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Características do Gênero Conto

O documento apresenta um resumo das características do gênero literário conto e analisa um exemplo do conto "Negrinha", de Monteiro Lobato. Em seguida, apresenta um conto completo de Lygia Fagundes Telles chamado "História de passarinho" e faz algumas observações sobre ele.

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Mariana Dias
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Características do Gênero Conto

O documento apresenta um resumo das características do gênero literário conto e analisa um exemplo do conto "Negrinha", de Monteiro Lobato. Em seguida, apresenta um conto completo de Lygia Fagundes Telles chamado "História de passarinho" e faz algumas observações sobre ele.

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COLÉGIO PEDRO II - CAMPUS ENGENHO NOVO II

ATIVIDADES ASSÍNCRONAS ANO LETIVO 2020


ABRIL 2021 – PORTUGUÊS – ATIV XII

COORD.: Prof TURMA:


PROF Ana Claudia e Mariana
Luciano ____

NOME COMPLETO: NÚMERO:

CARACTERÍSTICAS DO CONTO
O conto é um dos mais tradicionais gêneros literários e
um dos mais lidos pelo público na atualidade. Por
ser curto, esse tipo de texto tem alcançado cada vez mais
espaço, circulando em redes sociais e blogs pela internet.
O gênero tem, hoje, diversas subdivisões, tais como
“contos de ficção científica”, conto “infantil e/ou juvenil”, “
contos fantásticos”, “contos de fada”, entre tantas outros.
As principais características do conto são a presença dos
elementos tradicionais da narrativa
– personagens, tempo, espaço e enredo – em suas
formas concisas, conforme explicaremos a seguir.

Características do gênero
O conto pode ser definido como uma narrativa curta e
com um único conflito. Isso significa que, nessas
histórias, há poucos personagens, o tempo e
o espaço são reduzidos ao essencial e, além disso,
o enredo (a sequência de ações pelas quais os
personagens passam) é marcado pela existência
de um único acontecimento relevante. Dessa forma, em
geral, os contos apresentam apenas um clímax (aquele
momento de maior tensão da narrativa).
Veja, a seguir, um trecho do conto Negrinha, de Monteiro
Lobato:
Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não;
fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos
assustados.
Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros
anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre
velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a
patroa não gostava de crianças.
Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo,
amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote
de luxo reservado no céu. Entaladas as banhas no trono
(uma cadeira de balanço na sala de jantar), ali bordava,
recebia as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo
o tempo. Uma virtuosa senhora em suma — “dama de
grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral”,
dizia o reverendo.
Ótima, a dona Inácia.
Mas não admitia choro de criança. [...]

Note-se que, nesse trecho – parte inicial do conto de


Monteiro Lobato – já é possível perceber todos os
elementos do conto: As poucas personagens – Negrinha e
Dona Inácia – vivem um enredo que ocorre em uma
fazenda alguns anos após a libertação dos escravos. Isso é
perceptível porque nos é dito que a mãe de Negrinha era
uma escrava de Dona Inácia. O conflito único que percorre
todo o enredo é deflagrado, por sua vez, na frase “Ótima, a
dona Inácia. Mas não admitia choro de criança”. Aqui,
percebemos que a questão central do conto é a relação
abusiva que existia entre as duas personagens centrais. 

LEITURA DE CONTO
História de passarinho – Lygia Fagundes Telles 

Um ano depois os moradores do bairro ainda se


lembravam do homem de cabelo ruivo que enlouqueceu e
sumiu de casa. 

Ele era um santo, disse a mulher levantando os braços. E


as pessoas em redor não perguntaram nada nem era
preciso, perguntar o que se todos já sabiam que era um
bom homem que de repente abandonou casa, emprego no
cartório, o filho único, tudo. E se mandou Deus sabe para
onde. 

Só pode ter enlouquecido, sussurrou a mulher, e as


pessoas tinham que se aproximar inclinando a cabeça para
ouvir melhor. Mas de uma coisa estou certa, tudo começou
com aquele passarinho, começou com o passarinho. Que o
homem ruivo não sabia se era um canário ou um
pintassilgo. Ô! Pai, caçoava o filho, que raio de passarinho
é esse que você foi arrumar?! 

O homem ruivo introduzia o dedo entre as grades da gaiola


e ficava acariciando a cabeça do passarinho que por essa
época era um filhote todo arrepiado, escassa a plumagem
amarelo-pálido com algumas peninhas de um cinza-claro. 

Não sei, filho, deve ter caído de algum ninho, peguei ele na
rua, não sei que passarinho é esse. 

O menino mascava chicle. Você não sabe nada mesmo,


Pai, nem marca de carro, nem marca de cigarro, nem
marca de passarinho, você não sabe nada. 

Em verdade, o homem ruivo sabia bem poucas coisas. Mas


de uma coisa ele estava certo, é que naquele instante
gostaria de estar em qualquer parte do mundo, mas em
qualquer parte mesmo, menos ali. Mais tarde, quando o
passarinho cresceu, o homem ruivo ficou sabendo também
o quanto ambos se pareciam, o passarinho e ele. 

Ai! O canto desse passarinho, resmungava a mulher, Você


quer mesmo me atormentar, Velho. O menino esticava os
beiços tentando fazer rodinhas com a fumaça do cigarro
que subia para o teto: Bicho mais chato, Pai. Solta ele. 

