0% acharam este documento útil (0 voto)
17 visualizações13 páginas

Estudo de Caso: Anorexia e TCC

Este documento apresenta um estudo de caso de anorexia nervosa tratado através da terapia cognitivo-comportamental. O caso ilustra os desafios e possibilidades da terapia, descrevendo as crenças, histórico de vida e contingências comportamentais da paciente. O objetivo é compreender o desenvolvimento da anorexia e ensinar estratégias para lidar com o transtorno. A terapia cognitivo-comportamental mostrou-se eficaz no tratamento de transtornos alimentares como a anorexia nervosa.

Enviado por

Laura Suelen
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
17 visualizações13 páginas

Estudo de Caso: Anorexia e TCC

Este documento apresenta um estudo de caso de anorexia nervosa tratado através da terapia cognitivo-comportamental. O caso ilustra os desafios e possibilidades da terapia, descrevendo as crenças, histórico de vida e contingências comportamentais da paciente. O objetivo é compreender o desenvolvimento da anorexia e ensinar estratégias para lidar com o transtorno. A terapia cognitivo-comportamental mostrou-se eficaz no tratamento de transtornos alimentares como a anorexia nervosa.

Enviado por

Laura Suelen
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

PSICOLOGIA E SAÚDE EM DEBATE

ISSN (eletrônico) 2446-922X

R E L AT O D E C A S O

UM ESTUDO DE CASO DE ANOREXIA NERVOSA: desafios


e possibilidades na terapia cognitivo-comportamental
DOI: 10.22289/2446-922X.V8N1A24

Camilla Volpato Broering 1


Alessandra Scherer
RESUMO

A propagação de uma cultura de corpo magro e de um padrão estético a ser seguido pela sociedade
tem aumentado a incidência e prevalência de transtornos alimentares. Estes transtornos,
relacionados à distorção da imagem corporal vêm crescendo exponencialmente em vários países
ao redor do mundo. Caracterizam-se cada vez mais como uma área de interesse dos profissionais
da saúde, no entanto, ainda há poucos estudos brasileiros sobre o tratamento dessas patologias
sob a visão da Terapia Cognitivo – Comportamental. Os transtornos alimentares são quadros
conhecidos por aspectos como o medo mórbido de engordar, redução voluntária do consumo
nutricional, ingestão maciça de alimentos seguida de vômitos e uso abusivo de laxantes e/ou
diuréticos. São patologias graves e de prognóstico pouco discutido, que por sua vez, trazem aos
pacientes prejuízos biopsicossociais e elevados níveis de letalidade, além de sofrimento para as
famílias. Deste modo, o presente artigo traz a experiência com um caso ilustrativo de anorexia
nervosa, pensando em sua forma de avaliação e intervenção. Com base nos modelos de relatos e
409
registros, o terapeuta cognitivo-comportamental descreve as contingências das quais um
comportamento é função, suas crenças e histórico de vida. Tais informações podem colaborar para
compreender o desenvolvimento da anorexia, e assim, ensinar o paciente maneiras do manejo do
transtorno.

Palavras-chave: Terapia Cognitivo-Comportamental; Anorexia Nervosa; Estratégias


Psicoterápicas.

A CASE STUDY OF ANOREXIA NERVOSA: challenges and


possibilities in cognitive-behavioral therapy
ABSTRACT
The propagation of a thin body culture and an aesthetic standard to be followed by society has
increased the incidence and prevalence of eating disorders. These disorders, related to body image
distortion, have been growing exponentially in several countries around the world. They are
increasingly characterized as an area of interest for health professionals, however, there are still few
Brazilian studies on the treatment of these pathologies from the point of view of Cognitive-Behavioral
Therapy. Eating disorders are conditions known for aspects such as the morbid fear of gaining
weight, voluntary reduction in nutritional consumption, massive food intake followed by vomiting and
abusive use of laxatives and/or diuretics. These are serious pathologies with little discussed
prognosis, which, in turn, bring patients biopsychosocial damage and high levels of lethality, in

1
Endereço eletrônico de contato: millavolbro@[Link]
Recebido em 15/02/2022. Aprovado pelo conselho editorial para publicação em 13/04/2022.

Rev. Psicol Saúde e Debate. Abr., 2022:8(1): 409-421.


addition to suffering for families. In this way, the present article brings the experience with an
illustrative case of anorexia nervosa, thinking about its form of evaluation and intervention. Based
on the reporting and recording models, the cognitive-behavioral therapist describes the
contingencies of which a behavior is a function, its beliefs and life history. Such information can help
to understand the development of anorexia, and thus teach the patient ways to manage the disorder.

Keywords: Cognitive-Behavioral Therapy; Anorexia Nervosa; Psychotherapeutic Strategies.

