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Variáveis do Dropout Terapêutico em Adultos

(i) Este documento é uma dissertação de mestrado apresentada à Universidade Fernando Pessoa sobre variáveis associadas ao abandono precoce do processo psicoterapêutico em adultos de uma clínica de psicologia. (ii) O estudo caracterizou variáveis sociodemográficas, institucionais e clínicas de 68 clientes e comparou o perfil dos que abandonaram precocemente com os outros. (iii) Os resultados mostraram que os que abandonaram precocemente eram mais jovens, estavam em dívida, não tin

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Libânia Martins
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Variáveis do Dropout Terapêutico em Adultos

(i) Este documento é uma dissertação de mestrado apresentada à Universidade Fernando Pessoa sobre variáveis associadas ao abandono precoce do processo psicoterapêutico em adultos de uma clínica de psicologia. (ii) O estudo caracterizou variáveis sociodemográficas, institucionais e clínicas de 68 clientes e comparou o perfil dos que abandonaram precocemente com os outros. (iii) Os resultados mostraram que os que abandonaram precocemente eram mais jovens, estavam em dívida, não tin

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Libânia Sofia Mendes Martins

Dropout terapêutico em adultos de uma Clínica Pedagógica de Psicologia: Variáveis


associadas

Universidade Fernando Pessoa

Faculdade de Ciências Humanas e Sociais

Porto

2018
Libânia Sofia Mendes Martins

Dropout terapêutico em adultos de uma Clínica Pedagógica de Psicologia: Variáveis


associadas

Universidade Fernando Pessoa

Faculdade de Ciências Humanas e Sociais

Porto

2018
Libânia Sofia Mendes Martins

Dropout terapêutico em adultos de uma Clínica Pedagógica de Psicologia: Variáveis


associadas

Dissertação de Mestrado apresentada à Faculdade de


Ciências Humanas e Sociais da Universidade Fernando Pessoa,
como parte dos requisitos necessários para a obtenção do grau de
Mestre em Psicologia, com a especialização em Psicologia Clínica
e da Saúde sob a orientação da Professora Mestre Sónia Alves

_________________________________________

Libânia Sofia Mendes Martins


Resumo

As variáveis que estão associadas ao abandono precoce do processo psicoterapêutico,


tornam-se fontes importantes de informação para os processos terapêuticos e facilitam a
compreensão dos fatores envolvidos na eficácia do acompanhamento. Assim os objetivos da
presente investigação são: caraterizar as variáveis sociodemográficas, institucio nais e clínicas,
dos clientes que recorreram ao serviço de consulta psicológica de adultos de uma clínica
pedagógica de psicologia, bem como comparar o perfil dos clientes que abandonaram
precocemente o processo psicoterapêutico (Dropout) e compará-lo com o dos que se encontram
noutra situação (alta, acompanhamento e encaminhamento) no que se refere às variáve is
sociodemográficas, institucionais e clínicas consideradas.
Para executar esta investigação recorreu-se a uma amostra de conveniência de 68
indivíduos, 66.2% do sexo feminino e 33.8% do sexo masculino, com idades compreendidas
entre os 18 e os 86 anos (M=40.3; DP=15.16), atendidos na consulta psicológica de adultos de
uma clínica pedagógica de psicologia no período compreendido entre setembro de 2015 e julho
de 2017.
Em termos de perfil, os resultados evidenciam que os participantes que abandonaram
precocemente o processo psicoterapêutico apenas se distinguem dos restantes (que se
encontram noutra situação) nas seguintes variáveis: (i) idade, sendo que os que fizeram dropout
são significativamente mais jovens, em termos médios, que os restantes; (ii) tipo de pagamento,
sendo que os que fizeram dropout estão, todos eles, em situação de dívida; (iii) outros
problemas de saúde, sendo que os participantes que abandonam precocemente o processo
psicoterapêutico são mais frequentemente aqueles que não apresentam outros problemas de
saúde; (iv) tempo total de intervenção, aonde se verifica que aqueles que abandonam
precocemente o processo psicoterapêutico têm em média menos tempo de intervenção do que
os restantes; (v) número de sessões, tendo-se verificado que os que fazem dropout têm em
média menos sessões do que aqueles que se encontra noutra situação.
Apesar de exploratório, o nosso estudo procura chamar à atenção para a importância de
se estudarem as variáveis associadas ao abandono precoce do processo psicoterapêutico no sentido
da intervenção psicológica poder ser adequada à realidade clínica.

Palavras-chave: Abandono precoce do processo psicoterapêutico (dropout), variáve is


sociodemográficas, institucionais e clínica.
i
Abstract

The variables that are associated with psychotherapy dropout become important sources
of information for the therapeutic processes and facilitate the understanding of the factors
involved in the effectiveness of the follow-up. Thus, the objectives of the present research are
to characterize the sociodemographic, institutional and clinical variables of the clients who used
the psychological counseling service of adults in a pedagogical clinic of psychology, as well as
to compare the profile of clients who dropped out he psychotherapy and compare it with those
in other situations (discharge, follow-up and referral) regarding the sociodemographic,
institutional and clinical variables considered.
To carry out this investigation, a convenience sample of 68 individuals, 66.2% female
and 33.8% male, aged 18-86 years (M = 40.3; SD = 15.16) attended psychological consultatio n
of adults of a pedagogical clinic of psychology in the period between September of 2015 and
July of 2017.
In terms of the profile, the results show that the participants who dropped the
psychotherapeutic process are only distinguished from the others (who find themselves in
another situation) in the following variables: (i) age, with dropouts being significantly younger,
on average, than the rest; (ii) type of payment, and those who did dropout are all in a situatio n
of debt; (iii) Other health problems, with participants who leave the psychotherapeutic process
early are more often those who do not present other health problems; (iv) total time of
intervention, where it is verified that those who leave the psychotherapeutic process early have
on average less intervention time than the others; (v) number of sessions, it being verified that
those who dropout have on average fewer sessions than those who find themselves in another
situation.
Although exploratory, our study seeks to call attention to the importance of studying the
variables associated with the early abandonment of the psychotherapeutic process in the sense
that psychological intervention may be adjusted to the clinical reality.

Key-words: Psychoterapy dropout; sociodemographic, institutional and clinical variables.

ii
Agradecimentos

Ao longo de todo este percurso vivi vários momentos, onde experienciei sentime ntos
ambivalentes… sentimentos de alegria e motivação e sentimentos de tristeza, desanimo e
cansaço. Todos estes momentos e sentimentos foram partilhados com muitas pessoas que
testemunharam e contribuíram de forma inigualável para a minha formação, mas especialme nte
para o meu enriquecimento pessoal e para a minha vida. Seguramente sem o apoio de todos
vocês nada teria sido alcançado do mesmo modo.
As minhas primeiras palavras de agradecimento vão para a orientadora desta
dissertação, a Mestre Sónia Pimentel Alves, pela sua dedicação, disponibilidade,
profissionalismo e sabedoria, mas sobretudo pelo seu carinho, pelas suas palavras sempre de
conforto e encorajadoras que nunca me deixaram desistir quando as dificuldades apareceram e
o cansaço já se fazia notar, por sempre ter acreditado nas minhas qualidades pessoais e
profissionais, fazendo-me acreditar que eu conseguiria alcançar e por todos os ensinamentos e
valores transmitidos que sem dúvida alguma me enriqueceram a nível académico mas sobretudo
a nível pessoal.
Á Professora Doutora Carla Fonte, pelo conhecimento transmitido, pelo empenho,
compreensão, disponibilidade e incentivos ao longo deste trabalho.
Quero também deixar um agradecimento especial ao meu supervisor de estágio Doutor
João leal, por toda a sua presença, por todas as suas oportunas e pertinentes opiniões, pelas suas
palavras de apoio e motivação, pela paciência, por sempre ter acreditado no meu trabalho e por
nunca me ter deixado baixar os braços face às dificuldades que foram surgindo, pela partilha de
conhecimentos e experiências ao longo deste percurso, e pelo ser humano extraordinário que
demostrou ser.
Á Doutora Ana botelho, por toda a sua disponibilidade e todas as suas palavras de apoio
e motivação.
Á Dª Fernanda Bastos por toda a sua disponibilidade por todas as suas palavras de
conforto e por todo o seu carinho.
Agradeço também aos meus pais pelo apoio, pela confiança, pelo esforço, pela forma
como souberam compreender as minhas prolongadas ausências e os meus horários pouco
ortodoxos e por todos os valores que me transmitiram que contribuíram de um modo
determinante para o meu percurso académico e pessoal.

iii
Às minhas amigas Sofia e Eliana, pela amizade, pelo apoio demonstrado, pela partilha
de alegrias e tristezas, anseios, medos e frustrações e pelas ausências que o trabalho académico
assim exigiu. Obrigada pela força!
Á minha amiga Paula Pinho, por todo o apoio e compreensão, por todas as suas palavras
de alento e por sempre ter acreditado em mim.
Á Universidade Fernando Pessoa que me acolheu durante o meu curso de Psicologia, a
todo o corpo docente, pelo rigor e empenho em fazer do ensino superior um ensino com
qualidade, provendo os seus alunos de competências pessoais e profissionais que certamente
vão fazer a diferença enquanto futuros profissionais. Assim, enquanto aluna desta universidade
manifesto o meu profundo orgulho, por ter feito parte desta família!
Agradeço também a Deus por me ter dado capacidade, força e discernimento para
desenvolver este trabalho e ter concluído a minha formação académica.

A todos os que apoiaram o desenvolvimento deste trabalho e do fundo do coração


Muito Obrigada!

iv
Índice

Resumo ........................................................................................................................................ i
Abstract ........................................................................................................................................ i
Agradecimentos ..........................................................................................................................iii
Índice .......................................................................................................................................... v
Índice de tabelas ........................................................................................................................vii
Índice de figuras ........................................................................................................................ ix
Introdução ................................................................................................................................... 1
Parte I - Enquadrame nto teórico ............................................................................................ 3
Capitulo I – A Psicote rapia e o Processo psicoterapêutico ................................................... 3
1.1. Psicoterapia e processo psicoterapêutico ......................................................................... 3
[Link] e Processo psicoterapêutico - Enquadramento .......................................... 4
1.2. Eficácia e mecanismos de transformação psicoterapêutica ............................................. 7
1.3. Variáveis associadas ...................................................................................................... 11
1.3.1. O cliente em psicoterapia ....................................................................................... 11
1.3.2. O terapeuta em psicoterapia ................................................................................... 17
1.3.3. A relação terapêutica .............................................................................................. 19
Capítulo II - O Abandono Precoce do Processo Psicoterapêutico ..................................... 22
2.1. O Abandono Precoce do Processo Psicoterapêutico – Enquadramento ............................ 22
2.2. Variáveis associadas ao Dropout ....................................................................................... 24
2.2.1. Variáveis sociodemográficas ...................................................................................... 26
[Link]áveis pessoais e clínicas ........................................................................................ 26
2.2.3. Variáveis institucionais ............................................................................................... 27
2.2.4. Variáveis do tratamento e relação terapêutica ............................................................ 28
2.3. Resultados de estudos de compreensão ............................................................................. 29
Parte II - Estudo Empírico ................................................................................................. 32
Capitulo III – Objetivos e método da investigação .............................................................. 32
3.1 – Objetivos .......................................................................................................................... 32
3.2 – Método ............................................................................................................................. 32
3.2.1 – Participantes .............................................................................................................. 32
3.2.2– Material ...................................................................................................................... 33
3.2.3 – Procedimento ............................................................................................................ 33
Capítulo IV – Análise dos dados e interpretação dos resultados ....................................... 34

v
4.1 – Caraterização sociodemográfica, institucional e clínica dos clientes que recorreram ao
serviço de consulta psicológica de adultos de uma clínica pedagógica de psicologia ............. 34
4.1.1. Variáveis sociodemográficas ...................................................................................... 34
4.1.2- Variáveis institucionais............................................................................................... 35
4.1.3 – Variáveis clínicas ...................................................................................................... 35
4.2. Comparação entre os clientes que abandonaram precocemente o processo
psicoterapêutico (Dropout) e os que se encontram noutra situação (alta, acompanhamento e
encaminhamento) no que se refere às variáveis sociodemográficas, institucionais e clínicas . 38
4.2.1 Variáveis sociodemográficas ................................................................................. 38
4.2.2. Variáveis institucionais ......................................................................................... 43
4.2.3. Variáveis clínicas ........................................................................................................ 48
4.3. Discussão dos resultados ................................................................................................... 57
Conclusão ................................................................................................................................. 63
Referências bibliográficas ........................................................................................................ 66

vi
Índice de tabelas

Tabela 1 - Caraterização sociodemográfica dos participantes …………………..............


34
Tabela 2 - Caraterização institucional dos participantes ………………………………
35
Tabela 3 -Caraterização clínica dos participantes ………………………………………
36
Tabela 4 -Análise descritiva das variáveis clínicas – Tempo de intervenção, número de
sessões e sintomatologia psicopatológica ……………………………………………… 37

Tabela 5 - Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o


processo psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função do sexo.. 38

Tabela 6 - Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o


processo psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função da idade 39

Tabela 7 - Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o


processo psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função do estado
civil ……………………………………………………………………………………. 40

Tabela 8 - Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o


processo psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função da zona
de residência …………………………………………………………………………… 41

Tabela 9 - Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o


processo psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função da
escolaridade ……………………………………………………………………………. 42

Tabela 10 - Perfil dos participantes que fizeram dropout em função das variáveis
sociodemográficas ……………………………………………………………………... 43

Tabela 11 - Análise descritiva e inferencial dos participantes que abandonam


precocemente o processo psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em
função do tempo de espera ……………………………………………………………... 43

Tabela 12 - Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o


processo psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função da
variável tipo de pagamento ……………………………………………………………. 44

Tabela 13 - Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o


processo psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função da
variável tipo de pagamento (com pagamento/com divida) ……………………………... 45

Tabela 14 - Medidas de associação entre as variáveis estado do acompanhamento e tipo


de pagamento (com pagamento/com divida) …………………………………………... 46

vii
Tabela 15 - Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o
processo psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função da
variável experiência do terapeuta ………………………………………………………. 46

Tabela 16 - Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o


processo psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função da
variável mudança de técnico …………………………………………………………… 47

Tabela 17 - Perfil dos participantes que fizeram dropout em função das variáveis
institucionais …………………………………………………………………………... 48

Tabela 18 - Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o


processo psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função da
variável diagnóstico ……………………………………………………………………. 49

Tabela 19 - Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o


processo psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função da
variável acompanhamento psicológico prévio …………………………………………. 50

Tabela 20 - Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o


processo psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função da
variável acompanhamento psiquiátrico prévio ………………………………………… 51

Tabela 21 - Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o


processo psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função da
variável psicofármacoterapia …………………………………………………………... 52

Tabela 22 - Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o


processo psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função da
variável problemas de saúde …………………………………………………………… 53

Tabela 23 - Medidas de associação da variável estado do acompanhamento e a variáve l


problemas de saúde …………………………………………………………………….. 53

Tabela 24 - Análise descritiva e inferencial dos participantes que abandonam


precocemente o processo psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em
função da sintomatologia psicopatológica ……………………………………………... 54

Tabela 25 - Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o


processo psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função da
variável tempo de intervenção …………………………………………………………. 55

Tabela 26 - Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o


processo psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função da
variável número de sessões …………………………………………………………….. 56

Tabela 27 - Perfil dos participantes que fizeram dropout em função das variáveis
clínicas …………………………………………………………………………………. 57

viii
Índice de figuras

Figura 1 - Análise descritiva da variável diagnóstico ……………………………………… 36

ix
Introdução

A importância do estudo da eficácia e do processo da intervenção psicológica é


reconhecida em diversos trabalhos e pesquisas (Lambert, 2013; Leichsenring, Hiller, Weissberg
& Leibing, 2006). Neste contexto, um aspeto recorrentemente identificado e que requer mais
estudo é a questão do abandono precoce do processo psicoterapêutico (Bueno et al., 2001; Melo
& Guimarães, 2005), sendo este compreendido como a interrupção do tratamento sem que haja
indicação para tal por parte do terapeuta (Nunes, 2004).
Ainda que os estudos apontem para as consequências negativas do abandono precoce
do processo psicoterapêutico, não há uniformidade nas situações que estão associadas a este
abandono, podendo estas estar relacionadas com fatores sociodemográficos, características
pessoais do indivíduo, características institucionais ou até características clínicas (Melo &
Guimarães, 2005).
Neste contexto, pareceu-nos pertinente compreender melhor o abandono precoce do
processo psicoterapêutico e de que forma este se pode relacionar com variáve is
sociodemográficas, institucionais e clínicas em indivíduos adultos inscritos na consulta
psicológica de uma clínica pedagógica de psicologia no período compreendido entre setembro
de 2015 e julho de 2017.
Neste sentido, os objetivos do presente estudo são: caracterizar a amostra quanto às
variáveis sociodemográficas, institucionais e clínicas e explorar a relação entre os indivíd uos
que abandonaram precocemente o processo psicoterapêutico e os que se encontram noutra
situação (alta, acompanhamento e encaminhamento) no que se refere às variáveis consideradas.
A revisão da literatura foi realizada através de diversas fontes científicas, com o objetivo
de conseguir uma visão o mais completa possível dos conceitos abordados, e a recolha de dados
foi realizada através da análise documental dos processos clínicos dos clientes inscritos na
consulta psicológica de adultos de uma clínica pedagógica de psicologia onde foi realizado o
presente estudo.
Assim, a presente investigação encontra-se estruturada em duas partes: a Parte I –
Enquadramento Teórico; e a Parte II Estudo Empírico.
No enquadramento teórico, o primeiro capítulo aborda a psicoterapia e o processo
psicoterapêutico, bem como a eficácia e os mecanismos de transformação terapêutica, assim
como variáveis associadas ao processo. O segundo capítulo debruça-se sobre a caracterização
do abandono precoce do processo psicoterapêutico e as variáveis que a ele estão associadas e,
por fim, são explorados os resultados de alguns estudos de investigação.
1
Na componente prática, relativa à contribuição empírica, são apresentados os objetivos
da investigação, o método, os resultados obtidos e a discussão dos mesmos.

