Criação do Código do Consumidor em Portugal
Criação do Código do Consumidor em Portugal
Coimbra
Janeiro de 2018
AGRADECIMENTOS
Aos meus pais e avó, por todo o apoio incondicional prestado ao longo de anos de
luta e aprendizagem.
À Jéssica, por todo o amor que me tornou mais forte. Certamente, nada disto seria
possível sem o teu apoio.
Ao Fábio Nunes, Duarte Matias, Alexandre Oliveira, David André e Tiago Ribeiro,
que sempre me fizeram sentir em família.
Ao Senhor Professor Doutor António Pinto Monteiro, pela disponibilidade e
sabedoria com que me presenteou na orientação desta dissertação.
A todos os outros que, de uma forma ou de outra, fizeram parte da minha vida
académica.
À Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, fonte de conhecimento.
2
RESUMO
3
ABSTRACT
Consumer law, branch of law that has been growing rapidly over the last decades, has
reached such a preponderance in today's mass society that it raises a number of problems
in terms of its legal nature, determinability of concepts and, at a central level, its most
important concern, is consumer protection.
In Portugal, there is an enormous variety of legislation, which makes it difficult for
any user to have access to the law, either by a private individual or by any person involved
in the legal activity.
In this sense, it is essential to question whether the Portuguese legal system would
benefit from the creation of a Consumer Code, in its purest form, not as a mere
compilation of all existing laws relating to the matter that integrates it.
4
SIGLAS E ABREVIATURAS
Art.: Artigo
Art.: Artigos
BGB: Bürgerliches Gesetzbuch
CC: Código Civil
CDC: Centro de Direito do Consumo
Cfr.: Confirme
CRP: Constituição da República Portuguesa
Dir. : Directiva
D.L.: Decreto-Lei
Ed.: Edição
EDC: Estudos de Direito do Consumidor
EIDC: Estudos do Instituto de Direito do Consumo
Ibidem: No mesmo local mas em página diferente
Idem: No mesmo local e na mesma página
LDC: Lei de Defesa do Consumidor, n.º 24/96, de 31 de Julho
n.º: número
[Link]: números
Ob. cit.: obra citada
P.: página
Pp.: páginas
ss.: seguintes
STJ: Supremo Tribunal de Justiça
TC: Tribunal Constitucional
TJUE: Tribunal de Justiça da União Europeia
TRL: Tribunal da Relação de Lisboa
v.g.: verbi gratia
Vide: Veja
Vol.: Volume
5
A presente dissertação não segue as normas de grafia do Novo Acordo Ortográfico.
6
ÍNDICE
AGRADECIMENTOS ........................................................................................................................ 2
RESUMO......................................................................................................................................... 3
ABSTRACT ..................................................................................................................................... 4
SIGLAS E ABREVIATURAS .............................................................................................................. 5
A- CONSIDERAÇÕES INTRODUTÓRIAS ........................................................................................... 8
CAPÍTULO I – O DIREITO DO CONSUMIDOR .................................................................... 10
1. A terminologia justificada pela evolução e fundamentação do Direito do Consumidor ......... 10
2. SOBRE A NATUREZA JURÍDICA................................................................................................. 16
3. A NOÇÃO DE CONSUMIDOR, POR REFERÊNCIA À LDC ............................................................ 21
3.1. - Linhas gerais sobre a noção de consumidor....................................................................... 23
3.2. - A posição adoptada na LDC .............................................................................................. 23
3.3. – A problemática da inclusão da pessoa colectiva ou jurídica ............................................. 26
CAPÍTULO II – A QUESTÃO DA CODIFICAÇÃO ................................................................ 31
1. O CONJUNTO DE LEGISLAÇÃO INTEGRANTE NO ORDENAMENTO JURÍDICO PORTUGUÊS ......... 31
2. A CODIFICAÇÃO: UM DESÍGNIO DESENQUADRADO? ................................................................ 36
2.1. – As possibilidades elencadas .............................................................................................. 36
2.2. – A opção pela codificação .................................................................................................. 37
3. CODIFICAÇÃO EM QUE TERMOS: NO C.C. OU COM A CRIAÇÃO DE UM CÓDIGO DO
CONSUMIDOR ? ............................................................................................................................ 39
4. BREVE REFERÊNCIA AOS DEBATES EM TORNO DA IDEIA DE CODIFICAÇÃO EUROPEIA ............ 42
5 - A MULTIPLICIDADE DE DESTINATÁRIOS DO DIREITO DO CONSUMIDOR: UM OBSTÁCULO À
CODIFICAÇÃO? ............................................................................................................................. 43
7
A- CONSIDERAÇÕES INTRODUTÓRIAS
Os caminhos com severos obstáculos são, na maioria das vezes, os que mais
gratificantes se revelam. Por esse mesmo motivo optou-se por este tema. O Direito do
Consumidor é um tópico em voga pelas mais diversas razões, não obstante ser ainda um
ramo do direito recente, sem prejuízo de todo o seu alcance e extensão, comportando um
leque variado de matérias1.
A especificidade nuclear do Direito do Consumidor, que consideramos um ramo
autónomo do direito2, reside na necessidade de tutelar o consumidor, parte mais frágil no
âmbito da relação jurídica do consumo. Por isso, consideramos útil iniciar este pequeno
trajecto tomando partido por uma das opções que se discutem, no que toca à sua própria
designação.
Tal fragilidade do consumidor nota-se acentuadamente quando se fala em cláusulas
contratuais gerais34, porventura o exemplo por excelência da desigualdade entre
consumidor e profissional, na medida em que estamos perante cláusulas não negociadas
individualmente entre ambas as partes.
Se é ponto assente que é a parte mais débil no âmbito desta relação jurídica
especial, dúvidas já se colocam quanto à própria noção de consumidor, que se revela
multifacetada, com várias acepções no direito comunitário e nacional. Propugnamos por
um conceito unitário, que nos permita definir, de forma precisa, o âmbito subjectivo de
aplicação da legislação que tem como destinatário o consumidor, tarefa que não aparenta
ser de fácil alcance, como veremos. Afigura-se como necessário ajuizar sobre este termo,
na medida em que, se de um ramo de direito de defesa do consumidor se fala, para um
Código do Consumidor se traça um longo caminho.
1
Precisamente por este motivo, a Comissão do Código do Consumidor confessou, aquando da apresentação
do Anteprojecto a público, ter consciência de que o Código não fugia à regra e, como os demais códigos,
nunca poderia abranger todas as normas do ramo de Direito respectivo. Cfr., COMISSÃO DO CÓDIGO DO
CONSUMIDOR, Código do Consumidor: anteprojeto, Instituto do Consumidor, Lisboa, 2006, p. 13. Vide
também, infra, pp. 51 e ss.
2
Apesar de todas as divergências quanto à sua natureza jurídica e autonomia científica, pontos a abordar
ao longo deste trabalho.
3
Esta matéria, regulada pelo D.L. n.º 446/85, de 25 de Outubro, é um dos temas mais emblemáticos do
Direito do Consumidor. Se é certo que os contratos de adesão são, actualmente, uma realidade intrínseca à
sociedade de massas e globalizada, também não deixam de propiciar longas discussões quanto à sua
legitimidade. Não será este, contudo, o assunto central do nosso trabalho.
4
Sobre as diferenças no que aos termos “cláusulas contratuais gerais” e “contratos de adesão” diz respeito,
vide MONTEIRO, António Pinto, “Contratos de Adesão/Cláusulas Contratuais Gerais”, in EDC, Publicação
do CDC, n.º 3, Coimbra, 2001, pp. 134 e ss.
8
Seguindo este raciocínio, urge interrogar, após uma análise cuidada dos aspectos
gerais atinentes a este ramo do direito, se a criação de um Código do Consumidor
contribui favoravelmente para a dignificação e organização de toda a legislação que a este
diz respeito. Mormente num tempo de crise em que, por vezes, as opções legislativas não
se afiguram as melhores face às debilidades político-sociais e económicas sentidas em
Portugal. Falamos aqui da inexistência de um Código do Consumidor, ponto de maior
relevo nesta investigação e que nos move para questionar as possíveis vantagens que
surgiriam com tal criação, atentos ao direito comparado e aos trabalhos entre nós já
desenvolvidos.
Face ao momento atual da vida do Direito do Consumidor, com a densidade
exorbitante de legislação avulsa que procede à sua regulação, e tendo em conta as
necessidades especiais de proteção do consumidor e o desenvolvimento deste ramo do
direito, é de todo o modo importante questionar se a codificação não se afiguraria a
melhor opção a nível legislativo.
Tal necessidade é reforçada pelos avanços que se têm vislumbrado noutros países, e
pela inegável afirmação de que a Europa conhece um momento actual propício à
codificação. Contudo, a codificação pode ser realizada por várias formas. Em especial,
com a inclusão no CC ou com a criação de um verdadeiro código.
Vislumbre-se, como modelo, a situação actual na Alemanha, encontrando-se o Direito
do Consumidor essencialmente regulado no BGB5. Noutro prisma, vê-se com agrado a
existência de um Código de Defesa do Consumidor no Brasil6.
Por último, cumpre fazer referência aos trabalhos já realizados entre nós,
concretamente, pela Comissão do Código do Consumidor, presidida pelo Sr. Professor
Doutor António Pinto Monteiro, que apresentou a debate público o respetivo anteprojeto
em Março de 20067. Não poderemos, face à extensão deste trabalho, analisar
minuciosamente o seu mérito legal em todos os pontos específicos, não deixando, no
entanto, de se submeter uma pequena apreciação geral do mesmo. Cabe-nos aqui
demonstrar que diversas vantagens estão aliadas à hipotética concretização da almejada
codificação.
5
O CC alemão, recentemente alterado pelo art. 1.º da Lei de 20 de Julho de 2017.
6
Lei n.º 8.078, de 11 de Setembro de 1990, alterada em último pela Lei n.º 13.486, de 3 de Outubro de
2017.
7
Vide, Comissão do Código do Consumidor, Código, ob. cit.
9
CAPÍTULO I – O DIREITO DO CONSUMIDOR
“Consumers, by definition, include us all. They are the largest economic group in the
economy, affecting and affected by almost every public and private economic decision.8”.
Iniciou-se assim o discurso de John F. Kennedy, que marca simbolicamente o início da
proteção jurídica dos consumidores, a 15 de março de 19629. Contudo, conforme dá a
entender Jorge Morais Carvalho10, são anteriores os sinais de inquietação com o dito
desequilíbrio que subsiste entre as partes de uma relação de consumo.
O Direito do Consumidor apresenta-se como centro das atenções dos mais diversos
estudiosos da teoria e prática jurídica, evidenciando-se imediatamente certa divisão face
à designação que melhor se compagina com a ratio e os fundamentos deste ramo do
direito.
A discussão centra-se, essencialmente, entre nós, nas expressões “Direito do
Consumo” e “Direito do Consumidor”, embora também se fale, v.g., na variável “Direito
de protecção do Consumidor”. A primeira reporta-se à função económica subjacente à
área do consumo; a segunda, ao seu protagonista principal, o consumidor11, e por esta
devemos optar, referindo-nos a um ramo do direito constituído por um conjunto de
princípios e regras que visam a protecção do consumidor12.
Os mais diversos autores portugueses, quiçá a maioria, revela a sua preferência pelo
termo “Direito do Consumo”. Carlos Ferreira de Almeida apresenta-se como um deles,
optando por “delimitar o objecto do direito do consumo por referência a situações
jurídicas de consumo”13. O autor acrescenta ainda que a definição de consumidor não é
8
Discurso dirigido ao Congresso dos Estados Unidos, publicado na íntegra em anexo à obra de VON HIPPEL,
VerbraucherSchutz, 2.ª Ed., Tübingen, 1979, pp. 225 ss.
9
Fala-se aqui da consagração de uma espécie de Carta dos direitos dos consumidores, entre os quais, o
direito à segurança, o direito à informação, o direito à livre escolha e o direito a ser ouvido. O presidente
Kennedy criou em Julho do mesmo ano, nesse sentido, o Consumer Advisory Council, que registava como
funções auxiliar o Governo em conhecer o ponto de vista dos consumidores, na elaboração do programa de
protecção dos consumidores e na informação a conceder ao público consumidor.
10
Cfr. CARVALHO, Jorge Morais, Os Contratos de Consumo: Reflexão sobre a Autonomia Privada no
Direito do Consumo, Almedina, 2012, p. 14.
11
A noção de consumidor é uma das questões mais debatidas, sobre a qual iremos centrar atenções ainda
neste capítulo.
12
Cfr. PINTO, Carlos Alberto da Mota, Teoria Geral do Direito Civil, 4.ª Ed. por António Pinto Monteiro
e Paulo Mota Pinto, Almedina, Reimpressão, Coimbra, 2012, p. 54.
13
Cfr. ALMEIDA, Carlos Ferreira de, Direito do Consumo, Almedina, Coimbra, 2005, p. 52. Em igual
sentido, cfr., CORDEIRO, António Menezes, “Da Natureza Civil do Direito do Consumo”, in Estudos em
Memória do Professor Doutor António Marques dos Santos, Vol. I, Coord.: Vários, Almedina, 2005, p.
711, LEITÃO, Adelaide Menezes, “A Publicidade no Anteprojecto do Código do Consumidor”, in EIDC,
10
determinante para a identificação do objecto, pois não é este o único conceito subjectivo
figurante neste direito14. Julgamos que, caso fossem efectivamente tão dissemelhantes os
conceitos subjectivos em uso, que fundamentassem a não utilização da expressão “direito
do consumidor”, obteria força, por maioria de razão, a ideia de exclusão das matérias a
que respeitam do campo do Direito do Consumidor, por não coabitarem em plenitude
com a ratio deste ramo do direito.
O consumo é entendido pelos economistas como função de satisfação de
necessidades, como término do ciclo económico, antecedido pela produção e distribuição,
através da utilização de determinado bem e extinção do seu valor15. Segundo o modelo
económico liberal, a livre concorrência entre as empresas obrigaria estas a reduzir os
preços e melhorar a qualidade dos produtos, de forma a assegurarem o maior número
possível de clientela, os consumidores, que acabariam por conseguir influenciar a oferta
dos produtos, assegurando, simultaneamente, os seus direitos16. O simples jogo da lei da
oferta e da procura resolveria todos os incidentes possíveis. Por isso se propugnava a ideia
de um Estado mínimo, sem intervenção no mercado e na economia.
Adam Smith, na sua obra de maior renome, “A Natureza e as Causas das Riquezas
das Nações”, impulsionou o desenvolvimento da tese do consumidor “todo-poderoso”,
cuja base consiste na ideia de que a produção é condicionada pela procura. Indicava já o
autor que “o consumo é o fim último e objectivo único da produção e ninguém se deverá
ocupar do interesse do produtor a não ser na medida do necessário para favorecer o
interesse do consumidor.” O consumidor teria, desta forma, um papel determinante na
organização do mercado.
Contudo, o tempo encarregou-se de demonstrar que tal equilíbrio de mercado não
seria conseguido17, surgindo formas de mercado monopolista e oligopolista, que
Vol. III, Coord.: Luís Menezes Leitão, Instituto de Direito do Consumo, Almedina, 2006, p. 136 (referindo-
se ao “Código do Consumo”), LEITÃO, Luís Menezes, “O Direito do Consumo: Autonomização e
Configuração Dogmática”, in EIDC, Vol. I, Coord.: Luís Menezes Leitão, Instituto de Direito do Consumo,
Almedina, 2002, p. 19, MARTINEZ, Pedro Romano, “Anteprojecto do Código do Consumidor – Contratos
em Especial”, in EIDC, Vol. III, Coord.: Luís Menezes Leitão, Instituto de Direito do Consumo, Almedina,
2006, pp. 58 e ss., oferecendo como exemplo o Código do Trabalho por contraposição ao termo “Código
do Trabalhador”, bem como o Código Comercial, não tendo como designação “Código do Comerciante”
por ser prática a adopção de termos neutros no nosso ordenamento jurídico.
