2.
1 O aspecto psicológico do álcool
Álcool
Álcool é uma droga aceita pela sociedade, pois é legalmente consumida em todo o mundo.
É uma droga depressora do Sistema Nervoso Central (que, em doses excessivas, diminui a
percepção dos sentidos e altera a coordenação motora, o juízo e a memória) (Fonte: site
Cebrid/Unifesp).
Embora seja uma droga, frequentemente o álcool não é considerado como tal,
principalmente pela sua grande aceitação social e mesmo religioso. Podem-se observar nas
obras gregas, mitos sobre a criação do vinho. Nos dias de hoje, é prática em muitas famílias
a “iniciação” das crianças no consumo do álcool. A permissividade ao álcool leva à falsa
crença de inocência do uso do álcool, mas o consumo excessivo tem se tornado um dos
principais problemas das sociedades modernas.
No Brasil, há uma grande diversidade de bebidas alcoólicas, cada tipo com quantidade
diferente de álcool em sua composição. Alguns exemplos são apresentados na Tabela 1.
Tabela 1 - Bebidas
Porcentagem de
Bebida
Álcool
Cerveja 5%
Cerveja “light” 3,5%
Vinho 12%
Vinhos fortificados 20%
Uísque, Vodka,
40%
Pinga
Fonte: Departamento de Psicobiologia UNIFESP/EPM
Dependência do álcool
A dependência ao álcool é um distúrbio crônico resultante de uma combinação de fatores:
genético, psicossocial e ambiental. Caracteriza-se por aumento da tolerância aos efeitos do
álcool, perda do controle da ingestão do álcool, persistência na ingestão de bebidas
alcoólicas apesar dos prejuízos que isso vem trazendo. O alcoolismo afeta
aproximadamente 10% da população geral.
A dependência ao álcool é tratada por médicos, psicólogos e por intervenções sociais com o
objetivo de diminuir ou abolir o desejo pelo álcool e seus efeitos lesivos. O tratamento é
constituído basicamente de duas fases: a primeira de desintoxicação e a segunda de
reabilitação. A desintoxicação tem a finalidade de controlar os sintomas da abstinência; a
reabilitação visa a evitar problemas futuros. Os programas de reabilitação social têm se
mostrado eficazes na redução do consumo de álcool. Contudo depois de um ano, 40 a 70%
dos pacientes apresentam recaídas. Até este ponto o tratamento do alcoolismo tem sido
considerado incompleto, sendo necessárias novas alternativas terapêuticas (Fonte: Blog
Psicosite).
Embora todas as causas do alcoolismo ainda não tenham sido descobertas, acredita-se que
um dos fatores seja a hereditariedade; ou seja, os filhos de pais alcoólatras têm maior
predisposição a desenvolver a doença.
Evidentemente, é preciso prestar atenção às causas da dependência física ao álcool, mas
também é importante levar em conta as necessidades psicológicas que levam a pessoa a
refugiar-se na inconsciência de seus efeitos. Na maior parte dos casos, a doença é contraída
durante a adolescência, fase em que se busca aprovação e maior segurança, como uma
forma de defesa para sentir-se aceito pelo seu grupo social. Em sua maioria, embora nem
todos levem o vício ao extremo na juventude, os alcoólatras começam a beber para se
sentirem mais seguros ou engraçados entre os amigos.
Em nossa cultura, tomar uma dose é uma prática associada a alguma comemoração, a
momentos bons ou divertidos. Com o tempo, tudo passa a ser motivo para beber, bons ou
maus momentos, festas de reencontro ou de despedidas. O alcoolista julga usar o álcool
para resolver seus problemas sem se dar conta de que multiplica seus desconfortos físicos e
emocionais e passa a depender do álcool para tudo, até para esquecer que é dependente. De
um aliado nas situações de crise, transforma-se em vilão do dependente e a pessoa que no
início achava que se tornava forte, descobre-se absolutamente fragilizada e merecedora do
desrespeito alheio. Por isso, em certo estágio avançado, o álcool passa a ser considerado
como uma forma de autopunição e autodestruição.
A dependência do álcool como se caracteriza por:
Uma compulsão pelo álcool.
Uma dependência física do álcool.
Uma necessidade continuada do álcool apesar dos problemas
psicológicos, interpessoais e físicos relacionados ao álcool.
Não há nenhum número absoluto de bebidas por dia que indique que uma pessoa tem
alcoolismo, embora os alcoolistas desenvolvam tolerância eventual a necessidade gradual
de grandes quantidades de álcool para sentir os mesmos efeitos. Não há também nenhum
padrão que diga a frequência que alguém tenha que beber para ser considerado um
alcoolista. O que realmente define a doença do alcoolismo é a dependência.