2
Parte I - Enquadramento teórico

Capitulo I – A Psicoterapia e o Processo psicoterapêutico

1.1. Psicoterapia e processo psicoterapêutico

A psicoterapia tem como principal objetivo atenuar o sofrimento mental do paciente,


auxiliando-o de forma adequada e saudável de acordo com as suas necessidades, possibilita ndo
o seu autoconhecimento, aprendizagens e desenvolvimento. Existem diversas correntes, tendo
como ponto comum a forma como privilegiam a relação terapeuta-paciente, o contrato
terapêutico e o uso de determinada técnica específica que é sustentada por uma determinada
teoria (Cordioli, 2008).
Assim o processo psicoterapêutico é composto por diferentes variáveis. O espaço
psicoterapêutico, que consiste no espaço físico no qual decorrem as sessões. O tempo do
processo, ou seja, a perspetiva em termos de tempo que faz deste um processo ao longo do
tempo com diferentes fases de mudança. Este processo é orientado com base em objetivos
terapêuticos estabelecidos e acordados entre o psicoterapeuta e o paciente, tendo como objetivo
não só reduzir o mal-estar psicológico, mas também promover o bem-estar psicológico e até
físico da pessoa (Vasco, 2006).
Todo este processo presume o estabelecimento de uma relação terapêutica, alicerçada
num ambiente que possibilite confiança e segurança, desafiando o paciente a tomar consciênc ia
de fatores de manutenção do seu mal-estar psicológico. Esta tomada de consciência proporciona
ao paciente, não só o poder de implementar ações reparadoras, que lhe permitam, através de
diferentes perspetivas e comportamentos, mudar o modo como funciona a cada momento, mas
também responsabilizar-se por estas mesmas ações, promovendo deste modo a sua autonomia.
Este representa um dos objetivos primordiais e transversais do processo
psicoterapêutico, na medida em que não visa apenas a resolução de queixas, situações ou
problemas, mas também, habilitar o indivíduo para a resolução efetiva de dificuldades ou
desafios que se revelem no futuro, sejam eles a nível cognitivo, emocional ou interpessoal
(Vasco, 2006).
Kanfer & Phillips (1975) definem os objetivos ou os resultados do tratamento desta
forma: um bom programa de tratamento é construído com uma conceção clara dos objetivos do
tratamento, desenvolvido em conjunto pelo terapeuta e pelo cliente. É possível diferenciar entre
cinco objetivos de tratamento de longo prazo: (a) mudança de comportamento de um problema
específico; (b) insight ou uma clara compreensão racional e emocional dos seus problemas; (c)
mudança no conforto emocional subjetivo, incluindo mudanças na ansiedade ou tensão; (d)
3
mudança na auto perceção, incluindo metas, autoconfiança e sensação de adequação; e (e)
mudar o estilo de vida, ou fazer uma "reestruturação da personalidade", um objetivo visa ndo
uma mudança radical no modo de vida do cliente.
Strupp (1978) argumenta ainda que a definição de resultado positivo e os seus
correspondentes efeitos negativos opostos, dependem dos pontos de vantagem. Eles sugerem
que existem três partes interessadas que têm diferentes perspetivas sobre o resultado: a
sociedade, o paciente e o profissional de saúde mental. Eles argumentam que a sociedade tende
a definir a saúde mental em termos de "estabilidade comportamental, previsibilidade e
conformidade com o código social", enquanto o paciente define a saúde mental em termos de
"sentimentos de bem-estar altamente subjetivos", como sentir-se feliz ou ter uma sensação de
contentamento, por sua vez, o profissional de saúde mental define a saúde mental como um
“modelo teórico de uma estrutura de personalidade "saudável"”, que pode transcender as
perspetivas de adaptação social e bem-estar subjetivo da sociedade e do indivíduo.

[Link] e Processo psicoterapêutico - Enquadramento

A psicoterapia consiste no processo de cuidar, tratar ou curar o psiquismo humano,


podendo-se encontrar registos desde a antiguidade. A sua existência como prática reconhecida
e aceite, remete para o seu aparecimento em Inglaterra ainda no final do séc. XIX (Nicaretta,
2009).
Todavia, e apesar destas incidências, é de facto Sigmund Freud o fundador da
psicoterapia moderna. Foi ele que organizou um conjunto teórico de ideias para esclarecer as
doenças da psique e que criou uma teoria única de desenvolvimento. Foi também ele, o primeiro
a receber pacientes a uma hora marcada, a cobrar honorários e a aplicar com eles as suas ideias
de possível cura através do processo terapêutico. Criou desse modo, não só uma forma de
tratamento baseado na palavra, como possibilitou a quem a dominasse, legitimado por uma
formação académica superior, pô-la em prática fora dos hospitais ou clínicas, transferindo- a
assim para a prática privada (Nicaretta, 2009).
O sucesso de uma psicoterapia advém de um conjunto de variáveis que parecem estar
de acordo com todas as teorias, particularmente o valor da personalidade do paciente e do
terapeuta, possibilitando uma relação terapêutica positiva, a capacidade de adaptação do
paciente para lidar com os conflitos passados, o reconhecimento do caráter psicológico das suas
complexidades e a sua motivação para a mudança (Messer & Warren, 1995, cit in Yoshida,
1998).
4
Todos estes fatores parecem estar a cargo do paciente no caminho para o sucesso
psicoterapêutico, por consequente, todas as atitudes do terapeuta possibilitam uma relação
terapêutica positiva, tendo um contributo fundamental na compreensão do paciente e da sua
experiência, consentindo uma valorização da sua auto-confiança para ultrapassar as suas
incongruências (Santos, 2005).
O processo terapêutico circunda não só os fatores citados como também outras variáve is
que são responsáveis pela mudança. Os mais pertinentes são os fatores de natureza cognitiva e
capacidade de insight; a relação terapêutica e o seu tipo de vínculo; a capacidade do terapeuta
para transmitir apoio visando o reforço do ego do paciente; a experiência afetiva e alívio das
forças de tensão; a capacidade do paciente em aprender através da relação estabelecida com o
terapeuta, a viver adequadamente; consciencialização dos seus problemas e abertura para a
resolução dos mesmos e por último fatores sociais que possibilitem a interação social como
agente auxiliar de mudança psíquica (Cordiolo e Giglio, 2008).
Grawe (2005) descreve cinco mecanismos básicos de mudança que são comuns a todas
as escolas psicoterapêuticas.
O primeiro mecanismo de mudança consiste no relacionamento terapêutico, a qualidade
do resultado da terapia é, em grande parte, influenciada pela qualidade do relacionamento entre
o terapeuta e o paciente.
O segundo mecanismo, consiste na ativação de recursos, a psicoterapia auxilia o
paciente a mobilizar a força interna que possui para realizar a mudança necessária e estabilizá -
la.
O terceiro mecanismo, consiste na atualização do problema, a psicoterapia expõe o
paciente ao seu padrão normal de comportamento, de modo a tornar esses padrões conscient es
e, assim, modificáveis, como exemplos temos o trabalho com recurso a roll-play, o psicodrama,
o treino de competências sociais, o trabalho de transferência e contratransferência, entre muitos
outros.
O quarto mecanismo de mudança, consiste no esclarecimento motivacional ou
clarificação e transformação de interpretações, a psicoterapia permite clarificar ambiguidades
e obscuridades existentes na experiência pessoal do paciente, ajudando-o a encontrar um
sentido para o que experiencia, temos como exemplos os métodos de clarificação típicos da
terapia centrada no cliente e os métodos de reestruturação cognitiva da terapia cognitiva.
Por fim, o quinto mecanismo, diz respeito à competência para superar problemas, a
psicoterapia capacita o paciente a adquirir a capacidade de adaptação à realidade psíquica e

5
social, capacidade esta que costuma estar ausente nos transtornos psíquicos, temos como
exemplo, os métodos exposição, comuns à terapia comportamental.
A psicoterapia como processo constitui-se através de uma escala, dividida em sete
estados, sendo estes distintos e contínuos (Rogers,1961)
A divisão da psicoterapia em estágios possibilita, por um lado, o psicoterapeuta
acompanhar o indivíduo ao longo da sua trajetória pessoal para a recuperação, por outro lado,
permite avaliar o progresso e a evolução do indivíduo ao longo do processo terapêutico.
A primeira fase da psicoterapia, suporta que esse estágio é caracterizado por uma rigide z
na estrutura da personalidade do indivíduo, havendo em menor ou maior grau, uma tendência
para o individuo fixar as suas atitudes e perceções. Pode-se verificar certa inconsciência acerca
das suas reclamações pessoais e por isso uma dificuldade em aceder aos próprios sentimentos.
Nesse estágio o indivíduo geralmente não esta disponível à psicoterapia (Rogers,1961).
Na segunda fase, os bloqueios do individuo limitam o seu desejo de mudar a image m
de si e impedem que estes sentimentos sejam reconhecidos, impossibilitam- no de vivenciar e
abstrair a experiência do seu aspeto afetivo. Além disso, o cliente tende a ser influenciado por
sentimentos experienciados no passado que se confundem com os das experiências do seu
presente. Esta fase, caracteriza-se ainda pelo início de uma expressão mais fluente do cliente
relacionada a tópicos não pessoais. O indivíduo continua a expressar sentimentos e experiênc ias
vividas no passado que interferem nas suas perceções atuais acerca de si próprio (Rogers, 1961).
A terceira fase, caracteriza-se como a fase da evolução terapêutica, aqui o cliente tende
a expressar e a dar sentido aos sentimentos experienciados no passado, na sua maior parte, são
avaliados como humilhantes, vergonhosos, ridículos e outros que revelam qualidades de
inferioridade acerca da imagem de si. Começa a existir um pouco mais de aceitação em relação
aos próprios sentimentos, embora alguns sejam reconhecidos como ambivalentes. As suas
construções mentais continuam rígidas, mas começa-se a observar o início de uma flexibilidade,
contudo são ainda percebidos como algo externo ao indivíduo (Rogers, 1961).
Na quarta fase, o individuo, começa a aceitar os seus sentime ntos e expressa-os, cujos
significados pertencem a perceções antigas (Rogers, 1961).
Na quinta fase, confirma-se a evolução do indivíduo, aqui é capaz de compreender as
suas defesas que até então eram entendidas como bloqueios. Embora já exista uma certa
compreensão sobre as experiências envolvidas por sentimentos, o indivíduo tem ainda alguma
dificuldade em defini- los e explicá-los quando estes se apresentam. Nessa fase, os sentimentos
passam a ser expressados nas experiências imediatas que o indivíduo faz no aqui e agora. Desse

6
modo, a imagem de si passa a ter um sentido crítico, sendo diferenciada com um pouco mais
de precisão (Rogers, 1961).
A sexta fase é o resultado das fases anteriores, com a eliminação dos bloqueios dos
sentimentos, passa-se às experiências subjetivas que antes eram impedidas pelos mecanis mos
de defesa do individuo. Como o indivíduo é agora capaz de se aceitar a si próprio, as suas
experiências processam-se de modo consciente e integral. A imagem de si já não se apresenta
desfragmentada, dá lugar a uma imagem de si real. As incongruências estabelecidas entre as
experiências e a consciência são desfeitas quando percebidas por meio do diálogo interior e,
por isso, refere-se esta fase como crucial e dramática (Rogers, 1961).
Por fim, na sétima fase, o cliente atingiu um funcionamento pleno. Com isto, já existe
uma flexibilidade na forma como o indivíduo se estrutura e no modo com experiencia situações,
possui condições para prosseguir com sua atualização da imagem de si com confiança, sem a
ajuda de um psicoterapeuta, pois está aberto às inovações relativas a todos os aspetos da sua
vida, tendo consciência de si mesmo, com uma visão clara dos seus objetivos e que atitudes
tomar para alcançá-los, o seu foco de perceção situa-se no presente e está aberto a novas
experiências (Rogers, 1961).

1.2. Eficácia e mecanismos de transformação psicoterapêutica

A pesquisa sobre os resultados da psicoterapia resultou em algumas conclusões


importantes que têm implicações na teoria, pesquisa, política social e prática clínica (Lambert,
2013).
(a) Muitas psicoterapias formais, orientadas por teoria, que foram submetidas a estudos
empíricos nos últimos 50 anos, têm efeitos demonstráveis numa variedade de clientes. De 40%
a 60% dos clientes mostram um benefício substancial em protocolos de pesquisa
cuidadosamente controlados, embora muito menos atinjam esse grau de benefício na prática
rotineira;
(b) Pacientes que têm tratamento formal têm melhores resultados do que indivíduos que
estão numa lista de espera ou que não recebem tratamento;
(c) Os pacientes que têm tratamentos de controlo destinados a simular aspetos de
tratamento mostram uma melhoria considerável, de acordo com os procedimentos utilizados;
(d) Os efeitos do tratamento não são apenas estatisticame nte significativos, mas também
clinicamente significativos. A psicoterapia facilita a redução dos sintomas e melhora o
funcionamento quotidiano. Os tratamentos psicológicos não só aceleram o processo de cura
7
natural, mas também fornecem estratégias e métodos de enfrentamento adicionais para lidar
com problemas futuros, provavelmente resultarão em ganhos apreciáveis para o cliente,
incluindo o retorno ao funcionamento normal;
(e) Existem melhores estimativas gerais da quantidade de terapia necessária para
provocar mudanças clinicamente significativas. Para os pacientes que iniciam a terapia 50%
podem esperar uma mudança clinicamente significativa (recuperação) após cerca de 20 sessões
de psicoterapia. Mais de 50 sessões são necessárias para que 75% dos pacientes atendam a este
critério. Usando o menor padrão de melhoria confiável, parece que 50% dos pacientes
respondem pela 8ª sessão e 75% preveem pelo menos 14 sessões para experimentar esse grau
de alívio;
(f) Os efeitos da terapia tendem a ser duradouros. Embora alguns problemas, como por
exemplo adições e consumos tendam a repetir-se, os ganhos de muitos pacientes tendem a
perdurar tornam-se duradouros na terapia (Lambert, 2013).
Qualquer tentativa para fundamentar a eficácia de uma intervenção psicológica depende
muito dos instrumentos de medição utilizados para avaliar a mudança. O propósito da
psicoterapia e de outros métodos de tratamento similares é facilitar a mudança no cliente. Os
clientes que procuram tratamento, esperam mudanças pessoais, outros significativos na vida do
cliente, esperam que o tratamento os ajude a alcançar as mudanças que estes desejam, ou que
eles desejam para o cliente para manter ou melhorar a qualidade do relacionamento (Lambert,
2013).
Algumas pesquisas qualitativas tentam apresentar uma imagem mais ampla e complexa
da mudança sem quantificação, mas mesmo dentro de metodologias qualitativas não é incomum
para os pesquisadores quantificar os atributos humanos e usar a análise estatística dessas
representações numéricas, tudo dentro do paradigma atual (Lambert, 2013).
Deste modo parece-nos pertinente colocar a seguinte questão: Qual é o resultado
desejado na psicoterapia? Num primeiro pensamento, a resposta pode parecer óbvia, mas com
uma maior contemplação, a definição do resultado torna-se mais complexa do que se poderia
esperar. Alguns exemplos podem ajudar a ilustrar a ampla gama de perspetivas sobre o
resultado (Lambert, 2013).
As primeiras aplicações de meta-análise para resultados de psicoterapia abordaram a
questão geral da dimensão dos benefícios associados à psicoterapia, comparando resultados de
diferentes tratamentos e examinando o impacto das características metodológicas dos estudos
sobre a eficácia dos tratamentos.

8
Lipsey e Wilson (1993) referiram que demonstrações presentes nas meta-anális es
apontam que os tratamentos psicológicos, educacionais e comportamentais que são estudados,
geralmente refletem efeitos positivos.
Na verdade, a psicoterapia é mais eficaz do que muitas práticas médicas "baseadas em
evidências", algumas das quais são onerosas e produzem efeitos colaterais significativos
(Wampold et al. 2007).
Dobson, numa análise em 1989, relatou que 98% dos pacientes tratados com a terapia
cognitiva de Beck apresentaram melhor resultado do que pacientes que não receberam nenhum
tratamento. Robinson, Berman e Neimeyer (1990) referem que as terapias comportamentais e
as cognitivo-comportamentais têm feitos positivos no resultado.
Essas meta-análises também mostraram que os tratamentos psicológicos têm eficácia
em populações específicas, incluindo adultos e séniores (Cuijpers, van Straten & Smit, 2006),
mulheres com depressão pós-parto (Lumley, Austin & Mitchell, 2004) pacientes com quadros
depressivos e condições médicas gerais como, por exemplo, esclerose múltipla, acidente
vascular cerebral e cancro (Sheard & Maguire, 1999).
As terapias psicológicas, em geral, foram consideradas altamente eficazes para
problemas com base na ansiedade. A família das terapias cognitivas e comportamentais têm
sido estudadas com maior frequência e foram altamente eficazes na redução da ansiedade e
sintomas relacionados (por exemplo, Perturbação obsessivo - compulsiva, Perturbação de stress
pós traumático (Hunot, Churchill, Silva de Lima & Teixeira, 2007).
O tamanho do efeito do tratamento situa-se em torno de 0,60 (0,40 a 80), o que significa
que cerca de 65% dos pacientes tratados terão um resultado positivo em comparação com 35%
dos pacientes que estão numa lista de espera.
Embora a psicoterapia seja estatística e clinicamente benéfica quando comparada com
várias condições de controlo sem tratamento e, portanto, supera a melhoria esperada a "remissão
espontânea", pode-se concluir que os benefícios da terapia não são só causados pelos
tratamentos específicos, mas sim por um efeito placebo generalizado. Na verdade, esses fatores
são fundamentais para as intervenções psicológicas na teoria e na prática. Eles desempenha m
um papel ativo na melhoria do paciente, e podem ser especificados e ensinados.
Lipsey e Wilson (1993) abordaram a questão do placebo como parte da sua extensa
revisão de meta-análises. Um subconjunto (n=30) das meta-análises analisadas incluiu
comparações de tratamento com grupos de controlo sem tratamento e grupos de controlo com

9
placebo. Eles concluíram que os efeitos do placebo contribuem para uma melhoria global,
embora a sua extensão não seja suficiente para explicar os seus efeitos na globalidade.
Embora as estimativas dos efeitos da psicoterapia em comparação com controlos de
placebo sejam variáveis, também é claro que a psicoterapia supera os efeitos do placebo às
vezes por grandes margens. Os efeitos de psicoterapia vão além da instalação de esperança.
Com estudos acerca do processo psicoterapêutico, é possível compreender como ocorre
a mudança ao longo do tratamento e reconhecer os mecanismos de ação terapêutica, bem como
as variáveis que dependem da eficácia da psicoterapia. Deste modo, estudos experimenta is
permitem delinear estratégias para que ocorra a mudança terapêutica. Neste sentido, serão
apresentados alguns estudos que utilizaram instrumentos de avaliação de forma a permitir a
comparação da mudança ao nível dos sintomas bem como da estrutura, no decorrer do processo
terapêutico.
Para Kanfer e Goldstein (1991) existe a necessidade de definir claramente e em conjunto
com o cliente, quais os objetivos da intervenção, sejam eles modificar um comportamento, obter
insight, modificar o estado emocional, alterar a auto perceção ou a autoconfiança, alterar o estilo
de vida, etc (cit in Ogles, 2013).
Historicamente a investigação sobre o resultado terapêutico foi de natureza quantitativa.
No entanto, embora esta metodologia continue a ser maioritária, a investigação qualitativa sobre
resultado e mudança terapêutica tem sido muito atrativa para grande parte dos investigado res,
permitindo dar voz aos participantes e mantem-se mais próximos da experiência vivida em
psicoterapia, proporcionando uma maior compreensão do seu significado para o indivíd uo
(McLeod, 2013).
Dentro das metodologias qualitativas sobre o resultado terapêutico, a entrevista sobre o
modo como o cliente experienciou a terapia tem sido o método mais utilizado e frequenteme nte
esse resultado é avaliado não em função da diminuição dos sintomas, mas da perceção da
utilidade da terapia na resolução de problemas futuros.
Mcleod (2013) realizou uma análise de vários estudos qualitativos sobre resultado
terapêutico e comparou-os com os elevados effect sizes reportados pelos estudos quantitativos,
concluiu que os primeiros mostram uma ambivalência sobre os benefícios que os clientes
consideravam ter recebido com a terapia, sendo que muitos consideram a experiência positiva,
mas não tendo resolvido completamente os problemas que os tinham feito procurar a terapia. A
este propósito, um estudo de Timulak (2007) recolheu dados sobre as experiências dos clientes
relativamente ao valor da terapia e os resultados incluem: insight, alteração do

10
comportamento/resolução do problema, exploração de experiências emocionais, alívio,
empoderamento, sentimento de compreensão e segurança/apoio (cit in McLeod, 2013).
As medidas de auto relato são as mais usadas na avaliação da mudança em psicoterapia
uma vez que permitem aceder à perspetiva do cliente sobre o sucesso da terapia. No entanto,
alguns autores não concordam que seja a única medida de mudança, porque consideram que os
clientes podem ser muito reativos e terem uma perspetiva limitada sobre as mudanças ocorridas
durante a intervenção, já que são parte integrante do processo (Ogles, 2013).
Assim, autores como McLeod (2013) e Crits-Christoph e colaboradores (2013) sugerem
a utilização de metodologias mistas na avaliação dos resultados terapêuticos, considerando- as
úteis para avaliar o resultado de modo mais sensível às diferentes perspetivas e incluir outras
dimensões (que não apenas a redução dos sintomas) consideradas importantes para os clientes.
Atendendo à natureza multifatorial da mudança em psicoterapia, alguns investigador es
usam terceiros independentes ao processo para avaliarem o resultado, ou recorrem a medidas
comportamentais, ou utilizam entrevistas, quer para avaliar características dos clientes no início
da terapia que podem predizer resultados terapêuticos, quer para avaliar no final da intervenção,
se os sintomas se alteraram, quer ainda para medir a mudança pela experiência subjetiva do
cliente (Ogles,2013).
Conclui-se assim que não existem baterias de avaliação unanimemente aceites, sendo
que os investigadores usam predominantemente medidas standard, mas recorrem também a
medidas de avaliação de resultado individualizadas. Por outro lado, diversos investigadores não
usam apenas medidas de resultado para quantificar o efeito da intervenção como um todo
quando esta termina, mas socorrem-se também de medidas ao longo da intervenção para realçar
efeitos dessa mesma intervenção ou orientar decisões atempadas de alteração da mesma (Ogles,
2013).

