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Reflexões sobre a Transformação da Pipoca

1) O texto descreve a origem da pipoca, como grãos de milho que eram colocados em uma panela com gordura e começavam a estourar, transformando-se em flores macias que as crianças podiam comer. 2) A transformação dos grãos de milho em pipocas macias é usada como uma metáfora para a transformação que as pessoas precisam passar para se tornarem melhores, através de experiências desafiadoras representadas pelo "fogo". 3) Pensamentos criativos são comparados a pipocas estour
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Reflexões sobre a Transformação da Pipoca

1) O texto descreve a origem da pipoca, como grãos de milho que eram colocados em uma panela com gordura e começavam a estourar, transformando-se em flores macias que as crianças podiam comer. 2) A transformação dos grãos de milho em pipocas macias é usada como uma metáfora para a transformação que as pessoas precisam passar para se tornarem melhores, através de experiências desafiadoras representadas pelo "fogo". 3) Pensamentos criativos são comparados a pipocas estour
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Caro aluno

O Hexag Medicina é, desde 2010, referência na preparação pré-vestibular de candidatos às melhores univer-
sidades do Brasil.
Ao elaborar o seu Sistema de Ensino, o Hexag Medicina considerou como principal diferencial em relação aos
concorrentes sua exclusiva metodologia em período integral, com aulas e Estudo Orientado (E.O.), e seu plan-
tão de dúvidas personalizado.
Você está recebendo o livro Estudo Orientado. Com o objetivo de verificar se você aprendeu os conteúdos
estudados, este material apresenta nove categorias de exercícios:
Aprendizagem: exercícios introdutórios de múltipla escolha para iniciar o processo de fixação da matéria
dada em aula.
Fixação: exercícios de múltipla escolha que apresentam um grau de dificuldade médio, buscando a con-
solidação do aprendizado.
Complementar: exercícios de múltipla escolha com alto grau de dificuldade.
Dissertativo: exercícios dissertativos seguindo a forma da segunda fase dos principais vestibulares do
Brasil.
Enem: exercícios que abordam a aplicação de conhecimentos em situações do cotidiano, preparando o
aluno para esse tipo de exame.
Objetivas (Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp): exercícios de múltipla escolha das universidades
públicas de São Paulo.
Dissertativas (Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp): exercícios dissertativos da segunda fase das
universidades públicas de São Paulo
Uerj (exame de qualificação): exercícios de múltipla escolha que possibilitam a consolidação do
aprendizado para o vestibular da Uerj.
Uerj (exame discursivo): exercícios dissertativos que possibilitam a consolidação do aprendizado para
o vestibular da Uerj.
Visando a um melhor planejamento dos seus estudos, os livros de Estudo Orientado receberão o encarte
Guia de Códigos Hierárquicos, que mostra, com prático e rápido manuseio, a que conteúdo do livro teórico
corresponde cada questão. Esse formato vai auxiliá-lo a diagnosticar em quais assuntos você encontra mais
dificuldade. Essa é uma inovação do material didático. Sempre moderno e completo, trata-se de um grande
aliado para seu sucesso nos vestibulares.
Bons estudos!
SUMÁRIO
ENTRE LETRAS
GRAMÁTICA 3
AULAS 1 E 2: FORMAÇÃO DE PALAVRAS 4
AULAS 3 E 4: ARTIGOS, SUBSTANTIVOS E ADJETIVOS 23
AULAS 5 E 6: VERBOS: NOÇÕES PRELIMINARES E MODOS INDICATIVO E SUBJUNTIVO 45
AULAS 7 E 8: VERBOS: MODO IMPERATIVO E VOZES VERBAIS 68

LITERATURA 87
AULAS 1 E 2: FUNDAMENTOS PARA O ESTUDO LITERÁRIO: ARTE E TÉCNICA 88
AULAS 3 E 4: TROVADORISMO E HUMANISMO 101
AULAS 5 E 6: RENASCIMENTO: CLASSICISMO E LUÍS VAZ DE CAMÕES 109
AULAS 7 E 8: QUINHENTISMO E ESTÉTICA BARROCA 118
ENTRE
LETRAS

LINGUAGENS
GRAMÁTICA
CÓDIGOS
e suas tecnologias
LC FORMAÇÃO DE PALAVRAS

AULAS COMPETÊNCIA(s) HABILIDADE(s)

1E2
1e8 1, 2, 3, 4, 26 e 27

E.O. Aprendizagem isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a ideia de
debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, espe-
rando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O
que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado. Repenti-
A PIPOCA namente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com
Rubem Alves uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia
com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores
A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das
cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária,
que com as panelas. Por isso tenho mais escrito sobre comidas
em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, espe-
que cozinhado. Dedico-me a algo que poderia ter o nome de
cialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!
“culinária literária”. Já escrevi sobre as mais variadas entidades
do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nóbis, picadinho de carne E o que é que isso tem a ver com o candomblé? É que a trans-
com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos. formação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande
Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro poético-filosófico transformação porque devem passar os homens para que eles
a uma meditação sobre o filme A festa de Babette, que é uma venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que
celebração da comida como ritual de feitiçaria. Sabedor das mi- deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro.
nhas limitações e competências, nunca escrevi como chef. Escrevi O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios
como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo – porque a culinária para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos
estimula todas essas funções do pensamento. transformar em outra coisa − voltar a ser crianças!
As comidas, para mim, são entidades oníricas. Provocam a minha Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo. Milho de
capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca,
um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamen- para sempre. Assim acontece com a gente. As grandes transfor-
te isso que aconteceu. A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e mações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não pas-
duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira delicio- sa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de
sa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias uma mesmice e dureza assombrosas. Só que elas não percebem.
atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. Mas, de
E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas ideias repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa si-
começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação tuação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder
metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamen- um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar
to nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depres-
e imprevisível. A pipoca se revelou a mim, então, como um ex- são – sofrimentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso
traordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como com isso a possibilidade da grande transformação.
aqueles das pipocas dentro de uma panela.
Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá den-
Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido tro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou:
religioso? Pois tem. Para os cristãos, religiosos são o pão e o vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma,
vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a
vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida...). transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina
Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem exis- aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do
tir juntas. Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a Mãe fogo, a grande transformação acontece: pum! − e ela aparece
Stella, sábia poderosa do candomblé baiano: que a pipoca é a como uma outra coisa, completamente diferente, que ela mesma
comida sagrada do candomblé... nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do
casulo como borboleta voante.
A pipoca é um milho mirrado,subdesenvolvido. Fosse eu agricultor
ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está repre-
aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar de- sentado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o
las. Pois o fato é que, sob o ponto de vista do tamanho, os milhos da estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito
pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como para ser de outro. “Morre e transforma-te!” − dizia Goethe.

4
Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os desde crianças carregamos, de que nossos reflexos nos espelhos
piruás com os paulistas descobri que eles ignoram o que seja. ganhem autonomia. Ui! Já imaginaram se isso virasse realidade?
Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é Teríamos de conviver com nossos opostos, um estranhamento no
palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio mínimo desconfortável. Os quadrinhos exploraram o assunto tam-
para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho bém na série do Mundo bizarro, do Super-Homem. Era um nonsen-
de pipoca que se recusa a estourar. Meu amigo William, extra- se pouco habitual no universo previsível dos super-heróis.
ordinário professor-pesquisador da Unicamp, especializou-se em
Estava pensando nos estranhamentos do mundo moderno quan-
milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da
do me deparei com uma pequena nota de jornal. Encenava-se a
pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os
ópera Carmen, de Bizet, no Theatro Municipal do Rio. Suponho
piruás. Mas, no mundo da poesia as explicações científicas não
que a plateia, que pagou caro, estava mergulhada na história e na
valem. Por exemplo: em Minas “piruá” é o nome que se dá às
interpretação da orquestra e dos solistas. Não é que um cidadão
mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos
saca seu iPad e passa um tempão checando os e-mails, dedinhos
quarenta, lamentava: “Fiquei piruá!” Mas acho que o poder me-
nervosos para cima e para baixo, com a tela iluminando a penum-
tafórico dos piruás é muito maior. Piruás são aquelas pessoas
bra indispensável para a fruição plena do espetáculo? Como esse
que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas
tipo de desrespeito está entrando na “normalidade”, apenas uma
acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o
pessoa esboçou reação. Uma espécie de angústia semelhante à
jeito delas serem. Ignoram o dito de Jesus: “Quem preservar a
incontinência urinária se espalha como praga nas relações pes-
sua vida perdê-la-á.” A sua presunção e o seu medo são a dura
soais e no uso dos espaços público e privado. Tudo passou a ser
casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão
urgente. Todos os torpedos, e-mails e chamadas no celular viraram
ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca
prioridade, casos de vida ou morte. Interrompem-se conversas para
macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro
olhar telinhas e telonas, desrespeitando interlocutores. Como este
alegre da pipoca, no fundo da panela ficam os piruás que não
tipo de patologia tende a se diversificar, já há gente que conversa
servem para nada. Seu destino é o lixo. Quanto às pipocas que
e olha o computador ao mesmo tempo, como aqueles lagartos
estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem
esquisitos cujos olhos se movimentam sem aparente coordenação.
que a vida é uma grande brincadeira...
Outros participam de reuniões sem desligar sua tralha eletrônica
Disponível em [Link]
(na verdade, não estão nas reuniões). Especialistas em informática
Acessado em 31 de mai. 2016.
previram que, num futuro não muito distante, chips serão implan-
Obs.: O texto foi adaptado às regras do Novo Acordo Ortográfico. tados no corpo. Estão atrasados. Corpos já pertencem a máquinas.
A vida é controlada a distância e por outros.
1. (Efomm) No que tange ao processo de formação de palavras,
o termo destacado que se enquadra como formação-regressiva Outro estranhamento vem da inundação de imagens, aflição que
aparece na opção chamo de galeria dos sem imaginação. Enxurradas de fotos inva-
dem o espaço virtual, a enorme maioria delas sem o menor signifi-
a) As comidas, para mim, são entidades oníricas. Pro-
cado e perfeitamente descartáveis. O Instagram recebe 60 milhões
vocam a minha capacidade de sonhar.
de fotos por dia, ou seja, quase 700 fotos por segundo! Fico pen-
b) Um bom pensamento nasce como uma pipoca que sando no sorriso irônico ou, quem sabe, no horror em estado bruto,
estoura, de forma inesperada e imprevisível. que Cartier-Bresson1 esboçaria se esbarrasse nisso. Ele, que procu-
c) É que a transformação do milho duro em pipoca rava a poesia nos pequenos gestos, no cotidiano que se desdobrava
macia é símbolo da grande transformação (...) em surpresas, nos reflexos impensados, jamais empilharia a coleção
d) O estouro das pipocas se transformou, então, de de sorrisinhos forçados que caracteriza a obsessão pelos clics.
uma simples operação culinária (...)
Essa história dos sorrisos foi muito bem notada pela Nora Ró-
e) O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-den-
nai, que citei logo no início. Vivemos a era das aparências. Com
tes, impróprios para comer (...)
a multiplicação das imagens, vem a obrigação de “estar bem”.
2. (Cefet) Afinal de contas, quem vai querer se exibir no Facebook ou nas
trocas de mensagens com uma ponta de melancolia ou, pelo me-
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

A INTERNET E A MORTE DA IMAGINAÇÃO nos, um suspiro de realidade? O mundinho virtual exige estado
de êxtase permanente. Uma persona que não passa de ilusão.
Jacques Gruman Criatividade não quer dizer tristeza, claro, mas certamente pre-
“Nunca entendi essa obsessão por sorrisos em fotografias. cisa incorporá-la como tijolo construtor da nossa personalida-
Deve ser um conluio com os dentistas.”
(Nora Tausz Rónai) de. O resto é fofoca. Eric Nepomuceno, tradutor e escritor, fez o
seguinte comentário sobre seu amigo Gabriel Garcia Márquez,
Reza uma antiga lenda que dois reinos estavam em guerra. Os que acabara de morrer: “Tudo o que ele escreveu é revelador da
perdedores acabaram condenados ao confinamento do outro infinita capacidade de poesia contida na vida humana. O eixo,
lado dos espelhos, um primitivo mundo virtual em que eram porém, foi sempre o mesmo, ao redor do qual giramos todos:
obrigados a reproduzir tudo o que os vencedores faziam. A luta a solidão e a esperança perene de encontrar antídotos contra
dos derrotados passava a ser como escapar daquela prisão. O essa condenação”. Nada que essas maquininhas onipresentes
genial Lee Falk inspirou-se nesta narrativa para criar, na década possam registrar, elas que jamais entenderiam a fina ironia de
de 1940, O mundo do espelho, para mim uma das mais aterro- Fernando Pessoa no Poema em linha reta, que começa assim:
rizantes histórias do Mandrake. Espelhos foram, aliás, protagonis- “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus
tas de algumas sequências cinematográficas assustadoras. Bóris conhecidos têm sido campeões em tudo”. Mais adiante: “Arre,
Karloff, um clássico do gênero, aproveitou muito bem o medo que, estou farto de semideuses. Onde é que há gente nesse mundo?”.

5
A praga narcísica desembarcou nas camas. Leio que nova TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
moda é fazer selfies2 depois do sexo. O casal transa, mas isso
não basta. É urgente compartilhar! Tira-se uma foto da apa- A sociedade vive diversas contradições, muitas delas fomentadas
rência de ambos, coloca-se no Instagram e ... pronto. O mun- por modismos que só espelham a superficialidade e o imediatismo
do inteiro será testemunha de um momento íntimo, talvez de valores contemporâneos, entre eles o excessivo culto ao corpo.
o mais íntimo de todos. Meu estranhamento vai ao paroxis- Informações que circulam pelas redes sociais, muitas delas sem
mo. É a esse mundo que pertenço? Antigamente, era cos- nenhum respaldo científico, induzem à crença de que o uso de
tume dizer que o que não aparecia na televisão não existia. determinadas substâncias ajuda na construção de corpos “per-
Atualizando a frase: pelo visto, o que não está na rede não existe. feitos” ou “desintoxica” o organismo, mas sem apontar os pos-
É a universalização do movimento apenas muscular, sem sentido, síveis riscos à saúde.
leviano, rapidamente perecível.
Não há dados precisos sobre quantas pessoas usam rotinei-
Durante o exílio, o poeta argentino Juan Gelman passou um bom ramente essas substâncias, mas o fato é que em vários paí-
tempo sem conseguir escrever. A inspiração não vinha. Disse ele: ses cresce o número de pacientes atendidos por toxicidade
“A poesia é uma senhora que nos visita ou não. Convocá-la é uma delas decorrente.
impertinência inútil. Durante uns bons quatro anos, o choque do
exílio fez com que essa senhora não me visitasse”. Quando, fi- Não é incomum o uso de mais de uma dessas substâncias, tais
nalmente, a senhora chega, tudo muda, como narra o poeta: “A como anabolizantes injetáveis, oxandrolona e hormônio de cres-
visita é como uma obsessão. Uma espécie de ruído junto ao ouvi- cimento. De forma isolada ou combinada, elas podem aumentar
do. Escrevo para entender o que está acontecendo”. Não consigo a massa muscular, mas criam um considerável risco de morte sú-
imaginar uma serenidade como essa no mundo virtual. Tudo nasce bita por infarto, arritmia cardíaca ou hemorragia cerebral, além
e morre antes de ser completamente absorvido. Cada novidade de problemas como insuficiência renal, tumores do fígado e dis-
passa a ser vital, filas se formam nas madrugadas nas portas de túrbios de coagulação.
lojas que começam a vender modelos mais avançados de produtos A lista de substâncias e fórmulas “promissoras”, definidas pelo
eletrônicos. Não dá pra esperar um dia, muito menos uma hora. imaginário criativo do prescritor ou do fabricante, é longa. Seu
O silêncio e a introspecção são guerrilheiros no habitat plugado. uso é estimulado não apenas pelo culto ao corpo, mas também
Estou me alistando neste exército de Brancaleone.3 pelo mercado que movimenta mais de US$ 70 bilhões ao ano e
1
Henri Cartier-Bresson: (França 1908- 2004), fotógrafo do século que não é profundamente regulamentado pelas agências fiscali-
XX, considerado por muitos como o pai do fotojornalismo. zadoras de vários países.
2
fazer selfies: selfie é uma palavra em inglês, um neologismo com O culto ao corpo não é condenável, desde que seja em função da
origem no termo self-portrait, que significa autorretrato, e é uma busca por uma melhor qualidade de vida. A autoestima que dele
foto tirada e compartilhada na internet. Normalmente uma selfie é pode advir é desejável e pode ser estimulada, desde que não
tirada pela própria pessoa que aparece na foto, com um celular que comprometa a saúde através de falsas premissas.
possui uma câmera incorporada, com um smartphone, por exemplo.
A melhor maneira de coibir as práticas insensatas e perniciosas
3
O Incrível Exército de Brancaleone (em italiano: L’armata é trazê-las para o terreno da ciência. A comprovação científica,
Brancaleone): é um filme italiano de 1966, do gênero comédia. apoiada em divulgação honesta de benefícios e riscos, é funda-
Foi dirigido por Mario Monicelli. O Exército de Brancaleone é mental para que cada indivíduo possa tomar as decisões sobre o
considerado um clássico italiano, que retrata os costumes da que quer fazer com seu próprio corpo.
cavalaria medieval através da comédia satírica. É um filme ins-
(Raul Cultait e Raymundo Paraná. “Culto ao corpo,
pirado em Dom Quixote, do espanhol Miguel de Cervantes. desprezo à saúde”. [Link]. Adaptado.)
(Disponível em: <[Link]
morte-da-imaginacao/30783>. Acesso em: 16 ago. 2014.) 3. (ANHEMBI MORUMBI MED – UNESP) São formados pelo
processo de derivação sufixal os termos:
O emprego do diminutivo nos termos em destaque NÃO tem valor
a) desintoxica (2º parágrafo); regulamentado (5º pa-
irônico em:
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

rágrafo); perniciosas (7º parágrafo).


a) “O mundinho virtual exige estado de êxtase per- b) respaldo (2º parágrafo); incomum (4º parágrafo);
manente.” comprovação (7º parágrafo).
b) “Os quadrinhos exploraram o assunto também c) arritmia (4º parágrafo); condenável (6º parágrafo);
na série do Mundo bizarro, do Super-Homem.” coibir (7º parágrafo).
c) “Nada que essas maquininhas onipresentes pos- d) contradições (1º parágrafo); profundamente (5º
sam registrar, elas que jamais entenderiam a fina iro- parágrafo); autoestima (6º parágrafo).
nia de Fernando Pessoa no Poema em linha reta ...” e) modismos (1º parágrafo); superficialidade (1º pará-
d) “Ele, que procurava a poesia nos pequenos gestos, no grafo); cerebral (4º parágrafo).
cotidiano que se desdobrava em surpresas, nos reflexos
impensados, jamais empilharia a coleção de sorrisi-
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
nhos forçados que caracteriza a obsessão pelos clics.”
e) “Não é que um cidadão saca seu iPad e passa um O que havia de tão revolucionário na Revolução Francesa? So-
tempão checando os e-mails, dedinhos nervosos para berania popular, liberdade civil, igualdade perante a lei – as pa-
cima e para baixo, com a tela iluminando a penumbra lavras hoje são ditas com tanta facilidade que somos incapazes
indispensável para a fruição plena do espetáculo?” de imaginar seu caráter explosivo em 1789. Para os franceses do

6
Antigo Regime, os homens eram desiguais, e a desigualdade era Leia o excerto do romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos,
uma boa coisa, adequada à ordem hierárquica que fora posta para responder à questão.
na natureza pela própria obra de Deus. A liberdade significava
privilégio – isto é, literalmente, 1“lei privada”, uma prerrogativa Fabiano ia satisfeito. Sim senhor, arrumara-se. Chegara naquele
especial para fazer algo negado a outras pessoas. O rei, como estado, com a família morrendo de fome, comendo raízes. Caíra
fonte de toda a lei, distribuía privilégios, pois havia sido ungido no fim do pátio, debaixo de um juazeiro, depois tomara conta da
como o agente de Deus na terra. casa deserta. Ele, a mulher e os filhos tinham-se habituado à ca-
marinha escura, pareciam ratos – e a lembrança dos sofrimentos
Durante todo o século XVIII, os filósofos do Iluminismo questio- passados esmorecera.
naram esses pressupostos, e os panfletistas profissionais conse-
guiram empanar a aura sagrada da coroa. Contudo, a desmon- Pisou com firmeza no chão gretado, puxou a faca de ponta,
tagem do quadro mental do Antigo Regime demandou violência esgaravatou as unhas sujas. Tirou do aió um pedaço de fumo,
iconoclasta, destruidora do mundo, revolucionária. picou-o, fez um cigarro com palha de milho, acendeu-o ao binga,
pôs-se a fumar regalado.
Seria ótimo se pudéssemos associar a Revolução exclusivamente à
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, mas ela nasceu – Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta.
na violência e imprimiu seus princípios em um mundo violento. Os Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza
conquistadores da Bastilha não se limitaram a destruir um símbolo iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não
do despotismo real. Entre eles, 150 foram mortos ou feridos no as- era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas
salto à prisão e, quando os sobreviventes apanharam o diretor, cor- dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba
taram sua cabeça e desfilaram-na por Paris na ponta de uma lança. e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava
de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos
Como podemos captar esses momentos de loucura, quando tudo
brancos e julgava-se cabra.
parecia possível e o mundo se afigurava como uma tábula rasa,
apagada por uma onda de comoção popular e pronta para ser Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém
redesenhada? Parece incrível que um povo inteiro fosse capaz de tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando:
se levantar e transformar as condições da vida cotidiana. Duzen-
– Você é um bicho, Fabiano.
tos anos de experiências com admiráveis mundos novos torna-
ram-nos céticos quanto ao planejamento social. Retrospectiva- Era. Apossara-se da casa porque não tinha onde cair morto, passa-
mente, a Revolução pode parecer um prelúdio ao totalitarismo. ra uns dias mastigando raiz de imbu e sementes de mucunã. Viera
a trovoada. E, com ela, o fazendeiro, que o expulsara. Fabiano fi-
Pode ser. Mas um excesso de visão histórica retrospectiva pode
zera-se desentendido e oferecera os seus préstimos, resmungando,
distorcer o panorama de 1789. Os revolucionários franceses não
coçando os cotovelos, sorrindo aflito. O jeito que tinha era ficar. E o
eram nossos contemporâneos. E eram um conjunto de pesso- patrão aceitara-o, entregara-lhe as marcas de ferro.
as não excepcionais em circunstâncias excepcionais. Quando as
coisas se desintegraram, eles reagiram a uma necessidade impe- Agora Fabiano era vaqueiro, e ninguém o tiraria dali. Aparecera
riosa de dar-lhes sentido, ordenando a sociedade segundo novos como um bicho, entocara-se como um bicho, mas criara raízes,
princípios. Esses princípios ainda permanecem como uma denún- estava plantado. Olhou as quipás, os mandacarus e os xiquexi-
cia da tirania e da injustiça. Afinal, em que estava empenhada a ques. Era mais forte que tudo isso, era como as catingueiras e
Revolução Francesa? Liberdade, igualdade, fraternidade. as baraúnas. Ele, sinhá Vitória, os dois filhos e a cachorra Baleia
estavam agarrados à terra.
Adaptado de: DARNTON, Robert. O beijo de Lamourette. In:
____. O beijo de Lamourette: mídia, cultura e revolução. Chape-chape. As alpercatas batiam no chão rachado. O corpo
São Paulo: Cia. das Letras, 2010. p. 30-39. do vaqueiro derreava-se, as pernas faziam dois arcos, os braços
moviam-se desengonçados. Parecia um macaco.
4. (Ufrgs) Ao referir-se à ideia de “lei privada” como uma expli-
cação literal de privilégio (ref. 1), o autor está fazendo referência (Vidas secas, 2010.)
à origem latina dessa palavra, relacionada a algumas das formas
5. (FASM MED – UNESP) As palavras “imprudente” (5º pará-
que tomava, naquela língua, a palavra equivalente a lei – por
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

grafo) e “desentendido” (10º parágrafo) são formadas por pre-


exemplo, legis.
fixos de negação. Também se encontram prefixos de negação em:
Considere as seguintes palavras do português. a) amorfo e didático.
1. legal b) ilegal e discordância.
2. legião c) incorrigível e dilema.
3. legítimo
d) emigrar e instante.
4. legível
e) diálogo e interpor.
Quais têm também relação semântica com a palavra lei, revelan-
do, por sua forma, a origem latina? 6. (Cefet) NO MUNDO DOS ANIMAIS
a) Apenas 1 e 3. As relações entre os humanos e as demais espécies viventes têm
b) Apenas 1, 3 e 4. merecido a atenção de escritores, artistas e intelectuais. Essas
c) Apenas 2 e 3. relações, que não primam pela ética, são o objeto de estudo da
d) Apenas 2 e 4. professora e escritora mineira Maria Esther Maciel.
e) 1, 2, 3 e 4. Quando os estudos sobre “animais e literatura” passaram a ser
feitos de modo sistemático no Brasil?

7
Maria Esther Maciel: Só recentemente; antes, havia trabalhos es- em zoológicos, os “produzidos” em granjas e fazendas indus-
parsos. Além disso, a abordagem se circunscrevia à visão do animal triais para viver uma vida infernal e morrer logo depois, além
como símbolo, metáfora ou alegoria do humano, mais restrita à dos animais domésticos, adestrados e humanizados ao extremo.
análise textual. Hoje, percebe-se uma ampliação desse enfoque,
Há quem diga que até mesmo estes estão fadados a desapare-
que deixa os limites do texto literário para ganhar um viés transdis-
cer, dando lugar a animais-robôs, que já existem no Japão.
ciplinar, em diálogo com a filosofia, biologia, antropologia, psico-
logia. Aliás, esse entrelaçamento de saberes em torno da questão A humanidade tem destruído florestas, dizimado povos indíge-
animal cresceu em várias partes do mundo, propiciando a difusão nas, exterminado espécies animais. Apesar da preocupação de
de um novo campo de investigação crítica denominado “estudos ativistas com o destino do planeta, falta empenho político dos
animais”. A literatura tem conquistado espaço importante nesse governos para frear essa destruição generalizada.
campo, graças sobretudo a escritores/pensadores como John M.
Minha utopia é que a humanidade possa um dia fazer mea-culpa
Coetzee, John Berger e Jacques Derrida, que souberam aliar, de
modo criativo, literatura, ética e política no trato da questão animal. em relação aos crimes já cometidos contra os índios, os animais,
a natureza. Mas, pelo que vejo, essa questão continuará a ser um
Como a senhora explica esse interesse crescente pelo tema? grande desafio ético e político para a nossa civilização.
Há um conjunto de fatores. Impossível não considerar as preocu- Seus estudos sobre animalidade a influenciaram em seu modo
pações de ordem ecológica, que movem a sociedade contempo- de vida?
rânea. Há também uma tomada de consciência mais explícita por
parte de escritores, artistas e intelectuais dos problemas éticos Não consigo desvincular o trabalho do meu modo de vida. Se che-
que envolvem nossa relação com os animais e com o próprio guei ao tema dos animais, foi por causa do meu apreço por eles.
conceito de humano. Além disso, a noção de espécie e a divisão Há anos não como carne, por causa da memória do tempo em que
hierárquica dos viventes têm provocado discussões ético-políti- passava temporadas na fazenda do meu pai, no interior de Minas
cas relevantes, que acabam por contaminar as artes e a literatura. Gerais. Vivia perto de vacas, porcos, aves, cavalos, cachorros. Toda
A isso se soma a tentativa, por parte dos humanos, de recuperar vez que via carne de vaca na mesa, me lembrava do olhar bovino.
sua própria animalidade, que por muito tempo foi reprimida em Já a visão da carne de porco me trazia a imagem dos porquinhos
nome da razão e do antropocentrismo. espertos e afetuosos com que eu brincava. Foi assim também com
as aves, os coelhos e outros bichos. Como fui sempre muito tocada
Por que é importante para a humanidade refletir sobre a pelo olhar animal, decidi não comê-los mais. Ainda mantive peixes
animalidade? e frutos do mar, mas deixei de comer várias espécies ao saber de
Ao refletir sobre a animalidade, a humanidade pode repensar o seus hábitos. Recuso também ovos de granja, em repúdio à situa-
próprio conceito de humano e reconfigurar a noção de vida. Por ção absurda das aves nos espaços de confinamento das fazendas
muito tempo, nosso lado animal foi recalcado em nome da razão industriais. Meu projeto de vida, certamente influenciado por meus
e de outros atributos tidos como próprios do homem. Quem ler estudos, é parar de consumir também carne de peixe. Chegarei lá.
os tratados de filosofia e teologia escritos ao longo dos séculos (MACIEL, Maria Esther. No mundo dos animais. Entrevista a
verá que a definição de humano e humanidade se forjou à custa Roberto B. de Carvalho. Ciência Hoje, 21 nov. 2012. Disponível
da negação da animalidade humana e da exclusão/marginali- em <[Link] Acesso em: 05 nov. 2013.)
zação dos demais seres que compartilham conosco o que cha-
mamos de vida. Acho que os humanos precisam se reconhecer Entre os vocábulos extraídos do texto, aquele no qual a sílaba
animais para se tornarem verdadeiramente humanos. “re” funciona como um prefixo que traduz ideia de repetição é

É possível identificar modos diferentes de “explorar” a figura do a) “recusa”.


animal na produção literária? b) “refletir”.
c) “recuperar”.
Na literatura brasileira, podemos falar de três momentos incisi-
d) “relevantes”.
vos. No primeiro, está Machado de Assis, que escreveu no auge
do racionalismo cientificista do século 19, quando os princípios e) “reconfigurar”.
cartesianos já tinham legitimado no Ocidente a cisão entre hu-
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

Leia o texto de Hélio Schwartsman para responder à questão.


manos e não humanos, e os animais eram vistos como máqui-
nas. No século 20, a partir dos anos 30, autores como Gracilia- INTELIGÊNCIA ANIMAL
no Ramos, João Alphonsus, Guimarães Rosa e Clarice Lispector
marcam um novo momento, ao lidar, cada um a seu modo, com O homem é o único animal que [ ]. O espaço entre os colchetes
as relações entre homens e animais sob um enfoque libertário, já foi preenchido por hipóteses para todos os gostos. “Usa ferra-
manifestando cumplicidade com esses outros viventes e a recusa mentas”, “desenvolve e transmite cultura”, “imagina o futuro”,
da violência contra humanos e não humanos. Já os escritores “compreende o que se passa em outras mentes”, “usa sintaxe”
do final do século 20 e início do 21 lidam com a questão dos são algumas das mais recentes. Todas elas acabaram sendo des-
animais sob o peso de uma realidade marcada por catástrofes cartadas por evidências empíricas, à medida que os cientistas,
ambientais, extinção de espécies, experiências biotecnológicas, particularmente os etólogos1, foram sofisticando os experimentos
expansão das granjas e fazendas industriais etc. pelos quais acessam e avaliam a inteligência animal. Talvez já seja
Como a senhora vê o futuro dos animais? hora de aposentar a fórmula “o homem é o único animal que...”.
Pelo jeito como as coisas andam, preocupo-me com a possibilida- Essa é a tese que o primatologista Frans de Waal defende com
de de os animais livres desaparecerem da face da Terra. Ficariam ardor em Are We Smart Enough to Know How Smart Animals
apenas os bichos criados em reservas e cativeiros, os expostos Are? (Somos espertos o suficiente para saber quão espertos são

8
os animais?). Como em outros livros do autor, ele nos inunda seriam mais de um: o de trabalho, usado só excepcionalmente, o
com histórias incríveis de façanhas intelectuais de bichos. Conta de gala, o de visitar eleitores e assim por diante. Enquanto esti-
que polvos usam casacas de coco como ferramenta, que elefan- ver de uniforme, o deputado é responsabilizado pelos seus atos
tes são capazes de distinguir idiomas humanos, que macacos ja- ilícitos ou indecorosos. Mas, se estiver à paisana, não se encontra
poneses aprenderam a lavar batatas doces com água e passaram no exercício do mandato e, portanto, pode fazer o que quiser. (...)
a técnica às gerações seguintes. A isso se somam as evidências
Mas isso é um mero detalhe, uma providência que melhor seria
de que chimpanzés fazem política e até pagam propinas a alia-
avaliada no conjunto de uma reforma séria, que levasse em con-
dos, sem mencionar os corvos, que estão se revelando verdadei-
ta nossas características culturais e nossas tradições. (...)
ros Einsteins do reino animal.
([Link]. Adaptado.) O que cola mesmo aqui são os ensinamentos de líderes como o
ex-presidente (gozado, o “ex” enganchou aqui no teclado, quase
1
etólogo: estudioso do comportamento social e individual dos animais em não sai), que, em várias ocasiões, torceu o nariz para denúncias
seu hábitat natural. de corrupção e disse que aqui era assim mesmo, sempre tinha
sido feito assim e não ia mudar a troco de nada. E assumia pos-
7. (FMJ MED – UNESP) Quanto à caracterização do processo de turas coerentes com esse ponto de vista. (...)
formação de palavras, está correto o que se afirma em:
Contudo, quando se descobre mais um caso de corrupção, a vida
a) o vocábulo “experimentos” (1º parágrafo) foi for- republicana fica bagunçada, as coisas não andam, perde-se tra-
mado por derivação sufixal, com o sufixo indicador de balho em investigações, gasta-se tempo prendendo e soltando
agente “-mento(s)” acrescido à base. gente e a imprensa, que só serve para atrapalhar, fica cobrando
b) o vocábulo “capazes” (2º parágrafo) foi formado explicações, embora já saibamos que explicações serão: primeiro
por derivação sufixal, com o sufixo indicador de agen- desmentidos e em seguida promessas de pronta e cabal investiga-
te “-es” acrescido à base. ção, com a consequente punição dos culpados. Não acontece nada
c) o vocábulo “incríveis” (2º parágrafo) foi formado e perdura essa situação monótona, que às vezes paralisa o País.
por derivação prefixal, com o prefixo de negação “in- A realidade se exibe diante de nós e não a vemos. Em lugar de
” acrescido à base. querer suprimir nossas práticas seculares, que hoje tanto prospe-
d) o vocábulo “intelectuais” (2º parágrafo) foi forma- ram, por que não aproveitá-las em nosso favor? (...) O brasileiro
do por derivação prefixal, com o prefixo de negação preocupado com o assunto já pode sonhar com uma corrupção
“in-” acrescido à base. moderna, dinâmica e geradora de empregos e renda. E não pen-
e) o vocábulo “descartadas” (1º parágrafo) foi forma- sem que esqueci as famosas classes menos favorecidas, como se
do por derivação prefixal, com o prefixo de negação dizia antigamente. O mínimo que antevejo é o programa Fraude
“des-” acrescido à base. Fácil, em que qualquer um poderá habilitar-se ao exercício da
boa corrupção, em seu campo de ação favorito. Acho que dá cer-
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
to, é só testar. E ficar de olho, para não deixar que algum corrupto
Reforma na corrupção corrupto passe a mão no fundo todo, assim também não vale.
João Ubaldo Ribeiro, O Estado de São Paulo. Disponível em:
Como previsto, já arrefece o mais recente debate sobre corrup- [Link]
ção. Ainda se discute, sem muito entusiasmo, a absolvição de corrupcao,768238,[Link]. Acesso em: 04-9-2011.
uma deputada que foi filmada recebendo um 3dinheirinho sus-
peito, mas isso aconteceu antes de ela ser deputada, de maneira 8. (Upf) O autor fala em “crimezinhos” (ref. 2), repetindo uma estra-
que não vale. Além da forte tendência de os parlamentares não tégia já usada, quando se refere a “dinheirinho” (ref. 3). No contexto

punirem os seus pares, havia o risco do precedente. Não somente em que aparecem, as duas ocorrências de diminutivo:

o voto é indecentemente secreto nesses casos, como o preceden- a) Representam uma minimização do destaque que a mí-
te poderia expor os pescoços de vários outros deputados. O que dia tem dado aos episódios de corrupção.
o deputado faz enquanto não é deputado não tem importância, b) Indicam a versão daquele que é flagrado em situações
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

mesmo que ele seja tesoureiro dos ladrões de Ali Babá. comprometedoras, tentando livrar-se do peso da infração.
Aliás, me antecipando um pouco ao que pretendo propor, me veio c) Marcam a ironia em relação aos corruptos, que exploram
logo uma ideia prática para acertar de vez esse negócio de deputa- a boa-fé do eleitor com vistas à sua promoção pessoal.
do cometendo crimes durante o exercício do mandato. Às vezes – e d) Deixam implícita a informação de que não se deve
lembro que errar é humano – o sujeito comete esses 2crimezinhos confiar nos dados apresentados pelos envolvidos em
distraído. Esquece, em perfeita boa-fé, que exerce um mandato escândalos financeiros.
parlamentar e aí perpetra a falcatrua. Fica muito chato para ele, e) Denotam a avaliação do autor acerca da importân-
se ele for flagrado, e seus atos podem sempre vir à tona, expostos cia dos crimes perpetrados contra os cofres públicos.
pela imprensa impatriótica. Não é justo submeter o deputado a
essa tensão permanente, afinal de contas, ele é gente como nós. 9. (IFSP) No português, encontramos variedades históricas, tais
como a representada na cantiga trovadoresca de João Garcia de
Minha ideia, como, modéstia à parte, costumam ser as grandes Guilhade, ilustrada a seguir.
ideias, é muito simples: os deputados usariam uniforme. Não
daria muito trabalho contratar (com dispensa de licitação, dada Non chegou, madre, o meu amigo,
a urgência do projeto), um estúdio de alta-costura francês ou e oje est o prazo saido!
italiano, ou ambos, para desenhar esse uniforme. Imagino que Ai, madre, moiro d’amor!

9
Non chegou, madre, o meu amado, O prefixo “des-”, da forma verbal “desconfia”, no primeiro qua-
e oje est o prazo passado! drinho, tem valor semântico de negação, assim como no termo
Ai, madre, moiro d’amor! destacado em:

E oje est o prazo saido! a) Sem os cuidados adequados, a garota ia, aos pou-
Por que mentiu o desmentido? cos, desfalecendo em seu leito.
Ai, madre, moiro d’amor! b) Os torcedores desaprovaram a escalação dos jo-
gadores para a última partida.
E oje, est o prazo passado! c) Apenas com o trem de pouso traseiro, o avião des-
Por que mentiu o perjurado? lizou o nariz pela pista.
Ai, madre, moiro d’amor! d) Minha avó me ensinou, desde cedo, a não desper-
Considerando a terceira estrofe, assinale a alternativa que apre- diçar comida.
senta uma palavra formada por parassíntese. e) Desfruta a vida enquanto podes, que o tempo é
a) desmentido implacável, e a morte é certa.
b) prazo 2. (Efomm) FELICIDADE CLANDESTINA
c) saido
(Clarice Lispector)
d) d’amor
e) moiro Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente cres-
pos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós to-
10. (UFSM - Adaptada) Leia o fragmento a seguir. das ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os
[...] a capoeira, a guardiã do jogo, da 1brincadeira, do faz de con- dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía
ta que 2luta, mas joga com o outro, que simula um 3golpe e tira o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter:
o outro para dançar e que tem uma vinculação étnica e racial um pai dono de livraria.
com o percurso e o lugar da negritude em nosso país, acabou, Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em
em algumas escolas, ensinada sob o 4controle da 5esportivização, vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em
com regras e pontuações. mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de
(Orientações Curriculares para o Ensino Médio. Secretaria de Educação paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes
Básica. Brasília: Ministério da Educação, v. 1, 2008, p. 231.) mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima pala-
vras como “data natalícia” e “saudade”.
O substantivo que, formado com o auxílio de um sufixo, conota no
fragmento um processo desvantajoso à prática da capoeira na escola é Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vin-
gança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia
a) brincadeira (ref. 1).
nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, es-
b) luta (ref. 2).
guias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma fe-
c) golpe (ref. 3). rocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as
d) controle (ref. 4). humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe
e) esportivização (ref. 5). emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre
E.O. Fixação mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que
possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
1. (SÃO CAMILO MED – UNESP) Leia a tira do cartunista Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo
Angeli para responder à questão. com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de
minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

seguinte e que ela o emprestaria.


Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da
alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as on-
das me levavam e me traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não
morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me man-
dou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia
emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia se-
guinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a
esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a
andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas
ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do
livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde
a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei
([Link]) pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

10
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do Assinale a opção em que o processo de formação da palavra su-
dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá esta- blinhada é diferente dos demais.
va eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. a) Mas possuía o que qualquer criança devoradora
Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais
b) Até que veio para ela o magno dia de começar a
tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia
exercer sobre mim uma tortura chinesa.
se repetir com meu coração batendo.
c) Mas que talento tinha para a crueldade.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era d) Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo.
tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu cor- e) Como casualmente, informou-me que possuía As
po grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando-me mesmo, às ve-
zes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando
danadamente que eu sofra. 3. (Esc. Naval) Laivos de memória

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia “... e quando tiverem chegado, vitoriosamente,
sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de ao fim dessa primeira etapa,
tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a mais ainda se convencerão de que
outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olhei- abraçaram uma carreira difícil,
ras se cavando sob os meus olhos espantados. árdua, cheia de sacrifícios,
mas útil, nobre e, sobretudo bela.”
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo
humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia (NOSSA VOGA, Escola Naval, Ilha de Villegagnon, 1964.)
estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à Há quase 50 anos, experimentei um misto de angústia, triste-
porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma za e ansiedade que meu jovem coração de adolescente soube
confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. suportar com bravura.
A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar
entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a Naquela ocasião, despedia-me dos amigos de infância e da
filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu família e deixava para trás bucólica cidadezinha da região
daqui de casa e você nem quis ler! serrana fluminense. A motivação que me levava a abandonar
gentes e coisas tão caras era, naquele momento, suficiente-
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. mente forte para respaldar a decisão tomada de dar novos
Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos rumos à minha vida. Meu mundo de então se tornara peque-
espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha des- no demais para as minhas aspirações. Meus desejos e sonhos
conhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das projetavam horizontes que iam muito além das montanhas
ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse fir- que circundam minha terra natal.
me e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo.
E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Como resistir à sedução e ao fascínio que a vida no mar des-
Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu perta nos corações dos jovens?
quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode Havia, portanto, uma convicção: aquelas despedidas, ainda que
ter a ousadia de querer. dolorosas – e despedidas são sempre dolorosas – não seriam cer-
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim rece- tamente em vão. Não tinha dúvidas de que os sonhos que acalen-
bi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, tavam meu coração pouco a pouco iriam se converter em realidade.
não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que Em março de 1962, desembarcávamos do Aviso Rio das Contas
segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra na ponte de atracação do Colégio Naval, como integrantes de
o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco mais uma Turma desse tradicional estabelecimento de ensino
importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. da Marinha do Brasil.
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, Ainda que a ansiedade persistisse oprimindo o peito dos novos
só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li al- e orgulhosos Alunos do Colégio Naval, não posso negar que a
gumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela tristeza, que antes havia ocupado espaço em nossos corações,
casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que era naquele momento substituída pelo contentamento peculiar
não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns dos vitoriosos. E o sentimento de perda, experimentado por
instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa ocasião das despedidas, provara-se equivocado: às nossas ca-
clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser ras famílias de origem agregava-se uma nova, a Família Naval,
clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como de- composta pelos recém-chegados companheiros; e às respecti-
morei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era vas cidades de nascimento, como a minha bucólica Bom Jardim,
uma rainha delicada. juntava-se, naquele instante, a bela e graciosa enseada Batista
das Neves em Angra dos Reis, como mais tarde se agregaria à
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto histórica Villegagnon em meio à sublime baía de Guanabara.
no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma
menina com um livro: era uma mulher com o seu amante. Ao todo foram seis anos de companheirismo e feliz convivência,
tanto no Colégio como na Escola Naval. Seis anos de aprendi-
Com base no texto acima, responda à questão a seguir. zagem científica, humanística e, sobretudo, militar-naval. Seis

11
anos entremeados de aulas, festivais de provas, práticas es- contato com povos diferentes e até mesmo de culturas exóticas
portivas, remo, vela, cabo de guerra, navegação, marinharia, e hábitos às vezes totalmente diversos dos nossos, como os ri-
ordem-unida, atividades extraclasses, recreativas, culturais e beirinhos amazonenses ou os criadores de serpentes da antiga
sociais, que deixaram marcas indeléveis. Taprobana, ex-Ceilão e hoje Sri Lanka.
Estes e tantos outros símbolos, objetos e acontecimentos pas- Como foi fascinante e delicioso navegar por todos esses can-
sados desfilam hoje, deliciosa e inexoravelmente distantes, em tos. Cada novo mar percorrido, cada nova enseada, estreito ou
meio a saudosos devaneios. porto visitado tinha sempre um gosto especial de descoberta...
Sim, pois, como dizia Câmara Cascudo, “o mar não guarda os
Ainda como alunos do Colégio Naval, os contatos preliminares
vestígios das quilhas que o atravessam. Cada marinheiro tem a
com a vida de bordo e as primeiras idas para o mar – a razão
ilusão cordial do descobrimento”.
de ser da carreira naval.
(CÉSAR, CMG William Carmo. Laivos de memória. In:
Como Aspirantes, derrotas mais longas e as primeiras desco- Revista de Villegagnon, Ano IV, nº 4, 2009. p. 42-50.)
bertas: Santos, Salvador, Recife e Fortaleza!
Em que opção encontra-se uma palavra cujo processo de for-
Fechando o ciclo das Viagens de Instrução, o tão sonhado em- mação é o mesmo do termo destacado em “[...] o tão sonhado
barque no Navio-Escola. Viagem maravilhosa! Nós, da Turma embarque [...].” (11º parágrafo)
Míguens, Guardas-Marinha de 1967, tivemos a oportunidade
ímpar e rara de participar de um cruzeiro ao redor do mundo a) “[...] circundam minha terra [...].” (2º parágrafo)
em 1968: a Quinta Circum-navegação da Marinha Brasileira. b) “[...] não seriam certamente em vão.” (4º parágrafo)
c) “E o sentimento de perda [...].” (6º parágrafo)
Após o regresso, as platinas de Segundo-Tenente, o primeiro em-
barque efetivo e o verdadeiro início da vida profissional – no meu d) “Seis anos entremeados de aulas, [...].” (7º parágrafo)
caso, a bordo do cruzador Tamandaré, o inesquecível C-12. Era e) “[...] o notável escritor-marinheiro [...].” (13º parágrafo)
a inevitável separação da Turma do CN-62/63 e da EM-64/67.
Novamente um misto de satisfação e ansiedade tomou conta do TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
coração, agora do jovem Tenente, ao se apresentar para servir a Quem nunca fotoxopou?
bordo de um navio de nossa Esquadra. Após proveitosos, mas
descontraídos estágios de instrução como Aspirante e Guarda- Fala-se hoje em Facebook, Google e iPhone com a mesma
-Marinha, quando as responsabilidades eram restritas a compro- combinação de fascínio e terror que um dia já se falou de
missos curriculares, as platinas de Oficial começariam, finalmente, Motorola e Nokia. Tudo se move rápido demais no mundo di-
gital, e são poucas as empresas que conseguem permanecer
a pesar forte em nossos ombros. Sobre essa transição do status
competitivas ao longo dos anos. Apesar de o Vale do Silício
de Guarda-Marinha para Tenente, o notável escritor-marinheiro
ter aquele ar hollywoodiano de terra de oportunidades, con-
Gastão Penalva escrevera com muita propriedade: “... é a fase tam-se nos dedos empresas longevas como uma Adobe, uma
inesquecível de nosso ofício. Coincide exatamente com a ado- Dell, uma Amazon.
lescência, primavera da vida. Tudo são flores e ilusões... Depois
começam a despontar as responsabilidades, as agruras de novos Por ter grande mobilidade, a concentração de poder e influência
cargos, o acúmulo de deveres novos”. no mundo digital surge tão rápido quanto desaparece, a ponto
de ser cada vez mais difícil encontrar quem fique na liderança por
E esses novos cargos e deveres novos, que foram se multiplican- uma mísera década. Na virada do século não havia Friendster,
do a bordo de velhos e saudosos navios, deixariam agradáveis e Myspace nem Orkut, o grande buscador era o Yahoo!, seguido
duradouras lembranças em nossa memória. Com o passar dos pelo Lycos. E a internet móvel estava a cargo de empresas inova-
tempos, inúmeros Conveses e Praça d’ Armas, hoje saudosas, fo- doras como Palm e Kyocera.
ram se incorporando ao acervo profissional-afetivo de cada um
O usuário de produtos digitais é cada vez mais volúvel e pragmático.
dos integrantes daquela Turma de Guardas-Marinha de 1967. Novos produtos e serviços podem até seduzi-lo com propaganda,
Ah! Como é gratificante, ainda que melancólico, repassar tan- design e preço. Mas a relação dificilmente será mantida se a marca
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

tas lembranças, tantos termos expressivos, tanta gíria maruja, não se renovar com a velocidade esperada, pouco importa sua fatia
tantas tradições, fainas e eventos tão intensamente vividos a de mercado. Kodak e Sony que o digam. Mesmo que ainda sejam
bordo de inesquecíveis e saudosos navios... gigantescas, já não têm o apelo de outrora.

E as viagens foram se multiplicando ao longo de bem aprovei- A melhor lição de empresas bem-sucedidas em relacionamen-
tados anos de embarque, de centenas de dias de mar e de mi- tos de longo prazo é a do bom e velho Photoshop, vendendo
saúde em seus 22 anos de idade e 12 plásticas (oops, ver-
lhares de milhas navegadas em alto mar, singrando as extensas
sões). Como o Google, ele é sinônimo de categoria e verbo.
massas líquidas que formam os grandes oceanos, ou ao longo
Mas também é adjetivo, substantivo, pejorativo e indicativo
das águas costeiras que banham os recortados litorais, com
de retoques fotográficos, mencionado com familiaridade até
passagens, visitas e arribadas em um sem-número de ensea- por quem não faça ideia de como ele funciona. Ao contrário
das, baías, barras, angras, estreitos, furos e canais espalhados do AutoCAD, que é oito anos mais velho, mas desconhecido
pelos quatro cantos do mundo, percorridos nem sempre com fora de seu nicho, o Photoshop é unanimidade.
mares bonançosos e ventos tranquilos e favoráveis.
Folha de S. Paulo, 26/03/2012.
Inúmeros foram também os portos e cidades visitadas, não só
no Brasil como no exterior, o que sempre nos proporciona ines- 4. (Insper) Quanto às variações exploradas a partir do termo
timáveis e valiosos conhecimentos, principalmente graças ao “Photoshop”, é correto afirmar que

12
a) o neologismo do título foi formado pelo mesmo Na primeira coluna, estão palavras retiradas do texto. Na segunda
processo que o termo “design”, presente no texto. coluna, descrições relacionadas à formação de palavras.
b) como adjetivo, o valor depreciativo do termo “fo-
toxopado” decorre exclusivamente do sufixo “-ado” Associe corretamente os elementos das colunas a seguir.
agregado ao radical. ( ) complexidade (refs. 1, 2, 3 e 4)
c) as palavras formadas a partir do estrangeirismo ( ) definição (ref. 5)
“photoshop” constituem jargões restritos à área de ( ) insuportáveis (ref. 6) sufixo formador de adjetivos a partir
informática. de verbos.

d) a grafia abrasileirada de “fotoxopou”, diferente- ( ) obras-primas (ref. 7)


mente de “hollywoodiano”, no 1.º parágrafo, é uma
1. Constituída por composição através de justaposição.
prova de que o software se popularizou no mundo.
e) apesar de não ter sido mencionado no texto, também 2. Constituída por prefixo com sentido de negação e sufixo for-
seria possível transformar “Photoshop” em advérbio de mador de adjetivos a partir de verbos

modo: “fotoxopalmente”. 3. Constituída por sufixo formador de substantivo a partir de


adjetivo.
5. (UFRGS - Adaptado) Hoje os conhecimentos se estruturam
de modo fragmentado, separado, compartimentado nas discipli- 4. Constituída por sufixo formador de substantivo a partir de verbo.
nas. Essa situação impede uma visão global, uma visão funda- 5. Constituída por aglutinação, tendo em vista a mudança silábica
mental e uma visão complexa. 1”Complexidade” vem da palavra de um dos elementos do vocábulo.
latina complexus, que significa a compreensão dos elementos no
A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima
seu conjunto.
para baixo, é
As disciplinas costumam excluir tudo o que se encontra fora do
a) 4 – 3 – 2 – 1.
seu campo de especialização. A literatura, no entanto, é uma
b) 3 – 4 – 2 – 5.
área que se situa na inclusão de todas as dimensões humanas.
Nada do humano lhe é estranho, estrangeiro. c) 4 – 3 – 1 – 5.
d) 3 – 4 – 2 – 1.
A literatura e o teatro são desenvolvidos como meios de expres-
e) 3 – 2 – 1 – 5.
são, meios de conhecimento, meios de compreensão da 2com-
plexidade humana. Assim, podemos ver o primeiro modo de 6. (Imed) Dia da Proclamação da República
inclusão da literatura: a inclusão da 3complexidade humana. E
Há exatos 125 anos, em 15 de novembro de 1889, foi proclama-
vamos ver ainda outras inclusões: a inclusão da personalidade
da a república do Brasil.
humana, a inclusão da subjetividade humana, e, também, muito
importante, a inclusão; do estrangeiro, do marginalizado, do in- Na época, o país era governado por D. Pedro II e passava por
feliz, de todos que ignoramos e desprezamos na vida cotidiana. grandes problemas, em razão da abolição da escravidão, em
A inclusão da 4complexidade humana é necessária porque rece- 1888.
bemos uma visão mutilada do humano. Essa visão, a de homo Como os negros não trabalhavam mais nas lavouras, os 1imi-
sapiens, é uma 5definição do homem pela razão; de homo faber, grantes começaram a ocupar seus lugares, plantando e colhen-
do homem como trabalhador; de homo economicus, movido por do, mas cobravam pelos trabalhos realizados, o que gerou insa-
lucros econômicos. Em resumo, trata-se de uma visão prosaica, tisfação nos proprietários de terras.
mutilada, que esquece o principal: a relação do sapiens/demens,
da razão com a demência, com a loucura. As perdas também foram grandes para os coronéis, pois haviam
gasto uma enorme quantidade de dinheiro investindo nos escra-
Na literatura, encontra-se a inclusão dos problemas humanos vos, e o governo, após a abolição, não pagou nenhuma indeni-
mais terríveis, coisas 6insuportáveis que nela se tornam suportá- zação a eles.
veis. Harold Bloom escreve: ”Todas as grandes obras revelam a
universalidade humana através de destinos singulares, de situa- A guerra do Paraguai (1864 a 1870) também ajudou na luta
contra o regime monárquico no Brasil. Soldados brasileiros se
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

ções singulares, de épocas singulares”. É essa a razão por que as


7
obras-primas atravessam séculos, sociedades e nações. aliaram aos exércitos do Uruguai e da Argentina, recebendo
Agora chegamos à parte mais humana da inclusão: a inclusão orientações para implantarem a república no Brasil.
do outro para a compreensão humana. A compreensão nos tor- Os movimentos republicanos também já aconteciam no país, a
na mais generosos com relação ao outro, e o criminoso não é 2
imprensa trazia politização à população civil, para lutarem pela
unicamente mais visto como criminoso, como o Raskolnikov de libertação do país dos domínios de Portugal. Com isso, vários
Dostoievsky, como o Padrinho de Copolla. partidos teriam sido criados, desde 1870.
A literatura, o teatro e o cinema são os melhores meios de com-
A Igreja também teve sua participação para que a república do
preensão e de inclusão do outro. Mas a compreensão se torna
provisória, esquecemo-nos depois da leitura, da peça e do filme. Brasil fosse proclamada. Dois bispos foram nomeados para 12aca-
Então essa compreensão é que deveria ser introduzida e desen- tarem as ordens de D. Pedro II, tornando-se seus subordinados,
volvida em nossa vida pessoal e social, porque serviria para me- mas não aceitaram tais imposições. Com isso, foram punidos com
lhorar as relações humanas, para melhorar a vida social. pena de prisão, levando a igreja a ir contra o governo.
(MORIN, Edgar. A inclusão: verdade da literatura. Com as tensões aquecendo o mandato de D. Pedro II, o impera-
In: RÕSING, Tânia et al. Edgar Morin: religando dor dirigiu-se com sua família para a cidade de Petrópolis, tam-
fronteiras. Passo Fundo: UPF, 2004. p. 13-18) bém no estado do Rio de Janeiro.

13
Porém seu afastamento não foi nada favorável, fazendo com que d) faz uma denúncia sobre os delitos da vida cotidiana
fosse posto em prática um golpe militar, onde o Marechal Deodo- nas cidades.
ro da Fonseca conspirava a derrubada de D. Pedro II. e) ameniza o tom ostensivo da vida fácil dos que sor-
Boatos de que os responsáveis pelo plano seriam presos fizeram riem com “bom uísque”, “cinema” e “restaurantes”.
com que a armada acontecesse, recebendo o apoio de mais de
8. (ESPCEX) Ao se alistar, não imaginava que o combate pudesse
seiscentos soldados.
se realizar em tão curto prazo, embora o ribombar dos canhões já
No dia 15 de novembro de 1889, ao passar pela Praça da Acla- se fizesse ouvir ao longe.
mação, o Marechal, com espada em punho, declarou que, a partir Quanto ao processo de formação das palavras sublinhadas, é cor-
daquela data, o país seria uma república. reto afirmar que sejam, respectivamente, casos de
Dom Pedro II recebeu a notícia de que seu governo havia sido
a) prefixação, sufixação, prefixação, aglutinação e
derrubado e um decreto o expulsava do país, juntamente com
onomatopeia.
sua família. Dias depois, voltaram a Portugal.
b) parassíntese, derivação regressiva, sufixação, agluti-
Para governar o Brasil República, os responsáveis pela conspira- nação e onomatopeia.
ção montaram um governo provisório, mas o Marechal Deodoro c) parassíntese, prefixação, prefixação, sufixação e de-
da Fonseca permaneceu como presidente do país. Rui Barbosa, rivação imprópria.
Benjamin Constant, Campos Sales e outros foram escolhidos
d) derivação regressiva, derivação imprópria, sufixação,
para formar os ministérios.
justaposição e onomatopeia.
(Jussara de Barros. Disponível em: [Link]
Acesso em: 16/01/2017)
e) parassíntese, aglutinação, derivação regressiva, jus-
taposição e onomatopeia.
Avalie as seguintes afirmações a respeito da palavra imigrantes (ref. 1):
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
I. É formada apenas por prefixação, assim como a palavra im-
prensa (ref. 2). Darwin passou quatro meses no Brasil, em 1832, durante a sua cé-
II. O prefixo – ante(s) exprime origem. lebre viagem a bordo do Beagle. Voltou impressionado com o que
III. Migração, migrar e emigrar são suas cognatas. viu: “Delícia é um termo 17insuficiente para 19exprimir as emoções
sentidas por um naturalista a sós com a natureza em uma flores-
Quais estão corretas? ta brasileira”, escreveu. O Brasil, porém, aparece de forma menos
a) Apenas I. 21
idílica em seus escritos: “Espero nunca mais voltar a um país es-
b) Apenas II. cravagista. O estado da enorme população escrava deve preocupar
c) Apenas III. todos os que chegam ao Brasil. Os senhores de escravos querem ver
d) Apenas I e II. o negro romo outra espécie, mas temos todos a mesma origem.”
e) Apenas II e III. Em vez do gorjeio do sabiá, o que Darwin guardou nos ouvidos foi
um som terrível que o acompanhou por toda a vida: “Até hoje, se eu
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO ouço um grito, lembro-me, com 22dolorosa e clara memória, de quan-
do passei numa casa em Pernambuco e ouvi urros terríveis. Logo
O sorriso dos canalhas
entendi que era algum pobre escravo que estava sendo torturado,”
Eles permanecem aí, sorrindo – em reuniões regadas a bom uís- Segundo o biólogo Adrian Desmond, “a viagem do Beagle, para
que, sorrindo – diante de câmeras de televisão, sorrindo – de ter- Darwin, foi menos importante pelos espécimes coletados do que
no e gravata, sorrindo. Parecem felizes, diriam uns, estão de bem pela experiência de testemunhar os horrores da 23escravidão no
com a vida, pensariam outros, têm belas lembranças, concluiriam Brasil. De certa forma, ele escolheu focar na 20descendência co-
então. Sem dúvida! Cada vez que um deles se olha no espelho, mum do homem justamente para mostrar que todas as raças eram
preparando-se para aparecer em público, uma súbita alegria o iguais e, desse modo, enfim, objetar àqueles que 18insistiam em
invade. É um homem impune, e sempre que lembra disso ele dizer que os negros pertenciam a uma espécie diferente e inferior
sorri. Sorri por todos os sorrisos que roubou. à dos brancos”. Desmond acaba de lançar um estudo que mostra
Sim, eles permanecem aí e celebram nossa indiferença e nos- a paixão abolicionista do cientista, revelada por seus diários e car-
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

sa curta memória. Mas ainda é cedo demais para esquecer, e tas pessoais. “A extensão de seu interesse no combate à ciência
o sorriso deles nos avisa disso. Enquanto vamos levando nossa de cunho racista é surpreendente, e pudemos detectar um ímpeto
vidinha1 de todos os dias, preocupados com o preço da gasolina moral por trás de seu trabalho sobre a evolução humana – uma
e a violência das grandes cidades, eles andam pelas ruas, vão ao crença na ‘irmandade racial’ que tinha origem em seu ódio ao 24es-
cinema, frequentam restaurantes, assombram suas vítimas. Que cravismo e que o levou a pensar numa descendência comum.”
imensa ilusão pensarmos que estamos em segurança enquanto Adaptado de: HAAG, C. O elo perdido tropical.
eles sorriem. Se ainda não podemos fazer alguma coisa, temos Pesquisa FAPESP, n. 159, p. 80 - 85, maio 2009.
ao menos a obrigação de não esquecer. 9. (Ufrgs) Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as afirma-
(O espaço da dor, 1996. Adaptado.) ções a seguir sobre elementos de formação de palavras do texto.

7. (UNICID MED – UNESP) A palavra “vidinha” (ref. 1), utili- ( ) As palavras insuficiente (ref. 17) e insistiam (ref. 18) apresen-
zada no diminutivo, tam o mesmo prefixo em sua formação.

a) contrapõe-se a uma vida menos ordinária, perme- ( ) A comparação da palavra exprimir (ref. 19) com imprimir e
da palavra descendência (ref. 20) com ascendência permite que se
ada por cinema e restaurantes.
postule um radical comum para cada um dos pares.
b) reitera a ideia festiva contida em “celebram” e “sorriso”.
c) caracteriza uma vida com altos e baixos, festas e ( ) As palavras idílica (ref. 21) e dolorosa (ref. 22) apresentam
trabalho, sorrisos e preocupações. sufixos que formam adjetivos a partir de substantivos.

14
( )O emprego de diferentes sufixos para o mesmo radical em um acontecimento gostoso, sempre figurando a mulher. Primei-
escravidão (ref. 23) e escravismo (ref. 24) serve, no texto, para ro a mãe, depois a namorada, a noiva, a esposa. Muita coisa a
expressar, respectivamente, a ideia de “situação resultante de uma contar, a dizer, surpresas de carinho. A comida preferida, o abraço
ação” e de “movimento socioideológico”. apertado, o beijo quente... e o filho que, na ausência, foi ensina-
A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima
do a dizer papai.
para baixo, é No início, eu voltava com muitos retratos, principalmente quando
vinha do estrangeiro, depois, com o tempo, eram poucos, até que
a) F – V – V – V.
deixei de levar a máquina. Engraçado, vocês já perceberam que
b) V – F – V – F. marinheiro velho dificilmente baixa a terra com máquina fotográ-
c) V – V – F – F. fica? Foi assim comigo.
d) F – V – F – V.
Hoje os navios são outros, os marinheiros são outros – sinto-os
e) F – F – V – V. mais preparados do que eu era – mas a vida no mar, as viagens,
os portos, a volta, estou certo de que são iguais. Sou marinheiro,
10. (Esc. Naval) VELHO MARINHEIRO
por isso sei como é.
Homenagem aos marinheiros Fico agora em casa, querendo saber das coisas da Marinha. E a
de sempre... e para sempre. cada pedaço que ouço de um amigo, que leio, que vejo, me dá
um orgulho que às vezes chega a entalar na garganta. Há pouco
Sou marinheiro porque um dia, muito jovem, estendi meu braço tempo, voltei a entrar em um navio. Que coisa linda! Sofisticado,
diante da bandeira e jurei lhe dar minha vida. limpíssimo, nas mãos de uma tripulação que só pode ser muito
Naquele dia de sol a pino, com meu novo uniforme branco, sen- competente para mantê-lo pronto. Do que me mostraram eu não
ti-me homem de verdade, como se estivesse dando adeus aos sabia muito. Basta dizer que o último navio em que servi já deu
tempos de garoto. Ao meu lado, as vozes de outros jovens so- baixa. 17Quando saí de bordo, parei no portaló, voltei-me para a
avam em uníssono com a minha, vibrantes, e terminamos com bandeira, inclinei a cabeça... e, minha garganta entalou outra vez.
emoção, de peitos estufados e orgulhosos. Ao final, minha mãe Isso é corporativismo; não aquele enxovalhado, que significa o
veio em minha direção, apressada em me dar um beijo. 20Acari- bem de cada um, protegido à custa do desmerecimento da insti-
ciou-me o rosto e disse que eu estava lindo de uniforme. O dia tuição; mas o puro, que significa o bem da instituição, protegido
acabou com a família em festa; eu lembro-me bem, fiquei de pelo merecimento de cada um.
uniforme até de tarde... Sou marinheiro e, portanto, sou corporativista.
Sou marinheiro, porque aprendi, naquela Escola, o significado Muitas vezes a lembrança me retorna aos dias da ativa e morro
nobre de companheirismo. Juntos no sofrimento e na alegria, de saudades. 18Que bom se pudesse voltar ao começo, vestir
um safando o outro, leais e amigos. Aprendi o que é civismo, aquele uniforme novinho – até um pouco grande, ainda re-
respeito e disciplina, no princípio, exigidos a cada dia; depois, cordo – Jurar Bandeira, ser beijado pela minha falecida mãe...
como parte do meu ser e, assim, para sempre. A cada passo Sei que, quando minha hora chegar, no último instante, verei,
havia um novo esforço esperando e, depois dele, um pequeno em velocidade desconhecida, o navio com meus amigos, minha
sucesso. Minha vida, agora que olho para trás, foi toda de pe- mulher, meus filhos, singrando para sempre, indo aonde o mar
quenos sucessos. A soma deles foi a minha carreira. encontra o céu... e, se São Pedro estiver no portaló, direi:
19
No meu primeiro navio, logo cedo, percebi que era nova- – Sou marinheiro, estou embarcando.
mente aluno. Todos sabiam das coisas mais do que eu havia (Autor desconhecido. In: Língua portuguesa: leitura e produção de texto.
aprendido. Só que agora me davam tarefas, incumbências, e Rio de Janeiro: Marinha do Brasil, Escola Naval, 2011. p. 6-8)
esperavam que eu as cumprisse bem. Pouco a pouco, passei a
Glossário
ser parte da equipe, a ser chamado para ajudar, a ser necessá-
Portaló: abertura no casco de um navio, ou passagem junto à
rio. Um dia vi-me ensinando aos novatos e dei-me conta de que
balaustrada, por onde as pessoas transitam para fora ou para
me tornara marinheiro, de fato e de direito, um profissional! O dentro, e por onde se pode movimentar carga leve.
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

navio passou a ser minha segunda casa, onde eu permanecia


mais tempo, às vezes, do que na primeira. Conhecia todos, al- Em que opção o autor, ao reportar-se ao passado, emprega um ter-
guns mais até do que meus parentes. Sabia de suas manhas, mo cujo sufixo tem valor intensificador?
cacoetes, preocupações e de seus sonhos. Sem dar conta, meu a) “Até as durezas por que passamos são saborosas
mundo acabava no costado do navio. ao lembrar [...].” (ref. 16)
A soma de tudo que fazemos e vivemos, pelo navio, é uma das b) “Quando saí de bordo, parei no portaló, voltei-me
coisas mais belas, que só há entre nós, em mais nenhum outro para a bandeira [...].” (ref. 17)
lugar. Por isso sou marinheiro, porque sei o que é espírito de navio. c) “Que bom se pudesse voltar ao começo, vestir
Bons tempos aqueles das viagens, dávamos um duro danado no aquele uniforme novinho [...].” (ref. 18)
mar, em serviço, postos de combate, adestramento de guerra, dia d) “No meu primeiro navio, logo cedo, percebi que
e noite. O interessante é que em toda nossa vida, quando busca- era novamente aluno.” (ref. 19)
mos as boas recordações, elas vêm desse tempo, das viagens e e) “Acariciou-me o rosto e disse que eu estava lindo
dos navios. 16Até as durezas por que passamos são saborosas ao de uniforme.” (ref. 20)
lembrar, talvez porque as vencemos e fomos adiante.
É aquela história dos pequenos sucessos. A volta ao porto era

15
E.O. Complementar 3. (UFRGS) Quando a economia 2política clássica nasceu, no
Reino Unido e na França, ao final do século XVIII e início do sé-
culo XIX, a questão da distribuição da renda já se encontrava
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO no centro de todas as análises. Estava claro que transformações
O Assinalado radicais entraram em curso, propelidas pelo crescimento 4demo-
gráfico sustentado – inédito até então – e pelo início do êxodo
Tu és o louco da imortal loucura, rural e da Revolução Industrial. Quais seriam as consequências
O louco da loucura mais suprema. sociais dessas mudanças?
A Terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura. Para Thomas Malthus, que 5publicou em 1798 seu Ensaio sobre o
princípio da população, não restava dúvida: a superpopulação era
Mas essa mesma algema de amargura, uma ameaça. Preocupava-se especialmente com a situação dos
Mas essa mesma Desventura extrema franceses vésperas da Revolução de 1789, quando havia miséria
Faz que tu’alma suplicando gema generalizada no campo. Na época, a França era de longe o país
E rebente em estrelas de ternura. mais populoso da Europa: por volta de 1700, já contava com mais
Tu és o Poeta, o grande Assinalado de 20 milhões de habitantes, enquanto o Reino Unido tinha pouco
Que povoas o mundo despovoado, mais de 8 milhões de pessoas. A 8população francesa se expan-
De belezas eternas, pouco a pouco... diu em ritmo crescente ao longo do século XVIII, aproximando-se
dos 30 milhões. Tudo leva a crer que esse dinamismo demográfico,
Na Natureza prodigiosa e rica desconhecido nos séculos anteriores, contribuiu para a estagna-
Toda a audácia dos nervos justifica ção dos salários no campo e para o aumento dos rendimentos
Os teus espasmos imortais de louco! associados à 11propriedade da terra, sendo, portanto, um dos fa-
(Cruz e Souza. Últimos sonetos, 2002.) tores que levaram Revolução Francesa. Para evitar que torvelinho
similar vitimasse o Reino Unido, Malthus argumentou que toda
1. (UNIFAE MED – UNESP) Há derivação prefixal e sufixal na assistência aos 15pobres deveria ser suspensa de imediato e a taxa
palavra destacada em:
de natalidade deveria ser severamente controlada.
a) “O louco da loucura mais suprema.”
Já David Ricardo, que publicou em 1817 os seus Princípios de eco-
b) “Mas essa mesma algema de amargura,”
nomia política e tributação, preocupava-se com a evolução do pre-
c) “Mas essa mesma Desventura extrema” ço da terra. Se o crescimento da população e, consequentemente,
d) “Na Natureza prodigiosa e rica” da produção agrícola se prolongasse, a terra tenderia a se tornar
e) “Tu és o louco da imortal loucura,” escassa. De acordo com a lei da oferta e da procura, o preço do
2. Examine a tira Calvin e Haroldo para responder à questão bem escasso – a terra – deveria subir de modo contínuo. No limite,
os donos da terra receberiam uma parte cada vez mais significativa
da renda nacional, e o restante da população, uma parte cada vez
mais reduzida, destruindo o equilíbrio social. De fato, o valor da ter-
ra permaneceu alto por algum tempo, mas, ao longo de século XIX,
caiu em relação outras formas de riqueza, à medida que diminuía o
peso da agricultura na renda das nações. Escrevendo nos anos de
1810, Ricardo não poderia antever a importância que o progresso
tecnológico e o crescimento industrial teriam ao longo das décadas
seguintes para a evolução da distribuição da renda.
(PIKETTY, T. O Capital no Século XXI. Trad. de M. B. de
Bolle. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014. p. 11-13.)

Assinale a alternativa em que as três palavras possuem um radical


que está relacionado com a noção de “povo”.
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

a) política (ref. 2) – publicou (ref. 5) – população (ref. 8)


b) política (ref. 2) – população (ref. 8) – pobres (ref. 15)
c) demográfico (ref. 4) – publicou (ref. 5) – população (ref. 8)
d) demográfico (ref. 4) – publicou (ref. 5) – propriedade
– (ref. 11)
e) demográfico (ref. 4) – propriedade (ref. 11) – pobres
(ref. 15)
Os prefixos in- e hiper-, em incoerente e hiperativo, possuem os 4. (UFRGS) No século XV, viu-se a Europa invadida por uma raça
mesmos significados dos prefixos empregados, respectivamente, em de homens que, vindos ninguém sabe de onde, se espalharam
a) amoral e hipocalórico. em bandos por todo o seu território. Gente inquieta e andari-
lha, deles afirmou Paul de Saint-Victor que era mais fácil predizer
b) ingressar e pluricelular.
o das nuvens ou dos gafanhotos do que seguir as pegadas da
c) antiaéreo e supercílio. sua invasão. Uns risonhos despreocupados: passavam a vida es-
d) desprotegido e ultraconfiante. quecidos do passado e descuidados do futuro. Cada novo dia
e) inflamável e transalpino. era uma nova aventura em busca do escasso alimento para os

16
manter naquela jornada. Trajo? No mais completo sujos e puídos
cobriam-lhes os corpos queimados do sol. Nômades, aventurei- E.O. Dissertativo
ros, despreocupados – eram os boêmios.
1. (FGV) MÃE
Assim nasceu a semântica da palavra boêmio. O nome gentílico
de Boêmia passou a aplicar-se ao indivíduo despreocupado, de Mãe – que adormente este viver dorido.
existência irregular, relaxado no vestuário, vivendo ao deus-dará, E me vele esta noite de tal frio,
à toa, na vagabundagem alegre. Daí também o substantivo bo- E com as mãos piedosas até o fio
êmia. Na definição de Antenor Nascentes: vida despreocupada e Do meu pobre existir, meio partido...
alegre, vadiação, estúrdia, vagabundagem. Aplicou-se depois o
termo, especializadamente, à vida desordenada e sem preocu- Que me leve consigo, adormecido,
pações de artistas e escritores mais dados aos prazeres da noite Ao passar pelo sítio mais sombrio...
que aos trabalhos do dia. Eis um exemplo clássico do que se Me banhe e lave a alma lá no rio
chama degenerescência semântica. De limpo gentílico – natural Da clara luz do seu olhar querido...
ou habitante da Boêmia – boêmio acabou carregado de todas Eu dava o meu orgulho de homem – dava
essas conotações desfavoráveis. Minha estéril ciência, sem receio,
A respeito do substantivo boêmia, vale dizer que a forma de uso, E em débil criancinha me tornava,
ao menos no Brasil, é boemia, acento tônico em -mi-. E é natu- Descuidada, feliz, dócil também,
ral que assim seja, considerando-se que -ia é sufixo que exprime Se eu pudesse dormir sobre o teu seio,
condição, estado, ocupação. Conferir: 16alegria, 18anarquia, barba- Se tu fosses, querida, a minha mãe!
ria, 17rebeldia, tropelia, 20pirataria... Penso que sobretudo palavras
como folia e 19orgia devem ter influído na fixação da tonicidade de (Antero de Quental. Antologia, 1991)
boemia. Notar também o par abstêmio/abstemia. Além do mais, a Analisando os termos empregados no texto, explique
prosódia boêmia estava prejudicada na origem pelo nome próprio
Boêmia: esses boêmios não são os que vivem na Boêmia... a) o sentido que assumem os termos “vele” (primeira
estrofe) e “débil” (terceira estrofe);
(LUFT, Celso Pedro. Boêmios, Boêmia e boemia. In: O romance
das palavras. São Paulo: Ática, 1996. p. 30-31.)
b) o processo de derivação do termo destacado em “Do
meu pobre existir, meio partido...” (primeira estrofe) e
Considere as seguintes afirmações sobre as relações morfológi- o sentido que o sufixo confere ao termo destacado em
cas que se estabelecem com palavras do texto. “E em débil criancinha me tornava,” (terceira estrofe).
I. alegria (ref. 16) e rebeldia (ref. 17) são palavras derivadas de
adjetivos, assim como valentia. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
II. anarquia (ref. 18) e orgia (ref. 19) são palavras que, apesar de
OS DIFERENTES
apresentarem a terminação -ia, não derivam de outras palavras.

