Introdução a Sistemas Dinâmicos
Introdução a Sistemas Dinâmicos
Campinas, SP
02/09/2022
Sumário
1 Introdução 2
2 Metodologia 2
4 Conclusão 19
1
1 Introdução
Um sistema dinâmico pode ser descrito como uma ação de um grupo G em uma variedade
diferenciável X, isto é, uma função ψ : G × X → X que associa a cada par ordenado (g, x)
um elemento ψ(g, x) ∈ X. Neste projeto, os estudos foram desenvolvidos em duas frentes,
considerando dois casos particulares dessa definição:
• O primeiro é chamado “sistema dinâmico de tempo contı́nuo”, em que G = R e X = Rn
para algum natural n, e a função ψ é tomada como a solução da equação diferencial
autônoma ẋ = X(x), de forma que {ψt (x0 ) : t ∈ I ⊆ R} é a solução da equação com
condição inicial x(0) = x0 .
• O segundo é chamado “sistema dinâmico de tempo discreto”, em que G = Z e X = Rn ,
e a função ψ é descrita por ψ(n, x) = T n (x), e T é um difeomorfismo. Um caso mais
geral, em que X é um espaço métrico e T é uma função contı́nua também foi bastante
explorado.
Quanto aos sistemas dinâmicos de tempo contı́nuo, foram estudados a princı́pio os sistemas
de equações diferenciais lineares, passando em seguida para o estudo de fluxos induzidos por
equações diferenciais no plano e considerando o conceito de bifurcação. Depois, foi analisado
o Teorema do Fluxo Tubular e sua demonstração, que emprega importantes teoremas de
ponto fixo, e por fim foram exploradas condições para a existência de órbitas periódicas
nesses sistemas, utilizando o Teorema de Poincaré-Bendixson.
Quanto aos sistemas dinâmicos de tempo discreto, foram estudados em particular os sistemas
unidimensionais (quando X = R1 ), com especial ênfase à aplicação quadrática Qc (x) = x2 +c,
avaliando seu comportamento ao variar o parâmetro c em R. Fazendo uso de dinâmica
simbólica, foi construı́da a noção de caos, baseada no comportamento do shift map no espaço
das sequências. Ao fim, foi destrinchado o Teorema de Sarkovskii, resultado historicamente
muito importante para o desenvolvimento da dinâmica unidimensional.
2 Metodologia
A metodologia deste projeto consistiu em estudar e consultar referências variadas, listadas
ao final deste relatório, tais como livros e notas de aula, reescrevendo e completando as de-
monstrações e argumentos e fazendo diversos exercı́cios. Foram realizadas reuniões semanais
com o orientador para discutir os resultados, tirar dúvidas e planejar os próximos passos.
2
a b
Seja A = uma matriz com entradas reais. Seu polinômio caracterı́stico é
c d
3
Diagrama Traço-Determinante
det (A)
det (A)=[tr (A)]2 /4
Centro
4
pequenos de |α|, um ponto de equilı́brio x = 0, e seja
∂f
λ= (0, 0) = 0.
∂x
Se vale que
∂2f ∂f
2
(0, 0) ̸= 0 e ̸= 0,
∂x ∂α
então o sistema é localmente topologicamente a uma das formas normais da bifurcação sela-nó
próximo à origem:
η̇ = β ± η 2 ,
em que β é um real que depende apenas de α.
Teorema 6 (Forma Normal da Bifurcação de Hopf). Seja f : R2 × R → R2 uma função
diferenciável. Suponha que o sistema ẋ = f (x, α) apresenta, para valores suficientemente
pequenos de |α|, um ponto de equilı́brio x = 0 com autovalores da matriz jacobiana
ẍ + ẋ3 − 2αẋ + x = 0.
Dessa forma,
0 1 0
A(α) = , F ((x1 , x2 ), α) = .
−1 2α −x32
√
Os autovalores de A(α) são λ1,2
√ = α ± α2 − 1. Para |α| < 1, os autovalores são complexos
e λ(α) = µ(α) + iω(α) = α + i 1 − α .2
5
Para escolher p(α), observe que p1 (α) = −λ(α)p2 (α) e, para que o sinal de l1 (0) seja preser-
vado, ⟨p(α), q(α)⟩ = 1. Resolvendo o sistema linear, tem-se que
λ(α) 1
p1 (α) = − e p2 (α) = .
