Variáveis do Dropout Terapêutico em Adultos
Variáveis do Dropout Terapêutico em Adultos
Porto
2018
Libânia Sofia Mendes Martins
Porto
2018
Libânia Sofia Mendes Martins
_________________________________________
The variables that are associated with psychotherapy dropout become important sources
of information for the therapeutic processes and facilitate the understanding of the factors
involved in the effectiveness of the follow-up. Thus, the objectives of the present research are
to characterize the sociodemographic, institutional and clinical variables of the clients who used
the psychological counseling service of adults in a pedagogical clinic of psychology, as well as
to compare the profile of clients who dropped out he psychotherapy and compare it with those
in other situations (discharge, follow-up and referral) regarding the sociodemographic,
institutional and clinical variables considered.
To carry out this investigation, a convenience sample of 68 individuals, 66.2% female
and 33.8% male, aged 18-86 years (M = 40.3; SD = 15.16) attended psychological consultatio n
of adults of a pedagogical clinic of psychology in the period between September of 2015 and
July of 2017.
In terms of the profile, the results show that the participants who dropped the
psychotherapeutic process are only distinguished from the others (who find themselves in
another situation) in the following variables: (i) age, with dropouts being significantly younger,
on average, than the rest; (ii) type of payment, and those who did dropout are all in a situatio n
of debt; (iii) Other health problems, with participants who leave the psychotherapeutic process
early are more often those who do not present other health problems; (iv) total time of
intervention, where it is verified that those who leave the psychotherapeutic process early have
on average less intervention time than the others; (v) number of sessions, it being verified that
those who dropout have on average fewer sessions than those who find themselves in another
situation.
Although exploratory, our study seeks to call attention to the importance of studying the
variables associated with the early abandonment of the psychotherapeutic process in the sense
that psychological intervention may be adjusted to the clinical reality.
ii
Agradecimentos
Ao longo de todo este percurso vivi vários momentos, onde experienciei sentime ntos
ambivalentes… sentimentos de alegria e motivação e sentimentos de tristeza, desanimo e
cansaço. Todos estes momentos e sentimentos foram partilhados com muitas pessoas que
testemunharam e contribuíram de forma inigualável para a minha formação, mas especialme nte
para o meu enriquecimento pessoal e para a minha vida. Seguramente sem o apoio de todos
vocês nada teria sido alcançado do mesmo modo.
As minhas primeiras palavras de agradecimento vão para a orientadora desta
dissertação, a Mestre Sónia Pimentel Alves, pela sua dedicação, disponibilidade,
profissionalismo e sabedoria, mas sobretudo pelo seu carinho, pelas suas palavras sempre de
conforto e encorajadoras que nunca me deixaram desistir quando as dificuldades apareceram e
o cansaço já se fazia notar, por sempre ter acreditado nas minhas qualidades pessoais e
profissionais, fazendo-me acreditar que eu conseguiria alcançar e por todos os ensinamentos e
valores transmitidos que sem dúvida alguma me enriqueceram a nível académico mas sobretudo
a nível pessoal.
Á Professora Doutora Carla Fonte, pelo conhecimento transmitido, pelo empenho,
compreensão, disponibilidade e incentivos ao longo deste trabalho.
Quero também deixar um agradecimento especial ao meu supervisor de estágio Doutor
João leal, por toda a sua presença, por todas as suas oportunas e pertinentes opiniões, pelas suas
palavras de apoio e motivação, pela paciência, por sempre ter acreditado no meu trabalho e por
nunca me ter deixado baixar os braços face às dificuldades que foram surgindo, pela partilha de
conhecimentos e experiências ao longo deste percurso, e pelo ser humano extraordinário que
demostrou ser.
Á Doutora Ana botelho, por toda a sua disponibilidade e todas as suas palavras de apoio
e motivação.
Á Dª Fernanda Bastos por toda a sua disponibilidade por todas as suas palavras de
conforto e por todo o seu carinho.
Agradeço também aos meus pais pelo apoio, pela confiança, pelo esforço, pela forma
como souberam compreender as minhas prolongadas ausências e os meus horários pouco
ortodoxos e por todos os valores que me transmitiram que contribuíram de um modo
determinante para o meu percurso académico e pessoal.
iii
Às minhas amigas Sofia e Eliana, pela amizade, pelo apoio demonstrado, pela partilha
de alegrias e tristezas, anseios, medos e frustrações e pelas ausências que o trabalho académico
assim exigiu. Obrigada pela força!
Á minha amiga Paula Pinho, por todo o apoio e compreensão, por todas as suas palavras
de alento e por sempre ter acreditado em mim.
Á Universidade Fernando Pessoa que me acolheu durante o meu curso de Psicologia, a
todo o corpo docente, pelo rigor e empenho em fazer do ensino superior um ensino com
qualidade, provendo os seus alunos de competências pessoais e profissionais que certamente
vão fazer a diferença enquanto futuros profissionais. Assim, enquanto aluna desta universidade
manifesto o meu profundo orgulho, por ter feito parte desta família!
Agradeço também a Deus por me ter dado capacidade, força e discernimento para
desenvolver este trabalho e ter concluído a minha formação académica.
iv
Índice
Resumo ........................................................................................................................................ i
Abstract ........................................................................................................................................ i
Agradecimentos ..........................................................................................................................iii
Índice .......................................................................................................................................... v
Índice de tabelas ........................................................................................................................vii
Índice de figuras ........................................................................................................................ ix
Introdução ................................................................................................................................... 1
Parte I - Enquadrame nto teórico ............................................................................................ 3
Capitulo I – A Psicote rapia e o Processo psicoterapêutico ................................................... 3
1.1. Psicoterapia e processo psicoterapêutico ......................................................................... 3
[Link] e Processo psicoterapêutico - Enquadramento .......................................... 4
1.2. Eficácia e mecanismos de transformação psicoterapêutica ............................................. 7
1.3. Variáveis associadas ...................................................................................................... 11
1.3.1. O cliente em psicoterapia ....................................................................................... 11
1.3.2. O terapeuta em psicoterapia ................................................................................... 17
1.3.3. A relação terapêutica .............................................................................................. 19
Capítulo II - O Abandono Precoce do Processo Psicoterapêutico ..................................... 22
2.1. O Abandono Precoce do Processo Psicoterapêutico – Enquadramento ............................ 22
2.2. Variáveis associadas ao Dropout ....................................................................................... 24
2.2.1. Variáveis sociodemográficas ...................................................................................... 26
[Link]áveis pessoais e clínicas ........................................................................................ 26
2.2.3. Variáveis institucionais ............................................................................................... 27
2.2.4. Variáveis do tratamento e relação terapêutica ............................................................ 28
2.3. Resultados de estudos de compreensão ............................................................................. 29
Parte II - Estudo Empírico ................................................................................................. 32
Capitulo III – Objetivos e método da investigação .............................................................. 32
3.1 – Objetivos .......................................................................................................................... 32
3.2 – Método ............................................................................................................................. 32
3.2.1 – Participantes .............................................................................................................. 32
3.2.2– Material ...................................................................................................................... 33
3.2.3 – Procedimento ............................................................................................................ 33
Capítulo IV – Análise dos dados e interpretação dos resultados ....................................... 34
v
4.1 – Caraterização sociodemográfica, institucional e clínica dos clientes que recorreram ao
serviço de consulta psicológica de adultos de uma clínica pedagógica de psicologia ............. 34
4.1.1. Variáveis sociodemográficas ...................................................................................... 34
4.1.2- Variáveis institucionais............................................................................................... 35
4.1.3 – Variáveis clínicas ...................................................................................................... 35
4.2. Comparação entre os clientes que abandonaram precocemente o processo
psicoterapêutico (Dropout) e os que se encontram noutra situação (alta, acompanhamento e
encaminhamento) no que se refere às variáveis sociodemográficas, institucionais e clínicas . 38
4.2.1 Variáveis sociodemográficas ................................................................................. 38
4.2.2. Variáveis institucionais ......................................................................................... 43
4.2.3. Variáveis clínicas ........................................................................................................ 48
4.3. Discussão dos resultados ................................................................................................... 57
Conclusão ................................................................................................................................. 63
Referências bibliográficas ........................................................................................................ 66
vi
Índice de tabelas
Tabela 10 - Perfil dos participantes que fizeram dropout em função das variáveis
sociodemográficas ……………………………………………………………………... 43
vii
Tabela 15 - Análise descritiva dos participantes que abandonam precocemente o
processo psicoterapêutico e dos que se encontram noutra situação em função da
variável experiência do terapeuta ………………………………………………………. 46
Tabela 17 - Perfil dos participantes que fizeram dropout em função das variáveis
institucionais …………………………………………………………………………... 48
Tabela 27 - Perfil dos participantes que fizeram dropout em função das variáveis
clínicas …………………………………………………………………………………. 57
viii
Índice de figuras
ix
Introdução
2
Parte I - Enquadramento teórico
5
social, capacidade esta que costuma estar ausente nos transtornos psíquicos, temos como
exemplo, os métodos exposição, comuns à terapia comportamental.
A psicoterapia como processo constitui-se através de uma escala, dividida em sete
estados, sendo estes distintos e contínuos (Rogers,1961)
A divisão da psicoterapia em estágios possibilita, por um lado, o psicoterapeuta
acompanhar o indivíduo ao longo da sua trajetória pessoal para a recuperação, por outro lado,
permite avaliar o progresso e a evolução do indivíduo ao longo do processo terapêutico.
A primeira fase da psicoterapia, suporta que esse estágio é caracterizado por uma rigide z
na estrutura da personalidade do indivíduo, havendo em menor ou maior grau, uma tendência
para o individuo fixar as suas atitudes e perceções. Pode-se verificar certa inconsciência acerca
das suas reclamações pessoais e por isso uma dificuldade em aceder aos próprios sentimentos.
Nesse estágio o indivíduo geralmente não esta disponível à psicoterapia (Rogers,1961).