UN ESTUDIO DE CASO DE ANOREXIA NERVOSA: desafíos y


posibilidades en la terapia cognitivo-conductual

RESUMEN

La propagación de una cultura del cuerpo delgado y un estándar estético a seguir por la sociedad
ha aumentado la incidencia y prevalencia de los trastornos alimentarios. Estos trastornos,
relacionados con la distorsión de la imagen corporal, han ido creciendo exponencialmente en varios
países del mundo. Se caracterizan cada vez más como un área de interés para los profesionales
de la salud, sin embargo, todavía hay pocos estudios brasileños sobre el tratamiento de estas
patologías desde el punto de vista de la Terapia Cognitivo-Conductual. Los trastornos alimentarios
son condiciones conocidas por aspectos como el miedo mórbido a engordar, la reducción voluntaria
del consumo de alimentos, la ingesta masiva de alimentos seguida de vómitos y el uso abusivo de
laxantes y/o diuréticos. Se trata de patologías graves con pronóstico poco discutido, que, a su vez,
traen a los pacientes daños biopsicosociales y altos niveles de letalidad, además de sufrimiento
para las familias. De esta forma, el presente artículo trae la experiencia con un caso ilustrativo de 410
anorexia nerviosa, pensando en su forma de evaluación e intervención. Basado en los modelos de
reporte y registro, el terapeuta cognitivo-conductual describe las contingencias de las cuales un
comportamiento es una función, sus creencias y su historia de vida. Dicha información puede ayudar
a comprender el desarrollo de la anorexia y, por lo tanto, enseñar al paciente formas de manejar el
trastorno.

Palabras clave: Terapia Cognitivo-Conductual; Anorexia Nerviosa; Estrategias Psicoterapéuticas.

1 INTRODUÇÃO

Os transtornos alimentares fazem parte de um grupo de sofrimentos psíquicos, que têm


como sintoma principal, uma perturbação persistente no comportamento alimentar e/ou em outros
aspectos relacionados à alimentação. Nesses casos, observa-se prejuízos significativos tanto físico
quanto psicossocial, decorrentes de alterações no consumo ou absorção de alimentos (American
Psychiatric Association [APA], 2014).
A incidência e prevalência de transtornos alimentares relacionados à distorção da imagem
corporal vêm crescendo exponencialmente em vários países ao redor do mundo (Bosi, Nogueira,
Yumiuchimura, Luis, & Godoy, 2014) e caracterizam-se cada vez mais como uma área de interesse
dos profissionais da saúde. A propagação da cultura de corpo magro influencia na formulação de
um padrão estético a ser seguido pela sociedade, mais comumente em mulheres. Nessa direção, a

Rev. Psicol Saúde e Debate. Abr., 2022:8(1): 409-421.


difusão dos modelos de beleza construídos socialmente é, em grande parte, protagonizada pelos
meios de comunicação, que oferecem maior espaço e ênfase à estética.
Os transtornos alimentares são quadros conhecidos por aspectos como o medo mórbido de
engordar, redução voluntária do consumo nutricional, ingestão maciça de alimentos, seguida de
vômitos e uso abusivo de laxantes e/ou diuréticos. São patologias graves e de prognóstico
reservado (APA, 2014) que trazem aos pacientes prejuízos biopsicossociais e elevados níveis de
letalidade (Cordás, 2004).
Caracterizam-se cada vez mais como uma área de interesse dos profissionais da saúde. No
entanto, ainda há poucos estudos brasileiros sobre o tratamento dessas patologias sob a visão da
Terapia Cognitivo – Comportamental.
A anorexia nervosa (AN) é um transtorno alimentar caracterizado por uma grave restrição
associada à aversão em ganhar peso, distorção da imagem corporal e magreza extrema. As taxas
de incidência para anorexia nervosa são maiores para mulheres na faixa etária de 15 a 19 anos
correspondendo a 40% de todos os casos identificados (Rocha, Nogueira, Pina, Trindade, Ferrreira,
Biasotto, Neto, Baptista, Pillar, & Passos, 2020). Tal transtorno possui dois subtipos: anorexia
restritiva e purgativa. A anorexia restritiva é descrita como aquela em que a perda de peso é
associada a dietas, jejuns prolongados e/ou atividades físicas, e não ocorrem episódios de
compulsão alimentar ou de formas compensatórias, como a indução de vômito e/ou uso de laxantes. 411
Já a anorexia purgativa é classificada como a aversão ao ganho de peso acompanhado de
comportamentos purgativos ou compulsivos (APA, 2014).
Finger e Guedes (2017) apontam que a AN envolve assumir comportamentos que levam a
deixar de serem atendidas as necessidades básicas calóricas para manter o organismo
adequadamente ativo através de uma restrição da ingesta de calorias. Isso tem como resultado a
diminuição significativa do peso corporal, a ponto de ficar inferior ao peso mínimo normal em relação
à idade, gênero, desenvolvimento e saúde física. Pode-se utilizar o índice de massa corporal (IMC)
como medida para determinar a normalidade do peso. O IMC é calculado como o peso em
quilogramas dividido pela altura em metros quadrados. É sabido, que o IMC é falho, pois não
distingue massa magra de gordura. Porém, para o ambiente clínico, permanece sendo um bom
índice de triagem. Uma pessoa com IMC inferior a 17,0 pode ser considerada com um peso
significativamente baixo. Esse pode ser um bom indicativo (porém, não suficiente) do
preenchimento desse critério de AN. Geralmente a AN inicia durante a adolescência ou durante a
adultez jovem. Seu curso e desfecho variam. Vai da recuperação total, após primeiro episódio ao
curso crônico ao longo da vida, podendo levar à morte (Franko et al., 2013).
O esquema cognitivo da “magreza” merece destaque na concepção cognitiva da AN, uma
vez que, na visão dos pacientes é fundamental para a resolução de seus problemas, pois as
pessoas magras seriam bem-sucedidas e as gordas, infelizes e malsucedidas. Deste modo, fica

