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Um Curso de Lógica

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Daniel Santos
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Um curso de lógica

Dados Internacionais de Catalogação na publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Silvestre, Ricardo Sousa


Um curso de lógica / Ricardo Sousa Silvestre. –
Petrópolis, RJ : Vozes, 2011.
Bibliografia.
ISBN 978-85-326-4040-6

1. Lógica – Estudo e ensino I. Título.

10-05873 CDD-160

Índices para catálogo sistemático:


1. Lógica : Filosofia 160
Ricardo Sousa Silvestre

Um curso de lógica

EDITORA
VOZES
Petrópolis
© 2010, Editora Vozes Ltda.
Rua Frei Luís, 100
25689-900 Petrópolis, RJ
Internet: [Link]

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida ou
transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico ou mecânico,
incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou
banco de dados sem permissão escrita da Editora.

Diretor editorial
Frei Antônio Moser

Editores
Aline dos Santos Carneiro
José Maria da Silva
Lídio Peretti
Marilac Loraine Oleniki

Secretário executivo
João Batista Kreuch

Editoração: Dora Beatriz V. Noronha


Projeto gráfico: [Link] Desenv. Gráfico
Capa: Érico Lebedenco

ISBN 978-85-326-4040-6

Editado conforme o novo acordo ortográfico.

Este livro foi composto e impresso pela Editora Vozes Ltda.


A minha esposa, Eugênia, e minhas filhas,
Ekarani, Jahnavi e Tulasi.
Sumário

Prefácio, 9
Agradecimentos, 15

Introdução, 17
1 Que é lógica?, 19
1.1 Lógica como teoria da inferência, 19 • 1.2 Lógica como teoria da representação,
23 • 1.3 Inferência, representação e análise de argumentos, 28 •
1.4 Exercícios propostos, 32 • 1.5 Exercícios de análise lógica, 32

2 Lógica e sistemas lógicos, 35


2.1 O método da lógica, 35 • 2.2 Lógica e lógicas, 40 • 2.3 Exercícios propostos, 45

Lógica proposicional, 47
3 Linguagem proposicional, 49
3.1 Linguagens lógico-formais e linguagem natural, 49 • 3.2 Símbolos proposicionais
e conectivos lógicos, 51 • 3.3 Definição da linguagem proposicional, 62 •
3.4 Exercícios propostos, 74 • 3.5 Exercícios de análise lógica, 75

4 Semântica da lógica proposicional, 77


4.1 Sintaxe, semântica e relação de inferência, 77 • 4.2 Tabela de verdade, 79 •
4.3 Definição semântica da relação de inferência, 86 • 4.4 Modelo, satisfatibilidade e
consequência lógica, 89 • 4.5 Exercícios propostos, 104 • 4.6 Exercícios de análise
lógica, 106

5 Método axiomático e o cálculo proposicional, 109


5.1 Derivação, axiomas e inferências, 109 • 5.2 Cálculo axiomático, 114 •
5.3 Cálculo proposicional, 117 • 5.4 Teoremas lógicos e regras derivadas, 124 •
5.5 Exercícios propostos, 131
Derivação e análise lógica no cálculo proposicional,133
6 Implicação, conjunção e disjunção, 135
6.1 Derivação e outros cálculos proposicionais, 135 • 6.2 Implicação e o
cálculo C®, 137 • 6.3 Conjunção e o cálculo CÙ, 145 • 6.4 Disjunção e o cálculo
CÚ, 156 • 6.5 Exercícios propostos, 163

7 Negação e os cálculos clássico, intuicionista e paraconsistente, 165


7.1 P9 e a negação minimal, 165 • 7.2 P10 e a negação intuicionista, 174 • 7.3 P11 e
uma negação paraconsistente, 178 • 7.4 P11 e a negação clássica, 180 • 7.5 Um
cálculo paraconsistente, 184 • 7.6 Exercícios propostos, 185

8 Análise lógica de argumentos no cálculo proposicional, 186


8.1 Novas regras de inferência, 186 • 8.2 Análise lógica de argumentos, 190 •
8.3 Redução ao absurdo, invalidade e mais análise lógica, 196 • 8.4 Exercícios de
análise lógica, 207

Lógica de predicados, 213


9 Linguagem de predicados, 215
9.1 Predicação e quantificação, 215 • 9.2 Definição da linguagem de predicados de
primeira ordem, 223 • 9.3 Exercícios propostos, 232 • 9.4 Exercício de análise
lógica, 233

10 Semântica da lógica de predicados, 235


10.1 Modelo e denotação, 235 • 10.2 Modelo, satisfatibilidade e consequência
lógica, 240 • 10.3 Exercícios propostos, 250

11 Cálculo de predicados, 252


11.1 Cálculo de predicados de primeira ordem, 252 • 11.2 Teorema da dedução e
outros metateoremas, 257 • 11.3 Teoremas lógicos, 264 • 11.4 Exercícios
propostos, 270 • 11.5 Exercícios de análise lógica, 270

Apêndices, 273
12 Metalógica, 275
12.1 Lógica e metalógica, 275 • 12.2 Corolários semânticos e sintáticos, 279 •
12.3 Teoremas da dedução, da regra derivada e da redução ao absurdo, 282 •
12.4 Teoremas da corretude e completude, 289

13. Leitura adicional e bibliografia, 299


13.1 Livros, 299 • 13.2 Recursos na internet, 300 • 13.3 Bibliografia, 301
Prefácio

A lógica enquanto disciplina acadêmica tem suas particularidades. Primeiro, apesar


de estar tradicionalmente relacionada com a filosofia, ela hoje desempenha um papel
extremamente importante em áreas como a matemática, a ciência da computação, a in-
teligência artificial e o direito. Segundo, no final do século XIX e início do século XX,
aconteceu com a lógica fenômeno semelhante ao que ocorreu com a física nos séculos
XVI e XVII: a sua matematização. Em outras palavras, a lógica passou a ser desenvolvi-
da e estudada através de métodos matemáticos: ela se transformou, por assim dizer, na
lógica matemática.
Esse segundo ponto é importante por várias razões. Primeiro, semelhantemente ao
que aconteceu com a física após a sua matematização, nos pouco mais de cem anos que
se passaram desde que figuras como Boole, Frege, Russell e Whitehead estabeleceram
os alicerces da lógica matemática, esta foi alvo de um desenvolvimento extraordinário
(principalmente se comparado com o seu desenvolvimento desde sua criação, por Aris-
tóteles, no século IV a.C. até meados do século XIX). Segundo, hoje a lógica é indubita-
velmente uma disciplina matemática, sendo os termos “lógica” e “lógica matemática”
em certo sentido sinônimos. Isso, no entanto, não implica que a lógica, ou lógica mate-
mática, seja uma disciplina exclusiva da matemática, ou de áreas correlatas com a mate-
mática. Apesar de, após a sua matematização a lógica ter passado a incluir o currículo
oficial de matemáticos e posteriormente cientistas da computação, na filosofia também
se verificou a adoção massiva do estudo da lógica por esse viés matemático (o que pode
ser constatado examinando-se a literatura filosófica especializada desenvolvida nas últi-
mas oito décadas).
Isso talvez sugira certa assimetria em relação à posição da lógica na filosofia, de um
lado, e na computação e matemática, de outro. Primeiro, pode-se acertadamente atribuir
uma posição privilegiada à lógica matemática dentro da computação e da matemática; de
fato, foi exatamente esse fenômeno de matematização da lógica o que a tornou interes-
sante e útil para matemáticos e cientistas da computação. Por outro lado, pode-se ter a im-
pressão de que, com o surgimento da lógica matemática, passou a existir, dentro da filoso-
fia, algo como a “velha” e a “nova” lógica, sendo as duas algo como que rivais uma da ou-

9
tra. Houve sim, é verdade, várias tentativas dentro da história da filosofia de realizar o ob-
jetivo da lógica1, sendo a lógica aristotélica e a lógica estoica dois exemplos disso. No en-
tanto, do ponto de vista da comunidade filosófico-acadêmica contemporânea, tais ten-
tativas históricas são exatamente o que tal expressão significa: tentativas históricas. Sal-
vo exceções pontuais, do ponto de vista da pesquisa que é feita em lógica dentro da filo-
sofia hoje, e do uso que se faz da lógica em disciplinas como epistemologia, metafísica,
ética, filosofia da religião e outras, lógica em filosofia hoje é o mesmo que lógica mate-
mática. Há obviamente uma importância inquestionável em se conhecer, por exemplo,
a lógica aristotélica ou a lógica estoica. É nossa opinião, no entanto, que tal importância
não é maior nem menor do que a importância que há para um físico em aprender a física
aristotélica ou a física cartesiana: ela tem um caráter meramente histórico.
No que se refere ao ensino da lógica, enquanto que do lado da computação e mate-
mática este aspecto matemático da lógica não tem, por razões óbvias, maiores implica-
ções, do lado da filosofia há certa tensão oriunda do rigor que passou a caracterizar a ló-
gica a partir do século XX. Apesar da relação tradicionalmente existente entre matemá-
tica e filosofia, a adoção de um vocabulário por vezes extremamente técnico tem, de
certa forma, contribuído para uma falta de interesse na lógica por parte de estudantes e
professores de filosofia com pouca bagagem matemática. Isso é certamente lamentável,
pois sem um conhecimento mínimo de lógica, tais acadêmicos ficam impossibilitados
não só de participar, mas mesmo de compreender muitos dos desenvolvimentos mais
notáveis feitos em filosofia nas últimas décadas.
Dito isso, é possível ir ao que podemos chamar de o objetivo central deste livro: ser
uma maneira fácil e acessível, porém rigorosa e tecnicamente precisa, do leitor com
pouca ou nenhuma familiaridade com a matemática2 ser introduzido à lógica matemáti-
ca. Na persecução desse objetivo, tentamos fazer com que todo o texto seja, na medida
do possível, autoexplicativo, o que nos levou a incluir extensas explicações da parte
mais técnica do conteúdo do livro. Concomitante a isso, tentamos enfatizar de modo
especial a aplicação prática dos sistemas lógicos na análise de enunciados e argumentos.
Assim, esse livro pode ser visto como uma tentativa de explicar em termos claros e sim-
ples os pormenores por trás da definição, uso e propriedades dos sistemas lógicos.
O nosso público alvo, como os parágrafos acima bem deixam transparecer, é pri-
mordialmente alunos e professores de cursos de graduação e pós-graduação em filoso-

1. Cf. capítulo 1 para uma discussão a respeito do que é o objetivo da lógica.


2. A única exceção a isso é a exigência de uma familiaridade mínima com a notação de teoria dos conjuntos, cujo
domínio nós supomos o leitor adquiriu no ensino médio.

10
fia, direito, matemática e computação. De uma forma geral, no entanto, conforme será
explanado logo abaixo, tanto o conteúdo do livro como a sua organização foram conce-
bidos de tal forma a permitir sua utilização por qualquer pessoa interessada em apren-
der lógica, independentemente de sua área de atuação ou bagagem teórica prévia.
O livro é dividido em cinco unidades: (1) Introdução, (2) Lógica proposicional, (3)
Derivação e análise lógica no cálculo proposicional, (4) Lógica de predicados e (5)
Apêndices, sendo cada uma dessas unidades composta por dois ou mais capítulos. Na
unidade intitulada “Introdução”, que engloba os capítulos 1 e 2, tentamos primeiro, no
capítulo 1, delimitar o que seria o escopo da lógica, enfatizando o seu duplo aspecto
como teoria da inferência e teoria da representação. Já no capítulo 2 nos detemos sobre
o que poderíamos chamar de o método da lógica, isto é, sobre o uso que ela faz da lin-
guagem e das técnicas matemáticas. Por ser geral, não se restringindo a nenhum sistema
lógico em particular, o conteúdo deste capítulo é um tanto quanto abstrato3.
Já os capítulos da segunda unidade se detêm na exposição de um dos sistemas lógi-
cos mais importantes: a lógica clássica proposicional. Enquanto os capítulos 3 e 4 ex-
põem, respectivamente, a linguagem proposicional e a semântica da lógica proposicio-
nal, o capítulo 5 se concentra no cálculo axiomático clássico proposicional.
Os capítulos da unidade intitulada “Derivação e análise lógica no cálculo proposicio-
nal” cumprem vários propósitos. Em primeiro lugar, eles representam uma extensão do
capítulo 5, visto que centram sobre a noção de derivação no cálculo clássico proposicio-
nal. Enquanto que o capítulo 6 exibe e prova diversos teoremas lógicos e regras de infe-
rência derivadas relacionadas com a implicação, conjunção e disjunção, o capítulo 7
mostra a derivação de alguns dos mais importantes teoremas lógicos e regras de infe-
rência da negação. Isso representa, cremos nós, o preenchimento de uma séria lacuna
encontrada nos livros-texto de lógica, que é o de detalhar e elaborar sobre o processo de
construção de derivações dos mais importantes teoremas e regras do cálculo axiomático
clássico. Em segundo lugar, de posse de tais teoremas e regras, ilustramos, no capítulo
8, o uso do cálculo proposicional na análise lógica de diversos argumentos, na sua gran-
de maioria de natureza filosófica. Com isso tentamos mostrar a utilidade prática da lógi-
ca em algo que é uma das principais tarefas do filósofo: a avaliação de argumentos. Fi-
nalmente, na exposição dos vários teoremas e regras relacionadas com os vários conec-
tivos lógicos feita nos capítulos 6 e 7, introduzimos diversos cálculos mais fracos que o
cálculo clássico proposicional, entre eles o cálculo intuicionista e dois cálculos paracon-

3. Uma versão preliminar dos capítulos 1 e 2 foi publicada na revista Crítica (ISSN 1749-8457) sob o título “Lógica e
sistemas lógicos”.

11
sistentes. Assim, esses capítulos também podem ser vistos como modestas introduções
ao que hoje é certamente uma das áreas de pesquisa mais importantes em lógica: a área
de lógicas não clássicas.
Como seria de se esperar, os capítulos da unidade intitulada “Lógica de predicados”
realizam tarefa semelhante à dos capítulos 3, 4 e 5, só que agora com respeito à lógica
clássica de predicados de primeira ordem. Enquanto os capítulos 9 e 10 expõem, res-
pectivamente, a linguagem de predicados e a semântica da lógica de primeira ordem, o
capítulo 11 se concentra no cálculo axiomático de predicados.
Finalmente, há uma seção de apêndices englobando os dois últimos capítulos. No
capítulo 12 é abordada a área da lógica tradicionalmente conhecida como metalógica ou
metateoria. Incluindo tal tópico como um capítulo separado4, pudemos nos abster de
exibir as provas dos diversos metateoremas mencionados no decorrer de nossa exposi-
ção. Assim, caso o instrutor deseje, tal tópico pode ser trabalhado em um momento
posterior à aprendizagem dos sistemas lógicos propriamente ditos. Fizemos isso obvia-
mente em virtude de a metalógica ser indubitavelmente a parte da lógica que requer
maior grau de abstração matemática, razão talvez pela qual essa importante subárea da
lógica seja de certa forma negligenciada por estudantes de filosofia, e também por ser
algo claramente distinto da (muito embora intimamente relacionado com) apresentação
e do uso dos sistemas lógicos. Finalmente, seguindo o que acreditamos ser o mais reco-
mendável em um livro-texto desse tipo, omitimos qualquer referência bibliográfica no
corpo dos capítulos e reunimos no capítulo 13 todas as referências juntamente com in-
dicações de leitura adicional para cada unidade.
Sobre os exercícios do livro, conforme falamos acima, uma das nossas preocupa-
ções centrais foi a de ilustrar a aplicação dos sistemas lógicos na análise de enunciados e
argumentos. Na tentativa de alcançar esse objetivo, dividimos a seção de exercícios
contida no final de cada capítulo em duas: uma com exercícios explorando os aspectos
técnico-conceituais do conteúdo exposto, e outra contendo exercícios de análise lógica
de enunciados e argumentos. Como seria de se esperar, esta última envolve o uso dos
sistemas lógicos expostos no livro; são sentenças e argumentos, na sua maioria de con-
teúdo filosófico, que têm como objetivo fazer com que o aluno use o conhecimento téc-
nico aprendido no decorrer do capítulo na análise e apreciação de argumentos. Essa di-
visão, acreditamos, facilitará o uso do livro por leitores de áreas tão diversas como a fi-
losofia e a computação. Apesar de ambas as classes de exercícios serem necessárias à as-

4. Na maioria dos livros-textos clássicos de lógica matemática, a metalógica aparece diluída dentro dos capítulos
que expõem os diversos sistemas lógicos.

12
similação satisfatória do conteúdo, enquanto professores de computação e matemática
provavelmente enfatizarão exercícios da primeira seção, professores de cursos de filo-
sofia talvez prefiram dar prioridade aos exercícios da segunda seção5.
Existem várias maneiras de utilizar este livro em um curso de graduação. Uma delas
é simplesmente cobrir todo o conteúdo do livro em uma única disciplina. Outra seria
dividir o seu conteúdo em duas partes, de forma que a primeira seja trabalhada em uma
disciplina e a segunda parte no semestre seguinte em outra disciplina. Para fins de expo-
sição, chamemos essa primeira disciplina de Lógica I e a segunda de Lógica II. Assim,
enquanto que em Lógica I seriam trabalhados os capítulos da Introdução (capítulos 1 e
2) e da Lógica Proposicional (capítulos 3, 4 e 5), em Lógica II seriam trabalhados os ca-
pítulos da Derivação e análise lógica no cálculo proposicional (capítulos 6, 7 e 8), Lógica
de predicados (capítulos 9, 10 e 11) e o capítulo 12. Outra possibilidade é, em adição aos
capítulos mencionados acima, trabalhar em Lógica I também o capítulo 8, o que deve
obviamente ser precedido por uma breve explanação acerca de alguns pontos-chave so-
bre construção de derivações mencionados nos capítulos 6 e 7. Dessa forma, Lógica II
ficaria restrita aos capítulos 6, 7, 9, 10, 11 e 12, obtendo assim um equilíbrio maior em
termos de conteúdo entre as duas disciplinas.

Campina Grande, Paraíba, Setembro de 2010


Ricardo Sousa Silvestre

5. Na elaboração dos exercícios de análise lógica, utilizamos o estilo e alguns dos exemplos encontrados no livro de
Harry Gensler (2001).

13
Agradecimentos

Agradeço de sobremaneira à minha família, a quem esse livro é dedicado, pelo


amor, paciência e suporte dados a mim constantemente. Também agradeço ao Prof.
Tarcício Pequeno, amigo e mentor intelectual; aos Professores Guido Imaguire (UFRJ)
e Matias Francisco Dias (UFPB), por terem lido versão anterior do livro e feito comen-
tários valiosos; ao Prof. Alexandre Costa Leite (UnB), por ter gentilmente feito revisão
minuciosa de todo o manuscrito; e a todos os meus alunos que, de uma forma ou de ou-
tra, ajudaram na confecção deste livro; em especial agradeço a Leomir Batista, da UFC,
e a Deniz de Souza, da UFCG, tendo este último me ajudado sobremaneira na revisão
do livro. Finalmente, devo mencionar que o projeto ao qual este livro está vinculado foi
parcialmente financiado pelo CNPq (Projeto Universal 2007 e Edital 03/2009).

15
INTRODUÇÃO
1
O que é lógica?

1.1 Lógica como teoria da inferência


O termo “lógica”, e muitos de seus derivados como “lógico”, “logicamente” e “iló-
gico”, aparecem em diversas instâncias do nosso discurso quotidiano. Muitas vezes nos
perguntamos sobre a lógica de uma determinada afirmação, ou falamos, por exemplo,
que é lógico que certo enunciado ou hipótese seja verdade; ou que se certo enunciado A
for verdade, logicamente o enunciado B será verdade; ou que é ilógico que acreditemos
simultaneamente nos enunciados A e B. Apesar do fato de o que discutiremos neste li-
vro estar, em um sentido muito forte, relacionado com esses usos ordinários da palavra
“lógica”, reservaremos esse termo para nos referirmos a uma determinada disciplina
acadêmica que, pode-se dizer, tenta explicar o conceito central subjacente a todas essas
construções linguísticas. E o que seria tal conceito? Para respondermos essa pergunta
precisamos antes falar um pouco sobre a noção de argumento. Abaixo temos alguns
exemplos do que entendemos como sendo um argumento:
(1) Todos os homens são mortais.
Sócrates é homem.
Portanto, Sócrates é mortal.
(2) Para possuir título de eleitor é necessário ser maior de 16 anos.
João possui título de eleitor.
Portanto, João é maior de 16 anos.
(3) Até onde a história da civilização nos diz, nunca houve um dia em que o sol não
tenha nascido.
Até onde a nossa lembrança nos diz, o sol tem nascido todos os dias.
Portanto, concluímos que amanhã o sol nascerá.
(4) Se uma determinada entidade é empiricamente percebida por todos, ou quase
todos os membros de uma comunidade, então essa entidade existe.
Na história da humanidade, apenas um número extremamente reduzido de
pessoas proclamou ter percebido empiricamente a entidade a qual chamamos
de Deus.

19
Não é verdade então que Deus tenha sido empiricamente percebido por todos,
ou quase todos os membros das mais diversas comunidades existentes na his-
tória da humanidade.
Portanto, Deus não existe.
De um ponto de vista analítico, um argumento é antes de tudo um par, composto de
um lado por um conjunto de enunciados aos quais damos o nome de premissas e, do outro,
um enunciado chamado por nós de conclusão. Nos casos acima, o último enunciado, inicia-
do sempre pela palavra “Portanto”, seria a conclusão do argumento e os demais enuncia-
dos vindos antes dele seriam as premissas do argumento. Mas para chamarmos um deter-
minado conjunto de premissas e certa conclusão de argumento, as premissas e a conclu-
são devem estar relacionados de tal forma que a verdade das premissas de alguma forma
implique logicamente ou acarrete a verdade da conclusão. Ou, falando de outra forma, a ver-
dade da conclusão deve seguir da verdade das premissas, ou ainda, a conclusão deve poder
ser derivada, provada ou deduzida a partir das premissas. Utilizando a noção de crença, pode-
ríamos dizer que se uma pessoa acredita na verdade das premissas de um argumento, en-
tão, dado a relação que há entre premissas e conclusão, ela será forçada, de um ponto de
vista lógico, a também acreditar na verdade da conclusão.
Dada essa breve exposição, devemos então supor que as premissas de cada um dos
argumentos acima implicam logicamente suas respectivas conclusões. Mas será que isso
é o caso para todos os quatro argumentos? Tentemos avaliar intuitivamente esses argu-
mentos para ver se em todos eles a verdade da conclusão segue logicamente da verdade
das premissas. O primeiro argumento parece não representar nenhum tipo de proble-
ma: se é verdade que todos os homens são mortais e que Sócrates é homem, então obvia-
mente também é verdade que Sócrates é mortal. Ou, falando de outra forma, é impossí-
vel nesse caso que as premissas sejam verdadeiras, mas a conclusão não. O mesmo pa-
rece acontecer com o segundo argumento: se é verdade que para possuir título de elei-
tor é necessário ser maior de 16 anos, e João possui título de eleitor, então também deve
ser verdade que João é maior de 16 anos.
Já o terceiro argumento, apesar de bastante razoável, não parece ter a mesma força
dos dois primeiros. Apesar de sabermos que suas premissas são verdadeiras, não parece
em absoluto absurdo imaginar que amanhã o sol não nascerá. Em outras palavras, ape-
sar de bastante razoável, nesse terceiro argumento a verdade das premissas não garante
de forma total, ou não implica necessariamente, a verdade da conclusão. Apesar de poder-
mos dizer nesse caso que é provável que o Sol nascerá amanhã, não podemos, dado
simplesmente a verdade das premissas, afirmar que é certo que isso acontecerá.

20
Em relação ao quarto argumento, apesar de à primeira vista ele parecer válido, o que
ocorre é exatamente o oposto. Para vermos isso basta atentarmos para o fato de que o que
a verdade da primeira premissa nos garante é que se uma determinada entidade é empirica-
mente percebida por todos, ou quase todos os membros de uma comunidade, então essa
entidade existe. Nada em absoluto é dito a respeito da situação na qual uma entidade não
tenha sido empiricamente percebida por todos, ou quase todos os membros das mais di-
versas comunidades existentes na história da humanidade. Mas é exatamente isso o que é
dito na terceira premissa: que não é verdade que Deus tenha sido empiricamente percebi-
do por todos, ou quase todos os membros das mais diversas comunidades existentes na
história da humanidade. Consequentemente, dado apenas a verdade das premissas de (4),
não podemos de forma alguma inferir sua conclusão, ou seja, que Deus não existe.
Temos aqui então dois argumentos em que a verdade das premissas não implica a
verdade da conclusão, ou a implica de uma forma não necessária. Além de nos forçar a
refinar a nossa definição inicial de argumento, isso nos convida a encontrar uma taxo-
nomia de argumentos na qual os exemplos acima possam ser encaixados. Primeiro va-
mos dizer que um argumento é um par composto por um conjunto de enunciados cha-
mados de premissas e por um enunciado chamado de conclusão em que pretensamente há
uma relação inferencial entre esses dois termos. Por relação inferencial entendemos exata-
mente aquilo que, em um argumento, nos permite concluir, derivar ou inferir a conclu-
são a partir das premissas. Em função disso, de agora em diante também chamaremos
argumentos de inferências. Segundo, de posse dessa nova definição, podemos classificar
os quatro argumentos acima de acordo com a validade da suposta relação de inferência
presente em cada um deles. Chamaremos argumentos como (1), (2) e (3), em que há in-
dubitavelmente uma relação de inferência entre premissas e conclusões de argumentos vá-
lidos. A argumentos como (4), no qual é patente que a conclusão não pode efetivamente
ser inferida a partir das premissas, damos o nome de argumentos inválidos. Apesar de o ter-
mo falácia também ser usado para designar argumentos inválidos, tal termo seria mais
apropriadamente usado para se referir exclusivamente àqueles argumentos inválidos
que, à primeira vista, poderiam ser tomados por argumentos válidos. Nesse caso, (4)
poderia, muito razoavelmente, ser classificado como uma falácia.
Os argumentos válidos são tradicionalmente divididos em argumentos dedutivos e
argumentos indutivos. (1) e (2) são exemplos de argumentos dedutivos, casos nos quais a
verdade das premissas implica necessariamente a verdade da conclusão ou, equivalente-
mente, é impossível que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. Dizemos
neste caso que a relação de inferência existente entre premissas e conclusão é uma rela-
ção de dedução. Argumentos indutivos, exemplificados pelo argumento (3), são aqueles
argumentos cuja verdade das premissas não implica necessariamente a verdade da con-

21
clusão; em um argumento indutivo pode acontecer de as premissas serem verdadeiras e
a conclusão falsa. No entanto, diferentemente das falácias, reconhecemos nos argu-
mentos indutivos algum tipo de racionalidade ou retitude lógica. Podemos por exemplo
dizer que, apesar de as premissas de (3) não nos permitirem concluir com certeza sua
conclusão, elas nos permitem concluir que é provável, plausível ou razoável que amanhã
o sol tornará a nascer.
Outra maneira de distinguir dedução de indução é dizer que enquanto inferências de-
dutivas preservam a verdade e são não ampliativas, inferências indutivas não preservam a verdade e
são ampliativas. Uma inferência preserva a verdade se a verdade de suas premissas garante a
verdade de sua conclusão ou, em outras palavras, se da verdade só obtemos verdade. Isso
obviamente significa que é impossível que as premissas de tal argumento sejam verdadei-
ras e a conclusão falsa, o que é exatamente a definição de argumento dedutivo dada acima.
Como, no entanto, por definição é possível que em um argumento indutivo as premissas
sejam verdadeiras e a conclusão falsa, temos que tais argumentos não preservam a verda-
de. Por outro lado, há a possibilidade de, através de uma inferência indutiva, ampliarmos
nosso conhecimento, coisa que não acontece em um argumento dedutivo. Dada a infor-
mação contida nas premissas de (3), a informação de que o sol nascerá amanhã é segura-
mente algo novo, não contido nessas premissas; a informação de que Sócrates é mortal,
por sua vez, já está de certa forma “contida” nas premissas de (1), de forma que a conclu-
são de (1) não pode ser considerada como uma ampliação de um conhecimento prévio
composto pelas sentenças “Todos os homens são mortais” e “Sócrates é homem”.
Em um sentido lato, a lógica pode ser entendida como o estudo dos argumentos vá-
lidos, sejam eles dedutivos ou indutivos. Em um sentido mais estrito, porém, sentido
este que usaremos neste livro, a lógica se dedica ao estudo dos argumentos dedutivos.
Tal uso mais restrito do termo “lógica” é, de certa forma, corroborado tanto pela exis-
tência de um termo específico – lógica indutiva – para designar o estudo dos argumen-
tos indutivos, como pelo fato de que enquanto a lógica, entendida como o estudo dos
argumentos válidos dedutivos, consiste, em um sentido muito importante, em um cor-
po de conhecimento consolidado e relativamente bem definido, a lógica indutiva ainda
é uma área de pesquisa que não conseguiu gerar muito consenso, de forma que a inclu-
são de argumentos indutivos na classe dos argumentos válidos ainda é algo extrema-
mente controverso6.
Dado tudo isso, podemos dizer então que o conceito central subjacente às expres-
sões que usamos para iniciar este capítulo, e que é o objeto central da lógica, é a noção

6. Adicione-se ainda o fato de que, enquanto área de pesquisa, a lógica indutiva perdeu muito do fôlego que deti-
nha, por exemplo, há 30 anos.

22
de relação de dedução ou consequência lógica. Assim, lógica para nós significará daqui em
diante a disciplina incubida de estudar os argumentos ou inferências (dedutivamen-
te) válidas. Mais na frente, no entanto, veremos que na prossecução desse objetivo
chega-se a outro aspecto da lógica que, apesar de sempre poder ser visto como uma
mera consequência desse objetivo maior de explicar a noção de consequência lógi-
ca, consiste de fato em um segundo componente daquilo que podemos chamar de o
escopo da lógica. Seja como for, tal visão de lógica claramente nos força a ver o termo “va-
lidade” como se aplicando exclusivamente à noção de validade dedutiva, sendo o termo
“argumento válido” tomado daqui em diante como sinônimo de “argumento deduti-
vo”.
Neste ponto é importante enfatizar algumas conexões relevantes do ponto de vista
da lógica entre os conceitos de validade e verdade. Primeiro uma distinção crucial: enquan-
to que válido é um adjetivo a ser aplicado exclusivamente a argumentos ou inferências,
verdade (ou verdadeiro) se aplica exclusivamente a sentenças ou enunciados. Assim, é
um uso incorreto dos termos afirmar, por exemplo, que tal argumento é verdadeiro ou
que tal enunciado é válido. Segundo, apesar de o conceito de validade ser definido em
função dos conceitos de verdade e possibilidade (um argumento é válido se é impossí-
vel que suas premissas sejam verdadeiras e sua conclusão falsa), o foco central da lógica
não é o conceito de verdade, mas sim o de validade: o conceito de verdade interessa à
lógica apenas enquanto instrumento auxiliar na análise dos conceitos de validade e con-
sequência lógica. Isso pode melhor ser visto se atentarmos para o fato de que, em um
argumento qualquer, é completamente irrelevante para a sua validade o fato de suas
premissas e conclusão serem verdadeiras ou não; o que importa é o fato de que se tais
premissas são verdadeiras, necessariamente a sua conclusão também é. Por exemplo, o
argumento abaixo, cuja segunda premissa é falsa, mas cujas conclusão e primeira pre-
missa são verdadeiras, é um argumento válido:
(5) Todo peixe é um ser aquático.
Golfinhos são peixes.
Portanto, golfinhos são seres aquáticos.

1.2 Lógica como teoria da representação


Tomando então a lógica como o estudo das inferências válidas, ou seja, como uma
teoria da inferência, devemos agora nos perguntar como esse estudo se dá. Considere os
seguintes argumentos:

23
(6) Se Sócrates é homem, então Sócrates é mortal.
Sócrates é homem.
Portanto, Sócrates é mortal.
(7) Se João possui título de eleitor, então João é maior de 16 anos.
João possui título de eleitor.
Portanto, João é maior de 16 anos.
O que esses dois argumentos têm em comum? Primeiro de tudo, há realmente algo
em comum entre estes argumentos? Enquanto um se refere a uma propriedade dos se-
res humanos instanciada por um ser humano particular, Sócrates, o outro fala de algo
completamente diferente, a saber, a consequência óbvia de uma peculiaridade do siste-
ma eleitoral brasileiro quando aplicada a João. A despeito, porém, dessa diferença de
conteúdo, os argumentos (6) e (7) parecem compartilhar algo deveras importante, a sa-
ber, sua estrutura ou forma lógica. Se, por exemplo, realizássemos o exercício de extrair de
(6) e (7) qualquer menção sobre os tópicos específicos tratados nesses argumentos, te-
ríamos como resultado algo como o que segue:
(8) Se isto, então aquilo.
Isto.
Portanto, aquilo.
Ou, chamando isto de A e aquilo de B,
(8’) Se A, então B.
A.
Portanto, B.
Aqui, obviamente, A e B (ou isto e aquilo) não designam quaisquer sentenças em par-
ticular, mas apenas os lugares dentro de um argumento específico que as sentenças que o
compõem devem ocupar para que tal argumento tenha a forma acima ilustrada. Não te-
mos aqui então um argumento como os que temos visto até agora, mas sim um esquema
de argumento. Se substituimos, por exemplo, A por “Sócrates é homem” e B por “Sócra-
tes é mortal”, obtemos o argumento (6); se substituirmos A por “João possui título de
eleitor” e B por “João é maior de 16 anos” obtemos (7). Dizemos então que (8’) repre-
senta a forma lógica dos argumentos (6) e (7), ou equivalentemente, que (6) e (7) são ins-
tâncias do esquema de inferência representado por (8’).
O importante para nós nisso tudo é que é exatamente pelo fato de possuírem a for-
ma lógica representada em (8’) que os argumentos (6) e (7) são válidos. Não é, por
exemplo, por tratar das regras do sistema eleitoral brasileiro que (7) é um argumento vá-
lido, mas sim pela maneira como esta informação aparece no argumento em relação às
outras informações e à construção “se ... então”. Falando de outra maneira, o que ca-

24
racteriza (7), e consequentemente (6), como sendo um argumento válido é exclusiva-
mente a sua forma ou, sendo mais específico, o fato de ser ele uma instância de (8’). O
conteúdo de um argumento, ou o tópico do qual ele trata, é completamente irrelevante
para a sua validade.
A consequência óbvia disso é que se a lógica tem a pretensão de estudar os argu-
mentos válidos, ela tem que se concentrar na forma, e não no conteúdo, dos argumen-
tos. Em outras palavras, é estudando a forma dos argumentos que conseguiremos iden-
tificar sua validade7.
O leitor atento deve ter notado certa similaridade entre os argumentos (1) e (6) de
um lado, e (2) e (7) de outro. Considere (1) e (6) primeiramente:
(1) Todos os homens são mortais.
Sócrates é homem.
Portanto, Sócrates é mortal.
(6) Se Sócrates é homem, então Sócrates é mortal.
Sócrates é homem.
Portanto, Sócrates é mortal.
Aqui, com exceção da primeira premissa, os enunciados dos dois argumentos são
idênticos. Mas mesmo com respeito à primeira premissa, há sem dúvida uma relação mui-
to íntima entre os dois enunciados: podemos facilmente concluir a primeira premissa de
(6) a partir da primeira premissa de (1). Em outras palavras, o argumento abaixo é válido:
(9) Todos os homens são mortais.
Portanto, se Sócrates é homem, então Sócrates é mortal.
Mas veja que as formas desses dois enunciados são bastante diferentes: enquanto que
um tem a forma “Todo A é B”, o outro tem a forma “Se A então B”. Como então podería-
mos escrever esses enunciados de forma a deixar explícita a relação inferencial que há entre
eles? Bom, trivialmente enquanto um fala de algo referente a todos os homens, o outro pa-
rece falar a mesma coisa, mas sobre um homem específico. Em outras palavras, ambos os
enunciados falam sobre o mesmo ponto, mas sob perspectivas diferentes: um de uma pers-
pectiva universal e outro de uma perspectiva particular. Assim, o que deve haver de diferen-
te na forma desses dois enunciados deve estar relacionado com essa diferença de perspectiva.
Isso pode ser visto mais claramente se reescrevermos (9) como segue:
(9’) Para toda entidade, se esta entidade é homem, então ela é mortal.
Portanto, se Sócrates é homem, então Sócrates é mortal.

7. É nesse sentido que muitas vezes se usa a expressão “lógica formal” para designar a disciplina objeto desse livro.

25
Ou, de forma ainda mais explícita no que se refere à sua forma lógica:
(10) Para todo x, se x é Z, então x é Y.
Portanto, se w é Z, então w é Y.
Podemos, portanto, reescrever (1) como segue:
(1’) Para toda entidade, se esta entidade é homem, então ela é mortal.
Sócrates é homem.
Portanto, Sócrates é mortal.
Sendo o esquema de argumento abaixo a representação de sua forma lógica:
(11) Para todo x, se x é Z, então x é Y;
w é Z;
Portanto, w é Y.
Utilizando raciocínio similar, podemos reescrever (2) como segue:
(2’) Para toda entidade, se esta entidade é tal que ela possui título de eleitor, então
ela é maior de 16 anos8.
João é tal que ele possui título de eleitor.
Portanto, João é maior de 16 anos.
Sobre a forma lógica de (2’), trivialmente ela corresponde a (11): substitua Z por
“possuidora de título de eleitor”, Y por “maior de 16 anos” e w por “João” e você obterá
(2’). Temos então que (1) e (2) possuem a mesma forma lógica.
É importante observar nesse ponto que a primeira premissa do argumento (1), por
exemplo, é tal que sua forma lógica, representada pela primeira premissa de (1’), difere
consideravelmente do que podemos chamar de sua forma gramatical: enquanto em (1) tal
premissa é da forma “Todo A é B”, em (1’) ela já tem a forma “Para todo x, se x é Z, en-
tão x é Y”9. E claramente, a forma como tal enunciado é representado em (1’) revela de
forma muito mais clara as relações inferenciais que ele tem com os outros enunciados
de (1), bem como as relações que porventura existam entre (1) e outros argumentos,
como é o caso de (1) e (6). Assim temos o fato extremamene importante para o estudo
dos argumentos válidos de que a forma gramatical dos enunciados nem sempre equivale
à sua forma lógica.

8. Para vermos que “Para toda entidade, se esta entidade é tal que ela possui título de eleitor, então ela é maior de
16 anos” significa o mesmo que “Para possuir título de eleitor é necessário ser maior de 16 anos”, basta vermos que
se uma pessoa qualquer possui título de eleitor, então com certeza ela será maior de 16 anos, pois de outra forma
ela não teria conseguido obter seu título.
9. O mesmo acontece em relação à primeira premissa de (2).

26
Se quiséssemos definir de uma maneira mais precisa o conceito de forma lógica, di-
ríamos que a forma lógica de um argumento ou enunciado é a estrutura subjacente ao ar-
gumento ou enunciado em virtude da qual ele possui suas propriedades inferenciais.
Trivialmente, a forma lógica de um argumento dedutivo se reduz às formas lógicas dos
enunciados que o compõem (feita obviamente a devida demarcação de o que é premis-
sa e o que é conclusão).
Não é difícil então, dado tudo isso, avaliar a importância da noção de forma lógica
para o estudo das inferências válidas. Mas se isso é o caso, temos então que será de igual
importância para tal estudo o desenvolvimento de métodos de representação que explicitem
o máximo possível a forma lógica dos enunciados. Na verdade isso é mais ou menos tri-
vial. Se a lógica se dedica a estudar as inferências válidas, e isso é feito através da explici-
tação da forma ou estrutura das inferências, é natural que parte fundamental deste pro-
jeto seja o de encontrar maneiras adequadas de representação que tornem o mais explí-
cito possível a estrutura lógico-inferencial dos enunciados. Assim, a maneira através da
qual representamos os enunciados ou, em outras palavras, a linguagem que usamos na re-
presentação dos nossos argumentos, deve obviamente desempenhar um papel funda-
mental no estudo dos argumentos válidos.
Com isso chegamos ao outro aspecto fundamental da lógica enquanto disciplina:
seu aspecto representacional. Podemos então dizer que a lógica possui na verdade dois as-
pectos que, conjuntamente, definem o seu escopo: um aspecto inferencial e um aspecto
representacional. Em outras palavras, enquanto vista como uma teoria da inferência, a ló-
gica se preocupa primordialmente com o estudo das inferências válidas, enquanto teoria
da representação ela se dedica ao estudo de maneiras adequadas do ponto de vista lógi-
co-formal de representar enunciados.
Veja, no entanto, que esses dois aspectos estão intimamente relacionados um com
o outro. Conforme já mencionamos, se nosso objetivo é estudar as inferências válidas,
teremos que dispor de alguma maneira condizente com esse objetivo de representar os
componentes básicos dos argumentos que compõem os enunciados. Por outro lado, se
nossa preocupação primordial é com a representação dos enunciados, nos depararemos
inevitavelmente com construções linguísticas de caráter eminentemente lógico-inferen-
cial e consequentemente com a exigência de tornar explícitas as relações inferenciais
que existem entre enunciados.
Podemos ver com mais clareza a conveniência de uma teoria da inferência para o
projeto de elaborar uma teoria da representação se entendemos por relação inferencial
entre premissas e conclusão algo como esta já estar de certa forma “contida” (ou “logi-
camente contida”, para ser mais preciso) nas premissas. Tome o argumento (1), por
exemplo:

27
(1) (a) Todos os homens são mortais;
(b) Sócrates é homem;
(c) Portanto, Sócrates é mortal.
Podemos dizer neste caso que “Sócrates é mortal” está logicamente contido nos
enunciados “Todos os homens são mortais” e “Sócrates é homem”, no sentido de que a
informação expressa em (c) já está de certa forma, ao menos sob um ponto de vista lógi-
co, presente em (a) e (b). Isso obviamente representa um princípio de economia bastante
valioso: para armazenar ou representar a informação (c), basta que eu represente (a) e (b) e
disponha de um mecanismo inferencial capaz de “extrair” (c) de (a) e (b). De uma forma
geral, se dispomos de tal mecanismo inferencial, apenas com um número reduzido de
enunciados podemos representar uma quantidade muito grande (na verdade infinita) de
informação. Assim, se nosso objetivo maior é a representação de informação ou conhecimento,
dispor de uma teoria da inferência capaz de dizer quando um enunciado pode ser deduzido
de um conjunto de enunciados é uma exigência quase que necessária.

1.3 Inferência, representação e análise de argumentos


No próximo capítulo falaremos mais sobre esse duplo aspecto da lógica e como ele
se manifesta dentro do que chamaremos de sistemas lógicos. Indicaremos aqui, no en-
tanto, de forma muito breve (porém com certo nível de detalhe), através da análise de
alguns argumentos, em que consistem essas duas tarefas da lógica.
Considere a seguinte versão modificada do argumento (2):
(12) Para possuir título de eleitor é necessário ter nascido no Brasil ou ser naturali-
zado brasileiro, bem como ser maior de 16 anos.
João possui título de eleitor e não nasceu no Brasil.
Portanto, João é naturalizado brasileiro e maior de 16 anos.
A primeira premissa deste argumento pode ser reescrita como segue:
(12’) Para toda entidade, se esta entidade é tal que ela possui título de eleitor, então
ela é um nativo brasileiro ou naturalizado brasileiro, e maior de 16 anos.
Trivialmente, então, temos uma versão mais simples de (12) onde (12’) é levada em
conta:
(13) Se João possui título de eleitor, então ele é um nativo brasileiro ou naturalizado
brasileiro, e maior de 16 anos.
João possui título de eleitor e não nasceu no Brasil
Portanto, João é naturalizado brasileiro e maior de 16 anos.

28
Neste caso, a forma lógica de (13) seria como segue:
(14) Se A, então (B ou C) e D.
A e não B.
Portanto, C e D.
Diferentemente dos argumentos analisadas por nós até agora, não nos parece nesse
caso tão trivial que (14) seja um argumento válido. Tentemos então explicitar os passos
que fariam com que, nesse argumento, partindo das premissas, nós chegássemos à con-
clusão. Primeiro de tudo, como é dito na segunda premissa que A, podemos concluir,
usando a primeira premissa, que (B ou C) e que D. Mas veja que também na segunda
premissa é dito que não B. Assim, como temos que B ou C, obviamente teremos C. Jun-
tando essas duas conclusões, temos C e D. Esses passos podem ser descritos de uma
forma mais detalhada como segue:
1. Se A, então (B ou C) e D 1ª premissa
2. A e não B 2ª premissa
3. A Segue de 2
4. (B ou C) e D Segue de 1 e 3
5. D Segue de 4
6. (B ou C) Segue de 4
7. não B Segue de 2
8. C Segue de 6 e 7
9. C e D Segue de 5 e 8
Aqui a primeira coluna contém os passos inferenciais intermediários que precisa-
mos obter para chegarmos à conclusão do argumento, representada no passo 9, e a
segunda coluna contém a justificativa do passo em questão.
Esta seria uma das tarefas da lógica enquanto teoria da inferência: tornar o mais explí-
cito possível a estrutura inferencial de um argumento. Mas veja que nesta e nas outras ten-
tativas que fizemos de tornar explícita a forma lógica dos enunciados, há algumas cons-
truções linguísticas que, além de aparecerem com relativa frequência na estrutura dos ar-
gumentos válidos, parecem desempenhar um papel fundamental na validade dos mes-
mos. No nosso caso acima, só podemos, por exemplo, concluir 3 a partir de 2 por conta
do que entendemos como sendo um aspecto lógico fundamental da expressão “e”; 4 só
segue de 1 e 3 devido à existência da expressão “se... então...” em 2; e só podemos concluir
8 a partir de 6 e 7 por conta do conectivo “ou” contido em 6 e da expressão “não” presen-
te em 7. Isso mostra que são exatamente construções linguísticas desse tipo que conferem
as propriedades lógicas de um enunciado ou argumento; na verdade, são tais construções

29
linguisticas o que em grande parte determina o que estamos chamando aqui de a forma ló-
gica de um enunciado. Assim, nada mais natural do que a lógica dar uma atenção especial
a tais construções. Primeiro de tudo, talvez seja mais conveniente, na representação dos
enunciados e argumentos, usarmos símbolos especiais para designar tais construções: a
construção “se... então...” poderia, por exemplo, ser representada pelo símbolo ®, “e”
por Ù, “ou” por Ú, “não” por Ø. A tais símbolos nós damos o nome de conectivos lógicos.
Procedendo assim, poderíamos reescrever os passos acima como segue:
1. A®((BÚC)ÙD) 1ª premissa
2. AÙØB 2ª premissa
3. A Segue de 2
4. (BÚC)ÙD Segue de 1 e 3
5. D Segue de 4
6. BÚC Segue de 4
7. ØB Segue de 2
8. C Segue de 6 e 7
9. CÙD Segue de 5 e 8
A essa tarefa de explicitar a forma lógica de um argumento e os passos inferenciais
que vão das premissas à conclusão nós damos o nome de análise lógica de argumentos.
Analisemos agora o argumento (12) considerando a forma lógica de sua primeira
premissa conforme descrito em (12’). Segue abaixo a forma lógica de (12):
(15) Para todo x, se x é Z, então (x é R ou x é S) e x é Y;
a é Z e a não é R;
a é S e a é Y.
Veja que, diferentemente de (14), devido à existência de uma quantificação universal
(para todo x), nós temos que fazer referência, na forma lógica, a propriedades de obje-
tos (no caso a propriedade de possuir título de eleitor, de ser nativo brasileiro, etc.) e aos
objetos que possuem tais propriedades. Também devido à quantificação universal, a
análise dos passos inferenciais de (15), que vão das premissas à conclusão, terá uma eta-
pa a mais, a saber, uma que nos permita ir do discurso universal contido na primeira
premissa ao discurso particular da conclusão. De uma forma mais específica, os passos
inferenciais desse argumento podem ser descritos como segue.
Como para todo x, se x é Z, então (x é R ou x é S) e x é Y, então, se a é Z, (a é R ou a
é S) e a é Y. Mas como é dito na segunda premissa que a é Z, concluímos que (a é R ou a
é S) e que a é Y. Mas veja que também na segunda premissa é dito que a não é R. Assim,
como a é R ou a é S, podemos concluir que a é S. Juntando essas duas conclusões pode-

30
mos então dizer que a é S e a é Y. Estes passos podem descritos de uma forma mais de-
talhada como segue:
1. Para todo x, se x é Z, então (x é R ou x é S) e x é Y 1ª premissa
2. Se a é Z, então (a é R ou a é S) e a é Y Segue de 1
3. a é Z e a não é R 2ª premissa
4. a é Z Segue de 3
5. (a é R ou a é S) e a é Y Segue de 2 e 4
6. a é Y Segue de 5
7. (a é R ou a é S) Segue de 5
8. a não é R Segue de 3
9. a é S Segue de 7 e 8
10. a é S e a é Y Segue de 6 e 9
Fazendo o mesmo exercício que fizemos com (14), vemos aqui que algumas cons-
truções linguísticas desempenham papel importante na justificativa dos passos acima.
Em adição ao que dissemos sobre “e”, “se ... então ...”, “ou” e “não”, temos que 2 só se-
gue de 1 por conta da expressão “para todo x” que aparece em 1. Assim, supondo que
representemos “para todo x” por "x, e expressões como “a é Z” por Z(a), teríamos os
passos acima reescritos como segue:
1. "x(Z(x)®((R(x)ÚS(x))ÙY(x))) 1ª premissa
2. Z(a)®((R(a)ÚS(a))ÙY(a)) Segue de 1
3. Z(a)ÙØR(a) 2ª premissa
4. Z(a) Segue de 3
5. (R(a)ÚS(a))ÙY(a) Segue de 2 e 4
6. Y(a) Segue de 5
7. R(a)ÚS(a) Segue de 5
8. ØR(a) Segue de 3
9. S(a) Segue de 7 e 8
10. S(a)ÙY(a) Segue de 6 e 9
Veja que, nesses exemplos, a forma lógica dos enunciados, bem como o papel dessa
forma nos passos inferenciais que nos levam de um enunciado a outro, está muito mais
claro. A linguagens desse tipo, capazes de representar adequadamente a forma lógica
dos diversos tipos de enunciados, nós damos o nome de linguagens lógico-formais, ou sim-
plesmente linguagens lógicas, sendo sua elaboração uma das principais tarefas da lógica
enquanto teoria da representação.

31
1.4 Exercícios propostos
1. Defina e dê exemplos dos seguintes conceitos:
a. Argumento válido;
b. Argumento dedutivo;
c. Argumento indutivo;
d. Argumento inválido;
2. De acordo com a nossa definição de argumento dedutivo, é possível haver um argumen-
to dedutivo inválido? Justifique sua resposta.
3. Qual a relação que há entre dedução e certeza, de um lado, e indução e probabilidade,
de outro?
4. Explicamos o que é um argumento indutivo fazendo uso do termo “provável”. Diga em que
sentido o cálculo matemático de probabilidades está relacionado com a noção de indução.
5. Em que sentido o conceito de racionalidade está relacionado com a noção de argumento
válido?
6. Diga quais são as vantagens e desvantagens de um argumento:
a. Preservar a verdade, mas ser não ampliativo;
b. Não preservar a verdade, mas ser ampliativo.
7. Qual a diferença entre verdade e validade?
8. Responda as seguintes perguntas:
a. O que é a forma lógica de um argumento (e de um enunciado)?
b. Qual a importância que tal conceito tem para a lógica enquanto teoria da inferência?
c. De que maneira a noção de forma lógica faz com que uma teoria da inferência exija
uma teoria da representação?
9. Quais os dois escopos da lógica, e qual a relação entre eles?

1.5 Exercícios de análise lógica


1. Qual o papel dos conectivos lógicos na análise lógica dos argumentos?
2. Identifique as premissas e a conclusão de cada um dos argumentos abaixo:
a. Como a felicidade consiste na paz de espírito e como a duradoura paz de espírito depende
da confiança que temos no futuro, e como essa confiança é baseada no conhecimento que
devemos ter da natureza de Deus e da alma, segue-se que tal conhecimento é necessário
à verdadeira felicidade. [Este argumento é de Gottfried Leibniz.]
b. Não podemos comparar um processo com “a passagem do tempo” – não existe tal coi-
sa – mas unicamente com outro processo (como o funcionamento de um cronômetro).
Logo, só podemos descrever o lapso de tempo confiando em algum outro processo.
[Este argumento foi dado por Ludwig Wittgenstein em seu Tractatus Logico-Phi-
losophicus.]
c. Se dermos à eternidade o significado não de duração temporal infinita, mas de atem-
poralidade, então a vida eterna pertence aos que vivem no presente. [Este argumento
foi dado por Ludwig Wittgenstein em seu Tractatus Logico-Philosophicus.]

32
d. Quando o elevado preço do trigo é o efeito de uma procura crescente, ele é sempre
precedido de um aumento de salários, pois a procura não pode subir sem um aumen-
to dos meios, no povo, para pagar aquilo que deseja. [Este argumento é de David Ri-
cardo.]
e. Ainda que exista um embusteiro, sumamente poderoso, sumamente ardiloso, que em-
pregue todos os seus esforços para manter-me perpetuamente ludibriado, não pode
subsistir dúvida alguma de que existo, uma vez que ele me ludibria. [Este argumento foi
dado por René Descartes em suas Meditações Metafísicas.]
f. O Senhor disse (Gn 16,7): “Porque me arrependo de ter feito o Homem”. Mas quem se
arrepende do que fez tem uma vontade variável. Portanto, Deus tem uma vontade va-
riável. [Este argumento foi dado por Tomás de Aquino.]
g. Em sua forma mais simples o problema é este: Deus é onipotente; Deus é sumamente
bom; e ainda assim o mal existe. Aparentemente há uma contradição entre estas três
proposições, de forma que se quaisquer duas delas são verdadeiras, a terceira deve
ser falsa. Mas ao mesmo tempo, todas as três proposições são partes essenciais da
maioria das posições teológicas: o teólogo, ao mesmo tempo em que deve, aparente-
mente não pode aderir consistentemente às três proposições. [Este argumento foi
dado por John Mackie.]
h. Um hortelão que cultiva sua própria horta, com suas próprias mãos, reúne em sua pró-
pria pessoa três diferentes caracteres: de proprietário rural, de agricultor e de traba-
lhador rural. Seu produto, portanto, deveria pagar-lhe a renda do primeiro, o lucro do
segundo e o salário do terceiro. [Este argumento foi dado por Adam Smith em seu A
Riqueza das Nações.]
i. Uma subsistência abundante incrementa o vigor físico do trabalhador, e a consoladora
esperança de melhorar sua condição, a fim de terminar seus dias, talvez, no conforto e
na prosperidade, anima-o a empregar ao máximo esse vigor. Assim, quando os salári-
os são altos, veremos sempre os trabalhadores mais ativos, diligentes e desembara-
çados do que quando os salários são baixos. [Este argumento foi dado por Adam
Smith em seu A Riqueza das Nações.]
j. Podemos estabelecer quatro hipóteses sobre as primeiras causas do universo: que
elas possuem bondade perfeita; que elas possuem maldade perfeita; que elas são
opostas e contém tanto bondade como maldade; ou que elas não contêm nem bonda-
de nem maldade. Fenômenos heterogêneos não podem nunca provar os dois primei-
ros princípios não heterogêneos; e a uniformidade e a constância das leis gerais pare-
cem se opor ao terceiro. O último, portanto, parece ser de longe o mais provável. [Esse
argumento foi dado por David Hume em seu Diálogos sobre a Religião Natural.]
k. Como os testes demonstraram que são necessários pelo menos 2.3 segundos para ma-
nobrar a culatra do rifle de Oswald, é óbvio que Oswald não poderia ter disparado três
vezes – atingindo Kennedy duas vezes e Connally uma vez – em 5.6 segundos ou me-
nos.
l. A água tem um calor latente superior ao do ar: mais calorias são necessárias para
aquecer uma determinada quantidade de água do que para aquecer um igual montan-
te de ar. Assim, a temperatura do mar determina, de um modo geral, a temperatura do
ar acima dele.

33
m. Durante a guerra, as redes de espionagem inimiga foram descobertas mediante a es-
cuta e gravação dos telefonemas dos suspeitos. Portanto, as autoridades deveriam
adotar o procedimento de escuta dos telefonemas de todos os suspeitos.
n. Nenhum matemático foi capaz de demonstrar, até hoje, a verdade do famoso “último
teorema” de Fermat; portanto, esse teorema deve ser falso.
o. A regra de ouro é básica para todo sistema ético até hoje criado, e todos a aceitam sob
uma forma ou outra. Portanto, a regra de ouro é um princípio moral necessário.
p. Se a crença na existência de Deus tem base científica, então ela é racional. Porém,
nenhum experimento científico concebível pode decidir se Deus existe ou não. Mas
se a crença na existência de Deus tem base científica, então há algum experimento ci-
entífico concebível capaz de decidir se Deus existe ou não. Logo, a crença na existên-
cia de Deus não é uma crença racional.
q. Como o homem é essencialmente racional, o reaparecimento constante da metafísica na
história do conhecimento humano deve ter explicação na estrutura da própria razão.

34
2
Lógica e sistemas lógicos

2.1 O método da lógica


Comumente consideram-se dois aspectos como sendo fundamentais para a caracteri-
zação de uma disciplina: o escopo, objetivo ou objeto que essa disciplina pretende estu-
dar, e a maneira ou método através do qual ela visa atingir tal objetivo. Vimos que a lógica
enquanto disciplina possui dois objetivos básicos: o de estudar as inferências válidas e o
de prover maneiras adequadas de representar enunciados. Assim a lógica pode ser vista
como uma teoria da inferência ou como uma teoria da representação. Mas qual seria en-
tão o método, por assim dizer, através do qual a lógica tenciona atingir tais objetivos?
Para respondermos essa pergunta, temos que falar sobre um aspecto bastante pecu-
liar da lógica contemporânea: a sua relação com a matemática. Essa relação é, na verda-
de, estreita a tal ponto de a disciplina que hoje chamamos de lógica ser, em um sentido
muito forte, equivalente ao que se convencionou chamar de lógica matemática. Primeiro
de tudo, deve-se mencionar que muito da motivação para o surgimento do que chama-
mos de lógica moderna foi o desejo, por parte de alguns filósofos e matemáticos, de
melhor compreender o raciocínio por trás da argumentação matemática. É neste senti-
do então que a expressão “lógica matemática” pode ser vista como significando a lógica
da matemática. Tal visão, no entanto, reflete apenas um aspecto das coisas e, na verda-
de, pode ser enganadora, visto que, como verificamos, o objetivo da lógica em geral e da
lógica moderna em particular é o estudo das inferências em um sentido lato, não se res-
tringindo a nenhum tipo particular de argumento. Outra maneira de ler a expressão “ló-
gica matemática” (que neste caso sim, não só reflete com exatidão a disciplina à qual ela
tenta dar nome, mas também releva um aspecto essencial sobre ela) é entendendo-a
como o estudo matemático da lógica ou, em outras palavras, como a tentativa de desenvol-
ver uma teoria da inferência e da representação utilizando metodologia semelhante
àquela usada pelos matemáticos no desenvolvimento de suas teorias.
Essa tentativa de se estudar a lógica sob uma perspectiva matemática se dá, grosso
modo, através do desenvolvimento de sistemas matemático-formais não por acaso cha-

35
mados de sistemas lógicos. Se tomarmos a lógica enquanto teoria da inferência, por exem-
plo, a análise ou tentativa de identificar a classe dos argumentos válidos tomará, como
um todo, a forma de um sistema matemático, de modo que a resposta à pergunta
“quando um argumento é válido?” será algo como que um subproduto inevitável do
sistema lógico em questão. Apesar de uma compreensão satisfatória do que estamos
chamando de “o método da lógica” somente poder ser obtida através de um estudo
pormenorizado dos sistemas lógicos – o que daremos cabo neste livro –, tentaremos,
neste capítulo, dar uma ideia básica de o que são tais sistemas e como eles tentam atingir
esse objetivo específico de identificar a classe dos argumentos válidos.
Comecemos lembrando que a validade em um argumento é basicamente uma rela-
ção lógica entre um conjunto de enunciados (as premissas) e um enunciado (a conclusão).
Mas em matemática, relações são entidades passíveis de serem construídas e analisadas
matematicamente. (Um exemplo disso é a relação “maior que”, geralmente representa-
da pelo símbolo “>”.) Isso nos leva à óbvia cogitação de que talvez a relação de dedução
ou consequência lógica também possa ser analisada por esse viés matemático. Para ser-
mos capazes de bem avaliar tal proposta, é útil consideramos de início três pontos a res-
peito das relações matemáticas.
Primeiro, para realmente sabermos de que relação matemática nós estamos falando,
temos que fixar os dois conjuntos cujos elementos vão ou não se relacionar de acordo
com a relação em questão. Por exemplo, para falarmos de uma relação “maior que”, te-
mos que dizer a que conjunto de entidades essa relação vai ser “aplicada”( se ao conjun-
to de números naturais, inteiros, racionais, etc). De um ponto de vista rigoroso, a rela-
ção > que relaciona elementos do conjunto dos números naturais é diferente da relação
> que relaciona elementos do conjunto dos números inteiros, apesar de o símbolo que
usamos para as duas relações ser o mesmo. No caso da primeira, dizemos que > é uma
relação do tipo ÁxÁ (o que representamos também por >: ÁxÁ), ou seja, uma relação
que associa dois elementos do conjunto dos números naturais Á e, no caso da segunda
relação, dizemos que > é do tipo ÍxÍ, ou seja, uma relação que associa dois elementos
pertencentes ao conjunto dos números inteiros.
O segundo ponto, que apesar de ser por demais óbvio vale a pena ser mencionado,
é que dada uma relação matemática qualquer R: DxG e dois elementos aÎD e bÎG, R
nos dirá se a se relaciona ou não com b de acordo com R. Por exemplo, dada a relação
“maior que” aplicada aos naturais, >: ÁxÁ e dois números x,yÎÁ, > nos diz se x é ou
não maior que y. Em outras palavras, > é capaz de nos dizer, para quaisquer dois núme-
ros x e y pertencentes ao conjunto dos naturais, se x é ou não maior que y.

36
O terceiro ponto é que uma relação matemática geralmente possui propriedades
formais de fundamental importância para a sua diferenciação enquanto relação. Por
exemplo, a relação >: ÁxÁ é tal que, dados x,y,zÎÁ, se x>y e y>z, então x>z. Se uma
relação R é tal que se aRb e bRc então aRc, onde aRb é uma abreviação para “o objeto a
se relaciona com o objeto b de acordo com a relação R”, nós dizemos que esta relação é
transitiva. Assim, > é transitiva. Outras propriedades interessantes são a reflexividade e a
simetria: uma relação R é reflexiva se e somente se aRa para todo a; e simétrica se e
somente se se aRb então bRa. Enquanto, no entanto, > é transitiva, ela não é nem reflexi-
va nem simétrica: não é o caso que para todo número x, x>x; nem que para todo número
x e y, se x>y então y>x. Já a relação de identidade definida para os naturais (= : ÁxÁ), por
exemplo, é reflexiva, simétrica e transitiva: a=a para todo aÎÁ; para todo a,bÎÁ, se
a=b então b=a; e para todo a,b,cÎÁ, se a=b e b=c então a=c.
Mas o que é que tudo isso, o leitor pode perguntar, tem a ver com lógica? Talvez
muito, já que, como dissemos, um argumento é válido em virtude de uma relação infe-
rencial, chamada por nós de relação de dedução, relação de consequência lógica ou sim-
plesmente relação de inferência, que há entre premissas e conclusão. Suponha então
que, à semelhança do que é feito em matemática, usemos um símbolo especial para re-
ferenciarmos tal relação, digamos o símbolo “=”. Invocando o primeiro ponto acima,
para caracterizarmos precisamente = precisamos identificar os tipos de elementos que
se relacionarão através de =; ou, equivalentemente, os dois conjuntos aos quais tais ele-
mentos pertencem. Essa não parece ser uma tarefa das mais difíceis, visto que, como sa-
bemos, a relação de dedução associa ou relaciona um conjunto de enunciados (que cha-
mamos de premissas) de um lado, com um enunciado (a conclusão) do outro. Mas enun-
ciados são entidades linguísticas, que em certo sentido podem ser vistas como pertencen-
tes a línguas específicas. Assim, para falarmos sobre os dois conjuntos aos quais os ele-
mentos que = relacionará pertencem, teremos que falar sobre a língua ou, adotando a
nomenclatura padrão em lógica, a linguagem a qual os enunciados em questão pertencem.
Se chamarmos essa linguagem de L, teremos que a nossa relação = será definida
como associando duas entidades, a saber, conjuntos de enunciados pertencentes a L e
enunciados também pertencentes a L. Para bem compreendermos esse tipo de defini-
ção, no entanto, temos que ver a linguagem L como sendo nada mais do que um con-
junto, na verdade um conjunto enorme, contendo todos os enunciados que podem ser
construídos naquela linguagem. Por exemplo, se quiséssemos caracterizar a língua por-
tuguesa dessa maneira, diríamos que a língua (ou linguagem) portuguesa é o conjunto
de todas as sentenças, significavas neste caso, que podem ser escritas em português.
Como então = associa conjuntos de enunciados pertencentes a L e enunciados também per-

37
tencentes a L, temos então que podemos escrever coisas como G= a, em que G é um
conjunto de enunciados pertencentes a L ou, em outras palavras, um subconjunto de L
(em símbolos: G5L) e a é um enunciado pertencente a L (em símbolos: aÎL). Como G é
um subconjunto de L, também podemos dizer que G pertence ao conjunto de todos os subcon-
juntos de L, comumente chamado de conjunto das partes de L, que aqui representaremos
por U(L). Assim, dada uma linguagem L qualquer, podemos dizer que = é da forma:
U(L)xL, ou seja, uma relação que associa elementos de U(L) (ou seja, subconjuntos de L,
que são obviamente conjuntos de enunciados) e elementos de L (ou seja, enunciados).
Segundo, dadas uma linguagem L específica e uma relação de dedução = aplicada à
L, e dados um enunciado qualquer aÎL e um conjunto de enunciados G5L, através de
= saberemos se a é deduzido ou não a partir de G. Tomando os elementos de G como
sendo as premissas e a como sendo a conclusão, = nos dirá se o argumento composto por
G e a (em símbolos: <G,a>) é ou não um argumento válido. Em caso positivo, escreve-
mos G=a; em caso negativo GÕa. Em outras palavras, G=a é nada mais do que uma
representação do fato de que o argumento composto pelas premissas G e conclusão a é
válido. Esse ponto deve ser bem compreendido, pois ele contém na verdade o propósi-
to da lógica enquanto teoria da inferência. Se dispomos de uma relação = do tipo
U(L)xL, e se dizemos que ela caracteriza a relação de validade dedutiva de forma que
G=a significa que a pode ser deduzido a partir de G, ou que o par <G,a> é um argu-
mento válido, então o nosso trabalho estará terminado. Já teremos em mãos uma carac-
terização da classe de argumentos válidos, pelo menos, dos argumentos válidos que po-
dem ser construídos usando uma linguagem específica, a saber, L10.
Terceiro, enquanto relação matemática, = deve possuir propriedades formais atra-
vés das quais podemos entender melhor as características disso que estamos chamando
de consequência lógica. Por exemplo, trivialmente temos que
(1) se aÎG, então G=a
ou seja, se a conclusão de um argumento aparece entre suas premissas, tal argumento
será válido. A essa propriedade nós damos o nome de a reflexividade de ë. ë também
possui um tipo de transitividade:
(2) se G=b e {b}=j, então G=j

10. Esse ponto deve ser de certa forma qualificado, pois muito embora possamos dizer que o objetivo de se construir
um sistema lógico é o de obter uma relação = tal que possamos dizer, para todo conjunto de enunciados G e todo
enunciado a, se G=a ou se GÕa, do ponto de vista prático, alguns sistemas lógicos, como as lógicas de predicados,
por exemplo, só conseguem realizar a primeira parte da tarefa. Em outras palavras, caso a seja uma conseqüência
lógica de G, então o aparato formal do sistema será tal que G=a; no entanto, caso a não seja uma consequência ló-
gica de G, pode ser que tal aparato nunca consiga estabelecer o fato de que GÕa.

38
isto é, se b é concluído a partir de G e j é concluído a partir de b, então j deve poder ser
concluído a partir de G. Também temos que
(3) se G=a, então para toda fórmula bÎL, GÈ{b}=a.
Isso significa que se a é uma conclusão do conjunto de premissas G, ela continuará
sendo mesmo se adicionarmos mais premissas a G (que é o que é feito quando conside-
ramos o conjunto GÈ{b}). A essa propriedade damos o nome de monotonicidade. Exis-
tem também propriedades que correlacionam = com conectivos lógicos específicos.
Por exemplo, temos que
(4) se GÈ{b}= a então G= b®a
Tal propriedade é associada ao que comumente é chamado de teorema da dedução. O
inverso de (4) também expressa uma propriedade válida:
(5) se G= b®a então GÈ{b}= a
Eis outro exemplo:
(6) G= aÚØa
(6) afirma que dado um conjunto de enunciados G qualquer e um enunciado a qual-
quer, aÚØa pode ser deduzido a partir de G5L; como G é um conjunto de enunciados
arbitrário, temos que aÚØa é o que chamamos de um princípio lógico universal. Tal
princípio, que chamamos de princípio do terceiro excluído, significa basicamente que, para
todo enunciado aÎL, a é verdade ou sua negação é verdade. Como a relação G=aÚØa
vale para todo e qualquer subconjunto G da linguagem L, ela também valerá para o con-
junto vazio, pois ^5L. Assim, temos também que ^=aÚØa. Comumente represen-
tamos isso omitindo a referência ao conjunto vazio e escrevendo apenas
(6’) = aÚØa

Esta é na verdade a maneira mais adequada de dizer que o princípio em questão é


válido universalmente, pois, como ele é deduzido a partir de ^, ele será, dada a mono-
tonicidade de =, deduzido também a partir de qualquer conjunto G (^5G). Um exem-
plo semelhante é o seguinte:
(7) = Ø(aÙØa)

que é nada mais do que a validade do que chamamos de princípio da não contradição (para
todo enunciado a, não pode ser o caso que tanto a como sua negação sejam verdades)
sendo estabelecida em termos de relação de dedução. Temos também que métodos
clássicos de argumentação podem ser representados através de propriedades de =,
como é o caso da chamada prova por redução ao absurdo:
(8) se GÈ{a}= b e GÈ{a}ëØb, então G= Øa

39
Isso significa que, se em adição aos pressupostos contidos em G, que por questões
metodológicas podemos aceitar como sendo verdadeiros, supormos a verdade de a e a
partir disso chegarmos a um absurdo do tipo b e Øb, então podemos concluir que a é
falso. Intimamente associados a estes dois últimos princípios temos o chamado princí-
pio do princípio da explosão (também conhecido como ex contradictione sequitur quodlibet):
(9) GÈ{b,Øb}= a
para todo aÎL; isto é, de uma contradição do tipo {b,Øb} podemos concluir toda e
qualquer fórmula.
Obviamente que essa relação = deve ser rigorosamente definida ou construída atra-
vés de estipulações conceituais. A descrição das propriedades que fizemos acima pres-
supõe tal definição e, na verdade, deve seguir como uma consequência dessa definição.
Por exemplo, apesar de sabermos intuitivamente onde aplicar a relação > de forma a di-
zer se dois números naturais quaisquer x e y são tais que x>y, se quisermos adotar uma
postura mais rigorosa teremos que definir formalmente essa relação. Isso pode ser feito
da seguinte forma:
1. Seja xÎN um número natural qualquer tal que x¹ 0. x>0;
2. Não existe xÎN tal que 0>x;
3. Sejam x,yÎN dois números naturais quaisquer. x>y se e somente se (x-1)>(y-1).
Toda e qualquer propriedade de >, tal como sua transitividade, deve seguir e, con-
sequentemente poder ser demonstrada, a partir da definição acima.
Assim, um sistema lógico, se entendido como uma teoria da inferência, é nada mais
do que uma série de definições que, se tomadas em conjunto, podem ser vistas como
definindo ou construindo a relação de dedução = (de forma semelhante a como a rela-
ção > é construída na definição acima)11. Em outras palavras, um sistema lógico nada
mais é do que uma definição rigorosa da relação de consequência lógica í. E, conforme
já falamos, todas as propriedades de = devem seguir estritamente dessa definição, sen-
do um dos principais trabalhos do lógico demonstrar que tais propriedades realmente
valem em seu sistema. Tradicionalmente, a parte da lógica responsável por estudar as
propriedades dos sistemas lógicos é chamada de metalógica.

2.2 Lógica e lógicas


Até agora temos falado como se houvesse apenas uma relação de dedução ou noção
de validade dedutiva. Falamos, por exemplo, que é tarefa da lógica distinguir argumentos

11. Vale a pena observar que toda definição faz uso de termos primitivos, ou seja, termos cujos significados não foram
previamente definidos. No caso da definição de > acima, temos Î, Á e “0”, por exemplo, como termos primitivos.

40
válidos de argumentos inválidos, o que obviamente pressupõe que haja uma maneira úni-
ca de fazer tal distinção e, portanto, uma única relação de consequência lógica. Lembre-
mos, no entanto, que para realmente identificarmos univocamente = temos que dizer
qual é a linguagem à qual os enunciados que = associará pertencem. Assim, da mesma
forma que a relação “maior que” aplicada a conjuntos diferentes resulta em relações dife-
rentes, também = usada em conjunto com linguagens diferentes resultará em relações de
inferência diferentes. Assim, para realmente dizermos que relação de inferência = desig-
na, temos que mencionar também qual a linguagem sobre a qual = é definida12. Por conta
disso, tradicionalmente identifica-se um sistema lógico como sendo caracterizado não só
por uma relação de inferência, mas também por uma linguagem lógica. Em outras pala-
vras, um sistema lógico S pode ser identificado como um par <L,= >, em que L é uma lin-
guagem e = é uma relação entre subconjuntos de L e elementos de L chamada relação de
inferência lógica. Assim, o que chamamos de aspecto representacional e aspecto inferen-
cial da lógica se encontram explícitos na própria caracterização de um sistema lógico.
A implicação óbvia disso é que muito provavelmente haverá uma multiplicidade de
sistemas lógicos. A linguagem natural é extremamente variada no que se refere à estru-
tura de seus enunciados, de forma que se quisermos tratar tal variedade estrutural de
forma especializada, isto é, abordando cada aspecto separadamente, teremos inevitavel-
mente uma pluralidade de linguagens lógicas e, consequentemente, uma pluralidade de
relações de inferências e sistemas lógicos. Por exemplo, se decidirmos tratar enunciados
como entidades indivisíveis, não analisando os seus componentes constituintes, mais
ou menos como fizemos na análise do argumento (13) do capítulo1, teremos a chamada
linguagem proposicional, que é a linguagem lógica de um dos sistemas lógicos mais conheci-
dos: a lógica clássica proposicional, ou simplesmente lógica proposicional. Se, por outro
lado, decidirmos detalhar os componentes de um enunciado, tais como seu sujeito e
predicado bem como seu aspecto universal (quando houver), mais ou menos como fi-
zemos com o argumento (12) do capítulo anterior, teremos uma linguagem de predicados de
primeira ordem, que é a linguagem usada pelo sistema lógico conhecido como lógica clássica
de predicados de primeira ordem. As linguagens proposicional e de predicados de primeira
ordem serão estudadas com detalhes nos capítulos 3 e 9, respectivamente; e enquanto a
segunda e terceira unidades do livro são dedicadas primordialmente à lógica clássica
proposicional, a quarta trata da lógica clássica de predicados de primeira ordem.
Algo digno de nota é que pode acontecer de dois sistemas lógicos S1=<L1,= 1> e
S2=<L2,=2> serem tais que L1 é diferente de L2 (e, consequentemente, sob um ponto de

12. É claro que, como para definirmos uma relação de dedução específica = temos que definir previamente a lin-
guagem sobre a qual a relação operará, podemos dizer que a linguagem L associada a = já está, pelo menos implici-
tamente, contida em =.

41
vista rigoroso, =1 é diferente de =2), mas, ainda assim, em um sentido muito importan-
te, = 1 ser igual a = 2, pois ambos compartilham propriedades formais independentes
dos aspectos específicos que tornam L1 e L2 diferentes uma da outra. Tome a lógica pro-
posicional Sp e a lógica de predicados de primeira ordem S1 como exemplo. Apesar de as
linguagens desses dois sistemas serem diferentes, suas relações de inferência satisfazem
todas aquelas propriedades consideradas importantes na caracterização de uma relação
de inferência, entre elas as mencionadas alguns parágrafos acima. Assim, podemos di-
zer que Sp e S1 possuem a mesma relação de inferência, porém linguagens diferentes, o
que pode ser representado por Sp=<Lp,=c> e S1=<L1,=c>, em que Lp e L1 são as lingua-
gens de Sp e S1, respectivamente, e =c é o que chamamos de relação de inferência clássica, que
seria a relação de inferência de ambos os sistemas Sp e S1. O mesmo se aplica a muitos
outros sistemas lógicos tais como a lógica modal, a lógica deôntica e a lógica temporal,
que possuem linguagens diferentes da linguagem proposicional e da linguagem de pri-
meira ordem, mas cujas relações de inferência possuem as mesmas características de =c
(no sentido acima descrito).
Mas obviamente não é só em relação à linguagem lógica que dois sistemas lógicos
podem diferir um do outro. Mais especificamente, se um sistema lógico S é caracteriza-
do como um par <L,= > então dois sistemas lógicos S1=<L1,= 1> e S2=<L2,= 2> podem
diferir um do outro em no mínimo três aspectos fundamentais:
(i) Pode ser que =1 seja igual a =2 mas L1 seja diferente de L2 (que foi o caso visto até agora);
(ii) Pode ser que L1 seja igual a L2, mas = 1 seja diferente de = 2;
(iii) E pode ser que tanto L1 seja diferente de L2 como = 1 seja diferente de = 2.
Podemos chamar a classe de sistemas que inclui a lógica clássica proposicional e to-
dos os sistemas lógicos que diferem dela de acordo com (i) de lógica clássica ou lógicas clás-
sicas. À classe dos sistemas que diferem da lógica proposicional de acordo com (ii) ou
(iii) podemos dar o nome de lógicas não clássicas. Equivalentemente, tomando a relação de
inferência clássica =c como parâmetro, dizemos que a lógica clássica é a classe de todos
os sistemas lógicos da forma S=<L,= c>, e as lógicas não clássicas são os sistemas lógi-
cos da forma S=<L,= nc>, em que = nc é diferente de = c13.
Exemplos de lógicas não clássicas são os sistemas lógicos em que o princípio do ter-
ceiro excluído não é válido. Em tais lógicas, entre as quais a lógica intuicionista é o exem-

13. É digno de nota que algumas pessoas alternativamente usam o termo “lógica clássica” para designar apenas as
lógicas proposicional e de predicados, e o termo “lógicas não clássicas” para referenciar todos os demais sistemas
lógicos. Neste livro abordaremos prioritariamente o que estamos chamando de lógica clássica. Breve menção, no
entanto, será feita no capítulo 7 sobre a lógica intuicionista e paraconsistente: no decorrer de nosso caminho de
construção do cálculo clássico proposicional definiremos um cálculo intuicionista e outro paraconsistente.

