona avança cautelosamente, pisando as placas de proteção
colocadas sobre as tábuas largas do soalho. Há um quadro caído no
chão, e a luz forte faz rebrilhar os estilhaços de vidro. Ao longo do
corredor são visíveis, em várias direções, pegadas de sangue feitas
por botas, no sentido da porta e no inverso.
A casa conservou o seu antigo estilo campestre. Há decorações
feitas a stencil, numa variedade de cores suaves, e os quadros
típicos dos pintores itinerantes da região da Dalecárlia serpenteiam
pelas paredes e chaminés.
Mais à frente, no corredor, está um técnico, Jimi Sjöberg, que
projeta uma luz verde sobre uma cadeira preta à qual aplicou a
solução Hungarian red.
– Sangue? – pergunta Joona.
– Nesta, não – murmura Jimi, continuando a percorrer a cadeira
com a luz verde.
– Encontraram alguma coisa inesperada?
– O Erixon telefonou de Estocolmo a dizer que não mexêssemos
nem na mais ínfima cagadela de mosca antes de o Joona Linna dar
autorização – responde o técnico, com um sorriso.
– Fico agradecido.
– Portanto ainda não começámos a sério – continua Jimi. –
Pusemos esta merda das placas, fotografámos e filmámos tudo…
Eu tomei a liberdade de recolher amostras do sangue no corredor
para seguirem já para o laboratório, para identificação de ADN.
– Ótimo.
– E a Siri tratou das pegadas no átrio, antes que se
estragassem…
A outra técnica, Siri Karlsson, acaba de desmontar o puxador da
porta do quarto de isolamento. Coloca-o cautelosamente num saco
de papel e em seguida dirige-se para junto de Joona e Jimi.
– Ele vem ver o local do crime – explica Jimi.
– É absolutamente horrendo – diz Siri, por trás da máscara de
proteção da boca. Tem um olhar cansado e ansioso.
– Compreendo – responde Joona.
– Se quiser, pode ver antes as fotografias.
– É o Joona Linna – explica Jimi.
– Desculpe, não sabia – diz Siri.
– Estou só como observador – adianta Joona.
Ela baixa os olhos e, quando levanta novamente a cabeça, vê-se
o rubor nas suas faces.
– Toda a gente fala de si – diz ela. – E eu acho… Bem… Estou-
me nas tintas para o inquérito interno. Será um privilégio trabalhar
consigo.
– Igualmente – responde Joona.
Fica em silêncio, escutando o zumbido das lâmpadas,
concentrado, preparando-se mentalmente para retirar as suas
impressões sem ceder à tentação de desviar o olhar.
15

Joona aproxima-se da pequena antecâmara com a porta a que foi


retirado o puxador.
O canhão da fechadura e respetiva chave permanecem intactos.
Joona fecha os olhos por um segundo e depois entra no quarto.
O espaço está todo iluminado e em silêncio.
O ar quente está impregnado do cheiro a sangue e a urina. Joona
obriga-se a inspirar para poder sentir os outros cheiros: madeira
húmida, lençóis suados, desodorizante.
Ouve os estalidos do metal sobreaquecido dos holofotes. Através
das paredes, chega-lhe o som abafado do cão a ladrar.
Deixa-se ficar imóvel e força-se a observar o corpo deitado na
cama. Detém o olhar em cada pormenor, lutando contra a vontade
de se ir embora, de sair daquela casa, de andar sem parar,
respirando ar puro e embrenhando-se na escuridão da floresta.
O sangue escorreu por baixo da porta e salpicou os móveis
aparafusados ao chão e os motivos bíblicos nas paredes. Atingiu o
teto e chegou à casa de banho sem porta. Em cima da cama está
uma rapariguinha magra, no início da puberdade. Deitaram-na de
costas e puseram-lhe as mãos a tapar o rosto. Veste apenas umas
cuecas brancas de algodão. Os seios estão tapados pelos braços e
as pernas cruzadas pelo tornozelo.
Joona sente o coração a bater, sente o sangue pulsar-lhe nas
veias, chegar-lhe ao cérebro, troar-lhe nas têmporas.
Obriga-se a olhar, registar e pensar.
O rosto da rapariga está oculto.
Como se ela tivesse medo, como se não quisesse ver o
assassino.
Antes de a colocarem na cama, sujeitaram-na a uma enorme
violência.
Houve golpes repetidos com um objeto contundente, na testa e na
cabeça.
Era muito nova e deve ter tido tanto medo!
Ainda há poucos anos era uma criança, mas uma cadeia de
acontecimentos conduziu-a àquele quarto, num centro de
acolhimento de menores em risco. Talvez tenha tido pouca sorte
com os pais e com as famílias de acolhimento. Talvez tenham
pensado que ali estaria segura.
Joona observa atentamente todos os pormenores chocantes, até
sentir que não aguenta mais. Então, fecha os olhos e pensa no rosto
da própria filha e na lápide que não é dela. Por fim, abre-os
novamente e continua a observação.
Tudo indica que a vítima estava sentada na cadeira da pequena
mesa quando o assassino a atacou.
Joona tenta elaborar mentalmente uma imagem dos movimentos
que provocaram o efeito de aspersão.
Qualquer gota de sangue em queda livre assume a forma de uma
esfera com um diâmetro de cinco milímetros. Se a gota tiver uma
dimensão menor, isso significa que o sangue foi sujeito a uma força
exterior que o dispersou em esferas mais pequenas.
É a isso que se dá o nome de efeito de aspersão.
Pondo os pés em cima de duas placas de proteção, Joona coloca-
se diante da mesinha, provavelmente no sítio exato onde o
assassino esteve algumas horas antes. A rapariga estava sentada
na cadeira, do outro lado da mesa. Joona observa o padrão de
aspersão do sangue, vira-se para trás e vê vestígios até ao cimo da
parede. O instrumento de agressão foi levado atrás várias vezes,
para ganhar impulso, e, de cada vez que o movimento mudava
ligeiramente a trajetória para assestar novo golpe, produzia uma
nova aspersão por trás do agressor.
Joona já esteve mais tempo na cena do crime do que qualquer
outro comissário teria aguentado. Mas ainda não acabou. Volta para
junto da cama e observa o corpo da rapariga, o piercing no umbigo,
a marca dos lábios no copo de água, a pequena cicatriz de um sinal
retirado logo abaixo do seio direito, a penugem loura nas pernas
magras e um hematoma, já amarelado, na coxa.
Inclina-se cuidadosamente sobre ela. A pele nua já só exala um
ligeiro calor. Observa as mãos que lhe tapam o rosto e verifica que
ela não arranhou o agressor, porque não há vestígios de pele sob as
unhas.
Afasta-se alguns passos e observa-a novamente. A pele muito
branca. As mãos a tapar o rosto. As pernas cruzadas no tornozelo.
Quase não resta sangue no corpo.
Só a almofada está ensanguentada. O resto do corpo está limpo.
Joona olha em volta. Atrás da porta, há uma pequena prateleira
com dois ganchos por baixo. Em cima da prateleira está um sutiã
branco e, de um dos ganchos, pendem umas calças de ganga, uma
camisola de algodão preta e um blusão de ganga. No chão vê-se
um par de sapatilhas de desporto, com umas meias enroladas lá
dentro.
Joona não toca na roupa, mas não parece ter vestígios de
sangue.
Provavelmente a rapariga despiu-se e pendurou a roupa antes de
ser morta.
Mas porque não há sangue no resto do corpo? Devia ter sido
coberto com alguma coisa. Mas o quê? No quarto não há nada.
16

Joona sai para o jardim, à luz do dia, pensando que, apesar da


extrema violência da agressão, o corpo da rapariga estava limpo e
branco como um seixo no mar.
Gunnarsson tinha dito que o ataque fora marcado por uma intensa
agressividade.
Apesar de acreditar que tinha sido violento, quase
desesperadamente violento, a agressividade não tinha um carácter
de loucura. Os golpes foram desferidos de forma intencional, com o
objetivo de matar, mas houve cuidado com o resto do corpo.
Gunnarsson está sentado no capô do seu Mercedes, a falar ao
telemóvel.
Ao contrário de quase tudo o resto, as investigações criminais não
caminham para o caos se não forem dirigidas, mas, ao invés,
tendem a resolver-se sozinhas. Joona, contudo, nunca esperou e
nunca confiou em que a ordem se repusesse por si.
Sabe, naturalmente, que o assassino é quase sempre uma
pessoa próxima da vítima, que pouco tempo depois do ato, procura
a Polícia e confessa. Mas ele não conta com isso.
«Está deitada na cama», pensa. «Mas, quando foi assassinada,
estava sentada à mesa, só em cuecas.»
É difícil de acreditar que isto se passou sem ruído.
Num local como este, tem de existir uma testemunha.
«Alguma das alunas ouviu ou viu qualquer coisa», pensa Joona,
enquanto se dirige para o anexo. Alguém deve ter pressentido o que
se preparava, sentido uma ameaça ou um possível conflito.
O cão está a ladrar debaixo da árvore, morde o mosquetão que
engata a coleira na corrente e depois recomeça a ladrar.
Joona dirige-se diretamente aos dois homens que estão a
conversar junto ao anexo. Calcula que um deles, um homem de
cerca de cinquenta anos, com uma franja puxada para o lado,
vestindo uma camisola azul-escura da Polícia, é o coordenador da
equipa no local do crime. O outro não é, provavelmente, polícia. Tem
a barba por fazer e um olhar simpático e cansado.
– Joona Linna, observador da Polícia Criminal – apresenta-se,
apertando a mão a cada um deles.
– Åke – apresenta-se o coordenador.
– Daniel – diz o homem de olhar cansado. – Trabalho aqui, sou o
terapeuta… Vim para cá assim que soube o que aconteceu.
– Tem um minuto? – pergunta Joona. – Eu queria falar com as
alunas e seria bom que estivesse presente.
– Agora? – pergunta Daniel.
– Se for possível.
O homem pestaneja e responde com um ar preocupado:
– A questão é que duas das alunas fugiram para a floresta…
– Já foram encontradas – diz-lhe Joona.
– Eu sei, mas tenho de falar com elas – explica o homem, com um
súbito sorriso involuntário. – Exigem ser transportadas às costas de
um polícia para voltarem para aqui.
– O Gunnarsson oferece-se para as trazer, com certeza –
responde Joona, avançando para o pequeno edifício vermelho-
escuro.
Neste primeiro encontro, vai tentar observar as alunas, ver o que
se passa entre elas, que correntes se agitam sob a superfície.
Se um dos elementos viu alguma coisa, os restantes membros do
grupo costumam indicá-lo inconscientemente, como a agulha de
uma bússola.
Joona sabe que não tem poderes para fazer os interrogatórios,
mas, ao transpor a pequena porta do anexo, baixando a cabeça
para passar, está consciente de que lhe é imprescindível saber se
há alguma testemunha.
17

O chão range quando Joona entra no anexo e ultrapassa a zona


onde é permitido usar sapatos. Na pequena divisão encontram-se
três raparigas. A mais nova não terá mais de doze anos. Tem uma
pele rosada e cabelo cor de cobre. Está sentada no chão, encostada
à parede, a ver televisão. Murmura umas palavras para si própria,
bate com a cabeça na parede várias vezes, fecha os olhos por um
momento e depois olha novamente para a televisão.
As outras duas parecem não dar sequer pela presença dela.
Estão estendidas num sofá forrado a bombazina castanha, a folhear
revistas de moda já antigas.
Uma psicóloga do hospital distrital de Sundsvall senta-se no chão,
ao lado da rapariga ruiva.
– Sou a Lisa – tenta ela, num tom afável. – Como é que te
chamas?
A rapariga não desvia o olhar da televisão. É uma reposição da
série Mar Azul. O som está muito alto, e o brilho frio da imagem
espalha-se pela sala.
– Conheces a história da Polegarzinha? – pergunta Lisa. – Muitas
vezes sinto-me como ela. Muito, muito pequena… Como é que tu te
sentes?
– Como o Jack, o Estripador – responde ela numa voz infantil,
sem tirar os olhos do ecrã.
Joona entra e senta-se numa poltrona diante da televisão. Uma
das alunas observa-o com olhos esbugalhados, mas, quando a
cumprimenta, ela sorri e baixa o olhar. É uma rapariga forte, com as
unhas muito roídas e que veste umas calças de ganga e uma
camisola preta com a inscrição: «Razors pain you less than life.»1
Tem sombra azul nos olhos e, no pulso, um elástico de cabelo com
fios brilhantes. A outra aluna parece mais velha. Está vestida com
uma camisola cortada em baixo, com desenhos de cavalos, e usa
um rosário de pérolas brancas ao pescoço. Na dobra do braço tem
marcas de agulhas e repousa a cabeça num blusão militar enrolado,
que faz as vezes de almofada.
– Indie – diz a mais velha em voz baixa –, foste lá dentro ver
antes de chegar a bófia?
– Não quero ter pesadelos – responde a rapariga forte numa voz
indolente.
– Coitadinha da Indie – provoca a mais velha.
– Que é que foi?
– Tens então medo de ter pesadelos quando…
– Pois tenho.
– Caraças! – troça a outra. – Bolas, que ego…
– Cala a boca, Caroline – grita a ruiva.
– A Miranda foi assassinada – continua Caroline. – Talvez seja um
bocadinho mais grave do que…
– Pois eu acho que é muito bom não ter de a aturar – diz Indie.
– És completamente marada – diz Caroline, a sorrir.
– Marada era ela, porra. Queimou-me com um cigarro e…
– Não sejam cabras – interrompe a rapariga ruiva.
– E bateu-me com a corda de saltar – continua Indie.
– És mesmo cabra! – suspira Caroline.
– Lá por isso, posso dizer outra coisa, se te faz sentir melhor –
responde Indie, irritada. – É muito chato que aquela idiota tenha
morrido, mas eu…
A rapariguinha ruiva recomeça a bater com a cabeça na parede e
fecha os olhos. A porta abre-se, e as duas alunas fugidas entram,
acompanhadas por Gunnarsson.
1 «As lâminas ferem menos do que a vida.» (N. do E.)
18

Joona está recostado na poltrona, o rosto sereno. Tem o casaco


escuro aberto, com as frentes levemente dobradas, e o corpo
musculado descontraído. No entanto, quando encara as raparigas
que acabam de entrar, os seus olhos ficam cinzentos como águas
geladas numa baía.
As outras vaiam-nas e riem. Lu Chu caminha com um meneio de
ancas exagerado e faz o sinal de vitória com os dedos.
– Fufa de merda – grita Indie.
– Se quiseres, podemos tomar um duche juntas – responde Lu
Chu.
O terapeuta Daniel Grim entra depois das alunas. É visível que se
esforça por obter a atenção de Gunnarsson.
– Só quero pedir que vão com calma na vossa abordagem – diz
Daniel e, baixando a voz, continua: – Só a vossa presença aqui já
as assusta…
– Não se preocupe – tranquiliza-o Gunnarsson.
– Pelo contrário – responde Daniel em tom grave.
– Pelo contrário, o quê?
– Preocupo-me bastante.
– Está bem, nesse caso, estou-me a borrifar – suspira
Gunnarsson. – Trate de não empatar e deixe-me fazer o meu
trabalho.
Joona repara que o terapeuta tem a barba por fazer e que a
camisola que traz por baixo do casaco está do avesso.
– Só queria explicar que… para estas raparigas, a Polícia não
representa segurança.
– Que ideeeeia! – troça Caroline.
– Folgo em saber – diz-lhe Daniel, sorrindo, antes de se voltar
novamente para Gunnarsson: – Mas a sério… Para a maioria das
nossas alunas, a Polícia faz parte das situações mais difíceis da
vida delas.
Joona percebe que Daniel compreende que está a criar
obstáculos ao trabalho da Polícia, mas mesmo assim persiste e
levanta outra questão.
– Falei com o coordenador, ali fora, sobre o alojamento das…
– Uma coisa de cada vez – interrompe-o Gunnarsson.
– É importante, porque…
– Cabrona – diz Indie, irritada.
– Mija-te lá – provoca-a Lu Chu.
– Porque pode ser prejudicial – continua Daniel. – Pode ser mau
para elas obrigarem-nas a passar esta noite aqui.
– Então, vão para um hotel? – pergunta Gunnarsson.
– Devias ser assassinada! – grita Almira, e atira com um copo a
Indie.
O copo bate na parede, e a água e os estilhaços de vidro
espalham-se pelo chão. Daniel precipita-se para elas. Almira vira-se,
mas Indie ainda lhe consegue dar vários murros nas costas antes de
Daniel as separar.
– Portem-se como deve ser, caramba! – grita ele.
– A Almira é uma cabrona de merda que…
– Acalma-te, Indie – diz-lhe Daniel, agarrando-lhe a mão. – Já
falámos deste assunto, não falámos?
– Falámos – responde ela, mais calma.
– Tu és uma miúda decente – diz ele, a sorrir.
Ela assente com a cabeça e começa a apanhar os cacos de vidro
do chão, juntamente com Almira.
– Vou buscar o aspirador – diz Daniel.
O terapeuta sai e puxa a porta do lado de fora, mas ela volta a
abrir-se. Daniel bate a porta com força, e o quadro com um motivo
tirado de Carl Larsson chocalha contra a parede.
– A Miranda tinha inimigos? – lança Gunnarsson para a
assistência.
– Não – responde Almira com uma risadinha.
Indie olha de lado para Joona.
– Prestem atenção – diz Gunnarsson, elevando a voz. – Vocês só
têm de responder às nossas perguntas e de acabar com os gritos e
as parvoíces. Não deve ser assim tão difícil, pois não?
– Depende das perguntas – responde Caroline tranquilamente.
– Eu cá grito – resmunga Lu Chu.
– Verdade ou consequência – diz Indie, apontando para Joona
com um sorriso.
– Verdade – responde Joona.
– Sou eu que faço o interrogatório! – protesta Gunnarsson.
– Que significa isto? – pergunta Joona, e tapa o rosto com as
mãos.
– O quê? Não sei – responde Indie. – A Vicky e a Miranda é que
faziam isso…
– Não aguento mais! – interrompe Caroline. – Tu não viste a
Miranda. Ela estava exatamente assim, e havia tanto sangue,
sangue por todo o lado, e…
A voz embarga-se-lhe e começa a chorar. A psicóloga vai para
junto dela e procura acalmá-la, falando em voz baixa.
– Quem é a Vicky? – pergunta Joona, levantando-se.
– É a última aluna desta…
– Mas onde é que ela está? – interrompe Lu Chu.
– Qual é o quarto dela? – pergunta Joona rapidamente.
– Deve ter-se pirado para ir ter com o amiguinho das quecas – diz
Tuula.
– Costumamos enfiar um Stesolid e dormimos como umas…
– Estamos a falar de quem? – pergunta Gunnarsson, elevando
novamente a voz.
– Da Vicky Bennet – responde Caroline. – Não a vi durante toda
a…
– Mas onde é que ela se meteu?
– A Vicky tem cada coisa… – ri-se Lu Chu.
– Desliguem a televisão – ordena Gunnarsson, tenso. – Quero
que se acalmem todas e…
– Não grite! – brada Tuula, aumentando o som do televisor.
Joona baixa-se em frente de Caroline, capta-lhe o olhar e sustém-
no com uma tranquilidade grave.
– Qual é o quarto da Vicky?
– O último, no fim do corredor – responde Caroline.
19

Joona sai do anexo e atravessa rapidamente o jardim. Cruza-se


com Daniel Grim, que carrega o aspirador, acena aos técnicos e
sobe os degraus a passo largo, entrando novamente no edifício
principal. Está escuro, os candeeiros estão apagados, mas as
placas de proteção do chão brilham como seixos húmidos.
Falta uma das alunas, pensa Joona. Ninguém a viu. Talvez tenha
fugido no meio da confusão, ou talvez as outras a estejam a
proteger, escondendo aquilo que sabem.
A inspeção ao local do crime ainda agora começou, e os quartos
não foram sequer examinados. Toda a quinta devia ter sido passada
a pente fino, mas ainda não houve tempo – aconteceram
demasiadas coisas em simultâneo.
As alunas estão assustadas e sob forte tensão.
O piquete do Serviço de Apoio à Vítima já devia cá estar.
A Polícia precisa de reforços, de mais técnicos, de mais recursos.
Joona sente um arrepio ao pensar que a rapariga em falta talvez
esteja escondida no quarto. Pode ter visto alguma coisa e estar tão
apavorada que não ousa mostrar-se.
Segue pelo corredor que dá acesso aos quartos das alunas.
Ouvem-se estalidos nas paredes e nas vigas de madeira, mas, de
resto, o silêncio reina em toda a casa. No vestíbulo de acesso ao
quarto de isolamento, a porta sem puxador está entreaberta. Lá
dentro jaz a rapariga morta, com as mãos a tapar a cara.
Subitamente, Joona lembra-se de ter visto um rasto de sangue
com três traços horizontais na ombreira da porta. Traços feitos por
três dedos, mas sem impressões digitais visíveis. Viu as marcas de
sangue, mas estava tão concentrado a estruturar as impressões da
cena do crime que só agora lhe ocorre, de repente, que elas estão
no lado errado. As marcas não indicam a direção da saída, mas a
direção oposta, na continuação do corredor. Há vestígios fracos e
muito pisados de pegadas de botas, de sapatos e de pés descalços
em todas as direções, mas as marcas na ombreira vão para o
interior.
A pessoa com as mãos sujas de sangue tinha alguma coisa a
fazer em algum dos outros quartos das alunas.
«Mais mortos, não», sussurra Joona para si próprio.
Põe as luvas de látex enquanto se encaminha para o último
quarto do corredor. Quando abre a porta, ouve um restolhar. Detém-
se e procura ver alguma coisa. O som desaparece. Estende a mão
cautelosamente para procurar o interruptor da luz.
Ouve novamente aquele restolhar e um estranho som metálico.
– Vicky?
Apalpa a parede às cegas, até que encontra o interruptor e
acende o candeeiro do teto. Uma luz amarela enche o quarto
ascético. Ouve um estalo, e a janela fecha-se sobre a vista da
floresta e do lago. No canto do quarto ouve outro barulho e vê uma
gaiola tombada no chão. Um periquito amarelo bate as asas e trepa
ao cimo da gaiola.
O cheiro a sangue é opressivo – uma mistura de ferro e qualquer
outra coisa, adocicada e râncida.
Joona coloca as placas de proteção de plástico e entra
cautelosamente no quarto.
Em volta dos fechos da janela há manchas de sangue. As marcas
evidentes indicam que alguém trepou ao parapeito da janela, se
apoiou no caixilho e provavelmente saltou para o relvado em baixo.
Aproxima-se da cama. Um arrepio gelado sobe-lhe à nuca quando
afasta o cobertor. O lençol está cheio de sangue já seco. Mas a
pessoa que ali se deitou não estava ferida.
O sangue está seco e espalhado.
Nesta cama dormiu alguém coberto de sangue.
Joona deixa-se ficar imóvel durante um momento, a reconstituir os
movimentos.
«Ela dormiu mesmo», pensa.
Quando levanta a almofada, encontra resistência. Parece estar
colada ao lençol de baixo e ao colchão. Joona solta-a. Por baixo,
está um martelo coberto de sangue escurecido, com coágulos
castanhos e cabelos. A maior parte do sangue foi absorvida pelo
tecido, mas à volta da cabeça do martelo ainda se vê um brilho
húmido.
20

O Centro Birgitta está banhado por uma luz suave, agradável, e


ao longe, entre as velhas árvores, muito altas, vê-se o brilho mágico
do Himmelsjön. Mas há apenas algumas horas, Nina Molander
levantou-se para ir à casa de banho e encontrou Miranda morta na
cama. Acordou toda a gente, o pânico instalou-se, e as alunas
telefonaram ao terapeuta, Daniel Grim, que imediatamente alertou a
Polícia.
Nina Molander ficou em estado de choque e teve de ser
transportada de ambulância para o hospital, em Sundsvall.
No terreiro está Gunnarsson, acompanhado de Daniel Grim e da
agente Sonja Rask. Gunnarsson abriu o porta-bagagem do
Mercedes branco e depositou lá dentro os croquis da cena do crime
feitos pelos técnicos.
O cão continua a ladrar nervosamente e a puxar a corrente.
Quando Joona para atrás do carro e passa a mão pelo cabelo
despenteado, os outros três já se voltaram para ele.
– Ela fugiu pela janela do quarto.
– Fugiu? – pergunta Daniel, atónito. – A Vicky fugiu? Mas porque
é que…
– Havia sangue na ombreira da janela, sangue na cama e…
– Mas isso não quer dizer…
– Há um martelo ensanguentado debaixo da almofada dela –
conclui Joona.
– Isto não faz sentido – diz Gunnarsson com irritação. – Não pode
ser, porque o grau de violência foi muito poderoso.
Joona vira-se novamente para Daniel Grim, cujo rosto parece
despido e frágil, sob a luz do sol.
– O que é que acha? – pergunta Joona.
– O quê? Que a Vicky pudesse… É totalmente absurdo –
responde Daniel.
– Porquê?
– Só o facto de ainda agora… – diz o terapeuta, sorrindo
involuntariamente. – Ainda agora estavam perfeitamente seguros de
que tinha sido um homem alto e forte. A Vicky é pequena, nem tem
cinquenta quilos, tem uns pulsos fininhos como…
– É violenta? – pergunta Joona.
– Não foi a Vicky que fez isto – responde Daniel calmamente. –
Trabalhei com ela durante dois meses e posso assegurar que não
foi ela.
– Era violenta antes de vir para cá?
– Estou obrigado a manter a confidencialidade, como sabem –
responde Daniel.
– Deve compreender que só nos está a fazer perder tempo com a
merda do dever de confidencialidade – diz Gunnarsson.
– Posso dizer que treino algumas alunas nas alternativas às
reações agressivas… Para não reagirem com cólera, por exemplo, à
frustração ou ao medo – explica Daniel, sem se desconcertar.
– Mas não treinou a Vicky – diz Joona.
– Não.
– Porque é que ela está aqui, então?
– Não posso falar dos casos pessoais.
– Mas não a considera violenta?
– A Vicky é boa miúda – responde Daniel simplesmente.
– Então o que acha que aconteceu? Porque é que há um martelo
cheio de sangue debaixo da almofada dela?
– Não sei, não faz sentido. Talvez ela tenha querido ajudar
alguém e escondido a arma.
– Quais são as alunas violentas? – pergunta Gunnarsson, irritado.
– Não posso apontar ninguém, há de compreender.
– Nós compreendemos – responde Joona.
Daniel olha-o com gratidão e procura respirar calmamente.
– Mas experimente falar com elas, porque vai perceber quais são.
– Obrigado – diz Joona e afasta-se.
– Lembre-se de que elas perderam uma amiga – diz Daniel
rapidamente.
Joona para e volta para junto do terapeuta.
– Sabe em que quarto a Miranda foi encontrada?
– Não, mas parti do princípio…
Daniel Grim cala-se a abana a cabeça.
– Custa-me a acreditar que seja o quarto dela – diz Joona. – É um
quarto quase vazio, que fica do lado direito, a seguir à casa de
banho.
– O isolamento – responde Daniel.
– Porque é que vão para lá? – pergunta Joona.
– Porque…
Daniel interrompe-se e parece surpreendido.
– Em que está a pensar?
– A porta devia estar fechada à chave – diz ele.
– Está uma chave na fechadura.
– Que chave? – pergunta Daniel elevando a voz. – Só a Elisabet
tem a chave do quarto de isolamento.
– Quem é a Elisabet? – pergunta Gunnarsson.
– A minha mulher – responde Daniel. – Era ela que estava de
serviço esta noite…
– Mas onde é que ela está? – pergunta Sonja.
– Como? – Daniel olha-a sem compreender.
– Está em casa? – pergunta ela.
Daniel parece surpreendido e inseguro.
– Eu pensei que a Elisabet tinha ido com a Nina na ambulância –
diz lentamente.
– Não, a Nina Molander foi sozinha – responde Sonja.
– A Elisabet acompanhou-a, de certeza! Ela nunca deixaria uma
aluna…
– Eu fui a primeira pessoa a chegar aqui – interrompe Sonja.
O cansaço tornou-lhe a voz áspera e rouca.
– Não havia aqui ninguém do pessoal. Só um grupo de alunas
apavoradas.
– Mas a minha mulher estava…
– Ligue para ela – diz-lhe Sonja.
– Já tentei, mas o telemóvel está desligado – diz Daniel em voz
baixa. – Pensei que… Parti do princípio que…
– Merda, que embrulhada esta! – diz Gunnarsson.
– A minha mulher, a Elisabet – continua Daniel numa voz cada
vez mais trémula – tem uma insuficiência cardíaca e pode ter… ela
pode…
– Tente falar com calma – diz Joona.
– A minha mulher tem o coração fragilizado e… Ela tinha o turno
da noite, devia estar aqui… O telemóvel dela está desligado…
21

Daniel olha-os com desespero, remexe no fecho de correr do


blusão e repete que a mulher tem uma insuficiência cardíaca. O cão
ladra e puxa a corrente com tanta força que quase se asfixia,
engasga-se e continua a ladrar.
Joona aproxima-se do cão por baixo da árvore. Procura acalmá-lo
e ao mesmo tempo desprende a corrente da coleira. Assim que
Joona o larga, o cão lança-se a correr pelo terreiro e para junto de
um dos anexos. Joona segue-o em grandes passadas. O cão raspa
a parte de baixo porta, gane e arfa.
Daniel Grim olha para Joona e para o cão e aproxima-se.
Gunnarsson grita-lhe que não vá, mas ele continua. Tem o corpo
rígido e uma expressão de angústia no rosto. O cascalho range sob
os seus passos. Joona esforça-se por acalmar o cão, agarra-o pela
coleira e puxa-o para trás, afastando-o da porta.
Gunnarsson atravessa o terreiro a correr e agarra Daniel pelo
blusão, mas ele desprende-se, cai, esfola a mão na gravilha e
levanta-se novamente.
O cão ladra, tenta soltar-se, retesa o corpo.
O polícia fardado coloca-se à frente da porta. Daniel tenta passar
e grita, com a voz embargada:
– Elisabet! Elisabet! Tenho de…
O polícia procura agarrá-lo e afastá-lo dali, enquanto Gunnarsson
se junta a Joona para o ajudar a controlar o cão.
– A minha mulher! – geme Daniel. – Pode ser a minha…
Gunnarsson arrasta o cão para junto da árvore.
O cão arfa, revolve o cascalho com as patas e ladra para a porta.
Joona sente uma picada de dor atrás dos olhos quando calça as
luvas de látex.
Entre o lintel da porta e o telhado baixo está pregada uma
tabuleta de madeira que tem gravada a palavra «Destilaria».
Joona abre a porta cuidadosamente e espreita para o interior
escuro. Há uma pequena janela aberta e centenas de moscas a
zumbir no ar. O chão de mosaico muito gasto está coberto de
marcas de sangue feitas pelas patas do cão. Sem entrar, Joona
inclina-se para ver o que está por trás da chaminé de tijolo antiga.
Ao lado de um trilho de sangue, está a tampa de um telemóvel.
Quando Joona mete a cabeça pela porta, o zumbido das moscas
aumenta. Uma mulher de cerca de cinquenta anos jaz numa poça
de sangue, com a boca aberta. Veste umas calças de ganga, meias
cor-de-rosa e um casaco de malha cinzento. É visível que a mulher
tentou arrastar-se para se desviar do ataque, mas a parte superior
do rosto e a cabeça estão desfeitos.
22

Pia Abrahamsson repara que vai em ligeiro excesso de


velocidade.
Tinha contado partir mais cedo, mas a reunião de pastores
eclesiásticos em Östersund prolongou-se.
Pia olha para o filho pelo retrovisor. A cabeça dele está encostada
ao rebordo da cadeirinha. Usa óculos e tem os olhos fechados. O
sol da manhã penetra entre as árvores e ilumina o pequeno rosto
tranquilo.
Pia reduz a velocidade para oitenta quilómetros por hora, apesar
de a estrada que atravessa a floresta ser perfeitamente reta.
As estradas estão fantasmagoricamente vazias.
Pia franze os olhos, para ver melhor.
A vedação de proteção dos animais passa nos dois lados,
desfocada e monótona.
«O ser humano deve ser o animal mais medroso do planeta»,
pensa ela.
«Este país tem oito mil quilómetros de vedação de proteção, não
para proteger os animais, mas para proteger as pessoas. Este
imenso mar de florestas é todo atravessado por pequenas estradas
protegidas nos dois lados por vedações altas.»
Pia Abrahamsson deita um olhar rápido a Dante, na sua
cadeirinha.
Ficou grávida quando era pastora em Hässelby. O pai da criança
era redator no Jornal da Igreja. Viu-se com um teste de gravidez na
mão, a pensar que tinha trinta e seis anos.
Ficou com o filho, mas não com o pai do filho. A criança é a
melhor coisa que alguma vez lhe aconteceu.
Dante dorme na cadeira do carro. A cabeça pende-lhe
pesadamente sobre o peito, e o cobertor caiu no chão.
Antes de adormecer estava tão cansado, que chorava por tudo e
por nada. Chorou porque o carro cheirava mal, do perfume da mãe,
e porque o Super Mário foi comido.
Faltam pelo menos vinte quilómetros até Sundsvall e depois mais
quatrocentos e sessenta até Estocolmo.
Pia Abrahamsson precisa de ir à casa de banho – bebeu
demasiado café na reunião.
Tem de aparecer uma estação de serviço aberta rapidamente. Diz
a si própria que não deve parar no meio da floresta.
Não deve. No entanto, vai fazê-lo.
Pia Abrahamsson, que todos os domingos, nas suas prédicas, diz
que tudo o que acontece se enquadra num objetivo mais profundo,
vai, dentro de alguns minutos, ser vítima de um acaso cego.
Pia encosta suavemente na berma, junto a um cruzamento com
uma pequena estrada florestal e para o carro junto da barreira que
separa a via do arvoredo. Do outro lado da barreira estende-se um
caminho de cascalho que penetra na floresta e deve conduzir a um
depósito de armazenamento de troncos.
Pia quer afastar-se apenas até não ser visível da estrada e deixar
a porta do carro aberta, para ouvir o filho se ele acordar.
– Mamã?
– Dorme mais um bocadinho.
– Mamã, não te vás embora.
– Meu queridinho, eu tenho de fazer chichi. Deixo a porta aberta e
estou sempre a ver-te.
A criança olha-a, ensonada.
– Não quero ficar sozinho – murmura.
Ela sorri e acaricia-lhe a face transpirada. Tem consciência de ser
superprotetora, de estar a transformá-lo num menino mimado, mas
não consegue impedir-se de o fazer.
– Só um segundinho muito pequeno – diz-lhe, brincando com ele.
Dante agarra-se à mão da mãe e tenta prendê-la, mas ela solta-
se e tira um toalhete húmido da embalagem.
Afasta-se do carro, passa por baixo da barreira e começa a subir
o caminho de cascalho. Volta-se e acena a Dante.
E se alguém parasse aqui o carro e a filmasse com o telemóvel,
de cócoras e rabo à mostra?
As imagens da pastora a fazer chichi iriam circular no Youtube, no
Facebook, no Flashback Forum, em blogues e salas de
conversação.
Pia sente um arrepio, sai do caminho de cascalho e embrenha-se
mais entre as árvores. A maquinaria pesada dos lenhadores, as
segadeiras e os reboques para toros deixaram um rasto de
destruição.
Quando está segura de já não ser vista da estrada, baixa as
cuecas, tira-as, desvia-se um pouco, levanta a saia e põe-se de
cócoras.
Sente-se cansada, as coxas começam a tremer e ela apoia-se
com a mão no musgo morno que cresce em volta das árvores.
O imenso alívio fá-la fechar os olhos.
Quando os abre novamente vê uma coisa incompreensível.
Parece um animal erguido em duas patas, que avança pelo caminho
na floresta, inclinado para a frente, aos tropeções.
Uma pequena silhueta coberta de sujidade, sangue e terra.
Pia sustém a respiração.
Não é um animal. É como se um pedaço de floresta se tivesse
libertado e adquirido vida própria.
Como uma menina feita de ramos de árvore.
A criatura vacila, mas continua a andar em direção à barreira.
Pia levanta-se e vai atrás dela.
Tenta falar, mas não tem voz.
Um ramo quebra-se debaixo dos seus pés.
Uma chuva fina começa a cair na floresta.
Pia move-se muito lentamente, como num pesadelo. Não
consegue correr.
Por entre as árvores, distingue a criatura junto do carro. Das mãos
da estranha figura pendem umas tiras de pano sujas.
Pia segue o caminho florestal aos tropeções e vê a criatura atirar
para o chão a mala dela, que estava no assento do condutor, entrar
no carro e fechar a porta.
– Dante – murmura Pia, sem fôlego.
O carro arranca a derrapar, pisando o telemóvel e o porta-chaves,
entra na estrada, raspa no separador central, volta à faixa e
desaparece.
Pia corre para a barreira, a chorar, com o corpo a tremer.
O que está a acontecer é inconcebível. A criatura de terra surgiu
do nada, apareceu simplesmente, e agora o carro dela, com o filho
lá dentro, desapareceu.
Pia passa por baixo da barreira e sai para a estrada enorme e
deserta. Não grita, não consegue gritar. Apenas se ouve a sua
respiração arquejante.
23

A floresta passa ao seu lado, e as gotas de chuva tamborilam no


enorme para-brisas. Mads Jensen, dinamarquês, condutor de
pesados, avista uma mulher parada no meio da estrada, a uma
distância de duzentos metros. Mads pragueja baixinho e usa a
buzina para a alertar. A mulher sobressalta-se com o rugido súbito
da buzina, mas não se afasta, deixa-se ficar no meio da estrada. O
motorista apita novamente. A mulher dá um passo lento em frente,
levanta o queixo e fixa o olhar no camião que se aproxima.
Mads Jensen começa a abrandar e sente a pressão do
semirreboque atrás de si. Trava com mais força. A ligação não é
muito boa, o eixo de transmissão range e toda a composição abana
até ele conseguir imobilizá-la.
A rotação do motor baixa, e o ruído agressivo dos pistões em
movimento torna-se mais grave.
A mulher está parada a três metros do capô. O motorista só agora
se apercebe de que ela usa a indumentária sacerdotal preta por
baixo do blusão de ganga. Sobre o preto da camisa brilha o
pequeno retângulo branco do colarinho rígido.
O rosto da mulher está transtornado e lívido. Quando os olhares
se cruzam, através do para-brisas, as lágrimas começam a correr
pelas faces dela.
Mads Jensen liga os piscas de emergência e sai da cabina. O
motor irradia calor e cheiro a combustível. Contorna o veículo e
encontra a mulher apoiada com uma mão num dos faróis, com a
respiração entrecortada.
– Que é que se passa aqui? – pergunta Mads.
Ela volta o olhar para ele. Tem os olhos arregalados. A luz
amarela dos piscas de emergência ilumina-a intermitentemente.
– Precisa de ajuda? – pergunta ele.
Ela acena com a cabeça, e ele tenta conduzi-la para o outro lado
do camião.
– Alguém a tratou mal?
Ela resiste um pouco, mas acaba por segui-lo e subir para o lugar
ao lado do condutor.
Ele fecha-lhe a porta, dirige-se rapidamente para o outro lado e
senta-se ao volante.
– Não posso estar aqui parado, estou a bloquear a estrada –
explica-lhe ele. – Tenho de sair daqui. Pode ser?
Ela não responde, mas ele põe o camião em andamento e liga os
limpa-para-brisas.
– Está ferida? – pergunta-lhe ele.
Ela abana a cabeça e põe a mão à frente da boca.
– O meu filho – sussurra a mulher. – O meu…
– Como? – pergunta Mads. – O que foi que aconteceu?
– Ela levou o meu filho…
– Vou telefonar para a Polícia, quer? Quer que eu ligue para a
Polícia?
– Ai, meu Deus! – chora ela.
24

A chuva bate com força no para-brisas, as escovas varrem


rapidamente a água do vidro, e o piso da estrada, diante deles,
parece ferver.
Pia, sentada na cabina alta, tem o corpo a tremer. Não consegue
acalmar-se. Sabe que não se explicou claramente, mas ouve o
motorista a falar com a central de emergência. Dão-lhe instruções
para seguir na estrada 86 e depois sair para a 330, ao encontro de
um veículo de emergência, em Timrå, que levará a sua passageira
para o hospital de Sundsvall.
– O quê? O que é que estão a dizer? – pergunta Pia. – A
emergência não é comigo. Eles têm de apanhar o carro, é a única
coisa que interessa.
O motorista dinamarquês olha-a sem compreender, e ela percebe
que tem de se concentrar para se explicar com clareza. Tem de
parecer calma, ainda que o chão lhe tenha fugido de baixo dos pés
e ela se encontre em queda livre.
– O meu filho foi raptado – diz.
– Diz que o filho foi raptado – repete o motorista, para o
telemóvel.
– A Polícia tem de apanhar o carro – continua ela. – Um Toyota…
Toyota Auris vermelho. Não me lembro da matrícula, mas…
O motorista pede ao operador na central que espere.
– Mas ele está nesta estrada, mais à frente… Têm de o
apanhar… O meu filho tem só quatro anos, ficou no carro quando
eu…
Ele repete as palavras da mulher para o operador, diz que está na
estrada 86 com o camião, no sentido leste, a cerca de quarenta
quilómetros de Timrå.
– Eles não podem perder tempo…
O camião abranda, passa um semáforo torcido, depois uma
rotunda, com as rodas do atrelado a ribombar nas lombas, e em
seguida acelera, deixa para trás um edifício de tijolo pintado de
branco, passa o rio e retoma a estrada.
A central de ligação reencaminha o motorista dinamarquês para a
Polícia, e ele entra em contacto com uma agente num carro-
patrulha. A agente identifica-se como Mirja Zlatnek e diz que se
encontra a trinta quilómetros, na estrada 330, em Djupängen.
Pia Abrahamsson agarra no telemóvel e engole com força para
contrariar a náusea. Ouve-se a si própria a falar numa voz
controlada, se bem que trémula.
– Oiça, o meu filho foi raptado, e o carro vai na… espere…
Vira-se para o motorista.
– Onde estamos? Em que estrada?
– Na 86 – responde o motorista.
– Que avanço é que eles têm? – pergunta a agente.
– Não sei – diz Pia. – Talvez cinco minutos.
– Já passaram Indal?
– Indal? – pergunta Pia ao motorista.
– Estamos mais ou menos a vinte quilómetros – informa o
motorista falando mais alto.
– Então apanhamo-los – diz a agente. – Vamos apanhá-los…
Quando Pia Abrahamsson ouve estas palavras, as lágrimas
começam a correr-lhe pelo rosto. Passa as mãos rapidamente pelas
faces e ouve a agente da Polícia a falar com um colega. Têm de
montar barreiras na estrada 330 e na ponte sobre o rio. O colega
encontra-se em Nordansjö e garante que estará no local em menos
de cinco minutos.
– É suficiente – apressa-se a responder a agente.
O camião avança na estrada que acompanha o curso sinuoso do
rio quando atravessa a zona pouco povoada de Medelpads.
Procuram o carro de Pia, com o filho de quatro anos lá dentro, sem
o verem, mas sabendo que ele segue algures na frente deles. Não
há alternativa. A estrada 86 atravessa pequenas povoações
esparsas, mas não há saídas, só caminhos florestais sem ligação a
estradas, que cortam a floresta a direito, num percurso de alguns
quilómetros, em terreno pantanoso, e acabam nas explorações
madeireiras.
– Não aguento isto – murmura Pia.
Uns dez quilómetros mais à frente, a estrada onde seguem faz
uma bifurcação. A seguir à pequena povoação de Indal, divide-se:
para um lado, uma via que vai ter à ponte sobre o rio e depois segue
para sul, e para o outro, uma segunda via, que acompanha o curso
do rio até à costa.
Pia fecha as mãos com força e reza. Mais à frente, dois carros-
patrulha bloqueiam as duas estradas da bifurcação. Um dos carros
está junto ao pilar da ponte, do lado de lá do rio, e o outro está oito
quilómetros para leste.
O camião com o motorista dinamarquês e a pastora Pia
Abrahamsson está a passar por Indal. Através da chuva cerrada,
eles veem a ponte deserta que cruza a corrente impetuosa e a luz
azul de um carro da Polícia, girando junto ao pilar da ponte, do lado
de lá.
25

A jovem agente Mirja Zlatnek atravessou o carro na estrada, em


diagonal, e puxou o travão de mão. Para o poder contornar,
qualquer veículo tem de passar pela berma e meter duas rodas na
valeta, que é bastante profunda.
Diante dela estende-se uma comprida reta. A luz azul do carro-
patrulha projeta-se no asfalto molhado, na casca escura das árvores
e infiltra-se entre os troncos.
A chuva bate ruidosamente no tejadilho do carro.
Mirja deixa-se ficar imóvel durante um momento, olhando pelo
para-brisas e tentando refletir sobre a situação.
A visibilidade é má, por causa da chuva forte.
Estava a contar com um dia muito calmo, porque quase todos os
colegas da região estão ocupados com a rapariga que morreu no
Centro Birgitta. Até a Polícia Criminal foi envolvida na investigação.
Mirja desenvolveu secretamente um medo do lado operacional da
sua profissão, mesmo sem nunca ter tido qualquer experiência
traumatizante. Talvez tenha a ver com aquele episódio em que
tentou servir de mediadora num drama familiar, que depois acabou
mal. Mas isso passou-se há muitos anos.
A ansiedade instalou-se paulatinamente. Mirja prefere as tarefas
administrativas e o trabalho de prevenção da criminalidade.
Durante a manhã esteve sentada à secretária, a ler receitas, na
rede de culinária a que aderiu. Lombo de alce embrulhado em
massa, batatas assadas, molho de natas com cogumelos e um puré
de tupinambo, bem espesso.
Tinha-se metido no carro e ido a Djupängen para ver um atrelado
roubado quando chegou o alerta da criança desaparecida.
Mirja diz a si própria que vai ser capaz de resolver a situação do
menino de quatro anos que foi raptado. O carro não tem para onde
ir.
Este lanço de estrada é como um túnel muito comprido, como
uma rede sem possibilidade de fuga.
O camião segue o mesmo caminho.
O carro com a criança pode atravessar a ponte à saída de Indal, e
essa estrada está bloqueada pelo seu colega Lasse Bengtsson.
Ou então tem de vir para aqui. «E aqui, estou eu à espera dele»,
pensa Mirja.
O camião segue cerca de dez quilómetros atrás do carro.
Depende, naturalmente, da velocidade do carro, mas dentro de
vinte minutos, no máximo, haverá uma confrontação.
Mirja diz a si própria que a criança não deve ter sido raptada no
sentido preciso do termo. Provavelmente trata-se de um conflito
sobre a custódia. A mulher com quem falou estava demasiado
perturbada para poder dar informações coerentes, mas o que se
depreende do que ela disse é que o carro deve encontrar-se em
algum ponto do percurso entre Nilsböle e este local.
«Em breve isto estará terminado», pensa ela.
Daqui a pouco tempo poderá voltar para o seu gabinete na
esquadra, beber um café e comer um pão com fiambre.
Mas ao mesmo tempo há qualquer coisa que a inquieta. A mulher
falou numa rapariga com braços que pareciam ramos.
Mirja não perguntou o nome dela. Não houve tempo. Partiu do
princípio de que a central de emergência tinha tomado nota dos
dados pessoais.
A angústia da mulher era assustadora. Tinha a respiração
ofegante e descreveu o acontecimento como uma coisa
incompreensível, sem uma explicação lógica.
A chuva desliza sobre o para-brisas e o tejadilho do carro. Mirja
pousa a mão na unidade de comunicação de rádio, espera ainda um
momento e depois chama Lasse Bengtsson.
– Aconteceu alguma coisa? – pergunta-lhe.
– Chove a potes, mas para além disso, está tudo calmo, não há
um carro, nem uma porcaria de um… Espera, estou a ver um
camião. Um camião enorme, porra, na 330.
– É o que telefonou.
– Mas onde é que se meteu o Toyota? – diz Lasse. – Estou aqui
há um quarto de hora. Deve chegar aí onde tu estás dentro de cinco
minutos, a menos que algum OVNI o tenha…
– Dá-me um segundo – diz Mirja rapidamente, interrompendo a
comunicação com o colega ao ver surgir ao longe os faróis de um
carro.
26

Mirja Zlatnek sai do carro-patrulha e encolhe-se ligeiramente sob


a chuva forte, franzindo os olhos para conseguir ver o carro que se
aproxima.
Com uma mão sobre a pistola metida no coldre, vai ao encontro
do automóvel, fazendo sinal com a mão esquerda ao condutor para
parar.
A água escorre numa torrente ruidosa, fazendo bolhas, da faixa
de rodagem para a valeta.
O veículo começa a abrandar, e Mirja vê a sua própria sombra
saltar para a estrada envolta no halo azul da luz giratória. Ouve uma
chamada do rádio, mas não volta para o carro. As vozes que
chegam pelo sistema de comunicação parecem enlatadas e há
constantes interferências de ruído, mas a conversação ouve-se
claramente.
– Um banho de sangue – repete um jovem colega que descreve a
descoberta de uma segunda pessoa assassinada em Birgitta, uma
mulher de meia-idade.
O carro aproxima-se, avançando lentamente, encosta à berma e
para. Mirja Zlatnek dirige-se para o veículo, uma pick-up Mazda com
os pneus cheios de lama. A porta do lado do condutor abre-se e um
homem alto, com um casaco verde de caçador e camisola Helly
Hansen, sai para o asfalto. Tem cabelo comprido, pelos ombros,
bem penteado e um rosto largo, com nariz proeminente e olhos
rasgados.
– Está sozinho? – grita-lhe Mirja, limpando a água que lhe escorre
pela cara.
O homem assente e vira o olhar para a floresta.
– Afaste-se da viatura – diz-lhe Mirja, aproximando-se.
Ele dá um ínfimo passo atrás.
Mirja inclina-se para espreitar para dentro da pick-up. O cabelo
está encharcado e a água começa a escorrer-lhe pela nuca e as
costas.
É difícil ver alguma coisa, com a chuva e a sujidade dos vidros.
No assento do condutor está um jornal aberto. O homem vinha
sentado em cima do jornal. Mirja dá a volta, chega-se mais perto e
procura ver o que há no estreito banco de trás. Vê um cobertor
velho e uma garrafa-termo.
Do rádio do carro-patrulha ouve-se uma nova chamada, mas ela
já não distingue as palavras.
O casaco do homem está negro nos ombros, ensopado de água.
Dentro do carro ouve-se um ruído áspero, um raspar metálico.
Quando Mirja olha novamente para o homem, ele está um pouco
mais perto. Só um pouco, vinte ou trinta centímetros. Ou então é ela
que está a imaginar. Já não tem a certeza. Ele observa-a, percorre-
lhe o corpo com o olhar e enruga a testa carnuda.
– Vive aqui? – pergunta ela.
Mirja raspa a lama da placa de matrícula com o pé, toma nota do
número e contorna a pick-up.
– Não… – responde o homem, sem pressa.
No chão, diante do assento do passageiro, está um saco de
desporto cor-de-rosa. Mirja contorna o veículo sem perder o homem
de vista. Na caixa da pick-up há qualquer coisa coberta com um
oleado verde, preso com umas correias robustas.
– Para onde vai? – pergunta ela.
O homem não se move e segue-a com o olhar. De repente Mirja
vê sangue a escorrer por baixo do oleado, por entre a sujidade e a
caruma que enche os sulcos da caixa.
– O que é que tem aqui? – pergunta ela.
Ele não responde, e Mirja estica-se para soltar uma das correias.
Não é fácil chegar lá, tem de se comprimir com força contra a pick-
up. O homem dá um pequeno passo para o lado. Mirja toca o oleado
com as pontas dos dedos, mas não desvia o olhar dele. Quando ela
levanta a ponta do oleado, ele passa a língua pelos lábios. Mirja tira
a pistola do coldre, lança um olhar rápido ao oleado e consegue ver
a pata delgada de uma corça jovem, uma cria.
O homem mantém-se imóvel, iluminado pela luz azul, mas Mirja
não larga a pistola quando se afasta dois passos da pick-up.
– Onde é que matou a corça?
– Estava caída na estrada – explica ele.
– Marcou o sítio?
O homem cospe no chão, entre os pés.
– Mostre-me a sua carta de condução.
Ele não responde nem faz menção de lhe obedecer.
– Carta de condução – repete ela.
– A conversa acabou – diz ele, aproximando-se do carro.
– É obrigatório por lei comunicar os acidentes com animais…
O homem senta-se ao volante, fecha a porta, liga o motor e
arranca. A pick-up contorna o carro-patrulha metendo duas rodas na
valeta. Quando sobe novamente para a faixa e desaparece na
estrada, Mirja pensa que devia ter inspecionado melhor o carro,
retirado o oleado e revistado o banco de trás, por baixo do cobertor.
A chuva faz restolhar as folhas das árvores, e ao longe ouve-se o
grasnar de uma gralha.
Mirja sente um arrepio quando ouve o barulho pesado de um
motor atrás de si. Vira-se rapidamente e ergue a pistola, mas não há
nada além da chuva.
27

O motorista dinamarquês Mads Jensen ouve uma descompustura


do chefe pelo telemóvel. Fica muito corado e tenta explicar a
situação. Pia Abrahamsson ouve a voz irritada do chefe do serviço
de transporte aos berros do outro lado da linha, a falar em
coordenadas e na logística que está toda lixada.
– Mas… – tenta interromper Mads Jensen. – Mas uma pessoa
tem de ajudar os outr…
– Vai-te ser deduzido no salário – interrompe o chefe. – É a ajuda
que vais ter de mim.
– Obrigado – diz Mads, e desliga o telemóvel.
Pia fica em silêncio ao lado do motorista, enquanto o arvoredo
cerrado passa dos dois lados do camião. Dentro da cabina ouve-se
o ruído forte e persistente da chuva torrencial. No espelho duplo
lateral, Pia vê o movimento oscilante do atrelado e as árvores que
acabam de passar.
Mads tira uma pastilha elástica de nicotina e mantém o olhar fixo
na estrada. Ouve-se o ronco do motor e o ruído dos pneus pisando
o asfalto.
Pia olha para o calendário pendurado, balançando com os
movimentos do camião. Uma mulher curvilínea abraçada a um cisne
insuflável numa piscina. No fundo da folha está escrito «agosto de
1968».
A estrada começa a descer, e o peso da carga de barras de ferro
imprime velocidade à composição.
Ao longe, no espaço entre as árvores, vê-se uma luz azul forte a
piscar na chuva cinzenta. Um carro da Polícia bloqueia a estrada.
Pia Abrahamsson sente o coração bater mais depressa. Não
desvia o olhar do carro-patrulha e da mulher de camisola azul-
escura que acena com o braço. Antes ainda de o camião parar por
completo, Pia abre a porta. O ruído do motor torna-se opressivo, e
os pneus rangem sobre o asfalto.
Pia sente-se tonta quando desce e se dirige rapidamente à agente
da Polícia.
– Onde está o carro? – pergunta a agente.
– Como? O que está a dizer?
Pia observa atentamente a outra mulher, procurando interpretar a
expressão do rosto molhado, mas fica mais ansiosa perante o olhar
grave da agente. Sente as pernas dobrarem-se debaixo de si.
– Viram o carro? Passaram por ele?
– Se passámos? – pergunta Pia com voz fraca.
Mads Jensen chega junto delas.
– Não vimos nada – diz ele. – Devem ter bloqueado a estrada
tarde de mais.
– Tarde de mais? Mas eu até vim por esta estrada, foi por aqui
que eu vim…
– Merda, então onde está o carro? – pergunta Mads.
Mirja Zlatnek corre para o carro-patrulha e contacta o colega.
– Lasse? – chama ela, arquejante.
– Estive a chamar-te – diz ele. – Tu não respondes…
– Pois não, estava…
– Correu tudo bem?
– Onde é que está o carro? – Pia quase grita. – O camião já
chegou aqui, mas o carro desapareceu.
– Não há mais nenhuma estrada – diz ele.
– Temos de emitir um alerta geral e bloquear a 86 no outro
sentido.
– Vou já fazer isso – diz o colega, desligando em seguida.
Pia Abrahamsson está junto do carro-patrulha. A água já lhe
encharcou a roupa. A agente Mirja Zlatnek sentou-se no lugar do
condutor, com a porta aberta.
– Disse-me que o iam apanhar – diz-lhe Pia.
– Sim, eu…
– Foi o que me disse, e eu acreditei em si!
– Eu sei, eu também não percebo isto – diz Mirja. – Não pode ser,
não é possível conduzir a duzentos quilómetros por hora nesta
estrada, é impossível que ele tenha conseguido atravessar a ponte
antes de o Lasse lá chegar.
– Mas nalgum lado há de estar – diz Pia com dureza, arrancando
o colarinho da camisa.
– Espere – diz Mirja Zlatnek subitamente.
Mirja liga para a central.
– Aqui viatura 321 – identifica-se rapidamente. – Precisamos de
mais um bloqueio, já, imediatamente… Antes de Aspen… Há aí um
caminho, e se eles o conhecerem, podem ir por aí de Kävsta até
Myckelsjö… Sim, exatamente… Quem? Ótimo, ele põe-se lá em oito
ou dez minutos…
Mirja sai do carro e perscruta a linha reta da estrada como se
ainda esperasse ver surgir o Toyota.
– O meu filho… desapareceu? – pergunta-lhe Pia.
– Eles não podem ir para lado nenhum – responde Mirja, num
esforço por se mostrar paciente. – Compreendo que esteja
preocupada, mas nós vamos apanhá-los. Devem ter-se desviado
num sítio qualquer, mas não podem ir para lado nenhum…
Mirja interrompe-se, passa a mão pela testa para limpar a água,
respira fundo e continua:
– Estamos a fechar os últimos caminhos e vamos usar um
helicóptero do serviço de busca e salvamento…
Pia desaperta o botão de cima da camisa e apoia-se com uma
mão no capô do carro da Polícia. Respira com dificuldade, tentando
acalmar-se, mas tem a sensação de que o coração lhe vai saltar do
peito a qualquer momento. Sabe que devia fazer exigências, mas
não consegue pensar com clareza, só consegue sentir confusão e
um medo desesperado.
28

Apesar de a chuva continuar a cair torrencialmente, pelas copas


das árvores só passam pingos dispersos que caem no chão.
A viatura de comando, um grande furgão branco, está parada, sob
uma chuva intensa, no terreiro de cascalho entre os edifícios do
Centro Birgitta. Dentro do veículo há uma central de comunicações
e, em volta de uma mesa com mapas e computadores, está sentado
um grupo de homens e mulheres.
As conversas sobre a investigação criminal em curso
interrompem-se quando surge a comunicação sobre um rapazinho
raptado. Foram montadas barreiras na estrada 330 e na ponte sobre
o Indal, em Kävsta, e mais a norte, na estrada 86. A princípio, os
colegas estão seguros de poderem deter o carro, mas depois faz-se
silêncio. Durante dez minutos não há qualquer comunicação, até
que o rádio começa novamente a crepitar e uma colega com voz
ofegante informa:
– Desapareceu, o carro desapareceu… Devia estar aqui, mas não
aparece… Fechámos a porcaria das estradas todas que há, mas ele
desapareceu, simplesmente… Não sei o que hei de fazer. A mãe da
criança está dentro do meu carro, vou tentar falar com ela…
Os polícias ouviram a comunicação em silêncio. Estão agora
debruçados sobre o mapa em cima da mesa, e Bosse Norling segue
com o dedo o percurso da estrada 86.
– Se bloquearam a estrada aqui e aqui… o carro não pode
desaparecer – diz ele. – É claro que podem tê-lo metido numa
garagem em Bäck, ou em Bjällsta… Ou pode ter metido por um
caminho florestal, mas é muito estranho.
– E não podem sair para lado nenhum – diz Sonja Rask.
– Sou só eu que estou a pensar que pode ter sido a Vicky Bennet
que levou o carro? – pergunta Bosse cautelosamente.
O matraquear da chuva no tejadilho do carro abrandou, mas a
água continua a escorrer pelas janelas.
Sonja senta-se ao computador e começa a controlar o registo de
ilícitos, o registo de suspeitos e os litígios relativos a processos de
custódia.
– Em nove de cada dez casos – diz Gunnarsson, inclinando-se
para trás na cadeira enquanto descasca uma banana –, este tipo de
chatices resolve-se por si… Cá para mim, ela ia com o marido no
carro, discutiram, ele acabou por se chatear, largou-a à beira da
estrada e pisgou-se.
– Ela não é casada – diz Sonja.
– De acordo com as estatísticas – continua Gunnarsson no
mesmo tom doutoral –, a maioria das crianças na Suécia nasce fora
do casamento, e…
– Aqui está – interrompe Sonja. – Pia Abrahamsson requereu a
custódia não partilhada do filho Dante, e o pai tentou recorrer…
– Nesse caso, largamos a ligação à Vicky Bennet? – pergunta
Bosse.
– Tentem localizar o pai, primeiro – diz Joona.
– Eu trato disso – diz Sonja, dirigindo-se para o fundo do carro.
– Como estava a área por baixo da janela da Vicky Bennet? –
pergunta Joona.
– No chão não havia nada, mas encontrámos marcas e restos de
coágulos na estrutura metálica da janela e na parede exterior – diz
um dos técnicos.
– E na orla da floresta?
– Não chegámos aí antes de começar a chover.
– Mas provavelmente ela fugiu logo para a floresta – diz Joona
pensativamente.
Joona observa Bosse Norling, que está debruçado sobre o mapa.
Com um compasso, à maneira antiga, espeta a agulha em Birgitta e
desenha um círculo.
– Não foi ela que levou o carro – diz Gunnarsson. – Não são
precisas três horas para atravessar a floresta até à estrada 86 e
seguir até…
– Mas não é assim tão fácil orientar-se de noite… Ela pode muito
bem ter feito este percurso – diz Bosse Norling.
Bosse aponta no mapa um arco a leste de uma zona pantanosa e
em seguida uma linha reta para norte.
– Se fosse assim, o tempo batia certo – diz Joona.
– O pai do Dante está neste momento em Tenerife – exclamava
Sonja lá do fundo.
Olle Gunnarsson pragueja baixinho, aproxima-se do rádio e
chama a agente Mirja Zlatnek.
– Fala Gunnarsson – diz ele. – Registou o depoimento da mãe?
– Sim, eu…
– Temos alguma descrição do suspeito?
– Não foi fácil, a mãe está transtornada e não dá uma descrição
coerente – responde Mirja, que depois respira fundo pelo nariz. –
Está extremamente agitada e fala de um esqueleto com fios a sair
das mãos, que saiu da floresta. Uma rapariga com sangue na cara,
e os braços eram ramos…
– Mas fala numa rapariga?
– Eu gravei o depoimento, mas ela diz coisas muito estranhas.
Tem de se acalmar antes de conseguirmos interrogá-la como deve
ser…
– Mas ela fala sempre numa rapariga? – pergunta Gunnarsson
lentamente.
– Sim… Disse isso várias vezes.
29

Joona para o carro junto à barreira na estrada 330, cumprimenta


um dos polícias que estão no local, identifica-se e depois avança ao
longo do rio Indalsälven.
Informaram-no de que as alunas do Centro Birgitta tinham sido
temporariamente alojadas no Hotel Ibis. O terapeuta Daniel Grim foi
internado na Urgência Psiquiátrica do hospital distrital, a supervisora
Margot Lundin encontra-se na sua casa em Timrå, e Faduumo
Axmed, que trabalha em tempo parcial como terapeuta assistente,
está de folga e em casa dos pais, em Vänersborg.
Quando a agente Mirja Zlatnek relatou que Pia Abrahamsson
tinha repetido que vira uma rapariga magra com ligaduras nas
mãos, eles compreenderam que tinha sido Vicky Bennet a levar o
carro com a criança lá dentro.
– O que é um mistério é que ela se tenha conseguido esconder
antes de chegar a uma das barreiras na estrada – disse Bosse
Norling.
Foi utilizado um helicóptero, mas o carro não foi avistado, nem na
pequena povoação nem ao longo das estradas e caminhos
florestais.
«Na verdade, não há mistério nenhum», pensa Joona. «A
explicação mais provável é simplesmente ela ter conseguido
esconder-se antes de chegar a uma barreira.»
Mas onde?
«Ela deve conhecer alguém que vive em Indal, alguém que tenha
uma garagem.»
Joona disse que queria falar com as alunas, na presença de um
pedopsicólogo e de um elemento do Serviço de Apoio à Vítima, e
procura agora recordar o primeiro encontro, no anexo, quando
Gunnarsson entrou com as duas raparigas que tinham fugido para a
floresta. A ruiva franzina estava a ver televisão e a bater com a
cabeça na parede. Aquela a quem chamavam Indie associara o
gesto de tapar a cara com as mãos a Vicky e, quando perceberam
que Vicky não estava lá, começaram todas a gritar e a falar ao
mesmo tempo. Uma das alunas pensava que ela estava a dormir,
sob o efeito de uma dose excessiva de Stesolid. Almira cuspiu para
o chão e Indie pôs-se a esfregar os olhos e ficou com as mãos
cheias de sombra azul.
Joona recorda-se vagamente de alguma coisa relacionada com
Tuula, a miúda ruiva, com pestanas quase brancas e calças de fato
de treino cor-de-rosa. Primeiro tinha começado aos gritos, a mandar
calar as outras, mas no meio da gritaria ela também tinha dito
qualquer coisa.
Tuula disse que Vicky se tinha pisgado para ir ter com o
«amiguinho das quecas».
30

O Hotel Ibis em Sundsvall, de duas estrelas, fica na


Trädgårdsgatan, relativamente perto da esquadra de Polícia. O Ibis
é um hotel que cheira a aspirador, tapetes e fumo de cigarro. A
fachada é uma chapa de cor creme. No balcão da receção há uma
taça com rebuçados. A Polícia instalou as alunas do Centro Birgitta
em cinco quartos contíguos e colocou dois agentes no corredor.
Joona percorre em grandes passadas o chão muito gasto.
A psicóloga Lisa Jern aguarda-o junto de uma das portas. O
cabelo escuro começa a ficar grisalho, e a boca é pequena e
nervosa.
– A Tuula já cá está? – pergunta Joona.
– Está… Mas espere – diz a psicóloga quando ele põe a mão no
puxador da porta. – Segundo percebi, você está aqui como
observador da Polícia Criminal e…
– Está em risco a vida de uma criança – diz Joona.
– A Tuula quase não fala e… Lamento dizer-lhe, mas na
qualidade de pedopsicóloga, tenho de recomendar que se espere
que ela própria tome a iniciativa de falar no que aconteceu.
– Não há tempo para isso – responde Joona, agarrando
novamente o fecho da porta.
– Espere… É muito importante estar ao mesmo nível da criança,
elas não podem sentir-se classificadas como doentes ou como…
Joona abre a porta e entra no quarto. Tuula Lehti está sentada
numa cadeira, de costas voltadas para as janelas. Uma rapariguinha
de doze anos, em fato de treino e ténis.
Por entre as ripas de madeira das persianas distingue-se a rua,
com carros estacionados. A mesa tem o tampo de faia e no chão há
uma alcatifa verde.
Na outra ponta do quarto está sentado um homem, de cabelo
muito penteado e camisa de flanela aos quadrados azuis, a olhar
para o telemóvel. Joona deduz que seja o assistente enviado pelo
Apoio à Vítima.
O comissário senta-se diante de Tuula e olha-a de frente. As
sobrancelhas são claras, e o cabelo ruivo, liso e escorrido.
– Já nos vimos esta manhã – diz ele.
A rapariga cruza os braços sardentos sobre a barriga. Os lábios
dela são finos e quase sem cor.
– Morte à bófia – resmunga baixinho.
Lisa Jern contorna a mesa e senta-se ao lado da rapariga, que se
encolhe.
– Tuula – diz ela numa voz suave –, lembras-te de eu te ter dito
que às vezes me sentia igual ao Pequeno Polegar? Não tem nada
de especial, porque mesmo um adulto às vezes pode sentir-se tão
pequeno como o Polegarzinho.
– Porque é que as pessoas dizem essas coisas ridículas? –
pergunta Tuula, olhando Joona nos olhos. – É porque são idiotas,
ou porque estão convencidos de que eu sou idiota?
– Por acaso, pensamos que és um bocadinho idiota – responde
Joona.
Tuula sorri, surpreendida, e, quando vai responder, Lisa Jern
começa a dizer-lhe que não é verdade, que o comissário estava a
brincar.
Tuula aperta mais os braços à volta do corpo, olha para a mesa e
enche as bochechas de ar.
– Não és absolutamente nada idiota – repete Lisa Jern, passado
um momento.
– Sou, sou – sussurra Tuula.
Cospe um fio de saliva viscosa para cima da mesa e depois fica
em silêncio a mexer-lhe com o dedo, desenhando uma estrela.
– Não queres falar? – pergunta Lisa em voz baixa.
– Só com o finlandês – responde Tuula, quase inaudivelmente.
– Que é que disseste? – pergunta Lisa, sorrindo.
– Só falo com o finlandês – diz Tuula, levantando o queixo.
– Que bonito – responde a psicóloga, rispidamente.
Joona liga o gravador e começa a debitar calmamente as
formalidades, a hora e o local, as pessoas presentes e o objetivo da
conversa.
– Como foste para Birgitta, Tuula? – pergunta.
– Estava em Lövsta… Tinham-se passado umas coisas que talvez
não fossem muito boas – começa ela a contar, baixando os olhos. –
Fui posta com as reclusas, embora na verdade ainda não tivesse
idade… Não fiz ondas, só via televisão, e ao fim de um ano e quatro
meses, fui transferida para Birgitta.
– Qual é a diferença, comparando com Lövsta?
– A diferença… Birgitta é como uma casa para viver, dá a
sensação… Há tapetes no chão e os móveis, sei lá, não estão
aparafusados à parede… E não está tudo fechado à chave e cheio
de alarmes por todo o lado… E uma pessoa dorme sossegada, e a
comida é caseira.
Joona assente e vê pelo canto do olho que o assistente do Apoio
à Vítima continua agarrado ao telemóvel. A psicóloga Lisa Jern
respira audivelmente pelo nariz enquanto os ouve conversar.
– O que é que comeram ontem?
– Tacos – responde Tuula.
– Estavam lá todas à hora do jantar?
Ela encolhe os ombros.
– Acho que sim.
– A Miranda também? Também comeu tacos ontem ao jantar?
– Só têm de lhe abrir a barriga e ver. Não fizeram isso?
– Não, não fizemos.
– Porquê?
– Ainda não tivemos tempo.
Tuula esboça um sorriso e começa a puxar um fio solto nas
calças. Tem as unhas roídas e as peles arrancadas.
– Eu fui espreitar ao quarto de isolamento… Bastante violento –
diz Tuula, e começa a baloiçar o tronco.
– Viste a posição da Miranda? – pergunta Joona ao fim de um
momento.
– Vi, era assim – diz Tuula muito depressa, pondo as mãos em
cima da cara.
– Porque é que ela estaria assim?
Tuula levanta a alcatifa com a ponta do pé e depois pisa-a.
– Talvez tivesse medo.
– Viste mais alguém fazer isso? – pergunta Joona em tom ligeiro.
– Não – responde Tuula, coçando o pescoço.
– Vocês não ficam fechadas à chave nos quartos, pois não?
– Não, é quase regime aberto – responde Tuula, sorrindo.
– Costumam sair durante a noite?
– Eu não.
A boca de Tuula faz-se pequena e dura e, com o indicador
espetado, ela imita o gesto de dar um tiro na psicóloga.
– Porquê? – pergunta Joona.
– Tenho medo do escuro.
– E as outras?
Joona vê Lisa Jern levantar-se e escutá-los com uma ruga de
irritação entre as sobrancelhas.
– Sim – murmura Tuula.
– O que é que elas fazem quando saem de noite?
Tuula baixa os olhos e sorri para si própria.
– São mais velhas do que tu – continua Joona.
– Pois é – responde ela, o rubor subindo-lhe às faces.
– Vão encontrar-se com rapazes?
Ela diz que sim com a cabeça.
– A Vicky também?
– Sim, sai durante a noite – diz Tuula, e inclina-se na direção de
Joona.
– Sabes com quem ela se vai encontrar?
– Com o Dennis.
– Quem é esse?
– Não sei – responde ela em voz muito baixa, e passa a língua
pelos lábios.
– Mas chama-se Dennis. Sabes o apelido?
– Não.
– Quanto tempo é que ela se demora?
Tuula encolhe os ombros e puxa um pedaço de fita-cola preso por
baixo da almofada da cadeira.
31

A procuradora do Ministério Público, Susanne Öst, espera Joona


à porta do Hotel Ibis, junto a um grande Ford Fairlane. Tem um rosto
redondo e sem maquilhagem, o cabelo apanhado num rabo de
cavalo e veste calças pretas e um blazer cinzento. Esteve a coçar o
pescoço com força, e uma ponta do colarinho da camisa está virada
para cima.
– Tem alguma objeção a que eu brinque aos polícias durante um
bocado? – pergunta ela, corando.
– Pelo contrário – diz Joona, apertando-lhe a mão.
– Andamos a bater às portas e a inspecionar garagens, celeiros,
estacionamentos, etc. – diz ela, em tom sério. – Estamos a apertar a
rede, e não há assim tantos sítios onde se possa esconder um
automóvel…
– Pois não.
– Mas é claro que agora que temos um nome, as coisas andam
mais depressa. – Susanne sorri e abre a porta do enorme Ford. –
Há quatro pessoas que se chamam Dennis nesta zona.
– Eu sigo-a – diz Joona, entrando no seu Volvo.
O carro da procuradora balança na curva para entrar na estrada
de Indal. Joona segue-o e começa a pensar em Vicky.
A mãe, Susie Bennet, era toxicodependente e viveu na rua até
morrer, no inverno passado. Vicky viveu com várias famílias de
acolhimento e em instituições desde os seis anos de idade e deve
ter aprendido rapidamente a criar e perder novas relações.
Se Vicky costuma sair de noite para se encontrar com alguém,
essa pessoa não pode estar muito longe. Talvez ele espere por ela
na floresta ou no caminho de cascalho, ou talvez ela vá a casa dele,
em Baggböle ou Västloning, seguindo a estrada 86.
O asfalto está a secar, a água da chuva acumula-se nas valetas e
forma poças no chão. O céu clareou, mas na floresta as árvores
continuam a pingar.
A procuradora telefona a Joona, e o comissário vê-a olhar para
ele pelo retrovisor enquanto fala.
– Encontrámos um Dennis em Indal – informa. – Tem sete anos. E
há um outro Dennis em Stige, mas neste momento está a trabalhar
em Leeds…
– Sobram dois – constata Joona.
– Sim. Há um Dennis Karmstedt que vive numa casa nos
arredores de Tomming com a mulher, Lovisa. Ainda não fomos lá. E
há um Dennis Rolando que vive com os pais perto de Indal, para
sul. Fomos a casa dos pais e não vimos nada. Mas ele é proprietário
de um grande edifício industrial em Kvarnåvägen, onde não
conseguimos entrar… Não deve haver nada de especial por aí,
porque falaram com ele e ele ia no carro a caminho de Sollefteå.
– Arrombem a porta.
– Está bem – diz ela, e desliga.
A paisagem alarga-se e começam a aparecer terrenos cultivados
de ambos os lados da estrada. Tudo brilha. Encostadas ao
arvoredo, veem-se casas de quinta, pintadas de vermelho-sangue, e
por trás das casas a floresta estende-se a perder de vista.
Ao mesmo tempo que Joona atravessa a pequena e tranquila
povoação de Östanskär, dois polícias serram os poderosos gonzos
da porta de aço do edifício industrial com uma rebarbadora,
projetando na parede uma cascata de fagulhas. Em seguida, com a
ajuda de pés de cabra robustos, forçam a porta no lado dos gonzos
e entram. A luz das lanternas de bolso penetra entre vultos
obscuros. Sob coberturas de plástico poeirentas, escondem-se
umas cinquenta máquinas de jogos, máquinas automáticas com
nomes como Space Invaders, Asteroids e Street Fighters.
Joona vê Susanne Öst falar ao telemóvel e depois lançar-lhe um
olhar pelo retrovisor. O telemóvel dele toca. Rapidamente, Susanne
diz-lhe que só falta uma morada, que não fica longe. Deverão
chegar ao local dentro de dez minutos.
Susanne Öst abranda e Joona imita-a. Viram à direita e tomam
um caminho que atravessa uma pastagem inundada e penetra na
floresta. Aproximam-se de uma casa de madeira pintada de
amarelo, com as persianas corridas em todas as janelas. No jardim
bem cuidado, veem-se macieiras e no meio do terreno há uma rede
de baloiço às riscas azuis e brancas.
Param e dirigem-se a um carro-patrulha estacionado.
Joona cumprimenta os colegas e olha para a casa com as
persianas corridas.
– Não sabemos se a Vicky levou o carro para roubar a criança ou
se ela queria apenas um carro e por acaso havia uma criança no
banco de trás – diz ele. – Mas em qualquer caso, neste momento,
temos de considerar a criança como refém.
– Refém – repete a procuradora.
Susanne Öst dirige-se para a porta, toca e anuncia que a Polícia
arrombará a porta se não a abrirem. Ouve-se um movimento no
interior. O chão range e um móvel pesado tomba.
– Vou entrar – diz Joona.
Um dos polícias vigia a porta principal, que dá para o relvado e o
portão fechado da garagem, e o outro acompanha Joona até às
traseiras da casa.
A erva alta molha-lhes os sapatos e a parte de baixo das calças.
Nas traseiras, descendo uns degraus de cimento, chega-se a uma
porta com uma janelinha de vidro fosco. Quando Joona arromba a
porta, com um pontapé, a janela estilhaça-se e o tapete de plástico
azul da lavandaria fica coberto de pedaços de vidro.
32

Os estilhaços de vidro rangem sob os sapatos de Joona quando


ele entra na lavandaria, muito asseada, com uma calandra manual
para alisar roupa.
«A Miranda estava sentada numa cadeira quando foi
assassinada», pensa Joona. «A Elisabet fugiu, sem sapatos, para o
jardim e foi perseguida até à destilaria. Tentou desviar-se dos
golpes, mas o assassino atacou-a de frente e matou-a.»
Joona sente o peso da pistola nova que traz no coldre por baixo
do braço direito. É uma Smith & Wesson semiautomática, de calibre
.45ACP. Pesa um pouco mais do que a anterior e leva menos
munições, mas é mais rápida no primeiro disparo.
Cautelosamente, Joona abre uma porta que range e entra numa
cozinha rústica. Sobre a mesa redonda há uma grande taça de
faiança com maçãs. De um belíssimo fogão a lenha antigo sai o
cheiro de lenha queimada. Numa travessa estão bolos de canela a
descongelar, e a gaveta das facas está aberta.
Através das persianas, adivinha-se a vegetação húmida no jardim.
Joona passa ao vestíbulo da casa e ouve o candeeiro do teto
tilintar, os prismas de cristal a bater. Alguém está a andar no piso de
cima, fazendo abanar o candeeiro.
Silenciosamente, sobe a escada, olhando para baixo, para o
intervalo entre os degraus. Há roupa pendurada no vão.
Joona chega ao último patamar, avança em silêncio quase total
ao longo do corrimão e entra num quarto com uma cama de casal.
As persianas estão fechadas e o candeeiro do teto não acende.
Joona entra e desvia-se para o lado, acautelando possíveis linhas
de fogo.
Sobre a colcha de patchwork em cores garridas, está a mira
telescópica de uma arma de caça.
Ouve-se a respiração de uma pessoa, muito próximo. Joona dá
mais um passo e aponta a pistola ao canto do quarto. Atrás do
armário aberto está um homem forte, de cabelo castanho-claro, a
olhar para ele.
O homem está descalço e veste jeans azul-escuros e T-shirt
branca, com uma inscrição do nome da empresa «Stora Enso». Tem
alguma coisa escondida atrás das costas e desloca-se lentamente
para a direita, aproximando-se da cama.
– Pertenço à Polícia Criminal – diz Joona, baixando um pouco a
pistola.
– Isto é a minha casa – responde o homem em voz baixa.
– Devia-nos ter aberto a porta.
O suor escorre pelas faces do homem.
– Partiu-me a porta das traseiras? – pergunta.
– Sim.
– Dá para consertar?
– Duvido – responde Joona.
No espelho fumado da porta do armário, alguma coisa brilha.
Joona vê que o homem esconde uma faca atrás das costas.
– Preciso de ver a sua garagem.
– Está lá o meu carro.
– Ponha a faca em cima da cama e venha mostrar-me a garagem.
O homem passa a faca para a frente e põe-se a olhar para ela. O
cabo de nogueira envernizada está desgastado e a lâmina parece
ter sido afiada muitas vezes.
– Não tenho tempo para esperar – diz Joona.
– Não devia ter partido a minha…
Subitamente, Joona pressente um movimento atrás de si e ouve o
ruído de pés descalços no chão. Só tem tempo de se desviar um
pouco para o lado, sem tirar os olhos da faca. Um vulto lança-se
sobre as suas costas. Joona gira o corpo, levanta o braço e
completa o movimento, concentrando a força e recebendo com o
cotovelo a figura que se lançou contra ele.
Mantendo sempre a pistola apontada ao homem da faca, atinge o
agressor no peito. O rapaz fica sem fôlego, tenta encontrar alguma
coisa em que se apoiar e cai de joelhos.
Inspira, dobra-se sobre si mesmo, enrolando o tapete de trapos, e
fica deitado de lado no chão, a arquejar.
– São do Afeganistão – diz o homem em voz baixa. – Precisam de
ajuda, e eu…
– Se não larga a faca, dou-lhe um tiro na perna – diz Joona.
O homem olha novamente para a faca e depois atira-a para cima
da cama. À entrada do quarto aparecem duas crianças mais
pequenas, que observam Joona com olhos esbugalhados.
– Tem refugiados escondidos em casa? – pergunta Joona. –
Quanto é que lhe pagam?
– Acha que eu ia receber dinheiro? – diz o homem, indignado.
– Recebe?
– Não, não recebo dinheiro.
Joona procura o olhar sombrio do rapaz.
– Do you pay him?1 – pergunta.
O rapaz abana a cabeça.
– Nenhuma pessoa é ilegal – diz o homem.
– You don’t have to be afraid – diz Joona ao rapaz mais velho. – I
promise I will help you if you are abused in any way.2
O rapaz mantém o olhar fixo em Joona algum tempo e depois
abana a cabeça.
– Dennis is a good man3 – diz em voz muito baixa.
– Ainda bem – diz Joona. Olha o homem nos olhos e sai do
quarto.
Depois, desce a escada e dirige-se para a garagem. Observa
durante uns momentos o velho Saab coberto de pó e pensa que
Vicky e Dante desapareceram e que não há mais nenhum sítio onde
os possam procurar.

1 Em inglês no original: «Pagam-lhe?» (N. do E.)


2 Em inglês no original: «Não precisam de ter medo. Prometo ajudá-los se estiverem a ser
vítimas de abuso.» (N. do E.)
3 Em inglês no original: «O Dennis é um bom homem.» (N. do E.)
33

Flora Hansen lava com uma esfregona o chão de linóleo muito


gasto no vestíbulo do apartamento. A face esquerda ainda lhe arde
da bofetada e tem um zunido no ouvido. O pavimento tornou-se
baço com os anos, mas a água fá-lo brilhar por um momento.
O perfume suave do detergente espalha-se nas divisões da casa.
Flora bateu os tapetes e já passou a esfregona na sala de estar,
na cozinha acanhada e no quarto de Hans-Gunnar, mas quer deixar
o quarto de Ewa para depois de começar a série Solsidan na
televisão.
Tanto Ewa como Hans-Gunnar seguem esta série e seriam
incapazes de perder um episódio.
Flora limpa o chão com movimentos vigorosos, e as tiras
cinzentas da esfregona batem com força nos rodapés. Vai andando
para trás e dá um encontrão no velho quadro que ela própria fez há
mais de trinta anos, quando andava no infantário. As crianças
colavam vários tipos de massas alimentares numa prancha de
madeira, que depois era pintada de amarelo com um spray.
A música do genérico da série começa a ouvir-se.
É agora que ela tem a sua oportunidade.
Flora sente uma pontada nas costas quando levanta o pesado
balde para o levar para o quarto de Ewa.
Fecha a porta e pousa o balde de forma a impedir que a porta se
abra totalmente.
O coração bate-lhe mais depressa quando mergulha a esfregona
no balde, espreme o excesso de água e olha para a fotografia de
casamento em cima da mesa de cabeceira.
Ewa tem a chave da escrivaninha escondida nas costas da
fotografia.
Flora faz todo o serviço doméstico em troca de ocupar o quarto da
empregada. Quando terminou o período de subsídio de
desemprego, depois de ter perdido o lugar de auxiliar de
enfermagem no hospital de Sankt Göran, foi obrigada a voltar para
casa de Ewa e Hans-Gunnar.
Em criança, pensava que os pais verdadeiros viriam buscá-la,
mas provavelmente eram toxicodependentes, porque Hans-Gunnar
e Ewa dizem que não sabem nada sobre eles. Flora veio para a
casa deles aos cinco anos e não se recorda de nada antes dessa
idade. Hans-Gunnar sempre se referiu a ela como um fardo e desde
o princípio da adolescência que Flora desejava intensamente sair
dali. Aos dezanove anos conseguiu arranjar emprego como auxiliar
de enfermagem e nesse mesmo mês arrendou um apartamento em
Kallhäll e mudou-se para lá.
A esfregona ainda pinga quando Flora atravessa o quarto para o
lado da janela e começa a limpar. O tapete de plástico por baixo do
aquecedor está negro, das fugas de fluido. As persianas, velhas e
danificadas, pendem em diagonal entre os vidros duplos. No
parapeito da janela, entre duas sardinheiras, há um cavalinho de
madeira pintada no estilo típico de Rättvik.
Flora aproxima-se lentamente da mesa de cabeceira, para e fica à
escuta.
Ouve-se o som da televisão.
Na fotografia do casamento, Ewa e Hans-Gunnar são jovens. Ela
está de vestido branco e ele enverga um fato, com uma gravata
cinzento-prateada. O céu é branco. Numa pequena elevação ao
lado da igreja, há um campanário preto, com cúpula em forma de
bolbo. A torre ergue-se por trás da cabeça de Hans-Gunnar e faz o
efeito de um chapéu esquisito. Flora não sabe bem porquê, mas
sempre achou esta fotografia desagradável.
A chave de latão está pendurada na parte de trás da moldura.
Flora solta-a do pequeno gancho, mas as mãos tremem-lhe tanto
que a deixa cair.
A chave tilinta no chão e desliza para debaixo da cama.
Flora tem de se apoiar quando se baixa para a apanhar.
Ouvem-se passos no corredor e Flora deixa-se ficar agachada, à
espera.
O chão junto à porta range e depois faz-se novo silêncio.
A chave está junto à parede, entre fios elétricos cheios de pó.
Flora estica-se, agarra-a, levanta-se e espera mais um pouco antes
de se encaminhar para a escrivaninha. Abre-a, baixa a pesada
tampa e puxa uma das gavetinhas. Sob os postais ilustrados de
Paris e de Maiorca estão os envelopes onde Ewa guarda o dinheiro
para as despesas fixas. Flora abre o envelope das contas do mês
seguinte e tira metade do dinheiro, mete as notas no bolso, repõe
rapidamente tudo no lugar e tenta fechar a gavetinha, mas alguma
coisa parece estar a encravá-la.
– Flora! – chama Ewa.
Flora puxa novamente a gaveta, não vê nada de diferente e tenta
fechá-la outra vez, mas a mão treme-lhe muito e não consegue.
Ouvem-se passos no corredor.
Flora empurra a gaveta, que está torta, e ao fim de alguma
resistência ela acaba por entrar. Repõe a tampa no lugar, mas não
tem tempo de a fechar à chave.
A porta do quarto de Ewa abre-se e bate no balde, salpicando
água pelo chão.
– Flora?
Flora pega na esfregona, murmura qualquer coisa e desvia o
balde, limpando a água e depois o resto do chão.
– Não encontro o meu creme das mãos – diz Ewa.
O olhar está tenso, e as rugas em torno da boca parecem mais
vincadas. Está descalça no chão acabado de limpar, com umas
calças de fato de treino amarelas largueironas e uma T-shirt branca,
muito justa sobre a barriga e o peito volumoso.
– O creme?… Talvez no armário da casa de banho. Acho que
está ao lado da loção para o cabelo – diz Flora, enxaguando
novamente a esfregona.
Na televisão há agora o intervalo para publicidade; o volume do
som aumentou, e vozes estridentes falam de pé de atleta. Ewa,
junto à porta do quarto, continua a olhar para ela.
– O Hans-Gunnar não gostou do café – diz Ewa.
– É pena.
Flora espreme a esfregona no balde.
– Ele diz que tu deitas café mais barato no pacote.
– Porque é que havia de…
– Não mintas – interrompe Ewa.
– Não estou a mentir – murmura Flora, continuando a limpar o
chão.
– Portanto já sabes, vais buscar a chávena dele, lava-la e fazes
outro café.
Flora acaba de limpar o chão, encosta o cabo da esfregona à
parede, pede desculpa e dirige-se para a salinha da televisão,
sentindo a chave e as notas dentro bolso. Hans-Gunnar nem sequer
olha para ela quando Flora pega na chávena que está junto ao prato
dos biscoitos.
– Ewa, vai começar, porra! – grita ele.
Flora sobressalta-se e apressa-se a sair. No corredor cruza-se
com Ewa e olha-a firmemente.
– Não se esqueceu de que eu tenho de ir a uma formação sobre
procura de emprego hoje ao fim da tarde? – pergunta Flora.
– Há de servir-te de muito.
– Eu sei, mas tenho de ir, é obrigatório… Faço já o café e vou ver
se acabo o chão, para poder tratar das cortinas amanhã.
34

Flora paga ao homem de sobretudo cinzento. O guarda-chuva


dele pinga-lhe na cara. O homem dá-lhe a chave da porta e diz-lhe
que, quando acabar, meta a chave na caixa do correio do antiquário,
como habitualmente.
Flora agradece e afasta-se em passo rápido. Traz vestido um
casaco velho cujas costuras começaram a dar de si. Tem quarenta
anos, mas um rosto de rapariga que irradia solidão.
O primeiro quarteirão da rua, a Upplandsgatan, que começa em
Odenplan, tem muitas lojas de antiguidades e de curiosidades.
Através dos vidros das montras, veem-se brilhantes lustres de cristal
e armários de vitrina, brinquedos antigos de lata pintada, bonecas
de porcelana, medalhas e relógios de pêndulo.
Ao lado da porta de vidro com grades das Antiguidades Carlén, há
uma outra porta, mais estreita, que conduz a um pequeno salão
numa cave. Na vidraça opaca, Flora cola um letreiro de cartão
branco.