Rev. Psicol Saúde e Debate. Abr., 2022:8(1): 409-421.


fácil entender o humor deprimido e o sentimento de vergonha e fracasso associados aos episódios
do comer compulsivo (Fairburn et al. 1997). O modelo cognitivo da AN, adaptado de Nunes (2006)
e Garfinkel e Garner (1982), apontam que a preocupação exagerada com o peso, associada a baixa
autoestima do paciente gera crenças distorcidas.
Os fatores que levam ao desenvolvimento destes transtornos são multifatoriais, podendo ser
socioculturais, familiares, biológicos e culturais. Deste modo, torna-se fundamental uma avaliação
criteriosa para que se chegue a um diagnóstico correto, visto que os transtornos alimentares são
cheios de facetas e os pacientes comumente não aderem ao tratamento.

2 MATERIAIS E MÉTODOS

O presente estudo de caso, baseou-se numa entrevista inicial, em relatos e registros do


paciente com o intuito de identificar seus pensamentos e crenças. Foi preenchido um Diário de
Imagem Corporal, desenvolvido pelas autoras, como dado complementar a entrevista clínica, bem
como, durante as sessões, preencheu o BSQ, que é um questionário autoaplicável sobre imagem
corporal, para avaliação da insatisfação da imagem corporal.

3 RELATO DE EXPERIÊNCIA 412

Bia é uma jovem de 19 anos, solteira, irmã mais velha de uma menina de 7 anos. Procura
atendimento por ter baixa autoestima, sofrer com isso, e acabar se boicotando quando chamada
para fazer trabalhos. Ela é modelo, viaja por vários países do mundo, morou muito tempo no
exterior, e voltou por estar se sentindo mal, e por acreditar que não merecia estar tendo aquela
oportunidade.
Num primeiro momento, Bia se mostrou comunicativa, extrovertida, porém, chorou muito
durante toda a primeira sessão. Usava roupas largas, falou que sua mãe a xingava, dizendo que
ela tinha jogado fora a oportunidade da vida, e queria muito fazer os atendimentos, os quais seriam
custeados por uma madrinha que morava em outra cidade. Admitia que passava longos períodos
sem comer, por acreditar que precisava emagrecer mais.
Relata como motivo para sua consulta, o fato de “não aguentar mais se sentir como se
sentia”. Falava que a vida era um peso, que tudo era muito difícil, que se achava sempre pior que
as outras pessoas, e que pela sua insegurança perdeu vários trabalhos, pois os abandonava.
Porém, depois alguma pessoa responsável pelas contratações, vinha lhe dizer que ela teria feito
muito melhor o trabalho, do que a pessoa que a substituiu. Isso a desesperava.
Bia afirmou que morou até os 14 anos com sua avó, pois a mãe trabalhava muito e havia
delegado a função de mãe para a avó, tanto que chamava as duas de mãe. Bia recorda que a avó

Rev. Psicol Saúde e Debate. Abr., 2022:8(1): 409-421.