42
plar mais conhecido, não é o caso que = aÚØa (em que = é a relação de inferência de
tais sistemas), ou seja, o princípio do terceiro excluído não é válido. Outro exemplo é a
lógica paraconsistente, na qual o princípio da explosão (9) não é valido. Em outras palavras,
em tais sistemas lógicos não é o caso que GÈ{b,Øb}ëa, para todo aÎL; pode haver
enunciados da linguagem lógica que não são deduzidos a partir de uma contradição. Co-
mumente nessas lógicas também não valem o princípio da redução ao absurdo (8) e o
princípio da não contradição (7). Apesar de a ênfase deste livro ser na exposição das ló-
gicas clássicas proposicional e de primeira ordem, introduziremos no capítulo 7 alguns sis-
temas lógicos não clássicos, entre eles um sistema intuicionista e dois paraconsistentes.
Dois pontos devem ser mencionados antes de terminarmos este capítulo. Primeiro
um esclarecimento em relação ao uso da palavra “lógica”. Conforme o leitor deve ter
observado, temos usado, nesta seção, esse termo para designar um sistema lógico espe-
cífico ou uma classe de sistemas lógicos. Assim falamos, por exemplo, na lógica clássica
proposicional e na lógica de predicados de primeira ordem, designando dois sistemas
lógicos específicos, e também na lógica clássica e na lógica paraconsistente, designando
dessa forma classes de sistemas lógicos. Assim, é prática comum se usar o termo “lógi-
ca” para se referir tanto à disciplina incumbida de desenvolver e estudar sistemas lógicos,
como aos próprios sistemas lógicos.
Segundo, existem basicamente duas maneiras distintas de se definir a relação de in-
ferência de um sistema lógico: semanticamente e sintaticamente. Grosso modo, a distinção é
que, enquanto a definição semântica faz uso de conceitos semânticos como o conceito
de verdade e, em última instância, atenta para o significado dos símbolos, em uma abor-
dagem sintática nenhuma consideração é feita sobre o significado dos termos, enfocan-
do-se exclusivamente a forma lógica dos enunciados. Por fazer referência ao significado
dos símbolos, uma definição semântica é mais intuitiva, no sentido de que o fato de tal
definição ser ou não uma construção do que entendemos como sendo a relação de con-
sequência lógica ser mais facilmente identificável. Por outro lado, no uso efetivo da re-
lação de inferência na avaliação de argumentos, uma definição sintática é mais eficiente.
Assim, tradicionalmente, a relação de inferência de um sistema lógico é definida tanto
sintática como semanticamente. E, para distinguir uma da outra, usa-se tanto uma no-
menclatura como uma simbologia especial. Para a relação de inferência definida sintati-
camente reservamos o termo “relação de dedução”, sendo um símbolo especial, “„”,
usado para designar tal relação. Para a relação de inferência definida semanticamente re-
servamos o termo “relação de consequência lógica”, sendo o símbolo “ë” usado para
designá-la. Quando quisermos falar de tal relação independentemente de ela ser defini-
da sintática ou semanticamente, procedemos como fizemos aqui e usamos a expressão
“relação de inferência” e o símbolo = .

43
Dado isso, uma maneira mais correta de caracterizar um sistema lógico seria identi-
ficá-lo como uma tripla
<L,„,ë>,
em que L é sua linguagem lógica, „ sua relação de inferência definida sintaticamente e
ë a mesma relação definida semanticamente. A parte incumbida de definir ë nós cha-
mamos de a semântica da lógica em questão. A parte do sistema incumbida em definir „
nós chamamos de o cálculo do sistema. É assim que falamos, por exemplo, no cálculo
proposicional e no cálculo de predicados de primeira ordem, significando com isso a
definição sintática da relação de inferência da lógica clássica proposicional e da lógica
clássica de predicados de primeira ordem, respectivamente. Enquanto que as semânti-
cas das lógicas clássicas proposicional e de predicados de primeira ordem são introduzi-
das nos capítulos 4 e 10, respectivamente, os cálculos proposicional e de predicados de
primeira ordem são introduzidos nos capítulos 5 e 11, respectivamente14.
Mas dado que podemos definir a relação de inferência ë de uma lógica sintática e
semanticamente, sendo essas definições, do ponto de vista formal, naturalmente dife-
rentes, podemos perguntar: como saber se a definição sintática „ e a definição semânti-
ca ë definem realmente a mesma coisa, isto é ë? Trivialmente, para que „ e ë realmente
correspondam à mesma relação de inferência, dado um conjunto de fórmulas GÎL e
uma fórmula aÎL, devemos ter que
(10) se G„a então Gëa,
e que
(11) se Gëa então G„a.
Em outras palavras, deve ser o caso que se <L,a> é um argumento válido de acordo
com a relação de inferência sintática „, ele também deve ser de acordo com a relação
semântica ë, e se <L, a> é um argumento válido de acordo com „, ele também deve
ser de acordo com ë. Chamamos a propriedade (10) de a corretude do sistema lógico em
questão, e (11) de sua completude. A demonstração de tais propriedades é um dos resulta-
dos mais importantes do que chamamos acima de metalógica. Reservamos o capítulo
12 para tratar da metalógica, sendo os teoremas da corretude e da completude tratados
na seção 12.4.

14. É digno de nota que há maneiras diferentes de definir sintaticamente uma relação de inferência. Pode-se ter,
por exemplo, um cálculo axiomático, isto é, um cálculo que é definido de acordo com o chamado método axiomáti-
co, um cálculo de dedução natural ou um cálculo de sequente. Neste livro utilizaremos exclusivamente o método
axiomático para definirmos os nossos cálculos. Informações detalhadas sobre em que consiste tal método são da-
das na seção 5.2.

44
2.3 Exercícios propostos
1. Como devemos entender a expressão “lógica matemática”?
2. Responda as perguntas abaixo:
a. Qual a forma geral da relação de dedução =?
b. Na relação a seguir, o que são premissas e o que é conclusão?
{AÚB,ØB,AÚC®ØD}=ØD.
c. Mencione e explique três propriedades que a relação de dedução ë pode ter.
3. Responda as perguntas abaixo:
a. O que é um sistema lógico?
b. Em que aspectos dois sistemas lógicos podem diferir um do outro?
4. Explique a diferença, do ponto de vista da lógica, entre sintaxe e semântica.
5. Mencione dois sistemas lógicos não clássicos, e diga quais suas características identifi-
cadoras.
6. Quais as duas principais maneiras de se definir uma relação de inferência?
7. De acordo com a nomenclatura que utilizamos, qual a diferença entre =, „ e ë?
8. O que é corretude e completude?

45
LÓGICA PROPOSICIONAL
3
Linguagem proposicional

3.1 Linguagens lógico-formais e linguagem natural


Conforme dissemos no capítulo anterior, um sistema lógico pode ser caracterizado
como um par <L,=> em que L é a sua linguagem lógica e = é a sua relação de inferência
ou, alternativamente, como um triplo <L,„,ë> em que L é a linguagem lógica, „ a rela-
ção de inferência (= ) definida sintaticamente e ë a mesma relação definida semantica-
mente. Neste capítulo introduziremos uma linguagem lógica específica que faz parte de
diversos sistemas lógicos: a linguagem proposicional. Essa linguagem já foi na verdade intro-
duzida informalmente e de forma muito breve no primeiro capítulo. Nele nós a utiliza-
mos para evidenciar a utilidade de um simbolismo especial na representação da estrutura
lógica de sentenças e argumentos. Continuaremos aqui essa empreitada elucidativa e, an-
tes de apresentarmos a linguagem proposicional propriamente dita, tentaremos elaborar
um pouco mais sobre a necessidade de dispormos de linguagens lógico-formais na repre-
sentação de enunciados e no estudo dos argumentos válidos15.
Para começar, poderíamos perguntar por que, ao invés de símbolos especiais, que
sem sombra de dúvida são extremamente estranhos ao não iniciado, não utilizamos
uma linguagem natural específica, já que as linguagens naturais são indubitavelmente
capazes de representar a grande maioria dos argumentos?16
Um primeiro ponto a ser evocado na resposta a essa pergunta é o fato, já discutido
no primeiro capítulo, de que a lógica deve se preocupar com a forma, e não com o con-
teúdo dos enunciados. Assim, é importante dispor de símbolos que, não tendo atrelado

15. Convém advertir que essa seção tem como objetivo esclarecer alguns pontos cruciais a respeito do uso de lin-
guagens formais em geral. Assim, de forma semelhante a como fizemos no capítulo 1, visando tornar mais enfáticos
alguns pontos cruciais da nossa exposição, faremos uso aqui de notação não pertencente à linguagem proposicio-
nal (que é o foco principal do capítulo), mas a outra linguagem lógica, a ser introduzida formalmente no capítulo 9,
chamada de linguagem de predicados de primeira ordem.
16. Uma exceção disso são obviamente os argumentos matemáticos que, por sua própria natureza, exigem uma
simbologia especial.

49
a eles nenhum significado específico, deixem clara a forma lógica dos enunciados. Na-
quele capítulo demos como exemplo que a forma do argumento
(1) Se Sócrates é homem, então Sócrates é mortal.
Sócrates é homem.
Portanto, Sócrates é mortal.
apenas ficaria explícita quando substituíssemos o conteúdo específico dos enunciados
que compõem o argumento pelo que podemos chamar de variáveis proposicionais, ou
seja, símbolos que não denotam nenhuma proposição em particular, mas apenas mar-
cam um lugar que pode ser ocupado por qualquer enunciado:
(1’) Se A, então B.
A.
Portanto, B.
Além disso, visto que a forma gramatical exibida por um enunciado escrito em lin-
guagem natural pode não corresponder a sua forma lógica, utilizar a linguagem natural
sem nenhum refinamento pode atrapalhar a tarefa do lógico de identificar os argumen-
tos válidos. Entre os exemplos que demos no capítulo 1, vimos que, a despeito de sua
forma gramatical, a forma lógica da sentença
(2) Todos os homens são mortais
é mais adequadamente representada pelo esquema de sentença abaixo:
(2’) Para todo indivíduo x, se x é Z, então x é Y,
ou, já utilizando o simbolismo de uma linguagem lógico-formal:
(2”) "x(Z(x)®Y(x))
Diretamente relacionado com essa dificuldade da linguagem natural em exibir de
forma clara a estrutura lógica dos enunciados está o fato de que muitas vezes o significa-
do ou papel lógico de certos termos da linguagem natural é ambíguo. Considere os se-
guintes enunciados:
(3) Os rubis são vermelhos.
(4) Os meses do ano são doze.
Uma análise superficial desses enunciados poderia nos levar a concluir que, tendo a
mesma estrutura ou forma gramatical, eles devem obviamente possuir a mesma forma
lógica, mesmo que essa forma lógica seja diferente das suas formas gramaticais. Após
uma breve reflexão, no entanto, concluiremos que o significado, digamos assim, do ver-
bo “ser” em (3) é completamente diferente do seu significado em (4), o que certamente
implicará formas lógicas diferentes. Ao dizer que os rubis são vermelhos, estamos obvi-
amente querendo dizer que os rubis possuem a propriedade vermelha, ou que a classe

50
de rubis está contida na classe de objetos vermelhos. Utilizando o formalismo que in-
troduzimos informalmente no capítulo 1, representaríamos isso da seguinte forma:
(3’) "x(R(x)®V(x))
em que R significa a propriedade de ser rubi e V a propriedade de ser vermelho. Já no
caso de (4), estamos simplesmente querendo dizer que o número de meses (em um ano)
é igual a doze, o que pode ser representado simplesmente por
(4’) Número de meses = 12
Assim, claramente o significado ou papel lógico do verbo “ser” é ambíguo: enquan-
to em (3) ele significa algo como continência entre conjuntos ou classes, em (4) ele já
significa identidade. Consideremos outro exemplo:
(5) Os quadrados são losângulos e retângulos.
(6) Os seres vivos são os animais e os vegetais .
Aqui, (5) e (6) estão usando o conectivo “e” com significados completamente dife-
rentes. Isso pode ser visto se representamos (5) e (6) em termos de conjuntos:
(5’) Quadrado = Losângulo Ç  Retângulo.
(6’) Ser vivo = Animais È Vegetais.
em que Ç  significa intersecção entre conjuntos, e È união. Aqui temos que, enquanto
em (5) o conectivo “e” significa interseção entre conjuntos, em (6) ele significa união,
ou seja, duas coisas completamente diferentes. Essa ambiguidade se tornará ainda mais
clara se decidirmos representar (5) e (6) formalmente:
(5”) "x(Q(x)®L(x)ÙR(x))
(6”) "x(S(x)®A(x)ÚV(x))
em que o Q significa a propriedade de ser quadrado, L a de ser um losângulo, R a de ser
um retângulo, S a de ser um ser vivo, A a de ser um animal, e V a de ser um vegetal.
Aqui, além de termos que as formas de (5”) e (6”), que supostamente revelam as formas
lógicas de (5) e (6), respectivamente, são diferentes das formas gramaticais exibidas em
(5) e (6), temos curiosamente que o termo “e” presente em (6) corresponde na verdade
não a uma conjunção, mas a uma disjunção, ou seja, ao termo “ou”, que na nossa sim-
bologia é representado por Ú.
Alguém poderia, no entanto, perguntar se a ambiguidade é realmente ruim. É real-
mente tão importante assim que os nossos enunciados sejam isentos de ambiguidade?
Para responder essa pergunta, suponha que estejamos analisando a validade do seguinte
argumento, e o façamos sem tradução para uma linguagem formal:
(7) x é y.
Portanto, y é x

51
em que x e y são dois objetos quaisquer. Como aqui não estamos interessados em um argu-
mento em particular, mas em toda uma classe de argumentos que possuem a forma de (7),
não devemos especificar o que são os objetos x e y. Claramente então a pergunta que nos
interesse é: o esquema de argumento (7) é válido ou não? Ou, em outras palavras, é o caso
que todos os argumentos que possuem a mesma estrutura de (7) são válidos?
Infelizmente, neste caso, nós não seremos capazes de dar uma resposta, pois, como
vimos, o significado do termo “é” é ambíguo. Se interpretarmos “é” como em (4), em
termos de identidade, claramente o argumento acima será válido. No entanto, se o in-
terpretarmos como em (3), ele será inválido, pois o fato de a classe de rubis, por exem-
plo, estar contida na classe de coisas vermelhas não implica que a classe de coisas ver-
melhas esteja também contida na classe de rubis. Assim, a menos que desambiguemos o
significado dos termos de nossa linguagem, a nossa tarefa de análise lógica dos argu-
mentos estará seriamente comprometida.
Outra fonte de ambiguidade em linguagem natural é o fato de ela permitir certos as-
sim chamados termos lógicos, por exemplo, aparecerem em qualquer parte da sentença.
Considere o termo “não”, por exemplo. De uma forma geral, existem diversas maneiras
através das quais um enunciado pode ser negado, e o que acontece é que algumas dessas
construções são de fato ambíguas. Considere o enunciado abaixo:
(8) Todos os homens não são bons.
Claramente este enunciado é ambíguo. Não está claro se aqui queremos dizer que
(9) Nenhum homem é bom,
que será verdade somente se nenhum homem possuir a característica de ser bom, ou se
queremos ao invés disso dizer que
(10) Não é o caso que todos os homens são bons,
que, para ser verdade, é necessário que apenas haja algum homem que não seja bom.
Esse tipo de problema é resolvido nas linguagens formais definindo regras rígidas
de formação de enunciados, de forma que os termos que compõem um enunciado só
possam aparecer em posições fixas e bem definidas dentro do enunciado. Por exemplo,
na maioria das linguagens lógico-formais, o símbolo Ø, correspondente ao “não”, apa-
rece sempre imediatamente antes da sentença que ele nega, de forma a impedir constru-
ções como (8), onde a negação aparece antes do verbo. Assim, (9) e (10) seriam repre-
sentados, respectivamente, como segue:
(9’) "x(Hx®ØBx)
(10’) Ø"x(Hx®Bx),

52
em que H significa a propriedade de ser homem e B a propriedade de ser bom. Aqui, ve-
mos ainda mais claramente em que sentido (9) e (10) diferem um do outro.

3.2 Símbolos proposicionais e conectivos lógicos


Um dos objetivos então a serem perseguidos na construção de uma linguagem lógi-
ca é que seus termos sejam livres de ambiguidade, o que significa que cada termo da lin-
guagem deve ter apenas um significado ou interpretação. Também queremos obvia-
mente que tais termos tenham no mínimo uma interpretação, ou seja, não queremos
termos que não signifiquem nada.
Apesar de tais diretrizes, bastante razoáveis, devemos admitir, a questão do signifi-
cado dos termos de uma linguagem lógica é algo que, talvez surpreendentemente, não
está contemplado na definição formal da linguagem: a atribuição de algo digno de ser
chamado de o significado dos termos da linguagem lógica aparecerá apenas nas defini-
ções sintática e semântica da relação de inferência. De um ponto de vista rigoroso, lin-
guagens lógicas são estruturas não interpretadas, isto é, estruturas cujo significado de seus
termos está completamente em aberto, por assim dizer. No entanto, por fins didáticos,
introduziremos nesta seção a linguagem proposicional fazendo referência ao significa-
do ou interpretação de seus componentes, estando claro, no entanto, que a definição
formal de tal significado será feita apenas nos capítulos 4 e 5.
Uma das características mais relevantes do que estamos chamando aqui de lingua-
gens lógico-formais é a sua composicionalidade. Tal característica pode se apresentar em di-
versos níveis da construção de um sistema lógico; no que concerne à construção de uma
linguagem, composicionalidade significa basicamente que os elementos desta lingua-
gem devem ser compostos por, ou serem construídos a partir de, elementos mais sim-
ples. Por exemplo, a sentença
(11) No verão o sol nasce mais cedo e se põe mais tarde, e no inverno ele nasce mais
tarde e se põe mais cedo.
que obviamente pertence a uma linguagem específica, é composta por vários compo-
nentes mais simples da mesma linguagem, a saber, os termos “No”, “verão, “o”, “sol”,
“nasce”, “mais”, etc. No que se refere a sentenças ou enunciados, podemos dizer que,
em certo sentido, (11) é composto por, ou é construído a partir de, outros enunciados
mais simples, a saber,
(12) No verão o sol nasce mais cedo e se põe mais tarde.
(13) No inverno o sol nasce mais tarde e se põe mais cedo.

53
que são “unidos” com o auxílio do termo “e” (antecedido pelo símbolo “,”)17. (12) e (13),
por sua vez, também podem ser tomados como compostos por outros enunciados mais
simples. No caso de (12), podemos dizer que ele é composto pelos dois enunciados abaixo:
(14) No verão o sol nasce mais cedo.
(15) No verão o sol se põe mais tarde.
Já no caso de (13), dizemos que ele é composto pelos enunciados abaixo:
(16) No inverno o sol nasce mais tarde.
(17) No inverno o sol se põe mais cedo.
Veja que se assumimos que todo enunciado em uma linguagem é composto por
enunciados mais simples, é necessário que haja certo conjunto de enunciados elementa-
res, ou seja, que, apesar de servirem de base para a construção ou composição de todos
os outros enunciados, eles mesmos não são compostos por enunciados mais simples. A
tais enunciados nós damos o nome de enunciados atômicos.
Na linguagem proposicional, os chamados símbolos proposicionais correspondem a tais
enunciados atômicos. Apesar de que aqui não iremos impor nenhuma restrição no que se
refere à forma gráfica dos símbolos proposicionais, iremos comumente usar letras maiús-
culas do alfabeto latino para representar tais símbolos. Assim, se quiséssemos, por exem-
plo, representar os enunciados acima na linguagem proposicional, poderíamos dizer que
os símbolos proposicionais A, B, C e D significam, respectivamente, (14), (15), (16) e (17):
A: No verão o sol nasce mais cedo.
B: No verão o sol se põe mais tarde.
C: No inverno o sol nasce mais tarde.
D: No inverno o sol se põe mais cedo.
Dois pontos devem ser bem compreendidos no momento de se realizar a empreita-
da de representar enunciados em língua natural na linguagem proposicional. Primeiro,
que apenas enunciados completos, passíveis de serem verdadeiros ou falsos, podem ser
representados como símbolos proposicionais. Por exemplo, o fragmento “se põe mais
tarde” não pode, a rigor, ser representado por um símbolo proposicional, pois é um
enunciado incompleto, não passível de ser classificado como falso ou verdadeiro; “O
que se põe mais tarde?”, poderíamos perguntar.
Segundo, apenas enunciados atômicos, que não podem ser divididos em enuncia-
dos (completos) mais simples, podem ser representados como símbolos proposi-

17. Veja aqui que substituindo o pronome “ele” pelo termo “sol” em (13) tornamos explícito o que em (11) estava
obviamente claro, mas apenas de uma forma implícita: que o pronome “ele” se refere ao termo “sol”.

54
cionais. Assim, seria incorreto representar, por exemplo, (12), como um símbolo pro-
posicional, pois claramente (12) é composto por dois outros enunciados, a saber, (14) e
(15). Para representar (12) precisamos juntar, por assim dizer, os enunciados (14) e (15)
como auxílio da conjunção “e”. Como vimos rapidamente no capítulo 1, usa-se comu-
mente o símbolo “Ù“ para representar o termo “e”, de forma que (12) seria representa-
do na linguagem proposicional como segue:
(12’) AÙB
(13) por sua vez seria representado por
(13’) CÙD
Chamamos Ù de o conectivo da conjunção, ou simplesmente conjunção. Veja que po-
demos usar a conjunção quantas vezes quisermos para formar enunciados não atômi-
cos ou complexos. Podemos, por exemplo, juntar (12’) e (13’) e assim obter uma represen-
tação ou tradução de (11) na linguagem proposicional:
(11’) (AÙB)Ù(CÙD)
Os parênteses aqui servem para delimitar os componentes da conjunção, ou seja,
que o enunciado ou fórmula (11’) é composta pela conjunção das fórmulas AÙB e CÙD.
Como vimos na seção anterior, entretanto, o termo “e” da linguagem natural pode
ter mais de um significado. Uma maneira de não deixar dúvidas em relação ao fato de
que o que queremos representar com Ù é precisamente o conceito de conjunção é exa-
minar o que chamamos de tabela de verdade do conectivo Ù:

a b aÙb
V V V
V F F
F V F
F F F

Aqui a e b são duas fórmulas quaisquer, sejam atômicas ou não (a pode ser, por
exemplo, o enunciado ou fórmula atômica A, mas também a fórmula AÙB, a fórmula
(AÙB)Ù(BÙC), etc.); “V” e “F” significam, respectivamente, “verdadeiro” (ou “verda-
de”18) e “falso”. Dizemos que “V” e “F” são os dois possíveis valores de verdade de uma
fórmula. Assim, o que temos acima é a representação do valor de verdade de aÙb (colu-

18. Estaremos aqui usando os termos “verdade” e “verdadeiro” de forma equivalente. Em particular, usaremos am-
bos os termos como qualificadores de enunciados e fórmulas (o conceito de fórmula será explicado logo abaixo).
Por exemplo, podemos escrever tanto “o enunciado S é verdade” como o “o enunciado S é verdadeiro”.

55
na mais à direita) em cada uma das possíveis combinações de valores de verdade de a e
b (duas colunas mais à esquerda). Por exemplo, temos na primeira linha da tabela que se
a é verdade e b é verdade, então aÙb é verdade. Se a é verdade, mas b é falso, teremos
que aÙb é falso. O mesmo acontece se a é falso e b é verdade, e se ambos são falsos.
Enquanto que símbolos proposicionais fazem parte do que chamamos de símbolos
não lógicos da linguagem proposicional, o conectivo Ù faz parte dos símbolos lógicos da lin-
guagem proposicional. Um segundo símbolo lógico, que obviamente pode ser usado na
construção de fórmulas complexas, é o símbolo de negação Ø19. Por exemplo, se quiser-
mos representar o enunciado
(18) No verão o sol não nasce mais cedo.
que efetivamente é verdadeiro em regiões muito próximas ao equador, escreveríamos
(18’) ØA
Lemos ØA como “não é o caso que A”, ou simplesmente “não A”. Se quiséssemos
representar a negação de (11) escreveríamos
(19) Ø((AÙB)Ù(CÙD))
Veja que aqui o uso dos parênteses é indispensável para evitar ambiguidades: ao co-
locarmos toda a fórmula (AÙB)Ù(CÙD) entre parênteses, com Ø antecedendo o primei-
ro parêntese, deixamos claro que o que se está negando é efetivamente (AÙB)Ù(CÙD).
Contraste isso com uma situação na qual tivéssemos dispensado estes parênteses mais
externos:
(19’) Ø(AÙB)Ù(CÙD)
Aqui, estaria no mínimo ambíguo se o que estamos negando é a fórmula AÙB ou a
fórmula (AÙB)Ù(CÙD). Assim, para evitar ambiguidade na escrita das nossas fórmulas,
em muitos casos é imprescindível que façamos uso dos parênteses.
Conforme mencionamos na seção anterior, o fato de a linguagem natural permitir
que o termo “não” apareça em vários lugares dentro do enunciado é fonte de ambigui-
dades. Isso é evitado na linguagem proposicional, e na verdade na maioria das lingua-
gens lógico-formais, exigindo que o símbolo da negação apareça necessariamente antes
do enunciado que está sendo negado, sendo tal enunciado bem definido, possivelmente
com o auxílio de parênteses. A tabela de verdade de Ø, extremamente simples, diga-se
de passagem, é como segue:

19. É bastante comum encontrarmos também o símbolo ~ como significando o símbolo lógico da negação.

56
a Øa
V F
F V

Temos aqui que Øa é verdade se e somente se a for falso, e Øa é falso se e somente


se a for verdade.
O terceiro símbolo lógico tenciona representar a disjunção, expressa em linguagem na-
tural através do termo “ou” e representada aqui pelo símbolo Ú. Assim, se a e b são duas
fórmulas, aÚb também será uma fórmula, neste caso significando “a ou b”. Supondo,
por exemplo, que os símbolos proposicionais E e F tenham os significados abaixo:
E: O quarto está arrumado.
F: O carro está limpo.
o enunciado
(20) O quarto está arrumado ou o carro está limpo.
seria representado na linguagem proposicional por
(20’) EÚF
Segue abaixo a tabela de verdade do Ú:

a b aÚb
V V V
V F V
F V V
F F F

Aqui temos que no mínimo um dos membros da disjunção deve ser verdade para
que toda a fórmula seja verdade: nos casos em que a e b são ambos verdade, a é verda-
de e b é falso, e a é falso e b é verdade, aÚb é verdade. O único caso em que aÚb é falso
é quando tanto a como b são falsos.
Aqui se poderia objetar que a interpretação contida na primeira linha da tabela, que diz
que se a e b são ambos verdadeiros, aÚb também o é, conflita com o uso corrente que fa-
zemos da palavra “ou”. De acordo com esta visão, a expressão “ou” encerra em si um as-
pecto exclusivo, de forma que para que a expressão “a ou b” seja verdade, não pode ser o
caso de ambos a e b serem verdade. Isso seria exemplificado pelo enunciado abaixo:
(21) Ou eu vou à faculdade ou eu vou à festa.

57
Aqui, claramente temos a ideia de que, para que (21) seja verdade, eu não posso ir
para a faculdade e também ir para a festa.
O que temos aqui, de fato, é mais um caso de ambiguidade da linguagem natural.
Existem, na verdade, dois usos para a palavra “ou” na linguagem natural: o uso exclusivo,
exemplificado por (21), e o uso inclusivo, exemplificado por (20). Enquanto que a disjun-
ção exclusiva proíbe que ambos os termos da disjunção sejam verdadeiros, a disjunção inclu-
siva já permite isso. Para ver que (20) efetivamente incorpora essa interpretação inclusi-
va, basta ver que um pai que ordene a seu filho que arrume o quarto ou lave o carro difi-
cilmente poderá reclamar se o rapaz fizer ambos.
Isso é obviamente importante para nós, pois a noção capturada por Ú é o ou inclusi-
vo, não o ou exclusivo. No entanto, podemos facilmente, utilizando os conectivos vis-
tos até agora, representar a ideia por trás da noção de disjunção exclusiva. Supondo que
os símbolos proposicionais G e H sejam interpretados como segue:
G: Eu vou à faculdade.
H: Eu vou à festa.
(21) seria traduzido para a linguagem proposicional como segue:
(21’) (GÚH)ÙØ(GÙH)
em que claramente há a proibição de que ambos G e H sejam verdadeiros.
O último símbolo lógico do qual falaremos aqui tenta capturar a noção de condiciona-
lidade encontrada em expressões da linguagem natural como “se ... então”. Considere a
sentença abaixo, por exemplo:
(22) Se há fumaça, então há fogo.
Aqui, os dois enunciados que compõem (22) estão estruturados de tal forma que a
veracidade do primeiro garante a veracidade do segundo, isto é, se o enunciado “há fu-
maça” é verdade, então o enunciado “há fogo” também o é. Representaremos essa no-
ção através do símbolo ®, de forma que se a e b são fórmulas, a®b também é uma
fórmula. a®b pode ser lido como “se a, então b”, “a implica b” ou “a somente se b”.
O símbolo ® é comumente chamado de condicional ou implicação material 20. Supondo que
os símbolos proposicionais I e J sejam interpretados como descrito abaixo:
I: Há fumaça.
J: Há fogo.

20. Também encontramos, principalmente nos manuais de lógica mais antigos, o símbolo É como designando a im-
plicação material.

58
(22) seria traduzido para a linguagem proposicional como segue:
(22’) I®J
A enunciados deste tipo damos o nome de implicações ou condicionais, visto que a vera-
cidade do antecedente do condicional – no caso de (22’) a fórmula I – é uma condição sufi-
ciente para a veracidade do seu consequente – no caso de (22’) a fórmula J. Isso pode ser
visto melhor se lemos I®J como “I somente se J”: I é verdade somente se J for verdade,
há fumaça somente se houver fogo. A tabela de verdade de ® é como segue:

a b a®b
V V V
V F F
F V V
F F V

Aqui temos, antes de tudo, na primeira linha da tabela, que se ambos antecedente e
consequente de um condicional são verdadeiros, então o condicional como um todo
também o é. Por outro lado, caso o antecedente a seja verdade e o consequente b seja
falso, trivialmente a®b é falso. Isso está dito na linha seguinte. As linhas terceira e
quarta da tabela basicamente dizem que, independentemente do valor de verdade do
consequente, caso o antecedente de um condicional seja falso, o condicional como um
todo será verdade. Veja que a primeira e terceira linhas da tabela estabelecem algo seme-
lhante relativo ao consequente: independentemente do valor de verdade do anteceden-
te, caso o consequente seja verdade, o condicional também o é.
O leitor atento deve ter notado algo de estranho na determinação do valor de ver-
dade de a®b dado nas duas últimas linhas da tabela. Enquanto parece extremamente
razoável considerar a®b como verdade quando a é verdade e b é verdade, e como fal-
so quando a é verdade e b é falso, à primeira vista parece um pouco bizarro dizer que
a®b é verdade em uma situação onde a é falso e b é verdadeiro. Tal estranheza au-
menta quando juntamos isso com o afirmado na quarta linha da tabela – que diz que
a®b é verdade se a é falso e b é falso – e vemos que, caso a seja falso, independen-
temente do valor de verdade de b, a®b é verdade.
Uma maneira de justificar isso seria como segue. Quando dizemos “se a então b”,
ou “a somente se b”, estamos basicamente estabelecendo uma relação entre os valores
de verdade dos enunciados a e b, a saber, a relação que diz que se a for verdade, b tam-
bém o é. Há, através desses enunciados, algo como que a garantia de que sempre que a
for verdade, b também o será. Mas veja que essa relação só especifica algo a respeito da

59
situação na qual a é verdade: ela não diz nada sobre uma circunstância onde a seja falso.
É mais ou menos como se ao dizer a®b eu esteja assumindo um compromisso de ga-
rantir que, caso a seja verdade, b também o será. No entanto, ao fazer isso, eu não estou
assumindo compromisso nenhum no caso de a ser falso. Caso a seja falso e b seja ver-
dadeiro, ou a falso e b falso, o meu compromisso expresso através de a®b não terá
sido em absoluto invalidado.
Outra maneira de justificar estas duas últimas linhas é fazer referências ao fato ób-
vio que, seja qual for nossa análise da implicação, o enunciado “se a e b, então b” deve
ser verdade em todas as circunstâncias. Assim, em primeiro lugar, caso a seja falso e b
verdade, “a e b” será falso e b verdade, o que justificaria a terceira linha da tabela. Mas
se ambos a e b forem falsos, tanto “a e b” como b serão falsos, o que justifica por sua
vez a última linha da tabela.
No entanto, apesar de tal justificativa, pode-se replicar que há efetivamente algo de
paradoxal na tabela de verdade acima, e a razão disso é a importante constatação de que
não há exigência alguma, na nossa análise dos condicionais, de que o antecedente seja re-
levante para o consequente. Por exemplo, de acordo com a nossa interpretação, os enun-
ciados abaixo são verdadeiros:
(23) Se Napoleão Bonaparte não está morto, então a lua não é o único satélite da
terra.
(24) Se Napoleão Bonaparte está morto, então a lua é o único satélite da terra.
Isso obviamente é o caso devido ao fato já mencionado que qualquer condicional
com o consequente verdade ou antecedente falso é verdade. Portanto, pode-se objetar
que nossa análise lógica vai de encontro ao uso corrente de expressões condicionais em
linguagem natural.
No entanto, não é difícil de ver que nós efetivamente usamos, em linguagem natu-
ral, condicionais sem pressupor nenhuma conexão entre antecedente e consequente,
como, por exemplo, ao dizermos
(25) Se Maomé for um cristão, então eu sou um macaco.
ou
(26) Se 2+2 é igual a 4, então eu ganharei esta partida.
Enquanto em (25) estamos negando o antecedente, colocando-o em um condicional
com um consequente claramente falso, em (26) estamos afirmando o consequente, ape-
lando para o fato de que o antecedente é claramente verdade. Poder-se-ia, no entanto, re-
plicar que tais construções são indubitavelmente escassas no uso da linguagem natural.
Apesar de tal réplica obviamente não ser válida, pois uma construção linguística não deixa

60
de ser autêntica apenas por ser pouco usada, ela nos leva a considerar uma questão deve-
ras interessante na discussão ora em tela: por que seriam tais usos escassos?
A resposta a esta pergunta é que, na grande maioria das vezes, nos utilizamos de
construções do tipo “se ... então” apenas em circunstâncias nas quais os valores de ver-
dade do antecedente e consequente nos são desconhecidos. E em tais circunstâncias, a
“estranheza” do que está explícito nas linhas 3 e 4 da tabela de ® não pode se manifes-
tar. Mas uma das tarefas da análise lógica é tornar explícito o que se encontra apenas de
forma implícita nos usos correntes da linguagem natural. E para replicar eventuais acu-
sações de incorretude na nossa análise lógica, como a de que tal análise deixou de fora
algum aspecto importante na noção que ela tinha como objetivo analisar, exibem-se al-
gumas instâncias, claramente legítimas do ponto de vista do uso corrente da linguagem
natural, em que tal aspecto está presente. Assim, exibindo casos legítimos de uso de
condicionais em linguagem natural onde a referida relevância entre antecedente e con-
sequente não está presente, no mínimo abrandamos a acusação de que, por conta de
não levar tal aspecto em consideração, nossa analise seria de certa forma defeituosa21.
Para finalizar esta seção, devemos enfatizar o fato de que, na linguagem proposicio-
nal, proposições simples ou atômicas, representadas como vimos pelos símbolos pro-
posicionais, são tratadas como não analisáveis. Isto significa que não é feita nenhuma
tentativa de identificar a estrutura lógica de tais componentes. A única coisa que nos in-
teressa neste ponto são as relações lógicas entre proposições. Considere, por exemplo,
o enunciado abaixo:
(27) Há uma causa que é a causa de todas as coisas, sendo ela mesma não causada.
Aqui, obviamente, este enunciado é composto por enunciados mais simples, a saber,
(28) Há uma causa que é a causa de todas as coisas.
e
(29) A causa de todas as coisas é não causada.
que, por sua vez, são passíveis de serem analisados e terem suas partes constituintes de-
terminadas. E, devido ao uso do termo “causa”, muito provavelmente tal análise revela-
rá algo de comum entre as formas lógicas de (28) e (29). No entanto, no que se refere à
linguagem proposicional, o que estamos chamando aqui de análise lógica para, por as-
sim dizer, na determinação de que (27) é uma conjunção entre (28) e (29), não havendo
nenhum esforço para analisar a forma lógica de (28) e (29). Designando os símbolos

21. Convém notar que objeções à interpretação clássica da implicação material, que vão, na verdade, bem mais
além das objeções que mostramos aqui, levaram ao surgimento de lógicas que interpretam ® de forma diferente,
sendo as lógicas relevantes o melhor exemplo disso.

61
proposicionais K para representar (28) e L para representar (29), teríamos que (27) seria
representado por
(27’) KÙL
A análise de (28) e (29) só será possível a partir da quarta unidade deste livro, onde
introduziremos a linguagem de predicados de primeira ordem.

3.3 Definição da linguagem proposicional


Até agora apresentamos a linguagem proposicional de maneira informal. Nesta se-
ção apresentaremos tal linguagem de forma que possamos precisar com clareza que
enunciados realmente pertencem a essa linguagem. Vimos na seção anterior que a lin-
guagem proposicional tem três tipos de componentes: os símbolos lógicos, a saber Ø,
Ù, Ú e ®; os símbolos não lógicos, compostos pelo conjunto de símbolos proposicio-
nais; e os parênteses, que chamamos simplesmente de símbolos de pontuação – sendo os
enunciados pertencentes a linguagem proposicional formados por esses símbolos. Mas
pode-se perguntar: formados de que maneira? Por que, por exemplo,
(30) ((AÙB)®C)
pertence à linguagem proposicional mas
(31) (ÚCØ)Ú(®DAÚ)
não pertence? O nosso propósito nesta seção será definir de forma rigorosa a lingua-
gem proposicional de forma a podermos responder de forma inequívoca perguntas
como essa. Ademais, como veremos, para demonstrar certas propriedades da lógica em
questão, a linguagem e todos os outros componentes da lógica têm de estar definidos de
forma precisa.
Abaixo temos a definição que realiza essa tarefa de caracterizar de forma precisa a
linguagem proposicional.

DEFINIÇÃO 1.1 Seja P um conjunto contável de símbolos chamados símbolos


proposicionais. A linguagem proposicional LP é definida como segue:
(i) Se aÎP, então aÎLP;
(ii) Se aÎLP, então (Øa)ÎLP;
(iii) Se a,bÎLP, então (aÙb)ÎLP;
(iv) Se a,bÎLP, então (aÚb)ÎLP;
(v) Se a,bÎLP, então (a®b)ÎLP;
(vi) Nada mais pertence à LP.

62
Os itens (i)-(vi) são conjuntamente chamados de regras gramaticais ou regras de formação
de LP. Chamaremos os membros de LP de enunciados, proposições22 ou fórmulas.
Como, de acordo com a definição 1.1 o conjunto de símbolos proposicionais P é
um parâmetro a ser fornecido na construção de LP e como obviamente podemos con-
ceber diferentes conjuntos de símbolos proposicionais, teremos que, para cada conjun-
to de símbolos proposicionais fornecido, haverá uma linguagem proposicional diferen-
te. No entanto, qual conjunto de símbolos proposicionais é usado na definição de LP é
completamente irrelevante para o estudo que daremos cabo aqui. Assim, assumiremos
daqui em diante a existência de um conjunto arbitrário qualquer de símbolos proposicio-
nais a ser usado em conjunto com a definição 1.1. Conforme dissemos na seção anteri-
or, representaremos os elementos de P por letras maiúsculas (pertencentes, geralmente,
ao início) do alfabeto latino. Abaixo segue a definição que precisa os vários componen-
tes da linguagem proposicional:

DEFINIÇÃO 1.2 Chamamos o conjunto AP={Ø,Ù,Ú,®}È{(,)}ÈP de o alfabeto de


LP, sendo os membros de {Ø,Ù,Ú,®} chamados de símbolos lógicos de LP, os de P de sím-
bolos não lógicos e os membros de {(,)} de símbolos de pontuação23.
Vejamos agora como a definição 1.1 pode responder à pergunta que fizemos no iní-
cio desta seção, isto é, por que (30) pertence à LP, mas (31) não.
Em certo sentido, o que a definição 1.1 faz é exatamente nos dizer o que (isto é,
quais sequências de símbolos) pertence ou não à LP. Vejamos como isso acontece no
caso de (30). Para facilitar nosso trabalho, considere o que chamamos de a árvore sintática
da fórmula (30):
®

Ù C

A B

22. Tradicionalmente, em filosofia da linguagem e filosofia da lógica, os termos “proposição” e “enunciado” desig-
nam noções diferentes. Enquanto, por exemplo, “O céu é azul” e “The sky is blue” são enunciados de tipos diferentes,
escritos inclusive em línguas diferentes, esses dois enunciados expressam a mesma proposição. Há também autores
que estabelecem diferenças conceituais entre “enunciado” e “sentença”. Ignoraremos aqui tais distinções e usare-
mos os termos “proposição”, “enunciado” e “sentença” como sinônimos.
23. Em um sentido muito importante, os parênteses também são símbolos não lógicos. Entretanto, reservaremos
esse termo exclusivamente para aqueles símbolos não lógicos passíveis de interpretação semântica, como é o caso,
na linguagem proposicional, por exemplo, dos membros de P.

63
O que temos aqui é apenas uma forma alternativa, mais visual, diríamos, de repre-
sentar (30). O conectivo superior da árvore, no caso acima ®, diz que o enunciado em
questão é uma implicação. O que vem do lado esquerdo e direito de ®, unidos a ® por
uma linha, representam, respectivamente, o antecedente e consequente da implicação.
Do lado direito, no final da linha, temos apenas o símbolo proposicional C, significando
que o consequente da implicação é tal símbolo proposicional. Do lado esquerdo temos
ao final da linha o conectivo Ù, significando que o antecedente da implicação é uma
conjunção. Mas conjunção de quê? Essa pergunta é respondida examinando o que vem
no final das linhas à esquerda e direita de Ù, a saber, os símbolos proposicionais A e B.
Voltando à definição 1.1 e à pergunta de como podemos usá-la para saber se (30)
pertence ou não à LP, o que os itens (i)-(v) nos dizem é, basicamente, que forma as se-
quências de símbolos que pertencem à LP têm. De acordo com o item (v), sentenças da
forma (a®b) pertencem à LP se aÎLP e bÎLP. Claramente (30) tem a mesma forma
que (a®b), sendo que no seu caso a seria (AÙB) e b seria C. Assim, de acordo com o
item (v), se (AÙB)ÎLP e CÎLP, então ((AÙB)®C)ÎLP. Vemos então que, para respon-
der a nossa pergunta original, temos agora que responder duas perguntas intermediá-
rias, a saber, se (AÙB) pertence à LP, e se C pertence à LP. Em relação à segunda pergun-
ta, o item (i) nos garante que CÎLP, pois C é um símbolo proposicional, isto é, CÎP. No
caso de (AÙB), de acordo com (iii), se AÎLP e BÎLP, então (AÙB)ÎLP. Mas como
A,BÎP, isto é, como eles são símbolos proposicionais, temos por (i) que A e B perten-
cem à linguagem proposicional. Assim concluímos que ((AÙB)®C)ÎLP. Podemos re-
sumir esses passos como segue:

De acordo com Temos que


Item (v) 1. Se (AÙB)ÎLP e CÎLP, então ((AÙB)®C)ÎLP.
Item (iii) 1.1. Se AÎLP e BÎLP, então (AÙB)ÎLP.
Item (i) 1.1.1. AÎLP, pois AÎP.
Item (i) 1.1.2. BÎLP, pois BÎP.
Item (i) 1.2. CÎLP, pois CÎP.

Aqui, os membros da primeira coluna justificam a afirmação correspondente da se-


gunda coluna. Também a endentação dos membros da segunda coluna determina o pa-
pel justificativo do item em questão. Assim o item X.Y contribui para a justificação do
item X: por exemplo, 1.1 e 1.2 justificam 1; e 1.1.1 e 1.1.2 justificam 1.1. E repare que a
endentação dos passos acima repete a mesma estrutura da árvore da fórmula.
Vejamos como a definição funciona com outro exemplo:

64
(32) ((Ø((AÙB)®C))ÙD)
Abaixo temos a árvore da fórmula, e logo em seguida os passos que devem ser efe-
tuados para justificar, através da definição 1.1, que (32) pertencente à LP:

] D

®
Ù C
A B
De acordo com Temos que
1. Se (Ø((AÙB)®C))ÎLP e DÎLP, então
Item (iii)
((Ø((AÙB)®C))ÙD)ÎLP
Item (ii) 1.1. Se ((AÙB)®C)ÎLP, então (Ø((AÙB)®C))ÎLP
Item (v) 1.1.1. Se (AÙB)ÎLP e CÎLP, então ((AÙB)®C)ÎLP
Item (iii) [Link]. Se AÎLP e BÎLP, então (AÙB)ÎLP
Item (i) [Link].1. AÎLP, pois AÎP
Item (i) [Link].2. BÎLP, pois BÎP
Item (i) [Link]. CÎLP, pois CÎP
Item (i) 1.2. DÎLP, pois DÎP

Agora podemos perguntar: Como a definição 1.1 irá, de forma precisa, nos dizer
por que o enunciado
(31) (ÚCØ)Ú(®DAÚ)
não pertence à LP? A resposta está no item (vi), que nos diz que tudo o que pertence à
linguagem deve satisfazer a um dos itens (i)-(v), o que obviamente significa que se uma
dada sequência de símbolos não satisfaz a nenhum desses itens, então tal sequência de
formulas não pertence à LP. No caso de (31), temos que ela possui a forma exigida pelo
item (iv) – (aÚb) – sendo a (ÚCØ) e b (®DAÚ). Mas para que (31) pertença à LP,
(ÚCØ) e (®DAÚ) devem, por sua vez, ambos pertencerem à LP. O problema é que cla-
ramente nós não podemos usar nenhum dos itens da definição 1.1 para justificar que

65
(ÚCØ)ÎLP ou que (®DAÚ)ÎLP. Consequentemente, de acordo com o item (vi), (31)
não pertence à LP.
Veja que nestas instâncias de uso da definição 1.1, nós procedemos primeiro apli-
cando a fórmula em questão, digamos (30), a um dos itens da definição, e então suces-
sivamente efetuando o mesmo procedimento a todas as fórmulas que compõem (30),
obedecendo obviamente à hierarquia dessas fórmulas dentro de (30) (tal hierarquia
está explícita na representação da fórmula em forma de árvore), até termos apenas
símbolos proposicionais que, dado o item (i) de 1.1, não mais produzem novas aplica-
ções de 1.1.
Além de vermos a definição 1.1 dessa forma, como um procedimento de verificação
de se uma determinada concatenação de símbolos pertence ou não à linguagem lógica,
também podemos vê-la como um procedimento de construção de fórmulas de LP a partir
de elementos mais simples, no caso símbolos proposicionais, conectivos lógicos e pa-
rênteses. Por exemplo, sabendo que AÎP e que BÎP, pelo item (i) temos que AÎLP e
BÎLP. Mas se isso é o caso, pelo item (v) temos que (A®B)ÎLP, o que também nos au-
toriza a concluir, pelo item (ii), que (Ø(A®B))ÎLP. Usando este último fato conjunta-
mente com o item (iii) temos que ((Ø(A®B))ÙA)ÎLP. Desta forma, podemos ad infini-
tum continuar neste processo de construção de fórmulas complexas a partir de fórmulas
mais simples. Assim, em última instância, o que a definição 1.1 faz é possibilitar que um
determinado conjunto, a saber, o conjunto LP de fórmulas da linguagem proposicional,
seja construído.
Um ponto digno de nota é a maneira como a definição 1.1 constrói o conjunto
LP. Primeiramente, nos é informado que os membros de outro conjunto, a saber, o
conjunto de símbolos proposicionais P, também são membros de LP. Isso é feito no
item (i). Após isso, isto é, após termos a informação de que todos os membros de P
são também membros de LP, informa-se, nos itens (ii)-(v), como esses membros de
P, que agora sabemos são também membros de LP, podem ser concatenados com os
símbolos Ø, Ù, Ú e ® de forma a obtermos outros membros de LP. Assim, dados
dois símbolos proposicionais A e B, que além de pertencerem à P também pertence
à LP – de acordo com (i)–, temos por (ii) que (ØA) e (ØB) também pertencem à LP,
assim como por (iii), (iv) e (v), respectivamente, que (AÙB), (AÚB) e (A®B) tam-
bém pertencem à LP.
A esse tipo de procedimento damos o nome de recursividade, sendo a definição
1.1 classificada como uma definição recursiva. A ideia básica da recursividade é a defi-
nição de uma noção específica utilizando, em alguns de seus passos, a própria no-
ção; em outras palavras, a noção é definida em função dela mesma. Isso aparece na

66
definição 1.1 nos itens (ii)-(v), em que, na execução da tarefa de definir o conjunto LP, fa-
zemos menção ao próprio conjunto LP. Mas então como podemos afirmar que estamos
definindo o conjunto LP, se para saber se um elemento pertence à LP eu já devo ser capaz
de dizer se outro elemento pertence à LP? Aparentemente a nossa definição seria circular
e no final não estaríamos definindo absolutamente nada. Felizmente esse problema não
acontece em uma definição recursiva, pois há o que chamamos de base da recursividade: uma
ou mais partes da definição que não se utilizam do conceito a ser definido e para o qual to-
dos os outros passos da definição levam. No caso da definição 1.1, sua base é o item (i):
como (i) não faz referência à LP para dizer se um elemento pertence à LP, ele é a etapa fi-
nal, podemos assim dizer, de qualquer uso que se faça da definição 1.1.
Uma das vantagens das definições recursivas é nos permitir definir, através de um
número finito de passos, entidades infinitas. No caso da definição 1.1, a partir de uma
classe de entidades básicas, a saber, o conjunto P, os símbolos lógicos e parênteses, e fa-
zendo uso de um número finito de passos ou regras de construção, podemos definir de
forma rigorosa um conjunto que é na verdade infinito. Como aqui estamos interessados
em caracterizar entidades infinitas como a classe de enunciados de uma linguagem, a
classe de argumentos válidos e a classe de sentenças logicamente verdadeiras, sem o uso
de definições recursivas nosso trabalho estaria seriamente comprometido. Conforme o
leitor terá oportunidade de constatar, boa parte das definições a serem apresentadas
aqui serão definições recursivas.
Alguns parágrafos acima nos referimos à noção de uma fórmula complexa ser com-
posta por outra fórmula menos complexa; no caso de (32), por exemplo, ela é compos-
ta, entre outras, pelas fórmulas abaixo:
(33) (Ø((AÙB)®C))
(34) D
(35) ((AÙB)®C)
Dizemos, neste caso, que (33), (34) e (35) são subfórmulas de (32). Essa ideia, na ver-
dade, é uma consequência natural da definição 1.1, já que, por exemplo, (32) é uma fór-
mula da linguagem proposicional devido ao fato de ser uma conjunção – ou seja, ter a
forma (aÙb) – entre duas concatenações de símbolos que por sua vez também são fór-
mulas de LP, a saber, (33) e (34). Assim, naturalmente muitos dos componentes de (32)
serão, eles mesmos, fórmulas. Pela mesma razão, podemos dizer que (35) é uma subfór-
mula de (33). Mas como (33) é uma subfórmula de (32), é natural que (35) seja também
considerada uma subfórmula de (32), o mesmo valendo às subfórmulas de (35), e assim
por diante. Essa noção de subfórmula pode ser definida de forma precisa como segue:

67
DEFINIÇÃO 1.3 Seja jÎLP uma fórmula da linguagem proposicional. Definimos a
noção de subfórmula como segue:
(i) j é uma subfórmula de j;
(ii) Se j 4 (Øa)24, então a é uma subfórmula de j;
(iii) Se j 4 (aÙb), então a e b são subfórmulas de j;
(iv) Se j 4 (aÚb), então a e b são subfórmulas de j;
(v) Se j 4 (a®b), então a e b são subfórmulas de j;
(vi) Se a é uma subfórmula de j e b é uma subfórmula de a, então b é uma subfór-
mula de j;
Veja que, semelhantemente à definição 1.1, essa nova definição também é uma defi-
nição recursiva, estando sua recursividade localizada no item (vi). É este item que, fa-
zendo uso da própria noção de subfórmula, faz com que possamos dizer que a subfór-
mula de uma subfórmula de j também é uma subfórmula de j, que a subfórmula de
uma subfórmula de uma subfórmula de j também é uma subfórmula de j, e assim por
diante. Repare que, de acordo com o item (i), toda fórmula j é uma subfórmula dela
mesma. Usando a definição 1.3 podemos identificar todas as oito subfórmulas de (32):
1. ((Ø((AÙB)®C))ÙD)
2. (Ø((AÙB)®C))
3. D
4. ((AÙB)®C)
5. (AÙB)
6. C
7. A
8. B
Um ponto importante no qual ainda não tocamos é que, de acordo com a definição
1.1, o uso dos parênteses para delimitar uma determinada cadeia de símbolos é necessá-
rio para que tal cadeia seja uma fórmula bem formada. Assim, por exemplo,
(36) AÚB
não é uma fórmula da linguagem proposicional; o correto seria escrever
(37) (AÚB)

24. O símbolo 4 denota a relação de identidade sintática, de forma que dadas duas concatenações de símbolos a e
b, a 4 b se se somente se os símbolos que compõe a e b são os mesmos, ordenados de forma idêntica. Assim,
(AÚB)®C 4(AÚB)®C. Por sua vez, (AÚB)®C 4 ((AÚB)®C) é falso, visto que não se trata de duas sequências de
símbolos idênticas.

68
que, neste caso sim, pertence à LP. O mesmo vale para (A®C)®D, ØB e DÙ(ØF), por
exemplo, cuja escrita correta seria, respectivamente, ((A®C)®D), (ØB) e (DÙ(ØF)).
Como vimos, a principal razão do uso dos parênteses na delimitação das subfór-
mulas dentro de uma fórmula é evitar ambiguidades. No entanto, nos casos acima, e em
muitos outros, do ponto de vista do que a fórmula quer dizer, não há comprometimen-
to algum em não escrevermos todos os parênteses exigidos pela definição 1.1: pode-
mos, por exemplo, escrever AÚB ao invés de (AÚB), ou (A®C)®D ao invés de
((A®C)®D). Isto é obviamente muito diferente de, digamos,
(38) CÙAÚB
em que temos que usar parênteses para tornar claro se estamos queremos dizer
(39) (CÙA)ÚB
ou
(40) CÙ(AÚB)
No entanto, o uso de parênteses, como exigido pela definição 1.1, pode muitas ve-
zes comprometer a legibilidade das fórmulas. Considere, por exemplo, a fórmula abai-
xo, que até o mais experiente dos lógicos necessitará dar uma segunda olhada para se
certificar de sua estrutura lógica:
(41) ((Ø(ØA))®((Ø((Ø(Ø(AÚB)))®C))ÙA))
Assim, para fins de clareza abandonaremos o uso dos parênteses sempre que não
houver perigo de ambiguidade. Relaxaremos um pouco as normas referentes ao uso
dos parênteses e nos permitiremos escrever fórmulas como, por exemplo, (A®C)®D,
ØB ou DÙ(ØF). Para isso, adotaremos as seguintes regras de omissão de parênteses.
Seja jÎLP uma fórmula da linguagem proposicional:

REGRA 1 Os parênteses mais externos de j podem ser omitidos.

REGRA 2 Os parênteses mais externos de uma subfórmula de j podem ser omiti-


dos caso o uso da seguinte ordem de precedência entre conectivos seja capaz de restau-
rar o sentido original da fórmula:
1. ® (menor precedência)
2. Ù Ú (precedência intermediária)
3. Ø (maior precedência)
Isso significa que Ø tem maior precedência que Ù e Ú, que por sua vez têm maior
precedência que ®. Ù e Ú não têm precedência alguma um sobre o outro. Por prece-
dência entre dois conectivos significamos que, caso apareçam em uma fórmula na qual

69
parênteses tenham sido omitidos, o conectivo de maior precedência será “resolvido”
antes do de menor precedência. Por exemplo, se escrevemos
(42) ØA®BÚC
estamos na verdade representando em forma abreviada a fórmula
(43) ((ØA)®(BÚC))
No processo de restaurar (42) para sua forma original, primeiro resolvemos o co-
nectivo de maior precedência, ou seja, a negação. Assim sabemos que o símbolo Ø em
(42) está negando o que vem imediatamente após ele, ou seja, A. Consequentemente es-
crevemos (ØA)®BÚC. Segundo, como Ú tem precedência sobre ®, resolveremos Ú
antes de ®, o que significa tornarmos explícito que Ú é uma conjunção entre o que vem
imediatamente à sua esquerda e o que vem imediatamente à sua direita, ou seja, entre B
e C. Portanto escrevemos (ØA)®(BÚC). Finalmente, restauramos os parênteses mais
externos e obtemos (43). É digno de nota que, se fizermos a árvore dessa fórmula, en-
quanto que o conectivo com menor prioridade, ®, ficará no topo da árvore, a negação,
que tem maior prioridade, ficará no nível imediatamente anterior ao último nível.
Veja que no caso da conjunção e disjunção, como nenhum dos dois tem precedên-
cia sobre o outro, o uso dos parênteses é necessário para evitar ambiguidades. Assim,
(38) é uma concatenação de símbolos que, devido ao fato de nossas regras não serem
capazes de desambiguizá-la, não abrevia fórmula alguma da linguagem proposicional.
De posse dessas regras de omissão de parênteses, podemos omitir boa parte dos pa-
rênteses de (43) e, consequentemente, torná-la bem mais legível:
(41’) ØØA®Ø(ØØ(AÚB)®C)ÙA
Esse procedimento de abreviar parênteses adotando uma escala de precedência entre
conectivos é semelhante ao que fazemos ao escrevermos expressões aritméticas sem utili-
zamos os devidos parênteses. Por que, por exemplo, não temos dificuldade em entender
o significado de 2*4+4? A rigor, esta expressão poderia significar tanto (2*4)+4 como
2*(4+4), o que obviamente são expressões diferentes: enquanto a primeira é igual a 12, a
segunda é igual a 16. A resposta para isso é que utilizamos uma regra de precedência simi-
lar à exposta acima: como * tem precedência sobre +, ao nos depararmos com 2*4+4 nós
resolvemos, literalmente, 2*4 antes, para só então resolvermos a adição.
O leitor atento deve estar se perguntando se essa economia de parênteses não vai de
encontro ao nosso propósito de rigor, visto que, de acordo com a definição 1.1, senten-
ças como (41’) e (42) não pertencem à linguagem proposicional. Neste ponto é impor-
tante frisarmos que, como já mencionamos acima, tais concatenações de símbolos são
na verdade abreviações de certas sequências de símbolos que, estas sim, pertencem à LP.
Assim, (41’) é na verdade uma abreviação para (41), e (42) é uma abreviação para (43).
Essa situação é equivalente a uma em que, por exemplo, eu, ao invés de escrever meu

70
nome completo, a saber, “Ricardo Sousa Silvestre”, escrevo simplesmente uma abrevia-
ção deste nome: “R. S. S”. Obviamente não existe uma pessoa chamada R. S. S. (pelo
menos não no sentido de haver, por exemplo, um CPF e RG associados a tal sequência
de símbolos). Essa sequência de símbolos na verdade é uma abreviação para outra se-
quência de símbolos, a saber, a sequência “Ricardo Sousa Silvestre”, que, esta sim, é o
nome de uma pessoa. Similarmente, ao escrevermos (41’), por exemplo, o que estamos
fazendo é escrevendo uma abreviação para uma fórmula pertencente à LP, a saber, (41);
não temos nenhuma pretensão com isso de dizer que, por exemplo, (41’) ela mesma é
uma fórmula da linguagem proposicional.
A utilidade de usar abreviações não se restringe à economia de parênteses. É muito
comum querermos manter o número de símbolos lógicos usados na gramática de nossa
linguagem relativamente reduzido, e introduzirmos outros símbolos lógicos de forma
derivada através de abreviações. Por exemplo, ao introduzirmos Ú, falamos de outro
tipo de disjunção, chamada por nós de disjunção exclusiva que, segundo dissemos,
pode ser representado através dos conectivos Ú, Ù e Ø. O exemplo dado foi que pode-
ríamos representar uma leitura exclusiva para o enunciado
(21) Ou eu vou à faculdade ou eu vou à festa.
como segue:
(21’) (GÚH)ÙØ(GÙH)
em que G significa “Eu vou à faculdade” e H “Eu vou à festa”.
No entanto, seria bastante conveniente se dispuséssemos de um símbolo, tal qual Ú,
para expressarmos este ou exclusivo. Isso pode ser feito escolhendo um símbolo qual-
quer, digamos ÷, e definindo a÷b como uma abreviação para ((aÚb)Ù(Ø(aÙb))):
(a÷b) Ó ((aÚb)Ù(Ø(aÙb)))
Aqui, a e b são duas fórmulas quaisquer e “Ó” significa “por definição, é igual à”.
Ao fazermos isso, estipulamos que, sempre que encontrarmos (a÷b), que obviamente
não é uma fórmula de LP, isso na verdade está abreviando uma cadeia de símbolos
maior, a saber, ((aÚb)Ù(Ø(aÙb))), esta sim pertencente à linguagem proposicional.
Chamamos Ú de símbolo primitivo e ÷ de símbolo derivado. Na verdade, todos os membros
do alfabeto, conforme conceitualizado na definição 1.2, são símbolos primitivos, e
qualquer outro símbolo introduzido através de abreviações é um símbolo derivado. Se-
gue abaixo a definição formal de ÷.
DEFINIÇÃO 1.4 Sejam a,bÎLP duas fórmulas quaisquer. Definimos os símbolos
derivados « e ÷, significando, respectivamente, a dupla implicação ou bicondicional e a
disjunção exclusiva, como segue:
(i) (a÷b) Ó ((aÚb)Ù(Ø(aÙb)))
(ii) (a«b) Ó ((a®b)Ù(b®a))

71
O outro símbolo introduzido na definição 1.4 é a chamada dupla implicação ou bi-
condicional. Como pode ser facilmente visto no item (ii), a ideia de a«b é simples-
mente capturar uma situação na qual as proposições a e b implicam mutuamente uma a
outra. Diferentemente de ÷, usaremos com certa frequência o conectivo derivado «.
Assim, convém estabelecer uma regra de precedência para ele: ele terá a mesma ordem
de precedência que a implicação. Desta forma, nossa Regra 2 de abreviação de parênte-
ses seria modificada como segue:

REGRA 3 Os parênteses mais externos de uma subfórmula de j podem ser omiti-


dos caso o uso da seguinte ordem de precedência entre conectivos seja capaz de restau-
rar o sentido original da fórmula:
1. ®, « (menor precedência)
2. Ù Ú (precedência intermediária)
3. Ø (maior precedência)
Antes de finalizarmos este capítulo, convém mencionar um aspecto de fundamen-
tal importância na construção e análise de linguagens lógico-formais. Trata-se do fato
óbvio de que para construirmos ou estudarmos as propriedades de uma linguagem, seja
ela formal ou não, precisamos usar outra linguagem. No caso das definições 1.1-1.4 da-
das acima e das várias observações que fizemos sobre elas, temos definido e discorrido
sobre uma linguagem específica – a linguagem proposicional – nos utilizando de outra
linguagem – a língua portuguesa. Tal situação é semelhante a quando escrevemos um li-
vro em francês, por exemplo, sobre a gramática e o vocabulário da língua inglesa, diga-
mos. Neste caso estamos falando sobre uma linguagem específica, a saber, o inglês, fa-
zendo uso de outra linguagem, no caso o francês. Chamamos então a linguagem sobre a
qual estamos falando, nos casos acima a linguagem proposicional e o inglês, de linguagem
objeto, e a linguagem na qual este discurso é feito, nos casos mencionados o português e
o francês, de metalinguagem.
À primeira vista pode-se perguntar: o que há de tão importante nisso? Usamos a lingua-
gem para falar de diversas coisas: sapatos, economia, o resultado das últimas eleições, o fim
último da vida, etc. Que particularidade então haveria em usar uma linguagem para falar de
outra linguagem, e que necessidade há em chamar uma de linguagem objeto e outra de me-
talinguagem? Para responder a essa pergunta, considere os seguintes argumentos:
(44) Romeu ama Julieta.
Julieta é uma palavra de sete letras.
Portanto, Romeu ama uma palavra de sete letras.
(45) 1+1 contém o sinal de mais.
1+1=2.
Portanto, 2 contém o sinal de mais.

72
Claramente esses argumentos são inválidos. Mas o que exatamente há de errado
com eles? Usando a terminologia introduzida há pouco, ambos os argumentos confun-
dem a linguagem objeto com a metalinguagem. No caso de (44), enquanto a primeira
premissa é um enunciado que se refere à relação entre duas pessoas, neste caso as pesso-
as denotadas pelas palavras “Romeu” e “Julieta”, a segunda premissa consiste em uma
afirmação sobre a palavra “Julieta”, e não sobre a pessoa referida por essa palavra, caso
no qual o português está desempenhando tanto o papel de linguagem objeto como de
metalinguagem. Assim, a conclusão simplesmente não segue das duas premissas. De
forma semelhante, enquanto a primeira premissa de (45) é uma sentença em português
sobre uma expressão da linguagem da aritmética, a saber, a expressão “1+1”, sendo esta
última a linguagem objeto e o português a metalinguagem, a segunda premissa é uma
expressão puramente aritmética afirmando a identidade entre as entidades denotadas
por “1+1” e “2”. Assim, claramente a conclusão é inválida.
Para evitar esse tipo de confusão, é necessário deixar claro nas premissas menciona-
das o que pertence à linguagem objeto e o que pertence à metalinguagem. Seguindo prá-
tica comum25, usa-se aspas duplas quando se fala sobre termos da linguagem objeto.
Assim, os nossos argumentos seriam reescritos como segue:
(44’) Romeu ama Julieta.
“Julieta” é uma palavra de sete letras.
Portanto, Romeu ama uma palavra de sete letras.
(45’) “1+1” contém o sinal de mais.
1+1=2.
Portanto, 2 contém o sinal de mais.
Aqui, a invalidade dos argumentos fica patente, visto que, em (44’), por exemplo, o
que Romeu ama é a pessoa à qual a palavra “Julieta” se refere, e não a palavra “Julieta”,
que é o que a segunda premissa atribui a propriedade de ter sete letras.
Nos casos acima, o que as aspas fazem basicamente é distinguir o uso de uma ex-
pressão de sua menção. Em (44’), por exemplo, a aspas na segunda premissa indicam que
estamos na verdade mencionando a expressão linguística “Julieta”, e não a usando,
como acontece na primeira premissa. Ao usarmos a expressão “Julieta” na primeira
premissa, podemos estabelecer uma relação entre o objeto ao qual essa palavra se refere
e o objeto ao qual a palavra “Romeu” se refere. Já na segunda premissa, ao mencionar-
mos a expressão “Julieta”, estamos falando não sobre o que essa expressão se refere,
mas sobre ela mesma, a saber, que ela tem sete letras. No nosso discurso sobre lingua-
gens lógico-formais, no entanto, como em geral a maioria dos símbolos de tais lingua-
gens são distintos dos símbolos da língua portuguesa, a menos que haja possibilidade de
ambiguidade, abster-nos-emos, na maioria das vezes, do uso das aspas simples.

25. Que, diga-se de passagem, já estamos adotando nesse livro.

73
3.4 Exercícios propostos
1. Por que a linguagem natural não se adéqua ao estudo lógico de argumentos?
2. Por que a ambiguidade pode comprometer a análise lógica de argumentos?
3. O que é composicionalidade?
4. Explique o paradoxo presente na tabela de verdade do conectivo ®, e dê argumentos
contra e a favor de tal interpretação.
5. Diga se as seguintes fórmulas pertencem ou não à linguagem proposicional. Em caso
negativo, diga por quê. (Leve em conta as regras de omissão de parênteses.)
a. A,BÎL
b. (1=1)Ù(6>2)
c. (Ø(A®B))
d. AØ(C®D)
e. (Ø(Ø(Ø(ØA))))
f. Ø((A®B)Ù(CÚD)
6. Mostre, através da definição 1.1, que as seguintes fórmulas pertencem à linguagem pro-
posicional:
a. (AÚ(ØA))
b. (A®(BÚ(ØC)))
c. ((A®B)®(Ø((CÙD)®A)))
7. Explique o que são definições recursivas e por que elas são tão importantes.
8. Mostre quais fórmulas podem ser construídas colocando-se parênteses nas expressões
abaixo:
a. A®ØB®C
b. ØAÙB®C
c. A®BÚB®ØCÙØA
d. ØBÚC«A®ØBÎC
9. Usando as regras de omissão de parênteses, elimine a maior quantidade possível de pa-
rênteses das fórmulas abaixo:
a. (Ø(AÙ(ØA)))
b. (AÚ(ØA))
c. ((AÙB)®((CÙD)®E))
d. (A®(ØB))
e. (Ø(A®((ØB)ÚC)))
f. ((BÚC)®A)
g. (A®(BÚ(ØC)))
h. ((ØB)®(ØA))
i. ((A®B)®(Ø((CÙD)®A)))
10. Construa a árvore sintática de cada uma das fórmulas das questões 6 e 9.
11. Liste as subfórmulas de todas as fórmulas da questão 9.

74
12. Utilizando as regras de omissão de parênteses e a definição 1.4, restaure cada uma das
fórmulas abaixo à sua forma original não abreviada:
a. ((ØA)÷(ØB))
b. A®Ø(BÙC)
c. ØBÚ(CÙØD®B)
d. AÙB®ØC
e. (AÚB®CÙØD)®ØA
f. A«BÙC
g. CÙB®Ø(A®BÚØ(B®D))
h. (A®B)®Ø(CÙD)ƒA

13. Explique a distinção entre linguagem objeto e metalinguagem.

3.5 Exercícios de análise lógica


1. Traduza para a linguagem proposicional os enunciados abaixo utilizando o seguinte
glossário:
Glossário
A: Eu vou à escola.
B: Você vai ao futebol.
C: Você vai à escola.
D: Eu vou ao futebol.
a. Eu não vou à escola.
b. Eu não vou ao futebol e você vai à escola.
c. Você vai à escola e eu vou ao futebol.
d. Se você for à escola, então eu vou ao futebol.
e. Se você não for à escola, então eu vou ao futebol.
f. Você vai à escola ou eu vou ao futebol.
g. Eu vou à escola e eu não vou à escola.
h. Não é verdade que você vai ao futebol e você não vai ao futebol.
I. Ou você vai à escola ou eu vou ao futebol.
j. Se eu for ao futebol, você não vai à escola. Mas se eu não for ao futebol, você vai à escola.
k. Se eu for à escola, então se você for ao futebol eu vou à escola.
2. Traduza para a linguagem proposicional os enunciados abaixo (usando um glossário
com os símbolos proposicionais usados).
a. Se o mal existe, então ou Deus não é onibenevolente ou Deus não é onipotente.
b. Se Deus é infinitamente misericordioso, então não é verdade que se fizermos o mal
nós seremos castigados durante toda a eternidade.
c. Se um problema é filosófico, então ele não pode ser resolvido com o auxílio dos sentidos.
d. Se eu trouxer minha câmera digital, então se as baterias não acabarem logo eu tirarei
fotos do final da festa e as colocarei no meu web-site.
e. Se você praticar exercício e não comer muito então você conseguirá emagrecer.

75
f. Esse livro não é nem sobre lógica nem sobre epistemologia, ele é sobre metafísica.
g. O carro só pegará se tiver gasolina.
h. A menos que você me ajude, eu vou desistir.
I. Você estudar bastante é suficiente para você passar.
j. Você estudar bastante é necessário para você passar.
k. Você estudar bastante é necessário e suficiente para você passar.
l. Você ter menos que 25% de faltas é uma condição necessária, porém não suficiente,
para você passar.
m. Você obter 10,0 nas duas provas é uma condição necessária e suficiente para passar.
n. Você ser brasileiro e maior de dezoito anos são requisitos para você poder se candidatar.
o. Você é homem apenas se você for um animal racional.
p. Para gostar de lógica você deve ser louco ou desocupado.
q. Se eu tiver uma boa biblioteca e tempo para estudar, então se houver seleção para
bolsa de pesquisa e for na área de lógica, então eu me candidatarei à bolsa.
r. Eu só me matricularei em Lógica II se não houver nenhuma outra disciplina optativa
sendo ofertada.
s. Não é verdade que você é bem-sucedido somente se você for desonesto ou se tiver
nascido em família abastada.
t. A menos que você tenha fé, sua vida nunca será bem-sucedida.
u. Eu irei à festa apenas se você não beber.
v. Apesar de um pouco difícil, a disciplina de lógica não é tão ruim assim.
w. Você não pode ser um bom filósofo se não sabe lógica.

76
4
Semântica da lógica proposicional

4.1 Sintaxe, semântica e relação de inferência


Comumente concebemos uma língua ou linguagem como contendo tanto um as-
pecto sintático como um aspecto semântico. Enquanto a sintaxe de uma linguagem es-
tipula como os símbolos e termos desta linguagem se juntarão uns com os outros para
formar sentenças ou enunciados, sua semântica determina o significado destes termos.
Tome a língua portuguesa, por exemplo. Enquanto de um lado existem regras gramati-
cais que estipulam como os diversos componentes de tal língua poderão ser concatena-
dos de forma a formar enunciados significativos do português, de outro lado cada pala-
vra tem, em geral, associada a si um ou mais significados. Quando conhecemos tais sig-
nificados e sabemos se o que certo enunciado afirma sobre o mundo é o caso ou não,
podemos dizer se tal enunciado é verdadeiro. Mas mesmo se não somos capazes de ava-
liar se o estado de coisas descrito por um enunciado é o caso ou não, apenas de posse do
significado dos termos que o compõem é possível sabermos como o mundo deve ser para
que o enunciado seja verdade. Dessa forma, uma das tarefas centrais do que estamos
chamando de semântica é exatamente precisar as condições de verdade dos enunciados.
No capítulo anterior, ao introduzirmos a linguagem lógica proposicional, referi-
mo-nos ao significado tanto dos conectivos lógicos, através da menção de suas tabelas de
verdade, por exemplo, como dos símbolos proposicionais, especificando a que enuncia-
dos do português tais símbolos corresponderiam. No entanto, conforme falamos no iní-
cio da seção 2 daquele capítulo, linguagens lógicas são estruturas puramente sintáticas,
isentas de qualquer estipulação em termos de significado. Isso pode ser constatado pelo
fato de que, apesar de na nossa exposição preliminar dos conceitos introduzidos nas defi-
nições 1.1-1.4 termos feito referência a aspectos semânticos, tais definições não fazem
menção a nada digno de ser chamado de o significado dos termos da linguagem.
Vendo então a lógica como teoria da representação ou linguagem, podemos dizer
que as definições 1.1-1.4 estipulam a sintaxe de toda lógica que use a linguagem proposi-
cional em geral, e em particular a sintaxe do sistema lógico que é o objeto principal desta

77
unidade, a saber, a lógica clássica proposicional. O que faremos neste capítulo será apresen-
tar as definições que irão compor o que chamamos de a semântica da lógica proposicio-
nal que, como é de se esperar, estipulará, em um sentido muito importante, o significa-
do dos componentes da linguagem proposicional.
Duas observações são necessárias neste ponto. Primeiro, apesar de, conforme men-
cionado acima, toda linguagem ter um aspecto sintático e outro semântico, e apesar de a
lógica, se vista como linguagem ou teoria da representação, também possuir tais com-
ponentes, o termo “linguagem” usado por nós nas expressões “linguagem lógica” e
“linguagem proposicional” tem um sentido diferente, contemplando apenas e unica-
mente o aspecto sintático. (Daí dizermos que uma linguagem lógica é uma linguagem
não interpretada.) Apenas quando considerada em conjunto com um componente ex-
tra, a saber, a semântica de um sistema lógico, é que os termos de uma linguagem lógica
possuirão significado.
Segundo, conforme mencionamos no capítulo 2, existem basicamente duas maneiras
de se definir a relação de inferência de um sistema lógico: semanticamente e sintaticamente.
Enquanto uma definição semântica faz uso de conceitos semânticos como os conceitos
de verdade e satisfatibilidade e, em última instância, atenta para o significado dos símbolos
tendo em vista a caracterização da classe de argumentos válidos, em uma abordagem sin-
tática nenhuma consideração é feita a respeito do significado dos termos, enfocando-se
exclusivamente a forma lógica dos enunciados que compõem um argumento. Assim, ape-
sar de a semântica da lógica proposicional efetivamente estipular o significado dos termos
da linguagem proposicional e, de uma forma mais específica, dar as condições de verdade de
seus enunciados, apresentaremos tal semântica aqui como definindo primordialmente a
relação de inferência da lógica proposicional. Em outras palavras, definiremos de forma
semântica uma relação ë que será capaz de nos dizer se, dado um conjunto G qualquer de
fórmulas e uma fórmula a, a é ou não uma consequência lógica (ou é deduzido a partir)
de G (caso no qual escrevemos Gëa). No entanto, no caminho a ser percorrido na defini-
ção de ë, teremos que definir algo semelhante ao significado dos termos da linguagem e,
consequentemente, as condições de verdade de seus enunciados.
Conforme dito no capítulo 2, referir-nos-emos à ë como a relação de consequência
lógica, reservando o termo “relação de dedução” para a relação de inferência definida
sintaticamente. No entanto, conforme também já mencionado, um dos resultados mais
importantes da chamada metalógica, que será visto com detalhes no capítulo 12, é mos-
trar que a relação de consequência lógica e a relação de dedução são equivalentes (em
símbolos: se G„a então Gëa, e se Gëa então G„a). Conjuntamente com a lingua-
gem proposicional introduzida no capítulo 3, a definição da relação de consequência ló-

78
gica a ser aqui introduzida constituirá a primeira instanciação do que chamamos no ca-
pítulo 2 de sistema lógico.
É digno de nota que, como veremos no próximo capítulo, mesmo quando escolhe-
mos uma abordagem sintática para definirmos a relação de inferência, nos depararemos
com algo digno de ser chamado de o significado dos símbolos da linguagem. Assim, te-
mos a importante lição de que apenas quando tomamos uma linguagem L em conjunto
com uma relação de inferência =, seja ela definida sintática ou semanticamente, e obte-
mos um sistema lógico <L,=>, é que os símbolos da linguagem passam a ter significado
e, consequentemente, a linguagem lógica L pode ser considerada uma linguagem (parci-
almente, como veremos) interpretada.
Antes, porém, de darmos a definição da relação de inferência semântica da lógica
proposicional, o que será feito na seção 4.4, faremos duas coisas. Primeiro, falaremos,
na próxima seção, um pouco mais sobre a noção de tabela de verdade e outros concei-
tos semânticos chaves (na seção 4.4 mostraremos como tais conceitos se encaixam na
definição semântica da relação de inferência da lógica proposicional). Segundo, tentare-
mos, na seção 4.3, definir de forma geral, isto é, sem fazer referência a nenhum sistema
lógico específico, a relação de inferência semântica. Tal conceitualização será usada nas
definições das relações de consequência lógica da lógica proposicional que, como disse-
mos, será apresentada na seção 4.4, e da lógica de predicados de primeira ordem, a ser
apresentada no capítulo 10.