O alcoolismo liga-se quase que sempre a uma longa lista de problemas
psicológicos, interpessoais, sociais, econômicos e médicos. O alcoolismo pode aumentar o
risco de depressão e suicídio e pode ter um papel em crimes violentos, inclusive homicídios
e crimes de violência doméstica, principalmente no abuso de um cônjuge ou criança.
Embora haja forte evidência que pelo menos parte do risco de uma pessoa desenvolver o
alcoolismo seja herdada, ter uma história familiar de alcoolismo não garante que alguém se
torne um alcoólatra. Outros fatores de estilo de vida como amigos alcoólicos,
disponibilidade fácil de álcool, problemas pessoais e psicológicos severos que contribuem
para serem até mesmo os mais importantes que a hereditariedade na determinação de
algumas pessoas desenvolverem o alcoolismo. Para aqueles que têm frequentemente uma
história de alcoolismo na família, uma família segura, estruturada e amizades
saudáveis podem prevenir a doença de se manifestar.
Sintomas comportamentais
Ter longos episódios de intoxicação.
Beber sozinho.
Ter problemas no trabalho ou financeiros causados pelo uso do álcool.
Perder o interesse pela comida.
Tornar-se descuidado sobre sua aparência pessoal.
Ter lapsos de memória.
Dirigir bêbado.
Ferir a si mesmo ou outra pessoa enquanto você está alcoolizado.
Esconder garrafas de bebidas de forma que outras pessoas não saibam que você tem
bebido.
Experimentar mudanças súbitas de humor ou de personalidade.
2.2 Alcoolismo: doença ou modismo?
A psicologia do bebedor
Vários fatores fazem que um bebedor social ou um alcoólatra beba em determinada ocasião
e influem na quantidade de bebida ingerida. Entre eles está o nível de tensão ou ameaça
sofrida pela pessoa que bebe, as consequências esperadas do ato de beber, o contexto social
e a dedicação da pessoa a dado nível de consumo de álcool.
O ato de beber, como na maioria dos outros comportamentos, é poderosamente influenciado
pela modelação – isto é, pelo comportamento de outras pessoas.
Algumas pessoas bebem para se excitar, outras para reduzir ansiedade. Buscar a
personalidade alcoólatra é como procurar a causa da doença cardíaca ou a causa do enguiço
no automóvel. Não obstante, há indícios de que muita gente que tem problemas com a
bebida usa a bebida para reduzir a tensão.
Uma questão que há muito tempo vem despertando o interesse mundial é a tentativa de
identificação de traços de personalidade associados com uma predisposição ao alcoolismo e
uso abusivo de drogas. Embora especialistas afirmem não existir um tipo de personalidade
tipicamente alcoolista, estudos longitudinais mostram que a hiperatividade e o
comportamento antissocial são frequentemente associados com o desenvolvimento tardio de
alcoolismo.
A hiperatividade é uma atitude típica dos indivíduos portadores do distúrbio do déficit de
atenção com hiperatividade, transtorno antes conhecido como síndrome hipercinética.
Crianças portadoras do distúrbio de déficit de atenção com hiperatividade são candidatos
naturais a desenvolver dependência de substâncias psicoativas na adolescência e idade
adulta.
A doença do álcool
O alcoolismo pode ser uma doença crônica ou apenas uma intoxicação aguda. O
diagnóstico de alcoolismo crônico é algo complexo, que necessita da reunião de alguns
fatores. Primeiramente o médico deve fazer uma anamnese, que é uma lista de perguntas
para o paciente e para sua família, com a finalidade de descobrir se ele tem o perfil de um
alcoólatra. Nesse momento, também é necessária uma análise psicológica; o médico precisa
ser sensível para perceber se o paciente está mentindo ou omitindo algo que o definiria
como alcoólatra. Ao mesmo tempo em que faz a anamnese, o médico precisa realizar um
exame físico, analisando se o paciente possui tremores nas extremidades digitais e na
língua, por exemplo. Se o paciente é realmente um alcoólatra, ele pode apresentar sintomas
de abstinência, indicando a dependência.
Se os números continuam a ser ignorados, ou pelo menos, subvalorizados, muito se deve ao
fato de alguns doentes poderem ser chamados de alcoólicos funcionais – trata-se de pessoas
que, apesar de não controlarem o consumo de álcool, mantêm uma vida aparentemente
normal, conservando os empregos e outros compromissos. É por isso também que o
problema pode receber outros rótulos. O alcoólico funcional raramente admite que tenha
um problema com a bebida – para ele, alcoólicos são os bêbedos de rua, aqueles que já não
têm lar nem trabalho. E mesmo os familiares mais próximos podem sentir alguma
dificuldade em encarar o problema.
O comportamento de repetição em beber cada vez mais, obedece a 2 mecanismos básicos
não patológicos: o reforço positivo e o reforço negativo.