1.3. Variáveis associadas

1.3.1. O cliente em psicoterapia

Nos últimos anos, houve uma mudança no reconhecimento do papel do cliente como
um participante ativo em psicoterapia. Em 1986, Garfield referem que é o cliente mais do que
o terapeuta que implementa o processo de mudança, se o cliente não absorver, utilizar, e seguir
as orientações facilitadoras do terapeuta, então nada acontece.

11
Orlinsky, Grave e Parques (1994) e Orlinsky, Ronnestadt e Willutski (2004)
documentaram que vários fatores do cliente são os melhores preditores de melhoria. Orlinsky
et al. (1994) concluiu que "a qualidade da participação do paciente na terapia é o determina nte
mais importante do resultado.
Bohart e Tallman (2010) explicaram que os clientes estão no centro do processo de
cicatrização. Eles são capazes de utilizar métodos muito diferentes para promover mudanças
para crescer.
Clarkin e Levy (2004) enfatizaram uma visão mais dinâmica do relacionamento cliente -
terapia. Eles sugeriram que os resultados anteriores foram devido ao fato de, desde o início da
terapia, as variáveis do cliente começarem a interagir dinamicamente com o terapeuta e o
tratamento. Beutler e colegas (2004) referem que os clientes reagem de forma diferente às
diversas intervenções, contudo, os clientes não são recetores passivos no tratamento, eles
cruzam ativamente com o que os terapeutas têm para oferecer, aprendem, envolvem-se com as
terapias e os métodos e colocam a sua própria criatividade. As perspetivas e as ações dos
clientes são importantes, embora isso geralmente seja interpretado negativamente: Distorções
dos clientes, relações de transferência, e as crenças disfuncionais que impedem a terapia. Deste
modo, preferências, valores e perceções dos clientes devem ser incluídos na tomada de decisão
terapêutica.
Bergin e Garfield (1994) referem que quando os terapeutas dependem mais dos recursos
do cliente, ocorrem mais mudanças.
Gassman e Grawe (2006) descobriram que os terapeutas que prestaram atenção aos
pontos fortes dos clientes começando na primeira sessão atingiram maior sucesso, sendo que
os terapeutas focados em problemas não obtiveram sucesso.
Lambert (2013), observou que podemos prever a deterioração antes que esta ocorra
através da utilização de informações sobre o nível de angústia do cliente e a sua perturbação no
início da terapia e a resposta do cliente ao tratamento no início das sessões. Ele também
observou que outras variáveis, tais como diagnóstico, idade, sexo, etnia, tipo de tratamento, e
experiência do terapeuta são influentes.
Ao longo do tratamento, o cliente é avaliado antes do tratamento e, em seguida, em
intervalos predeterminados. A passagem do tempo pode resultar em diferenças nos resultados
dos testes através de uma série de fontes de variação aleatórias ou sistemáticas, mudança real
na construção a ser medida, variação associada à resposta ao tratamento ou alteração associada

12
a fontes de erro, como o ambiente de teste, características do teste ou amostragem de itens
(Campbell, 2000).
No entanto, mudanças nessas variáveis também são uma indicação de um efeito mais
poderoso e durável do tratamento. Variáveis menos estáveis, como o humor, podem ter
estimativas de confiabilidade mais baixas, especialmente por longos períodos de tempo e são
mais propensos a ter tamanhos maiores de efeito em resposta ao tratamento. No entanto, essas
mudanças podem não ser tão duráveis e podem ocorrer em resposta a intervenções menos
poderosas (Lambert, 2013).
Em suma, o modelo propõe que o primeiro ganho que o cliente experiencia é a esperança
nos estágios iniciais do tratamento, essa esperança renovada é seguida por uma melhoria nos
sintomas com a continuação do tratamento e finalmente, à medida que o tratamento continua e
os sintomas continuam a diminuir, o cliente experiencia melhorias no seu funcionamento de
vida (Lambert, 2013).
Clarkin e Levy (2004) concluíram que a gravidade dos sintomas e a deficiênc ia
funcional do paciente leva a um pior prognóstico, e que indivíduos com mais sintomas graves
necessitam de mais sessões para mostrar melhorias. Além disso, um maior funcionamento antes
da deterioração pode resultar num prognóstico melhor. Em aparente contradição há uma
evidência de que quanto maior for o nível de angústia do paciente no início da terapia melhores
são os resultados, mais do que o do diagnóstico do paciente, cronicidade por problemas ou
tratamento.
Hansen et al. (2002) descobriram que um maior sofrimento pré-tratamento previa uma
maior mudança.
Clarkin e Levy (2004) concluíram que a personalidade e a comorbilidade tem sido
uniformes para prever resultados mais pobres, com uma exceção para as perturbações da
personalidade. Nestas situações o tratamento pode precisar ser prolongado ou ajustado para
lidar com eles. Isso pode incluir fornecer sessões mais do que uma vez por semana, ou utilizar
tratamentos auxiliares.
As características pessoais do paciente têm que ver com o estilo e competências que este
tem para se relacionar com outros. Tais características como locus de controlo interno,
competência social, aprendizagem, força do ego, estilo de defesa, motivação, estilos de
formação de relações, maneira de lidar com acontecimentos stressores, grau de mentalidade
relativa à emoção e ao interior experimentando de forma aberta e tendências para a autocrítica,

13
são preditores de resultados em terapia. Portanto, pode-se esperar que a motivação do cliente
também está associada ao resultado (Piper, 1999).
Por outro lado Orlinsky et al. (2004) concluíram que clientes mais motivados, ou que
foram vistos dessa maneira pelos seus terapeutas, tiveram melhores resultados. Os resultados
foram melhores quando a motivação foi avaliada pelos clientes.
Donovan e Rosengren (1999) observaram que a motivação para começar psicoterapia
pode ser diferente da motivação para mudar.
Sheldon (2004) descobriu que motivos que surgem de interesses intrínsecos do
individuo, ou aqueles que representam os seus valores pessoais sustentam esforço e
correspondem a um comportamento melhor do que motivos externos.
A motivação também se sobrepõe com construções como expectativa e esperança.
Clientes que não acreditam que possam mudar, e que se sintam sem esperança, podem, portanto,
sentir pouca motivação para participar. Finalmente, a motivação sobrepõe-se com o motivo, os
clientes que estão em terapia (por exemplo, por escolha pessoal versus por pressão externa),
tem as suas opiniões sobre a natureza do/os problemas, as suas preocupações com
estigmatização e as suas opiniões sobre o tipo de tratamento de que iram beneficiar. Em geral,
parece que os clientes que estão "prontos para mudar" (ou seja, mais motivados intername nte)
são mais propensos a beneficiar da terapia e a obter resultados positivos.
Foi também estudada a motivação da autonomia. A motivação da autonomia foi um
melhor preditor do resultado para a aliança terapêutica.
McBride e colegas (2010) também encontraram evidências de que a motivação da
autonomia está relacionada positivamente com o resultado e essa motivação "externa" está
relacionada negativamente. Em contraste, os clientes que estão “obrigados” a estar no
tratamento, isto é, aqueles cuja motivação é mais provável de ser externa, muitas vezes não
obtém resultados. Finalmente, os clientes não estarão prontos para mudar se são resistentes. A
resistência está relacionada aos resultados mais baixos em terapia.
Beutler, Harwood, Michelson & Holman (2011) argumentaram que os clientes com alta
reação são mais propensos a mostrar resistência ao trabalhar com terapeutas diretivos.
Em conclusão, quando a motivação dos clientes para o trabalho é intrínseca, quer em
termos de prontidão para mudar ou motivação de autonomia estes são mais propensos a obter
resultados positivos (Lambert, 2013).
A mentalidade psicológica é a tendência que o individuo tem para olhar para dentro de
si e procurar explicações para o seu comportamento dentro da psicologia, ou tentar compreender

14
as pessoas e os seus problemas psicológicos. Estudos descobriram que a mentalidade
psicológica está positivamente relacionada com a permanência em terapia (Barrett et al., 2008).
Levitt & Rennie (2004) descobriram que o nível de insight de mentalidade psicológica
aumentam ao longo da terapia reduzindo os sintomas. Há evidências de que perceções e crenças
dos clientes sobre a psicoterapia, o processo psicoterapêutico e o resultado destes, geralmente
correlacionam-se positivamente com o resultado. Contudo, as perceções e as crenças dos
clientes muitas vezes não coincidem com as dos terapeutas.
Isso sugere que as construções dos clientes, podem influenciar de forma seletiva como
interagem e como processam o que está a acontecer. No entanto, algumas pesquisas mostraram
que as perceções dos clientes sobre a aliança no início da terapia é independente das vantagens
que estão a experimentar (Horvath, 2002).
Há evidências de que os clientes têm preferências pelo tipo e qualidade de
relacionamento que recebem em psicoterapia. Além de prever a autenticidade e a realidade do
terapeuta, os clientes também valorizam a "presença terapêutica" (Geller, Greenberg, &
Watson, 2011).
Isso é definido por Geller e Greenberg (2002) como o terapeuta ser completamente ele
no momento em termos físicos, cognitivos e emocionais.
Martin (2008) descobriu que os clientes principalmente queriam um ambiente que
reduzisse o estigma a falar sobre coisas difíceis, e isso melhorou sensação de autoeficácia dos
clientes. Este ambiente foi facilitado quando os terapeutas estavam abertos, respeitosos e
trabalharam para ganhar confiança (Beretta et al., 2005; Martin, 2008).
Nilsson, Svensson, Sandell & Clinton (2007) relataram que os clientes preferem
terapeutas que se adaptem às suas necessidades, aceitando-os, de modo que os clientes se sintam
à vontade. Esses clientes também relataram que apreciam apoio emocional, neutralidade e
alguma distância interpessoal. Clientes de origens etnicamente diversas relataram melhores
experiências quando os terapeutas foram abertos para ver os pontos fortes da sua cultura
cultural.
Os clientes têm preferências em psicoterapia. Swift et al. (2011) relataram que as
próprias preferências do paciente influenciaram uma série de outras variáveis, tais como
características demográficas, crenças sobre a natureza dos problemas, o nível de gravidade dos
sintomas, experiência anterior com terapia, expectativas para terapia e outras experiências de
vida.

15
Isto indica que os terapeutas devem ter em atenção as preferências do cliente,
especialmente se este está a ter dificuldade em envolver-se na terapia, não significando que um
cliente que não receba as suas preferências de terapia não será capaz de beneficiar do tratamento
(Lambert, 2013).
As perspetivas dos clientes apoiam a ideia do cliente como alguém que tem um papel
importante na terapia. Onde tais relacionamentos foram estudados, as perspetivas dos clientes
tendem a correlacionar-se com o resultado, muitas vezes mais elevado do que o dos terapeutas.
Suas opiniões sobre a natureza dos seus problemas, do que eles querem em terapia, e como
essas opiniões coincidem com os terapeutas, podem influenciar tanto a motivação como o
resultado. As suas opiniões também podem influenciar como interpretam a mudança. Além
disso, veem-se eles próprios como contribuindo ativo através do trabalho duro, da
aprendizagem do raciocínio com eles próprios, refletindo e tentando algo novo. Finalme nte,
como agentes, valorizam a compreensão do terapeuta e estão envolvidos num verdadeiro
relacionamento mútuo (Lambert, 2013).
O feedback do cliente também pode ser visto como uma forma de colaboração no
processo terapêutico, uma vez que este acrescenta a voz para a prática da terapia. Isto é
particularmente importante porque os terapeutas muitas vezes superestimam desempenho do
cliente (Lambert, 2013).
O feedback do cliente é principalmente usado para ajudar os terapeutas a melhorar o
desempenho do processo terapêutico. Já o feedback do terapeuta pode ser benéfico para alguns
clientes e prejudicial para outros, embora tenha um sentido intuitivo, poderá ter um efeito
motivador sobre alguns e um efeito desencorajador sobre outros (Lambert, 2013).
Em geral, a pesquisa demonstra que os clientes podem desempenhar um papel ativo na
gestão das suas experiências terapêuticas. Os clientes são "co-autores" da terapia, podem
trabalhar em silêncio para si mesmos e participar simultaneamente em atividades com os seus
terapeutas, podendo ajudar a gerir a relação terapêutica. Além disso, envolvendo os clientes
ativamente no processo, procurando que estes sejam críticos, surte impacto no resultado.
Finalmente, os clientes progridem ao assimilar os seus problemas e atendendo a inovações
(Lambert, 2013).
Os primeiros estudos de eficácia em psicoterapia basearam-se principalmente nas
classificações de terapeutas e de resultados. Por exemplo, Bergin (1971), e mais tarde Bergin e
Lambert (1978), realizaram uma revisão dos dados recolhidos no Instituto Psicanalítico de
Berlim na década de 1920. Neste estudo, os psicanalistas fizeram uma revisão a notas e arquivos

16
escritos, classificaram os clientes como não curados, melhorados, muito melhorados ou
curados. Nenhum outro método de avaliação do desfecho foi incorporado ao estudo. Ao longo
do tempo, os pesquisadores em psicoterapia começaram a concentrar-se no desenvolvime nto
de uma variedade mais ampla e métodos mais rigorosos de avaliação da mudança nos estudos
de resultados.
Estudos posteriores tendem a ter uma maior especificidade de medição, com
instrumentos selecionados para avaliar os critérios diagnósticos para uma determinada
perturbação. As medidas vão-se tornando gradualmente menos vinculadas à orientação
terapêutica com maior foco nos diagnósticos (Lambert, 2013).
As medidas de auto-avaliação são certamente o elemento básico do estudo típico de
hoje. As medidas de auto-relato fornecem uma fonte única e importante de informações sobre
a mudança ocorrida durante a psicoterapia. As medidas de auto-relato são particularme nte
importantes na prática clínica, onde a visão do sucesso do cliente é mais importante do que os
objetivos de pesquisa. No entanto, persistem algumas preocupações quanto ao uso exclusivo do
auto-relato do paciente como meio de avaliar o resultado do tratamento (Lambert, 2013).
Smith, Glass e Miller (1980) referem que as medidas de auto-relato podem superestima r
as mudanças de tratamento. Além disso, uma vez que os clientes são parte integrante do
processo terapêutico, podem ter uma perspetiva limitada sobre as mudanças ocorridas durante
o tratamento. Em suma, as medidas de auto-relato fornecem uma perspetiva importante, mas
ainda é apenas uma visão do resultado da terapia.

1.3.2. O terapeuta em psicoterapia

Um grande número de pesquisas ligadas ao processo psicoterapêutico está orientada


para a investigação de intervenções técnicas usadas pelos psicoterapeutas, embora como menos
regularidade apareçam também pesquisas relacionadas com a complexa participação do
terapeuta no processo.
Beutler et al. (2004) revisaram a influência de uma ampla gama de características e
variáveis do terapeuta, como por exemplo: idade, raça, sexo, treino profissional e disciplina,
estilo interpessoal, diretividade, interpretações terapêuticas, intervenções emotivas,
personalidade, padrões de enfrentamento, dominância e relacionamento terapêutico, como
sendo preditores para o desenvolvimento e resultado do processo terapêutico.
Ceitlin, Wiethaeuper & Goldfeld (2003) indicam que as apreciações ligadas ao terapeuta
podem ser confirmadas por três tipos de resultados observados nas pesquisas: 1) os benefíc ios
17
terapêuticos estão mais associados à pessoa do terapeuta do que à sua abordagem teórica; 2)
alguns terapeutas produzem melhores resultados do que outros; 3) existem terapeutas que
produzem efeitos negativos no desfecho do tratamento.
Estes dados empíricos vem contrapor a visão anterior de que o terapeuta era uma figura
neutra que procurava apenas não interferir com os seus valores e crenças, no processo
psicoterapêutico
A relação terapeuta-cliente deve ser vista como uma das variáveis mais importantes
inseridas na experiência do cliente com o início da terapia.
Em casos onde existe um comprometimento maior por parte do cliente e quando o nível
de ansiedade e desorganização psicológica é elevado, o terapeuta tem de assumir um papel mais
predominante na terapia. Ele, torna-se um elemento importante e motivacional e a sua pessoa
um modelo, um reforçador social e um estímulo discriminativo.
Kanfer e Phillips (1975) declaram que os fatores de relacionamento são na maioria das
vezes determinantes da mudança de comportamento durante a terapia, desse modo, o conjunto
de variáveis do terapeuta, podem "aumentar ou diminuir a eficácia das técnicas
comportamentais, através do impacto das suas características pessoais e da interação" com o
cliente.
Warren, em 1978, estudou algumas destas variáveis e tentou medir o que ele chamou de
comportamentos assertivos positivos e a expressão de ternura do terapeuta. Para ele os
"comportamentos assertivos positivos ou a expressão de sentimentos de apreciação, afeto
positivo (gostar), empatia e "self-disclosure" possibilitam ao indivíduo ser um reforço para os
outros e, deste modo, encorajar a comunicação e a expressão de afeto de outros.
O relacionamento, a interação pessoa com pessoa, é o grande exercício da situação
terapêutica. O terapeuta dá o modelo e a prática de relacionamento inter-pessoal com o cliente.
A terapia é uma experiência de vida onde comportamentos sociais e afetivos devem ser
desenvolvidos no relacionamento entre duas ou mais pessoas que estejam envolvidas na terapia.
A conceptualização deste relacionamento deve ser possível para outras pessoas e
situações e, para isto, o terapeuta deve ter um comportamento profissional e ético.
Hare - Mustin (1979), referem que o treino convencional em psicoterapia, muitas vezes
enfatiza o contributo do cliente para o problema, mas menospreza as forças sociais externas que
modelam o comportamento do cliente. Este destaque limita a perceção do terapeuta sobre a sua
própria contribuição no processo de terapia.