1 − λ(α)2 1 − λ(α)2
T
Em particular, p = p(0) = −i/2 1/2 .
Construa agora as funções multilineares B e C. Como F não possui termos de ordem 2, é
evidente que B = 0. Por outro lado,
∂ 3 F2
3 (ξ, 0) = −6.
∂ξ2 ξ=0
Assim,
0 0
C(x, y, u) = ⇒ C(q, q, q̄) = .
−6x2 y2 u2 −6 · (1 · 1 · 1)
1
Dessa forma, g20 = g11 = 0 e g21 = ⟨p, C(q, q, q̄)⟩ = 2 · (−6) = −3. Então, ig20 g11 + ω0 g21 =
0 + 1 · (−3) = −3 ⇒ l1 (0) = 1/2 · (−3) = −3/2.
É evidente que µ′ (0) = 1 ̸= 0. Aı́, ambas as condições do Teorema 6 estão satisfeitas e o
sistema é, de fato, localmente topologicamente equivalente à forma normal da bifurcação de
Hopf próximo à origem (os métodos aqui empregados estão todos descritos em [7]). ■
para todo x, y ∈ Rn .
Teorema 9 (Teorema de Picard-Lindelöf). Dados t0 ∈ R e x0 ∈ Rn , defina
Ia = {t ∈ R : |t − t0 | ≤ a} e Bb = {x ∈ Rn : ∥x − x0 ∥ ≤ b},
6
existe uma única solução para
x′ = f (t, x),
x(t ) = x ,
0 0
7
De forma similar, se φ(t, x) está definida para todo t ≤ 0, o alfa-limite de x é o conjunto
n o
α(x) = y ∈ Ω : ∃(tn ) tal que lim tn = −∞ e lim φ(tn , x) = y .
n→+∞ n→+∞
O Teorema 11 garante a existência local de uma seção transversal para o campo vetorial; a
partir da existência da seção transversal e do Teorema da Curva de Jordan em R2 , é possı́vel
demonstrar o resultado fundamental dessa seção.
Teorema 13 (Teorema de Poincaré-Bendixson). Seja Ω ⊆ R2 um conjunto aberto e f : Ω →
R2 de classe C 1 . Dado x ∈ Ω, denote Γ para a órbita correspondente. Suponha que ω(x)
está definido, a semi-órbita positiva Γ+ = {φ(t, x) : t ≥ 0} está contida em um compacto
X ⊂ Ω e ω(Γ) não possui singularidades. Então, ω(Γ) é uma órbita periódica do sistema.
Analogamente, se α(x) está definido, se a semi-órbita negativa Γ− = {φ(t, x) : t ≤ 0} está
contida em um compacto X ⊂ Ω e se α(Γ) não possui singularidades, α(Γ) é uma órbita
periódica do sistema.
O teorema foi utilizado para garantir a existência de órbitas periódicas no exercı́cio a seguir:
Exercı́cio 14 (Exercı́cio 1.(a) e (b) da seção 3.7 de [11], adaptado). Considere o sistema
8
Dessa forma, Γ− está contida em A1 . Para empregar o Teorema de Poincaré-Bendixson,
basta considerar o compacto X = {x ∈ R2 : 1 ≤ |x| ≤ 2}. Como não há pontos crı́ticos
nessa região, que evidentemente contém α(Γ), existe uma órbita periódica em X. Segue
imediatamente da contradição desenvolvida no parágrafo anterior que tal órbita está em A1 .
Quanto à região anelar A2 , veja que ṙ < 0 quando r = 1, de forma que argumento comple-
tamente análogo ao empregado acima também funciona neste caso, estudando a semi-órbita
positiva Γ+ de uma trajetória cujo valor inicial está em A2 e seu ômega-limite, demons-
trando que há uma outra órbita periódica. Utilizando o software Mathematica para esboçar
as trajetórias, veja que esse resultado é aparente na Figura 2 a seguir. ■
1 1 2
G0 (x) = x e G2 (x) = x + .