desde que ela era pequena, falava-lhe que ela tinha que comer pouco, pois “gente gorda era infeliz”.
Tem recordações de que quando estava junto com a mãe e esta ia escolher uma roupa, sempre
provava várias peças, não escolhia nenhuma pois dizia que nenhuma estava boa, e acabava ficando
em casa, chorando por não se achar bonita. Afirma que além da avó, a mãe também sempre foi
muito exigente com ela. Seu pai era carinhoso, mas não a perdoava por ter voltado do exterior e ter
desistido dos seus sonhos. Não acreditavam que ela estava doente e só queriam que ela voltasse
a “trazer dinheiro para casa”.
Ao conhecer a história de Bia, ficou evidente que ela teve problemas com peso e imagem
corporal desde criança. Sua avó a obrigava a comer pouco, e sua mãe a xingava, pois dizia que
tinha perdido o seu corpo juvenil, após a gravidez de Bia, e neste sentido, Bia se desenvolveu se
sentido culpada pela insatisfação corporal da mãe.
Após tantas críticas, Bia foi diminuindo a ingesta alimentar de modo a ficar exageradamente
magra. Chegou a pesar 32kg para seus 1,69m de altura. Seu corpo doía e apresentara alguns
desmaios. Ao emagrecer passou a ser elogiada por sua avó, a qual afirmava que estava num peso
ideal, mesmo que Bia estive com peso equivalente a um quadro de desnutrição.
Devido a volta para sua cidade, Bia passou a ajudar seu pai no trabalho, porém, estava
insatisfeita. Voltou à escola, mas evita os colegas, pois pensa que eles sempre “falam mal dela”.
Tem pouco contato social, pois acredita que não seria aceita, então seu cotidiano resume-se a ficar 413
em casa, estudar e trabalhar. Em grande parte das sessões, relatou que não aguentava mais se
sentir dessa forma, oscilando entre não se sentir capaz, se achar feia e gorda, além da culpa por
não ter atingido o plano de seus pais.
De maneira geral, sente-se isolada, com pensamentos “Ninguém me convida para nada,
ninguém gostaria de ter uma amiga como eu”, sem se dar conta de que convites existiam, mas ela
os recusava. Atribuía todo seu isolamento ao peso corporal.
Nas consultas, Bia se declara como reconhecendo a necessidade de ajuda visto que não
aguenta mais ter a preocupação com comida e com magreza. Se culpa excessivamente pelo fato
de ter abandonado a carreira de modelo e ter deixado de trazer dinheiro para casa.
Bia preencheu um Diário de Imagem Corporal, como dado complementar à entrevista, bem
como, durante as sessões, preencheu o BSQ, para avaliação da insatisfação da imagem corporal.
Bia apresentou 145 pontos, demonstrando intensa insatisfação com a imagem corporal.

Critérios Diagnósticos E Diagnóstico Diferencial

Bia, assim como a maioria das pessoas que vivenciam os transtornos alimentares (seja a
anorexia ou a bulimia nervosa), possui resistência sobre a gravidade de seus sintomas e a
necessidade de tratamento (Finger & Gonçalves, 2016). Apesar de que na AN a dificuldade em

Rev. Psicol Saúde e Debate. Abr., 2022:8(1): 409-421.


fazer contato com as perdas vivenciadas em decorrência do problema seja mais prevalente. No
caso de Bia são apresentados sintomas que preenchem critérios para diagnóstico de anorexia
nervosa conforme o Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais, o DSM 5 (APA,
2014). Ela não se via como doente e os motivos que a faziam acreditar na necessidade de
tratamento eram secundários, como a culpa por abandonar a profissão de modelo e deixar de levar
dinheiro para casa, como autoestima rebaixada por não acreditar nela mesma. Nesse sentido, é
relevante considerar a importância das queixas iniciais apresentadas pela paciente, como
facilitadoras da busca pelo tratamento, representando assim, um caminho possível para a
abordagem da AN.
A categoria AN possui três critérios diagnósticos no DSM-5. A restrição da ingesta calórica
em relação às necessidades, levando a um peso corporal significativamente baixo no contexto de
idade, gênero, trajetória do desenvolvimento e saúde física (definido como um peso inferior ao peso
mínimo). Há medo intenso de ganhar peso ou de engordar, ou comportamento persistente que
interfere no ganho de peso, mesmo estando com baixo peso e, a perturbação no modo como o
próprio peso ou a forma corporal são vivenciados influencia indevidamente a autoavaliação do
indivíduo ou há ausência persistente de reconhecimento da gravidade do baixo peso corporal atual
(Critérios A, B e C).
Bia em momento algum apresentou episódios recorrentes de compulsão alimentar, e deste 414
modo, seu quadro era compatível com o tipo restritivo, aquele em que o indivíduo não se envolveu
em episódios recorrentes de compulsão alimentar (APA, 2014). As alterações cognitivas
comumente encontradas na AN referem-se a grande concentração do paciente em seu peso
corporal, com grande frequência na verificação do peso e demonstração de grande preocupação
com a variação deste (mesmo que a variação seja mínima). Esses pacientes possuem grande
preocupação com a forma corporal, checando repetidas vezes o próprio corpo em busca de
mudanças (quase sempre nas coxas, barriga e braços), além disso, há comparação do próprio
corpo com o de outras pessoas, concluindo que são menos atraentes. Em decorrência da autocrítica
em relação à própria aparência, esses pacientes possuem dificuldades nas relações sociais
(Fairburn, 2008).
A propósito das relações interpessoais, Leonidas e Santos (2013) ao pesquisarem a
configuração das redes sociais significativas de mulheres com transtornos alimentares, evidenciam
a importância deste aspecto para pessoas que sofrem perturbações do comportamento alimentar.
Nessa perspectiva, o estudo das redes fornece importantes subsídios para o aprimoramento de
estratégias de tratamento, a partir da inclusão das pessoas do convívio dos pacientes na
assistência.
Nos transtornos alimentares são comuns comorbidades, tais como: transtorno obsessivo-
compulsivo (20,2%), depressão maior (16,4%), fobia social (10,1%), transtorno desafiador opositor

