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Evolução do Frevo em Pernambuco

O documento discute o frevo, um ritmo musical tradicional de Pernambuco que embala o Carnaval. Apesar de algumas críticas de que o frevo estaria perdendo sua essência, historiadores afirmam que o ritmo segue forte e se mantém vivo através de mudanças, incorporando novas influências mas preservando suas raízes. O frevo completa 115 anos desde sua primeira menção na imprensa em 1907.
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Evolução do Frevo em Pernambuco

O documento discute o frevo, um ritmo musical tradicional de Pernambuco que embala o Carnaval. Apesar de algumas críticas de que o frevo estaria perdendo sua essência, historiadores afirmam que o ritmo segue forte e se mantém vivo através de mudanças, incorporando novas influências mas preservando suas raízes. O frevo completa 115 anos desde sua primeira menção na imprensa em 1907.
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É MOVIMENTO

Reportagens
especiais sobre o
mais pernambucano
e potente
dos ritmos, o frevo,
que embala o
Carnaval e mais que
isso: registra a
história através dos
tempos
2 Folha de Pernambuco [Link] - cultura@[Link] - (81) 3425-5835/3425-5843 sábado/domingo Recife, 28 e 29 de janeiro de 2023

tradição e (r
A partir de hoje, a editoria Cultura+ publica reportage
dos ritmos, o frevo, que embala o Carnaval e mais qu

GERMANA MACAMBIRA mo assim estão fazendo muito frevo por


aí, não aquele ortodoxo, o que tem que
saber ler a música, fazer arranjo. Esse
está indo”, complementou Teles, cul-
minando, desta feita, no contrassenso

“O
Frevo está muito for- de que o gênero segue “muito forte”.
te” é enunciado dos Mas quer saber? Parece que segue sim.
mais sonoros para um Ao menos é o que garante o historiador
folião que se digna em e analista de pesquisa do Paço do Fre-
ser de Pernambuco e, vo - espaço localizado no Bairro do Re-
portanto, do nasce- cife e que salvaguarda o gênero de ja-
douro do “(...) Carna- neiro a janeiro - Luiz Vinicius Maciel,
val melhor do meu Brasil”. Porque é “só quando assevera que “O frevo é moti-
aqui que tem, é só aqui que há” o gênero vado e construído através de mudan-
Patrimônio Cultural Imaterial Brasilei- ças”.
ro (Iphan, 2007) e Patrimônio Cultural
Imaterial da Humanidade (Unesco,
2012).
Fruto de
A afirmação, enfaticamente expressa mudanças
pelo jornalista e crítico de música José
Teles, deu início à conversa sobre uma “Porque se a gente passar os gêneros
das manifestações culturais mais com- musicais, os que existiam ali no final do
plexas (e completas) que pairam mun- século XIX que vão juntos desaguar no
do afora, e que na efeméride de feve- frevo, muitos deles a gente não ouve
reiro celebra no dia 9 um dos seus dias. mais com constância como o maxixe,
Consta que foi nesta data, em 1907, que por exemplo. São gêneros que dialogam
foi citado pela primeira vez por um junto com a marcha, com o dobrado,
veículo de imprensa, o Jornal Pequeno, para desaguar no novo mundo que é o
do Recife. frevo”, explica Luiz, complementando
que “o frevo é fruto dessas mudanças
Folia momesca que até os dias de hoje o mantém vivo,
sempre puxando o que tem no passado,
ganhou forma dialogando com o que a gente chama de
tradicional mas também reinventando”.
E lá se vão pelo menos 115 anos em
que o dançar, tocar, compor e colorir a
Folia de Momo ganhou forma, literal-
Frevo, enquanto
mente, em um pedaço de papel, assim conceito
como a canção “Borboleta Não é Ave”,
de Nelson Ferreira, completa neste 2022 Pensado pelo viés de que mudanças
cem anos como o primeiro frevo gra- no frevo são necessárias e, para além
vado que se tem notícia. disso, funcionam como um motor de
“Ele (o frevo) não tem mais aquela coi- entendimento entre o que se tem e o
sa de tocar no rádio, de ser o grande su- que pode ser (re)construído - a partir de
ARTE SOBRE FOTOS:GREG