III. pirataria (ref. 20) é palavra derivada de substantivo, assim Descobriu-se na Oceania, mais precisamente na ilha de Osseva-
como chefia. olep, um povo primitivo, que anda de cabeça para baixo e tem
vida organizada.
Quais estão corretas?
É aparentemente um povo feliz, de cabeça muito sólida e mãos
a) Apenas I.
reforçadas. Vendo tudo ao contrário, não perde tempo, entretanto,
b) Apenas III. em refutar a visão normal do mundo. E o que eles dizem com os
c) Apenas I e II. pés dá a impressão de serem coisas aladas, cheias de sabedoria.
d) Apenas II e III.
Uma comissão de cientistas europeus e americanos estuda a lin-
e) I, II e III. guagem desses homens e mulheres, não tendo chegado ainda a
5. (Uel) A questão refere-se ao romance O outro pé da sereia, de conclusões publicáveis. Alguns professores tentaram imitar esses
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

Mia Couto. nativos e foram recolhidos ao hospital da ilha. Os cabecences-


-para-baixo, como foram denominados à falta de melhor clas-
A crítica literária tem aproximado o moçambicano Mia Couto do sificação, têm vida longa e desconhecem a gripe e a depressão.
brasileiro Guimarães Rosa, em particular pelo fato de ambos empre-
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Prosa Seleta.
garem neologismos em suas obras.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003. p. 150)
No trecho “as mãos calosas, de enxadachim”, extraído do con-
to “Fatalidade”, de autoria do autor brasileiro, o neologismo
2. (Ufrj - Adaptado) No texto, identifica-se o povo da ilha de

“enxadachim” é construído pelo mesmo processo de formação Ossevaolep por um neologismo: cabecences-para-baixo.
de palavras utilizado pelo autor moçambicano para a criação de a) Identifique os processos de formação de palavras
a) vitupérios. utilizados para a criação desse neologismo.
b) bebericava. b) Considerando o conhecimento que os observado-
c) tamanhoso. res têm do povo de Ossevaolep, responda: por que se
afirma, no texto, que o neologismo foi criado “à falta
d) mudançarinos.
de melhor classificação”?
e) malfadado.

17
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
O EX-CINECLUBISTA Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
(João Gilberto Noll) Dar ordens a um exército,
Aquele homem meio estrábico, ostentando um mau humor para conquistar um império extinto.
maior do que realmente poderia dedicar a quem lhe cruzasse o (PAULO LEMINSKI GÓES, F.; MARINS, A. (Orgs.)
caminho e que agora entrava no cinema, numa segunda-feira à Melhores poemas de Paulo Leminski. São Paulo: Global, 2001.
tarde, para assistir a um filme nem tão esperado, a não ser entre
Considere a formação da palavra “Desencontrários”, título do po-
pingados amantes de cinematografias de cantões os mais exóti-
ema de Paulo Leminski. Separe seus elementos mórficos. Em seguida,
cos, aquele homem, sim, sentou-se na sala de espera e chorou,
nomeie o primeiro morfema que a compõe e indique seu significado.
simplesmente isso: chorou. Vieram lhe trazer um copo d’água
logo afastado, alguém sentou-se ao lado e lhe perguntou se não 2. (UERJ) BRINCAR COM PALAVRAS – NOS JOGOS VER-
passava bem, mas ele nada disse, rosnou, passou as narinas pela BAIS, EXERCÍCIOS DE LITERATURA
manga, levantou-se num ímpeto e assistiu ao melhor filme em
muitos meses, só isso. Ao sair do cinema, chovia. Ficou sob a Você sabe o que é um palíndromo?
marquise, à espera da estiagem. Tão absorto no filme que se es-
É uma palavra ou mesmo uma frase que pode ser lida de frente
queceu de si. E não soube mais voltar.
pra trás e de trás pra frente mantendo o mesmo sentido. Por
3. (Ufrj) O vocábulo “ex-cineclubista” resulta da aplicação de exemplo, em português: “amor” e “Roma”; em espanhol: “Anita
quatro processos de formação de palavras. Identifique-os, va-
lava la tina”. Ou, então, a frase latina: “Sator arepo tenet opera
lendo-se de elementos constitutivos desse vocábulo.
rotas”, que não só pode ser lida de trás pra frente, mas pode ser
lida na vertical, na horizontal, de baixo pra cima, de cima pra
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO baixo, girando os olhos em redor deste quadrado:
SAT O R
Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os AREPO
olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas. T E N ET
[...] O P E RA
R OTA S
Daí a pouco, em volta das bicas era um zunzum crescente; uma
aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas. Uns, após outros, Essa frase latina polivalente foi criada pelo escravo romano Loreius
lavavam a cara, incomodamente, debaixo do fio de água que 200 anos antes de Cristo, e tem dois significados: “O lavrador man-
escorria da altura de uns cinco palmos. O chão inundava-se. As tém cuidadosamente a charrua nos sulcos” e/ou “o lavrador sus-
mulheres precisavam já prender as saias entre as coxas para não tém cuidadosamente o mundo em sua órbita”. Osman Lins cons-
as molhar; via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço, truiu o romance “Avalovara” (1973) em torno desse palíndromo.
que elas despiam, suspendendo o cabelo todo para o alto do Muita gente sabe o que é um caligrama – aqueles textos que
casco; os homens, esses não se preocupavam em não molhar o existiam desde a Grécia em que as letras e frases iam desenhan-
pelo, ao contrário metiam a cabeça bem debaixo da água e es- do o objeto a que se referiam – um vaso, um ovo, ou então,
fregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando como num autor moderno tipo Apollinaire, as frases do poema
contra as palmas da mão. se inscrevendo em forma de cavalo ou na perpendicular imitando
(Aluísio Azevedo. O cortiço.) o feitio da chuva.

4. (Ufscar) Há, no texto, palavras derivadas por sufixação, como Mas pouca gente sabe o que é um lipograma.
“tumultuosa” e “nudez”. Lipo significa tirar, aspirar, esconder. Portanto, um lipograma é um
a) Dê dois exemplos de palavras derivadas com o su- texto que sofreu a lipoaspiração de uma letra. O autor resolve
fixo da primeira. esconder essa letra por razões lúdicas. Já o grego Píndaro havia
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

escrito uma ode, sem a letra “s”. Os autores barrocos no século


b) Dê mais dois exemplos de palavras derivadas com
XVII também usavam este tipo de ocultação, porque estavam
o sufixo da outra.
envolvidos com o ocultismo, com a cabala e com a numerologia.
Por que estou dizendo essas coisas?
E.O. UERJ Culpa da Internet.

Exame Discursivo Esses jogos verbais que vinham sendo feitos desde as cavernas
agora foram potencializados com a informática. Dizia eu numa en-
1. (UERJ) DESENCONTRÁRIOS trevista outro dia que estamos vivendo um paradoxo riquíssimo: a
mais avançada tecnologia eletrônica está resgatando o uso lúdico
Mandei a palavra rimar, da linguagem e uma das mais arcaicas atividades humanas – a
ela não me obedeceu. poesia. Os poetas, mais que quaisquer outros escritores, invadiram
Falou em mar, em céu, em rosa, a Internet. Se em relação às coisas prosaicas se diz que a vingança
em grego, em silêncio, em prosa. vem a cavalo, no caso da poesia a vingança veio a cabo, galopando
Parecia fora de si, eletronicamente. Por isto que toda vez que um jovem iniciante me
a sílaba silenciosa. procura com a angústia de publicar seu livro, aconselho-o logo:

18
“Meu filho, abra uma página sua na Internet para não mais se
constranger e se sentir constrangido diante dos editores e críticos. E.O. Objetivas
Estampe seu texto na Internet e deixe rolar”.
(ROMANO, Affonso de Sant’Anna. O Globo, 15/09/1999.) (Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp)
Você sabe o que é um palíndromo? (par. 1) 1. (Unicamp 2017)

Por que estou dizendo essas coisas? (par. 7)

Observando os parágrafos compreendidos entre as perguntas aci-


ma, identifique:

a) a função da linguagem predominante nesses pará-


grafos e justifique sua reposta;
b) o processo de formação de palavras comum aos ter-
mos OCULTAÇÃO e OCULTISMO e explique a diferença
de sentido entre eles.

3. (UERJ) A bem dizer, sou Ponciano de Azeredo Furtado, coro-


nel de patente, do que tenho honra e faço alarde. Herdei do meu
avô Simeão terras de muitas medidas, gado do mais gordo, pasto
do mais fino. Leio no corrente da vista e até uns latins arranhei Do ponto de vista da norma culta, é correto afirmar que “coisar” é
em tempos verdes da infância, com uns padres-mestres a dez a) uma palavra resultante da atribuição do sentido co-
tostões por mês. Digo, modéstia de lado, que já discuti e joguei notativo de um verbo qualquer ao substantivo “coisa”.
no assoalho do Foro mais de um doutor formado. Mas disso não b) uma palavra resultante do processo de sufixação que
faço glória, pois sou sujeito lavado de vaidade, mimoso no trato, transforma o substantivo “coisa” no verbo “coisar”.
de palavra educada. Já morreu o antigamente em que Ponciano
c) uma palavra que, graças a seu sentido universal,
mandava saber nos ermos se havia um caso de 1lobisomem a
pode ser usada em substituição a todo e qualquer
sanar ou pronta justiça a ministrar. Só de uma regalia não abri
verbo não lembrado.
mão nesses anos todos de pasto e vento: a de falar alto, sem
freio nos dentes, sem medir consideração, seja em compartimen- d) uma palavra que resulta da transformação do subs-
to do governo, seja em sala de desembargador. Trato as partes no tantivo “coisa” em verbo “coisar”, reiterando um es-
macio, em jeito de moça. Se não recebo cortesia de igual porte, quecimento.
abro o peito:
2. (Unifesp) Casimiro de Abreu pertence à geração dos poetas que
– Seu filho da égua, que pensa que é? morreram prematuramente, na casa dos vinte anos, como Álvares
de Azevedo e outros, acometidos do “mal” byroniano. Sua poesia,
Nos currais do Sobradinho, no debaixo do capotão de meu avô, reflexo autobiográfico dos transes, imaginários e verídicos, que lhe
passei os anos de pequenice, que pai e mãe perdi no gosto do agitaram a curta existência, centra-se em dois temas fundamentais:
primeiro leite. Como fosse dado a fazer garatujações e desabusa- a saudade e o lirismo amoroso. Graças a tal fundo de juvenilidade
do de boca, lá num inverno dos antigos, Simeão coçou a cabeça e timidez, sua poesia saudosista guarda um não sei quê de infantil.
e estipulou que o neto devia ser doutor de lei:
(Massaud Moisés. A literatura brasileira através dos textos, 2004.)
– Esse menino tem todo o sintoma do povo da política. É invencio-
neiro e 2linguarudo. (...) Os substantivos do texto derivados pelo mesmo processo de for-
(CARVALHO, J. C. O coronel e o lobisomem. mação de palavras são:
Rio de Janeiro: José Olympio, 1978.) a) juvenilidade e timidez.
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

Observe as seguintes palavras: b) geração e byroniano.


c) reflexo e imaginários.
“lobisomem” (ref. 1) d) prematuramente e autobiográfico.
“linguarudo” (ref. 2) e) saudade e infantil.
Identifique o processo de formação de cada uma delas, segundo o 3. (Unifesp 2018) Leia um trecho do artigo “Reflexões sobre
seu emprego no texto. o tempo e a origem do Universo”, do físico brasileiro Marcelo
Gleiser, para responder à próxima questão.

Qualquer discussão sobre o tempo deve começar com uma análi-


se de sua estrutura, que, por falta de melhor expressão, devemos
chamar de “temporal”. É comum dividirmos o tempo em passado,
presente e futuro. O passado é o que vem antes do presente e o
futuro é o que vem depois. Já o presente é o “agora”, o instante
atual. Isso tudo parece bastante óbvio, mas não é. Para definir-
mos passado e futuro, precisamos definir o presente. Mas, segun-
do nossa separação estrutural, o presente não pode ter duração

19
no tempo, pois nesse caso poderíamos definir um período no seu Diabo na Terra do Sol”, convocada pelo Facebook para o mesmo
passado e no seu futuro. Portanto, para sermos coerentes em dia, no Rio de Janeiro.
nossas definições, o presente não pode ter duração no tempo. Ou (O Estado de S. Paulo, 23/03/2014, Caderno Aliás, E4. )
seja, o presente não existe! A discussão acima nos leva a outra
a) Descreva o processo de formação de palavras en-
questão, a da origem do tempo. Se o tempo teve uma origem,
então existiu um momento no passado em que ele passou a exis- volvido em “esculhambativo”, apontando o tipo de
tir. Segundo nossas modernas teorias cosmogônicas, que visam transformação ocorrida no vocábulo.
explicar a origem do Universo, esse momento especial é o mo- b) Discorra sobre a diferença entre as expressões
mento da origem do Universo “clássico”. A expressão “clássico” “evento esculhambado” e “evento esculhambativo”,
é usada em contraste com “quântico”, a área da física que lida considerando as relações de sentido existentes entre
com fenômenos atômicos e subatômicos. [...] As descobertas de os dois textos acima.
Einstein mudaram profundamente nossa concepção do tempo.
2. (Unicamp) A sobrevivência dos meios de comunicação tradi-
Em sua teoria da relatividade geral, ele mostrou que a presen-
cionais demanda foco absoluto na qualidade de seu conteúdo.
ça de massa (ou de energia) também influencia a passagem do
A internet é um fenômeno de desintermediação. E que futuro
tempo, embora esse efeito seja irrelevante em nosso dia a dia.
aguardam os meios de comunicação, assim como os partidos
O tempo relativístico adquire uma plasticidade definida pela re-
políticos e os sindicatos, num mundo desintermediado? Só nos
alidade física à sua volta. A coisa se complica quando usamos a
resta uma saída: produzir informação de alta qualidade técnica
relatividade geral para descrever a origem do Universo.
e ética. Ou fazemos jornalismo de verdade, fiel à verdade dos
(Folha de [Link], 07.06.1998.) fatos, verdadeiramente fiscalizador dos poderes públicos e com
excelência na prestação de serviços, ou seremos descartados
O processo de formação de palavras verificado em “estrutural” por um consumidor cada vez mais fascinado pelo aparente au-
(2.° parágrafo) também está presente em tocontrole da informação na plataforma virtual.
a) “futuro” (1º parágrafo). (Carlos Alberto di Franco, Democracia demanda jornalismo
b) “portanto” (2º parágrafo). independente. O
Estado de S. Paulo, São Paulo, 14/10/2013, p. A2.)
c) “momento” (3º parágrafo). a) “Desintermediação” é um termo técnico do campo da
d) “plasticidade” (4º parágrafo). comunicação. Ele se refere ao fato de que os meios de
e) “origem” (3º parágrafo). comunicação tradicionais não mais detêm o monopólio
da produção e distribuição de mensagens. Considerando
4. (Unifesp) Examine a tira. esse “mundo desintermediado”, identifique duas críticas
ao jornalismo atual formuladas pelo autor.
b) Os processos de formação de palavras envolvidos no
vocábulo “desintermediação” não ocorrem simultane-
amente. Tendo isso em mente, descreva como ocorre a
formação da palavra “desintermediação”.

3. (Unicamp 2018) Enquanto viveu em Portugal, o escritor Mário


Prata reuniu centenas de vocábulos e expressões usados no portu-
O efeito de humor na situação apresentada decorre do fato de a guês falado na Europa que são diferentes dos termos correspon-
personagem, no segundo quadrinho, considerar que “carinho” e
dentes usados no português do Brasil. Reproduzimos abaixo um
“caro” sejam vocábulos dos verbetes de seu dicionário.
a) derivados de um mesmo verbo. Descapotável é outra palavra que em português faz muito mais
b) híbridos. sentido do que em brasileiro. Não é mais claro dizer que um carro
c) derivados de vocábulos distintos. é descapotável, do que conversível?
d) cognatos. (Mário Prata, Dicionário de português: schifaizfavoire.
e) formados por composição. São Paulo: Editora Globo, 1993, p. 48.)
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

a) Identifique os dois afixos que formam a palavra “des-


capotável” a partir do substantivo “capota” (cobertura
E.O. Dissertativas de um automóvel) e explique a função de cada um.

(Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp)


b) Explique por que o autor considera, com certo hu-
mor, que a palavra “descapotável” do português eu-
ropeu faz mais sentido de que o termo“conversível”,
1. (Unicamp) Os textos abaixo foram retirados da coluna “Caras usado no português brasileiro.
e bocas”, do Caderno Aliás, do jornal O Estado de S. Paulo:
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
“A intenção é salvar o Brasil.” Ana Paula Logulho, professora e
entusiasta da segunda “Marcha da Família com Deus pela Liber- UM CHAMADO JOÃO
dade”, que pede uma intervenção militar no país e pretendeu João era fabulista?
reeditar, no sábado, a passeata de 19 de março de 1964, na fabuloso?
capital paulista, contra o governo do Presidente João Goulart. fábula?
“Será um evento esculhambativo em homenagem ao outro de Sertão místico disparando
São Paulo.” José Caldas, organizador da “Marcha com Deus e o no exílio da linguagem comum?

20
Projetava na gravatinha
a quinta face das coisas Gabarito
inenarrável narrada?
Um estranho chamado João
para disfarçar, para farçar E.O. Aprendizagem
o que não ousamos compreender? 1. D 2. B 3. E 4. A 5. B
(...)
6. E 7. C 8. B 9. A 10. E
Mágico sem apetrechos,
civilmente mágico, apelador
de precípites prodígios acudindo
a chamado geral?
E.O. Fixação
(...) 1. B 2. B 3. C 4. E 5. D
Ficamos sem saber o que era João 6. C 7. A 8. B 9. A 10. C
e se João existiu
deve pegar.
(Carlos Drummond de Andrade, em Correio da Manhã,
22/11/1967, publicado em Rosa, J. G. “Sagarana”. E.O. Complementar
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.) 1. E 2. D 3. C 4. E 5. D
4. (Unicamp) Na segunda estrofe, há dois processos muito inte-
ressantes de associação de palavras. Em “inenarrável/narrada”
encontramos claramente um processo de derivação. Em “disfar-
E.O. Dissertativo
çar/farçar”, temos a sugestão de um processo semelhante, embo- 1.
ra “farçar” não conste dos dicionários modernos. a) O verbo “velar”, segundo o contexto, significa “ze-
a) Relacione o significado de “inenarrável” com o pro- lar por alguém”. O adjetivo “débil” significa “frágil”.
cesso de sua formação; e o de “farçar”, na relação su- b) Ocorre derivação imprópria em “Do meu pobre
gerida no poema, com “disfarçar”. existir, meio partido...”, uma vez que o verbo “existir”
b) Explique como esses processos contribuem na cons- foi empregado como substantivo, inclusive acompa-
trução dos sentidos dessa estrofe. nhado pelo adjetivo “pobre”.
O sufixo diminutivo em “criancinha” confere afetivi-
5. (Fuvest) Leia com atenção o seguinte texto: dade ao substantivo criança, caracterizada no poema
A onipresença do olho mágico da televisão no centro da vida do- como alguém frágil.
méstica dos brasileiros, com o 1poder (imaginário) de tudo mos- 2.
trar e tudo ver que os espectadores lhe atribuem, vem provocan-
a) Composição por justaposição e derivação sufixal.
do curiosas alterações nas relações entre o público e o privado.
b) Os observadores criaram um neologismo super-
Durante pelo menos dois séculos, o bom gosto burguês nos ensi-
ficialmente, pois eles não conseguiram alcançar um
nou que algumas coisas não se dizem, não se mostram e não se
conhecimento aprofundado sobre o povo Ossevaolep.
fazem em público. Essas mesmas coisas, até então reservadas ao
espaço da privacidade, hoje ocupam o centro da cena televisiva. 3. O termo “ex-cineclubista” é resultado de quatro processos de
Não que o bom gosto burguês deva ser tomado como referência formação de palavras: redução/abreviação vocabular (cinecine-
indiscutível da 2ética que regula a vida em qualquer sociedade. ma), composição (cine + clube), derivação sufixal (cineclube +
Mas a inversão de padrões que pareciam tão convenientemen- ista) e derivação prefixal (ex + cineclubista).
te estabelecidos nos países do Ocidente dá o que pensar. No 4.
mínimo, podemos concluir que a burguesia do terceiro milênio
a) amorosa, horrorosa, cremosa, leitosa.
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

já não é a mesma que ditou o bom comportamento dos dois


b) aridez, timidez, surdez, altivez .
séculos passados. No máximo, supõe-se que os fundamentos do
contrato que ordenava a vida social entre os séculos XIX e XX
estão profundamente abalados, e já vivemos, sem nos dar conta,
em uma sociedade pós-burguesa, num sentido semelhante ao E.O. UERJ
do que chamamos uma sociedade pós-moderna. Exame Discursivo
Maria R. Kehl, in Bucci e Kehl, Videologias: ensaios sobre televisão.
1. A palavra “desencontrários” é formada por derivação, pro-
a) O que a autora do texto quer dizer, quando se refere cesso através do qual de uma palavra se formam outras, por
ao “poder de tudo mostrar e tudo ver” (ref.1), atribuído meio da agregação de certos elementos que lhe alteram o sen-
à televisão, como “imaginário”? tido, mas sempre se referindo ao valor semântico da palavra
b) Indique a palavra do primeiro período que tem o primitiva. Assim, há duas possibilidades para a formação da
mesmo significado do prefixo que entra na formação palavra em questão, considerando o radical, prefixos e sufixos
da palavra “onipresença”. e desinências flexionais: des+en+contr+ ário+s; des+en+con-
c) Indique uma palavra ou expressão do texto que cor- tr+ari+o+s. “Des” é um prefixo que indica negação.
responda ao sentido da palavra “ética” (ref.2).

21
2. b) O adjetivo descapotável, usado no português eu-
a) Função metalinguística. ropeu, faz referência a um veículo cuja capota pode
Uma dentre as justificativas: ser recolhida. Em português brasileiro, a referência ao
– Os parágrafos explicam os significados das palavras. mesmo tipo de veículo é dada pela palavra conver-
sível. O autor considera que a primeira opção apre-
– Os parágrafos contêm definição de palavras por ou-
senta um sentido mais adequado, pois ela indicaria
tras palavras.
de modo mais adequado o fato de o veículo possuir
b) Derivações sufixal ou sufixação. uma capota. Já a segunda opção, poderia nos dar a
OCULTAÇÃO é o ato de ocultar e OCULTISMO designa sensação de que o veículo, por ser conversível, pode
crença, doutrina ou seita. ser inteiramente modificado.
3. lobisomem: composição por aglutinação 4.
linguarudo: derivação sufixal a) No primeiro caso, a palavra “inenarrável” significa
“o que não pode ser narrado”. A ideia de negação
E.O. Objetivas está no prefixo “in-” (derivação prefixal). Porém,
o elemento ao qual se junta o prefixo é o adjetivo
(Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp) “enarrável”, que os dicionários, na sua maioria, não
1. B 2. A 3. D 4. D costumam registrar. A palavra geralmente usada é
“narrável”, o que resulta em “inarrável”. Isso ocorre
por haver dois verbos, “narrar” e “enarrar”, com o
E.O. Dissertativas mesmo sentido.
No segundo caso, como o significado de “disfarçar” é
(Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp) “encobrir”, “ocultar”, “tapar”, o vocábulo primitivo
1. do qual ele seria formado, por processo de deriva-
a) Trata-se de uma derivação sufixal: “esculhambativo” ção prefixal, seria “farçar”, que tem como significado
é uma palavra formada pelo acréscimo de um sufixo oposto “revelar”, “manifestar”. Mas essa velação
(-ivo) ao verbo “esculhambar”. não é absoluta, já que a semelhança sonora entre
b) Apesar de derivarem do mesmo verbo (“esculham- “farçar” e “farsa” sugeriria que João é capaz de di-
bar”), os adjetivos mencionados diferem quanto ao zer o indizível, fazendo com que o mistério do “que
seu significado. Evento “esculhambado” é sinônimo não ousamos compreender” permaneça vivo em sua
de “desorganizado, desmoralizado”; já evento “escu- literatura.
lhambativo” é aquele que “desmoraliza, satiriza” o b) Na segunda estrofe, a ideia pretendida é a de que
evento anterior. João consegue realizar o impossível. O processo de
2. derivar um vocábulo de outro “inexistente”, que se
observa nos pares inenarrável/enarrável e disfarçar/
a) O autor faz críticas implícitas ao jornalismo atual,
farçar, mostra o poder que o ficcionista tem de reali-
quando diz que só resta ao jornalista que convive roti-
zar o “irrealizável”.
neiramente com a internet: produzir informação de alta
qualidade técnica e ética, fiel à verdade dos fatos, ver- 5.
dadeiramente fiscalizadora dos poderes públicos e com a) O uso dos parênteses destaca o termo “imaginá-
excelência na prestação de serviços, comentário em que rio” no contexto da frase, para enfatizar que a te-
se subentende que na era da frugalidade virtual, nem levisão produz o efeito ilusório de que as imagens
todo jornalista produz informações com alto teor ético transmitidas ao espectador passivo representam a
e de qualidade. O autor alerta que para os dias atuais, a realidade.
única maneira do jornalismo sobreviver à internet é pri- b) O prefixo “oni” significa “tudo”, termo que é repe-
mando pela fidelidade da informação e dos fatos, a fim
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

tido na frase “tudo mostrar e tudo ver”.


de prestar um serviço confiável e essencial à sociedade. c) Define-se ética como o conjunto de princípios, nor-
b) O prefixo – des tem o sentido de negação, de ação mas e regras que visem a um comportamento moral
contrária. O também prefixo -inter tem o sentido de en- exemplar, o que é sugerido na expressão “bom com-
tre. O radical é -mediar. O sufixo -ção é utilizado para portamento”.
formar um substantivo a partir de um verbo. Sendo as-
sim, o processo de formação é de dois prefixos + radical
+ sufixo, para a criação do neologismo.
3.
a) A palavra descapotável se constitui a partir do se-
guinte processo:
• derivação parassintética (des + capota + ar);
• derivação sufixal (sufixo vel encaixado ao elemento
anterior);
A agregação do sufixo vel faz cair o r da desinência
verbal.

22
LC ARTIGOS, SUBSTANTIVOS E ADJETIVOS

AULAS COMPETÊNCIA(s) HABILIDADE(s)

3E4
1e8 1, 2, 3, 4, 26 e 27

E.O. Aprendizagem 2. (Ufrgs) A notícia saiu no The Wall Street Journal:

A "ansiedade 1superou a depressão como problema 2de saúde


mental predominante nos EUA". Para justificar o absurdo, o autor da
1. (IFAL) 77% dos pais americanos culpam o videogame por expor matéria recorre a 3um psicoterapeuta e a um 4sociólogo. O primeiro
os filhos à violência descreve "ansiedade como 5condição dos privilegiados" que, livres
de ameaças reais, se dão ao luxo de "olhar para dentro" e criar me-
Será que videogames tornam as crianças mais agressivas? Com dos irracionais; o segundo diz que "vivemos na era mais segura da
certeza, você já ouviu essa questão por aí. Afinal, a polêmica humanidade" e, no entanto, "desperdiçamos bilhões de dólares 6em
existe há muito tempo. 2Por enquanto, a ciência não tem uma medos bem mais ampliados do que seria 7justificável". Sem meias
resposta definitiva sobre o tema. 3Estudos recentes apontam que palavras, 8os peritos dizem algo mais ou menos assim: os americanos
eles não podem ser culpados pela violência infantil. 4Já outros estão nadando em 9riqueza e, como não têm do que se queixar, ad-
afirmam que eles alteram a atividade cerebral e deixam as pes- quiriram o costume neurótico 10de 11desentocar medos 12irracionais
soas mais insensíveis. para projetá-los no 13admirável mundo novo ao redor.
Mas, segundo uma pesquisa realizada pela Common Sense A explicação impressiona pela ingenuidade ou pela má-fé. Nin-
Media e divulgada nesta semana, os pais americanos não têm guém contrai o 14"Mau hábito" 15de olhar para 16dentro de si do
dúvidas: 77% deles culpam jogos, filmes e a TV por manter dia para a noite. A obsessão consigo não é um efeito colateral
uma cultura de violência entre as crianças. Os dados mostram 17
do modo de vida atual; é um dos seus mais 18indispensáveis in-
também que os pais aprovam medidas mais rigorosas para gredientes. O crescimento exagerado do interesse pelo "mundo
manter os filhos longe de conteúdos violentos: 688% acreditam interno" e pelo 19corpo é a 20contrapartida do desinteresse ou hos-
que anúncios violentos não deveriam ser veiculados durante tilidade pelo "mundo externo" e pelos outros. Diz o 21catecismo: só
programas com grande audiência infantil e 91% apoiam que confie em seu corpo e sua mente. 22O resto é 23concorrente; o resto
só possam ser exibidos trailers com a mesma classificação in- está sempre cobiçando e disputando seu emprego, seu sucesso,
dicativa do filme. seu patrimônio e sua saúde. Sentir medo e ansiedade, em condi-
ções semelhantes, é um estado emocional perfeitamente racional
“Os pais estão claramente preocupados com o impacto que
e inteligível.
a violência na mídia pode ter em suas crianças”, diz 7James
Steyer, criador e CEO da empresa responsável pela pesqui- Em bom português, sentir-se condenado a 24jamais ter repouso
sa. Além dos jogos de videogame, outras preocupações dos físico ou 25mental, sob pena de perder a saúde, a 26longevidade, a
pais são o bullying (92%) o acesso a armas (75%) e os forma física, o desempenho 27sexual, o emprego, a casa, a segu-
níveis atuais de crime (86%). rança na velhice, pode ser um inferno em vida para os pobres ou
para os ricos. Os 28candidatos à ansiedade são, assim, bem mais
E você, o que acha desse assunto? numerosos e bem menos ociosos do que pensam o 29psicotera-
(Disponível em: [Link] peuta e o sociólogo.
77-dos-pais-americanos-culpam-o-videogame-por-expor-
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

os-filhos-a-violencia. Acesso em: 16/01/2017.) Considere as seguintes afirmações acerca do uso de artigos.
I. Caso tivéssemos "uma condição" em vez de "condição" (ref. 5)
As palavras em destaque estão com função de substantivos ou adje-
haveria alteração no sentido global da frase
tivos, exceto na alternativa
II. O artigo indefinido "uns" poderia substituir o definido (ref. 8)
a) Por enquanto, a ciência não tem uma resposta
"os", sem que houvesse alteração no sentido da frase em questão.
definitiva sobre o tema. (ref. 2)
b) Estudos recentes apontam que eles não po- III. As duas ocorrências do artigo definido "o" anteposto às palavras
"psicoterapeuta" e "sociólogo" (ref. 29) poderiam ser substituídas
dem ser culpados pela violência infantil. (ref. 3)
por um indefinido sem mudar o sentido da frase.
c) Já outros afirmam que eles alteram a atividade
cerebral e deixam as pessoas mais insensíveis. (ref. 4) Quais estão corretas?
d) 88% acreditam que anúncios violentos não deve- a) Apenas I.
riam ser veiculados durante programas com grande b) Apenas II.
audiência infantil (ref. 6). c) Apenas I e III.
e) James Steyer, criador e CEO da empresa respon- d) Apenas II e III.
sável pela pesquisa. (ref. 7) e) I, II e III.

23
3. (IFAL) O trecho apresentado é preponderantemente descritivo. A classe
Paraí-ba (Céceu) de palavras que aparece associada a esse tipo textual é o adjetivo.

Pê – a – pá São exemplos de palavras dessa classe, no texto, as seguintes:


Erre – a – ra – í a) ...porém a terra em si é de muito bons ares...
Bê – a – bá b) Águas são muitas e infindas.
Paraíba c) ...dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem...
Paraíba do norte, do caboclo forte d) ...o melhor fruto que nela se pode fazer me parece
Do homem disposto esperando chover que será salvar esta gente...
Da gente que canta com água nos olhos e) ...esta deve ser a principal semente que vossa alte-
Chorando e sorrindo, querendo viver za em ela deve lançar.
Do sertão torrado, do gado magrinho
Do açude sequinho, do céu tão azul 5. (UEG) CELULARES EXPLOSIVOS, IDEIAS NEM TANTO
Do velho sentado num banquinho velho
Comendo com gosto um prato de angu Sou uma nulidade no uso do celular. Mal conheço a senha para tirar
Acende o cachimbo, dá uma tragada as mensagens lá de dentro e, pelo que vejo, meu aparelho é forte
Não sabe de nada da vida do sul candidato a uma dessas explosões que têm acontecido ultimamente.
Pê – a – pá Pinóquio não primava pela responsabilidade nos compromissos
Erre – a - ra – í assumidos, mas seu Grilo Falante, de cartola e guarda-chuva,
Bê – a – bá conhecia as virtudes da polidez e da adequação. Não tomava a
Paraíba
palavra antes de um minúsculo pigarro de advertência.
Paraíba do norte que tem seu progresso
Que manda sucesso pra todo país Inseto mutante, o celular está para o grilo de Pinóquio um pouco
Que sente a presença da mãe natureza como a guitarra elétrica para o antigo violão. Adota os tons mais
Que vê a riqueza nascer da raiz estridentes, descabelados e imperativos, a que as pessoas obe-
Que acredita em Deus, também no pecado decem numa coreografia alucinada. A pose mais estudada da
Que faz do roçado a sua oração grã-fina se estilhaça em aflição e pânico enquanto ela remexe na
E ainda confia no seu semelhante bolsa à procura do aparelho; o taxista mais inerte e distraído pula
E vai sempre avante em busca do pão ao menor toque, como se tivesse uma aranha dentro do carro. E
O pão que é nosso, que garante a vida nem se sabia que aquilo era carregado de dinamite.
Terrinha querida do meu coração (COELHO, M. Folha de S. Paulo., São Paulo,
Pê – a – pá 10 maio 2006, p. E 10. Ilustrada.)
Erre – a – ra – í
Bê – a – bá No texto, o artigo definido pode ser identificado em todas as
Paraíba orações a seguir, EXCETO em:
(Ramalho, Zé. Duetos. BMG. São Paulo, 2004. CD-ROM.)
a) “Não tomava a palavra”
Na frase: "Do velho sentado num banquinho velho", observa-se: b) “Mal conheço a senha”
a) Nas duas vezes em que a palavra VELHO aparece, c) “é forte candidato a uma dessas explosões”
ela tem a função de substantivo. d) “ela remexe na bolsa à procura do aparelho”
b) Nas duas vezes em que a palavra VELHO aparece,
ela tem a função de adjetivo. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
c) Primeiramente, VELHO tem a função de substanti-
Esparadrapo
vo; depois, tem a função de adjetivo.
d) Primeiramente, VELHO tem a função de adjetivo; Aquele restaurante de bairro é do tipo simpatia/classe média.
depois, tem a função substantivo. Fica em rua sossegada, é pequeno, limpo, cores repousantes, co-
mida razoável, preços idem, não tem música de triturar os ouvi-
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

e) No texto, nas duas vezes em que a palavra VELHO


aparece não assume nem a função de adjetivo, nem dos. O dono senta-se à mesa da gente, para bater um papo leve,
de substantivo. sem intimidades.
Meu relógio parou. Pergunto-lhe quantas horas são.
4. (IFSP) Esse texto do século XVI reflete um momento de ex- — Estou sem relógio.
pansão portuguesa por vias marítimas, o que demandava a apro- — Então vou perguntar ao garçom.
priação de alguns gêneros discursivos, dentre os quais a carta. Ele também está sem relógio.
Um exemplo dessa produção é a Carta de Caminha a D. Manuel. — E o colega dele, que serve aquela mesa?
Considere a seguinte parte dessa carta: — Ninguém está com relógio nesta casa.
— Curioso. É moda nova?
Nela [na terra] até agora não pudemos saber que haja ouro nem — Antes de responder, e se o senhor permite, vou lhe fazer, não
prata... porém a terra em si é de muito bons ares assim frios e tempe- propriamente um pedido, mas uma sugestão.
rados como os de Entre-Doiro-e-Minho. Águas são muitas e infindas. — Pois não.
E em tal maneira é graciosa que querendo-a aproveitar, dar-se-á nela — Não precisa trazer relógio, quando vier jantar.
tudo por bem das águas que tem, porém o melhor fruto que nela se — Não entendo.
pode fazer me parece que será salvar esta gente e esta deve ser a — Estamos sugerindo aos nossos fregueses que façam este pe-
principal semente que vossa alteza em ela deve lançar. queno sacrifício.

24
— Mas o senhor podia explicar... 6. (G1 – ifsc) Assinale a alternativa cuja palavra poderia subs-
— Sem querer meter o nariz no que não é da minha conta, gos- tituir de maneira CORRETA o adjetivo – “obtuso” (ref. 1), sem
taria também que trouxesse pouco dinheiro, ou antes, nenhum. que houvesse alteração considerável no sentido da frase.
— Agora é que não estou pegando mesmo nada. a) teimoso d) agressivo
— Coma o que quiser, depois mandamos receber em sua casa. b) apressado e) estúpido
— Bem, eu moro ali adiante, mas e outros, os que nem se sabe c) insensível
onde moram, ou estão de passagem na cidade?
— Dá-se um jeito. 7. (ESPCEX) Assinale a única opção em que a palavra “a”
— Quer dizer que nem relógio nem dinheiro? é artigo.

— Nem joias. Estamos pedindo às senhoras que não venham de a) Hoje, ele veio a falar comigo.
joia. É o mais difícil, mas algumas estão atendendo. b) Essa caneta não é a que te emprestei.
— Hum, agora já sei. c) Convenci-a com poucas palavras.
— Pois é. Isso mesmo. O amigo compreende... d) Obrigou-me a arcar com mais despesas.
— Compreendo perfeitamente. e) Marquei-te a fronte, mísero poeta.
Desculpa ter custado um pouco a entrar na jogada. Sou meio
obtuso1 quando estou com fome. 8. (UFRRJ) Mãos dadas
— Absolutamente. Até que o amigo compreendeu sem que eu
1ª estrofe
precisasse dizer tudo. Muito bem.
Não serei o poeta de um mundo caduco.
— Mas me diga uma coisa. Quando foi isso?
Também não cantarei o mundo futuro.
— Quarta-feira passada. Estou preso à vida e olho meus companheiros.
— E como foi, pode-se saber? Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
— Como podia ser? Como nos outros lugares, no mesmo figuri- Entre eles, considero a enorme realidade.
no. Só que em ponto menor. O presente é tão grande, não nos afastemos.
— Lógico, sua casa é pequena. Mas levaram o quê? Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
— O que havia na caixa, pouquinha coisa. Eram 9 da noite, dia
meio parado. 2ª estrofe
— Que mais? Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
— Umas coisinhas, liquidificador, relógio de pulso, meu, dos em- não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
pregados e dos fregueses.
Não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
— An. (Passei a mão no pulso, instintivamente.)
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens pre-
— O pior foi o cofre.
sentes, a vida presente.
— Abriram o cofre?
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Reunião.
— Reviraram tudo, à procura do cofre. Ameaçaram, pintaram e Rio de Janeiro: J. Olympio, 1974. p. 55.)
bordaram. Foi muito desagradável.
— E afinal? Os adjetivos “caduco” (primeiro verso) e “taciturnos” (quarto
— Cansei de explicar a eles que não havia cofre, nunca houve, verso) significam, respectivamente,
como é que eu podia inventar cofre naquela hora? a) doente e falantes. d) caído e solidários.
— Ficaram decepcionados, imagino. b) ultrapassado e tristes. e) passageiro e prolixos.
— Não senhor. Disseram que tinha de haver cofre. Eram cinco,
c) fraco e joviais.
inclusive a moça de bota e revólver, querendo me convencer que
tinha cofre escondido na parede, no teto, embaixo do piso, sei lá. 9. (UFRJ)
— E o resultado?
— Este — e baixou a cabeça, onde, no cocuruto, alvejava a
estrela de esparadrapo.
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

— Oh! Sinto muito. Não tinha notado. Felizmente escapou, é o


que vale. Dê graças a Deus por estar vivo.
— Já sei. Sabe que mais? Na polícia me perguntaram se eu tinha
seguro contra roubo. E eu pensando que meu seguro fosse a
polícia. Agora estou me segurando à minha maneira, deixando
as coisas lá em casa e convidando os fregueses a fazer o mesmo.
E vou comprar um cofre. Cofre pequeno, mas cofre.
— Para que, se não vai guardar dinheiro nele?
— Para mostrar minha boa-fé, se eles voltarem. Abro imedia-
Bons (in)ventos
tamente o cofre, e verão que não estou escondendo nada. Que
lhe parece? Universitários mineiros se destacam no desenvolvimento de pro-
— Que talvez o senhor precise manter um estoque de espara- tótipos de aviões
drapo em seu restaurante. Alessandra Ribeiro

ANDRADE, Carlos Drummond de. Esparadrapo. In Para “Urrú! É pão de queijo!”. O grito de comemoração tornou-se
gostar de ler. v. 3. Crônicas. São Paulo: Ática, 1978. recorrente na premiação do campeonato anual promovido nos

25
Estados Unidos pela Sociedade de Engenheiros da Mobilidade legrini (...). O professor ressalta que isso vale, inclusive, para os
(SAE, na sigla em inglês), a Aerodesign East Competition. O de- estudantes sem formação específica em aeronáutica – caso das
safio consiste em projetar e construir aeronaves radiocontrola- equipes da UFSJ. “A participação também desenvolve a autono-
das, com capacidade de transportar cargas. Na última edição, mia no aprendizado, característica essencial em um mercado de
encerrada em março, com a participação de 75 grupos das Amé- trabalho em constante mudança”, acrescenta.
ricas, da Ásia e da Europa, duas equipes mineiras alcançaram o
(MINAS FAZ CIÊNCIA, jun/jul/ago de 2015. P. 31-2.)
segundo lugar, em diferentes categorias: a Uirá, da Universidade
Federal de Itajubá (Unifei), na classe “regular”, e a Trem Ki Voa, Releia a frase:
da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), na “micro”.
“Na última edição, encerrada em março, com a participação de
Instituições mineiras de ensino superior figuram anualmente na 75 grupos das Américas, da Ásia e da Europa, duas equipes mi-
lista de vencedores da competição desde 2006, quando o primeiro neiras alcançaram o segundo lugar, em diferentes categorias: a
e o segundo lugares da classe “regular” ficaram, respectivamen- Uirá, da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), na classe “re-
te, com as equipes Uai-So-Fly, da Universidade Federal de Minas gular”, e a Trem Ki Voa, da Universidade Federal de São João
Gerais (UFMG), e Tucano, da Universidade Federal de Uberlândia del-Rei (UFSJ), na “micro”.”
(UFU). Pouco antes, em 2004, o grupo CEAV-UAV, também da
UFMG, havia conquistado o vice-campeonato. Nessa categoria, os Na frase acima, “micro” exerce a função de adjetivo. Entretanto,
participantes devem construir aeronaves com dimensões totais de, não está explicito o substantivo que ele qualifica, que seria:
no máximo, 4,45 metros, capazes de decolar na distância máxima a) classe.
de 61 metros, com o uso de motores elétricos limitados à potência b) avião.
de 1000 watts. O uso de materiais compostos – como fibra de
c) edição.
carbono ou vidro – é vetado na estrutura dos aviões.
d) grupo.
Já na classe “micro”, os protótipos devem ter dimensões reduzi- e) equipe.
das e pesar, em média, 700 gramas. Além disso, a equipe precisa
transportar a aeronave dentro de um tubo de 15,3 centímetros TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
de diâmetro. Quanto menor o comprimento do tubo, mais pon-
tos são ganhos. As aeronaves também têm de usar motores elé- Noruega como Modelo de Reabilitação de Criminosos
tricos e decolar por lançamento manual. Foi nesta categoria que O Brasil é responsável por uma das mais altas taxas de reincidência
a Trem Ki Voa (TKV), da UFSJ, subiu pela primeira vez no pódio da criminal em todo o mundo. No país, a taxa média de reincidência
Aerodesign East Competition.
(amplamente admitida, mas nunca comprovada empiricamente) é
A equipe micro teve sua participação iniciada em 2010, por inicia- de mais ou menos 70%, ou seja, 7 em cada 10 criminosos voltam
tiva de estudantes do curso de Engenharia Mecânica. “De lá para a cometer algum tipo de crime após saírem da cadeia.
cá, participamos de todas as competições, sendo vice-campeões
Alguns perguntariam "Por quê?". E eu pergunto: "Por que não?"
nacionais em 2012 e 2014 e vice-campeões mundiais em 2015”,
O que esperar de um sistema que propõe reabilitar e reinserir
conta o professor Cláudio Pellegrini, orientador do grupo, que
aqueles que cometerem algum tipo de crime, mas nada oferece,
conta com o apoio do Programa Santos Dumont, da FAPEMIG. O
edital batizado com o nome do “pai da aviação”, natural de Minas para que essa situação realmente aconteça? Presídios em estado
Gerais, estimula o espírito empreendedor de alunos de graduação, de depredação total, pouquíssimos programas educacionais e la-
por meio do financiamento de projetos focados em iniciação tec- borais para os detentos, praticamente nenhum incentivo cultural,
nológica. O apoio financeiro abrange a participação de equipes e, ainda, uma sinistra cultura (mas que diverte muitas pessoas)
em competições de caráter educacional, como as promovidas pela de que bandido bom é bandido morto (a vingança é uma
SAE. festa, dizia Nietzsche).

A TKV é “filha caçula” da equipe regular da UFSJ, a Coiote, Situação contrária é encontrada na Noruega. Considerada pela
criada em 2001. Três anos mais tarde, as duas se unificaram ONU, em 2012, o melhor país para se viver (1º no ranking do
e decidiram adotar a alcunha Trem Ki Voa, uma referência (ou IDH) e, de acordo com levantamento feito pelo Instituto Avante
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

reverência) ao dialeto mineiro. Os nomes das equipes, aliás, de- Brasil, o 8º país com a menor taxa de homicídios no mundo, lá o
monstram o nível de criatividade dos participantes. Na mesma sistema carcerário chega a reabilitar 80% dos criminosos, ou seja,
universidade, a NoizAvua, que reúne estudantes das engenha- apenas 2 em cada 10 presos voltam a cometer crimes; é uma
rias Civil, Mecatrônica e de Telecomunicações do campus Alto das menores taxas de reincidência do mundo. Em uma prisão em
Paraopeba, estreou em 2012 na SAE Brasil Aerodesign, com- Bastoy, chamada de ilha paradisíaca, essa reincidência é de cerca
petição brasileira que garante a classificação ao desafio inter- de 16% entre os homicidas, estupradores e traficantes que por ali
nacional. Já na primeira participação, o grupo recebeu menção passaram. Os EUA chegam a registrar 60% de reincidência e o
honrosa por apresentar o melhor projeto não custeado. Desde Reino Unido, 50%. A média europeia é 50%.
então, já conseguiu patrocínios pontuais, um deles também
A Noruega associa as baixas taxas de reincidência ao fato de ter
viabilizado pelo programa da FAPEMIG.
seu sistema penal pautado na reabilitação e não na punição por
“Para esses estudantes, o projeto e a construção de uma ae- vingança ou retaliação do criminoso. A reabilitação, nesse caso,
ronave de carga não tripulada controlada a distância é uma não é uma opção, ela é obrigatória. Dessa forma, qualquer cri-
oportunidade única de testar seus conhecimentos, de modo a minoso poderá ser condenado à pena máxima prevista pela le-
desenvolver a capacidade de trabalhar em equipe e integrar os gislação do país (21 anos), e, se o indivíduo não comprovar estar
conhecimentos adquiridos ao longo das várias unidades curricu- totalmente reabilitado para o convívio social, a pena será prorro-
lares, por vezes tão distintas, de seu curso”, avalia Cláudio Pel- gada, em mais 5 anos, até que sua reintegração seja comprovada.

26
O presídio é um prédio, em meio a uma floresta, decorado com
grafites e quadros nos corredores, e no qual as celas não pos- E.O. Fixação
suem grades, mas sim uma boa cama, banheiro com vaso sani-
tário, chuveiro, toalhas brancas e porta, televisão de tela plana, 1. (UFRGS) Quando a 1economia política clássica nasceu, no
mesa, cadeira e armário, quadro para afixar papéis e fotos, além Reino Unido e na França, ao final do século XVIII e início do sé-
de geladeiras. Encontra-se lá uma ampla biblioteca, ginásio de culo XIX, a questão da distribuição da renda já se encontrava
esportes, campo de futebol, chalés para os presos receberem os no centro de todas as análises. Estava claro que transformações
familiares, estúdio de gravação de música e oficinas de trabalho. radicais entraram em curso, propelidas pelo crescimento demo-
Nessas oficinas são oferecidos cursos de formação profissional, gráfico sustentado – inédito até então – e pelo início do êxodo
cursos educacionais, e o trabalhador recebe uma pequena re- rural e da Revolução Industrial. Quais seriam as consequências
muneração. Para controlar o ócio, oferecer muitas atividades, de sociais dessas mudanças?
educação, de trabalho e de lazer, é a estratégia. Para Thomas Malthus, que publicou em 1798 seu Ensaio sobre
A prisão é construída em blocos de oito celas cada (alguns dos pre- o princípio da população, não restava dúvida: a superpopulação
sos, como estupradores e pedófilos, ficam em blocos separados). era uma ameaça. Preocupava-se especialmente com a situação
Cada bloco tem sua cozinha. A comida é fornecida pela prisão, mas dos franceses às vésperas da Revolução de 1789, quando havia
é preparada pelos próprios detentos, que podem comprar alimen- miséria generalizada no campo. Na época, a França era de longe
tos no mercado interno para abastecer seus refrigeradores. o país mais populoso da Europa: por volta de 1700, já contava
com mais de 20 milhões de habitantes, enquanto o Reino Unido
Todos os responsáveis pelo cuidado dos detentos devem passar tinha pouco mais de 8 milhões de pessoas. A população francesa
por no mínimo dois anos de preparação para o cargo, em um cur- se expandiu em ritmo crescente ao longo do século XVIII, aproxi-
so superior, tendo como obrigação fundamental mostrar respeito mando-se dos 30 milhões. Tudo leva a crer que esse dinamismo
a todos que ali estão. Partem do pressuposto que, ao mostrarem
demográfico, desconhecido nos séculos anteriores, contribuiu
respeito, os outros também aprenderão a respeitar.
para a 10estagnação dos salários no campo e para o aumento
A diferença do sistema de execução penal norueguês em relação dos rendimentos associados à propriedade da terra, sendo, por-
ao sistema da maioria dos países, como o brasileiro, americano, tanto, um dos fatores que levaram a Revolução Francesa. Para
inglês, é que ele é fundamentado na ideia de que a prisão é a evitar que torvelinho 13similar vitimasse o Reino Unido, Malthus
privação da liberdade, e pautado na reabilitação e não no trata- argumentou que toda assistência aos pobres deveria ser suspen-
mento cruel e na vingança. sa de imediato e a taxa de natalidade deveria ser severamente
O detento, nesse modelo, é obrigado a mostrar progressos educacio- controlada.
nais, laborais e comportamentais, e, dessa forma, provar que pode Já David Ricardo, que publicou em 1817 os seus Princípios de
ter o direito de exercer sua liberdade novamente junto à sociedade. economia política e tributação, preocupava-se com a evolução
A diferença entre os dois países (Noruega e Brasil) é a seguinte: do preço da terra. Se o crescimento da população e, consequen-
enquanto lá os presos saem e praticamente não cometem cri- temente, da produção agrícola se prolongasse, a terra tenderia a
mes, respeitando a população, aqui os presos saem roubando e se 18tornar escassa. De acordo com a lei da oferta e da procura,
matando pessoas. Mas essas são consequências aparentemente o preço do bem escasso – a terra – deveria subir de modo contí-
colaterais, porque a população manifesta muito mais prazer no nuo. No limite, os donos da terra receberiam uma parte cada vez
massacre contra o preso produzido dentro dos presídios (a vin- mais significativa da renda nacional, e o 20restante da população,
gança é uma festa, dizia Nietzsche). uma parte cada vez mais reduzida, destruindo o equilíbrio so-
cial. De fato, o valor da terra permaneceu alto por algum tempo,
LUIZ FLÁVIO GOMES, jurista, diretor-presidente do Instituto mas, ao longo de século XIX, caiu em relação a outras formas de
Avante Brasil e coeditor do Portal atualidadesdodireito.
[Link]. Estou no [Link].
riqueza, à medida que diminuía o peso da agricultura na renda
** Colaborou Flávia Mestriner Botelho, socióloga
das nações. Escrevendo nos anos de 1810, Ricardo não poderia
e pesquisadora do Instituto Avante Brasil. antever a importância que o progresso tecnológico e o cresci-
FONTE: Adaptado de [Link] mento industrial teriam ao longo das décadas seguintes para a
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

noruega-como-modelo-de-reabilitacao-de-criminosos/. evolução da distribuição da renda.


Acessado em 17 de março de 2017. (PIKETTY, T. O Capital no Século XXI. Trad. de M. B. de Bolle.
Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014. p.11-13.)
10. (Espcex - Aman) "(...) uma sinistra cultura de que bandido bom
é bandido morto." Geralmente, substantivos denotam seres ou coisas. Às vezes, no
O adjetivo em destaque apresenta, no texto, o significado de: entanto, podem denotar ação ou processo. Assinale a alternativa
que contém um substantivo que, no texto, denota processo.
a) errada
b) maligna a) economia (ref. 1)
c) desprezível b) estagnação (ref.10)
d) forte c) similar (ref. 13)
e) correta d) tornar (ref. 18)
e) restante (ref. 20)

27
2. (Unesp) A questão a seguir abordam um poema de Raul de Leoni 3. (UNICID MED UNESP) No trecho "lá estava o formidável
(1895-1926). Benaglio", em relação ao nome próprio a que se refere, o adjetivo
A alma das cousas somos nós... é empregado para exprimir

Dentro do eterno giro universal a) um sentido de modéstia.


Das cousas, tudo vai e volta à alma da gente,Mas, se nesse vai- b) uma qualidade distintiva.
vém tudo parece igual c) uma avaliação pejorativa.
Nada mais, na verdade, d) um sentido atenuante.
Nunca mais se repete exatamente... e) um tom cerimonioso.
Sim, as cousas são sempre as mesmas na corrente
Que no-las leva e traz, num círculo fatal; 4. (Uece) A GARAGEM DE CASA
O que varia é o espírito que as sente Com o portão enguiçado, e num convite a ladrões de livros, a 4ga-
Que é imperceptivelmente desigual, ragem de casa lembra uma biblioteca pública permanentemente
Que sempre as vive diferentemente, aberta para a rua. Mas não são adeptos de literatura os indi-
E, assim, a vida é sempre inédita, afinal... víduos que ali se abrigam da chuva ou do sol a pino de verão.
Estado de alma em fuga pelas horas, 8
Esses desocupados matam o tempo jogando porrinha, ou lendo
Tons esquivos e trêmulos, nuanças os jornais velhos que mamãe amontoa num canto, sentados nos
Suscetíveis, sutis, que fogem no Íris degraus do escadote com que ela alcança as prateleiras altas.
Da sensibilidade furta-cor... Já quando fazem o obséquio de me liberar o espaço, de tem-
E a nossa alma é a expressão fugitiva das cousas pos em tempos entro para olhar as estantes onde há de tudo
E a vida somos nós, que sempre somos outros!... um pouco, em boa parte remessas de editores estrangeiros que
Homem inquieto e vão que não repousas! têm apreço pelo meu pai. Num reduto de literatura tão sortida,
Para e escuta: como bem sabem os habitués de sebos, fascina a perspectiva de
Se as cousas têm espírito, nós somos por puro acaso dar com um livro bom. Ou by serendipity, como
Esse espírito efêmero das cousas, dizem os ingleses quando na caça a um tesouro se tem a fe-
Volúvel e diverso, licidade de deparar com outro bem, mais precioso ainda. Hoje
Variando, instante a instante, intimamente, revejo na mesma prateleira velhos conhecidos, algumas dezenas
E eternamente, de livros turcos, ou búlgaros ou húngaros, que papai é capaz
Dentro da indiferença do Universo!... de um dia querer destrinchar. Também continua em evidência o
(LEONI, Raul. Luz mediterrânea, 1965.) livro do poeta romeno Eminescu, que papai ao menos tentou
ler, como é fácil inferir das folhas cortadas a espátula. Há uma
Indique o verso em que ocorre um adjetivo antes e outro depois edição em alfabeto árabe das Mil e Uma Noites que ele não
de um substantivo: leu, mas cujas ilustrações 15admirou longamente, como denun-
a) O que varia é o espírito que as sente ciam os filetes de cinzas na junção das suas páginas coloridas.
b) Mas, se nesse vaivém tudo parece igual Hoje tenho experiência para saber quantas vezes meu pai leu um
c) Tons esquivos e trêmulos, nuanças mesmo livro, posso quase medir quantos minutos ele se deteve
em cada página. E não costumo perder tempo com livros que ele
d) Homem inquieto e vão que não repousas!
nem sequer abriu, entre os quais uns poucos eleitos que mamãe
e) Dentro do eterno giro universal teve o capricho de empilhar numa ponta de prateleira, confiando
Leia o texto para responder à questão numa futura redenção. Muitas vezes a vi de manhãzinha compa-
decida dos livros estatelados no escritório, com especial carinho
A Argentina tem Messi. Ele é o plano, o propósito, a ideia. Como pelos que trazem a foto do autor na capa e que papai despreza:
executá-la? Isso também é coisa para Leo, ciente de que com a parece disco de cantor de rádio.
alviceleste lhe cabe ser meio-campista, porque a equipe não tem (Chico Buarque. O irmão alemão. 1 ed. São Paulo.
jogadores brilhantes no meio. Ocorre que, exceto por Di María, o Companhia das letras. 2014. p. 60-61.)
ataque não tem pegada, apesar da reputação de Higuaín, Agüe-
A obra O irmão alemão, último livro de Chico Buarque de Holan-
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

ro – agora lesionado –, Lavezzi e Palácio. O peso de Maradona já


da, tem como móvel da narrativa a existência de um desconhecido
é enorme; obrigar alguém a ser Maradona para criar e Maradona
irmão alemão, fruto de uma aventura amorosa que o pai dele,
para concretizar é uma missão quase impossível até para um
gênio como Messi. Sérgio Buarque de Holanda, tivera com uma alemã, lá pelo final
da década de 1930 do século passado. Exatamente quando Hitler
O ponto de partida assumido por Leo foi o eixo do campo, onde ascende ao poder na Alemanha. Esse fato é real: o jornalista,
Mascherano há tempos não aparece, e onde Gago é uma som- historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, na época,
bra, nem fede nem cheira, só se dispersa. Como não há ninguém solteiro, deixou esse filho na Alemanha. Na família, no entanto,
capaz de dar uma luz, a Pulga vai ao socorro e busca abrir espa- não se falava no assunto. Chico teve, por acaso, conhecimento
ços entre o funil rival. O normal seria que acabasse preso pelas dessa aventura do pai em uma reunião na casa de Manuel Bandei-
emboscadas suíças, que não eram poucas. Quando conseguiu ra, por comentário feito pelo próprio Bandeira.
finalmente armar um chute, lá estava o formidável Benaglio [go- Foi em torno da pretensa busca desse pretenso irmão que Chico
leiro da Suíça]. Buarque desenvolveu sua narrativa ficcional, o seu romance.
([Link] Sobre a obra, diz Fernando de Barros e Silva: “o que o leitor
tem em mãos [...] não é um relato histórico. Realidade e ficção
estão aqui entranhadas numa narrativa que embaralha sem cessar
memória biográfica e ficção”.

28
Considere a expressão “a garagem de casa” (ref. 4) e o que se Lê-se no texto que “Se a quantidade de instrumentos musicais to-
diz sobre ela. cados por Diego Stocco não é infinita, com certeza é incontável”.

I. O emprego do vocábulo casa sem a determinação do artigo Considerando a leitura da reportagem, assinale a alternativa que
definido, como acontece no texto, indica que a casa é da pessoa representa, respectivamente, o valor semântico dos dois adjetivos
que fala. no contexto.
II. A introdução do artigo definido antes do substantivo casa a) desmesurada/ imensa
– garagem da casa – indicaria não só que o falante não é o b) ilimitada/ inumerável
proprietário da casa, ou pelo menos não a habita, mas também que
c) ilimitada/ numerável
o referente casa, representado no texto pelo vocábulo casa, já
aparecera no texto, portanto não seria novo para o leitor. d) abrangente/ magnífica
III. A introdução do artigo indefinido um antes do substantivo
casa – garagem de uma casa – indicaria que o referente casa,
6. ARTE SUPREMA
representado pelo vocábulo casa, ainda não aparecera no texto,
Tal como Pigmalião, a minha ideia
portanto seria novo para o leitor.
Visto na pedra: talho-a, domo-a, bato-a;
Está correto o que se diz em E ante os meus olhos e a vaidade fátua
a) I e II apenas. Surge, formosa e nua, Galateia.
b) I, II e III. Mais um retoque, uns golpes... e remato-a;
c) I e III apenas. Digo-lhe: “Fala!”, ao ver em cada veia
d) II apenas. Sangue rubro, que a cora e aformoseia...
E a estatua não falou, porque era estátua.
5. (CP2) ITALIANO CAPTA SONS DA NATUREZA PARA
CRIAR MÚSICAS Bem haja o verso, em cuja enorme escala
Falam todas as vozes do universo,
Se a quantidade de instrumentos musicais tocados por Diego
E ao qual também arte nenhuma iguala:
Stocco não é infinita, com certeza é incontável. Para ele fazer mú-
sica com uma coisa, basta que ela exista. Galhos, folhas, frutas, Quer mesquinho e sem cor, quer amplo e terso,
areia, casca de tronco de árvore, sementes, até uma abelha que Em vão não e que eu digo ao verso: “Fala!”
passeava entre as flores participam da gravação do músico. Nas E ele fala-me sempre, porque é verso.
mãos do italiano, qualquer jardim vira uma orquestra. Para fazer
suas composições em parceria com a natureza, vários métodos (Júlio César da Silva. Arte de amar.
São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1961.)
de captação são utilizados. Quase sempre, os objetos acabam se
transformando em elementos de percussão. Aponte a alternativa que indica o número do verso em que apare-
Ele posiciona microfones perto de uma árvore, por exemplo, e, cem dois adjetivos ligados por um conectivo aditivo:
após um breve teste para descobrir qual o som provocado pelos a) Verso 3.
movimentos, começa a chacoalhar os galhos e batucar no tronco,
b) Verso 4.
como se fosse um bongô. Às vezes, pequenos microfones são
acoplados aos seus dedos, fazendo com que qualquer impacto c) Verso 5.
seja ampliado na hora. Mas o método mais curioso, com certeza, d) Verso 7.
é o estetoscópio. Diego pluga o aparelho em um microfone e e) Verso 11.
o encosta na casca da árvore. Assim que ele bate no tronco, o
que se ouve é um som grave, saído diretamente das entranhas 7. (Esc. Naval)
daquela planta.
VELHO MARINHEIRO
Quando ele termina de experimentar as sonoridades do jardim, é
tudo uma questão de edição. Homenagem aos marinheiros
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

Apesar de ter virado notícia, a ideia de utilizar elementos naturais de sempre... e para sempre.
para criar uma canção não é exatamente nova. Desde os tempos
Sou marinheiro porque um dia, muito jovem, estendi meu braço
em que o homem morava em cavernas, ele já fazia músicas com
os elementos ao seu redor. diante da bandeira e jurei lhe dar minha vida.
(...) Naquele dia de sol a pino, com meu novo uniforme branco, sen-
ti-me homem de verdade, como se estivesse dando adeus aos
Hermeto Pascoal, um dos músicos mais inventivos que o Brasil já
tempos de garoto. Ao meu lado, as vozes de outros jovens so-
viu, fazia coisa parecida desde os tempos de criança, em 1940.
Ele transformava cano de mamona de jerimum em pífano (tipo avam em uníssono com a minha, vibrantes, e terminamos com
de flauta) e adorava fazer música com os barulhos da lagoa perto emoção, de peitos estufados e orgulhosos. Ao final, minha mãe
de sua casa. veio em minha direção, apressada em me dar um beijo. Acari-
(...) ciou-me o rosto e disse que eu estava lindo de uniforme. O dia
acabou com a família em festa; eu lembro-me bem, fiquei de
(Disponível: [Link] uniforme até de tarde...
817917770,0ITALIANO+CAPTA+SONS+DA+NATUREZA+
PARA+CRIAR+[Link]. Acesso em 23 nov. 2013.) Sou marinheiro, porque aprendi, naquela Escola, o significado
nobre de companheirismo. Juntos no sofrimento e na alegria, um

29
safando o outro, leais e amigos. Aprendi o que é civismo, respeito Muitas vezes a lembrança me retorna aos dias da ativa e mor-
e disciplina, no princípio, exigidos a cada dia; depois, como parte ro de saudades. Que bom se pudesse voltar ao começo, vestir
do meu ser e, assim, para sempre. A cada passo havia um novo aquele uniforme novinho – até um pouco grande, ainda recordo
esforço esperando e, depois dele, um pequeno sucesso. Minha – Jurar Bandeira, ser beijado pela minha falecida mãe...
vida, agora que olho para trás, foi toda de pequenos sucessos. A Sei que, quando minha hora chegar, no último instante, verei,
soma deles foi a minha carreira. em velocidade desconhecida, o navio com meus amigos, minha
No meu primeiro navio, logo cedo, percebi que era novamente mulher, meus filhos, singrando para sempre, indo aonde o mar
aluno. Todos sabiam das coisas mais do que eu havia aprendi- encontra o céu... e, se São Pedro estiver no portaló, direi:
do. Só que agora me davam tarefas, incumbências, e esperavam – Sou marinheiro, estou embarcando.
que eu as cumprisse bem. Pouco a pouco, passei a ser parte da
equipe, a ser chamado para ajudar, a ser necessário. Um dia vi- (Autor desconhecido. In: Língua portuguesa: leitura e produção de
texto. Rio de Janeiro: Marinha do Brasil, Escola Naval, 2011. p. 6-8)
-me ensinando aos novatos e dei-me conta de que me tornara
marinheiro, de fato e de direito, um profissional! O navio passou Glossário
a ser minha segunda casa, onde eu permanecia mais tempo, às
vezes, do que na primeira. Conhecia todos, alguns mais até do Portaló: abertura no casco de um navio, ou passagem junto à
que meus parentes. Sabia de suas manhas, cacoetes, preocupa- balaustrada, por onde as pessoas transitam para fora ou para
ções e de seus sonhos. Sem dar conta, meu mundo acabava no dentro, e por onde se pode movimentar carga leve.
costado do navio.
A soma de tudo que fazemos e vivemos, pelo navio, é uma das Em “[...] vocês já perceberam que marinheiro velho dificilmente
baixa a terra [...] .” (ref. 1), a posição do adjetivo é importante,
coisas mais belas, que só há entre nós, em mais nenhum outro
pois, se escrevêssemos “velho marinheiro”, o valor semântico se-
lugar. Por isso sou marinheiro, porque sei o que é espírito de navio.
ria outro. Em que opção a troca de posição dos termos implicou
Bons tempos aqueles das viagens, dávamos um duro danado no uma mudança semântica?
mar, em serviço, postos de combate, adestramento de guerra, dia
e noite. O interessante é que em toda nossa vida, quando busca- a) Os marinheiros, em seus uniformes brancos, des-
mos as boas recordações, elas vêm desse tempo, das viagens e tacam-se nas paradas militares. / Os marinheiros, em
dos navios. Até as durezas por que passamos são saborosas ao seus brancos uniformes, destacam-se nas paradas
lembrar, talvez porque as vencemos e fomos adiante. militares.
b) Os alunos gostavam de ouvir as narrativas tradicio-
É aquela história dos pequenos sucessos. nais sobre os perigos do mar. / Os alunos gostavam
A volta ao porto era um acontecimento gostoso, sempre figu- de ouvir as tradicionais narrativas sobre os perigos
rando a mulher. Primeiro a mãe, depois a namorada, a noiva, do mar.
a esposa. Muita coisa a contar, a dizer, surpresas de carinho. A c) Depois de muito tempo longe de casa, os homens
comida preferida, o abraço apertado, o beijo quente... e o filho do mar sentem falta de uma comida gostosa. / Depois
que, na ausência, foi ensinado a dizer papai. de muito tempo longe de casa, os homens do mar
No início, eu voltava com muitos retratos, principalmente quando sentem falta de uma gostosa comida.
vinha do estrangeiro, depois, com o tempo, eram poucos, até que d) Os navios e seus homens preparavam-se para cum-
deixei de levar a máquina. Engraçado, 1vocês já perceberam que prir um longo percurso, de acordo com a derrota tra-
marinheiro velho dificilmente baixa a terra com máquina fotográ- çada. / Os navios e seus homens preparavam-se para
fica? Foi assim comigo. cumprir um percurso longo, de acordo com a derrota
traçada.
Hoje os navios são outros, os marinheiros são outros – sinto-os
e) Antigamente, o recebimento de uma mensagem
mais preparados do que eu era – mas a vida no mar, as viagens,
simples aplacava as saudades dos marinheiros. / An-
os portos, a volta, estou certo de que são iguais. Sou marinheiro,
tigamente, o recebimento de uma simples mensagem
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

por isso sei como é.


aplacava as saudades dos marinheiros.
Fico agora em casa, querendo saber das coisas da Marinha. E a
8. (UFRGS) O que havia de tão revolucionário na Revolução
cada pedaço que ouço de um amigo, que leio, que vejo, me dá
Francesa? Soberania popular, liberdade civil, igualdade perante
um orgulho que às vezes chega a entalar na garganta. Há pouco
a lei – as palavras hoje são ditas com tanta facilidade que so-
tempo, voltei a entrar em um navio. Que coisa linda! Sofisticado,
mos incapazes de imaginar seu caráter explosivo em 1789. Para
limpíssimo, nas mãos de uma tripulação que só pode ser muito
os franceses do Antigo Regime, os homens eram desiguais, e a
competente para mantê-lo pronto. Do que me mostraram eu não
desigualdade era uma boa coisa, adequada à ordem hierárquica
sabia muito. Basta dizer que o último navio em que servi já deu
que fora posta na natureza pela própria obra de Deus. A liberda-
baixa. Quando saí de bordo, parei no portaló, voltei-me para a
de significava privilégio – isto é, literalmente, “lei privada”, uma
bandeira, inclinei a cabeça... e, minha garganta entalou outra vez.
prerrogativa especial para fazer algo negado a outras pessoas. O
Isso é corporativismo; não aquele enxovalhado, que significa o rei, como fonte de toda a lei, distribuía privilégios, pois havia sido
bem de cada um, protegido à custa do desmerecimento da insti- ungido como 16o agente de Deus na terra.
tuição; mas o puro, que significa o bem da instituição, protegido
Durante todo 17o século XVIII, os filósofos do Iluminismo ques-
pelo merecimento de cada um.
tionaram esses pressupostos, e os panfletistas profissionais
Sou marinheiro e, portanto, sou corporativista. conseguiram empanar a aura sagrada da coroa. Contudo, a

30
desmontagem do quadro mental do Antigo Regime demandou A produção de um texto poético resulta de uma criteriosa seleção
violência iconoclasta, destruidora do mundo, revolucionária. vocabular. No texto, trabalhou-se com dois campos semânticos:
subir x descer. Relacionando-se esses verbos a substantivos, de
Seria ótimo se pudéssemos associar 18a Revolução exclusivamen-
acordo com esse texto, a única associação coerente é:
te à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, mas ela
nasceu na violência e imprimiu seus princípios em um mundo a) subir: lama, limite.
violento. Os conquistadores da Bastilha não se limitaram a des- b) descer: limite, degrau.
truir um símbolo do despotismo real. Entre eles, 150 foram mortos c) subir: fama, moral.
ou feridos no assalto à prisão e, quando os sobreviventes apa- d) descer: lama, moral.
nharam o diretor, cortaram sua cabeça e desfilaram-na por Paris
na ponta de uma lança. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
Como podemos captar esses momentos de loucura, quando tudo A MEMÓRIA E O CAOS DIGITAL
parecia possível e o mundo se afigurava como uma tábula rasa, Fernanda Colavitti
apagada por uma onda de comoção popular e pronta para ser
A era digital trouxe inovações e facilidades para o homem que
redesenhada? Parece incrível que um povo inteiro fosse capaz de
superou de longe o que a ficção previa até pouco tempo atrás.
se levantar e transformar as condições da vida cotidiana. Duzen-
Se antes precisávamos correr em busca de informações de nosso
tos anos de experiências com admiráveis mundos novos torna-
interesse, hoje, úteis ou não, elas é que nos assediam: resultados de
ram-nos céticos quanto ao planejamento social. Retrospectiva-
loterias, dicas de cursos, variações da moeda, ofertas de compras,
mente, a Revolução pode parecer um prelúdio ao totalitarismo.
notícias de atentados, ganhadores de gincanas, etc. Por outro lado,
Pode ser. Mas um excesso de visão histórica retrospectiva pode enquanto cresce a capacidade dos discos rígidos e a velocidade
distorcer o panorama de 1789. Os revolucionários franceses não das informações, o desempenho da memória humana está ficando
eram nossos contemporâneos. E eram um conjunto de pesso- cada vez mais comprometido. Cientistas são unânimes ao associar
as não excepcionais em circunstâncias excepcionais. Quando as a rapidez das informações geradas pelo mundo digital com a res-
coisas se desintegraram, eles reagiram a uma necessidade impe- trição de nosso "disco rígido" natural. Eles ressaltam, porém, que
riosa de dar-lhes sentido, ordenando a sociedade segundo novos o problema não está propriamente nas novas tecnologias, mas no
princípios. Esses princípios ainda permanecem como uma denún- uso exagerado delas, o que faz com que deixemos de lado ativi-
cia da tirania e da injustiça. Afinal, em que estava empenhada a dades mais estimulantes, como a leitura, que envolvem diversas
Revolução Francesa? Liberdade, igualdade, fraternidade. funções do cérebro. Os mais prejudicados por esse processo têm
(DARNTON, Robert. O beijo de Lamourette. In: ____. sido crianças e adolescentes, cujo desenvolvimento neuronal acaba
O beijo de Lamourette: mídia, cultura e revolução. sendo moldado preguiçosamente.
São Paulo: Cia. das Letras, 2010. p. 30-39.)
Responda sem pensar: qual era a manchete do jornal de ontem?
Considere as seguintes ocorrências de artigo no texto. Você lembra o nome da novela que antecedeu o Clone? E quem
I. O artigo definido na referência 16. era o técnico da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1994?
II. O artigo definido singular na referência 17. Não ter uma resposta imediata para essas perguntas não deve ser
III. O artigo definido na referência 18. causa de preocupação para ninguém, mas exemplifica bem o pro-
blema constatado pela fonoaudióloga paulista Ana Maria Maaz
Quais poderiam ser omitidos, preservando a correção de seus
Alvarez, que há mais de 20 anos estuda a relação entre audição
contextos?
e recordação.
a) Apenas I. A pedido de duas empresas, ela realizou uma pesquisa para saber
b) Apenas II. o que estava ocorrendo com os funcionários que reclamavam com
c) Apenas III. frequência de lapsos de memória. Foram entrevistados 71 homens
d) Apenas I e II. e mulheres, com idade de 18 e 42 anos. A maioria dos esqueci-
e) I, II e III. mentos era de natureza auditiva, como nomes que acabavam de
ser ouvidos ou assuntos discutidos. (Por falar nisso, responda sem
9. (CFTRJ)
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

olhar no parágrafo anterior: você lembra o nome da pesquisadora


citada?)
LAMA
Ana Maria descobriu que os lapsos de memória resultavam basica-
Mauro Duarte mente do excesso de informação em consequência do tipo de tra-
Pelo curto tempo que você sumiu balho que essas pessoas exerciam nas empresas, e do pouco tempo
Nota-se aparentemente que você subiu que dispunham para processá-las, somados à angústia de querer
Mas o que eu soube ao seu respeito saber mais e ao excesso de atribuições. "Elas não se detinham no
Me entristeceu ouvi dizer que estava sendo dito (lido, ouvido ou visto) e, consequentemente,
Que pra subir você desceu, você desceu não conseguiam gravar os dados na memória", afirma.
Todo mundo quer subir (Fonte Internet: Superinteressante, 2001).
A concepção da vida admite 10. (Uece) Assinale a alternativa em que todas as expressões des-
Ainda mais quando a subida tacadas têm valor de adjetivo.
Tem o céu como limite
Por isso não adianta estar no mais alto degrau da fama a) Era DIGITAL trouxe inovações e FACILIDADES QUE
Com a moral toda enterrada na lama SUPERARAM o QUE PREVIA a ficção.
b) Deixemos DE LADO atividades QUE ENVOLVEM
(Clara Nunes. O canto das três raças. EMI-Odeon, 1976)
DIVERSAS funções DO CÉREBRO.

