100% acharam este documento útil (1 voto)
104 visualizações17 páginas

Processos Fonológicos no Português

As três frases resumem os principais processos fonológicos descritos no documento: 1) A língua sofre mudanças quando segmentos se juntam, podendo alterar ou inserir traços articulatórios. 2) Processos como alçamento, harmonia vocálica e neutralização modificam vogais de acordo com o contexto. 3) Mudanças como epêntese, apagamento e assimilação também ocorrem por influência dos sons vizinhos.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
100% acharam este documento útil (1 voto)
104 visualizações17 páginas

Processos Fonológicos no Português

As três frases resumem os principais processos fonológicos descritos no documento: 1) A língua sofre mudanças quando segmentos se juntam, podendo alterar ou inserir traços articulatórios. 2) Processos como alçamento, harmonia vocálica e neutralização modificam vogais de acordo com o contexto. 3) Mudanças como epêntese, apagamento e assimilação também ocorrem por influência dos sons vizinhos.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

PROCESSOS FONOLÓGICOS

• A língua é algo tão dinâmico que é inevitável que aconteçam


mudanças ao juntarmos segmentos, sílabas e palavras. Não somente
questões fonéticas propiciam essas modificações, mas também
sintáticas e morfofonológicas. O acento também marca sua presença
e acarreta muitas mudanças;

• As mudanças que queremos discutir podem ser estudadas em um


determinado momento (sincronicamente) e se referem às
modificações pelas quais passam as palavras por influência de
contextos vizinhos ou podem ser observadas se compararmos as
palavras em diferentes momentos da história de nossa língua
(diacronicamente), por exemplo na evolução do latim para o
português;
• Os processos que são vistos diacronicamente são os mesmos que
podem ser atestados ainda hoje nas mudanças que ocorrem
sincronicamente;

• Essas mudanças podem alterar ou acrescentar traços articulatórios,


eliminar ou inserir segmentos. São os chamados processos
fonológicos que se classificam em função dessas alterações;

• Assim, esses Processos Fonológicos são alterações sonoras sofridas


nas formas básicas dos morfemas quando se combinam para formar
palavras ou no início ou final de palavras justapostas (SHANE, 1975);

• Muitos desses processos acontecem no nível mais superficial – o


fonético – e outros no nível fonológico, acarretando modificações
sistemáticas na língua;
• Assim como em outras línguas, acontecem no Português Brasileiro
[PB] processos fonológicos, ou seja, variações condicionadas pelo
contexto linguístico, pelo padrão acentual ou pelo padrão silábico;

• As variações condicionadas pelo contexto linguístico têm a ver com


os segmentos adjacentes ou vizinhos, como por exemplo, a
palatalização das oclusivas alveolares [t ~ tʃ];

• Já as variações condicionadas pelo padrão acentual dizem respeito aos


casos relacionados à tonicidade ou à atonicidade das sílabas, como, a
neutralização das vogais átonas finais ['bol, 'bald];

• Por fim, os processos relacionados ao padrão silábico são os que


modificam as sílabas, como por exemplo, a epêntese ['pinew, 'kakit].
A seguir, veremos os principais processos fonológicos recorrentes
no Português Brasileiro (PB):
a) Alçamento

• Processo que envolve a elevação da propriedade de altura da língua


das vogais médias-altas [e] e [o] que se realizarão como as vogais
altas [i] e [u];

• O alçamento ocorre em posição pretônica, como nas palavras bonito


[bu'nit] e perigo [pi'ɾig], em que ocorre uma vogal alta em posição
pretônica, também chamado de harmonização vocálica, como
veremos a seguir;

• Alguns estudos do Português Brasileiro indicam que o alçamento


nesta posição é regulado socialmente, por parâmetros
sociolinguísticos, combinados como princípios de harmonia
vocálica;
• Outros estudos apontam para o condicionamento lexical do
alçamento, isto é, que ele só ocorra em certos itens lexicais. Assim,
palavras como p[o]rção (sentido gastronômico) e p[u]rção (sentido
de agrupamento coletivo) desenvolveram comportamentos
diferentes em relação ao alçamento (igual a fogão, peru, senhor).

b) Harmonia Vocálica
• Fenômeno fonológico em que um ou mais traços de uma vogal se
propagam para outros segmentos vocálicos em um domínio;

• A harmonia vocálica opera em certas variedades do PB afetando,


com certa regularidade, as vogais médias;