SESSÃO ESPÍRITA

Uma escada íngreme dá acesso à cave, onde se ouve roncar a


canalização de cada vez que alguém nos pisos superiores puxa um
autoclismo ou abre uma torneira. Flora já alugou a sala sete vezes
para realizar sessões. Tem tido sempre quatro a seis participantes, o
que chegou apenas para pagar o aluguer do espaço. Contactou
vários jornais, com o intuito de os persuadir a escrever um artigo
sobre as suas capacidades para falar com os mortos, mas nunca
obteve resposta. Para preparar a sessão de hoje, pôs um anúncio
bastante grande na revista esotérica Fenomen.
Flora só dispõe de alguns minutos antes de os participantes
chegarem, mas sabe o que tem a fazer. Rapidamente, desvia os
móveis da sala e coloca doze cadeiras em círculo.
Na mesa ao centro põe as duas figurinhas vestidas à moda do
século XIX, um homem e uma mulher, com cabeças de porcelana.
Flora pretende que os bonecos contribuam para evocar a sensação
de voltar ao passado. Assim que as sessões acabam, costuma
escondê-los no armário de canto, porque na verdade não gosta
deles.
Em volta dos bonecos na mesa, dispõe doze pequenas velas em
círculo. Com um palito, fura a estearina de uma das velas e introduz
uma pequena quantidade de sais de estrôncio, tapando o furo em
seguida.
Vai ao armário, tira um velho despertador e prepara-o para tocar.
Experimentou esta técnica há quatro sessões. Como o martelo da
campainha já desapareceu, o que se ouve quando o relógio toca é
uma espécie de matraquear surdo dentro do armário. Mas antes de
ela ter tempo para dar corda ao mecanismo, a porta da rua abre-se.
Chegaram os primeiros participantes. Lá em cima, sacodem os
guarda-chuvas e em seguida começam a descer a escada.
Flora encontra o seu próprio olhar no espelho quadrado na
parede. Para, inspira profundamente e alisa com a mão o vestido
cinzento, comprado na loja de beneficência que vende roupas
usadas.
Quando, por fim, esboça um sorriso, fica com um ar mais calmo.
Acende as velas e cumprimenta discretamente Dina e Asker
Sibelius, que penduram os casacos e falam entre si em voz baixa.
Os participantes são quase sempre pessoas de idade,
conscientes de que a morte se aproxima. São pessoas que não
conseguem suportar as suas perdas, que não conseguem aceitar a
morte como definitiva.
A porta da rua abre-se novamente e alguém começa a descer os
degraus. É um casal idoso, que Flora não conhece.
– Bem-vindos – diz Flora em voz baixa.
No momento em que se vai virar, para e olha para o homem como
se tivesse visto alguma coisa especial, mas em seguida faz um
pequeno gesto, para sugerir que está a afastar um pensamento, e
pede-lhes apenas que se sentem.
A porta da rua volta a abrir-se e entram mais participantes.
Às sete e dez, Flora resigna-se à ideia de que não virá mais
ninguém. Apesar disso, tem nove pessoas, a maior audiência que
conseguiu até hoje, mas ainda assim insuficiente para que ela possa
repor o dinheiro que tirou a Ewa.
Flora tenta respirar calmamente, mas as pernas tremem-lhe
quando regressa à sala grande, que não tem janelas. Os
participantes já estão sentados em círculo. As conversas terminam e
todos os olhares se voltam para ela.
35

Flora Hansen acende as velas colocadas numa salva e só depois


de se sentar na sua cadeira deixa o olhar percorrer os presentes.
Destes, cinco são pessoas que ela já viu várias vezes, mas os
restantes são novos. Em frente dela está um homem que não terá
mais de trinta anos. Tem um rosto afável e bonito, como o de uma
criança.
– Bem-vindos a… junto de mim – diz ela, engolindo em seco. –
Acho melhor passarmos diretamente…
– Pois é – responde o velho Asker, numa voz trémula e amigável.
– Deem as mãos e fechem o círculo – convida Flora,
calorosamente.
O homem mais jovem olha-a de frente, com uma expressão
sorridente e curiosa. Flora sente no estômago a excitação e a
expectativa.
Reina um silêncio sombrio e poderoso. As dez pessoas que
formam o círculo partilham a sensação de que os mortos se reúnem
atrás das suas costas.
– Não quebrem o círculo – diz ela severamente. – Aconteça o que
que acontecer, não quebrem o círculo, senão os nossos visitantes
podem não conseguir encontrar o caminho para o outro lado.
Os participantes são tão idosos que já perderam mais pessoas do
que as que lhes restam em vida. Para eles, a morte é um lugar
cheio de rostos conhecidos.
– Não podem perguntar em que dia irão morrer – diz ainda Flora.
– Nem podem fazer perguntas sobre o diabo.
– Porquê? – pergunta o jovem, sorrindo.
– Nem todos os espíritos são bons, e o círculo é apenas uma
porta para o lado de lá…
Os olhos escuros do rapaz brilham.
– Demónios? – pergunta ele.
– Não me parece – diz Dina Sibelius, com um sorriso inquieto.
– Eu procuro guardar a porta – diz Flora gravemente. – Mas
eles… sentem o nosso calor, veem a chama das velas.
Faz-se de novo silêncio. Ouve-se o ruído surdo dos canos, um
zumbido estranho, agitado, como o de uma mosca apanhada numa
teia de aranha.
– Estão prontos? – pergunta ela tranquilamente.
Há murmúrios de assentimento dos participantes, e Flora sente
um arrepio de prazer ao perceber a atenção renovada que há agora
na sala. Parece-lhe ouvir os corações a bater, a pulsação a latejar
no círculo.
– Vou entrar em transe.
Flora sustém a respiração e aperta as mãos de Asker Sibelius e
da nova participante. Fecha os olhos com força e espera tanto
tempo quanto aguenta, lutando contra o impulso de respirar até
começar a tremer e só então deixa entrar ar nos pulmões.
– Temos tantos visitantes do outro lado… – diz Flora, ao cabo de
um momento.
Os que já participaram noutras sessões murmuram
indistintamente.
Flora sente o rapaz a observá-la, sente o seu olhar atento e
interessado examinar-lhe a face, o cabelo, o pescoço.
Baixa o rosto e decide começar por Violet, para o rapaz ficar
convencido. Flora conhece a história dela, mas deixou-a esperar.
Violet Larsen é uma pessoa terrivelmente só. Perdeu o seu único
filho há cinquenta anos. Uma noite, o menino adoeceu com uma
meningite contagiosa, e nenhum hospital o queria aceitar, com
receio de contaminação. O marido de Violet passou a noite a
transportar a criança de hospital para hospital. Ao nascer do dia, o
filho morreu-lhe nos braços. O pai ficou destroçado de desgosto e
morreu um ano depois. Uma noite fatal apagou a felicidade de
Violet. Viveu o resto da sua vida – meio século – viúva e sem filhos.
– Violet – murmura Flora.
A mulher vira os olhos húmidos para ela.
– Está aqui uma criança, de mão dada com um homem.
– Como se chamam? – pergunta Violet baixinho.
– Chamam-se… O rapazinho diz que lhe chamavam Jusse.
Violet sobressalta-se.
– O meu Jusse.
– O homem diz que a Violet sabe quem ele é, que a Violet é a flor
dele.
Violet acena com a cabeça e sorri.
– É o meu Albert.
– Têm uma mensagem para si, Violet – continua Flora em tom
grave. – Dizem que a acompanham de dia e de noite e que a Violet
nunca está sozinha.
Uma lágrima grossa corre pela face enrugada de Violet.
– O menino pede-lhe que não esteja triste. Mamã, diz ele, eu
estou bem, o papá está sempre comigo.
– Tenho tantas saudades vossas – soluça Violet.
– Estou a ver o menino. Está muito perto de si, a tocar-lhe na cara
– sussurra Flora.
Violet chora e volta a fazer-se silêncio. Flora aguarda que o calor
da vela incendeie os sais de estrôncio, mas está a demorar.
Murmura para si própria enquanto pensa quem vai escolher a
seguir. Fecha os olhos e põe-se a baloiçar ligeiramente o corpo.
– Estão aqui tantos… – diz. – São tantos… Estão todos na porta
estreita. Sinto a presença deles, e eles querem estar junto de vós,
querem falar-vos…
Quando uma das velas na salva começa a crepitar, ela cala-se.
– Calma, aí à porta – diz Flora em voz baixa.
A vela começa de repente a arder com uma chama vermelha e
alguém dá um grito.
– Não és bem-vindo, não podes entrar – diz Flora num tom
determinado, e fica à espera que a chama vermelha se apague. –
Quero falar com o homem de óculos. Sim, aproxime-se. Como se
chama?
Fica à escuta.
– Quer como de costume. – Flora vira-se para os participantes. –
Ele diz que quer como de costume. Tem de ser como de costume,
salsichas e batatas cozidas e…
– É o meu Stig! – exclama a mulher ao lado de Flora.
– É difícil ouvir o que ele diz – prossegue Flora. – Estão aqui
tantos, e a interrompê-lo…
– Stig – diz a mulher, num sopro.
– Ele pede perdão… Quer que lhe perdoe.
Na mão que segura a da mulher, Flora sente como ela treme.
– Eu perdoei-te – sussurra a mulher.
36

No final da sessão, Flora despede-se rapidamente dos


participantes. Sabe que, no fim, as pessoas querem geralmente ficar
a sós com as suas fantasias e recordações.
Lentamente, percorre a sala apagando as velas e arrumando as
cadeiras. O facto de tudo ter corrido tão bem provoca-lhe uma
sensação de bem-estar físico.
Flora tinha colocado à entrada da sala uma urna onde os
participantes puseram o dinheiro. Contando-o, verifica que não é
suficiente para repor o que tirou do sobrescrito de Ewa. Na próxima
semana fará uma nova sessão espírita, que será a sua última
oportunidade para obter o dinheiro que falta e repô-lo sem ser
desmascarada.
Apesar do anúncio que pôs na Fenomen, vieram poucos
participantes. Começou a não dormir de noite, a ficar de olhos
abertos no escuro, a pensar no que há de fazer. Ewa costuma pagar
as contas no fim do mês. Nessa altura, vai perceber que falta
dinheiro.
Quando Flora sai do edifício, já não chove. O céu está negro. A
iluminação pública e os anúncios luminosos refletem-se no asfalto
molhado. Flora dá a volta à chave e mete-a na caixa de correio das
Antiguidades Carlén.
No momento em que retira o letreiro de papel e o mete na mala,
vê uma pessoa junto da porta ao lado. É o rapaz que esteve na
sessão. Dá um passo na direção dela e faz um sorriso, como a
desculpar-se.
– Viva, estava a pensar… Posso convidá-la para tomar uma
bebida?
– Não é possível – responde ela, num reflexo automático de
timidez.
– Achei-a fantástica, na sessão – diz ele.
Flora não sabe o que responder e sente-se corar intensamente
sob o olhar do rapaz.
– É que vou de viagem, a Paris – mente.
– Não há tempo para eu lhe fazer umas perguntas?
Flora acha que deve ser um jornalista, de um dos jornais que ela
tentou contactar.
– Parto amanhã muito cedo – diz ela.
– Dê-me meia hora, pode ser?
Enquanto atravessam a rua, dirigindo-se para o bar mais próximo,
o rapaz explica-lhe que se chama Julian Borg e escreve para o
jornal Nära.
Minutos depois, Flora está sentada diante dele a uma mesa
coberta com uma toalha de papel branca e bebe pequenos goles
cautelosos de vinho tinto. Os sabores doce e ácido misturam-se na
sua boca, e o calor espalha-se-lhe pelo corpo. Julian Borg come
uma salada César e olha-a com curiosidade.
– Como é que isto começou? – pergunta. – Sempre viu espíritos?
– Quando era pequena, pensava que toda a gente os via. Para
mim, não havia nada de estranho nisso – responde ela, corando
com a facilidade com que lhe surgem as mentiras.
– O que é que via?
– Via pessoas que eu não conhecia a morar na nossa casa…
Pensava que eram pessoas sós… Às vezes aparecia uma criança
no meu quarto, e eu tentava brincar com ela…
– E contou isso aos seus pais?
– Aprendi rapidamente a calar-me – diz Flora, bebendo mais um
gole de vinho. – Na verdade, só agora me apercebi de que há
muitas pessoas que precisam dos espíritos, mesmo que não
possam vê-los… E os espíritos precisam das pessoas. Descobri
finalmente a minha missão… Estou no meio, e ajudo-os a
encontrarem-se.
Flora faz uma pausa e não tira os olhos do rosto de Julian.
O facto é que tudo começou quando ela perdeu o emprego de
auxiliar de enfermagem. Foi deixando de ver os antigos colegas e,
no espaço de um ano, tinha perdido o contacto com todos os
amigos. Quando terminou o subsídio de desemprego, viu-se forçada
a voltar para casa de Ewa e Hans-Gunnar.
Através do Centro de Emprego, frequentou um curso de
«manicura criativa», onde conheceu Jadranka, uma eslovaca.
Jadranka sofria períodos depressivos, mas durante os meses em
que estava bem costumava ganhar algum dinheiro com conversas
telefónicas através de uma página na Internet chamada «Tarot – 24
Horas».
Começaram a dar-se uma com a outra, e Jadranka levou Flora a
uma grande sessão espírita realizada na associação espiritista
Sanningssökarna, os «buscadores da verdade». No final, ficaram a
conversar sobre as possibilidades de melhorarem a vida e, poucos
meses depois, encontraram aquela sala numa cave, na
Upplandsgatan. Ao fim de duas sessões, a depressão da amiga
agravou-se, e ela foi internada numa clínica perto de Estocolmo.
Mas Flora continuou a realizar sessões sozinha.
Requisitou livros na biblioteca sobre cura da alma, vidas
anteriores, anjos, aura e corpos astrais. Leu livros sobre as irmãs
Fox, salas de espelhos e Uri Geller, mas quem mais lhe ensinou foi
o cético James Randi, com os seus esforços para desmascarar
truques e enganos.
Flora nunca viu espíritos nem fantasmas, mas constatou que tinha
jeito para dizer aquilo que as pessoas anseiam ouvir.
– Reparo que fala em espíritos e não em fantasmas – diz Julian,
pousando os talheres no prato.
– É a mesma coisa – diz ela. – Mas os fantasmas têm uma
conotação de terror, negativa.
Julian sorri, e os seus olhos transmitem simpatia e sinceridade
quando fala.
– Tenho de confessar… Tenho muita dificuldade em acreditar em
espíritos, mas…
– É preciso ter uma mente aberta – explica Flora. – O Conan
Doyle, por exemplo, era espírita… Aquele que escreveu os livros do
Sherlock Holmes, conhece?…
– Alguma vez colaborou com a Polícia?
– Não, isso…
Flora sente-se corar violentamente e, não sabendo o que há de
dizer, olha para o relógio.
– Desculpe, sei que tem de se ir embora – diz Julian, pegando-lhe
nas mãos pousadas na mesa. – Só lhe queria dizer que sei que se
esforça por ajudar as pessoas, e acho isso muito bonito.
O contacto físico acelera-lhe o coração. Flora não ousa olhá-lo
nos olhos. Por fim, despedem-se e vai cada um para seu lado.
37

À luz do dia, os edifícios vermelhos do Centro Birgitta têm um


aspeto idílico. Joona está junto de uma enorme bétula branca, a
conversar com a procuradora Susanne Öst. Dos ramos caem gotas
de chuva que cintilam no ar antes de chegarem ao solo.
– A Polícia continua a bater às portas em Indal – informa-o a
procuradora. – Alguém chocou com um semáforo e deixou uma
quantidade de vidros partidos no chão, mas além disso… não há
nada.
– Preciso de falar outra vez com as alunas – diz Joona, pensando
ainda na violência que teve lugar do outro lado das vidraças
embaciadas da quinta.
– Estava convencida de que esta história do Dennis ia dar
qualquer coisa – diz Susanne.
Joona pensa no quarto de isolamento e é invadido por uma
estranha inquietação. Tenta reconstituir os acontecimentos violentos
que tiveram lugar, mas só consegue imaginar sombras entre os
móveis. As figuras humanas são iluminadas como que através de
um vidro poeirento, têm contornos indefinidos e são quase
impossíveis de distinguir.
Joona inspira profundamente e, de súbito, o quarto onde Miranda
está deitada, com as mãos a tapar a cara, aparece-lhe com perfeita
nitidez. Vê a força que provoca a dispersão do sangue e os golpes
violentos. Segue cada pancada e observa a alteração do ângulo de
embate após o terceiro golpe. O candeeiro começa a baloiçar. O
corpo de Miranda fica coberto de sangue.
– Mas não se via sangue no corpo dela – murmura.
– Que disse? – pergunta a procuradora.
– Preciso de verificar uma coisa – responde Joona, ao mesmo
tempo que a porta se abre e um homem pequeno, com um fato de
proteção justo, sai do edifício.
O homem é Holger Jalmer, professor de Criminologia na
Universidade de Umeå. O professor tira a máscara de proteção com
gestos minuciosos, descobrindo um rosto transpirado.
– Eu organizo um interrogatório das raparigas no hotel, dentro de
uma hora – diz Susanne.
– Obrigado – diz Joona, e atravessa o terreiro em frente à casa.
O professor está junto do seu carro, a tirar o fato de proteção e a
metê-lo num saco de lixo, que depois fecha cuidadosamente.
– O cobertor desapareceu – diz Joona.
– Finalmente conheço o Joona Linna – diz o professor, sorrindo.
Em seguida abre uma nova embalagem com um fato de proteção
descartável.
– Já foi ao quarto da Miranda?
– Sim, já terminei.
– Não havia cobertor no quarto.
Holger endireita-se e franze a testa.
– Pois não, tem razão.
– A Vicky deve ter escondido o cobertor da Miranda no roupeiro,
ou debaixo da cama, no quarto dela – diz Joona.
– Vou lá agora, justamente – diz Holger. Mas Joona já está a
caminho do edifício.
O professor observa-o a afastar-se e recorda que se diz que
Joona Linna é tão teimoso, que fica no local do crime a olhá-lo
fixamente até ele acabar por contar tudo.
Rasga a embalagem de plástico, pega no fato de proteção e
apressa-se a seguir o comissário.
Os dois vestem-se, põem proteções nos sapatos e calçam as
luvas de látex antes de abrir a porta do quarto de Vicky.
– Parece que há qualquer coisa debaixo da cama – constata
Joona.
– Uma coisa de cada vez – resmunga Holger, colocando uma
máscara.
Joona aguarda junto da porta enquanto o professor fotografa o
quarto e o mede com um dispositivo de laser, para mais tarde
assinalar a posição de todos os objetos num sistema de
coordenadas tridimensional.
Um cartaz de Robert Pattinson, mostrando o ator com um rosto
pálido e sombra escura nos olhos, está afixado na parede, por cima
da decoração feita com bonitos motivos bíblicos, e numa prateleira
há uma taça grande, cheia de alarmes de roupa da H&M.
Joona segue os gestos de Holger, que vai cobrindo o chão,
pedaço a pedaço, com película de transferência, pressionando-a em
seguida com um rolo, e depois retira a película, fotografa e embala.
Avança lentamente desde a porta até à cama, e desta até à janela.
Quando retira a película do chão, vê-se a impressão esbatida da
sola de um sapato de desporto sobre a camada de gelatina amarela.
– Não posso demorar muito – diz Joona.
– Mas quer que eu veja debaixo da cama primeiro?
Holger abana a cabeça perante a impaciência do outro, mas
estende cuidadosamente um plástico de proteção no chão, ao lado
da cama. Ajoelha-se, estica o braço e agarra uma ponta da trouxa.
– É mesmo um cobertor – diz ele, observando a trouxa com
atenção.
Com cuidado, puxa o pesado cobertor para cima do plástico. Está
amarrotado e ensopado em sangue.
– Penso que a rapariga estava embrulhada no cobertor quando foi
morta – diz Joona em voz baixa.
Holger envolve o cobertor em plástico e mete-o dentro de um
saco. Joona olha para o relógio. Pode ficar mais dez minutos.
Holger continua a recolher provas. Usa zaragatoas húmidas nas
manchas de sangue seco e crostas, e deixa-as secar um pouco
antes de as embalar.
– Se encontrar alguma coisa que indicie um lugar ou uma pessoa,
tem de me telefonar imediatamente – diz Joona.
– Eu sei.
Na zona à volta do martelo, por baixo da almofada, o professor,
num trabalho meticuloso, utiliza cento e vinte zaragatoas, colocando
cada uma num pacote distinto e devidamente referenciado. Os
cabelos e as fibras têxteis são fixados com fita gomada em folhas de
acetato, os tufos de cabelo são embrulhados em papel, e os
fragmentos de tecido orgânico e de crânio são metidos em tubos,
que deverão ser refrigerados para evitar a proliferação de bactérias.
38

A sala de conferências no Hotel Ibis está ocupada, e Joona


espera na sala do pequeno-almoço enquanto a procuradora
transmite ao pessoal, apreensivo, que é necessário outro espaço
para interrogatório. O ecrã de um televisor colocado numa estrutura
metálica junto ao teto emite um brilho intermitente.
Joona liga para Anja, é reencaminhado para as mensagens do
telemóvel dela e pede-lhe que procure saber se há algum bom
médico-legista em Sundsvall.
O noticiário televisivo informa sobre os crimes no Centro Birgitta e
o dramático acontecimento mais recente. São mostradas imagens
das barreiras montadas pela Polícia, dos edifícios vermelhos da
quinta e da tabuleta que anuncia uma residência especial para
menores. A rota de fuga da autora suspeita dos crimes é indicada
num mapa, e um repórter, postado a meio da estrada 86, relata o
rapto e o fracasso das barreiras montadas pela Polícia.
Quando uma voz anuncia que a mãe da criança raptada pediu
que a deixassem apelar ao raptor em direto, Joona levanta-se e
aproxima-se do aparelho.
Pia Abrahamsson aparece subitamente no ecrã. Está sentada a
uma mesa de cozinha, com o rosto atormentado, e segura na mão
um papel.
– Se me está a ouvir… – começa ela. – Compreendo que possa
ter sofrido injustiças, mas o Dante não tem culpa disso…
Pia olha a câmara de frente.
– Tem de o devolver – diz em voz baixa, com o queixo a tremer. –
Você é com certeza uma boa pessoa, mas o Dante tem só quatro
anos, e eu sei que ele tem medo… Ele é tão…
Olha para o papel e as lágrimas começam a correr-lhe pela cara.
– Não sejas mau para ele, não batas no meu menino…
Pia explode num pranto intenso e lamentoso, e vira a cara antes
de a emissão regressar ao estúdio em Estocolmo.
Um psiquiatra forense do hospital de Säter, sentado a uma mesa
alta, procura explicar ao apresentador do noticiário o perigo real da
situação neste momento.
– Não tenho acesso à informação clínica sobre a rapariga e não
quero especular sobre se ela é a autora dos dois homicídios, mas
tendo em conta que estava internada naquela instituição, é bem
possível, evidentemente, que sofra de uma grave instabilidade
psicológica e até mesmo…
– Mas quais são os riscos concretos? – quer saber o
apresentador.
– Pode acontecer que ela não ligue nenhuma à criança – explica
o psiquiatra. – Pode esquecer-se da existência dela durante um
bocado… Mas se ele tem só quatro anos e se de repente começa a
chorar ou a chamar pela mãe, ela pode enfurecer-se e tornar-se
perigosa…
Susanne Öst entra na sala de refeições para chamar Joona. Com
um leve sorriso, oferece-lhe uma chávena de café e um bolo. Ele
agradece e segue-a até ao elevador. Vão juntos até ao último andar
e entram numa deprimente suíte nupcial, com um minibar fechado à
chave e uma banheira de jacuzzi montada sobre uns pés dourados.
Tuula Lehti está estendida na cama alta, de colunas, a ver o
Disney Channel. A técnica do Apoio à Vítima cumprimenta-os com
um pequeno aceno da cabeça. Susanne fecha a porta, e Joona
puxa uma cadeira estofada de cor-de-rosa e senta-se.
– Porque é que me disseste que a Vicky se encontrava com um
rapaz chamado Dennis? – pergunta Joona.
Tuula endireita-se na cama e põe uma almofada em forma de
coração em cima da barriga.
– Pensava que sim – diz.
– Porque é que pensavas isso?
Tuula encolhe os ombros e volta a olhar para a televisão.
– Ela falou num Dennis?
– Não – diz a rapariga, a sorrir.
– Tuula, eu preciso muito de encontrar a Vicky.
Com o pé, ela empurra a colcha e o edredão de seda cor-de-rosa
para o chão e vira-se novamente para o televisor.
– Tenho de passar o dia todo aqui? – pergunta.
– Não, podes voltar para o teu quarto, se quiseres – responde a
técnica do Apoio.
– Sinä olet vain pieni lapsi – diz Joona. – Ainda és uma criança.
– Eh! – responde ela em voz baixa, olhando-o nos olhos.
– Não devias ter de viver em instituições.
– Eu gosto – diz ela mecanicamente.
– Nunca te acontece nada de mau?
Tuula cora, e as pestanas esbranquiçadas tremem.
– Não – responde secamente.
– Ontem a Miranda bateu-te.
– Pois foi – murmura ela, tentando comprimir a almofada em
forma de coração.
– Porque é que ela se chateou?
– Pensou que eu tinha andado a vasculhar o quarto dela.
– E tinhas?
Tuula lambe a almofada.
– Sim, mas não tirei nada.
– Porque é que foste vasculhar o quarto dela?
– Vou aos quartos de todas.
– Porquê?
– É divertido.
– Mas a Miranda pensou que lhe tinhas tirado alguma coisa?
– Sim, estava um bocado chateada…
– O que é que ela pensou que tu lhe tiraste?
– Não disse – responde Tuula a sorrir.
– O que achas que seria?
– Não sei, geralmente é por causa dos medicamentos… Uma vez
a Lu Chu empurrou-me da escada porque pensou que eu lhe tinha
roubado a merda dos drunfos.
– Se não era por causa dos medicamentos, o que é que ela
pensou que tinhas tirado?
– Sei lá… – suspira Tuula. – Maquilhagem, brincos…
Senta-se novamente na beira da cama, inclina-se para trás e
murmura qualquer coisa sobre um colar de strass.
– E a Vicky? – pergunta Joona. – Também costuma bater nas
outras?
– Não. – Tuula sorri novamente.
– Então o que é que ela faz?
– Não posso falar porque não a conheço, acho que ela nunca me
disse uma única palavra, mas…
Tuula cala-se e encolhe os ombros.
– Porque é que nunca falou contigo?
– Não sei.
– Mas já a deves ter visto chateada alguma vez.
– Corta-se a ela própria, e vocês podem…
Tuula cala-se novamente e abana a cabeça.
– O que é que ias dizer?
– Podem estar a borrifar-se para ela… Um dia destes mata-se, e
vocês ficam com um problema a menos – responde Tuula,
desviando o olhar de Joona.
Examina os dedos, diz qualquer coisa para si própria, levanta-se
bruscamente e sai do quarto.
39

Caroline, a rapariga um pouco mais velha do que as outras, entra


acompanhada da técnica do Apoio à Vítima. Está vestida com uma
T-shirt comprida e largueirona que tem um gatinho pintado. Uma
tatuagem com runas envolve-lhe o braço, e na parte anterior do
cotovelo distinguem-se as cicatrizes esbranquiçadas de injeções.
Quando cumprimenta Joona, esboça um sorriso tímido e depois
senta-se cautelosamente no cadeirão diante da secretária castanha.
– A Tuula diz que a Vicky costuma sair às escondidas, à noite,
para ir ter com um tipo – diz Joona.
– Não! – ri-se Caroline.
– Porque é que achas que não?
– Não, ela não faz nada disso. – Caroline sorri.
– Pareces muito segura.
– A Tuula acha que as outras são todas umas galdérias.
– Então a Vicky não costuma sair às escondidas?
– Sai, sim – responde Caroline num tom sério.
– Para fazer o quê? – pergunta Joona, sem trair o seu interesse.
Caroline cruza o olhar com ele por um breve instante e depois
desvia-o para a janela.
– Vai esconder-se atrás da destilaria para telefonar à mãe.
Joona sabe que a mãe de Vicky morreu antes de ela ser colocada
em Birgitta, mas opta por não confrontar Caroline com o facto e
pergunta calmamente:
– De que é que elas falam?
– Bem… A Vicky só deixa mensagens no atendedor da mãe, mas
eu acho… A mim parece-me que a mãe nunca lhe telefona.
Joona assente com a cabeça e pensa que, aparentemente,
ninguém informou Vicky de que a mãe morreu.
– Alguma vez ouviste falar num Dennis?
– Não – responde Caroline sem hesitar.
– Pensa bem.
Ela encara-o tranquilamente, mas sobressalta-se quando o
telefone de Susanne Öst dá o sinal de entrada de uma mensagem.
– Quem é que a Vicky iria procurar? – continua Joona, embora o
interrogatório tenha perdido o seu ritmo.
– A mãe. É a única pessoa que me ocorre.
– Amigos, rapazes?
– Não – responde Caroline. – Mas eu não a conheço… Quer
dizer, somos as duas ADL e encontrámo-nos algumas vezes, mas
ela nunca fala de si própria.
– O que é ADL?
– Parece o nome de uma doença – responde Caroline, rindo –,
mas quer dizer All Day Lifestyle. É só para aquelas que se portam
muito bem. Podemos sair um bocadinho de vez em quando,
podemos acompanhar o pessoal quando vão a Sundsvall fazer
compras, coisas divertidas…
– Mas nessas alturas vocês com certeza conversavam uma com a
outra – insiste Joona.
– Um bocadinho, mas… Não.
– Com quem é que ela falava, então?
– Com ninguém. Exceto o Daniel, claro.
– O terapeuta.
40

Joona e Susanne abandonam a suíte nupcial e percorrem juntos


todo o corredor, até ao elevador. Quando carregam no botão ao
mesmo tempo, ela desata a rir.
– Quando poderemos interrogar o Daniel Grim? – pergunta Joona.
– Ontem o médico achava que ainda não, e é compreensível –
responde ela, lançando-lhe um olhar rápido. – Esta situação não é
fácil. Mas eu vou dar um toquezinho e ver o que acontece.
Saem do elevador no piso da entrada, mas dirigem-se à receção
quando veem Gunnarsson à espera, junto ao balcão.
– Recebi uma mensagem de texto a dizer que a autópsia já está
em curso – diz Susanne a Joona.
– Ótimo. Quando acha que teremos um primeiro relatório
preliminar? – pergunta ele.
– Vá-se embora! – diz-lhe um Gunnarsson arquejante. – Não tem
nada que estar aqui, não tem nada que ler a merda dos relatórios,
não tem nada…
– Acalme-se – diz-lhe Susanne, estupefacta.
– Somos tão idiotas nesta terra que deixamos um estúpido de um
observador tomar conta da investigação, só porque vem de
Estocolmo.
– Só estou a tentar ajudar – diz Joona. – Uma vez que…
– Cale a boca.
– O inquérito é conduzido por mim – diz a procuradora, olhando
firmemente Gunnarsson nos olhos.
– Então talvez lhe interesse saber que o Joona Linna tem um
inquérito interno em cima e que o procurador do…
– Está a ser objeto de um inquérito interno? – pergunta Susanne
Öst, atónita. – Isso é verdade?
– É – responde Joona. – Mas a minha missão…
– E eu a confiar em si! – diz ela, e a boca contrai-se-lhe. – Deixei-
o participar na investigação, ouvi as suas opiniões, e você mente-
me.
– Não tenho tempo para isto – diz Joona gravemente. – Tenho de
falar com o Daniel Grim.
– Eu falo – replica Gunnarsson, bufando.
– Espero que percebam que isto é muito importante – diz Joona. –
O Daniel Grim é provavelmente a única pessoa que…
– Eu não trabalho consigo – interrompe-o a procuradora.
– Você não tem acesso à investigação – diz Gunnarsson.
– Perdi totalmente a confiança em si – suspira Susanne. Vira-lhe
as costas e dirige-se para a saída.
– Adeusinho – diz Gunnarsson, seguindo-a.
– Se conseguir falar com o Daniel, tem de lhe perguntar quem é o
Dennis – grita Joona. – Pergunte-lhe se sabe quem é o Dennis e,
mais importante, pergunte se ele sabe onde estará a Vicky.
Precisamos de um nome ou de um sítio. O Daniel é a única pessoa
com quem a Vicky falava e…
– Vá-se embora – responde Gunnarsson com uma gargalhada.
De costas para ele, acena-lhe com a mão e sai para a rua.
41

Daniel Grim, o terapeuta, trabalha com as jovens do Centro


Birgitta há onze anos, seguindo a técnica da terapia cognitivo-
comportamental e de Aggression Replacement Training. Fala com
cada aluna individualmente pelo menos uma vez por semana.
Daniel pensava que a mulher, Elisabet, enfermeira, que fazia o
turno da noite, tinha acompanhado na ambulância para o hospital a
aluna Nina Molander, em estado de choque profundo.
Quando soube que Elisabet estava morta na antiga destilaria,
sofreu um colapso. Começou a falar confusamente da doença
cardíaca da mulher, mas quando se apercebeu de que ela tinha sido
morta por uma agressão violenta, não voltou a falar. Tinha a pele
dos braços arrepiada, suor a escorrer-lhe pelas faces e respiração
entrecortada e não disse uma palavra quando o colocaram numa
maca e o meteram na ambulância.

Quando sai do elevador na secção 52A do Serviço de Psiquiatria


do hospital distrital de Västra Norrland, o comissário Gunnarsson já
tem outro cigarro na mão.
Um homem novo, com uma bata de médico desabotoada, vem ao
seu encontro. Cumprimentam-se e Gunnarsson segue-o por um
corredor com as paredes pintadas de cinzento-claro.
– Como lhe disse pelo telefone, acho que nesta fase ainda não é
adequado um interrogatório…
– Sim, mas é só uma conversinha com ele.
O médico detém-se e fita Gunnarsson por um momento, antes de
começar a explicar:
– O senhor Daniel Grim está numa condição próxima do stress
traumático, a que costumamos chamar arousal, ou
hipersensibilidade emocional, e que é ativada pelo hipotálamo e
pelo sistema límbico…
– Estou-me marimbando para isso – interrompe-o Gunnarsson. –
Só tenho de saber se ele está drogado com medicamentos e
ausente.
– Não, ele não está ausente, mas eu não permitiria que você
falasse com ele se…
– Temos um duplo homicídio em mãos e…
– Você sabe muito bem quem é que manda aqui – interrompe-o o
médico tranquilamente. – Se eu achar que a reabilitação do paciente
pode ser prejudicada por uma conversa com a Polícia, vocês terão
simplesmente de esperar.
– Compreendo – diz Gunnarsson, num tom esforçadamente mais
calmo.
– Mas como o próprio doente disse, mais do que uma vez, que
quer ajudar a Polícia, decidi autorizá-lo a fazer-lhe algumas
perguntas, na minha presença.
– Fico grato – responde Gunnarsson com um sorriso.
Recomeçam a andar. Dobram uma esquina e passam por uma fila
de janelas que dão para um jardim interior, com claraboias e
ventiladores. Por fim, o médico abre a porta de um quarto.
O lençol e o cobertor jazem em cima do pequeno sofá, mas
Daniel Grim está sentado no chão, por baixo da janela, encostado
ao aquecedor. Tem o rosto anormalmente relaxado e não levanta o
olhar quando Gunnarsson e o médico entram.
Gunnarsson puxa uma cadeira e senta-se diante de Daniel. Ao fim
de um momento, pragueja e põe-se de cócoras, diante do homem
em visível sofrimento.
– Preciso de falar consigo – diz ele. – Temos de encontrar a Vicky
Bennet… É suspeita do crime em Birgitta…
– Mas eu…
Gunnarsson cala-se imediatamente quando Daniel murmura umas
palavras e fica à espera que ele continue.
– Não ouvi – diz ele.
O médico observa-os em silêncio.
– Acho que não foi ela – sussurra Daniel. – Ela é tão bem-
comportada, tão…
– Eu sei que tem o dever de confidencialidade – esclarece
Gunnarsson. – Mas não há nenhuma forma de nos poder ajudar a
encontrar a Vicky Bennet?
– Vou tentar – responde Daniel, falando sempre muito baixo, e
fechando em seguida a boca com força.
– Ela conhece alguém que viva nas proximidades do Centro
Birgitta?
– Talvez… Estou com dificuldade em pensar…
– Você era o terapeuta da Vicky – diz Gunnarsson em tom grave.
– Para onde acha que ela foi? Não interessa se é culpada ou não.
Não sabemos isso. Mas temos quase a certeza de que ela raptou
uma criança.
– Não – diz Daniel, num sopro.
– Quem é que ela procura? Para onde é que ela vai?
– Ela tem medo – responde Daniel com voz trémula. – Mete-se
debaixo de uma árvore para se esconder… para… O que é que
perguntou?
– Sabe de algum sítio onde ela se possa ter escondido?
Daniel começa a murmurar qualquer coisa sobre o coração de
Elisabet e diz que acha que foi a insuficiência cardíaca.
– Daniel, se acha que isto é muito difícil, não precisa de o fazer –
diz o médico. – Posso pedir à Polícia que volte mais tarde, se
precisa de descansar.
Daniel abana a cabeça rapidamente e faz um esforço para
respirar calmamente.
– Diga-me sítios – pede Gunnarsson.
– Estocolmo.
– Onde?
– Não sei… Não sei nada sobre…
– Merda! – berra Gunnarsson.
– Desculpe, desculpe…
O queixo de Daniel começa a tremer, os cantos da boca descaem
e os olhos enchem-se-lhe de lágrimas. Vira o rosto e começa a
chorar alto, com o corpo a estremecer.
– Ela matou a sua mulher com um martelo e…
Daniel bate com a cabeça na placa do aquecimento, com tanta
força que os óculos grossos lhe caem nos joelhos.
– Saia imediatamente – ordena o médico com rispidez. – Nem
mais uma palavra. Isto foi um erro. Não há mais conversas.
42

O parque de estacionamento do hospital de Sundsvall está quase


vazio. O edifício comprido parece deserto sob o céu enevoado. Nas
paredes de tijolo castanho-escuro, as janelas brancas dão a
impressão de fechar os olhos ao mundo. Joona passa pelo meio de
uns arbustos baixos e dirige-se para a entrada principal.
Não está ninguém na receção. Joona espera um momento junto
ao balcão pouco iluminado, até que um empregado da limpeza se
aproxima.
– Onde fica a Medicina Legal?
– Fica a duzentos e cinquenta quilómetros, para norte – responde
o homem, sorrindo amigavelmente. – Mas se procura a Patologia,
posso mostrar-lhe onde é.
Percorrem corredores desertos, metem-se num elevador de
serviço e descem à parte subterrânea do hospital. Está frio, e as
grandes lajes do chão estão estaladas em vários sítios.
O empregado da limpeza empurra uma porta dupla de metal. Ao
fundo do corredor, vê-se um letreiro, por cima de outra porta:
«Patologia Clínica e Citologia.»
– Boa sorte – diz o homem, apontando para a porta.
Joona agradece e percorre sozinho o último corredor, cujo
pavimento ostenta as marcas das rodas das macas e dos carros de
transporte. Passa o laboratório, abre a porta da sala de autópsias e
entra diretamente naquela divisão forrada a azulejos brancos, com
mesas de aço inoxidável. No teto está suspenso um potente
candeeiro, cuja luz, combinada com a dos tubos fluorescentes, é
esmagadora. Ouve-se um zunido numa porta, e entram na sala
duas pessoas, empurrando uma maca.
– Desculpem – diz Joona.
Um homem magro, com uma bata de médico, vira-se para ele. Os
óculos de piloto com aros brancos refletem a luz. É o médico-legista
chefe, Nils Nålen Åhlén, de Estocolmo. Um amigo de longa data de
Joona. A seu lado está um jovem estagiário, de cabelos pretos
compridos, que lhe caem sobre a bata.
– Que é que faz aqui? – pergunta Joona alegremente.
– Telefonou-me uma mulher da Polícia Criminal a ameaçar-me –
responde Nålen.
– A Anja – diz Joona.
– Fiquei com muito medo… Ela gritou comigo e disse que o Joona
não podia ir até Umeå para falar com um médico-legista.
– Mas já que estamos aqui, vamos ao Festival Nórdico – diz
Frippe, o estagiário.
– The Haunted tocam no Club Deströyer – acrescenta Nålen com
um sorriso tímido.
– Sendo assim, percebo – diz Joona.
Frippe ri. Por baixo da bata, aparecem umas calças de couro já
gastas e umas botas de cowboy, sob a proteção de plástico azul-
claro.
– Já acabámos a mulher… a Elisabet Grim – diz Nålen. – A única
coisa a assinalar são os ferimentos nas mãos.
– Lesões de defesa? – pergunta Joona.
– Mas no lado errado – diz Frippe.
– Podemos ver isso daqui a pouco – diz Nålen. – Primeiro vamos
dar uma olhadela à Miranda Ericsdotter.
– Quando é que elas morreram, já sabem isso? – pergunta Joona.
– A temperatura desce, como sabes…
– Algor mortis – diz Joona.
– Sim, e esse arrefecimento tem lugar segundo uma linha curva,
que estabiliza quando atinge a temperatura ambiente…
– Ele sabe isso – diz Frippe.
– Portanto, associando esse valor aos livores cadavéricos e à
rigidez, podemos dizer que morreram as duas mais ou menos ao
mesmo tempo, na noite de sexta-feira.
Os dois homens empurram a maca até à mesa de autópsias,
contam até três e transferem o corpo leve que está dentro do saco
de transporte, selado com chumbo. Quando Frippe abre o saco,
espalha-se na sala um odor bafiento de pão de mosto de cerveja e
sangue antigo.
A rapariga fica deitada na mesa de autópsias na mesma posição
em que foi encontrada, com as mãos a tapar a cara e as pernas
cruzadas à altura dos tornozelos.
A rigidez cadavérica resulta da subida do nível de cálcio nos
músculos inertes, o que leva a que duas proteínas diferentes se
liguem entre si. A rigidez começa quase sempre no coração e no
diafragma. Ao fim de meia hora, já pode ser constatada na
musculatura maxilar e passadas duas horas, na nuca.
Joona sabe que vai ser preciso muita força para afastar as mãos
de Miranda do rosto.
De súbito, ideias estranhas atravessam-lhe a mente. A ideia de
que não é Miranda que se esconde por trás das mãos, o
pensamento de um rosto modificado, de olhos feridos ou extirpados.
– Não nos comunicaram nenhum requisito específico para o
exame – diz Nålen. – Porque é que ela tem as mãos a tapar a cara?
– Não sei – responde Joona em voz baixa.
Frippe fotografa minuciosamente o corpo.
– Deduzo que se trata de uma autópsia medico-legal alargada e
que querem receber um relatório – diz Nålen em tom formal.
– Sim – responde Joona.
– Nos casos de homicídio, temos direito a um secretário –
resmunga o médico quando começa a andar à volta da mesa para
observar o corpo.
– Já está a resmungar – diz Frippe, sorrindo.
– Pois estou, desculpem – diz Nålen. Para por momentos atrás da
cabeça de Miranda e depois continua a andar.
Joona pensa no poeta de língua alemã Rilke, que disse que os
vivos tentavam obsessivamente traçar a distinção entre vivos e
mortos. Para Rilke, havia outros seres, anjos, que não estabeleciam
qualquer diferença.
– Os livores cadavéricos indicam que a vítima esteve sempre na
mesma posição – murmura Nålen.
– Mas eu acho que ela foi deslocada logo após ter sido morta –
diz Joona. – De acordo com a minha leitura das manchas de
sangue, o corpo estava flácido quando foi colocado na cama.
Frippe acena com a cabeça, a confirmar.
– Quando é logo a seguir, não se formam livores.
Joona obriga-se a ficar na sala enquanto os dois médicos
procedem a um minucioso exame externo do cadáver. Ao observá-
los, pensa que a sua filha não é muito mais nova do que a rapariga
desconhecida que tem diante de si, na mesa de autópsias.
Uma rede amarelada de veias começa a destacar-se sob a pele
muito branca. Em volta do pescoço e ao longo das coxas, as veias
parecem formar um pálido sistema fluvial. O ventre liso está agora
um pouco mais arredondado e escurecido.
Joona acompanha o procedimento na sala de autópsias,
registando o trabalho dos médicos-legistas, observando os
movimentos expeditos de Nålen quando corta as cuecas brancas e
as mete num saco para serem analisadas, e escutando as
conversas entre eles e as constatações que fazem, mas a sua
mente está no local do crime.
Nålen constata a ausência total de lesões de defesa visíveis, e
Joona ouve-o trocar impressões com Frippe sobre as lesões nos
tecidos moles.
Nada aponta para uma luta ou uma agressão vulgar.
Miranda aguardou as pancadas na cabeça sem tentar fugir nem
oferecer resistência.
Joona pensa no quarto austero onde ela viveu os seus últimos
instantes de vida, enquanto observa os dois médicos que extraem
alguns cabelos pela raiz para testes comparativos e recolhem
sangue em tubos com EDTA, o anticoagulante.
Nålen raspa a parte interna das unhas e, pigarreando, informa
Joona:
– Sem vestígios de pele… Não se defendeu.
– Eu sei – responde Joona.
Quando começam a examinar a ferida no crânio, Joona aproxima-
se e coloca-se numa posição que lhe permite ver tudo.
– A causa provável da morte é uma pancada violenta no crânio
com um objeto rombo – diz Nålen ao aperceber-se do interesse do
comissário.
– De frente? – pergunta Joona.
– Sim, frontal, mas com um ângulo – responde Nålen apontando
para o cabelo ensanguentado. – Fraturas com afundamento no osso
temporal… Vamos fazer uma TAC, mas eu parto do princípio de que
houve rompimento dos grandes vasos sanguíneos intracranianos e
perfuração do cérebro por pedaços de osso.
– Tal como no caso da Elisabet Grim, vamos encontrar
traumatismos no córtex cerebral – diz Frippe.
– E são de opinião que as duas mortes ocorreram mais ou menos
ao mesmo tempo, não é verdade? Com a mesma arma e…
– Não – interrompe Nålen. – Há duas armas diferentes.
– Mas o martelo… – diz Joona, quase sem voz.
– Sim, no caso da Elisabet, o crânio foi esmagado com o martelo
– responde Nålen. – Mas no da Miranda, a arma foi uma pedra.
Joona olha-o, espantado.
– Foi morta com uma pedra?
43

Joona ficou no serviço de patologia clínica até poder ver o rosto


de Miranda. A ideia de que ela não se queria mostrar depois de
morta não o abandonara e sentiu uma estranha inquietação quando
conseguiram afastar-lhe as mãos do rosto.
Joona encontra-se agora sentado junto à secretária de
Gunnarsson, na esquadra de Polícia de Sundsvall, a ler o primeiro
relatório técnico. As persianas filtram uma luz amarela. Ao fundo da
sala, diante de um computador e iluminada pelo brilho do ecrã, está
uma mulher. O telefone toca e ela murmura qualquer coisa com
irritação, quando vê o número no mostrador.
Uma das paredes está coberta de mapas e de imagens de Dante
Abrahamsson. As outras, revestidas de estantes atulhadas de
pastas de processos e pilhas de papéis. A fotocopiadora ronca
quase ininterruptamente. Na sala do café, há um rádio a tocar. A
música pop cala-se, e Joona ouve o alerta pela terceira vez.
– Temos um alerta da Polícia sobre uma pessoa desaparecida –
diz o locutor, e em seguida começa a ler o texto. – A Polícia procura
uma rapariga de quinze anos e um rapazinho de quatro que
possivelmente estarão juntos. A rapariga tem cabelo louro,
comprido, e o rapazinho usa óculos e veste uma camisola azul-
escura e calças de bombazina escuras. Foram vistos pela última vez
num Toyota Auris vermelho, na estrada 86, e seguiam na direção de
Sundsvall. Pede-se a quem possa dar informações que contacte a
Polícia através do número 11414.
Joona levanta-se, vai à sala do café, muda de estação para a P2
e traz uma chávena de café para o gabinete de Gunnarsson. Por
cima do ligeiro zunido da gravação, ouve-se a voz límpida e glacial
de uma soprano. É Birgit Nilsson a cantar a Brunilda d’O Anel do
Nibelungo, de Wagner.
Segurando a chávena de café, Joona senta-se, a pensar no
garoto sequestrado pela jovem que talvez seja psicótica.
Imagina-os a esconderem-se numa garagem, o rapazinho
obrigado a deitar-se no chão de cimento, coberto com mantas, com
as mãos atadas e a boca tapada com fita adesiva.
Deve estar horrivelmente assustado – se ainda estiver vivo.
Joona continua a ler o relatório técnico.
Já foi confirmado que as chaves que estavam na porta do quarto
de isolamento em Birgitta eram as de Elisabet Grim e que as botas
que deixaram um rasto de sangue nas duas cenas de crime foram
encontradas no armário de Vicky Bennet.
«Temos dois homicídios», pensa Joona. «Um deles primário e o
outro secundário. Miranda foi a vítima primária, mas para a matar, o
assassino teve de tirar as chaves a Elisabet.»
Segundo a reconstituição dos acontecimentos feita pelos técnicos,
uma briga que tivera lugar mais cedo, nessa sexta-feira à noite,
pode ter sido o fator desencadeador, mas é possível que por trás
disso haja uma rivalidade mais antiga.
Antes da hora de deitar, Vicky Bennet foi ao armazém buscar o
martelo e as botas grandes que eram utilizadas por todas e depois
foi para o seu quarto esperar. Quando as outras alunas já estavam a
dormir, foi ter com a enfermeira Elisabet Grim e pediu as chaves.
Elisabet recusou dar-lhas e fugiu pelo corredor, saiu para o jardim e
refugiou-se na destilaria. Vicky Bennet perseguiu-a e matou-a com o
martelo, tirou-lhe as chaves, voltou ao edifício principal, abriu a porta
do quarto de isolamento e matou Miranda. Por alguma razão, deitou
a vítima na cama e pôs-lhe as mãos a tapar a cara. Depois voltou
para o quarto dela, escondeu o martelo e as botas, saiu pela janela
e fugiu para a floresta.
É desta forma que os técnicos que examinaram o local do crime
imaginam o desenrolar dos acontecimentos.
Joona pensa que vão ser precisas várias semanas para que o
LTF, o Laboratório Técnico Forense, entregue os resultados dos
seus testes, e os técnicos partem simplesmente do princípio de que
Miranda e Elisabet foram mortas com o martelo.
Mas Miranda foi morta com uma pedra.
Joona vê-a diante de si: magra, deitada na cama, a pele de uma
brancura de porcelana, os pés cruzados, a nódoa negra na coxa, as
cuecas de algodão, o piercing no umbigo, as mãos a tapar o rosto.
Porque foi morta com uma pedra, se Vicky tinha um martelo?
Joona examina atentamente todas as fotografias do local do crime
e em seguida reconstitui mentalmente os acontecimentos, como
costuma fazer. Põe-se no lugar do assassino e obriga-se a olhar
cada uma das escolhas sinistras que este fez como uma
necessidade. Para quem mata uma pessoa, esse ato é a única
escolha possível. A solução mais simples, ou a melhor, naquele
momento.
O assassínio não parece uma opção hedionda ou animalesca,
mas antes racional ou atrativa.
Por vezes, o assassino não consegue ver mais longe do que a
próxima pancada. Precisa de descarregar só esta pancada e
justifica uma de cada vez. A pancada seguinte está muito longe,
talvez a décadas de distância, até ao momento em que de repente
acontece. Para o assassino, a morte pode ser o fim de uma saga
épica que começa com a primeira pancada e termina treze
segundos depois, com a última.
Tudo aponta para Vicky Bennet, e todos partem do princípio de
que ela matou Miranda e Elisabet, embora, ao mesmo tempo,
ninguém pareça considerá-la capaz, quer física, quer
psicologicamente, de cometer esse ato.
Mas todas as pessoas têm em si esse potencial, pensa Joona,
devolvendo o relatório ao cacifo de Gunnarsson. Vemos o reflexo
disso nos nossos sonhos e fantasias. Todos transportamos a
violência no nosso íntimo, mas, regra geral, somos capazes de nos
dominar.
Gunnarsson entra na esquadra e pendura o casaco amarrotado.
Arrota, cobrindo a boca e vai direito à sala do café. Quando entra no
gabinete, com uma chávena de café na mão, e vê Joona, sorri com
desdém.
– Não sentem a sua falta lá em Estocolmo?
– Não – responde Joona.
Gunnarsson cheira o interior de um maço de cigarros e vira-se
para a mulher que está sentada diante do computador.
– Todos os relatórios vêm diretamente para mim.
– Sim – responde ela sem olhar para ele.
Gunnarsson resmunga qualquer coisa.
– Como correu a conversa com o Daniel Grim? – pergunta Joona.
– Bem. Embora você não tenha nada com isso. Mas tive muito
cuidado.
– O que é que ele sabia sobre a Vicky?
Gunnarsson emite um pequeno silvo e abana a cabeça.
– Nada que interesse à Polícia.
– Mas perguntou-lhe quem é o Dennis?
– O parvalhão do médico não me largava e interrompeu aquela
merda.
Gunnarsson coça o pescoço com força e parece não ter
consciência de que tem na mão um isqueiro e um maço de cigarros.
– Quero uma cópia do relatório do Holger Jalmert quando ele
chegar – diz Joona. – E quero também as conclusões do LTF e…
– Não, e desapareça daqui – interrompe-o Gunnarsson.
Faz um grande sorriso à colega, mas perde a segurança quando
encontra o olhar sério e cinzento de Joona.
– Você não faz a mínima ideia de como há de descobrir a Vicky
Bennet e o garoto – diz Joona pausadamente, levantando-se. –
Nem faz a mínima ideia de como deve conduzir a investigação.
– Conto com pistas dadas pelo público – responde Gunnarsson. –
Há sempre alguém que viu alguma coisa.
44

Esta manhã Flora acordou momentos antes de o despertador


tocar. Hans-Gunnar queria tomar o pequeno-almoço na cama às
8h15. Depois de ele se levantar, Flora tinha de arejar o quarto e
fazer a cama. Ewa estava sentada numa cadeira, em calças de fato
de treino amarelas e sutiã cor de pele, a vigiá-la. Levantou-se e foi
verificar se o lençol de baixo estava bem esticado e corretamente
dobrado nos cantos por baixo do colchão. A colcha de renda devia
ficar precisamente à mesma altura dos dois lados, e Flora teve de a
pôr três vezes até estar ao gosto de Ewa.
Agora são horas do almoço, e Flora regressa do supermercado
Ica com sacos de comida e cigarros para Hans-Gunnar, entrega o
troco e fica à espera, como habitualmente, enquanto ele examina o
recibo.
– Porra, o queijo está caro! – diz ele, contrariado.
– Disse-me para comprar cheddar – recorda-lhe Flora.
– Mas assim tão caro, não, porra! Deves perceber que, quando é
assim, compra-se outro.
– Desculpe, eu pensava…
Não tem tempo de acabar a frase. O anel de Hans-Gunnar
rebrilha subitamente diante dela e ele dá-lhe um bofetão. É tudo
muito rápido. Flora começa a sentir um zunido no ouvido e a cara a
inchar.
– Tu disseste que querias cheddar – diz Ewa, do sofá. – A culpa
não é dela.
Hans-Gunnar resmunga qualquer coisa como «idiotas» e vai para
a varanda fumar. Flora arruma as compras, recolhe ao quarto da
empregada e senta-se na cama. Toca cautelosamente na face e
pensa que está farta das bofetadas de Hans-Gunnar. Há dias em
que ele lhe bate várias vezes. Sabe sempre quando isso vai
acontecer, porque de outro modo ele nunca olha para ela. O pior
não é a dor, é o arfar dele e a maneira como a observa, no fim.
Não se lembra de ele lhe bater quando ela era criança. Na altura
trabalhava e raramente estava em casa. Um dia mostrou-lhe os
países no globo terrestre que tinha no quarto dele.
Ewa e Hans-Gunnar saem para ir jogar boule com os amigos.
Flora fica no quarto. Assim que ouve a porta da rua a fechar-se,
volta o olhar para o canto. Em cima da velha cómoda está um bibelô
que lhe deu a professora do liceu, uma carroça puxada por um
cavalo, em vidro. Na gaveta de cima guarda ainda um peluche da
sua infância: a boneca Estrunfina, de cabelos loiros e sapatos de
salto alto. Na gaveta do meio tem uma pilha de toalhas
impecavelmente dobradas. Levanta as toalhas e tira o vestido verde.
Comprou-o no princípio do verão, na Myrorna, a loja de artigos
usados do Exército de Salvação, e nunca o usou senão dentro do
quarto, mas aqui veste-o muitas vezes, quando Ewa e Hans-Gunnar
não estão em casa.
Vai começar a desabotoar o casaco de malha quando ouve vozes
na cozinha. É o rádio, que está ligado. Vai desligá-lo e verifica que
Ewa e Hans-Gunnar estiveram a comer bolo. Junto ao armário, o
chão está cheio de migalhas. Deixaram um copo com um resto de
sumo de morango em cima da bancada, e a garrafa do sumo ficou
fora do frigorífico.
Flora vai buscar um pano absorvente e apanha as migalhas do
chão. Passa o pano por água e em seguida lava o copo.
A rádio está a noticiar um crime no Norte da Suécia.
Foi encontrada morta uma rapariga, num lar para jovens com
comportamentos de automutilação.
Flora torce o pano absorvente e pendura-o na torneira.
Na rádio dizem que a Polícia não quer pronunciar-se enquanto a
investigação está em curso, mas o repórter entrevista algumas das
alunas em direto.
– Uma pessoa quer sempre saber o que se passa, e eu consegui
chegar ao quarto – diz uma rapariga, com a voz alterada. – Mas não
tive tempo de ver muita coisa, porque me puxaram para fora quando
estava à porta, e ainda gritei um bocado, mas percebi que não valia
a pena.
Flora pega na garrafa de sumo e dirige-se ao frigorífico.
– Tinha os olhos fechados? – pergunta o repórter.
– Não, estava assim, com as mãos a tapar a cara, para…
– És uma aldrabona, caraças! – grita uma voz por trás dela.
Flora ouve qualquer coisa cair no chão e sente os pés molhados.
Olha para baixo e vê que deixou cair a garrafa. De repente, o
estômago revolve-se-lhe, a comida sobe-lhe à boca e só tem tempo
de chegar à casa de banho pequena antes de vomitar.
45

Quando Flora sai da casa de banho, o noticiário já terminou. Uma


mulher com sotaque alemão fala sobre menus de outono. Flora
apanha os cacos de vidro, limpa o sumo e fica parada no meio da
cozinha. Observa longamente as mãos pálidas e frias e depois
encaminha-se para o telefone, na entrada, e marca o número da
Polícia.
Flora espera e ouve um estralejar seco no auscultador quando
soa o primeiro toque.
– Polícia – responde uma voz cansada de mulher.
– Sim, bom dia, o meu nome é Flora Hansen, e eu queria…
– Um momento – diz a voz. – Não percebi.
– Bem – recomeça Flora. – O meu nome é Flora Hansen, e queria
dar uma informação relacionada com o assassínio daquela rapariga
em Sundsvall.
Há um curto silêncio e depois a voz cansada mas calma faz-se
novamente ouvir.
– E o que é que queria contar?
– Pagam as informações? – pergunta Flora.
– Não, lamento.
– É que… Acho que vi a rapariga que foi morta.
– Quer dizer que estava lá quando aconteceu? – pergunta
imediatamente a agente da Polícia.
– Sou médium – diz Flora numa voz conspirativa. – Estou em
contacto com os mortos… Vi tudo, mas creio… Creio que me
lembraria melhor se fosse paga.
– Está em contacto com os mortos, foi o que disse? – repete a
voz cansada. – É essa a informação que tem para dar?
– A rapariga tinha as mãos a tapar o rosto – diz Flora.
– Isso está nos cabeçalhos dos jornais – responde a mulher num
tom brusco e impaciente.
Flora sente o coração encolher de vergonha. Tem vontade de
vomitar outra vez e um suor frio escorre-lhe pelas costas. Não
planeou o que ia dizer, mas percebe que devia ter dito qualquer
coisa diferente. Os anúncios com os cabeçalhos dos vespertinos já
estavam afixados no Ica quando foi comprar a comida e os cigarros
de Hans-Gunnar.
– Não sabia… – murmura ela. – Só estou a dizer aquilo que
vejo… Vi muitas outras coisas que talvez estejam interessados em
pagar para saber.
– Não pagamos as…
– Mas eu vi a arma do crime, se calhar pensam que encontraram
a arma do crime, mas não é essa, porque eu vi…
– Sabe que telefonar para a Polícia sem motivo é considerado
crime? – interrompe a agente. – Punível com coima. Não quero ser
desagradável, mas esteve a fazer-me perder tempo, quando se
calhar outras pessoas, com informações reais, tentaram ligar e não
conseguiram.
– Sim, mas eu…
Flora começa a falar da arma do crime, mas ouve um estalido do
outro lado da linha. Olha para o telefone e marca novamente o
número da Polícia.
46

A Igreja da Suécia pôs à disposição de Pia Abrahamsson um


apartamento provisório num edifício de madeira, na zona de
moradias de Sundsvall. O apartamento é grande e bonito, mobilado
com peças clássicas de Carl Malmsten e Bruno Mathsson. Os
diáconos que lhe têm feito as compras de comida aconselharam-na
a ter uma conversa pessoal com algum dos pastores, mas Pia não
consegue arranjar coragem.
Passou o dia todo a percorrer, num carro alugado, o mesmo
caminho, os mesmos lugares, às voltas em Indal, e para trás e para
a frente nas estradas da floresta.
Por diversas vezes encontrou polícias que lhe pediram que fosse
para casa.
Pia está agora deitada na cama, vestida, com o olhar perdido no
escuro. Desde que Dante desapareceu, não voltou a dormir. O
telemóvel toca. Ela estica-se e agarra-o, olha para o ecrã e desliga o
som. São os pais. Estão constantemente a telefonar. Pia continua a
olhar a escuridão, no apartamento emprestado.
Na sua cabeça, ouve ininterruptamente o filho a chorar. Tem medo
e chama pela mãe, pede para ir para casa, para a mãe.
Pia tem de se levantar.
Pega no casaco e abre a porta. Quando se senta no carro
alugado e começa a conduzir, sente na boca um sabor a sangue.
Tem de encontrar Dante. E se ele está numa valeta junto à estrada?
Talvez se tenha escondido debaixo de uma caixa grande de cartão.
Talvez a rapariga o tenha simplesmente deixado num sítio qualquer.
As estradas, mergulhadas na escuridão, estão desertas. Parece
que quase toda a gente está a dormir. Pia esforça-se por ver na
névoa escura para lá da luz dos faróis.
Dirige-se para o sítio onde o carro foi roubado e fica lá parada,
com as mãos trémulas sobre o volante, até que faz inversão de
marcha e se afasta. Entra na pequena povoação, Indal, onde
provavelmente o carro desapareceu, com Dante lá dentro.
Lentamente, passa por uma escola pré-primária e, sem destino
certo, mete por Solgårdsvägen e segue ao longo das moradias às
escuras.
Apercebe-se de um movimento por baixo de um trampolim, no
jardinzinho de uma das casas, e imediatamente para e sai do carro.
Atravessa precipitadamente a sebe baixa de roseiras e, com as
pernas arranhadas e aos tropeções, corre para o trampolim, onde vê
um gato gordo a tentar esconder-se.
Volta-se para a casa de tijolo e fica a olhar para as persianas
corridas com o coração em alvoroço.
– Dante! – grita. – Dante! É a mamã! Onde estás?
Tem a voz rouca e triste. Na casa, acendem-se luzes. Pia passa
para a casa seguinte e toca à campainha, bate na porta com força e
vira-se para o abrigo de jardim.
– Dante! – grita, o mais alto que consegue.
Vai seguindo a rua e gritando pelo filho, batendo em portões de
garagem, abrindo as portas de casinhas de brincar nos jardins, e
depois atravessa um pedaço de mato, salta uma valeta e encontra-
se novamente na estrada de Indal.
Um carro trava com um forte chiar de pneus. Pia dá um passo
atrás, cai e vê uma agente da Polícia, de uniforme, correr para ela.
– Então?
Pia é ajudada a levantar-se e olha ansiosamente a mulher, que
tem um nariz forte e duas tranças louras.
– Encontrou-o? – pergunta Pia.
O outro polícia chega junto delas e diz-lhe que a vão levar a casa.
– O Dante tem medo do escuro – diz ela, notando que tem a voz
muito rouca. – Sou mãe dele, mas fui impaciente, obriguei-o a voltar
para a cama dele quando ele veio ter comigo de noite. Veio ao meu
quarto em pijama, a dizer que tinha medo, mas eu…
– Onde deixou o carro? – pergunta a agente, segurando no braço
de Pia.
– Largue-me! – grita Pia, soltando-se. – Tenho de o encontrar!
Pia bate na cara da mulher e grita desesperadamente quando a
agarram e a deitam na estrada. Luta para se libertar, mas eles
prendem-lhe os braços atrás das costas e imobilizam-na. Pia esfola
o queixo no asfalto e chora desamparada como uma criança.
47

Joona Linna pensa na ausência de testemunhas: parece não


haver ninguém que saiba alguma coisa sobre Vicky Bennet, e
ninguém viu nada. Joona segue uma estrada muito bonita, entre
campos ondulantes e lagos brilhantes, até chegar diante de uma
casa de pedra branca. Num enorme vaso, no alpendre da casa, vê-
se um limoeiro com frutos pequenos, amarelo-esverdeados.
Joona toca à campainha, espera e depois contorna a casa.
Numa cadeira de jardim branca, por baixo de uma macieira, está
Nathan Pollock, com uma perna engessada.
– Nathan?
O homem endireita o corpo esguio e vira-se para ele. Protegendo
os olhos com a mão, sorri, estupefacto.
– Joona Linna, és mesmo tu?
Nathan tem o cabelo prateado apanhado num rabo de cavalo fino,
que lhe cai sobre um ombro. Veste umas calças pretas e uma
camisola tricotada em malha larga. Nathan Pollock pertence à
Comissão Nacional de Homicídios, um grupo constituído por seis
peritos que prestam assistência nas investigações criminais mais
complicadas em todo o país.
– Joona, lamento muito esta história do inquérito interno. Não te
devia ter deixado ir à Brigada.
– Foi uma opção minha – diz Joona, sentando-se.
Nathan abana a cabeça vagarosamente.
– Tive uma discussão medonha com o Carlos por te estarem a pôr
em causa desta maneira.
– Foi nessa altura que partiste a perna?
– Não, isso foi uma ursa maldisposta que entrou pelo nosso
jardim – conta Nathan, com um sorriso aberto que lhe descobre o
dente de ouro.
– Ou então caiu do escadote quando andava a apanhar maçãs –
diz uma voz clara atrás deles.
– Matilda! – exclama Joona.
Levanta-se e abraça uma mulher com uma farta cabeleira ruiva e
a pele do rosto coberta de sardas.
– Senhor comissário… – diz ela a sorrir, sentando-se. – Espero
que tragas algum trabalhinho para o meu querido marido, antes que
ele se atire ao sudoku.
– Talvez traga – responde Joona sem pressa.
– A sério? – Nathan sorri e coça o gesso.
– Vi o local do crime e vi os corpos, mas não tenho acesso aos
relatórios nem aos resultados dos testes…
– Por causa desta coisa do inquérito interno?
– A investigação não está a meu cargo, mas eu gostava de saber
a tua opinião.
– Agora é que o Nathan ficou contente! – Matilda ri e dá uma
palmadinha na face do marido.
– Foi simpático da tua parte teres pensado na minha humilde
pessoa – diz Pollock.
– És a pessoa mais competente que eu conheço.
Senta-se novamente e começa a relatar tudo o que sabe sobre o
caso. Ao fim de um momento, Matilda deixa-os a sós. Pollock
escuta-o, concentrado, faz perguntas para esclarecer alguns
pormenores, acena com a cabeça e pede a Joona que continue.
Um gato cinzento malhado vem roçar-se nas pernas de Nathan.
Os pássaros cantam nas árvores enquanto Joona descreve os
quartos e as posições dos corpos, as manchas de sangue, as poças
de sangue, o sangue projetado e o sangue seco. Nathan fecha os
olhos e acompanha atentamente as constatações de Joona, o
martelo debaixo da almofada, os salpicos de sangue no teto e a
janela aberta.
– Vamos lá ver então – diz Pollock em voz baixa. – Trata-se de
um ato de intensa violência, mas não há cortes, tentativas de
desmembramento…
Joona não diz nada e deixa Pollock pensar sozinho.
Nathan Pollock traçou muitos perfis de criminosos – e nunca se
enganou.
O profiling é um método de investigação das características do
criminoso através da interpretação do crime como uma metáfora do
estado psíquico do seu autor. A ideia de base é que a vida interior
de uma pessoa se reflete, em determinada medida, na sua vida
exterior. Se um crime é caótico, a psique do seu autor também é
caótica, e esse caos só pode ser ocultado se o criminoso for um
solitário.
Joona vê que os lábios de Nathan se movem enquanto ele reflete.
Às vezes sussurra algumas palavras ou puxa o rabo de cavalo.
– Acho que consigo ver os corpos… e o padrão de aspersão do
sangue – diz ele. – Tu sabes isto tudo… que a maior parte dos
homicídios ocorre num momento de fúria. Depois surge o pânico,
por causa do sangue e do caos. É nesse momento que o criminoso
vai buscar a serra e os sacos do lixo… ou tenta lavar o sangue com
uma escova do chão e deixa vestígios em todo o lado.
– Mas neste caso, não.
– Este criminoso, de facto, não tentou esconder nada.
– Também pensei nisso – diz Joona.
– A violência é intensa e metódica. Não se trata sequer de um
castigo que tenha ido longe de mais; nos dois casos houve intenção
de matar, mais nada. Ambas as vítimas se encontram fechadas em
espaços pequenos e não podem fugir… A violência não tem por
base o ódio, antes sugere uma execução ou um abate.
– Pensamos que o autor é uma rapariga.
– Uma rapariga?
Joona encontra o olhar surpreendido de Nathan e mostra-lhe uma
fotografia de Vicky Bennet.
Nathan ri e encolhe os ombros.
– Desculpa, mas duvido muito.
Matilda aparece com chá e bolas de Berlim e senta-se à mesa.
Nathan deita chá nas três chávenas.
– Achas que uma rapariga não pode fazer isto? – pergunta Joona.
– Nunca encontrei um caso desses.
– As raparigas não são todas boazinhas – comenta Matilda.
Nathan aponta para a fotografia.
– Ela é conhecida pelos seus comportamentos violentos?
– Não, pelo contrário.
– Então andam atrás da pessoa errada.
– Sabemos que ela raptou uma criança ontem.
– Mas não a matou?
– Que nós saibamos, não – diz Joona, tirando uma bola de
Berlim.
Nathan inclina-se para trás na cadeira e contempla o céu de olhos
franzidos.
– Se a rapariga não é considerada violenta, se nunca cumpriu
pena, se nunca foi objeto de uma investigação deste tipo, então não
acredito que tenha sido ela – diz ele, fitando Joona diretamente.
– Mas se tiver sido ela, mesmo assim? – insiste Joona.
Nathan abana a cabeça e sopra o chá.
– Não bate certo – responde. – Acabo justamente de ler um
trabalho de David Canter… Como sabes, ele elabora os perfis
centrando-se no papel que o criminoso atribui à vítima durante o
próprio crime. Também tenho andado a explorar essa ideia, de que
o criminoso utiliza a vítima como uma espécie de adversário num
drama interior.
– Sim… Pode ser posto nesses termos – responde Joona.
– E, segundo o modelo de David Canter, o rosto tapado significa
que o assassino quer eliminar o rosto dela, transformá-la totalmente
num objeto. Os homens que pertencem a este grupo usam muitas
vezes um grau de violência extremo…
– E se estivessem simplesmente a brincar às escondidas? –
interrompe Joona.
– Brincar às escondidas, como? – pergunta Nathan, fitando os
olhos cinzentos do amigo.
– A vítima conta até cem e o criminoso esconde-se.
Nathan sorri, contemplando a ideia.
– Então têm de ir procurar…
– Sim, mas onde?
– O único conselho que posso dar é que procurem para trás – diz
Pollock. – O passado reflete o futuro…
48

A Polícia Criminal Nacional é a única força de Polícia operacional


centralizada responsável pelo combate à criminalidade grave, tanto
no plano nacional como no plano internacional.
O diretor da Polícia Criminal Nacional, Carlos Eliasson, está junto
à janela baixa, no oitavo piso, com vista para as colinas do parque
de Kronoberg.
Carlos Eliasson ignora que nesse mesmo momento Joona Linna
percorre um dos caminhos pedonais do parque, após uma curta
visita ao velho cemitério judaico.
Carlos senta-se novamente à secretária, desconhecendo que o
comissário eternamente despenteado está agora a atravessar a rua
Polhemsgatan, dirigindo-se para o átrio envidraçado do edifício da
Polícia de Estocolmo.
Joona passa por um cartaz que explica o papel da Polícia
Nacional num mundo em mudança. Benny Ruben está sentado ao
computador, com as costas curvadas, e do gabinete de Magdalena
Ronander vem o som de uma conversa sobre uma nova
colaboração com a Europol.
Joona regressou a Estocolmo porque foi convocado para uma
reunião com os dois inspetores responsáveis pelo inquérito interno,
que terá lugar mais tarde, nesse dia. Retira o correio do seu cacifo,
senta-se à secretária e começa a passar em revista as cartas, ao
mesmo tempo que pensa em Nathan Pollock e acha que está de
acordo com ele.
É difícil associar a imagem de Vicky Bennet àqueles dois crimes.
Embora a Polícia ainda não tenha tido acesso à documentação
dos vários psiquiatras, nada indica que Vicky Bennet seja perigosa.
Não aparece nos registos da Polícia, e todas as pessoas que a
conheceram pessoalmente parecem classificá-la como reservada e
gentil.
Porém, todos os indícios apontam para ela.
E tudo indica que raptou o rapazinho.
Talvez ele esteja neste momento caído numa vala, com a cabeça
esmagada.
Mas, se ainda estiver vivo, é muito importante que se apressem.
É possível que esteja no carro com a rapariga, em alguma
garagem escura, que ela esteja a gritar com ele, a deixar crescer
dentro de si uma onda de cólera.
«Procurem para trás», foi o conselho de Nathan Pollock, como
habitualmente.
É simples e evidente – o passado reflete o futuro.
Durante os seus quinze anos de existência, Vicky teve tempo de
mudar de sítio muitas vezes: desde a vida de sem-abrigo, com a
mãe, até à passagem por diferentes famílias de acolhimento,
centros de acolhimento de emergência e lares para menores.
Nalgum sítio ela tem de estar neste momento.
A resposta pode estar em alguma das famílias com quem ela
viveu, ou numa conversa com algum dos técnicos que a
acompanharam, ou com mães e pais temporários.
Tem de haver pessoas em quem ela confiou e com quem falou.
Quando Joona faz menção de se levantar para procurar Anja e
perguntar-lhe se ela conseguiu obter nomes e moradas, ela
aparece-lhe à porta do gabinete, o corpo forte apertado numa saia
preta muito justa e, como sempre, uma camisola de angorá. O
cabelo louro está artisticamente apanhado, e o bâton é vermelho
vivo.
– Antes de te responder, tenho de dizer que todos os anos são
retiradas aos pais cerca de quinze mil crianças – esclarece Anja. –
Quando os políticos introduziram nesta área operadores privados,
chamaram-lhe «reforma para a escolha na saúde». Agora os lares
de acolhimento são quase exclusivamente propriedade de gestores
de capital de risco. É exatamente igual aos leilões de crianças dos
tempos antigos: quem oferece o preço mais baixo obtém o contrato
de prestação do serviço. E para ganhar mais dinheiro, corta-se no
pessoal, na atividade docente, na terapia, nos cuidados dentários…
– Eu sei – responde Joona. – Mas a Vicky Bennet…
– A minha ideia era fazer uma tentativa de localizar o assistente
social encarregado da última colocação dela.
– És capaz de fazer isso? – pergunta Joona.
Anja sorri com indulgência e inclina a cabeça.
– Já fiz, Joona Linna.
– És fantástica – diz-lhe Joona, sorrindo.
– Por ti faço tudo, já sabes.
– Eu não mereço – responde ele, mantendo o sorriso.
– Pois não – diz ela, saindo para o corredor.
Joona fica sentado um momento e depois levanta-se e vai ao
gabinete de Anja, bate à porta e entra.
– Nomes e moradas – diz ela, apontando para uma pilha de
papéis em cima da impressora.
– Obrigado.
– Quando o assistente com quem falei ouviu o meu nome, disse
que havia uma excecional nadadora sueca de mariposa com o
mesmo nome que eu – diz Anja, corando.
– Disseste que eras tu, espero?
– Não, mas de qualquer modo ele disse que a Vicky Bennet só
apareceu no registo civil quando já tinha seis anos. A mãe, Susie,
vivia na rua e, ao que parece, teve a criança fora do sistema
hospitalar. A mãe foi entregue aos cuidados psiquiátricos, e a Vicky
ficou com um casal em circunstâncias ideais, aqui em Estocolmo.
Joona tem nas mãos a lista ainda quente da impressora e
examina as datas e as várias famílias de acolhimento, filas de
nomes e moradas, desde o primeiro casal que a recebeu, Jack e
Elin Frank, em Strandvägen 47, até ao centro de acolhimento de
Ljungbacken, em Uddevalla, e Birgitta, no município de Sundsvall.
Em vários sítios da lista há uma nota dizendo que a criança pediu
para voltar para a primeira família de acolhimento.
«A criança pede para regressar a casa da família Frank, mas esta
recusa» – é o teor do lacónico comentário.
Por fim, deixam de entregar Vicky Bennet aos cuidados de
famílias e ela passa a viver em instituições. Centros de acolhimento
de emergência, centros de acolhimento transitório, instituições de
reabilitação e centros de residência de menores em risco.
Joona pensa no martelo ensanguentado debaixo da almofada e
nos vestígios de sangue no parapeito da janela.
Recorda a fotografia – o rosto magro, a expressão determinada,
as mechas emaranhadas de cabelo louro.
– Podes verificar se o casal Jack e Elin Frank ainda têm a mesma
morada?
O rosto redondo de Anja anima-se numa expressão divertida, e
ela faz uma careta.
– Lê a imprensa cor-de-rosa para ver se aprendes alguma coisa.
– Porquê?
– A Elin Frank e o Jack divorciaram-se, mas ela ficou com o
apartamento… Até porque o dinheiro é dela.
– São celebridades?
– Ela está envolvida numa série de atividades de beneficência,
mais do que é comum nos ricos. Ela e o então marido Jack
investiram grandes quantias de dinheiro em aldeias de crianças e
fundos de auxílio.
– Mas a Vicky Bennet chegou, portanto, a viver com eles?
– Ao que parece, a coisa não funcionou muito bem.
Joona pega nas folhas impressas e encaminha-se para a porta,
mas depois volta-se novamente para Anja.
– O que é que posso fazer para te agradecer?
– Inscrevi-nos aos dois num curso – responde ela prontamente. –
Promete que vais comigo.
– Um curso de quê?
– Relaxamento… Kama Sutra qualquer coisa…
49

O número 47 de Strandvägen fica precisamente em frente da


ponte de Djurgården. É um edifício de aspeto abastado, com uma
porta elegante e uma bonita escadaria num tom escuro.
Elin e Jack Frank eram a única família para a qual Vicky Bennet
queria voltar, embora tivesse vivido com eles por um período muito
curto. A criança pediu repetidamente para voltar para casa deles,
mas a família Frank decidiu recusar.
Quando Joona Linna toca à campainha da porta com o nome
Frank gravado numa placa negra brilhante, ela abre-se quase
imediatamente. Um homem de aspeto descontraído, bronzeado e de
cabelo louro muito brilhante, cortado curto, olha interrogativamente
para o comissário.
– Procuro Elin Frank.
– Robert Bianchi. Sou o consigliere da Elin – diz o homem,
estendendo a mão.
– Joona Linna, da Polícia Criminal.
Um vago sorriso passa pelos lábios do homem.
– Muito emocionante, mas…
– Preciso de falar com ela.
– Quer fazer o favor de dizer de que se trata? Não quero
incomodá-la desnecessariamente…
O homem cala-se quando encontra o olhar frio e cinzento de
Joona.
– Espere aqui, que eu vou perguntar-lhe se ela pode receber
visitas – diz, antes de desaparecer atrás de uma porta.
O átrio é branco e não tem móveis. Não há um armário, objetos
decorativos, sapatos nem casacos. Só paredes brancas lisas e um
enorme espelho de vidro branco.
Joona tenta imaginar uma criança como Vicky neste ambiente.
Uma menina inquieta, caótica, que só aparece no registo civil
quando já tem seis anos. Uma criança que se habituou a que o seu
lar fosse uma garagem ou um túnel.
Robert Bianchi regressa com um sorriso tranquilo e pede-lhe que
o acompanhe. Passam um grande salão de cores claras, com vários
conjuntos de sofás e um fogão de sala de azulejos ornamentados. O
som dos seus passos é abafado pelos tapetes espessos nas
sucessivas salas que atravessam até se encontrarem diante de uma
porta fechada.
– Pode bater à porta – diz Robert Biachi com um sorriso hesitante.
Joona obedece e ouve o ruído de uns saltos altos a matraquear o
chão. Uma mulher de meia-idade, esbelta, com o cabelo louro-
escuro e grandes olhos azuis, vem abrir. Enverga um vestido
vermelho, de um tecido fino, cuja saia termina abaixo dos joelhos. É
bonita. Está discretamente maquilhada e usa um colar de pérolas de
três voltas.
– Entre, Joona – diz ela numa voz grave e bem articulada.
Entram numa sala luminosa, com uma secretária, um conjunto de
sofás em couro branco e estantes a forrar as paredes.
– Ia precisamente tomar um chá. É demasiado cedo para si? –
pergunta.
– Não, parece-me bem.
Robert sai e Elin aponta para o sofá.
– Podemos sentar-nos.
A mulher senta-se diante dele, sem pressa, e cruza as pernas.
– De que é que se trata? – pergunta ela, olhando-o com uma
expressão séria.
– Aqui há uns anos, a senhora e o seu marido, Jack Andersson,
deram apoio temporário a uma garota…
– Nós ajudámos muitas crianças, de diferentes maneiras,
quando…
– Chama-se Vicky Bennet – interrompe-a Joona suavemente.
Alguma coisa perpassa vagamente na expressão controlada do
rosto, mas a voz mantém-se calma e inalterada.
– Lembro-me muito bem da Vicky – responde com um breve
sorriso.
– De que é que se lembra?
– Era muito querida e…
Elin Frank cala-se e fita a parede em frente. Tem as mãos
perfeitamente imóveis.
– Temos razões para pensar que ela matou duas pessoas numa
instituição para menores em risco, nos arredores de Sundsvall – diz
Joona.
A mulher vira rapidamente a cara, mas Joona teve tempo de ver a
expressão turvar-se. Alisa o vestido sobre os joelhos, sem conseguir
disfarçar o tremor das mãos.
– Em que é que isso me diz respeito? – pergunta ela.
Robert bate à porta e entra, empurrando um carrinho de chá, com
a loiça a tilintar. Elin Frank agradece e pede-lhe que lhes deixe o
carrinho.
– A Vicky está desaparecida desde sexta-feira passada – explica
Joona depois de Robert sair. – É possível que ela a procure.
Elin não olha para ele. Baixando a cabeça, engole em seco.
– Não – diz friamente.
– Porque é que acha que a Vicky não a vai procurar?
– Ela nunca irá contactar-me – responde a mulher, levantando-se
em seguida. – Foi um erro tê-lo recebido sem saber qual era o
assunto.
Joona começa a pôr as chávenas na mesa e depois olha para ela.
– Quem acha que ela pode procurar? Será capaz de contactar o
seu ex-marido?
– Se tiver mais perguntas a fazer, tenha a bondade de falar com o
meu advogado – diz ela, e em seguida abandona a sala.
Ao cabo de um momento, Robert entra.
– Acompanhe-o à porta – diz bruscamente.
– Muito obrigado – diz Joona. Em seguida deita chá nas duas
chávenas, pega numa, sopra-lhe e bebe um gole cauteloso.
Sorrindo, tira um biscoito de limão do prato coberto com um pano
de linho branco. Come o biscoito sem pressa e bebe o chá, limpa a
boca, dobra o guardanapo e põe-no em cima da mesa antes de se
levantar.
Joona ouve os passos de Robert atrás dele, atravessando o
enorme apartamento com os seus vários salões e a sala de estar
com o fogão de azulejos. No átrio branco com chão de pedra, Joona
abre a porta para a escada.
– Uma questão que é melhor abordar desde já é que é muito
importante que a Elin não seja associada a acontecimentos de cariz
negativo ou…
– Percebo – interrompe-o Joona. – Mas aqui o mais importante
não é a Elin Frank…
– Para mim, é. E para ela também – interrompe Robert.
– Pois, mas o passado, quando volta, não tem isso em
consideração – diz Joona, já a descer a escada.
50

O ginásio do apartamento fica paredes meias com a casa de


banho principal. Elin corre habitualmente sete quilómetros por dia e,
duas vezes por semana, vai ao Mornington Health Club, onde tem
um personal trainer. Em frente da passadeira está uma televisão
desligada. Do seu lado esquerdo, Elin tem uma vista desafogada
sobre os telhados, até à torre da igreja de Oscar II.
Hoje não põe música. Os únicos sons que ouve são os seus
passos ritmados, o tilintar metálico dos pesos, o zumbido do motor
da passadeira e a sua respiração.
O rabo de cavalo balança-lhe entre as omoplatas. Veste apenas
as calças de treino e um sutiã de desporto branco. Ao fim de
cinquenta minutos, o suor impregnou o tecido entre as coxas e
encharcou o sutiã.
Elin pensa no tempo em que Vicky Bennet veio para casa dela.
Foi há oito anos. Uma menina com cabelo louro, emaranhado.
Elin tinha contraído clamídia na juventude, durante uma viagem a
França para melhorar os conhecimentos de francês. Não levou a
sério o problema e acabou por ficar estéril. Na altura, isso pareceu-
lhe pouco importante, porque, de qualquer forma, não queria ter
filhos. Durante muitos anos disse a si própria que era ótimo não ter
de pensar em contraceção.
Estava casada com Jack havia dois anos quando ele começou a
falar em adoção, mas sempre que tocava no assunto ela dizia que
não queria filhos, que era uma responsabilidade muito grande.
Nesse tempo Jack ainda estava apaixonado por ela e concordou
quando Elin sugeriu que se oferecessem como família de apoio ou
de recurso para crianças com problemas na própria família, que
precisassem de se afastar por algum tempo.
Elin telefonou para a Direção do Serviço Social de Estocolmo,
para a delegação local de Norrmalm, e Jack acompanhou-a a uma
reunião com um técnico responsável, que fez perguntas sobre as
condições de habitação deles, o trabalho, o estado civil e filhos
próprios.
Um mês depois, Elin e Jack foram convocados para entrevistas
aprofundadas, conduzidas em salas distintas. As entrevistas
seguiam o método de Kälvesten e eram constituídas por uma
infinidade de perguntas.
Ainda se recorda do espanto da assistente social quando
percebeu quem Elin era.
Depois disso decorreram apenas três dias até o telefone tocar. A
assistente social disse que tinha uma criança que precisava de
muita tranquilidade e segurança durante um certo período.
– Tem seis anos… Acho que é capaz de correr bem… É preciso
fazer a experiência, claro, mas, assim que ela se ambiente,
podemos aconselhar alguns psicólogos – explicou.
– O que é que se passou com ela?
– A mãe não tem morada fixa e é psicologicamente instável. As
autoridades intervieram quando a menina foi encontrada a dormir
numa carruagem do metropolitano.
– Mas está bem?
– Estava um pouco desidratada, mas o médico disse que era
saudável. Tentei falar com ela… Parece ser uma boa menina, mas
introvertida.
– Como é que ela se chama, sabe?
– Sim. Vicky… Chama-se Vicky Bennet.
Elin Frank aumenta a velocidade no final. A passadeira zumbe
discretamente e a sua respiração torna-se mais ofegante. Aumenta
a inclinação, depois mais um pouco, e só então vai abrandando
gradualmente.
Em seguida vai para a barra fazer alongamentos, diante do
grande espelho, mas sem se olhar nos olhos. Descalça os ténis e
sai da sala com as pernas pesadas e a tremer. Já na casa de
banho, tira o sutiã, atira-o para o chão, despe as calças e as cuecas
e entra no duche.
Quando a água quente começa a cair-lhe na nuca e os músculos
se descontraem, a angústia regressa. É como se tivesse a histeria à
flor da pele. Alguma coisa dentro dela quer gritar e chorar. Mas Elin
controla-se. Baixa a temperatura da água até ficar gelada e obriga-
se a suportar o frio. Vira o rosto para o chuveiro até a água gelada
lhe fazer doer as têmporas, e só depois fecha a torneira e sai para
se secar.
51

Elin sai do quarto de vestir envergando uma saia de veludo pelo


meio da perna e um body justo, de nylon, da última coleção da
Wolford. A pele dos braços e dos ombros é visível através do tecido
preto, com pedrinhas brilhantes. Trata-se de um material tão fino,
que ela tem de usar uma espécie de luvas de seda quando veste o
body.
Na salinha anexa, Robert, sentado num cadeirão forrado a
carneira, examina papéis, que vai distribuindo por pastas de arquivo
em couro.
– Que rapariga é essa de que o polícia falava?
– Ninguém – responde Elin.
– Alguma coisa com que devamos preocupar-nos?
– Não.
Robert Bianchi é conselheiro e assistente de Elin há seis anos. É
homossexual e nunca teve uma relação estável. Elin pensa que o
que lhe dá prazer é mostrar-se na companhia de homens bonitos.
Foi Jack que achou que ela devia ter um assistente homossexual,
para não ter ciúmes. Elin lembra-se de ter respondido que isso lhe
era indiferente – desde que ele não falasse de uma maneira
afetada.
Elin senta-se no cadeirão ao lado do dele, estende as pernas e
mostra-lhe os sapatos de verniz, de salto alto.
– Lindíssimos – diz-lhe Robert, sorrindo.
– Estive a ver a agenda do resto da semana – diz Elin.
– Daqui a uma hora, tem a receção no Clarion Hotel Sign.
Um autocarro que passa na Strandvägen faz tremer as portadas.
Elin pressente o olhar dele, mas não o procura e ocupa-se a rodar a
pequena cruz de diamantes que traz ao pescoço, num fio.
– Eu e o Jack tomámos conta de uma menina chamada Vicky…
há muito tempo – diz Elin, e engole em seco.
– Adotaram-na?
– Não, ela tinha mãe. Nós éramos só uma espécie de recurso,
mas depois eu…
Cala-se e puxa a cruz de um lado para o outro no fio.
– Quando foi isso?
– Uns anos antes de você vir para aqui – responde ela. – Mas
nessa altura eu ainda não estava na direção da firma, e o Jack
estava no princípio da sua colaboração com a Zentropa.
– Não é obrigada a contar.
– Estou convencida de que estávamos preparados, tanto quanto
se pode estar. Sabíamos que não ia ser fácil, mas… Consegue
perceber este país? Quero dizer, primeiro, umas formalidades
incríveis, temos de falar com assistentes sociais, com
coordenadores disto e daquilo, tem de ser tudo esmiuçado, desde a
situação económica à vida sexual… Mas, assim que nos aprovaram,
ao fim de três dias já tínhamos uma criança, e fomos obrigados a
desenvencilhar-nos sozinhos! Isto não tem pés nem cabeça,
sinceramente. E, sabe, não deram informações nenhumas sobre
ela, não nos deram apoio nenhum.
– Muito típico.
– Estávamos empenhados em fazer alguma coisa de bom…
Tivemos a miúda connosco durante nove meses, de uma forma
intermitente. Tentaram várias vezes pô-la a viver com a mãe, mas a
pequena acabava sempre por ser encontrada no meio de caixas de
cartão, numa garagem, fora de Estocolmo.
– Que triste – comenta Robert.
– Por fim, eu já não aguentava. Tantas vezes que tivemos de sair
de casa a meio da noite para a ir buscar, levá-la à urgência do
hospital, ou metê-la na banheira e alimentá-la… Não digo que não
nos tivéssemos separado na mesma, mas… Uma noite ele disse-me
simplesmente que eu tinha de escolher…
Elin sorri inexpressivamente para Robert.
– Não percebo porque é que ele me queria obrigar a escolher.
– Porque só pensa nele – diz Robert.
– Mas nós éramos uma família de recurso. Não faria sentido
escolher entre ele e uma criança que ia ficar aqui uns meses, seria
absurdo… E além disso, ele sabia que eu era completamente
dependente dele naquela altura.
– Não… – tenta Robert.
– Mas é verdade, era mesmo – diz Elin. – Por isso, quando
atribuíram um apartamento à mãe da Vicky, concordei que ele
telefonasse para o Serviço Social… As coisas pareciam estar a
correr bem com a mãe dela, daquela vez…
A voz falha-lhe, e ela sente, surpreendida, as lágrimas
começarem a correr-lhe pelo rosto.
– Porque é que nunca falou disto?
Elin limpa as lágrimas e mente, sem saber porquê.
– Não é uma coisa muito importante, uma coisa em que eu esteja
sempre a pensar.
– É preciso andar com a vida para a frente – diz Robert, como que
a desculpá-la.
– Sim – sussurra Elin, tapando o rosto.
– Que é que se passa? – pergunta Robert, inquieto.
– Robert – soluça ela, procurando-lhe o olhar. – Eu não tenho
nada a ver com isto, mas o polícia que veio cá disse-me que a Vicky
tinha assassinado duas pessoas.
– É aquele caso recente que se deu na região de Norrland?
– Não sei.
– Tem alguma ligação com ela? – pergunta Robert
cautelosamente.
– Não.
– Porque a Elin não pode, de maneira nenhuma, ser associada a
isto.
– Eu sei… É claro que gostaria de fazer alguma coisa para a
ajudar, mas…
– Não se meta no assunto.
– Talvez seja melhor telefonar ao Jack.
– Não telefone.
– Ele tem de saber.
– Mas não por si – objeta Robert. – Só vai servir para a Elin ficar
triste, sabe muito bem, como acontece sempre que fala com ele…
Elin tenta fazer um sorriso de concordância e pousa a mão sobre
a de Robert.
– Esteja aqui amanhã às oito, para vermos os assuntos da
próxima semana.
– Está bem – diz Robert, e sai da sala.
Elin pega no telefone, mas espera que Robert saia e feche a porta
da rua à chave para marcar o número de Jack.
Jack atende com voz rouca, ensonada.
– Elin? Sabes que horas são aqui? Não podes continuar a
telefonar…
– Estavas a dormir?
– Estava.
– Sozinho?
– Não.
– Estás a dizer a verdade para me magoar, ou…
– Nós estamos divorciados, Elin – interrompe ele.
Elin entra no quarto, mas fica parada, a olhar para a enorme
cama.
– Diz que tens saudades minhas – murmura ela.
– Boa noite, Elin.
– Podes ficar com o apartamento de Broome Street, se quiseres.
– Não quero. Tu é que gostas de Nova Iorque.
– A Polícia pensa que a Vicky matou duas pessoas.
– A nossa Vicky?
A boca dela começa a tremer e os olhos enchem-se-lhe de
lágrimas.
– Sim… Vieram cá fazer perguntas sobre ela.
– Que triste – diz ele em voz baixa.
– Não podes vir cá? Preciso de ti… Podes trazer a Norah, se
quiseres, que eu não tenho ciúmes.
– Elin, eu não tenho a mínima intenção de ir a Estocolmo.
– Desculpa ter telefonado – diz Elin, e desliga.
52

Num dos pisos superiores do número 21 de Kungsbron fica a


Secção de Processos da Polícia do Ministério Público e o
Departamento de Assuntos Internos da Direção Nacional da Polícia.
Joona está num pequeno gabinete com Mikael Båge, chefe do
departamento, e Helene Fiorine, chefe do Secretariado.
– Na data e hora atrás indicadas, a Polícia de Segurança do
Estado levou a cabo uma ação contra a Brigada, um grupo da
extrema-esquerda – lê Båge, e em seguida pigarreia. – A queixa
apresentada alega que o comissário Joona Linna, da Polícia
Criminal, terá estado na morada referida simultaneamente ou
imediatamente antes da…
– É verdade – responde Joona, olhando pela janela para a linha
do comboio e as águas de Barnhusviken.
Deixando transparecer a sua perturbação, Helene Fiorine pousa a
caneta e o bloco de notas e faz um gesto de súplica.
– Joona, tenho de lhe pedir que leve o inquérito interno a sério.
– É o que estou a fazer – responde ele distraidamente.
Ela demora-se um pouco mais nos olhos cinzento-prata de Joona,
e depois acena rapidamente e volta a pegar na caneta.
– Antes de terminarmos – diz Mikael Båge, coçando
demoradamente o ouvido –, tenho de abordar o foco principal do
inquérito interno, a suspeita que impende sobre si…
– Pode acontecer que se trate de um mal-entendido – intervém
Helene rapidamente. – Que as duas investigações, por um infeliz
acaso, se tenham cruzado.
– Mas na queixa contra si – continua Båge, examinando o dedo –
afirma-se que a ação da Polícia de Segurança do Estado fracassou
porque o Joona terá avisado o círculo interno da organização.
– Pois foi, avisei-os – responde Joona.
Helene Fiorine levanta-se da cadeira, sem saber o que dizer, e
fica parada a olhar para Joona com tristeza.
– Avisou o grupo de que ia haver uma ação? – pergunta Båge,
sorrindo.
– Eram uns jovens imaturos – diz Joona –, mas não eram
perigosos nem…
– A Polícia de Segurança fez uma avaliação diferente –
interrompe Båge.
– Pois fez – responde Joona tranquilamente.
– Termina aqui o interrogatório preliminar – diz Helene Fiorine,
juntando a sua papelada.
53