3 3 3
9
Defina indutivamente Kn , n ∈ N: K0 = [0, 1] e, supondo Kk definido, construa
Então, K = {x ∈ R : T n (x) ∈ [0, 1] para todo n ∈ N}. Além disso, para cada x ∈ [0, 1],
considere sua expansão ternária (que não é única)
∞
X xn
x = 0, x1 x2 x3 . . . = ,
3n
n=1
em que cada xn ∈ {0, 1, 2}. Segue que K é igual ao conjunto dos elementos de [0, 1] que
possuem alguma expansão ternária cujos elementos são todos diferentes de 1.
Segue abaixo um exercı́cio realizado durante o estudo desse resultado.
Exercı́cio 17 (Exercı́cio 6.1 de [15]). Prove que K é o único conjunto limitado e fechado de
R que satisfaz
K = G0 (K) ∪ G2 (K).
Solução. Suponha que K satisfaz as hipóteses acima. Comece observando que K ⊆ [0, 1]:
por contradição suponha que existe k0 ∈ K tal que k0 > 1 ou k0 < 0.
Quanto ao primeiro caso, existe k1 ∈ K tal que k1 /3 = k0 ou k1 /3 + 2/3 = k0 . Logo,
k1 = 3k0 > k0 > 1 ou k1 = 3k0 − 2 > k0 + 2 − 2 = k0 > 1. De qualquer forma, k1 > k0 > 1.
Retornando à definição, existe k2 ∈ K tal que k2 /3 = k1 ou k2 /3 + 2/3 = k1 . Através do
mesmo argumento, vê-se que k2 > k1 > 1. Indutivamente, constrói-se a sequência (kn ) em
K, em que kn+1 > kn > 1 para todo n natural. Como K é limitado, (kn ) também o é, de
forma que (kn ) converge. Sendo K fechado, (kn ) converge para um certo k ∈ K maior do
que 1.
Veja que, para todo natural n, kn+1 ≥ 3kn − 2, de forma que
10
Perceba que, para todo natural n, kn+1 ≤ 3kn , o que implica que
também uma contradição, como desejado. Aı́, como K ⊆ K0 , segue que G0 (K) ⊆ G0 (K0 ) e
G2 (K) ⊆ G2 (K0 ), e então
Suponha que x1 ∈ I1 , . . . , x2n ∈ I2n . Dessa forma, segue que G0 (x1 ) ∈ G0 (I1 ), G2 (x1 ) ∈
G2 (I1 ), . . . , G0 (x2n ) ∈ G0 (I2n ), G2 (x2n ) ∈ G2 (I2n ). Assim, dado x ∈ K qualquer e iterando
as funções G0 e G2 sucessivamente (continuando dentro de K, por hipótese), é possı́vel obter
um ponto de K em cada intervalo que compõe Kn para todo n natural:
Dado x0 ∈ K, vale que x0 ∈ [0, 1] = K0 . Se para n ≥ 1 existem xi ∈ K tais que xi ∈ Ii como
acima, para todo 1 ≤ i ≤ 2n , então G0 (xi ) ∈ G0 (Ii ) e G2 (xi ) ∈ G2 (Ii ) para todo 1 ≤ i ≤ 2n ,
o que justifica a afirmação acima por indução.
Portanto, se k ∈ K, então k ∈ Kn para todo n natural. Aı́, basta construir a sequência (kn ),
em que cada kn ∈ K está no mesmo subintervalo de Kn que k. Como |kn − k| ≤ 1/3n , é
evidente que (kn ) converge para k e, sendo K fechado, k ∈ K, o que implica que K ⊆ K,
completando a demonstração. ■
Essas caracterizações múltiplas do conjunto dos terços médios de Cantor permitem extrair
imediatamente certas propriedades, tais como o fato de que K é não enumerável. Essa cons-
trução não aparece apenas no estudo da dinâmica da função T ; pelo contrário, conjuntos de
Cantor aparecem naturalmente em sistemas dinâmicos de tempo discreto, como foi explorado
na parte seguinte deste projeto.
Definição 18. Seja X um espaço topológico e S ⊆ X. S é dito denso em lugar nenhum se o
interior do seu fecho topológico é vazio. S é dito totalmente desconexo se seus componentes
conexos possuem apenas um elemento. Essas definições são equivalentes na reta real. Por
fim, S é dito perfeito se é fechado e não possui pontos isolados.
