DISCIPLINA: TEORIA PSICANALÍTICA.
1ª Aula:
Tema de discussão:
Apresentação do contexto relativo ao nascimento da Psicanálise:
• Freud, um homem de seu tempo.
• Viena fim do século XIX.
REFERÊNCIAS:
FREUD, S. História do Movimento Psicanalítico (1914). In: Obras Completas de
S. Freud, (volume XIV), Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda.
GAY, P. Freud, uma vida para nosso tempo, São Paulo: Companhia das Letras,
1989.
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Freud, uma vida para nosso tempo
Em 4 de novembro de 1899, Sigmund Freud, publicou um livro vulto, Die
Traumdeutung (Interpretação dos Sonhos), datada em 1900, mas moldada no
século XIX, tornou-se propriedade — amada, tripudiada, inescapável — do
século XX, como próprio Freud gostava de citar. A interpretação dos sonhos
mostrou-se de pouco interesse público, em seis anos foram vendidos apenas
351 exemplares, o “destino de perturbar o sonho da humanidade só se realizaria
anos mais tarde”.
Comparando Freud e Darwin, em 1859 quase 40 anos antes da publicação da
interpretação dos sonhos, foram vendidos 1250 exemplares (ÚNICO DIA) de: “A
Origem das Espécies” de Darwin. (As publicações de Freud soavam exotéricas
e obscurantistas).
A interpretação dos sonhos é a peça central da vida de Freud (Gay P 1989). Ele
observou em 1910 que a considerava sua “obra mais significativa”. Se,
acrescentou ele, "chegasse a ser reconhecido, a psicologia normal também teria
de ser refeita sobre novas bases”. O orgulho de Freud não era descabido. Apesar
dos inevitáveis falsos pontos de partida e dos desvios igualmente inevitáveis de
suas primeiras pesquisas, todas as suas descobertas dos anos 1880 e 1890
confluíram para A interpretação dos sonhos, fora muito mais do que ele viria a
descobrir adiante.
Sigmund Freud, o grande decifrador de enigmas humanos, cresceu entre
charadas e confusões suficientes para despertar o interesse de um psicanalista
(Gay P. 1989).
Freud, nasceu em 6 de maio de 1856, na pequena vila morávia de Freiberg (atual
Município de Pribor - República Theca), filho de Jacob Freud, um comerciante
de lãs pobre, e sua mulher Amália. O nome que seu pai registrou para ele na
Bíblia da família, “Sigismund Schlomo”, nome que não sobreviveu à
adolescência de Freud. Ele nunca usou “Schlomo”, nome do avô paterno, e,
depois de experimentar “Sigmund” nos últimos anos de escola, adotou-o algum
tempo após seu ingresso na Universidade de Viena, em 1873.
A família de seu pai havia “vivido por muito tempo no Reno (em Colônia), fugido
em decorrência da perseguição contra os judeus XIV e XV, e no decorrer do
século XIX, tornaram a migrar da Lituânia.
Em seu desenvolvimento da vida emocional, além da erudição genealógica, foi
modelada pela desconcertante trama de relações familiares, à qual ele achava
muito difícil de escapar. Sua mãe Amália era vinte anos mais nova que seu pai
(terceiro casamento/ mortalidade feminina).
Freud tinha dois meios irmãos, um mais velho (Emanuel-casado com filhos) que
sua mãe e outro (Phillip –solteiro) um ano de diferença de sua mãe. Igualmente
intrigante para Freud era que um dos filhos de Emanuel, seu primeiro
companheiro de jogos, fosse um ano mais velho que ele próprio, tinha seu
sobrinho John como amigo inseparável e “companheiro de estripulias”. Ambos
viviam intensa inimizade e amizade. Retorcendo mais sua configuração das
relações familiares de Freud, a seus olhos, sua jovem mãe combinava mais com
seu meio irmão Philipp.
Em 1858, com menos de dois anos e meio, esse problema se intensificou
particularmente, nasceu sua irmã Anna. Ao relembrar esses anos, Freud achava
que havia entendido que sua irmãzinha saíra de dentro de sua mãe. O que
parecera mais difícil de entender era como seu meio-irmão Philipp havia, de
algum modo ocupado o lugar de seu pai, na concorrência pelos amores de sua
mãe. Será que Philipp dera à sua mãe aquela rival odiosa? Tudo isso era
desconcertante, e saber dessas coisas, de certa forma, era tão necessário
quanto perigoso.
Tais mistérios da infância deixaram sedimentos que Freud reprimiu durante
anos, e só viria a recapturar, através de sonhos e de uma trabalhosa autoanalise,
no final de 1890. Sua mente se constituía dessas coisas – a jovem mãe gravida
de um rival, o meio irmão de alguma maneira misteriosa como companheiro de
sua mãe, o sobrinho mais velho do que ele, seu melhor amigo e maior inimigo,
o pai bondoso com idade suficiente para ser seu avô. Ele fiaria o tecido de suas
teorias psicanalíticas a partir dessas experiências intimas. “Quando precisou
delas, elas voltaram a ele” (GAY. P 1989).
Freud não considerou necessário reprimir algumas verdades familiares
evidentes.” Meus pais eram judeus”, anotou sucintamente no breve “estudo
autobiográfico” de 1925. Lembrou em 1930: “meu pai, deixou-me crescer em
completa ignorância de tudo que se referia ao judaísmo”. Jacob Freud nunca se
envergonhou, nunca tentou negar sua identidade essencialmente judaica, lia a
bíblia em hebraico. Freud que “já falava a língua santa tão bem ou melhor do
que o alemão”. Assim, Jacob Freud criou uma atmosfera onde o jovem Freud
adquiriu um fascínio duradouro pela “história bíblica”, isto é, o Antigo
Testamento, desde que “mal adquiria a arte da leitura”.