Rev. Psicol Saúde e Debate. Abr., 2022:8(1): 409-421.


(10,1%), transtorno de ansiedade generalizada (9,4%), transtorno do déficit e atenção/
hiperatividade (7,5%) e transtorno de conduta (5,7%) (Mohammadi et al., 2020). Durante os
atendimentos não foi identificado nenhuma comorbidade. Além de investigar possíveis
comorbidades, já citadas, os profissionais que conduzem o tratamento de transtorno alimentar
precisam diferenciar a BN da AN. As pessoas acometidas por BN mantém um peso corporal
eutrófico ou sobrepeso. Enquanto pacientes com AN, do subtipo compulsão alimentar purgativa (em
que as compulsões e as purgações são frequentes) mantém peso corporal abaixo do indicado (APA,
2014). Além disso, faz-se necessário evidenciar a possibilidade de “migração” de um quadro de
anorexia nervosa purgativa (dada a regularização do peso corporal e a distorção da imagem) para
BN, ou ainda, a consideração do diagnóstico de anorexia purgativa em remissão parcial.

Conceitualização Cognitiva Do Caso

Nos quadros que seguem pode-se observar alguns dados do caso de Bia sob a perspectiva
cognitivo-comportamental.

Quadro 1 - Dados relevantes da história


- Avó rígida, com bastante cobrança em relação ao corpo 415
- Mãe com baixa autoestima em relação ao corpo
- Falta de reforços positivos/poucos amigos
- Baixa rede social de apoio
- Preocupação excessiva com magreza.

Quadro 2 - Crença central


Não tenho valor nenhum

Quadro 3 - Crenças intermediárias


- Não aguento ser assim (Atitude)
- Se eu engordar, não terei amigos (Suposição)
- Tenho que ser magra (Regra)
- Tenho que ajudar meus pais (Regra)
- Se eu for gorda, meus colegas falarão mal de mim (Suposição)
- É horrível ser assim (Atitude)

Quadro 4 - Estratégias compensatórias


- Fuga de novas possibilidades, com receio de errar

Rev. Psicol Saúde e Debate. Abr., 2022:8(1): 409-421.


- Não ter uma vida social ativa, já que se irrita e pensa que não gostam dela
- Jejum

Em sequência à conceitualização cognitiva, pode-se observar situações ocorridas na vida


de Bia.

Situação 1
Exigência da mãe
Pensamento automático (PA): Eu sou péssima, não faço nada certo
Significado do PA: Não sou nada
Comportamento: Jejum
Emoção: Desânimo, falta de motivação.

Situação 2
Abandono da carreira
PA: Não faço nada certo
Significado do PA: Não sou competente
Comportamento: Choro excessivo 416
Emoção: Tristeza

Situação 3
Convites para festas
PA: Não saberei o que fazer
Significado do PA: Raiva
Comportamento: Fuga
Emoção: raiva seguida de culpa

No tocante acima, pode-se observar a questão do pouco valor que Bia atribui a si mesma.
Devido a sua autoestima rebaixada, não acreditou no seu potencial frente as oportunidades de
trabalho que a vida lhe apresentara, o que a fez os abandonar e se culpar por isso. Deste modo, o
ciclo se fecha diminuindo sua autoestima excessivamente.
Atrelado a isso uma família que sempre a cobrou, ora beleza, ora retorno financeiro devido
a seu trabalho. Mais uma vez o sentimento de culpa se faz presente por não satisfazer as
expectativas de seus pais, e os sentimentos de tristeza e desânimo se repetem. Duchesne (2002)
aponta que em geral as famílias de pacientes com AN dão extrema importância para as aparências,
querendo parecer bem-sucedida o tempo todo. Estes valores estão refletidos na pressão constante