S é denominado um conjunto de Cantor se S é totalmente desconexo, perfeito e compacto.
11
Teorema 19. Quando c < −2, o conjunto
é um conjunto de Cantor.
Esse resultado indica que o conjunto dos pontos cuja órbita é limitada é “pequeno” em
certo sentido, visto que um conjunto de Cantor não contém intervalos (tem interior vazio).
Entretanto, a não linearidade da função Qc dificulta a caracterização geométrica de Λc , como
foi feito no caso do conjunto dos terços médios de Cantor. O assunto seguinte explorado nesse
projeto introduziu uma ferramenta poderosa para contornar essa dificuldade.
O comportamento de Qc quando c = −2 foi, também, bastante estudado nessa fase inicial:
a função possui uma quantidade infinita de pontos periódicos; esses pontos são, contudo,
difı́ceis de encontrar computacionalmente.
Teorema 20. A função Q−2 possui ao menos 2n pontos periódicos no intervalo I = [−2, 2].
Os métodos utilizados para demonstrar esse resultado, recorrentes na dinâmica unidimensi-
onal, foram aplicados no seguinte exercı́cio.
Exercı́cio 21 (Exercı́cio 16 do capı́tulo 7 de [4]). Prove que Fλ (x) = λx(1 − x) possui pelo
menos 2n pontos periódicos de perı́odo n no intervalo [0, 1] (não necessariamente de menor
perı́odo n) para λ = 4.
Solução. Repare que cada ponto de I = [0, 1) possui duas pré-imagens em [0, 1): dado
y ∈ [0, 1), resolva 4x(1 − x) = y:
√
2 1 1−y
4x(1 − x) = y ⇔ 4x − 4x + y = 0 ⇔ x = ± .
2 2
Naturalmente, F4n (gsn (x)) = x. Como a composição de funções injetoras é injetora, gsn é
injetora quaisquer que sejam n ∈ N e sn . Além disso, segue de que g0 e g1 são monótonas e a
composição de funções monótonas é monótona que gsn também é monótona. Como também
a continuidade é preservada, sua imagem é um intervalo [a, b], em que a = gsn (0) e b = gsn (1)
ou vice-versa.
Agora suponha que sn e tn são duas sequências binárias distintas com n termos. Se Im (gsn )∩
Im (gtn ) ̸= Ø, então existem x, y ∈ [0, 1] tais que
gsn (x) = gtn (y) ⇔ (gsn,1 ◦ . . . ◦ gsn,n )(x) = (gtn,1 ◦ . . . ◦ gtn,n )(y).
12
Se sn,1 = tn,1 , segue da injetividade das funções g0 e g1 que
Assim, prossiga até o primeiro 1 ≤ k ≤ n tal que sn,k ̸= tn,k . Então, chame x∗ = (gsn,k+1 ◦
. . .◦gsn,n )(x) e y ∗ = (gtn,k+1 ◦. . .◦gtn,n )(y). Supondo, sem perda de generalidade, que sn,k = 0
e tn,k = 1, tem-se
1 1√ 1 1p
− 1 − x∗ = + 1 − y ∗ ⇔ x∗ = y ∗ = 1.
2 2 2 2
Portanto, gsn (x) = (gsn,1 ◦ . . . ◦ gsn,k )(1), ou seja, há apenas um elemento na interseção. Como
as imagens são intervalos fechados, então este elemento é uma de suas extremidades.
Defina gs∗n : [0, 1] → [a, b], gs∗n (x) = gsn (x). Esta função é evidentemente bijetora. Se fsn =
−1
gs∗n , então −1
fsn (x) = F4n ◦ gsn ◦ gs∗n (x) = F4n (x),
isto é, fsn é a restrição de F4n a [a, b]. Para garantir a existência de pontos fixos, comece por
f(0,0,...,0) : [0, b] → [0, 1] e f(1,0,...,0) : [a, 1] → [0, 1]. Há quatro casos a considerar:
• Se f(0,0,...,0) (0) = 0, então este é um ponto fixo para tal função.
• Se f(0,0,...,0) (0) = 1, então construa h(x) = f(0,0,...,0) (x) − x e veja que h(0) > 0 e
h(b) < 0, de forma que há uma raiz de h em (0, b), isto é, um ponto fixo de f(0,0,...,0)
em (0, b).