18
1.3.3. A relação terapêutica

A Relação Terapêutica (RT) é possivelmente um dos poucos pontos que é transversal a


todas as psicoterapias, admitindo-se como fundamental para a eficiência da mesma.
É importante realçar que na Psicoterapia, existe a necessidade de estabelecer uma
relação positiva e saudável, que não é só importante no início do tratamento, mas também em
toda a sua duração. Nisto não reflete apenas a colaboração e a adesão ao processo, que será
determinada pela vontade consciente do paciente em tratar-se, comparecer às consultas dentro
da hora marcada e cumprir as suas obrigações financeiras para com o terapeuta, aqui reflete - se
também todo o papel desempenhado pelo terapeuta (Lemgruber, 1997).
A relação terapêutica pode ser amplamente definida como a relação colaborativa e
afetiva entre o terapeuta e o cliente (Bordin, 1979). Os aspectos colaborativos da aliança
incluem a extensão do acordo entre terapeuta e cliente sobre (a) os objetivos da terapia, e (b)
técnicas que serão implementadas para atingir esses objetivos. O componente afetivo da aliança
é o "vínculo" entre os participantes, e inclui a confiança mútua, o gosto, o respeito e o cuidado
entre o paciente e o terapeuta.
O sucesso da relação terapêutica é o maior preditor para resultados favoráveis e
positivos em psicoterapia. Diversos estudos têm divulgado que quando a relação paciente -
terapeuta é positiva, quando existe uma relação empática, verifica-se assim, uma melhoria nos
sintomas observados no final da terapia. Porém, a avaliação da mudança quer dos sintomas quer
da aliança terapêutica deve ser controlada ao longo das várias fases do processo terapêutico
(Kazdin, 2009).
O conceito de relação terapêutica nasceu com os trabalhos de Freud 1968, (cit in
Gonçalves, 2008). Este descreve-a tendo por base a sua explicação para a relação entre o cliente
e o terapeuta. Freud considerava que uma relação positiva possibilitava ao cliente identificar o
terapeuta com as suas relações primárias passadas. A relação terapêutica era apresentada, por
Freud, identificando os esforços entre o cliente e o terapeuta para avançar para o insight e para
a mudança. A sua visão psicodinâmica vigorou até Carl Rogers (1951/1983, cit in Gonçalves,
2008) assegurar que a relação terapêutica, era, por si só, suficiente para originar a mudança e a
cura do cliente. Contudo, nesse período, esta visão foi refutada pelos comportamentalistas, que
rejeitaram aceitar que outros fatores para além das técnicas persuadissem a mudança, foi com
Rogers e a sua Terapia Centrada no Cliente que nasceram estudos acerca dos efeitos da ação do
terapeuta na mudança do cliente (Moreira, Gonçalves, & Beutler, 2005, cit in Gonçalves, 2008).

19
Investigações recentes acerca do processo terapêutico têm demonstrado que este não
ocorre apenas sobre as técnicas utilizadas pelos terapeutas, mas sim como se deve intervir para
realizar alterações nas caraterísticas sociais, emocionais e comportamentais do cliente. Em
diversas terapias, a relação terapêutica mostrou ser um forte indicador com resultados positivos.
Marmar, Gaston, Gallagher e Thompson (1989) avaliaram a relação terapêutica através da
escala California Psychotherapy Alliance Scale (CALPAS), e concluíram que esta, estava
relacionada com bons resultados nas intervenções comportamentais e cognitivas. Uma relação
terapêutica positiva no início da intervenção poderá estar relacionada com a mudança que já
tinha ocorrido na psicoterapia. Isto quer então dizer, que os clientes que alcançaram melhor ias
na sua sintomatologia após algumas sessões, vêm o seu terapeuta e a terapia como positivas.
Então, será importante interrogar se é a relação terapêutica o preditor do resultado, a melhor ia
precoce da intervenção ou os dois fatores têm interligação.
No estudo de Barber e colaboradores (2000), foi apresentado que a relação terapêutica
nas sessões 2, 5 ou 10 prediziam mudanças significativas nos sintomas. O estudo divulgou ainda
que a melhoria dos sintomas estava associada com o nível da relação. Logo, os clientes que
exibem resultados positivos na redução de sintomatologia tendem a ter um vínculo mais forte
com o seu terapeuta.
Fazendo, agora, referência às caraterísticas do terapeuta na criação de uma relação
terapêutica, os terapeutas que conseguem estabelecer relações de qualidade são considerados
empáticos, calorosos, genuínos e flexíveis, mostrando níveis baixos de hostilidade dirigida a si
próprio, maior suporte social e conforto nas relações interpessoais. Além de tudo isto, existe
uma variedade de técnicas que aparentam influenciar a relação terapêutica, como por exemplo,
a exploração, a reflexão, aprofundar o nível da sessão, evidenciar os ganhos terapêuticos,
facilitar a expressão de afeto, fazer interpretações adequadas, atender à experiência do cliente,
compreender e validar essa experiência (Ackerman & Hilsenhorth, 2003) (cit in Ribeiro, 2009).
A pesquisa tem apoiado a utilidade dos terapeutas atendendo e ajudando a reparar
ruturas na relação (Safran & Muran (2006). Contudo, os clientes, também, contribuem para
reparar estas ruturas. Muitas vezes, os clientes não tentam reparar estas ruturas e em vez disso,
optam por resolver o assunto terminando a terapia, talvez porque passam a ver a terapia como
uma perda de tempo ou que não existe a necessidade de reparar aquele relacionamento. Faz
sentido que os próprios clientes assumam também a reparação do relacionamento, visto que
investiram ambos tempo nele.

20
A construção da relação terapêutica está profundamente enraizada em conceitos
relacionados com o consenso de objetivos: concordando com a direção da mudança,
concordando com um caminho a seguir, objetivos a delinear e estruturar ativamente um
tratamento para estar em linha com esses objetivos e com as expectativas do cliente quanto à
terapia (Bordin, 1979; Tryon & Winograd, 2011).
O diagnóstico não é tudo o que os terapeutas precisam para traçar um plano de
tratamento, a colaboração com os clientes em torno dos objetivos do tratamento é um passo
importante na construção do plano de tratamento para satisfazer os desejos dos clientes. E se
clientes e terapeutas acordarem na sessão objetivos e como se irão relacionar com os objetivos
de vida dos clientes bem como as tarefas na sessão, o processo de terapia provavelmente irá
fazer sentido para os clientes e isso irá mobilizar a sua participação ativa.

A avaliação do processo psicoterapêutico e os respetivos efeitos das intervençõ es


psicológicas, continuam a ser um desafio para os investigadores. Assim, torna-se ainda
essencial compreender de que forma e quais são os fatores responsáveis por resultados positivos
numa psicoterapia.
Através dos estudos apresentados relativamente ao processo terapêutico, é viável o
entendimento da forma como ocorre a mudança ao longo do tratamento e a identificação dos
mecanismos de ação terapêutica.
A utilização de instrumentos padronizados nos estudos apresentados anteriorme nte,
facilitam a identificação de variáveis que podem depender do fracasso ou sucesso de um
tratamento psicoterapêutico, colaborando desta forma, para a avaliação da evolução clínica dos
pacientes, ao longo das várias fases do processo terapêutico.
Não só as intervenções psicológicas são estatisticamente superiores às condições de
controlo, mas o tamanho desse efeito é maior do que os efeitos de muitos tratamentos médicos
numa variedade de condições. Embora a estatística do tamanho do efeito superestime a
proporção de indivíduos que experimentam mudanças clinicamente significativas, existe
evidência substancial de que as psicoterapias também produzem resultados que são
clinicamente significativos.
Estudos primários de análises meta-analises consideram que muitos clientes melhora m
e podem ser considerados como tendo uma recuperação completa. Além disso, a literatura de
compensação de custos médicos fornece evidências de que indivíduos que têm dificuldades

21
emocionais também beneficiam medicamente (saúde física) quando participam em
intervenções psicológicas.
Os investigadores continuam a progredir no estudo da manutenção a longo prazo dos
ganhos de tratamento. Muitos estudos de alta qualidade foram realizados na última década,
seguindo clientes durante vários anos após o tratamento. Esses estudos revelaram que os efeitos
do tratamento são mantidos.
Demonstrar que os tratamentos são benéficos por longos períodos de tempo,
identificando clientes que estão em risco de recaída, e o desenvolvimento de métodos para
melhorar os tratamentos com benefícios agudos e de longo prazo serão projetos futuros
importantes.
Quanto à questão, quanto de terapia é suficiente. A pesquisa sugere que uma grande
parte dos pacientes melhora de forma considerável após 7 sessões e que 75% dos pacientes
atenderão a critérios mais rigorosos para o sucesso após cerca de 50 sessões de tratamento.
Limitar as sessões de tratamento a menos de 20 significará que cerca de 50% dos pacientes não
obterão um benefício substancial com a terapia. Os aspetos do funcionamento do paciente
mostram uma resposta diferencial ao tratamento, com aspetos mais característicos (por
exemplo, perfeccionismo) e interpessoais do funcionamento respondendo mais lentamente do
que os sintomas psicológicos.
Com estes estudos, foi possível concluir que a mudança sintomática é mais evidente
desde o início do tratamento, enquanto, a mudança ao nível estrutural, define-se como mais
profunda e consequentemente mais lenta.
Pesquisas futuras podem revelar quais são as intervenções mais apropriadas e que são
mais eficientes na produção de mudanças nos pacientes.

Capítulo II - O Abandono Precoce do Processo Psicoterapêutico

2.1. O Abandono Precoce do Processo Psicoterapêutico – Enquadramento

A importância da psicoterapia como campo de intervenção primordial no atendimento


das diversas perturbações emocionais é reconhecida nos trabalhos e pesquisas acerca da eficácia
das intervenções psicoterapêuticas (Leichsenring, Hiller, Weissberg & Leibing, 2006).
Entretanto, um aspeto frequentemente identificado é a questão do abandono
psicoterapêutico (Melo & Guimarães, 2005; Bueno et al., 2001).

22
O abandono em psicoterapia refere-se basicamente a situações em que o tratamento é
interrompido sem que haja indicação para tal ou encaminhamento por parte do terapeuta
(Lhullier & Nunes, 2000).
As revisões da literatura sobre o abandono em psicoterapia, indicam que entre 30% e
60% dos pacientes de psicoterapia terminam prematuramente (Baekeland & Lundwall, 1975;
Eiduson, 1968; Garfield, 1986)
É importante perceber como este fenómeno se caracteriza e de que modo este tem
influência no processo terapêutico. Os estudos indicam que este fenómeno acontece
frequentemente entre a 3ª e a 10ª sessão (Baekeland & Lundwall, 1975; Urtiaga, Almeida,
Vianna, Santos & Botelha, 1997).
Mais especificamente, entre 20 e 57 % dos clientes não aparecem na segunda sessão e
de 31 a 56 % não comparecem até à 4ª sessão (Baekeland & Lundwall, 1975). 40% Dos clientes
deixam de comparecer antes da primeira sessão e 70% antes da décima sessão (Rosenstein &
Millazo-Sayre, 1981, citado por Mueller & Pekarrik, 2000).
Não cumprir um número determinado de sessões classifica um paciente como
‘desistente’ (Lhullier, Nunes & Horta 2006). Esta interrupção pode ocorrer, inclusive, pela
própria perceção de melhoria por parte do paciente (Chilelli, 2000).
Piper, Ogrodniczuk, Joyce, McCallum e colaboradores (1999) consideram abandono
quando o paciente, unicamente por sua decisão, sem o conhecimento prévio do terapeuta, tendo
comparecido a pelo menos uma sessão de terapia, cessa de fazê-lo, independente do motivo que
o levou a isso.
Desta forma, o termo ‘abandono’, proposto por Lhullier & Nunes (2000), assinala
situações que incluem o término prematuro, no qual o terapeuta tem como meta levar adiante a
terapia por mais sessões e é surpreendido pela desistência do paciente.
Os abandonos em psicoterapia apresentam problemas clínicos e de moral para os
profissionais de saúde mental (Pekarik, 1985), talvez os mais significativos sejam a redução da
eficácia do tratamento e a redução da relação custo-eficácia (Garfield, 1986; Pekarik, 1985).
Baekeland & Lundwall (1975) analisaram extensivamente 362 artigos das literaturas sobre
tratamento de saúde mental e relataram resultados de 74 estudos de abandono em psicoterapia.
Eles concluíram que o abandono da terapia foi mais associado a variáveis do cliente, como por
exemplo, baixo nível socioeconómico, o cliente ser do género feminino, ter baixos níveis de
ansiedade e / ou depressão e baixo nível de experiência do terapeuta.

23
Muitos clientes abandonam prematuramente a psicoterapia, não retomando o
atendimento em saúde mental, sendo que a maioria dos casos de desistência acaba em retorno
do atendimento, existindo a necessidade de reiniciar o processo de avaliação e diagnóstico e
futuros encaminhamentos (Goldenberg, 2002).
No geral, o processo de retorno resulta no agravamento dos casos, na insatisfação
profissional e num maior gasto económico.
Trabalhos como o de Lhullier (2002) organizam as pesquisas sobre o abandono em
categorias de variáveis classificadas em relação aos aspetos sociodemográficos, variáve is
específicas do paciente, variáveis do tratamento e do terapeuta, variáveis interpessoais e
institucionais. Independentemente da forma que os fatores associados ao abandono sejam
organizados, as situações identificadas nos trabalhos refletem a complexidade dos elementos
que cooperam para a perceção do paciente sobre a sua condição de saúde e, consequenteme nte ,
a sua atitude perante as prescrições terapêuticas.
Weirzbicki e Pekarik, em 1993, encontraram uma relação moderadamente forte entre o
abandono em psicoterapia e a aliança terapêutica. Os clientes com alianças terapêuticas mais
fracas eram mais propensos a abandonar a psicoterapia.
Numa meta-análise Weirzbicki e Pekarik, 1993 verificam que os participantes que
tinham um nível educacional baixo eram mais propensos a abandonar a psicoterapia, sendo que,
indivíduos com um nível educacional superior tinham uma probabilidade maior de finalizar o
tratamento. É também possível que os clientes com um nível educacional alto sejam mais
parecidos com os terapeutas, facilitando expectativas convergentes em relação ao tratamento.
Estudos com tratamentos mais longos demonstraram associações mais fortes entre a
aliança e o abandono. Os clientes em tratamentos de 16 a 40 sessões podem ter sido mais
influenciados pela relação terapêutica e, portanto, mais propensos a abandonar a terapia como
resultado de dificuldades na aliança do que os clientes em tratamentos de 9 a 16 sessões.

2.2. Variáveis associadas ao Dropout

As altas taxas de abandono têm implicações importantes. Em primeiro lugar, o


abandono do atendimento tem impacto na vida do indivíduo que o procura, pois não permite
que este receba os benefícios do tratamento.
Pesquisas mostram que há ganhos significativos para os indivíduos e as famílias que
completam um tratamento psicológico, em relação às que o interrompem (Boggs et al., 2004).
Em segundo lugar, perdas de casos contribuem para reduzir o número de pessoas que
24
efetivamente recebem cuidados. Além disso, o término prematuro é normalmente precedido por
faltas e por cancelamentos de consultas agendadas, o que significa uma vaga ocupada que
poderia ser oferecida a outro individuo (Lhullier et al., 2006)
Como resultado, a produtividade do terapeuta decresce e o custo dos serviços aumenta.
Deste modo, deve-se procurar compreender os fatores que estão relacionados com o abandono,
de modo a poder-se otimizar os recursos disponíveis, aumentando a probabilidade de retenção
de indivíduos no atendimento (Kazdin, Holland & Crowley, 1997).
O abandono precoce da intervenção psicológica tem sido associado a variáveis sócio
demográficas (Wierzbicki & Pekarik, 1993), assim como a variáveis pessoais e clínicas
(Dierker, Nargiso, Wiseman & Hoff, 2001), institucionais (Lhullier et al., 2006), do tratamento
e relação terapêutica (Harwood & Eyberg, 2004).
Os fatores sociodemográficos são os mais investigados, tendo sido encontrada
associação entre abandono e fatores como:
- Famílias destruturadas (Campbell, Baker & Bratton, 2000; Kazdin et al., 1997);
- Grupos minoritários e desvantagem socioeconómica (Kazdin, 1994; Kazdin, Stolar &
Marciano, 1995; Kazdin et al., 1997); e
- Baixa escolaridade (Luk et al., 2001; Sirles, 1990).
Entre as variáveis pessoais e clínicas, verifica-se que:
- A história antissocial (Kazdin et al., 1997; Luk et al., 2001) e a presença de queixas
múltiplas têm sido associadas positivamente ao abandono (Dierker et al., 2001);
- A intensidade dos sintomas de ansiedade e a severidade da perturbação têm associação
negativa com abandono (Harpaz-Rotem et al., 2004; Kendall & Sugarman, 1997);
- No sistema familiar, têm sido apontados como preditores de abandono do atendimento
o alto nível de stresse nos eventos de vida (Kazdin, 1994; Prinz & Miller, 1994)
- As atitudes e expectativas face ao atendimento, a perceção de obstáculos ao tratamento
e problemas na relação terapêutica são variáveis que afetam a disposição dos indivíduos para
persistir no tratamento ou interrompê- lo (Attride-Stirling, Davis, Farrell, & Day, 2004; Boggs
et al., 2004; Garcia & Weisz, 2002; Kazdin et al., 1997; Luk et al., 2001; Prinz & Miller, 1994).
Em relação ao funcionamento institucional, o intervalo de tempo entre a avaliação, o
diagnóstico e o início do tratamento tem sido associado ao desinteresse pelo tratamento
(Kendall & Sugarman, 1997; Lhullier et al., 2006).