14
Idem, ob. cit. Vide também, no nosso trabalho, sobre esses mesmos conceitos, infra, p. 43 e ss.
15
Cfr. ALMEIDA, Carlos Ferreira de, Os Direitos dos Consumidores, Almedina, Coimbra, 1982, p. 204.
16
A dita “soberania do consumidor”. Sobre este ponto, vide LEITÃO, Luís Menezes, “O Direito”, ob. cit.,
pp. 11 e ss.
17
CHARLES GIDE foi perspicaz ao ponto de alertar que o consumidor, em vez de rei do sistema liberal,
poderia tornar-se na sua vítima (in Cours d`économie politique, Sirey, 1909, pp. 719 e ss.). Efectivamente,
a liberdade do mercado originou as mais variadas irregularidades nos níveis e qualidades de consumo.
11
comprovaram que o modelo de concorrência perfeita é instável e falível. Testemunhava-
se a inferioridade dos consumidores face aos produtores ou fornecedores! Nem o mercado
se organiza em concorrência perfeita, nem as partes são realmente iguais no âmbito
contratual. Na sociedade pós-industrial, os empresários procuram a maior remuneração
possível dos factores de produção, não interessam as reais necessidades dos
consumidores, que, apesar de não serem obrigados a comprar qualquer produto,
encontram-se limitados à oferta disponível.18
Vejamos, o consumo, enquanto função que completa o ciclo económico, é um simples
facto jurídico. Caso se admitisse a expressão “Direito do Consumo” – ainda que, para
nós, os seus fundamentos sejam bem claros – estaria a cair em esquecimento a
importância da vontade e das particularidades da relação jurídica, como a posição especial
do consumidor, que tanta importância revela.
Papel de enorme relevo na criação da actual sociedade de consumo tiveram as
revoluções industrial e comercial, que, respectivamente, levaram à produção em série, à
mecanização do processo produtivo e à descida dos custos de produção, bem como, ao
desenvolvimento do comércio e da facilidade de escoamento dos produtos.19 Face ao novo
entendimento de que a oferta dita a procura, eram necessárias novas técnicas destinadas
a incrementar o consumo, v.g., a publicidade20, a facilitação do crédito ao consumo21, as
estratégias de marketing e novas formas de contratação que retiram alguma da liberdade
contratual existente22. Trata-se, no fundo, de criar necessidades virtuais no pensamento
do consumidor, de ludibriá-lo quanto ao seu poder de compra.
Nesse contexto, surge como imprescindível a existência de políticas de protecção dos
consumidores, com base em meios adequados de reacção judicial para garantia dos seus
interesses, definidas pelos Estados e organizações internacionais. Ressalta aqui a
importância dos trabalhos legislativos, entre os quais, fundadamente, a eventual
18
Cfr. LIZ, Jorge Pegado, Introdução ao Direito e à Política do Consumo, 1.ª Ed., Lisboa, 1999., p. 48.
19
MONTEIRO, António Pinto, “A protecção do consumidor de serviços públicos essenciais”, in EDC,
Publicação do CDC, n.º 2, Coimbra, 2000, p. 334.
20
Actualmente, referindo-se às comunicações realizadas por qualquer entidade, no âmbito de uma
actividade comercial, artesanal, industrial ou liberal, com vista à promoção dos mais variados bens ou
serviços, actividades, instituições, ideias ou princípios, a publicidade encontra regulamentação expressa no
Código da Publicidade, aprovado pelo D.L. n.º 330/90, de 23 de Outubro. Em decorrência da protecção dos
direitos dos consumidores, olhemos diretamente para os artigos 11.º (sobre a publicidade enganosa) e 12.º
(“Princípio do respeito pelos direitos do consumidor”) deste Código e para o D.L. n.º 57/2008, de 26 de
Março, que estabelece o regime aplicável às práticas comerciais desleais das empresas que afectem os
consumidores, nomeadamente, acções comerciais ou omissões enganosas (artigos 7.º a 9.º) e as práticas
comerciais agressivas (artigos 11.º e 12.º).
21
Sobre os contratos de crédito aos consumidores, vide, uma exposição breve, infra, pp. 31 e ss.
22
As já referidas cláusulas contratuais gerais e os contratos pré-formulados.
12
codificação. Efectivamente, não se pode dissociar o Direito da política, na medida em que
o primeiro tem como origem, sempre, a segunda23.
A verdade é que, independentemente da sua natureza jurídica, isto é, no que às suas
normas e autonomia perante outros ramos do direito diz respeito, todas as disposições se
centram num objetivo comum, a protecção do consumidor, enquanto parte frágil e carente
de defesa, no âmbito de uma relação jurídica com determinado profissional, pela falta de
informação e conhecimentos relativos aos bens e serviços que pretende adquirir ou deles
usufruir. Debilidade de tal forma gravosa que chegou a equiparar-se em França24, a nível
jurídico, o consumidor a um menor, de forma a impedir que os consumidores
subscrevessem letras, posteriormente exigíveis autonomamente por entidades financeiras.
A posição em que o consumidor se encontra, na sociedade actual, advém
maioritariamente do mercado de massa e da influência crescente das grandes empresas
com poderio económico avultado que conseguem ser decisivas na formação da convicção
e intenções de compra dos consumidores, em qualquer canto do mundo, devido aos efeitos
nefastos que a globalização alcançou. No sentido de combater essas eventuais ocorrências
negativas que podem ter lugar, o Direito do Consumidor contempla como um dos seus
pilares a garantia do fornecimento de bens e serviços sempre de acordo com as
expectativas daqueles que os adquirem ou deles desfrutam.
A protecção especial que aqui contemplamos – que, aliás, se define como a ratio
inolvidável do Direito do Consumidor - alcança-se pela disciplina da produção e
distribuição de bens presente no Direito do Consumidor25. Mas não poderemos, de todo,
ultrapassar esta simples – e inevitável – associação, ao ponto de optarmos pelas
denominações “direito da produção” ou “direito da distribuição”, porquanto estas estão
já aliadas à regulação de diferentes espécies de relações jurídicas, no âmbito da ciência
económica.
Nas palavras de Calvão da Silva, é a perspetiva de oferecer apoio ao consumidor que
“procura dar coerência, harmonia e unidade às numerosas e dispersas normas legais e
23
Cfr. LIZ, Jorge Pegado, Introdução, ob. cit., p. 27.
24
Disposição que constava da Lei Francesa de 1978 sobre crédito ao consumo. Subsiste, na subsecção 2,
do capítulo 3, do livro 3 do Code de la Consommation, quanto aos serviços de consultoria nos contratos de
crédito, a preocupação, também, de reforçar o senso de responsabilidade dos consumidores ao disporem de
toda a informação de que necessitam.
25
Cfr. MONTEIRO, António Pinto, “Sobre o Direito do Consumidor em Portugal”, in EDC, Publicação do
CDC, n.º 4, Coimbra, 2002, p. 121 e, mais recentemente, do mesmo autor, “Sobre o Direito do Consumidor
em Portugal e o Anteprojeto do Código do Consumidor”, in EIDC, Vol. III, Coord.: Luís Menezes Leitão,
Instituto de Direito do Consumo, Almedina, 2006, p. 38., constatando precisamente que não é o consumo,
em si mesmo, regulado por este ramo do direito.
13
regras jurídicas” que encontramos nesta matéria26. Facilmente se concebe que, desta
forma, a expressão “Direito do Consumidor” encontra-se completamente integrada nos
fundamentos, estrutura e função social que o preenchem, apesar de, como se demonstrará,
nem toda a legislação ter como destinatário único o consumidor. Afinal, o Direito sempre
visou a protecção dos fracos27, quer recordemos o Direito Romano ou o antigo Direito
lusófono, o que se mantém até aos dias de hoje. Por outro lado, se repararmos com cautela,
a contraparte da relação jurídica não vê, analogamente ao que acontece com o empregador
no Direito do Trabalho, todas as normas deste ramo como instrumento seguro à
manutenção dos seus direitos – apenas com o consumidor assim sucede.
A nível constitucional, oferecem-nos uma maior força na defesa desta tese os
preceitos constitucionais relativos aos consumidores. Nomeadamente, o artigo 60.º, que
propugna vários direitos essenciais dos consumidores, sem, no entanto, definir o conceito
de consumidor. Refere-se, em especial, à qualidade dos bens e serviços consumidos, à
saúde, à formação e informação, bem como à reparação de danos, fazendo ainda menção
da existência de associações de consumidores e cooperativas de consumo (n.º 3)2829.
Jorge Miranda indica que os direitos fundamentais são, essencialmente, “direitos
perante o Estado ou perante outras formas de poder político”, mas os direitos dos
consumidores surgem como “direitos em face de privados, enquanto tais ou (no caso de
serviços públicos concessionados) investidos de prerrogativas de autoridade”30.
Segundo os ensinamentos de Vieira de Andrade, tratam-se de direitos fundamentais
“de terceira geração”31, perfeitamente integrados na sociedade técnica de massas,
26
SILVA, João Calvão da, Responsabilidade Civil do Produtor, Reimpressão, Almedina, Coimbra, 1999, p.
57.
27
Cfr. CORDEIRO, António Menezes, Tratado de Direito Civil, Vol. I, 4.ª Ed. (Reformulada e atualizada),
Almedina, Coimbra, 2012, p. 318.
28
Nem sempre assim foi. Com a revisão de 1982, pela Lei n.º 1/82, foram enunciados direitos dos
consumidores, bem como das suas associações, já que, na versão primitiva da CRP, referia-se apenas o
encargo de proteger os consumidores, “designadamente através do apoio à criação de cooperativas e de
associações de consumidores.” (alínea m), do art. 81.º).
29
A propósito do antigo art. 110.º, n.º1, da CRP ( o actual art. 60.º), atente-se no Acórdão do TC n.º 153/90,
de 3 de Maio. Face ao extravio de diversos vales de correio e ao facto de o seu destinatário apenas os ter
recebido 6 meses depois, este pretendia uma indemnização pelos prejuízos causados pelo Correios de
Portugal. Não teve sucesso na sua pretensão pois os Correios de Portugal dispunham, nos seus estatutos, de
uma cláusula que excluía a sua responsabilidade por “lucrum cessans”. Foi necessário o destinatário
recorrer para o TC, para ver ser declarada inconstitucional a referida cláusula, por violação da norma
constitucional de protecção dos consumidores, especificamente, o direito dos consumidores à reparação dos
danos.
30
Cfr. MIRANDA, Jorge, “Anotação ao Artigo 60.º da Constituição”, in EIDC, Vol. IV, Coord.: Adelaide
Menezes Leitão, Instituto de Direito do Consumo, Almedina, 2014, p. 29.
31
ANDRADE, José Carlos Vieira de, “Os Direitos dos Consumidores como Direitos Fundamentais na
Constituição Portuguesa de 1976”, in EDC, Publicação do CDC, n.º 5, Coimbra, 2003, p. 143.
14
distinguindo-os dos direitos que constituem manifestações primárias da dignidade da
pessoa humana32.
Com efeito, não se tratam de direitos que nascem com o ser humano, que lhe
pertencem intrinsecamente e de forma universal, mas que derivam da integração do
consumidor numa relação jurídica de evidente complexidade, a relação jurídica de
consumo, face às situações actuais de distribuição e consumo de bens e à sua
vulnerabilidade perante o poderio económico da contraparte.
No mesmo sentido, surge no artigo 81.º como incumbência prioritária do Estado a
protecção dos interesses e dos direitos dos consumidores (principalmente, mas não
exclusivamente, os enunciados no artigo 60.º da CRP33) e, como linha orientadora da
intervenção do Estado na política comercial, a protecção dos consumidores, ex vi artigo
99.º. Constituem, efectivamente, preocupação nítida da lei fundamental da ordem jurídica
portuguesa a garantia e defesa dos direitos dos cidadãos, não qualquer regulação do acto
de consumo.
No essencial, subsistem aqui certos deveres de protecção do Estado, através da lei ou
das suas funções, tanto administrativa como jurisdicional, que permitam a tutela dos
direitos fundamentais dos consumidores, enquanto tais, inseridos numa economia de
mercado, repleta de perigos a nível da usufruição de certos bens e serviços. A CRP não
é, contudo, o único diploma que aborda esta tarefa estadual. Olhemos para a LDC 34, que
no seu artigo 1.º incumbe o Estado, as Regiões Autónomas e as autarquias locais da
protecção do consumidor.
No direito comunitário, encontramos igualmente exteriorizações desta ideia. O n.º 2,
do artigo 4.º, do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia, enuncia, na sua
alínea f), a defesa dos consumidores como um dos domínios de competência partilhada
entre a União Europeia e os seus Estados-Membros, matéria com um relevo indescritível,
alcançando mesmo o poder de influenciar a definição e execução das restantes políticas
que a União adopta, por força da dignidade adquirida pelos aclamados direitos dos
consumidores (art. 12.º do mesmo diploma).
32
Os designados “direitos naturais”, aos quais alude GOMES CANOTILHO, por referência à Constituição
Francesa de 1791 que se dirigia ipsis verbis a estes como direitos inerentes ao indivíduo e anteriores a
qualquer contrato social. Cfr. CANOTILHO, J.J. Gomes, Direito Constitucional e Teoria da Constituição, 7.ª
Ed., 5.ª Reimpressão, Almedina, Coimbra, 2003, p. 394.
33
Cfr. CANOTILHO, J. J. Gomes, MOREIRA, Vital, Constituição da República Portuguesa Anotada, Vol. I,
Artigos 1.º a 107.º, 4.ª Ed. Revista, Coimbra Editora, 2007, p. 971.
34
Lei n.º 24/96, de 31 de Julho, que revogou a Lei n.º 29/81, de 22 de Agosto.
15
A utilização de termo semelhante noutros ordenamentos jurídicos é também, como
nos indica Pinto Monteiro35, um argumento a favor da designação que aqui perfilhamos.
Ocupar-nos-emos deste ponto, no entanto, em momento mais avançado deste estudo.
Diga-se, por último, que apesar de concluirmos pela ideia de que estamos perante um
direito para o consumidor, a sua defesa deve partir, imediatamente, dele próprio,
procurando tomar as melhores decisões com apoio nas informações ao dispor e nas
necessidades que visa dirimir36, não se deixando sucumbir aos desejos em si
“implementados” por todos os meios de persuasão que lhes são destinados.
Por outro lado, também se pretende que o próprio mercado seja tutelado, pois é certo
que, caso o consumidor se sinta à vontade e seguro para investir no mercado, confortado
por diversas garantias, qualidade dos bens a adquirir e cumprimento das suas
expectativas, o mercado apenas retira benefícios37, pelo incremento da circulação de bens
e serviços, condição do desenvolvimento económico.
35
MONTEIRO, António Pinto, “O Direito do Consumidor em debate: evolução e desafios”, in Estudos de
Direito do Consumo – homenagem a Manuel Cabeçadas Ataíde Ferreira, Autor: Vários, Edição: DECO –
Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor, 2016, p. 90
36
Vide, ROUHETTE, Georges, “«Droit de la consommation» et théorie générale du contrat”, in Études ofertes
à René Rodière, Paris, 1981, p. 248, abordando a importância da auto-protecção.
37
Cfr. CARVALHO, Jorge Morais, “Crise E Consumo”, in Revista de Direito Público, Instituto de Direito
Público, Ano VI, n.º 12, Julho-Dezembro, Lisboa, 2014, p. 105.