4.2 Tabela de verdade


Como vimos no capítulo 3, a tabela de verdade de uma fórmula j é uma tabela mos-
trando todas as possibilidades de combinação de valores de verdade de suas subfórmu-
las e o valor de verdade resultante de j em cada uma dessas possibilidades. Naquele ca-
pítulo mostramos as tabelas de verdade dos conectivos lógicos Ø, Ù, Ú e ®:

a Øa a b aÙb a b aÚb a b a®b


V F V V V V V V V V V
F V V F F V F V V F F
F V F F V V F V V
F F F F F F F F V

79
Veja que, como observamos no capítulo 3, nas tabelas acima a e b representam
duas fórmulas quaisquer da linguagem proposicional. Assim, aÙb, Øa, aÚb e a®b
não são fórmulas da linguagem proposicional, mas o que chamamos de esquemas de fór-
mula, isto é, generalizações feitas a partir dos conectivos lógicos representando todas as
fórmulas que possuem a forma lógica nelas expressa. Por exemplo, dizemos que as fór-
mulas abaixo satisfazem ou são instâncias do esquema de fórmula a®b26:
(1) A®B
(2) (A®C)®ØB
(3) Ø((AÙB)®C)®(AÚØB)
Apesar de diferente em vários aspectos, essas três fórmulas têm a forma representa-
da por a®b; isso pode ser visto melhor se atentamos para o fato de que em (1) A ocupa
o lugar de a e B o de b, em (2) a foi substituído por (A®B) e b por ØB, e em (3)
Ø((AÙB)®C) está no lugar de a e (AÚØB) no de b. Assim, um esquema de fórmula é
mais ou menos como um esqueleto lógico, no qual as letras gregas marcam “lugares”
que podem ser ocupados por quaisquer fórmulas pertencentes a uma determinada lin-
guagem. Por exemplo, a fórmula
(4) (A®BÚC)®((D®BÚC)®(AÚD®BÚC))
é uma instância do esquema de fórmula
(5) (a®b)®((j®b)®(aÚj®b))
em que A ocupa o lugar de a, BÚC o lugar de b e D o lugar de j27.
Assim, as tabelas acima, que chamamos de a tabela de verdade de Ø, a tabela de ver-
dade de Ù, a tabela de verdade de Ú e a tabela de verdade de ®, respectivamente, são na
verdade esquemas de tabela de verdade. Nesse caso, a tabela abaixo, por exemplo, seria uma
instância da tabela de verdade de Ù:

A B AÙB
V V V
V F F
F V F
F F F

26. Aqui estamos obviamente adotando as regras de abreviação de parênteses introduzidas no capítulo anterior.
27. Veja que nós já fizemos uso do recurso de esquema de fórmulas nas definições 1.1, 1.3 e 1.4.

80
De uma forma geral, o que uma tabela de verdade nos dá são as condições de verdade de
uma fórmula, isto é, as situações de valores de verdade de seus componentes mais bási-
cos, isto é, os símbolos proposicionais, nas quais a fórmula em questão é verdadeira ou
falsa. Na tabela acima, temos que AÙB é verdade apenas quando tanto A como B são
verdade, sendo falsa nas outras três possibilidades. Assim, o ponto central da tabela de
verdade de uma fórmula qualquer é tornar explícito em que condições tal fórmula é ver-
dade e em que condições ela é falsa. Por exemplo, as condições de verdade da fórmula
(6) ØAÚB
podem ser determinadas através de sua tabela de verdade, que pode, por sua vez, ser
construída a partir das tabelas de verdade da conjunção e da negação:

A B ØA ØAÚB
V V F V
V F F F
F V V V
F F V V

Aqui, a partir da tabela de verdade de Ø determinamos as condições de verdade de


ØA (representada pela primeira e terceira colunas, da esquerda para a direita). De posse
então dessa informação, podemos utilizar a tabela de verdade da disjunção para determi-
nar as condições de verdade de (6). Feito isso, vemos que a única situação na qual (6) é fal-
sa é quando A é verdade e B é falso, sendo verdade nas outras três possibilidades, a saber,
quando A e B são ambos verdade, quando A é falso e B é verdade, e quando ambos A e B
são falsos. Abaixo segue a tabela de verdade de uma fórmula um pouco mais complexa:
(7) ØA®ØAÚØB

A B ØA ØB ØAÚØB ØA®ØAÚØB
V V F F F V
V F F V V V
F V V F V V
F F V V V V

Fazendo uso da tabela da negação, colocamos na terceira e quarta colunas (da es-
querda para a direita) os valores de verdade de ØA e ØB para cada uma das quatro pos-
sibilidades de combinação de valores de verdade de A e B. De posse dessa informação,

81
agora com o auxílio da tabela de verdade de Ú, determinamos os valores de verdade de
ØAÚØB. Com isso, usando a tabela de verdade da implicação, podemos finalmente es-
crever, na última coluna, as condições de verdade de (7). Seguem abaixo dois outros
exemplos.
(8) Ø(AÙØB®A)

A B ØB AÙØB AÙØB®A Ø(AÙØB®A)


V V F F V F
V F V V V F
F V F F V F
F F V F V F

(9) Ø(ØAÚØB)

A B ØA ØB ØAÚØB Ø(ØAÚØB)
V V F F F V
V F F V V F
F V V F V F
F F V V V F

Vemos assim que, para construir a tabela de verdade de uma fórmula mais complexa,
reservamos, além de uma coluna para cada um dos símbolos proposicionais que apare-
cem na fórmula e uma para a fórmula (no caso acima a primeira, segunda e última colu-
nas, respectivamente), também uma coluna para cada uma das subfórmulas restantes.
No que se refere à quantidade de linhas da tabela, ela será determinada pelo número
de símbolos proposicionais que a fórmula contiver. Mais especificamente, como deve
haver uma linha para cada combinação possível de valor de verdade de tais símbolos, e
como existem apenas dois valores de verdade, temos que o número de linhas total da ta-
bela de uma fórmula j será 2n, onde n é o numero de símbolos proposicionais (diferen-
tes) que aparecem em j. Como temos examinado até agora apenas fórmulas com dois
símbolos proposicionais, nossas tabelas têm tido exatamente 4 (22) linhas. No entanto,
se o número de símbolos proposicionais aumentar para três, teremos uma tabela com 8
(23) linhas; se aumentar para quatro, 16 (24) linhas; se aumentar para 5, 32 (25) linhas, e
assim por diante. Segue abaixo a tabela de verdade de uma fórmula contendo três sím-
bolos proposicionais, caso no qual a tabela de verdade correspondente terá 8 linhas:

82
(10) ((A®B)ÚØC)®A

A B C (A®B) ØC ((A®B)ÚØC) ((A®B)ÚØC)®A


V V V V F V V
V V F V V V V
V F V F F F V
V F F F V V V
F V V V F V F
F V F V V V F
F F V V F V F
F F F V V V F

Um ponto importante é que podemos usar as tabelas dos conectivos lógicos para cons-
truir não apenas tabelas de verdade de fórmulas, mas também outros esquemas de tabelas
de verdade, a única diferença sendo que, ao invés de enumerarmos as possibilidades de
combinação dos símbolos proposicionais da fórmula, enumeramos as possibilidades de
combinação dos esquemas de fórmula representados pelas letras gregas. Podemos, por
exemplo, construir as tabelas de verdade dos conectivos derivados introduzidos na defini-
ção 1.4. A tabela do bicondicional « ((a«b) Ó ((a®b)Ù(b®a))) seria como segue:

a b (a®b) (b®a) (a®b)Ù(b®a)


V V V V V
V F F V F
F V V F F
F F V V V

Se quiséssemos representar essa tabela usando a forma abreviada G teríamos o


que segue:
a b a«b
V V V
V F F
F V F
F F V

83
Já a tabela do ou exclusivo, que é construída com auxílio das tabelas da negação, con-
junção e disjunção, seria como segue:

a b (aÚb) (aÙb) Ø(aÙb) (aÚb)ÙØ(aÙb)


V V V V F F
V F V F V V
F V V F V V
F F F F V F

a b a÷b
V V F
V F V
F V V
F F F

O leitor atento deve ter observado algo de peculiar nas tabelas das fórmulas (7) e
(8). Enquanto o valor de verdade de (7) é sempre V em todas as linhas, na tabela de (8)
acontece exatamente o oposto: para toda e qualquer possibilidade de combinação de
valor de verdade de seus símbolos proposicionais, seu valor é F. A fórmulas como (7),
que são verdade em toda e qualquer circunstância, nós damos o nome de tautologias, e
fórmulas que, como (8), são sempre falsas, nós damos o nome de contradições. Fórmulas
como (6) e (9) que são ora verdadeiras, ora falsas, nós chamamos de contingências.
Outro detalhe que o nosso leitor deve ter observado é a semelhança entre a tabela
de verdade da implicação e da fórmula (6), de um lado, e entre a tabela de verdade da
conjunção e de (9), de outro. Isso pode ser visto mais claramente se removemos as colu-
nas intermediárias das tabelas de (6) e (9) e as colocamos lado a lado das tabelas de
A®B e AÙB, respectivamente:

A B ØAÚB A B A®B
V V V V V V
V F F V F F
F V V F V V
F F V F F V

84
A B Ø(ØAÚØB) A B A‚B
V V V V V V
V F F V F F
F V F F V F
F F F F F F

Sendo mais específico, as tabelas de verdade de ØAÚB e A®B, de um lado, e


Ø(ØAÚØB) e AÙB, de outro, têm os mesmos valores para cada uma das quatro possibi-
lidades de combinação dos valores de verdade de A e B. Quando isso acontece, dize-
mos que as fórmulas correspondentes são semanticamente equivalentes uma à outra. Nos
dois exemplos acima, dizemos que ØAÚB é semanticamente equivalente a A®B, e que
Ø(ØAÚØB) é semanticamente equivalente a AÙB. Nesses casos podemos afirmar que,
em termos de valores de verdade e de relação inferencial, tanto faz escrever ØAÚB
como A®B, por exemplo. Uma consequência disso é que todas as tautologias (bem
como todas as contradições) são semanticamente equivalentes entre si.
Neste ponto é útil mencionar um detalhe relevante a respeito do conectivo derivado
«. Repare que, de acordo com a sua tabela de verdade, a«b é verdade quando tanto a
como b são verdade, ou quando ambos são falsos. Mas nos casos de equivalência semân-
tica acima mencionados, como, por exemplo, na equivalência entre A®B e ØAÚB, como
as suas tabelas de verdade são idênticas, A®B é verdade se e somente se ØAÚB é verda-
de, e A®B é falso se e somente se ØAÚB também o é. A conclusão então é que a fórmula
(11) (A®B)«(ØAÚB)
é verdade em todas as combinações de valores de verdade de A e B. Em outras palavras
(11) é uma tautologia:

A B A®B ØA ØAÚB (A®B)«(ØAÚB)


V V V F V V
V F F F F V
F V V V V V
F F V V V V

O mesmo vale para AÙB e Ø(ØAÚØB): (AÙB)«(Ø(ØAÚØB)) é uma tautologia.


Assim, as equivalências semânticas entre fórmulas podem também ser representadas na

85
linguagem objeto com o auxílio do conectivo «; não por acaso esse conectivo tem o
nome “equivalência material”.

4.3 Definição semântica da relação de inferência


Iremos agora introduzir as definições que nos levarão à nossa primeira formulação
da relação de inferência da lógica proposicional, a saber, a sua relação de consequência
lógica. No entanto, conforme mencionado no início do capítulo, definiremos primeira-
mente várias noções, incluindo a noção de consequência lógica, de forma geral, sem fa-
zer referência a nenhum sistema lógico específico. Após isso, na seção seguinte, instan-
ciaremos tais definições à lógica proposicional.
Conforme já mencionamos, a definição semântica da relação de inferência de uma
lógica faz uso de conceitos semânticos como o conceito de verdade e, em última instân-
cia, atenta para o significado dos símbolos, tendo em vista a caracterização da classe dos
argumentos válidos. Assim, podemos considerar como um subproduto de tal definição
a estipulação do significado de alguns termos-chave da linguagem proposicional e, de
uma forma mais específica, das condições de verdade de seus enunciados. Como já sa-
bemos, usaremos o símbolo ë para nos referirmos à relação de inferência definida se-
manticamente, de forma que, dado um conjunto qualquer G de fórmulas da linguagem
lógica e uma fórmula a da mesma linguagem, escrevemos Gëa para dizer que a é uma
consequência lógica de G (quando isso não for o caso escrevemos GÓa).
A noção mais importante na definição semântica da relação de inferência é a noção
de modelo. Intuitivamente, um modelo, interpretação ou valoração pode ser visto como
uma representação de uma situação ou estado de coisas capaz de dar as informações ne-
cessárias para dizermos se as fórmulas da linguagem em questão são verdadeiras ou fal-
sas28. Sendo um pouco mais específico, podemos ver um modelo M como responsável
pela “fixação semântica” dos símbolos não lógicos de uma linguagem lógica L qualquer,
caso no qual dizemos que M é um modelo para L. No caso da lógica proposicional, por
exemplo, um modelo é basicamente uma estrutura que diz, para cada um dos símbolos
proposicionais, se tal símbolo é verdadeiro ou falso.
O conceito de modelo será usado por aquilo que podemos chamar de a semântica da
lógica em questão, isto é, pelo componente responsável em dizer, para toda fórmula
aÎL, se a é verdadeira ou falsa em um dado modelo M, ou em outras palavras, se M sa-

28. Neste livro usaremos o termo “modelo” de maneira diferente de como ele é usado em livros-texto clássicos de
lógica. O nosso uso estará mais em consonância com a maneira como tal termo é usado em livros-texto de lógica
modal e lógica filosófica.

86
tisfaz a (em símbolos: Mía) ou não (em símbolos: MÔa). Definindo a relação de satis-
fatibilidade, uma semântica fornecerá o que chamamos de as condições de verdade das fór-
mulas da linguagem, isto é, em que condições uma dada fórmula a é verdade, ou ainda,
quais características um modelo M deve ter para satisfazer a. Dizemos nesse caso que
í é uma relação de satisfatibilidade em L. Não é difícil ver que tanto a estrutura de mo-
delo de uma lógica como sua relação de satisfatibilidade dependerão de sua linguagem e
da maneira como os símbolos lógicos são “interpretados”.
Uma vez que tenhamos ao nosso dispor tais noções (modelo e satisfatibilidade) po-
demos definir importantes noções semânticas como as noções de tautologia, contradi-
ção, contingência e, obviamente, a noção de consequência lógica. Nosso propósito nesta
seção é apresentar tais definições. Como queremos, no entanto, definições gerais, apli-
cáveis a qualquer sistema lógico, deixaremos em aberto que linguagem lógica e relação
de satisfatibilidade específicas estão envolvidas, por exemplo, na definição da noção de
consequência lógica, podendo tais noções serem tomadas como parâmetros da definição.
Outro ponto importante é que, apesar de não termos ainda definido formalmente ne-
nhum modelo ou relação de satisfatibilidade, usaremos mesmo assim tais conceitos em
nossas definições. Para isso estamos nos apoiando obviamente na explicação informal
de tais noções dada acima, mas também no fato de que na próxima seção introduzire-
mos formalmente as noções de modelo e satisfatibilidade na lógica proposicional. Co-
mecemos pelas definições de tautologia, contradição e contingência:

DEFINIÇÃO 1.5 Seja L uma linguagem lógica, í uma relação de satisfatibilidade


em L e aÎL uma fórmula qualquer.
(i) Dizemos que a é uma tautologia se e somente se, para todo modelo M, Mía;
(ii) Dizemos que a é uma contradição se e somente se, para todo modelo M, MÔa;
(iii) Dizemos que a é uma contingência se e somente se existirem ao menos dois mo-
delos M’ e M” tal que M’ía e M’Ôa.
Vendo um modelo simplesmente como a representação de uma situação na qual
enunciados podem ser verdadeiros ou falsos, uma tautologia então é simplesmente um
enunciado ou fórmula que é verdadeiro em todas as situações possíveis; uma contradi-
ção, um enunciado falso em todas as situações possíveis; e uma contingência um enun-
ciado que não é nem tautologia nem contradição.
Abaixo temos uma tentativa de estender a noção de satisfatibilidade de forma que a
mesma possa ser aplicada a conjuntos de fórmulas e ser usada como propriedade de
conjuntos:

87
DEFINIÇÃO 1.6 Seja L uma linguagem lógica, M um modelo para L, í uma relação
de satisfatibilidade em L, aÎL uma fórmula qualquer e G5L um conjunto de fórmulas.
(i) Dizemos que M satisfaz G (em símbolos: MíG) se e somente se, para todo bÎG,
Míb;
(ii) Dizemos que G é satisfatível se e somente se, para ao menos um modelo M’, M’
satisfaz G.
De posse dessa extensão da noção de satisfatibilidade, podemos definir o conceito
chave deste capítulo: a noção de consequência lógica.

DEFINIÇÃO 1.7 Seja L uma linguagem lógica, í uma relação de satisfatibilidade


em L, G5L um conjunto de fórmulas e aÎL uma fórmula. Dizemos que a é uma conse-
quência lógica de G (em símbolos: Gëa) se e somente se, para todo modelo M tal que
MíG, Mía. (Caso a não seja uma consequência lógica de G escrevemos GÓa.)
A ideia intuitiva presente aqui é que se a é uma consequência lógica de G ou, em ou-
tras palavras, se a pode ser inferido a partir de G, então para toda e qualquer circunstân-
cia ou situação na qual todos os membros de G são verdade, então a também é verdade
nessa situação. Se trocarmos na frase acima “situação” por “modelo” e “verdade” por
“satisfação”, então teremos exatamente o que é dito na definição acima. Outra maneira
de explicar a noção de consequência lógica é dizer que se Gëa, então não existe ne-
nhum modelo M tal que M satisfaz todos os membros de G, mas não satisfaz a, ou, fa-
lando de outra forma, não existe nenhuma situação em que todos os membros de G se-
jam verdade, mas a seja falso.
O leitor atento deve ter percebido que a definição 1.7, bem como a explicação dela
dada acima, correspondem de forma bastante significativa à definição que demos no ca-
pítulo 1 de argumento dedutivo. Na ocasião, dissemos que uma inferência dedutiva é
aquela em que é impossível que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. Em
outras palavras, em toda e qualquer situação s, se todas as premissas de um argumento
dedutivo são verdadeiras em s, então a conclusão também deve ser verdadeira em s. Ou,
equivalentemente, não existe nenhuma situação em que todas as premissas de um argu-
mento dedutivo sejam verdade, mas a sua conclusão seja falsa. Considerando G como
sendo o conjunto de premissas e a como sendo a conclusão, temos então a definição
1.7 nos dando o que podemos chamar de uma explicação precisa para o conceito de argu-
mento dedutivo ou, colocando em outros termos, para a noção de relação de dedução
ou consequência lógica conforme definido por nós no capítulo 1. Ficam faltando, obvia-
mente, as definições de modelo e satisfatibilidade que, como falamos, dependem do sis-
tema lógico em questão.

88
Uma consequência interessante da definição 1.7 é que o que chamamos na defini-
ção 1.5 de tautologia é nada mais do que uma consequência lógica do conjunto vazio.

COROLÁRIO 1.1 Seja L uma linguagem lógica, í uma relação de satisfatibilidade


em L, e aÎL uma fórmula. a é uma tautologia se e somente se ^ëa (caso no qual es-
crevemos simplesmente ëa).
Para finalizar esta seção, segue abaixo a definição formal da noção de equivalência
semântica, já utilizada por nós na seção anterior.

DEFINIÇÃO 1.8 Seja L uma linguagem lógica, í uma relação de satisfatibilidade


em L e a,bÎL duas fórmulas. Dizemos que a equivale semanticamente a b (em símbolos:
aÍb) se e somente se {a}ëb e {b}ëa.
Exemplificaremos essas definições na próxima seção, na qual as aplicaremos à defi-
nição semântica da relação de inferência da lógica proposicional.

4.4 Modelo, satisfatibilidade e consequência lógica


Iremos agora introduzir as definições específicas à lógica proposicional que nos per-
mitirão usar as definições 1.5-1.8. Começamos obviamente pela noção de modelo, que é,
como falamos, a estrutura básica responsável pela avaliação semântica das fórmulas.

DEFINIÇÃO 1.9 Em lógica clássica proposicional, um modelo (também chamado de


interpretação ou valoração) M é uma função: P®{V,F} que atribui, para cada símbolo pro-
posicional de P, o valor V (verdadeiro) ou F (falso).
Em lógica proposicional, um modelo M é simplesmente uma função que literal-
mente “fixa semanticamente” os símbolos proposicionais de LP, atribuindo, para cada
um deles, o valor V ou F. Supondo, por exemplo, que o nosso conjunto P de símbolos
proposicionais seja igual à {A,B,C,D,E}, teríamos as funções abaixo como exemplos
de modelos:
M1(A)=V; M1(B)=F; M1(C)=V; M1(D)=V; M1(E)=V;
M2(A)=V; M2(B)=V; M2(C)=F; M2(D)=V; M2(E)=V;
M3(A)=F; M3(B)=F; M3(C)=F; M3(D)=F; M3(E)=F;
Isso também pode ser representado como segue:

89
Modelo A B C D E
M1 V F V V V
M2 V V F V V
M3 F F F F F

Nesse ponto é válido mencionar a relação que há entre o conceito de modelo e a no-
ção de tabela de verdade. Como é fácil de ver na tabela acima, um modelo corresponde
exatamente a uma determinada combinação de valores de verdade dos símbolos propo-
sicionais. Mas tal combinação é exatamente o que determina uma linha específica de
uma tabela de verdade. A única diferença é que enquanto uma linha de uma tabela de
verdade estabelece uma possível combinação dos valores de verdade de um conjunto
bastante reduzido de símbolos proposicionais, a saber, apenas aqueles símbolos propo-
sicionais que aparecem na fórmula em questão, um modelo deve dizer, para todos os ele-
mentos do conjunto de símbolos proposicionais, se cada um deles é falso ou verdadei-
ro. Por exemplo, na tabela de (6) abaixo
(6) ØAÚB

A B ØA ØAÚB
V V F V
V F F F
F V V V
F F V V

enquanto a primeira linha corresponde à interpretação M2, a segunda e a quarta corres-


pondem à M1 e M3, respectivamente. Mas veja que se considerarmos o modelo M4, con-
forme mostrado abaixo,
M4(A)=V; M4(B)=F; M4(C)=V; M4(D)=V; M4(E)=F;
que é claramente diferente de M1 (enquanto em M1 o valor de verdade de E é V, em M4
o mesmo símbolo proposicional tem o valor F), veremos que associado a cada linha da
tabela de verdade existe não apenas um modelo, mas um conjunto de modelos. No nos-
so exemplo, temos que associado à segunda linha da tabela de (6) estão todas as inter-
pretações que atribuam V para A e F para B.
É importante salientar que um modelo atribui valor de verdade apenas aos símbo-
los proposicionais, não dizendo absolutamente nada a respeito do valor de verdade de
fórmulas complexas como (6). Conforme foi dito na seção anterior, é incumbência da

90
noção de satisfatibilidade fazer uso de um modelo para avaliar semanticamente todo e
qualquer tipo de fórmula ou, em outras palavras, dizer, para toda e qualquer fórmula
aÎLP, se um dado modelo M satisfaz ou não a.

DEFINIÇÃO 1.10 Seja M um modelo, pÎP é um símbolo proposicional qualquer e


a,bÎLP duas fórmulas. Na lógica clássica proposicional, a relação de satisfatibilidade í
é definida como segue:
(i) Míp sss M(p)=V;
(ii) MíØa sss MÔa;
(iii) MíaÙb sss Mía e Míb;
(iv) MíaÚb sss Mía ou Míb;
(v) Mía®b sss MÔa ou Míb.
Mía significa “a é satisfeita pelo (ou no) modelo M”, ou ainda “a é verdade em
M”; MÔa, por sua vez, quer dizer que a não é satisfeita por M.
A primeira coisa que deve ser bem compreendida a respeito da definição 1.10 é o sig-
nificado da expressão “sss” (se e somente se). Ao dizermos, por exemplo, que MíØa sss
MÔa, estamos afirmando duas coisas: primeiro que se MíØa então MÔa, e segundo
que se MÔa, então MíØa. Em outras palavras, estamos dizendo em que circunstâncias
ou modelos uma fórmula da forma Øa é satisfeita, a saber, nos modelos nos quais a é sa-
tisfeito, e em nenhum outro mais. Fazendo isso para todos os tipos de fórmulas, a defini-
ção 1.10 na verdade estabelece as condições nas quais toda e qualquer fórmula é verdade.
Segundo, conforme já dissemos, apesar de a ideia básica de um modelo M ser tal
que toda e qualquer fórmula a é verdade ou falsa em M, o modelo em si, conforme defi-
nido na definição 1.9, atribui valor de verdade apenas para certo tipo de fórmula, a sa-
ber, as fórmulas atômicas (símbolos proposicionais). É propósito então, pode-se dizer,
da relação í estender M de forma a fazer com que sejamos capazes de dizer, para toda e
qualquer fórmula de LP, independentemente de ela ser atômica ou complexa, se ela é
verdadeira ou não em M.
Terceiro, ao dizermos quando uma fórmula qualquer é satisfeita ou verdadeira em
um modelo M, estamos automaticamente dizendo quando ela não é satisfeita. A razão
disso é que, ao usarmos a expressão “sss” no item (ii), por exemplo, estamos dizendo
que MíØa só é o caso em uma circunstância na qual MÔa, e em nenhuma outra mais.
Mas como para qualquer fórmula b, ou Míb ou MÔb, isso significa que na outra cir-
cunstância possível, a saber, Mía, teremos MÔØa e que se MÔØa, então Mía. Em
outras palavras, uma consequência trivial do item (ii) da definição acima é que MÔØa

91
sss Mía. Fazendo o mesmo exercício para os outros itens nós temos a seguinte conse-
quência ou corolário da definição 1.10.

COROLÁRIO 1.2 Seja M um modelo, pÎP um símbolo proposicional qualquer e


a,bÎLP duas fórmulas quaisquer.
(i) MÔp sss M(p)=F;
(ii) MÔØa sss Mía;
(iii) MÔaÙb sss MÔa ou MÔb;
(iv) MÔaÚb sss MÔa e MÔb;
(v) MÔa®b sss Mía e MÔb.
Para ver como a definição 1.10 pode ser usada na determinação das condições de
verdade de uma fórmula, suponha novamente que o nosso conjunto de símbolos pro-
posicionais P seja igual à {A,B,C,D,E} e que, em adição a isso, desejemos saber se
(12) Ø(A®B)
é ou não satisfeita no modelo M1. De acordo com o item (ii) da definição 1.10, dado um
modelo M qualquer,
MíØ(A®B) sss MÔA®B.
Mas pelo corolário 1.1, item (v), temos que
MÔA®B sss MíA e MÔB.
Finalmente, o item (i) da definição 1.10 nos diz que MíA sss M(A)=V e o item (i) do
corolário 1.1 que MÔB sss M(B)=F. Assim, temos que (12) é satisfeito em um modelo es-
pecífico se e somente se esse modelo atribui, para A e B, os valores V e F, respectivamen-
te. Como M1(A)=V e M1(B)=F, temos que M1íØ(A®B), isto é, M1 satisfaz Ø(A®B).
Esse procedimento pode ser resumido como segue:

MíØ(A®B)

MÔA®B
e
MíA MÔB

M(A)=V M(B)=F

92
em que cada mudança de um nível superior para um inferior deve ser lida como “se e somente
se”. Temos abaixo outro exemplo no qual é feito o mesmo tipo de análise para a fórmula
(13) Ø(ØAÙØB)
MíØ(ØA‚ØB)

MÔØA‚ØB
ou
MÔØA MÔØB

MíA MíB

M(A)=V M(B)=V

Assim, temos que para um modelo M satisfazer (13) ele tem que ser tal que
M(A)=V ou M(B)=V. Falando de outra forma, apenas as valorações que atribuem V à
A ou V à B satisfarão Ø(ØAÙØB). Isso obviamente significa que todas as outras valora-
ções que não atribuírem nem V à A nem V à B tornarão (13) falsa. Considerando apenas
os valores de A e B, temos que os seguintes modelos satisfazem (13)29:

Modelo A B
M1 V V
M2 V F
M3 F V

e que apenas o modelo abaixo não satisfaz (13):

Modelo A B
M4 F F

Obviamente que M1-M4 acima somente serão valorações caso consideremos o nos-
so conjunto de símbolos proposicionais como contendo apenas A e B. Caso contrário o

29. Aqui estamos iniciando uma nova numeração de modelos (o modelo M abaixo não é o mesmo modelo M da
1 1
página 90).

93
que M1-M4 representam são classes de valorações, onde M1, por exemplo, representa
todas as valorações que atribuem V tanto para A como para B (mas que obviamente po-
dem atribuir qualquer outro valor para os demais símbolos proposicionais). Isso é rele-
vante, pois nas duas tabelas acima temos todas as informações necessárias para constru-
ir a tabela de verdade de (13), a saber, as condições nas quais (13) é verdadeira, e as condi-
ções nas quais (13) é falsa. Juntando isso, nós obtemos a tabela de verdade de (13) con-
forme exibido abaixo:

A B Ø(ØAÙØB)
V V V
V F V
F V V
F F F

Isso trivialmente serve para ilustrar o fato de que o procedimento de construção de


tabela de verdade é, na verdade, uma consequência das definições 1.9 e 1.10; em outras
palavras, tais definições precisam de forma rigorosa o que temos chamado até agora de
tabela de verdade.
De posse das noções de modelo e satisfatibilidade na lógica proposicional, podemos
facilmente usar as definições 1.5-1.8 para obter as noções de tautologia, contradição, con-
tingência, consequência lógica e equivalência semântica da lógica proposicional. Tudo
que temos a fazer é considerar, nessas definições, a linguagem proposicional LP e as no-
ções de modelo e satisfatibilidade conforme definidos nas definições 1.9 e 1.10.
A respeito das noções de tautologia, contradição e contingência, claramente a de-
terminação de se uma dada fórmula é uma tautologia, contradição ou contingência
pode ser feita através da definição 1.10 conforme exemplificado acima. Por exemplo,
como apenas modelos M tais que M(A)=V ou M(B)=V satisfazem (13), claramente ha-
verá modelos que não satisfazem (13). Assim, de acordo com a definição 1.5 aplicada às
definições 1.9 e 1.10, (13) é uma contingência. Na verdade, como o próprio procedi-
mento de tabela de verdade é uma aplicação, por assim dizer, das definições 1.9 e 1.10, o
seu uso na determinação do status lógico de uma proposição pode naturalmente ser
considerado também como uma aplicação de tais definições.
Segue abaixo uma tabela com algumas tautologias da lógica proposicional que, em
virtude de seu uso e importância histórica, são muitas vezes nomeadas com o auxílio da
palavra “Lei” (aqui preferiremos, na maioria das vezes, o termo “princípio”). Nova-

94
mente, a, b e j abaixo representam fórmulas arbitrárias de LP. Assim, os princípios lis-
tados abaixo são na verdade esquemas de fórmulas.

Princípio da não contradição Ø(aÙØa)


Princípio do terceiro excluído aÚØa
Lei da dupla negação a«ØØa
Lei da contrapositiva (a®b)«(Øb®Øa)
Lei de Peirce ((a®b)®a)®a
Lei da exportação (aÙb®j)«(a®(b®j))
Lei da permutação (a®(b®j))«(b®(a®j))
Lei da identidade a«a
Leis de De Morgan Ø(aÚb)«(ØaÙØb)
Ø(aÙb)«(ØaÚØb)
Leis de tautologia a«(aÚa)
a«(aÙa)
Leis de associatividade (aÚ(bÚj))«((aÚb)Új)
(aÙ(bÙj))«((aÙb)Ùj)
(a«(b«j))«((a«b)«j)
Leis de distributividade (aÙ(bÚj)«((aÙb)Ú(aÙj))
(aÚ(bÙj))«((aÚb)Ù(aÚj))
Leis de comutatividade (aÚb)«(bÚa)
(aÙb)«(bÙa)
(a«b)«(b«a)

No que se refere à relação de consequência lógica, vejamos um exemplo de como a


definição 1.7 aplicada à lógica proposicional pode ser usada na avaliação de argumen-
tos. Considere o seguinte argumento:
(14) Se Sócrates é homem, então Sócrates é mortal;
Sócrates é homem;
Portanto, Sócrates é mortal.
que seria traduzido para a linguagem proposicional como segue:

95
(14’) A®B
A
\B
em que A significa “Sócrates é homem.”, B “Sócrates é mortal” e o símbolo \ significa
“Portanto”. Usando a terminologia da definição 1.7, o conjunto de premissas G seria aqui
igual a {A®B,A} e a conclusão a seria B, sendo a nossa tarefa usar a definição 1.7 para
saber se B é ou não uma consequência lógica de {A®B,A} ou, em símbolos, se
{A®B,A}ëB. De acordo com a definição 1.7, para que {A®B,A}ëB todos os modelos
que satisfazem {A®B,A} devem também satisfazer B. Assim, o que devemos fazer é
avaliar todos os modelos possíveis e, para cada um deles, checar se o dito acima é o caso.
Como temos aqui apenas os símbolos A e B, devemos considerar apenas quatro modelos,
ou sendo mais preciso, as quatro classes de modelos caracterizados na tabela abaixo:

Modelo A B
M1 V V
M2 V F
M3 F V
M4 F F

Consideremos primeiro se M1 satisfaz {A®B,A}. Uma breve consulta às defini-


ções 1.6 e 1.10 é suficiente para nos convencer que sim, M1 satisfaz {A®B,A}. É tam-
bém trivial que M1 satisfaz B. Assim, a nossa verificação foi bem-sucedida para M1. Fal-
ta agora fazermos o mesmo para M2, M3 e M4. Em relação M2, temos que esse modelo
não satisfaz {A®B,A}, pois ele não satisfaz A®B. Não precisamos então considerar
M2, pois tudo o que a definição exige é que nos modelos em que todos os membros de G
sejam satisfeitos, a também o seja. Assim, apenas os modelos que satisfazem G é que
podem invalidar a relação de consequência lógica entre G e a. Como a situação com M3
e M4 é semelhante (tanto M3 como M4 não satisfazem {A®B,A}, pois não satisfazem
A), temos então que {A®B,A}ëB.
Esse fato de que apenas as valorações que satisfazem G podem mostrar que GÓa
pode ser melhor visto quando usamos a definição 1.7 para mostrar que uma determina-
da fórmula não é consequência lógica de um conjunto de fórmulas, ou, usando outra
terminologia, que um determinado argumento não é (dedutivamente) válido. Considere
o argumento abaixo:

96
(15) Se chover então a rua estará molhada;
A rua está molhada;
Portanto choveu.
cuja tradução para a linguagem proposicional poderia ser como segue:
(15’) A®B
B
\A
em que A agora significa “Choveu” (ou “Chove”), e B “A rua está molhada”. Não é difí-
cil de concluir que esse argumento não é válido. Se quisermos, no entanto, usar a defini-
ção 1.7 para mostrar que {A®B,B}ÓA, basta encontrarmos um modelo M tal que M
satisfaz {A®B,B}, mas não satisfaz A. Uma breve consulta à tabela de modelos acima é
suficiente para sabermos que tal modelo é M3: claramente temos que M3 satisfaz
{A®B,B}, mas não satisfaz A. Assim, como não é verdade que para todo modelo M tal
que M satisfaz {A®B,B}, M também satisfaz A, temos que não é o caso que
{A®B,B}ëA, isto é, não é o caso que A é uma consequência lógica de {A®B,B}.
Segue abaixo tabela com alguns (esquemas de) argumentos (juntamente com suas
denominações mais conhecidas) cujas validades podem ser facilmente demonstradas
através da definição 1.7.

Modus ponens {a®b,a}ëb


Modus tolens {a®b,Øb}ëØa
Silogismo hipotético {a®b,b®j}ëa®j
Silogismo disjuntivo {aÚb,Øa}ëb
Conjunção {a,b}ëaÙb
Adição {a}ëaÚb
Redução ao absurdo {a®b,a®Øb}ëØa
Princípio da explosão {a,Øa}ëb

Um detalhe importante a respeito dessa maneira de mostrar que um determinado


argumento é válido, que se aplica igualmente ao método de tabela de verdade na deter-
minação do status lógico de uma proposição, é que ela envolve necessariamente a con-
sideração de todos os modelos (ou classes de modelos, se quisermos ser mais precisos)
relevantes para o argumento em questão. Se estamos, por exemplo, trabalhando com
um argumento ou fórmula que contém apenas 2 símbolos proposicionais, teremos que
examinar 4 modelos. Mas se nosso problema envolve 3 símbolos proposicionais, já te-

97
remos que considerar 8 modelos; 4 símbolos, 16 modelos; 5 símbolos, 32 modelos, e as-
sim por diante. Não é difícil ver que esse caráter exponencial de complexidade do nosso
método que, como já mencionamos, também atinge o método de tabela de verdade,
pode tornar nosso trabalho de verificação do status de fórmulas e de validade de argu-
mentos praticamente inexequível.
Outra maneira de realizar a mesma tarefa que, em muitos casos, pode ser extrema-
mente mais eficiente do que a maneira tradicional, é utilizando o chamado método de
prova por absurdo ou por redução ao absurdo, já mencionado por nós no capítulo 2. A ideia
da prova por absurdo é na verdade bastante simples. Imagine que desejemos provar
certa tese T, ou seja, desejamos mostrar que T é verdade. Uma maneira de fazer isso é
de forma direta, ou seja, partir de premissas conhecidamente verdadeiras e tentar che-
gar à T. No entanto, podemos também fazer a prova de maneira indireta, supondo
que a negação de T é verdadeira e chegando a partir daí em um absurdo ou contradi-
ção. Se conseguirmos fazer isso, teremos então provado que ØT é falso, e consequen-
temente que T é verdadeiro. Para ilustrar isso, considere a prova abaixo da irracionali-
dade de Ö2.
1. Suponha que Ö2 é racional, isto é, que existem dois números inteiros mutuamen-
te primos n e m tal que n/m=Ö2
2. Consequentemente, m2=2n2
3. Disso segue que m2 é par.
4. Consequentemente, m também é par, pois um número quadrado não pode ter ne-
nhum fator primo que também não seja um fator do número do qual ele é quadrado.
5. Como n e m são mutuamente primos, n tem de ser ímpar.
6. Assumindo que m=2k, temos que (2k)2=2n2.
7. O que equivale a dizer que 4k2=2n2, ou n2=2k2.
8. Repetindo o argumento de (3) e (4), concluímos que n é par.
9. Isso, no entanto, é uma contradição, pois vimos que n é ímpar.
10. Consequentemente, Ö2 não é racional.
Aqui, a tese que desejávamos provar era a de que Ö2 não é racional. No entanto, a
prova foi iniciada supondo-se que Ö2 é racional, ou seja, supondo que a negação da pró-
pria tese é verdadeira. A partir daí, efetuando algumas inferências básicas e utilizando
certas assunções matemáticas estabelecidas, chegou-se a um resultado contraditório:
que n é par e impar. Daí concluirmos que a nossa suposição inicial é falsa, ou seja, que a

98
tese que Ö2 é racional é falsa, o que acarreta obviamente que a tese que Ö2 não é ra-
cional é verdade30.
Aplicando então o método da redução ao absurdo à determinação do status lógico
de uma fómula, suponha que desejemos provar que
(16) (A®(B®C))®((A®B)®(A®C))
é uma tautologia. Como (16) tem 3 símbolos proposicionais, para fazer isso usando o
método de tabela de verdade, por exemplo, teríamos que construir uma tabela com 8 li-
nhas, o que pode ser bastante trabalhoso. Vejamos como funcionaria, nesse caso, o mé-
todo de prova por absurdo.
Como desejamos provar que (16) é uma tautologia, partimos da suposição de que a
sua negação, ou seja, a tese de que (16) não é uma tautologia, é verdade. De acordo com
a definição 1.5, se (16) não é uma tautologia, então há um modelo M que não satisfaz
(16). Se isso é o caso, então, pela definição 1.10, item (v), M é tal que MíA®(B®C) e
MÔ(A®B)®(A®C). Mas se MÔ(A®B)®(A®C), pela mesma definição temos que
MíA®B e MÔA®C. Finalmente, como MÔA®C, temos que MíA e MÔC. Mas se
MíA®B e MíA, temos que MíB. Mas se MíA®(B®C) e MíA, então MíB®C.
Finalmente, como MíB®C e MÔC, temos, necessariamente, que MÔB. Mas nós
concluímos logo acima que MíB. Logo, temos uma contradição e, consequentemente,
que (16) é uma tautologia. Esse raciocino pode ser detalhado como segue (com exceção
de (2), todos os passos inferenciais se utilizam do item (v) da definição 1.10).
1. (16) não é uma tautologia;
2. Há um modelo M que não satisfaz (16) (definição 1.5);
3. M é tal que MíA®(B®C) e MÔ(A®B)®(A®C);
4. Como MÔ(A®B)®(A®C), então MíA®B e MÔA®C;
5. Como MÔA®C, então MíA e MÔC;
6. Como MíA®B e MíA, então MíB;
7. Como MíA®(B®C) e MíA, então MíB®C;
8. Como MíB®C e MÔC, então MÔB;
9. (6) contradiz (8);

30. Alguns autores fazem a justa distinção entre redução ao absurdo, ou reduction ad absurdum, que é o método no
qual o resultado paradoxal obtido é um absurdo no sentido de ir de encontro a algumas suposições consensuais ou
óbvias demais para serem negadas, e redução ao impossível, ou reduction ad impossible, cujo resultado paradoxal,
além de ser também um absurdo, é logicamente impossível, como no exemplo acima no qual inferimos da suposição
de que Ö2 é racional a proposição contraditória que n é par e impar.

99
10. Logo, (1) não é verdade;
11. Logo, (16) é uma tautologia.
Esses passos poderiam ser abreviados consideravelmente se simplesmente preenchêsse-
mos os valores de uma única linha da tabela de verdade de (16) conforme especificado abaixo:

A B C (A ® (B ® C)) ® ((A ® B) ® (A ® C))


V5 V6 F5 V3 F8 V7 F2 V4 V6 F3 V5 F4 F5
F8
Aqui, cada valor de verdade representa o valor da fórmula associada ao símbolo logo
acima. Por exemplo, como abaixo do primeiro ® há um V, isso significa que a subfórmu-
la que tem tal conectivo como conectivo principal, a saber, A®(B®C) é verdade. Já o
símbolo F abaixo do terceiro ® indica que a subfórmula que tem tal conectivo como co-
nectivo principal, a saber, a própria fórmula (16), é falsa. O símbolo V abaixo da terceira
instância do símbolo proposicional A, indica que tal símbolo é verdade. O subscrito em
cada um dos valores de verdade indica o passo inferencial associado ao ato de escrever tal
símbolo na tabela. De acordo com o nosso raciocínio, começamos com a suposição de
que (16) não é uma tautologia (passo 1), e concluímos, no passo 2, que há um modelo M
que não satisfaz (16). Assim escrevemos F2 abaixo do conectivo principal de (16). Já no
passo 3 concluímos que M é tal que MíA® (B®C) e MÔ(A®B)®(A®C). Assim es-
crevemos V3 e F3 abaixo dos conectivos principais de A®(B®C) e (A®B)®(A®C),
respectivamente. Dessa forma, procedemos ao preenchimento dos valores de verdade
das várias subfórmulas de (16) até que encontramos, nos passos 6 e 8, uma contradição, o
que é explicitado escrevendo V6 e F8 abaixo do símbolo B.
O mesmo procedimento pode ser feito para provarmos que um determinado argu-
mento é válido. Suponha que desejemos provar que a relação abaixo é correta:
(17) {(AÚØB),B,ØC®ØA}ëC
Como queremos provar (17), supomos que sua negação é verdade, ou seja, {(AÚØB),
B,ØC®ØD}ÓC. De acordo com a definição 1.7, temos que existe um modelo M tal que
Mí{(AÚØB),B,ØC®ØD} e MÔC. Se M satisfaz {(AÚØB),B,ØC®ØA}, então de acordo
com a definição 1.6 temos que MíAÚØB, MíB e MíØC®ØA. Mas como MÔC, então
pela definição 1.10, item (ii), MíØC. Mas se MíØC e MíØC®ØA, então MíØA. No-
vamente, pela definição 1.10, item (ii), se MíØA, então MÔA. Mas se MÔA e MíAÚØB,
então MíØB, o que implica que MÔB. Assim temos que MÔB e MíB, o que é uma con-

100
tradição. Logo, (17) está correto. De maneira semelhante a como fizemos com (16), po-
demos resumir esse procedimento como segue:
1. {(AÚØB),B,ØC®ØD}ÓC;
2. Existe um modelo M tal que Mí{(AÚØB),B,ØC®ØD} e MÔC;
3. Como Mí{(AÚØB),B,ØC®ØA}, então MíAÚØB, MíB e MíØC®ØA;
4. Como MÔC, então MíØC;
5. Como Mí¬C e MíØC®ØA, então MíØA;
6. Como MíØA, então MÔA;
7. Como MÔA e MíAÚØB, então MíØB;
8. Como MíØB, então MÔB;
9. (3) contradiz (8);
10. Logo, (1) não é correto;
11. Logo, (17) é uma relação válida.
Ou, de forma diagramática:

A Ú ØB B ØC ® ØA C
F6 V3 V7 V3 V4 V3 V5 F2
F8

Um procedimento semelhante pode ser usado para mostrar que um dado conjunto
de fórmulas é satisfatível.
Veja que esse método de raciocínio metalógico (no sentido de ser usado para provar
algo relacionado com as fórmulas da nossa linguagem lógica) é representado logica-
mente (ou, se preferir, intralogicamente) pelo princípio da redução ao absurdo
{a®b,a®Øb}ëØa, conforme descrito acima. Também podemos, como fizemos
no capítulo 2, representar a prova ao absurdo em termos da relação de consequência
lógica: se GÈ{a}ëb e GÈ{a}ëØb, então GëØa.
Finalmente, podemos usar a definição 1.8 para obter a noção de equivalência se-
mântica na lógica proposicional. Fazendo isso, um aspecto interessante relacionado
com a distinção entre linguagem e metalinguagem surge. Primeiro de tudo, dada a rela-
ção existente entre a noção de equivalência semântica e o conectivo « mencionada na
seção anterior, é de se esperar que as leis expressas na forma de bicondicional mencio-
nadas na primeira tabela acima possam ser expressas com o auxílio da noção de equiva-
lência semântica:

101
Lei da dupla negação aÍØØa
Lei da contrapositiva (a®b)Í(Øb®Øa)
Lei da exportação (aÙb®j)Í(a®(b®j))
Lei da permutação (a®(b®j))Í(b®(a®j))
Lei da identidade aÍa
Leis de De Morgan Ø(aÚb)Í(ØaÙØb)
Ø(aÙb)Í(ØaÚØb)
Leis de tautologia aÍ(aÚa)
aÍ(aÙa)
Leis de associatividade (aÚ(bÚj))Í((aÚb)Új)
(aÙ(bÙj))Í((aÙb)Ùj)
(a«(b«j))Í((a«b)«j)
Leis de distributividade (aÙ(bÚj))Í((aÙb)Ú(aÙj))
(aÚ(bÙj))Í((aÚb)Ù(aÚj))
Leis de comutatividade (aÚb)Í(bÚa)
(aÙb)Í(bÙa)
(a«b)Í(b«a)

Mas se todas essas leis podem ser expressas tanto com « como com Í, pode-se
perguntar qual a diferença que há, se é que há diferença, entre a equivalência semântica e
o bicondicional.
Conforme definido na definição 1.4, uma fórmula do tipo a«b é nada mais do que
uma abreviação para a fórmula do tipo (a®b)Ù(b®a). A fórmula a seguir, por exem-
plo, é uma instância da lei da contrapositiva:
(18) (A®B)«(ØB®ØA)
(18), no entanto, é uma abreviação para a fórmula
(18’) ((A®B)®(ØB®ØA))Ù((ØB®ØA)®(A®B))
que é por sua vez, de acordo com as regras de abreviação de parênteses, uma abreviação
para a fórmula
(18”) (((A®B)®((ØB)®(ØA)))Ù(((ØB)®(ØA))®(A®B))).

102
Mas (18’), trivialmente, é, de acordo com a definição 1.1, uma fórmula da nossa lin-
guagem objeto, ou seja, de LP. Já a versão da mesma instância da lei da contrapositiva
expressa com Í,
(19) (A®B)Í(ØB®ØA)
não é um elemento da linguagem objeto, mas pertence sim a nossa metalinguagem. A
mesma coisa se aplica à boa parte dos termos usados nas definições dadas neste capítulo.
Por exemplo, as expressões a seguir, apesar de serem compostas também por elementos
da linguagem objeto, pertencem todas à metalinguagem: “M(P)=V”, “MíØ(A®B)” e
“{(A®B),A}ëB”. Resumindo então, enquanto A«B, ou, mais especificamente, a fór-
mula que tal concatenação de símbolos abrevia, pertence à linguagem objeto, AëB per-
tence à metalinguagem.
Veja, no entanto, que afirmamos haver certa equivalência entre « e Í. Mais preci-
samente, dissemos que, para duas fórmulas quaisquer a,bÎLP, se a«b então aÍb, e
se aÍb então a«b. Tal resultado pertence ao que chamamos no capítulo 2 de metaló-
gica, pois estabelece uma importante relação entre fórmulas da linguagem lógica e o
conceito metalógico (isto é, pertencente à metalinguagem) de equivalência semântica.
Obviamente que não basta afirmarmos tal relação; é necessário que demonstremos que
efetivamente a«b sss aÍb.
Conforme adiantado no início desta seção, juntamente com as definições apresen-
tadas no capítulo anterior, as definições apresentadas aqui são a primeira instância do
que chamamos no capítulo 2 de um sistema lógico: enquanto a definição 1.1 introduz a lin-
guagem proposicional LP, as definições 1.5-1.7 usadas em conjunto com 1.9 e 1.10 defi-
nem a relação de inferência ë que dirá, para todo conjunto de fórmulas G5LP e toda
fórmula aÎLP, se a é ou não uma consequência lógica de G, isto é, se o argumento ten-
do como conjunto de premissas G e como conclusão a é ou não um argumento válido.
Assim temos uma primeira caracterização completa do sistema lógico semântico pro-
posicional, ou em símbolos, o sistema <LP,ë>.

103
4.5 Exercícios propostos
1. Explique o que é e qual o propósito da sintaxe e da semântica de uma linguagem.
2. Construa três instâncias de cada um dos esquemas de fórmula abaixo:
a. a®bÙØa
b. Ø(aÚØ(j®a))
c. aÚ(Øa®a)
d. (a®(b®jÙa))«ØaÚb
e. ((ØØa®b)Ú(b®a))®ØbÙa
3. Faça a tabela de verdade de cada uma das fórmulas abaixo e diga se se trata de contin-
gência, tautologia ou contradição. Se for conveniente, utilize também o método da redu-
ção ao absurdo.
a. B®(C®B)
b. A«(BÚC)
c. A®ØA
d. Ø(BÙC®B)
e. B®BÚC
f. B®(C®ØØBÙC)
g. A
h. (A®B)ÚØ(A®B)
i. AÚB®Ø(A«ØB)
j. AÙB®ØC
k. A®ØB
l. Ø(A®A)
m. Ø(BÚØB)
n. ØB®(B®C)
o. (A®B)®Ø(AÙB)
p. Ø(BÚC)ÙC®Ø(BÚC)
q. AÙ(BÚC®ØA)
r. (B®D)®((C®D)®(BÚC®D))
s. (B®(C®D))®((B®C)®(B®D))
4. Faça a tabela de verdade das fórmulas abaixo e diga quais fórmulas são semanticamen-
te equivalentes entre si:
a. A®B
b. Ø(AÚB)
c. ØB®ØA
d. A
e. A®(B®C)
f. ØAÚB
g. B®(A®C)
h. ØØA
i. ØAÙØB

104
5. Seja M um modelo em que M(A)=V e M(B)=F. O que podemos concluir a respeito da sa-
tisfatibilidade de cada uma das fórmulas da questão anterior em M?
6. Seja a4(AÚØB)®ØØC e M um modelo qualquer.
a. Supondo que M(A)=V e M(C)=F, o que se pode concluir a respeito da satisfatibilidade
de a em M?
b. Supondo que M(C)=V, o que se pode concluir a respeito da satisfatibilidade de a em M?
c. Supondo que M(B)=V, o que se pode concluir a respeito da satisfatibilidade de a em M?
d. Supondo que Mía e M(A)=F, o que se pode concluir a respeito de M(C)?
e. Supondo que MÔa, o que se pode concluir a respeito de M(A), M(B) e M(C)?
7. Utilizando a definição 1.10, mostre as condições de verdade das fórmulas abaixo:
a. B®BÚC
b. B®(C®BÙC)
c. A®ØB
d. (AÙB®ØC)®Ø(AÚB)
e. ØØØ(A®A)
f. ((A®ØB)Ù(CÚØD))®ØØC
g. (B®(C®B))ÚØØD
8. Seja M um modelo e as afirmações abaixo. O que se pode concluir a respeito delas su-
pondo que MíA®B? E se supormos que MÔA®B?
a. MíAÚC®BÚC
b. MíAÙC®BÙC
c. MíØAÚB®AÚB
9. Seja M um modelo tal que MíA«B. O que podemos concluir a respeito das afirmações
abaixo?
a. MíØAÙB
b. MíAÚØB
c. MíA®B
d. MíAÙC«BÙC
e. MíAÚC«BÚC
[Link] as fórmulas abaixo. Identifique, justificando sua resposta, os casos em que {a}ëb
e os casos em que aÍb.
a. a4A, b4A
b. a4A, b4AÚB
c. a4(A®B), b4ØAÚB
d. a4A®ØB, b4ØB
e. a4B®BÚC, b4(B®BÚC)Ú(CÚØC)
f. a4AÙØA, b4AÙB®ØC
g. a4BÙC®B, b4(B®D)®((C®D)®(BÚC®D))
h. a4Ø(B®A), b4AÙ(BÚC®ØA)
[Link] agora o método da redução ao absurdo, diga quais casos da questão 10 são tais
que {a}ëb.
[Link], usando o método da tabela de verdade ou método da redução ao absurdo, quais
dos conjuntos de fórmulas abaixo são satisfatíveis.

105
a. {P,ØP}
b. {P®Q,Q®R,P,ØR}
c. {P®Q,Ø(QÙØR),R®S,Ø(SÙP)}
d. {Ø(BÚC)ÙC®Ø(BÚC),ØQ,R®(SÚR), S}
e. {P, QÙØR,ØQÚR}
f. {P®Q,Q®R,P,R}
g. {P®Q,Ø(QÙØR),R®S}
[Link] L uma linguagem lógica e aÎL uma fórmula dessa linguagem. Mostre que
a. a é uma tautologia sss Øa é uma contradição;
b. a é uma contradição sss Øa é uma tautologia;
c. a é uma contingência sss a não é nem tautologia nem contradição;
[Link] o corolário 1.1.
[Link] L uma linguagem lógica e a,bÎL fórmulas dessa linguagem. Mostre que aÍb sss
a«b é uma tautologia.
[Link] o corolário 1.2.

4.6 Exercícios de análise lógica


1. Traduza para a linguagem proposicional os argumentos abaixo (usando um glossário
com os símbolos proposicionais usados) e avalie intuitivamente sua validade. Após
isso, demonstre, utilizando as definições 1.9 e 1.10, em conjunto com a definição 1.7, se
tais argumentos são efetivamente válidos ou não. Utilize, se achar conveniente, o méto-
do da prova por absurdo.
a. Se fosse possível ter uma prova absoluta da existência de Deus, então seria possível
sermos irresistivelmente atraídos a fazer o bem.
Se fosse possível para nós sermos irresistivelmente atraídos a fazer o bem, então nós
não teríamos livre-arbítrio.
Nós temos livre-arbítrio.
\ Não é possível ter uma prova absoluta da existência de Deus.
b. Se o racismo é realmente incorreto, então é factualmente evidente que todas as raças
têm habilidades iguais ou é moralmente claro que os interesses similares de todos os
seres vivos devem ser levados igualmente em consideração.
Não é factualmente evidente que todas as raças têm habilidades iguais.
Se é moralmente claro que os interesses similares de todos os seres vivos devem ser
levados igualmente em consideração, então é claro que interesses similares de
animais e seres humanos devem ser igualmente levados em consideração.
\ Se o racismo é realmente incorreto, então é claro que interesses similares de animais
e seres humanos devem ser igualmente levados em consideração. [Esse argumento
foi dado por Peter Singer, um dos líderes do Movimento de Libertação dos Animais.]
c. Se não há conversa na sala de aula e todos os alunos adquiriram o livro, então é possí-
vel ter uma boa aula de lógica.
Há conversa na sala de aula.
Todos os alunos adquiriram o livro.
\ Não é possível ter uma boa aula de lógica.

106
d. O universo é ordenado [tal qual um relógio que obedece a leis complexas].
A maioria das coisas ordenadas que nós temos examinado tem por trás de sua cria-
ção seres inteligentes.
Nós examinamos uma quantidade grande e variada de coisas ordenadas.
Se a maioria das coisas ordenadas que nós temos examinado tem por trás de sua
criação seres inteligentes e nós examinamos uma quantidade grande e variada de
coisas ordenadas, então provavelmente a maioria das coisas ordenadas tem por
trás de sua criação seres inteligentes.
Se o universo é ordenado e provavelmente a maioria das coisas ordenadas tem por
trás de sua criação seres inteligentes, então o universo provavelmente tem por
trás de sua criação um ser inteligente.
\ O universo provavelmente tem por trás de sua criação um ser inteligente.
e. O mal existe.
Se o mal existe, então Deus não deseja impedir o mal ou Ele não pode impedir o mal.
Se Deus não deseja impedir o mal, então Ele não é onibenevolente.
Se Deus não pode impedir o mal, então Ele não é onipotente.
Se Deus existe, então Ele é onipotente e onibenevolente.
\ Deus não existe.
f. Sistemas fechados tendem em direção a maiores entropias [uma distribuição mais uni-
forme de energia; essa é a segunda lei da termodinâmica].
Se sistemas fechados tendem em direção a maiores entropias e o universo não teve
um início no tempo, então o universo teria atingido um estado de quase completa
entropia (por exemplo, tudo teria a mesma temperatura).
O universo não atingiu um estado de quase completa entropia.
\ O universo teve um início no tempo. [Esse argumento é de William Craig e James Mo-
reland.]
g. O universo teve um início no tempo.
Se o universo teve um início no tempo, então houve uma causa para o início do universo.
Se houve uma causa para o início do universo, então um ser pessoal é a causa do universo.
\ Um ser pessoal é a causa do universo. [Esse argumento é de William Craig e James
Moreland.]
h. Se a crença na existência de Deus tem base científica, então ela é racional.
Nenhum experimento científico concebível pode decidir se Deus existe ou não.
Se a crença na existência de Deus tem base científica, então há algum experimento
científico concebível capaz de decidir se Deus existe ou não.
\ A crença na existência de Deus não é uma crença racional.
i. Se a virtude pode ser ensinada, então existem professores profissionais de virtude ou
existem professores amadores de virtude.
Se existem professores profissionais de virtude, então os sofistas podem ensinar
seus estudantes a serem virtuosos.
Se existem professores amadores de virtude, então os mais nobres dos atenienses
podem ensinar os seus filhos a serem virtuosos.
Os sofistas não podem ensinar seus estudantes a serem virtuosos e os mais nobres
dos atenienses (tal qual o grande líder Péricles) não podem ensinar os seus filhos
a serem virtuosos.

107
\ A virtude não pode ser ensinada. [Esse argumento aparece no Mênon de Platão.]
j. Se nós temos um conceito simples para Deus, então é porque nós temos experiência di-
reta de Deus e não podemos racionalmente duvidar de sua existência.
Nós não temos experiência direta da existência de Deus.
\ Nós não temos um conceito simples para Deus.
k. É igualmente errado para um sádico cegar permanentemente uma pessoa seja depois
ou antes do seu nascimento [através, por exemplo, de uma injeção que o cegaria mas
não machucaria sua mãe].
Se é igualmente errado para um sádico cegar permanentemente uma pessoa seja de-
pois ou antes do seu nascimento, então é falso que os direitos morais das pessoas
começam apenas após o nascimento.
Se infanticídio é errado e aborto não é errado, então os direitos morais de uma pessoa
começam apenas após o nascimento.
Infanticídio é errado.
\ Aborto é errado.
l. Se a predestinação é verdade, então Deus é a causa de sermos pecadores.
Se Deus é a causa de sermos pecadores, mas ainda assim condena os pecadores ao casti-
go eterno, então Deus não é bom.
\ Se Deus é bom, então ou a predestinação não é verdade ou Deus não condena os peca-
dores ao castigo eterno.
m. Se uma determinada entidade é empiricamente percebida por todos, ou quase todos os
membros de uma comunidade, então essa entidade existe.
Na história da humanidade, apenas um número extremamente reduzido de pessoas pro-
clamou ter percebido empiricamente a entidade a qual chamamos de Deus.
Não é verdade então que Deus tenha sido empiricamente percebido por todos, ou quase to-
dos os membros das mais diversas comunidades existentes na história da humanidade.
\ Deus não existe.
n. Deus é todo-poderoso.
Se Deus é todo-poderoso, então Ele poderia ter criado o mundo de qualquer maneira, ló-
gica ou não, e o mundo tal qual ele é não teria nenhum tipo de necessidade.
Se o mundo tal qual ele é não tem nenhum tipo de necessidade, então nós não podemos
conhecê-lo por mera especulação filosófica sem a ajuda da experiência.
\ Nós não podemos conhecer o mundo tal qual ele é por mera especulação filosófica sem
a ajuda da experiência. [Esse argumento é do filósofo medieval William de Ockham.]
o. Se a voz do povo é a voz de Deus, então Lampião é um herói.
Se a voz do povo é a voz de Deus, então Lampião é um assassino sanguinário.
Se Lampião é um assassino sanguinário, então ele não é um herói.
\ Não é verdade que a voz do povo é a voz de Deus.
p. Se você tem uma crença moral e não age de acordo com ela, então você está sendo in-
consistente.
Se você está sendo inconsistente, então você está agindo errado.
\ Se você tem uma crença moral e age de acordo com ela, então você não está agindo er-
rado.

108
5
Método axiomático e o cálculo proposicional

5.1 Derivação, axiomas e inferências


Neste capítulo abordaremos a relação de inferência lógica = de uma maneira estri-
tamente sintática. Conforme falamos no capítulo 2, tal maneira de se definir a relação
de inferência lógica, que será representada aqui pelo símbolo „, faz referência exclu-
sivamente à forma sintática dos enunciados, sem atentar para o significado dos seus
símbolos. Assim, para saber se um argumento qualquer <G,a> é válido, examina-se
apenas a forma sintática das fórmulas que o compõem, isto é, a maneira como os di-
versos símbolos estão concatenados uns com os outros dentro dos enunciados. No
caso de <G,a> ser válido, escrevemos G„a; caso contrário, escrevemos GÒa. Co-
mumente chamamos o sistema lógico <L,„>, em que L é uma linguagem lógica e „ é
uma relação de inferência definida sintaticamente, de um cálculo lógico. Como seria de
se esperar, centraremos nossos esforços em apresentar tal definição para a lógica clás-
sica proposicional. Juntamente com a linguagem proposicional introduzida no capítu-
lo 3, essa definição comporá o que chamamos de cálculo clássico proposicional, ou
simplesmente cálculo proposicional. Antes, porém, de introduzirmos o cálculo proposici-
onal, iremos, nesta seção e na próxima, tentar dar uma caracterização geral, indepen-
dente de qualquer lógica específica, de o que é um cálculo lógico. De posse de tal ca-
racterização, introduziremos então, na seção 5.3, a relação de inferência sintática para
a lógica proposicional.
Para começar, tentemos descobrir como uma apresentação puramente sintática da
relação de inferência poderia ser feita. Para isso, considere o seguinte argumento:
(1) Se o universo teve um início, então ele teve uma causa.
Se o universo teve uma causa, então Deus é a causa do universo.
Não é verdade que o universo não teve um início.
Portanto, Deus é a causa do universo.
cuja tradução para a linguagem proposicional seria como segue:

109
(1’) A®B
B®C
ØØA
\ C
em que o significado de A, B e C é conforme descrito abaixo:
A: O universo teve um início.
B: O universo teve uma causa.
C: Deus é a causa do universo.
Assim, teríamos o conjunto {A®B,B®C,ØØA} como sendo as premissas, e C
como sendo a conclusão de (1’).
Podemos ver, sem muita dificuldade, que esse argumento é válido. Agora, a despei-
to dessa avaliação intuitiva, como podemos justificar a validade de (1’)? Sabemos como
fazer isso semanticamente, utilizando a relação de consequência lógica ë descrita na
definição 1.7. Nosso problema aqui é, no entanto, dar tal justificativa de uma forma pu-
ramente sintática, olhando exclusivamente para a forma dos enunciados, sem se referir
a possíveis interpretações semânticas dos símbolos da linguagem. Isso poderia ser feito
como segue. Primeiramente nós diríamos que é autoevidente que se nós temos ØØA,
então nós temos também A ou, em outras palavras, que ØØA®A é algo como uma lei
lógica, um princípio válido universalmente. Mas se isso é o caso, como a nossa terceira
premissa é exatamente ØØA, então aplicando esse princípio nós temos também A.
Agora, dado que temos A e que a primeira premissa de (1’) é A®B, então obviamente
nós teremos também B. No entanto, como temos B e B®C (segunda premissa), então
temos também C, que é exatamente a conclusão do nosso argumento.
Refletindo um pouco sobre essa justificativa informal da validade de (1’), trivial-
mente o que fizemos foi simplesmente fornecer uma sequência de fórmulas cujo último
membro é exatamente a conclusão do argumento que estamos tentando justificar. Isso
pode ser visto se reescrevermos todas as fórmulas que mencionamos na nossa justifica-
tiva na ordem em que elas apareceram:
(2) 1. ØØA
2. ØØA®A
3. A
4. A®B
5. B
6. B®C
7. C
Colocado dessa forma, o que temos agora como justificativa de que (1’) é válido, ou
como justificativa que C é realmente uma consequência de {A®B,B®C,ØØA}, é uma

110
sequência de fórmulas tendo C como último membro. Chamemos, de agora em diante,
uma sequência de fórmulas do tipo acima, que tem como objetivo justificar a validade
de um argumento, de uma derivação, no caso de (1’) uma derivação de C a partir de
{A®B, B®C, ØØA}. Assim temos que um argumento é válido se formos capazes de
exibir uma derivação que, como no exemplo acima, consiga “chegar” à conclusão a par-
tir das premissas.
Indo um pouco mais além nessa reflexão e tentando melhor compreender essa re-
cém introduzida noção de derivação, tentemos elaborar um pouco sobre que caracterís-
ticas uma sequência de fórmulas deve ter para poder ser chamada de uma derivação de
a a partir de G, em que a é uma fórmula e G é um conjunto de fórmulas. Em primeiro
lugar, vimos que uma primeira condição para que uma tal sequência seja uma derivação
é que seu último membro seja igual a a. Apesar de necessária, tal condição claramente
não é suficiente. A razão disso é que na justificativa informal de (1’) que demos acima, a
presença de cada um dos membros na sequência parece de alguma forma estar justifica-
da. Isso na verdade é óbvio, pois se iremos usar uma sequência de fórmulas para justifi-
car que a pode ser deduzido a partir de G, então cada uma das fórmulas pertencentes à
sequência deve ela própria estar de alguma forma justificada. A nossa tarefa agora então
é descobrir o que seria suficiente para justificar a presença de uma determinada fórmula
em uma derivação de a a partir de G.
A fim de tornarmos nossa exposição mais concisa, referir-nos-emos, a partir de
agora, à primeira fórmula da sequência (2) como a fórmula (2.1), a segunda como (2.2),
a terceira como (2.3), e assim por diante. Dito isso, claramente as fórmulas (2.1), (2.4) e
(2.6) podem fazer parte da derivação, pois elas mesmas são partes do conjunto de pre-
missas, sendo essa a justificativa de estarem tais fórmulas presentes na sequência. Se es-
tamos tentando mostrar que a segue de G, nada mais natural do que podermos utilizar
os membros de G para isso. Assim, temos uma primeira justificativa possível para a pre-
sença de uma fórmula b em uma derivação de a a partir de G: que b pertença à G.
Já com (2.2), a situação é diferente: ØØA®A não é uma das premissas. Note, no
entanto, que na exposição informal que demos acima, além de fazermos uso da expres-
são “como é óbvio que”, dissemos que tal fórmula seria algo como um princípio ou lei
lógica, sugerindo que sua veracidade seria algo além de qualquer dúvida. Se isso é o caso,
e parece bastante razoável que seja, tal fórmula então poderia aparecer na justificativa
de qualquer argumento. Diremos então que outra possível justificativa para a presença
de uma fórmula b em uma derivação de a a partir de G é que b seja uma dessas leis lógi-
cas, às quais daremos o nome de axiomas lógicos31.

31. Mais na frente veremos que o que chamaremos efetivamente de axiomas lógicos corresponde apenas a uma pe-
quena parte do conjunto de todas as leis lógicas.

111
Esses dois tipos de justificativas que encontramos até agora claramente não são su-
ficientes para efetivamente chegarmos à a a partir de G. Isso porque, a menos que a
fosse um dos membros de G ou um axioma lógico, a mera inclusão de membros de G ou
axiomas lógicos nunca poderia nos levar à a. Para isso é necessário que possamos incluir
novas fórmulas a partir de outros membros da sequência. Isso é feito através do uso do
que chamamos de regras de inferências, que é o que justifica a presença de (2.3), (2.5) e (2.7)
na nossa derivação.
Tome (2.3) como exemplo. Na nossa explanação informal, a presença de A é justifi-
cada através da menção de duas fórmulas anteriormente introduzidas: ØØA e ØØA®A.
Apesar de não ter sido mencionado, claramente essa justificativa apela para a existência de
um princípio lógico que diz que, para quaisquer fórmulas a e b, pode-se inferir b a par-
tir de a e a®b. Essa é a famosa regra modus ponens (ou simplesmente MP), que obvia-
mente é um exemplo do que estamos chamando aqui de regra de inferência. Tradicio-
nalmente representamos MP através do esquema abaixo:
a, a ® b
(3)
b
em que a e b são duas fórmulas quaisquer. A linha acima de b indica que podemos infe-
rir b a partir de a e a®b. Se substituirmos a por ØØA e b por A, obtemos a regra espe-
cífica utilizada na inferência de (2.3):
ØØA, ØØA ® A
(4)
A
Sendo (4) uma instância de MP, dizemos que (4) é uma inferência admissível, o que sig-
nifica que podemos efetivamente inferir A a partir de ØØA e ØØA®A. Mas como es-
sas duas últimas fórmulas, ou seja, os antecedentes da inferência admissível, são exata-
mente (2.1) e (2.2), podemos então acrescentar seu consequente, isto é, A (2.3), na deri-
vação (2). Assim, dizemos que (2.3) é o resultado do uso da inferência admissível (4) em
conexão com (2.1) e (2.2), o que justifica então sua presença em (2). Como (4) é uma
instância de MP, dizemos que (2.3) é o resultado da aplicação de MP a (2.1) e (2.2).
Algo similar acontece com (2.5) e (2.7). As inferências abaixo, ambas instâncias de
MP e portanto inferências admissíveis, justificam, respectivamente, a presença das fór-
mulas (2.5) e (2.7) na derivação (2):
A, A ® B
(5)
B
B, B ® C
(6)
C

112
Enquanto (5) torna explícito o fato de (2.5) ser o resultado da aplicação de MP à
(2.3) e (2.4), (6) deixa claro que (2.7) é o resultado da aplicação de MP à (2.5) e (2.6).
Assim diremos que a terceira maneira através da qual podemos justificar a presença
de uma fórmula em uma derivação é que ela tenha sido obtida através de uma regra de
inferência aplicada a um ou mais membros anteriores da derivação; ou equivalentemen-
te, que tal fórmula seja o consequente de uma inferência admissível cujos antecedentes
sejam membros anteriores na derivação. Podemos então reescrever a derivação (2) ex-
plicitando a justificativa de cada um dos seus membros como segue:
(2’) 1. ØØA Premissa
2. ØØA®A Axioma
3. A MP 1,2
4. A®B Premissa
5. B MP 3,4
6. B®C Premissa
7. C MP 5,6
Aqui a expressão “MP 1,2” ao lado da terceira fórmula da sequência, por exemplo,
indica que tal fórmula foi obtida através da aplicação de MP à primeira e segunda fór-
mulas da derivação; ou, em outras palavras, que existe uma inferência admissível instân-
cia de MP cujos antecedentes são as primeira e segunda fórmulas, e cujo consequente é
exatamente essa terceira fórmula da sequência.
Resumindo então, o nosso objetivo, vale a pena lembrar, é construir „ de tal for-
ma que, para um conjunto qualquer de fórmulas G e uma fórmula qualquer a, possa-
mos responder a pergunta: a é ou não deduzida a partir de G? (Em caso positivo nós
escrevemos G„a, em caso negativo GÒa.) A resposta que encontramos foi que para
que a seja deduzido a partir de G, é necessário que haja uma sequência de fórmulas, à
qual demos o nome de derivação, cujo último membro seja a, e tal que cada um de seus
membros, incluindo esse último membro, seja justificado em uma das três maneiras
seguintes: ou ele é um membro do conjunto de premissas G, ou é membro de um conjunto
de fórmulas chamadas de axiomas lógicos, ou possa ser obtido a partir de outros mem-
bros da sequência anteriores a ele através do uso de uma inferência admissível, que por
sua vez deve ser uma instância do que estamos chamando de regra de inferência. Ve-
mos então que, para construirmos um cálculo lógico nos moldes aqui delineados, te-
mos que considerar, além de uma linguagem lógica, também um conjunto de axiomas
e um conjunto de inferências admissíveis. A uma estrutura deste tipo nós damos o
nome de cálculo axiomático.

113
5.2 Cálculo axiomático
Vejamos agora, nesta seção, como os conceitos introduzidos na seção anterior po-
dem ser definidos de forma precisa. Conforme já mencionamos, faremos isso de forma
geral, sem instanciarmos tais conceitos a nenhum sistema lógico específico. Em outras
palavras, definiremos os conceitos de inferência, derivação e relação de dedução, por
exemplo, de tal forma que eles possam ser aplicados a qualquer sistema lógico; na seção
5.3, quando definirmos o cálculo proposicional, veremos em detalhes como se dá tal
aplicação. Nesta ocasião teremos oportunidade de ilustrar e melhor clarificar várias das
definições apresentadas nesta seção.
O método de apresentar um cálculo lógico enfatizando o uso de axiomas é conhecido
como método axiomático32. Como vimos, no entanto, além dos axiomas é imprescindível a
existência de uma maneira de inferir novas fórmulas a partir de fórmulas já conhecidas.
De uma forma geral, chamaremos tal procedimento simplesmente de uma inferência:

DEFINIÇÃO 1.11 Seja L uma linguagem lógica. Uma inferência em L é um par


<A,b> em que A5L é um conjunto de fórmulas e bÎL é uma fórmula. Representare-
a ,..., a n
mos alternativamente a inferência <{a1,...,an},b> como a1,...,an / b ou 1 .
b
Trivialmente, o que a definição 1.11 faz é simplesmente apresentar de uma forma
mais precisa a noção de inferência introduzida na seção anterior. De posse dessa noção,
e chamando um determinado conjunto de inferências de inferências admissíveis e um con-
junto específico de fórmulas de axiomas, podemos definir formalmente a noção de cálculo
axiomático como segue:

DEFINIÇÃO 1.12 Um cálculo axiomático C é uma tripla <L,S,L> em que L é uma lin-
guagem lógica, S é um conjunto de inferências em L chamadas de inferências admissíveis
de C e L5L é um conjunto de fórmulas chamadas de axiomas de C.
De posse desse conceito, podemos definir formalmente o que chamamos na seção
passada de derivação, com o diferencial de que aqui falaremos sempre de uma derivação de
uma fórmula a partir de um conjunto de fórmulas em um cálculo axiomático específico.

32. Essa expressão, que tem sua origem na maneira como Euclides sintetizou o conhecimento geométrico de sua
época em seu livro Elementos, geralmente se refere também a uma maneira específica de organizar o conhecimento
que, em um sentido muito forte, encontra sua forma mais bem acabada nas apresentações axiomáticas da lógica.