Rev. Psicol Saúde e Debate. Abr., 2022:8(1): 409-421.


para se vestir na moda, obter boas notas e ter aparência saudável e atraente (magra). A família
tende a ser rígida, resistente a mudanças e com dificuldades para se ajustar às demandas
maturacionais de seus membros. Notadamente, a família de Bia coaduna com o exposto
(Duchesne, 2002).
Estas situações acontecendo repetidamente em vários aspectos de sua vida (trabalho,
corpo, beleza e amizades) reforçam a crença de que ela não tem valor, e deste modo, suas
estratégias compensatórias são o jejum (que é a única coisa sobre a qual ela tem controle e por
isso se torna reforçador), fuga de experiências novas e afastamento social.

TRATAMENTO

No que diz respeito a anorexia nervosa, as pesquisas têm demonstrado que a abordagem
cognitivo-comportamental é a que obteve maior popularidade nos últimos vinte anos (Robins,
Gosling, & Craik, 1999) e a mais importante e melhor validada entre as demais abordagens
(Cottraux & Matos, 2007; Salkovskis, 2005). Estudos comparando dois tratamentos constituem as
principais evidências para a eficácia das técnicas da Terapia Cognitivo-Comportamental (Cooper &
Fairburn, 1984).
A eficácia no tratamento da anorexia nervosa precisa ser melhor investigada, embora 417
tenham se observado vários benefícios como: diminuição da restrição alimentar; aumento do peso;
redução de pensamentos disfuncionais acerca do peso e da comida; melhora do funcionamento
sexual; melhora de sintomas depressivos; aumento da adesão ao tratamento nutricional e clínico e
redução da recaída (Duchesne, 2007). Vale ressaltar que decidir se o tratamento será ambulatorial
ou institucional é fundamental no início do tratamento. A Divisão 12 da American Psychological
Association, responsável por elencar tratamentos disponíveis para os transtornos mentais de
acordo com seu nível de evidência, apresenta como primeiro tratamento mais eficaz os baseados
na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC).
Na anorexia nervosa, a intervenção em TCC se utiliza de três aspectos centrais: (1) adesão
ao tratamento, já que as pacientes geralmente são encaminhadas por terceiros; (2) aumento de
peso, pois precisam estar mais saudáveis e fortes fisicamente; e (3) o desenvolvimento de um
padrão flexível e regular de alimentação, auxiliando na prevenção à recaída e estabilidade
emocional e física (Nardi & Melere, 2014). O tratamento também se divide em três fases: melhora
do quadro nutricional, na procura pela melhora da fobia alimentar, por meio de técnicas de
exposição, relaxamento e psicoeducação. Além disso, são trabalhadas questões sobre a distorção
de imagem corporal, bem como, é realizada a conceitualização cognitiva do caso, e o treino em
resolução de problemas. No segundo, se aprofunda a resolução de problemas e o medo em ganhar
peso, por meio da reestruturação cognitiva. Isso é alcançado com sessões de exposição a

Rev. Psicol Saúde e Debate. Abr., 2022:8(1): 409-421.


alimentos, psicoeducação sobre as consequências da doença e relaxamento aliado às exposições.
Já a terceira fase se destina a prevenção de recaídas e ao auxílio para o paciente desenvolver um
funcionamento autônomo em relação ao seu estado físico e mental (Duchesne & Almeida, 2002).
O envolvimento familiar pode ajudar a criar uma estrutura de colaboração em que os pais
tornem o meio facilitador de mudanças. Discutir a função que o transtorno desempenha no sistema
familiar facilita a ocorrência de mudança no padrão de interação dos membros, tanto no sentido de
melhorar a comunicação, corrigir as percepções distorcidas, melhorar estratégias para solução de
conflitos, quanto estabelecer novos limites entre os membros com aceitação das diferenças
individuais.
Por último, e não menos importante, é indispensável verificar se há necessidade de
medicação, pois alguns medicamentos têm sido empregados como coadjuvantes no tratamento da
anorexia nervosa. Apesar de não existir um agente farmacológico específico, o uso de
antidepressivos e ansiolíticos pode ser útil para tratar pacientes que desenvolvem uma comorbidade
específica. O uso de antipsicóticos também é indicado (Duchesne & Almeida, 2002).
No caso em questão, o quadro abaixo demonstra as fases do tratamento.