38
Cfr. CALAIS-AULOY, Jean, STEINMETZ, Frank, Droit de la consommation, 7.ª Ed., Dalloz, 2006, p. 154 e
ss.
39
V.g. o artigo 7.º da LDC, indicando como incumbência do Estado, das Regiões Autónomas e das
autarquias locais o desenvolvimento e adopção de medidas atinentes à informação do consumidor.
40
V.g. o D.L. n.º67/2003, de 8 de Abril, quanto às garantias nas vendas de bens de consumo.
41
Cfr. PINTO, Carlos Alberto da Mota, Teoria, ob. cit., pp. 53 e 54.
42
Vide, a esse respeito, CABANA, Roberto M. López, “La protección del consumidor en la Argentina”, in
EDC, Publicação do CDC, n.º 2, Coimbra, 2000, p. 186, reconhecendo o carácter interdisciplinar do Direito
do Consumidor.
16
jurídica. Questiona-se então: poderemos falar num ramo de direito autónomo, coeso, ou
integrá-lo noutro, como o Direito Civil?
Tal questão está longe de obter uma resposta clara. Menezes Cordeiro constata43 que
o Direito do Consumo abrange regras sobre a formação dos contratos, publicidade,
responsabilidade civil, bem como regras processuais, sancionatórias e administrativas.
Contudo, a conclusão que obtém não se nos afigura a melhor. O autor não encontra uma
forma viável de reduzir este a uma disciplina una44.
É comum a defesa da não autonomia com o facto de ser necessário recorrer a normas
e princípios de outros ramos do Direito. E efectivamente recorre. Assim se define a
multidisciplinariedade do Direito do Consumidor, reconhecida como flexibilidade
temporal, conjugando princípios clássicos e soluções inovadoras dos tempos que se
vivem, e mesmo fora do Direito, no âmbito dos campos políticos, económicos e
sociológicos45.
Afastámo-lo já, ainda que levianamente, do Direito Económico, na medida em que
não regula o consumo em si, enquanto função económica46. A ideia de inclusão de parte
do seu acervo normativo, que é vastíssimo, no Direito Civil é a mais sugerida47, chegando
ao ponto de se questionar a autonomia perante este48. Pertence-lhe, precisamente, a
maioria das normas presentes nos instrumentos regulativos do Direito do Consumidor,
ligadas, maioritariamente, à teoria geral dos negócios jurídicos.
O Direito Civil é considerado, usualmente, o “Direito Comum das pessoas comuns”49.
Relações jurídicas de índole civil entre pessoas comuns pressupõem, naturalmente,
43
Cfr. CORDEIRO, António Menezes, Tratado, ob. cit., pp. 325 e 326.
44
Idem, p. 326.
45
Cfr. RODRIGUES, José Cunha, “As Novas Fronteiras dos Problemas de Consumo”, in EDC, Publicação
do CDC, n.º 1, Coimbra, 1999, pp. 46 e 47.
46
In supra, pp. 12 e ss.
47
Refira-se que, apesar do tema deste estudo, esta é uma questão substancial e não legislativa, apesar de
um ponto poder conduzir ao outro. Precisamente por isso, a opinião mais favorável de ANTÓNIO MENEZES
CORDEIRO quanto à inclusão do Direito do Consumo no Código Civil, pois, segundo o autor, aquele deve
ser estudado no Direito Civil, sem prejuízo da admissão da possibilidade de se realizar uma mera
compilação de toda a legislação extravagante até à codificação, in “Da Natureza”, ob. cit., p. 711.
48
O mesmo sucede fora de portas. DOHRMAN, Klaus Joechen Albiez, “La integración del derecho de
consumo contractual en el Código Civil: una simple entelequia o algo más?”, in EH al Profesor Luís Díez-
Picasso, Vol. I, Madrid, Civitas, 2003, p. 137 e ss., considera a inclusão no CC espanhol como uma
revitalização do ramo do Direito. Vide também, defendendo que “as relações de consumo são de Direito
Civil”, como parcela do Direito das Obrigações, RODRIGUES, Raúl Carlos de Freitas, O Consumidor no
Direito Angolano, Almedina, Coimbra, 2009, pp. 175 e 178.
49
Cfr. ASCENSÃO, José de Oliveira, “O Anteprojecto do Código do Consumidor e a Publicidade”, in EIDC,
Vol. III, Coord.: Luís Menezes Leitão, Instituto de Direito do Consumo, Almedina, 2006, p. 10.
17
posições de paridade – imaginemos determinado contrato de compra e venda, com
obrigações legais e contratuais definidas para ambas as partes50.
A paridade de que falamos não se digna a aparecer, contudo, no âmbito do Direito do
Consumidor. O negócio jurídico de consumo, com notas especiais, compõe-se com a
presença de duas entidades, singulares ou colectivas, tendo como objecto certo bem ou
serviço apto a satisfazer necessidades pessoais do consumidor. Por um lado, por
conseguinte, uma empresa ou um profissional; por outro, o consumidor, “dotado” de
inexperiência e necessidade quanto aos bens ou serviços em causa51. A definição de
consumidor que se encontra institucionalizada impõe essa mesma desigualdade de
posições – não fosse ela a determinação principal do Direito do Consumidor.
O autor José de Oliveira Ascensão julga ser suficiente o argumento de que a
qualidade de consumidor pertence a todos nós, nas mais variadas situações, como
decorrência da simples condição humana52. Mas não nos conseguimos abstrair, não
obstante a quantidade relevante de normas civis no Direito do Consumidor, das
especificidades que nutrem a sua particular relação jurídica.
Quanto ao Direito Penal, Mário Monte reivindica uma certa autonomia para um
existente conjunto de normas de natureza penal que se dedica à protecção de bens
jurídicos ligados ao consumo, enquanto parte do chamado direito penal secundário, o
direito penal do consumo53. Decorre, logicamente, dos imperativos constitucionais, não
parecendo existir motivo para se colocar a hipótese de inserir o Direito do Consumidor
no Direito Penal.
Antunes Varela indica que se trata de um sector do Direito Administrativo, “baseado
na progressiva ampliação da esfera das atribuições do Poder executivo”54. Von Hippel
chamava já a atenção, na sua monografia datada dos anos 70, direcionada à análise do
50
V.g., com referência às obrigações essenciais do contrato de compra e venda, a obrigação de entregar a
coisa e a obrigação de pagar o preço, o artigo 879.º do Código Civil.
51
Vide, sobre as características do negócio jurídico de consumo, ALMEIDA, Carlos Ferreira de, “Negócio
Jurídico de Consumo”, Separata do “Boletim do Ministério da Justiça”, n.º 347, Lisboa, 1985, pp. 9 e ss.
52
Cfr. ASCENSÃO, José de Oliveira, “Direito Civil e Direito do Consumidor”, in Themis- Revista da
Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, Edição Especial, Código Civil Português –
Evolução e perspetivas actuais, 2008, p. 179.
53
MONTE, Mário Ferreira, Da Protecção Penal do Consumidor: o problema da (des)criminalização no
incitamento ao consumo, Almedina, Coimbra, 1996, pp. 59 e ss.
54
Cfr. VARELA, João de Matos Antunes, “Direito do Consumo”, in EDC, n.º 1, Publicação do CDC,
Coimbra, 1999, p. 397.
18
movimento legislativo mundial na área do Direito do Consumidor, para a existência das
mais variadas providências de cariz administrativo de um Estado intervencionista55.
Ora, apesar da intervenção da Administração ser vasta, com consequências práticas
visíveis, não podemos reconduzir este ramo ao Direito Administrativo. Centra-se na
actividade legislativa, fiscalização e medidas conducentes ao apoio e organização das
instituições que se dedicam à área56. Não constituem tais matérias o seu núcleo nobre.
O exemplo paradigmático que deve ser apresentado é a existência do livro de
reclamações, regulado pelo D.L. n.º 156/2005, de 15 de Setembro, no âmbito do Ilícito
de Mera Ordenação Social57, matéria que se situa entre o Direito Administrativo e o
Direito Penal. Este diploma prevê a obrigatoriedade de disponibilização de livro de
reclamações a todos os fornecedores de bens ou prestadores de serviços, como forma de
protecção dos direitos dos consumidores, com papel preponderante no reforço da defesa
do consumidor58.
Afasta-se, similarmente, do Direito Comercial. Desde logo, porque não depende da
característica da comercialidade dos actos: ora, o profissional que se encontra em contacto
com o consumidor pode, v.g., um profissional liberal, isto é, determinado sujeito que
exerce, de modo habitual e com relativa autonomia, certa actividade essencialmente
55
Vide, HIPPEL, E. Von, “Defesa do Consumidor”, in Boletim do Ministério da Justiça, n.º 273, Fevereiro,
1978, pp. 5 e ss. De forma semelhante, António Barbosa de Melo indicava, como forma de o Estado cumprir
as exigências constitucionais de protecção do consumidor, a criação de políticas de protecção e de uma
entidade administrativa especial capaz de promover e executar medidas de defesa. Será o Instituto do
Consumidor essa entidade, opinião seguida no Anteprojecto do Código do Consumidor (artigo 673.º), que
indicava como incumbências fundamentais a promoção da política e a coordenação das medidas atinentes
à defesa dos consumidores, bem como prestar apoio a todas as outras organizações com objectivos
similares. Cfr. MELO, António Barbosa de, “Aspectos Jurídico-Públicos da Protecção dos Consumidores”,
in EDC, Publicação do CDC, n.º 5, 2003, p. 25.
56
Acentuando o “carácter instrumental” do Direito Administrativo como de outros ramos do direito em
relação ao Direito Civil do Consumo, vide, CARVALHO, Jorge Morais, Os Contratos, ob. cit., p. 33.
57
O regime geral do Ilícito de Mera Ordenação Social consta do Decreto-Lei n.º 433/82, de 27 de Outubro,
publicado no uso da autorização legislativa dada pela Lei n.º 24/82, de 23 de Agosto. Foi consagrado entre
nós pela primeira vez no Decreto-Lei n.º 232/79, fruto do esforço de Eduardo Correia, enquanto Ministro
da Justiça.
58
A reclamação surge como um importante meio de prevenção de práticas que possam ser consideradas
ilícitas mas, essencialmente, aparece como meio ao dispor das entidades reguladoras e fiscalizadoras para
sancionar essas mesmas condutas por parte de profissionais, ao colocarem bens e serviços ao dispor do
público em geral. Cfr. LEITÃO, Adelaide Menezes, “As Reclamações no Direito do Consumo. Análise da
Actual Legislação e Apreciação do Anteprojecto do Código do Consumidor”, in Estudos em Honra do
Professor Doutor José de Oliveira Ascensão, Vol. II, Almedina, Coimbra, 2008, p. 1474.
19
intelectual, normalmente regulada por uma associação pública, ou mesmo uma pessoa
colectiva que se dedique a tais funções, não se tratando de comerciantes5960.
Por outro lado, mais longe estará do ramo processual, evidentemente, pois este último
dita, fundamentalmente, os termos do acesso à justiça por parte dos consumidores, tanto
a nível individual como colectivamente61, o que desponta do escopo essencial, a protecção
do consumidor - assim, o direito processual civil do consumo não preenche o núcleo
substancial do Direito do Consumidor, antes provém do mesmo.
Inclinamo-nos, indubitavelmente, no sentido da autonomia jurídica. A unidade da
disciplina do Direito do Consumidor reside, parece-nos, no facto de todas essas regras
convergirem num único sentido, a protecção do consumidor enquanto parte mais fraca na
relação jurídica de consumo, pretexto imperativo deste ramo. Vislumbramos, nesse
sentido, um ramo do direito perfeitamente construído e enraizado na ordem jurídica
portuguesa e comunitária, sem prejuízo da certeza de que a evolução a que se submete é
constante, adaptando-se às evoluções tecnológicas e sociais. Portanto, não é um Direito
neutro, mas tutelar, ligado ao bem-estar social, com carácter especial e espírito militante,
dirigido prioritariamente a consumidores, a incluir na chamada ordem pública de
protecção6263. Contudo, não impede que algumas das suas regras possam aplicar-se a
outros destinatários, rectius, a não consumidores.
De forma semelhante, encontramos apoio na própria existência do Direito do
Trabalho, cuja função primacial é tutelar a parte mais débil da relação laboral64,
estabelecida entre trabalhador e empregador, controlando a liberdade contratual e
restringindo a concorrência entre os trabalhadores no mercado laboral, através, v.g., da
59
Por exemplo, os advogados são profissionais liberais, exercendo a sua actividade profissional no âmbito
das restrições e orientações elaboradas pela Ordem dos Advogados e no cumprimento dos ditames legais
consagrados pelo Estatuto da Ordem dos Advogados.
60
Cfr, ABREU, Jorge Manuel Coutinho de, Curso de Direito Comercial, Vol. I, 10.ª Ed., Almedina,
Coimbra, 2016, pp. 127 e ss., referindo-se aos profissionais liberais e demais sujeitos não qualificáveis
como comerciantes.
61
Referimo-nos, em específico, ao mecanismo da acção popular, previsto no art. 52.º da CRP, direito
conferido a todos, pessoalmente ou por intermédio de associações de defesa dos interesses jurídicos em
causa.
62
MONTEIRO, António Pinto, “Do Direito do Consumo ao Código do Consumidor”, in EDC, Publicação
do CDC, n.º1, Coimbra, 1999, p. 212.
63
MALINVAUD, Philippe, La protection des consommateurs, Recueil Dalloz-Sirey, 1981, p. 50, indica que
se trata de um conjunto de disposições que “organiza o estatuto do consumidor enquanto tal com o fim
principal de proteger os interesses” do mesmo. Sobre o mesmo fim, sendo definida uma concepção finalista
do Direito do Consumo, vide SILVA, João Calvão da, Responsabilidade, [Link]., pp.56 e ss.
64
Constatando essa fragilidade, MOULY, Jean, Droit du travail, 4.ª Ed., Bréal, 2008, p. 8, indica que “Le
droit du travail s`est elaboré au profit de travailleurs se trouvant dans une situation de dépendance appelant
une protection particulerè.”
20
fixação do salário mínimo nacional65. Recorde-se, na linha de Vieira de Andrade, que nos
tempos da industrialização iniciou-se a intervenção estatal nas relações de trabalho,
acompanhada pela criação dos direitos fundamentais dos trabalhadores66.
A autonomia de que se fala consistirá, nesses moldes, nas especificidades que nutrem
a relação jurídica de consumo, na presença de um conjunto de princípios e regras jurídicas
de especial singularidade e coesão, e na organização imposta pela sua singela finalidade.
Podemos, contemplados todos os argumentos, falar, fundadamente, num ramo do direito
autónomo67.
Os desenvolvimentos sentidos originaram a autonomia didática que esta disciplina já
observa em várias universidades estrangeiras, abordando o estudo dos vários diplomas
legais e dos princípios gerais integrantes, de uma forma unitária, através de um plano
estruturado68. Aliás, é objecto de estudo, previamente, no ensino primário e secundário,
ainda que com um formato mais simplista, fruto da preocupação em cultivar o espírito de
protecção do consumidor.
65
Nesse sentido, vide AMADO, João Leal, Contrato de Trabalho: Noções básicas, Almedina, Coimbra,
2016, pp. 16 e ss., que nos fala desta função tutelar e apelida este ramo de “direito da desigualdade”,
porquanto combate a “ditadura contratual” exercida pelo empregador, propugnando igualmente pelo
importante papel do Estado na configuração da política de protecção do trabalhador.
66
Cfr. ANDRADE, José Carlos Vieira de, “Os Direitos”, ob. cit., p. 143.