25
Kendall e Sugerman (1997) encontraram maiores taxas de desistência e abandono entre
os indivíduos que esperaram oito semanas para iniciar a intervenção, quando comparados com
indivíduos admitidos logo em seguida ao diagnóstico.

2.2.1. Variáveis sociodemográficas

Bueno e colaboradores (2001), na última década, identificaram numa meta – análise,


que na maioria dos estudos, os jovens, a distância ao local do acompanhamento, os indivíd uos
solteiros e um nível socioeconómico baixo, eram preditores de abandono.
Ainda que as características sociodemográficas como idade, sexo e local de residência
exerçam alguma influência na adesão ao tratamento, a interação com outros aspetos clínicos do
caso, do terapeuta e do sistema interagem e determinam a maior ou menor intensidade desta
influência. Por exemplo, a diferença entre paciente e terapeuta envolvendo características
sociodemográficas (tais como cliente do sexo masculino ser atendido por terapeuta do sexo
feminino ou cliente mais velho ser atendido por terapeuta muito jovem) constituem-se como
preditores importantes para o abandono no caso da psicoterapia de adultos.

[Link]áveis pessoais e clínicas

Inicialmente, acreditava-se que certas características da personalidade tais como


isolamento social, agressividade, traços psicóticos e baixa motivação estavam associadas ao
maior abandono terapêutico (Walitzer, Dermen, Connors, 1999).
Em termos clínicos, as perturbações de personalidade em geral, os estados psicóticos e
a ocorrência de ideação paranoide são os quadros com maior dificuldade de envolvimento no
processo terapêutico e os que apresentam um risco maior de abandono (Bueno et al. 2001).
Neste sentido, as perturbações de personalidade Borderline são mencionadas como os casos
com maior frequência de interrupção de tratamento em função das características de hostilidade
e dificuldade de vinculação (Romaro 2003).
Outra variável de interesse para entender o abandono prematuro é a visão inicial do
cliente fase ao terapeuta. Há evidências de que alguns clientes descontinuam o tratamento
devido à insatisfação com seu terapeuta e / ou com as técnicas de terapia (Garfield, 1986).
Estudos apontam que indivíduos com uma história clínica de abandonos importantes ou
até mesmo de sensações de abandonos tendem a repetir uma vinculação ansiosa ou evitante na

26
relação com o terapeuta, dificultando assim a formação da aliança terapêutica e apresentando
um risco maior de abandono da terapia (Pinheiro, 2001).

2.2.3. Variáveis institucionais

Considerando as questões discutidas anteriormente em relação ao abandono precoce do


processo psicoterapêutico observa-se uma maior complexidade nas situações clínicas que
envolvem terapeutas ainda em formação como é o caso de instituições formadoras que oferecem
ensino e treino de alunos.
Tendo em consideração tanto o aspeto pedagógico destas instituições como a
responsabilidade de promover um atendimento de qualidade à comunidade, os abandonos
psicoterapêuticos servem como alerta que pode apontar caminhos para a eficácia das
psicoterapias, do ensino, da pesquisa, da formação e do tratamento em si (Carvalho, Terzis,
1988).
Em relação às clínicas-escola, um estudo que caracterizou a clientela de uma instituição
apontou que 61% dos atendimentos duravam em média seis meses, sendo que foi identificado
também uma interrupção significativa do tratamento (20% encaminhamento, 28,3 % abandono
e 31 % desistência)
Outra investigação sobre diversos aspetos do atendimento, numa clínica-escola de
psicologia, identificou que 590 dos casos triados, 67,5% concluíram o processo e 32,5%
desistiram (Romaro, 2003)
Quanto aos motivos para o abandono terapêutico nas clínicas-escola, Lhullier (2002)
destaca as questões do treino académico e os aspetos institucionais como variáveis associadas
ao abandono. Em relação aos aspetos institucionais, o tempo de espera para receber o
atendimento, a experiência do terapeuta, o número de sessões e as trocas de terapeutas devem
ser considerados. Neste sentido, a sazonalidade do fluxo de terapeutas e pacientes durante o ano
letivo do curso de psicologia é entendida, também, como uma dimensão institucional e social
do fenómeno.
Cerca de 33% dos abandonos ocorrem devido à mudança de terapeuta, já que nem todos
os tratamentos são concluídos no tempo de estágio do terapeuta em formação (Lhullier, Nunes,
Antochevis, Porto, Figueiredo, 2000).
Outra particularidade institucional importante numa clínica-escola é o uso de uma lista
de espera. Este processo é necessário devido à imensa procura de atendimento, visto que na
maioria dos locais, o custo é nulo ou insignificante. Este acontecimento causa prejuízos ao
27
cliente inscrito quando recebe a vaga para tratamento, pois os fatores motivacionais do cliente
sofrem alterações pela demora da consulta. Estas situações e características descrit as
anteriormente não são exclusivas de instituições de formação, estão também presentes em
serviços públicos de saúde (Hynan, 1990).

2.2.4. Variáveis do tratamento e relação terapêutica

O término prematuro da intervenção tem várias consequências, seja para o paciente


como para o terapeuta ou para a instituição de atendimento. O abandono psicoterapêutico
constrói sentimentos de fracasso, inutilidade e um custo económico relevante para todas as
partes envolvidas no processo (Figueiredo, 1981).
A falta de informação aos pacientes no início do atendimento tem sido associada à
interrupção da terapia, indicando que muitos abandonos acontecem devido aos terapeutas não
esclarecerem o paciente como funciona a terapia. Outros aspetos importantes são o facto de o
paciente não obter os benefícios esperados e o desgaste na relação terapeuta/paciente (Valle,
Viegas, Castro, Toledo Jr, 2000).
Samstag e colaboradores (1998) verificaram que tanto os pacientes que abandonaram o
tratamento psicoterapêutico como os que tiveram baixos resultados no final do tratamento
apresentavam uma aliança terapêutica problemática.
Pinheiro em 2001, refere que o seguimento ou não do tratamento, se relaciona mais
com o tipo de interação entre terapeuta-paciente do que com a técnica utilizada. As pesquisas
mostram que a qualidade da aliança entre terapeuta-paciente é um fator responsável pelo
sucesso de uma psicoterapia. Neste sentido, pacientes de difícil acesso mostram dificuldades
em estabelecer uma relação terapêutica, assim como, no tipo de vínculo que estabelecem.
Ceitlin e Cordioli (1988) salientam que o contrato terapêutico é essencial para uma
aliança terapêutica apropriada, assim como, para uma adesão ao tratamento psicológico.
Pinheiro (2001) relata que, nas primeiras sessões, a satisfação do cliente está mais
direcionada para a oportunidade de expressar a sua queixa do que para a possibilidade de se
sentir melhor, sendo mais importante para o terapeuta focar-se nesta atitude inicial antes de
começar com qualquer intervenção. A decisão de interromper o tratamento é complexa. Alguns
pacientes abandonam a terapia porque consideram sentir-se melhores, enquanto os seus
terapeutas discordam da interrupção.
Um estudo de Coutinho (2010) sobre o desenvolvimento da Aliança Terapêutica e
ruturas na relação terapêutica, revelou que a Aliança enfraqueceu imediatamente antes de o
28
cliente desistir da psicoterapia e verificou que Aliança Terapêutica não aumentou após a quinta
sessão, nos casos de Dropout.
Como referido anteriormente, em psicoterapia a dimensão da Aliança assume um papel
muito importante. Uma Aliança Terapêutica positiva gera resultados terapêuticos igualme nte
positivos (Horvath & Bedi, 2002; Horvath & Greenberg, 1994; Luborsky, 1994; Martin et
al.,2000; Tryon & Winograd, 2001). Do mesmo modo, uma aliança terapêutica fraca está
associada a resultados terapêuticos pobres, aumentando o risco de ocorrer Dropout (Botelha,
2008; Beckam, 1992; Reis & Brown, 1999; Horvath & Bedi, 2002; Melo & Guimarães, 2005).
A investigação mostra que uma Aliança Terapêutica pobre, trás a probabilidade de
ocorrer o desacordo face aos objetivos e às tarefas terapêuticas (Barrett, Chua, Crits-Christop h,
Gibbons & Thompson, 2008).
O Dropout pode acontecer quando o cliente sobrestima a capacidade do terapeuta para
o ajudar. Por exemplo, quando o cliente é confrontado com novos desafios ou tarefas
terapêuticas, ou seja, o cliente ao criar expectativas elevadas sobre o terapeuta e a terapia
discorda dos objetivos terapêuticos pré-estabelecidos. Deste modo, a Aliança tende a baixar,
podendo ocorrer o abandono do processo terapêutico (Safran & Muran, 2006).
Do mesmo modo, o cliente pode proceder à interrupção do processo por ter perceção da
sua própria melhoria (Chielli & Enéas, 2000;Ribeiro & Mesquita, 2009). O cliente ao vivenc iar
novas experiências positivas intrapessoais e interpessoais está a progredir no seu processo de
mudança, e pode entender que os objetivos terapêuticos já foram alcançados e abandonar o
processo sem comunicar previamente ao terapeuta, não o finalizando o processo como o
esperado (Ribeiro & Mesquita, 2009).

2.3. Resultados de estudos de compreensão

Trabalhos de Bueno e colaboradores em 2001 sobre diversas publicações de diferentes


origens, citam o índice de 25% a 50% referentes a pacientes que desistem do atendime nto,
havendo menor abandono na clínica privada do que nos serviços comunitários de saúde mental.
Em dois estudos brasileiros, o intervalo entre a avaliação, o diagnóstico e o tratamento,
dividido por volta dos 30 dias, mostrou uma associação direta seja com a desistência na fila de
espera, ou com o abandono do tratamento (Lhullier et al., 2006).
Walitzer, Dermen e Connors em 1999, numa análise de trabalhos sobre abandono
terapêutico compreendendo pesquisas realizadas nas décadas de 1970 a 1990, apontam que o

29
nível socioeconómico o nível educacional e o facto de pertencer a grupos minoritários são
fatores que permanecem constantemente associados ao abandono.
Issakidis e Andrews (2004) identificaram que fatores demográficos atuavam na
permanência do tratamento, porém em menor intensidade quando comparados com as
características clínicas dos pacientes.
Outros estudos de Chilelli e Enéas em 2000, apontam um índice elevado de pacientes
que não mencionam razões do abandono e outros que citaram a dificuldade financeira como um
fator responsável. Este estudo procurou, junto aos pacientes que haviam abandonado
tratamento, os motivos que os levaram a esta decisão, encontrando-se vários indivíduos que
relataram um sentimento de melhora, mas não expressaram desejo de retornar ao tratamento,
apontando, com isso, a necessidade de investigar mais detalhadamente outras variáve is
relevantes ao desfecho do abandono psicoterapêutico. Neste sentido, o paciente considera que
os objetivos foram alcançados, interrompendo a psicoterapia.
Estudos de Nichols e Pekarik em 1992, numa investigação que utilizou a avaliação de
176 pacientes e 22 terapeutas em relação à melhoria clínica do paciente, satisfação com a terapia
e presença de obstáculos para a continuidade do tratamento, apontam a satisfação com o
tratamento como o único fator associado à continuidade da psicoterapia. Isto é, quanto mais
insatisfeitos, independentemente do grau de melhoria percebido como resultado da terapia, o
cliente estivesse maiores eram as hipóteses de abandono.

O conhecimento sobre os diferentes preditores do abandono psicoterapêutico é


fundamental para a prática psicológica, permitindo identificar falhas no tratamento, auxilia ndo
desse a identificação de casos em risco de abandono e na prevenção de futuras desistências.
Os exemplos de pesquisas apresentadas dirigidas ao processo terapêutico permitira m
identificar diferentes situações terapêuticas, tanto nas sessões como nos tratamentos a longo
prazo, indicando que características do terapeuta, do paciente e da interação entre eles são
basicamente os fatores que distinguem os tratamentos eficientes.
O assunto do abandono precoce do processo psicoterapêutico constitui um importante
problema de saúde que requer uma atenção específica, no sentido da preparação do profissio na l
e do planeamento dos serviços de saúde em relação ao desenvolvimento de intervenções
voltadas para grupos vulneráveis.

30
O custo emocional, económico e social de abandonos psicoterapêuticos na área da saúde
mental é alto e pode ser reduzido, se forem promovidas ações nos serviços de acolhimento do
paciente.
Também, no treino profissional, é importante que o terapeuta esteja a par das
características dos processos terapêuticos associados ao maior abandono, a fim de que o
desenvolvimento da aliança terapêutica leve em conta as especificidades de cada caso.
Em suma, o abandono psicoterapêutico refere-se a situações de interrupção do processo
psicoterapêutico que estão associadas a diversos fatores, como por exemplo características do
paciente, do terapeuta, da técnica e do setting terapêutico. Foi possível identificar que este tema
constitui uma questão importante para a prática clínica, considerando as consequências
negativas da interrupção dos tratamentos na saúde mental, a nível pessoal, social e económico.

31
Parte II - Estudo Empírico

Capitulo III – Objetivos e método da investigação

3.1 – Objetivos

Os objetivos gerais do presente estudo são os seguintes:

(i) Caraterização sociodemográfica1 , institucional2 e clínica3 dos clientes que


recorreram ao serviço de consulta psicológica de adultos de uma clínica pedagógica de
psicologia no período compreendido entre setembro de 2015 e Julho de 2017;
(ii) Comparação entre os clientes que abandonaram precocemente o processo
psicoterapêutico (Dropout) e os que se encontram noutra situação (alta, acompanhamento e
encaminhamento) no que se refere:
a. Às variáveis sociodemográficas consideradas;
b. Às variáveis institucionais consideradas;
c. Às variáveis clínicas consideradas.

3.2 – Método

Este estudo é de natureza descritiva e inferencial, comtemplando de forma adequada os


objetivos atrás enunciados.
Os dados, todos eles de natureza quantitativa foram analisados através do programa
SPSS (Statistical Package for the Social Sciences), versão 23.

3.2.1 – Participantes

Os participantes do presente estudo foram selecionados através de uma amostragem não


probabilística, isto é, de conveniência (Pais-Ribeiro, 1999). Assim a amostra é de conveniênc ia,

1 Sexo, Idade, Estado civil, Zona de residência e Escolaridade.


2 Tempo de espera, Tipo de pagamento, Experiencia do terapeuta e Mudança de técnico.
3 Diagnóstico, Acompanhamento psicológico e psiquiátrico prévio, psicofármacoterapia, outros
problemas de saúde, sintomatologia psicopatológica, tempo total de intervenção, número de sessões e estado atual
do acompanhamento.

32
composta por 68 clientes (N=68) atendidos na consulta psicológica de adultos de uma clínica
pedagógica de psicologia no período compreendido entre setembro de 2015 e julho de 2017.

3.2.2– Material

A realização deste estudo foi apoiada em diversos materiais. Sendo o primeiro a


consulta de processos dos clientes adultos, as fichas de triagem, permitindo estas numa primeira
instancia elaborar a base de dados e, seguidamente, recolher informação e, por fim, o BSI (Brief
Symptom Inventory), que avalia a sintomatologia psicopatológica através de 53 itens que
refletem, importantes elementos da psicopatologia (Canavarro, 1999).
Por fim tem ainda 3 índices globais. Índice Geral de Sintomas (IGS): Que representa
uma pontuação combinada que pondera a intensidade do mal-estar experienciado com o número
de sintomas assinalados. O Índice de Sintomas Positivos (ISP): Que consiste na média da
intensidade de todos os sintomas que foram assinalados. E o Total de Sintomas Positivos (TSP):
Que representa o número de queixas sintomáticas apresentadas. Estes últimos são avaliações
sumárias de perturbação emocional.
Os resultados devem ser lidos à luz das médias normativas da população geral e da
população com perturbação emocional, tendo em conta que um Índice de Sintomas Positivos
igual ou superior a 1,7 é indicativo de existência de perturbação emocional (Derogatis, 1993).
O que permitiu de igual modo elaborar a base de dados.

3.2.3 – Procedimento

Inicialmente solicitou-se autorização para consultar e realizar uma análise documenta l


de todos os processos de indivíduos adultos inscritos numa clínica pedagógica de psicologia e
que a ela recorreram no período compreendido entre 2015/17. Dos processos faz parte o
consentimento informado dado pelos clientes para a utilização dos seus dados para fins de
investigação. A utilização destes dados obteve o parecer positivo da comissão de ética que
superintende esta clínica pedagógica.
Os dados recolhidos foram usados posteriormente para a elaboração de uma base de
dados no programa Statistical Package for Social Science (SPSS) versão 23, usado para o
tratamento dos mesmos.

33
Capítulo IV – Análise dos dados e interpretação dos resultados

4.1 – Caraterização sociodemográfica, institucional e clínica dos clientes que recorre ram
ao serviço de consulta psicológica de adultos de uma clínica pedagógica de psicologia

No período compreendido entre setembro de 2015 e julho de 2017 foram atendidos na


consulta psicológica de adultos de uma clínica pedagógica um total de 68 clientes (N=68).
Estes clientes, de agora em diante designados por participantes, irão ser caraterizados
por níveis de agrupamento de variáveis tendo-se em consideração a revisão da literatura
efetuada.

4.1.1. Variáveis sociodemográficas

No que se refere à caraterização sociodemográfica dos participantes, verifica-se, pela


análise da Tabela 1, que a maioria dos participantes são mulheres (66.2%; n=45), com idades
compreendidas entre os 18 e os 86 anos (M=40.3; DP=15.16), solteiros ou casados/em união
de facto (38.2%; n=26), e a residir em zona urbana (58.5%; n=38). No que se refere à
escolaridade, a maioria dos participantes tem pelo menos ensino secundário (83.6%; n=30+26).

Tabela 1

Caraterização sociodemográfica dos participantes

Frequência Percentagem
n válida
%
Feminino 45 66.2
Sexo
Masculino 23 33.8
[18-28[ 15 22.1
[28-38[ 13 19.1
Idade
[38-48[ 23 33.8
≥48 17 25.0
Solteiro 26 22.1
Casado/União de facto 26 19.1
Estado civil
Divorciado/Separado 12 33.8
Viúvo 4 25.0
Urbana 38 58.5
Área de
Sub-urbana 19 29.2
residência
Outras localidades 8 13.3
1º Ciclo 2 3.0
2º Ciclo 2 3.0
Escolaridade 3º Ciclo 7 10.4
Secundário 30 44.8
Superior 26 38.8
34
4.1.2- Variáveis institucionais

Quanto a caracterização institucional dos participantes e sendo esta uma clínica


pedagógica, verificasse que os participantes aguardaram em lista de espera uma média de 1.53
meses (DP=1.77) num minino de 0 meses e num máximo de 8 meses.
Tal como se pode observar pela análise da Tabela 2, a maioria dos participantes efetuou
o pagamento da taxa moderadora das consultas (61.8%; n=42), sendo no entanto de salientar
que 25.0% não regularizou este pagamento (n=17). Quanto à mudança de técnico, a maioria
(76.6%) manteve-se sempre com o mesmo profissional. No que se refere à experiência do
terapeuta a maioria dos participantes foi atendido por estagiários curriculares (73.5%).

