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Álbum Biográfico de José Saramago

Este documento resume um livro recente sobre a vida e obra de José Saramago. O livro organiza informações sobre Saramago em quatro seções usando palavras-chave. A resenha elogia como o livro recupera a memória de Saramago de forma não linear, mas questiona algumas escolhas dos autores.
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Álbum Biográfico de José Saramago

Este documento resume um livro recente sobre a vida e obra de José Saramago. O livro organiza informações sobre Saramago em quatro seções usando palavras-chave. A resenha elogia como o livro recupera a memória de Saramago de forma não linear, mas questiona algumas escolhas dos autores.
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Recensões 127

Alejandro García Schnetzer e Ricardo Viel (Ed.):


Saramago, os seus Nomes: Um Álbum Biográfico.
São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

Pedro Fernandes de Oliveira Neto (UFRN)

“Somos a memória que


temos, sem memória não sabe-
ríamos quem somos.” A frase
de José Saramago aparece em O
Caderno 2, livro que reuniu os
últimos textos escritos para um
blog mantido pelo escritor nos
últimos anos de sua vida; tra-
ta-se do retorno aos termos de
desfecho da entrada de 28 de
fevereiro de 1994 nos Cadernos
de Lanzarote. Originalmente, es-
creveu: “Somos a memória que
temos e a responsabilidade que
assumimos. Sem memória não
existimos, sem responsabilidade
talvez não mereçamos existir.” As
duas sentenças não são trazidas
agora para favorecer uma análise sobre o trabalho de releitura que Saramago
imprime continuamente à sua obra, algo que se evidencia melhor depois da
publicação do romance As Intermitências da Morte; elas servem como motivo
para a leitura de Saramago, os seus Nomes: Um Álbum Biográfico.
É que o livro organizado por Alejandro García e Ricardo Viel se
constitui ora como uma visita ao arquivo de José Saramago, destacando-se
como uma de suas peças, ora é um arquivo próprio feito dos elementos que
evidenciam como o escritor português é percebido pelos autores. Nas duas
possibilidades, importam uma noção memória que se justifica pela sentença
saramaguiana inicialmente retomada porque este trabalho busca recompor
uma vida não pelos acontecimentos e sim pelos fragmentos da obra e dos
elementos que modelaram o vivido. É um atlas à maneira do que fizeram
Jorge Luis Borges e María Kodama ao reunir textos e fotografias das suas
viagens pelo mundo.
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Os autores de Os seus Nomes utilizam como subtítulo não o designativo


atlas mas álbum. Os dois termos, entretanto, estão implicados: um e outro
constituem arquivos cuja função é guardar o acontecido e oferecer, depois,
outras vias de acesso para o registrado, reavivando ou reinventando outros
possíveis, afinal, toda memória só existe enquanto moto contínuo, entre o
lembrado o fabricado a partir do que se lembra. Na sequência de associações,
esse feito se confunde com o funcionamento da própria literatura, afinal,
não existe conteúdo ficcional cuja matéria não se organize do vivido, factual
ou imaginado, feito do contato do criador com suas convicções e as alheias,
derivado simultaneamente dos contextos individuais e coletivos. E de tudo
um pouco se busca registrar nesse livro.
Fazedor de conceitos que uma vez saídos da escrita tomam a forma de
dito popular, como a expressão apresentada no início deste texto, Saramago
foi ainda um inventor de epígrafes, além, claro está, de situações facilmente
universalizantes. O Homem Duplicado, por exemplo, recebeu do inventado
Livro dos Contrários, o excerto seguinte: “O caos é uma ordem por decifrar”.
A sentença pode muito bem qualificar os sentidos da memória: lembrar e
esquecer ou recontar e inventar são esforços de ordenamento e deciframento.
Esses procedimentos, por sua vez, são infinitos. Nenhuma ordem comporta
o sentido completo do que designa. Schnetzer e Viel ordenam um modo de
acesso inacabado, visto que os materiais de seu livro se refazem continuamente
sempre como possibilidade outra de leitura.
O álbum está organizado em quatro seções, mas cada uma pode ser
lida como preferir o leitor: sequencialmente e aleatoriamente, continuada ou
espaçadamente, fazendo as mais diversas combinações ou apenas, à maneira
de um atlas, por consultas. Em momento nenhum os autores descuidam-se
dos sentidos evocados do universo literário de Saramago, como justificam
no texto que serve de prefácio ao livro. Se a variedade de peças em contínuas
maneiras de disposição reitera a sentença de abertura de O Homem Duplicado,
a organização por nomes (e mesmo a noção de arquivo e de memória que
aqui apontamos) reiteram Todos os Nomes: o mundo burocrático no qual se
move o protagonista desse romance é dominado pela memória de tinta e
papel dos muitos ficheiros que carregam nomes e circunstâncias cívicas de
todos os habitantes do lugar. O título Os seus Nomes evoca o livro de 1997,
mas ele se nota ainda na maneira como o seu conteúdo foi disposto: mais
de duas centenas de palavras-chaves que formam quatro grandes pastas –
espaços/ lugares; leituras/ sentidos; escritas/ criações; e laços/ pessoas.
A objetividade do nome, apresentado sempre como síntese para o
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conteúdo descritivo, espécie de palavra-chave – embora possa ser lido como