Mas Freud não era rodeado apenas de judeus, até os seus 2 anos e meio teve
uma babá, católica apostólica, muito ríspida e exigente com o pequeno Freud.
Quando mãe de Freud deu à luz a Anna, em puerpério, Phillip fez com que a
baba fosse detida devido a pequeno furto na residência. Freud sentiu
imensamente sua falta, seu desaparecimento junto a ausência na mãe, gerou
lembrança vaga e desagradável, vista após em sua própria autoanalise.
Freud menciona lembrança de estar a procura por sua mãe, e, seu meio irmão
Phillip, abriu um objeto doméstico e disse que não estava ali, quando perguntou
da baba respondeu “trancafiada”, Freud rivalizou com meio-irmão do qual tinha
admiração, como se além de supostamente ter dado um filho para a mãe,
poderia trancafiá-la.
Apesar da atenção delicada, a família de Freud era pobre, moravam na
Schlossergasse 117, numa casa simples de dois andares, em cima dos
aposentos do dono, um ferreiro chamado Zajík. Ali, em cima de uma ferraria,
nasceu Freud.
A fertilidade de Amália não contribuía com a situação precária da família. numa
rápida sequência, entre 1860 e 1866, Freud foi presenteado com quatro irmãs
Rosa, Marie, Adolfine e Pauline — e com o caçula, Alexander. Em 1865, o rigor
daqueles anos se intensificou com o indiciamento e condenação do Sr. Josef
Freud, irmão de Jacob Pai de Freud, por negociar rublos falsos, e lembrou na
“interpretação dos sonhos”. Além do desgosto de Jacob se mesclava a angústia,
pois seus filhos mais velhos, que tinham emigrado para Manchester, estavam
implicados na atividade de Josef.
As dificuldades econômicas não eram as únicas razões de Freud achar que seus
primeiros anos em Viena não deviam ser lembrados. Ele sentia falta de Freiberg,
principalmente dos lindos campos onde se situava a cidade. “Nunca me senti
realmente à vontade na cidade”, confessou em 1899; “agora penso que nunca
superei a saudade dos belos bosques da minha casa, para onde (como prova
uma lembrança que resta daqueles dias), mal sabendo andar, eu costumava
fugir de meu pai”.
Viena, final do século XIX.
Desde cedo, Freud demonstrou interesse em atividades intelectuais e se tornou
um jovem extremamente persistente e trabalhador. Viveu durante a era vitoriana,
marcada pela repressão sexual. Sua vida também recebeu influências da
Primeira Guerra Mundial, que devastou a Europa, e do crescente antissemitismo
daquela época. A repressão sexual e as hostilidades que Freud testemunhou
deixaram marcas em sua visão sobre a natureza humana.
Médico, cursava especialização em neurologia quando começou clinicar em
Viena, no final do século XIX. Como muitos neurologistas de sua época, atendia
pessoas com problemas nervosos, com medos irreais, obsessões e angústia. No
final dedicou-se ao tratamento dos transtornos mentais utilizando um
procedimento inovador que havia desenvolvido e denominado de Psicanálise,
que exigia longas interações verbais com pacientes, durante as quais
investigava suas vidas em profundidade.
A Psicanálise deve sua origem a Freud a partir dos estudos da histeria.
Atualmente a histeria é considerada pelo DSM como um transtorno de
ansiedade. No século IX, era diagnosticada como doença dos nervos, daí o
nome neurose. A palavra histeria deriva do grego histeros que significa útero,
pois acreditavam tratar de uma doença apenas de mulheres.
Jean Martin Charcot (1825- 1893), neurologista francês, percebeu que a histeria
não era uma doença só de mulheres e se interessou em estudá-la. A histeria
clínica se caracteriza por sintomas de conversão, a pessoa sofre sintomas físicos
como paralisias, amnésias, dormências, cegueira, mutismo sem que haja
substrato anatômico que o justifique. Charcot percebeu que, através da sugestão
hipnótica, era capaz de “curar” um sintoma histérico e de induzir a formação dos
sintomas. Nesse período, os médicos perceberam a força e o poder da sugestão.
Joseph Breuer (1842- 1925), médico vienense também se valia da hipnose para
tratar seus pacientes e tinha o jovem Freud como colaborador. Diferentemente
de Charcot, eles se interessavam não só em tratar, mas em descobrir a etiologia
dos sintomas.
Sigmund Freud em uma breve descrição da Psicanálise afirma que podemos
dizer que a Psicanálise nasceu com o século XX, oriunda do livro “A
interpretação dos sonhos”. Para ele psicanálise cresceu em campo muito
restrito, seu objetivo inicial era de compreender as doenças nervosas
“funcionais” com vistas a superar a impotência que até então caracterizara o
tratamento médico. Na época os neurologistas eram instruídos a terem uma
elevada consideração pelos fatos químico-físicos e patológicos-anatômicos, ou
seja, todo adoecimento psíquico era considerado apenas como disfunção
biológica e não psicológica.
Na época a falta de compreensão afetava diretamente o tratamento que em geral
consistia em ““endurecer” o paciente com prescrição de remédios e em
tentativas, na maioria muito mal imaginadas e executadas de maneira
inamistosa, de aplicar-lhe influências mentais por meio de ameaças, zombarias
e advertências, exortando-o a decidir-se a “conter-se”. (Pag. 216)
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