• Se f(1,0,...,0) (1) = 1, então este é um ponto fixo para tal função.
• Se f(1,0,...,0) (1) = 0, então construa h(x) = f(1,0,...,0) (x) − x e veja que h(a) > 0 e
h(1) < 0, de forma que há uma raiz de h em (a, 1), isto é, um ponto fixo de f(1,...,1) em
(a, 1).
Considere então qualquer outra sequência binária de n termos sn . É certo que se fsn : [a, b] →
[0, 1], então 0 < a < b < 1: a desigualdade do meio é trivial; a da esquerda e a da direita se
devem ao fato de que se i ∈ {0, 1}, então gi (x) = 0 ⇔ i = 0 e x = 0, e gi (x) = 1 ⇔ i = 1 e
x = 0.
Portanto, chame h(x) = fsn (x) − x e note que h(a) < 0, h(b) > 0 se fsn (a) = 0, e h(a) > 0,
h(b) < 0 se fsn (a) = 1. Isso garante a existência de um ponto fixo para tal função em (a, b).
Os cálculos acima demonstram que para cada sn há um ponto fixo de fsn em seu domı́nio
aberto. Como as interseções dos domı́nios se dão apenas nas extremidades, cada função fsn
produz ao menos um ponto fixo de F4n . Como há 2n possı́veis sequências sn e, dessa forma,
2n funções fsn , então F4n tem ao menos 2n pontos fixos, como se queria demonstrar. ■
13
Definição 22. Seja
e defina a distância d : Σ × Σ → R+ ,
∞
X |si − ti |
d[s, t] = .
2i
i=0
I. S é injetora.
Tome x, y ∈ Γ e suponha que S(x) = S(y) mas x ̸= y.
Chame Jn o intervalo de extremidades T n (x) e T n (y). Suponha que, para algum m ∈ N, Jm
14
é degenerado, isto é, T m (x) = T m (y). Mas como T é injetora em Ism , intervalo que contém
T m (x) = T m (y), segue que T m−1 (x) = T m−1 (y). Como T é injetora em Ism−1 , intervalo que
contém T m−1 (x) = T m−1 (y), segue que T m−2 (x) = T m−2 (y). Iterativamente, se conclui que
x = y, um absurdo, de forma que os intervalos Jn não são degenerados.
Como |T ′ (t)| = 3 para todo t ∈ R, o Teorema do Valor Médio garante que existem ξ1 , . . . , ξn ∈
R tais que
|T k (x) − T k (y)|
= |T ′ (ξk )| = 3
|T k−1 (x) − T k−1 (y)|
para todo 1 ≤ k ≤ n. Logo,
n
Y |T k (x) − T k (y)|
|T n (x) − T n (y)| = |x − y| = 3n |x − y|,
|T k−1 (x) − T k−1 (y)|
k=1
de forma que
1 ≥ |T n (x) − T n (y)| = 3n |x − y|
para todo n ∈ N. Mas isso é um absurdo, pois limn→∞ 3n |x−y| = ∞, de forma que a hipótese
inicial é falsa e S é injetora.
II. S é sobrejetora.
Tome s ∈ Σ, s = (s0 s1 s2 . . .). Dado um intervalo fechado J ⊆ [0, 1], seja T −n (J) a sua pré-
imagem por T n , n ∈ N. Se T1 = T |[0,1/2] e T2 = T |[1/2,1] , existem as inversas T1−1 : [0, 1] →
[0, 1/2] e T2−1 : [0, 1] → [1/2, 1],
x x
T1−1 (x) = e T2−1 (x) = − + 1.
3 3
Veja que Im (T1−1 ) = [0, 1/3] e Im (T2−1 ) = [2/3, 1]. Como essas inversas são contı́nuas e
injetoras, qualquer intervalo fechado J em [0, 1] tem como pré-imagem por T dois intervalos
fechados, um em I0 = [0, 1/3], correspondente a T1−1 , e outro em I1 = [2/3, 1], correspondente
a T2−1 . Defina o conjunto
Será provado por indução que cada Is0 s1 ...sn é um intervalo fechado (e, portanto, não vazio).