31
c) Hoje, ÚTEIS ou não, as informações É QUE nos assediam. d) oferece pistas ao leitor de seu posicionamento críti-
d) Responda qual era a manchete DO JORNAL DE co sobre o assunto das cotas.
ONTEM. e) exemplifica a situação da educação do país, empre-
gando inadequadamente o termo.

E.O. Complementar 2. (Uel) VESTIBULAR

Vestibular, aquilo que o Ministério da Educação estuda agora


1. (IFSP) BUSCANDO A EXCELÊNCIA extinguir, é um brasileirismo para algo que em Portugal costuma
Lya Luft ser chamado de exame de acesso à universidade. Trata-se de um
Estamos carentes de excelência. A mediocridade reina, assusta- adjetivo que se substantivou, num processo semelhante ao que
dora, implacável e persistentemente. Autoridades, altos cargos, ocorreu com celular, qualificativo de telefone, que tenta – e na
líderes, em boa parte desinformados, desinteressados, incultos, maioria das vezes consegue – expulsar a palavra principal de cena
lamentáveis. Alunos que saem do ensino médio semianalfabetos sob uma pertinente alegação de redundância, tomando para si o
lugar de substantivo. Pois o exame vestibular, de tão consagrado
e assim entram nas universidades, que aos poucos – refiro-me às
no vocabulário de gerações e gerações de estudantes brasileiros
públicas – vão se tornando reduto de pobreza intelectual.
que perderam o sono por causa dele, acabou conhecido como ves-
As infelizes cotas, contras as quais tenho escrito e às quais me tibular só. E qualquer associação remota com a palavra que está
oponho desde sempre, servem magnificamente para alcançar- em sua origem – vestíbulo – se perdeu nesse processo.
mos este objetivo: a mediocrização também do ensino superior.
Quando ainda era claramente um adjetivo, ficava mais fácil per-
Alunos que não conseguem raciocinar porque não lhes foi ensi-
ceber a metáfora que, com certa dose de pernosticismo, levou
nado, numa educação de brincadeirinha. E, porque não sabem
a palavra vestibular a ser escolhida para qualificar o processo
ler nem escrever direito e com naturalidade, não conseguem
de seleção de candidatos ao ensino superior. Vestíbulo (do latim
expor em letra ou fala seu pensamento truncado e pobre. [...] E
vestibulum) é, na origem, um termo de arquitetura que signifi-
as cotas roubam a dignidade daqueles que deveriam ter acesso
ca pórtico, alpendre ou pátio externo, mas que pode ser usado
ao ensino superior por mérito [...]. Meu conceito serve para
também, em sentido mais amplo, para designar um átrio, uma
cotas raciais também: não é pela raça ou cor, sobretudo auto-
antessala, qualquer cômodo ou ambiente de passagem entre a
declarada, que um jovem deve conseguir diploma superior, mas
porta de entrada e o corpo principal de uma casa, apartamento,
por seu esforço e capacidade. [...]
palácio ou prédio público. Para quem prefere uma solução angló-
Em suma, parece que trabalhamos para facilitar as coisas aos jo- fona, estamos falando de hall ou lobby.
vens, em lugar de educá-los com e para o trabalho, zelo, esforço,
Como é um ambiente de transição entre o lado de fora e o lado
busca de mérito, uso da própria capacidade e talento, já entre as
de dentro, vestíbulo ganhou ainda por extensão, em anatomia, o
crianças. O ensino nas últimas décadas aprimorou-se em fazer os
sentido de “cavidade que dá acesso a um órgão oco” (Houaiss).
pequenos aprender brincando. Isso pode ser bom para os bem
Antes de ser admitido no vocabulário da educação, “sistema ves-
pequenos, mas já na escola elementar, em seus primeiros anos,
tibular” já tinha aplicação na linguagem médica como nome dos
é bom alertar, com afeto e alegria, para o fato de que a vida não
pequenos órgãos situados na entrada do ouvido interno, respon-
é só brincadeira, que lazer e divertimento são necessários até à
sáveis por nosso equilíbrio.
saúde, mas que a escola é também preparação para uma vida
profissional futura, na qual haverá disciplina e limites – que aliás (RODRIGUES, S. Vestibular. Disponível em: <[Link]
deveriam existir em casa, ainda que amorosos. [Link]/edicoes/81/palavradasemana/materia_
palavradasemana_431845.shtml>. Acesso em: 6 jun. 2009.)
Muitos dirão que não estou sendo simpática. Não escrevo para
ser agradável, mas para partilhar com meus leitores preocupa- Com base no texto, considere as afirmativas a seguir:
ções sobre este país com suas maravilhas e suas mazelas, num
I. Ao afirmar que vestibular é um brasileirismo, o autor se posi-
momento fundamental em que, em meio a greves, justas ou
ciona contrariamente à sua extinção pelo Ministério da Educação.
desatinadas, [...] se delineia com grande inteligência e precisão
II. O autor não condena o uso do estrangeirismo “lobby” no lugar
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

a possibilidade de serem punidos aqueles que não apenas pre-


do brasileirismo “vestibular”.
judicaram monetariamente o país, mas corroeram sua moral, e
a dignidade de milhões de brasileiros. Está sendo um momento III. O adjetivo “vestibular” que, devido ao uso, acabou sendo sub-
de excelência que nos devolve ânimo e esperança. stantivado, é derivado da palavra “vestíbulo”.

(Revista Veja, de 26.09.2012. Adaptado). IV. O autor considera pertinente a alegação de redundância para
explicar o processo de substantivação do termo “celular”.
Sabe-se que o adjetivo é uma palavra que modifica o substantivo
e que sua posição mais comum no português é a de suceder esse Assinale a alternativa correta.
substantivo. Assinale o efeito de sentido que a autora consegue
a) Somente as afirmativas I e II são corretas.
com o emprego do adjetivo antecedendo o substantivo em “as b) Somente as afirmativas II e IV são corretas.
infelizes cotas” (2º parágrafo).
c) Somente as afirmativas III e IV são corretas.
a) produz uma sonoridade mais adequada ao trecho. d) Somente as afirmativas I, II e III são corretas.
b) provoca o estranhamento do leitor, pois algumas co- e) Somente as afirmativas I, III e IV são corretas.
tas são felizes.
c) antecipa que nem todas as cotas são infelizes, como
se poderia esperar.

32
3. (IFCE) De como o narrador, com certa experiência anterior e nosso subúrbio. Dona Ernestina, gordíssima, lustrosa de suor e
agradável, dispõe-se a retirar a verdade do fundo do poço um tanto quanto débil mental, concorda balançando a cabeça
de elefante. Um farol de luz poderosa, iluminando longe, eis a
Minha intenção, minha única intenção, acreditem! é apenas
verdade do nobre juiz de direito aposentado.
restabelecer a verdade. A verdade completa, de tal maneira
que nenhuma dúvida persista em torno do comandante Vasco Talvez por isso mesmo sua luz não penetre nos escaninhos mais
Moscoso de Aragão e de suas extraordinárias aventuras. próximos, nas ruas de canto, no escondido beco das Três Borboletas
onde se abriga, na discreta meia-sombra de uma casinha entre
“A verdade está no fundo de um poço”, li certa vez, não me lem- árvores, a formosa e risonha mulata Dondoca, cujos pais procura-
bro mais se num livro ou num artigo de jornal. Em todo caso, em ram o meritíssimo quando Zé Canjiquinha desapareceu da circula-
letra de forma, e como duvidar de afirmação impressa? Eu, pelo ção, viajando para o sul.
menos, não costumo discutir, muito menos negar, a literatura e
o jornalismo. E, como se isso não bastasse, 7várias pessoas Passara Dondoca nos peitos, na frase pitoresca do velho Pedro Tor-
gradas repetiram-me a frase, não deixando sequer margem resmo, pai aflito, e largara a menina ali, sem honra e sem dinheiro:
para um erro de revisão a retirar a verdade do poço, a situá-la – No miserê, doutor juiz, no miserê...
em melhor abrigo: paço (“a verdade está no paço real”) ou colo O juiz deitou discurso moral, coisa digna de ouvir-se, prometeu
(“a verdade se esconde no colo das mulheres belas”), polo (“a providências. E, à vista do tocante quadro da vítima a sorrir en-
verdade fugiu para o Polo Norte”) ou povo (“a verdade está com tre lágrimas, afrouxou um dinheirinho, pois, sob o peito duro
o povo”). Frases, todas elas, parece-me, menos grosseiras, mais da camisa engomada do magistrado, pulsa, por mais difícil que
elegantes, sem deixar essa obscura sensação de abandono e frio seja acreditar-se, pulsa um bondoso coração. Prometeu expedir
inerente à palavra “poço”. ordem de busca e apreensão do “sórdido dom-juan”, esque-
O meritíssimo dr. Siqueira, juiz aposentado, respeitável e probo cendo-se, no entusiasmo pela causa da virtude ofendida, de
cidadão, de lustrosa e erudita careca, explicou-me tratar-se de sua condição de aposentado, sem promotor nem delegado às
um lugar-comum, ou seja, coisa tão clara e sabida a ponto de ordens. Interessaria no caso, igualmente, seus amigos da cidade.
transformar-se num provérbio, num dito de todo mundo. Com O “conquistador barato” teria a paga merecida...
sua voz grave, de inapelável sentença, acrescentou curioso de- E foi ele próprio, tão cônscio é o dr. Siqueira de suas responsabili-
talhe: não só a verdade está no fundo de um poço, mas lá se dades de juiz (embora aposentado), dar notícias das providências
encontra inteiramente nua, sem nenhum véu a cobrir-lhe o corpo, à família ofendida e pobre, na moradia distante. Dormia Pedro Tor-
sequer as partes vergonhosas. No fundo do poço e nua. resmo, curando a cachaça da véspera; labutava no quintal, lavando
O dr. Alberto Siqueira é o cimo, o ponto culminante da cultura roupa, a magra Eufrásia, mãe da vítima, e a própria cuidava do
nesse subúrbio de Periperi onde habitamos. É ele quem pronun- fogão. Desabrochou um sorriso nos lábios carnudos de Dondoca,
cia o discurso do Dois de Julho na pequena praça e o de Sete tímido mas expressivo, o juiz fitou-a austero, tomou-lhe da mão:
de Setembro no grupo escolar, sem falar noutras datas menores – Venho pra repreendê-la...
e em brindes de aniversário e batizado. Ao juiz devo muito do – Eu não queria. Foi ele... – choramingou a formosa.
pouco que sei, a essas conversas noturnas no passeio de sua
– Muito malfeito – segurava-lhe o braço de carne rija.
casa; devo-lhe respeito e gratidão. Quando ele, com a voz solene
e o gesto preciso, esclarece-me uma dúvida, naquele momen- Desfez-se ela em lágrimas arrependidas e o juiz, para melhor re-
to tudo parece-me claro e fácil, nenhuma objeção me assalta. preendê-la e aconselhá-la, sentou-a no colo, acariciou-lhe as faces,
Depois que o deixo, porém, e ponho-me a pensar no assunto, beliscou-lhe os braços. Admirável quadro: a severidade implacável
vão-se a facilidade e a evidência, como, por exemplo, nesse caso do magistrado temperada pela bondade compreensiva do homem.
da verdade. Volta tudo a ser obscuro e difícil, busco recordar as Escondeu Dondoca o rosto envergonhado no ombro confortador,
explicações do meritíssimo e não consigo. Uma trapalhada. Mas, seus lábios faziam cócegas inocentes no pescoço ilustre.
como duvidar da palavra de homem de tanto saber, as estantes Zé Canjiquinha nunca foi encontrado, em compensação Dondo-
entulhadas de livros, códigos e tratados? No entanto, por mais ca ficou, desde aquela bem-sucedida visita sob a proteção da
que ele me explique tratar-se apenas de um provérbio popular, justiça, anda hoje nos trinques, ganhou a casinha no beco das
muitas vezes encontro-me a pensar nesse poço, certamente pro- Três Borboletas, Pedro Torresmo deixou definitivamente de traba-
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

fundo e escuro, onde foi a verdade esconder sua nudez, deixan- lhar. Eis aí uma verdade que o farol do juiz não ilumina, foi-me
do-nos na maior das confusões, a discutir a propósito de um tudo necessário mergulhar no poço para buscá-la. Aliás, para tudo
ou de um nada, causando-nos a ruína, o desespero e a guerra. contar, a inteira verdade, devo acrescentar ter sido agradável, de-
Poço não é poço, fundo de um poço não é o fundo de um poço, leitoso mergulho, pois no fundo desse poço estava o colchão de
na voz do provérbio isso significa que a verdade é difícil de re- lã de barriguda do leito de Dondoca onde ela me conta – depois
velar-se, sua nudez não se exibe na praça pública ao alcance de que abandono, por volta das dez da noite, a prosa erudita do me-
qualquer mortal. Mas é o nosso dever, de todos nós, procurar a ritíssimo e de sua volumosa consorte – divertidas intimidades do
verdade de cada fato, mergulhar na escuridão do poço até en- preclaro magistrado, infelizmente impróprias para letra de forma.
contrar sua luz divina. (AMADO, Jorge. Os velhos marinheiros: duas histórias do
“Luz divina” é do juiz, como aliás todo o parágrafo anterior. cais da Bahia. 23. ed. São Paulo: Martins, s.d., p. 71-73)

Ele é tão culto que fala em tom de discurso, gastando palavras


Em “(...) várias pessoas gradas repetiram-me a frase (...)”, – ref.
bonitas, mesmo nas conversas familiares com sua digníssima
7 – é correto afirmar-se, de acordo com o texto, acerca do vocá-
esposa, dona Ernestina. “A verdade é o farol que ilumina mi-
bulo destacado, que se trata de um
nha vida”, costuma repetir-se o meritíssimo, de dedo em riste,
quando, à noite, sob um céu de incontáveis estrelas e pouca a) substantivo e tem o mesmo significado de “vonta-
luz elétrica, conversamos sobre as novidades do mundo e de des”, “desejos”.

33
b) substantivo e tem o mesmo significado de “passos”, em papinhos de elevador, sem ambições maiores do que um
“marchas”, “andaduras”. carro novo, um requeijão com menos colesterol, o nome na
c) adjetivo e tem o mesmo significado de “insignes”, moldura de funcionário do mês e ingressos para o Holiday on
“importantes”, “ilustres”. Ice no fim de semana.
d) adjetivo e tem o mesmo significado de “grandes”, Em busca de algum consolo, me esforçava para bater o recorde
“desenvolvidas”. jamaicano de consumo de maconha, mas, em vez de ter abertas
e) adjetivo e tem o mesmo significado de “esforça- as portas da percepção – ou o que quer que fizesse com que
das”, “lutadoras”. meus amigos se divertissem e passassem meia hora rachando o
bico, sei lá, de um amendoim –, só via ainda mais escancaradas
4. (Uece) PORTÃO as portas da minha inadequação. Foi então, meus caros, que eu
vi a luz – e a luz veio na forma de um livro; “Trinta anos de mim
O portão fica bocejando, aberto
mesmo”, do Millôr Fernandes.
para os alunos retardatários.
Não há pressa em viver A primeira página que eu abri trazia um quadrado em branco,
nem nas ladeiras duras de subir, com a seguinte legenda: “Uma gaivota branca, trepada sobre
quanto mais para estudar a 1insípida cartilha. um iglu branco, em cima de um monte branco. No céu, nuvens
Mas se o pai do menino é da oposição, brancas esvoaçam e à direita aparecem duas árvores brancas
à ilustríssima autoridade municipal, com as flores brancas da primavera”. Logo adiante estava “O
prima por sua vez da sacratíssima abridor de latas”, “Pela primeira vez no Brasil um conto intei-
autoridade nacional, ramente em câmera lenta” – narrando um piquenique de tarta-
ah, isso não: o vagabundo rugas que durava uns 1.500 anos. Mais pra frente, esta quadra:
ficará mofando lá fora “Essa pressa leviana/ Demonstra o incompetente/ Por que fazer
e leva no boletim uma galáxia de zeros. o mundo em sete dias/ Se tinha a eternidade pela frente?”.
A gente aprende muito no portão Lendo aquelas páginas, que reuniam o trabalho jornalístico do
fechado. Millôr entre 1943 e 1973, compreendi que não estava sozinho
(ANDRADE, Carlos Drummond de. In: Carlos Drummond de em meu estranhamento: a vida era mesmo absurda, mas a res-
Andrade: Poesia e Prosa. Editora Nova Aguilar:1988. p. 506-507.) posta mais lógica para a falta de sentido não era o desespero, e
sim o riso. Percebi, como se não bastasse, que se agregasse algu-
Atente ao que é dito sobre o vocábulo “insípida” (ref. 1). ma graça aos meus resmungos poderia fazer daquele incômodo
I. Foi empregado na acepção de sem graça, desinteressante, mo- uma profissão. Dos 19 anos até hoje, jamais paguei uma conta
de luz de outra forma.
nótono.

II. Foi empregado no seu sentido literal, não figurado. Uma pena nunca ter conhecido o Millôr pessoalmente, não ter po-
dido apertar sua mão e agradecer-lhe por haver me sussurrado ao
III. A mudança da posição desse adjetivo para depois do substanti-
ouvido, quando eu mais precisava escutar, a única verdade que há
vo não alteraria o significado do substantivo.
debaixo do céu: se Deus não existe, então tudo é divertido.
Está correto o que se afirma somente em
(Antonio Prata. Folha de S. Paulo. 04/04/2012.)
a) I e II.
b) III. Na passagem “... os bons meninos não ganhavam uma coroa de
c) I e III. louros – nem ao menos, vá lá, uma loura coroa...”, o autor faz
um jogo de palavras, cujo sentido está mais bem explicado em:
d) II.
a) Os adjetivos “louros” e “loura”, no contexto em que
5. (Insper) QUEM RI POR ÚLTIMO RI MILLÔR foram empregados, apresentam os mesmos sentidos, sof-
rendo apenas variação na flexão de gênero e de número.
Eu tinha 15 anos, havia tomado bomba, era virgem e não via,
diante da minha incompetência para com o sexo oposto, a mais b) A escolha do substantivo “coroa”, nas duas ocorrên-
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

remota possibilidade de reverter a situação. cias do texto, deve-se ao fato de que o cronista pretende
assinalar um registro formal da linguagem.
Em algum momento entre a oitava série e o primeiro colegial, c) A locução adjetiva “de louros” e o substantivo “lou-
todos os meus colegas haviam adotado roupas diferentes, gí- ra” foram empregados pelo autor com a finalidade de
rias, trejeitos ao falar e ao gesticular, mas eu continuava igual – criar uma antítese.
era como se houvesse faltado na aula em que os estilos foram d) A palavra “coroa” é um substantivo, mas em cada
distribuídos e estivesse condenado a viver para sempre numa ocorrência exerce uma diferente função sintática: ob-
espécie de limbo social, feito de incertezas, celibato e moletom. jeto indireto e adjunto adnominal, respectivamente.
O mundo, antes um lugar com regras claras e uma razoável e) Os termos “louros” e “loura” têm semelhanças gráfi-
meritocracia, havia perdido o sentido: os bons meninos não cas e sonoras e, apesar de parecerem ser o masculino
ganhavam uma coroa de louros – nem ao menos, vá lá, uma e o feminino da mesma palavra, apresentam signifi-
loura coroa –, era preciso acordar às 6h15 para estudar quími- cações diferentes.
ca orgânica e os adultos ainda queriam me convencer de que
aquela era a melhor fase da vida.
Claro, observando-os, era óbvia a razão da nostalgia: seres
de calças bege e pager no cinto, que gastavam seus dias

34
E.O. Dissertativo significa, neste caso, também hierarquizar. Deter o privilégio de
classificar significa também deter o privilégio de atribuir diferen-
tes valores aos grupos assim classificados.
1. (UFJF) A IDENTIDADE E A DIFERENÇA: O PODER DE
DEFINIR A mais importante forma de classificação é aquela que se es-
trutura em torno de oposições binárias, isto é, em torno de duas
A identidade e a diferença são o resultado de um processo de classes polarizadas. O filósofo francês Jacques Derrida analisou
produção simbólica e discursiva. (...) A identidade, tal como a detalhadamente esse processo. Para ele, as oposições binárias
diferença, é uma relação social. Isso significa que sua definição não expressam uma simples divisão do mundo em duas classes
– discursiva e linguística – está sujeita a vetores de força, a re- simétricas: em uma oposição binária, um dos termos é sempre
lações de poder. privilegiado, recebendo um valor positivo, enquanto o outro re-
Elas não são simplesmente definidas; elas são impostas. Não con- cebe uma carga negativa. “Nós” e “eles”, por exemplo, cons-
vivem harmoniosamente, lado a lado, em um campo sem hierar- titui uma típica oposição binária: não é preciso dizer qual ter-
quias; são disputadas. mo é, aqui, privilegiado. As relações de identidade e diferença
ordenam-se, todas, em torno de oposições binárias: masculino/
Não se trata, entretanto, apenas do fato de que a definição da feminino, branco/negro, heterossexual/homossexual. Questionar
identidade e da diferença seja objeto de disputa entre grupos so- a identidade e a diferença como relações de poder significa pro-
ciais simetricamente situados relativamente ao poder. Na disputa blematizar os binarismos em torno dos quais elas se organizam.
pela identidade está envolvida uma disputa mais ampla por ou-
Fixar uma determinada identidade como a norma é uma das
tros recursos simbólicos e materiais da sociedade. A afirmação da
formas privilegiadas de hierarquização das identidades e das di-
identidade e a enunciação da diferença traduzem o desejo dos
ferenças. A normalização é um dos processos mais sutis pelos
diferentes grupos sociais, assimetricamente situados, de garantir
quais o poder se manifesta no campo da identidade e da dife-
o acesso privilegiado aos bens sociais. A identidade e a diferença rença. Normalizar significa eleger – arbitrariamente – uma iden-
estão, pois, em estreita conexão com relações de poder. O poder tidade específica como o parâmetro em relação ao qual as outras
de definir a identidade e de marcar a diferença não pode ser identidades são avaliadas e hierarquizadas. Normalizar significa
separado das relações mais amplas de poder. A identidade e a atribuir a essa identidade todas as características positivas pos-
diferença não são, nunca, inocentes. síveis, em relação às quais as outras identidades só podem ser
Podemos dizer que onde existe diferenciação – ou seja, identida- avaliadas de forma negativa. A identidade normal é “natural”,
de e diferença – aí está presente o poder. A diferenciação é o pro- desejável, única. A força da identidade normal é tal que ela nem
cesso central pelo qual a identidade e a diferença são produzidas. sequer é vista como uma identidade, mas simplesmente como a
Há, entretanto, uma série de outros processos que traduzem essa identidade. Paradoxalmente, são as outras identidades que são
diferenciação ou que com ela guardam uma estreita relação. São marcadas como tais. Numa sociedade em que impera a supre-
outras tantas marcas da presença do poder: incluir/excluir (“estes macia branca, por exemplo, “ser branco” não é considerado uma
pertencem, aqueles não”); demarcar fronteiras (“nós” e “eles”); identidade étnica ou racial. Num mundo governado pela hege-
classificar (“bons e maus”; “puros e impuros”; “desenvolvidos monia cultural estadunidense, “étnica” é a música ou a comida
e primitivos”; “racionais e irracionais”); normalizar (“nós somos dos outros países. É a sexualidade homossexual que é “sexuali-
normais; eles são anormais”). zada”, não a heterossexual. A força homogeneizadora da iden-
tidade normal é diretamente proporcional à sua invisibilidade.
A afirmação da identidade e a marcação da diferença implicam,
sempre, as operações de incluir e de excluir. Como vimos, dizer “o Na medida em que é uma operação de diferenciação, de produ-
que somos” significa também dizer “o que não somos”. A identi- ção de diferença, o anormal é inteiramente constitutivo do normal.
dade e a diferença se traduzem, assim, em declarações sobre quem Assim como a definição da identidade depende da diferença, a
definição do normal depende da definição do anormal. Aquilo que
pertence e sobre quem não pertence, sobre quem está incluído e
é deixado de fora é sempre parte da definição e da constituição do
quem está excluído.
“dentro”. A definição daquilo que é considerado aceitável, dese-
Afirmar a identidade significa demarcar fronteiras, significa fazer jável, natural é inteiramente dependente da definição daquilo que
distinções entre o que fica dentro e o que fica fora. A identidade é considerado abjeto, rejeitável, antinatural. A identidade hegemô-
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

está sempre ligada a uma forte separação entre “nós” e “eles”. nica é permanentemente assombrada pelo seu Outro, sem cuja
Essa demarcação de fronteiras, essa separação e distinção, su- existência ela não faria sentido. Como sabemos desde o início, a
põem e, ao mesmo tempo, afirmam e reafirmam relações de diferença é parte ativa da formação da identidade.
poder. (...)Os pronomes “nós” e “eles” não são, aqui, simples (SILVA, Tomaz Tadeu. A produção social da identidade e da diferença. In:
categorias gramaticais, mas evidentes indicadores de posições- SILVA, Tomaz Tadeu (Org. e Trad.). Identidade e diferença: a perspectiva
-de-sujeito fortemente marcadas por relações de poder: dividir o dos estudos culturais.
mundo social entre “nós” e “eles” significa classificar. O proces- Petrópolis: Vozes, 2000. p. 73-75.
so de classificação é central na vida social.
Leia o fragmento a seguir:
Ele pode ser entendido como um ato de significação pelo qual
dividimos e ordenamos o mundo social em grupos, em classes. “A força da identidade normal é tal que ela nem sequer é vista
A identidade e a diferença estão estreitamente relacionadas às como uma identidade, mas simplesmente como a identidade”.
formas pelas quais a sociedade produz e utiliza classificações. (penúltimo parágrafo)
As classificações são sempre feitas a partir do ponto de vista da No trecho destacado, qual é o efeito de sentido determinado pelo
identidade. Isto é, as classes nas quais o mundo social é dividi- uso dos artigos indefinido e definido acima negritados?
do não são simples agrupamentos simétricos. Dividir e classificar

35
2. (UFRJ) Texto I TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO

A PRODUÇÃO CULTURAL DO CORPO Na verdade, à primeira vista, seu aspecto era de um velho como
tantos outros, de idade indefinida, rugas, cabelos brancos, uma
Pensar o corpo como algo produzido na e pela cultura é, simul-
barba que lhe dará um vago ar de sabedoria e respeitabilidade.
taneamente, um desafio e uma necessidade. Um desafio porque
Mas uma certa agilidade e o porte ereto darão a impressão de
rompe, de certa forma, com o olhar naturalista sobre o qual mui-
que, apesar da aparência de velho, o viajante guardará o vigor da
tasvezes o corpo é observado, explicado, classificado e tratado.
juventude. E os olhos... ah, o brilho dos olhos será absolutamente
Uma necessidade porque ao desnaturalizá-lo revela, sobretu-
sem idade, um brilho deslumbrado como o de um bebê, curioso
do, que o corpo é histórico. Isto é, mais do que um dado natural
como o de um menino, desafiador como o de um jovem, sábio
cuja materialidade nos presentifica no mundo, o corpo é uma
como o de um homem maduro, maroto como o de um velhinho
construção sobre a qual são conferidas diferentes marcas em
diferentes tempos, espaços, conjunturas econômicas, grupos bem-humorado que conseguisse somar tudo isso.
sociais, étnicos, etc. Não é portanto algo dado a priori nem (MACHADO, Ana Maria. O CANTO DA PRAÇA.
mesmo é universal: o corpo é provisório, mutável e mutante, Rio de Janeiro: Salamandra, 1986.)
suscetível a inúmeras intervenções consoante o desenvolvi-
3. (Ufrj) Confronte os trechos destacados nos trechos A e B.
mento científico e tecnológico de cada cultura bem como suas
leis, seus códigos morais, as representações que cria sobre os A
corpos, os discursos que sobre ele produz e reproduz.
"apesar da aparência DE VELHO"
Um corpo não é apenas um corpo. É também o seu entorno.
Mais do que um conjunto de músculos, ossos, vísceras, reflexos B
e sensações, o corpo é também a roupa e os acessórios que o "seu aspecto era DE UM VELHO COMO TANTOS OUTROS"
adornam, as intervenções que nele se operam, a imagem que
dele se produz, as máquinas que nele se acoplam, os sentidos "maroto como o DE UM VELHINHO BEM-HUMORADO"
que nele se incorporam, os silêncios que por ele falam, os vestí- a) Como se justifica a ausência de artigo no trecho
gios que nele se exibem, a educação de seus gestos... enfim, é destacado no trecho A?
um sem limite de possibilidades sempre reinventadas e a serem b) No trecho B, o artigo indefinido tem seu sentido
descobertas. Não são, portanto, as semelhanças biológicas que reiterado em um dos dois trechos destacados.
o definem mas, fundamentalmente, os significados culturais e Que recurso linguístico é responsável por essa reitera-
sociais que a ele se atribuem. ção? Explique sua resposta.
(GOELLNER, Silvana Vilodre. A produção cultural do corpo. In:
LOURO, Guacira Lopes (Org.) Corpo, gênero e sexualidade; um debate TEXTOS PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
contemporâneo na educação. Petrópolis: Vozes, 2003. p.28-29)
OS DIFERENTES
Texto II
Descobriu-se na Oceania, mais precisamente na ilha de Osse-
A NÃO ACEITAÇÃO vaolep, um povo primitivo, que anda de cabeça para baixo e
tem vida organizada.
Desde que começou a envelhecer realmente começou a querer
ficar em casa. Parece-me que achava feio passear quando não se É aparentemente um povo feliz, de cabeça muito sólida e mãos
era mais jovem: o ar tão limpo, o corpo sujo de gordura e rugas. So- reforçadas. Vendo tudo ao contrário, não perde tempo, entretanto,
bretudo a claridade do mar como desnuda. Não era para os outros em refutar a visão normal do mundo. E o que eles dizem com os
que era feio ela passear, todos admitem que os outros sejam ve- pés dá a impressão de serem coisas aladas, cheias de sabedoria.
lhos. Mas para si mesma. Que ânsia, que cuidado com o corpo per- Uma comissão de cientistas europeus e americanos estuda a lin-
dido, o espírito aflito nos olhos, ah, mas as pupilas essas límpidas. guagem desses homens e mulheres, não tendo chegado ainda a
Outra coisa: antigamente no seu rosto não se via o que ela pen- conclusões publicáveis. Alguns professores tentaram imitar esses
sava, era só aquela face destacada, em oferta. Agora, quando se nativos e foram recolhidos ao hospital da ilha. Os cabecences-
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

vê sem querer ao espelho, quase grita horrorizada: mas eu não -para-baixo, como foram denominados à falta de melhor clas-
estava pensando nisso! Embora fosse impossível e inútil dizer em sificação, têm vida longa e desconhecem a gripe e a depressão.
que rosto parecia pensar, e também impossível e inútil dizer no que (ANDRADE, Carlos Drummond de. Prosa Seleta.
ela mesma pensava. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003. p. 150)
Ao redor as coisas frescas, uma história para a frente, e o vento, o
4. (Ufrj) No texto, há diversos sintagmas nominais – constru-
vento... Enquanto seu ventre crescia e as pernas engrossavam, e os
ções com núcleo substantivo acompanhado ou não de termos com
cabelos se haviam acomodado num penteado natural e modesto
função adjetiva – que caracterizam o "povo primitivo".
que se formara sozinho.
a) Retire do texto dois desses sintagmas.
(LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio
de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. p. 291) b) A caracterização normalmente atribuída a um povo
a) Do primeiro parágrafo do texto I, retire os quatro primitivo como não evoluído não se confirma no texto.
adjetivos que melhor caracterizam a noção de corpo Justifique essa afirmativa, utilizando os sintagmas es-
nele apresentada. colhidos no item a.
b) Estabeleça a relação entre esses adjetivos e a te-
mática central do texto II.

36
TEXTOS PARA A PRÓXIMA QUESTÃO É uma imagem verdadeiramente surreal, não porque esteja
fora da realidade, mas porque destampa, por um “acaso ob-
A MARIA DOS POVOS, SUA FUTURA ESPOSA jetivo” (a expressão era usada pelos 6surrealistas), uma cena
7
recalcada da consciência nacional, com tudo o que tem de
Discreta e formosíssima Maria,
violência naturalizada e corriqueira, tratamento degradante
Enquanto estamos vendo a qualquer hora,
dado aos pobres, estupidez elevada ao cúmulo, ignorância bru-
Em tuas faces a rosada Aurora,
ta transformada em trapalhada 8transcendental, além de um
Em teus olhos e boca o Sol, e o dia:
índice grotesco de métodos de camuflagem e desaparição de
Enquanto com gentil descortesia pessoas. Pois assim como 10Amarildo é aquele que desapareceu
O ar, que fresco Adônis te namora, das vistas, e não faz muito tempo, Cláudia é aquela que subi-
Te espalha a rica trança voadora, tamente salta à vista, e ambos soam, queira-se ou não, como o
Quando vem passear-te pela fria: verso e o reverso do mesmo.

Goza, goza da flor da mocidade, O acaso da queda de Cláudia dá a ver algo do que não pudemos
Que o tempo trata a toda ligeireza, ver no caso do desaparecimento de Amarildo. A sua passagem
E imprime em toda flor sua pisada. meteórica pela tela é um desfile do carnaval de horror que es-
condemos. 11Aquele carro é o carro alegórico de um Brasil, de um
Oh não aguardes, que a madura idade, certo Brasil que temos que lutar para que não se transforme no
Te converta essa flor, essa beleza, carro alegórico do Brasil.
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.
(José Miguel Wisnik. O arrastão. Disponível em: oglobo.
(MATOS, Gregório de. Poemas escolhidos - [Link], 22/03/2014. Acesso em 16/01/2017)
Seleção de José Miguel Wisnik. 2ª ed. São Paulo: Cultrix, [s.d.])
3
aplainada − nivelada
5. (Ufrj) O texto se constrói por meio da oposição entre dois cam- 4
praxe − prática, hábito
pos semânticos, especialmente no contraste entre a primeira e a 6
surrealistas − participantes de movimento artístico do século 20
última estrofes. que enfatiza o papel do inconsciente
7
recalcada − fortemente reprimida
Explicite essa oposição e retire, dessas estrofes, dois vocábulos 8
transcendental − que supera todos os limites
com valor substantivo – um de cada campo semântico –, identifi- 10
Amarildo − pedreiro desaparecido na favela da Rocinha, no Rio
cando a que campo cada vocábulo pertence. de Janeiro, em 2013, depois de ser detido por policiais

Aquele carro é o carro alegórico de um Brasil, de um certo Bra-


E.O. UERJ sil que temos que lutar para que não se transforme no carro
alegórico do Brasil. (ref. 11)
Exame de Qualificação A sequência do emprego dos artigos em “de um Brasil” e “do
Brasil” representa uma relação de sentido entre as duas ex-
1. (UERJ) O ARRASTÃO pressões, intimamente ligada a uma preocupação social por parte
do autor do texto.
Estarrecedor, nefando, inominável, infame. Gasto logo os adje-
tivos porque eles fracassam em dizer o sentimento que os fatos Essa relação de sentido pode ser definida como:
impõem. Uma trabalhadora brasileira, descendente de escravos, a) ironia
como tantos, que cuida de quatro filhos e quatro sobrinhos, que
b) conclusão
parte para o trabalho às quatro e meia das manhãs de todas
c) causalidade
as semanas, que administra com o marido um ganho de mil e
seiscentos reais, que paga pontualmente seus carnês, como mi- d) generalização
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

lhões de trabalhadores brasileiros, é baleada em circunstâncias


não esclarecidas no Morro da Congonha e, levada como carga 2. (UERJ) Texto I
no porta-malas de um carro policial a pretexto de ser atendida, é
1 Escreverei minhas “Memórias”, fato mais frequentemente do
arrastada à morte, a céu aberto, pelo asfalto do Rio.
que se pensa observado no mundo industrial, artístico, científico
Não vou me deter nas versões apresentadas pelos advogados e sobretudo no mundo político, onde muita gente boa se faz elo-
dos policiais. Todas as vozes terão que ser ouvidas, e com muita giar e aplaudir em brilhantes artigos biográficos tão espontâneos,
atenção à voz daqueles que nunca são ouvidos. Mas, antes das 1
como os ramalhetes e as coroas de flores que as atrizes compram
versões, o fato é que esse porta-malas, ao se abrir fora do script, para que lhos atirem na cena os comparsas comissionados.
escancarou um real que está acostumado a existir na sombra. 2 Eu reputo esta prática muito justa e muito natural; porque não
O marido de Cláudia Silva Ferreira disse que, se o porta-malas compreendo amor e ainda amor apaixonado mais justificável do
não se abrisse como abriu (por obra do acaso, dos deuses, do que aquele que sentimos pela nossa própria pessoa.
diabo), esse seria apenas “mais um caso”. Ele está dizendo: se- 3 O amor do eu é e sempre será a pedra angular da sociedade hu-
ria uma morte anônima, 3aplainada pela surdez da 4praxe, pela mana, o regulador dos sentimentos, o móvel das ações, e o farol do
invisibilidade, uma morte não questionada, como tantas outras. futuro: do amor do eu nasce o amor do lar doméstico, deste o amor

37
do município, deste o amor da província, deste o amor da nação, Mas como houvesse, em abundância,
anéis de uma cadeia de amores que os tolos julgam que sentem e certa madeira cor de sangue cor de brasa
tomam ao sério, e que certos maganões envernizam, mistificando e como o fogo da manhã selvagem
a humanidade para simular abnegação e virtudes que não têm fosse um brasido no carvão noturno da paisagem,
no coração e que eu com a minha exemplar franqueza simplifico,
reduzindo todos à sua expressão original e verdadeira, e dizendo, e como a Terra fosse de árvores vermelhas
lar, município, província, nação, têm a flama dos amores que lhes e se houvesse mostrado assaz gentil,
dispenso nos reflexos do amor em que me abraso por mim mesmo: deram-lhe o nome de Brasil.
todos eles são o amor do eu e nada mais. A diferença está em Brasil cheio de graça
simples nuanças determinadas pela maior ou menor proporção Brasil cheio de pássaros
dos interesses e das conveniências materiais do apaixonado ado- Brasil cheio de luz.
rador de si mesmo.
(RICARDO, Cassiano. Seleta em prosa e verso.
(MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias do sobrinho de Rio de Janeiro: José Olympio, 1975.)
meu tio. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.)

Nos trechos a seguir, está em destaque um sintagma formado de


Texto II substantivo e adjetivo.

Já dois anos se passaram longe da pátria. Dois anos! Diria dois A única alternativa em que a inversão das duas palavras também
séculos. E durante este tempo tenho contado os dias e as horas poderia inverter sua classe gramatical é:
pelas bagas do pranto que tenho chorado. Tenha embora Lisboa
os seus mil e um atrativos, ó eu quero a minha terra; quero respirar a) “... reduzindo todos à sua EXPRESSÃO ORIGI-
o ar natal (...). Nada há que valha a terra natal. 1Tirai o índio do seu NAL...” (texto I)
ninho e apresentai-o d’improviso em Paris: será por um momento b) “... conveniências materiais do APAIXONADO
fascinado diante dessas ruas, desses templos, desses mármores; ADORADOR de si mesmo.” (texto I)
mas depois falam-lhe ao coração as lembranças da pátria, e tro- c) “Arrancai a planta dos CLIMAS TROPICAIS e plan-
cará de bom grado ruas, praças, templos, mármores, pelos campos
tai-a na Europa...” (texto II)
de sua terra, pela sua choupana na encosta do monte, pelos mur-
múrios das florestas, pelo correr dos seus rios. Arrancai a planta dos d) “... a sonhar com histórias de luas e CANTOS BÁR-
climas tropicais e plantai-a na Europa: ela tentará reverdecer, mas BAROS de pajés...” (texto III)
cedo pende e murcha, porque lhe falta o ar natal, o ar que lhe dá
vida e vigor. Como o índio, prefiro a Portugal e ao mundo inteiro, 3. (UERJ) IGUAL-DESIGUAL
o meu Brasil, rico, majestoso, poético, sublime. Como a planta dos Eu desconfiava:
trópicos, os climas da Europa enfezam-me a existência, que sinto todas as histórias em quadrinho são iguais.
fugir no meio dos tormentos da saudade. Todos os filmes norte-americanos são iguais.
(ABREU, Casimiro de. Obras de Casimiro de Todos os filmes de todos os países são iguais.
Abreu. Rio de Janeiro: MEC, 1955.) Todos os best-sellers são iguais
Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são
Texto III
iguais.
LADAINHA I Todos os partidos políticos
são iguais.
Por se tratar de uma ilha deram-lhe o nome Todas as mulheres que andam na moda
de ilha de Vera Cruz. são iguais.
Ilha cheia de graça. Todas as experiências de sexo
Ilha cheia de pássaros. são iguais.
Ilha cheia de luz. Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

1
e todos, todos
Ilha verde onde havia 2
os poemas em verso livre são enfadonhamente iguais.
mulheres morenas e nuas Todas as guerras do mundo são iguais.
anhangás a sonhar com histórias de luas Todas as fomes são iguais.
e cantos bárbaros de pajés em poracés batendo os pés. 3
Todos os amores, iguais iguais iguais.
Depois mudaram-lhe o nome Iguais todos os rompimentos.
A morte é igualíssima.
pra terra de Santa Cruz.
Todas as criações da natureza são iguais.
Terra cheia de graça
Todas as ações, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais.
Terra cheia de pássaros
Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho
Terra cheia de luz.
ou coisa.
A grande Terra girassol onde havia guerreiros de tanga e onças Ninguém é igual a ninguém.
ruivas
4
Todo ser humano é um estranho
[deitadas à sombra das árvores
5
ímpar.
[mosqueadas de sol. (Carlos Drummond de Andrade
Nova reunião: 19 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1985.

38
– best-sellers – livros mais vendidos que enfatiza o papel do inconsciente
– gazéis, virelais, sextinas, rondós – tipos de poema 7
recalcada − fortemente reprimida
Todo ser humano é um estranho ímpar. (ref. 4 e 5) 8
transcendental − que supera todos os limites
No contexto, a associação dos adjetivos estranho e ímpar sugere
10
Amarildo − pedreiro desaparecido na favela da Rocinha, no Rio
que cada ser humano não se conhece completamente.
de Janeiro, em 2013, depois de ser detido por policiais

Isto acontece porque cada indivíduo pode ser caracterizado como: No início do texto, ao expressar sua indignação em relação ao
tema abordado, o autor apresenta uma reflexão sobre o emprego
a) solitário
de adjetivos.
b) singular
c) intolerante Essa reflexão está associada à seguinte ideia:
d) indiferente
a) o fato exige análise criteriosa
4. (UERJ) O ARRASTÃO b) o contexto constrói ambiguidade
c) a linguagem se mostra insuficiente
Estarrecedor, nefando, inominável, infame. Gasto logo os adje- d) a violência pede descrição cuidadosa
tivos porque eles fracassam em dizer o sentimento que os fatos
impõem. Uma trabalhadora brasileira, descendente de escravos, 5. (UERJ) O mal de Isaías é ser ambíguo. Ser e não ser. Não é
como tantos, que cuida de quatro filhos e quatro sobrinhos, que índio, nem cristão. Não é homem, nem deixa de ser, 1coitado. Ser
parte para o trabalho às quatro e meia das manhãs de todas dois é não ser nenhum. Mas está acima de suas forças. Ele não
as semanas, que administra com o marido um ganho de mil e pode deixar de participar de um nós comigo que é excludente
seiscentos reais, que paga pontualmente seus carnês, como mi- dos mairuns e que quase me ofende. Também não pode sentir
lhões de trabalhadores brasileiros, é baleada em circunstâncias consigo mesmo que ele é apenas um mairum entre os outros.
não esclarecidas no Morro da Congonha e, levada como carga O pobre não para de escarafunchar a cuca, se aclarando e se
no porta-malas de um carro policial a pretexto de ser atendida, é confundindo cada vez mais. Este casamento com Inimá. Será que
arrastada à morte, a céu aberto, pelo asfalto do Rio. ele gosta dela?(...)
Não vou me deter nas versões apresentadas pelos advogados Outro dia fiquei muito tempo atrás dele, no pátio, confundida
dos policiais. Todas as vozes terão que ser ouvidas, e com muita com toda gente que se junta ali, na hora do pôr do sol, para
atenção à voz daqueles que nunca são ouvidos. Mas, antes das comer e conversar. Vi bem que ele não falava com ninguém
versões, o fato é que esse porta-malas, ao se abrir fora do script, e que ninguém falava com ele. Nem Inimá. Ouvi depois, ouvi
escancarou um real que está acostumado a existir na sombra. bem que ele murmurava sozinho. Cheguei mais perto e ouvi
melhor; era uma ladainha em latim, como as de meu pai:
O marido de Cláudia Silva Ferreira disse que, se o porta-malas
não se abrisse como abriu (por obra do acaso, dos deuses, do Tra-lá-lá, ora pro nobis
diabo), esse seria apenas “mais um caso”. Ele está dizendo: se-
Tre-lé-lé, ora pro nobis
ria uma morte anônima, 3aplainada pela surdez da 4praxe, pela
invisibilidade, uma morte não questionada, como tantas outras. Vamos ver se, agora de noite, nesse balanço de rede, eu me es-
queço dos outros para pensar em mim. Preciso me concentrar
É uma imagem verdadeiramente surreal, não porque esteja fora
no meu problema. Tentei pensar o dia inteiro, sem conseguir. Há
da realidade, mas porque destampa, por um “acaso objetivo”
dias que é assim. Até parece que já não sou capaz. Será a gravi-
(a expressão era usada pelos 6surrealistas), uma cena 7recalcada
dez que me deixa lânguida? De onde virá essa lassidão? Estou
da consciência nacional, com tudo o que tem de violência natu-
ralizada e corriqueira, tratamento degradante dado aos pobres, grávida e não sei de quem. Vou parir aqui entre os mairuns, este
estupidez elevada ao cúmulo, ignorância bruta transformada em é problema. Se problema existe, porque isto bem pode ser uma
trapalhada 8transcendental, além de um índice grotesco de mé- solução. Com um filho crescendo mairum eu não me integraria
todos de camuflagem e desaparição de pessoas. Pois assim como mais nesse mundo que eu quero fazer meu? Ser a mãe de fu-
Amarildo é aquele que desapareceu das vistas, e não faz muito laninho não será para mim como para um homem ser o pai de
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

10

tempo, Cláudia é aquela que subitamente salta à vista, e ambos fulano? Os homens aqui mudam de nome quando têm um filho
soam, queira-se ou não, como o verso e o reverso do mesmo. homem. Maxihú é o pai de Maxi. Teró por muito tempo Jaguarhú.
Eu seria Iuicuihí se minha filha se chamasse Iucui? Ou Mairahú
O acaso da queda de Cláudia dá a ver algo do que não pudemos se meu filho pudesse chamar-se Maíra? Será que pode? Melhor
ver no caso do desaparecimento de Amarildo. A sua passagem é que seja menina: Iuicui.
meteórica pela tela é um desfile do carnaval de horror que es-
(RIBEIRO, Darcy. Maíra. Rio de Janeiro: Record, 1990, p. 372-3.)
condemos. Aquele carro é o carro alegórico de um Brasil, de um
certo Brasil que temos que lutar para que não se transforme no O emprego do adjetivo “coitado” (ref.1), referindo-se a Isaías,
carro alegórico do Brasil. tem relação com o seguinte fato:
(José Miguel Wisnik. O arrastão a) Isaías não é índio nem cristão.
Disponível em. [Link], 22/03/2014.
Acesso em: 16/01/2017.) b) Inimá está grávida dele.
c) Isaías é um ser mítico.
3
aplainada − nivelada
d) Inimá não gosta dele.
4
praxe − prática, hábito
6
surrealistas − participantes de movimento artístico do século 20

39
E.O. Objetivas TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Quando o falante de uma língua depara um conjunto de duas pa-

(Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp) lavras, intuitivamente é levado a sentir entre elas uma relação sin-
tática, mesmo que estejam fora de um contexto mais esclarecedor.
Assim, além de captar o sentido básico das duas palavras, o recep-
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES
tor atribui-lhes uma gramática – formas e conexões. Isso acontece
porque ele traz registrada em sua mente toda a sintaxe, todos os
A(s) questão(ões) aborda(m) um fragmento de um artigo de
padrões conexionais possíveis em sua língua, o que o torna capaz
Mônica Fantin sobre o uso dos tablets no ensino, postado na
de reconhecê-los e identificá-los. As duas palavras não estão, para
seção de blogues do jornal Gazeta do Povo em 16.05.2013:
ele, apenas dispostas em ordem linear: estão organizadas em uma
ordem estrutural.
TABLETS NAS ESCOLAS
A diferença entre ordem estrutural e ordem linear torna-se cla-
Ou seja, não é suficiente entregar equipamentos tecnológicos ra se elas não coincidem, como nesta frase que um aluno criou
cada vez mais modernos sem uma perspectiva de formação de em aula de redação, quando todos deviam compor um texto
qualidade e significativa, e sem avaliar os programas anteriores. para outdoor, sobre uma fotografia da célebre cabra de Picasso:
O risco é de cometer os mesmos equívocos e não potencializar “Beba leite de cabra em pó!”. Como todos rissem, o autor da
as boas práticas, pois muda a tecnologia, mas as práticas conti- frase emendou: “Beba leite em pó de cabra!”.
nuam quase as mesmas. Pior a emenda do que o soneto.
(Flávia de Barros Carone. Morfossintaxe, 1986. Adaptado.)
Com isso, podemos nos perguntar pelos desafios da didática dian-
te da cultura digital: o tablet na sala de aula modifica a prática dos 3. (Unifesp) De acordo com o texto, a ordem estrutural diz res-
professores e o cotidiano escolar? Em que medida ele modifica as peito à macroestrutura da frase e a ordem linear à manifestação
condições de aprendizagem dos estudantes? Evidentemente isso concreta, palavra após palavra, dos constituintes da oração. As-
pode se desdobrar em inúmeras outras questões sobre a conver- sinale a alternativa em que, no par de palavras em destaque, em
gência de tecnologias e linguagens, sobre o acesso às redes na sala texto de Paulo Cesarino Costa, publicado na Folha de [Link] de
de aula e sobre a necessidade de mediações na perspectiva dos 02.08.2012, há coincidência entre essas duas ordens.
novos letramentos e alfabetismos nas múltiplas linguagens. a) Exceto pelo fato de que dividirão, com outras deze-
Outra questão que é preciso pensar diz respeito aos conteú- nas de esportes, as atenções de TVs e rádios, portais
dos digitais. Os conteúdos que estão sendo produzidos para de internet, jornais e revistas nos próximos dias numa
os tablets realmente oferecem a potencialidade do meio e sua rara disputa, de onde sairão dois retratos do Brasil.
arquitetura multimídia ou apenas estão servindo como leito- b) Nas paredes do Instituto Moreira Salles, pode-se ver di-
res de textos com os mesmos conteúdos dos livros didáticos? ferentes concepções de fotojornalismo: da beleza pou-
Quem está produzindo tais conteúdos digitais? De que forma co comprometida com a veracidade de Jean Manzon à
são escolhidos e compartilhados? objetividade das imagens de guerra de Luciano Carneiro.
c) Num mundo cada vez mais dominado pela reprodução
Ou seja, pensar na potencialidade que o tablet oferece na escola –
eletrônica e imagética dos acontecimentos, há uma inte-
acessar e produzir imagens, vídeos, textos na diversidade de formas
ressante oportunidade de resgatar o momento em
e conteúdos digitais – implica em repensar a didática e as possibili-
que a imagem começou a questionar o poder da palavra.
dades de experiências e práticas educativas, midiáticas e culturais na
escola ao lado de questões econômicas e sociais mais amplas. E isso d) A revista O Cruzeiro seguia a cartilha da revista
necessariamente envolve a reflexão crítica sobre os saberes e faze- norte-americana Life, que preconizava “um novo jor-
res que estamos produzindo e compartilhando na cultura digital. nalismo, no qual as imagens formam o texto e as pa-
lavras ilustram as imagens”.
(Tablets nas escolas. Disponível em: [Link].
e) Serão 11 estrelas na tela, mas os ministros do STF e
[Link]. Acesso em: 16/01/2017.)
suas capas negras pouco têm a ver com os 11 amareli-
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

1. (Unesp) No último período do texto, os termos saberes e nhos de Mano Menezes na busca do ouro olímpico.
fazeres são
4. (Unesp) Leia o poema de Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810).
a) adjetivos.
b) pronomes. 18
c) substantivos. Não vês aquele velho respeitável,
que à muleta encostado,
d) advérbios.
apenas mal se move e mal se arrasta?
e) verbos. Oh! quanto estrago não lhe fez o tempo,
2. (Unesp) O adjetivo midiático, empregado no feminino plural (midiá- o tempo arrebatado,
ticas), diz respeito a
que o mesmo bronze gasta!
Enrugaram-se as faces e perderam
a) diversidade de tipos de tablets.
seus olhos a viveza:
b) programas e projetos educacionais. voltou-se o seu cabelo em branca neve;
c) questões econômicas e sociais. já lhe treme a cabeça, a mão, o queixo,
d) meios de comunicação de massa. nem tem uma beleza
e) variedade dos recursos tecnológicos. das belezas que teve.

40
Assim também serei, minha Marília, O projeto também é uma resposta aos experimentos psicológicos
daqui a poucos anos, realizados pelo próprio Facebook. A diferença neste caso é que
que o ímpio tempo para todos corre. o teste é completamente voluntário.
Os dentes cairão e os meus cabelos. Ironicamente, para poder participar, o usuário deve trocar a
Ah! sentirei os danos, foto do perfil no Facebook e postar um contador na rede social.
que evita só quem morre.
Os pesquisadores irão avaliar o grau de satisfação e felicidade dos
Mas sempre passarei uma velhice
participantes no 33º dia, no 66º e no último dia da abstinência.
muito menos penosa.
Não trarei a muleta carregada, Os responsáveis apontam que os usuários do Facebook gastam em
média 17 minutos por dia na rede social. Em 99 dias sem acesso, a
descansarei o já vergado corpo
soma média seria equivalente a mais de 28 horas, 2que poderiam
na tua mão piedosa,
ser utilizadas em “atividades emocionalmente mais realizadoras”.
na tua mão nevada.
([Link] Adaptado.)
As frias tardes, em que negra nuvem
os chuveiros não lance, 5. (Unifesp) Examine as passagens do primeiro parágrafo do texto:
irei contigo ao prado florescente: • “Uma organização não governamental holandesa está pro-
aqui me buscarás um sítio ameno, pondo um desafio”
onde os membros descanse, • “O objetivo é medir o grau de felicidade dos usuários lon-
e ao brando sol me aquente. ge da rede social.”

Apenas me sentar, então, movendo A utilização dos artigos destacados justifica-se em razão
os olhos por aquela a) da generalização, no primeiro caso, com a introdu-
vistosa parte, que ficar fronteira, ção de informação conhecida, e da especificação, no
apontando direi: — Ali falamos, segundo, com informação nova.
ali, ó minha bela, b) de informações novas, nas duas ocorrências, motivo
te vi a vez primeira. pelo qual são introduzidas de forma mais generalizada.
Verterão os meus olhos duas fontes, c) de informações conhecidas, nas duas ocorrências,
sendo possível a troca dos artigos nos enunciados, pois
nascidas de alegria;
isso não alteraria o sentido do texto.
farão teus olhos ternos outro tanto;
d) da retomada de informações que podem ser facil-
então darei, Marília, frios beijos
mente depreendidas pelo contexto, sendo ambas equi-
na mão formosa e pia,
valentes semanticamente.
que me limpar o pranto.
e) da introdução de uma informação nova, no primei-
Assim irá, Marília, docemente ro caso, e da retomada de uma informação já conhe-
meu corpo suportando cida, no segundo.
do tempo desumano a dura guerra.
Contente morrerei, por ser Marília
quem, sentida, chorando E.O. Dissertativas
meus baços olhos cerra.
(Tomás Antônio Gonzaga. Marília de Dirceu e mais poesias. (Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp)
Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 1982.)
Observe os seguintes vocábulos extraídos da sétima estrofe do 1. (Fuvest)
poema: E não há melhor resposta
I. ternos. que o espetáculo da vida:
II. frios. vê-la desfiar seu fio,
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

III. pia. que também se chama vida,


IV. pranto. ver a fábrica que ela mesma,
As palavras que aparecem na estrofe como adjetivos estão con- teimosamente, se fabrica,
tidas apenas em:
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
a) I e II. d) I, II e IV.
mesmo quando é assim pequena
b) I e III. e) II, III e IV.
a explosão, como a ocorrida;
c) I, II e III.
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO: mesmo quando é a explosão
Você conseguiria ficar 99 dias sem o Facebook? de uma vida severina.
(João Cabral de Melo Neto, Morte e vida severina)
Uma organização não governamental holandesa está propondo
um desafio que muitos poderão considerar impossível: 1ficar 99 a) A fim de obter um efeito expressivo, o poeta utiliza,
dias sem dar nem uma “olhadinha” no Facebook. O objetivo é em “a fábrica” e “se fabrica”, um substantivo e um ver-
medir o grau de felicidade dos usuários longe da rede social. bo que têm o mesmo radical.

41
Cite da estrofe outro exemplo desse mesmo recurso consciência, do que nem carecia, chamei os santos de que sou
expressivo. devocioneiro:
b) A expressividade dos seis últimos versos decorre, – São Jorge, Santo Onofre, São José!
em parte, do jogo de oposições entre palavras. Em presença de tal apelação, mais brabento apareceu a peste.
Cite desse trecho um exemplo em que a oposição en- Ciscava o chão de soltar terra e macega no longe de dez braças
tre as palavras seja de natureza semântica. ou mais. Era trabalho de gelar qualquer cristão que não levasse
o nome de Ponciano de Azeredo Furtado. Dos olhos do lobiso-
2. (Unesp) CRÔNICA DA VIDA QUE PASSA mem pingava labareda, em risco de contaminar de fogo o verdal
Às vezes, quando penso nos homens célebres, sinto por eles adjacente. Tanta chispa largava o penitente que um caçador de
toda a tristeza da celebridade. paca, estando em distância de bom respeito, cuidou que o mato
estivesse ardendo. Já nessa altura eu tinha pegado a segurança
A celebridade é um plebeísmo. Por isso deve ferir uma alma de uma figueira e lá de cima, no galho mais firme, aguardava a
delicada. É um plebeísmo porque estar em evidência, ser olha- deliberação do lobisomem. Garrucha engatilhada, só pedia que
do por todos inflige a uma criatura delicada uma sensação de o assombrado desse franquia de tiro. Sabidão, cheio de voltas e
parentesco exterior com as criaturas que armam escândalo nas negaças, deu ele de executar macaquice que nunca cuidei que
ruas, que gesticulam e falam alto nas praças. O homem que um lobisomem pudesse fazer. Aquele par de brasas espiava aqui
se torna célebre fica sem vida íntima: tornam-se de vidro as e lá na esperança de que eu pensasse ser uma súcia deles e não
paredes de sua vida doméstica; é sempre como se fosse exces- uma pessoa sozinha. O que o galhofista queria é que eu, coronel
sivo o seu traje; e aquelas suas mínimas ações – ridiculamente de ânimo desenfreado, fosse para o barro denegrir a farda e des-
humanas às vezes – que ele quereria invisíveis, coa-as a lente lustrar a patente. Sujeito especial em lobisomem como eu não ia
da celebridade para espetaculosas pequenezes, com cuja evi- cair em armadilha de pouco pau. No alto da figueira estava, no
dência a sua alma se estraga ou se enfastia. É preciso ser muito alto da figueira fiquei. Diante de tão firme deliberação, o vinga-
grosseiro para se poder ser célebre à vontade. tivo mudou o rumo da guerra. Caiu de dente no pé de pau, na
parte mais afunilada, como se serrote fosse:
Depois, além dum plebeísmo, a celebridade é uma contradição.
Parecendo que dá valor e força às criaturas, apenas as desvalo- – Raque-raque-raque.
riza e as enfraquece. Um homem de gênio desconhecido pode Não conversei – pronto dois tiros levantaram asa da minha gar-
gozar a volúpia suave do contraste entre a sua obscuridade e rucha. Foi o mesmo que espalhar arruaça no mato todo. Subiu
o seu gênio; e pode, pensando que seria célebre se quisesse, asa de tudo que era bicho da noite e uma sociedade de morce-
medir o seu valor com a sua melhor medida, que é ele próprio. gos escureceu o luar. No meio da algazarra, já de fugida, vi o
Mas, uma vez conhecido, não está mais na sua mão reverter à lobisomem pulando coxo, de pernil avariado, língua sobressaída
obscuridade. A celebridade é irreparável. Dela como do tempo, na boca. Na primeira gota de sangue a maldição desencantava,
ninguém torna atrás ou se desdiz. como é de lei e dos regulamentos dessa raça de penitentes. No
raiar do dia, sujeito que fosse visto de perna trespassada, ainda
E é por isto que a celebridade é uma fraqueza também. Todo o ferida verde, podia contar, era o lobisomem.
homem que merece ser célebre sabe que não vale a pena sê-lo.
(O coronel e o lobisomem, 1980.)
Deixar-se ser célebre é uma fraqueza, uma concessão ao baixo-ins-
tinto, feminino ou selvagem, de querer dar nas vistas e nos ouvidos. Explique a razão pela qual o narrador atribui o adjetivo “verde”
ao substantivo ferida, no último período do texto.
Penso às vezes nisto coloridamente. E aquela frase de que
“homem de gênio desconhecido” é o mais belo de todos os TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
destinos, torna-se-me inegável; parece-me que esse é não só o
mais belo, mas o maior dos destinos. OS SERTÕES
(FERNANDO PESSOA. Páginas íntimas e de auto-interpretação. A Serra do Mar tem um notável perfil em nossa história. A pru-
isboa: Edições Ática, [s.d.], p. 66-67.) mo sobre o Atlântico desdobra-se como a cortina de baluarte
desmedido. De encontro às suas escarpas embatia, fragílima, a
Na crônica apresentada, Fernando Pessoa atribui três carac-
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

ânsia guerreira dos Cavendish e dos Fenton. No alto, volvendo o


terísticas negativas à celebridade, descrevendo-as no segundo,
olhar em cheio para os chapadões, o forasteiro sentia-se em se-
terceiro e quarto parágrafos. Releia esses parágrafos e aponte
gurança. Estava sobre ameias intransponíveis que o punham do
os três substantivos empregados pelo poeta que sintetizam essas
mesmo passo a cavaleiro do invasor e da metrópole. Transposta
características negativas da celebridade.
a montanha - arqueada como a precinta de pedra de um conti-
3. (Unesp) A questão a seguir toma por base uma passagem do nente - era um isolador étnico e um isolador histórico. Anulava o
romance O coronel e o lobisomem, de José Cândido de Carvalho
apego irreprimível ao litoral, que se exercia ao norte; reduzia-o a
(1914-1989). estreita faixa de mangues e restingas, ante a qual se amorteciam
todas as cobiças, e alteava, sobranceira às frotas, intangível no
Como disse, rolava eu no capim, pronto a dar ao caso solução recesso das matas, a atração misteriosa das minas...
briosa, na hora em que o querelante apresentou aquela risada de Ainda mais - o seu relevo especial torna-a um condensador de
pouco-caso e deboche: primeira ordem, no precipitar a evaporação oceânica.
– Quá-quá-quá... Os rios que se derivam pelas suas vertentes nascem de algum
Não precisou de mais nada para que o gênio dos Azeredos e modo no mar. Rolam as águas num sentido oposto à costa. En-
demais Furtados viesse de vela solta. Dei um pulo de cabrito e tranham-se no interior, correndo em cheio para os sertões. Dão
preparado estava para a guerra do lobisomem. Por descargo de ao forasteiro a sugestão irresistível das entradas.

42
A terra atrai o homem; chama-o para o seio fecundo; encanta-o 5. (Unicamp) Gramática
pelo aspecto formosíssimo; arrebata-o, afinal, irresistivelmente, na Composição de Sandra Peres e Luiz Tatit (Palavra Cantada)
correnteza dos rios.
O substantivo
Daí o traçado eloquentíssimo do Tietê, diretriz preponderante É o substituto
nesse domínio do solo. Enquanto no S. Francisco, no Parnaíba, do conteúdo
no Amazonas, e em todos os cursos d'água da borda oriental,
O adjetivo
o acesso para o interior seguia ao arrepio das correntes, ou em-
É a nossa impressão
batia nas cachoeiras que tombam dos socalcos dos planaltos,
sobre quase tudo
ele levava os sertanistas, sem uma remada, para o rio Grande
e daí ao Paraná e ao Paranaíba. Era a penetração em Minas, O diminutivo
em Goiás, em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul, no Mato É o que aperta o mundo
Grosso, no Brasil inteiro. Segundo estas linhas de menor resis- E deixa miúdo
tência, que definem os lineamentos mais claros da expansão O imperativo
colonial, não se opunham, como ao norte, renteando o passo É o que aperta os outros
às bandeiras, a esterilidade da terra, a barreira intangível dos e deixa mudo
descampados brutos. Um homem de letras
Assim é fácil mostrar como esta distinção de ordem física es- Dizendo ideias
clarece as anomalias e contrastes entre os sucessos nos dous Sempre se inflama
pontos do país, sobretudo no período agudo da crise colonial, Um homem de ideias
no século XVII. Nem usa letras
Enquanto o domínio holandês, centralizando-se em Pernam- Faz ideograma
buco, reagia por toda a costa oriental, da Bahia ao Maranhão, Se altera as letras
e se travavam recontros memoráveis em que, solidárias, enter- E esconde o nome
reiravam o inimigo comum as nossas três raças formadoras, Faz anagrama
o sulista, absolutamente alheio àquela agitação, revelava, na
Mas se mostro o nome
rebeldia aos decretos da metrópole, completo divórcio com
Com poucas letras
aqueles lutadores. Era quase um inimigo tão perigoso quanto o
É um telegrama
batavo. Um povo estranho de mestiços levantadiços, expandin- Nosso verbo ser
do outras tendências, norteado por outros destinos, pisando, É uma identidade
resoluto, em demanda de outros rumos, bulas e alvarás entibia- Mas sem projeto
dores. Volvia-se em luta aberta com a corte portuguesa, numa
reação tenaz contra os jesuítas. Estes, olvidando o holandês E se temos verbo
e dirigindo-se, com Ruiz de Montoya a Madri e Díaz Taño a Com objeto
Roma, apontavam-no como inimigo mais sério. É bem mais direto

De feito, enquanto em Pernambuco as tropas de van Schkoppe No entanto falta


preparavam o governo de Nassau, em São Paulo se arquitetava Ter um sujeito
o drama sombrio de Guaíra. E quando a restauração em Portu- Pra ter afeto
gal veio alentar em toda a linha a repulsa ao invasor, congre- Mas se é um sujeito
gando de novo os combatentes exaustos, os sulistas frisaram Que se sujeita
ainda mais esta separação de destinos, aproveitando-se do Ainda é objeto
mesmo fato para estadearem a autonomia franca, no reinado Todo barbarismo
de um minuto de Amador Bueno. É o português
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

Não temos contraste maior na nossa história. Está nele a sua Que se repeliu
feição verdadeiramente nacional. Fora disto mal a vislumbra- O neologismo
mos nas cortes espetaculosas dos governadores, na Bahia, É uma palavra
onde imperava a Companhia de Jesus com o privilégio da con- Que não se ouviu
quista das almas, eufemismo casuístico disfarçando o monopó- Já o idiotismo
lio do braço indígena. É tudo que a língua
(EUCLIDES DA CUNHA. Os sertões. Edição crítica de Walnice Não traduziu
Nogueira Galvão. 2 ed. São Paulo: Editora Ática, 2001, p. 81-82.)
Mas tem idiotismo
4. (Unesp) Um dos aspectos em que Euclides da Cunha busca Também na fala
alguns de seus melhores efeitos é o da adjetivação, que torna De um imbecil
seu discurso ao mesmo tempo vário e expressivo, razão pela qual a) Nessa letra de música são atribuídos sentidos às clas-
alguns o consideram, comparando-o com poetas ainda ativos em sificações gramaticais. Escolha duas delas e explique o
sua época, um "prosador parnasiano". Releia com atenção o úl- sentido explorado, justificando sua pertinência ou não.
timo parágrafo do texto apresentado e, a seguir, aponte três dos b) Nas duas últimas estrofes, há um deslocamento no
adjetivos que nele ocorrem. uso de 'idiotismo'. Explique-o.

43
Gabarito E.O. UERJ
Exame de Qualificação
E.O. Aprendizagem 1. D 2. B 3. B 4. C 5. A
1. B 2. A 3. C 4. B 5. C

6. E 7. E 8. B 9. A 10. B E.O. Objetivas


(Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp)
E.O. Fixação 1. C 2. D 3. E 4. C 5. E
1. B 2. E 3. B 4. B 5. B

6. B 7. E 8. A 9. D 10. D E.O. Dissertativas


(Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp)
E.O. Complementar
1.
1. D 2. C 3. C 4. C 5. E
a) Nota-se o mesmo recurso em “fio” e “desfiar”,
ou seja, substantivo e verbo formados a partir de um
E.O. Dissertativo mesmo radical.
b) Exemplo de oposição semântica se dá entre os termos
1. Enquanto o artigo indefinido expressa uma ideia genérica de
explosão e franzina ou explosão e pequena. A palavra
pluralidade, sugerindo que a identidade normal representa uma
“explosão” cria a expectativa de potência, amplitude,
entre outras identidades (uma parte do todo), o artigo defini-
grandiosidade; os adjetivos franzina (o mesmo que en-
do, delimitando o nome, sugere a ideia de singularidade, de tal
fraquecida, débil) e pequena contrariam essa expectativa,
modo que a identidade normal é caracterizada como um padrão
configurando a oposição semântica.
único e “natural”.
2. As três características negativas que Fernando Pessoa atri-
2. bui à celebridade são representadas pelos substantivos “ple-
a) Os quatro adjetivos são: histórico, provisório, mu- beísmo”, “contradição” e “fraqueza”.
tável e mutante.
3. O termo “verde” designa metaforicamente o estado da ferida:
b) No texto II é abordada a transformação do corpo,
ainda está no começo, ou seja, é recente.
que, com o passar dos anos, muda e envelhece, assim
como mostram os adjetivos do texto I: o corpo é “his- 4. Há cinco adjetivos no último parágrafo. Possíveis respostas:
tórico, provisório, mutável e mutante”. "maior", "nacional", "espetaculosas", "casuístico", "indígena".
3. 5.
a) Não se quis caracterizar o substantivo velho, dei- a) O autor estabelece intertextualidade com algumas
xando-o no sentido geral. definições gramaticais ao apresentar os seus próprios
b) A comparação "como tantos outros". "Tantos ou- conceitos sobre determinados termos e explora poe-
tros" reitera o sentido de indeterminação do artigo ticamente essa relação. Nas duas primeiras estrofes,
indefinido. por exemplo, apresenta substantivo como “substituto
do conteúdo” e adjetivo como a nossa impressão so-
4. bre quase tudo. A associação é pertinente, na medi-
a) vida organizada; povo feliz; (povo) de cabeça muito da em que a gramática conceitua o primeiro como a
sólida e mãos reforçadas: cabeça muito sólida; mãos classe de lexema que nomeia os seres, ou seja, tudo o
reforçadas; coisas aladas; (coisas) cheias de sabedo- que existe, e o segundo como a classe que caracteriza
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

ria; vida longa; os cabecences-para-baixo. o substantivo, associando-lhe muitas vezes aspectos


b) Os sintagmas (citados na questão anterior) no subjetivos (“nossa impressão sobre quase tudo”).
texto trazem uma conotação positiva, ou seja, estão b) Uma expressão idiomática ou idiotismo é um con-
relacionados à felicidade, à sabedoria, à organização, junto de palavras que se caracteriza por não ser possí-
à longevidade, o que contrasta com a caracterização vel identificar seu significado mediante o sentido literal
normalmente atribuída a "povo primitivo". dos termos analisados individualmente, por serem as-
5. Os dois campos semânticos presentes na costrução do po- sociadas a gírias ou contextos culturais específicos a
ema indicam aspectos positivos e negativos: juventude versus certos grupos de pessoas que se distinguem pela clas-
maturidade; beleza versus decrepitude; nascimento versus se, idade, região, profissão ou outro tipo de afinidade.
morte; luminosidade versus sombra. Os vocábulos representa- Na penúltima estrofe, o autor ao associar o termo à
tivos desses campos semânticos são aurora, sol, dia, flor, beleza “fala de um imbecil” amplia o significado da palavra:
versus terra, cinza, pó, sombra, nada. ausência total de inteligência, estupidez, insânia.