Quadro 5 – Fases e estratégias do tratamento


418
Fases Estratégias
1 Adesão ao tratamento
2 Psicoeducação (ganho de peso)
3 Padrão regular flexível de alimentação
4 Exposição e relaxamento para a fobia
alimentar
5 Conceitualização (autoimagem)
6 Reestruturação Cognitiva
7 Treino em Resolução de Problemas
8 Prevenção de recaída
Fonte: As autoras (2022)

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pode-se observar que a anorexia nervosa é um transtorno complexo e multifacetado, e que


seu tratamento deve ser feito por equipe multidisciplinar, envolvimento familiar e, em muitos casos,
uso de medicamentos, além de uma boa relação terapêutica. Dessa maneira, uma rede apoiadora,

Rev. Psicol Saúde e Debate. Abr., 2022:8(1): 409-421.


coesa e integrada ao tratamento pode ser estratégica para reduzir as dificuldades apresentadas na
promoção da adesão ao tratamento.
A TCC mostrou-se como uma abordagem satisfatória no tratamento da AN, muito embora
como já mencionado, sejam pacientes com difícil adesão ao tratamento, e por isso a adesão é o
primeiro item a ser trabalhado. Nesse sentido, validar o movimento de busca pelo tratamento, ainda
que este se caracterize como tangencial à AN, é de suma importância para a abertura de vias
possíveis para o trabalho, sempre singularizado a fim de atender às necessidades subjetivas de
cada paciente.
Por fim, o foco na flexibilização das crenças distorcidas de que a aceitação social estará
atrelada a um corpo ideal, e consequentemente ao sucesso, faz-se fundamental. Além disso, os
profissionais devem se preocupar tanto com sintomas físicos, como com o modelo cognitivo vigente,
pois não raro, os pacientes apresentam quadros de grande complexidade, migrando de um
transtorno a outro. No caso em questão, foi realizada uma avaliação completa, levando em
consideração aspectos físicos e cognitivos com vias de proporcionar um tratamento eficaz e
duradouro.

5 REFERÊNCIAS
419
American Psychiatric Association [APA] (2014). Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos
Mentais: DSM-5 (5. ed.). Artmed.

Argimon, I. I. L., Cerutti, F., Esteves, C. S. (2016). Medidas de Avaliação em Transtornos


Alimentares. In: Finger, I. R & Oliveira, M. S. (Orgs.), A Prática da Terapia Cognitivo-
Comportamental nos Transtornos Alimentares e Obesidade (cap. 3, pp. 65-77). Sinopsys.

Bosi, M.L.M, Nogueira J.A.D, Yumiuchimura K, Luis R.R., Godoy M. G. C. (2014) Comportamento
alimentar e imagem corporal entre estudantes de medicina, Revista Brasileira Educação
Médica, 38, 243 - 252.

Cooper, P.J., Fairburn, C.G. (1984). Cognitive behavior therapy for anorexia nervosa: Some
preliminary findings. Journal of Psychosomatic Research, 28(6), 493-499.

Conti, M. A., Teixeira, P. C., Scagliusi, F. B. (2016). Instrumentos de Avaliação da Imagem Corporal.
In: C. Gorenstein, Y. Wang, I. Hungerbüler (Orgs.), Instrumentos de avaliação em saúde mental
(cap. 8.4, pp. 592-615). Artmed.

Cordás, T. A. (2004). Transtornos alimentares: classificação e diagnóstico. Revista de Psiquiatria


Clínica, 31(4), 154-157.

Cordás, T. A. (2016). Instrumentos de Avaliação em Transtornos Alimentares. In: C. Gorenstein, Y.


Wang, I. Hungerbüler (Orgs), Instrumentos de avaliação em saúde mental (cap. 8, pp. 548-555).
Artmed.

Cottraux, J., Matos, M. G. (2007). Modelo europeu de formação e supervisão em Terapias Cognitivo-
Comportamentais (TCC) para profissionais de saúde mental. Revista Brasileira de Terapias
Cognitivas, 3, 49-61.

Rev. Psicol Saúde e Debate. Abr., 2022:8(1): 409-421.


Duchesne, M., Almeida, P.E.M. (2002). Terapia cognitivo-comportamental dos transtornos
alimentares. Revista Brasileira de Psiquiatria, 24 (Supl III), 49-53.

Duchesne, M. (2007, junho). Abordagem psicoterápica dos transtornos alimentares. Trabalho


apresentado no VII Congresso Brasileiro de Transtornos Alimentares e Obesidade. Novas
perspectivas: Comorbidades e tratamento. Rio de Janeiro, Brasil.

Fairburn, C.G., Welch, S.L., Doll, H.A., Davies, B.A., O’Connor, M.E. (1997). Risk factors for bulimia
nervosa: A community- based case-control study. Archives of General Psychiatry, 54(6), 509-
517.