Na segunda fase, os bloqueios do individuo limitam o seu desejo de mudar a image m
de si e impedem que estes sentimentos sejam reconhecidos, impossibilitam- no de vivenciar e
abstrair a experiência do seu aspeto afetivo. Além disso, o cliente tende a ser influenciado por
sentimentos experienciados no passado que se confundem com os das experiências do seu
presente. Esta fase, caracteriza-se ainda pelo início de uma expressão mais fluente do cliente
relacionada a tópicos não pessoais. O indivíduo continua a expressar sentimentos e experiênc ias
vividas no passado que interferem nas suas perceções atuais acerca de si próprio (Rogers, 1961).
A terceira fase, caracteriza-se como a fase da evolução terapêutica, aqui o cliente tende
a expressar e a dar sentido aos sentimentos experienciados no passado, na sua maior parte, são
avaliados como humilhantes, vergonhosos, ridículos e outros que revelam qualidades de
inferioridade acerca da imagem de si. Começa a existir um pouco mais de aceitação em relação
aos próprios sentimentos, embora alguns sejam reconhecidos como ambivalentes. As suas
construções mentais continuam rígidas, mas começa-se a observar o início de uma flexibilidade,
contudo são ainda percebidos como algo externo ao indivíduo (Rogers, 1961).
Na quarta fase, o individuo, começa a aceitar os seus sentime ntos e expressa-os, cujos
significados pertencem a perceções antigas (Rogers, 1961).
Na quinta fase, confirma-se a evolução do indivíduo, aqui é capaz de compreender as
suas defesas que até então eram entendidas como bloqueios. Embora já exista uma certa
compreensão sobre as experiências envolvidas por sentimentos, o indivíduo tem ainda alguma
dificuldade em defini- los e explicá-los quando estes se apresentam. Nessa fase, os sentimentos
passam a ser expressados nas experiências imediatas que o indivíduo faz no aqui e agora. Desse
6
modo, a imagem de si passa a ter um sentido crítico, sendo diferenciada com um pouco mais
de precisão (Rogers, 1961).
A sexta fase é o resultado das fases anteriores, com a eliminação dos bloqueios dos
sentimentos, passa-se às experiências subjetivas que antes eram impedidas pelos mecanis mos
de defesa do individuo. Como o indivíduo é agora capaz de se aceitar a si próprio, as suas
experiências processam-se de modo consciente e integral. A imagem de si já não se apresenta
desfragmentada, dá lugar a uma imagem de si real. As incongruências estabelecidas entre as
experiências e a consciência são desfeitas quando percebidas por meio do diálogo interior e,
por isso, refere-se esta fase como crucial e dramática (Rogers, 1961).
Por fim, na sétima fase, o cliente atingiu um funcionamento pleno. Com isto, já existe
uma flexibilidade na forma como o indivíduo se estrutura e no modo com experiencia situações,
possui condições para prosseguir com sua atualização da imagem de si com confiança, sem a
ajuda de um psicoterapeuta, pois está aberto às inovações relativas a todos os aspetos da sua
vida, tendo consciência de si mesmo, com uma visão clara dos seus objetivos e que atitudes
tomar para alcançá-los, o seu foco de perceção situa-se no presente e está aberto a novas
experiências (Rogers, 1961).
8
Lipsey e Wilson (1993) referiram que demonstrações presentes nas meta-anális es
apontam que os tratamentos psicológicos, educacionais e comportamentais que são estudados,
geralmente refletem efeitos positivos.
Na verdade, a psicoterapia é mais eficaz do que muitas práticas médicas "baseadas em
evidências", algumas das quais são onerosas e produzem efeitos colaterais significativos
(Wampold et al. 2007).
Dobson, numa análise em 1989, relatou que 98% dos pacientes tratados com a terapia
cognitiva de Beck apresentaram melhor resultado do que pacientes que não receberam nenhum
tratamento. Robinson, Berman e Neimeyer (1990) referem que as terapias comportamentais e
as cognitivo-comportamentais têm feitos positivos no resultado.
Essas meta-análises também mostraram que os tratamentos psicológicos têm eficácia
em populações específicas, incluindo adultos e séniores (Cuijpers, van Straten & Smit, 2006),
mulheres com depressão pós-parto (Lumley, Austin & Mitchell, 2004) pacientes com quadros
depressivos e condições médicas gerais como, por exemplo, esclerose múltipla, acidente
vascular cerebral e cancro (Sheard & Maguire, 1999).
As terapias psicológicas, em geral, foram consideradas altamente eficazes para
problemas com base na ansiedade. A família das terapias cognitivas e comportamentais têm
sido estudadas com maior frequência e foram altamente eficazes na redução da ansiedade e
sintomas relacionados (por exemplo, Perturbação obsessivo - compulsiva, Perturbação de stress
pós traumático (Hunot, Churchill, Silva de Lima & Teixeira, 2007).
O tamanho do efeito do tratamento situa-se em torno de 0,60 (0,40 a 80), o que significa
que cerca de 65% dos pacientes tratados terão um resultado positivo em comparação com 35%
dos pacientes que estão numa lista de espera.
Embora a psicoterapia seja estatística e clinicamente benéfica quando comparada com
várias condições de controlo sem tratamento e, portanto, supera a melhoria esperada a "remissão
espontânea", pode-se concluir que os benefícios da terapia não são só causados pelos
tratamentos específicos, mas sim por um efeito placebo generalizado. Na verdade, esses fatores
são fundamentais para as intervenções psicológicas na teoria e na prática. Eles desempenha m
um papel ativo na melhoria do paciente, e podem ser especificados e ensinados.
Lipsey e Wilson (1993) abordaram a questão do placebo como parte da sua extensa
revisão de meta-análises. Um subconjunto (n=30) das meta-análises analisadas incluiu
comparações de tratamento com grupos de controlo sem tratamento e grupos de controlo com
9
placebo. Eles concluíram que os efeitos do placebo contribuem para uma melhoria global,
embora a sua extensão não seja suficiente para explicar os seus efeitos na globalidade.
Embora as estimativas dos efeitos da psicoterapia em comparação com controlos de
placebo sejam variáveis, também é claro que a psicoterapia supera os efeitos do placebo às
vezes por grandes margens. Os efeitos de psicoterapia vão além da instalação de esperança.
Com estudos acerca do processo psicoterapêutico, é possível compreender como ocorre
a mudança ao longo do tratamento e reconhecer os mecanismos de ação terapêutica, bem como
as variáveis que dependem da eficácia da psicoterapia. Deste modo, estudos experimenta is
permitem delinear estratégias para que ocorra a mudança terapêutica. Neste sentido, serão
apresentados alguns estudos que utilizaram instrumentos de avaliação de forma a permitir a
comparação da mudança ao nível dos sintomas bem como da estrutura, no decorrer do processo
terapêutico.
Para Kanfer e Goldstein (1991) existe a necessidade de definir claramente e em conjunto
com o cliente, quais os objetivos da intervenção, sejam eles modificar um comportamento, obter
insight, modificar o estado emocional, alterar a auto perceção ou a autoconfiança, alterar o estilo
de vida, etc (cit in Ogles, 2013).
Historicamente a investigação sobre o resultado terapêutico foi de natureza quantitativa.
No entanto, embora esta metodologia continue a ser maioritária, a investigação qualitativa sobre
resultado e mudança terapêutica tem sido muito atrativa para grande parte dos investigado res,
permitindo dar voz aos participantes e mantem-se mais próximos da experiência vivida em
psicoterapia, proporcionando uma maior compreensão do seu significado para o indivíd uo
(McLeod, 2013).
Dentro das metodologias qualitativas sobre o resultado terapêutico, a entrevista sobre o
modo como o cliente experienciou a terapia tem sido o método mais utilizado e frequenteme nte
esse resultado é avaliado não em função da diminuição dos sintomas, mas da perceção da
utilidade da terapia na resolução de problemas futuros.
Mcleod (2013) realizou uma análise de vários estudos qualitativos sobre resultado
terapêutico e comparou-os com os elevados effect sizes reportados pelos estudos quantitativos,
concluiu que os primeiros mostram uma ambivalência sobre os benefícios que os clientes
consideravam ter recebido com a terapia, sendo que muitos consideram a experiência positiva,
mas não tendo resolvido completamente os problemas que os tinham feito procurar a terapia. A
este propósito, um estudo de Timulak (2007) recolheu dados sobre as experiências dos clientes
relativamente ao valor da terapia e os resultados incluem: insight, alteração do
10
comportamento/resolução do problema, exploração de experiências emocionais, alívio,
empoderamento, sentimento de compreensão e segurança/apoio (cit in McLeod, 2013).
As medidas de auto relato são as mais usadas na avaliação da mudança em psicoterapia
uma vez que permitem aceder à perspetiva do cliente sobre o sucesso da terapia. No entanto,
alguns autores não concordam que seja a única medida de mudança, porque consideram que os
clientes podem ser muito reativos e terem uma perspetiva limitada sobre as mudanças ocorridas
durante a intervenção, já que são parte integrante do processo (Ogles, 2013).
Assim, autores como McLeod (2013) e Crits-Christoph e colaboradores (2013) sugerem
a utilização de metodologias mistas na avaliação dos resultados terapêuticos, considerando- as
úteis para avaliar o resultado de modo mais sensível às diferentes perspetivas e incluir outras
dimensões (que não apenas a redução dos sintomas) consideradas importantes para os clientes.
Atendendo à natureza multifatorial da mudança em psicoterapia, alguns investigador es
usam terceiros independentes ao processo para avaliarem o resultado, ou recorrem a medidas
comportamentais, ou utilizam entrevistas, quer para avaliar características dos clientes no início
da terapia que podem predizer resultados terapêuticos, quer para avaliar no final da intervenção,
se os sintomas se alteraram, quer ainda para medir a mudança pela experiência subjetiva do
cliente (Ogles,2013).
Conclui-se assim que não existem baterias de avaliação unanimemente aceites, sendo
que os investigadores usam predominantemente medidas standard, mas recorrem também a
medidas de avaliação de resultado individualizadas. Por outro lado, diversos investigadores não
usam apenas medidas de resultado para quantificar o efeito da intervenção como um todo
quando esta termina, mas socorrem-se também de medidas ao longo da intervenção para realçar
efeitos dessa mesma intervenção ou orientar decisões atempadas de alteração da mesma (Ogles,
2013).