estratégia enciclopédica, ou mesmo uma maneira de dicionário (ainda que
aqui se desobedeçam as sistematizações alfabéticas) –, também reitera outro
efeito recorrente na obra saramaguiana: vide como o escritor preferia intitular
as entradas diárias para o seu blog. Quando distribuídos sequencialmente, os
nomes perfazem outros dois gestos de sua predileção: a enumeração e as listas
que estão em toda parte na sua literatura e funcionam diversamente. Esses
recursos são uma maneira didática de exposição e contribuem na fixação dos
conteúdos, como foi recorrente nos jogos de memorização desde a Retórica
Antiga; ou estratégias de ilustração pelo exemplo; e ainda peças com as
quais é possível sintetizar, organizar, relacionar, ou estabelecer aberturas para
mundos semelhantes ou distintos do núcleo em evidência.
Entre as escolhas, a grande maioria é indubitável porque são peças
imprescindíveis para o escritor e sua obra; as que se abrigam nos três
primeiros ficheiros atendem bem ao propósito anunciado pelos seus autores
no prefácio: “todos os nomes que aqui estão foram constitutivos da sua
identidade [a de José Saramago]”. Mas, com esse sentido, algumas das
presenças na seção laços/pessoas pertencem ao rol dos nem-tanto. E de outros
nomes sentimos falta. É o bom e o mau de toda lista, nunca esgotável, sempre
parcial. Entre os questionáveis estão Mia Couto, Gonçalo M. Tavares, Pedro
Almodóvar, Oscar Niemeyer e Lygia Fagundes Telles, para citar alguns;
entre os esquecidos, e não pelo mesmo motivo que esses foram lembrados
porque exerceram mesmo importância na biografia e na obra (se quisermos
considerar o entendimento de Saramago de que “A literatura é vida”), não há
um nome da tradição dos estudos saramaguianos, seja Teresa Cerdeira, seja
Horácio Costa, seja Joaquín Parra Bañón para citar três dos nomes referidos
pelo escritor ao longo dos seus Cadernos de Lanzarote. Obviamente que
se esses acréscimos constassem no livro, implicaríamos com outros nomes
e tanto é preciso escolher como é preciso colocar um ponto final à lista,
restando ao leitor seu próprio exercício de preenchimento das lacunas que
evidenciar.
O livro de Alejandro Schnetzer e Ricardo Viel modifica o sentido
comum do álbum. Esse arquivo, como sabemos, privilegia a imagem. A
matéria verbal, quando existe, é apenas o descritivo com a informação das
suas peças: o lugar, a data, os fotografados e, por vezes, o fotógrafo. Em Os
seus Nomes imagem e palavra estabelecem relações fora do descritivo, porque
o primeiro é sempre a extensão figurativa do segundo elemento. É aqui
que melhor notamos a qualidade borgesiana recordada antes como atlas:
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cada imagem é a oportunidade de recuperar uma passagem da literatura