114
DEFINIÇÃO 1.13 Seja C=<L,S,L> um cálculo axiomático, G5L um conjunto de
fórmulas, aÎL uma fórmula e W=<b1,...,bn>, biÎL (i=1,...,n), uma sequência de fór-
mulas. Dizemos que W é uma derivação de a a partir de G no cálculo C se e somente se as
duas condições abaixo são satisfeitas
(i) bn4a;
(ii) Para i=1,...,n, uma das condições abaixo é satisfeita:
a) biÎG;
b) biÎL;
c) Existe uma inferência admissível bj1,...,bjn / bi ÎS tal que j1, ..., jn<i.
Primeiro de tudo, temos aqui explicitamente todos os elementos necessários para di-
zer se W é uma derivação de a a partir de G, a saber, um cálculo axiomático C composto por
uma linguagem L, um conjunto de inferências admissíveis S e um conjunto de axiomas L. Se-
gundo, para a sequência de fórmulas W ser efetivamente uma derivação de a a partir de G
no cálculo C, duas condições têm de ser satisfeitas. Primeiro, (i) o último membro de W,
que na definição acima chamamos de bn, tem de ser sintaticamente igual à a (em símbo-
los: bn4a). Isso significa que bn tem de ser exatamente a mesma concatenação de sím-
bolos que a. Segundo, (ii) para cada um dos membros b1, b2, ..., bn de W, ou, usando a ter-
minologia da própria definição, para i variando de 1 até n, no mínimo uma das três condições
seguintes tem de ser satisfeita: ou (a) o membro de W em questão é uma das premissas
(em símbolos: biÎG), ou (b) ele é um axioma (em símbolos: biÎL); ou (c) ele é obtido a
partir de um ou mais membros anteriores de W através de uma inferência admissível (em
outras palavras, existe uma inferência admissível bj1,...,bjn / biÎS tal que j1, ..., jn<i).
Vale a pena lembrar que, de acordo com o que concluímos na seção passada, uma
derivação é exatamente o que justifica a validade de um argumento. Em outras palavras,
um argumento <G,a>, em que G é o conjunto de premissas e a é a conclusão, é um ar-
gumento válido se e somente se existir ao menos uma derivação de a a partir de G. Isso
é formalizado na definição abaixo:

DEFINIÇÃO 1.14 Seja C=<L,S,L> um cálculo axiomático, G5L um conjunto de


fórmulas e aÎL uma fórmula. Dizemos que a é deduzida a partir de G no cálculo C (em
símbolos: G„a) se e somente se existir uma derivação de a a partir de G no cálculo C.
Veja que, em consonância com toda a exposição feita até aqui, e também com a de-
finição semântica da relação de inferência dada no capítulo anterior, a definição 1.14
acima estabelece uma relação entre um conjunto de fórmulas G e uma fórmula a especí-
fica: se G„a, então podemos dizer que, de acordo com o cálculo axiomático em ques-

115
tão, o argumento <G,a> é um argumento válido. No entanto, pode ser que queiramos
dizer não que uma única fórmula é deduzida a partir de G, mas sim que um conjunto de
fórmulas D é deduzido a partir de G, no sentido de todos os membros de D serem dedu-
zidos a partir de G. Tal extensão da noção de dedução é feita logo a seguir:

DEFINIÇÃO 1.15 Seja C=<L,S,L> um cálculo axiomático e D,G5L dois conjun-


tos de fórmulas. Dizemos que D é deduzido a partir de G no cálculo C (em símbolos: G„D)
se e somente se, para todo aÎD, G„a33.
Um ponto digno de nota é que, de acordo com a definição 1.15, para todo G5L, te-
mos que G„^. Isso pode ser visto mais claramente quando reescrevemos 1.15 como
segue: Dizemos que D é deduzido a partir de G no cálculo C (em símbolos: G„D) se e
somente se não houver nenhum aÎD tal que GÒa. Como efetivamente não há ne-
nhum aÎ^ tal que GÒa, devido ao fato óbvio de que o conjunto vazio não possui ele-
mento algum, temos então que G„^. Para finalizar esta seção, segue abaixo a definição
da noção de teorema lógico:

DEFINIÇÃO 1.16 Seja C=<L,S,L> um cálculo axiomático e aÎL uma fórmula.


Dizemos que a é um teorema lógico de C se e somente se ^„a (no cálculo C). Comu-
mente representaremos ^„a como „a34.
Como pode ser facilmente constatado, um teorema lógico é apenas um caso particular
da situação geral descrita na definição 1.14, em que uma fórmula é deduzida a partir de um
conjunto de premissas, sendo a particularidade em questão que tal conjunto é o conjunto
vazio. Nesse caso, trivialmente a derivação que justifica tal dedução não se utiliza de ne-
nhuma premissa, mas apenas dos axiomas e inferências admissíveis do cálculo em ques-
tão. Veja que, de acordo com essa definição, todos os axiomas de C são automaticamente
também teoremas lógicos de C, pois eles claramente são deduzidos a partir do conjunto
vazio: para qualquer aÎL, existe uma derivação de a a partir de ^, a saber, uma sequên-
cia unitária de fórmulas composta pelo próprio a; assim temos que ^„a.

33. Apesar de estarmos usando o termo “dedução” e o símbolo „ nas duas definições 1.14 e 1.15, tais definições
tratam, na verdade, de dois conceitos diferentes (porém, é claro, intimamente relacionados entre si). Isso fica pa-
tente quando observamos o fato óbvio de que, enquanto o conceito de dedução da definição 1.14 é uma relação en-
tre conjuntos de fórmulas e fórmulas, o da definição 1.15 é uma relação entre conjuntos de fórmulas. De aqui em
diante, salvo dito o contrário, quando usarmos o termo “dedução”, estaremos nos referindo à noção apresentada na
definição 1.14.
34. Apesar de existir um segundo uso para a palavra “teorema” (que já foi antecipado em capítulos anteriores e será
explicado em detalhes no próximo capítulo), quando o contexto não der margem para ambiguidades poderemos nos
referir a um teorema lógico simplesmente através da palavra “teorema”.

116
5.3 Cálculo proposicional
Nesta seção instanciaremos a noção de cálculo axiomático introduzida na seção an-
terior definindo o que temos chamado até agora de cálculo proposicional, isto é, a rela-
ção de inferência da lógica proposicional vista de uma perspectiva estritamente sintáti-
ca. Paralelamente a isso, elucidaremos alguns aspectos importantes do que estamos
chamando aqui de método axiomático.
Comecemos com a definição dos axiomas do cálculo proposicional. Considere pri-
meiramente a relação
(7) {AÙB®C,Ø(AÙB)®C}„C
e uma das possíveis derivações capazes de justificá-la:
(8) 1. AÙB®C Premissa
2. (AÙB®C)®((Ø(AÙB)®C)®((AÙB)ÚØ(AÙB)®C)) Axioma
3. (Ø(AÙB)®C)®((AÙB)ÚØ(AÙB)®C) MP 1,2
4. Ø(AÙB)®C Premissa
5. (AÙB)ÚØ(AÙB)®C MP 4,3
6. (AÙB)ÚØ(AÙB) Axioma
7. C MP 6,5
Aqui, os axiomas que aparecem em (8) são instanciações de dois princípios lógicos
fundamentais. Enquanto (8.2) é a instanciação de um axioma que diz que se a®j e
b®j, então aÚb®j, isto é,
(9) (a®j)®((b®j)®(aÚb®j))
(8.6) instancia o que chamamos no capítulo 1 de princípio do terceiro excluído:
(10) aÚØa.
Mas veja que
(8.6) (AÙB)ÚØ(AÙB)
é bastante diferente de
(10’) AÚØA,
que seria a fórmula que mais imediatamente pensaríamos como representando o princí-
pio do terceiro excluído. No entanto, e apesar disso, (8.6) e (10’) possuem algo em co-
mum: sua forma lógica, que é exatamente o que é representado em (10). O mesmo vale,
podemos seguramente afirmar, para as fórmulas (AÚB)ÚØ(AÚB), (B®A)ÚØ(B®A) e
(ØØB®B)ÚØ(ØØB®B). A mesma coisa pode ser dita sobre (8.2) e (9). (9) e (10) são o
que chamamos no capítulo 4 de esquemas de fórmulas, sendo (8.2) e (8.6) instâncias de (9) e
(10), respectivamente.

117
Esse ponto é importante, pois queremos incluir no nosso conjunto de axiomas não
apenas uma ou duas instâncias de (9) e (10), mas todas as instâncias de tais princípios ló-
gicos. Mas claramente há um número infinito de fórmulas que compartilham, por exem-
plo, a forma lógica exibida em (10). Assim, definiremos o componente L do cálculo
proposicional, isto é, o conjunto de axiomas a ser usado nas nossas derivações, apelan-
do para a semelhança em termos de forma lógica que certos axiomas têm. Em outras
palavras, ao invés de listarmos todos os axiomas de um cálculo, listaremos o que chama-
mos de esquemas de axiomas35.

DEFINIÇÃO 1.17 Seja L uma linguagem lógica cujo alfabeto AL seja tal que
{Ø,Ù,Ú,®}5AL36 e a,b,jÎL fórmulas quaisquer dessa linguagem. Nomeamos as fór-
mulas abaixo como segue:
P1. a®(b®a)
P2. (a®(b®j))®((a®b)®(a®j))
P3. aÙb®a
P4. aÙb®b
P5. a®(b®aÙb)
P6. a®aÚb
P7. b®aÚb
P8. (a®j)®((b®j)®(aÚb®j))
P9. (a®b)®((a®Øb)®Øa)
P10. Øa®(a®b)
P11. aÚØa
Chamamos a forma esquemática de cada uma dessas fórmulas pelo mesmo nome.
Nosso objetivo em definir tal lista de esquemas de fórmulas e estipular a cada um
deles uma denominação especial é obviamente usar as suas instâncias como axiomas na

35. Outro detalhe importante é que, conforme veremos abaixo, além de tornar possível a referência a um número
infinito de axiomas, o uso de esquemas de axiomas também permite que definamos os axiomas para uma lingua-
gem arbitrária qualquer. Isso permitirá que usemos, no capítulo 11, as mesmas definições apresentadas aqui na
construção do cálculo de predicados, cálculo este definido a partir de outra linguagem: a linguagem de predicados
de primeira ordem.
36. Aqui estamos supondo que os conectivos lógicos Ø, Ù, Ú e ® são usados na definição de L em consonância com
a maneira como os mesmos são usados na definição 1.1. Tal pressuposição se aplica igualmente à definição 1.19 em
relação ao conectivo ® e à definição 2.12 no capítulo 7.

118
construção de nossos cálculos axiomáticos. Tendo em vista tal uso, definimos abaixo a
noção de conjunto de axiomas:

DEFINIÇÃO 1.18 Seja L uma linguagem lógica e PI1, ..., PIn esquemas de fórmulas.
Dizemos que LPI1,..., PIn é o conjunto de axiomas formado por todas, e apenas todas as fór-
mulas de L satisfazendo os esquemas de fórmulas PI1,..., PIn; ou equivalentemente, que
LPI1,..., PIn é o conjunto de axiomas composto por todas, e apenas todas as fórmulas PI1,...,
PInÎL. Chamamos nesse caso os esquemas de fórmulas PI1, ..., PIn de esquemas de axio-
mas e as fórmulas PI1, ..., PIn de axiomas em L37.
Fixando LP como a linguagem de referência, LP1-P11 é o conjunto de axiomas com-
posto por todas, e apenas todas as fórmulas P1-P11 pertencentes a LP. Em outras pala-
vras, LP1-P11 é o conjunto formado por todas as fórmulas de LP satisfazendo um dos es-
quemas de fórmula P1, P2, ... ou P11. Similarmente, LP3-P5 é o conjunto formado por to-
das, e apenas todas as fórmulas de LP satisfazendo um dos esquemas P3, P4 ou P5,
LP1,P2,P6-P8 é o conjunto formado por todas, e apenas todas as fórmulas de LP satisfazen-
do um dos esquemas P1, P2, P6, P7 ou P8, e assim por diante.
Como o uso que faremos das fórmulas e esquemas de fórmulas da definição 1.17
se dará sempre no contexto de um conjunto de axiomas L especifico, refe-
rir-nos-emos a tais fórmulas e esquemas de fórmulas daqui em diante simplesmente
como axiomas e esquemas de axiomas, respectivamente. Também abusaremos, com certa
frequência, desses conceitos e usaremos de forma indiscriminada o termo “axioma”
tanto para designar axiomas como para designar esquemas de axiomas. Nos capítulos
seguintes teremos oportunidade de comentar a respeito de cada um dos axiomas da
definição 1.17, enfatizando a função que cada um deles pode desempenhar dentro de
uma derivação. Por enquanto, neste capítulo, nos limitaremos a explicar a estrutura
das definições, bem como ilustrar, de uma forma geral, o uso que se faz dos axiomas e
regras de inferência na prova de deduções.
Conforme adiantado, algo de essencial na definição 1.17 é o fato de ela definir, na
verdade, um número infinito de axiomas. Para ver isso mais claramente, considere no-
vamente L como sendo a linguagem proposicional LP. De acordo com a definição 1.7,
dadas três fórmulas quaisquer de LP, como, por exemplo, B, C e A, temos que a fórmula
abaixo é um axioma P8 em LP:

37. De um ponto de vista rigoroso, na definição de um conjunto de axiomas L específico menção deve ser feita à
linguagem L, pois dependendo de que linguagem estamos falando nós teremos instâncias diferentes de PI , ..., PI .
1 n
No entanto, como o uso que faremos de um conjunto L se dará sempre dentro do contexto de um cálculo axiomáti-
co C=<L,S,L> específico, a linguagem L usada na definição de L estará sempre inequivocamente subentendida.

119
(11) (B®A)®((C®A)®(BÚC®A))
Similarmente, se tomarmos duas outras triplas de fórmulas, como, por exemplo, A,
A e ØA, ou AÚB, Ø(AÚB) e C, teremos dois outros axiomas P8 em LP:
(12) (A®ØA)®((A®ØA)®(AÚA®ØA))
(13) (AÙB®C)®((Ø(AÙB)®C)®((AÙB)ÚØ(AÙB)®C))
Esse processo obviamente pode ser continuado ad infinitum, o que indica a existên-
cia, de na verdade, um número infinito de axiomas P8 em LP.
Neste ponto não é em absoluto difícil de ver que (11), (12) e (13) possuem a
mesma forma lógica, forma esta representada pelo esquema de axiomas P8, sendo ob-
viamente isso o que nos permite dizer que tais fórmulas são axiomas P8 em LP. As-
sim também dizemos que (11), (12) e (13) satisfazem ou são instâncias do esquema de
axiomas P8. Para ver isso, basta considerar que (11) pode ser obtido a partir de P8 se
substituirmos a por B, b por C e j por A, (12) se substituirmos a por A, b por A e j
por ØA, e (13), que é exatamente a fórmula (8.2), se substituirmos a por AÙB, b por
Ø(AÙB) e j por C. Uma lição que podemos tirar disso é que, dado o esquema de axi-
oma P8, por exemplo, se substituirmos a, b e j por quaisquer fórmulas de LP, não
importa quão complexas elas sejam, obteremos como fórmula resultante um axio-
ma P8 em LP38.
Seguindo a mesma ideia, definimos abaixo o esquema de inferência a ser usado na
composição do cálculo proposicional, seguido da definição da noção de esquema de infe-
rência admissível:

DEFINIÇÃO 1.19 Seja L uma linguagem lógica cujo alfabeto AL seja tal que
{®}5AL e a,bÎL fórmulas quaisquer dessa linguagem. Nomeamos a inferência em L
abaixo como segue:
a, a ® b
MP:
b
Chamamos a forma esquemática dessa inferência pelo mesmo nome.

38. A única restrição que deve ser obedecida nessa substituição é que ela seja uma substituição consistente, isto é,
que, por exemplo, ao substituirmos a por (AÙB), devemos fazer tal substituição em todas as ocorrências de a que
aparecem em P8.

120
DEFINIÇÃO 1.20 Seja L uma linguagem lógica e I1, ..., In esquemas de inferência.
Dizemos que SI1,..., In é o conjunto de inferências admissíveis formado por todas, e apenas to-
das, as inferências em L satisfazendo os esquemas de inferência I1,..., In. Chamamos
nesse caso os esquemas de inferência I1, ..., In de esquemas de inferência admissíveis e as infe-
rências I1, ..., In de inferências admissíveis em L.
Um esquema de inferência admissível como o descrito na definição 1.19 é o que te-
mos chamado até agora de regra de inferência, pois ele estipula de uma forma universal,
isto é, para toda e qualquer fórmula, em que condições podemos inferir uma fórmula a
partir de outras. Como não poderia deixar de ser, o esquema MP acima representa a re-
gra modus ponens introduzida na seção 5.1. Assim, SMP é o conjunto de todas as inferênci-
as modus ponens que podem ser representadas em L, ou, usando a terminologia da defini-
ção 1.12, o conjunto de inferências admissíveis composto por todas, e apenas todas, as
inferências em L satisfazendo o esquema de inferência MP.
Fixando LP como a linguagem lógica de referência, e de posse do conjunto de axio-
mas LP1-P11 e do conjunto de inferências admissíveis SMP, definimos abaixo o cálculo
clássico proposicional CP:

DEFINIÇÃO 1.21 O cálculo clássico proposicional (ou simplesmente cálculo proposi-


cional ) CP é a tripla <LP,SMP,LP1-P11>.
Uma vez feito isso, podemos usar as definições 1.13 e 1.14 para obtermos a noção
de dedução do cálculo proposicional e, consequentemente, sermos capazes de avaliar
sintaticamente a validade de argumentos escritos na linguagem proposicional. Repre-
sentando a relação de inferência do cálculo proposicional assim obtida por „, além de
termos com <LP,„> mais uma instância do que chamamos no capítulo 2 de sistema ló-
gico, teremos também a primeira instância de uma caracterização completa do sistema
lógico ao qual demos o nome de lógica clássica proposicional: a tripla <LP,„,ë>, na
qual ë é a relação de consequência lógica da lógica proposicional conforme definido no
capítulo anterior.
Vale a pena recordar que, de acordo com a definição 1.13, dado um cálculo axiomá-
tico qualquer C=<L,S,L>, um conjunto de fórmulas G, uma fórmula a e uma sequên-
cia de fórmulas W=<b1,...,bn>, W é uma derivação de a a partir de G no cálculo C sss (i)
bn4a, ou seja, o último membro de W é exatamente a conclusão do argumento, e (ii)
cada um dos membros bi de W é ou (a) uma das premissas (biÎG), ou (b) um dos axio-
mas (biÎL) ou (c) tal que existe uma inferência admissível em C capaz de “produzir” bi
a partir de membros anteriores de W (isto é, existe uma inferência admissível bj1,...,bjn /
bi ÎS tal que j1, ..., jn<i). Caso W seja efetivamente uma derivação de a a partir de G, de

121
acordo com a definição 1.14 então, podemos dizer que a é deduzido a partir de G no
cálculo C, ou simplesmente G„a.
Vejamos como isso funciona com o cálculo proposicional ou, em outras palavras,
como as definições 1.13 e 1.14 podem ser usadas em conjunto com a definição de 1.21
na avaliação de argumentos. Considere a relação e derivação abaixo39:
(14) {A®C,A®ØC}„ØA40
1. A®C Premissa
2. (A®C)®((A®ØC)®ØA) P9
3. (A®ØC)®ØA MP 1,2
4. A®ØC Premissa
5. ØA MP 4,3

(14) nos diz que {A®C,A®ØC}„ØA é o caso e que a sequência de fórmulas


(15) W={A®C,(A®C)®((A®ØC)®ØA),(A®ØC)®ØA,A®ØC,ØA}
é uma derivação de ØA a partir de {A®C,A®ØC}. Para ver se isso realmente é o caso,
temos que checar se W satisfaz as condições exigidas pela definição 1.13 conforme ex-
plicadas acima. Primeiro, como o último membro de W é justamente ØA, temos que a
condição (i) é satisfeita. Para mostrar que a segunda condição é satisfeita, temos que jus-
tificar a presença de cada um dos membros de (15). Isso é feito mostrando que, para
cada um deles, uma das subcondições (a), (b) ou (c) é satisfeita. A presença dos itens
(14.1) e (14.4) de W é justificada por eles satisfazerem a subcondição (a): eles pertence-
rem ao conjunto de premissas. Isso é explicitado na nossa lista acima escrevendo-se
“premissa” à direita de cada uma dessas fórmulas. Já o item (14.2) tem sua presença jus-
tificada pelo fato de ele satisfazer a subcondição (b); ou seja, pertencer ao conjunto de
axiomas lógicos LP1-P11. Isso é explicitado em (14) escrevendo-se ao lado da fórmula em
questão o esquema de axioma do qual ela é uma instância, no caso ora em tela, o esque-
ma de axioma P9.
No caso de (14.3) e (14.5), suas presenças são justificadas pela subcondição (c): am-
bas são aplicações da regra modus ponens; no caso de (14.3) MP é aplicada à (14.1) e (14.2)
e no caso de (14.5) MP é aplicada à (14.3) e (14.4). Isto é explicitado na justificativa que

39. Daqui em diante, neste capítulo, usaremos o símbolo „ exclusivamente para representar a relação de dedução
do cálculo proposicional (conforme definido pelas definições 1.13 e 1.14 em conjunto com a definição 1.21).
40. É interessante observar que temos aqui o uso de uma representação intralógica do princípio da redução ao ab-
surdo, mencionado tanto no capítulo 1 como no capítulo 4: se uma dada fórmula a implica tanto b como sua nega-
ção Øb, então Øa deve ser o caso. Tal princípio é obviamente materializado no axioma P9.

122
aparece à direita das respectivas fórmulas. Utilizando a terminologia da definição 1.13,
nós temos como segue. Primeiro, as duas inferências abaixo são inferências admissíveis
de C (isto é, inferências pertencentes ao conjunto SMP ):
(16) A®C,(A®C)®((A®ØC)®ØA) / (A®ØC)®ØA
(17) A®ØC,(A®ØC)®ØA / ØA
pois ambas são instâncias de MP: (16) é obtido substituindo a por A®C e b por
(A®ØC)®ØA, e (17) é obtido substituindo-se a por A®ØC e b por ØA. Segundo, o
fato de (14.3) satisfazer a subcondição (c) significa que há uma inferência admissível
bj1,bj2 / biÎSMP tal que j1, ..., jn<i, que, como o leitor já deve ter intuído, é a inferência
(16). Nesse caso, temos j1=1, j2=2 e i=3, sendo bj1 obviamente (14.1), bj2 (14.2) e bi o
próprio (14.3). No caso de (14.5), temos também que há uma inferência admissível
bj1,bj2 / biÎSMP tal que j1, ..., jn<i: a inferência (17). Aqui temos j1=4, j2=3 e i=5, sendo
bj1 obviamente (14.4), bj2 (14.3) e bi o próprio (14.5)41.
Um último detalhe que devemos mencionar é que a definição 1.14 diz que G„a se e
somente se existir ao menos uma derivação de a a partir de G. Isso deixa aberta a possibili-
dade de haver mais de uma derivação de a a partir de G. De fato, em boa parte dos ca-
sos, há efetivamente mais de uma maneira, ou seja, mais de uma derivação através da
qual podemos provar que a é deduzido a partir de G. Considere, por exemplo, a seguinte
relação:
(18) {A,ØA}„ØB
Podemos provar (18) exibindo qualquer uma das duas derivações abaixo:
(19) 1. A Premissa
2. A®(B®A) P1
3. B®A MP 1,2
4. ØA Premissa
5. ØA®(B®ØA) P1
6. B®ØA MP 4,5
7. (B®A)®((B®ØA)®ØB) P9
8. (B®ØA)®ØB MP 3,7
9. ØB MP 6,8

41. Vale a pena frisar que, apesar da elaboração explicativa da qual fizemos uso nessa aclaração de que (15) é real-
mente uma derivação de ¬A a partir de {A®C,A®ØC}, todas as justificativas por nós mencionadas já se encon-
tram em (14), no texto à direita de cada membro da derivação.

123
(20) 1. ØA Premissa
2. ØA®(A®ØB) P10
3. A®ØB MP 1,2
4. A Premissa
5. ØB MP 4,3
Aqui, enquanto o axioma chave de (19) é P9, em (20), o principal axioma que permi-
te efetivamente que chequemos de {A,ØA} a ØB é P10. Com exceção de (19.5), no qual
a é substituído por ØA e b por B em P1, e de (20.2), no qual a é substituído por A e b
por ØB em P10, a substituição em todos os demais axiomas é trivial. Claramente (20) é
uma derivação bem mais simples que (19), enquanto para chegar à ØB (19) faz uso de
três axiomas: duas instâncias de P1 e uma instância de P9; (20) utiliza apenas um axio-
ma: P10. No entanto, no que se refere à definição 1.14 (que exige a existência de uma
derivação para que possamos concluir que {A,ØA}„ØB) não importa se a sequência
de fórmulas em questão é simples ou não: a única coisa que importa é que tal sequência
satisfaça as condições da definição 1.13, ou seja, que seja efetivamente uma derivação
da conclusão a partir das premissas. Assim, é igualmente válida a menção de (19) ou (20)
na prova de (18).

5.4 Teoremas lógicos e regras derivadas


O leitor atento deve ter notado que o exemplar do que chamamos de axioma ou lei
lógica dada na seção 5.1, a saber,
(21) ØØA®A
não se encontra na lista de axiomas apresentados na definição 1.17. Não só ela, mas
também muitas outras fórmulas que, intuitivamente, estaríamos fortemente inclinados
a classificar como leis lógicas, tais como
(22) A®A
ou
(23) Ø(AÙØA)
não se encontram contempladas na lista de axiomas da definição 1.1742. Isso obviamen-
te pode ser um problema, pois, na explicação informal que demos na seção 5.1 de como
devemos avaliar sintaticamente um argumento, dissemos que poderíamos mencionar
nas nossas derivações toda e qualquer instância do que estamos chamando aqui de lei

42. (22) é a chamada lei da identidade; (23) é a lei da não contradição, já mencionada no capítulo 1.

124
lógica; e as fórmulas listadas acima indubitavelmente fazem parte do que, de um ponto
de vista intuitivo, poderíamos chamar de leis lógicas.
Apesar de esses e outros princípios lógicos não estarem explicitamente contidos em
LP1-P11, de uma forma indireta eles estão contemplados sim na nossa definição do cálcu-
lo proposicional. Ao introduzirmos a noção de regra de inferência em nossa explicação
informal da noção de derivação, dissemos que um de seus propósitos é o de obter ou in-
ferir novas fórmulas a partir de outras. Claramente MP faz isso ao inferir b a partir de a e
a®b. O ponto é que, muito embora o conjunto LP1-P11 não contenha obviamente todas
as leis lógicas, é possível a partir dele, juntamente com MP, obter o que poderíamos cha-
mar de o conjunto total das leis lógicas43. Basta para isso que o nosso conjunto de axiomas
nos permita inferir, com o auxílio das regras de inferências, as demais leis lógicas.
Considere (22), por exemplo. Se conseguirmos, utilizando as definições 1.21 e 1.13,
obter uma derivação de (22) a partir de um conjunto vazio de premissas, ou seja, uma
derivação que utilize apenas os axiomas e MP, então teríamos provado que (22) é um teo-
rema lógico de CP (definição 1.16) e, consequentemente, que já está, em certo sentido,
presente em CP. A bem da verdade, tal derivação existe, e é exibida logo abaixo:
(24) 1. (A®((B®A)®A))®((A®(B®A))®(A®A)) P2
2. A®((B®A)®A) P1
3. (A®(B®A))®(A®A) MP 2,1
4. A®(B®A) P1
5. A®A MP 4,3
Aqui (24.1) é uma instância de P2, obtida através da substituição de a por A, b por
B®A e j por A; (24.2) uma instância de P1, obtida através da substituição de a por A e
b por B®A; e (24.4) uma instância de P1, obtida substituindo-se a por A e b por B.
(24.3) e (24.5) são obtidos através da aplicação de MP. Como em (24) não é utilizada ne-
nhuma premissa, mas apenas axiomas lógicos e MP, pela definição 1.13 temos que (24) é
uma derivação de A®A a partir do conjunto vazio .. Isso é representado como segue:
(25) ^„A®A
ou, de forma abreviada,
(26) „A®A
Consequentemente, de acordo com a definição 1.16, (22) é um teorema lógico de CP.

43. Obviamente que estamos nos referindo exclusivamente às leis lógicas que podem ser formuladas na linguagem L .
P

125
O mesmo se aplica a (21) e (23). Segue abaixo a derivação que prova que (23) é um
teorema lógico, ou seja, que „Ø(AÙØA).
(27) 1. AÙØA®A P3
2. (AÙØA®A)®((AÙØA®ØA)®Ø(AÙØA)) P9
3. (AÙØA®ØA)®Ø(AÙØA) MP 1,2
4. AÙØA®ØA P4
5. Ø(AÙØA) MP 4,3
Aqui o ponto crucial é o uso do axioma P9: ao substituirmos em P9 a por AÙØA e
b por A e obtermos (27.2), podemos usar MP duas vezes em conjunto com os axiomas
P3 e P4 (substituindo a por A e b por ØA). Já a derivação que prova que (21) é um teo-
rema lógico, ou seja, que „ØØA®A, é um pouco mais complexa:
(28) 1. ØØA®(ØA®A) P10
2. (ØØA®(ØA®A))®((ØØA®ØA)®(ØØA®A)) P2
3. (ØØA®ØA)®(ØØA®A) MP 1,2
4. ((ØØA®ØA)®(ØØA®A))®(ØA®((ØØA®ØA)®
(ØØA®A))) P1
5. ØA®((ØØA®ØA)®(ØØA®A)) MP 3,4
6. (ØA®((ØØA®ØA)®(ØØA®A)))®((ØA®(ØØA®ØA))®
(ØA®(ØØA®A))) P2
7. (ØA®(ØØA®ØA))®(ØA®(ØØA®A)) MP 5,6
8. ØA®(ØØA®ØA) P1
9. ØA®(ØØA®A) MP 8,7
10. A®(ØØA®A) P1
11. (A®(ØØA®A))®((ØA®(ØØA®A))®(AÚØA®
(ØØA®A))) P8
12. (ØA®(ØØA®A))®(AÚØA®(ØØA®A)) MP 10,11
13. AÚØA®(ØØA®A) MP 9,12
14. AÚØA P11
15. ØØA®A MP 14,13

Na explicação desta derivação, nos limitaremos a listar abaixo as substituições que


são feitas em cada um dos axiomas mencionados em (28):

126
Linha Axioma a é substituído por b é substituído j é substituído
por por
1. P10 ØA A -
2. P2 ØØA ØA A
4. P1 (ØØA®ØA)®(ØØA®A) ØA -
6. P2 ØA ØØA®ØA ØØA®A
8. P1 ØA ØØA -
10. P1 A ØØA -
11. P8 A ØA ØØA®A
14. P11 A - -
Note que da mesma forma que provamos que (23), por exemplo, é um teorema ló-
gico, podemos fazer o mesmo com as fórmulas abaixo,
(29) Ø((A®B)ÙØ(A®B))
(30) Ø((ØAÚB®C)ÙØ(ØAÚB®C))
que claramente possuem a mesma forma lógica que (23). Para isso, basta substituirmos
na derivação (27) o símbolo A pela fórmula correspondente: substituindo A por A®B
obtemos uma prova que (29) é um teorema, e substituindo A por ØAÚB®C obtemos
uma derivação que prova que (30) é um teorema lógico. Generalizando esse raciocínio,
podemos representar (27) não como uma derivação de (23) a partir de ^, mas como
um esquema de derivação do esquema de fórmula
(31) Ø(aÙØa)
a partir de ^:
(32) 1. aÙØa®a P3
2. (aÙØa®a)®((aÙØa®Øa)®Ø(aÙØa)) P9
3. (aÙØa®Øa)®Ø(aÙØa) MP 1,2
4. aÙØa®Øa P4
5. Ø(aÙØa) MP 4,3
Dessa forma, provamos que, para toda fórmula aÎLP,
(33) „Ø(aÙØa).
Em outras palavras, provamos que (31) é um esquema de teorema lógico, sendo todas
as fórmulas que satisfaçam (31) também teoremas lógicos. Trivialmente, é bem mais
vantajoso representarmos teoremas lógicos dessa forma, através de esquemas de fór-

127
mulas, pois assim trabalhamos não com teoremas lógicos, mas com conjuntos de teore-
mas lógicos. Dessa forma, daqui em diante, nosso trabalho de apresentação e elabora-
ção de derivações será baseado não mais em fórmulas, mas em esquemas de fórmulas.
Segue abaixo tabela com alguns dos (esquemas de) teoremas lógicos mais conhecidos:

Princípio da não contradição Ø(aÙØa)


Lei da dupla negação a«ØØa
Lei da contrapositiva (a®b)«(Øb®Øa)
Lei de Peirce ((a®b)®a)®a
Lei da exportação (aÙb®j)«(a®(b®j))
Lei da permutação (a®(b®j))«(b®(a®j))
Lei da identidade a«a
Leis de De Morgan Ø(aÚb)«(ØaÙØb)
Ø(aÙb)«(ØaÚØb)
Leis de tautologia a«(aÚa)
a«(aÙa)
Leis de associatividade (aÚ(bÚj))«((aÚb)Új)
(aÙ(bÙj))«((aÙb)Ùj)
(a«(b«j))«((a«b)«j)
Leis de distributividade (aÙ(bÚj))«((aÙb)Ú(aÙj))
(aÚ(bÙj))«((aÚb)Ù(aÚj))
Leis de comutatividade (aÚb)«(bÚa)
(aÙb)«(bÙa)
(a«b)«(b«a)

No próximo capítulo exibiremos uma lista, bem mais completa do que essa, com os
mais importantes teoremas lógicos do cálculo proposicional.
Uma consequência de trabalharmos com esquemas de fórmulas ao invés de com
fórmulas é que podemos ver relações como (14) não mais apenas como estabelecendo
uma relação entre um conjunto de fórmulas e uma fórmula específica, mas sim como
uma regra de inferência semelhante à modus ponens. Considere a versão de (14) expressa em
termos de esquemas de fórmulas:

128
(34) {a®b,a®Øb}„Øa
cuja derivação seria como segue:
(35) 1. a®b Premissa
2. (a®b)®((a®Øb)®Øa) P9
3. (a®Øb)®Øa MP 1,2
4. a®Øb Premissa
5. Øa MP 4,3
Aqui, como (34) vale para quaisquer a,bÎLP, temos que ela representa na verdade
um esquema de argumento válido ou, equivalentemente, um esquema de inferência, ou
ainda, uma regra de inferência. O fato de estarmos chamando (34) de inferência é claro
quando vemos que, através de (34), podemos obter fórmulas novas a partir de outras
fórmulas já conhecidas. Já o fato de (34) ser uma regra de inferência fica claro quando ve-
mos que, substituindo consistentemente, em (34), a e b por duas fórmulas quaisquer da
linguagem proposicional, obtemos novos argumentos ou inferências válidas no cálculo
proposicional. Para distinguirmos (34), por exemplo, de MP, que é uma regra de infe-
rência primitiva do cálculo proposicional (incorporada na própria definição de CP), usa-
remos a expressão regra de inferência derivada. Segue abaixo tabela com algumas regras de
inferência (derivadas ou não) do cálculo proposicional:

Modus ponens {a®b,a}„b


Modus tolens {a®b,Øb}„Øa
Silogismo hipotético {a®b,b®j}„a®j
Silogismo disjuntivo {aÚb,Øa}„b
Conjunção {a,b}„aÙb
Adição {a}„aÚb
Redução ao absurdo {a®b,a®Øb}„Øa
Princípio da explosão {a,Øa}„b

O leitor atento deve ter notado a semelhança entre estas duas tabelas – a tabela de
teoremas lógicos e a tabela de regras derivadas – e as tabelas descritas na seção 4.4 com
as tautologias e argumentos válidos mais conhecidos. Tal semelhança não é de forma al-
guma coincidência: conforme veremos no capítulo 12, é desejável em toda lógica (e isso
obviamente acontece com a lógica proposicional) que toda tautologia seja um teorema
lógico, e que todo teorema lógico seja uma tautologia; e que todo argumento válido sin-

129
taticamente seja também válido semanticamente, e vice-versa. Isso na verdade é nada
mais do que o resultado metalógico que temos chamado até agora de corretude e com-
pletude.
Para finalizar este capítulo, vale a pena mencionar que algumas derivações, como
(28), por exemplo, possuem uma complexidade inquestionável, complexidade esta que
se revela, o leitor deve ter observado, tanto no momento de compreender a derivação
como no momento de construí-la. No próximo capítulo, no qual efetivamente daremos
cabo do estudo das derivações, introduziremos alguns recursos que diminuirão consi-
deravelmente o grau de complexidade de nossas derivações, fazendo-as mais fáceis tanto
de serem compreendidas como de serem construídas. Entre tais recursos, está o uso,
nas derivações, de teoremas lógicos e regras derivadas previamente provados.

130
5.5 Exercícios propostos
1. Explique com suas palavras os seguintes conceitos:
a. Derivação;
b. Lei lógica;
c. Regra de inferência admissível.
2. Enumere três instâncias de modus ponens.
3. Enumere cada uma das três condições que podem justificar um enunciado fazer parte de
uma derivação, e explique a razão por trás de tais condições.
4. Tente explicar o significado de cada um dos axiomas P1-P11 da definição 1.17.
5. Responda as perguntas abaixo:
a. Qual a diferença entre uma fórmula e um esquema de fórmula?
b. Por que os axiomas da definição 1.17 devem ser representados como esquemas de
fórmulas e não como fórmulas?
c. De acordo com a terminologia por nós usada, qual a diferença entre regra, regra ad-
missível e regra de inferência?
6. Exiba três instâncias de cada um dos axiomas P1-P11 da definição 1.17.
7. Dê exemplos de fórmulas que representem substituições não consistentes para os axio-
mas P2 e P8.
8. Explique a relevância filosófica de podermos inferir todas as leis lógicas a partir de um
número consideravelmente reduzido de axiomas lógicos juntamente com uma única re-
gra de inferência.
9. Usando a definição 1.13 aplicada à definição 1.21, explique detalhadamente por que a
sequência de fórmulas abaixo é uma derivação de A®C a partir de {A®B,B®C}.
1. A®B
2. B®C
3. (A®(B®C))®((A®B)®(A®C))
4. (B®C)®(A®(B®C))
5. A®(B®C)
6. (A®B)®(A®C)
7. A®C
10. Utilizando a definição 1.14 aplicada à definição 1.21, prove as relações abaixo.
a. {A®B, A}„B
b. {A®B,B®C,A}„C
c. {ØA}„ØA
d. {ØA,B®ØØC,ØDÚA}„B®ØØC
e. {AÙØB,AÙØB®Ø(D®E)}„Ø(D®E)
f. {ØA®ØØC,ØØC®BÚ(AÙC),ØA}„BÚ(AÙC)
g. ^„Ø(A®ØØC)Ú(A®ØØC)
h. {ØB®C,C®Ø(AÚB),ØB,Ø(AÚB)®D}„D
i. {A,AÚB,Ø(C®F)}„B®(A®B)
j. {A®(B®(C®D)),ØA®B,D}„ØA®B

131
11. Utilizando a definição 1.14 aplicada à definição 1.21 e seguindo a dica ao lado (que diz
que axioma usar na derivação), prove as relações abaixo.
a. {A}„B®A (Dica: axioma P1)
b. {A, AÚB®C}„C (Dica: axioma P6)
c. {AÙB,B®C}„C (Dica: axioma P4)
d. {A,B,AÙB®C}„C (Dica: axioma P5)
e. {A,ØA}„ØØC (Dica: axioma P10)
f. {A®(B®C),A®B}„A®C (Dica: axioma P2)
g. {A®B,C®B}„(AÚC)®B (Dica: axioma P8)
h. {AÙC®B,AÙC®ØB}„Ø(AÙC) (Dica: axioma P9)
i. {(A®C)ÚØ(A®C)®ØD}„ØD (Dica: axioma P11)
12. Utilizando a definição 1.14 aplicada à definição 1.21 e seguindo a dica ao lado (que diz
que axioma(s) usar na derivação), prove as relações abaixo.
a. {A,B}„AÙB (Dica: axioma P5)
b. {A, A®B, BÚC®F}„F (Dica: axioma P6)
c. {AÙB,BÚØD®C}„C (Dica: axiomas P4 e P6)
d. {AÙB}„BÙA (Dica: axiomas P3, P4 e P5)
e. {D,(C®D)®(A®ØB),C®ØB}„(AÚC)®ØB (Dica: axiomas P1 e P8)
f. {(A®B)®C,ØC}„Ø(A®B) (Dica: axiomas P1 e P9)
g. {D®A,D,A®B,A®ØB}„Ø(D®A) (Dica: axioma P10)
h. {A®B,ØA®B}„B (Dica: axiomas P8 e P11)
i. {A®B,ØB}„ØA (Dica: axiomas P1 e P9)
j. {A®B,B®C}„A®C (Dica: axioma P2)
k. {A®B,A®C}„A®BÙC (Dica: axiomas P2 e P5)

132
DERIVAÇÃO E ANÁLISE LÓGICA NO CÁLCULO
PROPOSICIONAL
6
Implicação, conjunção e disjunção

6.1 Derivação e outros cálculos proposicionais


Nosso propósito neste capítulo e no próximo é ilustrar alguns aspectos fundamen-
tais da construção de derivações no método axiomático. Entre outras coisas, falaremos
com detalhes sobre os axiomas da definição 1.17, mostrando a função de cada um deles
dentro das derivações, e os principais teoremas lógicos e regras derivadas que podem
ser provados com o auxílio deles. Também mostraremos alguns resultados do cálculo
axiomático que nos ajudarão significantemente no processo de avaliação e construção
de derivações. Conforme temos feito até agora, usaremos o cálculo clássico proposicio-
nal como sistema paradigmático da nossa exposição. No entanto, na prossecução do
objetivo acima delineado, introduziremos outros cálculos axiomáticos, entre eles o cál-
culo intuicionista e um cálculo paraconsistente, o que pode ser tomado como um se-
gundo objetivo destes capítulos 6 e 7.
Comecemos atentando para a modularidade, digamos assim, presente na lista de
axiomas da definição 1.17. Enquanto os axiomas P1 e P2 lidam apenas com a implica-
ção, P3-P5 contêm, além da implicação, apenas a conjunção; P6-P8 lidam de forma
principal com a disjunção; e P9-P11 tratam primordialmente do símbolo da negação.
Considerando o fato de que são tais axiomas que efetivamente nos dão informação a
respeito dos conectivos em questão, podemos seguramente dizer que os axiomas P1 e
P2 definem as propriedades lógico-inferencias da implicação; P3-P5, as propriedades da
conjunção; P6-P8, as propriedades da disjunção; e P9-P11 as propriedades de negação.
Em relação à negação, podemos ver uma modularidade mesmo quando considera-
mos P9, P10 e P11 separadamente. O leitor deve lembrar-se quando falamos, no capítu-
lo 2, da lógica intuicionista e da lógica paraconsistente; enquanto na primeira o princípio
do terceiro excluído
(1) „aÚØa
não é aceito, na segunda o princípio da explosão

135
(2) {a,Øa}„b
e, em geral, o princípio da redução ao absurdo
(3) se GÈ{a}„b e GÈ{a}„Øb, então G„Øa
não são válidos.
No entanto, como veremos mais adiante, tais propriedades dependem, respectiva-
mente, dos axiomas P11, P10 e P9. Em outras palavras, enquanto rejeitando P11 nós
obtemos a negação intuicionista, rejeitando P9 e P10 nós obtemos uma negação paraconsisten-
te; já rejeitando P10 e P11 nós obtemos uma negação minimal que pode ser classificada
como semiparaconsistente44. Desta forma, o mais correto seria ver P9-P11 como definindo
um tipo específico de negação: o que chamamos de negação clássica.
A significância disso é dupla. Primeiro, considerando que P1 e P2, por exemplo,
“contêm” todas as propriedades da implicação, na prova dos teoremas lógicos e regras
derivadas relacionados exclusivamente com a implicação, ou seja, que representem ex-
plicitamente propriedades exclusivas da implicação, serão usados obviamente apenas
os axiomas P1 e P2. Similarmente, todos os teoremas lógicos e regras da negação clássi-
ca que envolvam apenas os conectivos Ø e ® podem ser derivados apenas com o auxí-
lio dos axiomas P1, P2, P9-P11. Dessa forma, a modularidade à qual nos referimos se
estende também à construção de derivações.
Segundo, podemos definir novos cálculos que incorporem exclusivamente a carac-
terística de um ou mais conectivos lógicos específicos. Por exemplo, podemos definir
um cálculo axiomático da implicação, que contenha, além de modus ponens, apenas os axio-
mas P1 e P2. Desta forma, todos, e apenas todos os teoremas lógicos da implicação são
prováveis em tal cálculo, a consequência óbvia disso sendo que tais teoremas usam em
sua derivação apenas os axiomas P1 e/ou P2 e MP. No caso da negação, por exemplo,
usando os axiomas P9-P11 em conjunção com os demais axiomas e MP obtemos,
como vimos, o cálculo clássico proposicional. No entanto, caso adicionemos a P1-P8 e
MP apenas os axiomas P9 e P10, por exemplo, obtemos o cálculo intuicionista. Caso adicio-
nemos apenas P11 obtemos um cálculo paraconsistente45.
Desta forma, na apresentação dos vários teoremas lógicos e regras derivadas, nos
utilizaremos de diversos cálculos de forma a tornar explícito de quais axiomas tais teo-

44. Apesar de podermos, juntamente com P1, obter a partir de P9 uma versão fraca do princípio da explosão, a sa-
ber, {a,Øa}„Øb, não conseguimos, somente com P9, derivar sua versão completa.
45. Como veremos mais na frente, entretanto, tal cálculo é por demais fraco, não sendo capaz de provar uma série
de propriedades da negação que não conflitam com o princípio da explosão. Assim, mostraremos também como,
através da adição de outros axiomas, podemos obter um cálculo paraconsistente forte o suficiente para provar boa
parte das leis tradicionalmente associadas à negação.

136
remas e regras dependem. Por exemplo, faremos a exposição dos teoremas lógicos da
implicação através de um cálculo definido a partir de P1, P2 e MP; já os teoremas e re-
gras que dependem essencialmente de P9, por exemplo, serão apresentados através de
dois cálculos: um definido a partir de P1, P2, P9 e MP, e outro definido a partir de
P1-P9 e MP.
Neste capítulo abordaremos os teoremas e regras da implicação, conjunção e dis-
junção, juntamente com seus respectivos cálculos. A negação e os vários cálculos a ela
relacionados serão abordados no capítulo seguinte. Com exceção dos cálculos intuicio-
nista e paraconsistente, todos os cálculos a serem aqui introduzidos têm um fim mera-
mente didático, possuindo, em princípio, pouca relevância teórica.
Um ponto importante do qual não devemos nos esquecer, no entanto, é que o foco
principal deste capítulo e do próximo é efetivamente os teoremas lógicos e regras deri-
vadas do cálculo clássico proposicional CP. Dessa forma, é de se esperar que todos os
teoremas e regras derivadas a serem aqui apresentados como válidos em um cálculo outro
que não o cálculo clássico proposicional sejam também válidos em CP. Para garantir
isso, precisamos da noção de extensão conservativa, que é definida logo abaixo:

DEFINIÇÃO 2.1 Sejam C’=<L,S,L’> e C”= <L,S,L”> dois cálculos axiomáticos.


C” é uma extensão conservativa de C’ se e somente se, para todo G5L e todo aÎL, se G„a
em C’ então G„a em C”.
Assim, o cálculo C” é uma extensão conservativa de C’ se e somente todo argumen-
to válido em C’ é também um argumento válido em C”; como consequência disso, todo
teorema lógico ou regra derivada de C’ será também teorema ou regra derivada de C”.
Trivialmente, C é uma extensão conservativa dele mesmo. Como o leitor já deve ter
desconfiado, o cálculo clássico proposicional CP é uma extensão conservativa de todos
os cálculos a serem introduzidos aqui, de forma que os teoremas lógicos e regras deriva-
das desses cálculos também são teoremas e regras derivadas de CP. Note, no entanto,
que o inverso não vale: existem teoremas e regras derivadas válidas em CP que não são
válidas, por exemplo, no cálculo intuicionista.

6.2 Implicação e o cálculo C®


De forma a melhor esclarecermos o método acima exposto, e também, é claro, co-
meçarmos nossa exposição, definimos abaixo o nosso primeiro cálculo: o cálculo da
implicação material.

137
DEFINIÇÃO 2.2 O cálculo da implicação material C® é a tripla <LP,SMP,LP1-P2>.
Diferentemente de CP, o conjunto de axiomas de C® é composto apenas por P1 e
P2. Conforme fizemos com o cálculo proposicional na seção 5.3, podemos usar as defi-
nições 1.13 e 1.14 para, juntamente com a definição 2.2, obtermos a noção de dedução
do cálculo da implicação material. Uma vez feito isso, e considerando que o conjunto de
axiomas de C® é um subconjunto do conjunto de axiomas de CP, temos que CP é uma
extensão conservativa de C®:

COROLÁRIO 2.1 CP é uma extensão conservativa de C®.


Esse corolário segue automaticamente das definições 1.21, 2.1 e 2.2. Uma conse-
quência trivial disso é que todos os teoremas e regras derivadas de C®, entre outros re-
sultados, são também teoremas e regras derivadas de CP. Segue abaixo alguns dos mais
importantes teoremas e regras de C®, alguns seguidos de sua denominação mais co-
mum, e o corolário que explicita o dito acima:

TEOREMA 2.1 Sejam a,b,jÎLP fórmulas quaisquer. As relações abaixo são válidas
em C®.
I1. a„b®a
I2. a®(b®j)„(a®b)®(a®j)
I3. „a®a lei da identidade
I4. a®b,b®j„a®j transitividade da implicação
I5. „(a®b)®((b®j)®(a®j)) transitividade da implicação
I6. a®(b®j)„b®(a®j) lei da permutação
I7. „(a®(b®j))®(b®(a®j)) lei da permutação
I8. a®b,a®(b®j)„a®j
I9. a®(a®b)„a®b
I10. „(a®(a®b))®(a®b)
I11. „((a®b)®(a®j))®(a®(b®j))

COROLÁRIO 2.2 As relações mencionadas no teorema 2.1 são também válidas em CP.
Duas observações devem ser feitas antes de começarmos a falar sobre as relações do
teorema 2.1 e o uso que elas fazem de P1 e P2. Primeiro, semelhantemente ao que
fizemos em relação aos parênteses das fórmulas, a partir de agora omitiremos o uso das

138
chaves ao escrevermos regras derivadas. Assim, I4 é na verdade uma abreviação para
{a®b,b®j}„a®j (que, por sua vez, é uma abreviação para {(a®b),(b®j)}„(a®j)).
Segundo, toda a nossa exposição neste capítulo será feita mediante o uso de teoremas
como o teorema 2.1 acima. De um modo geral, um teorema é qualquer proposição que
possamos provar a partir das definições e proposições primitivas de um sistema ou teo-
ria. Considere CP, por exemplo. Aqui temos várias proposições ou enunciados primiti-
vos – os axiomas P1-P11 – escritos em uma linguagem específica – LP – e uma maneira
precisa, bem definida, de obter novos enunciados a partir deles. Conforme definido no
capítulo anterior, a tais enunciados nós damos o nome de teoremas lógicos. Veja, no entan-
to, que tais teoremas se pronunciam, por assim dizer, de dentro do cálculo proposicional.
Tome uma instância específica do teorema I3, por exemplo:
(4) (AÚØB)®(AÚØB)
Utilizando a linguagem proposicional, (4) claramente expressa algo relevante, a
saber, que (AÚØB) implica a si mesmo, sendo isso uma consequência, ou um teore-
ma, do que P1-P11 (ou, para ser mais específico, do que certas instâncias de P1-P11)
afirmam. Porém, trivialmente o que os teoremas lógicos podem dizer é limitado ao
poder expressivo de LP. Eles não podem, por exemplo, dizer que eles mesmos são teo-
remas lógicos. Em outras palavras, eles não podem falar sobre, como que olhando de
fora para, o cálculo proposicional, que é exatamente o que o teorema 2.1 faz. De acor-
do com um segundo sentido do termo então, teoremas, assim como o que temos cha-
mado até aqui de corolário, são proposições que podemos provar sobre os vários sis-
temas lógicos aqui introduzidos46. Em consequência disso, diferentemente dos teore-
mas lógicos, tais teoremas são escritos não na linguagem lógica, mas na metalingua-
gem. É por essa razão que muitas vezes nos referimos a tais teoremas como metateore-
mas, enfatizando tanto o fato de eles serem escritos na metalinguagem, como o fato de
eles falarem algo sobre os sistemas lógicos mesmos. No entanto, uma vez que já dis-
pomos do termo “teorema lógico”, referenciaremos os metateoremas aqui simples-
mente como teoremas.
Vamos então ao papel que os axiomas P1 e P2 desempenham na prova dos teore-
mas lógicos e regras derivadas do (meta) teorema 2.1. Comecemos por I4, cuja deriva-
ção é mostrada logo abaixo:

46. Tradicionalmente, a diferença entre um teorema e um corolário é simplesmente que este último, diferentemen-
te do primeiro, é um resultado quase que imediato, e consequentemente relativamente simples, das definições e
proposições primitivas ou de outros teoremas.

139
(I4) a®b,b®j„a®j
1. a®b Premissa
2. b®j Premissa
3. (a®(b®j))®((a®b)®(a®j)) P2
4. (b®j)®(a®(b®j)) P1
5. a®(b®j) MP 2,4
6. (a®b)®(a®j) MP 5,3
7. a®j MP 1,6
I4, vale lembrar, é uma regra de inferência que diz que podemos inferir a®j a par-
tir de a®b e b®j; é a chamada lei do silogismo hipotético ou transitividade da implicação. De
um ponto de vista inferencial, já considerando o uso da implicação em conjunto com
MP, é como se nós não precisássemos passar por b para chegar de a a j: como pode-
mos chegar de a a b e de b a j, então podemos “pular” b e chegar diretamente a j a
partir de a.
Na derivação de I4, o primeiro axioma que aparece é P2, logo na terceira linha
(I4.3)47. Considerando a aplicação de MP – e a esta altura o leitor já deve ter notado que,
com exceção de P11, a forma condicional de todos os axiomas visa a sua utilização em
conjunto com MP – o que P2 nos diz basicamente é que se temos a®(b®j), então te-
remos também (a®b)®(a®j). Falando de outra forma, de posse de a®(b®j), é
possível distribuir ou internalizar a implicação de a em relação à b®j e concluir
(a®b)®(a®j).
Mas como iremos obter a®(b®j)? Repare que b®j é (I4.2). Assim, se substituir-
mos em P1 a por b®j e b por a, obteremos (b®j)®(a®(b®j)) (I4.4), a partir do
qual, juntamente com MP e (I4.2), podemos concluir a®(b®j) (I4.5). Feito isso, usa-
mos (I4.5) juntamente com (I4.3) para concluir (a®b)®(a®j) (I4.6), após o que, final-
mente, concluimos a®j (I4.7) a partir de MP e (I4.1). O ponto que nos interessa aqui é
que podemos ver claramente P1 permitindo que, a partir da premissa b®j, concluamos
a®(b®j). De uma forma geral esse é o uso mais comum de P1: fazer com que possa-
mos, a partir de uma premissa a, concluir b®a, em que b é uma fórmula qualquer.
Essas funções inferenciais de P1 e P2 são explicitadas em I1 e I2, enquanto I1 nos
diz que a partir de a podemos concluir b®a, para qualquer b, I2 nos diz que a partir de
a®(b®j) podemos distribuir condicionalmente a em relação à b®j e concluir

47. Aqui vamos adotar uma notação semelhante à adotada na seção 5.1 e referir o primeiro membro da derivação
de I4 como (I4.1), o segundo como (I4.2), e assim por diante.

140
(a®b)®(a®j). Segue abaixo I1 e I2 com suas respectivas derivações, em que pode-
mos ver o mencionado uso inferencial que se faz de P1 e P2:
(I1) a„b®a
1. a Premissa
2. a®(b®a) P1
3. b®a MP 1,2
(I2) a®(b®j)„(a®b)®(a®j)
1. a®(b®j) Premissa
2. (a®(b®j))®((a®b)®(a®j)) P2
3. (a®b)®(a®j) MP 1,2
O leitor atento deve ter notado certa semelhança entre as relações I4 e I5, I6 e I7, e I9
e I10. Da mesma forma que I1 e I2 podem ser vistas como versões inferenciais (isto é, em
termos da relação de inferência „) de P1 e P2, respectivamente, I4 pode ser vista como a
versão inferencial de I5; I6 como a versão inferencial de I7; e I9 como a versão inferencial
de I10. Tome I6, por exemplo: coloque a®(b®j) para o lado esquerdo de „ e o una
através da implicação com b®(a®j) que você obterá I7. Falando de outra forma, é
como se em I5, I7 e I10 a implicação estivesse desempenhando o mesmo papel inferencial
que „ desempenha em I4, I6 e I9. Desse modo então surge a pergunta: são tais pares de
relações equivalentes entre si? Ou, sendo mais geral, podemos tomar o símbolo lógico ®
e a relação de dedução „ como sendo, de alguma forma, equivalentes entre si?
Essa pergunta pode ser colocada de forma mais precisa da seguinte maneira. Dado
um conjunto de fórmulas G e duas fórmulas a e b, podemos dizer que GÈ{a}„b sss
G„a®b? No caso limite de G=^, essa pergunta questiona a veracidade ou não de b
ser deduzido a partir de a ({a}„b) se e somente se a®b for um teorema lógico
(„a®b). Devido ao uso da expressão “sss”, o que temos aqui são na verdade duas per-
guntas: se é verdade que (1) se G„a®b então GÈ{a}„b e se é verdade que (2) se
GÈ{a}„b então G„a®b. Claramente (1) é o caso: se há uma derivação de a®b a
partir de G, então se temos, em adição a isso, a como premissa, podemos aplicar modus
ponens a a e a®b e concluir b, produzindo assim uma derivação de b a partir de
GÈ{a}. Já (2), cuja demonstração não é tão trivial como a de (1) e cuja descrição formal
é dada logo abaixo, é na verdade um dos resultados mais importantes da lógica. Trata-se
do assim chamado teorema da dedução:

TEOREMA 2.2 Seja C=<L,S,L> uma extensão conservativa de C®, G5L um con-
junto de fórmulas e a,bÎL duas fórmulas. Se GÈ{a}„b em C, então G„a®b em C.

141
Além do papel desempenhado no estabelecimento de certo tipo de equivalência en-
tre o símbolo lógico ® e o símbolo metalógico „, o teorema da dedução tem uma rele-
vância extrema na diminuição do grau de complexidade das derivações. Considere, por
exemplo, a derivação de I5 abaixo (cuja leitura minuciosa pode ser omitida):
(I5) „(a®b)®((b®j)®(a®j))
1. (a®(b®j))®((a®b)®(a®j)) P2
2. ((a®(b®j))®((a®b)®(a®j)))®
((b®j)®((a®(b®j))®((a®b)®(a®j)))) P1
3. (b®j)®((a®(b®j))®((a®b)®(a®j))) MP 1,2
4. ((b®j)®((a®(b®j))®((a®b)®(a®j))))®
(((b®j)®(a®(b®j)))®((b®j)®((a®b)®(a®j)))) P2
5. ((b®j)®(a®(b®j)))®((b®j)®((a®b)®(a®j))) MP 3,4
6. (b®j)®(a®(b®j)) P1
7. (b®j)®((a®b)®(a®j)) MP 6,5
8. ((b®j)®((a®b)®(a®j)))®(((b®j)®(a®b))®
((b®j)®(a®j))) P2
9. ((b®j)®(a®b))®((b®j)®(a®j)) MP 7,8
10. (((b®j)®(a®b))®((b®j)®(a®j)))®
((a®b)®(((b®j)®(a®b))®((b®j)®(a®j)))) P1
11. (a®b)®(((b®j)®(a®b))®((b®j)®(a®j))) MP 9,10
12. ((a®b)®(((b®j)®(a®b))®((b®j)®(a®j))))®
(((a®b)®((b®j)®(a®b)))®((a®b)®((b®j)®
(a®j)))) P2
13. ((a®b)®((b®j)®(a®b)))®((a®b)®((b®j)®
(a®j))) MP 11,12
14. (a®b)®((b®j)®(a®b)) P1
15. (a®b)®((b®j)®(a®j)) MP 14,13
É pouco provável que alguém conteste a complexidade da derivação acima, com-
plexidade essa que atinge tanto sua legibilidade como a sua gênese. O leitor, no entanto,
não precisa começar a se desesperar por causa disso. Dificilmente teremos oportunida-
de de trabalhar com derivações tão complexas como essa, não porque nos absteremos
de provar relações como I5, mas porque podemos, na construção de sua derivação, fa-
zer uso de certos artifícios capazes de simplificar consideravelmente nossas derivações.

142
E o primeiro de tais artifícios é a utilização, na construção das derivações, do teorema
da dedução.
Repare que o teorema 2.2 diz que se GÈ{a}„b então G„a®b ou, em outras pala-
vras, que se temos uma derivação de b a partir de GÈ{a}, então temos a garantia de ha-
ver também uma derivação de a®b a partir de G48. Mas veja que nós já temos uma deri-
vação para a versão inferencial de I5, a saber, I4. Ou seja, nós já provamos que
{a®b,b®j}„a®j ou, equivalentemente, que {a®b}È{b®j}„a®j. De acor-
do então com o teorema da dedução (tomando G como sendo {a®b}, a como sendo
b®j e b sendo como a®j), temos então que {a®b}„(b®j)®(a®j). Mas como te-
mos {a®b}„(b®j)®(a®j) ou, equivalentemente, ^È{a®b}„(b®j)®(a®j), de
acordo com o teorema 2.2 novamente temos que ^„(a®b)®((b®j)®(a®j)), que é
nada mais do que I5. Assim, para provarmos I5, podemos, ao invés de exibir uma deriva-
ção de (a®b)®((b®j)®(a®j)) a partir de ^ como fizemos acima, simplesmente
exibir uma derivação de a®j a partir de {a®b,b®j} (isto é, provar I4) e, usando o
teorema da dedução duas vezes, provar „(a®b)®((b®j)®(a®j)). E veja que uma
vez que tenhamos provado o teorema 2.2 e tenhamos construído uma derivação de
a®j a partir de {a®b,b®j}, o uso do teorema da dedução para provar I5 é tão legí-
timo quanto a exibição de uma derivação de (a®b)®((b®j)®(a®j)) a partir de ^.
Vejamos como podemos provar I10 a partir de I9 e do teorema da dedução. (I10 e
I9 fazem exatamente o inverso de duas versões específicas de P1 e I1:
„(a®b)®(a®(a®b)) e a®b„a®(a®b).) Segue abaixo I9 seguido de sua derivação:
I9. a®(a®b)„a®b
1. (a®((b®a)®a))®((a®(b®a))®(a®a)) P2
2. a®((b®a)®a) P1
3. (a®(b®a))®(a®a) MP 2,1
4. a®(b®a) P1
5. a®a MP 4,3
6. a®(a®b) Premissa
7. (a®(a®b))®((a®a)®(a®b)) P2
8. (a®a)®(a®b) MP 6,7
9. a®b MP 5,8

48. Essa garantia é dada pela prova que daremos para o teorema 2.2 no capítulo 12. (Esse capítulo, o leitor deve se
lembrar, trata da metalógica e conterá, entre outras coisas, a prova de todos os resultados que mencionarmos no
decorrer de nossa exposição.) Grosso modo, essa prova nos diz como, a partir de uma derivação de b a partir de
GÈ{a}, podemos construir uma derivação de a®b a partir de G, para qualquer G5L e quaisquer a,b§L.

143
Como provamos acima que a®(a®b)„a®b, de acordo com o teorema da dedu-
ção temos então I10, ou seja, „(a®(a®b))®(a®b). Veja que nessa prova de I10 é
imprescindível, além da exibição da prova de I9, ou seja, de uma derivação de a®b a
partir de a®(a®b), também a menção, como estamos fazendo aqui, do uso do teore-
ma 2.2, pois é ele que efetivamente faz a ligação entre a prova de I9 e a de I10. Trivial-
mente, de acordo com o próprio teorema 2.2, tal procedimento de prova de teoremas
lógicos (e regras derivadas) pode ser feito em qualquer extensão conservativa de C®.
Utilizando o teorema da dedução, algumas de nossas derivações podem ficar na ver-
dade ridiculamente simples. No processo de provar I10 através de I9, podemos mesmo
provar I9 usando o teorema da dedução, bastando para isso provar a®(a®b),a„b,
cuja derivação, conforme exibido abaixo, é das mais simples possíveis:
(5) a®(a®b),a„b
1. a®(a®b) Premissa
2. a Premissa
3. a®b MP 2,1
4. b MP 2,3
De posse disso, usamos o teorema da dedução uma vez para provarmos I9 e, usan-
do-o outra vez, provamos I10.
O mesmo fenômeno pode ser constatado se provarmos I4 (e I5) e I11 usando o teo-
rema da dedução. Provemos primeiro I4, para o qual precisamos provar o resultado in-
termediário abaixo:
(6) a®b,b®j,a„j
1. a®b Premissa
2. a Premissa
3. b MP 2,1
4. b®j Premissa
5. j MP 3,4
Como então temos (6), de acordo com o teorema da dedução temos também I4.
Feito isso, repetimos o mesmo procedimento e provamos I5.
No que se refere à I11, o que à primeira vista poderia parecer um resultado de relati-
va complexidade se mostra, com o uso do teorema da dedução, em uma derivação ex-
tremamente simples:
(7) (a®b)®(a®j),a,b„j
1. (a®b)®(a®j) Premissa

144
2. b Premissa
3. b®(a®b) P1
4. a®b MP 2,3
5. a®j MP 4,1
6. a Premissa
7. j MP 6,5
Como temos (7), de acordo com o teorema da dedução podemos concluir
(8) (a®b)®(a®j),a„b®j
Mas, novamente de acordo com o teorema da dedução, como temos (8) teremos
também
(9) (a®b)®(a®j)„a®(b®j)
E, finalmente, como temos (9), de acordo como mesmo teorema 2.2, temos tam-
bém I1149.
Para finalizar essa seção, provemos I6 e I7. Para isso, teremos que provar primeiro
o resultado intermediário abaixo:
(10) a®(b®j),b„a®j
1. a®(b®j) Premissa
2. (a®(b®j))®((a®b)®(a®j)) P2
3. (a®b)®(a®j) MP 1,2
4. b®(a®b) P1
5. b Premissa
6. a®b MP 5,4
7. a®j MP 6,3
Como temos (10), pelo teorema da dedução temos então I6 e, consequentemente,
pelo mesmo teorema, temos também I7.

6.3 Conjunção e o cálculo CÙ


Procedamos agora à conjunção. Tendo em vista uma maior modularidade na expo-
sição dos teoremas lógicos e regras derivadas, introduziremos aqui dois cálculos: um

49. Sem sombra de dúvida, o exemplo mais bobo dessa maneira de provar teoremas lógicos é o uso do teorema da
dedução para provar I3. O leitor é convidado a fazer esse exercício e compará-lo com a derivação que exibimos para
prová-lo no capítulo 5.

145
definido apenas em função de P3-P5 e MP, e outro já contendo, em seu conjunto de
axiomas, os axiomas da implicação P1 e P2. Segue abaixo o primeiro, que chamamos de
cálculo fraco da conjunção:

DEFINIÇÃO 2.3 O cálculo fraco da conjunção CÙ- é a tripla <LP,SMP,LP3-P5>.


A partir dessa definição, juntamente com as definições 1.13 e 1.14, podemos obter a
relação de dedução do cálculo fraco da conjunção50. Seguem abaixo os teoremas lógicos
e regras derivadas de CÙ-:

TEOREMA 2.3 Sejam a,b,jÎLP fórmulas quaisquer. As relações abaixo são váli-
das em CÙ-.
C1. aÙb„a simplificação
C2. aÙb„b simplificação
C3. a,b„aÙb lei da conjunção
C4. aÙb„bÙa comutatividade da conjunção
Aqui os teoremas lógicos C1, C2 e C3 representam inferencialmente os axiomas P3,
P4 e P5, respectivamente. C1 nos permite simplificar aÙb e, a partir dele, inferir a; já C2
faz a mesma coisa, mas agora com respeito a b. Seguem abaixo as derivações de C1 e C2:
(C1) aÙb„a
1. aÙb Premissa
2. aÙb®a P3
3. a MP 1,2
(C2) aÙb„b
1. aÙb Premissa
2. aÙb®b P4
3. b MP 1,2
Já C3, que é conhecida como de lei da conjunção, permite que efetivamente conclu-
amos aÙb a partir de a e b. Segue abaixo a sua derivação:

50. A partir de agora, ao introduzirmos um novo cálculo, nos absteremos de mencionar que sua relação de dedução
é construída com o auxílio das definições 1.13 e 1.14, e procederemos direto à menção e prova de seus teoremas ló-
gicos e regras derivadas, ficando, no entanto, claro que tais teoremas e regras dependem conceitualmente de tais
definições.

146
(C3) a,b„aÙb
1. a Premissa
2. a®(b®aÙb) P5
3. b®(aÙb) MP 1,2
4. b Premissa
5. aÙb MP 4,3
Veja que o cálculo CÙ-, como seu próprio nome indica, é bastante fraco, não sendo
capaz de provar propriedades da conjunção cuja representação depende da implicação
material, como, por exemplo, que se a implica a conjunção de b e j, então a implica b e
a implica j:
(11) a®(bÙj)„a®b
(12) a®(bÙj)„a®j
Dessa forma, definiremos um cálculo mais forte, já utilizando os axiomas da impli-
cação P1 e P2, chamado simplesmente de cálculo da conjunção. Feito dessa forma, e
sendo o cálculo da conjunção uma extensão conservativa tanto de C® como de CÙ-, to-
das as relações mencionadas nos teoremas 2.1 e 2.3 são também válidas em tal cálculo.

DEFINIÇÃO 2.4 O cálculo da conjunção CÙ é a tripla <LP,SMP,LP1-P5>.


Segue abaixo alguns dos principais teoremas lógicos e regras derivadas de CÙ:

TEOREMA 2.4 Sejam a,b,jÎLP fórmulas quaisquer. As relações abaixo são váli-
das em CÙ:
IC1. a®(b®j)„aÙb®j
IC2. a®b,a®j„a®bÙj
IC3. „(a®b)®((a®j)®(a®bÙj))
IC4. „(a®b)Ù(a®j)®(a®bÙj)
IC5. „(a®b)Ù(b®j)®(a®j) transitividade da implicação
IC6. a®(bÙj)„a®b
IC7. a®(bÙj)„a®j
IC8. „(a®bÙj)®(a®b)Ù(a®j)
IC9. „(a®b)®(aÙj®bÙj)
IC10. a®j,b®g„aÙb®jÙg

147
Comecemos provando IC1. Para isso, provaremos o resultado intermediário abaixo:
(13) a®(b®j),aÙb„j
1. aÙb Premissa
2. aÙb®a P3
3. a MP 1,2
4. aÙb®b P4
5. b MP 1,4
6. a®(b®j) Premissa
7. b®j MP 3,6
8. j MP 5,7
Como então temos a®(b®j),aÙb„j, pelo teorema da dedução temos também
a®(b®j)„aÙb®j, ou seja, IC1.
Basicamente o que IC1 diz é que se de a podemos concluir que de b concluímos j,
então de aÙb podemos concluir j. Considerando o uso de MP, esse na verdade é um re-
sultado mais ou menos imediato: se temos a®(b®j), então de posse de a e b, utilizan-
do MP duas vezes obtemos j; mas se temos (aÙb)®j, então de posse de a e b, pode-
mos usar P5 para concluir aÙb e, finalmente, usar MP para concluir j. Assim, como será
explicitado no teorema 2.6 abaixo, há uma equivalência entre a®(b®j) e (aÙb)®j.
Em função dessa equivalência podemos, por exemplo, expressar a transitividade da
implicação de uma forma alternativa, usando a conjunção juntamente com a implicação
(ao invés de somente a implicação como em I5). Isso é feito em IC5, cuja derivação se-
gue abaixo:
(14) (a®b)Ù(b®j)„a®j
1. (a®b)Ù(b®j) Premissa
2. (a®b)Ù(b®j)®(a®b) P3
3. a®b MP 1,2
4. (a®b)Ù(b®j)®(b®j) P4
5. b®j MP 1,4
6. (a®(b®j))®((a®b)®(a®j)) P2
7. (b®j)®(a®(b®j)) P1
8. a®(b®j) MP 5,7
9. (a®b)®(a®j) MP 8,6
10. a®j MP 3,9

148
Como então temos (14), pelo teorema da dedução temos também „(a®b)
Ù(b®j)®(a®j), isto é, IC5.
Outra relação interessante, e na verdade bastante trivial, entre a conjunção e a implica-
ção é expressa em IC2: se uma mesma fórmula a implica, separadamente, as fórmulas b e
j, então podemos concluir que a implica a conjunção de b e j. Segue abaixo a sua prova:
(15) a®b,a®j,a„bÙj
1. a Premissa
2. a®b Premissa
3. b MP 1,2
4. a®j Premissa
5. j MP 1,4
6. b®(j®bÙj) P5
7. j®bÙj MP 3,6
8. bÙj MP 5,7
Como então provamos (15), de acordo com o teorema da dedução temos que existe
uma derivação para IC2.
Algo interessante que o leitor pode facilmente constatar é que, na derivação de (14),
os passos (14.1)-(14.3) e os passos (14.1), (14.4) e (14.5) são idênticos, se substituirmos
a por a®b e b por b®j, às derivações que demos para C1 e C2, respectivamente. Isso
significa que, uma vez que estejamos de posse das derivações de C1 e C2, podemos
construir a derivação de (14) simplesmente copiando tais derivações e atualizando as fór-
mulas e os índices correspondentes. Isso é relevante, pois essa possibilidade nos leva à in-
dagação de se, como já provamos C1 e C2, não poderíamos nos abster de repetir as suas
respectivas derivações, encurtando assim a prova de (14) e consequentemente a de IC5.
A resposta a essa pergunta é sim; e o resultado que efetivamente nos permitirá reali-
zar tal manobra dará, podemos assim dizer, pleno significado ao termo “regra de infe-
rência derivada”, que é como estamos chamando C1 e C2. Segue abaixo tal resultado,
que chamaremos de teorema da regra derivada:

TEOREMA 2.5 Seja C=<L,S,L> um cálculo axiomático, G,D1, ...,Dn5L n+1 con-
juntos de fórmulas e a,b1,...,bnÎL n+1 fórmulas. Se, no cálculo C, D1„b1,..., Dn„bn e
G„D1,..., G„Dn e GÈ{b1,...,bn}„a, então G„a em C.
Primeiro de tudo, relembremos o que nos diz a definição 1.15: um conjunto de fór-
mulas D é deduzido a partir de outro conjunto de fórmulas G (G„D) sss G„a para todo

149
aÎD. Assim, o que o teorema 2.5 diz é que, dado um conjunto de fórmulas G e uma fór-
mula a, e dado n pares <Di,bi> (i=1,..,n), onde Di é um conjunto de fórmulas e bi é uma fór-
mula, se cada um deles é tal que Di„bi e G„Di (ou seja, cada membro de Di é deduzido a par-
tir de G) e se a é deduzido a partir de G em conjunto com {b1,...,bn} (GÈ{b1,...,bn}„a), en-
tão a é deduzido a partir de G. Um detalhe importante é que tal teorema vale para
todo e qualquer cálculo axiomático, tal qual definido na seção 5.2, independentemen-
te de quais axiomas e regras de inferência o compõem.
Aqui, <Di,bi> nada mais é do que uma instância de uma regra de inferência deriva-
da, isto é, um par conjunto de fórmulas-fórmula tal que Di„bi. Segundo, G e a são os
membros de um argumento cuja validade (G„a) deseja-se provar utilizando as regras
de inferência derivadas <Di,bi>, i=1,...,n. Para que isso possa ser feito, duas condições
têm de ser satisfeitas: primeiro, as premissas de cada uma das inferências de <Di,bi>
tem de ser deduzidas a partir de G (G„Di); e segundo, a tem de ser deduzido a partir de
G em conjunto com todas as conclusões de tais regras (GÈ{b1,...,bn}„a). No caso des-
sas duas condições serem satisfeitas, e de <Di,bi> serem efetivamente inferências, ou
seja, Di„bi, temos então a garantia de haver uma derivação de a a partir de G (G„a)51.
Vejamos como isso funciona no caso acima aludido de IC5 e (14) e C1 e C2. Para
isso, no entanto, consideremos, ao invés de esquemas de relação, instâncias de tais rela-
ções já com fórmulas de LP na sua formulação. Assim, queremos provar
(IC5’) „(A®B)Ù(B®C)®(A®C)
aplicando o teorema da dedução a
(14’) (A®B)Ù(B®C)„A®C
Este, por sua vez, nós queremos provar utilizando as regras derivadas C1 e C2, ou,
mais especificamente, as instâncias de C1 e C2 abaixo:
(16) (A®B)Ù(B®C)„A®B
(17) (A®B)Ù(B®C)„B®C
No que se refere à nomenclatura do teorema 2.5, nós temos aqui dois pares
<D1,b1> e <D2,b2>, sendo D1=D2={(A®B)Ù(B®C)}, b14A®B e b24B®C. G seria
{(A®B)Ù(B®C)} e a A®C. Como temos provado os esquemas de relação C1 e C2,
temos então provadas as suas instâncias (16) e (17). Assim, temos que D1„b1 e D2„b2.
Mas nós também temos, trivialmente, G„D1 e G„D2:
(18) (A®B)Ù(B®C)„(A®B)Ù(B®C)
(19) (A®B)Ù(B®C)„(A®B)Ù(B®C)

51. Conforme já tivemos oportunidade de dizer, a prova desse e de todos os outros (meta) teoremas a serem mencio-
nados neste e nos capítulos posteriores será dada no capítulo 12.

150
Finalmente, nós temos que GÈ{b1,b2}„a:
(20) {(A®B)Ù(A®C)}È{A®B,B®C}„A®C
1. A®B Premissa
2. B®C Premissa
3. (A®(B®C))®((A®B)®(A®C)) P2
4. (B®C)®(A®(B®C)) P1
5. A®(B®C) MP 2,4
6. (A®B)®(A®C) MP 5,3
7. A®C MP 1,6
Assim, de acordo com o teorema 2.5, nós também temos (A®B)Ù(B®C)„A®C.
Esses passos que realizamos na utilização do teorema 2.5 podem ser resumidos
como segue:
(14’) (A®B)Ù(B®C)„A®C
1. (A®B)Ù(B®C) Premissa
2. A®B C1 1
3. B®C C2 1
4. (A®(B®C))®((A®B)®(A®C)) P2
5. (B®C)®(A®(B®C)) P1
6. A®(B®C) MP 3,5
7. (A®B)®(A®C) MP 6,4
8. (A®C) MP 2,7
Aqui, a justificativa em (14’.2) indica que estamos a usar a regra C1 aplicada a (14’.1),
isto é, a instância de C1 tendo (14’.1) como antecedente e (14’.2) como consequente. O
mesmo acontece com (14’.3): (14’.3) é o consequente e (14’.1) o antecedente de uma
instância específica de C2. Como já provamos C1 e C2, temos que D1„b1 e D2„b2.
(14’.1) é uma derivação que prova tanto (18) como (19). Assim temos G„D1 e G„D2. Fi-
nalmente, os passos (14’.2)-(14’.8) provam (20), de forma que podemos afirmar que
GÈ{b1,b2}„a. Assim, de acordo com o teorema 2.5, temos G„a, ou seja, (14’).
De agora em diante, nos usos posteriores do teorema 2.5, abster-nos-emos de dar
uma explicação detalhada a respeito das condições que nos permitem, de acordo com o
teorema 2.5, chegar a G„a, limitando-nos à exibição resumida de tais condições, seme-
lhantemente a como fizemos com (14’) acima. Veja que, nessa maneira de apresentação,
mencionamos, nas justificativas de (14’.2) e (14’.3), as regras C1 e C2 da mesma forma
como mencionamos MP na justificativa de muitos membros de nossas derivações; “C2

151
1”, por exemplo, pode ser lido como “(14’.3) é justificado pelo uso da regra C2 aplicada
a (14’.1)”. Assim, vemos claramente que o teorema 2.5 nos permite usar as relações de-
rivadas de forma semelhante a como usamos MP, ou seja, como regras de inferência.
O leitor atento deve ter notado nas derivações de (14) e (14’) uma semelhança não
só em relação às derivações de C1 e C2, mas também em relação à derivação de I4, exi-
bida na seção anterior. Mais especificamente, os itens (14’.2)-(14’.8) acima, isto é, toda a
derivação de (20), é nada mais do que uma instância trivial (substituindo a, b e j por A,
B e C, respectivamente) da derivação que demos para provar I4. Assim, utilizando o te-
orema 2.5, podemos simplificar ainda mais a derivação de (14’) utilizando também I4
como regra derivada. Assim temos o que segue:
(14”) (A®B)Ù(B®C)„A®C
1. (A®B)Ù(B®C) Premissa
2. A®B C1 1
3. B®C C2 1
4. A®C I4 2,3
Aqui, a justificativa em (14”.4) quer dizer que A®C é obtido através de I4 aplicada
a (14”.2) e (14”.3). Fazendo então o caminho inverso que fizemos no início dessa expli-
cação e transformando a derivação de (14”) acima em um esquema de derivação52, te-
mos que IC5 pode ser provado como segue:
(21) (a®b)Ù(b®j)„a®j
1. (a®b)Ù(b®j) Premissa
2. a®b C1 1
3. b®j C2 1
4. a®j I4 2,3
Como então temos (21), pelo teorema da dedução temos também IC5.
Não é em absoluto difícil de ver, comparando a prova acima com a primeira prova
que demos para IC5, o quão esse procedimento pode simplificar o processo de constru-
ção de provas. Resumindo então, de uma forma geral, o teorema 2.5 nos garante a pos-
sibilidade de utilizarmos quaisquer regras previamente provadas na construção de no-
vas derivações53.