67
Encontramos apoio para a nossa opinião, nomeadamente, em LEITÃO, Luís Manuel Teles de Menezes,
“O Direito”, ob. cit., pp. 24 e ss., e COELHO, Nuno Miguel Pereira Ribeiro, “O consumidor e a tutela do
consumo no âmbito do crédito do consumo”, in Revista do Ministério Público, Ano 26, n.º 103, 2005, p.
180.
68
Oferecendo como exemplo a instituição que nos acolhe para a elaboração deste trabalho, cujo CDC se
dedica, anualmente, à disposição de uma pós-graduação em Direito dos Contratos e do Consumo, conforme
se encontra na respectiva página digital, in [Link]
69
Esta afirmação vem de encontro ao parecer de MÁRIO TENREIRO, ao dizer que “o consumidor é o que o
legislador (pelas definições explícita ou implicitamente incluídas na lei) ou a jurisprudência fizer dele.”
Cfr. “Un Code de la Consommation ou un Code Autour du Consommateur? Quelques Réflexions Critiques
sur la Codification et la Notion du Consommateur”, in Law and Diffuse Interests in the European Legal
Order – Recht und Diffuse Interessen in der Europäischen Rechtordnung – Liber Amicorum Norbert Reich,
Nomos Verlagsgesellschaft, Baden-Baden, 1997, p. 354.
70
Colocamos este problema no que à ordem jurídica portuguesa diz respeito, apesar de também no direito
comunitário não existir um conceito unitário como referente universal.
21
Uma primeira observação quanto ao papel das definições legais. A definição de um
conceito apresentará um relevo tanto maior quanto mais intenso for a sua capacidade de
delimitação objectiva e subjectiva. Por outras palavras, o poder de definir o seu âmbito
de aplicação em íntima conexão com outros elementos integrantes das normas legais em
que se encontram. Na linha de Rui Pinto Duarte, a lei pretende expor em que
circunstâncias as suas previsões se aplicam71. Por conseguinte, incumbe à noção de
consumidor poder demonstrar o âmbito de aplicação da mais variada legislação de Direito
do Consumidor.
A noção de consumidor apenas adquire sentido quando indicada por referência à
existência de um negócio jurídico. A própria LDC fornece argumentos preponderantes
nesse sentido72, abordando a actividade de uma contraparte e os efeitos que terão lugar
com o suposto contrato, nomeadamente, o fornecimento de bens, a prestação de serviços
ou a transmissão de direitos. De igual forma pensa, aliás, Paulo Duarte, ao dizer que “o
conceito de contrato de consumo precede, lógica e jurídico-normativamente, o conceito
de consumidor”73.
Por outro lado, é generalizada a associação da posição do mesmo à de contraente
frágil, como já foi adiantado de forma breve. Mas destaque-se que, tal não sucede apenas
na doutrina. Gemma Botana García confirma, precisamente com base no estudo da
situação jurídica em vários ordenamentos jurídicos, que a noção de consumidor adoptada
compreende, não raras vezes, a associação à figura do contratante74.
São abundantes as posições que apontam a delicadeza deste conceito, em termos de
imprecisão ou equivocação. Partilhamos de tal opinião, apesar de reconhecermos que
facilmente se concebem situações da vida prática em que uma das partes da relação
jurídica seja um consumidor75. Contudo, subsistem ainda muitos pontos a destrinçar.
71
Cfr. DUARTE, Rui Pinto, Tipicidade e Atipicidade dos Contratos, Almedina, Coimbra, 2000, p. 74
72
N.º 1 do art. 2.º.
73
DUARTE, Paulo, “O Conceito Jurídico de Consumidor, segundo o Artigo 2.º, n.º 1, da Lei de Defesa do
Consumidor”, in Boletim da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, Vol. LXXV, 1999, pp.
658 e ss. O autor indica, inclusivamente, que as várias normas que se referem ao consumidor têm por
pressuposto um referente contratual, V.g., o n.º 2 do art. 4.º, também da LDC, quanto ao fornecimento de
bens. Em sentido contrário, ALMEIDA, Carlos Ferreira de, Negócio, ob. cit., pp. 13 e ss.
74
Cfr. GARCÍA, Gemma Alejandra Botana, “Noción de Consumidor en el Derecho Comparado”, in Revista
Portuguesa de Direito do Consumo, Associação Portuguesa de Direito do Consumo, n.º 12, 1997, pp. 358
e ss.
75
Socorrendo-nos novamente das palavras de John F. Kennedy, todos nós somos consumidores. O simples
acto de comprar uma garrafa de água faz de nós consumidores.
22
3.1. - Linhas gerais sobre a noção de consumidor
76
Cfr. CORDEIRO, António Menezes, “Da Natureza”, ob. cit., p. 676. Do mesmo autor, mais recente, vide
ainda, Tratado, ob. cit., p. 317.
77
Cfr. SILVA, João Calvão da, Responsabilidade, ob. cit., p.58.
78
In supra, p. 11.
23
profissional uma actividade económica que vise a obtenção de benefícios”. Utiliza o
conceito de consumidor em sentido estrito.
A noção prevista na LDC permite-nos identificar um elemento objectivo, os bens,
serviços ou direitos transmitidos objecto da relação jurídica. Os bens em questão podem
ou não ser consumíveis79, porquanto não existe qualquer obrigatoriedade de o bem ser
consumível para se falar, com propriedade, num negócio jurídico de consumo.
Poderia suscitar algumas dúvidas, mas, dada a pertença dos contratos de crédito ao
consumo a este ramo do direito, nem se coloca a questão de o dinheiro poder não figurar
como um dos bens a que a LDC se refere, quando objecto destes contratos. Dúvidas
suscitam-se, contudo, quando falamos, por exemplo, em dinheiro aplicado em poupanças.
Em terceiro lugar, surge o elemento teleológico, traduzido na finalidade que o bem
ou serviço prestado irá cumprir. O diploma legal refere-se ao “uso não profissional”,
optando pela delimitação de forma negativa.80
A redacção anterior81 falava em “todo aquele a quem sejam fornecidos bens ou
serviços destinados ao seu uso privado”, em sintonia com a referida Carta do Conselho.
O critério utilizado respeita agora ao destino profissional ou não dos bens, serviços ou
direitos, definição que se conjuga com o exposto na Convenção de Viena sobre os
Contratos de Compra e Venda Internacional de Mercadoria, de 198082.
Pode retirar-se, portanto, que um empresário, quando adquira determinado bem fora
do seu âmbito de actividade profissional, deve ser considerado consumidor83. Pelo lado
oposto, poderemos excluir as situações em que a relação se estabelece entre particulares,
bem como entre profissionais.
79
O art. 208.º do CC define coisas consumíveis como aquelas “cujo uso regular importa a sua destruição
ou a sua alienação”, um conceito jurídico que nos remete para a análise do caso concreto, para a
compreensão da qualificação do bem como consumível ou não. Vide, a esse propósito, com exemplos
elucidativos, LIMA, Fernando Andrade Pires de, VARELA, João de Matos Antunes, Código Civil Anotado,
Vol. I, 3.ª Ed. Revista e Actualizada, Colaboração de Manuel Henrique Mesquita, Coimbra Editora,
Coimbra, 1982, pp. 201 e 202. Igualmente, indicando que o conceito “destruição” presente no preceito, é
um conceito jurídico e não físico, AAVV, Código Civil: Anotado, Vol. I (Artigos 1.º a 1250.º), Coor.: Ana
Prata, Almedina, Coimbra, 2017, p. 261.
80
Cfr. ALMEIDA, Carlos Ferreira de, Direito, ob. cit., p. 33.
81
Art. 2.º da Lei n.º 29/81, de 22 de Agosto.
82
Alínea a), do art. 2.º, que exclui a aplicação desta convenção às vendas de mercadorias “compradas para
uso pessoal, familiar ou doméstico”.
83
Afirmando este critério, o Acórdão do STJ, de 5 de Julho de 2016 (Processo n.º 1129/11.5TBCVL-
C.C1.S1), constatando que, não obstante se ter comprovado que o promitente comprador cedeu o uso do
imóvel a uns amigos para fins habitacionais, tal acto configura-se como uso privado do sujeito, não tendo
fim profissional. Ainda, o Acórdão do STJ, de 4 de Outubro de 2016 (Processo n.º
2679/13.4TBVCD.P1.S1), que concluiu pela não obtenção da qualidade de consumidora, para efeitos da
protecção concedida pela LDC e da aplicação do D.L. n.º 67/2003, de 8 de Abril (relativo à compra e venda
de bens de consumo e garantias inerentes), por uma sociedade comercial que adquiriu um veículo para o
exercício das actividades a que se dedicava.
24
Devemos, contudo, na linha de Calvão da Silva84, olhar para este critério com cautela,
de forma a que o virtuosismo da acção de protecção não nos cegue e conduza a uma
absolutização do conceito de consumidor. É verdade que este ramo do direito assenta na
necessidade de tutela do consumidor, em prol da sua fragilidade, disparidade no âmbito
da relação jurídica e falta de conhecimentos técnico-científicos no acontecimento
concreto. Porém, essa desigualdade poderá ser minimizada – ou mesmo anulada – caso o
consumidor seja um empresário, comprando um bem que conhece, porventura, do seu
labor profissional, com cujas características e valor de mercado se encontra familiarizado.
O que nos leva a questionar se se justificará uma protecção especial em tais ocorrências.
Mesmo que se trate da compra de um bem para uso profissional, poderá suceder que
o profissional não tenha qualquer tipo de conhecimentos relativos ao bem em apreço
(imagine-se, um construtor civil que compra um computador para proceder à elaboração
dos seus orçamentos e facturação). Não será viável a extensão do regime de protecção a
tal indivíduo, fundada na ratio imperativa do Direito do Consumo? É pertinente, mesmo
peremptória, a análise ponderada e equitativa de cada caso concreto, porque uma pessoa
pode ser ou não um consumidor por força de determinado acto, mas nunca terá essa
qualidade em termos genéricos e absolutos.
Nesse sentido, olhamos com agrado para a extensão de regime presente no n.º 2 do
art. 11.º do Anteprojecto do Código do Consumidor, ainda que não se trate de legislação
vigente. Nos termos do preceito citado, as pessoas singulares que “actuem para a
prossecução de fins que pertençam ao âmbito da sua actividade profissional” podem
igualmente ver ser-lhes aplicado o regime jurídico que o Anteprojecto consagra, caso
cumpram as condições elencadas no n.º anterior, isto é, a) provar que não dispõem nem
devem dispor de competência específica no âmbito da transacção concreta; e b) a solução
estar de harmonia com a equidade.
A tarefa de extensão do regime é perigosa, sendo necessário o maior cuidado e
ponderação. Nas palavras de Calvão da Silva, “alargar mais e desmesuradamente a
noção de consumidor, coração do direito do consumidor na concepção finalista ou
funcional que há muito defendemos – conjunto de regras que tem por finalidade proteger
os consumidores – corresponderia a estender este novo direito em construção para fora
das suas fronteiras naturais, com perda da sua unidade, da sua coerência interna e da
sua especificidade, na gula de procurar equivaler-se ao Direito Civil, a fazer lembrar a
84
SILVA, João Calvão da, Responsabilidade, ob. cit., p. 62.
25
rã que quis ser boi”85. Será imprescindível a fixação de critérios de equiparação robustos,
que permitam não colocar em causa o respeito pelo princípio da igualdade, e a respectiva
aplicação com a maior acuidade possível, até porque, deve tratar-se como igual o que é
igual.
Na presença de bens ou serviços destinados a finalidades múltiplas, acompanhamos a
teoria de Fernando Baptista de Oliveira, ao considerar que a solução residirá em saber
qual o fim predominante, avaliado em função das circunstâncias do caso concreto ou das
cláusulas contratualmente assumidas.86
Por último, refira-se o elemento relacional, baseado na conexão entre o consumidor,
a quem são fornecidos bens, prestados serviços ou transmitidos direitos, e a contraparte,
um profissional de certa actividade económica, dotado de experiência no meio em
questão.
Concebe-se, face aos esclarecimentos prestados, que o Direito do Consumidor não
respeita a um conjunto especial de pessoas. Presencia-se, ainda que o seu âmago seja o
consumidor, uma categoria peculiar de actos que os mesmos sujeitos praticam. Isto é,
qualquer indivíduo, quando envolvido numa relação jurídica que preencha os elementos
indicados, é consumidor.
85
SILVA, João Calvão da, Compra e Venda, ob. cit., p. 144.
86
OLIVEIRA, Fernando Baptista de, Oliveira, Fernando Baptista de, O Conceito de Consumidor:
Perspectivas Nacional e Comunitária, Almedina, Coimbra, 2009, pp. 88 e ss.
87
Projecto apresentado pelo Partido Socialista. Cfr. Diário da República I Série – A, n.º 47, de 6 de Junho
de 1995.
88
Com efeito, o Deputado do Partido Comunista Português, insurgiu-se contra tal mudança, face ao
prescrito na lei anterior e em outros ordenamentos jurídicos, como a Espanha, em que a Lei n.º 26/84, de
19 de Julho, já se referia, na altura, às “personas físicas o jurídicas”.
26
comunitário em tal problemática89. Apesar da meritória manutenção, a discussão continua
nos dias de hoje.
Ainda que adoptando uma noção estrita de consumidor, cremos ser possível incluir a
pessoa colectiva. A lei faz uma abertura no sentido da admissão, definindo o elemento
subjectivo do conceito como “todo aquele”. Cremos que, caso o legislador pretendesse
excluir deste âmbito as pessoas colectivas, indicaria de forma incontestável a expressão
“pessoas singulares” ou “pessoas físicas”, conforme decorria do Projecto de Lei n.º
581/VI. Assim o fez, por exemplo, no DL 359/91, de 21 de Setembro, entretanto revogado
pelo DL 133/2009, de 2 de Junho, relativo aos Contratos de Crédito a Consumidores90,
pelo que, não se configura qualquer outra forma de analisar esta questão91.
Não nos compete aqui divagarmos pela noção de pessoa colectiva e,
consequentemente, pelas classificações que esta pode adquirir. As disparidades que
revelam quanto às pessoas físicas são notórias, seja no que toca à inexistência de corpo
ou à falta de vontade psicológica e intencionalidade92- apenas se concebe falar destes
elementos quanto aos seus membros, que projectam a sua vontade através dos órgãos do
ente jurídico. Contudo, podemos atribuir às pessoas colectivas personalidade jurídica, da
qual decorrem a capacidade jurídica de exercício e de gozo de direitos.
É comum o entendimento de que a adopção de uma noção estrita de consumidor
inviabiliza a inclusão da pessoa jurídica. O principal argumento que se levanta consiste
na análise da capacidade jurídica. O artigo 160.º, n.º 1, do CC, dispõe que a capacidade
das pessoas colectivas “abrange todos os direitos e obrigações necessários ou
convenientes à prossecução dos seus fins.”, exceptuando-se aqueles “vedados por lei ou
que sejam insperaváveis da personalidade singular”93. De forma semelhante,
89
Esse desígnio encontrava-se previsto na nota justificativa do Projecto de Lei. De facto, a pessoa
singular/física surgia como elemento imprescindível da noção de consumidor avançada no direito
comunitário. Vários são os exemplos disso, sendo feita referência à pessoa física na Dir. 87/102/CEE do
Conselho, sobre a Aproximação das Disposições Legais, Regulamentares e Administrativas dos Estados
Membros em Matéria de Crédito ao Consumo, bem como a Dir. 93/13/CEE do Conselho, de 5 de Abril de
1993, relativa às Cláusulas Abusivas nos Contratos Celebrados com os Consumidores. Cfr. ALMEIDA,
Teresa, Lei de Defesa do Consumidor Anotada, 2.ª Ed., Coimbra, 2001, pp. 25 e ss.
90
Na alínea a), n.º1, do art. 4.º, estabelece como consumidor “a pessoa singular que (…) atua com objetivos
alheios à sua atividade comercial ou profissional”.