São quatro e meia quando Joona passa em Tumba, onde uma


vez investigou um triplo homicídio cometido numa das moradias em
banda.
Ao lado dele, no assento, encontra-se a lista dos locais por onde
Vicky Bennet foi passando ao longo dos anos. O último é Birgitta e o
primeiro a rua Strandvägen, número 47.
Deve ter falado com alguma das pessoas com quem viveu. Deve
ter-se confiado a alguém, mencionado alguma outra pessoa amiga
que tivesse.
A única coisa que Elin Frank disse de Vicky é que ela era muito
querida.
«Muito querida», pensa Joona.
Para a abastada família Frank, Vicky era uma criança vulnerável,
uma criança que precisava de ajuda e por quem se deve ter
compaixão.
Para eles, tratava-se de beneficência.
Mas para Vicky, Elin foi a primeira mãe verdadeira, depois da sua
mãe biológica.
A vida em Strandvägen deve ter sido uma coisa completamente
nova para ela. Não passava frio, era alimentada regularmente.
Dormia numa cama e vestiam-na com roupas bonitas. O tempo que
passou com Elin e Jack deve ter conservado um brilho especial
durante muitos anos.
Joona liga o pisca e passa para a faixa da esquerda.
Depois de estudar a lista, decidiu desta vez começar pelo fim.
Antes de Birgitta, Vicky esteve no lar de Ljungbacken, e antes tinha
estado com a família Arnander-Johansson em Katrineholm.
Mais uma vez, recorda a imagem de Nålen e Frippe a afastarem
as mãos de Miranda do rosto. Precisaram de forçar os braços, em
rigidez cadavérica. A rapariga morta parecia resistir, como se não
quisesse mostrar-se, como se tivesse vergonha.
Mas o rosto estava calmo e branco como madrepérola.
Segundo Nålen, ela estava sentada e embrulhada num cobertor
quando foi agredida com uma pedra grande. Seis ou sete vezes, se
Joona interpretou bem o padrão das manchas de sangue.
Depois pegaram nela, deitaram-na na cama e puseram-lhe as
mãos sobre o rosto.
A última coisa que ela viu foi o assassino.
Joona abranda para entrar numa zona de moradias já com alguns
anos e estaciona junto a uma sebe baixa de arbustos de potentilha.
Sai do carro e aproxima-se de uma grande caixa de correio em
madeira, com uma placa de latão onde está inscrito: Arnander-
Johansson. Uma mulher surge do lado de trás da casa com um
balde de maçãs vermelhas na mão. Tem problemas na anca e por
vezes a boca contrai-se-lhe de dor. É uma mulher forte, com peitos
grandes e braços gordos.
– Perdeu-o por uns minutos – diz a mulher quando vê Joona.
– É a minha sina – brinca Joona.
– Ele teve de ir ao armazém. Qualquer coisa com as guias de
transporte.
– Estamos a falar de quem? – pergunta Joona, sorrindo.
Ela pousa o balde no chão.
– Pensei que vinha ver a passadeira rolante.
– Quanto é que custa?
– Sete mil, completamente nova – responde ela.
Passa a mão pela perna das calças e olha para ele.
– Pertenço à Polícia Criminal e estou aqui para fazer umas
perguntas.
– Sobre quê? – pergunta ela, numa voz sumida.
– Vicky Bennet, que viveu aqui… Há quase um ano.
A mulher assente em silêncio, com uma expressão triste, aponta
para a porta e entra à frente dele. Joona segue-a até à cozinha,
onde há uma mesa de pinho com uma toalha de renda e cortinas às
flores na janela que dá para o jardim. A relva foi cortada
recentemente e vê-se uma ameixeira e uma groselheira, que faz as
vezes de sebe, separando a propriedade da do vizinho. Há uma
pequena piscina azul-clara, rodeada por uma estrutura de ripas de
madeira. Na água, junto à calha de escoamento do lado direito,
flutuam brinquedos.
– A Vicky fugiu – diz Joona sem rodeios.
– Eu li – diz a mulher, quase sem voz, pousando o balde com
maçãs em cima da bancada.
– Onde acha que ela se terá escondido?
– Não faço ideia.
– Ela falou de amigos, de rapazes…
– A Vicky não chegou a viver aqui – diz a mulher.
– Porquê?
– Acabou por não ficar – responde ela, virando as costas.
A mulher enche a cafeteira de água e verte-a no depósito da
máquina de café, mas depois para.
– É costume oferecer café – diz ela numa voz fraca.
Pela janela, Joona vê dois rapazes louros a praticar karaté no
jardim. São os dois magros, estão bronzeados e vestem calções de
banho. A brincadeira é um pouco violenta, um pouco excessiva, mas
eles riem sempre.
– Recebem crianças e jovens na vossa família?
– A nossa filha já tem dezanove anos, por isso… Desde há uns
anos que fazemos isto.
– Quanto tempo é que as crianças costumam ficar?
– Varia… E às vezes vão e vêm – explica ela, voltando-se para
Joona. – Muitos deles vêm de famílias extremamente problemáticas.
– É difícil?
– Não, não é difícil… É claro que há conflitos, mas na verdade, o
importante é fixar claramente os limites.
Um dos rapazes executa um pontapé lateral sobre a piscina e cai
na água de chapão. O outro executa vários golpes secos no ar,
seguidos de uma pirueta.
– Mas a Vicky só ficou duas semanas – diz Joona, olhando-a nos
olhos. Ela desvia o olhar e coça-se levemente nos braços.
– Temos dois rapazes – diz ela, com um ar vago. – Estão cá há
dois anos… São irmãos. Esperávamos que as coisas corressem
bem com a Vicky mas, infelizmente, tivemos de suspender.
– O que é que aconteceu?
– Nada… Nada de concreto, quero eu dizer… Não foi por culpa
dela, nem de ninguém, aliás… Mas era demasiado pesado, e nós
somos apenas uma família normal, não íamos aguentar,
simplesmente.
– Mas a Vicky era… difícil? Causava problemas?
– Não – responde ela em voz fraca. – Mas foi…
A mulher cala-se.
– O que é que ia dizer? O que é que se passou?
– Nada.
– Vocês têm experiência disto. Como é possível que desistam ao
fim de duas semanas?
– As coisas são como são.
– Mas eu acho que aconteceu alguma coisa – diz Joona
gravemente.
– Não, era simplesmente demasiado complicado para nós.
– Acho que se passou alguma coisa – repete ele, com a mesma
voz suave.
– Para que é isto? – pergunta ela, embaraçada.
– Por favor, conte-me o que se passou.
A mulher cora. O rubor espalha-se nas faces, na pele áspera do
pescoço e entre os seios.
– Recebemos uma visita – murmura ela, baixando os olhos.
– De quem?
Ela abana a cabeça. Joona estende-lhe um bloco de notas e uma
caneta. As lágrimas começam a correr-lhe pelo rosto. Ela olha para
o comissário e depois pega no bloco e na caneta, e escreve.
54

Joona conduziu durante três horas antes de chegar ao número 35


de Skrakegatan, em Bengtsfors. As lágrimas da mulher haviam
molhado o papel quando escrevera o endereço no bloco. Joona
conseguira tirar-lhe o bloco da mão, mas quando tentara levá-la a
dizer mais alguma coisa, ela limitara-se a abanar a cabeça e fugira
da cozinha para se fechar na casa de banho.
Joona avança devagar junto à fila de moradias em banda, de tijolo
vermelho, até chegar a uma praceta no fim da rua, onde ficam as
garagens. O número 35 é a última casa. O vento derrubou o
mobiliário de jardim de plástico, deixando-o espalhado pela relva. A
caixa de correio, presa por uma corrente preta, está a transbordar
de publicidade de pizarias e dos supermercados Coop e Ica
Kvantum.
Joona sai do carro, pisa a erva que rodeia o portão e segue o
caminho de lajes de cimento até à casa.
Diante da porta há um tapete encharcado, com as palavras
«chaves, carteira, telemóvel». O interior das vidraças está tapado
com sacos de lixo pretos. Joona toca à campainha. Um cão ladra e,
passado um momento, alguém vem espreitar pelo óculo da porta.
Ouve-se rodar duas trancas, e a porta abre uma frincha, até a
corrente de segurança a travar. Joona sente um cheiro pungente a
vinho tinto. Não consegue distinguir a pessoa que está no átrio às
escuras.
– Posso entrar por um momento?
– Ela não quer falar consigo – responde uma voz de rapaz, rouca
e pesada.
O cão arfa e ouvem-se os elos da correia quando a trela estica.
– Mas eu preciso de falar com ela.
– Não compramos nada! – grita uma mulher lá de dentro.
– Sou da Polícia – diz Joona.
Ouvem-se passos dentro da casa.
– Ele está sozinho? – pergunta a mulher.
– Acho que sim – sussurra o rapaz.
– Estás a segurar o Zombie?
– Queres abrir, mãe? – pergunta a voz ansiosa do rapaz.
A mulher aproxima-se da porta.
– O que é que quer?
– Sabe alguma coisa de uma rapariga chamada Vicky Bennet?
O cão escorrega no chão e raspa-o com as unhas. A mulher fecha
a porta e tranca-a. Joona ouve-a gritar alguma coisa para o rapaz.
Passado um momento, a fechadura roda e a porta abre-se alguns
centímetros. A mulher tirou a corrente de segurança. Joona empurra
um bocadinho a porta e entra na casa. A mulher está de costas para
ele. Está vestida com uns collants cor de pele e uma camisola de
algodão branca. O cabelo louro chega-lhe às costas. Quando Joona
fecha a porta, a escuridão é tal, que ele tem de parar. Não há
nenhuma luz acesa.
A mulher caminha à sua frente. O sol bate diretamente nas
janelas forradas com sacos de plástico pretos. Os furos e pequenos
rasgões nos sacos brilham como estrelas. Na cozinha penetra uma
débil luz cinzenta. Em cima da mesa está uma caixa de vinho e, por
baixo, no chão de linóleo castanho, vê-se uma poça grande.
Quando Joona entra na pequena sala às escuras, onde há uma
televisão, a mulher já está sentada num sofá forrado a ganga azul.
Os cortinados são roxos e tocam no chão. Por trás deles veem-se
os sacos pretos colados nas vidraças. Mesmo assim, um fino raio de
luz consegue penetrar pela portada da varanda e pousar na mão da
mulher. Joona constata que ela tem mãos bem cuidadas, com as
unhas pintadas de vermelho.
– Sente-se – diz ela tranquilamente.
– Obrigado.
Joona senta-se em frente dela numa banqueta. Quando os olhos
se adaptam à escuridão, consegue perceber que há qualquer coisa
de estranho no rosto da mulher.
– O que quer saber?
– Você procurou a família Arnander-Johansson.
– Sim.
– Para falar de quê?
– Para os avisar.
– Avisá-los de quê?
– Tompa! – chama a mulher. – Tompa!
Uma porta abre-se e ouvem-se passos lentos. Joona não vê o
rapaz, mas sente a presença dele e apercebe-se do seu vulto junto
à estante. O rapaz avança para dentro da sala.
– Acende a luz do teto.
– Mãe, não…
– Faz o que eu te digo!
O rapaz carrega no interruptor e uma grande bola de papel de
arroz ilumina a sala. Sob a luz forte, o rapaz alto e magro baixa a
cabeça. Joona observa-o. O rosto dele parece ter sido mordido por
um cão de luta. O lábio inferior não existe. Os dentes estão à vista.
O queixo e a face direita, totalmente descarnados, têm a cor da
carne viva. Um profundo sulco vermelho, em diagonal, começa na
linha do cabelo e atravessa a testa e uma sobrancelha. Quando
Joona se vira para a mulher, vê que o rosto dela está ainda mais
desfigurado. Mas ela sorri-lhe. Falta-lhe o olho direito e tem
cicatrizes profundas no rosto e no pescoço feitas por pelo menos
dez golpes. A outra sobrancelha pende sobre o olho e a boca está
cortada em várias secções.
– A Vicky zangou-se connosco – diz a mulher. O sorriso
desaparece.
– O que é que aconteceu?
– Atacou-nos com uma garrafa partida. Não sabia que uma
pessoa podia enfurecer-se daquela maneira. Nunca mais parava.
Perdi os sentidos e, quando acordei, fiquei no chão, a sentir os
golpes e percebi que tinha ficado sem cara.
55

A câmara municipal de Sundsvall negociou com o consórcio de


saúde Orre e pagou bem caro para resolver a situação. As alunas
do Centro Birgitta foram transportadas do Hotel Ibis para a pequena
aldeia de Hårte, como medida temporária.
Hårte é uma velha povoação de pescadores, sem igreja. A escola
fechou há cem anos, a mina de ferro foi abandonada e a loja do Ica
encerrou quando os donos já estavam muito idosos. Mas, durante o
verão, o local anima-se, por causa das praias de areia branca ao
longo da costa de Jungfrukusten.
As seis raparigas vão ficar alojadas durante uns meses no antigo
armazém da aldeia, um edifício espaçoso, com uma grande
marquise, situado no ponto em que a estrada estreita que conduz à
aldeia se bifurca como uma língua de víbora.
Neste momento já jantaram, e algumas deixam-se ficar na sala de
refeições, a olhar o azul nebuloso do mar. Na grande sala de
convívio, contígua ao refeitório, encontra-se Solveig Sundström, do
lar de acolhimento de Sävstagården, sentada com o seu tricô em
frente à lareira crepitante.
Da sala de convívio parte um corredor frio que vai ter a uma
pequena cozinha, onde está o segurança. Dali pode ver-se não só o
átrio e a porta principal, mas também o relvado e a estrada, se se
olhar pela janela.
Lu Chu e Nina vão à despensa procurar batatas fritas, mas têm de
se contentar com uma embalagem de Frosties.
– Que é que vai fazer quando o assassino vier? – pergunta Lu
Chu.
A mão tatuada do homem, pousada na mesa, faz um gesto
rápido, e ele dirige-lhe um sorriso forçado.
– Estão em segurança, estejam descansadas.
Tem cerca de cinquenta anos, a cabeça rapada e uma barba
espessa, que vai do lábio inferior à ponta do queixo. A volumosa
musculatura insinua-se sob a camisola azul-escura, com o emblema
da empresa de segurança.
Lu Chu não responde e limita-se a olhar para ele enquanto vai
metendo na boca os flocos de cereais e os mastiga ruidosamente.
Nina vasculha o frigorífico e tira de lá uma embalagem de presunto
fumado e um frasco de mostarda.
Na outra ponta da casa, sentadas à mesa de refeições, na
marquise, Caroline, Indie, Tuula e Almira jogam às cartas.
– Dá-me os teus valetes – diz Indie.
– Pesca – responde Almira com um risinho.
Indie tira uma carta da mesa e olha-a com satisfação.
– O Ted Bundy era um autêntico carniceiro – diz Tuula em voz
baixa.
– Tens cada conversa… – comenta Caroline, suspirando.
– Ia de quarto em quarto, matando as miúdas todas à paulada,
como crias de foca. Primeiro, a Lisa e a Margaret, depois…
– Está calada – diz Almira, rindo.
Tuula sorri para a mesa, e Caroline não consegue reprimir um
arrepio.
– O que é que o estupor da velha está aqui a fazer? – pergunta
Indie em voz alta.
A mulher sentada em frente à lareira levanta os olhos e depois
continua a tricotar.
– Vamos continuar a jogar? – pergunta Tuula com impaciência.
– Quem é agora?
– Eu – diz Indie.
– Fazes tanta batota, caraças – diz Caroline a rir.
– O telemóvel está completamente morto – diz Almira. – Tinha-o
no quarto a carregar e agora…
– Queres que eu veja? – pergunta Indie.
Indie retira a tampa de trás com a unha, extrai a bateria e volta a
colocá-la, mas não acontece nada.
– Esquisito – murmura ela.
– Caga nisso – diz Almira.
Indie tira novamente a bateria.
– Isto nem tem a merda do cartão SIM!
– Tuula! – diz Almira com severidade. – Tiraste-me o cartão SIM?
– Não sei – responde ela, carrancuda.
– Eu preciso dele, não percebes?
A mulher pousa o tricô e vai à marquise.
– Que é que se passa?
– Nós resolvemos isto – responde Caroline calmamente.
Tuula aperta a boca com uma expressão triste.
– Eu não tirei nada – diz num tom lamuriento.
– O meu cartão SIM desapareceu – diz Almira, elevando a voz.
– Isso não quer dizer que ela o tenha tirado – diz a mulher com
indignação.
– A Almira disse que me vai bater – queixa-se Tuula.
– Não tolero qualquer manifestação de violência – declara a
mulher. Em seguida vai sentar-se novamente a tricotar.
– Tuula – diz Almira, baixando a voz –, eu preciso mesmo de
telefonar.
– Isso vai ser difícil – responde Tuula, sorrindo.
Do outro lado da enseada, adensam-se as sombras na floresta e
o céu escurece. A água brilha como chumbo líquido.
– A Polícia pensa que foi a Vicky que matou a Miranda – diz
Caroline.
– Cambada de imbecis – resmunga Almira.
– Eu não a conheço, nenhuma de nós a conhece – comenta Indie.
– Tem juízo.
– E se ela vier a caminho daqui para…
– Chiu! – interrompe Tuula.
Tuula levanta-se, tensa, e olha fixamente para a escuridão lá fora.
– Ouviram? – pergunta ela, virando-se para Caroline e Almira.
– Não – suspira Indie.
– Em breve estaremos todas mortas – sussurra Tuula.
– És tão mórbida, grande estupor! – exclama Caroline sem
conseguir reprimir um sorriso.
Agarra na mão de Tuula e puxa-a, senta-a no colo e dá-lhe
palmadinhas, reconfortando-a.
– Não tenhas medo, não vai acontecer nada.
56

Caroline acorda no sofá. Na lareira, o último pedaço de lenha arde


com uma luz trémula, irradiando um calor brando. Senta-se e olha
em volta, perscrutando a escuridão da sala de convívio e da sala de
refeições contígua. Constata que adormeceu no sofá e que as
outras foram todas deitar-se, deixando-a ali.
Levanta-se, aproxima-se de uma janela alta e olha lá para fora.
Para lá das cabanas escuras dos pescadores, é possível ver o mar.
O silêncio é total. O luar atravessa os farrapos de nuvens e vem
refletir-se na água.
Caroline abre a porta de pinho da sala, que range, e sente o ar
frio do corredor atingir-lhe o rosto. Atrás de si ouve os estalidos da
madeira dos móveis. As sombras do corredor são compactas e mal
deixam ver as portas dos quartos das alunas. Caroline dá um passo
no corredor. O chão está gelado. Subitamente, parece-lhe ouvir
alguma coisa, um suspiro ou um gemido.
Vem da casa de banho.
Com o coração acelerado, aproxima-se cautelosamente. A porta
está entreaberta. Está alguém lá dentro. O som estranho ouve-se
novamente.
Caroline espreita com cuidado pela estreita frincha.
Nina está sentada no tampo da sanita, com as pernas abertas e
uma expressão de indiferença no rosto. Diante dela está um homem
ajoelhado com o rosto entre as coxas dela. A rapariga puxou o
casaco do pijama para cima para ele poder mexer-lhe no seio
enquanto a lambe.
– Pronto, agora tem de acabar – diz Nina com uma voz pesada.
– OK – diz ele, levantando-se rapidamente.
Quando o homem tira um pedaço de papel higiénico e limpa a
boca, Caroline reconhece o guarda.
– Dê-me o dinheiro – diz Nina, estendendo a mão.
O guarda começa a remexer nos bolsos.
– Gaita. Só tenho oitenta coroas – diz ele.
– Você disse quinhentas.
– Que é que queres que eu faça? Só tenho oitenta.
Nina suspira e recebe o dinheiro.
Caroline afasta-se rapidamente e entra no quartinho frio que lhe
foi atribuído. Fecha a porta e acende a luz do teto. Vê a sua imagem
refletida na vidraça da janela e ocorre-lhe que é perfeitamente
visível de fora. Aproxima-se da janela e desce o estore. Pela
primeira vez desde há muito tempo, tem medo do escuro.
Incomodada, pensa nos olhos brilhantes de Tuula quando falava
dos grandes assassinos. Estava muito agitada e queria assustar as
outras, dizendo que Vicky as tinha seguido até aqui.
Caroline decide não lavar os dentes. Por nada neste mundo quer
voltar a percorrer o enorme corredor escuro.
Leva a cadeira para junto da porta e tenta bloquear o fecho,
prendendo a cadeira por baixo. Não consegue. Vai buscar uma pilha
de revistas Allers e, com as mãos a tremer, pousa-as no chão e
mete-as por baixo das pernas da cadeira, para a empurrar contra o
fecho da porta.
Parece-lhe ouvir alguém no corredor, do lado de fora, e espreita
pelo buraco da fechadura, sentindo arrepios nas costas.
De repente ouve um estalo atrás dela. O estore soltou-se e ficou
em cima a girar ruidosamente.
– Livra! – suspira ela, e vai puxá-lo para baixo novamente.
Fica parada no quarto, à escuta. Em seguida, apaga a luz e deita-
se na cama, aconchega o edredão em volta do corpo e espera que
o lençol comece a aquecer.
Imóvel no escuro, não despega os olhos do fecho da porta e
pensa em Vicky Bennet. Parecia tão tímida e cautelosa. Caroline
não acredita que ela seja culpada daquela atrocidade, não
consegue acreditar. Antes de se obrigar a pensar noutra coisa,
lembra-se da cabeça esmagada de Miranda e do sangue a pingar
do teto.
Subitamente, ouvem-se passos cautelosos no corredor. Há um
silêncio, e depois os passos continuam e param mesmo junto à
porta. Na escuridão do quarto, Caroline vê que alguém está a tentar
abrir o fecho da porta, travado pelas costas da cadeira. Caroline
fecha os olhos, tapa as orelhas e reza: «Senhor, que amas as
crianças, olha por mim…»
57

No silêncio da madrugada, ouve-se o baque surdo de uma


cadeirinha de criança a bater incessantemente na enorme parede
da barragem da central elétrica de Bergeforsen.
Com as costas de plástico cinzento viradas para cima, apenas
visível à superfície, a cadeirinha foi transportada até ali pelas águas
do Indalsälven.
Desde que a neve começou a derreter nas montanhas, em
Jämtlandsfjällen, o caudal do rio aumentou muito. As centrais
elétricas a jusante do lago Storsjön estão constantemente a calibrar
o nível da água quando esta ameaça transbordar.
Depois das chuvas abundantes da última semana, a central de
Bergeforsen começou a abrir gradualmente as comportas, para
evitar uma inundação descontrolada. A água é escoada à razão de
mais de dois milhões de litros por segundo.
Nos últimos meses, o Indalsälven adquiriu o aspeto de um lago,
com o seu movimento lento, mas a corrente mantém-se forte.
A cadeira de criança bate no dique, desliza um pouco para trás e
volta a bater.

Joona corre pelo caminho estreito ao longo da parede da


barragem. No lado direito, o rio alarga-se e parece formar uma
grande superfície brilhante, mas à esquerda há uma parede lisa de
betão, que mergulha a pique uns trinta metros. A altura é
vertiginosa. Lá em baixo, os jorros de água saem disparados devido
à força gerada pelas comportas e cobrem as rochas negras do rio
de espuma branca.
Mais à frente, no passadiço da barragem, estão dois polícias
fardados, acompanhados de um guarda da central elétrica, apoiados
no gradeamento de proteção, a observar a superfície lisa da água.
Um dos polícias aponta e pega num croque.
Em volta da cadeira juntou-se lixo, arrastado pela forte corrente.
Uma garrafa de plástico, que rebola até à parede, folhas, ramos e
restos meio desfeitos de caixas de cartão.
Joona olha para a água negra lá em baixo. A corrente puxa a
cadeirinha. Tudo o que se vê é o encosto de plástico rígido.
É impossível determinar se a criança ainda está presa na cadeira.
– Virem-na – diz Joona.
O outro polícia acena com a cabeça e debruça-se o mais que
consegue sobre o gradeamento. Com o croque, rasga a superfície
lisa da água e afasta um ramo grande de abeto. Em seguida
mergulha mais o croque, introduzindo-o por baixo da cadeira,
levanta-o cautelosamente até o gancho prender e depois puxa-o
para cima. A cadeira vira-se finalmente chapinhando na água, e o
forro aos quadrados, ensopado, fica à vista.
Está vazia, e as tiras de retenção movem-se lentamente na água.
Joona contempla a cadeira, com as tiras pretas, e pensa que o
corpo da criança pode ter escorregado sob o cinto e mergulhado no
fundo da barragem.
– Como eu disse pelo telefone, a cadeira parece ser esta… Não
está muito danificada, mas é claro que é difícil ver pormenores – diz
o polícia.
– Os técnicos que não se esqueçam de usar um saco hermético
quando a tirarem.
O polícia solta a cadeira do croque, e ela vira-se de novo,
lentamente.
– Encontramo-nos no pilar da ponte em Indal – diz Joona,
começando a dirigir-se para o carro. – Há uma praia nesse sítio, não
há?
– O que é que vamos fazer?
– Tomar banho – responde Joona, sem a sombra de um sorriso,
continuando a caminhar.
58

Joona para junto ao pilar da ponte, deixa a porta do carro aberta e


vai observar o talude coberto de erva. Da pequena praia de areia sai
um pontão flutuante fixo, que se prolonga sobre a água.
O vento abre-lhe o casaco, e a camisa azul-escura deixa
adivinhar os músculos.
Joona segue pela beira do caminho, sentindo a humidade morna
da vegetação, o cheiro da erva e o perfume adocicado do oleandro.
Em dado momento, para, baixa-se e apanha do chão, entre as
plantas, um pedacinho quadrado de vidro. Examina-o na palma da
mão e olha novamente para a água.
– Foi aqui que eles se despistaram – diz Joona, apontando no
sentido da trajetória presumível.
Um dos polícias desce à praia de areia, segue a direção apontada
por Joona e abana a cabeça.
– Não há vestígios, absolutamente nada – grita ele.
– Estou absolutamente convicto de que tenho razão – insiste
Joona.
– Nunca saberemos. Já choveu muito – diz o outro polícia.
– Mas debaixo da água não choveu – contrapõe Joona.
A seguir, desce a passos largos para a praia. Passa pelo polícia e
continua até à linha de água. Segue o curso do rio para montante
durante alguns metros, até encontrar a marca dos pneus sob a
água. Os dois trilhos paralelos visíveis no fundo de areia
desaparecem mais adiante sob as águas escuras.
– Vê alguma coisa? – grita o polícia.
– Vejo – responde Joona, entrando no rio.
A água fria revolve-se em torno das suas pernas e puxa-o
suavemente. Joona continua a avançar em grandes passadas. É
difícil ver o que quer que seja sob a superfície brilhante e em
constante movimento. Além disso, as algas impedem a visibilidade e
a corrente arrasta consigo bolhas e resíduos.
O polícia segue-o para dentro de água, praguejando baixinho.
Joona consegue distinguir uma formação escura, a uns dez
metros.
– Vou mandar vir um mergulhador – diz o polícia.
Sem hesitar, Joona despe o casaco, dá-o ao polícia e continua a
avançar.
– Que é que vai fazer?
– Tenho de saber se eles estão mortos – responde ele,
entregando a arma ao polícia.
A água está fria, e a corrente puxa as calças cada vez mais
pesadas. Um arrepio de frio percorre-o, das pernas até às costas.
– Há toros no rio! – grita o outro polícia. – Não pode nadar neste
sítio.
Joona continua a andar. O fundo tem uma inclinação forte.
Quando a água lhe chega à barriga, ele mergulha suavemente. A
água enche-lhe os ouvidos com um rugido. Os olhos abertos sentem
o frio. A luz do sol ainda consegue penetrar. A lama levantada
circula em remoinhos.
Agitando as penas, Joona mergulha mais fundo e, subitamente,
vê o automóvel. Está mais para dentro do rio e ao lado das marcas
dos pneus. A corrente arrastou o carro para a zona mais baixa, no
meio do leito.
A chapa vermelha parece brilhar. O para-brisas e as duas janelas
do lado direito desapareceram por completo, e a água circula
livremente no habitáculo.
Joona aproxima-se com umas braçadas, esforçando-se por não
pensar naquilo que provavelmente vai ver. O que tem de fazer é
observar com atenção e tentar registar tudo o que for possível
durante os poucos segundos que pode ficar debaixo de água, mas o
cérebro envia-lhe imagens da rapariga sentada no banco da frente,
com o cinto de segurança a prender-lhe o peito. Braços estendidos,
boca aberta e o cabelo a flutuar em movimentos ondulantes sobre o
rosto.
O coração bate agora com mais força. Ali em baixo está muito
escuro, reina a penumbra e o silêncio é opressivo.
Joona aproxima-se da porta de trás e agarra-se à janela sem
vidro. A força da corrente puxa-o para o lado. Com um estalido
metálico, o carro desliza um ou dois metros, e ele perde o apoio. A
lama rodopia à sua volta, e Joona deixa de ver. Dá umas braçadas.
A nuvem de lodo dissolve-se aos poucos, e a água fica mais
transparente.
Por cima dele, talvez três metros acima, está aquele outro mundo
banhado pelo sol.
Um toro cheio de água corre logo abaixo da superfície, como um
projétil.
Os pulmões de Joona começam a ressentir-se. Aqui no fundo, a
corrente é muito forte.
Agarra-se novamente à janela sem vidro e vê sangue a sair-lhe da
mão. Consegue alcançar a porta e tenta olhar para dentro do
habitáculo. Diante do rosto, movem-se poeiras, limos e plantas
aquáticas.
O carro está vazio. Não há ninguém lá dentro, nem rapariga nem
criança.
O para-brisas desapareceu e as escovas soltas estão caídas. Os
corpos foram empurrados para fora pela água e arrastados pelo
fundo do rio.
Ainda tem tempo de registar com o olhar a área próxima do carro.
Não há nada onde os corpos possam ter ficado presos. As rochas
são lisas e as plantas demasiado finas.
Os pulmões rugem a pedir oxigénio, mas ele sabe que há sempre
mais um pouco de tempo.
O corpo tem de aprender a esperar.
No serviço militar, nadou doze quilómetros com a bandeirola de
sinalização várias vezes, saiu, sem equipamento, de um submarino
com a boia de emergência e nadou sob o gelo no golfo da Finlândia.
Pode aguentar mais uns segundos sem oxigénio.
Com braçadas fortes, nada em torno do carro e observa o fundo
plano do rio. A água puxa como um vento forte. As sombras dos
toros arrastados à superfície correm velozmente sobre a areia do
fundo.
Sob chuva intensa, Vicky despistou-se, atravessou a praia e caiu
na água. As janelas já estavam partidas depois do embate no
semáforo, e o automóvel encheu-se de água imediatamente e
continuou a rodar até parar no fundo.
Mas onde estão os corpos?
Joona tem de procurar as crianças.
A uma distância de cinco metros, descobre uma coisa a brilhar no
fundo, uns óculos que estão a afastar-se do carro, rolando para um
ponto mais profundo, onde a corrente é mais forte. Joona sabe que
deve voltar à superfície, mas acha que talvez aguente mais um
instante. Aproxima-se dos óculos, já a ver relâmpagos diante dos
olhos, estende a mão e consegue agarrá-los no momento em que
um pequeno remoinho os levanta do fundo. Vira-se, dá às pernas e
nada até à superfície. A vista começa a toldar-se-lhe. Não tem
tempo de olhar em volta, tem de respirar para não perder a
consciência. Chega à superfície, enche os pulmões de ar e ainda
tem tempo de ver o toro antes de ele lhe embater no ombro. A dor é
tão forte, que ele dá um grito. A pancada desloca-lhe o braço, que
salta da articulação no ombro. Joona começa a submergir
novamente. Ouve campainhas que lhe lembram a missa e vê diante
dos olhos os reflexos de um sol a arder.
59

Os colegas da Polícia de Västernorrland já tinham posto um barco


na água e iam ao encontro de Joona quando viram o tronco atingi-
lo. Agarraram-no, puxaram-no para dentro do barco e deitaram-no
no fundo.
– Desculpem – diz Joona, arquejante. – Mas eu tinha de saber…
– Onde é que o toro bateu?
– Não havia nenhum corpo no carro – continua Joona, com um
suspiro de dor.
– Olha o braço dele – diz um dos colegas.
– Merda – diz o outro baixinho.
Havia sangue a correr pela camisa molhada, e o braço estava
torcido, numa posição estranha. Parecia solto, seguro apenas pelos
músculos.
Com cuidado, tiraram-lhe os óculos da mão e meteram-nos num
saco de plástico.
Um dos polícias levou-o para o hospital de Sundsvall. Joona ia
sentado em silêncio, com os olhos fechados, a segurar o braço junto
ao corpo. Apesar das dores fortes, tentou explicar o percurso do
carro, deslizando no fundo do rio, com a água a entrar rapidamente
pelas janelas partidas.
– As crianças não estavam lá dentro – disse ele, num murmúrio.
– Os corpos podem ser arrastados para muito longe pelo rio –
disse o polícia. – Não vale a pena mergulhar agora, porque ou
ficaram presos em alguma coisa, e nunca se há de saber, ou vão
parar à barragem, como a cadeirinha.
Joona foi recebido no hospital por duas enfermeiras alegres e
simpáticas. Eram as duas louras e pareciam mãe e filha.
Rapidamente, com perícia, tiraram-lhe as roupas molhadas, mas
quando iam começar a secá-lo e viram o braço, calaram-se de
repente. Limparam a ferida e cobriram-na com um penso adesivo
antes de o levarem para a Radiologia.
Vinte minutos depois entrou um médico na sala de observação,
que o informou de que já tinha visto as radiografias. Explicou
brevemente que não havia nenhuma fratura, que se tratava de uma
luxação no ombro. A má notícia era que o ombro estava deslocado
e a boa era que a cartilagem parecia estar intacta. Deitaram-no na
marquesa, com o braço pendurado. O médico injetou 20 miligramas
de lidocaína diretamente na articulação, para poder repor o braço no
sítio. Depois sentou-se no chão e começou a puxar o braço para
baixo enquanto uma das enfermeiras pressionava a omoplata no
sentido da coluna vertebral e a outra empurrava a cabeça da
articulação para a posição certa. Ouviu-se um estalo, Joona cerrou
os dentes e depois expirou lentamente.
O carro onde seguiam Vicky Bennet e Dante desapareceu num
troço da estrada que praticamente não tinha saídas. A Polícia
afirmava que tinha controlado todos os sítios possíveis onde eles
poderiam estar escondidos, e as críticas nos meios de comunicação
social subiam de tom.
Quando Joona viu a cadeira de criança na barragem, percebeu o
que tinha escapado aos outros. Se o automóvel tinha caído no rio e
desaparecido, só havia um sítio onde isso podia ter acontecido sem
ser descoberto pela Polícia e o serviço de proteção civil.
A seguir a Indal, a estrada 86 faz uma curva em ângulo reto para
a direita e segue em direção à ponte sobre o rio. O carro deve ter
continuado em frente nessa curva, descido o talude coberto de erva,
atravessado a areia e entrado na água.
As janelas partidas permitiram que a água entrasse rapidamente,
sem resistência, e a chuva forte apagou imediatamente as marcas
do rodado na areia. Em poucos segundos, tinha desaparecido.
60

Joona desce a uma das garagens da Polícia. O ar é fresco. O


braço está imobilizado num suporte azul-escuro.
O carro que Vicky Bennet roubou encontra-se dentro de uma
tenda grande de plástico. O veículo foi retirado do rio Indal com a
ajuda de uma grua de quatro apoios, envolvido em plástico e trazido
para aqui. Todos os assentos foram desmontados e colocados junto
ao carro. Em cima de um banco comprido está uma série de objetos
embalados em sacos de plástico identificados. Joona observa as
marcas de pneus que foram obtidas, as impressões digitais de Vicky
e de Dante. Há sacos com estilhaços de vidro, uma garrafa de água
vazia, um sapato de desporto que pertencia seguramente a Vicky e
os óculos do rapazinho.
A porta de um escritório adjacente abre-se e Holger Jalmert entra
na garagem, com uma pasta na mão.
– Queria mostrar-me alguma coisa? – pergunta Joona.
– Sim, já agora – suspira Holger, apontando para o carro. – O
para-brisas desapareceu completamente, como já tinha visto
quando mergulhou, projetado na colisão com o semáforo… Mas,
infelizmente, encontrei cabelos do miúdo no caixilho.
– Isso não é bom – diz Joona, sentindo-se invadir por uma
enorme solidão.
– Pois, mas é o que já todos pensavam.
Joona observa uma fotografia aumentada, mostrando um cabelo
no lado direito do caixilho dentado do para-brisas e outra ampliação
onde se veem três cabelos arrancados pela raiz.
A velocidade era provavelmente elevada e o efeito de travagem
do impacto na água foi muito forte. Tudo indica que Vicky Bennet e
Dante Abrahamsson foram projetados através do vidro da frente, já
partido.
Joona lê no relatório que foram encontrados estilhaços de vidro
com sangue do menino.
O capô deformou-se e afundou-se.
Joona pensa que é difícil compreender como os cabelos da
criança poderiam ter sido arrancados se ele não tivesse sido
projetado do assento e atirado por cima do porta-luvas,
atravessando o para-brisas e indo parar à água.
A corrente era muito forte, porque as comportas da central de
Bergforsen estavam abertas.
Joona acha que a cólera de Vicky Bennet deve ter desaparecido,
porque ela não matou a criança e tinha-a consigo no carro.
– Na sua opinião, a criança estava viva quando eles caíram no
rio? – pergunta Joona em voz baixa.
– Sim. Provavelmente perdeu os sentidos quando bateu no
caixilho do para-brisas e afogou-se. Mas temos de esperar que os
corpos vão parar à barragem.
Holger mostra um saco de plástico que contém uma pistola de
água vermelha.
– Tenho um filho pequeno, também…
Cala-se e senta-se na cadeira do escritório.
– Eu sei – responde Joona, pousando a mão livre no ombro dele.
– Temos de dizer à mãe que vamos deixar de procurar e ficar à
espera – diz Holger, com um ricto de tristeza.

Na pequena esquadra de Polícia há um silêncio pouco habitual.


Alguns agentes de uniforme conversam em voz baixa junto à
máquina do café, e uma mulher escreve vagarosamente num
computador. A luz cinzenta do exterior é pesada e sombria, uma luz
que recorda desolados dias de escola.
Quando a porta se abre e Pia Abrahamsson entra, cessam os
últimos murmúrios. Pia está vestida de jeans e um casaco de ganga
azul apertado no peito. O cabelo castanho que pende por baixo da
boina está sujo e despenteado.
Não tem maquilhagem, e os olhos estão cansados e assustados.
Mirja Zlatnek levanta-se imediatamente e puxa uma cadeira.
– Não me quero sentar – diz Pia num fio de voz.
Mirja desabotoa um botão no colarinho da camisa.
– Pedimos-lhe que viesse para… A questão é que receamos…
Pia apoia a mão nas costas da cadeira.
– O que eu queria dizer… – continua Mirja – é que…
– Sim?
– Ninguém acredita que eles ainda estejam vivos.
Pia não tem uma grande reação. Não sofre um colapso nervoso.
Acena com a cabeça e passa a língua pelos lábios.
– Porque é que não acreditam que eles estejam vivos? –
pergunta, numa voz sumida e estranhamente calma.
– Encontrámos o seu carro – diz Mirja. – Tinha-se despistado e
caído no rio. Estava a quatro metros de profundidade, muito
danificado e…
A voz apaga-se.
– Quero ver o meu filho – diz Pia, com a mesma voz
horrivelmente calma. – Onde está o corpo dele?
– Bem… Ainda não encontrámos os corpos, mas… É complicado,
mas tudo indica que se vão interromper as buscas.
– Mas…
Num movimento rápido, Pia Abrahamsson leva a mão ao
pescoço, para procurar a cruz de prata que usa debaixo da roupa,
mas detém-se sobre o coração.
– O Dante só tem quatro anos – diz ela, num tom surpreendido. –
Não sabe nadar.
– Pois não – diz Mirja, com uma expressão triste.
– Mas gosta… Gosta de brincar na água – acrescenta Pia, num
fio de voz.
O queixo começa a tremer levemente. Pia mantém-se imóvel, na
sua roupa de ganga, com o colarinho eclesiástico a ver-se por baixo
do casaco. Finalmente, com os movimentos lentos de uma pessoa
velha e destroçada, senta-se na cadeira.
61

Depois da sauna, Elin Frank toma um duche na casa de banho de


pedra polida. Em seguida, enxuga-se com um toalhão aquecido,
diante do grande espelho por cima do lavatório duplo. A pele ainda
está quente e húmida quando veste o quimono preto que Jack lhe
ofereceu no ano em que se separaram.
Atravessando as divisões claras, com chão de madeira branca,
encaminha-se para o quarto.
Em cima da cama de casal já está um vestido acobreado e
brilhante de Karen Millen e umas cuecas douradas Dolce &
Gabanna.
Elin despe o quimono e perfuma-se com La Perla. Espera um
minuto e depois veste-se. Quando entra na enorme sala, repara que
Robert, o seu assistente, esconde o telefone num movimento
precipitado. Uma inquietação dolorosa apodera-se dela
imediatamente, e sente um peso no estômago.
– Que é que se passa?
A T-shirt às riscas, de aspeto juvenil, saiu das calças, deixando à
vista a barriga arredondada de Robert.
– O fotógrafo da Vogue francesa está atrasado dez minutos – diz
ele, sem a olhar de frente.
– Não tive tempo de ver o noticiário – diz Elin, numa tentativa de
parecer descontraída. – Sabe se a Polícia já encontrou a Vicky?
Nos últimos dias, Elin não ousou ver noticiários nem ler jornais.
Teve de tomar um comprimido para dormir às dez da noite e outro
às três da manhã.
– Soube alguma coisa? – repete em voz fraca.
Robert coça a cabeça, de cabelo muito curto.
– Elin, não quero que se preocupe.
– Não me preocupo, mas isto…
– Ninguém a vai envolver neste caso.
– Não há mal nenhum em acompanhar a situação – diz ela com
displicência.
– A Elin não tem nada a ver com isto – insiste ele.
Elin compõe a expressão do rosto e sorri-lhe friamente.
– Tenho de me zangar consigo?
Ele abana a cabeça e puxa a camisola para baixo.
– Ouvi o final do noticiário da rádio quando vinha para cá, mas
não sei se é verdade – responde ele. – Parece que encontraram o
carro roubado no fundo do rio… Acho que iam começar a fazer
buscas com mergulhadores.
Elin vira a cara rapidamente. Tem os lábios a tremer, e o coração
bate com tanta força que parece querer rebentar.
– Parece grave – murmura.
– Quer que ligue a televisão?
– Não, não é preciso.
– Claro que é muito chato se chegarem à conclusão de que eles
se afogaram.
– Não seja arrogante – diz Elin.
Faz um esforço para engolir. A garganta dói-lhe, ela tosse
levemente e olha para as palmas das mãos.
62

Elin lembra-se perfeitamente do dia em que Vicky lhe foi entregue.


A criança ficou parada na entrada da casa, com uma expressão
vazia no rosto e nódoas negras nos braços. No momento em que a
viu, Elin teve consciência de que Vicky era a filha que desejava ter.
Não sabia sequer que tinha esse instinto, mas o certo é que quando
viu a menina se apercebeu de que desejava muito ser mãe.
Vicky era perfeita e aparecera no momento certo.
A princípio, Vicky ia ter com ela durante a noite. Parava quando
chegava junto à cama, olhava para ela e depois ia-se embora.
Talvez estivesse à espera de encontrar a mãe e de se meter na
cama com ela, ou simplesmente arrependia-se quando lá chegava,
não ousando mostrar que tinha medo, ou receando ser rejeitada.
Elin recorda com precisão o som dos passinhos dela no parquet,
a afastarem-se.
Por vezes, Vicky queria sentar-se ao colo de Jack para ver os
programas infantis, mas nunca no colo dela.
Vicky não confiava nela, não ousava confiar, mas Elin reparava
que a criança a observava muitas vezes disfarçadamente.
Vicky, a menina que só brincava quando tinha a certeza de que
ninguém a estava a ver. Que não ousava abrir os presentes de Natal
porque não conseguia acreditar que aqueles embrulhos tão bonitos
fossem mesmo para ela. Que se encolhia quando a abraçavam.
Elin comprou-lhe um hamster branco numa gaiola grande, muito
engraçada, com degraus e túneis de plástico vermelho. Vicky cuidou
do hamster durante as férias de Natal, mas, antes de as aulas
começarem, o hamster desapareceu. Souberam depois que Vicky o
tinha soltado num parque perto da escola. Quando Jack lhe explicou
que ele talvez não sobrevivesse por causa do frio, Vicky fugira para
o quarto e batera com a porta umas dez vezes. Durante a noite,
bebeu uma garrafa de borgonha e vomitou na sauna. Na mesma
semana, roubou dois anéis de brilhantes que Elin herdara da avó.
Recusou-se a dizer onde os tinha escondido, e Elin nunca mais viu
os anéis.
Elin sabia que Jack estava a ficar farto. Começou a dizer que a
vida deles era demasiado complicada para poderem dar segurança
a uma criança que precisava de enormes recursos. Afastou-se,
fechou-se e deixou de participar no que dissesse respeito à garota.
Elin percebeu que estava a perdê-lo.
Quando o Serviço Social fez uma nova tentativa para colocar a
criança com a mãe, Elin sentiu que aquela pausa era absolutamente
necessária para que ela e Jack se reencontrassem. Vicky não quis
sequer o telemóvel que Elin comprou para poderem manter-se em
contacto.
Jack e Elin puderam finalmente, pela primeira vez desde há vários
meses, cear na Operakällaren, fazer amor e dormir uma noite
inteira. Na manhã seguinte, Jack disse-lhe que só ficariam juntos se
ela se declarasse indisponível para continuar a tomar conta da
menina.
Elin deixou-o telefonar para a responsável pelo processo e dizer-
lhe que já não estavam disponíveis como família de recurso, que
não aguentavam mais.
Vicky e a mãe fugiram do serviço de acompanhamento social em
Västerås e esconderam-se numa casinha num parque infantil. A
mãe começou a deixar a criança sozinha de noite, até que, numa
ocasião em que já estava desaparecida há dois dias, Vicky pôs-se a
caminho de Estocolmo.
Jack não estava em casa na noite em que Vicky foi tocar à porta
de Elin.
Elin ficou sem saber o que fazer. Hoje recorda-se a si própria,
encostada à parede do hall, ouvindo a criança tocar repetidamente à
campainha e chamá-la baixinho.
Por fim, Vicky começou a chorar e abriu a frincha do correio.
– Posso voltar para casa, por favor? Eu quero ficar contigo. Elin,
abre a porta… Eu porto-me bem. Por favor, por favor…
Quando Jack e Elin se tinham desvinculado, a assistente social
advertira-os:
– Não devem dizer à Vicky porque é que não aguentam mais.
– Porquê? – perguntou Elin.
– Porque a criança vai assumir a culpa – explicou a assistente. –
Vai pensar que é por culpa dela que vocês não aguentam mais.
Por isso, Elin ficou em silêncio e, após o que lhe pareceu uma
eternidade, ouviu os passos de Vicky a afastarem-se na escada.
63

Elin está diante do enorme espelho da casa de banho, olhando-se


nos olhos. A luz indireta provoca reflexos nas suas íris. Tomou dois
comprimidos de Valium e serviu-se de um copo de Riesling da
Alsácia.
No grande salão, o jovem fotógrafo da Vogue francesa, Nassim
Dubois, está a montar o equipamento para a iluminação. A
entrevista propriamente dita foi feita na semana passada, quando
Elin esteve na Provença, por causa de um leilão de beneficência.
Vendeu toda a sua coleção de arte francesa e a casa do arquiteto
Jean Nouvel, em Nice, para criar um fundo de garantia de
microcrédito para mulheres no Norte de África.
Afasta-se do espelho, pega no telefone e marca o número de Jack
para lhe contar que o carro conduzido por Vicky foi encontrado no
fundo do rio Indal. Deixa o telefone tocar, apesar de o advogado de
Jack lhe ter dito que qualquer contacto relativo a Vicky Bennet deve
ser feito através da firma de advogados.
Elin está-se nas tintas para que Jack esteja cansado. Já não está
apaixonada por ele, mas às vezes precisa de lhe ouvir a voz.
Talvez lhe conte apenas que vendeu o Basquiat dele no leilão de
beneficência. Mas antes de ele atender, Elin arrepende-se e desliga.
Sai da casa de banho apoiando levemente uma mão na parede
para se equilibrar, atravessa o salão e encaminha-se para as portas
de vidro.
Quando sai para o terraço, com um lentidão que poderia ser
considerada sensual, Nassim assobia, satisfeito.
– Maravilhosa! – diz-lhe, sorrindo.
Ela sabe que o vestido cor de cobre, com alças finas, lhe fica
bem. Pôs um colar de ouro branco martelado, que, tal como os
brincos, lança reflexos no pescoço comprido.
O fotógrafo quer que ela se encoste ao gradeamento do terraço,
com um enorme xaile branco Ralph Lauren pelos ombros. Ela
expõe-no ao vento, de modo a que o tecido se encha como uma
vela e a enquadre elegantemente por trás.
Sem usar o fotómetro, Nassim orienta um refletor prateado para
lhe inundar o rosto de luz.
Tira-lhe uma série de fotografias de longe, com uma teleobjetiva,
e em seguida aproxima-se, ajoelha-se, as calças de ganga muito
justas, e tira vários instantâneos com uma máquina Polaroid antiga.
Elin vê as gotas de suor na testa de Nassim. Ele não para de a
elogiar, mas sempre com a concentração dirigida para outro lado,
para a composição e a luz.
– Perigosa, sensual – murmura ele.
– Acha? – pergunta Elin, sorrindo.
Ele levanta-se, olha-a nos olhos, faz um gesto de assentimento e
depois sorri abertamente e um pouco embaraçado.
– Sensual, principalmente.
– Você é um querido – responde ela.
Elin não pôs sutiã, e a pele arrepia-se com o vento. Os mamilos,
endurecidos, veem-se através do vestido. Dá por si a desejar que
ele repare e apercebe-se de que começa a sentir-se embriagada.
Nassim deita-se por baixo dela com uma velha câmara
Hasselblad e pede-lhe que se incline para a frente e franza os lábios
como se pedisse um beijo.
– Une petite pomme – diz ele.
Sorriem um para o outro, e ela sente-se subitamente animada,
quase alegre, com aquele flirt.
Elin adivinha o tronco dele por baixo da T-shirt fina e justa, que sai
de dentro das calças, revelando um ventre liso.
Ela estende os lábios num beijo e ele fotografa, falando sempre
num murmúrio, dizendo que ela é magnífica, que é uma top model,
e por fim baixa a máquina e fica a olhar para ela.
– Podia continuar indefinidamente – diz ele em tom sério. – Mas
vejo que está com frio.
– Entramos e tomamos um whisky – propõe ela.
64

Quando entram, Ingrid já acendeu o lume no grande fogão de sala


em azulejo. Sentam-se no sofá, bebem whisky de malte e falam da
entrevista e do microcrédito, que se tornou tão importante para que
muitas mulheres tivessem a possibilidade de mudar a sua vida.
Elin sente que a mistura de Valium e álcool a relaxa e apaga
qualquer vestígio de ansiedade.
Nassim diz que o jornalista francês estava muito contente com a
entrevista. Depois conta que a mãe dele está a chegar de Marrocos.
– A sua ação é muito importante – diz-lhe ele, sorrindo. – Se a
minha avó tivesse recebido um microcrédito, a vida da minha mãe
teria sido completamente diferente.
– Eu procuro fazer alguma coisa, mas…
Elin cala-se e encara o olhar sério dele.
– Ninguém é perfeito – diz ele, chegando-se um pouco para ela.
– Abandonei uma criança… que não devia ter abandonado…
que…
Ele passa-lhe a mão no rosto para a reconfortar e sussurra
qualquer coisa em francês. Ela sorri-lhe, e um formigueiro de
embriaguez percorre-lhe o corpo.
– Se não fosses tão novo, apaixonava-me – diz ela em sueco.
– O que é que disse? – pergunta ele.
– Disse que invejo a sua namorada.
Elin sente o hálito dele, de hortelã e whisky. «Como ervas», pensa
ela. Observa a boca bem desenhada do rapaz e de repente tem
vontade de o beijar, mas acha que ele se assustaria.
Recorda que Jack deixou de dormir com ela pouco tempo depois
de Vicky desaparecer da vida deles. Elin não compreendeu que ele
simplesmente já não se sentia atraído por ela. Pensou que fosse
stress, falta de tempo para estarem juntos, cansaço, e começou a
esforçar-se. Arranjava-se, organizava jantares românticos,
momentos de intimidade.
Mas ele já não a via.
Uma noite em que Jack chegou a casa e a viu vestida com um
négligé cor de pele, disse-lhe que já não a amava.
Queria separar-se, tinha conhecido outra mulher.
– Cuidado, está a entornar – diz Nassim.
– Valha-me Deus – murmura Elin, no momento em que entorna
whisky na parte de cima do vestido.
– Não é grave.
Nassim pega num guardanapo de pano, ajoelha-se diante dela e
pressiona o guardanapo sobre a mancha enquanto com o outro
braço lhe rodeia a cintura.
– Tenho de mudar de roupa – diz ela, levantando-se e fazendo um
esforço para não cair.
Sente o Valium, o vinho e o whisky tomarem-lhe conta do cérebro.
Ele apoia-a enquanto atravessam os sucessivos salões. Ela
sente-se fraca e cansada. Inclina-se para ele e beija-o no pescoço.
O quarto está fresco e imerso na semiobscuridade. Há apenas um
candeeiro de cor creme aceso, ao lado da mesa de cabeceira.
– Tenho de me deitar.
Elin não diz nada quando ele a deita na cama e lhe tira os sapatos
vagarosamente.
– Eu ajudo-a – diz Nassim, em voz baixa.
Ela finge-se mais embriagada do que realmente está e fica
imóvel, como se não sentisse que ele lhe desaperta o vestido com
mãos trémulas.
Ouve a respiração pesada do fotógrafo e pergunta-se se ele
ousará tocar-lhe, tirar partido da embriaguez dela.
Deitada na cama, só com as cuecas douradas, vê-o através de
uma névoa oscilante e depois fecha os olhos.
Nassim murmura qualquer coisa, e ela sente as mãos dele,
geladas pelo nervosismo, tirarem-lhe as cuecas.
Espreita-o com os olhos quase fechados quando ele se despe.
Tem um corpo muito bronzeado, como se trabalhasse no campo. É
esbelto e tem no ombro uma tatuagem, um olho de Hórus.
O coração dela começa a bater mais depressa quando ele
murmura qualquer coisa e se deita na cama. Talvez devesse detê-lo
agora, mas ao mesmo tempo sente-se lisonjeada pelo desejo
daquele homem. Elin pensa que não vai deixá-lo penetrá-la, só olhar
para ela enquanto se masturba como um rapazinho.
Esforça-se por se concentrar no que está a acontecer, por usufruir
do momento. Ele respira depressa e afasta-lhe as pernas com
cuidado, e ela deixa.
Está molhada, absolutamente pronta, mas ao mesmo tempo não
consegue acompanhar a situação. Ele deita-se em cima dela e Elin
sente-lhe o pénis quente e duro contra a púbis. Lentamente, ela
desvia-se e fecha as pernas.
Abre os olhos, encontra o olhar receoso de Nassim e fecha-os
novamente.
Cautelosamente, como para não a acordar, ele afasta-lhe as
pernas. Ela sorri para si própria, deixa-o olhar, sente-o muito perto e
subitamente ele entra nela.
Elin abafa um gemido e sente os batimentos fortes do coração
dele contra si.
Já dentro dela, os movimentos de Nassim tornam-se urgentes.
Uma sensação de náusea apodera-se dela. Queria desejá-lo, mas
Nassim tem demasiada pressa, move-se rapidamente e com força
excessiva. É invadida por uma onda de solidão que apaga toda e
qualquer centelha de desejo. Fica imóvel até ele acabar e sair de
dentro de si.
– Desculpe, desculpe – balbucia Nassim, enquanto pega nas suas
coisas. – Julguei que queria…
«Também eu», pensa Elin. Mas não tem forças para lhe
responder. Ouve-o vestir-se rapidamente e em silêncio e só deseja
que ele saia. Quer levantar-se e lavar-se e depois rezar a Deus para
que Vicky esteja viva, até adormecer.
65

Joona está junto ao parapeito da barragem e passeia o olhar pela


comprida parede de betão. A água jorra de três aberturas, vinte
metros abaixo. Sob as comportas, a parede de betão curva-se como
um enorme escorrega. Uma imensa torrente de água galga a parede
e choca contra os rochedos do leito do rio.
O braço ainda está protegido num suporte e o casaco pende-lhe
dos ombros. Joona debruça-se no parapeito para observar o rio,
pensando no carro com as duas crianças, sob a chuva intensa. O
carro a embater no semáforo em Bjällsta, e os vidros a estilhaçar.
Vicky tem o cinto de segurança posto, mas bate com a cabeça na
janela em consequência da força lateral. O carro enche-se
imediatamente de estilhaços de vidro, e a chuva fria começa a
entrar.
Em seguida há um grande silêncio, uns segundos de vazio.
O rapazinho começa a chorar, assustado. Vicky sai do carro a
tremer, com bocadinhos de vidro a caírem-lhe das roupas, abre a
porta de trás, desprende o menino da cadeira, examina-o para ver
se está ferido e tenta acalmá-lo antes de continuar a viagem.
Talvez tivesse a intenção de seguir em direção à ponte quando viu
a luz azul da barreira da Polícia no lado de lá. Em pânico, sai de
repente da estrada e depois não consegue travar, e o carro cai na
água. A paragem brusca fá-la bater com a cara no volante, e ela
perde os sentidos.
Quando o carro continuou a avançar dentro de água, já estavam
os dois, seguramente, inconscientes. As correntes apoderaram-se
dos corpos inertes e puxaram-nos facilmente pelas janelas sem
vidro, suavemente, arrastando-os pelo fundo rochoso.
Joona pega no telemóvel para ligar a Carlos Eliasson. O
mergulhador do serviço de proteção civil já está no pontão da
central elétrica. Enverga um fato de mergulho azul, justo no torso, e
controla cada um dos reguladores do sistema.
– Fala Carlos – responde o chefe.
– A Susanne Öst quer parar a investigação – diz Joona. – Mas eu
ainda não acabei.
– É sempre chato, mas o facto é que a assassina morreu…
Nestes casos, infelizmente, não é viável, do ponto de vista
económico, continuar.
– Não temos corpos.
Ouve Carlos resmungar qualquer coisa e depois ser interrompido
por um ataque de tosse. Joona fica à espera enquanto Carlos bebe
um copo de água. Lembra-se de quando a cadeirinha do carro foi
encontrada e ele percorreu mentalmente o passado de Vicky,
tentando descobrir alguém a quem ela se pudesse ter confiado,
alguém que soubesse para onde ela podia ter ido.
– Pode demorar semanas até os corpos aparecerem – diz Carlos,
com a voz ainda velada, e tosse mais um pouco.
– Mas eu ainda não acabei – contrapõe Joona.
– Lá estás tu com a tua teimosia! – exclama Carlos.
– Ainda preciso…
– O caso nem sequer é teu – interrompe Carlos.
Joona observa um tronco escuro que desliza na corrente e bate
na parede da barragem com um baque surdo.
– É meu, sim – responde.
– Joona… – suspira Carlos.
– As provas apontam para a Vicky, mas não há testemunhas, e
ela não foi julgada e condenada.
– Não se condena os mortos – retorque Carlos, cansado.
Joona pensa na rapariga, na ausência de motivo, no facto de ela
se ter deitado a dormir depois de cometer dois crimes muito
violentos. Pensa em Nålen, que disse que Elisabet foi morta com um
martelo, mas Miranda com uma pedra.
– Dá-me uma semana, Carlos – diz ele em voz grave. – Preciso
de algumas respostas antes de regressar.
Carlos resmunga qualquer coisa do outro lado da linha.
– Não ouvi – diz Joona.
– Isto não é oficial – repete Carlos mais alto. – Mas enquanto o
inquérito interno estiver a decorrer, podes continuar com isso.
– Que recursos tenho?
– Recursos? Continuas a ser observador e não podes…
– Pedi um mergulhador – diz Joona com um sorriso.
– Um mergulhador? – repete Carlos, exaltado. – Sabes quanto
custa um…
– E um cão.
Joona ouve o barulho de um motor, volta-se e vê um carrinho
cinzento a estacionar ao lado do dele, com um ruído matraqueante.
É um Messerschmitt do fim da década de 1960, com duas rodas à
frente e uma atrás. A porta abre-se e de dentro sai Gunnarsson,
com um cigarro na boca.
– Quem decide se vai haver mergulho ou não sou eu – brama
Gunnarsson, aproximando-se rapidamente de Joona. – Você aqui
não manda nada.
– Eu sou observador – responde Joona tranquilamente, dirigindo-
se para o pontão onde o mergulhador se prepara.
66

O mergulhador é um homem dos seus cinquenta anos, com ligeiro


excesso de peso, ombros largos e braços possantes. O fato de
mergulho, de borracha cloropreno, ajusta-se sobre a barriga saliente
e em volta do pescoço.
– Hasse – apresenta-se.
– Não é possível fechar as comportas, há risco de inundação – diz
Joona.
– Estou a par da situação – diz Hasse, olhando as águas agitadas
e impetuosas.
– A corrente é muito forte – explica Joona.
– Pois é – responde o mergulhador com um olhar calmo.
– Acha que consegue?
– Fui sapador-mineiro no Regimento de Artilharia Costeira de
Vaxholm, o KA-1. Pior não deve ser – responde Hasse, com a
sombra de um sorriso.
– Tem Nitrox nas garrafas? – pergunta Joona.
– Tenho.
– O que é essa merda? – pergunta Gunnarsson, que chegou
entretanto junto deles.
– É como o ar, mas com mais oxigénio – responde Hasse, que
está a enfiar o colete.
– Então quanto tempo pode ficar submerso?
– Com isto, talvez duas horas… com calma.
– Fico-lhe grato por ter vindo – diz Joona.
O mergulhador encolhe os ombros e explica-se de forma franca:
– O meu filho está num estágio de futebol na Dinamarca… Num
sítio chamado Ishøj. Tinha-lhe prometido ir com ele, mas sabe como
é, somos só os dois, e dá jeito arranjar umas massas extra…
Abana a cabeça e aponta para a máscara de mergulho, a câmara
digital e o respetivo cabo, que corre juntamente com o cabo de
segurança e vai ligar-se a um computador.
– Eu gravo os meus mergulhos. Vocês veem tudo o que eu vejo, e
podemos ir falando ao mesmo tempo.
Um toro arrastado pelo rio vem embater na borda da barragem.
– Porque é que há toros na água? – pergunta Joona.
Hasse prende o equipamento de mergulho e responde, sem se
alterar:
– Sabe-se lá… Provavelmente alguém se quis desfazer de
madeira carcomida.
Uma mulher de rosto cansado, vestida de jeans, galochas e um
blusão acolchoado aberto, sai do parque de estacionamento da
central e caminha na direção deles, acompanhada de um pastor-
alemão.
– Aí vem o feroz cão de caça – diz Gunnarsson com uma
risadinha.
A técnica de cinofilia Sara Bengtsson passa junto do guincho e diz
umas palavras em voz baixa. O animal para imediatamente e senta-
se. Sem lhe conceder um único olhar, ela continua, partindo do
princípio de que é obedecida.
– Obrigado por ter vindo – diz Joona, apertando-lhe a mão.
Sara Bengtsson cruza o olhar com o dele por um breve instante,
retira a mão e parece procurar alguma coisa nos bolsos.
– O chefe aqui sou eu – diz Gunnarsson. – E não sou muito a
favor dos cães, fica já a saber.
– Agora já cá estou – responde Sara, lançando um olhar ao seu
animal.
– Como é que ela se chama? – pergunta Joona.
– Jackie – responde a mulher com um sorriso.
– Vamos fazer uma observação com a ajuda de um mergulhador
– explica Joona. – Mas seria uma grande ajuda se a Jackie pudesse
indicar um ponto. Acha que ela é capaz?
– Acho – responde Sara, e dá um pontapé numa pedra.
– A água está muito turbulenta e com corrente muito forte – avisa
Gunnarsson.
– Na última primavera, ela encontrou um corpo a sessenta e cinco
metros de profundidade – responde Sara, corando.
– Estamos à espera de quê, porra? – diz Gunnarsson, tirando um
cigarro.
Sara Bengtsson parece nem o ter ouvido. O olhar dela alonga-se
sobre o brilho escuro da massa de água. Mete as mãos nos bolsos
e fica uns momentos imóvel.
– Jackie – diz ela, numa voz suave.
A cadela levanta-se imediatamente e vem ter com ela. Sara põe-
se de cócoras, dá palmadinhas no pescoço do animal e faz-lhe
festas atrás das orelhas. Fala-lhe de uma forma encorajadora, diz-
lhe o que vão procurar e depois começam a percorrer juntas a borda
da barragem.
A cadela é especializada em reconhecer o cheiro de cadáveres
em decomposição. Na realidade, a ideia é os cães de investigação
criminal associarem o cheiro a cadáver a algo positivo, mas Sara
sabe que quando Jackie encontra alguma coisa fica nervosa e
depois tem de ser consolada.
Passam pelo lugar onde foi encontrada a cadeira de automóvel de
Dante a boiar na água. Sara Bengtsson vira cuidadosamente o
focinho de Jackie para a água, que tem um nível muito alto.
– Não acredito em nada nisto – diz Gunnarsson, sorrindo. Acende
o cigarro e passa a mão pela barriga.
Fazendo um gesto de contenção na direção dele, Sara detém-se
quando Jackie começa a farejar. O animal estende o focinho para a
água.
– Que é que estás a cheirar? – pergunta ela.
Jackie fareja, desvia-se um pouco para o lado, mas depois larga a
pista e continua a percorrer a borda da barragem.
– Disparates – resmunga o mergulhador, ajustando o colete.
Joona observa Sara e o animal, que tem o pelo de uma cor
avermelhada, invulgar na raça. As duas avançam lentamente ao
longo do parapeito, aproximando-se do centro do leito do rio, sobre
as comportas abertas da barragem. Algumas madeixas do cabelo
da mulher escaparam-se do rabo de cavalo e esvoaçam-lhe sobre o
rosto. De repente, a cadela para e solta um latido, debruça-se para
fora, lambe o focinho, fica inquieta, vira-se e começa a dar voltas
ansiosamente.
– Está alguém lá em baixo? – pergunta Sara muito baixinho,
perscrutando as águas escuras.
O animal não consegue estar quieto, continua a andar, fareja em
volta de um quadro elétrico, mas regressa, latindo, ao local anterior.
– O que é? – pergunta Joona, aproximando-se.
– Não sei. Ela não marcou nada, mas comporta-se como se…
A cadela ladra e Sara põe-se de cócoras junto dela.
– O que é, Jackie? – pergunta-lhe numa voz carinhosa. – Há
alguma coisa esquisita?
A cadela abana a cauda quando Sara a abraça e lhe diz que ela é
uma menina muito esperta. Com um latido, Jackie deita-se, coça-se
atrás da orelha e lambe o focinho.
– Que é que estás fazer? – pergunta Sara, com um sorriso
vacilante.
67

A barragem é percorrida por uma vibração surda. Sobre uma tina


de plástico contendo boias de sinalização para marcar o local de
eventuais objetos encontrados, está uma pilha de sacos
impermeáveis para cadáver, cuidadosamente dobrados.
– Vou começar no lado da central e seguir um padrão de busca
em quadrículas – diz Hasse.
– Não, é para mergulhar no sítio onde o cão reagiu – diz Joona.
– Agora são as senhoras que decidem? – pergunta Hasse,
irritado.
Muito abaixo da superfície lisa da água, encontram-se as
aberturas das comportas de escoamento, protegidas por grades
robustas que retêm tudo o que circula no rio.
O mergulhador testa a saída de gás das garrafas com Nitrox 36,
presas às costas. Liga o cabo da câmara ao computador e coloca a
máscara. Joona vê-se no ecrã.
– Diga adeus para a câmara – diz Hasse, e em seguida entra na
água.
– Se a corrente estiver muito forte, interrompemos – diz Joona.
– Tenha cuidado – grita Gunnarsson.
– Estou habituado a mergulhar com correntes fortes – diz Hasse.
– Mas se eu não aparecer podem dizer ao meu rapaz que afinal
teria feito melhor em ir com ele.
– Quando acabarmos, vamos tomar uma cerveja no Hotel Laxen –
diz Gunnarsson, acenando-lhe.
Hasse Boman desaparece na água. A superfície agita-se durante
uns instantes e poucos segundos depois fica novamente lisa.
Gunnarsson sorri e atira a beata pela borda da barragem. Os
movimentos do mergulhador fazem lembrar sombras movendo-se
na obscuridade. As bolhas de ar expirado rompem a superfície do
rio. No monitor surge apenas a parede rugosa de betão, iluminada
pela câmara. A respiração pesada de Hasse ouve-se como um
sopro no altifalante.
– A que profundidade está? – pergunta Joona.
– Só nove metros – responde Hasse Boman.
– Há muita corrente?
– Parece que tenho alguém a puxar-me as pernas.
Joona segue no ecrã a descida do mergulhador. A parede de
betão desliza para cima. A respiração parece agora mais pesada.
Por vezes veem-se as mãos dele contra a parede. As luvas azuis
brilham sob a luz.
– Não há aqui nada – diz Gunnarsson com impaciência, dando
passadas tensas para trás e para diante.
– A cadela sentiu…
– Ela não marcou nada – interrompe Gunnarsson, elevando a voz.
– Pois não, mas sentiu qualquer coisa – responde Joona
teimosamente.
Joona pensa que os corpos podem ter sido arrastados pela água,
rebolando pelo fundo, aproximando-se do centro do leito, onde a
corrente é mais rápida.
– Dezassete metros. Uma corrente do caraças – diz a voz
metálica do mergulhador.
Gunnarsson vai dando folga ao cabo de segurança, que passa
sobre a grade do parapeito e desaparece rapidamente debaixo de
água.
– Está a descer depressa de mais – diz Joona. – Meta ar no
colete.
O mergulhador começa a encher o colete com gás das garrafas.
Em geral só faz isto para reduzir peso e subir, mas compreende que
Joona tem razão e que tem de diminuir a velocidade, dada a
quantidade de detritos que há na água.
– Tudo bem – informa ele, ao fim de um momento.
– Se for possível, queria que fosse até à grade – pede Joona.
Hasse move-se mais lentamente durante uns instantes e depois a
velocidade aumenta novamente. Parece que na central estão a abrir
mais as comportas. Lixo, ramos e folhas correm diante do rosto
dele, num movimento descendente.
Gunnarsson afasta rapidamente o cabo da câmara e o cabo de
segurança quando vê aproximar-se um toro de madeira, que vai
embater com força na parede da barragem.
68

Hasse Boman sente a força da corrente a puxá-lo para baixo.


Está novamente a descer depressa de mais. A água ruge-lhe nos
ouvidos. Se houvesse uma colisão, ele partiria as pernas. O coração
bate-lhe rapidamente, e tenta meter mais ar no colete, mas a válvula
encravou.
Esforça-se por diminuir a velocidade usando as mãos. Da parede
de betão desprendem-se anéis de algas, que desaparecem na
voragem da corrente.
Hasse não informa os polícias lá em cima de que começa a ter
medo.
A força da sucção é muito mais forte do que ele alguma vez
imaginara. A velocidade aumenta constantemente. No estreito feixe
de luz, brilham momentaneamente bolhas e detritos, que
desaparecem de imediato. Para além desse feixe, a escuridão é
total.
– A que profundidade está? – pergunta o comissário de
Estocolmo.
Ele não responde, não tem tempo de olhar para o profundímetro,
tem de travar a descida. Com uma das mãos tateia o regulador e
com a outra procura manter-se direito.
Um saco de plástico passa diante dele.
Descendo velozmente, tenta chegar à válvula suplementar nas
costas, mas não consegue rodar a tampa. Bate com o cotovelo na
parede e rodopia, sentindo a adrenalina no sangue e pensando, em
pânico, que tem de controlar a descida.
– Vinte e seis metros – comunica, arquejando.
– Então deve estar perto da grade – responde o comissário.
A água que corre pela parede em direção às aberturas gradeadas
faz-lhe tremer as pernas de forma descontrolada.
Hasse continua a cair rapidamente e percebe que corre o risco de
ser empalado por um pedaço de madeira cortada ou um ramo
pontiagudo.
As bolhas de ar da respiração que saem da máscara correm
velozmente para baixo, formando uma fieira de pérolas brilhantes. A
sucção parece aumentar ainda mais, e ele sente agora uma nova
corrente, mais forte, que o empurra por trás. A água arrefece
nitidamente. Hasse sente toda a força do rio a empurrá-lo contra a
parede.
Vê aproximar-se, na água escura, um grande ramo de árvore, que
desliza ao longo da parede, adejando as suas folhas. Hasse procura
desviar-se, mas o ramo prende-se no cabo de segurança, embate
no corpo dele e desaparece instantaneamente na escuridão.
– O que é que aconteceu? – pergunta o comissário.
– Isto está cheio de lixo.
Com mãos trémulas, o mergulhador desprende os lastros de
chumbo do colete e consegue finalmente travar a descida
vertiginosa. Fica encostado à parede de betão, tremendo. A areia e
a terra que turvam a água reduzem cada vez mais a visibilidade à
luz da lanterna.
Sentindo os pés baterem em qualquer coisa, Hasse para de
repente. Olha para baixo e percebe que atingiu o limite superior da
grade, onde há um rebordo de betão. Diante da grade acumulou-se
uma enorme quantidade de ramos, toros, folhas e lixo. A sucção
junto à grade na direção da comporta é tão forte, que qualquer
movimento se torna impossível.
– Já aqui estou – diz ele rapidamente. – Mas é difícil ver seja o
que for, juntou-se aqui muito lixo…
Cautelosamente, desloca-se entre os ramos maiores, tentando
manter o cabo de segurança livre. Passa por cima de um tronco que
vibra. Por trás de um ramo de abeto retorcido, move-se uma forma
mole e escura. Hasse suspira devido ao esforço, quando se
aproxima.
– O que é?
– Há aqui qualquer coisa…
69

A água é cinzenta e as bolhas de ar correm diante do rosto do


mergulhador. Hasse segura-se com uma mão e estende a outra,
tentando afastar a espessa camada de folhas.
Subitamente, tem-no à frente da cara. Um olho muito aberto e
uma fieira de dentes. Sobressaltado pela repentina proximidade,
quase escorrega. O facto de tudo parecer mais próximo debaixo de
água é um fenómeno ótico. Os mergulhadores habituam-se, mas
quando são apanhados desprevenidos, não há defesa. O corpo
enorme do alce está encostado à grade, mas o pescoço ficou
entalado entre um ramo grosso e um remo partido. A cabeça dança
para trás e para diante, sob a força da corrente.
– Encontrei um alce – diz Hasse, afastando-se do animal morto.
– Então foi a isso que o cão reagiu – diz Gunnarsson.
– Subo?
– Procure mais um pouco – diz Joona.
– Para baixo ou para o lado?
– O que é essa coisa aí, mesmo em frente? – pergunta Joona.
– Parece pano – responde Hasse.
– Consegue chegar lá?
Hasse sente o ácido lático nos braços e nas pernas. Lentamente,
passa o olhar pelos detritos que se juntaram na grade de retenção e
tenta ver o que está por trás dos ramos negros de abeto e espreitar
por entre os galhos mais pequenos. Tudo treme. Ocorre-lhe que
com o dinheiro que lhe render este mergulho pode comprar uma
Playstation nova. Vai fazer a surpresa ao filho e oferecer-lha quando
ele voltar do estágio.
– Cartão. É só uma caixa de cartão…
Hasse tenta afastar o cartão ensopado. A caixa rasga-se, mole.
Um pedaço solto é sugado e vai colar-se à grade.
– Estou a ficar sem forças. Vou subir – diz ele.
– O que é essa coisa branca que se vê? – pergunta Joona.
– Onde?
– Nesse sítio para onde está a olhar, há aí qualquer coisa – indica
Joona. – Pareceu-me ver qualquer coisa entre as folhas, aí na
grade, um bocadinho mais abaixo.
– Deve ser um saco de plástico – sugere o mergulhador.
– Não é – diz Joona.
– Suba! – grita Gunnarsson. – Encontrámos um alce, foi isso que
o cão cheirou.
– Um cão de busca pode ficar perturbado por um cadáver, mas
não desta forma – diz Joona. – Acho que ela reagiu a outra coisa.
Hasse Boman desce mais um pouco e afasta folhas e galhos
emaranhados. Os músculos tremem-lhe com o esforço. A força da
água empurra-o para a frente. Tem de se aguentar com um braço
para não ser atirado contra a grade. O cabo de segurança
estremece incessantemente.
– Não encontro nada – diz ele, arquejante.
– Termine – diz Gunnarsson.
– Termino? – pergunta Hasse.
– Se tiver de ser – responde Joona.
– Nem toda a gente é como você – comenta Gunnarsson num
tom sibilante.
– O que é que faço? – pergunta o mergulhador. – Tenho de saber
o que…
– Continue para o lado – diz-lhe Joona.
Hasse Boman é atingido na nuca por um ramo, mas continua a
procurar. Arranca as canas e juncos velhos que cobrem o canto
inferior da grade, mas acumulam-se logo outros. Hasse começa a
esgaravatar mais depressa e de repente vê um objeto inesperado.
Uma mala de pôr ao ombro de um tecido branco brilhante.
– Espere! Não lhe mexa – diz Joona. – Aproxime-se e aponte-lhe
a luz.
– Já vê?
– Pode ser da Vicky. Meta-a num saco, com cuidado.
70

A superfície lisa do rio brilha na barragem. Um toro passa


rapidamente, levado pelo ímpeto da água, arrastando atrás de si um
ramo saliente. Gunnarsson não consegue desviar o cabo de
segurança, e ouve-se uma pancada surda seguida de um chape. A
ligação digital com o mergulhador perde-se subitamente.
– Perdemos o contacto – diz Joona.
– Ele tem de subir já.
– Dê três puxões no cabo.
– Ele não responde – diz Gunnarsson, puxando novamente.
– Movimentos grandes – diz Joona.
Gunnarsson dá novamente três puxões no cabo e recebe uma
resposta imediata.
– Respondeu com dois.
– Então vem a subir.
– Está a ficar com folga. Vem a caminho. Vem aí mais madeira! –
grita Gunnarsson.
– Ele tem de subir depressa – responde Joona.
Uma dezena de toros aproxima-se velozmente da barragem.
Gunnarsson passa para o lado de fora do parapeito e Joona dá
folga ao cabo de segurança com o braço bom.
– Acho que o estou a ver – diz Gunnarsson, apontando.
O fato de mergulho azul parece abanar como uma bandeira ao
vento, sob a superfície da corrente.
Tirando o suporte do braço, Joona apanha o croque do chão ao
mesmo tempo que o primeiro toro embate na borda, a dois metros
de distância, e se vira para fora.
Joona mantém afastado o toro seguinte, empurrando-o com o
croque, e ele mete-se por baixo do primeiro e começam a rolar os
dois.
Hasse Boman rompe a superfície da água e Gunnarsson debruça-
se e estende-lhe a mão.
– Suba, suba!
Hasse olha-o com surpresa e agarra-se à borda da barragem.
Empunhando o croque, Joona passa para o lado de fora da grade
de proteção, para afastar os troncos.
– Despachem-se! – grita.
Quase invisível sob a água, um toro de casca muito escura
aproxima-se a toda a velocidade.
– Cuidado!
Joona mete o croque na água entre os troncos que rolam e,
segundos depois, o toro escuro embate na vara e parte-a, mas
muda de direção, passando a vinte centímetros da cabeça de Hasse
e lançando-se com enorme ímpeto contra a parede da barragem. O
toro rebola e fustiga violentamente as costas de Hasse com um
ramo saliente, empurrando-o novamente para debaixo de água.
– Tente agarrá-lo! – grita Joona.
O cabo de segurança enrola-se no tronco e Hasse é puxado para
o fundo. Surgem bolhas à superfície. O cabo raspa no gradeamento
metálico com um som musical e o tronco rola com estrépito contra a
parede de betão. Hasse retira a faca, corta o cabo e bate as pernas
para se agarrar à mão de Gunnarsson.
Um novo tronco vem embater nos primeiros, rapidamente seguido
de outros três, no preciso momento em que Gunnarsson arranca
Hasse da água.
Gunnarsson ajuda-o a desprender as pesadas garrafas e Hasse
deixa-se cair no chão. Joona tira-lhe o saco. Com mãos trémulas, o
mergulhador tira o fato de cloropreno e o fato interior. Está coberto
de nódoas negras, e o sangue que corre das esfoladelas nas costas
tinge-lhe a T-shirt suada. Tem dores muito fortes e pragueja entre
dentes quando se levanta.
– Isto talvez não tenha sido a coisa mais inteligente que eu fiz na
minha vida.
– Mas acho que encontrou uma coisa importante – diz Joona.
Observa a mala, que se move, quase como se não tivesse peso,
dentro do saco de plástico cheio de água turva. Pedaços de erva
amarela serpenteiam no interior. Joona vira suavemente o saco de
plástico e ergue-o contra o sol. Enterra os dedos no saco mole e
empurra a mala.
– Andamos à procura de cadáveres, e você fica muito contente
com uma trampa de uma mala – suspira Gunnarsson.
A luz atravessa o saco, e uma sombra amarela brilha na testa de
Joona. Na parte inferior da mala, Joona vê manchas castanho-
escuras. É sangue. Tem a certeza de que é sangue.
– Está suja de sangue – diz Joona. – Foi isto que o cão farejou,
misturado com o cheiro do alce… Foi por isso que ela não sabia
como devia marcar.
Joona vira novamente o saco pesado e frio. A mala mexe-se
lentamente, e a água turva revolve-se em círculos.
71

Joona encontra-se do lado de fora dos portões fechados da


garagem da Polícia, na grande zona industrial paralela à
Bergsgatan, em Sundsvall. Quer falar com os técnicos e ver a mala
que encontraram na barragem, mas ninguém atende o telefone nem
o intercomunicador do portão. A zona por trás da vedação alta
parece abandonada, o parque de estacionamento está vazio e as
portas estão todas fechadas.
Joona entra no carro e dirige-se para a esquadra de Polícia de
Storgatan, onde está Gunnarsson. Na escada encontra Sonja Rask.
Está vestida à civil, com o cabelo húmido do duche, discretamente
maquilhada e parece bem-disposta.
– Olá! – diz Joona. – O Gunnarsson está lá em cima?
– Não ligue ao Gunnarsson – diz-lhe ela, com uma careta de
cansaço. – Ele sente-se sempre ameaçado e pensa que você lhe
quer tirar o trabalho.
– Sou só observador.
Os olhos escuros de Sonja têm um brilho afável.
– Pois, mas eu ouvi dizer que você se meteu na água, mergulhou
e foi examinar o carro.
– Foi só para ver – diz Joona, devolvendo o sorriso.
Ela ri e dá-lhe uma palmadinha no braço, mas depois
envergonha-se e desce rapidamente a escada.
Joona continua a subir. Na sala do café da esquadra, o rádio está
ligado, como habitualmente. Alguém fala monotonamente ao
telefone do outro lado de uma porta de vidro, e uma dezena de
pessoas conversa em volta de uma mesa de conferência.
Gunnarsson está sentado à cabeceira. Joona aproxima-se da porta.
Uma das mulheres vê-o e abana a cabeça, mas Joona abre a porta.
– Raios partam… – resmunga Gunnarsson quando o vê.
– Preciso de ver a mala da Vicky Bennett – diz Joona de forma
concisa.
– Estamos em reunião – diz Gunnarsson num tom definitivo, já a
olhar novamente para os papéis que tem na frente.
– Está tudo com os técnicos na Bergsgatan – explica Rolf,
embaraçado.
– Não há lá ninguém – diz Joona.
– Desapareça, porra! – diz-lhe Gunnarsson bruscamente. – A
investigação está suspensa e, quanto a si, os inspetores do
Departamento de Assuntos Internos podem comê-lo ao pequeno-
almoço, que não me faz diferença nenhuma.
Joona assente em silêncio. Sai da esquadra, entra no carro e fica
sentado durante um momento. Depois arranca e põe-se a caminho
do hospital de Sundsvall, pensando nos crimes de Birgitta e
tentando identificar aquilo que o está a perturbar naquele caso.
«Vicky Bennett», pensa ele. «A miúda bem-comportada que
talvez nem sempre tenha sido tão bem-comportada. Vicky Bennett
estraçalhou as caras de uma mãe e de um filho com uma garrafa
partida.»
Os dois ficaram gravemente desfigurados, mas não procuraram
ajuda médica nem participaram à Polícia.
Antes de se afogar, Vicky era suspeita de dois crimes
extremamente violentos.
Tudo indica que ela se preparou para aquele ato, esperou pela
noite, matou Elisabet com um martelo para lhe tirar as chaves,
voltou a entrar no edifício, abriu a porta do quarto de isolamento e
matou Miranda.
O aspeto extraordinário é o facto de Nålen ter afirmado que
Miranda foi morta com uma pedra.
Que razão poderia levar Vicky a deixar o martelo no seu quarto e
ir buscar uma pedra?
Joona já pensou várias vezes que o seu velho amigo se pode ter
enganado. É uma das razões por que ainda não disse aquilo a
ninguém. Nålen terá de apresentar a sua teoria quando terminar o
relatório.
O outro aspeto estranho é que Vicky se tenha deitado na cama e
dormido depois dos crimes.
Holger Jalmert considerou a observação de Joona interessante,
embora impossível de comprovar.
Mas Joona está seguro do que viu: alguém esfregou ou limpou
sangue fresco no lençol. Uma hora depois, esse sangue marcou a
impressão do braço de Vicky, quando ela mudou de posição.
Sem testemunhas, provavelmente nunca terá uma resposta.
Joona leu o livro de registo diário do Centro Birgitta e as últimas
entradas escritas por Elisabet Grim na sexta-feira, mas nada nessas
breves anotações faz prever a violência que teria lugar na mesma
noite.
As alunas não viram nada.
Ninguém conhecia Vicky Bennett.
Joona já decidiu que irá conversar com Daniel Grim, o terapeuta.
Vale a pena tentar, ainda que colida com o princípio de não
incomodar alguém que sofreu uma grande perda. Mas Daniel Grim é
a pessoa em quem as alunas parecem confiar mais, e se há alguém
que possa compreender o que se passou, provavelmente será ele.
Joona pega no telemóvel vagarosamente, sentindo a dor no
ombro, marca o número e lembra-se do terapeuta quando chegou à
instituição. Tentou controlar-se diante das alunas, mas quando
percebeu que Elisabet tinha sido morta, viu-se no rosto que ficou
transtornado de dor.
O médico chama ao estado de choque agudo em que ele ficou
arousal, hipersensibilidade emocional. Uma condição de stress pós-
traumático que pode afetar muito gravemente a capacidade de
recordar durante um período de tempo.
– Psiquiatria, fala Rebecka Stenbeck – responde uma voz
feminina ao fim de cinco toques.
– Gostaria de falar com um paciente. O nome dele é Daniel Grim.
– Um momento.
Joona ouve a mulher a escrever num teclado.
– Infelizmente, este doente não pode receber chamadas.
– Quem tomou essa decisão?
– O médico responsável – responde ela friamente.
– Pode pôr-me em contacto com ele?
Ouve um tilintar e em seguida os toques de chamada.
– Rimmer.
– Chamo-me Joona Linna. Sou comissário da Polícia Criminal. É
importante eu poder falar com um paciente que se chama Daniel
Grim.
– Está fora de questão – responde o médico imediatamente.
– Estamos a investigar um duplo homicídio e…
– Não autorizo ninguém a contrariar a minha decisão, pondo em
risco a recuperação do paciente.
– Eu sei que Daniel Grim está numa situação terrível, mas
prometo que…
– A minha avaliação da situação – interrompe Carl Rimmer com
amabilidade – é que o paciente vai recuperar e que a Polícia poderá
interrogá-lo dentro em breve.
– Quando?
– Dentro de uns dois meses, diria eu.
– Mas eu só preciso de falar com ele por um breve momento,
nesta altura – tenta Joona.
– Como médico dele, tenho de recusar – responde Rimmer,
inabalável. – Ele ficou muito perturbado depois do interrogatório do
seu colega.
72

Flora caminha apressadamente para casa, carregando o pesado


saco de compras do Dagliv. O céu já escureceu, mas a iluminação
pública ainda não foi ligada. Sente um aperto no estômago quando
se lembra do telefonema para a Polícia, da recusa da agente em
ouvi-la e dos momentos que se seguiram, com o rosto a arder de
vergonha. A agente dissera que telefonar para a Polícia e dizer
mentiras era punível por lei, mas ela teimara em agarrar no telefone
e ligar novamente, para falar da arma do crime. E não consegue
deixar de pensar na conversa que teve lugar na segunda vez que
ligou.
– Polícia – respondeu a mesma mulher que a tinha repreendido
na primeira vez.
– O meu nome é Flora Hansen – disse ela, engolindo em seco. –
Telefonei há momentos…
– A respeito do crime de Sundsvall – disse a mulher calmamente.
– Sei onde está a arma do crime – mentiu Flora.
– Flora Hansen, tem consciência de que eu vou fazer uma
participação?
– Eu sou médium, vi a faca suja de sangue, está dentro de
água… Uma água escura e brilhante. É tudo o que vi, mas posso…
Se me pagarem, posso entrar em transe e indicar o local exato.
– Flora – disse a agente com gravidade ‒, nos próximos dias vai
ser citada por suspeita de ilícito, e a Polícia vai…
Flora Hansen desligou o telefone.
Passa agora junto à pequena loja árabe, a loja halal, detém-se,
procura garrafas vazias no cesto de papéis, passa o saco das
compras para a mão esquerda e continua a andar até à entrada do
prédio. Repara que a fechadura está partida e entra.
O elevador está preso na cave. Flora sobe as escadas até ao
segundo piso, abre a porta do apartamento, entra e carrega no
interruptor da luz do vestíbulo.
Ouve o clique, mas a luz não se acende.
Pousa o saco das compras, fecha a porta à chave, descalça os
sapatos e quando se baixa para os arrumar, sente os pelos dos
braços eriçarem-se.
De repente, a casa ficou fria.
Tira do porta-moedas o recibo e o troco e dirige-se para a sala às
escuras.
Vagamente, distingue o sofá, o cadeirão grande, com o assento
gasto pelo uso, o ecrã negro do televisor. Cheira a poeira elétrica, a
circuitos sobreaquecidos.
Sem passar a porta, Flora estende a mão e apalpa o papel de
parede à procura do interruptor.
Quando o liga, não acontece nada.
– Está alguém em casa? – pergunta, muito baixinho.
Ouve o chão ranger e uma chávena de chá a tilintar no pires.
Alguém se move na escuridão. A porta da casa de banho fecha-
se.
Flora segue o som.
Sob os seus pés, o revestimento de linóleo do chão está frio,
como quando se tem a janela aberta durante muito tempo num dia
de inverno. No momento em que estende a mão para abrir a porta
da casa de banho, lembra-se de que Ewa e Hans-Gunnar não
deviam estar em casa naquela noite. Iam jantar à pizaria, para
festejar o aniversário de um amigo. Embora saiba que não está
ninguém na casa de banho, a mão completa o movimento e abre a
porta.
Sob a luz cinzenta que se reflete no espelho, Flora vê alguma
coisa que a faz suster a respiração e recuar.
No chão, entre a sanita e a banheira, jaz uma criança. Uma
menina, com as mãos a tapar os olhos. Ao seu lado, há uma grande
poça de sangue escurecido, e pequenas gotas vermelhas salpicam
o rebordo branco da banheira, a parede e a cortina do duche.
Flora tropeça no tubo do aspirador, estende os braços e atira ao
chão uma placa de gesso pintado de Ewa, com uma vista de
Copenhaga em relevo, cai para trás e bate com a nuca no chão do
corredor.
73

Flora sente o chão frio como um campo gelado. Levanta a cabeça


e olha para dentro da casa de banho.
O coração bate-lhe pesadamente no peito.
Já não vê a criança.
Não há salpicos de sangue no rebordo da banheira nem na
cortina de plástico. No chão, ao lado da sanita, está um par de jeans
de Hans-Gunnar.
Flora pisca os olhos e pensa que deve ter visto mal.
Engole em seco, descansa a cabeça no chão e espera que o
coração abrande. Na boca espalha-se-lhe um sabor inequívoco a
sangue.
Olhando para o corredor, vê que a porta do seu quarto está
aberta. Um arrepio eriça-lhe a pele no corpo todo.
Sabe que deixou a porta fechada, porque a deixa sempre
fechada.
Subitamente, há uma corrente de ar gélido que parece ser sugada
para dentro do quarto. Vê pequenas bolas de pó saltitando e segue-
as com o olhar. As bolas correm dançando pelo corredor e vão parar
entre dois pés descalços.
Flora ouve-se a si própria emitir um som estranho, como um
vagido.
A menina que jazia no chão da casa de banho está agora de pé, à
entrada do quarto dela.
Flora tenta sentar-se, mas o corpo está aturdido de medo. Sabe
que está a ver um fantasma; pela primeira vez na sua vida, está
verdadeiramente a ver um espírito.
O cabelo da rapariga parece ter estado apanhado num penteado
bonito, mas agora está desgrenhado e ensanguentado.
Flora respira muito depressa e ouve a própria pulsação como um
estrondo nos ouvidos.
A menina começa a aproximar-se de Flora, escondendo qualquer
coisa atrás das costas. Para, descalça, a um passo do rosto dela.
– O que é que eu tenho atrás das costas? – pergunta a menina,
numa voz tão sumida, que as palavras quase não se ouvem.
– Tu não existes – murmura Flora.
– Queres que eu te mostre as minhas mãos?
– Não.
– Mas eu não tenho nada…
Uma pedra pesada cai com um baque atrás da rapariga, fazendo
tremer o chão. Cacos do quadro de gesso que se tinha partido
ressaltam.
Sorrindo, a menina mostra as mãos vazias.
A pedra está caída atrás dela, entre os pés, enorme e escura.
Com arestas afiadas, como as pedras das minas.
A rapariga tateia-a com um pé, fazendo-a balançar, e empurra-a
para o lado.
– Morre de uma vez – murmura ela para si própria. – Morre de
uma vez!
Agacha-se e pousa as mãos cinzentas na pedra, tenta agarrá-la
com firmeza, as mãos escorregam-lhe e ela limpa-as ao vestido,
tenta novamente e vira a pedra de lado com um baque surdo.
– Que é que vais fazer? – pergunta Flora.
– Fecha os olhos, e eu desapareço – responde a menina,
pegando na pedra e levantando-a por cima da cabeça de Flora.
A pedra é muito pesada, mas ela segura-a no ar, com os braços a
tremer, na direção do rosto de Flora. A face inferior da pedra parece
molhada.
Subitamente, a eletricidade regressa. Acendem-se luzes. Flora
rola no chão e senta-se. A rapariga desapareceu. Da televisão vem
o som de vozes, e o frigorífico começa a zumbir.
Flora levanta-se e acende mais luzes. Vai ao seu quarto, abre a
porta e acende o candeeiro do teto. Abre o roupeiro e espreita para
debaixo da cama. Depois vai sentar-se à mesa da cozinha. Sente
um tremor forte nas mãos quando marca o número da Polícia.
A central automática propõe-lhe várias opções. Pode participar
um crime, pode dar uma informação ou pode obter resposta para
perguntas de carácter geral. Esta última opção permite entrar em
contacto com um telefonista.
– Polícia – diz uma voz amável. – Em que posso ajudar?
– Queria falar com alguém que esteja a trabalhar naquele caso de
Sundsvall – diz Flora com voz trémula.
– Qual é o assunto?
– Penso… Acho que vi a arma do crime – diz Flora muito
baixinho.
– Ah, bom – responde o telefonista. – Nesse caso, o melhor será
falar com a secção de informações. Vou ligar.
Flora vai protestar, mas ouve o estalido na linha.
– Linha de infirmações da Polícia. Posso ajudar?
Flora não sabe se é a mesma mulher que se zangou quando ela
mentiu e falou numa faca ensanguentada.
– Queria falar com alguém que esteja a trabalhar no caso dos
crimes de Sundsvall – começa ela.
– Pode começar por falar comigo – responde a voz do outro lado.
– Foi uma pedra grande – diz Flora.
– Não consigo ouvir o que diz. Fale mais alto, por favor.
– O caso de Sundsvall… Procurem uma pedra grande. Está suja
de sangue na parte de baixo e…
Flora cala-se e sente o suor começar a escorrer-lhe das axilas.
– De que forma é que obteve informações sobre o crime de
Sundsvall?
– Tive… Foi uma pessoa que me disse.
– Uma pessoa falou-lhe no crime de Sundsvall.
– Sim – responde ela, num fio de voz.
Flora sente o sangue latejar-lhe nas têmporas e um forte zumbido
nos ouvidos.
– Continue – diz a mulher.
– O assassino usou uma pedra… Uma pedra com arestas
aguçadas. Só sei isso.
– Qual é o seu nome?
– Isso não interessa, eu só queria…
– Estou a reconhecer a sua voz – diz a agente. – Foi você que
telefonou a falar numa faca ensanguentada. Preenchi um formulário
de queixa contra si, Flora Hansen. Mas devia procurar um médico.
Provavelmente, precisa de ajuda.
A agente desliga a chamada, e Flora fica sentada com o telefone
na mão. Quando o saco de compras tomba, no vestíbulo, Flora
sobressalta-se e, sem querer, deita abaixo o suporte do papel de
cozinha.
74