Comece observando que I0 e I1 são intervalos fechados. Suponha então que, para qualquer
sequência binária de n dı́gitos t1 . . . tn , It1 ...tn é um intervalo fechado. Logo, dada uma
sequência binária de n + 1 dı́gitos r0 r1 . . . rn ,
15
Mas aı́ Ir1 ...rn é, por indução, um intervalo fechado, de forma que sua pré-imagem T −1 (Ir1 ...rn )
são dois intervalos fechados, um em I0 e outro em I1 . Como Ir0 = I0 ou I1 , segue que Ir0 r1 ...rn
é um intervalo fechado, completando a indução. Usando que
para todo n ≥ 0, temse que (Is0 ...sn ) é uma sequência de intervalos fechados encaixados.
Assim, vale o Teorema dos Intervalos Encaixados e existe x ∈ [0, 1] tal que
\
x∈ Is0 ...sn ⇒ x ∈ Is0 , T (x) ∈ Is1 , . . . , T n (x) ∈ Isn , . . . ,
n≥0
e S(x) = s, como esperado. Além disso, como S é injetora, x é o único ponto nessa interseção,
de forma que o tamanho dos intervalos Is0 ...sn tende a zero à medida que n cresce (caso
contrário, essa interseção seria ela própria um intervalo).
III. S e S −1 são contı́nuas.
Resta mostrar a continuidade da função e de sua inversa. Dados ε > 0 e x ∈ Γ, com
S(x) = (s0 s1 s2 . . .), tome n ∈ N tal que 1/2n < ε. Aı́, considere os intervalos fechados It0 ...tn
para qualquer sequência binária de n dı́gitos (t0 . . . tn ).
Tais intervalos são disjuntos: se (t0 . . . tn ) ̸= (r0 . . . rn ), existe 0 ≤ i ≤ n tal que ti ̸= ri , de
forma que, se y ∈ It0 ...tn ∩ Ir0 ...rn , então T i (x) ∈ Iti ∩ Iri = Ø, uma contradição. Aı́, tome
δ > 0 tal que δ < min {x − a : a é uma extremidade de Is0 ...sn }, escolha que é possı́vel pois
|Is0 ...sn | → 0 quando n → ∞,o que implica que (x − δ, x + δ) ⊆ Is0 ...sn .
Dessa forma, tome y ∈ Γ tal que |x − y| < δ, e aı́ y ∈ Is0 ...sn ⇒ d[S(x), S(y)] ≤ 1/2n < ε e S
é contı́nua, como desejado.
Por outro lado, dado s ∈ Σ, observe que há 2n intervalos disjuntos da forma It0 ...tn , todos
contidos em [0, 1]. Logo, |Is0 ...sn | ≤ 1/2n . Então, escolha δ = 1/2n+1 , pois d[s, t] < 1/2n+1 ⇒
si = ti para todo 0 ≤ i ≤ n + 1 ⇒ |S −1 (x) − S −1 (y)| < |Is0 ...sn sn+1 | ≤ 1/2n+1 < 1/2n < ε e
S −1 é contı́nua, concluindo a prova. ■
3.2.4 Caos
Dada a relevância do shift map para o entendimento da função quadrática Qc , é natural
buscar compreender melhor a dinâmica de σ. Assim, o tópico de estudo seguinte consistiu
em abstrair as caracterı́sticas mais fundamentais do comportamento de σ em Σ. Essa análise
levou à definição do conceito de caos [4].
Definição 25. Seja (X, d) um espaço métrico e f : X → X. f é dita topologicamente
transitiva se, para quaisquer x, y ∈ X e ε > 0, existem z ∈ X tal que d(x, z) < ε e k ∈ N
satisfazendo d(f k (z), y) < ε. f exibe dependência sensı́vel das condições iniciais se existe
β > 0 tal que para todo x ∈ X e para todo ε > 0, existem y ∈ X e k ∈ N satisfazendo
d(x, y) < ε e d(f k (x), f k (y)) ≥ β.
Um sistema dinâmico (f, X) é chamado caótico se o conjunto dos pontos periódicos de f é
denso em X, se f é transitiva e se f exibe dependência sensı́vel das condições iniciais.