52. Para o qual podemos dar uma justificativa semelhante à que demos no final da seção 5.4, quando introduzimos
a ideia de provar não relações dedutivas mas esquemas de relação.
53. Devemos apenas atentar para a não ocorrência de circularidade, isto é, de que, na prova da relação X, usemos a
relação Y, em que na própria na prova da relação Y usamos a relação X.

152
Dois bons exemplos de uso das regras derivadas previamente provadas na constru-
ção de novas derivações são IC9 e IC10: ambos podem ser facilmente provados usando
as regras I1, I6, IC1 e IC2. Comecemos por IC9:
(22) a®b„aÙj®bÙj
1. a®b Premissa
2. j®(a®b) I1 1
3. a®(j®b) I6 2
4. aÙj®b IC1 3
5. aÙj®j P4
6. aÙj®bÙj IC2 4,5
Como temos (22), pelo teorema da dedução temos também IC9. Já IC10 pode ser
provado sem muita complicação sem o auxílio do teorema da dedução:
(IC10) a®j,b®g„aÙb®jÙg
1. a®j Premissa
2. b®(a®j) I1 1
3. a®(b®j) I6 2
4. aÙb®j IC1 3
5. b®g Premissa
6. a®(b®g) I1 5
7. aÙb®g IC1 6
8. aÙb®jÙg IC2 4,7
Em relação aos dois cálculos introduzidos nesta seção, algo digno de nota é que,
quando passamos de CÙ- para CÙ, através da introdução dos axiomas da implicação,
abrimos a possibilidade de expressar várias leis usando o conectivo derivado «,
visto que o mesmo é definido em função de Ù e de ® (definição 1.4). Assim podemos
não só representar na linguagem lógica a equivalência que mencionamos acima entre
a®(b®j) e (aÙb)®j, por exemplo, mas também provar tal relação. Segue abaixo
alguns dos vários teoremas lógicos expressos em termos do bicondicional que pode-
mos provar em CÙ e que representam propriedades lógicas importantes:

TEOREMA 2.6 Sejam a,b,jÎLP fórmulas quaisquer. As relações abaixo são váli-
das em CÙ.
BC1. „a«a reflexividade da equivalência

153
BC2. „(a«b)®(b«a) simetria da equivalência
BC3. „(a«b)Ù(b«j)®(a«j) transitividade da equivalência
BC4. „aÙb«bÙa comutatividade da conjunção
BC5. „(aÙ(bÙj))«((aÙb)Ùj) associatividade da conjunção
BC6. „aÙa«a idempotência da conjunção
BC7. „(a®(b®j))«((a®b)®(a®j))
BC8. „(a®(b®j))«(b®(a®j))
BC9. „(a®(b®j))«(aÙb®j)
BC10. „(a®bÙj)«(a®b)Ù(a®j)
Comecemos por BC1. Trivialmente, esse princípio da reflexifidade da equivalência
é nada mais do que a conjunção de duas ocorrências de I3: (a®a)Ù(a®a). Assim,
para provar BC1, basta provar a®a e usá-lo juntamente com C3. Aqui então surge
uma pergunta similar à que respondemos en relação à IC5: como já provamos I3, será
que, na prova de BC1, é necessário reescrever toda a derivação de I3? Claramente não.
Um teorema lógico, lembremos, nada mais é do que uma fórmula deduzida a partir do
conjunto vazio, o que nos permite ver um esquema de teorema lógico como uma regra
de inferência a partir do conjunto vazio. Assim, semelhantemente ao que temos feito
até agora com as regras derivadas, podemos usar o teorema 2.5 e tomar vantagem do
fato de que já temos uma derivação para I3. Segue abaixo então a prova abreviada de
BC1, já fazendo uso, obviamente, do teorema 2.5:
(BC1) „a«a
1. a®a I3
2. a®a I3
3. (a®a)Ù(a®a) C3 1,2
Aqui temos, em (BC1.3), o uso de uma regra de inferência derivada com a qual já esta-
mos familiarizados: C3 aplicada a (BC1.1) e (BC1.2). Já as duas primeiras linhas fazem refe-
rência não a uma regra derivada, mas a um teorema lógico previamente provado. Para ver
que aqui também temos uma aplicação do teorema 2.5, tome G=^, a4(a®a)Ù(a®a),
D1=D2=^, D3={a®a,a®a}, b14b24a®a e b34(a®a)Ù(a®a). Assim, como temos
D1„b1, D2„b2 e D3„b3 (I3 e C3, já previamente provados por nós), G„D1, G„D2 (lem-
bre-se que, conforme mencionado na seção 5.2, de acordo com a definição 1.15, G„^) e
G„D3 (aqui, novamente, a prova prévia de I3 justifica esse passo) e GÈ{b1,b2,b3}„a
(trivial), então temos também que G„a.

154
Assim vemos que o uso de teoremas lógicos na abreviação de derivações nada mais
é do que um subcaso específico do teorema 2.5, subcaso este que é explicitado no coro-
lário abaixo:

COROLÁRIO 2.3 Seja C=<L,S,L> um cálculo axiomático, G5L um conjunto de


fórmulas e a,b1,...,bnÎL n+1 fórmulas. Se, no cálculo C, „b1,..., „bn e GÈ{b1,...,
bn}„a, então G„a em C.
No uso de teoremas lógicos em conjunto com o teorema 2.5, mencionaremos, na exi-
bição de nossas derivações abreviadas, simplesmente o nome do teorema lógico usado.
Elaborando mais um pouco essa ideia, vejamos como seriam as derivações de BC7 e BC8:
(BC7) „(a®(b®j))«((a®b)®(a®j))
1. (a®(b®j))®((a®b)®(a®j)) P2
2. ((a®b)®(a®j))®(a®(b®j)) I11
3. (a®(b®j))«((a®b)®(a®j)) C3 1,2
(BC8) „(a®(b®j))«(b®(a®j))
1. (a®(b®j))®(b®(a®j)) I7
2. (b®(a®j))®(a®(b®j)) I7
3. (a®(b®j))«(b®(a®j)) C3 1,2
Aqui, enquanto na derivação de BC7 utilizamos I11 em conjunto com C3, em BC8
usamos I7 duas vezes em conjunto com C3.
O leitor pode notar que nessas duas derivações o uso de C3 foi fundamental. Tal re-
gra, podemos dizer, tem como propósito “unir” duas premissas com o auxílio do co-
nectivo Ù. Como a dupla implicação é nada mais do que de uma conjunção de duas im-
plicações, C3 claramente é de grande valia na construção de derivações de teoremas ló-
gicos bicondicionais, como é o caso dos teoremas lógicos do teorema 2.6. Já vimos
como BC1 pode ser provado usando I3 em conjunto com C3, BC7 usando P2 e I11, e
BC8 usando I7. Vejamos como provaríamos BC6:
(BC6) „aÙa«a
1. aÙa®a P3
2. a®(a®(aÙa)) P5
3. (a®a)®(a®aÙa) I2 2
4. a®a I3
5. a®aÙa MP 4,3
6. aÙa«a C3 1,5

155
Veja que aqui os passos (BC6.2)-(BC6.5) consistem em uma derivação de
(23) „a®(aÙa)
Assim, poderíamos tornar a derivação de BC6 mais modular e simples se tivésse-
mos provado (23) separadamente e depois usado-o juntamente com P3 e C3 para pro-
var BC6.
Para finalizar esta seção, seguem abaixo os corolários que estabelecem que todos os
teoremas lógicos e regras derivadas vistos até aqui são válidos também no cálculo clássi-
co proposicional.

COROLÁRIO 2.4 CP é uma extensão conservativa de CÙ e de CÙ-.

COROLÁRIO 2.5 As relações mencionadas nos teoremas 2.3, 2.4 e 2.6 são válidas
em CP.

6.4 Disjunção e o cálculo CÚ


Nesta última seção do capítulo 6 apresentaremos os teoremas lógicos e regras deri-
vadas da disjunção. Para tal, definiremos três cálculos: um contendo apenas os axiomas
da disjunção, outro contendo, em adição a P6-P8, os axiomas da implicação e, final-
mente, outro cálculo contendo os axiomas P1-P8. Segue abaixo a definição do primeiro
cálculo da disjunção, que chamamos simplesmente de cálculo fraco da disjunção.

DEFINIÇÃO 2.5 O cálculo fraco da disjunção CÚ- é a tripla <LP,SMP,LP6-P8>.


Da mesma forma que fizemos com os cálculos anteriores, podemos, a partir dessa
definição e em conjunto com as definições 1.13 e 1.14, obter a relação de dedução de
CÚ-. Uma vez feito isso, podemos provar o teorema abaixo, que contém alguns teore-
mas lógicos e regras derivadas de CÚ-:

TEOREMA 2.7 Sejam a,b,jÎLP fórmulas quaisquer. As relações abaixo são váli-
das em CÚ-.
D1. a„aÚb
D2. b„aÚb
D3. a®j, b®j„aÚb®j
D4. aÚb„bÚa Comutatividade da Disjunção

156
Os teoremas D1, D2 e D3 representam, sob a forma inferencial, os axiomas P6, P7
e P8, respectivamente. D4 por sua vez representa o fato mais ou menos trivial de que de
aÚb podemos inferir bÚa. Seguem abaixo as provas de D1, D2 e D3:
(D1) a„aÚb
1. a Premissa
2. a®aÚb P6
3. aÚb MP 1,2
(D2) b„aÚb
1. b Premissa
2. b®aÚb P7
3. aÚb MP 2,1
(D3) a®j, b®j„aÚb®j
1. a®j Premissa
2. b®j Premissa
3. (a®j)®((b®j)®(aÚb®j)) P8
4. (b®j)®(aÚb®j) MP 1,3
5. aÚb®j MP 2,4
Algo que podemos mencionar aqui é que talvez alguém argumente que D4, por exem-
plo, sendo por demais óbvio, não necessitaria do que temos chamado até agora de prova.
Sendo “A ou B” e “B ou A” trivialmente equivalentes entre si, é óbvio que podemos con-
cluir um a partir do outro. Lembremos, no entanto, que uma linguagem lógica opera no ní-
vel puramente sintático, não estabelecendo nada digno de ser chamado o significado dos
símbolos. Dessa forma, AÚB e BÚA são exatamente o que uma análise puramente sintática
nos permite concluir: concatenações de símbolos e, consequentemente, elementos da lin-
guagem proposicional diferentes um do outro. Assim, do ponto de vista da linguagem lógi-
ca não há nenhuma informação capaz de justificar a suposta obviedade de D4. Semelhante-
mente então a qualquer outra relação dedutiva, para provarmos que D4 é válida, temos que
exibir uma derivação de bÚa a partir de aÚb. Segue abaixo tal derivação:
(D4) aÚb„bÚa
1. a®bÚa P7
2. b®bÚa P6
3. aÚb®bÚa D3 1,2
4. aÚb Premissa
5. bÚa MP 4,3

157
O leitor talvez já tenha notado que, da mesma forma como acontece com CÙ-, CÚ- é
um sistema fraco, não sendo capaz de provar muitas das propriedades mais elementares
da disjunção. Por exemplo, a prova de
(24) aÚa„a
não pode ser feita sem o auxílio de I3 (que por sua vez depende de P1 e P2):
(25) 1. a®a I3
2. a®a I3
3. aÚa®a D3 1,2
4. aÚa Premissa
5. a MP 4,3
Assim, para sermos capazes de derivar algumas das propriedades mais interessantes
da disjunção, precisamos adicionar a CÚ- os axiomas da implicação P1 e P2; após o que
obtemos o que chamamos de cálculo forte da disjunção.

DEFINIÇÃO 2.6 O cálculo forte da disjunção CÚ+ é a tripla <LP,SMP,LP1,P2,P6-P8>.


Seguem abaixo alguns dos teoremas lógicos e regras derivadas mais importantes de
54
CÚ+ :

TEOREMA 2.8 Sejam a,b,jÎLP fórmulas quaisquer. As relações abaixo são váli-
das em CÚ+.
ID1. aÚa„a
ID2. aÚ(bÚj)„(aÚb)Új
ID3. (aÚb)Új„aÚ(bÚj)
ID4. „(a®b)®(aÚj®bÚj)
ID5. a®j,b®g„aÚb®jÚg
ID6. aÚj„(a®b)®jÚb
ID7. „aÚb®((a®b)®b)
Juntamente com ID3, ID2 determina aquilo que chamamos de associatividade da dis-
junção. A despeito da aparente trivialidade de ID3, por exemplo, sua prova contém certo
grau de sofisticação:

54. ID1 é (24), que provamos acima.

158
(ID3) (aÚb)Új„aÚ(bÚj)
1. b®bÚj P6
2. bÚj®aÚ(bÚj) P7
3. b®aÚ(bÚj) I4 1,2
4. j®bÚj P7
5. bÚj®aÚ(bÚj) P7
6. j®aÚ(bÚj) I4 4,5
7. a®aÚ(bÚj) P6
8. aÚb®aÚ(bÚj) D3 7,3
9. (aÚb)Új®aÚ(bÚj) D3 8,6
10. (aÚb)Új Premissa
11. aÚ(bÚj) MP 10,9
Um tipo diferente de sofisticação é encontrado na prova de ID6, na qual temos que
provar primeiro, com o auxílio do teorema da dedução, os dois resultados intermediá-
rios abaixo:
(26) „a®((a®b)®jÚb)
(27) „j®((a®b)®jÚb)
(28) a,a®b„jÚb
1. a Premissa
2. a®b Premissa
3. b MP 1,2
4. jÚb D2 3
(29) j,a®b„bÚj
1. j Premissa
2. jÚb D1 1
Como temos (28) e (29), usando o teorema da dedução duas vezes (em cada rela-
ção), temos também (26) e (27). De posse desses resultados, construímos de forma tri-
vial a derivação de ID6:
(ID6) aÚj„(a®b)®jÚb
1. a®((a®b)®jÚb) (26)
2. j®((a®b)®jÚb) (27)
3. (aÚj)®((a®b)®jÚb) D3 1,2

159
4. aÚj Premissa
5. (a®b)®jÚb MP 4,3
Vejamos como seria a prova de ID4:
(30) (a®b).aÚj®bÚj
1. a®b Premissa
2. j®bÚj P7
3. b®bÚj P6
4. a®bÚj I4 1,3
5. aÚj®bÚj D3 4,2
De posse de (30), pelo teorema da dedução concluímos ID4.
O leitor deve ter notado que ID2 e ID3 são o converso um do outro, o que seria
muito mais naturalmente expresso usando-se a dupla implicação:
(31) aÚ(bÚj)«(aÚb)Új
Obviamente que para sermos capazes de provar (31) temos que ter em nosso conjun-
to de axiomas os axiomas da conjunção P3-P5. Faremos isso adicionando tais axiomas a
CÚ+, após o que obtemos o que chamamos simplesmente de cálculo da disjunção:

DEFINIÇÃO 2.7 O cálculo da disjunção CÚ é a tripla <LP,SMP,LP1-P8>.


Segue abaixo alguns teoremas lógicos interessantes que podemos provar em CÚ:

TEOREMA 2.9 Sejam a,b,jÎLP fórmulas quaisquer. As relações abaixo são váli-
das em CÚ.
ICD1. „aÚb«bÚa Comutatividade da Disjunção
ICD2. „aÚa«a Idempotência da Disjunção
ICD3. „aÚ(bÚj)«(aÚb)Új Associatividade da Disjunção
ICD4. „(aÙb)Új«(aÚj)Ù(bÚj) Distributividade de Ú com Ù
ICD5. „(aÚb)Ùj«(aÙj)Ú(bÙj) Distributividade de Ù com Ú
Além possibilitar a prova de fórmulas como (30), que no teorema 2.9 recebe a de-
nominação de ICD3, CÚ também torna possível a prova de princípios que relacionam a
disjunção com a conjunção, como é o caso de ICD4 e ICD5. Enquanto ICD4 distribui
a disjunção em relação à conjunção, ICD5 permite a distribuição da conjunção em rela-
ção à disjunção. Provemos ICD4. Para isso, precisamos provar os dois resultados inter-
mediários abaixo:

160
(32) „(aÙb)Új®(aÚj)Ù(bÚj)
(33) „(aÚj)Ù(bÚj)®(aÙb)Új
Comecemos pela prova de (32):
(32) „(aÙb)Új®(aÚj)Ù(bÚj)
1. a®aÚj P6
2. b®bÚj P6
3. aÙb®(aÚj)Ù(bÚj) IC10 1,2
4. j®aÚj P7
5. j®bÚj P7
6. j®(aÚj)Ù(bÚj) IC2 4,5
7. (aÙb)Új®(aÚj)Ù(bÚj) D3 3,6
Para provarmos (33), temos de provar primeiro, usando o teorema da dedução, o
resultado intermediário abaixo:
(34) „j®(bÚj®(aÙb)Új)
(35) j„bÚj®(aÙb)Új
1. j Premissa
2. b®j I1 1
3. j®(aÙb)Új P7
4. b®(aÙb)Új I4 2,3
5. bÚj®(aÙb)Új D3 4,3
Como temos (35), pelo teorema da dedução temos também (34). De posse então de
(34), podemos construir a derivação de (33):
(33) „(aÚj)Ù(bÚj)®(aÙb)Új
1. j®(bÚj®(aÙb)Új) (34)
2. (b®aÙb)®(bÚj®(aÙb)Új) ID4
3. a®(b®aÙb) P5
4. a®(bÚj®(aÙb)Új) I4 3,2
5. aÚj®(bÚj®(aÙb)Új) D3 4,1
6. (aÚj)Ù(bÚj)®(aÙb)Új IC1 5
Uma vez provados (32) e (33), provamos facilmente ICD4:
(ICD4) „(aÙb)Új«(aÚj)Ù(bÚj)
1. (aÙb)Új®(aÚj)Ù(bÚj) (32)

161
2. (aÚj)Ù(bÚj)®(aÙb)Új (33)
3. (aÙb)Új«(aÚj)Ù(bÚj) C3 1,2
Para finalizar, seguem abaixo os corolários que estabelecem que todos os teoremas
lógicos e regras derivadas vistos nesta seção são válidos também no cálculo clássico
proposicional:

COROLÁRIO 2.6 CP é uma extensão conservativa de CÚ, CÚ+ e CÚ-.

COROLÁRIO 2.7 As relações mencionadas nos teoremas 2.7, 2.8 e 2.9 são válidas
em CP.

162
6.5 Exercícios Propostos
1. Prove os corolários 2.1 e 2.2.
2. Responda as questões abaixo referentes ao teorema 2.1:
a. Qual o significado das relações I3, I6, I8, I9 e I11?
b. Por que I6 é chamado de lei da permutação?
c. Qual a relação que há entre I11 e o axioma P2?
d. Que relação existe entre I3, I8 e I9?
3. Prove que os esquemas de relação abaixo são válidos em C®:
a. „(a®b)®((a®(b®j))®(a®j))
b. (a®b)®(a®j)„a®(b®j)
c. „a®(a®a)
4. Em relação ao teorema 2.1, prove I3 e I8.
5. Faça o que é pedido a seguir:
a. Prove que CÙ é uma extensão conservativa de CÙ-;
b. Prove que CÙ é uma extensão conservativa de C®.
6. Diga o que significa e prove a relação C4 do teorema 2.3.
7. Responda as questões abaixo referentes ao teorema 2.4:
a. O que significa IC2, e qual a relação que há entre ele e IC3 e IC4?
b. Qual o significado de IC6, IC7 e IC8, e que relação há entre eles?
c. Que relação que há entre IC2 e IC8? E entre IC2 e IC10?
d. O que significa IC9?
8. Responda as questões abaixo referentes ao teorema 2.6:
a. Qual o significado de BC2 e BC4 e que relação há entre eles e C4?
b. Qual o significado de BC3 e que relação há entre ele e IC5?
c. Qual o significado de BC5, BC6, BC7 e BC8?
d. Que relação há entre BC9 e IC1?
e. Que relação há entre BC10 e IC8?
9. Prove que os esquemas de relações abaixo são válidos em C , utilizando-se possivel-
Ù
mente dos teoremas 2.2 e 2.5:
a. „(aÙb)®(bÙa)
b. „(a®(b®j))®(aÙb®j)
c. (a®b)Ù(a®j)„a®bÙj
d. „(a®(bÙj))®(a®b)
e. a®b„aÙj®bÙj
f. a«b„b«a
g. a„aÙa
h. aÙb®j„a®(b®j)
i. a®bÙj„(a®b)Ù(a®j)
10. Faça o que é pedido a seguir em relação ao teorema 2.4, utilizando-se possivelmente
dos teoremas 2.2 e 2.5:
a. Prove IC3;

163
b. Prove IC4 usando IC2;
c. Prove IC6 e IC7;
d. Prove IC8 usando as formas implicativas de IC6 e IC7, e IC2 como regra derivada;
e. Prove IC2 utilizando-se de IC10.
11. Prove o corolário 2.3 a partir do teorema 2.5.
12. Prove I9 utilizando I3 juntamente com o teorema 2.5.
13. Faça o que é pedido a seguir em relação ao teorema 2.6, utilizando-se possivelmente
dos teoremas 2.2 e 2.5:
a. Prove BC2 e BC4;
b. Prove BC3 e BC5;
c. Prove BC9 e BC10.
14. Prove os corolários 2.4 e 2.5.
15. Em relação ao teorema 2.8, qual o significado de ID4, ID5, ID6 e ID7, e que relação há
entre eles?
16. Em relação ao teorema 2.8, prove ID1, ID5 e ID7, utilizando-se possivelmente dos teo-
remas 2.2 e 2.5.
17. Em relação ao teorema 2.9, o que significam ICD4 e ICD5?
18. Faça o que é pedido a seguir em relação ao teorema 2.9, utilizando-se possivelmente
dos teoremas 2.2 e 2.5:
a. Prove ICD1 usando D4;
b. Prove ICD2 usando ID1 e P5;
c. Prove ICD3 usando ID2 e ID3;
d. Prove ICD5.
19. Prove os corolários 2.6 e 2.7.
20. Prove que CÚ é uma extensão conservativa de CÚ+ e de CÚ-.

164
7
Negação e os cálculos clássico, intuicionista
e paraconsistente

7.1 P9 e a negação minimal


Dedicar-nos-emos, neste capítulo, a apresentar os teoremas lógicos e regras de infe-
rência derivadas relacionados com a negação. Diferentemente, no entanto, do que
aconteceu com nossa exposição dos outros conectivos, deparar-nos-emos aqui com
um fenômeno inteiramente novo. Conforme adiantado no início do capítulo anterior,
os axiomas da negação P9, P10 e P11 podem ser vistos como caracterizando não apenas
uma, mas várias negações. A razão disso é que certas propriedades oriundas desses axio-
mas têm sido vistas com certa desconfiança por diversos teóricos. Os exemplos que de-
mos no capítulo 6 foram o princípio do terceiro excluído
(1) „aÚØa
e o princípio da explosão
(2) a,Øa„b
De acordo com certa concepção filosófica, o significado dos conectivos lógicos e a
prova das fórmulas por eles compostas devem ser explicados em termos da noção ma-
temática de construção. Mais especificamente, a menos que tenhamos uma construção
que prove uma determinada sentença a, não podemos aceitar a como verdade. Por
exemplo, se desejamos provar AÙB, temos que construir uma prova para A e uma pro-
va para B; similarmente, se desejamos provar AÚB temos que construir uma prova para
A ou uma prova para B. Mas, se aceitamos (1), então estamos assumindo que, para qual-
quer fórmula a, existe uma prova para aÚØa, mesmo que não tenhamos a menor ideia
de como construir uma prova para a ou para Øa. Isso fica mais dramático se considera-
mos certos resultados como a generalização do 1° teorema da incompletude de Godel,
por exemplo, que diz que para todo sistema S rico o suficiente para expressar a aritméti-
ca, existe um enunciado j tal que nem j nem Øj podem ser provados em S. Conforme

165
vimos no capítulo 2, chamamos o sistema lógico que rejeita (1) de lógica intuicionista, sen-
do a negação a ele associada chamada de negação intuicionista.
Já com (2) o problema é que, sob diversos pontos de vista, parece absurdo supor
que a partir de uma contradição podemos inferir todo e qualquer enunciado. De acordo
com (2), por exemplo, a partir de (3) e (4) abaixo
(3) Fará sol amanhã.
(4) Não fará sol amanhã.
podemos concluir disparates como
(5) A lua é feita de queijo.
ou
(6) 2+2=5.
Isso motivou a criação de sistemas lógicos nos quais (2) não é válido, isto é, sistemas
lógicos capazes de tolerar contradições sem acarretar o que chamamos de trivialização da
teoria, ou seja, sem que possamos inferir todo e qualquer enunciado a partir daí. A tal
classe de lógicas damos o nome de lógicas paraconsistentes, sendo a negação a elas associa-
das chamada de negação paraconsistente.
Nosso objetivo aqui não é fornecer uma introdução às lógicas não clássicas; confor-
me mencionado no capítulo anterior, o objetivo principal deste capítulo é a exposição e
prova dos vários teoremas lógicos e regras derivadas do cálculo clássico proposicional.
No entanto, em função do método que estamos adotando, nos depararemos, na apre-
sentação dos vários teoremas e regras derivadas da negação, com o cálculo não clássico
intuicionista e com um cálculo paraconsistente. Assim, tomando vantagem da situação,
aproveitaremos a presença de tais cálculos para discorrer brevemente sobre algumas
propriedades interessantes de tais cálculos não clássicos.
Comecemos com o que chamamos de cálculo fraco da negação minimal; como ve-
remos mais adiante, em função de possuírem P9 como único axioma da negação, tanto
esse cálculo fraco da negação minimal como sua versão completa, a ser introduzida a se-
guir, podem ser vistos como cálculos semiparaconsistentes:

DEFINIÇÃO 2.8 O cálculo fraco da negação minimal CØm- é a tripla <LP,SMP,LP1,P2,P9>.


Seguem abaixo alguns teoremas lógicos e regras derivadas de CØm-:

TEOREMA 2.10 Sejam a,b,jÎLP fórmulas quaisquer. As relações abaixo são váli-
das em CØm-.

166
INm1. a®b,a®Øb„Øa
INm2. Øa,a„Øb
INm3. „Øa®(a®Øb)
INm4. a®b,Øb„Øa modus tolens
INm5. a®b„Øb®Øa
INm6. „(a®b)®(Øb®Øa) contrapositiva (metade)
INm7. a®Øb„b®Øa
INm8. „(a®Øa)®Øa
INm9. „(Øa®a)®ØØa
INm10. „a®ØØa
INm11. „ØØØa®Øa
INm12. „(a®b)®(ØØa®ØØb)
INm13. „ØØ(a®b)®(ØØa®ØØb)
INm14. „(a®(b®j))®(ØØa®(ØØb®ØØj))
INm15. ØØ(a®b),ØØ(b®j)„ØØ(a®j)
INm16. „a®(Øb®Ø(a®b))
P9, conforme já falamos, é a representação axiomática do princípio da redução ao ab-
surdo: se a implica b, então se a implica Øb temos que Øa. Como é fácil de ver, INm1 é
a representação inferencial de tal princípio, sendo sua prova um uso trivial de P9:
(INm1) a®b,a®Øb„Øa
1. a®b Premissa
2. (a®b)®((a®Øb)®Øa) P9
3. (a®Øb)®Øa MP 1,2
4. a®Øb Premissa
5. Øa MP 4,3
A partir de INm1, em conjunto com a regra I1 (derivada do axioma P1), podemos
derivar INm2:
(INm2) a,Øa„Øb
1. a Premissa
2. b®a I1 1
3. Øa Premissa
4. b®Øa I1 3
5. Øb INm1 2,4

167
É fácil de ver que INm2 nos permite, a partir de uma contradição, concluir qualquer
fórmula negativa; trata-se, portanto, de uma forma fraca do princípio da explosão. Isso
é o máximo que conseguimos obter em CØm-; a forma plena de tal princípio, representa-
da por (2), somente pode ser provada com o auxílio do axioma P10. (Note que INm3,
que nada mais é do que a versão condicional de INm2, é uma versão fraca de P10.) Em
outras palavras, apesar de podermos, a partir de uma contradição, provar Øb, para qual-
quer fórmula b, não podemos provar b. Por conta disso dizemos que CØm- é um cálculo
semiparaconsistente.
Poder-se-ia pensar que poderíamos usar INm2 para concluir ØØb, e então a partir
de ØØb inferir b, derivando assim a versão completa do princípio da explosão. No en-
tanto, o princípio do qual tal inferência depende,
(7) ØØa®a
não pode ser provado em CØm; apenas o seu converso, INm10 pode.
INm4 é a famosa regra modus tolens. Semelhantemente à modus ponens, modus tolens
parte de um condicional; diferentemente no entanto daquela, tanto sua conclusão como
uma de suas premissas são fórmulas negativas. Segue abaixo a prova de INm4:
(INm4) a®b,Øb„Øa
1. a®b Premissa
2. Øb Premissa
3. a®Øb I1 2
4. Øa INm1 1,3
É fácil de ver que INm5 e INm6 são nada mais do que formulações condicionais de
INm4. Como seria de se esperar, a prova de ambos INm5 e INm6 é bastante trivial:
como temos INm4, então de acordo com o teorema da dedução temos INm5. Mas
como temos INm5, pelo mesmo teorema da dedução concluímos INm6.
Várias propriedades importantes da negação podem ser provadas com o auxílio de
modus tolens e suas variantes condicionais INm5 e INm6. INm12, por exemplo, pode ser
provado simplesmente usando-se INm6 duas vezes:
(INm12) „(a®b)®(ØØa®ØØb)
1. (a®b)®(Øb®Øa) INm6
2. (Øb®Øa)®(ØØa®ØØb) INm6
3. (a®b)®(ØØa®ØØb) I4 1,2
Note que INm6 é metade da famosa lei da contrapositiva:
(8) (a®b)«(Øb®Øa)

168
O converso de INm6, no entanto, do qual (8) obviamente depende, não pode ser
provado em CØm-. Na verdade os conversos de boa parte dos teoremas lógicos mencio-
nados no teorema 2.10 são tais que eles não podem ser provados em CØm-. Apenas
quando estivermos trabalhando com o cálculo clássico proposicional e usando os onze
axiomas da definição 1.17, em especial o axioma P11, é que seremos capazes de pro-
vá-los. Por exemplo, apenas quando pudermos provar (7) é que poderemos derivar
aquilo que, juntamente com INm10, compõem o que chamamos de lei da dupla negação:
(9) ØØa«a
Para provarmos INm10, é útil provarmos primeiro INm7:
(INm7) a®Øb„b®Øa
1. a®Øb Premissa
2. (a®b)®((a®Øb)®Øa) P9
3. b®(a®b) P1
4. b®((a®Øb)®Øa) I4 3,2
5. (a®Øb)®(b®Øa) I6 4
6. b®Øa MP 1,5
Segue então abaixo a prova de INm10 (a instância de INm7 usada aqui é obtida
substituindo a por Øa e b por a):
(INm10) „a®ØØa
1. Øa®Øa I3
2. a®ØØa INm7 1
Veja que, apesar de não podermos provar a lei da dupla negação em CØm-, temos
uma versão mais fraca, podemos assim dizer, de (7) que é INm11. Segue abaixo a sua
derivação:
(INm11) „ØØØa®Øa
1. a®ØØa INm10
2. ØØØa®Øa INm5 1
Um teorema cuja derivação depende de INm11 (bem como de INm12 e INm5) é
INm13. Segue abaixo a prova do resultado intermediário a partir do qual, usando o teo-
rema da dedução, somos capazes de provar INm13:
(10) ØØ(a®b),ØØa„ØØb
1. ØØ(a®b) Premissa
2. ØØa Premissa

169
3. (a®b)®(ØØa®ØØb) INm12
4. ØØa®((a®b)®ØØb) I6 3
5. (a®b)®ØØb MP 2,4
6. ØØØb®Ø(a®b) INm5 5
7. ØØ(a®b)®ØØØØb INm5 6
8. ØØØØb MP 1,7
9. ØØØØb®ØØb INm11
10. ØØb MP 8,9
Como temos (10), de acordo com o teorema da dedução temos
(11) ØØ(a®b)„ØØa®ØØb
E, consequentemente, pelo mesmo teorema da dedução, temos INm13.
Veja que o converso de INm11 é nada mais do que a instância de INm10 obtida
através da substituição de a por Øa:
(12) Øa®ØØØa
Juntando INm11 com (12) obtemos a seguinte versão fraca da lei da dupla negação:
(13) ØØØa«Øa
Mas veja que para provarmos (13) nós temos que usar os axiomas da conjunção, em
especial P5. Assim, precisamos de um novo cálculo que contenha outros axiomas além
de P1, P2 e P9. Segue então tal cálculo, que chamamos simplesmente cálculo da negação
minimal:

DEFINIÇÃO 2.9 O cálculo da negação minimal CØm é a tripla <LP,SMP,LP1-P9>.


Abaixo temos alguns dos teoremas lógicos mais importantes de CØm:

TEOREMA 2.11 Sejam a,b,jÎLP fórmulas quaisquer. As relações abaixo são váli-
das em CØm.
Nm1. „Ø(aÙØa) lei da não contradição
Nm2. „(a®Øb)«(b®Øa)
Nm3. „ØØØa«Øa
Nm4. „ØØ(aÚØa)
Nm5. „ØØ(aÙb)«ØØaÙØØb
Nm6. „ØØaÚØØb®ØØ(aÚb)

170
Nm7. „ØaÚØb®Ø(aÙb) 1ª Lei de De Morgan (metade)
Nm8. „Ø(aÚb)«ØaÙØb 2ª Lei de De Morgan
Nm9. „(a®b)®Ø(aÙØb)
Nm10. „Ø(ØaÚØb)®ØØ(aÙb)
Nm11. „Ø(ØaÚØb)®aÙb
Segue abaixo a prova de (13), que no teorema 2.11 aparece como Nm3:
(Nm3) „ØØØa«Øa
1. ØØØa®Øa INm11
2. Øa®ØØØa INm10
3. ØØØa«Øa C3 1,2
Nm1 é a famosa lei da não contradição, que diz que a e Øa não é o caso. Ao contrário
do que pode aparentar, a sua prova é bastante simples:
(Nm1) „Ø(aÙØa)
1. aÙØa®a P3
2. aÙØa®Øa P4
3. Ø(aÙØa) INm1 1,2
Além de Nm3, temos ainda, no teorema 2.11, versões fracas de dois outros princí-
pios cujas versões completas não podem ser provadas em CØm: a lei da contrapositiva
(Nm2) e o princípio do terceiro excluído (Nm4). Provemos Nm4:
(Nm4) „ØØ(aÚØa)
1. a®aÚØa P6
2. Ø(aÚØa)®Øa INm5 1
3. Øa®aÚØa P7
4. Ø(aÚØa)®ØØa INm5 3
5. Ø(aÚØa)®ØaÙØØa IC2 2,4
6. Ø(ØaÙØØa)®ØØ(aÚØa) INm5 5
7. Ø(ØaÙØØa) Nm1
8. ØØ(aÚØa) MP 7,6
Um fenômeno interessante que acontece quando colocamos juntos os axiomas da
conjunção, disjunção e negação é que podemos provar algumas relações importantes que
existem entre esses três conectivos. Por exemplo, podemos mostrar que a negação pode
ser internalizada em uma disjunção, transformando esta última em uma conjunção:

171
(14) „Ø(aÚb)®ØaÙØb
1. a®aÚb P6
2. Ø(aÚb)®Øa INm5 1
3. b®aÚb P7
4. Ø(aÚb)®Øb INm5 3
5. Ø(aÚb)®ØaÙØb IC2 2,4
Também podemos provar que a negação pode ser externalizada em uma conjun-
ção, transformando esta última em uma disjunção:
(15) ØaÙØb„Ø(aÚb)
1. ØaÙØb Premissa
2. Øa C1 1
3. Øb C2 1
4. ¬a®(a®Øj) INm3
5. a®Øj MP 2,4
6. Øb®(b®Øj) INm3
7. b®Øj MP 3,6
8. aÚb®Øj D3 5,7
9. Øa®(a®ØØj) INm3
10. a®ØØj MP 2,9
11. Øb®(b®ØØj) INm3
12. b®ØØj MP 3,11
13. aÚb®ØØj D3 10,12
14. Ø(aÚb) INm1 8,13
Como temos (15), pelo teorema da dedução temos que
(16) „ØaÙØb®Ø(aÚb)
De posse então de (14) e (16), podemos provar a 2ª Lei de De Morgan, ou seja, Nm8:
(Nm8) Ø(aÚb)«ØaÙØb
1. Ø(aÚb)®ØaÙØb (14)
2. ØaÙØb®Ø(aÚb) (16)
3. Ø(aÚb)«ØaÙØb C3 1,2
Outra relação importante é mais ou menos o dual de (16), ou seja, que a negação pode
ser externalizada em uma disjunção, transformando esta última em uma conjunção:

172
(Nm7) „ØaÚØb®Ø(aÙb)
1. aÙb®a P3
2. Øa®Ø(aÙb) INm5 1
3. aÙb®b P4
4. Øb®Ø(aÙb) INm5 3
5. ØaÚØb®Ø(aÙb) D3 2,4
O converso de Nm7,
(17) Ø(aÙb)®ØaÚØb
que juntamente com ele forma a 1ª Lei de De Morgan, não pode ser provada em CØm.
Semelhantemente, os conversos de Nm6 e Nm9 só podem ser provados em CP.
Para finalizar nossa exemplificação de derivações em CØm, provemos Nm5 e Nm10:
(Nm5) „ØØ(aÙb)«ØØaÙØØb
1. aÙb®a P3
2. Øa®Ø(aÙb) INm5 1
3. ØØ(aÙb)®ØØa INm5 2
4. aÙb®b P4
5. Øb®Ø(aÙb) INm5 4
6. ØØ(aÙb)®ØØb INm5 5
7. ØØ(aÙb)®ØØaÙØØb IC2 3,6
8. a®(b®aÙb) P5
9. Ø(b®aÙb)®Øa INm5 8
10. ØØa®ØØ(b®aÙb) INm5 9
11. ØØ(b®aÙb)®(ØØb®ØØ(aÙb)) INm13
12. ØØa®(ØØb®ØØ(aÙb)) I4 10,11
13. ØØaÙØØb®ØØ(aÙb) IC1 12
14. ØØ(aÙb)«ØØaÙØØb C3 7,13
Para provar Nm10, precisamos primeiro provar o resultado intermediário abaixo:
(18) Ø(ØaÚØb)„ØØ(aÙb)
1. Ø(ØaÚØb) Premissa
2. Ø(ØaÚØb)«ØØaÙØØb Nm8
3. Ø(ØaÚØb)®ØØaÙØØb C1 2

173
4. ØØaÙØØb MP 1,3
5. ØØ(aÙb)«(ØØaÙØØb) Nm5
6. ØØaÙØØb®ØØ(aÙb) C2 5
7. ØØ(aÙb) MP 4,6
Como temos (18), de acordo com o teorema da dedução temos também Nm10.
Seguem abaixo os corolários que estabelecem que todas as relações mencionadas
nos teoremas 2.10 e 2.11 são válidas também no cálculo clássico proposicional:
COROLÁRIO 2.8 CP é uma extensão conservativa de CØm- e de CØm.

COROLÁRIO 2.9 As relações mencionadas nos teoremas 2.10 e 2.11 são válidas em CP.
Finalizaremos esta seção mostrando um importante teorema que pode ser provado
em qualquer extensão conservativa de CØm-:

TEOREMA 2.12 Seja C=<L,S,L> uma extensão conservativa de CØm-, G5L um


conjunto de fórmulas e a,bÎL duas fórmulas. Se GÈ{a}„b e GÈ{a}„Øb, então
G„Øa em C.
Esse teorema é basicamente uma extensão de INm1 e, consequentemente, uma re-
presentação metalógica, nós podemos dizer, do princípio da redução ao absurdo: se a
partir de um conjunto de fórmulas G juntamente com uma fórmula a nós derivamos
tanto b com Øb, então nós podemos derivar Øa a partir de G. Adiaremos para a próxi-
ma seção a exemplificação do uso de tal teorema na construção de derivações. No capí-
tulo seguinte, isto é, no capítulo 8, nós estenderemos o teorema 2.12 de forma a obter-
mos uma versão mais completa do princípio da redução ao absurdo, e mostraremos
como tal princípio pode ser útil na prova da validade de argumentos no cálculo clássico
proposicional.

7.2 P10 e a negação intuicionista


Se adicionarmos a CØm o axioma P10 nós passamos de uma negação minimal para o
que se convencionou chamar de negação intuicionista. Como seria de se esperar, o cálculo
resultante de tal adição é chamado de cálculo intuicionista, que aqui referenciaremos
por CØI. De um ponto de vista axiomático, a única diferença entre o cálculo intuicionis-
ta e o cálculo clássico proposicional é a ausência, no caso de CØI, do axioma P11, ou seja,
da representação axiomática do princípio do terceiro excluído. No entanto, como vere-
mos adiante, essa pequena diferença faz com que a negação definida em CØI pelos axio-

174
mas P9 e P10 seja consideravelmente diferente da negação definida em CP pelos axio-
mas P9-P11, de tal forma que uma gama considerável de propriedades da negação clás-
sica não pode ser provada em CØI. Segue abaixo a definição do cálculo intuicionista:

DEFINIÇÃO 2.10 O cálculo intuicionista CØI é a tripla <LP,SMP,LP1-P10>.


Abaixo temos alguns teoremas lógicos e regras derivadas de CØI:

TEOREMA 2.13 Sejam a,b,jÎLP fórmulas quaisquer. As relações abaixo são váli-
das em CØI.
Ni1. a,Øa„b
Ni2. „aÚb®(Øa®b)
Ni3. „aÚb®(Øb®a)
Ni4. „ØaÚb®(a®b)
Ni5. „(ØØa®ØØb)®ØØ(a®b)
Ni6. „ØØ(a®b)«(ØØa®ØØb)
Ni7. „ØØa®(Øa®a)
Ni8. „ØØa«(Øa®a)
Ni9. „aÚØa®(ØØa®a)
Ni10. „ØØ(ØØa®a)
Ni11. „bÚ(aÙØa)«b
Ni12. „((aÙØa)Ùb)Új«j
Ni13. a„b«bÚØa
Ni1, que obviamente é a forma completa do princípio da explosão, pode ser visto
como a representação inferencial do axioma P1055. Segue abaixo a sua prova:
(Ni1) a,Øa„b
1. Øa Premissa
2. Øa®(a®b) P10
3. a®b MP 1,2
4. a Premissa
5. b MP 4,3

55. Com o diferencial, irrelevante de um ponto de vista prático, que a primeira premissa é a, e não Øa.

175
Ni2 e Ni3 representam uma propriedade importante da disjunção, podemos assim
dizer, que vêm à tona somente quando dispomos dos axiomas da negação. De um pon-
to de vista semântico, se aÚb é verdade, então obviamente se a é falso b tem de ser ver-
dade (Ni2); e se b é falso a tem de se verdade (Ni3). Segue abaixo a prova de (Ni2):
(19) aÚb,Øa„b
1. Øa Premissa
2. Øa®(a®b) P10
3. a®b MP 1,2
4. (a®b)®((b®b)®(aÚb®b)) P8
5. (b®b)®(aÚb®b) MP 3,4
6. b®b I3
7. aÚb®b MP 6,5
8. aÚb Premissa
9. b MP 8,7
Como temos (19), pelo teorema da dedução temos também
(20) aÚb„Øa®b
o que, usando mais uma vez o teorema da dedução, nos permite concluir Ni2.
De posse de (19), podemos facilmente provar Ni3:
(21) aÚb,Øb„a
1. aÚb Premissa
2. bÚa D4 1
3. Øb Premissa
4. a (19) 2,3
Semelhantemente a como fizemos com Ni2, uma vez que temos (21), podemos
aplicar o teorema da dedução duas vezes e concluir Ni3. Note que os conversos de Ni2
e Ni3 não podem ser provados em CØI.
Além de estabelecerem, conforme mencionamos, um aspecto inferencial importan-
te da disjunção, Ni2 e Ni3 também estabelecem uma importante relação lógica que há
entre a disjunção e a implicação, relação esta que é plenamente representada, podemos
dizer, pela equivalência abaixo:
(22) (a®b)«(ØaÚb)
Basicamente o que (22) diz é que a®b é equivalente a ØaÚb. (22), no entanto, só poderá
ser provada em CP. A metade de (22), a saber, Ni4, porém, é facilmente provada em CØI:

176
(Ni4) „ØaÚb®(a®b)
1. Øa®(a®b) P10
2. b®(a®b) P1
3. ØaÚb®(a®b) D3 1,2
Conforme prometemos no final da seção anterior, ilustraremos aqui o uso do teore-
ma 2.12 na construção de derivações. Para isso provaremos Ni5. Basicamente o que fa-
remos será derivar uma contradição a partir de {ØØa®ØØb}È{Ø(a®b)}, a partir do
qual, usando o teorema 2.12, concluiremos que ØØ(a®b) é deduzido a partir de
{ØØa®ØØb}. Feito isso, usaremos o teorema da dedução para obter Ni5. Segue abai-
xo a execução detalhada de tal plano:
(23) ØØa®ØØb,Ø(a®b)„ØØb
1. Ø(a®b) Premissa
2. Øa®(a®b) P10
3. Ø(a®b)®ØØa INm5 2
4. ØØa MP 1,3
5. ØØa®ØØb Premissa
6. ØØb MP 4,5
(24) ØØa®ØØb,Ø(a®b)„Øb
1. Ø(a®b) Premissa
2. b®(a®b) P1
3. Ø(a®b)®Øb INm5 2
4. Øb MP 1,3
Como temos então (23) e (24), pelo teorema 2.12 temos também
(24) ØØa®ØØb„ØØ(a®b)
Mas, de acordo com o teorema da dedução, dado que temos (25), temos também
Ni5. No capítulo seguinte teremos oportunidade de, utilizando uma versão mais com-
pleta do princípio da redução ao absurdo, falarmos mais sobre o método de prova ilus-
trado na prova de (25).
Para finalizar esta seção, provemos Ni9 e Ni10:
(Ni9) „aÚØa®(ØØa®a)
1. a®(ØØa®a) P1
2. ØØa®(Øa®a) P10

177
3. Øa®(ØØa®a) I6 2
4. aÚØa®(ØØa®a) D3 1,3
Algo extremamente interessante em Ni9 é que nele se encontra explícita a depen-
dência de (7) em relação à P11: caso estejamos em um cálculo que tenha P11 como um
de seus axiomas ou teoremas lógicos, podemos usá-lo em conjunto com Ni9 e MP e
concluir (7). Claramente isso não é possível em CØI. No entanto, podemos provar, em
CØI, outra versão fraca de (7), a saber, Ni10:
(Ni10) „ØØ(ØØa®a)
1. ((aÚØa)®(ØØa®a))®(ØØ(aÚØa)®ØØ(ØØa®a)) INm12
2. aÚØa®(ØØa®a) Ni9
3. ØØ(aÚØa)®ØØ(ØØa®a) MP 2,1
4. ØØ(aÚØa) Nm4
5. ØØ(ØØa®a) MP 4,3
Por fim, temos abaixo os corolários que estabelecem que todas as relações do teore-
ma 2.13 são também válidas no cálculo clássico proposicional.

COROLÁRIO 2.10 CP é uma extensão conservativa de CØI.

COROLÁRIO 2.11 As relações mencionadas no teorema 2.13 são válidas em CP.

7.3 P11 e uma negação paraconsistente


Como o leitor já deve ter facilmente concluído, se adicionarmos P11 ao cálculo in-
tuicionista nós obtemos o cálculo clássico proposicional. Antes, porém, de apresentar-
mos os teoremas lógicos e regras derivadas de CP que dependem de P11, vejamos o que
acontece quando temos um cálculo no qual P11 é o único axioma da negação:

DEFINIÇÃO 2.11 O cálculo paraconsistente fraco CØp- é a tripla <LP,SMP,LP1-P8,P11>.


Em função de não possuir nem P9 nem P10, não é possível derivar em CØp- nem
INm2 nem Ni1. Logo, como o próprio nome indica, CØp- é um cálculo paraconsistente,
sendo a negação a ele associada naturalmente uma negação paraconsistente. Segue abaixo al-
guns teoremas e regras derivadas de CØp-:

178
TEOREMA 2.14 Sejam a,b,jÎLP fórmulas quaisquer. As relações abaixo são váli-
das em CØp-.
Np1. a®b,Øa®b„b
Np2. „bÙ(aÚØa)«b
Np3. „(((aÚØa)Úb)Ùj)«j
Np1 expressa a propriedade, bastante intuitiva, diga-se de passagem, de que se uma
fórmula b é implicada tanto por a como por Øa, então podemos concluir que tal fór-
mula é o caso. Segue abaixo a prova de Np1:
(Np1) a®b,Øa®b„b
1. a®b Premissa
2. Øa®b Premissa
3. aÚØa®b D3 1,2
4. aÚØa P11
5. b MP 4,3
Provemos agora Np2, para o qual teremos que provar os dois resultados interme-
diários abaixo:
(26) „bÙ(aÚØa)®b
1. bÙ(aÚØa)®b P3
(27) „b®bÙ(aÚØa)
1. b®b I3
2. aÚØa®(b®aÚØa) P1
3. aÚØa P11
4. b®aÚØa MP 3,2
5. b®bÙ(aÚØa) IC2 1,4
De posse então de (26) e (27), a prova de Np2 consiste basicamente no uso de C3:
(Np2) „bÙ(aÚØa)«b
1. bÙ(aÚØa)®b (26)
2. b®bÙ(aÚØa) (27)
3. bÙ(aÚØa)«b C3 1,2
Trivialmente, todas as relações do teorema 2.14 são também válidas no cálculo clás-
sico proposicional:

179
COROLÁRIO 2.12 CP é uma extensão conservativa de CØp-.

COROLÁRIO 2.13 As relações mencionadas no teorema 2.14 são válidas em CP.


Algo digno de nota é que, apesar de em virtude de ser uma extensão conservativa de
CÚ, CØp- herdar todos os teoremas lógicos e regras derivadas da implicação, conjunção e
disjunção, no que se refere à negação tal cálculo é extremamente fraco; boa parte das
propriedades tradicionalmente associadas à negação não podem ser provadas em CØp-.
E convém notar que, no que se refere à sua paraconsistência, diversas propriedades da
negação que não acarretam o princípio da explosão, como as leis de De Morgan e a lei
da dupla negação, por exemplo, não podem ser provadas em CØp-. Na seção 7.5 vere-
mos como podemos estender CØp- de forma a obter um cálculo paraconsistente bem
mais forte e interessante do que CØp-.

7.4 P11 e a negação clássica


Até agora mostramos, neste capítulo e no anterior, através da construção de vários
cálculos axiomáticos, os mais importantes teoremas lógicos e regras derivadas da impli-
cação, conjunção e disjunção e, através do mesmo método, os teoremas e regras do que
chamamos de negação minimal, negação intuicionista e negação paraconsistente, asso-
ciados, respectivamente, aos axiomas P9, P9 e P10, e P11. Nesta seção iremos concluir
esse processo gradual de construção de novos cálculos que, conforme temos enfatiza-
do, tem sido feito através da adição sucessiva de novos axiomas, considerando todos os
axiomas da definição 1.17 em um único cálculo. Tal cálculo, o leitor já sabe, é o cálculo
clássico proposicional CP já definido por nós no capítulo 5.
Vejamos então alguns dos mais importantes teoremas lógicos e regras derivadas re-
lacionadas com a negação que podem ser provados em CP e que dependem de P11. Vale
a pena lembrar que, conforme explicitado nos corolários 2.1-2.13, todos os teoremas
lógicos e regras derivadas vistos até agora são também válidos em CP.

TEOREMA 2.15 Sejam a,b,jÎLP fórmulas quaisquer. As relações abaixo são váli-
das em CP.
Nc1. „ØØa«a Lei da dupla negação
Nc2. „(a®b)«(Øb®Øa) contrapositiva
Nc3. „Ø(aÙb)«ØaÚØb 1ª Lei de De Morgan
Nc4. „(a®b)«ØaÚb

180
Nc5. „(a®b)«Ø(aÙØb)
Nc6. „Ø(a®b)«aÙØb
Nc7. „((a®b)®b)®aÚb
Nc8. „aÚb«(Øa®b)
Nc9. „aÙb«Ø(a®Øb)
Nc10. „aÚ(a®b)
Nc11. „(a®b)Ú(b®a)
Nc12. „((a®b)®a)®a Lei de Peirce
Nc1 é a forma completa da lei da dupla negação. Metade dela já foi provada na se-
ção 7.1 (INm10); e já fizemos alusão de como sua outra metade pode ser provada em
CP. Vejamos então a versão completa de sua prova:
(28) „ØØa®a
1. aÚØa®(ØØa®a) Ni9
2. aÚØa P11
3. ØØa®a MP 2,1
De posse de (28) e INm10, podemos facilmente provar Nc1:
(Nc1) „ØØa«a
1. ØØa®a (28)
2. a®ØØa INm10
3. ØØa«a C3 1,2
Além de Nc1, temos no teorema 2.15 as versões completas de três outros princípios
cujas metades já foram provadas por nós: a lei da contrapositiva (Nc2), a 1ª lei de De Mor-
gan (Nc3) e a equivalência entre a conjunção e a implicação à qual fizemos referência na
seção 7.2 (Nc4). Provemos primeiro Nc2, para o qual precisamos obviamente provar o
converso de INm6. Para isso provaremos o resultado intermediário abaixo:
(29) Øb®Øa,a„b
1. Øb®Øa Premissa
2. (Øb®Øa)®(ØØa®ØØb) INm6
3. ØØa®ØØb MP 1,2
4. a Premissa
5. a®ØØa INm10
6. ØØa MP 4,5

181
7. ØØb MP 6,3
8. ØØb®b (28)
9. b MP 7,8
Como então temos (29), pelo teorema da dedução temos
(30) Øb®Øa„a®b
e, de acordo como mesmo teorema da dedução, temos
(31) „(Øb®Øa)®(a®b)
Uma vez que temos (31) e INm6, a prova de Nc2 não passa de mais um uso trivial
de C3:
(Nc2) „(a®b)«(Øb®Øa)
1. (a®b)®(Øb®Øa) INm6
2. (Øb®Øa)®(a®b) (31)
3. (a®b)«(Øb®Øa) C3 1,2
Vejamos agora como seria a prova de Nc3. Semelhantemente a Nc2, para provar-
mos Nc3, precisamos primeiro provar o converso de Nm7:
(32) „Ø(aÙb)®ØaÚØb
1. Ø(ØaÚØb)®ØØ(aÙb) Nm10
2. ØØØ(aÙb)®ØØ(ØaÚØb) INm5 1
3. Ø(aÙb)®ØØØ(aÙb) INm10
4. Ø(aÙb)®ØØ(ØaÚØb) I4 3,2
5. ØØ(ØaÚØb)®ØaÚØb (28)
6. Ø(aÚb)®ØaÚØb I4 4,5
(Nc3) „Ø(aÙb)«ØaÚØb
1. Ø(aÙb)®ØaÚØb (32)
2. ØaÚØb®Ø(aÙb) Nm7
3. Ø(aÙb)«ØaÚØb C3 1,2
Da mesma forma, Nc4 requer, para sua prova, a demonstração do converso de Ni4,
o que é facilmente feito aplicando a regra ID6 à P11:
(33) „(a®b)®ØaÚb
1. aÚØa P11
2. (a®b)®(ØaÚb) ID6 1

182
(Nc4) „(a®b)«ØaÚb
1. (a®b)®ØaÚb (33)
2. ØaÚb®(a®b) Ni4
3. (a®b)«ØaÚb C3 1,2
Para finalizar esta seção, provemos Nc6. Para tanto, provaremos cada um de seus
componentes separadamente:
(34) „Ø(a®b)®aÙØb
1. ØaÚb®(a®b) Ni4
2. Ø(a®b)®Ø(ØaÚb) INm5 1
3. Ø(ØaÚb)«ØØaÙØb Nm8
4. Ø(ØaÚb)®ØØaÙØb C1 3
5. Ø(a®b)®ØØaÙØb I4 2,4
6. ØØa®a (28)
7. (ØØa®a)®(ØØaÙØb®aÙØb) IC9
8. ØØaÙØb®aÙØb MP 6,7
9. Ø(a®b)®aÙØb I4 5,8
(35) „aÙØb®Ø(a®b)
1. (a®b)®ØaÚb (33)
2. Ø(ØaÚb)®Ø(a®b) INm5 1
3. Ø(ØaÚb)«ØØaÙØb Nm8
4. ØØaÙØb®Ø(ØaÚb) C2 3
5. ØØaÙØb®Ø(a®b) I4 4,2
6. a®ØØa INm10
7. (a®ØØa)®(aÙØb®ØØaÙØb) IC9
8. aÙØb®ØØaÙØb MP 6,7
9. aÙØb®Ø(a®b) I4 8,5
Feito isso, a prova de Nc6 consiste em uma simples aplicação de C3 a (34) e (35):
(Nc6) „Ø(a®b)«aÙØb
1. Ø(a®b)®aÙØb (34)
2. aÙØb®Ø(a®b) (35)
3. Ø(a®b)«aÙØb C3 1,2

183
7.5 Um cálculo paraconsistente
Conforme mencionamos na seção 7.3, em virtude de possuir um único axioma para a
negação, a saber, P11, no que se refere à negação CØp- é um cálculo extremamente fraco:
boa parte das propriedades tradicionalmente associadas à negação não podem ser prova-
das em CØp-. E é relevante notar que diversas propriedades da negação que não acarretam
o princípio da explosão e, consequentemente, não interferem no aspecto paraconsistente
de CØp-, como as leis de De Morgan e a lei da dupla negação, por exemplo, não podem ser
provadas em CØp-. Isso sugere que talvez possamos fortalecer CØp- adicionando tais prin-
cípios como axiomas e obter assim um cálculo paraconsistente bem mais interessante. A
título de ilustração, segue abaixo exemplo de como poderia ser tal cálculo:

DEFINIÇÃO 2.12 Seja L uma linguagem lógica cujo alfabeto AL seja tal que
{Ø,Ù,Ú,®}5AL e a,bÎL fórmulas quaisquer dessa linguagem. Nomeamos as fórmu-
las abaixo como segue:
P12. ((a®b)®a)®a
P13. Ø(a®b)«aÙØb
P14. Ø(aÙb)«ØaÚØb
P15. Ø(aÚb)«ØaÙØb
P16. ØØa«a
Chamamos a forma esquemática de cada uma dessas fórmulas pelo mesmo nome.

DEFINIÇÃO 2.13 O cálculo paraconsistente CØp é a tripla <LP,SMP,LP1-P8,P11-P16>.


Trivialmente, CØp é um cálculo paraconsistente, pois temos que o princípio da ex-
plosão
(2) a,Øa„b
não é válido em CØp. No entanto, diferentemente de CØp-, podemos provar em CØp muitas
das propriedades tradicionalmente associadas à negação. Um exame mais detalhado de CØp
se distanciaria por demais do escopo deste capítulo. Por conta disso, limitar-nos-emos aqui
simplesmente a comentar rapidamente cada um dos axiomas que compõem CØp.
Além dos axiomas P1-P8 e P11, introduzidos na definição 1.17, a axiomática de CØp
é formada por cinco axiomas adicionais, todos relacionados com a negação. P12 é a lei
de Peirce, que aparece no teorema 2.15 como Nc12. P13 é o teorema lógico Nc6 do te-
orema 2.15. Já P14 e P15 são as 1ª e 2ª leis de De Morgan, respectivamente, que apare-
cem como Nc3 no teorema 2.15, e como Nm8 no teorema 2.11, respectivamente. Fi-
nalmente, P16 é a lei da dupla negação (Nc1 do teorema 2.15).

184
7.6 Exercícios propostos
1. Responda as questões abaixo referentes ao teorema 2.10:
a. Que relação há entre INm7 e INm5?
b. Qual o significado de INm8 e INm9?
c. Qual o significado de INm12, INm13 e INm14?
d. Qual o significado de INm15, e qual a sua relação com I4?
e. Qual o significado de INm16?
2. Faça o que é pedido a seguir em relação ao teorema 2.10:
a. Prove INm3;
b. Prove INm8 e INm9;
c. Prove INm14, INm15 e INm16.
3. Responda as questões abaixo referentes ao teorema 2.11:
a. Qual o significado de Nm5 e Nm6?
b. Qual o significado de Nm9, Nm10 e Nm11?
4. Em relação ao teorema 2.11, prove Nm2, Nm6, Nm9 e Nm1.
5. Prove que P9 é um teorema lógico do cálculo <L ,S ,L >.
P MP P1-P8,INm6,Nm1
6. Prove os corolários 2.8 e 2.9.
7. Prove que CØm é uma extensão conservativa de CØm-.
8. Responda as questões abaixo referentes ao teorema 2.13:
a. O que significa Ni5 e Ni6, e que relação há entre eles?
b. Qual o significado de Ni8?
c. Qual o significado de Ni11, Ni12 e Ni13?
9. Faça o que é pedido a seguir em relação ao teorema 2.13:
a. Prove „ØaÚb®(Øb®Øa) a partir de Ni4 e INm6;
b. Prove Ni6 (use Ni5 e INm13);
c. Prove Ni8;
d. Prove Ni11, Ni12 e Ni13.
10. Prove que P10 é um teorema lógico do cálculo <L ,S ,L >.
P MP P1,P2,P6,Ni2
11. Prove os corolários 2.10 e 2.11.
12. Em relação ao teorema 2.14, diga o que significa Np2 e Np3.
13. Em relação ao teorema 2.14, prove Np3.
14. Responda as questões abaixo referentes ao teorema 2.15:
a. O que significa Nc5, e que relação há entre ele e Nc6?
b. O que significa Nc7?
c. O que significam Nc8 e Nc9, e que relação há entre eles e Nc4?
d. O que significam Nc10, Nc11 e Nc12?
15. Faça o que é pedido a seguir em relação ao teorema 2.15:
a. Prove Nc5;
b. Prove Nc7 (use De Morgan e P11);
c. Prove Nc8 e Nc9;
d. Prove Nc10, Nc11 e Nc12.

185
8
Análise lógica de argumentos no cálculo
proposicional

8.1 Novas regras de inferência


Nosso objetivo neste capítulo é usar os teoremas lógicos e regras derivadas prova-
dos nos dois últimos capítulos na análise lógica de argumentos. Para tanto, usaremos
além, obviamente, dos teoremas lógicos e regras derivadas mostrados nos (meta) teore-
mas 2.1, 2.3, 2.4, 2.6, 2.7-2.11 e 2.13-2.15, algumas novas regras de inferência derivadas
particularmente úteis na análise lógica de argumentos. Após isso, já na seção 8.3, apre-
sentaremos um resultado do cálculo clássico proposicional análogo ao método semân-
tico de prova por absurdo introduzido no capítulo 4 que será extremamente útil na tare-
fa de analisar logicamente a validade de argumentos. Paralelamente a isso, ilustraremos
com exemplos o uso de tais regras e axiomas na efetiva análise de argumentos.
Comecemos então com as ditas novas regras de inferência. Na sua maioria, tais re-
gras já foram vistas e, de uma forma ou de outra, mesmo que em versões condicionais,
provadas por nós nos capítulos 6 e 7. O que faremos aqui será basicamente agrupar tais
regras de uma forma um pouco diferente (o que acarretará uma nomenclatura também
diferente), bem como exibir, quando necessário, suas respectivas derivações.

TEOREMA 2.16 Sejam a,b,jÎLP fórmulas quaisquer. As relações abaixo são váli-
das em CP.
Regras da Implicação
RI1. a®b, b®j„a®j
RI2. a®b,Øb„Øa
RI3. Ø(a®b)„a
RI4. Ø(a®b)„Øb

186
Regras da Conjunção
RC1. aÙb„a
RC2. aÙb„b
RC3. a,b„aÙb
RC4. Ø(aÙb),a „Øb
RC5. Ø(aÙb),b „Øa
Regras da Disjunção
RD1. Ø(aÚb)„Øa
RD2. Ø(aÚb)„Øb
RD3. aÚb,Øa„b
RD4. aÚb,Øb„a
Regras da Negação
RN1. a„ØØa
RN2. ØØa„a
Regras de De Morgan
RM1. Ø(aÚb)„ØaÙØb
RM2. ØaÙØb„Ø(aÚb)
RM3. Ø(aÙb)„ØaÚØb
RM4. ØaÚØb„Ø(aÙb)
RI1 é a regra I4 (transitividade da implicação) do teorema 2.1, e RI2 é a regra INm4
(modus tolens) do teorema 2.10. Já RI3 e RI4 são consequências triviais de Nc6, do teore-
ma 2.15, podendo ser vistas como versões inferenciais de tal teorema lógico. Segue abai-
xo suas respectivas provas:
(RI3) Ø(a®b)„a
1. Ø(a®b)«aÙØb Nc6
2. Ø(a®b)®aÙØb C1 1
3. Ø(a®b) Premissa
4. aÙØb MP 3,2
5. a C1 4
(RI4) Ø(a®b)„Øb
1. Ø(a®b)«aÙØb Nc6
2. Ø(a®b)®aÙØb C1 1

187
3. Ø(a®b) Premissa
4. aÙØb MP 3,2
5. Øb C2 4
No que se refere às regras da conjunção, RC1, RC2 e RC3 são, respectivamente, as
regras C1, C2 e C3 do teorema 2.3. RC4 pode ser derivada com o auxílio de alguns pou-
cos princípios já provados por nós nos capítulos 6 e 7:
(RC4) Ø(aÙb),a „Øb
1. Ø(aÙb) Premissa
2. Ø(aÙb)«ØaÚØb Nc3
3. Ø(aÙb)®ØaÚØb C1 2
4. ØaÚØb MP 1,3
5. ØaÚØb®(ØØa®Øb) Ni2
6. ØØa®Øb MP 4,5
7. a®ØØa INm10
8. a®Øb I4 7,6
9. a Premissa
10. Øb MP 9,8
A prova de RC5 é quase que idêntica à de RC4, sendo a única diferença significativa
que usamos Ni3 ao invés de Ni2:
(RC5) Ø(aÙb),b „Øa
1. Ø(aÙb) Premissa
2. Ø(aÙb)«ØaÚØb Nc3
3. Ø(aÙb)®ØaÚØb C1 2
4. ØaÚØb MP 1,3
5. ØaÚØb®(ØØb®Øa) Ni3
6. ØØb®Øa MP 4,5
7. b®ØØb INm10
8. b®Øa I4 7,6
9. b Premissa
10. Øa MP 9,8
Passando para as regras da disjunção, RD1 e RD2 são consequências triviais da 2ª
lei de De Morgan (Nm8), podendo ser vistas como formulações inferenciais da mesma:

188
(RD1) Ø(aÚb)„Øa
1. Ø(aÚb) Premissa
2. Ø(aÚb)«ØaÙØb Nm8
3. Ø(aÚb)®ØaÙØb C1 2
4. ØaÙØb MP 1,3
5. Øa C1 4
(RD2) Ø(aÚb)„Øb
1. Ø(aÚb) Premissa
2. Ø(aÚb)«ØaÙØb Nm8
3. Ø(aÚb)®ØaÙØb C1 2
4. ØaÙØb MP 1,3
5. Øb C2 4
Já RD3 e RD4 são consequências, também triviais, de Ni2 e Ni3, respectivamente,
podendo ser vistas como versões inferenciais de tais teoremas lógicos:
(RD3) aÚb,Øa„b
1. aÚb Premissa
2. aÚb®(Øa®b) Ni2
3. Øa®b MP 1,2
4. Øa Premissa
5. b MP 4,3
(RD4) aÚb,Øb„a
1. aÚb Premissa
2. aÚb®(Øb®a) Ni3
3. Øb®a MP 1,2
4. Øb Premissa
5. a MP 4,3
As regras da negação são aplicações, também triviais, da lei da dupla negação Nc1:
(RN1) a„ØØa
1. ØØa«a Nc1
2. a®ØØa C2 1
3. a Premissa
4. ØØa MP 3,2

189
(RN2) ØØa„a
1. ØØa«a Nc1
2. ØØa®a C1 1
3. ØØa Premissa
4. a MP 3,2
Por fim, as regras de Morgan são reformulações das 1ª e 2ª leis de De Morgan. RM1
e RM2, por exemplo, são versões inferenciais da 2ª lei de De Morgan (Nm8):
(RM1) Ø(aÚb)„ØaÙØb
1. Ø(aÚb) Premissa
2. Ø(aÚb)«ØaÙØb Nm8
3. Ø(aÚb)®ØaÙØb C1 2
4. ØaÙØb MP 1,3
(RM2) ØaÙØb„Ø(aÚb)
1. ØaÙØb Premissa
2. Ø(aÚb)«ØaÙØb Nm8
3. ØaÙØb®Ø(aÚb) C2 2
4. Ø(aÚb) MP 1,3
Já NM3 e NM4 podem ser vistas como formulações inferenciais da 1ª Lei de Mor-
gan (Nc3):
(RM3) Ø(aÙb)„ØaÚØb
1. Ø(aÙb) Premissa
2. Ø(aÙb)«ØaÚØb Nc3
3. Ø(aÙb)®ØaÚØb C1 2
4. ØaÚØb MP 1,3
(RM4) ØaÚØb„Ø(aÙb)
1. ØaÚØb Premissa
2. Ø(aÙb)«ØaÚØb Nc3
3. ØaÚØb®Ø(aÙb) C2 2
4. Ø(aÙb) MP 1,3

8.2 Análise lógica de argumentos


Na tentativa de exemplificar o uso do cálculo clássico proposicional na análise lógi-
ca de argumentos, daremos a seguir alguns exemplos de argumentos seguidos de suas

190
respectivas análises. Comecemos com um argumento dado por Peter Singer, um dos lí-
deres do Movimento de Libertação dos Animais, em defesa dos direitos dos animais56:
(1) Se o racismo é incorreto, então é factualmente evidente que todas as raças têm
habilidades iguais ou é moralmente claro que interesses similares de todos os seres
vivos devem ser levados igualmente em consideração.
Não é factualmente evidente que todas as raças têm habilidades iguais.
Se é moralmente claro que interesses similares de todos os seres vivos devem ser le-
vados igualmente em consideração, então é claro que interesses similares de animais
e seres humanos devem ser igualmente levados em consideração.
O racismo é incorreto
\ É claro que interesses similares de animais e seres humanos devem ser igual-
mente levados em consideração.
A tradução desse argumento para a linguagem proposicional, juntamente com o
glossário usado, seria como segue:

Glossário Tradução
A: O racismo é correto. ØA®BÚC
B: É factualmente evidente que todas as raças têm habilidades iguais. ØB
C: É moralmente claro que interesses similares de todos os seres C®D
vivos devem ser levados igualmente em consideração. ØA
D: É claro que interesses similares de animais e seres humanos devem \D
ser igualmente levados em consideração.

Para provar que (1) é um argumento válido, temos que provar a seguinte relação:
(2) ØA®BÚC,ØB,C®D,ØA„D
o que é feito logo abaixo:
(2) ØA®BÚC,ØB,C®D,ØA„D
1. ØA®BÚC Premissa
2. ØA Premissa
3. BÚC MP 2,1
4. ØB Premissa
5. C RD3 3,4
6. C®D Premissa
7. D MP 5,6

56. A maioria dos argumentos que usaremos como exemplos neste capítulo já apareceram como exercícios de aná-
lise lógica no Capítulo 4.

191
Segue abaixo um segundo exemplo:
(3) Seria igualmente errado para um sádico cegar uma pessoa permanentemente
depois ou antes do seu nascimento [através, por exemplo, de uma injeção que lhe
cegaria mas não machucaria sua mãe].
Se seria igualmente errado para um sádico cegar permanentemente uma pessoa de-
pois ou antes do seu nascimento, então é falso que os direitos morais das pessoas
começam apenas após o nascimento.
Se infanticídio é errado e aborto não é errado, então os direitos morais de uma pes-
soa começam apenas após o nascimento.
Infanticídio é errado.
\ Aborto é errado.
Abaixo temos o glossário e a tradução de (3) para a linguagem proposicional:

Glossário Tradução
A: É igualmente errado para um sádico cegar uma pessoa
A
permanentemente depois ou antes do seu nascimento.
A®ØB
B: Os direitos morais das pessoas começam apenas após o
CÙØD®B
nascimento.
C
C: Infanticídio é errado.
\D
D: Aborto é errado.
Provar então que (3) é um argumento válido é provar que a relação abaixo é válida
em CP:
(4) A,A®ØB,CÙØD®B,C„D
o que é feito logo a seguir:
(4) A,A®ØB,CÙØD®B,C„D
1. A Premissa
2. A®ØB Premissa
3. ØB MP 1,2
4. CÙØD®B Premissa
5. Ø(CÙØD) RI2 4,3
6. C Premissa
7. ØØD RC4 5,6
8. D RN2 7

192
Como terceiro exemplo, considere o argumento abaixo, dado por William Craig e
James Moreland, que tenta mostrar que o universo teve um início no tempo:
(5) Sistemas fechados tendem em direção a maiores entropias [uma distribuição
mais uniforme de energia; essa é a segunda lei da termodinâmica].
Se sistemas fechados tendem em direção a maiores entropias e o universo não teve
um início no tempo, então o universo teria atingido um estado de quase completa
entropia [por exemplo, tudo teria a mesma temperatura].
O universo não atingiu um estado de quase completa entropia.
\ O universo teve um início no tempo.
A tradução desse argumento seria como segue:

Glossário Tradução
A
A: Sistemas fechados tendem em direção a maiores entropias.
AÙØB®C
B: O universo teve um início no tempo.
ØC
C: O universo atingiu um estado de quase completa entropia.
\B
Para provar a validade de (5), temos que provar que {A,AÙØB®C,ØC}„B é o
caso, o que é feito logo a seguir:
(6) A,AÙØB®C,ØC„B
1. AÙØB®C Premissa
2. ØC Premissa
3. Ø(AÙØB) RI2 1,2
4. A Premissa
5. ØØB RC4 3,4
6. B RN2 5
É importante lembrar que o nosso objetivo neste capítulo é ilustrar o uso de toda e
qualquer regra ou teorema lógico do cálculo clássico proposicional na análise lógica de
argumentos. Introduzimos novas regras através do teorema 2.16 apenas porque tais re-
gras são, em geral, mais convenientes na tarefa de analisar a validade lógica de alguns ar-
gumentos. Isso obviamente não significa que a validade de todo e qualquer argumento
possa ser demonstrada apenas com o auxílio de tais regras, como aconteceu com os
exemplos dados até agora. Segue abaixo argumento dado por Platão no Meno, cuja pro-
va é mais convenientemente feita se fizermos uso de algumas regras mostradas nos ca-
pítulos anteriores:

193
(7) Se a virtude pode ser ensinada, então existem professores profissionais de virtu-
de ou existem professores amadores de virtude.
Se existem professores profissionais de virtude, então os sofistas podem ensinar
seus estudantes a serem virtuosos.
Se existem professores amadores de virtude, então os mais nobres dos atenienses
podem ensinar os seus filhos a serem virtuosos.
Os sofistas não podem ensinar seus estudantes a serem virtuosos, e os mais nobres
dos atenienses [tal qual o grande líder Péricles] não podem ensinar os seus fi-
lhos a serem virtuosos.
\ A virtude não pode ser ensinada.
Segue abaixo glossário e tradução de (7):

Glossário Tradução
A: A virtude pode ser ensinada.
A®BÚC
B: Existem professores profissionais de virtude.
B®D
C: Existem professores amadores de virtude.
C®E
D: Os sofistas podem ensinar seus estudantes a serem virtuosos.
ØDÙØE
E: Os mais nobres dos atenienses podem ensinar os seus filhos a
\ØA
serem virtuosos.