Nos últimos anos, houve uma mudança no reconhecimento do papel do cliente como
um participante ativo em psicoterapia. Em 1986, Garfield referem que é o cliente mais do que
o terapeuta que implementa o processo de mudança, se o cliente não absorver, utilizar, e seguir
as orientações facilitadoras do terapeuta, então nada acontece.
11
Orlinsky, Grave e Parques (1994) e Orlinsky, Ronnestadt e Willutski (2004)
documentaram que vários fatores do cliente são os melhores preditores de melhoria. Orlinsky
et al. (1994) concluiu que "a qualidade da participação do paciente na terapia é o determina nte
mais importante do resultado.
Bohart e Tallman (2010) explicaram que os clientes estão no centro do processo de
cicatrização. Eles são capazes de utilizar métodos muito diferentes para promover mudanças
para crescer.
Clarkin e Levy (2004) enfatizaram uma visão mais dinâmica do relacionamento cliente -
terapia. Eles sugeriram que os resultados anteriores foram devido ao fato de, desde o início da
terapia, as variáveis do cliente começarem a interagir dinamicamente com o terapeuta e o
tratamento. Beutler e colegas (2004) referem que os clientes reagem de forma diferente às
diversas intervenções, contudo, os clientes não são recetores passivos no tratamento, eles
cruzam ativamente com o que os terapeutas têm para oferecer, aprendem, envolvem-se com as
terapias e os métodos e colocam a sua própria criatividade. As perspetivas e as ações dos
clientes são importantes, embora isso geralmente seja interpretado negativamente: Distorções
dos clientes, relações de transferência, e as crenças disfuncionais que impedem a terapia. Deste
modo, preferências, valores e perceções dos clientes devem ser incluídos na tomada de decisão
terapêutica.
Bergin e Garfield (1994) referem que quando os terapeutas dependem mais dos recursos
do cliente, ocorrem mais mudanças.
Gassman e Grawe (2006) descobriram que os terapeutas que prestaram atenção aos
pontos fortes dos clientes começando na primeira sessão atingiram maior sucesso, sendo que
os terapeutas focados em problemas não obtiveram sucesso.
Lambert (2013), observou que podemos prever a deterioração antes que esta ocorra
através da utilização de informações sobre o nível de angústia do cliente e a sua perturbação no
início da terapia e a resposta do cliente ao tratamento no início das sessões. Ele também
observou que outras variáveis, tais como diagnóstico, idade, sexo, etnia, tipo de tratamento, e
experiência do terapeuta são influentes.
Ao longo do tratamento, o cliente é avaliado antes do tratamento e, em seguida, em
intervalos predeterminados. A passagem do tempo pode resultar em diferenças nos resultados
dos testes através de uma série de fontes de variação aleatórias ou sistemáticas, mudança real
na construção a ser medida, variação associada à resposta ao tratamento ou alteração associada
12
a fontes de erro, como o ambiente de teste, características do teste ou amostragem de itens
(Campbell, 2000).
No entanto, mudanças nessas variáveis também são uma indicação de um efeito mais
poderoso e durável do tratamento. Variáveis menos estáveis, como o humor, podem ter
estimativas de confiabilidade mais baixas, especialmente por longos períodos de tempo e são
mais propensos a ter tamanhos maiores de efeito em resposta ao tratamento. No entanto, essas
mudanças podem não ser tão duráveis e podem ocorrer em resposta a intervenções menos
poderosas (Lambert, 2013).
Em suma, o modelo propõe que o primeiro ganho que o cliente experiencia é a esperança
nos estágios iniciais do tratamento, essa esperança renovada é seguida por uma melhoria nos
sintomas com a continuação do tratamento e finalmente, à medida que o tratamento continua e
os sintomas continuam a diminuir, o cliente experiencia melhorias no seu funcionamento de
vida (Lambert, 2013).
Clarkin e Levy (2004) concluíram que a gravidade dos sintomas e a deficiênc ia
funcional do paciente leva a um pior prognóstico, e que indivíduos com mais sintomas graves
necessitam de mais sessões para mostrar melhorias. Além disso, um maior funcionamento antes
da deterioração pode resultar num prognóstico melhor. Em aparente contradição há uma
evidência de que quanto maior for o nível de angústia do paciente no início da terapia melhores
são os resultados, mais do que o do diagnóstico do paciente, cronicidade por problemas ou
tratamento.
Hansen et al. (2002) descobriram que um maior sofrimento pré-tratamento previa uma
maior mudança.
Clarkin e Levy (2004) concluíram que a personalidade e a comorbilidade tem sido
uniformes para prever resultados mais pobres, com uma exceção para as perturbações da
personalidade. Nestas situações o tratamento pode precisar ser prolongado ou ajustado para
lidar com eles. Isso pode incluir fornecer sessões mais do que uma vez por semana, ou utilizar
tratamentos auxiliares.
As características pessoais do paciente têm que ver com o estilo e competências que este
tem para se relacionar com outros. Tais características como locus de controlo interno,
competência social, aprendizagem, força do ego, estilo de defesa, motivação, estilos de
formação de relações, maneira de lidar com acontecimentos stressores, grau de mentalidade
relativa à emoção e ao interior experimentando de forma aberta e tendências para a autocrítica,
13
são preditores de resultados em terapia. Portanto, pode-se esperar que a motivação do cliente
também está associada ao resultado (Piper, 1999).
Por outro lado Orlinsky et al. (2004) concluíram que clientes mais motivados, ou que
foram vistos dessa maneira pelos seus terapeutas, tiveram melhores resultados. Os resultados
foram melhores quando a motivação foi avaliada pelos clientes.
Donovan e Rosengren (1999) observaram que a motivação para começar psicoterapia
pode ser diferente da motivação para mudar.
Sheldon (2004) descobriu que motivos que surgem de interesses intrínsecos do
individuo, ou aqueles que representam os seus valores pessoais sustentam esforço e
correspondem a um comportamento melhor do que motivos externos.
A motivação também se sobrepõe com construções como expectativa e esperança.
Clientes que não acreditam que possam mudar, e que se sintam sem esperança, podem, portanto,
sentir pouca motivação para participar. Finalmente, a motivação sobrepõe-se com o motivo, os
clientes que estão em terapia (por exemplo, por escolha pessoal versus por pressão externa),
tem as suas opiniões sobre a natureza do/os problemas, as suas preocupações com
estigmatização e as suas opiniões sobre o tipo de tratamento de que iram beneficiar. Em geral,
parece que os clientes que estão "prontos para mudar" (ou seja, mais motivados intername nte)
são mais propensos a beneficiar da terapia e a obter resultados positivos.
Foi também estudada a motivação da autonomia. A motivação da autonomia foi um
melhor preditor do resultado para a aliança terapêutica.
McBride e colegas (2010) também encontraram evidências de que a motivação da
autonomia está relacionada positivamente com o resultado e essa motivação "externa" está
relacionada negativamente. Em contraste, os clientes que estão “obrigados” a estar no
tratamento, isto é, aqueles cuja motivação é mais provável de ser externa, muitas vezes não
obtém resultados. Finalmente, os clientes não estarão prontos para mudar se são resistentes. A
resistência está relacionada aos resultados mais baixos em terapia.
Beutler, Harwood, Michelson & Holman (2011) argumentaram que os clientes com alta
reação são mais propensos a mostrar resistência ao trabalhar com terapeutas diretivos.
Em conclusão, quando a motivação dos clientes para o trabalho é intrínseca, quer em
termos de prontidão para mudar ou motivação de autonomia estes são mais propensos a obter
resultados positivos (Lambert, 2013).
A mentalidade psicológica é a tendência que o individuo tem para olhar para dentro de
si e procurar explicações para o seu comportamento dentro da psicologia, ou tentar compreender
14
as pessoas e os seus problemas psicológicos. Estudos descobriram que a mentalidade
psicológica está positivamente relacionada com a permanência em terapia (Barrett et al., 2008).
Levitt & Rennie (2004) descobriram que o nível de insight de mentalidade psicológica
aumentam ao longo da terapia reduzindo os sintomas. Há evidências de que perceções e crenças
dos clientes sobre a psicoterapia, o processo psicoterapêutico e o resultado destes, geralmente
correlacionam-se positivamente com o resultado. Contudo, as perceções e as crenças dos
clientes muitas vezes não coincidem com as dos terapeutas.
Isso sugere que as construções dos clientes, podem influenciar de forma seletiva como
interagem e como processam o que está a acontecer. No entanto, algumas pesquisas mostraram
que as perceções dos clientes sobre a aliança no início da terapia é independente das vantagens
que estão a experimentar (Horvath, 2002).
Há evidências de que os clientes têm preferências pelo tipo e qualidade de
relacionamento que recebem em psicoterapia. Além de prever a autenticidade e a realidade do
terapeuta, os clientes também valorizam a "presença terapêutica" (Geller, Greenberg, &
Watson, 2011).
Isso é definido por Geller e Greenberg (2002) como o terapeuta ser completamente ele
no momento em termos físicos, cognitivos e emocionais.
Martin (2008) descobriu que os clientes principalmente queriam um ambiente que
reduzisse o estigma a falar sobre coisas difíceis, e isso melhorou sensação de autoeficácia dos
clientes. Este ambiente foi facilitado quando os terapeutas estavam abertos, respeitosos e
trabalharam para ganhar confiança (Beretta et al., 2005; Martin, 2008).
Nilsson, Svensson, Sandell & Clinton (2007) relataram que os clientes preferem
terapeutas que se adaptem às suas necessidades, aceitando-os, de modo que os clientes se sintam
à vontade. Esses clientes também relataram que apreciam apoio emocional, neutralidade e
alguma distância interpessoal. Clientes de origens etnicamente diversas relataram melhores
experiências quando os terapeutas foram abertos para ver os pontos fortes da sua cultura
cultural.