Elin Frank regressou a casa há uma hora, depois de uma longa


reunião com o conselho de administração da grande filial Kingston,
para discutir duas holdings na Grã-Bretanha.
Quando pensa que misturou Valium com álcool e foi para a cama
com o fotógrafo da Vogue, não consegue evitar uma profunda
sensação de angústia. Repete a si própria que precisava de uma
distração, que foi uma pequena aventura, que precisava daquilo,
que há muito tempo que não tinha sexo. Mas a sensação de
embaraço deixa-a coberta de suor.
Foi à cozinha buscar uma garrafa de água Perrier e passeia pelas
salas vestindo umas calças de desporto velhas, de um vermelho
desbotado, e uma camisola já muito usada, com uma imagem
desgastada dos Abba. Na sala de estar, para em frente do televisor
no momento em que uma mulher muito alta salta um obstáculo num
estádio olímpico. Elin pousa a garrafa de água mineral na mesa de
vidro, pega no elástico que traz à volta do pulso e apanha o cabelo
num rabo de cavalo antes de seguir para o quarto.
Mais para o fim da tarde, terá uma reunião telefónica com a sua
delegação em Chicago, ao mesmo tempo que faz um banho de
parafina e a manicure lhe trata as mãos; às oito terá um jantar de
beneficência onde ficará numa das mesas da frente e terá a seu
lado o administrador do grupo Volvo. A princesa herdeira entregará
um prémio do fundo de beneficência Allmänna Arvsfonden, e os
Roxette animarão o evento.
Entra no quarto de vestir entre os armários altos, ouvindo apenas
vagamente o som da televisão, e não dá pelo início do noticiário.
Abre algumas portas dos armários e passa o olhar pelas roupas. Por
fim, tira um vestido de um verde metálico que o estilista Alexander
McQueen desenhou expressamente para ela.
Do televisor vem uma referência ao nome Vicky Bennet.
Com uma angústia negra a invadir-lhe o corpo, Elin larga o
vestido no chão e volta à sala de estar.
O aparelho tem um ecrã grande com um rebordo branco, dando a
impressão de que a imagem é projetada diretamente na parede
branca. Um comissário de polícia chamado Olle Gunnarsson dá
uma entrevista diante do edifício deprimente de uma esquadra. O
comissário procura sorrir pacientemente, mas o olhar é irritado.
Passa a mão pelo bigode e faz um gesto de assentimento.
– Não posso comentar isso enquanto a atual investigação estiver
em curso – responde, tossicando levemente.
– Mas puseram termo às buscas com mergulhadores?
– É verdade.
– Isso significa que encontraram os corpos?
– Não posso responder.
A luz do ecrã pisca, e Elin vê as imagens do carro, deformado
pela colisão, a ser retirado da água. A grua levanta-o na vertical e
quando ele corta a superfície da água, começa a baloiçar. De dentro
do carro jorra água com espuma, enquanto uma voz grave informa
que o veículo roubado por Vicky Bennet fora encontrado no rio umas
horas antes e que se receia que Vicky Bennet, suspeita de
homicídio, e Dante Abrahamsson tenham morrido.
«A Polícia não revela pormenores sobre esta descoberta, mas o
Aktuellt soube que as buscas no rio com mergulhadores foram
interrompidas e o alerta nacional foi cancelado…»
Quando surge no ecrã uma fotografia de Vicky, Elin já não está a
ouvir o que diz o apresentador das notícias. Vicky está mais velha e
mais magra, mas não mudou. Elin sente o coração parar-lhe dentro
do peito. Recorda a sensação de a levar ao colo, adormecida.
– Não – sussurra Elin. – Não…
Fixa o rosto magro e pálido da rapariga. O cabelo, descuidado e
emaranhado, sempre difícil de pentear.
Ainda é uma criança, e estão a dizer que morreu. O olhar, forçado
a encarar a câmara, é obstinado.
Elin afasta-se do televisor, vacila e apoia-se à parede, sem dar
conta de que um óleo de Erland Cullberg se desprende e cai no
chão.
– Não, não, não – geme. – Isto não, isto não… Não, não…
A última coisa que ouviu de Vicky foi o choro dela na escada.
Agora está morta.
– Não quero! – grita Elin.
Com o coração a bater descompassadamente, encaminha-se
para o armário de vitrina onde está o prato do Seder pascal que
herdou do pai e que está na família há várias gerações. Agarra a
parte superior do armário e, com todas as suas forças, derruba-o. O
móvel cai no chão com grande estrondo. O vidro parte-se,
espalhando estilhaços em todas as direções, e o prato finamente
decorado quebra-se.
Elin dobra-se como se tivesse uma dor terrível na barriga e deixa-
se cair no chão. Arquejando, repete para si mesma que tinha uma
filha.
«Eu tinha uma filha, eu tinha uma filha, eu tinha uma filha.»
Senta-se, pega num caco grande do prato do Seder que era do
pai e espeta a aresta afiada na parte interna do pulso, com força. O
sangue começa a correr, quente, e a pingar-lhe sobre os joelhos.
Elin usa a aresta afiada novamente para se cortar, solta um gemido
de dor e, nesse momento, ouve a fechadura da porta da rua a rodar
e alguém entrar.
75

Joona está a aloirar dois nacos grossos de lombo de vaca, em


lume forte, numa frigideira de ferro. Atou a carne e temperou-a com
pimenta preta e verde. Quando os tornedós já têm a superfície
dourada, põe-lhes sal e passa-os para o forno, colocando-os em
cima das batatas. Enquanto a carne acaba de cozinhar, prepara um
molho com vinho do Porto, passas, caldo de vitela e trufas.
Com gestos parcimoniosos, serve dois copos de Saint-Émilion
tinto.
Quando a campainha toca, já se espalhou na cozinha um aroma
terroso de Merlot e Cabernet Sauvignon.
Disa aparece, com uma gabardina vermelha e branca às
pintinhas. Tem olhos grandes, e o rosto está molhado da chuva.
– Joona, quero pôr à prova se tu és um polícia tão bom como
dizem.
– E como é que pões isso à prova?
– Com um teste. Notas alguma coisa diferente em mim?
– Estás mais bonita – responde ele.
– Não – ri-se ela.
– Cortaste o cabelo e puseste o gancho de Paris pela primeira vez
desde há um ano.
– Mais alguma coisa?
Joona percorre com o olhar o rosto magro, corado, o cabelo liso e
curto, e o corpo esbelto.
– Isso é novo – diz ele, apontando para as botas de salto alto.
– Marc Jacobs… Um bocadinho caras de mais para mim.
– Giras.
– Não vês mais nada?
– Ainda não acabei – diz ele. Pega-lhe nas mãos, vira-as e
examina as unhas.
Disa não consegue impedir-se de sorrir quando ele lhe diz que ela
tem o mesmo bâton que usou quando foram ao teatro Södra.
Gentilmente, mexe nos brincos e depois olha-a nos olhos, observa-a
mais um pouco e em seguida desvia-se, de modo a que a luz do
candeeiro de pé lhe incida no rosto.
– Os olhos – diz ele. – A pupila esquerda não se contrai com a
luz.
– Polícia competente! – diz ela. – Puseram-me gotas.
– Foste fazer um exame à vista?
– O vítreo tem uma deformação, mas não é grave – responde
Disa, entrando na cozinha.
– O jantar está quase pronto. A carne só precisa de repousar um
bocadinho.
– Que bonito que isto está!
– Há muito tempo que não nos víamos – diz ele. – Estou muito
contente por estares aqui.
Brindam em silêncio e, como sempre que Joona olha para ela,
Disa sente um calor percorrê-la e parece irradiar brilho. Obriga-se a
desviar o olhar, faz rodar o vinho no copo, aspira o aroma e prova-o
novamente.
– Boa temperatura – constata ela.
Joona dispõe a carne e as batatas numa cama de rúcula,
manjericão e tomilho.
Em seguida rega-as delicadamente com o molho, enquanto pensa
que já devia ter esclarecido as coisas com Disa há muito tempo.
– Tens passado bem?
– Se tenho passado bem sem ti, queres tu dizer? Melhor do que
nunca – dispara ela.
Ficam em silêncio, e ela põe cautelosamente a mão sobre a dele.
– Desculpa – diz. – Mas eu às vezes sinto-me furiosa contigo.
Quando mostro o meu pior lado.
– E agora qual mostras?
– O lado pior.
Joona bebe um gole de vinho.
– Nestes últimos tempos, tenho pensado muito no passado –
começa ele.
Disa sorri e levanta as sobrancelhas.
– Nos últimos tempos? Tu estás sempre a pensar no passado.
– Estou?
– Sim. Pensas… mas não falas.
– Pois não, é que…
Joona cala-se, e o seu olhar cinzento-claro estreita-se. Disa sente
um arrepio percorrer-lhe as costas.
– Convidaste-me para jantar porque precisávamos de falar – diz
ela. – Tinha decidido nunca mais te falar, mas tu telefonaste… ao
fim de vários meses…
– Sim, para…
– Tu estás-te nas tintas para mim, Joona.
– Disa… Podes pensar o que quiseres de mim – diz ele, com
gravidade. – Mas quero que saibas que não me estou nas tintas…
Gosto de ti e estou sempre a pensar em ti.
– Pois… – diz ela, arrastando a palavra e levantando-se sem o
olhar de frente.
– O que está em causa são outras coisas, são coisas terríveis
que…
Joona, de pé, vê-a vestir a gabardina às pintas.
– Adeus – diz ela baixinho.
– Disa, eu preciso de ti – ouve-se ele dizer. – Quero-te muito.
Ela fica a olhar para ele. A franja lisa chega-lhe às pestanas.
– O que é que disseste? – pergunta ela passado um momento.
– Quero-te muito, Disa.
– Não digas essas coisas – diz ela, e puxa o fecho de correr das
botas.
– Preciso de ti, precisei sempre de ti – continua ele. – Mas não
quis pôr-te em risco, não suportei a ideia de que te pudesse
acontecer alguma coisa se nós…
– O que é que me podia acontecer?
– Podes desaparecer – explica ele simplesmente, segurando o
rosto dela com as duas mãos.
– Tu é que desapareces – sussurra ela.
– Eu não sou medroso, Disa. Estou a falar de coisas reais, que…
Ela põe-se em bicos de pés, dá-lhe um beijo rápido na boca e
deixa-se ficar assim, a sentir o calor da respiração de Joona. Ele
procura a boca dela e beija-a várias vezes até Disa entreabrir os
lábios.
Beijam-se vagarosamente, e Joona desabotoa-lhe a gabardina e
deixa-a cair no chão.
– Disa – murmura Joona, acariciando-lhe os ombros e as costas.
Aperta-se contra ela, inspira o perfume sedoso, beija-a no
pescoço, em volta do pescoço, prende o fio de ouro com os lábios,
beija-lhe o queixo e os lábios macios e húmidos.
Procura o calor da pele dela sob a blusa fina. Os botões de
pressão abrem-se com um estalido. Os mamilos estão rijos e a
barriga pulsa com a respiração rápida.
Ela olha-o fixamente, puxa-o para o quarto, com a blusa aberta e
os seios alvos brilhando como porcelana polida.
Param e procuram novamente os lábios um do outro. As mãos
dele deslizam-lhe pelas costas e pelas nádegas e metem-se por
baixo do tecido sedoso das cuecas.
Disa afasta-se um pouco, sentindo o calor que lhe faz pulsar o
sexo. Tem as faces a arder, e as mãos tremem-lhe quando
desaperta as calças de Joona.
76

Depois do pequeno-almoço, Disa fica na cama com uma chávena


de café, a ler o Sunday Times no iPad enquanto Joona toma um
duche e se veste.
Ontem ele decidiu não ir ao Museu Nórdico ver a coroa de noiva
tradicional feita de raízes entrançadas.
Preferiu estar com Disa. O que aconteceu não foi planeado. Mas
talvez estivesse relacionado com o facto de a demência de Rosa
Bergman ter finalmente cortado a ligação a Summa e Lumi.
Passaram mais de doze anos.
É preciso compreender que já não há nada a recear.
Mas devia ter falado com Disa há mais tempo, devia tê-la avisado
e contado aquilo que o assusta, para que ela pudesse fazer a sua
escolha.
Junto à porta do quarto, fica a olhar para ela durante um longo
momento, sem ela dar por isso. Depois vai para a cozinha e marca o
número do professor Holger Jalmert.
– Fala o Joona Linna.
– Consta-me que o Gunnarsson se está a tornar difícil – diz
Holger num tom divertido. – Quis que eu lhe prometesse que não
lhe enviaria a si a cópia do relatório.
– Mas pode falar comigo, não pode? – pergunta Joona. Pega no
pão e na chávena de café e faz um aceno a Disa, que lê no iPad
com a testa franzida.
– Provavelmente, não – responde Holger rindo, mas logo de
seguida fica sério.
– Já conseguiu examinar a mala que encontrámos na barragem?
– pergunta Joona.
– Sim, já acabei. Estou no carro, a caminho de Umeå, vou
regressar a casa.
– Havia algum material escrito dentro da mala?
– Além de um recibo de uma tabacaria, nada.
– Telemóvel?
– É pena, mas não – diz Holger.
– Então o que é que temos? – pergunta Joona, pousando a vista
no céu cinzento, sobre os telhados.
Holger inspira pelo nariz e diz, como se estivesse a ler:
– É altamente provável que as manchas na mala sejam de
sangue. Cortei um pedaço e mandei diretamente para o Laboratório
Técnico Forense… Coisas de maquilhagem, um bâton, um coto de
lápis dos olhos preto, um travessão do cabelo de plástico cor-de-
rosa, um porta-moedas com uma caveira, uns trocos, uma fotografia
dela, uma espécie de ferramenta de bicicleta, um frasco de
medicamentos sem etiqueta, que também foi enviado para o LTF,
um blister de Stesolid, duas canetas… e, escondido no forro,
encontrei uma faca de mesa afiada como uma faca de sushi.
– Mas nada escrito, nem nomes, nem moradas?
– Não, só isto.
Joona ouve os passos de Disa atrás de si, no chão de madeira,
mas não se mexe. Sente o calor do corpo dela, estremece e sente
os lábios macios dela na nuca e os braços a rodearem-lhe o corpo.
Enquanto Disa toma um duche, Joona senta-se à mesa da
cozinha e marca o número de Solveig Sundström, responsável pelas
alunas do Centro Birgitta.
Ela deve saber quais os medicamentos que Vicky tomava.
O telefone toca oito vezes antes de se ouvir o estalido e uma voz
que parece muito próxima.
– Caroline, a atender um telemóvel muito feio que estava caído no
sofá.
– A Solveig está aí?
– Não, não sei onde ela está neste momento. Quer deixar um
recado?
Caroline é a rapariga mais velha, bastante mais alta do que Tuula.
Tinha cicatrizes na parte anterior do cotovelo, mas parecia ajuizada,
inteligente e empenhada em mudar.
– Está tudo bem aí, com vocês? – pergunta ele.
– É o comissário, não é?
– Sou.
Há um silêncio e depois ela pergunta, num tom cauteloso:
– É verdade que a Vicky morreu?
– Infelizmente, pensamos que sim.
– É uma coisa tão estranha… – diz Caroline.
– Sabes que medicamentos ela tomava?
– A Vicky?
– Sim.
– Era incrivelmente magra e bonita para quem toma Zyprexa.
– Isso é um calmante, não é?
– Eu já tomei, em tempos, mas agora já só tomo o Imovane, para
dormir. É uma maravilha não ter de tomar o Zyprexa.
– Tem muitos efeitos secundários?
– Deve variar muito, mas comigo… Engordei de certeza dez
quilos.
– Dá sono? – pergunta Joona, vendo diante dos olhos o lençol
sujo de sangue onde Vicky tinha dormido.
– Primeiro, é ao contrário. Eu, mal começava a chupar um
comprimido, ficava toda agitada. Uma pessoa sente um formigueiro
no corpo, fica irritada com tudo, grita… Uma vez atirei com o
telemóvel à parede e arranquei as cortinas. Mas ao fim de algum
tempo a reação muda, e parece que a pessoa tem um cobertor
quentinho em cima, fica calma e só quer é dormir.
– Sabes se a Vicky tomava outras coisas?
– Ela deve fazer como as outras e engolir tudo o que funciona.
Stesolid, Lyrica, Ketogan…
Ouve-se uma voz ao fundo e Joona percebe que é a enfermeira
que acaba de entrar na sala e ver Caroline a falar ao telefone.
– Vou participar isto como roubo – diz a mulher.
– O telemóvel tocou e eu atendi – responde Caroline. – É um
comissário que quer falar consigo… É suspeita do assassínio de
Miranda Ericsdotter.
– Não sejas parva – diz a mulher. Tira-lhe o telemóvel, tossica e
responde:
– Solveig Sundstöm.
– O meu nome é Joona Linna, sou comissário da Polícia Criminal
e estou a investigar…
A mulher desliga sem uma palavra, e Joona não perde tempo a
ligar novamente, porque já tem a informação que quer.
77

Um Opel branco detém-se debaixo do telhado direito da bomba


de gasolina Statoil, e uma mulher com uma camisola de malha azul-
clara sai do carro, aproxima-se do dispositivo de pagamento com
cartão e abre a mala.
Ari Määtilainen desvia o olhar da mulher e dispõe duas grossas
salsichas sobre a porção de puré de batata com molho mexicano e
cebola frita. Olha para o motociclista gordo que aguarda e explica
mecanicamente que o café e a Coca-Cola podem ser retirados no
dispensador automático de bebidas.
Quando ele se inclina para pegar na embalagem com a comida,
as correntes que lhe enfeitam o casaco de cabedal raspam no vidro
do balcão.
– Danke – diz ele e dirige-se em seguida para a máquina de
bebidas.
Ari aumenta ligeiramente o volume de som do rádio e observa que
a mulher com a camisola azul-clara se afastou ligeiramente
enquanto o depósito do Opel está a ser abastecido de gasolina.
Ari presta atenção quando o locutor de rádio que lê as notícias
descreve a evolução do famoso caso do rapto.
«As buscas para encontrar Vicky Bennet e Dante Abrahamsson
foram interrompidas. A Polícia de Västernorrland mantém o silêncio,
mas algumas fontes confirmam as suspeitas de que as duas
crianças procuradas terão perdido a vida logo na manhã de sábado.
Alguns setores dirigem críticas à Polícia por ter lançado um alerta
nacional. A redação do Ekot tentou contactar o diretor da Polícia
Criminal, Carlos Eliasson, para obter um comentário…»
– O quê?! – exclama Ari.
Olha para o post-it que deixou ficar junto à caixa, pega no telefone
e liga novamente para a Polícia.
– Polícia. Fala Sonja Rask – responde uma mulher.
– Bom dia. Eu vi-os… Vi a rapariga e o menino.
– Estou a falar com quem?
– Ari Määtilainen… Trabalho na Statoil em Dingersjö. Estava aqui
a ouvir a rádio, e disseram no noticiário que eles teriam morrido no
sábado de manhã, mas não podem ter morrido, porque eu vi-os aqui
na noite de sábado para domingo.
– Está a referir-se a Vicky Bennet e Dante Abrahamsson? –
pergunta Sonja com ceticismo.
– Sim. Vi-os aqui na noite de sábado, aliás, já era domingo,
portanto não podem ter morrido no sábado de manhã, como
disseram na rádio, pois não?
– Viu a Vicky Bennet e o Dante Abrahamsson aí na…
– Sim.
– Então porque é que não telefonou logo?
– Mas eu telefonei e falei com um polícia.
Ari recorda o que se passou no sábado à noite, quando ele estava
a ouvir a Radio Guld. O alerta nacional ainda não tinha sido emitido,
mas os meios de comunicação locais convidavam o público a estar
atento, para a eventualidade de ver a rapariga e o menino.
Às onze horas, um camião de longo curso parou no parque de
estacionamento a seguir às bombas de gasóleo.
O motorista dormiu durante três horas.
Foi em plena noite, às duas e um quarto, que Ari os viu.
Estava a olhar para o monitor onde se vê o que as câmaras de
vigilância registam. A imagem a preto e branco mostrava o camião
de outro ângulo. A estação de serviço estava deserta quando o
enorme veículo se pôs em andamento para sair da área de serviço.
De repente, Ari viu um vulto na parte traseira do edifício, muito perto
da saída da lavagem de carros. Não era uma pessoa, mas sim
duas. Olhou atentamente para o monitor. O camião fez uma curva e
entrou no acesso à saída. A luz dos faróis bateu na montra, e Ari
saiu do seu lugar atrás do balcão e correu para as traseiras do
edifício. Mas já não estavam lá. A rapariga e o menino tinham
desaparecido.
78

Joona estaciona o carro junto à estação de serviço da Statoil em


Dingersjö, trezentos e sessenta quilómetros a norte de Estocolmo.
Está sol e sopra um vento fresco, que abana as bandeirolas
publicitárias meio rasgadas. Joona e Disa estavam a almoçar juntos
no restaurante do hotel Villa Källhagen quando ele recebeu um
telefonema nervoso da agente Sonja Rask em Sundsvall.
Joona entra na loja. Um homem de olhos encovados, com um
boné da Statoil na cabeça, está a arrumar livros de bolso num
expositor metálico. Joona olha para o menu no quadro luminoso e
depois para as salsichas lisas e brilhantes que rolam no grelhador
mecânico.
– O que é que deseja? – pergunta o homem.
– Makkarakeitto – responde Joona.
– Suomalainen makkarakeitto – diz Ari Määtilainen, sorrindo. – A
minha avó fazia muitas vezes sopa de salsichas quando eu era
pequeno.
– Com pão de centeio?
– Sim. Mas aqui, infelizmente, só vendo comida sueca – diz ele
apontando para os hambúrgueres.
– Mas eu não venho cá comer. Sou da Polícia.
– Eu percebi… Falei com um colega seu na noite em que os vi –
diz Ari, apontando para o monitor.
– Quando telefonou, o que é que tinha visto?
– Uma rapariga e um menino, aqui nas traseiras do edifício.
– Viu-os no monitor?
– Sim.
– Viu nitidamente?
– Não, mas… Estou habituado a ir deitando uma olhadela, para
ver o que se passa.
– A Polícia veio cá nessa noite?
– Veio um, de manhã, que se chamava Gunnarsson, mas achou
que não se via nada e disse-me que eu podia apagar a gravação.
– Mas você não apagou – diz Joona.
– O que é que acha?
– Acho que vocês guardam as gravações num disco externo.
Com um sorriso de satisfação, Ari Määtilainen conduz Joona ao
pequeno escritório contíguo ao armazém. Há um sofá-cama aberto,
latas de Red Bull no chão e uma embalagem de leite fermentado no
parapeito da janela embaciada. Em cima de uma carteira de escola,
com tampa, há um pequeno computador portátil ligado a um disco
externo. Ari Määtilainen senta-se numa cadeira de escritório que
range e percorre rapidamente os nomes dos ficheiros, organizados
por data e hora.
– Tinha ouvido na rádio que andavam à procura de uma rapariga
acompanhada de um menino, e a meio da noite vi isto – diz ele,
clicando num ficheiro de imagem.
Joona inclina-se para o ecrã manchado. Em quatro pequenas
janelas vê-se o interior e o exterior da estação de serviço. Relógios
digitais vão debitando o tempo. As imagens cinzentas estão
paradas. Ari aparece atrás do balcão. Às vezes está a folhear um
dos jornais da tarde e a comer distraidamente rodelas de cebola
frita.
– Este camião ficou aqui três horas – diz Ari, apontando para uma
das imagens. – Mas agora vai arrancar…
Uma sombra indistinta move-se na cabina do motorista.
– Pode aumentar a imagem? – pergunta Joona.
– Espere aí…
Quando o motor do camião é ligado e a bateria de faróis se
acende, vê-se subitamente um pequeno bosque brilhando sob a luz
branca.
Ari seleciona a outra gravação do exterior e muda para o modo de
ecrã inteiro.
– É agora que se vai ver – murmura.
O camião surge focado de outro ângulo. Começa a mover-se,
avançando lentamente. Ari aponta para a parte de baixo do ecrã,
onde se veem as traseiras da estação de serviço, com os caixotes
de lixo e os recipientes da reciclagem. A imagem está parada e
cheia de sombras. De repente, há um movimento no vidro preto do
portão da lavagem de carros, e a seguir vê-se um vulto, uma pessoa
magra, encostada à parede.
A imagem tem muito grão e riscos finos, em gradações de
cinzento. É impossível distinguir o rosto ou quaisquer detalhes. Mas
não há dúvida de que se trata de uma pessoa, e mais alguma coisa.
– Pode-se melhorar a imagem? – pergunta Joona.
– Espere – diz Ari em voz baixa.
O camião faz a curva e entra no acesso à saída. A luz dos faróis
incide no portão de garagem, ao lado do vulto. O vidro fica branco
durante alguns segundos. Toda a zona das traseiras da estação de
serviço fica inundada de luz.
Joona tem tempo de ver uma rapariga magra e uma criança
pequena, que seguem com o olhar o camião que se afasta. Depois
a imagem volta a ficar escura.
Ari aponta para o ecrã quando os dois vultos correm ao longo da
parede cinzenta e se dissolvem na escuridão mosqueada,
desaparecendo da imagem.
– Viu-os? – pergunta Ari.
– Volte atrás – pede Joona.
Não precisa de dizer qual é a sequência que quer ver novamente.
Segundos depois, Ari passa o fragmento iluminado da gravação em
câmara lenta.
Quase não se percebe que o camião está a andar, mas a luz dos
faróis, em pequenos saltos, dirige-se para as árvores, percorre a
fachada do edifício e inunda o ecrã de luz branca. O rosto da
criança pequena está virado para baixo e na sombra. A rapariga
magra está descalça e parece segurar um saco de plástico em cada
mão. A luz, agora mais forte, continua a avançar aos solavancos, e
a rapariga levanta a mão devagar.
Joona verifica que não se trata de sacos de plástico, mas de
ligaduras que se desenrolaram. As pontas molhadas baloiçam sob o
foco de luz, e Joona tem a certeza de que Vicky Bennet e Dante
Abrahamsson não se afogaram no rio.
O relógio digital indica catorze minutos depois das duas da
madrugada de domingo.
Conseguiram de alguma forma sair do carro, atravessar a
corrente forte até à outra margem e percorrer cento e cinquenta
quilómetros em direção a sul.
O cabelo da rapariga pende em melenas desgrenhadas ao longo
do rosto. Os olhos escuros brilham intensamente por um momento,
e a seguir a imagem volta a ficar quase negra.
«Estão vivos», pensa Joona. «Continuam os dois vivos.»
79

O diretor da Polícia Criminal, Carlos Eliasson, está de pé, de


costas ostensivamente voltadas para a porta, quando Joona entra
no gabinete dele.
– Senta-te – diz ele, numa voz que denota uma estranha
expectativa.
– Venho agora de Sundsvall…
– Espera – interrompe Carlos.
Joona observa com curiosidade a figura do chefe, de costas
voltadas para ele, senta-se na cadeira de couro castanho-claro e
fica a observar a superfície polida da secretária, o verniz da madeira
e os reflexos projetados pelos aquários.
Carlos respira fundo e volta-se. Está diferente, com a barba por
fazer. Sobre o lábio superior e no queixo começou a crescer uma
penugem esparsa, salpicada de branco.
– Que dizes? – pergunta ele com um grande sorriso.
– Estás a deixar crescer a barba – responde Joona, com todo o
vagar.
– Cerrada – esclarece Carlos, satisfeito. – É verdade… Bem, acho
que em breve vai ficar mais cerrada. Não tenciono voltar a barbear-
me. Atirei a máquina de barbear para o lixo.
– Ótimo – comenta Joona laconicamente.
– Mas não é da minha barba que temos de falar – diz Carlos,
encerrando o assunto. – O mergulhador não encontrou os corpos,
segundo sei.
– Pois não – diz Joona, tirando um print da imagem da câmara de
vigilância da estação de serviço. – Não encontrámos os corpos…
– Lá vem ele – resmunga Carlos, baixinho.
– Porque não há corpos nenhuns no rio – conclui Joona.
– E tens a certeza disso?
– A Vicky Bennet e o Dante Abrahamsson estão vivos.
– O Gunnarsson telefonou por causa do filme da estação de
serviço e…
– Manda emitir um novo alerta nacional – interrompe-o Joona.
– Alerta nacional? Não se pode carregar num botão e ligar o
alerta nacional, depois carregar e desligar, depois ligar outra vez…
– Eu sei que é a Vicky Bennet e o miúdo que estão nesta imagem
– diz Joona, apontando para o print. – A imagem foi recolhida muitas
horas depois do acidente com o carro. Eles estão vivos, e temos de
emitir um novo alerta nacional.
Carlos estica uma perna.
– Põe-me uma bota espanhola, se quiseres, mas eu não lanço
uma nova busca.
– Vê a imagem – diz Joona.
– A Polícia de Västernorrland esteve hoje na estação de serviço –
diz Carlos, dobrando a folha impressa até formar um quadradinho
duro – e mandaram uma cópia do disco rígido para o LTF. Dois
peritos examinaram a gravação, e os dois consideram totalmente
impossível identificar de forma segura as pessoas na estação de
serviço.
– Mas tu sabes que eu tenho razão – diz Joona.
– Tudo bem. – Carlos assente. – Digamos que sim. É certo que
podes ter razão, logo veremos… Mas não tenciono fazer uma figura
ridícula lançando uma busca por uma pessoa que a Polícia
considera estar morta.
– Não desisto enquanto não…
– Espera, espera – interrompe Carlos, respirando fundo. – Joona,
o procurador-geral tem o teu inquérito interno em cima da mesa.
– Mas é…
– Eu sou teu chefe, levo muito a sério a queixa que foi
apresentada contra ti, e preciso de te ouvir dizer que percebes que
não és tu que estás a conduzir a investigação em Sundsvall.
– Não sou eu que estou a conduzir a investigação em Sundsvall.
– E o que faz um observador se o procurador do Ministério
Público decide encerrar o caso?
– Nada.
– Então estamos de acordo – diz Carlos, sorrindo.
– Não – diz Joona, e sai do gabinete.
80

Flora está deitada na cama, imóvel, a olhar para o teto, com o


coração ainda muito alvoroçado. Sonhou que estava num quarto
pequeno, com uma rapariguinha que não queria mostrar a cara. A
rapariga escondia-se atrás de um escadote de madeira. Havia nela
alguma coisa de errado, alguma coisa perigosa. Só tinha vestidas
umas cuecas de algodão brancas e Flora via-lhe os seios de
menina. Esperava que Flora se aproximasse e depois virava-se,
dava uma risada e tapava os olhos com as mãos.
Na noite anterior, Flora tinha lido artigos sobre o crime em
Sundsvall, sobre Miranda Ericsdotter e Elisabet Grim. Agora não
consegue parar de pensar no fantasma que a visitou. Nesta altura já
parece que foi um sonho, embora ela saiba que viu a rapariga morta
no corredor. A menina que viu então não tinha mais de cinco anos,
mas neste sonho tinha a idade de Miranda.
Flora deixa-se estar imóvel, a escutar. Cada pequeno estalido dos
móveis ou do soalho acelera-lhe o coração.
Quem tem medo do escuro não é senhor da sua própria casa;
quem tem medo do escuro anda furtivamente, vigia os seus próprios
movimentos.
Flora não sabe o que há de fazer. São oito menos um quarto.
Levanta-se da cama, abre a porta e põe-se à escuta.
Ainda ninguém acordou.
Pé ante pé, vai para a cozinha preparar o café de Hans-Gunnar. O
sol matinal reflete-se na chapa estriada do lava-louça.
Flora vai buscar um filtro de papel não branqueado, dobra os
cantos, coloca-o no suporte de filtros e tem um sobressalto de medo
quando ouve passos pegajosos atrás das costas.
Vira-se e vê Ewa, à porta do seu quarto, em cuecas e T-shirt azul.
– Que é que foi? – pergunta ela, ao ver a expressão de Flora. –
Estiveste a chorar?
– É que… Eu tenho de saber… Porque acho que vi um fantasma
– diz Flora. – Não viu? Aqui em casa. Uma menina…
– O que é que tu tens, Flora?
Ewa volta-se para ir para a sala, mas Flora põe a mão no braço
forte dela e prende-a.
– É verdade, juro… Alguém lhe tinha dado com uma pedra aqui
na…
– Juras, dizes tu – interrompe-a Ewa asperamente.
– Eu só… Não podem existir de facto fantasmas?
Ewa agarra-lhe numa orelha, prende-a com força e puxa-a para a
frente.
– Não compreendo porque é que gostas tanto de mentir – diz
Ewa. – Sempre mentiste, e isso vai…
– Mas eu vi…
– Cala-te! – sibila Ewa, torcendo-lhe a orelha.
– Ai!
– Mas nós não admitimos isso – diz ela, torcendo com mais força.
– Não faça isso, peço-lhe… Ai!
Ewa torce mais um pouco e depois larga-a. Flora fica parada, com
lágrimas nos olhos, a mão a tapar a orelha a arder, e Ewa vai para a
casa de banho. Passado um momento, Flora liga a máquina do café
e volta para o quarto. Fecha a porta, acende a luz e senta-se na
cama a chorar.
Sempre partiu do princípio de que todos os médiuns apenas
fingem que veem espíritos.
– Não compreendo nada… – murmura.
E se ela atraiu mesmo os espíritos com aquelas sessões? Talvez
o facto de ela não acreditar não fizesse diferença. Quando os
invocava, quando fazia um círculo com os participantes, talvez
abrisse a porta para o outro lado, e os espíritos que estavam lá à
espera de repente puderam entrar.
«Porque eu vi mesmo um espírito», pensa ela.
«Vi a rapariga morta em criança.»
«A Miranda queria mostrar-me alguma coisa.»
Não é impossível, isto tem de poder acontecer. Flora leu uma vez
que a energia das pessoas que morrem não desaparece. Muitas
pessoas afirmaram que os fantasmas existem e não foram
consideradas doentes mentais por isso.
Flora procura ordenar os pensamentos e recordar o que
aconteceu nos últimos dias.
«A rapariga veio ter comigo no sonho», pensa ela. «Sonhei com
ela, eu sei, mas quando a vi no corredor estava acordada, foi uma
coisa real. Vi-a à minha frente, ouvi-a falar, senti a presença dela.»
Flora deita-se na cama, fecha os olhos e pensa que de facto pode
ter desmaiado quando caiu e bateu com a cabeça no chão.
Estavam umas calças de ganga caídas no chão, entre a sanita e a
banheira.
«Tive medo, andei para trás e caí.»
Um alívio súbito invade-a quando compreende que pode ter
sonhado também da primeira vez.
Deve ter ficado desmaiada no chão e sonhado com o fantasma.
Foi isso que aconteceu.
Flora está deitada, de olhos fechados, sorrindo para si própria,
quando se apercebe de repente do cheiro estranho a cabelo
queimado que há no quarto.
Senta-se, e os pelos dos braços ficam eriçados quando vê que há
alguma coisa debaixo da almofada. Inclina o candeeiro sobre a
cama e levanta a almofada. Sobre o lençol de baixo branco, está a
pedra grande com arestas aguçadas.
– Porque é que não fechas os olhos? – pergunta uma vozinha
débil.
A rapariga está na zona de sombra por trás do candeeiro e olha-a
sem respirar. O cabelo está pegajoso e negro de sangue coagulado.
A luz do candeeiro encandeia Flora, mas ela consegue ver que os
braços magros são cinzentos e as veias castanhas parecem uma
rede ferrugenta por baixo da pele morta.
– Não podes olhar para mim – diz ela com dureza, e apaga a luz.
O quarto fica numa escuridão total, e Flora cai da cama. Manchas
azul-claras movem-se diante dos seus olhos. O candeeiro cai no
chão, a roupa da cama parece restolhar e ouvem-se passos de pés
descalços no chão, nas paredes e no teto. Flora desvia-se,
rastejando, e depois levanta-se, luta com a porta para a abrir e sai
aos tropeções para o corredor. Com esforço, impede-se de gritar.
Geme baixinho, tentando manter a calma, vai até ao vestíbulo e
encosta-se à parede para não cair. Arquejando, Flora pega no
telefone que está na mesa da entrada, mas deixa-o cair. Ajoelhada
no chão, liga para a Polícia.
81

Robert entrou e encontrou Elin de joelhos no chão, ao lado do


armário destruído.
– Elin, o que é que aconteceu?!
Ela levantou-se sem o encarar. O sangue escorria-lhe pelo braço
esquerdo, a palma da mão e três dedos, pingando no chão.
– Está a deitar sangue do…
Elin afastou-se, pisando os vidros, em direção ao quarto. Robert
segurou-a e disse-lhe que ia telefonar ao médico da família.
– Não quero, não me interessa…
– Elin, está a sangrar muito! – exclamou ele nervosamente.
Ela olhou para o braço e disse que talvez fosse melhor pôr um
penso na ferida e dirigiu-se em seguida para o escritório, deixando
um rasto de sangue atrás de si.
Sentou-se diante do computador, procurou o número de telefone
da Polícia Criminal, foi atendida numa central e pediu para falar com
a pessoa responsável pela investigação dos crimes de Birgitta. Uma
telefonista passou a chamada, e ela repetiu o pedido, ouviu uma
respiração desconsolada, e a pessoa escreveu num teclado de
computador, suspirou e depois escreveu novamente.
– A investigação está a ser conduzida pelo Ministério Público em
Sundsvall – informou-a uma límpida voz masculina.
– Não há nenhum polícia com quem eu possa falar?
– O gabinete do Ministério Público colabora com a Polícia de
Västernorrland.
– Há um comissário da Polícia Criminal que veio falar comigo, um
homem alto, com olhos cinzentos e…
– Joona Linna.
– Sim.
Elin pegou numa caneta e escreveu o número na capa brilhante
de uma revista de moda, agradeceu e desligou a chamada.
Marcou rapidamente o número do comissário, mas foi informada
de que ele se encontrava fora em serviço e era esperado no dia
seguinte.
Preparava-se para ligar para o gabinete do Ministério Público
quando o médico chegou. O médico não fez perguntas, e Elin
manteve-se em silêncio enquanto ele lhe limpava as feridas. Olhou
para o telemóvel, que tinha pousado na edição de agosto da Vogue
inglesa. Entre os seios de Gwyneth Paltrow estava escrito o número
de Joona Linna.
Depois de lhe terem posto pensos nas feridas, voltou para a sala,
onde a empresa de limpezas já tinha feito desaparecer os vidros e
lavado o chão. O armário de vitrina tinha sido levado e Robert já
tinha mandado entregar o prato de Seder a um restaurador do
Museu do Mediterrâneo.
82

Elin Frank não sorri a ninguém quando percorre vagarosamente o


corredor que conduz ao gabinete de Joona Linna no edifício da
Polícia. Tem uns óculos de sol muito escuros para esconder os
olhos vermelhos do choro. A gabardina Burberry cor de antracite
está desabotoada, e a cabeça coberta por um lenço de seda
prateado. Os golpes profundos nos pulsos doem-lhe e latejam
ininterruptamente.
Os saltos dos sapatos ressoam no piso gasto do corredor. Um
cartaz onde está escrito «Se pensa que é uma pessoa desprezível e
que as nódoas negras fazem parte do seu dia a dia, então é urgente
que nos procure» esvoaça à sua passagem. Homens envergando a
camisola azul-escura da Polícia passam por ela e desaparecem nas
áreas operacionais. Uma mulher alta, de camisola de lã angorá
encarnada e saia preta justa, sai de uma sala e fica à espera dela,
de braços caídos.
– Sou a Anja Larsson – diz a mulher.
Elin tenta dizer que quer falar com Joona Linna, mas a voz não
lhe sai. A mulher sorri-lhe e diz que a vai levar junto do comissário.
– Desculpe – murmura Elin.
– Não há problema – diz Anja. Acompanha-a até ao gabinete de
Joona, bate à porta e abre-a.
– Obrigado pelo chá – diz Joona, puxando uma cadeira para Elin.
Elin deixa-se cair pesadamente na cadeira, e Anja e Joona trocam
um breve olhar.
– Vou buscar água – diz Anja, deixando-os a sós.
Ficam os dois em silêncio. Elin tenta acalmar-se o suficiente para
começar a falar. Espera um momento e depois diz:
– Eu sei que é tarde de mais para fazer seja o que for e sei que
não o ajudei nada quando foi falar comigo… Imagino o que pensa
de mim e…
Cala-se, os cantos da boca descaem e as lágrimas brotam-lhe
dos olhos, por trás dos óculos escuros, e correm-lhe pelas faces.
Anja entra com um copo de água e um cacho de uvas num prato e
sai novamente.
– Quero falar da Vicky Bennet – diz Elin, recomposta.
– Estou aqui para ouvir – diz Joona num tom afável.
– Quando ma entregaram tinha seis anos, e eu tive-a… tive-a
comigo durante nove meses…
– Eu soube disso.
– Mas o que não sabe é que … Abandonei-a, traí-a como nunca
se deve trair um ser humano.
– Às vezes abandonamos os outros – diz Joona Linna.
Com mãos trémulas, Elin tira os óculos de sol e olha
pensativamente para o comissário, para o cabelo louro
despenteado, o rosto grave, os estranhos olhos cinzentos, que
mudam de tonalidade.
– Já não sou capaz de gostar de mim própria – diz ela. – Mas…
Quero fazer uma proposta… Estou disposta a pagar todas as
despesas para que encontrem os corpos… E para que a
investigação prossiga e não seja encerrada.
– Porque é que quer fazer isso?
– Apesar de não ser possível remediar nada, pode-se… Quero
dizer, e se afinal ela estiver inocente?
– Nada indica que seja esse o caso.
– Pois não, mas eu não consigo acreditar…
Elin cala-se, e os olhos enchem-se novamente de lágrimas que
lhe turvam a visão.
– Por ela ser muito querida quando era criança?
– A maior parte das vezes, nem isso era – sorri Elin.
– Tinha ficado com essa ideia…
– Levam a investigação por diante se eu a financiar?
– Não podemos aceitar dinheiro para…
– Tenho a certeza de que se pode arranjar uma solução jurídica.
– Talvez, mas isso não mudaria nada – diz Joona com brandura. –
A procuradora prepara-se para encerrar a investigação.
– Que é que eu hei de fazer? – pergunta Elin, desnorteada.
– Não lhe devia dizer isto, mas eu vou continuar a investigar,
porque tenho a certeza de que a Vicky está viva.
– Mas disseram nas notícias… – replica Elin num fio de voz,
levantando-se e tapando a boca com a mão.
– O carro foi encontrado a quatro metros de profundidade e havia
sangue e cabelos na estrutura do para-brisas.
– Mas pensa que eles estão vivos? – pergunta ela, limpando as
lágrimas num movimento rápido.
– Sei que eles não se afogaram no rio – responde ele.
– Deus do céu! – diz Elin entre dentes.
83

Elin volta a sentar-se e chora, virando a cara para o lado. Joona


dá-lhe tempo, vai até à janela e olha lá para fora. Cai uma chuva
miudinha, e as árvores do parque balançam com o vento da tarde.
– Tem alguma ideia de onde ela possa estar escondida? –
pergunta ele, ao fim de um momento.
– A mãe costuma dormir em garagens… Conheci a Susie numa
altura em que ela ia tentar ficar com a Vicky durante um fim de
semana. Tinham-lhe arranjado uma casa em Hallonbergen. Não
correu bem. Elas iam dormir no metropolitano, e a Vicky foi
encontrada sozinha no túnel entre Slussen e Mariatorget.
– Não vai ser fácil encontrá-la – diz Joona.
– Eu não vejo a Vicky há oito anos, mas o pessoal do Centro
Birgitta… As pessoas que falavam com ela devem saber alguma
coisa.
– Sim – diz Joona com um gesto de assentimento e depois fica
em silêncio.
– O que é?
Ele olha para ela.
– As únicas pessoas com quem ela falava eram a enfermeira que
foi morta e o marido dela, que trabalha lá como terapeuta. Ele deve
saber muitas coisas, ou pelo menos algumas, mas está em muito
mau estado, psicologicamente, e o médico não autoriza que a
Polícia fale com ele. Não há nada a fazer, porque o médico é de
opinião que um interrogatório da Polícia iria prejudicar a
recuperação dele.
– Mas eu não sou polícia – diz Elin. – Posso falar com ele.
Cruzam o olhar, e Elin compreende que isto é justamente o que o
comissário queria ouvir.
No elevador, sente o cansaço abater-se sobre si. Pensa na voz do
comissário, no suave sotaque finlandês. Os olhos dele eram de um
cinzento bonito e ao mesmo tempo tinham uma expressão severa.
A mulher forte que era colaboradora dele tinha telefonado para o
hospital de Sundsvall e sido informada de que Daniel Grim fora
transferido para Psiquiatria, mas o médico responsável pelo doente
encarregara-se de transmitir a proibição total de qualquer visita ou
contacto da Polícia até ao termo do período de recuperação.
Elin sai do grande átrio envidraçado da sede nacional da Polícia,
atravessa a rua, senta-se no seu BMW e liga o número do hospital
de Sundsvall. A chamada é reencaminhada para a secção 52 B, e
ela é informada de que Daniel Grim não pode receber telefonemas
no quarto, mas o horário das visitas termina às seis da tarde.
Elin introduz a morada no computador do carro e constata que
está a uma distância de trezentos e setenta e cinco quilómetros. Se
partir já, estará lá às sete menos um quarto. Faz inversão de
marcha na Polhemsgatan subindo o passeio em frente da entrada
do edifício da Polícia, entra novamente na via e segue para a
Fleminggatan.
No primeiro semáforo, Robert Bianchi telefona a recordar a
reunião com a Kinnevik e Sven Warg dentro de vinte minutos, na
Waterfront Expo.
– Não tenho tempo – diz ela prontamente.
– Quer que lhes diga para irem começando?
– Robert, não sei quando volto, mas não será hoje.
Na E-4, programa uma velocidade exatamente vinte e nove
quilómetros por hora acima da permitida. As multas não têm
qualquer importância para ela, mas não seria bom que lhe
apreendessem a carta.
84

Joona sente e sabe que Vicky Bennet e o pequeno Dante estão


vivos. Não pode desistir agora de os encontrar.
Uma rapariga que matou duas pessoas, que desfigurou outras
duas com uma garrafa partida, tem agora consigo um menino que
tirou à mãe e está escondida com ele algures.
Toda a gente pensa que eles morreram.
Já ninguém os procura.
Joona recorda o ponto da investigação em que se encontrava
quando a colega Sonja Rask, de Sundsvall, telefonou a falar-lhe na
gravação de vídeo da estação de serviço. Tinha falado com uma
das alunas do Centro Birgitta, que disse que Vicky tomava Zyprexa.
Joona informou-se sobre os efeitos secundários junto da mulher
de Nålen, que é psiquiatra.
«Ainda faltam muitas componentes», pensa ele. «Mas é possível
que Vicky Bennet tenha tomado uma dose excessiva de Zyprexa.»
Caroline disse que se sente um formigueiro no corpo quando se
toma um comprimido e descreveu ataques repentinos de agitação e
fúria.
Joona fecha os olhos e imagina Vicky a exigir que Elisabet lhe dê
as chaves. Ameaça-a com o martelo, enfurece-se e começa a bater-
lhe com ele repetidamente. Depois tira-lhe as chaves e abre a porta
do quarto de isolamento. Miranda está sentada na cadeira,
embrulhada no cobertor, quando Vicky entra e lhe bate na cabeça
com uma pedra.
Arrasta-a para a cama e põe-lhe as mãos sobre o rosto.
Só depois a fúria começa a diminuir.
Vicky fica desorientada, agarra no cobertor ensanguentado e
esconde-o debaixo da cama precisamente quando o efeito
tranquilizante do medicamento se faz sentir. Provavelmente fica
exausta, atira as botas para dentro do armário da roupa, esconde o
martelo debaixo da almofada, deita-se e adormece. Ao fim de
algumas horas, acorda, toma consciência do que fez, tem medo,
foge pela janela e embrenha-se na floresta.
O medicamento pode explicar o acesso de fúria e o facto de ela
ter dormido num lençol sujo de sangue.
Mas porquê a pedra? E houve de facto uma pedra?
Mais uma vez, Joona sente uma dúvida – pela segunda vez na
sua vida, pergunta a si mesmo se Nålen não estará enganado.
85

Cinco minutos antes das seis horas, Elin transpõe as portas da


secção 52 B, dirige-se a uma auxiliar de enfermagem e diz-lhe que
vem ver Daniel Grim.
– A hora da visita já acabou – diz a mulher, continuando a andar.
– Só daqui a cinco minutos – responde Elin com um sorriso.
– Só permitimos entradas até às seis menos um quarto, para dar
tempo de pôr as coisas em ordem.
– Vim de propósito de Estocolmo – diz Elin, num tom suplicante.
A auxiliar para e olha-a com hesitação.
– Se abríssemos exceções para qualquer pessoa, isto era um
corrupio de gente o dia todo – diz ela asperamente.
– Por favor, deixe-me só…
– Nem vai ter tempo de tomar um café.
– Não faz mal – assegura Elin.
A auxiliar não parece convencida, mas faz sinal a Elin para a
acompanhar, vira à direita e bate levemente à porta de um quarto.
– Obrigada – diz Elin, ficando à espera que ela se afaste para
entrar no quarto.
Junto à janela está um homem de meia-idade, com o rosto de um
tom acinzentado. Não se barbeou, nem hoje nem talvez no dia
anterior. Está vestido com jeans e uma camisa amarrotada. Dirige-
lhe um olhar interrogativo e passa a mão pelo cabelo fino.
– O meu nome é Elin Frank – diz ela suavemente. – Sei que
venho incomodá-lo, e peço que me desculpe.
– Não… Está…
Elin pensa que ele parece ter estado a chorar há vários dias.
Noutras circunstâncias, tê-lo-ia achado muito atraente. Um rosto
amável, o olhar inteligente e maduro.
– Preciso de falar consigo, mas compreendo que não queira.
– Não há problema – diz ele, com uma voz que parece estar na
iminência de falhar a qualquer momento. – Os jornais estiveram aqui
nos primeiros dias, mas nessa altura eu não podia falar, não
conseguia mesmo, não havia nada para dizer… Quero dizer, eu
quero ajudar a Polícia, mas não tem corrido muito bem… Não
consigo pôr ordem nos pensamentos.
Elin procura uma maneira de começar a falar de Vicky. Percebe
que para Daniel a rapariga é um monstro que lhe destruiu a vida e
que não será fácil convencê-lo a ajudá-la.
– Posso entrar um momento?
– Não sei, para ser franco – diz ele, esfregando a cara.
– Daniel, lamento muito o que lhe aconteceu.
Ele murmura um agradecimento e senta-se. Depois levanta o
olhar e diz, mais para si próprio do que para ela:
– Agradeço, mas ainda não percebi bem. Isto é tão irreal, eu
estava preocupado com o coração da Elisabet… e…
As faces descaem, ficam cinzentas, e o rosto de Daniel torna-se
inexpressivo.
– Não posso sequer imaginar o que está a sofrer – diz Elin em voz
baixa.
– Agora tenho um psicólogo – responde ele com um sorriso débil.
– Nunca teria pensado que ia precisar de um psicólogo… Ele ouve-
me, fica à espera enquanto eu vou fungando, e sinto… Não deixa a
Polícia interrogar-me, sabe? Eu, no lugar dele, provavelmente faria
o mesmo… Mas, ao mesmo tempo, eu conheço-me, sei que não há
perigo… Se calhar devia dizer-lhe que acho que sou capaz de
falar… Nem sei se posso ajudar em alguma coisa…
– É melhor fazer o que o psicólogo diz – aconselha ela.
– Pareço assim tão desorientado? – pergunta Daniel, sorrindo.
– Não, mas…
– De vez em quando lembro-me de um ou outro pormenor que
talvez devesse dizer à Polícia, mas depois esqueço-me outra vez,
porque… É esquisito, não consigo pôr ordem nos pensamentos, é
como se estivesse incrivelmente cansado.
– Vai melhorar.
Ele passa a mão por baixo do nariz e olha para ela.
– Já lhe perguntei de que jornal é?
Ela abana a cabeça e diz:
– Estou aqui porque a Vicky Bennet viveu comigo quando tinha
seis anos.
86

Faz-se um silêncio no quarto. Do outro lado da porta, ouvem-se


passos no corredor. Daniel fecha os olhos por trás das lentes e
aperta os lábios como se estivesse a reunir todas as suas forças
para compreender o que Elin acaba de dizer.
– Ouvi falar dela nas notícias… Aquilo do carro e do miúdo –
murmura Daniel ao fim de um momento.
– Eu sei – responde Elin em voz baixa. – Mas… se ela estivesse
viva, onde acha que poderia estar escondida?
– Porque é que pergunta isso?
– Não sei… Gostava de saber em quem é que ela confiava.
Ele observa-a um momento antes de fazer a pergunta.
– Não acredita que ela tenha morrido?
– Não – responde Elin, quase inaudivelmente.
– Não acredita porque não quer acreditar – diz ele. – Mas há
alguma prova de que ela não se tenha afogado no rio?
– Não tenha medo – diz Elin. – Mas nós estamos bastante
seguros de que ela conseguiu sair da água.
– Nós?
– Eu e um comissário da Polícia Criminal.
– Mas então não percebo… Porque é que dizem que ela se
afogou se não…?
– É o que eles pensam. A maior parte das pessoas continua
convencida de que ela se afogou, e a Polícia suspendeu as buscas
por ela e pelo rapazinho.
– Mas você não?
– Talvez eu seja a única pessoa, neste momento, que se
preocupa verdadeiramente com a Vicky, por ela e não por outras
razões – diz Elin.
Já não tem forças para lhe sorrir, já não tem forças para lhe falar
com uma voz suave e complacente.
– E quer que eu a ajude a encontrá-la?
– Ela pode fazer mal ao miúdo – diz Elin, hesitante. – Pode fazer
mal a outras pessoas.
– Pois, mas eu não acredito nisso – diz Daniel, olhando-a com
uma expressão de franqueza. – Desde o princípio que digo isto, eu
duvido de que ela tenha assassinado a Miranda e continuo a não
conseguir acreditar…
Daniel cala-se e mexe os lábios devagar, quase inaudivelmente.
– Que é que está a dizer? – pergunta Elin com suavidade.
– Como?
– Disse qualquer coisa muito baixinho…
– Não acredito que a Vicky tenha assassinado a Elisabet.
– Pensa que ela não…
– Trabalhei muitos anos com raparigas de risco e acho… Não
bate certo, simplesmente.
– Mas…
– Durante o período em que fui terapeuta conheci casos muito,
muito negros, de raparigas que… que tinham aquela capacidade de
matar, que…
– Mas a Vicky não?
– Não.
Elin sorri abertamente e sente os olhos encherem-se de lágrimas,
mas recompõe-se.
– Tem de dizer isso à Polícia.
– Já disse, eles sabem que a Vicky não é violenta, de acordo com
a minha avaliação. Posso estar enganado, claro – diz Daniel,
esfregando os olhos com força.
– Pode ajudar-me?
– Disse que a Vicky viveu consigo durante seis anos?
– Não, ela tinha seis anos quando foi viver comigo.
– O que quer que eu faça?
– Tenho de a encontrar, Daniel… Você falou com ela durante
muitas horas, deve saber alguma coisa sobre amigos, namorados…
qualquer coisa.
– Sim, talvez… Falamos bastante sobre dinâmica de grupo e
sobre… Não consigo pôr ordem nos meus pensamentos, desculpe.
– Tente.
– Eu via-a de facto quase todos os dias, e tivemos… Não sei
exatamente, mas talvez umas vinte e cinco conversas… A Vicky é…
O problema é que ela se perde muitas vezes nos seus
pensamentos, fica ausente… O que me preocuparia seria ela deixar
o miúdo em qualquer lado, em plena estrada…
– Onde é que ela se esconde? Houve alguma família de quem ela
tivesse gostado?
87

A porta do quarto abre-se e a auxiliar entra com a medicação de


Daniel para a noite. Para de repente, fica hirta como se tivesse
surpreendido uma cena imprópria e depois volta-se para Elin.
– Mas o que é isto? Eu autorizei-a a ficar cinco minutos.
– Eu sei – responde Elin. – Mas é muito importante que eu…
– São quase seis e meia – interrompe a mulher.
– Peço desculpa – diz Elin, virando-se rapidamente para Daniel. –
Onde é que eu devo começar a procurar…
– Fora daqui! – berra a mulher.
– Por favor – diz Elin com suavidade, juntando as mãos num
gesto de súplica. – Eu preciso mesmo de falar com…
– É de compreensão lenta? – interrompe-a a auxiliar. – Já lhe
disse para sair.
A mulher pragueja e sai do quarto. Elin agarra no braço de Daniel.
– A Vicky deve ter falado de sítios ou de amigos.
– Sim, claro, mas não me ocorre nada. Neste momento tenho
dificuldade em…
– Faça um esforço, por favor…
– Eu sei que não estou a ajudar nada, devia lembrar-me de
alguma coisa, mas…
Daniel coça a testa com força.
– E as outras raparigas? Elas devem saber alguma coisa sobre a
Vicky.
– Sim, com certeza… A Caroline, talvez…
Um homem vestido de branco entra no quarto, com a auxiliar.
– Tenho de lhe pedir que me acompanhe – diz ele.
– Dê-me só um minuto.
– Não, a senhora vem comigo imediatamente.
– Por favor – diz Elin, olhando-o nos olhos. – É por causa da
minha filha…
– Venha – diz ele, num tom mais gentil.
Os lábios de Elin tremem, num esforço para conter o choro, e ela
ajoelha-se diante deles.
– Dê-me mais uns minutos – implora.
– Vamos levá-la à força, se não…
– Basta! – diz Daniel, elevando a voz e ajudando Elin a levantar-
se.
A auxiliar protesta:
– Ela não pode estar aqui depois das…
– Cale a boca! – interrompe-a Daniel e sai do quarto, puxando
Elin. – Falamos lá em baixo no átrio ou no parque de
estacionamento.
Percorrem o corredor juntos, ouvindo passos atrás deles, mas
continuam a andar.
– Quero ir ao Centro Birgitta falar com as alunas – diz Elin.
– Elas não estão lá, foram evacuadas – responde Daniel.
– Para onde?
Daniel segura uma porta de vidro para ela passar e segue-a.
– Uma antiga povoação de pescadores, a norte de Hudisksvall.
Elin carrega no botão do elevador.
– Se eu for lá, eles deixam-me entrar?
– Não, mas se eu for consigo… – diz ele, precisamente quando as
portas do elevador se abrem.
88

Elin e Daniel seguem em silêncio no carro dela. Quando entram


na autoestrada E-4, ela pega no telemóvel e liga para Joona Linna.
– Desculpe incomodá-lo – diz Elin, com uma voz que não
consegue esconder um estremecimento de desespero.
– Pode telefonar as vezes que quiser – responde Joona.
– Estou aqui com o Daniel, e ele acha que não foi a Vicky que
cometeu aqueles crimes horríveis – explica, em poucas palavras.
– Todas as perícias técnicas apontam para ela, e todos…
– Mas não pode ser, porque o Daniel diz que ela não é violenta –
interrompe-o, agitada.
– Mas pode ter acessos de violência – diz Joona.
– Você não a conhece! – replica Elin, quase aos gritos.
Faz-se silêncio durante uns segundos e depois Joona fala, no seu
tom calmo.
– Fale ao Daniel no medicamento Zyprexa.
– Zyprexa?
Daniel olha para ela.
– Pergunte-lhe quais são os efeitos secundários – diz Joona e
desliga a chamada.
Elin segue velozmente na estrada que acompanha a costa e
depois penetra nas enormes florestas.
– Quais são os efeitos secundários? – pergunta ela em voz baixa.
– Se a dose for excessiva, pode haver uma reação de intensa
agressividade – responde Daniel, num tom pragmático.
– A Vicky toma esse medicamento?
Ele faz um gesto de assentimento e Elin não diz mais nada.
– É um medicamento muito bom… – começa Daniel a explicar,
mas depois cala-se.
A luz dos faróis alcança apenas a primeira linha de troncos da
floresta, e as sombras sobrepõem-se, deixando uma escuridão
quase total.
– Reparou que disse que a Vicky é sua filha? – pergunta Daniel.
– Sim, eu sei – responde ela. – No hospital. Saiu-me…
– E foi sua filha, durante algum tempo.
– Pois foi – diz Elin, com o olhar fixo na estrada.
Passam o enorme lago Armsjön, que brilha na noite como metal
derretido, e Daniel sobressalta-se de repente.
– Ocorreu-me uma coisa que a Vicky disse, no princípio… Mas
agora não me lembro. – Daniel fica a pensar durante uns momentos.
– É isso! Ela falou nuns amigos chilenos que tinham uma casa…
Daniel cala-se, olha pela janela e limpa o rosto molhado de
lágrimas.
– Eu e a Elisabet íamos ao Chile, precisamente quando houve o
terramoto…
Respira fundo e fica em silêncio, com as mãos nos joelhos.
– Ia contar-me qualquer coisa sobre a Vicky – diz Elin.
– Pois ia. O que é que eu estava a dizer?
– Que ela tinha uns amigos chilenos.
– Sim…
– E que eles tinham uma casa algures.
– Eu disse isso?
– Disse.
– Raios partam isto… – murmura ele. – O que é que se passa
comigo? Quer dizer… Isto é um disparate. Eu devia ter ficado no
hospital.
Elin sorri-lhe debilmente.
– Estou contente por não ter ficado.
89

O caminho de cascalho serpenteia por entre bosques escuros,


celeiros em ruínas e quintas típicas de Hälsingland. No ponto em
que a estrada acaba, a vista abre-se para uma paisagem semeada
de casas pintadas de vermelho-escuro, com o mar imenso ao fundo,
liso e opalino. O poste da festa do solstício de verão, decorado com
folhas já acastanhadas e flores murchas, ainda não foi retirado.
Junto a ele, há uma grande casa de madeira com uma bonita
marquise virada para o mar. A casa foi em tempos uma loja-
armazém rural, mas é já há alguns anos propriedade da Orre, um
consórcio de saúde.
O carro passa suavemente entre os pilares dos portões. Enquanto
Elin desaperta o cinto de segurança, Daniel adverte-a em tom grave:
– Tem de estar preparada para… Estas alunas sempre tiveram
uma vida difícil. – Daniel empurra os óculos sobre a cana do nariz e
continua: – Gostam de testar os limites e vão provocá-la.
– Eu aguento isso – diz Elin. – Também passei pela adolescência.
– Isto é uma coisa muito diferente, posso garantir-lhe. Não é nada
fácil, nem mesmo para mim, porque elas às vezes são terríveis.
– O que é que se responde se elas começarem com
provocações? – pergunta Elin, olhando-o diretamente.
– O melhor é sermos honestos e claros…
– Não me esqueço – diz ela, abrindo a porta do carro.
– Espere, tenho de… Antes de entrarmos… Elas têm um guarda,
e eu acho que é melhor ele acompanhá-la sempre.
Elin esboça um ligeiro sorriso.
– Isso não será um exagero?
– Não sei, talvez seja… Não quero dizer com isto que haja razão
para ter medo, mas… De facto, acho que há duas alunas com quem
não deve ficar sozinha, nem por um segundo.
– Quem são?
Daniel hesita brevemente e depois responde.
– A Almira e uma miúda chamada Tuula.
– São perigosas?
Ele levanta a mão.
– Só quero que esteja acompanhada pelo vigilante quando for
falar com elas.
– OK.
– Não fique preocupada – diz-lhe ele, com um sorriso
tranquilizador. – Na verdade, elas são todas boas raparigas.
Quando saem do carro, o ar ainda está morno e carregado de
maresia.
– Alguma das miúdas deve saber quem são os amigos da Vicky –
diz Elin.
– Mas não é certo que queira contar.
Um caminho de lajes negras de xisto contorna a casa e dá acesso
aos degraus do alpendre onde fica a porta.
As sandálias vermelhas, de salto alto, de Elin enterram-se na erva
molhada entre as lajes. Já é noite, mas uma das alunas está
sentada na rede de baloiço virada para o enorme lilás. O rosto
branco e os braços tatuados brilham na escuridão.
– Daniel! – diz a rapariga, sorrindo e atirando o cigarro para a
relva com um piparote.
– Olá, Almira – responde Daniel. – Esta é a Elin.
– Olá – cumprimenta Elin, sorrindo.
Almira observa-a sem corresponder ao sorriso. As sobrancelhas
grossas e escuras juntam-se acima do nariz grosso, e as faces
estão cheias de sardas.
– A Vicky matou a mulher dele – diz Almira de repente, fitando
Elin. – E depois de matar a Elisabet, matou a Miranda… Acho que
só vai parar quando estivermos todas mortas.
Almira sobe os degraus e entra em casa.
90

Elin e Daniel seguem Almira e entram numa velha cozinha rústica,


com panelas de cobre batido, tapetes de trapo no soalho antigo e
uma despensa a um canto. Lu Chu e Indie estão sentadas a uma
mesa de pinho, a comer gelado diretamente da embalagem e a
folhear velhas revistas de banda desenhada.
– Ainda bem que veio – diz Indie ao ver Daniel. – Tem de falar
com a Tuula. Está completamente marada, acho que tem de voltar a
tomar o remédio.
– Onde está a Solveig? – pergunta ele.
– Foi não sei aonde – responde Almira, tirando uma colher de
uma gaveta.
– Quando é que ela saiu? – pergunta Daniel com ceticismo.
– Logo a seguir ao jantar – murmura Lu Chu, sem tirar os olhos da
revista.
– Então só cá está o homem da empresa de segurança?
– O Anders – diz Almira e senta-se ao colo de Lu Chu. – Só cá
esteve nas duas primeiras noites.
– O quê? – exclama Daniel, indignado. – Que é que me estás a
dizer? Vocês estão aqui sozinhas?
Almira encolhe os ombros e começa a comer gelado.
– Eu tenho de saber isso – continua Daniel.
– A Solveig não se ia demorar – diz Indie.
– Mas são oito horas da noite! – diz Daniel, pegando no
telemóvel.
Liga para a empresa de segurança e é-lhe indicado um número
de atendimento permanente. Como ninguém atende nesse número,
ele deixa uma mensagem irritada dizendo que têm de assegurar a
presença contínua de pessoal competente, que não podem fazer
economias à custa de certas coisas e que têm responsabilidades.
Enquanto Daniel fala ao telefone, Elin observa as raparigas.
Almira está a comer gelado sentada ao colo de uma rapariga bonita,
de traços orientais, com as faces redondas cobertas de acne, que
folheia um número antigo da Mad e dá repetidos beijos no pescoço
de Almira.
– Almira – diz Elin ‒, onde é que achas que a Vicky está
escondida?
– Não sei – responde ela, chupando a colher.
– A Vicky morreu, porra! – diz Indie. – Não ouve as notícias?
Matou-se a ela e a um miudinho.
– Shit – exclama de repente Lu Chu, e aponta para Elin, sorrindo.
– Estou a reconhecê-la… Você não é, tipo, a pessoa mais rica da
Suécia?
– Para com isso – diz-lhe Daniel.
– Caraças, palavra de honra – continua Lu Chu, que começa a
bater com as mãos no tampo da mesa e depois grita: – Também
quero ter dinheiro!
– Fala mais baixo.
– Eu reconheci-a, foi só isso – diz Lu Chu muito depressa. –
Posso dizer que a reconheci, ou não?
– Podes dizer o que quiseres – responde Daniel num tom
tranquilizador.
– Queremos saber se vocês têm alguma ideia do sítio onde a
Vicky se queria esconder – diz Elin.
– Ela andava quase sempre sozinha – diz Daniel. – Mas vocês às
vezes falavam com ela, e não é preciso ser a melhor amiga de uma
pessoa para a conhecer… Quer dizer, eu sei, por exemplo, como se
chamava o teu ex-namorado, Indie.
– Estamos juntos outra vez – diz ela com um sorrisinho.
– Quando foi isso? – pergunta ele.
– Telefonei-lhe ontem e falámos muito tempo – conta ela.
– Que bom – diz Daniel. – Fico muito contente.
– Ultimamente, a Vicky só andava com a Miranda – diz Indie.
– E com a Caroline – diz Daniel.
– Porque elas tinham as duas o regime ADL – responde Indie.
– Quem é a Caroline? – pergunta Elin.
– Uma das alunas mais velhas – responde Daniel. – Tinha
formação para o dia a dia juntamente com a Vicky.
– Não percebo como é que alguém se preocupa com a Vicky – diz
Almira, elevando a voz. – Ela matou a Miranda como quem mata um
porco.
– Ainda não sabemos isso – tenta interpor Elin.
– Não sabemos? – repete Almira com sarcasmo. – Devia tê-la
visto. Estava mais do que morta, garanto-lhe, havia tanto sangue…
– Não grites – diz Daniel.
– Que é que se passa? Então o que é que dizemos? Dizemos que
não aconteceu nada? – continua Indie, sempre a falar alto. –
Dizemos que a Miranda está viva, que a Elisabet está viva…
– Eu só quero…
– Você não estava lá! – grita Almira. – A Vicky amassou a cabeça
da Elisabet com uma merda de um martelo, e você continua a
pensar que ela está viva.
– Tentem falar uma de cada vez – diz Daniel, esforçando-se por
manter a calma.
Indie levanta a mão como uma menina de escola.
– A Elisabet era uma drogada – diz ela. – Detesto drogados e…
Almira dá uma risadinha.
– Porque a tua mãe se…
– Uma de cada vez, Almira – interrompe Daniel, limpando com um
gesto rápido as lágrimas do rosto.
– Estou-me a cagar para a Elisabet, pode estar a arder no inferno,
que não me faz mossa nenhuma – conclui Indie.
– Como és capaz de dizer isso? – pergunta Elin.
– Nós ouvimo-la naquela noite – diz Lu Chu, mentindo. – Esteve
imenso tempo a pedir socorro, mas nós deixámo-nos ficar na cama
a ouvi-la.
– Fartou-se de gritar – diz Almira com um sorriso.
Daniel virou-se para a parede. Faz-se silêncio na cozinha. Daniel
fica imóvel um momento e depois limpa o rosto com a manga e
volta-se para elas.
– Vocês devem ter consciência de que essa conversa é uma coisa
hedionda.
– Mas é divertido – diz Almira.
– Achas?
– Acho.
– E tu, Lu Chu?
Ela encolhe os ombros.
– Não sabes?
– Não.
– Já falámos de situações como esta – diz ele.
– OK… Desculpe, fomos horríveis.
Daniel tenta sorrir de uma forma tranquilizadora, mas é óbvio que
está destroçado.
– Onde está a Caroline?
– No quarto dela – responde Lu Chu.
– Podes dizer-nos qual é?
91

Um corredor gélido liga a cozinha à sala de convívio, onde há


uma lareira, e à sala de refeições, com uma marquise virada para o
mar. Num dos lados do corredor ficam as portas dos quartos das
alunas. Lu Chu, com umas calças de fato de treino largueironas e
uns ténis com o calcanhar muito gasto, vai à frente de Elin. Aponta
para o quarto dela e o de Tuula e depois para diante de uma porta
que tem um sininho colorido atado ao puxador.
– É aqui que dorme a Caro.
– Obrigada – diz Elin.
– Já é um bocado tarde – diz Daniel a Lu Chu. – Vai lavar os
dentes e arranjar-te para ires para a cama.
Ela deixa-se ficar um momento e depois dirige-se para a casa de
banho. Quando Daniel bate à porta, o sininho de porcelana tilinta. A
porta abre-se e aparece uma jovem, que encara Daniel com os
olhos arregalados e lhe dá um abraço tímido.
– Podemos entrar? – pergunta ele, numa voz carinhosa.
– Claro que podem – responde ela. Em seguida estende a mão a
Elin. – Caroline.
Elin cumprimenta-a e segura a mão fina na sua durante uns
segundos. Caroline tem um rosto pálido e sardento, com as
sobrancelhas claras arranjadas, e usa maquilhagem ligeira e o
cabelo liso apanhado.
O papel de parede é colorido. Junto à janela, está uma cómoda
tosca e, na parede, um quadro representando um velho pescador
com um chapéu de oleado e um cachimbo.
– Viemos falar sobre a Vicky – diz Daniel, sentando-se na cama.
– Fui mãe adotiva da Vicky há muitos anos – acrescenta Elin.
– Quando ela era pequena?
Elin assente em silêncio, e Caroline morde o lábio e fica a olhar
pela janela para as traseiras da casa.
– Conheces um pouco a Vicky? – pergunta Elin, passado um
momento.
– Acho que ela não se atrevia a confiar nas outras pessoas –
responde Caroline com um sorriso. – Mas eu gostava dela… Era
calma, e quando estava cansada tinha um humor sinistro.
Elin tosse e resolve fazer uma pergunta direta.
– Ela falava de pessoas que tivesse conhecido? Talvez tivesse um
namorado por aí, ou amigos.
– Quase nunca falamos de merdas antigas, para não ficarmos
com a neura.
– E de coisas boas? Quais eram os sonhos dela, o que é que
queria fazer quando saísse?
– Às vezes havia umas conversas de treta, sobre irmos trabalhar
no estrangeiro – diz Caroline. – Cruz Vermelha, Save the Children…
Mas quem nos daria trabalho aí?
– Queriam fazer isso juntas?
– Era só conversa – responde Caroline pacientemente.
– Estive a pensar numa coisa – diz Daniel, esfregando a testa. –
Eu estava de folga na sexta-feira mas, segundo percebi, a Miranda
estava no quarto de isolamento. Sabes porquê?
– Bateu na Tuula – diz Caroline simplesmente.
– Porquê? – pergunta Elin.
A rapariga encolhe os ombros.
– Porque ela merece que lhe batam. Está sempre a roubar coisas.
Ontem roubou-me os brincos, disse que eles queriam estar ao pé
dela.
– O que é que ela tirou à Miranda?
– Quando fomos nadar no lago, ela tirou o saco à Vicky e à noite
tirou um colar à Miranda.
– Roubou o saco da Vicky? – pergunta Elin em voz tensa.
– Depois devolveu-o, mas ficou com uma coisa que lá estava…
Não percebi o que é que ela roubou, mas era qualquer coisa que a
mãe da Vicky lhe tinha dado.
– A Vicky ficou zangada com a Tuula? – pergunta Elin.
– Não.
– A Vicky e a Caroline nunca se envolvem em brigas – diz Daniel,
dando uma palmadinha no braço magro de Caroline.
– Daniel, precisamos de si – diz Caroline, olhando-o com uma
expressão sincera. – Tem de cuidar de nós.
– Eu vou regressar em breve – responde o terapeuta. – Quero
mesmo vir, mas… Ainda não estou em boas condições para…
Quando Daniel tira a mão do braço dela, ela tenta retê-lo.
– Mas vai voltar, não vai? Volta?
– Volto.
Elin e Daniel saem, e Caroline fica de pé, no meio do quarto, com
uma expressão desamparada.
92

Daniel bate à porta do quarto de Tuula. Esperam algum tempo,


mas ninguém abre, e decidem ir à sala de convívio.
– Lembre-se do que eu lhe disse há bocado – diz Daniel com
gravidade.
A lareira está apagada e fria. Em cima da mesa ficaram alguns
pratos com restos de comida. Para lá da enorme marquise,
distingue-se o mar, na escuridão. As casinhas dos pescadores,
queimadas pelo sol, com um brilho prateado, refletem-se na água. A
vista é belíssima, mas a rapariguinha ruiva virou a cadeira para a
parede e contempla as ripas de madeira pintadas de branco.
– Olá, Tuula – diz Daniel calmamente.
A rapariga volta-se e fixa-os com um olhar mortiço. A expressão
exaltada dá lugar a outra, difícil de definir.
– Estou com febre – murmura e vira-se novamente para a parede.
– Bonita vista.
– É, não é? – responde Tuula, sem desviar os olhos.
Elin percebe que ela sorri e depois recupera a expressão séria.
– Preciso de falar contigo – diz Daniel.
– Então fale.
– Quero ver a tua cara quando falo contigo.
– Quer que a corte?
– É mais fácil virar a cadeira.
Ela suspira pesadamente, vira a cadeira e volta a sentar-se com
uma expressão fechada.
– Na sexta-feira tiraste o saco à Vicky – diz Elin.
– O quê? O que é que disse? Que merda é esta?
Daniel tenta amenizar as palavras de Elin.
– Ela estava a perguntar…
– Cale-se! – grita Tuula.
Faz-se silêncio, e Tuula aperta os lábios e arranca um pedaço de
uma unha.
– Tiraste o saco à Vicky – repete Elin.
– Que grande mentirosa – diz Tuula em voz baixa, desviando o
olhar.
Fica imóvel, com uma expressão de tristeza e o corpo a tremer.
Elin inclina-se para a frente para lhe fazer uma festa no rosto.
– A minha intenção não é…
Tuula agarra Elin pelos cabelos, pega num garfo que está em
cima da mesa e tenta espetar-lho na cara, mas Daniel consegue
prender-lhe o braço a tempo. O terapeuta segura-a enquanto ela
esperneia, tentando libertar-se, e grita.
– Puta de merda, vou matar à paulada todas as…
Tuula chora, com a voz rouca, e Daniel imobiliza-a. Segura-a no
colo, e ao fim de algum tempo o corpo dela relaxa-se. Elin afasta-se
apalpando cautelosamente o couro cabeludo dorido.
– Só ficaste com o saco por um bocadinho, eu sei – diz Daniel.
– Também só tinha tralha – responde Tuula. – Eu devia era ter
pegado fogo àquilo.
– Então não havia nada no saco que quisesse ficar contigo? –
pergunta Daniel.
– Só a chapinha com a flor – diz ela, olhando-o.
– Deve ser bonita. Posso vê-la?
– Está guardada por um tigre.
– Caramba!
– Podes pregar-me numa parede – murmura ela.
– Havia mais alguma coisa que quisesse ficar contigo?
– Eu devia era ter pegado fogo à Vicky quando estávamos no
bosque…
Enquanto Tuula fala com Daniel, Elin sai da marquise, atravessa a
sala de convívio e entra no corredor frio, que está vazio e às
escuras. Avança até à porta do quarto de Tuula, olha por cima do
ombro, para a sala, certifica-se de que Daniel continua a falar com
ela e entra no quarto.
93

Elin fica parada no quarto, com o coração a bater


descompassado. Há apenas uma janela, que fica por baixo de um
beiral. O telhado baixo está coberto de telhas abauladas. No chão
está um candeeiro de mesa tombado, cuja luz fraca ilumina o quarto
de baixo para cima.
Pendurada na parede branca, há uma tapeçaria bordada com a
frase: «O melhor que podemos ter é ter-nos uns aos outros.»
Elin pensa em Tuula a lamber os lábios secos e a tremer antes de
tentar espetar-lhe o garfo na cara.
Um cheiro estranho, adocicado e bafiento, paira no ar imóvel do
quarto.
Elin espera que Daniel tenha percebido que ela veio ao quarto de
Tuula e que faça o possível para a reter.
Sobre a cama estreita, sem cobertor nem colchão, está uma
pequena mala de viagem, pousada no estrado de ripas.
Cautelosamente, Elin aproxima-se da cama e abre a mala. A sua
sombra projeta-se no teto quando ela se inclina para a frente.
Dentro da mala há um álbum de fotografias, algumas peças de
roupa amarrotadas, frascos de perfume com princesas da Disney e
um papel de rebuçado.
Elin fecha a mala, olha em volta e repara numa cómoda afastada
cerca de meio metro da parede. Atrás da cómoda estão roupas de
cama, uma almofada e um lençol. Tuula dorme aqui e não na cama.
Elin move-se cautelosamente, detém-se quando uma tábua do
chão range, fica imóvel à escuta durante um momento, e depois vai
abrir as gavetas da cómoda, mas só encontra lençóis engomados e
saquinhos de pano com folhas de alfazema secas. Levanta os
lençóis, mas não encontra nada. Fecha silenciosamente a gaveta de
baixo e, no momento em que se levanta, ouve passos no corredor.
Para e procura respirar sem fazer barulho. Ouve tilintar o sininho de
porcelana da porta de Caroline, e faz-se novamente silêncio.
Elin espera ainda um instante e volta à parte de trás da cómoda,
olha para a roupa de cama e a almofada sem fronha. Sente de novo
aquele cheiro estranho e resolve afastar a colcha e tirar o cobertor
cinzento. Quando levanta o colchão, liberta-se um forte cheiro a
podre. No chão, sobre um jornal, há comida estragada: pão
bolorento, pernas de galinha, maçãs já castanhas, salsichas e
batatas assadas.
94

Tuula murmura que está cansada, escapa-se do colo de Daniel,


vai para junto da janela e põe-se a lamber a vidraça.
– Ouviste a Vicky dizer alguma coisa? – pergunta Daniel.
– Que tipo de coisa?
– Se ela tem esconderijos, ou lugares onde…
– Não – responde ela, virando-se para ele.
– Mas tu costumas ouvir as mais velhas a conversar.
– E o Daniel também – responde Tuula.
– Eu sei, mas neste momento tenho dificuldade em lembrar-me
das coisas, chama-se arousal – explica.
– É perigoso?
Ele abana a cabeça, mas não consegue sorrir.
– Vou a um psicólogo e tomo medicamentos.
– Não pode ficar triste – diz ela, inclinando a cabeça para o lado.
– Na verdade até foi bom que a Miranda e a Elisabet tenham sido
mortas, porque há pessoas a mais.
– Mas eu amava a Elisabet, precisava dela e…
Tuula bate com a nuca no vidro, fazendo abanar a janela e as
grades. Uma das vidraças racha-se na diagonal.
– Acho melhor ir para o meu quarto esconder-me atrás da
cómoda – diz a rapariga muito baixinho.
– Espera – pede Daniel.
95

Elin está de joelhos no quarto de Tuula, diante de um baú pintado


à mão, colocado aos pés da cama. A tampa tem a seguinte
inscrição, em letras floreadas: FRITZ GUSTAVSSON 1861 HARMÅNGER.
No início do século XX, mais de um quarto da população da Suécia
emigrou para a América – mas este Fritz talvez não tenha chegado
a partir. Elin tenta abrir a tampa, a mão falha-lhe e ela parte uma
unha, tenta novamente, mas o baú está fechado à chave.
Ouve um ruído que lhe parece o de um vidro da marquise a partir-
se e, passado um momento, Tuula grita como uma louca, até que
fica sem voz.
Elin sente os braços arrepiarem-se e vai à janela. No parapeito
estão sete pequenos recipientes, uns de lata e outros de louça. Elin
começa a abri-los. Um está vazio, outro tem cordéis usados.
Pela janela vê-se a fachada vermelho-escura da outra ala da
casa, mas a escuridão da noite não deixa distinguir o relvado das
traseiras. O solo parece apenas um fundo negro. Mas há uma luz
que vem de outro quarto e que ilumina o casinhoto da retrete
exterior e os tufos de urtigas.
Elin abre um dos recipientes de louça, que contém umas moedas
de cobre antigas, pousa-o novamente e pega numa lata com um
arlequim pintado em cores vivas. Tira-lhe a tampa, deita o conteúdo
na mão e, no momento em que constata que são só pregos velhos e
um abelhão morto, deteta pelo canto do olho um movimento no lado
de fora da janela. Olha rapidamente pela vidraça, sentindo o
coração pulsar-lhe nas têmporas. Lá fora há um sossego absoluto.
A luz fraca do quarto ao lado banha as urtigas. Apenas ouve a sua
própria respiração. Subitamente, um vulto atravessa a mancha de
luz e Elin deixa cair a lata no chão e desvia-se.
A pequena janela é um quadrado preto, e ela apercebe-se de que
pode estar alguém no lado de fora a observá-la.
No momento em que Elin decide sair do quarto, repara num
pequeno autocolante na porta de um armário. Aproxima-se e vê que
o boneco do autocolante é o tigre de Winnie the Pooh.
Tuula disse que a flor era guardada por um tigre.
Dentro do armário, há uma capa de oleado pendurada num
gancho, diante de um velho aspirador. Com mãos trémulas, Elin tira
o aspirador, debaixo do qual estão uns ténis amassados e uma
fronha suja. Pega numa ponta da fronha e sente logo o peso.
Despeja o conteúdo da fronha no chão, ouvindo tilintar os objetos.
Moedas, botões, travessões do cabelo, contas de vidro, um cartão
SIM dourado de um telemóvel, uma esferográfica sem carga,
cápsulas de garrafa, brincos e um porta-chaves com uma chapinha
de metal na forma de uma flor azul-clara. Elin observa-o, vira-o e vê
o nome Dennis gravado no verso da chapa.
Deve ser este o objeto a que Caroline se referia, que a mãe de
Vicky lhe tinha dado.
Elin mete o porta-chaves no bolso e passa rapidamente em
revista os outros objetos à medida que os repõe na fronha. Arruma
as coisas que estavam no armário, mete lá dentro o aspirador,
compõe a capa de oleado e fecha a porta. Aproxima-se da porta do
quarto, fica à escuta durante um momento e sai.
Diante dela está Tuula.
A menina ruiva espera-a no corredor, a poucos passos da porta, e
observa-a sem dizer uma palavra.
96

Tuula dá um passo em frente e mostra a Elin a mão suja de


sangue. Tem o rosto extremamente pálido. O olhar é intenso,
expectante. As sobrancelhas muito claras não se veem. O cabelo
pende-lhe sobre o rosto em farripas avermelhadas.
– Entre no quarto outra vez – diz Tuula.
– Tenho de ir ter com o Daniel.
– Podemos ir as duas esconder-nos – diz ela, num tom cortante.
– O que é que aconteceu?
– Entre no quarto – repete Tuula, passando a língua pelos lábios.
– Queres mostrar-me alguma coisa?
– Sim – responde ela sem hesitar.
– O quê?
– É um jogo… A Vicky e a Miranda fizeram esse jogo na semana
passada – diz Tuula, pondo as mãos à frente do rosto.
– Tenho de ir.
– Venha comigo, que eu mostro-lhe como é o jogo – sussurra
Tuula.
Ouvem-se passos no corredor, e Elin vê Daniel com uma caixa de
pensos na mão. Lu Chu e Almira aproximam-se, vindas da cozinha.
Tuula apalpa a nuca e os seus dedos ficam sujos de sangue.
– Tuula, eu disse-te que ficasses sentada na cadeira – diz Daniel,
começando a encaminhá-la para a cozinha. – Temos de limpar a
ferida e ver se precisas de pontos.
Elin fica parada, à espera que o coração se acalme. Toca no
porta-chaves que Vicky recebeu da mãe.
Ao fim de um momento, a porta da cozinha abre-se. Tuula
caminha lentamente, roçando a mão pelo painel de ripas de madeira
ao longo da parede. Daniel acompanha-a, falando-lhe num tom sério
e calmo. Ela faz um gesto de assentimento e vai para o quarto. Elin
espera que Daniel chegue junto dela e pergunta-lhe o que
aconteceu.
– Está tudo bem… Pôs-se a bater com a cabeça no vidro até o
partir.
– A Vicky falou em alguém chamado Dennis? – pergunta Elin em
voz baixa, mostrando-lhe o porta-chaves.
Daniel observa-o, virando-o na mão e repetindo baixinho a
palavra Dennis.
– Bem, tenho a sensação de que já ouvi o nome – diz ele. –
Mas… Elin, sinto-me tão envergonhado, completamente inútil
para…
– Mas eu sei que se esforça…
– Sim, mas não é certo que a Vicky me tenha contado alguma
coisa que possa ajudar a Polícia… Em geral, ela falava muito
pouco…
Daniel cala-se quando ouvem passos pesados a subir os degraus
da entrada e a porta da rua a abrir-se. Uma mulher forte, de uns
cinquenta anos, entra em casa e prepara-se para fechar a porta à
chave quando os vê.
– Não podem estar aqui – diz ela, avançando para eles.
– Sou o Daniel Grim, o…
– Sabem com certeza que as alunas não podem receber visitas a
esta hora – interrompe a mulher.
– Vamos já sair – diz Daniel. – Só queremos perguntar à Caroline
se…
– Não perguntam coisa nenhuma.
97

Enquanto sobe no elevador para o seu gabinete, Joona observa o


porta-chaves, que está dentro de um saquinho de plástico. Tem a
forma de uma moeda grande, um dólar de prata, com o nome
Dennis em relevo num dos lados e uma flor azul-clara com sete
pétalas no outro. O aro das chaves, bastante robusto, está preso por
um elo metido num orifício da parte superior da chapa.
Elin Frank telefonou a Joona na noite anterior. Estava já no carro,
preparando-se para levar Daniel a casa e depois ir para um hotel em
Sundsvall.
Contou que Tuula tinha roubado o porta-chaves do saco de Vicky
na sexta-feira de manhã.
– O porta-chaves era obviamente importante para a Vicky. Foi a
mãe que lho deu – acrescentou Elin, prometendo enviá-lo a Joona,
por mensageiro, logo que chegasse ao hotel.
Joona vira o saquinho de plástico várias vezes, observando-o sob
a luz forte. Volta a metê-lo no bolso do casaco antes de sair, no
quinto piso.
Vai explorando mentalmente várias razões possíveis para Vicky
ter recebido da mãe um porta-chaves com o nome Dennis gravado.
O pai de Vicky Bennet é desconhecido, a mãe teve-a fora do
sistema nacional de saúde, e ela só apareceu no registo civil
quando já tinha seis anos. Talvez a mãe soubesse, afinal, quem era
o pai. Talvez isto fosse uma forma de o dizer à filha.
Joona vai ao gabinete de Anja para saber se ela descobriu
alguma coisa, mas nem tem tempo de abrir a boca.
– Não há Dennis nenhum na vida da Vicky Bennet, ponto final.
Nem em Birgitta, nem em Ljungbacken, nem em qualquer das
famílias com quem ela esteve.
– Estranho – diz Joona.
– Até telefonei à Saga Bauer – diz Anja, sorrindo. – Os serviços
secretos têm os seus registos próprios.
– Mas alguém há de saber quem é o Dennis – diz ele, sentando-
se na beira da secretária dela.
– Não – suspira Anja, tamborilando desconsoladamente no tampo
da mesa com as unhas compridas, pintadas de vermelho.
Joona olha pela janela. No céu correm formações de nuvens
compactas.
– Estou bloqueado – diz ele simplesmente. – Não posso pedir
cópia do relatório do LTF, não posso interrogar testemunhas, não
tenho uma base para trabalhar.
– Talvez não fosse má ideia reconheceres que este caso nem
sequer te pertence – diz-lhe Anja em voz baixa.
– Não consigo.
Anja faz um sorriso de satisfação e as faces redondas coram.
– Na falta de melhor, quero pelo menos que ouças uma coisa que
tenho para te dizer… E não, agora não se trata de tango finlandês.
– Também não pensei que fosse.
– Pensaste, sim senhor – murmura ela enquanto procura alguma
coisa no computador. – Isto é uma chamada que eu atendi hoje.
– Costumas gravar as chamadas?
– Costumo – responde Anja em tom neutro.
Uma voz aguda de mulher sai das colunas do computador e
enche a sala.
– Desculpem eu continuar a telefonar – diz a mulher, quase sem
fôlego. – Falei com alguém da Polícia em Sundsvall, que me disse
que um comissário chamado Joona Linna poderia estar interessado
em saber que…
– Fale comigo – ouve-se dizer a voz de Anja.
– Se me quiser ouvir, porque… Tenho uma coisa importante para
contar sobre o crime de Birgitta.
– A Polícia tem uma linha aberta para informações sobre esse
caso – explica Anja.
– Eu sei – responde a mulher prontamente.
Em cima da secretária de Anja, um gato japonês acena
ininterruptamente. Joona ouve o discreto estalido mecânico ao
mesmo tempo que ouve a mulher ao telefone.
– Eu vi a rapariga, ela não queria mostrar a cara. E havia uma
pedra grande cheia de sangue. Têm de procurar a pedra…
– Está a dizer que assistiu ao crime? – pergunta Anja.
Ouve-se a mulher inspirar profundamente antes de responder.
– Não sei porque é que vi isto – diz ela. – Tenho medo e estou
muito cansada, mas não estou doida.
– Quer dizer que viu o crime?
– Ou então estou mesmo doida – continua a mulher, numa voz
trémula, sem registar a pergunta de Anja.
A ligação é cortada.
Anja desvia a atenção do computador e olha para ele.
– Esta mulher chama-se Flora Hansen e há uma queixa contra
ela.
– Porquê?
Anja encolhe os ombros fortes e redondos.
– A Brittis, que está na linha aberta, fartou-se. Ao que parece,
esta Flora Hansen telefonou uma série de vezes a dar indicações
falsas e a tentar receber dinheiro.
– É costume telefonar?
– Não, só no caso de Birgitta… Achei que devias ouvir isto antes
de ela te telefonar, porque de certeza que te vai ligar. Não desiste,
continua a telefonar, apesar de saber que há uma queixa formal
contra ela, e agora conseguiu arranjar o meu número de telefone.
– O que é que sabes sobre ela? – pergunta Joona, pensativo.
– A Brittis disse-me que ela tem um álibi infalível para a noite do
crime, porque fez uma sessão espírita com nove pessoas, no
número 40 da Upplandsgatan, aqui em Estocolmo – explica Anja,
divertida. – A Flora apresenta-se como médium e afirma que pode
fazer perguntas aos mortos a troco de dinheiro.
– Vou lá falar com ela – diz Joona, encaminhando-se para a porta.
– Joona, só queria mostrar que as pessoas conhecem o caso –
diz ela, com um sorriso hesitante. – Mais cedo ou mais tarde, vamos
receber informações. Se a Vicky Bennet está viva, alguém há de vê-
la.
– Sim – responde ele, abotoando o casaco.
Anja vai começar a rir quando fixa os olhos cinzentos de Joona e
percebe de repente o que está em causa.
– A pedra – diz ela em voz baixa. – Aquilo da pedra é verdade?
– É – responde, fitando-a. – Mas só eu e o médico-legista
sabemos que o assassino usou uma pedra para matar a Miranda.
98