Segue abaixo a prova de que (7), já representado na forma de relação entre fórmu-
las, é um argumento válido:
(8) A®BÚC,B®D,C®E,ØDÙØE„ØA
1. A®BÚC Premissa
2. Ø(BÚC)®ØA INm5 1
3. B®D Premissa
4. ØD®ØB INm5 3
5. C®E Premissa
6. ØE®ØC INm5 5
7. ØDÙØE®ØBÙØC IC10 4,6
8. ØDÙØE Premissa
9. ØBÙØC MP 8,7
10. Ø(BÚC) RM2 9
11. ØA MP 10,2

194
Para finalizar esta seção, considere uma versão do famoso argumento do mal contra
a existência de Deus:
(9) O mal existe.
Se o mal existe, então Deus não deseja impedir o mal ou Ele não pode impedir o mal.
Se Deus não deseja impedir o mal, então Ele não é onibenevolente.
Se Deus não pode impedir o mal, então Ele não é onipotente.
Se Deus existe, então Ele é onibenevolente e onipotente.
\ Deus não existe.
Segue abaixo tradução de (9) para a linguagem proposicional seguida de sua prova:

Glossário Tradução
A: O mal existe. A
B: Deus deseja impedir o mal. A®ØBÚØC
C: Deus pode impedir o mal. ØB®ØD
D: Deus é onibenevolente. ØC®ØE
E: Deus é onipotente. F®DÙE
F: Deus existe. \ØF

(10) A,A®ØBÚØC,ØB®ØD,ØC®ØE,F®DÙE„ØF
1. A Premissa
2. A®ØBÚØC Premissa
3. ØBÚØC MP 1,2
4. ØB®ØD Premissa
5. ØC®ØE Premissa
6. ØBÚØC®ØDÚØE ID5 4,5
7. ØDÚØE MP 3,6
8. Ø(DÙE) RM4 7
9. F®DÙE Premissa
10. ØF RI2 9,8
Um detalhe importante sobre a derivação acima é que nela nós usamos uma regra –
ID5 – (passo 6) cuja prova não foi exibida no capítulo 6. Assim, da maneira como está, a
prova não é legítima. Para que ela possa ser tomada como tal, nós temos necessariamente
que fornecer uma prova para ID5. Isso é feito logo a seguir:

195
(ID5) a®j,b®g„aÚb®jÚg
1. a®j Premissa
2. b®g Premissa
3. j®jÚg P6
4. a®jÚg I4 1,3
5. g®jÚg P7
6. b®jÚg I4 2,5
7. aÚb®jÚg D3 4,6
A moral disso é que podemos usar nas nossas derivações a regra ou teorema lógico
que quisermos, conquanto que tal regra ou teorema tenha sido previamente provado.

8.3 Redução ao absurdo, invalidade e mais análise lógica


No capítulo 4 falamos sobre o método de prova por redução ao absurdo e mostramos
como seu uso pode ser, em alguns casos, mais eficiente do que o método de prova direta.
Apenas relembrando, a ideia básica da prova por absurdo é provar uma tese qualquer T
supondo que a sua negação ØT é verdade; a partir daí chega-se a um absurdo ou contra-
dição e conclui-se que ØT é falso, o que tem como consequência óbvia que T é verdade.
Nosso propósito nesta seção é mostrar como tal método pode também ser usado em
conjunto com um cálculo axiomático, e exemplificar o seu uso na análise lógica de argu-
mentos.
Já tivemos oportunidade de mencionar a prova por redução ao absurdo em conexão
com o método axiomático várias vezes. No capítulo 5, por exemplo, provamos o que
chamamos de uma representação intralógica do princípio da redução ao absurdo:
(11) A®C,A®ØC„ØA
Mais na frente, ainda no capítulo 5, (11) aparece na forma de esquema de relação
sob o nome de redução ao absurdo, bem como no capítulo 7, já com um nome bem menos
sugestivo:
(INm1) a®b,a®Øb„Øa.
Finalmente, mencionamos nos capítulos 2, 6 e 7 (sendo neste último na forma de
um metateorema – o teorema 2.12) o que pode ser chamado de a representação metaló-
gica do princípio ou método da prova por redução ao absurdo:
(12) Se GÈ{a}„b e GÈ{a}„Øb, então G„Øa

196
em que G é um conjunto de fórmulas. Também enfatizamos nessas várias ocasiões que
tais princípios dependem do axioma P9 que, conforme mencionamos, também pode
ser visto como uma representação (axiomática) do princípio da redução ao absurdo.
Apesar de tais princípios poderem ser, como realmente o foram, considerados
como versões do método de prova por redução ao absurdo, há um fator fundamental
desse método que não é capturado nem por (11) nem por INm1 nem por (12). Tome
(12), por exemplo. O que (12) nos garante é que, se derivarmos uma contradição a partir
de G e a, então podemos derivar Øa a partir de G. No entanto, a ideia completa presen-
te no método de prova por absurdo é provar uma dada tese a derivando uma contradi-
ção a partir de Øa, chegando, ao final, à conclusão de que a é o caso. Apesar de (12) fa-
zer uso da ideia de chegar a uma contradição a partir de uma dada fórmula, e tal fórmula
poder ser a negação da tese a que queremos provar, do fato de que Øa e G geram uma
contradição só nos permite concluir que ØØa é deduzido a partir de G; e o que nós que-
remos realmente concluir é que a é deduzido a partir de G57. Assim, uma representação
mais completa do método da redução ao absurdo seria como segue:

TEOREMA 2.17 Seja C=<L,S,L> uma extensão conservativa de CP, G5L um con-
junto de fórmulas e a,bÎL duas fórmulas. Se GÈ{Øa}„b e GÈ{Øa}„Øb em CP, en-
tão G„a em CP.
Apesar da semelhança com (12), esse teorema nos diz algo bem diferente: que se a
partir de G e Øa nós deduzimos tanto b como Øb, então podemos deduzir a a partir de
G, o que, podemos dizer, é a representação plena do método da redução ao absurdo.
Chamaremos a partir de agora o teorema 2.17 de teorema da redução ao absurdo.
É fácil ver como esse teorema pode nos auxiliar na análise lógica de argumentos.
Suponha que queiramos provar que a é deduzido a partir de G; o que o teorema 2.17
nos diz é que, ao invés de exibirmos uma derivação de a a partir de G, podemos sim-
plesmente mostrar que é possível derivar uma contradição a partir de G e Øa, o que, em
alguns casos, é mais simples do que a prova direta. Para ilustrar isso, considere o argu-
mento abaixo, dado pelo filósofo medieval William de Ockham:
(13) Deus é todo-poderoso.
Se Deus é todo-poderoso, então Ele poderia ter criado o mundo de qualquer
maneira [seja lógica ou não].

57. O que, é fácil concluir, requer, além de P9, também Nc1, que por sua vez depende de P11.

197
Se Deus poderia ter criado o mundo de qualquer maneira, então o mundo tal
qual ele é não tem nenhum tipo de necessidade.
Se o mundo tal qual ele é não tem nenhum tipo de necessidade, então nós não
podemos conhecê-lo por mera especulação filosófica sem a ajuda da expe-
riência.
\ Nós não podemos conhecer o mundo tal qual ele é por mera especulação filo-
sófica sem a ajuda da experiência.
cuja tradução e glossário são mostrados abaixo:

Glossário Tradução
A: Deus é todo-poderoso. A
B: Deus poderia ter criado o mundo de qualquer maneira. A®B
C: Há um necessidade no mundo tal qual ele é. B®ØC
D: Nós podemos conhecer o mundo por mera especulação ØC®ØD
filosófica sem a ajuda da experiência. \ØD

Trivialmente, provar que (13) é um argumento válido é provar que a relação abaixo
(14) A,A®B,B®ØC,ØC®ØD„ØD
é o caso. O que o método da redução ao absurdo, representado pelo teorema 2.17, nos
diz é que podemos provar (14) se mostrarmos que a partir do conjunto formado pelas
suas premissas juntamente com a negação de sua conclusão podemos derivar uma con-
tradição, ou seja, se provarmos, para uma fórmula qualquer b, que {A,A®B,
B®ØC,ØC®ØD}È{ØØD}„b e {A,A®B,B®ØC,ØC®ØD}È{ØØD}„Øb. Se-
gue abaixo tal prova para b4A:
(15) A,A®B,B®ØC,ØC®ØD,ØØD„A
1. A Premissa
(16) A,A®B,B®ØC,ØC®ØD,ØØD„ØA
1. ØØD Premissa
2. ØC®ØD Premissa
3. ØØC RI2 2,1
4. B®ØC Premissa
5. ØB RI2 4,3
6. A®B Premissa
7. ØA RI2 6,5

198
Como temos {A,A®B,B®ØC,ØC®ØD}È{ØØD}„A (15) e {A,A®B,B®ØC,
Ø C®ØD}È{ØØD}„ØA (16), pelo teorema 2.17, temos então {A,A®B,B®ØC,
ØC®ØD}„ØD, ou seja, (14).
Vejamos um segundo exemplo:
(17) Se a predestinação é verdade, então Deus é a causa de sermos pecadores.
Se Deus é a causa de sermos pecadores, mas ainda assim condena os pecadores
ao castigo eterno, então Deus não é bom.
\ Se Deus é bom, então a predestinação não é verdade ou Deus não condena os
pecadores ao castigo eterno.
Aqui (17) seria traduzido para a linguagem proposicional como segue:

Glossário Tradução
A: A predestinação é verdade.
A®B
B: Deus é a causa de sermos pecadores.
BÙC®ØD
C: Deus condena os pecadores ao castigo eterno.
\D®ØAÚØC
D: Deus é bom.

sendo nossa tarefa provar


(18) A®B,BÙC®ØD„D®ØAÚØC
Usando o método da redução ao absurdo, tal tarefa se reduz a derivar uma contradi-
ção a partir de {A®B,BÙC®ØD} juntamente com a negação na nossa conclusão, ou
seja, Ø(D®ØAÚØC), o que é feito logo abaixo:
(19) A®B,BÙC®ØD,Ø(D®ØAÚØC)„BÙC
1. Ø(D®ØAÚØC) Premissa
2. Ø(ØAÚØC) RI4 1
3. ØØAÙØØC RM1 2
4. ØØA RC1 3
5. ØØC RC2 3
6. A RN2 4
7. C RN2 5
8. A®B Premissa
9. B MP 6,8
10. BÙC RC3 9,7

199
(20) A®B,BÙC®ØD,Ø(D®ØAÚØC)„Ø(BÙC)
1. Ø(D®ØAÚØC) Premissa
2. D RI3 1
3. ØØD RN1 2
4. BÙC®ØD Premissa
5. Ø(BÙC) RI2 4,3
Como então temos (19) e (20), pelo teorema da redução ao absurdo temos também (18).
Veja que nos exemplos dados até agora usamos apenas as regras do teorema 2.16.
Isto não é coincidência: na maioria dos casos, o uso do teorema 2.17 facilita o uso das
regras derivadas do teorema 2.16, o que, temos que admitir, torna a construção de deri-
vações consideravelmente mais simples. Um exemplo disso é a relação
(10) A,A®ØBÚØC,ØB®ØD,ØC®ØE,F®EÙD„ØF
Que, na seção passada provamos através do método direto, o que acarretou o uso
de um número considerável de princípios, inclusive de uma regra (ID5) cuja derivação
não tínhamos exibido ainda e que, por conta disso, tivemos que provar. Como veremos
logo a seguir, utilizando o método da redução ao absurdo podemos provar (10) utilizan-
do apenas as regras do teorema 2.16.
Para usar o método da redução ao absurdo na prova de (10), devemos supor que
sua conclusão é falsa, isto é, que ØØF é o caso e, juntamente com seu conjunto de pre-
missas, provar que podemos chegar a b e Øb, para algum b. Segue abaixo tal prova para
b4A:
(21) A,A®ØBÚØC,ØB®ØD,ØC®ØE,F®EÙD,ØØF„A
1. A Premissa
(22) A,A®ØBÚØC,ØB®ØD,ØC®ØE,F®EÙD,ØØF„ØA
1. ØØF Premissa
2. F RN2 1
3. F®EÙD Premissa
4. EÙD MP 2,3
5. E RC1 4
6. D RC2 4
7. ØC®ØE Premissa
8. ØØE RN1 5
9. ØØC RI2 7,8

200
10. ØB®ØD Premissa
11. ØØD RN1 6
12. ØØB RI2 10,11
13. ØØBÙØØC RC3 12,9
14. Ø(ØBÚØC) RM2 13
15. A®ØBÚØC Premissa
16. ØA RI2 15,14
Como então temos (21) e (22), pelo teorema da redução ao absurdo podemos con-
cluir (10). Conforme prometemos, apesar de ser mais longa que a derivação exibida na
seção 8.2, essa prova de (10) usa apenas regras listadas no teorema 2.16.
Até agora só temos nos debruçado sobre provas de validade de argumentos. Mas o
que dizer sobre a invalidade de argumentos? Vimos no capítulo 4 que a definição se-
mântica de consequência lógica pode ser usada tanto para determinar a validade como a
invalidade de argumentos. No que se refere ao cálculo axiomático, não encontramos
mais essa simetria entre validade e invalidade: enquanto o método axiomático é muito
bom na determinação da validade de um argumento, caso o argumento seja inválido,
nós não conseguiremos provar isso. E não é muito difícil de ver por quê. De acordo
com a definição 1.14, G„a sss existe uma derivação de a a partir de G. Isso significa que
para mostrarmos que GÒa nós temos que provar que não há nenhuma derivação de a a
partir de G, ou seja, nós teríamos que examinar todas as derivações existentes e mostrar,
para cada uma delas, que não se trata de uma derivação de a a partir de G. Isso obvia-
mente é impossível, pois o número de derivações é infinito. É por conta disso que, na
prova da invalidade de argumentos, não temos escolha senão confiarmos exclusiva-
mente na definição semântica da relação de inferência.
No entanto e apesar disso, de um ponto de vista prático, podemos sim usar o méto-
do axiomático, em especial o princípio da redução ao absurdo, conforme especificado
no teorema 2.17, para mostrar que um determinado argumento é inválido. Tome o ar-
gumento abaixo como exemplo:
(23) Se a crença na existência de Deus tem base científica, então ela é racional.
Não há experimento científico concebível capaz de decidir se Deus existe ou não.
Se a crença na existência de Deus tem base científica, então há algum experi-
mento científico concebível capaz de decidir se Deus existe ou não.
\ A crença na existência de Deus não é uma crença racional.
Tal argumento seria traduzido para a linguagem proposicional como segue:

201
Glossário Tradução
A: A crença na existência de Deus tem base científica. A®B
B: A crença na existência de Deus é racional. ØC
C: Há algum experiemento científico concebível capaz de decidir se A®C
Deus existe ou não. \ØB

sendo a nossa tarefa mostrar se é o caso ou não que


(24) A®B,ØC,A®C„ØB
Usando o método da redução ao absurdo, nós teríamos que mostrar que é possível
chegar a uma contradição a partir de {A®B,ØC,A®C}È{ØØB}. Vejamos como seria
uma tentativa de realizar tal empreitada:
(25) A®B,ØC,A®C,ØØB„??
1. A®B Premissa
2. ØØB Premissa
3. B RN2 2
4. A®C Premissa
5. ØC Premissa
6. ØA RI2 4,5
Poderíamos continuar a aplicar regras e usar os teoremas lógicos conhecidos indefi-
nidamente, mas de um ponto de vista prático o exercício acima é suficiente para nos
convencermos de que não é possível derivar uma contradição a partir de
{A®B,ØC,A®C}È{ØØB}. Assim podemos concluir que (24) é um argumento invá-
lido, ou seja, que a proposição (26) abaixo é verdadeira:
(26) A®B,ØC,A®CÒØB
Veja, no entanto, que esse nosso raciocínio, apesar de razoável, não estabelece ou
prova (26). Na verdade, conforme mencionamos, de um ponto de vista formal, apenas
usando o cálculo clássico proposicional é impossível provar (26). Para provar (26) tería-
mos primeiro que provar
(27) A®B,ØC,A®CÓØB
o que, como vimos no capítulo 4, é completamente exequível e, então, utilizando-se de
um corolário da corretude da lógica clássica proposicional58:
(28) Seja G5LP e aÎ LP. Se GÓa então GÒa

58. Que, como já falamos, será visto no capítulo 12.

202
provaríamos (26).
Para finalizarmos este capítulo, lembremos que o que estamos chamando aqui de
análise lógica de argumentos consiste apenas na verificação de se um dado argumento,
conforme traduzido para a linguagem proposicional, é válido ou não (no cálculo CP).
Uma consequência disso é que nossa análise não diz nada a respeito de se as premissas
do argumento em questão são verdadeiras ou não, o que obviamente é necessário para
nos pronunciarmos sobre a veracidade de sua conclusão (supondo que o argumento em
questão seja efetivamente um argumento válido).
Um ponto importante, no entanto, é que a determinação de se as premissas de um
dado argumento são verdadeiras ou não envolve sutilezas cuja ciência requer certo grau
de reflexão. Tome como exemplo o argumento (9), cuja conclusão é exibida logo abaixo:
(29) Deus não existe.
Dado que exibimos uma prova de validade para a representação de (9) na linguagem
proposicional, e como as premissas de (9) são aparentemente verdadeiras, podemos
concluir então que (29) também é verdade, resolvendo assim um dos problemas mais
antigos da filosofia. Como seria de se esperar, entretanto, as coisas não são tão simples
assim. É possível concluirmos, após uma breve reflexão, que uma das premissas de (9)
afirma algo por demais forte, não possuindo assim o mesmo grau de razoabilidade das
demais premissas. Estamos obviamente falando da segunda premissa de (9):
(30) Se o mal existe, então Deus não deseja impedir o mal ou Ele não pode impedir o mal.
Basicamente o que (30) afirma é que as proposições
(31) Deus não deseja impedir o mal.
e
(32) Deus não pode impedir o mal.
são as únicas explicações para a existência do mal; supondo que Deus existe, então se há o
mal, é porque ou Deus não deseja impedir o mal ou porque ele não pode impedir o mal.
Juntando isso com o fato de que Deus, se existe, é tanto onipotente como onipresente
(quinta premissa), concluimos então (29).
Mas veja que não é de forma alguma trivial que (31) e (32) sejam as únicas explica-
ções possíveis para a existência do mal dada a existência de Deus, como (30) proclama.
Podemos, por exemplo, invocar a teoria do karma (que inclui uma teoria da transmigra-
ção da alma) para defender a ideia de que tudo o que acontece aos seres vivos, seja bom
ou mal, é o resultado de suas ações passadas (que podem ter ocorrido tanto nessa como
nas vidas passadas). Assim, todo o mal que acontece às pessoas seria nada mais do que o
exercício da justiça divina de Deus. Também podemos, invocando um dos preceitos

203
mais tradicionais das práticas yóguicas devocionais e de muitas teologias cristãs, supor
que a existência do mal no mundo é algo necessário para o aprimoramento da alma, isto
é, ao desenvolvimento de qualidades como compaixão, paciência e tolerância, que, em
última instância, nos levam à comunhão ou yoga com o Ser Supremo; a menos, por
exemplo, que realizemos que a tão buscada felicidade não pode ser encontrada neste
mundo material (coisa que a existência do mal sugere), nunca voltaremos a nossa face
para Deus com a intensidade necessária. Assim temos, no mínimo, que (30) não é algo
autoevidente ou livre de controvérsias.
Essa nossa breve análise pode ser usada no refinamento, por assim dizer, do argu-
mento (9), de forma a vermos exatamente onde reside o problema com a premissa (30).
Mais especificamente, iremos supor que as duas hipóteses acima mencionadas (que po-
demos chamar, respectivamente, a hipótese ou teoria do karma e a hipótese de aprimo-
ramento da alma) constituem, juntamente com (31) e (32), as únicas explicações dispo-
níveis para a existência do mal dada a existência de Deus. Pelas mesmas razões dadas
contra a veracidade de (30), tal suposição é questionável, sendo extremamente plausível
que existam outras explicações para a existência do mal dada a existência de Deus. No
entanto, como falamos, tal exercício pode nos ajudar a ver exatamente onde reside o
problema com (30). Incorporando ao argumento (9) o que foi dito no parágrafo anterior
temos o que segue:
(33) O mal existe.
Se o mal existe, então Deus não deseja impedir o mal ou Ele não pode impedir
o mal ou o mal é necessariamente merecido a quem ele atinge ou o mal é ne-
cessário ao aprimoramento da alma.
Se Deus não deseja impedir o mal, então Ele não é onibenevolente.
Se Deus não pode impedir o mal, então Ele não é onipotente.
Se Deus existe, então Ele é onipotente e onibenevolente.
Se o mal é necessariamente merecido a quem ele atinge, então a teoria do karma
é verdade.
\ Se a teoria do karma é falsa, e é falso que o mal é necessário ao aprimoramento
da alma, então Deus não existe.

Conforme pode ser constatado abaixo (usando o teorema da redução ao absurdo),


o argumento (33) é válido:

204
Glossário Tradução
A: O mal existe. A
B: Deus deseja impedir o mal. A®(ØBÚØC)Ú(GÚH)
C: Deus pode impedir o mal. ØB®ØD
D: Deus é onibenevolente. ØC®ØE
E: Deus é onipotente. F®EÙD
F: Deus existe. G®I
G: O mal é necessariamente merecido a quem ele atinge. \ØIÙØH®ØF
H: O mal é necessário ao aprimoramento da alma.
I: A teoria do karma é verdade
(34) A, A®(ØBÚØC)Ú(GÚH),ØB®ØD,ØC®ØE,F®EÙD,G®I,Ø(ØIÙØH®ØF)„I
1. Ø(ØIÙØH®ØF) Premissa
2. ØIÙØH RI3 1
3. ØØF RI4 1
4. F RN2 3
5. F®EÙD Premissa
6. EÙD MP 4,5
7. E RC1 6
8. D RC2 6
9. ØØE RN1 7
10. ØØD RN1 8
11. ØC®ØE Premissa
12. ØØC RI2 11,9
13. ØB®ØD Premissa
14. ØØB RI2 13,10
15. ØØBÙØØC RC3 14,12
16. Ø(ØBÚØC) RM2 15
17. A Premissa
18. A®(ØBÚØC)Ú(GÚH) Premissa
19. (ØBÚØC)Ú(GÚH) MP 17,18
20. GÚH RD3 19,16
21. ØH RC2 2
22. G RD4 20,21
23. G®I Premissa
24. I MP 22,23

205
(35) A, A®(ØBÚØC)Ú(GÚH),ØB®ØD,ØC®ØE,F®EÙD,G®I,Ø(ØIÙØH®ØF)„ØI
1. Ø(ØIÙØH®ØF) Premissa
2. ØIÙØH RI3 1
3. ØI RC1 2
Como então temos (34) e (35), temos pelo teorema da redução ao absurdo o que segue:
(36) A, A®(ØBÚØC)Ú(GÚH),ØB®ØD,ØC®ØE,F®EÙD,G®I„ØIÙØH®ØF
Assim, supondo a veracidade das premissas de (33), temos que se a teoria do karma
é falsa e é falso que o mal é necessário ao aprimoramento da alma, então Deus não exis-
te. Em outras palavras, para provar (29) o ateísta tem de provar que a teoria do karma e a
teoria do mal enquanto elemento necessário ao aperfeiçoamento da alma são falsas, o
que definitivamente não é uma tarefa trivial.

206
8.4 Exercícios de análise lógica
1. Traduza para a linguagem proposicional os argumentos abaixo (usando um glossário
com os símbolos proposicionais usados) e após isso demonstre, utilizando o cálculo
clássico proposicional, se tal argumento é válido ou não. Utilize, se achar conveniente,
os teoremas da redução ao absurdo e da dedução.
a. Se conhecimento é sensação, então porcos têm conhecimento.
Porcos não têm conhecimento.
\ Conhecimento não é sensação. [Este argumento foi dado por Platão.]
b. Se “bom” significa “socialmente aprovado”, então o que é socialmente aprovado é ne-
cessariamente bom.
Não é verdade que o que é socialmente aprovado é necessariamente bom.
\ “Bom” não significa “socialmente aprovado”.
c. Se fosse possível ter uma prova absoluta da existência de Deus, então seria possível
sermos irresistivelmente atraídos a fazer o bem.
Se fosse possível para nós sermos irresistivelmente atraídos a fazer o bem, então nós
não teríamos livre-arbítrio.
Nós temos livre-arbítrio.
\ Não é possível ter uma prova absoluta da existência de Deus.
d. O universo é ordenado [tal qual um relógio que obedece a leis complexas].
A maioria das coisas ordenadas que nós temos examinado tem por trás de sua cria-
ção seres inteligentes.
Nós examinamos uma quantidade grande e variada de coisas ordenadas.
Se a maioria das coisas ordenadas que nós temos examinado tem por trás de sua
criação seres inteligentes e nós examinamos uma quantidade grande e variada de
coisas ordenadas, então provavelmente a maioria das coisas ordenadas tem por
trás de sua criação seres inteligentes.
Se o universo é ordenado e provavelmente a maioria das coisas ordenadas tem por
trás de sua criação seres inteligentes, então o universo provavelmente tem por
trás de sua criação um ser inteligente.
\ O universo provavelmente tem por trás de sua criação um ser inteligente.
e. Se a pena capital é correta, então ela reforma o indivíduo punido ou diminui efetiva-
mente a criminalidade.
A pena capital não reforma o indivíduo punido.
A pena capital não diminui efetivamente o crime.
\ A pena capital não é correta.
f. Se maximizar o prazer humano é sempre bom e o sadista torturador de cachorro maxi-
miza o prazer humano, então a ação do sadista é correta.
O sadista torturador de cachorro maximiza o prazer humano.
A ação do sadista não é correta.
\ Não é verdade que maximizar o prazer humano é sempre bom.
g. Se existe conhecimento, então algumas coisas são conhecidas sem prova ou nós po-
demos provar toda premissa via argumentação indefinidamente.
Nós não podemos provar toda premissa via argumentação indefinidamente.

207
Existe conhecimento.
\ Algumas coisas são conhecidas sem prova. [Este argumento é de Aristóteles.]
h. Se Deus muda, então ele muda para melhor ou para pior.
Se Deus muda para melhor, então ele não é perfeito.
Se Deus é perfeito, então ele não muda para pior.
\ Se Deus é perfeito, então ele não muda.
i. O universo teve um início no tempo.
Se o universo teve um início no tempo, então houve uma causa para o início do uni-
verso.
Se houve uma causa para o início do universo, então um ser pessoal é a causa do uni-
verso.
\ Um ser pessoal é a causa do universo. [Esse argumento é de William Craig e James
Moreland.]
j. Se a palavra “bom” é definida em termos experimentais, então se julgamentos éticos
são prováveis cientificamente a ética tem um fundamento racional.
Julgamentos éticos não são prováveis cientificamente.
\ Se a palavra “bom” é definida em termos experimentais, então a ética não tem um fun-
damento racional.
k. Se o mundo contém bem moral, então o mundo contém criaturas livres e essas criatu-
ras livres algumas vezes agem errado.
Se as criaturas livres algumas vezes agem errado, então o mundo é imperfeito.
Se o mundo é imperfeito, então o criador é imperfeito.
\ Se o mundo contém bem moral, então o criador é imperfeito.
l. Se Sócrates tenta escapar da prisão, então ele deseja obedecer ao estado apenas
quando lhe for conveniente.
Se Sócrates deseja obedecer ao estado apenas quando lhe for conveniente, então
ele realmente não acredita nos seus próprios ensinamentos.
\ Se Sócrates realmente acredita nos seus próprios ensinamentos, então ele não tenta-
rá escapar da prisão. [Esse argumento se encontra no Crátilo de Platão.]
m. A morte de Sócrates será um sono perpétuo ou será a entrada para uma vida melhor.
Se a morte de Sócrates será um sono perpétuo, então ele não tem porque temer a morte.
Se a morte de Sócrates será a entrada para uma vida melhor, então ele não tem por-
que temer a morte.
\ Sócrates não tem porque temer a morte.
n. Se o monismo materialista [a visão de que apenas a matéria existe] é verdade, então o
dualismo [visão segundo a qual, além da matéria, também existem mentes] não é
verdade.
Se eventos mentais existem, então o dualismo é verdade.
Se o monista materialista pensa que sua teoria é verdade, então eventos mentais
existem.
\ Se o monista materialista pensa que sua teoria é verdade, então o monismo materia-
lista não é verdade.

208
o. Se tentativas de provar que Deus existe falham da mesma forma que os melhores ar-
gumentos a favor de que existem outros seres conscientes além de mim, então a
crença de que existem outros seres conscientes além de mim é plausível se e so-
mente se a crença em Deus é plausível.
Tentativas de provar que Deus existe falham da mesma forma que os melhores argu-
mentos a favor de que existem outros seres conscientes além de mim.
A crença de que existem outros seres conscientes além de mim é plausível.
\ A crença em Deus é plausível. [Argumento dado por Alvin Plantinga.]
p. A verdadeira felicidade consiste na paz de espírito.
A confiança que temos no futuro é necessária à paz de espírito.
O conhecimento que devemos ter da natureza de Deus e da alma é necessário à con-
fiança que temos no futuro.
\ O conhecimento que devemos ter da natureza de Deus e da alma é necessário à ver-
dadeira felicidade. [Este argumento é de Gottfried Leibniz.]
q. Se nós temos sensações de objetos materiais e mesmo assim os objetos materiais
não existem, então Deus nos engana.
Nós temos sensações de objetos materiais.
Se Deus nos engana, então ele não é sumamente bom.
Deus é sumamente bom.
\ Os objetos materiais existem. [Este argumento foi dado por René Descartes para pro-
var a existência de um mundo exterior às nossas mentes.]
r. Se você é inteligente ao arrumar sua bolsa, então ou esse ursinho terá alguma utilida-
de na viagem, ou ele não será colocado na bolsa.
Esse ursinho não terá utilidade na viajem.
Esse ursinho não será colocado na bolsa.
\ Você é inteligente ao arrumar sua bolsa.
s. Se a voz do povo é a voz de Deus, então Lampião é um herói.
Se a voz do povo é a voz de Deus, então Lampião é um assassino sanguinário.
Se Lampião é um assassino sanguinário, então ele não é um herói.
\ Não é verdade que a voz do povo é a voz de Deus.
t. Se a ética depende do desejo de Deus, então algo é bom porque Deus assim deseja.
Não é verdade que algo é bom porque Deus assim deseja.
\ A ética não depende do desejo de Deus. [Esse argumento aparece no Eutífron de Platão.]
u. A mutilação sexual de crianças [como ocorre, por exemplo, em algumas comunidades
islâmicas do norte da África] é algo necessariamente imoral.
Se não existem leis morais objetivas, então a mutilação sexual de crianças não é algo
necessariamente imoral.
Se existem leis morais objetivas, então existe uma origem dessas leis.
Se existe uma origem das leis morais, então tal origem é Deus ou a sociedade.
Se a origem das leis morais é a sociedade, então não existem leis morais objetivas.
\ Deus é a origem das leis morais.
v. Se Deus existe, então Deus criou o universo.
Se Deus criou o universo, então houve um momento no qual não havia matéria.

209
A matéria sempre existiu.
Se a matéria sempre existiu, então não houve um momento no qual não havia matéria.
\ Deus não existe.
w. Se o critério lógico-positivista de significação [que diz que um enunciado é significati-
vo se e somente se ele é testável experimentalmente ou é verdadeiro por definição] é
correto, então ou ele é testável experimentalmente ou é uma verdade analítica [ver-
dade por definição].
O critério lógico-positivista de significação não é testável experimentalmente.
O critério lógico-positivista de significação não é uma verdade analítica.
\ O critério lógico-positivista de significação não é correto.
x. Se Deus existe no nosso entendimento, mas não em realidade, então um ser superior
a Deus pode ser concebido [a saber, um ser similar a Deus, mas que exista em reali-
dade].
Deus é [por definição] o ser o qual nenhum ser superior a ele pode ser concebido.
Se Deus é o ser o qual nenhum ser superior a ele pode ser concebido, então é falso
que um ser superior a Deus pode ser concebido.
Deus existe no nosso entendimento.
\ Deus existe em realidade. [Esse é o famoso argumento ontológico de Santo Anselmo.]
y. Se existência é uma perfeição e Deus [por definição] tem todas as perfeições, então
Deus deve existir.
A existência é uma perfeição.
Deus [por definição] tem todas as perfeições.
\ Deus deve existir. [Essa é a versão do argumento ontológico dada por René Descartes.]
z. Se eu estou gripado e pratico exercício, então eu pioro e me sinto fraco.
Se eu não pratico exercício, então eu me torno sedentário e me sinto fraco
\ Se eu estou gripado, então eu me sinto fraco.
aa. Se você sabe que você não existe, então você não existe.
Se você sabe que você não existe, então você sabe de alguma coisa.
Se você sabe de alguma coisa, então você existe.
\ Se você sabe que você não existe, então você existe.
bb. Se Deus é perfeito, então ele não pode estar errado.
Se Deus é onisciente, então ele sabe que eu vou tomar a decisão X.
Se Deus não pode estar errado e ele sabe que eu vou tomar a decisão X, então é ne-
cessário que eu tome a decisão X.
Se é necessário que eu tome a decisão X, então não é possível que eu não tome a de-
cisão X.
Se eu tenho livre-arbítrio, então é possível que eu não tome a decisão X.
\ Ou Deus não é onisciente ou não é perfeito ou eu não tenho livre-arbítrio.
cc. O senso comum assume que nós temos conhecimento moral.
Não existe uma refutação para o conhecimento moral.
Se o senso comum assume que nós temos conhecimento moral, então se não existe
uma refutação para o conhecimento moral nós devemos acreditar que nós temos
conhecimento moral.

210
Qualquer prova para um princípio moral requer um princípio moral mais básico.
Nós não podemos provar princípios morais através de princípios mais básicos indefi-
nidamente.
Se qualquer prova para um princípio moral requer um princípio moral mais básico e
nós não podemos provar princípios morais através de princípios mais básicos in-
definidamente, então se nós devemos acreditar que nós temos conhecimento mo-
ral, nós devemos aceitar princípios morais autoevidentes.
\ Nós devemos aceitar princípios morais autoevidentes.
dd. Existem obrigações morais.
Se existem obrigações morais e obrigações morais são explicáveis, então existe uma
explicação não teísta [que não pressupõe a existência de Deus] para as obriga-
ções morais, ou a existência de Deus explica as obrigações morais.
A existência de Deus não explica as obrigações morais.
\ As obrigações morais não são explicáveis, ou existe uma explicação não teísta para
as obrigações morais.
ee. Se o determinismo é verdade e Madame A.D. Vinha prediz corretamente o que eu irei
fazer, então se ela me diz sua predição eu irei fazer algo diferente.
Se Madame A.D. Vinha me diz sua predição e eu faço algo diferente, então Madame
A.D. Vinha não prediz corretamente o que eu irei fazer.
\ Se o determinismo é verdade, então Madame A.D. Vinha não prediz corretamente o
que eu irei fazer ou ela não me diz sua predição.
ff. Se eu percebo algo, então minha percepção é enganadora ou verídica.
Se minha percepção é enganadora, então eu não percebo diretamente um objeto ma-
terial.
Se minha percepção é verídica, então eu percebo diretamente um objeto material.
Se minha percepção é verídica e eu percebo diretamente um objeto material, então
minha experiência em percepção verídica sempre difere qualitativamente da mi-
nha experiência em percepção enganadora.
Não é verdade que minha experiência em percepção verídica sempre difere qualitati-
vamente da minha experiência em percepção enganadora.
Se eu percebo algo e eu não percebo diretamente um objeto material, então eu perce-
bo diretamente apenas uma sensação.
\ Se eu percebo algo, então eu percebo diretamente apenas uma sensação e não per-
cebo diretamente um objeto material. [Esse é um argumento clássico contra a con-
cepção segundo a qual nós percebemos diretamente os objetos materiais e não ape-
nas sensações ou dados dos sentidos.]
gg. Se você segue o caminho religioso e Deus existe, então você ganha tudo [o reino de
Deus, a vida eterna, etc.].
Se você segue o caminho religioso e Deus não existe, então você não perde nada [no
mínimo você viveu uma vida virtuosa e livre de excessos].
Se você não segue o caminho religioso e Deus não existe, então você vive uma vida
coerente, mas não ganha nada [após a morte].
Se você não segue o caminho religioso e Deus existe, então você perde tudo.

211
Se caso você siga o caminho religioso você ganha tudo ou não perde nada, e caso
você não siga o caminho religioso você não ganha nada ou perde tudo, então se-
guir o caminho religioso é a atitude mais racional a se tomar.
\ Seguir o caminho religioso é a atitude mais racional a se tomar. [Esta é uma versão do
famoso argumento de Blaise Pascal conhecido como a aposta de Pascal.]

212
LÓGICA DE PREDICADOS
9
Linguagem de predicados

9.1 Predicação e quantificação


Nos capítulos anteriores priorizamos a definição e o estudo de um sistema lógico
específico: a lógica clássica proposicional. Como não poderia deixar de ser, uma das ca-
racterísticas fundamentais desse sistema é a sua linguagem, que temos até agora chama-
do simplesmente de linguagem proposicional. Essa linguagem é, na verdade, o repre-
sentante mais famoso de toda uma classe de linguagens lógicas chamadas de linguagens
proposicionais59. Como o próprio nome indica, a marca registrada desse tipo de linguagem
é que as proposições ou enunciados elementares (que correspondem aos símbolos propo-
sicionais) são tratadas como entidades primitivas, não passíveis de nenhum tipo de análise.
Para ver isso mais claramente, considere o enunciado abaixo:
(1) Se a cadeira está ao lado da mesa e ao lado do armário, então ela está entre a
mesa e o armário.
Traduzindo (1) para a linguagem proposicional nós teríamos algo como o que segue:
A: A cadeira está ao lado da mesa.
B: A cadeira está ao lado do armário.
C: A cadeira está entre a mesa e o armário.
(1’) (AÙB)®C
Essa tradução de (1) para a linguagem proposicional envolve, obviamente, um pro-
cesso de análise. Vemos, por exemplo, que (1) contém certa estrutura lógica: ele é um
condicional, em que a conjunção de duas proposições básicas implica outra proposição.
Assim, após representarmos cada uma dessas proposições com o auxílio dos símbolos
proposicionais, devemos usar os símbolos lógicos e parênteses para deixar explícita a
estrutura lógica subjacente a (1). No entanto, se formos um pouco mais além nessa tare-

59. Tal nomenclatura obviamente nos forçaria a qualificar de alguma forma a linguagem introduzida no capítulo 3 –
chamando-a, por exemplo, de linguagem proposicional clássica.

215
fa de análise, veremos que as proposições representadas por A, B e C fazem, todas elas,
referência a relações espaciais de um determinado objeto, a saber, a cadeira. Isso, no en-
tanto, a linguagem proposicional não é capaz de representar. Conforme mencionado
antes, as proposições são tratadas na linguagem proposicional como entidades primiti-
vas, o que implica que o que está além da proposição em termos de análise está também
além do poder representacional da linguagem.
Essa limitação tem consequências drásticas tanto do ponto de vista representacio-
nal, conforme ilustrado no exemplo acima, como do ponto de vista inferencial. Consi-
dere, por exemplo, o argumento abaixo:
(2) Se um objeto está entre um segundo e um terceiro objeto, mas não está ao lado do
segundo, então há um quarto objeto que está entre o primeiro e o segundo objeto.
A cadeira está entre a mesa e o armário.
A cadeira não está ao lado da mesa.
\ Existe um quarto objeto que está entre a cadeira e a mesa.
Aqui, a razão pela qual podemos inferir a conclusão a partir das premissas é, além da
relação lógica existente entre as proposições básicas, também a relação que há entre as
estruturas de cada uma dessas proposições. Isso fica claro quando percebemos que a pri-
meira premissa é uma proposição que quantifica tanto universalmente quanto existencialmente
sobre objetos, afirmando que, para todos e quaisquer objetos x, y e z, se x está entre y e z,
e x não está ao lado de y, então existe um objeto w que está entre x e y. E é apenas em fun-
ção de tal quantificação, e do fato de a segunda e terceira premissas serem, por assim di-
zer, instâncias de “x está entre y e z” e “x não está ao lado de y”, respectivamente, que
podemos inferir a conclusão. Dessa forma, como a linguagem proposicional é incapaz
de representar a estrutura interna de uma proposição básica, e consequentemente inca-
paz de efetuar tal movimento quantificacional, ela não pode servir de base para uma teo-
ria da inferência que contemple (2).
Como terceiro exemplo, compare os dois argumentos abaixo:
(3) Se Ricardo é alto, então Ricardo não é baixo.
Ricardo é alto.
\ Não é o caso que Ricardo é baixo.
(4) Se alguém é alto, então alguém não é baixo.
Alguém é alto.
\ Não é o caso que alguém é baixo.

216
Primeiro de tudo, (3) e (4) têm aparentemente a mesma estrutura lógica. Isso impli-
ca que, como (3) é claramente um argumento válido, (4) também deve ser um argumento
válido. Mas diferentemente de (3), (4) parece encerrar algo extremamente desconcer-
tante: a partir de premissas verdadeiras, chega-se à conclusão absurda, devemos admitir,
de que não existem pessoas baixas. Mas se nós aceitamos suas premissas e admitimos
que se trata de um argumento válido, então devemos também aceitar sua conclusão. Parece
então estarmos diante de algo como um paradoxo.
Felizmente uma inspeção um pouco mais cuidadosa é suficiente para nos mostrar
que tal paradoxo reside, na verdade, em uma ambiguidade em relação ao uso que se faz,
no argumento (4), do termo “alguém”. Grosso modo, o “alguém” que aparece nos
enunciados que compõem (4) pode ser visto de duas maneiras diferentes. Primeiro, o
“alguém” do antecedente da primeira premissa pode ser visto semanticamente como
igual ao “alguém” da segunda premissa (como se referindo à mesma pessoa, digamos),
mas diferente do “alguém” do seu consequente. Este, por sua vez, seria interpretado se-
manticamente de forma idêntica ao “alguém” da conclusão. Isso pode ser representado
como segue:
(5) Se certo alguém é alto, então não é o caso que alguém é baixo.
Certo alguém é alto.
\ Não é o caso que alguém é baixo.
Aqui, a primeira premissa afirma que o fato de haver um alguém específico que seja
alto implica que é falso que alguém (agora entendido de uma maneira irrestrita, se apli-
cando a todas as pessoas) é baixo. Obviamente essa proposição é falsa; consequente-
mente, não temos mais a obrigação de aceitar a conclusão de que não é o caso que al-
guém é baixo.
A outra interpretação surge quando analisamos todas as ocorrências de “alguém”
da mesma maneira, isto é, como se referindo à mesma pessoa:
(6) Se alguém é alto, então não é o caso que este alguém é baixo.
Alguém é alto.
\ Não é o caso que este alguém é baixo.
Claramente aqui a primeira premissa é totalmente aceitável; mas agora sua conclu-
são já não possui o caráter paradoxal de (4).
O ponto que nos interessa aqui é que a representação de tais tipos de argumentos
em geral, e a resolução das ambiguidades deles resultantes em particular, depende, além
da capacidade de fazermos algum tipo de quantificação (como as que são feitas com ex-
pressões como “todos”, “alguns” e “nenhum”), também da possibilidade de represen-

217
tarmos referências cruzadas, ou seja, de deixar explícito dentro do enunciado o escopo,
por assim dizer, da quantificação (que as duas instâncias de “alguém”, por exemplo, de-
sempenham ou não o mesmo papel dentro do enunciado). Como já deve estar óbvio
neste ponto, a linguagem proposicional não nos fornece tais recursos.
Grosso modo, uma teoria da quantificação é uma tentativa de incorporar em uma lin-
guagem lógica tais recursos. Antes de qualquer coisa é necessário haver uma maneira de
representar objetos e as propriedades ou predicados que eles possuem. Por exemplo, se
quiséssemos representar o enunciado
(7) Ricardo é alto.
teríamos de ter um símbolo para representar Ricardo e outro para representar a proprie-
dade de ser alto. Suponha que escolhêssemos o símbolo a para realizar a primeira tarefa
e o símbolo P para realizar a segunda:
a: Ricardo;
P: ser alto.
Assim, (7) poderia ser representado como segue:
(7’) P(a)
Aqui P(a) significa simplesmente que o objeto a possui a propriedade P. Represen-
tando a propriedade de ser baixo através do símbolo Q, o argumento (3) seria formaliza-
do como segue:
(3’) P(a)®ØQ(a)
P(a)
\ ØQ(a)
Essa nomenclatura, apesar de simples, permite-nos representar enunciados de for-
ma que sua estrutura interna seja explicitada; no caso da primeira premissa de (3), por
exemplo, isso significa deixar explícita certa relação lógica entre as predicações de duas
propriedades específicas a um mesmo objeto. Assim, uma teoria da quantificação pres-
supõe uma teoria da predicação (no sentido lógico do termo). Chamamos os símbolos P e
Q, cuja função é representar propriedades de objetos, de símbolos predicativos.
Mas veja que até agora tudo o que temos são símbolos para representar entidades
particulares, a saber, propriedades e objetos. Mas a primeira premissa de (4) (e de suas
variantes), por exemplo, é um enunciado universal, referindo-se não a um objeto espe-
cífico, mas a todos os objetos; utilizando a interpretação contida em (6), por exemplo, tal
premissa pode ser lida como significando que, para toda e qualquer pessoa, se essa pes-
soa é alta, então ela não é baixa. Para dar conta desse tipo de enunciado, o que é basica-
mente o objetivo de uma teoria da quantificação, precisamos de símbolos cuja referên-

218
cia ou valor semântico seja um objeto, mas tal que não esteja definido que objeto é esse.
Em outras palavras, em oposição à a que tem tal valor semântico constante e por isso
mesmo é chamado de um símbolo constante (ou simplesmente constante), nós precisamos
de símbolos cuja referência não seja fixa, mas variável, ou seja, precisamos de o que cha-
mamos de símbolos variáveis (ou simplesmente variáveis). Por exemplo, supondo x ser
um tal símbolo,
(8) P(x)®ØQ(x)
poderia ser usado para representar a primeira premissa de (4), estabelecendo assim uma
relação lógica entre os predicados P e Q, sem no entanto se referir a nenhum objeto es-
pecífico.
Veja, no entanto, que representando a primeira premissa de (4) simplesmente desta
forma, corremos o risco de novamente incorrer em ambiguidade. Primeiro, há ambigui-
dade no que se refere a que tipo de quantificação (8) deseja estabelecer. Por exemplo,
enquanto a primeira premissa de (5) significa algo como
(9) Se existe alguém alto, então não é o caso que existe alguém baixo.
estabelecendo, portanto, o que podemos chamar de quantificação existencial, a primeira
premissa de (6), conforme já mencionamos, significa mais ou menos que
(10) Para todo alguém, se este alguém é alto, então não é o caso que ele é baixo.
estabelecendo uma quantificação universal. Segundo, há ambiguidade no que se refere ao
escopo ou alcance, dentro da sentença, destes quantificadores existenciais e universais.
Por exemplo, apesar de em (9) encontrarmos apenas a quantificação existencial, ela apa-
rece em dois lugares distintos – no seu antecedente e no seu consequente – sendo nesse
caso duas quantificações existenciais diferentes, o que nos leva a inquirir se o alguém do
antecedente de (9) é o mesmo ou é diferente do alguém de seu consequente.
Dessa forma, para representarmos adequadamente o aspecto de quantidade pre-
sente em certas proposições, temos que dispor, além dos símbolos variáveis, de símbo-
los que, primeiro, diferenciem entre a quantificação universal e a existencial, e segundo,
estabeleçam o alcance ou escopo da quantificação. Isso é feito com o auxílio de dois
símbolos: " e $, chamados, respectivamente, de quantificador universal e quantificador exis-
tencial. Se a é uma sentença qualquer e x é um símbolo variável, "xa e $xa significam,
respectivamente, “para todo x a” e “existe um x tal que a”. Por exemplo, com o auxílio
de tais símbolos, (9) e (10) seriam representados como segue:
(9’) $x(P(x))®Ø$x(Q(x))
(10’) "x(P(x)®ØQ(x))

219
Enquanto que (9’) significa “se existe um x tal que P(x), então não é o caso que exis-
te um x tal que Q(x)”, (10’) significa “para todo x, se P(x) então não é o caso que Q(x)”.
Assim temos bem clara a distinção de que, enquanto na primeira proposição temos uma
quantificação existencial, na segunda temos uma quantificação universal.
Em segundo lugar, através do uso dos parênteses podemos delimitar o escopo dos
quantificadores " e $. Por exemplo, enquanto em (9’) o escopo do primeiro quantifica-
dor existencial é P(x) e o do segundo é Q(x), em (10’) o escopo do quantificador univer-
sal é toda a proposição P(x)®ØQ(x). Isso deixa explícita a diferença existente entre (9)
e (10), a saber, que enquanto (9) estabelece a falsa ideia que a existência de alguém alto
implica que não existe ninguém baixo, (10) diz simplesmente que, para toda e qualquer
pessoa, se essa pessoa é alta, então ela não é baixa. Com isso podemos entender bem a
diferença entre os argumentos (5) e (6):
(5’) $x(P(x))®Ø$x(Q(x))
$x(P(x))
\ Ø$x(Q(x))
(6’) "x(P(x)®ØQ(x))
$x(P(x))
\ $x(ØQ(x))
Aqui, além da diferença formal entre (9’) e (10’), temos uma diferença crucial entre
as conclusões dos dois argumentos: enquanto a conclusão de (6’) diz simplesmente que
existe um alguém que não é baixo, a de (5’) afirma que ninguém é baixo.
Em terceiro lugar, " e $ são sempre usados seguidos de uma variável. Para ver a ne-
cessidade disso, considere como formalizaríamos o argumento (2):
(2) Se um objeto está entre um segundo e um terceiro objeto, mas não está ao lado do
segundo, então há um quarto objeto que está entre o primeiro e o segundo obje-
to.
A cadeira está entre a mesa e o armário.
A cadeira não está ao lado da mesa.
\ Existe um quarto objeto que está entre a cadeira e a mesa.
Diferentemente dos exemplos formalizados até agora, (2) contém termos como
“ao lado de” e “entre” que, apesar de se referirem sem sombra de dúvidas a proprieda-
des de objetos, seriam mais precisamente descritos como designando relações entre obje-
tos. Assim, por exemplo, o termo “ao lado de” em “A cadeira não está ao lado da
mesa”, designa o fato de a cadeira não possuir uma determinada relação com a mesa.

220
Dessa forma, para representarmos (2) precisaríamos, além de símbolos constantes que
representem a cadeira, a mesa e o armário:
b: cadeira;
c: mesa;
d: armário;
também de o que podemos chamar de símbolos relacionais:
R: estar ao lado de;
S: estar entre.
Aqui, o símbolo relacional R aplicado aos símbolos constantes b e c – R(b,c) – signi-
ficaria algo como “b está ao lado de c”; já S(b,c,d) significaria “b está entre c e d”. É digno
de nota que, de acordo com esse formalismo, símbolos predicativos são nada mais do
que tipos especiais de símbolos relacionais: se chamamos de aridade o número de cons-
tantes ou variáveis que aparecem entre os parênteses em um símbolo relacional ou pre-
dicativo, um símbolo predicativo é simplesmente um símbolo relacional de aridade 1.
Dessa forma, dizemos que o símbolo predicativo P, por exemplo, é um símbolo relacio-
nal unário (de aridade 1); já R e S, tendo aridade 2 e 3, respectivamente, são símbolos re-
lacionais binário e ternário. Continuando esse raciocínio, não é difícil de visualizar uma
situação na qual temos símbolos relacionais n-ários, onde n é um número qualquer
maior que 0.
Procedendo desta forma, (2) seria representado como segue:
(2’) "x"y"z(S(x,y,z)ÙØR(x,y)®$w(S(w,x,y)))
S(b,c,d)
ØR(b,c)
\ $wS(w,b,c)
Voltando então à necessidade de " e $ terem sempre atrelados a si uma variável, te-
mos na primeira premissa de (2’) quatro quantificadores, sendo que a variável associada a
cada um deles refere-se à mesma variável que aparece dentro do escopo do quantificador
em questão. Isso nos permite representar de forma explícita a leitura que demos para essa
premissa no início do capítulo: para todos e quaisquer objetos x, y e z, se x está entre y e z e
x não está ao lado de y, então existe um objeto w que está entre x e y. O fato, por exemplo,
de que w aparece ao lado de $ nos permite concluir que à mesma variável que aparece em
S(w,x,y) deve ser dada uma interpretação existencial, e não universal, como ocorre com as
demais. E note que a posição das variáveis nos símbolos predicativos desempenha um pa-
pel fundamental: o fato de x aparecer primeiro em S(x,y,z) indica, por exemplo, que é o
elemento que está entre y e z que não está ao lado de y (ØR(x,y)).

221
Essa linguagem que estamos informalmente apresentando aqui, que na verdade já
foi usada por nós nos capítulos 1 e 3, é chamada de linguagem de predicados de primeira or-
dem. A razão da qualificação feita com a expressão “de primeira ordem” vem do fato de
que tanto a predicação como a quantificação são feitos exclusivamente sobre objetos.
Não há, por exemplo, a predicação ou quantificação sobre propriedades, que seria ne-
cessária, por exemplo, na representação de
(11) Alexandre tinha todas as qualidades de um grande líder.
Ou ainda, não há predicação ou quantificação sobre propriedades de propriedades
que, por exemplo, a sentença abaixo exigiria na sua formalização:
(12) De todas as virtudes cristãs, a compaixão é a mais bela.
Tais linguagens, que possuem predicação e quantificação sobre propriedades, e pre-
dicação e quantificação sobre propriedades de propriedades são chamadas, respectiva-
mente, de linguagens de segunda e terceira ordem. Neste livro nos ateremos exclusiva-
mente à linguagem de predicados de primeira ordem.
Para finalizarmos essa introdução informal da linguagem de predicados de primeira
ordem, é mister falarmos sobre uma quarta classe de símbolos não lógicos (em adição
aos símbolos constantes, variáveis e relacionais): os símbolos funcionais. Considere o
enunciado abaixo:
(13) O irmão do pai de João é seu tio.
Usando o glossário abaixo,
a: João;
P: ser pai de;
Q: ser irmão de;
R: ser tio de;
representaríamos (13) como segue:
(13’) "x"y(P(x,a)ÙQ(x,y)®R(y,a))
No entanto, é fato que existe apenas um objeto x tal que P(x,a), ou seja, existe ape-
nas uma pessoa que possui a propriedade de ser pai de João. Assim, se dispuséssemos
de um símbolo que se comportasse como uma função, ou seja, que recebesse um ou
mais objetos como parâmetros e “retornasse” outro objeto, poderíamos representar
(13) de uma maneira ligeiramente diferente de (13’). Suponha que f seja um símbolo tal
que f(k) representa (ou “retorna”) o pai de k, onde k é um símbolo constante ou variável.
Assim, poderíamos representar (13) como segue:
(13”) "x"y(I(f(a),x)ÙQ(x,y)®R(y,a))

222
em que I significa “é idêntico a”, ou seja, I representa a relação de identidade. Aqui, o que
(13”) diz basicamente é que, para quaisquer x e y, se x é idêntico ao pai de a e x é irmão
de y, então y é tio de a. Semelhantemente a símbolos relacionais, símbolos funcionais
também possuem aridade, correspondendo obviamente ao número de parâmetros que
aparecem entre seus parênteses. No entanto, enquanto o valor semântico de P(x,y), por
exemplo, é verdadeiro ou falso, o valor semântico de f(a) é um objeto. Em outras pala-
vras, enquanto um símbolo relacional é, de um ponto de vista semântico, uma função que
retorna um valor de verdade, um símbolo funcional é uma função que retorna um objeto.
Considere outro exemplo:
(14) O pai da esposa de João é o seu melhor amigo.
Usando o glossário abaixo,
a: João;
f: pai de;
g: esposa de;
h: o melhor amigo de;
I: é idêntico a;
podemos representar (14) como segue:
(14’) I(f(g(a)),h(a))
Vejamos o (14’) diz. Primeiro temos a relação de identidade aplicada a dois termos
específicos: f(g(a)) e h(a). Assim o que (14’) diz é que os objetos aos quais tais termos se
referem são idênticos. E quem são esses objetos? h(a) significa o melhor amigo de João;
já f(g(a)) significa o pai de g(a); mas como g(a) significa a esposa de João, f(g(a)) referen-
cia o pai da esposa de João. Assim, (14’) diz simplesmente que o pai da esposa de João é
idêntico ao melhor amigo de João.

9.2 Definição da linguagem de predicados de primeira ordem


Apresentaremos nesta seção a definição formal da linguagem de predicados de pri-
meira ordem. Começamos definindo a estrutura que contém os símbolos não lógicos
da linguagem, chamada nesse caso de o vocabulário da linguagem:

DEFINIÇÃO 3.1 Um vocabulário é uma quádrupla <KC,KV,KF,KR> em que:


(ii) KC é um conjunto contável de símbolos constantes;
(iii) KV é um conjunto contável de símbolos variáveis;

223
(iv) KF é um conjunto contável de símbolos funcionais;
(v) KR é um conjunto contável de símbolos relacionais.
Associado a cada uÎKFÈKR há um número nÎÁ, n>0, chamado de aridade de u.
Chamamos os símbolos relacionais de aridade 1 de símbolos predicativos.
Dado um vocabulário qualquer, definimos o que chamamos de termo, isto é, aquelas
estruturas sintáticas que podem desempenhar a função de parâmetros em símbolos re-
lacionais ou funcionais. De um ponto de vista semântico, um termo é basicamente uma
estrutura sintática cuja interpretação é um objeto. De acordo com a explicação informal
que demos na seção anterior, apenas três tipos de símbolos podem ser assim interpreta-
dos: um símbolo constante, um símbolo variável ou um símbolo funcional seguido de
uma sequência de termos, que obviamente nesse caso desempenhariam o papel de parâ-
metros do símbolo funcional. Assim temos como segue:

DEFINIÇÃO 3.2 Seja K=<KC,KV,KF,KR> um vocabulário. Um termo de K é defini-


do como segue:
(i) Se cÎKC, então c é um termo de K;
(ii) Se xÎKV, então x é um termo de K;
(iii) Se t1,...,tn são termos de K e fÎKF é um símbolo funcional de aridade n, então
f(t1,...,tn) é um termo de K.
De posse dessas duas noções, podemos definir formalmente a linguagem de predi-
cados de primeira ordem.

DEFINIÇÃO 3.3 Seja K=<KC,KV,KF,KR> um vocabulário. A linguagem de predicados


de primeira ordem (ou simplesmente linguagem de predicados ou linguagem de primeira
ordem) L1 sobre K é definida como segue:
(i) Se t1,...,tn são termos de K e RÎKR é um símbolo relacional de aridade n, então
R(t1,...,tn)ÎL1;
(ii) Se aÎL1, então (Øa)ÎL1;
(iii) Se a,bÎL1, então (aÙb)ÎL1;
(iv) Se a,bÎL1, então (aÚb)ÎL1;
(v) Se a,bÎL1, então (a®b)ÎL1;
(vi) Se aÎL1 e xÎKV, então ("xa)ÎL1;
(vii) Nada mais pertence à L1.

224
Apesar de aqui os itens (ii)-(v) serem praticamente idênticos aos da definição 1.1,
em que é definida a linguagem proposicional LP, há diferenças bastante significativas
entre as duas definições. Primeiro, o item (i), que é onde definimos as fórmulas atômi-
cas de L1, permite que efetivamente façamos uso do vocabulário K. Assim, diferente-
mente do que acontece com LP, podemos representar a estrutura interna das proposi-
ções elementares. Segundo, fazendo uso do quantificador universal e dos símbolos va-
riáveis, podemos, através de (vi), representar enunciados universais. É digno de nota
que, de acordo com a definição 3.3, o quantificador universal deve necessariamente
aparecer seguido de uma variável. Conforme já mencionamos, isso é necessário para
que seja precisado a que símbolos relacionais a quantificação está sendo aplicada.
Assim, a quantificação propriamente dita é feita não por " apenas, mas por "x. Por
conta disso, muitas vezes nos referiremos a "x (onde x é uma variável qualquer) como
um quantificador.
Semelhantemente ao que ocorre com a linguagem proposicional, a definição 3.3 re-
cebe como parâmetro uma estrutura com os símbolos não lógicos da linguagem, a sa-
ber, um vocabulário K. Assim, como podemos usar diferentes vocabulários em conjun-
ção com a definição 3.3, teremos, para cada um desses vocabulários, uma linguagem de
predicados diferente. No entanto, à semelhança do que acontece com a linguagem pro-
posicional, qual desses vocabulários é usado na definição de L1 é irrelevante para o estu-
do que estamos realizando aqui. Assim, suporemos um vocabulário arbitrário K sendo
usado em conjunto com a definição 3.3, e nos referiremos à linguagem obtida a partir
daí simplesmente como linguagem de predicados de primeira ordem ou L1.
Também de forma semelhante ao que fizemos na nossa exposição da linguagem
proposicional, podemos usar a definição 3.3 para construir a árvore sintática de uma
fórmula da linguagem de primeira ordem. Por exemplo, a árvore da fórmula
(9’) $x(P(x))®Ø$x(Q(x))
seria como segue:
D

$x Ø

P(x) $x

Q(x)

225
Já a árvore de
(13’) "x"y(P(x,a)ÙQ(x,y)®R(y,a))
seria como segue:
[x

[y

^ R(y,a)

P(x.a) Q(x,y)
Como é de se esperar, as definições das noções de alfabeto, símbolo lógico, etc. e de
subfórmula na linguagem de predicados são bastante similares às que demos no capítu-
lo 3 para as noções correspondentes da linguagem proposicional:

DEFINIÇÃO 3.4 Chamamos o conjunto A1={Ø,Ù,Ú,®,"}È{(,)}ÈKCÈKVÈKFÈKR


de o alfabeto de L1, sendo os membros de {Ø,Ù,Ú,®,"} chamados de símbolos lógicos de
L1, os de KCÈKVÈKFÈKR chamados de símbolos não lógicos de L1, e os membros de {(,)}
de símbolos de pontuação.

DEFINIÇÃO 3.5 Seja jÎL1 uma fórmula da linguagem de primeira ordem.


(i) j é uma subfórmula de j;
(ii) Se j 4 (Øa), então a é uma subfórmula de j;
(iii) Se j 4 ("xa), então a é uma subfórmula de j;
(iv) Se j 4 (aÙb), então a e b são subfórmulas de j;
(v) Se j 4 (aÚb), então a e b são subfórmulas de j;
(vi) Se j 4 (a®b), então a e b são subfórmulas de j;
(vii) Se a é uma subfórmula de j e b é uma subfórmula de a, então b é uma subfór-
mula de j.
É digno de nota que definições como a definição 3.5 acima têm basicamente o pro-
pósito de, dado um tipo específico de entidade sintática, precisar quais desses tipos

226
compõem uma dada fórmula. Por exemplo, uma característica essencial da definição
3.3 é que, entre outras coisas, podemos, através dela, construir fórmulas da linguagem
de predicados a partir de outras fórmulas da linguagem de predicados. Assim, por
exemplo, o item (v) nos diz que se (P(x,a)ÙQ(x,y)) e R(y,a) são fórmulas de L1, então
((P(x,a)ÙQ(x,y))®R(y,a)) também é uma fórmula de L1. Assim, como (P(x,a)ÙQ(x,y)) e
R(y,a) são, além de componentes de (13’), também eles mesmos fórmulas de L1, nada
mais justo do que classificá-las como subfórmulas de (13’).
Mas veja que, diferentemente da linguagem proposicional, existe outro tipo não ló-
gico de entidade sintática que participa na composição de uma fórmula: os termos. É,
por exemplo, a partir de termos que construímos as fórmulas atômicas da linguagem
proposicional (item (i) da definição 3.3). Mas semelhantemente a fórmulas, termos tam-
bém podem ser formados a partir de outros termos. Assim, teremos uma noção corres-
pondente à de subfórmula para termos: a noção de subtermo.

DEFINIÇÃO 3.6 Seja t um termo qualquer de K.


(i) t é subtermo de t;
(ii) Se t 4 f(t1,...,tn), então t1,...,tn são subtermos de t.
(iii) Se t’ é subtermo de t” e t” é subtermo de t, então t’ subtermo de t.
A partir das definições 3.5 e 3.6 podemos então definir a noção de subexpressão de
uma fórmula:

DEFINIÇÃO 3.7 Seja aÎL1 uma fórmula da linguagem de primeira ordem. Defini-
mos a noção de subexpressão de como segue:
(i) a é subexpressão de a;
(ii) Se a 4 R(t1,...,tn), em que RÎKR é um símbolo relacional de aridade n e t1,...,tn
são termos, então t1,...,tn são subexpressões de a;
(iii) Se j é um subtermo de a, então j é uma subexpressão de a;
(iv) Se j é subfórmula de a, então j é subexpressão de a;
(v) Se r é subexpressão de s e s é subexpressão de a, então r é subexpressão de a.
A título de exemplo, segue abaixo a lista de subexpressões (com a qualificação de
serem subfórmulas ou subtermos) das fórmulas (13”) e (14’):
(13”) "x"y(I(f(a),y)ÙQ(x,y)®R(y,a))
1. "x"y(I(f(a),y)ÙQ(x,y)®R(y,a)) subfórmula
2. "y(I(f(a),y)ÙQ(x,y)®R(y,a)) subfórmula

227
3. I(f(a),y)ÙQ(x,y)®R(y,a) subfórmula (também de 2)
4. I(f(a),y)ÙQ(x,y) subfórmula (também de 3 e 2)
5. R(y,a) subfórmula (também de 3 e 2)
6. I(f(a),y) subfórmula (também de 4, 3 e 2)
7. Q(x,y) subfórmula (também de 4, 3 e 2)
8. f(a) termo
9. a termo (também subtermo de 8)
(14’) I(f(g(a)),h(a))
1. I(f(g(a)),h(a)) subfórmula
2. h(a) termo
3. f(g(a)) termo
4. g(a) termo (também subtermo de 3)
5. a termo (também subtermo de 4 e 3 (e 2))
Como o leitor já deve ter notado, estamos desde o início deste capítulo utilizando o
mesmo procedimento de abreviação de parênteses que introduzimos no capítulo 3 com
relação à linguagem proposicional. Para tornar tal procedimento explícito, seguem abai-
xo as regras de abreviação de parênteses que usaremos na linguagem de predicados. Seja
jÎL1 uma fórmula da linguagem de predicados:
REGRA 1 Os parênteses mais externos de j podem ser omitidos;
REGRA 2 Os parênteses mais externos de uma subfórmula de j podem ser omiti-
dos caso o uso da seguinte ordem de precedência entre conectivos seja capaz de restau-
rar o sentido original da fórmula:
1. ® (menor precedência)
2. Ù, Ú (precedência intermediária)
3. Ø, " (maior precedência)
O leitor também deve ter notado que não há na definição 3.3 nenhuma referência
ao quantificador existencial que mencionamos na seção passada. Isso pode parecer pa-
radoxal, pois naquela seção falamos de tal quantificador como tendo igual importância
representacional à do quantificador universal ". A razão de tal omissão é que o quantifi-
cador existencial pode ser facilmente introduzido de forma derivada a partir do quanti-
ficador universal e da negação. Por exemplo, dizer que
(15) Duendes existem.
é trivialmente o mesmo que dizer que

228
(16) Não é o caso que toda entidade existente não possui a propriedade de ser um
duende.
Em outras palavras, (15), que claramente contém uma quantificação existencial e
pode ser representado como
(15’) $x(P(x))
em que P significa “ser duende”, pode ser representado de forma equivalente como
(16’) Ø"x(ØP(x)).
Assim, podemos dizer que Ø"x(ØP(x)) diz exatamente a mesma coisa que
$x(P(x)). Generalizando então, podemos, utilizando o recurso de abreviações introdu-
zido no capítulo 3, definir $xa simplesmente como uma abreviação para Ø"xØa. Se-
gue abaixo tal definição, a qual é antecedida pela definição do bicondicional, que tam-
bém usaremos na apresentação de fórmulas da linguagem de primeira ordem:

DEFINIÇÃO 3.8 Sejam a,bÎL1 duas fórmulas quaisquer e xÎKV uma variável
qualquer. Definimos os símbolos derivados « e $, significando, respectivamente, a du-
pla implicação ou bicondicional e o quantificador existencial, como segue:
(i) (a«b) Ó ((a®b)Ù(b®a));
(ii) ($xa) Ó (Ø("x(Øa))).
Mas agora que dispomos de dois símbolos derivados, $ e «, os quais serão extensi-
vamente usados por nós, teremos, à semelhança do que fizemos no capítulo 3, que re-
formular a nossa segunda regra de abreviação de forma a contemplar tais símbolos:

REGRA 3 Os parênteses mais externos de uma subfórmula de j podem ser omiti-


dos caso o uso da seguinte ordem de precedência entre conectivos seja capaz de restau-
rar o sentido original da fórmula:
1. ®, « (menor precedência)
2. Ù, Ú (precedência intermediária)
3. Ø, ", $ (maior precedência)
Para finalizar esta seção, vejamos como seria utilizada formalmente a noção de es-
copo, mencionada por nós na seção anterior, para falar sobre o alcance, por assim dizer,
da quantificação em um enunciado. Como é fácil de ver, de um ponto de vista formal, o
escopo de um quantificador "x ou $x é nada mais do que a fórmula que está sendo por
ele quantificada:

229
DEFINIÇÃO 3.9 Seja aÎL1 uma fórmula da linguagem de predicados. Se ("xj) é
uma subfórmula de a, dizemos então que j é o escopo de "x em a.
Por exemplo, em (9’) abaixo, enquanto o escopo do primeiro $x é P(x), o escopo do
segundo $x é Q(x):
(9’) $x(P(x))®Ø$x(Q(x))
Já em (10’), o escopo de "x é toda a fórmula P(x)®Q(x):
(10’) "x(P(x)®Q(x))
Veja que como $ é obtido derivadamente a partir de " (definição 3.8), não precisamos,
na definição 3.9, de uma definição separada do escopo de quantificadores existenciais.
De posse do conceito de escopo de um quantificador, podemos definir a ideia de
uma variável ser livre ou ligada em uma dada fórmula:

DEFINIÇÃO 3.10 Seja aÎL1 uma fórmula da linguagem de predicados e xÎKV uma
variável qualquer. Se toda ocorrência de x aparece dentro do escopo de um quantificador
"x em a, dizemos que x é ligada em a. Caso contrário, dizemos que x é livre em a.
Tome (8), por exemplo:
(8) P(x)®ØQ(x)
Aqui, como x não aparece dentro do escopo de nenhum quantificador (simples-
mente porque não há quantificadores em (8)), dizemos que x é livre em (8). No entanto,
se colocarmos um quantificador no início de (8) e obtivermos (10’),
(10’) "x(P(x)®ØQ(x))
teremos agora que x é ligada em (10'), pois duas ocorrências suas aparecem dentro do
escopo de "x em (10’). Como (10’) não possui nenhuma variável livre, dizemos que ela
é uma fórmula fechada.

DEFINIÇÃO 3.11 Seja aÎL1 uma fórmula da linguagem de predicados. Dizemos


que a é uma fórmula fechada sss não existe nenhum xÎKV tal que x é livre em a. Caso
contrário, dizemos que a é uma fórmula aberta.
A possibilidade de construirmos, na linguagem de predicados, fórmulas abertas
como (8) – na verdade precisamos das fórmulas abertas para chegar às fórmulas fecha-
das (item (vi) da definição 3.3) – é algo que não encontra uma contrapartida em lingua-
gem natural. Na verdade, em um sentido muito importante, fórmulas abertas carecem
de inteligibilidade. No entanto, vemos que fórmulas abertas, como as duas expressões
abaixo, são encontradas com bastante frequência em matemática:

230
(17) x+y=y+x
(18) x+y=10
Entretanto, apesar de (17) e (18) serem efetivamente abertas no sentido que esta-
mos aqui usando o termo, há o que podemos chamar de uma interpretação padrão im-
plícita na prática matemática que as torna fechadas e, portanto, inteligíveis. Por exem-
plo, quando escrevemos algo como (17) estamos claramente afirmando que, para quais-
quer dois números, a soma do primeiro com o segundo é igual à soma do segundo com
o primeiro. Em outras palavras, implicitamente interpretamos (17) universalmente. Já
em (18) o que estamos afirmando é que existem dois números tal que a soma deles é
igual a 10. Assim, (18) é implicitamente interpretado de um ponto de vista existencial.
No sistema lógico que é o foco do nosso estudo nesta unidade – a lógica clássica de pre-
dicados de primeira ordem, ou simplesmente lógica de predicados – também se adota um proce-
dimento semelhante. Primeiro, no cálculo clássico de predicados de primeira ordem
(que veremos no capítulo 11) pode-se optar, utilizando os recursos inferenciais do cál-
culo, por uma das duas “interpretações”. A diferença em relação à prática utilizada, por
exemplo, em aritmética, é que tal interpretação é explícita. Por exemplo, uma das regras
de inferência que usaremos no capítulo 10 é
(18) a / "xa
que diz basicamente que a partir de uma fórmula como (8), por exemplo, podemos infe-
rir "x(P(x)®ØQ(x)). Assim, fórmulas abertas são interpretadas universalmente no cál-
culo de predicados. Como veremos no próximo capítulo, o mesmo acontece na defini-
ção semântica de satisfatibilidade em um modelo. No entanto, para chegarmos a tal no-
ção, passaremos por uma concepção de satisfatibilidade que utiliza explicitamente uma
atribuição de valores para as variáveis, aproximando-se, portanto, de uma interpretação
existencial.

231
9.3 Exercícios propostos
1. Enumere as limitações da linguagem proposicional que a impedem de funcionar como
uma teoria da quantificação e da predicação.
2. Supondo o mesmo vocabulário arbitrário K utilizado por nós neste capítulo (suposição
esta que vale também para as demais questões abaixo), use a definição 3.2 para mos-
trar que cada uma das expressões abaixo é um termo de K, explicitando a aridade de
cada um dos símbolos funcionais usados.
a. x
b. f(x)
c. a
d. g(a,f(a))
e. f(g(f(x),g(a,f(x))))
3. Diga, utilizando a definição 3.3, se as seguintes expressões pertencem ou não à lingua-
gem de predicados de primeira ordem. Não leve em conta nem a convenção de abrevia-
ção de parênteses nem as abreviações da definição 3.8.
a. "x,y tal que x,yÎN, x+y=y+x
b. (P(x)®("y(P(y)®Q(a,y))))
c. (ØP(x)®R(x,f(g(x,y))))
d. (Ø(Ø(P(f(x))®Q(f(f(a))))
e. ("x("y($zP(a))))
f. ($w(P(x)®("x,yQ(y))))
g. P(a)®("x®P(y))
h. ((Ø("x("y(P(y,a)ÚR(y,y,y)))))®($z(P(z,a)®R(z,z,a))))
4. O que há de errado com as expressões abaixo? (Considere as regras de omissão de pa-
rênteses.)
a. f(a,g(f(x)))
b. $x(P(x)®"y(ØP(y)ÚQ(x,y)®"z"xQ(z,x)))
c. "x"y(Q(x,a)®P(x)ÚQ(a))
5. Mostre quais fórmulas podem ser construídas colocando-se parênteses nas expressões
abaixo:
a. "xP(x)®ØQ(x)
b. $xP(x,y)ÚØQ(x)ÙP(a,b)
c. ØØP(x)®"xP(x)
d. "xØ$yØP(x,y)®P(y,x)
6. Usando as regras de omissão de parênteses, elimine a maior quantidade possível de pa-
rênteses das fórmulas abaixo:
a. (("x(P(x)ÚQ(a,x)))®($y("xP(x))))
b. (($xP(x,y))Ú((ØQ(x))ÙP(a,b)))
c. (Ø("x(Ø($y(ØP(x,y))))))
d. P(f(g(a,h(f(h(a))))),z,g(a,f(x)))

232
7. Utilizando as regras de omissão de parênteses e a definição 3.8, restaure cada uma das
fórmulas abaixo à sua forma original não abreviada:
a. $xØ$yP(x,y)
b. "xP(x)®$y(P(y)ÚR(y,h(a)))
c. "xP(x)«"y(Q(y,x)ÚØP(f(x)))
d. $y$xØ(Q(x,y)ÚØQ(y,x))
8. Construa a árvore sintática de cada uma das fórmulas da questão 3 que pertencem à lin-
guagem de predicados, bem como das fórmulas das questões 5, 6 e 7.
9. Liste todas as subexpressões das fórmulas das questões 5, 6 e 7, dizendo, para cada
uma das subexpressões, se se trata de uma subfórmula ou de um subtermo.
10. Utilizando as definições 3.9-3.11, identifique, para cada uma das fórmulas abaixo, o es-
copo de cada um de seus quantificadores, quais variáveis são livres e quais são ligadas,
e se se trata de uma fórmula aberta ou fechada (considere as regras de omissão de pa-
rênteses).
a. "xP(x)®ØQ(x)
b. $x("yP(x,y)ÚØQ(x))ÙP(a,b)
c. "xP(x)®$y(P(y)ÚR(y,h(a)))
d. ØØP(x)®"xP(x)
e. "xØ$yØ$z(P(x,y,z)®ØP(z,y,x))
f. $x(P(x)®"y(ØP(y)ÚQ(x,y)®"z"wQ(z,w)))

9.4 Exercícios de análise lógica


1. Traduza para a linguagem de predicados de primeira ordem os enunciados abaixo usan-
do o seguinte glossário:
Glossário
P: ser louco;
Q: ser lógico;
R: ser feliz;
S: gostar de lógica;
T: praticar yoga;
a. Alguém é louco.
b. Ninguém é louco.
c. Todos são loucos.
d. Todo lógico é louco.
e. Nenhum lógico é louco.
f. Alguns lógicos são loucos mas felizes.
g. Todos os lógicos são loucos ou felizes.
h. Existem pessoas que não gostam de lógica e são felizes.
i. Os lógicos que praticam yoga não são loucos.
j. Quem pratica yoga ou é louco ou é lógico.
k. Nem todo louco é lógico.

233
l. Nem todas as pessoas gostam de lógica.
m. Quem não gosta de lógica é louco.
n. Um lógico que não gosta de lógica é louco.
o. Os loucos são felizes.
p. Apenas os loucos são felizes.
q. Quem não gosta de lógica ou é louco ou é infeliz.
r. Todos os lógicos loucos são felizes.
2. Traduza para a linguagem de predicados de primeira ordem os enunciados abaixo
(usando um glossário com os símbolos usados).
a. O pai de minha esposa é meu sogro.
b. Todo homem é mortal.
c. Nem todo pássaro voa.
d. Homens são mamíferos e tomates são vegetais.
e. O irmão da esposa de João é seu cunhado.
f. Todo político é desonesto.
g. Ainda existem políticos honestos.
h. Quem vota em político desonesto engana a si mesmo.
i. Toda pessoa ama alguém
j. Toda pessoa é amada.
k. Não há quem seja amado por todas as pessoas.
l. João ama Maria, que ama Antônio, que ama Ana, que não ama ninguém.
m. Quem ama a quem não lhe ama é infeliz.
n. Quem não se ama não ama ninguém.
o. Quem ama a quem lhe ama, ama a si mesmo.
p. Nenhum barbeiro barbeia a si mesmo.
q. Todo barbeiro só barbeia a quem não se barbeia.
r. Um barbeiro que só barbeia a quem não barbeia ninguém não barbeia a si próprio.
s. Não existe um conjunto que contenha a si próprio.
t. Quem com ferro fere com ferro será ferido.
u. O pai de Pedro é mais novo que o seu tio que mora em João Pessoa.
v. Jamil admira a cunhada de seu sogro que mora em Fortaleza.
w. Todo pai ama os seus filhos.
x. Alguns filhos não amam os seus pais.
y. De nada vale a vida de um homem que vive a vida envolvida na vida de uma mulher da
vida.