91
Em sentido divergente, defendendo que a melhor interpretação possível do n.º 1 do art. 2.º, é a restrição
do conceito às pessoas singulares, fundamentando com base no princípio da especialidade do escopo da
pessoa colectiva (art. 160.º do CC e art. 6.º do Código das Sociedades Comerciais), SILVA, João Calvão da,
Compra e venda de coisas defeituosas: conformidade e segurança, 5.ª Ed. revista e aumentada, Almedina,
Coimbra, 2008, p. 122.
92
Vide, VASCONCELOS, Pedro Pais de, Teoria Geral do Direito Civil, 8.ª Ed., Almedina, Coimbra, 2005, p.
140.
93
V.g., os direitos de uso e habitação, previstos nos arts. 1484.º e ss. do CC, vedados por lei, e os direitos
familiares resultantes do casamento como inseparáveis da pessoa singular.
27
encontramos o n.º 1 do 6.º do Código das Sociedades Comerciais, relativo às sociedades,
falando em “fim” social enquanto obtenção de lucros para atribuição aos sócios94.
Por conseguinte, argumenta-se que a possibilidade de existir um uso privado, que nos
interessa no âmbito do conceito que debatemos, encontra-se completamente arredada pelo
circunstancialismo de as pessoas colectivas actuarem, unicamente, com vista à realização
de um fim comum, o escopo social. Consequentemente, não serão consumidores para
efeitos de aplicação do devido regime.
No sentido inverso, defende-se que apenas se justifica a exclusão da pessoa colectiva
se o seu fim social for, em exclusivo, uma actividade económica. Assim, a natureza da
pessoa em questão não assume relevo determinante, procurando-se analisar o carácter
profissional da actividade que desenvolve.
O art. 10º do anteprojecto do Código do Consumidor considerava consumidor a
“pessoa singular que actue para a prossecução de fins alheios ao âmbito da sua
actividade profissional (…)”. Contudo, no art. seguinte, realizou uma extensão do regime
previsto no Código a favor do consumidor, in casu as pessoas colectivas, caso estas
provassem que “não dispõem de meios nem devem dispor de competência específica para
a transacção em causa e desde que a solução se mostre de acordo com a equidade.”
Ressalva-se que esta extensão poderia também ter aplicação quanto às pessoas singulares
que actuassem para a prossecução de fins pertencentes à sua actividade profissional.
Deste modo, foi intenção da Comissão encarregue da elaboração do Anteprojecto
definir que a qualidade de consumidor não é definida, previamente, por referência às
pessoas colectivas, mas estas poderão, mediante a prova mencionada, usufruir do regime
legal conexo ao consumidor.
Pois bem, aprova-se, ainda que falte a consagração expressa da atribuição da
qualidade de consumidor às pessoas colectivas, a extensão do regime. Não se pode negar,
a priori, a posição contratual de consumidor às pessoas colectivas, pelo simples facto de
o serem, pela sua natureza jurídica. Deve ser realizada uma ponderação caso a caso,
apoiada nos princípios gerais e nas várias variantes que definem a posição da pessoa cuja
hipotética condição de consumidor se discute, como a sua preparação técnica e a
fragilidade de que padece, em maior ou menor grau. Por outro lado, se detivermos a
atenção na ratio do Direito do Consumidor, percebemos que o critério da fragilidade
94
Cfr. ABREU, Jorge Manuel Coutinho de, Curso de Direito Comercial, Vol. II, 5.ª Ed., Reimpressão,
Almedina, Coimbra, 2016, p. 177 e ss., quanto à capacidade jurídica das pessoas colectivas.
28
contratual tanto pode ser preenchido quanto às pessoas físicas como em relação às pessoas
jurídicas, com base, novamente, na análise do caso concreto95.
O BGB refere-se, contrariamente ao raciocínio que adoptamos e colocando à margem
quaisquer dúvidas que poderiam existir, aos consumidores como pessoas singulares,
participantes em qualquer transacção legal, excluindo qualquer fim comercial ou
profissional96.
Em Espanha, o art. 3.º do Real Decreto Legislativo 1/2007, de 16 de noviembre, por
el que se aprueba el texto refundido de la Ley General para la Defensa de los
Consumidores y Usuarios y otras leyes complementarias, estabelece que “son
consumidores o usuarios las personas físicas que actúen con un propósito ajeno a su
actividad comercial, empresarial, oficio o profesión. Son también consumidores a efectos
de esta norma las personas jurídicas y las entidades sin personalidad jurídica que actúen
sin ánimo de lucro en un ámbito ajeno a una actividad comercial o empresarial”.
No plano comunitário, o Tribunal de Justiça, 3.ª Secção, pronunciou-se sobre esta
questão no Acórdão de 22 de Novembro de 2001 (relativo aos Processos [Link] C-541/99 e
C-542/99), ao encarregar-se da interpretação do conteúdo da alínea b), do art. 2.º, da in
supra referida Dir. 93/13/CEE, do Conselho. Declarou o tribunal que esta norma “deve
ser interpretada no sentido de que visa exclusivamente as pessoas singulares”, face à
possibilidade de duas sociedades, “Cape” e “OMAI”, serem consideradas consumidoras,
apesar de existirem pretensões nesse sentido e, objectivamente do ponto de vista legal, a
alínea c) do mesmo preceito permitir expressamente a possibilidade de o profissional ser
uma pessoa colectiva.
A exclusão da pessoa colectiva encontra ainda um argumento fundamental no plano
comunitário, o qual, reconhece-se, é difícil de contrariar. A Dir. 2011/83/EU, do
Parlamento Europeu e do Conselho, de 25 de Outubro de 2011, relativa aos direitos dos
consumidores97, pretende instaurar uma harmonização total de alguns aspectos
regulamentares associados aos contratos celebrados entre consumidores e profissionais
95
O autor Jorge Morais Carvalho desenvolve mais pormenorizadamente esta questão da noção de
consumidor, problematizando, por referência ao seu elemento subjectivo, sobre a qualificação jurídica de
condomínio, defendendo que se tratará de um consumidor se uma das suas fracções, no mínimo, se destinar
a uso não profissional. Sobre o assunto, vide, CARVALHO, Jorge Morais, Manual de Direito do Consumo,
4.ª Ed., Almedina, Coimbra, 2017, pp. 25 e ss.
96
A disposição em questão encontra-se no §13 do BGB, relativo aos consumidores (sob a epígrafe
“verbraucher”).
97
Esta Dir. veio alterar a Dir. 93/13/CEE do Conselho e a Dir. 1999/44/CE do Parlamento Europeu e do
Conselho, bem como revogar a Dir. 85/577/CEE do Conselho e a Dir. 97/7/CE do Parlamento Europeu e
do Conselho.
29
(art. 4.º). Estabelece, no seu art. 2.º, a expressa assunção da noção de consumidor como
pessoa singular. Deste modo, ao encararmos o propósito de harmonização efectiva,
poderão não restar argumentos suficientemente consistentes para contradizer esta opção
comunitária.
30
CAPÍTULO II – A QUESTÃO DA CODIFICAÇÃO
Chegados ao ponto de maior relevo neste estudo, cumpre associar os sucessos até
agora relacionados. Definimos o Direito do Consumidor como um ramo do direito
autónomo, assente na necessidade específica de tutela de um contraente frágil face à
posição de supremacia de que normalmente detém a contraparte. Contudo, encontramo-
nos já em condições de analisar cuidadamente que o consumidor não subsiste como único
destinatário da mais variada legislação integrante deste ramo, tal como não será,
efectivamente, o único destinatário do Código do Consumidor que, neste momento, se
propõe avançar com a criação.
98
ALMEIDA, Carlos Ferreira de, Direito, ob. cit., p. 60.
99
V.g., a anulabilidade de negócios usurários (art. 282.º, justamente fundada na eventual situação delicada
e frágil de uma das partes, com aproveitamento ilícito pela outra).
31
nas palavras de António Pinto Monteiro, a “trave-mestra da política de consumo e o
quadro normativo de referência no tocante aos direitos dos consumidores e às
instituições” que defendem os mesmos100.
Outro diploma de incalculável importância, tanto teórica como prática, é o DL n.º
446/85, de 25 de Outubro, que instituiu o regime jurídico das cláusulas contratuais
gerais101, na esteira do modelo alemão, dentro de um estilo técnico e rigoroso. Neste
regime figuram várias listas de cláusulas proibidas102, tanto relativa como absolutamente
proibidas. A novidade perante o trabalho alemão consistiu numa divisão de relações, tais
como: relações entre empresários ou entidades equiparadas, cuja previsão consta dos arts.
17.º a 19.º; relações com os consumidores finais, nos arts. 20.º a 22.º, dedicando o
legislador, a cada uma delas, uma secção própria.
Não obstante tais previsões, evidencia-se uma maior sensibilidade quanto à tutela dos
interesses do consumidor, apesar de o problema do controlo do conteúdo das cláusulas
ser geral. Vejamos: nas relações entre empresários ou entidades equiparadas são, por
força do art. 15.º, proibidas as cláusulas que constam dos arts. 18.º e 19.º; tratando-se de
relações com consumidores finais, são proibidas as cláusulas indicadas nessa secção, e
igualmente, as proibidas pela secção anterior, conforme decorre do art. 20.º do DL.
Prosseguindo a breve enumeração dos diplomas, na nossa opinião, com maior
relevância dentro do que designamos o Direito do Consumidor (e na impossibilidade de
analisar todos os que nele se inserem), encontramos o DL n.º 133/2009, de 2 de Junho103,
que se aplica aos contratos de crédito aos consumidores, entendidos como os contratos
pelos quais determinado credor promete ou concede efectivamente um crédito a um
consumidor, sob várias formas possíveis das quais são exemplos: o mútuo, o diferimento
de pagamento e a utilização de cartão de crédito. Um regime extremamente útil por
diversos motivos, face à filosofia de vida tão inveterada na sociedade de consumo actual,
adquirir determinado bem ou serviço antes de proceder ao seu pagamento.
Nota de destaque igualmente para a venda a prestações no âmbito das relações de
consumo – sucede sempre que seja realizada a favor de pessoa singular que actue com
100
Cfr. MONTEIRO, António Pinto, “A protecção”, ob. cit., p. 336.
101
Sobre as alterações legislativas ao diploma, vide, MONTEIRO, António Pinto, “Cláusulas contratuais
gerais: da desatenção do legislador de 2001 à indispensável interpretação correctiva da lei”, in Revista de
Legislação e Jurisprudência, Ano 140.º, n.º 3966, 2011, pp. 138 e ss.
102
Vide, infra, pp. 43 e ss.
103
Versão actualizada do D.L. n.º 359/91, de 21 de Setembro, que transpôs para o ordenamento jurídico
interno a Dir. n.º 87/102/CEE, do Conselho, de 22 de Dezembro de 1986 e a 90/88/CEE, de 22 de Fevereiro
de 1990.
32
objectivos alheios à sua actividade profissional - que é considerada um contrato de crédito
ao consumo, incluindo-se, logicamente, na forma de diferimento de pagamento. Deste
modo, esta modalidade de vendas encontra-se sujeita a um regime especial, nos termos
do D.L. n.º 133/2009, com o fundamento, em geral, da falta de informação de que
dispõem os consumidores quanto aos custos do crédito.104
No sector da responsabilidade por produtos defeituosos – na sequência da Dir. n.º
85/374/CEE, do Conselho, de 25 de Julho de 1985, relativa à aproximação das
disposições legislativas, regulamentares e administrativas dos Estados membros em
matéria da responsabilidade decorrente de produtos defeituosos - , cumpre estender um
olhar atento ao D.L. n.º 383/89, de 6 de Novembro, que consagra imediatamente no seu
art. 1.º, a responsabilidade pelo risco do produtor pelos danos causados por defeitos dos
produtos que colocou em circulação, isto é, independentemente de culpa sua. O que se
compreende perfeitamente, dado que: pelo caminho da responsabilidade extracontratual
ou aquiliana, enormes impedimentos surgiriam devido ao ónus da prova que pertence ao
lesado; quanto à responsabilidade contratual, as tentativas de responsabilização do
produtor não foram bem-sucedidas.
A LDC reconhece ao consumidor o direito à qualidade dos bens que adquire ou
serviços que lhe são prestados, por forma de satisfação dos “fins a que se destinam e a
produzir os efeitos que se lhes atribuem”, de encontro com as expectativas do consumidor
(n.º 1, do art. 4.º). Ou seja, nada de novo, face ao art. 60.º da CRP. Mas não se trata apenas
de um direito, a LDC vem impor uma garantia de qualidade, acabando por ser explorada
no D.L. n.º 67/2003, de 8 de Abril105, que rege a venda de bens de consumo e as garantias
inerentes.
A garantia contratual é aplicável aos contratos de compra e venda celebrados entre
profissionais e consumidores (no sentido que lhes foi atribuído na LDC), expressamente
104
Vide, LEITÃO, Luís Manuel Teles de Meneses, Direito das Obrigações, Vol. III, Contratos em especial,
11.ª Ed., Almedina, Coimbra, 2016, pp. 64 e ss., para uma análise profunda do regime a que se encontram
sujeitas as vendas a prestações.
105
Este diploma, alterado pelo D.L. n.º 84/2008, de 21 de Maio, veio proceder à transposição da Dir. n.º
1999/44/CE, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 25 de Maio, sobre certos aspectos da venda de bens
de consumo e das garantias a ela relativas (influenciada, em larga medida, pela Convenção de Viena sobre
Venda Internacional de Mercadorias, de 1980). Contudo, a preocupação das instituições comunitárias com
esta temática era anterior, destacando-se a criação em 1993, pela Comissão Europeia, de um Livro Verde
sobre as garantias dos bens de consumo e os serviços pós-vendas, em que se avaliava o momento vivido
em vários Estados Membros e no direito comunitário quanto às garantias legais, comerciais e aos serviços
pós-venda, que acabou por impulsionar a origem dos trabalhos com vista à aprovação da Dir. supracitada.
Sobre a importância e campo de aplicação da Dir., vide, PINTO, Paulo Mota, “Conformidade e Garantias na
Venda de Bens de Consumo – A Dir. n.º 1999/44/CE e o direito português”, in EDC, Publicação do CDC,
n.º 2, Coimbra, 2000, pp.197 e ss.
33
definido no n.º 1 do art. 1.º-A. Contudo, o n.º 2 realiza uma extensão aos contratos de
empreitada ou de outra prestação de serviços, centrados no fabrico e produção de bens,
bem como à locação de bens de consumo.
Surgiram novas modalidades de vendas, devidamente reguladas, das quais não se
pode olvidar, como as vendas à distância, aliadas ao desenvolvimento cultural e
tecnológico. Sobressai o D.L. n.º 24/2014, de 14 de Fevereiro, relativo aos contratos
celebrados à distância e fora do estabelecimento comercial, que transpõe a Dir. n.º
2011/83/UE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 25 de Outubro de 2011, relativa
aos direitos dos consumidores.
As especificidades destas modalidades, estabelecidas no D.L. n.º 24/2014, são
notórias em comparação com o padrão normal do contrato de compra e venda,
justificando-se pela especial fragilidade e, em muitos dos casos, inocência dos
compradores. Com particular destaque, surge neste diploma a distinção entre os
“contratos celebrados à distância” e os “contratos celebrados fora do estabelecimento
comercial” (alíneas f) e g), do art. 3.º, respectivamente). À partida, poderá pensar-se estar
em questão a mesma situação, porém, em nada se confundem. Os primeiros têm como
exemplo paradigmático as designadas “televendas”, firmando-se um contrato de compra
e venda sem que exista a presença simultânea de consumidor e o fornecedor de bens ou
prestador de serviços, através de meios electrónicos; nas vendas fora do estabelecimento
comercial, verifica-se essa presença física simultânea, abrangendo um conjunto de
situações, como a interpelação do consumidor na rua onde se situa o estabelecimento, a
celebração de contratos no domicílio, no local de trabalho do consumidor ou no decorrer
de uma excursão de promoção de produtos para venda, bem como em local combinado a
que o consumidor se desloque, sob sua responsabilidade, para o efeito.