44
LC
VERBOS: NOÇÕES PRELIMINARES E
MODOS INDICATIVO E SUBJUNTIVO

AULAS COMPETÊNCIA(s) HABILIDADE(s)

5E6
1e8 1, 2, 3, 4, 26 e 27

E.O. Aprendizagem relo e percebia-se que em alguns pontos já havia sofrido hábeis
remendos.
Leia o texto de Marcos Dantas para responder à questão. O gabinete oferecia a mesma aparência. O papel que fora primi-
tivamente azul tomara a cor de folha seca.
Uma utopia democrática Outra singularidade apresentava essa parte da habitação: era o
Nas décadas de 1910 e 1920, alguns milhares de pessoas, a maio- frisante contraste que faziam com a pobreza carrança dos dois
ria nos Estados Unidos, puseram-se a montar e usar equipamentos aposentos certos objetos, aí colocados, e de uso do morador.
de radiotransmissão, passando a trocar mensagens sobre tudo, Assim, no recosto de uma das velhas cadeiras de jacarandá, via-
através das ondas hertzianas. Montar um equipamento era rela- -se neste momento uma casaca preta, que pela fazenda superior,
tivamente fácil: bastava comprar os componentes no comércio va- mas sobretudo pelo corte elegante e esmero do trabalho, conhe-
rejista e seguir as instruções divulgadas em revistas especializadas. cia-se ter o chique da casa do Raunier, que já era naquele tempo
“Entrar no ar” era um ato individual, inteiramente livre. o alfaiate da moda.
Ao lado da casaca estava o resto de um traje de baile, que todo
Essa liberdade de acesso ao espectro eletromagnético levou o
ele saíra daquela mesma tesoura em voga; finíssimo chapéu cla-
dramaturgo marxista alemão Bertolt Brecht a formular uma “te- que do melhor fabricante de Paris; luvas de Jouvin cor de palha;
oria do rádio” que propunha dotar todas as residências com apa- e um par de botinas como o Campas só fazia para os seus fre-
relhos emissores-receptores, pelos quais os indivíduos (cidadãos) gueses prediletos.
poderiam manter relações políticas e culturais entre si, construin-
Passando à alcova, na mesquinha banca de escrever, coberta
do uma espécie de assembleia popular permanente.
com um pano desbotado e atravancada de rumas de livros, a
Brecht vislumbrou aí a possibilidade de se instaurar uma esfera maior parte romances, apareciam sem ordem tinteiros de bronze
pública cidadã. Seria um espaço, sustentado numa infraestrutura dourado sem serventia; porta-charutos de vários gostos, cinzeiros
técnica, no qual os indivíduos cidadãos poderiam intervir, na con- de feitios esquisitos e outros objetos de fantasia.
dição de produtores diretos e autônomos de cultura. Seria o alar- (Senhora, 2000. Adaptado.)
gamento e a consolidação do ideal iluminista de esfera pública
burguesa, agora expandida para toda a sociedade democrática. 2. (FACISB MED – UNESP) “O papel da parede de branco pas-
Seria, pois, a radicalização da democracia. sara a amarelo e percebia-se que em alguns pontos já havia sofri-
do hábeis remendos.”
(A lógica do capital-informação, 2002. Adaptado.)
O termo em destaque é uma forma verbal composta. A forma sim-
1. (FACISB MED – UNESP) “Seria o alargamento e a consoli- ples equivalente é:
dação do ideal iluminista de esfera pública burguesa […].”
a) sofreria. d) sofrendo.
O verbo “seria” está em um tempo verbal que indica b) sofria. e) sofreu.
a) uma dúvida do autor do texto sobre o momento c) sofrera.
em que os fatos efetivamente ocorreram.
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Leia o excerto do romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, para


b) um estado permanente, constante, que se estende
responder à questão.
do passado ao futuro.
c) o cuidado do autor para questionar fatos sobre os Fabiano ia satisfeito. Sim senhor, arrumara-se. Chegara naquele
quais paira uma dúvida. estado, com a família morrendo de fome, comendo raízes. Caíra
d) uma hipótese futura, ainda incerta, em relação ao no fim do pátio, debaixo de um juazeiro, depois tomara conta da
tempo sobre o qual se fala no texto. casa deserta. Ele, a mulher e os filhos tinham-se habituado à ca-
e) a certeza sobre o futuro dos fatos narrados pelo marinha escura, pareciam ratos – e a lembrança dos sofrimentos
autor do texto. passados esmorecera.
Pisou com firmeza no chão gretado, puxou a faca de ponta,
Leia o trecho do romance Senhora, de José de Alencar, para res- esgaravatou as unhas sujas. Tirou do aió um pedaço de fumo,
ponder à questão
picou-o, fez um cigarro com palha de milho, acendeu-o ao binga,
O aspecto da casa revelava, bem como seu interior, a pobreza pôs-se a fumar regalado.
da habitação. A mobília da sala consistia em sofá, seis cadeiras – Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta.
e dois consolos de jacarandá, que já não conservavam o menor Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza
vestígio de verniz. O papel da parede de branco passara a ama- iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era

45
homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos to, ao planejamento mental feito e refeito várias vezes do trajeto
outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os que deve fazer para chegar ao seu destino, aos semáforos, faixas
cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de ani- de pedestres etc.
mais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos Quando me vejo em tal situação, eu me lembro que 14dirigir, após
e julgava-se cabra. um dia de intenso trabalho no retorno para casa, já FOI uma
Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém atividade prazerosa e desestressante.
tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando: 18
O uso da internet AJUDOU a transformar nossa maneira de
– Você é um bicho, Fabiano. olhar para o mundo. Não mais observamos os detalhes, por causa
Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de nossa ganância em relação a novas e diferentes informações.
de vencer dificuldades. Chegara naquela situação medonha – e Quantas vezes sentei em frente ao computador para buscar textos
ali estava, forte, até gordo, fumando o seu cigarro de palha. sobre um tema e, de repente, me dei conta de que ESTAVA em te-
mas que em nada se RELACIONAVAM com meu tema primeiro.
– Um bicho, Fabiano.
Aliás, a leitura também sofreu transformações pelo nosso costu-
Era. Apossara-se da casa porque não tinha onde cair morto, passa-
me de ler na internet. SOFREMOS de uma tentação permanen-
ra uns dias mastigando raiz de imbu e sementes de mucunã. Viera
te de pular palavras e frases inteiras, apenas para irmos direto ao
a trovoada. E, com ela, o fazendeiro, que o expulsara. Fabiano fi-
ponto. O problema é que alguns textos exigem a leitura atenta
zera-se desentendido e oferecera os seus préstimos, resmungando,
de palavra por palavra, de frase por frase, para que faça sentido.
coçando os cotovelos, sorrindo aflito. O jeito que tinha era ficar. E o
Aliás, não é a combinação e a sucessão das palavras que dá senti-
patrão aceitara-o, entregara-lhe as marcas de ferro.
do e beleza a um texto?
Agora Fabiano era vaqueiro, e ninguém o tiraria dali. Aparecera Se está difícil para nós, adultos, focar nossa atenção, imagine,
como um bicho, entocara-se como um bicho, mas criara raízes, caro leitor, para as crianças. Elas já NASCERAM neste mundo de
estava plantado. Olhou as quipás, os mandacarus e os xiquexi- profusão de estímulos de todos os tipos; elas são exigidas, desde
ques. Era mais forte que tudo isso, era como as catingueiras e o início da vida, a dar conta de várias coisas ao mesmo tempo;
as baraúnas. Ele, sinhá Vitória, os dois filhos e a cachorra Baleia elas são estimuladas com diferentes objetos, sons, imagens etc.
estavam agarrados à terra.
(Vidas secas, 2010.) Aí, um belo dia elas vão para a escola. Professores e pais, a partir
de então, querem que as crianças PRESTEM atenção em uma
“Aparecera como um bicho, entocara-se como um bicho, mas cria- única coisa por muito tempo. E quando elas não conseguem,
ra raízes, estava plantado.” (penúltimo parágrafo) reclamamos, levamos ao médico, arriscamos hipóteses de que
sejam portadoras de síndromes que exigem tratamento etc.
3. (FASM MED – UNESP) O tempo em que estão conjugados os A maioria dessas crianças sabe focar sua atenção, sim. Elas já sa-
verbos destacados bem usar programas complexos em seus aparelhos eletrônicos,
a) mostra que não se trata de acontecimentos corriquei- brincam com jogos desafiantes que exigem atenção constante
ros, mas de momentos especiais na vida do personagem. aos detalhes e, se deixarmos, passam horas em uma única ativi-
b) informa que os fatos enunciados são suposições dade de que gostam.
a respeito do futuro do momento pretérito em que a Mas, nos estudos, queremos que elas prestem atenção no que é
narrativa principal acontece. preciso, e não no que GOSTAM. E isso, caro leitor, exige a árdua
c) indica que os fatos aconteceram em um passado aprendizagem da autodisciplina. Que leva tempo, é bom lembrar.
anterior ao tempo, também passado, da linha princi- As crianças precisam de nós, pais e professores, para começar a
pal da narrativa, indicada pelo verbo “estava”. aprender isso. Aliás, boa parte desse trabalho é nosso, e não delas.
d) adiciona ao texto um tom erudito, que reforça o Não basta mandarmos que elas prestem atenção: isso de nada
encadeamento do pensamento elaborado do perso- as ajuda. O que pode ajudar, por exemplo, é analisarmos o con-
nagem Fabiano. texto em que estão quando precisam focar a atenção e orga-
e) denota um processo contínuo no passado, que se nizá-lo para que SEJA favorável a tal exigência. E é preciso
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estende até o presente da narrativa, indicado pelo lembrar que não se pode esperar toda a atenção delas por
verbo “estava”. muito tempo: o ensino desse quesito no mundo de hoje é um
processo lento e gradual.
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES
SAYÃO, Rosely. Profusão de estímulos.
Aumenta o número de adultos que não CONSEGUE focar sua In: Folha de São Paulo, 11 fev. 2014.
atenção em uma única coisa por muito tempo. São tantos os estí-
mulos e tanta a pressão para que o entorno seja completamente 4. (Col. Naval) Em qual opção a forma verbal em destaque ex-
pressa uma ação hipotética?
desvendado que aprendemos a ver e/ou fazer várias coisas ao
mesmo tempo. Nós nos tornamos, à semelhança dos computa- a) “[...] me dei conta de que ESTAVA em temas [...].”
dores, pessoas multitarefa, não é verdade? b) “[...] e organizá-lo para que SEJA favorável [...].”
Vamos tomar como exemplo uma pessoa dirigindo. Ela precisa c) “[...] atenção no que é preciso, e não no que GOSTAM.”
estar atenta aos veículos que vêm atrás, ao lado e à frente, à d) “Aumenta o número de adultos que não CONSE-
velocidade média dos carros por onde trafega, às orientações do GUE focar [...].”
GPS ou de programas que sinalizam o trânsito em tempo real, às e) “Elas já NASCERAM neste mundo de profusão [...].”
informações de alguma emissora de rádio que comenta o trânsi-

46
5. (Col. Naval) Em que opção a forma verbal em destaque trans- Certa vez o sábio taoísta Chuang Tzu sonhou que era uma bor-
mite a ideia de continuidade, de processo que era constante ou boleta. Ao acordar, entretanto, ele não sabia mais se era um
frequente? homem que sonhara ser uma borboleta ou uma borboleta que
agora sonhava ser um homem.
a) “[...] dirigir, [...], já FOI uma atividade praze-
rosa [...].” Será que Dom Cobb está sonhando? Será que a vida real é esta
b) “[...] que em nada se RELACIONAVAM com meu mesma ou somos nós que sonhamos?
tema primeiro.” Alguns podem ir ao cinema para assistir “A Origem”, de Chris-
c) “SOFREMOS de uma tentação permanente de topher Nolan (“Batman - O Cavaleiro das Trevas”) e achar tão
pular [...].” chato que vão sonhar de verdade, dormindo na fase de sono REM.
d) “Mas, nos estudos, queremos que elas PRESTEM Mas outros estão sonhando acordados. Em blogs, sites e grupos
atenção [...].” de discussão, os já fanáticos pelo filme de Nolan apontam refe-
e) “O uso da internet AJUDOU a transformar nossa rências (de mitologia grega), veem citações (de “Lost”), tecem
maneira [...].” teorias malucas e conspiratórias (o sonho dentro do sonho).
Alguns acusam o diretor de copiar filmes os mais variados, de
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO “Blade Runner” (1982) a “eXistenZ” (1999), de se inspirar em
Conversar pressupõe um diálogo produtivo entre as pessoas. “2001 - Uma Odisseia no Espaço” (1968) e até de roubar a ideia
Significa dizer que conversar é um processo cooperativo entre de um quadrinho do Tio Patinhas de 2002.
interlocutores. O fato é que Nolan acertou o alvo. E ele sabia do potencial “ner-
Leia o texto abaixo, que representa uma conversa. dístico” de seu filme. Tanto é que cogitou mudar a canção que
toca no filme todo, “Non, Je Ne Regrette Rien”, com Edith Piaf,
porque uma das atrizes escaladas, Marion Cotillard, havia vivido
a cantora francesa em um filme de 2007.
(...)
Além da música, uma boa diversão de “A Origem” é identificar
os objetos impossíveis deixados por Nolan ao longo do filme. A
escada de Penrose, criada pelo psiquiatra britânico Lionel Penro-
se, aparece diversas vezes na tela – e também inspirou o quadro
que tenta explicar facetas do longa.
Melhor ir ver o filme e não pensar em escadas... No que você está
pensando agora?
([Link]

7. (Insper) Releia o primeiro parágrafo:


Certa vez o sábio taoísta Chuang Tzu SONHOU que era uma
borboleta. Ao acordar, entretanto, ele não sabia mais se era um
homem que SONHARA ser uma borboleta ou uma borboleta que
6. (IFSP) No trecho “a gente pode ter conversas literárias”, agora SONHAVA ser um homem.
substituindo-se o sujeito por outro de primeira pessoa do plu-
As formas verbais em NEGRITO indicam, respectivamente
ral, no tempo pretérito perfeito, o resultado é o seguinte:
a) ação concluída, ação simultânea e ação hipotética.
a) podemos ter conversas literárias.
b) ação durativa, ação concluída e ação não concluída
b) podíamos ter conversas literárias.
c) ação pontual, ação contínua e ação fictícia.
c) poderíamos ter conversas literárias.
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d) ação concluída, ação posterior e ação anterior.


d) pudemos ter conversas literárias.
e) ação concluída, ação anterior e ação contínua.
e) pudéssemos ter conversas literárias.

TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO Leia o trecho do romance Senhora, de José de Alencar, para res-
ponder à questão.
Filme-enigma de Christopher Nolan gera discussões sobre signifi-
cado e citações ocultas ou óbvias em sua trama onírica
Convencida de que todos os seus inúmeros apaixonados, sem
exceção de um, a pretendiam unicamente pela riqueza; Auré-
lia reagia contra essa afronta, aplicando a esses indivíduos o
mesmo estalão.
Assim costumava ela indicar o merecimento relativo de cada um
dos pretendentes, dando-lhes certo valor monetário. Em lingua-
gem financeira, Aurélia cotava os seus adoradores pelo preço
que razoavelmente poderiam obter no mercado matrimonial.
Uma noite, no Cassino, a Lísia Soares, que se fazia íntima com
Cena do longa de ficção científica "A Origem" ela, e desejava ardentemente vê-la casada, dirigiu-lhe um grace-

47
jo acerca do Alfredo Moreira, rapaz elegante que chegara recen- Leia o texto de Carlos Ranulfo Melo para responder à questão.
temente da Europa:
CORRUPÇÃO ELEITORAL
− É um moço muito distinto, respondeu Aurélia sorrindo; vale bem
como noivo cem contos de réis; mas eu tenho dinheiro para pagar As democracias contemporâneas são arranjos representativos. A
um marido de maior preço, Lísia; não me contento com esse. representação foi a “solução encontrada” para um dilema. Tão
logo firmado o princípio da igualdade política entre os indivíduos,
Riam-se todos destes ditos de Aurélia, e os lançavam à conta de regimes políticos baseados na tradição, na origem de classe ou na
gracinhas de moça espirituosa; porém a maior parte das senho- condição de status perderam a legitimidade. Por outro lado, o tama-
ras, sobretudo aquelas que tinham filhas moças, não cansavam nho das sociedades e a complexidade cada vez maior das questões
de criticar desses modos desenvoltos, impróprios de meninas em discussão – demandando acesso a informações, disponibilidade
bem-educadas. de tempo e condições de negociação – tornaram proibitiva a ideia
Os adoradores de Aurélia sabiam, pois ela não fazia mistério, do de que todos participassem das decisões a serem coletivizadas. A
preço de sua cotação no rol da moça; e longe de se agastarem escolha de um corpo de representantes em eleições livres, justas e
periódicas – e que incluam a todo o eleitorado adulto – passou a
com a franqueza, divertiam-se com o jogo que muitas vezes re-
ser algo que, sem esgotar a noção contemporânea de democra-
sultava do ágio de suas ações naquela empresa nupcial.
cia, firmou-se como sua pedra angular. Ao se dirigirem às urnas
(Senhora, 2013. Adaptado.) os cidadãos reafirmam sua condição de igualdade perante um ato
fundamental do Estado. Ao organizar as eleições e transformar os
8. (FAMEMA) “a Lísia Soares, que se fazia íntima com ela, e
votos em postos executivos e/ou legislativos, o aparato institucional
DESEJAVA ardentemente vê-la casada, DIRIGIU-lhe um gra-
das democracias permite que, em maior ou menor grau, os mais
cejo acerca do Alfredo Moreira”
diversos interesses, opiniões e valores sejam vocalizados no curso
Os tempos dos verbos destacados indicam, respectivamente, do processo decisório. Tal processo, no entanto, pode apresentar
a) fato que perdura no presente e fato frequente no problemas que ameacem corromper o corpo político constituído,
comprometendo sua legitimidade e diminuindo sua capacidade de
passado.
oferecer à coletividade os resultados esperados.
b) fato que perdura no presente e fato que perdura
no passado. A corrupção eleitoral ou a reiterada incidência de fenômenos ca-
c) fato que perdura no passado e fato pontual, termi- pazes de desvirtuar o processo de constituição de um corpo de re-
nado, no passado. presentantes sempre significou um problema para as democracias.
d) fato pontual, terminado, no passado e fato anterior A condição para que seu enfrentamento se tornasse possível foi
a outro já passado. a constituição de uma Justiça Eleitoral dotada de autonomia face
aos poderes político e econômico, com recursos suficientes para
e) fato pontual, terminado, no passado e fato que per-
organizar e poderes necessários para regulamentar os processos
dura no passado.
eleitorais. Mas mesmo as democracias consolidadas não consegui-
Leia o texto de Marilda Rebouças para responder à questão. ram impedir de forma cabal que determinados interesses pudes-
sem, utilizando os recursos que tivessem à mão, obter vantagens
A primeira manifestação surrealista aconteceu em 1924 com a diferenciadas em função de sua participação nas eleições.
divulgação do panfleto “Um cadáver”, a propósito da morte de (Corrupção, 2008. Adaptado.)
Anatole France, prêmio Nobel de literatura. Os surrealistas não
estavam interessados no estilo límpido, nem no famoso ceticismo 10. (FAMERP) “Ao se dirigirem às urnas os cidadãos REAFIR-
desse escritor consagrado e, por isso mesmo, alvo perfeito para o MAM sua condição de igualdade perante um ato fundamental do
grupo de jovens lobos mostrarem suas garras. Numa linguagem Estado.”(1º parágrafo)
violenta, afirmavam que acabava de morrer “um pouco da servi-
lidade humana”. E, como esperavam, a repercussão foi enorme. Em seu contexto, o verbo destacado, na forma em que foi empre-
gado, indica uma ação
Como consequência funesta, Breton e Aragon perderam o em-
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

prego oferecido pelo colecionador Jacques Doucet. a) usual, reiterada, no passado.


(Surrealismo, 1986.) b) habitual, regular.
c) feita no instante em que o enunciado é apresentado.
9. (FAMERP) “Como consequência funesta, Breton e Aragon
PERDERAM o emprego oferecido pelo colecionador Jacques d) contínua, extensa, no presente.
Doucet.” e) pontual, corriqueira, ordinária e sem importância.

E.O. Fixação
O tempo do verbo destacado indica um acontecimento
a) frequente, no passado.
b) em um passado anterior a alguns dos demais fatos citados.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
c) pontual, no passado.
d) no futuro do passado em que alguns dos demais TINTIM
fatos citados ocorrem.
Durante alguns anos, o tintim me intrigou. Tintim por tintim: o
e) contínuo, inteiramente no passado.
que queria dizer aquilo? Imaginei que fosse alguma misteriosa
medida de outros tempos que sobrevivera ao sistema métrico,
como a braça, a légua, etc. Outro mistério era o triz. Qual a exata

48
definição de um triz? É uma subdivisão de tempo ou de espaço. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
As coisas deixam de acontecer por um triz, por uma fração de
segundo ou de milímetro. Mas que fração? O triz talvez corres- Crônica parafraseada de uma Síria em guerra
pondesse a meio tintim, ou o tintim a um décimo de triz. Ela abre os olhos. Não fosse o cheiro horrível de morte, o silêncio
Tanto o tintim quanto o triz pertenceriam ao obscuro mundo das seria até agradável, mas o olfato a lembra que não há paz –
microcoisas. nem pessoas, vizinhos, crianças. A trégua na manhãzinha não
Há quem diga que não existe uma fração mínima de matéria, traz esperança. Tão somente lhe permite descansar o corpo, mas
que tudo pode ser dividido e subdividido. Assim como existe o in- não a mente. As lembranças da noite anterior ainda produzem
finito para fora – isto é, o espaço sem fim, depois que o Universo sobressaltos. Bombas, casas caindo e soldados gritando.
acaba – existiria o infinito para dentro. A menor fração da menor Levanta-se, bebe o pouco da água que restou do copo ao lado
partícula do último átomo ainda seria formada por dois trizes, e da cama. Já não é tão limpa, nem farta como antes. Sempre um
cada triz por dois tintins, e cada tintim por dois trizes, e assim por gosto amargo misturado com H2O.
diante, até a loucura. Abre a geladeira, e só encontra comida enlatada e congelada.
Descobri, finalmente, o que significa tintim. É verdade que, se E mesmo não tão congelada assim, já que os cortes diários de
tivesse me dado o trabalho de olhar no dicionário mais cedo, eletricidade derretem as camadas de gelo.
minha ignorância não teria durado tanto. Mas o óbvio, às vezes, é Os sobrinhos ainda dormem, e ela tenta orar. Não consegue. A
a última coisa que nos ocorre. Está no Aurelião. Tintim, vocábulo mente desconcentra-se facilmente. Em uma prece fragmentada,
onomatopaico que evoca o tinido das moedas. pede a Deus descanso e trégua. E faz a oração sem pensar muito.
Originalmente, portanto, “tintim por tintim” indicava um pa- Não precisa; é a mesma oração das últimas semanas.
gamento feito minuciosamente, moeda por moeda. Isso no Ela não quer sair de casa. Não é teimosia, é falta de opção. “Para
tempo em que as moedas, no Brasil, tiniam, ao contrário de onde ir?”, pergunta, com uma voz desesperançosa. Está tão con-
hoje, quando são feitas de papelão e se chocam sem ruído. fusa que não consegue imaginar saídas.
Numa investigação feita hoje da corrupção no país tintim por
tintim ficaríamos tinindo sem parar e chegaríamos a uma nova Nem a piedade de enterrar os mortos o governo permite. Ca-
concepção de infinito. dáveres estão espalhados pelas ruas. As forças de Assad 3im-
pediram de sepultar ou mesmo remover os restos mortais. Ou
Tintim por tintim. A menina muito dada namoraria sim-sim por
seja, mesmo viva, ela não tem como fugir da morte escancarada
sim-sim. O gordo incontrolável progrediria pela vida quindim por
diante de seus olhos. Não é fácil acreditar na vida, quando a
quindim. O telespectador habitual viveria plim-plim por plim-
realidade grita o contrário.
-plim. E você e eu vamos ganhando nosso salário tin por tin (olha
aí, a inflação já levou dois tins). Se não podem sepultar os mortos, os sobreviventes tentam ao me-
nos ajudar a curar as feridas dos machucados. Não podem levá-los
Resolvido o mistério do tintim, que não é uma subdivisão nem
aos hospitais da cidade, já que há um medo generalizado de que o
de tempo nem de espaço nem de matéria, resta o triz. O Aurelião
governo prenda os feridos como se fossem prisioneiros de guerra.
não nos ajuda. “Triz”, diz ele, significa por pouco. Sim, mas que
Resta improvisar atendimento nos campos. Não bastasse a preca-
pouco? Queremos algarismos, vírgulas, zeros, definições para
“triz”. Substantivo feminino. Popular. riedade do atendimento, não há medicamentos suficientes.
“Icterícia.” Triz quer dizer icterícia. Ou teremos que mudar todas Rebeca, de 32 anos, é trabalhadora autônoma. Ou melhor, 4era.
as nossas teorias sobre o Universo ou teremos que mudar de Agora já não sabe mais o que é e o que faz em sua cidade Da-
assunto. Acho melhor mudar de assunto. masco, capital da Síria.
Crônica parafraseada do depoimento de uma moradora da capi-
O Universo já tem problemas demais.
tal da Síria (identificada apenas pela letra “R”) ao jornal Folha de
VERÍSSIMO, Luis Fernando. Comédias para ler na escola. São Paulo, de quarta-feira, dia 25. A Síria está em revolta há 16
Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
meses contra a ditadura de Bashar al-Assad. Nos últimos dias, o
1. (IFSP) Considere o seguinte trecho: “É verdade que, se TIVES- confronto contra os rebeldes se acirrou e as mortes aumentaram.
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

SE me dado o trabalho de olhar no dicionário mais cedo, minha Disponível em: <[Link]
ignorância não TERIA durado tanto. Mas o óbvio, às vezes, é a fatosecorrelatos/2012/07/26/cronica-parafraseada-de-
última coisa que nos OCORRE”. Os verbos grifados encontram- uma-siria-em-guerra/> Acesso em: 14 set. 2015.

-se conjugados, respectivamente:


2. (Ifsul) Considerando a flexão das formas verbais impediram
a) pretérito perfeito do indicativo, futuro do pretérito (ref. 3) e era (ref. 4), é correto afirmar que
do indicativo, presente do subjuntivo.
a) os dois verbos estão conjugados no pretérito imperfei-
b) pretérito imperfeito do indicativo, pretérito perfeito
to do modo indicativo.
do indicativo, presente do indicativo.
b) os dois verbos estão conjugados no pretérito perfeito
c) pretérito mais-que-perfeito do indicativo, pretérito
do modo indicativo.
imperfeito do indicativo, presente do subjuntivo.
c) o verbo impedir está conjugado no pretérito perfeito
d) pretérito imperfeito do subjuntivo, pretérito imper-
do indicativo, e o ser, no pretérito imperfeito do indicativo.
feito do indicativo, pretérito perfeito do indicativo.
d) o verbo impedir está conjugado no pretérito imperfeito
e) pretérito imperfeito do subjuntivo, futuro do preté-
do subjuntivo, e o ser, no futuro do subjuntivo.
rito do indicativo, presente do indicativo.

49
Leia o texto de André Gotz para responder à questão. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO

O grande problema dos carros é o fato de serem como man- PORTUGUÊS NO TOPO DAS
sões à beira-mar: são bens de luxo inventados para o prazer LÍNGUAS MAIS IMPORTANTES
exclusivo de uma minoria muito rica, os quais em concepção e
natureza nunca foram destinados ao povo. Em sua concepção
e em sua finalidade original, o carro é um bem de luxo. E o
luxo, por definição, é impossível de ser democratizado: se todos
ascendem ao luxo, ninguém tira proveito dele.
Isso é admitido sem questionamentos pelo senso comum no
caso das mansões à beira-mar. Nenhum demagogo ousou dizer
que democratizar o direito às férias significa aplicar o princí-
pio uma mansão com praia particular para cada família. Todos
compreendem que, se cada uma das treze ou quatorze milhões
de famílias existentes na França devesse dispor mesmo que A língua portuguesa é a segunda língua mais importante no mun-
apenas de dez metros da costa, seria preciso dividir as praias do dos negócios, pelo menos para quem tem o inglês como língua
em tiras tão pequenas – ou amontoar tanto as mansões – que materna. Quem o diz é Ofer Shoshan, um colaborador da revista
seu valor de uso seria nulo e sua vantagem sobre um complexo norte-americana Entrepeneur, num artigo divulgado esta semana.
hoteleiro desapareceria. Em suma, a democratização do acesso Espanhol, português e chinês são, na opinião do autor do arti-
às praias admite somente uma solução: a solução coletivista. E go, as línguas que “todos os diretores executivos de empresas
essa solução está necessariamente em guerra com o luxo que globais devem aprender”. A lista refere um total de 6 línguas,
constituem as praias particulares, privilégio que uma pequena incluindo o russo, o árabe e o alemão.
minoria se atribui à custa de todos. “A língua portuguesa já é a quarta língua mais traduzida, na nos-
sa empresa, o que reflete o seu crescimento nos últimos anos”,
Ora, por que aquilo que é absolutamente óbvio no caso das
diz Ofer, que é o diretor executivo da empresa de traduções One
praias não é geralmente visto da mesma forma no caso do
Hour Translations.
transporte? Por acaso um carro também não ocupa um espaço
tão escasso quanto uma mansão na praia? Não espolia os ou- O autor admite, contudo, que este aumento da ‘procura’ da língua
tros que usam as ruas (pedestres, ciclistas, usuários de ônibus portuguesa está ligado ao Brasil e não a Portugal, já que “a econo-
ou bondes)? Não perde seu valor de uso quando todo mundo mia brasileira está a deixar de ser emergente para passar a ser uma
utiliza o seu? No entanto abundam os demagogos que afir- das mais ricas do mundo, com uma população gigantesca, vastos
mam que cada família tem o direito a pelo menos um carro, recursos naturais e uma forte comunidade tecnológica”.
e que seria até mesmo encargo do "Estado" atuar de forma Ofer Shoshan recorda que o próprio Bill Gates assumiu, recen-
que todos pudessem estacionar convenientemente e viajar no temente, um dos seus maiores arrependimentos: não falar uma
feriado ou nas férias ao mesmo tempo que todos os outros a segunda língua para além do inglês.
150 km/h. Por outro lado, o autor refere o momento em que o fundador do
(Ned Ludd (org). Apocalipse motorizado, 2004. Adaptado.) Facebook, Mark Zuckerberg, “mostrou um impressionante domí-
nio da língua chinesa, durante uma visita, em outubro passado, a
3. (SÃO CAMILO MED – UNESP) "Todos compreendem uma universidade de Pequim”.
que, se cada uma das treze ou quatorze milhões de famílias “Ao aprender chinês, Zuckerberg demonstrou que dominar a lín-
existentes na França devesse dispor mesmo que apenas de dez gua local é fundamental para aprofundar relações de negócio e
metros da costa, SERIA preciso dividir as praias em tiras tão conquistar a alma e o coração dos mercados”, diz Ofer Shoshan.
pequenas – ou amontoar tanto as mansões – que seu valor de
Disponível em: [Link]
uso SERIA nulo e sua vantagem sobre um complexo hoteleiro
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

no-topo-das-linguas-mais-importantes Acesso em:23/05/2015.


desapareceria."
4. (UPE) Considerando algumas formas verbais empregadas no
Os verbos destacados no excerto estão conjugados no texto, assinale a alternativa CORRETA.

a) futuro do pretérito, pois não se trata de fato localiza- a) O tempo e o modo da forma verbal empregada no
do em um futuro próximo, mas em um futuro distante. trecho: “A língua portuguesa é a segunda língua mais
b) futuro do presente, para fazer uma afirmação futura importante no mundo dos negócios” expressam a in-
em relação ao tempo do que foi enunciado antes. certeza do autor em relação à afirmação que ele faz.
c) pretérito mais-que-perfeito, pois se trata de um fato b) Na variante brasileira do português, o fato de os
posterior a outro fato enunciado no texto. verbos “ter” e “haver” serem, às vezes, empregados
d) futuro do presente, para deixar claro que se trata de como equivalentes, pode ser exemplificado no trecho
uma hipótese e não de um fato já consumado. “para quem tem o inglês como língua materna”.
e) futuro do pretérito, a fim de imaginar um cenário c) No trecho: “Ofer Shoshan recorda que o próprio Bill
projetado a partir de uma hipótese antes enunciada. Gates assumiu, recentemente, um dos seus maiores
arrependimentos”, a variação presente/passado das for-
mas verbais destacadas resulta em incorreção no texto.

50
d) Com a forma verbal selecionada no trecho: “Mark 5. (Fac. Albert Einstein) “Quem dera o fosse.” Os verbos empre-
Zuckerberg mostrou um impressionante domínio da gados nessa frase do quarto parágrafo (verbo dar no pretérito
língua chinesa”, o autor pretendeu indicar uma ação mais-que-perfeito do indicativo e verbo ir no pretérito imperfeito
iniciada no passado e ainda não concluída. do subjuntivo) contribuem para construir o sentido de que
e) No trecho: “‘Ao aprender chinês, Zuckerberg de- a) o fenômeno administrativo e contábil gerado pelo
monstrou que [...]’, diz Ofer Shoshan”, a forma ver- desequilíbrio da gestão do sistema público de saúde
bal destacada, embora esteja no presente, indica uma levou o país à falência.
ação do passado. b) o problema com a saúde nacional se circunscreve a
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO questões de natureza administrativa ou contábil.
c) a situação em que se encontra o sistema público de
Editorial saúde não se restringe a questões de natureza admi-
nistrativa ou contábil.
O valor da vida
d) a falência do sistema público de saúde brasileiro se
Hermann A.V. von Tiesenhausen Diretor executivo do jornal Medicina resolve pela gestão equilibrada das contas.
A mistanásia é um termo pouco utilizado nas conversas do dia
a dia, mas, que, infelizmente, não está tão distante de nossa re- TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
alidade. A imprensa registra, sem filtros, o drama de milhares de
pacientes e profissionais nos postos de saúde, hospitais e pron- O SEQUESTRO DAS PALAVRAS
tos-socorros e traduz a dura proximidade com a expressão. Gregório Duvivier
O significado de mistanásia remete à omissão de socorro, à Vamos supor que toda palavra tenha uma vocação primeira. A
negligência. Ela representa a morte miserável, antes da hora. É palavra mudança, por exemplo, nasceu filha da transformação e
conhecida como a eutanásia social. No Brasil, seu flagelo atinge, da troca, e desde pequena 2servia para descrever o processo de
sobretudo, os mais carentes, que dependem exclusivamente do mutação de uma coisa em outra coisa que não deixou de ser, na
Estado quando o corpo padece. essência, a mesma coisa – quando a coisa é trocada por outra
Um exemplo do que a mistanásia pode causar apareceu em coisa, não é mudança, é substituição. A palavra justiça, por exem-
série de reportagens exibida pelo Jornal Nacional (Rede Globo), plo, brotou do casamento dos direitos com a igualdade (sim, foi
em janeiro, que dissecou o drama dos pacientes com câncer no um ménage): servia para tornar igual aquilo que tinha o direito
país. A falta de tudo torna a larga espera pelo atendimento um de ser igual mas não estava sendo tratado como tal.
duro calvário e, em meio ao desespero, centros de excelência,
como o Instituto Nacional do Câncer (Inca), no Rio de Janeiro, No entanto as palavras cresceram. E, assim como as pessoas,
minguam a céu aberto. foram sendo contaminadas pelo mundo a sua volta. As palavras,
coitadas, não sabem escolher amizade, não sabem dizer não.
A falência do sistema público de saúde não é só um fenômeno
A liberdade, por exemplo, é dessas palavras que só dizem sim.
administrativo ou contábil. Quem dera o fosse. Assim, seria mais
Não nasceu de ninguém. Nasceu contra tudo: a prisão, a depen-
fácil suportá-la, pois contas se arrumam. A questão é que o de-
dência, o poder, o dinheiro – mas não se espante se você vir a
sequilíbrio causado por uma gestão feita de pessoas perdidas
liberdade vendendo absorvente, desodorante, cartão de crédito,
em meio ao tiroteio entrou em nossas casas pela porta da frente.
empréstimo de banco. A publicidade vive disso: dobrar as melho-
A situação grave, contornada com paliativos, ceifa vidas, inclusive res palavras sem pagar direito de imagem. Assim, você 11verá as
de crianças e jovens, impedidos de receber aquilo que a Consti- palavras ecologia e esporte juntarem-12se numa só para criar o
tuição lhes garante como direito cidadão: o acesso universal, in- EcoSport – existe algo menos ecológico ou esportivo que um car-
tegral, gratuito e com equidade a serviços de saúde de qualidade.
ro? Pobres palavras. Não 15tem advogados. Não precisam assinar
Nesta edição do jornal Medicina, apresentamos números do termos de autorização de imagem. Estão aí, na praça, gratuitas.
valor da vida e da saúde de cada brasileiro para o setor públi-
co. A média nacional não supera os R$ 4,00 ao dia, ou seja, Nem todos aceitam que as palavras 16sejam sequestradas ao
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

quase nada se comparado a outros países com modelos assis- bel-prazer do usuário. A política é o campo de guerra onde se
tenciais semelhantes. disputa a posse das palavras. A “ética”, filha do caráter com
a moral, transita de um lado para o outro dos conflitos, assim
Essa conta acentua a tragédia da morte anunciada em corredores como a Alsácia-Lorena, e não sem guerras sanguinárias. Com
e filas de espera e suscita um questionamento importante, pois os um revólver na cabeça, é obrigada a endossar os seres mais
dados evidenciam que, apesar do pouco destinado, é o mau uso amorais e sem caráter. A palavra mudança, que sempre andou
dos recursos que estão disponíveis que aprofunda a crise. com as esquerdas, foi sequestrada pelos setores mais conser-
O Brasil está diante de um dilema. É hora de rever caminhos, vadores da sociedade – que fingem querer mudar, quando o
adotar novas posturas, corrigir falhas para não sentenciar a que querem é trocar (para que não se mude mais). A Justiça,
população à doença e tirar do estado de coma em que se coitada, foi cooptada por quem atropela direitos e desconhece
encontra o Sistema Único de Saúde (SUS), uma das maiores a igualdade, confundindo-a o tempo todo com seu primo, o
políticas sociais do mundo e balizador de todo modelo de justiçamento, filho do preconceito com o ódio.
atenção no País. Já a palavra impeachment, recém-nascida, filha da democracia
Jornal Medicina Publicação oficial do Conselho com a mudança, 22está escondida num porão: emprestaram suas
Federal de Medicina. Janeiro 2016. roupas à palavra golpe, que desfila por aí usando seu nome e seus
documentos. Enquanto isso, a palavra jornalismo, coitada, agoniza

51
na UTI. As palavras não lutam sozinhas. É preciso lutar por elas. a) (1) pretérito imperfeito do subjuntivo; (2) futuro sim-
Texto publicado em 21 mar. 2016. Disponível em: <[Link] ples do indicativo; (3) pretérito perfeito do indicativo.
[Link]/colunas/gregorioduvivier/2016/03/1752170- b) (1) pretérito perfeito do indicativo; (2) pretérito imper-
[Link]>. Acesso em: 06 abr. 2016. feito do indicativo; (3) pretérito imperfeito do indicativo.
c) (1) pretérito imperfeito do indicativo; (2) futuro do pre-
6. (Ifsul) Quanto ao emprego dos verbos no texto “O sequestro
térito do indicativo; (3) pretérito imperfeito do subjuntivo.
das palavras”, é correto afirmar que
d) (1) pretérito mais-que-perfeito do indicativo; (2)
a) o verbo “ver” (ref. 11) foi conjugado no futuro do futuro do pretérito do indicativo; (3) pretérito perfeito
pretérito do modo indicativo, embora faça referência do subjuntivo.
ao tempo presente.
b) o verbo “ser” (ref. 16) foi flexionado no presente TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
do indicativo, indicando a incerteza de que a ação
A cavalgada, que lenta SUBIRA a encosta, DESCIA-A rapida-
ocorra de fato.
mente enquanto Atanagildo, visitando os muros, EXORTAVA os
c) a locução verbal presente na referência 22, utili- guerreiros da cruz a pelejarem esforçadamente. Quando estes sou-
zada no passado perfeito do indicativo, designa uma beram quais eram as intenções dos árabes acerca das virgens do
ação já concluída. mosteiro, a atrocidade do sacrilégio afugentou-lhes dos corações a
d) o verbo “servir” (ref. 2) foi conjugado no pretérito menor sombra de hesitação. Sobre as espadas juraram todos com-
imperfeito do indicativo para designar uma ação em bater e morrer como godos. Então o quingentário, a quem parecia
contínua realização do passado para o presente. animar sobrenatural ousadia, correu ao templo.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO HERCULANO, A. Eurico, o presbítero. 2. ed.
São Paulo: Martin Claret, 2014. p.107.
DÁ PRA DESENHAR?
8. (UEL) Sobre os verbos “subira”, “descia” e “exortava”, presentes
Marcelo Gruman no trecho, assinale a alternativa correta.

As livrarias no Rio de Janeiro estão desaparecendo, sobretudo a) Os verbos “subira”, “descia” e “exortava” estão no
os sebos, que teimam em comercializar objetos sujos de história. tempo verbal pretérito perfeito, pois indicam um fato
[...] É a tal “civilização digital”. Se não digital, do 3kindle e do que aconteceu em um momento passado e foi conclu-
4
IPhone, do ambiente asséptico, inodoro, impessoal de cadeias ído. Todos estão no modo indicativo.
livreiras como Cultura, Travessa ou Saraiva, padronizadas. Chega- b) Os verbos “subira”, “descia” e “exortava” estão no
mos à era da “mcdonaldização” do hábito de ler. Sem passado, pretérito imperfeito, pois expressam a duração de um
sem futuro, um presente contínuo. fato que ocorreu no passado e foi concluído. Os dois
Não bastasse o desprestígio do livro físico, vivemos o “triunfo primeiros estão no modo indicativo, enquanto “exorta-
total da não leitura”, conforme o editor de não ficção e lite- va” está no imperativo, pois expressa ordem.
ratura brasileira da Editora Record, Carlos Andreazza, que re- c) O verbo “subira” está no futuro do presente, pois indica
solveu lançar a campanha pela “maioridade intelectual”, que um fato que ainda ocorrerá; os verbos “descia” e “exorta-
considera uma provocação à onda dos livros de colorir. Para ele, va” estão no futuro do pretérito, pois indicam ações que
o editor também é um educador e tem a obrigação de atrair aconteceriam. Todos estão no modo indicativo.
o leitor jovem-adulto, ampliando o público leitor como uma d) O verbo “subira” está no pretérito mais-que-perfeito,
resposta saudável a esta atração cultural que é “o livro de unir pois indica um fato que aconteceu antes de outro fato no
os pontinhos”, como ironicamente o define Joaquim Ferreira presente; já os verbos “exortava” e “descia” estão no im-
dos Santos. Andreazza diz que, hoje, somos obrigados a falar perfeito do subjuntivo, pois expressam desejos ou hipóteses.
redundâncias bárbaras como “livro para ler”. Uma piada de e) O verbo “subira” está no pretérito mais-que-perfeito,
mau gosto porque livro pressupõe leitura. pois indica um processo que ocorreu antes de um outro
fato, também no passado; os verbos “descia” e “exorta-
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

[...] Há não muito tempo, perguntávamos a quem não entendia o va” estão no pretérito imperfeito, pois indicam um pro-
que falávamos se gostaria que desenhássemos a explicação. Era cesso que ocorreu no passado, expressando sua duração,
uma brincadeira, uma forma de infantilizar o interlocutor. Chegou e que não foi concluído. Todos estão no modo indicativo.
o dia em que a piada perdeu a graça, porque deixou de ser piada.
Fonte: <[Link] TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
desenhar-/39/33645>, texto adaptado. Acesso em: 03 set. 2015
À porta do Grande Hotel, pelas duas da tarde, Chagas e Silva
postava-se de palito à boca, como se tivesse descido do restau-
7. (G1 - cft-mg) Considere o trecho a seguir:
rante lá de cima. Poderia parecer, pela estampa, que somente ali
[...] Há não muito tempo, PERGUNTÁVAMOS (1) a quem não se comesse bem em Porto Alegre. Longe disso! A Rua da Praia
entendia o que falávamos se GOSTARIA (2) que DESENHÁS- que o diga, ou melhor, que o dissesse. O faz de conta do ine-
SEMOS (3) a explicação. Era uma brincadeira, uma forma de fável personagem ligava-se mais à importância, à moldura que
infantilizar o interlocutor. Chegou o dia em que a piada perdeu a aquele portal lhe conferia. Ele, que tanto marcou a rua, tinha
graça, porque deixou de ser piada. franco acesso às poltronas do saguão em que se refestelavam os
A indicação da desinência modo-temporal dos verbos 1, 2 e 3, importantes. Andava dentro de um velho fraque, usava gravata,
grifados nesse trecho, está correta em
chapéu, bengala sob o braço, barba curta, polainas e uns olhi-

52
nhos apertados na tez bronzeada. O charuto apagado na boca, meira vez em 5 mil anos de história do país, para anunciar que
para durar bastante, ERA o toque final dessa composição de havia chegado o momento de "suportar o insuportável": a ren-
pardavasco vindo das Alagoas. dição do Japão às forças aliadas na Segunda Guerra Mundial.
Mas agora o dono da voz, Sua Majestade o imperador Hiroíto,
Chagas e Silva chegou a Porto Alegre em 1928. Fixou-se na Rua
tinha revelações ainda mais espantosas a fazer a seus súditos.
da Praia, que percorria com passos lentos, carregando um ar
Embora ele falasse em keigo – uma forma arcaica do idioma,
de indecifrável importância, tão ao jeito dos grandes de então.
reservada aos Filhos dos Céus e repleta de expressões chinesas
Os estudantes tomaram conta dele. Improvisaram comícios na
que nem todos compreendiam bem −, todos entenderam o que
praça, carregando-o nos braços e fazendo-o discursar. Dava dis-
Hiroíto dizia: ao contrário do que os japoneses acreditavam des-
cretas mordidas e consentia em que lhe pagassem o cafezinho.
de tempos imemoriais, ele não era uma divindade. O imperador
Mandava imprimir sonetos, que “trocava” por dinheiro.
leu uma declaração de poucas linhas, escrita de próprio punho.
Não era de meu propósito OCUPAR-ME do “doutor” Chagas Aquela era mais uma imposição dos vencedores da guerra. En-
e, sim, de como se comia bem na Rua da Praia de antigamente. tre as exigências feitas pelos Aliados para que ele permanecesse
Mas ele como que me puxou pela manga e levou-me a visitar no trono, estava a "Declaração da Condição Humana". Ou seja,
casas por onde sua imaginação de longe esvoaçava. a renúncia pública à divindade, que naquele momento Hiroíto
cumpria resignado:
Porto Alegre, sortida por tradicionais armazéns de especialida-
des, DISPUNHA da melhor matéria-prima para as casas de "Os laços que nos unem a vós, nossos súditos, não são o resultado
pasto. Essas casas punham ao alcance dos gourmets virtuo- da mitologia ou de lendas. Não se baseiam jamais no falso concei-
síssimos “secos e molhados” vindos de Portugal, da Itália, da to de que o imperador é deus ou qualquer outra divindade viva."
França e da Alemanha. Daí um longo e florescente’ período Petrificados, milhões de japoneses tomaram consciência da verda-
de boa comida, para regalo dos homens de espírito e dos que de que ninguém jamais imaginara ouvir: diferentemente do que
eram mais estômago que outra coisa. lhes fora ensinado nas escolas e nos templos xintoístas, Hiroíto re-
Na arte de comer bem, talvez a dificuldade fosse a da escolha. conhecia que era filho de dois seres humanos, o imperador Taisho
Para qualquer lado que o passante se virasse, encontraria salões e a imperatriz Sadako, e não um descendente de Amaterasu Omi-
ornamentados recinto maiores ou menores, tabernas ou simples kami, a deusa do Sol. Foi como se tivessem jogado sal na ferida
tascas. A Cidade DIVERTIA-SE também pela barriga. que a rendição, ocorrida em agosto do ano anterior, havia aberto
na alma dos japoneses. O temido Exército Imperial do Japão, que
RUSCHEL, Nilo. Rua da Praia. em inacreditáveis 2600 anos de guerras jamais sofrera uma úni-
Porto Alegre: Editora da Cidade, 2009. p. 110-111.
ca derrota, tinha sido aniquilado pelos Aliados. O novo xogum, o
9. (UFRGS) Considere as afirmações abaixo, a respeito dos tem- chefe supremo de todos os japoneses, agora era um gaijin, um es-
pos verbais utilizados no texto. trangeiro, o general americano Douglas MacArthur, a quem eram
obrigados a se referir, respeitosamente, como Maca-san, o "senhor
I. Os verbos era e dispunha estão conjugados no mesmo tempo e Mac". Como se não bastasse tamanho padecimento, o Japão des-
modo. cobria que o imperador Hiroíto era apenas um mortal, como qual-
II. Todos os verbos do primeiro parágrafo estão conjugados no quer um dos demais 100 milhões de cidadãos japoneses.
pretérito imperfeito do indicativo, porque fazem referência a roti- (Corações sujos, 2000.)
nas e hábitos do passado.

III. Os verbos ocupar-me e divertia-se estão conjugados no modo 1. (FAMEMA) "Era a mesma voz que quatro meses antes se diri-
gira aos japoneses, pela primeira vez em 5 mil anos de história do
subjuntivo.
país, para anunciar que havia chegado o momento de 'suportar o
Quais estão corretas? insuportável'" (1º parágrafo)

a) Apenas I. O verbo destacado foi utilizado no pretérito mais-que-perfeito a


b) Apenas II. fim de indicar
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

c) Apenas III. a) um fato no passado, anterior a outro fato, também


d) Apenas I e II. no passado.
e) I, II e III. b) uma dúvida do enunciador sobre a veracidade do
fato no passado.

E.O. Complementar
c) um fato que ocorreu reiteradamente, no passado.
d) uma ação cujos efeitos se estendem do passado
ao presente.
Leia o trecho inicial do livro Corações sujos, de Fernando Morais,
e) uma verdade universalmente aceita no passado.
para responder à questão.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
A voz rouca e arrastada parecia vir de outro mundo. Eram pon-
tualmente nove horas da manhã do dia 1º de janeiro de 1946 Acordou. Levantou-se. Aprontou-se. Lavou-se. Barbeou-se. Enxu-
quando ela soou nos alto-falantes dos rádios de todo o Japão. gou-se. Perfumou-se. Lanchou. Escovou. Abraçou. Beijou. Saiu.
A pronúncia das primeiras sílabas foi suficiente para que 100 Entrou. Cumprimentou. Orientou. Controlou. Advertiu. Chegou.
milhões de pessoas identificassem quem falava. Era a mesma Desceu. Subiu. Entrou. Cumprimentou. Assentou-se. Preparou-se.
voz que quatro meses antes se dirigira aos japoneses, pela pri- Examinou. Leu. Convocou. Leu. Comentou. Interrompeu. Leu.

53
Despachou. Conferiu. Vendeu. Vendeu. Ganhou. Ganhou. Ga- sado da província; 5quero gozar a vida. Pode ser até que vá à
nhou. Lucrou. Lucrou. Lucrou. Lesou. Explorou. Escondeu. Burlou. Europa, mas não sei ainda.
Safou-se. Comprou. Vendeu. Assinou. Sacou. Depositou. Depo-
Os olhos do Palha brilharam instantaneamente.
sitou. Depositou. Associou-se. Vendeu-se. Entregou. Sacou. De-
positou. Despachou. Repreendeu. Suspendeu. Demitiu. Negou. Machado de Assis, Quincas Borba.
Explorou. Desconfiou. Vigiou. Ordenou. Telefonou. Despachou. 3. (FGV) Empregou-se o presente com ideia de futuro no seguinte
Esperou. Chegou. Vendeu. Lucrou. Lesou. Demitiu. Convocou. excerto do texto:
Saiu. Despiu-se. Dirigiu-se. Chegou. Beijou. Negou. Lamentou.
Dormiu. Roncou. Sonhou. Sobressaltou-se. Acordou. Preocupou- a) “ela ia entre vinte e sete e vinte e oito” (ref. 1).
-se. Temeu. Suou. Ansiou. Tentou. Bebeu. Dormiu. Dormiu. Dor- b) “conquanto ache” (ref. 2).
miu. Acordou. Levantou-se. Aprontou-se... c) “ou volta para Barbacena” (ref. 3).
MINO. Como se conjuga um empresário. Disponível em: <http:// d) “Meu desejo é ficar” (ref. 4).
[Link]/documents/[Link]>. e) “quero gozar a vida” (ref. 5).
Acesso em: 18 jan. 2016. Adaptado.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
2. (UEFS) No texto de Mino, a utilização e a organização sequen-
cial das formas verbais permitem inferir que a personagem principal Hoje os conhecimentos se estruturam de modo fragmentado, se-
a) não mantém uma rotina adequada a seus princí- parado, compartimentado nas disciplinas. Essa situação impede
pios éticos. uma visão global, uma visão fundamental e uma visão complexa.
"Complexidade" vem da palavra latina complexus, que significa
b) exime-se de qualquer compromisso com a sua pró-
pria família. a compreensão dos elementos no seu conjunto.
c) não apresenta sinais de que irá rever seus valores As disciplinas costumam excluir tudo o que se encontra fora do
e sua forma de agir. seu campo de especialização. A literatura, no entanto, é uma
área que se situa na inclusão de todas as dimensões humanas.
d) alterna contextos de sucesso e lucro com situações
Nada do humano lhe é estranho, estrangeiro.
de fracasso e desespero.
e) revela momentos de compaixão diante do outro, A literatura e o teatro são desenvolvidos como meios de ex-
retomando algumas atitudes. pressão, meios de conhecimento, meios de compreensão da
complexidade humana. Assim, podemos ver o primeiro modo
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO de inclusão da literatura: a inclusão da complexidade humana.
E vamos ver ainda outras inclusões: a inclusão da personalidade
CAPÍTULO XXI humana, a inclusão da subjetividade humana, e, também, muito
Na estação de Vassouras, entraram no trem Sofia e o marido, importante, a inclusão; do estrangeiro, do marginalizado, do in-
Cristiano de Almeida e Palha. Este era um rapagão de trinta e feliz, de todos que ignoramos e desprezamos na vida cotidiana.
dois anos; 1ela ia entre vinte e sete e vinte e oito. A inclusão da complexidade humana é necessária porque rece-
bemos uma visão mutilada do humano. Essa visão, a de homo
Vieram sentar-se nos dois bancos fronteiros ao do Rubião [...].
sapiens, é uma definição do homem pela razão; de homo faber,
[Rubião] — O senhor é lavrador? do homem como trabalhador; de homo economicus, movido por
[Palha] — Não, senhor. lucros econômicos. Em resumo, trata-se de uma visão prosaica,
mutilada, que esquece o principal: a relação do sapiens/demens,
[Rubião] — Mora na cidade? da razão com a demência, com a loucura.
[Palha] — De Vassouras? Não; viemos aqui passar uma semana. Na literatura, encontra-se a inclusão dos problemas humanos
Moro mesmo na Corte. Não teria jeito para lavrador, 2conquanto mais terríveis, coisas insuportáveis que nela se tornam suportá-
ache que é uma posição boa e honrada. veis. Harold Bloom escreve: "1TODAS as grandes obras 2REVE-
LAM a universalidade humana através de destinos singulares, de
Da lavoura passaram ao gado, à escravatura e à política. Cristia- situações singulares, de épocas singulares". É essa a razão por
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no Palha maldisse o governo, que introduzira na fala do trono que as obras-primas atravessam séculos, sociedades e nações.
uma palavra relativa à propriedade servil; mas, com grande es-
Agora chegamos à parte mais humana da inclusão: a inclusão do
panto seu, Rubião não acudiu à indignação. Era plano deste ven-
outro para a compreensão humana. A compreensão nos torna
der os escravos que o testador lhe deixara, exceto um pajem; se
mais generosos com relação ao outro, e o criminoso não é unica-
alguma coisa perdesse, o resto da herança cobriria o desfalque.
mente mais visto como criminoso, como o Raskolnikov de Dostoie-
Demais, a fala do trono, que ele também lera, mandava respeitar
vsky, como o Padrinho de Copolla.
a propriedade atual. Que lhe importavam escravos futuros, se
os não compraria? O pajem ia ser forro, logo que ele entrasse A literatura, o teatro e o cinema são os melhores meios de com-
na posse dos bens. Palha desconversou, e passou à política, às preensão e de inclusão do outro. Mas a compreensão se torna
câmaras, à guerra do Paraguai, tudo assuntos gerais, ao que Ru- provisória, esquecemo-nos depois da leitura, da peça e do fil-
bião atendia, mais ou menos. Sofia escutava apenas; movia tão me. Então essa compreensão é que 3DEVERIA ser introduzida e
somente os olhos, que sabia bonitos, fitando-os ora no marido, desenvolvida em nossa vida pessoal e social, porque 4SERVIRIA
ora no interlocutor. para melhorar as relações humanas, para melhorar a vida social.
— Vai ficar na Corte 3ou volta para Barbacena? perguntou o Adaptado de: MORIN, Edgar. A inclusão: verdade da
literatura. In: RÕSING, Tânia et ai. Edgar
Morin: religando
Palha no fim de vinte minutos de conversação.
fronteiras. Passo Fundo: UPF, 2004. p.13-18
— 4Meu desejo é ficar, e fico mesmo, acudiu Rubião; estou can-

54
4. (UFRGS) Considere as seguintes afirmações, referentes ao uso Amo-te como um bicho, simplesmente,
de tempos e modos verbais no texto. De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
I. O emprego do presente na forma verbal REVELAM (ref. 2)
reforça o caráter generalizador da afirmação, já sinalizado pelo E de te amar assim, muito e amiúde,
emprego de TODAS (ref. 1). É que um dia em teu corpo de repente
II. Os usos de futuro do pretérito em DEVERIA (ref. 3) e SER- Hei de morrer de amar mais do que pude.
VIRIA (ref. 4) contribuem para mostrar que o autor conclui a (MORAES, Vinicius de. In: Antologia poética.
argumentação com soluções possíveis e desejáveis. São Paulo: Cia das Letras, 1992, p. 232.)
III. A presença no texto de verbos nos modos indicativo e subjunti-
1. (G1 - CP2 2014) Embora só haja a fala do eu lírico, ocorre
vo confere sentidos de certeza e de possibilidade à argumentação.
uma interlocução com o ser amado no texto. Retire do poema um
exemplo que explicite essa interlocução.
Quais estão corretas?
a) Apenas I. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
b) Apenas II.
c) Apenas I e II. O exílio, uma experiência da modernidade
d) Apenas I e III. A história da humanidade poderia escrever-se a partir das es-
e) I, II e III. tórias do exílio porque desde o início o homem tem vivido em
permanente opressão e fuga: fuga de si mesmo e dos outros.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO Também tem realizado grandes ações, grandes construções: con-
quista de terras remotas, fundação de cidades, guia de grandes
Não era feio o lugar, mas não era belo. Tinha, entretanto, o aspec- migrações, descobrimento de continentes, exploração de mares,
to tranquilo e satisfeito de quem se julga bem com a sua sorte. governo de povos. Todas essas obras “magníficas” em sua gran-
A casa erguia-se sobre um socalco, uma espécie de degrau, for- de maioria foram feitas graças ao labor dos refugiados, asilados,
mando a subida para a maior altura de uma pequena colina que prisioneiros de guerra, escravos, todos vítimas da opressão e
lhe corria nos fundos. Em frente, por entre os bambus da cerca, expulsão. O pensamento estético, acadêmico e científico da mo-
olhava uma planície a morrer nas montanhas que se viam ao derna cultura ocidental, também tem-se alimentado de fontes
longe; um regato de águas paradas e sujas cortava-as paralela- estrangeiras, pense-se em tantos pensadores e cientistas degre-
mente à testada da casa; mais adiante, o trem passava vincando dados e suas valiosas contribuições ao pensamento moderno:
a planície com a fita clara de sua linha campinada [...]. Marcuse, Beckett, Nabokov, James Joyce, Adorno, Hannah Aren-
dt, Walter Benjamin, Pound, Einstein, entre outros. Desse ponto
BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma. São
Paulo: Penguin & Companhia das Letras. p.175.
de vista, a expulsão e o exílio acabaram sendo condições prévias
para o desenvolvimento social e humano. O internacionalismo
5. (UEG) Com relação ao tempo narrativo, nota-se que a utiliza- intelectual e cultural, de grandes convulsões sociais, em que as
ção do pretérito imperfeito ideias passavam de uma cultura para outra, gerou uma arte es-
sencialmente cosmopolita que se alimentou das tradicionais via-
a) aproxima o material narrado do universo contem-
gens literárias e expatriações de muitos escritores e artistas, ou
porâneo do leitor.
foi causada pelas grandes convulsões históricas que forçaram ao
b) confere ao texto um caráter dual, que oscila entre exílio muitos escritores, ocasionando que uma parte tão grande
o lírico e o metafórico. da arte moderna tenha sido produzida por escritores “sem lar”,
c) faz com que o tempo da narrativa se distancie, até afastados de sua cultura nacional, sua tradição, seu idioma na-
certo ponto, do tempo do leitor. tivo. Daí que a palavra “moderno” tenha tantas conotações de
d) torna o texto mais denso de significação, na medi- desarraigamento, desorientação, ironia, alienação, fratura, senti-
da em que institui lacunas temporais. mentos e emoções que fazem com que a arte moderna provoque
em nós uma perturbação tão profunda quanto a admiração que
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E.O. Dissertativo nos inspira. Porém, na escala do século XX, o exílio não é com-
preensível nem do ponto de vista estético, nem do ponto vista
humanista. O exílio é – segundo Edward Said (2003) – irreme-
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO diavelmente secular e insuportavelmente histórico, é produzido
por seres humanos para outros seres humanos, é uma condição
SONETO DO AMOR TOTAL criada para negar a dignidade e a identidade das pessoas. Nesse
Vinicius de Moraes sentido o exílio não pode ser posto a serviço do humanismo.

Amo-te tanto, meu amor ... não cante A marca do trauma do exílio fica refletida na perda da identidade,
O humano coração com mais verdade ... na dor, na fratura e no estranhamento. Por isso, Czeslaw Milosz
Amo-te como amigo e como amante (1993) afirma que o exílio é a situação existencial do homem mo-
Numa sempre diversa realidade. derno. Na modernidade, o homem ainda não superou a desdita
de permanecer em permanente desterro. As conquistas de qual-
Amo-te afim, de um calmo amor prestante quer desterrado são constantemente carcomidas pelo sentimen-
E te amo além, presente na saudade. to de estranhamento, de perda. Na realidade, todo exilado é um
Amo-te, enfim, com grande liberdade náufrago que luta por sobreviver num território estranho onde o
Dentro da eternidade e a cada instante. desespero, a aniquilação e o silêncio se fazem presentes. Existem

55
muitas estórias e histórias que apresentam o exílio como uma con- 3. (FGV) Com base no poema,
dição heroica, gloriosa ou romântica, e esquecem, porém, a dor a) explique o que representa a mãe para o eu lírico,
da orfandade oculta em seu interior. No âmago de sua solidão, o tendo em vista o que ele vive e o que desejaria viver.
exilado sente, no silêncio de seu ser, o verdadeiro destino da exis- Justifique sua resposta com informações do texto;
tência humana. A literatura sobre o exílio objetiva uma angústia e
b) reescreva os versos “Eu dava o meu orgulho de ho-
uma condição que a maioria das pessoas raramente experimenta
mem – dava / Minha estéril ciência, sem receio, / E em
em primeira mão; “mas pensar que o exílio é benéfico para essa
débil criancinha me tornava,”, substituindo os verbos
literatura é banalizar suas mutilações, as perdas que inflige aos
“dar” e “tornar”, respectivamente, por “abster-se” e
que as sofrem [...]. Para autores como James Joyce, Ezra Pound,
“converter-se”, conjugados em outro tempo verbal,
Samuel Beckett ou Paul Bowles, o exílio sugere valores mais sedu-
adequado ao contexto.
tores, vinculados a estados da consciência, capazes de confirmar
qualidades do indivíduo cuja pureza só seria possível a partir de 4. (PUC) CIDADE SEM CARROS É POSSÍVEL, GARANTE
uma conquista solitária de um espaço próprio. Nietzsche, Joseph URBANISTA
Conrad, T.S. Eliot, Nabokov, ou Theodor W. Adorno, porém, perten-
cem a outra tradição de autores que vê o exílio como absoluta Metrópole projetada para até 3 milhões de pessoas seria movida
orfandade, fratura, trauma, solidão e silêncio. Nessa condição não por transporte público
existe nada glorioso, nem romântico: o exílio é nossa maldição, Imagine a vida em uma metrópole livre do barulho, da poluição
nossa vocação existencial e nossa natureza; é a representação de e de todas as dificuldades de se mover por ruas dominadas por
uma lei fundamental – a da impossibilidade de comunicação entre carros, ônibus e caminhões. Todas as necessidades básicas, de
quem quer que seja. supermercados a farmácias, estariam a cinco minutos a pé da
MONTAÑÉS, Amanda Pérez. Vozes do exílio e suas manifestações porta de sua casa. A viagem para o trabalho seria feita em um
nas narrativas de JulioCortázar e Marta Traba. Tese de Doutorado. serviço de transporte público barato, rápido, seguro e confortável
Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2006. p. 15-16.
e duraria no máximo 35 minutos. Essa é parte da visão de futuro
descrita pelo sociólogo e urbanista holandês J.H. Crawford em
2. (PUC)
seu site “Carfree cities” (‘cidades livres de carros’ em inglês).
a) Sem reproduzir passagens do texto, explique por
A proposta de Crawford é simples, porém ousada: banir o uso
que, segundo Amanda Montañés, a palavra “moder-
de automóveis em áreas urbanas e (re)construir cidades em
no” assume as conotações elencadas no texto.
função disso. “As nações industrializadas cometeram um terrí-
b) Observe:
vel erro ao adotar o carro como principal meio de locomoção
I. “Na realidade, todo exilado é um náufrago que luta nos meios urbanos”, disse Crawford à “Ciência Hoje On-line”.
por sobreviver num território estranho onde o deses- “O automóvel trouxe para as cidades sérios problemas am-
pero, a aniquilação e o silêncio se fazem presentes.” bientais, sociais e estéticos.”
II. Na realidade, todo exilado tem sido um náufrago que
luta por sobreviver num território estranho onde o de- Crawford projetou uma cidade modelo sem carros, constituída
sespero, a aniquilação e o silêncio se fazem presentes. por 100 bairros circulares, com ruas estreitas que se dirigem para
a via central de transporte.
III. Na realidade, todo exilado seria um náufrago que
luta por sobreviver num território estranho onde o de- Os bairros da cidade sem carros são dispostos na forma de um
sespero, a aniquilação e o silêncio se fazem presentes. trevo de 6 folhas. Os bairros mais distantes do centro, não residen-
ciais, são reservados para indústrias pesadas e estacionamentos.
Comente a diferença de sentido que se estabelece entre as frases
acima em decorrência do tempo verbal empregado.

TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO

MÃE
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

Mãe – que adormente este viver dorido.


E me vele esta noite de tal frio,
E com as mãos piedosas até o fio
Do meu pobre existir, meio partido...
Com base no contorno da cidade, o transporte principal seria o
Que me leve consigo, adormecido,
metrô, que teria apenas três linhas, cada uma com início em três
Ao passar pelo sítio mais sombrio...
das seis “folhas”, passagem pelo centro e final nas outras três. O
Me banhe e lave a alma lá no rio
metrô funcionaria 24 horas por dia, com intervalos de somente
Da clara luz do seu olhar querido...
quatro minutos entre os trens. Dois pontos da cidade estariam
Eu dava o meu orgulho de homem – dava assim separados por no máximo 35 minutos. Entre os bairros, as
Minha estéril ciência, sem receio, viagens de curta distância poderiam ser feitas a pé (durariam não
E em débil criancinha me tornava, mais que 10 minutos) ou de bicicleta (cinco minutos). No caso de
Descuidada, feliz, dócil também, emergências médicas, policiais e de incêndio, o uso de veículos
Se eu pudesse dormir sobre o teu seio, poderia ser cogitado.
Se tu fosses, querida, a minha mãe!
O comércio e indústrias leves poderiam ser fixados em áreas re-
(Antero de Quental. Antologia, 1991)

56
sidenciais, como nas cidades convencionais, e as ruas deveriam A informação seria livre. Todo o saber do mundo seria comparti-
estar sempre guardadas pela polícia. “Isso ajudaria a reduzir lhado, bem como a música, o cinema, a literatura e a ciência. O
a ocorrência de crimes, pois quase todas as regiões da cidade custo seria zero. O espaço seria infinito. A velocidade, estontean-
estariam ocupadas durante todo o dia”, afirma Crawford. Pe- te. A solidariedade e a colaboração seriam os valores supremos.
quenas praças na interseção da maioria das ruas, somadas a A criatividade, o único poder verdadeiro. O bem triunfaria sobre
um ideal de 80% de áreas verdes em toda a cidade, criariam os males do capitalismo. O sistema de representação se tornaria
um clima de boa vizinhança. “Como as pessoas teriam mais obsoleto. Todos os seres humanos teriam oportunidades iguais
contato umas com as outras, elas conversariam mais e deixa- em qualquer lugar do planeta. Todos seriam empreendedores
riam o individualismo de lado”, diz o urbanista. e inventivos. Todos poderiam se expressar livremente. Censura,
nunca mais. As fronteiras deixariam de existir. As distâncias se
Texto adaptado de Ciência Hoje On-line, 4/05/2004.
tornariam irrelevantes. O inimaginável seria possível. O sonho,
a) Com base na leitura do texto, continue o período a
qualquer sonho, poderia se tornar realidade.
seguir enumerando mais DUAS vantagens do projeto
urbanístico de J. H. Crawford. Utilize a mesma estru- Livre, grátis, inovador, coletivo, palavras-chave do novo mundo
tura sintática do item já enumerado. que a internet inaugurou. Por anos esquecemos que a internet
O projeto urbanístico de J. H. Crawford teria, foi uma invenção militar, criada para manter o poder de quem já
entre outras, as seguintes vantagens: facilitaria o tinha. Por anos fingimos que transformar produtos físicos em
o deslocamento dos cidadãos entre os bairros... produtos virtuais era algo ecologicamente correto, esquecendo
b) Considerando o teor do texto, justifique o predo- que a fabricação de computadores e celulares, com a obsoles-
mínio do emprego de verbos no futuro do pretérito cência embutida em seu DNA, demanda o consumo de quanti-
do indicativo. dades vexatórias de combustíveis fósseis, de produtos químicos e
de água, sem falar no volume assombroso de lixo não reciclado
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO em que resultam, incluindo lixo tóxico.
BEM NO FUNDO Ninguém imaginou que o poder e o dinheiro se tornariam tão con-
centrados em megaoperações norte-americanas como o Google,
no fundo, no fundo, que iriam destruir para sempre tantas indústrias e atividades em
bem lá no fundo, tão pouco tempo. Ninguém previu que os mesmos Estados Uni-
a gente gostaria dos, graças às maravilhas da internet sempre tão aberta e juvenil,
de ver nossos problemas se consolidariam como os maiores espiões do mundo, humilhan-
resolvidos por decreto do potências como a Alemanha e também o Brasil, impondo os
a partir desta data, métodos de sua inteligência militar sobre a população mundial,
aquela mágoa sem remédio e guiando ao arrepio da justiça os bebês engenheiros nota dez
é considerada nula em matemática mas ignorantes completos em matéria de ética,
e sobre ela – silêncio perpétuo política e em boas maneiras.
extinto por lei todo o remorso, Ninguém previu a febre das notícias inventadas, a civilização de
maldito seja quem olhar pra trás, perfis falsos, as enxurradas de vírus, os arrastões de números de
lá pra trás não há nada, cartão de crédito, a empulhação dos resultados numéricos fal-
e nada mais seados por robôs ou gerados por trabalhadores mal pagos em
países do terceiro mundo, o fim da privacidade, o terrorismo ele-
mas problemas não se resolvem,
trônico, inclusive de Estado.
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear Marion Strecker Adaptado de Folha de São Paulo, 29/07/2014.
o problema, sua senhora
1. (UERJ) O primeiro parágrafo expõe projeções passadas sobre
e outros pequenos probleminhas
possibilidades de um futuro regido pela internet.
LEMINSKI, Paulo. Distraídos venceremos.
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3ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1990. O recurso linguístico que permite identificar que se trata de pro-
O poema de Paulo Leminski estrutura-se em três momentos de jeção e não de fatos do passado é o uso da:

significação, que podem ser assim caracterizados: hipótese (1ª a) forma verbal
estrofe); decreto (2ª e 3ª estrofes); conclusão reflexiva (4ª estrofe). b) pontuação informal
5. (UFRJ) Nomeie o recurso formal que expressa a hipótese no c) adjetivação positiva
primeiro momento do texto. d) estrutura coordenativa

TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO


E.O. UERJ CANÇÃO DO VER

Exame de Qualificação Fomos rever o poste.


O mesmo poste de quando a gente brincava de pique
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO e de esconder.
Agora ele estava tão verdinho!
O FUTURO ERA LINDO

57
O corpo recoberto de limo e borboletas. 2
Isso era cinema. Agora mudou. É estarrecedor, mas os blablablás
Eu quis filmar o abandono do poste. venceram. Tomaram conta das salas de cinema. E, sem nenhuma
O seu estar parado. repressão, vão expulsando a todos que entram no cinema para
O seu não ter voz. assistir ao filme sem importunar ninguém.
O seu não ter sequer mãos para se pronunciar com
(...)
as mãos. Eliane Brum, In: Revista Época, 10/08/2009.
Penso que a natureza o adotara em árvore.
Porque eu bem cheguei de ouvir arrulos1 de passarinhos 3. (UERJ) Isso era cinema. (ref. 2)
que um dia teriam cantado entre as suas folhas.
O verbo assume, nesta frase, o sentido específico de indicar um
Tentei transcrever para flauta a ternura dos arrulos.
estado de coisas que durava.
Mas o mato era mudo.
Agora o poste se inclina para o chão − como alguém No entanto, ele assume o sentido específico de indicar uma mu-
que procurasse o chão para repouso. dança sem retorno na seguinte reescritura:
Tivemos saudades de nós. a) Isso foi o cinema.
Manoel de Barros. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010. b) Isso será o cinema.
c) Isso tem sido o cinema.
arrulos − canto ou gemido de rolas e pombas
1
d) Isso teria sido o cinema.
2. (UERJ) A memória expressa pelo enunciador do texto não per-
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
tence somente a ele.

FUNÇÃO
Na construção do poema, essa ideia é reforçada pelo emprego de:
a) tempo passado e presente 1. Me deixaram sozinho no meio do circo
b) linguagem visual e musical 2. Ou era apenas um pátio uma janela uma rua uma esquina
c) descrição objetiva e subjetiva 3. Pequenino mundo sem rumo
4. Até que descobri que todos os meus gestos
d) primeira pessoa do singular e do plural
5. Pendiam cada um das estrelas por longos fios invisíveis
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO 6. E havia súbitas e lindas aparições como aquela das longas
tranças
A INVASÃO DOS BLABLABLÁS 7. E todas imitavam tão bem a vida
8. Que por um momento se chegava a esquecer a sua cruel ino-
O planeta é dividido entre as pessoas que falam no cine- cência de bonecas
ma − e as que não falam. É uma divisão recente. Por dé- 9. E eu dizia depois coisas tão lindas
cadas, os falantes foram minoria. E uma minoria reprimida. 10. E tristes
Quando alguém abria a boca na sala escura, recebia logo 11. Que não sabia como tinham ido parar na minha boca
um shhhhhhhhhhhhh. E voltava ao estado silencioso de onde 12. E o mais triste não era que aquilo fosse apenas um jogo
nunca deveria ter saído. Todo pai ou mãe que honrava seu cambiante de reflexos
lugar de educador ensinava a seus filhos que o cinema era um 13. Porque afinal um belo pião dançante
lugar de reverência. Sentados na poltrona, as luzes se apaga- 14. Ou zunindo imóvel
vam, uma música solene saía das caixas de som, as cortinas 15. Vive uma vida mais intensa do que a mão ignorada que o
se abriam e um novo mundo começava. Sem sair do lugar, arremessou
vivíamos outras vidas, viajávamos por lugares desconhecidos, 16. E eu danço tu danças nós dançamos
chorávamos, ríamos, nos apaixonávamos. Sentados ao lado 17. Sempre dentro de um círculo implacável de luz
de desconhecidos, passávamos por todos os estados de alma 18. Sem saber quem nos olha atenta ou distraidamente do escuro...
de uma vida inteira sem trocar uma palavra. Comungávamos
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

em silêncio do mesmo encantamento. (...) (QUINTANA, Mário. Antologia poética.


Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1966.)
Percebi na sexta-feira que não ia ao cinema havia três meses.
Não por falta de tempo, porque trabalhar muito não é uma no- 4. (UERJ) Do início ao verso 12, o poema apresenta exclusiva-
vidade para mim. Mas porque fui expulsa do cinema. Devagar, mente formas verbais no tempo passado. No verso 15, porém, o

aos poucos, mas expulsa. Pertenço, desde sempre, às fileiras poeta introduz o tempo presente.

dos silenciosos. Anos atrás, nem imaginava que pudesse haver


outro comportamento além do silêncio absoluto no cinema. As- O valor estilístico desta modificação do tempo do verbo é:
sim como não imagino alguém cochichando em qualquer lugar a) retratar o movimento rotativo do pião
onde entramos com o compromisso de escutar. b) fazer uma reflexão de validade permanente
Não é uma questão de estilo, de gosto. Pertence ao campo do c) produzir um contraste irônico entre o circo e a vida
respeito, da ética. Cinema é a experiência da escuta de uma vida d) registrar um fato ocorrido no momento da narração
outra, que fala à nossa, mas nós não falamos uns com os outros.
5. (UERJ) “Os aliados não querem romper o NAMORO com
1
No cinema, só quem fala são os atores do filme. Nós calamos
FHC - querem é NAMORAR mais.”
para que eles possam falar. Nossa vida cala para que outra fale.
Revista Veja, 18/08/1999.

58
A comparação entre as palavras EM DESTAQUE acima demons- Entretido com o louva-deus, Doril não viu Diana chegar comendo
tra que o significado geral de “expressar ação” não é suficien- um marmelo, fruta azeda enjoada que só serve para ranger os
te para identificar o verbo como classe gramatical, já que o dentes. Ela parou perto do monte de lenha e ficou descascando
NAMORO consta do dicionário como “ato de namorar”. o marmelo com os dentes mas sem jogar a casca fora, não queria
perder nada. Quando ela já tinha comido um bom pedaço da
Para diferenciar o verbo do substantivo, por exemplo, seria neces-
parte de cima e nada de Doril ligar, ela cuspiu fora um pedaço de
sário considerar, além do sentido de ação, a seguinte característi-
miolo com semente e falou:
cas que só os verbos possuem:
– Está direitinho um macaco em galho de pau.
a) terminação em “r”
Doril olhou só com os olhos e revidou:
b) flexão de tempo, modo e pessoa
c) presença indispensável à frase – Macaco é quem fala. Está até comendo banana.
d) anteposição de um substantivo – Marmelo é banana, besta?
– Não é mas serve.

E.O. UERJ Ficaram calados, cada um pensando por seu lado. Diana cuspiu
mais um caroço.

Exame Discursivo – Sabe aquele livro de história que o Mirto ganhou?


– Que Mirto, seu. É Milllton. Mania!
1. (UERJ) VERSOS ESCRITOS N'ÁGUA – Mas sabe? Eu vou ganhar um igual. Tia Jura vai mindar.
Os poucos versos que aí vão, – Não é mindar. É me-dar. Mas não é vantagem.
Em lugar de outros é que os ponho. – Não é vantagem? É muita vantagem.
Tu que me lês, deixo ao teu sonho – Você já não leu o de Milton?
Imaginar como serão.
– Li mas quero ter. Pra guardar e ler de novo.
Neles porás tua tristeza – Vantagem é ganhar outro. Diferente.
Ou bem teu júbilo, e, talvez,
– Deferente eu não quero. Pode não ser bom.
Lhes acharás, tu que me lês,
Alguma sombra de beleza... – Como foi que você disse? Diz de novo?
Quem os ouviu não os amou. – Já disse uma vez, chega.
Meus pobres versos comovidos! – Você disse deferente.
Por isso fiquem esquecidos
– Foi não.
Onde o mau vento os atirou.
– Foi. Eu ouvi.
(BANDEIRA, Manuel. "Poesia completa e prosa".
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1993.) – Foi não.
– Foi.
a) No poema, as etapas do processo de composição
do texto são marcadas pelos tempos verbais – passa- – Foi não.
do, presente e futuro. – Fooooi.
Identifique essas etapas, relacionando-as aos tempos 2
CONTINUARIAM ATÉ UM SE CANSAR E TAPAR O OUVI-
verbais empregados. DO para ficar com a última palavra, se Diana não tivesse tido
b) O eu poético sugere que o ato de composição do a habilidade de se retirar logo que percebeu a 2dízima. Com o
texto há de envolver, também, a participação do leitor. pedacinho final do marmelo entre os dedos ela chegou-se mais
Aponte dois recursos de construção da linguagem perto do irmão e disse:
que expressem essa sugestão do eu poético.
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

– Gi! Matando louva-deus! Olhe o castigo!