Os clientes têm preferências em psicoterapia. Swift et al. (2011) relataram que as
próprias preferências do paciente influenciaram uma série de outras variáveis, tais como
características demográficas, crenças sobre a natureza dos problemas, o nível de gravidade dos
sintomas, experiência anterior com terapia, expectativas para terapia e outras experiências de
vida.
15
Isto indica que os terapeutas devem ter em atenção as preferências do cliente,
especialmente se este está a ter dificuldade em envolver-se na terapia, não significando que um
cliente que não receba as suas preferências de terapia não será capaz de beneficiar do tratamento
(Lambert, 2013).
As perspetivas dos clientes apoiam a ideia do cliente como alguém que tem um papel
importante na terapia. Onde tais relacionamentos foram estudados, as perspetivas dos clientes
tendem a correlacionar-se com o resultado, muitas vezes mais elevado do que o dos terapeutas.
Suas opiniões sobre a natureza dos seus problemas, do que eles querem em terapia, e como
essas opiniões coincidem com os terapeutas, podem influenciar tanto a motivação como o
resultado. As suas opiniões também podem influenciar como interpretam a mudança. Além
disso, veem-se eles próprios como contribuindo ativo através do trabalho duro, da
aprendizagem do raciocínio com eles próprios, refletindo e tentando algo novo. Finalme nte,
como agentes, valorizam a compreensão do terapeuta e estão envolvidos num verdadeiro
relacionamento mútuo (Lambert, 2013).
O feedback do cliente também pode ser visto como uma forma de colaboração no
processo terapêutico, uma vez que este acrescenta a voz para a prática da terapia. Isto é
particularmente importante porque os terapeutas muitas vezes superestimam desempenho do
cliente (Lambert, 2013).
O feedback do cliente é principalmente usado para ajudar os terapeutas a melhorar o
desempenho do processo terapêutico. Já o feedback do terapeuta pode ser benéfico para alguns
clientes e prejudicial para outros, embora tenha um sentido intuitivo, poderá ter um efeito
motivador sobre alguns e um efeito desencorajador sobre outros (Lambert, 2013).
Em geral, a pesquisa demonstra que os clientes podem desempenhar um papel ativo na
gestão das suas experiências terapêuticas. Os clientes são "co-autores" da terapia, podem
trabalhar em silêncio para si mesmos e participar simultaneamente em atividades com os seus
terapeutas, podendo ajudar a gerir a relação terapêutica. Além disso, envolvendo os clientes
ativamente no processo, procurando que estes sejam críticos, surte impacto no resultado.
Finalmente, os clientes progridem ao assimilar os seus problemas e atendendo a inovações
(Lambert, 2013).
Os primeiros estudos de eficácia em psicoterapia basearam-se principalmente nas
classificações de terapeutas e de resultados. Por exemplo, Bergin (1971), e mais tarde Bergin e
Lambert (1978), realizaram uma revisão dos dados recolhidos no Instituto Psicanalítico de
Berlim na década de 1920. Neste estudo, os psicanalistas fizeram uma revisão a notas e arquivos
16
escritos, classificaram os clientes como não curados, melhorados, muito melhorados ou
curados. Nenhum outro método de avaliação do desfecho foi incorporado ao estudo. Ao longo
do tempo, os pesquisadores em psicoterapia começaram a concentrar-se no desenvolvime nto
de uma variedade mais ampla e métodos mais rigorosos de avaliação da mudança nos estudos
de resultados.
Estudos posteriores tendem a ter uma maior especificidade de medição, com
instrumentos selecionados para avaliar os critérios diagnósticos para uma determinada
perturbação. As medidas vão-se tornando gradualmente menos vinculadas à orientação
terapêutica com maior foco nos diagnósticos (Lambert, 2013).
As medidas de auto-avaliação são certamente o elemento básico do estudo típico de
hoje. As medidas de auto-relato fornecem uma fonte única e importante de informações sobre
a mudança ocorrida durante a psicoterapia. As medidas de auto-relato são particularme nte
importantes na prática clínica, onde a visão do sucesso do cliente é mais importante do que os
objetivos de pesquisa. No entanto, persistem algumas preocupações quanto ao uso exclusivo do
auto-relato do paciente como meio de avaliar o resultado do tratamento (Lambert, 2013).
Smith, Glass e Miller (1980) referem que as medidas de auto-relato podem superestima r
as mudanças de tratamento. Além disso, uma vez que os clientes são parte integrante do
processo terapêutico, podem ter uma perspetiva limitada sobre as mudanças ocorridas durante
o tratamento. Em suma, as medidas de auto-relato fornecem uma perspetiva importante, mas
ainda é apenas uma visão do resultado da terapia.
18
1.3.3. A relação terapêutica
19
Investigações recentes acerca do processo terapêutico têm demonstrado que este não
ocorre apenas sobre as técnicas utilizadas pelos terapeutas, mas sim como se deve intervir para
realizar alterações nas caraterísticas sociais, emocionais e comportamentais do cliente. Em
diversas terapias, a relação terapêutica mostrou ser um forte indicador com resultados positivos.
Marmar, Gaston, Gallagher e Thompson (1989) avaliaram a relação terapêutica através da
escala California Psychotherapy Alliance Scale (CALPAS), e concluíram que esta, estava
relacionada com bons resultados nas intervenções comportamentais e cognitivas. Uma relação
terapêutica positiva no início da intervenção poderá estar relacionada com a mudança que já
tinha ocorrido na psicoterapia. Isto quer então dizer, que os clientes que alcançaram melhor ias
na sua sintomatologia após algumas sessões, vêm o seu terapeuta e a terapia como positivas.
Então, será importante interrogar se é a relação terapêutica o preditor do resultado, a melhor ia
precoce da intervenção ou os dois fatores têm interligação.
No estudo de Barber e colaboradores (2000), foi apresentado que a relação terapêutica
nas sessões 2, 5 ou 10 prediziam mudanças significativas nos sintomas. O estudo divulgou ainda
que a melhoria dos sintomas estava associada com o nível da relação. Logo, os clientes que
exibem resultados positivos na redução de sintomatologia tendem a ter um vínculo mais forte
com o seu terapeuta.
Fazendo, agora, referência às caraterísticas do terapeuta na criação de uma relação
terapêutica, os terapeutas que conseguem estabelecer relações de qualidade são considerados
empáticos, calorosos, genuínos e flexíveis, mostrando níveis baixos de hostilidade dirigida a si
próprio, maior suporte social e conforto nas relações interpessoais. Além de tudo isto, existe
uma variedade de técnicas que aparentam influenciar a relação terapêutica, como por exemplo,
a exploração, a reflexão, aprofundar o nível da sessão, evidenciar os ganhos terapêuticos,
facilitar a expressão de afeto, fazer interpretações adequadas, atender à experiência do cliente,
compreender e validar essa experiência (Ackerman & Hilsenhorth, 2003) (cit in Ribeiro, 2009).
A pesquisa tem apoiado a utilidade dos terapeutas atendendo e ajudando a reparar
ruturas na relação (Safran & Muran (2006). Contudo, os clientes, também, contribuem para
reparar estas ruturas. Muitas vezes, os clientes não tentam reparar estas ruturas e em vez disso,
optam por resolver o assunto terminando a terapia, talvez porque passam a ver a terapia como
uma perda de tempo ou que não existe a necessidade de reparar aquele relacionamento. Faz
sentido que os próprios clientes assumam também a reparação do relacionamento, visto que
investiram ambos tempo nele.
20
A construção da relação terapêutica está profundamente enraizada em conceitos
relacionados com o consenso de objetivos: concordando com a direção da mudança,
concordando com um caminho a seguir, objetivos a delinear e estruturar ativamente um
tratamento para estar em linha com esses objetivos e com as expectativas do cliente quanto à
terapia (Bordin, 1979; Tryon & Winograd, 2011).
O diagnóstico não é tudo o que os terapeutas precisam para traçar um plano de
tratamento, a colaboração com os clientes em torno dos objetivos do tratamento é um passo
importante na construção do plano de tratamento para satisfazer os desejos dos clientes. E se
clientes e terapeutas acordarem na sessão objetivos e como se irão relacionar com os objetivos
de vida dos clientes bem como as tarefas na sessão, o processo de terapia provavelmente irá
fazer sentido para os clientes e isso irá mobilizar a sua participação ativa.
21
emocionais também beneficiam medicamente (saúde física) quando participam em
intervenções psicológicas.
Os investigadores continuam a progredir no estudo da manutenção a longo prazo dos
ganhos de tratamento. Muitos estudos de alta qualidade foram realizados na última década,
seguindo clientes durante vários anos após o tratamento. Esses estudos revelaram que os efeitos
do tratamento são mantidos.
Demonstrar que os tratamentos são benéficos por longos períodos de tempo,
identificando clientes que estão em risco de recaída, e o desenvolvimento de métodos para
melhorar os tratamentos com benefícios agudos e de longo prazo serão projetos futuros
importantes.
Quanto à questão, quanto de terapia é suficiente. A pesquisa sugere que uma grande
parte dos pacientes melhora de forma considerável após 7 sessões e que 75% dos pacientes
atenderão a critérios mais rigorosos para o sucesso após cerca de 50 sessões de tratamento.
Limitar as sessões de tratamento a menos de 20 significará que cerca de 50% dos pacientes não
obterão um benefício substancial com a terapia. Os aspetos do funcionamento do paciente
mostram uma resposta diferencial ao tratamento, com aspetos mais característicos (por
exemplo, perfeccionismo) e interpessoais do funcionamento respondendo mais lentamente do
que os sintomas psicológicos.
Com estes estudos, foi possível concluir que a mudança sintomática é mais evidente
desde o início do tratamento, enquanto, a mudança ao nível estrutural, define-se como mais
profunda e consequentemente mais lenta.
Pesquisas futuras podem revelar quais são as intervenções mais apropriadas e que são
mais eficientes na produção de mudanças nos pacientes.