cesso do Carnaval. Não é mais o suces- toda uma sonoridade, regida por notá-
so popular que ficou até o final da dé- veis como Antonio Maria e Nelson Fer-
cada de 1960, com a Rozemblit - a fa- reira, passando pelo maior compositor
lência da gravadora fez com que o fre- do ritmo, Capiba, pela dança de Nasci-
vo fosse deixando de ter espaço. O fre- mento do Passo e por um dos criadores
vo hoje é muito de nicho, né? Mas mes- do frevo, em seus primórdios, o Capitão
Folha de Pernambuco sábado/domingo Recife, 28 e 29 de janeiro de 2023 3

re) voluções
ens especiais sobre o mais pernambucano e potente
ue isso: registra a história através dos tempos

Zuzinha, não há o que temer quanto aos inesgotável e histórica que carrega,
‘descaminhos’ do gênero, tomados por mas que, no entanto, não o exime de “Ú LTIMO RE GRE SSO” (GETÚLIO CAVALCAN TI)
nomes novos que não deixam de tute- manter-se atento a mudanças (neces-
lar o frevo quando imprimem boas- sárias) e atemporais, estrategicamente
novas ao gênero. pensadas nas gerações que se avizi- “É LINDO VER VER O DIA AMANHECER / COM VIOLÕES E
“Tem muitos maestros vivos hoje nham a cada ciclo. PASTORINHAS MIL / DIZENDO BEM, QUE O RECIFE TEM
que a gente dialoga, que tiveram atua- “Ser de Recife, com orgulho e com / O CARNAVAL MELHOR DO MEU BRASIL”
ção grande nas décadas de saudade”, portanto, é ter o frevo de ou-
1970/1980/1990 e que para nós, hoje, são trora impregnado por letras saudosistas
clássicos. Mas eles tinham também os dos frevos de bloco, por exemplo, e que
seus clássicos, os grandes maestros do sim, permitem a exceção da intangibi-
passado. A mudança está muito pre- lidade a canções que invadem o imagi-
sente na história do frevo”, reforça Luiz nário popular e o fechar os olhos em
Vinicius, que integraliza a sua fala re- emoção de cantá-los como se fosse a pri-
metendo-se ao frevo, centenário que é, meira vez, que o digam o “Último Re-
mas passível e aberto a novas possibi- gresso” de Getúlio Cavalcanti, e “Evo-
lidades. “Essa força do frevo, como cação” de Nelson Ferreira - esta, foi/é a
uma manifestação que é capaz de há 130 mais tocada dos carnavais de 1957,
anos surgir e até hoje ter pessoas mo- 1958, 1960 (...) 1990, 2000, 2019 e, qui-
dificando, brincando, buscando novas çá, será a de 2023, entoada por foliões
possibilidades, e ainda assim ele está ati- que enquanto perambulam pelas ruas
vo, vivo e conquistando novas gera- do Bairro do Recife, indagam Felinto,
ções”. Pedro Salgado, Guilherme e Fenelon, so-
bre os seus blocos famosos.
“HIN O DO GALO” (JOS É MÁRIO CHAVE S)
Fora da
ortodoxia Madeira que
“A MANHÃ JÁ VEM SURGINDO / O SOL CLAREIA A CIDADE COM SEUS /
cupim não rói
Ainda sobre a evolução (e revolução) RAIOS DE CRISTAL / E O GALO DA MADRUGADA / JÁ ESTÁ NA RUA/
do ritmo, e aqui fala-se do Frevo de Blo- O bulir o corpo peculiar de um “Vas- SAUDANDO O CARNAVAL”
co, do Frevo Canção e do Frevo de Rua sourinhas” no sobe e desce das ladeiras
em meio a dobradiças, tesouras, ferro- de Olinda, sob trombones e clarinetes,
lhos e ponta dos pés - alguns dos passos também pode integrar o rol dos frevos
elementares do ritmo - nomes como infindos, entre tantos outros ‘arrasta-
Nelson Ferreira, como bem lembrou multidões’ pernambucanamente maio-
José Teles, já se mostravam fora da rais - bons exemplos são o “Avec Ele-
“caixinha” do rigor tradicional. Vale gance” de Spok ou as mungangas de um
ressaltar que essa realidade já se fazia Maestro Forró, ambos, que dia desses
presente em plena década de 1950. ostentados como revolucionários do
“O frevo está sempre evoluindo. Tem frevo, precisam ser (re)lembrados, e
a Limusine 99, banda underground tocados, e cantados, e dançados, sem-
que ficou na frente de Capiba e de Nel- pre e para sempre. Mas quer saber de
son Ferreira em um concurso de frevo novo? O frevo é “Madeira que Cupim
na década de 1970. E antes disso, Nel- não Rói”, e por mais que caiba o cuida-
son, em 1950 fez ‘Esquenta Mulher’, que do com a tradição, enveredar por novos
é um frevo que começa com baião, to- acessos possibilitados pela liberdade in- “EVOCAÇÃO” (NELSON FERREIRA)
talmente fora da ortodoxia. Essa evo- trínseca à manifestação popular que é
lução é permanente”, arremata Teles, o frevo, é também “de fazer chorar” de
sobre a força que o frevo tem de seguir alegria e de brio. Bora, então, “cair no
“ADEUS, ADEUS MINHA GENTE / QUE JÁ CANTAMOS BASTANTE / E
perene, em meio a toda uma carga passo e a vida gozar”. RECIFE ADORMECIA / FICAVA A SONHAR / AO SOM DA TRISTE MELODIA”
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PAULLO ALLMEIDA