Quanto à Lei dos Serviços Públicos Essenciais, esclareceremos posteriormente a
definição dos seus objectivos e destinatários106. Na linha da exposição sumária que se
pretende, cumpre apenas assinalar que o legislador decidiu não deixar dúvidas quanto ao
âmbito de aplicação da lei, elencando os serviços públicos: o fornecimento de água, o
fornecimento de energia eléctrica, o fornecimento de gás natural e gases de petróleo
liquefeitos canalizados, bem como os serviços de comunicações electrónicas, de recolha
e tratamento de águas residuais, de gestão de resíduos sólidos urbanos e os serviços
postais, conforme dita taxativamente o n.º 2 do art. 1.º da Lei n.º 23/96.
106
Infra, pp. 43 e ss.
34
Poderíamos continuar o que seria uma alongada e exaustiva enumeração do enorme
conjunto de diplomas que compõem o Direito do Consumidor. Conquanto, conseguimos
já compreender que toda esta diversidade em matérias distintas, resultantes do apanágio
evidente de inquietação com a tutela do indefeso e necessitado consumidor, bem como
da intensificação da actividade legislativa, mormente desde finais do século transacto,
oferece forma a um argumento ponderoso a favor da almejada codificação do ramo do
direito em destaque.
Decerto não terão sido simplesmente actuações internas que culminaram nesta
imensidão de textos legais avulsos, dispersos. Um contributo decisivo foi prestado pelo
direito comunitário, com cada Dir. – algumas delas já adiantadas aqui – que invadiu as
mais distintas áreas, como a publicidade, o crédito ao consumo, os contratos à distância,
as viagens turísticas e organizadas, a segurança, qualidade e conformidade dos produtos
com as expectativas dos consumidores e uso habitual, garantias inerentes à compra de
bens de consumo, não se esgotando aqui o campo de intervenção107.
O aglomerado legislativo existente constitui um obstáculo ao conhecimento da lei
pelos juristas, advogados, nos tribunais portugueses, bem como pelos próprios
consumidores, na procura de defesa dos seus interesses. É certo que a prática quotidiana
dita que os consumidores utilizam, normalmente, as consultas jurídicas para se
informarem sobre os seus direitos. No entanto, nem todos os actos exigem a intervenção
de um mandatário. Por outro lado, cremos que é difícil para o consumidor não recorrer a
qualquer sujeito com conhecimentos legais adequados quando confrontado com certo
problema, pois não consegue, efectivamente, deter uma percepção eficaz dos diversos
regimes jurídicos aplicáveis e dos meios, judiciais ou extrajudiciais, que lhe poderão ser
úteis no caso concreto.
Não é simplesmente no acesso a todas as normas jurídicas que se sente o seu carácter
prejudicial. Acabamos por encontrar repetições sucessivas, cujo exemplo mais hermético
é o conceito de consumidor, enquanto pedra basilar do ramo em que se insere. Mas não
só: falamos também, v.g., no direito de livre arrependimento ou nos requisitos da
informação a prestar aos consumidores.
107
Cfr. MONTEIRO, António Pinto, “Harmonização legislativa e proteção do consumidor (a propósito do
Anteprojeto do Código do Consumidor português)”, in Themis- Revista da Faculdade de Direito da
Universidade Nova de Lisboa, Ed. Especial, Código Civil Português – Evolução e perspetivas actuais, 2008,
pp. 183 e ss.
35
Um código autónomo teria, precisamente, esse efeito harmonizador, consagrando
com uma singular disposição o que, por vezes, se repete inúmeras vezes e é comum a
vários contratos. Certamente subsistirão sempre especificidades que devem ser
esquematizadas de forma clara, caso a caso, o que seria feito a posteriori. Portanto,
justifica-se uma tentativa de racionalização e sistematização.
36
do Consumidor, dois sentidos diferentes de um trabalho, que conjugam inúmeras
dificuldades e, simultaneamente, benefícios incalculáveis108.
Outra forma de contribuir para o desenvolvimento do Direito do Consumidor, em
detrimento da codificação (por qualquer das formas, em análise seguidamente), seria
proceder a uma consolidação da matéria existente, apesar de não ser uma prática muito
usual no ordenamento jurídico português, para dar facilidade de acesso a toda a legislação
avulsa que encontramos. Uma verdadeira complicação das matérias pertinentes.
A questão essencial reside em saber se os objectivos deste ramo do direito, as
características que o definem e toda a sua substância serão coniventes com uma possível
codificação, de forma satisfatória. Quanto ao método em que a codificação se
desenvolverá, caso a resposta seja afirmativa, será sempre uma pergunta a solucionar num
segundo momento.
A tomada de posição num assunto com repercussões tão vastas exige uma meditação
quanto às vantagens possíveis, em paralelo com todos os malefícios que de tal acção
poderão advir. Optamos pela codificação, avançando com uma solução legislativa e
reformista, certos de todos os riscos inerentes. Poderá parecer que deduziremos, neste
ponto, todas as razões justificativas da nossa preferência. Não é bem assim, atendendo ao
que foi dito anteriormente, bem como ao que será depois explanado.
Além de contribuir para o conhecimento e compreensão das regras jurídicas por
qualquer cidadão, a codificação demonstraria utilidade no âmbito do ensino e
investigação científica, da estruturação dos princípios gerais do Direito do Consumidor e
aplicação de todas as regras. Oferece-se, por essa via, o reconhecimento científico de que
o Direito do Consumidor é legítimo detentor, tanto pelo eterno contributo que presta ao
desenvolvimento do Direito, como pela multiplicidade de sectores da vida social em que
denota a sua influência.
Os últimos anos foram produtivos a nível de intervenções legislativas. Conforme será
demonstrado109, desde final da década de noventa que surgiram diversos códigos na área,
108
Cfr. PINTO, Paulo Mota, “O Anteprojecto de Código do Consumidor e a Venda de Bens de Consumo”,
in EIDC, Vol. III, Coord.: Luís Menezes Leitão, Instituto de Direito do Consumo, Almedina, 2006, pp. 119
e ss.
109
Infra, pp. 46 e ss.
37
com características diferentes, excluindo ou integrando matérias consoante a opção
legislativa no ordenamento jurídico em questão e, mais importante, segundo processos
cuja definição influencia, não só o próprio, mas também outros ramos do direito. No
entanto, cumpre frisar: o caminho foi percorrido em direcção à codificação! Os exemplos
são, actualmente, abundantes.
Portugal conhece um período que lhe proporciona boas condições para evoluir nesse
sentido, apesar de todas as dificuldades inerentes. Fala-se, inclusivamente, numa nova era
de recodificação110, fruto das obras criadas. Aliás, entre nós, o impulso já foi dado, com
o Anteprojecto.
O ramo de direito em apreço merece que lhe seja concedido todo o cuidado no seu
tratamento, pelo “jogo” de influências que acaba por criar relativamente ao mercado, à
concorrência entre empresas e actuações destas na formação de convicções de aquisição
na mentalidade dos consumidores, à política enquanto fornecedora de normas de garantia
dos interesses tutelados, bem como, mais especificamente, à teoria geral do negócio
jurídico, que se vê irremediavelmente modificada no que toca aos seus princípios gerais,
como a liberdade contratual111.
Não se pode olvidar, simultaneamente, que o meio sócio-económico também tem o
seu papel no desenvolvimento do Direito do Consumidor. A sociedade encontra-se em
constante progresso, aos mais variados níveis. Olhemos para as novas tecnologias, que
acabam por levar, indirectamente, à criação de novas estruturas de produção, ou as novas
formas de contratação, como as recentes, mas já tão banais, vendas à distância.
Recordemos as novas preferências dos consumidores, que conseguem adquirir bens
oriundos de qualquer parte do mundo, por força do crescimento exponencial do comércio
mundial.
Toda esta evolução - na impossibilidade de relembrarmos outros tantos sectores
relacionados – deve ser devidamente acompanha. Isto é, o Direito do Consumidor nunca
poderá assumir uma posição de estagnação, sob pena de não corresponder a todas as
carências que tenta combater.
Jorge Pegado Liz constata que é a “circunstância de ligação íntima do direito do
consumo à vida económica em transformação permanente e à política que o pretende
110
MONTEIRO, António Pinto, “O Direito do Consumidor em debate”, ob. cit., p. 92.
111
Basta imaginarmos um mero contrato de compra e venda, independentemente do bem, em vias de ser
celebrado por um consumidor. A circunstância de este saber que pode exercer o direito de arrependimento
em certo lapso temporal acaba por ser determinante na sua decisão de contratar, sentindo-se mais seguro.
Trata-se de um dos institutos que altera drasticamente o cenário do campo económico.
38
conformar, que impede a sua cristalização num corpo único, num código, sob pena da
sua obsolescência inevitável a curtíssimo prazo”112. Contudo, acreditamos que, com uma
renovação assídua e a devida cobertura aos desenvolvimentos operados, poderá
combater-se este pequeno inconveniente, que subsistirá ainda que a codificação não seja
a opção seguida.
Registe-se, em última linha, que a União Europa revela também certa preocupação
face à desordem que se evidencia no conjunto de legislação dispersa do Direito do
Consumidor, no sentido de combater a fragmentariedade, inconsistência de conceitos e
lacunas. A Directiva 2011/83/UE, de 25 de Outubro de 2011, surge como manifestação,
procurando a harmonização de diversos aspectos regulamentares, através do
estabelecimento de regras uniformes a nível da União Europeia, e aumentar a segurança
jurídica tanto de profissionais como dos consumidores.
CONSUMIDOR?
112
Vide, LIZ, Jorge Pegado, Introdução, ob. cit., p. 288.
113
In supra, pp. 16 e ss.
114
Segundo António Menezes Cordeiro, o Direito do Consumidor deve ser estudado no Direito Civil,
portanto, a solução correcta é a inclusão no CC. Embora, fala também na compilação de toda a legislação
extravagante, ainda que a título meramente transitório (até à codificação), in “Da Natureza”, ob. cit., p. 711.
39
Privado. A autonomização substancial conduzirá, nesses termos, à independência
legislativa.
Assim, na linha de Pierre Catala, não faz sentido introduzir no CC um direito cujo
paradigma é totalmente diferente, opondo o princípio da igualdade ao ideal de protecção
do consumidor, na medida em que “le droit civil est un droit d’équilibre, pareillement
soucieux des intérêts en présence, sans a priori favorable à l’une ou l’autre partie”115.
Por sua vez, o regime jurídico do consumidor aponta para a pessoa enquanto parte numa
relação com um profissional, sem competência específica para o efeito e, na maioria dos
casos, sem possibilidade de se equiparar a nível de poderio económico.
Por outro lado, atente-se contra o argumento indicado: não se verificam já estes
problemas na actualidade? Não está uma parte da matéria a ser retirada ao CC, segundo
esse entendimento? Afinal, as relações de consumo acabam por ser retiradas do mesmo,
sendo reguladas por legislação avulsa.
Parte da doutrina indica que os institutos que fazem parte do Direito do Consumidor
são reduzíveis aos quadros do Direito Civil, por força da sua natureza ou da função que
desempenham. Raúl Rodrigues aproveita a questão para expressar o desejo de uma
“humanização” do Direito Civil, que seria conseguida pela inclusão no CC e pela
actualização das regras jurídicas civis em conexão com as desigualdades sociais que se
fazem sentir116.
Porém, não sendo repetitivos quanto à questão da natureza jurídica – ponto que
consideramos agora completamente assente -, conseguimos encontrar exemplos de
institutos que correspondem, em toda a sua extensão, às inovações operadas pelo Direito
do Consumidor117. Falamos, nomeadamente, no direito de arrependimento – livre
resolução do contrato – previsto, v.g., quanto aos contratos celebrados à distância ou
celebrados fora do estabelecimento comercial, no artigo 10.º do D.L. n.º 24/2014, de 14
de Fevereiro118, salvas as excepções previstas no art. 17.º.
115
Cfr. CATALA, Pierre, “Présentation générale de l’avant-projet”, in Avant-Project de Reforme du Droit
des Obligations et du Droit de la Prescription, Septembre 2005, p. 2, disponível em
[Link]
116
Cfr., RODRIGUES, Raúl Carlos de Freitas, O Consumidor, ob. cit. p. 177.
117
Vide, numa explanação sobre os institutos jurídicos componentes do Direito do Consumidor, apesar de
demasiado receptivo, quanto à proveniência dos mesmos, em considerá-los produto deste ramo, ALMEIDA,
Carlos Ferreira de, “Presságios sobre o direito do consumo”, in Estudos de Direito do Consumo –
homenagem a Manuel Cabeçadas Ataíde Ferreira, Autor: vários, Edição: DECO - Associação Portuguesa
para a Defesa do Consumidor, 2016, pp. 125 e ss.
118
O consumidor tem esse direito, sem quaisquer custos e necessidade de invocação de motivo justificativo,
no prazo de 14 dias. Acrescente-se que, nos termos da alínea j), n.º 1, do art. 4.º do mesmo diploma, o
40
A inclusão no CC significaria, forçosamente, que teriam de ser retiradas matérias de
saliência incontestável, em decorrência da índole multidisciplinar que no início deste
texto ocupou o nosso tempo. Não seria concebível desviarmos temas como o acesso à
justiça por parte dos consumidores ou a responsabilidade criminal das instituições que
incumpram nas obrigações legais decorrentes. Da mesma forma, não podemos ter a
pretensão de incluir no CC normas de Direito Penal ou de Direito Administrativo. Dois
pontos de vista, dos quais resultaria, respectivamente, a perda de identidade do Direito do
Consumidor e do Direito Civil. O prejuízo maior cairia sobre quem se visa proteger: o
consumidor.
A conclusão que decorre é simples: a multidisciplinariedade de que se fala acaba por
não ser um obstáculo à criação de um código autónomo, pelo contrário, revela-se como
incentivo. É absolutamente vantajosa a inserção de todas as normas de várias áreas num
código próprio.
Mesmo que subsista o desejo de alguns autores, direccionado ao CC, seguindo alguns
dos argumentos que se expuseram, não conseguem esconder o seu receio na eventualidade
de uma falha que coloque em causa o trabalho de décadas. José de Oliveira Ascensão,
que sempre se inclinou para a não autonomização do Direito do Consumidor, indicava
que a tarefa de alteração do CC demonstra-se hercúlea, sendo que, caso fosse gorada,
poderia acarretar consequências catastróficas, por isso seria complicado encontrar alguém
preparado para esse labor119. Contudo, afirmava que, na esteira das actuações germânicas,
nem seria necessária a criação de um novo livro no CC, bastando-se tal tarefa com a
elaboração de alguns artigos dispersos120. Retoricamente questionamos: uma opção destas
dignificaria de alguma forma que fosse, ainda que a mínima possível, o Direito do
Consumidor?
Reconhece-se que, tendo já sido apresentado a público o Anteprojecto do Código do
Consumidor para ulterior discussão, seria um erro tremendo cair na tentação de proceder
à aprovação do mesmo de forma apressada, não se calculando os riscos, a viabilidade da
reforma, pois “a pressa é inimiga da perfeição”. Ao aguardar por uma eventual revisão
do CC, com essa precipitação, poderíamos enveredar por um caminho cujo regresso seria
fornecedor de bens ou prestador de serviços deve informar o consumidor, antes deste se vincular, da
existência do direito de livre resolução e respectivo procedimento.