– Eu estou matando, estou?
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
– Está 3judiando. Ele morre.
DIÁLOGO DA RELATIVA GRANDEZA – Eu estou judiando?
Sentado no monte de lenha, as pernas abertas, os cotovelos nos – Amolar um bicho tão pequenininho é o mesmo que judiar.
joelhos, Doril examinava um louva-deus pousado nas costas da Doril não disse mais nada, 3QUALQUER COISA QUE ELE DIS-
mão. Ele queria que o bichinho voasse, ou pulasse, mas o bichi- SESSE ela aproveitaria para outra acusação.
nho estava muito à vontade, vai ver que dormindo – ou pensan-
Era difícil tapar a boca de Diana, ô menina 4renitente. 5Ele pre-
do? Doril tocava-o com a unha do dedo menor e ele nem nada, feriu continuar olhando o louva-deus. Soprou-o de leve, ele
não dava confiança, parece que nem sentia; se Doril não visse encolheu-se e vergou o corpo para o lado do sopro, como faz
o leve pulsar de 1fole do pescoço – e só olhando bem é que se uma pessoa na ventania. O louva-deus estava no meio de uma
via – 1ERA CAPAZ DE DIZER QUE O POBREZINHO ESTAVA tempestade de vento, dessas que derrubam árvores e arrancam
morto, ou então que era um grilo de brinquedo, desses que as telhados e podem até levantar uma pessoa do chão. Doril era a
moças pregam no vestido para enfeitar. força que mandava a tempestade e que podia pará-la quando

59
quisesse. Então ele era Deus? 4SERÁ QUE AS NOSSAS TEM- maram-se ambos do leito da enferma que, achegando ao corpo
PESTADES TAMBÉM SÃO BRINCADEIRA? Será que quem e puxando para debaixo do queixo uma coberta de algodão de
manda elas olha para nós como Doril estava olhando para o Minas, se encolheu toda, e voltou-se para os que entravam.
louva-deus? Será que somos pequenos para ele como um gafa- — Está aqui o doutor, disse-lhe Pereira, que vem curar-te de vez.
nhoto é pequeno para nós, ou menores ainda? De que tamanho,
— Boas noites, dona, saudou Cirino.
comparando – do de formiga? De piolho de galinha? Qual será
o nosso tamanho mesmo, verdadeiro? Tímida voz murmurou uma resposta, ao passo que o jovem, no
José J. Veiga. A máquina extraviada. seu papel de médico, se sentava num escabelo junto à cama e
Rio de Janeiro: Editora Prelo, 1968. tomava o pulso à doente.
fole − papo
1
Caía então luz de chapa sobre ela, iluminando-lhe o rosto, parte
dízima − refere-se à dízima periódica, algo sem fim
2
do colo e da cabeça, coberta por um lenço vermelho atado por
judiar − maltratar
3
trás da nuca.
renitente − teimosa
4
Apesar de bastante descorada e um tanto magra, era Inocência
2. (UERJ) de beleza deslumbrante.
Do seu rosto, irradiava singela expressão de encantadora inge-
1. era capaz de dizer que o pobrezinho estava morto,
nuidade, realçada pela meiguice do olhar sereno que, a custo,
2. Continuariam até um se cansar e tapar o ouvido para ficar com
parecia coar por entre os cílios sedosos a franjar-lhe as pálpebras,
a última palavra,
e compridos a ponto de projetarem sombras nas mimosas faces.
3. qualquer coisa que ele dissesse
4. Será que as nossas tempestades também são brincadeira? Era o nariz fino, um bocadinho arqueado; a boca pequena, e o
queixo admiravelmente torneado.
Nestas quatro passagens, retratam-se situações hipotéticas, ape-
nas imaginadas pelo narrador ou pelos personagens. Caracterize
Ao erguer a cabeça para tirar o braço de sob o lençol, descera um
a forma linguística usada em cada uma para exprimir suposição
nada a camisinha de crivo que vestia, deixando nu um colo de fas-
em lugar de certeza. cinadora alvura, em que ressaltava um ou outro sinal de nascença.
Razões de sobra tinha, pois, o pretenso facultativo para sentir a
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO mão fria e um tanto incerta, e não poder atinar com o pulso de
INOCÊNCIA tão gentil cliente.
VISCONDE DE TAUNAY. Inocência. São Paulo: Ática, 2011.
Depois das explicações dadas ao seu hóspede, sentiu-se o minei-
ro mais despreocupado. graúna – pássaro de plumagem negra, canto melodioso e hábitos emi-
— Então, disse ele, se quiser, vamos já ver a nossa doentinha. nentemente sociais
livro de horas – livro de preces
— Com muito gosto, concordou Cirino.
secundou – respondeu
E, saindo da sala, acompanhou Pereira, que o fez passar por duas lavrados – na província de Mato Grosso, colares de contas de ouro e
cercas e rodear a casa toda, antes de tomar a porta do fundo, adornos de ouro e prata
fronteira a magnífico laranjal, naquela ocasião todo pontuado lobrigar – enxergar
das brancas e olorosas flores. escabelo – assento
1
— Neste lugar, disse o mineiro apontando para o pomar, todos facultativo – médico
os dias se juntam tamanhos bandos de graúnas, que é um baru-
lho dos meus pecados. Nocência gosta muito disso e vem sempre 3. (UERJ)
coser debaixo do arvoredo. É uma menina esquisita... um belo dia ela me pediu que lheENSINASSE a ler?... (ref. 3)
Parando no limiar da porta, continuou com expansão: E se o Sr. VISSE os modos que tem com os bichinhos?! ... (ref. 4)
2
— Nem o Sr. imagina... Às vezes, aquela criança tem lembranças
e perguntas que me fazem embatucar... Aqui, havia um livro de As formas verbais sublinhadas estão empregadas nos mesmos
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

horas da minha defunta avó... Pois não é que 3um belo dia ela me tempo e modo gramaticais, mas diferem pelo efeito de sentido
pediu que lhe ENSINASSE a ler? ... Que ideia! Ainda há pouco que produzem.
tempo me disse que quisera ter nascido princesa... Eu lhe retru- Identifique o tempo e modo gramaticais comuns a essas for-
quei: E sabe você o que é ser princesa? Sei, me secundou ela mas e aponte aquela em que não há expressão de tempo, e
com toda a clareza, é uma moça muito boa, muito bonita, que sim de uma hipótese.
tem uma coroa de diamantes na cabeça, muitos lavrados no
pescoço e que manda nos homens... Fiquei meio tonto. 4E se o TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
Sr. VISSE os modos que tem com os bichinhos?! ... Parece que
Tempo: cada vez mais acelerado
está falando com eles e que os entende... (...) Quando Cirino
penetrou no quarto da filha do mineiro, era quase noite, de ma- Pressa. Ansiedade. E a sensação de que nunca é possível fazer
neira que, no primeiro olhar que atirou ao redor de si, só pôde tudo — além da certeza de que sua vida está passando rá-
lobrigar, além de diversos trastes de formas antiquadas, uma pido demais. Essas são as principais consequências de viver-
dessas camas, muito em uso no interior; altas e largas, feitas de mos num mundo em que para tudo vale a regra do “quanto
tiras de couro engradadas. (...) mais rápido, melhor”. “Para nós, ocidentais, o tempo é linear
Mandara Pereira acender uma vela de sebo. Vinda a luz, aproxi- e nunca volta. Por isso queremos ter a sensação de que es-
tamos tirando o máximo dele. E a única solução que encon-

60
tramos é acelerá-lo”, afirma Carl Honoré. “É um equívoco. A ao povoado.
resposta a esse dilema é qualidade, não quantidade.” (...)
Para James Gleick, Carl está lutando uma batalha invencível. “A Durante todo o percurso, desde as vias secundárias à avenida
aceleração é uma escolha que fizemos. Somos como crianças principal, os moradores do lugar observaram Cariba com des-
descendo uma ladeira de skate. Gostamos da brincadeira, quere- confiança. Talvez estranhassem as 3valises de couro de camelo
mos mais velocidade”, diz. O problema é que nem tudo ao nosso que carregava ou o seu paletó xadrez, as calças de veludo azul.
redor consegue atender à demanda. Os carros podem estar mais Mesmo sendo o seu traje usual nas constantes viagens que fa-
rápidos, mas as viagens demoram cada vez mais por culpa dos zia, achou prudente desfazer qualquer mal-entendido provocado
congestionamentos. Semáforos vermelhos continuam testando pela sua presença entre eles:
nossa paciência, obrigando-nos a frear a cada quarteirão. 1Mais
– Que cidade é esta? – perguntou, esforçando-se para dar às
sorte têm os pedestres, que podem apertar o botão que aciona o
palavras o máximo de cordialidade.
sinal verde — uma ótima opção para despejar a ansiedade, mas
com efeito muitas vezes nulo. Em Nova York, esses sistemas es- Nem chegou a indagar pelas mulheres, conforme pretendia.
tão desligados desde a década de 1980. Mesmo assim, milhares Pegaram-no com violência pelos braços e o foram levando, aos
de pessoas o utilizam diariamente. trancos, para a delegacia de polícia:
É um exemplo do que especialistas chamam de “botões de ace- – É o homem procurado – disseram ao delegado, um sargento
leração”. Na teoria, deixam as coisas mais rápidas. Na prática,
4
espadaúdo e rude.
servem para ser apertados e só. Confesse: que raios fazemos com (...)
os dois segundos, no máximo, que economizamos ao acionar O sargento chegara a uma conclusão, entretanto divagava:
aquelas teclas que fecham a porta do elevador? E quem disse
– O telegrama da Chefia de Polícia não esclarece nada sobre
que apertá-las, duas, quatro, dez vezes, vai melhorar a eficiência?
a nacionalidade do delinquente, sua aparência, idade e quais
Elevadores, aliás, são ícones da pressa em tempos velozes. Os os crimes que cometeu. Diz tratar-se de elemento altamente
primeiros modelos se moviam a vinte centímetros por segundo. perigoso, identificável pelo mau hábito de fazer perguntas e
Hoje, o mais veloz sobe doze metros por segundo. E, mesmo que estaria hoje neste lugar.
acelerando, estão entre os maiores focos de impaciência. Enge- (...)
nheiros são obrigados a desenvolver sistemas para conter nossa
irritação, como luzes ou alarmes cuja única função é aplacar a
5
Cinco meses após a sua detenção, ele não mais espera sair da
ansiedade da espera. Até onde isso vai? cadeia. Das suas grades, observa os homens que passam na rua.
Mal o encaram, amedrontados, apressam o passo.
SÉRGIO GWERCMAN. Revista Superinteressante. São Paulo: Abril.
Pressente, às vezes, que irão perguntar qualquer coisa aos compa-
4. (UERJ) O autor do texto aborda uma situação que diz respeito nheiros e fica à espreita, ansioso que isso aconteça. Logo se desen-
a toda a sociedade, envolvendo tanto ele como o leitor. gana. Abrem a boca, arrependem-se, e se afastam rapidamente.
Nomeie a marca linguística empregada para indicar a inclusão do Caminha, dentro da noite, de um lado para outro. E, ao avistar
autor e dos seus leitores na situação. Em seguida, transcreva um o guarda, cumprindo sua ronda noturna, a examinar se as celas
trecho que exemplifique sua resposta. estão em ordem, corre para as grades internas, impelido por uma
débil esperança:
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO – Alguém fez hoje alguma pergunta?
A CIDADE – 6Não. Ainda é você a única pessoa que faz perguntas nesta
cidade.
Destinava-se a uma cidade maior, mas o trem permaneceu inde-
finidamente na antepenúltima estação. MURILO RUBIÃO. Obra completa.
São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
Cariba acreditou que a demora poderia ser atribuída a algum
1
comboio – trem
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

1
comboio de carga descarrilado na linha, acidente comum na-
3
valise – mala de mão
quele trecho da ferrovia. Como se fizesse excessivo o atraso e 4
espadaúdo – de ombros largos
ninguém o procurasse para lhe explicar o que estava ocorrendo,
pensou numa provável desconsideração à sua pessoa, em virtu- 5. (UERJ) Cinco meses após a sua detenção, ele não mais ESPE-
de de ser o único passageiro do trem. RA sair da cadeia. Das suas grades, OBSERVA os homens que
Chamou o funcionário que examinara as passagens e quis saber PASSAM na rua. Mal o ENCARAM, amedrontados, APRES-
se constituía motivo para tanta negligência o fato de ir vazia a SAM o passo. (ref. 5)
composição.
A partir do parágrafo acima, a narração passa a ser feita no tempo
Não recebeu uma resposta direta do empregado da estrada, que e modo verbal das formas destacadas.
se limitou a apontar o morro, onde se dispunham, sem simetria,
dezenas de casinhas brancas. Identifique esse tempo e modo verbal e explique o efeito que seu em-
prego produz, considerando a situação em que Cariba se encontra.
– Belas mulheres? – indagou o viajante.
– Casas vazias.
Percebeu logo que tinha pela frente um cretino. 2Apanhou as
malas e se dispôs a subir as íngremes ladeiras que o conduziriam

61
E.O. Objetivas 1. (Unesp) Na fala do papagaio, na referência 1, uma das formas
verbais não apresenta, como deveria, flexão correspondente à
mesma pessoa gramatical das demais. Trata-se de
(Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp) a) continuas.
b) dize.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
c) canta.
Para responder à(s) questão(ões), leia o poema de Catulo da Pai- d) recebes.
xão Cearense (1863-1946). e) estás.

O AZULÃO E OS TICO-TICOS TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO

Do começo ao fim do dia, A(s) questão(ões) a seguir focaliza(m) uma passagem do romance
um belo Azulão cantava, Água-Mãe, de José Lins do Rego (1901-1957).
e o pomar que atento ouvia
o seus trilos de harmonia, ÁGUA-MÃE
cada vez mais se enflorava. Jogava com toda a alma, não podia compreender como um
Se um tico-tico e outras aves jogador se encostava, não se entusiasmava com a bola nos
vaiavam sua canção... pés. Atirava-se, não temia a violência e com a sua agilidade
mais doce ainda se ouvia espantosa, fugia das entradas, dos pontapés. Quando aquele
a flauta desse Azulão. back, num jogo de subúrbio, atirou-se contra ele, recuou para
derrubá-lo, e com tamanha sorte que o bruto se estendeu no
Um papagaio, surpreso
chão, como um fardo. E foi assim crescendo a sua fama. Aos
de ver o grande desprezo,
poucos se foi adaptando ao novo Joca que se formara nos
do Azulão, que os desprezava,
campos do Rio. Dormia no clube, mas a sua vida era cada
um dia em que ele cantava
vez mais agitada. Onde quer que estivesse, era reconhecido
e um bando de tico-ticos e aplaudido. Os garçons não queriam cobrar as despesas que
numa algazarra o vaiava, ele fazia e até mesmo nos ônibus, quando ia descer, o moto-
lhe perguntou: 1“Azulão, rista lhe dizia sempre:
olha, dize-me a razão
por que, quando estás cantando — Joca, você aqui não paga.
e recebes uma vaia Quando entrava no cinema era reconhecido. Vinham logo me-
desses garotos joviais, ninos para perto dele. Sabia que agradava muito. No clube ti-
tu continuas gorgeando nha amigos. Havia porém o antigo center-forward que se sentiu
e cada vez canta mais?!” roubado com a sua chegada. Não tinha razão. Ele fora chama-
Numas volatas sonoras, do. Não se oferecera. E o homem se enfureceu com Joca. Era
o Azulão lhe respondeu: um jogador de fama, que fora grande nos campos da Europa
“Caro Amigo! Eu prezo muito e por isso pouco ligava aos que não tinham o seu cartaz. A
esta garganta sublime entrada de Joca, o sucesso rápido, a maravilha de agilidade e
e esta voz maravilhosa... de oportunismo, que caracterizava o jogo do novato, irritava-o
este dom que Deus me deu! até ao ódio. No dia em que tivera que ceder a posição, a um
menino do Cabo Frio, fora para ele como se tivesse perdido as
Quando, há pouco, eu descantava, duas pernas. Viram-no chorando, e por isso concentrou em Joca
pensando não ser ouvido toda a sua raiva. No entanto, Joca sempre o procurava. Tinha
nestes matos por ninguém,
sido a sua admiração, o seu herói.
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

2
um Sabiá*, que me escutava,
num capoeirão, escondido, 1 Beque, ou seja, o zagueiro de hoje.
gritou de lá: — meu colega, 2 Centroavante.
bravos! Bravos... muito bem! ALENCAR, José de. Água mãe. 1974.
Pergunto agora a você:
2. (Unesp) No primeiro parágrafo, predominam verbos emprega-
quem foi um dia aplaudido
dos no
pelo príncipe dos cantos
de celestes harmonias, a) pretérito perfeito do modo indicativo.
(irmão de Gonçalves Dias, b) pretérito imperfeito do modo indicativo.
um dos cantores mais ricos...) c) presente do modo indicativo.
— que caso pode fazer d) presente do modo subjuntivo.
das vaias dos tico-ticos?”
e) pretérito mais-que-perfeito do modo indicativo.
* Nota do editor: Simbolicamente, Rui Barbosa está representado
neste Sabiá, pois foi a “Águia de
Haia” um dos maiores admiradores
de Catulo e prefaciador do seu livro Poemas bravios.
Poemas escolhidos, s/d.

62
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO Ora, daquela vez, como das outras, Fabiano ajustou o gado,
arrependeu-se, enfim deixou a transação meio apalavrada e
RECEITA DE MULHER foi consultar a mulher. Sinhá Vitória mandou os meninos para
o barreiro, sentou-se na cozinha, concentrou-se, distribuiu no
As muito feias que me perdoem chão sementes de várias espécies, realizou somas e diminui-
Mas beleza é fundamental. É preciso ções. No dia seguinte Fabiano voltou à cidade, mas ao fechar
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso o negócio notou que as operações de Sinha Vitória, como de
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de costume, diferiam das do patrão. Reclamou e obteve a explica-
[haute couture* ção habitual: a diferença era proveniente de juros.
Em tudo isso (ou então
Não se conformou: devia haver engano. Ele era bruto, sim senhor,
Que a mulher se socialize elegantemente em azul,
via-se perfeitamente que era bruto, mas a mulher tinha miolo. Com
[como na República Popular Chinesa).
certeza havia um erro no papel do branco. Não se descobriu o erro,
Não há meio-termo possível. É preciso
e Fabiano perdeu os estribos. Passar a vida inteira assim no toco,
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
entregando o que era dele de mão beijada! Estava direito aquilo?
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas
[pousada e que um rosto Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria!
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no O patrão zangou-se, repeliu a insolência, achou bom que, o vaquei-
[terceiro minuto da aurora. ro fosse procurar serviço noutra fazenda.
Vinicius de Moraes. Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou. Bem, bem.
*“haute couture”: alta costura. Não era preciso barulho não. Se havia dito palavra à toa, pedia
desculpa. Era bruto, não fora ensinado. Atrevimento não tinha,
3. (Fuvest) Tendo em vista o contexto, o modo verbal predomi- conhecia o seu lugar. Um cabra. Ia lá puxar questão com gente
nante no excerto e a razão desse uso são:
rica? Bruto, sim senhor, mas sabia respeitar os homens. Devia
ser ignorância da mulher, provavelmente devia ser ignorância da
a) indicativo; expressar verdades universais. mulher. Até estranhara as contas dela. Enfim, como não sabia
b) imperativo; traduzir ordens ou exortações. ler (um bruto, sim senhor), acreditara na sua velha. Mas pedia
c) subjuntivo; indicar vontade ou desejo. desculpa e jurava não cair noutra.
d) indicativo; relacionar ações habituais. (Graciliano Ramos. Vidas secas. São Paulo:
e) subjuntivo; sugerir condições hipotéticas. Livraria Martins Editora, 1974.)

TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO 4. (Unesp) No fragmento apresentado, de Vidas secas, as for-
mas verbais mais frequentes se enquadram em dois tempos do
As questões a seguir tomam por base uma passagem do romance modo indicativo.
regionalista Vidas Secas, de Graciliano Ramos (1892-1953). Marque a alternativa que indica, pela ordem, o tempo verbal
predominante no segundo parágrafo e o que predomina no
CONTAS quinto parágrafo.

Fabiano recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a terça a) pretérito perfeito – pretérito imperfeito.
dos cabritos. Mas como não tinha roça e apenas se limitava a b) presente – pretérito imperfeito.
semear na vazante uns punhados de feijão e milho, comia da c) presente – pretérito perfeito.
feira, desfazia-se dos animais, não chegava a ferrar um bezerro
d) futuro do pretérito – presente.
ou assinar a orelha de um cabrito.
e) pretérito imperfeito – pretérito perfeito.
Se pudesse economizar durante alguns meses, levantaria a cabeça.
Forjara planos. Tolice, quem é do chão não se trepa. Consumidos TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

os legumes, roídas as espigas de milho, recorria à gaveta do amo,


cedia por preço baixo o produto das sortes. [Sem-Pernas] queria alegria, uma mão que o acarinhasse, al-
Resmungava, rezingava, numa aflição, tentando espichar os guém que com muito amor o fizesse esquecer o defeito físico
recursos minguados, engasgava-se, engolia em seco. Tran- e os muitos anos (talvez tivessem sido apenas meses ou se-
sigindo com outro, não seria roubado tão descaradamente. manas, mas para ele seriam sempre longos anos) que vivera
Mas receava ser expulso da fazenda. E rendia-se. Aceitava sozinho nas ruas da cidade, hostilizado pelos homens que
o cobre e ouvia conselhos. Era bom pensar no futuro, criar passavam, empurrado pelos guardas, surrado pelos moleques
juízo. Ficava de boca aberta, vermelho, o pescoço inchando. maiores. Nunca tivera família. Vivera na casa de um padeiro a
De repende estourava: quem chamava “meu padrinho” e que o surrava. Fugiu logo
que pôde compreender que a fuga o libertaria. Sofreu fome, um
– Conversa. Dinheiro anda num cavalo e ninguém pode viver
dia levaram-no preso. Ele quer um carinho, u’a mão que passe
sem comer. Quem é do chão não se trepa.
sobre os seus olhos e faça com que ele possa se esquecer da-
Pouco a pouco o ferro do proprietário queimava os bichos de quela noite na cadeia, quando os soldados bêbados o fizeram
Fabiano. E quando não tinha mais nada para vender, o sertanejo correr com sua perna coxa em volta de uma saleta. Em cada
endividava-se. Ao chegar a partilha, estava encalacrado, e na hora canto estava um com uma borracha comprida. As marcas que
das contas davam-lhe uma ninharia. ficaram nas suas costas desapareceram. Mas de dentro dele

63
nunca desapareceu a dor daquela hora. Corria na saleta como 1. (Fuvest) Com base na parte escrita do anúncio, responda.
um animal perseguido por outros mais fortes. A perna coxa se a) Qual é a relação temporal que se estabelece entre
recusava a ajudá-lo. E a borracha zunia nas suas costas quando os verbos “conhecer”, “oferecer”, “proporcionar” e
o cansaço o fazia parar. “alcançar”? Explique.
A princípio chorou muito, depois, não sabe como, as lágrimas se- b) Complete a frase abaixo, flexionando de forma adequa-
caram. Certa hora não resistiu mais, abateu-se no chão. Sangrava. da os verbos “oferecer”, “proporcionar” e “alcançar”.
Conhecer profundamente os negócios de nossos clien-
Ainda hoje ouve como os soldados riam e como riu aquele ho-
tes é só o primeiro passo que permite que __________
mem de colete cinzento que fumava um charuto.
sempre respostas mais rápidas, __________ decisões
Jorge Amado. Capitães da areia. mais assertivas e __________ melhores resultados.
5. (Unifesp) O zigue-zague temporal ligado à vida de Sem-Per- TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
nas, empregado no fragmento para a composição da persona-
gem, é construído de maneira muito precisa, por meio da utiliza- Leia o poema de Manuel Bandeira (1886-1968) para responder
ção alternada de diversos tempos verbais. Indique a alternativa à(s) questão(ões) a seguir.
em que há, respectivamente, um tempo verbal que expressa fatos
ocorridos num tempo anterior a outros fatos do passado e um
POEMA SÓ PARA JAIME OVALLE1
tempo verbal usado para marcar o caráter hipotético de certas Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
ações ou o desejo de que se realizassem. (Embora a manhã já estivesse avançada).
a) VIVERA na casa de um padeiro (...) – uma mão Chovia.
que o ACARINHASSE (...) Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
b) Em cada canto ESTAVA um com uma borracha
Então me levantei,
comprida. – SOFREU fome.
Bebi o café que eu mesmo preparei,
c) Nunca TIVERA família. – A perna coxa se RECUSA- Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
VA a ajudá-lo. – Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.
d) A princípio CHOROU muito (...) – Mas de dentro dele
BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira, 1993.
nunca DESAPARECEU a dor daquela hora.
e) Ele quer um carinho (...) – Um dia LEVARAM-NO
1
Jaime Ovalle (1894-1955): compositor e instrumentista. Aproxi-
preso. mou-se do meio intelectual carioca e se tornou amigo íntimo de
Villa-Lobos, Di Cavalcanti, Sérgio Buarque de Hollanda e Manuel
Bandeira. Sua música mais famosa é “Azulão”, em parceria com
E.O. Dissertativas o poeta Manuel Bandeira. (Dicionário Cravo Albin da música po-
pular brasileira)
(Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp) 2. (Unesp) No poema,
Bandeira explora uma espécie de con-
traste entre os tempos verbais“pretérito perfeito” e “pretérito
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO imperfeito”. Dos pontos de vista sintático e semântico, que pa-

Examine este anúncio de uma instituição financeira, cujo nome foi drão pode ser percebido no emprego desses dois tempos verbais?

substituído por X, para responder às questões a seguir.


3. (Unicamp) Encontra-se, a seguir, a transcrição de parte de
uma transmissão de jogo de futebol, trecho de uma canção e
uma manchete de notícia.

Texto I
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

Na marca de 36 minutos do primeiro tempo do jogo, pode abrir


o marcador o time da Itapirense. A Esportiva precisa da vitória.
Tomando posição o camisa 9 Juary. É a batida de penalidade
máxima. Faz festa a torcida. Fica no centro do gol o goleiro
Cléber. Partiu Juary com a bola para a esquerda, tocou, é gol.
Gol da Esportiva! E o Mogi Mirim tem posse de bola agora,
escanteio pela direita. 39 minutos, Juan na cobrança do es-
canteio para o Mogi Mirim, chutou, cruzou, cabeceia Anderson
Conceição e é gol.
Foi aos 39 minutos do primeiro tempo, Juan pra cobrança do lado
direito, subiu, desviou de cabeça o zagueiro Anderson Conceição,
bola pro fundo da rede do goleiro Brás da Itapirense. Cutucou
pro fundo da rede Anderson Conceição, camisa 4.
Transcrição adaptada de trecho da transmissão da partida entre
Mogi Mirim Esporte Clube e Itapirense em 04/10/2008.

64
Texto II opunham, como ao norte, renteando o passo às bandeiras, a es-
terilidade da terra, a barreira intangível dos descampados brutos.
Cotidiano (Chico Buarque)
Assim é fácil mostrar como esta distinção de ordem física esclarece
Todo dia ela faz as anomalias e contrastes entre os sucessos nos dous pontos do
Tudo sempre igual país, sobretudo no período agudo da crise colonial, no século XVII.
Me sacode
Enquanto o domínio holandês, centralizando-se em Pernambuco,
Às seis horas da manhã
reagia por toda a costa oriental, da Bahia ao Maranhão, e se tra-
Me sorri um sorriso pontual
vavam recontros memoráveis em que, solidárias, enterreiravam o
E me beija com a boca
De hortelã (...) inimigo comum as nossas três raças formadoras, o sulista, absolu-
tamente alheio àquela agitação, revelava, na rebeldia aos decretos
Texto III da metrópole, completo divórcio com aqueles lutadores. Era quase
Presidente visita amanhã a Estação Antártica um inimigo tão perigoso quanto o batavo. Um povo estranho de
mestiços levantadiços, expandindo outras tendências, norteado por
Imprensa Nacional, em [Link], 15/02/2008.
outros destinos, pisando, resoluto, em demanda de outros rumos,
a) Nos três textos ocorrem verbos no tempo presente. En- bulas e alvarás entibiadores. Volvia-se em luta aberta com a corte
tretanto, seu uso descreve as ações de formas diferentes. portuguesa, numa reação tenaz contra os jesuítas. Estes, olvidando
Compare o uso do presente nos textos 1 e 2, e mostre a o holandês e dirigindo-se, com Ruiz de Montoya a Madri e Díaz
diferença. Faça o mesmo com os textos 2 e 3. Explique. Taño a Roma, apontavam-no como inimigo mais sério.
b) O encadeamento narrativo do texto 1 é construído De feito, enquanto em Pernambuco as tropas de van Schkoppe
pela alternância entre verbos no presente e no pas- preparavam o governo de Nassau, em São Paulo se arquitetava o
sado. Justifique a presença exclusiva do passado no drama sombrio de Guaíra. E quando a restauração em Portugal veio
último parágrafo, considerando que se trata de uma alentar em toda a linha a repulsa ao invasor, congregando de novo
transmissão de jogo de futebol. os combatentes exaustos, os sulistas frisaram ainda mais esta sepa-
ração de destinos, aproveitando-se do mesmo fato para estadearem
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
a autonomia franca, no reinado de um minuto de Amador Bueno.
OS SERTÕES Não temos contraste maior na nossa história. Está nele a sua fei-
A Serra do Mar tem um notável perfil em nossa história. A pru- ção verdadeiramente nacional. Fora disto mal a vislumbramos nas
mo sobre o Atlântico desdobra-se como a cortina de baluarte cortes espetaculosas dos governadores, na Bahia, onde imperava
desmedido. De encontro às suas escarpas embatia, fragílima, a a Companhia de Jesus com o privilégio da conquista das almas,
ânsia guerreira dos Cavendish e dos Fenton. No alto, volvendo o eufemismo casuístico disfarçando o monopólio do braço indígena.
olhar em cheio para os chapadões, o forasteiro sentia-se em se- (EUCLIDES DA CUNHA. Os sertões. Edição crítica de Walnice
gurança. Estava sobre ameias intransponíveis que o punham do Nogueira Galvão. 2 ed. São Paulo: Editora Ática, 2001, p. 81-82.)
mesmo passo a cavaleiro do invasor e da metrópole. Transposta
a montanha – arqueada como a precinta de pedra de um conti- 4. (Unesp) O escritor se serve, no fragmento apresentado, da alter-
nância de dois tempos verbais, conforme queira diferençar aspectos
nente – era um isolador étnico e um isolador histórico. Anulava o
propriamente físicos, descritivos, de aspectos de ordem narrativa ou
apego irreprimível ao litoral, que se exercia ao norte; reduzia-o a
histórica. Releia o primeiro parágrafo do fragmento e identifique
estreita faixa de mangues e restingas, ante a qual se amorteciam
os dois tempos verbais que o escritor utiliza com essa finalidade.
todas as cobiças, e alteava, sobranceira às frotas, intangível no
recesso das matas, a atração misteriosa das minas... TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
Ainda mais – o seu relevo especial torna-a um condensador de
primeira ordem, no precipitar a evaporação oceânica. A(s) questão(ões) tomam por base um trecho da conferência
Os rios que se derivam pelas suas vertentes nascem de algum “Sobre algumas lendas do Brasil”, de Olavo Bilac (1865-1918),
modo no mar. Rolam as águas num sentido oposto à costa. En- e um soneto do mesmo autor, utilizado por ele para ilustrar
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

tranham-se no interior, correndo em cheio para os sertões. Dão seus argumentos.


ao forasteiro a sugestão irresistível das entradas. Sendo cada homem todo o universo, tem dentro de si todos
A terra atrai o homem; chama-o para o seio fecundo; encanta-o os deuses, todas as potestades superiores e inferiores que diri-
pelo aspecto formosíssimo; arrebata-o, afinal, irresistivelmente, gem o universo. (Tudo, se existe objetivamente, é porque existe
na correnteza dos rios. subjetivamente; tudo existe em nós, porque tudo é criado e
Daí o traçado eloquentíssimo do Tietê, diretriz preponderante alimentado por nós). E esta consideração nos leva ao assunto e
nesse domínio do solo. Enquanto no S. Francisco, no Parnaíba, à explanação do meu tema. Existem em nós todas as entidades
no Amazonas, e em todos os cursos d’água da borda oriental, o fantásticas, que, segundo a crença popular, enchem a nossa
acesso para o interior seguia ao arrepio das correntes, ou emba- terra: são sentimentos humanos, que, saindo de cada um de
tia nas cachoeiras que tombam dos socalcos dos planaltos, ele nós, personalizam-se, e começam a viver na vida exterior, como
levava os sertanistas, sem uma remada, para o rio Grande e daí mitos da comunhão.
ao Paraná e ao Paranaíba. Era a penetração em Minas, em Goi- Tupã, demiurgo criador, e o seu Anhangá, demiurgo destruidor.
ás, em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul, no Mato Grosso, É o eterno dualismo, governando todas as fases religiosas, toda
no Brasil inteiro. Segundo estas linhas de menor resistência, que a história mitológica da humanidade. Já entre os persas e os
definem os lineamentos mais claros da expansão colonial, não se iranianos, na religião de Zoroastro, havia um deus de bondade,

65
Ormuz, e um deus de maldade, Ahriman. A religião de Manés,
na Babilônia, não criou a ideia do dualismo; acentuou-a, pre-
E.O. Dissertativo
cisou-a; a base da religião dos maniqueus era a oposição e o 1. Há vários tipos de exemplos de interlocução no poema. Um
contraste da luz e da treva: o mundo visível, segundo eles, era o deles é o uso de vocativos para fazer um chamado ao interlocu-
resultado da mistura desses dois elementos eternamente inimi- tor, como “meu amor” no verso “amo-te tanto, meu amor...”.
gos. Mas em todos os grandes povos, e em todas as pequenas Outro é o uso de pronomes na segunda pessoa do singular “tu”,
tribos, sempre houve, em todos os tempos, a concepção desse tais como “te” no trecho “Amo-te tanto”, ou como “teu” no
conflito: e esse conflito perdura no catolicismo, fixado na con- trecho “teu corpo”. Há ainda o uso de verbo no imperativo da
cepção de Deus e do Diabo. Os nossos índios sempre tiveram segunda pessoa do singular, como em “não cante”.
seu Tupã e o seu Anhangá... Ora, o selvagem das margens do
Amazonas, do São Francisco e do Paraná compreende os dois 2.
demiurgos, porque os sente dentro de si mesmo. E nós, os ci- a) Segundo Amanda Montañés, a palavra “moderno”
vilizados do litoral, compreendemos e contemos em nós esses possui os significados apresentados, pois se relaciona a
dois princípios antagônicos, Deus e o Diabo. Cada um de vós grupos de artistas e intelectuais que, exilados, ampliam
tem uma arena íntima em que a todo o instante combatem um a reflexão sobre aspectos históricos e sociais. Conse-
gênio do bem e um gênio do mal: quentemente, são expostos sentimentos e opiniões
norteados pelo conceito de não pertencimento, o que
Não és bom, nem és mau: és triste e humano... ganha força no contexto de intercâmbio cultural vivido.
Vives ansiando em maldições e preces, b) Em [I], o verbo está conjugado no Presente do Indi-
Como se, a arder, no coração tivesses cativo e seu emprego relaciona-se a afirmações atem-
O tumulto e o clamor de um largo oceano. porais. Em [II], o verbo está conjugado no Pretérito
Perfeito Composto do Indicativo, indicando que a ação
Pobre, no bem como no mal, padeces; tem efeito regular e durativo, estendendo-se do passa-
E, rolando num vórtice vesano*, do ao presente. Finalmente, em [III], o verbo está con-
Oscilas entre a crença e o desengano, jugado no Futuro do Pretérito do Indicativo, indicando
Entre esperanças e desinteresses. uma ação possível, uma hipótese.
Capaz de horrores e de ações sublimes, 3.
Não ficas das virtudes satisfeito, a) A mãe representa proteção para o eu lírico, con-
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes: forme ele expressa em “Que me leve consigo, ador-
E, no perpétuo ideal que te devora, mecido, / Ao passar pelo sítio mais sombrio...”, assim
Residem juntamente no teu peito como alívio: “Me banhe e lave a alma lá no rio / Da
Um demônio que ruge e um deus que chora... clara luz do seu olhar querido...”.
* Vesano: louco, demente, delirante, insensato. Tal pedido decorre de um momento de dificuldades
vivido pelo eu lírico, uma vez que o primeiro verso do
(Últimas conferências e discursos, 1927.)
poema, “Mãe – que adormente este viver dorido.”
5. (Unesp) E nós, os civilizados do litoral, compreendemos e expõe tal situação de forma direta e pontual. Seu de-
CONTEMOS em nós esses dois princípios [...]. sejo, no entanto, seria outro viver, isento de preocu-
pações próprias à vida adulta, uma vez que gostaria
Qual a forma infinitiva do verbo destacado e em que tempo e de se tornar uma “débil criancinha” (…) “Descuida-
modo está flexionado? da, feliz, dócil também / Se eu pudesse dormir sobre o
teu seio, / Se tu fosses, querida, a minha mãe!”
b) “Eu me absteria do meu orgulho de homem –
Gabarito abster-me-ia de minha estéril ciência, sem receio, e
em débil criancinha me converteria”.
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

4.
E.O. Aprendizagem a) O projeto urbanístico de J. H. Crawford teria, entre
1. D 2. C 3. C 4. B 5. B outras, as seguintes vantagens: facilitaria o desloca-
mentodos cidadãos entre os bairros, reduziria os ní-
6. D 7. E 8. C 9. C 10. B veis de poluição e tornaria mais seguro o ambiente
urbano.

E.O. Fixação b) Uma das funções características do futuro do pre-


térito do indicativo é a expressão de suposições e si-
1. E 2. C 3. E 4. E 5. C tuações hipotéticas. É, portanto, natural e plenamente
justificável que tal tempo verbal prevaleça no Texto 1,
6. D 7. C 8. E 9. A
uma vez que se trata ali da apresentação de um pro-
jeto de cidade, de suposições sobre o que aconteceria

E.O. Complementar na hipótese de tal projeto ser efetivamente realizado.


5. O recurso formal que expressa a hipótese é o futuro do pre-
1. A 2. C 3. C 4. C 5. C
térito (“gostaria”).

66
E.O. UERJ E.O. Dissertativas
Exame de Qualificação (Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp)
1. A 2. D 3. A 4. B 5. B 1.
a) A sequência dos verbos “conhecer”, “oferecer”, “pro-
porcionar” e “alcançar” estabelecem uma relação tem-
E.O. UERJ poral de continuidade e progressão. Em primeiro lugar, é
Exame Discursivo necessário conhecer a atividade do cliente, para depois
oferecer propostas que venham a proporcionar resulta-
1. dos positivos e correspondam aos objetivos positivos do
a) Os verbos no passado (Ouviu/amou/atirou) mos- negócio.
tram a etapa que não desperta emoção; os verbos b) Os verbos mencionados devem ser conjugados no
no presente (Vão /é /lês/deixo) mostram a etapa do modo subjuntivo, na primeira pessoa do plural: Conhe-
oferecimento de novos versos; os verbos no futuro cer profundamente os negócios de nossos clientes é só
(Porás/acharás) mostram a etapa em que o leitor se o primeiro passo que permite que ofereçamos sempre
envolverá na própria construção do texto. respostas mais rápidas, proporcionemos decisões mais
b) Emprego da segunda pessoa gramatical. assertivas e alcancemos melhores resultados.
Emprego repetido de: "tu que me lês". 2. O emprego desses dois tempos verbais obedece a uma dis-
tinção entre o eu lírico e os aspectos externos. Assim, verbos no
2. A expressão era capaz exprime dúvida. Enquanto o verbo no
pretérito perfeito (como “acordei”, “levantei”, “bebi”, “deitei”,
futuro do pretérito mais a preposição: continuariam até... expri-
“acendi” e “amei”) se relacionam com o sujeito (“eu”); ao passo
mem uma suposição por parte do narrador. A expressão qualquer
que os verbos no pretérito imperfeito (por exemplo, “chovia” e
coisa mais verbo no presente do subjuntivo: que ele dissesse...
“fazia”) se conectam a fatores do mundo exterior.
exprimem uma situação de dúvida e de incerteza, juntamente
com o verbo será no exemplo logo abaixo: Será que as nossas 3.
tempestades também são brincadeira? a) No texto 1, o uso do tempo presente indica o momen-
Logo, pode-se concluir que os recursos utilizados pelo narra- to da fala e, no texto 2, ações habituais. No texto 3, é
dor para indicar hipóteses estão indicados, sobretudo pelos usado para indicar ação que se realizará no futuro.
tempos verbais. b) No último parágrafo, o uso do pretérito perfeito justifi-
ca-se porque, nesse momento, o locutor está repetindo a
3. Os termos verbais “ensinasse” e “visse” apresentam-se con-
narrativa, ou seja, retomando um fato ocorrido.
jugados no pretérito imperfeito do subjuntivo, mas apenas o úl-
timo expressa hipótese. 4. Referindo-se a aspectos físicos, o enunciador usa o presente
do indicativo, como, por exemplo: “A Serra do Mar TEM um no-
4. A marca linguística que indica a inclusão do autor e dos seus
tável perfil...” e “A prumo sobre o Atlântico DESDOBRA-SE como
leitores na situação é o uso de termos verbais na primeira pes-
a cortina...”
soa do plural e dos pronomes “nos” e “nosso(a)”: “Essas são
as principais consequências de vivermos num mundo”; “ O Quando se refere a aspectos de ordem histórica, o autor empre-
problema é que nem tudo ao nosso redor consegue atender à ga o pretérito imperfeito do indicativo, tal como se nota em: “De
demanda”; “Semáforos vermelhos continuam testando nossa encontro às suas escarpas EMBATIA, fragílima, a ânsia guerrei-
paciência, obrigando-nos a frear a cada quarteirão”; “que raios ra...” e “...o forasteiro SENTIA-SE em segurança.”
fazemos com os dois segundos, no máximo, que economizamos 5. O termo verbal “contemos” pertence ao verbo “conter” e
ao acionar aquelas teclas que fecham a porta do elevador?”; está flexionado na primeira pessoa do plural do tempo presente
“ para conter nossa irritação”. Também o imperativo do termo (expressa o momento da enunciação) do modo indicativo (apre-
verbal “Confesse” sugere igualmente a inclusão do autor e dos senta a ação como um fato real).
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

leitores na situação.
5. Presente do indicativo.
Efeito: o emprego dos verbos no presente do indicativo traz para a
narrativa a ideia de permanência, em consonância com o fato de
Cariba continuar preso sem nenhuma perspectiva de mudança.

E.O. Objetivas
(Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp)
1. C 2. B 3. C 4. E 5. A

67
LC
VERBOS: MODO IMPERATIVO
E VOZES VERBAIS

AULAS COMPETÊNCIA(s) HABILIDADE(s)

7E8
1e8 1, 2, 3 e 27

E.O. Aprendizagem 3. Prazos pré-estabelecidos


Ao sabermos a data de uma prova, nos descabelamos e co-
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO meçamos a estudar desesperados, não é mesmo? Nada como
uma boa pressão para nos mexermos rapidinho. Então, é preciso
O MONSTRO DA PROCRASTINAÇÃO
estabelecer prazos para as tarefas a serem realizadas e depois
Penélope Salles
Blog [Link]
determinação para cumpri-los.

Assim como eu, você tem um monte de coisas para fazer: tex- Você tem que ler um texto X para a aula? Defina um prazo
tos para ler, um artigo para escrever, e-mails importantes para para realizá-lo. Precisa escrever um artigo? Estabeleça uma
responder, casa para limpar (porque a vida não está fácil para data para terminá-lo. Você precisa preparar uma apresen-
ninguém)? E nessa hora o que você sente é aquela vontade de tação para um seminário? Determine o dia que precisará
conferir a última novidade do Facebook? Ou de ver um vídeo concluí-lo. E por fim, cumpra os prazos e você se sentirá
no YouTube, passar aquela fase do Candy Crash ou ainda tirar feliz por ter conseguido vencer mais uma batalha contra
aquela soneca boa no meio da tarde? este monstro.

Quem nunca? 4. Fuja das Distrações

Infelizmente a perfeita consciência disso não faz as coisas acon- Você já percebeu que é só iniciar uma tarefa importante, como
tecerem como num passe de mágica. É preciso muito mais que escrever o projeto do mestrado, terminar a leitura de um livro,
força de vontade para deixar o monstro peludo da procrastina- estudar para a prova, que tudo ao redor acaba distraindo a nos-
ção de lado e fazer aquilo que realmente é necessário. Vou falar sa atenção? Uma hora é o Facebook, outra é Whatsapp, SMS,
de cinco estratégias que tenho adotado e que têm me ajudado e-mails, TV e assim por diante. E essas pequenas distrações
nesta batalha diária contra este monstro terrível: consomem tanto do nosso tempo que no final acabamos não
fazendo nada do que nos propomos a realizar. Largue tudo, que
1. Listas
isso não te pertence mais. Pelo menos nos horários que você
Faça uma lista de tudo o que precisa ser feito no dia e selecione estabeleceu para cumprir as suas tarefas.
aquelas que são prioritárias. Não se esqueça de listar até mesmo
Eu mesma tenho que aplicar a Técnica Pomodoro para conse-
aquelas atividades consideradas mais “chatas”, mas que são im-
guir me concentrar de verdade. Essa técnica é bem simples: você
portantes. Eu sei que muita gente já faz isso, mas a necessidade
coloca um despertador (eu coloco o timer da cozinha ou então,
de planejar o dia a dia só surgiu quando eu percebi que não ti-
o despertador do celular) para tocar em 25 minutos. Enquanto
nha tempo suficiente para fazer tudo o que precisava. Este hábito
isso você realiza uma tarefa e não faz outra coisa neste tempo.
facilita e muito a minha vida, já que tenho que me dividir entre o
Se lembrar de algo, anote num papel, mas depois continue sua
mestrado, a monitoria, o cuidado com a casa, família.
tarefa até terminar o tempo. Depois dos 25 minutos, descanse 5
Costumo toda noite, antes de ir dormir, fazer uma lista de tarefas e faça as coisas que estavam pendentes. Você verá uma grande
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

para o dia seguinte na minha agenda. Você pode usar o bloco diferença na sua rotina.
de notas no celular, o Evernote no computador ou a ferramenta
Pronto! Você perceberá que priorizar uma tarefa só é melhor
que melhor se adeque à sua rotina. Com a lista de atividades
do que tentar realizar várias ao mesmo tempo e não conseguir
em mãos, fica mais fácil visualizar o que precisa ser feito. Se não
concluir nenhuma.
sabemos exatamente o que fazer, vamos deixar para mais tarde
e aí a procrastinação vai tomar conta. 5. Recompensa
2. Objetivos claros Apesar de soar um pouco estranho, a recompensa é a motiva-
É claro que sem força de vontade não fazemos nada nessa vida, mas ção para muitas pessoas cumprirem as tarefas necessárias. Seria
para agirmos precisamos ter claro quais são os nossos objetivos. mais ou menos o seguinte: você se propõe a fazer determinada
atividade e, como forma de realizá-la, promete a si mesmo uma
Por que é importante fazer o fichamento do texto X? É impor- recompensa no final. Embora nem todo mundo concorde com
tante porque vou utilizá-lo para a produção do meu artigo. Por ela, acho que é uma estratégia para nos motivarmos a realizar as
que ler o livro Y? Porque ele será discutido na próxima aula. tarefas mais difíceis ou mais “chatas”.
E assim por diante. Dessa forma, até mesmo as tarefas mais
simples e corriqueiras acabam sendo ressignificadas e a partir Espero que estas dicas ajudem vocês a evitar a procrastinação.
daí não serão mais ignoradas. Fonte: [Link]/blog/procrastinacao

68
1. (UFJF) No texto, encontramos verbos conjugados no modo 3. (UEG)
imperativo, como “faça” e “fuja”. A autora usou esse tempo ver-
bal para expressar:

a) ordem.
b) pedido.
c) súplica.
d) conselho.
e) crítica.

TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO

EMBARQUE IMEDIATO

Não basta passar pelos dias. Viva a partir de agora, com emoção
Por Márcia de Luca
Neste mundo de turbulências em que estamos vivendo, muitas
vezes nos sentimos deprimidos. Em certos momentos, parece que Disponível em: <[Link]
tudo está perdido, não é mesmo? Achamos que tudo está dife- Acesso em: 24 set. 2014. (adaptado).
rente, que as pessoas estão ruins.
Na tirinha, a locutora utiliza o imperativo verbal para desafiar
Mas aqui e agora, tome uma atitude firme em sua vida. seu interlocutor a lhe apresentar uma prova de amor. Essas for-
Mude seu jeito negativo de ser, evitando que sua vida mas imperativas apresentam um caso de variação na pessoa do
seja insignificante. verbo, tendo a seguinte configuração:

Perdoe erros que você considerava imperdoáveis, troque as a) “mate” e “peça” são formas de 2ª pessoa que de-
pessoas insubstituíveis por gente mais leve e solta. O apego rivam do presente do modo indicativo e se correlacio-
aos outros está obsoleto. Nada nem ninguém é insubstituível. nam ao pronome de 2ª pessoa “tu”.
Aceite a decepção que outros lhe causaram para que você b) “prova” e “coloca” são formas de 3ª pessoa que
também seja aceito. Sim, porque todos, inclusive nós, já de- derivam do presente do modo subjuntivo e se correla-
cepcionamos alguém. cionam ao pronome de 3ª pessoa “você”.
c) “prova” e “coloca” são formas de 2ª pessoa correla-
Antes de reagir por impulso, pare, respire fundo. E, só então, aja,
cionadas ao pronome “tu”; “mate” e “peça” são for-
com equilíbrio. Ame profundamente, dê risadas gostosas, abrace,
mas de 3ª pessoa correlacionadas ao pronome “você”.
proteja pessoas queridas, faça amigos. Pule de felicidade e não
tenha medo de quebrar a cara – se isso acontecer, encare com d) “mate” e “peça” são formas de 2ª pessoa correla-
leveza. Se perder alguém nesta vida, sofra comedidamente – e vá cionadas ao pronome “tu”; “prova” e “coloca” são for-
em frente, pois tudo passa. mas de 3ª pessoa correlacionadas ao pronome “você”.

Mas, sobretudo, não seja alguém que simplesmente passa pela TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
vida. Viva intensamente. Abrace o mundo com a devida paixão
VESPERTINA TROPICAL
que ele merece. Se perder, faça-o com classe, se vencer, que de-
lícia! O mundo pertence a quem se atreve a ser feliz. Aproveite Então Deus, tendo acabado de criar o firmamento e os conti-
cada instante dessa grande aventura. nentes, o homem e a mulher, a zebra, os elétrons, o umbu e a
neblina, quis dar um último toque em Sua obra: num arroubo de
Agora mesmo, neste voo, sente-se confortavelmente na pol- lirismo, lá pelas 17h54 do sexto dia, pintou a aurora boreal. É, de
trona, com a coluna ereta e de olhos fechados. Faça vários fato, um troço estupendo: mais bonito que o pôr do sol, mais im-
ciclos de respiração profunda e sinta o ar entrando e saindo. provável que a girafa, mais grandioso que o relâmpago. Era pra
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

Quando sentir seu corpo relaxado e sua mente mais calma, ser o corolário da criação, a maior atração da Terra32, diante da
pense em sua nova vida, mais leve. Desta maneira você viverá qual casais em lua de mel deixariam cair os queixos, japoneses
mais facilmente. ergueriam as câmeras e mochileiros BATERIAM palmas, con-
Revista Gol – Linhas áreas inteligentes tentes por terem nascido neste planeta abençoado e multicolor,
mas, infelizmente, como se sabe, a aurora boreal não pegou.
2. (Ifsul) Quanto ao emprego do modo verbal, é correto afirmar
que o
Claro: é longe, é raro e é muito cedo, como esses espetáculos
incríveis encenados domingo de manhã no Sesc Belenzinho.
a) imperativo afirmativo está presente no título e no Imagina se a aurora boreal fosse nos trópicos, seis e meia
primeiro parágrafo. da tarde? O sujeito tá num táxi na avenida Atlântica, olha
b) indicativo predomina no primeiro e no último pro lado, o céu todo verde e amarelo e laranja e roxo, saca
parágrafo. o celular, faz um “selfie” [tava louco pra usar essa palavra],
c) subjuntivo constrói a ideia veiculada no quinto pa- posta “#vespertinatropical!!!” e segue pra casa, satisfeito.
rágrafo. Mas não, é pra lá da Groenlândia, 4h30 AM, ninguém sabe
d) imperativo predomina do segundo ao último quando: aí, não adianta reclamar que o público é ignorante e
parágrafo. prefere a caretice hollywoodiana de um arco-íris.

69
Fosse só a aurora boreal, beleza, mas a natureza tá cheia de TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
desarranjos semelhantes. Não surpreende: ela foi criada há
milhões de anos, nunca passou por uma revisão e ainda é Monsenhor Caldas interrompeu a narração do desconhecido:
administrada pelo fundador. Se eu fosse Javé, chamava uma – Dá licença? é só um instante.
dessas consultorias especializadas em fazer a transição de Levantou-se, foi ao interior da casa, chamou o preto velho que o
empresas familiares para organizações, digamos, mais com- servia, e disse-lhe em voz baixa:
petitivas, e dava um choque de gestão. Nem precisa gastar – João, vai ali à estação de urbanos, fala da minha parte ao co-
muito, basta alocar melhor os recursos. mandante, e pede-lhe que venha cá com um ou dois homens,
19
VEJA os cometas, por exemplo. Tudo espalhado por aí, nos vi- para livrar-me de um sujeito doido. Anda, vai depressa.
sitam só a cada 70, cem anos, às vezes chegam de lado, outras E, voltando à sala:
vezes de dia, ninguém vê, baita desperdício de energia. Por que – Pronto, disse ele; podemos continuar.
não otimizar essas órbitas? 33Fazer com que VENHAM cinco,
– Como ia dizendo a Vossa Reverendíssima, morri no dia vinte de
dez ao mesmo tempo na noite de Réveillon, proporcionando
março de 1860, às cinco horas e quarenta e três minutos da ma-
uma queima de fogos global à nossa sofrida humanidade?
nhã. Tinha então sessenta e oito anos de idade. Minha alma voou
A gravidade é outro assunto que merece uma calibrada: tem pelo espaço, até perder a terra de vista, deixando muito abaixo
que ser mesmo 9,8 m/s2? Por quê? Como Deus chegou a esse a lua, as estrelas e o Sol; penetrou finalmente num espaço em
número? Gostaria que Ele abrisse as planilhas para entender- que não havia mais nada, e era clareado tão-somente por uma
mos se cada m/s2 é realmente necessário. Com metade dessa luz difusa. Continuei a subir, e comecei a ver um pontinho mais
atração, nós continuaríamos colados ao chão e seria muito mais luminoso ao longe, muito longe. O ponto cresceu, fez-se sol. Fui
agradável se locomover por aí. O mínimo que o Senhor poderia por ali dentro, sem arder, porque as almas são incombustíveis. A
fazer era dar uma amainada de dezembro a março: imagina que sua pegou fogo alguma vez?
alívio encarar esse calorão com 25% menos esforço, durante a – Não, senhor.
“Gravidade de Verão”. Sem falar, óbvio, em 50% para grávidas, – São incombustíveis. Fui subindo, subindo; na distância de qua-
idosos e cadeirantes. renta mil léguas, ouvi uma deliciosa música, e logo que cheguei
a cinco mil léguas, desceu um enxame de almas, que me levaram
Não tenho dúvida de que o Todo Poderoso resistirá a essas e ou-
num palanquim feito de éter e plumas.
tras reformas. Criar o Universo é o tipo da coisa que infla um pouco
o ego do sujeito, mas seria bom se Ele se animasse a colocar o (Machado de Assis, A segunda vida.
Obras Completas, vol. II, p. 440-441.)
mundo nos eixos – literalmente: já repararam como a Terra gira
toda torta, envergada como um frei Damião? 5. (UFSCar) O imperativo utilizado por Monsenhor Caldas, ao
Se meu pacote de sugestões não puder convencê-lo pelo bom senso, dar as ordens ao preto velho, emprega

quem sabe ao menos uma parte cutuque a Sua vaidade? Ora, El a) uma forma indireta.
Shaddai, a aurora boreal é um negócio tão lindo, tão grandioso, tão b) a terceira pessoa do singular.
divino, não é justo que siga sendo exibida, ano após ano, apenas c) a primeira pessoa do plural.
para os ursos-polares, as focas e a Björk, é ou não é? d) a segunda pessoa do singular.
PRATA, Antonio. Vespertina Tropical. In: Folha de São Paulo. e) a segunda pessoa do plural.

4. (UPF) Os tempos e os modos verbais contribuem para cons- Leia o texto de Claudia Wallin para responder à questão.
truir, no texto, determinados efeitos de sentido. Acerca desses
Vossas excelências, ilustríssimos senhores e senhoras, trago no-
efeitos, afirma-se:
tícias urgentes de um reino distante. É mister vos alertar, Vossas
I. O futuro do pretérito é usado para dar ideia de probabilidade, Excelências, que nesta estranha terra os habitantes criaram um
como ocorre em “diante da qual casais em lua de mel deixariam país onde os mui digníssimos e respeitáveis representantes do
cair os queixos, japoneses ergueriam as câmeras e mochileiros povo são tratados, imaginem Vossas Senhorias, como o próprio
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

bateriam palmas” (ref. 32). povo. Insânia! Dirão que as histórias que aqui relato são me-
ras alucinações de contos de fada, pois há neste rico reino, que
II. O imperativo afirmativo contribui para construir o efeito de chamam de Suécia, rei, rainha e princesas. Mas não se iludam!
proximidade com o leitor, como ocorre em “Veja os cometas, por Os habitantes desta terra já tiraram todos os poderes do rei, em
exemplo” (ref. 19). nome de uma democracia que proclama uma tal igualdade entre
III. O presente do subjuntivo é usado para dar ideia de possibilida- todos, e o que digo são coisas que tenho visto com os olhos que
de de ação, como ocorre em “Fazer com que venham cinco, dez ao esta mesma terra um dia há de comer.
mesmo tempo” (ref. 33). Nestas longínquas comarcas, os mui distintos parlamentares, mi-
Estão corretas as afirmações apresentadas em: nistros e prefeitos viajam de trem ou de ônibus para o trabalho,
em sua labuta para adoçar as mazelas do povo. De ônibus, Emi-
a) I, II e III. nências! E muitos castelos há pelos quatro cantos deste próspero
b) I e II apenas. reino, mas aos egrégios representantes do povo é oferecido abrigo
c) II e III apenas. apenas em pífias habitações de um cômodo, indignas dos ilustríssi-
d) I apenas. mos defensores dos direitos dos cidadãos e da democracia.
e) III apenas. Este reino está cercado por outros ricos reinos, numa península

70
chamada Escandinávia, onde também há príncipes e reis, e onde d) Agora essa função pode ser cumprida pela fotografia.
os representantes do povo vivem como sobrevive um súdito e) Agora essa função podia cumprir o papel da fotografia.
qualquer. E isto eu também vi, com os olhos que esta terra há
de comer: em um dos povos vizinhos, conhecido como o reino TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
dos noruegueses, os nobres representantes do povo chegam a
almoçar sanduíches que trazem de casa, e que tiram dos bolsos
dos paletós quando a fome aperta.
É preciso cautela, Vossas Excelências. Deste reino, que chamam
de Suécia ainda pouco se ouve falar. Mas as notícias sobre o
igualitário reino dos suecos se espalham.
Estocolmo, 6 de janeiro de 2013.
(Um país sem excelências e mordomias, 2014. Adaptado.)

6. (Famema 2017) “Os habitantes desta terra já tiraram todos


os poderes do rei”.

Assinale a alternativa que expressa, na voz passiva, o conteúdo


dessa oração.

a) Todos os poderes do rei já tiraram os habitantes desta


terra.
b) Os habitantes desta terra já tiram todos os poderes (Fonte: [Link]
tag/mafalda. Acesso em: 03/10/2016)
do rei.
c) Os habitantes desta terra já foram tirados por todos 8. (CP2) Leia a seguinte frase elaborada a partir da leitura do
os poderes do rei. 2º quadrinho: E esses ingênuos continuam mandando contas
d) Todos os poderes do rei já foram tirados pelos habi- em seu nome.
tantes desta terra.
Assinale a alternativa que corresponde à correta reescrita dessa
e) Todos os poderes do rei já são tirados pelos habitan- frase na voz passiva.
tes desta terra.
a) E esses ingênuos continuarão mandando contas
Leia o texto de Katia Canton para responder à questão. em seu nome.
A arte moderna toma corpo num contexto de grande transforma- b) E contas continuaram sendo mandadas em seu
ção que ocorre sobretudo a partir do século XIX, com a Revolu- nome pelos ingênuos.
ção Industrial. Nesse momento, as pessoas saem dos campos e c) E contas continuam mandando em seu nome por
passam a ocupar as cidades, que crescem cada vez mais no ritmo esses ingênuos.
frenético das linhas de montagem das grandes fábricas. d) E contas em seu nome continuam sendo enviadas
A industrialização inaugurou uma classe social que, enriqueci- por esses ingênuos.
da pelas máquinas, se tornaria hegemônica: a burguesia.
9. (IFSP) Considerando a norma padrão da Língua Portuguesa,
Essa nova classe social necessitava de uma nova forma de marque (VP), para voz passiva, (VA), para voz ativa e assinale a
arte para se legitimar culturalmente. A arte acadêmica, as be- alternativa correta.
las-artes com regras impostas pela academia e talhadas aos
moldes da antiga aristocracia, passa a dar lugar a propostas I. O jogador marcou um belo gol na última semana. ( )
construídas por artistas que surgem em movimentos e con- II. O ônibus atrasou bastante na tarde de ontem. ( )
textos singulares. III. A bola foi atrasada de modo muito forte pelo zagueiro. ( )
[...]
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

IV. O computador foi desligado inadequadamente na última vez. ( )


Uma das novidades surgidas no século XIX e que teve impacto
a) VA, VP, VP, VA.
fenomenal sobre a arte foi a fotografia. A fotografia liberou os
artistas, até então incumbidos de registrar nas telas pessoas, b) VP, VA, VA, VP.
paisagens e fatos históricos para a posteridade. Agora a foto- c) VA, VA, VP, VP.
grafia podia cumprir essa função, dando ao artista a liberdade d) VP, VP, VA, VA.
de criar e realizar novas pesquisas e experimentos com seus e) VP, VA, VP, VA.
pincéis, suas mãos e seus olhares.
(Do moderno ao contemporâneo, 2009. Adaptado.) TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO

7. (Unicid Med – Unesp) “Agora a fotografia podia cumprir essa Quando a economia política clássica nasceu, no Reino Unido e na
função”. França, ao final do século XVIII e início do século XIX, a questão da
Vertida para a voz passiva, a oração acima se transforma em: distribuição da renda já se encontrava no centro de todas as análi-
ses. Estava claro que 3transformações radicais entraram em curso,
a) Agora essa função pode se cumprir com a fotografia. propelidas pelo crescimento demográfico sustentado – inédito até
b) Agora essa função podia estar cumprida com a fotografia. então – e pelo início do êxodo rural e da Revolução Industrial.
c) Agora essa função podia ser cumprida pela fotografia. Quais seriam as consequências sociais dessas mudanças?

71
Para Thomas Malthus, que publicou em 1798 seu Ensaio sobre
o princípio da população, não restava dúvida: a superpopulação E.O. Fixação
era uma ameaça. Preocupava-se especialmente com a situação
dos franceses às vésperas da Revolução de 1789, quando havia Leia o trecho do conto “Teoria do medalhão”, de Machado de
miséria generalizada no campo. Na época, a França era de longe Assis, para responder à questão.
o país mais populoso da Europa: por volta de 1700, já contava – Não te ponhas com denguices, e falemos como dois amigos
com mais de 20 milhões de habitantes, enquanto o Reino Unido sérios. Fecha aquela porta; vou dizer-te coisas importantes. Sen-
tinha pouco mais de 8 milhões de pessoas. A população francesa ta-te e conversemos. Vinte e um anos, algumas apólices, um di-
se expandiu em ritmo crescente ao longo do século XVIII, aproxi- ploma, podes entrar no parlamento, na magistratura, na impren-
mando-se dos 30 milhões. Tudo leva a crer que esse dinamismo sa, na lavoura, na indústria, no comércio, nas letras ou nas artes.
demográfico, desconhecido nos séculos anteriores, contribuiu Há infinitas carreiras diante de ti. Vinte e um anos, meu rapaz,
para a estagnação dos salários no campo e para o aumento dos formam apenas a primeira sílaba do nosso destino. Os mesmos
rendimentos associados à propriedade da terra, sendo, portan- Pitt* e Napoleão, apesar de precoces, não foram tudo aos vinte
to, um dos fatores que levaram à Revolução Francesa. 12Para e um anos. Mas, qualquer que seja a profissão da tua escolha, o
evitar que torvelinho similar vitimasse o Reino Unido, Malthus meu desejo é que te faças grande e ilustre, ou pelo menos notá-
argumentou que 14toda assistência aos pobres deveria ser sus- vel, que te levantes acima da obscuridade comum. A vida, Janjão,
pensa de imediato e a taxa de natalidade deveria ser severamen- é uma enorme loteria; os prêmios são poucos, os malogrados
te controlada. inúmeros, e com os suspiros de uma geração é que se amassam
as esperanças de outra. Isto é a vida.
Já David Ricardo, que publicou em 1817 os seus Princípios de
economia política e tributação, preocupava-se com a evolução * William Pitt (1759-1806): assumiu o cargo de primeiro-ministro bri-
do preço da terra. Se o crescimento da população e, consequen- tânico em 1783, com 24 anos.
temente, da produção agrícola se prolongasse, a terra tenderia a (Contos: uma antologia, 1998.)
se tornar escassa. De acordo com a lei da oferta e da procura, o
preço do bem escasso – a terra – deveria subir de modo contí- 1. (FASM MED – UNESP) “Senta-te e conversemos.”
nuo. No limite, 19os donos da terra receberiam uma parte cada
No texto, o pai dirige-se ao seu filho na segunda pessoa do singu-
vez mais significativa da renda nacional, e o 20restante da popu-
lar (tu). Com as modificações necessárias, na terceira pessoa do
lação, uma parte cada vez mais reduzida, 21destruindo o equilí-
singular (você), a frase acima seria escrita como:
brio social. De fato, 22o valor da terra permaneceu alto por algum
tempo, mas, ao longo de século XIX, caiu em relação a outras a) Senta-se e conversemos.
formas de riqueza, à medida que diminuía o peso da agricultura b) Sente-se e conversamos.
na renda das nações. Escrevendo nos anos de 1810, Ricardo não c) Senta e conversamos.
poderia antever a importância que o progresso tecnológico e o d) Sente-se e conversemos.
crescimento industrial teriam ao longo das décadas seguintes
e) Sente e converse.
para a evolução da distribuição da renda.
PIKETTY, T. O Capital no Século XXI. Trad. de M. B. de TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
Bolle. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014. p.11-13.
A ameaça de uma bomba atômica está mais viva do que nun-
10. (UFRGS) Assinale a alternativa que apresenta a correta pas- ca. Os conflitos étnicos mataram quase 200 chineses só no mês
sagem de segmento do texto da voz ativa para a voz passiva. de julho. Agora uma boa notícia: a paz mundial pode estar a
caminho. Segundo estimativas de pesquisadores, o mundo está
a) transformações radicais entraram em curso (ref. 3) –
bem menos sangrento do que já foi. Cerca de 250 mil pessoas
transformações radicais foram entradas em curso.
morrem por ano em consequência de algum conflito armado.
b) Para evitar que torvelinho similar vitimasse o Reino Uni- É bem menos do que no século 20, que teve 800 mil mortes
do (ref. 12) – Para evitar que o Reino Unido fosse vitimado anuais em sua 2ª metade e 3,8 milhões por ano até 1950.
por torvelinho similar.
c) toda assistência aos pobres deveria ser suspensa de O que aconteceu? O psicólogo Steven Pinker diz que o aumento
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

imediato e a taxa de natalidade deveria ser severamente do número de democracias ajudou. Assim como a nossa saúde:
controlada (ref. 14) – os pobres deveriam suspender de como a expectativa de vida subiu, temos mais medo de arriscar
imediato toda assistência e deveriam controlar severa- o pescoço. Até a globalização teria contribuído: um mundo mais
mente a taxa de natalidade. integrado é um mundo mais tolerante, diz Pinker.
d) os donos da terra receberiam uma parte cada vez mais Revista Superinteressante
significativa da renda nacional (ref. 19) – a renda nacional
2. (Mackenzie) Os conflitos étnicos mataram quase 200 chineses
seria recebida por uma parte cada vez mais significativa
só no mês de julho.
dos donos da terra.
e) o valor da terra permaneceu alto por algum tempo (ref. De acordo com a norma padrão, passando-se essa frase para a
22) – o valor da terra foi permanecido alto por algum tempo. voz passiva analítica, a forma verbal correspondente será:

a) foram mortos.
b) estavam sendo mortos.
c) eram mortos.
d) matou-se.
e) morreram.