O FREVO É MO
A continuação da série especial “Frevo: tradição em m
lirismo do frevo antigo que se entrelaça aos acordes c

JULIANO MUTA meçou a se interessar pelo gênero ain-


da criança, em Abreu e Lima.

C
“As primeiras influências que eu tive
do frevo, mesmo sem ter muita cons-
ciência, eram os discos que eu tinha de
MAESTRO FOR RÓ ESTÁ À FRENTE DA ORQUESTRA POPULAR DA
omparado a outras tradi- Nelson Ferreira que meu pai colocava
BOMBA DO HEMETÉRIO ções culturais milenares, no Carnaval. Expedito Baracho, Clau-
o nosso centenário frevo dionor Germano, Levino Ferreira to-
PAULLO ALLMEIDA ainda é uma criança que cava no Carnaval antes de eu estudar
tudo observa e absorve. música. E isso já estava me influen-
Criança visionária, mi- ciando sem necessariamente ter que
rando o futuro e cons- estudar”, conta.
truindo um presente de constante no- Depois de aprender ouvindo e tocan-
vidade. Foi assim quando Nelson Fer- do com os grandes mestres, Spok sentiu
reira revolucionou a marcha pernam- a necessidade de dar um próximo pas-
bucana, na origem do frevo, por exem- so dentro do frevo. “Como músico,
plo, em 1922, ao gravar a música “Não sempre me incomodava um pouco o
puxa a Maroca” com arranjos muito fato da gente não estar fazendo a nossa
avançados para o seu tempo. Mais tar- música no teatro, tocando ela com si-
de, na década de 1950, compôs a trilo- lêncio absoluto. E o sonho da gente era
gia “Gostosão”, “Gostosinho” e “Gos- tocar em festivais de música instru-
tosura”, obras que são divisoras de mental, que a grande maioria tem o
águas para o gênero e celebradas até hoje nome de Festival de Jazz, onde a liber-
por sua modernidade. dade e a improvisação é muito aprecia-
“O frevo o tempo todo está pensando da por quem frequenta”, explicou. Em
no presente. O que está acontecendo e 2001, Spok criou a Spok Frevo Orques-
S P OK BEBE DESDE CEDO NA FONTE DA TRADIÇÃO DO FREVO, que me inquieta? O que me tira do lugar? tra, que abriu o caminho para levar o gê-
Isso é refletido tanto na música, no nero para o centro de grandes festivais
INFLUENCIADO PELOS PAIS contar de uma história no frevo de blo- instrumentais pelo mundo.
co, que o frevo canção traduz nas letras; “Resolvemos pegar o frevo, que é
DIVULGAÇÃO e que o frevo de rua com um arranjo pro- uma música poderosa de uma lingua-
voca a gente a mudar de situação, de gem absurdamente pernambucana e
energia e de sentimento. (...) Então, é brasileira, uma música que pode-se di-
muito natural pensar quando a gente zer que, de certa forma, ao lado do cho-
tem uma proposta de renovação ou de ro, talvez sejam as duas únicas músicas
inclusão de um novo elemento - porque instrumentais genuinamente brasileiras.
isso na história do frevo sempre esteve E a gente resolveu dedicar um disco com
em evidência”, comenta o historiador todas as faixas preparadas e arranjadas
Luiz Santos, gerente de memória e ex- com a intenção da improvisação”, de-
posições do Paço do Frevo. talhou Spok.