119
Cfr. ASCENSÃO, José de Oliveira, “O Anteprojecto”, ob. cit., p. 12.
120
Cfr. ASCENSÃO, José de Oliveira, “Direito Civil”, ob. cit., pp. 179 e 180.
41
quase impossível, colocando em causa uma afirmação condigna da autonomia deste ramo
do Direito e uma séria reforma do Direito Civil121.
Mais do que uma boa solução para combater os dilemas do presente, pretende-se criar
uma boa perspectiva para o futuro, um trabalho cuja possibilidade de crescimento esteja
garantida. Julgamos que decorreu já tempo suficiente para a interiorização daquela que
se considera ser a melhor medida a tomar122.
Pinto Monteiro, no uso de todos os pontos demonstrados, chama a atenção para o
respeito que se deve ter pelo CC, de forma a não se proceder a qualquer ataque com a
introdução de um “corpo estranho” como é o Direito do Consumidor. Ainda assim, o
autor demonstra a sua preferência, caso a codificação autónoma não seja conquistada,
pela inclusão no CC, em lugar da manutenção do corpo normativo actual123.
121
Ibidem, pp. 180 e ss.
122
Vide, LEITÃO, Adelaide Menezes, “As Reclamações”, ob. cit., p. 1483, que, apesar de considerar que a
via mais correcta seria a inserção no CC, admite que um trabalho dessa envergadura exigiria, no mínimo,
uma década de reflexão e de trabalho.
123
MONTEIRO, António Pinto, “O Direito do Consumidor em debate”, ob. cit., p. 99.
124
Cfr. COLLINS, Hugh, The European civil code: the way forward, Studies in European Law and Policy,
New York: Cambridge University Press, 2008, p. 124.
42
Nação”125. A criação de um CC europeu não deixaria de ter efeitos nefastos nas culturas
dos diversos países, tão distintas entre si, tocando em pontos de enorme valor como os
valores sociais de uma comunidade e a consciência jurídica que, por força dessa criação,
passaria a ser comum a todos os países da União Europeia. Qualquer decisão
jurisprudencial passaria, independentemente do país em que ocorresse, a ser tomada com
base num segmento normativo único e comum.
Nesse ponto, a conclusão é inequívoca: corresponderia a uma imposição de
identidade, distinguindo-se, em larga medida, das simples directivas actuais da União
Europeia.
No que ao Código Europeu do Consumidor diz respeito, poderá não existir tamanha
influência, podendo ser de aproveitar o propósito de harmonização plena de
regulamentação pela União Europeia. Ainda assim, dados os desenvolvimentos
legislativos mais recentes, não será o momento oportuno.
Acreditamos que é um passo difícil de se observar num futuro próximo, tendo em
conta a conjuntura político-económica que atravessamos e a dificuldade inerente a tal
tarefa126. Além de trabalho despendido, exigiria um período de mentalização e adaptação
dedicado às comunidades, especialmente no caso do CC. Não temos, neste momento, o
propósito de responder à questão da viabilidade de tal ideia, seja no âmbito do CC
Europeu ou pela forma de um Código Europeu do Consumidor. Pretende-se,
essencialmente, relembrar, que tal discussão tem estado em discussão nos últimos anos e
que, novamente, fala-se da codificação enquanto solução a adoptar127.
OBSTÁCULO À CODIFICAÇÃO?
125
Cfr. SILVA, João Calvão da, “Bicentenário do Código Civil (o Código Civil e a Europa: influências e
modernidade)”, in Revista de Legislação e Jurisprudência, Ano 134.º, n.º 3930, Coimbra, 2002, p. 270.
126
Ewoud Hondius indicava, ainda em 2004, que o trajecto a percorrer tendo como destino a codificação
civil europeia seria longo, todavia, tal hipótese nunca poderia ser excluída. Cfr., HONDIUS, Ewoud,
“Towards a European Civil Code”, in Towards a European Civil Code, Third Fully Revised and Expanded
Edition, Kluwer Law International, Nijmegen, 2004, p. 13.
127
Para mais referências sobre o assunto, vide, além das obras citadas, ALPA, Guido, “Il Codice Civile
Europeo: e pluribus unum”, in EDC, Publicação do CDC, n.º 2, Coimbra, 2000, pp. 141 e ss.
43
essenciais), que em nada se confundem com o que entendemos por consumidor, apesar
de ser centralizar a questão, sempre, na inegável posição mais débil dos mesmos – outros
exemplos poderiam elencar-se, porém, a natureza deste trabalho não o permite, ficando-
se pelos dois casos que consideramos mais relevantes.
A Lei dos Serviços Públicos Essenciais128 teve como objectivo fundamental da sua
implementação assegurar o equilíbrio entre as partes nas relações jurídicas que envolvam
a prestação de serviços deste género129, entendam-se vitais para a vida em sociedade,
serviços estes enumerados no n.º 2 do artigo 1.º deste diploma. Por sua vez, no n.º
seguinte, define utente como “a pessoa singular ou colectiva a quem o prestador do
serviço se obriga a prestá-lo”.
Trata-se de um conceito muito distinto do de consumidor, em sentido próprio e estrito
conforme se consagra no art. 2.º da LDC. Em primeiro lugar, a noção de utente tem uma
maior amplitude, referindo-se ao destinatário dos serviços, independentemente de
quaisquer considerações materiais130, sem se questionar quanto à qualidade de
profissional do prestador do serviços e o destino a oferecer ao mesmo. Por outro lado,
encontra-se excluída, desde logo, a problemática que abordámos anteriormente quanto à
pessoa colectiva131, na medida em que o conceito de utente a integra expressamente.
O critério é, somente, ser destinatário de um serviço, independentemente de
características pessoais, profissionais ou económicas. Deste modo, um utente poderá ser
um pequeno consumidor, um grande consumidor ou mesmo o Estado.
A extensão de aplicação do regime das Cláusulas Contratuais Gerais 132 é muito
específica. Aplica-se a predisponentes ou utilizadores e a destinatários cuja posição não
coincide, necessariamente, com a de consumidor133. Veja-se, com efeito, os arts. 17.º a
19.º deste diploma, que se referem às cláusulas contratuais proibidas no âmbito das
128
Lei n.º 23/96, de 26 de Julho, alterada em último pela Lei n.º 10/2013, de 28 de Janeiro, que veio criar
mecanismos destinados a proteger o utente de Serviços Públicos Essenciais. Conforme indica CORDEIRO,
António Menezes, “Da prescrição do pagamento dos denominados serviços públicos essenciais”, in O
Direito, ano 133, n.º4, 2001, p. 774, a Lei dos Serviços Públicos Essenciais pretende “evitar que a
concorrência jogue contra os utentes. Ao fixar certas regras, o Estado procura que os avanços se façam
pela positiva e não à custa dos serviços e de quem deles dependa.” Procura-se garantir a qualidade dos
serviços prestados.
129
Cfr. SIMÕES, Fernando Dias, ALMEIDA, Mariana Pinheiro, Lei dos Serviços Públicos Essenciais Anotada
e Comentada, Almedina, Coimbra, 2012, p. 7.
130
Ibidem, p. 48.
131
In supra, pp. 26 e ss.
132
Previsto no D.L. n.º 446/85, de 25 de Outubro, alterado pelo D.L. n.º 323/2001, de 17 de Dezembro.
133
O TRL, no Acórdão de 25 de Maio de 2006 (Proc. N.º 8166/2005-6), indica que este regime procura
tutelar o contraente mais fraco, de forma a não aumentar o já natural desequilíbrio entre as partes,
protegendo-o de cláusulas abusivas que decorrem do poder do utilizador das mesmas. Não se referiu, e
bem, ao termo específico “consumidor”.
44
relações entre empresários ou entidades equiparadas. No mesmo sentido, a referência, nos
arts. 20.º a 22.º, às relações entre consumidores finais e, “genericamente, em todas as não
abrangidas pelo artigo 17.º”.
Denota-se um âmbito de aplicação subjectivo em grande forma mais lato do que o
que decorre da LDC, sendo o critério determinante a ausência de negociação individual e
a ponderação da possibilidade de influenciar o conteúdo das cláusulas previstas in casu134.
Conforma-se, desse modo, com o previsto no art. 3.º da Dir. 93/13/CEE, de 5 de Abril de
1993, relativa às cláusulas abusivas assumidas nos contratos celebrados com os
consumidores, referindo-se a cláusulas que não foram objecto de negociação individual,
que são consideradas abusivas quando derem origem a situações de desequilíbrio em
detrimento do consumidor, face aos direitos e obrigações de ambas as partes, ainda que
fale, precisamente, em consumidor.135
Fará sentido concluir, neste ponto, que um possível Código do Consumidor em
Portugal não se dirigirá, somente, aos consumidores, mas também a várias outras figuras,
em geral, equiparadas: não subsistem dúvidas que partilharão das preocupações gerais
que compõem a ratio do Direito do Consumidor e da fragilidade típica do indivíduo que
ocupa essa posição. Destarte, não configurarão um obstáculo à criação de um Código
“para o consumidor”.
Alguns autores apontam, objectivamente, este ponto como uma crítica de valor à
autonomização legislativa136. No entanto, parece evidente: não se questionando a inclusão
de tais matérias, como a prestação de serviços públicos essenciais, neste ramo do direito,
também não coloca em causa a equiparação dos sujeitos que nelas intervêm aos
consumidores, em termos manifestos que justifiquem um cuidado tutelar especial e,
inclusivamente, a inserção sistemática futura.
134
Vide, sobre este ponto, detalhadamente, ANTUNES, Ana Filipa Morais, Comentário à Lei das Cláusulas
Contratuais Gerais – DL n.º 446/85, de 25 de Outubro, 1.ª Ed., Almedina, Coimbra, 2013, p. 64.
135
Alínea b), do art. 2.º, como a “pessoa singular que (…) actue com fins que não pertençam ao âmbito da
sua actividade profissional.”
136
Cfr. LIZ, Jorge Pegado, “Um código do Consumidor, para os Consumidores ou nem uma coisa nem
outra?”, in Revista Portuguesa de Direito do Consumo, Associação Portuguesa de Direito do Consumo, n.º
49, 2007, p. 28, em comentário posterior à apresentação do Anteprojecto.
45
CAPÍTULO III – UM BREVE OLHAR ATENTO PELO MUNDO
O desenvolvimento de uma nação sempre foi acompanhado pelo que se descobre nos
mais diversos países, em todos os sectores da vida social. Falemos, sem descurar todos
os outros, da indústria, do comércio, das influências políticas e comunitárias e, de uma
forma mais populista, de todos os pequenos actos quotidianos de qualquer cidadão guiado
pela globalização.
Quanto ao Direito, vislumbra-se a influência de outros ordenamentos jurídicos, tanto
a nível da criação ou renovação de institutos jurídicos, determinação de conceitos legais,
fixação de regimes, elaboração de decisões jurisprudenciais. Sempre foi assim, sempre o
será, porque o desenvolvimento acarreta, em todo o caso, analisar o comportamento dos
demais, compreender as alternativas possíveis.
Os caminhos traçados quanto ao Direito do Consumidor foram diversos, pelo que
julgamos pertinente, rectius, um argumento de valor quanto à codificação que pregoamos,
lançar um olhar atento sobre os modelos mais relevantes a nível mundial em que se
registaram capitais inovações legislativas. Recordaremos, em último lugar, o
Anteprojecto do Código do Consumidor, em Portugal, porventura actualmente esquecido
que, a ser aprovado, conformaria uma adopção semelhante do exemplo de outros países
como o Brasil, a França ou a Alemanha, ainda que sob matrizes diferentes.
Duas notas preliminares, antes de analisarmos os casos concretos. Deve salientar-se
que definimos como objectivo somente alcançar aqui uma visão geral de vários caminhos
diferentes traçados no estrangeiro, em comparação com as conquistas portuguesas em
matéria de Direito do Consumidor.
Em segundo lugar, quanto à expressão “Direito do Consumidor”, que adoptamos, esta
é geralmente aproveitada nos direitos germânico (“Verbraucherrecht”), de língua inglesa
(“consumer law”) e brasileiro (com a existência do Código de Defesa do Consumidor),
por contraposição às terminologias francesa (“droit de la consommation”) e italiana
(olhemos para o “Codice del consumo”). Deve submeter-se a apreciação com o devido
cuidado na utilização dos termos empregues.
46
1.1. - A inclusão no BGB alemão
Portugal sempre conheceu influências germânicas no plano jurídico. Terá sido esta
uma das matérias em que se conheceu uma solução diferente- infelizmente, não chegou a
conhecer-se, permaneceram apenas a ideia e os trabalhos preparatórios.
A Alemanha assistiu à inclusão, de uma forma rigorosa e veemente planeada, da
essência do Direito do Consumidor no BGB, o aclamado Código Civil Alemão. É
necessário realizar um breve enquadramento jurídico de forma a compreendermos o
conteúdo de tais mudanças.
A aprovação da designada “Lei para a modernização do Direito das Obrigações”
- Gesetz zur Modernisierung des Schuldrechts137- constituiu uma das maiores reformas
no ordenamento jurídico alemão de que se tem memória e representou, conforme nos
interessa indicar no problema em questão, uma adição de relevo ao contrato de consumo.
Se antes o contrato de consumo encontrava regulação num conjunto de legislação avulsa,
conforme, aliás, sucede em Portugal, e o típico contrato sem essas especificidades no
BGB, esta reforma modificou esse contexto138.
Contudo, devemos ter consciência dos fundamentos que estiveram na base dessa
decisão legislativa, não caindo no erro de, simplesmente, julgar que seria igualmente a
melhor opção no nosso ordenamento jurídico. Um dos motivos que justificou esta reforma
foi a necessidade de integrar novas matérias no BGB. Falamos, a esse título, de diversas
directivas comunitárias, com especial relevo para a Dir. 1999/44/CE, de 25 de Maio,
respeitante à venda de bens de consumo e de garantias a ela relativas, bem como de
legislação extravagante, v.g., o AGBG (Allgemeine Geschäftsbedingungen)139, lei que
define o regime jurídico das Cláusulas Contratuais Gerais. Procedia-se, ainda, à
codificação de uma imensidão de decisões jurisprudenciais passadas140.
Por outro lado, a reforma do Direito das Obrigações encontrava-se em preparação há
muitos anos, aliando-se à inexistência, em solo germânico, de um diploma geral que se
destinasse à protecção do consumidor. Pelo que não se trataram de decisões precipitadas.
137
Publicada no Bundesgesetzblatt I, n.º 61, de 29 de Novembro de 2001, 3138-3218.
138
Cfr. BALDUS, Christian, “Protecção do consumidor na zona cinzenta entre o contrato e o não-contrato?”,
in EDC, Publicação do CDC, n.º 6, Coimbra, 2004, pp. 142 e ss.
139
Lei aprovada a 12 de Novembro de 1976.
140
Vide, sobre os fundamentos e contornos da reforma do Direito das Obrigações de 2001, CORDEIRO,
António Meneses, Da modernização do Direito Civil, Almedina, Coimbra, 2004, pp. 69 e ss.
47
Outros países incluíram também o Direito do Consumidor no Código Civil.
Recordemos, ainda anteriormente à mudança germânica, o exemplo holandês, em 1992,
e o caso da República Checa, mais recentemente em 2012. Contudo, a opção germânica
não se revelou isenta de críticas, atenta a argumentação, com a qual nos identificamos, de
que é impossível providenciar pela codificação no CC de um conjunto de normas
pluridisciplinar como in casu, em detrimento da criação de um código próprio.