72
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO 4. (ITA) Os versos abaixo são da letra da música “Cobra”, de
Rita Lee e Roberto de Carvalho:
Se escapar do bombardeio ao qual está sendo submetido, 11um
achado divulgado anteontem por pesquisadores do Reino Unido Não me cobre ser existente
poderá mudar a história da ocupação humana da América. Se- Cobra de mim que sou serpente
gundo eles, pegadas de pessoas descobertas no centro do Mé-
xico teriam 40 mil anos – embora os registros mais antigos de Com relação ao emprego do imperativo nos versos, podemos afir-
mar que
presença humana no continente não ultrapassem os 13 mil anos.
A equipe, liderada pela geoarqueóloga mexicana Silvia Gonzá- a) a oposição imperativo negativo e imperativo afir-
lez, achou os rastros na beira de um antigo lago assolado por mativo justifica a mudança do verbo cobre/cobra.
chuvas de cinza vulcânica. Imagina-se que, depois de um desses b) a diferença de formas (cobre/cobra) não é registra-
episódios, um grupo de pessoas (entre as quais crianças, a julgar da nas gramáticas normativas, portanto há inadequa-
pelas dimensões das pegadas) teria caminhado sobre a cinza, ção na flexão do segundo verbo (cobra).
deixando sua marca. c) a diferença de formas (cobre/cobra) deve-se ao des-
Usando uma série de métodos diferentes, o grupo britânico da- locamento da 3a para a 2a pessoa do sujeito verbal.
tou fósseis de animais no mesmo nível da pegada, assim como d) o primeiro verbo no presente do indicativo opõe-se ao
sedimentos em volta da própria, chegando à data de por volta segundo verbo que se encontra no imperativo negativo.
de 40 mil anos antes do presente. Hoje, o sítio arqueológico das e) o primeiro verbo no imperativo negativo opõe-se ao
Américas mais antigo cujas datas são aceitas pelos cientistas é segundo verbo que se encontra no presente do indicativo.
Monte Verde, no extremo sul do Chile, com seus 12, 5 mil anos.
Poucos pesquisadores põem em dúvida a ideia de que os primei- TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
ros americanos cruzaram o estreito de Bering, vindos do extremo
nordeste da Ásia, para chegar ao Novo Mundo. CONTAS
“Novas rotas de migração que expliquem a existência desses
Fabiano recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a terça
sítios mais antigos precisam ser consideradas. Nossos achados
dos cabritos. Mas como não tinha roça e apenas se limitava a
reforçam a teoria de que esses primeiros colonos tenham vindo
semear na vazante uns punhados de feijão e milho, comia da
pela água, usando a rota da costa do Pacífico”, disse González
feira, desfazia-se dos animais, não chegava a ferrar um bezerro
em comunicado.
ou assinar a orelha de um cabrito.
“Nunca se deve dar a conhecer um achado tão importante
numa entrevista coletiva”, critica o antropólogo argentino Ro- Se pudesse economizar durante alguns meses, levantaria a cabe-
lando González-José, do Centro Nacional Patagônico. 12O pes- ça. Forjara planos. Tolice, quem é do chão não se trepa. Consumi-
quisador já chegou a estudar os antigos mexicanos junto com dos os legumes, roídas as espigas de milho, recorria à gaveta do
a arqueóloga, mas teve “divergências inconciliáveis” com ela. amo, cedia por preço baixo o produto das sortes. Resmungava,
13
”Uma data de 40 mil anos não necessariamente leva a mo- rezingava, numa aflição, tentando espichar os recursos mingua-
delos alternativos do povoamento, muito menos recorrendo a dos, engasgava-se, engolia em seco. Transigindo com outro, não
rotas transpacíficas”, diz. seria roubado tão descaradamente. Mas receava ser expulso da
LOPES, Reinaldo José. In: Folha de S. Paulo, 6 jul. 2005, p. A 16. fazenda. E rendia-se. Aceitava o cobre e ouvia conselhos. Era
bom pensar no futuro, criar juízo. Ficava de boca aberta, verme-
3. (UFRGS) Considere os seguintes trechos e as propostas de sua
lho, o pescoço inchado. De repente, estourava:
reescritura apresentadas a seguir.
– Conversa. Dinheiro anda num cavalo e ninguém pode viver
1. [...] “um achado divulgado anteontem por pesquisadores do
sem comer. Quem é do chão não se trepa.
Reino Unido poderá mudar a história da ocupação humana da
América” (ref. 11). Pouco a pouco o ferro do proprietário queimava os bichos de
2. “O pesquisador já chegou a estudar os antigos mexicanos Fabiano. E quando não tinha mais nada para vender, o sertane-
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

juntos com a arqueóloga” (ref. 12). jo endividava-se. Ao chegar a partilha, estava encalacrado, e na
3. “Uma data de 40 mil anos não necessariamente leva a mode- hora das contas davam-lhe uma ninharia.
los alternativos de povoamento” (ref. 13).
Ora, daquela vez, como das outras, Fabiano ajustou o gado, ar-
I. Trecho 1: [...] a história da ocupação humana da América po- rependeu-se, enfim deixou a transação meio apalavrada e foi
derá ser mudada por um achado divulgado anteontem por pesqui- consultar a mulher. Sinhá Vitória mandou os meninos para o
sadores do Reino Unido. barreiro, sentou-se na cozinha, concentrou-se, distribuiu no chão
II. Trecho 2: Os antigos mexicanos, junto com a arqueóloga, já sementes de várias espécies, realizou somas e diminuições. No
chegaram a ser estudados pelo pesquisador. dia seguinte Fabiano voltou à cidade, mas ao fechar o negócio
III. Trecho 3: Modelos alternativos do povoamento não são leva- notou que as operações de Sinhá Vitória, como de costume, dife-
dos necessariamente a uma data de 40 mil anos.
riam das do patrão. Reclamou e obteve a explicação habitual: a
Quais propostas são transposições corretas dos respectivos tre- diferença era proveniente de juros.
chos para a voz passiva?
Não se conformou: devia haver engano. Ele era bruto, sim se-
a) Apenas I. d) Apenas I e II. nhor, via-se perfeitamente que era bruto, mas a mulher tinha
b) Apenas II. e) Apenas II e III. miolo. Com certeza havia um erro no papel do branco. Não se
c) Apenas III. descobriu o erro, e Fabiano perdeu os estribos. Passar a vida

73
assim no toco, entregando o que era dele de mão beijada! “culinária literária”. Já escrevi sobre as mais variadas entidades
Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nóbis, picadinho de carne
carta de alforria! com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos.
Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro poético-filosófico
O patrão zangou-se, repeliu a insolência, achou bom que o va- a uma meditação sobre o filme A festa de Babette, que é uma
queiro fosse procurar serviço noutra fazenda. celebração da comida como ritual de feitiçaria. Sabedor das mi-
Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou. Bem, bem. Não era nhas limitações e competências, nunca escrevi como chef. Escrevi
preciso barulho não. Se havia dito palavra à toa, pedia desculpa. como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo – porque a culinária
Era bruto, não fora ensinado. Atrevimento não tinha, conhecia o estimula todas essas funções do pensamento.
seu lugar. Um cabra. Ia lá puxar questão com gente rica? Bruto, As comidas, para mim, são entidades oníricas. Provocam a minha
sim, senhor, mas sabia respeitar os homens. Devia ser ignorância capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria
da mulher, provavelmente devia ser ignorância da mulher. Até um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamen-
estranhara as contas dela. Enfim, como não sabia ler (um bruto, te isso que aconteceu. A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e
sim senhor), acreditara na sua velha. Mas pedia desculpa e jurava duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira delicio-
não cair noutra. sa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias
atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca.
O amo abrandou, e Fabiano saiu de costas, o chapéu varrendo E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas ideias
o tijolo. Na porta, virando-se, enganchou as rosetas das esporas, começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação
afastou-se tropeçando, os sapatões de couro cru batendo no metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamen-
chão como cascos. to nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada
(...) e imprevisível. A pipoca se revelou a mim, então, como um ex-
RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 11ª ed. traordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as
São Paulo: L. Martins, 1964. 159 p. pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como
aqueles das pipocas dentro de uma panela.
5. (Unirio) Para marcar as agruras do sofredor Fabiano, o nar-
rador emprega verbos na voz reflexiva, com exceção de: Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sen-
tido religioso? Pois tem. Para os cristãos, religiosos são o pão
a) “... apenas se limitava a semear na vazante ...”
e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mis-
b) “... engasgava-se, engolia em seco.” tura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é
c) “E rendia-se.” vida...). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria
d) “... o sertanejo endividava-se, ...” devem existir juntas. Lembrei-me, então, de lição que aprendi
e) “... via-se perfeitamente ...” com a Mãe Stella, sábia poderosa do candomblé baiano: que a
pipoca é a comida sagrada do candomblé...
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido. Fosse eu agricul-
ÁRIES (21 mar. a 20 abr.) tor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem
aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas.
Lunação em signo complementar destaca importância das re- Pois o fato é que, sob o ponto de vista do tamanho, os milhos da
lações em sua vida nas próximas semanas. Cuide de sua rede pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como
social, mostre-se atencioso com as pessoas. Seu sucesso é re- isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a ideia de
sultado disso também e agora essa questão tem importância debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, espe-
suprema. Cultive o tato. rando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos.
Folha de S. Paulo, Ilustrada, Astrologia, Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O
Barbara Abramo, 29 set. 2008. que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado. Repenti-
namente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com
6. (IBMEC-SP) Se as formas verbais “cuide”, “mostre-se” uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia
e “cultive” fossem empregadas na segunda pessoa do sin- com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

gular, teríamos: brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das
a) Cuidas, mostras-te, cultivas. pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária,
b) Cuida, mostra-te, cultiva. em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, espe-
cialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!
c) Cuidai, mostrai-vos, cultivai.
d) Cuida, mostra-se, cultiva. E o que é que isso tem a ver com o candomblé? É que a trans-
e) Cuides, mostres-te, cultives. formação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande
transformação por que devem passar os homens para que eles
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que
deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro.
A PIPOCA O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios
Rubem Alves para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos
transformar em outra coisa − voltar a ser crianças!
A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a
cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo. Milho de
que com as panelas. Por isso tenho mais escrito sobre comidas pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca,
que cozinhado. Dedico-me a algo que poderia ter o nome de para sempre. Assim acontece com a gente. As grandes transfor-

74
mações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não pas- a) Morre e transforme-se!
sa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de b) Morra e transforme-se!
uma mesmice e dureza assombrosas. Só que elas não percebem. c) Morra e transforma-te!
Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. Mas, de d) Morrem e transformam-se!
repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa si- e) Morre e transforma-se!
tuação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder
um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depres-
HISTÓRIA DO HUMOR
são – sofrimentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso
aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E 1
“O humor está presente na civilização desde as sociedades
com isso a possibilidade da grande transformação. mais primitivas – ele é uma capacidade que o ser humano tem
de olhar a realidade e ressignificá-la, tornando-a algo engraça-
Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá den-
tro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: do e conferindo-lhe olhar crítico. No passado, ele era até uma
vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, forma de sobrevivência às adversidades e de união do grupo”,
ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a de acordo com o professor da Escola de Comunicações e Artes,
transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina Ricardo Alexino Ferreira.
aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do Alexino conta que, a partir dos anosos humoristas passaram a
fogo, a grande transformação acontece: pum! − e ela aparece retratar frequentemente de forma pejorativa grupos minoriza-
como uma outra coisa, completamente diferente, que ela mesma dos da sociedade, como negros, mulheres, idosos e deficientes.
nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do 2
Segundo ele, os comediantes consideraram esse humor fácil,
casulo como borboleta voante. pois muitas vezes se limitava a imitar essas pessoas. “Parte do
Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está repre- humor se tornou sem repertório e um reforçador de estereóti-
sentado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o pos, uma caricatura do ‘outro’”, diz.
estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito [Link] quando-
a-piada-perde-a-graca-e-viraofensa/ Acesso em: 08/09/2015)
para ser de outro. “Morre e transforma-te!” − dizia Goethe.
Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os 8. (CP2) Releia o seguinte trecho destacado do texto “História do
piruás com os paulistas descobri que eles ignoram o que seja. Humor”: “Segundo ele, os comediantes consideraram esse humor
fácil, pois muitas vezes se limitava a imitar essas pessoas.” (ref. 2).
Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é
palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio Assinale a alternativa que apresenta a forma correspondente da
para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de oração sublinhada na voz passiva.
pipoca que se recusa a estourar. Meu amigo William, extraordiná- a) Esse humor fácil foi considerado pelos comediantes.
rio professor-pesquisador da Unicamp, especializou-se em milhos, b) Esse humor é considerado fácil pelos comediantes.
e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. c) Considerou-se esse humor fácil pelos comediantes.
Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás.
d) Esse humor foi considerado fácil pelos comediantes.
Mas, no mundo da poesia as explicações científicas não valem.
Por exemplo: em Minas “piruá” é o nome que se dá às mulheres Leia o texto de Maurice Nadeau para responder à questão.
que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta,
lamentava: “Fiquei piruá!” Mas acho que o poder metafórico dos Estudar um movimento de ideias querendo ignorar o que o pre-
piruás é muito maior. Piruás são aquelas pessoas que, por mais cedeu ou o seguiu, abstraindo a situação social e política que o
que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não alimentou e sobre a qual, por sua vez, ele pôde agir é trabalho
pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. inócuo. O Surrealismo, particularmente, está fortemente engajado
Ignoram o dito de Jesus: “Quem preservar a sua vida perdê-la-á.” no período entre as duas guerras. Dizer, como alguns, que ele não
A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que passa, no plano da arte, de uma manifestação pura e simples é
não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. de um materialismo por demais simplista: ele constitui também o
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria herdeiro e o continuador dos movimentos artísticos que o prece-
para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo da deram sem os quais não teria existido. É, portanto, sob esses dois
panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o aspectos ao mesmo tempo que devemos considerá-lo.
lixo. Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram Entre 1918 e 1940, foi o contemporâneo de acontecimentos so-
a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira... ciais, políticos, científicos, filosóficos de primeira importância. Al-
Disponível em: [Link] guns o marcaram fortemente; a outros deu seu colorido próprio.
[Link]. Acessado em: 31 de mai. 2016.
Na Exposição Internacional do Surrealismo, realizada em Paris
Obs.: O texto foi adaptado às regras do Novo Acordo Ortográfico. (1938), estavam representados quatorze países. O Surrealismo
havia rompido os quadros nacionais da arte. Nenhum movimento
7. (Efomm) É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro.
artístico antes dele, inclusive o Romantismo, teve essa influência e
“Morre e transforma-te!” − dizia Goethe.
essa audiência internacionais. Foi o alimento saboroso dos melho-
res artistas de cada país, o reflexo de uma época que, também no
Nessa passagem, o autor, tratando da transformação, cita a fala
plano artístico, devia encarar seus problemas em escala mundial.
de um filósofo alemão, que utiliza a segunda pessoa do singular.
(História do Surrealismo, 2008. Adaptado.)
Se Goethe tivesse usado o tratamento de você, teríamos, então: “O SURREALISMO HAVIA ROMPIDO OS QUADROS NACIONAIS DA ARTE.”

75
9. (UNICID MED UNESP) Assinale a alternativa que expressa, dade e literatura parecem nesses casos configurar um processo
na voz passiva, o conteúdo dessa oração. contínuo, afinando-se mutuamente e alcançando aos poucos a ma-
a) Os quadros nacionais da arte haviam sido rompi- turidade. Não é o caso das literaturas ocidentais do Novo Mundo.
dos pelo Surrealismo. Com efeito, no momento da descoberta e durante o processo de
b) Os quadros nacionais da arte romperam o Surrealismo. conquista e colonização, houve o transplante de línguas e literatu-
c) O Surrealismo havia sido rompido pelos quadros ras já maduras para um meio físico diferente, povoado por povos
nacionais da arte. de outras raças, caracterizados por modelos culturais completa-
d) Os quadros nacionais da arte haviam rompido o mente diferentes, incompatíveis com as formas de expressão do
Surrealismo. colonizador. No caso do Brasil, os povos autóctones eram primiti-
e) O Surrealismo estava rompendo os quadros nacionais vos vivendo em culturas rudimentares. Havia, portanto, afastamen-
da arte. to máximo entre a cultura do conquistador e a do conquistado,
que por isso sofreu um processo brutal de imposição. Este, além
LEIA A TIRA PARA RESPONDER A QUESTÃO
de genocida, foi destruidor de formas culturais superiores no caso
do México, da América Central e das grandes civilizações andinas.
(Iniciação à Literatura Brasileira, 2007. Adaptado.)
1. (São Camilo MED Unesp) Considere o trecho do primeiro
parágrafo:

[…] a nossa literatura é modificada pelas condições do Novo


Mundo […].

Se a oração for reescrita na voz ativa, a forma verbal resultante será:


a) modificaram.
b) foi modificada.
c) modifica.
d) modificam.
e) está modificada.
([Link]. 24.05.2017)
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
10. (Anhembi Morumbi MED Unesp) No último quadrinho,
caso a personagem empregasse a primeira pessoa do plural, sem
alterar o modo verbal, sua frase seria:

a) Não falaremos assim de Deus.


b) Não falamos assim de Deus.
c) Não falemos assim de Deus.
d) Não falem assim de Deus.
e) Não faleis assim de Deus.

E.O. Complementar
Considere o texto do crítico Antonio Candido para responder
à questão.
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

A literatura do Brasil faz parte das literaturas do Ocidente da Euro-


pa. No tempo da nossa independência, proclamada em 1822, for-
mou-se uma teoria nacionalista que parecia incomodada por este
dado evidente e procurou minimizá-lo, acentuando o que haveria
de original, de diferente, a ponto de rejeitar o parentesco, como se QUINO, 10 anos com Mafalda. São Paulo, Martins Fontes, 2010
quisesse descobrir um estado ideal de começo absoluto. Trata-se de
atitude compreensível como afirmação política, exprimindo a ânsia 2. (Ifsul) Observe.
por vezes patética de identidade por parte de uma nação recente, Não abra a porta...
que desconfiava do próprio ser e aspirava ao reconhecimento dos
Se o enunciado acima passasse para o imperativo afirmativo e o
outros. Com o passar do tempo foi ficando cada vez mais visível que
tratamento dado fosse o de segunda pessoa, qual das construções
a nossa literatura é modificada pelas condições do Novo Mundo,
estaria de acordo com a norma culta da língua?
mas faz parte orgânica do conjunto das literaturas ocidentais.
a) Abre a porta...
Por isso, o conceito de “começo” é nela bastante relativo, e diferen-
b) Abres a porta...
te do mesmo fato nas literaturas matrizes. A literatura portuguesa, a
francesa ou a italiana foram se constituindo lentamente, ao mesmo c) Abra a porta...
tempo em que se formavam os respectivos idiomas. Língua, socie- d) Abras a porta...

76
3. (FASM MED Unesp) Amava Simão uma sua vizinha, menina de Pode ser. Mas um excesso de visão histórica retrospectiva pode
quinze anos, rica herdeira, regularmente bonita e bem-nascida. Da distorcer o panorama de 1789. Os revolucionários franceses não
janela do seu quarto é que ele a vira a primeira vez, para amá-la eram nossos contemporâneos. E eram um conjunto de pesso-
sempre. Não ficara ela incólume da ferida que fizera no coração do as não excepcionais em circunstâncias excepcionais. Quando as
vizinho: amou-o também, e com mais seriedade que a usual nos seus coisas se desintegraram, eles reagiram a uma necessidade impe-
anos. Os poetas cansam-nos a paciência a falarem do amor da mu- riosa de dar-lhes sentido, ordenando a sociedade segundo novos
lher aos quinze anos, como paixão perigosa, única e inflexível. Al- princípios. Esses princípios ainda permanecem como uma denún-
guns prosadores de romances dizem o mesmo. Enganam-se ambos. cia da tirania e da injustiça. 5Afinal, em que estava empenhada a
O amor dos quinze anos é uma brincadeira; é a última manifestação Revolução Francesa? Liberdade, igualdade, fraternidade.
do amor às bonecas; é a tentativa da avezinha que ensaia o voo fora
DARNTON, Robert. O beijo de Lamourette. In: ____.
do ninho, sempre com os olhos fitos na ave-mãe, que a está da fron- O beijo de Lamourette: mídia, cultura e revolução.
de próxima chamando; tanto sabe a primeira o que é amar muito, São Paulo: Cia. das Letras, 2010. p. 30-39.
como a segunda o que é voar para longe. Teresa de Albuquerque
4. (UFRGS) Assinale a alternativa que contém a correta passa-
devia ser, porventura, uma exceção no seu amor.
gem de um segmento que ocorre em voz passiva no texto para a
(Camilo Castelo Branco — Amor de perdição) voz ativa.

a) dizemos as palavras hoje com tanta facilidade... (ref. 1)


“Da janela do seu quarto é que ELE A VIRA PELA PRIMEIRA
b) que a própria obra de Deus pusera na natureza. (ref. 2)
VEZ”. Passando-se a oração em destaque para a voz passiva ana-
c) pois o agente de Deus na terra o ungira. (ref. 3)
lítica, a forma verbal correspondente é:
d) Entre eles, 150 feriram-se ou mataram-se no assal-
a) foi vista. to à prisão... (ref. 4)
b) havia visto. e) Afinal, em que se empenhou a Revolução Fran-
c) estava sendo visto. cesa? (ref. 5)
d) seria vista.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
e) fora vista.
BUSCANDO A EXCELÊNCIA
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO Lya Luft
O que havia de tão revolucionário na Revolução Francesa? So- Estamos carentes de excelência. A mediocridade reina, assusta-
berania popular, liberdade civil, igualdade perante a lei – 1as pa- dora, implacável e persistentemente. Autoridades, altos cargos,
lavras hoje são ditas com tanta facilidade que somos incapazes líderes, em boa parte desinformados, desinteressados, incultos,
de imaginar seu caráter explosivo em 1789. Para os franceses do lamentáveis. Alunos que saem do ensino médio semianalfabetos
Antigo Regime, os homens eram desiguais, e a desigualdade era e assim entram nas universidades, que aos poucos – refiro-me às
uma boa coisa, adequada à ordem hierárquica que 2fora posta públicas – vão se tornando reduto de pobreza intelectual.
na natureza pela própria obra de Deus. A liberdade significava
As infelizes cotas, contras as quais tenho escrito e às quais me
privilégio – isto é, literalmente, “lei privada”, uma prerrogativa
oponho desde sempre, servem magnificamente para alcançar-
especial para fazer algo negado a outras pessoas. O rei, como
mos este objetivo: a mediocrização também do ensino superior.
fonte de toda a lei, distribuía privilégios, 3pois havia sido ungido
Alunos que não conseguem raciocinar porque não lhes foi ensi-
como o agente de Deus na terra.
nado, numa educação de brincadeirinha. E, porque não sabem
Durante todo o século XVIII, os filósofos do Iluminismo questio- ler nem escrever direito e com naturalidade, não conseguem
naram esses pressupostos, e os panfletistas profissionais conse- expor em letra ou fala seu pensamento truncado e pobre. [...] E
guiram empanar a aura sagrada da coroa. Contudo, a desmon- as cotas roubam a dignidade daqueles que deveriam ter acesso
tagem do quadro mental do Antigo Regime demandou violência ao ensino superior por mérito [...] Meu conceito serve para cotas
iconoclasta, destruidora do mundo, revolucionária. raciais também: não é pela raça ou cor, sobretudo autodeclara-
da, que um jovem deve conseguir diploma superior, mas por seu
Seria ótimo se pudéssemos associar a Revolução exclusivamente
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

esforço e capacidade. [...]


à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, mas ela nas-
ceu na violência e imprimiu seus princípios em um mundo vio- Em suma, parece que trabalhamos para facilitar as coisas aos jo-
lento. Os conquistadores da Bastilha não se limitaram a destruir vens, em lugar de educá-los com e para o trabalho, zelo, esforço,
um símbolo do despotismo real. 4Entre eles, 150 foram mortos busca de mérito, uso da própria capacidade e talento, já entre as
ou feridos no assalto à prisão e, quando os sobreviventes apa- crianças. O ensino nas últimas décadas aprimorou-se em fazer os
nharam o diretor, cortaram sua cabeça e desfilaram-na por Paris pequenos aprender brincando. Isso pode ser bom para os bem
2
na ponta de uma lança. pequenos, mas já na escola elementar, em seus primeiros anos,
é bom alertar, com afeto e alegria, para o fato de que a vida não
Como podemos captar esses momentos de loucura, quando tudo
é só brincadeira, que lazer e divertimento são necessários até à
parecia possível e o mundo se afigurava como uma tábula rasa,
saúde, mas que a escola é também preparação para uma vida
apagada por uma onda de comoção popular e pronta para ser
profissional futura, na qual haverá disciplina e limites – que aliás
redesenhada? Parece incrível que um povo inteiro fosse capaz de
deveriam existir em casa, ainda que amorosos.
se levantar e transformar as condições da vida cotidiana. Duzen-
tos anos de experiências com admiráveis mundos novos torna- Muitos dirão que não estou sendo simpática. Não escrevo para
ram-nos céticos quanto ao planejamento social. Retrospectiva- ser agradável, mas para partilhar com meus leitores preocupa-
mente, a Revolução pode parecer um prelúdio ao totalitarismo. ções sobre este país com suas maravilhas e suas mazelas, num

77
momento fundamental em que, em meio a greves, justas ou de- trinta e três anos e você não sabe uma coisa dessas? Será que
satinadas, [...] se delineia com grande inteligência e precisão a um dia vai saber? Quando tem treze, ou vinte e três, acha que
possibilidade de serem punidos aqueles que não apenas preju- uma hora vai aprender tudo o que não sabe, basta ficar para-
dicaram monetariamente o país, mas corroeram sua moral, e a do que as coisas naturalmente virão e entrarão na sua cabeça.
dignidade de milhões de brasileiros. Está sendo um momento de Agora você percebe que talvez passe a vida ignorando certos
excelência que nos devolve ânimo e esperança. assuntos. Mar Vermelho. As regras do gamão. Francês.)
Revista Veja, de 26.09.2012. Pense: um homem. Pense: uma mulher. Adultos, no sentido mais
5. (IFSP) Assinale a alternativa em que se apresenta o emprego abstrato, como um casal num livro de inglês ou num vídeo de
da voz passiva analítica. normas de segurança do Detran. Espécimes maduros do Homo
sapiens sapiens: eles devem ter a sua idade. Talvez tenham filhos.
a) (...) a possibilidade de serem punidos aqueles que
Você tem filhos, ou ainda não? Repare no “ainda não”, pois, de
não apenas prejudicaram monetariamente o país (...).
todas as coisas que você não conquistou até agora, há que saber
b) Estamos carentes de excelência. discernir entre as que podem vir acompanhadas por um “ainda
c) (...) as universidades, que aos poucos (...) vão se não” e aquelas das quais é melhor desistir. Andar sobre as águas,
tornando reduto de pobreza intelectual. gênio da matemática, fenômeno da ginástica olímpica: não é pra
d) (...) não conseguem expor em letra ou fala seu todo mundo. E aos trinta e três anos, meu chapa, é hora de ad-
pensamento truncado e pobre. mitir: você é todo mundo. Sei que é difícil. Viu filmes da Sessão da
e) (...) parece que trabalhamos para facilitar as coisas Tarde demais, propagandas da Nike demais, foi mimado demais
aos jovens (...). para admitir que Deus não passou mais tempo moldando a sua
fôrma do que a do vizinho do 71. É a não compreensão desse

E.O. Dissertativo
banal infortúnio que faz com que haja em tantos rostos de sua
idade um brilho opaco, um fungo que brota onde o sol não bate
forte o suficiente: o ressentimento.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
Acredite em mim: aos trinta e três anos, de Jesus pra baixo, todo
DIGA TRINTA E TRÊS mundo é ressentido. Não é que as pessoas vivam vidas ruins, as
Trinta e três. Quem diria. A adolescência foi na última quinta, aspirações é que são muito altas. A Sessão da Tarde, as propa-
ainda há resquícios dela na estante de CDs, no seu vocabulário, gandas da Nike... Seu emprego é bom, mas o salário é ruim. O
num canto do armário – uma camisa xadrez que não vê a luz salário é bom, mas o chefe é mala. O chefe é você, mas os prazos
do sol desde um show do Faith No More, em 1997 –, mas são não te dão sossego. Sempre tem um cunhado que ganha mais,
resquícios. Vez ou outra você está no supermercado, comprando um vizinho cuja grama é mais verde, o próximo cuja mulher é
saco de lixo, queijo minas light e amaciante, e vê uma turma de mais fornida; Jesus, aos trinta e três, o Orson Welles, aos vinte e
garotos e garotas carregando garrafas de Smirnoff Ice e sacolas cinco – e o mau exemplo do Rimbaud eu nem comento.
de Doritos. Você olha para as franjas lambidas dos meninos, para Trinta e três anos. Você para. Desce do carro. Olha em volta. Você
os piercings das meninas e percebe, meio assustado, que aquele é o que queria ser quando crescesse? Não exatamente? Por que
é um mundo distante. Sente alguma vergonha do seu carrinho. não? Será que dá pra mudar? Quanto dá pra mudar?
Diga trinta e três: trinta e três. Diga: o que você fez? A essa al- É preciso achar lugar no peito para as frustrações. É preciso lidar
tura da estrada, uma parada é inevitável. Você desce do carro,
com o ressentimento e não deixar, em hipótese alguma, que ele
contempla a vista do mirante. Não é um olhar para trás, como
se transforme em cinismo – se ressentimento é fungo, cinismo é
devem fazer os velhos, ao fim da vida – ou devem evitar fazê-lo,
ferrugem. Agora volte para o carro e siga em frente. Se tudo der
dependendo –, mas um olhar em volta: isso aqui sou eu. Daqui
certo, você não está nem na metade do caminho.
pra frente, não vai mudar muito, vai? Já deu tempo de descobrir
que você não é um gênio da matemática, nem um fenômeno da Diga trinta e três: trinta e três. Quem diria.
ginástica olímpica. PRATA, Antonio. Meio intelectual, meio de esquerda.
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

Trinta e três anos. A idade de Cristo, alguém diz, e você logo São Paulo: Editora 34, 2010, p. 170-172.
pensa, repetindo um dos cacoetes de sua faixa etária: o que ele
1. (UFJF-PISM) Releia o último parágrafo do texto.
já tinha alcançado com a minha idade? Bom, tinha transforma-
do água em vinho, multiplicado peixes e pães, andado sobre as “Diga trinta e três: trinta e três. Quem diria.”
águas, levantado defuntos e conquistado uma multidão de fiéis Explique o efeito de sentido provocado pelo emprego do verbo
em toda Judeia, Galileia, Samaria, Efraim e arredores. E você, que “dizer” no imperativo e no futuro do pretérito do indicativo.
não tem nem casa própria? Também, naquele tempo era mais
fácil – você tenta se consolar –, não tinha tanta concorrência
e, oras, o cara era filho de Deus, o que não só abre portas, abre TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
até o Mar Vermelho! Mas você se compara, mesmo assim: Jesus Chuva no Brejo
deve ter andado sobre as águas com o quê? Dezessete? Orson (Moraes Moreira)
Welles fez Cidadão Kane com vinte e cinco. Rimbaud escreveu
toda a obra até os dezenove! E você tão feliz por ter conseguido Olha como a chuva cai
mais quinze seguidores no Twitter... E molha a folha aqui na telha
Faz um som assim
(O lance do Mar Vermelho... Foi com Jesus ou com Moisés? Céus,
Um barulhinho bom

78
Faz um som assim para ser cantada, fazendo-se acompanhar por instrumento de
Um barulhinho bom cordas, de preferência a lira.
Água nova A partir de então, configuraram-se muitos momentos em que a
Vida veio ver-te música e a poesia se uniram. 2Segundo Antônio Medina Rodri-
Voa passarinho gues, “a grande poesia medieval quase que foi exclusivamente
No teu canto canta concebida para o canto. 3O Barroco, séculos além, fez os primei-
Antiga cantiga ros ensaios operísticos, que iriam recolocar o teatro no coração
da música. 4Depois Mozart, com a Flauta mágica ou D. Giovanni,
No teu canto canta levaria, como sabemos, esta fusão ao sublime”.
antiga cantiga
Durante muito tempo, a poesia foi destinada à voz e ao ouvido.
(Fonte: [Link] Na Idade Média, “trovador” e “menestrel” eram sinônimos de
[Link]. Último acesso em: 23 nov. 2013)
poeta. 5Seria necessário esperar a Idade Moderna para que a
2. (CP2) Transcreva, do texto, uma forma verbal que está flexio- invenção da imprensa, 6e com ela o triunfo da escrita, acentu-
nada no modo imperativo. asse a distinção entre música e poesia. A partir do século XVI, a
lírica foi abandonando o canto para se destinar, cada vez mais, à
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO leitura silenciosa.
Entretanto, mesmo separado da música, o poema continuou pre-
servando traços daquela antiga união. Certas formas poéticas,
ainda vigentes, como o madrigal, o rondó, a balada e a cantiga
aludem diretamente às formas musicais. Se a separação de po-
etas e músicos dividiu a história de um gênero e outro, a poesia
não abandonou de vez a música tanto quanto a música não
abandonou de vez a poesia.
[...]
(Disponível em [Link]/[Link]/travessias/article/
2993/2342. Acesso: terça-feira, 12 de novembro de 2013) [adaptado]

4. (CP2) “O Barroco (...) fez os primeiros ensaios operísticos


(...)” (referência 3)

Reescreva o trecho acima transformando-o em voz passiva. Faça


apenas as modificações necessárias.

TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO

A China detonou uma bomba e pouca gente percebeu o estrago


que ela causou. Assim que abriu as portas para as multinacionais
oferecendo mão de obra e custos muito baratos, o país enfraque-
ceu as relações de trabalho no mundo. Em uma recente análise,
a revista inglesa The Economist mostra que a entrada da China,
da Índia e da ex-União Soviética na economia mundial dobrou a
força de trabalho. Com isso, o poder de barganha de sindicatos do
mundo inteiro teria se esfacelado. Provavelmente por isso, diz a
3. (UEG) Com base no texto acima,
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

revista, salários e benefícios tenham crescido apenas 11% desde


a) Identifique o interlocutor do texto citado. 2001 nas empresas privadas dos Estados Unidos, ante 17% nos
b) Há nesse texto a predominância de verbos no imperativo. cinco anos anteriores.
Qual é o sentido que o uso desse modo verbal se dá no texto? (Você s/a, setembro de 2005)

TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO 5. (Fgv) Considere o seguinte trecho do texto:

Em uma recente análise, a revista inglesa “The Economist”


MÚSICA E POESIA
mostra que a entrada da China, da Índia e da ex-União Soviética
Luciano Cavalcanti na economia mundial dobrou a força de trabalho.

A relação entre música e poesia vem desde a antiguidade. Na


Redija duas novas versões desse trecho, adotando a voz passiva,
cultura da Grécia Antiga, por exemplo, poesia e música eram pra-
ticamente inseparáveis: a poesia era feita para ser cantada. 1De a) com agente da passiva expresso em todo o trecho;
acordo com a tradição, a música e a poesia nasceram juntas. De b) empregando pronome apassivador, somente na
fato, a palavra “lírica”, de onde vem a expressão “poema lírico”, passagem - Em uma recente análise, a revista inglesa
significava, originalmente, certo tipo de composição literária feita “The Economist” mostra.

79
E.O. UERJ 1. (UERJ) Natividade não se opôs, mas entendia que algumas pa-
lavras deviam ser cortadas. (ref. 3)

Exame Discursivo A voz verbal na oração sublinhada põe em destaque a sugestão de


Natividade em relação ao discurso do filho.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO Identifique essa voz verbal e justifique seu emprego no texto, a
partir da afirmativa acima.
O DISCURSO
TEXTOS PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
Natividade é que não teve distrações de espécie alguma. Toda
ela estava nos filhos, e agora especialmente na carta e no discur- Texto I
so. Começou por não dar resposta às 1efusões políticas de Paulo;
foi um dos conselhos do conselheiro. Quando o filho tornou pelas ENTREVISTA COM JURANDIR FREIRE COSTA
férias tinha esquecido a carta que escrevera. (Entrevistador) “Quando você fala do amor nos dias de hoje, pa-
O discurso é que ele não esqueceu, mas quem é que esquece os rece identificar dois problemas opostos e complementares: a) uma
discursos que faz? Se são bons, a memória os grava em bronze; espécie de utilitarismo sexual, em que os indivíduos se servem dos
se ruins, deixam tal ou qual amargor que dura muito. 2O melhor parceiros como quem consome produtos; b) o mito do amor ro-
dos remédios, no segundo caso, é supô-los excelentes, e, se a mântico, que condena ao sofrimento as pessoas que se sentem
razão não aceita esta imaginação, consultar pessoas que a acei- incapazes de encontrar o parceiro ideal. Como essas duas distor-
tem, e crer nelas. A opinião é um velho óleo incorruptível. ções se combinam?
Paulo tinha talento. O discurso naquele dia podia pecar aqui ou (Entrevistado) “De fato, o que parece ser antagônico, como você
ali por alguma ênfase, e uma ou outra ideia vulgar e exausta. Ti- bem observou, no fundo é complementar. Em função do crescen-
nha talento Paulo. Em suma, o discurso era bom. Santos achou-o te individualismo, queremos sempre descartar o que nos causa
excelente, leu-o aos amigos e resolveu transcrevê-lo nos jornais. problema, o que nos entedia, o que é incapaz de despertar fortes
3
Natividade não se opôs, mas entendia que algumas palavras sensações ou grandes instantes de êxtase. É assim que estamos
deviam ser cortadas. aprendendo a ser felizes, como, em épocas anteriores, aprendemos
– Cortadas, por quê? perguntou Santos, e ficou esperando a resposta. a ser felizes de outras formas. No entanto, na raiz desse utilitarismo
– Pois você não vê, Agostinho; estas palavras têm sentido repu- tosco existe a promessa oculta de que, um dia, iremos encontrar
blicano, explicou ela relendo a frase que a afligira. alguém que preencha todos esses requisitos, ou seja, alguém que,
Santos ouvia-as ler, leu-as para si, e não deixou de lhe achar de forma permanente, seja interessante, excitante, apaixonante, to-
razão. Entretanto, não havia de as suprimir. lerante. Ora, esse alguém, todos sabemos, não existe, exceto na fic-
ção de nossos ideais. Mas, embora todos saibam que esse alguém
– Pois não se transcreve o discurso.
não existe, ninguém pensa em desistir de procurar, porque, sem
– Ah! isso não! O discurso é magnífico, e não há de morrer em S. ele, a vida perde todo atrativo. Eis o impasse. Jamais encontramos
Paulo; é preciso que a Corte o leia, e as províncias também, e até a figura ideal de pessoa perfeita para amar, mas não podemos
não se me daria fazê-lo traduzir em francês. Em francês, pode ser
dispensar a ilusão porque não sabemos inventar outras formas de
que fique ainda melhor.
satisfação pessoal, exceto a obsessão amorosa e sexual.
– Mas, Agostinho, isto pode fazer mal à carreira do rapaz; o impe-
No fundo, o triste resultado disso tudo é a descrença, a amargu-
rador pode ser que não goste...
ra, o ressentimento, a inveja e a espera passiva e resignada do
Pedro, que assistia desde alguns instantes ao debate, interveio milagre amoroso – que quase nunca chega – ou da morte, que,
docemente para dizer que os receios da mãe não tinham base; com certeza, chega! Isso, fique claro, não significa “condenar” ou
era bom pôr a frase toda, e, a rigor, não diferia muito do que os “menosprezar” a emoção amorosa, o que seria uma tolice. Isso
liberais diziam em 1848. significa constatar que a via de satisfação amorosa atual está con-
– Um monarquista liberal pode muito bem assinar esse trecho, denada ao impasse, até que venhamos a inventar novos modos de
concluiu ele depois de reler as palavras do irmão. amar. É porque fomos habituados a pensar que o “amor é único,
universal, e sempre o mesmo de hoje em dia” que não encontra-
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

– Justamente! 4assentiu o pai.


mos ânimo para imaginar novos modelos de realização amorosa.
5
Natividade, que em tudo via a inimizade dos gêmeos, suspei-
Ora, o que procurei mostrar no trabalho é que isso, em absoluto,
tou que o intuito de Pedro fosse justamente comprometer Paulo.
não é verdade. O romantismo amoroso é uma invenção cultural
Olhou para ele a ver se lhe descobria essa intenção torcida, mas a
recente, recentíssima, na história da humanidade. Não temos por
cara do filho tinha então o aspecto do entusiasmo. Pedro lia tre- que imaginar que ele é a “última forma de amar” nem mesmo que
chos do discurso, acentuando as belezas, repetindo as frases mais seja a melhor.”
novas, cantando as mais redondas, revolvendo-as na boca, tudo
(Entrevista com Jurandir Freire Costa. In: CARVALHO, J.
com tão boa sombra que a mãe perdeu a suspeita, e a impressão M. de et alii. Quatro autores em busca do Brasil. Entrevistas
do discurso foi resolvida. Também se tirou uma edição em folheto, a José Geraldo Couto. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.)
e o pai mandou encadernar ricamente sete exemplares, que levou
aos ministros, e um ainda mais rico para a Regente. Texto II
MACHADO DE ASSIS. Esaú e Jacó. Rio de CANTIGAS DE ACORDAR MULHER
Janeiro: Nova Aguilar, 1997.
Vagueio aquém do teu sono
efusão − manifestação expansiva de sentimentos
1
com alma de marinheiro
assentir − concordar
4
feliz de chegar a um porto

80
sem previsão no roteiro, E toda a vida universal palpita
mais tonto de o descobrir Dentro daquela pobre estrebaria...
que de lhe ser estrangeiro. Não houve sedas, nem cetins, nem rendas
Teu continente a dormir No berço humilde em que nasceu Jesus...
– pouso de barco ligeiro – Mas os pobres trouxeram oferendas
para os relógios num tempo Para quem tinha de morrer na Cruz.
avesso a qualquer ponteiro:
Sobre a palha, risonho, e iluminado
nem sei se o fico vivendo
Pelo luar dos olhos de Maria,
ou se te acordo primeiro.
Vede o Menino-Deus, que está cercado
(...)
Dos animais da pobre estrebaria.
Bom é sorrires, olhar
em mim: não vês Não nasceu entre pompas reluzentes;
o inimigo, o rival Na humildade e na paz deste lugar,
jamais. Assim que abriu os olhos inocentes,
Na caça, não serás Foi para os pobres seu primeiro olhar.
a presa; não serás, No entanto, os reis da terra, pecadores,
no jogo, a prenda. Seguindo a estrela que ao presepe os guia,
Partilharemos, sem meias Vêm cobrir de perfumes e de flores
medidas, O chão daquela pobre estrebaria.
a espera, o arroubo, o gesto,
o salto, o pouso, o sono Sobem hinos de amor ao céu profundo;
e o gosto desse rir Homens, Jesus nasceu! Natal! Natal!
dentro e fora do tempo Sobre esta palha está quem salva o mundo,
sempre que nova mente Quem ama os fracos, quem perdoa o Mal!
acordares. Natal! Natal! Em toda Natureza
(...) Há sorrisos e cantos, neste dia...
Acorda, meu bem, acorda: Salve, Deus da Humildade e da Pobreza,
são horas de vigilar Nascido numa pobre estrebaria!
feliz quem menos recorda
OLAVO BILAC. In: BUENO, Alexei (Org.). Olavo Bilac:
e faz do tempo passar obra reunida. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996.
monjolo-pêndulo-corda
tocando um relógio de ar 3. (UERJ) Vede o Menino-Deus, que está cercado (v. 11)
onde o momento concorda As formas verbais deste verso modificam a representação do fato
com ser eterno e findar! relatado, já que nas duas primeiras estrofes predomina o tempo
Acorda, meu bem, acorda
passado dos verbos.
e ajuda teu madrugar:
a mão do dia transborda Explicite o efeito estilístico causado pelo emprego de cada uma
de coisas para te dar! dessas formas verbais: uma no modo imperativo e outra no pre-
sente do indicativo.
(CAMPOS, Geir. Antologia poética.
Rio de Janeiro: Léo Christiano Editorial, 2003.)

2. (UERJ) Os textos I e II apresentam e discutem diferentes con- E.O. Objetivas


figurações da relação amorosa.

a) No texto I, o entrevistador se refere a duas maneiras de


(Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp)
amar: uma em que o ser amado é objeto de consumo e TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

outra em que o ser amado é objeto de uma idealização.


Indique a qual destas formas de amar se contrapõe o Leia Violência urbana, de Paulo Sérgio Pi-
o excerto do livro
trecho compreendido entre as linhas 23 e 27 de “Can- nheiro e Guilherme Assis de Almeida, para responder à(s) ques-
tigas de Acordar Mulher” e justifique sua resposta. tão(ões) abaixo.
b) No poema de Geir Campos, ao se dirigir à amada, o
De dia, ande na rua com cuidado, olhos bem abertos. Evite falar
amante assume, nas duas últimas estrofes (l. 13 a 39),
atitudes diferentes, que se evidenciam nos modos ver- com estranhos. À noite, não saia para caminhar, principalmente
bais empregados. se estiver sozinho e seu bairro for deserto. Quando estacionar,
Identifique esta diferença de atitudes relacionando-a tranque bem as portas do carro [...]. De madrugada, não pare
aos modos verbais empregados. em sinal vermelho. Se for assaltado, não reaja – entregue tudo.
É provável que você já esteja exausto de ler e ouvir várias dessas re-
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
comendações. Faz tempo que a ideia de integrar uma comunidade
e sentir-se confiante e seguro por ser parte de um coletivo deixou
NATAL
de ser um sentimento comum aos habitantes das grandes cidades
Jesus nasceu! Na abóbada infinita brasileiras. As noções de segurança e de vida comunitária foram
Soam cânticos vivos de alegria; substituídas pelo sentimento de insegurança e pelo isolamento

81
que o medo impõe. O outro deixa de ser visto como parceiro ou Não me alegra, ou me desgosta
parceira em potencial; o desconhecido é encarado como ameaça. Doutra o mimo, ou o desdém,
O sentimento de insegurança transforma e desfigura a vida em Satisfaz-me e me contenta
nossas cidades. De lugares de encontro, troca, comunidade, partici- Só Arminda e mais ninguém.
pação coletiva, as moradias e os espaços públicos transformam-se Cantem os outros pastores
em palco do horror, do pânico e do medo. Outras pastoras também,
A violência urbana subverte e desvirtua a função das cidades, Que eu canto e cantarei sempre
drena recursos públicos já escassos, ceifa vidas – especialmente Só Arminda e mais ninguém.
as dos jovens e dos mais pobres –, dilacera famílias, modificando Viola de Lereno, 1980.
nossas existências dramaticamente para pior. De potenciais cida- 2. (Unesp) Assinale a alternativa que indica duas estrofes em que
dãos, passamos a ser consumidores do medo. O que fazer diante o termo “Arminda” surge como paciente da ação expressa pelo
desse quadro de insegurança e pânico, denunciado diariamente verbo da oração de que faz parte.
pelos jornais e alardeado pela mídia eletrônica? Qual tarefa im-
a) Primeira e terceira estrofes.
põe-se aos cidadãos, na democracia e no Estado de direito?
b) Sétima e oitava estrofes.
Violência urbana, 2003. c) Primeira e oitava estrofes.
1. (Unesp) O trecho “As noções de segurança e de vida comunitária d) Terceira e quarta estrofes.
foram substituídas pelo sentimento de insegurança e pelo isolamen- e) Terceira e quinta estrofes.
to que o medo impõe.” (2º parágrafo) foi construído na voz passiva.
Ao se adaptar tal trecho para a voz ativa, a locução verbal “foram TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
substituídas” assume a seguinte forma: Olhar para o céu noturno é quase um privilégio em nossa atri-
a) substitui. bulada e iluminada vida moderna. (...) Companhias de turismo
b) substituíram. deveriam criar “excursões noturnas”, em que grupos de pessoas
c) substituiriam. são transportados até pontos estratégicos para serem instruídos
por um astrônomo sobre as maravilhas do céu noturno. Seria
d) substituiu.
o nascimento do “turismo astronômico”, que complementaria
e) substituem.
perfeitamente o novo turismo ecológico. E por que não?
Turismo astronômico ou não, talvez a primeira impressão ao obser-
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO varmos o céu noturno seja uma enorme sensação de paz, de per-
manência, de profunda ausência de movimento, fora um eventual
A(s) questão(ões) tomam por base uma modinha de Domingos avião ou mesmo um satélite distante (uma estrela que se move!).
Caldas Barbosa (1740-1800). Vemos incontáveis estrelas, emitindo sua radiação eletromagnéti-
ca, perfeitamente indiferentes às atribulações humanas.
PROTESTOS A ARMINDA
Essa visão pacata dos céus é completamente diferente da visão
Conheço muitas pastoras de um astrofísico moderno. As inocentes estrelas são verdadei-
Que beleza e graça têm, ras fornalhas nucleares, produzindo uma quantidade enorme de
Mas é uma só que eu amo energia a cada segundo. A morte de uma estrela modesta como
Só Arminda e mais ninguém. o Sol, por exemplo, virá acompanhada de uma explosão que che-
gará até a nossa vizinhança, transformando tudo o que encontrar
Revolvam meu coração pela frente em poeira cósmica.
Procurem meu peito bem, (O leitor não precisa se preocupar muito. O Sol ainda produzirá
Verão estar dentro dele
energia “docilmente” por mais uns 5 bilhões de anos.)
Só Arminda e mais ninguém.
Marcelo Gleiser, Retalhos cósmicos
De tantas, quantas belezas
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

Os meus ternos olhos veem, 3. (Fuvest) Transpondo-se corretamente para a voz ativa a ora-
Nenhuma outra me agrada ção “para serem instruídos por um astrônomo (...)”, obtém-se:
Só Arminda e mais ninguém. a) para que sejam instruídos por um astrônomo (...).
Estes suspiros que eu solto b) para um astrônomo os instruírem (...).
Vão buscar meu doce bem, c) para que um astrônomo lhes instruíssem (...).
É causa dos meus suspiros d) para um astrônomo instruí-los (...).
Só Arminda e mais ninguém. e) para que fossem instruídos por um astrônomo (...).
Os segredos de meu peito 4. (Fuvest) A transformação passiva da frase “A religião te inspi-
Guardá-los nele convém, rou esse anúncio.” apresentará o seguinte resultado:
Guardá-los aonde os veja
Só Arminda e mais ninguém. a) Tu te inspiraste na religião para esse anúncio.
b) Esse anúncio inspirou-se na tua religião.
Não cuidem que a mim me importa
c) Tu foste inspirado pela religião nesse anúncio.
Parecer às outras bem,
Basta que de mim se agrade d) Esse anúncio te foi inspirado pela religião.
Só Arminda e mais ninguém. e) Tua religião foi inspirada nesse anúncio.

82
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO 2. (Fuvest) Leia este aviso, comum em vários lugares públicos:
VIDE VERSO MEU ENDEREÇO
Falado:
Seu Gervásio, se o doutor José Aparecido
aparecer por aqui, o senhor dá esse bilhete a
ele, viu? Pode ler, não tem segredo nenhum. a) As pessoas que não gostam de ser filmadas prefeririam
Pode ler, seu Gervásio. uma mensagem que dissesse o contrário. Para atender a
Venho por meio dessas mal traçadas linhas essas pessoas, reescreva o aviso, usando a primeira pessoa
Comunicar-lhe que fiz um samba pra você do plural e fazendo as modificações necessárias.
No qual quero expressar toda minha gratidão b) Criou-se, recentemente, a palavra “gerundismo”, para
E agradecer de coração tudo o que você me fez. designar o uso abusivo do gerúndio. Na sua opinião,
Com o dinheiro que um dia você me deu esse tipo de desvio ocorre no aviso acima? Explique.
Comprei uma cadeira lá na Praça da Bandeira
Ali vou me defendendo TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
Pegando firme, dá pra tirá mais de mil por mês.
PROCURA DA POESIA
Casei, comprei uma casinha lá no Ermelindo
Tenho três filhos lindos, dois são meus, um é de criação. Não faças versos sobre acontecimentos,
Eu tinha mais coisas pra lhe contar Não há criação nem morte perante a poesia.
Mas vou deixar pra uma outra ocasião. Diante dela, a vida é um sol estático,
Não repare a letra, a letra é de minha mulher. não aquece nem ilumina.
Vide verso meu endereço, apareça quando quiser. As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
(Adoniran Barbosa, CD Adoniran Barbosa-1975, (...)
remasterizado EMI, 1994.) Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
5. (Unifesp) A expressão “vide verso” significa “ver no verso”. (...)
Se optasse pela forma verbal conjugada e mantivesse a forma de
Chega mais perto e contempla as palavras.
tratamento que dá ao doutor José Aparecido, o poeta escreveria
Cada uma
a) Vê no verso meu endereço, aparece quando quiser. tem mil faces secretas sob a face neutra
b) Vejas no verso meu endereço, aparece quando quiser. e te pergunta, sem interesse pela resposta
c) Vês no verso meu endereço, apareça quando quiser. pobre ou terrível, que lhe deres:
d) Vejai no verso meu endereço, aparecei quando quiser. Trouxeste a chave?
e) Veja no verso meu endereço, apareça quando quiser.
Carlos Drummond de Andrade. Procura da Poesia.

E.O. Dissertativas 3. (Unesp) Nos fragmentos do poema, há vários verbos emprega-


dos na 2a pessoa do modo imperativo, pressupondo o sujeito tu.

(Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp) a) Transcreva esses verbos.


b) Ponha os verbos transcritos, na 3a pessoa, pressu-
1. (Fuvest) Leia o trecho de uma canção de Cartola, tal como pondo o sujeito você.
registrado em gravação do autor:
4. (Fuvest) Examine a propaganda.
(...)
Ouça-me bem, amor,
Preste atenção, o mundo é um moinho,
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos,


Vai reduzir as ilusões a pó.
Preste atenção, querida,
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares, estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com teus pés.
Cartola, “O mundo é um moinho”.
a) Na primeira estrofe, há uma metáfora que se desdo-
bra em outras duas. Explique o sentido dessas metáforas.
b) Caso o autor viesse a optar pelo uso sistemático
da segunda pessoa do singular, precisaria alterar
algumas formas verbais. Indique essas formas e as
respectivas alterações.

[Link]. Adaptado.

83
a) Considerando o contexto da propaganda, existe al- 4. É possível reescrever o trecho tanto na voz passiva analítica,
guma relação de sentido entre a imagem estilizada dos isto é, verbo conjugado no tempo apropriado + particípio do
dedos e as palavras “digital” e “diferença”? Explique. verbo principal e, nesse caso, teríamos “Os primeiros ensaios
b) Sem alterar o modo verbal, reescreva o trecho “Ve- operísticos foram feitos pelo Barroco”.
nha para a biometria. Cadastre suas digitais.”, pas- Também é possível utilizar a partícula apassivadora “se” segui-
sando os verbos para a primeira pessoa do plural e da do verbo na terceira pessoa, construindo uma oração na voz
fazendo as modificações necessárias. passiva sintética e omitindo o agente da passiva. Nesse caso,
teríamos “Fizeram-se os primeiros ensaios operísticos”.
5. (Fuvest) Leia o texto.
No Brasil colonial, o indissolúvel vínculo do matrimônio, tal 5.
como ele era concebido pela Igreja Católica, nem sempre termina- a) Voz passiva analítica:
va com a morte natural de um dos cônjuges. A crise do casamen- Em uma recente análise, é mostrado pela revista “The
to assumia várias formas: a clausura das mulheres, enquanto os Economist” que a força de trabalho foi dobrada pela
maridos continuavam suas vidas; a separação ou a anulação do entrada da China, da Índia e da ex-União Soviética na
matrimônio decretadas pela Igreja; a transgressão pela bigamia economia mundial.
ou mesmo pelo assassínio do cônjuge. b) Voz passiva sintética:
Maria Beatriz Nizza da Silva, História da Em uma recente análise, mostra-se que a entrada da
Família no Brasil Colonial. Adaptado. China, da Índia e da ex-União Soviética na economia
mundial dobrou a força de trabalho.
a) No texto, que ideia é sintetizada pela palavra “crise”?
b) Reescreva a oração “tal como ele era concebido
pela Igreja Católica”, empregando a voz ativa e fa-
zendo as adaptações necessárias.
E.O. UERJ
Exame Discursivo
Gabarito 1. Voz passiva.
A preocupação de Natividade eram as palavras a serem cortadas
e não quem as cortaria.
E.O. Aprendizagem 2.
1. D 2. D 3. C 4. A 5. D a) O trecho entre as linhas 23 e 27 de “Cantigas de
6. D 7. C 8. D 9. C 10. B Acordar Mulher” contrapõe-se à concepção de amor
como consumo do bem amado.
Neste trecho, o amor é valorizado como uma relação
E.O. Fixação igual, solidária.
1. D 2. A 3. A 4. C 5. E b) Modo indicativo: realização dos fatos
Modo imperativo: um apelo para que algo aconteça
6. B 7. B 8. D 9. A 10. C 3. Os termos verbais “vede” e “está” interrompem o fato relata-
do anteriormente nas duas primeiras estrofes do poema. Assim,
E.O. Complementar com o modo imperativo, o enunciador dirige-se aos homens,
convocando-os a olhar o Menino-Deus. Com o presente do in-
1. D 2. A 3. E 4. B 5. A dicativo, o enunciador torna a cena atual e viva, como se ela se
desenrolasse diante das pessoas que ali estão presentes.

E.O. Dissertativo
E.O. Objetivas
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

1. O modo imperativo é utilizado para dar ordens ou fazer pe-


didos; é o que ocorre em “Diga trinta e três”, quando o autor
emprega a célebre frase de um médico ao examinar um paciente.
(Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp)
Já o futuro do pretérito do modo indicativo aponta uma pondera- 1. B 2. C 3. D 4. D 5. E
ção do autor, surpreso por chegar aos trinta e três anos de idade.
2. A partir do pronome “teu”, na segunda pessoa do singular, po-
de-se perceber que o interlocutor do eu lírico é um “tu”. Os verbos
E.O. Dissertativas
“olha” e “voa” referem-se, portanto, a uma segunda pessoa do (Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp)
singular. Dessa forma, conclui-se que estão conjugados no impera- 1.
tivo, pois a forma verbal do imperativo para o “tu” para os verbos
a) A metáfora “o mundo é um moinho” é desenvolvida
“olhar” e “voar” respectivamente é “olha” e “voa”.
em duas outras - “vai TRITURAR teus sonhos...”, “vai
3. REDUZIR as ilusões a pó”. O sentido é a destruição dos
a) O interlocutor é o leitor do texto. sonhos.
b) O modo imperativo concede ao texto o sentido de b) “Preste” deve ficar “presta” (duas vezes) e “ouça”,
sugestão, conselho e ordem. “ouve”.

84
2.
a) “Sorriamos, nós não estamos sendo filmados!”
b) O uso do gerúndio na oração “você está sendo fil-
mado” é pertinente, pois expressa uma ação prolon-
gada que acontece no momento em que é enunciada.
3.
a) Os verbos na 2ª pessoa do singular do modo impe-
rativo são “faças”, “penetra”, “chega” e “contempla”.
b) “faça”, “penetre”, “chegue”, “contemple”.
4.
a) Sim, existe relação de sentido entre a imagem e as pa-
lavras “digital” e “diferença”. A imagem dos rostos que
encabeçam os dedos revelam a diversidade do semblan-
te de cada ser humano, característica que se apresenta
também no desenho das impressões digitais de cada um.
A propaganda, que pretende esclarecer as pessoas so-
bre a importância da biometria como fator de segurança
para o processo eleitoral, amplia o significado da palavra
“diferença” ao associar o termo à melhoria do processo
por garantir que ninguém votará no lugar de outro.
b) Mantendo os verbos no modo imperativo na primeira
pessoa do plural, a frase apresentaria a seguinte configu-
ração: “Venhamos para a biometria. Cadastremos nossas
digitais.”
5.
a) O termo “crise” refere-se a conflitos matrimoniais que
obrigavam à separação do casal, contrariando assim os
preceitos da Igreja Católica que considerava o casamen-
to como um vínculo indissolúvel.
b) Na voz ativa, a oração apresentaria a seguinte confi-
guração: tal como a Igreja Católica o concebia.

VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

85
ANOTAÇÕES

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86
ENTRE
LETRAS

LINGUAGENS
LITERATURA
CÓDIGOS
e suas tecnologias
LC
FUNDAMENTOS PARA O ESTUDO
LITERÁRIO: ARTE E TÉCNICA

AULAS COMPETÊNCIA(s) HABILIDADE(s)

1E2
5 15, 16 e 17

E.O. Aprendizagem Com base no poema abaixo, responda às questões de 4 a 6.

RENÚNCIA
1. O gênero dramático, entre outros aspectos, apresenta como
característica essencial:
Chora de manso e no íntimo... Procura
Tentar curtir sem queixa o mal que te crucia:
a) a presença de um narrador. O mundo é sem piedade e até riria
b) a estrutura dialógica. Da tua inconsolável amargura.
c) o extravasamento lírico.
d) a musicalidade. Só a dor enobrece e é grande e é pura.
e) o versilibrismo. Aprende a amá-la que a amarás um dia.
Então ela será tua alegria,
2. O soneto é uma das formas poéticas mais tradicionais e difundi- E será ela só tua ventura...
das nas literaturas ocidentais; expressa, quase sempre, conteúdo:
A vida é vã como a sombra que passa
a) dramático. Sofre sereno e de alma sombranceira
b) satírico. Sem um grito sequer tua desgraça.
c) lírico.
Encerra em ti tua tristeza inteira
d) épico. E pede humildemente a Deus que a faça
e) cronístico. Tua doce e constante companheira...
3. Leia o poema abaixo, de Gregório de Matos Guerra. Manuel Bandeira

SONETO 4. Pelo entendimento que se faz do poema, pode-se perceber que:


a) O poema tenta convencer as pessoas que têm um
Rubi, concha de perlas peregrina, mal a se acostumar com ele, amar a dor e sofrer em
Animado cristal, viva escarlata, silêncio, sem fazer alarde.
Duas safiras sobre lisa prata, b) O poema tenta convencer as pessoas a denunciar
Ouro encrespado sobre prata fina. todo e qualquer mal que as atormenta.
Este o rostinho é de Caterina; c) Há uma tentativa insistente do poeta em mudar
E porque docemente obriga, e mata, o comportamento das pessoas que têm um mal, no
Não livra o ser divina em ser ingrata, sentido de que elas precisam buscar socorro e solida-
E raio a raio os corações fumina. riedade dos indivíduos, porque a sociedade sempre
tem piedade dos enfermos.
Viu Fábio uma tarde transportado
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

d) Há um desejo do poeta em buscar a solidariedade


Bebendo admirações, e galhardias,
e compreensão das pessoas em relação à dor que ele
A quem já tanto amor levantou aras:
sente, pois, segundo ele, a vida é um bem precioso que
Disse igualmente amante, e magoado: precisa ser preservado.
Ah muchacha gentil, que tal serias, e) O poeta, sendo modernista, na verdade, está so-
Se sendo tão formosa não cagaras! mente jogando com as palavras, para dar um efeito
MATOS, Gregório de. Antologia. sonoro e rímico.
Porto Alegre: L&MP, 2006, p. 165.
5. Analisando quanto ao gênero literário, podemos dizer que o
Aponte o gênero literário a que pertence o texto. poema “Renúncia” tem um caráter:

a) Crônica a) romanesco.
b) Poesia erótico-irônica b) objetivista.
c) Poesia religiosa c) lírico.
d) Paródia sacra d) dramático.
e) Poesia encomiástica e) épico.

88
6. Analisando a passagem “procura curtir sem queixa o mal que a) a representação da totalidade da vida.
te crucia” (versos 1 e 2), percebe-se: b) a expressão direta de personagens.
a) Um sentido contraditório, pois quando se fala em c) a narração de uma história.
“curtir”, imagina-se uma coisa boa. d) o uso da prosa.
b) Que o poeta apela para as pessoas se queixa- rem e) o emprego da prosa poética.
das coisas ruins da vida. 8. (G1 - cftmg 2015) Sobre os gêneros literários, afirma-se:
c) Um sentido convergente, pois o poeta deixa claro
que em todo bem há sempre um fragmento de mal. I. O gênero dramático abrange textos que tematizam o sofrimento
e a aflição da condição humana.
d) Que as pessoas devem viver também o mal, mas
II. Textos pertencentes ao gênero lírico privilegiam a expressão
devem se queixar sempre dele.
subjetiva de estados interiores.
e) Um sentido contraditório, pois o poeta deixa claro
III. O gênero épico compreende textos sobre acontecimentos
que não se pode viver o bem e o mal ao mesmo tempo. grandiosos protagonizados por heróis.

Leia o trecho do poema para responder a questão a seguir. IV. Em literatura, o romance e a novela são formas narrativas
pertencentes ao gênero dramático.
MOÇA DE GOIATUBA Estão corretas apenas as afirmativas
Mal rompeu o dia – a moça a) I e II.
Foi levar café com leite b) I e IV.
Para o filho do patrão, c) II e III.
Sentada à beira da cama, d) III e IV.
Como fez sempre, esperava,
Como fez sempre, que o moço 9. Gênero dramático é aquele em que o artista usa como intermediária
lhe reclamasse mais pão. entre si e o público a representação. A palavra vem do grego drao (fa-
zer) e quer dizer ação. A peça teatral é, pois, uma composição literária
Mas o moço não queria
destinada à apresentação por atores em um palco, atuando e dialogando
nem pão nem café com leite.
entre si. O texto dramático é complementado pela atuação dos atores
Queria – e com que paixão
no espetáculo teatral e possui uma estrutura específica, caracterizada:
dentro dos olhos! – queria-lhe
os peitinhos em botão. 1. pela presença de personagens que devem estar ligados com lógica uns
Daí o moço pediu-lhe aos outros e à ação;
que se deitasse com ele 2. pela ação dramática (trama, enredo), que é o conjunto de atos dra-
um pouco... que assim veria máticos, maneiras de ser e de agir das personagens encadeadas à uni-
que era bom o colchão. dade do efeito e segundo uma ordem composta de exposição, conflito,
Mas a moça riu e disse complicação, clímax e desfecho;
que não tinha precisão, 3. pela situação ou ambiente, que é o conjunto de circunstâncias físicas,
pois era dia e de noite sociais, espirituais em que se situa a ação;
tinha dormido um tantão. 4. pelo tema, ou seja, a ideia que o autor (dramaturgo) deseja expor, ou
Daí o moço pediu-lhe sua interpretação real por meio da representação.
que ela tirasse o vestido
Adaptado de: COUTINHO, A. Notas de teoria literária.
depois a combinação Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1973.
depois deitasse na cama
que era bem quente o colchão. Considerando o texto e analisando os elementos que constituem
um espetáculo teatral, conclui-se que:
Mas a moça riu e disse
não estar com frio não a) a criação do espetáculo teatral apresenta-se como um
que o vestido que vestia fenômeno de ordem individual, pois não é possível sua
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

tirar não podia não concepção de forma coletiva.


que a patroa foi quem disse b) o cenário onde se desenrola a ação cênica é conce-
que devia ter vergonha bido e construído pelo cenógrafo de modo autônomo e
e cobrir-se com vestido, independente do tema da peça e do trabalho interpre-
calcinha e combinação... tativo dos atores.
E se foi, deixando moço c) o texto cênico pode originar-se dos mais variados gêne-
a se torcer de paixão. ros textuais, como contos, lendas, romances, poesias, crô-
E quando foram chamá-lo, nicas, notícias, imagens e fragmentos textuais, entre outros.
o moço tinha dormido d) o corpo do ator na cena tem pouca importância na
e não acordou mais não. comunicação teatral, visto que o mais importante é
[...] a expressão verbal, base da comunicação cênica em
toda a trajetória do teatro até os dias atuais.
SOUZA, Afonso Félix de. Nova antologia poética. e) a iluminação e o som de um espetáculo cênico inde-
Goiânia: Cegraf UFG, 1991, p. 78.
pendem do processo de produção/ recepção do espe-
7. Uma característica incomum ao gênero lírico presente neste táculo teatral, já que se trata de linguagens artísticas
trecho do poema é:
diferentes, agregadas posteriormente à cena teatral.

89
10. “Na serra de Ibiapaba, numa de suas encostas mais altas, encon- TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
trei um jegue. Estava voltado para o lado e me pareceu que descorti-
nava o panorama. Mas quando me aproximei, percebi que era cego.” O MOMENTO DO AMOR

Oswaldo França Júnior, em As Laranjas Iguais. O conselheiro é um homem encantador. Baudelaire dizia: “Cá
temos um homem que fala do seu coração – deve ser um cana-
O fragmento é representante do gênero: lha”. O conselheiro não fala do seu coração, mas é um homem
a) lírico. sensível. Com 75 anos, teso, bem vestido, correto, possuidor de
b) épico. doze netos e cinco bisnetos, a sua conversa é sempre cheia de
c) narrativo. alegria e de mocidade. Outra noite, estávamos no seu salão, e de
repente rompeu na rua um “zépereira”.
d) dramático.
O conselheiro exclamou:
e) Nenhuma das opções acima. – Eh! Eh! As coisas esquentam!
Como o conselheiro é idoso, pensei vê-lo atacar os costumes e o

E.O. Fixação carnaval. Para gozar da sua simpatia, refleti:


– Temos cada vez mais a dissolução da moral!
– Quem lhe fala nisso? – indagou o conselheiro. Talvez por ter
1. Assinale V (verdadeiro) ou F (falso). Sobre literatura, gê-
sido sempre um homem moral nunca precisei de descompor os
nero e estilo literários, pode-se dizer que:
costumes para julgar-me sério. Sabe o que eu sinto quando ouço
um “zé-pereira”?
( ) tanto no verso quanto na prosa pode haver poesia.
– Francamente, conselheiro...
( ) todo momento histórico apresenta um conjunto de normas que ca- – Sinto que chega o grande momento do amor no rio...
racteriza suas manifestações culturais, constituindo o estilo da época. – De fato, a liberdade dos costumes.
( ) o texto literário é aquele em que predominam a repetição da – Heim?
realidade, a linguagem linear, a unicidade de sentido. – Sim, os préstitos, as cortesãs, a promiscuidade, as meninas de
( ) no gênero lírico, os elementos do mundo exterior predomi- pijama cantando versos pouco sérios, os lança-perfumes, a ba-
nam sobre os do mundo interior do eu poético.
canal...
– Meu filho, quando se chega a uma certa idade, o resultado
2. Relacione as espécies literárias abaixo com suas respectivas é tudo. Se quisermos ver nos três dias de carnaval a folia como
características dispostas subsequentemente e assinale a alter-
depravação, posso garantir que as brincadeiras de antanho com
nativa correta:
o entrudo, os banhos d’água fria, o porta-voz eram livres como
as de hoje com os lança-perfumes, os confetes e as serpentinas.
I. Poema lírico Mas não se trata disso. Trata-se de coisa mais séria. Eu casei aos
II. Conto 18 anos, isto é, há quase 58 anos fiz a loucura de tomar por
esposa a minha querida Genoveva. Mas, passado o primeiro ano,
III. Crônica essa alucinação causou-me tal pasmo que resolvi estudar-lhe as
IV. Romance causas. E descobri.
V. Texto teatral – Quais foram?
– Uma só: o momento do amor!
( ) Modalidade de texto literário que oferece uma amostra da – Conselheiro!
vida através de um episódio, um flagrante ou instantâneo, um – Há uma época no Rio absolutamente amorosa, quer no tempo
momento singular e representativo; possui economia de meios da monarquia, quer na República. Consultei estatísticas, obser-
narrativos e densidade na construção das personagens. vei, indaguei, procedi a inquéritos pessoais... Sabe qual é essa
época? A do carnaval! Note você como aumentam os casamen-
()À intensidade expressiva desse tipo de texto literário, à
tos nos meses seguintes ao carnaval. A maioria das inclinações,
sua concentração e ao seu caráter imediato, associa-se, como
dos namoros que terminam em casório, começam no carnaval.
traço estético importante, o uso do ritmo e da musicalidade.
Três meses depois estava casado. Cinco dos meus filhos namo-
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

( ) Essa modalidade de texto literário prende-se a uma vasta raram no carnaval. Minha filha Berenice com 30 anos arranjou o
área de vivência, faz-se geralmente de uma história longa e marido que lhe faz a vida feliz, no carnaval. Nove dos meus netos
apresenta uma estrutura complexa. seguiram a regra...
– Mas, conselheiro, se é verdade o que V. Exa. diz, era o caso de
( ) Nos textos do gênero, o narrador parece estar ausente da
fazer uns quatro carnavais por ano...
obra, ainda que, muitas vezes, se revele nas rubricas ou nos
– Não daria resultado, meu amigo. O carnaval é uma embriaguez
diálogos; neles impõe-se rigoroso encadeamento causal.
d´alegria. Quem se embriaga uma vez por ano não está acostu-
( ) Espécie narrativa entre literatura e jornalismo, subjetiva, mado. Quem se embriaga quatro, raciocina na bebedeira. Veneza
breve e leve, na qual muitas vezes autor, narrador e protago- acabou pelo abuso da máscara. Nós acabaríamos pelo abuso do
nista se identificam. “zé-pereira”. Mas uma vez por ano é bem o verão impetuoso do
a) II – I – V – III – IV desejo, o momento do amor.
Depois suspirando:
b) II – I – IV – V – III
– Aproveite-o você. Eu infelizmente não posso mais. A velhice é
c) II – I – III – V – IV como o maître d’hotel da vida. Indica ao cliente o prato ótimo do
d) I – II – V – III – IV cardápio e não o come.
e) I – IV – II – V – III (João do Rio)

90
3. (FEI) O texto pertence ao gênero conhecido por: 5. (Ibmecrj) Ao avaliarmos o texto quanto a seu gênero literário,
podemos afirmar que ele pertence:
a) conto.
b) romance. a) Ao gênero narrativo, pois conta a história triste do poeta.
c) crônica. b) Ao gênero lírico, pois expressa os sentimentos do
d) reportagem. eu-poético.
e) novela. c) Ao gênero dramático, pois evidencia o drama sen-
timental do poeta.
4. (Cesgranrio) Associe os gêneros literários às suas respectivas d) Ao gênero épico, pois exterioriza e narra as emoções
características. do eu-lírico de forma grandiloquente.
1 – Gênero lírico e) Ao gênero descritivo pois descreve os detalhes do
contexto físico da cena.
2 – Gênero épico
3 – Gênero dramático 6. Sobre a arte literária, considere as seguintes afirmações:
( ) Exteriorização dos valores e sentimentos coletivos I. ao escrever, o escritor é obrigado a manter um compromisso –
( ) Representação de fatos com presença física de atores ser fiel à realidade, compondo um verdadeiro retrato do mundo;

( ) Manifestação de sentimentos pessoais predominando, assim, II. ao ler obra literária, um dos aspectos que o leitor deve levar
a função emotiva em conta é a visibilidade – capacidade de imaginar sensivelmente
o que se lê;
A sequência correta, de cima para baixo, é
a) 3 – 2 – 1 III. a literatura é a arte da palavra, razão pela qual não há fórmu-
las pré-concebidas para se construir, por exemplo, um bom poema.
b) 2 – 3 – 1
c) 2 – 1 – 3 Quais estão corretas?
d) 1 – 3 – 2
a) Apenas I.
e) 1 – 2 – 3
b) Apenas II.
c) Apenas II e III.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO.
d) Apenas III.
Joaquim Maria Machado de Assis é cronista, contista, drama- e) I, II e III.
turgo, jornalista, poeta, novelista, romancista, crítico e ensaísta.

Em 2008, comemora-se o centenário de sua morte, ocorrida em E.O. Complementar


setembro de 1908. Machado de Assis é considerado o mais canô-
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
nico escritor da Literatura Brasileira e deixou uma rica produção
literária composta de textos dos mais variados gêneros, em que se Cronista sem assunto
destacam o conto e o romance.
Difícil é ser cronista regular de algum periódico. Uma crônica
por semana, havendo ou não assunto... É buscar na cabeça
Segue o texto desse autor, em poesia.
uma luzinha, uma palavra que possa acender toda uma frase,
A Carolina um parágrafo, uma página inteira – mas qual? Onde o ímã
que atraia uma boa limalha? Onde a farinha que proverá o
Querida, ao pé do leito derradeiro pão substancioso? O relógio está correndo e o assunto não
Em que descansas dessa longa vida, vem. Cronos, cronologia, crônica, tempo, tempo, tempo... Que
Aqui venho e virei, pobre querida, tal falar da falta de assunto? Mas isso já aconteceu umas três
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

Trazer-te o coração do companheiro. vezes... Há cronista que abre a Bíblia em busca de um grande
tema: os mandamentos, um faraó, o Egito antigo, as pragas, as
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro pirâmides erguidas pelo trabalho escravo? Mas como atualizar
Que, a despeito de toda a humana lida, o interesse em tudo isso? O leitor de jornal ou de revista anda
Fez a nossa existência apetecida com mais pressa do que nunca, e, aliás, está munido de um
E num recanto pôs um mundo inteiro. celular que lhe coloca o mundo nas mãos a qualquer momento.
Sim, a internet! O Google! É a salvação. Lá vai o cronista caçar
Trago-te flores, - restos arrancados
assunto no computador. Mas aí o problema fica sendo o ex-
Da terra que nos viu passar unidos,
cesso: ele digita, por exemplo, “Liberdade”, e lá vem a estátua
São pensamentos idos e vividos.
nova-iorquina com seu facho de luz saudando os navegantes,
Que eu, se tenho nos olhos mal feridos ou o bairro do imigrante japonês em São Paulo, ou a letra de
Pensamentos de vida formulados, um hino cívico, ou um tratado filosófico, até mesmo o “Libertas
São pensamentos idos e vividos. quae sera tamen*” dos inconfidentes mineiros... Tenta-se outro
tema geral: “Política”. Aí mesmo é que não para mais: vêm coi-
(Machado de Assis) sas desde a polis grega até um poema de Drummond, salta-se
da política econômica para a financeira, chega-se à política de

91
preservação de bens naturais, à política ecológica, à partidária, caminho; é função do cronista encontrar algum por onde possa
à política imperialista, à política do velho Maquiavel, ufa. transitar acompanhado de muitos e, de preferência, bons leitores.
Que tal então a gastronomia, mais na moda do que nunca? O (Teobaldo Astúrias, inédito)
velho bifinho da tia ou o saudoso picadinho da vovó, receitas do- * Liberdade ainda que tardia.
mésticas guardadas no segredo das bocas, viraram nomes estran- ** chefes de cozinha.
geiros, sob molhos complicados, de apelido francês. Nesse ramo
da alimentação há também que considerar o que sejam produtos 1. (Puccamp) Na frase “A variedade da vida há de conduzi-lo por
transgênicos, orgânicos, as ameaças do glúten, do sódio, da quími- um bom caminho; é função do cronista encontrar algum por onde

ca nociva de tantos fertilizantes. Tudo muito sofisticado e atingindo possa transitar acompanhado de muitos e, de preferência, bons

altos níveis de audiência nos programas de TV: já seremos um país leitores”, fica ressaltado o seguinte aspecto essencial do gênero
povoado por cozinheiros, quer dizer, por chefs de cuisine?** literário de que se está tratando:

Temas palpitantes, certamente de interesse público, estão no a) intenção moralizante da narrativa, de modo a ga-
campo da educação: há, por exemplo, quem veja nos livros de rantir a boa formação do leitor/cidadão.
História uma orientação ideológica conduzida pelos autores; há b) exploração de um tema de interesse geral colhido
quem defenda uma neutralidade absoluta diante de fatos que entre experiências da vida comum.
seriam indiscutíveis. Que sentido mesmo tiveram a abolição da c) multiplicação dos mais variados estilos num mes-
escravatura e a proclamação da República? E o suicídio de Ge- mo texto pedagógico.
túlio Vargas? E os acontecimentos de 1964? Já a literatura e a d) investimento no caráter experimental e de van-
redação andam questionadas como itens de vestibular: mas sob guarda da linguagem literária.
quais argumentos o desempenho linguístico e a arte literária se- e) submissão do texto à realidade de alguma política
riam dispensáveis numa formação escolar de verdade? a ser tomada como paradigma.
Enfim, o cronista que se dizia sem assunto de repente fica
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
aflito por ter de escolher um no infinito cardápio digital de
assuntos. Que esperará ler seu leitor? Amenidades? Alguma Filme-enigma de Christopher Nolan gera discussões sobre signifi-
informação científica? A quadratura do círculo encontrada cado e citações ocultas ou óbvias em sua trama onírica
pelo futebol alemão? A situação do cinema e do teatro na-
cionais, dependentes de financiamento por incentivos fiscais?
Os megatons da última banda de rock que visitou o Brasil?
O ativismo político das ruas? Uma viagem fantasiosa pelo
interior de um buraco negro, esse mistério maior tocado pela
Física? A posição do Reino Unido diante da União Europeia?
Houve época em que bastava ao cronista ser poético: o reen-
contro com a primeira namoradinha, uma tarde chuvosa, um Certa vez o sábio taoísta Chuang Tzu sonhou que era uma bor-
passeio pela infância distante, um amor machucado, tudo boleta. Ao acordar, entretanto, ele não sabia mais se era um
podia virar uma valsa melancólica ou um tango arrebatador. homem que sonhara ser uma borboleta ou uma borboleta que
Mas hoje parece que estamos todos mais exigentes e utilita- agora sonhava ser um homem.
ristas, e os jovens cronistas dos jornais abordam criticamente Será que Dom Cobb está sonhando? Será que a vida real é esta
os rumores contemporâneos, valem-se do vocabulário ligado mesma ou somos nós que sonhamos?
a novos comportamentos, ou despejam um humor ácido em Alguns podem ir ao cinema para assistir A Origem, de Christo-
seus leitores, num tempo sem nostalgia e sem utopias. pher Nolan (Batman – O Cavaleiro das Trevas) e achar tão chato
É bom lembrar que o papel em que se imprimem livros, jornais que vão sonhar de verdade, dormindo na fase de sono REM. Mas
e revistas está sob ameaça como suporte de comunicação. O outros estão sonhando acordados. Em blogs, sites e grupos de
mesmo ocorre com o material das fitas, dos CDs e DVDs: o discussão, os já fanáticos pelo filme de Nolan apontam referên-
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

mundo digital armazena tudo e propaga tudo instantaneamen- cias (de mitologia grega), veem citações (de Lost), tecem teorias
te. Já surgem incontáveis blogs de cronistas, onde os autores malucas e conspiratórias (o sonho dentro do sonho).
discutem on-line com seus leitores aspectos da matéria tratada Alguns acusam o diretor de copiar filmes os mais variados, de
em seus textos. A interatividade tornou-se praticamente uma Blade Runner (1982) a eXistenZ (1999), de se inspirar em 2001
regra: há mesmo quem diga que a própria noção de autor, ou – Uma Odisseia no Espaço (1968) e até de roubar a ideia de um
de autoria, já caducou, em função da multiplicidade de vozes quadrinho do Tio Patinhas de 2002.
que se podem afirmar num mesmo espaço textual. Num plano O fato é que Nolan acertou o alvo. E ele sabia do potencial “ner-
cósmico: quem é o autor do Universo? Deus? O Big Bang? A Fí- dístico” de seu filme. Tanto é que cogitou mudar a canção que
sica é que explica tudo ou deixemos tudo com o criacionismo? toca no filme todo, Non, Je Ne Regrette Rien, com Edith Piaf,
Enquanto não chega seu apocalipse profissional, o cronista de porque uma das atrizes escaladas, Marion Cotillard, havia vivido
periódico ainda tem emprego, o que não é pouco, em tempo de a cantora francesa em um filme de 2007. (...)
crise. Pois então que arrume assunto, e um bom assunto, para Além da música, uma boa diversão de A Origem é identificar os
não perder seus leitores. Como não dá para ser sempre um Ma- objetos impossíveis deixados por Nolan ao longo do filme. A es-
chado de Assis, um Rubem Braga, um Luis Fernando Veríssimo, cada de Penrose, criada pelo psiquiatra britânico Lionel Penrose,
há que se contentar com um mínimo de estilo e uma boa esco- aparece diversas vezes na tela – e também inspirou o quadro
lha de tema. A variedade da vida há de conduzi-lo por um bom que tenta explicar facetas do longa.