Na Suécia, embora seja muito invulgar, a Polícia já tem recorrido


a médiuns e a videntes. Joona recorda o assassínio de Engla
Höglund. A Polícia usou os serviços de um médium, que forneceu
uma descrição detalhada de dois assassinos. Essa descrição veio a
revelar-se totalmente falsa.
O verdadeiro autor do crime foi apanhado porque uma pessoa
que estava a experimentar a máquina fotográfica que tinha
comprado recentemente fotografou, por um mero acaso, a rapariga
e o carro do assassino.
Há algum tempo, Joona leu um artigo sobre um estudo
independente, realizado nos Estados Unidos, que analisava o caso
da médium mais utilizada pela Polícia em todo o mundo. O estudo
constatava que ela não contribuíra com uma única informação útil
em qualquer das cento e quinze investigações em que a Polícia
recorrera a ela.
O sol frio da tarde deu lugar às sombras do fim do dia, e Joona
sente um arrepio quando sai do carro e se encaminha para um
prédio cinzento com antenas parabólicas nas varandas. O trinco
automático na porta do prédio está avariado e o átrio coberto de
assinaturas pintadas a spray cor-de-rosa. Joona sobe ao segundo
andar pela escada e toca à campainha na porta que tem o nome
Hansen na caixa do correio.
Uma mulher pálida, vestida com roupa cinzenta muito puída, abre
a porta e encara-o com um olhar tímido.
– O meu nome é Joona Linna – diz Joona, mostrando a
identificação. – A senhora telefonou várias vezes para a Polícia…
– Peço desculpa – murmura ela, baixando o olhar.
– Não se deve telefonar quando não se tem informações.
– Sim, mas… Eu telefonei porque vi a menina morta – diz ela,
erguendo o olhar para ele.
– Posso entrar por um momento?
Ela assente, e ele segue-a pelo vestíbulo escuro, com um chão de
linóleo já muito gasto, até uma cozinha pequena, muito asseada.
Flora senta-se numa das quatro cadeiras da mesa e cruza os braços
à volta do corpo. Joona vai até à janela e olha lá para fora. A
fachada do prédio em frente está coberta com uma lona de
proteção. O termómetro aparafusado no lado exterior do caixilho da
janela balança levemente ao vento.
– Acho que a Miranda me procura porque eu lhe abri a porta do
lado de lá durante uma sessão espírita – explica Flora. – Mas
agora… não sei bem o que ela quer.
– Quando é que foi a sessão?
– Há uma todas as semanas… Eu ganho a vida a falar com os
mortos – explica Flora e começa a ter pequenos espasmos num
músculo junto ao olho direito.
– De certo modo, eu também – responde o comissário
tranquilamente.
Em seguida, senta-se à frente dela.
– O café acabou-se – diz ela em voz muito baixa.
– Não faz mal. Quando telefonou, falou numa pedra…
– Não sabia o que havia de fazer, mas a Miranda está sempre a
mostrar-me uma pedra ensanguentada…
Flora indica o tamanho da pedra com as mãos.
– Portanto, fez uma sessão e apareceu uma rapariga que
contou…
– Não, não foi assim – interrompe ela. – Foi depois da sessão,
quando cheguei a casa.
– E essa rapariga, o que é que disse?
Flora fita-o com uma expressão ensombrada pela recordação.
– Mostra-me a pedra e diz-me para eu fechar os olhos.
Joona observa-a com o seu impenetrável olhar cinzento.
– Se a Miranda voltar a aparecer, quero que lhe pergunte onde se
esconde o assassino.
99

Joona tira do bolso o saquinho de plástico com o porta-chaves de


Vicky, abre-o e deixa cair o porta-chaves em cima da mesa, diante
de Flora.
– Isto pertence à pessoa suspeita do crime – diz ele.
Flora observa o objeto.
– Dennis?
– Não sabemos quem é o Dennis, mas estava a pensar… Talvez
a senhora consiga saber alguma coisa.
– Sim, talvez, mas… Isto é o meu trabalho.
Faz um sorriso embaraçado, esconde a boca com a mão e
murmura qualquer coisa como desculpa, que ele não percebe.
– Com certeza. Quanto custa?
Flora informa-o, de olhos baixos, sobre o preço por cada meia
hora em sessões particulares. Joona tira a carteira e paga-lhe uma
hora. Flora agradece, vai buscar a mala e apaga a luz do teto. Lá
fora ainda há luz do dia, mas a cozinha fica às escuras. Flora vai
buscar uma vela e um pano de veludo preto bordado a dourado.
Acende a vela, coloca-a à frente de Joona e cobre o porta-chaves
com o pano. Fecha os olhos e passa a mão lentamente sobre o
pano.
Joona observa-a sem preconceitos.
Flora mete a mão esquerda por baixo do pano, fica imóvel e
depois começa a tremer e a respirar fundo.
– Dennis, Dennis – murmura ela.
Mexe na chapa de metal coberta pelo pano de veludo preto.
Através das paredes chega o ruído do televisor dos vizinhos. Na
rua, o alarme de um carro dispara repentinamente.
– Vejo imagens estranhas… Ainda não há nada claro.
– Continue – diz Joona, olhando-a com intensidade.
O cabelo claro de Flora colou-se-lhe à cara. A pele irregular está
corada e as pálpebras mexem-se com os movimentos dos olhos.
– Há uma força terrível neste objeto. Solidão e cólera. Quase o
sinto queimar-me – sussurra ela, retirando o porta-chaves e
olhando-o na palma da mão. – A Miranda diz que… ele está
pendurado na morte por um fio… Estavam as duas apaixonadas
pelo Dennis… Sim, sinto o ciúme a arder no metal…
Flora cala-se, fica com o porta-chaves na mão durante um
momento, murmura que o contacto foi cortado, abana a cabeça e
devolve-o a Joona.
Joona levanta-se, pensando que se precipitou. Ter vindo aqui foi
uma perda de tempo. Pensou que ela sabia de facto alguma coisa,
por motivos que não ousava explicar. Mas é evidente que Flora
Hansen se limita a dizer aquilo que julga que as pessoas querem
ouvir. Dennis pertence a uma época muito anterior a Birgitta, porque
Vicky recebeu o porta-chaves da mãe há vários anos.
– Lamento constatar que isto é tudo mentira – diz Joona, pegando
no porta-chaves.
– Posso ficar com o dinheiro? – pergunta ela debilmente. – Não
consigo sustentar-me, apanho latas vazias no metropolitano e nos
caixotes do lixo…
Joona mete o porta-chaves no bolso e encaminha-se para a porta.
Flora pega num papel e segue-o no vestíbulo.
– Eu acho que vi mesmo um fantasma – diz ela. – Fiz um
desenho dela…
Mostra um desenho infantil de uma menina e um coração, põe-lho
à frente da cara, quer que ele olhe, mas Joona afasta-lhe a mão. Ela
deixa cair o papel, que esvoaça e cai no chão, mas ele passa por
cima, abre a porta e sai.
100

Joona sente ainda uma irritação surda no corpo quando sai do


carro e entra no átrio do prédio de Disa, na Lützengatan, em
Karlaplan.
Vicky Bennet e Dante Abrahamsson estão vivos, e ele perdeu
quase uma hora para ir falar com uma mulher desequilibrada, que
diz mentiras a troco de dinheiro.
Disa está sentada na cama com o computador em cima dos
joelhos. Enverga um robe branco e tem uma fita de cabelo a
condizer.
Joona toma um duche quente e vai deitar-se ao lado dela.
Quando encosta o rosto à pele de Disa, sente-lhe o perfume.
– Foste outra vez a Sundsvall? – pergunta ela distraidamente,
quando Joona desliza a mão pelo seu braço fino, até ao pulso.
– Hoje não – responde Joona, pensando no rosto pálido e magro
de Flora.
– Estive lá no ano passado – conta Disa. – Na escavação da
Casa das Mulheres em Högom.
– Casa das mulheres?
– Em Selånger.
Disa desvia o olhar do ecrã e sorri-lhe.
– Vai lá, se tiveres um bocadinho entre dois crimes – diz ela.
Joona sorri e acaricia-lhe a anca, segue o músculo da coxa até ao
joelho. Não quer que ela pare de falar e pergunta-lhe:
– Porque é que lhe chamam casa das mulheres?
– É um túmulo, mas está construído sobre uma casa que ardeu
completamente. Não se sabe o que aconteceu.
– Havia lá pessoas?
– Duas mulheres – responde ela, e pousa o computador. – E eu
estive, com estas mãos, a limpar com um pincel a terra dos pentes e
das joias delas.
Joona deita a cabeça no colo dela e pergunta:
– Onde começou o incêndio?
– Não sei, mas foi encontrada pelo menos uma ponta de flecha na
parede.
– Então o atacante veio de fora?
– Ou talvez toda a aldeia estivesse lá e tivessem deixado arder a
casa – diz ela, metendo os dedos no cabelo forte dele, ainda
molhado.
– Conta-me mais coisas desse túmulo – pede Joona, fechando os
olhos.
– Não se sabe muita coisa – diz ela, enrolando um caracol num
dedo. – Mas quem vivia na casa estava lá dentro, a tecer. Os pesos
de tear estavam espalhados por todo o lado. É curioso que sejam
sempre os objetos pequenos, pentes ou alfinetes, que sobrevivem
milhares de anos.
Os pensamentos de Joona passam pela coroa de noiva de
Summa, de raízes entrançadas, e pelo velho cemitério judeu no
parque de Kronoberg, onde o colega Samuel Mendel repousa,
solitário, no túmulo de família.
101

Joona acorda com um beijo suave nos lábios. Disa já está vestida
e pôs-lhe uma chávena de café na mesa de cabeceira.
– Adormeci… – diz ele.
– «… e dormi cem anos» – responde ela, sorrindo e dirigindo-se
para o vestíbulo.
Joona ouve-a sair e fechar a porta. Levanta-se, veste as calças e
fica junto da cama a pensar na médium Flora Hansen. Aquilo que o
levou a procurá-la foi o acaso de ela ter acertado no pormenor da
pedra. No universo da psicologia, o fenómeno é designado
«enviesamento de confirmação». Inconscientemente, as pessoas
tendem a dar mais importância aos resultados que confirmam a sua
teoria do que aos que a refutem. Flora tinha telefonado várias vezes
para a Polícia falando em diferentes armas do crime, mas quando
mencionou a pedra ele prestou-lhe atenção.
Não havia nenhuma outra pista a explorar além da de Flora.
Joona aproxima-se da janela ampla e afasta a cortina branca,
quase transparente. A luz baça do amanhecer ainda traz consigo
um pouco da melancolia da noite. A fonte de Karlaplan pulsa e
espuma numa pesada monotonia. Diante da entrada do centro
comercial, alguns pombos passeiam-se vagarosamente.
Veem-se pessoas a caminho do trabalho.
Havia algo de terrivelmente desesperado na voz e no olhar de
Flora Hansen quando lhe contou que apanhava latas e garrafas
vazias nos cestos de lixo do metropolitano.
Joona fecha os olhos durante um momento. Vira as costas à
janela e vai buscar a camisa que está pendurada na cadeira.
Veste-a distraidamente, com o olhar perdido no vazio, e abotoa-a.
Acabou de roçar por uma ligação lógica, mas no mesmo momento
perdeu-a. Procura voltar atrás nos pensamentos, mas sente que a
ideia lhe escapou e se afasta rapidamente.
Tinha a ver com Vicky, com o porta-chaves e com a mãe dela.
Veste o casaco e vai novamente à janela.
Terá sido alguma coisa que viu?
O olhar volta a percorrer Karlaplan. Um autocarro circula na
rotunda e depois para e recebe passageiros. Um pouco adiante, um
homem idoso, com um andarilho, observa, divertido, um cão que
cheira um cesto de papéis.
Uma mulher de faces coradas e casaco de couro corre para a
entrada do metropolitano, assustando os pombos na praça. Os
pombos levantam voo e traçam um semicírculo no ar, antes de
pousarem novamente.
Metropolitano.
Tem a ver com o metropolitano, pensa Joona, e pega no telefone.
Tem quase a certeza de ter razão. Só precisa de verificar alguns
pormenores.
Marca um número rapidamente e enquanto ouve o sinal de
chamada, vai para o vestíbulo e calça os sapatos.
– Sim, fala Holger…
– É o Joona Linna – diz Joona, ao mesmo tempo que sai para o
patamar.
– Então muito bom dia! Eu já…
– Tenho de perguntar uma coisa agora mesmo – interrompe
Joona, fechando a porta à chave. – Revistou a mala que
encontrámos na barragem, não foi?
Desce a escada a correr.
– Fotografei e inventariei o conteúdo antes de a procuradora
telefonar a dizer que o caso tinha perdido prioridade.
– Eu não posso ler o seu relatório – diz Joona.
– Também não havia nada de especial – comenta Holger,
remexendo em papéis. – Falei na faca que…
– Falou numa ferramenta de bicicleta. Examinou-a?
Joona já está na rua, descendo apressadamente Valhallagatan
em direção ao carro.
– Examinei. Demorou um bocadinho a perceber, talvez por eu ser
do Norte… Não era uma ferramenta, era a chave de uma cabina de
condutor do metropolitano.
– A chave esteve metida num porta-chaves?
– Sei lá se…
Holger cala-se de repente e observa a fotografia do relatório.
– Tem razão, como não podia deixar de ser. Está desgastada na
parte interior do aro.
Joona agradece e liga a Anja. Começa a correr, lembrando-se de
que Elin Frank disse que Tuula roubava coisas bonitas às outras.
Podiam ser brincos, canetas brilhantes, moedas ou bâtons. Tuula
ficou com o porta-chaves com a flor azul-clara e meteu a chave
novamente no saco.
– Ghostbusters – responde Anja, numa voz estridente e animada.
– Anja, podes fazer-me um favor? Fala com alguém responsável
pelo sistema do metropolitano de Estocolmo – pede Joona,
enquanto arranca com o carro.
– Posso perguntar aos espíritos…
– Tenho pressa – interrompe Joona.
– Acordaste com os pés de fora? – pergunta ela, ofendida.
Joona vai a caminho do estádio.
– Sabias que todas as carruagens têm nome? – pergunta.
– Hoje vim na Rebecka. É giríssima…
– O que eu penso é que Dennis não é o nome de uma pessoa,
mas de uma carruagem de metro, e tenho de saber onde está essa
carruagem neste momento.
102

Todas as carruagens do metropolitano têm, evidentemente, um


número, tal como acontece no resto do mundo, mas as do metro de
Estocolmo têm também, desde há muitos anos, um nome próprio.
Diz-se que a tradição teve início em 1887, por causa dos nomes dos
cavalos que puxavam as carruagens de transporte sobre carris na
cidade.
Joona tem quase a certeza de que a chave que Vicky recebeu de
Susie, a mãe, serve na fechadura mecânica que abre todas as
composições, mas o nome do porta-chaves indica uma determinada
carruagem. Talvez a mãe de Vicky guardasse alguns pertences na
cabina do condutor de uma carruagem, ou talvez dormisse lá de vez
em quando.
A mãe, que tinha vivido na rua toda a sua vida adulta, passava
longas temporadas no metro, dormia em bancos nas estações, nos
comboios ou em espaços desocupados ao longo das linhas, dentro
dos túneis.
«A mãe arranjou aquela chave, de alguma maneira», pensa
Joona enquanto conduz. «Não deve ter sido fácil. A chave devia ser
um tesouro precioso no mundo dela.»
No entanto, deu-a à filha.
Arranjou um porta-chaves com o nome Dennis gravado, para a
menina não se esquecer do nome da carruagem que era importante.
Talvez soubesse que Vicky iria fugir.
Vicky fugiu muitas vezes e, em duas ocasiões, conseguiu manter-
se escondida durante bastante tempo. Na primeira vez, tinha
apenas oito anos e esteve desaparecida durante sete meses. Foi
encontrada com a mãe, em estado de hipotermia grave, numa
garagem, em pleno mês de dezembro. Na segunda vez, tinha treze
anos. Desapareceu durante onze meses, e foi apanhada pela
Polícia, por furto numa loja, na zona do edifício Globen.
É possível aceder à cabina do condutor nas carruagens do metro
com outras ferramentas. Uma chave sextavada com a dimensão
certa, por exemplo, funcionaria.
Mas embora não seja provável que Vicky esteja agora na
carruagem, uma vez que não tem a chave, talvez seja possível
encontrar lá vestígios deixados por ela no tempo em que andava
fugida, alguma coisa que possa dar uma indicação sobre o
esconderijo atual.
Joona está quase a chegar ao edifício da Polícia quando Anja
telefona a dizer que falou com o Metropolitano de Estocolmo.
– Há uma carruagem que tem o nome de Dennis, mas foi retirada
da circulação. Defeito de fabrico, disse o homem.
– Mas onde é que está?
– Eles não sabem ao certo. Pode estar num depósito em Rissne,
mas provavelmente foi estacionada na Oficina Técnica em
Johanneshov.
– Liga-me para lá – pede Joona, fazendo inversão de marcha.
O carro salta ruidosamente numa lomba, e Joona passa um sinal
vermelho e vira para Fleminggatan.
103

Joona segue em direção a Johanneshov, na zona sul de


Estocolmo, quando finalmente atendem o telefone. O homem que
responde parece ter a boca cheia.
– Oficina Técnica do Metropolitano. Fala Kjelle.
– Fala Joona Linna, da Polícia Criminal. Pode confirmar-me se
têm aí em Johanneshov uma carruagem com o nome de Dennis?
– Dennis – repete o homem, estalando os lábios. – Tem o número
da carruagem?
– Não, infelizmente.
– Só um minuto, que eu vou ver no computador.
Joona ouve o homem a falar sozinho enquanto faz a busca e
depois ouve-lhe os passos a caminho do telefone.
– Há uma com o nome de Denniz, com «z» no fim…
– Não tem importância.
– OK – diz Kjelle. Joona ouve-o engolir com força a comida que
tem na boca. – Não a vejo no registo. É uma carruagem bastante
antiga, não sei… Mas de acordo com os dados que tenho aqui, já há
uns anos que não está em circulação.
– Onde é que está?
– Devia ter isso aqui, mas… Bem, olhe, vou passá-lo ao Dick, que
sabe tudo o que o computador não sabe.
A voz de Kjelle desaparece e é substituída por ruído eletrónico.
Em seguida Joona ouve a voz de um homem de idade, com eco,
como se estivesse numa catedral ou numa sala de metal.
– Dick da Pesada.
– Acabo de falar com o Kjelle – explica Joona –, que pensa que o
Dick tem por aí uma carruagem com o nome Dennis.
– Se o Kjelle diz que está aqui, está com certeza. Mas posso ir
procurar, se for uma questão de vida ou de morte, ou de salvar a
pátria.
– É – responde Joona, numa voz abafada.
– Está no carro? – pergunta Dick.
– Sim.
– Mas vem a caminho daqui?
Do outro lado da linha, Joona ouve o homem a descer uma
escada de metal. Um portão grande e pesado chia nos gonzos, e o
homem parece um pouco ofegante quando volta a falar.
– Entrei no túnel. Ainda aí está?
– Sim.
– Já vi a Mikaela e a Maria. O Denniz há de estar por aqui.
Joona atravessa a ponte Centralbron à máxima velocidade
possível, ouvindo o eco dos passos do mecânico, e pensa nos
períodos da vida de Vicky em que andou fugida. Tinha de haver um
sítio onde ela dormia, um sítio onde se sentia segura.
– Encontrou a carruagem?
– Não, há aqui uma Ellinor… Depois uma Silvia… Nem a luz
funciona como deve ser.
Joona ouve o homem arrastar os pés pelo túnel, por baixo da
zona industrial.
– Não venho cá abaixo há muito tempo – diz o homem,
arquejando. – Vou ligar a lanterna… É a última, está-se mesmo a
ver… Denniz, toda ferrugenta, toda estragada…
– Tem a certeza?
– Posso ir lá tirar uma fotografia, se… Espera, que é isto? Há lá
gente, há gente lá dentro…
– Chiu! – interrompe Joona.
– Está alguém dentro da carruagem – sussurra o homem.
– Não se aproxime – diz Joona.
– Puseram uma bilha de gás na porta.
Joona ouve os passos do homem, que se afasta rapidamente,
arfando.
– Estava lá gente… Vi gente dentro da carruagem – sussurra Dick
novamente.
Joona pensa que não se deve tratar de Vicky, porque ela já não
tem a chave.
Subitamente, ouve uma voz fina a gritar, distante mas clara.
– Há uma mulher a gritar lá dentro – diz o mecânico num sopro. –
Parece tresloucada.
– Saia daí rapidamente – diz Joona.
Joona ouve-lhe os passos e a respiração ofegante. Os gritos
repetem-se, agora mais fracos.
– O que é que viu? – pergunta Joona.
– Puseram uma enorme bilha de gás para soldadura a bloquear a
porta.
– Viu alguém?
– As janelas estão pintadas com grafitti, mas havia uma pessoa
mais alta e outra mais pequena, e talvez mais, não sei…
– Tem a certeza? – pergunta Joona.
– Nós mantemos os acessos aos túneis fechados, mas se alguém
quiser… é claro que consegue entrar lá dentro – diz o homem,
arquejando.
– Ouça com atenção. Sou comissário da Polícia Criminal. Só lhe
peço que faça uma coisa: saia já daí e fique à porta, à espera da
Polícia.
104

Um furgão preto transpõe a alta velocidade os portões da Oficina


Técnica do Metropolitano, em Johanneshov. O cascalho salta sob as
rodas, e uma nuvem de pó espraia-se até à vedação. O veículo
curva e para em frente de uma porta de metal pintada de verde.
Depois da conversa com o mecânico Dick Jansson, Joona
telefonara ao diretor distrital e dissera-lhe que a possibilidade de
ocorrer uma situação de tomada de reféns não podia ser excluída.
A força de intervenção nacional é uma unidade da Polícia Criminal
especialmente treinada. A sua principal missão é o combate a ações
terroristas, mas pode ser mobilizada para realizar operações
particularmente difíceis.
Os cinco elementos saem do carro com uma combinação de
nervosismo e intensa concentração física. Estão armados e usam
botas, fato-macaco azul-escuro, colete balístico com placas de
cerâmica, capacete, óculos de proteção e luvas.
Joona vai ao encontro do grupo e percebe que eles foram
autorizados a utilizar armas pesadas – três deles transportam
espingardas automáticas verde-jade com mira de laser, Heckler &
Koch.
Não se trata de armas especiais, mas são leves e esvaziam um
cartucho em menos de três segundos.
Os outros dois elementos levam espingardas de precisão.
Joona cumprimenta rapidamente o comandante, o médico e os
outros três membros do grupo e explica que avalia a situação como
muito urgente.
– Quero entrar diretamente e o mais depressa possível, mas
como não sei que informações têm, devo esclarecer que não houve
identificação positiva da Vicky Bennet e do Dante Abrahamsson.
Antes da chegada da força de intervenção, Joona interrogou Dick
Jansson e pediu-lhe que marcasse a localização das carruagens
num mapa detalhado da zona.
Um homem novo, com uma espingarda de precisão PSG 90 numa
mala junto aos pés, levanta o braço.
– É previsível que ela esteja armada? – pergunta.
– Com uma arma de fogo, provavelmente não – responde Joona.
– Portanto a expectativa que temos é de encontrar duas crianças
desarmadas – diz o rapaz, abanando a cabeça com um sorriso
desdenhoso.
– O que vamos encontrar, não sabemos. Nunca se sabe – diz
Joona, mostrando um desenho de uma carruagem de modelo
idêntico ao da Denniz.
– Onde é que entramos? – pergunta o comandante.
– A primeira porta está aberta, mas bloqueada com uma ou mais
bilhas de gás – explica Joona.
– Estão a ouvir? – pergunta o comandante, virando-se para o
grupo.
Joona coloca o mapa grande sobre o desenho e aponta as várias
linhas de manobra e a localização das carruagens.
– Penso que conseguimos avançar até este ponto sem sermos
detetados. É difícil determinar, mas pelo menos até aqui.
– Sim, é o que parece.
– A distância é curta, mas quero um atirador no telhado da
carruagem mais próxima.
– Sou eu – diz um dos homens.
– E eu posso posicionar-me aqui – diz o atirador mais novo.
Em grandes passadas, o grupo segue Joona até à porta de aço.
Um dos polícias passa em revista, pela última vez, os cartuchos de
reserva, e Joona veste um colete de proteção.
– O nosso objetivo primário é retirar o miúdo da carruagem, e o
objetivo secundário é deter a suspeita – declara Joona, abrindo a
porta. – Eventuais disparos contra a rapariga devem ser dirigidos
em primeiro lugar para as pernas e depois para os ombros e braços.
Uma escada comprida e acinzentada conduz aos subterrâneos do
depósito das oficinas de manutenção, onde os comboios ficam
temporariamente estacionados a aguardar grandes reparações.
Atrás de Joona, apenas se ouve o som abafado das pesadas
botas e dos coletes de proteção com placas de cerâmica.
105

Quando entra no túnel, o grupo move-se mais devagar,


cautelosamente. O ruído dos passos na gravilha e nos carris
enferrujados ecoa nas paredes revestidas de metal do subterrâneo.
Aproximam-se de uma composição amolgada, em volta da qual
paira um cheiro estranho. As carruagens parecem os restos
esquecidos de uma civilização extinta. Os focos das lanternas
deslocam-se sobre a superfície irregular das paredes.
Os homens caminham em fila, ágeis e quase sem ruído. Os carris
ramificam-se junto de uma agulha manual. Uma lâmpada vermelha,
com o globo estalado, emite um brilho fraco. No cascalho escuro
está caída uma luva de trabalho suja.
Joona faz sinal ao grupo para que apaguem as lanternas antes de
avançarem mais no estreito espaço entre duas carruagens
abandonadas, com as vidraças partidas.
Junto à parede de onde pendem cabos soltos, tomadas e outras
peças empoeiradas do sistema elétrico, há uma caixa de cartão com
cavilhas engorduradas.
Estão já muito próximos e movimentam-se cautelosamente. Joona
aponta uma carruagem ao primeiro atirador. Os outros elementos
aplicam as luzes nas armas e espalham-se, enquanto o atirador
sobe silenciosamente ao telhado da carruagem, monta o tripé e
começa a ajustar a mira telescópica Hensoldt.
O resto do grupo aproxima-se da última carruagem do túnel. A
tensão contida transparece na respiração pesada dos homens. Um
deles verifica compulsivamente o fecho do capacete. O comandante
troca um olhar com o atirador mais novo e desenha no ar uma linha
de fogo.
Alguém escorrega no cascalho e uma pedra ressalta no carril.
Uma ratazana corre junto à parede e desaparece num buraco.
Joona avança sozinho ao lado do carril. A carruagem Denniz está
numa linha secundária mais próxima da parede. Do teto pendem
cabos e cordas. Joona desvia-se um pouco para o lado e observa
uma luz fraca que se move no interior das janelas sujas, com riscos
castanhos. O foco esvoaça como uma borboleta amarela, fazendo
dançar as sombras, que aumentam e diminuem, rodopiando.
O comandante retira do cinto uma granada de choque.
Joona para à escuta durante um momento, antes de continuar a
avançar, com o desagradável pressentimento de se encontrar na
linha de fogo, de as miras dos atiradores estarem neste momento
focadas nas suas costas e de eles estarem a observá-lo pela mira.
Na abertura da porta foi colocada uma bilha de gás metálica,
pintada de verde.
Joona aproxima-se lentamente da carruagem e baixa-se. Encosta
o ouvido à chapa e ouve passos arrastados no interior.
O comandante faz sinal a dois dos seus homens. Dois vultos de
forma indefinida aproximam-se, como demónios a correr na
escuridão. São ambos altos e fortes, mas deslocam-se quase
silenciosamente. Não se ouve mais do que o eco surdo do roçar dos
coldres, dos coletes de proteção e dos pesados fatos-macaco.
Joona nem tirou ainda a pistola, mas vê que os homens da força
de intervenção já têm o dedo no gatilho das espingardas
automáticas.
É difícil ver alguma coisa através das janelas da carruagem. Há
uma pequena lanterna no chão. A luz espalha-se sobre caixas de
cartão rasgadas, garrafas vazias e sacos de plástico.
Entre dois assentos, vê uma trouxa volumosa, envolvida em
cordas.
A luz da pequena lanterna começa a tremer. A carruagem vibra
levemente. Talvez haja movimento nos carris, a uma certa distância.
As paredes e o teto ressoam.
Ouve-se um gemido débil.
Cautelosamente, Joona empunha a pistola.
No interior da carruagem, uma sombra desliza na direção
contrária à deles. Um homem forte, com jeans e ténis muito sujos,
afasta-se furtivamente.
Joona insere o primeiro cartucho, volta-se para o comandante,
indica a posição do homem na carruagem e faz sinal para que
avancem de imediato.
106

Ouve-se um estrondo seco quando a porta do meio é arrombada


e cai. De seguida, a força de intervenção invade a carruagem.
Há janelas partidas e cacos de vidro que voam sobre os assentos
rasgados e caem no chão.
O homem grita numa voz áspera.
A bilha de gás tomba com um ruído pesado, e o árgon começa a
escapar-se, silvando, para dentro da carruagem. As portas interiores
são forçadas e caem com um baque seco.
Joona passa por cima de cobertores bafientos, embalagens de
ovos e jornais muito pisados. O cheiro pungente do gás enche a
carruagem.
– Não se mexam! – grita alguém.
Os feixes de luz de duas espingardas inspecionam a carruagem
por secções, os espaços entre os assentos e por trás das placas
sujas de plexiglas.
– Não me batam! – grita um homem, na outra secção.
– Calado!
O comandante isola com fita gomada a válvula quebrada da bilha
de gás.
Joona dirige-se rapidamente para a cabina do maquinista.
Não há sinais de Vicky Bennet ou Dante.
Cheira a suor e a comida estragada. As paredes e as janelas
estão riscadas e cheias de pinturas.
Alguém esteve a comer frango assado num papel engordurado,
que ficou no chão. Entre os assentos, veem-se latas de cerveja e
papéis de rebuçados.
O papel de jornal espalhado no chão range sob os pés do
comissário.
A luz fraca do exterior que atravessa as janelas vandalizadas
projeta as marcas das vidraças.
Joona continua a avançar para a cabina do maquinista, a que
pertence a chave com o nome Dennis.
A força de intervenção já arrombou a porta e Joona entra. O
pequeno habitáculo está vazio. As paredes estão cobertas de riscos
e gatafunhos. Sobre o painel de instrumentos há uma seringa sem
agulha, pedaços queimados de folha de alumínio e cápsulas de
plástico vazias. Na pequena prateleira em frente dos dois pedais há
uma caixa de paracetamol e um tubo de pasta dos dentes.
Era aqui que a mãe de Vicky se escondia algumas vezes, e foi a
chave desta cabina que ela deu à filha, há muitos anos.
Joona continua a inspecionar a cabina e encontra um X-ato
enferrujado preso às molas sob o assento, papéis de rebuçados e
um frasco de comida para bebé que conteve puré de ameixa.
Através da janela lateral, vê os polícias da força de intervenção
arrastarem o homem de jeans, que tem o rosto muito marcado e um
olhar aterrorizado. O homem tosse, cuspindo sangue que lhe
escorre pela barba, e grita. Tem as mãos presas atrás das costas
com algemas de plástico. Deitam-no no chão e encostam-lhe o cano
da espingarda automática à nuca.
Joona olha em volta no espaço confinado, observando
rapidamente os botões e puxadores, o microfone e a alavanca com
o punho em madeira envernizada, mas não sabe onde procurar
mais. Pensa em voltar à carruagem destinada aos passageiros, mas
obriga-se a ficar mais um pouco e a passear novamente o olhar pelo
painel de instrumentos e o assento do maquinista.
Porque é que Vicky e a mãe tinham a chave desta cabina?
Aqui não há nada.
Joona ergue-se e inspeciona os parafusos que fixam a grelha de
ventilação. O olhar desliza para o lado e pousa numa das palavras
garatujadas na parede: mamã.
Recua um passo e constata imediatamente que quase tudo o que
foi escrito e gravado nas paredes são mensagens entre Vicky e a
mãe. Isto devia ser um ponto de encontro para elas, onde se
sentiam em segurança, e quando não se conseguiam encontrar
deixavam mensagens.
«Mãe, eles tratavam-me mal, não consegui ficar lá.»
«Estou com frio e preciso de comer. Tenho de me ir embora, mas
volto na segunda-feira.»
«Não tejas triste, Vicky! Meteram-me num lar de recupração foi
por isso que não vim.»
«Obrigada pelos doces.»
«Querida, agora durmo aqui por uns tempos o Uffe é um cabrão!!
Se puderes deixar algum dinheiro, seria bom.»
«Feliz Natal, mãe.»
«Sabes, eu agora não posso tar a tefolnar pra ti.»
«Mãe, estás zangada comigo?»
107

Quando Joona sai da cabina, os polícias já viraram o homem de


barba. Está sentado, encostado à parede. Chora e parece muito
desorientado.
– Procuro uma rapariga e um miúdo – diz Joona. Tira o colete de
proteção e agacha-se junto do homem.
– Não me batam – murmura ele.
– Ninguém lhe vai bater, mas eu preciso de saber se viu uma
rapariga nesta carruagem.
– Eu não lhe toquei, fui só atrás dela.
– Onde é que ela está?
– Fui só atrás dela – repete ele, lambendo sangue dos lábios.
– Estava sozinha?
– Não sei. Fechou-se na cabina.
– Tinha um rapazinho com ela?
– Um rapazinho? Sim, talvez… talvez…
– Responde como deve ser – interrompe o comandante do grupo.
– Veio atrás dela até aqui – continua Joona, – mas o que é que
ela fez depois?
– Foi-se embora – responde ele, com um olhar amedrontado.
– Para onde? Sabe?
– Para aquele lado – responde o homem, fazendo um gesto na
direção do corredor.
– Está ali no corredor, é isso que está a dizer?
– Talvez não… Talvez…
– Responde! – grita-lhe o comandante.
– Mas eu não sei – soluça o homem.
– Pode dizer quando é que ela esteve aqui? – pergunta Joona
cautelosamente. – Foi hoje?
– Foi mesmo agora – diz ele. – Pôs-se a gritar e…
Joona começa a correr ao longo da linha secundária e ainda ouve
o comandante continuar o interrogatório. Numa voz rouca e brusca,
pergunta ao homem o que é que ele fez à rapariga, se lhe tocou.
Joona corre ao lado dos carris enferrujados. Diante dele, a
escuridão parece mover-se em sombras de fumo.
Sobe uma escada que desemboca num corredor. Ao longo do
teto, veem-se canos desprotegidos.
Ao fundo, vê uma porta grande. A luz que entra em salpicos
reflete-se no chão de cimento molhado. A porta tem a parte inferior
partida, e ele consegue passar por baixo. Subitamente, encontra-se
no exterior, sobre o balastro que serve de suporte a mais de uma
dezena de carris enferrujados. Os carris juntam-se mais à frente,
como num rabo de cavalo, e descrevem uma curva suave.
À distância, Joona vê uma figura pequena que caminha
acompanhada por um cão, e começa a correr na direção dela. Uma
composição passa ao lado dele, em alta velocidade. O chão treme.
Joona vê-a aparecer entre as carruagens enquanto corre pela erva
que cresce ao longo do talude. O solo está coberto de cacos de
vidro, lixo e preservativos. Ouve-se um zumbido elétrico e um
segundo comboio aproxima-se, vindo de Skärmarbrink. Joona está
quase a alcançar a figura franzina. Salta por cima dos carris, agarra-
lhe o braço magro e vira-a para ele. Surpreendida, ela tenta bater-
lhe, e Joona desvia a cara. O braço dela escapa-lhe, mas consegue
agarrar-lhe o casaco. A mulher tenta bater-lhe novamente, puxa e
consegue soltar-se do casaco, deixa cair a mala e cai para trás
sobre o cascalho.
108

Joona segura a mulher no solo, entre cardos e cicuta seca,


prende-lhe a mão, arranca-lhe a pedra que ela agarrou e tenta
acalmá-la.
– Só quero falar, só quero…
– Largue-me! – grita ela, tentando libertar-se.
Dá pontapés, mas Joona imobiliza-lhe as pernas e mantém-na
presa ao chão. Tem uma respiração de coelho assustado,
entrecortada e ofegante, que lhe eleva os seios pequenos. É uma
mulher muito magra, com o rosto curtido e os lábios rebentados.
Pode ter quarenta anos, pode ter apenas trinta. Não conseguindo
libertar-se, começa a pedir desculpa em voz sumida e a falar para si
própria, dizendo que o vai compensar.
– Acalme-se, vá – insiste o comissário, largando-a.
A mulher olha-o timidamente enquanto se levanta e apanha do
chão a mala de pôr ao ombro. Os braços magros estão cheios de
cicatrizes de injeções e no lado interno de um deles vê-se uma
tatuagem destruída por cortes. Na T-shirt preta, muito suja, lê-se a
frase: «Kafka também não teve uma vida porreira.» Ela passa a mão
pelos cantos da boca, lança um olhar aos carris e dá um passo
hesitante para o lado.
– Não tenha medo, mas eu tenho de falar consigo.
– Não tenho tempo – responde ela muito depressa.
– Viu alguém quando estava na carruagem, no depósito?
– Não percebo.
– Você estava numa carruagem do metro.
Ela não responde. Aperta os lábios e coça o pescoço. Joona pega
no casaco dela, vira-o do direito e entrega-lho. Ela aceita-o sem
agradecer.
– Procuro uma rapariga que…
– Deixe-me em paz, eu não fiz nada.
– Eu não disse isso – responde Joona, em tom cordato.
– Então o que é que quer?
– Procuro uma rapariga que se chama Vicky.
– O que é que eu tenho a ver com isso?
Joona mostra-lhe a fotografia de Vicky.
– Não conheço – responde ela automaticamente.
– Veja melhor.
– Tem dinheiro?
– Não.
– Não me pode dar algum dinheiro?
Uma nova composição passa na ponte, chiando e produzindo
faíscas nos carris.
– Sei que você costuma estar na cabina do maquinista – diz
Joona.
– Foi a Susie que começou – responde a mulher, na defensiva.
Joona mostra-lhe novamente a fotografia de Vicky.
– É a filha da Susie – explica ele.
– Não sabia que ela tinha filhos – diz a mulher, coçando o nariz.
O cabo de alta tensão junto ao solo começa a zumbir.
– Como é que conheceu a Susie?
– Parávamos nas hortas comunitárias da Câmara, enquanto isso
durou… Eu ao princípio estava muito mal, tinha hepatite, e o Vadim
estava sempre a moer-me o juízo… Levei tanta porrada, foda-se,
mas a Susie ajudou-me… Era uma gaja tesa, raios a partam, mas
se não fosse ela eu não me tinha safado nesse inverno, não me
safava… Quando a Susie morreu, fiquei com as coisas dela,
porque…
A mulher murmura alguma coisa e remexe na mala. Tira uma
chave do mesmo tipo da que Vicky tinha no saco.
– Porque é que tirou a chave?
– Porque sim, porra, qualquer pessoa tirava, as coisas são assim.
Até tirei a chave ainda antes de ela morrer – confessa.
– O que é que havia na carruagem?
A mulher esfrega um dos cantos da boca, resmunga «Merda…»
para si própria e dá um passo para o lado.
Em vias diferentes, aproximam-se dois comboios. Um vem de
Blåsut e o outro saiu da estação de Skärmarbrink.
– Preciso de saber isso – diz Joona.
– Está bem, que se lixe – responde ela, com um olhar vacilante. –
Havia um bocado de droga e um telemóvel.
– Ainda tem o telemóvel?
O ruído metálico aumenta de intensidade.
– Não pode provar que não é meu.
O primeiro comboio passa em grande velocidade. O chão treme-
lhes sob os pés. Do talude caem pedras soltas, e a erva abana com
a deslocação de ar. Um copo de plástico do McDonalds rola entre os
carris.
– Só quero vê-lo – grita ele.
– Pois, pois – responde a mulher, rindo.
As roupas deles esvoaçam. O cão ladra nervosamente. A mulher
recua, ao lado das carruagens que passam, diz qualquer coisa e
depois começa a correr na direção do depósito. O que acontece é
tão inesperado, que Joona não tem tempo de reagir. É óbvio que ela
não viu a composição que vinha em sentido contrário. O comboio
ganhou velocidade e o barulho é ensurdecedor. Estranhamente, não
se ouve nada quando ela é colhida pela primeira carruagem.
A mulher desaparece simplesmente sob os vagões.
Num momento, com os freios a chiar, Joona ainda regista as
gotas de sangue que se juntaram nas folhas côncavas da erva pé-
de-leão que cresce no talude. O comboio trava, emitindo um rangido
estranho e prolongado. Arfando, em solavancos, as carruagens
abrandam e por fim param. Tudo fica em silêncio e pouco depois
volta a ouvir-se o zumbido dos insetos. O maquinista fica gelado no
seu lugar. Um fio de sangue corre sobre as chulipas, entre os carris,
de uma massa vermelho-escura de roupa e carne. O cheiro dos
travões inunda o ar. O cão anda para a frente e para trás ao longo
dos carris, ganindo, com a cauda entre as pernas, sem saber onde
parar.
Joona aproxima-se lentamente e apanha a mala da mulher.
Quando despeja o conteúdo no chão, o cão vem cheirá-lo. Papéis
de rebuçados e algumas notas esvoaçam para longe levados pelo
vento. Joona retira o telemóvel preto e vai sentar-se num pedaço de
betão no talude.
Um vento de oeste traz os cheiros da cidade e de resíduos.
Joona procura a ligação às mensagens de voz e fica a saber que
há duas novas mensagens.
«Olá, mãe», diz uma voz de rapariga, que Joona imediatamente
atribui a Vicky. «Porque é que não respondes? Se vais para a
desintoxicação, quero que me avises. É para te dizer que gosto
deste centro novo. Se calhar também disse o mesmo do anterior…»
«Mensagem recebida em 1 de agosto, às 23h10», anuncia a voz
automática.
«Olá, mãe», diz Vicky, em voz tensa e arquejante. «Aconteceram
coisas, e eu tenho de falar contigo, não posso falar muito, o
telemóvel não é meu… Mãe, não sei o que hei de fazer… Não tenho
para onde ir, talvez tenha de pedir ajuda ao Tobias.»
«Mensagem recebida ontem, às 14h05.»
O sol rompe subitamente no céu cinzento. As sombras definem-
se, e a superfície polida dos carris brilha ao longo da via.
109

Elin Frank acorda na enorme cama do hotel. A luz esverdeada do


relógio do televisor espalha-se no quarto da suíte presidencial. As
cortinas coloridas ocultam as de blackout, que servem para
escurecer o quarto.
Elin dormiu muito.
O perfume adocicado das flores na sala de estar sufoca-a, e o
aparelho de ar condicionado espalha um frio desigual, mas ela está
demasiado cansada para tentar desligá-lo ou telefonar para a
receção.
Pensa nas raparigas, na casa junto ao mar. Alguma delas deve
saber mais do que conta. Tem de haver uma testemunha.
A pequena Tuula falava e movia-se como se estivesse a ferver
por dentro. Talvez tenha visto alguma coisa que não se atreve a
contar.
Elin recorda o momento em que Tuula a agarrou pelo cabelo e
tentou espetar-lhe um garfo na cara.
Aquilo assustou-a, mas não tanto quanto pensava.
Desliza a mão sobre o lençol e mete-a debaixo da almofada. A
ferida no pulso dói-lhe. Recorda a provocação das raparigas, que se
juntaram contra Daniel assim que perceberam o seu ponto fraco.
Elin vira-se debaixo do lençol e pensa no rosto de Daniel, na boca
bem desenhada e nos olhos sensíveis. Estranhamente, manteve-se
fiel a Jack até ao deslize com o fotógrafo francês. Não foi,
evidentemente, uma fidelidade intencional. Sabe que estão
separados e que ele não voltará para ela.
Depois do duche, Elin aplica a loção hidratante do hotel, muda a
ligadura do pulso e veste, pela primeira vez na sua vida, a mesma
roupa que trazia no dia anterior.
É-lhe quase impossível compreender os acontecimentos desse
dia. Começou com o comissário simpático da Polícia Criminal a
dizer que tinha a certeza de que Vicky estava viva.
Sem hesitar, ela tinha ido ao hospital de Sundsvall e insistido com
o pessoal até conseguir falar com Daniel Grim.
Elin tem o rosto afogueado pelas emoções quando tira da mala a
bolsa de maquilhagem e começa a pintar-se, com movimentos
lentos.
Daniel tinha-a acompanhado a Hårte e Elin encontrara o porta-
chaves de Vicky.
Na viagem de regresso, no carro, Daniel tentara lembrar-se se
Vicky alguma vez tinha falado num Dennis e ficara frustrado e
envergonhado por não conseguir lembrar-se.
Sente uma impressão na barriga quando pensa em Daniel Grim,
como se caísse de repente de uma grande altura, e isso dá-lhe
prazer.
Já era muito tarde quando ela parou o carro à porta da casa dele
em Sundsvall. Um caminho de gravilha conduzia a um velho jardim.
O vento agitava os ramos obscuros das árvores diante de uma
pequena casa vermelho-escura, com um alpendre pintado de
branco.
Se Daniel a tivesse convidado a entrar, teria provavelmente
acedido e, seguramente, teria feito amor com ele. Mas não
convidou. Foi prudente e afável e, quando Elin lhe agradeceu a
ajuda, ele respondeu que aquela viagem tinha sido melhor do que
qualquer terapia.
Quando o viu passar o pequeno portão e afastar-se em direção à
casa, sentiu-se terrivelmente só. Deixou-se ficar um momento
parada e depois arrancou para Sundsvall e registou-se no First
Hotel.
O telemóvel começa a zumbir dentro da carteira pousada ao lado
da taça de fruta na sala da suíte, e ela corre para ir atender. É Joona
Linna.
– Ainda está em Sundsvall? – pergunta o comissário.
– Vou agora pagar e sair do hotel – responde Elin, sentindo uma
onda de medo percorrer-lhe o corpo. – Aconteceu alguma coisa?
– Não, não fique assustada – apressa-se Joona a dizer. – Só
preciso de ajuda com mais uma coisa, se tiver tempo.
– O que é?
– Se não for incómodo, queria que perguntasse uma coisa ao
Daniel Grim.
– Sim, posso perguntar – responde Elin num tom reservado, mas
sem conseguir impedir-se de sorrir para si própria.
– Pergunte-lhe se a Vicky alguma vez falou num Tobias.
– Dennis e Tobias – diz ela pensativamente.
– Só Tobias… Neste momento, é a nossa única pista para
encontrar a Vicky.
110

São nove menos um quarto da manhã quando Elin Frank conduz


por entre as moradias de Bruksgatan. O sol inunda a rua. Elin
estaciona junto a uma sebe compacta. Sai do carro e transpõe o
portão baixo.
A casa está bem cuidada. O telhado preto de duas águas parece
novo, e a estrutura decorativa da varanda pintada de branco brilha
ao sol. Ali viveram Daniel e Elisabet Grim até à noite da última
sexta-feira. Elin treme quando toca à campainha. Espera bastante
tempo, ouvindo o vento a passar entre as folhas de uma enorme
bétula. Num dos jardins adjacentes, o motor de um corta-relva cala-
se. Elin toca uma segunda vez, espera mais um pouco e depois
contorna a casa.
Pequenos pássaros levantam voo da relva. Junto a uns lilases
altos, há uma cama de baloiço azul-escura, onde Elin encontra
Daniel a dormir. Tem o rosto muito pálido e está encolhido, como se
tivesse frio.
Elin aproxima-se, e ele acorda de repente, senta-se e olha-a
interrogativamente.
– Está muito frio para dormir aqui fora – diz Elin, sentando-se.
– Não fui capaz de ficar dentro de casa – confessa ele. Desvia-se
um pouco para lhe dar espaço.
– A Polícia ligou-me hoje de manhã – diz Elin.
– O que é que queriam?
– A Vicky alguma vez falou num Tobias?
Daniel franze o sobrolho e, quando Elin vai pedir desculpa por
estar a pressioná-lo, ele levanta a mão.
– Espere – diz –, esse é o que tinha um apartamento numas
águas-furtadas em Estocolmo, e ela viveu com ele durante algum
tempo…
O rosto cansado de Daniel abre-se num sorriso caloroso.
– Wollmar Yxkullsgatan, número 9.
Elin balbucia qualquer coisa e tira o telemóvel da carteira. Daniel
abana a cabeça.
– Como é que eu sei isto, caramba? – lança ele para o ar. –
Esqueço-me de tudo. Nem me lembro do nome completo dos meus
pais.
Elin levanta-se, vai pôr-se ao sol, na relva, e telefona a Joona
para lhe contar o que acabou de descobrir. Ouve o comissário
começar a correr enquanto ela fala e, antes de a conversa terminar,
soa o bater da porta de um carro.
111

O coração de Elin bate mais depressa quando ela se senta


novamente ao lado de Daniel e sente o calor do corpo dele na coxa.
Daniel encontrou a rolha de uma garrafa de vinho entre as
almofadas e, de olhos franzidos, tenta ler o que tem escrito.
– Fizemos um curso de enologia e começámos a colecionar
vinhos. Nada de especial, mas alguns bastante bons, presente de
Natal… Bordeaux… Duas garrafas de Château Haut-Brion 1970.
Íamos bebê-las quando nos reformássemos, a Elisabet e eu. Faz-se
tantos planos… Até guardámos um bocadinho de marijuana. Era
uma brincadeira. Às vezes brincávamos com isso, dizíamos que
quando chegássemos a velhos é que podíamos ser jovens. Nessa
altura é que se pode ouvir música muito alto e dormir a manhã toda.
– Tenho de ir para Estocolmo – diz Elin.
– Sim.
Baloiçam juntos, e as molas grossas e enferrujadas rangem.
– A casa é bonita – diz Elin e pousa a mão sobre a dele.
Ele vira-a e entrelaça os dedos nos dela. Deixam-se ficar em
silêncio, ouvindo o ranger suave da cama de baloiço.
O cabelo forte e brilhante de Elin tapa-lhe o rosto, e ela afasta-o e
olha Daniel nos olhos.
– Daniel – murmura ela.
– Sim… – responde ele num sussurro.
Elin olha-o e pensa que nunca precisou tanto da ternura de
alguém como neste momento. Alguma coisa no olhar dele, na testa
franzida, toca-a profundamente. Dá-lhe um beijo cauteloso nos
lábios, sorri e beija-o novamente, segura-lhe o rosto com as mãos e
continua a beijá-lo.
– Meu Deus – diz ele.
Elin beija-o novamente, arranhando os lábios na barba por fazer,
abre a parte de cima do vestido e conduz-lhe a mão para os seios.
Ele toca-a muito cautelosamente, roçando um mamilo.
Daniel tem uma expressão terrivelmente vulnerável. Ela volta a
beijá-lo, mete a mão dentro da camisa dele e sente o ventre
contrair-se quando lhe toca.
Elin é percorrida por uma onda de desejo. Sente-se sem força nas
pernas e gostava de se deitar na relva com ele ou sentar-se em
cima dele.
Fecha os olhos e aperta-se contra Daniel, que lhe diz qualquer
coisa que ela não ouve. O sangue corre depressa nas suas veias.
Sente as mãos quentes de Daniel na pele, mas subitamente ele
para e afasta-se.
– Elin, não sou capaz…
– Desculpa, não te queria magoar – diz Elin, tentando respirar
calmamente.
– Preciso de algum tempo – diz ele com lágrimas nos olhos. – É
muita coisa neste momento, mas não te quero afastar…
– Não afastas – responde Elin, tentando sorrir.
Abandona o jardim, ajeita o vestido e entra no carro. Tem as faces
coradas e as pernas a tremer quando parte de Sundsvall. Passados
cinco minutos, mete por um caminho na floresta e imobiliza o carro,
com os músculos a arder e o coração descompassado. Observa o
rosto no espelho retrovisor. Tem os olhos brilhantes e os lábios
ligeiramente inchados.
As cuecas estão molhadas. O sangue ferve-lhe no corpo. Não se
lembra de alguma vez ter sentido um desejo sexual tão intenso.
Daniel parece estranhamente indiferente à aparência física dela,
como se olhasse diretamente para o seu coração.
Elin procura controlar a respiração e deixa-se ficar imóvel durante
um momento, mas depois olha em volta, inspecionando o caminho
estreito, levanta o vestido, eleva-se no assento e tira as cuecas.
Acaricia-se rapidamente com as duas mãos. O orgasmo surge
abruptamente, violento. Elin Frank fica sentada no carro, suada e
arquejante, com dois dedos dentro do corpo, observando através do
vidro o efeito mágico dos raios de sol que atravessam os ramos dos
pinheiros.
112

Começou a escurecer quando Flora se dirige ao ecoponto atrás


do supermercado Ica, para procurar garrafas e latas. Pensa
constantemente nos crimes de Sundsvall, fantasiando sobre
Miranda e a vida dela no Centro Birgitta.
Imagina Vicky vestida de forma provocante, a fumar e a gritar
palavrões. Interrompe a fantasia quando chega à zona de carga e
descarga, nas traseiras da loja. Para, vasculha nas caixas de cartão
por baixo da plataforma de descarga e depois segue.
Visualiza Miranda a brincar às escondidas com os amigos junto a
uma igreja.
O coração acelera quando lhe surge a imagem de Miranda,
tapando os olhos, a contar até cem. Uma menina de cinco anos
corre entre as lápides do cemitério rindo às gargalhadas, embora
com um pouco de medo.
Flora para junto aos contentores para papel. Pousa no chão o
saco de plástico onde já tem garrafas de PET e latas, aproxima-se
do contentor grande para vidro incolor e ilumina o interior com a
lanterna de bolso. A luz reflete-se nas garrafas e nos cacos de vidro,
quase a encandeando. Num dos lados, ao fundo, descobre uma
garrafa que vale dinheiro. Estende o braço pela abertura e procura
cautelosamente com a mão, sem ver. Reina um silêncio total. Flora
estica-se mais. De repente sente um toque, como uma carícia tímida
nas costas da mão, e logo a seguir corta os dedos num caco de
vidro. Retira rapidamente o braço e recua.
Ao longe, ouve-se ladrar um cão e em seguida um barulho
prolongado de vidros a partirem-se dentro do contentor grande.
Flora foge a correr do ecoponto e depois caminha algum tempo
com o coração acelerado e a respiração ofegante. Os dedos em que
se cortou ardem-lhe. Olha em volta e pensa que o fantasma se
escondeu entre os vidros do contentor.
«Vejo a rapariga morta em criança», pensa ela. «A Miranda
persegue-me porque me quer mostrar alguma coisa. Não me deixa
em paz, porque fui eu que a chamei, com as minhas sessões.»
Flora chupa o sangue dos dedos e imagina a rapariga a tentar
agarrar-lhe a mão e prendê-la.
«Alguém estava lá e viu tudo», diz-lhe a rapariga, na sua
imaginação. «Não devia haver testemunhas, mas há…»
Flora acelera novamente o passo, olha para trás e solta um grito
quando choca com um homem, que exclama «Ups!». Flora continua
a andar rapidamente.
113

Joona transpõe a porta principal do número 9 da Wollmar


Yxkullsgatan. Sobe as escadas a correr até ao último piso e toca à
campainha do único apartamento. O ritmo do coração abranda
enquanto espera. Na porta lê-se o nome Horáčková gravado numa
placa de latão, e por baixo o nome Lundhagen colado com fita-cola.
Joona bate com força na porta, mas não se ouve qualquer som
dentro do apartamento. Espreita pela abertura do correio. Está
escuro, mas ele vê o chão coberto de cartas e publicidade. Joona
toca novamente à campainha, espera mais um pouco e liga para
Anja.
– Podes procurar um Tobias Horáčková?
– Não existe – responde ela, ao fim de alguns segundos.
– Então Horáčková no número 9 da Yxkullsgatan.
– Sim, Viktoriya Horáčková – responde Anja, continuando a bater
no teclado.
– Existe um Tobias Lundhagen?
– Quero só dizer-te que a Viktoriya Horáčková é filha de um
diplomata checo.
– E existe um Tobias Lundhagen?
– Sim, na mesma morada. Ou é sublocatário, ou vivem juntos.
– Obrigado.
– Joona, espera – diz Anja apressadamente.
– Sim?
– Três pequenos pormenores. Não podes entrar num apartamento
que é propriedade de um membro do corpo diplomático sem um
mandado do tribunal…
– Primeiro pormenor – diz ele.
– Tens uma reunião com os inspetores dos Assuntos Internos
daqui a vinte e cinco minutos.
– Não tenho tempo.
– E às quatro e meia tens uma reunião com o Carlos.

Joona está sentado muito direito numa cadeira de braços na


Secção de Processos da Polícia, do Ministério Público. O relator do
inquérito interno lê, em tom monocórdico, a transcrição do primeiro
interrogatório a Joona e depois entrega-lhe as folhas para ele
aprovar e assinar.
Mikael Båge funga, entrega as folhas à chefe do Secretariado,
Helene Fiorine, e passa a ler a ata do interrogatório da testemunha
Göran Stone, da Polícia de Segurança do Estado.
Três horas depois, Joona atravessa a ponte Kungsbron e percorre
a curta distância até à sede da Polícia. Sobe no elevador até ao
oitavo piso, bate à porta do gabinete de Carlos Eliasson e senta-se
à mesa de reuniões, onde já o esperam os colegas Petter Näslund,
Benny Rubin e Magdalena Ronander.
– Joona, eu sou uma pessoa bastante tolerante, mas agora basta
– diz Carlos enquanto dá de comer aos peixes-paraíso no aquário.
– Força de intervenção… – diz Petter com um sorriso trocista.
Magdalena fica em silêncio, com o olhar pousado na mesa.
– Pede desculpa – diz Carlos.
– Por estar a tentar salvar a vida de uma criança? – pergunta
Joona.
– Não, porque sabes que fizeste mal.
– As minhas desculpas – diz Joona.
Petter dá uma risadinha e limpa o suor da testa.
– Vou proibir-te de exercer quaisquer funções – continua Carlos –
até estar concluído o processo de inquérito interno.
– Quem fica com o meu trabalho? – pergunta Joona.
– A investigação preliminar relativa aos crimes de Birgitta foi
retirada dos casos prioritários e, muito provavelmente…
– A Vicky Bennet está viva – interrompe-o Joona.
– E muito provavelmente – continua Carlos –, a procuradora
decidirá, já amanhã à tarde, encerrar a investigação.
– Ela está viva.
– Haja bom senso, caraças! – diz Benny. – Eu vi as imagens e…
Carlos pede-lhe silêncio com um gesto e prossegue.
– Nada indica que as imagens que a câmara de vigilância
apanhou correspondam à Vicky e ao menino.
– Ela deixou uma mensagem no telemóvel da mãe anteontem –
diz Joona.
– A Vicky não tem telefone e a mãe morreu – diz Magdalena com
gravidade.
– Joona, estás a ficar desmazelado – comenta Petter em tom
lamentoso.
Carlos pigarreia, hesita e depois respira fundo.
– Isto para mim não tem graça – diz, pausadamente.
Petter olha-o, surpreendido. Magdalena, com as faces vermelhas,
fixa o olhar na mesa e Benny faz desenhos num papel.
– Vou tirar uma licença de um mês – anuncia Joona.
– Ótimo – diz Carlos prontamente, com um suspiro. – Isso
resolve…
– Mas só se antes disso puder entrar num certo apartamento –
conclui Joona.
– Um apartamento?
O rosto de Carlos ensombra-se e ele senta-se à secretária, como
se tivesse perdido as forças.
– Foi comprado há dezassete anos pelo embaixador da República
Checa na Suécia, que o cedeu à filha, de vinte anos.
– Esquece – suspira Carlos.
– Mas a filha não usa o apartamento há doze anos.
– Isso não importa. Desde que seja propriedade de uma pessoa
que goza de imunidade diplomática, o artigo 21.° não se aplica.
Anja Larsson entra na sala sem bater à porta. Traz o cabelo louro
elaboradamente apanhado num puxo e um gloss muito brilhante nos
lábios. Dirige-se a Carlos, olha-o e aponta para a cara dele.
– Tem a cara suja.
– Será a barba? – diz Carlos, em voz baixa.
– O quê?
– Talvez me tenha esquecido de me barbear – diz Carlos.
– Não lhe fica bem.
– Pois não – responde ele, baixando os olhos. – Estávamos…
– Preciso de falar com o Joona. Já acabaram?
– Não – responde Carlos, com a voz incerta. – Estávamos…
Anja debruça-se sobre a secretária. As contas de plástico
vermelho do colar baloiçam no espaço entre os seios. Carlos
controla o impulso de dizer que é casado, quando o olhar pousa
casualmente no decote de Anja.
– Está com um esgotamento? – pergunta Anja, interessada.
– Sim – responde ele baixinho.
Quando Joona se levanta da cadeira e segue Anja, que sai do
gabinete, os colegas limitam-se a olhar em silêncio.
Joona e Anja dirigem-se aos elevadores, e ele carrega no botão
de chamada.
– O que é que querias, Anja? – pergunta Joona.
– Já estás outra vez stressado – diz ela, oferecendo-lhe um
rebuçado embrulhado num papel às riscas. – Só queria dizer que a
Flora Hansen me telefonou e…
– Preciso de uma decisão sobre a busca à residência.
Anja abana a cabeça, tira o papel ao rebuçado e mete-lho na
boca.
– A Flora queria devolver o dinheiro…
– Ela mentiu-me – interrompe Joona.
– Agora só quer que a ouçamos. Disse que há uma testemunha…
A verdade é que ela parecia genuinamente atemorizada e repetiu
várias vezes que tens de acreditar nela, que não quer receber
dinheiro, só quer que tu a ouças.
– Tenho de entrar no apartamento da Wollmar Yxkullsgatan.
– Joona… – suspira Anja.
Desembrulha outro rebuçado, segura-o diante da boca de Joona e
faz beicinho. Ele come o rebuçado e ela ri, encantada. Apressa-se a
desembrulhar outro e estende-o logo a Joona, mas é demasiado
tarde, ele já entrou no elevador.
114

Ao fundo da Wollmar Yxkullsgatan, há balões pendurados numa


porta. No jardim interior, vozes de crianças entoam uma cantiga.
Joona abre uma porta cuja vidraça abana ruidosamente e observa o
pequeno jardim, com um relvado e macieiras. À luz fraca do fim do
dia, vê uma mesa posta, com pratos de cartão e copos de plástico
coloridos, enfeitada com balões e serpentinas. Numa cadeira de
plástico branca está sentada uma mulher grávida, pintada de gato,
que grita qualquer coisa para as crianças que correm pelo jardim.
Joona sente a pontada da saudade. Uma das meninas sai do grupo
e corre na direção dele.
– Olá – diz ela. Passa junto dele e corre para a porta enfeitada
com balões.
Os pés descalços deixam pegadas no chão de mármore branco
do átrio. Abre a porta, e Joona ouve-a gritar na direção do
apartamento que quer fazer chichi. Um dos balões desprende-se,
cai e encontra-se com a sua sombra cor-de-rosa no chão. Joona
repara que a escada está coberta de pegadas até à porta da rua e
em sentido inverso, para cima e para baixo, nos degraus,
contornando os contentores do lixo e até à porta da cave.
O comissário sobe pela segunda vez ao piso das águas-furtadas
e toca à campainha. Observa mais uma vez a placa de latão com o
nome Horáčková e a fita-cola com o nome Lundhagen.
Do jardim interior vem o som abafado das vozes das crianças.
Joona toca novamente e vai pegar no estojo de gazuas quando a
porta se abre e aparece um homem de cerca de trinta anos, com o
cabelo todo espetado. A corrente de segurança não está posta e
pende junto à ombreira da porta. O chão do pequeno hall está
coberto de cartas e folhetos de publicidade. Uma escada de pedra
pintada de branco conduz ao apartamento.
– Tobias?
– Quem é?
O homem veste uma camisa de manga curta e jeans pretos. Tem
o cabelo espetado e cheio de gel e o rosto um pouco amarelado.
– Polícia Criminal – diz Joona.
– No shit! – diz o homem, com um sorriso atónito.
– Posso entrar?
– Não dá muito jeito, porque eu ia justamente sair, mas se…
– Você conhece a Vicky Bennet – interrompe-o Joona.
– Talvez seja melhor entrar por um minuto, então – diz Tobias em
tom grave.
Joona sente subitamente o peso da nova pistola no coldre de
axila quando sobe a pequena escada e entra num apartamento com
teto inclinado e janelas de trapeira. Na mesa baixa há uma taça de
cerâmica com rebuçados. Numa das paredes está pendurada uma
gravura emoldurada que representa uma mulher de aspeto gótico,
com asas de anjo e grandes seios.
Tobias senta-se no sofá e tenta fechar uma mala suja que está no
chão ao lado dele, mas desiste e encosta-se para trás.
– Quer falar sobre a Vicky… – diz Tobias, esticando-se para tirar
uns rebuçados em forma de chupeta da taça de loiça.
– Quando foi a última vez que teve notícias dela? – pergunta
Joona, folheando uma pilha de cartas por abrir pousadas na mesa
de apoio.
– Isso agora… – suspira Tobias. – Não sei. Já deve ter sido quase
há um ano, quando ela telefonou de… Merda! – interrompe-se,
quando deixa cair um rebuçado.
– O que é que ia dizer?
– Que ela me telefonou de… Uddevalla, se não me engano, falou
imenso, mas de facto não sei o que é que ela queria.
– Neste último mês não telefonou?
– Não.
Joona abre uma pequena porta de madeira que dá para um
quarto de vestir. Há quatro jogos de hóquei no gelo metidos nas
suas caixas e numa prateleira está um computador muito riscado.
– Tenho mesmo de sair – diz Tobias.
– Quando é que ela viveu aqui?
Tobias tenta novamente fechar a enorme mala. A janela que dá
para o jardim interior está um pouco aberta e ouvem-se as crianças
lá em baixo a cantar ao aniversariante.
– Há quase três anos.
– Quanto tempo?
– Não esteve aqui sempre, mas sete meses.
– Onde ia quando não estava aqui?
– Sabe-se lá…
– Não sabe?
– Pu-la fora de casa algumas vezes… Portanto… Você não
percebe, ela era uma criança, mas às vezes era o cabo dos
trabalhos tê-la em casa, numa casa mobilada.
– Porquê?
– As coisas do costume… Drogas, roubos, tentativas de suicídio –
diz Tobias, coçando a cabeça. – Mas nunca pensei que ela matasse
alguém. Tenho acompanhado o caso pelo Expressen… Que coisa
horrível.
Tobias olha para o relógio e enfrenta o tranquilo olhar cinzento do
comissário.
– Porquê? – pergunta Joona ao fim de um momento.
– O quê? – pergunta Tobias, embaraçado.
– Porque é que a trouxe para a sua casa?
– Também tive uma infância difícil – responde ele, sorrindo. Tenta
novamente puxar o fecho de correr da mala que está no chão.
É uma mala grande, cheia de leitores de e-book nas embalagens
originais, envoltas em plástico.
– Quer que ajude?
Joona junta as duas partes dentadas enquanto Tobias puxa o
fecho para a esquerda e fecha a mala.
– Lamento isto – diz ele, dando uma palmada na mala. – Mas
juro-lhe que não são meus, só os guardei para fazer um favor a um
amigo.
– Ah, pronto – diz Joona.
Tobias ri e sem querer cospe um bocadinho de rebuçado no
tapete. Levanta-se e desce os degraus para o hall arrastando a
mala. Joona segue-o lentamente até à porta.
– Como pensa a Vicky? Onde é que ela se esconde? – pergunta.
– Não sei, pode ser em qualquer sítio.
– Em quem é que ela confia?
– Em ninguém. – Tobias abre a porta e sai para o patamar.
– Confia em si?
– Acho que não.
– Portanto não há o risco de ela vir aqui?
Joona deixa-se ficar para trás e abre silenciosamente o armário
chaveiro na parede.
– Não, mas talvez vá… Não, esqueça – diz Tobias, carregando no
botão de chamada do elevador.
– O que é que ia dizer? – pergunta Joona, inspecionando as
chaves.
– Estou mesmo com muita pressa.
Joona retira cautelosamente do camarão as chaves de reserva do
apartamento e mete-as no bolso antes de sair, fechar a porta e
entrar no elevador, pondo-se ao lado de Tobias.
115

Quando saem, ouvem os gritos alegres das crianças, vindos do


jardim. Os balões presos na porta entrechocam suavemente, na
corrente de ar. Saem do prédio para o passeio iluminado pelo sol.
Tobias para e olha para Joona, coça uma sobrancelha e depois
contempla a rua.
– Ia dizer qualquer coisa sobre um sítio para onde ela poderá ter
ido – diz Joona.
– Nem sequer me lembro do nome dele – diz Tobias, protegendo
os olhos do sol com uma mão. – Mas sei que é o novo pai da
Mickan, uma miúda que eu conheço… E sei que a Vicky, antes de
vir para a minha casa, dormia num sofá-cama em casa dele, na
praça de Mosebacke… Desculpe, não sei porque estou a dizer isto.
– Qual é o endereço?
Tobias abana a cabeça e endireita a pesada mala.
– Era uma casinha branca, em frente ao teatro.
Joona vê-o desaparecer na esquina, arrastando o malão com as
mercadorias roubadas e pensa que tem de se meter no carro e ir à
praça de Mosebacke bater às portas, mas alguma coisa o faz ficar
parado, com uma estranha inquietação interior. Subitamente, sente
frio. Escureceu, e já passou muito tempo desde que ele comeu ou
dormiu. A dor de cabeça torna-lhe cada vez mais difícil manter as
ideias em ordem. Começa a andar em direção ao carro, mas para
repentinamente quando compreende o que o estava a incomodar.
Não consegue impedir-se de sorrir.
Não percebe como aquilo lhe passou despercebido. Devia estar
muito cansado, para só agora se aperceber.
Talvez fosse demasiado evidente, como uma daquelas ligações
que faltam nas histórias policiais clássicas de mistério.
Tobias disse que tinha seguido o caso pelo vespertino Expressen,
mas falou sempre como se soubesse que Vicky estava viva.
Em princípio, Joona é a única pessoa convencida de que Vicky
não morreu.
Todos os jornalistas do país escreveram nos seus artigos que
Vicky e Dante se tinham afogado no Indal no sábado anterior.
Insistiram muito no aspeto de a lentidão da Polícia estar na origem
do enorme sofrimento da mãe de Dante e tentaram persuadi-la a
mover uma ação.
Mas Tobias sabe que Vicky está viva.
A revelação desta evidência arrasta consigo uma segunda
observação.
Joona sabe o que viu e, em vez de tentar apanhar Tobias, volta-se
repentinamente e regressa ao número 9 da Yxkullsgatan.
Acaba de lhe surgir na mente a recordação do balão cor-de-rosa
que se desprendeu da porta e que rolou, quase sem peso, sobre o
chão de mármore branco do átrio do prédio.
Havia uma grande quantidade de pegadas das várias crianças.
Tinham estado a brincar na escada e a correr atrás uns dos outros,
entrando e saindo, entre o átrio e o jardim.
Joona repete para si próprio que Vicky pode estar descalça,
porque perdeu os ténis no rio. Abre a porta, precipita-se no átrio e
constata que a sua recordação era exata.
As pegadas um pouco maiores de pés descalços dirigem-se para
a porta da cave, mas não regressam.
116

Joona segue as pegadas que se dirigem para a porta de metal,


tira as chaves que roubou no apartamento de Tobias e abre-a.
Enquanto procura o interruptor da luz, a pesada porta fecha-se atrás
dele, deixando-o na escuridão. Logo a seguir a luz pisca e acende-
se, fortíssima. As paredes irradiam frio e, através de um ventilador,
chega-lhe o cheiro pútrido da casa do lixo. Joona fica perfeitamente
imóvel durante um momento, à escuta, e depois desce a escada
íngreme.
No fim da escada há um depósito de bicicletas atravancado, e
Joona passa com dificuldade entre trenós, bicicletas e carrinhos de
bebé e continua por um corredor de teto baixo, ao longo do qual
correm canos revestidos. Nas paredes há portas gradeadas que dão
acesso às arrecadações dos apartamentos.
Joona acende a lanterna e avança uns passos no corredor. Ao
lado dele, soa um zumbido. Volta-se e constata que o motor do
elevador começou a funcionar.
No ar abafado paira um forte cheiro a urina.
Subitamente, ouve alguém mexer-se ao fundo da cave.
Joona recorda a fotografia de Vicky que foi usada para a busca. É
difícil imaginar o rosto tímido e corado a transformar-se numa coisa
totalmente diferente, a encher-se de uma cólera incontrolável. A
única forma de ela conseguir utilizar o pesado martelo seria pegar-
lhe com as duas mãos. Joona tenta imaginá-la a desferir os golpes,
com o sangue a espirrar-lhe para o rosto, e ela a continuar a bater
com o martelo, a limpar o sangue de um olho com o ombro e a bater
novamente.
Tentando respirar sem fazer ruído, Joona desaperta um botão do
casaco e tira a pistola. Ainda não se habituou bem ao peso e ao
ponto de equilíbrio da nova arma.
Numa das arrecadações, há um cavalinho de madeira com o
focinho encostado à grade da porta. Por trás vê-se o brilho de uns
esquis com arestas de aço, bastões e varões de cortinas em latão.
Ouve-se um ruído semelhante ao arrastar de pés no chão de
cimento, mas ele não consegue ver nada.
Sobressalta-se com o pensamento de que Vicky Bennet pode ter-
se escondido por baixo da pilha de trenós velhos por onde ele
passou há pouco e estar agora a aproximar-se pelas suas costas.
Ouve um ruído metálico e vira-se.
O corredor está deserto.
As condutas do esgoto matraqueiam ao longo do teto.
Quando ele se volta de novo, a luz apaga-se automaticamente e a
cave fica na escuridão. Às cegas, Joona tateia com as mãos e
encontra a grade de uma arrecadação. Um pouco adiante, vê uma
pequena luz numa caixa de plástico.
É uma luz amarela, trémula, que indica a presença do interruptor.
Joona espera um momento até os olhos se habituarem à
escuridão antes de recomeçar a andar.
De repente, a luzinha do interruptor apaga-se.
Joona estaca e fica a escutar, concentrado.
Demora um segundo a perceber que a luz de presença do
interruptor deixou de se ver porque alguém se pôs à frente dela.
Agacha-se cautelosamente, para não ser o alvo fácil de um
ataque às cegas.
O mecanismo do elevador ronca atrás de uma porta, e de súbito a
luz de presença fica novamente visível.
Joona recua e ouve um arrastar suave no chão.
Está ali alguém, não há dúvida. Há uma pessoa numa das
arrecadações.
– Vicky! – lança ele no escuro.
A porta da cave abre-se repentinamente, ouvem-se vozes ao cimo
da escada e alguém começa a descer os degraus para o depósito
de bicicletas. As luzes começam a piscar.
Joona aproveita a oportunidade, avança rapidamente alguns
passos, vê um movimento dentro de uma arrecadação e aponta a
pistola a um vulto agachado.
A escuridão é rasgada pelos relâmpagos indolentes da lâmpada
de néon, até que a luz se acende. A porta do depósito das bicicletas
fecha-se e as vozes afastam-se.
Joona guarda a pistola, arranca com um pontapé o pequeno
cadeado e entra na arrecadação. O vulto lá dentro é muito mais
pequeno do que ele pensava. As costas encurvadas movem-se ao
ritmo da respiração rápida.
Não há dúvida de que é Vicky Bennet.
A boca está tapada com fita adesiva e os braços magros presos
atrás das costas, no gradeamento.
Joona aproxima-se para desatar as cordas. Ela tem a cabeça
baixa e a respiração ofegante. O cabelo despenteado cai-lhe sobre
o rosto sujo.
– Vicky, vou desprender…
Ela surpreende-o com um violento pontapé na testa quando ele se
baixa. O embate é tão forte que Joona se desequilibra e cai para
trás. Esticando-se e puxando os braços presos, Vicky atinge-o
novamente, desta vez no peito. Os ombros parecem prestes a
desconjuntar-se, com a força. Tenta dar-lhe outro pontapé, mas
Joona bloqueia o golpe com a mão. Ela grita por trás da fita adesiva,
esperneia e atira-se para a frente. Uma secção da grade cede. Vicky
puxa os braços, tentando libertar-se para agarrar uma barra de aço,
com os extremos aguçados. Recorrendo à sua superioridade física,
Joona consegue por fim derrubá-la no chão de cimento. Imobiliza-a
com o joelho, algema-lhe os pulsos antes de desatar as cordas e
tirar a fita adesiva.
– Eu mato-te! – grita Vicky.
– Sou comissário da Polí…
– Viola-me, vá! Viola-me à vontade, não me interessa, eu vou
atrás de ti e mato-te, a ti e a todos os…
– Vicky – repete Joona em voz mais alta –, sou comissário da
Polícia Criminal e preciso de saber onde está o Dante.
117

Vicky Bennet, com a respiração acelerada e a boca entreaberta,


observa-o com um olhar sombrio. Tem o rosto riscado de sangue e
sujidade e um ar terrivelmente cansado.
– Se é polícia, tem de apanhar o Tobias – diz ela, com uma voz
rouca.
– Falei há pouco com ele. Ia não sei aonde, vender uns leitores de
e-book que…
– Aquele filho da puta! – exclama ela, arquejando.
– Vicky, deves compreender que eu tenho de te levar para a
esquadra.
– Então leve, quero lá saber, estou-me a cagar…
– Mas antes disso… Primeiro tens de me dizer onde está o miúdo.
– O Tobias levou-o! Eu acreditei nele – diz ela, virando a cara.
O corpo de Vicky começa a tremer.
– Voltei a acreditar nele, eu queria…
– O que é que me estás a dizer?
– Não me vai ouvir, eu sei – diz Vicky, fitando-o com os olhos
húmidos.
– Estou a ouvir-te.
– O Tobias prometeu entregar o Dante à mãe.
– Mas não entregou – diz Joona.
– Eu sei! Acreditei nele… Sou tão estúpida, eu…
A voz embarga-se e o pânico irrompe nos olhos escuros.
– Não percebe? Ele vai vender o miúdo! Vai vendê-lo!
– Que é que queres dizer…
– Não está a perceber o que eu digo? Você deixou-o ir! – grita ela.
– Vender, como?
– Não temos tempo! O Tobbe é… Ele vai vender o Dante a
pessoas que o vão vender a outros, e nunca mais o vão encontrar!
Atravessam apressadamente o depósito das bicicletas e sobem a
escada íngreme. Joona segura o braço magro de Vicky com uma
mão e pega no telemóvel para ligar à central de comunicações.
– Preciso de uma viatura ao número 9 da Wollmar Yxkullsgatan,
para recolher um suspeito de homicídio – diz ele rapidamente. –
Preciso de apoio para localização de um suspeito de rapto.
Sem parar, passam a porta do prédio e ficam no passeio, sob o
sol forte. Joona aponta na direção do carro dele e continua a falar
com o agente de serviço.
– O suspeito chama-se Tobias Lundhagen e tem… Espere. –
Joona vira-se para Vicky. – Que carro é que ele tem?
– Um carro preto, grande. – Vicky tenta indicar a altura do carro
com as mãos algemadas. – Se o vir, conheço-o.
– De que marca é?
– Sei lá.
– Que forma tem? É um SUV, um monovolume, um furgão?
– Não sei.
– Não sabes se é…
– Merda! Desculpe! – grita ela.
Joona desliga a chamada, segura-a pelos ombros e olha-a nos
olhos.
– A quem é que ele vai vender o Dante? – pergunta.
– Meu Deus, eu não sei, sei lá…
– Como é que sabes que ele o vai vender? Foi ele que disse?
Ouviste-o dizer isso? – pergunta Joona, encarando o olhar
angustiado dela.
– Eu conheço-o… Sei…
– O quê?
– O matadouro! Vamos ao complexo industrial do matadouro – diz
Vicky num fio de voz que se quebra com a tensão.
– Entra no carro – diz Joona.
Correm os últimos metros. Joona grita-lhe que se despache, e ela
senta-se com as mãos algemadas atrás das costas. Ele contorna o
carro, liga o motor e acelera. O cascalho range sob os pneus. Vicky
tomba para o lado quando Joona faz a curva apertada para entrar
na Timmermansgatan.
Num movimento ágil, Vicky passa as mãos algemadas por baixo
das nádegas e das pernas para ficarem à frente.
– Põe o cinto – diz Joona.
Acelera até aos noventa quilómetros por hora, trava, derrapa
ligeiramente, com os pneus a chiarem, e vira para Hornsgatan.
Uma mulher para a meio da passagem de peões, a ver qualquer
coisa no telemóvel.
– Idiota! – grita Vicky.
Joona desvia-se da mulher metendo pela faixa contrária. Vê um
autocarro pela frente, mas consegue regressar à sua faixa. Passa o
largo Mariatorget e aumenta a velocidade. Junto à igreja, uma
pessoa vasculha um caixote do lixo à procura de latas vazias. De
repente, atravessa a rua com o saco cheio ao ombro.
Vicky sustém a respiração e encolhe-se. Joona é obrigado a
guinar e entrar na faixa das bicicletas. Um carro que vem em sentido
contrário apita longamente. Joona acelera, segue ao longo de um
muro, ignora um semáforo, vira à direita e entra no túnel de
Södermalm.
As luzes das paredes, que parecem aproximar-se a alta
velocidade, iluminam o interior do carro numa intermitência
monótona. Vicky olha em frente com uma expressão fixa, quase
petrificada. Tem os lábios gretados e a pele coberta de uma película
de lama seca.
– Porquê o complexo industrial do matadouro? – pergunta Joona.
– Foi lá que o Tobias me vendeu – responde ela.
118

O complexo industrial do matadouro, a sul de Estocolmo, foi


criado para dar cumprimento à lei sobre a inspeção das carnes e
dos matadouros, de 1897, e é, ainda hoje, o maior complexo
industrial dedicado ao corte e transformação de carnes do Norte da
Europa.
O tráfego no túnel é escasso e Joona conduz muito depressa.
Pedaços de papel de jornal esvoaçam na zona em redor dos
ventiladores.
Pelo canto do olho, Joona vê Vicky Bennet a roer as unhas. O
dispositivo de radiocomunicação móvel do carro, chamado RAKEL,
emite estalidos enquanto Joona solicita reforços e uma ambulância.
Informa que o local é provavelmente o complexo industrial do
matadouro em Johanneshov, mas que ainda não tem um endereço
concreto.
– Volto a contactar – diz ele, ao mesmo tempo que o carro passa,
com um solavanco, por cima dos restos de um pneu velho.
O túnel comprido e curvo parece vir ao encontro deles a grande
velocidade, enquanto as listas nas paredes de betão deslizam nos
lados, sob a luz alaranjada.
– Vá mais depressa – diz Vicky, que apoia as mãos no porta-
luvas, como para se proteger em caso de embate.
A luz estroboscópica ilumina-lhe intermitentemente o rosto pálido
e sujo.
– Eu disse-lhe que lhe pagava o dobro se ele arranjasse dinheiro
e um passaporte… Ele prometeu que levava o Dante à mãe… E eu
acreditei nele! Sou uma anormal! Depois de tudo o que ele me fez!
Vicky bate na cabeça com os punhos fechados.
– Como é possível ser tão completamente estúpida? – diz ela, em
voz baixa. – Ele só queria ficar com o Dante. Bateu-me com um tubo
e fechou-me na arrecadação. Sou tão estúpida, porra, que não
mereço estar viva…
No outro lado do canal de Hammarby, passam por baixo do
viaduto de Nynäsvägen e contornam o Globen, o enorme edifício
que parece um corpo celestial esbranquiçado, ao lado do estádio de
futebol.
A seguir à zona comercial, as construções são baixas e
funcionais. Entram numa área delimitada, com edifícios industriais e
camiões estacionados. À distância veem-se quadros informativos de
néon sobre as duas faixas da estrada. Sobre fundo vermelho, lê-se,
em letras brancas: COMPLEXO INDUSTRIAL DO MATADOURO.
As cancelas estão abertas, e eles entram, com os pneus a chiar.
– Para onde vamos agora? – pergunta Joona, seguindo ao longo
da parede cinzenta de um armazém.
Vicky morde os lábios e os seus olhos vagueiam, inquietos.
– Não sei.
119

O céu está escuro, mas no labirinto do complexo industrial brilham


os painéis luminosos e a iluminação das ruas. Quase toda a
atividade cessou, mas ao fundo de uma rua transversal, um
guindaste levanta um contentor azul com um ruído agudo.
Joona passa rapidamente em frente a um edifício sujo, com um
painel amolgado de reclame a febras de porco na brasa, e
aproxima-se de uns edifícios verdes de alumínio, com portões de
aço fechados, no topo de uma rotunda.
A seguir a uma construção de tijolo amarelo com uma plataforma
de descarga e contentores enferrujados, contornam a central de
carnes.
Não se vê ninguém.
Entram numa rua mais escura, onde se veem enormes condutas
de ventilação, contentores de lixo e carros de mercadorias já velhos.
Nos lugares de estacionamento, por baixo de uma tabuleta que
diz «Salsichas carnudas para si», está um furgão com um desenho
pornográfico pintado na lateral.
Ouvem um estrondo quando passam por cima de uma tampa de
esgoto mal colocada. Joona vira à esquerda, contornando um
gradeamento curvo. Gaivotas levantam voo de cima de uma pilha de
paletes.
– Ali! Está ali o carro! – grita Vicky. – É o dele… Estou a
reconhecer o edifício, eles estão lá dentro.
Diante de um grande edifício castanho com janelas sujas e
gelosias de metal, está um furgão preto com a janela traseira
coberta por uma bandeira dos Estados Confederados americanos.
Do outro lado da estrada estão estacionados quatro automóveis, ao
longo do passeio. Joona passa o edifício, vira à esquerda e para
junto a uma casa de tijolo. Três estandartes da empresa, em
mastros de bandeira, esvoaçam ao vento. Sem dizer nada, Joona
tira a chave, solta uma das mãos de Vicky e prende a algema ao
volante antes de sair do carro. Ela lança-lhe um olhar sombrio, mas
não protesta.
Vicky vê o comissário afastar-se a correr à luz de um candeeiro
de rua. Sopra um vento forte que levanta poeira e lixo.
Entre os edifícios há um estreito beco com plataformas de
descarga, escadas de ferro e contentores para os resíduos de
carne.
Joona chega à porta que Vicky apontou, olha para trás e observa
a área, que está deserta. A grande distância, vê uma empilhadora a
ser introduzida num hangar.
Sobe uma escada metálica, abre a porta, entra num corredor com
o chão revestido a acrílico e caminha cautelosamente, deixando
para trás três escritórios com paredes finas. Há um vaso branco,
cheio de bolinhas de argila, com um limoeiro de plástico coberto de
pó. Nos ramos ainda se veem vestígios das decorações de Natal.
Na parede está pendurada uma licença de abate emoldurada, de
1943, emitida pela Intendência de Crise de Estocolmo.
Na porta de aço no fim do corredor, há um cartaz plastificado com
as regras em matéria de higiene e reciclagem. Por cima do texto,
alguém escreveu «como manipular uma pila». Joona abre a porta
um ou dois centímetros, fica à escuta e ouve vozes à distância.
Cautelosamente, espreita para dentro de uma enorme sala de
desmanche de carcaças em série, com a correia transportadora
para o corte de suínos. O chão de mosaico amarelo e as bancadas
de aço inoxidável emitem um brilho ténue. Dentro de um contentor
de lixo, vê-se um avental de plástico branco manchado de sangue.
Sem ruído, Joona retira a pistola do coldre e sente uma
trepidação surda no coração quando inspira o cheiro do lubrificante
da arma.
120

Segurando a arma, Joona entra furtivamente e avança, colado às


enormes máquinas. Sente o cheiro adocicado do chão e dos tapetes
de borracha lavados à mangueira e lembra-se de que não chegou a
dar um endereço à central de comunicações. Provavelmente já
chegaram ao complexo industrial, mas demorarão por certo algum
tempo a encontrar Vicky.
A recordação surge, súbita e implacável. Os segundos em que a
nossa vida é decidida estão em permanente movimento. Os
diferentes tempos fundem-se num só. Joona tinha onze anos, e o
reitor foi buscá-lo à sala de aula, levou-o para o corredor e contou-
lhe o que sucedera sem conseguir conter as lágrimas.
O pai de Joona, que era polícia e patrulhava as ruas, fora morto
em serviço quando entrou num apartamento e foi alvejado pelas
costas. Embora fosse contra o regulamento, o pai entrara no
apartamento sozinho.
Agora Joona não tem tempo para esperar pelos reforços.
No teto guarnecido de pontes rolantes e tubagens estão
penduradas alavancas pneumáticas cobertas de uma película de
sujidade.
Joona avança silenciosamente e começa a ouvir as vozes com
mais nitidez.
– Não, ele tem de acordar primeiro – diz uma voz pesada e rouca
de homem.
– Dá-lhe mais um minutinho.
Joona reconhece a voz de Tobias, com o seu tom juvenil e
inocente.
– Que merda de ideia foi a tua? – pergunta outro.
– Que ele ficasse sossegado – responde Tobias suavemente.
– Está quase morto – diz o homem da voz rouca. – Não pago sem
saber se ele está em condições.
– Esperamos mais dois minutos – diz um terceiro homem com voz
grave.
Joona continua a andar. Quando chega ao fim de uma fila de
máquinas, vê o menino. Está deitado num cobertor cinzento, no
chão. Tem uma camisola azul amarrotada, calças azul-escuras e
ténis. O rosto relaxado está limpo, mas tem o cabelo e as mãos
sujas.
Ao lado do menino está um homem alto e forte, de barba branca e
barriga proeminente, com um casaco de cabedal. O suor escorre-lhe
pelo rosto. O homem anda pesadamente às voltas, coçando as
faces e suspirando de irritação.
Joona sente alguma coisa pingar-lhe em cima. Uma abraçadeira
de um tubo soltou-se, deixando sair água, que corre pelos ladrilhos
do chão até um escoadouro mais à frente.
O homem forte caminha nervosamente de um lado para o outro,
olhando para o relógio. Uma gota de suor cai-lhe do nariz. Agacha-
se, arquejando, junto da criança.
– Vamos tirando umas fotografias – diz uma nova voz de homem.
Joona não sabe o que fazer. Calcula que sejam quatro homens,
mas não sabe se estão armados.
Precisaria de uma força de intervenção.
A cara do homem forte brilha quando ele tira os sapatos a Dante.
Com os sapatos vêm umas meias às riscas, que ficam no chão.
Os pequenos calcanhares redondos caem sobre o cobertor.
Quando as mãos enormes do homem começam a desapertar as
calças do menino, Joona não aguenta mais e levanta-se, saindo do
esconderijo.
Sem se esconder, começa a andar em direção às bancadas de
corte, com as suas facas recém-afiadas, de diferentes tamanhos,
durezas e fios.
Mantém a pistola apontada para o chão.
O coração bate acelerado, de ansiedade.
Joona sabe que não está a seguir o procedimento regulamentar,
mas não pode esperar mais e continua andar em grandes passadas.
– Que merda é esta? – diz o gordo, levantando a cabeça.
Larga a criança, mas deixa-se ficar agachado.
– São todos suspeitos de participação em rapto – diz Joona,
dando um pontapé no peito do homem forte.
O homem é atirado para trás, espalhando gotas de suor à sua
volta. Cai desamparado entre os baldes de limpeza, rebola sobre
uma grade de escoamento, arrastando consigo uma caixa com
protetores auriculares, e vai chocar com a pesada máquina de
esfolar.
Joona ouve uma arma a ser destravada e quase imediatamente
sente o contacto, rápido e preciso, do cano da pistola com as suas
costas, exatamente entre a coluna vertebral e a omoplata. Mantém-
se imóvel, porque sabe que se a bala saísse da pistola neste
momento lhe atravessaria o coração.
De um dos lados, aproxima-se um homem de uns cinquenta anos,
cabelo louro preso num rabo de cavalo e casaco de cabedal
castanho-claro. Movendo-se com agilidade, como um guarda-
costas, aponta uma caçadeira de canos serrados a Joona.
– Mata-o – grita alguém.
O gordo ficou deitado no chão, a arquejar. Vira-se e tenta
levantar-se, mas tropeça, segura-se com a mão, ergue-se, vacilante,
e desaparece do campo de visão de Joona.
– Não podemos ficar aqui – sussurra Tobias.
Joona procura ver alguma coisa através do reflexo no metal das
bancadas e no revestimento de aço polido das alavancas
penduradas no teto, mas é impossível perceber quantos homens
estão atrás dele.
– Largue a arma – diz uma voz calma.
Joona deixa Tobias tirar-lhe a pistola enquanto pensa que os
colegas não devem tardar a encontrá-lo e que a situação não
permite correr riscos.
121

Vicky Bennet está sentada no banco da frente do carro de Joona,


mordendo os lábios secos, com o olhar fixo no edifício castanho-
avermelhado.
Apoiou a mão no volante, para a algema não lhe magoar o pulso.
Quando se irrita ou se assusta, tem dificuldade em lembrar-se seja
do que for mais tarde. É como seguir com o olhar um reflexo de luz
que se desloca saltitando, se fixa por vezes, trémulo, num detalhe e
depois desaparece.
Vicky abana a cabeça, fecha os olhos com força e depois volta a
abri-los.
Não sabe quanto tempo passou desde que o comissário da voz
bonita desapareceu, com o casaco a esvoaçar ao vento.
Talvez Dante já esteja perdido, desaparecido no buraco negro que
suga crianças, meninas e meninos.
Tenta manter-se calma, mas sabe que não pode ficar dentro do
carro.
Uma ratazana passa lentamente ao lado de um alicerce de betão
e depois desaparece num poço.
O homem que conduzia a empilhadora no fundo do beco terminou
o trabalho. Correu as enormes portas do hangar e trancou-as antes
de se ir embora.
Vicky olha para a mão, para o metal polido que a mantém presa,
para a corrente que tilinta quando ela se mexe.
Ele prometeu entregar o Dante à mãe.
Vicky geme.
Como pôde confiar novamente em Tobias? Se Dante
desaparecer, a culpa é dela.
Tenta espreitar pelo vidro traseiro. As portas estão fechadas e não
se vê ninguém. O vento açoita a tela rasgada de um toldo amarelo.
Puxa o volante com as mãos, numa tentativa de escapar, mas é
impossível.
– Merda…
Respira, nervosa, e bate com a nuca no apoio para cabeças do
assento.
Alguém desenhou uma cara triste no pó de um cartaz que anuncia
carne fresca e produtos suecos.
O comissário da Polícia já devia ter voltado.
De repente ouve um estrondo, forte como uma explosão.
Um eco retumbante desvanece-se à distância e tudo fica de novo
em silêncio. Vicky tenta ver alguma coisa, olha para todos os lados,
mas a zona industrial está deserta.
«Que estarão a fazer?»
O seu coração bate com força.
Pode acontecer qualquer coisa naquele lugar.
A sua respiração acelera e Vicky pensa num menino abandonado
que chora de medo, no meio de uma sala cheia de homens
desconhecidos.
A imagem ocorreu-lhe de repente e não faz a menor ideia do que
se trata.
Esticando-se, tenta ver alguma coisa através dos vidros. Sente o
pânico avolumar-se e tenta tirar a mão da algema. É impossível.
Puxa com mais força e solta um gemido de dor. O metal desliza um
pouco sobre as costas da mão e fica preso. Vicky respira pelo nariz,
encosta-se para trás, apoia um pé no volante e o outro no aro da
algema e puxa com toda a força.
Vicky Bennet rompe o silêncio da noite com um grito lancinante
quando o metal lhe rasga a pele e o polegar se parte, para a mão se
poder soltar.
122

A pressão do cano da pistola desaparece das costas de Joona.