• Nesses casos, as vogais pretônicas compartilham a mesma


propriedade de abertura vocálica da vogal tônica, como
pr[o]f[e]ssor, r[e]c[e][o]so e p[o]d[e]r[o]so; ou como p[ɛ]r[ɛ]r[ɛ]ca,
p[ɔ]r[ɔ]r[ɔ]ca, p[ɔ]d[ɛ]r[ɔ]sa;
• Em algumas variedades por PB, é possível perceber harmonia
vocálica operando entre as vogais altas, como em p[i]r[i]go;
c[u]r[u]ja; c[u]m[i]da. Contudo, há divergência de tratamento dos
dois casos como fenômenos análogos ou diferentes.

c) Neutralização
• É expressa pela perda de contraste fonêmico em ambiente
específico, como ocorre nas sibilantes do PB [s, z ʃ, ʒ] que estão em
contraste em caracterizando a oposição fonêmica entre elas;

• A oposição é observada em início de palavras, como em: seca, Zeca,


Checa, Jeca; e em meio de palavra como em: assa, asa, acha, haja;

• Contudo, em final de palavra, o contraste fonêmico é perdido entre


as sibilantes, de maneira que uma palavra como mês ou luz, pode
ter a consoante final pronunciada como qualquer uma das
consoantes [s, z ʃ, ʒ], ilustrando um caso de neutralização;
• Quando vogais átonas, não acentuadas, aparecem em final de
palavra, ocorre a neutralização. Nesses casos, vogais finais não-
acentuadas [e] e [i] são pronunciadas como [i], conforme se pode
observar nas palavras júri e jure, em que as duas palavras são
produzidas como [ʒuɾ], neutralizando o traço referente à altura
vocálica. O mesmo acontece com as vogais [o] e [u], sendo
pronunciadas como [u], como em bolo ['bol], sono ['son].

d) Inserção:

• É o fenômeno fonológico de acréscimo de vogal na cadeia


segmental e é também conhecido por Ditongação, que é um
fenômeno fonológico de inserção de um glide após uma vogal;
• No PB, a ditongação ocorre, em alguns dialetos, geralmente, em
vogais tônicas em final de palavras, como em português
[pohtu'gejs]; ou ocorre em vogais tônicas seguidas de consoantes
palatais, como em cerveja [seh'vejʒɐ]; ou ocorre em hiato, como em
Andréa [ã'dɾɛjɐ] ou boa ['bowɐ], dentre outros;

• Um outro processo de inserção é o da prótese, que consiste na


adição de um fonema no início do vocábulo, como: [a]voar,
[a]levantar;

• Já a paragoge é uma inserção que ocorre no final da palavra, como:


internet[ɪ], lápis[ɪ].
e) Epêntese ou Reestruturação Silábica:

• É um processo de modificação silábica, em que se dá com a inserção


de uma vogal para tornar a sílaba adequada ao padrão naquela
língua, como: afta, pneu ou advogado, muito provavelmente
dizemos ['afitɐ], [pi.'new] e [adivɔ'gadʊ], inserindo alternativamente
a vogal [i] entre as duas consoantes.

f) Apagamento:

• É o fenômeno fonológico em que um segmento vocálico é


cancelado/apagado. O apagamento de vogais ocorre, tipicamente,
em sílabas átonas, como, por exemplo, /Øbaka'ʃ/ para abacaxi;

• A monotongação é o processo em que o ditongo passa a ser


produzido como uma única vogal;
• A monotongação ocorre, no PB, como ditongos decrescentes,
como: f[ej]ra > f[e]ra, b[aj]xa > b[a]xa, l[ow]co > l[o]co; ou com
ditongos crescentes qu[j]to > qu[]to, aliq[wo]ta > aliq[o]ta;

• O apagamento de consoantes ocorre, tipicamente, nas coda das


palavras, como [a'mo] para amor. Chamado de apócope, esse tipo
de apagamento equivale ao fenômeno de lenição, ou seja, de
enfraquecimento consonantal, em grau máximo;

• Já o apagamento de líquidas pode ocorrer em posição C2 ou em


início de sílabas, como: ['liv] para livro, [bisikɛtɐ] para bicicleta,
[baatɐ] para barata, [veĩɲɐ] para verinha;

• A aférese acontece quando há o apagamento no início do vocábulo,


como: tá por está, tô por estou.
g) Assimilação

• Quando os segmentos se tornam mais semelhantes, ou seja, um


segmento assume os traços distintivos de um segmento vizinho;

• Vejamos algumas possibilidades de assimilação:

➢ Palatização: em algumas variedades do PB o glide palatal


partilha a propriedade de palatalização com a oclusiva que o
segue [assimilação progressiva], como em mu[jtʃ]o, para muito;
ou do[jdʒ]o, para doido;
➢ Labialização: é a posição dos lábios que se mantém na emissão
da consoante (por exemplo, consoantes diante de vogais
posteriores arredondadas tornam-se labializadas, como em pulo
['pwlw]);
➢ Nasalidade: quando uma vogal nasal tem a propriedade opcional
de ressonância na cavidade nasal. Em casos de nasalidade, a
vogal nasal é sempre seguida de uma consoante nasal, por
exemplo, como em camada [kã'mad] ou [ka'mad];
➢ Nasalização: fenômeno em que a vogal nasal tem a propriedade
obrigatória da ressonância na cavidade nasal. Neste caso, a vogal
nasal é sempre seguida de uma consoante oral, como em santo
['sãt] ou conto ['kõt];