ou de algum texto de intervenção com o qual dialoga. Por vezes, o material
verbal consegue ampliar simbolicamente um objeto irrisório – um postal, a
página solta de uma revista, um autocolante, uma logomarca – ou a imagem
amplifica o conteúdo mental da palavra.
Esse movimento é quase acertado não fosse certa liberdade dos autores
em oferecer um rosto para algumas das figuras da ficção saramaguiana ou
mesmo reiterar o papel duvidoso do rosto do ator como o da personagem
literária, uma implicação que embora constitua razão no âmbito do teatro,
da televisão ou do cinema, chega a violar a extensão valiosa do ficcional em
compor, variada quantos forem os leitores, suas figuras. Apenas no primeiro
caso, o exercício encontra justificação também na obra saramaguiana:
Schnetzer e Viel, como o Sr. José, quem começa a engendrar sua própria
história e a da desconhecida que o acaso lhe coloca em mãos, também
ficcionam sobre sua personagem com o apanhado diverso de informações
que reúnem nesse arquivo. Assim, os retratos possíveis para as personagens
literárias trazem à vista uma pequena galeria de anônimos, das vidas que
deixaram apenas um sinal e cuja existência caducou na região fundeira da
memória. Bem sabemos quais são os Mau-Tempo, Baltazar, Raimundo Silva,
Cipriano Algor, Tertuliano Máximo Afonso, Sr. José, Blimunda, Marcenda,
Joana Carda, Maria Sara, a mulher do médico: são peças de ficção e uma
pequena parte da gente sobre a qual se perdeu sua história.
Exceto pelo material saído de algum arquivo particular (e dada a
visibilidade de José Saramago deve existir muitos do tipo), quase todas as
imagens do escritor reunidas no livro estão conhecidas; a primeira parte
da vida feita de poucos recursos e depois o lugar público que ocupou
tardiamente mas no epicentro do mass media explicam o pouco ineditismo
desses materiais. O que logo chama atenção são alguns registros fotográficos
realizados pelo próprio Saramago: uma foto do Hotel Bragança, a referência
de hospedagem de Ricardo Reis no regresso à Lisboa no romance de 1984;
registros do Alentejo, de quando esteve para a escrita de Levantado do Chão,
seu primeiro romance de reconhecimento; a paisagem gelada de Estocolmo,
onde esteve em dezembro de 1998 para receber o Prêmio Nobel de Literatura;
ou fotos mais íntimas, como a que faz de Pilar del Río em Verona, reavivando
modernamente o par Romeu olha sua Julieta. Os leitores travaram contato
com as fotografias que Saramago realizou no desenvolvimento da escrita
de Viagem a Portugal recentemente, na edição especial desse livro ou na
exposição “José Saramago, fotógrafo ocasional” realizada no Museu da
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Guarda em Abril de 2022; também algumas dessas fotografias aparecem no


álbum editado por Schnetzer e Vier. Agora, o registro com fins para a criação
literária como o que faz para os preparativos de O Ano da Morte de Ricardo
Reis evidenciados no livro em leitura, oportuniza uma compreensão a mais
no tratamento criativo do escritor e a possibilidade de alguma pesquisa no
campo dos estudos narrativos, por exemplo.
O fio verbal também reúne novidades – entre o vasto material
colhido de passagens da obra de Saramago ou de declarações públicas para
jornais ao redor do mundo. Principalmente peças pinçadas do espólio de
correspondências do escritor, algo de alguma maneira esperado, por duas
razões: um dos autores dedicou-se a explorar esse arquivo quando organizou
o belíssimo Com o Mar por Meio: Uma Amizade em Cartas, que reúne as
trocas de convívio entre José Saramago e o amigo Jorge Amado; depois,
as cartas devem ser um dos últimos extratos da escrita saramaguiana ainda
pouco devassados. O livro de Ricardo Viel e José Rodrigues Miguéis – José
Saramago: Correspondência (1959-1971), organizado por José Albino
Pereira, são até agora o máximo que os leitores puderam avançar nessa outra
seção importante para a biografia, o pensamento e algum esclarecimento do
trabalho criativo.
Destes textos, um assume especial destaque: o postal de viagem enviado
à mãe quando visita Cuba pela primeira vez em novembro de 1981. O
registro expande o sentido do riso franco que exibe na fotografia do escritor
em Havana situada uma página antes. Para um comunista, a ilha de Fidel
Castro era, como se vendeu para o mundo, o único reduto onde a revolução
fez história e deu seus frutos; o manuscrito do postal bem expressa: “cá estou
nesse país que tanto desejei conhecer”. Melhor que o texto, é seu destinatário;
além do afeto, não custa pensar que à mãe o escritor certamente terá se
dirigido alguma vez sobre os assuntos relacionados àquele país. “Havana é
uma cidade bonita e as pessoas são muito afectuosas e amigas” – inteira o
texto do cartão. A licença poética quase nos obriga a pensar que ali estava a
prova de que os comunistas não eram os bárbaros que comiam criancinhas.
Mais tarde, sabemos, e os fragmentos de texto que acompanham o verbete
“Cuba” provam, parte dessa alegria se revestirá de cautela e alguma amargura,
quando os males da ditadura não conseguiram permanecer cobertos pelo
ideário da propaganda.
Além de José Rodrigues Miguéis, estão entre as cartas distribuídas
ao longo de Um Álbum Biográfico, missivas a Jorge de Sena, Cleonice
Berardinelli, Luciana Stegagno-Picchio, Zeferino Coelho, Leyla Perrone-
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Moisés, Chico Buarque, Susan Sontag, Oscar Niemeyer, Günter Grass.