22
O abandono em psicoterapia refere-se basicamente a situações em que o tratamento é
interrompido sem que haja indicação para tal ou encaminhamento por parte do terapeuta
(Lhullier & Nunes, 2000).
As revisões da literatura sobre o abandono em psicoterapia, indicam que entre 30% e
60% dos pacientes de psicoterapia terminam prematuramente (Baekeland & Lundwall, 1975;
Eiduson, 1968; Garfield, 1986)
É importante perceber como este fenómeno se caracteriza e de que modo este tem
influência no processo terapêutico. Os estudos indicam que este fenómeno acontece
frequentemente entre a 3ª e a 10ª sessão (Baekeland & Lundwall, 1975; Urtiaga, Almeida,
Vianna, Santos & Botelha, 1997).
Mais especificamente, entre 20 e 57 % dos clientes não aparecem na segunda sessão e
de 31 a 56 % não comparecem até à 4ª sessão (Baekeland & Lundwall, 1975). 40% Dos clientes
deixam de comparecer antes da primeira sessão e 70% antes da décima sessão (Rosenstein &
Millazo-Sayre, 1981, citado por Mueller & Pekarrik, 2000).
Não cumprir um número determinado de sessões classifica um paciente como
‘desistente’ (Lhullier, Nunes & Horta 2006). Esta interrupção pode ocorrer, inclusive, pela
própria perceção de melhoria por parte do paciente (Chilelli, 2000).
Piper, Ogrodniczuk, Joyce, McCallum e colaboradores (1999) consideram abandono
quando o paciente, unicamente por sua decisão, sem o conhecimento prévio do terapeuta, tendo
comparecido a pelo menos uma sessão de terapia, cessa de fazê-lo, independente do motivo que
o levou a isso.
Desta forma, o termo ‘abandono’, proposto por Lhullier & Nunes (2000), assinala
situações que incluem o término prematuro, no qual o terapeuta tem como meta levar adiante a
terapia por mais sessões e é surpreendido pela desistência do paciente.
Os abandonos em psicoterapia apresentam problemas clínicos e de moral para os
profissionais de saúde mental (Pekarik, 1985), talvez os mais significativos sejam a redução da
eficácia do tratamento e a redução da relação custo-eficácia (Garfield, 1986; Pekarik, 1985).
Baekeland & Lundwall (1975) analisaram extensivamente 362 artigos das literaturas sobre
tratamento de saúde mental e relataram resultados de 74 estudos de abandono em psicoterapia.
Eles concluíram que o abandono da terapia foi mais associado a variáveis do cliente, como por
exemplo, baixo nível socioeconómico, o cliente ser do género feminino, ter baixos níveis de
ansiedade e / ou depressão e baixo nível de experiência do terapeuta.
23
Muitos clientes abandonam prematuramente a psicoterapia, não retomando o
atendimento em saúde mental, sendo que a maioria dos casos de desistência acaba em retorno
do atendimento, existindo a necessidade de reiniciar o processo de avaliação e diagnóstico e
futuros encaminhamentos (Goldenberg, 2002).
No geral, o processo de retorno resulta no agravamento dos casos, na insatisfação
profissional e num maior gasto económico.
Trabalhos como o de Lhullier (2002) organizam as pesquisas sobre o abandono em
categorias de variáveis classificadas em relação aos aspetos sociodemográficos, variáve is
específicas do paciente, variáveis do tratamento e do terapeuta, variáveis interpessoais e
institucionais. Independentemente da forma que os fatores associados ao abandono sejam
organizados, as situações identificadas nos trabalhos refletem a complexidade dos elementos
que cooperam para a perceção do paciente sobre a sua condição de saúde e, consequenteme nte ,
a sua atitude perante as prescrições terapêuticas.
Weirzbicki e Pekarik, em 1993, encontraram uma relação moderadamente forte entre o
abandono em psicoterapia e a aliança terapêutica. Os clientes com alianças terapêuticas mais
fracas eram mais propensos a abandonar a psicoterapia.
Numa meta-análise Weirzbicki e Pekarik, 1993 verificam que os participantes que
tinham um nível educacional baixo eram mais propensos a abandonar a psicoterapia, sendo que,
indivíduos com um nível educacional superior tinham uma probabilidade maior de finalizar o
tratamento. É também possível que os clientes com um nível educacional alto sejam mais
parecidos com os terapeutas, facilitando expectativas convergentes em relação ao tratamento.
Estudos com tratamentos mais longos demonstraram associações mais fortes entre a
aliança e o abandono. Os clientes em tratamentos de 16 a 40 sessões podem ter sido mais
influenciados pela relação terapêutica e, portanto, mais propensos a abandonar a terapia como
resultado de dificuldades na aliança do que os clientes em tratamentos de 9 a 16 sessões.
25
Kendall e Sugerman (1997) encontraram maiores taxas de desistência e abandono entre
os indivíduos que esperaram oito semanas para iniciar a intervenção, quando comparados com
indivíduos admitidos logo em seguida ao diagnóstico.
26
relação com o terapeuta, dificultando assim a formação da aliança terapêutica e apresentando
um risco maior de abandono da terapia (Pinheiro, 2001).
29
nível socioeconómico o nível educacional e o facto de pertencer a grupos minoritários são
fatores que permanecem constantemente associados ao abandono.
Issakidis e Andrews (2004) identificaram que fatores demográficos atuavam na
permanência do tratamento, porém em menor intensidade quando comparados com as
características clínicas dos pacientes.
Outros estudos de Chilelli e Enéas em 2000, apontam um índice elevado de pacientes
que não mencionam razões do abandono e outros que citaram a dificuldade financeira como um
fator responsável. Este estudo procurou, junto aos pacientes que haviam abandonado
tratamento, os motivos que os levaram a esta decisão, encontrando-se vários indivíduos que
relataram um sentimento de melhora, mas não expressaram desejo de retornar ao tratamento,
apontando, com isso, a necessidade de investigar mais detalhadamente outras variáve is
relevantes ao desfecho do abandono psicoterapêutico. Neste sentido, o paciente considera que
os objetivos foram alcançados, interrompendo a psicoterapia.
Estudos de Nichols e Pekarik em 1992, numa investigação que utilizou a avaliação de
176 pacientes e 22 terapeutas em relação à melhoria clínica do paciente, satisfação com a terapia
e presença de obstáculos para a continuidade do tratamento, apontam a satisfação com o
tratamento como o único fator associado à continuidade da psicoterapia. Isto é, quanto mais
insatisfeitos, independentemente do grau de melhoria percebido como resultado da terapia, o
cliente estivesse maiores eram as hipóteses de abandono.
30
O custo emocional, económico e social de abandonos psicoterapêuticos na área da saúde
mental é alto e pode ser reduzido, se forem promovidas ações nos serviços de acolhimento do
paciente.
Também, no treino profissional, é importante que o terapeuta esteja a par das
características dos processos terapêuticos associados ao maior abandono, a fim de que o
desenvolvimento da aliança terapêutica leve em conta as especificidades de cada caso.
Em suma, o abandono psicoterapêutico refere-se a situações de interrupção do processo
psicoterapêutico que estão associadas a diversos fatores, como por exemplo características do
paciente, do terapeuta, da técnica e do setting terapêutico. Foi possível identificar que este tema
constitui uma questão importante para a prática clínica, considerando as consequências
negativas da interrupção dos tratamentos na saúde mental, a nível pessoal, social e económico.
31
Parte II - Estudo Empírico
3.1 – Objetivos
3.2 – Método
3.2.1 – Participantes
32
composta por 68 clientes (N=68) atendidos na consulta psicológica de adultos de uma clínica
pedagógica de psicologia no período compreendido entre setembro de 2015 e julho de 2017.
3.2.2– Material
3.2.3 – Procedimento
33
Capítulo IV – Análise dos dados e interpretação dos resultados
4.1 – Caraterização sociodemográfica, institucional e clínica dos clientes que recorre ram
ao serviço de consulta psicológica de adultos de uma clínica pedagógica de psicologia
Tabela 1
Frequência Percentagem
n válida
%
Feminino 45 66.2
Sexo
Masculino 23 33.8
[18-28[ 15 22.1
[28-38[ 13 19.1
Idade
[38-48[ 23 33.8
≥48 17 25.0
Solteiro 26 22.1
Casado/União de facto 26 19.1
Estado civil
Divorciado/Separado 12 33.8
Viúvo 4 25.0
Urbana 38 58.5
Área de
Sub-urbana 19 29.2
residência
Outras localidades 8 13.3
1º Ciclo 2 3.0
2º Ciclo 2 3.0
Escolaridade 3º Ciclo 7 10.4
Secundário 30 44.8
Superior 26 38.8
34
4.1.2- Variáveis institucionais
Tabela 2
Frequência Percentagem
n válida
%
Isento 3 4.4
Tipo de Redução 6 8.8
pagamento Pagamento 42 61.8
Em divida 17 25.0
Estágio curricular 50 73.5
Experiência
Estagio profissional 2 2.9
do terapeuta
Psicólogo efetivo 16 23.5
Mudança de Sim 15 23.4
técnico Não 49 76.6
35
Tabela 3
Frequência Percentagem
n válida
%
Perturbações emocionais 25 36.8
Diagnóstico Comorbilidade 12 17.6
Sem diagnóstico 31 45.6
Acompanhamento Sim 22 33.3
psicológico prévio Não 44 66.7
Acompanhamento Sim 23 34.8
psiquiátrico prévio Não 43 65.2
Sim 32 48.5
Psicofarmacoterapia
Não 34 51.5
Outros problemas de Sim 26 38.8
saúde Não 41 61.2
Até 1 mês 18 29.5
Tempo total de 2 a 3 meses 13 21.3
intervenção 4 a 6 meses 11 18.0
Mais de 7 meses 19 31.1
1 sessão 13 21.3
2 a 6 sessões 13 21.3
Número de sessões
7 a 12 sessões 20 32.8
Mais de 13 sessões 15 24.6
Alta 9 13.2
Passagem de caso 10 14.7
Estado atual do
Encaminhamento 2 2.9
acompanhamento
Dropout 44 64.7
Em acompanhamento 3 4.4
25
Perturbações de ansiedade
20 Perturbações depressivas
Perturbações da personalidade
15
Pertubações psicóticas
Tabela 4
n M DP
Tempo de intervenção 61 6.08 6.65
37
4.2. Comparação entre os clientes que abandonaram precocemente o processo
psicoterapêutico (Dropout) e os que se encontram noutra situação (alta, acompanhame nto
e encaminhamento) no que se refere às variáveis sociodemográficas, institucionais e
clínicas
Tabela 5
38
No entanto, e como forma de se confirmar se a diferença entre os valores observados e
os esperados é considerada significativamente diferente no universo ou, se pelo contrário, não
é significativa e resulta de erros amostrais, procedeu-se à realização do teste do Qui-Quadrado,
que permite afirmar que a relação observada entre estado do acompanhamento e sexo não é
estatisticamente significativa no universo em análise (X2 =1.29; p=.26).