A existência de uma órbita densa em X é, nos contextos considerados, equivalente a f ser
16
topologicamente transitiva [3]. Além disso, o comportamento caótico é preservado por con-
jugação topológica (até por semi-conjugação; as duas primeiras propriedades são preservadas,
embora a terceira não seja, mas isso não faz diferença, vide [1]). Como σ é caótica em Σ,
segue dessa observação que Qc é caótica em Λc para c < −2.
Algumas conjugações topológicas são imediatas e permitem revelar bastante informação a
respeito de vários sistemas.
Teorema 26. A função quadrática Q−2 (x) = x2 − 2 é caótica em [−2, 2]; a função logı́stica
F4 (x) = 4x(1 − x) é caótica em [0, 1]; a função diádica D(x) = 2x mod 1 é caótica em [0, 1].
A última parte desse teorema foi realizada como exercı́cio e revela uma conexão profunda
entre a função D e Q−2 .
Exercı́cio 27. Prove que a função diádica dada por
(
2x se x < 1/2,
D(x) =
2x − 1 se x ≥ 1/2,
Solução. Comece observando que todo racional de denominador ı́mpar em [0, 1) é ponto
periódico de D. De fato, seja n um inteiro positivo e veja que os pontos fixos de Dn são 0 e
os racionais 1/(2n − 1), . . . , 2n /(2n − 1).
Isto se verifica indutivamente: para todo 0 ≤ i ≤ 2n − 1, a restrição de Dn a [i/2n , (i + 1)/2n )
é tal que
n n i i+1
D (x) = 2 x − i ∀x ∈ n , n .
2 2
Quando n = 1, esta afirmação é obviamente verdadeira. Supondo-a verdadeira para n = k ≥
1, considere n = k + 1: observe primeiro que Dk+1 = Dk ◦ D. Aı́, dado 0 ≤ i ≤ 2k+1 − 1,
tome x ∈ [i/2k+1 , (i + 1)/2k+1 ) e repare que, se i = 2j, 0 ≤ j ≤ 2k − 1, então
1
Dk (x) = 2k x − j ⇒ 0 ≤ Dk (x) < ,
2
aı́ Dk+1 (x) = 2Dk (x) = 2k+1 − 2j = 2k+1 − i. Por outro lado, se i = 2j + 1, 0 ≤ j ≤ 2k − 1,
então
1
Dk (x) = 2k x − j ⇒ ≤ Dk (x) < 1,
2
aı́ Dk+1 (x) = 2Dk (x) − 1 = 2k+1 − 2j − 1 = 2k+1 − i, completando a indução. Assim, fica
evidente quais são os pontos periódicos de D. É fácil verificar que esse conjunto é denso em
[0, 1).
Agora seja x ∈ [0, 1) o número cuja expansão binária consiste em todas as possı́veis sequências
finitas de 0s e 1s:
∞
X xi
x = 0, x1 x2 x3 . . . = 0, 0 1 00 01 10 11 . . . = .
2i
n=1
17
Em binário, a aplicação D se comporta da mesma forma que o shift map: dado y ∈ [0, 1),
y = 0, y1 y2 y3 . . . em binário, tem-se que: se y1 = 0 (e existe algum i ≥ 1 tal que yi = 0),
então y < 1/2 e D(y) = 2y = 0, y2 y3 y4 . . .; se y1 = 1, então y ≥ 1/2 e D(y) = 2y − 1 =
1, y2 y3 y4 . . . − 1 = 0, y2 y3 y4 . . .. A única exceção a essa fórmula ocorre quando 1/2 é escrito
como 0, 111 . . ..
Como Dn (x) é evidentemente diferente de 0, 111 . . . para qualquer n ∈ N, segue que Dn (x) =
0, xn+1 xn+2 xn+3 . . .. A órbita de x por D é, portanto, densa em [0, 1), e segue que este sistema
é transitivo. Basta exibir dependência sensı́vel das condições iniciais: defina β = 1/3. Tome
x, y ∈ [0, 1) distintos. Suponha, sem perda de generalidade, que x < y. Suponha, sem perda
de generalidade, que x < y. Para todo n ∈ N, existe pn ∈ N tal que
pn − 1 pn
≤ x < n.