Antes de sair para o trabalho o homem ruivo costumava


ficar algum tempo olhando o passarinho que desatava a
cantar, as asas trêmulas ligeiramente abertas, ora
pousando num pé, ora noutro e cantando como se não
pudesse parar nunca mais. O homem então enfiava a
ponta do dedo entre as grades, era a despedida e o
passarinho, emudecido, vinha meio encolhido oferecer-lhe
a cabeça para a carícia. Enquanto o homem se afastava, o
passarinho se atirava meio às cegas contra as grades,
fugir, fugir! Algumas vezes, o homem assistiu a essas
tentativas que deixavam o passarinho tão cansado, o peito
palpitante, o bico ferido. Eu sei, você quer ir embora, você
quer ir embora, mas não pode ir, lá fora é diferente e agora
é tarde demais. 

A mulher punha-se então a falar e falava uns cinquenta


minutos sobre as coisas todas que quisera ter e que o
homem ruivo não lhe dera, não esquecer aquela viagem
para Pocinhos do Rio Verde e o Trem Prateado descendo
pela noite até o mar. Esse mar que se não fosse o Pai (que
Deus o tenha!) ela jamais teria conhecido porque em negra
hora casara com um homem que não prestava para nada,
Não sei mesmo onde estava com a cabeça quando me
casei comvocê,Velho. 
Ele continuava com o livro aberto no peito, gostava muito
de ler. Quando a mulher baixava o tom de voz, ainda
furiosa (mas sem saber mais a razão de tanta fúria), o
homem ruivo fechava o livro e ia conversar com o
passarinho que se punha tão manso que se abrisse a
portinhola poderia colhê-lo na palma da mão. Decorridos os
cinquenta minutos das queixas, e como ele não respondia
mesmo, ela se calava, exausta. Puxava-o pela manga,
afetuosa, Vai, Velho, o café está esfriando, nunca pensei
que nesta idade eu fosse trabalhar tanto assim. O homem
ia tomar o café. Numa dessas vezes, esqueceu de fechar a
portinhola e quando voltou com o pano preto para cobrir a
gaiola (era noite) a gaiola estava vazia. Ele então sentou-se
no degrau de pedra da escada e ali ficou pela madrugada,
fixo na escuridão. Quando amanheceu, o gato da vizinha
desceu o muro, aproximou-se da escada onde estava o
homem ruivo e ficou ali estirado, a se espreguiçar
sonolento de tão feliz. Por entre o pelo negro do gato
desprendeu-se uma pequenina pena amarelo-acinzentada
que o vento delicadamente fez voar. O homem inclinou-se
para colher a pena entre o polegar e o indicador. Mas não
disse nada, nem mesmo quando o menino, que
presenciara a cena, desatou a rir, Passarinho burro! Fugiu
e acabou aí, na boca do gato!

Calmamente, sem a menor pressa o homem ruivo guardou


a pena no bolso do casaco e levantou-se com uma
expressão tão estranha que o menino parou de rir para
ficar olhando. Repetiria depois à Mãe, Mas ele até que
parecia contente, Mãe, juro que o Pai parecia contente,
juro! A mulher então interrompeu o filho num sussurro, Ele
ficou louco.

Quando formou-se a roda de vizinhos, o menino voltou a


contar isso tudo mas não achou importante contar aquela
coisa que descobriu de repente: o Pai era um homem alto,
nunca tinha reparado antes como ele era alto. Não contou
também que estranhou o andar do Pai, firme e reto, mas
por que ele andava agora desse jeito? E repetiu o que
todos já sabiam, que quando o Pai saiu, deixou o portão
aberto e não olhou para trás.

OBSERVAÇÕES:
Também no conto História de passarinho, os personagens
são restritos ao homem, ao menino, à mulher e ao
passarinho. Há os coadjuvantes, que são os vizinhos, mas
o protagonista é o homem.
O tempo é indeterminado, embora tudo seja passado; o
local também não é nomeado. Observe que os
personagens também não recebem nomes. É como se isso
não importasse. Há algo na narrativa muito mais
importante: um homem um dia se retira da vida que
construiu, provavelmente devido a um desejo
compartilhado por tantos humanos: o de querer mais do
que o que se tem. Por meio dessa estratégia de não
nomeação, o conto ganha um caráter de universalidade.
Mesmo que ocorra no interior de uma determinada
cidadezinha, o sentimento do homem é conhecido de
outros seres humanos em muitos lugares do mundo.
O conflito se dá entre a mãe com o filho de um lado e o pai
do outro. O pai aparentemente não se sente pertencente.
Seu elo com a vida se torna o passarinho.
Note que a estrutura do conto inicia com um fato já
consumado: o sumiço do homem. Depois tudo o que está
sendo narrado é retomada de história, uma espécie de
explicação.
Apesar da retomada, há pontos sem muito esclarecimento
no conto e inclusive o final fica em aberto (o que é uma
característica muito recorrente da literatura). Não se
sabe exatamente qual era a angústia do Pai, muito menos
o leitor tem como conhecer o que aconteceu com o
protagonista. Nem mesmo o narrador onisciente arrisca
dizer o que houve com o personagem.

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