92
Melhor ir ver o filme e não pensar em escadas... De acordo com a leitura dos fragmentos, explicite:
No que você está pensando agora? 1. A lembrança a que o eu poético faz alusão.
Disponível em: <[Link] 2. Como são construídos os traços épico e lírico.
fsp/ilustrad/ [Link]>.

TEXTO PARA AS PRÓXIMAS DUAS QUESTÕES


2. (Insper) O texto permite afirmar que o potencial “nerdístico”
do filme: A um passarinho
Para que vieste
a) está associado às marcas de metalinguagem. Na minha janela
b) advém da trama onírica que induz ideias su- Meter o nariz?
bliminares. Se foi por um verso
c) resulta das fortes referências intertextuais. (...)
d) origina-se da mistura entre realidade e ficção. Não sou mais poeta
e) decorre da associação entre o sonho e a es- cada Ando tão feliz!
de Penrose. (Vinicius de Moraes)
3. Segundo o texto, qual é a condição fundamental para a con-
3. (Uern) A palavra serve para comunicar e interagir. E também dição poética?
para criar literatura, isto é, criar arte, provocar emoções, produ-
4. A que gênero literário pertence o texto?
zir efeitos estéticos.

(Português: linguagens: volume 1: ensino médio / Identifique a que gênero pertencem os textos das questões 5, 6 e 7.
William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães. Aponte duas características que justifiquem sua resposta.
– [Link]. – São Paulo: Atal, 2005. p. 27.)
5. Oh! que saudades que tenho
A partir da definição anterior, pode-se afirmar que a linguagem Da aurora da minha vida,
literária Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
a) pressupõe objetividade e clareza diante da sua fun- (Casimiro de Abreu)
ção utilitária.
b) não permite que haja dupla interpretação a respei- 6. Lavínia: (sacode Vicente) Vicente! Não ouve o apito do trem?
to do assunto tratado. Desistiu de ir?
Vicente: Não. Eu vou. Preciso ir. Eu mando notícias.
c) é organizada de modo que a plurissignificação es-
Lavínia: Amanhã mesmo?
teja presente no texto.
Vicente: Amanhã. Adeus.
d) tem por objetivo esclarecer acerca de um assunto Lavínia: Adeus.
relacionado à realidade (Jorge de Andrade, Beijam-se com amor.)
7. A casa inteira recebeu a carta com muita alegria. Ricardo vi-
E.O. Dissertativo nha do Recife passar uns dias com eles. Há anos que se fora.
Ainda quase menino, sumira-se do engenho sem ninguém saber
para onde. Ricardo fugiu.
Leia as estrofes do poema “O prato azul-pombinho”, de Cora
(José Lins do Rego).
Coralina para responder às questões 1 e 2.
8. (Pucrj)
Minha bisavó – que Deus a tenha em glória – A amizade
sempre contava e recontava
em sentidas recordações Já farto da vida, dos anos na flor,
de outros tempos O peito me rala pungente saudade;
a estória de saudade Traído nas crenças, traído no amor,
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

daquele prato azul-pombinho. Meu canto recebe, celeste amizade.


Era uma estória minuciosa. Poeta e amante, eu um mundo sonhei
Comprida, detalhada. Repleto de gozos, um mundo ideal,
Sentimental. Quando terna outrora a mulher que eu amei
Puxada em suspiros saudosistas A mim me jurara ser sempre leal.
e ais presentes. Ó tu, meu amigo, permite que um pouco
E terminava, invariavelmente, A fronte recline nu m peito de irmão;
depois do caso esmiuçado: Enxuga, se podes, o pranto do louco,
“– Nem gosto de lembrar disso...” Que em paga de afetos só teve a traição!
É que a estória se prendia Em tempos felizes, num dia formoso,
aos tempos idos em que vivia Na relva sentados, bem juntos, unidos,
minha bisavó No peito encostado seu rosto mimoso,
que fizera deles seu presente e seu futuro. [...] A ingrata me dava sorrisos… fingidos!
CORALINA, Cora. Melhores poemas de Cora Coralina. Ai! crente, eu beijava seus lábios corados
Seleção de Darci F. Denófrio. São Paulo: Global, 2004, p. 47. Com beijos ardentes, com beijos de amor,

93
E Laura jurava que, quando apartados, E cai como uma lágrima de amor.
Viver não queria, morreria de dor! A minha felicidade está sonhando
Partir foi preciso… abracei-a chorando… Nos olhos da minha namorada
E Laura chorou!… eu de dor solucei… É como esta noite
Mas tempos depois que, contente voltando... Passando, passando
Julgava beijá-la, já não a encontrei! Em busca da madrugada
Mulher enganosa, quebraste essas juras Falem baixo, por favor...
Que em prantos me deste diante de Deus! Pra que ela acorde alegre com o dia
Mas tu não te lembras que as faces impuras, Oferecendo beijos de amor.
Que os lábios corados roçaram os meus?!
Tristeza não tem fim
Poeta e amante, eu um mundo sonhei Felicidade sim...
Repleto de gozos, um mundo ideal…
Fugiram os sonhos que eu tanto afaguei, MORAES, Vinicius de e JOBIM, Tom. Vinicius de Moraes –
Como flor tombada por um vendaval. Literatura Comentada São Paulo: Abril Educação, 1980. p.71 e 72.

Errante vagando por vales sombrios Determine o gênero literário predominante no texto, justificando
Co’a mente em delírio, em cruel ansiedade; com dois aspectos que o caracterizam.
A morte buscando nas águas dos rios,
Me disse uma voz: – «Inda resta a amizade!
«Esquece esse fogo, esse amor, um delírio E.O. Enem
«Que aqui te cavava profundo jazigo;
«Ao mundo de novo, termina o martírio, 1. (Enem)
«A fronte reclina num peito de amigo.» Texto I
– Ao mundo voltei, esqueci os amores Chão de esmeralda
No peito apagando uma forte paixão;]
Agora a amizade mitiga-me as dores, Me sinto pisando
Sê tu meu amigo, serei teu irmão! Um chão de esmeraldas
Agosto, 1853. Quando levo meu coração
ABREU, Casimiro de. Disponível em: <[Link] À Mangueira
obrascompletasd00abregoog>. Acesso em: 10 set. 2014. Sob uma chuva de rosas
Meu sangue jorra das veias
a) Há no poema de Casimiro de Abreu a exaltação da amiza-
de como um sentimento de compreensão, acolhida e apoio. E tinge um tapete
Comente com suas próprias palavras os motivos que Pra ela sambar
levaram o eu poético a valorizar a amizade como um É a realeza dos bambas
contraponto à tristeza, à solidão e ao delírio. Que quer se mostrar
b) Determine o gênero literário predominante no texto. Soberba, garbosa
Minha escola é um cata-vento a girar
9. (Puc-rj) É verde, é rosa
A felicidade Oh, abre alas pra Mangueira passar
Tristeza não tem fim BUARQUE, C.; CARVALHO, H.B. Chico Buarque de Mangueira.
Marola Edições Musicais Ltda. BMG. 1997. Disponível em:
Felicidade sim... <[Link]>. Acesso em: 30 abr. 2010.
A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar Texto II
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

Voa tão leve


Quando a escola de samba entra na Marquês de Sapucaí, a
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar. plateia delira, o coração dos componentes bate mais forte
e o que vale é a emoção. Mas, para que esse verdadeiro
A felicidade do pobre parece espetáculo entre em cena, por trás da cortina de fumaça dos
A grande ilusão do carnaval
fogos de artifício, existe um verdadeiro batalhão de alegria:
A gente trabalha o ano inteiro
são costureiras, aderecistas, diretores de ala e de harmonia,
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia pesquisador de enredo e uma infinidade de profissionais que
De rei, ou de pirata, ou jardineira garantem que tudo esteja perfeito na hora do desfile.
Pra tudo se acabar na quarta-feira AMORIM, M.; MACEDO, G. O espetáculo dos bastidores.
Tristeza não tem fim Revista de Carnaval 2010: Mangueira.
Rio de Janeiro: Estação Primeira de Mangueira, 2010.
Felicidade sim...
A felicidade é como a gota Ambos os textos exaltam o brilho, a beleza, a tradição e o com-
promisso dos dirigentes e de todos os componentes com a escola
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila de samba Estação Primeira de Mangueira. Uma das diferenças
que se estabelece entre os textos é que:
Depois de leve oscila

94
a) o artigo jornalístico cumpre a função de transmitir
emoções e sensações, mais do que a letra de música. E.O. UERJ
b) a letra de música privilegia a função social de comu-
nicar a seu público a crítica em relação ao samba e aos Exame de Qualificação
sambistas.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
c) a linguagem poética, no Texto I, valoriza imagens me-
tafóricas e a própria escola, enquanto a linguagem, no Ciência e Hollywood
Texto II, cumpre a função de informar e envolver o leitor.
Infelizmente, é verdade: explosões não fazem barulho algum no
d) ao associar esmeraldas e rosas às cores da escola, espaço. Não me lembro de um só filme que tenha retratado isso
o Texto I acende a rivalidade entre escolas de samba, direito. Pode ser que existam alguns, mas se existirem não fizeram
enquanto o Texto II é neutro. muito sucesso. Sempre vemos explosões gigantescas, estrondos
e) o Texto I sugere a riqueza material da Mangueira, en- fantásticos. Para existir ruído é necessário um meio material que
quanto o Texto II destaca o trabalho na escola de samba. transporte as perturbações que chamamos de ondas sonoras. Na
2. (Enem) Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo ausência de atmosfera, ou água, ou outro meio, as perturbações
não têm onde se propagar. Para um produtor de cinema, a questão
e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encos-
não passa pela ciência. Pelo menos não como prioridade. Seu in-
tando-se à parede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na
teresse é tornar o filme emocionante, e explosões têm justamente
calçada, ainda úmida da chuva, e descansou na pedra o cachimbo.
este papel; roubar o som de uma grande espaçonave explodindo
Dois ou três passantes rodearam-no e indagaram se não se sentia
torna a cena bem sem graça.
bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios, não se ouviu resposta.

O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque. Recentemente, o debate sobre as liberdades científicas tomadas
pelo cinema tem aquecido. O sucesso do filme O dia depois de
Adaptado de: TREVISAN, D. Uma vela para Dario. Cemitério amanhã (The day after tomorrow), faturando mais de meio bilhão
de Elefantes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964.
de dólares, e seu cenário de uma idade do gelo ocorrendo em uma
No texto, um acontecimento é narrado em linguagem literária. semana, em vez de décadas ou, melhor ainda, centenas de anos,
Esse mesmo fato, se relatado em versão jornalística, com caracte- levantaram as sobrancelhas de cientistas mais rígidos que veem as
rísticas de notícia, seria identificado em:
distorções com desdém e esbugalharam os olhos dos espectadores
(a maioria) que pouco ligam se a ciência está certa ou errada. Afi-
a) Aí, amigão, fui diminuindo o passo e tentei me apoiar nal, cinema é diversão.
no guarda-chuva... mas não deu. Encostei na parede
e fui escorregando. Foi mal, cara! Perdi os sentidos ali Até recentemente, defendia a posição mais rígida, que filmes de-
mesmo. Um povo que passava falou comigo e tentou vem tentar ao máximo ser fiéis à ciência que retratam. Claro, isso
me socorrer. E eu, ali, estatelado, sem conseguir falar sempre é bom. Mas não acredito mais que seja absolutamente
nada! Cruzes! Que mal. necessário. 1Existe uma diferença crucial entre um filme comercial
e um documentário científico. Óbvio, documentários devem retra-
b) O representante comercial Dario Ferreira, 43 anos,
tar fielmente a ciência, educando e divertindo a população, mas
não resistiu e caiu na calçada da Rua da Abolição, qua-
filmes não têm necessariamente um compromisso pedagógico. As
se esquina com a Padre Vieira, no centro da cidade,
pessoas não vão ao cinema para serem educadas, ao menos como
ontem por volta do meio-dia. O homem ainda tentou
via de regra.
apoiar-se no guarda-chuva que trazia, mas não conse-
guiu. Aos populares que tentaram socorrê-lo não con- Claro, filmes históricos ou mesmo aqueles fiéis à ciência têm enor-
seguiu dar qualquer informação. me valor cultural. Outros educam as emoções através da ficção.
c) Eu logo vi que podia se tratar de um ataque. Eu Mas, se existirem exageros, eles não deverão ser criticados como
vinha logo atrás. O homem, todo aprumado, de guar- tal. Fantasmas não existem, mas filmes de terror sim. Pode-se argu-
da-chuva no braço e cachimbo na boca, dobrou a es- mentar que, no caso de filmes que versam sobre temas científicos,
quina e foi diminuindo o passo até se sentar no chão as pessoas vão ao cinema esperando uma ciência crível. Isso pode
da calçada. Algumas pessoas que passavam pararam ser verdade, mas elas não deveriam basear suas conclusões no que
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

para ajudar, mas ele nem conseguia falar. diz o filme. No mínimo, o cinema pode servir como mecanismo de
alerta para questões científicas importantes: o aquecimento global,
d) Vítima a inteligência artificial, a engenharia genética, as guerras nucleares,
Idade: entre 40 e 45 anos os riscos espaciais como cometas ou asteroides etc. Mas o conteú-
Sexo: masculino do não deve ser levado ao pé da letra. A arte distorce para persua-
Cor: branca dir. E o cinema moderno, com efeitos especiais absolutamente es-
Ocorrência: Encontrado desacordado na Rua da Abo- petaculares, distorce com enorme facilidade e poder de persuasão.
lição, quase esquina com Padre Vieira. Ambulância O que os cientistas podem fazer, e isso está virando moda nas uni-
chamada às 12h34min por homem desconhecido. A versidades norte-americanas, é usar filmes nas salas de aula para
caminho. educar seus alunos sobre o que é cientificamente correto e o que
e) Pronto-socorro? Por favor, tem um homem caído na é absurdo. Ou seja, usar o cinema como ferramenta pedagógica.
calçada da rua da Abolição, quase esquina com a Pa- Os alunos certamente prestarão muita atenção, muito mais do que
dre Vieira. Ele parece desmaiado. Tem um grupo de em uma aula convencional. Com isso, será possível educar a popu-
pessoas em volta dele. Mas parece que ninguém aqui lação para que, no futuro, um número cada vez maior de pessoas
pode ajudar. Ele precisa de uma ambulância rápido. possa discernir o real do imaginário.
Por favor, venham logo! MARCELO GLEISER. Disponível em: <[Link]>.

95
1. (UERJ) A oposição entre“ciência” e “Hollywood”, expres- que o presente alcança cria, com sua ocorrência, um pouco
Gleiser, corresponde a outra oposição
sa no título do artigo de desse passado. Lembro-me de ter lido, certa vez, um comen-
bastante estudada no campo da literatura, que se verifica entre: tário de Décio Pignatari, em que ele chamava a atenção para
o fato de, tanto em chinês como em tupi, não existir o verbo
a) acontecimento e opinião
ser, enquanto verbo de ligação. Assim, o ser das coisas ditas se
b) historicismo e atualidade
manifestaria nelas próprias (substantivos), não numa partícula
c) verdade e verossimilhança verbal externa a elas, o que faria delas línguas poéticas por
d) particularização e universalismo natureza, mais propensas à composição analógica.
2. (UERJ) Observe atentamente os dois trechos transcritos a seguir. Mais perto do senso comum, podemos atentar para como co-
locam os índios americanos falando, na maioria dos filmes de
“... o objetivo da poesia (e da arte literária em geral) não é o cowboy − eles dizem “maçã vermelha”, “água boa”, “cavalo
real concreto, o verdadeiro, aquilo que de fato aconteceu, mas veloz”; em vez de “a maçã é vermelha”, “essa água é boa”,
sim o verossímil, o que pode acontecer, considerado na sua “aquele cavalo é veloz”. Essa forma mais sintética, telegráfica,
universalidade.” aproxima os nomes da própria existência − como se a fala não
SILVA,Vítor M. de A. Teoria de Literatura. Coimbra: Almedina, 1982. estivesse se referindo àquelas coisas, e sim apresentandoas (ao
mesmo tempo em que se apresenta). No seu estado de língua,
Verossímil. 1. Semelhante à verdade; que parece verdadeiro. 2. no dicionário, as palavras intermedeiam nossa relação com as
Que não repugna à verdade, provável. coisas, impedindo nosso contato direto com elas. A linguagem
FERREIRA. A. B. de Holanda, Novo Dicionário Aurélio da poética inverte essa relação, pois, vindo a se tornar, ela em si,
Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. coisa, oferece uma via de acesso sensível mais direto entre nós
e o mundo. (...)
A partir da leitura de ambos os fragmentos, pode-se deduzir que
a obra literária tem o seguinte objetivo: Já perdemos a inocência de uma linguagem plena assim. As
palavras se desapegaram das coisas, assim como os olhos se
a) opor-se ao real para afirmar a imaginação criadora desapegaram dos ouvidos, ou como a criação se desapegou da
b) anular a realidade concreta para superar contradições vida. Mas temos esses pequenos oásis − os poemas − contami-
aparentes nando o deserto da referencialidade.
c) construir uma aparência de realidade para expressar Arnaldo Antunes. <[Link]>.
dado sentido
d) buscar uma parcela representativa do real para con- 3. (UERJ) No último parágrafo, o autor se refere à plenitude
testar sua validade da linguagem poética, fazendo, em seguida, uma descrição que
corresponde à linguagem não poética, ou seja, à linguagem
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO referencial.

SOBRE A ORIGEM DA POESIA Pela descrição apresentada, a linguagem referencial teria, em sua
origem, o seguinte traço fundamental:
A origem da poesia se confunde com a origem da própria linguagem.
a) o desgaste da intuição.
Talvez fizesse mais sentido perguntar quando a linguagem ver- b) a dissolução da memória.
bal deixou de ser poesia. Ou qual a origem do discurso não c) a fragmentação da experiência.
poético, já que, restituindo laços mais íntimos entre os signos
d) o enfraquecimento da percepção.
e as coisas por eles designadas, a poesia aponta para um uso
muito primário da linguagem, que parece anterior ao perfil de
sua ocorrência nas conversas, nos jornais, nas aulas, conferên-
cias, discussões, discursos, ensaios ou telefonemas. Como se E.O. UERJ
ela restituísse, através de um uso específico da língua, a in-
Exame Discursivo
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

tegridade entre nome e coisa − que o tempo e as culturas do


homem civilizado trataram de separar no decorrer da história.
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES
A manifestação do que chamamos de poesia hoje nos sugere
mínimos flashbacks de uma possível infância da linguagem, O DIREITO À LITERATURA
antes que a representação rompesse seu cordão umbilical, ge- 1
Chamarei de literatura, da maneira mais ampla possível, todas as
rando essas duas metades − significante e significado. Houve criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os ní-
esse tempo? Quando não havia poesia porque a poesia estava veis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura, desde o que
em tudo o que se dizia? Quando o nome da coisa era algo que chamamos folclore, lenda, até as formas mais complexas e difíceis
fazia parte dela, assim como sua cor, seu tamanho, seu peso? da produção escrita das grandes civilizações.
Quando os laços entre os sentidos ainda não se haviam desfei-
to, então música, poesia, pensamento, dança, imagem, cheiro, Vista deste modo a literatura aparece claramente como manifes-
sabor, consistência se conjugavam em experiências integrais, tação universal de todos os homens em todos os tempos. Não
associadas a utilidades práticas, mágicas, curativas, religiosas, há povo e não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem
sexuais, guerreiras? Pode ser que essas suposições tenham a possibilidade de entrar em contato com alguma espécie de fa-
algo de utópico, projetado sobre um passado pré-babélico, tri- bulação*. Assim como todos sonham todas as noites, ninguém
bal, primitivo. Ao mesmo tempo, cada novo poema do futuro é capaz de passar as vinte e quatro horas do dia sem alguns

96
momentos de entrega ao universo fabulado. 2O sonho assegura Professores de Letras, podemos ler: “O estudo de Letras implica
durante o sono a presença indispensável deste universo, inde- o estudo do homem, sua relação consigo mesmo e com o mun-
pendentemente da nossa vontade. E durante a vigília a criação do, e sua relação com os outros.” Mais exatamente, o estudo
ficcional está presente em cada um de nós, como anedota, his- da obra remete a círculos concêntricos cada vez mais amplos: o
tória em quadrinhos, noticiário policial, canção popular. Ela se dos outros escritos do mesmo autor, o da literatura nacional, o
manifesta desde o devaneio no ônibus até a atenção fixada na da literatura mundial; mas seu contexto final, o mais importante
novela de televisão ou na leitura seguida de um romance. de todos, nos é efetivamente dado pela própria existência hu-
mana. Todas as grandes obras, qualquer que seja sua origem,
Ora, se ninguém pode passar vinte e quatro horas sem mergulhar no
demandam uma reflexão dessa dimensão.
universo da ficção e da poesia, a literatura concebida no sentido am-
plo a que me referi parece corresponder a uma necessidade universal, O que devemos fazer para desdobrar o sentido de uma obra e
que precisa ser satisfeita e cuja satisfação constitui um direito. revelar o pensamento do artista? Todos os “métodos” são bons,
desde que continuem a ser meios, em vez de se tornarem fins em
Podemos dizer que 3a literatura é o sonho acordado das civiliza- si mesmos. (...)
ções. Portanto, assim como não é possível haver equilíbrio psíquico
(...)
sem o sonho durante o sono, talvez não haja equilíbrio social sem
a literatura. Deste modo, ela é 4fator indispensável de humanização (...) Sendo o objeto da literatura a própria condição humana,
e, sendo assim, confirma o homem na sua humanidade, inclusive aquele que a lê e a compreende se tornará não um especialista
porque atua em grande parte no subconsciente e no inconsciente. em análise literária, mas um conhecedor do ser humano. Que
melhor introdução à compreensão das paixões e dos compor-
Cada sociedade cria as suas manifestações ficcionais, poéticas e tamentos humanos do que uma imersão na obra ,dos grandes
dramáticas de acordo com os seus impulsos, as suas crenças, os escritores que se dedicam a essa tarefa há milênios? E, de ime-
seus sentimentos, as suas normas, a fim de fortalecer em cada diato: que melhor preparação pode haver para todas as profis-
um a presença e atuação deles. Por isso é que nas nossas socie- sões baseadas nas relações humanas? Se entendermos assim a
dades a literatura tem sido um instrumento poderoso de instru- literatura e orientarmos dessa maneira o seu ensino, que ajuda
ção e educação, entrando nos currículos, sendo proposta a cada mais preciosa poderia encontrar o futuro estudante de direito ou
um como equipamento intelectual e afetivo. de ciências políticas, o futuro assistente social ou psicoterapeuta,
o historiador ou o sociólogo? Ter como professores Shakespeare
Antonio Candido - Adaptado de Vários escritos.
São Paulo: Duas Cidades, 1995. e Sófocles, Dostoievski e Proust não é tirar proveito de um ensino
excepcional? E não se vê que mesmo um futuro médico, para
* fabulação − ficção exercer o seu ofício, teria mais a aprender com esses mesmos pro-
fessores do que com os manuais preparatórios para concurso que
1. (UERJ) Chamarei de literatura, da maneira mais ampla possí-
hoje determinam o seu destino? Assim, os estudos literários en-
vel, (ref. 1)
contrariam o seu lugar no coração das humanidades, ao lado da
O trecho acima parte de uma pressuposição que o próprio autor con- história dos eventos e das ideias, todas essas disciplinas fazendo
testa: a de que existiria uma maneira restrita de definir a literatura. progredir o pensamento e se alimentando tanto de obras quanto
Identifique outro exemplo do primeiro parágrafo que contenha de doutrinas, tanto de ações políticas quanto de mutações so-
uma pressuposição e explique em que ela consiste. ciais, tanto da vida dos povos quanto da de seus indivíduos.
Se aceitarmos essa finalidade para o ensino literário, o qual não
2. (UERJ) O autor afirma que a literatura é fator indispen- serviria mais unicamente à reprodução dos professores de Le-
sável de humanização e, sendo assim, confirma o homem na
tras, podemos facilmente chegar a um acordo sobre o espírito
sua humanidade, (ref. 4).
que o deve conduzir: é necessário incluir as obras no grande
Cite dois argumentos que ele apresenta no texto para chegar a diálogo entre os homens, iniciado desde a noite dos tempos e
essa conclusão.
do qual cada um de nós, por mais ínfimo que seja, ainda par-
ticipa. “É nessa comunicação inesgotável, vitoriosa do espaço

E.O. Objetivas e do tempo, que se afirma o alcance universal da literatura”,


VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

escrevia Paul Bénichou. A nós, adultos, nos cabe transmitir às

(Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp) novas gerações essa herança frágil, essas palavras que ajudam
a viver melhor.
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 4 QUESTÕES: Tzvetan Todorov. A literatura em perigo. 2. ed. Trad. Caio Meira.
Rio de Janeiro: DIFEL, 2009, p. 89-94.
A literatura em perigo
1.(Unesp) Ter como professores Shakespeare e Sófocles, Dostoievski
A análise das obras feita na escola não deveria mais ter por ob- e Proust não é tirar proveito de um ensino excepcional?
jetivo ilustrar os conceitos recém-introduzidos por este ou aque- Esta questão levantada por Todorov, no contexto do terceiro pa-
le linguista, este ou aquele teórico da literatura, quando, então,
rágrafo, significa:
os textos são apresentados como uma aplicação da língua e do
discurso; sua tarefa deveria ser a de nos fazer ter acesso ao sen- a) O conhecimento enciclopédico desses autores, ma-
tido dessas obras — pois postulamos que esse sentido, por sua nifestado em suas obras, equivale a um verdadeiro cur-
vez, nos conduz a um conhecimento do humano, o qual importa so universitário.
a todos. Como já o disse, essa ideia não é estranha a uma boa b) Por se tratar de autores de nacionalidades e épocas
parte do próprio mundo do ensino; mas é necessário passar das diferentes, a leitura de suas obras traz conhecimentos
ideias à ação. Num relatório estabelecido pela Associação dos importantes sobre seus respectivos países.

97
c) Esses autores escreveram com a intenção funda- TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
mental de passar ensinamentos para seus contempo-
râneos e a posteridade. Texto I
d) A leitura das obras desses autores, que focalizam ad- Ao longo do sereno
miravelmente o homem e o humano, seria de excepcio- Tejo, suave e brando,
nal utilidade para os estudantes de relações humanas. Num vale de altas árvores sombrio,
e) A leitura desses autores não acrescenta nada de Estava o triste Almeno
excepcional ao ensino. Suspiros espalhando
2. (Unesp) No segundo parágrafo do fragmento apresenta- Ao vento, e doces lágrimas ao rio.
do, Todorov afirma que Todos os “métodos” são bons, desde Luís de Camões, Ao longo do sereno.
que continuem a ser meios, em vez de se tornarem fins em si
mesmos. Texto II

O autor defende, com essa afirmação, o argumento segundo o Bailemos nós ia todas tres, ay irmanas,
qual o verdadeiro valor de um método de análise literária so aqueste ramo destas auelanas
a) consiste em ser exato e perfeito, superior a todos e quen for louçana, como nós, louçanas,
os demais. se amigo amar,
b) está em ser completo: quando terminar a análise, so aqueste ramo destas auelanas
nada mais deve restar a explicar. uerrá baylar.
c) consiste em servir de instrumento adequado à análise Aires Nunes. In Nunes, J. J., Crestomatia arcaica.
e interpretação da obra.
Texto III
d) reside no fato de que, depois de aplicado, deve ser
substituído por outro melhor. Tão cedo passa tudo quanto passa!
e) é mostrar mais suas próprias virtudes que as da obra morre tão jovem ante os deuses quanto
focalizada. Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
3. (Unesp) Observe as seguintes opiniões referentes ao ensino de
literatura.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.
I. O estudo de obras literárias na escola tem como objetivo fun-
Fernando Pessoa, Obra poética.
damental ensinar os fundamentos da Linguística.

II. A análise das obras feita na escola deve levar o estudante a ter Texto IV
acesso ao sentido dessas obras.
Os privilégios que os Reis
III. O objetivo do ensino da literatura na escola não é formar
teóricos da literatura.
Não podem dar, pode Amor,
Que faz qualquer amador
IV. De nada adianta a leitura das obras literárias sem a prévia
Livre das humanas leis.
fundamentação das teorias literárias.
mortes e guerras cruéis,
Das quatro opiniões, as que se enquadram na argumentação ma- Ferro, frio, fogo e neve,
nifestada por Todorov em seu texto estão contidas apenas em:
Tudo sofre quem o serve.
a) I e II. Luís de Camões, Obra completa.
b) I e III.
c) II e III. Texto V
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

d) I, II e III. As minhas grandes saudades


e) II, III e IV. São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
4. (Unesp) Que melhor introdução à compreensão das paixões e
dos comportamentos humanos do que uma imersão na obra dos
Dos sonhos que não sonhei!...)
grandes escritores que se dedicam a essa tarefa há milênios? Mário de Sá Carneiro, Poesias.
Com base no fato de que a palavra “imersão”, usada na ex-
5. (Unifesp) A alternativa que indica textos de épocas literárias
pressão uma imersão na obra, caracteriza uma metáfora, in-
diferentes, mas de métrica uniforme e idêntica, é
dique a alternativa que elimina essa metáfora sem perda rele-
vante de sentido: a) I e II.
b) II e III.
a) uma imitação da obra.
c) II e V.
b) uma paráfrase da obra.
d) III e IV.
c) uma censura da obra.
e) IV e V.
d) uma transformação da obra.
e) uma leitura da obra.

98
E.O. Dissertativas traço “lírico” é construído a partir de uma perspectiva subjetiva,
atrelada às emoções.

(Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp) 3. A condição fundamental do texto está pautada na ideia de
infelicidade, tristeza e angústia.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
4. O texto pertence ao gênero lírico.
A questão a seguir toma por base uma Tragédia em um Ato, assi- 5. Gênero lírico. A temática abordada parte de um “eu” e nela seu
nada pelo escritor, tradutor e desenhista Millôr Fernandes (1924), estado subjetivo se vale de uma emoção, de um estado da alma.
e publicada pela primeira vez em “O pif-paf” (O CRUZEIRO, 1945).
6. Gênero dramático. Os personagens estabelecem diálogo por
O CAPITALISMO MAIS REACIONÁRIO meio de suas falas, as rubricas. Há ausência de narrador.
Tragédia em um ato 7. Gênero narrativo. Há um narrador que conta uma história.
Personagens - o patrão e o empregado Além disso, há uma menção a estruturas básicas deste gênero:
Época - atual personagens, espaço e tempo.

ATO ÚNICO 8.
a) A amizade é mais valorizada que o amor, porque
Empregado - Patrão, eu queria lhe falar seriamente. Há quarenta logo nos primeiros versos o eu poético lamenta as
anos que trabalho na empresa e até hoje só cometi um erro. desilusões amorosas sofridas quando ainda jovem.
Patrão - Está bem, meu filho, está bem. Mas de agora em diante Por outro lado, a amizade representa o amor sem co-
tome mais cuidado. branças, sincero, sem medo de ser traído. Representa
(Pano bem rápido) a estabilidade amorosa, o acolhimento e a aceitação.
b) Trata-se do gênero lírico.
(In: FERNANDES, Millôr. TRINTA ANOS DE MIM
MESMO. Rio de Janeiro: Nórdica, 1974, p. 15). 9. Lírico. Centralidade do eu lírico na construção do poema, pre-
domínio do tom intimista, criação de uma atmosfera emocional
1. (Vunesp) A tragédia, no sentido clássico, é uma obra fortemente dra-
mática, inspirada na lenda ou na história, e que põe em cena personagens
e fusão do sujeito com o objeto.
envolvidos em situações que desencadeiam desgraças. Em sua função
poética, destina-se também a infundir o terror e a piedade. Consideran- E.O. Enem
do essa definição, releia o texto de Millôr Fernandes e, a seguir:
1. C 2. B
§ interprete por que apenas esse diálogo entre os dois
personagens poderia caracterizar uma tragédia, se-
gundo o autor; e E.O. UERJ
§ interprete um sentido conotativo da expressão “meu filho”,
nas palavras do personagem patrão.
Exame de Qualificação
1. C 2. C 3. C

Gabarito E.O. UERJ


Exame Dissertativo
E.O. Aprendizagem 1. O trecho em que o autor menciona e se refere a uma definição
1. B 2. C 3. B 4. A 5. C estrita de literatura é: desde o que chamamos de folclore, lenda, até
as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes
6. A 7. C 8. C 9. C 10. C civilizações. A menção a formas mais complexas e difíceis da produ-
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

ção escrita pressupõe que as que foram mencionadas anteriormente,


E.O. Fixação como o folclore e a lenda, são formas simples ou menos complexas.
1. V-V-F-F 2. B 3. C 4. B 2. Dois dos argumentos:literatura aparece claramente como ma-
nifestação universal de todos os homens em todos os tempos.
5. B 6. C § Não há povo e não há homem que possa viver sem ela,
isto é, sem a possibilidade de entrar em contato com al-
E.O. Complementar guma espécie de fabulação.
1. B 2. C 3. C § assim como não é possível haver equilíbrio psíquico sem
o sonho durante o sono, talvez não haja equilíbrio social
sem a literatura.
E.O. Dissertativo § Cada sociedade cria as suas manifestações ficcionais, po-
1. A lembrança a que o eu poético faz alusão é o “prato éticas e dramáticas de acordo com os seus impulsos, as
azul-pombinho”. suas crenças, os seus sentimentos, as suas normas.

2. O traço “épico” se constrói pelo ato de a bisavó contar e re-


contar estórias minuciosas e detalhadas de outros tempos. Já o

99
E.O. Objetivas
(Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp)
1. D 2. C 3. C 4. E 5. E

E.O. Dissertativas
(Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp)
1.O diálogo poderia caracterizar tragédia, uma vez que se centra
em um conflito a partir de uma situação que pode desencadear
desgraça. A sensibilidade do leitor pode recair sobre o terror e a
piedade após o contato com a cena. No sentido conotativo, a ex-
pressão “meu filho” por parte do patrão demonstra uma postura
paternalista assumida por ele.
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

100
LC TROVADORISMO E HUMANISMO

AULAS COMPETÊNCIA(s) HABILIDADE(s)

3E4
5 15, 16 e 17

E.O. Aprendizagem Interprete o comentário acima e, com base nele e em seus conhe-
cimentos acerca do lirismo medieval galego-português, marque a
alternativa correta:
1. É correto afirmar sobre o Trovadorismo que:
a) as cantigas de amor recriaram o mesmo ambiente
a) os poemas são produzidos para ser encenados.
palaciano das cortes galegas.
b) as cantigas de escárnio e maldizer têm temáticas amo-
b) “a literatura do amor cortês” refletiu a verdade so-
rosas.
bre a vida privada medieval.
c) nas cantigas de amigo, o eu lírico é sempre feminino.
c) a servidão amorosa e a idealização da mulher foi o
d) as cantigas de amigo têm estrutura poética complicada.
grande tema da poesia produzida por vilões.
e) as cantigas de amor são de origem nitidamente popular.
d) o amor cortês foi uma prática literária que aos pou-
2. Leia atentamente o texto abaixo. cos modelou o perfil do homem civilizado.
e) nas cantigas medievais mulheres e homens subme-
Com’ousará parecer ante mi tem-se às maneiras refinadas da cortesia.
o meu amigo, ai amiga, por Deus,
e com’ousará catar estes meus TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES
olhos se o Deus trouxer per aqui,
pois tam muit’há que nom veo veer Cantiga de Amor
mi e meus olhos e meu parecer? Senhora minha, desde que vos vi,
Com’ousará parecer ante mi, de Dom Dinis. lutei para ocultar esta paixão
Disponível em: <[Link] que me tomou inteiro o coração;
Com%27ousar%C3%A1_parecer_ante_mi>. mas não o posso mais e decidi
Acesso em: 5 dez. 2012.
que saibam todos o meu grande amor,
per = por; tam= tão; nom = não; veer = ver; mi = mim, me a tristeza que tenho, a imensa dor
parecer = semblante que sofro desde o dia em que vos vi.
Já que assim é, eu venho-vos rogar
Sobre o fragmento anterior, pode-se afirmar que pertence a uma que queirais pelo menos consentir
cantiga de: que passe a minha vida a vos servir (...)
a) amor, pois o eu lírico masculino declara a uma amiga Afonso Fernandes Disponível em:<
[Link]/ efemerides/118>.
o sentimento de amor que tem por ela.
b) amigo, pois o eu lírico feminino expressa a uma amiga 4. Observando-se a última estrofe, é possível afirmar que
a falta de seu amigo por quem sente amor. o apaixonado:
c) amor, pois o eu lírico é feminino e acha que seu amor a) se sente inseguro quanto aos próprios sentimentos.
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

não deve voltar para os seus braços.


b) se sente confiante em conquistar a mulher amada.
d) amigo, pois o eu lírico masculino entende que só c) se declara surpreso com o amor que lhe dedica a mu-
Deus pode trazer de volta sua amiga a quem não vê lher amada.
há muito tempo.
d) possui o claro objetivo de servir sua amada.
e) amor, pois o eu lírico feminino não consegue enxergar
e) conclui que a mulher amada não é tão poderosa quan-
o amor que sente por seu amigo.
to parecia a princípio.
3. “A literatura do amor cortês, pode-se acrescentar, contri- 5. Uma característica desse fragmento, também presente em ou-
buiu para transformar de algum modo a realidade extraliterá-
tras cantigas de amor do Trovadorismo, é:
ria, atua como componente do que Elias (1994)* chamou de
processo civilizador. Ao mesmo tempo, a realidade extralite- a) a certeza de concretização da relação amorosa.
rária penetra processualmente nessa literatura que, em parte, b) a situação de sofrimento do eu lírico.
nasceu como forma de sonho e de evasão.” c) a coita de amor sentida pela senhora amada.
d) a situação de felicidade expressa pelo eu lírico.
Revista de Ciências Humanas, Florianópolis, EDUFSC,
v. 41, n. 1 e 2, p. 83-110 Cf. ELIAS, N. O Processo e) o bem-sucedido intercâmbio amoroso entre pessoas
Civilizador. Rio de Janeiro: Zahar, 1994, v.1. de camadas distintas da sociedade.

101
6. (G1 - ifsp) Assinale a alternativa correta no que se refere às d) apresentar temas profanos e sagrados e revelar-se radi-
cantigas de amor trovadorescas. calmente contra o catolicismo e a instituição religiosa.
a) Nas cantigas de amor, o eu lírico masculino lamen- e) aceitar a hipocrisia do clero e, criticamente, justi-
ta a ausência da mulher amada, que lhe é indiferente ficá-la em nome da fé cristã.
e que, por mais que seja vista por ele como superior, 9. Gil Vicente escreveu o Auto da Barca do Inferno em 1517, no
pertence às classes populares. momento em que eclodia na Alemanha a Reforma Protestante, com a
b) Nas cantigas de amor, o eu lírico masculino manifes- crítica veemente de Lutero ao mau clero dominante na Igreja. Nesta
ta insistentemente a coita, isto é, o sofrimento de amor, obra, há a figura do frade, severamente censurado como um sacer-
repleto de impulsos eróticos que lhe laceram o corpo e dote negligente. Indique a alternativa cujo conteúdo NÃO se presta
que conferem aos poemas uma aura sardônica. a caracterizar, na referida peça, os erros cometidos pelo religioso.
c) Nas cantigas de amor, o eu lírico feminino manifesta a a) Não cumprir os votos de celibato, mantendo a con-
falta que sente do amigo – isto é, do homem amado – cubina Florença.
invocando-o por meio de composições de matriz popular b) Entregar-se a práticas mundanas, como a dança.
que se caracterizam por construções paralelísticas. c) Praticar esgrima e usar armamentos de guerra,
d) Nas cantigas de amor, o eu lírico masculino confessa proibidos aos clérigos.
a coita, isto é, o sofrimento amoroso por uma dama d) Transformar a religião em manifestação formal, ao
que lhe é inacessível devido à diferença social que exis- automatizar os ritos litúrgicos.
te entre ele e ela. e) Praticar a avareza como cúmplice do fidalgo, e a ex-
e) Nas cantigas de amor, a distância social existente ploração da prostituição em parceria com a alcoviteira.
entre o eu lírico masculino e a mulher amada a quem
ele se dirige permite entrever que já grassava na so- 10. Em meados do século XIV, a poesia trovadoresca entra em
ciedade portuguesa a ascensão social pelo trabalho. decadência, surgindo, em seu lugar, uma nova forma de poesia,
totalmente distanciada da música, apresentando amadurecimento
7. Sobre a poesia trovadoresca em Portugal, é INCORRETO técnico, com novos recursos estilísticos e novas formas poemáti-
afirmar que: cas, como a trova, a esparsa e o vilancete.

a) refletiu o pensamento da época, marcada pelo teo- Assinale a alternativa em que há um trecho representativo de
centrismo, o feudalismo e valores altamente moralistas. tal tendência.
b) representou um claro apelo popular à arte, que passou a) Non chegou, madre, o meu amigo,
a ser representada por setores mais baixos da sociedade. e oje est o prazo saido!
c) pode ser dividida em lírica e satírica. Ai, madre, moiro d’amor!
d) em boa parte de sua realização, teve influência pro- b) Êstes olhos nunca perderán,
vençal. senhor, gran coita, mentr’eu vivo fôr;
e) as cantigas de amigo, apesar de escritas por trova- e direi-vos fremosa, mia senhor,
dores, expressam o eu lírico feminino. dêstes meus olhos a coita que han:
8. Gil Vicente, criador do teatro português, realizou uma obra choran e cegan, quand’alguém non veen,
eminentemente popular. Seu Auto da Barca do Inferno, encenado e ora cegan por alguen que veen.
em 1517, apresenta, entre outras características, a de pertencer c) Meu amor, tanto vos amo,
ao teatro religioso alegórico. Tal classificação justifica-se por: que meu desejo não ousa
desejar nehua cousa.
Porque, se a desejasse,
logo a esperaria,e se eu a esperasse,
sei que vós anojaria:
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

mil vezes a morte chamo


e meu desejo não ousa
desejar-me outra cousa.
d) Amigos, non poss’eu negar
a gran coita que d’amor hei,
ca me vejo sandeu andar,
e con sandece o direi:
os olhos verdes que eu vi
a) ser um teatro de louvor e litúrgico em que o sagra- me fazen ora andar assi.
do é plenamente respeitado. e) Ai! dona fea, foste-vos queixar
b) não se identificar com a postura anticlerical, já que por (que) vos nunca louv’em meu cantar;
considera a Igreja uma instituição modelar e virtuosa. mais ora quero fazer um cantar,
c) apresentar estrutura baseada no maniqueísmo cristão, em que vos loarei toda via;
que divide o mundo entre o Bem e o Mal, e na correlação e vedes como vos quero loar.
entre a recompensa e o castigo. dona fea, velha e sandia!

102
E.O. Fixação 3. Marque V, para verdadeiro, e F, para falso.
( ) As cantigas de maldizer e de escárnio pertencem à lírica
trovadoresca.

TEXTO PARA AS PRÓXIMAS DUAS QUESTÕES ( ) As cantigas de amigo possuem um ambiente palaciano e o eu
lírico é feminino, apesar de serem escritas por homem.
Texto I ( ) As cantigas de amor possuem um ambiente palaciano e suas ca-
racterísticas principais são a vassalagem amorosa e a coita de amor.
Ondas do mar de Vigo,
se vistes meu amigo! ( ) A canção da Ribeirinha iniciou o trovadorismo português.
E ai Deus, se verrá cedo! ( ) As cantigas de amigo, em geral, possuem um eu lírico feminino,
Ondas do mar levado, apesar de serem escritas por homens. A temática principal, quase
se vistes meu amado! sempre, é o sofrimento da mulher pelo amado que partiu.

E ai Deus, se verrá cedo!


(Martim Codax) 4. (Ueg) Senhora, que bem pareceis!
Se de mim vos recordásseis
Obs.: verrá = virá; levado = agitado que do mal que me fazeis
me fizésseis correção,
Texto II quem dera, senhora, então
que eu vos visse e agradasse.
Me sinto com a cara no chão, mas a verdade precisa
ser dita ao menos uma vez: aos 52 anos eu ignorava Ó formosura sem falha
a admirável forma lírica da canção paralelística que nunca um homem viu tanto
para o meu mal e meu quebranto!
(…).
Senhora, que Deus vos valha!
O “Cantar de amor” foi fruto de meses de leitura Por quanto tenho penado
dos cancioneiros. Li tanto e tão seguidamente aquelas seja eu recompensado

deliciosas cantigas, que fiquei com a cabeça vendo-vos só um instante.

cheia de “velidas” e “mha senhor” e “nula ren”; De vossa grande beleza


sonhava com as ondas do mar de Vigo e com romarias da qual esperei um dia

a San Servando. O único jeito de me livrar da grande bem e alegria,


só me vem mal e tristeza.
obsessão era fazer uma cantiga.
Sendo-me a mágoa sobeja,
(Manuel Bandeira) deixai que ao menos vos veja
no ano, o espaço de um dia.
1. Assinale a afirmativa correta sobre o texto I.
Rei D. Dinis
a) Nessa cantiga de amigo, o eu lírico masculino mani-
CORREIA, Natália. Cantares dos trovadores galego-
festa a Deus seu sofrimento amoroso. portugueses. Seleção, introdução, notas e adaptação de
b) Nessa cantiga de amor, o eu lírico feminino dirige- Natália Correia. 2. ed. Lisboa: Estampa, 1978. p. 253.
-se a Deus para lamentar a morte do ser amado.
Quem te viu, quem te vê
c) Nessa cantiga de amigo, o eu lírico masculino ma-
nifesta às ondas do mar sua angústia pela perda do Você era a mais bonita das cabrochas dessa ala
amigo em trágico naufrágio. Você era a favorita onde eu era mestre-sala
Hoje a gente nem se fala, mas a festa continua
d) Nessa cantiga de amor, o eu lírico masculino di- Suas noites são de gala, nosso samba ainda é na rua
rige-se às ondas do mar para expressar sua solidão. Hoje o samba saiu procurando você
e) Nessa cantiga de amigo, o eu lírico feminino diri- Quem te viu, quem te vê
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

ge-se às ondas do mar para expressar sua ansiedade Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
com relação à volta do amado. Quem jamais a esquece não pode reconhecer
2. No texto II, o autor: [...]
Chico Buarque
a) manifesta sua resistência à obrigatoriedade de ler tex-
tos medievais durante o período de formação acadêmica. A cantiga do rei D. Dinis, adaptada por Natália Correia, e a can-
ção de Chico Buarque de Holanda expressam a seguinte caracte-
b) utiliza a expressão “cabeça cheia” para depreciar as
rística trovadoresca:
formas linguísticas do galaico-português, como “mha
senhor” e “nula ren”. a) a vassalagem do trovador diante da mulher amada
c) relata circunstâncias que o levaram a compor um que se encontra distante.
poema que recupera a tradição medieval. b) a idealização da mulher como símbolo de um amor
d) emprega a palavra “cancioneiros” em substituição a profundo e universal.
“poetas”, uma vez que os textos medievais eram cantados. c) a personificação do samba como um ser que busca
e) usa a expressão “deliciosas cantigas” em sentido a plenitude amorosa.
irônico, já que os modernistas consideraram medíocres d) a possibilidade de realização afetiva do trovador
os estilos do passado. em razão de estar próximo da pessoa amada.

103
5. Endechas à escrava Bárbara a) Os principais trovadores utilizavam a guitarra elé-
trica para acompanhar a exibição.
Aquela cativa,
b) As composições dividem-se em dois grandes gru-
que me tem cativo
pos: líricas e satíricas.
porque nela vivo,
já não quer que viva. c) Os principais trovadores são: Padre Antônio Vieira
Eu nunca vi rosa e Camões.
em suaves molhos, d) O Trovadorismo é uma escola literária contemporânea.
que para meus olhos e) São exemplos de Cantigas Satíricas as Cantigas de
fosse mais formosa. Amor e de Amigo.
Uma graça viva,
que neles lhe mora, 8. (ESPM) O amor cortês foi um gênero praticado desde os tro-
vadores medievais europeus. Nele a devoção masculina por uma
para ser senhora
figura feminina inacessível foi uma atitude constante. A opção
de quem é cativa.
cujos versos confirmam o exposto é:
Pretos os cabelos,
onde o povo vão a) Eras na vida a pomba predileta
perde opinião (...) Eras o idílio de um amor sublime.
que os louros são belos. Eras a glória, – a inspiração, – a pátria,
Pretidão de Amor, O porvir de teu pai!
tão doce a figura, (Fagundes Varela)
que a neve lhe jura b) Carnais, sejam carnais tantos desejos,
que trocara a cor. Carnais sejam carnais tantos anseios,
Leda mansidão Palpitações e frêmitos e enleios
que o siso acompanha; Das harpas da emoção tantos arpejos...
bem parece estranha, (Cruz e Sousa)
mas bárbara não.
c) Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
endechas = versos em redondilha menor (cinco sílabas); molhos = Que o espírito enlaça à dor vivente,
feixes; leda = risonha; Vão = fútil. Não derramem por mim nenhuma lágrima
Em pálpebra demente.
Em sua obra, Camões continua a tradição da conduta amorosa (Álvares de Azevedo)
das cantigas medievais. Nela, a mulher amada era considerada:

a) responsável pelas contradições e insatisfações do homem. d) Em teu louvor, Senhora, estes meus versos
E a minha Alma aos teus pés para cantar-te,
b) símbolo do amor erótico.
E os meus olhos mortais, em dor imersos,
c) incapaz de levar o homem a atingir o Bem. Para seguir-lhe o vulto em toda a parte.
d) um ser impuro e prejudicial ao homem. (Alphonsus de Guimaraens)
e) uma pessoa superior, fonte de virtudes.
e) Que pode uma criatura senão,
6. Senhor feudal entre criaturas, amar?
amar e esquecer
Se Pedro Segundo amar e malamar,
Vier aqui amar, desamar, amar?
Com história (Manuel Bandeira)
Eu boto ele na cadeia.
(Oswald de Andrade) TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
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Ondas do mar de Vigo


O título do poema de Oswald remete o leitor à Idade Média.
Ondas do mar de Vigo,
Nele, assim como nas cantigas de amor, a ideia de poder retoma se vistes meu amigo?
o conceito de:
e ai Deus, se verrá cedo?
a) fé religiosa. Ondas do mar levado,
b) relação de vassalagem. se vistes meu amado?
c) idealização do amor. e ai Deus, se verrá cedo?
d) saudade de um ente distante. Se vistes meu amigo,
e) igualdade entre as pessoas. o por que eu sospiro?
e ai Deus, se verrá cedo?
7. (IFSP) A poesia do Trovadorismo português tem íntima relação
Se vistes meu amado,
com a música, pois era composta para ser entoada ou cantada, sem-
o por que hei gram coidado?
pre acompanhada de instrumental, como o alaúde, a viola, a flauta,
e ai Deus, se verrá cedo?
ou mesmo com a presença do coro.
Obs.: verrá: virá
A respeito dessa escola literária, assinale a alternativa correta. Martim Codax

104
9. (Mackenzie) Pode-se afirmar que pertence ao mesmo tipo de poema TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
trovadoresco de “Ondas do mar de Vigo” APENAS a alternativa:
SONETO DE SEPARAÇÃO
a) Dona fea, nunca vos eu loei/en meu trobar, pero muito
trobei;/mais ora já un bon cantar farei,/en que vos loarei De repente do riso fez-se o pranto
toda via;/e direi-vos como vos loarei:/dona fea, velha e Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
sandia! (Joan Garcia de Guilhade)
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
b) Quer’eu en maneira provençal/fazer agora un cantar
d’amor/e querrei muit’i loar mia senhor, a que prez nem De repente da calma fez-se o vento
fremusura non fal,/nem bondade, e mais vos direi en: Que dos olhos desfez a última chama
tanto fez Deus comprida de ben/que mais que todas las E da paixão fez-se o pressentimento
do mundo val. (D. Dinis) E do momento imóvel fez-se o drama.
c) A melhor dona que eu nunca vi,/per bõa fé, nem que De repente, não mais que de repente
oí dizer,/ e a que Deus fez melhor parecer,/mia senhor Fez-se de triste o que se fez amante
est, e senhor das que vi,/ de mui bom preço e de mui E de sozinho o que se fez contente
bom sem,/per bõa fé, e de tod’outro bem, de quant’eu Fez-se do amigo próximo o distante
nunca doutra dona oí. (Fernão Garcia Esgaravunha) Fez-se da vida uma aventura errante
d) Quantos ham gram coita d’amor/eno mundo, qual De repente, não mais que de repente.
hoj’eu hei,/ querriam morrer, eu o sei,/e haveriam en (Vinícius de Morais)
sabor;/mais, mentr’eu vos vir, mia senhor,/ sempre
m’eu querria viver/ e atender e atender. (João Garcia 2. (Faap) Releia com atenção a última estrofe:
de Guilhade)
“Fez-se de amigo próximo o distante
e) Que coita tamanha ei a sofrer,/por amar amigu’e non o
Fez-se da vida uma aventura errante
ver!/E pousarei sô lo avelanal. (Nuno Fernandes Torneol)
De repente, não mais que de repente”.
10. Em relação a Gil Vicente, é incorreto dizer que: Tomemos a palavra AMIGO. Todos conhecem o sentido com que
a) recebeu, no início de sua intensa atividade literária, esta forma linguística é usualmente empregada no falar atual.

influência de Juan del Encina. Contudo, na Idade Média, como se observa nas cantigas medie-
vais, a palavra AMIGO significou:
b) sua primeira produção teatral foi “Auto dos Reis Magos”.
c) suas obras se caracterizaram, antes de tudo, por a) colega
serem primitivas e populares. b) companheiro
d) suas obras surgiram para entretenimento nos am- c) namorado
bientes da corte portuguesa. d) simpático
e) seu teatro caracterizou-se por observações satíricas e) acolhedor
às camadas sociais da época 3. Assinale a afirmação falsa sobre as cantigas de escárnio e mal dizer:
a) A principal diferença entre as duas modalidades sa-

E.O. Complementar
tíricas está na identificação ou não da pessoa atingida.
b) O elemento das cantigas de escárnio não é temático,
nem está na condição de se omitir a identidade do ofen-
1. Assinale a afirmativa correta com relação ao Trovadorismo. dido. A distinção está no retórico do “equívoco”, da am-
biguidade e da ironia, ausentes na cantiga de maldizer.
a) Um dos temas mais explorados por esse estilo de c) Os alvos prediletos das cantigas satíricas eram os
época é a exaltação do amor sensual entre nobres e comportamentos sexuais (homossexualidade, adultério,
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

mulheres camponesas. padres e freiras libidinosos), as mulheres (soldadeiras,


b) Desenvolveu-se especialmente no século XV e re- prostitutas, alcoviteiras e dissimuladas), os próprios poe-
fletiu a transição da cultura teocêntrica para a cultura tas (trovadores e jograis eram frequentemente ridiculari-
antropocêntrica. zados), a avareza, a corrupção e a própria arte de trovar.
c) Devido ao grande prestígio que teve durante d) As cantigas satíricas perfazem cerca de uma quarta parte
toda a Idade Média, foi recuperado pelos poetas da poesia contida nos cancioneiros galego-portugueses. Isso
da Renascença, época em que alcançou níveis es- revela que a liberdade da linguagem e a ausência de pre-
téticos insuperáveis. conceito ou censura (institucional, estética ou pessoal) eram
d) Valorizou recursos formais que tiveram não apenas componentes da vida literária no período trovadoresco, an-
tes de a repressão inquisitorial atirá-las à clandestinidade.
a função de produzir efeito musical, como também a
função de facilitar a memorização, já que as composi- 4. Nas cantigas de amor:
ções eram transmitidas oralmente.
a) o trovador expressa um amor à mulher amada, en-
e) Tanto no plano temático como no plano expressivo, carando-a como um objeto acessível a seus anseios.
esse estilo de época absorveu a influência dos padrões
b) o trovador velada ou abertamente ironiza persona-
estéticos greco-romanos. gens da época.

105
c) o “eu-lírico” é feminino, expressando a saudade da E me vingar a qualquer preço
ausência do amado. Te adorando pelo avesso
d) o poeta pratica a vassalagem amorosa, pois, em Pra mostrar que ainda sou tua
postura platônica, expressa seu amor à mulher amada. (Chico Buarque)
e) existe a expressão de um sentimento feminino, a) Quais os sentimentos que podemos ver nessa música?
apesar de serem escritas por homens. b) A pessoa, que “fala” na música, é um homem ou
uma mulher? Justifique.
E.O. Dissertativo
1. Os textos abaixo são de cantigas medievais e foram adaptados para E.O. Objetivas
(Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp)
o português atual. Identifique cada uma de acordo com as caracte-
rísticas das cantigas de amor, de amigo, de escárnio ou de maldizer.

a) A dona que eu sirvo e que muito adoro mostrai-ma,


ai Deus! pois eu vos imploro se não, dai-me a morte. 1. (Unifesp) Leia a cantiga seguinte, de Joan Garcia de Guilhade.
(Bernardo de Bonaval) Un cavalo non comeu
b) Trovas não fazeis como provençal mas como Ber- á seis meses nen s’ergueu
nardo, o de Bonaval. O vosso trovar não é natural. mais prougu’a Deus que choveu,
Ai de vós, com ele e o Demo aprendestes. creceu a erva,
Em trovardes mal, vejo eu o sinal das loucas ideias em e per cabo si paceu,
que empreendestes. Por isso, D. Pero, em Vila-Real, e já se leva!
Fatal foi a hora em que tanto bebestes. Seu dono non lhi buscou
cevada neno ferrou:
(D. Afonso X, o Sábio)
mai-lo bon tempo tornou,
c) Ai flores, ai flores do verde ramo, se sabedes no- creceu a erva,
vas do meu amado? Ai, Deus, onde ele está? e paceu, e arriçou,
(D. Dinis) e já se leva!
d) Ai, dona feia, foste-vos queixar de que nunca vos Seu dono non lhi quis dar
louvei em meu trovar; e umas trovas vos quero dedi- cevada, neno ferrar;
car em que louvada de toda maneira sereis; tal é o mais, cabo dum lamaçal
meu louvar: dona feia, velha e sandia! creceu a erva,
e paceu, e arriç’ar,
(João Garcia de Guilhade)
e já se leva!
2. “Ua dona, nom digu’eu qual, (CD Cantigas from the Court of Dom Dinis.
non agoirou ogano mal harmonia mundi, usa, 1995.)

polas oitavas de Natal:


ia por as missa oir e
A leitura permite afirmar que se trata de uma cantiga de:
ouv’un corvo carnaçal, a) escárnio, em que se critica a atitude do dono do cavalo,
e non quis da casa sair...” que dele não cuidara, mas graças ao bom tempo e à chu-
va, o mato cresceu e o animal pôde recuperar-se sozinho.
(Joan Airas de santiago, século XIII)
b) amor, em que se mostra o amor de Deus com o ca-
O fragmento acima pertence a uma cantiga de escárnio. Por que valo que, abandonado pelo dono, comeu a erva que
não pode ser classificado como uma cantiga de maldizer? cresceu graças à chuva e ao bom tempo.
c) escárnio, na qual se conta a divertida história do cavalo
3. Leia a música e responda as questões.
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

que, graças ao bom tempo e à chuva, alimentou-se, recu-


Atrás da porta perou-se e pôde, então, fugir do dono que o maltratava.
d) amigo, em que se mostra que o dono do cavalo não
Quando olhaste bem nos olhos meus lhe buscou cevada nem o ferrou por causa do mau
E o teu olhar era de adeus tempo e da chuva que Deus mandou, mas mesmo as-
Juro que não acreditei, eu te estranhei sim o cavalo pôde recuperar-se.
Me debrucei sobre teu corpo e duvidei e) mal-dizer, satirizando a atitude do dono que ferrou
E me arrastei e te arranhei o cavalo, mas esqueceu-se de alimentá-lo, deixando-o
E me agarrei nos teus cabelos entregue à própria sorte para obter alimento.
Nos teu peito, teu pijama
Nos teus pés ao pé da cama 2. (Fuvest) Sobre o Trovadorismo em Portugal, é correto afirmar que:
Sem carinho, sem coberta a) sua produção literária está escrita em galego ou
No tapete atrás da porta galêgo-português e divide-se em: poesia (cantigas) e
Reclamei baixinho prosa (novelas de cavalaria).
Dei pra maldizer o nosso lar
b) utilizou largamente o verso decassílabo por- que
Pra sujar teu nome, te humilhar
sua influência é clássica.

106
c) a produção poética daquela época pode ser dividida Confessor Medieval (1960)
em lírico-amorosa e prosa doutrinária.
Irias à bailia com teu amigo,
d) as cantigas de amigo têm influência provençal.
Se ele não te dera saia de sirgo [seda]?
e) a prosa trovadoresca tinha claro objetivo de divertir a
Se te dera apenas um anel de vidro
nobreza, por isso têm cunho satírico.
Irias com ele por sombra e perigo?
3. (Fuvest) O Trovadorismo, quanto ao tempo em que se instala: Irias à bailia sem teu amigo,
a) tem concepções clássicas do fazer poético. Se ele não pudesse ir bailar contigo?
b) é rígido quanto ao uso da linguagem que, geral- Irias com ele se te houvessem dito
mente, é erudita. Que o amigo que amavas é teu inimigo?
c) estabeleceu-se num longo período que dura 10 séculos. Sem a flor no peito, sem saia de sirgo,
d) tinha como concepção poética a epopeia, a louva- Irias sem ele, e sem anel de vidro?
ção dos heróis. Irias à bailia, já sem teu amigo,
e) reflete as relações de vassalagem nas cantigas de amor. E sem nenhum suspiro?
Meireles, Cecília. Poesias completas de Cecília Meireles.
v.8. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1974.

E.O. Dissertativas 2. (Unesp) A leitura da cantiga de Airas Nunes e do poema “Con-


(Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp) fessor Medieval”, de Cecília Meireles, revela que este poema,
mesmo tendo sido escrito por uma poeta modernista, apresenta
intencionalmente algumas características da poesia trovadores-
1. (Fuvest) “Coube ao século XIX a descoberta surpreendente da ca, como o tipo de verso e a construção baseada na repetição e
nossa época lírica. Em 1904, com a edição crítica e comentada do no paralelismo.
Cancioneiro da Ajuda, por Carolina Michaëlis de Vasconcelos,
tivemos grande visão de conjunto do valiosíssimo espólio desco- Releia com atenção os dois textos e, em seguida estabeleça as
berto.” (Costa Pimpão) identidades que há entre o terceiro verso da cantiga de Airas
a) Qual é essa “primeira época lírica” portuguesa? Nunes e o terceiro verso do poema de Cecília Meireles no que diz
respeito ao número de sílabas e às posições dos acentos.
b) Que tipos de composições poéticas se cultivam
nessa época?
3. (Unesp) Tanto na cantiga como no poema de Cecília Meireles
verificam-se diferentes personagens: um eu-poemático, que assume
As 2 e 3 tomam por base uma cantiga do trovador
questões
a palavra, e um interlocutor ou interlocutores a quem se dirige.
galego Airas Nunes, de Santiago (século XIII), e o poema Con-
fessor Medieval, de Cecília Meireles (1901-1964).
Com base nesta informação, releia os dois poemas e, a seguir,
indique o interlocutor ou interlocutores do eu-poemático em cada

Cantiga um dos textos.

Bailemos nós já todas três, ai amigas, TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES


So aquestas avelaneiras frolidas [floridas],
E quem for velida [formosa], como nós, velidas, Sedia la fremosa seu sirgo torcendo
Se amigo amar,
So aquestas [estas] avelaneiras frolidas Sedia lafremosa seu sirgo torcendo,
Sa voz manselinhafremoso dizendo
Verrá [virá] bailar.
Cantigas d'amigo.
Bailemos nós já todas três, ai irmanas [irmãs],
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

So aqueste [este] ramo destas avelanas, Sedia lafremosa seu sirgo lavrando,
E quem for louçana, como nós, louçanas [formosa], Sa voz manselinhafremoso cantando
Se amigo amar, Cantigas d'amigo.
So aqueste ramo destas avelanas [avelaneiras]
- Par Deus de Cruz, dona, sey que avedes
Verrá bailar. Amor muycoytado que tanbendizedes
Por Deus, ai amigas, mentr’al [enquanto outras coisas] non fazemos, Cantigas d'amigo.
So aqueste ramo frolido bailemos,
E quem bem parecer [tiver belo aspecto], como nós parecemos Par Deus de Cruz, dona, sey que andades
Se amigo amar, D'amor muycoytada que tanbencantades
Cantigas d'amigo.
So aqueste ramo so lo que bailemos
Verrá bailar. - Avuytor comestes, que adevinhades.
Estêvão Coelho
Santiago, Airas Nunes de. In: SPINA, Segismundo.
Presença da Literatura Portuguesa – I. Era Medieval. 2. (Cantiga nº. 321 - CANC. DA VATICANA.)
ed. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1966.

107
4. (Unesp) Considerando-se que o último verso da cantiga ca-
racteriza um diálogo entre personagens; considerando-se que a
E.O. Objetivas
palavra “abutre” grafava-se “avuytor”, em português arcaico; e (Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp)
considerando-se que, de acordo com a tradição popular da época,
1. A 2. A 3. E
era possível fazer previsões e descobrir o que está oculto, comen-
do carne de abutre, mediante estas três considerações:

a) Identifique o personagem que se expressa em dis- E.O. Dissertativas


curso direto, no último verso do poema; (Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp)
b) Interprete o significado do último verso, no contex-
to do poema. 1.
a) O Trovadorismo.
5. (Unesp) O paralelismo é um dos recursos estilísticos mais b) As cantigas líricas e satíricas.
comuns na poesia lírico-amorosa trovadoresca. Consiste na
ênfase de uma ideia central, às vezes repetindo expressões
2. Com relação à metrificação, os versos indicados nos dois tex-
idênticas, palavra por palavra, em séries de estrofes paralelas.
tos são idênticos, ou seja, são hendecassílabos, com acentos nas
A partir destas observações, releia o texto de Estêvão Coelho quintas e nas décimas primeiras sílabas.
e responda: 3. O eu lírico feminino na cantiga se dirige a duas moças (amigas
a) O poema se estrutura em quantas séries de estro- e irmãs), estabelecendo com elas interlocução de sua fala. Já no
fes paralelas? Identifique-as. poema, o eu lírico apresenta-se como um homem, um confidente
que faz perguntas à moça apaixonada, mantendo com ela uma
b) Que ideias centrais são enfatizadas em cada série
lógica de interlocução.
paralelística?
4.

Gabarito
a) A personagem que se expressa em discurso direto
é a “mulher”.
b) A personagem considera o poeta um vidente, pois
ele descobre no último verso o seu sofrimento amo-
E.O. Aprendizagem roso.
1. C 2. B 3. D 4. D 5. B 5.
a) O poema se estrutura em duas séries: as duas pri-
6. D 7. B 8. C 9. E 10. C
meiras estrofes e as duas estrofes seguintes.
b) Na primeira estrofe, o foco se dá nos afazeres da
E.O. Fixação mulher. Já na segunda, a temática recai sobre seu so-
frimento.
1. E 2. C 3. F-F-V-V-V 4. A 5. A

6. B 7. B 8. D 9. E 10. B

E.O. Complementar
1. D 2. C 3. B 4. D

E.O. Dissertativo
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

1.
a) cantiga de amor
b) cantiga de maldizer
c) cantiga de amigo
d) cantiga de escárnio
2. O fragmento não pode ser considerado uma cantiga de maldi-
zer, pois não é direta. Não é possível identificar a pessoa critica-
da, além de apresentar vocabulário comedido.
3.
a) Os sentimentos abordados na canção estão atrela-
dos ao sofrimento frente à partida da pessoa amada.
b) É tipicamente uma cantiga de amigo, pois, ao falar
da pessoa amada, o eu lírico se revela como uma mu-
lher, apesar de ter sido escrita por um homem.

108
LC
RENASCIMENTO: CLASSICISMO
E LUÍS VAZ DE CAMÕES

AULAS COMPETÊNCIA(s) HABILIDADE(s)

5E6
5 15, 16 e 17

E.O. Aprendizagem b) “Inês de Castro” caracteriza, dentro da epopeia ca-


moniana, o gênero lírico porque é um episódio que narra
os amores impossíveis entre Inês e seu amado Pedro.
1. Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as afirmações a seguir,
c) Restelo era o nome da praia em frente ao templo
relacionadas aos Cantos I a V da epopeia Os Lusíadas, de Camões.
de Belém, de onde partiam as naus portuguesas nas
( ) A presença do elemento mitológico é uma forma de reconhe- aventuras marítimas.
cimento da cultura clássica, objeto de admiração e imitação no d) tanto “Inês de Castro” quanto “O Velho do Reste-
Renascimento. lo” são episódios que ilustram poeticamente diferen-
( ) A disputa entre os deuses Vênus e Baco, da mitologia clássica, tes circunstâncias da vida portuguesa.
é um recurso literário de que Camões faz uso para criar o enredo e) o Velho, um dos muitos espectadores na praia, en-
de Os Lusíadas. grandecia com sua fala as façanhas dos navegadores,
( ) Do Canto I ao Canto V, leem-se as peripécias da viagem dos a nobreza guerreira e a máquina mercantil lusitana.
portugueses até sua chegada à Índia, quando eles tomam posse
4. Com os versos “Cantando espalharei por toda a parte,/ Se
daquela terra.
a tanto me ajudar o engenho e a arte.”, Camões explica que o
( ) No Canto II, lê-se a narração da viagem dos portugueses a propósito de Os Lusíadas é divulgar os feitos portugueses. Sobre
Melinde, cujo rei pede a Camões que conte a história de Portugal. esse poema épico, só é INCORRETO afirmar que:
A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima a) se trata da maior obra literária do quinhentismo
para baixo, é: português.
a) V – V – V – F b) Camões sofre a clara influência dos clássicos gre-
b) V – F – F – V co-latinos.
c) F – V – F – V c) há forte presença do romantismo, devido ao na-
cionalismo.
d) F – F – V – F
d) como epopeia moderna, há momentos de crítica à
e) V – V – F – F
nação e ao povo.
2. Assinale a alternativa que completa corretamente a afirmação e) louva não apenas o homem português, mas o ho-
seguinte: mem renascentista.
O movimento desenvolveu-se no apogeu político de Portugal; con-
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
siste numa concepção artística baseada na imitação dos modelos
clássicos gregos e latinos. Nele, o pensamento lógico predomina Antes de concluir este capítulo, fui à janela indagar da noite
sobre a emoção, e a estrutura da composição poética obedece a por que razão os sonhos hão de ser assim tão tênues que
formas fixas, com a introdução da medida nova, que convive com se esgarçam ao menor abrir de olhos ou voltar de corpo, e
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

a medida velha das formas tradicionais. não continuam mais. A noite não me respondeu logo. Estava
deliciosamente bela, os morros 1palejavam de luar e o espaço
Trata-se do: morria de silêncio. Como eu insistisse, declarou-me que os
a) Modernismo. sonhos já não pertencem à sua jurisdição. Quando eles mo-
b) Barroco. ravam na ilha que Luciano lhes deu, onde ela tinha o seu pa-
c) Romantismo. lácio, e donde os fazia sair com as suas caras de vária feição,
dar-me-ia explicações possíveis. Mas os tempos mudaram
d) Classicismo.
tudo. Os sonhos antigos foram aposentados, e os modernos
e) Realismo.
moram no cérebro da pessoa. Estes, ainda que quisessem
3. Dos episódios “Inês de Castro” e “O Velho do Restelo”, da imitar os outros, não poderiam fazê-lo; a ilha dos Sonhos,
obra Os Lusíadas, de Luiz de Camões, NÃO é possível afirmar que:
como a dos Amores, como todas as ilhas de todos os mares,
são agora objeto da ambição e da rivalidade da Europa e dos
a) “O Velho do Restelo”, numa antevisão profética, Estados Unidos.
previu os desastres futuros que se abateriam sobre
Machado de Assis. Dom Casmurro.
a Pátria e que arrastariam a nação portuguesa a um
destino de enfraquecimento e marasmo. palejavam: tornavam pálidos
1

109
5. Assinale a alternativa que apresenta fragmento da epopeia ca- a) trata-se de um recurso ardiloso de Vênus para impe-
moniana, extraído do episódio “A ilha dos amores”, a que o texto dir que os portugueses tivessem sucesso no seu empre-
faz referência. endimento e, assim, se igualassem aos deuses.
a) Volve a nós teu rosto sério,/ Princesa do Santo Graal,/ b) trata-se de uma cilada de Baco contra os portugue-
Humano ventre do Império,/ Madrinha de Portugal. ses, pois todos os nautas que se entregaram aos praze-
b) Ali, em cadeiras ricas, cristalinas,/ Se assentam ses da ilha encontraram a morte.
dous e dous, amante e dama;/ Noutras, à cabeceira, c) é um episódio com um forte sentido cristão, pois o
de ouro finas,/ Está co’a bela deusa o claro Gama. amor aí tem um sentido nitidamente espiritual.
c) Se encontrares louvada uma beleza,/ Marília, não d) trata-se de um episódio com um sentido erótico,
lhe invejes a ventura,/ que tens quem leve à mais re- pois, por influência de Vênus, Tétis e suas ninfas ofere-
mota idade/ a tua formosura. cem aos nautas uma recompensa pelos trabalhos por
d) Este lugar delicioso, e triste,/ Cansada de viver, ti- que têm passado.
nha escolhido/ Para morrer a mísera Lindóia. e) Baco e Vênus resolvem, finalmente, unir seus esfor-
e) Choraram da Bahia as ninfas belas,/ Que nadan- ços contra os humanos, convecendo Tétis e suas ninfas
do a Moema acompanhavam;/ E vendo que sem dor a usar seu poder de sedução para aprisionarem os por-
navegam delas,/ À branca praia com furor tornavam. tugueses na ilha.

8. (IFSP) Considerando o Classicismo em Portugal, assinale a


TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO alternativa correta.

As questões adiante baseiam-se no poema épico Os Lusíadas, de Luís a) Os Lusíadas é a principal obra lírica de Camões e o tema
Vaz de Camões, do qual se reproduzem, a seguir, três estrofes. central é o sofrimento por um amor não correspondido.
b) Os Lusíadas tem como temática a descoberta do
Mas um velho, de aspeito venerando, Brasil e a relação entre o colonizador e o índio.
Que ficava nas praias, entre a gente, c) Luís Vaz de Camões é o principal autor do Classicismo
Postos em nós os olhos, meneando em Portugal e destacou-se por sua produção épica e lírica.
Três vezes a cabeça, descontente,
d) Uma característica dos versos de Camões é que eles
A voz pesada um pouco alevantando,
não apresentam uma métrica, são livres e brancos.
Que nós no mar ouvimos claramente,
C’um saber só de experiências feito, e) Uma característica de Camões é que ele despreza-
Tais palavras tirou do experto peito: va Portugal e o povo português.

“Ó glória de mandar, ó vã cobiça TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO


Desta vaidade a quem chamamos Fama!
Leia o trecho de Os Lusíadas.
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C’uma aura popular, que honra se chama! Tão temerosa vinha e carregada,
Que castigo tamanho e que justiça Que pôs nos corações um grande medo;
Fazes no peito vão que muito te ama! Bramindo, o negro mar de longe brada,
Que mortes, que perigos, que tormentas, Como se desse em vão nalgum rochedo,
Que crueldades neles experimentas! – Ó Potestade, disse, sublimada:
Dura inquietação d’alma e da vida Que ameaço divino ou que segredo
Fonte de desamparos e adultérios, Este clima e este mar nos apresenta,
Sagaz consumidora conhecida Que mor coisa parece que tormenta?
De fazendas, de reinos e de impérios! Não acabava, quando uma figura
Chamam-te ilustre, chamam-te subida, Se nos mostra no ar, robusta e válida,
Sendo digna de infames vitupérios;
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

De disforme e grandíssima estatura;


Chamam-te Fama e Glória soberana,
O rosto carregado, a barba esquálida,
Nomes com quem se o povo néscio engana.”
Os olhos encovados, e a postura
6. Entre os versos “Chamam-te ilustre, chamam-te subida,/ Sen- Medonha e má e a cor terrena e pálida;
do digna de infames vitupérios”, a relação que se estabelece é de: Cheios de terra e crespos os cabelos,
A boca negra, os dentes amarelos.
a) oposição.
b) explicação. (NEVES, João Alves das e TUFANO, Douglas.
Luís de Camões. São Paulo: Moderna, 1980.)
c) causa.
d) modo. 9. (IFSP) Considere a afirmação a seguir.
e) conclusão. Na segunda estrofe predomina a ________, e o trecho seleciona-
do evidencia que Camões optou por versos ________ ao escrever
A respeito do episódio da Ilha dos Amores (Canto IX), responda Os Lusíadas.
à próxima questão.
As lacunas devem ser preenchidas, correta e respectivamente, por
7. Sobre este famoso trecho de Os Lusíadas é correto afir- a) descrição ... alexandrinos.
mar que: b) dissertação ... alexandrinos.