Posto isto, e atendendo ao facto de que não existe uma relação de dependência entre
estado do acompanhamento e sexo, optou-se por não se prosseguir para a análise do grau de
associação existente entre ambas as variáveis.
Tabela 6
39
No entanto, e com o objetivo de estudarmos as diferenças entre as distribuições dos
escalões etários nos grupos “dropout” e “outra situação”, optámos pela utilização do teste não
paramétrico U de Mann-Whitney, cujo nível de significância (p=.116) nos permite afirmar que
a distribuição da idade é a mesma entre as categorias da situação de acompanhamento.
Se optarmos pela utilização da variável idade na sua forma intervalar, verifica-se que
aqueles que abandonam precocemente o processo psicoterapêutico têm uma média de idades
inferior àqueles que se encontram noutra situação [(M=37.5; DP=14.37); (M=45.3; DP=15.56),
respetivamente], sendo estas diferenças estatisticamente significativas (t=-2.08; gl=66; p=.042).
No que se refere à variável estado civil, e como se pode observar pela análise da Tabela
7, o perfil dos participantes que abandonam precocemente o processo psicoterapêutico difere
dos que se encontram noutra situação (alta, acompanhamento, encaminhamento), na medida
em que a maioria dos que fazem, dropout são solteiros (45.5%) e dos que se encontram noutra
situação são maioritariamente casados (54.2%).
Tabela 7
Outra
Dropout
situação
n 20 6
Valor esperado 16.8 9,2
% Em coluna 45.5 25.0
Solteiro
Resíduos ajustados 1.7 -1.7
n 13 13
Valor esperado 16.8 9.2
Casado/União de facto % Em coluna 25.9 54.2
Resíduos ajustados -2.0 -2.0
Estado civil
n 10 2
Valor esperado 7.8 4.2
Divorciado/separado % Em coluna 22.7 8.3
Resíduos ajustados .8 -1.5
n 1 3
Valor esperado 2.6 1.4
Viúvo % Em coluna 2.3 12.5
Resíduos ajustados -1.7 1.7
40
Na medida em que existem 3 células (37.5% de 8) com frequências esperadas inferior es
a cinco, duas delas referentes aos participantes viúvos e uma delas aos participantes
divorciados/separados, a interpretação da relação entre estado do acompanhamento e estado
civil deve ser lida com algum cuidado.
Assim sendo, e apesar do nível de significância do teste do Qui-Quadrado, que neste
caso indica uma relação de dependência (p=.033), a análise dos resíduos padronizados permite
verificar que a contribuição destas 3 categorias (viúvo x dropout, viúvo x outra situação e
divorciado/separado x outra situação) (3.79) é apenas ligeiramente inferior à contribuição das
outras 5 categorias (4.956) para a medida global do X2 (8.746), o que não nos permite concluir
acerca de uma relação de dependência entre as variáveis estado do acompanhamento e estado
civil.
Tabela 8
Outra
Dropout
situação
n 26 12
Valor esperado 24.6 13.4
Urbana
% Em coluna 61.9 52.2
Resíduos ajustados .8 -.8
n 13 6
Zona de Valor esperado 12.3 6.7
Sub-urbana
residência % Em coluna 31.0 26.1
Resíduos ajustados .4 -.4
n 3 5
Valor esperado 5.2 2.8
Outras localidades % Em coluna 7.1 21.7
Resíduos ajustados -1.7 1.7
41
Estando cientes de que existe uma categoria (outra situação x outras localidades) com
um valor esperado inferior a 5, avançamos para a análise inferencial através do teste do Qui-
Quadrado que nos permite concluir não existir dependência entre as variáveis em estudo
(X2 =2.934; p=.231).
Por último, e no que diz respeito à variável escolaridade, e mais uma vez, procurando
fazer-se a caraterização do perfil dos participantes que abandonam precocemente o processo
psicoterapêutico, verifica-se que a maioria dos participantes tem habilitações literárias ao nível
do ensino secundário (39.5%) e superior (39.5%); os que se encontram noutra situação
apresentam maioritariamente escolaridade ao nível do ensino secundário (54.2%) (Tabela 9).
Não obstante, não sendo expectável existirem relações de dependência entre estas
variáveis, na medida em que não há resíduos ajustados que se afastem de -2 e 2 (Tabela 9),
optámos ainda assim pela realização do teste U de Mann-Whitney que apresenta como decisão
reter a hipótese nula, segundo a qual a distribuição da escolaridade é a mesma entre as categorias
da situação de acompanhamento.
Tabela 9
Tabela 10
Perfil dos participantes que fizeram dropout em função das variáveis sociodemográficas
A análise da variável tempo de espera em meses permite-nos afirmar que aqueles que
fizeram dropout esperaram em média 1.6 meses e que aqueles que se encontravam noutra
situação aguardaram em média 1.5 meses, não sendo estas diferenças estatisticame nte
significativas, pelo que podemos afirmar que os grupos não se distinguem quanto ao tempo de
espera (Tabela 11).
Tabela 11
Estado do Acompanhamento
Dropout Outra situação
(n=44) (n=24)
M DP M DP t gl p
Tempo de
Espera 1.57 1.82 1.46 1.69 .242 66 .81
(Meses)
43
Relativamente à variável tipo de pagamento, o perfil dos participantes que abandonam
precocemente o processo psicoterapêutico não difere dos que se encontram noutra situação
(alta, acompanhamento, encaminhamento), na medida em que a maioria dos que fazem dropout
têm a sua situação administrativa regularizada (47.7%) e os que se encontram noutra situação
também (87.5%). Nos que abandonam precocemente o processo psicoterapêutico existe uma
menor frequência de participantes que se encontram isentos (6.8%) e que usufruem de redução
(6.8%); nos participantes que se encontram noutra situação não existem participantes em
situação de isenção nem em situação de divida (0%) (Tabela 12).
Ainda pela análise da Tabela 12, é possível verificar que, no que se refere ao estado do
acompanhamento (dropout vs outra situação), o perfil dos participantes com pagamento (47.7%
vs 87.5%) e com divida (38.6% vs 0.0%) ultrapassam os restantes (6.8% vs 0.0% isentos e os
6.8% vs 12.5% com redução).
Na medida em que existem 4 células (50% de 8) com frequências esperadas inferior es
a cinco, duas delas referentes a participantes que fizeram dropout (isenção e redução do
pagamento) e as outras duas a participantes que se encontram noutras situações (isenção e
redução do pagamento), a interpretação da relação entre estado do acompanhamento e tipo de
pagamento das consultas deve ser lida com algum cuidado.
Tabela 12
44
O nível de significância do teste do Qui-Quadrado indica uma relação de dependência
(p=.001), sendo que se verifica que a contribuição destas 4 categorias (isenção x dropout;
redução x dropout; isenção x outra situação; redução x outra situação) (2.16) é muito inferior à
contribuição das outras 4 categorias (13.295) para a medida global do X2 (15.455), o que nos
permite afirmar que a interpretação da relação de dependência entre situação de
acompanhamento e tipo de pagamento não é enganadora.
Não obstante, e dado que as categorias com frequências esperadas inferiores a cinco
(isenção x dropout; redução x dropout; isenção x outra situação; redução x outra situação) têm
apenas 9 observações, optámos por as eliminar da análise, sem alterar o resultado do teste. Desta
forma, as interpretações que se seguem respeitam apenas às categorias com “pagamento de
consulta” e com “dívida”.
Tabela 13
Valor p
Fi -.473 .000
Variável tipo de
V de cramer .473 .000
pagamento
Coeficiente de
contingência .428 .000
Tabela 15
Tabela 16
Apresentadas as variáveis institucionais e mais uma vez, procurando fazer uma síntese
da análise comparada entre os participantes que abandonam precocemente o processo
psicoterapêutico e os que se encontram noutra situação (alta, acompanhamento e
encaminhamento) em função das variáveis institucionais (tempo de espera, tipo de pagamento,
experiencia do terapeuta e mudança de técnico), verificamos que os perfis destes participantes
não se distinguem entre si, com exceção da variável tipo de pagamento, para a qual se encontra
uma forte associação entre o tipo de pagamento com dívida junto daqueles que fizeram dropout.
Ainda assim, e na tentativa de procurar traçar o perfil dos clientes adultos que
abandonaram precocemente o processo psicoterapêutico, apresentamos os seguintes dados:
Tabela 17
Perfil dos participantes que fizeram dropout em função das variáveis institucionais
No que diz respeito à variável diagnóstico, o perfil dos participantes que abandonam
precocemente o processo psicoterapêutico difere dos que se encontram noutra situação (alta,
acompanhamento e encaminhamento), na medida em que a maioria dos que fizeram dropout
(54.5%) não apresentavam diagnóstico e os que se encontram noutra situação (37.5%)
perturbações emocionais. (Tabela 18)
Nos que abandonam precocemente o processo psicoterapêutico existe uma menor
frequência de participantes que apresentavam outro tipo de perturbação (9.1%) e com
perturbações emocionais (36.4%); nos participantes que se encontram noutra situação existe
uma menor frequência em participantes que não apresentavam diagnóstico (29.2%) e em
participantes com perturbações emocionais (37.5%).