Spok: da rua Maestro Forró:


para os festivais espontaneidade
Inaldo Cavalcante de Albuquerque, o Francisco Amâncio da Silva, mais co-
Maestro Spok, bebe desde cedo na fon- nhecido como Maestro Forró, criador da
te da tradição do frevo, influenciado pelo escola comunitária e diretor musical e
HE NRIQUE ALBINO ESCREVE ARRANJOS PARA ORQUESTRAS E OS gosto por Carnaval de seus pais, Seu Nilo maestro da Orquestra Popular da Bom-
SEUS PRÓPRIOS FREVOS e Dona Nair. Natural de Igarassu, co- ba do Hemetério, é outro personagem a
Folha de Pernambuco sábado/domingo Recife, 4 e 5 de fevereiro de 2023 5

OVIMENTO
movimento” traz, hoje, o saudosismo inerente ao
contemporâneos das novas gerações de músicos

explorar as possibilidades criativas e a li- multi-instrumentista e arranjador Hen-


berdade dentro do frevo. Seu primeiro rique Albino. Nascido no Recife, mas
contato com a cultura popular foi den- criado no Alto da Nação, periferia de
tro de casa, por influência da sua mãe Olinda, teve o primeiro contato com o
Maria da Penha da Silva, professora pri- frevo observando as orquestras que
mária, que já lhe cantava frevo para ni- passavam perto de casa. Albino logo per-
nar; e de seu pai Zé Amâncio do Coco, cebeu que sua personalidade inquieta ti-
mestre da cultura popular, que veio da nha muita semelhança com o gênero
Zona da Mata para morar na Bomba do responsável por grande parte da sua for-
Hemetério nos anos de 1940. mação musical. “Eu tenho uma vibração
“Isso é uma memória muito forte. parecida com o frevo, que é de quebrar
Minha mãe, uma professora primária, paradigmas, quebrar a teoria da música.
cantava para mim. ‘Tá faltando alguém, Comecei a compor meus próprios frevos
tá faltando sim. Tá faltando uma pessoa e escrever arranjos para as orquestras”,
pra gostar de mim…’ Eu achava que era conta. Desse encontro com o frevo,
uma música de ninar de domínio pú- idealizou o conceito de “música tronxa”,
blico. Mais tarde eu soube que é do que foi muito inspirada nessa vivência
José Menezes. E, por coincidência, as- no Carnaval. “É uma música de desafio.
sumi a cadeira desse maestro célebre na Música que desafia quem compõe,
Academia Pernambucana de Música, quem interpreta e quem ouve e exalta as
anos depois”, recorda. Em meados da diferenças e a pluralidade”, compara.
década de 1990, ele iniciou um trabalho
de pesquisa, manutenção, releituras e
interação com moradores da Bomba
Malassombro e o
do Hemetério, que seria o ponto de Carnaval atual
partida para a criação da sua orquestra.
Após fundar a Orquestra Popular da Uma das mais recentes e aclamadas
Bomba do Hemetério, para ajudar a co- orquestras de frevo de bloco do Recife,
municar melhor as novidades da mis- a Malassombro reúne jovens artistas
tura de diversidades que pretendia tra- em torno de construir um Carnaval “do
zer ao público, ele criou seu alter ego, presente”. O arranjador e bandolinista
que mistura as linguagens da música, Rafael Marques, idealizador e maestro,
dança, teatro e performance. “A gente realizou seu antigo sonho de juntar mú-
adicionou à linguagem acadêmica a sicos de sua geração para falar do Car-
alegria e a espontaneidade. E criamos o naval que viveu e construir uma nova
personagem maestro Forró que, entre os tradição ligada ao que é contemporâneo.
vários objetivos o mais importante é a “Eu era um cara da comunidade que
comunicação, desmistificação e a des- tocava. Sempre tive essa vontade de ter
burocratização dessa figura sisuda de uma orquestra que cantasse o tempo
grande parte dos maestros do planeta”, que a gente vive. Porque o frevo de blo-
explica. co canta sobre um tempo que passou. É
um lugar muito da saudade”, detalha
A novíssima Rafael. A cantora Isadora melo, uma das
integrantes da Orquestra, explica as di-
geração do frevo
ARTE SOBRE FOTOS:GREG