2n 2
pk − 1 pk
Seja k ∈ N o maior número tal que x, y ∈ , k . Assim,
2k 2
caso contrário, isto é, caso x ≥ (2pk − 1)/2k+1 ou y ≤ (2pk − 1)/2k+1 , então
pk+1 − 1 pk+1 qk+1 − 1 qk+1
x, y ∈ , k+1 , pk+1 = 2pk , ou x, y ∈ , k+1 , qk+1 = 2pk − 1,
2k+1 2 2k+1 2
Se 2k |x − y| ≥ 1/3, não há mais nada a fazer. Caso contrário, tem-se que
2 1
|Dk+1 (x) − Dk+1 (y)| = |2k+1 (x − y) − 1| ≥ 1 − 2k+1 |x − y| > 1 − = .
3 3
Isso conclui a demonstração. ■
F 3 (a) ≤ a < F (a) < F 2 (a) (ou F 3 (a) ≥ a > F (a) > F 2 (a)).
18
Então, para cada k ∈ N, existe um ponto periódico em J de menor perı́odo k.
Naturalmente, se F possui um ponto periódico de menor perı́odo 3, o resultado acima im-
plica que F possui pontos periódicos de quaisquer outros perı́odos, bastando que a função
seja contı́nua. Surpreendentemente, esse teorema pode ser bastante generalizado através de
ideias sofisticadas que fazem uso de métodos elementares apenas, como o Teorema do Valor
Intermediário. Nos enunciados que seguem, assuma que f : I → I é uma função contı́nua.
Definição 29. Sejam J0 , J1 , . . . , Jn−1 , Jn ⊆ I intervalos fechados tais que Jn = J0 e Ji+1 ⊆
f (Ji ) para cada 0 ≤ i ≤ n − 1. Então J0 J1 . . . Jn−1 J0 é dito um ciclo de comprimento n.
Lema 30. Se J0 J1 . . . Jn−1 J0 é um ciclo de comprimento n, então existe um ponto periódico
y de f tal que f i (y) ∈ Ji para todo 0 ≤ i ≤ n − 1 e f n (y) = y.
O repetido uso desse lema em determinados ciclos é o método principal utilizado na de-
monstração do Teorema de Sarkovskii. A estrutura essencial que permite aplicar o tal lema
repetidamente são os ciclos de Štefan. O teorema decorre de maneira bastante natural após
examinar a natureza desses ciclos.
Definição 31. Seja P uma órbita de perı́odo m de f com m ≥ 3 ı́mpar. Se existe um ponto
p ∈ P tal que
f m−2 (p) < · · · < f 3 (p) < f (p) < p = f m (p) < f 2 (p) < f 4 (p) < · · · < f m−1 (p)
ou
f m−1 (p) < · · · < f 4 (p) < f 2 (p) < p = f m (p) < f (p) < f 3 (p) < · · · < f m−2 (p),
então P é chamado um ciclo de Štefan de f com menor perı́odo m.
Lema 32. Se m ≥ 3 é ı́mpar e não existem pontos periódicos de f de menor perı́odo ı́mpar
l tal que 1 < l < m, então P é um ciclo de Štefan, f possui pontos periódicos de todos os
perı́odos pares e pontos periódicos de todos os perı́odos maiores que m.
Teorema 33 (Teorema de Sarkovskii). Considere a ordenação de Sarkovskii dos naturais:
3 ≺ 5 ≺ 7 ≺ 9 ≺ · · · ≺ (2n + 1) · 20 ≺ · · ·
≺ 3·2 ≺ 5·2 ≺ 7·2 ≺ 9·2 ≺ · · · ≺ (2n + 1) · 21 ≺ · · ·
≺ 3 · 22 ≺ 5 · 22 ≺ 7 · 22 ≺ 9 · 22 ≺ · · · ≺ (2n + 1) · 22 ≺ · · ·
.. .. .. .. .. .. ..
. . . . . . .
≺ ··· ≺ 2n ≺ ··· ≺ 23 ≺ 22 ≺ 2 ≺ 1
4 Conclusão
Este projeto permitiu ao aluno ter contato com vários métodos e resultados relevantes a
respeito de sistemas dinâmicos, em ambas as frentes, desenvolvendo boa intuição e interesse
19
por essa importante área da matemática.
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