Reforço positivo: refere-se ao comportamento de busca do prazer: quando algo é
agradável a pessoa busca os mesmos estímulos para obter a mesma satisfação.
Reforço negativo: refere-se ao comportamento de evitar a reação de dor ou
desprazer. Quando algo é desagradável a pessoa procura os mesmos meios para
evitar a dor ou desprazer, causados numa dada circunstância.
A fixação de uma pessoa no comportamento de busca do álcool obedece a esses dois
mecanismos acima apresentados. No começo a busca é pelo prazer que a bebida
proporciona. Depois de um período, quando a pessoa não alcança mais o prazer
anteriormente obtido, não consegue mais parar porque sempre que isso é tentado surgem os
sintomas desagradáveis da abstinência e, para evitá-los, a pessoa mantém o uso do
álcool (Fonte: blog Psicosite).
Álcool e a família
As famílias muitas vezes não estão sensíveis para este problema (do
alcoolismo) desculpando e desvalorizando os consumos dos filhos e sem querer estão a
incentivar e a perpetuar um padrão de consumo de risco com danos claros para o sistema
familiar.
Um doente alcoólico é uma pessoa que sofre e que faz sofrer todos aqueles que são
próximos afetivamente, é considerada uma doença do “sistema familiar”, pois todos são
afetados, sendo que o seu tratamento também apela a uma abordagem de todo o sistema.
Áreas abaladas na família pelo consumo de álcool:
Econômico-social: carências econômico-sociais originadas pela desmotivação
profissional e desemprego.
Moralidade: o lar do doente alcoólico é simultaneamente um lar patogênico e
patológico, com graves repercussões sobre os restantes elementos, nomeadamente
sobre os filhos.
Relacional / perturbações relacionais e deterioração progressiva da vida familiar,
sendo frequente em situações de:
a. Maus tratos físicos e psicológicos aos diferentes elementos do agregado; violações e
situações de incesto;
b. Negligência nos cuidados aos filhos e nas responsabilidades parentais; rupturas do
sistema familiar (separação, divórcio).
A instabilidade, a insegurança, o ambiente tenso e conflituoso, são características frequentes
no ambiente familiar do doente alcoólico e que têm repercussões negativas ao
desenvolvimento das crianças que nele vivem e no desenvolvimento de patologias
depressivas nos adultos. Quando é o pai o doente está comprometida, em termos
psicológicos, a identificação com essa figura de referência. Quando é a mãe a doente, são
frequentes situações de carência de afeto e de cuidados, negligência e abandono.
Padrões de funcionamento em famílias alcoolistas
Falta de confiança: a família deixa de confiar no doente alcoólico que promete
sempre que foi a última vez que bebeu em excesso. Os conflitos são
frequentes independentemente de o doente estar intoxicado.
Irresponsabilidade: os doentes alcoólicos são frequentemente negligentes em
relação às responsabilidades familiares e sentimentos para com a família, passam
muito tempo fora da família, não acompanham a educação dos filhos e gastam
recursos econômicos que fazem falta em outras áreas. Dependendo da fase de
progressão da doença, chega a um momento em que o doente bebe para viver e
vive para beber, tudo é pensado em função do álcool, que se assume como a
prioridade da sua vida.
Medo: a família vive o dia a dia em stress e do medo permanente que o doente se
embriague e a consequência disso nas suas vidas seja de ele chegar irritado,
violento ou ter um acidente.
Culpa: a família tende a se culpar secretamente pela situação de alcoolismo que
assombra a sua família. Os filhos acham-se “maus filhos”, sendo por essa razão que
o pai ou a mãe bebem.
Solidão e isolamento: a lei do silêncio impera entre os vários elementos do sistema
familiar; o álcool assume-se como o “segredo” da família e a comunicação entre os
elementos fica perturbada, levando à solidão dos seus membros e ao isolamento
social.
Vergonha: o sentimento de vergonha leva a família a evitar contextos sociais, com
receio do comportamento vergonhoso que o familiar alcoólico poderá vir a
cometer. Esta vergonha é a razão que impede muitas famílias de pedirem ajuda e
assim contribui para o seu isolamento.
Mágoa: sentimentos que se instalam com o tempo de progresso da doença e que
vão desgastando os elementos do sistema que se veem impotentes perante o
problema do familiar. A negação típica do doente alcoólico e a sua dificuldade em
pedir ajuda desgastam a família ao ponto de muitas vezes levar à ruptura.
Alguns comportamentos que denunciam um alcoolista:
Sair com frequência do ambiente;
Atitudes impulsivas;
Desmotivação;
Troca de amigos;
Rejeição dos antigos amigos;
Mudança na roupa, extravagante, manga comprida;
Desleixo com aparência.