Ouve passos rápidos afastarem-se e vira-se lentamente.
Vê um homem baixo, de óculos e fato cinzento, que continua a
recuar, apontando-lhe uma Glock preta. A mão esquerda pende,
inerte, junto à cintura. Primeiro parece-lhe que a mão está ferida,
mas depois apercebe-se de que é uma prótese.
Tobias está atrás de uma bancada suja segurando a Smith &
Wesson de Joona, sem saber muito bem o que fazer com ela.
À direita está o homem louro, com a caçadeira de canos serrados
apontada a Joona.
– Roger – diz o homem baixo –, tu e o Micke tratam do polícia
depois de eu sair.
Ao fundo, junto à parede, Tobias fixa-o com um olhar negro de
tensão.
Um jovem de cabeça rapada e calças de camuflado avança
determinadamente para Joona empunhando uma minimetralhadora
artesanal. É uma pequena pistola-metralhadora construída com
peças de várias armas. Joona não tem colete protetor, mas se tiver
de escolher, prefere ser atingido por esta arma. As
minimetralhadoras têm por vezes o mesmo poder de fogo que uma
arma automática convencional, mas geralmente são de fabrico
caseiro e de má qualidade.
Um ponto vermelho estremece no peito de Joona.
A minimetralhadora tem uma mira de laser que alguns polícias
utilizavam há uns anos.
– Deita-te no chão com as mãos na nuca – diz Joona.
O rapaz da cabeça rapada sorri involuntariamente. O ponto
vermelho desce até ao plexo solar de Joona e depois sobe para a
clavícula.
– Micke, mata-o – diz Roger, sem deixar de apontar a caçadeira
de canos serrados a Joona.
– Não podemos ter testemunhas – diz Tobias, passando
nervosamente a mão sobre os lábios.
– Mete o miúdo no carro – ordena o homem da prótese a Tobias.
Em seguida sai.
Sem desviar o olhar de Joona, Tobias aproxima-se de Dante e
arrasta-o sobre o cobertor, rapidamente e sem cuidado, pelo chão
de ladrilho.
– Eu vou já! – grita Joona na direção deles.
Joona está a uns seis metros do rapaz chamado Micke, que tem a
minimetralhadora.
Com um passo cauteloso, aproxima-se ligeiramente dele.
– Quieto! – grita o rapaz.
– Micke – diz Joona suavemente –, se te deitares no chão com as
mãos na nuca, safas-te.
– Mata o chui! – grita o homem chamado Roger.
– Mata-o tu – sussurra Micke.
– Quê? – pergunta Roger, baixando a caçadeira. – O que é que
disseste?
123

O rapaz da minimetralhadora está ofegante. O ponto vermelho do


laser treme sobre o peito de Joona, desaparece por um curto
momento e depois reaparece.
– Vejo que tens medo – diz Joona, aproximando-se.
– Cala-te, cala a boca – diz Micke, afastando-se.
– O ponto está a tremer.
– Dispara, foda-se! – grita Roger.
– Larga a arma – diz Joona.
– Dispara!
– Ele não se atreve a disparar – responde-lhe Joona.
– Mas eu atrevo-me – diz Roger, erguendo a caçadeira. – Eu não
tenho medo de disparar.
– Não acredito – diz Joona, sorrindo.
– Queres que eu dispare? Eu disparo! – grita ele, aproximando-
se. – Queres que eu dispare?
Roger aproxima-se de Joona em grandes passadas. Traz ao
pescoço um fio com um martelo de Thor pendurado. Levanta a
caçadeira, põe o dedo no gatilho e aponta a Joona.
– Vou-te rebentar a cabeça – diz-lhe, num tom sibilante.
Joona baixa o olhar e espera que ele se aproxime mais antes de
estender a mão e agarrar o cano curto da arma. Puxa-a para si,
balança-a e atinge Roger no rosto com a coronha. A cabeça do
homem é atirada para o lado com um estalo sonoro. Ele
desequilibra-se e vacila, na linha de fogo da minimetralhadora.
Joona mantém-se atrás dele, faz pontaria por entre as pernas do
homem e prime o gatilho. O disparo é ensurdecedor. A arma
provoca um coice e os chumbos atingem Micke na perna esquerda
com um enorme impacto. Os 258 chumbos atravessam-lhe a tíbia e
o músculo da perna. O pé é arrancado e vai parar debaixo da
correia transportadora.
O chão fica cheio de sangue, e Micke dispara a minimetralhadora.
Roger recebe seis balas no peito e no ombro. Micke cai no chão a
gritar. O resto das munições perde-se no teto, assobiando e fazendo
ricochete entre os tubos e as pontes rolantes.
O matraquear metálico continua até o cartucho acabar e depois
só se ouvem os gritos entrecortados de Micke.
O homem baixo aparece a correr, a tempo de ver Roger cair de
joelhos, inclinado para a frente, com o rabo de cavalo a roçar-lhe a
face. Apoia-se nas mãos, os braços esticados, com um jato de
sangue a jorrar do peito e a escorrer pela grade do chão, por onde
será conduzido ao tubo de escoamento do sangue dos suínos.
Rapidamente, Joona refugia-se atrás de umas máquinas que
servem para insuflar a pele dos animais e facilitar o desmanche. O
homem da Glock segue-o, respirando ansiosamente e com
dificuldade. Com um pontapé, afasta um carro de transporte, que
desliza ruidosamente.
Joona recua, abre a caçadeira e vê que só estava carregada com
um cartucho.
O rapaz pede socorro, arquejando e gritando, desesperado.
A dez passos, o comissário vê a entrada de uma câmara
frigorífica. Por trás das lamelas de plástico amarelecidas,
distinguem-se filas compactas de carcaças de suínos penduradas.
Joona pensa que deve haver, ao fundo da câmara frigorífica, uma
porta que dá para a plataforma de descarga no exterior.
124

Na fachada principal do edifício castanho-avermelhado, há uma


porta de metal preta, com um jornal enrolado para impedir que se
feche.
Uma tabuleta de plástico branco informa: Carnes e Charcutaria
Larsson.
Vicky aproxima-se, tropeça na grade que faz as vezes de
capacho, abre a porta e entra. A mão ferida deixa um rasto de
sangue.
Tem de encontrar Dante. É esse o seu único plano.
Sem se esconder, entra num vestiário com bancos corridos de
madeira e armários metálicos amolgados, pintados de vermelho. Na
parede, preso com fita-cola, vê um cartaz com a figura sorridente de
Zlatan Ibrahimović. No parapeito da janela, em cima de uma
brochura da União dos Trabalhadores da Indústria Alimentar, há
vários porta-copos de plástico.
Através da parede ouve-se um grito. Um homem a pedir socorro.
Vicky olha em volta, abre um armário, tira um molho de sacos de
plástico sujos, abre o armário seguinte, continua a procurar, espreita
para o cesto de papéis e vê, entre saquinhos de doses individuais
de tabaco para mascar e papéis de rebuçados, uma garrafa de vidro
de gasosa, vazia.
O homem grita novamente, mais cansado.
– Porra – diz Vicky baixinho. Pega na garrafa, segurando-a com
força na mão direita, e sai pela outra porta, para um armazém onde
há paletes e máquinas de embalar.
O mais silenciosamente que pode, corre para um portão grande
de garagem. Passa por uma série de paletes com caixotes
embalados em plástico, deteta um movimento pelo canto do olho e
detém-se.
Olha em redor e vê uma sombra esgueirar-se para trás de uma
empilhadora amarela. Respirando sem ruído, Vicky aproxima-se,
apoia-se na empilhadora, contorna-a e vê um homem sentado,
debruçado sobre uma trouxa num cobertor.
– Estou maldisposto – diz uma vozinha de criança.
– Consegues pôr-te em pé? – pergunta o homem.
Vicky dá um passo na direção deles. O homem volta-se, e ela
constata que é Tobias.
– Vicky! Que fazes tu aqui? – pergunta ele com um sorriso
surpreendido.
Ela aproxima-se com um ar curioso.
– Dante? – pergunta, cautelosamente.
O menino olha-a como se estivesse num local escuro e não
conseguisse distinguir-lhe o rosto.
– Vicky, leva-o para o meu carro – diz Tobias. – Vou já ter com
vocês…
– Mas eu estou…
– Faz o que eu te digo e não vai haver problema – interrompe-a
ele.
– OK – responde ela, inexpressivamente.
– Vá, despacha-te. Toca a andar, os dois para o carro.
O rapazinho deita-se novamente no cobertor. Está pálido e mal
consegue manter os olhos abertos.
– Vais ter de o levar ao colo – suspira Tobias.
– Está bem.
Vicky aproxima-se e parte a garrafa na cabeça de Tobias.
Primeiro, ele fica surpreendido, desequilibra-se e cai sobre um
joelho. Atónito, apalpa a cabeça, sente os estilhaços de vidro e o
sangue.
– Que merda é esta…
Vicky começa a golpeá-lo no pescoço com a garrafa partida,
enterra-lhe as arestas pontiagudas e torce, sentindo o sangue
quente nos dedos. A raiva que a domina é tal que se sente quase
embriagada. A fúria arde nela como uma loucura incontrolável.
Golpeia-o novamente, desta vez atingindo-lhe a face direita.
– Não devias ter tocado no miúdo! – grita Vicky.
Aponta aos olhos dele e continua a golpeá-lo. Ele agita as mãos,
sem ver, mas ainda consegue agarrar-lhe o casaco, puxá-la e
desferir-lhe um murro na cara. Ela cai para trás e deixa de ver.
Enquanto cai, arquejando, de costas no chão, lembra-se dos tipos
que pagaram a Tobias. Lembra-se de acordar com uma dor horrível
no baixo-ventre e nos ovários.
Fecha os olhos, recupera a visão e levanta-se a cambalear.
Escorre-lhe sangue da boca. Tobias encontrou uma tábua com
pregos no chão e tenta levantar-se.
A mão esquerda de Vicky dói-lhe terrivelmente por causa do
polegar partido, mas ainda tem na outra mão a garrafa partida.
Aproxima-se de Tobias, ele estende o braço para a deter, mas
Vicky esquiva-se, sente o seu próprio sangue a escorrer-lhe para os
olhos e golpeia às cegas. Acerta-lhe no peito e na testa, até que o
vidro acaba por se partir e ela se corta na mão. Ainda assim,
continua a bater-lhe até ele cair e não se mexer mais.
125

Vicky não aguenta correr mais, mas continua a andar, com Dante
ao colo. Sente vontade de vomitar. Perdeu a sensibilidade nos dois
braços e tem medo de o deixar cair. Para e tenta segurá-lo de outra
maneira, mas vacila e cai com força no chão, sobre os joelhos.
Gemendo, deita o menino no chão, com cuidado. Dante adormeceu
novamente. Tem o rosto extremamente pálido e a respiração mal se
ouve.
Têm de sair daqui ou de se esconder algures.
Recompõe-se, cerra os dentes, agarra-o pela camisola e arrasta-o
até um contentor de lixo. Talvez consigam esconder-se ali. Dante
geme e fica subitamente agitado. Vicky faz-lhe uma festa e ele abre
os olhos por um momento, mas depois volta a fechá-los.
Estão a uns dez metros de uma porta de vidro, ao lado de um
portão de garagem muito alto, mas ela já não consegue carregá-lo
ao colo. As pernas ainda lhe tremem do esforço. Só quer deitar-se
atrás de Dante e dormir, mas sabe que não pode.
Tem as mãos cheias de sangue, mas não sente nada. Perdeu a
sensibilidade nos braços.
Do outro lado da porta de vidro, vê-se uma rua deserta.
Vicky agacha-se, respirando com dificuldade, e tenta concentrar-
se. Olha para as mãos, olha para Dante, afasta-lhe os cabelos do
rosto e inclina-se para a frente.
– Acorda.
Dante abre os olhos, vê o rosto ensanguentado de Vicky e fica
assustado.
– Não há problema – diz-lhe ela. – Não dói. Nunca deitaste
sangue do nariz?
Ele assente com a cabeça e passa a língua pelos lábios.
– Dante, já não consigo levar-te ao colo, tens de andar um
bocadinho – diz, a exaustão tomando conta de si.
– Eu estou sempre a dormir – diz Dante, bocejando.
– Vais para casa, acabou…
– O quê?
– Vais para casa, para a tua mãe – diz com um sorriso e o rosto
desfigurado pelo cansaço. – Mas tens de andar.
Ele acena com a cabeça, passa a mão pelo cabelo e senta-se.
Ao longe, no armazém grande, alguma coisa cai no chão com
estrondo. Parecem tubos de metal a rolar.
– Tenta pôr-te de pé – murmura Vicky.
Levantam-se os dois e começam a andar em direção à porta de
vidro. Cada passo é insuportável, e Vicky sente que não vai
conseguir. É então que vê a luz azul do primeiro carro da Polícia.
Atrás desse vêm mais carros, e Vicky pensa que estão salvos.
– Está aí alguém? – grita um homem com voz rouca.
A voz ecoa entre as paredes e o teto alto. Vicky sente uma tontura
e tem de parar, mas Dante continua a andar.
Encosta o ombro ao metal frio do contentor.
– Sai por essa porta – diz ela, numa voz abafada.
Dante olha para ela e faz menção de voltar para trás.
– Não. Sai, vá – pede-lhe ela. – Eu já vou.
Vicky vê três polícias começarem a correr na direção oposta, para
um edifício do outro lado da rua. Dante continua a andar para a
porta. Baixa o puxador, mas não acontece nada.
– Quem está aí? – grita novamente o homem, mais perto.
Vicky cospe saliva ensanguentada no chão, aperta os maxilares,
esforça-se por respirar calmamente e recomeça a andar.
– Está fechada – diz Dante, baixando o puxador.
As pernas de Vicky tremem e ela sente que os joelhos vão ceder,
mas obriga-se a dar os últimos passos. A mão dói-lhe terrivelmente
quando tenta abrir a porta. Dá-lhe um encontrão e verifica que está
trancada. Bate depois no vidro, mas quase não faz barulho. Lá fora
estão quatro carros da Polícia. As luzes azuis varrem as fachadas
dos edifícios e refletem-se nas janelas. Vicky faz sinal aos polícias,
mas eles não a veem.
No armazém atrás deles ressoam passos pesados no chão de
cimento, aproximando-se rapidamente. Vicky volta-se e vê um
homem gordo, de casaco de cabedal, que se dirige para eles com
um sorriso nos lábios.
126

Junto ao teto corre uma ponte rolante de onde está suspensa uma
fila cerrada de carcaças de suínos. O cheiro adocicado da carne é
dissimulado pela baixa temperatura da câmara frigorífica.
Joona move-se, agachado, entre as carcaças, penetrando na
câmara, enquanto procura uma arma. Da sala das máquinas vem o
som de gritos abafados, seguido de pancadas rápidas. Joona
procura localizar o homem que o persegue através do plástico
industrial grosso na abertura de entrada. Junto às bancadas de
corte, vislumbra uma forma indistinta, que primeiro parece ter a
largura de quatro pessoas e depois estreita de novo.
O vulto aproxima-se rapidamente.
Percebe-se que empunha uma pistola com a mão direita.
Joona recua, baixa-se e espreita por baixo das carcaças de
porcos. Mais à frente, junto à parede, há um balde branco, um tubo
e uns trapos sujos.
O tubo pode ser útil.
Cautelosamente, começa a mover-se nessa direção, mas tem de
parar quando o homem baixo afasta a pesada cortina de plástico
com a prótese da mão.
Joona fica imóvel, distinguindo vagamente o homem pelo reflexo
nas faixas de aço cromado ao longo das paredes. Vê o homem
entrar na câmara frigorífica segurando a pistola com o braço
esticado, ao mesmo tempo que percorre o espaço com o olhar.
Em silêncio, Joona aproxima-se alguns passos da parede e põe-
se atrás de uma carcaça, de onde não pode observar o homem,
embora lhe ouça os passos e a respiração.
A uma distância de quinze metros, há uma porta grande, que
deve dar para uma plataforma de descarga. Joona poderia correr
pelo corredor esgueirando-se por entre as carcaças, mas já perto da
porta ficaria na linha de fogo do outro durante alguns segundos.
«É demasiado tempo», pensa.
Ouvem-se passos rápidos, arrastados, e em seguida um baque
surdo. Um dos porcos balança, e a ponte rolante range.
Joona cobre o espaço que ainda o separa da parede e baixa-se
junto a um elemento de refrigeração. A dez metros, a sombra do
homem desloca-se sobre o chão de cimento.
O tempo está a esgotar-se.
O homem da prótese vai encontrá-lo em breve. Joona desliza
para o lado e constata que o tubo que vira no chão é de plástico.
Como arma, não serve. Quando se vai afastar, vê algumas
ferramentas dentro do balde. Três chaves de parafusos, um alicate
de corte e uma faca de lâmina curta e robusta.
Tira cuidadosamente a faca do balde. O metal roça no metal, a
lâmina roça nos cabos do alicate.
Procura adivinhar os movimentos do homem que o persegue pelo
som dos passos e percebe que tem de sair dali.
É disparado um tiro. A bala entra numa carcaça com um estalido,
a meio metro da cabeça de Joona.
Os passos do outro aproximam-se velozmente. O homem vem a
correr. Joona deita-se no chão e rola para o corredor seguinte.
127

«O polícia está desarmado e com medo», pensa o homem,


afastando a franja da testa com a prótese.
Para, aponta a arma para a frente e tenta ver alguma coisa por
entre as carcaças suspensas.
«Deve estar com medo», repete para si mesmo.
Pensa que ele está escondido, mas sabe que em breve tentará
fugir pela porta que dá para a rua.
A respiração do homem é rápida, e ele sente o ar frio e seco nos
pulmões. Tosse ligeiramente, vira-se para trás, olha para a pistola e
ergue novamente o olhar. Fecha os olhos com força. Talvez tenha
visto alguma coisa junto à parede, atrás do elemento de
refrigeração. Começa a correr ao longo da fila de carcaças.
Em breve, tudo estará resolvido. Só tem de apanhar o polícia e
disparar a curta distância. Primeiro no tronco e depois na têmpora.
Detém-se e vê que na faixa junto à parede não há ninguém. Só
uns trapos no chão e um balde branco.
Dá meia-volta e começa a retroceder, mas depois para e escuta.
O único som que ouve é o da sua própria respiração.
Empurra um porco com a mão esquerda, mas é mais pesado do
que ele esperava. Tem de fazer muita força para o pôr a balançar. A
dor no braço volta a fazer-se sentir quando o coto é pressionado
contra a prótese.
A ponte rolante range na ligação às calhas.
O porco balança para a direita e ele espreita para o corredor
seguinte, entre as filas de carcaças.
«Não há para onde fugir», pensa o homem. Tem-no preso como
numa jaula. Só tem de manter uma linha de fogo aberta na direção
da porta, para o caso de o polícia tentar sair, e ao mesmo tempo
vigiar a abertura com a cortina de lamelas de plástico, para o
impedir de voltar para trás.
Tem o ombro cansado e baixa a pistola por um momento. Sabe
que se arrisca a perder uns segundos importantes, mas, se ficar
sem forças no braço, a arma começará a tremer.
Lenta e cautelosamente, avança e parece-lhe vislumbrar um
dorso. Levanta a arma rapidamente e dispara. Sente o coice da
arma e o respingo do detonador queima-lhe os nós dos dedos. A
adrenalina espalha-se-lhe pelo corpo.
Dá um passo para o lado, com o coração a bater acelerado, mas
apercebe-se de que viu mal, de que era uma carcaça de suíno um
pouco inclinada.
«Isto está a correr mal», pensa. Tem de apanhar o polícia, não
pode deixá-lo escapar agora.
«Mas onde é que ele está, porra? Onde é que está?»
Ouve um estalido que vem do teto e olha para cima, para as
traves de aço e as pontes rolantes. Não se vê nada. Recua e dá um
passo em falso, cambaleia, apoia-se num porco com o ombro e
sente a humidade da carne refrigerada através da camisa. A pele do
animal brilha com gotinhas de condensação. Sente-se agoniado. Há
qualquer coisa que não está bem. O stress começa a apoderar-se
dele. Não pode ficar ali muito mais tempo.
Continua a recuar, vê o movimento rápido de uma sombra na
parede e levanta a arma.
Subitamente, os porcos começam a vibrar, todos eles, ao longo
da câmara frigorífica. As carcaças tremem, e ele vê-as numa
imagem desfocada. Do teto vem um zumbido elétrico, o sistema
rolante range e os pesados corpos dos animais começam a mover-
se. A fila de carcaças suspensas avança ao longo da linha de
transporte, provocando a deslocação do ar gélido.
O homem da pistola vira-se, olha em volta, procura vigiar todas as
direções ao mesmo tempo e pensa que não valeu a pena.
Comprar uma criança sueca, dada como morta pela Polícia, tinha
de ser uma tarefa fácil. Sem ir mais longe do que a Alemanha ou a
Holanda, já obteria um bom preço pelo miúdo.
Agora já não compensa.
Os porcos param de repente e ficam a baloiçar lentamente. Uma
luz vermelha acende-se na parede. O polícia carregou no botão de
paragem de emergência.
O silêncio regressou, e uma onda de mal-estar espalha-se nele
como sangue em água.
«O que é que eu estou a fazer aqui, porra?», pensa o homem.
Esforça-se por controlar a respiração, aproxima-se lentamente da
luz vermelha, baixa-se para tentar ver por entre as carcaças e dá
dois passos em frente.
As portas que dão para a rua continuam fechadas.
Volta-se para vigiar a outra saída, e o polícia alto está de repente
diante dele.
O homem sente um calafrio percorrer-lhe a espinha.
128

Joona vê o homem baixo tentar apontar-lhe a pistola.


Acompanhando o movimento dele, dá um passo em frente e desvia-
lhe a arma, quase na vertical. Depois agarra-lhe o pulso e, com uma
pancada, faz voar a pistola contra uma carcaça e espeta-lhe a faca
com toda a força na palma da mão. A lâmina penetra
profundamente entre as costelas do porco, e o homem solta um
grito.
Joona larga a faca e desvia-se.
O homem baixo geme e tenta agarrar o cabo da faca com os
dedos inertes da prótese, mas desiste. Está preso e sabe que tem
de se manter imóvel para aguentar a dor. A mão está presa bem
acima da sua cabeça. O sangue escorre pelo pulso e entra na
manga da camisa.
Sem sequer o olhar, Joona apanha a pistola do chão e sai.
Na enorme sala das máquinas, onde o ar parece agora quente,
Joona corre ao longo da parede na direção da porta por onde Tobias
desapareceu com Dante. Numa rápida inspeção à pistola, constata
que há pelo menos uma bala na câmara e provavelmente mais no
carregador. Abre a porta metálica verde e entra num grande
armazém, com mercadorias em paletes e várias empilhadoras.
Pelas vidraças sujas das janelas junto ao teto, entra alguma luz.
Joona ouve um gemido rouco.
Localizando a origem do som perto de um contentor de lixo, corre
nessa direção. Uma luz azul atravessa uma janela e dança no chão.
Joona ergue a pistola e aproxima-se do contentor. O homem gordo
com o casaco de cabedal está agachado, de costas para ele,
arquejante, a bater com a cabeça de Vicky no chão. A pouca
distância está Dante, acocorado e a chorar sozinho.
Joona aproxima-se do gordo antes de ele ter tempo de se pôr de
pé. Com uma mão agarra-o pelo pescoço, por baixo da barba, e
levanta-o, afastando-o de Vicky. Empurra-o, parte-lhe a clavícula
com a coronha da pistola, atira-o para trás, larga-lhe o pescoço e
dá-lhe um pontapé no peito que o faz atravessar a vidraça da porta.
O gordo aterra de costas na rua, no meio de uma nuvem de
estilhaços de vidro, e fica caído no chão, sob as luzes azuis da
Polícia.
Três agentes de uniforme correm para o homem e apontam-lhe as
armas, enquanto ele apalpa o peito com uma mão e ao mesmo
tempo tenta sentar-se.
– Comissário Joona Linna? – pergunta um dos polícias.
Os agentes fitam o comissário, enquadrado pela moldura da porta
de vidro despedaçada. Continuam a cair pequenos estilhaços da
trave superior.
– Eu sou apenas um observador – diz Joona.
Atira a Glock para o chão e ajoelha-se ao lado de Vicky, que está
deitada de costas e com dificuldade em respirar. Tem um braço
dobrado num ângulo estranho. Dante parou de chorar e observa
Joona, surpreendido, quando ele faz uma festa na cara de Vicky e
lhe diz baixinho que já acabou. Um fio de sangue brota do nariz da
rapariga. Joona, de cócoras, imobiliza-lhe a cabeça com as mãos.
Ela não abre os olhos nem reage quando a chamam, embora os pés
estremeçam.
129

O homem que voou pela porta de vidro ficou deitado um momento


e depois sentou-se e tentou fugir arrastando-se, mas foi dominado
por dois polícias, que o deitaram de barriga para baixo e o
algemaram.
O pessoal da primeira ambulância começou por imobilizar o
pescoço de Vicky com um colar cervical, antes de a colocar na
maca.
Joona informou a chefia operacional da situação, enquanto duas
patrulhas de Polícia entravam no edifício por acessos diferentes.
Na câmara frigorífica encontraram um homem silencioso e pálido,
cuja mão direita estava presa por uma faca a uma carcaça de suíno
suspensa. O agente que o encontrou chamou os paramédicos e em
seguida, com a ajuda de um colega, retirou a faca. A lâmina raspou
nas costelas do porco e saiu, com uma exalação. O homem baixou
a mão, apertou-a contra a barriga com a prótese, cambaleou e
sentou-se no chão.
O homem que fora atingido no peito pela arma automática de
fabrico caseiro estava morto. O rapaz que empunhava a arma e
premiu o gatilho quando Joona lhe arrancou o pé a tiro estava vivo.
Salvara-se de uma hemorragia fatal apertando o cinto em volta da
perna, abaixo do joelho. Quando os polícias se aproximaram dele,
empunhando as pistolas, limitou-se a apontar debilmente para o pé
que se encontrava debaixo da bancada de corte, numa poça de
sangue.
O último a ser encontrado foi Tobias Lundhagen, que se
escondera no meio do lixo, na escuridão do armazém. Tinha o rosto
completamente desfigurado e estava a perder muito sangue, mas os
ferimentos não eram fatais. Tentou ocultar-se melhor e, quando os
polícias o puxaram pelas pernas, tremia de medo.

O diretor da Polícia Criminal, Carlos Eliasson, já está a par da


situação no complexo industrial do matadouro quando Joona lhe
telefona da ambulância.
– Um morto, três feridos graves e três feridos ligeiros – lê Carlos.
– Mas as crianças estão vivas, safaram-se…
– Joona – suspira Carlos.
– Toda a gente dizia que eles se tinham afogado, mas eu…
– Eu sei. Tinhas razão – interrompe-o Carlos. – Mas estás a ser
objeto de um inquérito interno e tinhas outras ordens.
– Portanto, era melhor não ter feito nada?
– Sim.
– Eu era incapaz disso.
As sirenes calam-se, e a ambulância faz uma curva apertada e
põe-se a caminho da Urgência do hospital de Söder.
– A procuradora e a equipa dela fazem os interrogatórios, e tu, a
partir deste momento, estás de baixa e desligado de tudo.
Joona parte do princípio de que o inquérito interno vai ser
agravado e que talvez até seja deduzida acusação contra ele. Mas,
neste momento, só consegue sentir um imenso alívio por o
rapazinho ter sido arrancado da boca do lobo.
Quando chegam à entrada do hospital, ele sai da ambulância,
mas pedem-lhe que se deite numa maca. Sobem as proteções
laterais e levam-no logo para uma sala de observação.
Enquanto o examinam e lhe tratam as feridas, ele tenta informar-
se sobre o estado de Vicky Bennet e, em vez de ficar na sala à
espera de ser chamado para as radiografias, vai procurar o médico
responsável por ela.
A Dr.ª Lindgren é uma mulher baixinha, que está diante de uma
máquina automática de café, de testa franzida.
Joona diz-lhe que precisa de saber se Vicky pode ser interrogada
ainda hoje.
A mulher ouve-o sem olhar para ele. Carrega no botão que indica
«moka», espera que o copo de plástico se encha e depois diz que
fez uma TAC ao cérebro de Vicky para diagnosticar uma eventual
hemorragia intracraniana. A doente sofreu um traumatismo craniano
grave, mas felizmente as veias-ponte estão intactas.
– A Vicky tem de ficar em observação, mas não há qualquer
impedimento a que possa ser interrogada já amanhã de manhã, se
necessário – acrescenta a médica, que se afasta de seguida,
levando o café.

A procuradora Susanne Öst, de Sundsvall, faz a viagem para


Estocolmo. Decidiu deter a rapariga. Tenciona iniciar o interrogatório
preliminar de Vicky Bennet, de quinze anos, suspeita de dois
homicídios e um rapto, às oito horas da manhã seguinte.
130

Joona Linna percorre o corredor, identifica-se e cumprimenta o


jovem polícia de guarda ao quarto 703 do hospital de Söder, em
Estocolmo.
Vicky está sentada na cama, com as cortinas abertas. Tem o rosto
coberto de feridas e hematomas, a cabeça envolta numa ligadura e
a mão com o dedo partido imobilizada com gesso. Junto à janela
encontra-se Susanne Öst, procuradora de Sundsvall, acompanhada
de outra mulher. Sem as cumprimentar, Joona dirige-se diretamente
a Vicky e senta-se na cadeira ao lado da cama.
– Como estás?
Ela lança-lhe um olhar turvo e pergunta:
– O Dante foi entregue à mãe?
– Ainda está no hospital, mas a mãe está com ele e não o deixa
um minuto que seja sozinho.
– Está ferido?
– Não.
Vicky acena com a cabeça e fica a olhar em frente.
– E tu como te sentes? – insiste Joona.
Ela olha-o, mas não tem tempo de lhe responder antes de a
procuradora aclarar a voz.
– Tenho de pedir ao Joona Linna que saia já – diz ela.
– Pronto, já pediu – responde Joona, sem tirar os olhos de Vicky.
– Você não tem qualquer ligação com esta investigação – diz
Susanne, elevando a voz.
– Vão fazer-te muitas perguntas – diz Joona a Vicky.
– Quero que fique comigo – pede ela em voz baixa.
– Não posso – responde Joona, com sinceridade.
Vicky fala baixinho para si própria e depois olha para Susanne
Öst.
– Não falo com ninguém se o Joona não estiver presente – exige,
num tom obstinado.
– Ele pode ficar, se estiver calado – responde a procuradora.
Joona observa Vicky, tentando compreender a forma de chegar a
ela.
Dois homicídios são uma enorme carga para carregar em
segredo.
Qualquer outra rapariga da sua idade já teria quebrado, chorado e
confessado tudo, mas esta tem uma couraça dura. Não deixa entrar
ninguém. Cria facilmente alianças, mas permanece escondida e
mantém o controlo da situação.
– Vicky Bennet – começa a procuradora, sorrindo –, chamo-me
Susanne Öst e sou eu que vou falar contigo. Mas, antes de
começarmos, quero dizer-te que gravo todas as conversas para nos
lembrarmos depois… E também para eu não ter de escrever uma
data de coisas, o que é muito bom, porque eu sou um bocado
preguiçosa…
Vicky não a olha e não reage às palavras dela. Susanne espera
um momento, mantendo o sorriso, e depois debita a hora, a data e o
nome das pessoas que se encontram presentes.
– É costume fazer isto antes de começar – explica.
– Compreendeste bem quem nós somos? – pergunta a outra
mulher. – Eu chamo-me Signe Ridelman e sou a tua defensora
oficiosa.
– A Signe está aqui para te ajudar – diz a procuradora.
– Sabes o que é um defensor oficioso?
Vicky assente, num gesto quase impercetível.
– Preciso de uma resposta – diz Signe pacientemente.
– Compreendi – responde Vicky em voz baixa e, subitamente, faz
um grande sorriso.
– O que é que tem tanta graça? – pergunta a procuradora.
– Isto – diz Vicky, puxando lentamente o cateter que lhe puseram
na dobra do braço e contemplando o sangue escuro que escorre
pelo braço pálido.
131

Um pássaro pousa no parapeito da janela e quebra o silêncio no


quarto. A lâmpada fluorescente no teto zumbe suavemente.
– Vou pedir-te que me fales de determinadas situações – diz
Susanne Öst – e quero que me digas a verdade.
– E nada mais do que a verdade – murmura Vicky, cabisbaixa.
– Há nove dias… deixaste o teu quarto no Centro Birgitta a meio
da noite, lembras-te? – começa a procuradora.
– Não contei os dias – responde Vicky em tom monocórdico.
– Mas lembras-te de teres saído do Centro Birgitta a meio da
noite?
Vicky puxa lentamente um fio solto da ligadura da mão.
– Já tinhas feito isso antes?
– O quê?
– Sair do Centro Birgitta durante a noite.
– Não – diz Vicky, em tom enfadado.
– Porque é que saíste desta vez?
Não recebendo resposta, a procuradora sorri pacientemente e
pergunta, num tom mais suave:
– Porque é que estavas acordada a meio da noite?
– Não me lembro.
– Recuando umas horas, lembras-te do que aconteceu? Foram
todas deitar-se, mas tu estavas acordada. O que é que fizeste?
– Nada.
– Não fizeste nada até de repente saíres de Birgitta durante a
noite? Não achas isso esquisito?
Vicky olha fixamente pela janela. O vento sopra sobre os telhados
e o sol esconde-se atrás das nuvens.
– Quero que me digas porque é que saíste do Centro Birgitta – diz
Susanne, num tom agora mais grave. – Não ficarei satisfeita
enquanto não me contares o que aconteceu. Compreendes?
– Não sei o que quer que eu diga – responde Vicky em voz baixa.
– É possível que te custe um bocadinho, mas tens de contar.
Vicky olha para o teto e mexe um pouco os lábios, como se
procurasse as palavras. Finalmente começa a falar, num tom
inseguro.
– Matei…
Para e começa a mexer no cateter.
– Continua – diz Susanne Öst, numa voz tensa.
Vicky humedece os lábios e abana a cabeça.
– É melhor contares tudo – diz a procuradora. – Disseste que
tinhas matado…
– Pois foi… Havia uma mosca chata no quarto, e eu matei-a…
– Merda, como é que… Desculpa. Peço desculpa. Mas não é
estranho lembrares-te de ter matado uma mosca e não te lembrares
da razão por que saíste do Centro Birgitta a meio da noite?
132

A procuradora e Signe Ridelman decidiram fazer um pequeno


intervalo e saíram do quarto. A luz parda da manhã entra pelo vidro
estriado da janela, e o céu esbranquiçado reflete-se no suporte do
soro e nos cromados da cama. Vicky Bennet está sentada na cama,
a praguejar baixinho.
– Então? – diz Joona, sentando-se numa cadeira, ao lado dela.
– Estou sempre a pensar no Dante – diz Vicky, numa voz débil.
– Ele vai ficar bom.
Vicky vai dizer alguma coisa, mas cala-se quando a procuradora e
a defensora oficiosa entram.
– Já confessaste que fugiste do Centro Birgitta durante a noite –
diz a procuradora, cheia de energia. – A meio da noite. Fugiste para
a floresta. Isto não é uma coisa que uma pessoa faça por fazer.
Tinhas uma razão para fugir, não é assim?
Vicky baixa os olhos, humedece os lábios, mas não diz nada.
– Responde – diz a procuradora, elevando a voz. – É melhor para
ti.
– Pois…
– Porque é que fugiste?
Vicky encolhe os ombros.
– Fizeste uma coisa de que te custa falar, não é verdade?
Vicky esfrega a cara com força.
– Tenho de te fazer estas perguntas – diz Susanne. – Tu achas
que isto é mau, mas eu sei que te vais sentir melhor se confessares.
– Vou?
– Vais.
Ela encolhe os ombros, ergue o olhar e cruza-o com o da
procuradora.
– O que é que eu tenho de confessar? – pergunta.
– O que fizeste nessa noite.
– Matei uma mosca.
A procuradora levanta-se de repente e sai do quarto sem dizer
uma palavra.
133

São oito e um quarto da manhã quando Saga Bauer abre a porta


do gabinete do procurador-chefe, na Secção de Processos da
Polícia. Delicadamente, Mikael Båge, chefe do Departamento de
Assuntos Internos, levanta-se da cadeira de braços para a
cumprimentar.
Saga tem o cabelo húmido do duche, e os caracóis louros e
brilhantes, enfeitados com fitas coloridas, caem-lhe sobre as costas
e os ombros magros. Apesar do penso que traz na cana do nariz, é
de uma beleza assombrosa.
Saga correu dez quilómetros logo de manhã e veste, como
habitualmente, um casaco com capuz do clube de boxe de Narva,
calças de ganga desbotadas e ténis.
– Saga Bauer? – pergunta Mikael Båge, com um enorme sorriso
embaraçado.
– Sim – responde ela.
Ele aproxima-se, alisa o casaco com as mãos e cumprimenta-a.
– Desculpe – diz –, mas se eu… Que se lixe, você já ouviu isto
muitas vezes… Mas se eu fosse vinte anos mais novo…
Com as faces ruborizadas, Mikael Båge senta-se numa cadeira e
alivia um pouco o nó da gravata antes de voltar a olhar para Saga.
A porta abre-se e o procurador-chefe, Sven Wiklund, entra.
Cumprimenta os dois, para diante de Saga, hesita em dizer alguma
coisa, mas limita-se a acenar com a cabeça, põe em cima da mesa
uma garrafa de água e três copos e senta-se.
– Saga Bauer, inspetora da Polícia de Segurança do Estado,
SÄPO – começa Mikael Båge, que não consegue evitar sorrir.
– Mais vale despachar já isto – diz o procurador-chefe a Saga. –
Você parece uma princesa do Bauer1.
Espera um momento e depois deita água nos copos.
– Chamámo-la para prestar depoimento – continua Mikael Båge,
dando palmadinhas numa pasta. – Uma vez que estava presente na
ação em causa.
– O que querem saber? – pergunta ela em tom grave.
– A queixa contra o Joona Linna diz respeito a… Ele é suspeito de
ter avisado …
– O Göran Stone é um parvalhão – interrompe ela.
– Não precisa de se zangar – diz Mikael Båge.
Saga lembra-se muito bem de que ela e Joona se introduziram
nas instalações do grupo de ação clandestino de extrema-esquerda.
Daniel Marklund, o hacker da Brigada, perito em escutas telefónicas,
deu-lhes informação que contribuiu para salvar a vida de Penélope
Fernández.
– Portanto não acha que a ação da SÄPO tenha falhado?
– Acho, mas fui eu que avisei a Brigada.
– Acontece que a queixa diz…
– O Joona é o melhor polícia do país.
– A lealdade é uma coisa positiva, mas vamos deduzir acusação
contra…
– Vão à merda! – grita Saga.
Levanta-se e vira a mesa. Os copos e a garrafa de vidro vão parar
ao chão, e a água e os cacos espalham-se pelo gabinete. Saga
arranca a pasta das mãos de Mikael Båge, despeja os papéis, pisa-
os e sai, batendo a porta com tanta força, que a janela se abre
sozinha.
Saga Bauer parece uma princesa saída de um conto de fadas,
mas sente-se como a inspetora da Polícia de Segurança do Estado
que de facto é. Está entre os melhores atiradores de precisão da
SÄPO, a seguir às unidades especiais, e é uma pugilista de elite.

1 John Bauer (1882-1918), pintor e ilustrador sueco. Parte da sua obra é constituída por
ilustrações de contos populares. (N. da T.)
134

Saga ainda pragueja baixinho quando chega à ponte de


Kungsbron. Obriga-se a abrandar o passo, esforçando-se por se
acalmar. O telemóvel toca no bolso do casaco. Saga para, olha para
o ecrã, constata que é o seu chefe na SÄPO e atende.
– Recebemos um pedido da Polícia Criminal – diz Verner, com a
sua voz grave. – Falei com o Jimmy e o Jan Pettersson, mas
nenhum deles pode… Não sei se o Göran Stone serve, mas…
– De que é que se trata?
– Um interrogatório de uma menor. É psiquicamente instável, e a
responsável pela investigação precisa de uma pessoa com
qualificação em técnicas de interrogatório e com experiência…
– Percebo que tenhas perguntado ao Jimmy – diz Saga, tomando
consciência de que a sua voz se endureceu de irritação. – Mas
porquê o Jan Pettersson? Porque é que perguntaste ao Jan
Pettersson antes de falar comigo? E o Göran, como é que podes
pensar que ele…
Saga obriga-se a calar-se. Sente-se transpirada depois da recente
explosão no gabinete dos Assuntos Internos.
– Vais já arranjar uma discussão? – suspira Verner.
– Porra, eu é que fui para Pullach, fazer a formação no Serviço de
Informações alemão, e fui eu…
– Por favor, Saga…
– Ainda não acabei – interrompe ela. – Sabes muito bem que fui
eu que participei no contrainterrogatório do Muhammed al-Abdaly.
– Mas não eras a responsável.
– Pois não, mas fui eu que consegui que ele… merda, quero que
se lixe.
Saga desliga a chamada e está a pensar em despedir-se quando
o telemóvel toca novamente.
– OK, Saga – diz Verner pausadamente. – Deixo-te tentar.
– Cala a boca! – grita ela, e desliga.

Carlos entorna ração dos peixes em cima da secretária quando


Anja abre a porta do gabinete de repente. Está a juntar os flocos
quando o telefone começa a tocar.
– Faça-me um favor, carregue no alta-voz – pede ele a Anja.
– É o Verner – diz Anja, carregando no botão.
– Ora viva – diz Carlos jovialmente, sacudindo as mãos por cima
dos aquários.
– Verner, novamente. Desculpe ter demorado.
– Não há crise.
– Ora bem, Carlos, virei as algibeiras do avesso, mas infelizmente
os meus melhores homens estão emprestados ao Alex Allan, no
Joint Intelligence Committee – diz o chefe da SÄPO. Aclara a voz e
continua: – Mas há um elemento feminino… Você conhece-a, aliás,
a Saga Bauer. Ela poderia estar presente e…
Anja inclina-se para o telefone e sibila:
– Pode estar presente como peça decorativa, não é?
– Está? – diz Verner. – Com quem estou a falar?
– Silêncio! – ruge Anja. – Eu conheço a Saga Bauer, e a SÄPO
não merece ter uma pessoa tão competente…
– Anja! – interrompe Carlos, limpando rapidamente as mãos às
calças e tentando interpor-se entre ela e o telefone.
– Sente-se – diz-lhe Anja.
Carlos senta-se, ao mesmo tempo que Verner esclarece, em voz
fraca:
– Mas eu estou sentado…
– Telefone à Saga e peça-lhe desculpa – diz Anja em tom grave,
falando para o aparelho.
135

O polícia de guarda ao quarto 703 olha para a identificação de


Saga Bauer e cora fortemente. Diz-lhe que a paciente voltará em
breve e segura-lhe a porta para ela passar.
Saga entra e detém-se diante das duas pessoas que estão à
espera. Levaram a cama, mas o suporte do soro ficou.
– Desculpe – diz uma mulher de casaco curto cinzento.
– Sim?
– É uma amiga da Vicky?
Antes que Saga possa responder, a porta abre-se e Joona Linna
entra.
– Joona! – diz ela, com um sorriso surpreendido, apertando-lhe a
mão. – Pensei que te tinham afastado do caso.
– É verdade – confirma ele.
– Que bom.
– Os Assuntos Internos estão a fazer um bom trabalho – diz o
comissário, com um grande sorriso.
A procuradora Susanne Öst dirige-se a Saga, com um olhar
interrogativo.
– SÄPO? – pergunta. – Pensei que… Quer dizer, eu tinha
pedido…
– Onde está a Vicky Bennet? – pergunta Saga.
– A médica quer fazer uma nova TAC – diz Joona. Vai para junto
da janela e fica a olhar para fora, de costas para o quarto.
– Esta manhã tomei a decisão de deter a Vicky Bennet – diz a
procuradora. – Mas seria bom, naturalmente, que houvesse uma
confissão antes da audiência preliminar.
– Está a pensar deduzir acusação? – pergunta Saga,
surpreendida.
– Olhe – diz Susanne Öst friamente –, eu estive lá, vi os corpos. A
Vicky Bennet já fez quinze anos e está numa divisão muito para
além do internamento compulsivo de menores.
Saga sorri com ceticismo.
– Mas uma pena de prisão…
– Não leve a mal – interrompe a procuradora –, mas eu estava de
facto a contar com uma pessoa experiente em interrogatório de
suspeitos.
– Bem sei – diz Saga.
– Mas vou dar-lhe uma oportunidade, com certeza. Acho que sim.
– Obrigada – diz Saga, dominando-se.
– Já estive aqui metade do dia e posso garantir-lhe que isto não é
um interrogatório vulgar – diz Susanne Öst, inspirando
profundamente.
– Em que sentido?
– A Vicky Bennet não tem medo. Parece gostar da luta de poder.
– E você? – pergunta Saga. – Gosta da luta de poder?
– Não tenho tempo para as brincadeiras dela, nem para as suas –
responde a procuradora rigidamente. – Amanhã tenho de apresentar
o pedido de detenção no tribunal.
– Depois de ouvir o interrogatório preliminar, não fiquei com a
ideia de que a Vicky Bennet estivesse a brincar – diz Saga.
– Isto é um jogo – afirma a procuradora.
– Não acho que seja. Mas o assassínio pode ser traumático
também para o homicida, e nesses casos, a memória assume a
forma de ilhas com contornos indefinidos.
– E o que é que vos ensinam a fazer na SÄPO?
– O interrogador deve partir do princípio de que todos querem
confessar e ser compreendidos – responde Saga, ignorando o tom
provocatório de Susanne.
– Mais nada? – pergunta a procuradora.
– Costumo pensar que a confissão de um crime está ligada ao
sentimento de poder, porque a pessoa que confessa tem poder
sobre a verdade – continua Saga, falando com cordialidade. – É por
isso que a ameaça não funciona, ao passo que a amabilidade, o
respeito e…
– Não se esqueça de que ela é suspeita de dois homicídios muito
brutais.
Do corredor chega-lhes o ruído de passos e o ranger das rodas
da cama que se aproxima.
136

Duas enfermeiras empurram a cama de Vicky para o quarto. A


rapariga tem a cara inchada, e a testa e as faces estão cobertas de
feridas escuras. Puseram-lhe novamente pensos nos braços, e o
polegar continua imobilizado com gesso. A cama é colocada no seu
lugar e o saco de soro pendurado no respetivo suporte. Vicky está
deitada de costas, com os olhos abertos, ignorando as tentativas
cautelosas das auxiliares de conversarem com ela. O rosto mantém
a mesma expressão grave, com os cantos da boca um pouco
descaídos.
As grades laterais da cama foram levantadas, mas as correias de
imobilização estão soltas.
Antes de as auxiliares saírem e fecharem a porta, Saga tem
tempo de ver que há agora dois polícias no corredor.
Saga espera que Vicky procure o olhar dela antes de se
aproximar da cama.
– Chamo-me Saga Bauer. Estou aqui para te ajudar a recordar os
últimos dias.
– É assistente social?
– Inspetora.
– É polícia?
– Sim, pertenço à Polícia de Segurança do Estado – responde
Saga.
– É a pessoa mais bonita que eu vi na minha vida, palavra.
– É simpático dizeres isso.
– Já cortei algumas caras bonitas – diz Vicky a sorrir.
– Eu sei – responde Saga tranquilamente.
Pega no telemóvel e inicia a função de gravação. Grava
rapidamente a informação da data, hora e local, e o nome das
pessoas presentes. Volta-se para Vicky e espera um momento antes
de falar.
– Estiveste envolvida em coisas horríveis – diz Saga
delicadamente.
– Vi nos jornais – responde Vicky, e engole em seco duas vezes.
– Vi a minha cara e a do Dante… E li coisas a meu respeito.
– Identificas-te com o que eles escreveram?
– Não.
– Então conta-me o que aconteceu, com as tuas palavras.
– Fugi e fartei-me de andar e passei frio… tive muito frio.
Vicky olha Saga nos olhos com uma expressão interrogativa,
molha os lábios e depois parece procurar em si as recordações que
estão de acordo com o que disse, ou mentiras que o expliquem.
– Não sei porque fugiste, mas se quiseres contar-me eu quero
ouvir – diz Saga pausadamente.
– Não quero – murmura Vicky.
– E se começarmos no dia anterior? – continua Saga. – Sei
algumas coisas… por exemplo, que vocês tiveram aulas de manhã,
mas para além disso…
Vicky fecha os olhos e responde, ao fim de um momento.
– Foi como de costume, rotinas e tarefas chatas.
– Não costumam ter atividades da parte da tarde?
– A Elisabet levou-nos ao lago. A Lu Chu e a Almira tomaram
banho nuas, não é permitido, mas elas são assim – conta Vicky com
um súbito sorriso. – A Elisabet ficou chateada com elas, e então
começaram todas a despir-se.
– Mas tu não?
– Não… Nem eu, nem a Miranda, nem a Tuula – responde Vicky.
– O que é que fizeram?
– Eu fui ver se a água estava fria e fiquei a ver as outras a brincar.
– E a Elisabet?
– Também se despiu toda e foi tomar banho – conta Vicky, a sorrir.
– E a Tuula e a Miranda, o que é que estavam a fazer?
– Estavam sentadas a atirar pinhas uma à outra.
– E a Elisabet tomou banho com as alunas.
– Nadou, como nadam as velhotas.
– E tu, o que é que fizeste?
– Voltei para a quinta – responde Vicky.
– Como te sentias, ao serão?
– Bem.
– Sentias-te bem? Então porque é que fizeste mal a ti própria?
Cortaste-te nos braços e na barriga.
137

A procuradora sentou-se numa cadeira e segue o interrogatório


atentamente. Saga olha para o rosto de Vicky e vê que, por
momentos, se turva e endurece. Os cantos da boca descaem e o
olhar torna-se frio.
– Ficou registado que tu fizeste golpes nos braços – observa
Saga.
– Sim, mas isso não foi nada… Estávamos a ver televisão, e eu
comecei a ter pena de mim própria e cortei-me com um caco de
louça aguçado… Fui à enfermaria, e ela pôs-me um penso. É uma
coisa de que eu gosto, porque a Elisabet é muito calma e sabe que
eu preciso de ligaduras muito macias à volta das mãos, quer dizer,
dos pulsos… Porque depois fico sempre enojada, quando penso
nas veias abertas…
– Porque é que tiveste pena de ti própria?
– Era para falar com a Elisabet, mas ela disse que não tinha
tempo.
– De que é que ias falar com ela?
– Não sei, nada… Só que era a minha vez de conversar com ela,
e o meu tempo desapareceu porque a Miranda e a Tuula discutiram.
– Não é justo – diz Saga.
– Deu-me aquela neura, cortei-me, e ela pôs-me um penso.
– Mas então sempre tiveste um bocadinho de tempo com a
Elisabet.
– Pois foi – diz Vicky a sorrir.
– És a favorita da Elisabet?
– Não.
– Quem é a favorita dela? – pergunta Saga.
Vicky dá um golpe rápido e inesperado com as costas da mão,
mas Saga desvia a cabeça, sem mexer o corpo. Vicky nem percebe
o que aconteceu, como é que pôde falhar e a polícia teve tempo de
pousar a mão na cara dela, com toda a tranquilidade.
– Estás cansada? – pergunta Saga, sem tirar a mão do rosto de
Vicky, para a reconfortar.
Vicky olha-a e deixa ficar a mão durante um momento, até que se
vira de costas para ela.
– Costumas tomar trinta miligramas de Zyprexa antes de te deitar
– continua Saga, ao fim de um momento.
– Sim.
O tom de voz de Vicky é agora inexpressivo e distante.
– A que horas?
– Às dez.
– Conseguiste adormecer?
– Não.
– Se bem percebi, não dormiste toda a noite.
– Não quero falar mais – diz Vicky. Deita a cabeça pesadamente
na almofada e fecha os olhos.
– Por hoje, chega – diz a defensora oficiosa, levantando-se da
cadeira.
– Ainda temos vinte minutos – contrapõe a procuradora.
– A minha constituinte precisa de descansar – diz Signe
Ridelman, que se dirige a Vicky. – Estás cansada, não estás?
Queres que peça alguma coisa para comeres?
Enquanto a defensora oficiosa fala com Vicky, a procuradora está
junto à janela a ouvir as mensagens de voz no telemóvel, com uma
expressão de descontentamento no rosto.
Saga prepara-se para desligar o modo de gravação, quando
encontra o olhar e Joona e detém-se.
Os olhos dele têm um intenso tom cinzento, como o gelo quando
a neve derrete, na primavera. Joona sai sem dizer uma palavra.
Saga pede à defensora oficiosa que espere um momento e segue-o
pelo corredor, afastando-se dos polícias que estão à porta do
quarto. Joona espera-a junto à porta de aço que dá para a escada
com a saída de emergência.
– Escapou-me alguma coisa? – pergunta ela.
– A Vicky dormiu na cama dela com a roupa suja de sangue – diz
Joona em voz baixa.
– O quê?!
– Não consta no relatório da inspeção ao local do crime.
– Mas tu viste?
– Vi.
– Portanto, ela dormiu depois dos crimes?
– Não tive acesso aos resultados do laboratório, mas uma coisa
que me ocorreu é que ela deve ter tomado uma dose excessiva do
medicamento, porque se sentia mal. As pessoas pensam que uma
dose maior as vai ajudar, mas não ajuda. Vão ficando cada vez mais
agitadas e acabam por ter um acesso de fúria. Ainda não sabemos
nada, mas é possível que a Vicky se quisesse vingar da Miranda por
ela lhe ter tirado o tempo de conversa com a Elisabet, que tivesse
ficado zangada com a Elisabet por ela ter deixado isso acontecer,
mas também pode ser outra coisa completamente diferente…
– Mas tu achas que um cenário possível é ela ter agredido a
Elisabet, tirado a chave e aberto o quarto de isolamento, para
depois agredir a Miranda e adormecer?
– Sim, porque os vestígios no quarto de isolamento revelam dois
lados diferentes, uma violência demencial e uma minúcia
requintada.
Joona olha diretamente para Saga, mas o seu olhar é sombrio e
pensativo.
– Quando a Miranda morre, a cólera esfuma-se – diz ele. – Ela
procura pôr em ordem o corpo da rapariga, deita-a na cama e tapa-
lhe os olhos com as mãos. Depois volta para o quarto, precisamente
quando o efeito tranquilizante do medicamento se faz sentir. É um
remédio muito poderoso, e ela fica imensamente sonolenta.
138

Quando Saga volta para o quarto, a procuradora tenta declarar


que quinze minutos são insuficientes para obter alguma coisa de
útil. Saga acena com a cabeça como se estivesse de acordo e vai
pôr-se ao fundo da cama. A defensora oficiosa olha-a
interrogativamente. Saga espera, com as mãos pousadas no metal
polido, até que Vicky levanta o rosto ferido e cruza o olhar com o
dela.
– Pensei que tinhas estado acordada toda a noite – começa Saga,
muito lentamente. – Mas o Joona diz que tu estiveste a dormir na
tua cama antes de saíres do Centro Birgitta.
Vicky abana a cabeça e a defensora oficiosa tenta intervir.
– O interrogatório de hoje está terminado e…
Vicky diz alguma coisa muito baixinho e coça uma crosta na cara.
Saga tem de conseguir que ela conte o que aconteceu depois,
mesmo que não diga muito – apenas algumas palavras verídicas
sobre a fuga na floresta e o rapto da criança.
Sabe que se o interrogador conseguir obter do interrogado
informações sobre as circunstâncias que rodearam o crime, é maior
a probabilidade de ele contar tudo.
– O Joona não se costuma enganar – diz Saga, sorrindo.
– Estava tudo às escuras, e eu estava deitada, e estava toda a
gente aos gritos e a bater nas portas – diz Vicky, num sopro de voz.
– Tu estavas na cama, com toda a gente a gritar – diz Saga,
acenando com a cabeça. – O que é que pensaste? O que é que
fizeste nessa altura?
– Tive medo, foi a primeira coisa. O meu coração batia com muita
força, muito depressa, e deixei-me ficar debaixo dos cobertores,
sem me mexer – diz Vicky, o olhar perdido no vazio. – Estava às
escuras, mas senti-me molhada… Pensei que tinha feito chichi, ou
que me tinha aparecido a menstruação, ou qualquer coisa… O
Buster ladrou, a Nina gritou alguma coisa a respeito da Miranda, eu
acendi a luz e nessa altura vi que estava coberta de sangue.
Saga obriga-se a não fazer perguntas sobre o sangue ou os
crimes, a não tentar forçar a confissão. Deixa que as palavras de
Vicky fluam por si.
– Também gritaste? – pergunta, em tom neutro.
– Acho que não, não sei… Não conseguia pensar – continua
Vicky. – Só queria fugir dali, desaparecer… Eu durmo vestida,
sempre dormi. Peguei na mala, calcei-me, trepei à janela e fui para
a floresta. Tinha medo e andava o mais depressa que conseguia.
Depois, o céu começou a clarear e ao fim de umas horas já se
conseguia ver por entre as árvores. Continuei sempre a andar e de
repente avistei um carro. Quase novo, ali abandonado, com a porta
aberta e as chaves lá dentro… Eu sei conduzir, guiei um verão
inteiro… Então, entrei no carro e arranquei. Sentia-me horrivelmente
cansada, com as pernas a tremer… Pensei em ir até Estocolmo e
tentar arranjar dinheiro para ir ter com um amigo no Chile… De
repente, senti uma pancada no carro, ele derrapou e bateu de lado
em qualquer coisa, bum!, e depois ficou tudo em silêncio. Quando
acordei, estava a deitar sangue do ouvido. Olhei para cima e vi
bocadinhos de vidro por todo o lado. Tinha ido contra um semáforo,
não sei como é que aconteceu, o carro ficou sem janelas e chovia lá
dentro… Mas o motor estava a trabalhar e eu estava viva… Levei a
mão à alavanca das mudanças, fiz marcha-atrás e continuei a guiar,
com a chuva a bater-me na cara… E então ouvi chorar, voltei-me e
vi que havia uma criança no banco de trás, um miúdo. Parecia-me
uma coisa de doidos, não percebia de onde é que ele tinha
aparecido. Dei-lhe um berro e mandei-o calar-se. Chovia a potes,
quase não se via nada, mas quando fiz a curva e ia atravessar a
ponte, vi as luzes azuis do outro lado. Entrei em pânico, virei o
volante e o carro saiu da estrada. Foi muito rápido, descemos uma
ribanceira, eu travei, mas fomos parar à água e bati com a cara no
volante. A água passava por cima do capô e entrava no carro,
enquanto nos afundávamos muito depressa… Ficou tudo escuro,
mas encontrei ar mesmo por baixo do tejadilho, passei para trás,
desprendi o cinto do miúdo e tirei-o para fora, com a cadeira, pela
janela. Já tínhamos descido muito, mas a cadeira flutuava e puxou-
nos para cima. Deixámo-nos levar pelo rio um bocado e depois
passámos para a outra margem. Estávamos encharcados, eu tinha
perdido a mala e os sapatos, mas começámos a andar…
Vicky faz uma pausa para recuperar o fôlego. Saga deteta um
movimento da procuradora, mas não desvia o olhar de Vicky.
– Disse ao Dante que íamos procurar a mãe dele – continua Vicky
com a voz trémula. – Dei-lhe a mão e andámos, andámos…
Cantámos uma canção do infantário dele sobre um velhote que
gastou os sapatos. Seguimos uma estrada muito comprida, com
umas estacas nos lados… Um carro parou e levou-nos no banco de
trás. O condutor olhou para nós pelo retrovisor, ligou o aquecimento
e perguntou-nos se queríamos ir a casa dele para vestirmos outra
roupa e comermos… Teríamos ido, se ele não tivesse olhado para
nós pelo espelho e dito que nos dava também dinheiro. Quando ele
parou para meter gasolina, nós safámo-nos e continuámos a pé…
Não sei se tínhamos andado muito, mas numa área de descanso,
ao pé de um lago, vimos um camião grande do IKEA parado e numa
daquelas mesas de madeira estava um termos e um saco de
plástico com um monte assim desta altura de sandes de salsicha,
mas antes de lhe deitarmos a mão apareceu um homem de trás do
camião e perguntou se tínhamos fome. Era polaco e levou-nos até
Uppsala… Pedi-lhe o telemóvel emprestado e liguei à minha mãe.
Pensei várias vezes que o matava se ele tocasse no miúdo, mas ele
deixou-nos descansar e dormir… Não queria nada de nós. Quando
chegámos, deixou-nos e apanhámos o comboio até Estocolmo,
escondemo-nos entre as malas… Já não tinha a chave do metro e
já não conheço ninguém, passou tanto tempo… Vivi algumas
semanas com um casal que morava no bairro de
Midsommarkransen, mas esqueci-me do nome deles. Mas
lembrava-me do Tobias, claro, tinha de me lembrar dele, e
lembrava-me que ele morava na Wollmar Yxkullsgatan e que eu
costumava ir até à praça Mariatorget e… Porra, sou tão estúpida da
cabeça, que não mereço estar viva.
Vicky cala-se, vira a cara e deixa-se ficar imóvel. Só se ouve a
respiração dela.
139

Saga está junto à cama, a passar o dedo sobre a grade, e


observa Vicky, que permanece imóvel, deitada de barriga para
baixo.
– Estou a pensar no homem do carro – diz Saga. – Aquele que
vos queria levar para a casa dele. Tenho quase a certeza de que a
tua sensação de perigo era justificada.
Vicky senta-se na cama e olha diretamente para os olhos azuis de
Saga.
– Achas que me podes ajudar a encontrá-lo quando isto estiver
resolvido? – pergunta a inspetora.
Vicky assente, engole em seco e fica quieta, abraçando-se a si
própria. Não é fácil imaginar esta menina frágil, muito magra, a
esmagar a cabeça a duas pessoas.
– Antes de continuarmos, só quero dizer que de facto as pessoas
costumam sentir-se melhor depois de contarem a verdade – diz
Saga.
Nota imediatamente algo especial a correr-lhe nas veias, como
quando está prestes a subir ao ringue. Sabe que está muito próximo
de uma confissão completa e verdadeira e sente a mudança de
ambiente no quarto – nas vozes, na temperatura, na humidade dos
olhos. Saga finge escrever qualquer coisa no caderno, espera mais
um pouco e olha para Vicky como se ela já tivesse confessado os
crimes.
– Dormiste nos lençóis sujos de sangue – diz suavemente.
– Matei a Miranda… – sussurra Vicky. – Não foi?
– Conta-me.
Os lábios de Vicky tremem, e as feridas na cara escurecem
quando ela cora.
– Às vezes fico tão furiosa – sussurra ela e tapa o rosto.
– Ficaste furiosa com a Miranda?
– Sim.
– O que é que fizeste?
– Não quero falar disso.
A defensora oficiosa não se contém e aproxima-se da cama.
– Sabes que não és obrigada a contar nada, não sabes? – diz.
– Não sou obrigada – repete Vicky, dirigindo-se a Saga.
– O interrogatório terminou – diz Susanne Öst com determinação.
– Obrigada – agradece Vicky, muito baixinho.
– Ela precisa de tempo para se lembrar – diz Saga.
– Mas nós temos uma confissão – diz Susanne.
– Não sei… – balbucia Vicky.
– Confessaste que tinhas assassinado a Miranda Ericsdotter – diz
Susanne Öst, levantando a voz.
– Não me grite – diz Vicky.
– Bateste-lhe? – pergunta Susanne. – Bateste-lhe, foi ou não foi?
– Não quero falar mais.
– Este interrogatório terminou – diz a defensora oficiosa
rispidamente.
– Como é que bateste na Miranda? – pergunta a procuradora, em
tom cortante.
– Não interessa – responde Vicky, com o choro a romper-lhe a
voz.
– As tuas impressões digitais estão num martelo sujo de sangue
que…
– Não aguento falar disso, não percebe?
– Não és obrigada a falar – diz Saga. – Tens o direito de ficar
calada.
– Porque é que te zangaste com a Miranda? – continua a
procuradora, em voz estridente. – Porque é que ficaste tão furiosa
que…
– Vou participar isto – diz a defensora oficiosa.
– Como é que entraste no quarto onde estava a Miranda? –
insiste a procuradora.
– Abri a porta – responde Vicky, tentando sair da cama. – Mas
agora não aguento falar mais disto…
– Como é que arranjaste a chave? – interrompe a procuradora.
– Não sei, eu não…
– Era a Elisabet que tinha as chaves?
– Pedi-lhas – responde ela, levantando-se.
– E ela emprestou-tas?
– Esmaguei-lhe a cabeça! – grita Vicky e atira o tabuleiro do
pequeno-almoço na direção da procuradora.
O prato de plástico com iogurte e flocos cai no chão, e o sumo de
laranja salpica as paredes.
– Vá à merda! – grita Vicky, empurrando a defensora oficiosa, que
cai para trás.
Antes de Saga e Joona conseguirem chegar junto dela, Vicky
agarra no suporte do soro e atira-o com toda a força contra o ombro
da procuradora. O saco com o líquido solta-se, bate na parede e
rebenta.
140

Joona e Saga interpuseram-se entre Vicky e as duas mulheres,


procurando acalmá-la. O soro escorria pelas paredes. Vicky
arquejava e olhava-os, amedrontada. Tinha batido em algum sítio e
sangrava abundantemente de uma sobrancelha. Os polícias e o
pessoal do hospital, que entretanto entraram no quarto, deitaram-na
à força no chão. Eram quatro pessoas, e ela entrou em pânico.
Gritando, começou a debater-se violentamente para se libertar e
derrubou o carrinho metálico com um pontapé.
Viraram-na de bruços e deram-lhe uma injeção na nádega. Vicky
soltou um grito rouco e acalmou-se rapidamente.
Passados uns minutos, levantaram-na do chão e deitaram-na na
cama. Vicky chorava e tentava dizer qualquer coisa, mas a voz
entaramelada não deixava perceber as palavras. Uma enfermeira
prendeu-lhe os pulsos e os tornozelos aos bordos da cama, depois
as coxas e, por fim, colocaram correias mais fortes, cruzadas sobre
o peito. O sangue de Vicky tinha sujado o lençol e as fardas brancas
dos enfermeiros, e o quarto era um caos de soro e comida.
Meia hora depois, Vicky jazia imóvel com as lágrimas a correrem
pela cara. Tinha o rosto inchado e os lábios cheios de feridas. A
hemorragia do sobrolho fora estancada e tinha um novo cateter no
braço. À porta do quarto, um polícia esperava que a empregada da
limpeza passasse o chão com a esfregona uma última vez.
Joona sabe que a procuradora o vigia, que não pode intervir, mas
não gosta da evolução das coisas. Agora não haverá novos
interrogatórios antes da audiência preliminar. Teria sido melhor adiar
todo o procedimento judicial até que os interrogatórios estivessem
concluídos e os resultados dos testes do LTF, prontos. Mas Susanne
Öst optou pela detenção imediata e quer requerê-la já amanhã.
Se Saga Bauer tivesse tido mais tempo, Vicky Bennet ter-lhe-ia
contado toda a verdade. Assim, tinha uma confissão que podia ser
considerada induzida.
«Por outro lado, se os dados técnicos forem inequívocos, talvez
isso não tenha importância», pensa Joona, saindo do quarto onde
Vicky dorme.
Percorre o corredor, inspirando o cheiro forte a desinfetante que
sai de uma sala com a porta aberta.
Alguma coisa neste caso o preocupa. Se puser de lado a questão
da pedra, parece fácil perceber o curso dos acontecimentos.
Encaixam uns nos outros, mas estão longe de formar um todo
coerente. Os factos continuam a vogar num mundo de sombras e
mantêm-se indefinidos e instáveis.
Precisava de ter todo o material – o relatório da autópsia, o
relatório dos técnicos e a relação detalhada dos resultados
laboratoriais.
Porque é que Miranda tinha as mãos a tapar os olhos?
Joona lembra-se do quarto e das manchas de sangue, mas
precisaria de ter acesso aos relatórios da inspeção ao local do crime
para aprofundar mais a reconstituição dos acontecimentos.
Susanne Öst dirige-se aos elevadores e põe-se ao lado de Joona.
Trocam um aceno de cabeça, e a procuradora mostra um ar
satisfeito.
– Agora estão todos contra mim porque eu pressionei de mais –
diz ela, entrando e premindo o botão. – Mas a confissão pesa muito,
mesmo que haja protestos.
– O que acha dos dados técnicos? – pergunta Joona.
– Tão fortes, que eu vou avançar com o segundo maior grau de
suspeita.
O elevador para no piso de entrada e eles saem juntos.
– Quer que eu veja o relatório? – pergunta Joona, parando.
Susanne Öst olha-o, surpreendida, e responde após um momento
de hesitação.
– Acho que não é preciso.
– Ótimo – diz Joona, e começa a afastar-se.
– Acha que pode haver buracos? – pergunta a procuradora,
tentando acompanhar-lhe o passo.
– Não – responde Joona.
– Devo ter aqui o relatório da inspeção ao local do crime… – diz
ela, abrindo a pasta.
Joona continua a andar e sai pela porta giratória, ouvindo atrás de
si a procuradora remexer papéis na pasta e depois começar a
correr. Já está junto do carro quando Susanne Öst o alcança.
– Seria ótimo se conseguisse dar-lhe uma olhadela ainda hoje –
diz ela, sem fôlego, estendendo-lhe uma pasta fina, de couro. –
Estão também alguns resultados preliminares do LTF e os atestados
de causa de morte do relatório da autópsia.
Joona olha-a, faz um aceno com a cabeça e atira a pasta para o
lugar ao lado do condutor antes de se sentar.
141

Joona está sentado no último compartimento do Il Caffé a ler as


fotocópias que Susanne Öst lhe entregou. As provocações dela
durante o interrogatório foram um grande erro.
Joona não acredita que Vicky tenha levado Dante
propositadamente – isso não corresponde à imagem que tem dela.
Contudo, por qualquer razão, terá matado Miranda e Elisabet.
Porquê?
Porque fica ela, por vezes, terrivelmente enfurecida e violenta?
Não pode ser apenas o medicamento.
Só começou a tomá-lo quando foi para o Centro Birgitta.
Joona continua a folhear os documentos.
A cena do crime e a sua localização são espelhos que refletem a
imagem do criminoso. No padrão das manchas de sangue nas
paredes e no chão, entre os móveis derrubados, nas pegadas de
botas e na posição dos corpos escondem-se fragmentos do móbil
do crime. Nathan Pollock diria provavelmente que um sentido
apurado para a cena do crime pode ser muito mais importante do
que a salvaguarda das pistas. O criminoso atribui sempre à vítima e
ao local funções específicas. A vítima desempenha um papel no seu
drama interior, e o local é como um cenário, com cenografia e
adereços. Uma grande parte pode dever-se ao acaso, mas há
sempre alguma coisa que pertence ao drama íntimo, que pode ser
associada ao móbil.
Joona Linna lê pela primeira vez o relatório de inspeção ao local
do crime. Examina demoradamente a documentação, a salvaguarda
das pistas e a análise da cena do crime.
A Polícia fez um excelente trabalho, muito mais detalhado do que
se poderia exigir.
Um empregado com um gorro de malha traz-lhe uma chávena
grande de café numa bandeja, mas Joona está tão absorvido nos
seus pensamentos que não dá pela sua presença. No
compartimento ao lado está uma rapariga com um piercing no lábio
inferior, que sorri e diz ao empregado que viu Joona pedir o café.
Embora os resultados dos testes do Laboratório Técnico Forense
não constem deste relatório, Joona compreende que os dados são
inequívocos: as impressões digitais são de Vicky Bennet. No
parecer pericial é utilizado o nível mais elevado de certeza, o grau
4+.
Nada na análise da cena do crime contradiz aquilo que ele próprio
observou no local, apesar de muitas das suas observações não
constarem do documento – por exemplo, a de que o sangue no
lençol tinha sido espalhado ao longo de pelo menos uma hora,
apresentando as manchas diferentes graus de coagulação. O
relatório também não menciona que o sangue projetado nas
paredes muda de ângulo ao fim da terceira pancada.
Joona estende a mão, pega na chávena de café e bebe,
estudando novamente as fotografias. Passa-as uma a uma e
observa-as concentrado. No fim, escolhe duas fotografias do quarto
de Vicky Bennet, duas do quarto de isolamento onde foi encontrada
Miranda Ericsdotter e duas da antiga destilaria, onde foi encontrada
Elisabet Grim. Afasta a chávena de café e os outros papéis e coloca
as seis fotografias na superfície disponível. Depois põe-se de pé e
procura apreender todo o conjunto ao mesmo tempo, tentando
encontrar um padrão novo e inesperado.
Passado um bocado, Joona afasta todas as fotografias menos
uma. Examina-a muito atentamente e procura recordar o quarto.
Traz à memória a sensação e os cheiros. A fotografia mostra o
corpo magro de Miranda Ericsdotter. Está deitada na cama, vestida
com umas cuecas de algodão branco, as mãos a tapar a cara. O
brilho do flash confere ao corpo e ao lençol uma brancura luminosa.
O sangue da cabeça esmagada aparece como uma formação
escura na almofada.
Subitamente, Joona vê uma coisa que não esperava.
Dá um passo atrás, e a chávena de café vazia cai no chão.
A rapariga com o piercing no lábio ri-se, de cabeça baixa.
Joona debruça-se sobre a fotografia de Miranda e pensa na visita
que fez a Flora Hansen. Tinha-se irritado por ter perdido tempo com
ela. Quando ia a sair, ela seguira-o até à porta, repetindo que tinha
mesmo visto Miranda e dizendo que tinha desenhado o fantasma.
Queria mostrar-lhe o desenho, mas deixou-o cair quando ele lhe
empurrou a mão. O papel caiu no chão, silenciosamente.
Continuando a andar para a porta, Joona passou por cima do papel
e pousou o olhar nele.
Observando agora a fotografia do corpo de Miranda, procura
lembrar-se do desenho de Flora Hansen. Tinha sido feito em duas
etapas. Primeiro, ela desenhou um boneco só com traços, e depois
deu forma aos membros e preencheu-os com o lápis. A figura
representada tinha contornos imprecisos em alguns sítios, e outras
partes do corpo eram quase filiformes. A cabeça era demasiado
grande, desproporcionada. O traço direito da boca mal se
adivinhava, porque o esqueleto das mãos incompletas cobria a cara.
O desenho estava bastante de acordo com o que vinha descrito nos
meios de comunicação.
O que os jornais não sabiam era que Miranda tinha sido golpeada
na cabeça e que o sangue tinha escorrido para a cama, em volta do
cabelo. Não foi divulgada qualquer fotografia da cena do crime. A
imprensa falou sobre as mãos a tapar o rosto, especulou-se sobre
isso, mas não sabiam dos ferimentos na cabeça. Toda a
investigação realizada até à audiência preliminar esteve rodeada de
um sigilo absoluto.
– Descobriu uma coisa importante, não foi? – pergunta a rapariga
no compartimento contíguo.
Joona olha-a nos olhos brilhantes e aquiesce antes de voltar a
concentrar-se na fotografia a cores em cima da mesa.
O que lhe surgiu na mente quando observava a fotografia do
corpo de Miranda foi que Flora tinha desenhado um coração escuro
em volta da cabeça, precisamente onde se encontrava de facto a
mancha de sangue.
O mesmo tamanho, o mesmo sítio.
Como se ela tivesse realmente visto Miranda deitada na cama.
É claro que pode ser uma coincidência mas, se ele recorda com
precisão o desenho de Flora, a semelhança é notável.
142

Os sinos da igreja de Gustav Vasa repicam quando Joona se


encontra com Flora à porta das Antiguidades Carlén, na
Upplandsgatan. Flora, pálida e cansada, tem um aspeto miserável.
Numa das faces vê-se uma grande nódoa negra, já a perder a cor.
Os olhos estão baços e pesados. Na porta estreita, ao lado da loja,
está afixado o anúncio de uma sessão espírita nessa tarde.
– Trouxe o desenho? – pergunta Joona.
– Trouxe – diz ela, abrindo a porta.
Descem os degraus que conduzem à cave. Flora acende a luz do
teto, num gesto rotineiro, e entra na sala do lado direito, com uma
pequena janela junto ao teto, que dá para a rua.
– Desculpe ter-lhe mentido – diz Flora, remexendo na mala. – Não
senti nada com o porta-chaves, mas…
– Só quero ver o desenho.
– Eu vi a Miranda – diz ela, entregando-lhe o papel. – Não
acredito nos fantasmas, mas… ela estava lá.
Joona desdobra a folha e observa o desenho infantil. Uma menina
deitada de costas. Está a tapar a cara e tem o cabelo espalhado.
Não há cama nem outros móveis no desenho. A memória não o
atraiçoou. Junto à cabeça, um pouco para um lado, há um coração
escuro. Foi desenhado precisamente no sítio onde o sangue de
Miranda escorreu e foi absorvido pelo lençol e o colchão.
– Porque é que desenhou um coração por cima dela?
Joona observa Flora, que baixa o olhar e cora.
– Não sei, nem sequer me lembro de o ter desenhado. Tinha
medo e estava toda a tremer.
– Voltou a ver o fantasma?
Ela aquiesce com a cabeça e cora ainda mais.
Joona procura compreender o que se passa. Poderia Flora ter
adivinhado aquilo por pura sorte? Se a pedra foi uma coisa que
adivinhou por acaso, deve ter percebido que acertou.
Não lhe terá sido difícil interpretar as reações.
Sabendo que tinha acertado ao falar na pedra, era lógico deduzir
que Miranda fora agredida com a pedra na cabeça e que haveria
sangue derramado na cama.
«Mas ela não desenhou sangue, mas um coração», pensa Joona.
E se ela quisesse enganá-lo, isso não faria sentido.
Não faz sentido.
Ela deve ter visto alguma coisa.
O que parece ter acontecido é que ela viu Miranda na cama de
uma forma pouco nítida, ou por um momento muito curto, e depois
desenhou aquilo que recordava, sem pensar.
A imagem de Miranda com a mancha de sangue junto da cabeça
surgiu-lhe na memória.
Ela sentou-se e desenhou aquilo que viu. Lembrava-se do corpo
deitado, com as mãos a tapar a cara, e de uma mancha escura ao
lado da cabeça da rapariga.
Uma forma escura.
Quando fez o desenho, interpretou essa forma como a de um
coração. Não fez nenhuma associação nem pensou naquilo que
seria lógico.
Joona sabe que Flora estava muito longe de Birgitta quando os
crimes foram cometidos e que não tem qualquer ligação nem com
as pessoas envolvidas, nem com os acontecimentos.
Volta a observar o desenho e ensaia uma nova ideia: talvez Flora
tenha sabido de alguma coisa através de alguém que estava lá.
Talvez uma testemunha do crime lhe tenha dito o que ela devia
desenhar.
Uma testemunha infantil, que deu à mancha de sangue a forma
de um coração.
Nesse caso, a conversa dos fantasmas é apenas a forma de Flora
proteger a identidade da testemunha.
– Quero que tente entrar em contacto com o fantasma – diz
Joona.
– Não, isso não posso fazer…
– Como é que isso se passa habitualmente?
– Tenho pena, mas não posso fazer isso aqui – responde Flora
serenamente.
– Tem de perguntar ao fantasma se viu o que se passou.
– Não quero – diz ela, num fio de voz. – Não aguento.
– Eu pago-lhe – diz ele.
– Não quero que me pague, só quero que me ouça.
– E eu ouço.
– Neste momento já não tenho a certeza, mas acho que não sou
doida.
– Também acho que não é – responde ele gravemente.
Ela olha-o e limpa as lágrimas do rosto. Depois olha em frente e
engole em seco.
– Eu tento – diz ela em voz baixa. – Mas a verdade é que não
acredito em…
– Faça uma tentativa.
– Espere ali dentro – diz ela, apontando para a salinha adjacente.
– A Miranda só aparece quando estou sozinha.
– Compreendo – diz Joona, levantando-se e saindo.
143

Flora fica sentada, sem se mexer, enquanto o comissário sai e


fecha a porta atrás de si. A cadeira range quando ele se senta, e
depois faz-se silêncio total. Flora não ouve um único ruído – nem
um carro, nem um cão a ladrar. Da divisão ao lado, onde o
comissário aguarda, não vem qualquer som.
Só agora toma consciência de um enorme cansaço.
Flora não sabe o que fazer, se deve ou não acender as velas e o
incenso. Mas deixa-se ficar sentada, fecha os olhos por um
momento e depois olha para o desenho.
Recorda a forma como a mão lhe tremia quando desenhou o que
tinha visto e o quanto lhe custara concentrar-se, olhando
repetidamente em volta, para ver se o fantasma voltara.
Agora observa o desenho. Não tem jeito para desenhar, mas vê-
se que a rapariga está deitada no chão. Repara nos risquinhos que
pretendiam representar as franjas do tapete da casa de banho.
A mão tremia-lhe, e uma das coxas saiu tão fina como se fosse só
um osso.
Os dedos diante do rosto são simples traços. Por trás, vê-se o
risco direito da boca.
A cadeira na outra sala range novamente.
Flora fecha os olhos com força várias vezes e fixa o desenho.
Parece que os dedos se separaram um pouco, porque agora ela
vê um olho.
A rapariga fita-a.
Flora ouve o gorgolejar dos canos e sobressalta-se. Olha em
volta, examinando a pequena sala. O divã está mergulhado na
sombra e a mesa, num canto escuro.
Quanto torna a olhar para o desenho, não se vê o olho. Uma
dobra no papel quadriculado atravessa o rosto.
Com as mãos a tremer, Flora procura alisar a folha. Os dedos
finos da rapariga escondem os olhos. O desenho revela apenas
uma parte da boca.
O chão range subitamente atrás dela, e Flora volta-se
rapidamente.
Não há ninguém.
Fixa o desenho até começar a lacrimejar. Os contornos do
coração, por cima da cabeça, tornaram-se indefinidos. Flora desliza
o olhar pelo cabelo desalinhado e regressa aos dedos que tapam o
rosto. As mãos largam automaticamente o papel quando vê que a
boca já não é uma linha reta.
Tomou a forma de um grito.
Flora levanta-se da cadeira e a sua respiração altera-se. Olha
para o desenho, para a boca que grita por trás dos dedos e quando
vai gritar pelo comissário, vê a rapariga.
Escondeu-se no armário que está encostado à parede. Parece
querer ocultar-se o mais possível, mas a porta não fecha com ela lá
dentro. Está imóvel, com as mãos à frente da cara. Então, os dedos
separam-se um pouco, e ela fixa Flora com um olho.
Flora não despega o olhar dela.
A rapariga diz alguma coisa por trás das mãos, mas é impossível
distinguir as palavras.
Flora aproxima-se.
– Não ouço – diz ela.
– Estou grávida – diz a rapariga, descobrindo o rosto. Com uma
expressão intrigada, apalpa cautelosamente a nuca e depois traz a
mão à frente, olha para o sangue e cambaleia. O sangue jorra-lhe
da nuca num fluxo contínuo que lhe desce pelas costas e se
espalha no chão.
A boca abre-se, mas antes de conseguir falar, começa a abanar a
cabeça e as pernas magras dobram-se.
Joona ouve o estrondo na sala ao lado e precipita-se para lá.
Flora está caída no chão diante de um armário semiaberto. Senta-se
e olha-o com uma expressão confusa.
– Vi-a… Ela está grávida…
Joona ajuda Flora a levantar-se.
– Perguntou-lhe o que aconteceu?
Flora abana a cabeça e olha para o armário vazio.
– Ninguém pode ver nada – murmura.
– O que é que disse?
– A Miranda disse que estava grávida – repete Flora, chorando e
dando uns passos para trás.
Limpa as lágrimas, olha para o armário caído no chão e sai.
Joona tira o casaco dela de cima de uma cadeira e segue-a. Flora já
está a subir a escada que conduz à rua.
144

Sentada nos degraus das Antiguidades Carlén, Flora abotoa o


casaco. Já recuperou as cores, mas não diz nada. Joona está no
passeio, com o telemóvel encostado ao ouvido, a falar com o
médico-legista do hospital Karolinska, Nils Åhlén.
– Espera – diz Nålen. – Arranjei um smartphone.
Joona ouve uma série de estalidos estridentes.
– Sim?
– Tenho uma pergunta breve – diz Joona.
– O Frippe está apaixonado – diz Nålen, na sua voz nasalada e
resoluta.
– Que bom – responde Joona tranquilamente.
– Só tenho medo de que ele fique muito em baixo se a coisa
acabar – continua Nålen. – Compreendes?
– Sim, mas…
– Que é que querias perguntar?
– A Miranda Ericsdotter estava grávida?
– Não, senhor.
– Lembras-te, aquela rapariga que…
– Lembro-me de todas – responde ele asperamente.
– A sério? Nunca me tinhas dito isso.
– Nunca me perguntaste.
Flora levantou-se, com um sorriso ansioso no rosto.
– Tens a certeza de que…
– Absoluta – interrompe Nålen. – Nem podia engravidar.
– Não podia?
– A Miranda tinha quistos enormes nos ovários.
– Fico informado, então… Dá cumprimentos ao Frippe.
– Darei.
Joona termina a chamada e olha para Flora. O sorriso dela
desaparece gradualmente.
– Porque é que faz isto? – pergunta Joona, num tom grave. –
Disse-me que a rapariga que foi assassinada estava grávida, mas
ela não podia sequer engravidar.
Flora faz um gesto vago em direção à porta para a cave.
– Eu lembro-me de que ela…
– Mas não era verdade – interrompe Joona. – Ela, de facto, não
estava grávida.
– O que eu queria dizer … – murmura Flora. – O que eu queria
dizer é que ela disse que estava grávida. Mas não era verdade, não
estava. Isso era o que ela pensava, julgava que estava grávida.
– Jumala – suspira Joona. Meu Deus… E começa a subir a
Upplandsgatan em direção ao carro.
145

Os preços são caros, e Daniel fica embaraçado quando vê a lista


dos vinhos. Pergunta a Elin se quer escolher, mas ela abana a
cabeça, sorrindo. Daniel aclara a garganta, pede ao empregado o
vinho da casa, muda de ideias antes de ele ter tempo de responder
e pergunta-lhe se pode recomendar um vinho tinto que acompanhe
bem o prato. O jovem empregado examina a lista de vinhos e
apresenta três opções, em diferentes categorias de preços. Daniel
escolhe o mais barato e diz que um Pinot Noir sul-africano será
perfeito.
O empregado agradece e afasta-se, levando a lista dos vinhos e a
ementa. Numa mesa um pouco afastada, está uma família a jantar.
– Não precisavas de me ter convidado para jantar – diz Elin.
– Mas eu queria convidar-te – diz ele, sorrindo.
– Foi muitíssimo gentil – acrescenta ela, e bebe um gole de água.
Uma empregada vem mudar os talheres e os copos de vinho, mas
Elin continua a conversar como se o pessoal do restaurante não
existisse.
– A defensora oficiosa da Vicky renunciou ao caso – diz ela em
voz baixa. – Mas o advogado da minha família, o Johannes
Grünewald, já está a par de tudo.
– Vai correr tudo bem, de certeza – tranquiliza-a Daniel.
– Não vai haver mais nenhum interrogatório. Dizem que ela já
confessou – continua Elin, aclarando a voz cautelosamente. – Eu
também percebo que a Vicky tem o perfil certo. Famílias de
acolhimento, fugas, instituições, violência… Tudo aponta para ela.
Mas continuo a achar que está inocente.
– Eu sei – diz Daniel.
Elin baixa a cabeça para dissimular as lágrimas que lhe correm
pelo rosto. Daniel levanta-se, contorna a mesa e abraça-a.
– Desculpa eu falar tanto da Vicky – diz ela, abanando a cabeça.
– Mas é porque tu disseste que não acreditavas que tivesse sido
ela. Quer dizer, se não fosse isso, eu não… Mas sinto que só eu e
tu é que não acreditamos que foi ela…
– Elin – diz ele em tom grave –, a verdade é que eu não penso
nada. A Vicky que eu conheci não seria capaz disto.
– Queria perguntar-te uma coisa. Parece que a Tuula viu a Vicky e
a Miranda juntas.
– Nessa noite?
– Não, antes…
Elin cala-se e Daniel põe-lhe as mãos nos ombros e procura-lhe o
olhar.
– Que foi? – pergunta.
– A Vicky e a Miranda estavam a fazer um jogo qualquer e
tapavam a cara com as mãos – diz Elin. – Não contei isto à Polícia,
porque ia agravar as suspeitas sobre a Vicky.
– Mas, Elin…
– Pode não ter significado nenhum – interrompe ela rapidamente.
– Assim que tiver oportunidade, pergunto à Vicky. Ela vai explicar o
que estavam a fazer, tenho a certeza.
– Mas se ela não tiver uma explicação?
Daniel cala-se quando o empregado se aproxima com a garrafa
de vinho. Elin limpa os olhos, e ele volta para o lugar, põe o
guardanapo no colo e prova o vinho, segurando o copo com a mão
trémula.
– Está bem – diz, depressa de mais.
Ficam em silêncio enquanto o empregado serve o vinho,
agradecem em voz baixa e encaram-se cautelosamente quando
ficam sozinhos.
– Quero voltar a ser mãe de recurso da Vicky – diz Elin.
– Já tomaste a decisão?
– Achas que não sou capaz? – pergunta ela, sorrindo.
– Elin, não é isso que está em causa – diz ele. – A Vicky tem
tendências suicidas… Melhorou, mas ainda tem um comportamento
autodestrutivo muito grave.
– Corta-se? É isso que ela faz?
– Ela melhorou, mas corta-se e toma comprimidos… A minha
opinião é que a Vicky precisa de ter alguém junto dela vinte e quatro
horas por dia.
– Então não me recomendarias como família de recurso?
– Ela precisa de ajuda profissional – explica Daniel, num tom
cauteloso. – O que eu quero dizer é que não acho sequer que ela
tenha tido o apoio adequado em Birgitta. Não havia dinheiro para
isso, mas…
– De que é que ela precisa?
– Cuidados profissionais vinte e quatro horas por dia – responde
ele prontamente.
– E terapia?
– Eu só tinha uma hora por semana com as alunas em geral, duas
horas com algumas delas, mas isso é muito pouco para se…
O telemóvel de Elin toca. Ela pede desculpa, vê que a chamada é
de Johannes Grünewald e atende.
– Que é que se passa? – pergunta rapidamente.
– Fui saber como estão as coisas, e é verdade que a procuradora
decidiu apresentar o pedido de prisão preventiva sem mais
interrogatórios – responde o advogado. – Vou falar com o tribunal
sobre a marcação da audiência, mas precisamos de mais algumas
horas.
– A Vicky aceita a nossa ajuda?
– Sim. Falei com ela e disse que aceitava ser representada por
mim.
– Falaste em mim?
– Falei.
– Ela disse alguma coisa?
– Ela está… Eles medicaram-na e…
– O que é que ela disse, exatamente, quando falaste em mim? –
insiste Elin.
– Nada.
Daniel vê uma súbita expressão de dor no rosto perfeito de Elin.
– Vai ter comigo ao hospital – diz Elin. – É melhor falar
diretamente com ela sobre o assunto antes de avançarmos.
– Sim.
– Quando podes estar no hospital, Johannes?
– Talvez daqui a uns vinte minutos…
– Até já, então. – Elin desliga e enfrenta o olhar interrogativo de
Daniel.
– Pronto… A Vicky aceitou que o Johannes a represente. Tenho
de ir já para lá.
– Já? Não tens tempo de comer?
– Parece divinal – diz Elin, levantando-se. – Mas podemos comer
depois.
– Com certeza – responde ele em voz baixa.
– Não podes ir comigo ao hospital de Söder?
– Não sei se aguento.
– Não digo que vás vê-la – acrescenta Elin rapidamente. – Estava
só a pensar em mim, que me sentiria mais calma se soubesse que
estavas à minha espera lá fora.
– Elin, ainda é… Ainda não cheguei ao ponto de ser capaz de
pensar na Vicky… É preciso algum tempo. A Elisabet morreu…
Embora eu não consiga acreditar que a Vicky fosse capaz de…
– Eu compreendo – diz Elin. – Talvez não seja boa ideia
encontrares-te com ela.
– Ou talvez seja – diz ele, hesitante. – Talvez me ajudasse a
começar a recordar. A verdade é que não faço ideia de qual seria a
minha reação.
146