110
c) narração ... pentassílabos. c) Os versos de Fernando Pessoa se assemelham aos do epi-
d) descrição ... decassílabos. sódio do Velho de Restelo pela ausência de personificação.
e) narração ... decassílabos. d) Saramago e Fernando Pessoa não se valeram da per-
feição formal camoniana, o que invalida o teor inter-
10. textual, que compreende apenas estrutura e conteúdo.
Fala do Velho do Restelo ao Astronauta e) Saramago apresenta uma crítica universalizante que
retoma o alerta feito pelo Velho do Restelo, atualizando-o.
Aqui na terra a fome continua
A miséria e o luto
A miséria e o luto e outra vez a fome
Acendemos cigarros em fogos de napalm
E.O. Fixação
E dizemos amor sem saber o que seja. TEXTOS PARA AS PRÓXIMAS TRÊS QUESTÕES.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
Texto I
Ou talvez da pobreza, e da fome outra vez,
E pusemos em ti nem eu sei que desejos Amor é fogo que arde sem se ver;
De mais alto que nós, de melhor e mais puro, É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
No jornal soletramos de olhos tensos
É dor que desatina sem doer.
Maravilhas de espaço e de vertigem.
Salgados oceanos que circundam É um não querer mais que bem querer;
Ilhas mortas de sede onde não chove. É solitário andar por entre a gente;
Mas a terra, astronauta, é boa mesa É nunca contentar-se de contente;
(E as bombas de napalm são brinquedos) É cuidar que se ganha em se perder;
Onde come brincando só a fome (Camões)
Só a fome, astronauta, só a fome Texto II
(José Saramago) Amor é fogo? Ou é cadente lágrima?
Pois eu naufrago em mar de labaredas
Mar português Que lambem o sangue e a flor da pele acendem
Ó mar salgado, quanto do teu sal Quando o rubor me vem à tona d’água.
São lágrimas de Portugal! E como arde, ai, como arde, Amor,
Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quando a ferida dói porque se sente,
Quantos filhos em vão rezaram! E o mover dos meus olhos sob a casca
Quantas noivas ficaram por casar Vê muito bem o que devia não ver.
Para que fosses nosso, ó mar! (Ilka Brunhilde Laurito)
Valeu a pena? Tudo vale a pena
1. Assinale a alternativa correta sobre o texto II.
Se a alma não é pequena.
Que quer passar além do Bojador a) A liberdade formal dos quartetos, associada à con-
Tem que passar além da dor. tenção emotiva, é índice da influência parnasiana.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu, b) Por seguir os princípios estéticos clássicos, sua ex-
Mas nele é que espelhou o céu. pressão é de teor mais universalista que individualista.
(Fernando Pessoa) c) O caráter reflexivo das interrogativas iniciais impede que
a linguagem seja marcada por índices de emotividade.
Os Luísadas
d) Recupera, do estilo camoniano, a preferência por im-
Ó glória de mandar, ó vã cobiça agens paradoxais, como, por exemplo, mar de labaredas.
Desta vaidade a quem chamamos Fama! e) Vale-se de recursos estilísticos conquistados pelos
Ó fraudulento gosto, que se atiça modernistas, como, por exemplo, versos decassílabos e
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C´uma aura popular que honra se chama! expressão coloquial.


Que castigo tamanho e que justiça 2. Assinale a alternativa correta.
Fazes no peito vão que muito te ama!
a) O texto I, com sua regularidade formal, recupera do
Que mortes, que perigos, que tormentas,
texto II o rígido padrão da estética clássica.
Que crueldades neles experimentas!
b) Os dois textos, ao negarem uma concepção carnal do
(Camões)
amor, enaltecem o platonismo amoroso.
Os textos de Fernando Pessoa e de JoséSaramago são inter- c) O texto I e o texto II são convergentes no que se refere
textuais em relação ao episódio do Velho do Restelo. Refletindo à concepção do sentimento amoroso.
sobre a visão destes dois autores lusos, assinale a correta: d) O texto II contesta o texto I no que se refere ao ponto
a) Saramago não faz referências críticas aos valores de vista sobre o amor.
éticos ou existenciais, detendo-se na questão da e) Os dois textos convergem quanto à forma e à lingua-
guerra e do progresso. gem, mas divergem quanto ao conteúdo.
b) Fernando Pessoa estabelece uma relação irônica com
o texto camoniano, pois parodia o tom grandiloquente
da fala do Velho do Restelo, valendo-se de apóstrofes.

111
3. Assinale a alternativa correta sobre o texto I. É correto o que se afirma em
a) Expressa as vivências amorosas do eu lírico em lin- a) I e II, apenas.
guagem emotivo-confessional. b) III e IV, apenas.
b) Apresenta índices de linguagem poética marcada c) II e IV, apenas.
pelo racionalismo do século XVI. d) I, III e IV, apenas.
c) Conceitua o amor de forma unilateral, revelando o e) II e III, apenas.
intenso sofrimento do coração apaixonado.
6. Assinale a incorreta sobre Camões:
d) Notam-se, em todos os versos, imagens poéticas con-
traditórias, criadas a partir de substantivos concretos. a) Sua obra compreende os gêneros épico, lírico e
e) Conceitua positivamente o amor correspondido e, dramático.
negativamente, o amor não correspondido. b) A lírica de Camões permaneceu praticamente iné-
dita. Sua primeira compilação é póstuma, datada de
4. (Uespi) Muitas são as formas fixas que foram cultivadas por Ca- 1595, e organizada sob o título de As Rimas de Luis
mões. Muitas dessas formas também foram praticadas por outros poe- de Camões, por Fernão Rodrigues Lobo Soropita.
tas do Quinhentismo português, a exemplo de Sá de Miranda e Antô- c) Sua lírica compõe-se exclusivamente de redondi-
nio Ferreira. Assim, dentre as formas literárias que compõem a poética
lhas e sonetos.
de Camões, quais não podemos assinalar como cultivadas pelo poeta?
d) Apesar de localizada no período clássico-renascen-
a) Odes e elegias. tista, a obra possui citações barrocas.
b) Figurados e canto real. e) Representa o amadurecimento de língua portugue-
c) Oitavas e écoglas. sa, sua estabilização e a maior manifestação de sua
d) Redondilhas e epopeia. excelência literária.
e) Canções e sextinas.
7. Ainda sobre Camões, assinale a incorreta:
5. (G1 - ifsp 2017) Leia o soneto abaixo, de Luís de Camões. a) Não há um texto definitivo de lírica camoniana. Atri-
buem-se-lhe cerca de 380 composições líricas, destacando-
Soneto -se os cerca de 200 sonetos, alguns de autoria controversa.
Tanto de meu estado me acho incerto, b) Camões teria reunido sua lírica sob o titulo de O
Que em vivo ardor tremendo estou de frio; Parnaso Lusitano, que se perdeu, e do qual há algu-
Sem causa, juntamente choro e rio, mas referências nas cartas do poetas.
O Mundo todo abarco e nada aperto. c) As redondilhas de Camões seguem os moldes da
É tudo quanto sinto um desconcerto: poesia palaciana do Cancioneiro Geral de Garcia de
Da alma um fogo me sai, da vista um rio; Resende e, mesmo na medida velha, o poeta superou
Agora espero, agora desconfio; seus contemporâneos e antecessores.
Agora desvario, agora acerto. d) A lírica na medida velha, tradicional, medieval, va-
Estando em terra, chego ao Céu voando; le-se dos motes glosados, das redondilhas e são de
Num’hora acho mil anos, e é de jeito cunho galante, alegre madrigalesco.
Que em mil anos não posso achar um’hora. e) A principal diferença entre a poesia lírica e a poesia
Se me pergunta alguém porque assim ando, épica é formal e manifesta-se na utilização de versos
Respondo que não sei, porém suspeito de diferentes metros.
Que só porque vos vi, minha Senhora.
8. Não são modalidade da medida nova:
CAMÕES, Luís de. Luís de Camões – Lírica. 5. ed.
São Paulo: Cultrix,1976. p.117. a) canção e elegia.
b) soneto e ode.
Analise as assertivas.
c) erceto e oitava.
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I. No verso: “Que só porque vos vi, minha Senhora”, pode-se d) écloga e sextina.
depreender que há um diálogo com as cantigas de amigo. e) trova e vilancete.
II. No verso: “Estando em terra, chego ao Céu voando”, pode-se de-
preender que há uma ideia de exagero com o objetivo de expressar in-
tensidade, ou seja, uma figura de linguagem conhecida como hipérbole.
E.O. Complementar
III. Pode-se afirmar que há uma figura de linguagem conhecida 1. Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as afirmações a seguir,
referentes ao “Canto V” de “Os Lusíadas”, de Luís de Camões.
como metonímia nos seguintes versos: “Agora espero, agora
desconfio;/ Agora desvario, agora acerto”. ( ) Vasco da Gama conta ao rei africano a partida da terra portu-
guesa, onde a tripulação deixa o coração e as mágoas.
IV. Quanto ao soneto apresentado, pode-se afirmar que a esco-
lha do léxico e a estrutura formal remetem à atitude clássica. ( ) Ao descrever Adamastor, Vasco da Gama cita, entre as carac-
Pode-se afirmar, ainda, que a inquietação do eu lírico mani- terísticas do gigante, a barba esquálida, os olhos encovados e os
festa-se por meio das antíteses, por exemplo: “ardor x frio”; cabelos crespos.
“terra x Céu”, entre outros. ( ) Paulo da Gama, irmão de Vasco, narra a viagem dos lusos
até Melinde.

112
( ) O aventureiro Fernão Veloso, ao ser atacado por etíopes, volta Porém já cinco sóis eram passados
correndo para junto dos companheiros, cena que empresta humor Que dali nos partíramos, cortando
ao poema épico. Os mares nunca doutrem navegados,
()O poeta Luís de Camões assume a narração do poema para
Prosperamente os ventos assoprando,
Quando uma noite, estando descuidados
elogiar a tenacidade portuguesa.
Na cortadora proa vigiando,
Uma nuvem, que os ares escurece,
A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima
Sobre nossas cabeças aparece.
para baixo, é:
Camões, L. V. Os Lusíadas. Abril Cultural, 1979.
a) F – F – V – F – V São Paulo. Fragmento.
b) V – F – F – V – V Assinale a alternativa que apresenta, respectivamente, a classifi-
c) F – V – F – V – F cação dos textos.
d) V – V – F – V – F a) Épico e lírico.
e) F – F – V – F – F b) Lírico e épico.
2. Sobre o poema Os Lusíadas, é incorreto afirmar que: c) Lírico e dramático.
d) Dramático e épico.
a) quando a ação do poema começa, as naus por-
tuguesas estão navegando em pleno Oceano Índico,
portanto no meio da viagem.
b) na Invocação, o poeta se dirige às Tágides, ninfas
E.O. Dissertativo
do rio Tejo. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
c) Na ilha dos Amores, após o banquete, Tétis conduz Partimo-nos assim do santo templo
o capitão ao ponto mais alto da ilha, onde lhe des- Que nas praias do mar está assentado,
cenda a “máquina do mundo”. Que o nome tem da terra, para exemplo,
d) Tem como núcleo narrativo a viagem de Vasco da Gama, Donde Deus foi em carne ao mundo dado.
a fim de estabelecer contato marítimo com as Índias. Certifico-te, ó Rei, que se contemplo
e) É composto em sonetos decassílabos, mantendo Como fui destas praias apartado,
Cheio dentro de dúvida e receio,
em 1.102 estrofes o mesmo esquemas de rimas.
Que a penas nos meus olhos ponho o freio.
3. O desejo de criar um novo mundo, um reino feliz não se con- Camões, Os Lusíadas, Canto 4º - 87.
cretizou. Em vez disso, os navegadores praticaram atos violentos
no processo das conquistas. Em que versos o Gigante Adamastor 1. (Ufscar) O trecho faz parte do poema épico “Os Lusíadas”,
refere-se a essa violência: escrito por Luís Vaz de Camões e narra a partida de Vasco da
Gama, para a viagem às Índias.
a) Sabes que quantas naus esta viagem
a) Em que estilo de época ou época histórica se situa
Que tu fazes, fizeram, de atrevidas,
a obra de Camões?
Inimiga terão estas paragem.
b) Para dizer que o nome do templo é Belém, Camões faz
b) Chamei-me Adamastor, e fui na guerra uso de uma perífrase: “Que o nome tem da terra, para
Contra o que vibra os raios da Vulcano exemplo,/ Donde Deus foi em carne ao mundo dado”. Em
c) Mas, conquistando as ondas do oceano que outro trecho dessa estrofe Camões usa outra perífrase?
Fui capitão domar por onde andava
2.
A armada de Netuno, que eu buscava
“Amor é fogo que arde sem se ver;
d) Ouve os danos de mim que apercebidos É ferida que dói e não se sente
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

Estão a te sobejo atrevimento É um contentamento descontente;


Por todo o largo mar e pela terra É dor que desatina sem doer;”
Que inda hás de subjulgar com dura guerra. Lírica de Camões, seleção, prefácio e Notas de
e) Comecei a sentir o Fado inimigo MASSAUD MOISÉS, São Paulo: Cultrix, 1963.
Por meus atrevimentos, o castigo. “Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo.
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
4. Os gêneros literários são empregados com finalidade estética.
Onde tudo nos quebra e emudece
Leia os textos a seguir. Onde tudo nos mente e nos separa.”
Busque Amor novas artes, novo engenho, Sophia de Mello Breyner Andresen, “Terror
de te amar”. In: Antologia Poética.
Para matar-me, e novas esquivanças;
Que não pode tirar-me as esperanças, Dos dois textos transcritos, o primeiro é de Luís Vaz de Camões
Que mal me tirará o que eu não tenho. (século XVI) e o segundo, de Sophia de Mello Breyner Andresen
Camões, L. V. de. Sonetos. Lisboa: Livraria
(século XX). Compare-os, discutindo, através de critérios formais
Clássica Editora. 1961. Fragmento. e temáticos, aspectos em que ambos se aproximam e aspectos em
que ambos se distanciam um do outro.

113
3. (UFJF) Leia o fragmento a seguir e responda ao que se pede. 5.
a)Indique os sentidos que os substantivos “favor” e
“Amores da alta esposa de Peleu
Me fizeram tomar tamanha empresa. “engenho” possuem no verso 5.
Todas as deusas desprezei do céu, b)Faça um breve teor do texto, comparando-o com o
Só por amar das águas a princesa. teor da proposição.
Um dia a vi co’as filhas de Nereu,

E.O. Objetivas
Sair nua na praia: e logo presa
A vontade senti de tal maneira

(Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp)


Que inda não sinto cousa que mais queira.
Como fosse impossíbil alcançá-la
Pela grandeza feia de meu gesto,
Determinei por armas de tomá-la 1. (Fuvest) Leia o trecho de Memorial do convento, de José
E a Dóris este caso manifesto. Saramago.
De medo a deusa então por mi lhe fala; Já vai andando a récua dos homens de Arganil, acompanham-nos
Mas ela, c’um fermoso riso honesto, até fora da vila as infelizes, que vão aclamando, qual em cabelo,
Respondeu: ‘Qual será o amor bastante Ó doce e amado esposo, e outra protestando, Ó filho, aquém eu
De ninfa, que sustente o dum gigante?” tinha só para refrigério e doce amparo desta cansada já velhice
Camões, Os Lusíadas minha, não se acabavam as lamentações, tanto que os montes de
mais perto respondiam, quase movidos de alta piedade.
Nas estrofes acima, extraídas do episódio do Adamastor, obser-
vamos o amor entre o Gigante e Tétis, a “Princesa das Águas”. Em muitas passagens do trecho transcrito, o narrador cita tex-
A partir disso, responda: tualmente palavras de um episódio de Os Lusíadas, visando a cri-
a) Como se manifesta, no texto, o amor do gigante, e ticar o mesmo aspecto de vida de Portugal que Camões, nesse
como Tétis reage a esse amor? episódio, já criticara. O episódio camoniano citado e o aspecto

b) Quem é, no poema de Camões, o gigante Adamastor? criticado são, respectivamente:

a) O Velho do Restelo; posição subalterna da mulher


TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO na sociedade tradicional portuguesa.
b) Aljubarrota; a sangria populacional provocada pe-
Os bons vi sempre passar
los empreendimentos coloniais portugueses.
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar c) Aljubarrota; o abandono dos idosos decorrente dos
Os maus vi sempre nadar empreendimentos bélicos, marítimos e santuários.
Em mar de contentamentos. d) O Velho do Restelo; o sofrimento popular decorren-
Cuidando alcançar assim te dos empreendimentos dos nobres.
O bem tão mal ordenado, e) Inês de Castro; e o sofrimento feminino causado
Fui mau, mas fui castigado, pelas perseguições das Inquisições.
Assim que só pera mim
Anda o Mundo concertado. 2. (Fuvest) Sobre o episódio do Velho do Restelo, assinale a al-
ternativa correta:
Luís de Camões: Ao desconcerto do Mundo. In: Obra Completa.
Rio de Janeiro: Aguilar Editora, 1963, p. 475-6. a) O discurso do Velho do Restelo tem significado
complexo, na medida em que sua opinião se apresen-
4. (Ufscar) O poema está composto com versos de sete sílabas ta de maneira obscura: ele condena certos aspectos
e na forma conhecida como “esparsa” que, junto com outras, da expansão ultramarina ao mesmo tempo em que
constituía o estoque de formas medievais que muitos poetas exalta o poderio bélico de Portugal.
clássicos de Portugal, dentre os quais Camões, continuaram b) Trata-se de um episódio de intensidade dramática,
XVI e que se denominavam de “medida ve- dadas as circunstâncias em que a cena ocorre e ao con-
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

usando no século
lha”. Além dessas formas, Camões usou as italianizantes ou teúdo do discurso proferido pela personagem, que nada
clássicas, que se denominavam de “medida nova”. mais é do que a opinião do próprio autor da epopéia.
c) A veemência do discurso do Velho do Restelo reside
a) Cite outra forma de “medida velha” usada por Camões. no apelo feito pelo próprio aspecto físico do persona-
b) Cite duas formas de “medida nova”. gem, que indica a sabedoria acumulada por quem se
tornou, com o decorrer dos anos, humilde e resignado.
A respeito do epílogo de Os Lusíadas, responda à próxima questão. d) Embora surja como uma voz discordante em rela-
Não mais, musa, não mais, que a lira tenho ção ao propósito de exaltação das Navegações apre-
sentado pelo narrador épico, o discurso do Velho do
Destemperada e a voz enrouquecida,
Restelo mostra-se coerente com uma ideologia de-
E não do canto, mas de ver que venho
fensora da vida junto à Pátria e à Família.
Cantar a gente surda e endurecida.
e) A opinião do Velho do Restelo em relação às Nave-
O favor com que mais se acende o engenho
gações é, ao mesmo tempo, reacionária, uma vez que
Não nos dá a pátria, não, que está metida
defende a conservação dos valores humanitários e fa-
No gosto da cobiça e na rudeza
miliares, e arrojada, já que o personagem prevê com
Duma austera, apagada e vil tristeza (...)
sabedoria os desastres que resultariam das viagens.

114
3. (Fuvest) Na lírica de Camões: SONETO 88
a) o metro usado para a composição dos sonetos é a Sete anos de pastor Jacó servia
redondilha maior. Labão, pai de Raquel, serrana bela;
b) encontram-se sonetos, odes, sátiras e autos. Mas não servia ao pai, servia a ela,
c) cantar a Pátria é o centro das preocupações. Que a ela só por prêmio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
d) encontra-se uma fonte de inspiração de muitos po-
Passava, contentando-se com vê-la;
etas brasileiros do século XX.
Porém o pai, usando de cautela,
e) a Mulher é vista em seus aspectos físicos, despoja- Em lugar de Raquel lhe dava Lia.
da de espiritualidade.
Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi[m] negada a sua pastora,
E.O. Dissertativas Como se a não tivera merecida,

(Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp)


Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: -Mais servira, se não fora
Pera tão longo amor tão curta a vida!
1. (Fuvest)
(CAMÕES. OBRA COMPLETA.
Oh! Maldito o primeiro que, no mundo, Rio de Janeiro: Aguilar, 1963, p. 298.)
Nas ondas vela pôs em seco lenho!
Digno da eterna pena do Profundo, 2. (Unesp) O racionalismo é uma das características mais fre-
quentes da literatura clássica portuguesa. A logicidade do pensa-
Se é justa a justa Lei que sigo e tenho!
mento quinhentista repercutiu no rigor formal de seus escritores,
Nunca juízo algum, alto e profundo,
Nem cítara sonora ou vivo engenho, e no culto à expressão das “verdades eternas”, sem que isto im-
plicasse tolhimento da liberdade imaginativa e poética. Com base
Te dê por isso fama nem memória,
nestas observações, releia os dois textos apresentados e:
Mas contigo se acabe o nome e a glória.
Camões, Os Lusíadas a) aponte um procedimento literário de Camões que
comprove o rigor formal do classicismo;
a) Considerando esse trecho da fala do velho do Res-
telo no contexto da obra a que pertence, explique os b) indique o dado da passagem bíblica que, por ter
dois primeiros versos, esclarecendo o motivo da mal- sido omitido por Camões, revela a prática da liberda-
dição que, neles, é lançada. de poética e confere maior carga sentimental ao seu
modo de focalizar o mesmo episódio.
b) Nos quatro últimos versos, está implicada uma de-
terminada concepção da função da arte. Identifique 3. (Fuvest) Os paradoxos do sentimento amoroso constituem um dos
essa concepção, explicando-a brevemente. temas favoritos de sua poesia lírica, exercitada sobretudo nos sonetos.

TEXTOS PARA A PRÓXIMA QUESTÃO a) De que poeta se trata?


b) Indique um texto do poeta em que este sen- timen-
JACÓ ENCONTRA-SE COM RAQUEL to contraditório se manifesta.
Depois disse Labão a Jacó: Acaso, por seres meu parente, irás 4. (Fuvest) Camões escreveu obra épica ou lírica? Justifique sua
servir-me de graça? Dize-me, qual será o teu salário? Ora La- resposta, exemplificando com obras do autor.
bão tinha duas filhas: Lia, a mais velha, e Raquel, a mais moça.
Lia tinha olhos baços, porém Raquel era formosa de porte e de TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
semblante. Jacó amava a Raquel, e disse: Sete anos te servirei
por tua filha mais moça, Raquel. Respondeu Labão: Melhor é A(s) questão(ões) seguintes tomam por base a oitava estrofe do
que eu te dê, em vez de dá-la a outro homem; fica, pois, comigo. “Canto VI” de OS LUSÍADAS, de Luís de Camões (1524?-
1580), e o poema A ONDA, de Manuel Bandeira (1886-1968).
Assim, por amor a Raquel, serviu Jacó sete anos; e estes lhe pa-
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receram como poucos dias, pelo muito que a amava. Disse Jacó OS LUSÍADAS, VI, 8
a Labão: Dá-me minha mulher, pois já venceu o prazo, para que
No mais interno fundo das profundas
me case com ela. Reuniu, pois, Labão todos os homens do lugar,
Cavernas altas, onde o mar se esconde,
e deu um banquete. À noite, conduziu a Lia, sua filha, e a entre-
Lá donde as ondas saem furibundas,
gou a Jacó. E coabitaram. (...) Ao amanhecer, viu que era Lia, por
Quando às iras do vento o mar responde,
isso disse Jacó a Labão: Que é isso que me fizeste? Não te servi
Netuno mora e moram as jucundas
por amor a Raquel? Por que, pois, me enganaste? Respondeu
Nereidas e outros Deuses do mar, onde
Labão: Não se faz assim em nossa terra, dar-se a mais nova antes
As águas campo deixam às cidades
da primogênita. Decorrida a semana desta, dar-te-emos também
Que habitam estas úmidas Deidades.
a outra, pelo trabalho de mais sete anos que ainda me servirás.
CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. Lisboa:
Concordou Jacó, e se passou a semana desta; então Labão lhe Imprensa Nacional, 1971. p. 195.
deu por mulher Raquel, sua filha. (...) E coabitaram. Mas Jacó
amava mais a Raquel do que a Lia; e continuou servindo a La- A ONDA
bão por outros sete anos. a onda anda
(Gênesis, 29,15-30 BÍBLIA SAGRADA Trad. João Ferreira de aonde anda
Almeida. Rio de Janeiro: Sociedade Bíblica do Brasil, 1962.) a onda?

115
a onda ainda
ainda onda
E.O. Fixação
ainda anda 1. D 2. D 3. B 4. B
aonde?
aonde? 5. C 6. C 7. E 8. E
a onda a onda
BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira.
Rio de Janeiro: José Olympio, 1966. p. 286.
E.O. Complementar
1. D 2. E 3. D 4. B
5. (Unesp) O poema épico de Camões, entre outros ingredientes da
epopeia clássica, apresenta o chamado ‘maravilhoso’, que consiste
na intervenção de seres sobrenaturais nas ações narradas. Quan- E.O. Dissertativo
do tais seres pertencem ao universo da Mitologia Clássica, diz-se
‘maravilhoso pagão’; quando pertencem ao universo do Cristia- 1.
nismo, diz-se ‘maravilhoso cristão’. Com base nesta informação: a) A obra de Luis Vaz de Camões situa-se no período
renascentista português (Classicismo) do século XVI
a) identifique o tipo de ‘maravilhoso’ presente na oi- (1527-1580).
tava de Os Lusíadas; e
b) O verso “santo templo / Que nas praias do mar
b) comprove sua resposta com exemplos da própria estrofe. está assentado” é uma outra referência perifrástica à
6. (Fuvest) Responda às seguintes questões so- bre “Os Lusíadas”, Torre de Belém, “caravela fendida no mar”, e marco
comemorativo das navegações portuguesas, erigido à
de Camões:
saída do Rio Tejo, em estilo manuelino.
a) Identifique o narrador do episódio no qual está in-
serida a fala do Velho do Restelo. 2. Aproximam-se de duas maneiras, uma pela temática do amor
e outra pela utilização de anáforas. E distanciam-se pela metrifi-
b) Compare, resumidamente, os principais valores que
cação (versos decassílabos em Camões e livres em Andresen) e
esse narrador representa, no conjunto de “Os Lusíadas”,
pela maneira que a temática do amor é abordada (em Camões o
aos valores defendidos pelo Velho do Restelo, em sua fala.
amor é impessoal, e em Andresen é pessoal).
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO 3.
a) Há pelo gigante Adamastor um amor sem limites
Cessem do sábio Grego e do Troiano pela “Princesa das Águas”. É capaz de forçá-la a
As navegações grandes que fizeram; amá-lo. Tétis, por sua vez, mensura quanto deve ser o
Cale-se de Alexandre e de Trajano amor para amar um gigante.
A fama das vitórias que tiveram; b) No poema de Camões, o Cabo das Tormentas é
Que eu canto o peito ilustre Lusitano, personificado na figura do Gigante Adamastor.
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
4.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta. a) Camões utiliza-se do “vilancete”, cuja modalidade
poética inicia-se por um mote (assunto) e glosa (de-
7. (Unesp) A oitava anterior constitui a terceira estrofe de OS senvolvimento do assunto propostos)
LUSÍADAS, de Luís de Camões, poema épico publicado em 1572, b) O soneto é a forma de “medida nova” usada por
obra máxima do Classicismo português. O tipo de verso que Camões Camões. Entre outras formas, há: elegia, oitavas, ode,
empregou é de origem italiana e fora introduzido na Literatura sextina...
Portuguesa algumas décadas antes, por Sá de Miranda. Quanto ao
5.
conteúdo, o poema OS LUSÍADAS toma como ponto de referência
a) O substantivo “favor” significa: condição favorável
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

um episódio da História de Portugal. Baseado nestes comentários


e em seus próprios conhecimentos, releia a estrofe citada e indique:
propícia, “inspiração”. Já “engenho” é capacidade
de criar, realizar, produzir com arte, com talento.
a) o tipo de verso utilizado (pode mencionar simples- b) O epílogo faz a crítica a uma “gente surda e endureci-
mente o número de sílabas métricas);
da” de hoje, ao da proposição, que exalta o “ilustre feito
b) o episódio da História de Portugal que serve de humano” de ontem.
núcleo narrativo ao poema.

E.O. Objetivas
Gabarito (Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp)
1. D 2. D 3. D
E.O. Aprendizagem
1. E 2. D 3. E 4. C 5. B

6. A 7. D 8. C 9. D 10. E

116
E.O. Dissertativas 5.
a) Em função da presença de figuras mitológicas, tra-
(Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp) ta-se do “maravilhoso pagão”.
1. b) “Netuno mora e moram as jucundas Nereidas e
a) Trata-se do canto IV de “Os Lusíadas” em que Ca- outros Deuses do mar, onde”.
mões engrandece as conquistas de Portugal na Áfri- 6.
ca e na Índia. O eu lírico é o Velho do Restelo que, a) O narrador do episódio em questão é Vasco da
no início, logo nos dois primeiros versos, amaldiçoa Gama, o herói do poema, que, em dada altura da fá-
quem primeiro içará velas a uma embarcação, para bula, assume a função de personagem-narrador.
com ela se atirar aos mares da conquista, do poder e b) O herói Vasco da Gama representa o herói épico da
da glória. O que se vê é uma postura que repudia a aventura lusitana e especialmente a lógica de expan-
expansão mercantil portuguesa, opondo-se à “justa são marítima e comercial do Império Lusitano, que
lei” e que só traria desgraça a Portugal. implica a dilatação da fé cristã e do comércio ociden-
b) Os quatro últimos versos da estrofe mostram o tal. Vasco da Gama representa o projeto político da
desejo condenatório de que aquele que se aventurar Dinastia de Avis, que aplica os valores racionalistas e
aos mares jamais viesse a ter recompensa da glória as conquistas da ciência no desenvolvimento do co-
ou da posteridade. Dons estes que nada valem quan- mércio. O Velho do Restelo, que é uma personagem
do isentos da moral e da virtude. Logo, verifica-se alegórica, representa os valores medievais contrários
que, para o Velho, a concepção do valor da arte está às navegações portuguesas, pois achava que aquilo
atrelada aos princípios éticos e à tradição. tudo era apenas desejo de poder. O Velho pode ser
2. entendido como manifestação do ideal da Dinastia de
a) A opção pelos versos decassílabos e a es- trutura Borgonha presa à ordem feudal, logo ainda teocêntri-
rímica petrarquiana. ca e vinculada à economia agrária.
b) O poeta Camões omite que Jacó casou-se com Lia e, 7.
depois de uma semana, com Raquel. a) Decassílabo.
3. b) A viagem de Vasco da Gama às Índias.
a) Luis Vaz de Camões
b) “Amor é fogo que arde sem se ver”
4. O poeta Luis Vaz de Camões escreveu tanto obra épica quanto
lírica. O poema épico Os Lusíadas, foi publicado em 1572 e nar-
ra a viagem de Vasco da Gama às Índias, bem como a História
de Portugal e de seus reis. Os poemas líricos – sonetos, elegias,
cantigas, redondilhas e estão contemplados em sua fase lírica e
estão compilados na obra Rimas, de 1595 (publicação póstuma).

VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

117
LC QUINHENTISMO E ESTÉTICA BARROCA

AULAS COMPETÊNCIA(s) HABILIDADE(s)

7E8
5 15, 16 e 17

E.O. Aprendizagem TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO

A partida de Belém, como Vossa Alteza sabe, foi segunda-feira,


1. “A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons 9 de março. [...] E domingo, 22 do dito mês, às dez horas, pouco
rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura al- mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, ou me-
guma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir suas lhor, da ilha de S. Nicolau [...]. E assim seguimos nosso caminho
vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande por este mar de longo, até que, terça-feira das Oitavas de Páscoa,
inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele um que foram vinte e um dias de abril, estando da dita ilha obra de
osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da gros- 660 léguas, segundo os pilotos diziam, topamos alguns sinais de
sura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador.” terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que
Carta de Pero Vaz de Caminha. Disponível em: <www. os mareantes chamam botelho [...]. E quarta-feira seguinte, pela
[Link]>. Acesso em: 4 dez. 2012. manhã, topamos aves a que chamam fura-buxos. Neste dia, a
horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente dum
O trecho acima pertence a um dos primeiros escritos considerados grande monte, mui alto e redondo [...]; ao monte alto o capitão
como pertencentes à literatura brasileira. Do ponto de vista da pôs o nome de O Monte Pascoal, e à terra, A Terra de Vera Cruz.
evolução histórica, trata-se de literatura:
Carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal
a) de informação.
b) de cordel. 3. Assinale a alternativa CORRETA acerca do texto.
c) naturalista. a) Trata-se de documento histórico que inaugura, em
d) ambientalista. Portugal, um novo gênero literário: a literatura epistolar.
e) árcade. b) Exemplifica a literatura produzida pelos jesuítas
brasileiros na colônia e que teve como objetivo prin-
2. O movimento literário que retrata as manifestações literárias pro- cipal a catequese do silvícola.
duzidas no Brasil à época de seu descobrimento e durante o século
XVI, é conhecido como Quinhentismo ou Literatura de Informação. c) Apesar de não ter natureza especificamente artística,
interessa à história da literatura brasileira na medida
Analise as proposições em relação a este período. em que espelha a linguagem e a respectiva visão de
mundo que nos legaram os primeiros colonizadores.
I. A produção literária no Brasil, no século XVI, era restrita às
literaturas de viagens e jesuíticas de caráter religioso.
d) Pertence à chamada crônica histórica, produzida no
Brasil durante a época colonial, com objetivos políti-
II. A obra literária jesuítica, relacionada às atividades catequéti- cos: criar a imagem de um país soberano, emancipado,
cas e pedagógicas, raramente assume um caráter apenas artístico. em condições de rivalizar com a metrópole. É um dos
O nome mais destacado é o do padre José de Anchieta. exemplos de registros oficiais escritos por historiadores
III. O nome Quinhentismo está ligado a um referencial cronológico brasileiros durante o século XVII, nos quais se observam,
− as manifestações literárias no Brasil tiveram início em 1500, como característica literária, traços do estilo barroco.
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época da colonização portuguesa − e não a um referencial estético.


4. Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as afirmações a se-
IV. As produções literárias neste período prendem-se à literatura guir sobre a Literatura de Informação no Brasil.
portuguesa, integrando o conjunto das chamadas literaturas de
viagens ultramarinas, e aos valores da cultura greco-latina.
( ) A carta de Pero Vaz de Caminha, enviada ao rei D. Manuel I,
circulou amplamente entre a nobreza e o povo português da época.
V. As produções literárias deste período constituem um painel da
vida dos anos iniciais do Brasil colônia, retratando os primeiros ( ) Os textos informativos apresentavam, em geral, uma estrutura
contatos entre os europeus e a realidade da nova terra. narrativa, pois esta se adaptava melhor aos objetivos dos autores
de falar sobre coisas que viam.
Assinale a alternativa correta. ( ) Os textos que informavam sobre o Novo Mundo despertavam
a) Somente as afirmativas I, IV e V são verdadeiras. grande curiosidade entre o público europeu, estando os de Amé-
b) Somente a afirmativa II é verdadeira. rico Vespúcio entre os mais divulgados no início do século XVI.
c) Somente as afirmativas I, II, III e V são verdadeiras. ( ) Pero de Magalhães Gandavo é o autor dos textos “Tratado
d) Somente as afirmativas III e IV são verdadeiras. da Terra do Brasil” e “História da Província Santa Cruz a que
e) Todas as afirmativas são verdadeiras. Vulgarmente chamamos de Brasil”.

118
A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima a) do Renascimento.
para baixo, é: b) da Ilustração.
a) V – F – V – V. c) do Realismo.
b) V – F – F – F. d) do Barroco.
c) F – V – V – V. e) do Simbolismo.
d) F – F – V – V.
e) V – V – F – F. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO

5. Todas as alternativas são corretas sobre o Padre José de An- VELHO PAPEL PODE ESTAR COM OS ANOS CONTADOS
chieta, EXCETO:
Já imaginou, daqui a algumas décadas, seu neto lhe pergun-
a) Foi o mais importante jesuíta em atividade no tando o que era papel? Pois é, alguns pesquisadores já estão
Brasil do século XVI. trabalhando para que esse dia chegue logo.
b) Foi o grande orador sacro da língua portuguesa, A suposta ameaça à fibra natural não é o desajeitado e-book,
com seus sermões barrocos. mas o papel eletrônico, uma ‘folha’ que você carregaria dobra-
c) Estudou o tupi-guarani, escrevendo uma cartilha da no bolso. Ela seria capaz de mostrar o jornal do dia – com
sobre a gramática da língua dos nativos.
vídeos, fotos e notícias 8atualizadas –, o livro que você esti-
d) Escreveu tanto uma literatura de caráter informativo vesse lendo ou qualquer informação antes impressa. Tudo ali.
como de caráter pedagógico.
Desde os anos 70, está no ar a ideia de papel eletrônico, mas
e) Suas peças apresentam sempre o duelo entre
as últimas novidades são de duas semanas atrás. Cientistas
anjos e diabos.
holandeses anunciaram que estão perto de criar uma tela com
‘quase todas’ as propriedades do papel: leveza, flexibilidade,
6. Sobre José de Anchieta é incorreto afirmar que:
clareza, etc. A novidade que deixa o invento um pouco mais
a) cultivou especialmente os autos, buscando, na ale- palpável está nos transistores. No papel do futuro, eles não
goria, tornar mais acessíveis às mentes indígenas os serão de silício, mas de plástico – que é maleável e barato.
conceitos e os dogmas do cristianismo.
Os holandeses dizem já ter um protótipo que mostra
b) no teatro, o “Auto de São Lourenço” destaca-se
imagens em movimento em uma tela de duas polegadas, ainda
como obra catequética de influência medieval.
que de qualidade ’meia-boca’.
c) na poesia lírica encontram-se suas mais belas compo-
sições, expressivas de uma fé profunda. Mas não vá celebrando o fim do desmatamento e do
d) apesar de pautada na língua e na cultura do índio, peso na mochila. A expectativa é que um papel eletrônico mais
sua produção literária não se caracteriza como literatura ou menos convincente apareça só daqui a cinco anos.
já tipicamente brasileira. Folha de S. Paulo, 17 dez. 2001. Folhateen, p. 10.
e) sua obra teatral, marcadamente alegórica e antirre-
ligiosa, moldou-se nos padrões renascentistas. 9. (IFCE) Em uma das opções, a afirmação refere-se ao Barroco.
a) O homem se mostra feliz consigo mesmo e se acha
7. (G1 - ifsp 2016) A respeito do Quinhentismo no Brasil, marque o centro do mundo.
(V) para verdadeiro ou (F) para falso e assinale a alternativa correta.
b) As mensagens dos textos revelam que o homem
( ) A principal obra do período foi A moreninha, de Joaquim está angustiado e dividido entre o bem e o mal, a
Manuel de Macedo, cuja temática era o índio brasileiro. matéria e o espírito.
( ) Consta que o primeiro texto escrito no território do Brasil c) O estilo era simples e, nos textos, prevalecia a ob-
foi a Carta de Pero Vaz de Caminha, em que registra suas impres- jetividade.
sões sobre a terra recém-descoberta. d) Os textos traziam mensagens de otimismo e base-
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

( ) Entre as publicações daquela época, encontram-se cânticos avam-se no princípio de “gozar a vida”.
religiosos, poemas dos jesuítas, textos descritivos, cartas, relatos e) Os escritores, embora vivessem na cidade, reco-
de viagem e mapas. mendavam a vida no campo.
( ) A produção das obras escritas naquele período apresenta um
caráter informativo, documentos que descreviam as característi-
10. (FGV) Foi um movimento literário do século XVII, nascido da
cas do Brasil e eram enviados para a Europa. crise de valores renascentistas. Caracteriza-se na literatura pelo
culto dos contrastes, a preocupação com o pormenor e a sobrecarga
a) V, V, V, F.
de figuras como a metáfora, as antíteses, hipérboles e alegorias. Essa
b) F, V, F, V.
linguagem conflituosa reflete a consciência dos estados contraditó-
c) F, V, V, F.
rios da condição humana. Trata-se do:
d) V, F, V, V.
e) F, V, V, V. a) Romantismo.
b) Trovadorismo.
8. (IFSP) O culto exagerado da forma, o rebuscamento, a ri- c) Humanismo.
queza de pormenores, o conflito entre o profano e o sagrado d) Realismo.
são características:
e) Barroco.

119
E.O. Fixação e) a pintura e a carta de Caminha são manifestações
de grupos étnicos diferentes, produzidas em um mes-
mo momentos histórico, retratando a colonização.
1. A chamada atividade literária das primeiras décadas de nossa
formação histórica caracterizou-se por seu cunho pragmático es- 3. (Ufsc 2015) A literatura de informação
trito, seja a circunscrita ao parâmetro jesuítico, seja a decorrente
Diversos viajantes europeus que aqui estiveram, no século XVI,
de viagens de reconhecimento e informação da terra.
registraram no papel suas observações sobre a terra. Fizeram-
São representantes dos dois tipos de atividade literária referidos -no por obrigação profissional ou por motivos pessoais. Seus
no excerto acima: textos são basicamente depoimentos e relatos de viagem, com
a) Gregório de Matos e Cláudio Manuel da Costa. a finalidade de apresentar aos compatriotas um panorama do
b) Antônio Vieira e Tomás Antônio Gonzaga. Novo Mundo. 1Sob a forma de cartas, diários, tratados ou crô-
c) José de Anchieta e Gabriel Soares de Sousa. nicas, esses textos informativos foram escritos principalmente
d) Bento Teixeira e Gonçalves de Magalhães. por portugueses.
e) Basílio da Gama e Gonçalves Dias. OLIVIERI, A. C.; VILLA, M. A. (Org.). Cronistas do século
XVI: o Brasil na visão dos descobridores. In: _____. Cronistas
2. Leia estes trechos: do descobrimento. São Paulo: Ática, 2013. p. 16.

TEXTO I Com base no texto e na leitura da obra Cronistas do descobrimen-


to, uma seleção de textos do século XVI, organizada por Antonio
Andaram na praia, quando saímos, oito ou dez deles; e daí a pouco Carlos Olivieri e Marco Antonio Villa, é CORRETO afirmar que:
começaram a vir mais. E pareceme que viriam, este dia, à praia,
quatrocentos ou quatrocentos e cinquenta. Alguns deles traziam 01) alguns dos textos reunidos são de autores que es-
arcos e flechas, que todos trocaram por carapuças ou por qualquer creveram para narrar à Corte as dificuldades encontra-
coisa que lhes davam. […] Andavam todos tão bem-dispostos, tão das em alto-mar antes de chegarem à América, como
bem feitos e galantes com suas tinturas que muito agradavam. é o caso de “Viagem ao Brasil”, de Hans Staden, e
“Viagem à terra do Brasil”, de Jean de Léry.
CASTRO, S. A carta de Pero Vaz de Caminha.
Porto Alegre: L&PM, 1996.
02) na “Carta do achamento do Brasil”, Pero Vaz de
Caminha enaltece a bravura e a perspicácia dos índios
TEXTO II encontrados aqui. Esse mesmo tratamento será reto-
mado mais tarde pelos escritores românticos que se
dedicaram a recriar uma identidade nacional retratan-
do os índios como guerreiros e heróis, a exemplo de
José de Alencar e Gonçalves Dias.
04) o padre Fernão Cardim, em “Tratados da terra e
gente do Brasil”, descreve as riquezas da flora e da
fauna brasileiras utilizando-se de verbetes. Apesar das
riquezas com as quais revela ter se deparado no Brasil,
no final da crônica faz uma crítica à quantidade de in-
setos que encontrou aqui.
08) em “Diário de navegação”, Pero Lopes de Sousa
PORTINARI, C. O descobrimento do Brasil. 1956.
opta pelo diário, gênero textual caracterizado pela
Óleo sobre tela, 199 × 169 cm. presença de data, vocativo e linguagem coloquial. O
Disponível em: <[Link]>. autor faz um relato pessoal em que conversa com o
Acesso em: 12 jun. 2013. leitor insistentemente, dirigindo-se a este com o uso do
Pertencentes ao patrimônio cultural brasileiro, a carta de Pero pronome “vós”.
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

Vaz de Caminha e a obra de Portinari retratam a chegada dos 16) nem todos os textos reunidos em Cronistas do
portugueses ao Brasil. Da leitura dos textos, constata-se que: descobrimento são crônicas. Alguns visavam levar en-
sinamentos sobre o Novo Mundo ao leitor da Corte,
a) a carta de Pero Vaz de Caminha representa uma das pri-
o que faziam por meio de personagens animais que,
meiras manifestações artísticas dos portugueses em terras
utilizando-se da linguagem coloquial, apresentavam a
brasileiras e preocupa-se apenas com a estética literária.
flora e a fauna brasileiras na forma de diálogo.
b) a tela de Portinari retrata indígenas nus com cor-
32) os textos que compõem a coletânea subscrevem-se
pos pintados, cuja grande significação é a afirmação
da arte acadêmica brasileira e a contestação de uma em pelo menos quatro gêneros textuais distintos, como
linguagem moderna. revela o texto (ref. 1). Apesar disso, foram agrupados
em um único volume intitulado Cronistas do descobri-
c) a carta, como testemunho histórico-político, mostra o
mento tendo em vista seu valor estético e/ou histórico
olhar do colonizador sobre a gente da terra, e a pintura
destaca, em primeiro plano, a inquietação dos nativos. ao descrever o cotidiano no primeiro século de explo-
ração do Brasil.
d) as duas produções, embora usem linguagens di-
ferentes – verbal e não verbal –, cumprem a mesma
função social e artística.

120
4. (Ufsm 2015) Esse fragmento apresenta-se como um texto
Os hábitos alimentares estão entre os principais traços culturais a) descritivo, uma vez que Caminha ocupa-se em dar um
de um povo. Era de se esperar, portanto, que houvesse alguma retrato objetivo da terra descoberta, abordando suas ca-
menção sobre o assunto no primeiro contato entre os portu- racterísticas físicas e potencialidades de exploração.
gueses e os nativos, conforme relatado na Carta de Pero Vaz b) narrativo, pois a “Carta” é, basicamente, uma narração
de Caminha. De fato, Caminha escreve a respeito da reação de da viagem de Pedro Álvares Cabral e sua frota até o Brasil,
dois jovens nativos que foram ate a caravela de Cabral e que relatando, numa sucessão de eventos, tudo o que ocorreu
experimentaram alimentos oferecidos pelos portugueses: desde a chegada dos portugueses até sua partida.
Deram-lhe[s] de comer: pão e peixe cozido, confeitos, bolos, c) argumentativo, pois Caminha está preocupado em
mel e figos passados. Não quiseram comer quase nada de tudo apresentar elementos que justifiquem a exploração
aquilo. E se provavam alguma coisa, logo a cuspiam com nojo. da terra descoberta, os quais se pautam pela confia-
Trouxeram-lhes vinho numa taça, mas apenas haviam provado bilidade e abrangência de suas observações.
o sabor, imediatamente demonstraram não gostar e não mais d) lírico, uma vez que a apresentação hiperbólica da
quiseram. Trouxeram-lhes água num jarro. Não beberam. Ape- terra por Caminha mostra a subjetividade de seu relato,
nas bochechavam, lavando as bocas, e logo lançavam fora. carregado de emotividade, o que confere à “Carta” seu
caráter especificamente literário.
Fonte: CASTRO, Silvio (org.) A carta de Pero Vaz de
Caminha. Porto Alegre: L&PM, 2003, p. 93.
e) narrativo-argumentativo, pois a apresentação se-
quencial dos elementos físicos da terra descoberta
A partir da leitura do fragmento, são feitas as seguintes afirmativas: serve para dar suporte à ideia defendida por Caminha
I. No fragmento, ao dar destaque as reações dos nativos frente à
de exploração do novo território.
comida e a bebida oferecidas, Caminha registra o comportamento dife- 6. (Upe 2014)
renciado deles quanto aos itens básicos da alimentação de um europeu.
“Ali ficamos um pedaço, bebendo e folgando, ao longo dela, en-
II. No fragmento, percebe-se a antipatia de Caminha pelos nativos, tre esse arvoredo, que é tanto, tamanho, tão basto e de tantas
o que se confirma na leitura do restante da carta quanto a ou- prumagens, que homens as não podem contar. Há entre ele mui-
tros aspectos dos indígenas, como sua aparência física. tas palmas, de que colhemos muitos e bons palmitos.”
III. O predomínio de verbos de ação, numa sequência de eventos in- “Parece-me gente de tal inocência que, se homem os entendesse
terligados cronologicamente, confere um teor narrativo ao texto. e eles a nós, seriam logo cristãos, porque eles, segundo parece,
não têm, nem entendem nenhuma crença. E, portanto, se os de-
Está(ão) correta(s) gredados, que aqui hão de ficar aprenderem bem a sua fala e os
a) apenas I. entenderem, não duvido que eles, segundo a santa intenção de
b) apenas II. Vossa Alteza, se hão de fazer cristãos e crer em nossa santa fé, à
c) apenas II e III. qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque, certo, esta gen-
d) apenas I e III. te é boa e de boa simplicidade. E imprimir-se-á ligeiramente neles
qualquer cunho, que lhes quiserem dar. E pois Nosso Senhor, que
e) I, II e III.
lhes deu bons corpos e bons rostos, como a bons homens, por
5. (Ufsm 2014) A Carta de Pero Vaz de Caminha é o primeiro relato aqui nos trouxe, creio que não foi sem causa.”
sobre a terra que viria a ser chamada de Brasil. Ali, percebe-se não “Eles não lavram, nem criam. Não há aqui boi, nem vaca, nem
apenas a curiosidade do europeu pelo nativo, mas também seu pasmo cabra, nem ovelha, nem galinha, nem qualquer outra alimária,
diante da exuberância da natureza da nova terra, que, hoje em dia, já que costumada seja ao viver dos homens. Nem comem senão
se encontra degradada em muitos dos locais avistados por Caminha. desse inhame, que aqui há muito, e dessa semente e frutos, que
Tendo isso em vista, leia o fragmento a seguir. a terra e as árvores de si lançam. E com isto andam tais e tão
rijos e tão nédios, que o não somos nós tanto, com quanto trigo
Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul e legumes comemos.”
vimos, até outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

ponto temos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou Partindo da leitura das três citações da Carta de Pero Vaz de

vinte e cinco léguas por costa. Tem, ao longo do mar, em algumas Caminha, analise os itens a seguir:
partes, grandes barreiras, algumas vermelhas, outras brancas; e a I. Trata-se de um documento histórico que exalta a terra desco-
terra por cima é toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De berta mediante o uso de expressões valorativas dos hábitos e cos-
ponta a ponta é tudo praia redonda, muito chã e muito formosa. tumes de seus habitantes, o que, de um lado, revela a surpresa dos
Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque a portugueses recém-chegados, de outro, tem a intenção de instigar
estender d’olhos não podíamos ver senão terra com arvoredos, o rei a dar início à colonização.
que nos parecia muito longa.
II. Ao afirmar que os habitantes da nova terra não têm nenhuma
Nela até agora não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem crença, Caminha faz uma avaliação que denota seu desconhecimento
coisa alguma de metal ou ferro; nem o vimos. Porém a terra em si é sobre a cultura daqueles que habitam a terra descoberta, pois todos
de muito bons ares, assim frios e temperados como os de Entre-Douro os grupos sociais, primitivos ou não, têm suas crenças e mitos.
e Minho, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá.
III. Caminha usa a conversão dos gentios como argumento para
As águas são muitas e infindas. E em tal maneira é graciosa que, atrair a atenção do Rei Dom Manuel sobre a terra descoberta,
querendo aproveitá-la, tudo dará nela, por causa das águas que tem. colocando, mais uma vez, a expansão da fé cristã como bandeira
CASTRO, Sílvio (org.). A Carta de Pero Vaz de dos conquistadores portugueses.
Caminha. Porto Alegre: L&PM, 2003, p. 115-6.

121
IV. Ao afirmar que os habitantes da terra descoberta não lavram TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
nem criam, alimentam-se do que a natureza lhes oferece, Caminha
tece uma crítica à inaptidão e inércia daqueles que vivem mal, TEXTO 1
utilizando, por desconhecimento, as riquezas naturais da região.
A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons
V. As citações revelam que a Carta do Achamento do Brasil tem rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura algu-
por objetivo descrever a nova terra de modo a atrair os que estão ma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixar de encobrir suas
distantes pela riqueza e beleza de que é possuidora. vergonhas do que de mostrar a cara. 1Acerca disso são de grande
inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele
Estão CORRETOS, apenas, um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da
grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador.
a) I, II e IV.
[...]
b) I, II, III e V.
Foram-se lá todos; e andaram entre eles. E segundo depois diziam,
c) I, II e III.
foram bem uma légua e meia a uma povoação, em que 2haveria
d) II e IV. nove ou dez casas, as quais diziam que eram tão compridas, cada
e) I e II. uma, como esta nau capitânia. 3E eram de madeira, e das ilhargas
de tábuas, e cobertas de palha, de razoável altura; e todas de um só
7. (Mackenzie) Assinale a alternativa INCORRETA. . espaço, sem repartição alguma, tinham de dentro muitos esteios; e
a) Em seus sermões, de estilo conceptista, o Padre An- de esteio a esteio uma rede atada com cabos em cada esteio, al-
tônio Vieira segue os moldes da parenética medieval. tas, em que dormiam. E de baixo, para se aquentarem, faziam seus
fogos. E tinha cada casa duas portas pequenas, uma numa extremi-
b) Caracteriza o Barroco a tentativa de unir os valores
dade, e outra na oposta. E diziam que em cada casa se recolhiam
medievais aos renascentistas.
trinta ou quarenta pessoas, e que assim os encontraram; e que lhes
c) O poema épico Prosopopeia foi escrito em versos deram de comer dos alimentos que tinham, a saber muito inhame,
decassílabos e oitava-rima e é considerado o marco 4
e outras sementes que na terra dá, que eles comem.
inicial do Barroco no Brasil. [...]
d) Apesar de conhecido como poeta satírico, Gregório Eles não lavram nem criam. Nem há aqui boi ou vaca, cabra,
de Matos também escreveu poesia lírica e religiosa. ovelha ou galinha, ou qualquer outro animal que esteja acostu-
e) O cultismo caracteriza-se como uma sequência de mado ao viver do homem. E não comem senão deste inhame, de
raciocínios lógicos, usando uma retórica aprimorada, que aqui há muito, e dessas sementes e frutos que a terra e as
que despreza a linguagem rebuscada. árvores de si deitam.
[...]
8. Escolha a alternativa que completa de forma correta a frase
Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra
abaixo:
coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de
A linguagem _____, o paradoxo, _____ e o registro das impressões muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Mi-
sensoriais são recursos linguísticos presentes na poesia _____. nho, porque neste tempo d'agora assim os achávamos como os de
a) simples – a antítese – parnasiana lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, que-
rendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!
b) rebuscada – a antítese – barroca
A CARTA de Pero Vaz de Caminha.
c) objetiva – a metáfora – simbolista
Disponível em: <[Link]
d) subjetiva – o verso livre – romântica br/download/texto/[Link].>

e) detalhada – o subjetivismo – simbolista Acesso em: 03 set. 2011.

TEXTO 2

E.O. Complementar
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

Nada mais bucólico que a cidadezinha de Chiloé. O tempo ali pa-


rece se arrastar. [...] 6As construções não ultrapassam três andares.
1. (UEL) O século XVI deve ser reconhecido, na história da lite- São todas de madeira e ganharam uma suave pátina produzida
ratura brasileira, como um período de: pelo tempo. Casas com sótãos, janelas com cortinas delicadas, jar-
dineiras floridas, pequenos objetos de decoração e penachos de
a) manifestações literárias voltadas basicamente para a in- fumaça saindo pelas chaminés indicam um interior aconchegante.
formação sobre a colônia e para a catequese dos nativos. Em toda parte, se sente o perfume da maresia trazida pelos ventos.
b) amadurecimento dos sentimentos nacionalistas Em Chiloé, os homens são do mar, rostos marcados pelo frio.
que logo viriam a se expressar no Romantismo. Vestem-se com agasalhos surrados e usam boinas bascas, típicas
c) exaltação da cultura indígena, tema central dos po- dos marinheiros espanhóis. [...]
emas épicos de Basílio da Gama e Santa Rita Durão. A benevolência parece ser a marca registrada desses homens do
d) esgotamento do estilo e dos temas barrocos, supera- mar. Nas comunidades persiste um dos principais legados da cultu-
dos pelos ideais estéticos do Arcadismo. ra chilote: a minga, uma forma de trabalho coletivo e solidário. [...]
e) valorização dos textos cômicos e satíricos, em que Dia de minga é um dia especial. Participei de um deles, quando
foi mestre Gregório de Matos. 5um grande número de pessoas se reuniu e, com parelhas de

122
bois, arrastaram e mudaram de lugar nada menos que a casa in- Topamos aves
teira de um morador. Falei dessa solidariedade com Efraim, velho E houvemos vista de terra
pescador do vilarejo de Queilén, no momento em que ele pintava
Oswald de Andrade, “Pero Vaz Caminha”
o barco do amigo doente. “O mar purifica a arrogância e lava a
prepotência”, ensinou esse velho lobo do mar. 3. (Mackenzie 2009) Assinale a alternativa CORRETA acerca
REALI, H.; REALI, S. Igrejas de Chiloé. Planeta, p. 72-77, set. 2007. do texto I.

Nota: O texto 1 contém trechos da carta, datada de 1º de maio a) Trata-se de documento histórico que inaugura, em
de 1500, que Pero Vaz de Caminha escreveu ao rei D. Manuel, Portugal, um novo gênero literário: a literatura epistolar.
relatando os primeiros contatos com a terra e os habitantes do b) Exemplifica a literatura produzida pelos jesuítas
que viria a ser o Brasil. O texto foi adaptado para a ortografia brasileiros na colônia e que teve como objetivo prin-
atual. O texto 2, extraído de uma reportagem de revista, trata de cipal a catequese do silvícola.
Chiloé, um arquipelago no sul do Chile. c) Apesar de não ter natureza especificamente artística,
interessa à história da literatura brasileira na medida
2. (Ufsc 2012) Com base na leitura dos textos 1, 2 e da nota de em que espelha a linguagem e a respectiva visão de
rodapé, assinale a(s) proposição(ões) CORRETA(S).
mundo que nos legaram os primeiros colonizadores.
a) Ambos os textos buscam mostrar aspectos da geogra- d) Pertence à chamada crônica histórica, produzida no
fia, da arquitetura e da população local, em uma lingua- Brasil durante a época colonial com objetivos políticos:
gem essencialmente objetiva, com adjetivação mínima. criar a imagem de um país soberano, emancipado, em
b) Tanto no texto 1 quanto no texto 2, a principal condições de rivalizar com a metrópole.
intenção é informar os leitores quanto ao potencial e) É um dos exemplos de registros oficiais escritos por histo-
econômico do lugar descrito. riadores brasileiros durante o século XVII, nos quais se ob-
c) Apesar da grande distância temporal e geográfica, servam, como característica literária, traços do estilo barroco.
há pelo menos uma importante semelhança entre as
populações descritas nos textos 1 e 2, que é o forte 4. (G1 - ifsp 2017) Leia o poema abaixo do padre jesuíta, José
senso de vida em comunidade, representada na habi- de Anchieta.

tação coletiva e na minga, respectivamente.


A Santa Inês
d) No texto 1, os indígenas são retratados de forma
José de Anchieta
depreciativa, como seres destituídos do senso de ver-
gonha e incapazes de se engajar em atividades eco-
I
nômicas que lhes permitiriam um padrão de vida mais
elevado, como a agricultura e a criação de animais. Cordeirinha linda,
e) Na fala de Efraim, transcrita ao final do texto 2, Como folga o povo
temos uma prosopopeia: o mar, humanizado, é mos- Porque vossa vinda
trado como arrogante e prepotente. lhe dá lume novo!
Cordeirinha santa,
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
de Iesu querida,
TEXTO I vossa santa vinda
o diabo espanta.
A partida de Belém, como Vossa Alteza sabe, foi segunda-feira, Por isso vos canta,
9 de março. [...] E domingo, 22 do dito mês, às dez horas, pouco com prazer, o povo,
mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, ou me- porque vossa vinda
lhor, da ilha de S. Nicolau [...]. E assim seguimos nosso caminho lhe dá lume novo.
por este mar de longo, até que, terça-feira das Oitavas de Páscoa,
que foram vinte e um dias de abril, estando da 8dita ilha obra de Nossa culpa escura
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

660 léguas, segundo os pilotos diziam, 1topamos alguns sinais fugirá depressa,
de terra, os quais eram muita quantidade de 5ervas compridas, a pois vossa cabeça
que os 4mareantes chamam 6botelho [...]. E quarta-feira seguin- vem com luz tão pura.
te, pela manhã, topamos aves a que chamam 7fura-buxos. Neste Vossa formosura
dia, a horas de véspera, 2houvemos vista de terra! honra é do povo,
Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo [...]; ao
9 porque vossa vinda
monte alto o capitão pôs o nome de 3O Monte Pascoal, e à terra, lhe dá lume novo.
A Terra de Vera Cruz. Virginal cabeça
Carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal pela fé cortada,
com vossa chegada,
TEXTO II já ninguém pereça.
A descoberta Vinde mui depressa
ajudar o povo,
Seguimos nosso caminho por este mar de longo
pois com vossa vinda
Até a oitava Páscoa
lhe dais lume novo.

123
Vós sois, cordeirinha, Com que a Deus amastes.
de Iesu formoso, Deste vos fartastes,
mas o vosso esposo Deste dais ao povo,
já vos fez rainha. Porque deixe o velho
Também padeirinha Pelo trigo novo.
sois de nosso povo, […]
pois, com vossa vinda, Glossário
lhe dais lume novo.
Alentejo: região de Portugal.
1

ANCHIETA, José de. In: MOISÉS, Massaud. A literatura


brasileira através dos textos. São Paulo: Cultrix, 1991.
Composto de versos de ________ sílabas métricas, “A Santa
Inês” celebra a chegada da imagem da santa a um povoado.
Analise as assertivas. Para homenageá-la, o eu lírico chama-lhe de “padeirinha”, pois
traria um “trigo novo” para “alimentar” o povo: o exemplo do
I. Na sexta estrofe, pode-se depreender que padre José de Anchieta
amor a Cristo. Esse uso figurativo da linguagem caracteriza
faz uma referência a Santa Inês e pode-se comparar o sacrifício
uma _______________.
dela com o de Jesus, ou seja, ela foi sacrificada para salvar o povo.
Assinale a alternativa que completa corretamente as lacunas.
II. Nos versos “Cordeirinha linda” e “Cordeirinha santa”, pode-se
depreender que o diminutivo é usado para expressar afetividade em a) seis – metonímia
relação à santa. b) cinco – metáfora
c) seis – antonomásia
III. Pode-se depreender que o poema tem o objetivo de evangelizar
d) cinco – prosopopeia
por meio da exaltação das virtudes do sacrifício e da santidade de
Santa Inês. e) seis – analogia

É correto o que se afirma em


a) I e II, apenas.
E.O. Dissertativo
b) II e III, apenas.
c) I, II e III. 1. Leia estes trechos:
d) III, apenas. TRECHO 1
e) II, apenas.
Colombo sabe perfeitamente que as ilhas já têm nome, de uma
5. (Ufsm 2015) Em 2014, o jesuíta José de Anchieta foi canoni- certa forma, nomes naturais (mas em outra acepção do termo)
zado pelo Papa Francisco I, tornando-se o terceiro santo brasi- as palavras dos outros, entretanto, não lhe interessam muito, e
leiro. Muito embora tenha nascido nas Ilhas Canárias, Anchieta ele quer rebatizar os lugares em função do lugar que ocupam
ficou conhecido como o “Apóstolo do Brasil”, legando-nos im- em sua descoberta, dar-lhes nomes justos a nomeação, além
portantes textos, os quais dão a tônica da função da literatura disso, equivale a tomar posse.
no início do período colonial brasileiro. Entre seus poemas, des- TODOROV, Tzevetan. A conquista da América.
taca-se “A Santa Inês”. No poema, nota-se o emprego figurativo São Paulo: Martins Fontes, 1993. p. 27.
e religioso do mais básico dos alimentos da época: o pão.
TRECHO 2
A Santa Inês [...] e a quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que
Na Vinda de sua Imagem chamam fura-buchos e neste dia, a horas de véspera, houvemos
vista de terra, a saber: primeiramente dum grande monte mui
Cordeirinha linda,
alto e redondo, e de outras serras mais baixas ao sul dele, e de
Como folga o povo
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

terra chã com grandes arvoredos: ao qual monte alto o Capitão


Porque vossa vinda
pôs nome o Monte Pascoal, e à terra a Terra da Vera Cruz.
Lhe dá lume novo!
[…] CAMINHA. Pero Vaz de. Carta ao Rei Dom ManueI.
Belo Horizonte: Crisálida, 2002. p. 17.
Também padeirinha
Sois de nosso povo, Explicite, comparando os dois trechos, a relação existente entre
Pois, com vossa vinda, os atos de nomear e tomar posse.
Lhe dais trigo novo.
2. A partir da leitura do texto Carta a el-Rei Dom Manuel sobre
Não é de 1Alentejo o achamento do Brasil, responda: como é a descrição dos primei-
Este vosso trigo, ros índios feita por Pero Vaz de Caminha no litoral brasileiro?
Mas Jesus amigo
E vosso desejo. 3. A respeito de Padre Anchieta, responda: além da vinda para o
[….] Brasil para auxiliar na catequização dos índios mediante a com-
O pão que amassastes posição de peças de teatro, qual a outra maior contribuição com
Dentro em vosso peito, relação à difusão da educação dos índios tupis feita pelo jesuíta?
É o amor perfeito

124
4. Quais foram as duas manifestações literárias do Quinhentismo Chantada a Cruz, com as Armas e a divisa de Vossa Alteza, que pri-
no Brasil? meiramente lhe pregaram, armaram altar ao pé dela. Ali disse missa
o padre Frei Henrique (...). Ali estiveram conosco (...) cinquenta ou
5. Quem começou a literatura de informação? Qual era o seu sessenta deles, assentados todos de joelhos, assim como nós. (...)
objetivo? [Na terra], até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata,
nem coisa alguma de metal (...) Porém, o melhor fruto que dela se
6. Como os jesuítas se aproximaram dos povos indígenas? pode tirar me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a
principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.

E.O. Objetivas Pero Vaz de Caminha.


Carta do Achamento do Brasil, 10.05.1500.
(Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp)
A respeito da tela e do texto, é correto afirmar que
1. (Unicamp) Em carta ao rei D. Manuel, Pero Vaz de Caminha
a) demonstram a submissão da monarquia portugue-
narrou os primeiros contatos entre os indígenas e os portugueses
sa à contra-reforma católica.
no Brasil: “Quando eles vieram, o capitão estava com um colar de
ouro muito grande ao pescoço. Um deles fitou o colar do Capitão, b) expressam o encantamento dos europeus com a
e começou a fazer acenos com a mão em direção à terra, e depois
exuberância natural da terra.
para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra.
c) atestam, como documentos históricos, o caráter con-
Outro viu umas contas de rosário, brancas, e acenava para a terra flituoso dos primeiros contatos entre brancos e índios.
e novamente para as contas e para o colar do Capitão, como se
d) representam o índio sem idealização, reservando-lhe
dissesse que dariam ouro por aquilo. Isto nós tomávamos nesse sen-
lugar de destaque no quadro, o que era pouco comum.
tido, por assim o desejarmos! Mas se ele queria dizer que levaria
e) apresentam uma leitura do passado na qual os
as contas e o colar, isto nós não queríamos entender, porque não
portugueses figuram como portadores da civilização.
havíamos de dar-lhe!”

Adaptado de Leonardo Arroyo, A carta de Pero Vaz de Caminha.


São Paulo: Melhoramentos; Rio de Janeiro: INL, 1971, p. 72-74.
Gabarito
Esse trecho da carta de Caminha nos permite concluir que o con-
tato entre as culturas indígena e europeia foi E.O. Aprendizagem
a) favorecido pelo interesse que ambas as partes 1. A 2. C 3. C 4. D 5. B
demonstravam em realizar transações comerciais: os
6. E 7. E 8. D 9. B 10. A
indígenas se integrariam ao sistema de colonização,
abastecendo as feitorias, voltadas ao comércio do
pau-brasil, e se miscigenando com os colonizadores. E.O. Fixação
b) guiado pelo interesse dos descobridores em explo-
1. C 2. C 3. 04 + 32 = 36. 4. D 5. A
rar a nova terra, principalmente por meio da extração
de riquezas, interesse que se colocava acima da com- 6. B 7. E 8. B
preensão da cultura dos indígenas, que seria quase
dizimada junto com essa população.
c) facilitado pela docilidade dos indígenas, que se as- E.O. Complementar
sociaram aos descobridores na exploração da nova 1. A 2. C 3. C 4. C 5. B
terra, viabilizando um sistema colonial cuja base era
a escravização dos povos nativos, o que levaria à des-
truição da sua cultura. E.O. Dissertativo
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

d) marcado pela necessidade dos colonizadores de


1. Além da acepção de “dar nome aos seres”, o verbo “nomear”
obterem matéria-prima para suas indústrias e amplia-
pode ser entendido como designar alguém para um cargo, dar
rem o mercado consumidor para sua produção indus-
direito de posse. É com este sentido que Todorov Tzevetan o uti-
trial, o que levou à busca por colônias e à integração
cultural das populações nativas. liza para analisar o comportamento do colonizador ao apoderar-
-se das terras que pertenciam a povos com culturas e linguagens
2. (Unesp) Observe a figura e leia o texto. diferentes. Ao substituir os nomes originais dos aborígines pelos
dos dominadores, impõe-se ao dominado a necessidade do ensi-
no da nova língua que passa a ser usada como instrumento para
posse do novo território.
2. A primeira menção aos índios se inicia no trecho “E dali avista-
mos homens que andavam pela praia, uns sete ou oito, segundo
disseram os navios pequenos que chegaram primeiro.” A partir de
então, Caminha procede com a descrição dos nativos e se mostra
Reprodução da tela Primeira Missa no Brasil. impressionado com a beleza e com o aspecto diferente dos índios,
Vítor Meireles, 1861. principalmente no que concerne ao vestuário, ao cabelo, à cor da

125
pele e aos adereços do corpo. Caminha também se mostra impres-
sionado com o fato de que os índios não pareciam incomodados
ao mostrar suas partes íntimas o que, segundo Caminha, era um
sinal de inocência.

3. Uma das maiores contribuições do Padre Anchieta foi a elabora-


ção da primeira gramática da língua tupi (a mais falada pelos índios
na costa brasileira) para auxiliar os catequizadores na evangelização.
4. O Quinhentismo pode ser identificado em duas etapas: A li-
teratura de informação produzida pelos navegantes para relatar
suas viagens, e a literatura jesuítica que tinha o objetivo de cate-
quizar os povos indígenas.
5. A literatura de informação começou com a Carta de Pero Vaz
Caminha para o rei de Portugal D. Manuel, relatando sobre as
características da nova terra.
6. Os jesuítas se aproximaram dos índios usando peças teatrais,
criando cantigas e traduzindo textos para a língua tupi e/ou guarani.

E.O. Objetivas
(Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp)
1. B 2. E
VOLUME 1  LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias

126

Common questions

Com tecnologia de IA

A ambiguidade de Isaías reflete-se na tensão entre as normas sociais impostas e sua identidade pessoal. Ele vive num sistema de binarismos que privilegia certas identidades como "normais" e marginaliza outras, levando à constante classificação entre "nós" e "eles", onde um lado é valorizado enquanto o outro é rejeitado . Tal dinâmica põe Isaías num conflito interno, pois ele é pressionado a se conformar com uma identidade "natural" e "única" ao mesmo tempo que internaliza o papel de "Outro", experimentando a definição de seu ser através do contraste com o que é considerado aceitável ou rejeitável . Essa experiência de exílio interno, como expresso em fontes sobre a modernidade, sugere uma condição de desorientação e alienação, caracterizando a identidade de Isaías como um campo de disputa entre o desejo pessoal e as imposições externas .

O texto 'Velho Marinheiro' pinta um retrato vívido da transição emocional de um marinheiro, começando com o orgulho e a emoção de um jovem promissor em seu primeiro dia até se tornar um profissional experiente. Ao longo de sua carreira, ele passa por momentos de aprendizado, desenvolvimento de companheirismo, civismo, e disciplina, os quais se tornam intrínsecos à sua identidade. A narrativa também expressa uma profunda saudade e nostalgia pelas experiências compartilhadas entre camaradas, mesmo em face dos desafios e provações do mar. Esse ciclo de crescimento pessoal e profissional culmina em um forte senso de identidade ligado à profissão de marinheiro .

As narrativas de Caminha e Portinari refletem perspectivas contrastantes sobre o evento histórico da chegada dos portugueses. A carta de Pero Vaz de Caminha é um documento textual que oferece um relato europeu da terra e dos nativos, com viés descritivo e informativo, capturando a aquisição visual e a impressão do colonizador. Por outro lado, a pintura de Portinari, cerca de quatro séculos depois, utiliza a linguagem visual para enfatizar a reação e a inquietação dos indígenas diante da presença estrangeira. Enquanto Caminha fornece um marco inicial de descoberta e conquista, Portinari subverte essa visão ao elevar o foco para a resistência e Humanidade dos nativos, tornando-se uma crítica ao impacto colonial .

No texto, a saudade simboliza tanto o sentimento de nostalgia pessoal quanto a idealização de um tempo passado glorioso entre os marinheiros. Este sentimento é fortalecido por memórias e pelo laço emocional e profissional criado nas viagens. O corporativismo é abordado como o próprio senso de pertencimento a uma tradição e cultura naval, com um forte foco no coletivo e companheirismo, ao invés do individualismo. Ambos simbolismos refletem um olhar sobre a vida marítima como um microcosmo de valores e experiências compartilhadas únicas, com o mar como um eterno cenário de tais jornadas .

Os vocábulos 'escravidão' e 'escravismo' compartilham o radical comum "escrav-", que se relaciona à prática de subordinar pessoas através do trabalho forçado, reforçando o mesmo campo semântico. O sufixo '-idão' em 'escravidão' indica um estado ou condição, referindo-se à prática ou ao sistema em si . Já '-ismo' em 'escravismo' aponta para uma doutrina ou sistema de crenças, destacando a ideologia ou prática social que sustenta tal condição . Assim, enquanto 'escravidão' foca no fato ou estado de ser escravo, 'escravismo' se refere mais à política ou ideologia que justifica ou mantém essa condição.

A 'mcdonaldização' da leitura refere-se à simplificação e padronização da experiência literária, o que pode impactar negativamente a experiência cultural dos consumidores de literatura. Literaturas de grande profundidade e complexidade, que permitem a inclusão de diferentes dimensões humanas, como as emoções e subjetividades, correm o risco de serem reduzidas a abordagens simplistas e técnicas, priorizando métodos de análise sobre a compreensão humana plena . A verdadeira experiência literária deveria promover uma compreensão mais extensa do ser humano, refletindo sobre paixões e comportamentos, algo que as literaturas simplificadas podem deixar de abordar . A 'mcdonaldização' compromete essa riqueza e amplitude que a literatura oferece para a compreensão profunda e reflexiva da condição humana .

Os textos de crônicas históricas na era colonial do Brasil desempenhavam uma função dual. Socialmente, atuavam como instrumentos de comunicação e registro entre a colônia e a metrópole, facilitando o relato de descobertas e impressões sobre a América para os leitores europeus. Artisticamente, ao mesmo tempo que muitas dessas crônicas permanecem puramente documentais, elas avançaram para ressoar com uma carga estética ao compor narrativas e visões de mundo que ajudaram a formar uma identidade literária emergente. Com 'A Carta de Pero Vaz de Caminha' como exemplo, esses registros, apesar de não serem artísticos por natureza, são cruciais para entender a percepção dos primeiros colonizadores e suas implicações sobre a cultura literária .

As palavras 'descendência' e 'ascendência' possuem uma relação antagônica em termos de significado, porém ambas podem ser associadas a um radical comum relacionado a 'descer' e 'ascender', respectivamente. Este radical serve como raiz para expressar conceitos de movimento ou fluxo em direção oposta, permitindo postular uma origem comum dentro da família lexical. Isso demonstra como as línguas formam pares de significado ligado através de variantes de sufixos que moldam novos termos .

Os sufixos em português têm a função de mudar a classe de palavras ao modificar seus significados básicos. No caso de 'idílica' e 'dolorosa', os sufixos '-ica' e '-osa' transformam substantivos em adjetivos. 'Idílica' baseia-se em 'ídolo', referindo-se ao ideal ou perfeito, enquanto 'dolorosa' deriva de 'dor', significando algo que causa sofrimento. Tais transformações ampliam o uso descritivo dos substantivos de base, adaptando-os em adjetivos que qualificam ou expressam características .

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