Tabela 2

Caraterização institucional dos participantes

Frequência Percentagem
n válida
%
Isento 3 4.4
Tipo de Redução 6 8.8
pagamento Pagamento 42 61.8
Em divida 17 25.0
Estágio curricular 50 73.5
Experiência
Estagio profissional 2 2.9
do terapeuta
Psicólogo efetivo 16 23.5
Mudança de Sim 15 23.4
técnico Não 49 76.6

4.1.3 – Variáveis clínicas

Passando agora para o último agrupamento de variáveis – variáveis clínicas – verifica-


se quanto ao diagnóstico que a maioria dos participantes (54.4%; n=25+12) apresenta algum
tipo de perturbação psicopatológica e que 45.6% (n=31) não apresenta diagnóstico (Tabela 3).
Procurando fazer-se uma análise mais detalhada da variável diagnóstico verifica - se
junto daqueles que têm psicopatologia uma maior prevalência (40.5%) das perturbações
depressivas (Figura 1).

35
Tabela 3

Caraterização clínica dos participantes

Frequência Percentagem
n válida
%
Perturbações emocionais 25 36.8
Diagnóstico Comorbilidade 12 17.6
Sem diagnóstico 31 45.6
Acompanhamento Sim 22 33.3
psicológico prévio Não 44 66.7
Acompanhamento Sim 23 34.8
psiquiátrico prévio Não 43 65.2
Sim 32 48.5
Psicofarmacoterapia
Não 34 51.5
Outros problemas de Sim 26 38.8
saúde Não 41 61.2
Até 1 mês 18 29.5
Tempo total de 2 a 3 meses 13 21.3
intervenção 4 a 6 meses 11 18.0
Mais de 7 meses 19 31.1
1 sessão 13 21.3
2 a 6 sessões 13 21.3
Número de sessões
7 a 12 sessões 20 32.8
Mais de 13 sessões 15 24.6
Alta 9 13.2
Passagem de caso 10 14.7
Estado atual do
Encaminhamento 2 2.9
acompanhamento
Dropout 44 64.7
Em acompanhamento 3 4.4

25
Perturbações de ansiedade

20 Perturbações depressivas

Perturbações da personalidade
15
Pertubações psicóticas

10 Perturbações de traumas e fatores de


stress
Perturbações emocionais mais
5 Perturbações de personalidade
Perturbações de ansiedade mais
Perturbações depressivas
0

Figura 1. Análise descritiva da variável diagnóstico


36
Conforme se pode observar pela análise da Tabela 3, e no que se refere ao
acompanhamento prévio, verifica-se que a maioria não teve acompanhamento psicológico
(66.7%) nem psiquiátrico (65.2%) e que uma pequena maioria (51.5%) não faz farmacoterap ia.
Relativamente à existência de outros problemas de saúde 61.2% refere não ter problemas.
Quanto ao tempo total de intervenção 31.1% dos participantes (n=19) teve mais de 7
meses de acompanhamento e 29.5% (n=18) teve até um mês, havendo uma maior prevalênc ia
de participantes com 7 a 12 sessões (n=20) (Tabela 3). A maioria dos nossos participantes
abandonou precocemente o processo psicoterapêutico (64.7%; n=44).
Na medida em que algumas destas variáveis clínicas são intervalares, apresentamos de
seguida as medidas de tendência central (Tabela 4). O tempo de intervenção, que varia entre
um minino de 0 e um máximo de 29 meses apresenta uma média de 6.08 meses, o que significa
que os nossos participantes estiveram em média em acompanhamento cerca de 6 meses, tendo
tido em média 11 sessões (mínimo de 1 e máximo de 58).
No que se refere à sintomatologia psicopatológica, avaliada através do, Brief Symptom
Inventory (BSI) verifica-se que os nossos participantes parecem apresentar perturbação
emocional na medida em que apresentam um valor médio do índice de sintomas positivos
superior a 1.7 (Ponto de corte) (Tabela 4).

Tabela 4

Análise descritiva das variáveis clínicas – Tempo de intervenção, número de sessões e


sintomatologia psicopatológica

n M DP
Tempo de intervenção 61 6.08 6.65

Número de sessões 61 11.23 12.67


Sintomatologia IGS 1.50 .76
psicopatológica (BSI) ISP 60 2.07 .58
TSP 36.30 12.11
Nota. BSI (Brief Symptom Inventory); IGS (Índice geral de sintomas); ISP (Índice de sintomas positivos); TSP
(Total de sintomas positivos)

37
4.2. Comparação entre os clientes que abandonaram precocemente o processo
psicoterapêutico (Dropout) e os que se encontram noutra situação (alta, acompanhame nto
e encaminhamento) no que se refere às variáveis sociodemográficas, institucionais e
clínicas

Porque o tema central do nosso trabalho é o de compreender melhor o perfil daqueles


que abandonam precocemente o processo psicoterapêutico, começámos por analisar
descritivamente estes participantes de um ponto de vista sociodemográfico, institucional e
clínico para depois os compararmos com os que se encontram noutra situação. Por uma questão
de organização do trabalho, as variáveis irão novamente ser apresentadas de forma agrupada.

4.2.1 Variáveis sociodemográficas

A análise da tabulação cruzada entre a nossa variável independente – estado do


acompanhamento – e a variável dependente – sexo – permite-nos constatar que 60.0% das
mulheres (n=27) e 73.9% dos homens (n=17) abandonaram precocemente o processo
psicoterapêutico. Numa análise mais criteriosa destes dados verifica-se, no entanto, que o perfil
dos participantes que abandonam precocemente o processo psicoterapêutico não difere dos que
se encontram noutra situação (alta, acompanhamento, encaminhamento), na medida em que em
ambas as categorias existe uma prevalência de mulheres (61.4% e 75.0%, respetivame nte)
(Tabela 5). Os baixos valores dos resíduos ajustados na forma estandardizada (situados entre -
2 e 2), apontam para uma relação de independência entre as variáveis estado do
acompanhamento e sexo.

Tabela 5

Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o processo


psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função do sexo

Dropout Outra situação


n 27 18
Valor esperado 29.1 15.9
Feminino
% Em coluna 61.4 75.0
Resíduos ajustados -1.1 1.1
Sexo n
17 6
Valor esperado
14.9 8.1
Masculino % Em coluna
38.6 25.0
Resíduos ajustados
1.1 -1.1

38
No entanto, e como forma de se confirmar se a diferença entre os valores observados e
os esperados é considerada significativamente diferente no universo ou, se pelo contrário, não
é significativa e resulta de erros amostrais, procedeu-se à realização do teste do Qui-Quadrado,
que permite afirmar que a relação observada entre estado do acompanhamento e sexo não é
estatisticamente significativa no universo em análise (X2 =1.29; p=.26).
Posto isto, e atendendo ao facto de que não existe uma relação de dependência entre
estado do acompanhamento e sexo, optou-se por não se prosseguir para a análise do grau de
associação existente entre ambas as variáveis.

Quanto à variável idade, e procurando fazer-se a caraterização do perfil dos


participantes que abandonam precocemente o processo psicoterapêutico, verifica-se a maioria
tem idades compreendidas entre os 18 e os 28 anos (29.5%; n=13) e os 38 e os 48 anos de idade
(29.5%; n=13) (Tabela 6). Uma vez mais, não se observa uma tendência sustentada da “situação
de acompanhamento” com a “idade”, não havendo resíduos ajustados que se afastem de -2 e 2,
não sendo portanto expectável encontrarem-se diferenças.

Tabela 6

Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o processo


psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função da idade

Dropout Outra situação


n 13 2
Valor esperado 9.7 5.3
[18-28[
% em coluna 29.5 8.3
Resíduos ajustados 1.1 -1.4
n 8 5
Valor esperado 8.4 4.6
[28-38[
% em coluna 18.2 20.8
Resíduos ajustados -.3 .3
Idade
n 13 10
Valor esperado 14.9 8.1
[38-48[
% em coluna 29.5 33.8
Resíduos ajustados -1.0 1.0
n 10 7
Valor esperado 11.0 6.0
≥48
% em coluna 22.7 25.0
Resíduos ajustados -.6 .6

39
No entanto, e com o objetivo de estudarmos as diferenças entre as distribuições dos
escalões etários nos grupos “dropout” e “outra situação”, optámos pela utilização do teste não
paramétrico U de Mann-Whitney, cujo nível de significância (p=.116) nos permite afirmar que
a distribuição da idade é a mesma entre as categorias da situação de acompanhamento.
Se optarmos pela utilização da variável idade na sua forma intervalar, verifica-se que
aqueles que abandonam precocemente o processo psicoterapêutico têm uma média de idades
inferior àqueles que se encontram noutra situação [(M=37.5; DP=14.37); (M=45.3; DP=15.56),
respetivamente], sendo estas diferenças estatisticamente significativas (t=-2.08; gl=66; p=.042).

No que se refere à variável estado civil, e como se pode observar pela análise da Tabela
7, o perfil dos participantes que abandonam precocemente o processo psicoterapêutico difere
dos que se encontram noutra situação (alta, acompanhamento, encaminhamento), na medida
em que a maioria dos que fazem, dropout são solteiros (45.5%) e dos que se encontram noutra
situação são maioritariamente casados (54.2%).

Tabela 7

Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o processo


psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função do estado civil

Outra
Dropout
situação
n 20 6
Valor esperado 16.8 9,2
% Em coluna 45.5 25.0
Solteiro
Resíduos ajustados 1.7 -1.7

n 13 13
Valor esperado 16.8 9.2
Casado/União de facto % Em coluna 25.9 54.2
Resíduos ajustados -2.0 -2.0
Estado civil
n 10 2
Valor esperado 7.8 4.2
Divorciado/separado % Em coluna 22.7 8.3
Resíduos ajustados .8 -1.5

n 1 3
Valor esperado 2.6 1.4
Viúvo % Em coluna 2.3 12.5
Resíduos ajustados -1.7 1.7

40
Na medida em que existem 3 células (37.5% de 8) com frequências esperadas inferior es
a cinco, duas delas referentes aos participantes viúvos e uma delas aos participantes
divorciados/separados, a interpretação da relação entre estado do acompanhamento e estado
civil deve ser lida com algum cuidado.
Assim sendo, e apesar do nível de significância do teste do Qui-Quadrado, que neste
caso indica uma relação de dependência (p=.033), a análise dos resíduos padronizados permite
verificar que a contribuição destas 3 categorias (viúvo x dropout, viúvo x outra situação e
divorciado/separado x outra situação) (3.79) é apenas ligeiramente inferior à contribuição das
outras 5 categorias (4.956) para a medida global do X2 (8.746), o que não nos permite concluir
acerca de uma relação de dependência entre as variáveis estado do acompanhamento e estado
civil.

Relativamente à variável zona de residência, a maioria dos participantes vive em zonas


urbanas (61.9% daqueles que abandonam precocemente o processo psicoterapêutico; e 52.2%
dos que se encontram noutra situação). Como se pode observar pela análise da Tabela 8, o perfil
dos que fazem dropout não se distingue dos que se encontram noutra situação.

Tabela 8

Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o processo


psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função da zona de residência

Outra
Dropout
situação
n 26 12
Valor esperado 24.6 13.4
Urbana
% Em coluna 61.9 52.2
Resíduos ajustados .8 -.8
n 13 6
Zona de Valor esperado 12.3 6.7
Sub-urbana
residência % Em coluna 31.0 26.1
Resíduos ajustados .4 -.4
n 3 5
Valor esperado 5.2 2.8
Outras localidades % Em coluna 7.1 21.7
Resíduos ajustados -1.7 1.7

41
Estando cientes de que existe uma categoria (outra situação x outras localidades) com
um valor esperado inferior a 5, avançamos para a análise inferencial através do teste do Qui-
Quadrado que nos permite concluir não existir dependência entre as variáveis em estudo
(X2 =2.934; p=.231).

Por último, e no que diz respeito à variável escolaridade, e mais uma vez, procurando
fazer-se a caraterização do perfil dos participantes que abandonam precocemente o processo
psicoterapêutico, verifica-se que a maioria dos participantes tem habilitações literárias ao nível
do ensino secundário (39.5%) e superior (39.5%); os que se encontram noutra situação
apresentam maioritariamente escolaridade ao nível do ensino secundário (54.2%) (Tabela 9).
Não obstante, não sendo expectável existirem relações de dependência entre estas
variáveis, na medida em que não há resíduos ajustados que se afastem de -2 e 2 (Tabela 9),
optámos ainda assim pela realização do teste U de Mann-Whitney que apresenta como decisão
reter a hipótese nula, segundo a qual a distribuição da escolaridade é a mesma entre as categorias
da situação de acompanhamento.

Tabela 9

Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o processo


psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função da escolaridade

Dropout Outra situação


n 9 2
Valor esperado 7.1 3.9
Até ao 3º ciclo
% em coluna 20.9 8.3
Resíduos ajustados 1.3 -1.3
n 17 13
Valor esperado 19.3 10.7
Escolaridade Secundário
% em coluna 39.5 54.2
Resíduos ajustados -1.2 1.2
n 17 9
Valor esperado 16.7 9.3
Superior
% em coluna 39.5 37.5
Resíduos ajustados .2 -.2

Neste momento, e procurando fazer-se uma síntese da análise comparada entre os


participantes que abandonam precocemente o processo psicoterapêutico e os que se encontram
noutra situação (alta, passagem de caso e encaminhamento) em função das variáve is
sociodemográficas (sexo, idade, estado civil, zona de residência e escolaridade), verifica mos
42
que os perfis destes participantes não se distinguem entre si, com exceção da variável idade,
para a qual se encontra uma média de idades significativamente inferior junto daqueles que
fizeram dropout.
Ainda assim, e na tentativa de procurarmos traçar o perfil dos clientes adultos que
abandonaram precocemente o processo psicoterapêutico, apresentamos os seguintes dados:

Tabela 10

Perfil dos participantes que fizeram dropout em função das variáveis sociodemográficas

Sexo 61.4% Mulheres


29.5% [18-28[;29.5% [38-48[
Idade
M=37.5*
Estado civil 45.5% Solteiros
Zona de residência 61.9% Zona urbana

Escolaridade 39.5% Secundário; 39.5% superior


* Diferenças significativas

4.2.2. Variáveis institucionais

A análise da variável tempo de espera em meses permite-nos afirmar que aqueles que
fizeram dropout esperaram em média 1.6 meses e que aqueles que se encontravam noutra
situação aguardaram em média 1.5 meses, não sendo estas diferenças estatisticame nte
significativas, pelo que podemos afirmar que os grupos não se distinguem quanto ao tempo de
espera (Tabela 11).

Tabela 11

Análise descritiva e inferencial dos participantes que abandonam precocemente o


processo psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função do tempo de
espera

Estado do Acompanhamento
Dropout Outra situação
(n=44) (n=24)
M DP M DP t gl p
Tempo de
Espera 1.57 1.82 1.46 1.69 .242 66 .81
(Meses)

43
Relativamente à variável tipo de pagamento, o perfil dos participantes que abandonam
precocemente o processo psicoterapêutico não difere dos que se encontram noutra situação
(alta, acompanhamento, encaminhamento), na medida em que a maioria dos que fazem dropout
têm a sua situação administrativa regularizada (47.7%) e os que se encontram noutra situação
também (87.5%). Nos que abandonam precocemente o processo psicoterapêutico existe uma
menor frequência de participantes que se encontram isentos (6.8%) e que usufruem de redução
(6.8%); nos participantes que se encontram noutra situação não existem participantes em
situação de isenção nem em situação de divida (0%) (Tabela 12).
Ainda pela análise da Tabela 12, é possível verificar que, no que se refere ao estado do
acompanhamento (dropout vs outra situação), o perfil dos participantes com pagamento (47.7%
vs 87.5%) e com divida (38.6% vs 0.0%) ultrapassam os restantes (6.8% vs 0.0% isentos e os
6.8% vs 12.5% com redução).
Na medida em que existem 4 células (50% de 8) com frequências esperadas inferior es
a cinco, duas delas referentes a participantes que fizeram dropout (isenção e redução do
pagamento) e as outras duas a participantes que se encontram noutras situações (isenção e
redução do pagamento), a interpretação da relação entre estado do acompanhamento e tipo de
pagamento das consultas deve ser lida com algum cuidado.

Tabela 12

Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o processo


psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função da variável tipo de
pagamento

Dropout Outra situação


n 3 0
Valor esperado 1.9 1.1
Isento
% em coluna 6.8 0.0
Resíduos ajustados 1.3 -1.3
n 3 3
Valor esperado 3.9 2.1
Redução
% em coluna 6.8 12.5
Tipo de Resíduos ajustados -8 .8
pagamento n 21 21
Valor esperado 27.2 14.8
Com pagamento
% em coluna 47.7 87.5
Resíduos ajustados -3.2 3.2
n 17 0
Valor esperado 11.0 6.0
Com divida
% em coluna 38.6 0.0
Resíduos ajustados 3.5 -3.5

44
O nível de significância do teste do Qui-Quadrado indica uma relação de dependência
(p=.001), sendo que se verifica que a contribuição destas 4 categorias (isenção x dropout;
redução x dropout; isenção x outra situação; redução x outra situação) (2.16) é muito inferior à
contribuição das outras 4 categorias (13.295) para a medida global do X2 (15.455), o que nos
permite afirmar que a interpretação da relação de dependência entre situação de
acompanhamento e tipo de pagamento não é enganadora.
Não obstante, e dado que as categorias com frequências esperadas inferiores a cinco
(isenção x dropout; redução x dropout; isenção x outra situação; redução x outra situação) têm
apenas 9 observações, optámos por as eliminar da análise, sem alterar o resultado do teste. Desta
forma, as interpretações que se seguem respeitam apenas às categorias com “pagamento de
consulta” e com “dívida”.

Tabela 13

Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o processo


psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função da variável tipo de
pagamento (com pagamento/com divida)

Dropout Outra situação


n 21 21
Valor esperado 27.1 14.9
Com pagamento
% em coluna 53.3 100.0
Tipo de Resíduos ajustados -3.6 3.6
pagamento n 17 0
Valor esperado 10.9 6.1
Com divida
% em coluna 44.7 0.0
Resíduos ajustados 3.6 -3.6

A análise da Tabela 13 permite-nos concluir que a maioria dos participantes (53.3%)


que fizeram dropout efetuou o pagamento das consultas, mas uma percentagem ainda
significativa deles encontra-se em divida (44.7%). Dentro daqueles que estão noutra situação a
totalidade efetuou o pagamento (100.0%).
Neste caso, e como o nível de significância do teste Qui-Quadrado é.000, rejeita-se a
hipótese das variáveis serem independentes (.X2 =13.197).
Entre os nossos participantes parece, assim, haver relação entre o pagamento da consulta
e a situação de acompanhamento. O perfil daqueles que estão em situação de dívida parece ser
o do abandono precoce do processo psicoterapêutico (100%). Relativamente àqueles que
pagam, observa-se igual frequência (50%) entre os que fazem dropout e os que se encontram
noutra situação (alta, acompanhamento, encaminhamento).
45
Tabela 14

Medidas de associação entre as variáveis estado do acompanhamento e tipo de pagamento


(com pagamento/com divida)

Valor p
Fi -.473 .000
Variável tipo de
V de cramer .473 .000
pagamento
Coeficiente de
contingência .428 .000

Avançando, assim, para as medidas de associação baseadas no teste do Qui-Quadrado,


verifica-se a existência de uma associação forte e significativa (p=.000) entre as variáve is
(Tabela 15). Sabendo que um cliente está em situação de dívida torna-se muito provável que
abandone precocemente o processo psicoterapêutico.