Vicky vira a cara quando Saga entra no quarto. A rapariga tem


correias de imobilização nos tornozelos, nos pulsos e sobre o peito.
– Tire-lhe as correias – diz Saga.
– Não posso fazer isso – responde a enfermeira.
– É bom que eles tenham medo de mim – murmura Vicky.
– Estiveste assim presa toda a noite? – pergunta Saga, sentando-
se na cadeira.
– Sim…
Vicky está perfeitamente imóvel, com o rosto virado para o lado e
o corpo quase relaxado.
– Vou falar com o teu novo advogado – diz Saga. – Parece que a
audiência preliminar é hoje, ao fim da tarde, e ele precisa da
transcrição do interrogatório.
– Eu sinto às vezes umas fúrias…
– O interrogatório está concluído, Vicky.
– Não posso falar? – pergunta ela, olhando Saga nos olhos.
– É melhor pedires o conselho do teu advogado antes de…
– Mas se eu quiser? – interrompe ela.
– Podes sempre falar, claro, mas não gravamos nada – responde
Saga tranquilamente.
– É como quando há muito vento – diz Vicky. – É tudo… Sente-se
um barulho enorme nos ouvidos, e a pessoa deixa-se arrastar, para
não cair.
Saga observa as unhas roídas de Vicky e repete as palavras dela,
num tom calmo, quase indiferente.
– Como quando há muito vento.
– Não sei explicar. É como uma vez em que estavam a fazer mal
ao Simon, um miúdo que… Fomos os dois colocados na mesma
família – conta Vicky, com os lábios a tremer. – O filho mais velho
dessa família, e que era mesmo filho deles, era horrível para o
Simon e estava sempre a massacrá-lo. Toda a gente sabia, eu já
tinha falado com a assistente social, mas ninguém ligou…
– O que é que aconteceu?
– Entrei na cozinha… O rapaz tinha metido as mãos do Simon
dentro de água a ferver, e a mãe estava ali, a olhar para eles com
um ar assustado. Vi aquela cena e senti uma coisa muito esquisita,
e de repente comecei a bater-lhes e cortei-lhes a cara com uma
garrafa partida…
Vicky começa a puxar as correias e retesa o corpo. Batem à porta
e ela, ainda com a respiração arquejante, acalma-se.
Um homem de cabelo grisalho e fato azul-escuro entra
resolutamente no quarto.
– Johannes Grünewald – apresenta-se, apertando a mão de
Saga.
– Tem aqui a última transcrição – diz Saga.
– Obrigado – diz ele, sem olhar para os papéis. – Já não há
aquela urgência em ler isto, porque acabo de conseguir o acordo do
tribunal para o adiamento da audiência para amanhã de manhã.
– Não quero esperar – diz Vicky.
– Compreendo, mas ainda tenho algum trabalho para fazer –
explica o advogado, sorrindo-lhe. – E há uma pessoa com quem eu
queria que falasses antes de começarmos com as perguntas.
Vicky olha, com os olhos grandes e claros muito abertos, para a
mulher que entra e, sem cumprimentar ninguém, se dirige logo para
ela. O olhar de Elin Frank é brilhante e nervoso. Os lábios tremem-
lhe quando vê que Vicky está presa à cama.
– Olá – diz ela.
Vicky vira lentamente a cara e fica assim enquanto Elin lhe
desaperta as correias todas. Vagarosamente, com gestos ternos,
liberta-a da imobilização forçada que dura há vinte horas.
– Posso sentar-me aqui? – pergunta depois, numa voz carregada
de emoção.
O olhar de Vicky torna-se límpido e duro. Mas não responde.
– Lembras-te de mim? – pergunta Elin num sussurro.
Dói-lhe a garganta das palavras que ficam presas e não saem, e
das lágrimas que se acumulam. As veias do pescoço dilatam e o
sangue aquece-lhe a pele.
Algures na cidade repicam os sinos de uma igreja.
Vicky passa um dedo no pulso de Elin e depois retira a mão.
– Temos as mesmas ligaduras, tu e eu – diz Elin, com um sorriso
e os olhos a encherem-se de lágrimas.
Vicky não responde. Aperta os lábios e vira a cara.
– Não sei se te lembras de mim – continua Elin –, mas viveste
comigo quando eras pequenina. Eu era a família de recurso, mas
fiquei sempre a pensar em ti.
Inspira profundamente, e a voz embarga-se de novo.
– Sei que te abandonei, Vicky… Abandonei-te…
Elin Frank olha a criança deitada na cama, o cabelo despenteado,
o rosto preocupado, as olheiras profundas e os ferimentos no rosto.
– Para ti, eu não significo nada – continua numa voz fraca. – Sou
uma das muitas pessoas que passaram pela tua vida e que te
abandonaram…
Elin cala-se, engole em seco e depois continua a falar.
– A procuradora quer que sejas presa, mas eu acho que não seria
bom para ti, acho que não é bom para ninguém estar fechado.
Vicky abana a cabeça quase impercetivelmente. Elin deteta a
reação, e a voz dela ganha energia.
– Por isso, é importante que ouças com atenção aquilo que eu e o
Johannes te vamos dizer.
147

O tribunal de Estocolmo dispõe de uma sala destinada às


audiências preliminares, situada no andar térreo do edifício central
da Polícia. Trata-se de uma sala de reunião simples, com cadeiras e
mesas de pinho envernizado. No foyer envidraçado da Direção
Nacional da Polícia já se juntou uma vintena de jornalistas, e lá fora,
na Polhelmsgatan, estão estacionados carros das estações de
televisão.
A chuva forte que caiu durante a noite deixou traços nas vidraças
das janelas triplas e folhas mortas coladas aos caixilhos metálicos.
A procuradora Susanne Öst está pálida e parece tensa no seu
fato novo Marella e sabrinas pretas. Um polícia fardado e bem-
constituído guarda a porta do lado de fora. O juiz que preside à
audiência, um homem já de idade avançada, com umas
sobrancelhas hirsutas imponentes, encontra-se sentado à
secretária.
Vicky inclina-se para a frente na cadeira, como se tivesse dores
de barriga. Ao seu lado está Elin Frank e, do outro lado, o advogado
Johannes Grünewald. Tem um aspeto extremamente franzino e
combalido.
– Onde está o Joona? – pergunta ela, em voz muito baixa.
– Não era certo que ele pudesse vir – responde Johannes
tranquilamente.
A procuradora dirige-se unicamente ao juiz e declara com a
máxima seriedade:
– É minha intenção pedir a prisão preventiva de Vicky Bennet, que
é suspeita, com base em razões fundamentadas, do homicídio de
Elisabet Grim e Miranda Ericsdotter, bem como, igualmente com
base em razões fundamentadas, de rapto… nomeadamente, do
rapto de Dante Abrahamsson.
O juiz escreve qualquer coisa, e a procuradora apresenta-lhe uma
resma de folhas encadernadas e começa a enumerar os factos
apurados até ao momento no âmbito da investigação.
– Todos os dados técnicos apontam diretamente para Vicky
Bennet e só para ela.
Susanne Öst faz uma curta pausa e depois continua a passar em
revista os pormenores do relatório de inspeção da cena do crime.
Com excitação contida, descreve pausadamente os indícios
biológicos e as pegadas.
– As botas encontradas no armário da Vicky Bennet coincidem
com as pegadas nos dois locais dos crimes; foi encontrado sangue
de ambas as vítimas no quarto da suspeita e na roupa dela; e havia
uma impressão da mão de Vicky Bennet, suja de sangue, no
caixilho da janela.
– Porque é que eles têm de dizer tudo? – pergunta Vicky baixinho.
– Não sei – responde Elin.
– Peço ao meritíssimo juiz que se remeta agora aos anexos do
relatório pericial do LTF – continua Susanne Öst. – Na fotografia 9
vê-se a arma do crime… Foram encontradas impressões digitais de
Vicky Bennet no cabo do martelo, como se vê nas fotografias 113 e
114. A análise comparativa revela, sem margem de dúvida, que
Vicky Bennet utilizou a arma do crime.
A procuradora aclara a voz enquanto espera que o juiz examine o
material e depois continua a relatar as conclusões integrais da
autópsia.
– Miranda Ericsdotter morreu em consequência de pancadas
violentas na cabeça, facto que não oferece qualquer dúvida… As
fraturas com afundamento craniano no osso temporal e…
– Senhora doutora – interrompe o juiz amigavelmente –, estamos
numa audiência preliminar, não estamos no julgamento.
– Eu sei – concorda a procuradora. – Mas tendo em conta a
pouca idade da detida, entendo que se justifica uma apresentação
um pouco mais aprofundada.
– Desde que respeite os limites do razoável – retorque o juiz.
– Obrigada. – A procuradora sorri e continua a descrever as
lesões das duas vítimas, a respetiva posição, indicada pelas
manchas cadavéricas, e as graves lesões de defesa que Elisabet
Grim apresentava.
– Onde está o Joona? – pergunta Vicky novamente.
Johannes Grünewald pousa a mão no braço da rapariga,
tranquilizando-a, e segreda-lhe que se ele não chegar antes do
intervalo, vai tentar telefonar-lhe.
148

Quando se reúnem novamente na sala, para retomar a audiência


depois do intervalo, Joona ainda não apareceu. Ao olhar
interrogativo de Vicky, Johannes responde abanando a cabeça.
Vicky, muito pálida, encolhida, está sentada em silêncio.
Apoiando-se na reconstituição dos acontecimentos feita pela
Polícia de Västernorrland, a procuradora relata que Vicky terá
perseguido Elisabet Grim até à destilaria, onde a matou, para lhe
tirar as chaves do quarto de isolamento.
Vicky baixou a cabeça e as lágrimas caem-lhe nos joelhos.
A procuradora descreve o segundo homicídio, a fuga pela floresta,
o roubo do carro, o rapto, fruto de um impulso, e depois a detenção
em Estocolmo, a violência durante os interrogatórios e a
imobilização forçada.
O rapto é punido com uma pena de prisão que pode ir de quatro
anos a prisão perpétua, e o homicídio voluntário com uma pena
mínima de dez anos.
Susanne Öst levanta-se para descrever Vicky Bennet como muito
violenta e perigosa, mas não como um monstro. Antecipando-se à
defesa, faz questão de referir mais do que uma vez os seus lados
positivos. As alegações da procuradora são apresentadas
habilmente, e ela termina citando diretamente a transcrição do
interrogatório.
– No decurso do terceiro interrogatório, a detida confessou os dois
homicídios – diz a procuradora vagarosamente, enquanto folheia o
documento. – «Matei a Miranda.» Mais tarde, quando lhe perguntei
se… se Elisabet Grim lhe tinha emprestado as chaves, a detida
respondeu: «Esmaguei-lhe a cabeça.»
149

Com uma expressão cansada, o juiz dirige-se a Vicky Bennet e


Johannes Grünewald para lhes perguntar formalmente se têm
alguma coisa a opor às alegações da procuradora. Vicky olha-o com
uma expressão chocada e abana a cabeça, mas Johannes,
obrigando-se a suprimir um sorriso, diz que gostaria de passar
novamente em revista todos os factos, para ter a certeza de que o
tribunal não perde nada.
– Calculei que a coisa não iria ser assim tão fácil, consigo na sala
– responde o juiz calmamente.
Nas contra-alegações, Johannes opta por não se referir aos
dados técnicos nem pôr em causa a culpabilidade de Vicky. Mas
repete as apreciações positivas que Susanne Öst já adiantara e
sublinha por várias vezes a pouca idade de Vicky.
– Mesmo que Vicky Bennet e a sua anterior representante tenham
aprovado o interrogatório, a procuradora não devia tê-lo feito – diz
Johannes.
– A procuradora?
O juiz mostra-se muito intrigado, e Johannes aproxima-se dele e
aponta a resposta de Vicky Bennet na transcrição do interrogatório
gravado. A procuradora destacara a frase «Matei a Miranda» com
marcador amarelo.
– Por favor, leia a resposta dela – pede Johannes.
– «Matei a Miranda» – lê o juiz.
– Leia tudo, e não só o que está destacado.
O juiz põe os óculos de leitura.
– «Matei a Miranda… não foi?»
– Considera isto uma confissão?
– Não – responde o juiz.
Susanne Öst levanta-se.
– Mas a resposta seguinte – tenta interpor. – A confissão, a
seguir…
– Silêncio! – interrompe-a o juiz.
– Peça à procuradora que leia – sugere Johannes.
O juiz assente, e Susanne Öst, com o rosto perlado de suor, lê em
voz trémula:
– «Esmaguei-lhe a cabeça.»
– Parece uma confissão – diz o juiz, virando-se para Johannes.
– Veja um pouco mais acima – diz Johannes, apontando outra
linha na transcrição.
– «O interrogatório terminou» – lê o juiz.
– Quem dá o interrogatório por terminado? – pergunta Johannes.
O juiz passa a mão pelo papel e observa a procuradora.
– Eu – responde Susanne Öst em voz baixa.
– E o que é que isso significa? – pergunta o juiz.
– Que o interrogatório está concluído – responde Susanne. – Mas
eu só queria…
– É vergonhoso! – interrompe o juiz rispidamente.
– Fazer uso disto numa audiência preliminar viola a lei sueca, o
artigo 40.° da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da
Criança e o protocolo do Conselho da Europa – diz Johannes.
150

Susanne Öst senta-se pesadamente na cadeira, deita água no


copo, entorna um pouco na mesa, que limpa com a manga do
casaco, e bebe, com a mão trémula. Só quando ouve Johannes
chamar como testemunha Daniel Grim compreende cabalmente que
vai ser obrigada a baixar o grau de suspeita para conseguir obter a
detenção de Vicky.
Elin tenta encontrar o olhar de Vicky, mas ela mantém a cabeça
baixa.
Johannes apresenta, em voz calorosa, Daniel Grim e refere os
largos anos de experiência que ele tem no Centro Birgitta e noutras
instituições. Pela primeira vez, Vicky levanta o rosto e tenta olhar
Daniel nos olhos, mas ele olha em frente, com a boca muito
apertada.
– Daniel Grim – diz Johannes –, quero perguntar-lhe até que
ponto acha que conhece a Vicky Bennet.
– Conhecer… – repete Daniel, pensativamente. – Não, isso…
Cala-se e Vicky começa a coçar uma crosta no braço.
– Há algum psicólogo ou terapeuta que a conheça melhor do que
o Daniel?
– Não – sussurra ele.
– Não há?
– Não, quer dizer… É difícil medir isso, mas acho que fui eu que
conversei com ela mais vezes.
– A última conversa foi há muito tempo?
– Não.
– Tinha uma hora de terapia cognitiva com ela, uma vez por
semana, até ela ter fugido, não é assim?
– É… E também participei no programa de aprendizagem de
socialização, o chamado All Day Lifstyle, com ela.
– É a fase inicial do regresso a uma vida normal na sociedade –
diz Johannes, dirigindo-se ao juiz.
– Um grande passo – reitera Daniel.
Johannes fica pensativo, observa Daniel durante um momento e
depois anuncia, em tom grave:
– Vou fazer uma pergunta difícil.
– OK.
– Alega-se que uma grande parte da investigação técnica aponta
para o envolvimento de Vicky Bennet no homicídio da sua mulher.
Daniel acena quase impercetivelmente com a cabeça, e o
ambiente na sala de audiências fica carregado de tensão.
Elin procura interpretar o olhar de Daniel, mas ele não levanta a
cabeça. Os olhos de Vicky estão vermelhos, como se a rapariga
estivesse a fazer um esforço para não chorar.
Johannes, imóvel, mantendo uma expressão calma, continua a
fixar Daniel atentamente.
– O Daniel é o terapeuta de Vicky Bennet – diz ele. – Pensa que
foi ela que matou a sua mulher?
Daniel Grim ergue o rosto. Os lábios estão exangues e a mão
treme-lhe tão violentamente que entorta os óculos quando tenta
limpar as lágrimas.
– Não falei com nenhum colega. Não consegui – responde, numa
voz débil. – Mas na minha avaliação… Não consigo acreditar que a
Vicky Bennet tenha feito aquilo.
– Como fez essa avaliação?
– A Vicky reagiu bem à terapia e à medicação – continua ele. –
Mas, acima de tudo, nós começamos a conhecer as pessoas que…
Ela não tem fantasias de violência, não é violenta, dessa maneira.
– Obrigado – diz Johannes calmamente.
151

Após o intervalo para almoço, todos regressam à sala de


audiências. Johannes Grünewald é o último a entrar, com o
telemóvel na mão. O juiz espera que se instale o silêncio e faz um
resumo da primeira parte da sessão.
– A senhora procuradora baixou o grau de suspeita para o
segundo mais baixo, relativamente aos dois homicídios, mas
mantém o pedido de detenção, por rapto, com base em
fundamentos de acusação prováveis.
– Sim, não me parece possível ignorar o facto de Vicky Bennet ter
raptado Dante Abrahamsson e ter mantido a criança presa durante
uma semana – diz Susanne Öst, contida.
– Só um momento – diz Johannes Grünewald.
– Sim? – diz o juiz.
A porta abre-se e Joona Linna entra na sala, com uma expressão
grave no rosto e o cabelo ondulado em desalinho. Uma mulher e um
rapazinho com óculos seguem-no, mas ficam à entrada.
– Joona Linna – apresenta-o Johannes.
– Até aí, sei eu – diz o juiz, inclinando-se interessadamente para a
frente.
– São estes os senhores de quem eu te falei – diz Joona ao
rapazinho, que se esconde atrás das pernas da mulher.
– Não parecem duendes da floresta – murmura o rapazinho, a
sorrir.
– Achas? Olha para aquele – diz Joona, apontando para o juiz.
O menino abana a cabeça, a rir.
– Podem cumprimentar o Dante e a mãe – diz Joona.
Todos os saúdam e, quando Dante vê Vicky, acena-lhe
timidamente com a mão. Ela acena-lhe também e dirige-lhe um
sorriso emocionado. A procuradora fecha os olhos por um momento
e procura respirar lentamente.
– Estás a dizer adeus à Vicky, mas não achas que ela é má? –
pergunta Joona.
– Má?
– Pensei que ela era má – diz Joona.
– Ela levou-me às cavalitas e deu-me as Hubba Bubbas dela
todas.
– Mas tu querias voltar para a tua mãe.
– Mas não podíamos – responde ele baixinho.
– Porquê?
O rapazinho encolhe os ombros.
– Conta outra vez aquilo que disseste em casa – diz Pia ao filho.
– O quê? – sussurra ele.
– Que ela telefonou – recorda Pia.
– Ela telefonou – diz Dante.
– Diz ao Joona – insiste Pia, apontando-o com um gesto da
cabeça.
– A Vicky telefonou, mas não podia voltar – diz Dante, virado para
Joona.
– De onde é que ela telefonou? – pergunta Joona.
– Do camião.
– Pediu um telemóvel emprestado no camião?
– Não sei – diz Dante, encolhendo os ombros.
– O que é que ela disse ao telefone? – pergunta Joona.
– Que queria voltar.
A mãe pega em Dante ao colo e segreda-lhe alguma coisa ao
ouvido. Quando ele começa a ficar impaciente, pousa-o novamente
no chão.
– Que significa isto? – pergunta o juiz.
– Vicky Bennet usou o telemóvel de um motorista do IKEA
chamado Radek Skorża – afirma Johannes Grünewald. – Joona
Linna conseguiu detetar a chamada, que foi feita para Birgitta e
automaticamente reencaminhada para a central telefónica do
consórcio de saúde. Vicky falou com uma mulher chamada Eva
Morander. Pediu-lhe ajuda e insistiu em que queria voltar para o lar
onde fora colocada. Eva Morander lembrava-se da conversa e
contou que, sem saber com quem estava a falar, lhe tinha explicado
que no escritório central não podiam tratar dos casos individuais.
– Lembras-te disto, Vicky? – pergunta o juiz.
– Sim – responde Vicky, numa voz inexpressiva. – Eu só queria
voltar, queria que levassem o Dante à mãe, mas disseram-me que já
não me queriam lá.
Joona vai colocar-se ao lado de Johannes.
– Pode parecer estranho que um comissário da Polícia Criminal
esteja do lado da defesa – diz. – Mas tenho a convicção de que
Vicky Bennet disse a verdade sobre a sua fuga, durante o
interrogatório conduzido por Saga Bauer. Penso que não se tratou
de um rapto, mas de um acaso terrível. Por isso fui falar com o
Dante e a mãe, e por isso também estou aqui…
Passeia o olhar cinzento e acutilante pelas feridas e hematomas
que Vicky tem na cara.
– Quanto aos homicídios, a situação é muito diferente, Vicky – diz
ele em tom grave. – Talvez penses que podes manter o silêncio,
mas eu não descanso enquanto não souber.
152

A audiência preliminar é concluída em apenas vinte minutos. Com


o rosto afogueado, Susanne Öst vê-se obrigada a retirar o pedido de
prisão preventiva por suspeita de rapto.
O juiz recosta-se na cadeira e declara que não é requerida a
prisão de Vicky Bennet pelo homicídio de Elisabet Grim e Miranda
Ericsdotter, pelo que aguardará em liberdade que seja deduzida
acusação.
Elin ouve-o com as costas direitas e uma expressão neutra no
rosto. Vicky olha para o tampo da mesa e abana a cabeça
impercetivelmente.
Vicky Bennet teria voltado a ser uma responsabilidade do
consórcio de saúde Orre, se os serviços sociais não tivessem
aprovado Elin Frank como família de acolhimento.
Quando o juiz diz a Vicky que ela pode sair em liberdade, Elin não
consegue conter um grande sorriso de gratidão. No final da sessão,
contudo, Johannes chama-a de lado e adverte-a:
– A Vicky não foi detida, mas continua a ser suspeita de dois
homicídios e…
– Eu sei que…
– E, se o Ministério Público deduzir acusação, provavelmente
ganharemos na primeira instância, mas isso significa apenas que
ela não será condenada – continua ele. – O que não impede que ela
seja, de facto, culpada dos crimes.
– Sim, mas eu sei que ela está inocente – responde Elin, com um
arrepio nas costas quando se apercebe de que deve parecer muito
ingénua aos olhos do advogado.
– A minha obrigação é advertir-te – diz Johannes cautelosamente.
– Mesmo que a Vicky esteja envolvida, eu acho… acho que ela é
demasiado jovem para ir para a prisão – tenta Elin explicar-se. –
Johannes, eu posso proporcionar-lhe os melhores cuidados que há
no mundo, já contratei profissionais e, além disso, pedi ao Daniel
que me ajude, uma vez que ela se sente segura com ele…
– Está bem – diz o advogado suavemente.
– Temos de analisar profundamente o que é melhor para a Vicky.
É a única coisa que me importa – continua ela, segurando-lhe nas
mãos. – Talvez o Daniel possa continuar com a terapia cognitiva,
talvez se arranje outra pessoa. Mas não vou abandoná-la outra vez,
isso não posso fazer.
153

Enquanto Johannes Grünewald fala com os jornalistas na sala de


imprensa da Direção Nacional da Polícia, Elin e Vicky deixam
Estocolmo num SUV com tração às quatro rodas.
O cheiro do luxuoso couro italiano enche o espaçoso habitáculo.
A mão esquerda de Elin repousa no volante e a luz âmbar do painel
de instrumentos ilumina-lhe os dedos.
Das colunas saem as notas da Suíte N.° 1 para violoncelo, de
Bach, como um repousante conto outonal.
As oito faixas da autoestrada atravessam Hagaparken. De um
lado veem o castelo onde vive a herdeira da coroa e, do outro, o
enorme cemitério onde está sepultado o socialista August Palm.
Elin olha para o rosto calmo de Vicky e sorri para si própria.
Para evitarem o assédio dos meios de comunicação, decidiram
passar o período até às audiências finais no chalet de montanha de
Elin, uma casa com quase quatrocentos metros quadrados, na
encosta de Tegefjäll, perto de uma pequena povoação, Duved.
Elin organizou as coisas para que Vicky tivesse vigilância durante
as vinte e quatro horas do dia. Bella chegou antes, Daniel vai
também a caminho no carro dele, e amanhã de manhã chegará uma
enfermeira.
Vicky tomou banho no hospital e o cabelo cheira a champô
barato. Elin comprou-lhe várias mudas de roupa: jeans e camisolas,
roupa interior, meias e um casaco corta-vento. Vicky vestiu uns
jeans Armani pretos e uma camisola larga de algodão da Gant. O
resto das roupas está ainda dentro dos sacos, no banco traseiro do
carro.
– Em que estás a pensar? – pergunta Elin.
Vicky não responde. Tem os olhos fixos na estrada diante delas.
Elin baixa um pouco a música.
– Vais ser libertada sem restrições. Eu sei, tenho a certeza.
Os subúrbios ficam para trás e começam a aparecer terrenos
agrícolas e florestas.
Elin oferece chocolate a Vicky, mas recebe apenas uma curta
recusa, com um gesto da cabeça.
Vicky está com melhor aspeto hoje. O rosto tem uma cor mais
saudável, os pensos já foram retirados e só o polegar partido
continua ligado.
– Estou contente por o Daniel ter podido vir connosco – diz Elin.
– Ele é fixe – murmura Vicky.
Daniel leva o carro dele e adiantou-se a elas. Elin viu o Kombi
amarelo até Norrtull, mas depois ficou para trás.
– O Daniel é melhor do que os terapeutas que tinhas tido antes? –
pergunta Elin.
– É.
Elin baixa novamente o som da música.
– Então queres que ele continue?
– Se tiver de ser.
– Acho que é bom que continues a terapia durante algum tempo.
– Então quero o Daniel.
Quanto mais avançam para norte, mais o outono é visível – como
se, diante dos olhos delas, as estações do ano estivessem a mudar
a uma enorme velocidade. As folhas verdes passaram a ser
amarelas e vermelhas. Caem formando lagos brilhantes em volta
dos troncos das árvores e rodopiam na berma da estrada.
– Preciso das minhas coisas – diz Vicky subitamente.
– Que coisas?
– As minhas coisas, tudo…
– Acho que levaram tudo aquilo de que a Polícia não precisava
para aquela casa onde estão as outras alunas – explica Elin. –
Posso mandar lá alguém buscar as coisas.
Elin olha de relance para Vicky e pensa que aquilo talvez seja
importante para ela.
– Ou então passamos por lá agora, se preferires…
Vicky assente.
– Queres? Está bem, então eu falo com o Daniel – propõe Elin. –
Fica em caminho.
154

A escuridão começou a cair sobre os abetos da floresta quando


Elin vira à direita, em direção a Jättendal, e para atrás do carro de
Daniel. Daniel tirou um saco térmico cor-de-rosa e acena-lhes. Elas
saem para esticar as pernas, comem uma sanduíche de queijo cada
uma, bebem um refrigerante e contemplam a linha do comboio e os
campos à distância.
– Falei com a substituta que está de serviço – diz Daniel a Vicky. –
Ela acha que não é boa ideia tu entrares connosco.
– Mas qual é o problema? – pergunta Elin.
– Eu também não as quero ver – murmura Vicky. – Só quero as
minhas coisas.
Sentam-se novamente nos carros. A estrada sinuosa passa junto
a lagos e a celeiros pintados de vermelho-acastanhado e atravessa
a floresta até chegar à costa.
Depois de uma curva, param diante da casa onde vivem agora as
alunas do Centro Birgitta. Ao lado de uma velha bomba de gasolina
há uma mina flutuante preta, e nos postes telefónicos pousaram
umas quantas gaivotas.
Vicky desaperta o cinto de segurança, mas deixa-se ficar no
carro. Vê Elin e Daniel subirem o caminho de cascalho que conduz
à grande casa vermelha e desaparecerem por trás dos lilases.
No ponto onde o caminho bifurca está o poste da festa do verão.
Vicky contempla a superfície lisa da água na baía e depois pega na
caixa do telemóvel novo que Elin lhe deu. Rasga os selos, levanta a
tampa da caixa, retira o aparelho e puxa cuidadosamente o plástico
protetor do ecrã.

Quando Elin e Daniel sobrem os degraus que dão acesso ao


grande alpendre, as alunas estão à janela. Solveig Sundström, que
veio do lar de menores de Sävstagården para substituir a
responsável, espera-os já à porta e mostra claramente que a visita
não lhe agrada. Esclarece logo que tem pena, mas eles não podem
ficar para jantar.
– Podemos entrar para as cumprimentar? – pergunta Daniel.
– É melhor não – responde Solveig. – Prefiro que digam o que
querem e eu vou procurar.
– São muitas coisas – tenta Elin explicar.
– Não posso prometer nada…
– Pergunte à Caroline – diz Daniel. – Ela costuma ser organizada.
Enquanto Daniel procura saber como estão as alunas e se houve
alterações na medicação, Elin observa as raparigas que estão à
janela. Empurram-se umas às outras, e ouve-lhes as vozes através
da vidraça. Soam abafadas, como se estivessem debaixo de água.
Lu Chu consegue chegar à frente e acena-lhe. Elin acena também.
Depois aparecem Indie e Nina, lado a lado. Todas se empurram e se
revezam junto ao vidro para olharem e dizerem adeus. A única que
não aparece é Tuula, a pequena ruiva.

Vicky insere o cartão SIM no telemóvel. Levanta o olhar e sente


um arrepio percorrer-lhe as costas. Parece-lhe ter vislumbrado um
movimento pelo canto do olho, fora do carro. Talvez fosse só o vento
a agitar os lilases.
Escureceu.
Vicky olha para o carro de Daniel, para o poste da festa do verão,
para o renque de pinheiros, a vedação de madeira e o relvado
diante da casa pintada de vermelho-escuro.
Um candeeiro solitário brilha no topo de um mastro ao fundo do
cais, refletindo-se na água negra.
Num campo junto ao porto erguem-se velhas armações usadas
para limpar as redes dos pescadores. Parecem filas de balizas de
futebol ligadas entre si, com centenas de ganchos metálicos ao
longo das barras.
Subitamente, Vicky vê um balão vermelho a rolar sobre a relva,
diante da casa onde estão alojadas as alunas.
Volta a guardar o telemóvel na caixa e abre a porta do carro. O ar
é tépido e carregado do cheiro a maresia. Ao longe, ouve-se o grito
de uma gaivota.
O balão continua a rolar, afastando-se.
Vicky dá alguns passos cautelosos em direção à casa e depois
para e fica à escuta. A luz de uma janela ilumina as folhas amarelas
de uma bétula.
Ouve-se um murmúrio muito perto dali. Vicky pensa que talvez
haja alguém cá fora, no escuro. Silenciosamente, continua a
percorrer o carreiro. Em frente à fachada da casa, veem-se girassóis
um pouco murchos.
O balão continua a rolar, passa por baixo de uma rede de voleibol
e vai parar junto ao renque de pinheiros.
– Vicky? – sussurra uma voz.
Ela vira-se rapidamente, mas não vê nada.
A pulsação acelera, o sangue lateja-lhe nas têmporas, e todos os
sentidos se aguçam de repente.
As cordas da cama de rede rangem e a tela balança lentamente.
No telhado, o velho catavento gira.
– Vicky! – diz uma voz cortante, muito próxima.
Vicky volta-se para a direita e perscruta a escuridão, com o
coração a bater pesadamente. Demora alguns segundos a distinguir
o rosto magro. É Tuula. Imóvel, quase invisível entre os lilases. Na
mão direita tem um taco de basebol, pesado e tão comprido que
está apoiado no chão. Tuula humedece os lábios e olha fixamente
Vicky por entre as pálpebras avermelhadas.

Elin debruça-se sobre a balaustrada do alpendre e tenta distinguir


Vicky dentro do carro, mas está demasiado escuro. Solveig voltou
para junto deles depois de ter pedido a ajuda de Caroline. Daniel
está a falar com ela, e Elin ouve-o tentar explicar que Almira precisa
de terapia e costuma reagir mal aos medicamentos antidepressivos
mais fortes. Daniel pede novamente para entrar, mas Solveig
responde que as alunas são da sua responsabilidade. A porta da
casa abre-se e Caroline sai para o alpendre, abraça Daniel e
cumprimenta Elin.
– Embalei as coisas da Vicky – diz ela.
– A Tuula está lá dentro? – pergunta Elin, numa voz tensa.
– Está, acho que sim – responde Caroline, surpreendida. – Quer
que a vá chamar?
– Faça-me esse favor – pede Elin, tentando parecer calma.
Caroline entra e começa a chamar por Tuula. Solveig olha Elin e
Daniel com uma expressão de descontentamento.
– Se têm fome, posso pedir a uma das raparigas que vá buscar
umas maçãs – diz ela.
Elin não responde. Desce os degraus para o jardim, ouvindo
Caroline a chamar por Tuula atrás de si.
Quando não se vê o mar, a escuridão parece mais profunda. As
árvores e os arbustos tapam quase completamente a luz.
A cama de rede balança ritmicamente.
Elin procura respirar sem ruído, mas os saltos dos sapatos
ressoam nas placas de pedra do jardim quando ela contorna
apressadamente a esquina da casa.
De repente, ouve-se um restolhar entre as folhas dos lilases,
como uma lebre em fuga. Os ramos agitam-se, e Elin encontra-se
subitamente diante de Vicky.
– Meu Deus! – exclama Elin, assustada.
As duas olham-se. Sob a luz fraca, o rosto de Vicky está muito
pálido. Elin tem o pulso tão acelerado que lhe ecoa nos ouvidos.
– Vamos para o carro – diz ela, levando Vicky e afastando-se da
casa.
Olha repetidamente por cima do ombro e mantém a distância das
árvores sombrias. Ouve passos atrás dela, mas não para até sair do
jardim com Vicky. Só no caminho de cascalho se volta para trás e vê
Caroline a correr ao encontro delas com um grande saco de plástico
na mão.
– Não encontrei a Tuula – diz Caroline.
– Obrigada na mesma – diz Elin.
Vicky pega no saco e espreita para dentro.
– Deve estar tudo aí, embora a Lu Chu e a Almira quisessem
jogar os teus brincos ao póquer – diz Caroline.
Elin e Vicky partem no grande carro preto e Caroline segue-as
com um olhar triste.
155

Elin vê as luzes do carro de Daniel no retrovisor durante todo o


percurso na E-14. Quase não há tráfego, para além de um ou outro
camião, mas demoram três horas a chegar à estância de esqui. Nas
encostas sombrias da montanha, veem-se saca-rabos adormecidos
e os altos postes do teleférico de Åre. Seis quilómetros antes de
Duved, viram para uma estrada que sobe a montanha. No feixe de
luz dos faróis, dançam folhas mortas e poeira. A pequena estrada
de cascalho sobe o Tegefjället em diagonal.
Os dois carros abrandam e abandonam a estrada de Tegefors,
entrando por um portão entre dois pilares. O caminho conduz a uma
grande casa de linhas modernas, construída em betão, com terraços
grandes e janelas enormes, agora ocultas por detrás de persianas
de alumínio.
Entram numa garagem com lugar para cinco carros, onde já está
um pequeno Mazda azul. Daniel ajuda Elin a levar as malas para
dentro. Dentro de casa há luzes acesas. Elin carrega num botão e
ouve-se um zumbido. As persianas rangem à medida que as ripas
metálicas se vão separando. A luz da garagem filtra-se por centenas
de buraquinhos e, pouco a pouco, as persianas começam a subir
ruidosamente.
– É como um cofre-forte – diz Elin.
Ao fim de um momento, volta a reinar o silêncio e é possível intuir
a paisagem majestosa através das enormes janelas. Como pontos
de luz pairando na escuridão, veem-se os pequenos clarões de
outras casas, à distância.
– Uau! – diz Vicky baixinho, olhando lá para fora.
– Lembras-te do Jack, que era casado comigo? – pergunta Elin,
pondo-se ao lado dela. – Foi ele que construiu a casa da montanha.
Construiu, enfim… Não foi ele que construiu, mas… Disse que
queria um bunker com uma vista magnífica.
Uma mulher de meia-idade, com um avental verde, entra na sala,
vinda do andar de cima.
– Bella, olá! Desculpa termos chegado tão tarde – diz Elin,
abraçando-a.
– Mais vale tarde do que nunca – responde a mulher, sorridente,
que anuncia em seguida que os quartos estão preparados.
– Obrigada.
– Não sabia se tinham tempo de comprar comida pelo caminho,
por isso fiz umas compras. Têm que chegue para alguns dias, pelo
menos.
Bella acende o lume na grande lareira, e em seguida Elin
acompanha-a à garagem e despede-se dela. Quando o carro azul
sai e as portas se fecham novamente, Elin regressa à sala. Daniel
foi preparar a comida, e Vicky está sentada no sofá a chorar. Elin
ajoelha-se diante dela.
– Vicky, o que é? Porque estás a chorar?
Ela levanta-se sem responder e vai fechar-se numa das casas de
banho. Elin vai ter com Daniel.
– A Vicky fechou-se na casa de banho – diz.
– Queres que eu vá falar com ela?
– Depressa!
Daniel acompanha-a até à casa de banho, bate à porta e diz a
Vicky que abra.
– Portas fechadas à chave, não pode ser – diz ele. – Sabes isso,
não sabes?
Poucos segundos depois, Vicky sai, com os olhos molhados, e vai
sentar-se novamente no sofá. Daniel troca um olhar com Elin e vai
sentar-se ao lado dela.
– Quando chegaste a Birgitta também ficaste triste – diz ele,
passado um momento.
– Eu sei… Mas até devia estar contente – responde Vicky, sem
olhar para ele.
– Chegar a um lugar… é também o primeiro passo para o deixar –
diz Daniel.
Vicky engole em seco, e os olhos enchem-se-lhe de lágrimas e
baixa a voz, para Elin não a ouvir.
– Sou uma assassina.
– Não quero que digas isso se não tiveres a certeza absoluta –
diz-lhe ele calmamente. – E sinto pela tua voz que não tens.
156

Flora deita água muito quente no balde e calça as luvas de


proteção, apesar de detestar o cheiro a borracha. O detergente
rompe a limpidez da água e dissolve-se numa nuvem verde. O
cheiro a limpeza espalha-se no pequeno apartamento. Pelas janelas
abertas entra ar fresco. O sol brilha e os pássaros cantam.
Quando o comissário a deixara à porta da loja de antiguidades,
Flora ficara no mesmo sítio. Devia preparar-se para a sessão, mas
não se atrevia a entrar na cave sozinha e decidira esperar que os
primeiros participantes chegassem. Dina e Asker Sibelus chegaram
quinze minutos antes da hora marcada, como habitualmente. Flora
fingiu que estava atrasada, e eles entraram com ela e ajudaram-na
a colocar as cadeiras. Às sete e cinco, já havia dezanove
participantes.
Flora demorou mais do que o costume, deu-lhes tempo, fingiu que
via velhos espíritos simpáticos, crianças alegres e pais que
perdoavam.
Com grande cautela e destreza, tinha arrancado a Dina e Asker o
motivo da sua vinda às sessões.
Um filho já adulto entrara em coma no seguimento de um grave
acidente de viação, e eles tinham sido obrigados a seguir a opinião
do médico, de desligar os aparelhos de suporte de vida e assinar
um papel sobre doação de órgãos.
– E se ele não vai ter com Deus? – sussurrou Dina.
Mas Flora falou com o filho deles e assegurou-lhes que ele se
encontrava na luz e que tinha tido o íntimo desejo de que o seu
coração, pulmões, córneas e outros órgãos internos continuassem a
viver.
Dina beijou-lhe as mãos, chorou e repetiu várias vezes que era a
pessoa mais feliz do mundo.
Flora esfrega o linóleo do chão com movimentos vigorosos e
começa a suar com o esforço.
Ewa está no clube de costura com umas vizinhas e Hans-Gunnar
assiste a um jogo de futebol italiano pela televisão, com o volume
muito alto.
Flora enxagua a esfregona, espreme-a e endireita por momentos
as costas doridas antes de retomar o trabalho.
Sabe que Ewa vai abrir o envelope da escrivaninha na segunda-
feira de manhã, para pagar as despesas do mês.
– Atenção, porra, Zlatan! – grita Hans-Gunnar da sala.
Os ombros doem-lhe quando ela carrega o balde para o quarto de
Ewa. Fecha a porta, põe o balde a prendê-la, vai à fotografia do
casamento, tira a chave de latão, dirige-se rapidamente à
escrivaninha e abre-a.
Um ruído surdo fá-la sobressaltar-se.
Foi a esfregona que tombou e o cabo bateu com força no chão.
Flora fica à escuta por um momento e depois levanta a pesada
tampa da escrivaninha. Com mãos trémulas, tenta abrir a pequena
gaveta, mas está presa. Procura entre as canetas e objetos soltos e
encontra uma faca de papel. Cuidadosamente, insere-a na frincha
por cima da gaveta e faz um pouco de pressão.
A gaveta desliza lentamente um centímetro.
Flora ouve um som de raspar muito próximo, mas é uma pomba a
arranhar o parapeito da janela com as unhas.
Mete os dedos dentro da gaveta e puxa-a. O postal ilustrado de
Copenhaga ficou amarrotado. Ela tira o envelope do dinheiro para
as despesas e repõe a quantia exata.
Põe tudo em ordem, tenta alisar o postal, fecha a gaveta, endireita
as canetas e a faca, baixa a tampa e fecha-a à chave.
Rapidamente, dirige-se para a mesa de cabeceira e tinha
acabado de pegar na fotografia do casamento quando a porta do
quarto de Ewa se abre de rompante. O balde tomba e a água
entorna-se no chão. Flora sente os pés molhados e quentes.
– Minha grande ladra! – grita Hans-Gunnar, entrando, de tronco
nu.
Flora volta-se para ele. Hans-Gunnar tem os olhos arregalados e
está tão furioso que começa a bater-lhe. A primeira pancada atinge-
a no ombro, mas não a sente. Depois, ele agarra-a pelos cabelos e
bate-lhe com a outra mão. Uma bofetada violenta atinge-a no
pescoço e no queixo. A pancada seguinte acerta-lhe em cheio na
cara. Flora cai e sente os cabelos a serem arrancados. A fotografia
do casamento vai parar ao chão e o vidro estala. Flora fica deitada
no chão, de lado, com a água a ensopar-lhe a roupa. Uma dor
intensa no olho e na face mal a deixa respirar.
Sente-se enjoada. Rola no chão e fica de barriga para baixo, mas
esforça-se por não vomitar. Começa a ver clarões. Constata que a
fotografia se soltou da moldura e caiu com a parte da frente no chão
molhado. No verso lê-se: «Ewa e Hans-Gunnar, igreja de Delsbo.»
De repente, recorda-se do que o fantasma lhe segredou. Não foi
na última vez que esteve na cave das sessões espíritas, mas antes,
aqui em casa. Talvez tenha sonhado? Não se lembra. Miranda
segredara-lhe alguma coisa sobre uma torre que toca como a de
uma igreja. A menina mostrara-lhe a fotografia do casamento,
apontara para o campanário escuro, ao fundo, e segredara: «Ela
está ali escondida, viu tudo, está escondida na torre.»
Hans-Gunnar está junto dela, a arfar, quando Ewa entra no quarto
ainda com o casaco vestido.
– O que é que se passa aqui? – pergunta, assustada.
– Ela rouba-nos dinheiro! – acusa ele. – Eu sabia!
Cospe em Flora, apanha a chavinha de latão que tinha caído e
dirige-se à escrivaninha.
157

Joona está sentado no gabinete, com a documentação da


audiência preliminar diante dele.
O mais provável é que as provas sejam suficientes para
assegurar uma condenação.
O telefone toca. Se tivesse olhado para o mostrador, Joona não
teria atendido.
– Sei que acha que eu sou uma mentirosa – diz Flora, ofegante. –
Por favor, não desligue. Tem de me ouvir, peço-lhe, eu farei tudo,
desde que me ouça…
– Acalme-se e conte.
– Há uma testemunha do crime. Uma testemunha autêntica, não é
um fantasma. É uma testemunha verdadeira, que está escondida…
Joona ouve-lhe a nota aguda de histeria na voz e procura acalmá-
la.
– Está bem – diz tranquilamente. – Mas a investigação
preliminar…
– Tem de ir lá – interrompe Flora.
Joona não sabe porque está a ouvir esta pessoa. Talvez por ela
parecer tão desesperada.
– Onde é que está a testemunha, exatamente? – pergunta.
– É uma torre, uma torre escura na igreja de Delsbo.
– Quem lhe contou…
– Por favor, ela está lá, está com medo, está escondida.
– Flora, deve deixar a procuradora tratar…
– Ninguém me ouve.
Joona ouve uma voz a gritar a Flora que largue o telefone, e
depois um ruído.
– Acabou a conversa – diz um homem, que desliga a seguir.
Joona suspira e pousa o auscultador. Não compreende porque é
que Flora continua a mentir.
Quando fora tomada a decisão de deter Vicky preventivamente, a
investigação perdera prioridade. Agora falta apenas que a
procuradora reúna todos os elementos de prova até ao julgamento.
«Falhei este caso», pensa Joona, com uma estranha sensação de
vazio.
Já estava tudo terminado antes de ele ter acesso aos relatórios e
pareceres periciais.
Joona sabe que nunca dirigiu a investigação, que na verdade
nunca tece acesso à investigação.
A sobredosagem de antidepressivos pode ser a razão dos
acessos de violência e de sono de Vicky.
Mas ele não consegue deixar de pensar na pedra.
Nålen escreveu no seu relatório que a arma do crime era uma
pedra. Contudo, ninguém deu seguimento a essa informação,
porque não batia certo.
Joona lembra-se de que partiu de Sundsvall precisamente quando
Nålen e Frippe iam iniciar a análise dos órgãos internos.
Decide não pôr ainda de lado a investigação. Uma obstinação
surda leva-o a folhear os resultados das análises do LTF e, em
seguida, a ler o relatório médico-legal.
Detém-se no exame exterior do corpo de Elisabet Grim, lê a parte
sobre as lesões nas mãos e depois continua.
A luz do dia vai passando lentamente sobre o quadro de afixação
do gabinete, onde estão pregados o aviso dos Assuntos Internos e o
último postal de Disa: uma imagem de um chimpanzé com os lábios
pintados com bâton vermelho e uns óculos em forma de coração.
Enquanto Joona lê, a sombra desloca-se do cato na janela para a
estante.
Não havia nenhum conteúdo estranho no estômago de Miranda, e
as paredes apresentavam-se brilhantes e lisas. O mesmo se
passava com a pleura – os folhetos estavam brilhantes e lisos – e
com o pericárdio.
84. O coração tem a configuração normal e pesa 198 gramas. A membrana
envolvente é lisa e brilhante, as válvulas e orifícios estão normais. Não se veem
depósitos nas paredes das artérias coronárias. O músculo cardíaco tem uma
tonalidade vermelho-acinzentada e configuração uniforme.

Joona deixa um dedo a marcar o relatório da autópsia e folheia os


resultados das análises do LTF, onde lê que o sangue de Miranda
pertence ao grupo A, tem vestígios de venlafaxina, que está
presente num grande número de medicamentos antidepressivos,
mas de resto é normal.
Joona retorna ao relatório da autópsia. O tecido da glândula
tiroide tinha cor vermelha acinzentada e o normal teor de coloide, e
as glândulas suprarrenais tinham a dimensão normal e o córtex
amarelo.
104. Os uréteres têm uma aparência normal.

105. A bexiga contém cerca de 100 ml de urina límpida, de cor amarelo-clara. A


mucosa é pálida.

Joona volta a folhear os resultados das análises do LTF e


encontra a análise da urina. Há vestígios de nitrazepam, uma
substância indutora do sono, na urina de Miranda, e o nível de HCG
é anormalmente elevado.
Joona levanta-se rapidamente, pega no telefone e liga a Nålen.
– Estou ler os resultados das análises do LTF e vejo que a
Miranda tinha um nível muito alto de HCG na urina – diz ele.
– Sim, claro – responde Nålen. – O quisto no ovário era muito…
– Mas espera – interrompe Joona. – As grávidas não têm o HCG
elevado?
– Têm, mas eu já te disse…
– Mas se a Miranda fizesse um vulgar teste de gravidez ficaria a
pensar que estava grávida.
– Sim – diz Nålen. – Teria de certeza uma resposta positiva.
– Portanto a Miranda pode ter pensado que estava grávida?

Joona sai do gabinete, percorre rapidamente o corredor enquanto


marca o número de casa de Flora e ouve Anja gritar-lhe qualquer
coisa, mas continua a andar e desce a escada. Ninguém atende.
Joona repete para si próprio que Flora alterou a informação que lhe
deu e disse que a rapariga que lhe apareceu julgava que estava
grávida.
«O que eu queria dizer é que ela disse que estava grávida. Mas
não era verdade, não estava. Isso era o que ela pensava, julgava
que estava grávida.»
Joona volta a marcar o número e deixa tocar enquanto atravessa
a correr o átrio envidraçado. Passa os sofás da receção e quando
sai pela porta giratória, uma voz arquejante responde.
– Hans-Gunnar Hansen.
– Fala Joona Linna, da Polícia Criminal…
– Encontraram o carro?
– Preciso de falar com a Flora.
– Mas que merda é esta? – grita o homem. – Se a Flora estivesse
aqui, eu não andava à procura do meu carro, porra! Ela é que o
roubou, e se a Polícia não faz o seu…
Joona desliga e corre para o seu Volvo preto.
158

Elin dormiu no quarto ao lado do de Vicky e deixou as portas


abertas. Durante a noite, acordava ao mais pequeno ruído, ficava à
escuta e ia espreitar o quarto da adolescente. De manhã, ficou um
momento à porta, observando a rapariga profundamente
adormecida, antes de ir para a cozinha.
Daniel está em frente ao fogão a fazer uns ovos mexidos muito
cremosos. Cheira a café e a pão quente. As janelas panorâmicas
proporcionam uma vista quase assustadora, de tão magnificente. Os
cumes arredondados da montanha, a superfície espelhada dos
pequenos lagos e os vales cobertos de árvores, com as folhas
amarelas e intensamente vermelhas.
– Até custa olhar lá para fora – diz ele, sorrindo. – Quase me dói o
coração.
Abraçam-se e ele dá-lhe repetidos beijos na cabeça. Elin fica
imóvel, inspira o perfume dele e sente o calor espalhar-se pelo seu
ventre, de súbita felicidade.
O relógio de cozinha toca na bancada, e Daniel liberta-se para
tirar o pão do forno.
Sentam-se à grande mesa a comer, acariciando as mãos um do
outro de vez em quando.
A vista magnífica deixa-os sem palavras. Em silêncio, bebem café
e olham pela janela.
– Estou tão preocupada com a Vicky – diz Elin por fim, em voz
baixa.
– Vai correr tudo bem.
Ela pousa a chávena.
– Prometes?
– Tenho de conseguir que ela fale do que aconteceu – diz Daniel.
– Porque tenho algum medo de que o sentimento de culpa a torne
cada vez mais autodestrutiva… Temos mesmo de a vigiar muito
bem.
– A enfermeira chega a Åre de autocarro daqui a uma hora. Vou lá
buscá-la – diz Elin. – Achas que pergunte à Vicky se quer vir
comigo? Que é que achas?
– Não sei, acho que é melhor ela ficar aqui – diz ele.
– Pois é, ainda agora chegámos – concorda Elin. – Mas sinto-me
inquieta… Não podes sair de ao pé dela.
– Ela sabe que nem sequer pode fechar a porta quando vai à
casa de banho – diz Daniel gravemente.
Nesse momento, Elin vê Vicky pela janela. Passeia sozinha no
relvado, dando pontapés nas folhas vermelhas caídas. O cabelo
comprido e despenteado cai-lhe pelas costas, e o corpo magro
parece ter frio. Elin tira o casaco de malha das costas da cadeira,
sai e vai dar-lho.
– Obrigada – diz Vicky baixinho.
– Nunca mais te abandono – afirma Elin.
Sem uma palavra, Vicky pega-lhe na mão e aperta-a. O coração
de Elin bate com mais força, de felicidade, e um nó na garganta
impede-a de falar.
159

O céu está estranhamente escuro quando Joona sai da E-4 e


entra na estrada 84, em direção a Delsbo. Deduziu que Flora tinha
levado o carro para ir à igreja de Delsbo em Hälsingland.
Ainda ouve o desespero na voz dela a contar que havia uma
testemunha escondida no campanário.
Joona não a compreende. Parece-lhe que ela mistura mentiras
com verdades, sem ter consciência disso.
Apesar das várias mentiras, Joona não consegue deixar de sentir
que ela sabe mais sobre os crimes de Birgitta do que qualquer outra
pessoa.
Talvez esta testemunha seja mais uma mentira, mas se for
verdade, é tão importante, que ele não pode ignorá-la.
As nuvens baixas, carregadas de chuva, dão um tom cinzento aos
campos, e os abetos quase parecem azuis. Joona mete por uma
estradinha de cascalho. As folhas de outono rodopiam no chão, e é
difícil manter uma velocidade elevada. A estrada é sinuosa e
esburacada.
Ao fim de algum tempo, Joona vira para uma estrada direita, que
conduz à igreja de Delsbo. Por entre as árvores, distinguem-se os
campos a perder de vista. Ao longe, move-se uma ceifeira-
debulhadora solitária. A lâmina rasa o chão como uma gadanha. No
ar paira um cheiro forte a palha e a joio. Os pássaros sobem e
descem no ar inebriante.
Quase a chegar à igreja, Joona vê um carro que embateu numa
árvore ao lado da estrada. O capô está deformado, há uma pala
caída na relva e uma das janelas está desfeita.
O motor continua a trabalhar, a porta da frente está aberta e as
luzes de trás refletem-se na erva da valeta.
Joona abranda, mas vê que não está ninguém dentro do
automóvel e continua. «A Flora deve ter abandonado o carro ali»,
pensa, e segue o caminho até chegar à igreja.
Sai do carro e percorre rapidamente o caminho de cascalho
alisado. O campanário revestido a alcatrão encontra-se no alto de
uma colina, um pouco afastado da igreja.
O céu escureceu, e parece estar prestes a chover.
Sob a cúpula negra, em forma de cebola, está o sino, enorme e
baço. Para lá da torre, veem-se as águas rápidas do rio, negras e
espumosas.
A porta está encostada.
Joona percorre os últimos metros e, já perto do campanário, sente
claramente o cheiro a alcatrão.
A vasta secção inferior está revestida com um painel de madeira
escura, típico das construções de montanha. No interior, uma
escada íngreme de madeira conduz ao sino.
– Flora! – chama Joona.
160

Flora aparece na abertura escura da porta do campanário. Tem


uma expressão triste, e os olhos grandes estão cansados e
brilhantes de lágrimas.
– Não está aqui ninguém – diz ela, mordendo o lábio.
– Tem a certeza?
Ela começa a chorar e a sua voz quebra.
– Desculpe, mas eu pensava… tinha a certeza…
Desce os degraus balbuciando «Desculpe», sem olhar para
Joona. Tapando a boca com a mão, começa a andar vagarosamente
em direção ao carro.
– Como é que encontrou o caminho para aqui? – pergunta o
comissário, seguindo-a. – Porque pensou que a testemunha estava
aqui?
– A fotografia do casamento dos meus pais adotivos… Vê-se o
campanário ao fundo.
– Mas que ligação tem isso com a Miranda?
– Foi o espírito que disse…
Flora cala-se e para.
– Que se passa? – pergunta Joona.
Joona pensa novamente no desenho que Flora fez de Miranda,
com as mãos a tapar a cara e a mancha escura do sangue junto da
cabeça. Não desenhou o sangue como uma pessoa que tem a
intenção de enganar, mas como uma pessoa que viu realmente
alguma coisa, mas já não se lembra dos pormenores.
À porta das Antiguidades Carlén, Flora falou do fantasma como
de uma recordação. Tentou descrever a Joona o que recordava
daquilo que o espírito tinha dito.
Finíssimos raios de luz penetravam pelas pesadas nuvens de
chuva.
«Como uma recordação», repete Joona para si mesmo,
observando o rosto pálido de Flora.
Folhas amarelas esvoaçam no ar. Subitamente, como quando se
abre um cortinado e a luz penetra numa sala, Joona vê a ligação
entre as coisas. Sabe que encontrou a chave para resolver o
mistério.
– É a Flora – diz entre dentes, e as suas próprias palavras
provocam-lhe um arrepio.
Joona compreendeu que Flora é a testemunha que estava no
campanário.
É ela a testemunha, mas não foi o assassínio de Miranda que ela
viu.
Foi outra rapariga.
Uma rapariga que foi morta exatamente da mesma forma.
Outra rapariga, mas o mesmo assassino.
A perceção é evidente e imediatamente seguida pela pontada da
dor de cabeça. Durante um longo segundo, ele sente-se como se
uma bala disparada lhe atravessasse a cabeça. Procura cegamente
um apoio e ouve a voz inquieta de Flora na escuridão antes de a dor
desaparecer.
– Foi a Flora que viu tudo.
– Está deitar sangue – diz ela.
Joona tem um fio de sangue a correr do nariz e procura um lenço
no bolso.
– Flora – diz ele –, a Flora é a testemunha que estava no
campanário.
– Mas eu não vi nada.
Joona pressiona o lenço contra o nariz.
– Viu, mas esqueceu-se.
– Mas eu não estava lá, sabe muito bem, nunca estive em Birgitta.
– Viu outra coisa…
– Não – murmura Flora, abanando a cabeça.
– Que idade tem o fantasma? – pergunta Joona.
– Quando sonho, a Miranda tem uns quinze anos… Mas quando
ela me procura, quando parece que ela está mesmo no quarto, é
pequenina.
– Que idade?
– Cinco anos.
– Que idade tem a Flora?
Ela assusta-se quando encontra o olhar cinzento do comissário.
– Quarenta – responde baixinho.
Joona pensa que Flora descreveu um crime a que assistiu em
criança, pensando sempre que estava a falar do crime de Birgitta.
Pega no telemóvel para ligar a Anja, seguro de estar certo. Flora
atravessara subitamente um túnel de mais de trinta anos e vira
aquilo que havia esquecido. Por isso as imagens eram
simultaneamente confusas e poderosas.
– Anja – diz ele, interrompendo a resposta da sua assistente –,
estás diante do computador?
– E tu? Estás sentado num sítio melhor? – pergunta ela, divertida.
– Podes investigar se aconteceu alguma coisa em Delsbo há
cerca de trinta e cinco anos?
– Alguma coisa específica?
– Envolve uma menina de cinco anos.
Enquanto Anja bate nas teclas do computador, Joona observa
Flora, que se aproxima da igreja, passa a mão pela fachada e
depois contorna o edifício, em direção ao pórtico. Joona começa a
segui-la, para não a perder de vista. Um ouriço-cacheiro foge,
bamboleando-se, por entre as lápides.
Do outro lado da alameda, a ceifeira-debulhadora arrasta-se num
campo, envolta numa nuvem de pó.
– Sim – diz Anja, expirando audivelmente pelo nariz –, uma morte
acidental. Há trinta e seis anos, foi encontrado o corpo de uma
menina de cinco anos junto à igreja de Delsbo. Não há mais dados.
A Polícia concluiu que se tratou de um acidente.
Joona vê Flora virar-se para trás e olhar para ele com um olhar
pesado, inquisitivo.
– Como se chamava o polícia que conduziu a investigação?
– Torkel Ekholm – responde Anja.
– Podes tentar descobrir a morada?
161

Vinte minutos depois, Joona para o carro num estreito caminho de


pedra. Acompanhado de Flora, abre um portão de ferro, atravessa
um jardim frondoso e chega a uma casa de madeira pintada de
vermelho, com os cantos em branco e telhado de placas de
fibrocimento. Em redor da vegetação outonal zumbem insetos. O
céu tem uma cor turva, amarelenta, de chuva e trovoada. Joona
carrega no botão da campainha e um toque ensurdecedor ressoa no
jardim.
Lá dentro ouvem-se passos que se arrastam, e a porta é aberta
por um velho em casaco de malha, suspensórios e pantufas.
– Torkel Ekholm? – pergunta Joona.
O homem apoia-se num andarilho e observa-os com olhos
lacrimejantes. Por trás da orelha direita, grande e enrugada, espreita
um aparelho auditivo.
– Quem é o senhor? – pergunta ele, quase inaudivelmente.
– Joona Linna, comissário da Polícia Criminal.
O homem semicerra os olhos para examinar a identificação de
Joona e não consegue conter um pequeno sorriso estranho.
– Polícia Criminal – sussurra ele, convidando Joona e Flora a
entrarem, com um gesto vago. – Entrem, vamos tomar um café.
Sentam-se os dois à mesa da cozinha enquanto Torkel vai para
junto do fogão, depois de explicar a Flora que não tem biscoitos
para oferecer. Fala muito baixo e parece quase completamente
surdo.
Ouve-se o tiquetaque forte de um relógio de parede. Por cima de
um sofá está pendurada uma caçadeira Remington bem cuidada,
para a caça ao alce. A pequena tapeçaria bordada com as palavras
«A modéstia é a felicidade do lar» perdeu as tachas das pontas e
pende, com os cantos revirados, como um velho postal surrado, de
uma outra Suécia.
O homem coça o queixo e observa Joona na escuridão da
cozinha.
Quando a água ferve, Torkel Ekholm põe em cima da mesa três
chávenas e um frasco de café solúvel.
– Uma pessoa vai-se tornando comodista – diz ele com um
encolher os ombros, dando uma colher de chá a Flora.
– Vim aqui para lhe fazer umas perguntas sobre um caso muito
antigo – diz Joona. – Há trinta e seis anos, uma menina foi
encontrada morta junto à igreja de Delsbo.
– Sim – responde ele, sem olhar para Joona.
– Um acidente? – pergunta Joona.
– Sim – responde Torkel Ekholm resolutamente.
– Não é o que eu penso – diz Joona.
– Folgo em saber – diz o velho.
A boca do velho polícia começa a tremer, e ele empurra o
açucareiro na direção do comissário.
– Lembra-se do caso? – pergunta Joona.
Torkel Ekholm deita café na chávena e mexe, fazendo tilintar a
colher. Ergue os olhos, com as pálpebras avermelhadas, e encara
Joona.
– Quem me dera conseguir esquecer, mas há casos que…
Levanta-se e vai abrir a gaveta de cima de uma secretária de
madeira escura, encostada à parede. Com voz incerta, explica que
guardou as notas relativas ao caso durante todos estes anos.
– Sabia que algum dia haviam de vir ter comigo – diz ele, tão
baixo que mal se consegue ouvir.
162

Uma mosca zumbe de encontro ao vidro da janela da pequena


cozinha. Torkel aponta com a cabeça os papéis pousados na mesa,
diante deles.
– A menina que morreu chamava-se Ylva, era filha do feitor de
Rånne. Quando cheguei ao local, já a tinham deitado em cima de
um lençol… Tinha caído do campanário, foi o que me disseram…
Ekholm recosta-se na cadeira, fazendo-a ranger.
– Havia sangue no friso da torre… Mostraram-me, eu vi, mas
percebi que não fazia sentido.
– Porque é que encerrou a investigação?
– Não havia testemunhas, eu não tinha nada. Interroguei, mas
não cheguei a lado nenhum. Proibiram-me de continuar a incomodar
os senhores de Rånne. Deram férias ao feitor e… Foi… Tenho uma
fotografia, tirada pelo Janne, que era fotógrafo do Jornal do
Trabalhador, e nós recorríamos a ele para as fotografias da cena do
crime.
O polícia mostra-lhes uma fotografia a preto e branco. Sobre um
lençol, jaz o corpo de uma menina, com o cabelo espalhado. Ao
lado da cabeça vê-se uma mancha negra de sangue, precisamente
como na cama de Miranda, no mesmo sítio.
A mancha quase tem a forma de um coração.
A expressão da criança é terna, as faces são redondas e tem a
boca entreaberta como se estivesse adormecida.
Flora observa a fotografia, passa a mão nervosamente pelo
cabelo e empalidece terrivelmente.
– Eu não vi nada – geme, e depois começa a chorar de forma
descontrolada.
Joona desvia a fotografia e procura acalmá-la, mas ela levanta-se
e tira a fotografia a Torkel. Limpa as lágrimas e observa-a
novamente, enquanto se apoia na bancada da cozinha, sem reparar
que empurra uma garrafa de cerveja vazia, que cai no lava-louça.
– Estávamos a brincar aos olhos fechados – diz ela, em voz
abafada.
– Olhos fechados?
– Tínhamos de fechar os olhos e pôr as mãos na cara.
– Mas a Flora olhou – diz Joona. – Viu quem bateu com a pedra
na criança.
– Não, eu fechei os olhos… Eu…
– Quem é que lhe bateu?
– O que é que viu? – pergunta Torkel.
– A Ylva… estava contente, tapou os olhos com as mãos, e ele
bateu-lhe com a pedra…
– Quem? – pergunta Joona.
– O meu irmão – responde ela num sopro.
– A Flora não tem nenhum irmão – diz Joona.
As mãos de Torkel tremem e ele entorna café no pires.
– O rapaz – diz ele. – Não me diga que foi o rapaz.
– Qual rapaz? – pergunta Joona.
Flora está muito pálida e as lágrimas correm-lhe pelo rosto. O
velho polícia rasga uma folha de papel de cozinha e levanta-se
pesadamente da cadeira. Joona vê-a abanar a cabeça, mas a boca
mal se mexe.
– O que é que viu? – pergunta Joona. – Flora?
Torkel chega junto dela e estende-lhe o papel.
– Você é a Flora, a pequenina? A irmãzinha tímida, que não
falava? – pergunta ele cautelosamente.
163

O episódio da infância regressa à memória de Flora na cozinha do


velho polícia, com ela apoiada à bancada. Sente as pernas
dobrarem-se quando se lembra daquilo que viu.
O sol banhava a erva ao lado da igreja. Ela pôs as mãos à frente
da cara. A luz atravessava os dedos, dando às duas pessoas
contornos avermelhados.
– Meus Deus – geme, deixando-se cair no chão. – Meu Deus…
A recordação do irmão a bater com a pedra na menina vem-lhe
como o clarão de um relâmpago.
As imagens da memória são tão vivas que parece que as crianças
estão ali com ela, na cozinha.
Ouve o baque surdo e vê a cabeça de Ylva abanar.
Lembra-se da menina a cair na relva. A boca dela abriu-se e
fechou-se, as pálpebras tremeram e ela murmurou palavras
incoerentes. Ele bateu outra vez.
Bateu com quanta força tinha, gritando que fechassem os olhos.
Ylva ficou imóvel, e ele pôs-lhe as mãos na cara e repetiu que ela
tinha de fechar os olhos.
– Mas eu não fechei…
– É a Flora? – pergunta novamente Torkel.
Por entre os dedos, Flora viu o irmão levantar-se, com a pedra na
mão. Calmamente, disse-lhe que tinha de fechar os olhos, porque
estavam a fazer o jogo dos olhos fechados. Aproximou-se de lado e
levantou a pedra suja de sangue. Flora recuou no momento em que
ele lhe bateu. A pedra arranhou-lhe a face, acertou-lhe no ombro e
Flora caiu de joelhos. Mas reagiu rapidamente, levantou-se e
começou a correr.
– É a Flora que vivia em Rånne?
– Não me lembro de quase nada – responde ela.
– Quem é o irmão dela? – pergunta Joona.
– Chamavam-lhes os meninos do asilo, embora tivessem sido
adotados pelos senhores – conta o polícia.
– Chamam-se Rånne?
– O industrial de madeiras Rånne… Mas nós dizíamos só «os
senhores» – responde Torkel. – Até veio no jornal, quando eles
adotaram duas crianças, um ato nobre e caridoso, escreveram. Mas
depois da tragédia, a menina foi para outro sítio… Só ficou o rapaz.
– O Daniel – diz Flora. – Chama-se Daniel.
A cadeira raspa no chão quando Joona se levanta da mesa e sai
sem dizer uma palavra. Com o telemóvel encostado ao ouvido,
atravessa a correr o jardim, onde as folhas amarelas se misturam no
chão com a fruta caída das árvores, sai pelo portão e dirige-se para
o carro.
– Anja, ouve, tens de me ajudar, é urgente – diz Joona enquanto
se senta ao volante. – Investiga se o Daniel Grim tem alguma
ligação a uma família com o apelido Rånne, em Delsbo.
Joona mal tem tempo de ligar o dipositivo RAKEL do carro para
lançar um alerta geral antes de Anja responder.
– Sim, são os pais dele.
– Reúne toda a informação que conseguires.
– Qual é a ideia?
– Raparigas – responde Joona.
Desliga e, antes de alertar a Polícia, marca apressadamente o
número de Elin Frank.
164

Conduzindo cautelosamente, Elin desce o caminho íngreme para


ir a Åre buscar a enfermeira de Vicky. Leva uma janela aberta, e o ar
puro penetra no carro. O lago estreito e comprido tem um brilho
sombrio. Os cumes dos montes sucedem-se, com a sua curva
suave, como uma fila de enormes sepulturas de vikings.
Elin recorda Vicky a pegar-lhe na mão e a apertá-la. «As coisas
vão mudar. Vão voltar a ficar bem.»
A estrada estreita passa sob uma projeção rochosa. O telemóvel
zumbe dentro da carteira. Elin avança mais um pouco e para numa
pequena área de descanso. Com uma sensação desagradável a
percorrer-lhe o corpo, pega no telemóvel e espera. A chamada vem
de Joona Linna. Elin não quer ouvir o que ele tem para lhe dizer,
mas atende, com uma mão trémula.
– Estou?
– Onde está a Vicky? – pergunta o comissário.
– Está comigo – responde ela. – Tenho uma casa em Duved…
– Eu sei, mas está a vê-la neste momento?
– Não…
– Quero que vá imediatamente buscar a Vicky e que se meta no
carro com ela e venham para Estocolmo. Só as duas. Já. Não
tragam nada, metam-se já no carro e…
– Eu estou no carro! – grita Elin, sentindo o pânico crescer-lhe no
peito. – A Vicky está em casa com o Daniel.
– Isso não é bom – diz Joona.
O tom da voz dele angustia-a e provoca-lhe um imenso mal-estar.
– Que aconteceu?
– Ouça-me, Elin… Foi o Daniel que matou a Miranda e a Elisabet.
– Não pode ser… – A voz sai-lhe num sussurro. – Ele ficou a
tomar conta da Vicky enquanto eu vou à estação dos autocarros.
– Então provavelmente ela já não está viva – afirma Joona. – Fuja
daí, é o meu conselho como polícia.
Elin olha o céu pelo para-brisas. Já não está branco. As nuvens
deslocam-se ao longo dos cumes, baixas, negras e carregadas de
chuva de outono.
– Não posso abandoná-la – ouve-se ela dizer.
– A Polícia vai a caminho, mas pode demorar um bocado.
– Vou voltar a casa – diz ela.
– Compreendo – responde Joona. – Mas tenha cuidado… Porque
o Daniel Grim é muito, muito perigoso, e a Elin vai estar sozinha
com ele até a Polícia chegar…
Mas Elin já não pensa. Faz inversão de marcha e começa a subir
a estrada íngreme, os pneus lançando gravilha em todas as
direções.
165

Vicky está sentada no cadeirão de couro branco, a descarregar


aplicações no telemóvel quando Daniel entra no quarto e se vai
sentar na cama.
Lá fora, a paisagem da montanha estende-se suavemente e os
ancestrais cumes cinzentos de Ullådalen e Åreskutan recortam-se
contra o céu.
– Sentiste-te mal ontem? – pergunta Daniel. – Por ficares sozinha
no carro quando fomos buscar as tuas coisas?
– Não… Percebo que ninguém me queira ver – responde ela,
continuando a mexer no telefone.
– Quando entrei, vi a Almira e a Lu Chu a fazerem o jogo dos
olhos fechados – mente Daniel. – Sei que a Miranda te ensinou o
jogo…
– Sim – responde ela.
– Sabes como é que a Miranda o aprendeu? – pergunta Daniel.
Vicky diz que sim com a cabeça e pega no carregador do
telemóvel.
– Eu recorro a esse jogo às vezes, na terapia – diz Daniel. – É um
exercício de confiança nos outros.
– A Miranda metia-me chocolate na boca – conta Vicky a rir. – E
desenhava um coração na minha barriga e…
Vicky cala-se repentinamente. Pensa no que Tuula lhe disse em
Hårte, quando lhe apareceu de súbito no meio dos arbustos.
– Falaste a alguém no jogo? – pergunta Daniel, observando-a.
– Não – responde ela.
– Era só para saber…
Vicky baixa os olhos e pensa em Tuula, na escuridão, com um
taco de basebol nas mãos, a dizer que o assassino só mata as
galdérias. Só as galdérias devem ter medo de que lhes esmaguem a
cabeça, sussurra ela. Tão característico de Tuula, dizer coisas
horríveis e retorcidas. Vicky tentara sorrir, mas Tuula contara-lhe
que tinha encontrado um teste de gravidez na mala de Miranda
quando lhe roubou o colar. Na véspera, Vicky pensara que Miranda
tinha ido para a cama com algum dos tipos que conhecera no
programa ADL.
Mas agora percebe que deve ter sido com Daniel.
Vicky sentira que havia alguma coisa de estranho quando Miranda
lhe ensinara o jogo, que ela estava a fingir que achava aquilo
divertido. Dava risadinhas e partia bocadinhos de chocolate, mas o
que ela queria era saber se Vicky já tinha jogado aquele jogo, sem
ter de lhe revelar o que tinha feito.
Vicky recorda os esforços de Miranda para parecer indiferente
quando lhe perguntou se Daniel alguma vez tinha ido ao quarto dela
fazer o jogo.
– A Miranda não disse nada – tenta Vicky explicar, cruzando
brevemente o olhar com o de Daniel. – Não falou do que o Daniel
fazia na terapia…
As faces de Vicky coram quando ela compreende subitamente a
ligação entre as coisas. Deve ter sido Daniel que matou Miranda e
Elisabet. O crime não tinha nada a ver com o serem ou não
galdérias. Daniel matou Miranda porque ela estava grávida.
Talvez Miranda já tivesse contado tudo a Elisabet.
Vicky esforça-se por respirar calmamente. Não sabe o que dizer.
Raspa o gesso com a unha e puxa uma pontinha do tecido.
– Era só…
Daniel inclina-se, tira-lhe o telemóvel do colo e mete-o no bolso.
– A terapia… era só para ser capaz de confiar nas outras pessoas
– continua Vicky, embora saiba que Daniel percebeu.
Daniel sabe que ela já compreendeu que foi ele que matou
Miranda e Elisabet com um martelo e que lhe atribuiu a culpa a ela.
– Sim, é uma parte importante da terapia – diz Daniel,
observando-a atentamente.
– Eu sei – murmura Vicky.
– Podíamos fazer isso agora, nós os dois. Só como uma
brincadeira – sugere Daniel.
Vicky assente em silêncio e pensa, com o pânico a crescer dentro
dela, que Daniel decidiu matá-la. O sangue retumba-lhe nos ouvidos
e o suor escorre-lhe das axilas. Ele ajudou a que a pusessem em
liberdade e acompanhou-as até ali para descobrir o que ela sabia,
para ter a certeza de que ninguém o denunciaria.
– Fecha os olhos – diz ele, sorrindo.
– Agora?
– Isto é divertido.
– Mas é que eu…
– Fecha os olhos – diz-lhe ele rispidamente.
Ela fecha os olhos e tapa a cara com as mãos, sentindo o coração
bater com muita força, de medo. Ouve-o fazer qualquer coisa, e
parece-lhe que ele tirou o lençol da cama.
– Tenho de ir fazer chichi – diz ela.
– Já vais.
Vicky continua a tapar o rosto com as mãos, mas sobressalta-se
quando ele desloca uma cadeira no chão. Ouve-se um barulho
arrastado. As pernas tremem-lhe, mas não destapa a cara.
166

Elin sobe a encosta íngreme a grande velocidade. Uma argola


com chaves chocalha no compartimento junto à alavanca das
mudanças. Os ramos de uma árvore raspam na chapa e na janela.
Numa curva apertada, Elin trava e por pouco não derrapa. Os pneus
deslizam sobre o cascalho, mas carrega a fundo na embraiagem,
sai da curva e acelera novamente.
Dentro do carro, sentem-se os solavancos e o barulho. A água do
degelo rasgou sulcos profundos na estrada não alcatroada que
segue para Tegefors.
Elin continua a subir demasiado depressa. Procura abrandar um
pouco ao aproximar-se da entrada da propriedade, mas quando vira
para a direita, na curva apertada, o espelho do lado esquerdo bate
no pilar no portão e é arrancado, e a parte lateral fica riscada. Elin
acelera, passa por cima da lomba, e o carro parece levantar voo.
Dentro do porta-bagagens, a grade de garrafas de água mineral
tomba com estrondo.
Percorre o último troço até à casa e para, levantando uma nuvem
de poeira. Elin sai do carro, deixando o motor a trabalhar, e entra a
correr. As persianas estão fechadas. A casa está mergulhada na
escuridão. Tropeçando em galochas e botas de esquiar, entra na
sala.
– Vicky! – grita.
Acende as luzes e sobe a escada a toda a pressa. Escorrega,
bate com o joelho num degrau, levanta-se e corre novamente em
direção ao quarto de Vicky. Vira o puxador, mas a porta está
fechada à chave. Atira-se contra a porta, grita e ouve a histeria na
sua voz.
– Abre!
Não se ouve qualquer som no quarto, e Elin baixa-se e espreita
pelo buraco da fechadura. Vê uma cadeira tombada no chão e
distingue uma sombra que se projeta na parede, num movimento
sacudido.
– Vicky?
Afasta-se da porta e dá-lhe um pontapé. Como a porta não cede,
dá-lhe outro pontapé. Corre ao quarto ao lado, mas a chave não
está na fechadura. Vai à porta seguinte e consegue,
atabalhoadamente, tirar a chave. Corre para o quarto de Vicky,
atirando ao chão uma escultura de vidro, que cai com estrondo. As
mãos tremem-lhe tanto, que tem dificuldade em meter a chave na
fechadura. À segunda tentativa, usando as duas mãos, consegue e
abre a porta violentamente.
– Meus Deus! – exclama, num sopro de voz.
Vicky está pendurada pelo pescoço num lençol torcido, preso à
viga no teto. Tem a boca aberta e o rosto extremamente pálido. Os
pés mexem-se debilmente no ar. Ainda está viva. As pontas dos pés
procuram o chão, que está a meio metro de distância, e as mãos
tentam afrouxar o nó do lençol.
Elin não pensa. Precipita-se para ela e levanta-a o mais que
consegue.
– Tenta libertar-te – diz-lhe, a chorar, segurando-a pelas pernas
magras.
Vicky debate-se com o lençol. O corpo mexe-se
espasmodicamente. Precisa de oxigénio e está em pânico, tentando
puxar o pano para alargar o nó.
De repente, Elin ouve-a inspirar e tossir. Arquejando, retesa o
corpo.
– Não consigo desatar – diz Vicky, tossindo.
Elin, em bicos de pés, esforça-se por levantá-la mais.
– Tenta trepar!
– Não consigo…
O nó aperta-se novamente. Vicky não tem ar suficiente e começa
a tremer de pânico, convulsivamente. Os braços de Elin também
tremem do esforço de a segurar. Não pode desistir. Tenta em vão
alcançar a cadeira tombada com o pé. Vicky está coberta de suor e
o seu corpo é sacudido por sucessivos espasmos. Elin tenta mudar
de posição, mas o peso é excessivo. O cansaço começa a insinuar-
se-lhe nos músculos, mas ainda assim consegue baixar uma mão,
agarrá-la melhor e elevá-la. Com as forças que lhe restam, Vicky
debate-se e acaba por conseguir alargar o nó e tirar a cabeça.
Começa a tossir, e caem as duas no chão.
O pescoço de Vicky tem um tom azulado, e a respiração é rápida
e entrecortada – mas respira, está viva. Elin dá-lhe beijos na cara,
afasta-lhe o cabelo do rosto transpirado, com as mãos a tremer, e
pede-lhe baixinho que não faça barulho.
– Foi o Daniel…
– Eu sei. A Polícia vem a caminho – segreda-lhe Elin. – Tens de
ficar aqui. Vou fechar a porta à chave, mas não podes fazer barulho
nenhum.
167

Perante o olhar assustado de Vicky, Elin fecha a porta à chave e,


quando desce a escada, apercebe-se de que está a tremer da
cabeça aos pés. Tem as pernas e os braços rígidos do esforço. O
telemóvel zumbe, e ela vê que recebeu uma mensagem de texto de
Vicky.
«Desculpe, mas não aguento mentir mais. Não fique triste. Beijos,
Vicky.»
Elin sente-se agoniada e tem o coração cheio de angústia. Os
pensamentos sucedem-se a uma velocidade vertiginosa. É
impossível compreender o que se está a passar. Daniel deve ter
acabado de lhe enviar um SMS do telemóvel de Vicky.
Cautelosamente, dirige-se para a sala, que jaz na penumbra. As
persianas estão corridas em toda a casa.
De repente, uma sombra projeta-se no chão. É Daniel. Está
parado, na escada da cave. Deve vir da garagem. Elin sabe que tem
de o entreter até a Polícia chegar.
– Ela acabou por conseguir – diz Elin. – Fechou-se à chave no
quarto, eu demorei muito tempo, não compreendo…
– Que é que estás a dizer? – pergunta ele vagarosamente,
fixando nela um olhar inexpressivo.
– Morreu… Não podemos sair daqui? Temos de telefonar a
alguém – diz ela.
– Sim – responde ele, aproximando-se.
– Daniel… eu não percebo.
– Não?
– Não, eu…
– Depois de a ter matado, a Vicky foi para o quarto e enforcou-se
– diz ele.
– Porque é que estás a dizer…
– Não devias ter voltado tão depressa – conclui Daniel.
De repente, Elin vê o machado que ele tem escondido atrás das
costas. Começa a correr para a porta principal, mas não há tempo,
ele está demasiado perto, pelo que decide cortar para a direita,
atirando ao chão uma cadeira. Daniel tropeça, o que dá a Elin um
pequeno avanço para passar pela zona da cozinha e entrar no
corredor. Os passos dele aproximam-se. Não tem onde se esconder.
Entra no antigo quarto de Jack, fecha a porta por dentro e carrega
no botão para abrir a persiana.
«Não vou conseguir sair», pensa ela. «Demora muito tempo.»
A persiana iça-se lentamente, rangendo. Quando o machado
penetra na porta pela segunda vez, vê-se um centímetro de janela.
Elin não pode esperar, tem de fugir. Atravessa o quarto e entra na
casa de banho de Jack no momento em que Daniel arromba a porta
com um pontapé. Ouve-se um estrondo e a madeira estala e parte-
se em lascas compridas à volta da fechadura. A almofada da porta
salta.
Elin vê a sua imagem no grande espelho quando atravessa a
casa de banho, passando pela banheira, a cabina de duche e a
sauna, e sai pela outra porta, que dá para o escritório de Jack. Está
tão escuro que tropeça no móvel de arquivo. Dossiers antigos caem
e espalham-se pelo chão. Elin tateia às cegas sobre o tampo da
secretária, abre uma gaveta, deita fora as canetas e tira o abre-
cartas.
No quarto, as persianas calam-se quando acabam de subir. Elin
ouve alguma coisa cair dentro da banheira. Daniel vem atrás dela.
Tira os sapatos e segue descalça para o corredor, fechando a porta
atrás de si.
Pensa que talvez possa ir agora em sentido contrário, entrar
novamente no quarto de Jack pela porta arrombada e tentar abrir a
janela.
Dá alguns passos, depois muda de ideias e corre pelo corredor.
– Elin! – grita Daniel, atrás dela.
A porta do quarto de hóspedes está fechada. Elin roda a chave,
mas a fechadura emperrou. Olha para trás e vê Daniel aproximar-
se. Não corre, mas os passos dele são grandes. Elin dá puxões no
fecho, sentindo já o cheiro do suor dele. Uma sombra move-se
rapidamente na porta. Ela atira-se para o lado e bate com a cara
num quadro.
O machado por pouco não a atinge na cabeça. A lâmina espeta-
se em diagonal na parede e bate na camada de betão com um ruído
metálico. A arma desviou-se tanto que escapa da mão de Daniel e
cai com estrondo no chão.
168

O fecho dá um estalido, Elin empurra a porta com o ombro e entra


no quarto aos tropeções. Daniel segue-a, procurando agarrá-la com
a mão. Ela vira-se e espeta-lhe o abre-cartas no peito, mas o golpe
é superficial. Daniel agarra-lhe então os cabelos e puxa-a para o
lado, atirando-a ao chão com tanta violência que Elin cai sobre o
móvel do televisor, derrubando o candeeiro de mesa.
Daniel empurra os óculos sobre o nariz, e volta atrás para ir
buscar o machado. Ela arrasta-se para debaixo da cama de casal.
Elin espera que Vicky continue escondida, porque ela talvez
consiga aguentar até a Polícia chegar.
Vê os pés e as pernas de Daniel, que anda à volta da cama.
Desvia-se e percebe que ele sobe para cima da cama. O colchão e
as ripas do estrado rangem. Não sabe para que lado se deve
desviar e tenta manter-se no meio.
Subitamente, ele agarra-lhe um pé, e ela grita. Logo de seguida
ele está no chão, ao lado da cama, a puxá-la. Elin tenta segurar-se,
mas é impossível. Sem largar a perna dela, Daniel levanta o
machado. Ela dá-lhe um pontapé na cara com o outro pé. Os óculos
caem-lhe, e ele larga-a, recua, a cambalear, e bate com as costas
na estante, tapando um olho com uma mão e olhando para ela com
o outro.
Elin sai rapidamente de baixo da cama e corre para a porta. Pelo
canto do olho, vê-o baixar-se e apanhar os óculos. Correndo, deixa
para trás o quarto de Jack e vai para a cozinha. Os passos pesados
de Daniel ouvem-se no corredor.
Os pensamentos correm-lhe na cabeça em turbilhão. A Polícia já
devia ter chegado, Joona disse que eles vinham a caminho.
Quando passa na cozinha, agarra uma panela que está em cima
da bancada, atravessa a sala a correr, abre a porta da escada para
a garagem, atira a caçarola pelos degraus e sobe ao piso superior.
As possibilidades estão a esgotar-se. Elin está muito cansada.
Passa o piso dos quartos, onde Vicky está escondida, e continua a
subir, para o afastar do quarto dela, até ao último piso.
Elin sabe que tem de aguentar até a Polícia chegar, que tem de
fazer isto, tem de o manter ocupado para ele não ir ao quarto de
Vicky.
Atrás dela, a escada range sob os passos de Daniel.
Ela chega ao último andar, que está quase totalmente às escuras.
Rapidamente, tira o atiçador de ferro do suporte que está junto da
salamandra. Os outros utensílios abanam com ruído. Elin põe-se no
meio da sala e, com um só golpe, parte o candeeiro do teto. O
grande lustre de vidro fosco cai com estrondo e parte-se. Os
estilhaços espalham-se pelo chão, tilintando, e depois faz-se
silêncio.
Apenas se ouvem passos pesados na escada.
Elin esconde-se na sala escura, ao lado de uma estante, à direita
da porta.
Daniel sobe os últimos degraus arquejando. Não tem pressa –
sabe que ela não pode fugir do último andar.
Elin procura abafar o som da respiração.
Daniel fica imóvel à porta, com o machado na mão, observando a
escuridão da sala, e depois carrega no interruptor da luz.
Ouve-se um clique, mas não acontece nada. A sala continua às
escuras.
169

Elin está escondida na sala, às escuras, segurando o atiçador


com as duas mãos. A adrenalina fá-la tremer, mas sente-se
surpreendentemente forte.
Daniel respira suavemente e entra muito devagar no quarto.
Ela não o vê, mas ouve o crepitar do vidro sob os sapatos dele.
Subitamente ouve-se um clique, seguido de um zumbido elétrico e
um rangido. Através dos orifícios entre as lamelas da persiana,
começa a entrar luz. Daniel deixa-se ficar junto à porta, esperando
que a persiana acabe de subir e o quarto fique iluminado.
Não há esconderijo possível.
Ele olha-a, e ela recua, com o atiçador apontado para ele.
Daniel olha para o machado que tem na mão direita e dá um
passo na direção de Elin.
Ela tenta atingi-lo com o atiçador, mas Daniel esquiva-se. Tenta
novamente e sente uma dor no pé quando pisa um estilhaço de
vidro. Ainda assim não desvia o olhar de Daniel.
O machado baloiça na mão dele.
Ela tenta atingi-lo, mas ele desvia-se, fitando-a com um olhar
impenetrável.
De súbito, ele faz um movimento rápido com o machado e a
lâmina atinge o atiçador. Ouve-se o tinido sonoro de metal contra
metal. O atiçador abana, salta-lhe da mão e cai com estrondo no
soalho.
Elin já não pode defender-se. Recuando um pouco, percebe,
atónita, que não vai conseguir. A angústia apodera-se do seu corpo
e uma sensação de impotência impede-a de agir.
Daniel continua a avançar.
Ela olha-o profundamente nos olhos, mas é evidente que nada o
deterá.
Por fim, Elin vê-se encostada à grande janela. Por trás dela, a
fachada lisa de betão está a três pisos e meio de um pátio de pedra
com mobiliário de exterior e um grelhador de churrasco.
Elin sangra dos pés, e o rasto destaca-se no soalho de madeira
clara.
Não aguenta mais. Imóvel, pensa que devia negociar, prometer-
lhe alguma coisa, fazê-lo falar.
A respiração de Daniel tornou-se agora mais pesada. Observa-a
um breve momento, humedece os lábios e depois cobre
rapidamente o último espaço que o separa dela, brande o machado
e golpeia. Instintivamente, Elin desvia a cabeça, e o machado atinge
o vidro da janela. Sente o vidro espesso vibrar contra as costas e
ouve o ruído cortante da vidraça a rachar. Daniel volta a erguer o
machado mas, antes de desferir novo golpe, Elin inclina-se para
trás, põe todo o peso sobre a janela e sente-a ceder. Um frémito
percorre-lhe o corpo. Elin cai desamparada, rodeada de vidros e
estilhaços reluzentes. Fecha os olhos e nem percebe quando
embate no solo.
Daniel apoia-se no caixilho da janela com uma mão e olha para
baixo. Continuam a cair estilhaços de vidro. Lá em baixo, jaz Elin.
Há vidros por todo o lado. Da cabeça dela escorre um fio de sangue
escuro que se espalha no empedrado.
A respiração de Daniel torna-se mais regular. A camisa está
encharcada em suor nas costas.
Do último piso, a vista é magnífica. Muito perto, vê-se o pico de
Tyskhuvudet, e a montanha de Åreskutan, com a sua característica
cabana no cume, está envolta numa neblina outonal. Na estrada
que vem de Åre, surgem as luzes azuis de veículos da Polícia, mas
a estrada para Tegefors está deserta.
170

Joona compreendera tudo no momento em que Flora dissera o


nome do irmão. Começou a marcar o número de Anja ainda a sair
da casa de Torkel e, quando ela atendeu, já Joona corria pelo
jardim. Sentado no carro, ela confirmou-lhe que Daniel Grim era o
rapaz que tinha sido adotado pelo industrial de madeiras Rånne.
O mesmo Daniel de que Flora falava.
Daniel Grim era o mesmo rapaz que, há trinta e seis anos, matara
uma menina diante de Flora.
Terminada essa chamada, o comissário marcou o número de Elin
Frank. Daniel tinha ido para Duved com ela e Vicky.
Enquanto esperava que Elin atendesse, compreendeu o motivo
por que Elisabet tinha lesões nas costas das mãos.
Tinha tapado a cara com as mãos.
Daniel não deixa testemunhas – ninguém pode ver o que ele faz.
Depois de ter avisado Elin, alertou a central de comunicações e
pediu o envio de Polícia e ambulâncias para Duved. Os helicópteros
estavam ocupados em Kiruna, e os veículos de emergência
demorariam no mínimo meia hora a chegar à casa.
Joona não tinha qualquer possibilidade de lá chegar primeiro. A
distância entre Delsbo e Duved é de trezentos quilómetros.
Tinha fechado a porta e ligado o motor quando o diretor, Carlos
Eliasson, lhe ligou para perguntar que razões tinha para, de repente,
suspeitar de Daniel Grim.
– Há trinta e seis anos, ele matou uma criança exatamente da
mesma forma que matou a rapariga do Centro Birgitta – respondeu
Joona, começando a descer o caminho de cascalho.
– A Anja mostrou-me as fotografias do acidente de Delsbo –
suspirou Carlos.
– Não foi um acidente – teimou Joona.
– O que te leva a ligar os dois casos?
– Ambas as vítimas tinham as mãos a tapar a cara quando…
– A Miranda, sei que tinha – interrompeu-o Carlos. – Mas estou
aqui com as fotografias de Delsbo na minha frente, e o que eu vejo
é a vítima deitada num lençol, e as mãos estão…
– Mudaram a posição do corpo antes de a Polícia chegar ao local
– interrompe Joona.
– Como é que sabes?
– Sei – respondeu ele.
– É a tua teimosia habitual, ou foi a vidente que te contou isso?
– Ela é testemunha ocular – respondeu Joona, com um pesado
sotaque finlandês.
Carlos riu, cansado, e depois disse, em tom grave:
– De qualquer modo, isso já prescreveu. Temos a procuradora a
dirigir a investigação com a Vicky como suspeita, e tu estás a ser
investigado pelos Assuntos Internos.
Depois de entrar na estrada 84, em direção a Sundsvall, Joona
contactou a Polícia de Västernorrland e pediu que enviassem um
carro-patrulha e técnicos à casa de Daniel Grim. Através do
dispositivo RAKEL, ouviu que a Polícia de Jämtland previa chegar a
casa de Elin dentro de dez minutos.
171

O primeiro carro-patrulha estaciona diante da casa de Elin Frank


na encosta de Tegelfjället. Um dos polícias aproxima-se do
automóvel, que ainda tem o motor a trabalhar e desliga-o, enquanto
o outro pega na arma e se dirige para a porta principal da casa. Um
segundo carro da Polícia e uma ambulância param no terreiro.
As luzes da segunda ambulância já se veem, no caminho íngreme
de acesso.
Estranhamente, a grande casa parece estar fechada, com as
janelas tapadas pelas persianas metálicas.
Reina um silêncio assustador.
Empunhando as armas, dois polícias entram pela porta principal.
Um terceiro fica cá fora, enquanto um quarto elemento começa a
contornar a casa por fora. Cautelosamente, sobe uma escada larga
de betão branco.
A casa parece desabitada – fechada como um cofre.
O polícia chega a um terraço. Por trás dos móveis de exterior, vê
o sangue, os estilhaços de vidro e as duas pessoas.
Para repentinamente.
Uma rapariga com o rosto pálido, lábios gretados e cabelo
desgrenhado ergue o olhar. Os olhos parecem negros. Está de
joelhos junto ao corpo inerte de uma mulher. Em volta das duas
formou-se uma poça de sangue. A rapariga segura a mão da mulher
entre as suas. Os lábios dela mexem-se, mas o agente só a ouve
quando se aproxima mais.
– Ainda está quente – diz Vicky, muito baixinho. – Ainda está
quente…
O polícia baixa a arma e chama os paramédicos pelo rádio.
Debaixo de nuvens cinzentas e frias, os paramédicos aproximam-
se com duas macas. Constatam imediatamente uma fratura de
crânio na mulher inconsciente e transferem-na cuidadosamente para
a maca, apesar de a rapariga não a largar.
Vicky, com grossas lágrimas a correrem-lhe pelo rosto, continua a
segurar-lhe com força na mão.
Também ela está gravemente ferida e sangra abundantemente
dos joelhos e das pernas por ter estado ajoelhada sobre os cacos
de vidro. Tem o pescoço inchado e de um tom violáceo, e
provavelmente as vértebras cervicais danificadas, mas recusa
deitar-se na maca, e é evidente que não tenciona afastar-se de Elin.
Dada a urgência de partirem, decidem deixá-la ir na mesma
ambulância e segurar a mão de Elin Frank, enquanto se
encaminham para Östersund, onde serão transportadas de
helicóptero para o hospital Karolinska, em Estocolmo.
172