O conjunto desses materiais, nota-se, assume um papel mais significativo
que o de reafirmar a notoriedade ou a integração de José Saramago entre os
importantes intelectuais e criadores do século XX; disso sabemos e é uma
verdade inconteste. O que chama atenção para esses nomes que se ligam às
duas dorsais desse livro, a vida e a obra, é a viva coerência do seu personagem
principal com parte dos seus princípios políticos e ético-ideológicos, extensões
que, no caso saramaguiano, se encontram quase sempre indissociadas e a
organização proposta por Alejandro García Schnetzer e Ricardo Viel é um
bom demonstrativo.
Dessas relações, observemos também os vários convívios do escritor
assumidos com os objetos artísticos, quer os de seu próprio ofício, quer as
artes plásticas, a música – expressões com a quais desenvolveu estreitamentos
entre os seus campos e o da palavra –, a dança, o cinema etc. Sem se ater a
especificidade do desenho de um mapa da angústia das influências, do campo
literário conseguimos perceber os autores (e em algum dos livros) que o
marcaram indelevelmente: a primeira experiência como leitor; a sermonística
do Padre António Vieira; o romance de Almeida Garrett e Almada Negreiros,
descritos como dois representantes de dois instantes de revolução criativa
na literatura em Portugal; o contato com a poesia de José Régio, capaz de
despertá-lo para o ofício do verso, fazendo-se poeta bissexto, como sabemos
com Os Poemas Possíveis, Provavelmente Alegria e O Ano de 1993; Cervantes;
toda uma tradição de criadores franceses, Molière, Voltaire, Montesquieu,
Flaubert, Proust, Georges Duby, este tão fundamental para a sua mirada
sobre a História; a descoberta de Machado de Assis; as admirações por
Colette, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, Jorge
Luis Borges. Outra lista quase interminável e por isso mesmo incompleta.
Perguntamo-nos por Montaigne, por Fernão Lopes, por Raul Brandão…
Ainda entre os escritos de Saramago, destaca-se uma boa amostra
das muitas colaborações dispersas: um depoimento, uma conferência, um
prefácio, um texto de opinião, um fragmento original que não coube na
versão definitiva dos seus livros, um apoio a causas políticas de seu interesse
ou à questões públicas de amigos, uma intervenção, uma declaração… São
escritos que reavivam o lugar de um homem que fez do ofício um exercício
contínuo, incansável e, administrando um gesto de generosidade e de
responsabilidade quase irreconhecível entre outras figuras que dentro ou do
seu tempo fizeram um posto muito à parte. Esses materiais reafirmam a postura
do escritor engajado, uma linhagem em perigo de extinção atualmente, seja
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pelo imperativo de individualismos nessa Era de Narciso, seja pelos lugares