234
10
Semântica da lógica de predicados

10.1 Modelo e denotação


Na seção 4.4 do capítulo 4, mostramos como interpretar semanticamente as fórmu-
las da linguagem proposicional. Mais especificamente, definimos as noções de modelo e
satisfatibilidade para a lógica clássica proposicional. De posse dessas noções, pudemos
usar a definição 1.7 para conceitualizar a noção de consequência lógica de tal lógica.
Nosso propósito neste capítulo é fazer algo semelhante para a lógica clássica de predi-
cados de primeira ordem. Em outras palavras, queremos definir as noções de modelo e
satisfatibilidade da lógica de predicados e assim poder usar as definições dadas na seção
4.3 para obter as noções de tautologia, contradição, contingência, equivalência semânti-
ca e, obviamente, a noção de consequência lógica da lógica clássica de predicados.
No entanto, nossa tarefa aqui será um pouco mais complexa do que a que demos
cabo no capítulo 4. Primeiro, a estrutura das fórmulas atômicas da linguagem de predi-
cados é bem mais complexa do que a da linguagem proposicional. Como sabemos, a
ideia básica de um modelo é fixar semanticamente os símbolos não lógicos da lingua-
gem de forma que suas fórmulas atômicas tenham um valor de verdade. Assim, a estru-
tura de modelos terá que levar em conta qualquer complexidade que eventualmente as
fórmulas elementares de uma dada linguagem tenham. Segundo, a linguagem de predi-
cados possui um novo tipo de fórmulas: as fórmulas universais que se utilizam de quan-
tificadores. Naturalmente, a definição da noção de satisfatibilidade para a lógica de pre-
dicados terá que considerar também esse novo tipo de fórmula.
Seguindo o modelo de apresentação usado até agora, tentaremos dar, nesta seção,
uma ideia intuitiva do aparato conceitual necessário à avaliação semântica das fórmulas
da linguagem de predicados de primeira ordem. Após isso, na próxima seção, introduzi-
remos formalmente as noções de modelo e satisfatibilidade na lógica de predicados. Na
verdade, alguns dos elementos-chave desse aparato conceitual já foram introduzidos na
seção 9.1, quando, na tentativa de explicar informalmente os princípios básicos da lin-
guagem de predicados de primeira ordem, fizemos uso de alguns conceitos semânticos

235
importantes. Dissemos, por exemplo, na seção 9.1, que um símbolo constante referencia
ou denota um objeto. Por exemplo, na tentativa de representar formalmente o enunciado
(1) Ricardo é alto.
utilizamos os símbolos a e P de acordo com o seguinte glossário:
a: Ricardo;
P: ser alto;
de tal forma que (2) abaixo foi apresentado como a representação de (1) na linguagem
de predicados:
(2) P(a)
Apesar de o que chamamos acima de glossário ser nada mais do que a porção de um
texto escrito em português, claramente ele tem como objetivo estabelecer de alguma
forma uma relação entre uma entidade linguística específica pertencente a uma lingua-
gem particular, a saber, o símbolo constante a da linguagem de predicados de primeira
ordem, e uma entidade concreta, pertencente ao mundo real, no caso o ser humano au-
tor deste livro que é referenciado em um contexto particular pela expressão “Ricardo”.
Assim temos um movimento tipicamente semântico, isto é, um movimento visando rela-
cionar a linguagem com o mundo, no caso específico de (2), dizer para um dado ele-
mento da linguagem L1 que ele significa ou denota um objeto físico específico.
Dessa forma concluímos que a primeira coisa da qual precisamos para avaliar se-
manticamente as fórmulas da linguagem de predicados é uma maneira de estabelecer,
para todo símbolo constante de L1, uma relação de denotação entre tais símbolos e certos
objetos. Mas veja que antes de fazermos isso é necessário que saibamos de que classe ou
conjunto de entidades tais objetos serão selecionados. Em outras palavras, é necessário
que tenhamos ao nosso dispor um conjunto ou domínio de objetos a partir do qual as de-
notações das nossas constantes serão selecionadas. Dessa forma, o que temos até agora
chamado de objetos serão necessariamente elementos pertencentes a um conjunto do-
mínio D.
E o que dizer dos símbolos relacionais? Que um símbolo constante60 deve denotar
um objeto é algo mais ou menos óbvio. Mas como analisar de um ponto de vista semân-
tico um símbolo que tem, de um ponto de visto pré-teórico, a intenção de representar
propriedades e relações? Considerando que já temos ao nosso dispor um conjunto de
objetos D, a maneira mais fácil de responder essa pergunta é dizer que um símbolo pre-

60. Que, como a nossa exposição informal do capítulo anterior já deixou transparecer, funciona mais ou menos
como um nome próprio da linguagem natural.

236
dicativo, por exemplo, significa simplesmente um subconjunto específico de D. Em
outras palavras, a denotação do símbolo predicativo P acima, por exemplo, seria, de
acordo com essa ideia, um subconjunto específico de D, a saber, o conjunto dos ele-
mentos de D que satisfazem a propriedade de ser alto.
Isso é o que podemos chamar de uma análise extensional de um predicado: ao invés
de responder à pergunta “O que significa ser alto?” dando, por exemplo, os critérios
que uma pessoa deve satisfazer para possuir tal propriedade, simplesmente fornece-se a
extensão de tal predicado, ou seja, o conjunto de todas as pessoas altas. O mesmo se
aplica a propriedades como “ser amarelo”, “ser brasileiro” e “ser mamífero”; de um
ponto de vista extensional, o significado de tais expressões é, respectivamente, o con-
junto de todas as coisas amarelas, o conjunto de todos os homens que possuem a cida-
dania brasileira, e o conjunto de todos os mamíferos. A peculiaridade da análise extensio-
nal que adotaremos aqui é que o significado de um símbolo predicativo tem de ser ne-
cessariamente um subconjunto de D.
Juntando isso com o que dissemos sobre o significado de constantes, é fácil imaginar
então como iremos avaliar semanticamente enunciados como (2), ou, em outras palavras,
como iremos dar cabo à tarefa de dizer se (2) é verdadeiro ou falso. Trivialmente, se a deno-
ta um objeto pertencente a D, e P referencia um subconjunto de D significando exatamente
aqueles objetos que possuem a propriedade expressa por P, então P(a) é verdade se e so-
mente se a denotação de a pertence a tal subconjunto. Apesar de tal ideia fazer referência
apenas a símbolos relacionais de aridade 1 (ou seja, símbolos predicativos) e fórmulas atô-
micas compostas por tais símbolos, é fácil de ver como ela pode ser estendida a símbolos re-
lacionais de aridade maior de 1. Considere, por exemplo, os enunciados abaixo:
(3) A cadeira está ao lado da mesa.
(4) A cadeira está entre a mesa e o armário.
que foram traduzidos para a linguagem de predicados no capítulo anterior como
(5) R(b,c)
(6) S(b,c,d)
de acordo com o seguinte glossário:
b: cadeira;
c: mesa;
d: armário;
R: estar ao lado de;
S: estar entre.

237
Sendo um símbolo relacional de aridade 1, de acordo com essa visão, nada mais que
um conjunto de indivíduos, uma definição extensional de um símbolo relacional de ari-
dade 2, por exemplo, seria simplesmente um conjunto de pares de indivíduos <r,s>,
onde r e s são elementos de D. Assim, R, por exemplo, teria como seu significado um
conjunto composto por todos e apenas todos os pares de objetos <r,s> tal que r está
ao lado de s, de forma que (5) é verdade se e somente se <rb,sc> pertence a tal conjun-
to, onde rb é o objeto denotado por b e sc é o objeto denotado por c. Similarmente, o
significado de um símbolo relacional de aridade 3, como S, por exemplo, seria o conjun-
to de todas e apenas todas as triplas <r,s,u>, sendo r,s,uÎD tais que o objeto r está
entre os objetos s e u. Dessa forma, (6) é verdade se e somente se <rb,sc,ud> pertence a
tal conjunto, onde rb é o objeto denotado por b, sc é o objeto denotado por c e ud é o
objeto denotado por d.
Generalizando então essa ideia, temos que o significado de um símbolo relacional R
qualquer é um subconjunto de Dn, em que n é a aridade de R, e Dn é o n-produto cartesia-
no de D, ou, equivalentemente, o conjunto de todas as n-tuplas formadas a partir dos
elementos de D; e R(t 1, ..., t n) é verdade, onde t 1, ..., t n são n termos, se e somente se
a n-tupla <s1, ..., sn>, onde s1 é a denotação de t1, s2 é a denotação de t2, ..., e sn é a de-
notação de tn, pertence a tal subconjunto de Dn.
Veja que até agora só falamos sobre a denotação de um tipo específico de termo, a
saber, símbolos constantes. No entanto, como a definição acima do valor semântico de
R(t1, ..., tn) bem deixa transparecer, precisamos também falar a respeito da denotação
dos outros elementos sintáticos usados na formação de termos, a saber, símbolos funcio-
nais e símbolos variáveis. Considere a expressão abaixo:
(7) O pai da esposa de João.
Conforme vimos no último capítulo, (7) seria traduzido para a linguagem de predi-
cados como segue:
(8) f(g(a))
em que f e g são símbolos funcionais significando, respectivamente, “o pai de” e “a es-
posa de”, e a é um símbolo constante significando João. Já sabemos que, de um ponto
de vista formal, a denota um elemento de D; mas como g(a) significa intuitivamente a
esposa de João, que é um objeto da mesma forma que João é um objeto, então g(a) deve
também denotar um elemento de D, o mesmo valendo para f(g(a)). Mas então qual se-
ria, de um ponto de vista formal, o significado de f e g?
De acordo com a exposição intuitiva que temos feito até agora, podemos segura-
mente dizer que o significado de f e g deve ser algo que “recebe” um objeto como parâ-
metro e “retorna” outro objeto. No caso de g em (8) acima, o objeto parâmetro seria a

238
denotação de a, ou seja, João, e o objeto retornado, que seria a denotação mesma de
g(a), seria a esposa de João; já no caso de f o objeto parâmetro seria a denotação de g(a),
ou seja, a esposa de João, e o objeto retornado o pai da esposa de João que, no caso, po-
deríamos tomar como sendo a denotação de f(g(a)). Isso obviamente nos leva a concluir
algo que já mencionamos no capítulo anterior: que f e g significam ou são, de um ponto
de vista semântico, funções que associam elementos de D a elementos de D.
Isso reflete perfeitamente, devemos admitir, a compreensão intuitiva que temos de
expressões insaturadas como “o pai de ...”, em que, ao substituirmos as reticências pela
designação de um objeto qualquer, como “João”, por exemplo, obtemos uma
representação para um outro objeto, no caso a expressão “o pai de João”, que designa
um objeto específico, a saber o pai de João. Assim, a expressão “o pai de ...”, ou seu cor-
relato formal f, significa uma associação específica que se pode fazer entre elementos de
D, ou seja, uma função da forma: D®D. Generalizando isso para símbolos funcionais
de qualquer aridade, o significado de um símbolo funcional de aridade n é uma função
que associa n-tuplas de elementos pertencentes a D a elementos de D ou, de uma ma-
neira mais formal, uma função da forma: Dn®D.
Resumindo então o que concluímos até agora, temos que, para avaliarmos semanti-
camente fórmulas da linguagem de predicados de primeira ordem, precisamos de qua-
tro itens: (1) um conjunto não vazio de objetos D chamado de domínio; (2) uma maneira
de associar a cada símbolo constante c um objeto de D chamado de denotação de c; (3)
uma maneira de atribuir, para cada símbolo relacional R de aridade n, um conjunto de
n-tuplas de elementos de D; e (4) uma maneira de atribuir, para cada símbolo funcional f de
aridade n uma função da forma: Dn®D que associa cada n-tupla de objetos de D a um
objeto de D. Esses quatro itens acima compõem o que chamamos de um modelo na lógi-
ca de predicados de primeira ordem, ou seja, o tipo de estrutura capaz de fixar semanti-
camente os símbolos não lógicos da linguagem de predicados de primeira ordem L1 de
forma a podermos dizer se uma dada fórmula de L1 é verdadeira ou falsa.
Mas veja que há algo sobre o qual não falamos ainda que pode comprometer seria-
mente nossas pretensões de, para toda fórmula a de L1, dizermos se, dado um modelo
M qualquer, a é verdade ou não em M (ou usando uma terminologia mais técnica, se M
satisfaz ou não a). Estamos falando do único tipo de símbolo lógico que nossa exposi-
ção deixou de fora: os símbolos variáveis. Naturalmente, um modelo não deve fixar o valor
semântico dos símbolos variáveis; por razões óbvias, o propósito dos símbolos variáveis
só pode ser satisfeito se a eles não tiver associado nenhum elemento semântico; de ou-
tra forma não se trataria de uma variável, mas de uma constante. No entanto, privar os
símbolos variáveis de valor semântico limitaria por demais nosso poder de avaliação se-
mântica, restringindo-a apenas a fórmulas fechadas. Somente se dispusermos daquilo

239
que falta a um modelo – algum tipo de associação entre símbolos variáveis e objetos – é
que seremos capazes de avaliar semanticamente tanto fórmulas fechadas como fórmu-
las abertas.
Assim, para que satisfaçamos nossas justas pretensões de universalidade em relação
à avaliação semântica de fórmulas, precisaremos, além da noção de modelo, de um se-
gundo componente capaz de estipular um valor semântico para cada um dos símbolos
variáveis. Em outras palavras, precisaremos de uma maneira de, à semelhança do que fi-
zemos com os símbolos constantes, associar a cada símbolo variável x um objeto de D.
Chamaremos tal componente de uma atribuição de variáveis.
Além de ser necessário como segundo componente na avaliação semântica de fór-
mulas, a noção de atribuição de variáveis também é indispensável na avaliação das fór-
mulas universais. Para dizermos que um dado predicado, por exemplo, é satisfeito por
todos os objetos do domínio D, precisamos na avaliação das fórmulas universais de al-
guma maneira fazer referencia a possíveis valores semânticos dos símbolos variáveis.
Para ver isso, considere a seguinte fórmula:
(9) "xP(x)
Intuitivamente, (9) é verdade se e somente se, para todo elemento do domínio
sÎD, P(x) é verdade, em que s é exatamente a denotação de x. De um ponto de vista
formal, podemos expressar essa ideia dizendo que "xP(x) é verdade (ou satisfeito) em
um modelo M e uma atribuição de variáveis s se e somente se P(x) é verdade em M e
s[x|s], para todo sÎD. Aqui, s[x|s] é uma atribuição idêntica a s, com a exceção de
que, em s[x|s], a denotação de x é s. Assim, se consideramos todas as atribuições de
variáveis s[x|s] possíveis, fazendo s assumir o valor de todos os elementos de D e exi-
gindo que P(x) seja verdade em M e em todas essas atribuições, então temos a garantia
de que "xP(x) é verdade em M e s.

10.2 Modelo, satisfatibilidade e consequência lógica


Nesta seção apresentaremos de forma rigorosa as ideias introduzidas acima sobre
avaliação semântica de fórmulas da lógica de predicados de primeira ordem. Comece-
mos definindo a estrutura básica na qual tais fórmulas serão avaliadas, isto é, a noção de
modelo:

DEFINIÇÃO 3.12 Em lógica de predicados de primeira ordem, um modelo M é uma


quádrupla <D,VC,VR,VF> em que
(i) D é um conjunto não vazio de objetos chamado domínio;

240
(ii) VC é uma função que atribui, para cada símbolo constante cÎKC um objeto
VC(c)ÎD;
(iii) VR é uma função que atribui para cada símbolo relacional RÎKR de aridade n
um conjunto VR(R)5Dn;
(iv) VF é uma função que atribui para cada símbolo funcional fÎKF de aridade n
uma função VF(f): Dn®D que atribui para cada n-tupla de objetos um objeto.
Conforme adiantamos na seção passada, um modelo M é uma estrutura quádrupla
contendo, antes de mais nada, um conjunto não vazio de objetos chamado de domínio.
A partir desse conjunto, podemos definir os demais componentes de M. VC é uma fun-
ção da forma: KC ® D que associa a cada símbolo constante c um objeto de D; tal obje-
to, que em símbolos é representado por VC(c), é o que chamamos na seção passada de a
denotação de c. VR é uma função que atribui, para cada símbolo relacional R de aridade
n, um conjunto de n-tuplas de elementos de D, isto é, um subconjunto de Dn. Assim,
dado um símbolo relacional RÎKR qualquer de aridade n, VR(R) contém todas as
n-tuplas de elementos de D que se relacionam conforme a relação R. Finalmente, VF
atribui, para cada símbolo funcional f de aridade n, uma função da forma: Dn®D que
associa, para cada n-tupla de objetos de D, um objeto de D.
Para melhor compreendermos cada um desses componentes, considere os enuncia-
dos abaixo:
(10) João, seu pai e seu único filho, Gustavo, estão em casa.
(11) João está sentado ao lado de sua esposa, Maria.
(12) Gustavo está sentado entre Maria e João.
(13) Todos estão em casa.
Se fôssemos traduzir esses enunciados para a linguagem de predicados, a primeira
coisa que faríamos seria estipular, na composição do que temos chamado até agora de
glossário, que constantes serão utilizadas e qual o significado de cada uma delas:
a: João;
b: Maria;
c: Gustavo.
Conforme alertamos na seção passada, essa estipulação é um movimento tipicamente semân-
tico, estabelecendo uma relação entre componentes da linguagem de predicados de primeira or-
dem e objetos pertencentes ao mundo. Mas como vimos, estipular tal relação é exatamente a fun-
ção do que estamos chamando aqui de modelo. Assim, podemos dizer que um glossário é nada
mais do que uma apresentação informal e incompleta de um modelo; ou equivalentemente, que
um modelo é uma apresentação formal e rigorosa da informação contida em um glossário.

241
Na porção de glossário acima, temos basicamente dois aspectos de um modelo es-
pecífico – que referenciaremos daqui em diante simplesmente por M* – sendo introdu-
zidos. Primeiro, temos a menção de três objetos específicos, a saber, João, Maria e Gus-
tavo, o que pode ser tomado facilmente como uma especificação parcial do domínio D
de M*. Assim temos que {João,Maria,Gustavo}5D. Mas veja que os enunciados
(10)-(13) falam de outro objeto, a saber, o pai de João, cujo nome não nos é informado.
Se decidirmos referenciar tal objeto pela expressão “pai_de_João”, podemos conside-
rar o domínio de M* como sendo o conjunto D={João,Maria,Gustavo,pai_de_João}.
O segundo aspecto mencionado no glossário é o significado ou denotação dos sím-
bolos constantes M*. Sendo a porção de glossário acima basicamente uma associação
entre constantes de KC e elementos de D, o que temos efetivamente aqui é a definição
(parcial) da função VC de M*, o que pode ser representado formalmente como segue:
VC(a)=João
VC(b)=Maria
VC(c)=Gustavo
Continuando nossa tarefa de precisar um glossário para (10)-(13), o próximo passo
seria a estipulação dos símbolos relacionais juntamente com seus significados (a neces-
sidade da relação de identidade I ficará clara mais adiante):
P: estar em casa;
R: estar ao lado de;
S: estar sentado entre;
I: ser idêntico à.
No entanto, conforme dito na seção passada, o que podemos chamar de o significa-
do dos símbolos relacionais é dado, em um modelo, de forma extensional. De acordo
com essa visão então, o significado de P é simplesmente o conjunto dos objetos que es-
tão em casa; o significado de R é o conjunto de todos os pares <r,s> tal que r está sen-
tado ao lado de s; o significado de S é o conjunto de todas as triplas <r,s,u> tal que r
está sentado entre s e u; e o significado de I é o conjunto de todos os pares de objetos
<r,s> tal que r é idêntico a s.
Ao examinarmos a definição 3.12 vemos que é exatamente incumbência da função
VR precisar tais significados para cada um dos símbolos relacionais. Assim, VR(P) seria o
conjunto dos objetos que estão em casa, VR(R), o conjunto de todos os pares de objetos
<r,s> tal que r está sentado ao lado de s, VR(S), o conjunto de todas as triplas <r,s,u>
tal que r está sentado entre s e u, e VR(I), o conjunto de todos os pares de objetos

242
<r,s> tal que r é idêntico a s. Uma (possível) especificação completa desses conjuntos
(embora parcial da função VR) é dada abaixo:
VR(P) = {João,Maria,Gustavo,pai_de_João}
VR(R) ={<Gustavo, João>,<João, Gustavo>,<Gustavo, Maria>,<Maria, Gustavo>}
VR(S) = {<Gustavo, Maria, João>,<Gustavo, João, Maria>}
VR(I) = {<João,João>,<Maria,Maria>,<pai_de_João,pai_de_João>,<Gustavo,Gustavo>}
Finalizando o nosso glossário, segue abaixo a estipulação do significado dos símbo-
los funcionais:
f: pai de;
g: esposa de;
h: filho único de.
Novamente, o significado dos símbolos funcionais em M também será dado de for-
ma extensional, sendo incumbência de VF fazer isso. E como isso é feito? Conforme
dissemos, VF atribui para cada símbolo funcional f de aridade n uma função da forma:
Dn®D; isso significa que a entidade retornada pela função VF aplicada a um símbolo
funcional específico, como VF(f), por exemplo, é ela mesma uma função. Abaixo nós
temos uma possível caracterização parcial das funções VF(f) e VF(g):
VF(f)(João)=pai_de_João;
VF(f)(Gustavo)=João;
VF(g)(João)=Maria;
VF(h)(João)=Gustavo.
Resumindo então, dado D, VC, VR e VF conforme descritos acima, nós temos
M*=<D,VC,VR,VF> como um exemplar da noção de modelo introduzida na definição 3.12.
Para finalizarmos nossa análise, segue abaixo a tradução de (10)-(13) para a lingua-
gem de predicados de primeira ordem de acordo com o glossário dado:
(14) P(a)ÙP(f(a))ÙP(h(a))ÙI(h(a),c)
(15) R(a,g(a))ÙI(b,g(a))
(16) S(c,b,a)
(17) "xP(x)
Veja que (14) pode equivalentemente ser representado sem usarmos o símbolo fun-
cional h:
(18) P(a)ÙP(f(a))ÙP(c)Ù"y(I(f(y),a)®I(y,c))

243
Nesse ponto é natural indagarmos como M* será usado na avaliação semântica das
fórmulas; em outras palavras, como seremos capazes de dizer que uma dada fórmula a
é verdade em M*, ou equivalentemente, que M* satisfaz a? Conforme adiantamos na
seção passada, em função da existência, na linguagem de predicados, de fórmulas aber-
tas e fórmulas com quantificadores como (17) e (18), precisamos, na avaliação das fór-
mulas, não apenas de um modelo M, mas também da noção de atribuição de variáveis, no-
ção esta que é definida logo abaixo:

DEFINIÇÃO 3.13 Seja M=<D,VC,VR,VF> um modelo. Uma atribuição de variáveis


(ou simplesmente atribuição) em M é uma função s: KV®D que atribui para cada símbo-
lo variável xÎKV um objeto s(x)ÎD.
Como é fácil de ver, uma atribuição s faz em relação às variáveis exatamente o que VC
faz em relação às constantes: para cada símbolo variável xÎKV é associado um objeto do
domínio D, formalmente representado por s(x). Juntando essas duas coisas, temos então
uma maneira de associarmos para cada símbolo constante ou variável a sua denotação, ou
seja, um elemento de D: enquanto VC nos dá a denotação de cada um dos símbolos cons-
tantes, uma atribuição s nos dá a denotação de cada um dos símbolos variáveis.
Veja, no entanto, que, para sermos capazes de fornecer uma denotação para todos
os tipos de termos, nós temos ainda que contemplar termos compostos por símbolos fun-
cionais. Como vimos acima, um dos componentes de M* é exatamente uma função
VF que atribui, para cada símbolo funcional f de aridade n, uma função da forma:
Dn®D, isto é, uma função capaz de retornar, para cada n-tupla de objetos, um obje-
to do domínio D. Assim, a denotação de f(a), por exemplo, seria obtida da seguinte
maneira: uma vez que sabemos que a denotação de a, dada pela função VC, é João
(VC(a)=João), aplicamos tal denotação à função VF(f) e obtemos o objeto pai_de_João
(VF(f)(João)=pai_de_João). Já a denotação de
(19) f(f(h(a))),
que sabemos ser o pai do pai do filho de João, ou seja, o pai de João, envolve uma quan-
tidade maior de refinamentos. Como (19) é um termo construído a partir do símbolo
funcional f, então sua denotação é VF(f)(s), em que s é a denotação do parâmetro de f
em (19), ou seja, f(h(a)). Utilizando o mesmo raciocínio, temos que s, ou seja, a denota-
ção de f(h(a)) é VF(f)(r), em que r é a denotação de h(a), que por sua vez é VF(h)(u), em
que u é a denotação de a que é VC(a)=João. Representado a denotação de um termo t
por F[t], esses passos podem ser resumidos como segue:

244
F[a] = VC(a) = João
F[h(a)] = VF(h)(F[a]) = VF(h)(João) = Gustavo
F[f(h(a))] = VF(f)(F[h(a)]) = VF(f)(Gustavo) = João
F[f(f(h(a))] = VF(f)(F[f(h(a))]) = VF(f)(João) = pai_de_João
Assim temos que para obtermos a denotação de f(f(h(a)) temos que usar a denota-
ção de outro termo, a saber, f(h(a)), que por sua vez exige a obtenção da denotação de
outro termo, a saber h(a), e assim por diante. Isso significa que, para definirmos formal-
mente a noção de denotação F, temos que mencionar, dentro da própria definição, a
noção F que é o objeto de nossa definição. Em outras palavras, temos que usar uma de-
finição recursiva. A diferença em relação à explicação informal que demos acima é que
essa função denotação, que é como chamaremos F, tem, em adição à um termo, também
um modelo e uma atribuição como parâmetros.

DEFINIÇÃO 3.14 Seja M=<D,VC,VR,VF> um modelo e s uma atribuição em M. A


função denotação FM,s é definida como segue:
(i) Se cÎKC então FM,s(c)=VC(c);
(ii) Se xÎKV então FM,s(x)=s(x);
(iii) Se fÎKF é uma função de aridade n e t1,...,tn são termos de K, então
FM,s(f(t1,...,tn))=VF(f)(FM,s(t1), ..., FM,s(tn)).
Conforme mencionamos na seção anterior, um dos principais usos da noção de
atribuição de variáveis será na avaliação de fórmulas universais. Diremos que "xP(x),
por exemplo, é verdade (ou satisfeito) em um modelo M e uma atribuição de variáveis s
se e somente se, para todo sÎD, P(x) é verdade em M e s[x|s]. Aqui, s[x|s] é uma atri-
buição idêntica a s, com a exceção de que, em s[x|s], a denotação de x é s. Assim, se
P(x) for verdade em toda atribuição s[x|s], em que s assume o valor de cada um dos
membros de D, então a propriedade expressa por P vale para todos os objetos de D, o
que é o mesmo que dizer que "xP(x) é verdade (em M). Segue abaixo a definição formal
de s[x|s]:

DEFINIÇÃO 3.15 Seja M=<D,V C,V R,V F> um modelo, s uma atribuição em
M, xÎKV uma variável e sÎD um elemento do domínio. s[x|s] é a atribuição em M
que satisfaz as seguintes condições:
(i) Para todo yÎKV tal que y¹ x, s[x|s](y)=s(y);
(ii) s[x|s](x)=s.

245
De posse das noções introduzidas nas definições 3.12-3.15, podemos finalmente
introduzir a noção de satisfatibilidade da lógica de predicados de primeira ordem:

DEFINIÇÃO 3.16 Sejam M=<D,VC,VR,VF> um modelo, s uma atribuição em


M, <t1,...,tn> uma n-tupla de termos, RÎKR um símbolo relacional de aridade n e
a,bÎL1 duas fórmulas. A relação de satisfatibilidade í é definida como segue:
(i) M,síR(t1, ..., tn) sss <FM,s(t1),...,FM,s(tn)>ÎVR(R);
(ii) M,síØa sss M,sÔa;
(iii) M,síaÙb sss M,sía e M,síb;
(iv) M,síaÚb sss M,sía ou M,síb;
(v) M,sía®b sss M,sÔa ou M,síb;
(vi) M,sí"xa sss M,s[x|s]ía, para todo sÎD.
Conforme já dito, em lógica de primeira ordem usa-se na avaliação das fórmulas,
além de um modelo M, também uma atribuição s em M. Assim dizemos que uma dada
fórmula aÎL1 é satisfeita em M e s, o que representamos por M,sía (caso a não seja
satisfeita em M e s, nós escrevemos M,sÔa). Como seria de se esperar, a grande dife-
rença entre a noção definida acima e o conceito de satisfatibilidade da lógica proposici-
onal (definição 1.10) são as definições das condições de verdade das fórmulas atômicas
e universais, respectivamente os itens (i) e (vi) da definição 3.16; grosso modo, os dema-
is itens simplesmente reproduzem os seus pares da definição 1.10. (i) diz que uma fór-
mula atômica R(t1, ..., tn) é satisfeita em M e s se e somente se a n-tupla composta pelas
denotações de t1, ... e tn (<FM,s(t1),...,FM,s(tn)>) pertence à extensão de R (VR(R)). Já (vi)
formaliza a interpretação de fórmulas universais explicada acima: "xa é satisfeita em M e s
se e somente se, para todo objeto s pertencente ao domínio, a é satisfeita em M e s[x|s].
Vejamos como essa definição seria usada na avaliação semântica dos enunciados
(14)-(17). Para isso, usaremos o modelo M* definido acima e uma atribuição de variáveis
s qualquer. Supondo que o nosso vocabulário K contenha apenas as variáveis x, y, z e w
(KV={x,y,z,w}), tal atribuição s poderia ser como segue:
s(x) = João;
s(y) = João;
s(z) = Maria;
s(w) = pai_de_João.
Comecemos por (16). Nesse caso a nossa tarefa será dizer se
(20) M*,síS(c,b,a)

246
é o caso ou não. De acordo com a definição 3.16, item (i),
(21) M*,síS(c,b,a) sss <FM*,s(c),FM*,s(b),FM*,s(a)>ÎVR(S).
Já sabemos que VR(S)={<Gustavo,Maria,João>,<Gustavo,João,Maria>}. Assim,
para avaliarmos a veracidade de (20), resta-nos saber o que exatamente é a tripla
<FM*,s(c),FM*,s(b),FM*,s(a)>. Utilizando a definição 3.14, nós temos como segue:
FM*,s(c)=VC(c)=Gustavo;
FM*,s(b)=VC(b)=Maria;
FM*,s(a)=VC(a)=João.
Assim temos que (21) pode ser reescrito como segue:
(22) M*,síS(c,b,a) sss <Gustavo,Maria,João>Î{<Gustavo,Maria,João>,<Gus-
tavo,João,Maria>}.
Como <Gustavo, Maria, João> efetivamente pertence ao conjunto {<Gustavo,Ma-
ria,João>,<Gustavo,João, Maria>}, temos então que (20) é o caso, ou seja, que (16) é sa-
tisfeito em M* e s.
Consideremos agora (15), caso no qual nossa tarefa será dizer se
(23) M*,síR(a,g(a))ÙI(b,g(a))
é o caso ou não. De acordo com a definição 3.16, item (iii) temos que
(24) M*,síR(a,g(a))ÙI(b,g(a)) sss M*,síR(a,g(a)) e M*,síI(b,g(a))
Aplicando raciocínio semelhante ao que usamos em (20), podemos concluir que
M*,síI(b,g(a)) é efetivamente o caso. O mesmo, no entanto, não acontece com
(25) M*,síR(a,g(a))
Senão vejamos. De acordo com a definição 3.16, item (i),
(26) M*,síR(a,g(a)) sss <FM*,s(a),FM*,s(g(a))>ÎVR(R).
VR(R), nós sabemos, é o conjunto {<Gustavo,João>,<João,Gustavo>,<Gusta-
vo,Maria>,<Maria, Gustavo>}. Vejamos o que é a dupla <FM*,s(a),FM*,s(g(a))>. Utili-
zando a definição 3.14 nós temos que
FM*,s(a)=VC(a)=João;
FM*,s(g(a))=VF(g)(FM*,s(a))=VF(g)(João)=Maria.
Assim (26) pode ser reescrito como segue:
(27) M*,síR(a,g(a)) sss <João,Maria>Î{<Gustavo, João>, <João,Gustavo>,
<Gustavo,Maria>, <Maria,Gustavo>}

247
Como <João,Maria> não pertence à {<Gustavo,João>,<João,Gustavo>,<Gusta-
vo,Maria>,<Maria, Gustavo>}, temos que (25) não é o caso, o que faz com que (23)
também não seja o caso; em outras palavras nós temos o que segue:
(28) M*,sÔR(a,g(a))ÙI(b,g(a))
(29) M*,sÔR(a,g(a))
Vejamos agora como (17) seria analisada. Nesse caso queremos saber se
(30) M*,sí"xP(x)
é o caso ou não. De acordo com a definição 3.16, item (vi),
(31) M*,sí"xP(x) sss M*,s[x|s]íP(x), para todo sÎD
Como D={João,Maria,Gustavo,pai_de_João}, temos que (31) pode ser reescrito
como segue:
(32) M*,sí"xP(x) sss M*,s[x|João]íP(x) e M*,s[x|Maria]íP(x) e M*,s[x|Gustavo]íP(x)
e M*,s[x|pai_de_João]íP(x)
De acordo com a definição 3.15, temos que a atribuição s[x|Maria], por exemplo, é
como segue:
s[x|Maria](x)=Maria;
s[x|Maria](y)=João;
s[x|Maria](z)=Maria;
s[x|Maria](w)=pai_de_João.
ou seja, s[x|Maria] é tal qual s com à exceção de que, em s[x|Maria], a denotação de x é
Maria. De posse disso, podemos avaliar o componente correspondente de (32), isto é,
(33) M*,s[x|Maria]íP(x)
De acordo com o item (i) da definição 3.16, nós temos que
(34) M*,s[x|Maria]íP(x) sss FM*,s[x|Maria](x)ÎVR(P)
De acordo com a definição 3.14, FM*,s[x|Maria](x)=s[x|Maria](x) que, conforme vimos
acima, é Maria. Assim, como Maria efetivamente pertence à VR(P)={João,Maria,Gusta-
vo,pai_de_João}, temos que (33) é o caso. Fazendo exercício similar concluímos que os
outros membros de (32), isto é, M*,s[x|João]íP(x), M*,s[x|Gustavo]íP(x) e
M*,s[x|pai_de_João]íP(x) também são o caso. Assim concluímos que (30) é o caso61.
Obviamente que a raison d’être dessas definições é serem utilizadas juntamente com
as definições 1.5-1.8 para obtermos as noções de tautologia, contradição, contingência,

61. Fica como exercício o leitor verificar se (14) e (18) são ou não satisfeitas em M* e s.

248
equivalência semântica e consequência lógica para a lógica de predicados. De um ponto
de vista geral, tal uso é idêntico ao que fizemos no capítulo 4 para ilustrarmos tais no-
ções aplicadas à lógica clássica proposicional. Dessa forma, com exceção de um comen-
tário crucial que faremos logo abaixo, abster-nos-emos aqui de dar quaisquer explica-
ções ou exemplos a respeito de tais noções na lógica de predicados.
É importante notar que as definições 1.5-1.8 assumem que a noção de satisfatibilida-
de é definida apenas em relação a um modelo e uma fórmula; não se contempla, nessas
definições, uma relação de satisfatibilidade que use um terceiro componente, como é o
caso de í na lógica de predicados, que relaciona um modelo e uma atribuição de variáveis
de um lado, e uma fórmula de outro. Assim, para aplicarmos tais definições à lógica de
predicados precisamos reformular a definição de satisfatibilidade de forma a avaliarmos
as fórmulas exclusivamente em função de um modelo semântico. Isso pode ser feito in-
terpretando todas as fórmulas universalmente em relação às atribuições de variáveis:

DEFINIÇÃO 3.17 Seja M um modelo e aÎL1 uma fórmula. Dizemos que M satis-
faz a (em símbolos: Mía) sss M,sía para toda atribuição (em M) s.
Para finalizar este capítulo é imprescindível esclarecermos um aspecto extremamente
importante da semântica da lógica de predicados. Conforme falamos no início do capítulo
anterior, uma das diferenças mais fundamentais entre a linguagem proposicional e a lin-
guagem de predicados de primeira ordem é a presença, nesta última, de fórmulas univer-
sais. Apesar de imprescindíveis na formalização de um número considerável de senten-
ças, esse tipo de fórmula encerra uma dificuldade de ordem prática. Conforme descrito na
definição 3.16, para avaliarmos semanticamente fórmulas do tipo "xa temos que consi-
derar todos os elementos do domínio. No caso de modelos como o que usamos aqui em
que o domínio é finito, não há problema algum. No entanto, a maneira como definimos a
noção de modelo aqui, que é necessária em muitas das aplicações clássicas da lógica de
primeira ordem, contempla a possibilidade de domínios infinitos. Nesses casos, obviamen-
te, a verificação de se "xa é satisfeita ou não em M se torna uma tarefa inexequível. Em
função disso, nos absteremos de ilustrar o uso da semântica da lógica de predicados na
análise lógica de argumentos, deixando tal tarefa a cargo exclusivo do cálculo de predica-
dos de primeira ordem, a ser introduzido no próximo capítulo.

249
10.3 Exercícios propostos
1. Dada a lista de símbolos predicativos abaixo, traduza para linguagem de primeira ordem
os enunciados abaixo e em seguida construa um modelo M e diga, para cada uma das
fórmulas traduzidas, se ela é satisfeita ou não em M.
Glossário
P: ser louco;
Q: ser lógico;
R: ser feliz;
S: gostar de lógica;
T: praticar yoga.
a. Alguém é louco.
b. Ninguém é louco.
c. Todos são loucos.
d. Todo lógico é louco.
e. Nenhum lógico é louco.
f. Alguns lógicos são loucos mas felizes.
g. Todos os lógicos são loucos ou felizes.
h. Existem pessoas que não gostam de lógica e são felizes.
i. Os lógicos que praticam yoga não são loucos.
j. Quem pratica yoga ou é louco ou é lógico.
k. Nem todo louco é lógico.
l. Nem todas as pessoas gostam de lógica.
m. Quem não gosta de lógica é louco.
n. Um lógico que não gosta de lógica é louco.
o. Os loucos são felizes.
p. Apenas os loucos são felizes.
s. Quem não gosta de lógica ou é louco ou é infeliz.
t. Todos os lógicos loucos são felizes.
2. Elabore dois modelos M’ e M” para cada uma das sentenças abaixo de forma que M’ sa-
tisfaça a sentença e M” não a satisfaça. Detalhe todos os componentes dos modelos.
a. O pai de minha esposa é meu sogro.
b. Todo homem é mortal.
c. Nem todo pássaro voa.
d. Homens são mamíferos e tomates são vegetais.
e. O irmão da esposa de João é seu cunhado.
f. Todo político é desonesto.
g. Ainda existem políticos honestos.
h. Quem vota em político desonesto engana a si mesmo.
i. Toda pessoa ama alguém.
j. Toda pessoa é amada.
k. Não há quem seja amado por todas as pessoas.

250
l. João ama Maria, que ama Antônio, que ama Ana, que não ama ninguém.
m. Quem ama a quem não o ama é infeliz.
n. Quem não se ama não ama ninguém.
o. Quem ama a quem o ama, ama a si mesmo.
p. Nenhum barbeiro barbeia a si mesmo.
q. Todo barbeiro só barbeia a quem não se barbeia.
r. Um barbeiro que só barbeia a quem não barbeia ninguém não barbeia a si próprio.
s. Não existe um conjunto que contenha a si próprio.
t. Quem com ferro fere com ferro será ferido.
u. O pai de Pedro é mais novo que o seu tio que mora em João Pessoa.
v. Jamil admira a cunhada de seu sogro que mora em Fortaleza.
w. Todo pai ama os seus filhos.
x. Alguns filhos não amam os seus pais.

251
11
Cálculo de predicados

11.1 Cálculo de predicados de primeira ordem


Neste capítulo introduziremos a definição sintática da relação de inferência da lógi-
ca de predicados de primeira ordem. Seguindo o padrão já estabelecido, chamaremos
tal sistema de cálculo de predicados de primeira ordem (ou simplesmente cálculo de predica-
dos). Semelhantemente à semântica da lógica de predicados vista no capítulo anterior, a
definição do cálculo de predicados envolve um grau de sofisticação bem maior do que o
encontrado na definição do cálculo proposicional, vista no capítulo 5. No entanto, e
apesar disso, tal cálculo de predicados é também uma instância do que chamamos na-
quele capítulo de cálculo axiomático. Em função disso, à semelhança do que fizemos na
definição do cálculo proposicional, utilizar-nos-emos, na definição do cálculo de predi-
cados, das definições 1.11-1.16. Antes, porém, de fazermos isso, devemos introduzir al-
guns conceitos preliminares.

DEFINIÇÃO 3.18 Seja aÎL1 uma fórmula, xÎKV um símbolo variável e t um ter-
mo de K. Tomando a(x) como significando que a fórmula a contém (possivelmente
zero) ocorrências livres de x, a(t) denota a fórmula que é exatamente como a, com a ex-
ceção de que todas as ocorrências livres de x são substituídas por t. Dizemos nesse caso
que a(t) é uma substituição em a(x).
Primeiro de tudo, dada uma fórmula a qualquer, escrevemos a(x) para significar
que a pode ter zero ou mais ocorrências livres da variável x. Veja que com isso não esta-
mos querendo dizer que a contém ocorrências livres de x, nem que a contém ocorrên-
cias livres de outras variáveis. Mas se isso é o caso, ou seja, se a(x) não nos dá nenhuma
informação a respeito das ocorrências livres de x em a, por que então escrever a(x)?
Porque após a(x), e esse é o propósito de estarmos usando tal notação, devemos en-
contrar a(t), em que t é um termo qualquer. Fazendo isso, ou seja, marcando uma variá-
vel específica x (que, novamente, pode não correr livre em a) sabemos que a fórmula

252
a(t) é exatamente igual à a(x), com a exceção de que todas as ocorrências livres de x, se
houver, são substituídas por t. Caso não haja tais ocorrências, então trivialmente a(t)
será idêntica a a(x). Considere a fórmula abaixo.
(1) ØQ(x,y)ÚP(x)®"x(ØR(x)®ØP(y))
Se tomarmos (1) como sendo a(x) e t como sendo a, a(t), ou equivalentemente
a(a), será a fórmula
(2) ØQ(a,y)ÚP(a)®"x(ØR(x)®ØP(y))
ou seja, o resultado da substituição de todas as ocorrências livres de x em (1) pelo termo
a. (Repare que as ocorrências ligadas de x em (1) não foram substituídas.) Dessa forma,
a menção da variável x em a(x) tem como propósito apenas deixar claro que, quando
escrevermos a(t), são as ocorrências livres de x que devem ser substituídas por t em a.
Nem toda substituição a(t) em a(x), no entanto, é admissível. Por exemplo, suponha
que a(x) seja a fórmula
(3) $yQ(x,y)
Aqui, a quantificação de (3) se aplica apenas ao segundo parâmetro do símbolo rela-
cional Q, fato esse que é obviamente indicado pela variável da quantificação y estar ocu-
pando a segunda posição na ordem dos parâmetros. Assim, qualquer substituição que
fizermos em a(x) não deve mudar isso, a saber, que a quantificação se aplica apenas ao
segundo parâmetro. Mas considere qual seria a fórmula resultante da substituição de to-
das as ocorrências livres de x em a por f(y), em que f é um símbolo funcional qualquer:
(4) $yQ(f(y),y)
Mas aqui, (4) muda o sentido original de (3): a quantificação nessa nova fórmula é
aplicada aos dois parâmetros do símbolo relacional Q, o que, conforme frizamos acima,
não acontece em (3). A razão disso, obviamente, é que o termo f(y) contém uma variável
que é ligada em (3) (ou seja, em a), a saber, y. Com o intuito de proibir tais substituições,
definimos abaixo a noção de substituição admissível em a(x):

DEFINIÇÃO 3.19 Seja xÎKV um símbolo variável, a(x)ÎL1 uma fórmula e t um


termo de K. a(t) é uma substituição admissível em a(x) se e somente se nenhuma ocorrên-
cia livre de x em a se encontra dentro do escopo de "z, em que zÎKV é uma variável
ocorrendo em t.
Como há uma ocorrência livre de x em (3) que se encontra dentro do escopo "y, e
essa variável y ocorre em f(y), temos que a(f(y)) não é uma substituição admissível em
a(x), em que a é a fórmula (3).

253
Na definição do conjunto de axiomas do cálculo de predicados, utilizar-nos-emos
dos mesmos axiomas usados na definição do cálculo clássico proposicional, ou seja, os
axiomas P1-P11 da definição 1.17. Como o leitor deve lembrar, em tal definição são in-
troduzidos tais axiomas para uma linguagem arbitrária qualquer; em outras palavras,
podemos ver a definição 1.17 como definindo esquemas de axiomas passíveis de serem
usados em qualquer linguagem contendo os símbolos lógicos Ø, ®, Ù e Ú. Assim, se
usarmos, na definição 1.17, L1 como a linguagem de referência, obteremos os (conjun-
tos de) axiomas P1-P11 na linguagem de predicados de primeira ordem. As fórmulas
abaixo, por exemplo, são instâncias de alguns de tais (esquemas de) axiomas:
(5) "xP(x)®(Ø($yQ(a,y)ÙP(a))®"xP(x)) P1
(6) P(a)ÙØ($yQ(a,y)ÙP(a))®P(a) P3
(7) Ø($yQ(a,y)ÙP(a))®($yQ(a,y)ÙP(a)®"x(P(x)®ØQ(x,x))) P10
Além dos axiomas P1-P11, o cálculo de predicados terá dois novos axiomas, que
definimos logo abaixo:

DEFINIÇÃO 3.20 Seja xÎKV um símbolo variável e a,bÎL1 duas fórmulas. Nomea-
mos as fórmulas abaixo como segue:
P12. "xa(x)®a(t), em que a(t) em que a(t) é uma substituição admissível
em a(x).
P13. "x(a®b(x))®(a®"xb(x)), em que x não é livre em a.
Chamamos a forma esquemática de cada uma dessas fórmulas pelo mesmo nome.
P12 é o axioma que nos permite inferir enunciados particulares de enunciados uni-
versais. Considere a fórmula abaixo:
(8) "x(P(x)®ØQ(x))
que diz que para todo e qualquer objeto x, se x possui a propriedade P, então x não pos-
sui a propriedade Q. Agora suponha que um dado objeto a possua a propriedade P. De
acordo com (8), é natural então que a não possua a propriedade Q. Tal raciocínio é for-
malmente possível por conta do axioma P12:
(9) "x(P(x)®ØQ(x)),P(a)„ØQ(a)
1. "x(P(x)®ØQ(x)) Premissa
2. "x(P(x)®ØQ(x))®(P(a)®ØQ(a)) P12
3. P(a)®ØQ(a) MP 1,2
4. P(a) Premissa
5. ØQ(a) MP 4,3

254
Já P13 nos permite concluir a®"xb(x) a partir de "x(a®b(x)). Considere a se-
guinte versão modificada de (8):
(10) "x(P(a)®ØQ(x))
Aqui, (10) diz que para todo objeto x, se o objeto a possui a propriedade P, então x
não possui a propriedade Q. Mas como o fato de a possuir a propriedade P independe
de quem é x, então caso a possua de fato a propriedade P, podemos dizer que para todo
objeto x, x não possui a propriedade Q. Esse raciocínio, que depende diretamente do
axioma P13, é formalizado logo abaixo:
(11) "x(P(a)®ØQ(x)),P(a)„"xØQ(a)
1. "x(P(a)®ØQ(x)) Premissa
2. "x(P(a)®ØQ(x))®(P(a)®"xØQ(x)) P13
3. P(a)®"xØQ(x) MP 1,2
4. P(a) Premissa
5. "xØQ(x) MP 4,3
Mas note que, diferentemente de P1-P11, os axiomas P12 e P13 têm restrições em
relação a que fórmulas podem ocupar o lugar de a. Enquanto que em P12 a(t) tem de
ser uma substituição admissível em a(x), em P13 x não pode ser livre em a. Natural-
mente, o uso que fizemos de P12 de P13 em (9) e (11) satisfaz tais restrições. Explicare-
mos a razão por trás dessas restrições um pouco mais na frente.
No que se refere às regras de inferência do cálculo de predicados, além da regra mo-
dus ponens introduzida na definição 1.19, também usaremos uma nova regra de inferên-
cia: a chamada regra de generalização.

DEFINIÇÃO 3.21 Seja xÎKV um símbolo variável e aÎL1 uma fórmula. Nomea-
mos a inferência em L1 abaixo como segue:
a
G:
"xa
Como o próprio nome indica, o que a regra G faz é permitir com que, a partir de
uma fórmula qualquer a, concluamos a sua generalização "xa, isso nos permite tratar
as fórmulas abertas como fórmulas universais62. Por exemplo, caso tenhamos
(12) P(x)®ØQ(x)

62. Já tivemos oportunidade de mencionar isso no final do capítulo 9.

255
G permite que, a partir de (12), infiramos (8), interpretando assim tal fórmula aberta
universalmente. Segue abaixo a definição formal do cálculo clássico de predicados de
primeira ordem:

DEFINIÇÃO 3.22 O cálculo clássico de predicados de primeira ordem (ou simples-


mente cálculo de predicados) C1 é a tripla <L1,SMP,G,LP1-P13>.
Temos então que o cálculo de predicados C1 é a tripla composta pela linguagem de
predicados L1, as inferências admissíveis em L1 instâncias das regras MP e G, e os axiomas
(em L1, obviamente) P1-P13. Veja que aqui estamos usando, além das definições 1.17 e
1.19 do capítulo 5, que definem os axiomas P1-P11 e a regra de inferência modus ponens,
respectivamente, também as definições 1.18 e 1.20, que permitem a construção do con-
junto de inferências admissíveis SMP,G e do conjunto de axiomas LP1-P13 a partir dos esque-
mas de inferências MP e G e dos esquemas de axiomas P1-P13, respectivamente.
Voltemos agora para os axiomas P12 e P13 e expliquemos as restrições contidas na
definição 3.20. Em P12 há a restrição de que a(t) seja uma substituição admissível em
a(x). Assim, só são instâncias de P12 fórmulas da forma
(13) "xa(x)®a(t)
tais que a(t) é uma substituição admissível em a(x). Já vimos que substituições não ad-
missíveis podem mudar o sentido original de uma fórmula. Naturalmente, então, o uso
de tais substituições em (13) pode ser fonte de problemas. Para instanciar isso, vejamos
o que pode acontecer caso relaxemos essa restrição e aceitemos como instâncias de P12
quaisquer fórmulas que satisfaçam (13), independentemente de a(t) ser ou não uma
substituição admissível em a(x). Considere a seguinte fórmula:
(14) $yØI(x,y)
Tomando (14) como sendo a, a fórmula a(y) abaixo não é uma substituição admis-
sível em a(x):
(15) $yØI(y,y)
Agora considere a seguinte derivação, feita usando a substituição a(y) em P12:
(16) "x$yØI(x,y)„$yØI(y,y)
1. "x$yØI(x,y) Premissa
2. "x$ØI(x,y)®$yØI(y,y) P12
3. $yØI(y,y) MP 1,2
Se, por exemplo, I significa a relação de identidade, (16) nos permite, a partir de
"x$yØI(x,y), que é a assunção extremamente razoável de que para todo e qualquer ob-

256
jeto x existe um objeto y diferente de x, concluir a asserção absurda de que existe um
objeto y que não é idêntico a ele mesmo ($yØI(y,y)).
Já em relação à P13, a restrição é que x não deve ser livre em a. Em outras palavras,
apenas as instâncias de
(17) "x(a®b(x))®(a®"xb(x))
tais que x não é livre em a é que são instâncias de P13. A razão de tal restrição é, na ver-
dade, bastante óbvia. De um ponto de vista inferencial, (17) permite que, a partir de
(18) "x(a®b(x))
concluamos
(19) a®"xb(x),
eliminando, por assim dizer, a quantificação de a. Mas caso x seja livre em a, então te-
remos feito algo ilegítimo, pois tal eliminação só pode ser feita caso a quantificação pre-
sente em (18) se aplique exclusivamente à b, e não à a; e isso obviamente requer que to-
das as ocorrências de x em a apareçam dentro do escopo de um quantificador "x em a,
o que é o mesmo que dizer que x não deve ser livre em a. Reproduzindo o exercício que
fizemos com P12, relaxar essa restrição significa permitir absurdos como, por exemplo,
o de deduzir "xP(x) a partir de $xP(x):
(20) $xP(x)„"xP(x)
1. ØP(x)®ØP(x) I3
2. "x(ØP(x)®ØP(x)) G1
3. "x(ØP(x)®ØP(x))®(ØP(x)®"xØP(x)) P13
4. ØP(x)®"xØP(x) MP 2,3
5. Ø"xØP(x)®ØØP(x) INm5 4
6. Ø"xØP(x) Premissa
7. ØØP(x) MP 6,5
8. P(x) RN2 7
9. "xP(x) G8
Aqui o movimento decisivo está no item 3, em que P13 é usado, mas a restrição de
que x não seja livre em a não é satisfeita: x é livre em ØP(x).

11.2 Teorema da dedução e outros metateoremas


Muito da prática e resultados utilizados por nós na prova de teoremas lógicos e re-
gras derivadas no cálculo proposicional serão mantidos neste capítulo. Primeiro, fazen-

257
do referência ao teorema 2.5, também usaremos resultados provados previamente na
construção de nossas derivações. Isso obviamente é possível porque tal teorema, e isso
o leitor pode facilmente constatar, se aplica a todo e qualquer cálculo axiomático, inde-
pendentemente da linguagem, axiomas e regras derivadas que compõem esse cálculo.
Segundo, em consonância com tal método de construção de derivações, estaremos
livres para usar qualquer um dos teoremas lógicos e regras derivadas provados por nós
nos capítulos 6, 7 e 8. Isso na verdade já foi feito na prova de (20) acima, na qual usamos
o teorema lógico I3 e as regras derivadas INm5 e RN2. Segue abaixo mais um exemplo
de uma derivação em C1 que se utiliza de regras provadas por nós na unidade anterior.
(21) „a(t)®$xa(x)
1. "xØa(x)®Øa(t) P12
2. ØØa(t)®Ø"xØa(x) INm5 1
3. ØØa(t)«a(t) Nc1
4. a(t)®ØØa(t) C2 3
5. a(t)®Ø"xØa(x) I4 4,2
Veja, no entanto, que todas essas relações da unidade anterior foram provadas
como valendo exclusivamente para o cálculo clássico proposicional e cálculos mais fra-
cos que o cálculo proposicional. Como então, o leitor pode perguntar, podemos dizer
que todas essas relações são válidas também no cálculo de predicados?
O leitor com certeza deve se lembrar que as muitas páginas que dedicamos nos ca-
pítulos 5, 6, 7 e 8 à construção de derivações se centraram na prova de esquemas de deriva-
ções. Assim, a demonstração de I4, por exemplo,
(I4) a®b,b®j„a®j
1. a®b Premissa
2. b®j Premissa
3. (a®(b®j))®((a®b)®(a®j)) P2
4. (b®j)®(a®(b®j)) P1
5. (a®(b®j)) MP 2,4
6. (a®b)®(a®j) MP 5,3
7. (a®j) MP 1,6
no contexto do capítulo 6, prova, na verdade, toda uma classe de relações do cálculo
proposicional, a saber, a classe de todas as relações instâncias de I4. Por exemplo, de
posse da derivação acima nós temos automaticamente provada a validade das relações
abaixo:

258
A®BÚC,BÚC®ØD„A®ØD
ØBÚC®A,A®(B®ØC)„ØBÚC®(B®ØC)
(ØA®ØB)®AÚC,AÚC®C„(ØA®ØB)®C
É exatamente esse raciocínio que, conforme formalizado no teorema 2.5, permi-
te-nos usar relações como I4 como regras de inferência.
Mas veja que, enquanto esquemas de axiomas e esquemas de inferências admissíveis,
respectivamente, todos os axiomas e regras de inferência usadas na prova de I4 são tam-
bém axiomas e regras de inferência do cálculo de predicados de primeira ordem. Assim,
usando então o mesmo raciocínio que usamos acima, podemos dizer que a derivação
exibida para I4 acima também prova automaticamente a validade das relações do cálculo
de predicados abaixo:
"xP(x)®Q(a),Q(a)®$xØR(x)„"xP(x)®$xØR(x)
Ø"x(P(x)®Q(x))®R(a),R(a)®ØP(a)„Ø"x(P(x)®Q(x))®ØP(a)
"x"y(S(x,y)®S(y,x))®"xS(x,x),"xS(x,x)®$x"yØS(x,y)
„ "x"y(S(x,y)®S(y,x))® $x"yØS(x,y)
Generalizando, a derivação de I4 prova a validade de todas as relações de C1 que
possuam a mesma forma do esquema de relação I4, o que nos permite então usá-la como
regra de inferência nas derivações futuras em C1. Mas lembre-se, e isso obviamente é
algo pressuposto no nosso raciocínio acima, que o cálculo de predicados C1 contém to-
dos os esquemas de axiomas (P1-P11) e esquema de inferências (MP) de CP. Assim, ge-
neralizando ainda mais esse resultado, temos que toda e qualquer prova de um esquema
de relação feita em CP é automaticamente uma prova para o mesmo esquema de relação
em C1. Dessa forma, podemos usar todos os esquemas de relação mencionados (e pro-
vados) nos capítulos 5, 6, 7 e 8 como teoremas lógicos ou regras de inferências na cons-
trução de nossas derivações no cálculo de predicados de primeira ordem.
Terceiro, além do teorema 2.5, também usaremos os outros metateoremas introduzi-
dos nos capítulos 6, 7 e 8. Conforme mencionamos, o uso do teorema 2.5, e consequente-
mente do corolário 2.3, no cálculo de predicados é automático, pois esse teorema estabe-
lece um resultado específico para todo e qualquer cálculo axiomático, independentemente
das peculiaridades de seus componentes. No entanto, o mesmo não pode ser dito a res-
peito do teorema 2.12, por exemplo. Esse teorema afirma algo extremamente relevante, a
saber, que se GÈ{a}„b e GÈ{a}„Øb, então G„Øa; mas ele o faz para uma classe es-
pecífica de cálculos, a saber, os cálculos que são extensões conservativas de CØm-. De acordo
com a definição 2.1, C” é uma extensão conservativa de C’ quando G„a em C” sempre
que G„a em C’, em que C’ e C” têm necessariamente a mesma linguagem e o mesmo

259
conjunto de inferências admissíveis. Mas como a linguagem e o conjunto de inferências
admissíveis de C1 são diferentes da linguagem e inferências admissíveis de CØm-, respecti-
vamente, trivialmente então C1 não é uma extensão conservativa de CØm-, o que faz com
que o resultado descrito no teorema 2.12 não seja aplicável à C1. Na verdade, de acordo
com nossa definição, C1 não é uma extensão de nenhum dos cálculos proposicionais in-
troduzidos na unidade anterior, o que implica que não apenas o teorema 2.12, mas tam-
bém os teoremas 2.2 e 2.17 não se aplicam ao cálculo de predicados C1.
No entanto, e apesar disso, em um sentido muito importante, C1 pode ser visto
como uma extensão conservativa de todos os cálculos proposicionais introduzidos na
unidade anterior: para um cálculo proposicional qualquer C introduzido nos capítulos
5, 6 ou 7, todos os esquemas de axiomas de C são também esquemas de axiomas de C1;
todos os esquemas de inferência de C são também esquemas de inferência de C1; e,
como uma consequência desses dois pontos, todos os esquemas de relação válidos em
C (teoremas lógicos e regras derivadas), conforme mostrado acima, são também esque-
mas de relação válidos em C163. Assim, é natural esperarmos que, em algum sentido, os
teoremas 2.2, 2.12 e 2.17 sejam também válidos em C1. Por exemplo, os teoremas 2.12 e
2.17 podem ser reformulados em termos do cálculo de predicados praticamente sem al-
teração alguma em relação às suas formulações originais:

TEOREMA 3.1 Seja G5L1 um conjunto de fórmulas e a,bÎL1 duas fórmulas. Se


GÈ{a}„b e GÈ{a}„Øb, então G„Øa em C1.

TEOREMA 3.2 Seja G5L1 um conjunto de fórmulas e a,bÎL1 duas fórmulas. Se


GÈ{Øa}„b e GÈ{Øa}„Øb então G„a.
A mesma coisa, no entanto, já não pode ser dita com respeito ao teorema da dedução
(teorema 2.2). No cálculo de predicados, o uso irrestrito do teorema da dedução confor-
me descrito no capítulo 6 pode ser fonte de problemas. Considere a relação abaixo
(22) P(x)„"xP(x)
1. P(x) Premissa
2. "xP(x) G1

63. Na verdade, poderíamos ter formulado nossa definição de extensão conservativa de forma a contemplar essa
cumulatividade que indubitavelmente há entre C e os cálculos proposicionais vistos nos capítulos anteriores. No
1
entanto, em função da peculiaridade que há em relação ao teorema da dedução no cálculo de predicados, decidi-
mos restringir a noção de extensão conservativa e, consequentemente a aplicação dos metateoremas acima menci-
onados, apenas para cálculos com a mesma linguagem e o mesmo conjunto de inferências admissíveis, e fornecer
uma nova formulação para tais metateoremas no cálculo de predicados.

260
Trivialmente, (22) é fruto de uma simples aplicação da regra G à única premissa do
argumento. Conforme já mencionamos, no cálculo de predicados, as fórmulas abertas
são interpretadas universalmente. Assim, de P(x) podemos inferir que P(x) vale para
todo x, ou seja, "xP(x). Agora considere o que aconteceria se usássemos o teorema da
dedução conforme descrito no teorema 2.2. Apenas lembrando, esse teorema foi apre-
sentado como segue:
(23) Se GÈ{a}„b então G„a®b.
Como temos (22), ou seja, P(x)„"xP(x), de acordo com esse teorema nós temos
também
(24) „P(x)®"xP(x)
ou seja, que é um teorema lógico que, para todo x, se P(x) é o caso então "xP(x) tam-
bém o é64. Supondo que P é a propriedade de ser um número primo, por exemplo,
como (24) vale para todo x, ela também vale para o número 2, o que nos leva à conclu-
são absurda de que se 2 é número primo então todo e qualquer número também é um
número primo:
(25) „P(2)®"xP(x)
O problema com essa aplicação do teorema da dedução está obviamente relaciona-
do com a regra de generalização. Conforme já mencionado, o propósito da regra G é
explicitar a interpretação universal que estamos dando a fórmulas abertas. Assim, quan-
do escrevemos P(x), sem nenhuma qualificação, estamos na verdade dizendo que a pro-
priedade P vale para todos os objetos, o que é explicitado em (22), em que usamos G
para inferir "xP(x) a partir de P(x). O ponto crucial, no entanto, é que tal relação infe-
rencial não pode ser expressa através da implicação material, conforme especificado em
(24), pois ao escrevermos P(x)®"xP(x) estamos, devido à presença de variáveis livres,
também assumindo essa mesma interpretação universal e, consequentemente, dizendo
algo não contido, em absoluto, em (22), a saber, que se algum x tem a propriedade P,
então todo x tem essa propriedade.
Assim, o teorema da dedução no cálculo de predicados deve ser restringido de forma
a não poder ser usado em casos como esse. Mas para fazermos isso precisamos identifi-
car a característica geral que faz com que o uso do teorema da dedução em (22) seja pro-
blemático. Uma breve inspeção é suficiente para nos convencermos de que a razão de
tal uso ser problemático é que P(x) possui como variável livre a mesma variável que é o
objeto da aplicação de G a partir da qual "xP(x) é obtida. Fazendo referência à descri-

64. Essa leitura universal pode ser explicitada usando-se mais uma vez a regra da generalização e concluindo-se
„"x(P(x)®"xP(x)).

261
ção do teorema da dedução dada em (23), isso pode ser generalizado dizendo que, em
usos problemáticos do teorema da dedução, a fórmula a possui como variável livre a
mesma variável objeto da aplicação de G da qual a obtenção de b depende.
Portanto, se quisermos evitar anomalias como (24) no uso do teorema da dedução no
cálculo de predicados, devemos, na sua formulação, impedir que ele seja aplicado em situa-
ções como as descritas acima, ou seja, situações nas quais a conclusão b seja obtida, direta
ou indiretamente, através da aplicação da regra de generalização, e a tenha como variável
livre a mesma variável objeto dessa aplicação. Veja que, para fazermos isso, teremos que
mencionar derivação de b a partir de GÈ{a} que justifica GÈ{a}„b. Para isso, introdu-
ziremos a noção de uma derivação ser G-livre com respeito a uma dada fórmula.

DEFINIÇÃO 3.23 Seja G5L1 um conjunto de fórmulas, a,bÎL1 duas fórmulas e


<a1,...,an> uma derivação de a a partir de G. <a1,...,an> é G-livre com respeito à b sss
não existir aj4"xak e ai4b tal que k<j, i<k e x é uma variável livre em b.
Se uma derivação <a1,...,an> de a a partir de G é G-livre com respeito à b, isso sig-
nifica que não há um aj que apareça após b na derivação (ai4b tal que i<j), que seja ob-
tido através do uso da regra G (aj4"xak tal que k<j) de tal forma que a variável objeto
dessa aplicação de G seja uma variável livre em b.
De posse dessa noção, podemos definir então nossa versão do teorema da dedução
para o cálculo de predicados de primeira ordem:

TEOREMA 3.3 Seja G5L1 um conjunto de fórmulas e a,bÎL1 duas fórmulas. Se


GÈ{a}„b, em que existe uma derivação de b a partir de GÈ{a} que seja G-livre com
respeito à a, então G„a®b.
Para melhor entender esse teorema, em especial a noção de uma derivação ser
G-livre com respeito a uma dada fórmula, considere a derivação abaixo65:
(26) "xP(x)„$xP(x)
1. "xP(x) Premissa
2. "xP(x)®P(x) P12
3. P(x) MP 1,2
4. P(x)®$xP(x) (21)
5. $xP(x) MP 3,4

65. Aqui estamos fazendo uso do teorema lógico (21) provado no início desta seção.

262
Essa derivação é G-livre com respeito à "xP(x), pois não existe nenhuma fórmula
aj membro da derivação aparecendo após "xP(x), que ocupa o primeiro lugar na deri-
vação, que seja obtido através do uso da regra G de tal forma que a variável objeto dessa
aplicação de G seja uma variável livre em "xP(x). Obviamente que isso é caso apenas
em virtude de não haver em (26) nenhuma aplicação de G. De qualquer forma, como
temos (26) e como há uma derivação de $xP(x) a partir de "xP(x) G-livre com respeito
a $xP(x), podemos então usar o teorema 3.3 e concluir
(27) „"xP(x)®$xP(x)
Considere outro exemplo:
(28) "x(P(x)®Q(x)),"xP(x)„"xQ(x)
1. "x(P(x)®Q(x)) Premissa
2. "xP(x) Premissa
3. "x(P(x)®Q(x))®(P(x)®Q(x)) P12
4. P(x)®Q(x) MP 1,3
5. "xP(x)®P(x) P12
6. P(x) MP 2,5
7. Q(x) MP 6,4
8. "xQ(x) G7
Novamente, tal derivação é G-livre com respeito à "xP(x), pois não existe nenhu-
ma fórmula aj membro dessa derivação aparecendo após "xP(x), que aqui já ocupa o
segundo lugar na derivação, que seja obtido através do uso da regra G de tal forma que a
variável objeto dessa aplicação de G seja uma variável livre em "xP(x). Diferentemente,
no entanto, de (26), isso não se dá devido à ausência de aplicações de G, que acontece
no último passo da derivação, mas sim devido ao fato de não existirem variáveis livres
em "xP(x). Dessa forma, podemos usar o teorema 3.3 e concluir
(29) "x(P(x)®Q(x))„"xP(x)®"xQ(x)
Se quisermos utilizar (28) para concluir
(30) „"x(P(x)®Q(x))®("xP(x)®"xQ(x))
teremos que usar a versão generalizada do teorema da dedução que segue abaixo:

TEOREMA 3.4 Seja G5L1 um conjunto de fórmulas e a,bÎL1 duas fórmulas. Se


GÈ{a1, ..., an}„b, em que existe uma derivação de b a partir de GÈ{a1, ..., an} que seja
G-livre com respeito à a1, ... e an, então G„(a1®(a2®(...®(an®b)...)))66.

66. Vale a pena ressaltar que poderíamos facilmente ter formulado uma versão semelhante do teorema da dedução
para o cálculo clássico proposicional.

263
Assim, como temos (28), como a derivação de (28) é G-livre com respeito a "xP(x)
e a "x(P(x)®Q(x)) temos que, de acordo com o teorema 3.4, (30) também é o caso.

11.3 Teoremas lógicos


Nesta seção exibiremos alguns dos teoremas lógicos mais importantes do cálculo
de predicados. Como seria de se esperar, utilizaremos aqui os teoremas da dedução aci-
ma descritos bem como os esquemas de relações provados na unidade anterior. Come-
cemos pelos teoremas lógicos contendo apenas quantificadores e implicação:
TEOREMA 3.5 Sejam a,b,jÎL1 fórmulas quaisquer. As relações abaixo são válidas
em C1.
QI1. „a(t)®$xa(x) em que a(t) é uma substituição
admissível em a(x)
QI2. „"xa®$xa
QI3. „"x(a®b)®("xa®"xb)
QI4. „"x(a(x)®b)®($xa(x)®b) em que x não é livre em b
QI5. „"x(a®b)®($xa®$xb)
QI6. „"x"ya«"y"xa
QI7. „$x$ya«$y$xa
QI8. „$x"ya®"y$xa
QI9. „$x(a®b)®("xa®$xb)
QI1, que já foi provado na seção anterior como a regra (21), afirma basicamente que
se uma fórmula a, com suas possíveis instâncias livres de x sendo substituídas pelo ter-
mo t, é o caso, então também é o caso que existe ao menos um x tal que a(x). Veja que,
como na derivação de QI1 nós usamos o axioma P12, que, como sabemos, tem a restri-
ção de que a(t) seja uma substituição admissível em a(x), temos que QI1 deve também
ser usado de acordo com tal restrição.
Enquanto QI2 é o equivalente sintático à proibição semântica de domínios vazios,
QI3 explicita a distribuição de "x em relação à ®. As provas de QI2 e QI3 já foram, em
um sentido muito importante, exibidas na seção anterior. Enquanto QI2 é nada mais do
que a versão em termos de esquema de relação de (27), QI3 é tal versão de (30). A única
coisa que devemos fazer para transformar as provas de (27) e (30) em provas de QI1 e
QI2, respectivamente, é substituir P(x) por a, na prova de (27), e substituir P(x) por a e
Q(x) por b, respectivamente, na prova dada para (30), bem como realizar os devidos
ajustes na justificativa do uso do teorema da dedução.

264
Já QI4 é mais ou menos a versão de P13 em termos do quantificador existencial. Se-
gue abaixo sua prova:
(31) "x(a(x)®b),$xa(x)„b
1. "x(a(x)®b) Premissa
2. (a(x)®b)®(Øb®Øa(x)) INm6
3. "x((a(x)®b)®(Øb®Øa(x))) G2
4. "x((a(x)®b)®(Øb®Øa(x)))®("x(a(x)®b)®
"x(Øb®Øa(x))) QI3
5. "x(a(x)®b)®"x(Øb®Øa(x)) MP 3,4
6. "x(Øb®Øa(x)) MP 1,5
7. "x(Øb®Øa(x))®(Øb®"xØa(x)) P13
8. Øb®"xØa(x) MP 6,7
9. Ø"xØa(x)®ØØb INm5 8
10. Ø"xØa(x) Premissa
11. ØØb MP 10,9
12. b RN2 11
Como a derivação acima é G-livre com respeito a "x(a(x)®b) e $xa(x)67, de acor-
do com o teorema 3.4 então temos QI4. Veja que como usamos no passo 7 da deriva-
ção de (31) o axioma P13 que, como sabemos, só pode ser usado se a restrição de que x
não seja livre em b for satisfeita, tal restrição também se aplica a (31) e, consequente-
mente, a QI4.
QI5 faz algo bastante semelhante à QI3, mas com "x se transformando, por assim
dizer, em $x. Segue abaixo sua prova:
(32) "x(a®b)„$xa®$xb
1. "x(a®b) Premissa
2. "x(a®b)®(a®b) P12
3. a®b MP 1,2
4. b®$xb QI1
5. a®$xb I4 3,4
6. "x(a®$xb) G5
7. "x(a®$xb)®($xa®$xb) QI4
8. $xa®$xb MP 6,7

67. Daqui em diante deixaremos a cargo do leitor checar que essa e as demais derivações a serem exibidas no res-
tante deste capítulo são realmente G-livres com respeito a uma dada fórmula.

265
Como a derivação acima é G-livre com respeito à "x(a®b), de acordo com o teo-
rema 3.3 temos QI5.
Segue abaixo a prova de QI7:
(33) „$x$ya®$y$xa
1. a®$xa QI1
2. $xa®$y$xa QI1
3. a®$y$xa I4 1,2
4. "y(a®$y$xa) G3
5. "y(a®$y$xa)®($ya®$y$xa) QI468
6. $ya®$y$xa MP 4,5
7. "x($ya®$y$xa) G6
8. "x($ya®$y$xa)®($x$ya®$y$xa) QI469
9. $x$ya®$y$xa MP 7,8
A prova de
(35) „$y$xa®$x$ya
pode ser construída simplesmente substituindo-se x por y e y por x na prova de (33) aci-
ma. Feito isso, só nos resta então, através de um uso trivial de C3, provar QI7:
(QI7) „$x$ya®$y$xa
1. $x$ya®$y$xa (33)
2. $y$xa®$x$ya (34)
3. $x$ya«$y$xa C3 1,2
O teorema abaixo lista alguns teoremas lógicos do cálculo de predicados contendo
o símbolo da negação e apenas um quantificador:

TEOREMA 3.6 Sejam a,b,jÎL1 fórmulas quaisquer. As relações abaixo são válidas
em C1.
QN1. „$xa«Ø"xØa
QN2. „"xa«Ø$xØa
QN3. „Ø"xa«$xØa

68. Podemos aqui usar QI4, pois y não é livre em $y$xa.


69. Novamente, podemos usar QI4 porque aqui x não é livre em $y$xa.

266
QN4. „Ø$xa«"xØa
QN1 apenas especifica na forma de teorema lógico a definição de $x dada por nós
no capítulo 9 (definição 3.8); como $xa é nada mais do que uma abreviação para
Ø"xØa, sua prova é uma instância trivial da lei da reflexividade da equivalência (BC1:
a«a). Já QN2, apesar de envolver um raciocínio relativamente simples na sua prova,
tem uma derivação mais sofisticada70:
(36) „"xa®Ø$xØa
1. a®ØØa INm10
2. "x(a®ØØa) G1
3. "x(a®ØØa)®("xa®"xØØa) QI3
4. "xa®"xØØa MP 2,3
5. "xØØa®ØØ"xØØa INm10
6. "xa®ØØ"xØØa I4 4,5
(37) „Ø$xØa®"xa
1. ØØa«a Nc1
2. ØØa®a C1 1
3. "x(ØØa®a) G2
4. "x(ØØa®a)®("xØØa®"xa) QI3
5. "xØØa®"xa MP 3,4
6. ØØ"xØØa«"xØØa Nc1
7. ØØ"xØØa®"xØØa C1 6
8. ØØ"xØØa®"xa I4 7,5
Tendo provado então (36) e (37), a prova de QN2 é trivial:
(QN2) „"xa«Ø$xØa
1. "xa®Ø$xØa (36)
2. Ø$xØa®"xa (37)
3. "xa«Ø$xØa C3 1,2
Segue abaixo alguns dos mais importantes teoremas lógicos do cálculo de predica-
dos relacionados com a conjunção e disjunção:

70. Lembre-se que Ø$xØa é uma abreviação para ØØ"xØØa.

267
TEOREMA 3.7 Sejam a,b,jÎL1 fórmulas quaisquer. As relações abaixo são válidas
em C1.
QCD1. „"x(aÙb)«"xaÙ"xb
QCD2. „"xaÚ"xb®"x(aÚb)
QCD3. „$x(aÚb)«$xaÚ$xb
QCD4. „$x(aÙb)®$xaÙ$xb
Basicamente QCD1 explicita a possibilidade de internalização ("x(aÙb)®"xaÙ"xb)
e externalização ("xaÙ"xb®"x(aÙb)) de "x em relação à conjunção. Já em relação à
disjunção, apenas a externalização de "x é possível, o que é explicitado em QCD2. Se-
gue abaixo a prova de QCD2:
(QCD2) „"xaÚ"xb®"x(aÚb)
1. a®aÚb P6
2. "x(a®aÚb) G1
3. "x(a®aÚb)®("xa®"x(aÚb)) QI3
4. "xa®"x(aÚb) MP 2,3
5. b®aÚb P7
6. "x(b®aÚb) G5
7. "x(b®aÚb)®("xb®"x(aÚb)) QI3
8. "xb®"x(aÚb) MP 6,7
9. "xaÚ"xb®"x(aÚb) D3 4,8
Algo semelhante acontece em relação à QCD3 e QCD4, mas agora com respeito à quan-
tificação existencial. Enquanto QCD3 representa a internalização ($x(aÚb)®$xaÚ$xb)
e externalização ("xaÙ"xb®"x(aÙb)) de $x em relação à disjunção, QCD4 repre-
senta apenas a internalização de $x em relação à conjunção. Como é de se esperar, o
converso de QCD4, isto é, a externalização de $x em relação à conjunção não é possí-
vel. Segue abaixo a prova de QCD3:
(38) „$x(aÚb)®$xaÚ$xb
1. a®$xa QI1
2. $xa®$xaÚ$xb P6
3. a®$xaÚ$xb I4 1,2
4. b®$xb QI1
5. $xb®$xaÚ$xb P7
6. b®$xaÚ$xb I4 4,5

268
7. aÚb®$xaÚ$xb D3 3,6
8. "x(aÚb®$xaÚ$xb) G7
9. "x(aÚb®$xaÚ$xb)®($x(aÚb)®$xaÚ$xb) QI4
10. $x(aÚb)®$xaÚ$xb MP 8,9
(39) „$xaÚ$xb®$x(aÚb)
1. a®aÚb P6
2. "x(a®aÚb) G1
3. "x(a®aÚb)®($xa®$x(aÚb)) QI5
4. $xa®$x(aÚb) MP 2,3
5. b®aÚb P7
6. "x(b®aÚb) G5
7. "x(b®aÚb)®($xb®$x(aÚb)) QI5
8. $xb®$x(aÚb) MP 6,7
9. $xaÚ$xb®$x(aÚb) D3 4,8
Tendo provado (38) e (39), basta usarmos C3 para provarmos QCD3:
(QCD3) „$x(aÚb)«$xaÚ$xb
1. $x(aÚb)®$xaÚ$xb (38)
2. $xaÚ$xb®$x(aÚb) (39)
3. $x(aÚb)«$xaÚ$xb C3 1,2

269
11.4 Exercícios propostos
1. Faça o que é pedido a seguir referente ao teorema 3.5:
a. Diga o que significa os teoremas lógicos QI6, QI7, QI8 e QI9;
b. Diga por que o inverso de QI8 não é válido;
c. Prove QI6, QI7 e QI8.
2. Prove QN3 e QN4 (teorema 3.6).
3. Faça o que é pedido a seguir referente ao teorema 3.7:
a. Explique por que o converso de QCD2, "x(aÚb)®"xaÚ"xb, não é válido;
b. Explique por que o converso de QCD4, $xaÙ$xb®$x(aÙb), não é válido;
4. Prove QCD1 e QCD4 (teorema 3.7).