141
Arts. 5.º, XXXII, e 170.º, V, respectivamente. Sobre os preceitos constitucionais que demonstram essa
preocupação de protecção e o sentido do Direito do Consumidor na ordem jurídica brasileira, vide,
OLIVEIRA, Júlio Morais, Curso: Direito do Consumidor Completo, Editora D’Plácido, Minas Gerais, 2014,
pp. 31 e ss.
142
Cfr. AAVV, Código Brasileiro de Defesa do Consumidor, 5.ª Ed., Revista, Actualizada e Ampliada, Rio
de Janeiro: Forense Universitária, 1998, p. 5.
48
constitucional, por força dos preceitos já referidos, bem como do art. 48.º do Ato das
Disposições Constitucionais Transitórias – que previa, num futuro próximo, a elaboração
de um código, pelo Congresso Nacional – por não se revelar adequada a protecção por
meio de simples leis avulsas. A opção por uma lei terá sido meramente “cosmética”143.
A designação atribuída ao código brasileira varia entre duas ou três expressões mais
relevantes, consoante a predilecção de cada editor, precisamente porque o mesmo assume
a qualificação formal de lei. Contudo, o termo mais generalizado é “Código de Defesa do
Consumidor”.
1.3. - Itália
O Codice Civile italiano passou a conter, em 1996, o capítulo “Dei contratti del
consumatore” (XIV-BIS). Contudo, a codificação a nível autónomo não tardava, o que se
podia antever pelo conteúdo desse mesmo capítulo, uma transposição básica da Dir. sobre
cláusulas contratuais gerais.
O Codice del Consumo foi aprovado pelo Decreto-Legislativo 206/2005, de 6 de
Setembro144, combatendo a fragmentariedade das leis avulsas, abarcando matérias como
a educação e informação do consumidor, práticas comerciais, publicidade, crédito ao
consumo e modalidades de venda145. A nível da composição sistemática, o códice divide-
se em seis partes, a indicar: “Disposizioni Generali”; “Educacione, Informazione,
Pubblicitá”; “Il Raporto di Consumo”; “Sicurezza e qualità”; “Associazioni dei
Consumatori e Acesso alla Giustizia”; “Disposizioni Finali”.
O caso de desenvolvimento do Direito do Consumo no país italiano terá sido um dos
que mais surpresa suscitou a nível mundial. Apesar de não ser o primeiro ordenamento
jurídico a optar pela codificação, causou estranheza o facto de a codificação ter dirigido
mesmo à revogação de várias normas do CC, pois encaram o mesmo como um verdadeiro
código de direito privado, que também abrange Direito do Trabalho e matérias de Direito
Comercial – distinguindo-se assim de países de sistema dualista, que possuem CC e
Código Comercial.
143
Sobre as razões, ibidem, pp. 8 e 9.
144
Publicado na Gazzetta Ufficiale n.º 235, de 8 de Outubro de 2005.
145
Vide, sobre a composição do Codice del Consumo, FROTA, Ângela, A Codificação do Direito do
Consumo na Itália, 2013, disponível em:
[Link]
49
Na opinião de Pinto Monteiro, seria assim mais aceitável que incluíssem também o
Direito do Consumidor146. De certo se compreenderia melhor, porque o Codice Civile
trata-se, basicamente, de uma unificação do Direito Privado, ao qual já chegámos à
conclusão que o Direito do Consumidor pertence. Trata-se, não obstante, de outro motivo
a favor da codificação em Portugal, se pensarmos que, em Itália, com um Código Civil
mais abrangente a nível material, o legislador optou pela criação do Codice del Consumo.
A opção indicada terá sido determinada pelo respeito pelo princípio da dignidade
humana, da protecção do consumidor enquanto pessoa. Este último deixa de se encarado
como mero participante activo no mercado. Por outro lado, o facto de o Codice Civile
italiano ter um elevado valor simbólico, não é esquecido147.
1.4. – França
O Code de la Consommation teve a sua organização realizada pela Lei n.º 93-949, de
26 de Julho de 1993, com o acompanhamento de um regulamento preparado pelo Decreto
n.º 97-298, de 27 de Março de 1993.
Na verdade, não é um verdadeiro Código, na sua real acepção. O Code de la
Consommation adopta uma estrutura diferente daquelas que já indicámos, optando pela
divisão em Livros, a saber: “Information des consommateurs et pratiques
commerciales”; “Formation et éxecution des contrats”; “Crédit”; “Conformité et
sécurité des produits et services”; “Pouvoirs D’Enquête et suites donnés aux contrôles”;
“Règlement des litiges”; “Traitement des situations de surendettement”; “Associations
Agréées de Défense des Consommateurs et Institutions de la Consommation”. Subdivide-
os, mais extensamente, em títulos, capítulos, secções e sub-secções. Uma verdadeira e
longa compilação, diga-se148.
Assim, incluem-se matérias como a informação dos consumidores e formação dos
contratos, conformidade e segurança dos produtos, o endividamento do consumidor e as
instituições de protecção.
Trata-se de um código com mais de duas décadas de existência, cujo conteúdo e
estruturação a doutrina francesa entende ser urgente rever. Contudo, apesar das severas
146
Cfr. “O Direito do Consumidor em debate”, ob. cit., p. 96.
147
Cfr. LAPUENTE, Sergio Cámara, “La Codificación del Derecho de Consumo: refundación o refundición?
(Modelos y enseñanzas desde el Derecho comparado)”, in Revista de Derecho Civil, Vol. II, n.º 1, Estudios,
2015 (disponível em [Link]
148
Cfr. CORDEIRO, António Menezes, Tratado, ob. cit., pp. 326 e ss.
50
críticas à mera compilação149, não se antevê que esteja para breve o fim do Code de la
Consommation: ainda recentemente, o legislador francês, na Lei Hamon (art. 161.º)150,
encarregou o Governo da missão de, no prazo de dois anos, proceder à actualização do
conteúdo legislativo do código – ressalvando, inclusivamente, a contingência de se
adicionarem novas disposições, se necessário. Assim se reafirmou a opção pela
codificação autónoma do Direito do Consumidor!
149
Vide, v.g., BUREAU, Dominique, “Vers un critère général?”, in Faul-il recodifier le Droit de la
Consommation, Collection Etudes Juridiques Dirigée par Nicolas Molfessis, Paris, 2002, pp. 53 e ss.,
criticando a ausência de um critério geral de elaboração.
150
Lei n.º 2014-344, de 17 de Março de 2014.
151
Cfr. Comissão do Código do Consumidor, Código, ob. cit., p. 7.
152
Criada por despacho, n.º 64/MA/96, da mesma governante.
153
Cfr. MONTEIRO, António Pinto, “Sobre o Direito do Consumidor em Portugal e o Anteprojeto do Código
do Consumidor”, ob. cit., p. 45.
51
A designação a adoptar seria “Código do Consumidor”, de acordo com a
argumentação exposta favorável ao termo “Direito do Consumidor”, não sendo
necessário tecer qualquer outra consideração. As críticas, contudo, não deixaram de
subsistir, apontando-se o facto de se inserirem no diploma normas sobre profissionais154.
A ser aprovado, o Código do Consumidor estaria sistematizado, segundo o respectivo
anteprojecto, em quatro títulos: o I, “Disposições Gerais”; o II, “Dos Direitos dos
Consumidores”; o III, “Do Exercício e Tutela dos Direitos”; o IV trata, por último, “Das
Instituições de Defesa e Promoção dos Direitos dos Consumidores”. Ao longo de 708
artigos, vários capítulos, secções e divisões.
O Título I, tem presente os objectivos deste anteprojecto, sendo que, como é de saber,
e como é elucidado no seu artigo 1.º, a sua principal finalidade é “a defesa do consumidor,
a fim de promover a justiça nas relações de consumo e em conformidade com o
imperativo constitucional correspondente”, seguindo-se, posteriormente uma panóplia de
artigos que se inserem nos princípios pelo qual se rege o código do consumidor e o seu
âmbito de aplicação.
O Título II aborda o direito do consumidor ao longo dos seus capítulos. O consumidor
enquanto sujeito que tem direito a que lhe sejam prestadas de forma objectiva, adequada,
clara e exacta as informações necessárias ao seu esclarecimento, bem como o direito que
lhes é assegurado dos produtos que os produtores confecionam e os distribuidores
distribuem. Não esquecer que em causa há sempre interesses económicos, mais
concretamente as regras gerais da publicidade e as suas restrições, juntamente com as
práticas comerciais proibidas. Na secção V segue-se a categoria dos “contratos em geral”,
onde analisamos as cláusulas contratuais gerais, as cláusulas proibidas, os vários tipos de
contrato. Posteriormente há os contractos em especial, de onde ressaltam o “contracto de
compra e venda de bens de consumo”, “concessão de crédito”, “serviços públicos
essenciais”, “direitos de habitação periódica” e “viagens turísticas e organizadas”.
No Título III entramos no exercício e tutela dos direitos dos consumidores. Mais
concretamente as penas e contraordenações aplicáveis aos produtores e distribuidores que
lesarem os consumidores ou o património com dolo ou erro.
O Título IV, dividido somente por capítulos, encarrega-se da definição do Sistema
Português de Defesa do Consumidor (art. 654.º), indicando princípios gerais respeitantes
154
Cfr. LEITÃO, Adelaide Menezes, “A Publicidade”, ob. cit., p. 136. Vide ainda, reiterando a desadequação
do termo e o possível engano quanto ao âmbito de aplicação do Código que o mesmo suscita, MARTÍNEZ,
Pedro Romano, “Anteprojecto”, ob. cit., p. 59.
52
à organização, estruturação e cooperação das várias instituições que o integram. Alude
identicamente, de forma geral, às competências e composição de diversas entidades,
como o Conselho Nacional de Defesa do Consumidor, a Comissão de Segurança de
Serviços e Bens do Consumo e o Instituto do Consumidor.
O Anteprojecto contém no seu prefácio a indicação dos diplomas legais que, por seu
efeito, foram total ou parcialmente revogados155, fruto da maior harmonização legislativa
e unidade conceitual, bem como das directivas comunitárias transpostas pelo Código do
Consumidor156. Algumas seriam as normas a subsistir na legislação em vigor, permitindo-
se encontrar nesse preciso facto uma vantagem quanto a eventuais alterações, máxime
fruto de orientações comunitárias, sem que tenha de se reformar o Código.
Ao longo desta curta observação do anteprojecto do código do consumidor podemos
constatar que ele está sobretudo vinculado às índoles do direito civil157, contudo
demasiado autonomizável do mesmo, o que, por si só, torna complicada a tarefa de inseri-
lo no código civil.
O trabalho levado a cabo pela Comissão é de louvar. Foi a primeira iniciativa desta
ordem no sector do Direito do Consumidor, permitindo renovar forças no sentido de
proceder a uma análise série da situação jurídica vigente no nosso ordenamento jurídico.
Infelizmente, a apresentação do Anteprojecto ao público, em 2006, com a discussão
subsequente, coincidiu com condicionalismos políticos adversos, nomeadamente, a
mudança de Governo, que poderão ter influenciado o processo de aprovação de tal obra.
O mérito dos desenvolvimentos alcançados foi, em geral, reconhecido pelos juristas,
tanto portugueses como internacionais. Contudo, também as críticas direccionadas ao
155
Seriam integralmente revogados os seguintes: D.L. n.º 138/90, de 26 de Abril (quanto à indicação de
preços); D.L. n.º 330/90, de 23 de Outubro (o Código da Publicidade); D.L. n.º 359/91, de 21 de Setembro
(relativo ao Crédito ao consumo); D.L. n.º 195/93, de 24 de Maio (Orgânica do Instituto do Consumidor);
Lei n.º 23/96, de 26 de Julho (Lei dos serviços públicos essenciais); Lei n.º 24/96, de 31 de Julho (LDC);
D.L. n.º 154/97, de 20 de Junho (relativo à estrutura e organização do Conselho Nacional do Consumo);
D.L. n.º 234/99, de 25 de Junho (sobre as competências do Instituto do Consumidor); Lei n.º 6/99, de 27 de
Janeiro (relativa à publicidade domiciliária); D.L. n.º 143/2001, de 26 de Abril (sobre os contratos à
distância e fora do estabelecimento comercial).
Como parcialmente revogados figuravam: D.L. n.º 275/93, 5 de Agosto (Direito Real de Habitação
Periódica); D.L. n.º 209/97, de 13 de Agosto (Viagens turísticas e organizadas); D.L. n.º 370/93, de 29 de
Outubro (Vendas com prejuízo – só o artigo 3.º); D.L. nº 81/2002, de 4 de Abril (Comissão de Aplicação
de Coimas em Matéria Económica e da Publicidade); Lei n.º 25/2004, de 8 de Julho (Acção inibitória para
protecção dos interesses dos consumidores).
156
Como exemplo, a Dir. 85/577/CEE do Conselho, de 20 de Dezembro de 1985, relativa à protecção dos
consumidores no caso de contratos negociados fora dos estabelecimentos comerciais, a Dir. 2002/65/CE
do Parlamento Europeu e do Conselho, de 23 de Setembro de 2002, relativa à comercialização à distância
de serviços financeiros prestados a consumidores e a Dir. 98/27/CE do Parlamento Europeu e do Conselho,
de 19 de Maio de 1998, relativa às acções inibitórias em matéria de protecção dos interesses dos
consumidores.
157
CORDEIRO, António Menezes, O Anteprojecto, ob. cit., p. 693.
53
resultado final foram exaustivas, como já seria de esperar, dada a envergadura de tal
missão.
Ainda assim, certo é que a crítica de que se trata de um Código que não inova, não se
pode tecer neste caso, não se limitou a compilar a legislação, oferecendo soluções
inovadoras, como as alterações ao conceito de consumidor158. E tentou integrar tudo
aquilo que se afigurava possível e viável, tendo a comissão presentes as limitações que,
inclusivamente, já havia admitido.
158
In supra, pp. 21 e ss.
54
B- EPÍLOGO
159
Cfr. MACHADO, João Baptista, Introdução ao Direito e ao Discurso Legitimador, 12.ª Reimpressão,
Almedina, 2000, p. 11.
160
Vide, in supra, pp. 21 e ss.
55
vertente totalmente diferente, com a inserção do Direito do Consumidor no BGB alemão.
Todo o esforço compensa e, nestes casos, certamente todos os trabalhos legislativos foram
frutíferos.
Que fique bem expressa a intencionalidade subjacente à concretização deste pequeno
estudo: um jurista deve, mais do que procurar soluções, levantar problemas. Por
conseguinte, desejamos, com toda a humildade e respeito devido às opiniões divergentes,
que pairem no ar os dilemas face aos quais nos pronunciámos. Esperemos que este
trabalho sirva como impulso para novos trabalhos legislativos, após tantos anos volvidos
dos trabalhos de elaboração do Anteprojecto do Código do Consumidor, por meio de uma
comissão a que se deve meritório trabalho, de incontestável contributo para o
desenvolvimento jurídico-científico.
Não nos enganemos, ainda assim, se pensamos que a codificação do Direito do
Consumidor resolverá todos os problemas. A Comissão concluiu, tal como se nos revela
de nosso conhecimento, que a resolução ou minimização dos problemas com que nos
deparamos dependerá, em larga medida, da aplicação que se faça do código, do seu
conteúdo, do aproximar da melhor forma possível a “law in the books” à “law in
action”161.
A criação do Código do Consumidor será, ainda assim, a melhor hipótese possível,
desde que seguida, posteriormente, por um trabalho contínuo de actualização e
conformação com as evoluções sociais e tecnológicas a que se darão lugar na sociedade.
Restabelecerá, assim, a esperança que permanecerá na aproximação de um futuro com
avanços louváveis e na dignificação que o Direito do Consumidor merece.
161
Cfr. Comissão do Código do Consumidor, Código, ob. cit., p. 18.
56
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