Joona atravessa uma linha férrea enferrujada quando o


coordenador da operação policial em Duved atende finalmente o
telefone. Parece nervoso e fala ao mesmo tempo com outra pessoa
que está na viatura de comando com ele.
– Isto está um bocado confuso… Mas estamos no local – diz ele,
tossindo a seguir.
– Preciso de saber se…
– Não, merda! Antes de Trångsviken e Strömsund – grita o
coordenador para alguém.
– Estão vivas?
– Desculpe, tenho de mandar fechar as estradas.
– Eu espero – diz Joona, ultrapassando um camião.
Ouve o coordenador pousar o telefone, falar com o chefe de
operação, confirmar os locais, voltar à central de comunicações e,
através da central, orientar os carros-patrulha que vão montar as
barreiras.
– Já voltei – diz ele, novamente no telefone.
– Estão vivas? – repete Joona.
– A miúda está fora de perigo, mas a mulher está… A situação é
crítica, e eles estão a preparar uma intervenção de urgência no
hospital de Östersund, para depois ser transferida para o Karolinska.
– E o Daniel Grim?
– Não estava mais ninguém na casa…. Estamos a bloquear as
estradas, mas se ele for por uma das estradas pequenas, não temos
recursos…
– E helicópteros? – pergunta Joona.
– Estamos em conversações com o Batalhão de Caçadores de
Kiruna, mas é muito demorado – responde o coordenador, com a
voz áspera de cansaço.
Joona chega a Sundsvall. Pensa em Elin Frank, que voltou à casa
apesar da advertência dele. Não consegue imaginar o que ela terá
feito, mas, aparentemente, chegou a tempo.
Elin está gravemente ferida, mas Vicky está viva.
Há uma possibilidade de Daniel Grim ir parar a uma das barreiras
na estrada, principalmente se não souber que é procurado. Mas, se
ele conseguir escapar, demorará pelo menos duas horas a chegar a
casa, e nessa altura a Polícia deverá ter preparado uma armadilha
para o apanhar.
E antes disso, pensa Joona, será preciso realizar um primeiro
exame técnico da casa.
Em Bruksgatan, Joona abranda e estaciona atrás de um carro-
patrulha. A porta da casa de Daniel Grim está aberta, e dois polícias
fardados esperam-no à entrada.
– A casa está vazia – diz um deles. – Nada de anormal.
– O técnico já vem a caminho?
– Dê-lhe dez minutos.
– Vou dar uma olhadela – diz Joona, entrando.
Percorre rapidamente o interior, sem saber o que procura. Abre
roupeiros, puxa gavetas, abre uma porta que dá para uma
garrafeira. Entra na cozinha e examina o armário dos artigos de
limpeza, as gavetas, o frigorífico e o congelador. Sobe ao andar de
cima, arranca a coberta da cama, de tecido tigrado, e vira o colchão.
Abre o closet, afasta os vestidos de Elisabet e bate na parede,
empurra com o pé sapatos velhos e puxa para fora uma caixa com
decorações de Natal. Na casa de banho, inspeciona o armário, onde
há loção da barba, frascos de medicamentos e artigos de
maquilhagem. Desce a escada toda, até à cave, apalpa a porta
trancada da caldeira, arrasta para o lado o cortador de relva, levanta
a tampa do esgoto, espreita para trás das sacas com terra para
flores e volta a subir a escada.
Parado no meio da casa, olha para fora, para a cama de rede no
jardim. No outro lado, a porta da rua está aberta e vê os dois
polícias à espera junto do carro.
Fecha os olhos e pensa na abertura no teto do quarto, que dá
acesso ao sótão, na porta trancada da caldeira na cave e ocorre-lhe
que a garrafeira, no armário por baixo da escada, devia ser maior.
Na porta estreita do armário do vão da escada, está pendurada
uma tabuleta antiga, onde se lê «cuidado com o cão». Joona abre a
porta e observa a garrafeira. Numa estante alta de madeira há cerca
de cem garrafas em pequenas divisórias sobre prateleiras
inclinadas. É óbvio que existe um espaço vazio por trás. Há pelo
menos trinta centímetros entre a parte de trás da estante e a
parede. Joona tenta puxá-la. Deslocando as garrafas das pontas,
descobre, no lado esquerdo, um ferrolho em cima e outro em baixo.
Destrava-os e, cautelosamente, faz rodar a pesada estante. Um
cheiro a pó e madeira espalha-se no ar. O espaço interior está
quase vazio, mas no chão há uma caixa de sapatos com um
coração desenhado na tampa.
Usando o telemóvel, Joona fotografa a caixa e depois calça umas
luvas de látex.
173

A primeira coisa que vê quando levanta a tampa da caixa é uma


fotografia de uma rapariga com cabelo loiro arruivado. Não é
Miranda. É outra rapariga, talvez com doze anos.
Está a tapar a cara com as mãos.
É uma brincadeira: a boca tem uma expressão alegre e, por entre
os dedos, veem-se os olhos brilhantes.
Levantando a fotografia, Joona encontra uma flor seca, de roseira
brava.
Na fotografia seguinte vê-se uma rapariga enroscada num sofá a
comer batatas fritas, dirigindo um olhar interrogativo para a câmara.
Um marcador de livros com a forma de um anjo tem escrito por
trás «Linda S», a tinta dourada.
Sobre um maço de fotografias presas com um elástico há uma
madeixa de cabelo castanho-claro, uma fita de seda atada num laço
e um anel barato com um coração de plástico.
Joona passa uma a uma as fotografias de raparigas. De algum
modo, todas fazem lembrar Miranda, mas quase todas são bastante
mais novas. Algumas têm os olhos fechados ou tapam a cara com
as mãos.
Uma menina em fato de ballet e perneiras de lã cor-de-rosa está
de pé, com as mãos sobre o rosto.
Joona vira a fotografia e lê «Amada Sandy». Em volta das
palavras estão desenhados corações a azul e encarnado.
Uma rapariga com cabelo curto olha para a câmara fazendo uma
careta. Na superfície brilhante do papel, alguém desenhou um
coração e a palavra Euterpe.
No fundo da caixa está uma ametista polida, pétalas secas de
tulipa, rebuçados e um papelinho que diz «Daniel + Emilia» em letra
infantil.
Joona pega no telemóvel, segura-o por um momento, enquanto
contempla as fotografias, e depois liga para Anja.
– Não tenho nada – diz ela. – Nem sei o que hei de procurar.
– Mortes – diz Joona, com o olhar pousado numa rapariga a tapar
o rosto com as mãos.
– Sim, mas infelizmente… O Daniel Grim trabalhou como
terapeuta em sete instituições para menores do sexo feminino em
Västernorrland, Gävleborg e Jämtland. Não há condenação
nenhuma e nunca foi suspeito de qualquer crime. Também não há
participações internas contra ele… nem sequer uma observação.
– Compreendo – diz Joona.
– Tens a certeza de que é ele? Fiz uma comparação… A verdade
é que, durante o tempo dele, as instituições tiveram uma
mortalidade inferior à média.
Joona volta a olhar para as fotografias, para as flores e os
corações. Seriam bonitos se a caixa pertencesse a um rapazinho.
– Não há nada de estranho ou inesperado?
– Ao longo dos anos, passaram nas instituições onde ele
trabalhou pouco mais de duzentas e cinquenta raparigas.
Joona sustém a respiração.
– Tenho sete nomes – diz. – O mais invulgar é Euterpe. Há
alguma que se chame Euterpe?
– Euterpe Papadias – confirma Anja. – Suicidou-se no centro de
acolhimento de emergência em Norrköping. Mas o Daniel Grim não
tem ligação com esse centro…
– Tens a certeza?
– No contexto da transferência dela para o centro de acolhimento
de emergência de Fyrbylund, há uma breve informação sobre um
quadro clínico bipolar, comportamentos de automutilação, duas
tentativas graves de suicídio.
– Foi transferida para aí de Birgitta?
– Sim, em junho de 2009. E em 2 de julho do mesmo ano, ou
seja, apenas duas semanas depois, foi encontrada no duche com os
pulsos cortados.
– Mas o Daniel não trabalhava lá nessa altura?
– Não – responde Anja.
– Tens alguma aluna que se chame Sandy?
– Sim, duas… Uma morreu com uma dose excessiva de
comprimidos numa instituição em Uppsala.
– Ele escreveu Linda S num marcador de livros.
– Sim, Linda Svensson. Dada como desaparecida há sete anos,
depois de ter regressado a uma escola normal em Sollefteå.
– Morrem todas noutro sítio qualquer – diz Joona sombriamente.
– Mas ouve… Foi ele que fez isto? – pergunta Anja baixinho.
– Foi. Estou convencido disso – responde Joona.
– Deus do céu…
– Tens alguma rapariga chamada Emilia?
– Sim, tenho uma Emilia Larsson que saiu de Birgitta… Há uma
fotografia… Tem golpes nos braços que vão desde o pulso até à
dobra do cotovelo… Deve ter-lhe cortado os braços e depois não a
deixou pedir ajuda, bloqueou a porta e ficou a vê-la esvair-se em
sangue.
Joona sai da casa e vai sentar-se no carro. Mais uma vez, o
mundo mostrou o seu lado mais negro, e ele sente uma profunda
tristeza fustigá-lo como um vento gélido.
Contempla a beleza das árvores lá fora, suspira e pensa que a
Polícia perseguirá Daniel Grim até o apanhar.
Na E-4, Joona fala com o coordenador da operação em Duved,
que lhe diz que o bloqueio das estradas vai ser mantido por mais
duas horas, mas o chefe de operação já não tem esperança de
apanharem Daniel Grim numa barreira.
Joona pensa na caixa com as fotografias das raparigas que
Daniel Grim escolheu. Parece que nutria um amor infantil por elas.
Havia corações, flores, rebuçados e recadinhos.
Aquela pequena coleção era rosada e luminosa, mas a realidade
era um pesadelo.
As raparigas nas instituições e nos centros de acolhimento
estavam em reclusão, por vezes amarradas e fortemente medicadas
quando ele as forçava.
Ele era a única pessoa com quem elas podiam falar.
Ninguém lhes dava ouvidos e ninguém sentiria a falta delas.
Escolheu raparigas com comportamentos de automutilação e com
tantas tentativas de suicídio, que os familiares já tinham desistido e
começado a pensar nelas como se estivessem mortas.
Miranda fora uma exceção. Levado pelo pânico, matou-a na
instituição onde ela estava internada. Talvez o crime tenha sido
desencadeado pelo facto de ela pensar que estava grávida.
Joona crê que, com os nomes das raparigas que Anja identificou,
a Polícia poderá estabelecer ligações que permitam condená-lo por
uma série de crimes. Será possível esclarecer essas mortes
sumariamente encerradas e proporcionar às vítimas uma espécie de
justiça póstuma.
174

A memória da mulher de Torkel Ekholm está patente nos tecidos,


na toalha gasta, bordada à mão, na barra de renda da cortina, agora
cinzenta de sujidade. As calças de Torkel estão coçadas até ao fio
nos joelhos.
O velho polícia tomou um medicamento que tirou de uma caixinha
de dosagem e depois, lentamente, com a ajuda do andarilho, foi
sentar-se no sofá da cozinha.
O relógio na parede produz um tiquetaque constante e fatigado.
Em cima da mesa, diante de Flora, estão as notas de Torkel, os
recortes de artigos dos jornais sobre o acidente e o pequeno
anúncio necrológico.
O velho conta a Flora tudo o que guarda na memória sobre o
industrial Rånne, a propriedade da família, as florestas e os terrenos
agrícolas que possuíam, a impossibilidade de terem filhos e a
adoção de Flora e do irmão, Daniel. Fala-lhe de Ylva, a filha do
rendeiro, que foi encontrada morta por baixo do campanário da
igreja, e do silêncio que se instalou em Delsbo.
– Eu era tão pequena – diz Flora. – Pensei que não eram
recordações, pensei que as crianças que via eram fantasias…
Flora recorda a sensação de julgar que estava a enlouquecer,
desde que ouvira falar dos crimes de Birgitta. Não conseguia pensar
noutra coisa. Sonhava com a rapariga que tinha a cara tapada com
as mãos e via-a em toda a parte.
– Mas você estava lá – diz ele.
– Tentei várias vezes dizer o que o Daniel tinha feito, mas
zangavam-se comigo. Quando contei ao meu pai, ele levou-me para
o escritório e disse-me que as pessoas mentirosas seriam lançadas
a um lago de fogo.
– Finalmente, encontrei a minha testemunha – diz Torkel Ekholm
em voz baixa.
Flora lembra-se do pavor de arder num lago de fogo, o cabelo e
as roupas a incendiarem-se, a ideia do corpo enegrecido e seco
como a lenha no fogão, se contasse o que Daniel tinha feito.
Torkel varre as migalhas da mesa com a mão.
– O que aconteceu à menina? – pergunta.
– Eu sei que o Daniel gostava da Ylva… Queria estar sempre de
mão dada com ela, dava-lhe framboesas…
Cala-se e vê novamente aqueles estranhos fragmentos de
memória brilhando como se fossem incendiar-se.
– Brincámos a tapar os olhos – continua ela. – Quando a Ylva os
fechou, ele deu-lhe um beijo na boca… Ela abriu-os, riu-se e disse
que ia ter um bebé. Eu ri-me, mas o Daniel ficou… Disse que não
podíamos olhar e pareceu-me que a voz dele estava estranha.
Espreitei entre os dedos, como fazia sempre. A Ylva estava
contente quando tapou a cara, e vi o Daniel pegar numa pedra do
chão e bater-lhe, bater-lhe…
Torkel suspira profundamente e estende-se no sofá estreito da
cozinha.
– Às vezes vejo o Daniel, quando ele vem visitar o Rånne…
Flora deixa o polícia adormecer e depois retira cuidadosamente a
caçadeira pendurada na parede e sai.
175

Flora segue o caminho estreito e ladeado de árvores que conduz


à propriedade dos Rånne, segurando nos braços a pesada
caçadeira. Nas copas amarelecidas das árvores estão pousadas
aves negras.
Sente a presença de Ylva caminhando ao seu lado e recorda os
dias em que corriam por aqueles campos, com Daniel.
Pensara que tudo não passara de um sonho – a casa tão bonita
para onde foram morar, cada um com o seu quarto, as paredes
forradas com papel às flores. Lembra-se de tudo. As recordações
emergiram das profundezas, da terra negra onde jaziam enterradas,
e estão agora diante dela.
O velho pátio calcetado está igual. Diante da entrada da garagem,
veem-se vários carros, de pintura reluzente. Flora sobe a escada
ampla, abre a porta e entra.
Andar por um sítio tão familiar com uma arma carregada nas
mãos provoca-lhe uma sensação estranha.
Passar à vontade sob os enormes lustres de cristal, pisando os
tapetes persas.
Ainda ninguém a viu, mas da sala de jantar vem o som abafado
de vozes.
Atravessa os quatro salões contíguos e vê, ainda à distância, que
eles estão sentados à mesa.
Muda a posição da arma, apoiando o cano na dobra do braço e
agarrando a coronha, com o dedo no gatilho.
A sua antiga família está a comer e a conversar, e não olha para
ela.
Nos nichos das janelas encontram-se jarras altas com flores
frescas. Flora deteta um movimento pelo canto de olho e vira-se,
com a arma apontada, mas é a sua própria imagem no espelho. Um
espelho de dimensões gigantescas, que vai do chão ao teto e que
lhe mostra o seu rosto pálido e o olhar agreste e tresloucado.
Com a arma apontada para a frente, atravessa o último salão e
entra na sala de jantar.
A mesa está decorada com os frutos que a terra deu: pequenos
molhos de trigo, cachos de uvas, ameixas e cerejas.
Flora lembra-se que é dia de Ação de Graças.
A mulher que foi a sua mãe tem um aspeto magro e frágil. Come
devagar, com mãos trémulas, o guardanapo aberto no colo.
Um homem da idade de Flora está sentado diante dos pais. Ela
não o reconhece, mas sabe quem é.
Flora para junto à mesa, e o soalho range sob os seus pés.
O pai é o primeiro a vê-la.
No mesmo momento, é tomado de uma estranha calma. Pousa os
talheres e endireita as costas, como para a observar melhor.
A mãe segue o olhar do pai e pisca os olhos repetidamente
quando vê, surgida da sombra, uma mulher de meia-idade
empunhado uma espingarda.
– Flora! – diz a velha senhora, deixando cair a faca. – És tu,
Flora?
Flora está diante da mesa posta, com a caçadeira nas mãos, sem
conseguir responder. Engole em seco, cruza o olhar com o da mãe
por um breve momento e depois vira-se para o pai.
– Porque é que vieste armada? – pergunta ele.
– Fizeste de mim uma mentirosa.
O pai esboça um sorriso curto e sem alegria. As rugas do rosto
traem a sua amargura e solidão.
– Aquele que mente será lançado a um lago de fogo – diz ele, em
voz cansada.
Ela inclina a cabeça e hesita uns segundos antes de fazer a
pergunta.
– Sabias que foi o Daniel que matou a Ylva?
O pai limpa vagarosamente a boca ao guardanapo de pano.
– Fomos obrigados a mandar-te para outro sítio porque tu eras
uma grande mentirosa – diz ele. – E agora voltaste e estás a mentir
outra vez.
– Não são mentiras.
– Tu confessaste, Flora. Confessaste que tinhas inventado aquilo
– diz ele em voz baixa.
– Eu tinha quatro anos! Tu gritaste comigo, disseste que o meu
cabelo ia arder se eu não confessasse que tinha mentido, disseste
que a minha cara ia derreter e o meu sangue ferver… Eu disse que
tinha mentido e vocês mandaram-me embora.
176

Flora franze os olhos quando olha para o irmão, sentado à mesa.


Não é possível saber se ele a observa; os olhos dele são como
poços gelados.
– Vai-te embora – diz o pai, continuando a comer.
– Não vou sem o Daniel – responde ela, apontando o irmão com a
espingarda.
– A culpa não foi dele – diz a mãe em voz débil. – Fui eu que…
– O Daniel é um bom filho – interrompe o pai.
– Não estou a dizer o contrário – diz a mãe. – Mas… Tu não te
lembras, mas na noite anterior tínhamos estado a ver uma peça de
teatro na televisão. A Menina Júlia. Ela estava tão perdida pelo
criado… Eu disse que era melhor…
– Deixa-te de disparates – interrompe o marido.
– Penso nisso todos os dias – continua a senhora. – A culpa foi
minha, porque eu disse que era melhor para a rapariga morrer do
que ficar grávida.
– Cala-te com isso!
– E precisamente quando eu disse isto, vi que o Daniel tinha
entrado e estava a olhar para mim, muito atento – conta ela, com
lágrimas nos olhos. – Eu estava a falar da peça do Strindberg…
A velha senhora levanta o guardanapo, com as mãos a tremer.
– Depois do que se passou com a Ylva… Passada uma semana
do desastre, uma noite, quando eu estava a rezar com o Daniel…
ele contou que a Ylva estava à espera de um bebé. Era um menino
de seis anos, não percebia.
Flora olha para o irmão. Ele endireita os óculos sobre o nariz, com
o olhar fixo na mãe. É impossível saber o que está a pensar.
– Vais comigo à Polícia e contas a verdade – diz Flora a Daniel,
apontando-lhe a espingarda ao peito.
– Para quê? – pergunta a mãe. – Foi um acidente.
– Estávamos a brincar – diz Flora, sem olhar para ela. – Mas não
foi um acidente.
– Ele era uma criança! – grita o pai.
– Sim, mas agora voltou a matar. Matou duas pessoas, em
Birgitta. Uma delas era uma menina de catorze anos, que foi
encontrada com as mãos a tapar a cara…
– Mentes! – grita o pai, com um murro na mesa.
– Vocês é que mentem – diz Flora, num sopro.
Daniel levanta-se. O rosto dele sofre uma modificação. Talvez
seja maldade o que mostra, mas parece repugnância e medo. Os
sentimentos misturam-se. Uma faca tem dois lados, mas só um
gume.
A mãe implora, tenta retê-lo, mas ele afasta-lhe as mãos e diz
qualquer coisa que Flora não ouve.
Parece uma imprecação contra ela.
– Vamos – diz-lhe Flora.
O pai e a mãe ficam a olhar para ela. Não há mais nada para
dizer. Flora sai com o irmão.
177

Flora e Daniel saem de casa, descem a escadaria ampla,


atravessam o pátio e metem pelo caminho de cascalho, deixando
para trás um anexo, na direção dos edifícios de exploração.
– Continua a andar – diz Flora, quando ele começa a abrandar o
passo.
Seguindo sempre pelo caminho de cascalho, contornam o grande
celeiro pintado de vermelho e dirigem-se para um campo. Flora
mantém a caçadeira apontada às costas de Daniel. Começam a vir-
lhe à memória fragmentos dos dois anos que passou ali na
propriedade, mas há um período anterior, aquele em que viveu no
orfanato com Daniel, que permanece na escuridão.
Deve ter havido um tempo em que ela viveu com a mãe biológica.
– Vais dar-me um tiro? – pergunta Daniel brandamente.
– Sou capaz disso – responde ela. – Mas quero que vamos à
Polícia.
O sol rompe entre as nuvens pesadas de chuva e encandeia-a
por um momento. Quando os reflexos brancos se diluem, Flora toma
consciência de que tem as mãos a suar. Precisa de as limpar às
calças, mas não se atreve a alterar a posição da arma.
Ao longe ouve-se o grasnido de uma gralha.
À beira do caminho veem dois pneus de trator e uma banheira
velha sobre a erva. O carreiro continua a descer, contornando o
enorme celeiro vazio numa curva ampla. Em silêncio, acompanham
um muro ladeado de urtigas altas e rododendros secos, ao qual
estão encostados sacos com bolinhas de argila.
Para chegar ao campo, têm de fazer um longo desvio.
Nas traseiras do celeiro, o sol fica oculto.
– A Flora… – murmura ele, num tom de assombro.
Ela começa a sentir os braços cansados, e os músculos tremem-
lhe.
A estrada para Delsbo já se avista ao longe, como um traço direito
sobre os campos amarelos.
Flora empurra Daniel com o cano da espingarda entre as
omoplatas. Estão agora no pátio adjacente ao celeiro.
Rapidamente, ela limpa uma mão e volta a colocar o indicador no
gatilho.
Daniel para e espera pelo contacto do cano da espingarda antes
de recomeçar a andar. Ao lado deles, há um pilar de cimento onde
estão cravadas umas argolas de ferro, já com ferrugem.
Ao longo da aresta estalada crescem ervas.
Daniel começou a coxear e anda mais devagar.
– Anda! – diz Flora.
Ele estende a mão e acaricia a erva alta. Uma borboleta sobe no
ar, voluteando.
– Lembrei-me de que podíamos parar aqui – diz ele, abrandando
o passo. – É o antigo matadouro, quando tínhamos gado…
Lembras-te da máscara do abate, com o prego, e eles a espetarem-
no nos animais?
– Se parares, disparo – diz ela, o dedo a tremer no gatilho.
Daniel segura uma flor cor-de-rosa em forma de campânula,
separa-a da haste, para e volta-se para dar a flor à irmã.
Ela recua e pensa em disparar, mas não tem tempo. Daniel
agarrou o cano e arranca-lhe a espingarda das mãos.
Flora fica tão surpreendida que nem tem tempo de se desviar
quando ele lhe bate com a coronha no peito, fazendo-a cair de
costas. Perde o fôlego, tosse, procura um apoio e levanta-se.
Estão em frente um do outro. Daniel observa-a com um olhar
sonhador.
– Talvez não devesses ter olhado – diz ele.
Com um movimento descontraído, baixa a arma e aponta o cano
para o chão. Flora não sabe o que dizer. Sente a angústia no
estômago quando se apercebe de que provavelmente vai morrer ali.
Sobre a erva, passeiam-se pequenos insetos.
Daniel levanta novamente a espingarda e olha-a nos olhos.
Encosta o cano da arma à coxa direita de Flora e, quando dispara,
quase parece acidental.
O estouro é tão forte que deixa um tinido nos ouvidos.
A bala atravessa o músculo da coxa, e Flora não sente
propriamente dor, mas uma espécie de cãibra.
O coice da arma obriga Daniel a recuar, enquanto vê a irmã cair,
sem forças na perna.
Flora tenta proteger-se na queda, mas bate com a bacia e a cara
no chão e fica deitada de lado por um momento, sentindo o cheiro a
palha e a pólvora.
– Agora tapa os olhos – diz Daniel, apontando-lhe a arma à cara.
Flora continua deitada de lado, com o sangue a jorrar em golfadas
da perna. Vira o rosto e olha para o enorme celeiro. Por um instante,
a sua visão turva-se. Está agoniada. A paisagem dos campos
amarelos e do celeiro gira à sua volta como se fosse num carrossel.
O coração bate-lhe tão depressa que tem dificuldade em respirar.
Tosse e fica a arquejar profundamente.
Daniel está em contraluz. Empurra-lhe o ombro com o cano da
arma, para ela ficar de costas no chão. A dor horrível na coxa fá-la
gemer. Ele observa-a e diz alguma coisa que a irmã não consegue
perceber.
Flora procura levantar a cabeça, e o olhar desliza sobre o solo,
sobre as ervas, sobre o pilar de cimento com as argolas de ferro.
Daniel passeia a arma sobre o corpo dela. Aponta-a para a testa e
depois segue a linha do nariz até à boca.
Flora sente o metal quente nos lábios e no queixo. A respiração
dela é muito rápida. O sangue corre abundantemente da ferida
latejante. Ela olha para o céu, para o telhado do celeiro, fecha e
abre os olhos e esforça-se por perceber o que vê. Por trás da
parede do celeiro, através dos intervalos entre as tábuas, sob os
feixes de luz, vislumbra um homem a correr.
Tenta dizer alguma coisa, mas não tem voz.
O cano da arma encosta-se a uma pálpebra de Flora, e ela fecha
os olhos, sente a pressão contra o globo ocular e não ouve sequer o
forte estampido.
178

Joona tomou a direção sul ao sair de Sundsvall, até Hudiksvall,


onde apanhou a estrada 84 para Delsbo. Durante os quarenta
minutos da viagem, não conseguiu afastar do pensamento Daniel
Grim e a sua caixa de fotografias.
À primeira vista o conteúdo é quase inócuo. Talvez a fase inicial
tenha sido só de namoro, com beijinhos, olhares e palavras ternas.
Mas quando as alunas seguiam para outra instituição Daniel
mostrava seguramente o outro lado. Esperava o momento oportuno
e depois ia ter com elas em segredo e matava-as. A morte delas
raramente era inesperada. Dava-lhes doses excessivas de
soporíferos quando isso era compatível com o quadro geral e
cortava os pulsos às que já se tinham cortado anteriormente.
Depois de terem sido privatizados, os centros de acolhimento de
menores passaram a ser regidos pelo objetivo do lucro e estariam
empenhados em silenciar aquelas mortes, para evitar inquéritos da
entidade tutelar.
Ninguém viu naqueles casos uma ligação ao Centro Birgitta e a
Daniel Grim.
No caso de Miranda, foi diferente. Daniel desviou-se do padrão
habitual. Provavelmente, devido ao pânico que se apoderou dele por
Miranda pensar que estava grávida.
Talvez ela tenha ameaçado desmascará-lo.
Não devia tê-lo feito, porque Daniel não suporta a ideia de
testemunhas. Sempre tratou de as fazer desaparecer.
Sentindo uma vaga inquietação, Joona telefona a Torkel Ekholm,
diz-lhe que estará lá dentro de dez minutos e pergunta se Flora está
pronta para regressar com ele.
– Valha-me Deus, eu adormeci depois de comer – diz Torkel. –
Dê-me um segundo.
Joona ouve Torkel pousar o auscultador, tossir e arrastar os pés
no chão. Já está a atravessar a ponte de Badhusholmen quando o
polícia volta ao telefone.
– A Flora desapareceu – diz ele. – E a caçadeira não está lá…
– Sabe onde ela foi?
Faz-se silêncio do outro lado. Joona pensa na pequena casa do
polícia, na mesa da cozinha, com as fotografias e as notas dele.
– Talvez à mansão – responde Torkel.
Em vez de seguir em frente para Ovanåker e ir ter a casa de
Torkel, Joona vira precipitadamente à direita, para a estrada 743, e
acelera. Entra em contacto com a central de comunicações e pede
reforços e uma ambulância para o local. No curto troço que
acompanha a margem do lago, consegue atingir a velocidade de
180 quilómetros por hora. Por fim abranda e, virando à direita, passa
os portões da propriedade dos Rånne e segue o caminho estreito
que conduz à mansão.
Os pneus rangem sobre o cascalho e o carro avança
ruidosamente no piso irregular.
À distância, o grande edifício branco parece uma elegante
escultura de gelo mas, quanto mais se aproxima, mais escuro
parece.
Joona faz uma curva, trava a fundo e para o carro em frente à
casa. Sai do automóvel envolto numa nuvem de pó. Começa a
correr para a entrada quando vê, subitamente, dois vultos ao longe,
no momento em que contornam um muro e desaparecem por trás
de um grande celeiro pintado de vermelho.
Embora tenha tido apenas um vislumbre, Joona compreende
imediatamente o que acabou de ver: Flora caminhando com a
espingarda apontada às costas de Daniel. A intenção dela é
atravessarem os campos de cultivo para chegarem mais depressa à
estrada para Delsbo.
Joona desata a correr no caminho de cascalho. Passa o anexo e
começa a descer o declive no lado esquerdo da construção.
«A Flora vai demasiado perto do Daniel», pensa. «O irmão pode
tirar-lhe a espingarda facilmente. Ela não está preparada para
disparar, só quer a verdade.»
Joona salta por cima do que resta de uma velha vedação de
madeira, escorrega nas pedras soltas, a mão ainda raspa na erva,
mas consegue recuperar o equilíbrio.
Procura vê-los, espreitando pelos espaços entre as tábuas
vermelhas que formam as paredes do celeiro. As portas negras
estão abertas. A luz do sol brilha nas frinchas.
Joona continua a correr. Contorna um grande barril enferrujado e,
no momento em que entra no celeiro, ouve o tiro. A detonação
ressoa entre as paredes das construções e perde-se nos campos.
Daniel deve ter conseguido dominar Flora.
O caminho que contorna o celeiro e o muro é demasiado longo.
Não há tempo. Talvez já seja demasiado tarde.
179

Joona entra no celeiro a correr, puxando a pistola ao mesmo


tempo. As tábuas da parede deixam entrar a luz, e os raios de sol
filtram-se por todo o lado. A altura até ao teto deve ser de sete
metros. Os riscos de luz formam uma enorme gaiola reluzente.
Joona corre no chão seco, distinguindo os campos amarelos por
entre as tábuas e as duas figuras paradas no lado de trás do celeiro.
Flora jaz imóvel no solo e Daniel está de pé, com a espingarda
apontada à cara dela.
Joona para e levanta a pistola, com o braço esticado. Está
demasiado longe. Por entre as frinchas, vê Daniel inclinar a cabeça
e encostar a espingarda à pálpebra de Flora.
É muito rápido. A mira da pistola treme diante de Joona. Aponta
ao tronco de Daniel, segue o movimento dele e dispara.
Há um estampido, ele sente a pancada do recuo no braço, o ardor
da pólvora na mão e o cheiro típico.
A bala passa com precisão entre duas tábuas da parede. Uma
pequena nuvem de poeira dança na luz do sol.
Joona não fica à espera de ver se acertou e continua a correr, já
sem ver as duas pessoas lá fora. Os estreitos feixes de luz movem-
se à sua passagem. Com um pontapé, abre uma porta estreita na
parede traseira. Corre pelo meio da erva alta, que lhe chega à
cintura, até chegar ao terreiro nas traseiras.
Daniel deixou cair a arma no chão, sem conseguir disparar o
segundo tiro. A bala da pistola de Joona entrou-lhe no corpo a
tempo de o impedir.
Apertando uma mão contra a barriga, Daniel atravessa o terreiro
em direção aos campos. O sangue corre por entre os dedos e
ensopa-lhe as calças. Ouve Joona atrás dele, vira-se, cambaleando,
e faz um gesto na direção de Flora, estendida no chão, respirando
com dificuldade.
Joona segue Daniel, com a pistola apontada ao seu peito.
Daniel deixa-se cair e fica sentado. A luz do sol reflete-se nos
seus óculos.
Depois geme e olha para cima.
Sem uma palavra, Joona afasta a caçadeira com um pontapé,
agarra Daniel por um braço, arrasta-o pelo terreiro e prende-o com
as algemas a uma das argolas de ferro do pilar. Em seguida vai para
junto de Flora.
Flora não está inconsciente, mas tem um olhar estranhamente
imóvel. Continua a sangrar fortemente da coxa. O rosto está pálido
e transpirado. Está a entrar em choque hemorrágico, e a respiração
é rápida e superficial.
– Quero água – sussurra ela.
A perna das calças está ensopada em sangue, que não para de
jorrar. Não há tempo de fazer um garrote. Joona rodeia-lhe a coxa
com as duas mãos e pressiona com os dois polegares um ponto
logo acima da ferida, sobre a artéria femoral. O fluxo quente do
sangue diminui instantaneamente. Joona pressiona com mais força
e observa o rosto de Flora. Os lábios perderam a cor, os olhos estão
fechados e a respiração é muito superficial. Joona sente-lhe o pulso
muito acelerado.
– A ambulância está quase a chegar – diz. – Não há perigo, Flora.
Atrás dele, Joona ouve Daniel tentar dizer alguma coisa. Volta-se
e vê aproximar-se um homem idoso, de fato preto e sobretudo da
mesma cor. Aproxima-se de Daniel com passos estranhamente
pesados. O rosto severo do homem tem um tom acinzentado, e o
olhar que se cruza com o de Joona é triste.
– Deixe-me só abraçar o meu filho – pede ele, em voz rouca.
Joona não pode aliviar a pressão sobre a coxa de Flora. Para lhe
salvar a vida, não pode sair dali.
Quando o homem passa diante dele, Joona sente o cheiro a
gasolina. O sobretudo está ensopado. Encharcou a roupa em
gasolina e tem na mão uma caixa de fósforos. O velho move-se com
uma lentidão estranha.
– Não faça isso! – grita Joona.
Daniel olha para o pai e tenta arrastar-se, puxa a mão e tenta tirá-
la da algema.
O velho observa Daniel enquanto este tenta escapar. Depois, com
os dedos trémulos, tira um fósforo da caixa. Fecha-a novamente e
encosta a cabeça do fósforo à lixa.
– Ela mente! – geme Daniel.
Mal raspa o fósforo na lixa, o velho é envolvido por uma chama
azul-clara e, numa questão de segundos, desaparece no meio de
uma bola de fogo. O calor atinge o rosto de Joona. O velho
cambaleia, inclina-se sobre o filho e abraça-o. No chão, em volta
deles, a erva começa a arder. O homem agarra-se com força ao
corpo do filho. Daniel tenta libertar-se, mas não consegue.
Estralejando, as chamas envolvem-nos rapidamente. O fogo
começa a subir, como uma bandeira ondulando ao vento. Uma
coluna de fumo negro e fuligem eleva-se no céu.
180

Quando o fogo se extinguiu por trás do celeiro, restaram apenas


dois corpos carbonizados. Ossos enegrecidos, entrelaçados e
fumegantes.
A ambulância partiu, levando Flora, ao mesmo tempo que a mãe
apareceu no terreiro. Imóvel, a senhora de Rånne parecia ter ficado
petrificada no momento preciso que antecede a dor.
Joona regressa a Estocolmo, ouvindo o programa Círculo de
Leitura no rádio do carro e pensando ao mesmo tempo no martelo e
na pedra, as armas do crime que tanto o tinham desconcertado.
Agora tudo parece evidente. O assassino não matou Elisabet para
lhe tirar as chaves. Daniel também tinha uma chave do quarto de
isolamento. Elisabet deve tê-lo visto. Ele perseguiu-a e matou-a
porque ela era testemunha do primeiro crime, e não para lhe tirar as
chaves.
Uma chuva dura como vidro começa a bater no para-brisas e no
tejadilho. O sol do entardecer brilha por entre as gotas e um vapor
esbranquiçado sobe do asfalto.
Provavelmente, Daniel costumava ir ao quarto de Miranda quando
Elisabet adormecia, sob o efeito dos comprimidos. Miranda
obedecia-lhe, não podia fazer outra coisa. Despia-se e sentava-se
na cadeira, embrulhada no cobertor, para não ter frio. Mas naquela
noite, alguma coisa correu mal.
Talvez Miranda tenha contado que estava grávida, ou talvez ele
tenha encontrado um teste de gravidez na casa de banho.
Mas sentiu pânico, aquele seu pânico ancestral.
Daniel não sabia o que fazer. Sentia-se acossado, oprimido.
Calçou as botas que estavam sempre à entrada, saiu e procurou
uma pedra no jardim, voltou, mandou-a fechar os olhos e desferiu os
golpes até a matar.
Ela não o podia ver. Tinha de tapar a cara com as mãos, como a
outra criança, Ylva.
Nathan Pollock interpretou o pormenor da cara tapada como o
desejo do assassino de suprimir o rosto da vítima, transformá-la
num simples objeto.
Mas, na realidade, Daniel estava apaixonado por Miranda e queria
que ela tapasse os olhos para não ter medo.
A morte das outras raparigas foi planeada antecipadamente, mas
a de Miranda ocorreu num contexto de pânico. Ele matou-a sem
saber como resolveria a situação a seguir.
A certa altura – enquanto obrigava Miranda a tapar a cara, ou lhe
batia com a pedra, ou a deitava na cama e lhe tapava novamente o
rosto –, Elisabet viu-o.
Talvez ele já tivesse posto a pedra na lareira, talvez a tivesse
atirado para a floresta.
Daniel perseguiu Elisabet e viu-a entrar na antiga destilaria. Foi
buscar um martelo à despensa, seguiu-a, mandou-a tapar a cara e
matou-a.
Só quando Elisabet já estava morta é que ele teve a ideia de
culpar a nova aluna, Vicky Bennet. Sabia que ela dormia
profundamente na primeira metade da noite, graças aos fortes
medicamentos que tomava.
Apressando-se, antes que alguém acordasse, tirou as chaves a
Elisabet, voltou à casa, meteu-as na fechadura do quarto de
isolamento, colocou rapidamente os indícios no quarto de Vicky, que
dormia, e besuntou-a de sangue antes de sair das instalações.
Provavelmente cobriu o assento do carro com um saco de lixo ou
um jornal para regressar a casa, e quando chegou, queimou a roupa
na salamandra.
Depois fez o possível por se manter sempre nas proximidades,
para tentar perceber se alguém sabia ou suspeitava de alguma
coisa. Representou o papel de terapeuta prestável e de vítima.
Joona aproxima-se de Estocolmo. O programa sobre livros está
quase no fim. Hoje discutiu-se A Saga de Gösta Berling, de Selma
Lagerlöf.
Joona desliga o rádio e deixa que a sua mente ponha ordem no
caso até ao final.
Depois de Vicky ter sido apanhada, quando Daniel soube que
Miranda lhe tinha falado no jogo dos olhos fechados, percebeu que
seria desmascarado se Vicky tivesse oportunidade de contar, com
todos os pormenores, o que se tinha passado. Bastaria que fosse
interrogada por um psicólogo que lhe fizesse as perguntas
adequadas. Portanto, fez o que pôde para que ela fosse libertada e
ele pudesse encenar um suicídio.
Durante muitos anos, Daniel trabalhou com jovens em risco,
crianças que não tinham pais nem conheciam a segurança.
Conscientemente ou não, procurou esse universo para trabalhar e
apaixonava-se por raparigas que lhe faziam lembrar a primeira.
Daniel abusava delas e, quando eram transferidas, tomava medidas
para que nunca contassem o que se passara.
Joona abranda e para num semáforo. Sente um arrepio quando
pensa que conheceu um bom número de assassinos na sua vida,
mas a forma como Daniel preparava a morte das alunas, redigindo
relatórios e pareceres muito antes de finalmente as procurar nas
instituições onde estavam, leva-o a perguntar a si próprio se ele não
terá sido o pior deles todos.
181

Uma neblina gélida cobre o céu quando Joona Linna sai do carro
e atravessa Karlaplan, em direção ao apartamento de Disa.
– Joona! – diz ela ao abrir a porta. – Já estava a pensar que não
vinhas. Tenho a televisão ligada. Só se fala dos acontecimentos em
Delsbo.
Joona faz um gesto de assentimento.
– Então apanhaste o assassino – diz Disa com um sorrisinho.
– Mais ou menos – diz Joona, lembrando-se do abraço em
chamas do pai de Daniel.
– E aquela pobre mulher que estava sempre a telefonar para ti?
Disseram que ela tinha levado um tiro.
– A Flora Hansen – diz Joona, entrando no hall.
A cabeça dele roça no candeeiro, e a luz começa a dançar nas
paredes. Joona pensa novamente nas meninas das fotografias que
Daniel tinha na caixa.
– Estás cansado – diz Disa carinhosamente, puxando-o pela mão.
– A Flora foi alvejada numa perna pelo irmão e…
Nem percebe que se calou. Tentou lavar-se numa estação de
serviço, mas ainda tem as roupas manchadas do sangue de Flora.
– Prepara um banho, que eu vou buscar comida à loja da esquina.
– Obrigado – diz Joona, sorrindo.
Justamente quando atravessam a sala, o canal de notícias mostra
uma fotografia de Elin Frank, e eles param. Um jovem jornalista
informa que Elin Frank foi operada durante a noite e os médicos
estão muito otimistas. O assistente de Elin, Robert Bianchi, aparece
na imagem. Parece exausto, mas sorri comovedoramente e diz com
lágrimas nos olhos que Elin vai sobreviver.
– O que aconteceu? – pergunta Disa baixinho.
– Ela lutou sozinha contra o assassino e salvou a miúda que…
– Deus do céu! – murmura Disa.
– Sim, a Elin Frank é… é de facto… excecional – diz Joona,
pondo a mão no ombro magro de Disa.
182

Joona está sentado à mesa da cozinha de Disa, embrulhado num


cobertor. Estão a comer vindaloo de frango e borrego tikka masala.
– Está bom…
– Receitas finlandesas, da minha mãe… Mais não digo – diz Disa,
rindo.
Corta um pedaço de pão naan e estende o resto a Joona. Ele
olha-a, sorridente, bebe um gole de vinho e continua a narrar-lhe o
caso Birgitta. Disa ouve e faz perguntas, e quanto mais ele conta,
mais tranquilo se sente.
Começa do princípio e fala-lhe dos irmãos Flora e Daniel,
internados num orfanato ainda de tenra idade.
– Então eles eram irmãos? – pergunta Disa, deitando vinho nos
copos.
– Eram. E quando o casal Rånne, riquíssimo, os adotou, foi um
grande acontecimento.
– Compreende-se.
Eram crianças pequenas e costumavam brincar com a filha do
rendeiro nos jardins da mansão, nos campos da propriedade e no
cemitério, junto ao campanário. Daniel estava apaixonado por Ylva.
Joona recorda que Flora lhe contou que quando estavam a brincar
aos olhos fechados, Daniel tinha dado um beijo a Ylva.
– A miúda riu-se e disse que tinha ficado grávida. O Daniel tinha
só seis anos e, por qualquer razão, entrou em pânico…
– E depois? – pergunta Disa.
– Disse às duas meninas que fechassem os olhos, pegou numa
pedra pesada e matou Ylva.
Disa parou de comer e escuta-o, com o rosto pálido. Joona conta
que Flora fugiu e foi dizer ao pai o que tinha acontecido.
– Mas o pai adorava o Daniel e protegeu-o. Exigiu que a Flora
retirasse o que tinha dito. Ameaçou-a, dizendo que as pessoas que
mentem são lançadas a um lago de fogo.
– E ela retirou o que disse?
– Sim, disse que tinha mentido. E como ela tinha dito uma mentira
horrível, mandaram-na embora.
– A Flora retirou o que tinha dito e mentiu ao dizer que tinha
mentido… – comenta Disa, pensativamente.
– Sim – diz Joona, tocando-lhe na mão por cima da mesa.
Joona pensa em Flora, que era uma criança muito pequena e
esqueceu rapidamente a vida anterior, os primeiros pais adotivos e o
irmão.
Começa a perceber como Flora construiu uma vida inteira com
mentiras. Mentia para agradar aos outros. Só quando ouviu o crime
de Birgitta na rádio e o pormenor da rapariga com as mãos a tapar a
cara, o passado começou a vir ao de cima.
– Mas o que se passou com as recordações dela? – pergunta
Disa, convidando Joona a servir-se de mais comida.
– Telefonei à Britt-Marie, quando vinha a caminho, e falei com ela
sobre isso – diz Joona.
– A mulher do Nålen?
– Sim, ela é psiquiatra. Pareceu-me que não achava nada
estranho…
Britt-Marie disse-lhe que há uma série de modelos explicativos
para a perda de memória associada à síndrome de stress pós-
traumático. A forte produção de adrenalina e outras hormonas do
stress influencia a memória de longo prazo. Em experiências muito
traumáticas, a recordação pode ser guardada intacta no cérebro.
Fica escondida e permanece inalterada em termos emocionais,
porque nunca foi trabalhada. Mas pela ação de determinados
estímulos, a recordação pode surgir repentinamente, sob a forma de
sensações físicas e imagens.
– A Flora começou por ficar perturbada com aquilo que ouviu na
rádio, sem saber porquê. Mas achou que podia ganhar dinheiro
fornecendo pistas – diz Joona. – Quando as imagens da memória
começaram de facto a manifestar-se, ela pensou que eram espíritos.
– E talvez fossem, de facto – sugere Disa.
– Pois. O certo é que ela começou então a dizer a verdade e
acabou por ser a testemunha que deslindou o mistério.
Joona levanta-se e apaga as velas da mesa. Disa aproxima-se
dele e abraça-o por dentro do cobertor. Ficam abraçados durante
muito tempo. Ele sente o perfume dela e a veia que pulsa no
pescoço fino.
– Tenho tanto medo que te aconteça alguma coisa… É essa a
razão, foi por isso que me afastei – diz ele.
– O que é que me poderia acontecer? – pergunta ela, sorrindo.
– Podes desaparecer – responde ele gravemente.
– Joona, eu não vou desaparecer.
– Tive um amigo chamado Samuel Mendel… – diz Joona em voz
baixa, e depois cala-se.
183

Joona Linna sai da sede da Polícia e sobe o caminho íngreme do


parque de Kronoberg até ao velho cemitério judeu. Com destreza,
solta o arame no lado de dentro da vedação, abre a cancela e entra.
Entre as lápides escuras, há uma sepultura familiar mais recente,
assinalada com as palavras: Samuel Mendel, esposa Rebecka e
filhos Joshua e Ruben.
Joona deposita uma pequena pedra redonda no cimo da lápide.
Fecha os olhos e deixa-se ficar a sentir o cheiro da terra húmida e a
ouvir o restolhar das folhas no parque, quando o vento passa nas
copas das árvores.
Samuel Mendel era descendente direto de Koppel Mendel, que,
em 1787, em conflito com Aaron Isaac, comprou aquela sepultura.
Apesar de o cemitério ter deixado de ser utilizado em 1857,
continuou a ser a última morada de todos os descendentes de
Koppel Mendel.
Samuel Mendel era comissário da Polícia e o primeiro parceiro de
Joona na Polícia Criminal.
Eram muito amigos.
Samuel Mendel viveu só até aos 46 anos, e Joona sabe que ele
está sozinho na sepultura de família, embora a lápide diga o
contrário.
O primeiro caso de Joona e Samuel Mendel foi também o último.

Uma hora depois, Joona está no Departamento de Assuntos


Internos do Ministério Público. Na mesma sala estão também Mikael
Båge, responsável pelo caso, Helene Fiorine, chefe do Secretariado,
e o procurador-chefe Sven Wiklund.
A luz amarela que penetra na sala faz brilhar os móveis
envernizados e reflete-se nas portas de vidro que protegem os livros
de leis, em belíssimas encadernações, o regulamento interno da
Polícia e os volumes com compilações de regulamentação e de
acórdãos do Supremo Tribunal.
– Tenho agora de decidir se vou deduzir acusação contra si,
Joona Linna – diz o procurador-chefe, pousando a mão sobre uma
pilha de papéis. – Este é o material de que disponho, e não há aqui
nada que fale a seu favor.
As costas da cadeira rangem quando ele se inclina para trás e
encontra o olhar calmo de Joona. O único som que se ouve na sala
é o da caneta de Helene Fiorine a raspar no papel e a sua
respiração entrecortada.
– Do meu ponto de vista – continua Sven Wiklund secamente –, a
sua única possibilidade de escapar a uma acusação formal é
fornecer uma explicação muito boa.
– O Joona costuma ter uma carta na manga – observa Mikael
Båge em voz baixa.
No céu claro dissolve-se lentamente o traço branco de
condensação deixado por um avião, lá no alto. As cadeiras rangem
e ouve-se o som de Helene Fiorine a engolir em seco e pousar a
caneta.
– Só tem de contar o que aconteceu – diz ela. – Teria com certeza
boas razões para se antecipar à intervenção da SÄPO.
– Sim – responde Joona.
– Nós sabemos que você é um bom polícia – diz Mikael Båge,
com um sorriso embaraçado.
– Eu, pelo contrário, sou um burocrata fanático – diz o procurador-
chefe. – Um daqueles tipos que trucidam as pessoas que infringem
as regras. Não me faça trucidá-lo hoje.
É a frase mais próxima de uma súplica que Helene Fiorine alguma
vez ouviu da boca de Sven Wiklund.
– Todo o seu futuro está suspenso por um fio, Joona – diz Mikael
Båge, num sopro de voz.
O queixo de Helene Fiorine começa a tremer, e Mikael Båge tem
a testa perlada de suor. Joona olha o procurador nos olhos e
começa finalmente a falar.
– A decisão foi exclusivamente minha, como devem ter percebido
– começa. – Mas tenho realmente uma resposta que talvez…
O telemóvel de Joona começa a vibrar, e ele interrompe-se. Num
relance, verifica a informação do ecrã e os olhos tornam-se negros
como granito molhado.
– Peço desculpa – diz gravemente –, mas tenho de atender esta
chamada.
Os outros três observam-no, intrigados, quando ele atende e fica
a escutar a voz do outro lado.
– Sim, eu sei – diz ele em voz baixa. – Sim… Vou imediatamente.
Joona desliga e olha demoradamente o procurador-chefe, como
se tivesse esquecido onde estava.
– Tenho de sair – anuncia, e abandona a sala sem dizer mais
nada.
184

Uma hora e vinte minutos mais tarde, o voo regular aterra no


aeroporto regional de Härjedalen Sveg e Joona toma imediatamente
um táxi para o lar de residência assistida Blåvingen, onde localizara
Rosa Bergman, a mulher que o seguira junto à igreja de Adolf
Fredrik e lhe perguntara porque fingia que a filha tinha morrido.
Já em idade avançada, Rosa Bergman tinha mudado o nome,
adotando o seu segundo nome próprio e o apelido de solteira da
mãe, e chamava-se agora Maja Stefanson.
Joona sai do táxi e dirige-se diretamente para o edifício amarelo,
passa a entrada principal e segue para a secção onde está Maja.
A funcionária com quem falou na primeira vez que lá esteve
acena-lhe da receção. A luz que entra pelas persianas dá ao cabelo
encaracolado dela um brilho de cobre.
– Foi rápido – diz alegremente. – Pensei em si, e como tínhamos
o seu cartão aqui pregado, telefonei…
– É possível falar com ela? – interrompe Joona.
A mulher fita-o, confusa e surpreendida com o tom de voz dele.
Passa as mãos pela bata azul.
– A nossa nova médica esteve cá anteontem, uma rapariga nova,
da Argélia, acho eu. Mudou a medicação da Maja… Já tinha ouvido
falar nisto, mas nunca tinha visto… A nossa amiga acordou hoje de
manhã a dizer muito claramente que tinha de falar consigo.
– Onde é que ela está?
A enfermeira acompanha Joona ao quarto pequeno, que tem as
cortinas corridas, e deixa-o sozinho com a mulher idosa. Por cima
de uma secretária estreita, está pendurada uma fotografia
emoldurada de uma mulher jovem, sentada ao lado do filho. A mãe
tem o braço por cima dos ombros do rapaz e mostra uma expressão
séria e protetora.
Ao longo das paredes, no chão revestido a linóleo, encontram-se
alguns móveis pesados, com aspeto de terem origem numa casa
abastada. Uma escrivaninha de madeira escura, um toucador e dois
pedestais dourados.
Rosa Bergman sentou-se num sofá, com almofadas de um
vermelho muito escuro.
Está bem arranjada, vestida com uma saia, blusa e casaco de
malha. O rosto enrugado parece inchado, mas o olhar tem hoje uma
nova firmeza.
– Chamo-me Joona Linna – diz o comissário. – A senhora tinha
alguma coisa para me dizer.
A mulher assente com um gesto e levanta-se com esforço. Abre
uma gaveta da mesa de cabeceira e tira uma Bíblia. Agarra-a pelas
capas e sacode-a sobre a cama. Um papelinho dobrado cai em cima
da colcha.
– Joona Linna – diz ela, pegando no papel. – Então é você o
Joona Linna.
Ele não responde. Sente a dor de cabeça atravessar-lhe as
têmporas como uma agulha ao rubro.
– Como pode fingir que a sua filha morreu? – pergunta Rosa
Bergman.
O olhar da mulher dirige-se para a fotografia na parede.
– Se eu tivesse a sorte de ter o meu filho vivo… Se soubesse o
que é ver um filho morrer… Nada me faria abandoná-lo.
– Eu não abandonei a minha família – afirma Joona
resolutamente. – Salvei-lhes a vida.
– Quando a Summa veio ter comigo – continua Rosa –, não falou
de si, mas estava destroçada… Mas o pior foi a sua filha. Deixou de
falar. Não falou durante dois anos.
Joona sente um arrepio subir-lhe pelas costas até à nuca.
– Estava em contacto com elas? Não devia estar.
– Não podia deixá-las simplesmente desaparecer – diz ela. –
Tinha imensa, imensa pena delas.
Joona sabe que Summa nunca mencionaria o nome dele se não
houvesse um problema muito grave. Não pode haver qualquer
ligação entre eles. Nunca. Era a única maneira de sobreviverem.
Ele apoia-se na escrivaninha, engole em seco e olha novamente
para a mulher.
– Como estão elas? – pergunta.
– A situação é grave, Joona Linna – diz Rosa pausadamente. –
Ela telefonou-me e disse que ia ser operada e que provavelmente
não sobreviveria… Queria que você soubesse que a Lumi vai ficar a
cargo de instituições sociais se a mãe…
– Quando foi isso? – pergunta Joona, com os maxilares rígidos e
os lábios exangues. – Quando é que ela telefonou?
– Tenho medo de que seja demasiado tarde – diz Rosa, em voz
sumida. – Tenho tido aqueles esquecimentos, e isso tudo…
Entrega-lhe finalmente o papel amarrotado com o endereço e fica
a olhar para as mãos atacadas pelo reumatismo.
185

Do aeroporto de Sveg só é possível escolher dois destinos. Joona


tem de regressar a Arlanda, em Estocolmo, e mudar de avião para
seguir para Helsínquia. Tudo lhe parece um sonho. Sentado no seu
lugar, tem os olhos fixos no véu de nuvens sobre a superfície
encrespada do mar Báltico. Há pessoas a tentar falar com ele,
servir-lhe comida, mas não consegue responder.
As recordações arrastam-no para o fundo do abismo.
Há doze anos, Joona cortou um dedo ao diabo.
Dezanove pessoas, de todas as idades, tinham desaparecido dos
seus carros, bicicletas e motorizadas. Inicialmente, parecia tratar-se
apenas de uma coincidência notável, mas quando nenhum dos
desaparecidos voltou a ser visto foi atribuída a máxima prioridade ao
caso.
Joona foi o primeiro a afirmar que a Polícia enfrentava um
assassino em série.
Ele e Samuel Mendel conseguiram localizar e apanhar em
flagrante Jurek Walter quando ele estava a meter uma mulher de
cinquenta anos novamente num caixão, no parque Lill-Jansskogen.
Havia quase dois anos que a mantinha presa no caixão, mas a
mulher ainda estava viva.
A dimensão do pesadelo só se tornou clara no hospital. Os
músculos da mulher estavam atrofiados, as escaras tinham-na
deformado e os pés e as mãos apresentavam lesões de hipotermia.
Através de mais exames, os médicos constataram que ela não
estava só psiquicamente traumatizada, mas tinha danos cerebrais
graves.
Joona pensa muitas vezes que se o corpo do diabo é constituído
pelas piores atrocidades cometidas pela humanidade ao longo dos
tempos, é impossível matá-lo. Mas há doze anos, ele e Samuel
Mendel conseguiram pelo menos cortar-lhe um dedo, quando
apanharam o assassino Jurek Walter.
Joona estava presente no tribunal de Svea Hovrätt, no palácio
Wrangel, em Riddarholmen, quando o recurso da sentença do
tribunal de primeira instância foi examinado e a pena agravada.
Jurek Walter foi condenado a pena de prisão, a cumprir em ala
psiquiátrica, com alta condicionada a apreciação judicial, e foi
colocado numa unidade de alta segurança vinte quilómetros a norte
de Estocolmo.
Joona nunca esquecerá o rosto enrugado de Jurek Walter quando
este se virou para ele.
– Os dois filhos do Samuel Mendel vão desaparecer – disse Jurek
numa voz cansada, enquanto o advogado de defesa juntava os
papéis. – E a mulher do Samuel, Rebecka, vai desaparecer, mas…
Não, ouve-me, Joona Linna. A Polícia vai procurá-los e, quando a
Polícia desistir, o Samuel vai continuar, mas quando ele perceber
finalmente que não vai voltar a ver a família suicida-se.
Joona levantou-se para sair.
– E a tua filha – continuou Jurek Walter, baixando o olhar.
– Tem cuidado! – disse Joona, encolerizado.
– A Lumi vai desaparecer… E a Summa vai desaparecer… E,
quando perceberes que nunca as encontrarás, enforcas-te.
Numa sexta-feira à tarde, dois meses depois, a mulher de Samuel
partiu do apartamento em Liljeholmen para a casa de campo deles
em Dalarö. Levava consigo os dois filhos do casal, Joshua e Ruben.
Quando Samuel chegou à casa de férias, duas horas mais tarde, a
mulher e os filhos não estavam lá. O carro foi encontrado
abandonado numa estrada florestal próxima, mas Samuel nunca
mais viu a família. Numa manhã fria de março, um ano mais tarde,
Samuel desceu à bonita praia onde os filhos costumavam tomar
banho. A Polícia tinha abandonado as buscas havia oito meses, e
ele próprio acabava de desistir. Tirou a pistola de serviço e deu um
tiro na cabeça.

Lá em baixo, Joona vê a sombra do avião no brilho escuro da


superfície da água. Olha pela janela e pensa no dia em que a vida
dele foi estilhaçada. Dentro do carro havia silêncio, e o mundo
estava imerso numa luz estranha. O sol tinha um brilho vermelho,
por trás do fino véu das nuvens. Tinha chovido, e os raios de sol
faziam as poças de água brilhar como se a terra estivesse a arder.
186

Joona e Summa haviam planeado umas férias de carro, em


pequenas etapas: primeiro para norte, até Umeå, passando por
Storuman, por Mo i Rana, na Noruega, e depois novamente para
sul, pela costa ocidental. Iam agora a caminho de um hotel que
ficava no rio Dalälven, e no dia seguinte visitariam um jardim
zoológico nas proximidades.
Summa mudou a estação de rádio, com um murmúrio de
satisfação por ter apanhado uma emissão com música suave para
piano, em que os sons pareciam entrelaçar-se e flutuar. Joona
esticou o braço para trás, para verificar se Lumi estava bem
colocada na cadeira e não tinha tirado os braços das alças.
– Papá… – disse ela, sonolenta.
Sentiu os dedinhos dela na mão, a apertá-la, mas quando ele
puxou, ela largou-o.
Passaram a saída para Älvkärleby.
– Ela vai adorar o jardim zoológico de Furuvik – disse Summa em
voz baixa. – Os chimpanzés, os rinocerontes…
– Eu já tenho um macaco – disse Lumi, do banco traseiro.
– O quê?
– Sou eu o macaco dela – disse Joona.
Summa arqueou as sobrancelhas.
– Está certo.
– A Lumi trata de mim. Diz que é uma veterinária boazinha.
O cabelo castanho-claro de Summa pendia-lhe sobre o rosto e
escondia parcialmente os grandes olhos castanhos. As covinhas
das faces ficaram mais marcadas.
– Porque é que precisas de um veterinário? O que é que tens?
– Preciso de usar óculos.
– Foi ela que disse? – Summa riu e continuou a folhear o jornal
sem reparar que ele não seguia o caminho previsto e que já
estavam a norte de Dalälven.
Lumi tinha adormecido, com a boneca encostada à face suada.
– Tens a certeza de que não é preciso reservar mesa? –
perguntou Summa repentinamente. – Porque eu quero ficar na
esplanada fechada, para termos vista do rio…
A estrada era a direito, estreita, ladeada por árvores altas e uma
cerca de proteção dos animais.
Só quando ele tomou a direção de Mora é que Summa se
apercebeu de que não estavam no caminho certo.
– Joona, passámos a saída para Älvkärleby – disse ela
subitamente. – Não íamos parar em Älvkärleby? Combinámos
passar lá a noite.
– Pois foi.
– O que estás a fazer?
Ele não respondeu e manteve o olhar fixo na estrada, onde as
poças de água brilhavam sob o sol tarde. Um camião saiu de
repente para a faixa de ultrapassagem sem fazer sinal.
– Nós combinámos…
Summa calou-se, respirou fundo pelo nariz e depois continuou,
numa voz assustada:
– Joona, diz que não me mentiste, diz-me já.
– Tive de mentir – disse ele, em voz muito baixa.
Summa olhou-o. Ele sentia-lhe a exaltação na voz, embora ela se
esforçasse por falar baixo, para não acordar Lumi.
– Não podes estar a falar a sério – disse ela, em tom
determinado. – Não podes… Disseste que já não havia perigo,
disseste que tinha acabado. Disseste que acabou, e eu acreditei em
ti. Julguei que tinhas mudado, foi o que eu julguei…
A voz de Summa embargou-se, e ela virou a cara para o outro
lado e pôs-se a olhar pela janela. O queixo tremia-lhe e as faces
ficaram vermelhas.
– Menti – confessou Joona.
– Não me devias mentir, não podes mentir-me…
– Pois não… Desculpa.
– Podemos fugir todos, é perfeitamente possível, e resolvia-se…
– Deves compreender… Summa, tens de compreender que… Se
eu pensasse que isso era possível, se eu tivesse alguma
alternativa…
– Cala-te com isso – interrompeu-o ela. – A ameaça não é séria.
Não é verdade, tu vês ligações que não existem. A família do
Samuel Mendel não tem nada a ver connosco, ouves? Não existe
uma ameaça contra nós!
– Tentei explicar-te a gravidade da situação, mas tu não me
ouves.
– Não quero ouvir. Porque é que havia de ouvir?
– Summa, eu tenho de… Organizei tudo. Há uma mulher
chamada Rosa Bergman, que está à vossa espera em Malmberget
e que vos vai entregar as vossas novas identidades. Vocês vão ficar
bem.
As mãos dele tinham começado a tremer. Os dedos suados
escorregavam no volante.
– Estás mesmo a falar a sério – sussurrou Summa.
– Nunca falei tão a sério – respondeu ele, numa voz pesada. –
Estamos a caminho de Mora, e aí vocês apanham o comboio para
Gällivare.
Summa esforçava-se por falar calmamente.
– Se nos deixares na estação, vais perder-nos. Compreendes
isso? Não será possível voltar atrás.
Pousou nele um olhar firme e obstinado.
– Dizes à Lumi que eu tenho de ir trabalhar no estrangeiro –
continuou ele em voz abafada, ouvindo Summa soluçar.
– Joona – murmurou ela. – Não, não…
– Daqui a alguns anos, quando ela for mais crescida, dizes-lhe
que eu morri. Não podes nunca, mas nunca, contactar-me. Não
podes procurar-me. Estás a ouvir?
Summa já não conseguia controlar o choro.
– Não quero, não quero…
– Eu também não.
– Não nos podes fazer isto! – disse ela, chorando.
– Mamã?
Lumi tinha acordado e parecia assustada. Summa limpou as
lágrimas da cara.
– Não há nenhum problema – disse Joona à filha. – A mamã está
triste porque não vamos para o hotel à beira do rio.
– Diz-lhe! – ordenou Summa, elevando a voz.
– Diz o quê? – perguntou Lumi.
– Tu e a mãe vão andar de comboio – disse Joona.
– E tu, o que vais fazer?
– Eu tenho de trabalhar – respondeu ele.
– Tu disseste que íamos brincar aos veterinários e aos macacos.
– Ele não quer – interpôs Summa com dureza.
Aproximavam-se dos arredores de Mora, passaram por bairros de
moradias esparsos e algumas instalações industriais, um centro
comercial e oficinas de automóveis com carros estacionados no
exterior. A floresta cerrada, reserva natural, foi-se tornando mais
ordenada, e a cerca de proteção dos animais da floresta
desapareceu.
187

Joona abrandou ao chegar junto do edifício amarelo da estação e


estacionou o carro. Foi abrir o porta-bagagens e tirou de lá a mala
grande, com rodas.
– Tiraste as tuas coisas da mala a noite passada? – perguntou-lhe
Summa em voz baixa.
– Sim.
– E puseste lá outras?
Ele assentiu com a cabeça e desviou o olhar para a gare, com as
quatro linhas férreas paralelas, os taludes de cascalho cor de
ferrugem, a erva e as chulipas escuras.
Summa pôs-se diante dele.
– A tua filha precisa de ti na vida dela.
– Não tenho outra hipótese – respondeu ele, olhando pelo vidro
traseiro para o interior do carro.
Lumi estava a empurrar para dentro da mochila cor-de-rosa uma
grande boneca.
– Tens muitas outras hipóteses – continuou Summa. – Mas em
vez de lutares, desistes. Na verdade, tu não sabes se a ameaça é
real. Não consigo compreender isto.
– Não encontro o meu Lollo – queixou-se Lumi, falando sozinha.
– O comboio parte daqui a vinte minutos – disse Joona,
obstinadamente.
– Não quero viver sem ti – disse Summa baixinho, tentando
pegar-lhe na mão. – Quero que fique tudo na mesma…
– Sim.
– Se nos fizeres isto, ficas sozinho.
Ele não respondeu. Lumi saiu do carro arrastando a mochila no
chão. Tinha um gancho encarnado meio pendurado no cabelo.
– Vais viver uma vida de solidão?
– Sim.
Por entre as árvores, no outro lado da linha férrea, brilhava a baía
mais setentrional do lago Siljan.
– Diz adeus ao pai – disse Summa mecanicamente, empurrando
a filha para ele.
Lumi não se mexeu. Com uma expressão sombria, ficou a olhar
para o chão.
– Despacha-te – insistiu Summa.
Lumi ergueu o olhar por uns segundos e disse:
– Adeus, macaco.
– Despede-te como deve ser – disse Summa, irritada. – Diz adeus
ao pai.
– Não quero – respondeu Lumi, agarrando-se com força à perna
da mãe.
– Não queres, mas tem de ser – ordenou Summa.
Joona baixou-se diante da filha. Tinha a testa molhada de suor.
– Dás-me um abraço?
Ela abanou a cabeça.
– Vem aí o macaco com os seus enormes braços – brincou ele.
Levantou-a, sentindo o pequeno corpo a resistir, e ela a rir,
contrariada, embora percebesse que havia alguma coisa de errado
em tudo aquilo. Tentou bater as pernas para ir para o chão, mas ele
apertou-a nos braços, só um momento, só para sentir o cheiro dela,
no pescoço e nos cabelos.
– Estúpidos! – gritou ela.
– Lumi – murmurou ele, encostado à face dela –, nunca te
esqueças de que eu te adoro mais do que tudo na vida.
– Anda – disse Summa.
Ele pousou a filha no chão e esforçou-se por lhe sorrir. Queria
fazer-lhe uma festa na cara, mas não conseguiu. Era como se o
corpo dele se tivesse quebrado em mil pedaços e sido colado
novamente. Summa olhava-o com uma expressão assustada no
rosto petrificado. Depois pegou na mão de Lumi e levou-a.
Esperaram em silêncio pelo comboio. Não havia mais nada a
dizer. Sementes de dente-de-leão voavam lentamente sobre os
carris.

Joona recorda que o cheiro a queimado dos travões ficou a pairar


no ar depois de o comboio partir da plataforma. Como num sonho,
ficou a contemplar o rosto pálido da filha através da janela, e a
mãozinha que acenava timidamente. Ao lado dela estava Summa,
como uma sombra negra, paralisada. Antes de o comboio
desaparecer na curva lá em baixo, junto ao porto, ele voltou-se e
dirigiu-se ao carro.
188

Guiou cento e quarenta quilómetros sem pensar. Sentia a cabeça


vazia e completamente ausente.
Conduziu sem memória.
Por fim, chegou.
Na escuridão, os faróis iluminaram silhuetas metálicas negras e
pesadas. Virou para a grande zona industrial de Ludvika e desceu
ao porto deserto, junto da central térmica. Aí estava já estacionado
um grande carro cinzento entre dois enormes montes de serradura.
Joona parou ao lado do carro cinzento. Sentia-se, de repente,
estranhamente calmo. Tão calmo que uma parte dele tinha
consciência de estar, de alguma forma, em choque.
Saiu do carro e olhou em volta. Nålen, de bata branca, esperava-o
no escuro da noite, encostado à porta do carro. O rosto tinha uma
expressão determinada e ao mesmo tempo desgastada.
– Ora bem… Já foram? – perguntou ele, com a voz áspera que
sempre tinha quando alguma coisa o afetava negativamente.
– Foram – confirmou Joona, sem mais.
Nålen acenou várias vezes com a cabeça. Sob a luz fraca de um
candeeiro um pouco afastado, os óculos de aros brancos tinham um
brilho frio.
– Não me deixaste alternativa – disse ele, com amargura.
– É verdade – respondeu Joona. – Não tens alternativa.
– Vamos ser os dois despedidos por causa disto – disse Nålen,
com uma expressão impávida no rosto.
– Seja – respondeu Joona.
Começaram a circundar o carro.
– São dois. Reagi logo que entraram.
– Fizeste bem.
– Dois – repetiu Nålen, quase para si próprio.
Joona recordou o momento, duas noites antes, em que acordara
junto da mulher e da filha, com o sinal de mensagem do telemóvel,
que estava no bolso do casaco pendurado na entrada.
Recebera um SMS. Quando se levantou e viu que era de Nålen,
soube imediatamente de que se tratava.
Tinham combinado que assim que Nålen arranjasse dois corpos
compatíveis, ele se poria a caminho com Summa e Lumi, a pretexto
de fazerem aquela viagem de carro de que falavam havia tanto
tempo.
Joona esperara um sinal de Nålen durante quase três semanas. O
tempo começava a escassear. Ele vigiava a família, mas sabia que,
a longo prazo, não resultaria. Jurek Walter era um homem que sabia
esperar.
Joona estava consciente de que a mensagem de Nålen
significava que ele ia perder a família. Mas significava também que
podia finalmente proteger Summa e Lumi.
Nålen abriu as duas portas de trás do carro cinzento.
Em duas macas, cobertas por um pano, viam-se os contornos de
dois corpos, um maior e outro mais pequeno.
– Uma mulher e uma menina. Foi um acidente mortal, que não
envolveu outros veículos, ontem de manhã – explicou Nålen,
começando a puxar as macas sobre os carris. – Saquei-as à socapa
– continuou. – Não existem, não há rasto delas.
Arquejando, conseguiu retirar os corpos. A estrutura de apoio da
maca desceu, e os pés metálicos bateram ruidosamente no chão.
Sem cerimónia, Nålen puxou o fecho de correr de um dos sacos.
Joona apertou os maxilares e obrigou-se a olhar.
Era uma mulher jovem, com os olhos fechados e um rosto calmo.
O tórax estava esmagado. Os braços pareciam partidos em vários
sítios, e a bacia estava torcida.
– O carro caiu de uma ponte – disse Nålen, na sua voz nasalada
e áspera. – As lesões no peito e no abdómen resultaram de ela ter
desapertado o cinto de segurança. Talvez fosse apanhar a chupeta
da miúda, que tinha caído. Já vi outros casos.
Joona fitou a mulher. Não se adivinhava nela dor nem medo.
Nada no seu rosto sugeria o que tinha acontecido ao corpo.
Quando olhou para a criança e lhe viu o rosto, as lágrimas
subiram-lhe aos olhos.
Nålen murmurou qualquer coisa para si próprio e cobriu
novamente os corpos.
– Pronto. A Catharina e a Mimmi nunca serão encontradas, nunca
serão identificadas.
Parou um momento e depois continuou, irritado:
– O pai da menina correu os hospitais todos à procura delas.
Passou a noite nisso. Até telefonou para a minha secção, e eu falei
com ele.
Nålen franziu os lábios.
– Serão enterradas como Summa e Lumi. Eu trato da falsificação
dos registos dentários.
Lançou a Joona um último olhar inquisidor, mas não obteve
resposta. Transportaram os corpos para o outro carro.
189

Era uma sensação estranha conduzir um carro com duas pessoas


mortas como passageiros. As estradas estavam escuras. Junto às
bermas jaziam ouriços-cacheiros atropelados. Um texugo fitou-o da
beira da estrada, com um olhar fixo, hipnotizado pelos faróis.
Quando chegou à ribanceira que tinha escolhido, começou a
dispor os corpos. Sem outro som além do da sua respiração
forçada, do raspar dos têxteis nos assentos do carro e do baque
abafado de braços e pernas, Joona colocou a mulher morta no
assento da frente. Em seguida pôs a criança na cadeirinha de Lumi.
Inclinando-se, soltou o travão de mão e empurrou o carro, que
começou a rolar lentamente pela ribanceira. Joona acompanhava-o,
ao lado, e de vez em quando tinha de ajustar o volante. A
velocidade do carro aumentou, e ele começou a correr. Com um
ruído áspero e abafado, o automóvel embateu num pinheiro,
chiando quando a chapa à frente se deformou em volta do tronco da
árvore. A mulher caiu molemente contra o painel de instrumentos. O
corpo da criança abanou violentamente na cadeira.
Joona tirou o bidão de gasolina do porta-bagagens e começou a
encharcar os assentos. Despejou gasolina sobre as pernas do fato
acolchoado da menina e sobre o corpo ferido da mulher.
A respiração começou a tornar-se difícil.
Tinha de parar e tentar acalmar-se. O coração agitado estava a
subir-lhe à garganta.
Joona Linna murmurou umas palavras e soltou o corpo da
criança. Pegou-lhe e andou com ela ao colo, para trás e para diante,
apertando-a nos braços e embalando-a. Segredou-lhe alguma coisa
ao ouvido e depois sentou-a no colo da mãe, no assento da frente.
Silenciosamente, fechou a porta do carro e despejou o resto da
gasolina. O vidro de trás estava aberto e ele ateou o fogo no
assento traseiro.
Como um anjo de morte azul, as chamas espalharam-se no
interior do habitáculo.
Através da janela, viu o rosto incompreensivelmente calmo da
mulher enquanto o cabelo ardia.
O carro estava preso na árvore e totalmente incendiado. As
chamas erguiam-se agora, lançando gritos sibilantes.
Subitamente, Joona pareceu acordar. Correu para o carro para
retirar novamente os corpos. Queimou as mãos na porta, mas
conseguiu abri-la. Nesse momento o fogo dentro do habitáculo
intensificou-se. Tentou agarrar o corpo da mulher, que tinha o
casaco a arder. As pernas esguias, dentro dos jeans, pareciam
agitar-se e bater no chão, por ação das chamas.
«Papá, papá. Ajuda-me, papá.»
Joona sabia que não era real, sabia que elas estavam mortas,
mas não suportava aquilo. Esticou-se, pelo meio das chamas, e
agarrou a mão da criança.
O depósito de gasolina explodiu. Joona teve tempo de se
aperceber da explosão antes de os tímpanos rebentarem. Como
num sonho, sentiu o sangue saltar-lhe do nariz e dos ouvidos, caiu
desamparado e sentiu a pancada na nuca. O cérebro ardia de dor.
Antes de perder a visão ainda vislumbrou as folhas queimadas
revoluteando no ar até caírem no chão.
190

Joona olha pela janela e não ouve o anúncio de início do


embarque do voo com destino ao aeroporto internacional de
Helsínquia.
Há doze anos, cortou um dedo ao diabo em pessoa, e por isso foi
condenado à solidão. É um preço alto, mas ele sentiu sempre que
não era suficiente, que a pena era demasiado branda, que o diabo
estava só à espera de poder tirar-lhe mais alguém, à espera de que
ele se convencesse de que tudo estava esquecido e perdoado.
Joona encolhe-se no assento do avião, espera e procura
encontrar um ritmo normal de respiração. O homem sentado no
lugar ao lado olha-o, apreensivo.
O suor escorre pela testa de Joona.
Não é a enxaqueca, é a outra coisa, a enorme escuridão que está
por trás de tudo.
Conseguiu deter o assassino Jurek Walter. Não é coisa que se
esqueça, que alguma vez seja apagada.
Não tinha alternativa, mas o preço foi muito elevado,
excessivamente elevado.
Não compensou.
A pele dos braços arrepia-se, ele coça a cabeça com uma mão,
pressiona os pés contra o chão da cabina.
Vai ao encontro de Summa e Lumi. Vai fazer o imperdoável.
Enquanto Jurek Walter pensar que elas morreram, estão seguras.
Talvez neste momento ele esteja a conduzir um temível assassino à
sua família.
Joona deixou o telemóvel em Estocolmo. Utiliza um passaporte
falso e paga tudo em dinheiro. Sai do táxi e anda dois quarteirões
antes de se enfiar no vão de uma porta, para tentar ver alguma
coisa através das janelas escuras do apartamento.
Espera algum tempo e depois vai a um café que fica mais abaixo,
na mesma rua, paga dez euros para utilizar o telefone e liga para
Saga Bauer.
– Preciso de ajuda – diz ele, numa voz quase inaudível.
– Sabes que anda toda a gente à tua procura? Vai por aqui um
grande alvoroço…
– Preciso de ajuda para uma coisa.
– Está bem – diz ela, com a voz imediatamente calma e atenta.
– Depois de me dares a informação, tens de eliminar totalmente o
histórico da busca e verificar se ficou eliminado.
– Certo – diz ela, em voz baixa e firme.
Joona engole em seco, olha para o papelinho que Rosa Bergman
lhe deu e pede a Saga que verifique se uma mulher de nome Laura
Sandin, residente em Liisankantu, 16, em Helsínquia, está viva.
– Posso telefonar-te daqui a pouco? – pergunta ela.
– É melhor não. Eu espero enquanto tu procuras – responde ele.
Os minutos de espera são os mais longos da vida dele. Observa o
pó que brilha em cima do balcão, a máquina de café e as marcas
deixadas pelas cadeiras no chão de madeira.
– Joona? – diz Saga finalmente
– Estou aqui – diz ele baixo.
– Laura Sandin adoeceu com cancro no fígado há dois anos…
– Continua – diz Joona, sentindo o suor começar a escorrer-lhe
pelas costas.
– Foi operada no ano passado e… mas…
Saga Bauer diz umas palavras em voz muito baixa.
– O quê? – pergunta Joona.
Saga aclara a voz e diz, com uma ponta de tensão, como se só
agora compreendesse que se trata de uma coisa muito importante:
– Foi operada outra vez há muito pouco tempo, há uma semana…
– Está viva?
– Parece que sim… Continua no hospital – diz Saga
cautelosamente.
191

Quando Joona entra no corredor do quarto de Summa, é como se


tudo começasse a passar-se muito lentamente. Os sons distantes
de televisores e de conversas triviais tornam-se gradualmente mais
vagarosos.
Cautelosamente, abre a porta do quarto e entra.
Na cama está uma mulher magra, a olhar para o outro lado.
A janela está tapada com uma cortina leve de algodão. Os braços
finos repousam sobre a coberta. O cabelo escuro e baço está
molhado de transpiração.
Joona não sabe se ela está a dormir, mas quer ver-lhe o rosto.
Aproxima-se. No quarto, há um silêncio total.

A mulher que, numa outra vida, se chamava Summa Linna está


muito cansada. A filha passou a noite sentada junto dela e agora
dorme no quarto reservado aos familiares.
Summa vê a luz fraca do dia atravessar as fibras da cortina e
pensa que o ser humano está irremediavelmente só. Guarda
algumas boas recordações que procura recuperar quando se sente
terrivelmente só e amedrontada. Quando a anestesiaram para a
operação, recordou esses momentos.
As noites de verão imensamente claras da sua infância.
O momento em que a filha nasceu e lhe apertou os dedos com a
mãozinha dela.
O casamento, naquele dia de verão, com a coroa de noiva
entrançada pela mãe com fibras de raiz de vidoeiro.
Summa engole em seco e sente que está viva, que o seu coração
bate. Mas tem um medo terrível de morrer e deixar Lumi sozinha no
mundo.
Os pontos da operação doem-lhe quando se vira. Fecha os olhos
e depois volta a abri-los.
Tem de fechar os olhos várias vezes antes de se compenetrar de
que a sua mensagem chegou ao destino.
Joona Linna está debruçado sobre ela, e Summa toca-lhe no
rosto, passa-lhe as mãos pelo espesso cabelo louro.
– Se eu morrer, tens de tomar conta da Lumi – diz-lhe, num fio de
voz.
– Prometo.
– E tens de a ver antes de partires. Tens de a ver.
Ele pousa as mãos nas faces dela e acaricia-a. Em voz baixa, diz-
lhe que está tão bonita como sempre foi. Ela sorri-lhe. Depois Joona
desaparece, e Summa já não tem medo.

O quarto para familiares dispõe de um mobiliário simples. Há um


televisor na parede e uma mesa de pinho, cheia de marcas de
cigarros, em frente a um sofá deformado pelo uso.
No sofá está deitada uma rapariga de quinze anos, a dormir. Os
olhos doem-lhe de tanto chorar, e uma das faces tem vincos
deixados pela almofada. Acorda repentinamente, com uma
sensação estranha. Alguém a cobriu com uma manta. Alguém lhe
tirou os sapatos, que estão no chão, muito direitos, ao lado do sofá.
Alguém esteve aqui com ela. No seu sonho, foi alguém que se
sentou ao lado dela e, muito cautelosamente, lhe segurou a mão
entre as suas.
192

Na velha estrada nacional entre Estocolmo e Uppsala fica o


hospital Löwenström. Foi Gustaf Adolf Löwenström que o mandou
construir, no início do século XIX, numa tentativa de expiar a enorme
culpa da família: o seu irmão assassinara o rei Gustavo III num baile
de máscaras, na ópera.
Anders Rönn tem vinte e três anos e acaba de concluir a sua
formação em Medicina. É elegante e tem um rosto bonito e delicado.
Começa hoje a trabalhar no hospital Löwenström. É o seu primeiro
dia. O sol baixo de outono dança entre as copas das árvores
quando ele passa ao lado da ampla entrada.
Por trás do moderno edifício principal do complexo hospitalar, de
tijolo castanho avermelhado, há um outro edifício, com uma forma
singular. Visto de cima, parece-se com a imagem de duas cruzes-
de-lis ligadas. Trata-se do Serviço de Psiquiatria, uma secção
grande que inclui a psiquiatria forense e as unidades de alta
segurança.
Na colina arborizada há uma escultura de bronze de um rapaz a
tocar flauta. No ombro do rapaz está pousada uma ave, e no chapéu
de aba larga está outra.
De um dos lados do caminho, a paisagem estende-se em terrenos
de pasto até ao lago Fysingen; do outro lado, ergue-se uma
vedação de arame farpado com a altura de cinco metros, que
circunda um pátio com um banco de jardim solitário, rodeado de
beatas de cigarros.
No Serviço de Psiquiatria não são admitidos visitantes com menos
de catorze anos, e é proibido fotografar e fazer gravações de som.
Anders Rönn percorre o caminho de cimento, passa sob um
telheiro de chapa a desfazer-se e transpõe as portas de painéis de
vidro.
Os seus passos no chão de linóleo esbranquiçado, marcado pelas
rodas das camas, são quase impercetíveis. Quando chega ao
elevador, constata que já se encontra no piso dois.
O piso um fica abaixo do nível do solo e comporta a secção 30,
internamento compulsivo, da psiquiatria forense.
O elevador do hospital não passa daqui, mas por trás de um
gradeamento de aço pintado de amarelo esbranquiçado há uma
escada em caracol por onde se desce ao piso zero.
É aí que se encontra a ala de alta segurança, com as celas de
isolamento, separadas e semelhantes a bunkers.
Esta secção de isolamento tem capacidade para um máximo de
três pacientes, mas há doze anos que alberga apenas um, o velho
Jurek Walter.
Jurek Walter foi condenado a pena de prisão em regime
psiquiátrico, com alta condicionada a apreciação judicial. Ao dar
entrada, estava tão agressivo, que teve de ser imobilizado com
correias e sedado compulsivamente.
Há nove anos, o seu diagnóstico era o seguinte: «esquizofrenia,
não especificada; pensamento caótico; episódios psicóticos agudos
recorrentes, com comportamentos bizarros e muito violentos.»
É o único diagnóstico que lhe foi feito até agora.
– Eu abro-lhe a porta – diz uma mulher de cara redonda e olhar
tranquilo.
– Obrigado.
– Conhece o paciente Jurek Walter? – pergunta ela. Mas não
espera pela resposta.
193

Anders Rönn pendura a chave do portão do gradeamento no


armário da ala de alta segurança antes de a mulher abrir a primeira
das duas portas do compartimento de segurança. Ele entra e espera
que a porta se feche antes de passar à segunda porta. Ouve-se um
sinal sonoro e a mulher abre a outra porta. Anders volta-se para
trás, acena-lhe e depois segue pelo corredor até à sala do pessoal
da secção de isolamento.
Um homem forte, com os seus cinquenta anos, de ombros
curvados e cabelo à escovinha, está a fumar, por baixo do ventilador
na copa. Corta a ponta acesa do cigarro com os dedos, atira-a para
o lava-loiça, mete a metade de cigarro que sobrou no maço e enfia-
o no bolso da sua bata de médico.
– Roland Brolin, chefe de serviço – apresenta-se.
– Anders Rönn.
– Como veio parar a este buraco?
– Tenho filhos pequenos e queria ficar próximo de casa.
– Escolheu um belo dia para começar – diz-lhe Roland Brolin,
sorrindo e saindo para o corredor silencioso.
O médico passa o cartão magnético, espera que a fechadura de
segurança dê um estalido e empurra a porta com um longo suspiro.
Entra e larga-a antes de Anders ter tempo de passar. A pesada
porta bate-lhe no ombro.
– Há alguma coisa que eu deva saber sobre o paciente? –
pergunta Anders, num esforço para conter as lágrimas.
Brolin faz um vago aceno no ar e recita:
– Nunca pode estar sozinho com um membro do pessoal, nunca
teve licença de saída, não pode cruzar-se com outros pacientes,
não pode receber visitas e não pode ir ao jardim. Também não
pode…
– Nunca? Penso que não é permitido enclausurar…
– Pois não – diz Roland sem rodeios.
Cria-se imediatamente um ambiente tenso, mas Anders pergunta
por fim, cautelosamente:
– O que é que ele fez, afinal?
– Só boas ações – responde Roland.
– Tais como?
O chefe de serviço olha-o, e o rosto inchado e pardacento abre-se
subitamente num sorriso.
– Você é mesmo novo aqui – diz, rindo.
Passam outra porta de segurança, e uma mulher com piercings
no rosto pisca-lhes o olho.
– Voltem sãos e salvos – diz-lhe simplesmente.
– Não se preocupe – diz Roland a Anders, baixando a voz. – O
Jurek Walter é um homem sossegado, já de uma certa idade. Não
bate nas pessoas nem levanta a voz. É reservado, e nós não temos
contacto com ele. Hoje é que é preciso, porque os rapazes do turno
da noite observaram que ele escondeu uma faca debaixo do
colchão.
– Mas como é que ele arranjou uma faca?
Roland tem a testa suada. Passa a mão pelo rosto e seca-a na
bata.
– O Jurek Walter é extremamente manipulador e… Vamos abrir
um inquérito interno, mas sabe-se lá…
194

O chefe de serviço passa o cartão noutro leitor e marca um


código. Ouve-se um apito e a fechadura da porta de segurança dá
um estalido.
– Para que é que ele quer a faca? – pergunta Anders,
apressando-se a entrar. – Se quisesse suicidar-se, já o tinha feito,
não é?
– Se calhar gosta de facas – responde Roland.
– Tem tendência para fugir?
– Nunca fez qualquer tentativa, nestes anos todos.
Chegam a um compartimento de segurança com portões
gradeados.
– Espere – diz Roland e estende-lhe uma caixinha com tampões
amarelos para os ouvidos.
– Não disse que ele não grita?
Roland parece muito cansado, como se não dormisse há vários
dias. Olha para o novo colega durante um momento e suspira
profundamente antes de começar a explicar.
– O Jurek Walter vai falar consigo, muito tranquilamente, num tom
afável, decerto – diz ele em voz grave. – Mas ao fim do dia, quando
você for para casa, vai desviar-se de repente para a faixa contrária e
chocar de frente com um camião… Ou então passa pela Järnia e
compra um machado antes de ir buscar os seus filhos ao infantário.
– Isso é para me assustar? – pergunta Anders, sorrindo.
– Não, é para o convencer a ter cuidado – diz Roland. – Entrei na
cela dele uma vez, no ano passado, logo a seguir à Páscoa, porque
ele tinha conseguido arranjar uma tesoura.
– É um velho, não é?
– Não fique nervoso. Vai correr bem…
A voz de Roland morre, e o olhar torna-se vago e apagado. Antes
de entrarem no compartimento de segurança, diz a Anders:
– Comporte-se como se estivesse completamente entediado,
como se o que está a fazer fosse uma tarefa absolutamente
rotineira, como mudar os lençóis de uma cama nos cuidados
continuados.
– Vou tentar.
O rosto relaxado de Roland tornou-se tenso, e o olhar duro e
nervoso.
– Não dizemos o que vamos fazer. Fingimos que vamos dar-lhe a
injeção de Risperdal como habitualmente.
– Mas…
– E em vez disso damos-lhe uma dose aumentada de mirtazapina
– diz Roland.
– Dose aumentada?
– Já experimentei, na outra vez… Primeiro ficou tremendamente
agressivo, mas por pouco tempo. Depois produz-se o efeito de
inibição motora… Começa no rosto e na língua. Ele não conseguia
falar como deve ser. E depois caiu no chão e ficou assim, deitado de
lado, a respirar… Sobrevieram espasmos, como numa crise de
epilepsia, que duraram bastante tempo, mas depois ficou cansado e
entorpecido, quase inconsciente… É nessa altura que temos de
entrar e tirar a faca.
– Porque não um sedativo?
– Seria melhor – concorda Roland. – Mas acho que devemos
manter-nos nos medicamentos que ele tem de tomar de qualquer
modo.
Atravessam o compartimento de segurança gradeado e entram na
secção de Jurek Walter. Uma luz pálida penetra no corredor através
do vidro blindado de uma porta metálica pintada de branco, com
tranca e postigo.
Roland Brolin indica por gestos a Anders que tem de esperar.
Move-se agora mais devagar, como se quisesse aproximar-se da
porta blindada cautelosamente.
Talvez tenha medo de ser surpreendido.
Mantém alguma distância do vidro e avança de lado, mas
subitamente o rosto adquire uma expressão mais calma e ele acena
a Anders para que se aproxime. Ficam os dois junto ao postigo.
Anders vê um quarto bastante grande, luminoso, mas sem janela.
195

Sentado numa cadeira de plástico, está um homem de calças e


camisa de ganga. Está debruçado para a frente, com os cotovelos
apoiados nos joelhos. De repente ergue o olhar claro para a porta, e
Roland Brolin dá um passo atrás.
Jurek Walter está barbeado e tem o cabelo grisalho penteado com
risca ao lado e franja. O rosto é pálido e muito vincado por rugas
profundas, uma rede de dor.
Roland regressa ao compartimento de segurança, abre um
armário escuro e retira de lá três pequenos frascos de vidro de bocal
largo, fechado com cápsula de alumínio. Todos eles contêm um pó
amarelo. Introduz três mililitros de água em cada frasco, abana-os e
roda-os para que o pó se dissolva, e depois retira o conteúdo de
cada frasco com uma seringa.
Aproximam-se novamente da porta de vidro blindado. Jurek
Walter está agora sentado na cama. Roland põe os tampões nos
ouvidos e abre o postigo.
– Jurek Walter – diz ele numa voz arrastada –, são horas…
Anders vê o homem levantar-se, voltar o olhar para o postigo e
aproximar-se enquanto desabotoa a camisa.
– Pare e dispa a camisa – diz Roland, embora o homem já esteja
a fazê-lo.
Jurek Walter continua a andar lentamente para a porta.
Roland fecha o postigo e tranca-o com movimentos
excessivamente rápidos e nervosos. Jurek para, desaperta os
últimos botões e tira a camisa. Tem três cicatrizes redondas no
tórax. A pele pende-lhe flácida em volta dos músculos, deixando ver
as veias. Roland abre novamente o postigo e Jurek Walter dá os
últimos passos para a porta.
– Estenda o braço – diz Roland, e inspira com um pequeno
soluço, que trai o medo que sente.
Jurek não o olha, mas observa Anders interessadamente.
Através do postigo, estende o velho braço com manchas de
pigmentação e três compridas cicatrizes de queimadura no
antebraço.
Roland insere a agulha na veia grossa e injeta o líquido muito
rapidamente. A mão de Jurek agita-se, com o sobressalto, mas não
retira o braço antes de ser autorizado. O médico-chefe fecha o
postigo e tranca-o apressadamente, e só depois olha para dentro da
cela. Jurek Walter dirige-se para a cama cambaleando e, com
movimentos espasmódicos, senta-se. Roland deixa cair a seringa e
os dois médicos ficam a vê-la rolar no chão de cimento.
Quando olham novamente para Jurek Walter, veem que a parte
de dentro do vidro blindado está embaciada. Jurek esteve a soprar
no vidro e, com um dedo, escreveu «JOONA».
– Que é que está ali escrito? – pergunta Anders, numa voz fraca.
– Escreveu «Joona».
– Joona?
– Que é que aquilo quererá dizer?
O vapor desaparece, e eles veem Jurek Walter sentado na cama
exatamente na mesma posição, como se não se tivesse movido.

© Anna-Lena Ahlström
Lars Kepler é o pseudónimo de uma dupla de escritores de sucesso na Suécia: Alexander
Ahndoril e Alexa
«A Vidente inquieta-nos do princípio ao fim. Uma intriga excecionalmente bem urdida.»
Göteborgs-Posten
«Lars Kepler, os suces
A vidente
Lars Kepler
Publicado em Portugal por
Porto Editora, Lda.
Divisão Editorial Literária – Lisboa
E-mail: dellisboa@po
«... e todos os mentirosos terão como herança
 
a lagoa ardente de fogo e enxofre.»
Apocalipse 21:8
Um médium é uma pessoa que alega possuir um dom paranormal, a
capacidade de estabelecer ligações que vão além dos limites
est
1
Elisabet Grim tem cinquenta e um anos e cabelo grisalho. Os
seus olhos são alegres e, quando sorri, vê-se que um dos dentes
A seguir ao jantar, a supervisora foi-se embora e ela ficou sozinha
na quinta.
No turno da noite, o pessoal fora reduzido qua
2
As alunas estão a dormir e o silêncio reina na quinta. A luz acesa
na receção faz o mundo exterior parecer impenetravelment

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