11.5 Exercícios de análise lógica


1. Traduza para a linguagem de predicados de primeira ordem os argumentos abaixo
(usando um glossário com os símbolos usados) e, após isso, demonstre, utilizando o
cálculo clássico de predicados de primeira ordem, se tal argumento é válido ou não.
a. Todos as pessoas que deliberam sobre alternativas acreditam [ao menos implicita-
mente] no livre-arbítrio.
Todas as pessoas deliberam sobre alternativas.
\ Todas as pessoas acreditam no livre-arbítrio. [Este argumento foi dado por William Ja-
mes.]
b. Nenhum sentimento de felicidade é publicamente observável.
Todo processo químico é publicamente observável.
\ Nenhum sentimento de felicidade é um processo químico.
c. Todas as leis do universo se baseiam na vontade de Deus.
Os princípios morais são leis do universo.
\ Os princípios morais se baseiam na vontade de Deus.
d. Se alguém é onisciente, então esse alguém é Deus.
Para alguém provar que Deus não existe, esse algúem tem que ser capaz de conhe-
cer cada “canto” do universo.
Se alguém é capaz de conhecer cada “canto” do universo, então esse algúem é onis-
ciente.
\ Para alguém provar que Deus não existe, esse alguém tem de ser Deus. [Esse argu-
mento foi dado por Howard J. Resnick.]
e. Todo enunciado significativo é ou experimentalmente testável ou analítico.
Nenhum enunciado religioso é experimentalmente testável.
Nenhum enunciado religioso é analítico.
\ Nenhum enunciado religioso é significativo.
f. Todo aquele que pensa claramente é potencialmente um bom lógico.
Toda pessoa que é potencialmente um bom lógico deve estudar lógica.
Todo aquele que não pensa claramente deve estudar lógica.
\ Todos devem estudar lógica.

270
g. Tudo tem uma causa.
Se Deus existe, então há algo que não tem uma causa [a saber, Deus].
\ Deus não existe.
h. Tudo que teve um início tem uma causa.
O mundo teve um início.
Se o mundo teve um início, então Deus [que não teve um início] é a causa do mundo.
Se Deus é a causa do mundo, então Deus existe.
\ Deus existe.
i. Tudo que pode ser explicado pode ser explicado ou como causado por leis científicas,
ou como o resultado de uma escolha livre de um ser racional.
A totalidade das leis científicas não pode ser explicada como causada por leis científi-
cas [pois isso seria circular].
\ Ou a totalidade das leis científicas não pode ser explicada, ou ela pode ser explicada
como o resultado de uma escolha livre de um ser racional [Deus].
j. Se todas as pessoas forem professores de filosofia, então todos morrerão de fome.
\ Toda pessoa que for professor de filosofia morrerá de fome.
k. Toda crença não refutada e de prático valor para a vida das pessoas deve ser tomada
como verdade.
A crença na existência de Deus não foi refutada.
\ Se a crença na existência de Deus é de prático valor para a vida das pessoas então
ela deve ser tomada como verdade.
l. Se tudo é material, então tudo é composto de partículas físicas.
Não é verdade que o número p é composto de partículas físicas.
\ Não é verdade que tudo é material.
m. Toda pessoa consistente que pensa que o aborto é normalmente permitido consenti-
rá com a ideia de ter sido abortado em circunstâncias normais.
Ninguém consentiria com a ideia de ter sido abortado em circunstâncias normais.
\ Nenhuma pessoa consistente pensa que o aborto é normalmente permitido. [Este ar-
gumento foi dado por Harry Gensler.]
n. Não devemos fazer a nenhum ser vivo o que não queremos que seja feito a nós mesmos.
\ Se não desejamos ser enganados, então não devemos enganar os outros.

271
APÊNDICES
12
Metalógica

12.1 Lógica e metalógica


Neste capítulo nos dedicaremos à subárea da lógica conhecida como metalógica ou
metateoria. Conforme já mencionamos, os diversos teoremas, ou metateoremas para
ser mais preciso, e corolários que introduzimos do decorrer dos vários capítulos anterio-
res pertencem à metalógica. Também podemos falar em metalógica ou metateoria de
um sistema lógico específico. Por exemplo, à descrição e ao estudo (o que inclui a de-
monstração) dos mais importantes metateoremas do cálculo proposicional nós damos
o nome de metateoria do cálculo clássico proposicional. De forma semelhante temos a
metateoria da semântica da lógica proposicional, a metateoria da lógica proposicional
(que obviamente inclui a metateoria de tal cálculo e semântica), a metateoria da lógica
de primeira ordem, a metateoria dos cálculos axiomáticos, e assim por diante. Assim, a
metalógica seria a área que se dedica ao estudo e demonstração das diversas proprieda-
des-chave de sistemas lógicos ou de classes de sistemas lógicos.
A fim de ilustrarmos em que consiste a prática da metalógica, considere a definição
das noções de cálculo axiomático e derivação e dedução dadas por nós na seção 5.2.
Independentemente de que linguagem, regras admissíveis e axiomas um dado cálculo
possa ter, dado o quadro conceitual construído através de nossas definições, sua relação
de dedução sempre satisfará no mínimo três propriedades. Primeiro de tudo, em qual-
quer cálculo, se uma dada fórmula a pertence a um conjunto G, então a é deduzido a
partir de G nesse cálculo. Trata-se do que chamamos no capítulo 2 de a reflexividade da re-
lação de dedução.
A despeito da possível trivialidade que tal afirmação possa ter para alguns de nós, a
menos que provemos para além de qualquer dúvida que efetivamente o que estabelece-
mos nas nossas definições implica tal resultado, não poderemos aceitar essa proposição
como verdadeira. Em outras palavras, precisamos provar ou demonstar a veracidade do
teorema da reflexividade. De fato, a prova das diversas propriedades dos sistemas lógicos

275
enunciadas na forma de metateoremas é uma das tarefas mais importantes da metalógica.
Vejamos então como seria a prova desse teorema da reflexidade da relação de dedução:

TEOREMA 4.1 Seja C=<L,S,L> um cálculo axiomático, G5L um conjunto de


fórmulas e aÎL uma fórmula. Se aÎG, então G„a em C.
Prova Conforme enunciado acima, o teorema da reflexidade nada mais é do que
um condicional afirmando que se certas condições antecedentes são satisfeitas, isto é, se
a pertence a G, então o consequente do condicional, isto é, que a é deduzido a partir de
G, é o caso. Assim, para provarmos a veracidade desse teorema, devemos, supondo
nada mais além do que é dito no antecedente (aÎG), mostrar que o consequente (G„a)
é o caso. Supondo então que a pertence a G, temos que trivialmente G„a, pois pode-
mos facilmente construir uma derivação de a a partir de G, a saber, a sequência unitária
de fórmulas <a>. É fácil ver aqui que <a> é, de acordo com a definição 1.13, efetiva-
mente uma derivação de a a partir de G: primeiro, o seu último membro é igual à con-
clusão do argumento; segundo, todos os seus membros, que na verdade são apenas um,
satisfazem no mínimo uma das condições exigidas na mencionada definição, a saber, a
condição (a) de que o elemento pertença ao conjunto de premissas (aÎG). CQD71
Vale à pena observar que, na prova acima, nós não supomos nada além do que foi
estabelecido nas definições; agir de outra forma poderia ter comprometido a validade
de nossa demonstração.
Uma consequência do teorema 4.1 é que, se dois conjuntos de fórmulas G e D são
tais que D5G, então G„D. Temos então o seguinte corolário do teorema 4.1:

COROLÁRIO 4.1 Seja C=<L,S,L> um cálculo axiomático e G,D5L dois conjun-


tos de fórmulas. Se D5G então G„D em C.
Prova A prova desse corolário é uma aplicação trivial do teorema 4.1. Supondo
que D5G, como todo aÎD é tal que aÎG (definição 1.15), pelo teorema 4.1 temos que
G„a. Mas como isso vale para todo aÎD, de acordo com a definição 1.15, temos
que G„D. CQD
A segunda propriedade geral de cálculos axiomáticos que iremos mencionar aqui é
o que chamamos no capítulo 2 de transitividade da relação de dedução: se três conjuntos
de fórmulas G, D e F são tais que D é deduzido a partir de G e F é deduzido a partir de D,

71. Seguindo prática comum, marcaremos o fim de nossas demonstrações de metateoremas ou corolários utilizan-
do a sigla CQD, que significa Conforme Queríamos Demonstrar.

276
então F é deduzido a partir de G. Segue abaixo a descrição formal dessa propriedade se-
guido de sua prova:

TEOREMA 4.2 Seja C=<L,S,L> um cálculo axiomático e G,D,F5L três conjun-


tos de fórmulas. Se G„D e D„F em C, então G„F em C.
Prova Novamente temos aqui um condicional. Devemos então, para provarmos
esse teorema, supor a veracidade do antecedente e, em seguida, amparados nessa supo-
sição, mostrar que o consequente é o caso. Executando a parte primeira dessa tarefa, su-
ponhamos que D é deduzido a partir de G e que F é deduzido a partir de D. Seja
D={g1,g2, ...,gk}. Se G„D, de acordo com a definição 1.15 todo giÎD é tal que G„gi. Isso
por sua vez nos permite concluir, de acordo com a definição 1.14, que para todo giÎD
existe uma derivação de gi a partir de G. Seja <g11,g12,...,g1> tal derivação de g1 a partir de
G, <g21, g22, ..., g2> tal derivação de g2 a partir de G, ..., e <gk1,gk2, ...,gk> tal derivação de gk
a partir de G. Como D„F, seguindo o mesmo raciocínio, temos que para todo fÎF
existe uma derivação de f a partir de D. Seja fÎF um membro arbitrário de F e
<f1,f2,...,f> uma tal derivação de f a partir de D. A sequência de fórmulas
J=<g11,g12,...,g1,g21,g22,...,g2,...,gk1,gk2,...,gk,f1,f2,...,f> então é uma derivação de f a partir
de G, pois, em primeiro lugar, como as sequências de fórmulas <g11,g12,...,g1>,
<g21,g22,...,g2>, etc. são derivações a partir de G, temos a garantia de que cada uma das
fórmulas g11, g12, ..., g1, g21, g22, ..., g2, ..., gk1, gk2, ..., gk satisfazem no mínimo um dos reque-
rimentos da definição 1.13. Segundo, cada uma das fórmulas f1, f2, ..., f satisfaz no míni-
mo um dos requerimentos da definição 1.13, pois como <f1,f2,...,f> é uma derivação de
f a partir de D e como todos os membros de D ={g1,g2,...,gk} estão presentes em J, o ele-
mento fi que tiver sua presença na derivação original de f a partir de D justificada de acor-
do com o item (a) da definição 1.13 (fiÎD) terá sua presença justificada em J da mesma
forma que o seu elemento de D correspondente (gÎD tal que g4fi ). Finalmente, o último
membro de J, a saber f, é idêntico à conclusão do argumento. Logo, existe uma deriva-
ção de f a partir de G, o que, de acordo com a definição 1.14, implica que G„f. Como su-
pomos inicialmente um membro arbitrário de F, temos que isso vale para todo e qual-
quer fÎF. Assim, de acordo com a definição 1.15 temos que G„F em C. CQD
O leitor deve ter notado que o teorema acima difere consideravelmente da versão
que demos no capítulo 2 para a transitividade da relação de dedução. Sendo construída
em termos de relação de dedução entre conjuntos de fórmulas, a formulação acima é, na
verdade, mais geral que a originalmente dada naquele capítulo, sendo esta última nada
mais do que uma consequência ou corolário desse teorema 4.2. Segue abaixo a descri-
ção formal seguida da prova desta versão original do teorema da transivitidade, antece-

277
dida por uma terceira versão que representa um meio termo em termos de generalidade
entre o teorema 4.2 e essa versão inicial.

COROLÁRIO 4.2 Seja C=<L,S,L> um cálculo axiomático, G,D5L dois conjuntos


de fórmulas e aÎL uma fórmula. Se G„D e D„a em C, então G„a em C.
Prova Como a maioria dos corolários, esse corolário é uma consequência trivial do
seu teorema correspondente, isto é, o teorema 4.2. Suponha que G„D e D„a. Como
D„a, de acordo com a definição 1.15 temos que D„{a}. Logo, de acordo com o teore-
ma 4.2, temos que G„{a}. Mas novamente, de acordo com a definição 1.15, isso impli-
ca que G„a. CQD

COROLÁRIO 4.3 Seja C=<L,S,L> um cálculo axiomático, G5L um conjunto de


fórmulas e a,bÎL duas fórmulas. Se G„b e {b}„a em C, então G„a em C.
Prova Como {b} é obviamente um conjunto, esse corolário é simplesmente uma
instância particular do corolário 4.2: supondo que G„b e {b}„a, de acordo com o co-
rolário 4.2 temos que G„a. CQD
Um terceiro corolário que podemos obter a partir do teorema 4.2 é uma versão preli-
minar do teorema da regra derivada que mostramos no capítulo 672: se dois conjuntos de
fórmulas G e D e uma fórmula a são tais que D é deduzido a partir de G e a é deduzido a
partir de G e D, então a é deduzido a partir de G. Além do teorema 4.2 (na forma do coro-
lário 4.2), também utilizamos na prova desse novo corolário o corolário 4.1 do teorema 4.1:

COROLÁRIO 4.4 Seja C=<L,S,L> um cálculo axiomático, G,D5L dois conjuntos


de fórmulas e aÎL uma fórmula. Se G„D e GÈD„a em C, então G„a em C.
Prova Supondo a veracidade do antecedente desse corolário, isto é, que G„D e
GÈD„a, nós temos o que segue. Primeiro, de acordo com o corolário 4.1, temos que
G„G. Mas se G„D e G„G, então de acordo com a definição 1.15, G„GÈD, pois se todo
aÎG e todo bÎD são tais que G„a e G„b, então todo jÎGÈD é tal que G„j. Mas se
G„GÈD e GÈD„a, então de acordo com o corolário 4.2, temos que G„a. CQD
A terceira e última propriedade dos sistemas lógicos que vamos mostrar aqui é o
que chamamos no capítulo 2 de monotonicidade da relação de dedução ou, em outras pala-
vras, a conservação da relação de inferência entre uma fórmula a e um conjunto de fór-

72. Que o corolário 4.4 é efetivamente uma versão preliminar do teorema da regra derivada ficará claro quando, na
seção 12.3, usarmos tal corolário para provarmos o mencionado teorema.

278
mulas G quando adicionamos novas fórmulas à G. Se a é deduzido a partir de G, então a
é deduzido também a partir de qualquer conjunto que contenha G. Formalmente nós
temos como segue:

TEOREMA 4.3 Seja C=<L,S,L> um cálculo axiomático, G,D5L dois conjuntos


de fórmulas e aÎL uma fórmula. Se G5D e G„a em C então D„a em C.
Prova Seguindo a mesma prática das provas anteriores, para provarmos esse teore-
ma suporemos que G5D e G„a e então mostraremos que disso segue que D„a. Fa-
zendo então as mencionadas suposições, temos, de acordo com a definição 1.14, que
existe uma derivação W de a a partir de G. Trivialmente então, tal derivação também
será uma derivação de a a partir de D, pois como todos os elementos de G são também
elementos de D, para todo elemento j de W cuja presença é justificada através do item
(a) da definição 1.13 (jÎG), temos que o mesmo item é satisfeito em relação à D (jÎD).
Logo, de acordo com a definição 1.14, D„a. CQD

12.2 Corolários semânticos e sintáticos


Dando continuidade a nossa introdução à metalógica e à prova de metateoremas,
daremos início à prova dos teoremas e corolários que introduzimos e utilizamos nos ca-
pítulos 4, 6, 7, 8 e 11. Começaremos, nesta seção, pelos corolários dos capítulos 4, 6 e 7,
visto que as provas de tais resultados envolvem um grau menor de dificuldade que as
provas dos demais resultados.
No capítulo 4, na definição 1.5, nós definimos uma tautologia como sendo uma fór-
mula a tal que, para todo modelo M, Mía; e na definição 1.7 nós definimos a como
sendo uma consequência lógica de G se e somente se, para todo modelo M tal que
MíG, Mía. Então no corolário 1.1, nós estabelecemos uma relação importante entre
essas duas noções de um sistema semântico: toda tautologia a é tal que a é uma conse-
quência lógica do conjunto vazio, e vice-versa. Obviamente que apenas enunciar tal re-
sultado não é suficiente: nós temos que demonstrar ou provar que o que é dito no coro-
lário 1.1 é realmente o caso; isso que é feito logo a seguir:

COROLÁRIO 1.1 Seja L uma linguagem lógica, í uma relação de satisfatibilidade


em L, e aÎL uma fórmula. a é uma tautologia se e somente se ^ëa (caso no qual es-
crevemos simplesmente ëa).
Prova O que o corolário 1.1 afirma na verdade são duas proposições condicionais:
que, dada uma linguagem L, uma relação de satisfatibilidade em L í e uma fórmula

279
aÎL, (1) se a é uma tautologia, então ^ëa, e (2) se ^ëa, então a é uma tautologia.
Assim, para provarmos tal corolário, temos que provar cada uma dessas duas proposi-
ções. Comecemos por (1). Novamente, o que temos de fazer é supor que a é uma tau-
tologia e, a partir daí, concluirmos que ^ëa. Fazendo tal suposição, de acordo com a
definição 1.5, temos que para todo modelo M, Mía. Mas de acordo com a definição
1.7, ^ëa se e somente se, para todo modelo M tal que Mí^, Mía. Mas quais são es-
ses modelos que satisfazem ^ (Mí^)? De acordo com a definição 1.6, item (i), um
modelo M satisfaz um conjunto de fórmulas G, em símbolos MíG, se e somente se,
para todo bÎG, Míb. Mas veja que ^ não contém membro algum. Qual seriam então
os modelos que satisfariam ^? Isso pode ser respondido quando lemos tal item da defi-
nição 1.6 de uma maneira equivalente, mas um pouco diferente: MÔG, se e somente se,
para algum bÎG, MÔb. Vendo dessa forma, um modelo M não satisfaz ^ (MÔ^)
quando há um elemento bÎ^ tal que MÓb. Mas trivialmente ^ não contém elemen-
to algum; consequentemente não há modelo que não o satisfaça, o que é o mesmo que
dizer que todos os modelos satisfazem o conjunto vazio. Assim temos que o conjunto
vazio é tal que, para todo e qualquer modelo M, Mí^. Assim, reescrevendo a defini-
ção 1.7 aplicada ao conjunto vazio e já incorporando essa nossa conclusão, temos que
^ëa se e somente se, para todo modelo M, Mía. Mas de acordo com a nossa suposi-
ção, sendo a uma tautologia, a é tal que para todo modelo M, Mía. Logo a também é
tal que ^ëa, ou seja, a é uma consequência lógica de ^. Assim provamos (1). Dado
isso, a prova de (2) é trivial. Supondo que ^ëa, de acordo com o exposto acima temos
que para todo modelo M, Mía. Disso segue, de acordo com a definição 1.5, que a é
uma tautologia. CQD
A prova do corolário 1.2 segue a mesma lógica usada na prova acima para reescre-
ver o item (i) da definição 1.6: na definição 1.6 temos explicitado um caso positivo, a sa-
ber, as condições nas quais M satisfaz G; mas como, por conta do uso da expressão “se e
somente se”, tal definição exaure todas as possibilidades nas quais M satisfaz G, está au-
tomaticamente presente na definição também a especificação do caso negativo, a saber,
as condições nas quais M não satisfaz G, que obviamente consistem na não satisfação
das condições para o caso positivo (se não é verdade que para todo bÎG, Míb, então é
por que há no mínimo um bÎG tal que MÔb, e vice-versa). A maneira como tal raciocí-
nio é aplicado ao corolário 1.2, que é bastante simples, é exibida logo abaixo.

COROLÁRIO 1.2 Seja M um modelo, pÎP um símbolo proposicional qualquer e


a,bÎLP duas fórmulas quaisquer.
(i) MÔp sss M(p)=F;

280
(ii) MÔØa sss Mía;
(iii) MÔaÙb sss MÔa ou MÔb;
(iv) MÔaÚb sss MÔa e MÔb;
(v) MÔa®b sss Mía e MÔb.
Prova A definição 1.10, da qual o resultado acima é um corolário, contém cinco
itens estabelecendo definições positivas semelhantes aos da definição 1.6. Assim, para
construirmos os seus respectivos casos negativos, que é o conteúdo do corolário 1.2,
basta considerarmos a não satisfação de suas respectivas condições. Por exemplo, o
item (v) da definição 1.10 diz que Mía®b se e somente se MÔa ou Míb. De posse
dessa informação, sabemos de forma trivial em que condições MÔa®b: quando não é
o caso que MÔa ou Míb, ou seja, quando Mía e MÔb. Assim MÔa®b sss Míb e
MÔb. Procedendo dessa forma provamos facilmente os demais itens do corolário, coi-
sa que, dada sua trivialidade, podemos nos abster de detalhar. CQD
O leitor talvez tenha estranhado a nossa omissão, na demonstração acima, em relação
aos itens (i)-(iv) do corolário 1.2. Tal fato, no entanto, é plenamente justificável, conforme
mencionamos no próprio texto, pela demonstração que fornecemos do item (v) do coro-
lário e consequente trivialidade em relação à prova dos demais itens. Adotaremos proce-
dimento semelhante sempre que a demonstração do resultado em questão não envolver
maiores dificuldades em relação à sua compreensão, seja porque o raciocínio a ser usado
na sua prova já foi usado em outra demonstração ou em virtude da trivialidade mesma in-
trínseca à sua demonstração73. Consideremos agora os corolários 2.1 e 2.2:

COROLÁRIO 2.1 CP é uma extensão conservativa de C®.


Prova De acordo com a definição 2.1, o cálculo C” é uma extensão conservativa de
outro cálculo C’ se eles compartilham a mesma linguagem L e o mesmo conjunto de in-
ferências admissíveis S e para todo G5L e todo aÎL, se G„a em C’ então G„a em C”.
Assim, dado que dois cálculos C’ e C” satisfazem esse primeiro requisito, tudo o que te-
mos que fazer para provar que C” é uma extensão conservativa de C’ é, supondo que
G„a em C’, para um G e a quaisquer, provar que G„a em C”. Veja que enquanto o cál-
culo proposicional CP é definido como sendo <LP,SMP,LP1-P11> (definição 1.21), o cálculo
da implicação material C® é definido como sendo a tripla <LP,SMP,LP1-P2>. Assim, eles
efetivamente compartilham a mesma linguagem lógica e o mesmo conjunto de inferên-
cias admissíveis. Agora suponha que, para um dado conjunto de fórmulas G e uma dada

73. Poderíamos, por exemplo, sem prejuízo nenhum para a clareza e rigor de nossa exposição, ter omitido as provas
dos corolários da seção passada.

281
fórmula a arbitrários, G„a em C®. De acordo com a definição 1.14, se G„a em C®
então existe uma derivação de a a partir de G em C®. Por sua vez, a definição 1.13 nos
diz que se há uma derivação <b1,...,bn> de a a partir de G em C®, então cada bi é tal que
(a) biÎG, (b) biÎL ou (c) existe uma inferência admissível bj1,...,bjn / bi ÎS tal que j1, ...,
jn<i. Veja, no entanto, que como todos os axiomas e inferências admissíveis de C® tam-
bém são axiomas e inferências admissíveis de CP, <b1,...,bn> também é, de acordo com
a definição 1.13, uma derivação de a a partir de G em CP. Assim, de acordo com a defi-
nição 1.14, temos que G„a em CP, o que implica que CP é uma extensão conservativa de
C®. CQD
Apesar da elaboração textual da demonstração acima, uma breve inspeção nas defi-
nições envolvidas e no fato de o conjunto de axiomas de C® estar contido no conjunto
de axiomas de CP é suficiente para nos convencermos da veracidade do corolário 2.1.
Mais trivial ainda é a prova do corolário 2.2.

COROLÁRIO 2.2 As relações mencionadas no teorema 2.1 também são válidas em


CP.
Prova Como CP é uma extensão conservativa de C®, para todo G e a, se G„a em
C® então G„a em CP. Dessa forma, trivialmente todas as relações exibidas no teorema
2.1, que dizem respeito à C®, também são válidas em CP. CQD
Com exceção do corolário 2.3, as provas dos demais corolários dos capítulos 6 e 7
utilizam o mesmo raciocínio e apresentam o mesmo grau de trivialidade das demonstra-
ções dos corolários 2.1 e 2.2 acima. Assim não nos daremos ao trabalho de exibir suas
provas. A prova do corolário 2.3 é dada na seção que segue.

12.3 Teoremas da dedução, da regra derivada e da redução ao absurdo


Nesta seção provaremos os três meta-resultados fundamentais exibidos nos capítu-
los 6, 7, 8 e 11: o teorema da dedução, o teorema da regra derivada e os teoremas da re-
dução ao absurdo. Comecemos pelo teorema da dedução:

TEOREMA 2.2 Seja C=<L,S,L> uma extensão conservativa de C®, G5L um con-
junto de fórmulas e a,bÎL duas fórmulas. Se GÈ{a}„b em C, então G„a®b em C.
Prova Seguindo nossa prática padrão, para provarmos esse teorema nós temos que,
supondo que GÈ{a}„b em C, provar que G„a®b em C. Fazendo então tal suposição,
temos que, pela definição 1.14, há uma derivação W de a a partir de GÈ{a} em C. Assim,
para provarmos a partir disso que G„a®b, basta que, de acordo com a mesma definição,

282
consigamos de alguma forma transformar W em uma derivação de a®b a partir de G. Nós
faremos isso usando uma das mais tradicionais técnicas de prova matemática: a chamada
prova por indução74. Mais especificamente, faremos uma prova por indução pelo tamanho
da derivação. Provaremos primeiro que o resultado vale para o caso mais simples, isto é,
para casos com derivação de tamanho 1. Após isso, provaremos que se o resultado vale para
derivações de tamanho menor que n, sendo n um número natural arbitrário maior que zero,
então ele vale para derivações de tamanho n. Juntando essas duas coisas, temos então que,
como o resultado vale para derivações de tamanho 1, ele vale também para derivações de
tamanho 2 e, como vale para derivações de tamanho 2, vale também para derivações de
tamanho 3 e, como vale para derivações de tamanho 3, vale também para derivações de
tamanho 4, e assim por diante, o que significa obviamente que o resultado vale para deriva-
ções de qualquer tamanho. Comecemos então pelo caso mais simples, supondo que
GÈ{a}„b e que há uma derivação W de b a partir de GÈ{a} de tamanho 1. Nesse caso,
pela definição 1.13, a derivação W={b} é tal que ou (1.a) b é um axioma ou b é uma das pre-
missas, caso no qual ou (1.b) bÎG ou (1.c) b4a. Em cada um desses três casos, podemos
construir uma derivação de a®b a partir de G como segue:
(1.a) G„a®b
1. b axioma
2. b®(a®b) P1
3. a®b MP 1,2
(1.b) G„a®b
1. b premissa
2. b®(a®b) P1
3. a®b MP 1,2
(1.c) G„a®b
1. b®b I3
Dessa forma, provamos que, para o caso mais simples de derivações de tamanho 1,
se GÈ{a}„b então G„a®b. Agora nós iremos supor que se GÈ{a}„b e há uma de-
rivação de tamanho menor que n de b a partir de GÈ{a}, então G„a®b, suposição
esta que damos o nome de hipótese de indução. Suponhamos agora que GÈ{a}„b e que
há uma derivação W={b1,b2,...,bn-1,b} de tamanho n de b a partir de GÈ{a}. Conside-

74. Veja que apesar do uso da palavra “indução”, tal método não tem nada a ver com a noção de inferência indutiva
introduzida no capítulo 1; o que temos aqui é nada mais do que a mesma palavra – indução – sendo usada com dois
sentidos diferentes.

283
rando isso, então pela definição 1.13, b é tal que ou (2.a) b é um axioma, ou b é uma das
premissas, caso no qual ou (2.b) bÎG ou (2.c) b4a, ou b é obtida via MP a partir de
dois membros anteriores da derivação, o que significa que (2.d) existem bk e bj (k,j<n)
tal que bj4bk®b. Nossa tarefa agora é mostrar que, para cada uma dessas possibilida-
des, podemos construir uma derivação de a®b a partir de G. Para os casos (2.a), (2.b) e
(2.c), o procedimento é idêntico, respectivamente, ao que fizemos acima para os casos
(1.a), (1.b) e (1.c). Resta-nos então considerar o caso (2.d). Como bj e bk são membros
de W, que é uma derivação de tamanho n de b a partir de GÈ{a}, então bk e bj são tais
que GÈ{a}„bk e GÈ{a}„bj. Mas como k e j são menores que n, temos que a deriva-
ção de bk a partir de GÈ{a} e a derivação de bj a partir de GÈ{a} são de tamanho me-
nor que n. De acordo então com a hipótese de indução, temos que G„a®bk e
G„a®bj, que por sua vez é o mesmo que G„a®(bk®b). Assim temos que há uma
derivação Wk de a®bk a partir de G, e uma derivação Wj de a®(bk®b) a partir de G. A par-
tir dessas duas derivações, podemos então construir uma derivação de a®b a partir de G:
(2.d) G„a®b
... <cópia dos membros de Wk>
k. a®bk <justificativa de a®bk em Wk>
... <cópia dos membros de Wj>
k+j. a®(bk®b) <justificativa de a®bj em Wj>
k+j+1. (a®(bk®b))®((a®bk)®(a®b)) P2
k+j+2. (a®bk)®(a®b) MP k+j,k+j+1
k+j+3. a®b MP k,k+j+2
Assim provamos que se GÈ{a}„b em C, então G„a®b em C. CQD
É interessante observar que há uma versão semântica para o teorema da dedução, a
menção do qual nós aproveitaremos para ilustrar como o método de prova por redução
ao absurdo pode ser usado na prova de metateoremas:

TEOREMA 4.4 Seja G5LP um conjunto de fórmulas, a,bÎLP duas fórmulas e ë a


relação de consequência lógica da lógica clássica proposicional. Se GÈ{a}ëb então
Gëa®b.
Prova Queremos aqui provar que se b é uma consequência lógica de GÈ{a} então
a®b é uma consequência lógica de G. Conforme adiantamos, faremos isso utilizando a
ideia já mencionada por nós diversas vezes da prova por redução ao absurdo. A ideia
aqui é supormos que GÈ{a}ëb mas que GÓa®b e daí chegarmos a alguma contradi-

284
ção, o que nos permitirá concluir que a®b é efetivamente uma consequência lógica de
G. Fazendo então nossa primeira suposição, temos que, de acordo com a definição 1.7,
para todo e qualquer modelo M tal que MíGÈ{a}, Míb. De acordo com a mesma
definição, temos para a segunda suposição que existe um modelo M tal que MíG e
MÔa®b. De acordo com a definição 1.10, como MÔa®b, então temos que Mía e
MÔb. Mas se M satisfaz G e a (MíG e Mía) então M trivialmente satisfaz o conjunto
GÈ{a} (MíGÈ{a}). Assim temos que existe um modelo M tal que MíGÈ{a} e
MÔb. Mas isso contradiz a nossa suposição inicial de acordo com a qual para todo e
qualquer modelo M tal que MíGÈ{a}, Míb. Assim temos que não há um modelo M
tal que MíG e MÔa®b. Logo, para todo e qualquer modelo M tal que MíG,
Mía®b. Portanto, de acordo com a definição 1.7, Gëa®b. CQD
Agora podemos ir para a prova do teorema da regra derivada, a qual é seguida da
prova do corolário 2.3:

TEOREMA 2.5 Seja C=<L,S,L> um cálculo axiomático, G,D1, ...,Dn5L n+1 con-
juntos de fórmulas e a,b1,...,bnÎL n+1 fórmulas. Se, no cálculo C, D1„b1,..., Dn„bn e
G„D1,..., G„Dn e GÈ{b1,...,bn}„a, então G„a em C.
Prova Diferentemente do teorema da dedução, que se aplica apenas a extensões con-
servativas do cálculo da implicação material, o teorema da regra derivada é um resultado
que se aplica a todo e qualquer cálculo axiomático. Basicamente ele diz que, dado um cál-
culo axiomático C=<L,S,L>, n+1 conjuntos de fórmulas G,D1, ...,Dn5L e n+1 fórmulas
a,b1,...,bnÎL, se D1„b1,..., Dn„bn e G„D1,..., G„Dn e GÈ{b1,...,bn}„a, então G„a.
Assim, para provarmos tal teorema, tudo o que devemos fazer é, supondo que D1„b1,...,
Dn„bn, G„D1,..., G„Dn e GÈ{b1,...,bn}„a, mostrar que G„a. Fazendo então tal suposi-
ção, temos primeiramente que, como G„D1,..., G„Dn, G„D1È...ÈDn (definição 1.15). Se-
gundo, como D1„b1,..., Dn„bn, temos que D1È...ÈDn„{b1,...,bn}. Juntando essas duas
coisas, ou seja, que G„D1È...ÈDn e que D1È...ÈDn„{b1,...,bn}, de acordo com o teorema
4.2, nós temos que G„{b1,...,bn}. Finalmente, como G„{b1,...,bn} e como
GÈ{b1,...,bn}„a, de acordo com o corolário 4.4 nós temos que G„a em C. CQD

COROLÁRIO 2.3 Seja C=<L,S,L> um cálculo axiomático, G5L um conjunto de


fórmulas e a,b1,...,bnÎL n+1 fórmulas. Se, no cálculo C, „b1,..., „bn e GÈ{b1,...,
bn}„a, então G„a em C.
Prova O colorolário 2.3, conforme observamos no capítulo 6, é nada mais do que
um caso particular do teorema 2.5. De acordo com o seu antecendente, ^„b1,...,

285
^„bn e GÈ{b1,..., bn}„a. No entanto, conforme observado no capítulo 5, de acordo
com a definição 1.15, D„^ para todo e qualquer conjunto D; em particular temos que
G„^. Assim temos que ^„b1,..., ^„bn e G„^ e GÈ{b1,...,bn}„a. Logo, de acordo
com o teorema 2.5, temos que G„a em C. CQD
Para finalizar os teoremas da lógica proposicional, temos abaixo a prova dos dois
teoremas de redução ao absurdo:

TEOREMA 2.12 Seja C=<L,S,L> uma extensão conservativa de CØm-, G5L um


conjunto de fórmulas e a,bÎL duas fórmulas. Se GÈ{a}„b e GÈ{a}„Øb, então
G„Øa em C.
Prova Nesse teorema, que vale apenas para extensões conservativas do cálculo fra-
co da negação minimal, é afirmado que se GÈ{a}„b e GÈ{a}„Øb, então G„Øa.
Assim, o que temos que fazer para prová-lo é, supondo que GÈ{a}„b e GÈ{a}„Øb,
mostrar que G„Øa. Fazendo então tal suposição, temos que há uma deriação W1 de b a
partir de GÈ{a} e uma derivação W2 de Øb a partir de GÈ{a}. Seja n seja o número de
elementos da derivação W1 e m o número de elementos de W2. Dessa forma, podemos a
partir de W1 e W2 construir uma derivação de Øa a partir de GÈ{a} como segue:
... <cópia dos membros de W1>
n. b <justificativa de b em W1>
... <cópia dos membros de W2>
n+m. Øb <justificativa de Øb em W2>
n+m+1. b®(a®b) P1
n+m+2. a®b MP n,n+m+1
n+m+3. Øb®(a®Øb) P1
n+m+4. a®Øb MP n+m,n+m+3
n+m+5. (a®b)®((a®Øb)®Øa) P9
n+m+6. (a®Øb)®Øa MP n+m+2,n+m+5
n+m+7. Øa MP n+m+4,n+m+6
Assim temos que GÈ{a}„Øa. Mas de acordo com o teorema da dedução, nós te-
mos que G„a®Øa. Dessa forma temos que existe uma derivação W3 de a®Øa a par-
tir de G. Semelhantemente a como fizemos acima, e chamando de k o número de ele-
mentos de W3, é possível construir a partir de W3 uma derivação de Øa a partir de G:
... <cópia dos membros de W3>
k. a®Øa <justificativa de a®Øa em W3>

286
k+1. a®a I3
k+2. (a®a)®((a®Øa)®Øa) P9
k+3. (a®Øa)®Øa MP k+1,k+2
k+4. Øa MP k,k+3
Assim temos que G„Øa em C. CQD

TEOREMA 2.17 Seja G5LP um conjunto de fórmulas e a,bÎLP duas fórmulas. Se


GÈ{Øa}„b e GÈ{Øa}„Øb em CP então G„a em CP.
Prova Como seria de se esperar, a prova do teorema 2.17 é bastante semelhante à
prova do teorema 2.12. Na verdade, nós podemos fazer uso de tal teorema para pro-
var o teorema 2.17, visto que o teorema 2.17 se aplica ao cálculo clássico proposicio-
nal, que é uma extensão conservativa do cálculo fraco da negação minimal. Supondo
que GÈ{Øa}„b e GÈ{Øa}„Øb, temos então, de acordo com o teorema 2.12, que
G„ØØa, o que significa que há uma derivação W de ØØa a partir de G. Seja n o tama-
nho dessa derivação. Podemos então facilmente, a partir dessa derivação, construir uma
derivação de a a partir de G:
… <cópia dos membros de W>
n. ØØa <justificativa de ØØa em W>
n+1. ØØa«a Nc1
n+2. ØØa®a C1 n+1
n+3. a MP n,n+3
Portanto, temos que G„a. CQD
No que se refere aos teoremas do cálculo de primeira ordem, temos primeiramente
que as provas dos teoremas da redução ao absurdo (teoremas 3.1 e 3.2) são idênticas,
respectivamente, às provas dos teoremas 2.12 e 2.17 que demos na seção anterior. Ape-
nas chamamos atenção para o uso do teorema da dedução na prova do teorema 2.12.
Como sabemos, no cálculo de primeira ordem, o teorema da dedução tem uma restri-
ção: para que possamos concluir G„a®b a partir de GÈ{a}„b, deve existir uma deri-
vação de b a partir de GÈ{a} que seja G-livre com respeito à a. No entanto, como ve-
remos na prova desse teorema, a ser exibida logo abaixo, tal restrição só se aplica nos
casos em que b é da forma "xj, o que não pode ser o caso no uso que faremos de tal te-
orema na prova do teorema 3.1, visto que se trata na verdade de uma fórmula do tipo
Øj. Assim, nos absteremos de exibir as provas dos teoremas 3.1 e 3.2. Segue abaixo as
provas dos teoremas 3.3 e 3.4:

287
TEOREMA 3.3 Seja G5L1 um conjunto de fórmulas e a,bÎL1 duas fórmulas. Se
GÈ{a}„b, em que existe uma derivação de b a partir de GÈ{a} que seja G-livre com
respeito à a, então G„®b.
Prova A prova desse teorema segue o mesmo raciocínio usado na prova do teore-
ma 2.2. A partir da suposição de que GÈ{a}„b e que existe uma derivação de b a partir
de GÈ{a} que seja G-livre com respeito à a, temos que provar que G„a®b. Fazendo
tal suposição, temos, de acordo com a definição 1.14, que há uma derivação W de a a
partir de GÈ{a} em C. Assim, para provarmos o teorema 3.3, basta que transforme-
mos W em uma derivação de a®b a partir de G. Novamente aqui nós teremos que fazer
uma prova por indução pelo tamanho da derivação. No que se refere ao caso mais sim-
ples, ou seja, ao caso em que GÈ{a}„b e que existe uma derivação de b a partir de
GÈ{a} de tamanho 1 que seja G-livre com respeito à a, a prova de que existe uma deri-
vação de derivação de a®b a partir de G é idêntica ao respectivo caso da prova do teo-
rema 2.2; assim nos absteremos de exibi-la. Dessa forma então, temos provado que,
para o caso mais simples de derivações de tamanho 1, se GÈ{a}„b e existe uma deri-
vação de b a partir de GÈ{a} que seja G-livre com respeito à a, então G„a®b. Faça-
mos agora a nossa hipótese de indução: suponhamos que se GÈ{a}„b e há uma deri-
vação de b a partir de GÈ{a} de tamanho menor que n que seja G-livre com respeito à
a, então G„a®b. Suponhamos em adição a isso que GÈ{a}„b e que há uma deriva-
ção W=<b1,b2,...,bn-1,b> de tamanho n de b a partir de GÈ{a} que seja G-livre com res-
peito à a. Considerando isso, pela definição 1.13, b é tal que ou (a) b é um axioma, ou b
é uma das premissas, caso no qual ou (b) bÎG ou (c) b4a, ou b é obtida via MP a partir
de dois membros anteriores da derivação, o que significa que (d) existem bk e bj (k,j<n)
tal que bj4bk®b, ou b é obtida via G a partir de um membro anterior da derivação, o
que significa que (e) existe bj (j<n) tal que b4"xbj. Nossa tarefa então é mostrar que,
para cada uma dessas possibilidades, podemos construir uma derivação de a®b a par-
tir de G. Para os casos (a), (b) e (c), o procedimento de prova é idêntico à prova do caso
mais simples de derivação de tamanho 1. Para o caso (d), a prova de que podemos cons-
truir uma derivação de a®b a partir de G é idêntica à prova do caso (2.d) do teorema
2.2. Resta-nos então considerar o caso (e). Repetindo, em tal caso b é obtida via G a par-
tir de um membro anterior da derivação W, significando então que existe bjÎW (j<n) tal
que b4"xbj. Aqui consideraremos as duas possibilidades da posição de bj em relação à
a em W. A primeira é que a não aparece na derivação antes que bj. Isso significa que se
existir l£ n tal que a4bl, então j<l. Outra consequência disso é que G„bj, pois a sequên-
cia de fórmulas Wj=<b1,b2,...,bj>, que não contém a, é uma derivação de bj a partir de G.
Temos então que G„a®"xbj, ou equivalentemente, que G„a®b, pois Wj pode ser
estendida de forma a obtermos a seguinte derivação de a®"xbj a partir de G:

288
... <cópia dos membros de Wj>
j. bj <justificativa de bj em Wj>
j+1. "xbj Gj
j+2. "xbj®(a®"xbj) P1
j+3. a®"xbj MP j+1,j+2
A segunda possibilidade é que a apareça antes de bj em W, ou seja, que
W=<b1,b2,...,bi,...,bj,...,bn-1,b>, em que bi4a e i<j. Mas como b4"xbj e i<j, então x não
é livre em a, pois W é G-livre com respeito à a. Mas como Wj=<b1,b2,...,bj> é obvia-
mente uma derivação de bj a partir de GÈ{a}, então temos que GÈ{a}„bj. Como W é
G-livre com respeito à a, temos então que Wj também é G-livre com respeito à a. Assim,
como Wj é uma derivação de tamanho menor que n, de acordo com a nossa hipótese de
indução, temos que G„a®bj. Chamando essa derivação de Wk, onde k é o tamanho de
Wk, podemos estender Wk de forma a obtermos uma derivação de a®b a partir de G:
... <cópia dos membros de Wk>
k. a®bj <justificativa de a®bj em Wk>
k+1. "x(a®bj) Gk
k+2. "x(a®bj)®(a®"xbj) P13
k+3. a®"xbj MP k+1,k+2
Repare que pudemos usar o axioma P13 em k+2 pois, como concluímos acima, x
não é livre em a. Assim temos que G„a®b. CQD

TEOREMA 3.4 Seja G5L1 um conjunto de fórmulas e a,bÎL1 duas fórmulas. Se


GÈ{a1,...,an}„b, em que existe uma derivação de b a partir de GÈ{a1,...,an} que seja
G-livre com respeito à a1, ... e an, então G„(a1®(a2®(...®(an®b)...))).
Prova A prova desse teorema segue do fato óbvio de, no caso de GÈ{a1,...,an}„b
e existir uma derivação de b a partir de GÈ{a1,...,an} que seja G-livre com respeito à a1,
... e an, podermos usar o teorema 3.3 n vezes para concluirmos
G„(a1®(a2®(...®(an®b)...))). CQD

12.4 Teoremas da corretude e completude


Conforme dito no capítulo 2 e ilustrado no decorrer dos demais capítulos, a relação
de inferência de um sistema lógico pode ser definida de duas maneiras distintas: sintati-
camente e semanticamente. Decidimos representar o primeiro tipo de formulação da
relação de inferência através do símbolo „, e o segundo através do símbolo ë. Um sis-

289
tema lógico então seria definido como uma tripla <L,„,ë> onde L é sua linguagem ló-
gica, „ sua relação de inferência definida sintaticamente e ë sua relação de inferência
definida semanticamente. Essa formulação obviamente levanta a seguinte questão:
como saber se a definição sintática „ e a definição semântica ë definem realmente a
mesma coisa? Em outras palavras, como saber se é o caso que, para um conjunto de fór-
mulas G5L e uma fórmula aÎL quaisquer, se (1) G„a então Gëa e (2) se Gëa então
G„a. Conforme já mencionamos, chamamos (1) corretude e (2) a completude do siste-
ma lógico em questão. Uma consequência óbvia de um sistema lógico ser correto e
completo é que haverá uma equivalência entre suas tautologias e seus teoremas lógicos;
em outras palavras, se aÎL é um teorema lógico („a), então a também é uma tautolo-
gia (ëa), e se a é uma tautologia, então a também é um teorema lógico. Também cha-
mamos esses dois resultados, respectivamente, de corretude e completude restritas.
Conforme já falamos, a prova da corretude e completude de sistemas lógicos é um dos
resultados mais importantes da metalógica.
Considere por exemplo a lógica clássica proposicional. Definimos nos capítulos 4 e
5, respectivamente, a relação de consequência lógica da lógica proposicional e a relação
de dedução do cálculo clássico proposicional. Assim, o sistema lógico que estamos cha-
mando de lógica clássica proposicional será correto e completo se e somente se os dois
metateoremas abaixo forem verdadeiros:

TEOREMA 4.5 Seja G5LP um conjunto de fórmulas e aÎLP uma fórmula. Se G„a
então Gëa.

TEOREMA 4.6 Seja G5LP um conjunto de fórmulas e aÎLP uma fórmula. Se Gëa
então G„a.
Esses por sua vez terão como casos especiais os dois teoremas abaixo:

TEOREMA 4.7 Seja aÎLP uma fórmula. Se „a então ëa.

TEOREMA 4.8 Seja aÎLP uma fórmula. Se ëa então „a.


Conforme já deve estar claro neste ponto, os teoremas 4.5, 4.6, 4.7 e 4.8 são, respec-
tivamente, o teorema da corretude, o teorema da completude, o teorema da corretude
restrita e o teorema da completude restrita da lógica clássica proposicional. Na tentativa
de ilustrar a prova dessa importante classe de metateoremas, exibiremos a seguir as pro-
vas desses teoremas. Começaremos pelos teoremas da corretude. Antes, porém, de exi-
birmos as provas dos teoremas 4.5 e 4.7, provaremos dois metarresultados que ajudarão

290
a encurtar as mencionadas provas, sendo o primeiro o metateorema que diz que todo
axioma do cálculo proposicional é uma tautologia, e o segundo o que estabelece que a
regra de modus ponens preserva a relação de consequência lógica.

TEOREMA 4.9 Seja aÎLP uma fórmula. Se a é um axioma do cálculo clássico pro-
posicional (em símbolos: aÎLP1-P11) então ëa.
Prova Sabemos pelo corolário 1.1 que se ëa então a é uma tautologia. Assim o
que o teorema 4.9 nos diz é que todo axioma do cálculo proposicional é uma tautologia.
Para provarmos esse teorema, devemos examinar cada um dos 11 axiomas do cálculo
proposicional e mostrar que cada um deles é uma tautologia. Em todos esses casos utili-
zaremos o método de prova por absurdo: suporemos que o axioma a é tal que Óa e daí
tentaremos chegar a uma contradição. Um resultado que será usado em todos os casos é
o seguinte: se Óa, então, de acordo com o corolário 1.1, a não é uma tautologia, o que
de acordo com a definição 1.5, permite-nos afirmar que há um modelo M tal que MÔa.
Em relação às inferências que faremos sobre a satisfatibilidade (Mía) e a insatisfatibili-
dade (MÔa) de uma fórmula a em um modelo M, estaremos nos apoiando na defini-
ção 1.10 e no corolário 1.2, respectivamente. Sejam a,b,jÎLP três fórmulas quaisquer
da linguagem proposicional:
P1. a®(b®a). Suponha que Óa®(b®a). Dessa forma, há um modelo M tal que
MÔa®(b®a). Como então MÔa®(b®a), temos que Mía e MÔb®a, o que por
sua vez implica que Míb e MÔa. Mas então temos aqui uma contradição: Mía e
MÔa. Logo, ëa®(b®a).
P2. (a®(b®j))®((a®b)®(a®j)). Suponha que Ó(a®(b®j))®((a®b)®
(a®j)). Assim temos que há um modelo M tal que MÔ(a®(b®j))®
((a®b)®(a®j)), o que implica que (1) Mía®(b®j) e (2) MÔ(a®b)®(a®j). Por
sua vez, se (2) MÔ(a®b)®(a®j) nós temos então que (2.1) Mía®b e (2.2)
MÔa®j. Mas se (2.2) MÔa®j, então temos que Mía e MÔj. Resolvendo então os
demais passos, nós temos que se (1) Mía®(b®j), então MÔa ou Míb®j. Como
nós já sabemos que Mía, não pode ser o caso que MÔa. Logo, Míb®j deve ser o
caso. Assim temos que MÔb ou Míj. Como nós já sabemos que MÔj, então deve ser
o caso que MÔb. Como (2.1) Mía®b, então temos que MÔa ou Míb. Mas como já
sabemos que Mía, então deve ser o caso que Míb. Mas isso é uma contradição, visto
que já tínhamos concluído que MÔb. Logo ë(a®(b®j))®((a®b)®(a®j)).
P3. aÙb®a. Supondo que ÓaÙb®a, temos que há um modelo M tal que
MíaÙb e MÔa. Se, no entanto, temos que MíaÙb, temos também que Mía e
Míb, o que contradiz MÔa. Logo, ëaÙb®a.

291
P4. aÙb®b. Supondo que ÓaÙb®b, temos que há um modelo M tal que
MíaÙb e MÔb. Se, no entanto, temos que MíaÙb, temos também que Mía e
Míb, o que contradiz MÔb. Logo, ëaÙb®b.
P5. a®(b®aÙb). Suponha que Óa®(b®aÙb). Assim temos que há um modelo
M tal que MÔa®(b®aÙb), o que equivale dizer que M é tal que Mía e MÔb®aÙb.
Como MÔb®aÙb, temos que Míb e MÔaÙb. Finalmente, como MÔaÙb, MÔa ou
MÔb. Se MÔa então temos uma contradição com a proposição de que Mía; se por ou-
tro lado MÔb, entramos em contradição com a conclusão anterior de que Míb. Logo,
ëa®(b®aÙb).
P6. a®aÚb. Supondo que Óa®aÚb, temos que existe um modelo M tal que
MÔa®aÚb. Isso significa que M é tal que Mía e MÔaÚb. Mas se MÔaÚb, então
MÔa e MÔb, o que contradiz a conclusão de que Mía. Logo, ëa®aÚb.
P7. b®aÚb. Supondo que Ób®aÚb, temos que existe um modelo M tal que
MÔb®aÚb. Isso significa que M é tal que Míb e MÔaÚb. Mas se MÔaÚb, então
MÔa e MÔb, o que contradiz a conclusão anterior de que Míb. Logo, ëa®aÚb.
P8. (a®j)®((b®j)®(aÚb®j)). Suponha que Ó(a®j)®((b®j)®(aÚb®j)).
Se isso é o caso, então existe um modelo M tal que MÔ(a®j)®((b®j)®(aÚb®j)),
o que implica que M é tal que (1) Mía®j e (2) MÔ(b®j)®(aÚb®j). Mas se (2)
MÔ(b®j)®(aÚb®j) então temos que (2.1) Míb®j e (2.2) MÔaÚb®j. Por sua
vez, se (2.2) MÔaÚb®j então MíaÚb e MÔj. Finalmente, como MíaÚb, então
(2.2.1) Mía ou (2.2.2) Míb. Resolvamos agora os passos pendentes de acordo com
essas duas possibilidades. Primeiramente, como (2.1) Míb®j, temos que MÔb ou
Míj. Como já sabemos que MÔj, então temos que MÔb. Segundo, como (1)
Mía®j, temos que MÔa ou Míj. Supondo que (2.2.1) Mía, temos que MÔa não
pode ser o caso; logo temos que Míj. Mas isso contradiz a nossa conclusão anterior
que MÔj. Supondo que (2.2.2) Míb, temos outra contradição, visto que concluímos
anteriormente que MÔb. Logo ë(a®j)®((b®j)®(aÚb®j)).
P9. (a®b)®((a®Øb)®Øa). Supondo que Ó(a®b)®((a®Øb)®Øa), nós te-
mos que há um modelo M tal que MÔ(a®b)®((a®Øb)®Øa), o que significa que (1)
Mía®b e (2) MÔ(a®Øb)®Øa. Como (2) MÔ(a®Øb)®Øa, temos que (2.1)
Mía®Øb e (2.2) MÔØa, o que implica que Mía. Como (2.1) Mía®Øb, então
MÔa ou MíØb, o que equivale a MÔb. Como já sabemos que Mía, então MÔa não
pode ser o caso; logo, MÔb. Finalmente, devido a (1) Mía®b temos que MÔa ou
Míb. Supondo que MÔa nós chegamos a uma contradição, pois já tínhamos concluí-
do que Mía. Por outro lado, Míb contradiz MÔb, ou seja, algo que já tínhamos con-
cluído previamente. Logo, ë(a®b)®((a®Øb)®Øa).

292
P10. Øa®(a®b). Suponha que ÓØa®(a®b). Nesse caso temos que há um mo-
delo M tal que MÔØa®(a®b). Isso implica que MíØa, ou equivalentemente MÔa,
e MÔa®b. Por sua vez, como MÔa®b, temos que Mía e MÔb. Mas isso é uma
contradição, visto que já concluímos que MÔa. Portanto, ëØa®(a®b).
P11. aÚØa. Supondo que ÓaÚØa, temos que há um modelo M tal que
MÔaÚØa. Isso significa que MÔa e MÔØa, o que por sua vez implica que Mía.
Logo temos uma contradição. Portanto, ëaÚØa. CQD

TEOREMA 4.10 Seja a,bÎLP duas fórmulas e G5LP um conjunto de fórmulas. Se


Gëa e Gëa®b, então Gëb.
Prova Supondo que Gëa e Gëa®b, pela definição 1.7 temos que para todo M tal
que MíG, Mía e Mía®b. Neste último caso, como Mía®b, temos pela definição
1.10 que MÔa ou Míb. Como não pode ser o caso que MÔa, visto que Mía, temos
que Míb. Mas como isso vale para todo e qualquer M, temos que, para todo modelo
M, se MíG então Míb. Logo, pela definição 1.7, Gëb. CQD
Podemos agora então exibir a prova do teorema da corretude da lógica clássica pro-
posicional, após o que provamos o teorema restrito da corretude.

TEOREMA 4.5 Seja G5L um conjunto de fórmulas e aÎL uma fórmula. Se G„a
então Gëa.
Prova Temos que provar que se a é deduzido a partir de G (G„a), então a é uma
consequência lógica de G (Gëa). Semelhantemente a como fizemos nas provas dos teo-
remas da dedução exibidas na seção anterior, para provar esse teorema devemos reali-
zar uma prova por indução no tamanho da derivação. Supondo então que G„a, nós te-
mos que existe uma derivação W de a a partir de G. Vamos agora provar o teorema 4.5
para o caso mais simples em que W tem tamanho 1. Supondo então que W=<a>, te-
mos, de acordo com a definição 1.13, que ou aÎG ou a é um axioma. Se aÎG, então
trivialmente Gëa, pois como MëG se e somente se, para todo bÎG, Míb (definição
1.6), então para todo modelo M tal que MíG, Mía. Se, por sua vez, a é um dos axio-
mas P1-P11, então de acordo com o teorema 4.9, temos que ^ëa, o que trivialmente,
de acordo com a definição 1.7, implica Gëa, pois o conjunto vazio é tal que, para todo
modelo M, Mí^. Suponha agora que o teorema 4.5 vale para casos nos quais o tama-
nho da derivação é menor do que n, ou seja, que se G„a e existe uma derivação de ta-
manho menor que n de a a partir de G, então Gëa; essa é a nossa hipótese de indução.
Supondo agora que G„a e que há uma derivação W=<a1,....,an-1,a> de a a partir de G
de tamanho n, nós temos o que segue. De acordo com a definição 1.13, a é tal que (a)

293
aÎG, (b) a é um axioma ou (c) Existe uma inferência admissível ai,aj/aÎSMP tal que
i,j<n e aj4ai®a. Já vimos que nos dois primeiros casos temos que Gëa; basta então
examinarmos o caso (c). Como ai e ai®a pertencem a W, então trivialmente há uma
derivação Wi de ai a partir de G e uma derivação Wj de aj4ai®a a partir de G, de forma
que, pela definição 1.14, temos que Gëai e G„ai®a. Mas como os tamanhos tanto de
Wi como de Wj são menores que n, de acordo com a nossa hipótese de indução, temos que
Gëai e Gëai®a. Mas então, de acordo com o teorema 4.10, temos que Gëa. CQD

TEOREMA 4.7 Seja aÎLP uma fórmula. Se „a então ëa.


Prova Supondo que „a, que sabemos é uma abreviação para ^„a, temos pelo
teorema 4.5 que ^ëa, o que é o mesmo que ëa. CQD
Passemos agora para os teoremas da completude. Aqui será útil provarmos primei-
ro o teorema restrito da completude, para então provarmos o teorema 4.6. Para isso, no
entanto, teremos que provar os três teoremas auxiliares abaixo, os quais são precedidos
pela definição 4.1:

DEFINIÇÃO 4.1 Seja M um modelo e aÎLP uma fórmula. A função F: MxLP®LP,


em que M é o conjunto de todos os modelos da lógica clássica proposicional, é definida
como segue:
(i) F(M,a)=a sss Mía;
(ii) F(M,Øa)=Øa sss MÔa.
Representamos F(M,a) por aM.

TEOREMA 4.11 Sejam a,bÎLP duas fórmulas e G,D5LP dois conjuntos de fórmu-
las. As proposições abaixo são verdadeiras:
(i) Se G„a®b então GÈ{a}„b;
(ii) Se G„a e D„b, então GÈD„aÙb;
(iii) Se G„Øa ou D„Øb, então GÈD„Ø(aÙb);
(iv) Se G„Øa e D„¬b, então GÈD„Ø(aÚb);
(v) Se G„a ou D„b, então GÈD„aÚb;
(vi) Se G„Øa ou D„b, então GÈD„a®b;
(vii)Se G„a e D„Øb, então GÈD„Ø(a®b);
Prova A prova do item (i) consiste basicamente no uso de modus ponens: Se
G„a®b, então há uma derivação <j1,....,jn,a®b> de a®b a partir de G; assim, te-

294
mos que GÈ{a}„b, pois <j1,....,jn,a®b,a,b> é uma derivação de b a partir GÈ{a},
a justificativa para a sendo a pertencer ao conjunto de premissas e para b a regra MP
aplicada a a e a®b. Já em relação ao item (ii), se G„a e D„b, então há uma derivação
<j1,....,jn,a> de a a partir de G e uma derivação <g1,....,gm,b> de b a partir de D. Dessa
forma, GÈD„aÙb, pois <j1,....,jn,a,g1,....,gm,b,aÙb> é a forma abreviada, baseada no
teorema 2.5, de uma derivação de aÙb a partir de GÈD, a justificativa para a presença de
aÙb sendo a regra C3 aplicada a a e b. As provas dos demais items seguem a mesma li-
nha de raciocínio da prova do item (ii), em que através do uso de uma ou mais regras de-
rivadas e/ou teoremas lógicos a partir de derivações existentes obtém-se a derivação
que prova o resultado desejado. Deixamos a cargo do leitor fazer a prova dos demais
itens. CQD

TEOREMA 4.12 Seja aÎLP uma fórmula e p1,...,pnÎP os símbolos proposicionais


que ocorrem em a. Para todo modelo M, {p1M,...,pnM}„aM.
Prova Faremos a prova desse teorema por indução sobre o número n de ocorrências
de conectivos lógicos em a. Se a é, por exemplo, ((A®B)ÚØB)ÙC, então n=4, pois a
tem exatamente 4 ocorrências de símbolos lógicos. Considerando o caso mais simples,
se n=0, isto é, se a não contém nenhum símbolo lógico, então a é um símbolo proposi-
cional, isto é, aÎP. Nesse caso, o teorema 4.12 se reduz ao resultado trivial de que
aM„aM, que no caso de Mía, a definição 4.1 nos diz, é o mesmo que a„a e, no caso
de MÔa, é o mesmo que Øa„Øa. Suponhamos agora que o teorema 4.12 vale para
fórmulas cujo número de ocorrências de conectivos lógicos seja menor que n, em adi-
ção a que supomos que a fórmula a tem exatamente n de ocorrências de conectivos ló-
gicos. Nesse caso, a pode ter uma das quatro formas abaixo:
Caso 1: a4Øb. Seja M um modelo qualquer. Como o número de ocorrências de co-
nectivos lógicos em b é menor que n, pela hipótese da indução temos que {p1M,...,pkM}„bM,
em que p1,...,pkÎP são os símbolos propositionais que ocorrem em b, que trivialmente
são idênticos aos símbolos proposicionais que ocorrem em a. No que se refere ao
valor semântico de a em M, temos duas possibilidades. Primeiro, pode ser que
Míb, o que implica, de acordo com a definição 1.10, que MÔa. Assim, de acordo
com a definição 4.1, aM4Øa e bM4b. Dessa forma, temos que {p1M,...,pkM}„b. Mas
como temos „b®ØØb (INm10 do teorema 2.10), pelo teorema 4.3, temos que
{p1M,...,pkM}„b®ØØb, o que por sua vez, implica, de acordo com o teorema 4.11, item
(i), que {p1M,...,pkM,b}„ØØb. Mas se {p1M,...,pkM,b}„ØØb e {p1M,...,pkM}„b, pelo teo-
rema 2.5 temos que {p1M,...,pkM}„ØØb, o que é o mesmo que {p1M,...,pkM}„aM, pois
ØØb4Øa4aM. A segunda possibilidade é que MÔb, o que implica que Mía. Assim,

295
de acordo com a definição 4.1, aM4a e bM4Øb. Mas como, pela hipótese de indu-
ção{p1M,...,pkM}„Øb, temos automaticamente que {p1M,...,pkM}„aM, pois Øb4a4aM.
Caso 2: a4bÙj. Seja M um modelo qualquer. Como o número de ocorrências de
conectivos lógicos em b e j é menor que n, pela hipótese da indução temos que
{p1M,...,pkM}„bM, em que p1,...,pkÎP são os símbolos propositionais que ocorrem em b,
e {q1M,...,qmM}„jM, em que q1,...,qmÎP são os símbolos propositionais que ocorrem em
j. Trivialmente, p1,...,pk,q1,...,qm são todos os símbolos propositionais que ocorrem em
a. No que se refere ao valor semântico de a em M, temos duas possibilidades relevan-
tes. Primeiro, pode ser que Mía. Nesse caso, temos, de acordo com a definição 1.10,
que Míb e Míj. Assim, de acordo com a definição 4.1, aM4a, bM4b e jM4j. Pela
hipótese de indução temos que {p1M,...,pkM}„b e {q1M,...,qmM}„j. Mas se isso é o caso,
pelo teorema 4.11, item (ii), temos que {p1M,...,pkM,q1M,...,qmM}„bÙj, o que obviamente
é o mesmo que {p1M,...,pkM,q1M,...,qmM}„aM, pois bÙj4a4aM. Segundo, pode ser que
MÔb ou MÔj, o que implica, de acordo com a definição 1.10, que MÔaÙb. Portanto,
de acordo com a definição 4.1, aM4Øa, e bM4Øb ou jM4Øj. De acordo então com a
hipótese de indução, temos que {p1M,...,pkM}„Øb ou {q1M,...,qmM}„Øj. Mas se isso é o
caso, então, pelo teorema 4.11, item (iii), temos que {p1M,...,pkM,q1M,...,qmM}„Ø(bÙj), o
que é o mesmo que {p1M,...,pkM,q1M,...,qmM}„aM, pois Ø(bÙj)4Øa4aM.
Caso 3: a4bÚj. Seja M um modelo qualquer. Como o número de ocorrências de co-
nectivos lógicos em b e j é menor que n, pela hipótese da indução temos que
{p1M,...,pkM}„bM, em que p1,...,pkÎP são os símbolos propositionais que ocorrem em b, e
{q1M,...,qmM}„jM, em que q1,...,qmÎP são os símbolos propositionais que ocorrem em j.
Trivialmente, p1,...,pk,q1,...,qm são todos os símbolos propositionais que ocorrem em a.
No que se refere ao valor semântico de a em M, temos duas possibilidades relevantes.
Primeiro, pode ser que MÔa. Nesse caso, temos, de acordo com a definição 1.10, que
MÔb e MÔj. Assim, de acordo com a definição 4.1, aM4Øa, bM4Øb e jM4Øj. Pela
hipótese de indução temos que {p1M,...,pkM}„Øb e {q1M,...,qmM}„Øj. Mas se isso é o
caso, pelo teorema 4.11, item (iv), temos que {p1M,...,pkM,q1M,...,qmM}„ØbÚj), o que ob-
viamente é o mesmo que {p1M,...,pkM,q1M,...,qmM}„aM, pois Ø(bÚj)4Øa4aM. Segundo,
pode ser que Míb ou Míj, o que implica, de acordo com a definição 1.10, que
MíaÚb. Portanto, de acordo com a definição 4.1, aM4a, e bM4b ou jM4j. De acordo
então com a hipótese de indução, temos que {p1M,...,pkM}„b ou {q1M,...,qmM}„j. Mas se
isso é o caso, então, pelo teorema 4.11, item (v), temos que {p1M,...,pkM,q1M,...,qmM}„bÚj,
o que é o mesmo que {p1M,...,pkM,q1M,...,qmM}„aM, pois bÚj4a4aM.
Caso 4: a4b®j. Seja M um modelo qualquer. Como o número de ocorrências de
conectivos lógicos em b e j é menor que n, pela hipótese da indução temos que

296
{p1M,...,pkM}„bM, em que p1,...,pkÎP são os símbolos propositionais que ocorrem em b,
e {q1M,...,qmM}„jM, em que q1,...,qmÎP são os símbolos propositionais que ocorrem em
j. Trivialmente, p1,...,pk,q1,...,qm são todos os símbolos propositionais que ocorrem em a.
No que se refere ao valor semântico de a em M, temos duas possibilidades relevantes.
Primeiro, pode ser que MÔb ou Míj. Nesse caso, temos, de acordo com a definição
1.10, que Mía. Assim, de acordo com a definição 4.1, aM4a, bM4Øb e jM4j. Pela hi-
pótese de indução temos que {p1M,...,pkM}„Øb ou {q1M,...,qmM}„j. Mas se isso é o caso,
pelo teorema 4.11, item (vi), temos que {p1M,...,pkM,q1M,...,qmM}„b®j, o que obviamente
é o mesmo que {p1M,...,pkM,q1M,...,qmM}„aM, pois b®j4a4aM. Segundo, pode ser que
Míb e MÔj, o que implica, de acordo com a definição 1.10, que MÔb®j. Portanto, de
acordo com a deinição 4.1, aM4Øa, e bM4b ou jM4Øj. De acordo então com a hipóte-
se de indução, temos que {p1M,...,pkM}„b ou {q1M,...,qmM}„Øj. Mas se isso é o caso, en-
tão, pelo teorema 4.11, item (vii), temos que {p1M,...,pkM,q1M,...,qmM}„Ø(b®j), o que é
o mesmo que {p1M,...,pkM,q1M,...,qmM}„aM, pois Ø(b®j)4Øa4aM. CQD

TEOREMA 4.13 Sejam a,bÎLP duas fórmulas e G5LP um conjunto de fórmulas. Se


G„a®b e G„Øa®b então G„b.
Prova Suponha que G„a®b e G„Øa®b. Assim, há uma derivação W1 de a®b
a partir de G e uma derivação W2 de Øa®b a partir de G. Chamando n o número de ele-
mentos da derivação W1 e m o número de elementos de W2, podemos construir uma de-
rivação de b a partir de G como segue:
... <cópia dos membros de W1>
n. a®b <justificativa de a®b em W1>
... <cópia dos membros de W2>
n+m. Øa®b <justificativa de Øa®b em W2>
n+m+1. (a®b)®((Øa®b)®(aÚØa®b)) P8
n+m+2. (Øa®b)®(aÚØa®b) MP n,n+m+1
n+m+3. aÚØa®b MP n+m,n+m+2
n+m+4. aÚØa P11
n+m+5. b MP n+m+4,n+m+3
Assim, temos que G„b. CQD

TEOREMA 4.8 Seja aÎLP uma fórmula. Se ía então „a.

297
Prova Suponha que ëa. Isso significa que para todo modelo M, Mía. Sejam p1, ...,
pnÎP os símbolos proposicionais que ocorrem em a. De acordo com o teorema 4.12,
para um modelo arbitrário qualquer M, {p1M,...,pnM}„aM. Considere agora dois modelos
M’ e M” que sejam idênticos a M com relação à avaliação dos símbolos proposicionais
p1, ..., pn com exceção do último simbolo proposicional: enquanto M’ípn, M”Ôpn. Em
outras palavras, M’ e M” são tais que Míp1 sss M’íp1 sss M”íp1; Míp2 sss M’íp2 sss
M”íp2; ...; Mípn-1 sss M’ípn-1 sss M”ípn-1; e M’ípn e M”Ôpn. Pelo teorema 4.12,
{p1M,...,pn-1M, pnM}„aM, {p1M’,...,pn-1M,pnM’}„aM’ e {p1M”,...,pn-1M”,pnM”}„aM”. Mas como
p1M= p1M’= p1M”, ..., pn-1M= pn-1M’= pn-1M” e como aM=aM’=aM” (pois Mía para todo mo-
delo M) e pnM’=pn e pnM”=Øpn (pois M’ípn e M”Ôpn), nós temos o que segue:
(1) {p1M,...,pn-1M,pn}„a
(2) {p1M,...,pn-1M,Øpn}„a.
Aplicando o teorema da dedução à (1) e (2) temos que
(1’) {p1M,...,pn-1M}„ pn®a
(2’) {p1M,...,pn-1M}„Øpn®a
De acordo então com o teorema 4.13, temos que {p1M,...,pn-3M,pn-2M,pn-1M}„ a.
Como o modelo M usado acima foi um modelo arbitrário qualquer, podemos repetir
esse procedimento para provar {p1M,...,pn-3M,pn-2M}„ a; repeti-lo mais uma vez para
provar {p1M,...,pn-3M}„ a, e assim por diante até que provamos {p1M}„ a, e finalmente
„a. CQD
Agora podemos provar facilmente o teorema 4.6:

TEOREMA 4.6 Seja G5LP um conjunto de fórmulas e aÎLP uma fórmula. Se Gëa
então G„a.
Prova Supondo que Gëa e considerando G={b1,b2, ...,bn}, nós temos que {b1,b2,
...,bn-1}È{bn}ëa. Mas como {b1,b2, ...,bn-1}È{bn}ëa, de acordo com o teorema se-
mântico da dedução (teorema 4.4) então nós temos que {b1,b2, ...,bn-1}„bn®a. Reali-
zando esse procedimento mais uma vez, nós obtemos {b1,b2, ...,bn-2}ëbn-1®(bn®a), e
assim por diante até que tenhamos ëb1®(b2®(...®(bn®a)...). De acordo com o teo-
rema restrito da completude então temos que „b1®(b2®(...®(bn®a)...). Pelo teore-
ma 4.11, item (i), então temos que {b1}„b2®(...®(bn®a)...). Aplicando-o mais uma
vez temos {b1,b2}„b3®(...®(bn®a)...) e assim por diante, até que finalmente obte-
mos {b1,b2,...,bn}„a. CQD

298
13
Leitura adicional e bibliografia

13.1 Livros
Existem bons livros de lógica em português. O clássico livro de Irving Copi (1974) é
uma boa introdução à lógica e à filosofia da lógica; apesar de conter um mínimo de forma-
lização, ele é bastante abrangente, contendo tópicos de filosofia da linguagem, história da
lógica e análise de argumentos. Também podemos mencionar os excelentes livros de
Banson Mates (1967) e Newton-Smith (1988), os quais priorizam o método de dedução
natural e contêm uma boa dose de metateoria, valendo a pena mencionar que, enquanto o
primeiro faz uma breve incursão na história da lógica, o segundo elabora de forma bastan-
te competente tópicos-chave em filosofia da lógica e filosofia da linguagem. Entre os li-
vros de autores brasileiros podemos citar os livros de Cézar Mortari (2001), Guido Ima-
guire (2006), João Nunes de Souza (2002) e Marcelo Finger (2006), os quais introduzem a
lógica matemática de maneira bastante competente e com o rigor formal necessário, muito
embora tenham direcionamentos diferentes em termos de conteúdo; enquanto que Ima-
guire, por exemplo, faz sua apresentação com a filosofia como pano de fundo, os dois úl-
timos direcionam o conteúdo para o contexto da lógica na computação.
Entre os grandes clássicos de lógica (em inglês) temos os livros de Stephen Kleene
(1952), Herbert Enderton (1972) e Elliott Mendelson (1979). Também não podemos
deixar de mencionar os livros de Joseph Shoenfield (1967) e Rayond Smullyan (1968).
Dado o grau de rigor formal e ênfase na metalógica e aplicações matemáticas, tais livros
são certamente mais indicados para estudantes de matemática e computação. Outro
clássico, este já extremamente útil para o acadêmico de filosofia e que contempla de for-
ma bastante satisfatória o aspecto formal, é o livro de Howard DeLong (1970); além de
apresentar os sistemas proposicional e de ordem superior, ele contém uma introdução
extremamente rica e esclarecedora à história da lógica.
Para livros com menos carga de rigor formal, mas que introduzem de forma com-
petente o leigo à lógica, podemos mencionar os livros de Graham Priest (2002) e Desi-

299
dério Murcho (2003). Outro livro, este já em inglês, com carga reduzida de rigor formal
e muito acessível e interessante para o estudante de filosofia é o livro de Harry Gensler
(2010); a ênfase que ele dá à análise de argumentos, fornecendo extensas listas de exercí-
cios para os vários sistemas lógicos abordados, é um estímulo valioso para o estudante
em relação à aplicação da lógica na filosofia. Há obviamente livros dedicados exclusiva-
mente à análise e avaliação de argumentos, muitos dos quais dão valiosas informações
acerca de muitos conceitos-chave da lógica; entre estes podemos mencionar os livros de
Anthony Weston (1996) e Alec Fisher (2008).
Há atualmente bastante material didático sobre lógicas não clássicas. Alguns dos li-
vros mencionados acima (como, por exemplo, os livros de Imaguire e Mortari) contêm
capítulos sobre lógicas não clássicas. Para livros mais especializados, podemos mencio-
nar as coletâneas editadas por Grahan Priest, Routley e Norman (1989) e por Jean-Yves
Beziau, Carnielli e Gabbay (2007), que se centram em tópicos diversos acerca das lógi-
cas paraconsistentes. Sobre lógica intuicionista, há o livro do Gregori Mints (2000). O
livro do Graham Priest (2008) é uma excelente introdução à grande diversidade de lógi-
cas não clássicas existentes hoje, abordando lógica modal, lógica paraconsistente, lógica
relevante e lógica intuicionista, por exemplo.
Sobre história da lógica, em português, há o livro clássico de William e Marta Knea-
le (1968) e o livro de Robert Blanche e Jacques-Paul Dubuc (2001). Para um estudo
mais aprofundado, recomendamos os oito volumes do handbook de história da lógica
editados por Dov Gabbay e John Woods (2004-2008).
Finalmente, uma ferramenta extremamente valiosa para o estudante de lógica, que vir-
tualmente engloba todos os tópicos acima mencionados, são os diversos companions, guides e
handbooks de lógica disponíveis no mercado. Trata-se de livros com capítulos independentes
escritos por especialistas sobre os mais importantes tópicos da lógica. Entre tal literatura, os
dois handbooks editados por Dov Gabbay: Gabbay, Hogger e Robinson (1993-1998) e Gab-
bay e Guenthner (2001-2005) ocupam lugar de destaque; enquanto o primero (em cinco
volumes) se centra na lógica aplicada à inteligência artificial e programação lógica, o segun-
do (em treze volumes) enfatiza o que é conhecido hoje como lógica filosófica. Também po-
demos mencionar os excelentes compêndio e guia de lógica filosófica da Blackwell, edita-
dos respectivamente por Dale Jacquette (2006) e Lou Goble (2001).

13.2 Recursos na internet


Há atualmente material de lógica de excelente qualidade disponível gratuitamente
na internet. Há, por exemplo, o excelente livro on-line de Vilnis Detlovs e Karlis Podnieks
([Link]

300
Também podemos citar o livro de George Willian Stock ([Link]
[Link]/etext/6560), o site mantido pela PUC de São Paulo ([Link]
~logica/) e a revista on-line de ensino de filosofia crítica na rede, que contém bons arti-
gos sobre lógica ([Link]
Finalmente, há diversos verbetes na Enciclopédia de Filosofia da Universidade de
Stanford escritos por alguns dos melhores lógicos do mundo, entre os quais podemos
mencionar os verbetes sobre sistemas semânticos (ou teoria dos modelos) ([Link]
[Link]/entries/model-theory/ e [Link]
tries/modeltheory-fo/), lógica paraconsistente ([Link]
entries/logic-paraconsistent/), lógica intuicionista ([Link]
entries/logic-intuitionistic/), lógica modal ([Link]
es/logic-modal/), lógica relevante ([Link]
relevance/), lógicas de ordem superior ([Link]
gic-higher-order/) e lógica não monotônica ([Link]
es/reasoning-defeasible/).

13.3 Bibliografia
BEZIAU, J.Y.; CARNIELLI, W. & GABBAY, D. (orgs.) (2007). Handbook of Paracon-
sistency. Londres: College.
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ra Thomson.
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