ferenças entre a Malassombro e a esco-


la tradicional dos blocos líricos.
Dando continuidade ao caminho des- “Quando a gente fala que Carnaval é
bravado por Spok e Forró há mais de 20 política, então Carnaval também é qua-
anos, jovens artistas agregam fôlego se como um teatro de revista”, pontua
novo ao ritmo. Um desses nomes é o do Isadora.
6 Folha de Pernambuco [Link] - cultura@[Link] - (81) 3425-5835/3425-5843 sábado/domingo Recife, 11 e 12 de fevereiro de 2023

ALEXANDRE AROEIRA
Na última GERMANA MACAMBIRA
reportagem do

H
especial “Frevo:
tradição em
movimento”, avia encantamento nos olhos, nas fa-
las, nos gestos. Conclamar o frevo
falamos desse em uma prosa causa rebuliços em
gênero, que cabe quaisquer circunstâncias. Foi assim
para todas as que se deu com a diretora do Paço do
Frevo (Bairro do Recife), Luciana Fé-
“gentes” e gerações, lix - à frente do espaço que reforça
atravessa o tempo o quão atemporal é o frevo como movimento in-
cólume em importância histórico-cultural e ao
sem risco de


mesmo tempo, envolto por possibilidades que tor-
envelhecer na o Patrimônio Cultural Imaterial (e Pernambu-
cano) da Humanidade, pulsante e vivo, aberto e
acessível para novos repertórios, assinados por Música de São João em ritmo de

UM LEQUE DE POSSIBILIDADES
quaisquer “gentes”. Inclusive por mulheres, nicho frevo? Vai dar certo não. Mas eu
cuidadosamente salvaguardado pelo Paço, pen- topei e deu certo, até atraiu um
sado que é, como centro de referência para pre- público mais jovem do frevo, que
servação e tradução do frevo e suas reverberações. agora é tocado e cantado pelas ruas.
É nas ruas que eu gosto mais de
Lugar de mulher é... botar o frevo pra fora, porque gosto
do povo em cima da gente. E não
no frevo repito frevo. E o povo acompanha e
canta, até música da Banda Eddie
De nove lideranças do Paço, seis são mulheres.
sai também. A turma gosta. Eu criei
Uma parcela que a-i-n-d-a causa surpresa, quan-
minha família com o frevo e pra
do comparada com a predominância de homens
à frente de orquestras e outras variantes do gênero. mim Carnaval é frevo, eu gosto do
Mas no Paço, “elas estão num lugar de muito afe- frevo, e do frevo bem feito. Eu toco
to, de muita deferência, de uma memória que pre- três, quatro horas que nem sinto, e
cisa constantemente ser visibilizada”, contou Lu- por mim é de janeiro a janeiro, tem
ciana, ao ser indagada sobre o papel e lugar das isso de ser só no Carnaval não”.
mulheres no gênero, complementando que “há um
reconhecimento do trabalho que é feito com re- MAESTRO OSÉAS, MÚSICO DE FREVO

sultado e propósito”, sob a ressalva de que, quan-


do colocado em prática, fica muito mais afetivo”.