48
No que se refere ao estado do acompanhamento (dropout vs outra situação), o perfil dos
participantes que não apresentavam diagnóstico (54.5% vs 29.2%) ultrapassam os restantes
(36.4% vs 37.5% que apresentavam perturbações emocionais e os (9.1% vs 33.3%) que
apresentavam outro tipo de perturbação.
Tabela 18
Na medida em que existe 1 célula (16.7% de 6) com frequência esperada inferior a cinco
(outra situação x outro diagnóstico), a interpretação da relação entre as variáveis estado de
acompanhamento e diagnóstico deve ser lida com algum cuidado.
Assim sendo, e apesar do nível de significância do teste do Qui-Quadrado, que neste
caso indica uma relação de dependência (p=.025), a análise dos resíduos padronizados permite
verificar que a contribuição da categoria outra situação x outro diagnóstico (3.24) é apenas
ligeiramente inferior à contribuição das outras 5 categorias (4.131) para a medida global do X2
(7.371), o que não nos permite concluir acerca de uma relação de dependência entre as variáve is
estado de acompanhamento e diagnóstico.
49
Numa análise mais criteriosa destes dados verifica-se, no entanto, que o perfil dos
participantes que abandonam precocemente o processo psicoterapêutico não difere dos que se
encontram noutra situação (alta, acompanhamento e encaminhamento), na medida em que
existe uma maior prevalência de participantes que não tiveram acompanhamento psicológico
prévio (70.5%) na categoria abandono precoce do processo psicoterapêutico e na categoria
outra situação (59.1%).
Tabela 19
Tabela 20
Atendendo ao facto de que não existe uma relação de dependência entre estado do
acompanhamento e acompanhamento psiquiátrico prévio, optou-se por não se prosseguir para
a análise do grau de associação existente entre ambas as variáveis.
Tabela 21
Quanto à existência de problemas de saúde verifica-se, pela análise da Tabela 22, que
a maioria dos participantes que abandonaram precocemente o processo psicoterapêutico
(72.7%; n=32) não apresentam problemas de saúde; ao contrário, junto daqueles que se
encontram noutra situação, a maioria (60.9%; n=14) apresenta outros problemas de saúde.
De modo a confirmar se a diferença entre os valores observados e os esperados é
significativamente diferente no universo ou, se pelo contrário, não é significativa e resulta de
erros amostrais, procedeu-se à realização do teste do Qui-Quadrado, que permite afirmar que,
neste caso, a relação observada nos nossos participantes entre estado do acompanhamento e
problemas de saúde é estatisticamente significativa (X2 =7.18; p=.007).
52
Tabela 22
Posto isto, e atendendo a que existe uma relação de dependência entre estado do
acompanhamento e problemas de saúde, optámos por analisar o grau de associação existente
entre as variáveis, tendo-se optado pelas medidas de associação baseadas nas estatísticas do
Qui-Quadrado (Tabela 23), que nos permite concluir existir uma associação significativa, ainda
que fraca, entre as variáveis estado do acompanhamento e problemas de saúde.
Tabela 23
Medidas de associação da variável estado do acompanhamento e a variável problemas de
saúde
Valor p
Fi -.327 .007
Variável problemas
V de cramer .327 .007
de saúde
Coeficiente de
contingência .311 .007
53
apresentam um valor médio superior do Total de Sintomas Positivos (TSP). No entanto,
verifica-se tal como se pode observar pela análise da Tabela 24, que estas diferenças de média
não são estatisticamente significativas.
Tabela 24
Estado do Acompanhamento
Dropout Outra situação
(n=39) (n=21)
M DP M DP T gl p
Nota.
IGS - Índice Geral de Sintomas; ISP - Índice de Sintomas Positivos; TSP - Total de Sintomas Positivos
Quanto à variável tempo de intervenção verifica-se que o perfil dos participantes que
abandonam precocemente o processo psicoterapêutico difere dos que se encontram noutra
situação (alta, acompanhamento e encaminhamento), na medida em que a maioria dos que
fizeram dropout (39.0%) estiveram em acompanhamento até um mês e os que se encontram
noutra situação (45.0%) estiveram mais de 7 meses em acompanhamento. Nos que abandonam
precocemente o processo psicoterapêutico existe uma menor frequência de participantes que
estiveram em acompanhamento de 4 a 6 meses (17.1%); nos participantes que se encontram
noutra situação existe uma menor frequência em participantes que estiveram em
acompanhamento até 1 mês (10.0%) (Tabela 25).
54
Tabela 25
Por último, e no que se refere à variável número de sessões verifica-se que o perfil dos
participantes que abandonam precocemente o processo psicoterapêutico difere dos que se
encontram noutra situação (alta, em acompanhamento ou encaminhamento), na medida em que
55
a maioria dos que fizeram dropout (31.7%) tiveram uma sessão ou entre 7 a 12 sessões (31.7%)
e os que se encontram noutra situação (40.0%) tiveram mais de 13 sessões. Nos que abandonam
precocemente o processo psicoterapêutico existe uma menor frequência de participantes que
tiveram mais de 13 sessões (17.1%), e nos que se encontram noutra situação não existem
participantes (0.0%) a ter apenas uma sessão (Tabela 26).
Tabela 26
56
Por fim, e apresentadas as variáveis clínicas, procuramos fazer mais uma vez a síntese
da análise comparada entre os participantes que abandonam precocemente o processo
psicoterapêutico e os que se encontram noutra situação (alta, acompanhamento ou
encaminhamento) em função das variáveis clínicas (diagnóstico, acompanhamento psicológico
prévio, acompanhamento psiquiátrico prévio, psicofármacoterapia, problemas de saúde,
sintomatologia psicopatológica, tempo total de intervenção e número de sessões) (Tabela 27).
O perfil dos participantes que fizeram dropout apenas se distingue do daqueles que se
encontram noutra situação relativamente às variáveis “outros problemas de saúde”, “tempo total
de intervenção” e número de sessões. Ainda assim, e na tentativa de procurar traçar o perfil dos
clientes adultos que abandonaram precocemente o processo psicoterapêutico, apresentamos os
seguintes dados:
Tabela 27
Perfil dos participantes que fizeram dropout em função das variáveis clínicas
Este capítulo é dedicado à discussão dos resultados obtidos após a análise documenta l
dos processos de clientes que recorreram à consulta psicológica de adultos de uma clínica
pedagógica de psicologia no período compreendido entre 2015 e 2017.
Por uma questão de organização, iremos começar por apresentar uma síntese das
caraterísticas sociodemográficas, institucionais e clínicas da totalidade dos participantes, após
o que iremos descrever e analisar em mais detalhe apenas aqueles que abandonaram
57
precocemente o processo psicoterapêutico, já que este constitui o nosso principal objeto de
estudo.
Os nossos participantes (N=68) são maioritariamente mulheres (66.2%), com uma
média de idade de 40.3, solteiros ou casados/em união de facto (38.2%), e a residir em zona
urbana (58.5%). No que se refere à escolaridade, a maioria dos participantes tem pelo menos
ensino secundário (83.6%). Os participantes aguardaram, em média, 1.53 meses em lista de
espera, tendo a maioria efetuado o pagamento da taxa moderadora das consultas (61.8%).
Quanto à mudança de técnico, a maioria (76.6%) manteve-se sempre com o mesmo profissio na l
e no que diz respeito à experiência do terapeuta a maioria foi atendido por estagiários
curriculares (73.5%).
Em termos diagnósticos, a maioria dos participantes (54.4%) apresenta algum tipo de
perturbação psicopatológica, não teve acompanhamento psicológico (66.7%) nem psiquiátr ico
(65.2%) prévio a maioria (51.5%) não faz farmacoterapia. Relativamente à existência de outros
problemas de saúde 61.2% refere não ter problemas.
Quanto ao tempo médio de intervenção, os participantes estiveram em acompanhame nto
6.08 meses, tendo tido em média 11 sessões. No que se refere à sintomatologia psicopatológica,
verifica-se que os nossos participantes parecem apresentar perturbação emocional.
A maioria dos participantes abandonou precocemente o processo psicoterapêutico
(64.7%).
Passando agora para a análise e discussão do perfil encontrado junto daqueles que
abandonaram precocemente o processo psicoterapêutico (dropout) (N=44) e comparando- o
com o perfil dos que se encontram noutra situação (alta, acompanhamento e encaminhame nto)
(N=24) optámos, uma vez mais, por apresentar os dados organizados por categorias:
sociodemográficas, institucionais e clínicas.
Assim, e de um ponto de vista sociodemográfico, verificamos que a maioria dos
participantes que fizeram dropout são mulheres (61.4%), o que vai de encontro com vários
estudos que demonstraram, efetivamente, que as taxas mais elevadas de dropout verifica m- se
nas mulheres (Baekeland & Lundwall,1975). No entanto, a relação observada entre abandono
precoce do processo psicoterapêutico e a variável sexo não é estatisticamente significativa no
universo em análise.
Relativamente à idade, os participantes que abandonaram precocemente o processo
psicoterapêutico apresentam uma idade média de 37.5 anos, sendo esta significativame nte
inferior à média de idades dos restantes (que se encontram noutra situação). Quanto ao estado
58
civil, a maioria é solteiro (45.5%) mas, uma vez mais, não parece haver relação de dependência
entre as variáveis. Estes resultados vão de encontro ao estudo realizado por Bueno e
colaboradores (2001), segundo o qual os jovens e os indivíduos solteiros são os grupos que
apresentam taxas mais elevadas de dropout.
Apesar de não existir relação de dependência entre a situação de acompanhamento e a
zona de residência, verifica-se que a maioria dos participantes do nosso estudo reside em zonas
urbanas (61.9%) situadas na área geográfica da clínica pedagógica de psicologia onde se
efetuava o acompanhamento. Este dado não é consistente com a literatura consultada, pois
segundo esta a distância entre o local de residência e o local do acompanhamento são preditores
de abandono precoce do processo psicoterapêutico (Bueno et al., 2001).