➢ Sonorização: quando uma consoante se torna surda ou vozeada,


dependendo da consoante adjacente (por exemplo, nas palavras
costa ['kʃt], brabo ['bɾav] e mesmo ['mezm]);

➢ Dessonorização: o oposto da sonorização: decote [dɛgɔtɪ].


h) Interações Morfofonológicas e morfossintáticas

• Sândi: fenômeno fonológico que se aplica em formas justapostas e


tem como motivação ajuntar ou agregar formas adjacentes. Muitas
vezes o sândi implica em fenômenos de ressilabificação;
• O Sândi externo envolve ressilabificação de duas palavras podendo
apresentar os seguintes fenômenos:
Elisão, como por exemplo, casa horrorosa [kazh'ɾz];
Ditongação, como por exemplo, camisa usada [kamizaw'zada];
Degeminação, como por exemplo, casa amarela [kazama'ɾela].

• Há ainda os processos de segmentações não convencionais de


palavras que se caracterizam por haver uma fronteira gráfica (grafada
por meio de branco ou hífen) dentro dos limites de palavra onde não
é prevista pela ortografia, chamadas de Hipersegmentação e
Hipossegmentação;
• O processo de Hipersegmentação acontece quando há a segmentação
não convencionais de palavras, como em: em bora, por ‘embora’;
chama da, por ‘chamada’; a cabou, por ‘acabou’; ou vidos, por
‘ouvidos’; de volvido, por ‘devolvido’;

• Já o processo de Hipossegmentação consiste na junção de duas


palavras morfológicas em apenas uma, como em: derepente, por ‘de
repente’; denoite, por ‘de noite’; decastigo, por ‘de castigo’; tinhaum,
por ‘tinha um’.

i) Estruturação Silábica

• Quando há alteração na distribuição das consoantes e vogais, podendo


ser inseridas ou eliminadas;

• Assim, dois segmentos podem então juntar-se, transformando-se em


um único segmento, ou pode haver permuta entre eles;
• A estrutura silábica básica é CV, muitos processos se aplicam a
estruturas silábicas mais complexas transformando-as no padrão CV;

• Nesse caso, isso pode ocorrer quando em grupos consonantais uma


das consoantes é eliminada, como na pronúncia da palavra livro, na
qual se elimina o tepe, pronunciando-a como ['livʊ];

• Aqui a sílaba final CCV transforma-se em CV, com a eliminação de


uma consoante e nessa pronúncia, vemos que há uma mudança de
lugar de um fonema na cadeia da fala.

j) Enfraquecimento e Reforço

• Quando os segmentos são modificados segundo sua posição na


palavra;
• Acontece também que nem todas as mudanças silábicas trazem maior
simplicidade. Por exemplo, em palavras proparoxítonas (acento recai
na antepenúltima sílaba a contar do final da palavra), a penúltima
vogal pode desaparecer, transformando a palavra em uma paroxítona;

• É o que se vê na palavra fósforo, pronunciada como ['fɔsfɾʊ]. Nesse


caso, ocorreu síncope, uma vogal próxima a uma outra acentuada foi
eliminada. Esse fenômeno ocorreu na evolução do latim para o
francês e para o português;

• Outro exemplo desse processo é aquele em que vogais fortes


(acentuadas) sofrem ditongação, por exemplo, nas palavras
monossilábicas terminadas por sibilantes, como três e paz, nas quais
em certos falares no PB ocorre a ditongação, transformando-as em
['tɾejs] e ['pajs], respectivamente.
k) Metátese

• Fenômeno de troca de posição de um segmento dentro de uma


palavra (também denominado comutação), por exemplo, nas palavras
lagarto, iogurte pode ocorrer a metátese na fala de algumas pessoas
e atestarmos a pronúncia largato, iorgute, cardeneta. Nesse caso, o r
que ocorre na penúltima sílaba passa a ocorrer na sílaba anterior.

l) Rotacismo
• Consiste na troca do /l/ pelo /ɾ/ ou vice-versa, como: célebro,
pobrema, plaia, framengo.

m) Semivocaliação das líquidas


• Quando ocorre a substituição da consoante líquida /l/ e /ɾ/ por glides
/w/ e /j/, como: bo[w]a por bola, ca[w]ma por calma. po[j]va por
pólvora, po[j]co por porco.

Você também pode gostar