Quanto aos sintomas psicológicos, caracterizam-se três elementos principais:
1. a alteração do comportamento face ao álcool;
2. a perda de controle;
3. o desejo intenso de consumi-lo.
2.3 Características ocultas do cigarro
Dependência do cigarro
Fala-se muito da dependência física causada pela nicotina, substância
psicoativa, estimulante do Sistema Nervoso Central. A dependência psicológica é menos
citada, porém atua com bastante força e de forma bem complexa. Requer um olhar atento
para que se possa entendê-la.
A grande maioria dos fumantes experimenta o cigarro na adolescência. Apesar do fumante,
na maioria das vezes, sentir-se mal na primeira tentativa, ele insiste em “aprender” a fumar,
por achar que valerá a pena, isto é, haverá um ganho com esse comportamento. Através
dele, poderá integrar-se ao grupo de amigos, parecer mais velho, ter status frente aos pares.
Muitos fumantes afirmam que insistiram por achar que fumar era “bonito”.
Essa expectativa muito positiva quanto ao cigarro, (criada principalmente pela propaganda,
cinema e mídia durante anos) é aceita sem questionamentos. O cigarro parece ser vivido,
não conscientemente, como um grande ajudante para lidar com os sentimentos
desagradáveis próprios da adolescência, dando sensação de bem-estar. Graças a suas
propriedades psicoativas, o cigarro é capaz de provocar sensação prazerosa, estimulante e
ansiolítica e, desta forma, aplacar o mal-estar característico deste período, sem dar chance
ao indivíduo de enfrentar essas situações com seus próprios recursos, aprender e se
desenvolver com elas. No fumante que inicia mais tarde, o processo basicamente é o
mesmo. Em qualquer período da vida podemos passar por situações difíceis de lidar.
Cigarro como droga social
Motivações que levam uma pessoa a fumar:
As motivações são inúmeras e das mais variáveis. Elas variam em função da idade, do
ambiente familiar, do nível sócio econômico, das origens étnicas e raciais, entre outros
fatores. Mas podem ser agrupadas de duas maneiras principais:
1. Na juventude, tanto pelo modelo familiar, como pela identificação com um grupo,
ou com pessoas que se destacam socialmente ou no meio artístico, ou simplesmente
induzido pelos modismos e pelas elaboradas armadilhas das
propagandas divulgadas pela mídia.
2. Mais tarde, ou em idade mais avançada, por acreditar que o ato de fumar pode
preencher, sem riscos, espaços abertos pelos desequilíbrios e situações emocionais
graves ou intensas, repentinas, imprevistas, paliativas para substituir algo ou
alguém, busca de uma nova sensação de prazer etc.
Função psicológica do cigarro
O fumante “enxerga” no cigarro um ponto de apoio psicológico ou emocional, além de uma
fonte de prazer que, apesar de danosa à sua saúde, é incorporada aos seus hábitos. Muitas
pessoas sentem que o cigarro as relaxa; então, elas fumam sempre que estão tensas. Se
fumar ajuda você a relaxar é porque o cigarro lhe é familiar - ele é familiar da mesma forma
que um amigo próximo - e, assim, é uma fonte de alívio. Alguns fumantes ficam tensos só
em pensar em parar de fumar, uma vez que não se imaginam vivendo sem o fumo.
As propagandas das indústrias do tabaco associam o fumo a situações contrárias ao seu real
efeito, tais como bom desempenho sexual e esportivo, beleza, inteligência, poder de decisão
e sucesso profissional, levando ao condicionamento mental dessa droga.
O fumante incorpora o cigarro à suas rotinas de tal forma, que algumas situações são
obrigatoriamente acompanhadas por ele. As mais citadas pelos fumantes são:
Atender ao telefone;
Após refeições;
Após relações sexuais;
Após bebidas estimulantes como café ou álcool;
Quando param o carro em congestionamentos; e
Situações de tensão ou de expectativa.
O condicionamento psicológico se baseia na criação de hábitos e rituais,
no condicionamento mental e na sensação estimulante produzida pelo fumo. Desta forma, o
cigarro parece entender o prazer, só que de maneira errônea.
Tabela 1 - Pesquisa doméstica sobre o Uso de Drogas (2001)
Substâncias Acessibilidade Poder do Vício** Letalidade Precocidade***
Nicotina Grande 80 Alta 15,5
Heroína Pequena 35 Média 19,5
Cocaína Média 22 Alta 21,9
Sedativos* Média 13 Média 19,5
Estimulantes* Média 12 Alta 19,3
Maconha Média 11 Baixa 18,4
Alucinógenos Grande 9 Baixa 18,6
Analgésicos* Média 7 Média 21,6
Álcool Grande 6 Média 17,4
Tranquilizantes* Média 5 Média 21,2
Inalantes Grande 3 Média 17,3