redutores que os engajados de agora ocupam, feito de ação ora publicitária
ora de acirramento entre/ no interior da política dos identitarismos. Nesses
textos é muito visível que a causa do escritor era toda aquela que tratasse da
dignidade e da liberdade humana.
O que até agora observamos foi a especificidade desse álbum.
Intrinsecamente, também compreendemos o termo que o adjetiva. O
trabalho de Schnetzer e Viel é, portanto, outra maneira de contar a vida de
alguém. Não é puramente uma fotobiografia porque embora seu conteúdo
seja em parte biográfico não se preocupa contar por imagens apenas o
registro dos acontecimentos pessoais do seu protagonista e o seu trabalho
como escritor. Aliás, a própria noção de protagonismo é baralhada, porque
o que se demonstra é como o sujeito é puramente produto das relações de
alteridade, isto é, Saramago, ainda que se respeite a qualidade idiossincrática
(e nesse caso incomum) do nome, é nome entre nomes. Pela mesma razão
também não é uma biografia, um livro que possamos colocar na mesma
linhagem do que fizeram João Marques Lopes e Joaquim Vieira. Estrutural
e formalmente, Os seus Nomes é o arquivo anterior à biografia. Este livro é
um biografema.
A partir do sentido proposto por Roland Barthes em Sade, Fourier,
Loiola, podemos designar que o biografema se constitui a partir de um fato
da vida do biografado que ao ser tornado em signo reconstitui uma imagem
fragmentária do sujeito; o biografema escapa, nesse sentido, do esforço
da autenticidade, da verdade inconteste, da busca pela esgotabilidade dos
acontecimentos, isto é, da totalidade do biográfico. Essa noção melhor se
vislumbra nas próprias palavras do semiólogo francês em A Câmara Clara:
certos traços biográficos constituem um biografema, este, por sua vez, é a
parte na/ da biografia – “a Fotografia tem com a História a mesma relação
que o biografema com a biografia” (Barthes 1984: 51). Como fragmento,
o biografema está sempre disponível a novas significações, como é a vida,
que poderíamos chamar de contínuo espaço onde se criam e recriam forças
e sentidos.
Voltamos outra vez a José Saramago. No prefácio de Os seus
Nomes, os autores justificam a predileção pela irregularidade do tempo
e das circunstâncias retomadas nesse arquivo (outra distinção própria
do biografema) pela noção de tempo e de história que constituiu marca
indelével na literatura do escritor português; está em pelo menos dois textos
específicos saídos no Jornal de Letras, Artes e Ideias em fevereiro de 1989 e
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março do ano seguinte: “Sobre a invenção do presente” e “História e ficção”,


respectivamente. Ao questionar as noções de tempo e de História, o ensaísta
pensa os dois elementos a partir da descontinuidade, algo que reafirma na
longa entrevista a Carlos Reis em Diálogos com José Saramago: “entendo o
tempo, como uma grande tela”, diz, e nela “tudo está ao lado de tudo, numa
espécie de caos”. “A História que se escreve e que depois vamos ler, aquela
em que vamos aprender aquilo que aconteceu, tem necessariamente que ser
parcelar, porque não pode narrar tudo, não pode explicar tudo, não pode
falar de toda a gente” (58). Em O Homem Duplicado, para citar exemplo dos
mais visíveis no interior da sua ficção, o protagonista do romance, levanta
uma possibilidade inusitada para o ensino de História; ao invés de privilegiar
a linearidade dos acontecimentos partindo do tempo mais distante para
o presente, sua ideia é inverter essa posição; Tertuliano Máximo Afonso
prediz o próprio José Saramago. E Alejandro García Schnetzer e Ricardo
Viel transformam as ideias em possível: seu livro, que é, acima de tudo, um
desafio ao leitor, um arquivo à espera de se fazer pela maneira mais coerente
para acesso a ordem de uma personagem: Saramago – o homem de coerência
inabalável feito da mesma matéria que nos constitui a todos, da memória que
temos e da responsabilidade que assumimos, descontinuidade e fragmento.

Referências bibliográficas

Barthes, Roland. 1984. A Câmara Clara. Nota sobre a Fotografia. Trad. Júlio
Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
Reis, Carlos. 1998. Diálogos com José Saramago. Lisboa: Caminho.

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