Relativamente à variável experiência do terapeuta, o perfil dos participantes que


abandonam precocemente o processo psicoterapêutico não difere dos que se encontram noutra
situação (alta, acompanhamento, encaminhamento), na medida em que a maioria dos que
fizeram dropout (70.5%) e dos que se encontram noutra situação (79.2%) estiveram em
acompanhamento com estagiários curriculares. Em ambos os grupos, existe uma menor
frequência de participantes que estiveram em acompanhamento com psicólogos em estágio
profissional (2.3% dos que fizeram dropout e 4.2% dos que se encontram noutra situação)
(Tabela 15).

Tabela 15

Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o processo


psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função da variável
experiência do terapeuta

Dropout Outra situação


n 31 19
Estágio Valor esperado 32.4 17.6
curricular % em coluna 70.5 79.2
Resíduos ajustados -.8 .8
n 1 1
Experiência Estágio Valor esperado 1.3 .7
do terapeuta profissional % em coluna 2.3 4.2
Resíduos ajustados -.4 .4
n 12 4
Psicólogo da Valor esperado 10.4 5.6
ordem % em coluna 27.3 16.7
Resíduos ajustados 1.0 -1.0
46
Uma vez mais, e como forma de se confirmar se a diferença entre os valores observados
e os esperados é considerada significativamente diferente no universo ou, se pelo contrário, não
é significativa e resulta de erros amostrais, procedeu-se à realização do teste do Qui-Quadrado,
que permite afirmar que a relação observada entre estado do acompanhamento e experiência do
terapeuta não é estatisticamente significativa no universo em análise (X2 =1.092; p=.58).

A análise da tabulação cruzada entre a nossa variável independente – estado do


acompanhamento – e a variável dependente – mudança de técnico – (Tabela 16) permite- nos
constatar que 81.0% dos participantes (n=34) que abandonaram precocemente o processo
psicoterapêutico não tiveram mudança de técnico. Numa análise mais criteriosa destes dados
verifica-se, no entanto, que o perfil dos participantes que abandonam precocemente o processo
psicoterapêutico não difere dos que se encontram noutra situação (alta, acompanhame nto,
encaminhamento), na medida em que neste último grupo existe também uma maior prevalênc ia
de participantes que não tiveram mudança de técnico (68.2%).
Os baixos valores dos resíduos ajustados na forma estandardizada (situados entre -2 e
2) apontam para uma relação de independência entre as variáveis estado do acompanhame nto
e mudança de técnico.

Tabela 16

Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o processo


psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função da variável mudança
de técnico

Dropout Outra situação


n 8 7
Valor esperado 9.8 5.2
Sim
% em coluna 19.0 31.8
Mudança de Resíduos ajustados -1.1 1.1
técnico n 34 15
Valor esperado 32.2 16.8
Não
% em coluna 81.0 68.2
Resíduos ajustados 1.1 -1.1

No entanto, e como forma de se confirmar se a diferença entre os valores observados e


os esperados é considerada significativamente diferente, procedeu-se à realização do teste do
Qui-Quadrado, que permite afirmar que a relação observada entre estado do acompanhame nto
e mudança de técnico não é estatisticamente significativa (X2 =1.31; p=.25). Posto isto, e
47
atendendo ao facto de que não existe uma relação de dependência entre estado do
acompanhamento e mudança de técnico, optou-se por não se prosseguir para a análise do grau
de associação existente entre ambas as variáveis.

Apresentadas as variáveis institucionais e mais uma vez, procurando fazer uma síntese
da análise comparada entre os participantes que abandonam precocemente o processo
psicoterapêutico e os que se encontram noutra situação (alta, acompanhamento e
encaminhamento) em função das variáveis institucionais (tempo de espera, tipo de pagamento,
experiencia do terapeuta e mudança de técnico), verificamos que os perfis destes participantes
não se distinguem entre si, com exceção da variável tipo de pagamento, para a qual se encontra
uma forte associação entre o tipo de pagamento com dívida junto daqueles que fizeram dropout.
Ainda assim, e na tentativa de procurar traçar o perfil dos clientes adultos que
abandonaram precocemente o processo psicoterapêutico, apresentamos os seguintes dados:

Tabela 17

Perfil dos participantes que fizeram dropout em função das variáveis institucionais

Tempo de espera M=1.6


Tipo de pagamento 100% Com dívida
Experiência do terapeuta 70.5% Estagiários curriculares
Mudança de técnico 81.0% Não tiveram mudança de técnico

4.2.3. Variáveis clínicas

No que diz respeito à variável diagnóstico, o perfil dos participantes que abandonam
precocemente o processo psicoterapêutico difere dos que se encontram noutra situação (alta,
acompanhamento e encaminhamento), na medida em que a maioria dos que fizeram dropout
(54.5%) não apresentavam diagnóstico e os que se encontram noutra situação (37.5%)
perturbações emocionais. (Tabela 18)
Nos que abandonam precocemente o processo psicoterapêutico existe uma menor
frequência de participantes que apresentavam outro tipo de perturbação (9.1%) e com
perturbações emocionais (36.4%); nos participantes que se encontram noutra situação existe
uma menor frequência em participantes que não apresentavam diagnóstico (29.2%) e em
participantes com perturbações emocionais (37.5%).
48
No que se refere ao estado do acompanhamento (dropout vs outra situação), o perfil dos
participantes que não apresentavam diagnóstico (54.5% vs 29.2%) ultrapassam os restantes
(36.4% vs 37.5% que apresentavam perturbações emocionais e os (9.1% vs 33.3%) que
apresentavam outro tipo de perturbação.

Tabela 18

Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o processo


psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função da variável
diagnóstico

Dropout Outra situação


n 16 9
Perturbações Valor esperado 16.2 8.8
emocionais % em coluna 36.4 37.5
Resíduos ajustados -.1 .1
n 24 7
Valor esperado 20.1 10.9
Diagnóstico Sem diagnóstico
% em coluna 54.5 29.2
Resíduos ajustados 2.0 -2.0
n 4 8
Valor esperado 7.8 4.2
Outros
% em coluna 9.1 33.3
Resíduos ajustados -2.5 2.5

Na medida em que existe 1 célula (16.7% de 6) com frequência esperada inferior a cinco
(outra situação x outro diagnóstico), a interpretação da relação entre as variáveis estado de
acompanhamento e diagnóstico deve ser lida com algum cuidado.
Assim sendo, e apesar do nível de significância do teste do Qui-Quadrado, que neste
caso indica uma relação de dependência (p=.025), a análise dos resíduos padronizados permite
verificar que a contribuição da categoria outra situação x outro diagnóstico (3.24) é apenas
ligeiramente inferior à contribuição das outras 5 categorias (4.131) para a medida global do X2
(7.371), o que não nos permite concluir acerca de uma relação de dependência entre as variáve is
estado de acompanhamento e diagnóstico.

A análise da tabulação cruzada entre a nossa variável independente – estado do


acompanhamento – e a variável dependente – acompanhamento psicológico prévio –
(Tabela 19) permite-nos constatar que 70.5% dos participantes (n=31) que abandonaram
precocemente o processo psicoterapêutico não tiveram acompanhamento psicológico prévio.

49
Numa análise mais criteriosa destes dados verifica-se, no entanto, que o perfil dos
participantes que abandonam precocemente o processo psicoterapêutico não difere dos que se
encontram noutra situação (alta, acompanhamento e encaminhamento), na medida em que
existe uma maior prevalência de participantes que não tiveram acompanhamento psicológico
prévio (70.5%) na categoria abandono precoce do processo psicoterapêutico e na categoria
outra situação (59.1%).

Tabela 19

Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o processo


psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função da variável
acompanhame nto psicológico prévio

Dropout Outra situação


n 13 9
Valor esperado 14.7 7,3
Sim
% em coluna 29.5 40.9
Acompanhamento
Resíduos ajustados -.9 .9
psicológico
n 31 13
prévio
Valor esperado 29.3 14.7
Não
% em coluna 70.5 59.1
Resíduos ajustados .9 -.9

No entanto, e como forma de se confirmar se a diferença entre os valores observados e


os esperados é considerada significativamente diferente no universo ou, se pelo contrário, não
é significativa e resulta de erros amostrais, procedeu-se à realização do teste do Qui-Quadrado,
que permite afirmar que a relação observada entre estado do acompanhamento e
acompanhamento psicológico prévio não é estatisticamente significativa no universo em análise
(X2 =.852; p=.36).
Posto isto, e atendendo ao facto de que não existe uma relação de dependência entre
estado do acompanhamento e acompanhamento psicológico prévio, optou-se por não se
prosseguir para a análise do grau de associação existente entre ambas as variáveis.

Relativamente à análise da tabulação cruzada entre a variável independente – estado do


acompanhamento – e a variável dependente – acompanhamento psiquiátrico prévio – foi
possível constatar que 61.4% dos participantes (n=17) que abandonaram precocemente o
processo psicoterapêutico não tiveram acompanhamento psiquiátrico prévio. No entanto,
verifica-se que o perfil dos participantes que abandonam precocemente o processo
50
psicoterapêutico não difere dos que se encontram noutra situação (alta, acompanhamento e
encaminhamento) (Tabela 20).
Os baixos valores dos resíduos ajustados na forma estandardizada (situados entre -2 e
2), parecem apontar para uma relação de independência entre as variáveis estado do
acompanhamento e acompanhamento psiquiátrico prévio. Ainda assim, e como forma de se
confirmar se a diferença é significativamente diferente no universo, ou se pelo contrário é
significativa e resulta de erros amostrais, procedeu-se à realização do teste do Qui-Quadrado,
que permite afirmar que a relação observada entre estado do acompanhamento e
acompanhamento psiquiátrico prévio não é estatisticamente significativa no universo em
análise (X2 =.834; p=.36).

Tabela 20

Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o processo


psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função da variável
acompanhame nto psiquiátrico prévio

Dropout Outra situação


n 17 6
Valor esperado 15.3 7.7
Sim
% em coluna 38.6 27.3
Acompanhamento
Resíduos ajustados .9 -.9
psiquiátrico
prévio n 27 16
Valor esperado 28.7 14.3
Não
% em coluna 61.4 72.7
Resíduos ajustados -.9 .9

Atendendo ao facto de que não existe uma relação de dependência entre estado do
acompanhamento e acompanhamento psiquiátrico prévio, optou-se por não se prosseguir para
a análise do grau de associação existente entre ambas as variáveis.

Ao analisar a tabulação cruzada entre a variável independente – estado do


acompanhamento – e a variável dependente – psicofármacoterapia – foi possível verificar
que 55.8% dos participantes (n=24) que abandonaram precocemente o processo
psicoterapêutico não fazem psicofármacoterapia. Quanto a esta variável (toma de
psicofármacos), o perfil dos participantes que abandonam precocemente o processo
psicoterapêutico difere dos que se encontram noutra situação (alta, acompanhamento e
encaminhamento).
51
Apesar dos baixos valores dos resíduos ajustados na forma estandardizada (situados
entre -2 e 2), apontarem para uma relação de independência entre as variáveis estado do
acompanhamento e psicofármacoterapia, procedeu-se à realização do teste do Qui-Quadrado,
que permite afirmar que a relação observada entre estado do acompanhamento e
psicofármacoterapia não é estatisticamente significativa no universo em análise (X2 =.913;
p=.34). Uma vez mais, e dado que não parece existir uma relação de dependência entre estado
do acompanhamento e a psicofármacoterapia, optou-se por não se prosseguir para a análise do
grau de associação existente entre ambas as variáveis.

Tabela 21

Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o processo


psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função da variável
psicofármacoterapia

Dropout Outra situação


n 19 13
Valor esperado 20.8 11.2
Sim
% em coluna 44.2 56.5
Resíduos ajustados -1.0 1.0
Psicofármacoterapia
n 24 10
Valor esperado 22.2 11.8
Não
% em coluna 55.8 43.5
Resíduos ajustados 1.0 -1.0

Quanto à existência de problemas de saúde verifica-se, pela análise da Tabela 22, que
a maioria dos participantes que abandonaram precocemente o processo psicoterapêutico
(72.7%; n=32) não apresentam problemas de saúde; ao contrário, junto daqueles que se
encontram noutra situação, a maioria (60.9%; n=14) apresenta outros problemas de saúde.
De modo a confirmar se a diferença entre os valores observados e os esperados é
significativamente diferente no universo ou, se pelo contrário, não é significativa e resulta de
erros amostrais, procedeu-se à realização do teste do Qui-Quadrado, que permite afirmar que,
neste caso, a relação observada nos nossos participantes entre estado do acompanhamento e
problemas de saúde é estatisticamente significativa (X2 =7.18; p=.007).

52
Tabela 22

Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o processo


psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função da variável problemas
de saúde

Dropout Outra situação


n 12 14
Valor esperado 17.1 8.9
Sim
% em coluna 27.3 60.9
Resíduos ajustados -2.7 2.7
Problemas de saúde
n 32 9
Valor esperado 26.9 14.1
Não
% em coluna 72.7 39.1
Resíduos ajustados 2.7 -2.7

Posto isto, e atendendo a que existe uma relação de dependência entre estado do
acompanhamento e problemas de saúde, optámos por analisar o grau de associação existente
entre as variáveis, tendo-se optado pelas medidas de associação baseadas nas estatísticas do
Qui-Quadrado (Tabela 23), que nos permite concluir existir uma associação significativa, ainda
que fraca, entre as variáveis estado do acompanhamento e problemas de saúde.

Tabela 23
Medidas de associação da variável estado do acompanhamento e a variável problemas de
saúde
Valor p
Fi -.327 .007
Variável problemas
V de cramer .327 .007
de saúde
Coeficiente de
contingência .311 .007

Neste sentido, podemos afirmar que os participantes que abandonam precocemente o


processo psicoterapêutico são mais frequentemente aqueles que não apresentam outros
problemas de saúde (72.7%). Perante a existência de outros problemas de saúde, a posição dos
participantes em relação ao estado do acompanhamento é a de outra situação (alta,
acompanhamento ou encaminhamento) (60.9%).

A análise da variável sintomatologia psicopatológica, permite-nos afirmar que


aqueles que fizeram dropout apresentam valores médios do Índice Geral de Sintomas (IGS) e
do Índice de Sintomas Positivos (ISP) mais baixos do que aqueles que se encontram noutra
situação. Paradoxalmente, estes últimos (alta, acompanhamento e encaminhame nto)

53
apresentam um valor médio superior do Total de Sintomas Positivos (TSP). No entanto,
verifica-se tal como se pode observar pela análise da Tabela 24, que estas diferenças de média
não são estatisticamente significativas.

Tabela 24

Análise descritiva e inferencial dos participantes que abandonam precocemente o


processo psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função da
sintomatologia psicopatológica

Estado do Acompanhamento
Dropout Outra situação
(n=39) (n=21)
M DP M DP T gl p

IGS 1.478 .769 1.543 .764 -,312 41,279 ,757

ISP 1.991 .606 2.203 .513 -1,433 47,292 ,159

TSP 36.77 11.93 35.43 12.679 ,399 38,950 ,692

Nota.
IGS - Índice Geral de Sintomas; ISP - Índice de Sintomas Positivos; TSP - Total de Sintomas Positivos

Quanto à variável tempo de intervenção verifica-se que o perfil dos participantes que
abandonam precocemente o processo psicoterapêutico difere dos que se encontram noutra
situação (alta, acompanhamento e encaminhamento), na medida em que a maioria dos que
fizeram dropout (39.0%) estiveram em acompanhamento até um mês e os que se encontram
noutra situação (45.0%) estiveram mais de 7 meses em acompanhamento. Nos que abandonam
precocemente o processo psicoterapêutico existe uma menor frequência de participantes que
estiveram em acompanhamento de 4 a 6 meses (17.1%); nos participantes que se encontram
noutra situação existe uma menor frequência em participantes que estiveram em
acompanhamento até 1 mês (10.0%) (Tabela 25).

54
Tabela 25

Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o processo


psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função da variável tempo de
intervenção

Dropout Outra situação


n 16 2
Até 1 Valor esperado 12.1 5.9
mês % em coluna 39.0 10.0
Resíduos ajustados 2.3 -2.3
n 8 5
2a3 Valor esperado 8.7 4.3
meses % em coluna 19.5 25.0
Tempo de
Resíduos ajustados -.5 .5
intervenção
n 7 4
4a6 Valor esperado 7.4 3.6
meses % em coluna 17.1 20.0
Resíduos ajustados -.3 .3
n 10 9
Mais
Valor esperado 12.8 6.2
de 7
% em coluna 24.4 45.0
meses
Resíduos ajustados -1.6 1.6

Com o objetivo de estudarmos as diferenças entre as distribuições de tempo nos grupos


“dropout” e “outra situação”, optámos pela utilização do teste não paramétrico U de Mann-
Whitney, cujo nível de significância (p=.026) nos permite afirmar que a distribuição do tempo
de intervenção não é a mesma entre as categorias da situação de acompanhamento. Não
obstante, estes dados devem ser lidos com algum cuidado, dado que existem 2 categorias (outra
situação x 2 a 3 meses; outra situação x 4 a 6 meses) com um valor esperado inferior a 5 (25%
de 8).
Neste sentido, optámos pela utilização da variável tempo de intervenção na sua forma
intervalar que nos permite verificar que aqueles que abandonam precocemente o processo
psicoterapêutico têm em média menos tempo de intervenção (M=4.49; DP=4.680) do que os
participantes que se encontram noutra situação (M=9.35; DP=8.762), sendo estas diferenças
estatisticamente significativas (t=-2.834; gl=59; p=.006).

Por último, e no que se refere à variável número de sessões verifica-se que o perfil dos
participantes que abandonam precocemente o processo psicoterapêutico difere dos que se
encontram noutra situação (alta, em acompanhamento ou encaminhamento), na medida em que

55
a maioria dos que fizeram dropout (31.7%) tiveram uma sessão ou entre 7 a 12 sessões (31.7%)
e os que se encontram noutra situação (40.0%) tiveram mais de 13 sessões. Nos que abandonam
precocemente o processo psicoterapêutico existe uma menor frequência de participantes que
tiveram mais de 13 sessões (17.1%), e nos que se encontram noutra situação não existem
participantes (0.0%) a ter apenas uma sessão (Tabela 26).