PAULLO ALLMEIDA
Gerações que
passeiam pelo frevo
Seguindo no campo das afetividades - e das mu-
lheres no frevo, e das gerações que perpassam o
movimento - a cantora e compositora pernam-
bucana Pandora Calheiros, 18, é especialista nele,
no frevo, a ponto de deixar-se levar pelas lágrimas
ao se deparar com o seu extremo geracional, o can-
tor e compositor Getúlio Cavalcanti, 81.
Em uma espécie de duelo, colocados frente a
frente, além da admiração mútua, o frevo literal-
mente trocado entre ambos deu o tom da conversa


com a Folha de Pernambuco. Ocasião em que tam-
bém foi atestado que “Pode acabar tudo, enfim”,
mas o frevo seguirá resguardado por composições
como a de Pandora, “Cinzas da Quarta-Feira”, fre- “O frevo tem essa capacidade de se
vo de bloco vice-campeão no II Concurso Nor- metamorfosear, não só ele, mas a
destino de Frevo realizado o ano passado pela Fun- cultura popular em geral e as
dação Joaquim Nabuco (Fundaj). expressões culturais de
A letra da música, Pandora divide com a mãe, já Pernambuco. Essa permanência e
a melodia, voz e o desejo externado em seguir hereditariedade do frevo, com a
adiante com o frevo, a cada verso executado ao essência através dos seus capoeiras,
lado de Getúlio - nome que, há pelo menos seis dé-
dos frevos de bloco, canção, de rua,
cadas, engrandece o Carnaval de Pernambuco -
é preciso que se mantenha uma
tem assinatura própria. “Para mim é algo bem na-
tural (cantar frevo)”, comentou Pandora para em matriz, mas cultura não é estática. A
seguida ouvir um “Vá em frente” de Getúlio, de cultura dialoga e promove conexão
pronto celebrado pela jovem compositora com “O e disciplinaridade, interfaces. Desde
Bom Sebastião”, uma das tantas contribuições so- as gerações primeiras, de Capiba,
noras concedidas por um dos imensuráveis da Fo- Nelson Ferreira, a Expedito Baracho
lia de Momo de outrora - e da atualidade, por ób- e Claudionor Germano, e ao mesmo
vio. tempo com a cena mangue, com o
E depois de um “Pode me acompanhar?” aca- caixa da Nação Zumbi, ali também
nhado, feito à “velha guarda” do frevo, os versos tem frevo. E com as bandas de
que conduziram/conduzem o Bloco da Saudade Olinda e novas orquestras surgindo,
veio sob lágrimas e aplausos trocados entre duas
a hereditariedade contemporânea
gerações vivas e pulsantes.
do frevo é notória”.

SILVÉRIO PESSOA, MÚSICO E SECRETÁRIO DE


CONTINUA NA PÁGINA 11 CULTURA DE PERNAMBUCO
Folha de Pernambuco sábado/domingo Recife, 11 e 12 de fevereiro de 2023 7
ALEXANDRE AROEIRA DIVULGAÇÃO

Getúlio Cavalcanti e Pandora: duas Rafa Marques, da Malassombro:


gerações que dividem o amor pela diz que foi bem recebido
cultura pernambucana pelos tradicionais

sicionou e ajudou a levar o frevo pernam- pegar essa questão do gosto e colocar de

O FREVO SE
bucano para o Brasil e exterior, encontrou re- lado. (...) O jazz é extremamente amplo por
sistência dos maestros tradicionais quando conta disso. E é por isso que ele está em to-
incluiu influências do jazz e apresentou o dos os lugares. O frevo para conseguir se
frevo em grandes palcos da música instru- abrir e ficar universal precisa começar a pen-
mental. sar que existem várias formas de tocar e de
“Já ouvi vários mestres dizendo assim: se pensar”, reflete Albino. “É importante
‘vamo simbora todo mundo que chegaram aprender com o que veio antes porque o fre-
os americanos’. Até hoje, um pouco menos, vo nasceu, ele tem uma origem, uma raiz e
mas até hoje há uma resistência e não é nada a gente precisa estar com os pés nela para