Finger, I. R., Guedes, P. A. (2016). Diagnóstico e curso dos transtornos alimentares. In: Finger, I.
R., Oliveira, M.S. A prática da Terapia Cognitivo-Comportamental nos Transtornos Alimentares
e Obesidade. (cap 1, pp 24-36). Sinopsys.

Franko, D. L., Keshaviah, A., Eddy, K. T., Krishna, M., Davis, M. C., Keel, P. K., Herzog, D. B. (2013).
A longitudinal investigation of nortality in Anorexia Nervosa and Bulimia Nervosa. The American
Journal of Psychiatry, 170(8), 917-25.

Freitas, Silvia, Gorenstein, Clarice, Appolinario, Jose C. (2002). Instrumentos para a avaliação dos
transtornos alimentares. Brazilian Journal of Psychiatry, 24(Suppl. 3), 34-38.

Garfinkel, P.E., Garber, D.M. (1982). Anorexia nervosa: a multidimensional perspective. New York:
Brunner/Mazel.

Graeff-Martins, A. S., Fleitlich-Bilyk, B. (2016). Development And Well-Being Assessment (DAWBA). 420
In: C. Gorenstein, Y. Wang, & I. Hungerbüler (Orgs), Instrumentos de avaliação em saúde
mental (cap. 10.3 pp. 700-706). Artmed.

Gorenstein, C, Wang, Y., Hungerbüler, I (Orgs.), (2016). Instrumentos de avaliação em saúde


mental. Artmed.

Leonidas, C., Santos, M.A. (2013). Redes Sociais significativas de mulheres com transtornos
alimentares. Psicologia: Reflexão e Crítica, 26 (3), 561-571.

Mohammadi, M. R., Mostafavi, S. A., Hooshyari, Z., Khaleghi, A., Ahmadi, N., Molavi, P., Zarafshan,
H. (2020). Prevalence, correlates and comorbidities of feeding and eating disorders in a
nationally representative sample of Iranian children and adolescents. International Journal of
Eating Disorders, 53(3), 349– 361.

Moser, C. M., Terra, L., Behenck, A. S., Brunstein, M. G., Hauck, S. (2020). Cross-cultural adaptation
and translation into Brazilian Portuguese of the instruments Sick Control One Stone Fat Food
Questionnaire (SCOFF), Eating Disorder Examination Questionnaire (EDE-Q) and Clinical
Impairment Assessment Questionnaire (CIA). Trends in Psychiatry and Psychotherapy, 42(3),
267-271.

Nardi, H., Melere, C. (2014). O papel da terapia cognitivo-comportamental na anorexia nervosa.


Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 1 (1), 55-56.

Nunes, M.A., Apolinario, J.C., Galvão, A.C. & Coutinho, W. (2006). Transtornos Alimentares e
Obesidade. Porto Alegre: Artmed.

Rev. Psicol Saúde e Debate. Abr., 2022:8(1): 409-421.


Oliveira, L.L., Deiro, C.P. (2013). Terapia Cognitivo-Comportamental para transtornos alimentares:
a visão de psicoterapeutas sobre o tratamento. Revista Brasileira de Terapia Comportamental
e Cognitiva, 14 (1), 36-49.

Penha, M. M. (2019) Adaptação brasileira do Eating Disorder Inventory-3 (EDI-3) e evidências


iniciais de validade e fidedignidade. [Dissertação de mestrado]. Universidade de Brasília,
Brasília. [Link]

Robins, R. W.; Gosling, S. D. & Craik, K. H. (1999). An empirical analysis of trends in psychology.
American Psychologist (APA), 54, 117-128.

Rocha, G.A.F., Nogueira, J.A., Pina, N.L.R., Trindade, D.L., Ferrreira, H.A.M., Biasotto, I.B.,
... Passos, S.R.L. (2020). Brazilian. Journal. of Development., 6 (11), 90174-90198.

Salkovskis, P. M. (2005). Prefácio. In P. M. Salkovskis (Ed.). Fronteiras da terapia cognitiva (pp. 15-
16). São Paulo: Casa do Psicólogo.

Souza, L. D. M, Kelbert, E. F. (2016). Epidemiologia dos Transtornos Alimentares. In: Finger, I. R,


Oliveira, M. S. (Org). A prática da terapia cognitivo-comportamental nos transtornos alimentares
e obesidade. (cap. 2, pp. 37-64). Sinopsys.

Ximenes, R. C. C., Colares, V., Bertulino, T., Couto, G. B. L., Sougey, E. B. (2011). Versão brasileira
do “BITE” para uso em adolescentes. Arquivos Brasileiros de Psicologia, 63(1), 52-63.

421

Rev. Psicol Saúde e Debate. Abr., 2022:8(1): 409-421.

Você também pode gostar