Tabela 26

Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o processo


psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função da variável núme ro
de sessões

Dropout Outra situação


n 13 0
Valor esperado 8.7 4.3
1 Sessão
% em coluna 31.7 0.0
Resíduos ajustados 2.8 -2.8
n 8 5
2a6 Valor esperado 8.7 4.3
sessões % em coluna 19.5 25.0
Número Resíduos ajustados -,5 .5
de sessões n 13 7
7 a 12 Valor esperado 13.4 6.6
sessões % em coluna 31.7 35.0
Resíduos ajustados -.3 .3
n 7 8
Mais de 13 Valor esperado 10.1 4.9
sessões % em coluna 17.1 40.0
Resíduos ajustados -2.0 2.0

Com o objetivo de estudarmos as diferenças entre as distribuições de sessões nos grupos


“dropout” e “outra situação”, optámos pela utilização do teste não paramétrico U de Mann-
Whitney, cujo nível de significância (p=.008) nos permite afirmar que a distribuição número de
sessões não parece ser a mesma entre as categorias da situação de acompanhamento. No
entanto, e uma vez mais, estes dados devem ser lidos com cuidado, na medida em que existem
3 categorias com um valor esperado inferior a 5 (37.5% de 8).
Optámos assim pela utilização da variável número de sessões na sua forma interva la r,
tendo-se verificado que aqueles que fazem dropout têm em média menos sessões do que aqueles
que se encontra noutra situação [(M=7.49; DP=7.29); (M=18.90; DP=17.40), respetivamente],
sendo estas diferenças estatisticamente significativas (t=-3.620; gl=59; p=.001).

56
Por fim, e apresentadas as variáveis clínicas, procuramos fazer mais uma vez a síntese
da análise comparada entre os participantes que abandonam precocemente o processo
psicoterapêutico e os que se encontram noutra situação (alta, acompanhamento ou
encaminhamento) em função das variáveis clínicas (diagnóstico, acompanhamento psicológico
prévio, acompanhamento psiquiátrico prévio, psicofármacoterapia, problemas de saúde,
sintomatologia psicopatológica, tempo total de intervenção e número de sessões) (Tabela 27).
O perfil dos participantes que fizeram dropout apenas se distingue do daqueles que se
encontram noutra situação relativamente às variáveis “outros problemas de saúde”, “tempo total
de intervenção” e número de sessões. Ainda assim, e na tentativa de procurar traçar o perfil dos
clientes adultos que abandonaram precocemente o processo psicoterapêutico, apresentamos os
seguintes dados:

Tabela 27

Perfil dos participantes que fizeram dropout em função das variáveis clínicas

Diagnóstico 54.5% Sem diagnóstico


Acompanhamento psicológico prévio 70.5% Sem acompanhamento
Acompanhamento psiquiátrico prévio 61.4% Sem acompanhamento
Psicofármacoterapia 55.8% Não fazem psicofármacos
72.7% Não apresentam outros problemas de
Problemas de saúde
saúde*
Sintomatologia psicopatológica (BSI) IGS: M=1.48; ISP: M=1.99; TSP: M=36.77
39% Até 1 mês
Tempo total de intervenção
M=4.49*
31.7% 1 Sessão; 31.7% 7 a 12 sessões
Número de sessões
M=7.49*
* Diferenças significativas

4.3. Discussão dos resultados

Este capítulo é dedicado à discussão dos resultados obtidos após a análise documenta l
dos processos de clientes que recorreram à consulta psicológica de adultos de uma clínica
pedagógica de psicologia no período compreendido entre 2015 e 2017.
Por uma questão de organização, iremos começar por apresentar uma síntese das
caraterísticas sociodemográficas, institucionais e clínicas da totalidade dos participantes, após
o que iremos descrever e analisar em mais detalhe apenas aqueles que abandonaram

57
precocemente o processo psicoterapêutico, já que este constitui o nosso principal objeto de
estudo.
Os nossos participantes (N=68) são maioritariamente mulheres (66.2%), com uma
média de idade de 40.3, solteiros ou casados/em união de facto (38.2%), e a residir em zona
urbana (58.5%). No que se refere à escolaridade, a maioria dos participantes tem pelo menos
ensino secundário (83.6%). Os participantes aguardaram, em média, 1.53 meses em lista de
espera, tendo a maioria efetuado o pagamento da taxa moderadora das consultas (61.8%).
Quanto à mudança de técnico, a maioria (76.6%) manteve-se sempre com o mesmo profissio na l
e no que diz respeito à experiência do terapeuta a maioria foi atendido por estagiários
curriculares (73.5%).
Em termos diagnósticos, a maioria dos participantes (54.4%) apresenta algum tipo de
perturbação psicopatológica, não teve acompanhamento psicológico (66.7%) nem psiquiátr ico
(65.2%) prévio a maioria (51.5%) não faz farmacoterapia. Relativamente à existência de outros
problemas de saúde 61.2% refere não ter problemas.
Quanto ao tempo médio de intervenção, os participantes estiveram em acompanhame nto
6.08 meses, tendo tido em média 11 sessões. No que se refere à sintomatologia psicopatológica,
verifica-se que os nossos participantes parecem apresentar perturbação emocional.
A maioria dos participantes abandonou precocemente o processo psicoterapêutico
(64.7%).
Passando agora para a análise e discussão do perfil encontrado junto daqueles que
abandonaram precocemente o processo psicoterapêutico (dropout) (N=44) e comparando- o
com o perfil dos que se encontram noutra situação (alta, acompanhamento e encaminhame nto)
(N=24) optámos, uma vez mais, por apresentar os dados organizados por categorias:
sociodemográficas, institucionais e clínicas.
Assim, e de um ponto de vista sociodemográfico, verificamos que a maioria dos
participantes que fizeram dropout são mulheres (61.4%), o que vai de encontro com vários
estudos que demonstraram, efetivamente, que as taxas mais elevadas de dropout verifica m- se
nas mulheres (Baekeland & Lundwall,1975). No entanto, a relação observada entre abandono
precoce do processo psicoterapêutico e a variável sexo não é estatisticamente significativa no
universo em análise.
Relativamente à idade, os participantes que abandonaram precocemente o processo
psicoterapêutico apresentam uma idade média de 37.5 anos, sendo esta significativame nte
inferior à média de idades dos restantes (que se encontram noutra situação). Quanto ao estado

58
civil, a maioria é solteiro (45.5%) mas, uma vez mais, não parece haver relação de dependência
entre as variáveis. Estes resultados vão de encontro ao estudo realizado por Bueno e
colaboradores (2001), segundo o qual os jovens e os indivíduos solteiros são os grupos que
apresentam taxas mais elevadas de dropout.
Apesar de não existir relação de dependência entre a situação de acompanhamento e a
zona de residência, verifica-se que a maioria dos participantes do nosso estudo reside em zonas
urbanas (61.9%) situadas na área geográfica da clínica pedagógica de psicologia onde se
efetuava o acompanhamento. Este dado não é consistente com a literatura consultada, pois
segundo esta a distância entre o local de residência e o local do acompanhamento são preditores
de abandono precoce do processo psicoterapêutico (Bueno et al., 2001).
A maior parte dos participantes deste estudo apresentaram habilitações ao nível do
ensino secundário (39.5%) e superior (39.5%), não existindo, uma vez mais, uma relação de
dependência com a nossa variável independente. Estes dados não são corroborados pela
literatura consultada (Luk et al., 2001; Sirles, 1990; Weirzbicki & Pekarik, 1993), na medida
em que esta aponta para o facto dos indivíduos com um nível educacional baixo terem mais
propensão para abandonar o processo psicoterapêutico e dos indivíduos com um nível
educacional superior terem uma maior probabilidade de finalizar o processo.
Do ponto de vista institucional, os participantes que abandonam precocemente o
processo psicoterapêutico aguardam em média 1.6 meses em lista de espera, tempo este que
não se distingue estatisticamente do tempo aguardado pelos restantes participantes. Assim
sendo, e apesar de existir literatura que mostra que o tempo de espera para receber o
acompanhamento é um preditor de abandono precoce (Kendall & Sugerman, 1997; Lhullier,
Nunes, Antochevis, Porto & Figueiredo, 2000), tal não se verifica no nosso estudo.
Relativamente ao tipo de pagamento, os participantes que fizeram dropout encontram-
se na totalidade com dívida (100%), assistindo-se a uma associação forte e significativa entre
as variáveis. Neste sentido, podemos concluir que sabendo que um cliente está em situação de
dívida torna-se muito provável que abandone precocemente o processo psicoterapêutico, o que
vai de encontro aos estudos de Baekeland e Lundwall (1975) e de Bueno e colaboradores (2001)
que referem que indivíduos com um nível socioeconómico baixo, têm mais propensão para
abandonar o processo psicoterapêutico. Também Kazdin (1994), Kazdin e colaboradores
(1997) e Kazdin, Stolar e Marciano (1995) referem que grupos minoritários ou com
desvantagem socioeconómica apresentam esta condição. Por fim, Chielli e Enéas (2000)

59
apontam um índice elevado de pacientes que não mencionam razões do abandono e outros que
citaram a dificuldade financeira como um fator responsável.
Os participantes que abandonaram precocemente o processo psicoterapêutico foram
acompanhados na sua maioria por estagiários curriculares (70.5%), apesar da relação observada
entre estado do acompanhamento e experiência do terapeuta não ser estatisticame nte
significativa no universo em análise. Desta forma, os nossos dados não vão de encontro à
literatura consultada (Baekeland & Lundwall, 1975; Carvalho & Terzis (1988) segundo a qual
o abandono da terapia aparece mais associado ao baixo nível de experiência do terapeuta
No que respeita à mudança de técnico, 81% dos participantes que fizeram dropout não
tiveram mudança de técnico, sendo no entanto que a relação observada entre estado do
acompanhamento e mudança de técnico não é estatisticamente significativa. Este dado não é
conforme com a literatura consultada (Lhullier, Nunes, Antochevis, Porto & Figueiredo, 2000),
segundo a qual os abandonos ocorrem devido à mudança de terapeuta, já que nem todos os
tratamentos são concluídos no tempo de estágio do terapeuta em formação.
Do ponto de vista clínico, a maioria dos participantes que fez dropout não apresenta
diagnóstico (54.5%) e, também aqui, não podemos concluir acerca de uma relação de
dependência entre as variáveis estado de acompanhamento e diagnóstico. Este dado não vai de
encontro com o estudo de Dierker e colaboradores (2001) que refere a que a história antissocia l
do indivíduo e a presença de queixas múltiplas se associam de forma positiva ao abandono,
nem com o estudo de Bueno e colaboradores (2001) que refere que as perturbações de
personalidade em geral, os estados psicóticos e a ocorrência de ideação paranoide são os
quadros com maior dificuldade de envolvimento no processo terapêutico e os que apresentam
um risco maior de abandono. No entanto, Baekeland e Lundwall levaram a cabo em 1975 um
estudo no qual concluem que o abandono da terapia está mais associado a variáveis do cliente
como, por exemplo, este ter baixos níveis de ansiedade e/ou depressão.
Quanto ao acompanhamento psicológico e psiquiátrico prévio, a maioria dos
participantes que abandonaram precocemente o processo psicoterapêutico não tiveram
acompanhamento psicológico nem psiquiátrico prévio (70.5% e 61.4%, respetivamente). Para
ambas as variáveis, a relação com a nossa variável independente (estado do acompanhame nto)
não é estatisticamente significativa no universo em análise. Neste nosso estudo, não foi
encontrado suporte bibliográfico que nos ajudasse a compreender o comportamento desta
variável.

60
No que se refere à toma de psicofármacos, 55.8% dos participantes que abandonaram
precocemente o processo psicoterapêutico não estava a fazer psicofárma coterapia. Uma vez
mais, a relação observada entre estado do acompanhamento e psicofármacoterapia não é
estatisticamente significativa no universo em análise, mais uma vez, neste nosso estudo, não foi
encontrado suporte bibliográfico que nos ajudasse a compreender o comportamento desta
variável.
Quanto aos problemas de saúde, a maioria dos participantes que fez dropout não
apresenta outros problemas de saúde (72.7%), tendo-se verificado uma relação de dependência
entre as variáveis estado do acompanhamento e problemas de saúde. Neste sentido, é possível
afirmar-se que a existência de outros problemas de saúde parece estar associada com a
manutenção do cliente em terapia. Neste nosso estudo, não foi encontrado suporte bibliográ fico
que nos ajudasse a compreender o comportamento desta variável.
Relativamente à sintomatologia psicopatológica (medida através dos índices globais do
BSI), não existem diferenças estatisticamente significativas entre os participantes que fizera m
dropout e os restantes. De acordo com alguma da literatura consultada (Chielli & Enéas, 2000;
Ribeiro & Mesquita, 2009), muitos dos clientes que fazem dropout relatam um sentimento de
melhoria, o que os leva a considerar que os objetivos foram alcançados e a abandonar o
processo.
Quanto ao tempo total de intervenção, 39% dos participantes que fizeram dropout
estiveram em acompanhamento até um mês. Em termos médios, estes participantes estiveram
a ser acompanhados por um período de 4.5 meses, tempo este significativamente inferior aos
que se encontram noutra situação (alta, acompanhamento, encaminhamento). Estudos de
Baekeland e Lundwall (1975) e de Urtiaga, Almeida, Vianna, Santos e Botelha (1997) referem
que 61% dos atendimentos duravam em média seis meses, o que de certo modo se enquadra
com os nossos resultados.
Por fim, no que diz respeito ao número de sessões, 31.7% dos participantes que
abandonaram precocemente o processo psicoterapêutico tiveram apenas uma sessão e 31.7%
tiveram entre 7 e 10 sessões. Em termos médios, estes participantes tiveram 7.5 sessões, número
este significativamente inferior aos que se encontram noutra situação. Estes dados vão de
encontro aos estudos de Baekeland e Lundwall (1975) e de Urtiaga, Almeida, Vianna, Santos e
Botelha (1997) que referem que o abandono precoce do processo psicoterapêutico acontece
frequentemente entre a 3ª e a 10ª sessão. Mais especificamente, entre 20 e 57% dos clientes não

61
aparecem na segunda sessão e 31 a 56% não comparecem até à 4ª sessão e 70% antes da décima
sessão.

62
Conclusão

Conhecer os diferentes preditores do abandono precoce do processo psicoterapêutico é


fundamental para a prática clínica, possibilitando identificar falhas no tratamento, ajudando na
identificação de casos em risco de abandono e na prevenção de futuras desistências.
Apesar de poucos trabalhos se dedicarem ao estudo e à identificação dos fatores
associados ao abandono precoce do processo psicoterapêutico, a contribuição de resultados
nesta área aponta claramente para a necessidade e importância de investigações neste domínio,
tanto para a prática profissional, para o ensino e treino, como para o atendimento ao cliente. As
pesquisas relacionadas com o abandono precoce do processo terapêutico permitem identificar
diferentes situações terapêuticas, tanto nas sessões como nos tratamentos a longo prazo.
Quanto à eficácia terapêutica, a questão do abandono precoce do processo
psicoterapêutico constitui um importante problema e requer atenção específica, no sentido de
preparar o profissional e os serviços de saúde em relação ao desenvolvimento de intervenções
voltadas para grupos vulneráveis. O custo emocional, económico e social dos abandonos
terapêuticos na área da saúde mental é alto e pode ser reduzido, se forem promovidas ações nos
serviços de acolhimento do cliente. Também, no treino profissional, é importante que o
terapeuta esteja a par das características dos processos terapêuticos associados a maiores taxas
de abandono, sendo que, o desenvolvimento da aliança terapêutica deve ter em conta as
especificidades de cada caso (Samstag et al., 1998).
Bueno e colaboradores (2001) mencionam algumas intervenções dirigidas à prevenção
do abandono precoce do processo psicoterapêutico. Estas medidas incluem o estabelecer
contato com clientes e familiares, quando estes não comparecerem às consultas; preparar o
cliente para o trabalho terapêutico, incluindo dar informações sobre seu estado emocional e das
características do processo terapêutico; preparar intervenções e sessões específicas
identificando as crenças do cliente e distorções sobre o processo e por fim realizar intervenções
dirigidas aos próprios terapeutas procurando melhorar a sua técnica de trabalho.
Em suma, o abandono precoce do processo psicoterapêutico está associado a diversos
fatores, como características do paciente, do terapeuta, da técnica e do setting de trabalho, assim
como, características sociodemográficas, institucionais e clínicas. Foi possível reconhecer que
este tópico constitui uma questão importante para a prática clínica, considerando as
consequências negativas da interrupção dos tratamentos em saúde mental nos âmbitos pessoais,
sociais e económicos.

63
Do ponto de vista teórico, este estudo representa um contributo para o atual
conhecimento acerca do papel de variáveis sociodemográficas, institucionais e clínicas no
abandono precoce do processo psicoterapêutico. Ficou evidente a presença de diferenças
significativas quanto à idade, ao tipo de pagamento, aos problemas de saúde, ao tempo de
intervenção e ao número de sessões.
Considera-se que, no presente estudo, existem algumas limitações, que são importantes
ser mencionadas e refletidas, sendo que, tomar consciência das mesmas serve de ponto de
partida para novas e futuras investigações neste campo de investigação.
Uma das limitações prende-se com o tamanho reduzido da amostra, para além da mesma
se circunscrever a apenas uma clínica pedagógica de psicologia. Assim, posteriores estudos
deveriam considerar a amplificação da amostra a diferentes faixas etárias, assim como o
alargamento do estudo a clientes de várias clínicas pedagógicas de psicologia, assim como, a
outras instituições de saúde.
Para atingir os objetivos do presente estudo foi necessário recorrer a testes não
paramétricos, sendo que a sua utilização pode tornar-se uma desvantagem, pois não são tão
sensíveis. Para reverter esta ocorrência seria necessário aumentar o número de participantes.
Considera-se que a prevalência de abandono precoce do processo psicoterapêutico
poderá estar relacionada com a presença de vários fatores predisponentes, agindo
simultaneamente na amostra estudada. Segundo a literatura, género feminino, idade, estado
civil, distância do local de atendimento, baixa escolaridade, tempo de espera pelo tratamento,
haver mudança de técnico, experiência do terapeuta, diagnóstico, duração do acompanhame nto
e o número de sessões são fatores de risco para o abandono precoce do processo
psicoterapêutico e tais fatores são características da amostra do presente estudo, embora no
nosso estudo apenas a idade, a duração do acompanhamento e o número de sessões mostrem
relações de dependência com o dropout.
Após a realização deste estudo, surgem novas ideias que poderiam ser vantajosas para
futuras investigações. Seria então interessante que os locais que prestam atendimentos
psicológicos, em especial, locais de formação, desenvolvessem ações voltadas para a prevenção
do abandono, aproximando-se das questões de saúde mental, assim como, desenvolver estudos
e pesquisas nas instituições de ensino, que contribuam para a formação do aluno de Psicologia
e que ofereçam uma preparação integral para atendimentos direcionados às necessidades do ser
humano em cada contexto.

64
Os resultados do presente estudo sugerem, assim, a importânc ia da sensibilização e
prevenção e que todos os profissionais devem ter em conta todos os fatores mencionados para
atuarem de uma forma mais eficaz perante clientes com propensão para abandonar
precocemente o processo psicoterapêutico.

65
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