RENOVA
fácil. Mas eu encaro numa boa. Entendo to- aprender. Mas a gente não pode ficar mo-
talmente o olhar deles e a importância para rando só na raiz. A gente tem que ver o que
com a manutenção e a salvaguarda da pu- tem no resto dessa árvore aí. O frevo não é
reza de toda a história. Só penso e imagino uma macaxeira que só cresce para baixo e
outras ruas, outras pontes e possibilida- tem bem pouquinha árvore pra cima. O
des, mas tudo é necessário. Contanto que a frevo é uma árvore gigante que tem uma raiz
alma do frevo esteja forte e presente, não super profunda e vai subindo infinitamen-
pode ter prisão”, opina. te. Frevo é tradição porque a gente quer
Francisco Amâncio da Silva, o Maestro manter o que foi criado antes, nossas refe-
Forró, é outro artista inquieto que trouxe rências, ao mesmo tempo que a gente quer
uma novidade para o frevo e também en- dar frutos novos”, afirma Albino.
frentou resistências. “É claro que quando se
Como os novos trabalhos têm sido tem uma mudança e sai do convencional,
sempre há uma estranheza. Eu lembro que
O novo acolhido
recepcionados pelos músicos mais tradicionais houve uma gritaria geral dos tradicionais. E pela velha guarda
do gênero? não apenas dos tradicionais, para a minha
surpresa”, comenta. Já o bandolinista e arranjador Rafael Mar-
Mas, com o tempo, Forró conquistou o res- ques, maestro da Orquestra Malassombro,
peito dos mais antigos. “Maestro José Me- conta que teve o trabalho muito bem rece-
JULIANO MUTA lecimento dessa expressão. Porque nós não nezes, por exemplo, que foi o primeiro da ge- bido pelos maestros tradicionais. “Maestros
CONTINUAÇÃO DA PÁGINA 10 vamos fazer nada de inovador, de contem- ração dele a criticar, foi também o primeiro e compositores tiveram uma recepção mui-
porâneo, se a gente não estudar o que veio a dar as mãos e dizer ‘menino, agora eu es- to boa. Não sei se por eu já ser reconhecido
nascedouro de uma tradição é no passado. Respeitar essas tradições dos tou entendendo. Eu escutei o frevo que no meio, já toquei com esses grandes nomes.

O
sempre a novidade. E quando se mestres e mestras, das agremiações que fa- você ganhou o Prêmio da Música Brasileira Formiga adorou a ideia, Getúlio Cavalcanti
trata de uma manifestação tão re- zem o frevo, é contribuir para que ele con- e esse frevo ninguém faz se não estudar’”, gosta pra caramba. Duda apareceu em um
cente como o frevo - 115 anos é um tinue pulsante e tocando outras pessoas e relembra. dos dias que a gente estava fazendo um acer-
sopro quando se trata de cultura - impulsionando o universo do frevo”, pon- to de marcha na Bom Jesus, viu o show to-
a inovação é constante. Capiba, tua Luiz Santos, gerente de memória e ex- Novos dinho, olhando as partituras e balançando
a cabeça”, relata. “Tem uma música da
Nelson Ferreira e os grandes mestres do pas- posições do Paço do Frevo.
sado surgiram como visionários do seu desbravadores gente que o nome é ‘Evocação 2100’, em que
a gente fala os nomes de hoje como se ti-
tempo. E cada geração aprende, no presen-
te, a dar passos para perpetuar e pavimen-
Choque e encontro Com a geração que veio depois de Spok e vesse evocando em 2100. E cita uma série de
tar o futuro do gênero. de gerações Forró, também houve resistência. O arran- nomes ‘Cadê Alceu, cadê Antúlio Madurei-
“Nessa relação de tradição e inovação, ou jador e multi-instrumentista Henrique Al- ra… Edson e Michiles, Hugo Martins para o
tradição e contemporaneidade, eu não vejo Maestro Spok, nome artístico do músico, bino relata o estranhamento dos tradicio- frevo não parar. A estrela Dalva Torres e os
uma relação de dualidade ou de competição. compositor e arranjador Inaldo Cavalcante nais. “Tem alguns maestros que gostam, ou- violões de Alberto e Bozó… Almir Rouche se
Vejo uma relação de continuidade e forta- de Albuquerque, um dos artistas que repo- tros que não gostam, mas a gente tem que foi…” e por aí vai…”, comenta Rafael.

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