A maior parte dos participantes deste estudo apresentaram habilitações ao nível do
ensino secundário (39.5%) e superior (39.5%), não existindo, uma vez mais, uma relação de
dependência com a nossa variável independente. Estes dados não são corroborados pela
literatura consultada (Luk et al., 2001; Sirles, 1990; Weirzbicki & Pekarik, 1993), na medida
em que esta aponta para o facto dos indivíduos com um nível educacional baixo terem mais
propensão para abandonar o processo psicoterapêutico e dos indivíduos com um nível
educacional superior terem uma maior probabilidade de finalizar o processo.
Do ponto de vista institucional, os participantes que abandonam precocemente o
processo psicoterapêutico aguardam em média 1.6 meses em lista de espera, tempo este que
não se distingue estatisticamente do tempo aguardado pelos restantes participantes. Assim
sendo, e apesar de existir literatura que mostra que o tempo de espera para receber o
acompanhamento é um preditor de abandono precoce (Kendall & Sugerman, 1997; Lhullier,
Nunes, Antochevis, Porto & Figueiredo, 2000), tal não se verifica no nosso estudo.
Relativamente ao tipo de pagamento, os participantes que fizeram dropout encontram-
se na totalidade com dívida (100%), assistindo-se a uma associação forte e significativa entre
as variáveis. Neste sentido, podemos concluir que sabendo que um cliente está em situação de
dívida torna-se muito provável que abandone precocemente o processo psicoterapêutico, o que
vai de encontro aos estudos de Baekeland e Lundwall (1975) e de Bueno e colaboradores (2001)
que referem que indivíduos com um nível socioeconómico baixo, têm mais propensão para
abandonar o processo psicoterapêutico. Também Kazdin (1994), Kazdin e colaboradores
(1997) e Kazdin, Stolar e Marciano (1995) referem que grupos minoritários ou com
desvantagem socioeconómica apresentam esta condição. Por fim, Chielli e Enéas (2000)
59
apontam um índice elevado de pacientes que não mencionam razões do abandono e outros que
citaram a dificuldade financeira como um fator responsável.
Os participantes que abandonaram precocemente o processo psicoterapêutico foram
acompanhados na sua maioria por estagiários curriculares (70.5%), apesar da relação observada
entre estado do acompanhamento e experiência do terapeuta não ser estatisticame nte
significativa no universo em análise. Desta forma, os nossos dados não vão de encontro à
literatura consultada (Baekeland & Lundwall, 1975; Carvalho & Terzis (1988) segundo a qual
o abandono da terapia aparece mais associado ao baixo nível de experiência do terapeuta
No que respeita à mudança de técnico, 81% dos participantes que fizeram dropout não
tiveram mudança de técnico, sendo no entanto que a relação observada entre estado do
acompanhamento e mudança de técnico não é estatisticamente significativa. Este dado não é
conforme com a literatura consultada (Lhullier, Nunes, Antochevis, Porto & Figueiredo, 2000),
segundo a qual os abandonos ocorrem devido à mudança de terapeuta, já que nem todos os
tratamentos são concluídos no tempo de estágio do terapeuta em formação.
Do ponto de vista clínico, a maioria dos participantes que fez dropout não apresenta
diagnóstico (54.5%) e, também aqui, não podemos concluir acerca de uma relação de
dependência entre as variáveis estado de acompanhamento e diagnóstico. Este dado não vai de
encontro com o estudo de Dierker e colaboradores (2001) que refere a que a história antissocia l
do indivíduo e a presença de queixas múltiplas se associam de forma positiva ao abandono,
nem com o estudo de Bueno e colaboradores (2001) que refere que as perturbações de
personalidade em geral, os estados psicóticos e a ocorrência de ideação paranoide são os
quadros com maior dificuldade de envolvimento no processo terapêutico e os que apresentam
um risco maior de abandono. No entanto, Baekeland e Lundwall levaram a cabo em 1975 um
estudo no qual concluem que o abandono da terapia está mais associado a variáveis do cliente
como, por exemplo, este ter baixos níveis de ansiedade e/ou depressão.
Quanto ao acompanhamento psicológico e psiquiátrico prévio, a maioria dos
participantes que abandonaram precocemente o processo psicoterapêutico não tiveram
acompanhamento psicológico nem psiquiátrico prévio (70.5% e 61.4%, respetivamente). Para
ambas as variáveis, a relação com a nossa variável independente (estado do acompanhame nto)
não é estatisticamente significativa no universo em análise. Neste nosso estudo, não foi
encontrado suporte bibliográfico que nos ajudasse a compreender o comportamento desta
variável.
60
No que se refere à toma de psicofármacos, 55.8% dos participantes que abandonaram
precocemente o processo psicoterapêutico não estava a fazer psicofárma coterapia. Uma vez
mais, a relação observada entre estado do acompanhamento e psicofármacoterapia não é
estatisticamente significativa no universo em análise, mais uma vez, neste nosso estudo, não foi
encontrado suporte bibliográfico que nos ajudasse a compreender o comportamento desta
variável.
Quanto aos problemas de saúde, a maioria dos participantes que fez dropout não
apresenta outros problemas de saúde (72.7%), tendo-se verificado uma relação de dependência
entre as variáveis estado do acompanhamento e problemas de saúde. Neste sentido, é possível
afirmar-se que a existência de outros problemas de saúde parece estar associada com a
manutenção do cliente em terapia. Neste nosso estudo, não foi encontrado suporte bibliográ fico
que nos ajudasse a compreender o comportamento desta variável.
Relativamente à sintomatologia psicopatológica (medida através dos índices globais do
BSI), não existem diferenças estatisticamente significativas entre os participantes que fizera m
dropout e os restantes. De acordo com alguma da literatura consultada (Chielli & Enéas, 2000;
Ribeiro & Mesquita, 2009), muitos dos clientes que fazem dropout relatam um sentimento de
melhoria, o que os leva a considerar que os objetivos foram alcançados e a abandonar o
processo.
Quanto ao tempo total de intervenção, 39% dos participantes que fizeram dropout
estiveram em acompanhamento até um mês. Em termos médios, estes participantes estiveram
a ser acompanhados por um período de 4.5 meses, tempo este significativamente inferior aos
que se encontram noutra situação (alta, acompanhamento, encaminhamento). Estudos de
Baekeland e Lundwall (1975) e de Urtiaga, Almeida, Vianna, Santos e Botelha (1997) referem
que 61% dos atendimentos duravam em média seis meses, o que de certo modo se enquadra
com os nossos resultados.
Por fim, no que diz respeito ao número de sessões, 31.7% dos participantes que
abandonaram precocemente o processo psicoterapêutico tiveram apenas uma sessão e 31.7%
tiveram entre 7 e 10 sessões. Em termos médios, estes participantes tiveram 7.5 sessões, número
este significativamente inferior aos que se encontram noutra situação. Estes dados vão de
encontro aos estudos de Baekeland e Lundwall (1975) e de Urtiaga, Almeida, Vianna, Santos e
Botelha (1997) que referem que o abandono precoce do processo psicoterapêutico acontece
frequentemente entre a 3ª e a 10ª sessão. Mais especificamente, entre 20 e 57% dos clientes não
61
aparecem na segunda sessão e 31 a 56% não comparecem até à 4ª sessão e 70% antes da décima
sessão.
62
Conclusão
63
Do ponto de vista teórico, este estudo representa um contributo para o atual
conhecimento acerca do papel de variáveis sociodemográficas, institucionais e clínicas no
abandono precoce do processo psicoterapêutico. Ficou evidente a presença de diferenças
significativas quanto à idade, ao tipo de pagamento, aos problemas de saúde, ao tempo de
intervenção e ao número de sessões.
Considera-se que, no presente estudo, existem algumas limitações, que são importantes
ser mencionadas e refletidas, sendo que, tomar consciência das mesmas serve de ponto de
partida para novas e futuras investigações neste campo de investigação.
Uma das limitações prende-se com o tamanho reduzido da amostra, para além da mesma
se circunscrever a apenas uma clínica pedagógica de psicologia. Assim, posteriores estudos
deveriam considerar a amplificação da amostra a diferentes faixas etárias, assim como o
alargamento do estudo a clientes de várias clínicas pedagógicas de psicologia, assim como, a
outras instituições de saúde.
Para atingir os objetivos do presente estudo foi necessário recorrer a testes não
paramétricos, sendo que a sua utilização pode tornar-se uma desvantagem, pois não são tão
sensíveis. Para reverter esta ocorrência seria necessário aumentar o número de participantes.
Considera-se que a prevalência de abandono precoce do processo psicoterapêutico
poderá estar relacionada com a presença de vários fatores predisponentes, agindo
simultaneamente na amostra estudada. Segundo a literatura, género feminino, idade, estado
civil, distância do local de atendimento, baixa escolaridade, tempo de espera pelo tratamento,
haver mudança de técnico, experiência do terapeuta, diagnóstico, duração do acompanhame nto
e o número de sessões são fatores de risco para o abandono precoce do processo
psicoterapêutico e tais fatores são características da amostra do presente estudo, embora no
nosso estudo apenas a idade, a duração do acompanhamento e o número de sessões mostrem
relações de dependência com o dropout.
Após a realização deste estudo, surgem novas ideias que poderiam ser vantajosas para
futuras investigações. Seria então interessante que os locais que prestam atendimentos
psicológicos, em especial, locais de formação, desenvolvessem ações voltadas para a prevenção
do abandono, aproximando-se das questões de saúde mental, assim como, desenvolver estudos
e pesquisas nas instituições de ensino, que contribuam para a formação do aluno de Psicologia
e que ofereçam uma preparação integral para atendimentos direcionados às necessidades do ser
humano em cada contexto.
64
Os resultados do presente estudo sugerem, assim, a importânc ia da sensibilização e
prevenção e que todos os profissionais devem ter em conta todos os fatores mencionados para
atuarem de uma forma mais eficaz perante clientes com propensão para abandonar
precocemente o processo psicoterapêutico.
65
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